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-The Project Gutenberg eBook of O Cortiço, by Aluízio Azevedo
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: O Cortiço
-
-Author: Aluízio Azevedo
-
-Release Date: October 20, 2022 [eBook #69187]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by
- Gallica, Bibliothèque nationale de France.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CORTIÇO ***
-
-
- ALUIZIO AZEVEDO
-
-
-
-
- O CORTIÇO
-
-
-
-
- QUARTA EDIÇÃO
-
-
-
-
- RIO DE JANEIRO
-
- H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
-
- 71, Rua do Ouvidor, 71
-
- E
-
- 6, Rue des Saints-Pères, 6
-
- PARIS
-
-
-
-
-«Periculum dicendi non recuso.»
-
- (CICERO.)
-
-
-«La vérité, toute la vérité, rien que la vérité.»
-
- (_Droit criminel._)
-
-
-«Os meus honrados collegas do jornalismo, e todos esses grandes
-publicistas que fatigam o céo e a terra para provar que esta em que
-estamos é a verdadeira epoca de transição, esses nos dirão se a
-Providencia andaria bem ou mal se hoje suscitasse um novo Timon da
-verdadeira raça das furias, que com as pontas viperinas do azorrague
-vingador lacerasse sem piedade os crimes e os vicios que a deshonram.»
-
- (JOÃO FRANCISCO LISBOA, _Jornal
- de Timon_. Prospecto--Obras
- completas, 1° vol., pag. 12.)
-
-
-«Ung oyseau qui se nomme cigale estoit en un figuier, et François
-tendit sa main et appella celluy oyseau, et tantost il obeyt et vint sur
-sa main. Et il lui deist: Chante, ma seur, et loue nostre Seigneur. Et
-adoncques chanta incontinent, et ne sen alla devant quelle eust
-congé.»
-
- (JACQUES DE VORAGINE, _La Légende
- Dorée_. Traduction française.)
-
-
-
-
-INDICE
-
-CAPITULO I
-CAPITULO II
-CAPITULO III
-CAPITULO IV
-CAPITULO V
-CAPITULO VI
-CAPITULO VII
-CAPITULO VIII
-CAPITULO IX
-CAPITULO X
-CAPITULO XI
-CAPITULO XII
-CAPITULO XIII
-CAPITULO XIV
-CAPITULO XV
-CAPITULO XVI
-CAPITULO XVII
-CAPITULO XVIII
-CAPITULO XIX
-CAPITULO XX
-CAPITULO XXI
-CAPITULO XXII
-CAPITULO XXIII
-
-
-
-
-O CORTICO
-
-
-
-
-I
-
-
-João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um
-vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura
-taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco
-que ganhára n'essa duzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a
-terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda
-com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.
-
-Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á
-labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de
-enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia
-sobre o balcão da propria venda, em cima de uma esteira, fazendo
-travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida
-arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua
-vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego
-residente em Juiz de Fóra e amigada com um portuguez que tinha uma
-carroça de mão e fazia fretes na cidade.
-
-Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem
-afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e á noite peixe frito e
-iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e,
-apezar d'isso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um
-dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga
-superior ás suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça,
-estrompado como uma besta.
-
-João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até
-participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho
-a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas
-desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e
-difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era
-brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p'rali, todos os mezes,
-vinte mil réis em dinheiro!» E segredou-lhe então o que já tinha
-junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe
-guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por
-gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos.
-
-D'ahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o
-conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era elle quem tomava conta
-de tudo que ella produzia, e era tambem quem punha e dispunha dos seus
-peculios, e quem se encarregava de remetter ao senhor os vinte mil réis
-mensaes. Abrio-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando
-precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até á venda e
-recebia-o das mãos do vendeiro, de «Seu João,» como ella dizia. Seu
-João debitava methodicamente essas pequenas quantias n'um quaderninho,
-em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de
-jornal: «Activo e passivo de Bertoleza.»
-
-E por tal fórma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da
-mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava
-d'elle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por ultimo, se alguem
-precisava tratar com ella qualquer negocio, nem mais se dava ao trabalho
-de procural-a, ia logo direita a João Romão.
-
-Quando deram fé estavam amigados.
-
-Elle propoz-lhe morarem juntos, e ella concordou de braços abertos,
-feliz em metter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa,
-Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente
-o homem n'uma raça superior á sua.
-
-João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de
-terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas
-portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente
-destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou
-com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma commoda de
-jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarello já mareadas, um
-oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande de
-couro crú taxeado, dous banquinhos de páo feitos de uma só peça e um
-formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de
-retalhos de chita.
-
-O vendeiro nunca tivera tanta mobilia.
-
---Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você.
-Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta.
-
-N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com
-uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira.
-
---Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que
-ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante
-o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver.
-Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego!
-
---Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia
-o jornal, exigia o que era seu!
-
---Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!
-
-Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do
-Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento.
-Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e
-nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar
-á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto
-aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve
-sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua
-escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.
-
---O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro
-de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras!
-
-Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando
-lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança
-a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar:
-dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de
-tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de
-muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que
-lhe tinham sugado durante tanto tempo!»
-
-Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de
-caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre;
-ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o
-café para os freguezes e depois preparando o almoço para os
-trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal
-aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na
-taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua
-quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite
-passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro,
-fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas
-de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o
-demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além
-da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta
-e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e
-outras tantas camisas de riscado.
-
-João Romão não sahia nunca a passeio, nem ia á missa aos domingos;
-tudo que rendia a sua venda e mais a quitandas eguia direitinho para a
-caixa economica e d'ahi então para o banco. Tanto assim que, um anno
-depois da acquisição da crioula, indo em hasta publica algumas braças
-de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem
-perda de tempo, de construir tres casinhas de porta e janella.
-
-Que milagres de esperteza e de economia não realizou elle n'essa
-construcção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava
-pedra; pedra, que o velhaco, fóra d'horas, junto com a amiga, furtavam
-á pedreira do fundo, da mesma forma que subtrahiam o material das casas
-em obra que havia por ali perto.
-
-Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do
-melhor successo, graças á circumstancia de que n'esse tempo a policia
-não se mostrava muito por aquellas alturas. João Romão observava
-durante o dia quaes as obras em que ficava material para o dia seguinte,
-e á noite lá estava elle rente, mais a Bertoleza, a removerem taboas,
-tijolos, telhas, saccos de cal, para o meio da rua, com tamanha
-habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma
-carga e partia para casa, emquanto o outro ficava de alcatéa ao lado do
-resto, prompto a dar signal em caso de perigo; e, quando o que tinha ido
-voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez.
-
-Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavallos de
-páo, o banco ou a ferramenta dos marceneiros.
-
-E o facto é que aquellas tres casinhas, tão engenhosamente
-construidas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São Romão.
-
-Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o
-vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua
-bodega; e, á proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e
-o numero dos moradores.
-
-Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo
-nunca a occasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas
-as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os freguezes,
-roubando nos pezos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o
-que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez
-mais as proprias despezas, empilhando privações sobre privações,
-trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio
-afinal a comprar uma boa parte da bella pedreira, que elle, todos os
-dias, ao cahir da tarde, assentado um instante á porta da venda,
-contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça.
-
-Pôz lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lagedos e
-parallelepipedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em
-grosso que, dentro de anno e meio, arrematava já todo o espaço
-comprehendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta
-braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnifico para
-construir.
-
-Justamente por essa occasião vendeu-se tambem um sobrado que ficava á
-direita da venda, separado d'esta apenas por aquellas vinte braças; de
-sorte que todo o flanco esquerdo do predio, coisa de uns vinte e tantos
-metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janellas de
-peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante portuguez, estabelecido
-na rua do Hospicio com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma
-limpeza geral no casarão, mudar-se-hia elle para lá com a familia,
-pois que a mulher, Dona Estella, senhora pretenciosa e com fumaças de
-nobreza, já não podia supportar a residencia no centro da cidade, como
-tambem sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pallida e precisava de
-largueza para enrijar e tomar corpo.
-
-Isto foi o que disse o Miranda aos collegas, porém a verdadeira causa
-da mudança estava na necessidade, que elle reconhecia urgente, de
-afastar Dona Estella do alcance dos seus caixeiros. Dona Estella era uma
-mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze annos e
-durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes
-de terminar o segundo anno de matrimonio, o Miranda pilhou-a em
-flagrante delicio de adulterio; ficou furioso e o seu primeiro impulso
-foi de mandal-a para o diabo junto com o cumplice; mas a sua casa
-commercial garantia-se com o dote que ella trouxera, uns oitenta contos
-em predios e acções da divida publica, de que se utilisava o
-desgraçado tanto quanto lhe permittia o regimen dotal. Além de que, um
-rompimento brusco seria obra para escandalo, e, segundo a sua opinião,
-qualquer escandalo domestico ficava muito mal a um negociante de certa
-ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a
-idéa de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para
-recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e
-affeito á hombridade de portuguez rico que já não tem patria na
-Europa.
-
-Acovardado defronte d'estes raciocinios, contentou-se com uma simples
-separação de leitos, e os dous passaram a dormir em quartos separados.
-Não comiam juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra
-constrangida, quando qualquer inesperado acaso os reunia a contra gosto.
-
-Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco
-a pouco se foi transformando em repugnancia completa. O nascimento de
-Zulmira veio aggravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez
-de servir de elo aos dous infelizes, foi antes um novo isolador que se
-estabeleceu entre elles. Estella amava-a menos do que lhe pedia o
-instincto materno por suppol-a filha do marido, e este a detestava
-porque tinha convicção de não ser seu pae.
-
-Uma bella noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e
-orçava então pelos seus trinta e cinco annos, sentio-se em
-insupportavel estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa
-alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas repellio
-logo esta idéa com escrupulosa repugnancia. Continuava a odial-a.
-Entretanto este mesmo facto de obrigação em que elle se collocou de
-não servir-se d'ella, a responsabilidade de desprezal-a, como que ainda
-mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fructo
-prohibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente em nada
-diminuisse a sua repugnancia pela perjura, foi ter ao quarto d'ella.
-
-A mulher dormia a somno solto. Miranda entrou pé ante pé e
-approximou-se da cama. «Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem
-aquillo!...» Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um
-instante, immovel, a contemplal-a no seu desejo.
-
-Estella, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se
-sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a
-frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda
-não pôde resistir, atirou-se contra ella, que, num pequeno sobresalto,
-mais de sorpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando
-com o marido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados,
-fingindo que continuava a dormir, sem a menor consciencia de tudo
-aquillo.
-
-Ah! ella contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de
-separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procural-a de
-novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para
-resistir ao desejo.
-
-Consummado o delicto, o honrado negociante sentio-se tolhido de vergonha
-e arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se tristonho
-e murcho para o seu quarto de desquitado.
-
-Oh! como lhe doia agora o que acabava de praticar na cegueira da sua
-sensualidade.
-
---Que cabeçada!... dizia elle agitado. Que formidavel cabeçada!...
-
-No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em silencio, como se
-nada de extraordinario houvera entre elles acontecido na vespera. Dir-se
-ia até que, depois d'aquella occurrencia, o Miranda sentia crescer o
-seu odio contra a esposa. E, á noite d'esse mesmo dia, quando se achou
-sozinho na sua cama estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais,
-nunca mais, praticar semelhante loucura.
-
-Mas, d'ahi a um mez, o pobre homem, acommettido de um novo accesso de
-luxuria, voltou ao quarto da mulher.
-
-Estella recebeu-o d'esta vez como da primeira, fingindo que não
-acordava; na occasião, porém, em que elle se apoderava d'ella
-febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra
-o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. O pobre diabo desnorteou,
-devéras escandalisado, soerguendo-se, brusco, n'um estremunhamento de
-somnambulo acordado com violencia.
-
-A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir;
-passou-lhe rapido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o
-com uma metralhada de beijos.
-
-Não se fallaram.
-
-Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer.
-Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada;
-descobrio n'ella o capitoso encanto com que nos embebedam as cortezãs
-amestradas na sciencia do gozo venereo. Descobrio-lhe no cheiro da pelle
-e no cheiro dos cabellos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro
-halito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a
-loucamente, com delirio, com verdadeira satisfação de animal no cio.
-
-E ella tambem, ella tambem gozou, estimulada por aquella circumstancia
-picante do resentimento que os desunia; gozou a deshonestidade d'aquelle
-acto que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda,
-rangendo os dentes, grunhindo, debaixo d'aquelle seu inimigo odiado,
-achando-o tambem agora, como homem, melhor que nunca, suffocando-o nos
-seus abraços nús, mettendo-lhe pela bocca a lingua humida e em braza.
-Depois, n'um arranco de corpo inteiro, com um soluço guttural e
-estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se n'um abandono de
-pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e
-chorosos, toda ella agonisante, como se a tivessem crucificado na cama.
-
-A partir d'essa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do
-quarto da mulher, estabeleceu-se entre elles o habito de uma felicidade
-sexual, tão completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no
-intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnancia moral
-em nada enfraquecida.
-
-Durante dez annos viveram muito bem casados; agora, porém, tanto tempo
-depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já
-não era acommettido tão frequentemente por aquellas crises que o
-arrojavam fora d'horas ao dormitorio de Dona Estella; agora, eis que a
-leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros
-do marido, na occasião em que estes subiam para almoçar ou jantar.
-
-Foi por isso que o Miranda comprou o predio vizinho a João Romão.
-
-A casa era boa; seu unico defeito estava na escassez do quintal; mas
-para isso havia remedio: com muito pouco compravam-se umas dez braças
-d'aquelle terreno do fundo, que ia até á pedreira, e mais uns dez ou
-quinze palmos do lado em que ficava a venda.
-
-Miranda foi logo entender-se com o Romão e propoz-lhe negocio. O
-taverneiro recussou formalmente.
-
-Miranda insistio.
-
---O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza.
-Nem só não cedo uma pollegada do meu terreno, como ainda lhe compro,
-sem o quizer vender, aquelle pedaço que lhe fica ao fundo da casa!
-
---O quintal?
-
---É exacto.
-
---Pois você quer que eu fique sem chacara, sem jardim, sem nada?
-
---Para mim era de vantagem...
-
---Ora, deixe-se d'isso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe
-propuz.
-
---Já disse o que tinha a dizer.
-
---Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.
-
---Nem meio palmo!
-
---Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é
-pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para
-alargar-se.
-
---E eu não cedo, porque preciso do meu terreno!
-
---Ora qual! Que diabo póde lá você fazer ali? Uma porcaria de um
-pedaço de terreno quasi grudado ao morro e aos fundos de minha casa!
-quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda!
-
---Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali!
-
---É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo,
-a sua parte ficaria cortada em linha recta até á pedreira, e escusava
-eu de ficar com uma aba de terreno alheio a metter-se pelo meu. Quer
-saber? não amuro o quintal sem você decidir-se!
-
---Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha
-a dizer já disse!
-
---Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali não póde
-construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janellas sobre o meu
-quintal?...
-
---Não preciso abrir janellas sobre o quintal de ninguem!
-
---Nem tão pouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janellas da
-esquerda!
-
---Não preciso levantar parede d'esse lado...
-
---Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?...
-
---Ah! isso agora é cá comigo!... O que fôr soará!
-
---Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!...
-
---Se me arrepender, paciencia! Só lhe digo é que muito mal se sahirá
-quem quizer metter-se cá com a minha vida!
-
---Passe bem!
-
---Adeus!
-
-Travou-se então uma lucta renhida e surda entre o portuguez negociante
-de fazendas por atacado e o portuguez negociante de seccos e molhados.
-Aquelle não se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o
-pedaço de terreno que o separava do morro; e o outro, por seu lado,
-não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou tres
-braças aos fundos da casa; parte esta que, conforme os seus calculos,
-valeria oiro, uma vez realizado o grande projecto que ultimamente o
-trazia preoccupado--a creação de uma estalagem em ponto enorme, uma
-estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda aquella miuçalha
-de cortiços que alastravam por Botafogo.
-
-Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente
-para essa idéa; sonhava com ella todas as noites; comparecia a todos os
-leilões de materiaes de construcção; arrematava madeiramentos já
-servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas de cal e
-tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vasio, cujo
-aspecto tomava em breve o caracter estranho de uma enorme barricada, tal
-era a variedade de objectos que ali se apinhavam accumulados: taboas e
-sarrafos, troncos d'arvore, mastros de navio, caibros, restos de
-carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas
-e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de
-arêa e terra vermelha, aglomerações de telhas velhas, escadas
-partidas, depositos de cal, o diabo emfim; ao que elle, que sabia
-perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava, soltando á
-noite um formidavel cão de fila.
-
-Este cão era pretexto de eternas resingas com agente do Miranda, a cujo
-quintal ninguem de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem
-correr o risco de ser assaltado pela féra.
-
---É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os hombros.
-
---Não faço! replicava o outro. Se elle é questão de capricho, eu
-tambem tenho capricho!
-
-Em compensação, não cahia no quintal do Miranda gallinha ou frango,
-fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse immediato sumiço.
-João Romão protestava contra o roubo em termos violentos, jurando
-vinganças terriveis, fallando em dar tiros.
-
---Pois é fazer um muro no gallinheiro! repontava o marido de Estella.
-
-D'ahi a alguns mezes, João Romão, depois de tentar um derradeiro
-esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu
-principiar as obras da estalagem.
-
---Deixa estar, conversava elle na cama com a Bertoleza; deixa estar que
-ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre
-pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças, mas
-seis, oito, todo o quintal e até o proprio sobrado talvez!
-
-E dizia isto com uma convicção de quem tudo póde e tudo espera da sua
-perseverança, do seu esforço inquebrantavel e da fecundidade
-prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe sahia das unhas para
-voltar multiplicado.
-
-Desde que a febre de possuir se apoderou d'elle totalmente, todos os
-seus actos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse
-pecuniario. Só tinha uma preoccupação: augmentar os bens. Das suas
-hortas recolhia para si e para a companheira os peiores legumes,
-aquelles que, por máos, ninguem compraria; as suas gallinhas produziam
-muito e elle não comia um ovo, do que no emtanto gostava immenso;
-vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos
-trabalhadores. Aquillo já não era ambição, era uma molestia nervosa,
-uma loucura, um desespero de accumular, de reduzir tudo a moeda. E seu
-typo baixote, socado, de cabellos á escovinha, a barba sempre por
-fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda ás hortas e ao
-capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando
-para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com
-os olhos, de tudo aquillo de que elle não podia apoderar-se logo com as
-unhas.
-
-Entretanto, a rua lá fóra povoava-se de um modo admiravel.
-Construia-se mal, porém muito; surgiam chalets e casinhas da noite para
-o dia; subiam os alugueis; as propriedades dobravam de valor.
-Montára-se uma fabrica de massas italianas e outra de vélas, e os
-trabalhadores passavam de manhã e ás Ave-Marias, e a maior parte
-d'elles ia comer á casa de pasto que João Romão arranjára aos fundos
-da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser
-tão afreguezada como a d'elle. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca
-o finorio vendêra tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos annos
-anteriores. Teve até de admittir caixeiros. As mercadorias não lhe
-paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais
-gasto. E o dinheiro a pingar, vintem por vintem, dentro da gaveta, e a
-escorrer da gaveta para a burra, aos cincoenta e aos cem mil réis, e da
-burra para o banco, aos contos e aos contos.
-
-Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazens
-fornecedores; começou a receber alguns generos directamente da Europa:
-o vinho, por exemplo, que elle d'antes comprava aos quintos nas casas de
-atacado, vinha-lhe agora de Portugal ás pipas, e de cada uma fazia tres
-com agua e cachaça; e despachava facturas de barris de manteiga, de
-caixas de conserva, caixões de phosphoros, azeite, queijos, louça e
-muitas outras mercadorias.
-
-Creou armazens para deposito, abolio a quitanda e transferio o
-dormitorio, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de
-tamanho e ganhou mais duas portas.
-
-Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de
-tudo: objectos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensilios de
-escriptorio, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa
-de mulher, chapéos de palha proprios para o serviço ao sol,
-perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e
-anneis e brincos de metal ordinario.
-
-E toda a gentalha d'aquellas redondezas ia cahir lá, ou então ali ao
-lado, na casa de pasto, onde os operarios das fabricas e os
-trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam
-bebendo e conversando até ás dez horas da noite, entre o espesso fumo
-dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampeões de kerosene.
-
-Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado,
-quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo
-ordenado não fosse inteirinho para ás mãos do velhaco. E sobre este
-cobre, quasi sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por
-cento ao mez, um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com
-penhores de oiro ou prata.
-
-Não obstante, as casinhas do cortiço, á proporção que se
-atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas
-seccassem. Havia grande avidez em alugal-as; aquelle era o melhor ponto
-do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam
-todos morar lá, porque ficavam a dous passos da obrigação.
-
-O Miranda rebentava de raiva.
-
---Um cortiço! exclamava elle, possesso. Um cortiço! Maldito seja
-aquelle vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das
-janellas!... Estragou-me á casa, o malvado!
-
-E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando aos
-berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o
-infernal barulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martellar de
-sol a sol.
-
-O que aliás não impedio que as casinhas continuassem a surgir, uma
-após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali
-afóra, desde a venda até quasi ao morro, e depois dobrassem para o
-lado do Miranda e avançassem sobre o quintal d'este, que parecia
-ameaçado por aquella serpente de pedra e cal.
-
-O Miranda mandou logo levantar o muro.
-
-Nada! aquelle demonio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de
-visitas!
-
-E os quartos do cortiço pararam emfim de encontro ao muro do
-negociante, formando com a continuação da casa d'este um grande
-quadrilongo, especie de pateo de quartel, onde podia formar um
-batalhão.
-
-Noventa e cinco casinhas comportou a immensa estalagem.
-
-Promptas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que
-separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de
-altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande
-portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças
-vermelhas, por cima de uma taboleta amarella, em que se lia o seguinte,
-escripto a tinta encarnada e sem ortographia.
-
-«Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para
-lavadeiras.»
-
-As casinhas eram alugadas por mez e as tinas por dia: tudo pago
-adiantado. O preço de cada tina, mettendo a agua, quinhentos réis;
-sabão á parte. As moradoras do cortiço tinham preferencia e não
-pagavam nada para lavar.
-
-Graças a abundancia d'agua que lá havia, como em nenhuma outra parte,
-e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender
-a roupa, a concurrencia ás tinas não se fez esperar; acudiram
-lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre ellas algumas vindas de
-bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde
-coubesse um colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputal-os.
-
-E aquillo se foi constituindo n'uma grande lavanderia, agitada e
-barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes
-e os seus jardinzinhos de tres e quatro palmos, que appareciam como
-manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o
-reverbero das claras barracas de algodão crú, armadas sobre os
-lustrosos bancos de lavar. E os gottejantes giráos, cobertos de roupa
-molhada, scintillavam ao sol, que nem lagos de metal branco.
-
-E n'aquella terra encharcada e fumegante, n'aquella humidade quente e
-lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma
-coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontanea, ali mesmo,
-d'aquelle lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.
-
-
-
-
-II
-
-
-E durante dous annos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando
-forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto
-com aquella exhuberancia brutal de vida, aterrado defronte d'aquella
-floresta implacavel que lhe crescia junto da casa, por debaixo das
-janellas, e cujas raizes, peiores e mais grossas do que serpentes,
-minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno d'ella,
-rachando o solo e abalando tudo.
-
-Posto que lá na rua do Hospicio os seus negocios não corressem mal,
-custava-lhe a soffrer a escandalosa fortuna do vendeiro «aquelle typo!
-um miseravel, um sujo, que não puzera nunca um paletó, e que vivia de
-cama e mesa com uma negra!»
-
-Á noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando
-elle, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido
-n'uma preguiçosa, junto á mesa da sala de jantar, e ouvia, a
-contra-gosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem n'uma exhalação
-forte de animaes cansados. Não podia chegar á janella sem receber no
-rosto aquelle bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum
-de bestas no coito.
-
-E depois, fechado no quarto de dormir, indifferente e habituado ás
-torpezas carnaes da mulher, isento já dos primitivos sobresaltos que
-lhe faziam, a elle, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a
-prosperidade do vizinho o que lhe obcecava o espirito, ennegrecendo-lhe
-a alma com um feio resentimento de despeito.
-
-Tinha inveja do outro, d'aquelle outro portuguez que fizera fortuna, sem
-precisar roer nenhum chifre; d'aquelle outro que, para ser mais rico
-tres vezes do que elle, não teve de casar com a filha do patrão ou com
-a bastarda de algum fazendeiro freguez da casa!
-
-Mas então, elle, Miranda, que se suppunha a ultima expressão da
-ladinagem e da esperteza; elle, que, logo depois do seu casamento,
-respondendo para Portugal a um ex-collega que o felicitava, dissera que
-o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas redeas um
-homem fino empolgava facilmente; elle, que se tinha na conta de
-invencivel matreiro, não passava afinal de um pedaço d'asno comparado
-com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo
-de uma brasileira mal educada e sem escrupulos de virtude! Imaginára-se
-talhado para grandes conquistas, e não passava de uma victima ridicula
-e soffredora!... Sim! no fim de contas qual fôra a sua Africa?...
-Enriquecêra um pouco, é verdade, mas como? a que preço?
-hypothecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis,
-mas incalculaveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjára a vida,
-sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que elle odiava! E do que
-afinal lhe aproveitára tudo isso? Qual era afinal a sua grande
-existencia? Do inferno da casa para o purgatorio do trabalho e
-vice-versa! Invejavel sorte, não havia duvida!
-
-Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado nem
-sequer gozava o prazer de ser pae. Se ella, em vez de nascer de Estella,
-fora uma engeitadinha recolhida por elle, é natural que a amasse, e
-então a vida lhe correria de outro modo; mas, n'aquellas condições, a
-pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludibrio
-materno, e o Miranda estendia até á innocentezinha o odio que
-sustentava contra a esposa.
-
-Uma espiga a tal da sua vida!
-
---Fui uma besta! resumio elle, em voz alta, apeiando-se da cama, onde se
-havia recolhido inutilmente.
-
-E pôz-se a passeiar no quarto, sem vontade de dormir, sentindo que a
-febre d'aquella inveja lhe estorricava os miolos.
-
-Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é que
-havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e
-desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de seu!
-esse, sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque, quando mesmo
-viesse a casar e a mulher lhe sahisse uma outra Estella, era só
-mandal-a p'ra o diabo com um pontapé! Podia fazel-o! Para esse é que
-era o Brasil!
-
---Fui uma besta! repisava elle, sem conseguir conformar-se com a
-felicidade do vendeiro. Uma grandissima besta! No fim de contas que
-diabo possuo eu?... Uma casa de negocio, da qual não posso separar-me
-sem comprometter o que lá está enterrado! um capital mettido n'uma
-rêde de transacções que não se liquidam nunca, e cada vez mais se
-complicam e mais me grudam ao estupor d'esta terra, onde deixarei a
-casca! Que tenho de meu, se a alma do meu credito é o dote, que me
-trouxe aquella sem vergonha, e que a ella me prende como a peste da casa
-commercial me prende a esta Costa d'Africa?...
-
-Foi da suppuração fetida d'estas idéas que se formou no coração
-vasio do Miranda um novo ideal--o titulo. Faltando-lhe temperamento
-proprio para os vicios fortes que enchem a vida de um homem; sem familia
-a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o
-naufrago agarrou-se áquella taboa, como um agonisante, consciente da
-morte, que se apega á esperança de uma vida futura. A vaidade de
-Estella, que a principio lhe tirava dos labios incredulos sorrisos de
-mofa, agora lhe comprazia á farta. Procurou capacitar-se de que ella
-com effeito herdara sangue nobre, e que elle, por sua vez, se não o
-tinha herdado, trouxera-o por natureza propria, o que devia valer mais
-ainda; e desde então principiou a sonhar com um baronato, fazendo
-d'isso o objecto querido da sua existencia, muito satisfeito no intimo
-por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro, sem
-ter, nunca mais, de restituil-o á mulher, nem ter de deixal-o a pessoa
-alguma.
-
-Semelhante preoccupação modificou-o em extremo. Deu logo para
-fingir-se escravo das conveniencias, affectando escrupulos sociaes,
-empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho
-com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao passar-lhe
-todos os dias pela venda, cumprimentava-o com protecção, sorrindo sem
-rir e fechando logo a cara em seguida, muito serio.
-
-Dados os primeiros passos para a compra do titulo, abrio a casa e deu
-festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabellos brancos,
-rejubilou com isso.
-
-Zulmira tinha então doze para treze annos e era o typo acabado da
-fluminense; pallida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas
-do nariz, das palpebras e dos labios, faces levemente pintalgadas de
-sardas. Respirava o tom humido das flores nocturnas, uma brancura fria
-de magnolia; cabellos castanho claro, mãos quasi transparentes, unhas
-molles e curtas, como as da mãe, dentes pouco mais claros do que a
-cutis do rosto, pés pequenos, quadril estreito, mas os olhos grandes,
-negros, vivos e maliciosos.
-
-Por essa época, justamente, chegava de Minas, recommendado ao pae
-d'ella, o filho de um fazendeiro importantissimo que dava bellos lucros
-á casa commercial do Miranda e que era talvez o melhor freguez que este
-possuia no interior.
-
-O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze annos e vinha terminar na
-côrte alguns preparatorios que lhe faltavam para entrar na academia de
-medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da rua do Hospicio, mas o
-estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ahi ficava mal
-accommodado, e o negociante, o quem não convinha desagradar-lhe,
-carregou com elle para a sua residencia particular de Botafogo.
-
-Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas de
-menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco
-extravagante e gastador, que não despendia um vintem fóra das
-necessidades de primeira urgencia. De resto, a não ser de manhã para
-as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de casa senão
-em companhia da familia d'este. Dona Estella, ao cabo de pouco tempo,
-mostrou por elle estima quasi maternal e encarregou-se de tomar conta da
-sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho tinha
-ordem franca do pae.
-
-Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa, reclamava-a de
-Dona Estella, que por sua vez encarregava ao marido de compral-a, sendo
-o objecto lançado na conta do fazendeiro com uma commissão de
-usurario. Sua hospedagem custava duzentos e cincoenta mil réis por mez,
-do que elle todavia não tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe
-faltava, e os criados da casa o respeitavam como a um filho do proprio
-senhor.
-
-Á noite, ás vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estella sahia com
-elle, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta até á praia,
-e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas, levava-o em
-sua companhia.
-
-A criadagem da familia do Miranda compunha-se de Izaura, mulata ainda
-moça, moleirona e tola, que gastava todo a vintemzinho que pilhava em
-comprar capilé na venda de João Romão; uma negrinha virgem, chamada
-Leonor, muito ligeira e viva, lisa e secca como um moleque, conhecendo
-de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta technologia da obscenidade,
-e dizendo, sempre que os caixeiros ou os freguezes da taberna, só para
-mexer com ella, lhe davam atracações: «Oia, que eu me quexo ao juiz
-de orfe!» e finalmente o tal Valentim, filho de uma escrava que foi de
-Dona Estella e a quem esta havia alforriado.
-
-A mulher do Miranda tinha por este moleque uma affeição sem limites:
-dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o comsigo a
-passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciumes á
-filha, de tão solicita que se mostrava com elle. Pois se a caprichosa
-senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois, se quando se
-queixavam os dous, um contra o outro, ella nunca dava razão á filha!
-Pois se o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois, se
-quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apezar das supplicas e
-dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estella chorava
-todos os dias e durante a ausencia d'elle não tocou piano, nem cantou,
-nem mostrou os dentes a ninguem? E o pobre Miranda, se não queria
-soffrer impertinencias da mulher e ouvir semsaborias defronte dos
-criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe
-humildemente todas as vontades.
-
-Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hospede alem do
-Henrique, o velho Botelho. Este porém na qualidade de parasita.
-
-Era um pobre diabo caminhando para os setenta annos; antipathico,
-cabello branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo theor;
-muito macilento, com uns oculos redondos que lhe augmentavam o tamanho
-da pupilla e davam-lhe á cara uma expressão de abutre, perfeitamente
-de accordo com o seu nariz adunco e com a sua bocca sem labios;
-viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam
-limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva
-debaixo do braço e um chapéu de Braga enterrado nas orelhas. Fôra em
-seu tempo empregado do commercio, depois corretor de escravos; contava
-mesmo que estivera mais de uma vez na Africa, negociando negros por sua
-conta. Atirou-se muito ás especulações; durante a guerra do Paraguay
-ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e, de
-malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de
-ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desillusões,
-cheio de hemorrhoidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava á
-sombra do Miranda, com quem por muitos annos trabalhou em rapaz, sob as
-ordens do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a principio por
-acaso e mais tarde por necessidade.
-
-Devorava-o, noite e dia, uma implacavel amargura, uma surda tristeza de
-vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não
-lhe ter sido possivel empolgar o mundo com as suas mãos hoje inuteis e
-tremulas. E, como o seu actual estado de miseria não lhe permittia
-abrir contra ninguem o bico, desabafava vituperando as idéas da época.
-
-Assim, eram ás vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando,
-entre outros assumptos palpitantes, vinha á discussão o movimento
-abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco.
-Então o Botelho ficava possesso e vomitava phrases terriveis, para a
-direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e
-vociferava imprecações, aproveitando aquella valvula para desafogar o
-velho odio accumulado dentro d'elle.
-
---Bandidos! berrava apoplectico. Cafila de salteadores!
-
-E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em settas envenenadas, procurando
-cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a
-belleza, o talento, a mocidade, a força, a saude, e principalmente a
-fortuna, eis o que elle não perdoava a ninguem, amaldiçoando todo
-aquelle que conseguia o que elle não obtivéra; que gosava o que elle
-não desfructára; que sabia o que elle não aprendêra. E, para
-individualisar o objecto do seu odio, voltava-se contra o Brasil, essa
-terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os
-portuguezes, e que, no emtanto, o deixára, a elle, na penuria.
-
-Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava ás oito da manhã,
-lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espirito de vinho;
-depois ia ler os jornaes para a sala de jantar, a espera do almoço;
-almoçava e sahia, tomava o bonde e ia direitinho para uma charutaria da
-rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até ás horas do jantar,
-entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fóra, de fronte
-d'elle. Tinha a pretenção de conhecer todo o Rio de Janeiro e os
-podres de cada um em particular. Ás vezes, poucas, Dona Estella
-encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho, o que o Botelho
-desempenhava melhor que ninguem. Mas a sua grande paixão, o seu fraco,
-era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo, posto
-que tivéra sempre invencivel medo ás armas de qualquer especie,
-mórmente ás de fogo. Não podia ouvir disparar perto de si uma
-espingarda, enthusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a guerra; a
-presença de um official em grande uniforme tirava-lhe lagrimas de
-commoção; conhecia na ponta da lingua o que se referia á vida de
-quartel; distinguia ao primeiro lance d'olhos o posto e o corpo a que
-pertencia qualquer soldado, e, apezar dos seus achaques, era ouvir tocar
-na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar,
-e, muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que accompanhavam a
-tropa. Então, não tornava para casa emquanto os militares não se
-recolhessem. Quasi sempre voltava d'essa loucura ás seis da tarde,
-moido a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar
-horas e horas ao som da musica de pancadaria. E o mais interessante é
-que elle, ao vir-lhe a reacção, revoltava-se furioso contra o maldito
-commandante que o obrigára áquella estopada, levando o batalhão por
-uma infinidade de ruas e fazendo de proposito o caminho mais longo.
-
---Só parece, lamentava-se elle, que a intenção d'aquelle malvado era
-dar-me cabo da pelle! Ora vejam! Tres horas de marche-marche por uma
-soalheira de todos os diabos!
-
-Uma das birras mais comicas do Botelho era o seu odio pelo Valentim. O
-moleque causava-lhe febre com as suas petulancias de mimalho, e,
-velhaco, percebendo quanto ellas o irritavam, ainda mais abusava, seguro
-na protecção de Dona Estella. O parasita de muito que o teria
-estrangulado, se não fôra a necessidade de agradar a dona da casa.
-
-Botelho conhecia as fallas de Estella como as palmas da propria mão. O
-Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes
-lh'as confiára em occasiões desesperadas de desabafo, declarando
-francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão porque não a
-punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia
-tambem que os serios interesses commerciaes estavam acima de tudo.
-
---Uma mulher n'aquellas condições, dizia elle convicto, representa
-nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza!
-Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ella...
-
---Ora! explicava o marido. Eu me sirvo d'ella como quem se serve de uma
-escarradeira!
-
-O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher, concordava
-em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração. Mas
-por outro lado, quando ouvia Estella fallar do marido, com infinito
-desdem e até com asco, ainda mais resplandecia de contente.
-
---Você quer saber? affirmava ella, eu bem percebo quanto aquelle traste
-do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a
-primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de
-sociedade, não podemos viver sem o esposo, quando somos casadas; de
-forma que tenho de aturar o que me cahio em sorte, quer goste d'elle
-quer não goste! juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se
-chege ás vezes para mim, é porque entendo que paga mais á pena ceder
-do que puxar discussão com uma besta d'aquella ordem!
-
-O Botelho, com a sua encanecida experiencia do mundo, nunca transmittia
-a nenhum dos dous o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim
-que, certa occasião, recolhendo-se á casa incommodado, em hora que
-não era do seu costume, ouvio, ao passar pelo quintal, sussurros de
-vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em
-geral não ia ninguem.
-
-Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido, descobrio
-Estella entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando,
-sem tugir nem mugir, e, só quando os dous se separaram, foi que elle se
-mostrou.
-
-A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava,
-fez-se côr de cera; mas o Botelho procurou tranquillisal-os, dizendo em
-voz amiga e mysteriosa:
-
---Isso é uma imprudencia o que vocês estão fazendo!... Estas coisas
-não é d'este modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra
-pessoa... Pois n'uma casa, em que ha tantos quartos, é lá preciso vir
-metterem-se n'este canto do quintal?...
-
---Nós não estávamos fazendo nada! disse Estella, recuperando o sangue
-frio.
-
---Ah! tornou o velho, apparentando summo respeito: então desculpe,
-pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim seria o
-mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que
-d'esta vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi como se
-nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!... A
-senhora está moça, está na força dos annos; seu marido não a
-satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se
-é torto, não fomos nós que o fizemos torto!... Até certa idade todos
-temos dentro um bichinho carpinteiro, que é preciso matar, antes que
-elle nos mate! Não lhes doam as mãos!... apenas acho que, para outra
-vez, devem ter um pouquito mais de cuidado e...
-
---Está bom! basta! ordenou Estella.
-
---Perdão! eu, se digo isto, é para deixal-os bem tranquillos a meu
-respeito. Não quero, nem por sombra, que se persuadam de que...
-
-O Henrique atalhou, com a voz ainda commovida:
-
---Mas, acredite, seu Botelho, que...
-
-O velho interrompeo-o tambem por sua vez, passando-lhe a mão no hombro
-e affastando-o comsigo:
-
---Não tenha receio, que não o comprometterei, menino!
-
-E, como já estivessem distantes de Estella, segredou-lhe em tom
-protector: Não torne a fazer isto assim, que você se estraga... Olhe
-como lhe tremem as pernas!
-
-Dona Estella acompanhou-os a distancia, vagarosamente, affectando
-preoccupação em compor um ramalhete, cujas flores ella ia colhendo com
-muita graça, ora toda vergada sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se
-na pontinha dos pés para alcançar os heliotropos e os manacás.
-
-Henrique seguio o Botelho até ao quarto d'este, conversando sem mudar
-de assumpto.
-
---Você então não falia n'isto, hein? Jura? perguntou-lhe.
-
-O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhára em flagrante e que
-ficára bom tempo a espreita.
-
-Fallar o que, seu tolo?... Pois então quem pensa você que eu sou?...
-Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou
-convencido que não dará... Quer saber? eu até sympathiso muito com
-você, Henrique! Acho que você é um excellente menino, uma flôr! E
-digo-lhe mais: hei de proteger os seus negocios com Dona Estella...
-
-Fallando assim, tinha-lhe tomado as mãos e affagava-as.
-
---Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se metta com donzellas,
-entende?... São o diabo! Por dá cá aquella palha fica um homem em
-apuros! agora quanto ás outras, papo com ellas! Não mande nenhuma ao
-vigario, nem lhe dôa a cabeça, porque, no fim de contas, nas
-circumstancias de Dona Estella, é até um grande serviço que você lhe
-faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha
-a geito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse oiro em pó!
-sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ella que
-você faz o obsequio, mas tambem ao marido: quanto mais escovar-lhe
-você a mulher, melhor ella ficará de genio, e por conseguinte melhor
-será para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se
-aborrecer lá por baixo, com os seus negocios, e precisa de um pouco de
-descanço quando volta do serviço e mette-se em casa! Escove-a,
-escove-a! que a porá macia que nem velludo! O que é preciso é muito
-juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue
-para diante, não só com ella, mas com todas as que lhe cahirem debaixo
-da aza! Vá passando! menos as de casa aberta, que isso é perigoso por
-causa das molestias; nem tão pouco donzellas! Não se metta com a
-Zulmira! E creia que lhe fallo assim, porque sou seu amigo, porque o
-acho sympathico, porque o acho bonito!
-
-E acarinhou-o tão vivamente d'esta vez, que o estudante, fugindo-lhe
-das mãos, affastou-se com um gesto de repugnancia e desprezo, emquanto
-o velho lhe dizia em voz comprimida:
-
---Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!...
-
-
-
-
-III
-
-
-Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os
-olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas.
-
-Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de
-chumbo. Como que se sentia ainda na indolencia da neblina as derradeiras
-notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se á luz
-loira e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra
-alheia.
-
-A roupa lavada, que ficára de vespera nos córadoiros, humedecia o ar e
-punha-lhe um fartum acre de sabão ordinario. As pedras do chão,
-esbranquiçadas no logar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo
-anil, mostravam uma pallidez grisalha e triste, feita de accumulações
-de espumas seccas.
-
-Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de somno;
-ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas;
-pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as chicaras a
-tilintar; o cheiro quente do café aquecia, supplantando todos os
-outros; trocavam-se de janella para janella as primeiras palavras, os
-bons dias; reatavam-se conversas interrompidas á noite; a pequenada cá
-fora traquinava já, e lá de dentro das casas vinham choros abafados de
-crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava,
-destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde,
-grasnar de marrecos, cantar de gallos, cacarejar de gallinhas. De alguns
-quartos sabiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a
-gaiola do papagaio, e os loiros, á semelhança dos donos,
-cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se á luz nova do dia.
-
-D'ahi a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma
-agglomeração tumultuosa de machos e femeas. Uns, após outros, lavavam
-a cara, incommodamente, debaixo do fio d'agoa que escorria da altura de
-uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já
-prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a
-tostada nudez dos braços e do pescoço, que ellas despiam, suspendendo o
-cabello todo para o alto do casco; os homens, esses não se preoccupavam
-em não molhar o pello, ao contrario mettiam a cabeça bem debaixo da
-agoa e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando
-contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era
-um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sahir sem treguas. Não
-se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias;
-as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali
-mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto
-das hortas.
-
-O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias
-accentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruido
-compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na
-venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e
-pragas; já se não fallava, gritava-se. Sentia-se n'aquella
-fermentação sanguinea, n'aquella gula viçosa de plantas rasteiras que
-mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer
-animal de existir, a triumphante satisfação de respirar sobre a terra.
-
-Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas,
-fazendo compras.
-
-Duas janellas do Miranda abriram-se. Appareceu n'uma a Izaura, que se
-dispunha a começar a limpeza da casa.
-
---Nhá Dunga! gritou ella para baixo, a sacudir um panno de mesa; se
-você tem cús-cús de milho hoje, bata na porta, ouvio?
-
-A Leonor surgio logo tambem, enfiando curiosa a carapinha por entre o
-pescoço e o hombro da mulata.
-
-O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta á cabeça e o seu
-banco de páo fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do
-pateo, a espera dos freguezes, pousando a canastra sobre o cavallete que
-elle armou promptamente. Em breve estava cercado por uma nuvem de gente.
-As crianças adulavam-no, e, á proporção que cada mulher ou cada
-homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o
-peito. Uma vacca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando
-tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem
-carregado de vasilhame de folha.
-
-O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fabrica de massas italianas, ali
-mesmo da visinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o
-seu arfar monotono de machina a vapor. As corridas até á venda
-reproduziam-se, transformando-se n'um verminar constante de formigueiro
-assanhado. Agora, no logar das bicas apinhavam-se latas de todos os
-feitios, sobresahindo as de kerozene com um braço de madeira em cima;
-sentia-se o trapejar da agoa cahindo na folha. Algumas lavadeiras
-enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos córadoiros a roupa que
-ficára de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados
-portuguezes e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com
-grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha
-algaraviada pelo carroceiro contra o burro.
-
-E, durante muito tempo, fez-se um vae-vem de mercadores. Appareceram os
-taboleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não
-vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os
-ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as suas
-caixas de candieiros e objectos de vidro e com o seu fornecimento de
-caçarolas e chocolateiras de folha de Flandres. Cada vendedor tinha o
-seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com
-as cestas do peixe dependuradas, á moda de balança, de um páo que
-elle trazia ao hombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro
-guincho estridente e guttural para surgirem logo, como por encanto, uma
-enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se d'elle com
-grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando
-supplicantemente. O sardinheiro os affastava com o pé, emquanto vendia
-o seu peixe á porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e
-continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente
-tapava mal servia ao freguez. Para ver-se livre por um instante dos
-importunos era necessario atirar para bem longe um punhado de sardinhas,
-sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões.
-
-A primeira que se pôz a lavar foi a Leandra, por alcunha a «Machona»,
-portugueza feroz, berradora, pulsos cabelludos e grossos, anca de animal
-do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Anna das
-Dores, a quem só chamavam a «das Dores» e outra donzella ainda, a
-Nênêm, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que
-gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha á
-parte, mas toda a familia habitava no cortiço.
-
-Ninguem ali sabia ao certo se a Machona era viuva ou desquitada; os
-filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, affirmavam
-que fôra casada e que largára o marido para metter-se com um homem do
-commercio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo
-soltal-a ao desamparo, deixara o socio em seu logar. Teria vinte e cinco
-annos.
-
-Nênêm desesete. Espigada, franzina e forte, com uma prôazinha de
-orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos
-rapazes que a queriam sem ser para casar. Engommava bem e sabia fazer
-roupa branca de homem com muita perfeição.
-
-Ao lado da Leandra foi collocar-se á sua tina a Augusta Carne Molle,
-brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta annos,
-soldado de policia, pernostico, de grande bigode preto, queixo sempre
-escanhoado e um luxo de calças brancas emgommadas e botões limpos na
-farda, quando estava de serviço. Tambem tinham filhos, mas ainda
-pequenos, e um dos quaes, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha que se
-encarregava d'ella. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil réis
-para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedencia franceza.
-
-Alexandre, em casa, á hora de descanso, nos seus chinellos e na sua
-camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
-conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o
-bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar
-as calças de brim, ninguem mais lhe via os dentes e então a todos
-fallava tezo e por cima do hombro. A mulher, a quem elle só dava tu
-quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no
-cortiço, honestidade sem merito, porque vinha da indolencia do seu
-temperamento e não do arbitrio do seu caracter.
-
-Junto d'ella pôz-se a trabalhar a Leocadia, mulher de um ferreiro
-chamado Bruno, portugueza pequena e socada, de carnes duras, com uma
-fama terrivel de leviana entre as suas visinhas.
-
-Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam
-todos pelas virtudes de que só ella dispunha para benzer erysipelas e
-cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia,
-grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados á navalha,
-formando ponta, como dentes de cão, cabellos lisos, escorridos e ainda
-retintos apezar da idade. Chamavam-lhe «Bruxa.»
-
-Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira,
-mulata antiga, muita séria e asseada em exagero: a sua casa estava
-sempre humida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o máo humor
-punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era
-grande, corria a buscar um balde d'agua e descarregava-o com furia pelo
-chão da sala. A filha tinha quinze annos, a pelle de um moreno quente,
-beiços sensuaes, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ella
-estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não
-cedia, nem á mão de Deus Padre, aos rógos de João Romão, que a
-desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das
-compras que Florinda fazia diariamente á venda.
-
-Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na
-estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas
-suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher
-comida de desgostos. Fôra casada com o dono de uma casa de chapéos,
-que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e
-fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até
-de francez. Tinha uma cara macilenta de velha portugueza devota, que já
-foi gorda, bochechas molles de pellangas rechupadas, que lhe pendiam dos
-cantos da bocca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos
-castanhos, sempre chorosos e engolidos pelas palpebras. Puxava em
-bandós sobre as fontes o escasso cabello grisalho untado de oleo de
-amendoas doces. Quando sahia á rua punha um eterno vestido de seda
-preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um chale encarnado
-que lhe dava a todo o corpo um feitio pyramidal. Da sua passada grandeza
-só lhe ficára uma caixa de rapé de oiro, na qual a inconsolavel
-senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada.
-
-A filha era a flôr do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha, Bonita, posto
-que enfermiça e nervosa ao ultimo ponto; loira, muito pallida, com uns
-modos de menina de boa familia. A mãe não lhe permittia lavar, nem
-engommar, mesmo porque o medico o prohibira expressamente.
-
-Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do commercio, estimado do
-patrão e dos collegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia
-desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse
-já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito annos, não tinha
-ainda pago á natureza o cruento tributo da puberdade, apezar do zelo da
-velha e dos sacrificios que esta fazia para cumprir á risca as
-prescripções do medico e não faltar á filha o menor desvelo. No
-emtanto, coitadas! d'aquelle casamento dependia a felicidade de ambas,
-porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de
-quem mais tarde havia de ser socio, tencionava, logo que mudasse de
-estado, restituil-as ao seu primitivo circulo social. A pobre velha
-desesperava-se com o facto e pedia a Deus, todas as noites, antes de
-dormir, que as protegesse e conferisse á filha uma graça tão simples
-que elle fazia, sem distincção de merecimento, a quantas raparigas
-havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma
-d'esta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de «ser
-mulher», como dizia ella. E «que deixassem lá fallar o doutor,
-entendia que não era decente, nem tinha geito, dar homem a uma moça
-que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vel-a solteira
-toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquelle inferno da
-estalagem!»
-
-Lá no cortiço estavam todos a par d'esta historia: não era segredo
-para ninguem. E não se passava um dia que não interrogassem duas e
-tres vezes á velha com estas phrases:
-
---Então? já veio?
-
---Porque não tenta os banhos de mar?
-
---Porque não chama outro medico?
-
---Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!
-
-A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ella. E
-suspirava resignada.
-
-Quando o Costa apparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva,
-os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silencio com um
-respeitoso ar de lastima e piedade, empenhados tacitamente por aquelle
-caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa.
-
-Pombinha era muito querida por toda aquella gente. Era quem lhe escrevia
-as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as
-contas; quem lia o jornal para os que quizessem ouvir. Presavam-na com
-muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permittia certo luxo
-relativo. Andava sempre de botinas ou sapatinhos com meias de côr, seu
-vestido de chita engommado; tinha as suas joiazinhas para sahir á rua,
-e, aos domingos, quem a encontrasse á missa na egreja de São João
-Baptista, não seria capaz de desconfiar que ella morava em cortiço.
-
-Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito
-afeminado, fraco, côr de espargo cozido e com um cabellinho castanho,
-deslavado e pobre, que lhe cahia, n'uma só linha, até ao pescocinho
-molle e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem
-já estava tão familiarisado que ellas o tratavam como a uma pessoa do
-mesmo sexo; em presença d'elle fallavam de coisas que não exporiam em
-presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e
-das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem
-commovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era
-sempre Albino quem tratava de reconcilial-os, exhortando as mulheres á
-concordia. D'antes encarregava-se de cobrar o rol das collegas, por
-amabilidade; mas uma vez, indo a uma republica de estudantes, deram-lhe
-lá, ninguem sabia porque, uma duzia de bolos, e o pobre diabo jurou
-então, entre lagrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de
-receber os róes.
-
-E d'ahi em diante, com effeito, não arredava os pésinhos do cortiço,
-a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dansarina,
-passear á tarde pelas ruas e á noite dansar nos bailes dos theatros.
-Tinha verdadeira paixão por esse divertimento; ajuntava dinheiro
-durante o anno para gastar todo com a mascarada. E ninguem o encontrava,
-domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com
-a sua calça branca engommada, a sua camisa limpa, um lenço ao
-pescoço, e, amarrado á cinta, um avental que lhe cahia sobre as pernas
-como uma saia. Não fumava, não bebia espiritos e trazia sempre as
-mãos geladas e humidas.
-
-N'aquella manhã levantára-se ainda um pouco mais languido que de
-costume, porque passára mal a noite. A velha, Isabel, que lhe ficava ao
-lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistencia, perguntou-lhe o que
-tinha.
-
-Ah! muita molleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava!
-
-A velha receitou diversos remedios, e ficaram os dois, no meio de toda
-aquella vida, a fallar tristemente sobre molestias.
-
-E, emquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocadia, a
-Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e
-quasi sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte
-d'ellas, separado pelos giráos, formava-se um novo renque de
-lavadeiras, que acudiam de fóra, carregadas de trouxas, e iam
-ruidosamente tomando logar ao lado umas das outras, entre uma agitação
-sem tregoas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era
-briga. Uma a uma occupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do
-cortiço sahiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que
-havia ao fundo da estalagem desappareciam os trabalhadores da pedreira,
-donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de
-calças de brim, chapéo alto e sobrecasaca preta, passou lá fóra, em
-caminho para o armazem, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas.
-O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solemne,
-atravessou o pateo, sem fallar a ninguem, nem mesmo á mulher, e
-recolheu-se á casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o
-Pompéo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande
-caixa de bugigangas, sahio para a perigrinação de todos os dias,
-altercando e praguejando em italiano.
-
-Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar á Machona pela
-inhá Rita.
-
---A Rita Bahiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ella arribou!
-
-A Leocadia explicou logo que a mulata estava com certeza de pandega com
-o Firmo.
-
---Que Firmo? interrogou Augusta.
-
---Aquelle cabravasco que se mettia ás vezes ahi com ella. Diz que é
-torneiro.
-
---Ella mudou-se? perguntou o pequeno.
-
---Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata tem coisas
-lá. Você o que queria?
-
---Vinha buscar uma roupa que está com ella.
-
---Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que talvez te
-possa dizer alguma coisa.
-
---Ali?
-
---Sim, pequeno, n'aquella porta, onde a preta do taboleiro está
-vendendo! Ó diabo! olha que pizas a boneca de anil! Já se vio que
-sorte? Parece que não vê onde piza este raio de criança!
-
-E, notando que o filho, o Agostinho, se approximava para tomar o logar
-do outro que já se ia:--Sahe d'ahi, tu tambem, peste! Já principias na
-reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade,
-que fazes tu que não vaes regar a horta do Commendador?
-
---Elle disse hontem que eu agora fosse á tarde, que era melhor.
-
---Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil réis, que é fim
-do mez. Olha! Vae lá dentro e diz a Nênêm que te entregue a roupa que
-veio hontem á noite.
-
-O pequeno afastou-se de carreira, e ella lhe gritou na pista.--E que
-não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido!
-
-Uma conversa cerrada travára-se no resto da fila de lavadeiras a
-respeito da Rita Bahiana.
-
---É doida mesmo!... censurava Augusta. Metter-se na pandega sem dar
-conta da roupa que lhe entregaram... Assim ha de ficar sem um freguez...
-
---Aquella não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!...
-Parece que tem fogo no rabo! Póde haver o serviço que houver,
-apparecendo pagode, vae tudo pr'o lado! Olha o que sahio o anno passado
-com a festa da Penha!...
-
---Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca vergonha! Est'ro
-dia, pois você não vio? levaram ahi n'uma bebedeira, a dansar e cantar
-á viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre!
-
---Para tudo ha horas e ha dias!...
-
---Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é apparecer
-quem puxe por ella!
-
---Ainda assim não é má creatura... Tirante o defeito da vadiagem...
-
---Bom coração tem ella, até de mais, que não guarda um vintém pr'o
-dia d'amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!
-
---Depois é que são ellas!... O João Romão já lhe não fia!
-
---Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ella tem
-dinheiro é porque o gasta mesmo!
-
-E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a
-torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercicio. Ao passo que,
-em torno da sua tagarelice, o cortiço se enbandeirava todo de roupa
-molhada, donde o sol tirava scintillações de prata.
-
-Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos córadoiros tinha
-reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao nascente,
-caiadinhas de novo, reverberavam illuminadas, offuscando a vista. Em uma
-das janellas da sala de jantar do Miranda, Dona Estella e Zulmira, ambas
-vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda,
-indifferentes á agitação que ia lá em baixo, muito esquecidas na sua
-tranquillidade de entes felizes.
-
-Entretanto, agora o maior movimento era na venda á entrada da
-estalagem. Davam nove horas e os operarios das fabricas chegavam-se para
-o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manoel não tinham mãos a medir
-com a criadagem da visinhança; os embrulhos de papel amarello
-succediam-se, e o dinheiro pingava sem intermittencia dentro da gaveta.
-
---Meio kilo de arroz!
-
---Um tostão de assucar!
-
---Uma garrafa de vinagre!
-
---Dois martellos de vinho!
-
---Dois vintens de fumo!
-
---Quatro de sabão!
-
-E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons.
-
-Ouviam-se protestos entre os compradores:
-
---Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!
-
---O peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer!
-
---Seu Manoel, não me demore essa manteiga!
-
-Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no
-quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma
-panella á outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira
-aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admittira-se um
-novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada commensal que ia
-chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminavel
-lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito
-predominava. O paraty circulava por todas as mezas, e cada caneca de
-café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho
-queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguem se entendia! Crusavam-se
-conversas em todas as direcções, discutia-se a berros, com valentes
-punhados sobre as mesas. E sempre a sahir, e sempre a entrar gente, e os
-que sahiam, depois d'aquella comesaina grossa, iam radiantes de
-contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.
-
-N'um banco de páo tosco, que existia do lado de fóra, junto á parede
-e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinellos de
-couro crú, esperava, havia já uma boa hora, para fallar com o
-vendeiro.
-
-Era um portuguez de seus trinta e cinco a quarenta annos, alto,
-espadaúdo, barbas asperas, cabellos pretos e mal tratados cahindo-lhe
-sobre a testa, por debaixo de um chapéo de feltro ordinario; pescoço
-de touro e cara de Hercules, na qual os olhos todavia, humildes como os
-olhos de um boi de canga, exprimiam tranquilla bondade.
-
---Então ainda não se póde fallar ao homem? perguntou elle, indo ao
-balcão entender-se com o Domingos.
-
---O patrão está agora muito occupado. Espere!
-
---Mas são quasi dez horas e estou com um gole de café no estomago!
-
---Volte logo!
-
---Moro na cidade nova. É um estirão d'aqui!
-
-O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia:
-
---O homem que ahi está, seu João, diz que se vae embora!
-
---Elle que espere um pouco, que já lhe fallo! respondeu o vendeiro no
-meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!
-
---Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o
-hercules com a sua voz grossa e sonora.
-
---Ó filho, almoce ahi mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já
-podia estar aviado!
-
---Pois vá lá! resolveu o homemzarrão, sahindo da venda para entrar na
-casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar curioso,
-medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ahi
-se apresentavam pela primeira vez.
-
-E assentou-se a uma das mezinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a
-lista dos pratos.
-
---Traga lá o pescado com batatas e venha um martello de vinho.
-
---Quer verde ou virgem?
-
---Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo!
-
-
-
-
-IV
-
-
-Meia hora depois, quando João Romão se vio menos occupado, foi ter com
-o sujeito que o procurava e assentou-se defronte d'elle, cahindo de
-fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trahir na physionomia o menor
-symptoma de cansaço.
-
---Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Elle fallou-me de um
-homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lagedo...
-
---Sou eu.
-
---Estava empregado n'outra pedreira?
-
---Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me d'ella e quero
-passar adiante.
-
---Quanto lhe dão lá?
-
---Setenta mil réis.
-
---Oh! Isso é um disparate!
-
---Não trabalho por menos...
-
---Eu, o maior ordenado que faço é de cincoenta.
-
---Cincoenta ganha um macaqueiro...
-
---Ora! tenho ahi muitos trabalhadores de lagedo por esse preço!
-
---Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor não
-encontra por cincoenta mil réis quem dirija a broca, pese a polvora e
-lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres!
-
---Sim, mas setenta mil réis é um ordenado impossivel!
-
---N'esse caso vou como vim... Fica o dito por não dito!
-
---Setenta mil réis é muito dinheiro!...
-
---Cá por mim, entendo que vale a pena pagar mais um pouco a um
-trabalhador bom, do que estar a soffrer desastres, como o que soffreu
-sua pedreira a semana passada! Não fallando na vida do pobre de Christo
-que ficou debaixo da pedra!
-
---Ah! O Machucas fallou-lhe no desastre?
-
---Contou-m'o, sim senhor, e o desastre não aconteceria se o homem
-soubesse fazer o serviço!
-
---Mas setenta mil réis é impossivel. Desça um pouco!
-
---Por menos não me serve... E escusamos de gastar palavras!
-
---Você conhece a pedreira?
-
---Nunca a vi de perto, mas quiz me parecer que é boa. De longe
-cheirou-me a granito.
-
---Espere um instante.
-
-João Romão deu um pulo á venda, deixou algumas ordens, enterrou um
-chapéo na cabeça e voltou a ter com o outro.
-
---Ande a ver! gritou-lhe da porta do frege, que a pouco e pouco se
-esvaziara de todo.
-
-O cavouqueiro pagou doze vintens pelo seu almoço e acompanhou-o em
-silencio.
-
-Atravessaram o cortiço.
-
-A labutação continuava. As lavadeiras tinham já ido almoçar e tinham
-voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de chapéo de
-palha, apezar das toldas que se armaram. Um calor de caustico
-mordia-lhes os toutiços em brasa e scintillantes de suor. Um estado
-febril apoderava se d'ellas n'aquelle rescaldo; aquella digestão feita
-ao sol fermentava-lhes o sangue. A Machona altercava com uma preta que
-fôra reclamar um par de meias e destrocar uma camisa; a Augusta, muito
-molle sobre a sua taboa de lavar, parecia derreter-se como cebo; a
-Leocadia largava de vez em quando a roupa e o sabão para coçar as
-comichões do quadril e das virilhas, assanhadas pelo mormaço; a Bruxa
-monologava, resmungando n'uma insistencia de idiota, ao lado da
-Marcianna que, com o seu typo de mulata velha, um cachimbo ao canto da
-bocca, cantava toadas monotonas do sertão:
-
-
- «Maricas tá marimbando.
- Maricas tá marimbando,
- Na passage do riacho
- Maricas tá marimbando.»
-
-
-A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor do sol, a rebolar sem
-fadigas, assobiava os chorados e lundús que se tocavam na estalagem, e
-junto d'ella, a melancolica senhora Dona Isabel suspirava, esfregando a
-sua roupa dentro da tina, automaticamente, como um condemnado a
-trabalhar no presidio; ao passo que o Albino, saracoteando os seus
-quadris pobres de homem lymphatico, batia na taboa um par de calças, no
-rhythmo cadenciado e miudo de um cozinheiro a bater bifes. O corpo
-tremia-lhe todo, e elle, de vez em quando, suspendia o lenço do
-pescoço para enxugar a fronte, e então um gemido suspirado subia-lhe
-aos labios.
-
-Da casinha numero 8 vinha um falsete agudo, mas afinado. Era a das Dores
-que principiava o seu serviço; não sabia engommar sem cantar. No
-numero 7 Nênêm cantarolava em tom muito mais baixo; e de um dos
-quartos do fundo da estalagem sahia de espaço a espaço uma nota aspera
-de trombone.
-
-O vendeiro, ao passar por detrás de Florinda, que no momento apanhava
-roupa do chão, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo então mais em
-evidencia.
-
---Não bula, hein?!... gritou ella, rapido, erguendo-se teza.
-
-E, dando com João Romão:--Eu logo vi! Leva implicando aqui com a gente
-e depois, vae-se comprar na venda, o safado rouba no peso! Diabo do
-gallego! Eu não te quero, sabe?
-
-O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais força e fugio, porque ella
-se armára com um regador cheio d'agoa.
-
---Vem p'ra cá, se és capaz! Diabo da peste!
-
-João Romão já se havia afastado com o cavouqueiro.
-
---O senhor tem aqui muita gente!... observou-lhe este.
-
---Oh! fez o outro, sacudindo os hombros, r disse depois com
-empafia:--Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas é tudo
-gente séria! Não ha chinfrins n'esta estalagem; se apparece uma rusga,
-eu chego, e tudo acaba logo! Nunca nos entrou cá a policia, nem nunca
-la deixaremos entrar! E olhe que se divertem bem com as suas violas!
-Tudo gente muito boa!
-
-Tinham chegado ao fim do pateo do cortiço e, depois de transporem uma
-porta que se fechava com um pezo amarrado a uma corda, acharam-se no
-capinzal que havia antes da pedreira.
-
---Vamos por aqui mesmo que é mais perto, aconselhou o vendeiro.
-
-E os dois, em vez de procurarem a estrada, atravessaram o capim quente e
-trescalante.
-
-Meio dia em ponto. O sol estava a pino; tudo reverberava á luz
-irreconciliavel de dezembro, n'um dia sem nuvens. A pedreira, em que
-ella batia de chapa em cima, cegava olhada de frente. Era preciso
-martyrisar a vista para descobrir as nuances da pedra; nada mais que uma
-grande mancha branca e luminosa, terminando pela parte de baixo no chão
-coberto de cascalho miudo, que ao longe produzia o effeito de um betume
-cinzento, e pela parte de cima na espessura compacta do arvoredo, onde
-se não distinguiam outros tons mais do que nodoas negras, bem negras,
-sobre o verde-escuro.
-
-Á proporção que os dois se aproximavam da imponente pedreira, o
-terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos
-enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais adiante, por aqui e por ali,
-havia muitas carroças, algumas em movimento, puxadas a burro e cheias
-de calhaus partidos; outras já promptas para seguir, a espera do
-animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de
-ser despejadas n'aquelle instante. Homens labutavam.
-
-Á esquerda, por cima de um vestigio de rio, que parecia ter sido bebido
-de um trago por aquelle sol sedento, havia uma ponte de taboas, onde
-tres pequenos, quasi nús, conversavam assentados, sem fazer sombra,
-illuminados a prumo pelo sol do meio dia. Para adiante, na mesma
-direcção, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado sobre
-columnas de pedra tosca; ahi muitos portuguezes trabalhavam de canteiro,
-ao barulho metallico do picão que feria o granito. Logo em seguida,
-surgia uma officina de ferreiro, toda atravancada de destroços e
-objectos quebrados, entre os quaes avultavam rodas de carro; em volta da
-bigorna dois homens, de corpo nú, banhados de suor e alumiados de
-vermelho como dous diabos, martellavam cadenciosamente sobre um pedaço
-de ferro em brasa; e ali mesmo, perto d'elles, a forja escancarava uma
-guela infernal, d'onde sahiam pequenas linguas de fogo, irrequietas e
-gulosas.
-
-João Romão parou á entrada da officina e gritou para um dos
-ferreiros:
-
---Ó Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão!
-
-Os dois homens suspenderam por um instante o trabalho.
-
---Já lá fui ver, respondeu o Bruno. Não vale a pena concertal-o;
-está todo comido de ferrugem! Faz se-lhe um novo, que é melhor!
-
---Pois veja lá isso, que a lanterna está a cahir!
-
-E o vendeiro seguio adiante com o outro, emquanto atrás recomeçava o
-martellar sobre a bigorna.
-
-Em seguida via-se uma miseravel estrebaria, cheia de capim secco e
-excremento de bestas, com logar para meia duzia de animaes. Estava
-deserta, mas, no vivo fartum exhalado de lá, sentia-se que fora
-habitada ainda aquella noite. Havia depois um deposito de madeiras,
-servindo ao mesmo tempo de officina de carpinteiro, tendo á porta
-troncos d'arvore, alguns já cerrados, muitas taboas empilhadas, restos
-de cavernas e mastros de navio.
-
-D'ahi á pedreira restavam apenas uns cincoenta passos e o chão era já
-todo coberto por uma farinha de pedra moida que sujava como a cal.
-
-Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol,
-outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de
-palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a
-picareta; de outro afeiçoavam lagedos a ponta de picão; mais adiante
-faziam parallelepipedos a escopro e macete. E todo aquelle retimtim de
-ferramentas, e o martellar da forja, e o côro dos que lá em cima
-brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zuada ao longe, que
-vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéa de uma
-actividade feroz, de uma luta de vingança e de odio. Aquelles homens
-gottejantes de suor, bebedos de calor, desvairados de insolação, a
-quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de
-demonios revoltados na sua impotencia contra o impassivel gigante que os
-contemplava com desprezo, imperturbavel a todos os golpes e a todos os
-tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe
-abrissem as entranhas de granito.
-
-O membrudo cavouqueiro havia chegado á fralda do orgulhoso monstro de
-pedra; tinha-o cara a cara, medio-o de alto abaixo, arrogante, n'um
-desafio surdo.
-
-A pedreira mostrava n'esse ponto de vista o seu lado mais imponente.
-Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se
-altaneira e desassombrada, affrontando o céo, muito ingreme, lisa,
-escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela
-cyclopica nudez com um effeito de teias de aranha. Em certos logares,
-muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando,
-sobre um precipicio, miseraveis taboas que, vistas cá de baixo,
-pareciam palitos, mas em cima das quaes uns atrevidos pigmêos de forma
-humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante.
-
-O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lastima. O seu gesto
-desaprovava todo aquelle serviço.
-
---Veja lá! disse elle, apontando para certo ponto da rocha. Olhe
-pr'aquillo! Sua gente tem ido ás cegas no trabalho d'esta pedreira!
-Deviam atacal-a justamente por aquel'outro lado, para não contrariar os
-veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe
-só o que elles têm tirado de lá--umas lascas, uns calháos que não
-servem para nada! É uma dôr de coração ver estragar assim uma peça
-tão boa! Agora o que hão de fazer d'essa cascalhada que ahi está
-senão macacos? E brada aos céos, creia! ter pedra d'esta ordem para
-empregal-a em macacos!
-
-O vendeiro escutava-o em silencio, apertando os beiços, aborrecido com
-a idéa d'aquelle prejuizo.
-
---Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali onde está aquelle
-homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha abaixo
-toda esta aba que é separada por um veio. Mas quem tem ahi o senhor
-capaz de fazer isso? Ninguem; porque é preciso um empregado que saiba o
-que faz; que, se a polvora não fôr muito bem medida, nem só não se
-abre o veio, como ainda succede ao trabalhador o mesmo que succedeu ao
-outro! É preciso conhecer muito bem o trabalho para se poder tirar
-partido vantajoso d'esta pedreira! Boa é ella, mas não nas mãos em
-que está! É muito perigosa nas explosões; é muito em pé! Quem lhe
-lascar fogo não póde fugir senão para cima pela corda, e se o sujeito
-não fôr fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz!
-
-E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua mão, grossa como o
-proprio cascalho, um parallelipipedo que estava no chão:--Que digo eu?!
-Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma coisa que estes burros
-deviam esconder por vergonha!
-
-Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta que ella
-dava depois, formando um angulo obtuso, é que se via quanto era grande.
-Suava-se bem antes de chegar ao seu limite com a matta.
-
---Que mina de dinheiro!... dizia o homemzarrão, parando enthusiasmado
-defronte do novo panno de rocha viva que se desdobrava na presença
-d'elle.
-
---Toda esta parte que se segue agora, declarou João Romão ainda não
-é minha.
-
-E continuaram a andar para diante.
-
-D'este lado multiplicavam-se as barraquinhas; os macaqueiros trabalhavam
-á sombra d'ellas, indifferentes áquelles dois. Viam-se panellas ao
-fogo, sobre quatro pedras, ao ar livre, e rapazitos tratando do jantar
-dos paes. De mulher nem signal. De vez em quando, na penumbra de um
-ensombro de lona, dava-se com um grupo de homens, comendo de cocaras
-defronte uns dos outros, uma sardinha na mão esquerda, um pão na
-direita, ao lado de uma garrafa d'agua.
-
---Sempre o mesmo serviço mal feito e mal dirigido!... resmungou o
-cavouqueiro.
-
-Entretanto, a mesma actividade parecia reinar por toda a parte. Mas, lá
-no fim, debaixo dos bambus que marcavam o limite da pedreira, alguns
-trabalhadores dormiam á sombra, de papo para o ar, a barba espetando
-para o alto, o pescoço entumecido de cordoveias grossas como enxarcias
-de navio, a bocca aberta, a respiração forte e tranquilla de animal
-sadio, n'um feliz e plethorico resfolgar de besta cansada.
-
---Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro. Tudo isto está a
-reclamar um homem tezo que olhe a sério para o serviço!
-
---Eu nada tenho que ver com este lado! observou Romão.
-
---Mas lá da sua banda hão de fazer o mesmo! Olaré!
-
---Abusam, porque tenho de olhar pelo negocio lá fora...
-
---Commigo aqui é que elles não fariam cera. Isso juro eu! Entendo que
-o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida á farta, o seu
-gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua!
-Rua, que não falta por ahi quem queira ganhar dinheiro! Auctorise-me a
-olhar por elles e verá!
-
---O diabo e que você quer setenta mil réis... suspirou João Romão.
-
---Ah! nem menos um real!... Mas commigo aqui ha de ver o que lhe faço
-entrar pr'algibeira! Temos cá muita gente que não precisa de estar.
-Para que tanto macaqueiro, por exemplo? Aquillo é serviço para
-descanço; é serviço de criança! Em vez de todas aquellas lesmas,
-pagas talvez a trinta mil reis...
-
---É justamente quanto lhes dou.
-
---... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cincoenta, que fazem
-o dobro do que fazem aquelles monos e que podem servir para outras
-coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que
-aquelle que alli está deixa cahir o escopro! Com effeito!
-
-João Romão ficou calado, a scismar, emquanto voltavam. Vinham ambos
-pensativos.
-
---E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para
-estalagem?
-
---Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o serviço
-aqui!...
-
---E a comida, forneço-a eu?...
-
---Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras sahem-lhe da
-venda...
-
---Pois está fechado o negocio! deliberou João Romão, convencido de
-que não podia, por economia, dispensar um homem d'aquelles. E pensou
-lá de si para si: «Os meus setenta mil reis voltar-me-hão á gaveta.
-Tudo me fica em casa!»
-
---Então estamos entendidos?...
-
---Estamos entendidos!
-
---Posso amanhã fazer a mudança?
-
---Hoje mesmo, se quizer; tenho um commodo que lhe ha de calhar. É o
-numero 35. Vou mostrar-lh'o.
-
-E, aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com direcção
-ao fundo do cortiço.
-
---Ah! é verdade! como você se chama?
-
---Jeronymo, para o servir.
-
---Servir a Deus. Sua mulher lava?
-
---É lavadeira, sim senhor.
-
---Bem, precisamos ver-lhe uma tina.
-
-E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, d'onde escapou,
-como de uma panella fervendo que se destapa, uma baforada quente,
-vozeria tresandante á fermentação de suores e roupa ensaboada
-seccando ao sol.
-
-
-
-
-V
-
-
-No dia seguinte, com effeito, ali pelas sete da manhã, quando o
-cortiço fervia já na costumada labutação, Jeronymo apresentou-se
-junto com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na vespera.
-
-A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta annos, boa estatura,
-carne ampla e rija, cabellos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco
-alvos, mas solidos e perfeitos, cara cheia, physionomia aberta; um todo
-de bonhomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela bocca numa
-sympathica expressão de honestidade simples e natural.
-
-Vieram ambos á boléa da andorinha que lhes carregou os trens. Ella
-trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de panninho de algodão
-e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do
-dia anterior.
-
-E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objectos que não
-confiaram dos homens da carroça; Jeronymo abraçado a duas formidaveis
-mangas de vidro, das primitivas, d'essas em que se podia á vontade
-enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relogio de parede e
-com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o
-pateo da estalagem, entre os commentarios e os olhares curiosos dos
-antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os
-inquilinos novos que surgiam.
-
---O que será este pedaço d'homem? indagou a Machona da sua visinha de
-tina, a Augusta Carne-molle.
-
---A modos, respondeu esta, que vem pr'a trabalhar na pedreira. Elle
-hontem andou por lá um rôr de tempo com o João Romão.
-
---Aquella mulher que entrou junto será casada com elle?
-
---E de crer.
-
---Ella me parece gente das ilhas.
-
---Elles o que têm é muito bons trastes de seu! interveio a Leocadia.
-Uma cama que deve de ser um regalo e um toucador com um espelho maior do
-que aquella peneira!
-
---E a commoda, você vio, nhá Leocadia? perguntou Florinda, gritando
-para ser ouvida, porque entre ella e a outra estavam a Bruxa e a velha
-Marcianna.
-
---Vi. Rico traste!
-
---E o oratorio, então? Muito bonito!...
-
---Vi tambem. E obra de capricho. Não! elles, sejam lá quem fôr, são
-gente arranjada... Isso não se lhes póde negar!
-
---Se são bons ou máos só com o tempo se saberá!... arriscou Dona
-Isabel.
-
---Quem vê cara não vê corações ... sentenciou o triste Albino,
-suspirando.
-
---Mas o numero 35 não estava occupado por aquelle homem muito amarello
-que fazia charutos?... inquirio Augusta.
-
---Estava, confirmou a mulher do ferreiro, a Leocadia, porém creio que
-arribou, devendo não sei quanto, e o João Romão então esvaziou-lhe
-hontem a casa e tomou conta do que era d'elle.
-
-É! accudio a Machona; hontem, pelo cahir das duas da tarde, o Romão
-andava ahi as voltas com os cacarecos do charuteiro. Quem sabe, se o
-pobre homem não levou a breca, como succedeu aquel'outro que trabalhava
-de ourives?
-
---Não! Este creio que está vivo...
-
---O que lhe digo é que aquelle numero 35 tem máo agouro! Eu cá por
-mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do
-Farjão!
-
-Tres horas depois, Jeronymo e Piedade achavam-se installados e
-dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o mais
-depressa que poude. Elle contava aviar até á noite uma infinidade de
-coisas, para poder começar a trabalhar logo no dia seguinte.
-
-Era tão methodico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem.
-
-Jeronymo viéra da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena,
-tentar a vida no Brazil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em
-cuja fazenda moirejou durante dois annos, sem nunca levantar a cabeça,
-e donde afinal se retirou de mãos vazias e com grande birra pela
-lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que
-sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com elles no
-mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações, nem
-futuro, trabalhando eternamente para outro.
-
-Não quiz. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida e
-atirar-se para a côrte, onde, diziam-lhe patricios, todo o homem bem
-disposto encontrava furo. E, com effeito, mal chegou, devorado de
-necessidades e privações, metteu-se a quebrar pedra n'uma pedreira,
-mediante um miseravel salario. A sua existencia continuava dura e
-precaria; a mulher já então lavava e engommava, mas com pequena
-freguezia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para não
-morrer de fome e pagar o quarto da estalagem.
-
-Jeronymo, porém, era perseverante, observador e dotado de certa
-habilidade. Em poucos mezes se apoderava do seu novo officio e, de
-quebrador de pedra, passou logo a fazer parallelepipedos; e depois foi
-se ageitando com o prumo e com a esquadria e metteu-se a fazer lagedos;
-e finalmente, á força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão bom
-como os melhores trabalhadores de pedreira e a ter salario igual ao
-d'elles. Dentro de dois annos, distinguia-se tanto entre os
-companheiros, que o patrão o converteu n'uma especie de contra-mestre e
-elevou-lhe o ordenado a setenta mil réis.
-
-Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôz assim para
-a frente; duas outras coisas contribuiram muito para isso: a força de
-touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos
-trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade
-do seu caracter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma
-honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo
-de viver. Sahia de casa para o serviço e do serviço para a casa, onde
-nunca ninguem o vira com a mulher senão em boa paz; traziam a filhinha
-sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um como o outro, eram sempre os
-primeiros á hora do trabalho. Aos domingos iam ás vezes á missa ou,
-á tarde, ao passeio publico; n'essas occasiões, elle punha uma camisa
-engommada, calçava sapatos e enfiava um paletó; ella o seu vestido de
-ver a Deus, os seus oiros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao
-monte de soccorro, máo grado as difficuldades com que os dois lutaram a
-principio no Brazil.
-
-Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte,
-bem acommodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando
-sempre tão boas contas da obrigação, que os seus freguezes de roupa,
-apezar d'aquella mudança para Botafogo, não a deixaram quasi todos.
-
-Jeronymo, ainda na cidade nova, logo que principiara a ganhar melhor,
-fizéra-se irmão de uma ordem terceira e tratára de ir pondo alguma
-coisinha de parte. Metteu a filha num collegio, «que a queria com outro
-saber que não elle, a quem os paes não mandaram ensinar nada.» Por
-ultimo, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era a mais
-decente, a mais respeitada e a mais confortavel; porém, com a morte do
-seu patrão e com uma reforma estupida que os successores d'este
-realisaram em todo o serviço da pedreira, o colono desgostou-se d'ella
-e resolveu passar para outra.
-
-Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que, depois do desastre
-do seu melhor empregado, andava justamente á procura de um homem nas
-condições de Jeronymo.
-
-Tomou conta da direcção de todo o serviço, e em boa hora o fez,
-porque dia a dia a sua influencia se foi sentindo no progresso do
-trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente
-serios e zelosos. Elle não admittia relaxamentos, nem podia consentir
-que um preguiçoso se demorasse ali tomando o logar de quem precisava
-ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despedio alguns
-trabalhadores, admittio novos, augmentou o ordenado dos que ficaram,
-estabelecendo-lhes novas obrigações e reformando tudo para melhor. No
-fim de dois mezes já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via,
-radiante, quanto lucrara com a acquisição de Jeronymo; tanto assim que
-estava disposto a augmentar-lhe o ordenado para conserval-o em sua
-companhia, «Valia a pena! Aquelle homem era um achado precioso!
-Abençoado fosse o Machucas que lh'o enviára!» E começou a
-distinguil-o e respeital-o como não fazia a ninguem.
-
-O prestigio e a consideração que Jeronymo gosava entre os moradores da
-outra estalagem d'onde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo entre
-os seus novos companheiros de cortiço. Ao cabo de algum tempo era
-consultado e ouvido, quando qualquer questão difficil os preoccupava.
-Descobriam-se defronte d'elle, como defronte de um superior; até o
-proprio Alexandre abrira uma excepção nos seus habitos e fazia-lhe uma
-ligeira continencia com a mão no boné, ao atravessar o pateo, todo
-fardado, por occasião de vir ou de ir para o serviço. Os dois
-caixeiros da venda, o Domingos e o Manoel, tinham enthusiasmo por elle.
-«Aquelle é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e
-destemido! Com aquelle ninguem brinca!» E, sempre que a Piedade de
-Jesus ia lá a taverna fazer as suas compras, a fazenda que lhe davam
-era bem escolhida, bem medida ou bem pezada. Muitas lavadeiras tomavam
-inveja d'ella, mas Piedade era de natural tão bom e bemfazejo que não
-dava por isso e a maledicencia murchava antes de amadurecer.
-
-Jeronymo acordava todos os dias ás quatro horas da manhã, fazia antes
-dos outros a sua lavagem á bica do pateo, soccava-se depois com uma boa
-palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em
-mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem
-meias mettidos em um formidavel par de chinellos de couro crú, seguia
-para a pedreira.
-
-A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquella
-ferramenta movida por um pulso de Hercules valia bem os clarins de um
-regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do chaos
-opalino das neblinas vultos côr de cinza, que lá iam, como sombras,
-galgando a montanha, para cavar na pedra o pão-nosso de cada dia. E,
-quando o sol desfechava sobre o pincaro da rocha os seus primeiros
-raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito,
-aquelle misero grupo de obscuros batalhadores.
-
-Jeronymo só voltava á casa ao descahir da tarde, morto de fome e de
-fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das comidas
-da terra d'elles. E ali, n'aquella estreita salinha, socegada e humilde,
-gosavam os dois, ao lado um do outro, a paz feliz dos simples, o
-voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canceiras ao sol.
-E, defronte do candieiro de kerosene, conversavam sobre a sua vida e
-sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no collegio e que só os
-visitava aos domingos e dias santos.
-
-Depois, até ás horas de dormir, que nunca passavam das nove, elle
-tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher,
-dedilhar os fados da sua terra. Era n'esses momentos que dava plena
-expansão ás saudades da patria, com aquellas cantigas melancolicas em
-que a sua alma de desterrado voava das zonas abrazadas da America para
-as aldeias tristes da sua infancia.
-
-E o canto d'aquella guitarra estrangeira era um lamento choroso e
-dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto
-mar, quando a tempestade agita as negras azas homicidas, e as gaivotas
-doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos presagos,
-tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abobada de chumbo.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz
-e pouco calor.
-
-As tinas estavam abandonadas; os córadoiros despidos. Taboleiros e
-taboleiros de roupa engommada sahiam das casinhas, carregados na maior
-parte pelos filhos das proprias lavadeiras que se mostravam agora quasi
-todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias
-de chita de côr. Desprezaram-se os grandes chapéos de palha e os
-aventaes de aniagem; agora as portuguezas tinham na cabeça um lenço
-novo de ramagens vistosas e as brazileiras haviam penteado o cabello e
-pregado nos cachos negros um ramalhete de dois vintens; aquellas
-traçavam no hombro chales de lã vermelha, e estas de crochet, de um
-amarello desbotado. Viam-se homens de corpo nú, jogando a placa, com
-grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma
-arvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam
-os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhe murros,
-a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A
-casa da Machona estava n'um reboliço, porque a familia ia sahir a
-passeio; a velha gritava, gritava Nênêm, gritava o Agostinho. De
-muitas outras sahiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se
-harmonicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em
-quando interrompida por um ronco forte de trombone.
-
-Os papagaios pareciam tambem mais alegres com o domingo e lançavam das
-gaiolas phrases inteiras, entre gargalhadas e assobios. Á porta de
-diversos commodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa
-de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornaes ou
-livros; um declamava em voz alta versos d'«Os Luziadas», com um
-empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia n'elles o prazer da roupa
-mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro
-bom de refogados de carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do
-Miranda só as duas ultimas janellas já estavam abertas e, pela escada
-que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de agoas
-servidas. Sentia-se n'aquella quietação do dia inutil a falta do
-resfolegar afflicto das machinas da visinhança, com que todos estavam
-habituados. Para além do solitario capinzal do fundo a pedreira parecia
-dormir em paz o seu somno de pedra; mas, em compensação, o movimento
-era agora extraordinario á frente da estalagem e á entrada da venda.
-Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao lado
-d'ellas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engommado ao
-pescoço, entretinha-se a chupar balas de assucar, que comprara ali
-mesmo ao taboleiro de um baleiro freguez do cortiço.
-
-Dentro da taverna, os martellos de vinho branco, os copos de cerveja
-nacional e os dois vintens de paraty ou laranginha succediam-se por cima
-do balcão, passando das mãos do Domingos e do Manoel para as mãos
-ávidas dos operarios e dos trabalhadores, que os recebiam com
-estrondosas exclamações de pandega. A Izaura, que fôra n'um pulo
-tomar o seu primeiro capilé, via-se tonta com os apalpões que lhe
-davam. Leonor não tinha um instante de socego, saltando de um lado para
-outro, com uma agilidade de mono, a fugir dos punhos callosos dos
-cavouqueiros que, entre risadas, tentavam agarral-a; e insistia na sua
-ameaça do costume: «que se queixava ao juiz de orfe!» mas não se ia
-embora, porque defronte da venda viera estacionar um homem que tocava
-cinco instrumentos ao mesmo tempo, com um acompanhamento desafinado de
-bombo, pratos e guizos.
-
-Eram apenas oito horas e já muita gente comia e palavreava na casa de
-pasto ao lado da venda. João Romão, de roupa mudada como os outros,
-mas sempre em mangas de camisa, apparecia de espaço a espaço, servindo
-os commensaes; e a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo
-nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panellas e enchendo os
-pratos.
-
-Um acontecimento, porém, veio revolucionar alegremente toda aquella
-confederação da estalagem. Foi a chegada da Rita Bahiana, que voltava
-depois de uma ausencia de mezes, durante a qual só déra noticias suas
-nas occasiões de pagar o aluguel do commodo.
-
-Vinha acompanhada por um moleque, que trazia na cabeça um enorme
-samburá carregado de compras feitas no mercado; um grande peixe espiava
-por entre folhas de alface com o seu olhar embaciado e triste,
-contrastando com as risonhas côres dos rabanetes, das cenouras e das
-talhadas de abobora vermelha.
-
---Põe isso tudo ahi n'essa porta. Ahi no numero 9, pequeno! gritou ella
-ao moleque, indicando-lhe a sua casa, e depois pagou-lhe o
-carreto.--Podes ir embora, carapeta!
-
-Desde que do portão a bisparam na rua, levantou-se logo um côro de
-saudações.
-
---Olha! quem ahi vem!
-
---Olé! Bravo! É a Rita Bahiana!
-
---Já te faziamos morta e enterrada!
-
---E não é que o demo da mulata está cada vez mais sacudida?...
-
---Então, coisa ruim! por onde andaste atirando esses quartos?
-
---D'esta vez a coisa foi de esticar, hein?!
-
-Rita havia parado em meio do pateo.
-
-Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas d'ella.
-Não vinha em trajo de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que
-lhe deixava ver o pé sem meia n'um chinello de polimento com enfeites
-de marroquim de diversas côres. No seu farto cabello, crespo e
-reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um
-pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ella respirava o
-asseio das brazileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromaticas.
-Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril bahiano, respondia
-para a direita e para a esquerda, pondo á mostra um fio de dentes
-claros e brilhantes que enriqueciam a sua physionomia com um realce
-fascinador.
-
-Acudio quasi todo o cortiço para recebel-a. Choveram abraços e as
-chufas do bom acolhimento.
-
-Por onde andara aquelle diabo, que não apparecia para mais de tres
-mezes?
-
---Ora, nem me falles, coração! Sabe? pagode de roça! Que hei de
-fazer? é a minha cachaça velha!...
-
---Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo, creatura?
-
---Em Jacarepaguá.
-
---Com quem?
-
---Com o Firmo...
-
---Oh! Ainda dura isso?
-
---Cala a bocca! A coisa agora é seria!
-
---Qual! Quem mesmo? tu? Passa fóra!
-
---Paixões da Rita! exclamou o Bruno com uma risada. Uma por anno! Não
-contando as miudas!
-
---Não! isso é que não! Quando estou com um homem não olho p'ra
-outro!
-
-Leocadia, que era perdida pela mulata, saltára-lhe ao pescoço ao
-primeiro encontro, e agora, defronte d'ella, com as mãos nas cadeiras,
-os olhos humidos de commoção, rindo, sem se fartar de vel-a, fazia-lhe
-perguntas sobre perguntas:
-
---Mas porque não te mettes tu logo por uma vez com o Firmo? porque não
-te casas com elle?
-
---Casar? protestou a Rita. N'essa não cáe a filha de meu pae! Casar?
-livra! Para que? para arranjar captiveiro? Um marido é peior que o
-diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre!
-Não ha como viver cada um senhor e dono do que é seu!
-
-E sacudio todo o corpo n'um movimento de desdem que lhe era peculiar.
-
---Olha só que peste! considerou Augusta, rindo, muito molle, na sua
-honestidade preguiçosa.
-
-Esta tambem achava infinita graça na Rita Bahiana e seria capaz de
-levar um dia inteiro a vel-a dansar o chorado.
-
-Florinda ajudava á mãe a preparar o almoço, quando lhe cheirou que
-chegara a mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, cahir-lhe
-nos braços. A propria Marcianna, de seu natural sempre triste e mettida
-comsigo, appareceu á janella, para saudal-a. A das Dôres, com as saias
-arrepanhadas no quadril e uma toalha por cima amarrada pela parte de
-traz e servindo de avental, o cabello ainda por pentear, mas entrouxado
-no alto da cabeça, abandonou a limpeza que fazia em casa e veio ter com
-a Rita, para dar-lhe uma palmada e gritar-lhe no nariz:
-
---D'esta vez tomaste um fartão, hein, mulata assanhada?...
-
-E, ambas a cahirem de riso, abraçaram-se em intimidade de amigas, que
-não têm segredos de amor uma para a outra.
-
-A Bruxa veio em silencio apertar a mão de Rita e retirou-se logo.
-
---Olha a feiticeira! bradou esta ultima, batendo no hombro da idiota.
-Que diabo você tanto reza, tia Paula? Eu quero que você me dê um
-feitiço para prender meu homem!
-
-E tinha uma phrase para cada um que se aproximasse. Ao ver Dona Isabel,
-que appareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com o seu velho
-chale de Macáo, abraçou-a e pedio-lhe uma pitada, que a senhora
-recusou, resmungando:
-
---Sae d'ahi, diabo!
-
---Cadê Pombinha? perguntou a mulata.
-
-Mas, nessa occasião, Pombinha acabava justamente de sahir de casa,
-muito bonita e asseiada com um vestido novo de setineta. As mãos
-occupadas com o livro de rezas, o lenço e a sombrinha.
-
---Ah! Como está chique! exclamou a Rita, meneando a cabeça. É mesmo
-uma flor!--E logo que Pombinha se pôz ao seu alcance, abraçou-lhe a
-cintura e deu-lhe um beijo.--O João Costa se não te fizer feliz como
-os anjos sou capaz de abrir-lhe o casco com o salto do chinello! Juro
-pelos cabellos do meu homem!--E depois, tornando-se séria, perguntou
-muito em voz baixa á Dona Isabel:--Já veio?...--ao que a velha
-respondeu negativamente com um desconsolado e mudo abanar de orelhas.
-
-O circumspecto Alexandre, sem querer declinar da sua gravidade, pois que
-estava fardado e prompto para sahir, contentou-se em fazer com a mão um
-cumprimento á mulata, ao qual retrucou esta com uma continencia militar
-e uma gargalhada que o desconcertaram.
-
-Iam fazer commentarios sobre o caso, mas a Rita, voltando-se para o
-outro lado, gritou:
-
---Olha o velho Liborio! Como está cada vez mais duro!... Não se
-entrega por nada o demonio do judeu!
-
-E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se ao bello sol de abril,
-um octogenário, secco, que parecia mumificado pela idade, a fumar n'um
-resto de cachimbo, cujo pipo desapparecia na sua bocca já sem labios.
-
---Ê! ê! fez elle, quando a mulata se approximou.
-
---Então? perguntou Rita, abaixando-se para tocar-lhe no hombro. Quando
-é o nosso negocio?... Mas você ha de deixar-me primeiro abrir o
-bahuzinho de folha!...
-
-Liborio rio-se com as gengivas, tentando apalpar as coxas da Bahiana,
-por caçoada, affectando luxuria.
-
-Todos acharam graça n'esta pantominice do velhinho, e então, a mulata,
-para completar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias e
-sacudio-as depois sobre a cabeça d'elle, que se fingio indignado, a
-fungar exageradamente.
-
-E entre a alegria levantada pela sua reapparição no cortiço, a Rita
-deu conta do que pintára na sua ausencia; disse o muito que festou em
-Jacarepaguá; o entrudo que fizera pelo Carnaval. Tres mezes de folia!
-E, afinal, abaixando a voz, segredou ás companheiras que á noite teriam
-um pagodinho de violão. Podiam contar como certo!
-
-Esta ultima noticia causou verdadeiro jubilo no auditorio. As patuscadas
-da Rita Bahiana eram sempre as melhores da estalagem. Ninguem como o
-diabo da mulata para armar uma funcção que ia pelas tantas da
-madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou tão
-depressa. Além de que «era aquella franqueza! emquanto houvesse
-dinheiro ou credito, ninguem morria com a tripa murcha ou com a guéla
-secca!»
-
---Diz me cá, ó Leocadinha! quem são aquelles jururús que estão agora
-no 35? indagou ella, vendo o Jeronymo á porta de casa com a mulher.
-
---Ah! explicou a interrogada, é o Jeronymo e mais a Piedade, um casal
-que inda não conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente,
-coitados!
-
-Rita carregou para dentro de seu commodo as provisões que trouxera;
-abrio logo a janella e poz-se a cantar. Sua presença enchia de alegria
-a estalagem toda.
-
-O Firmo, o mulato com quem ella agora vivia mettida, o demonio que a
-desencabeçara para aquella maluqueira de Jacarepaguá, ia lá jantar
-esse dia com um amigo. Rita declarava isto ás companheiras, amolando
-uma faquinha no tijollo da sua porta, para escamar o peixe; emquanto os
-gatos, aquelles mesmos que perseguiam o sardinheiro, vinham, um a um,
-chegando-se todos só com o ruido da afiação do ferro.
-
-Ao lado direito da casinha da mulata, no numero 8, a das Dores
-preparava-se tambem para receber n'esse dia o seu amigo e dispunha-se a
-fazer uma limpeza geral nas paredes, nos tectos, no chão e nos moveis,
-antes de metter-se na cozinha. Descalça, com a saia levantada até ao
-joelho, uma toalha na cabeça, os braços arregaçados, viam-na passar
-de carreira, de casa para a bica e da bica outra vez para casa,
-carregando pezados baldes cheios d'agoa. E d'ahi a pouco appareciam
-ajudantes gratuitos para os arranjos do jantar, tanto do lado da das
-Dores, como do lado da Rita Bahiana. O Albino encarregou-se de varrer e
-arrumar a casa d'esta, entretanto que a mulata ia para o fogão preparar
-os seus quitutes do norte. E veio a Florinda, e veio a Leocadia, e veio
-a Augusta, impacientes todas ellas pelo pagode que havia de sahir á
-noite, depois do jantar. Pombinha não appareceu durante o dia, porque
-estava muito occupada, aviando a correspondencia dos trabalhadores e das
-lavadeiras: serviço este que ella deixava para os domingos.
-
-N'uma pequena mesa, coberta por um pedaço de chita, com o tinteiro ao
-lado da caixinha de papel, a menina escrevia, emquanto o dono ou dona da
-carta dictava em voz alta o que queria mandar dizer á familia ou a
-algum máo devedor de roupa lavada. E ia lançando tudo no papel, apenas
-com algumas ligeiras modificações, para melhor, no modo de exprimir a
-idéa. Prompta uma carta, subscriptava-a, entregava-a ao dono e chamava
-por outro, ficando a sós com um de cada vez, pois que nenhum d'elles
-queria dar o seu recado em presença de mais ninguem senão de Pombinha.
-De sorte que a pobre rapariga ia accumulando no seu coração de
-donzella toda a summula d'aquellas paixões e d'aquelles resentimentos,
-ás vezes mais fetidos do que a evaporação de um lameiro em dias de
-grande calor.
-
---Escreva lá, Nhan Pombinha! disse junto d'ella um cavouqueiro,
-coçando a cabeça; mas faça letra grande, que é pr'a mulher entender!
-Diga-lhe que não lhe mando d'esta feita o dinheiro que me pedio, porque
-agora não no tenho e estou muito acossado de apertos; mas que lh'o
-prometto pr'o mez. Ella que se va arrajando por lá, que eu cá sabe
-Deus como me coso; e que, se o Luiz, o irmão, resolver de vir, que m'o
-mande dizer com tempo, para ver se se lhe dá furo á vida por aqui; que
-isto de vir sem inda ter pr'onde, é fraco negocio, porque as coisas por
-cá não correm lá para que digamos!
-
-E depois que Pombinha escreveu, accrescentou:
-
---Que eu tenho sentido muito a sua falta d'ella; mas tambem sou o mesmo
-e não me metto em porcarias e relaxamentos; e que tenciono mandar
-buscal-a, logo que Deus me ajude, e a Virgem! Que elle não tem de que
-se arreliar por mór do dinheiro não ir d'esta; que, como lá diz o
-outro: quando não ha el-rei o perde! Ah! (ia esquecendo!) quanto á
-Libania, é tirar d'ahi o juizo! que a Libania se atirou aos cães e faz
-hoje má vida na rua de São Jorge; que se esqueça d'ella por vez e
-perca o amor ás duas coroas que lhe emprestou!
-
-E a menina escrevia tudo, tudo, apenas interrompendo o seu trabalho para
-fitar, com a mão no queixo, o cavouqueiro, á espera de nova phrase.
-
-
-
-
-VII
-
-
-E assim ia correndo o domingo no cortiço até ás tres da tarde, horas
-em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro, trazendo
-aquelle o violão e o outro o cavaquinho.
-
-Firmo, o actual amante de Rita Bahiana, era um mulato pachola, delgado
-de corpo e agil como um cabrito; capadocio de marca, pernostico, só de
-maçadas, e todo elle se quebrando nos seus movimentos de capoeira.
-Teria seus trinta e tantos annos, mas não parecia ter mais de vinte e
-poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não
-tinha musculos, tinha nervos. A respeito de barba, nada mais que um
-bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do
-barbeiro; grande cabelleira encaracolada, negra e bem negra, dividida ao
-meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grande
-gaforina por debaixo da aba do chapéo de palha, que elle punha de
-banda, derreado sobre a orelha esquerda.
-
-Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante
-usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha que lhe
-enguliam os pésinhos seccos e ligeiros. Não trazia gravata, nem
-collete, sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o
-collarinho, um lenço alvo e perfumado; á bocca um enorme charuto de
-dois vintens e na mão um grosso porrete de Petropolis, que nunca
-socegava, tantas voltas lhe dava elle a um tempo por entre os dedos
-magros e nervosos.
-
-Era official de torneiro, official perito e vadio; ganhava uma semana
-para gastar n'um dia; ás vezes porém os dados ou a roleta
-multiplicavam-lhe o dinheiro, e então elle fazia como n'aquelles
-ultimos tres mezes; afogava-se n'uma boa pandega com a Rita Bahiana. A
-Rita ou outra «O que não faltava por ahi eram saias para ajudar um
-homem a cuspir o cobre na bocca do diabo!» Nascera no Rio de Janeiro,
-na Côrte; militara dos doze aos vinte annos em diversas maltas de
-capoeiras; chegára a decidir eleições nos tempos do voto indirecto.
-Deixou nome em varias freguezias e mereceu abraços, presentes e
-palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a
-isso a sua época de paixão politica; mas depois desgostou-se com o
-systema de governo e renunciou ás lutas eleitoraes, pois não
-conseguira nunca o logar de continuo n'uma repartição publica--o seu
-ideal!--Setenta mil reis mensaes; trabalho das nove ás tres.
-
-Aquella amigação com a Rita Bahiana era uma coisa muito complicada e
-vinha de longe; vinha do tempo em que ella ainda estava chegadinha de
-fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafusa dura, capaz de
-arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A cafusa morreu e o Firmo tomou
-conta da mulata; mas pouco depois se separaram por ciumes, o que aliás
-não impedio que se tornassem a unir mais tarde, e que de novo brigassem
-e de novo se procurassem. Elle tinha «paixa» pela Rita, e ella, apezar
-de voluvel como toda a mestiça, não podia esquecel-o por uma vez;
-mettia-se com outros, é certo, de quando em quando, e o Firmo então
-pintava o caneco, dava por páos e por pedras, enchia-a de bofetadas,
-mas, afinal, ia procural-a, ou ella a elle, e ferravam-se de novo, cada
-vez mais ardentes, como se aquellas turras constantes reforçassem o
-combustivel dos seus amores.
-
-O amigo que Firmo trazia aquelle domingo em sua companhia, o Porfiro,
-era mais velho do que elle e mais escuro. Tinha o cabello encarapinhado.
-Typographo. Afinavam-se muito os dois typos com as suas calças de bocca
-larga e com os seus chapéos ao lado; mas o Porfiro tinha outra linha:
-não dispensava a sua gravata de côr saltando em laço frouxo sobre o
-peito da camisa; fazia questão da sua bengalinha com cabeça de prata e
-da sua piteira de ambar e espuma, em que elle equilibrava um cigarro de
-palha.
-
-Desde a entrada dos dois, a casa da Rita esquentou. Ambos tiraram os
-paletós e mandaram vir Paraty, «a abrideira pr'a muqueca Bahiana.» E
-não tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho e o violão.
-
-Ao lado chegava tambem o homem da das Dôres, com um companheiro do
-commercio; vinham vestidos de fraque e chapéo alto. A Machona, Nênêm
-e o Agostinho, já de volta do seu passeio á cidade, lá estavam
-ajudando. Ficariam para o regabofe.
-
-Um rumor quente, do dia de festa, ia-se formando n'aquelle ponto da
-estalagem.
-
-Tanto n'uma casa, como na outra, o jantar seria ás cinco horas. Rita
-«botou» vestido branco, de cambraia, encanudado a ferro. Leocadia,
-Augusta, o Bruno, o Alexandre e o Albino jantariam com ella no numero 9;
-e no numero 8, com a das Dôres, ficariam, além dos parentes d'esta,
-Dona Isabel, Pombinha, Marcianna e Florinda.
-
-Jeronymo e sua mulher foram convidados para ambas as mezas, mas não
-acceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar a tarde ao lado um
-do outro, tranquillamente, como sempre, comendo em boa paz o seu cozido
-á moda da terra e bebendo o seu quartilho de verde pela mesma infusa.
-
-Entretanto, os dois jantares visinhos principiaram ruidosos logo desde a
-sôpa e assanharam-se progressivamente.
-
-Meia hora depois vinha das duas casas uma algazarra infernal. Fallavam e
-riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os talheres e os copos. Cá de
-fóra sentia-se perfeitamente o prazer que aquella gente punha em comer
-e beber á farta, com a bocca cheia, os beiços envernisados de molho
-gordo. Alguns cães rosnavam á porta, roendo os ossos que traziam lá
-de dentro. De vez em quando, da janella de uma das casas apparecia uma
-das moradoras, chamando a visinha, para entregar um prato cheio,
-permutando as duas entre si os quitutes e as petisqueiras em que eram
-mais peritas.
-
---Olha! gritava a das Dôres para o numero 9, diz á Rita que prove
-d'esse zôrô, pr'a ver que tal o acha, e que o vatapá estava muito
-gostoso! Se ella tem pimentas, que me mande algumas!
-
-Do meio para o fim do jantar o barulho em ambas as casas era medonho. No
-numero 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O portuguez amigo da
-das Dôres, já desengravatado e com os braços á mostra, vermelho,
-lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leitão de forno,
-repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a bocca, com a
-camisa a espipar-lhe pela braguilha aberta. O sujeito que o
-accompanhára fazia fosquinhas a Nênêm, protegido no seu namoro por
-toda a roda, desde a respeitavel Machona até ao endemoninhado
-Agostinho, que não ficava quieto um instante, nem deixava socegar a
-mãe, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre
-muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando,
-levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao numero 12 um
-prato de comida á sua velha que, á ultima hora, vindo-lhe o
-aborrecimento, resolvêra não ir ao jantar. Á sobremesa o esfogueado
-amigo da dona da casa exigio que a amante se lhe assentasse nas coxas e
-dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que Dona
-Isabel, impaciente por afastar a filha d'aquelle inferno, declarasse que
-sentia muito calor e que ia lá para a porta esperar mais á fresca o
-café.
-
-Em casa da Rita Bahiana a animação era ainda maior. Firmo e Porfiro
-faziam o diabo, cantando, trocando bestialogicos, arremedando a falla
-dos pretos cassanges. Aquelle não largava a cintura da mulata e só
-bebia no mesmo copo com ella; o outro divertia-se a perseguir o Albino,
-galanteando-o affectadamente, para fazer rir á sociedade. O lavadeiro
-indignava-se, dava o cavaco. Leocadia, a quem o vinho produzia delirios
-de hilaridade, torcia-se em gargalhadas, tão fortes e sacudidas que
-desconjuntavam a cadeira em que ella estava; e, muito lubrificada pela
-bebedeira, punha os pezados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas
-contra as d'elle e deixando-se apalpar pelo capadocio. O Bruno, defronte
-d'ella, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, fallava e
-gesticulava sem se levantar, praguejando ninguem sabia contra quem. O
-Alexandre, á paizana, assentado ao lado da mulher, conservava quasi
-toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto barulho porque
-podiam ouvir da rua. E notou, em voz mysteriosa, que o Miranda tinha
-vindo já espiar por varias vezes da janella do sobrado.
-
---Que espie as vezes que quizer! bradou a Rita. Pois então a gente não
-é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que
-entender?... Que vá pr'o diabo que o lixe! Eu não como nem bebo do que
-é d'elle!
-
-Os dois mulatos e o Bruno tambem eram da mesma opinião. «Pois então!
-Desde que se não offendia, nem prejudicava a safardana nenhum com
-aquelle divertimento, não havia de que fallar!»
-
---E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que commigo é nove! E o
-trunfo é páos!
-
-O Porfiro exclamou:
-
---Se se incommodam com a gente ... os incommodados são os que se mudam!
-Ora pistolas!
-
---O domingo fez-se pr'a gosar!... resmungou o Bruno, deixando cahir a
-cabeça nos braços crusados sobre a mesa.
-
-Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou, despindo o braço
-direito até ao hombro:--Elles que se façam finos, que os racho!
-
-O Alexandre procurou acalmal-o, dando-lhe um charuto.
-
-Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar uma nova sobremesa,
-engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos
-mascates, onde o Delporto, o Pompêo, o Francesco e o Andréa
-representavam as principaes figuras. Todos elles cantavam em coro, mais
-afinados que nas outras duas casas; quasi, porém, que se lhes não
-podiam ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que
-soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e macho
-vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, tão estridente que
-provocava replica aos papagaios e aos perus da visinhança. E, d'aqui e
-d'ali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela
-estalagem. Havia nos operarios e nos trabalhadores decidida disposição
-para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquelle dia de folga. A
-casa de pasto fermentava revolucionada, como um estomago de bebado
-depois de grande brodio, e arrotava sobre o pateo uma baforada quente e
-ruidosa que entontecia.
-
-O Miranda appareceu furioso á janella, com o seu typo de commendador, a
-barriga empinada pr'a frente, de paletó branco, um guardanapo ao
-pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada.
-
---Vão gritar pr'a o inferno, com um milhão de raios! berrou elle,
-ameaçando para baixo. Isto tambem já é de mais! Se não se calam, vou
-d'aqui direito chamar a policia! Sucia de brutos!
-
-Com os berros do Miranda muita gente chegou á porta de casa, e o côro
-de gargalhadas, que ninguem podia conter n'aquelle momento de alegria,
-ainda mais o pôz fóra de si.
-
---Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes d'aqui, como a
-cães damnados!
-
-Uma vaia unisona echoou em todo o pateo da estalagem, emquanto em volta
-do negociante surgiam varias pessoas, puxando-o para dentro de casa.
-
---Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar palha?...
-
---O que elles querem é que encordôes!...
-
---Saia d'ahi, papáe!
-
---Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo!
-
-E via-se de relance Dona Estella, com a sua pallidez de flôr meio
-fanada, e Zulmira, livida, um ar de fastio a fazel-a feia, e o
-Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indifferente, a
-olhar para toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos que
-já não esperam nada dos outros, nem de si proprio.
-
---Canalhas! repisava o Miranda.
-
-O Alexandre, que fôra de carreira enfiar a sua farda, apresentou-se
-então e disse ao negociante que não era prudente atirar insultos cá
-pr'a baixo. Ninguem o tinha provocado! Se os moradores da estalagem
-jantavam em companhia de amigos, lá em cima o Miranda tambem estava
-comendo com os seus convidados! Era máo insultar, porque palavra puxa
-palavra, e, em caso de ter de depor na policia, elle, Alexandre, deporia
-a favor de quem tivesse razão!...
-
---Fomente-se! respondeu o negociante, voltando-lhe as costas.
-
-Já se vio chubregas mais atrevido?! exclamou Firmo, que até ahi
-estivera calado, á porta da Rita, com as mãos nas cadeiras, a fitar
-provocadoramente o Miranda.
-
-E gritando mais alto, para ser bem ouvido:--Facilita muito, meu boi
-manso, que te escorvo os galhos na primeira occasião!
-
-O Miranda foi arrancado com violencia da janella, e esta fechada logo em
-seguida com estrondo.
-
---Deixa lá esse labrego! resmungou Porfiro, tomando o amigo pelo braço
-e fazendo-o recolher-se á casa da mulata. Vamos ao café, é o que é,
-antes que esfrie!
-
-Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do
-cortiço, jornaleiros de baixo salario, pobre gente miseravel, que mal
-podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim não havia entre elles
-um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um
-trago. A proposta foi acceita alegremente.
-
-E a casa d'ella nunca se esvasiava.
-
-Anoitecia já.
-
-O velho Liborio, que jamais ninguem sabia ao certo onde almoçava ou
-jantava, surgio do seu buraco, que nem jaboti quando vê chuva.
-
-Um typão, o velho Liborio! Occupava o peior canto do cortiço e andava
-sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo
-a um e a outro, como um mendigo, chorando miserias eternamente,
-apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o
-sumitico roubára de um pobre cego decrepito. Na estalagem diziam
-todavia que Liborio tinha dinheiro aferrolhado, contra o que elle
-protestava resentido, jurando a sua extrema penuria. E era tão feroz o
-demonio n'aquella fome de cão sem dono, que as mães recommendavam ás
-suas crianças todo o cuidado com elle, porque o diabo do velho, quando
-via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondal-o, a cercal-o
-de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir
-furtar-lhe o doce ou o vintemzinho que o pobrezito trazia fechado na
-mão.
-
-Rita fel-o entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de
-que o esfomeado não se soccasse demais, para não rebentar ali mesmo.
-
-Se queria estoirar, fosse estoirar para longe!
-
-Elle pôz-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os
-lados, como se temesse que alguem lhe roubasse a comida da boca. Engolia
-sem mastigar, empurrando os bocados com o dedo, agarrando-se ao prato e
-escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez metter para
-dentro do corpo.
-
-Causava terror aquella sua implacavel mandibula, assanhada e devoradora;
-aquelle enorme queixo, avido, ossudo e sem um dente, que parecia ir
-engolir tudo, tudo, principiando pela propria cara, desde a immensa
-batata vermelha e grelada, que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as
-duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira,
-inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor
-por uns pellos puídos e ralos como farripas de côco.
-
-Firmo propoz embebedal-o, só para ver a sorte que elle daria. O
-Alexandre e a mulher oppuzeram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar
-de rir, apezar do espanto, vendo aquelle resto de gente, aquelle
-esqueleto velho, coberto por uma pelle secca, a devorar, a devorar sem
-tregoas, como se quizesse fazer provisão para uma outra vida.
-
-De repente, um pedaço de carne, grande de mais para ser ingerido de uma
-vez, engasgou-o sériamente. Liborio começou a tossir, afflicto, com os
-olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apopletica. A
-Leocadia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas
-costas.
-
-O glutão arrevessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio
-triturado.
-
-Foi um nojo geral.
-
---Porco! gritou Rita, arredando-se.
-
---Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece
-que nunca vio comida, este animal!
-
-E notando que elle continuava ainda mais sofrego por ter perdido um
-instante:--Espera um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Ha
-muito ahi com que te fartares por uma vez! Com effeito!
-
---Beba agoa, tio Liborio! aconselhou Augusta.
-
-E, boa, foi buscar um copo d'agoa e levou-lh'o á boca.
-
-O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato.
-
---Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo
-capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!
-
-Albino, esse, coitado! é que não comia quasi nada e o pouco que
-conseguia metter no estomago fazia-lhe mal. Rita, para bulir com elle,
-disse que semelhante fastio era gravidez com certeza.
-
---Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço, esgueirando-se
-com a sua chicara de café.
-
---Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café, que faz mal ao leite,
-e a criança póde sahir trigueira!
-
-O Albino voltou para dizer muito serio á Rita que não gostava d'essas
-brincadeiras.
-
-Alexandre, que havia accendido um charuto, depois de offerecer outros,
-galantemente, aos companheiros, arriscou, para tambem fazer a sua
-pilheria, que o sonso do Albino fôra pilhado ás voltas com a Bruxa no
-capinzal dos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras.
-
-Só a Leocadia achou graça n'isto e rio a bandeiras despregadas. Albino
-declarou, quasi chorando, que elle não mexia com pessoa alguma, e que
-ninguem, por conseguinte, devia mexer com elle.
-
---Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exacto que este pamonha não
-conhece mulher?...
-
---Elle é quem póde responder! accudio a mulata. E esta historia vae
-ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te
-terás de haver com a gente!
-
-Se eu soubesse que era para isto que me chamaram, não tinha vindo cá,
-sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito!
-
-E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe cortasse a sahida,
-dizendo, como se fallasse a uma creatura do seu sexo, mais fraca do que
-ella:
-
---Ora não sejas tôlo! Deixa-te ficar ahi! Se deres o cavaco é peior!
-
-Albino limpou as lagrimas e foi assentar-se de novo.
-
-Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde com o sudoeste.
-Bruno roncava no logar em que tinha jantado. A Leocadia passára
-livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abraçava, bebendo
-paraty aos calices.
-
-Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para fóra; e todos, menos
-o Bruno, dispozeram-se a deixar a sala, emquanto o velho Liborio pedia a
-Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. Servido, o filante
-desappareceu logo, correndo ao faro de outros jantares. Rita, Augusta e
-Albino ficaram lavando a louça e arrumando a casa.
-
-Lá fóra o côro dos italianos se prolongava n'uma cadencia monotona e
-arrastada, em que havia muito pezo de embriaguez. Junto á porta de
-varias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas em cadeiras ou no
-chão; mas a roda da Rita Bahiana era a maior, porque fóra engrossada
-pelos convivas da das Dôres. O fumo dos cachimbos e dos charutos
-elevava-se de toda a parte. Decrescera o ruido geral; fazia-se a
-digestão; já ninguem discutia e todos conversavam.
-
-Accendeu-se o lampeão do pateo. Illuminaram-se diversas janellas das
-casinhas.
-
-Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior barulho. Sahia de lá
-uma terrivel gritaria de hippes e burrahs, virgulada pelo desarolhar de
-garrafas de champanha.
-
---Como elles atacam!... observou Alexandre, já de novo sem farda.
-
---E no emtanto reprovam que a gente coma o que é seu com um pouco mais
-de alegria! commentou a Rita. Uma sucia!
-
-Fallou-se então largamente a respeito da familia do Miranda,
-principalmente de Dona Estella e do Henrique. A Leocadia afiançou que,
-uma occasião, espiando por cima do muro, trepada n'um montão de
-garrafas vazias que havia no pateo do cortiço, vira a sirigaita com a
-cara agarrada á do estudante, aos beijos e aos abraços, que era obra;
-e assim que os dois deram fé que ella os espreitava, deitaram a fugir
-que nem cães apedrejados.
-
-A Augusta Carne-molle benzeu-se, com uma invocação á Virgem
-Santissima, e o companheiro do amigo da das Dôres, que insistia no seu
-namoro com a Nênêm, mostrou-se muito admirado com a noticia,
-«suppunha Dona Estella um modelo de seriedade.»
-
---Qual! negou Alexandre. Isso por ahi é tudo uma pouca vergonha, que
-faz descrer um homem de si mesmo!
-
-Eu tambem já vi de uma feita bem boas coisas pela sombra d'ella na
-parede; mas não era com o estudante, era com um sujeito que lá ia ás
-vezes, um barbado, careca e comido de bexigas. E a pequena vae pelo
-mesmo conseguinte...
-
-Esta novidade produzio grande surpreza no grupo inteiro. Quizeram os
-pormenores e o Alexandre não se fez rogado: o namoro da Zulmira era com
-um rapazola magro, de lunetas, bigode loiro, bem vestido, que lhe
-rondava a casa á noite e ás vezes de madrugada. Parecia estudante!
-
---O que elles tem feito? inquerio a das Dôres.
-
---Por emquanto a coisa não passa de namorico da janella pr'a rua.
-Conversam sempre n'aquella ultima do lado de lá de fóra. Já os tenho
-apreciado quando estou de serviço. Elle falla muito em casamento e a
-pequena o quer; mas, pelo geito, o velho é que lhe corta as azas.
-
---Elle não tem entrada na casa?
-
---Não! Pois isso é que eu acho feio!... Se elle quer casar com a
-menina, devia entender-se com a familia e não estar agora d'aqui
-debaixo a fazer-lhe fosquinhas!
-
---Sim! intrometteu-se o Firmo; mas não vê que aquelle mesmo, o
-Miranda, vae dar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus...
-Quem sabe até se o bruto não tem já de olho por ahi algum cafezista
-pé de boi!... Eu sei o que é essa gente!
-
---Por isso é que se vê tanta porcaria por esse mundo de Christo! disse
-a Augusta. Filha minha só se casará com quem ella bem quizer; que isto
-de casamentos empurrados á força acabam sempre desgraçando tanto a
-mulher como o homem! Meu marido é pobre e é de côr, mas eu sou feliz,
-porque casei por meu gosto!
-
---Ora! Mais vale um gosto que quatro vintens!
-
-N'isto começou a gemer á porta do 35 uma guitarra; era de Jeronymo.
-Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara áquella
-tarde toda a republica do cortiço, ella parecia ainda mais triste e
-mais saudosa do que nunca.
-
-
- «Minha vida tem desgostos,
- Que só eu sei comprender...
- Quando me lembro da terra
- Parece que vou morrer...»
-
-
-E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por
-fim, a monotona cantiga dos portuguezes enchia de uma alma desconsolada
-o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade
-que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda.
-
-
- «Terra minha, que te adoro,
- Quando é que eu te torno a ver?
- Leva-me d'este desterro;
- Basta já de padecer.»
-
-
-Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostalgico dos desterrados, iam
-todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e cahindo em tristeza;
-mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do
-Firmo, romperam vibrantemente com um chorado bahiano. Nada mais que os
-primeiros accordes da musica crioula para que o sangue de toda aquella
-gente despertasse logo, como se alguem lhe fustigasse o corpo com
-ortigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais
-ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam,
-eram lubricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem
-serpenteando, como cobras n'uma floresta incendiada; eram ais convulsos,
-chorados em frenezi de amor; musica feita de beijos e soluços gostosos;
-caricia de fera, caricia de doer, fazendo estalar de goso.
-
-E aquella musica de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas
-brasileiras, em torno das quaes se nutrem, girando, moscardos sensuaes e
-besoiros venenosos, freneticamente, bebedos do delicioso perfume que os
-mata de volupia.
-
-E á viva crepitação da musica bahiana calaram-se as melancolicas
-toadas dos de além-mar. Assim á refulgente luz dos tropicos amortece a
-fresca e doce claridade dos céos da Europa, como se o proprio sol
-americano, vermelho e esbrazeado, viesse, na sua luxuria de sultão,
-beber a lagrima medrosa da decahida rainha dos mares velhos.
-
-Jeronymo alheiou-se da sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas
-sobre as cordas, todo attento para aquella musica estranha, que vinha
-dentro d'elle continuar uma revolução começada desde a primeira vez
-em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz
-d'este sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da
-primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o succo da primeira fructa
-provada n'estas terras de braza, e lhe entonteceu a alma o aroma do
-primeiro bogary, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da primeira
-mulher, da primeira mestiça, que junto d'elle sacudio as saias e os
-cabellos.
-
---Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, estranhando-o.
-
---Espera, respondeu elle, em voz baixa; deixa ouvir!
-
-Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de
-palmas.
-
-Jeronymo levantou-se, quasi que machinalmente, e, seguido por Piedade,
-aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos dois mulatos.
-Ahi, de queixo grudado ás costas das mãos contra uma cerca de jardim,
-permaneceu, sem tugir nem mugir, entregue de corpo e alma áquella
-cantiga seductora e voluptuosa que o enleiava e tolhia, como á robusta
-gameleira brava o cipó flexivel, carinhoso e traiçoeiro.
-
-E vio a Rita Bahiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de
-hombros e braços nus, para dansar. A lua destoldára-se n'esse momento,
-envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da
-mestiça melhor se accentuavam, cheios de uma graça irresistivel,
-simples, primitiva, feita toda de peccado, toda de paraiso, com muito de
-serpente e muito de mulher.
-
-Ella saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as
-ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a
-direita, como n'uma sofreguidão de goso carnal, num requebrado
-luxurioso que a punha offegante; já correndo de barriga empinada; já
-recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse
-afundando n'um prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e
-nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse á vida, soltava um
-gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas,
-descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida
-sapateava, miudo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os
-braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, emquanto a carne
-lhe fervia toda, fibra por fibra, titillando.
-
-Em torno o enthusiasmo tocava ao delirio; um grito de applausos explodia
-de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito sabido do
-sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, n'um rhythmo nervoso,
-n'uma persistencia de loucura. E, arrastado por ella, pulou á arena o
-Firmo, agil, de borracha, a fazer coisas phantasticas com as pernas, a
-derreter-se todo, a sumir-se no chão, a resurgir inteiro com um pulo,
-os pés no espaço batendo os calcanhares, os braços a querer
-fugirem-lhe dos hombros, a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgio
-tambem a Florinda, e logo o Albino e até, quem diria! o grave e
-circumspecto Alexandre.
-
-O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que
-não sabiam dansar. Mas, ninguem como a Rita; só ella, só aquelle
-demonio, tinha o magico segredo d'aquelles movimentos de cobra
-amaldiçoada; aquelles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a
-mulata soltava de si e sem aquella voz doce, quebrada, harmoniosa,
-arrogante, meiga e supplicante.
-
-E Jeronymo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos
-enamorados.
-
-N'aquella mulata estava o grande mysterio, a synthese das impressões
-que elle recebeu chegando aqui: ella era a luz ardente do meio dia; ella
-era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos
-trevos e das baunilhas, que o atordoara nas mattas brasileiras; era a
-palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta;
-era o veneno e era o assucar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e
-era a castanha do cajú, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ella
-era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida,
-que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo d'elle,
-assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela
-saudade da terra, picando-lhe as arterias, para lhe cuspir dentro do
-sangue uma centelha d'aquelle amor septentrional, uma nota d'aquella
-musica feita de gemidos de prazer, uma larva d'aquella nuvem de
-cantharidas que zumbiam em torno da Rita Bahiana e espalhavam-se pelo ar
-n'uma phosphorescencia aphrodisiaca.
-
-Isto era o que Jeronymo sentia, mas o que o tonto não podia conceber.
-De todas as impressões d'aquelle resto de domingo só lhe ficou no
-espirito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho,
-mas de mel chuchurreado no calice de flores americanas, d'essas muito
-alvas, cheirosas e humidas, que elle na fazenda via debruçadas
-confidencialmente sobre os limosos pantanos sombrios, onde as oiticicas
-trescalam um aroma que entristece de saudade.
-
-E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dansaram, mas o portuguez
-só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fôra cahir nos braços do
-amigo. Piedade, a cabecear de somno, chamára-o varias vezes para se
-recolherem; elle respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da
-mulher.
-
-Passaram-se horas, e elle tambem não deu pelas horas que fugiram.
-
-O circulo do pagode augmentou: vieram de lá defronte a Izaura e a
-Leonor; o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina,
-quizeram dar fé da patuscada um instante antes de cahirem na cama; a
-familia do Miranda puzera-se á janella, divertindo-se com a gentalha da
-estalagem; reunira povo lá fóra na rua; mas Jeronymo nada vira de tudo
-isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espirito: a
-mulata offegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.
-
-Só deu por si, quando, já pela madrugada, se callaram de todo os
-instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu á casa.
-
-E vio a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela
-cintura.
-
-Jeronymo ficou sózinho no meio da estalagem. A lua, agora inteiramente
-livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silencio na sua
-viagem mysteriosa. As janellas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao
-longe, por detraz da ultima parede do cortiço, erguia-se como um
-monstro illuminado na sua paz. Uma quietação densa pairava já sobre
-tudo; só se distinguiam o bruxulear dos pyrilampos na sombra das hortas
-e dos jardins, e os murmurios das arvores que sonhavam.
-
-Mas Jeronymo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquella musica
-embalsamada de baunilha, que lhe entontecêra a alma; e comprehendeu
-perfeitamente que dentro d'elle aquelles cabellos crespos, brillantes e
-cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e
-venenosas, que lhe iam devorar o coração.
-
-E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céo, que elle nunca vira senão
-depois de sete horas de somno, que era já quasi occasião de entrar
-para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar
-de pé.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-No dia seguinte, Jeronymo largou o trabalho á hora de almoçar e, em
-vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa.
-Mal tocou no que a mulher lhe apresentou á mesa e metteu-se logo depois
-na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e lhe dissesse que
-elle estava incommodado e ficava de descanço aquelle dia.
-
---Que tens tu Jeromo?...
-
---Morrinhento, filha. Vae anda!
-
---Mas sentes-te mal?...
-
---Ó mulher! vae fazer o que te disse e ao depois então darás á
-lingoa!
-
---Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na venda!
-
-E ella sahio, afflicta. Qualquer novidade no marido, por menor que
-fosse, punha-a doida, «Pois um homem rijo, que nunca cahia doente?
-Seria a febre amarella?...» Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar
-n'isso era bom! Credo!
-
-A noticia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras.
-
---Foi da friage da noite, affirmou a Bruxa; e deu um pulo á casa do
-trabalhador para receitar.
-
-O doente repellio-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que elle do que
-precisava era de dormir. Mas não o conseguio: atraz da Bruxa correu a
-segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se durante
-muito tempo em sua casa um entrar e sahir de saias. Jeronymo perdeu a
-paciencia e ia protestar brutalmente contra semelhante invasão, quando,
-pelo cheiro, sentio que a Rita se approximava tambem.
-
---Ah!
-
-E desfranzio-se-lhe o rosto.
-
---Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você cahio doente com a minha
-chegada? Se tal soubéra não vinha!
-
-Elle rio-se. E era a primeira vez que ria desde a vespera.
-
-A mulata aproximou-se da cama.
-
-Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as saias apanhadas na
-cintura e os braços completamente nús e frios da lavagem. O seu
-casaquinho branco abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito côr
-de canella.
-
-Jeronymo apertou-lhe a mão.
-
---Gostei de vel-a hontem dansar, disse, muito mais animado.
-
---Já tomou algum remedio?...
-
---A mulher fallou ahi em chá preto...
-
---Chá! Que asneira! Chá é agoa morna! Isso que você tem é uma
-resfriagem. Vou lhe fazer uma chicara de café bem forte para você
-beber com um gole de paraty, e me dirá se súa ou não, e fica depois
-fino e prompto para outra! Espere ahi!
-
-E sahio logo, deixando todo o quarto impregnado d'ella.
-
-Jeronymo, só com respirar aquelle almiscar, parecia melhor. Quando
-Piedade tornou, pesada, triste, resmungando comsigo mesma, elle sentio
-que principiava a enfaral-a; e, quando a infeliz se approximou do
-marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do corpo.
-Voltou-lhe então o máo-estar e desappareceu o ultimo vestigio do
-sorriso que elle tivera havia pouco.
-
---Mas que sentes tu, Jeromo?... Falla, homem! Não me dizes nada! Assim
-m'assustas... Que tens, diz'lo!
-
---Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa...
-
---Não queres o chá? Mas é o remedio, filhinho de Deus!
-
---Já te disse que tomo oitra mezinha. Oh!
-
-Piedade não insistio.
-
---Queres tu um escalda-pés?...
-
---Tomal-o tu!
-
-Ella calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão aspero e secco,
-mas receiou importunal-o. «Era naturalmente a molestia que o punha
-resinguento.»
-
-Jeronymo fechára os olhos, para a não ver, e ter-se-ia, se pudesse,
-fechado por dentro, para a não sentir. Ella, porém, coitada! fôra
-assentar-se á beira da cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo
-n'aquelle instante, pura e exclusivamente, para o seu homem, fazendo-se
-muito escrava d'elle, sem vontade propria, acompanhando-lhe os menores
-gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do dono,
-procura adivinhar-lhe as intenções.
-
---'Stá bem, filha, não vaes tratar do teu serviço?...
-
---Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi á Leocadia que
-me esfregasse a roupa. Ella hoje tinha pouco que fazer e...
-
---Andaste mal...
-
---Ora! Não ha tres dias que fiz outro tanto por ella... E de mais, não
-foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal!
-
---Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia!... Melhor seria que
-estivesses á tua tina em vez de ficar ahi a murmurar do proximo...
-Anda! vae tomar conta das tuas obrigações.
-
---Mas estou-te a dizer que não ha transtorno!...
-
---Transtorno já é estar eu parado; e peior será pararem os dois!
-
---Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!...
-
---E eu acho que isso é tolice! Vae! anda!
-
-Ella ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que
-entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana
-de café com paraty e no hombro um cobertor grosso para dar um suadoiro
-ao doente.
-
---Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata.
-
-E deixou-se ficar.
-
-Rita, despreoccupadamente, alegre e bemfazeja como sempre, pousou a
-vasilha sobre a commoda do oratorio e abrio o cobertor.
-
---Isto é que o vae pôr fino! disse. Vocês tambem, seus portuguezes,
-por qualquer coisinha ficam logo pr'a morrer, com uma cara da ultima
-hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas!
-
-Elle rio-se, assentando-se na cama.
-
---Pois não é assim mesmo? perguntou ella á Piedade, apontando para o
-carão barbado de Jeronymo. Olhe só pr'aquella cara e diga-me se não
-está a pedir que o enterrem!
-
-A portugueza não dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, resentida
-contra aquella invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem.
-Não era a intelligencia nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o
-instincto, o faro subtil e desconfiado de toda a femea pelas outras,
-quando sente o seu ninho exposto.
-
---Está-me a parecer que agora te achas melhor, hein?... desembuchou
-afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir disfarçar de todo o
-seu descontentamento.
-
---Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando o café ao doente.
-Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontral-o
-prompto, ouvio?--E acrescentou fallando á Piedade, em tom mais baixo e
-pousando-lhe a mão no hombro carnudo:--Elle d'aqui a nada deve estar
-ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe dois dedos de paraty,
-logo que peça agua. Cuidado com o vento!
-
-E sahio expedita, agitando as saias, d'onde se evolavam effluvios de
-mangerona.
-
-Piedade chegou-se então para o cavouqueiro, que já tinha sobre as
-pernas o cobertor offerecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela
-á bocca, resmungou:
-
---Deus queira que isto não te vá fazer mal em vez de bem!... Nunca
-tomas café, nem gostas!...
-
---Isto não é por gosto, filha, é remedio!
-
-Elle com effeito nunca entrara com o café e ainda menos com a cachaça;
-mas engolio de uma assentada o conteúdo da tigela, puxando em seguida o
-cobertor até ás ventas.
-
-A mulher tratou de abafar-lhe bem os pés e foi buscar um chale para lhe
-cobrir a cabeça.
-
---Trata de socegar! Não te mexas!
-
-E dispôz-se a ficar junto da cama, a vigial-o, só andando na ponta dos
-pés, abafando a respiração, correndo a cada instante á porta de casa
-para pedir que não fizessem tanta bulha lá fóra; toda ella
-desassocegada, numa afflicção quasi supersticiosa por aquelle
-incommodo de seu homem. Mas Jeronymo não levou muito que a não
-chamasse para lhe mudar a roupa. O suor inundava-o.
-
---Ainda bem! exclamou ella, radiante.
-
-E, depois de fechar hermeticamente a porta do quarto e metter um punhado
-de roupa suja n'uma fresta que havia n'uma das paredes, saccou-lhe fóra
-a camisa molhada, enfiando-lhe logo outra pela cabeça; em seguida
-tirou-lhe as ceroulas e começou, munida de uma toalha, a enxugar-lhe
-todo o corpo, principiando pelas costas, passando depois ao peito e aos
-sovacos, descendo logo ás nadegas, ao ventre e ás pernas, e esfregando
-sempre com tamanho vigor de pulso, que era antes uma maçagem que lhe
-dava; e tanto assim que o sangue do cavouqueiro se revolucionou.
-
-E a mulher, a rir-se, lisongeada, ralhava:
-
---Tem juizo! Acommoda-te! Não vês que estás doente?...
-
-Elle não insistio. Agasalhou-se de novo e pedio agua.
-
-Piedade foi buscar o paraty.
-
---Bebe isto, não bebas a agua agora.
-
---Isto é cachaça!
-
---Foi a Rita que disse para te dar...
-
-Jeronymo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos
-de restillo que havia no copo.
-
-Sobrio como era, e depois d'aquelle despendio de suor, o alcool
-produzio-lhe logo de prompto o effeito voluptuoso e agradavel da
-embriaguez nos que não são bebedos: um delicioso desfallecer de todo o
-corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede á
-satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ella
-algum tempo, aproxima-se afinal de nós, n'uma avidez gulosa de beijos.
-Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa
-fresca sobre a pelle, Jeronymo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da
-pedreira ardente e do sol caustico; ouvindo, de olhos fechados, o
-rom-rom monotono da machina de massas, arfando ao longe, e o zum-zum das
-lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminavel cantar de
-gallos á porfia, emquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente,
-annunciando um defunto da parochia.
-
-Quando Piedade chegou lá fóra, dando parte do bom resultado do
-remedio, a Rita correu de novo ao quarto do doente.
-
---Então, que me diz agora? Sente-se ou não melhorzinho?
-
-Elle voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por unica
-resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com a mão
-direita segurar a d'ella. Queria com isto traduzir o seu reconhecimento,
-e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu; mal porém a sua carne
-lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se d'elle; uma vontade
-desensoffrida de senhorear-se no mesmo instante d'aquella mulher e
-possuil-a inteira, devoral-a num só hausto de luxuria, trincal-a como
-um cajú.
-
-Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro, escapou-lhe das garras com
-um pulo.
-
---Olha que peste! Faça-se de tolo, que digo á sua mulher, hein? Ora
-vamos lá!
-
-Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado, disfarçou logo,
-acrescentando n'outro tom:--Agora é tratar de dormir e mudar de roupa,
-se suar outra vez. Até logo!
-
-E sahio.
-
-Jeronymo ouvio as suas ultimas palavras já de olhos fechados e, quando
-Piedade entrou no quarto, parecia succumbido de fraqueza. A lavadeira
-aproximou-se da cama do marido em ponta de pés, puxou-lhe o lençol
-mais para cima do peito e afastou-se de novo, abafando os passos. Á
-porta de entrada a Augusta, que fora fazer uma visita ao enfermo,
-perguntou-lhe por este com um gesto interrogativo; Piedade respondeu sem
-fallar, pondo a mão no rosto e vergando d'esse lado a cabeça, para
-exprimir que elle agora estava dormindo.
-
-As duas sahiram para fallar á vontade; mas, n'essa occasião, lá fóra
-no pateo da estalagem, acabava de armar-se um escandalo medonho. Era o
-caso que o Henriquinho da casa do Miranda ficava ás vezes á janella do
-sobrado, nas horas de preguiço, entre o almoço e o jantar, entretido a
-ver a Leocadia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do grosso
-quadril e o tremular das redondas tetas á larga dentro do cabeção de
-chita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe signaes bregeiros, piscava
-lhe o olho, batendo com a mão direita aberta sobre a mão esquerda
-fechada. Ella respondia, indicando com o pollegar o interior do sobrado,
-como se dissesse que fosse procurar a mulher do dono da casa.
-
-N'aquelle dia, porém, o estudante appareceu á janella, trazendo nos
-braços um coelhinho todo branco, que elle na vespera arrematára n'um
-leilão de festa. Leocadia cobiçou o bichinho e, correndo para o
-deposito de garrafas vasias, que ficava por debaixo do sobrado, pedio
-com muito empenho ao Henrique que lh'o désse. Este, sempre com o seu
-systema de conversar por mimica, declarou com um gesto qual era a
-condição da dadiva.
-
-Ella meneou a cabeça affirmativamente, e elle fez-lhe signal de que o
-esperasse por detraz do cortiço, no capinzal dos fundos.
-
-A familia do Miranda havia sahido. Henrique, mesmo com a roupa de andar
-em casa e sem chapéo, desceu á rua, ganhou um terreno que existia á
-esquerda do sobrado e, com o seu coelho debaixo do braço, atirou-se
-para o capinzal. Leocadia esperava por elle debaixo das mangueiras.
-
---Aqui não! disse ella, logo que o vio chegar. Aqui agora podem dar com
-a gente!...
-
---Então onde?
-
---Vem cá!
-
-E tomou á sua direita, andando ligeira e meio vergada por entre as
-plantas. Henrique seguio-a no mesmo passo, sempre com o coelho
-sobraçado. O calor fazia-o suar e esfogueava-lhe as faces. Ouvia-se o
-martellar dos ferreiros e dos trabalhadores da pedreira.
-
-Depois de alguns minutos, ella parou n'um lugar plantado de bambús e
-bananeiras, onde havia o resto de um telheiro em ruinas.
-
---Aqui!
-
-E Leocadia olhou para os lados, assegurando-se de que estavam a sós.
-Henrique, sem largar o coelho, atirou-se sobre ella, que o conteve:
-
---Espera! preciso tirar a saia; está encharcada!
-
---Não faz mal! segredou elle, impaciente no seu desejo.
-
---Póde me vir um corrimento!
-
-E sacou fóra a saia de lã grossa, deixando ver duas pernas, que a
-camisa a custo só cobria até ao joelho, grossas, massiças, de uma
-brancura levemente rósea e toda marcada de mordeduras de pulgas e
-mosquitos.
-
---Avia-te! Anda! apressou ella, lançando-se de costas no chão e
-arregaçando a fralda até á cintura; as coxas abertas.
-
-O estudante atirou-se sofrego, sentindo-lhe a frescura da sua carne de
-lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho.
-
-Passou-se um instante de silencio entre os dois, em que as folhas seccas
-do chão rangeram e farfalharam.
-
-Olha! pedio ella, faze-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de
-leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne Molle,
-n'esta ultima barriga, tomou conta de um pequeno ahi na casa de uma
-familia de tratamento, que lhe dava setenta mil reis por mez!... E muito
-bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares
-um filho dou-te outra vez o coelho!
-
-E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não largava, começou a
-queixar-se dos repellões que recebia cada vez mais accelerados.
-
---Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira. Não batas assim com
-elle! mas não o soltes, hein!
-
-Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudio-lhe o espasmo e ella fechou os
-olhos e pôz-se a dar com a cabeça de um lado para outro, rilhando os
-dentes.
-
-N'isto, passos rapidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na
-direcção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto,
-lobrigou a certa distancia a insociavel figura do Bruno.
-
-Não lhe deu tempo a que se approximasse; de um salto galgou por detraz
-das bananeiras e desappareceu por entre o mattagal de bambús, tão
-rapido como o coelho que, vendo se livre, ganhára pela outra banda o
-caminho do capinzal.
-
-Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda
-não tinha acabado de vestir a saia molhada.
-
---Com quem te esfregavas tu, sua vacca?! bradou elle, a botar os bofes
-pela bocca.
-
-E, antes que ella respondesse, já uma formidavel punhada a fazia rolar
-por terra.
-
-Leocadia abrio n'um berreiro. E foi debaixo de uma chuva de bofetadas e
-pontapés que acabou de amarrar a roupa.
-
---Agora eu vi! sabes? Nega se fores capaz!
-
---Vá á pata que o pôz! exclamou ella, com a cara que era um tomate.
-Já lhe disse que não quero saber de você pr'a nada, seu bebado!
-
-E, vendo que elle ia recomeçar a dansa, abaixou-se depressa, segurou
-com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a seus pés, e
-gritou, erguendo-o sobre a cabeça:
-
---Chega-te pr'a cá e verás se te abro aqui mesmo ou não o casco!
-
-O ferreiro comprehendeu que ella era capaz de fazer o que dizia e
-estacou livido e offegante.
-
---Arme a trouxa e rua! sabe?
-
---Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir! Queria era uma
-occasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo!
-
-E, para metter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga:--Já
-cá está dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de ama! Ou
-pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho serve,
-diabo do sem-prestimo?
-
---Mas não me has de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia!
-
---Ah, descance! que não levarei nada do que é seu, nem preciso!
-
---Põe essa pedra no chão!
-
---Um corno! Eu arrumo-l'a na cabeça se te chegas pr'a cá!
-
---Sim, sim, sim, com tanto que te musques por uma vez!
-
---Pois então despache o beco!
-
-Elle virou-lhe as costas e tornou lentamente por onde viera, de cabeça
-pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando agora um
-soberano desprezo pelo que se passava.
-
-Só então foi que ella se lembrou do coelho.
-
---Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando direcção contraria á
-do marido.
-
-Este fôra d'ahi direito ao cortiço narrar, a quem quizesse ouvir, o
-que se acabava de dar. O escandalo assanhou a estalagem inteira, como um
-jacto de agua quente sobre um formigueiro. «Ora aquillo tinha de
-acontecer mais hoje mais amanhã!--Um bello dia a casa vinha abaixo!--A
-Leocadia parecia não desejar senão isso mesmo!» Mas ninguem atinava
-com quem diabo pilhára o Bruno a mulher no capinzal. Fizeram-se mil
-hypotheses; lembraram-se nomes e nomes, sem se chegar a nenhum resultado
-satisfactorio. O Albino tentou logo arranjar a reconciliação no casal,
-jurando que o Bruno estava enganado com certeza e que vira mal.
-«Leocadia era uma excellente rapariga, incapaz de tamanha safadagem!»
-O ferreiro tapou-lhe a bocca com uma bolacha, e ninguem mais se metteu a
-congraçal-os.
-
-Entretanto, o Bruno entrara em casa e lançava pela janella cá para
-fóra tudo o que ia encontrando pertencente á mulher. Uma cadeira fez-se
-pedaços contra as pedras, depois veio um candieiro de kerozene, uma
-trouxa de roupa, saias e casaquinhos de chita, caixas de chapéos cheias
-de trapos, uma gaiola de passaro, uma chaleira; e tudo era arremessado
-com furia ao meio da área, entre o silencio commovido dos que assistiam
-ao despejo. Um chim, que entrára para vender camarões e parara
-distrahido perto da janella do ferreiro, levou na cabeça com uma bilha
-da Bahia e berrava como criança que acaba de ser esbordoada. A Machona,
-que não podia ouvir ninguem gritar mais alto do que ella, cahio-lhe em
-cima aos murros e o pôz fóra do portão com tremenda descompostura.
-«Era o que faltava que viesse tambem aquelle salamaleque do inferno
-para azoinar uma creatura mais do que já estava!» Dona Isabel, com as
-mãos crusadas sobre o ventre, tinha para aquella destruição um
-profundo olhar de lastima. Augusta meneava a cabeça tristemente, sem
-conceber como havia mulheres que procuravam homem, tendo um que lhes
-pertencia. A Bruxa, indifferente, não interrompêra sequer o seu
-trabalho; ao passo que a das Dôres, de mãos nas cadeiras, a saia pelo
-meio das canellas, um cigarro no canto da boca, encarava desdenhosa a
-sanha daquelle marido, tão brutal como o d'ella o fôra.
-
---Sempre os mesmos pedaços d'asno!... commentava franzindo o nariz. Se
-a tôla da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam
-enjoados, e, se ella não toma a sério a borracheira do casamento, dão
-por páos e por pedras, como esta besta! Uma sucia, todos elles!
-
-Florinda ria, como de tudo, e a velha Marcianna queixava-se de que lhe
-respingaram kerozene na roupa estendida ao sol. N'essa occasião
-justamente, um sacco de café, cheio de borra, deu duas voltas no ar e
-espalhou o seu conteúdo, pintalgando de pontos negros os coradoiros.
-Fez-se logo um alarido entre as lavadeiras. «Aquillo não tinha geito,
-que diabo! Armavam lá as suas turras e os outros é que haviam de
-aturar?!... Cebo! que os mais não estavam dispostos a supportar as
-furias de cada um! Quem parira Matheos que o embalasse! Se agora, todas
-as vezes que a Leocadia se fosse espojar no capinzal, o bruto do marido
-tinha de sujar d'aquelle modo o trabalho da gente, ninguem mais poderia
-ganhar ali a sua vida! Que espiga!» Pombinha chegára á porta do
-numero 15, dando fé do barulho, com uma costura na mão, e Nênêm,
-toda afogueada do ferro de engommar, perguntava, com um frouxo de riso,
-se o Bruno ia reformar a mobilia da casa. A Rita fingia não ligar
-importancia ao facto e continuava a lavar á sua tina. «Não faziam
-tanta festa ao tal casamento? Pois que aguentassem! Ella estava bem
-livre de soffrer uma d'aquellas!» O velho Liborio chegára-se, para ver
-se, no meio da confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona,
-notando que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do logar em que se
-achava:
-
---Sae d'ahi, safado! Toca lá no quer que seja, que te arranco a pelle
-do rabo!
-
-Um irmão do santissimo entrára na estalagem, com a sua capa encarnada,
-a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do dinheiro, e
-parára em meio do pateo, supplicando, muito fanhoso: «Uma esmola para
-a cera do Sacramento!» As mulheres abandonaram por um instante as tinas
-e foram beijar devotamente a columbina imagem do Espirito Santo.
-Pingaram na salva moedinhas de vintem.
-
-Todavia, o Bruno acabava afinal de despejar o que era da mulher e sahia
-de novo de casa, dando uma volta feroz á fechadura. Atravessou por
-entre o murmurante grupo dos curiosos que permanecia defronte da sua
-porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, apezar
-de ter feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua colera.
-
-Leocadia appareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era seu,
-partido e inutilisado, apoderou-se de furia e avançou sobre a porta,
-que o marido acabava de fechar, arremettendo com as nadegas contra as
-duas folhas, que cederam logo, indo ella cahir lá dentro de barriga
-para cima.
-
-Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram cá fóra e,
-escancarando a janella com arremeço, começou por sua vez a arrazar e
-destruir tudo que ainda encontrara em casa.
-
-Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objecto que ella
-varria para o pateo, gritava sempre: «Upa! Toma, diabo!»
-
---Ahi vae o relogio! Upa! Toma, diabo!
-
-E o relogio espatifou-se na calçada.
-
---Ahi vae o alguidar!
-
---Ahi vae o jarro!
-
---Ahi vão os copos!
-
---O cabide!
-
---O garrafão!
-
---O bacio!
-
-Um riso geral, communicativo, absoluto, abafava o barulho da louça
-quebrando-se contra as pedras. E Leocadia já não precisava acompanhar
-os objectos com a sua phrase de imprecação, porque cada um d'elles era
-recebido cá fóra com um côro que berrava:
-
---Upa! Toma, diabo!
-
-E a limpeza proseguia. João Romão acudio de carreira, mas ninguem se
-incommodou com a presença d'elle. Já defronte da porta do Bruno havia
-uma montanha de cacos accumulados; e o destroço continuava ainda,
-quando o ferreiro reappareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando a
-casa, com um raio de roda de carro na mão direita.
-
-Os circumstantes o seguiram, atropelladamente, num clamor.
-
---Não dá!
-
---Não póde!
-
---Prende!
-
---Não deixa bater!
-
---Larga o páo!
-
---Segura!
-
---Aguenta!
-
---Cérca!
-
---Toma o porrete!
-
-E Leocadia escapou afinal das páoladas do marido, a quem o povaréo
-desarmára num fecha-fecha.
-
---Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro, a quem, aproveitando
-a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detraz.
-
-O Alexandre, que vinha chegando do serviço n'esse momento, apressou-se
-a correr para o logar do conflicto e cheio de autoridade, intimou o
-Bruno a que se contivesse e deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir
-para a estação no mesmo instante.
-
---Pois você não vê esta gallinha, que apanhei hoje com a boca na
-botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o
-Bruno, espumando de raiva e quasi sem folego para fallar.
-
---Porque você pôz em cacos o que é meu! gritou Leocadia.
-
---Está bom! está bom! disse o policia, procurando dar á voz
-inflexões autoritarias e reconciliadoras. Falle cada um por sua vez!
-Seu marido ... accrescentou elle, voltando-se para a accusada, diz que a
-senhora...
-
---É mentira! interrompeu ella.
-
---Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima!
-
---Quem era?--Quem foi?--Quem era o homem? interrogaram todos a um só
-tempo.
-
---Quem era elle, no fim de contas? inquirio tambem Alexandre.
-
---Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o ferreiro; mas, se o
-apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas!
-
-Houve um côro de gargalhadas.
-
---É mentira! repetio Leocadia, agora succumbida por uma reacção de
-lagrimas. Ha muito tempo que este malvado anda caçando pretexto para
-romper commigo e, como eu não lh'o dou...
-
-Uma explosão de soluços a interrompeu.
-
-D'esta vez não riram, mas um bichanar de cochichos formou-se em torno
-do seu pranto.
-
---Agora ... continuou ella, enxugando os olhos na costa da mão; não
-sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, escangalhou-me
-até o que eu trouxe quando me casei com elle!...
-
---Não disseste que já tinhas ahi dentro com que ganhar a vida?... E
-andar!
-
---É falso! soluçou Leocadia.
-
---Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle: está tudo
-terminado! Seu marido vae recebel-a em boa paz...
-
---Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece!
-
---Nem eu queria! retorquio a mulher. Prefiro metter-me com um cavallo de
-tilbury a ter de aturar este bruto!
-
-E, catando em casa alguma coisa sua que ainda havia, e recolhendo do
-montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitavel, fez de tudo uma grande
-trouxa e foi chamar um carregador.
-
-A Rita sahio-lhe ao encontro.
-
---Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa.
-
---Não sei, filha, por ahi!... Hei de encontrar um furo!... Os cães
-não vivem?...
-
---Espera um instante ... disse a mulata. Olha, empurra a trouxa ahi para
-dentro do meu commodo.--E correndo ao Albino, que lavava:--Passa-me no
-sabão aquella roupa, ouviste? E, quando Firmo acordar, diz-lhe que
-precisei ir á rua.
-
-Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia molhada, atirou nos hombros
-o seu chale de crochet e, batendo nas costas da campanheira,
-segredou-lhe:
-
---Anda cá commigo! não ficarás á tôa!
-
-E as duas sahiram, ambas sacudidas, deixando atraz de si suspensa a
-curiosidade do cortiço inteiro.
-
-
-
-
-IX
-
-
-Passaram-se semanas. Jeronymo tomava agora, todas as manhãs, uma
-chicara de café bem grosso, á moda da Ritinha, e tragava dois dedos de
-paraty «pr'a cortar a friagem. »
-
-Uma transformação, lenta e profunda, operava-se n'elle, dia a dia,
-hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num
-trabalho mysterioso e surdo de chryzallida. A sua energia afrouxava
-lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a
-natureza do Brazil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e
-seductores que o commoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de
-ambição, para idealisar felicidades novas, picantes e violentas;
-tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de
-guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se
-preguiçoso, resignando-se, vencido, ás imposições do sol e do calor,
-muralha de fogo com que o espirito eternamente revoltado do ultimo
-tamoyo entrincheirou a patria contra os conquistadores aventureiros.
-
-E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus habitos
-singelos de aldeão portuguez: e Jeronymo abrasileirou-se. A sua casa
-perdeu aquelle ar sombrio e concentrado que a entristecia; já
-appareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos
-de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o
-jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de canna
-substituio o vinho; a farinha de mandioca succedeu á brôa; a carne
-secca e o feijão preto ao bacalháo com batatas e ceboulas cozidas; a
-pimenta malagueta e a pimenta de cheiro invadiram victoriosamente a sua
-mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repellidos pelos
-ruivos e gostosos quitutes bahianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo
-carurú; a couve á mineira desthronou a couve á portugueza; o pirão de
-fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu
-aroma quente, Jeronymo principiou a achar graça no cheiro do fumo e
-não tardou a fumar tambem com os amigos.
-
-E o curioso é que, quanto mais ia elle cahindo nos usos e costumes
-brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em
-detrimento das suas forças physicas. Tinha agora o ouvido menos
-grosseiro para a musica, comprehendia até as intenções poeticas dos
-sertanejos, quando cantam á viola os seus amores infelizes; seus olhos,
-d'antes só voltados para a esperança de tornar á terra, agora, como
-os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céo e
-mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do
-Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros
-illimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço,
-surge um monarcha gigante, que o sol veste de oiro e ricas pedrarias
-refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, n'um luxo
-oriental de arabicos principes voluptuosos.
-
-Ao passo que com a mulher, a S'ôra Piedade de Jesus, o caso mudava
-muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e
-tapada, recebia a influencia do meio só por fóra, na maneira de viver,
-conservando-se inalteravel quanto ao moral, sem conseguir, á
-semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova patria que
-adoptaram. Cedia passivamente nos habitos de existencia, mas no intimo
-continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel ás
-suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste;
-triste porque o Jeronymo fazia-se outro; triste porque não se passava
-um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque
-chegava a estranhal-o, a desconhecel-o, afigurando-se-lhe até que
-commettia um adulterio, quando á noite acordava assustada ao lado
-d'aquelle homem que não parecia o d'ella, aquelle homem que se lavava
-todos os dias, aquelle homem que aos domingos punha perfumes na barba e
-nos cabellos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não
-lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repellindo
-o caldo que ella lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:
-
---Ó filha! porque não experimentas tu fazer uns pitéos á moda de
-cá?...
-
---Mas é que não sei ... balbuciou a pobre mulher.
-
---Pede então á Rita que t'o ensine... Aquillo não terá muito
-q'aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ella
-preparou aquelles d'outro dia. Souberam-me tão bem!
-
-Este resvalamento do Jeronymo para as coisas do Brasil, penalisavam
-profundamente a infeliz creatura. Era ainda o instincto feminil que lhe
-fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a
-quereria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou
-a mesa.
-
-Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes.
-Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos,
-dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os
-dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle
-que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do
-marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração
-ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia
-muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde
-esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou
-uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em
-casa da Rita.
-
-Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido
-não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto,
-negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente:
-
---Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias
-e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se
-muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se
-mal!... Tem paciencia!
-
-Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos
-que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas
-rebentaram n'aquelle momento.
-
---Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou a
-soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo.
-
-O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo:
-
---Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo,
-nem que se cuidasse de coisa séria!
-
-Piedade desabafou:
-
---E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes
-não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!
-
-E os soluços recrudesciam.
-
---Não digas asnices, filha!
-
---Ah! eu bem sei o que isto é!...
-
---É bobagem tua, é o que é!
-
---Maldita hora em que viemos dar ao raio d'esta estalagem! Antes me
-tivéra cahido um calháo na cabeça!
-
---Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue!
-
-Esta resinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram
-amiudando. Ah! já não havia duvida que mestre Jeronymo andava meio
-cahido para o lado da Rita Bahiana; não passava pelo numero 9, sempre
-que vinha á estalagem durante o dia, que não parasse á porta um
-instante, para perguntar-lhe pela «saúdinha». O facto de haver a
-mulata lhe offerecido o remedio, quando elle esteve incommodado, foi
-pretexto para lhe fazer presentes amaveis, pôr os seus prestimos á
-disposição d'ella e obsequial-a em extremo todas as vezes que a
-visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito
-da Leocadia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em
-protectora da mulher do ferreiro, Jeronymo affectava grande interesse
-pela «pobrezinha de Christo.»
-
---Fez bem, 'nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que tem bom
-coração...
-
---Ah, meu amigo, n'este mundo hoje por mim, amanhã por ti!...
-
-Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engommadeiras
-do Catette, muito suas camaradas; depois passou-a para uma familia, a
-quem Leocadia se alugou como ama secca; e agora sabia que ella acabava
-de descobrir um bom arranjo n'um collegio de meninas.
-
---Muito bem! muito bem! applaudia Jeronymo.
-
---Ora, o que! O mundo é largo! sentenciou a Bahiana! Ha logar pr'o
-gordo e ha logar pr'o magro! Bem tolo é quem se mata!
-
-Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume,
-pela pobrezinha de Christo, a mulata disse que Leocadia estava gravida.
-
---Gravida? mas então não é do marido!...
-
---Póde bem ser que sim. Barriga de quatro mezes...
-
---Ah! mas ella não foi ha mais tempo do que isso?...
-
---Não. Vae fazer agora pelo São João quatro mezes justamente.
-
-Jeronymo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar com
-as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a
-chegar-se e o ultimo a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo
-bambo, a ver dansar a mulata, abstracto, pateta, esquecido de tudo;
-babão. E ella, consciente do feitiço que lhe punha, ainda mais se
-requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe limpava a
-baba no queixo com a barra da saia.
-
-E riam-se.
-
-Não! definitivamente estava cahido!
-
-Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remedio que lhe
-restituisse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ella no quarto,
-accendeu vélas de cêra, queimou hervas aromaticas e tirou a sorte nas
-cartas.
-
-E, depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ella
-dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que
-sahia do baralho uma phrase cabalistica, declarou convicta, muito calma,
-sem tirar os olhos das suas cartas:
-
---Elle tem a cabeça virada por uma mulher trigueira.
-
---É o diacho da Rita Bahiana! exclamou a outra. Bem cá me palpitava por
-dentro! Ai, o meu rico homem!
-
-E a chorar, limpando, afflicta, as lagrimas no avental de canhamo,
-supplicou á Bruxa, pelas alminhas do purgatorio, que lhe remediasse
-tamanha desgraça.
-
---Ai, se perco aquella creatura, S'ôra Paula, lamuriou a infeliz entre
-soluços; nem sei que virá a ser de mim n'este mundo de Christo!...
-Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo!
-
-A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e désse a beber ao
-seu homem, no café pela manhã, algumas gottas das aguas da lavagem; e,
-se no fim de algum tempo, este regimen não produzisse o desejado
-effeito, então cortasse um pouco dos cabellos do corpo, torrasse-os
-até os reduzir a pó e lh'os ministrasse depois na comida.
-
-Piedade ouvio a receita com um silencio respeitoso e attento, o ar
-compungido de quem recebe do medico uma sentença dolorosa para um
-doente que estimamos. Em seguida, metteu na mão da feiticeira uma moeda
-de prata, promettendo dar-lhe coisa melhor se o remedio tivesse bons
-resultados.
-
-Mas não era só a portugueza quem se mordia com o descahimento do
-Jeronymo para a mulata, era tambem o Firmo. Havia muito já que este
-andava com a pulga atraz da orelha e, quando passava perto do
-cavouqueiro, olhava-o atravessado.
-
-O capadocio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava na
-estalagem; tinha o seu commodo na officina em que trabalhava. Só pelos
-domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não relaxavam o
-seu jantar de pandega. Uma vez em que elle gazéara o serviço, o que
-não era raro, foi vel-a fóra das horas do costume e encontrou-a a
-conversar junto á tina com o portuguez. Passou sem dizer palavra e
-recolheu-se ao numero 9, onde ella foi logo ter de carreira. Firmo não
-lhe disse nada a respeito das suas apprehensões, mas tambem não
-escondeu o seu máo-humor; esteve impertinente e resingueiro toda a
-tarde. Jantou de cara amarrada e durante o paraty, depois do café, só
-fallou em rôlos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrivel,
-recordando façanhas de capoeiragem, nas quaes sangrára taes e taes
-typos de fama; «não contando dois gallegos que mandara pr'ás
-minhocas, porque isso para elle não era gente!--Com um par de cocadas
-boas ficavam de pés unidos pra sempre!» Rita percebeu os ciumes do
-amigo e fez que não dera por coisa alguma.
-
-No dia seguinte, ás seis horas da manhã, quando elle sahia da casa
-d'ella, encontrou-se com o portuguez, que ia para o trabalho, e o olhar
-que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto,
-cada qual seguio em silencio para o seu lado.
-
-Rita deliberou prevenir Jeronymo de que se acautelasse. Conhecia bem o
-amante e sabia de quanto era elle capaz sob a influencia dos ciumes;
-mas, na occasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo
-escandalo acabava de explodir, agora no numero 12, entre a velha
-Marcianna e sua filha Florinda.
-
-Marcianna andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal
-d'esta se desregrára havia tres mezes, quando, n'esse dia, não tendo
-as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da meza e foi de
-carreira para o quarto. A velha seguio-a. A rapariga fôra vomitar ao
-bacio.
-
---Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um olhar
-inquiridor.
-
---Não sei, mamãe...
-
---Que sentes tu?...
-
---Nada...
-
---Nada, e estás lançando?... Hein?!
-
---Não sinto nada, não senhora!...
-
-A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o vestido,
-levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, tacteando-lhe o
-ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligencias,
-correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assumpto. A
-cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no
-avental, e foi ao numero 12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe varias
-perguntas e mais á mãe, e depois disse friamente:
-
---Está de barriga.
-
-E afastou-se, sem um gesto de surpreza, nem de censura.
-
-Marcianna, tremula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no
-seio e, furiosa, cahio aos murros em cima da filha. Esta, em balde
-tentando escapar-lhe, berrava como uma louca.
-
-Abandonaram-se logo todas as tinas do pateo e algumas das mezas do
-frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o numero
-12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janella.
-
-Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no
-chão, perguntava-lhe gritando e repetindo:
-
---Quem foi?! Quem foi?!
-
-E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas.
-
---Quem foi?!
-
-A pequena berrava, mas não respondia.
-
---Ah! não queres dizer por bem? Ora espera!
-
-E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura ao canto da sala.
-
-Florinda, vendo imminente o cacete, levantou-se de um pulo, ganhou a
-janella e cahio de um salto lá fóra, entre o povo amotinado. Coisa de
-uns nove palmos de altura.
-
-As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendel-a da mãe, que surgio
-logo á porta, ameaçando para o grupo, terrivel e armada de páo.
-
-Todos procuraram chamal-a á razão:
-
---Então que é isso, tia Marcianna?! Então que é isso?!
-
---Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ahi o que
-é! Para tanto não lhe faltou geito, nem foi preciso que a gente
-andasse atraz d'ella se matando, como succede sempre que ha um pouco
-mais de serviço e é necessario puxar pelo corpo! Ora está ahi o que
-é!
-
---Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora, coitada! Assim você
-lhe dá cabo da pelle!
-
---Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ella ha de dizer
-quem foi ou quebro-lhe os ossos!
-
---Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor! aconselhou a das
-Dôres.
-
-Fez-se em torno da rapariga um silencio avido, cheio de curiosidade.
-
---Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde, este diabo! Mas
-esperem, que eu lhes mostro se ella falla ou não!
-
-E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e tirar-lhe o cacete,
-porque a velha queria crescer de novo para a filha.
-
-Ao redor d'esta a curiosidade assanhava-se cada vez mais. Estalavam
-todos por saber quem a tinha emprenhado «Quem foi?! Quem foi?!» esta
-phrase apertava-a num torniquete. Afinal, não houve outro remedio:
-
---Foi seu Domingos ... disse ella, chorando e cobrindo o rosto com a
-fralda do vestido, rasgado na lucta.
-
---O Domingos!...
-
---O caixeiro da venda!...
-
---Ah! foi aquelle cara de nabo? gritou Marcianna. Vem cá!
-
-E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até a venda.
-
-Os circumstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira.
-
-A taverna, como a casa de pasto, ferviam de concurrencia.
-
-Ao balcão d'aquella, o Domingos e o Manoel aviavam os freguezes, numa
-roda viva. Havia muitos negros e negras. O barulho era enorme. A Leonor
-lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com outro,
-mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões
-rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nadegas de negrinha
-virgem. Tres marujos inglezes bebiam gengibirra, cantando, ebrios, na
-sua lingua e mascando tabaco.
-
-Marcianna na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, que
-a seguia como um animal puxado pela colleira, ao chegar á porta lateral
-da venda, berrou:
-
---Ó seu João Romão!
-
---Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de
-serviço.
-
-Bertoleza, com uma grande colher de zinco gottejante de gordura,
-appareceu á porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta
-gente reunida, gritou para seu homem:
-
---Corre aqui, seu João, que não sei o que houve!
-
-Elle veio afinal.
-
-Que diabo era aquillo?
-
---Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobrio, deve tomar
-conta d'ella!
-
-João Romão ficou perplexo.
-
---Hein?! Que é lá isso?!
-
---Foi o Domingos! disseram muitas vozes.
-
---Ó seu Domingos!
-
-O caixeiro respondeu: «Senhor...» com uma voz de delinquente.
-
---Chegue cá!
-
-E o criminoso apresentou-se, livido de morte.
-
---Que fez você com esta pequena?
-
---Não fiz nada, não senhor!...
-
---Foi elle, sim! desmentio-o a Florinda.--O caixeiro desviou os olhos,
-para a não encarar.--Um dia de manhãzinha, ás quatro horas, no
-capinzal, debaixo das mangueiras...
-
-O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas.
-
---Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse o
-patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da
-fazenda e, como não gosto de caixeiros amigados, póde procurar arranjo
-n'outra parte!...
-
-Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se
-lentamente.
-
-O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se então pela venda,
-pelo portão da estalagem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se
-em pequenos magotes que discutiam o facto. Principiaram os commentarios,
-os juizos pró e contra o caixeiro; fizeram-se prophecias.
-
-Entretanto, Marcianna, sem largar a filha, invadira a casa de João
-Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa.
-
---Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer?
-
-Elle não deu resposta.
-
---Vamos! vamos! falle! desembuche!
-
---Ora lixe-se! resmungou o caixeiro; agora muito vermelho de colera.
-
---Lixe-se, não!... Mais de vagar com o andôr! Você ha de casar: ella
-é menor!
-
-Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha.
-
---Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos!
-
-E despejou da venda, gritando para todos:
-
---Sabe? O cara de nabo diz que não casa!
-
-Esta phrase produzio o effeito de um grito de guerra entre as
-lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande
-indignação.
-
---Como, não casa?!...
-
---Era só o que faltava!
-
---Tinha graça!
-
---Então mais ninguem póde contar com a honra de sua filha?
-
---Se não queria casar pr'a que fez mal?
-
---Quem não póde com o tempo não inventa modas!
-
---Ou elle casa ou sáe d'aqui com os ossos em sôpa!
-
---Quem não quer ser lobo não lhe vista a pelle!
-
-A mais empenhada n'aquella reparação era a Machona, e a mais indignada
-com o facto era Dona Isabel. A primeira corrêra á frente da venda,
-disposta a segurar o culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo
-não tardou que em cada porta, por onde era possivel uma escapula, se
-postassem as outras de sentinella, formando grupos de tres e quatro. E,
-no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e ameaças:
-
---Das Dôres! toma cuidado, que o patife não espirre por ahi!
-
---Ó seu João Romão, se o homem não casa, mande nol-o pra cá! Temos
-ainda algumas pequenas que lhe convêm!
-
---Mas onde está esse ordinario?!
-
---Saia o canalha!
-
---Está fazendo a trouxa!
-
---Quer escapar!
-
---Não deixa sahir!
-
---Chama a policia!
-
---Onde está o Alexandre?
-
-E ninguem mais se entendia. Á vista d'aquella agitação, o vendeiro
-foi ter com o Domingos.
-
---Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por emquanto. Logo mais
-lhe direi o que deve fazer.
-
-E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou:
-
---Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar!
-
---Pois então o homem que case! responderam.
-
---Ou dê-nos pr'a cá o patife!
-
---Fugir é que não!
-
---Não foge! não deixa fugir!
-
---Ninguem se arrede!
-
-E, como a Marcianna lhe lançasse uma injuria mais fórte, ameaçando-o
-com o punho fechado, o taverneiro jurou que se ella insistisse com
-desaforos, a mandaria jogar lá fóra, junto com a filha, por um urbano.
-
---Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obrigação, que eu não posso
-perder tempo!
-
---Ponha-nos então pr'a cá o homem! exigio a mulata velha.
-
---Venha o homem! acompanhou o côro.
-
---É preciso dar-lhe uma lição!
-
---O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já lhe fallei... Está
-perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá o seu dote!
-Vão descansados; respondo por elle ou pelo dinheiro!
-
-Estas palavras apaziguaram os animos; o grupo das lavadeiras afrouxou;
-João Romão recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que
-não arredasse pé de casa antes de noite fechada.
-
---No mais ... acrescentou; póde tratar de vida nova! Nada o prende
-aqui. Estamos quites.
-
---Como? se o senhor ainda não me fez as contas?!...
-
---Contas? Que contas? O seu saldo não chega para pagar o dote da
-rapariga!...
-
---Então eu tenho de pagar um dote?!...
-
---Ou casar... Ah, meu amigo, este negocio de tres vintens é assim!
-Custa dinheiro! Agora, se você quizer, vá queixar-se á policia...
-Está no seu direito! Eu me explicarei em juizo!...
-
---Com que, não recebo nada?...
-
---E não principie com muita coisa, que lhe fecho a porta e deixo-o
-ficar ás turras lá fóra com esses damnados! Você bem vio como estão
-todos a seu respeito! E, se ha pouco não lhe arrancaram os figados,
-agradeça-o a mim! Foi preciso prometter dinheiro e tenho de cahir com
-elle, de certo! mas não é justo, nem eu admitto, que saia da minha
-algibeira, porque não estou disposto a pagar os caprichos de ninguem, e
-muito menos dos meus caixeiros!
-
---Mas...
-
---Basta! Se quizer, por muito favor, ficar aqui até á noite, ha de
-ficar calado; ao contrario, rua!
-
-E afastou-se.
-
-Marcianna resolveu não ir ao sub-delegado, sem saber que providencias
-tomaria o vendeiro. Esperaria até ao dia seguinte «para ver só!» O
-que n'esse ella fez foi dar uma boa lavagem na casa e arrumal-a muitas
-vezes, como costumava, sempre que tinha lá as suas zangas.
-
-O escandalo não deixou de ser, durante o dia, discutido um só
-instante. Não se fallava n'outra coisa; tanto que, quando, já á
-noite, Augusta e Alexandre receberam uma visita da comadre, a Leonie,
-era ainda esse o principal assumpto das conversas.
-
-Leonie, com as suas roupas exageradas e barulhentas de cocote á
-franceza, levantava rumor quando lá ia e punha expressões de assombro
-em todas as caras. O seu vestido de seda côr de aço, enfeitado de
-encarnado sangue de boi, curto, petulante, mostrando uns sapatinhos á
-moda com um salto de quatro dedos de altura; as suas luvas de vinte
-botões que lhe chegavam até aos sovacos; a sua sombrinha vermelha,
-sumida n'uma nuvem de rendas côr de rosa e com um grande cabo cheio de
-arabescos extravagantes; o seu pantafaçudo chapéo de immensas abas
-forradas de veludo escarlate, com um passaro inteiro grudado á copa;
-as suas joias caprichosas, scintillantes de pedras finas: os seus labios
-pintados de carmim; suas palpebras tingidas de violeta; o seu cabello
-artificialmente loiro; tudo isto contrastava tanto com as vestimentas,
-os costumes e as maneiras d'aquella pobre gente, que de todos os lados
-surgiam olhos curiosos a espreital-a pela porta da casinha do Alexandre;
-Augusta, ao ver a sua pequena, a Jujú, como vinha tão embonecada e
-catita, ficou com os d'ella arrazados d'agoa.
-
-Leonie trazia sempre muito bem calçada e vestida a afilhada, levando o
-capricho ao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que
-fazia as suas e pela mesma costureira; arranjava-lhe chapéos
-escandalosos como os d'ella e dava-lhe joias. Mas, n'aquelle dia, a
-grande novidade que Jujú apresentava era estar de cabellos loiros,
-quando os tinha castanhos por natureza. Foi caso para uma revolução na
-estalagem; a noticia correu logo de numero a numero, e muitos moradores
-se abalaram do commodo para ver a filhita da Augusta «com cabellos de
-franceza.»
-
-Tal successo pôz Leonie radiante de alegria. Aquella afilhada era o seu
-luxo, a sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansaços
-depravados; era o que aos seus proprios olhos a resgatava das
-abjecções do officio. Prostituta de casa aberta, presava todavia com
-admiração e respeito a honestidade vulgar da comadre; sentia-se
-honrada com a sua estima; cobria-a de obsequios de toda a especie. Nos
-instantes que estava ali, entre aquelles seus amigos simplorios, que a
-matariam de ridiculo em qualquer outro logar, nem ella parecia a mesma,
-pois até os olhos lhe mudavam de expressão. E não queria
-preferencias: assentava-se no primeiro banco, bebia agoa pela caneca de
-folha, tomava ao collo o pequenito da comadre e, ás vezes, descalçava
-os sapatos para enfiar os chinellos velhos que encontrasse debaixo da
-cama.
-
-Não obstante, o acatamento que lhe votavam Alexandre e a mulher não
-tinha limites; pareciam capazes dos maiores sacrificios por ella.
-Adoravam-na. Achavam-na boa de coração como um anjo, e muito linda nas
-suas roupas de espavento, com o seu rostinho redondo, malicioso e
-petulante, onde reluziam dentes mais alvos que um marfim.
-
-Jujú, com um embrulho de balas em cada mão, era carregada de casa em
-casa, passando de braço a braço e levada de bocca em bocca, como um
-idolo milagroso, que todos queriam beijar.
-
-E os elogios não cessavam:
-
---Rica pequena!...
-
---É um enlevo olhar a gente pr'o demoninho!
-
---É mesmo uma lindeza de criança!
-
---Uma criaturinha dos anjos!
-
---Uma boneca franceza!
-
---Uma menina Jesus!
-
-O pai acompanhava-a commovido, mas solemne sempre, parando a todo
-momento, como em procissão, á espera que cada qual desafogasse por sua
-vez o enthusiasmo pela criança. Silenciosamente risonho, com os olhos
-humidos, patenteava em todo o seu carão mulato, de bigode que parecia
-postiço, um ar condolente e estupido de um profundo reconhecimento por
-aquella fortuna, que Deus lhe dera á filha, enviando-lhe dos ceus o
-ideal das madrinhas.
-
-E, emquanto Jujú percorria a estalagem, conduzida em triumpho, Leonie
-na casa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças,
-discreteava sobre assumptos sérios, fallando compassadamente, cheia de
-inflexões de pessoa pratica e ajuisada, condemnando máos actos e
-desvarios, applaudindo a moral e a virtude. E aquellas mulheres, aliás
-tão alegres e vivazes, não se animavam, defronte d'ella, a rir nem
-levantar a voz, e conversavam a medo, cochichando, a tapar a bocca com a
-mão, tolhidas de respeito pela cocote, que as dominava na sua
-sobranceria de mulher loira vestida de seda e coberta de brilhantes. A
-das Dôres sentio-se orgulhosa, quando Leonie lhe pousou no hombro a
-mãozinha enluvada e rescendente, para lhe perguntar pelo seu homem.
-E não se fartavam de olhar para ella, de admiral-a; chegavam a
-examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as saias, apalpar-lhe as meias,
-levantando-lhe o vestido, com exclamações de assombro á vista de
-tanto luxo de rendas e bordados. A visita sorria, por sua vez commovida.
-Piedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da
-Nossa Senhora da Penha. E Nênêm, no seu enthusiasmo, disse que a
-invejava do fundo de coração, ao que a mãe lhe observou que não
-fosse besta. O Albino contemplava-a em extasis, de mão no queixo, o
-cotovelo no ar. A Rita Bahiana levára-lhe um ramalhete de rosas. Esta
-não se illudia com a posição da loureira, mas dava-lhe apreço talvez
-por isso mesmo e, em parte, porque a achava deveras bonita. «Ora! era
-preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar assim da pelle dos
-homens ricos aquella porção de joias e todo aquelle luxo de roupa por
-dentro e por fóra!»
-
---Não sei, filha! pregava depois a mulata, no pateo, a uma companheira;
-seja assim ou assado, a verdade é que ella passa muito bem de bocca e
-nada lhe falta: sua boa casa; seu bom carro para passeiar á tarde;
-theatro toda a noite; bailes quando quer e, aos domingos, corridas,
-regatas, pagodes fóra da cidade e dinheirama grossa para gastar á
-farta! Emfim, só o que afianço é que esta não está sujeita, como a
-Leocadia e outras, a pontapés e cachações de um bruto de marido! É
-dona das suas acções! livre como o lindo amor! Senhora do seu
-corpinho, que ella só entrega a quem muito bem lhe der na veneta!
-
---E Pombinha?... perguntou a visita. Não me appareceu ainda!...
-
---Ah! esclareceu Augusta. Não está ahi, foi á sociedade de dansa com
-a mãe.
-
-E, como a outra mostrasse na cara não ter comprehendido, explicou que a
-filha de Dona Isabel ia todas as terças, quintas e sabbados, mediante
-dois mil reis por cada noite, servir de dama n'uma sociedade em que os
-caixeiros do commercio aprendiam a dansar.
-
---Foi lá que ella conheceu o Costa... acrescentou.
-
---Que Costa?
-
---O noivo! Então a Pombinha já não foi pedida?
-
---Ah, sei...
-
-E a cocote perguntou depois, abafando a voz:
-
---E aquillo?... Já veio afinal?...
-
---Qual! Não é por falta de boa vontade da parte d'ellas, coitadas!
-Agora mesmo a velha fez uma nova promessa á Nossa Senhora da
-Annunciação ... mas não ha meio!
-
-D'ahi a pouco, Augusta apresentou-lhe uma chicara de café, que Leonie
-recusou por não poder beber. «Estava em uso de remedios...» Não
-disse porém quaes eram estes, nem para que molestia os tomava.
-
---Prefiro um copo de cerveja, declarou ella.
-
-E, sem dar tempo a que se oppuzessem, tirou da carteira urna nota de dez
-mil reis, que deu a Agostinho para ir buscar tres garrafas de Carls
-Berg.
-
-Á vista dos copos, liberalmente cheios, formou-se um silencio
-enternecido. A cocote distribuio-os por sua propria mão aos
-circumstantes, reservando um para si. Não chegavam. Quiz mandar buscar
-mais; não lh'o permittiram, objectando que duas e tres pessoas podiam
-beber juntas.
-
---Para que gastar tanto?... Que alma grande!
-
-O troco ficou esquecido, de proposito, sobre a commoda, entre uma
-infinita quinquilharia de coisas velhas e bem tratadas.
-
---Quando você, comadre, agora me apparece por lá?... quiz saber
-Leonie.
-
---Pr'a semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa. Agora, se a comadre tem
-precisão de alguma ... póde-se apromptar com mais pressa...
-
---Então é bom mandar-me toalhas e lençóes... Camisas de dormir, é
-verdade! tambem tenho poucas.
-
---Depois d'amanhã está tudo lá.
-
-E a noite ia se passando. Deram dez horas. Leonie, impaciente já pelo
-rapaz que ficára de ir buscal-a, mandou ver se elle por acaso estaria
-no portão, á espera.
-
---E aquelle mesmo que veio da outra vez com a comadre?...
-
---Não. É um mais alto. De cartola branca.
-
-Correu muita gente até á rua. O rapaz não tinha chegado ainda. Leonie
-ficou contrariada.
-
---Imprestavel!... resmungou. Faz-me ir sozinha por ahi ou incommodar
-alguem que me acompanhe!
-
---Porque a comadre não dorme aqui?... lembrou Augusta. Se quizer,
-arranja-se tudo! Não passará bem como em sua casa, mas uma noite corre
-depressa!...
-
-Não! não era possivel! Precisava estar em casa essa noite: no dia
-seguinte pela manhã iriam procural-a muito cedo.
-
-N'isto chegou Pombinha com Dona Isabel. Disseram-lhes logo á entrada
-que Leonie estava em casa do Alexandre, e a menina deixou a mãe um
-instante no numero 15 e seguio sozinha para ali, radiante de alegria.
-Gostavam-se muito uma da outra. A cocote recebeu-a com exclamações de
-agrado e beijou-a nos dentes e nos olhos repetidas vezes.
-
---Então, minha flôr, como está essa lindeza? perguntou-lhe, mirando-a
-toda.
-
---Saudades suas ... respondeu a moça, rindo bonito na sua bocca ainda
-pura.
-
-E uma conversa amiga, cheia de interesse para ambas, estabeleceu-se,
-isolando-as de todas as outras. Leonie entregou á Pombinha uma medalha
-de prata que lhe trouxéra; uma tetéia que valia só pela exquisitice,
-representando uma fatia de queijo com um camondongo em cima. Correu logo
-de mão em mão, levantando espantos e gargalhadas.
-
---Por um pouco que não me apanhas ... continuou a cocote na sua
-conversa com a menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado
-já, eu estaria longe.--E mudando de tom, a acarinhar-lhe os
-cabellos:--Porque não me appareces?... Não tens que receiar: minha
-casa é muito socegada... Já lá tem ido familias!...
-
---Nunca vou á cidade... É raro! suspirou Pombinha.
-
---Vai amanhã com tua mãe; jantam as duas commigo...
-
---Se mamãe deixar... Olha! ella ahi vem. Peça.
-
-Dona Isabel prometteu ir, não no dia seguinte, mas no outro immediato,
-que era domingo. E a palestra durou animada até que chegou, d'ahi a um
-quarto de hora, o rapaz por quem esperava Leonie. Era um moço de vinte
-e poucos annos, sem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e
-muito bem apessoado. A cocote, logo que o vio approximar-se, disse
-baixinho á menina:
-
---Não é preciso que elle saiba que vais lá domingo, ouviste?
-
-Jujú dormia. Resolveram não acordal-a; iria no dia seguinte.
-
-Na occasião em que Leonie partia pelo braço do amante, acompanhada
-até ao portão por um sequito de lavadeiras, a Rita, no pateo, beliscou
-a coxa do Jeronymo e soprou-lhe á meia voz:
-
---Não lhe cáia o queixo!...
-
-O cavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d'hombros.
-
---Aquella pr'a cá,nem pintada!
-
-E, para deixar bem patente as suas preferencias, virou o pé do lado e
-bateu com o tamanco na canella da mulata.
-
---Olha o bruto!... queixou-se esta, levando a mão ao logar da pancada.
-Sempre ha de mostrar que é gallego!
-
-
-
-
-X
-
-
-No outro dia a casa do Miranda estava em preparos de festa. Lia-se no
-«Jornal do Commercio» que S. Ex. fôra agraciado pelo governo
-portuguez como titulo de Barão do Freixal; e como os seus amigos se
-achassem prevenidos para ir comprimental-o no domingo, o negociante
-dispunha-se a recebel-os condignamente.
-
-Do cortiço, onde esta novidade causou sensação, viam-se nas janellas
-do sobrado, abertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou
-Izaura, a sacudirem tapetes e capachos, batendo-lhes em cima com um
-páo, os olhos fechados, a cabeça torcida para dentro por causa da
-poeira que a cada pancada se levantava, como fumaça de um tiro de
-peça. Chamaram-se novos criados para aquelles dias. No salão da
-frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia reboliço. Dona
-Estella, de penteador de cambraia enfeitado de laços côr de rosa, era
-lobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a dar as suas
-ordens, abanando-se com um grande leque; ou apparecia no patamar da
-escada do fundo, preoccupada em soerguer as saias contra as aguas sujas
-da lavagem, que escorriam para o quintal. Zulmira tambem ia e vinha, com
-a sua pallidez fria e humida de menina sem sangue. Henrique, de paletó
-branco, ajudava o Botelho nos arranjos da casa e, de instante a
-instante, chegava á janella, para namoriscar Pombinha, que fingia não
-dar por isso, toda embebida na sua costura, á porta do numero 15, numa
-cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a meia de
-seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; só de longo em longo
-espaço, ella desviava os olhos do serviço e erguia-os para o sobrado.
-Entretanto, a figura gorda e encanecida do novo Barão, sobrecasacado,
-com o chapéo alto derreado para traz na cabeça e sem largar o
-guarda-chuva, entrava da rua e atravessava a sala de jantar, seguia até
-á despensa, diligente e esbaforido, indagando se já tinha vindo isto e
-mais aquillo, provando dos vinhos que chegavam em garrafões, examinando
-tudo, voltando-se para a direita e para a esquerda, dando ordens,
-ralhando, exigindo actividade, e depois tornava a sahir, sempre
-apressado, e mettia-se no carro que o esperava á porta da rua.
-
---Toca! toca! Vamos ver se o fogueteiro apromptou os fogos!
-
-E viam-se chegar, quasi sem intermittencia, homens carregados de gigos
-de champanha, caixas de porto e bordeus, barricas de cerveja, cestos e
-cestos de mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus
-e leitões, canastras d'óvos, quartos de carneiro e de porco. E as
-janellas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente,
-sahido do fogo, e travessões, de barro e de ferro, com grandes peças
-de carne em vinha d'alhos, promptos para entrar no forno. Á porta da
-cozinha penduraram pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as
-pernas abertas, lembrando sinistramente uma criança a quem enforcassem
-depois de tirar-lhe a pelle.
-
-Todavia, cá em baixo, um caso palpitante agitava a estalagem: Domingos,
-o seductor da Florinda, desapparecêra durante a noite e um novo
-caixeiro o substituia ao balcão.
-
-O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe perguntava pelo evadido:
-
---Sei cá! Creio que não podia trazel-o pendurado ao pescoço!...
-
---Mas você disse que respondia por elle! repontou Marcianna, que
-parecia ter envelhecido dez annos n'aquellas ultimas vinte e quatro
-horas.
-
---De accordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?... É ter
-paciencia!
-
---Pois então ande com o dote!
-
---Que dote? Você está bebada?
-
---Bebada, hein?! Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de
-mostrar!
-
---Ora, não me amole!
-
-E João Romão virou-lhe as costas, para fallar á Bertoleza que se
-chegára.
-
---Deixa estar, malvado, que Deus é quem ha de punir por mim e por minha
-filha! exclamou a desgraçada.
-
-Mas o vendeiro afastou-se, indifferente ás phrases que uma ou outra
-lavadeira imprecava contra elle. Ellas, porém, já se não mostravam
-tão indignadas como na vespera; uma só noite rolada por cima do
-escandalo bastara para tirar-lhe o merito de novidade.
-
-Marcianna foi com a pequena á procura do sub-delegado e voltou
-aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer emquanto não
-apparecesse o delinquente. Mãe e filha passaram todo esse sabbado na
-rua, n'uma roda viva, da secretaria e das estações de policia para o
-escriptorio de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto
-dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais
-considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas
-as partes.
-
-Quando as duas, prostradas de cansaço, esbrazeadas de calôr, tornaram
-á tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali
-moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fructa
-que não conseguiram vender na cidade, Marcianna vinha tão furiosa que,
-sem dar palavra á filha e com os braços moidos de esbordoal-a, abrio
-toda a casa e correu a buscar agoa para baldear o chão. Estava
-possessa.
-
---Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto n'uma porcaria!
-Parece que nunca se limpa o diabo d'esta casa! É deixal-a fechada uma
-hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste!
-
-E notando que a pequena chorava:--Agora déste para chorar, hein?! mas
-na occasião do relaxamento havias de estar bem disposta!
-
-A filha soluçou.
-
---Cala-te, coisa ruim! Não ouviste?
-
-Florinda soluçou mais forte.
-
---Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço chorar com razão!
-
-E precipitou-se sobre uma acha de lenha.
-
-Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma só
-carreira o pateo da estalagem, fugindo em desfilada pela rua.
-
-Ninguem teve tempo de apanhal-a, e um clamor de gallinheiro assustado
-levantou-se entre as lavadeiras.
-
-Marcianna foi até ao portão, como uma doida e, comprehendendo que a
-filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos,
-olhando para o espaço. As lagrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E
-logo, sem transição, disparou da colera, que a convulsionava desde a
-manhã da vespera, para cahir n'uma dôr humilde e enternecida de mãe
-que perdeu o filho.
-
---Para onde iria ella, meu pai do ceu?...
-
---Pois você desd'hontem que bate na rapariga!... disse-lhe a Rita.
-Fugio-lhe, é bem feito! Que diabo! ella é de carne, não é de ferro!
-
---Minha filha!
-
---É bem feito! Agora chore na cama, que é logar quente!
-
---Minha filha! Minha filha! Minha filha!
-
-Ninguem quiz tomar o partido da infeliz, á excepção da cabocla velha,
-que foi collocar-se perto d'ella, fitando-a, immovel, com o seu
-desvairado olhar de bruxa feiticeira.
-
-Marcianna arrancou-se da abstração plangente em que cahira, para
-arvorar-se terrivel defronte da venda, apostrophando com a mão no ar e
-a carapinha desgrenhada:
-
---Este gallego é que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão!
-Se não me déres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa!
-
-A bruxa sorrio sinistramente ao ouvir estas ultimas palavras.
-
-O vendeiro chegou á porta e ordenou em tom secco á Marcianna que
-despejasse o numero 12.
-
---É andar! é andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um
-urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã, rua!
-
-Ah! elle esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de
-uma vez mandara Bertoleza á coisa mais immunda, apenas porque esta lhe
-fizera algumas perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinham visto
-assim, tão fora de si, tão cheio de repellões; nem parecia aquelle
-mesmo homem inalteravel, sempre calmo e methodico.
-
-E ninguem seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o facto
-de ter sido o Miranda agraciado com o titulo de Barão.
-
-Sim, senhor! aquelle taverneiro, na apparencia tão humilde e tão
-miseravel; aquelle sovina que nunca sahíra dos seus tamancos e da sua
-camisa de riscadinho de Angola; aquelle animal que se alimentava peior
-que os cães, para pôr de parte tudo, tudo, que ganhava ou extorquia;
-aquelle ente atrophiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus
-privilegios e sentimentos de homem; aquelle desgraçado, que nunca
-jamais amára senão ao dinheiro, invejava agora o Miranda, invejava-o
-devéras, com dobrada amargura do que soffrera o marido de Dona Estella,
-quando, por sua vez, o invejara a elle. Acompanhára-o desde que o
-Miranda viera habitar o sobrado com a familia; vira-o nas felizes
-occasiões da vida, cheio de importancia, cercado de amigos e rodeado de
-aduladores; vira-o dar festas e receber em sua casa as figuras mais
-salientes da praça e da politica; vira-o luzir, como um grosso pião de
-ouro, girando por entre damas da melhor e mais fina sociedade
-fluminense; vira-o metter-se em altas especulações commerciaes e
-sahir-se bem; vira seu nome figurar em varias corporações de gente
-escolhida e em subscripções, assignando bellas quantias; vira-o fazer
-parte de festas de caridade e festas de regosijo nacional; vira-o
-elogiado pela imprensa e acclamado como homem de vistas largas e grande
-talento financeiro; vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e nunca
-lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento! quando
-o vendeiro leu no «Jornal do Commercio» que o visinho estava
-barão--Barão!--sentio tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista
-por um instante se lhe apagou dos olhos.
-
---Barão!
-
-E durante todo o santo dia não pensou n'outra coisa. «Barão!... Com
-esta é que elle não contava!...» E, defronte da sua preoccupação,
-tudo se convertia em commendas e crachás; até os modestos dois vintens
-de manteiga, que media sobre um pedaço de papel de embrulho para dar ao
-freguez, transformavam-se, de simples mancha amarella, em opulenta
-insígnia de oiro cravejada de brilhantes.
-
-Á noite, quando se estirou na cama, ao lado da Bertoleza, para dormir,
-não poude conciliar o somno. Por toda a miseria d'aquelle quarto
-sordido; pelas paredes immundas, pelo chão enlameado de poeira e cebo,
-nos tectos funebremente velados pelas teias de aranha, estrellavam
-pontos luminosos que se iam transformando em gram-cruzes, em habitos e
-veneras de toda a ordem e especie. E em volta do seu espirito, pela
-primeira vez allucinado, um turbilhão de grandezas, que elle mal
-conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de
-seda e rendas, velludo e perolas, collos e braços de mulheres seminuas,
-num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos côr de oiro. E nuvens
-de caudas de vestido e abas de casaca lá iam, rodando deliciosamente,
-ao som de langorosas valsas e á luz de candelabros de mil vélas de
-todas as cores. E carruagens desfilavam reluzentes, com uma corôa á
-portinhola, o cocheiro tezo, de libré, sopeando parelhas de cavallos
-grandes. E interminaveis mezas estendiam-se, serpenteando a perder de
-vista, accumuladas de iguarias, n'uma encantadora confusão de flores,
-luzes, baixellas e crystaes, cercadas de um e de outro lado por luxuoso
-renque de convivas, de taça em punho, brindando o amphitryão.
-
-E, porque nada d'isso o vendeiro conhecia de perto, mas apenas pelo
-ruido namorador e fatuo, ficava deslumbrado com o seu proprio sonho.
-Tudo aquillo, que agora lhe deparava o delirio, até ahi só lhe passara
-pelos olhos ou lhe chegara aos ouvidos como o echo e reflexo de um mundo
-inattingivel e longinquo; um mundo habitado por seres superiores; um
-paraizo de gozos excellentes e delicados, que os seus grosseiros
-sentidos repelliam; um conjuncto harmonioso e discreto de sons e côres
-mal definidas e vaporosas; um quadro de manchas pallidas, sussurrantes,
-sem firmezas de tintas, nem contornos, em que se não determinava o que
-era petala de rosa ou aza de borboleta, murmurio de brisa ou ciciar de
-beijos.
-
-Não obstante, ao lado d'elle a crioula roncava, de papo para o ar,
-gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma mistura de suor com
-cebola crua e gordura podre.
-
-Mas João Romão nem dava por ella; só o que elle via e sentia era todo
-aquelle voluptuoso mundo inaccessivel vir descendo para a terra,
-chegando-se para o seu alcance, lentamente, accentuando-se. E as dubias
-sombras tomavam forma, e as vozes duvidosas e confusas transformavam-se
-em fallas distinctas, e as linhas desenhavam-se nitidas, e tudo ia se
-esclarecendo e tudo se aclarava, n'um reviver de natureza ao raiar do
-sol. Os tenues murmurios suspirosos desdobravam-se em orchestras de
-baile, onde se distinguiam instrumentos, e os surdos rumores indefinidos
-eram já animadas conversas, em que damas e cavalheiros discutiam
-politica, artes, litteratura e sciencia. E uma vida inteira, completa,
-real, descortinou-se amplamente defronte dos seus olhos fascinados; uma
-vida fidalga, de muito luxo, de muito dinheiro; uma vida em palacio,
-entre mobilias preciosas e objectos esplendidos, onde elle se via
-cercado de titulares millionarios, e homens de farda bordada, a quem
-tratava por tu, de igual para igual, pondo-lhes a mão no hombro. E ali
-elle não era, nunca fôra, o dono de um cortiço, de tamancos e em
-mangas de camisa; ali era o Sr. Barão! O Barão do oiro! o Barão das
-grandezas! o Barão dos milhões! Vendeiro? Qual! era o famoso, o enorme
-capitalista! o proprietario sem igual! o incomparavel banqueiro, em
-cujos capitaes se equilibrava a terra, como immenso globo em cima de
-columnas feitas de moedas de oiro. E vio-se logo montado a cavalleiras
-sobre o mundo, pretendendo abarcal-o com as suas pernas curtas; na
-cabeça uma corôa de rei e na mão um sceptro. E logo, de todos os
-cantos do quarto, começaram a jorrar cascatas de libras esterlinas; e a
-seus pés principiou a formar-se um formigueiro de pygmeus em grande
-movimento commercial; e navios descarregavam pilhas e pilhas de fardos
-e caixões marcados com as iniciaes do seu nome; e telegrammas faiscavam
-electricamente em volta da sua cabeça; e paquetes de todas as
-nacionalidades giravam vertiginosamente em torno do seu corpo de
-colosso, arfando e apitando sem tregoa; e rapidos comboios a vapor
-atravessavam-no todo, de um lado a outro, como se o cosessem com uma
-cadeia de wagons.
-
-Mas, de repente, tudo desappareceu com a seguinte phrase:
-
---Acorda, seu João, para ir á praia. São horas!
-
-Bertoleza chamava-o aquelle domingo, como todas as manhãs, para ir
-buscar o peixe, que ella tinha de preparar para os seus freguezes. João
-Romão, com medo de ser illudido, não confiava nunca dos empregados a
-menor compra a dinheiro; n'esse dia, porém, não se achou com animo de
-deixar a cama e disse á amiga que mandasse o Manoel.
-
-Seriam quatro da madrugada. Elle conseguio então passar pelo somno.
-
-Ás seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda resplandecia já.
-Içaram-se bandeiras nas janellas da frente; mudaram-se as cortinas,
-armaram-se florões de murta á entrada e recamaram-se de folhas de
-mangueira o corredor e a calçada. Dona Estella mandou soltar foguetes e
-queimar bombas ao romper da alvorada. Uma banda de musica, em frente á
-porta do sobrado, tocava desde essa hora. O Barão madrugara com a
-familia; todo de branco, com uma gravata de rendas, brilhantes no peito
-da camisa, chegava de vez em quando a uma das janellas, ao lado da
-mulher ou da filha, agradecendo para a rua; e limpava a testa com o
-lenço; accendia charutos, risonho, feliz, resplandecente.
-
-João Romão via tudo isto com o coração moído. Certas duvidas
-aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro. Qual seria o melhor e
-o mais acertado:--ter vivido como elle vivera até ali, curtindo
-privações, em tamancos e mangas de camisa; ou ter feito como o
-Miranda, comendo boas coisas e gosando á farta?... Estaria elle, João
-Romão, habilitado a possuir e desfrutar tratamento igual ao do
-visinho?... Dinheiro não lhe faltava para isso... Sim, de accordo! mas
-teria animo de gastal-o assim, sem mais nem menos?... sacrificar uma boa
-porção de contos de réis, tão penosamente accumulados, em troca de
-uma tetéia para o peito?... Teria animo de dividir o que era seu,
-tomando esposa, fazendo familia e cercando-se de amigos?... Teria animo
-de encher de finas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros,
-quando até ali fôra tão pouco condescendente para com a propria?...
-E, caso resolvesse mudar de vida radicalmente, unir-se a uma senhora bem
-educada e distincta de maneiras, montar um sobrado como o do Miranda e
-volver-se titular, estaria apto para o fazer?... poderia dar conta do
-recado?... Dependeria tudo isso sómente da sua vontade?... «Sem nunca
-ter vestido um paletó, como vestiria uma casaca?... com aquelles pés,
-deformados pelo diabo dos tamancos, criados á solta, sem meias, como
-calçaria sapatos de baile?... E suas mãos, callosas e mal tratadas,
-duras como as de um cavouqueiro, como se ageitariam com a luva?... E
-isso ainda não era tudo! O mais difficil seria o que tivesse de dizer
-aos seus convidados!... Como deveria tratar as damas e cavalheiros, em
-meio de um grande salão cheio de espelhos e cadeiras doiradas?... Como
-se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?...
-
-E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo
-forte de querer saltar e um medo invencivel de cahir e quebrar as
-pernas. Afinal, a dolorosa desconfiança de si mesmo e a terrivel
-convicção da sua impotencia para pretender outra coisa que não fosse
-ajuntar dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e
-com que fim, acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a
-sua ambição e despolindo o seu oiro. «Fôra urna besta!... pensou de
-si proprio, amargurado: uma grande besta!... Pois não! porque em tempo
-não tratára de habituar-se logo a certo modo de viver, como faziam
-tantos outros seus patricios e collegas de profissão?... Porque, como
-elles, não aprendêra a dansar? e não frequentára sociedades
-carnavalescas? e não fôra de vez em quando á rua do Ouvidor e aos
-theatros, e a bailes, e a corridas e a passeios?... Porque se não
-habituara com as roupas finas, e com o calçado justo, e com a bengala,
-e com o lenço, e com o charuto, e com o chapéo, e com a cerveja, e com
-tudo que os outros usavam naturalmente, sem precisar de privilegio para
-isso?... Maldita economia!»
-
---Teria gasto mais, é verdade?... Não estaria tão bem!... mas, ora
-adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quizesse!...
-Seria um homem civilisado!...
-
---Você deu hoje pr'a conversar com as almas, seu João?...
-perguntou-lhe Bertoleza, notando que elle fallava sozinho, distrahido do
-serviço.
-
---Deixe-me! Não me amole você tambem. Não estou bom hoje!
-
---Ó gentes! não fallei por mal!... Crédo!
-
---'Stá bem! Basta!
-
-E o seu máo humor aggravou-se pelo correr do dia. Começou a implicar
-com tudo. Arranjou logo uma péga, á entrada da venda, com o fiscal da
-rua: «Pois elle era lá algum parvo, que tivesse medo de ameaças de
-multas?... Se o bolas do fiscal esperava comel-o por uma perna, como
-costumava fazer com os outros, que experimentasse, para ver só quanto
-lhe custaria a festa!... E que lhe não rosnasse muito, que elle não
-gostava de cães á porta!... Era andar!» Pegou-se depois com a
-Machona, por causa de um gato d'esta, que, a semana passada, lhe fôra
-ao taboleiro do peixe frito. Parava defronte das tinas vazias,
-encolerisado, procurando pretextos para ralhar. Mandava, com um berro,
-sahirem as crianças do seu caminho: «Que praga de piolhos! Arre,
-demonio! Nunca vira gente tão damnada para parir! Pareciam ratas!» Deu
-um encontrão no velho Liborio.
-
---Sai tu tambem do caminho, fona de uma figa! Não sei que diabo fica
-fazendo cá no mundo um caco velho como este, que já não presta para
-nada!
-
-Protestou contra os gallos de um alfaiate, que se divertia a fazel-os
-brigar, no meio de grande roda enthusiasmada e barulhenta. Vituperou os
-italianos, porque estes, na alegre independencia do domingo, tinham á
-porta da casa uma esterqueira da cascas de melancia e laranja, que elles
-comiam tagarelando, assentados sobre a janella e a calçada.
-
---Quero isto limpo! bramava furioso. Está peior que um chiqueiro de
-porcos! Apre! Tomára que a febre amarella os lamba a todos! maldita
-raça de carcamanos! Hão de trazer-me isto asseiado ou vai tudo para o
-olho da rua! Aqui mando eu!
-
-Com a pobre velha Marcianna, que não tratára de despejar o numero 12,
-conforme a intimação da vespera, a sua furia tocou ao delirio. A
-infeliz, desde que Florinda lhe fugira, levava a choramingar e
-maldizer-se, monologando com persistencia maniaca. Não pregou olho
-durante toda a noite; sahíra e entrára na estalagem mais de vinte
-vezes, irrequieta, ululando, como uma cadella a quem roubaram o
-cachorrinho.
-
-Estava apatetada; não respondia ás perguntas que lhe dirigiam. João
-Romão fallou-lhe; ella nem sequer se voltou para ouvir. E o vendeiro,
-cada vez mais excitado, foi buscar dois homens e ordenou que esvaziassem
-o numero 12.
-
---Os tarecos fóra! e já! Aqui mandou eu! Aqui sou eu monarcha!
-
-E tinha gestos inflexiveis de despota.
-
-Principiou o despejo.
-
---Não! aqui dentro não! Tudo lá fóra! na rua! gritou elle, quando os
-carregadores quizeram depôr no pateo os trens de Marcianna. Lá fóra
-do portão! Lá fóra do portão!
-
-E a misera, sem oppôr uma palavra, assistia ao despejo, acocorada na
-rua, com os joelhos juntos, as mãos crusadas sobre as canellas,
-resmungando. Transeuntes paravam, a olhal-a. Formava-se já um grupo de
-curiosos. Mas ninguem entendia o que ella rosnava; era um rabujar
-confuso, interminavel, acompanhado de um unico gesto do cabeça, triste
-e automatico. Ali perto, o colchão velho, já rôto e destripado, os
-moveis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos uteis, as
-louças ordinarias e sujas do uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem,
-um ar indecoroso de interior de quarto de dormir, devassado em flagrante
-intimidade. E veio o homem dos cinco instrumentos, que aos domingos
-apparecia sempre; e fez-se o entra e sáe dos mercadores; e lavadeiras
-ganharam a rua em trajos de passeio, e os taboleiros de roupa engommada,
-que sabiam, cruzaram-se com os saccos de roupa suja, que entravam; e
-Marcianna não se movia do seu lugar, monologando. João Romão
-percorreu o numero 12, escancarando as portas, a dar arres e empurrando
-para fóra, com o pé, algum trapo ou algum frasco vazio que lá ficára
-abandonado; e a enxotada, indifferente a tudo, continuava a sussurrar
-funebremente. Já não chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados
-na sua muda fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ella de
-vez em quando, agora de novo compungidas, e faziam-lhe offerecimentos;
-Marcianna não respondia. Quizeram obrigal-a a comer; não houve meio. A
-desgraçada não prestava attenção a coisa alguma; parecia não dar
-pela presença de ninguem. Chamaram-na pelo nome repetidas vezes; ella
-persistia no seu inintelligivel monologo, sem tirar a vista de um ponto.
-
---Cruzes! parece que lhe deu alguma!
-
-A Augusta chegára-se tambem.
-
---Teria ensandecido?... perguntou á Rita, que, a seu lado olhava para a
-infeliz, com um prato de comida na mão. Coitada!
-
---Tia Marcianna! dizia a mulata. Não fique assim! Levante-se! Metta os
-seus trens pr'a dentro! Vá lá pr'a casa até encontrar arrumação!...
-
-Nada! O monologo continuava.
-
---Olhe que vai chover! Não tarda a cahir agoa! Já senti dois pingos na
-cara.
-
-Qual!
-
-A Bruxa, a certa distancia, fitava-a com estranheza, igualmente immovel,
-como por um effeito de suggestão.
-
-Rita affastou-se, porque acabava de chegar o Firmo, acompanhado pelo
-Porfiro, trazendo ambos embrulhos para o jantar. O amigo da das Dôres
-tambem veio. Deram tres horas da tarde. A casa do Miranda continuava em
-festa animada, cada vez mais cheia de visitas; lá dentro a musica quasi
-que não tomava folego, enfiando quadrilhas e valsas; moças e meninas
-dansavam na sala da frente, com muito riso; desarrolhavam-se garrafas a
-todo o instante; os criados iam e vinham, de carreira, da sala de jantar
-á despensa e á cozinha, carregados de copos em salvas; Henrique, suado
-e vermelho, apparecia de quando em quando á janella, impaciente por
-não ver Pombinha, que estava esse dia de passeio com a mãe em casa de
-Leonie.
-
-João Romão, depois de serrazinar na venda com os caixeiros e com a
-Bertoleza, tornou ao pateo da estalagem, queixando-se de que tudo ali ia
-muito mal. Censurou os trabalhadores da pedreira, nomeando o proprio
-Jeronymo, cuja força physica aliás o intimidára sempre. «Era um
-relaxamento aquella porcaria de serviço! Havia tres semanas que estavam
-com uma broca á tôa, sem atar, nem desatar; afinal ahi chegára o
-domingo e não se havia ainda lascado fogo! Uma verdadeira calaçaria! O
-tal seu Jeronymo, d'antes tão apurado, era agora o primeiro a dar o
-máo exemplo! perdia noites no samba! não largava os rastros da Rita
-Bahiana e parecia embeiçado por ella! Não tinha geito!» Piedade,
-ouvindo o vendeiro dizer mal do seu homem, saltou em defeza d'este com
-duas pedras na mão, e uma contenda travou-se, assanhando todos os
-animos. Felizmente, a chuva, cahindo em cheio, veio dispersar o
-ajuntamento que se tornava serio. Cada um correu para o seu buraco, n'um
-alvoroço exagerado; as crianças despiram-se e vieram cá fóra tomar
-banho debaixo das gotteiras, por pagode, gritando, rindo, saltando e
-atirando-se ao chão, a espernearem; fingindo que nadavam. E lá
-defronte, no sobrado, ferviam brindes, emquanto a agoa jorrava
-copiosamente, alagando o pateo.
-
-Quando João Romão entrou na venda, recolhendo-se da chuva, um caixeiro
-entregou-lhe um cartão do Miranda. Era um convite para lá ir á noite
-tomar uma chavena de chá.
-
-O vendeiro, a principio, ficou lisongeado com o obsequio, primeiro
-d'esse genero que em sua vida recebia; mas logo depois voltou-lhe a
-colera com maior impeto ainda. Aquelle convite irritava-o como um
-ultraje, uma provocação. «Porque o pulha o convidára, devendo saber
-que elle de certo lá não ia?... Para que, senão para o enfreneziar
-ainda mais do que já estava?!... Seu Miranda que fosse á tabúa com a
-sua festa e com os seus titulos!»
-
---Não preciso d'elle para nada!... exclamou o vendeiro. Não preciso,
-nem dependo de nenhum safardana! Se gostasse de festas, dava-as eu!
-
-No emtanto, começou a imaginar como sería, no caso que estivesse
-prevenido de roupa e acceitasse o convite; figurou-se bem vestido, de
-panno fino, com uma boa cadeia de relogio, uma gravata com alfinete de
-brilhante; e vio-se lá em cima, no meio da sala, a sorrir para os
-lados, prestando attenção a um, prestando attenção a outro,
-discretamente silencioso e affavel, sentindo que o citavam dos lados em
-voz mortiça e respeitosa como um homem rico, cheio de independencia. E
-adivinhava os olhares approbativos das pessoas sérias; os oculos
-curiosos das velhas assestados sobre elle, procurando ver se estaria ali
-um bom arranjo para uma das filhas de menor cotação.
-
-N'esse dia servio mal e porcamente aos freguezes; tratou aos repellões
-a Bertoleza e, quando, já ás cinco horas, deu com a Marcianna, que,
-uns negros por compaixão haviam arrastado para dentro da venda,
-disparatou:
-
---Ora bolas! Pr'a que diabo me mettem em casa este estupor?! Gosto de
-ver taes caridades com o que é dos outros! Isto aqui não é acoito de
-vagabundos!...
-
-E, como um policia, todo encharcado de chuva, entrasse para beber um
-gole de paraty, João Romão voltou-se para elle e disse-lhe:--Camarada,
-esta mulher é gira! não tem domicilio, e eu não hei de, quando fechar
-a porta, ficar com ella aqui dentro da venda!
-
-O soldado sahio e, d'ahi a coisa de uma hora, Marcianna era carregada
-para o xadrez, sem o menor protesto e sem interromper o seu monologo de
-demente. Os cacaréos foram recolhidos ao deposito publico por ordem do
-inspector do quarteirão. E a Bruxa era a unica que parecia deveras
-impressionada com tudo aquillo.
-
-Entretanto, a chuva cessou completamente, o sol reappareceu, como para
-despedir-se; andorinhas esgaivolaram no ar; e o cortiço palpitou
-inteiro na trefega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa
-engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma
-taça quebrar-se no pateo da estalagem, levantando protestos e
-surriadas.
-
-A noite chegou muito bonita, com um bello luar de lua cheia, que
-começou ainda com o crepusculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo
-que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do
-Miranda.
-
-Foi um forrobodó valente. A Rita Bahiana essa noite estava de veia para
-a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dansára com tanta graça e
-tamanha lubricidade!
-
-Tambem cantou. E cada verso que vinha da sua bocca de mulata era um
-arulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bebado de volupia,
-enroscava-se todo ao violão; e o violão e elle gemiam com o mesmo
-gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos
-sensuaes, n'um desespero de luxuria que penetrava até ao tutano com
-lingoas finissimas de cobra.
-
-Jeronymo não poude conter-se: no momento em que a bahiana, offegante de
-cansaço, cahio exhausta, assentando-se ao lado d'ella, o portuguez
-segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão:
-
---Meu bem! se você quizer estar commigo, dou uma perna ao demo!
-
-O mulato não ouvio, mas notou o cochicho e ficou, de má cara, a rondar
-disfarçadamente o rival.
-
-O canto e a dansa continuavam todavia, sem afrouxar. Entrou a das
-Dôres. Nênêm, mais uma amiga sua, que fôra passar o dia com ella,
-rodavam de mãos nas cadeiras, rebolando em meio de uma volta de palmas
-cadenciadas, no acompanhamento do rhythmo requebrado da musica.
-
-Quando o marido de Piedade disse um segundo cochicho á Rita, Firmo
-precisou empregar grande esforço para não ir logo ás do cabo.
-
-Mas, lá pelo meio do pagode, a bahiana cahira na imprudencia de
-derrear-se toda sobre o portuguez e soprar-lhe um segredo, requebrando
-os olhos. Firmo, de um salto, aprumou-se então defronte d'elle,
-medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jeronymo,
-tambem posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual.
-
-Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo silencio. Ninguem se
-mexeu do logar em que estava. E, no meio da grande roda, illuminados
-amplamente pelo capitoso luar de Abril, os dois homens, perfilados
-defronte um de outro, olhavam-se em desafio.
-
-Jeronymo era alto, espadaúdo, construcção de touro, pescoço de
-Hercules, punho de quebrar um côco com um murro: era a força
-tranquilla, o pulso de chumbo. O outro--franzino, um palmo mais baixo
-que o portuguez, pernas e braços seccos, agilidade de maracajá: era a
-força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobresalto do
-primeiro instante. Um, solido e resistente; o outro, ligeiro e
-destemido; mas ambos corajosos.
-
---Senta! Senta!
-
---Nada de rôlo!
-
---Segue a dansa! gritaram em volta.
-
-Piedade erguêra-se para arredar o seu homem d'ali.
-
-O cavouqueiro afastou-a com um empurrão, sem tirar a vista de cima do
-mulato.
-
---Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!... rosnou elle.
-
---Dar-te um banho de fumaça, gallego ordinario! respondeu Firmo, frente
-a frente; agora avançando e recuando, sempre com um dos pés no ar, e
-bamboleando todo o corpo e meneando os braços, como preparado para
-agarral-o.
-
-Jeronymo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o adversario com um
-socco armado; o cabra, porém, deixou-se cahir de costas, rapidamente,
-firmando-se nas mãos, o corpo suspenso, a perna direita levantada; e o
-sôco passou por cima, varando o espaço, emquanto o portuguez apanhava
-no ventre um pontapé inesperado.
-
---Canalha! berrou possesso; e ia precipitar-se em cheio sobre o mulato,
-quando uma cabeçada o atirou no chão.
-
---Levanta-te, que não dou em defuntos! exclamou o Firmo, de pé,
-repetindo a sua dansa de todo o corpo.
-
-O outro erguêra-se logo e, mal se tinha equilibrado, já uma rasteira o
-tombava para a direita, emquanto da esquerda elle recebia uma tapona na
-orelha. Furioso, desferio novo sôco, mas o capoeira deu para traz um
-salto de gato e o portuguez sentio um pontapé nos queixos.
-
-Espirrou-lhe sangue da bocca e das ventas. Então fez-se um clamor
-medonho. As mulheres quizeram metter-se de permeio, porém o cabra as
-emborcava com rasteiras rapidas, cujo movimento de pernas apenas se
-percebia. Um horrivel sarilho se formava. João Romão fechou ás
-pressas as portas da venda e trancou o portão da estalagem, correndo
-depois para o logar da briga. O Bruno, os mascates, os trabalhadores da
-pedreira, e todos os outros que tentaram segurar o mulato, tinham rolado
-em torno d'elle, formando-se uma roda limpa, no meio da qual o terrivel
-capoeira, fóra de si, doido, reinava, saltando a um tempo para todos os
-lados, sem consentir que ninguem se approximasse. O terror arrancava
-gritos agudos. Estavam já todos assustados, menos a Rita que, a certa
-distancia, via, de braços crusados, aquelles dois homens a se baterem
-por causa d'ella; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os labios. A lua
-escondêra-se; mudara o tempo: o céo, de limpo que estava, fizéra-se
-côr de lousa; sentia-se um vento humido de chuva. Piedade berrava,
-reclamando policia; tinha levado um troca-queixos do marido, porque
-insistia em tiral-o da lucta. As janellas do Miranda accumulavam-se de
-gente. Ouviam-se apitos, soprados com desespero.
-
-N'isto, echoou na estalagem um bramido de féra enraivecida: Firmo
-acabava de receber, sem esperar, uma formidavel cacetada na cabeça. É
-que Jeronymo havia corrido á casa e armára-se com o seu varapáo
-minhoto. E então o mulato, com o rosto banhado de sangue, refilando as
-prezas e espumando de colera, erguêra o braço direito, onde se vio
-scintillar a lamina de uma navalha.
-
-Fez-se uma debandada em volta dos dois adversarios, estrepitosa, cheia
-de pavor. Mulheres e homens atropellavam-se, cahindo uns por cima dos
-outros. Albino perdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em
-soluços, que lhe iam matar o homem; a das Dôres soltava censuras e
-maldições contra aquella estupidez de se destriparem por causa de
-entre-pernas de mulher; a Machona, armada com um ferro de engommar,
-jurava abrir as fuças a quem lhe désse um segundo coice como acabava
-ella de receber um nas ancas; Augusta enfiára pela porta do fundo da
-estalagem, para atravessar o capinzal e ir á rua ver se descobria o
-marido, que talvez estivesse de serviço no quarteirão. Por esse lado
-acudiam curiosos, e o pateo enchia-se de gente de fóra. Dona Isabel e
-Pombinha, de volta da casa de Leonie, tiveram difficuldade em chegar ao
-numero 15, onde, mal entraram, fecharam-se por dentro, praguejando a
-velha contra a desordem e lamentando-se da sorte que as lançou
-n'aquelle inferno. Em tanto, no meio de uma nova roda, encintada pelo
-povo, o portuguez e o brasileiro batiam-se.
-
-Agora a lucta era regular: havia igualdade de partidos, porque o
-cavouqueiro jogava o páo admiravelmente; jogava-o tão bem quanto o
-outro jogava a sua capoeiragem. Embalde Firmo tentava alcançal-o;
-Jeronymo, sopesando ao meio a grossa vara na mão direita, girava-a com
-tal pericia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por
-uma teia impenetravel e sibilante. Não se lhe via a arma, só se ouvia
-um zunido do ar simultaneamente cortado em todas as direcções.
-
-E, ao mesmo tempo que se defendia, atacava. O brasileiro tinha já
-recebido páoladas na testa, no pescoço, nos hombros, nos braços, no
-peito, nos rins e nas pernas. O sangue inundava-o inteiro; elle rugia e
-arfava, iroso e cansado, investindo ora com os pés, ora com a cabeça,
-e livrando-se d'aqui, livrando-se d'ali, aos pulos e ás cambalhotas.
-
-A victoria pendia para o lado do portuguez. Os espectadores
-acclamavam-no já com enthusiasmo; mas, de subito, o capoeira mergulhou,
-n'um relance, até ás canellas do adversario e surgio-lhe rente dos
-pés, grudado n'elle, rasgando-lhe o ventre com uma navalhada.
-
-Jeronymo soltou um mugido e cahio de borco, segurando os intestinos.
-
---Matou! Matou! Matou! exclamaram todos com assombro.
-
-Os apitos esfuziaram mais assanhados.
-
-Firmo varou pelos fundos do cortiço e desappareceu no capinzal.
-
---Pega! Pega!
-
---Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se de joelhos sobre o
-corpo ensanguentado do marido. Rita viera tambem de carreira lançar-se
-ao chão junto d'elle, para lhe afagar as barbas e os cabellos.
-
---É preciso o doutor! supplicou aquella, olhando para os lados á
-procura de uma alma caridosa que lhe valesse.
-
-Mas n'isto um estardalhaço de formidaveis pranchadas estrugio no
-portão da estalagem. O portão abalou com estrondo e gemeu.
-
---Abre! Abre! reclamavam de fóra.
-
-João Romão atravessou o pateo, como um general em perigo, gritando a
-todos:
-
---Não entra a policia! Não deixa entrar! Aguenta! Aguenta!
-
---Não entra! Não entra! repercutio a multidão em côro.
-
-E todo o cortiço ferveu que nem uma panella ao fogo.
-
---Aguenta! Aguenta!
-
-Jeronymo foi carregado para o quarto, a gemer, nos braços da mulher e
-da mulata.
-
---Aguenta! Aguenta!
-
-De cada casulo espipavam homens armados de páo, achas de lenha, varaes
-de ferro. Um empenho collectivo os agitava agora, a todos, n'uma
-solidariedade briosa, como se ficassem deshonrados para sempre se a
-policia entrasse ali pela primeira vez. Emquanto se tratava de uma
-simples lucta entre dois rivaes, estava direito! «Jogassem lá as
-cristãs, que o mais homem ficaria com a mulher!» mas agora tratava-se
-de defender a estalagem, a communa, onde cada um tinha a zelar por
-alguem ou alguma coisa querida.
-
---Não entra! Não entra!
-
-E berros atroadores respondiam ás pranchadas, que lá fóra se repetiam
-ferozes.
-
-A policia era o grande terror d'aquella gente, porque, sempre que
-penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropicio: á capa de
-evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos,
-quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão
-de odio velho.
-
-E, emquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam de
-costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas,
-arrancavam giráos, arrastavam carroças, restos de colchões e saccos
-de cal, formando ás pressas uma barricada.
-
-As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia, estalava, começava a
-abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados
-atraz d'ella. Os que entraram de fora por curiosidade não puderam sahir
-e viam-se mettidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram. A Machona
-terrivel fungára as saias e empunhava na mão o seu ferro de engommar.
-A das Dôres, que ninguem dava nada por ella, era uma das mais duras e
-que parecia mais empenhada na defeza.
-
-Afinal o portão lascou; um grande rombo abrio se logo; cahiram taboas;
-e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos
-a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um
-sacco de cal, despejado sobre elles, desnorteou-os.
-
-Principiou então o sarilho grosso. Os sabres não podiam alcançar
-ninguem por entre a trincheira; ao passo que os projectis, arremeçados
-lá de dentro, desbaratavam o inimigo. Já o sargento tinha a cabeça
-partida e duas praças abandonavam o campo, á falta de ar.
-
-Era impossivel invadir aquelle baluarte com tão poucos elementos, mas a
-policia teimava, não mais por obrigação que por necessidade pessoal
-de desforço. Semelhante resistencia os humilhava. Se tivessem
-espingardas fariam fogo. O unico d'elles que conseguio trepar á
-barricada, rolou de lá abaixo sob uma carga de páo e teve de ser
-carregado para a rua pelos companheiros. O Bruno, todo sujo de sangue,
-estava agora armado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem,
-linha na cabeça uma barretina de urbano.
-
---Fóra os morcegos!
-
---Fóra! Fóra!
-
-E, a cada exclamação, tome pedra! tome lenha! tome cal! tome fundo de
-garrafa!
-
-Os apitos estridulavam mais e mais fortes.
-
-N'essa occasião, porém, Nênêm gritou, correndo na direcção da
-barricada.
-
---Acudam aqui! Acudam aqui! Ha fogo no numero 12. Está sahindo fumaça!
-
---Fogo!
-
-A este grito um panico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um
-incendio lamberia aquellas cem casinhas emquanto o diabo esfrega um
-olho!
-
-Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar o que era seu.
-E os policias, aproveitando o terror dos adversarios, avançaram com
-impeto, levando na frente o que encontravam e penetrando emfim no
-infernal reducto, a dar espadeiradas para a direita e para a esquerda,
-como quem destroça uma boiada. A multidão atropellava-se,
-desembestando n'um alarido. Uns fugiam á prisão; outros cuidavam em
-defender a casa. Mas as praças, loucas de colera, mettiam dentro as
-portas e iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingança.
-
-N'isto, roncou no espaço a trovoada. O vento do norte zunio mais
-estridente e um grande pé d'agoa desabou cerrado.
-
-
-
-
-XI
-
-
-A Bruxa, por influencia suggestiva da loucura de Marcianna, peiorou do
-juizo e tentou incendiar o cortiço.
-
-Emquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ella, com todo o
-disfarce, carregava palha e sarrafos para o numero 12 e preparava uma
-fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as consequencias foram do
-mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando como
-aquella ao fogo, não escaparam á devastação da policia. Algumas
-ficaram completamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se
-não viera o providencial agoaceiro apagar tambem o outro incendio ainda
-peior, que, de parte a parte, lavrava nos animos. A policia retirou-se
-sem levar nenhum preso. «A ir um, iriam todos á estação! Deus te
-livre! Demais, para que? o que ella queria fazer, fez! Estava
-satisfeita!»
-
-Apezar do empenho do João Romão, ninguem conseguio descobrir o autor
-da sinistra tentativa, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar
-olho, depois de reaccommodar, entre plangentes lamentações, o que se
-salvou do destroço. O tempo levantou de novo á meia noite. Ao romper
-da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista
-minuciosa no pateo, avaliando e carpindo, inconsolavel e furioso, o seu
-prejuizo. De vez em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam
-os urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito giráo
-quebrado, lampeões em fanicos, hortas e cercas arrazadas; o portão da
-frente e a taboleta foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para
-cobrir o damno, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem,
-augmentando-lhes o aluguel dos commodos e o preço dos generos. Vio-se
-n'uma dobadoira durante o dia inteiro; desde pela manhã déra logo os
-providencias para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa
-possivel: mandou buscar novas tinas; fabricar novos giráos e concertar
-os quebrados; pôz gente a remendar o portão e a taboleta. Ao meio dia
-teve de comparecer á presença do subdelegado na secretaria da policia.
-Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias; muitos do cortiço o
-acompanharam, quer por espirito de camaradagem, quer por simples
-curiosidade.
-
-Uma verdadeira patuscada esse passeio á cidade! Parecia uma romaria;
-algumas mulheres levavam os seus pequenitos ao collo; um magote de
-italianos ia á frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns
-cantavam. Ninguem tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e
-altercaram em grande troça, commentando com gargalhadas e chalaças
-gordas o que iam encontrando, a chamar a attenção das ruas por onde
-desfilava a ruidosa farandula.
-
-A sala da policia encheu-se.
-
-O interrogatorio, exclusivamente dirigido a João Romão, era respondido
-por todos a um só tempo, a despeito dos protestos e das ameaças da
-autoridade, que se vio tonta. Nenhum d'elles nada esclarecia e todos se
-queixavam da policia, exagerando as perdas recebidas na vespera.
-
-A respeito de como se travara o conflicto e quem o provocara, o
-taverneiro declarou que nada podia saber ao certo, porque na occasião
-se achava ausente da estalagem. Do que tinha certeza era de que as
-praças lhe invadiram a propriedade e poseram em cacos tudo o que
-encontraram, como se aquillo lá fosse roupa de francez!
-
---Bem feito! bradou o subdelegado. Não resistissem!
-
-Um côro de respostas assanhadas levantou-se para justificar a
-resistencia. «Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam os
-morcegos, quando lhes não sabia alguem pela frente! Esbodegavam até á
-ultima, só pelo gostinho de fazer mal! Pois então uma creatura, porque
-estava a divertir-se um bocado com os amigos, havia de ser aperreada que
-nem boi ladrão?... Tinha lá geito?... Os rôlos era sempre a policia
-quem os levantava com as suas furias! Não se mettesse ella na vida de
-quem vivia socegado no seu canto, e não sahiria tanto barulho!...»
-Como de costume, o espirito de collectividade, que unia aquella gente em
-circulo de ferro, impedio que transpirasse o menor vislumbre de
-denuncia. O subdelegado, depois de dirigir-se inutilmente a um por um,
-despachou o bando, que fez logo a sua retirada, no meio de uma
-alacridade mais quente ainda que a da ida.
-
-Lá no cortiço, de portas a dentro, podiam esfaquear-se a vontade, que
-nenhum d'elles, e muito menos a victima, seria capaz de apontar o
-criminoso; tanto que o medico, que, logo depois da invasão da policia,
-desceu da casa do Miranda á estalagem, para soccorrer Jeronymo, não
-conseguio arrancar d'este o menor esclarecimento sobre o motivo da
-navalhada. «Não fôra nada!... Não fôra de proposito!.. Estavam a
-brincar e succedêra aquillo!... Ninguem tivera a menor intenção de
-fazer-lhe móssa!...»
-
-Rita mostrou-se de uma incansavel solicitude para com o ferido. Foi ella
-quem correu a buscar os remedios, quem servio de ajudante ao medico e
-quem servio de enfermeiro ao doente. Muitos lá iam, demorando-se um
-instante, para dar fé; ella, porém, desde que Jeronymo se achou
-operado, não lhe abandonou a cabeceira; ao passo que Piedade, afflicta
-e atarantada, não fazia senão chorar e arreliar-se.
-
-A mulata, essa não chorava; mas a sua physionomia tinha uma profunda
-expressão de magoa enternecida. Agora toda ella se sentia apegar-se
-áquelle homem bom e forte; áquelle gigante inoffensivo; áquelle
-hercules tranquillo, que mataria o Firmo com uma punhada, mas que, na
-sua boa fé, se deixára navalhar pelo facinora. «E tudo por causa
-d'ella! só por ella!» Seu coração de mulher rendia-se captivo a
-semelhante dedicação ensanguentada e dolorosa. E elle, o misero,
-interrompia as contracções do rosto para sorrir defronte dos olhos
-enamorados da bahiana, feliz n'aquella desgraça que lhe permittia gosar
-dos seus carinhos. E tomava-lhe as mãos, e cingia-lhe a cintura,
-resignado e commovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas a dizer bem
-claro, na sua dôr silenciosa e quieta de animal ferido, que a amava
-muito, que a amava loucamente.
-
-Rita affagava-o, já sem a menor sombra de escrupulo, tratando-o por tu,
-ameigando-lhe os cabellos sujos de sangue com a polpa macia da sua mão
-feminil. E, ali mesmo em presença da mulher d'elle, só faltava
-beijal-o com a boca, que com os olhos o devorava de beijos ardentes e
-sequiosos.
-
-Depois da meia noite dada, ella e Piedade ficaram sozinhas velando o
-enfermo. Deliberou-se que este iria pela manhã para a Ordem de Santo
-Antonio, de que era irmão. E, com effeito, no dia immediato, emquanto o
-vendeiro e seu bando andavam lá ás voltas com a policia, e o resto do
-cortiço formigava, tagarelando em volta do concerto das tinas e
-giráos, Jeronymo, ao lado da mulher e da Rita, seguia dentro de um
-carro para o hospital.
-
-As duas só voltaram de lá á noite, cahindo de fadiga. De resto, toda
-a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo pela cama, se bem que
-n'esse dia as lavadeiras em geral gazeassem o trabalho; as que tinham
-roupa com mais pressa foram lavar fóra ou arrastaram bacias de banho
-para debaixo das bicas, á falta de melhor vasilha para o serviço.
-Discutio-se a campanha da vespera sem variar de assumpto. Aqui era um
-que lembrava as suas proezas com os urbanos, descrevendo enthusiasmado
-os pormenores da lucta; ali, outro repetia, cheio de empafia, os
-desaforos que dissera depois nas bochechas da autoridade; mais adiante
-trocavam se queixas e recriminações; cada qual, mulheres e homens,
-soffrêra o seu prejuizo ou a sua arranhadura, e mostravam entre si,
-numa febre de indignação os objectos partidos ou a parte do corpo
-escoriada.
-
-Mas ás nove da noite já não havia viva alma no pateo da estalagem. A
-venda fechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza atirou-se
-ao colchão, estrompada; João Romão recolheu-se junto d'ella, porém
-não conseguio dormir: sentia calafrios e pontadas na cabeça. Chamou
-pela amiga, a gemer, e pedio-lhe que lhe désse alguma coisa para suar.
-Suppunha estar com febre.
-
-A crioula só descansou quando, muitas horas adiante, depois de
-mudar-lhe a roupa, o vio pegar no somno; e, d'ahi a pouco, ás quatro da
-madrugada, erguia-se ella, com estalos de juntas, a bocejar, fungando no
-seu estremunhamento pesadão, e pigarreando forte. Acordou o caixeiro
-para ir ao mercado; gargarejou um pouco d'agoa á torneira da cozinha e
-foi fazer fogo para o café dos trabalhadores, riscando phosphoros e
-accendendo cavacos num fogareiro, donde começaram a borbotar grossos
-novelos de fumo espesso.
-
-Lá fóra clareava já, e a vida renascia no cortiço. A lucta de todos
-os dias continuava, como se não houvera interrupção. Principiava o
-borborinho. Aquella noite bem dormida punha-os a todos de bom humor.
-
-Pombinha, entretanto, nessa manhã acordara abatida e nervosa, sem animo
-de sahir dos lençóes. Pedio café á mãe, bebeu, e tornou a
-abraçar-se nos travesseiros, escondendo o rosto.
-
---Não te sentes melhor hoje, minha filha?... perguntou-lhe Dona Isabel,
-apalpando-lhe a testa. Febre não tens.
-
---Ainda sinto o corpo molle ... mas não é nada... Isto passa!...
-
---Foi de tanto gelo, que tomaste em casa da madama!... Não te dizia?...
-Agora, o melhor é dar-te um escalda-pés!...
-
---Não! não, por amor de Deus! D'aqui a pouco estou em pé!
-
-Ás oito horas, com effeito, levantava-se e fazia, indolentemente, o
-alinho da cabeça, defronte do seu modesto lavatorio de ferro. Dir-se-ia
-sem forças para a menor coisa; toda ella transpirava uma contemplativa
-melancolia de convalescente; havia uma doce expressão dolorosa na
-limpidez crystallina de seus olhos de moça enferma; um pobre sorriso
-pallido a entreabrir-lhe as petalas da boca, sem lhe alegrar os labios,
-que pareciam resequidos á mingoa de beijos de amor; assim a delicada
-planta murcha, languece e morre, se carinhosa borboleta não vae sacudir
-sobre ella as azas prenhes de fecundo e doirado pollen.
-
-O passeio á casa de Leonie fizera-lhe muito mal. Trouxe de lá
-impressões e intimos vexames, que nunca mais se apagariam por toda a
-sua vida.
-
-A cocote recebeu-a de braços abertos, radiante com apanhal-a junto de
-si, n'aquelles divans fôfos e traidores, entre todo aquelle luxo
-extravagante e requintado, proprio para os vicios grandes. Ordenou á
-criada que não deixasse entrar ninguem, ninguem, nem mesmo o Bebê, e
-assentou-se ao lado da menina, bem juntinho uma da outra, tomando-lhe as
-mãos, fazendo-lhe uma infinidade de perguntas, e pedindo lhe beijos,
-que saboreava gemendo, de olhos fechados.
-
-Dona Isabel suspirava tambem, mas d'outro modo; na sua parva
-comprehensão do conforto, aquelles impertinentes espelhos, aquelles
-moveis casquilhos e aquellas cortinas escandalosas arrancavam-lhe
-saudosas recordações do bom tempo e avivavam a sua impaciencia por
-melhor futuro.
-
-Ai! assim Deus quizesse ajudal-a!...
-
-Ás duas da tarde, Leonie, por sua propria mão, servio ás visitas um
-pequeno lunch de _foie-gras_, presunto e queijo, acompanhado de
-champanha, gelo e agoa de Seltz; e, sem se descuidar um instante da
-rapariga, tinha para ella extremas solicitudes de namorado: levava-lhe
-a comida á boca, bebia do seu copo, apertava-lhe os dedos por debaixo
-da mesa.
-
-Depois da refeição, Dona Isabel, que não estava habituada a tomar
-vinho, sentio vontade de descansar o corpo; Leonie franqueou-lhe um bom
-quarto, com boa cama, e, mal percebeu que a velha dormia, fechou a porta
-pelo lado de fóra, para melhor ficar em liberdade com a pequena.
-
-Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
-
---Vem cá, minha flôr!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se
-cahir sobre um divan. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca
-por ti!
-
-E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que suffocavam a
-menina, enchendo-a de espanto e de um instinctivo temor, cuja origem a
-pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.
-
-A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão.
-
---Descansemos nós tambem um pouco... propôz, arrastando-a para a
-alcova.
-
-Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa,
-com vontade de affastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento,
-tentou reatar o fio da conversa, que ellas sustentavam um pouco antes,
-á meza, em presença de Dona Isabel. Leonie fingia prestar-lhe
-attenção e nada mais fazia do que affagar-lhe a cintura, as coxas e o
-collo. Depois, como que distrahidamente, começou a desabotoar-lhe o
-corpinho do vestido.
-
---Não! Para que?... Não quero despir-me...
-
---Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...
-
---Estou bem assim. Não quero!
-
---Que tolice a tua! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens
-medo?... Olha! Vou dar o exemplo!
-
-E, n'um relance, desfez-se da roupa, e proseguio na campanha.
-
-A menina, vendo-se descomposta, crusou os braços sobre o seio, vermelha
-de pudor.
-
---Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupilla
-tremula.
-
-E, apezar dos protestos, das supplicas e até das lagrimas da infeliz,
-arrancou-lhe a ultima vestimenta, e precipitou-se contra ella, a
-beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os labios o roseo bico do
-peito.
-
---Oh! Oh! Deixa d'isso! Deixa d'isso! reclamava Pombinha, estorcendo-se
-em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal,
-que enlouqueciam a prostituta.
-
---Que mal faz?... Estamos brincando...
-
---Não! não! balbuciou a victima, repellindo-a.
-
---Sim! Sim! insistio Leonie, fechando-a entre os braços, como entre
-duas columnas e pondo em contacto com o d'ella todo o seu corpo nú.
-
-Pombinha arfava, reluctando; mas o attrito d'aquellas duas grossas pomas
-irrequietas sobre o seu mesquinho peito de donzella impubere, e o roçar
-vertiginoso d'aquelles cabellos asperos e crespos nas estações mais
-sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a polvora do
-sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.
-
-Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em
-crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de
-luxuria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de egoa, bufando e
-relinchando.
-
-E mettia-lhe a lingoa tersa pela bocca e pelas orelhas, e esmagava-lhe
-os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o
-lobulo dos hombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabello, como se
-quizesse arrancal-o aos punhados. Até que, com um assomo mais forte,
-devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, seccos,
-curtos, muito agudos, e a final desabou para o lado, exanime, inerte, os
-membros atirados n'um abandono de bebado, soltando de instante a
-instante um soluço estrangulado.
-
-A menina voltára a si e torcêra-se logo em sentido contrario á
-adversaria, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o seu pranto,
-envergonhada e corrida.
-
-A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir abrir os olhos, procurou
-animal-a, ameigando-lhe a nuca e as espaduas. Mas Pombinha parecia
-inconsolavel, e a outra teve de erguer-se a meio e puxal-a como uma
-criança para o seu collo, onde ella foi occultando o rosto, a soluçar
-baixinho.
-
---Não chores assim, meu amor!...
-
-Pombinha continuou a soluçar.
-
---Vamos! Não quero ver-te d'este modo!... Estás zangada commigo?...
-
---Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzella,
-desgalgando o leito para vestir-se.
-
---Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres mal com a
-tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!...
-
---Deixe-me!
-
---Vem cá, Pombinha!
-
---Não vou! Já disse!
-
-E vestia-se com movimentos de raiva. Leonie saltara para junto d'ella e
-pôz-se a beijar-lhe, á força, os ouvidos e o pescoço, fazendo-se
-muito humilde, adulando-a, compromettendo-se a ser sua escrava e
-obedecer-lhe como um cachorrinho, com tanto que aquella tyranna não se
-fosse assim zangada.
-
---Faço tudo! tudo! mas não fiques mal commigo! Ah! se soubesses como
-eu te adoro!...
-
---Não sei! Largue-me!
-
---Espera!
-
---Que amolação! Oh!
-
---Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus! Pombinha acabava de
-encasar o ultimo botão do corpinho, e repuxava o pescoço e sacudia os
-braços, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas Leonie cahíra-lhe aos
-pés, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias.
-
---Olha!... Ouve!...
-
---Deixe-me sahir!
-
---Não! Não has de ir zangada, ou faço aqui um escandalo dos diabos!
-
---É que mamãe já acordou com certeza!...
-
---Que acordasse!
-
-Agora a meretriz defendia a porta da alcova.
-
---Oh! meu Deus! Deixe-me sahir!
-
---Não deixo, sem fazermos as pazes...
-
---Que aborrecimento!
-
---Dá-me um beijo!
-
---Não dou!
-
---Pois então não sabes!
-
---Eu grito!
-
---Pois grita! Que me importa?
-
---Arrede-se d'ahi, por favor!...
-
---Faz as pazes...
-
---Não estou zangada, creia! Estou é indisposta... Não me sinto boa!
-
---Mas eu faço questão do beijo!
-
---Pois bem! Está ahi!
-
-E beijou-a.
-
---Não quero assim! Foi dado de má vontade!...
-
-Pombinha deu-lhe outro.
-
---Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me! É um instante!
-
-Em tres tempos, lavou-se ligeiramente no bidé, endireitou o penteado
-defronte do espelho, n'um movimento rapido de dedos, e empoou-se, e
-perfumou-se, e enfiou camisa, anagoa e penteador, tudo com uma
-expedição de quem está habituada a vestir-se muitas vezes por dia. E,
-prompta, correu uma vista d'olhos pela menina, desenrugou-lhe a saia,
-concertou-lhe melhor os cabellos e, readquerindo o seu ar tranquillo de
-mulher ajuisada, tomou-a pela cintura e levou-a vagarosamente até á
-sala de jantar, para tomarem vermouth com gazoza.
-
-O jantar foi ás seis e meia. Correu frio, não tanto per parte de
-Pombinha, que aliás se mostrava bem incommodada, como porque Dona
-Isabel, dormindo até o momento de a chamarem para mesa, sentia-se
-aziada com o _foie-gras_. A dona da casa, todavia não se forrou a
-desvelos e fez por alegral-as rindo e contando anecdotas burlescas. Ao
-café appareceu Jujú, que a criada levára a passeiar desde logo depois
-do almoço, e uma affectação de agrados levantou-se em torno da
-pequerrucha. Leonie pôz-se a conversar com ella, fallando como
-criança, dizendo-lhe que mostrasse a Dona Isabel «o seu papatinho
-novo!»
-
-Mais tarde, no terraço, emquanto fumava um cigarro, tomou a mão de
-Pombinha e metteu-lhe no dedo um annel com um diamante cercado de
-perolas. A menina recusou o mimo, formalmente. Foi precisa a
-intervenção da velha para que ella consentisse em aceital-o.
-
-Ás oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho para a
-estalagem. Durante toda a viagem Pombinha parecia preoccupada e triste.
-
---Que tens tu?... perguntou-lhe a mãe duas vezes.
-
-E de ambas a filha respondeu:
-
---Nada! aborrecimento...
-
-No pouco que dormio essa noite, que foi a do barulho com a policia, teve
-sonhos agitados e passou mal todo o dia seguinte, com mollezas de febre
-e dôres no utero. Não arredou pé de casa, nem para ver os destroços
-do conflicto. A noticia do desfloramento e da fuga de Florinda, como a
-da loucura da velha Marcianna, produziram-lhe grande abalo nos nervos.
-
-Na manhã immediata, a despeito de fazer-se forte, torceu o nariz ao
-pobre almoço que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe
-as dôres uterinas, não vivas, mas constantes. Não teve animo de pegar
-na costura, e um livro que ella tentou ler foi por varias vezes
-repellido.
-
-As onze para o meio dia era tal o seu constrangimento e era tal o seu
-desasocego entre as apertadas paredes do numero 15, que, máo grado os
-protestos da velha, sahio a dar uma volta por detraz do cortiço, á
-sombra dos bambús e das mangueiras.
-
-Uma irresistivel necessidade de estar só, completamente só, uma
-afflicção de conversar comsigo mesma, a apartavam do seu estreito
-quarto suffocante, tão tristonho e tão pouco amigo. Pungia-lhe na
-brancura da alma virgem um arrependimento incisivo e negro das torpezas
-da ante-vespera; mas, lubrificada por essa recordação, toda a sua
-carne ria e rejubilava-se, presentindo delicias que lhe pareciam
-reservadas para mais tarde, junto de um homem amado; dentro d'ella
-balbuciavam desejos, até ahi mudos e adormecidos; e mysterios
-desvendavam-se no segredo do seu corpo, enchendo-a de surpreza e
-mergulhando-a em fundas concentrações de extasis. Um ineffavel
-quebranto afrouxava-lhe a energia e destendia-lhe os musculos com uma
-embriaguez de flôres traiçoeiras.
-
-Não poude resistir: assentou-se debaixo das arvores, um cotovelo em
-terra, a cabeça reclinada contra a palma da mão.
-
-Na doce tranquillidade d'aquella sombra morna, ouviam-se retinir
-distantes a picareta dos homens da pedreira e o martello dos ferreiros
-na forja. E o canto dos trabalhadores, ora mais claro, ora mais
-duvidoso, acompanhando o marulhar dos ventos, ondeava no espaço,
-melancolico e sentido, como um côro religioso de penitentes.
-
-O calor tirava do capim um cheiro sensual.
-
-A moça fechou as palpebras, vencida pelo seu delicioso entorpecimento,
-e estendeu-se de todo no chão, de barriga para o ar, braços e pernas
-abertas.
-
-Adormeceu.
-
-Começou logo a sonhar que em de redor ia tudo se fazendo de um côr de
-rosa, a principio muito leve e transparente, depois mais carregado, e
-mais, e mais, até formar-se em torno d'ella uma floresta vermelha, côr
-de sangue, onde largos tinhorões rubros se agitavam lentamente.
-
-E vio-se núa, toda núa, exposta ao céo, sob a tepida luz de um sol
-embriagador, que lhe batia de chapa sobre os seios.
-
-Mas, pouco a pouco, seus olhos, posto que bem abertos, nada mais
-enxergavam do que uma grande claridade palpitante, onde o sol, feito de
-uma só mancha reluzente, oscillava como um pendulo phantastico.
-
-Entretanto, notava que, em volta da sua nudez aloirada pela luz, iam-se
-formando ondulantes camadas sanguineas, que se agitavam, desprendendo
-aromas de flor. E, rodando o olhar, percebeu, cheia de encantos, que se
-achava deitada entre petalas gigantescas, no regaço de uma rosa
-interminavel, em que seu corpo se atufava como em ninho de velludo
-carmezim, bordado de oiro, fofo, macio, trescalante e morno.
-
-E suspirando, espreguiçou-se toda n'um enleio de volupia ascetica.
-
-Lá do alto o sol a fitava obstinadamente, enamorado das suas mimosas
-fórmas de menina.
-
-Ella sorrio para elle, requebrando os olhos, e então o fogoso astro
-tremeu e agitou-se, e, desdobrando-se, abrio-se de par em par em duas
-azas e principiou a fremir, attrahido e perplexo. Mas de repente, nem
-que se de improviso lhe inflammassem os desejos, precipitou-se lá de
-cima agitando as azas, e veio, enorme borboleta de fogo, adejar
-luxuriosamente em torno da immensa rosa, em cujo regaço a virgem
-permanecia com os peitos franqueados.
-
-E a donzella, sempre que a borboleta se approximava da rosa, sentia-se
-penetrar de um calor estranho, que lhe accendia, gotta a gotta, todo o
-seu sangue de moça.
-
-E a borboleta, sem parar nunca, doidejava em todas as direcções, ora
-fugindo rapida, ora se chegando lentamente, medrosa de tocar com as suas
-antennas de braza a pelle delicada e pura da menina.
-
-Esta, delirante de desejos, ardia por ser alcançada e empinava o collo.
-Mas a borboleta fugia.
-
-Uma sofreguidão lubrica, desensoffrida, apoderou-se da moça; queria a
-todo custo que a borboleta pousasse n'ella, ao menos um instante, um só
-instante, e a fechasse n'um rapido abraço dentro das suas azas
-ardentes. Mas a borboleta, sempre doida, não conseguia deter-se; mal se
-adiantava, fugia logo, irrequieta, desvairada de volupia.
-
---Vem! Vem! supplicava a donzella, apresentando o corpo. Pousa um
-instante em mim! Queima-me a carne no calor das tuas azas!
-
-E a rosa, que a tinha ao collo, é que parecia fallar e não ella. De
-cada vez que a borboleta se avisinhava com as suas negaças, a flôr
-arregaçava-se toda, dilatando as petalas, abrindo o seu pistillo
-vermelho e avido d'aquelle contacto com a luz.
-
---Não fujas! Não fujas! Pousa um instante!
-
-A borboleta não pousou; mas, n'um delirio, convulsa de amor, sacudio as
-azas com mais impeto e uma nuvem de poeira doirada desprendeu-se sobre a
-rosa, fazendo a donzella soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto sob
-aquelle effluvio luminoso e fecundante.
-
-N'isto, Pombinha soltou um ai formidavel e despertou sobresaltada,
-levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de susto
-ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentio o grito da puberdade sahir-lhe
-afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente.
-
-A natureza sorrio-se commovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze
-badaladas do meio dia. O sol, victorioso, estava a pino e, por entre a
-copagem negra da mangueira, um dos seus raios descia em fio de oiro sobre
-o ventre da rapariga, abençoando a nova mulher que se formava para o
-mundo.
-
-
-
-
-XII
-
-
-Pombinha ergueu-se de um pulo e abrio de carreira para casa. No logar em
-que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos. A
-mãe lavava á tina, ella chamou-a com instancia, enfiando cheia de
-alvoroço pelo numero 15. E ahi, sem uma palavra, ergueu a saia do
-vestido e expôz a Dona Isabel as suas fraldas ensanguentadas.
-
---Veio!! perguntou a velha com um grito arrancado do fundo d'alma.
-
-A rapariga meneou a cabeça affirmativamente, sorrindo feliz e
-enrubecida.
-
-As lagrimas saltaram dos olhos da lavadeira.
-
---Bemdito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo! exclamou ella,
-cahindo de joelhos defronte da menina e erguendo para Deus o rosto e as
-mãos tremulas.
-
-Depois abraçou-se ás pernas da filha e, no arrebatamento da sua
-commoção, beijou-lhe repetidas vezes a barriga e parecia querer beijar
-tambem aquelle sangue abençoado, que lhes abria os horizontes da vida,
-que lhes garantia o futuro; aquelle sangue bom, que descia do ceu, como
-a chuva bemfazeja sobre uma pobre terra esterilisada pela secca.
-
-Não se poude conter: emquanto Pombinha mudava de roupa, sahio ella ao
-pateo, apregoando aos quatro ventos a linda noticia. E, se não fôra a
-formal opposição da menina, teria passeado em triumpho a camisa
-ensanguentada, para que todos a vissem bem e para que todos a adorassem,
-entre hymnos de amor, que nem a uma veronica sagrada de um Christo.
-
---Minha filha é mulher! Minha filha é mulher!
-
-O facto abalou o coração do cortiço: as duas receberam parabens e
-felicitações. Dona Isabel accendeu velas de cêra á frente do seu
-oratorio, e nesse dia não pegou mais no trabalho, ficou estonteada, sem
-saber o que fazia, a entrar e a sahir de casa, radiante de ventura. De
-cada vez que passava junto da filha dava-lhe um beijo na cabeça e em
-segredo recommendava-lhe todo o cuidado. «Que não apanhasse humidade!
-que não bebesse coisas frias! Que se agazalhasse o melhor possivel e,
-no caso de sentir o corpo molle, que se mettesse logo na cama! Qualquer
-imprudencia poderia ser fatal!...» O seu empenho era pôr o João da
-Costa, no mesmo instante, ao corrente da grande novidade e pedir-lhe que
-marcasse logo o dia do casamento; a menina entendia que não, que era
-feio, mas a mãe arranjou um portador e mandou chamar o rapaz com
-urgencia. Elle appareceu á tarde. A velha convidára gente para jantar;
-matou duas gallinhas, comprou garrafas de vinho, e, á noite, servio,
-ás nove horas, um chá com biscoitos. Nênêm e a das Dôres
-apresentaram-se em trajos de festa; fez-se muita ceremonia; conversou-se
-em voz baixa, formando todos em volta de Pombinha uma solicita cadeia de
-agrados, uma respeitosa preoccupação de bons desejos, a que ella
-respondia sorrindo commovida, como que exhalando da frescura da sua
-virgindade um victorioso aroma de flôr que desabrocha.
-
-E a partir d'esse dia Dona Isabel mudou completamente. As suas rugas
-alegraram-se; ouviam-na cantarolar pela manhã, emquanto varria a casa e
-espanava os moveis.
-
-Não obstante, depois do tremendo conflicto que acabou em navalhada, uma
-tristeza ia minando uma grande parte da estalagem. Já se não faziam as
-quentes noitadas de violão e dança ao relento. A Rita andava
-aborrecida e concentrada, desde que Jeronymo partio para a ordem; Firmo
-fôra intimado pelo vendeiro a que lhe não puzesse, nunca mais, os pés
-em casa, sob pena de ser entregue á policia; Piedade, que vivia a dar
-ais, carpindo a ausencia do marido, ainda ficou mais consumida com a
-primeira visita que lhe fez ao hospital: encontrou-o frio e sem uma
-palavra de ternura para ella, deixando até perceber a sua impaciencia
-por ouvir fallar da outra, d'aquella maldita mulata dos diabos, que, no
-fim de contas, era a unica culpada de tudo aquillo e havia de ser a sua
-perdição e mais do seu homem! Quando voltou de lá atirou-se á cama,
-a soluçar sem alivio, e n'essa noite não poude pregar olho, senão já
-pela madrugada. Um negro desgosto comia-a por dentro, como tuberculos de
-tisica, e tirava-lhe a vontade para tudo que não fosse chorar.
-
-Outro que tambem, coitado! arrastava a vida muito triste, era o Bruno. A
-mulher, que a principio não lhe fizera grande falta, agora o torturava
-com a sua distancia; um mez depois da separação, o desgraçado já
-não podia esconder o seu soffrimento e ralava-se de saudades. A Bruxa,
-a pedido delle tirou a sorte nas cartas e disse-lhe mysteriosamente que
-Leocadia ainda o amava.
-
-Só Dona Isabel e a filha andavam devéras satisfeitas. Essas sim! nunca
-tinham tido uma epoca tão boa e tão esperançosa. Bombinha abandonara
-o curso de dança; o noivo ia agora visital-a, invariavelmente, todas as
-noites; chegava sempre ás sete horas e demorava-se até ás dez;
-davam-lhe café numa chicara especial, de porcelana; ás vezes jogavam a
-bisca, e elle mandava buscar, de sua algibeira, uma garrafa de cerveja
-allemã, e ficavam a conversar os tres, cada qual defronte do seu copo,
-a respeito dos projectos de felicidade commum; outras vezes o Costa,
-sempre muito respeitador, muito bom rapaz, accendia o seu charuto da
-Bahia e deixava-se cahir n'uma pasmaceira, a olhar para a moça, todo
-embebido n'ella. Pombinha punha alegrias n'aquelles serões com as suas
-garrulices de pomba que prepara o ninho. Depois do seu idyllio com o sol
-fazia-se muito amiga da existencia, sorvendo a vida em haustos largos,
-como quem acaba de sahir de uma prisão e saborêa o ar livre. Volvia-se
-carnuda e cheia, sazonava que nem uma fructa que nos provoca o appetite
-de morder. Dona Isabel, ao lado d'elles, toscanejava do meio para o fim
-da visita, traçando cruzes na bocca e afugentando os bocejos com
-voluptuosas pitadas da sua insigne tabaqueira.
-
-Fixado o dia do casamento, o assumpto inalteravel da conversa era o
-enxoval da noiva e a casinha que o Costa preparava para a lua de mel.
-Iriam todos tres morar juntos; teriam cozinheiro e uma criada que
-lavasse e engommasse. O rapaz trouxera peças de linho e de algodão, e
-ali, á luz amarellado velho candieiro de kerosene, emquanto a mãe
-talhava camisas e lençóes, a filha cosia valentemente n'uma machina
-que lhe offerecêra o noivo.
-
-Uma vez, eram duas da tarde, ella pregava rendas n'uma fronha de
-almofada, quando o Bruno, cheio de hesitações, a coçar os cabellos da
-nuca, pallido e mal asseiado, disse-lhe, encostando-se á hombreira da
-porta:
-
---Ora, nham Pombinha ... tinha-lhe um servicinho a pedir ... mas
-vosmecezinha anda agora tão tomada com o seu enxoval e não ha de
-querer dar-se a maços...
-
---Que queres tu, Bruno?
-
---N'é nada, é que precisava que vosmecezinha me fizesse uma carta
-pr'aquelle diabo ... mas já se vê que não tem cabimento... Fica pr'ao
-depois!
-
---Uma carta para tua mulher, não é?
-
---Coitada! É mais doida do que ruim! Pois se a gente até dos brutos
-tem pena!...
-
---Pois estás servido. Queres para já?
-
---Não vale estorvar! Continue seu servicinho! Eu volto pr'outra vez!...
-
---Não! anda cá, entra! O que se tem de fazer, faz-se logo!
-
---Deus lhe pague! vosmecezinha é mesmo un anjo! Não sei a quem se
-chegue a gente ao depois que já lh'a não tivermos cá!...
-
-E continuou a louvar a bondade da rapariga, emquanto esta, toda
-serviçal, preparava numa mezinha redonda os seus apetrechos de
-escripta.
-
---Vamos lá, Bruno! que queres tu mandar dizer á Leocadia?
-
---Diga-lhe, antes de mais nada, que aquillo que quebrei d'ella, que dou
-outro! Que ella fez mal em quebrar tambem o que era meu, mas que fecho
-os olhos! Agoas passadas não movem moinho! Que sei que ella agora está
-desempregada e aos páos; que está a dever para mais de mez na
-estalagem; mas que não precisa dar cabeçadas: que me mande cá o
-senhorio, que me entendo com elle. Que acho bom que ella deixe a casa da
-crioula onde come, porque a mulher já se queixou e já disse, a quem
-quiz ouvir, que aquillo lá não era ponto de vadios e mulheres de má
-vida! Que ella, se tivesse um pouco de tino nem precisava estar ás
-migalhas dos outros, que eu na forja fazia para a trazer de barriga
-cheia e mais aos filhos que Deus mandasse...--Principiava a tomar
-calor--Que a culpada de tudo isto é só ella e mais ninguem! tivesse um
-bocado de juizo e não precisava envergonhar a cara por ahi...
-
---Isso já está dito, Bruno!
-
---Pois arrume-lhe outra vez, a ver se ella toma brio!
-
---E que mais?
-
---Que lhe não quero mal, nem lhe rogo pragas, mas que é bem feito que
-ella amargue um pouco do pão do diabo, pr'a ficar sabendo que uma
-mulher direita não deve olhar senão pr'a seu marido; e que, se ella
-não fosse tão maluca...
-
---Já ahi vae você repetir inda uma vez a mesma cantiga!...
-
---Mas diga-lhe sempre, tenha paciencia, nham Pombinha!... Que ainda
-estaria aqui, commigo, como d'antes, sem aguentar repellões
-d'estranhos!...
-
---Adiante, Bruno!
-
---Diga-lhe...
-
-E interrompeu-se.
-
-Ora, que mais elle tinha a dizer?...
-
-Coçou a cabeça.
-
---Veja, Bruno, você é quem sabe o que precisa escrever a sua mulher...
-
---Diga-lhe...
-
-Não se animava.
-
---Que...
-
---Diga-lhe... Não! não lhe diga mais nada!...
-
---Posso então fechar a carta?...
-
---Está bom ... resmungou o ferreiro, decidindo-se. Vá lá! Diga-lhe
-que...
-
---Que...
-
-Houve um silencio, no qual o desgraçado parecia arrancar de dentro uma
-phrase que, no emtanto, era a unica idéa que o levava a dirigir-se á
-mulher. Afinal, depois de coçar mais vivamente a cabeça, gaguejou com
-a voz estrangulada de soluços:
-
---Diga-lhe que ... se ella quizer tornar pra minha companhia ... que
-póde vir... Eu esqueço tudo!
-
-Pombinha, impressionada pela transformação da voz d'elle, levantou o
-rosto e vio que as lagrimas lhe desfilavam duas a duas, tres a tres,
-pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa
-estranha, ella, que escrevera tantas cartas n'aquellas mesmas
-condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos
-trabalhadores do cortiço, sobresaltava-se agora com os desalentados
-soluços do ferreiro.
-
-Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas
-entranhas ella sentio o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos
-para essas violentas miserias dolorosas, a que os poetas davam o bonito
-nome de amor. A sua intellectualidade, tal como seu corpo, desabrochara
-inesperadamente, attingindo de subito, em pleno desenvolvimento, uma
-lucidez que a deliciava e surprendia. Não a commovêra tanto a
-revolução physica. Como que n'aquelle instante o mundo inteiro se
-despia á sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os
-segredos das suas paixões. Agora, encarando as lagrimas do Bruno, ella
-comprehendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade d'esses
-animaes fortes, de musculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se
-deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão
-da fêmea.
-
-Aquella pobre flôr de cortiço, escapando á estupidez do meio em que
-desabotoou, tinha de ser fatalmente victima da propria intelligencia. Á
-mingoa de educação, seu espirito trabalhou á revelia, e atraiçoou-a,
-obrigando-a a tirar da substancia caprichosa da sua phantasia de moça
-ignorante e viva, a explicação de tudo que lhe não ensinaram a ver e
-sentir.
-
-Bruno retirou-se com a carta. Pombinha pousou os cotovelos na meza e
-tulipou as mãos contra o rosto, a scismar nos homens.
-
-Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre elles, a tal
-ponto, que os infelizes, carregados de deshonra e de ludibrio, ainda
-vinham covardes e supplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ella
-lhes fizera?...
-
-E surgio-lhe então uma idéa bem clara da sua propria força e do seu
-proprio valor.
-
-Sorrio.
-
-E no seu sorriso já havia garras.
-
-Uma alluvião de scenas, que ella jamais tentára explicar e que até
-ahi jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora
-nitidas e transparentes. Comprehendeu como era que certos velhos
-respeitaveis, cujas photographias Leonie lhe mostrara no dia que
-passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, captivos e
-submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a
-propria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o
-corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse
-outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no emtanto
-fôra posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo
-ridiculo que, para gosar um pouco, precisava tirar da sua mesma illusão
-a substancia do seu goso; ao passo que a mulher, a senhora, a dona
-d'elle, ia tranquillamente desfrutando o seu imperio, endeosada e
-querida, prodigalisando martyrios, que os miseraveis aceitavam
-contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacaveis mãos que
-os estrangulavam.
-
---Ah, homens! homens!... sussurrou ella de envolta com um suspiro.
-
-E pegou de novo na costura, deixando que o pensamento vadiasse á solta,
-emquanto os dedos iam machinalmente pregando as rendas n'aquella
-almofada, em que a sua cabeça teria de repousar para receber o primeiro
-beijo genital.
-
-N'um só lance de vista, como quem apanha uma esphera entre as pontas de
-um compasso, medio com as antennas da sua perspicacia mulheril toda
-aquella esterqueira, onde ella, depois de se arrastar por muito tempo
-como larva, um bello dia acordou borboleta á luz do sol. E sentio
-diante dos olhos aquella massa informe de machos e femeas, a comichar, a
-fremir concupiscente, suffocando-se uns aos outros. E vio o Firmo e o
-Jeronymo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadella da
-rua; e vio o Miranda, lá defronte, subalterno ao lado da esposa infiel,
-que se divertia a fazel-o dançar a seus pés seguro pelos chifres; e
-vio o Domingos, que fora da venda, furtando horas ao somno, depois de um
-trabalho de burro, e perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com
-sacrificio, só para ter um instante de luxuria entre as pernas de uma
-desgraçadinha irresponsavel e tola; e tornou a ver o Bruno a soluçar
-pela mulher; e outros ferreiros e hortelões, e cavouqueiros, e
-trabalhadores de toda a especie, um exercito de bestas sensuaes, cujos
-segredos ella possuiu, cujas intimas correspondencias escrevera dia a
-dia, cujos corações conhecia como as palmas das mãos, porque a sua
-escrivaninha era um pequeno confissionario, onde toda a salsugem e todas
-as fezes d'aquella praia de despejo foram arremessadas espumantes de
-dôr e aljofradas de lagrimas.
-
-E na sua alma enfermiça e aleijada, no seu espirito rebelde de flôr
-mimosa e peregrina criada n'um monturo, violeta infeliz, que um estrume
-forte de mais para ella atrophiára, a moça presentio bem claro que
-nunca daria de si ao marido que ia ter uma companheira amiga, leal e
-dedicada; presentio que nunca o respeitaria sinceramente como a um ser
-superior por quem damos a vida; que nunca lhe votaria enthusiasmo, e por
-conseguinte nunca lhe teria amor; d'esse de que ella se sentia capaz de
-amar alguem, se na terra houvéra homens dignos disso, Ah! não o amaria
-de certo, porque o Costa era como os outros, passivo e resignado,
-aceitando a existencia que lhe impunham as circumstancias, sem ideaes
-proprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de ambição, sem
-vicios tragicos, sem capacidade para grandes crimes; era mais um animal
-que viera ao mundo para propagar a especie; um pobre diabo emfim que já
-a adorava cegamente e que mais tarde, com ou sem razão, derramaria
-aquellas mesmas lagrimas, ridiculas e vergonhosas, que elle vira
-decorrendo em quentes camarinhas pelas asperas e mal tratadas barbas do
-marido de Leocadia.
-
-E não obstante, até então, aquelle matrimonio era o seu sonho
-doirado. Pois agora, nas vesperas de obtel-o, sentia repugnancia em
-dar-se ao noivo, e, se não fôra a mãe, seria muito capaz de dissolver
-o ajuste.
-
-Mas, d'ahi a uma semana, a estalagem era toda em reboliço desde logo
-pela manhã. Só se fallava em casamento; havia em cada olhar um
-sanguineo reflexo de noites nupciaes. Desfolharam-se rosas á porta da
-Pombinha. Ás onze horas parou um carro á entrada do cortiço com uma
-senhora gorda, vestida de seda côr de perola. Era a madrinha, que vinha
-buscar a noiva para a egreja de São João Baptista. A cerimonia estava
-marcada para o meio dia. Toda esta formalidade embatucava os
-circumstantes, que se alinhavam immoveis defronte do numero 15, com as
-mãos crusadas atraz, o rosto paralysado por uma commoção respeitosa;
-alguns sorriam enternecidos; quasi todos tinham os olhos resumbrados
-d'agoa.
-
-Pombinha surgio á porta de casa, já prompta para desferir o grande
-vôo; de véo e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia
-commovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o seu
-ramalhete de flores artificiaes. Dona Isabel chorava como criança,
-abraçando as amigas, uma por uma.
-
---Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um bom
-parto, quando vier a primeira barriga!
-
-A noiva sorria, de olhos baixos. Uma fimbria de desdem toldava-lhe a
-rosada candura de seus labios. Encaminhou-se para o portão, cercada
-pela bênção de toda aquella gente, cujas lagrimas rebentaram afinal,
-feliz cada um por vel-a feliz e em caminho da posição que lhe competia
-na sociedade.
-
---Não! aquella não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre,
-retorcendo o reluzente bigode. Seria lastima se a deixassem ficar aqui!
-
-O velho Liborio, cascalhando uma risada decrepita, queixou-se de que o
-maganão do Costa lhe passara a perna, roubando-lhe a namorada.
-
-Ingrata! Elle que estava disposto a fazer uma asneira!
-
-Nênêm deu uma corrida até á noiva, na occasião em que esta chegava
-á carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pedio-lhe com empenho que
-se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua grinalda de flores de
-larangeira.
-
---Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto medo
-de ficar solteira...! É todo o meu susto!
-
-
-
-
-XIII
-
-
-Á proporção que alguns locatarios abandonavam a estalagem, muitos
-pretendentes surgiam disputando os commodos desalugados. Delporto e
-Pompeu foram varridos pela febre amarella e tres outros italianos
-estiveram em risco de vida. O numero dos hospedes crescia, os casulos
-subdividiam-se em cubiculos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam
-despejando crianças com uma regularidade de gado procreador. Uma
-familia, composta de mãe viuva e cinco filhas solteiras, das quaes
-d'estas a mais velha tinha, trinta annos e a mais moça quinze, veio
-occupar a casa que Dona Isabel esvasiou poucos dias depois do casamento
-de Pombinha.
-
-Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o «Cabeça de
-Gato.» Figurava como seu dono um portuguez que tambem tinha venda, mas
-o legitimo proprietario, era um abastado conselheiro, homem de gravata
-lavada, a quem não convinha, por decoro social, apparecer em semelhante
-genero de especulações. E João Romão, estalando de raiva, vio que
-aquella nova republica da miseria promettia ir adiante e ameaçava
-fazer-lhe á sua perigosa concurrencia. Poz-se logo em campo, disposto
-á luta, e começou a perseguir o rival por todos os modos, peitando os
-fiscaes e guardas municipaes, para que o neo deixassem respirar um
-instante com multas e exigencias vexatorias; emquanto pela sorrelfa
-plantava no espirito dos seus inquilinos um verdadeiro odio de partido,
-que os incompatibilisava com a gente do Cabeça de Gato. Aquelle que
-não estivesse disposto a isso ia direitinho para a rua, «que ali se
-não admittia meias medidas a tal respeito! Ali: ou bem peixe ou bem
-carne! Nada de embrulho!» É inutil dizer que a parte contraria lançou
-mão igualmente de todos os meios para guerrear o inimigo, não tardando
-que entre os moradores das duas estalagens rebentasse uma tremenda
-rivalidade, dia a dia aggravada por pequenas brigas e resingas, em que
-as lavadeiras se destacavam sempre com questões de freguezia de roupa.
-No fim de pouco tempo os dois partidos estavam já perfeitamente
-determinados; os habitantes do Cabeça de Gato tomaram por alcunha o
-titulo do seu cortiço, e os de São Romão, tirando o nome do peixe que
-a Bertoleza mais vendia á porta da taverna, foram baptisados por
-«Carapicús.» Quem se désse com um carapicú não podia entreter a
-mais ligeira amisade com um cabeça de gato; mudar-se alguem de uma
-estalagem para a outra era renegar idéas e principios e ficava apontado
-a dedo; denunciar a um contrario o que se passava, fosse o que fosse,
-dentro do circulo opposto, era commetter traição tamanha, que os
-companheiros a puniam a páo. Um vendedor de peixe, que cahio na asneira
-de fallar a um cabeça de gato a respeito de uma briga entre a Machona e
-sua filha, a das Dôres, foi encontrado quasi morto perto do cemiterio
-de São João Baptista. Alexandre, esse então não cochilava com os
-adversarios: nas suas partes policiaes figurava sempre o nome de um
-delles pelo menos, mas entre os proprios policias havia adeptos de um e
-de outro partido; o urbano que entrava na venda de João Romão tinha
-escrupulo de tomar qualquer coisa ao balcão da outra venda. Em meio do
-pateo do Cabeça de Gato arvorára-se uma bandeira amarella; os
-carapicús responderam logo levantando um pavilhão vermelho. E as duas
-côres olhavam-se no ar como um desafio de guerra.
-
-A batalha era inevitavel. Questão de tempo.
-
-Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem, abandonou o quarto na
-officina e metteu-se lá de sucia com o Porfiro, apezar da opposição
-de Rita, que mais depressa o deixaria a elle do que aos seus velhos
-camaradas de cortiço. D'ahi nasceu certa ponta de discordia entre os
-dois amantes; as suas entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais
-difficeis. A bahiana, por coisa alguma d'esta vida, poria os pés no
-Cabeça de Gato e o Firmo achava-se, como nunca, incompatibilisado com
-os carapicús. Para estar juntos tinham encontros mysteriosos n'um
-calogio de uma velha miseravel de rua de São João Baptista, que lhe
-cedia a cama, mediante esmolas. O capoeira fazia questão de ficar no
-Cabeça de Gato, porque ahi se sentia resguardado contra qualquer
-perceguição que o seu delicto motivasse; de resto, Jeronymo não
-estava morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre elle com gana. No
-Cabeça de Gato, o Firmo conquistára rapidas sympathias e
-constituira-se chefe de malta. Era querido e venerado; os companheiros
-tinham enthusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; sabiam-lhe de
-cór a legenda rica de façanhas e victorias. O Porfiro secundava-o sem
-lhe disputar a primasia, e estes dois, só por si, impunham respeito aos
-carapicús, entre os quaes, não obstante, havia muito boa gente para o
-que désse e viesse.
-
-Mas ao cabo de tres mezes, João Romão, notando que os seus interesses
-nada soffriam com a existencia da nova estalagem e, até pelo contrario,
-lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia fazendo no
-bairro, retornou á sua primitiva preoccupação com o Miranda, unica
-rivalidade que verdadeiramente o estimulava.
-
-Desde que o visinho surtio com o baronato, o vendeiro transformava-se
-por dentro e por fóra a causar pasmo. Mandou fazer boas roupas e aos
-domingos refestelava-se de casaco branco, e de meias, assentado defronte
-da venda, a ler jornaes. Depois deu para sahir a passeio, vestido de
-casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabello á
-escovinha; pôz a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que elle
-agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Já
-não era o mesmo lambusão! E não parou ahi fez-se: socio de um club de
-dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a uzar
-relogio e cadeia de ouro; correu uma limpeza no seu quarto de dormir,
-mandou soalhal-o, forrou e pintou-o; comprou alguns moveis em segunda
-mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete: principiou a comer com
-guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a tomar vinho,
-não do ordinario que vendia aos trabalhadores, mas de um especial que
-guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para o passeio
-publico depois do jantar ou ia ao theatro São Pedro de Alcantara
-assistir aos espectaculos da tarde; do Jornal do Commercio, que era o
-unico que elle assignava havia já tres annos e tanto, passou a receber
-mais dois outros e a tomar fasciculos de romances francezes traduzidos,
-que o ambicioso lia de cabo a rabo, com uma paciencia de santo, na doce
-convicção de que se instruia.
-
-Admittio mais tres caixeiros; já se não prestava muito a servir
-pessoalmente á negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao
-balcão. E em breve o seu typo começou a ser visto com frequencia na
-rua Direita, na praça do commercio e nos bancos, o chapéu alto
-derreado para a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a
-metter-se em altas especulações, aceitava acções de companhias de
-titulos inglezes e só emprestava dinheiro com garantias de boas
-hypothecas.
-
-O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o chapéo, parava
-risonho para lhe fallar quando se encontravam na rua, e ás vezes
-trocava com elle dois dedos de palestra á porta da venda. Acabou por
-offerecer-lhe a casa e convidal-o para o dia de annos da mulher, que era
-d'ahi a pouco tempo. João Romão agradeceu o obsequio, desfazendo-se em
-demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá.
-
-Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja,
-sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em
-nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo;
-pelo contrario, á medida que elle galgava posição social, a
-desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia
-e ella ficava cá em baixo, abandonada como uma cavalgadura de que já
-não precisamos para continuar a viagem. Começou a cahir em tristeza.
-
-O velho Botelho chegava-se tambem para o vendeiro, e ainda mais do que o
-proprio Miranda. O parasita não sabia agora depois do almoço para a
-sua prosa na charutaria, nem voltava á tarde para o jantar, sem
-deter-se um instante á porta do visinho ou, pelo menos, sem lhe gritar
-lá para dentro: «Então, seu João, isso vai ou não vai?...» E tinha
-sempre uma phraze amigavel para lhe atirar cá de fóra. Em geral o
-taverneiro acudia a apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe
-que bebesse alguma coisa.
-
-Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não era á
-tôa que o fazia, que aquelle mesmo não mettia prego sem estopa! Tanto
-assim que uma vez, em que os dois sahiram á tardinha para dar um giro
-até á praia, Botelho, depois de fallar com o costumado enthusiasmo do
-seu bello amigo Barão e da virtuosissima familia d'este, accrescentou
-com o olhar fito:
-
---Aquella pequena é que lhe estava a calhar, seu João!...
-
---Como? Que pequena?
-
---Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo namoro?... Maganão!
-
-O vendeiro quiz negar, mas o outro atalhou:
-
---É um bom partido, é! Excellente menina ... tem um genio de pomba ...
-uma educação de princeza: até o francez sabe! Toca piano como você
-tem ouvido ... canta o seu bocado ... aprendeu desenho ... muito boa
-mão de agulha!... e...
-
-Abaixou a voz e segredou grosso no ouvido do interlocutor:--Ali, tudo
-aquillo é solido!... Predios e acções do banco!...
-
---Você tem certeza d'isso? Já vio?
-
-Já! Palavra d'honra!
-
-Calaram-se um instante.
-
-Botelho continuou depois:
-
---O Miranda é bom homem, coitado! tem lá as suas fumaças de grandeza,
-mas não o podemos criminar ... são coisas pegadas da mulher; no
-emtanto acho-o com boas disposições a seu respeito ... e, se você
-souber leval-o, apanha-lhe a filha...
-
---Ella talvez não queira...
-
---Qual o que! Pois uma menina d'aquellas, criada a obedecer aos pais,
-sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com
-a familia, que de dentro empurre o negocio e verá se consegue ou não!
-Eu, por exemplo!
-
---Ah! se você se mettesse n'isso, que duvida! Dizem que o Miranda só
-faz o que você quer...
-
---Dizem com razão.
-
---E você está resolvido a...?
-
---A protegel-o?... Sim, de certo: n'este mundo estamos nós para servir
-uns aos outros!... apenas, como não sou rico...
-
---Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negocio e não se
-arrependerá...
-
---Conforme, conforme...
-
---Creio que não me suppõe um velhaco!...
-
---Por amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilegio!
-
---Então!...
-
---Sim, sim ... em todo o caso fallaremos depois, com mais vagar... Não
-é sangria desatada!
-
-E desde então, com effeito, sempre que os dois se pilhavam a sós
-discutiam o seu plano de ataque á filha do Miranda. Botelho queria
-vinte contos de réis, e com papel passado a praso de casamento; o outro
-offerecia dez.
-
---Bom! então não temos nada feito ... resumio o velho. Trate você do
-negocio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte comigo
-absolutamente... Comprehende?
-
---Quer dizer que me fará guerra...
-
---Valha-nos Deus, creatura! não faço guerra a ninguem! guerra está
-você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da bella
-fatia que lhe vou metter no papo!... O Miranda hoje tem para mais de mil
-contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim tambem
-tão facil, como lhe parece talvez...
-
---Paciencia!
-
---O Barão ha de sonhar com um genro de certa ordem!...
-
-Ahi algum deputado ... algum homem que faça figura na politica aqui da
-terra!
-
---Não! melhor seria um principe!...
-
---E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa familia, que lhe ronda
-muito a porta... E ella, ao que parece, não lhe faz má cara...
-
---Ah! n'esse caso é deixal-os lá arranjar a vida!
-
---É melhor, é! Creio até que com elle será mais facil qualquer
-transacção...
-
---Então não fallemos mais n'isto! Está acabado!
-
---Pois não fallemos!
-
-Mas no dia seguinte voltaram á questão:
-
---Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze!
-
---Vinte!
-
---Vinte, não!
-
---Por menos não me serve!
-
---E eu vinte não dou!
-
---Nem ninguem o obriga... Adeuzinho!
-
---Até mais ver.
-
-Quando se encontraram de novo, João Romão rio-se para o outro, sem
-dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não quer
-intrometter-se com o que não é da sua conta.
-
---Você é o diabo!... faceteou aquelle, dando-lhe no hombro uma palmada
-amigavel, Então não ha meio de chegarmos a um accordo?...
-
---Vinte!
-
---E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...?
-
---Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do Barão um
-chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; acceita o convite, vae,
-e encontrará o terreno preparado.
-
---Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro
-vintens!
-
-O Botelho não faltou ao promettido: dias depois do contracto sellado e
-assignado, João Romão recebeu uma carta do visinho, solicitando-lhe a
-fineza de ir jantar com elle mais a familia.
-
-Ah! que revolução não se ferio no espirito do vendeiro! passou dias a
-estudar aquella visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando
-sósinho defronte do espelho do seu lavatorio; afinal, no dia marcado,
-banhou-se em varias agoas, areiou os dentes até fazel-os bem limpos,
-perfumou-se todo dos pés á cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou e
-burnio as unhas, vestio-se de roupa nova em folha, e ás quatro e meia
-da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e
-pretencioso salão de S. Ex.ª.
-
-Aos primeiros passos que déra sobre o tapete, onde seus grandes pés,
-affeitos por toda vida á independencia do chinello e do tamanco, se
-destacavam como um par de tartarugas, sentio logo o suor dos grandes
-apuros innundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo
-pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer n'aquelle instante
-uma legoa de carreira ao sol. As suas mãos, vermelhas e redondas,
-gottejavam, e elle não sabia o que fazer d'ellas, depois que o Barão,
-muito solicito, lhe tomou o chapéo e o guarda-chuva.
-
-Arrependia-se já de ter lá ido.
-
---Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor venha
-antes aqui para a janella. Não faça cerimonia! Ó Leonor! trago
-vermouth! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja?
-
-João Romão acceitava tudo, com sorrisos de acanhamento, sem animo de
-arriscar palavra. A cerveja fel-o suar ainda mais e, quando appareceram
-na sala Dona Estella e a filha, o pobre diabo chegava a causar dó de
-tão atrapalhado que se via. Por duas vezes escorregou, e n'uma d'ellas
-foi apoiar-se a uma cadeira que tinha rodizios; a cadeira afastou-se e
-elle quasi vai ao chão.
-
-Zulmira rio-se, mas disfarçou logo a sua hilaridade pondo-se a
-conversar com a mãe em voz baixa. Agora, refeita nos seus desesete
-annos, não parecia tão anemica e deslavada; vieram-lhe os seios e
-engrossára-lhe o quadril. Estava melhor assim. Dona Estella, coitada!
-é que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a
-despeito da resistencia com que se rendia; tinha já dois dentes
-postiços, pintava o cabello, e dos cantos da bocca duas rugas
-serpenteavam-lhe pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça
-maliciosa dos labios; ainda assim, porém, conservava o pescoço branco,
-liso e grosso, e os seus braços não desmereciam dos antigos creditos.
-
-Á meza, a visita comeu tão pouco e tão pouco bebeu, que os donos da
-casa a censuraram jovialmente, fingindo acceitar o facto como prova
-segura de que o jantar não prestava; o obsequiado pedia por amor de
-Deus que não acreditassem em tal e jurava sob palavra de honra que se
-sentia satisfeito e que nunca outra comida lhe soubéra tão bem.
-Botelho lá estava, ao lado de um velhote fazendeiro, que por essa
-occasião hospedava-se com o Miranda. Henrique, approvado no seu
-primeiro anno de medicina, fôra visitar a familia em Minas. Isaura e
-Leonor serviam aos commensaes, rindo ambas á socapa por verem ali o
-João da venda engravatado e com piegas de visita.
-
-Depois do jantar appareceu uma familia conhecida, trazendo um rancho de
-moças; vieram tambem alguns rapazes; formaram-se jogos de prendas, e
-João Romão, pela primeira vez em sua vida, vio-se mettido em taes
-funduras. Não se sahio mal todavia.
-
-O chá das dez e meia correu sem novidade; e, quando emfim o neophyto se
-pilhou na rua, respirou com independencia, remexendo o pescoço dentro
-do collarinho engommado e soprando com allivio. Uma alegria de Victoria
-transbordava-lhe do coração e fazia-o feliz n'esse momento. Bebeu o ar
-fresco da noite com uma volupia nova para elle e, muito satisfeito
-comsigo mesmo, entrou em casa e recolheu-se, rejubilando com a idéa de
-que ia descalçar aquellas botas, desfazer-se de toda aquella roupa e
-atirar-se á cama, para pensar mais á vontade no seu futuro, cujos
-horizontes se rasgavam agora illuminados de esperança.
-
-Mas a bolha do seu desvanecimento engelhou logo á vista de Bertoleza
-que, estendida na cama, roncava, de papo para o ar, com a boca aberta, a
-camisa soerguida sobre o ventre, deixando ver o negrume das pernas
-gordas e lustrosas.
-
-E tinha de estirar-se ali, ao lado d'aquella preta fedorenta a cozinha e
-bodum de peixe! Pois, tão cheiroso e radiante como se sentia, havia de
-pôr a cabeça n'aquelle mesmo travesseiro sujo em que se enterrava a
-hedionda carapinha da crioula?...
-
---Ai! ai! gemeu o vendeiro, resignando-se.
-
-E despio-se.
-
-Uma vez deitado, sem animo de afastar-se da beira da cama, para não se
-encostar com a amiga, surgio-lhe nitida ao espirito a comprehensão do
-estorvo que o diabo d'aquella negra seria para o seu casamento.
-
-E elle que até ahi não pensara n'isso!... Ora o demo!
-
-Não poude dormir; pôz-se a malucar:
-
-Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas que a Bruxa déra
-á Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentio gravida! Mas, afinal,
-de que modo se veria livre d'aquelle trambolho? E não se ter lembrado
-d'isso ha mais tempo!... parecia incrivel!
-
-João Romão, com effeito, tão ligado vivêra com a crioula e tanto se
-habituara a vel-a ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição,
-pensou em tudo, menos n'ella.
-
-E agora?
-
-E malucou no caso até ás duas da madrugada, sem achar furo. Só no dia
-seguinte, ao contemplal-a de cocaras á porta da venda, abrindo e
-destripando peixe, foi que, por associação de idéas, lhe acudio esta
-hypothese:
-
---E se ella morresse?...
-
-
-
-
-XIV
-
-
-Iam-se assim os dias, e assim mais de tres mezes se passaram depois da
-noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a bahiana na rua
-de São João Baptista, mas a mulata, já não era a mesma para elle;
-apresentava-se fria, distrahida, ás vezes impertinente, puxando
-questão por dá cá aquella palha.
-
---Hun! hun! temos mouro na costa! rosnava o capadocio com ciumes. Ora
-queira Deus que eu me engane!
-
-Nas entrevistas apresentava-se ella agora sempre um pouco depois da hora
-marcada, e a sua primeira phrase era para dizer que tinha pressa e não
-podia demorar-se.
-
---Estou muita apertada de serviço! accrescentava á replica do amante.
-Uma roupa de uma familia que embarca amanhã para o norte! Tem de ficar
-prompta esta noite!
-
-Já hontem fiz serão!
-
---Agora estás sempre apertada de serviço!... resmungava o Firmo.
-
---É que é preciso puxar por elle, filho! Ponha-me eu a dormir e quero
-ver do que como e com que pago a casa! Não ha de ser com o que levo
-daqui!
-
---Ora essa! Tens coragem de dizer que não te dou nada? E quem foi que te
-deu esse vestido que tens no corpo?!
-
---Não disse que nunca me désse nada, mas com o que você me dá não
-pago a casa e não ponho a panella no fogo! Tambem não lhe estou
-pedindo coisa alguma! Oh!
-
-Azedavam-se d'este modo as suas entrevistas, esfriando as poucas horas
-que os dois tinham para o amor. Um domingo, Firmo esperou bastante tempo
-e Rita não appareceu. O quarto era acanhado e sombrio, sem janellas,
-com um cheiro máo de bafio e humidade. Elle havia levado um embrulho de
-peixe frito, pão e vinho, para almoçarem juntos. Deu meio dia e Firmo
-esperou ainda, passeiando na estreiteza da miseravel alcova, como uma
-onça enjaulada, rosnando pragas obscenas; o sobrolho intumescido, os
-dentes cerrados. «Se aquella safada lhe apparecesse n'aquelle momento,
-elle seria capaz de torcel-a nas mãos!»
-
-Á vista do embrulho da comida estoirou-lhe a raiva. Deu um pontapé
-n'uma bacia de louça que havia no chão, perto da cama, e soltou um
-murro na cabeça.
-
---Diabo!
-
-Depois assentou-se no leito, esperou ainda algum tempo, fungando forte,
-sacudindo as pernas crusadas, e afinal sahio, atirando para dentro do
-quarto uma palavra porca.
-
-Pela rua, durante o caminho, jurava que «aquella caro pagaria a
-mulata!» Um sofrejo desejo de castigal-a, no mesmo instante, o attrahia
-ao cortiço de São Romão, mas não se sentio com animo de lá ir, e
-contentou-se em rondar a estalagem. Não conseguio vel-a; resolveu
-esperar até á noite para lhe mandar um recado. E vagou aborrecido pelo
-bairro, arrastando o seu desgosto por aquelle domingo sem pagode. Ás
-duas horas da tarde entrou no botequim do Garnizé, uma espelunca, perto
-da praia, onde elle costumava beber de sucia com o Porfiro. O amigo não
-estava lá. Firmo atirou-se n'uma cadeira, pedio um martello de paraty
-e accendeu um charuto, a pensar. Um mulatinho, morador no Cabeça de
-Gato, veio assentar-se na mesma meza e, sem rodeios, deu-lhe a noticia
-de que na vespera o Jeronymo tivera baixa no hospital.
-
-Firmo acordou com um sobresalto.
-
---O Jeronymo?!
-
---Apresentou-se hoje pela manhã na estalagem.
-
---Como soubeste?
-
---Disse-me o Pataca.
-
---Ora ahi está o que é! exclamou o capoeira, soltando um murro na
-meza.
-
---Que é o que? interrogou o outro.
-
---Nada! É cá comigo. Toma alguma coisa?
-
-Veio novo copo, e Firmo resmungou no fim de uma pausa:
-
---É! não ha duvida! Por isto é que a perua ultimamente me anda de
-vento mudado!...
-
-E um ciume doido, um desespero feroz rebentou-lhe por dentro e cresceu
-logo como a sede de um ferido. «Oh! precisava vingar-se d'ella! d'ella
-e d'elle! O amaldiçoado resistio á primeira, mas não lhe escaparia da
-segunda!»
-
---Veja mais um martello de paraty! gritou para o portuguezinho da
-espelunca. E acrescentou, batendo com toda a força o seu petropolis no
-chão:--E não passa de hoje mesmo!
-
-Com o chapéo á ré, a gaforina mais assanhada que de costume, os olhos
-vermelhos, a boca espumando pelos cantos, todo elle respirava uma febre
-de vingança e de odio.
-
---Olha! disse ao companheiro de meza. D'isto, nem pio lá com os
-carapicús! Se abrires o bico dou-te cabo da pelle! Já me conheces!
-
---Tenho nada que fallar! Pr'a que?
-
---Bom!
-
-E ficaram ainda a beber.
-
-Jeronymo, com effeito, tivera alta e tornára aquelle domingo ao
-cortiço, pela primeira vez depois da doença. Vinha magro, pallido,
-desfigurado, apoiando-se a um pedaço de bambú. Crescêra-lhe a barba e
-o cabello, que elle não queria cortar sem ter cumprido certo juramento
-feito aos seus brios. A mulher fôra buscal-o ao hospital e caminhava ao
-seu lado, igualmente abatida com a molestia do marido e com as causas
-que a determinaram. Os companheiros receberam-no compungidos, tomados de
-uma tristeza respeitosa; um silencio fez-se em torno do convalescente;
-ninguem fallava senão a meia voz; a Rita Bahiana tinha os olhos
-arrazados d'agoa.
-
-Piedade levou o seu homem para o quarto.
-
---Queres tomar um caldinho? perguntou-lhe. Creio que ainda não estás
-de todo prompto...
-
---Estou! contrapôz elle. Diz o doutor que preciso é de andar, para ir
-chamando força ás pernas. Tambem estive tanto tempo preso á cama! Só
-de uma semana p'ra cá é que encostei os pés no chão!
-
-Deu alguns passos na sua pequena sala e disse depois, tornando junto da
-mulher:--O que me saberia bem agora era uma chicrinha de café, mas
-queria-o bom como o faz a Rita... Olha! pede-lhe que o arranje.
-
-Piedade soltou um suspiro e sahio vagarosamente, para ir pedir o
-obsequio á mulata. Aquella preferencia pelo café da outra doía-lhe
-duro que nem uma infidelidade.
-
---Lá o meu homem quer do seu café e torce o nariz ao de casa... Manda
-pedir-lhe que lhe faça uma chicara. Pode ser? perguntou a portugueza á
-bahiana.
-
---Não custa nada! respondeu esta. Com poucas está lá!
-
-Mas não foi preciso que o levasse, porque d'ahi a um instante,
-Jeronymo, com o seu ar tranquillo e passivo de quem ainda se não refez
-de todo depois de uma longa molestia, surgio-lhe á porta.
-
---Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o
-cafézinho aqui mesmo...
-
---Entra, seu Jeronymo.
-
---Aqui elle sabe melhor...
-
---Você pega já com partes! Olha, sua mulher, anda de pé atraz comigo!
-E eu não quero historias!...
-
-Jeronymo sacudio os hombros com desdem.
-
---Coitada!... resmungou depois. Muito boa creatura, mas...
-
---Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizencia! E mesmo vicio
-de Portugal: comendo e dizendo mal!
-
-O portuguez sorveu com delicia um gole de café.
-
---Não digo mal, mas confesso que não encontro n'ella umas tantas
-coisas que desejava...
-
-E chupou os bigodes.
-
---Vocês são tudo a mesma sucia! Bem tola é quem vai atraz de labia de
-homem! Eu cá não quero mais saber d'isso... Ao outro despachei já!
-
-O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo.
-
---Outro quem? O Firmo?
-
-Rita arrependeu-se do que disséra, e gaguejou:
-
---É um coisa ruim! Não quero saber mais d'elle!... Um traste!
-
---Elle ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro.
-
---Aqui? Qual! N'essa não cáe! E se vier não lhe abro a porta! Ah!
-quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo!
-
---Isso é verdade, Rita?
-
---Que? Que não quero saber mais d'elle? Esta que aqui está nunca mais
-fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz!
-
---Elle fez-lhe alguma?
-
---Não sei! não quero! acabou-se!
-
---E que então você tem outro agora...
-
---Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem!
-
---Porque, Rita?
-
---Ora! não paga a pena!
-
---E ... se você encontrasse um ... que a quizesse devéras ... para
-sempre?...
-
---Não é com essas!...
-
---Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!...
-
---Pois diga-lhe que outro officio!
-
-Ella se chegou para recolhera chicara, e elle apalpou-lhe a cintura.
-
---Olha! Escuta!
-
-Rita fugio com uma rabanada, e disse rapido, muito a serio:
-
---Deixa d'isso. Póde tua mulher ver!
-
---Vem cá!
-
---Logo.
-
---Quando?
-
---Logo mais.
-
---Onde?
-
---Não sei.
-
---Preciso muito te fallar...
-
---Pois sim, mas aqui fica feio.
-
---Onde nos encontramos então?
-
---Sei cá!
-
-E, vendo que Piedade entrava, ella disfarçou, dizendo sem transição:
-
---Os banhos frios é que são bons para isso! Põem duro o corpo!
-
-A outra, embesourada, atravessou em silencio a pequena sala, foi ter com
-o marido e communicou-lhe que o Zé Carlos queria fallar-lhe, junto com
-o Pataca.
-
---Ali! fez Jeronymo. Já sei o que é. Até logo, nhá Rita. Obrigado.
-Quando quizer qualquer coisa de nós, lá estamos.
-
-Ao sahir no pateo aquelles dois vieram ao seu encontro. O cavouqueiro
-levou-os para a casa, onde a mulher havia posto já a meza do almoço, e
-com um signal prevenio-os de que não fallassem por emquanto sobre o
-assumpto que os trouxera ali. Jeronymo comeu ás pressas e convidou as
-visitas a darem um giro lá fóra.
-
-Na rua, perguntou-lhes em tom mysterioso:
-
---Onde poderemos fallar á vontade?
-
-O Pataca lembrou a venda do Manoel Pépé, defronte do cemiterio.
-
---Bem achado! confirmou Zé Carlos. Ha lá bons fundos para se
-conversar.
-
-E os tres puzeram-se a caminho, sem trocar mais palavra até á esquina.
-
---Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquelle ultimo.
-
---De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro.
-
---E o que é que se faz?
-
---Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é
-encontrado á noite.
-
---No Garnizé, affirmou o Pataca.
-
---Garnizé?
-
---Aquelle botequim ali ao entrar da rua da Passagem, onde está um gallo
-á taboleta.
-
---Ah! Defronte da pharmacia nova...
-
---Justo! Elle vai lá agora todas as noites, e lá esteve hontem, que o
-vi, por signal que n'um gole...
-
-Muito bebedo, hein?
-
---Como uma gambá! Aquillo foi alguma, que a Rita Bahiana lhe pregou de
-fresco!
-
-Tinham chegado á venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se sobre
-caixas de sabão vazias, em volta de uma meza de pinho. Pediram paraty
-com assucar.
-
---Onde é que elles se encontravam?... informou-se Jeronymo, affectando
-que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no São
-Romão?...
-
---Quem? A Rita mais elle? Ora o que! Pois se elle agora é todo Cabeça
-de Gato!...
-
---Ella ia lá?
-
---Duvido! Então logo aquella! Aquella é carapicú até o sabugo das
-unhas!
-
---Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que continuou
-a fallar a respeito da mulata; emquanto Jeronymo o escutava abstracto,
-sem tirar os olhos de um ponto.
-
-O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, disse-lhe
-emborcando o resto do copo:
-
---Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!..
-
---Ainda estou muito fraco ... observou lastimoso o convalescente.
-
---Mas o teu páo está forte! E alem disso cá estamos nós dois. Tu
-podes até ficar em casa, se quizeres...
-
---Isso é que não! atalhou aquelle. Não dou o meu quinhão pelos
-dentes da boca!
-
---Eu cá tambem vou que o melhor seria pespegar-lhe hoje mesmo a
-sova ... declarou o outro. Pão de um dia pr'a outro fica duro!
-
---E eu estou-lhe com uma gana!... accrescentou o Pataca.
-
---Pois seja hoje mesmo! resolveu Jeronymo. E o dinheiro lá está em
-casa, quarenta pr'a cada um! Em seguida á méla corre logo o cobre! E
-ao depois vai a gente tomar uma fartadela de vinho fino!
-
---A que horas nos juntamos? perguntou Zé Carlos.
-
---Logo ao cahir da noite, aqui mesmo. Está dito?
-
---E será feito, se Deus quizer!
-
-O Pataca accendeu o cachimbo, e os tres puzeram-se a cavaquear
-animadamente sobre o effeito que aquella sova havia de produzir; a cara
-que o cabra faria entre tres bons cacetes. «Então é que queriam ver
-até onde ia a imposturia da navalha! Diabo de um colhordas que, por
-um--vai tu, irei eu--arrancava logo pelo ferro!...»
-
-Dois trabalhadores, em camisa de meia, entraram na tasca e o grupo
-calou-se. Jeronymo fogueou um cigarro no cachimbo do Pataca e
-despedio-se, relembrando aos companheiros a hora da entrevista e
-atirando sobre a meza um nikel de duzentos reis.
-
-Foi direito para o cortiço.
-
---Fazes mal em andar por ahi com este sol!... reprehendeu Piedade, ao
-vel-o entrar.
-
---Pois se o doutor me disse que andasse quanto pudesse...
-
-Mas recolheu-se á casa, estirou-se na cama e ferrou logo no somno. A
-mulher, que o acompanhara até lá, assim que o vio dormindo, enxotou as
-moscas de junto d'elle, cobrio-lhe a cara com uma cambraia que servia
-para os taboleiros de roupa engommada, e sahio na ponta dos pés,
-deixando a porta encostada.
-
-Jantara d'ahi a duas horas, Jeronymo comeu com appetite, bebeu uma
-garrafa de vinho, e a tarde passaram-na os dois de palestra, assentados
-á frente de casa, formando grupo com a Rita e a gente da Machona. Em
-torno d'elles a liberdade feliz do domingo punha alegrias naquella
-tarde. Mulheres amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar livre, mostrando
-a uberdade das tetas cheias. Havia muito riso, muito parolar de
-papagaios; pequenos travessavam, tão depressa rindo como chorando; os
-italianos faziam a ruidosa digestão dos seus jantares de festa;
-ouviam-se cantigas e pragas entre gargalhadas. A Augusta, que estava
-gravida de sete mezes, passeava solemnemente o seu bandulho, levando um
-outro filho ao collo. O Albino, installado defronte de uma mezinha em
-frente á sua porta, fazia, á força de paciencia, um quadro, composto
-de figurinhas de caixa de phosphoros, recortadas a tesoura e grudadas em
-papelão com gomma arabica. E lá em cima, numa das janellas do Miranda,
-João Romão, vestido de casimira clara, uma gravata á moda, já
-familiarisado com a roupa e com a gente fina, conversava com Zulmira
-que, ao lado d'elle, sorrindo de olhos baixos, atirava migalhas de pão
-para as gallinhas do cortiço; ao passo que o vendeiro lançava para
-baixo olhares de desprezo sobre aquella gentalha sensual, que o
-enriquecêra, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol,
-sem outro ideal senão comer, dormir e procrear.
-
-Ao cahir da noite, Jeronymo foi, como ficára combinado, á venda do
-Pépé. Os outros dois já lá estavam. Infelizmente havia mais alguem
-na tasca. Tomaram juntos, pelo mesmo copo, um martello de paraty e
-conversaram em voz surda n'uma conspiração sombria em que as suas
-barbas roçavam umas com as outras.
-
---Os páos onde estão?... perguntou o cavouqueiro.
-
---Ali, junto ás pipas ... segredou o Pataca, apontando com disfarce
-para uma esteira velha enrolada. Preparei-os ainda ha pouco... Não os
-quiz muito grandes... D'este tamanho.
-
-E abrio a mão contra a terra no logar do peito.--Estiveram de molho
-até agora ... acrescentou, piscando o olho.
-
---Bom! approvou Jeronymo, esgotando o copo com um ultimo gole. Agora
-onde vamos nós? Parece-me ainda cedo para o Garnizé.
-
---Ainda! confirmou o Pataca. Deixemo-nos ficar por aqui mais um pouco e
-ao depois então seguiremos. Eu entro no botequim e vocês me esperam
-fóra no logar que marcarmos... Se o cabra não estiver lá, volto logo
-a dizer-lhes, e, caso esteja, fico ... chego-me para elle, procuro
-entrar em conversa, puxo discussão e afinal desafio-o pr'a rua; elle
-cáe na esparrella, e então vocês dois surgem e mettem-se na dansa,
-como quem não quer a coisa! Que acham?
-
---Perfeito! applaudio Jeronymo, e gritou para dentro.--Olha mais um
-martello de paraty!
-
-Em seguida enterrou a mão no bolso da calça e saccou um rôlo grosso
-de notas.
-
---Podem enxugar á vontade! disse. Aqui ainda ha muito com que!
-
-E, ordenando as notas, separou oitenta mil reis, em cedulas de vinte.
-
---Isto é o do ajuste! Este é sagrado! acrescentou, guardando-as na
-algibeira do lado esquerdo.
-
-Depois separou ainda vinte mil reis, que atirou sobre a meza.
-
---Esse ahi é para festejarmos a nossa victoria!
-
-E fazendo do resto do seu dinheiro um bolo, que elle, um pouco ebrio,
-apertava nos dedos, agora claros e quasi descalejados, socou-o na
-algibeira do lado direito, explicando entre dentes que ali ficava ainda
-bastante para o que désse e viesse, no caso de algum contratempo.
-
---Bravo! exclamou Zé Carlos. Isto é o que se chama fazer as coisas á
-fidalga! Haja contar comigo pr'a vida e pr'a morte!
-
-O Pataca entendia que podiam tomar agora um pouco de cerveja.
-
---Cá por mim não quero, mas bebam-na vocês, acudio Jeronymo.
-
---Preferia um trago de vinho branco, contraveio o terceiro.
-
---Tudo o que quizerem! franqueou aquelle. Eu tomo tambem um pouco de
-vinho. Não! que o que estamos a beber não é dinheiro de navalhistas,
-foi ganho ao sol e á chuva com o suor do meu rosto! E entornar pr'a
-baixo sem caretas, que este não pesa na consciencia de ninguem!
-
---Então, á sua! brindou Zé Carlos, logo que veio o novo reforço.
-Pr'a que não torne você a dar que fazer á má casta dos boticarios!
-
---Á sua, mestre Jeronymo! concorreu o outro. Jeronymo agradeceu e
-disse, depois de mandar encher os copos:
-
---Aos amigos e patricios com quem me achei para o meu desforço!
-
-E bebeu.
-
---Á da Sóra Piedade de Jesus! reclamou o Pataca.
-
---Obrigado! respondeu o cavouqueiro, erguendo-se. Bem! Não nos deixemos
-agora ficar aqui toda a noite; mãos á obra! São quasi oito horas.
-
-Os outros dois esvaziaram de um trago o que ainda havia no fundo dos
-copos e levantaram-se tambem.
-
---É muito cedo ainda ... obtemperou Zé Carlos, cuspindo de esguelha e
-limpando o bigode nas costas da mão.
-
---Mas talvez tenhamos alguma demora pelo caminho, advertio o
-companheiro, indo buscar junto ás pipas o embrulho dos cacetes.
-
---Em todo o caso vamos seguindo, resolveu. Jeronymo, impaciente, nem se
-temesse que a noite lhe fugisse de subito.
-
-Pagou a despeza, e os tres sahiram, não cambaleando, mas como que
-empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar para
-frente alguns passos mais rapidos. Seguiram pela rua de Sorocaba e
-tomaram depois a direcção da praia, conversando em voz baixa, muito
-excitados. Só pararam perto do Garnizé.
-
---Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca.
-
-Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos páos e afastando-se de
-mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se mais bebado do
-que realmente estava.
-
-
-
-
-XV
-
-
-O Garnizé tinha bastante gente essa noite. Em volta de umas doze
-mezinhas toscas, de páo, com uma coberta de folha de Flandres pintada
-de branco fingindo marmore, viam-se grupos de tres e quatro homens,
-quasi todos em mangas de camisa, fumando e bebendo no meio de grande
-algazarra. Fazia-se largo consumo de cerveja nacional, vinho virgem,
-paraty e laranginha. No chão coberto de areia havia cascas de queijo de
-Minas, restos de iscas de figado, espinhas de peixe, dando idéa de que
-ali não só se enxugava como tambem se comia. Com effeito, mais para
-dentro, n'um engordurado bufete, junto ao balcão e entre as prateleiras
-de garrafas cheias e arrolhadas, estava um travessão de assado com
-batatas, um osso de presunto e varios pratos de sardinhas fritas. Dois
-candieiros de kerozene fumegavam, encarvoando o tecto. E de uma porta ao
-fundo, que escondia o interior da casa com uma cortina de chita
-vermelha, vinha de vez em quando uma baforada de vozes roucas, que
-parecia morrer em caminho, vencida por aquella densa atmosphera cor de
-opala.
-
-O Pataca estacou á entrada, affectando grande bebedeira e procurando
-com disfarce, em todos os grupos, ver se descobria o Firmo. Não o
-conseguio; mas alguem, em certa meza, lhe chamára a attenção, porque
-elle se dirigio para lá. Era uma mulatinha magra, mal vestida,
-acompanhada por uma velha quasi cega e mais um homem, inteiramente
-calvo, que soffria de asthma e, de quando em quando, abalava a meza com
-um frouxo de tosse, fazendo dansar os copos.
-
-O Pataca bateu no hombro da rapariga.
-
---Como vais tu, Florinda?
-
-Ella olhou para elle, rindo; disse que ia bem, e perguntou-lhe como
-passava.
-
---Róla-se, filha. Tu que fim levaste? Ha um par de quinze dias que te
-não vejo!
-
---É mesmo. Desde que estou com seu Bento não tenho sahido quasi.
-
---Ah! disse o Pataca, estas amigada? Bom!...
-
---Sempre estive!
-
-E ella então, muito expansiva com a sua folga d'aquelle domingo e com o
-seu bocado de cerveja, contou que, no dia em que fugio da estalagem,
-ficou na rua e dormio n'umas obras de uma casa em construcção na
-travessa da Passagem, e que no seguinte, offerecendo-se de porta em
-porta, para alugar-se de criada ou de ama secca, encontrou um velho
-solteiro e agebado que a tomou ao seu serviço e metteu-se com ella.
-
---Bom! muito bom! annuio Pataca.
-
-Mas o diabo do velho era um safado; dava-lhe muita coisa, dinheiro até,
-trazia-a sempre limpa e de barriga cheia; sim senhor! mas queria que
-ella se prestasse a tudo! Brigaram. E, como o vendeiro da esquina estava
-sempre a chamal-a para casa, um bello dia arribou, levando o que
-apanhára ao velho.
-
---Estás então agora com o da venda?
-
-Não! O tratante, a pretexto de que desconfiava d'ella com o Bento
-marceneiro, pôl-a na rua, chamando a si o que a pobre de Christo
-trouxéra da casa do outro e deixando-a só com a roupa do corpo e ainda
-por cima doente por causa de um aborto que tivera logo que se mettêra
-com semelhante peste. O Bento tomára-a então á sua conta, e ella,
-graças a Deus, por em quanto não tinha razões de queixa.
-
-O Pataca olhou em torno de si com o ar de quem procura alguem, e
-Florinda, suppondo que se tratava do seu homem, accrescentou:
-
---Não está cá, está lá dentro. Elle, quando joga, não gosta que eu
-fique perto; diz que encabula.
-
---E tua mãe?
-
---Coitada! foi pr'o hospicio...
-
-E passou logo a fallar a respeito da velha Marcianna; o Pataca, porém,
-já lhe não prestava attenção, porque n'esse momento acabava de
-abrir-se a cortina vermelha, e Firmo surgia muito ebrio, a dar bordos,
-contando, sem conseguir, uma massagada de dinheiro, em notas pequenas,
-que elle afinal entrouxou n'um bolo e recolheu na algibeira das calças.
-
---Ó Porfiro! não vens? gritou lá para dentro, arrastando a voz.
-
-E, depois de esperar inutilmente pela resposta, fez alguns passos na
-sala.
-
-O Pataca deu á Florinda um «até logo» rapido e, fingindo-se de novo
-muito bebado, encaminhou-se na direcção em que vinha o mulato.
-
-Esbarraram-se.
-
---Oh! Oh! exclamou o Pataca. Desculpe!
-
-Firmo levantou a cabeça e encarou-o com arrogancia; mas desfranzio o
-rosto logo que o reconheceu.
-
---Ah! és tu, seu gallego? Como vai isso? A ladroeira corre?
-
---Ladroeira tinha a avó na cuia! Anda a tomar alguma coisa. Queres?
-
---Que ha de ser?
-
---Cerveja. Vai?
-
---Vá lá.
-
-Chegaram-se para o balcão.
-
---Uma Guarda velha, ó pequeno! gritou o Pataca.
-
-Firmo puxou logo dinheiro para pagar.
-
---Deixa! disse o outro. A lembrança foi minha!
-
-Mas, como o Firmo insistisse, consentio-lhe que fizesse a despeza.
-
-E os nikeis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos do
-mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez.
-
---Que horas são? perguntou Pataca, olhando quasi de olhos fechados o
-relogio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas agora pago
-eu!
-
-Beberam de novo, e o coadjutor de Jeronymo, observou depois: Você hoje
-ferrou-a devéras! Estás que te não podes lamber!
-
---Desgostos ... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da bocca a
-saliva que se lhe grudava á lingua.
-
---Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de que? Negocio de
-mulher, aposto!
-
---A Rita não me appareceu hoje, sabes? Não foi, e eu bem calculo
-porque!
-
---Porque?
-
---Porque a peste do Jeronymo voltou hoje á estalagem!
-
---Ah! Não sabia!... A Rita está então com elle?...
-
---Não está, nem nunca ha de estar, que eu d'aqui mesmo vou á procura
-d'aquelle gallego ordinario e ferro-lhe a sardinha no pandulho!
-
---Vieste armado?
-
-Firmo saccou da camisa uma navalha.
-
---Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquella gente ali da outra meza
-já não nos tira os olhos de cima!
-
---Estou me ninando pr'a elles! E que não olhem muito, que lhes dou uma
-de amostra!
-
---Entrou um urbano! Passa-me a navalha!
-
-O capadocio fitou o companheiro, estranhando o pedido.
-
---E que, explicou aquelle, se te prenderem não te encontram ferro...
-
---Prender a quem? a mim? Ora, vai-te calar!
-
---E ella é boa? Deixa ver!
-
---Isto não é coisa que se deixe ver!
-
---Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro!
-
---Não sei! Esta é que não me sae das unhas, nem para meu pai, que a
-pedisse!
-
---É porque não tens confiança em mim!
-
---Confio nos meus dentes, e esses mesmos me mordem a lingoa!
-
---Sabes quem vi ainda ha pouco? Não és capaz de adivinhar!...
-
---Quem?
-
---A Rita.
-
---Onde?
-
---Ali na praia da Saudade.
-
---Com quem?
-
---Com um typo que não conheço...
-
-Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da sahida.
-
---Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou comtigo; mas é
-preciso ir com geito, porque, se ella nos bispa, foge!
-
-O mulato não fez caso d'esta observação e sabio a esbarrar-se por
-todas as mezas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na
-cintura, amigavelmente.
-
---Vamos de vagar... disse; senão o passaro se arisca!
-
-A praia estava deserta. Cahia um chuvisco. Ventos frios sopravam do mar.
-O ceu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado opposto da bahia os
-lampeões pareciam surgir d'agoa, como algas de fogo, mergulhando bem
-fundo as suas tremulas raizes luminosas.
-
---Onde está ella? perguntou o Firmo, sem se aguentar nas pernas.
-
---Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que has de ver!
-
-E continuaram a andar para as bandas do hospicio. Mas dois vultos
-surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de improviso ao
-mulato.
-
---Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros.
-
-Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de Firmo,
-que bracejava seguro pelo tronco.
-
-Deixára-se agarrar--estava perdido.
-
-Quando Pataca o vio preso pelos sovacos e pela dobra dos joelhos,
-sacou-lhe fóra a navalha.
-
---Prompto! Está desarmado!
-
-E tomou tambem o seu páo.
-
-Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferio
-um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria
-a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova páulada
-cantou-lhe nos hombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas,
-outra mais violenta quebrou-lhe a clavicula, emquanto outra logo lhe
-rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais
-rapidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se
-converteram n'uma carga continua de porretadas, a que o infeliz não
-resistio, rolando no chão, a gottejar sangue de todo o corpo.
-
-A chuva engrossava. Elle agora, assim, debaixo d'aquelle bate-bate sem
-tregoas, parecia muito menor, mingoava como se estivesse ao fogo.
-Lembrava um rato morrendo a páo. Um ligeiro tremor convulsivo era
-apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros tres não
-diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistivel
-vertigem de pizar bem a cacete aquella trouxa de carne molle e
-ensanguentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de
-todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até
-a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes,
-deitaram a fugir, á tôa, para os lados da cidade.
-
-Chovia agora muito forte. Só pararam no Cattete, ao pé de um kiosque;
-estavam encharcados; pediram paraty e beberam como quem bebe agoa.
-Passava já de onze horas. Desceram pela praia da Lapa; ao chegarem
-debaixo de um lampeão, Jeronymo parou, suando apezar do agoaceiro que
-cahia.
-
---Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de vinte mil
-reis. Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa quente em
-logar secco.
-
---Ali ha um botequim, indicou o Pataca, apontando a rua da Gloria.
-
-Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua á praia, e d'ahi a
-pouco installavam-se em volta de uma meza de ferro. Pediram de comer e
-de beber e puzeram-se a conversar em voz soturna, muito cansados.
-
-A uma hora da madrugada o dono do café pôl-os fóra. Felizmente chovia
-menos. Os tres tomaram de novo a direcção de Botafogo; em caminho
-Jeronymo perguntou ao Pataca se ainda tinha comsigo a navalha do Firmo e
-pedio-lh'a, ao que o companheiro cedeu sem objecção.
-
---É para conservar uma lembrança d'aquelle bisborria! explicou o
-cavouqueiro, guardando a arma.
-
-Separaram-se defronte da estalagem. Jeronymo entrou sem ruido; foi até
-á casa, espiou pelo buraco da fechadura; havia luz no quarto de dormir;
-comprehendeu que a mulher estava á sua espera, acordada talvez; pensou
-sentir, vindo lá de dentro, o bodum azedo que ella punha de si, fez uma
-careta de nojo e encaminhou-se resolutamente para a casa da mulata, em
-cuja porta bateu devagarinho.
-
-Rita, essa noite, recolhêra-se afflicta e assustada. Deixára de ir ter
-com o amante e mais tarde admirava-se como fizera semelhante
-imprudencia; como tivera coragem de pôr em pratica, justamente no
-momento mais perigoso, uma coisa que ella, até ahi, não se sentira com
-animo de praticar. No intimo respeitava o capoeira; tinha-lhe medo.
-Amára-o a principio por affinidade de temperamento, pela irresistivel
-connexão do instincto luxurioso e canalha que predominava em ambos,
-depois continuou a estar com elle por habito, por uma especie de vicio
-que amaldiçoamos sem poder largal-o; mas desde que Jeronymo propendeu
-para ella, fascinando-a com a sua tranquilla seriedade de animal bom e
-forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e
-Rita preferio no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo
-seu lado, cedendo ás imposições mesologicas, enfarava a esposa, sua
-congenere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a
-volupia, era o fructo doirado e acre d'estes sertões americanos, onde a
-alma de Jeronymo aprendeu lascivias de macaco e onde seu corpo porejou o
-cheiro sensual dos bodes.
-
-Amavam-se brutalmente, e ambos sabiam d'isso. Esse amor irracional e
-empirico carregára-se muito mais, de parte a parte, com o tragico
-incidente da lucta, em que o portuguez fôra victima. Jeronymo
-aureolou-se aos olhos d'ella com uma sympathia de martyr sacrificado á
-mulher que ama; cresceu com aquella navalhada; illuminou-se com o seu
-proprio sangue derramado; e, depois, a ausencia no hospital veio
-completar a crystallisação do seu prestigio, como se o cavouqueiro
-houvera baixado a uma sepultura, arrastando atraz de si a saudade dos
-que o choravam.
-
-Entretanto, o mesmo phenomeno se operava no espirito de Jeronymo com
-relação á Rita: arriscar espontaneamente a vida por alguem é aceitar
-um compromisso de ternura, em que empenhamos alma e coração; a mulher
-por quem fazemos tamanho sacrificio, seja ella quem fôr, assume de um
-só vôo em nossa phantasia ás proporções de um ideal. O desterrado,
-á primeira troca de olhares com a bahiana, amou-a logo, porque sentio
-n'ella o resumo de todos os quentes mysterios que o enleiaram
-voluptuosamente n'estas terras da luxuria; amou-a muito mais quando teve
-occasião de jogar a existencia por esse amor, e amou-a loucamente
-durante a triste e dolorosa solidão da enfermaria, em que os seus
-gemidos e suspiros eram todos para ella.
-
-A mulata bem que o comprehendeu, mas não teve animo de confessar-lhe
-que tambem morria de amores por elle; receiou prejudical-o. Agora, com
-aquella loucura de faltar á entrevista justamente no dia em que
-Jeronymo voltava á estalagem, a situação parecia-lhe muito
-melindrosa. Firmo, desesperado com a ausencia d'ella, embebedava-se
-naturalmente e vinha ao cortiço provocar o cavouqueiro; a briga
-rebentaria de novo, fatal para um dos dois, se é que não seria para
-ambos. Do que ella sentira pelo navalhista persistia agora apenas o
-medo, não como elle era d'antes, indeterminado e frouxo, mas ao
-contrario, sobresaltado, nervoso, cheio de apprehensões que a punham
-afflicta. Firmo já lhe não apparecia no espirito como um amante
-ciumento e perigoso, mas como um simples facinora, armado de uma velha
-navalha desleal e homicida. O seu medo transformava-se em uma mistura de
-asco e terror. E, sem achar só cego na cama, deixava-se atordoar pelos
-seus presentimentos, quando ouvio bater na porta.
-
---É elle! disse, com o coração a saltar.
-
-E via já de fronte de si o Firmo, bebado, a reclamar o Jeronymo aos
-berros, para esfaqueal-o ali mesmo. Não respondeu ao primeiro chamado;
-ficou escutando.
-
-Depois de uma pausa bateram de novo.
-
-Ella estranhou o modo pelo qual batiam. Não era natural que o facinora
-procedesse com tanta prudencia. Ergueu-se, foi á janella, abrio uma das
-folhas e espreitou pelas rotulas.
-
---Quem está ahi?... perguntou á meia voz.
-
---Sou eu ... disse Jeronymo, chegando-se.
-
-Reconheceu-o logo e correu a abrir.
-
---Como?! É você, Jeromo?
-
---Schit! fez elle, pondo o dedo na bocca. Falla baixo. Rita começou a
-tremer: no olhar do portuguez, nas suas mãos encardidas de sangue, no
-seu todo de homem ebrio, encharcado e sujo, havia uma terrivel
-expressão de crime.
-
---D'onde vens tu?... segredou ella.
-
---De cuidar da nossa vida... Ahi tens a navalha com que fui ferido!
-
-E atirou-lhe sobre a meza a navalha de Firmo, que a mulata conhecia como
-as palmas da mão.
-
---E elle?
-
---Está morto.
-
---Quem o matou?
-
---Eu.
-
-Calaram-se ambos.
-
---Agora ... acrescentou o cavouqueiro, no fim de um silencio arquejado
-por ambos; estou disposto a tudo para ficar comtigo. Sahiremos os dois
-d'aqui para onde melhor fôr... Que dizes tu?
-
---E tua mulher?...
-
---Deixo-lhe as minhas economias de muito tempo e continuarei a pagar o
-collegio á pequena. Sei que não devia abandonal-a, mas pódes ter como
-certo que, ainda que não queiras vir commigo, não ficarei com ella!
-Não sei! já não a posso supportar! Um homem enfára-se! Felizmente
-minha caixa de roupa está ainda na Ordem e posso ir buscal-a pela
-manhã.
-
---E para onde iremos?
-
---O que não falta é pr'onde ir! Em qualquer parte estaremos bem. Tenho
-aqui sobre mim uns quinhentos mil réis, para as primeiras despezas.
-Posso ficar cá até ás cinco horas; são duas e meia; saio sem ser
-visto por Piedade; mando-te ao depois dizer o que arranjei, e tu irás
-ter commigo... Está dito? Queres?
-
-Rita, em resposta, atirou-se ao pescoço d'elle e pendurou-se-lhe nos
-labios, devorando-o de beijos.
-
-Aquelle novo sacrificio do portuguez; aquella dedicação extrema que o
-levava a arremeçar para o lado familia, dignidade, futuro, tudo, tudo
-por ella, enthusiasmou-a loucamente. Depois dos sobresaltos d'esse dia e
-d'essa noite, seus nervos estavam afiados e toda ella electrica.
-
-Ah! não se tinha enganado! aquelle homemzarrão herculeo, de musculos
-de touro, era capaz de todas as meiguices do carinho.
-
---Então? insistio-elle.
-
---Sim, sim, meu captiveiro! respondeu a bahiana, fallando-lhe na bocca;
-eu quero ir comtigo; quero ser a tua mulata, o bem do teu coração! Tu
-és os meus feitiços!
-
-E apalpando-lhe o corpo:--Mas como estás ensopado! Espera! espera! o
-que não falta aqui é roupa de homem pr'a mudar!... Podias ter uma
-recahida, cruzes! Tira tudo isso que está alagado! Eu vou accender o
-fogareiro e estende-se em cima o que é casimira, para te poderes vestir
-ás cinco horas. Tira as botas! Olha o chapéo como está! Tudo isto
-secca! Tudo isto secca! Mira, toma já um golle de paraty pr'atalhar a
-friage! Depois passa em todo o corpo. Eu vou fazer café!
-
-Jeronymo bebeu um bom trago de paraty, mudou de roupa e deitou-se na
-cama de Rita.
-
---Vem pr'a cá ... disse, um pouco rouco.
-
---Espera! espera! O café está quasi prompto!
-
-E ella só foi ter com elle, levando-lhe a chave na fumegante da
-perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores;
-assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires e
-com a outra a chicara, ajudava-o a beber, golle por golle, emquanto seus
-olhos o acarinhavam, scintillantes de impaciencia no antegoso d'aquelle
-primeiro enlace.
-
-Depois, atirou fóra a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu
-amado, n'um frenezi de desejo doido.
-
-Jeronymo, ao sentil-a inteira nos seus braços; ao sentir na sua pelle a
-carne quente d'aquella brasileira; ao sentir innundar-lhe o rosto e as
-espaduas, n'um effluvio de baunilha e cumarú, a onda negra e fria da
-cabelleira da mulata: ao sentir esmagarem-se no seu largo e pelludo
-collo de cavouqueiro os dois globos tumidos e macios, e nas suas coxas
-as coxas d'ella; sua alma derreteu-se, fervendo e borbolhando como um
-metal ao fogo, e sahio-lhe pela bocca, pelos olhos, por todos os póros
-do corpo, escandescente, em braza, queimando-lhe as proprias carnes e
-arrancando-lhe gemidos surdos, soluços irrepremiveis, que lhe sacudiam
-os membros, fibra por fibra, n'uma agonia extrema, sobrenatural, uma
-agonia de anjos violentados por diabos, entre a vermelhidão cruenta das
-labaredas do inferno.
-
-E com um arranco de besta féra cahiram ambos prostados, arquejando.
-Ella tinha a bocca aberta, a lingoa fóra, os braços duros, os dedos
-inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés,
-continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que elle, de subito
-arremeçado longe da vida por aquella explosão inesperada dos seus
-sentidos, deixava-se mergulhar n'uma embriaguez deliciosa, atravez da
-qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fatuas. E,
-sem consciencia de nada que o cercava, nem memoria de si proprio, sem
-olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma
-impressão bem clara, viva, inextinguivel: o attrito d'aquella carne
-quente e palpitante, que elle em delirio apertou contra o corpo, e que
-elle ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que elle continuava a
-comprimir machinalmente, como a criança que, já dormindo, affaga ainda
-as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao
-mundo.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido.
-
-Ouvíra, assentada impaciente á porta de sua casa, darem oito horas, oito
-e meia; nove, nove e meia. «Que teria acontecido, Mãe Santissima ... Pois
-o homem ainda não estava prompto de todo e punha-se ao fresco,
-mal engolira o jantar, para demorar-se d'aquelle modo?... Elle que nunca
-fôra capaz de semelhantes tonteiras!...»
-
---Dez horas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!
-
-Foi até ao portão da estalagem, perguntou a conhecidos que passavam se
-tinham visto Jeronymo; ninguem dava noticias d'elle. Sahio, correu á
-esquina da rua; um silencio de cansaço bocejava n'aquelle resto de
-domingo; ás dez e meia recolheu-se sobresaltada, com o coração a
-sahir-lhe pela garganta, o ouvido alerta, para que ella acudisse ao
-primeiro toque na porta; deitou-se sem tirar a saia, nem apagar de todo
-o candieiro. A ceia frugal de leite fervido e queijo assado com assucar
-e manteiga ficou intacta sobre a meza.
-
-Não conseguio dormir: trabalhava-lhe a cabeça, afastando para longe o
-somno. Começou a imaginar perigos, rôlos, em que o seu homem recebia
-novas navalhadas; Firmo figurava em todas as scenas do delirio; em todas
-ellas havia sangue. Afinal, quando, depois de muito virar de um para
-outro lado do colchão, a infeliz ia cahindo em modorra, o mais leve
-rumor lá fóra a fazia erguer-se de pulo e correr á rotula da janella.
-Mais não era o cavouqueiro, da primeira, nem da segunda, nem de nenhuma
-das vezes.
-
-Quando principiou a chover, Piedade ficou ainda mais afflicta; na sua
-sobre excitação afigurava-se-lhe agora que o marido estava sobre as
-agoas do mar, embarcado, entregue unicamente á protecção da Virgem,
-em meio de um temporal medonho. Ajoelhou-se defronte do oratorio e rezou
-com a voz emmaranhada por uma agonia suffocadora. A cada trovão
-redobrava o seu sobresalto. E ella, de joelhos, os olhos fitos na imagem
-de Nossa Senhora, sem consciencia do tempo que corria, arfava
-soluçando. De repente, ergueu-se, muito admirada de se ver sozinha,
-como se só n'aquelle instante déra pela falta do marido a seu lado.
-Olhou em torno de si, espavorida, com vontade de chorar, de pedir
-soccorro; as sombras espichadas em volta do candieiro, tracejando
-tremulas pelas paredes e pelo tecto, pareciam querer dizer-lhe alguma
-coisa mysteriosa. Um par de calças, dependurado á porta do quarto, com
-um paletó e um chapéo por cima, representou-lhe de relance o vulto de
-um enforcado, a mexer com as pernas. Benzeu-se. Quiz saber que horas
-eram e não poude; afigurava-se-lhe terem decorrido já tres dias pelo
-menos durante aquella afflicção. Calculou que não tardaria a
-amanhecer, se é que ainda amanheceria; se é que aquella noite infernal
-não se fosse prolongando infinitamente, sem nunca mais apparecer o sol!
-Bebeu um copo d'agoa, bem cheio, apezar de haver pouco antes tomado
-outro, e ficou immovel, de ouvido attento, na espectativa de escutar as
-horas de algum relogio da visinhança.
-
-A chuva diminuíra e os ventos principiavam a soprar com desespero. Lá
-de fóra a noite dizia-lhe segredos pelo buraco da fechadura e pelas
-frinchas do telhado e das portas; a cada assobio a misera julgava ver
-surgir um espectro que vinha contar-lhe a morte de Jeronymo. O desejo
-impaciente de saber que horas eram punha-a doida; foi á janella,
-abrio-a; uma rajada humida entrou na sala, esfuziando, e apagou a luz.
-Piedade soltou um grito e começou a procurar a caixa de phosphoros, aos
-esbarrões, sem conseguir reconhecer os objectos que tacteava. Esteve a
-perder os sentidos; afinal achou os phosphoros, accendeu de novo o
-candieiro e fechou a janella. Entrára-lhe um pouco de chuva em casa;
-sentio a roupa molhada no corpo; tomou um novo copo d'agoa; um calafrio
-de febre percorreu-lhe a espinha, e ella atirou-se para a cama, batendo
-o queixo, e metteu-se debaixo dos lençóes, a tiritar de febre. Veio de
-novo a modorra, fechou os olhos; mas ergueu-se logo, assentando-se no
-colchão: parecia lhe ter ouvido alguem fallar lá fóra, na rua; o
-calafrio voltou; ella, tremula, procurava escutar. Se se não enganava,
-distinguira vozes abafadas, conversando, e as vozes eram de homem;
-deixou-se ficar á escuta, concheando a mão atraz da orelha; depois
-ouvio baterem, não na sua porta, mas lá muito mais para adiante, na
-casa da das Dôres, da Rita, ou da Augusta. «Devia ser o Alexandre que
-voltava do serviço...» Quiz ir ter com elle e pedir-lhe noticias de
-Jeronymo, o calafrio porém obrigou-a a ficar debaixo das cobertas.
-
-Ás cinco horas levantou-se de novo com um salto. «Já havia gente lá
-fóra com certeza!...» Ouvira ranger a primeira porta; abrio a janella,
-mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma
-preguiçosa madrugada de Agosto, nebulosa, humida; parecia disposta a
-resistir ao dia. «Ó senhores! aquella noite dos diachos não acabaria
-nunca mais?...» Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade
-ouvio dentro do pateo, do lado contrario á sua casa, um zum-zum de duas
-vozes cochichando com interesse. «Virgem do céo! dir-se-ia a voz do
-seu homem! E a outra era voz de mulher, credo! Illusão sua com certeza!
-ella essa noite estava para ouvir o que não se dava...» Mas aquelles
-cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço.
-«Não! Como poderia ser elle?... Que loucura! se o homem estivesse ali
-teria sem duvida procurado a casa!...» E os cochichos persistiam
-emquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia.
-
---Jeromo! gritou ella.
-
-As vozes calaram-se logo, fazendo o silencio completo; depois nada mais
-se ouvio.
-
-Piedade ficou á janella. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade
-triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo
-espaço. O ceu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava
-com o remancho das segundas feiras; ouviam-se os pigarros das resacas de
-paraty. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando
-fazer a sua lavagem á bica; as chaminés principiavam a fumegar;
-rescendia o cheiro do café torrado.
-
-Piedade atirou um chale em cima dos hombros e sahio ao pateo; a Machona,
-que acabava de apparecer á porta do numero 7 com um berro para acordar
-a familia de uma só vez, gritou-lhe:
-
---Bons dias, visinha! Seu marido como vai? melhor?
-
-Piedade soltou um suspiro.
-
---Ai, não m'o porgunte, sóra Leandra!
-
---Peiorou, filha?
-
---Não veio esta noite pr'a casa...
-
---Olha o demo! Como não veio? Onde ficou elle então?
-
---Cá está quem não lh'o sabe responder.
-
---Ora já se vio?!
-
---Estou com o miolo que é agoa de bacalháo! Não preguei olho durante
-a noite! Forte desgraça a minha!
-
---Teria-lhe succedido alguma?...
-
-Piedade pôz-se a soluçar, enxugando as lagrimas no chale de lã; ao
-passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma
-trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jeronymo não se
-recolhera aquella noite á estalagem.
-
---Talvez voltasse pr'o hospital ... obtemperou Augusta, que lavava junto
-a uma tina a gaiola do seu papagaio.
-
---Mas elle hontem veio de muda ... contrapoz Leandra.
-
---E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou outra
-lavadeira.
-
-E os commentarios multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, n'uma
-boa disposição para fazer d'aquillo o escandalo do dia. Piedade
-respondia friamente ás perguntas curiosas que lhe dirigiam as
-companheiras; estava triste e succumbida; não se lavou, não mudou de
-roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na bocca e não lhe
-passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se.
-
---Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante.
-
---Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a Machona,
-chegando á porta de sua casa a dar dentadas num pão recheado de
-manteiga. Que diabo, creatura! O homem não te morreu, pr'a estares
-agora ahi a carpir d'esse modo!
-
---Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi tanta
-coisa esta noite!...
-
---Elle te appareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com assombro.
-
---Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que phantasmas...
-
-E chorava.
-
---Ai, credo, filha!
-
---Estou desgraçada!
-
---Se te appareceram almas, de certo; mas põe a fé em Deus, mulher! e
-não te rales d'esse modo, que a desgraça pode ser maior! O choro puxa
-muita coisa!
-
---Ai, o meu rico homem!
-
-E o mugido lugubre d'aquella pobre creatura abandonada antepunha á rude
-agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vacca
-chamando ao longe, perdida ao cahir da noite n'um logar desconhecido e
-agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta á outra da estalagem;
-ria-se, cantava-se, soltava-se a lingua; o formigueiro assanhava-se com
-as compras para o almoço; os mercadores entravam e sahiam: a machina de
-massas principiava a bufar. E Piedade, assentada á soleira de sua
-porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a
-hora em que sahíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo,
-n'aquelle limiar de granito, onde ella, tantas vezes, com a cabeça
-encostada ao hombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na
-guitarra d'elle os queridos fados de além mar.
-
-E Jeronymo não apparecia.
-
-Ella ergueu-se finalmente, foi lá fóra ao capinzal, pôz-se a andar
-agitada, fallando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de
-desespero, quando levantava para o ceu os punhos fechados, dir-se-ia que
-não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquella
-amaldiçoada luz allucinadora, contra aquelle sol crapuloso, que fazia
-ferver o sangue aos homens e mettia-lhes no corpo luxurias de bode.
-Parecia rebellar-se contra aquella natureza alcoviteira, que lhe
-roubára o seu homem para dal-o a outra, porque a outra era gente do seu
-peito e ella não.
-
-E maldizia soluçando a hora em que sahira da sua terra; essa boa terra
-cansada, velha, como que enferma; essa boa terra tranquilla, sem
-sobresaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e
-melancolicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e
-esmeraldinos e affogados em tanto sol e em tanto perfume como os d'este
-inferno, onde em cada folha que se pisa ha debaixo um reptil venenoso,
-como em cada flôr que desabotôa e em cada moscardo que adeja ha um
-virus de lascivia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouviam
-em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao
-romper do dia, rilhava o bando truculento dos queixadas; lá não varava
-pelas florestas a anta feia e terrivel, quebrando arvores; lá a
-sucurujú não chocalhava a sua campainha funebre, annunciando a morte,
-nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote
-certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciume de
-um capoeira; lá Jeronymo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e
-meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que á
-tarde levanta para o ceu de opala o seu olhar humilde, compungido e
-biblico.
-
-Maldita a hora em que ella veio! Maldita! mil vezes maldita!
-
-E tornando á casa, Piedade ainda mais se enraivecia, porque ali
-defronte, no numero 9, a mulata bahiana, a dansadeira de chorado, a
-cobra assanhada, cantava alegremente, chegando de vez em quando á
-janella para vir soprar fóra a cinza da fornalha do seu ferro de
-engommar, olhando de passagem para a direita e para a esquerda, a
-affectar indifferença pelo que não era de sua conta, e desapparecendo
-logo, sem interromper a cantiga, muito embebida no seu serviço. Ah!
-essa não fez commentarios sobre o estranho procedimento de mestre
-Jeronymo, nem mesmo quiz ouvir noticias d'elle; pouco arredou o pé de
-dentro de casa e, n'esse pouco que sahio, foi ás pressas e sem dar
-trela a ninguem.
-
-Nada! que as penas e desgostos não punham a panella no fogo!
-
-Entretanto, ah! ah! ella estava bem preoccupada. Apezar do allivio que
-lhe trouxera ao espirito a morte do Firmo e a despeito do seu
-contentamento de passar por uma vez aos braços do cavouqueiro, um
-sobresalto vago e oppressivo esmagava-lhe o coração e matava-a de
-impaciencia por atirar-se á procura de noticias sobre as occorrencias
-da noite; tanto assim que, ás onze horas, mal percebeu que Piedade,
-depois de esperar em vão pelo marido, sahia afflicta em busca d'elle,
-disposta a ir ao hospital, á policia, ao necroterio, ao diabo, com
-tanto que não voltasse sem algum esclarecimento, ella atirou logo o
-trabalho para o canto, enfiou uma saia, crusou o chale no hombro, e
-ganhou o mundo, tambem disposta a não voltar sem saber tim-tim por
-tim-tim o que havia de novo.
-
-Foi cada uma para seu lado e só voltaram á tarde, quasi ao mesmo
-tempo, encontrando o cortiço cheio já e assanhado com a noticia da
-morte de Firmo e do terrivel effeito que esta causara no Cabeça de
-Gato, onde o crime era attribuido aos Carapicús, contra os quaes
-juravam-se extremas vinganças de desaffronta. Soprava de lá, rosnando,
-um halito morno de colera mal soffrida e sequiosa que crescia com a
-approximação da noite e parecia sacudir no ar, ameaçadoramente, a
-irrequieta flamula amarella.
-
-O sol descambava para o ocaso, indefesso e nú, tingindo o ceu de uma
-vermelhidão presaga e sinistra.
-
-Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha
-enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava.
-Soubera em primeiro logar que elle estava vivo, perfeitamente vivo, pois
-fôra visto aquelle mesmo dia, mais de uma vez, no Garnizé e na praia
-da Saudade, a vagar macambuzio; soubera, por intermedio de um rondante
-amigo de Alexandre, que Jeronymo surgira de manhãzinha do capinzal
-perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse elle
-n'aquelle momento de casa, sahindo pelos fundos do cortiço; soubera
-ainda que o cavouqueiro fôra á Ordem buscar a sua caixa de roupa e
-que, na vespera, estivera a beber á farta na venda do Pépé, de sucia
-com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da
-praia, todos tres mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do
-crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera
-aquella noite á casa, porque ficára em grossa pandega com os amigos e
-que, voltando tarde e bebado, dera-lhe para metter-se com a mulata, que
-o aceitou logo. «Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria
-outra coisa!...» Com esta convicção inchou-lhe de subito por dentro
-um novello de ciumes, e ella correu incontinenti para a estalagem, certa
-de que iria encontrar o homem e despejaria contra elle aquella tremenda
-tempestade de resentimentos e despeitos accumulados, que ameaçavam
-suffocal-a se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar
-palavra a ninguem e foi direito á casa; contava encontral-a aberta e a
-sua decepção foi cruel ao vel-a fechada como a deixára. Pedio a chave
-á Machona, que, ao entregal-a, inquirio sobre Jeronymo e pespegou-lhe
-ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo.
-
-Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou livida; um pavoroso
-presentimento varou-lhe o espirito como um raio. Afastou-se logo, com
-medo de fallar, e foi tremula e offegante que abrio a porta e metteu-se
-no numero 35.
-
-Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido
-nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe á roda, as pernas
-pareciam-lhe de chumbo.
-
-Seria elle?!... interrogou a si propria.
-
-E os raciocinios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados,
-atropellando-lhe a razão. Não conseguia coordenal-os; entre todas uma
-idéa insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando
-superior, como uma carta maior que o resto do baralho: «Se elle matou
-o Firmo, dormio na estalagem e não veio ter commigo, é porque então
-deixou-me de feita pela Rita!»
-
-Tentou fugir a semelhante hypothese; repellio-a indignada. Não! não
-era possivel que o Jeronymo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua
-filha, um homem a quem ella nunca déra razão de queixa e a quem sempre
-respeitára e quizera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a
-abandonasse de um momento para outro, e por quem?! por uma não sei que
-diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro
-como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o
-trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possivel?! Mas então
-porque elle não viéra?... porque não vinha?... porque não dava
-noticias suas?... porque fôra pela manhã á Ordem busquar a caixa da
-roupa?... O Roberto Papa-defuntos dissera-lhe que o encontrara ás duas
-da tarde ali perto, ao dobrar da rua Bambina, e que até pararam um
-instante para conversar. Com mais alguns passos teria chegado á casa!
-Seria possivel, santos do ceu! que o seu homem estivesse disposto a
-nunca mais tornar para junto d'ella?
-
-Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha
-satisfeita; estivera com Jeronymo, jantaram juntos, n'uma casa de pasto;
-ficára tudo combinado; arranjára-se o ninho. Não se mudaria logo para
-não dar que fallar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objectos
-mais indispensaveis e que não dessem na vista por occasião do
-transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a
-trabalhar; á noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma
-semana—zaz! fazia-se a mudança completa, e adeus coração!--Por aqui
-é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João
-Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra á mulher, dizendo com
-boas palavras que, por uma d'essas fatalidades de que nenhuma creatura
-está livre, deixava de viver em companhia d'ella, mas que lhe
-conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o collegio da filha; e,
-feito isto, prompto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres
-e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, n'uma eterna
-embriaguez de gosos.
-
-Mas, na occasião em que a bahiana, seguida pelo pequeno, passava
-defronte da porta de Piedade, esta deu um alto da cadeira e gritou-lhe:
-
---Faz favor?
-
---Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a
-dizer no seu todo de impaciencia que não estava disposta a muita
-conversa.
-
---Diga-me uma coisa, inquerio aquella; você muda-se?
-
-A mulata não contava com semelhante pergunta, assim á queima-roupa;
-ficou calada sem achar o que responder.
-
---Muda-se, não é verdade? insistio a outra, fazendo-se vermelha.
-
---E o que tem você com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar
-satisfações! Metta-se lá com a sua vida! Ora esta!
-
---Com a minha vida é que te metteste tu, cigana! exclamou a portugueza,
-sem se conter e avançando para a porta com impeto.
-
---Hein?! Repete, cutruca ordinaria! berrou a mulata, dando um passo em
-frente.
-
---Pensas que já não sei de tudo? Maleficiaste-me o homem e agora
-carregas-me com elle! Que a má coisa te saiba, cabra do inferno! Mas
-deixa estar que has de amargar o que o diabo não quiz! quem t'o jura
-sou eu!
-
---Pula cá pr'a fóra, perúa chóca, se és capaz!
-
-Em torno de Rita já o povaréo se reunia alvoroçado; as lavadeiras
-deixaram logo as tinas e vinham, com os braços nús, cheios de espuma
-de sabão, estacionar ali ao pé, formando roda, silenciosas, sem
-nenhuma d'ellas querer metter-se no barulho. Os homens riam e atiravam
-chufas ás duas contendoras, como succedia sempre quando no cortiço
-qualquer mulher se disputava com outra.
-
---Isca! Isca! gritavam elles.
-
-Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pateo, armada com um dos seus
-tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe a pelle do
-queixo, ao que ella respondeu desfechando contra a adversaria uma
-formidavel pancada na cabeça.
-
-E pegaram-se logo a unhas e dentes.
-
-Por algum tempo luctaram de pé, engalfinhadas, no meio da grande
-algazarra dos circumstantes. João Romão acudio e quiz separal-as;
-todos protestaram. A familia do Miranda assomou á janella, tomando
-ainda o café de depois do jantar, indifferente, já habituada áquellas
-scenas. Dois partidos todavia se formavam em torno das luctadoras; quasi
-todos os brasileiros eram pela Rita e quasi todos os portuguezes pela
-outra. Discutia-se com febre a superioridade de cada qual dellas;
-rebentavam gritos de enthusiasmo a cada mossa que qualquer das duas
-recebia; e estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras
-por todo o busto.
-
-Quando menos se esperava, ouvio-se um baque pesado e vio-se Piedade de
-bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as suas largas
-ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, desgrenhada, rota,
-offegante, os cabellos cahidos sobre a cara, gritando victoriosa, com a
-bocca escorrendo sangue:
-
---Toma pr'o teu tabaco! Toma, gallinha podre! Toma, pr'a não te
-metteres commigo! Toma! Toma, baiacú da praia!
-
-Os portuguezes precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da mulata.
-Os brasileiros oppozeram-se ferozmente.
-
---Não póde?
-
---Enche!
-
---Não deixa!
-
---Não tira!
-
---Entra! Entra!
-
-E as palavras «gallego» e «cabra» cruzaram-se do todos os pontos,
-como bofetadas. Houve um vaváo rapido e surdo, e logo em seguida um
-formidavel rôlo, um rôlo a valer, não mais de duas mulheres, mas de
-uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As
-cercas e os giráos desappareceram do chão e estilhaçaram-se no ar,
-estalando em descarga; ao passo que n'uma berraria infernal, n'um
-fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquella onda viva ia arrastando o
-que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de
-planta, tudo rolava entre aquella centena de pernas confundidas e
-doidas. Das janellas do Miranda apitava-se com furia; da rua, em todo o
-quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela
-frente surgia povo e mais povo. O pateo estava quasi cheio; ninguem mais
-se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças
-berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para
-conter semelhantes demonios. «Fazer rôlo áquella hora, que
-imprudencia!» Não conseguio fechar as portas da venda, nem o portão
-da estalagem; guardou ás pressas na burra o que havia em dinheiro na
-gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôz-se de sentinella ás
-prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a
-saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, apromptava uma
-grande chaleira de agoa quente, para defender com ella a propriedade do
-seu homem. E o rôlo a ferver lá fóra, cada vez mais inflammado com um
-terrivel sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, n'um clamor de pragas
-e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brazil. De vez em quando, o
-povaréo, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de
-medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A policia
-appareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço
-de praças, que um permanente fôra buscar a galope!
-
-E o rôlo fervia.
-
-Mas, no melhor da lucta, ouvio-se na rua um côro de vozes que se
-approximava das bandas do Cabeça de Gato. Era o canto de guerra dos
-capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicús, para
-vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Mal os Carapicús sentiram a approximação dos rivaes, um grito de
-alarma echoou por toda a estalagem e o rôlo dissolveu-se de improviso,
-sem que a desordem cessasse. Cada qual correu á casa, rapidamente, em
-busca do ferro, do páo e de tudo que servisse para resistir e para
-matar. Um só impulso os impellia a todos; já não havia ali
-brasileiros e portuguezes, havia um só partido que ia ser atacado pelo
-partido contrario; os que se batiam ainda ha pouco emprestavam armas uns
-aos outros, limpando com as costas da mão o sangue das feridas.
-Agostinho, encostado ao lampeão do meio do cortiço, cantava em altos
-berros uma coisa que lhe parecia responder á musica barbara que
-entoavam lá fora os inimigos; a mãe déra-lhe licença, a pedido
-d'elle, para pôr um cinto de Nênêm, em que o pequeno enfiou a faca da
-cozinha. Um mulatinho franzino, que até ahi não fôra notado por
-ninguem no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos limpas,
-á espera dos invasores; e todos tiveram confiança n'elle, porque o
-ladrão, além de tudo, estava rindo.
-
-Os Cabeças de Gato assomaram afinal ao portão. Uns cem homens, em que
-senão via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, a dansar, de
-braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras para que ninguem
-lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéo á ré, com um laço de fita
-amarella fluctuando na copa.
-
---Aguenta! Aguenta! Faz frente! clamavam de dentro os Carapicús.
-
-E os outros, cantando o seu hymno de guerra, entraram e approximaram-se
-lentamente, a dansar como selvagens.
-
-As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão.
-
-Os Carapicús enchiam a metade do cortiço. Um silencio arquejado
-succedia á estrepitosa vozeria do rôlo que findara. Sentia-se o hausto
-impaciente da ferocidade que atirava aquelles dois bandos de capoeiras
-um contra o outro. E no emtanto o sol, unico causador de tudo aquillo,
-desapparecia de todo nos limbos do horizonte, indifferente, deixando
-atraz de si as melancolias do crepusculo, que é a saudade da terra
-quando elle se ausenta, levando comsigo a alegria da luz e do calor.
-
-Lá na janella do Barão, o Botelho, enthusiasmado como sempre por tudo
-que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de applauso e dava brados de
-commando militar.
-
-E os Cabeças de Gato approximavam-se cantando, a dansar, rastejando
-alguns de costas para o chão, firmados nos pulsos e nos calcanhares.
-
-Dez Carapicús sahiram em frente; dez Cabeças de Gato se alinharam
-defronte d'elles.
-
-E a batalha principiou, não mais desordenada e cega, porém com
-methodo, sob o commando de Porfiro que, sempre a cantar ou a assobiar,
-saltava em todas as direcções, sem nunca ser alcançado por ninguem.
-
-Desferiram-se navalhas contra navalhas, jogaram-se as cabeçadas e os
-vôa-pés. Par a par, todos os capoeiras tinham pela frente um
-adversario de igual destreza que respondia a cada investida com um salto
-de gato ou uma queda repentina que annullava o golpe. De parte a parte
-esperavam que o cansaço desequilibrasse as forças, abrindo furo á
-victoria; mas um facto veio neutralisar inda uma vez a campanha: Immenso
-rebentão de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o numero
-88. E agora o incendio era a valer.
-
-Houve nas duas maltas um subito espasmo de terror. Abaixaram-se os
-ferros e calou-se o hymno de morte. Um clarão tremendo ensanguentou o
-ar, que se fechou logo de fumaça fulva.
-
-A Bruxa conseguira afinal realisar o seu sonho de louca: o cortiço ia
-arder; não haveria meio de reprimir aquelle cruento desovar de
-labaredas. Os Cabeças de Gato, leaes nas suas justas de partido,
-abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o
-auxilio de um sinistro e dispostos até a soccorrer o inimigo, se assim
-fosse preciso. E nenhum dos Carapicús os ferio pelas costas. A lucta
-ficava para outra occasião. E a scena transformou-se n'um relance; os
-mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a
-salvar os miseraveis bens que possuiam sobre a terra. Fechou-se um
-entra-e-sáe de maribondos defronte d'aquellas cem casinhas ameaçadas
-pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao
-hombro, numa balburdia de doidos. O pateo e a rua enchiam-se agora de
-camas velhas e colchões espocados. Ninguem se conhecia n'aquelle zumba
-de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas
-pela dôr e pelo desespero. Da casa do Barão sahiam clamores
-apopleticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um
-ataque. E começou a apparecer agoa. Quem a trouxe? Ninguem sabia
-dizel-o; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chammas.
-
-Os sinos da visinhança começaram a badalar.
-
-E tudo era um clamor.
-
-A Bruxa surgio á janella da sua casa, como a bocca de uma fornalha
-accesa. Estava horrivel; nunca fôra tão bruxa. O seu moreno trigueiro,
-de cabocla velha, reluzia que nem metal em braza; a sua crina preta,
-desgrenhada, escorrida e abundante como a das egoas selvagens, dava-lhe
-um caracter phantastico de furia sabida do inferno. E ella ria-se, ebria
-de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, victoriosa no
-meio d'aquella orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em
-segredo a sua alma extravagante de maluca.
-
-Ia atirar-se cá para fóra, quando se ouvio estalar o madeiramento da
-casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca n'um montão
-de brazas.
-
-Os sinos continuavam a badalar afflictos. Surgiram agoadeiros com as
-suas pipas em carroça, alvoroçados, fazendo cada qual maior empenho em
-chegar antes dos outros e apanhar os dez mil reis da gratificação. A
-policia defendia a passagem ao povo que queria entrar. A rua lá fóra
-estava já atravancada com o despojo de quasi toda a estalagem. E as
-labaredas iam galopando desembestadas para a direita e para a esquerda
-do numero 88. Um papagaio, esquecido á parede de uma das casinhas e
-preso á gaiola, gritava furioso, como se pedisse soccorro.
-
-Dentro de meia hora o cortiço tinha de ficar em cinzas. Mas um fragor
-de repiques de campainhas e estridente silvar de valvulas encheu de
-subito todo o quarteirão, annunciando que chegava o corpo dos
-bombeiros.
-
-E logo em seguida apontaram carros á desfilada, e um bando de demonios
-de blusa clara, armados uns de archotes e outros de escadinhas de ferro,
-apoderaram-se do sinistro, dominando-o incontinenti, com uma expedição
-magica, sem uma palavra, sem hesitações e sem atropellos. A um só
-tempo viram-se fartas mangas d'agoa chicoteando o fogo por todos os
-lados; emquanto, sem se saber como, homens, mais ageis que macacos,
-escalavam os telhados abrazados por escadas que mal se distinguiam; e
-outros invadiam o coração vermelho do incendio, a dardejar duchas em
-torno de si, rodando, saltando, piruetando, até estrangularem as
-chammas que se atiravam ferozes para cima d'elles, como dentro de um
-inferno; ao passo que outros, cá de fóra, imperturbaveis, com uma
-limpeza de machina moderna, fusilavam d'agoa toda a estalagem, numero
-por numero, resolvidos a não deixar uma só telha enxuta.
-
-O povo applaudia-os enthusiasmado, já esquecido do desastre e só
-attenção para aquelle duello contra o incendio. Quando um bombeiro, de
-cima do telhado, conseguio suffocar uma ninhada de labaredas, que
-surgira defronte d'elle, rebentou cá de baixo uma roda de palmas, e o
-heróe voltou-se para a multidão, sorrindo e agradecendo.
-
-Algumas mulheres atiravam-lhe beijos, entre brados de ovação.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que o velho Liborio,
-depois de escapar de morrer na confusão do incendio, fugia agoniado
-para o seu esconderijo, seguio-o com disfarce e observou que o
-miseravel, mal deu luz á candeia, começou a tirar offegante alguma
-coisa do seu colchão immundo.
-
-Eram garrafas. Tirou a primeira, a segunda, meia duzia d'ellas. Depois
-puxou ás pressas a coberta do catre e fez uma trouxa. Ia de novo ganhar
-a sahida, mas soltou um gemido surdo e cahio no chão sem forças
-arrevessando uma golfada de sangue e cingindo contra o peito o
-mysterioso embrulho.
-
-João Romão appareceu, e elle, assim que o vio, redobrou de afflicção
-e torceu-se todo sobre as garrafas, defendendo-as com o corpo inteiro, a
-olhar aterrado e de esguelha para o seu interventor, como se déra cara
-a cara com um bandido. E, a cada passo que o vendeiro adiantava, o
-tremor e o sobresalto do velho recresciam, tirando-lhe da garganta
-grunhidos roucos de animal batido e assustado. Duas vezes tentou
-erguer-se; duas vezes rolou por terra moribundo. João Romão
-objurgou-lhe que qualquer demora ali seria morte certa: o incendio
-avançava. Quiz ajudal-o a carregar o fardo. Liborio, por unica
-resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e
-tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas.
-
-Mas, lá de cima, a ponta de uma lingoa de fogo varou o tecto e
-illuminou de vermelho a miseravel pocilga. Liborio tentou ainda um
-esforço supremo, e nada poude, começando a tremer da cabeça aos pés,
-a tremer, a tremer, grudando-se cada vez mais á sua trouxa, e já
-estrebuchava, quando o vendeiro lh'a arrancou das garras com violencia.
-Tambem era tempo, porque, depois de insinuar a lingoa, o fogo mostrou a
-bocca e escancarou afinal a guela devoradora.
-
-O tratante fugio de carreira, abraçado á sua preza, em quanto o velho,
-sem conseguir pôr-se de pé, rastreava na pista d'elle,
-difficultosamente, estrangulado de desespero senil, já sem falla,
-rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo elle roxo, os dedos
-enriçados como as unhas de um abutre ferido.
-
-João Romão atravessou o pateo de carreira e metteu-se na sua tóca
-para esconder o furto. Ao primeiro exame, de relance, reconheceu logo
-que era dinheiro em papel o que havia nas garrafas. Enterrou a trouxa na
-prateleira de um armario velho cheio de frascos e voltou lá fóra para
-acompanhar o serviço dos bombeiros.
-
-Á meia noite estava já completamente extincto o fogo e quatro
-sentinellas rondavam a ruina das trinta e tantas casinhas que arderam. O
-vendeiro só poude voltar á trouxa das garrafas ás cinco horas da
-manhã, quando Bertoleza, que fizera prodigios contra o incendio,
-passava pelo somno, encostada na cama, com a saia ainda enxarcada
-d'agoa, o corpo cheio de pequenas queimaduras. Verificou que as garrafas
-eram oito e estavam cheias até á bocca de notas de todos os valores,
-que ahi foram mettidas, uma a uma, depois de cuidadosamente enroladas e
-dobradas á moda de bilhetes de rifa. Receioso, porém, de que a crioula
-não estivesse bem adormecida e desse pela coisa, João Romão resolveu
-adiar para mais tarde a contagem do dinheiro e guardou o thesouro
-n'outro logar mais seguro.
-
-No dia seguinte a policia averiguou os destroços do incendio e mandou
-proceder logo ao desentulho, para retirar os cadaveres que houvesse.
-
-Rita desapparecêra da estalagem durante a confusão da noite; Piedade
-cahíra de cama, com um febrão de quarenta gráos; a Machona tinha uma
-orelha rachada e um pé torcido; a das Dôres a cabeça partida; o Bruno
-levara uma navalhada na coxa; dois trabalhadores da pedreira estavam
-gravemente feridos; um italiano perdêra dois dentes da frente, e uma
-filhinha da Augusta Carne Molle morréra esmagada pelo povo. E todos,
-todos se queixavam de damnos recebidos e revoltavam-se contra os rigores
-da sorte. O dia passou-se inteiro na computação dos prejuizos e a
-dar-se balanço no que se salvara do incendio. Sentia-se um fartum
-aborrecido de estorrilho e cinza molhada. Um duro silencio de desconsolo
-embrutecia aquella pobre gente. Vultos sombrios, de mãos crusadas
-atraz, permaneciam horas esquecidas, a olhar immoveis os esqueletos
-carbonisados e ainda humidos das casinhas queimadas. Os cadaveres da
-Bruxa e do Liborio foram carregados para o meio do pateo, disformes,
-horrorosos, e jaziam entre duas vélas accesas, ao relento, á espera do
-carro da Misericordia. Entrava gente a rua para os ver; descobriam-se
-defronte d'elles, e alguns curiosos lançavam piedosamente uma moeda de
-cobre no prato que, aos pés dos dois defuntos, recebia a esmola para a
-mortalha. Em casa de Augusta, sobre uma meza coberta por uma ceremoniosa
-toalha de rendas, estava o cadaverzinho da filha morta, todo enfeitado
-de flôres, com um Christo de latão á cabeceira e dois cirios que
-ardiam tristemente. Alexandre, assentado a um canto da sala, com o rosto
-escondido nas mãos, chorava, aguardando o pesame das visitas;
-fardára-se, só para isso, com o seu melhor uniforme, coitado!
-
-O enterro da pequenita foi feito á custa de Leonie, que appareceu ás
-tres da tarde, vestida de setineta côr de creme, n'um carrinho dirigido
-por um cocheiro de calção de flanella branca e libré agaloada de ouro.
-
-O Miranda apresentou-se na estalagem logo pela manhã, o ar compungido,
-porém superior. Deu um ligeiro abraço em João Romão, fallou-lhe em
-voz baixa, lamentando aquella catastrophe, mas felicitou-o porque tudo
-estava no seguro.
-
-O vendeiro, com effeito, impressionado com a primeira tentativa de
-incendio, tratara de segurar todas as suas propriedades; e, com tamanha
-inspiração o fez que, agora, em vez de lhe trazer o fogo prejuizo,
-até lhe deixava lucros.
-
---Ah, ah, meu caro! Cautela e caldo de gallinha nunca fizeram mal a
-doente!... segredou o dono do cortiço, a rir. Olhe, aquelles é que com
-certeza não gostaram da brincadeira! accrescentou, apontando para o
-lado em que maior era o grupo dos infelizes que tomavam conta dos restos
-de seus tarecos atirados em montão.
-
---Ah, mas esses, que diabo! nada têm que perder!... considerou o outro.
-
-E os dois visinhos foram até o fim do palco, conversando em voz baixa.
-
---Vou reedificar tudo isto! declarou João Romão, com um gesto energico
-que abrangia toda aquella babylonia desmantelada.
-
-E expoz o seu projecto: Tencionava alargar a estalagem, entrando um pouco
-pelo capinzal. Levantaria do lado esquerdo, encostado ao muro do
-Miranda, um novo correr de casinhas, aproveitando assim parte do pateo,
-que não precisava ser tão grande; sobre as outras levantaria um
-segundo andar, com uma longa varanda na frente toda gradeada.
-Negociozinho para ter ali, a dar dinheiro, em vez de uma centena de
-commodos, nada menos de quatrocentos a quinhentos, de doze a vinte e
-cinco mil reis cada um!
-
-Ah! elle havia de mostrar como se fazem as coisas bem feitas.
-
-O Miranda escutava-o calado, fitando-o com respeito.
-
---Você é um homem dos diabos! disse afinal, batendo-lhe no hombro.
-
-E, ao sahir de lá, no seu coração vulgar de homem que nunca produzio
-e levou a vida, como todo o mercador, a explorar a boa fé de uns e o
-trabalho intellectual de outros, trazia uma grande admiração pelo
-visinho. O que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se
-n'esse instante n'um enthusiasmo illimitado e cego.
-
---É um filho da mãe! resmungava elle pela rua, em caminho do seu
-armazem. É de muita força! Pena é estar mettido com a peste d'aquella
-crioula! Nem sei como um homem tão esperto cahio em semelhante asneira!
-
-Só lá pelas dez e tanto da noite foi que João Romão, depois de
-certificar-se de que Bertoleza ferrára n'um somno de pedra, resolveu
-dar balanço ás garrafas de Liborio. O diabo é que elle tambem quasi
-que se não aguentava nas pernas e sentia os olhos a fecharem-se-lhe de
-cansaço. Mas não podia socegar sem saber quanto ao certo apanhára do
-avarento.
-
-Accendeu uma véla, foi buscar a immunda e preciosa trouxa, e carregou
-com esta para a casa de pasto ao lado da cozinha.
-
-Depôz tudo sobre uma das mezas, assentou-se, e principiou a tarefa.
-Tomou a primeira garrafa, tentou despejal-a, batendo-lhe no fundo;
-foi-lhe porém necessario extrahir as notas, uma por uma, porque estavam
-muito socadas e peganhentas de bolor. A proporção que as fisgava, ia
-logo as desenrolando e estendendo cuidadosamente em maço, depois de
-seccar-lhes a humidade ao calor das mãos e da véla. E o prazer que
-elle desfructava n'este serviço punha-lhe em jogo todos os sentidos e
-afugentava-lhe o somno e as fadigas. Mas, ao passar á segunda garrafa,
-soffreu uma dolorosa decepção: quasi todas as cedulas estavam já
-prescriptas pelo thesouro; veio-lhe então o receio de que a melhor
-parte do bôlo se achasse inutilisada; restava-lhe todavia a esperança
-de que fosse aquella garrafa a mais antiga de todas e a peior por
-conseguinte.
-
-E continuou com mais ardor o seu delicioso trabalho.
-
-Tinha já esvaziado seis, quando notou que a véla, consumida até o
-fim, bruxuleava a extinguir-se; foi buscar outra nova e vio ao mesmo
-tempo que horas eram. «Oh! como a noite corrêra depressa!...» Tres e
-meia da madrugada. «Parecia impossivel!»
-
-Ao terminar a contagem, as primeiras carroças passavam lá fóra na rua.
-
---Quinze contos, quatrocentos e tantos mil reis!... disse João Romão
-entre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de cedulas que tinha
-defronte dos olhos.
-
-Mas oito contos e seiscentos eram em notas já prescriptas. E o
-vendeiro, á vista de tão bella somma, assim tão estupidamente
-compromettida, sentio a indignação de um roubado. Amaldiçoou aquelle
-maldito velho Liborio por tamanho relaxamento; amaldiçoou o governo
-porque limitava, com intenções velhacas, o praso da circulação dos
-seus titulos; chegou até a sentir remorsos por não se ter apoderado do
-thesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros moradores do
-cortiço, lhe appareceu com o colchão as costas, a pedir chorando que
-lhe dessem de esmola um cantinho onde elle se mettesse com sua miseria.
-João Romão tivera sempre uma vidente cobiça sobre aquelle dinheiro
-engarrafado; fariscára-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e
-redondos do abutre decrepito, e convenceu-se de todo, notando que o
-miseravel dava prompto sumisso a qualquer moedinha que lhe cahia nas
-garras.
-
---Seria um acto de justiça! concluio João Romão; pelo menos seria
-impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse tão barbaramente!
-
-Ora adeus! mas sete ricos continhos quasi inteiros ficavam-lhe nas
-unhas. «E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com
-geito... Hoje impingiam-se dois mil reis: amanhã cinco. Não nas
-compras, mas nos trocos... Porque não? Alguem reclamaria, mas muitos
-enguliriam a bucha... Para isso não faltavam estrangeiros e
-caipiras!... E demais, não era crime!... Sim! se havia n'isso
-ladroeira, queixassem-se do governo! o governo é que era o ladrão!
-
---Em todo o caso, rematou elle, guardando o dinheiro bom e máo e
-dispondo-se a descançar; isto já serve para principiar as obras!
-Deixem estar, que d'aqui a dias eu lhes mostrarei para quanto presto!
-
-
-
-
-XIX
-
-
-D'ahi a dias, com effeito, a estalagem mettia-se em obras. Á desordem do
-desentulho do incendio succedia a do trabalho dos pedreiros;
-martelava-se ali de pela manhã até á noite, o que aliás não impedia
-que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engommadeiras
-reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete das suas eternas
-cantigas.
-
-Os que ficaram sem casa foram aboletados a troxe-moxe por todos os
-cantos, á espera dos novos commodos. Ninguem se mudou para o Cabeça de
-Gato.
-
-As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do Miranda;
-os antigos moradores tinham preferencia e vantagens nos preços. Um dos
-italianos feridos morreu na Misericordia e o outro, tambem lá,
-continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhêra-se á Ordem de que
-era irmão, e Leocadia, que não quiz attender áquella carta escripta
-por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o sou homem no hospital. Que
-alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquella mulher levada dos
-diabos, mas de carne dura, a quem elle, apezar de tudo, queria muito.
-Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocadia decidio tornar
-para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito
-séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha bregeirices.
-
-Piedade, essa é que se levantou das febres completamente transformada.
-Não parecia a mesma depois do abandono de Jeronymo; emmagrecêra em
-extremo, perdêra as côres do rosto, ficara feia, triste e resmungona;
-mas não se queixava, e ninguem lhe ouvia fallar no nome do esposo.
-
-Esses mezes, durante as obras, foram uma época especial para a
-estalagem. O cortiço não dava idéa do seu antigo caracter, tão
-accentuado e no emtanto tão mixto: aquillo agora parecia uma grande
-officina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende
-por signaes. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o
-pó da terra e da madeira sujavam-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de
-pouco tempo, estava tudo prompto; e, com immenso pasmo, viram que a
-venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia tambem entrar
-em obras. O vendeiro resolvera aproveitar d'ella sómente algumas das
-paredes, que eram de um metro de largura, talhadas á portugueza;
-abriria as portas em arco, suspenderia o tecto e levantaria um sobrado,
-mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio
-para metter o do outro no chinello; quatro janellas de frente, oito de
-lado, com um terraço ao fundo. O logar em que elle dormia com
-Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com
-a parte da taverna, um grande armazem, em que o seu commercio iria
-fortalecer-se e alargar-se.
-
-O Barão e o Botelho appareciam por lá quasi todos os dias, ambos muito
-interessados pela prosperidade do visinho; examinavam os materiaes
-escolhidos para a construcção, batiam com a biqueira do chapéo de sol
-no pinho de Riga destinado ao assoalho, e affectando-se bons
-entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os dedos um
-punhado da terra e da cal com que os operarios faziam barro. Ás vezes
-chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que não iam
-bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, engravatado,
-calças brancas, collete e corrente de relogio, já não parava na
-venda, e só acompanhava as obras na folga das occupações da rua.
-Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hoteis caros e bebia
-cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do commercio.
-
-E a crioula? Como havia de ser?
-
-Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam porque
-lhe dissessem. Sim, porque aquella bôa casa que se estava fazendo, e os
-ricos moveis encommendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam
-de vir, não seriam de certo para os beiços da negra velha!
-Conserval-a-ia como criada? Impossivel! Todo Botafogo sabia que elles
-até ahi fizeram vida commum!
-
-Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico
-a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si
-mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro
-acharia para semelhante situação.
-
-Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um
-homem tão importante e tão digno!
-
-Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse
-jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o
-braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia,
-desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza
-exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle
-fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o
-triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e
-tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a
-sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa
-sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava.
-
-E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a
-transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e,
-quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A
-desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de
-cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os
-seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não
-era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da
-sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida.
-E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o
-serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a
-deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da
-gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria,
-amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a
-indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara.
-
-E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional
-das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que
-morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao
-seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir
-que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono,
-nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de
-Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco
-deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma
-sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a
-deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para
-descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo
-nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda,
-repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que
-nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda
-morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou
-n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que
-causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma
-linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem
-interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um
-habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando
-sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a
-cercava.
-
-Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com
-Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de
-abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam
-fazer nada.
-
-Botelho havia dito ao vendeiro:
-
---Faça o pedido! É occasião.
-
---Hein?
-
---Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto!
-
---O Barão dá-m'a?
-
---Dá.
-
---Tem certeza d'isso?
-
---Ora! se não tivesse não lh'o diria d'este modo!
-
---Elle prometteu?
-
---Fallei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava autorisado
-por você. Fiz mal?
-
---Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada!
-
---Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe
-fallar, comprehende?
-
---Ou escrever.
-
---Tambem.
-
---E a menina?
-
---Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres?
-
---Tenho.
-
---Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e
-faça o que lhe disse.--Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú
-está quente!
-
-Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde
-trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade
-Nova.
-
-Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso
-comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão
-Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar.
-Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo;
-tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita
-roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos;
-comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á
-porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã
-flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas
-de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais
-gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para
-elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era
-muito escrupulosa.
-
-A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas;
-tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois
-resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão
-novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu
-tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias
-fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor,
-apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer
-prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle
-collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara
-como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de
-vinho gostoso.
-
-Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das
-recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e
-vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do
-coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou.
-
-A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma
-rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as
-suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos
-corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de
-lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo
-e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do
-matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite
-de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de
-fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu
-corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com
-hervas aromaticas.
-
-O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das
-extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o
-espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e
-deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser
-possuido só por ella, só ella, e mais ninguem.
-
-A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle,
-quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta
-gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais
-justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz--bem
-feito!»
-
-Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do
-marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia
-para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a
-que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda
-a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que
-essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a
-pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca
-para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama
-do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma
-esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus
-principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na
-conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era
-teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez.
-Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram
-a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e
-moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas
-economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha,
-aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes.
-
-Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos
-ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago
-de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte
-repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool,
-esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida;
-e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello
-de aguardente, para enganar os pezares.
-
-Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse
-os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena
-ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita;
-puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da
-physionomia. Já tinha nove annos.
-
-Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella
-passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam
-a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha,
-porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para
-mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles
-privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe.
-Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha».
-
-Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se
-impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas
-disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?...
-Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora
-adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra
-não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não
-vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a
-ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á
-tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio
-na segunda feira.
-
-Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no
-primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar
-á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da
-sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor
-parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos
-domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a
-filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre
-levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de
-roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que
-a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve
-vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito
-raras.
-
-Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da
-pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a
-conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida.
-Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da
-pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro
-para educar a filha?!»
-
-Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo
-recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella
-insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em
-voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava
-arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia
-de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na
-roda!
-
-Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que
-não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a
-energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe
-saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle
-abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada,
-de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a
-mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe
-perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta.
-
---Minha pobre velha!... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na cabeça.
-
-E os dois emmudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentio
-ancias de atirar-se-lhe nos braços, possuida de imprevista ternura com
-aquelle simples affago do seu homem. Um subito raio de esperança
-illuminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance os negrumes
-accumulados ultimamente no seu coração. Contava não ouvir ali senão
-palavras duras e asperas, ser talvez repellida grosseiramente, insultada
-pela outra e coberta de ridiculo pelos novos companheiros do marido;
-mas, ao encontral-o tambem triste e desgostoso, sua alma prostrou-se
-reconhecida; e, assim que Jeronymo, cujas lagrimas corriam já
-silenciosamente, deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao
-hombro e depois á cintura da esposa, ella desabou, escondendo o rosto
-contra o peito d'elle, n'uma explosão de soluços que lhe faziam vibrar
-o corpo inteiro.
-
-Por algum tempo choraram ambos abraçados.
-
---Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o cavouqueiro
-afinal limpando os olhos. Foi como se eu te tivesse morrido ... mas
-pódes ficar certa de que te estimo e nunca te quiz mal!... Volta para
-casa; eu irei pagar o collegio de nossa filhinha e hei de olhar por ti.
-Vae, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdôe os desgostos que te tenho
-eu dado!
-
-E acompanhou-a até ao portão da estalagem.
-
-Ella, sem poder pronunciar palavra, sahio cabisbaixa, a enxugar os olhos
-no chale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço
-retardado.
-
-Entretanto, Jeronymo não mandou saldar a conta do collegio, no dia
-seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mez; e elle,
-coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ir buscar dinheiro
-n'aquella occasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto
-com a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao
-padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar á
-larga; não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de
-fazer presentes. Elle, receioso de contrarial-a e quebrar o ôvo da sua
-paz, até ahi tão completo com respeito á bahiana, subordinava-se
-calado e affectando até satisfação; no intimo, porém, o infeliz
-soffria deveras. A lembrança constante da filha e da mulher
-apoquentavam-no com pontas de remorso, que dia a dia alastravam na sua
-consciencia, á proporção que esta ia acordando d'aquella cegueira. O
-desgraçado sentia e comprehendia perfeitamente todo o mal da sua
-conducta; mas só a idéa de separar-se da amante, punha-lhe logo o
-sangue doido e apagava-lhe de novo a luz dos raciocinios. «Não! não!
-Tudo que quizessem, menos isso!»
-
-E então, para fugir áquella voz irrefutavel, que estava sempre a
-serrazinar dentro delle, bebia em camaradagem com os companheiros e
-habituára-se, dentro em pouco, á embriaguez. Quando Piedade, quinze
-dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, acompanhada
-pela filha, encontrou-o bebendo, n'uma roda de amigos.
-
-Jeronymo recebeu-as com grande escarcéo de alegria. Fel-as entrar.
-Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando
-exclamação de enthusiasmo.
-
-Com um milhão de raios! Que linda estava a sua morgadinha!
-
-Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que
-as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era questão
-decidida!
-
-Houve uma scena de constrangimentos, quando a portugueza se vio defronte
-da bahiana.
-
---Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava
-Jeronymo, a empurral-as uma contra a outra. Não quero aqui caras
-fechadas!
-
-As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava
-escarlate de vergonha.
-
---Ora muito bem! accrescentou o cavouqueiro, agora, para a coisa ser
-completa, hão de jantar comnosco!
-
-A portugueza oppoz-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não
-aceitou.
-
---Não as deixo sahir! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem
-matar as saudades?
-
-Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela occasião de entender-se
-com o marido sobre o negocio do collegio. Rita, voluvel como toda a
-mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obzequios com a
-familia do amigo. As outras visitas sahiram antes do jantar.
-
-Puzeram-se á mesa ás quatro horas e principiaram a comer com boa
-disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha
-destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de collegio parecia,
-entre aquella gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pae
-acabrunhava-a com as suas solicitudes brutaes e com as suas perguntas
-sobre os estudos. Á excepção d'ella, todos os outros estavam, antes
-da sobremeza, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jeronymo, esse estava
-de todo. Piedade, instigada por elle, esvasiára frequentes vezes o seu
-copo e, ao fim do jantar, déra para queixar-se amargamente da vida; foi
-então que ella, já com azedume na voz, fallou na divida do collegio e
-nas ameaças da directora.
-
---Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu tambem para ahi
-com essa mastigação! Deixa as tristezas para outra vez! Não nos
-amargures o jantar!
-
---Triste sorte a minha!
-
---Ai, ai! que temos lamuria!
-
---Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?!
-
---Sim? Pois se é para isso que aqui vens melhor será não tornares
-cá!... resmungou Jeronymo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com
-choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?...
-Tambem o sou e não me queixo de Deus!
-
-Piedade abrio a soluçar.
-
---Ahi temos! berrou o marido, erguendo-se e dando uma punhada forte
-sobre a meza. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar,
-ha de estoirar por força! Ora bolas!
-
-Senhorinha correu para junto do pae, procurando contel-o.
-
---Sebo! berrou elle, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou
-disposto a aturar isto! Arre!
-
---Eu não vim cá por passeio!... proseguio Piedade entre lagrimas! Vim
-cá para saber da conta do collegio!...
-
---Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não
-tenho nenhum!
-
---Ah! então com que não pagas?!
-
---Não! Com um milhão de raios!
-
---É que és ainda muito peior do que eu suppunha!
-
---Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e
-despache o becco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira!
-
---Minha pobre filha! Quem olhará por ella, Senhor dos afflictos?!
-
---A pequena já não precisa de collegio! deixe-a cá commigo, que nada
-lhe faltará!
-
---Separar-me de minha filha? a unica pessoa que me resta?!
-
---Ó mulher! você não está separada d'ella a semana inteira?... Pois
-a pequena, em vez de ficar no collegio, fica aqui, e aos domingos irá
-vel-a! Ora ahi tem!
-
---Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina,
-abraçando-se a Piedade.
-
---Ah! tambem tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os
-diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de
-sobra com que arreliar-me!
-
---Vamos d'aqui! gritou a portugueza, travando da filha pelo braço.
-Maldita a hora em que vim cá!
-
-E as duas, mãe e filha, desappareceram; emquanto Jeronymo, passeiando
-de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho.
-
-Rita não se mettêra na contenda, nem se mostrára a favor de nenhuma
-das partes. «O homem, se quizesse voltar para junto da mulher, que
-voltasse! Ella não o prenderia, porque amor não era obrigado!»
-
-Depois de fallar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma
-cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranginha n'um copo e bebeu-os
-de um trago.
-
---Arre! Assim tambem não!
-
-A mulata então approximou-se d'elle, por detraz; segurou-lhe a cabeça
-entre as mãos e beijou-o na bocca, arredando com os labios a espessura
-dos bigodes.
-
-Jeronymo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em
-cheio sobre as suas coxas.
-
---Não te rales, meu bem! disse ella, affagando-lhe os cabellos. Já
-passou!
-
---Tens razão! besta fui eu em deixal-a pôr pé cá dentro de casa!
-
-E abraçaram-se com impeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas
-fosse uma interrupção nos seus amores.
-
-Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido
-no hombro da filha, esperava que as lagrimas cedessem um pouco, para as
-duas seguirem o seu destino de enxotadas.
-
-
-
-
-XX
-
-
-Chegaram á casa ás nove horas da noite. Piedade levava o coração
-feito em lama; não déra palavra por todo o caminho e logo que recolheu
-a pequena, encostou-se á commoda, soluçando.
-
-Estava tudo acabado! Tudo acabado!
-
-Foi á garrafa de aguardente, bebeu uma boa porção; chorou ainda,
-tornou a beber, e depois sahio ao pateo, disposta a parasitar a alegria
-dos que se divertiam lá fóra.
-
-A das Dôres tivera jantar de festa; ouviam-se as risadas d'ella e a voz
-avinhada e grossa do seu homem, o tal sujeito do commercio, abafadas de
-vez em quando pelos berros da Machona, que ralhava com Agostinho. Em
-diversos pontos cantavam e tocavam viola.
-
-Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito differente; mal dava
-idéa do que fôra. O pateo, como João Romão havia promettido,
-estreitára-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo
-calçado por igual e illuminado por tres lampeões grandes,
-symetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras
-d'agoa e tres banheiros. Desappareceram as pequenas hortas, os jardins
-de quatro a oito palmos e os immensos depositos de garrafas vasias. Á
-esquerda, até onde acabava o predio do Miranda, estendia-se um novo
-correr de casinhas de porta e janella, e d'ahi por diante, acompanhando
-todo o lado do fundo e dobrando depois para a direita até esbarrar no
-sobrado de João Romão, erguia-se um segundo andar, fechado em cima do
-primeiro por uma estreita e extensa varanda de grades de madeira, para a
-qual se subia por duas escadas, uma em cada extremidade. De cento e
-tantos, a numeração dos commodos elevou-se a mais de quatrocentos; e
-tudo caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas, portas verdes e
-gotteiras encarnadas. Poucos logares havia desoccupados. Alguns
-moradores puzeram plantas á porta e á janella, em meias tinas serradas
-ou em vazos de barro. Albino levou o seu capricho até á cortina de
-labyrintho e chão forrado de esteira. A casa d'elle destacava-se das
-outras; era no andar de baixo, e cá de fóra via-se-lhe o papel
-vermelho da sala, a mobilia muito brunida, jarras de flôres sobre a
-commoda, um lavatorio com o espelho todo cercado de rosas artificiaes,
-um oratorio grande, resplandescente de palmas doiradas e prateadas,
-toalhas de renda por toda a parte, n'um luxo de egreja, casquilho e
-defumado. E elle, o pallido lavadeiro, sempre com o seu lenço cheiroso
-á volta do pescocinho, a sua calça branca de bocca larga, o seu
-cabello molle cahido por detraz das orelhas bambas, preoccupava-se muito
-em arrumar tudo isso, eternamente, como se esperasse a cada instante a
-visita de um estranho. Os companheiros de estalagem elogiavam-lhe
-aquella ordem e aquelle asseio; pena era que lhe dessem as formigas na
-cama! Em verdade, ninguem sabia porque, mas a cama de Albino estava
-sempre coberta de formigas. Elle a destruil-as, e o demonio do bichinho
-a multiplicar-se cada vez mais e mais todos os dias. Uma campanha
-desesperadora, que o trazia triste, e aborrecido da vida. Defronte
-justamente ficava a casa do Bruno e da mulher, toda mobiliada de novo,
-com um grande candieiro de kerosene em frente á entrada, cujo reverbero
-parecia olhar desconfiado lá de dentro para quem passava cá no pateo.
-Agora, entretanto, o casal vivia em santa paz. Leocadia estava discreta;
-sabia-se que ella dava ainda muito que fazer ao corpo sem o concurso do
-marido, mas ninguem dizia quando, nem onde. O Alexandre jurava, que, ao
-entrar ou sahir fora d'horas, nunca a pilhara no vicio; e a esposa, a
-Augusta Carne Molle, ia mais longe na defeza, porque sempre tivera pena
-de Leocadia, pois entendia que aquelle assanhamento por homem não era
-maldade n'ella; era praga de algum bocca do diabo que a quiz e a
-pobrezinha não deixou.--Estava se vendo d'isso todos os dias!--tanto
-que ultimamente, depois que a creatura pedio a um padre um pouco de agua
-benta e benzeu-se com esta em certos logares, o fogo desapparecêra
-logo, e ella ahi vivia direita e séria que não dava que fallar a
-ninguem! Augusta ficára com a familia n'uma das casinhas do segundo
-andar, á direita; estava gravida outra vez; e á noite via-se o
-Alexandre, sempre muito circumspecto, a passeiar ao comprido da varanda,
-acalentando uma criancinha ao collo, emquanto a mulher dentro de casa
-cuidava de outras. A filharada crescia-lhes, que mettia medo. «Era um
-no papo, outro no sacco!» Moravam agora tambem d'esse lado os dois
-cumplices de Jeronymo, o Pataca e o Zé Carlos, occupando juntos o mesmo
-commodo; defronte da porta tinham um fogãozinho e um fogareiro, em que
-preparavam elles mesmos a sua comida. Logo adiante era o quarto de um
-empregado do correio, pessoa muito callada, bem vestida e pontual no
-pagamento; sahia todas as manhãs e voltava ás dez da noite
-invariavelmente; aos domingos só ia á rua para comer, e depois
-fechava-se em casa e, houvesse o que houvesse no cortiço, não punha
-mais o nariz de fóra. E, assim como este, notavam-se por ultimo na
-estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata
-e sem meias. A feroz engrenagem d'aquella machina terrivel, que nunca
-parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a
-pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro. Começavam a vir os
-estudantes pobres, com os seus chapéos desabados, o paletó fuveiro,
-uma pontinha de cigarro a queimar-lhes a pennugem do buço, e as
-algibeiras muito cheias, mas só de versos e jornaes; surgiam continuos
-de repartições publicas, caixeiros de botequim, artistas de theatro,
-conductores de bonde, e vendedores de bilhetes de loteria. Do lado
-esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolisada pelos
-italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e
-notava-se que n'esse ponto a estalagem estava já muito mais suja que
-nos outros. Por melhor que João Romão reclamasse, formava-se ahi todos
-os dia uma esterqueira de cascas de melancia e laranja. Era uma communa
-ruidosa e porca a dos demonios dos mascates! Quasi que se não podia
-passar lá, tal a accumulação de taboleiros de louça e objectos de
-vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha de
-Flandres, bonecos e castellos de gesso, realejos, macacos, o diabo! E
-tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres, que
-empestava todo o cortiço. A parte do fundo da varanda era asseiada
-felizmente e destacava-se pela profusão de passaros que lá tinham,
-entre os quaes sobresahia uma arara enorme que, de espaço a espaço,
-soltava um formidavel sibilo estridente e rouco. Por debaixo ficava a
-casa da Machona, cuja porta, como a janella, Nênêm trazia sempre
-enfeitadas de tinhorôes e begonias. O predio do Miranda parecia ter
-recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da
-esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do
-vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar
-sobranceiro e triumphante. João Romão conseguira metter o sobrado do
-visinho no chinello; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as
-cortinas e com a mobilia nova impunha respeito. Foi abaixo aquelle
-grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a
-entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre
-ella e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio,
-de cimento, imitando pedra. Fôra-se a pittoresca lanterna de vidros
-vermelhos; foram-se as iscas de figado e as sardinhas preparadas ali
-mesmo á porta da venda sobre as brazas; e na taboleta nova, muito maior
-que a primitiva, em vez de «Estalagem de São Romão» lia-se em
-lettras caprichosas:
-
-
-=«Avenida São Romão»=
-
-
-O Cabeça de Gato estava vencido finalmente, vencido para sempre; nem
-já ninguem se animava a comparar as duas estalagens. Á medida que a de
-João Romão prosperava d'aquelle modo, a outra decahia de todo; raro
-era o dia em que a policia não entrava lá e baldeava tudo aquillo a
-espadeirada de cego. Uma desmoralisação completa! Muitos Cabeças de
-Gato viraram casaca, passando-se para os Carapicús, entre os quaes um
-homem podia até arranjar a vida, se soubesse trabalhar com geito em
-tempo de eleições. Exemplos não faltavam!
-
-Depois da partida de Rita, já se não faziam sambas ao relento com o
-choradinho da Bahia, e mesmo a canna verde pouco se dansava e cantava;
-agora o forte eram os forrobodós dentro de casa, com tres ou quatro
-musicos, ceia de café com pão; muita calça branca e muito vestido
-engommado.--E toca a enfiar para ahi quadrilhas e polkas até romper a
-manhã!
-
-Mas n'aquelle domingo o cortiço estava banzeiro; havia apenas uns
-grupos magros, que se divertiam com a viola á porta de casa. O melhor,
-ainda assim, era o da das Dôres. Piedade dirigio-se logo para lá,
-sombria e cabisbaixa.
-
---Com o demo! você anda agora que nem o boi castrado! exclamou-lhe o
-Pataca, assentando-se ao lado d'ella. As tristezas atiram-se para traz
-das costas, creatura de Dons! A vida não dá para tanto! O homem
-deixou-te? Ora sebo! mette-te com outro e põe o coração á larga!
-
-Ella suspirou em resposta, ainda triste; porém a garrafa de paraty
-correu a roda, de mão em mão, e, á segunda volta, Piedade já parecia
-outra. Começou a conversar e a tomar interesse no pagode. D'ahi a pouco
-era, de todos a mais animada, fallando pelos cotovellos, criticando e
-arremedando as figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar
-a espinha, cahindo por cima della e passando-lhe o braço na cintura.
-
---Você ainda é mulher pr'um homem fazer uma asneira!
-
---Olha p'ra que lhe deu a ebria! Solta-me a perna, estupor!
-
-O grupo achava graça nos dois e applaudia-os com gargalhadas. E o
-paraty a circular sempre de mão em mão. A das Dôres não descansava
-um momento; mal vinha de encher a garrafa lá dentro de casa, tinha de
-voltar outra vez para enchel-a de novo. «Olha que estafa! Vão beber
-pr'o diabo!» Afinal appareceu com o garrafão e pousou o no meio da
-roda.
-
---Querem saber? Empinem por ahi mesmo, que já estou com os quartos
-doendo de tanto andar de lá p'ra cá!
-
-Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João Romão
-entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dansar ao som de
-palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia
-levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu
-choradinho do Bahia. Era a bôba da roda. Batiam-lhe palmadas no
-trazeiro e com o pé embaraçavam-lhe as pernas, para a ver cahir e
-rebolar-se no chão.
-
-O vendeiro, de fraque e chapéo alto, foi direito ao grupo, então muito
-mais reforçado de gente, e intimou a todos que se recolhessem. Aquillo
-já não eram horas para semelhante algazarra!
-
---Vamos! Vamos! Cada um para sua casa!
-
-Piedade foi a unica que protestou, reclamando o seu direito de brincar
-um pouco com os amigos.
-
-Que diabo! Não se estava fazendo mal a ninguem!
-
---Ora vá mas é p'ra cama cozer a mona! vituperou-lhe João Romão,
-repellindo-a. Você, com uma filha quasi mulher, não tem vergonha de
-estar aqui a servir de palhaço?! Forte bebada!
-
-Piedade assomou-se com a descompostura, quiz despicar-se, chegou a
-arregaçar as mangas e sungar a saia; mas o Pataca metteu-se no meio e
-conteve-a, pedindo a João Romão que não levasse aquillo em conta,
-porque era tudo cachaça.
-
---Bom, bom, bom! mas aviem-se! Aviem-se!
-
-E não se retirou sem ver a roda dissolvida, e cada qual procurando a
-casa.
-
-Recolheram-se todos em silencio; só o Pataca e Piedade deixaram-se
-ficar ainda no pateo, a discutir o acto do vendeiro. O Pataca tambem
-estava bastante toucado. Ambos reconheciam que lhes não convinha
-demorar-se ali, porém nenhum dos dois se sentia disposto a metter-se no
-quarto.
-
---Você tem lá alguma coisa que beber em casa? perguntou elle afinal.
-
-Ella não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de paraty e um
-resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por'mor da pequena
-que estava dormindo.
-
-Entraram em ponta de pés, a fallar surdamente. Piedade deu mais luz ao
-candieiro.
-
---Olha agora! Vamos ficar ás escuras! Acabou-se o gaz! O Pataca sahio,
-para ir á casa buscar uma véla, e de volta trouxe tambem um pedaço de
-queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da lavadeira, sem dizer
-nada. Piedade, aos bordos, desoccupou a meza do engommado o servio dois
-pratos. O outro reclamou vinagre e pimentas e perguntou se havia pão.
-
---Pão ha. O vinho é que é pouco!
-
---Não faz mal! Vae mesmo com a canninha!
-
-E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silencio da
-noite, cães que ladravam lá fóra na rua, tristemente. Piedade
-começou a queixar-se da vida veio-lhe uma crise de lagrimas e soluços.
-Quando poude fallar contou o que lhe succedêra essa tarde, narrou os
-pormenores da sua ida com a filha á procura do marido, o jantar em
-commum com a peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá
-enxovalhada e corrida.
-
-Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jeronymo mas com o
-d'ella.
-
-Rebaixar-se áquelle ponto! com effeito!... Ir procurar o homem lá na
-casa da outra!... Oh!
-
---Elle tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que não
-sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés!
-
---Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter lhe mettido o páo, para
-você não ser tôla!
-
---É mesmo!
-
---Pois não! O que não falta são homens, filha! O mundo é grande!
-Para um pé doente ha sempre um chinello velho!--E ferrou-lhe a mão nas
-pernas--chega-te para mim, que te esquecerás do outro!
-
-Piedade repellio-o.
-
-Que se deixasse de asneiras!
-
---Asneiras! É o que se leva d'esta vida!
-
-A pequena acordára lá no quarto e viera descalça até á porta da sala
-de jantar, para espiar o que faziam os dois.
-
-Não deram por ella.
-
-E a conversa proseguio, esquentando á medida que a garrafa de paraty se
-esvasiava. Piedade deu de mão aos seus desgostos, pôz-se a papaguear
-um pouco; as lagrimas foram-se-lhe; e ella manducou então com appetite,
-rindo já das pilherias do companheiro, que continuava a apalpar-lhe de
-vez em quando as coxas.
-
-Aquellas coisas, assim, sem se esperar, é que tinham graça!... dizia
-elle, excitado e vermelho, comendo com a mão, a embeber pedaços de
-peixe no molho das pimentas. Bem tolo era quem se matava!
-
-Depois lembrou que não viria fóra de proposito uma chicrinha de café.
-
---Não sei se ha, vou ver, respondeu a lavadeira, erguendo-se agarrada
-á meza.
-
-E bordejou até á cozinha, a dar esbarrões pela direita e pela
-esquerda.
-
---Tento no leme, que o mar está forte! exclamou Pataca, levantando-se
-tambem, para ir ajudal-a.
-
-Lá perto do fogão agarrou-a de subito, como um gallo abafando uma
-gallinha.
-
---Larga! reprehendeu a mulher, sem forças para se defender.
-
-Elle apanhou-lhe as fraldas.
-
---Espera! Deixa!
-
---Não quero!
-
-E ria-se por ver a attitude comica do Pataca vergado defronte d'ella.
-
---Que mal faz?... Deixa!
-
---Sahe d'ahi, diabo!
-
-E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao chão.
-
---Olha que peste! resmungou a desgraçada, quando o adversario conseguio
-saciar-se n'ella. Marráios te partam!
-
-E deixou-se ficar por terra. Elle pôz-se de pé e, ao encaminhar-se
-para a sala de jantar, sentio uma ligeira sombra fugirem sua frente. Era
-a pequena, que fora espiar á porta da cozinha.
-
-Pataca assustára-se.
-
---Quem anda aqui a correr como gato?... perguntou voltando a ter com
-Piedade, que permanecia no mesmo logar; agora quasi adormecida.
-
-Sacudio-a.
-
---Olá! Queres ficar ahi, ó creatura! Levanta-te! Anda a ver o café!
-
-E, tentando erguel-a, suspendeu-a por debaixo dos braços. Piedade, mal
-mudou a posição da cabeça, vomitou sobre o peito e a barriga uma
-golphada fetida.
-
---Olha o demo! resmungou Pataca. Está que se não póde lamber!
-
-E foi preciso arrastal-a até á cama, que nem uma trouxa de roupa suja.
-A infeliz não dava accordo de si.
-
-Senhorinha acudira, perguntando afflicta o que tinha a mãe.
-
---Não é nada, filha! explicou o Pataca. Deixa-a dormir, que isso
-passa! Olha! se ha limão em casa passa-lhe um pouco atraz da orelha, e
-verás que amanhã acorda fina e prompta p'ra outra!
-
-A menina desatou a soluçar.
-
-E o Pataca retirou-se, a dar encontrões nos trastes, furioso, porque,
-afinal, não tomára café.
-
---Sebo!
-
-
-
-
-XXI
-
-
-Ao mesmo tempo, João Romão, em chinellas e camisola, passeava de um
-para outro lado no seu quarto novo. Um aposento largo e forrado de azul
-e branco com flôrinhas amarellas fingindo oiro; havia um tapete aos
-pés da cama, e sobre a peniqueira um despertador de nikel, e a mobilia
-toda era já de casados, porque o esperto não estava para comprar
-moveis duas vezes.
-
-Parecia muito preoccupado; pensava em Bertoleza que, a essas horas,
-dormia lá em baixo, n'um vão de escada, aos fundos do armazém, perto
-da commúa.
-
-Mas que diabo havia elle de fazer afinal d'aquella peste?...
-
-E coçava a cabeça, impaciente por descobrir um meio de ver-se livre
-d'ella.
-
-É que n'essa noite o Miranda lhe fallára abertamente sobre o que
-ouvira de Botelho, e estava tudo decidido: Zulmira aceitava-o para
-marido e Dona Estella ia marcar o dia do casamento.
-
-O diabo era a Bertoleza!...
-
-E o vendeiro ia e vinha no quarto, sem achar uma boa solução para o
-problema.
-
-Ora, que raio de difficuldade armára elle proprio para se coser!...
-Como poderia agora mandal-a passear, assim, de um momento para outro, se
-o demonio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo e toda a gente
-na estalagem sabia d'isso?
-
-E sentia-se revoltado e impotente defronte d'aquelle tranquillo
-obstaculo que lá estava em baixo, a dormir, fazendo-lhe em silencio um
-mal horrivel, perturbando-lhe estupidamente o curso da sua felicidade,
-retardando-lhe, talvez sem consciencia, a chegada d'esse bello futuro
-conquistado á força de tamanhas privações e sacrificios!
-
-Que ferro!
-
-Mas, só com lembrar-se da sua união com aquella brasileirinha fina e
-aristocratica, um largo quadro de victorias rasgava-se defronte da
-desensoffrida avidez da sua vaidade. Em primeiro logar fazia-se membro
-de uma familia tradicionalmente orgulhosa, como era, dito por todos, a
-de Dona Estella; em segundo logar augmentava consideravelmente os seus
-bens com o dote da noiva, que era rica; e em terceiro, afinal,
-caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuia, realisando-se
-d'este modo um velho sonho que o vendeiro affagava desde o nascimento da
-sua rivalidade com o visinho.
-
-E via-se já na brilhante posição que o esperava: uma vez de dentro,
-associava-se logo com o sogro e iria, pouco a pouco, como quem não quer
-a coisa, o empurrando para o lado, até empolgar-lhe o logar e fazer de
-si um verdadeiro chefe da colonia portugueza no Brasil; depois quando o
-barco estivesse navegando ao largo a todo o panno--Tome lá alguns pares
-de contos de reis e passe-me para cá o titulo de Visconde!
-
-Sim, sim, Visconde! Porque não? E mais tarde, com certeza, Conde! Eram
-favas contadas!
-
-Ah! elle, posto nunca o disséra a ninguem, sustentava de si para si nos
-ultimos annos o firme proposito de fazer-se um titular mais graduado que
-o Miranda. E, só depois de ter o titulo nas unhas, é que iria á
-Europa, de passeio, sustentando grandeza, mettendo invejas, cercado de
-adulações, liberal, prodigo, brasileiro, atordoando o mundo velho com
-o seu oiro novo americano!
-
-E a Bertoleza? gritava-lhe do interior uma voz impertinente.
-
---É exacto! E a Bertoleza?... repetia o infeliz, sem interromper o seu
-vae-e-vem ao comprido da alcova.
-
-Diabo! E não poder arredar logo da vida aquelle ponto negro; apagal-o
-rapidamente, como quem tira da pelle uma nódoa de lama! Que raiva ter de
-reunir aos vôos mais fulgurosos da sua ambição a idéa mesquinha e
-ridicula d'aquella inconfessavel concubinagem! E não podia deixar de
-pensar no demonio da negra, porque a maldita ali estava perto, a
-rondal-o ameaçadora e sombria; ali estava como o documento vivo das
-suas miserias, já passadas mas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser
-esmagada, devia ser supprimida, porque era tudo que havia de máo na
-vida d'elle! Seria um crime conserval-a a seu lado! Ella era o torpe
-balcão da primitiva bodega; era o aladroado vintemzinho do manteiga em
-papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido á noite ao lado do
-fogareiro á porta da taberna; era o frege immundo e a lista cantada das
-comezanas á portugueza; era o somno roncado num colchão fetido, cheio
-de bichos; ella era a sua cumplice e era todo o seu mal--devia pois
-extinguir-se! Devia ceder o logar á pallida mocinha de mãos delicadas
-e cabellos perfumados, que era o bem, porque era o que ria e alegrava,
-porque era a vida nova, o romance solfejado ao piano, as flôres nas
-jarras, as sedas e as rendas, o chá servido em porcelanas caras; era
-emfim a doce existencia dos ricos, dos felizes e dos fortes, dos que
-herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esforço, conseguiram accumular
-dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos escrupulosos ou dos
-fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o namorado sorriso da
-filha do Miranda, sentia ainda a leve pressão do braço melindroso que
-se apoiara ao seu, algumas horas antes, em passeio pela praia de
-Botafogo; respirava ainda os perfumes da menina, suaves, escolhidos e
-penetrantes como palavras de amor; nos seus dedos grossos, curtos,
-asperos e vermelhos, conservava a impressão da tepida caricia d'aquella
-mãozinha enluvada que, dentro em pouco, nos prazeres garantidos do
-matrimonio, affagar-lhe-ia as carnes e os cabellos.
-
-Mas, e a Bertoleza?...
-
-Sim! era preciso acabar com ella! despachal-a! sumil-a por uma vez!
-
-Deu meia noite no relogio do armazem. João Romão tomou uma véla e
-desceu aos fundos da casa, onde Bertoleza dormia. Approximou-se d'ella,
-pé ante pé, como um criminoso que leva uma idéa homicida.
-
-A crioula estava immovel sobre o enxergão, deitada de lado, com a cara
-escondida no braço direito, que ella dobrára por debaixo da cabeça.
-Apparecia-lhe uma parte do corpo, núa.
-
-João Romão contemplou-a por algum tempo, com asco.
-
-E era aquillo, aquella miseravel preta que ali dormia indifferentemente,
-o grande estorvo da sua ventura!... Parecia impossivel!
-
---E se ella morresse?...
-
-Esta phrase, que elle tivera, quando pensou pela primeira vez n'aquelle
-obstaculo á sua felicidade, tornava-lhe agora ao espirito, porém já
-amadurecida e transformada n'esta outra:
-
---E se eu a matasse?
-
-Mas logo um calafrio de pavor correu-lhe por todos os nervos.
-
-Além disso, como?... Sim, como poderia despachal-a, sem deixar signaes
-compromettedores do crime?... Envenenando-a?... Dariam logo pela
-coisa!... Matal-a a tiro?... Peior! Leval-a a um passeio fóra da
-cidade, bem longe e, no melhor da festa, atiral-a ao mar ou por um
-despenhadeiro, onde a morte fosse infallivel?... Mas como arranjar tudo
-isso, se elles nunca passeiavam juntos?...
-
-Diabo!
-
-E o desgraçado ficou a pensar, abstracto, de castiçal na mão, sem
-despregar os olhos de cima de Bertoleza, que continuava immovel, com o
-rosto escondido no braço.
-
---E se eu a esganasse aqui mesmo?...
-
-E deu, na ponta dos pés, alguns passos para frente, parando logo, sem
-deixar nunca de contemplal-a.
-
-Mas a crioula ergueu de improviso a cabeça e fitou-o com olhos de quem
-não estava dormindo.
-
---Ah! fez elle.
-
---Que é, seu João?
-
---Nada. Vim só ver-te... Cheguei ainda não ha muito... Como vais
-tu?... Passou-te a dôr do lado?...
-
-Ella meneou os hombros, sem responder ao certo. Houve um silencio entre
-os dois. João Romão não sabia o que dizer e sahío afinal, escoltado
-pelo imperturbavel olhar da crioula, que o intimidava mesmo pelas
-costas.
-
---Teria desconfiado? pensou o miseravel, subindo de novo para o quarto.
-Qual? Desconfiar de que?...
-
-E metteu-se logo na cama, disposto a não pensar mais n'isso e dormir
-incontinenti. Mas o seu pensamento continuou rebelde a parafusar sobre o
-mesmo assumpto.
-
---É preciso despachal-a! É preciso despachal-a quanto antes, seja lá
-como fôr! Ella, até agora, não deu ainda signal de si; não abrio o
-bico a respeito da questão; mas, Dona Estella está a marcar o dia do
-casamento; não levará muito tempo para isso ... o Miranda naturalmente
-communica a noticia aos amigos ... o facto corre de bocca em bocca ...
-chega aos ouvidos da crioula, e esta, vendo-se abandonada, estoira!
-estoira com certeza! E agora o verás! Como deve ser bonito, hein?...
-Ir tão bem até aqui e esbarrar na opposição da negra!... E os
-commentarios depois!... O que não dirão os invejosos lá da Praça?...
-«Ah, ah! elle tinha em casa uma amiga, uma preta immunda com quem
-vivia! Que typo! Sempre ha de mostrar que é gentinha de laia muito
-baixa!... E aqui a engazopar-nos com uns ares de capitalista que se
-trata á véla de libra! Olha o Carapicú para que havia de dar! Sáe
-sujo!» E, então, a familia da menina, com medo de cahir tambem na
-bocca do mundo, volta atraz e dá o dito por não dito! Bem sei que ella
-está a par de tudo; isso, olé se está! mas finge-se desentendida,
-porque conta, e com razão, que eu não serei tão parvo que espere o
-dia do casamento sem ter todo sumisso á negra! contam que a coisa
-correrá sem o menor escandalo! E eu, no emtanto, tão besta que nada
-fiz! E a peste da crioula está ahi senhora do terreiro como d'antes, e
-não descubro meio de ver-me livre d'ella!... Ora já se vio como
-arranjei semelhante entalação?... Isto contado não se acredita!
-
-E pisava e repisava o caso, sem achar meio de dar-lhe sahida.
-
-Diabo!
-
---Ella ha muito que devia estar longe de mim ... fiz mal em não cuidar
-logo d'isso antes de mais nada!... Fui um pedaço d'asno! Se eu a
-tivesse despachado logo, quando ainda se não fallava no meu casamento,
-ninguem desconfiaria da historia: «Porque diabo iria o pobre homem dar
-cabo de uma mulher, com quem vivia na melhor paz e que era até, dentro
-de casa, o seu braço direito?...» Mas agora, depois de todas aquellas
-reformas de vida; depois da separação das camas, e principalmente
-depois que corresse a noticia do casamento, não faltaria de certo quem
-o accusasse, se a negra apparecesse morta de repente!
-
-Diabo!
-
-Deram quatro horas, e o desgraçado nada de pregar olho; continuava a
-matutar sobre o assumpto, virando se de um para o outro lado da sua
-larga e rangedora cama de casados. Só pelo abrir da aurora conseguio
-passar pelo somno; mas, logo ás sete da manhã, teve de pôr-se a pé:
-o cortiço estava todo alvoroçado com um desastre.
-
-A Machona lavava á sua tina, ralhando e discutindo como sempre, quando
-dois trabalhadores, acompanhados de um ruidoso grupo de curiosos,
-trouxeram-lhe sobre uma taboa o cadaver ensanguentado do filho.
-Agostinho havia ido, segundo o costume, brincar á pedreira com outros
-dois rapazitos da estalagem; tinham, cabritando pelas arestas do
-precipicio, subido a uma altura superior a duzentos metros do chão e,
-de repente, faltára-lhe o equilibrio e o infeliz rolou de lá abaixo,
-partindo os ossos e atassalhando as carnes.
-
-Todo elle, coitadinho, era uma só massa vermelha; as canellas quebradas
-no joelho, dobravam molles para debaixo das coxas; a cabeça,
-desarticulada, abrira no casco e despejava o pirão dos miolos; n'uma
-das mãos faltavam-lhe todos os dedos e no quadril esquerdo via-se-lhe
-sahir uma ponta de osso ralado pela pedra.
-
-Foi um alarme no pateo quando elle chegou.
-
-Cruzes! que desgraça!
-
-Albino, que lavava ao lado da Machona, teve uma syncope; Nênêm ficou
-que nem doida, porque ella queria muito áquelle irmão; a das Dôres
-imprecou contra os trabalhadores, que deixavam um filho alheio matar-se
-d'aquelle modo em presença d'elles; a mãe, essa apenas soltou um
-bramido de monstro apunhalado no coração e cahio mesquinha junto do
-cadaver, a beijal-o, vagindo como uma criança. Não parecia a mesma!
-
-As mães dos outros dois rapazitos esperavam immoveis e lividas pela
-volta dos filhos, e, mal estes chegaram á estalagem, cada uma se
-apoderou logo do seu e cahio-lhe em cima, a soval-os ambos que mettia
-medo.
-
---Mira-te n'aquelle espelho, tentação do diabo! exclamava uma d'ellas,
-com o pequeno seguro entre as pernas e a encher-lhe a bunda de
-chinelladas. Não era aquelle que devia ir, eras tu, peste! aquelle,
-coitado! ao menos ajudava a mãe, ganhava dois mil reis por mez regando
-as plantas do Commendador, e tu, coisa ruim, só serves para me dar
-consumições! Toma! Toma! Toma!
-
-E o chinello cantava entre o berreiro feroz dos dois rapazes.
-
-João Romão chegou ao terraço de sua casa, ainda em mangas de camisa,
-e de lá mesmo tomou conhecimento do que acontecera. Contra todos os
-seus habitos impressionou-se com a morte de Agostinho; lamentou-a no
-intimo, tomado de estranhas condolencias.
-
---Pobre pequeno! tão novo ... tão esperto ... e cuja vida não
-prejudicava a ninguem, morrer assim, desastradamente!... ao passo que
-aquelle diabo velho da Bertoleza continuava agarrado á existencia,
-envenenando-lhe a felicidade, sem se decidir a despachar o beco!
-
-E o demonio da crioula parecia mesmo não estar disposta a ir só com
-duas razões; apezar de triste e acabrunhada, mostrava-se forte e rija.
-Suas pernas curtas e lustrosas eram duas peças de ferro unidas pela
-culatra, das quaes ella trazia um par de balas penduradas em sacco
-contra o peito; as roscas lustrosas do seu cachaço lembravam grossos
-chouriços de sangue, e na sua carapinha compacta ainda não havia um
-fio branco. Aquillo, arre! tinha vida para o rosto do seculo!
-
---Mas deixa estar, que eu te despacho bonito e asseiado!... disse o
-vendeiro de si para si, voltando ao quarto para acabar de vestir-se.
-
-Enfiava o collete quando bateram pancadas familiares na porta do
-corredor.
-
---Então?! Ainda se está em val de lençóes?...
-
-Era a voz do Botelho.
-
-O vendeiro foi abrir e fel-o entrar ali mesmo para a alcova.
-
---Ponha-se a gosto. Como vai você?
-
---Assim. Não tenho passado lá essas coisas...
-
-João Romão deu-lhe noticia da morte do Agostinho e declarou que estava
-com dôr de cabeça. Não sabia que diabo tinha elle aquella noite, que
-não houve meio de pegar direito no somno.
-
---Calor ... explicou o outro. E proseguio depois de uma pausa,
-accendendo um cigarro: Pois eu vinha cá fallar-lhe... Você não
-repare, mas...
-
-João Romão suppoz que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e preparou-se
-para a defeza, queixando-se inopinadamente de que os negocios não lhe
-corriam bem; mas calou-se, porque Botelho accrescentou com o olhar fito
-nas unhas:
-
---Não devia fallar n'isto ... são coisas suas lá particulares, em que
-a gente não se mette, mas...
-
-O taberneiro comprehendeu logo onde a visita queria chegar e
-approximou-se d'ella, dizendo confidencialmente:
-
---Não! Ao contrario! falle com franqueza... Nada de receios...
-
---É que ... sim, você sabe que eu tenho tratado do seu casamento com a
-Zulmirinha... Lá em casa não se falla agora n'outra coisa ... até a
-propria Dona Estella já está muito bem disposta a seu favor ... mas...
-
---Desembuche, homem de Deus!
-
---É que ha um pontinho que é preciso pôr a limpo... Coisa
-insignificante, mas...
-
---Mas, mas! você não desembuchará por uma vez?... Falle, que diabo!
-
-Um caixeiro do armazem appareceu á porta, prevenindo de que o almoço
-estava na meza.
-
---Vamos comer, disse João Romão. Você já almoçou?
-
---Ainda não, mas lá em casa contam commigo...
-
-O vendeiro mandou o seu empregado dizer lá defronte á familia do
-Barão que seu Botelho não ia ao almoço. E, sem tomar o casaco, passou
-com a visita á sala de jantar.
-
-O cheiro activo dos moveis, polidos ainda de fresco, dava ao aposento um
-caracter insociavel de logar deshabitado e por alugar. Os trastes, tão
-nús como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de coisa nova.
-
---Mas vamos lá! Que temos então?... inquirio o dono da casa,
-assentando-se á cabeceira da meza, emquanto o outro, junto d'elle,
-tomava logar á extremidade de um dos lados.
-
---É que, respondeu o velho em tom de mysterio, você tem cá em sua
-companhia uma ... uma crioula, que... Eu não creio, note-se, mas...
-
---Adiante!
-
---É! Dizem que ella é coisa sua... Lá em casa rosnou!... O Miranda
-defende-o, affirma que não... Ah! aquillo é uma grande alma! mas Dona
-Estella, você sabe o que são mulheres!... torce o nariz e... Em uma
-palavra: receio que esta historia nos traga qualquer embaraço!...
-
-Calou-se, porque acabava de entrar um portuguezinho, trazendo uma
-travessa de carne ensopada com batatas.
-
-João Romão não respondeu, mesmo depois que o pequeno sahio; ficou
-abstracto, a bater com a faca entre os dentes.
-
---Porque você a não manda embora?... arriscou-o Botelho, despejando
-vinho no seu e no copo do companheiro.
-
-Ainda d'esta vez não obteve logo resposta; mas o outro tomando, afinal,
-uma resolução, declarou confidencialmente:
-
---Vou dizer-lhe toda a coisa como ella é ... e talvez que você até me
-possa auxiliar!...
-
-Olhou para os lados, chegou mais a sua cadeira para junto da de Botelho
-e accrescentou em voz baixa:--Esta mulher metteu-se commigo, quando eu
-principiava minha vida... Então, confesso ... precisava de alguem nos
-casos d'ella, que me ajudasse ... e ajudou-me muito, não nego! Devo-lhe
-isso! não! ajudar-me ajudou!... mas...
-
---E depois?
-
---Depois, ella foi ficando para ahi; foi ficando ... e agora...
-
---Agora é um trambolho que lhe póde escangalhar a egreginha! É o que
-é!
-
---Sim, que duvida! póde ser um obstaculo sério ao meu casamento! Mas,
-que diabo! eu tambem, você comprehende, não a posso pôr na rua,
-assim, sem mais aquellas!... Seria ingratidão, não lhe parece?...
-
---Ella já sabe em que pé está o negocio?...
-
---Deve desconfiar de alguma coisa, que não é tola!... Eu, cá por mim,
-não lhe toquei em nada...
-
---E você ainda faz vida com ella?
-
---Qual! ha muito tempo que nem sombras d'isso...
-
---Pois então, meu amigo, é arranjar-lhe uma quitanda em outro bairro;
-dar-lhe algum dinheiro e... Boa viagem! O dente que já não presta
-arranca-se fóra!
-
-João Romão ia responder, mas Bertoleza assomou á entrada da sala.
-Vinha tão transformada e tão livida que só com a sua presença
-intimidou profundamente os dois. A indignação tirava-lhe faiscas dos
-olhos e os labios tremiam-lhe de raiva. Logo que fallou veio-lhe espuma
-aos cantos da bocca.
-
---Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira
-á tôa! exclamou ella. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me
-comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então ha de uma creatura ver
-entrar anno e sahir anno, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus
-manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para
-ao depois ser jogada no meio da rua, como gallinha podre?! Não! Não ha
-de ser assim, seu João!
-
---Mas, filha de Deus, quem te disse que eu quero atirar-te á tôa?...
-perguntou o capitalista.
-
---Eu escutei o que você conversava, seu João! A mim não me cegam
-assim só! Você é fino, mas eu tambem sou! Você está armando
-casamento com a menina de seu Miranda!
-
---Sim, estou! Um dia havia de cuidar de meu casamento!... Não hei de
-ficar solteiro toda a vida, que não nasci para pandego! Mas tambem não
-te sacudo na rua, como disseste; ao contrario agora mesmo tratava aqui
-com seu Botelho de arranjar-te uma quitanda e...
-
---Não! Com a quitanda principiei; não hei de ser quitandeira até
-morrer! Preciso de um descanço! Para isso mourejei junto de você
-emquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saude!
-
---Mas afinal que diabo queres tu?!
-
---Ora essa! Quero ficar a seu lado! Quero desfructar o que nós dois
-ganhámos juntos! quero a minha parte no que fizemos com o nosso
-trabalho! quero o meu regalo, como você quer o seu!
-
---Mas não vês que isso é um disparate?... Tu não te conheces?... Eu
-te estimo, filha; mas por ti farei o que fôr bem entendido e não
-loucuras! Descança que nada te ha de faltar!... Tinha graça, com
-effeito, que ficassemos vivendo juntos!... Não sei como não me
-propões casamento!
-
---Ah! agora eu não me enxergo! agora eu não presto para nada! Porém,
-quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo
-e aguentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra servia para um
-tudo; agora não presta para mais nada, e atira-se com ella no monturo
-do cisco! Não! assim tambem Deus não manda! Pois se aos cães velhos
-não se enxotam, porque me hão de pôr fóra d'esta casa, em que metti
-muito suor do meu rosto?... Quer casar, espere então que eu feche
-primeiro os olhos; não seja ingrato!
-
-João Romão perdeu por fim a paciencia e retirou-se da sala, atirando
-á amante uma palavrada porca.
-
---Não vale a pena encanzinar-se ... segredou-lhe o Botelho,
-acompanhando-o até á alcova, onde o vendeiro enterrou com toda a
-força o chapéu na cabeça e enfiou o paletó com a mão fechada em
-murro.
-
---Arre! Não a posso aturar nem mais um instante! Que vá para o diabo
-que a carregue! em casa é que não me fica!
-
---Calma, homem de Deus! Calma!
-
---Se não quizer ir por bem, irá por mal! Sou eu quem o diz!
-
-E o vendeiro esfuziou pela escada, levando atraz de si o velhote, que
-mal podia acompanhal-o na carreira. Já na esquina da rua parou e,
-fitando no outro o seu olhar flammejante, perguntou-lhe:
-
---Você vio?!
-
---É ... resmungou o parasita, de cabeça baixa, sem interromper os
-passos.
-
-E seguiram em silencio, andando agora mais de vagar; ambos preoccupados.
-
-No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou se Bertoleza era escrava
-quando João Romão tomou conta d'ella.
-
-Esta pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro. Ia pensando em
-mettel-a como idiota no Hospicio de Pedro II, mas accudia-lhe agora
-coisa muito melhor: entregal-a ao seu senhor, restituil-a legalmente á
-escravidão.
-
-Não seria difficil ... considerou elle; era só procurar o dono da
-escrava, dizer lhe onde esta se achava refugiada e aquelle ir logo
-buscal-a com a policia.
-
-E respondeu ao Botelho:
-
---Era e é!
-
---Ah! Ella é escrava? De quem?
-
---De um tal Freitas de Mello. O primeiro nome não sei. Gente de fóra.
-Em casa tenho as notas.
-
---Ora! então a coisa é simples!... Mande-a para o dono!
-
---E se ella não quizer ir?...
-
---Como não?! A policia a obrigará! É boa!
-
---Ella ha de querer comprar a liberdade...
-
---Pois que a compre, se o dono consentir!... Você com isso nada mais
-tem que ver! E se ella voltar á sua procura, despache-a logo; se
-insistir, vá então á autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas
-coisas, para ser bem feitas, fazem-se assim ou não se fazem! Olhe que
-aquelle modo com que ella lhe fallou ha pouco é o bastante para você
-ver que semelhante estupor não lhe convém dentro de casa nem mais um
-instante! Digo-lhe até: já não só pelo facto do casamento, mas por
-tudo! Não seja molle!
-
-João Romão escutava, caminhando calado, sem mais vislumbres de
-agitação. Tinham chegado á praia.
-
---Você quer encarregar-se d'isto? propoz elle ao companheiro, parando
-ambos á espera do bonde; se quizer, póde tratar, que lhe darei uma
-gratificação menos má...
-
---De quanto?...
-
---Cem mil reis!
-
---Não! dobre!
-
---Terá os duzentos!
-
---Está dito! Eu cá, para tudo que fôr pôr cobro a relachamentos de
-negro, estou sempre prompto!
-
---Pois então logo mais á tarde lhe darei, ao certo, o nome do dono, o
-logar em que elle residia quando ella veio para mim e o mais que
-encontrar a respeito.
-
---E o resto fica a meu cuidado! Póde dal-a por despachada!
-
-
-
-
-XXII
-
-
-Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e
-só trocava com o amigo um ou outro monosyllabo inevitavel no serviço
-da casa. Entre os dois havia agora d'esses olhares de desconfiança, que
-são abysmos de constrangimento entre pessoas que moram juntas. A
-infeliz vivia n'um sobresalto constante; cheia de apprehensões, com
-medos de ser assassinada; só comia do que ella propria preparava para
-si e não dormia senão depois de fechar-se á chave. Á noite o mais
-ligeiro rumor a punha de pé; olhos arregalados, respiração convulsa,
-bocca aberta e prompta para pedir soccorro ao primeiro assalto.
-
-No emtanto, em redor do seu desassocego e do seu máo estar, tudo ali
-prosperava forte em grosso, aos contos de reis, com a mesma febre com
-que d'antes, em torno da sua actividade de escrava trabalhadeira, os
-vintens choviam dentro da gaveta da venda. Durante o dia paravam agora
-em frente do armazem carroças e carroças com fardos e caixas, trazidas
-da alfandega, em que se liam as iniciaes de João Romão; e rodavam-se
-pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes partidas de barricas
-de cerveja e de barris de manteiga e de saccos de pimenta. E o armazem,
-com as suas portas escancaradas sobre o publico, engolia tudo de um
-trago, para depois ir deixando sahir de novo, aos poucos com um lucro
-lindissimo, que no fim do anno causava assombros. João Romão fizera-se
-o fornecedor de todas as tabernas e armarinhos de Botafogo; o pequeno
-commercio sortia-se lá para vender a retalho. A sua casa tinha agora,
-um pessoal complicado de primeiros, segundos e terceiros caixeiros,
-além do guarda livros, do comprador, do despachante e do caixa; do seu
-escriptorio sahiam correspondencias em varias linguas e, por dentro das
-grades de madeira polida, onde havia um bufete sempre servido com
-presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos contractos commerciaes,
-transacções em que se arriscavam fortunas; e propunham-se
-negociações de emprezas e privilegios obtidos do governo; e
-realisavam-se vendas e compras de papeis; e concluiam-se emprestimos de
-juros fortes sobre hypothecas de grande valor. E ali ia de tudo: o alto
-e o baixo negociante; capitalistas adulados e mercadores fallidos;
-corredores da praça, zangões, cambistas; empregados publicos, que
-passavam procuração contra o seu ordenado; emprezarios de theatro e
-fundadores de jornaes, em apuros de dinheiro; viuvas, que negociavam o
-seu monte pio; estudantes, que iam receber a sua mezada; e capatazes de
-vários grupos de trabalhadores pagos pela casa; e, destacando-se de
-todos, pela quantidade, os advogados e a gente miuda do fôro, sempre
-inquieta, farisqueira, a metter o nariz em tudo, feia, a papelada
-debaixo do braço, a barba por fazer, o cigarro babado e apagado a um
-canto da bocca.
-
-E, como a casa commercial de João Romão, prosperava igualmente a sua
-avenida. Já lá se não admittia assim qualquer pé rapado: para entrar
-era preciso carta de fiança e uma recommendação especial. Os preços
-dos commodos subiam, e muitos dos antigos hospedes, italianos
-principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça de Gato e
-sendo substituidos por gente mais limpa. Decrescia tambem o numero das
-lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram occupadas agora por
-pequenas familias de operarios, artistas e praticantes de secretaria. O
-cortiço aristocratisava-se. Havia um alfaiate logo á entrada, homem
-sério, de suissas brancas, que cosia na sua machina entre officiaes,
-ajudado pela mulher, uma lisboeta côr de nabo gorda, velhusca, com um
-principio de bigode e cavagnac, mas extremamente circumspecta; em
-seguida um relojoeiro calvo, de oculos, que parecia mumificado atraz da
-vidraça em que elle, sem mudar de posição, trabalhava, da manhã até
-á tarde; depois um pintor de tectos e taboletas, que levou a phantasia
-artistica ao ponto de fazer, a pincel, uma trepadeira em volta da sua
-porta, onde se viam passaros de varias côres e feitios, muitos
-compromettedores para o credito profissional do autor; mais adiante
-installára-se um cigarreiro, que occupava nada menos de tres numeros na
-estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem cigarros, e
-mais tres operarias que preparavam palha de milho e picavam e desfiavam
-tabaco. Florinda, mettida agora com um despachante da estrada de ferro,
-voltára para o São Romão e trazia a sua casinha em muito bonito pé
-de limpeza e arranjo. Estava ainda de luto pela mãe, a pobre velha
-Marcianna, que ultimamente havia morrido no hospicio dos doidos. Aos
-domingos o despachante costumava receber alguns camaradas para jantar, e
-como a rapariga puxava os feitios da Rita Bahiana, as suas noitadas
-acabavam sempre em pagode de dansa e cantarola, mas tudo de portas a
-dentro, que ali já se não admittiam sambas e chinfrinadas ao relento.
-A Machona quebrára um pouco de genio depois da morte de Agostinho e era
-agora visitada por um grupo de moços do commercio, entre os quaes havia
-um pretendente á mão de Nênêm, que se mirrava já de tanto esperar a
-secco por marido. Alexandre fôra promovido a sargento e empertigava-se
-ainda mais dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher,
-sempre indifferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolôr na sua
-molleza humida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com
-frequencia a dar de mammar a um pequerrucho de poucos mezes, empinando
-muito a barriga para a frente, pelo habito de andar sempre gravida. A
-sua comadre Léonie continuava a visital-a de vez em quando, aturdindo
-a actual pacatez d'aquelle cenobio com as suas roupas gritadoras. Uma
-occasião em que lá fóra, um sabado á tarde, produzira grande
-alvoroço entre os decanos da estalagem, porque comsigo levava Pombinha,
-que se atirára ao mundo e vivia agora em companhia d'ella.
-
-Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois annos de casada já não
-podia supportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se mulher
-honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espirito, os gostos razos e a sua
-risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouvio-lhe, resignada,
-as confidencias banaes nas horas intimas do matrimonio; attendeu-o nas
-suas exigencias mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a
-solicitude, quando elle esteve a decidir com uma pneumonite aguda;
-procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe fallou nunca em
-coisas que cheirassem a luxo, a arte, a esthetica, a originalidade;
-escondeu a sua mal educada e natural intuição pelo que é grande, ou
-bello, ou arrojado, e fingio ligar interesse ao que elle fazia, ao que
-elle dizia, ao que elle ganhava, ao que elle pensava e ao que elle
-conseguia com paciencia na sua vida estreita de negociante rotineiro;
-mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilibrio e a misera escorregou,
-cahindo nos braços de um bohemio de talento, libertino e poeta, jogador
-e capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar
-a mulher, a desconfiar d'ella e a espreital-a, até que um bello dia,
-seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de
-que era trahido pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um
-artista dramatico, que muitas vezes lhe arrancára, a elle, sinceras
-lagrimas de commoção, declamando no theatro em honra da moral
-triumphante e estigmatisando o adulterio com a rethorica mais vehemente
-e indignada.
-
-Ah não poude illudir-se! ... e, a despeito do muito que amava á
-ingrata, rompeu com ella e entregou-a á mãe, fugindo em seguida para
-São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não d'esta ultima falcatrua da
-filha, mas das outras primeiras, que bem a mortificaram, coitada!
-desfez-se em lagrimas, aconselhou-a a que se arrependesse e mudasse de
-conducta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo por Pombinha,
-jurando que agora respondia por ella e pedindo-lhe que esquecesse o
-passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz não respondeu á
-carta, e dahi a mezes, Pombinha desappareceu da casa da mãe. Dona
-Isabel quasi morre de desgosto. Para onde teria ido a filha?... «Onde
-está? onde não está! Procura d'aqui! procura d'ahi!» Só a descobrio
-semanas depois; estava morando n'um hotel com Léonie. A serpente vencia
-afinal. Pombinha foi, pelo seu proprio pé, attrahida, metter-se-lhe na
-bocca. A pobre mãe chorou a filha como morta; mas, visto que os
-desgosto não lhe tiraram a vida por uma vez e, como a desgraçada não
-tinha com que matar a fome, nem forças para trabalhar, aceitou de
-cabeça baixa o primeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. E, desde
-então, aceitou sempre, constituindo-se a rapariga no seu unico amparo
-da velhice e sustentando-a com os ganhos da prostituição. Depois, como
-n'este mundo uma creatura a tudo se acostuma, Dona Isabel mudou-se para
-a casa da filha. Mas não apparecia nunca na sala quando havia gente de
-fóra; escondia-se; e, se algum dos frequentadores de Pombinha a pilhava
-de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se criada ou
-dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ella não podia
-tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com
-champanha depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali
-mesmo no collo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fóra
-d'horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi se
-sentindo enfraquecer e enfermar, até cahir de cama e mudar-se para uma
-casa de saude, onde afinal morreu.
-
-Agora, as duas cocotes, amigas, inseparaveis, terriveis n'aquella
-inquebrantavel solidariedade, que fazia d'ellas uma só cobra de duas
-cabeças dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por toda
-a parte onde houvesse prazer; á tarde, antes do jantar, atravessavam o
-Catette em carro descoberto, com a Jujú ao lado; á noite, no theatro,
-em um camarote de bocca, chamavam sobre si os velhos conselheiros
-desfibrados pela politica e avidos de sensações extremas, ou
-arrastavam para os gabinetes particulares dos hoteis os sensuaes e
-gordos fazendeiros de café, que vinham á côrte esbodegar o farto
-producto das safras do anno, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima
-d'ellas duas passára uma geração inteira de devassos. Pombinha, só
-com tres mezes de cama franca, fizera-se tão perita no officio como a
-outra; a sua infeliz intelligencia, nascida e criada no modesto lodo da
-estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos vicios de largo
-folego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos
-d'aquella vida; seus labios não tocavam em ninguem sem tirar sangue;
-sabia beber, gotta a gotta, pela bocca do homem mais avarento, todo o
-dinheiro que a victima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida
-São Romão, era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos
-e fieis companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas por
-Jujú, a porta da Augusta ficava, como d'antes, cheia de gente, que as
-abençoava com o seu estupido sorriso de pobreza hereditaria e humilde.
-Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jeronymo,
-a cuja filha, sua protegida predilecta, votava agora, por sua vez, uma
-sympathia toda especial, identica á que n'outro tempo inspirára ella
-propria á Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente;
-o cortiço estava preparando uma nova prostituta n'aquella pobre menina
-desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.
-
-E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de
-Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguem confiava roupa
-á desgraçada, e nem ella podia dar conta de qualquer trabalho.
-
-Pobre mulher! chegára ao extremo dos extremos. Coitada! já não
-causava dó, causava repugnancia e nojo. Apagaram-se-lhe os ultimos
-vestigios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria,
-d'essa embriaguez sombria e morbida que se não dissipa nunca. O seu
-quarto era mais immundo e o peior de toda a estalagem; homens malvados
-abusavam d'ella, muitos de uma vez, aproveitando-se da quasi completa
-inconsciencia da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha
-logo prompta; acordava todas as manhãs apatetada, muito triste, sem
-animo para viver esse dia, mas era só correr á garrafa e voltavam-lhe
-as risadas frouxas, de bocca que já se não governa. Um empregado de
-João Romão, que ultimamente fazia as vezes d'elle na estalagem, por
-tres vezes a enxotou, e ella, de todas, pedio que lhe dessem alguns dias
-de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao ultimo em que
-Pombinha appareceu por lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro,
-despejaram-lhe os tarecos na rua.
-
-E a misera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no Cabeça
-de Gato que, á proporção que o São Romão se engrandecia, mais e
-mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais
-abjecto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o
-outro regeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalteravel,
-para sempre, o verdadeiro typo da estalagem fluminense, a legitima, a
-legendaria; aquella em que ha um samba e um rôlo por noite; aquella em
-que se matam homens sem a policia descobrir os assassinos; viveiro de
-larvas sensuaes em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma
-lama; paraiso de vermes; brejo de lodo quente o fumegante, donde brota a
-vida brutalmente, como de uma podridão.
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-A porta de uma confeitaria da rua do Ouvidor, João Romão, apurado n'um
-fato novo de casimira clara, esperava pela familia do Miranda, que
-n'esse dia andava em compras.
-
-Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O tempo
-estava magnifico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e sahia, a passo
-frouxo, da casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé,
-soprando o fumo dos charutos, á espera que desoccupassem uma das
-mezinhas de marmore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda, faziam
-lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradavel de essencias
-e vinagres aromaticos; havia um rumor quente e garrido, mas bem educado;
-namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se olhares no complicado
-encontro dos espelhos; homens bebiam ao balcão e outros conversavam,
-comendo empadinhas junto ás estufas; algumas pessoas liam já os
-primeiros jornaes da tarde; serventes, muito atarefados, despachavam
-compras de doce e biscoitos e faziam sem descançar, pacotes de papel de
-côr, que os compradores levavam pendurados n'um dedo. Ao fundo, de um
-dos lados do salão, aviavam-se grandes encommendas de banquetes para
-essa noite, traziam-se lá de dentro, já promptas, torres e castellos
-de balas e trouxas d'ovos e imponentes peças de cozinha caprichosamente
-enfeitadas; criados desciam das prateleiras as enormes baixellas de
-metal branco, que os companheiros iam embalando em caixões com papel
-fino picado. Os empregados das secretarias publicas vinham tomar o seu
-vermuth com siphão; reporteres insinuavam-se por entre os grupos dos
-jornalistas e dos politicos, com o chapéo á ré, avidos de noticias,
-uma curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão sem deixar a porta,
-apoiado no seu guarda chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos de
-quem passava na rua; alguns paravam para lhe fallar. Elle tinha sorrisos
-e offerecimentos para todos os lados; e consultava o relogio de vez em
-quando.
-
-Mas a familia do Barão surgio afinal. Zulmira vinha na frente, com um
-vestido côr de palha justo ao corpo, muito elegante no seu typo de
-fluminense pallida e nervosa; logo depois Dona Estella, grave, toda de
-negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes e do
-bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as, de
-sobrecasaca, fitinha ao peito, o collarinho até ao queixo, botas de
-verniz, chapéo alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João
-Romão, elle sorrio e Zulmira tambem; só Dona Estella conservou
-inalteravel a sua fria mascara de mulher que não dá verdadeira
-importancia senão a si mesma.
-
-O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro d'elles,
-cheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com
-empenho a que tomassem alguma coisa.
-
-Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira meza que se
-esvaziou. Um criado acudio logo e João Romão, depois de consultar Dona
-Estella, pedio sandwichs doces e moscatel de Setubal. Mas Zulmira
-reclamou sorvete e licor. E só esta fallava; os outros estavam ainda á
-procura de um assumpto para a conversa; afinal o Miranda que, durante
-esse tempo considerava o tecto e as paredes, fez algumas considerações
-sobre as reformas e novos adornos do salão da confeitaria. Dona Estella
-dirigio, de má, a João Romão varias perguntas sobre a companhia
-lyrica, o que confundio por tal modo ao pobre homem, que o poz vermelho
-e o desnorteou de todo. Felizmente, n'esse instante chegava o Botelho e
-trazia uma noticia: a morte de um sargento no quartel; questão entre
-inferior e superior. O sargento, insultado por um official do seu
-batalhão, levantara a mão contra elle, e o official então arrancára
-da espada e atravessára-o de lado a lado. Estava direito! Ah! elle era
-rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantar a mão
-para um official superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que
-duvida!
-
-E faiscavam-lhe os olhos no seu inverterado enthusiasmo por tudo que
-cheirasse á farda. Vieram logo as anecdotas analogas; o Miranda contou
-um facto identico que se dera vinte annos atraz e Botelho citou uma
-enfiada d'elles interminavel.
-
-Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira e o Barão á
-mulher, e seguiram todos para o largo de São Francisco, lentamente, em
-andar de passeio, acompanhados pelo parasita. Lá chegados Miranda
-queria que o visinho acceitasse um logar no seu carro, mas João Romão
-tinha ainda que fazer na cidade e pedio dispensado obsequio. Botelho
-tambem ficou; e, mal a carroagem partio, este disse ao ouvido do outro,
-sem tomar folego:
-
---O homem vae hoje, sabe? Está tudo combinado!
-
---Ah! vae? perguntou João Romão com interesse, estacando no meio do
-largo. Ora graças! Já não é sem tempo!
-
---Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! Foi uma
-campanha!
-
---Ha que tempo já tratamos d'isto!...
-
---Mas que quer você, se o homem não apparecia?... Estava fóra!
-Escrevi-lhe varias vezes, como sabe, e só agora consegui pilhal-o. Fui
-tambem á policia duas vezes e já lá voltei hoje; ficou tudo prompto!
-mas você deve estar em casa para entregar a crioula quando elles lá se
-apresentarem ...
-
---Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não estar
-presente...
-
---Ora essa! Então com quem se entendem elles?.... Não! tenha paciencia!
-é preciso que você lá esteja!
-
---Você podia fazer as minhas vezes...
-
---Peior! Assim não arranjamos nada! Qualquer duvida póde entornar o
-caldo! E melhor fazer as coisas bem feitas Que diabo lhe custa isto?...
-Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a
-entrega--prompto! Fica livre d'ella para sempre, e d'aqui a dias estoira
-o champanha do casorio! Hein, não lhe parece?
-
---Mas...
-
---Ella ha de choramigar, lazer lamurias e coisas, mas você pôe-se duro
-e deixe-a seguir lá o seu destino!...
-
-Bolas! não foi você que a fez negra!...
-
---Pois vamos lá! creio que são horas.
-
---Que horas são!
-
---Tres e vinte.
-
---Vamos indo.
-
-E desceram de novo a rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes de
-Gonçalves Dias.
-
---O de São Clemente não está agora, observou o velho. Vou tomar um
-copo d'agoa emquanto o esperamos.
-
-Entraram no botequim do logar e, para conversar assentados, pediram dois
-calices de cognac.
-
---Olhe, acrescentou Botelho; você nem precisa dizer palavra ... faça
-como coisa que não tem nada com isso, comprehende?
-
---E se o homem quizer os ordenados de todo o tempo em que ella esteve em
-minha companhia?...
-
---Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguem?!... Você
-não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre
-naturalmente; agora apparece o dono, reclama-a, e você a entrega,
-porque não quer ficar com o que lhe não pertence! Ella sim, póde
-pedir o seu saldo de contas; mas para isso você lhe dará qualquer
-coisa...
-
---Quanto devo dar-lhe?
-
---Ahi uns quinhentos mil reis, para fazer a coisa á fidalga.
-
---Pois dou-lh'os.
-
---E feito isso--acabou-se! O proprio Miranda vae logo, logo, ter com
-você! Verá!
-
-Iam fallar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar,
-assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só
-conseguiram logar muito separados um do outro, de sorte que não puderam
-conversar durante a viagem.
-
-No largo da Carioca uma victoria passou por elles, a todo o trote.
-Botelho vergou-se logo para traz, procurando os olhos do vendeiro, a
-rir-se com intenção. Dentro de carro ia Pombinha, coberta de joias, ao
-lado de Henrique; ambos muito alegres, em pandega. O estudante, agora no
-seu quarto anno de medicina, vivia á solta com outros da mesma idade e
-pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de rapazola rico.
-
-Ao chegarem á casa, João Romão pedio ao cumplice que entrasse e
-levou-o para o seu escriptorio.
-
---Descance um pouco ... disse-lhe.
-
---É, se eu soubesse que elles se não demoravam muito, ficava para
-ajudal-o.
-
---Talvez só venham depois do jantar, tornou aquelle, assentando-se á
-carteira.
-
-Um caixeiro approximou-se d'elle respeitosamente e fez-lhe varias
-perguntas relativas ao serviço do armazem, ao que João Romão
-respondia por monosyllabos de capitalista; interrogou-o por sua vez e,
-como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço e convidou-o a
-sahir.
-
---Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada.
-
-Já não era preciso prevenir lá defronte, porque agora o velho
-parazita comia muitas vezes em casa do visinho.
-
-O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente
-dominados por um vago sobresalto. João Romão foi pouco além da sôpa e
-quiz logo a sobremeza.
-
-Tomavam café, quando um empregado subio para dizer que lá em baixo
-estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava fallar ao
-dono da casa.
-
---Vou já! respondeu este.
-
-E accrescentou para o Botelho:--São elles!
-
---Deve ser, confirmou o velho.
-
---E desceram logo.
-
---Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao
-armazem.
-
-Um homem alto, com ar de estroina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha
-de papel.
-
-João Romão, um pouco tremulo, abrio-a defronte dos olhos e leu-a
-demoradamente. Um silencio formou-se em torno d'elle; os caixeiros
-pararam em meio do serviço, intimidados por aquella scena em que
-entrava a policia.
-
---Está aqui com effeito ... disse afinal o negociante. Pensei que fosse
-livre...
-
---É minha escrava, affirmou o outro. Quer entregar-m'a?...
-
---Mas immediatamente.
-
---Onde está ella?
-
---Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...
-
-O sujeito fez signal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e
-encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, á frente
-delles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atraz, pallido, com as
-mãos crusadas nas costas.
-
-Atravessaram o armazem, depois um pequeno corredor que dava para um
-pateo calçado, e chegaram finalmente á cozinha. Bertoleza, que havia
-já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cocaras no chão,
-escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando vio parar defronte
-d'ella aquelle grupo sinistro.
-
-Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um
-calafrio percorreu-lhe o corpo. N'um relance de grande perigo
-comprehendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê
-perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta
-de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para
-matal-a, restituia-a ao captiveiro.
-
-Seu primeiro impulso foi de fugir, Mal, porém, circumvagou os olhos em
-torno de si, procurando escapúla, o senhor adiantou-se d'ella e
-segurou-lhe o hombro.
-
---É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada
-a seguil-os.--Prendam-na! É escrava minha!
-
-A negra, immovel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das
-mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha,
-olhou aterrada para elles, sem pestanejar:
-
-Os policias, vendo que ella se não despachava, desembainharam os
-sabres. Bertoleza então, erguendo-se com impeto de anta bravia, recuou
-de um salto e, antes que alguem conseguisse alcançal-a, já de um só
-golpe certeiro e fundo rasgára o ventre de lado a lado.
-
-E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa
-lameira de sangue.
-
-
-João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazem, tapando o
-rosto com as mãos.
-
-N'esse momento parava á porta da rua uma carruagem. Era uma commissão
-de abolicionistas que vinham, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o
-diploma de socio benemerito.
-
-Elle mandou que os conduzissem para a sala de visitas.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CORTIÇO ***
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@@ -1,13131 +0,0 @@
-<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN"
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- The Project Gutenberg eBook of O cortiço, by Aluísio Azevedo.
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Cortiço</span>, by Aluízio Azevedo</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
-at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>O Cortiço</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Aluízio Azevedo</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: October 20, 2022 [eBook #69187]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by Gallica, Bibliothèque nationale de France.)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O CORTIÇO</span> ***</div>
-
-
-<div class="figcenter" style="width: 500px;">
-<img src="images/cortico_cover.jpg" width="500" alt="" />
-</div>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h1>ALUIZIO AZEVEDO</h1>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h2>O CORTIÇO</h2>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h3>QUARTA EDIÇÃO</h3>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<h4>RIO DE JANEIRO</h4>
-
-<h4>H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR</h4>
-
-<h5>71, Rua do Ouvidor, 71</h5>
-
-<h5>E</h5>
-
-<h5>6, Rue des Saints-Pères, 6</h5>
-
-<h4>PARIS</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<div class="blockquote-half">
-<p>
-«Periculum dicendi non recuso.»
-</p>
-<p style="margin-left: 40%;">(CICERO.)</p></div>
-
-<div class="blockquote-half">
-<p>
-«La vérité, toute la vérité, rien que la vérité.»
-</p>
-<p style="margin-left: 40%;">(<i>Droit criminel.</i>)</p></div>
-
-<div class="blockquote-half">
-<p>
-«Os meus honrados collegas do jornalismo, e todos esses grandes
-publicistas que fatigam o céo e a terra para provar que esta em que
-estamos é a verdadeira epoca de transição, esses nos dirão se a
-Providencia andaria bem ou mal se hoje suscitasse um novo Timon da
-verdadeira raça das furias, que com as pontas viperinas do azorrague
-vingador lacerasse sem piedade os crimes e os vicios que a deshonram.»
-</p>
-<p style="margin-left: 40%;">(JOÃO FRANCISCO LISBOA, <i>Jornal
-de Timon</i>. Prospecto&mdash;Obras
-completas, 1° vol., pag. 12.)</p></div>
-
-<div class="blockquote-half">
-<p>
-«Ung oyseau qui se nomme cigale estoit en un figuier, et François
-tendit sa main et appella celluy oyseau, et tantost il obeyt et vint sur
-sa main. Et il lui deist: Chante, ma seur, et loue nostre Seigneur. Et
-adoncques chanta incontinent, et ne sen alla devant quelle eust
-congé.»
-</p>
-<p style="margin-left: 40%;">(JACQUES DE VORAGINE, <i>La Légende
-Dorée</i>. Traduction française.)</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>INDICE</h4>
-<p class="nind">
-CAPITULO <a href="#I">I</a><br />
-CAPITULO <a href="#II">II</a><br />
-CAPITULO <a href="#III">III</a><br />
-CAPITULO <a href="#IV">IV</a><br />
-CAPITULO <a href="#V">V</a><br />
-CAPITULO <a href="#VI">VI</a><br />
-CAPITULO <a href="#VII">VII</a><br />
-CAPITULO <a href="#VIII">VIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#IX">IX</a><br />
-CAPITULO <a href="#X">X</a><br />
-CAPITULO <a href="#XI">XI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XII">XII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIII">XIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIV">XIV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XV">XV</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVI">XVI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVII">XVII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XVIII">XVIII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XIX">XIX</a><br />
-CAPITULO <a href="#XX">XX</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXI">XXI</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXII">XXII</a><br />
-CAPITULO <a href="#XXIII">XXIII</a></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>O CORTICO</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="I">I</a></h4>
-
-<p>
-João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um
-vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura
-taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco
-que ganhára n'essa duzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a
-terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda
-com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.
-</p>
-<p>
-Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á
-labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de
-enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia
-sobre o balcão da propria venda, em cima de uma esteira, fazendo
-travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida
-arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua
-vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego
-residente em Juiz de Fóra e amigada com um portuguez que tinha uma
-carroça de mão e fazia fretes na cidade.
-</p>
-<p>
-Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem
-afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e á noite peixe frito e
-iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e,
-apezar d'isso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um
-dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga
-superior ás suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça,
-estrompado como uma besta.
-</p>
-<p>
-João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até
-participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho
-a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas
-desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e
-difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era
-brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p'rali, todos os mezes,
-vinte mil réis em dinheiro!» E segredou-lhe então o que já tinha
-junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe
-guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por
-gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos.
-</p>
-<p>
-D'ahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o
-conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era elle quem tomava conta
-de tudo que ella produzia, e era tambem quem punha e dispunha dos seus
-peculios, e quem se encarregava de remetter ao senhor os vinte mil réis
-mensaes. Abrio-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando
-precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até á venda e
-recebia-o das mãos do vendeiro, de «Seu João,» como ella dizia. Seu
-João debitava methodicamente essas pequenas quantias n'um quaderninho,
-em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de
-jornal: «Activo e passivo de Bertoleza.»
-</p>
-<p>
-E por tal fórma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da
-mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava
-d'elle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por ultimo, se alguem
-precisava tratar com ella qualquer negocio, nem mais se dava ao trabalho
-de procural-a, ia logo direita a João Romão.
-</p>
-<p>
-Quando deram fé estavam amigados.
-</p>
-<p>
-Elle propoz-lhe morarem juntos, e ella concordou de braços abertos,
-feliz em metter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa,
-Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente
-o homem n'uma raça superior á sua.
-</p>
-<p>
-João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de
-terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas
-portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente
-destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou
-com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma commoda de
-jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarello já mareadas, um
-oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande de
-couro crú taxeado, dous banquinhos de páo feitos de uma só peça e um
-formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de
-retalhos de chita.
-</p>
-<p>
-O vendeiro nunca tivera tanta mobilia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você.
-Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta.
-</p>
-<p>
-N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com
-uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que
-ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante
-o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver.
-Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego!
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia
-o jornal, exigia o que era seu!
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!
-</p>
-<p>
-Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do
-Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento.
-Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e
-nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar
-á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto
-aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve
-sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua
-escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.
-</p>
-<p>
-&mdash;O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro
-de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras!
-</p>
-<p>
-Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando
-lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança
-a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar:
-dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de
-tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de
-muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que
-lhe tinham sugado durante tanto tempo!»
-</p>
-<p>
-Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de
-caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre;
-ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o
-café para os freguezes e depois preparando o almoço para os
-trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal
-aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na
-taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua
-quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite
-passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro,
-fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas
-de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o
-demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além
-da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta
-e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e
-outras tantas camisas de riscado.
-</p>
-<p>
-João Romão não sahia nunca a passeio, nem ia á missa aos domingos;
-tudo que rendia a sua venda e mais a quitandas eguia direitinho para a
-caixa economica e d'ahi então para o banco. Tanto assim que, um anno
-depois da acquisição da crioula, indo em hasta publica algumas braças
-de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem
-perda de tempo, de construir tres casinhas de porta e janella.
-</p>
-<p>
-Que milagres de esperteza e de economia não realizou elle n'essa
-construcção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava
-pedra; pedra, que o velhaco, fóra d'horas, junto com a amiga, furtavam
-á pedreira do fundo, da mesma forma que subtrahiam o material das casas
-em obra que havia por ali perto.
-</p>
-<p>
-Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do
-melhor successo, graças á circumstancia de que n'esse tempo a policia
-não se mostrava muito por aquellas alturas. João Romão observava
-durante o dia quaes as obras em que ficava material para o dia seguinte,
-e á noite lá estava elle rente, mais a Bertoleza, a removerem taboas,
-tijolos, telhas, saccos de cal, para o meio da rua, com tamanha
-habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma
-carga e partia para casa, emquanto o outro ficava de alcatéa ao lado do
-resto, prompto a dar signal em caso de perigo; e, quando o que tinha ido
-voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez.
-</p>
-<p>
-Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavallos de
-páo, o banco ou a ferramenta dos marceneiros.
-</p>
-<p>
-E o facto é que aquellas tres casinhas, tão engenhosamente
-construidas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São Romão.
-</p>
-<p>
-Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o
-vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua
-bodega; e, á proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e
-o numero dos moradores.
-</p>
-<p>
-Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo
-nunca a occasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas
-as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os freguezes,
-roubando nos pezos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o
-que os escravos furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez
-mais as proprias despezas, empilhando privações sobre privações,
-trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio
-afinal a comprar uma boa parte da bella pedreira, que elle, todos os
-dias, ao cahir da tarde, assentado um instante á porta da venda,
-contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça.
-</p>
-<p>
-Pôz lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lagedos e
-parallelepipedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em
-grosso que, dentro de anno e meio, arrematava já todo o espaço
-comprehendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta
-braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnifico para
-construir.
-</p>
-<p>
-Justamente por essa occasião vendeu-se tambem um sobrado que ficava á
-direita da venda, separado d'esta apenas por aquellas vinte braças; de
-sorte que todo o flanco esquerdo do predio, coisa de uns vinte e tantos
-metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janellas de
-peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante portuguez, estabelecido
-na rua do Hospicio com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma
-limpeza geral no casarão, mudar-se-hia elle para lá com a familia,
-pois que a mulher, Dona Estella, senhora pretenciosa e com fumaças de
-nobreza, já não podia supportar a residencia no centro da cidade, como
-tambem sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pallida e precisava de
-largueza para enrijar e tomar corpo.
-</p>
-<p>
-Isto foi o que disse o Miranda aos collegas, porém a verdadeira causa
-da mudança estava na necessidade, que elle reconhecia urgente, de
-afastar Dona Estella do alcance dos seus caixeiros. Dona Estella era uma
-mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze annos e
-durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes
-de terminar o segundo anno de matrimonio, o Miranda pilhou-a em
-flagrante delicio de adulterio; ficou furioso e o seu primeiro impulso
-foi de mandal-a para o diabo junto com o cumplice; mas a sua casa
-commercial garantia-se com o dote que ella trouxera, uns oitenta contos
-em predios e acções da divida publica, de que se utilisava o
-desgraçado tanto quanto lhe permittia o regimen dotal. Além de que, um
-rompimento brusco seria obra para escandalo, e, segundo a sua opinião,
-qualquer escandalo domestico ficava muito mal a um negociante de certa
-ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a
-idéa de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para
-recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e
-affeito á hombridade de portuguez rico que já não tem patria na
-Europa.
-</p>
-<p>
-Acovardado defronte d'estes raciocinios, contentou-se com uma simples
-separação de leitos, e os dous passaram a dormir em quartos separados.
-Não comiam juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra
-constrangida, quando qualquer inesperado acaso os reunia a contra gosto.
-</p>
-<p>
-Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco
-a pouco se foi transformando em repugnancia completa. O nascimento de
-Zulmira veio aggravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez
-de servir de elo aos dous infelizes, foi antes um novo isolador que se
-estabeleceu entre elles. Estella amava-a menos do que lhe pedia o
-instincto materno por suppol-a filha do marido, e este a detestava
-porque tinha convicção de não ser seu pae.
-</p>
-<p>
-Uma bella noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e
-orçava então pelos seus trinta e cinco annos, sentio-se em
-insupportavel estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa
-alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas repellio
-logo esta idéa com escrupulosa repugnancia. Continuava a odial-a.
-Entretanto este mesmo facto de obrigação em que elle se collocou de
-não servir-se d'ella, a responsabilidade de desprezal-a, como que ainda
-mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fructo
-prohibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente em nada
-diminuisse a sua repugnancia pela perjura, foi ter ao quarto d'ella.
-</p>
-<p>
-A mulher dormia a somno solto. Miranda entrou pé ante pé e
-approximou-se da cama. «Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem
-aquillo!...» Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um
-instante, immovel, a contemplal-a no seu desejo.
-</p>
-<p>
-Estella, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se
-sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a
-frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda
-não pôde resistir, atirou-se contra ella, que, num pequeno sobresalto,
-mais de sorpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando
-com o marido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados,
-fingindo que continuava a dormir, sem a menor consciencia de tudo
-aquillo.
-</p>
-<p>
-Ah! ella contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de
-separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procural-a de
-novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para
-resistir ao desejo.
-</p>
-<p>
-Consummado o delicto, o honrado negociante sentio-se tolhido de vergonha
-e arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se tristonho
-e murcho para o seu quarto de desquitado.
-</p>
-<p>
-Oh! como lhe doia agora o que acabava de praticar na cegueira da sua
-sensualidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que cabeçada!... dizia elle agitado. Que formidavel cabeçada!...
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em silencio, como se
-nada de extraordinario houvera entre elles acontecido na vespera. Dir-se
-ia até que, depois d'aquella occurrencia, o Miranda sentia crescer o
-seu odio contra a esposa. E, á noite d'esse mesmo dia, quando se achou
-sozinho na sua cama estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais,
-nunca mais, praticar semelhante loucura.
-</p>
-<p>
-Mas, d'ahi a um mez, o pobre homem, acommettido de um novo accesso de
-luxuria, voltou ao quarto da mulher.
-</p>
-<p>
-Estella recebeu-o d'esta vez como da primeira, fingindo que não
-acordava; na occasião, porém, em que elle se apoderava d'ella
-febrilmente, a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra
-o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. O pobre diabo desnorteou,
-devéras escandalisado, soerguendo-se, brusco, n'um estremunhamento de
-somnambulo acordado com violencia.
-</p>
-<p>
-A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir;
-passou-lhe rapido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o
-com uma metralhada de beijos.
-</p>
-<p>
-Não se fallaram.
-</p>
-<p>
-Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer.
-Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada;
-descobrio n'ella o capitoso encanto com que nos embebedam as cortezãs
-amestradas na sciencia do gozo venereo. Descobrio-lhe no cheiro da pelle
-e no cheiro dos cabellos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro
-halito, outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a
-loucamente, com delirio, com verdadeira satisfação de animal no cio.
-</p>
-<p>
-E ella tambem, ella tambem gozou, estimulada por aquella circumstancia
-picante do resentimento que os desunia; gozou a deshonestidade d'aquelle
-acto que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda,
-rangendo os dentes, grunhindo, debaixo d'aquelle seu inimigo odiado,
-achando-o tambem agora, como homem, melhor que nunca, suffocando-o nos
-seus abraços nús, mettendo-lhe pela bocca a lingua humida e em braza.
-Depois, n'um arranco de corpo inteiro, com um soluço guttural e
-estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se n'um abandono de
-pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos e
-chorosos, toda ella agonisante, como se a tivessem crucificado na cama.
-</p>
-<p>
-A partir d'essa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do
-quarto da mulher, estabeleceu-se entre elles o habito de uma felicidade
-sexual, tão completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no
-intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnancia moral
-em nada enfraquecida.
-</p>
-<p>
-Durante dez annos viveram muito bem casados; agora, porém, tanto tempo
-depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já
-não era acommettido tão frequentemente por aquellas crises que o
-arrojavam fora d'horas ao dormitorio de Dona Estella; agora, eis que a
-leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros
-do marido, na occasião em que estes subiam para almoçar ou jantar.
-</p>
-<p>
-Foi por isso que o Miranda comprou o predio vizinho a João Romão.
-</p>
-<p>
-A casa era boa; seu unico defeito estava na escassez do quintal; mas
-para isso havia remedio: com muito pouco compravam-se umas dez braças
-d'aquelle terreno do fundo, que ia até á pedreira, e mais uns dez ou
-quinze palmos do lado em que ficava a venda.
-</p>
-<p>
-Miranda foi logo entender-se com o Romão e propoz-lhe negocio. O
-taverneiro recussou formalmente.
-</p>
-<p>
-Miranda insistio.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza.
-Nem só não cedo uma pollegada do meu terreno, como ainda lhe compro,
-sem o quizer vender, aquelle pedaço que lhe fica ao fundo da casa!
-</p>
-<p>
-&mdash;O quintal?
-</p>
-<p>
-&mdash;É exacto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois você quer que eu fique sem chacara, sem jardim, sem nada?
-</p>
-<p>
-&mdash;Para mim era de vantagem...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, deixe-se d'isso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe
-propuz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já disse o que tinha a dizer.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem meio palmo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é
-pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para
-alargar-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu não cedo, porque preciso do meu terreno!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora qual! Que diabo póde lá você fazer ali? Uma porcaria de um
-pedaço de terreno quasi grudado ao morro e aos fundos de minha casa!
-quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali!
-</p>
-<p>
-&mdash;É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo,
-a sua parte ficaria cortada em linha recta até á pedreira, e escusava
-eu de ficar com uma aba de terreno alheio a metter-se pelo meu. Quer
-saber? não amuro o quintal sem você decidir-se!
-</p>
-<p>
-&mdash;Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha
-a dizer já disse!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali não póde
-construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janellas sobre o meu
-quintal?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não preciso abrir janellas sobre o quintal de ninguem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem tão pouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janellas
-da esquerda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não preciso levantar parede d'esse lado...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! isso agora é cá comigo!... O que fôr soará!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Se me arrepender, paciencia! Só lhe digo é que muito mal se sahirá
-quem quizer metter-se cá com a minha vida!
-</p>
-<p>
-&mdash;Passe bem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Adeus!
-</p>
-<p>
-Travou-se então uma lucta renhida e surda entre o portuguez negociante
-de fazendas por atacado e o portuguez negociante de seccos e molhados.
-Aquelle não se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o
-pedaço de terreno que o separava do morro; e o outro, por seu lado,
-não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou tres
-braças aos fundos da casa; parte esta que, conforme os seus calculos,
-valeria oiro, uma vez realizado o grande projecto que ultimamente o
-trazia preoccupado&mdash;a creação de uma estalagem em ponto enorme, uma
-estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda aquella miuçalha
-de cortiços que alastravam por Botafogo.
-</p>
-<p>
-Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente
-para essa idéa; sonhava com ella todas as noites; comparecia a todos os
-leilões de materiaes de construcção; arrematava madeiramentos já
-servidos; comprava telha em segunda mão; fazia pechinchas de cal e
-tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vasio, cujo
-aspecto tomava em breve o caracter estranho de uma enorme barricada, tal
-era a variedade de objectos que ali se apinhavam accumulados: taboas e
-sarrafos, troncos d'arvore, mastros de navio, caibros, restos de
-carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas
-e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de
-arêa e terra vermelha, aglomerações de telhas velhas, escadas
-partidas, depositos de cal, o diabo emfim; ao que elle, que sabia
-perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava, soltando á
-noite um formidavel cão de fila.
-</p>
-<p>
-Este cão era pretexto de eternas resingas com agente do Miranda, a cujo
-quintal ninguem de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem
-correr o risco de ser assaltado pela féra.
-</p>
-<p>
-&mdash;É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os hombros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não faço! replicava o outro. Se elle é questão de capricho, eu
-tambem tenho capricho!
-</p>
-<p>
-Em compensação, não cahia no quintal do Miranda gallinha ou frango,
-fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse immediato sumiço.
-João Romão protestava contra o roubo em termos violentos, jurando
-vinganças terriveis, fallando em dar tiros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois é fazer um muro no gallinheiro! repontava o marido de Estella.
-</p>
-<p>
-D'ahi a alguns mezes, João Romão, depois de tentar um derradeiro
-esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu
-principiar as obras da estalagem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa estar, conversava elle na cama com a Bertoleza; deixa estar
-que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre
-pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças, mas
-seis, oito, todo o quintal e até o proprio sobrado talvez!
-</p>
-<p>
-E dizia isto com uma convicção de quem tudo póde e tudo espera da sua
-perseverança, do seu esforço inquebrantavel e da fecundidade
-prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe sahia das unhas para
-voltar multiplicado.
-</p>
-<p>
-Desde que a febre de possuir se apoderou d'elle totalmente, todos os
-seus actos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse
-pecuniario. Só tinha uma preoccupação: augmentar os bens. Das suas
-hortas recolhia para si e para a companheira os peiores legumes,
-aquelles que, por máos, ninguem compraria; as suas gallinhas produziam
-muito e elle não comia um ovo, do que no emtanto gostava immenso;
-vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos
-trabalhadores. Aquillo já não era ambição, era uma molestia nervosa,
-uma loucura, um desespero de accumular, de reduzir tudo a moeda. E seu
-typo baixote, socado, de cabellos á escovinha, a barba sempre por
-fazer, ia e vinha da pedreira para a venda, da venda ás hortas e ao
-capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando
-para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com
-os olhos, de tudo aquillo de que elle não podia apoderar-se logo com as
-unhas.
-</p>
-<p>
-Entretanto, a rua lá fóra povoava-se de um modo admiravel.
-Construia-se mal, porém muito; surgiam chalets e casinhas da noite para
-o dia; subiam os alugueis; as propriedades dobravam de valor.
-Montára-se uma fabrica de massas italianas e outra de vélas, e os
-trabalhadores passavam de manhã e ás Ave-Marias, e a maior parte
-d'elles ia comer á casa de pasto que João Romão arranjára aos fundos
-da sua venda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser
-tão afreguezada como a d'elle. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca
-o finorio vendêra tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos annos
-anteriores. Teve até de admittir caixeiros. As mercadorias não lhe
-paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais
-gasto. E o dinheiro a pingar, vintem por vintem, dentro da gaveta, e a
-escorrer da gaveta para a burra, aos cincoenta e aos cem mil réis, e da
-burra para o banco, aos contos e aos contos.
-</p>
-<p>
-Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazens
-fornecedores; começou a receber alguns generos directamente da Europa:
-o vinho, por exemplo, que elle d'antes comprava aos quintos nas casas de
-atacado, vinha-lhe agora de Portugal ás pipas, e de cada uma fazia tres
-com agua e cachaça; e despachava facturas de barris de manteiga, de
-caixas de conserva, caixões de phosphoros, azeite, queijos, louça e
-muitas outras mercadorias.
-</p>
-<p>
-Creou armazens para deposito, abolio a quitanda e transferio o
-dormitorio, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de
-tamanho e ganhou mais duas portas.
-</p>
-<p>
-Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de
-tudo: objectos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensilios de
-escriptorio, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa
-de mulher, chapéos de palha proprios para o serviço ao sol,
-perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e
-anneis e brincos de metal ordinario.
-</p>
-<p>
-E toda a gentalha d'aquellas redondezas ia cahir lá, ou então ali ao
-lado, na casa de pasto, onde os operarios das fabricas e os
-trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam
-bebendo e conversando até ás dez horas da noite, entre o espesso fumo
-dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampeões de kerosene.
-</p>
-<p>
-Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado,
-quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo
-ordenado não fosse inteirinho para ás mãos do velhaco. E sobre este
-cobre, quasi sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por
-cento ao mez, um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com
-penhores de oiro ou prata.
-</p>
-<p>
-Não obstante, as casinhas do cortiço, á proporção que se
-atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas
-seccassem. Havia grande avidez em alugal-as; aquelle era o melhor ponto
-do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam
-todos morar lá, porque ficavam a dous passos da obrigação.
-</p>
-<p>
-O Miranda rebentava de raiva.
-</p>
-<p>
-&mdash;Um cortiço! exclamava elle, possesso. Um cortiço! Maldito seja
-aquelle vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das
-janellas!... Estragou-me á casa, o malvado!
-</p>
-<p>
-E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando aos
-berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o
-infernal barulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martellar de
-sol a sol.
-</p>
-<p>
-O que aliás não impedio que as casinhas continuassem a surgir, uma
-após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali
-afóra, desde a venda até quasi ao morro, e depois dobrassem para o
-lado do Miranda e avançassem sobre o quintal d'este, que parecia
-ameaçado por aquella serpente de pedra e cal.
-</p>
-<p>
-O Miranda mandou logo levantar o muro.
-</p>
-<p>
-Nada! aquelle demonio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de
-visitas!
-</p>
-<p>
-E os quartos do cortiço pararam emfim de encontro ao muro do
-negociante, formando com a continuação da casa d'este um grande
-quadrilongo, especie de pateo de quartel, onde podia formar um
-batalhão.
-</p>
-<p>
-Noventa e cinco casinhas comportou a immensa estalagem.
-</p>
-<p>
-Promptas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que
-separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de
-altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande
-portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças
-vermelhas, por cima de uma taboleta amarella, em que se lia o seguinte,
-escripto a tinta encarnada e sem ortographia.
-</p>
-<p>
-«Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para
-lavadeiras.»
-</p>
-<p>
-As casinhas eram alugadas por mez e as tinas por dia: tudo pago
-adiantado. O preço de cada tina, mettendo a agua, quinhentos réis;
-sabão á parte. As moradoras do cortiço tinham preferencia e não
-pagavam nada para lavar.
-</p>
-<p>
-Graças a abundancia d'agua que lá havia, como em nenhuma outra parte,
-e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender
-a roupa, a concurrencia ás tinas não se fez esperar; acudiram
-lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre ellas algumas vindas de
-bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde
-coubesse um colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputal-os.
-</p>
-<p>
-E aquillo se foi constituindo n'uma grande lavanderia, agitada e
-barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes
-e os seus jardinzinhos de tres e quatro palmos, que appareciam como
-manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o
-reverbero das claras barracas de algodão crú, armadas sobre os
-lustrosos bancos de lavar. E os gottejantes giráos, cobertos de roupa
-molhada, scintillavam ao sol, que nem lagos de metal branco.
-</p>
-<p>
-E n'aquella terra encharcada e fumegante, n'aquella humidade quente e
-lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma
-coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontanea, ali mesmo,
-d'aquelle lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="II">II</a></h4>
-
-<p>
-E durante dous annos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando
-forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto
-com aquella exhuberancia brutal de vida, aterrado defronte d'aquella
-floresta implacavel que lhe crescia junto da casa, por debaixo das
-janellas, e cujas raizes, peiores e mais grossas do que serpentes,
-minavam por toda parte, ameaçando rebentar o chão em torno d'ella,
-rachando o solo e abalando tudo.
-</p>
-<p>
-Posto que lá na rua do Hospicio os seus negocios não corressem mal,
-custava-lhe a soffrer a escandalosa fortuna do vendeiro «aquelle typo!
-um miseravel, um sujo, que não puzera nunca um paletó, e que vivia de
-cama e mesa com uma negra!»
-</p>
-<p>
-Á noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando
-elle, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido
-n'uma preguiçosa, junto á mesa da sala de jantar, e ouvia, a
-contra-gosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem n'uma exhalação
-forte de animaes cansados. Não podia chegar á janella sem receber no
-rosto aquelle bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum
-de bestas no coito.
-</p>
-<p>
-E depois, fechado no quarto de dormir, indifferente e habituado ás
-torpezas carnaes da mulher, isento já dos primitivos sobresaltos que
-lhe faziam, a elle, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a
-prosperidade do vizinho o que lhe obcecava o espirito, ennegrecendo-lhe
-a alma com um feio resentimento de despeito.
-</p>
-<p>
-Tinha inveja do outro, d'aquelle outro portuguez que fizera fortuna, sem
-precisar roer nenhum chifre; d'aquelle outro que, para ser mais rico
-tres vezes do que elle, não teve de casar com a filha do patrão ou com
-a bastarda de algum fazendeiro freguez da casa!
-</p>
-<p>
-Mas então, elle, Miranda, que se suppunha a ultima expressão da
-ladinagem e da esperteza; elle, que, logo depois do seu casamento,
-respondendo para Portugal a um ex-collega que o felicitava, dissera que
-o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas redeas um
-homem fino empolgava facilmente; elle, que se tinha na conta de
-invencivel matreiro, não passava afinal de um pedaço d'asno comparado
-com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo
-de uma brasileira mal educada e sem escrupulos de virtude! Imaginára-se
-talhado para grandes conquistas, e não passava de uma victima ridicula
-e soffredora!... Sim! no fim de contas qual fôra a sua Africa?...
-Enriquecêra um pouco, é verdade, mas como? a que preço?
-hypothecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis,
-mas incalculaveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjára a vida,
-sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que elle odiava! E do que
-afinal lhe aproveitára tudo isso? Qual era afinal a sua grande
-existencia? Do inferno da casa para o purgatorio do trabalho e
-vice-versa! Invejavel sorte, não havia duvida!
-</p>
-<p>
-Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado nem
-sequer gozava o prazer de ser pae. Se ella, em vez de nascer de Estella,
-fora uma engeitadinha recolhida por elle, é natural que a amasse, e
-então a vida lhe correria de outro modo; mas, n'aquellas condições, a
-pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludibrio
-materno, e o Miranda estendia até á innocentezinha o odio que
-sustentava contra a esposa.
-</p>
-<p>
-Uma espiga a tal da sua vida!
-</p>
-<p>
-&mdash;Fui uma besta! resumio elle, em voz alta, apeiando-se da cama, onde
-se havia recolhido inutilmente.
-</p>
-<p>
-E pôz-se a passeiar no quarto, sem vontade de dormir, sentindo que a
-febre d'aquella inveja lhe estorricava os miolos.
-</p>
-<p>
-Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é que
-havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e
-desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de seu!
-esse, sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque, quando mesmo
-viesse a casar e a mulher lhe sahisse uma outra Estella, era só
-mandal-a p'ra o diabo com um pontapé! Podia fazel-o! Para esse é que
-era o Brasil!
-</p>
-<p>
-&mdash;Fui uma besta! repisava elle, sem conseguir conformar-se com a
-felicidade do vendeiro. Uma grandissima besta! No fim de contas que
-diabo possuo eu?... Uma casa de negocio, da qual não posso separar-me
-sem comprometter o que lá está enterrado! um capital mettido n'uma
-rêde de transacções que não se liquidam nunca, e cada vez mais se
-complicam e mais me grudam ao estupor d'esta terra, onde deixarei a
-casca! Que tenho de meu, se a alma do meu credito é o dote, que me
-trouxe aquella sem vergonha, e que a ella me prende como a peste da casa
-commercial me prende a esta Costa d'Africa?...
-</p>
-<p>
-Foi da suppuração fetida d'estas idéas que se formou no coração
-vasio do Miranda um novo ideal&mdash;o titulo. Faltando-lhe temperamento
-proprio para os vicios fortes que enchem a vida de um homem; sem familia
-a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o
-naufrago agarrou-se áquella taboa, como um agonisante, consciente da
-morte, que se apega á esperança de uma vida futura. A vaidade de
-Estella, que a principio lhe tirava dos labios incredulos sorrisos de
-mofa, agora lhe comprazia á farta. Procurou capacitar-se de que ella
-com effeito herdara sangue nobre, e que elle, por sua vez, se não o
-tinha herdado, trouxera-o por natureza propria, o que devia valer mais
-ainda; e desde então principiou a sonhar com um baronato, fazendo
-d'isso o objecto querido da sua existencia, muito satisfeito no intimo
-por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro, sem
-ter, nunca mais, de restituil-o á mulher, nem ter de deixal-o a pessoa
-alguma.
-</p>
-<p>
-Semelhante preoccupação modificou-o em extremo. Deu logo para
-fingir-se escravo das conveniencias, affectando escrupulos sociaes,
-empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho
-com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao passar-lhe
-todos os dias pela venda, cumprimentava-o com protecção, sorrindo sem
-rir e fechando logo a cara em seguida, muito serio.
-</p>
-<p>
-Dados os primeiros passos para a compra do titulo, abrio a casa e deu
-festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabellos brancos,
-rejubilou com isso.
-</p>
-<p>
-Zulmira tinha então doze para treze annos e era o typo acabado da
-fluminense; pallida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas
-do nariz, das palpebras e dos labios, faces levemente pintalgadas de
-sardas. Respirava o tom humido das flores nocturnas, uma brancura fria
-de magnolia; cabellos castanho claro, mãos quasi transparentes, unhas
-molles e curtas, como as da mãe, dentes pouco mais claros do que a
-cutis do rosto, pés pequenos, quadril estreito, mas os olhos grandes,
-negros, vivos e maliciosos.
-</p>
-<p>
-Por essa época, justamente, chegava de Minas, recommendado ao pae
-d'ella, o filho de um fazendeiro importantissimo que dava bellos lucros
-á casa commercial do Miranda e que era talvez o melhor freguez que este
-possuia no interior.
-</p>
-<p>
-O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze annos e vinha terminar na
-côrte alguns preparatorios que lhe faltavam para entrar na academia de
-medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da rua do Hospicio, mas o
-estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ahi ficava mal
-accommodado, e o negociante, o quem não convinha desagradar-lhe,
-carregou com elle para a sua residencia particular de Botafogo.
-</p>
-<p>
-Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas de
-menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco
-extravagante e gastador, que não despendia um vintem fóra das
-necessidades de primeira urgencia. De resto, a não ser de manhã para
-as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de casa senão
-em companhia da familia d'este. Dona Estella, ao cabo de pouco tempo,
-mostrou por elle estima quasi maternal e encarregou-se de tomar conta da
-sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho tinha
-ordem franca do pae.
-</p>
-<p>
-Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa, reclamava-a de
-Dona Estella, que por sua vez encarregava ao marido de compral-a, sendo
-o objecto lançado na conta do fazendeiro com uma commissão de
-usurario. Sua hospedagem custava duzentos e cincoenta mil réis por mez,
-do que elle todavia não tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe
-faltava, e os criados da casa o respeitavam como a um filho do proprio
-senhor.
-</p>
-<p>
-Á noite, ás vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estella sahia com
-elle, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta até á praia,
-e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas, levava-o em
-sua companhia.
-</p>
-<p>
-A criadagem da familia do Miranda compunha-se de Izaura, mulata ainda
-moça, moleirona e tola, que gastava todo a vintemzinho que pilhava em
-comprar capilé na venda de João Romão; uma negrinha virgem, chamada
-Leonor, muito ligeira e viva, lisa e secca como um moleque, conhecendo
-de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta technologia da obscenidade,
-e dizendo, sempre que os caixeiros ou os freguezes da taberna, só para
-mexer com ella, lhe davam atracações: «Oia, que eu me quexo ao juiz
-de orfe!» e finalmente o tal Valentim, filho de uma escrava que foi de
-Dona Estella e a quem esta havia alforriado.
-</p>
-<p>
-A mulher do Miranda tinha por este moleque uma affeição sem limites:
-dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o comsigo a
-passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciumes á
-filha, de tão solicita que se mostrava com elle. Pois se a caprichosa
-senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois, se quando se
-queixavam os dous, um contra o outro, ella nunca dava razão á filha!
-Pois se o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois, se
-quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apezar das supplicas e
-dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estella chorava
-todos os dias e durante a ausencia d'elle não tocou piano, nem cantou,
-nem mostrou os dentes a ninguem? E o pobre Miranda, se não queria
-soffrer impertinencias da mulher e ouvir semsaborias defronte dos
-criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe
-humildemente todas as vontades.
-</p>
-<p>
-Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hospede alem do
-Henrique, o velho Botelho. Este porém na qualidade de parasita.
-</p>
-<p>
-Era um pobre diabo caminhando para os setenta annos; antipathico,
-cabello branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo theor;
-muito macilento, com uns oculos redondos que lhe augmentavam o tamanho
-da pupilla e davam-lhe á cara uma expressão de abutre, perfeitamente
-de accordo com o seu nariz adunco e com a sua bocca sem labios;
-viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam
-limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva
-debaixo do braço e um chapéu de Braga enterrado nas orelhas. Fôra em
-seu tempo empregado do commercio, depois corretor de escravos; contava
-mesmo que estivera mais de uma vez na Africa, negociando negros por sua
-conta. Atirou-se muito ás especulações; durante a guerra do Paraguay
-ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e, de
-malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de
-ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desillusões,
-cheio de hemorrhoidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava á
-sombra do Miranda, com quem por muitos annos trabalhou em rapaz, sob as
-ordens do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a principio por
-acaso e mais tarde por necessidade.
-</p>
-<p>
-Devorava-o, noite e dia, uma implacavel amargura, uma surda tristeza de
-vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não
-lhe ter sido possivel empolgar o mundo com as suas mãos hoje inuteis e
-tremulas. E, como o seu actual estado de miseria não lhe permittia
-abrir contra ninguem o bico, desabafava vituperando as idéas da época.
-</p>
-<p>
-Assim, eram ás vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando,
-entre outros assumptos palpitantes, vinha á discussão o movimento
-abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco.
-Então o Botelho ficava possesso e vomitava phrases terriveis, para a
-direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo, e
-vociferava imprecações, aproveitando aquella valvula para desafogar o
-velho odio accumulado dentro d'elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bandidos! berrava apoplectico. Cafila de salteadores!
-</p>
-<p>
-E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em settas envenenadas, procurando
-cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a
-belleza, o talento, a mocidade, a força, a saude, e principalmente a
-fortuna, eis o que elle não perdoava a ninguem, amaldiçoando todo
-aquelle que conseguia o que elle não obtivéra; que gosava o que elle
-não desfructára; que sabia o que elle não aprendêra. E, para
-individualisar o objecto do seu odio, voltava-se contra o Brasil, essa
-terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os
-portuguezes, e que, no emtanto, o deixára, a elle, na penuria.
-</p>
-<p>
-Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava ás oito da manhã,
-lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espirito de vinho;
-depois ia ler os jornaes para a sala de jantar, a espera do almoço;
-almoçava e sahia, tomava o bonde e ia direitinho para uma charutaria da
-rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até ás horas do jantar,
-entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fóra, de fronte
-d'elle. Tinha a pretenção de conhecer todo o Rio de Janeiro e os
-podres de cada um em particular. Ás vezes, poucas, Dona Estella
-encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho, o que o Botelho
-desempenhava melhor que ninguem. Mas a sua grande paixão, o seu fraco,
-era a farda, adorava tudo que dissesse respeito ao militarismo, posto
-que tivéra sempre invencivel medo ás armas de qualquer especie,
-mórmente ás de fogo. Não podia ouvir disparar perto de si uma
-espingarda, enthusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a guerra; a
-presença de um official em grande uniforme tirava-lhe lagrimas de
-commoção; conhecia na ponta da lingua o que se referia á vida de
-quartel; distinguia ao primeiro lance d'olhos o posto e o corpo a que
-pertencia qualquer soldado, e, apezar dos seus achaques, era ouvir tocar
-na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar,
-e, muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que accompanhavam a
-tropa. Então, não tornava para casa emquanto os militares não se
-recolhessem. Quasi sempre voltava d'essa loucura ás seis da tarde,
-moido a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar
-horas e horas ao som da musica de pancadaria. E o mais interessante é
-que elle, ao vir-lhe a reacção, revoltava-se furioso contra o maldito
-commandante que o obrigára áquella estopada, levando o batalhão por
-uma infinidade de ruas e fazendo de proposito o caminho mais longo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Só parece, lamentava-se elle, que a intenção d'aquelle malvado era
-dar-me cabo da pelle! Ora vejam! Tres horas de marche-marche por uma
-soalheira de todos os diabos!
-</p>
-<p>
-Uma das birras mais comicas do Botelho era o seu odio pelo Valentim. O
-moleque causava-lhe febre com as suas petulancias de mimalho, e,
-velhaco, percebendo quanto ellas o irritavam, ainda mais abusava, seguro
-na protecção de Dona Estella. O parasita de muito que o teria
-estrangulado, se não fôra a necessidade de agradar a dona da casa.
-</p>
-<p>
-Botelho conhecia as fallas de Estella como as palmas da propria mão. O
-Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes
-lh'as confiára em occasiões desesperadas de desabafo, declarando
-francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão porque não a
-punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia
-tambem que os serios interesses commerciaes estavam acima de tudo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma mulher n'aquellas condições, dizia elle convicto, representa
-nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza!
-Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ella...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! explicava o marido. Eu me sirvo d'ella como quem se serve de
-uma escarradeira!
-</p>
-<p>
-O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher, concordava
-em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração. Mas
-por outro lado, quando ouvia Estella fallar do marido, com infinito
-desdem e até com asco, ainda mais resplandecia de contente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você quer saber? affirmava ella, eu bem percebo quanto aquelle
-traste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a
-primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de
-sociedade, não podemos viver sem o esposo, quando somos casadas; de
-forma que tenho de aturar o que me cahio em sorte, quer goste d'elle
-quer não goste! juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se
-chege ás vezes para mim, é porque entendo que paga mais á pena ceder
-do que puxar discussão com uma besta d'aquella ordem!
-</p>
-<p>
-O Botelho, com a sua encanecida experiencia do mundo, nunca transmittia
-a nenhum dos dous o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim
-que, certa occasião, recolhendo-se á casa incommodado, em hora que
-não era do seu costume, ouvio, ao passar pelo quintal, sussurros de
-vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em
-geral não ia ninguem.
-</p>
-<p>
-Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido, descobrio
-Estella entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando,
-sem tugir nem mugir, e, só quando os dous se separaram, foi que elle se
-mostrou.
-</p>
-<p>
-A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava,
-fez-se côr de cera; mas o Botelho procurou tranquillisal-os, dizendo em
-voz amiga e mysteriosa:
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é uma imprudencia o que vocês estão fazendo!... Estas coisas
-não é d'este modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra
-pessoa... Pois n'uma casa, em que ha tantos quartos, é lá preciso vir
-metterem-se n'este canto do quintal?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Nós não estávamos fazendo nada! disse Estella, recuperando o sangue
-frio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! tornou o velho, apparentando summo respeito: então desculpe,
-pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim seria o
-mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que
-d'esta vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi como se
-nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!... A
-senhora está moça, está na força dos annos; seu marido não a
-satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se
-é torto, não fomos nós que o fizemos torto!... Até certa idade todos
-temos dentro um bichinho carpinteiro, que é preciso matar, antes que
-elle nos mate! Não lhes doam as mãos!... apenas acho que, para outra
-vez, devem ter um pouquito mais de cuidado e...
-</p>
-<p>
-&mdash;Está bom! basta! ordenou Estella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Perdão! eu, se digo isto, é para deixal-os bem tranquillos a meu
-respeito. Não quero, nem por sombra, que se persuadam de que...
-</p>
-<p>
-O Henrique atalhou, com a voz ainda commovida:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, acredite, seu Botelho, que...
-</p>
-<p>
-O velho interrompeo-o tambem por sua vez, passando-lhe a mão no hombro
-e affastando-o comsigo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tenha receio, que não o comprometterei, menino!
-</p>
-<p>
-E, como já estivessem distantes de Estella, segredou-lhe em tom
-protector: Não torne a fazer isto assim, que você se estraga... Olhe
-como lhe tremem as pernas!
-</p>
-<p>
-Dona Estella acompanhou-os a distancia, vagarosamente, affectando
-preoccupação em compor um ramalhete, cujas flores ella ia colhendo com
-muita graça, ora toda vergada sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se
-na pontinha dos pés para alcançar os heliotropos e os manacás.
-</p>
-<p>
-Henrique seguio o Botelho até ao quarto d'este, conversando sem mudar
-de assumpto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você então não falia n'isto, hein? Jura? perguntou-lhe.
-</p>
-<p>
-O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhára em flagrante e que
-ficára bom tempo a espreita.
-</p>
-<p>
-Fallar o que, seu tolo?... Pois então quem pensa você que eu sou?...
-Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou
-convencido que não dará... Quer saber? eu até sympathiso muito com
-você, Henrique! Acho que você é um excellente menino, uma flôr! E
-digo-lhe mais: hei de proteger os seus negocios com Dona Estella...
-</p>
-<p>
-Fallando assim, tinha-lhe tomado as mãos e affagava-as.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se metta com donzellas,
-entende?... São o diabo! Por dá cá aquella palha fica um homem em
-apuros! agora quanto ás outras, papo com ellas! Não mande nenhuma ao
-vigario, nem lhe dôa a cabeça, porque, no fim de contas, nas
-circumstancias de Dona Estella, é até um grande serviço que você lhe
-faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e pilha
-a geito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse oiro em pó!
-sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ella que
-você faz o obsequio, mas tambem ao marido: quanto mais escovar-lhe
-você a mulher, melhor ella ficará de genio, e por conseguinte melhor
-será para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se
-aborrecer lá por baixo, com os seus negocios, e precisa de um pouco de
-descanço quando volta do serviço e mette-se em casa! Escove-a,
-escove-a! que a porá macia que nem velludo! O que é preciso é muito
-juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue
-para diante, não só com ella, mas com todas as que lhe cahirem debaixo
-da aza! Vá passando! menos as de casa aberta, que isso é perigoso por
-causa das molestias; nem tão pouco donzellas! Não se metta com a
-Zulmira! E creia que lhe fallo assim, porque sou seu amigo, porque o
-acho sympathico, porque o acho bonito!
-</p>
-<p>
-E acarinhou-o tão vivamente d'esta vez, que o estudante, fugindo-lhe
-das mãos, affastou-se com um gesto de repugnancia e desprezo, emquanto
-o velho lhe dizia em voz comprimida:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="III">III</a></h4>
-
-<p>
-Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os
-olhos, mas a sua infinidade de portas e janellas alinhadas.
-</p>
-<p>
-Um acordar alegre e farto de quem dormio de uma assentada sete horas de
-chumbo. Como que se sentia ainda na indolencia da neblina as derradeiras
-notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se á luz
-loira e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra
-alheia.
-</p>
-<p>
-A roupa lavada, que ficára de vespera nos córadoiros, humedecia o ar e
-punha-lhe um fartum acre de sabão ordinario. As pedras do chão,
-esbranquiçadas no logar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo
-anil, mostravam uma pallidez grisalha e triste, feita de accumulações
-de espumas seccas.
-</p>
-<p>
-Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de somno;
-ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas;
-pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as chicaras a
-tilintar; o cheiro quente do café aquecia, supplantando todos os
-outros; trocavam-se de janella para janella as primeiras palavras, os
-bons dias; reatavam-se conversas interrompidas á noite; a pequenada cá
-fora traquinava já, e lá de dentro das casas vinham choros abafados de
-crianças que ainda não andam. No confuso rumor que se formava,
-destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde,
-grasnar de marrecos, cantar de gallos, cacarejar de gallinhas. De alguns
-quartos sabiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a
-gaiola do papagaio, e os loiros, á semelhança dos donos,
-cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se á luz nova do dia.
-</p>
-<p>
-D'ahi a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma
-agglomeração tumultuosa de machos e femeas. Uns, após outros, lavavam
-a cara, incommodamente, debaixo do fio d'agoa que escorria da altura de
-uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já
-prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a
-tostada nudez dos braços e do pescoço, que ellas despiam, suspendendo o
-cabello todo para o alto do casco; os homens, esses não se preoccupavam
-em não molhar o pello, ao contrario mettiam a cabeça bem debaixo da
-agoa e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando
-contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era
-um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sahir sem treguas. Não
-se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias;
-as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali
-mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto
-das hortas.
-</p>
-<p>
-O rumor crescia, condensando-se; o zum-zum de todos os dias
-accentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruido
-compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na
-venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e
-pragas; já se não fallava, gritava-se. Sentia-se n'aquella
-fermentação sanguinea, n'aquella gula viçosa de plantas rasteiras que
-mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer
-animal de existir, a triumphante satisfação de respirar sobre a terra.
-</p>
-<p>
-Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas,
-fazendo compras.
-</p>
-<p>
-Duas janellas do Miranda abriram-se. Appareceu n'uma a Izaura, que se
-dispunha a começar a limpeza da casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nhá Dunga! gritou ella para baixo, a sacudir um panno de mesa; se
-você tem cús-cús de milho hoje, bata na porta, ouvio?
-</p>
-<p>
-A Leonor surgio logo tambem, enfiando curiosa a carapinha por entre o
-pescoço e o hombro da mulata.
-</p>
-<p>
-O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta á cabeça e o seu
-banco de páo fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do
-pateo, a espera dos freguezes, pousando a canastra sobre o cavallete que
-elle armou promptamente. Em breve estava cercado por uma nuvem de gente.
-As crianças adulavam-no, e, á proporção que cada mulher ou cada
-homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado contra o
-peito. Uma vacca, seguida por um bezerro amordaçado, ia, tilintando
-tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem
-carregado de vasilhame de folha.
-</p>
-<p>
-O zum-zum chegava ao seu apogeu. A fabrica de massas italianas, ali
-mesmo da visinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho com o
-seu arfar monotono de machina a vapor. As corridas até á venda
-reproduziam-se, transformando-se n'um verminar constante de formigueiro
-assanhado. Agora, no logar das bicas apinhavam-se latas de todos os
-feitios, sobresahindo as de kerozene com um braço de madeira em cima;
-sentia-se o trapejar da agoa cahindo na folha. Algumas lavadeiras
-enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos córadoiros a roupa que
-ficára de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das gargantas os fados
-portuguezes e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com
-grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha
-algaraviada pelo carroceiro contra o burro.
-</p>
-<p>
-E, durante muito tempo, fez-se um vae-vem de mercadores. Appareceram os
-taboleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só não
-vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os
-ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as suas
-caixas de candieiros e objectos de vidro e com o seu fornecimento de
-caçarolas e chocolateiras de folha de Flandres. Cada vendedor tinha o
-seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com
-as cestas do peixe dependuradas, á moda de balança, de um páo que
-elle trazia ao hombro. Nada mais foi preciso do que o seu primeiro
-guincho estridente e guttural para surgirem logo, como por encanto, uma
-enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se d'elle com
-grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas e miando
-supplicantemente. O sardinheiro os affastava com o pé, emquanto vendia
-o seu peixe á porta das casinhas, mas os bichanos não desistiam e
-continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente
-tapava mal servia ao freguez. Para ver-se livre por um instante dos
-importunos era necessario atirar para bem longe um punhado de sardinhas,
-sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões.
-</p>
-<p>
-A primeira que se pôz a lavar foi a Leandra, por alcunha a «Machona»,
-portugueza feroz, berradora, pulsos cabelludos e grossos, anca de animal
-do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Anna das
-Dores, a quem só chamavam a «das Dores» e outra donzella ainda, a
-Nênêm, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos, que
-gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua casinha á
-parte, mas toda a familia habitava no cortiço.
-</p>
-<p>
-Ninguem ali sabia ao certo se a Machona era viuva ou desquitada; os
-filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, affirmavam
-que fôra casada e que largára o marido para metter-se com um homem do
-commercio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo
-soltal-a ao desamparo, deixara o socio em seu logar. Teria vinte e cinco
-annos.
-</p>
-<p>
-Nênêm desesete. Espigada, franzina e forte, com uma prôazinha de
-orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos
-rapazes que a queriam sem ser para casar. Engommava bem e sabia fazer
-roupa branca de homem com muita perfeição.
-</p>
-<p>
-Ao lado da Leandra foi collocar-se á sua tina a Augusta Carne Molle,
-brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta annos,
-soldado de policia, pernostico, de grande bigode preto, queixo sempre
-escanhoado e um luxo de calças brancas emgommadas e botões limpos na
-farda, quando estava de serviço. Tambem tinham filhos, mas ainda
-pequenos, e um dos quaes, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha que se
-encarregava d'ella. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil réis
-para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedencia franceza.
-</p>
-<p>
-Alexandre, em casa, á hora de descanso, nos seus chinellos e na sua
-camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
-conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o
-bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar
-as calças de brim, ninguem mais lhe via os dentes e então a todos
-fallava tezo e por cima do hombro. A mulher, a quem elle só dava tu
-quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no
-cortiço, honestidade sem merito, porque vinha da indolencia do seu
-temperamento e não do arbitrio do seu caracter.
-</p>
-<p>
-Junto d'ella pôz-se a trabalhar a Leocadia, mulher de um ferreiro
-chamado Bruno, portugueza pequena e socada, de carnes duras, com uma
-fama terrivel de leviana entre as suas visinhas.
-</p>
-<p>
-Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam
-todos pelas virtudes de que só ella dispunha para benzer erysipelas e
-cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia,
-grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados á navalha,
-formando ponta, como dentes de cão, cabellos lisos, escorridos e ainda
-retintos apezar da idade. Chamavam-lhe «Bruxa.»
-</p>
-<p>
-Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira,
-mulata antiga, muita séria e asseada em exagero: a sua casa estava
-sempre humida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o máo humor
-punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era
-grande, corria a buscar um balde d'agua e descarregava-o com furia pelo
-chão da sala. A filha tinha quinze annos, a pelle de um moreno quente,
-beiços sensuaes, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda ella
-estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não
-cedia, nem á mão de Deus Padre, aos rógos de João Romão, que a
-desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das
-compras que Florinda fazia diariamente á venda.
-</p>
-<p>
-Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na
-estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas
-suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher
-comida de desgostos. Fôra casada com o dono de uma casa de chapéos,
-que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e
-fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre até
-de francez. Tinha uma cara macilenta de velha portugueza devota, que já
-foi gorda, bochechas molles de pellangas rechupadas, que lhe pendiam dos
-cantos da bocca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos
-castanhos, sempre chorosos e engolidos pelas palpebras. Puxava em
-bandós sobre as fontes o escasso cabello grisalho untado de oleo de
-amendoas doces. Quando sahia á rua punha um eterno vestido de seda
-preta, achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um chale encarnado
-que lhe dava a todo o corpo um feitio pyramidal. Da sua passada grandeza
-só lhe ficára uma caixa de rapé de oiro, na qual a inconsolavel
-senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada.
-</p>
-<p>
-A filha era a flôr do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha, Bonita, posto
-que enfermiça e nervosa ao ultimo ponto; loira, muito pallida, com uns
-modos de menina de boa familia. A mãe não lhe permittia lavar, nem
-engommar, mesmo porque o medico o prohibira expressamente.
-</p>
-<p>
-Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do commercio, estimado do
-patrão e dos collegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia
-desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse
-já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito annos, não tinha
-ainda pago á natureza o cruento tributo da puberdade, apezar do zelo da
-velha e dos sacrificios que esta fazia para cumprir á risca as
-prescripções do medico e não faltar á filha o menor desvelo. No
-emtanto, coitadas! d'aquelle casamento dependia a felicidade de ambas,
-porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de
-quem mais tarde havia de ser socio, tencionava, logo que mudasse de
-estado, restituil-as ao seu primitivo circulo social. A pobre velha
-desesperava-se com o facto e pedia a Deus, todas as noites, antes de
-dormir, que as protegesse e conferisse á filha uma graça tão simples
-que elle fazia, sem distincção de merecimento, a quantas raparigas
-havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma
-d'esta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de «ser
-mulher», como dizia ella. E «que deixassem lá fallar o doutor,
-entendia que não era decente, nem tinha geito, dar homem a uma moça
-que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vel-a solteira
-toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquelle inferno da
-estalagem!»
-</p>
-<p>
-Lá no cortiço estavam todos a par d'esta historia: não era segredo
-para ninguem. E não se passava um dia que não interrogassem duas e
-tres vezes á velha com estas phrases:
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? já veio?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não tenta os banhos de mar?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque não chama outro medico?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!
-</p>
-<p>
-A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ella. E
-suspirava resignada.
-</p>
-<p>
-Quando o Costa apparecia depois da sua obrigação para visitar a noiva,
-os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silencio com um
-respeitoso ar de lastima e piedade, empenhados tacitamente por aquelle
-caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa.
-</p>
-<p>
-Pombinha era muito querida por toda aquella gente. Era quem lhe escrevia
-as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as
-contas; quem lia o jornal para os que quizessem ouvir. Presavam-na com
-muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permittia certo luxo
-relativo. Andava sempre de botinas ou sapatinhos com meias de côr, seu
-vestido de chita engommado; tinha as suas joiazinhas para sahir á rua,
-e, aos domingos, quem a encontrasse á missa na egreja de São João
-Baptista, não seria capaz de desconfiar que ella morava em cortiço.
-</p>
-<p>
-Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito
-afeminado, fraco, côr de espargo cozido e com um cabellinho castanho,
-deslavado e pobre, que lhe cahia, n'uma só linha, até ao pescocinho
-molle e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem
-já estava tão familiarisado que ellas o tratavam como a uma pessoa do
-mesmo sexo; em presença d'elle fallavam de coisas que não exporiam em
-presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e
-das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem
-commovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era
-sempre Albino quem tratava de reconcilial-os, exhortando as mulheres á
-concordia. D'antes encarregava-se de cobrar o rol das collegas, por
-amabilidade; mas uma vez, indo a uma republica de estudantes, deram-lhe
-lá, ninguem sabia porque, uma duzia de bolos, e o pobre diabo jurou
-então, entre lagrimas e soluços, que nunca mais se incumbiria de
-receber os róes.
-</p>
-<p>
-E d'ahi em diante, com effeito, não arredava os pésinhos do cortiço,
-a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dansarina,
-passear á tarde pelas ruas e á noite dansar nos bailes dos theatros.
-Tinha verdadeira paixão por esse divertimento; ajuntava dinheiro
-durante o anno para gastar todo com a mascarada. E ninguem o encontrava,
-domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com
-a sua calça branca engommada, a sua camisa limpa, um lenço ao
-pescoço, e, amarrado á cinta, um avental que lhe cahia sobre as pernas
-como uma saia. Não fumava, não bebia espiritos e trazia sempre as
-mãos geladas e humidas.
-</p>
-<p>
-N'aquella manhã levantára-se ainda um pouco mais languido que de
-costume, porque passára mal a noite. A velha, Isabel, que lhe ficava ao
-lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistencia, perguntou-lhe o que
-tinha.
-</p>
-<p>
-Ah! muita molleza de corpo e uma pontada no vazio que o não deixava!
-</p>
-<p>
-A velha receitou diversos remedios, e ficaram os dois, no meio de toda
-aquella vida, a fallar tristemente sobre molestias.
-</p>
-<p>
-E, emquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocadia, a
-Bruxa, a Marciana e sua filha, conversavam de tina a tina, berrando e
-quasi sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço, defronte
-d'ellas, separado pelos giráos, formava-se um novo renque de
-lavadeiras, que acudiam de fóra, carregadas de trouxas, e iam
-ruidosamente tomando logar ao lado umas das outras, entre uma agitação
-sem tregoas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que era
-briga. Uma a uma occupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do
-cortiço sahiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que
-havia ao fundo da estalagem desappareciam os trabalhadores da pedreira,
-donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda, de
-calças de brim, chapéo alto e sobrecasaca preta, passou lá fóra, em
-caminho para o armazem, acompanhado pelo Henrique que ia para as aulas.
-O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solemne,
-atravessou o pateo, sem fallar a ninguem, nem mesmo á mulher, e
-recolheu-se á casa, para dormir. Um grupo de mascates, o Delporto, o
-Pompéo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande
-caixa de bugigangas, sahio para a perigrinação de todos os dias,
-altercando e praguejando em italiano.
-</p>
-<p>
-Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar á Machona pela
-inhá Rita.
-</p>
-<p>
-&mdash;A Rita Bahiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ella arribou!
-</p>
-<p>
-A Leocadia explicou logo que a mulata estava com certeza de pandega com
-o Firmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que Firmo? interrogou Augusta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquelle cabravasco que se mettia ás vezes ahi com ella. Diz que é
-torneiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella mudou-se? perguntou o pequeno.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata tem coisas
-lá. Você o que queria?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vinha buscar uma roupa que está com ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que talvez te
-possa dizer alguma coisa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ali?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, pequeno, n'aquella porta, onde a preta do taboleiro está
-vendendo! Ó diabo! olha que pizas a boneca de anil! Já se vio que
-sorte? Parece que não vê onde piza este raio de criança!
-</p>
-<p>
-E, notando que o filho, o Agostinho, se approximava para tomar o logar
-do outro que já se ia:&mdash;Sahe d'ahi, tu tambem, peste! Já principias na
-reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade,
-que fazes tu que não vaes regar a horta do Commendador?
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle disse hontem que eu agora fosse á tarde, que era melhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil réis, que é fim
-do mez. Olha! Vae lá dentro e diz a Nênêm que te entregue a roupa que
-veio hontem á noite.
-</p>
-<p>
-O pequeno afastou-se de carreira, e ella lhe gritou na pista.&mdash;E que
-não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido!
-</p>
-<p>
-Uma conversa cerrada travára-se no resto da fila de lavadeiras a
-respeito da Rita Bahiana.
-</p>
-<p>
-&mdash;É doida mesmo!... censurava Augusta. Metter-se na pandega sem dar
-conta da roupa que lhe entregaram... Assim ha de ficar sem um freguez...
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquella não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!...
-Parece que tem fogo no rabo! Póde haver o serviço que houver,
-apparecendo pagode, vae tudo pr'o lado! Olha o que sahio o anno passado
-com a festa da Penha!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca vergonha! Est'ro
-dia, pois você não vio? levaram ahi n'uma bebedeira, a dansar e cantar
-á viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre!
-</p>
-<p>
-&mdash;Para tudo ha horas e ha dias!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é apparecer
-quem puxe por ella!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda assim não é má creatura... Tirante o defeito da vadiagem...
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom coração tem ella, até de mais, que não guarda um vintém pr'o
-dia d'amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois é que são ellas!... O João Romão já lhe não fia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ella tem
-dinheiro é porque o gasta mesmo!
-</p>
-<p>
-E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a
-torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercicio. Ao passo que,
-em torno da sua tagarelice, o cortiço se enbandeirava todo de roupa
-molhada, donde o sol tirava scintillações de prata.
-</p>
-<p>
-Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos córadoiros tinha
-reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao nascente,
-caiadinhas de novo, reverberavam illuminadas, offuscando a vista. Em uma
-das janellas da sala de jantar do Miranda, Dona Estella e Zulmira, ambas
-vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda,
-indifferentes á agitação que ia lá em baixo, muito esquecidas na sua
-tranquillidade de entes felizes.
-</p>
-<p>
-Entretanto, agora o maior movimento era na venda á entrada da
-estalagem. Davam nove horas e os operarios das fabricas chegavam-se para
-o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manoel não tinham mãos a medir
-com a criadagem da visinhança; os embrulhos de papel amarello
-succediam-se, e o dinheiro pingava sem intermittencia dentro da gaveta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Meio kilo de arroz!
-</p>
-<p>
-&mdash;Um tostão de assucar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma garrafa de vinagre!
-</p>
-<p>
-&mdash;Dois martellos de vinho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Dois vintens de fumo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quatro de sabão!
-</p>
-<p>
-E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons.
-</p>
-<p>
-Ouviam-se protestos entre os compradores:
-</p>
-<p>
-&mdash;Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!
-</p>
-<p>
-&mdash;O peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer!
-</p>
-<p>
-&mdash;Seu Manoel, não me demore essa manteiga!
-</p>
-<p>
-Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no
-quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma
-panella á outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira
-aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admittira-se um
-novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada commensal que ia
-chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminavel
-lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito
-predominava. O paraty circulava por todas as mezas, e cada caneca de
-café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho
-queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguem se entendia! Crusavam-se
-conversas em todas as direcções, discutia-se a berros, com valentes
-punhados sobre as mesas. E sempre a sahir, e sempre a entrar gente, e os
-que sahiam, depois d'aquella comesaina grossa, iam radiantes de
-contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.
-</p>
-<p>
-N'um banco de páo tosco, que existia do lado de fóra, junto á parede
-e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinellos de
-couro crú, esperava, havia já uma boa hora, para fallar com o
-vendeiro.
-</p>
-<p>
-Era um portuguez de seus trinta e cinco a quarenta annos, alto,
-espadaúdo, barbas asperas, cabellos pretos e mal tratados cahindo-lhe
-sobre a testa, por debaixo de um chapéo de feltro ordinario; pescoço
-de touro e cara de Hercules, na qual os olhos todavia, humildes como os
-olhos de um boi de canga, exprimiam tranquilla bondade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então ainda não se póde fallar ao homem? perguntou elle, indo ao
-balcão entender-se com o Domingos.
-</p>
-<p>
-&mdash;O patrão está agora muito occupado. Espere!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas são quasi dez horas e estou com um gole de café no estomago!
-</p>
-<p>
-&mdash;Volte logo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Moro na cidade nova. É um estirão d'aqui!
-</p>
-<p>
-O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia:
-</p>
-<p>
-&mdash;O homem que ahi está, seu João, diz que se vae embora!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle que espere um pouco, que já lhe fallo! respondeu o vendeiro no
-meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o
-hercules com a sua voz grossa e sonora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó filho, almoce ahi mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já
-podia estar aviado!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois vá lá! resolveu o homemzarrão, sahindo da venda para entrar na
-casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar curioso,
-medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ahi
-se apresentavam pela primeira vez.
-</p>
-<p>
-E assentou-se a uma das mezinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a
-lista dos pratos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Traga lá o pescado com batatas e venha um martello de vinho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer verde ou virgem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IV">IV</a></h4>
-
-<p>
-Meia hora depois, quando João Romão se vio menos occupado, foi ter com
-o sujeito que o procurava e assentou-se defronte d'elle, cahindo de
-fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trahir na physionomia o menor
-symptoma de cansaço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Elle fallou-me de um
-homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lagedo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sou eu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estava empregado n'outra pedreira?
-</p>
-<p>
-&mdash;Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me d'ella e quero
-passar adiante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quanto lhe dão lá?
-</p>
-<p>
-&mdash;Setenta mil réis.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! Isso é um disparate!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não trabalho por menos...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu, o maior ordenado que faço é de cincoenta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cincoenta ganha um macaqueiro...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! tenho ahi muitos trabalhadores de lagedo por esse preço!
-</p>
-<p>
-&mdash;Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor não
-encontra por cincoenta mil réis quem dirija a broca, pese a polvora e
-lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, mas setenta mil réis é um ordenado impossivel!
-</p>
-<p>
-&mdash;N'esse caso vou como vim... Fica o dito por não dito!
-</p>
-<p>
-&mdash;Setenta mil réis é muito dinheiro!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cá por mim, entendo que vale a pena pagar mais um pouco a um
-trabalhador bom, do que estar a soffrer desastres, como o que soffreu
-sua pedreira a semana passada! Não fallando na vida do pobre de Christo
-que ficou debaixo da pedra!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! O Machucas fallou-lhe no desastre?
-</p>
-<p>
-&mdash;Contou-m'o, sim senhor, e o desastre não aconteceria se o homem
-soubesse fazer o serviço!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas setenta mil réis é impossivel. Desça um pouco!
-</p>
-<p>
-&mdash;Por menos não me serve... E escusamos de gastar palavras!
-</p>
-<p>
-&mdash;Você conhece a pedreira?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nunca a vi de perto, mas quiz me parecer que é boa. De longe
-cheirou-me a granito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Espere um instante.
-</p>
-<p>
-João Romão deu um pulo á venda, deixou algumas ordens, enterrou um
-chapéo na cabeça e voltou a ter com o outro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ande a ver! gritou-lhe da porta do frege, que a pouco e pouco se
-esvaziara de todo.
-</p>
-<p>
-O cavouqueiro pagou doze vintens pelo seu almoço e acompanhou-o em
-silencio.
-</p>
-<p>
-Atravessaram o cortiço.
-</p>
-<p>
-A labutação continuava. As lavadeiras tinham já ido almoçar e tinham
-voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de chapéo de
-palha, apezar das toldas que se armaram. Um calor de caustico
-mordia-lhes os toutiços em brasa e scintillantes de suor. Um estado
-febril apoderava se d'ellas n'aquelle rescaldo; aquella digestão feita
-ao sol fermentava-lhes o sangue. A Machona altercava com uma preta que
-fôra reclamar um par de meias e destrocar uma camisa; a Augusta, muito
-molle sobre a sua taboa de lavar, parecia derreter-se como cebo; a
-Leocadia largava de vez em quando a roupa e o sabão para coçar as
-comichões do quadril e das virilhas, assanhadas pelo mormaço; a Bruxa
-monologava, resmungando n'uma insistencia de idiota, ao lado da
-Marcianna que, com o seu typo de mulata velha, um cachimbo ao canto da
-bocca, cantava toadas monotonas do sertão:
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">«Maricas tá marimbando.</span><br />
-<span class="i2">Maricas tá marimbando,</span><br />
-<span class="i2">Na passage do riacho</span><br />
-<span class="i2">Maricas tá marimbando.»</span>
-</div></div>
-
-<p>
-A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor do sol, a rebolar sem
-fadigas, assobiava os chorados e lundús que se tocavam na estalagem, e
-junto d'ella, a melancolica senhora Dona Isabel suspirava, esfregando a
-sua roupa dentro da tina, automaticamente, como um condemnado a
-trabalhar no presidio; ao passo que o Albino, saracoteando os seus
-quadris pobres de homem lymphatico, batia na taboa um par de calças, no
-rhythmo cadenciado e miudo de um cozinheiro a bater bifes. O corpo
-tremia-lhe todo, e elle, de vez em quando, suspendia o lenço do
-pescoço para enxugar a fronte, e então um gemido suspirado subia-lhe
-aos labios.
-</p>
-<p>
-Da casinha numero 8 vinha um falsete agudo, mas afinado. Era a das Dores
-que principiava o seu serviço; não sabia engommar sem cantar. No
-numero 7 Nênêm cantarolava em tom muito mais baixo; e de um dos
-quartos do fundo da estalagem sahia de espaço a espaço uma nota aspera
-de trombone.
-</p>
-<p>
-O vendeiro, ao passar por detrás de Florinda, que no momento apanhava
-roupa do chão, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo então mais em
-evidencia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não bula, hein?!... gritou ella, rapido, erguendo-se teza.
-</p>
-<p>
-E, dando com João Romão:&mdash;Eu logo vi! Leva implicando aqui com a gente
-e depois, vae-se comprar na venda, o safado rouba no peso! Diabo do
-gallego! Eu não te quero, sabe?
-</p>
-<p>
-O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais força e fugio, porque ella
-se armára com um regador cheio d'agoa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem p'ra cá, se és capaz! Diabo da peste!
-</p>
-<p>
-João Romão já se havia afastado com o cavouqueiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;O senhor tem aqui muita gente!... observou-lhe este.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! fez o outro, sacudindo os hombros, r disse depois com
-empafia:&mdash;Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas é tudo
-gente séria! Não ha chinfrins n'esta estalagem; se apparece uma rusga,
-eu chego, e tudo acaba logo! Nunca nos entrou cá a policia, nem nunca
-la deixaremos entrar! E olhe que se divertem bem com as suas violas!
-Tudo gente muito boa!
-</p>
-<p>
-Tinham chegado ao fim do pateo do cortiço e, depois de transporem uma
-porta que se fechava com um pezo amarrado a uma corda, acharam-se no
-capinzal que havia antes da pedreira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos por aqui mesmo que é mais perto, aconselhou o vendeiro.
-</p>
-<p>
-E os dois, em vez de procurarem a estrada, atravessaram o capim quente e
-trescalante.
-</p>
-<p>
-Meio dia em ponto. O sol estava a pino; tudo reverberava á luz
-irreconciliavel de dezembro, n'um dia sem nuvens. A pedreira, em que
-ella batia de chapa em cima, cegava olhada de frente. Era preciso
-martyrisar a vista para descobrir as nuances da pedra; nada mais que uma
-grande mancha branca e luminosa, terminando pela parte de baixo no chão
-coberto de cascalho miudo, que ao longe produzia o effeito de um betume
-cinzento, e pela parte de cima na espessura compacta do arvoredo, onde
-se não distinguiam outros tons mais do que nodoas negras, bem negras,
-sobre o verde-escuro.
-</p>
-<p>
-Á proporção que os dois se aproximavam da imponente pedreira, o
-terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos
-enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais adiante, por aqui e por ali,
-havia muitas carroças, algumas em movimento, puxadas a burro e cheias
-de calhaus partidos; outras já promptas para seguir, a espera do
-animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de
-ser despejadas n'aquelle instante. Homens labutavam.
-</p>
-<p>
-Á esquerda, por cima de um vestigio de rio, que parecia ter sido bebido
-de um trago por aquelle sol sedento, havia uma ponte de taboas, onde
-tres pequenos, quasi nús, conversavam assentados, sem fazer sombra,
-illuminados a prumo pelo sol do meio dia. Para adiante, na mesma
-direcção, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado sobre
-columnas de pedra tosca; ahi muitos portuguezes trabalhavam de canteiro,
-ao barulho metallico do picão que feria o granito. Logo em seguida,
-surgia uma officina de ferreiro, toda atravancada de destroços e
-objectos quebrados, entre os quaes avultavam rodas de carro; em volta da
-bigorna dois homens, de corpo nú, banhados de suor e alumiados de
-vermelho como dous diabos, martellavam cadenciosamente sobre um pedaço
-de ferro em brasa; e ali mesmo, perto d'elles, a forja escancarava uma
-guela infernal, d'onde sahiam pequenas linguas de fogo, irrequietas e
-gulosas.
-</p>
-<p>
-João Romão parou á entrada da officina e gritou para um dos
-ferreiros:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão!
-</p>
-<p>
-Os dois homens suspenderam por um instante o trabalho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já lá fui ver, respondeu o Bruno. Não vale a pena concertal-o;
-está todo comido de ferrugem! Faz se-lhe um novo, que é melhor!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois veja lá isso, que a lanterna está a cahir!
-</p>
-<p>
-E o vendeiro seguio adiante com o outro, emquanto atrás recomeçava o
-martellar sobre a bigorna.
-</p>
-<p>
-Em seguida via-se uma miseravel estrebaria, cheia de capim secco e
-excremento de bestas, com logar para meia duzia de animaes. Estava
-deserta, mas, no vivo fartum exhalado de lá, sentia-se que fora
-habitada ainda aquella noite. Havia depois um deposito de madeiras,
-servindo ao mesmo tempo de officina de carpinteiro, tendo á porta
-troncos d'arvore, alguns já cerrados, muitas taboas empilhadas, restos
-de cavernas e mastros de navio.
-</p>
-<p>
-D'ahi á pedreira restavam apenas uns cincoenta passos e o chão era já
-todo coberto por uma farinha de pedra moida que sujava como a cal.
-</p>
-<p>
-Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol,
-outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de
-palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a
-picareta; de outro afeiçoavam lagedos a ponta de picão; mais adiante
-faziam parallelepipedos a escopro e macete. E todo aquelle retimtim de
-ferramentas, e o martellar da forja, e o côro dos que lá em cima
-brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zuada ao longe, que
-vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéa de uma
-actividade feroz, de uma luta de vingança e de odio. Aquelles homens
-gottejantes de suor, bebedos de calor, desvairados de insolação, a
-quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de
-demonios revoltados na sua impotencia contra o impassivel gigante que os
-contemplava com desprezo, imperturbavel a todos os golpes e a todos os
-tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe
-abrissem as entranhas de granito.
-</p>
-<p>
-O membrudo cavouqueiro havia chegado á fralda do orgulhoso monstro de
-pedra; tinha-o cara a cara, medio-o de alto abaixo, arrogante, n'um
-desafio surdo.
-</p>
-<p>
-A pedreira mostrava n'esse ponto de vista o seu lado mais imponente.
-Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se
-altaneira e desassombrada, affrontando o céo, muito ingreme, lisa,
-escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela
-cyclopica nudez com um effeito de teias de aranha. Em certos logares,
-muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando,
-sobre um precipicio, miseraveis taboas que, vistas cá de baixo,
-pareciam palitos, mas em cima das quaes uns atrevidos pigmêos de forma
-humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante.
-</p>
-<p>
-O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lastima. O seu gesto
-desaprovava todo aquelle serviço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja lá! disse elle, apontando para certo ponto da rocha. Olhe
-pr'aquillo! Sua gente tem ido ás cegas no trabalho d'esta pedreira!
-Deviam atacal-a justamente por aquel'outro lado, para não contrariar os
-veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe
-só o que elles têm tirado de lá&mdash;umas lascas, uns calháos que não
-servem para nada! É uma dôr de coração ver estragar assim uma peça
-tão boa! Agora o que hão de fazer d'essa cascalhada que ahi está
-senão macacos? E brada aos céos, creia! ter pedra d'esta ordem para
-empregal-a em macacos!
-</p>
-<p>
-O vendeiro escutava-o em silencio, apertando os beiços, aborrecido com
-a idéa d'aquelle prejuizo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali onde está aquelle
-homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha abaixo
-toda esta aba que é separada por um veio. Mas quem tem ahi o senhor
-capaz de fazer isso? Ninguem; porque é preciso um empregado que saiba o
-que faz; que, se a polvora não fôr muito bem medida, nem só não se
-abre o veio, como ainda succede ao trabalhador o mesmo que succedeu ao
-outro! É preciso conhecer muito bem o trabalho para se poder tirar
-partido vantajoso d'esta pedreira! Boa é ella, mas não nas mãos em
-que está! É muito perigosa nas explosões; é muito em pé! Quem lhe
-lascar fogo não póde fugir senão para cima pela corda, e se o sujeito
-não fôr fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz!
-</p>
-<p>
-E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua mão, grossa como o
-proprio cascalho, um parallelipipedo que estava no chão:&mdash;Que digo
-eu?! Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma coisa que estes burros
-deviam esconder por vergonha!
-</p>
-<p>
-Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta que ella
-dava depois, formando um angulo obtuso, é que se via quanto era grande.
-Suava-se bem antes de chegar ao seu limite com a matta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que mina de dinheiro!... dizia o homemzarrão, parando enthusiasmado
-defronte do novo panno de rocha viva que se desdobrava na presença
-d'elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Toda esta parte que se segue agora, declarou João Romão ainda não
-é minha.
-</p>
-<p>
-E continuaram a andar para diante.
-</p>
-<p>
-D'este lado multiplicavam-se as barraquinhas; os macaqueiros trabalhavam
-á sombra d'ellas, indifferentes áquelles dois. Viam-se panellas ao
-fogo, sobre quatro pedras, ao ar livre, e rapazitos tratando do jantar
-dos paes. De mulher nem signal. De vez em quando, na penumbra de um
-ensombro de lona, dava-se com um grupo de homens, comendo de cocaras
-defronte uns dos outros, uma sardinha na mão esquerda, um pão na
-direita, ao lado de uma garrafa d'agua.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sempre o mesmo serviço mal feito e mal dirigido!... resmungou o
-cavouqueiro.
-</p>
-<p>
-Entretanto, a mesma actividade parecia reinar por toda a parte. Mas, lá
-no fim, debaixo dos bambus que marcavam o limite da pedreira, alguns
-trabalhadores dormiam á sombra, de papo para o ar, a barba espetando
-para o alto, o pescoço entumecido de cordoveias grossas como enxarcias
-de navio, a bocca aberta, a respiração forte e tranquilla de animal
-sadio, n'um feliz e plethorico resfolgar de besta cansada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro. Tudo isto está a
-reclamar um homem tezo que olhe a sério para o serviço!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu nada tenho que ver com este lado! observou Romão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas lá da sua banda hão de fazer o mesmo! Olaré!
-</p>
-<p>
-&mdash;Abusam, porque tenho de olhar pelo negocio lá fora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Commigo aqui é que elles não fariam cera. Isso juro eu! Entendo que
-o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida á farta, o seu
-gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua!
-Rua, que não falta por ahi quem queira ganhar dinheiro! Auctorise-me a
-olhar por elles e verá!
-</p>
-<p>
-&mdash;O diabo e que você quer setenta mil réis... suspirou João Romão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! nem menos um real!... Mas commigo aqui ha de ver o que lhe faço
-entrar pr'algibeira! Temos cá muita gente que não precisa de estar.
-Para que tanto macaqueiro, por exemplo? Aquillo é serviço para
-descanço; é serviço de criança! Em vez de todas aquellas lesmas,
-pagas talvez a trinta mil reis...
-</p>
-<p>
-&mdash;É justamente quanto lhes dou.
-</p>
-<p>
-&mdash;... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cincoenta, que
-fazem o dobro do que fazem aquelles monos e que podem servir para outras
-coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que
-aquelle que alli está deixa cahir o escopro! Com effeito!
-</p>
-<p>
-João Romão ficou calado, a scismar, emquanto voltavam. Vinham ambos
-pensativos.
-</p>
-<p>
-&mdash;E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para
-estalagem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o serviço
-aqui!...
-</p>
-<p>
-&mdash;E a comida, forneço-a eu?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras sahem-lhe da
-venda...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois está fechado o negocio! deliberou João Romão, convencido de
-que não podia, por economia, dispensar um homem d'aquelles. E pensou
-lá de si para si: «Os meus setenta mil reis voltar-me-hão á gaveta.
-Tudo me fica em casa!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Então estamos entendidos?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Estamos entendidos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Posso amanhã fazer a mudança?
-</p>
-<p>
-&mdash;Hoje mesmo, se quizer; tenho um commodo que lhe ha de calhar. É o
-numero 35. Vou mostrar-lh'o.
-</p>
-<p>
-E, aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com direcção
-ao fundo do cortiço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! é verdade! como você se chama?
-</p>
-<p>
-&mdash;Jeronymo, para o servir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Servir a Deus. Sua mulher lava?
-</p>
-<p>
-&mdash;É lavadeira, sim senhor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, precisamos ver-lhe uma tina.
-</p>
-<p>
-E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, d'onde escapou,
-como de uma panella fervendo que se destapa, uma baforada quente,
-vozeria tresandante á fermentação de suores e roupa ensaboada
-seccando ao sol.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="V">V</a></h4>
-
-<p>
-No dia seguinte, com effeito, ali pelas sete da manhã, quando o
-cortiço fervia já na costumada labutação, Jeronymo apresentou-se
-junto com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na vespera.
-</p>
-<p>
-A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta annos, boa estatura,
-carne ampla e rija, cabellos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco
-alvos, mas solidos e perfeitos, cara cheia, physionomia aberta; um todo
-de bonhomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela bocca numa
-sympathica expressão de honestidade simples e natural.
-</p>
-<p>
-Vieram ambos á boléa da andorinha que lhes carregou os trens. Ella
-trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de panninho de algodão
-e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do
-dia anterior.
-</p>
-<p>
-E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objectos que não
-confiaram dos homens da carroça; Jeronymo abraçado a duas formidaveis
-mangas de vidro, das primitivas, d'essas em que se podia á vontade
-enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relogio de parede e
-com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o
-pateo da estalagem, entre os commentarios e os olhares curiosos dos
-antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os
-inquilinos novos que surgiam.
-</p>
-<p>
-&mdash;O que será este pedaço d'homem? indagou a Machona da sua visinha de
-tina, a Augusta Carne-molle.
-</p>
-<p>
-&mdash;A modos, respondeu esta, que vem pr'a trabalhar na pedreira. Elle
-hontem andou por lá um rôr de tempo com o João Romão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquella mulher que entrou junto será casada com elle?
-</p>
-<p>
-&mdash;E de crer.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella me parece gente das ilhas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Elles o que têm é muito bons trastes de seu! interveio a Leocadia.
-Uma cama que deve de ser um regalo e um toucador com um espelho maior do
-que aquella peneira!
-</p>
-<p>
-&mdash;E a commoda, você vio, nhá Leocadia? perguntou Florinda, gritando
-para ser ouvida, porque entre ella e a outra estavam a Bruxa e a velha
-Marcianna.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vi. Rico traste!
-</p>
-<p>
-&mdash;E o oratorio, então? Muito bonito!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Vi tambem. E obra de capricho. Não! elles, sejam lá quem fôr, são
-gente arranjada... Isso não se lhes póde negar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se são bons ou máos só com o tempo se saberá!... arriscou Dona
-Isabel.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem vê cara não vê corações ... sentenciou o triste Albino,
-suspirando.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas o numero 35 não estava occupado por aquelle homem muito amarello
-que fazia charutos?... inquirio Augusta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estava, confirmou a mulher do ferreiro, a Leocadia, porém creio que
-arribou, devendo não sei quanto, e o João Romão então esvaziou-lhe
-hontem a casa e tomou conta do que era d'elle.
-</p>
-<p>
-É! accudio a Machona; hontem, pelo cahir das duas da tarde, o Romão
-andava ahi as voltas com os cacarecos do charuteiro. Quem sabe, se o
-pobre homem não levou a breca, como succedeu aquel'outro que trabalhava
-de ourives?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Este creio que está vivo...
-</p>
-<p>
-&mdash;O que lhe digo é que aquelle numero 35 tem máo agouro! Eu cá por
-mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do
-Farjão!
-</p>
-<p>
-Tres horas depois, Jeronymo e Piedade achavam-se installados e
-dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o mais
-depressa que poude. Elle contava aviar até á noite uma infinidade de
-coisas, para poder começar a trabalhar logo no dia seguinte.
-</p>
-<p>
-Era tão methodico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem.
-</p>
-<p>
-Jeronymo viéra da terra, com a mulher e uma filhinha ainda pequena,
-tentar a vida no Brazil, na qualidade de colono de um fazendeiro, em
-cuja fazenda moirejou durante dois annos, sem nunca levantar a cabeça,
-e donde afinal se retirou de mãos vazias e com grande birra pela
-lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que
-sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com elles no
-mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações, nem
-futuro, trabalhando eternamente para outro.
-</p>
-<p>
-Não quiz. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida e
-atirar-se para a côrte, onde, diziam-lhe patricios, todo o homem bem
-disposto encontrava furo. E, com effeito, mal chegou, devorado de
-necessidades e privações, metteu-se a quebrar pedra n'uma pedreira,
-mediante um miseravel salario. A sua existencia continuava dura e
-precaria; a mulher já então lavava e engommava, mas com pequena
-freguezia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para não
-morrer de fome e pagar o quarto da estalagem.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, porém, era perseverante, observador e dotado de certa
-habilidade. Em poucos mezes se apoderava do seu novo officio e, de
-quebrador de pedra, passou logo a fazer parallelepipedos; e depois foi
-se ageitando com o prumo e com a esquadria e metteu-se a fazer lagedos;
-e finalmente, á força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão bom
-como os melhores trabalhadores de pedreira e a ter salario igual ao
-d'elles. Dentro de dois annos, distinguia-se tanto entre os
-companheiros, que o patrão o converteu n'uma especie de contra-mestre e
-elevou-lhe o ordenado a setenta mil réis.
-</p>
-<p>
-Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôz assim para
-a frente; duas outras coisas contribuiram muito para isso: a força de
-touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos
-trabalhadores, como ainda, e talvez principalmente, a grande seriedade
-do seu caracter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma
-honestidade a toda a prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo
-de viver. Sahia de casa para o serviço e do serviço para a casa, onde
-nunca ninguem o vira com a mulher senão em boa paz; traziam a filhinha
-sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um como o outro, eram sempre os
-primeiros á hora do trabalho. Aos domingos iam ás vezes á missa ou,
-á tarde, ao passeio publico; n'essas occasiões, elle punha uma camisa
-engommada, calçava sapatos e enfiava um paletó; ella o seu vestido de
-ver a Deus, os seus oiros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao
-monte de soccorro, máo grado as difficuldades com que os dois lutaram a
-principio no Brazil.
-</p>
-<p>
-Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte,
-bem acommodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando
-sempre tão boas contas da obrigação, que os seus freguezes de roupa,
-apezar d'aquella mudança para Botafogo, não a deixaram quasi todos.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, ainda na cidade nova, logo que principiara a ganhar melhor,
-fizéra-se irmão de uma ordem terceira e tratára de ir pondo alguma
-coisinha de parte. Metteu a filha num collegio, «que a queria com outro
-saber que não elle, a quem os paes não mandaram ensinar nada.» Por
-ultimo, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era a mais
-decente, a mais respeitada e a mais confortavel; porém, com a morte do
-seu patrão e com uma reforma estupida que os successores d'este
-realisaram em todo o serviço da pedreira, o colono desgostou-se d'ella
-e resolveu passar para outra.
-</p>
-<p>
-Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que, depois do desastre
-do seu melhor empregado, andava justamente á procura de um homem nas
-condições de Jeronymo.
-</p>
-<p>
-Tomou conta da direcção de todo o serviço, e em boa hora o fez,
-porque dia a dia a sua influencia se foi sentindo no progresso do
-trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente
-serios e zelosos. Elle não admittia relaxamentos, nem podia consentir
-que um preguiçoso se demorasse ali tomando o logar de quem precisava
-ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despedio alguns
-trabalhadores, admittio novos, augmentou o ordenado dos que ficaram,
-estabelecendo-lhes novas obrigações e reformando tudo para melhor. No
-fim de dois mezes já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via,
-radiante, quanto lucrara com a acquisição de Jeronymo; tanto assim que
-estava disposto a augmentar-lhe o ordenado para conserval-o em sua
-companhia, «Valia a pena! Aquelle homem era um achado precioso!
-Abençoado fosse o Machucas que lh'o enviára!» E começou a
-distinguil-o e respeital-o como não fazia a ninguem.
-</p>
-<p>
-O prestigio e a consideração que Jeronymo gosava entre os moradores da
-outra estalagem d'onde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo entre
-os seus novos companheiros de cortiço. Ao cabo de algum tempo era
-consultado e ouvido, quando qualquer questão difficil os preoccupava.
-Descobriam-se defronte d'elle, como defronte de um superior; até o
-proprio Alexandre abrira uma excepção nos seus habitos e fazia-lhe uma
-ligeira continencia com a mão no boné, ao atravessar o pateo, todo
-fardado, por occasião de vir ou de ir para o serviço. Os dois
-caixeiros da venda, o Domingos e o Manoel, tinham enthusiasmo por elle.
-«Aquelle é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e
-destemido! Com aquelle ninguem brinca!» E, sempre que a Piedade de
-Jesus ia lá a taverna fazer as suas compras, a fazenda que lhe davam
-era bem escolhida, bem medida ou bem pezada. Muitas lavadeiras tomavam
-inveja d'ella, mas Piedade era de natural tão bom e bemfazejo que não
-dava por isso e a maledicencia murchava antes de amadurecer.
-</p>
-<p>
-Jeronymo acordava todos os dias ás quatro horas da manhã, fazia antes
-dos outros a sua lavagem á bica do pateo, soccava-se depois com uma boa
-palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em
-mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem
-meias mettidos em um formidavel par de chinellos de couro crú, seguia
-para a pedreira.
-</p>
-<p>
-A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquella
-ferramenta movida por um pulso de Hercules valia bem os clarins de um
-regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do chaos
-opalino das neblinas vultos côr de cinza, que lá iam, como sombras,
-galgando a montanha, para cavar na pedra o pão-nosso de cada dia. E,
-quando o sol desfechava sobre o pincaro da rocha os seus primeiros
-raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito,
-aquelle misero grupo de obscuros batalhadores.
-</p>
-<p>
-Jeronymo só voltava á casa ao descahir da tarde, morto de fome e de
-fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das comidas
-da terra d'elles. E ali, n'aquella estreita salinha, socegada e humilde,
-gosavam os dois, ao lado um do outro, a paz feliz dos simples, o
-voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canceiras ao sol.
-E, defronte do candieiro de kerosene, conversavam sobre a sua vida e
-sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no collegio e que só os
-visitava aos domingos e dias santos.
-</p>
-<p>
-Depois, até ás horas de dormir, que nunca passavam das nove, elle
-tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher,
-dedilhar os fados da sua terra. Era n'esses momentos que dava plena
-expansão ás saudades da patria, com aquellas cantigas melancolicas em
-que a sua alma de desterrado voava das zonas abrazadas da America para
-as aldeias tristes da sua infancia.
-</p>
-<p>
-E o canto d'aquella guitarra estrangeira era um lamento choroso e
-dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto
-mar, quando a tempestade agita as negras azas homicidas, e as gaivotas
-doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos presagos,
-tontas como se estivessem fechadas dentro de uma abobada de chumbo.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VI">VI</a></h4>
-
-<p>
-Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz
-e pouco calor.
-</p>
-<p>
-As tinas estavam abandonadas; os córadoiros despidos. Taboleiros e
-taboleiros de roupa engommada sahiam das casinhas, carregados na maior
-parte pelos filhos das proprias lavadeiras que se mostravam agora quasi
-todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias
-de chita de côr. Desprezaram-se os grandes chapéos de palha e os
-aventaes de aniagem; agora as portuguezas tinham na cabeça um lenço
-novo de ramagens vistosas e as brazileiras haviam penteado o cabello e
-pregado nos cachos negros um ramalhete de dois vintens; aquellas
-traçavam no hombro chales de lã vermelha, e estas de crochet, de um
-amarello desbotado. Viam-se homens de corpo nú, jogando a placa, com
-grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma
-arvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam
-os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhe murros,
-a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A
-casa da Machona estava n'um reboliço, porque a familia ia sahir a
-passeio; a velha gritava, gritava Nênêm, gritava o Agostinho. De
-muitas outras sahiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se
-harmonicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta melodia era de vez em
-quando interrompida por um ronco forte de trombone.
-</p>
-<p>
-Os papagaios pareciam tambem mais alegres com o domingo e lançavam das
-gaiolas phrases inteiras, entre gargalhadas e assobios. Á porta de
-diversos commodos, trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa
-de meia lavada, assentados em cadeira, lendo e soletrando jornaes ou
-livros; um declamava em voz alta versos d'«Os Luziadas», com um
-empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia n'elles o prazer da roupa
-mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas fumegavam um cheiro
-bom de refogados de carne fresca, fervendo ao fogo. Do sobrado do
-Miranda só as duas ultimas janellas já estavam abertas e, pela escada
-que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de agoas
-servidas. Sentia-se n'aquella quietação do dia inutil a falta do
-resfolegar afflicto das machinas da visinhança, com que todos estavam
-habituados. Para além do solitario capinzal do fundo a pedreira parecia
-dormir em paz o seu somno de pedra; mas, em compensação, o movimento
-era agora extraordinario á frente da estalagem e á entrada da venda.
-Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar quem passava; ao lado
-d'ellas o Albino, vestido de branco, com o seu lenço engommado ao
-pescoço, entretinha-se a chupar balas de assucar, que comprara ali
-mesmo ao taboleiro de um baleiro freguez do cortiço.
-</p>
-<p>
-Dentro da taverna, os martellos de vinho branco, os copos de cerveja
-nacional e os dois vintens de paraty ou laranginha succediam-se por cima
-do balcão, passando das mãos do Domingos e do Manoel para as mãos
-ávidas dos operarios e dos trabalhadores, que os recebiam com
-estrondosas exclamações de pandega. A Izaura, que fôra n'um pulo
-tomar o seu primeiro capilé, via-se tonta com os apalpões que lhe
-davam. Leonor não tinha um instante de socego, saltando de um lado para
-outro, com uma agilidade de mono, a fugir dos punhos callosos dos
-cavouqueiros que, entre risadas, tentavam agarral-a; e insistia na sua
-ameaça do costume: «que se queixava ao juiz de orfe!» mas não se ia
-embora, porque defronte da venda viera estacionar um homem que tocava
-cinco instrumentos ao mesmo tempo, com um acompanhamento desafinado de
-bombo, pratos e guizos.
-</p>
-<p>
-Eram apenas oito horas e já muita gente comia e palavreava na casa de
-pasto ao lado da venda. João Romão, de roupa mudada como os outros,
-mas sempre em mangas de camisa, apparecia de espaço a espaço, servindo
-os commensaes; e a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo
-nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panellas e enchendo os
-pratos.
-</p>
-<p>
-Um acontecimento, porém, veio revolucionar alegremente toda aquella
-confederação da estalagem. Foi a chegada da Rita Bahiana, que voltava
-depois de uma ausencia de mezes, durante a qual só déra noticias suas
-nas occasiões de pagar o aluguel do commodo.
-</p>
-<p>
-Vinha acompanhada por um moleque, que trazia na cabeça um enorme
-samburá carregado de compras feitas no mercado; um grande peixe espiava
-por entre folhas de alface com o seu olhar embaciado e triste,
-contrastando com as risonhas côres dos rabanetes, das cenouras e das
-talhadas de abobora vermelha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Põe isso tudo ahi n'essa porta. Ahi no numero 9, pequeno! gritou
-ella ao moleque, indicando-lhe a sua casa, e depois pagou-lhe o
-carreto.&mdash;Podes ir embora, carapeta!
-</p>
-<p>
-Desde que do portão a bisparam na rua, levantou-se logo um côro de
-saudações.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha! quem ahi vem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Olé! Bravo! É a Rita Bahiana!
-</p>
-<p>
-&mdash;Já te faziamos morta e enterrada!
-</p>
-<p>
-&mdash;E não é que o demo da mulata está cada vez mais sacudida?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, coisa ruim! por onde andaste atirando esses quartos?
-</p>
-<p>
-&mdash;D'esta vez a coisa foi de esticar, hein?!
-</p>
-<p>
-Rita havia parado em meio do pateo.
-</p>
-<p>
-Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos queriam novas d'ella.
-Não vinha em trajo de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que
-lhe deixava ver o pé sem meia n'um chinello de polimento com enfeites
-de marroquim de diversas côres. No seu farto cabello, crespo e
-reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um
-pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ella respirava o
-asseio das brazileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromaticas.
-Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril bahiano, respondia
-para a direita e para a esquerda, pondo á mostra um fio de dentes
-claros e brilhantes que enriqueciam a sua physionomia com um realce
-fascinador.
-</p>
-<p>
-Acudio quasi todo o cortiço para recebel-a. Choveram abraços e as
-chufas do bom acolhimento.
-</p>
-<p>
-Por onde andara aquelle diabo, que não apparecia para mais de tres
-mezes?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, nem me falles, coração! Sabe? pagode de roça! Que hei de
-fazer? é a minha cachaça velha!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo, creatura?
-</p>
-<p>
-&mdash;Em Jacarepaguá.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com quem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Com o Firmo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! Ainda dura isso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala a bocca! A coisa agora é seria!
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual! Quem mesmo? tu? Passa fóra!
-</p>
-<p>
-&mdash;Paixões da Rita! exclamou o Bruno com uma risada. Uma por anno! Não
-contando as miudas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! isso é que não! Quando estou com um homem não olho p'ra
-outro!
-</p>
-<p>
-Leocadia, que era perdida pela mulata, saltára-lhe ao pescoço ao
-primeiro encontro, e agora, defronte d'ella, com as mãos nas cadeiras,
-os olhos humidos de commoção, rindo, sem se fartar de vel-a, fazia-lhe
-perguntas sobre perguntas:
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas porque não te mettes tu logo por uma vez com o Firmo? porque não
-te casas com elle?
-</p>
-<p>
-&mdash;Casar? protestou a Rita. N'essa não cáe a filha de meu pae! Casar?
-livra! Para que? para arranjar captiveiro? Um marido é peior que o
-diabo; pensa logo que a gente é escrava! Nada! qual! Deus te livre!
-Não ha como viver cada um senhor e dono do que é seu!
-</p>
-<p>
-E sacudio todo o corpo n'um movimento de desdem que lhe era peculiar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha só que peste! considerou Augusta, rindo, muito molle, na sua
-honestidade preguiçosa.
-</p>
-<p>
-Esta tambem achava infinita graça na Rita Bahiana e seria capaz de
-levar um dia inteiro a vel-a dansar o chorado.
-</p>
-<p>
-Florinda ajudava á mãe a preparar o almoço, quando lhe cheirou que
-chegara a mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, cahir-lhe
-nos braços. A propria Marcianna, de seu natural sempre triste e mettida
-comsigo, appareceu á janella, para saudal-a. A das Dôres, com as saias
-arrepanhadas no quadril e uma toalha por cima amarrada pela parte de
-traz e servindo de avental, o cabello ainda por pentear, mas entrouxado
-no alto da cabeça, abandonou a limpeza que fazia em casa e veio ter com
-a Rita, para dar-lhe uma palmada e gritar-lhe no nariz:
-</p>
-<p>
-&mdash;D'esta vez tomaste um fartão, hein, mulata assanhada?...
-</p>
-<p>
-E, ambas a cahirem de riso, abraçaram-se em intimidade de amigas, que
-não têm segredos de amor uma para a outra.
-</p>
-<p>
-A Bruxa veio em silencio apertar a mão de Rita e retirou-se logo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha a feiticeira! bradou esta ultima, batendo no hombro da idiota.
-Que diabo você tanto reza, tia Paula? Eu quero que você me dê um
-feitiço para prender meu homem!
-</p>
-<p>
-E tinha uma phrase para cada um que se aproximasse. Ao ver Dona Isabel,
-que appareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com o seu velho
-chale de Macáo, abraçou-a e pedio-lhe uma pitada, que a senhora
-recusou, resmungando:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sae d'ahi, diabo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Cadê Pombinha? perguntou a mulata.
-</p>
-<p>
-Mas, nessa occasião, Pombinha acabava justamente de sahir de casa,
-muito bonita e asseiada com um vestido novo de setineta. As mãos
-occupadas com o livro de rezas, o lenço e a sombrinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Como está chique! exclamou a Rita, meneando a cabeça. É mesmo
-uma flor!&mdash;E logo que Pombinha se pôz ao seu alcance, abraçou-lhe a
-cintura e deu-lhe um beijo.&mdash;O João Costa se não te fizer feliz como
-os anjos sou capaz de abrir-lhe o casco com o salto do chinello! Juro
-pelos cabellos do meu homem!&mdash;E depois, tornando-se séria, perguntou
-muito em voz baixa á Dona Isabel:&mdash;Já veio?...&mdash;ao que a velha
-respondeu negativamente com um desconsolado e mudo abanar de orelhas.
-</p>
-<p>
-O circumspecto Alexandre, sem querer declinar da sua gravidade, pois que
-estava fardado e prompto para sahir, contentou-se em fazer com a mão um
-cumprimento á mulata, ao qual retrucou esta com uma continencia militar
-e uma gargalhada que o desconcertaram.
-</p>
-<p>
-Iam fazer commentarios sobre o caso, mas a Rita, voltando-se para o
-outro lado, gritou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha o velho Liborio! Como está cada vez mais duro!... Não se
-entrega por nada o demonio do judeu!
-</p>
-<p>
-E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se ao bello sol de abril,
-um octogenário, secco, que parecia mumificado pela idade, a fumar n'um
-resto de cachimbo, cujo pipo desapparecia na sua bocca já sem labios.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ê! ê! fez elle, quando a mulata se approximou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? perguntou Rita, abaixando-se para tocar-lhe no hombro. Quando
-é o nosso negocio?... Mas você ha de deixar-me primeiro abrir o
-bahuzinho de folha!...
-</p>
-<p>
-Liborio rio-se com as gengivas, tentando apalpar as coxas da Bahiana,
-por caçoada, affectando luxuria.
-</p>
-<p>
-Todos acharam graça n'esta pantominice do velhinho, e então, a mulata,
-para completar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias e
-sacudio-as depois sobre a cabeça d'elle, que se fingio indignado, a
-fungar exageradamente.
-</p>
-<p>
-E entre a alegria levantada pela sua reapparição no cortiço, a Rita
-deu conta do que pintára na sua ausencia; disse o muito que festou em
-Jacarepaguá; o entrudo que fizera pelo Carnaval. Tres mezes de folia!
-E, afinal, abaixando a voz, segredou ás companheiras que á noite teriam
-um pagodinho de violão. Podiam contar como certo!
-</p>
-<p>
-Esta ultima noticia causou verdadeiro jubilo no auditorio. As patuscadas
-da Rita Bahiana eram sempre as melhores da estalagem. Ninguem como o
-diabo da mulata para armar uma funcção que ia pelas tantas da
-madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou tão
-depressa. Além de que «era aquella franqueza! emquanto houvesse
-dinheiro ou credito, ninguem morria com a tripa murcha ou com a guéla
-secca!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Diz me cá, ó Leocadinha! quem são aquelles jururús que estão agora
-no 35? indagou ella, vendo o Jeronymo á porta de casa com a mulher.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! explicou a interrogada, é o Jeronymo e mais a Piedade, um casal
-que inda não conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente,
-coitados!
-</p>
-<p>
-Rita carregou para dentro de seu commodo as provisões que trouxera;
-abrio logo a janella e poz-se a cantar. Sua presença enchia de alegria
-a estalagem toda.
-</p>
-<p>
-O Firmo, o mulato com quem ella agora vivia mettida, o demonio que a
-desencabeçara para aquella maluqueira de Jacarepaguá, ia lá jantar
-esse dia com um amigo. Rita declarava isto ás companheiras, amolando
-uma faquinha no tijollo da sua porta, para escamar o peixe; emquanto os
-gatos, aquelles mesmos que perseguiam o sardinheiro, vinham, um a um,
-chegando-se todos só com o ruido da afiação do ferro.
-</p>
-<p>
-Ao lado direito da casinha da mulata, no numero 8, a das Dores
-preparava-se tambem para receber n'esse dia o seu amigo e dispunha-se a
-fazer uma limpeza geral nas paredes, nos tectos, no chão e nos moveis,
-antes de metter-se na cozinha. Descalça, com a saia levantada até ao
-joelho, uma toalha na cabeça, os braços arregaçados, viam-na passar
-de carreira, de casa para a bica e da bica outra vez para casa,
-carregando pezados baldes cheios d'agoa. E d'ahi a pouco appareciam
-ajudantes gratuitos para os arranjos do jantar, tanto do lado da das
-Dores, como do lado da Rita Bahiana. O Albino encarregou-se de varrer e
-arrumar a casa d'esta, entretanto que a mulata ia para o fogão preparar
-os seus quitutes do norte. E veio a Florinda, e veio a Leocadia, e veio
-a Augusta, impacientes todas ellas pelo pagode que havia de sahir á
-noite, depois do jantar. Pombinha não appareceu durante o dia, porque
-estava muito occupada, aviando a correspondencia dos trabalhadores e das
-lavadeiras: serviço este que ella deixava para os domingos.
-</p>
-<p>
-N'uma pequena mesa, coberta por um pedaço de chita, com o tinteiro ao
-lado da caixinha de papel, a menina escrevia, emquanto o dono ou dona da
-carta dictava em voz alta o que queria mandar dizer á familia ou a
-algum máo devedor de roupa lavada. E ia lançando tudo no papel, apenas
-com algumas ligeiras modificações, para melhor, no modo de exprimir a
-idéa. Prompta uma carta, subscriptava-a, entregava-a ao dono e chamava
-por outro, ficando a sós com um de cada vez, pois que nenhum d'elles
-queria dar o seu recado em presença de mais ninguem senão de Pombinha.
-De sorte que a pobre rapariga ia accumulando no seu coração de
-donzella toda a summula d'aquellas paixões e d'aquelles resentimentos,
-ás vezes mais fetidos do que a evaporação de um lameiro em dias de
-grande calor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Escreva lá, Nhan Pombinha! disse junto d'ella um cavouqueiro,
-coçando a cabeça; mas faça letra grande, que é pr'a mulher entender!
-Diga-lhe que não lhe mando d'esta feita o dinheiro que me pedio, porque
-agora não no tenho e estou muito acossado de apertos; mas que lh'o
-prometto pr'o mez. Ella que se va arrajando por lá, que eu cá sabe
-Deus como me coso; e que, se o Luiz, o irmão, resolver de vir, que m'o
-mande dizer com tempo, para ver se se lhe dá furo á vida por aqui; que
-isto de vir sem inda ter pr'onde, é fraco negocio, porque as coisas por
-cá não correm lá para que digamos!
-</p>
-<p>
-E depois que Pombinha escreveu, accrescentou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Que eu tenho sentido muito a sua falta d'ella; mas tambem sou o
-mesmo e não me metto em porcarias e relaxamentos; e que tenciono mandar
-buscal-a, logo que Deus me ajude, e a Virgem! Que elle não tem de que
-se arreliar por mór do dinheiro não ir d'esta; que, como lá diz o
-outro: quando não ha el-rei o perde! Ah! (ia esquecendo!) quanto á
-Libania, é tirar d'ahi o juizo! que a Libania se atirou aos cães e faz
-hoje má vida na rua de São Jorge; que se esqueça d'ella por vez e
-perca o amor ás duas coroas que lhe emprestou!
-</p>
-<p>
-E a menina escrevia tudo, tudo, apenas interrompendo o seu trabalho para
-fitar, com a mão no queixo, o cavouqueiro, á espera de nova phrase.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VII">VII</a></h4>
-
-<p>
-E assim ia correndo o domingo no cortiço até ás tres da tarde, horas
-em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro, trazendo
-aquelle o violão e o outro o cavaquinho.
-</p>
-<p>
-Firmo, o actual amante de Rita Bahiana, era um mulato pachola, delgado
-de corpo e agil como um cabrito; capadocio de marca, pernostico, só de
-maçadas, e todo elle se quebrando nos seus movimentos de capoeira.
-Teria seus trinta e tantos annos, mas não parecia ter mais de vinte e
-poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não
-tinha musculos, tinha nervos. A respeito de barba, nada mais que um
-bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do
-barbeiro; grande cabelleira encaracolada, negra e bem negra, dividida ao
-meio da cabeça, escondendo parte da testa e estufando em grande
-gaforina por debaixo da aba do chapéo de palha, que elle punha de
-banda, derreado sobre a orelha esquerda.
-</p>
-<p>
-Vestia, como de costume, um paletó de lustrina preta já bastante
-usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha que lhe
-enguliam os pésinhos seccos e ligeiros. Não trazia gravata, nem
-collete, sim uma camisa de chita nova e ao pescoço, resguardando o
-collarinho, um lenço alvo e perfumado; á bocca um enorme charuto de
-dois vintens e na mão um grosso porrete de Petropolis, que nunca
-socegava, tantas voltas lhe dava elle a um tempo por entre os dedos
-magros e nervosos.
-</p>
-<p>
-Era official de torneiro, official perito e vadio; ganhava uma semana
-para gastar n'um dia; ás vezes porém os dados ou a roleta
-multiplicavam-lhe o dinheiro, e então elle fazia como n'aquelles
-ultimos tres mezes; afogava-se n'uma boa pandega com a Rita Bahiana. A
-Rita ou outra «O que não faltava por ahi eram saias para ajudar um
-homem a cuspir o cobre na bocca do diabo!» Nascera no Rio de Janeiro,
-na Côrte; militara dos doze aos vinte annos em diversas maltas de
-capoeiras; chegára a decidir eleições nos tempos do voto indirecto.
-Deixou nome em varias freguezias e mereceu abraços, presentes e
-palavras de gratidão de alguns importantes chefes de partido. Chamava a
-isso a sua época de paixão politica; mas depois desgostou-se com o
-systema de governo e renunciou ás lutas eleitoraes, pois não
-conseguira nunca o logar de continuo n'uma repartição publica&mdash;o seu
-ideal!&mdash;Setenta mil reis mensaes; trabalho das nove ás tres.
-</p>
-<p>
-Aquella amigação com a Rita Bahiana era uma coisa muito complicada e
-vinha de longe; vinha do tempo em que ella ainda estava chegadinha de
-fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafusa dura, capaz de
-arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A cafusa morreu e o Firmo tomou
-conta da mulata; mas pouco depois se separaram por ciumes, o que aliás
-não impedio que se tornassem a unir mais tarde, e que de novo brigassem
-e de novo se procurassem. Elle tinha «paixa» pela Rita, e ella, apezar
-de voluvel como toda a mestiça, não podia esquecel-o por uma vez;
-mettia-se com outros, é certo, de quando em quando, e o Firmo então
-pintava o caneco, dava por páos e por pedras, enchia-a de bofetadas,
-mas, afinal, ia procural-a, ou ella a elle, e ferravam-se de novo, cada
-vez mais ardentes, como se aquellas turras constantes reforçassem o
-combustivel dos seus amores.
-</p>
-<p>
-O amigo que Firmo trazia aquelle domingo em sua companhia, o Porfiro,
-era mais velho do que elle e mais escuro. Tinha o cabello encarapinhado.
-Typographo. Afinavam-se muito os dois typos com as suas calças de bocca
-larga e com os seus chapéos ao lado; mas o Porfiro tinha outra linha:
-não dispensava a sua gravata de côr saltando em laço frouxo sobre o
-peito da camisa; fazia questão da sua bengalinha com cabeça de prata e
-da sua piteira de ambar e espuma, em que elle equilibrava um cigarro de
-palha.
-</p>
-<p>
-Desde a entrada dos dois, a casa da Rita esquentou. Ambos tiraram os
-paletós e mandaram vir Paraty, «a abrideira pr'a muqueca Bahiana.» E
-não tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho e o violão.
-</p>
-<p>
-Ao lado chegava tambem o homem da das Dôres, com um companheiro do
-commercio; vinham vestidos de fraque e chapéo alto. A Machona, Nênêm
-e o Agostinho, já de volta do seu passeio á cidade, lá estavam
-ajudando. Ficariam para o regabofe.
-</p>
-<p>
-Um rumor quente, do dia de festa, ia-se formando n'aquelle ponto da
-estalagem.
-</p>
-<p>
-Tanto n'uma casa, como na outra, o jantar seria ás cinco horas. Rita
-«botou» vestido branco, de cambraia, encanudado a ferro. Leocadia,
-Augusta, o Bruno, o Alexandre e o Albino jantariam com ella no numero 9;
-e no numero 8, com a das Dôres, ficariam, além dos parentes d'esta,
-Dona Isabel, Pombinha, Marcianna e Florinda.
-</p>
-<p>
-Jeronymo e sua mulher foram convidados para ambas as mezas, mas não
-acceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar a tarde ao lado um
-do outro, tranquillamente, como sempre, comendo em boa paz o seu cozido
-á moda da terra e bebendo o seu quartilho de verde pela mesma infusa.
-</p>
-<p>
-Entretanto, os dois jantares visinhos principiaram ruidosos logo desde a
-sôpa e assanharam-se progressivamente.
-</p>
-<p>
-Meia hora depois vinha das duas casas uma algazarra infernal. Fallavam e
-riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os talheres e os copos. Cá de
-fóra sentia-se perfeitamente o prazer que aquella gente punha em comer
-e beber á farta, com a bocca cheia, os beiços envernisados de molho
-gordo. Alguns cães rosnavam á porta, roendo os ossos que traziam lá
-de dentro. De vez em quando, da janella de uma das casas apparecia uma
-das moradoras, chamando a visinha, para entregar um prato cheio,
-permutando as duas entre si os quitutes e as petisqueiras em que eram
-mais peritas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha! gritava a das Dôres para o numero 9, diz á Rita que prove
-d'esse zôrô, pr'a ver que tal o acha, e que o vatapá estava muito
-gostoso! Se ella tem pimentas, que me mande algumas!
-</p>
-<p>
-Do meio para o fim do jantar o barulho em ambas as casas era medonho. No
-numero 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O portuguez amigo da
-das Dôres, já desengravatado e com os braços á mostra, vermelho,
-lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leitão de forno,
-repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a bocca, com a
-camisa a espipar-lhe pela braguilha aberta. O sujeito que o
-accompanhára fazia fosquinhas a Nênêm, protegido no seu namoro por
-toda a roda, desde a respeitavel Machona até ao endemoninhado
-Agostinho, que não ficava quieto um instante, nem deixava socegar a
-mãe, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre
-muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando,
-levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao numero 12 um
-prato de comida á sua velha que, á ultima hora, vindo-lhe o
-aborrecimento, resolvêra não ir ao jantar. Á sobremesa o esfogueado
-amigo da dona da casa exigio que a amante se lhe assentasse nas coxas e
-dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que Dona
-Isabel, impaciente por afastar a filha d'aquelle inferno, declarasse que
-sentia muito calor e que ia lá para a porta esperar mais á fresca o
-café.
-</p>
-<p>
-Em casa da Rita Bahiana a animação era ainda maior. Firmo e Porfiro
-faziam o diabo, cantando, trocando bestialogicos, arremedando a falla
-dos pretos cassanges. Aquelle não largava a cintura da mulata e só
-bebia no mesmo copo com ella; o outro divertia-se a perseguir o Albino,
-galanteando-o affectadamente, para fazer rir á sociedade. O lavadeiro
-indignava-se, dava o cavaco. Leocadia, a quem o vinho produzia delirios
-de hilaridade, torcia-se em gargalhadas, tão fortes e sacudidas que
-desconjuntavam a cadeira em que ella estava; e, muito lubrificada pela
-bebedeira, punha os pezados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas
-contra as d'elle e deixando-se apalpar pelo capadocio. O Bruno, defronte
-d'ella, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, fallava e
-gesticulava sem se levantar, praguejando ninguem sabia contra quem. O
-Alexandre, á paizana, assentado ao lado da mulher, conservava quasi
-toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto barulho porque
-podiam ouvir da rua. E notou, em voz mysteriosa, que o Miranda tinha
-vindo já espiar por varias vezes da janella do sobrado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que espie as vezes que quizer! bradou a Rita. Pois então a gente não
-é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que
-entender?... Que vá pr'o diabo que o lixe! Eu não como nem bebo do que
-é d'elle!
-</p>
-<p>
-Os dois mulatos e o Bruno tambem eram da mesma opinião. «Pois então!
-Desde que se não offendia, nem prejudicava a safardana nenhum com
-aquelle divertimento, não havia de que fallar!»
-</p>
-<p>
-&mdash;E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que commigo é nove! E o
-trunfo é páos!
-</p>
-<p>
-O Porfiro exclamou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Se se incommodam com a gente ... os incommodados são os que se
-mudam! Ora pistolas!
-</p>
-<p>
-&mdash;O domingo fez-se pr'a gosar!... resmungou o Bruno, deixando cahir a
-cabeça nos braços crusados sobre a mesa.
-</p>
-<p>
-Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou, despindo o braço
-direito até ao hombro:&mdash;Elles que se façam finos, que os racho!
-</p>
-<p>
-O Alexandre procurou acalmal-o, dando-lhe um charuto.
-</p>
-<p>
-Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar uma nova sobremesa,
-engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos
-mascates, onde o Delporto, o Pompêo, o Francesco e o Andréa
-representavam as principaes figuras. Todos elles cantavam em coro, mais
-afinados que nas outras duas casas; quasi, porém, que se lhes não
-podiam ouvir as vozes, tantas e tão estrondosas eram as pragas que
-soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e macho
-vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, tão estridente que
-provocava replica aos papagaios e aos perus da visinhança. E, d'aqui e
-d'ali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela
-estalagem. Havia nos operarios e nos trabalhadores decidida disposição
-para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquelle dia de folga. A
-casa de pasto fermentava revolucionada, como um estomago de bebado
-depois de grande brodio, e arrotava sobre o pateo uma baforada quente e
-ruidosa que entontecia.
-</p>
-<p>
-O Miranda appareceu furioso á janella, com o seu typo de commendador, a
-barriga empinada pr'a frente, de paletó branco, um guardanapo ao
-pescoço e um trinchante empunhado na destra, como uma espada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vão gritar pr'a o inferno, com um milhão de raios! berrou elle,
-ameaçando para baixo. Isto tambem já é de mais! Se não se calam, vou
-d'aqui direito chamar a policia! Sucia de brutos!
-</p>
-<p>
-Com os berros do Miranda muita gente chegou á porta de casa, e o côro
-de gargalhadas, que ninguem podia conter n'aquelle momento de alegria,
-ainda mais o pôz fóra de si.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes d'aqui, como a
-cães damnados!
-</p>
-<p>
-Uma vaia unisona echoou em todo o pateo da estalagem, emquanto em volta
-do negociante surgiam varias pessoas, puxando-o para dentro de casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar palha?...
-</p>
-<p>
-&mdash;O que elles querem é que encordôes!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Saia d'ahi, papáe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo!
-</p>
-<p>
-E via-se de relance Dona Estella, com a sua pallidez de flôr meio
-fanada, e Zulmira, livida, um ar de fastio a fazel-a feia, e o
-Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indifferente, a
-olhar para toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos que
-já não esperam nada dos outros, nem de si proprio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Canalhas! repisava o Miranda.
-</p>
-<p>
-O Alexandre, que fôra de carreira enfiar a sua farda, apresentou-se
-então e disse ao negociante que não era prudente atirar insultos cá
-pr'a baixo. Ninguem o tinha provocado! Se os moradores da estalagem
-jantavam em companhia de amigos, lá em cima o Miranda tambem estava
-comendo com os seus convidados! Era máo insultar, porque palavra puxa
-palavra, e, em caso de ter de depor na policia, elle, Alexandre, deporia
-a favor de quem tivesse razão!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Fomente-se! respondeu o negociante, voltando-lhe as costas.
-</p>
-<p>
-Já se vio chubregas mais atrevido?! exclamou Firmo, que até ahi
-estivera calado, á porta da Rita, com as mãos nas cadeiras, a fitar
-provocadoramente o Miranda.
-</p>
-<p>
-E gritando mais alto, para ser bem ouvido:&mdash;Facilita muito, meu boi
-manso, que te escorvo os galhos na primeira occasião!
-</p>
-<p>
-O Miranda foi arrancado com violencia da janella, e esta fechada logo em
-seguida com estrondo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa lá esse labrego! resmungou Porfiro, tomando o amigo pelo braço
-e fazendo-o recolher-se á casa da mulata. Vamos ao café, é o que é,
-antes que esfrie!
-</p>
-<p>
-Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos moradores do
-cortiço, jornaleiros de baixo salario, pobre gente miseravel, que mal
-podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim não havia entre elles
-um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um
-trago. A proposta foi acceita alegremente.
-</p>
-<p>
-E a casa d'ella nunca se esvasiava.
-</p>
-<p>
-Anoitecia já.
-</p>
-<p>
-O velho Liborio, que jamais ninguem sabia ao certo onde almoçava ou
-jantava, surgio do seu buraco, que nem jaboti quando vê chuva.
-</p>
-<p>
-Um typão, o velho Liborio! Occupava o peior canto do cortiço e andava
-sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo
-a um e a outro, como um mendigo, chorando miserias eternamente,
-apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o
-sumitico roubára de um pobre cego decrepito. Na estalagem diziam
-todavia que Liborio tinha dinheiro aferrolhado, contra o que elle
-protestava resentido, jurando a sua extrema penuria. E era tão feroz o
-demonio n'aquella fome de cão sem dono, que as mães recommendavam ás
-suas crianças todo o cuidado com elle, porque o diabo do velho, quando
-via algum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondal-o, a cercal-o
-de festas e a fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir
-furtar-lhe o doce ou o vintemzinho que o pobrezito trazia fechado na
-mão.
-</p>
-<p>
-Rita fel-o entrar e deu-lhe de comer e de beber; mas sob condição de
-que o esfomeado não se soccasse demais, para não rebentar ali mesmo.
-</p>
-<p>
-Se queria estoirar, fosse estoirar para longe!
-</p>
-<p>
-Elle pôz-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os
-lados, como se temesse que alguem lhe roubasse a comida da boca. Engolia
-sem mastigar, empurrando os bocados com o dedo, agarrando-se ao prato e
-escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez metter para
-dentro do corpo.
-</p>
-<p>
-Causava terror aquella sua implacavel mandibula, assanhada e devoradora;
-aquelle enorme queixo, avido, ossudo e sem um dente, que parecia ir
-engolir tudo, tudo, principiando pela propria cara, desde a immensa
-batata vermelha e grelada, que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as
-duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira,
-inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor
-por uns pellos puídos e ralos como farripas de côco.
-</p>
-<p>
-Firmo propoz embebedal-o, só para ver a sorte que elle daria. O
-Alexandre e a mulher oppuzeram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar
-de rir, apezar do espanto, vendo aquelle resto de gente, aquelle
-esqueleto velho, coberto por uma pelle secca, a devorar, a devorar sem
-tregoas, como se quizesse fazer provisão para uma outra vida.
-</p>
-<p>
-De repente, um pedaço de carne, grande de mais para ser ingerido de uma
-vez, engasgou-o sériamente. Liborio começou a tossir, afflicto, com os
-olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apopletica. A
-Leocadia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas
-costas.
-</p>
-<p>
-O glutão arrevessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio
-triturado.
-</p>
-<p>
-Foi um nojo geral.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porco! gritou Rita, arredando-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro.
-Parece que nunca vio comida, este animal!
-</p>
-<p>
-E notando que elle continuava ainda mais sofrego por ter perdido um
-instante:&mdash;Espera um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Ha
-muito ahi com que te fartares por uma vez! Com effeito!
-</p>
-<p>
-&mdash;Beba agoa, tio Liborio! aconselhou Augusta.
-</p>
-<p>
-E, boa, foi buscar um copo d'agoa e levou-lh'o á boca.
-</p>
-<p>
-O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato.
-</p>
-<p>
-&mdash;Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo
-capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!
-</p>
-<p>
-Albino, esse, coitado! é que não comia quasi nada e o pouco que
-conseguia metter no estomago fazia-lhe mal. Rita, para bulir com elle,
-disse que semelhante fastio era gravidez com certeza.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço, esgueirando-se
-com a sua chicara de café.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café, que faz mal ao
-leite, e a criança póde sahir trigueira!
-</p>
-<p>
-O Albino voltou para dizer muito serio á Rita que não gostava d'essas
-brincadeiras.
-</p>
-<p>
-Alexandre, que havia accendido um charuto, depois de offerecer outros,
-galantemente, aos companheiros, arriscou, para tambem fazer a sua
-pilheria, que o sonso do Albino fôra pilhado ás voltas com a Bruxa no
-capinzal dos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras.
-</p>
-<p>
-Só a Leocadia achou graça n'isto e rio a bandeiras despregadas. Albino
-declarou, quasi chorando, que elle não mexia com pessoa alguma, e que
-ninguem, por conseguinte, devia mexer com elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exacto que este pamonha não
-conhece mulher?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle é quem póde responder! accudio a mulata. E esta historia vae
-ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te
-terás de haver com a gente!
-</p>
-<p>
-Se eu soubesse que era para isto que me chamaram, não tinha vindo cá,
-sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito!
-</p>
-<p>
-E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe cortasse a sahida,
-dizendo, como se fallasse a uma creatura do seu sexo, mais fraca do que
-ella:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora não sejas tôlo! Deixa-te ficar ahi! Se deres o cavaco é peior!
-</p>
-<p>
-Albino limpou as lagrimas e foi assentar-se de novo.
-</p>
-<p>
-Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde com o sudoeste.
-Bruno roncava no logar em que tinha jantado. A Leocadia passára
-livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abraçava, bebendo
-paraty aos calices.
-</p>
-<p>
-Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para fóra; e todos, menos
-o Bruno, dispozeram-se a deixar a sala, emquanto o velho Liborio pedia a
-Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. Servido, o filante
-desappareceu logo, correndo ao faro de outros jantares. Rita, Augusta e
-Albino ficaram lavando a louça e arrumando a casa.
-</p>
-<p>
-Lá fóra o côro dos italianos se prolongava n'uma cadencia monotona e
-arrastada, em que havia muito pezo de embriaguez. Junto á porta de
-varias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas em cadeiras ou no
-chão; mas a roda da Rita Bahiana era a maior, porque fóra engrossada
-pelos convivas da das Dôres. O fumo dos cachimbos e dos charutos
-elevava-se de toda a parte. Decrescera o ruido geral; fazia-se a
-digestão; já ninguem discutia e todos conversavam.
-</p>
-<p>
-Accendeu-se o lampeão do pateo. Illuminaram-se diversas janellas das
-casinhas.
-</p>
-<p>
-Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior barulho. Sahia de lá
-uma terrivel gritaria de hippes e burrahs, virgulada pelo desarolhar de
-garrafas de champanha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como elles atacam!... observou Alexandre, já de novo sem farda.
-</p>
-<p>
-&mdash;E no emtanto reprovam que a gente coma o que é seu com um pouco mais
-de alegria! commentou a Rita. Uma sucia!
-</p>
-<p>
-Fallou-se então largamente a respeito da familia do Miranda,
-principalmente de Dona Estella e do Henrique. A Leocadia afiançou que,
-uma occasião, espiando por cima do muro, trepada n'um montão de
-garrafas vazias que havia no pateo do cortiço, vira a sirigaita com a
-cara agarrada á do estudante, aos beijos e aos abraços, que era obra;
-e assim que os dois deram fé que ella os espreitava, deitaram a fugir
-que nem cães apedrejados.
-</p>
-<p>
-A Augusta Carne-molle benzeu-se, com uma invocação á Virgem
-Santissima, e o companheiro do amigo da das Dôres, que insistia no seu
-namoro com a Nênêm, mostrou-se muito admirado com a noticia,
-«suppunha Dona Estella um modelo de seriedade.»
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual! negou Alexandre. Isso por ahi é tudo uma pouca vergonha, que
-faz descrer um homem de si mesmo!
-</p>
-<p>
-Eu tambem já vi de uma feita bem boas coisas pela sombra d'ella na
-parede; mas não era com o estudante, era com um sujeito que lá ia ás
-vezes, um barbado, careca e comido de bexigas. E a pequena vae pelo
-mesmo conseguinte...
-</p>
-<p>
-Esta novidade produzio grande surpreza no grupo inteiro. Quizeram os
-pormenores e o Alexandre não se fez rogado: o namoro da Zulmira era com
-um rapazola magro, de lunetas, bigode loiro, bem vestido, que lhe
-rondava a casa á noite e ás vezes de madrugada. Parecia estudante!
-</p>
-<p>
-&mdash;O que elles tem feito? inquerio a das Dôres.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por emquanto a coisa não passa de namorico da janella pr'a rua.
-Conversam sempre n'aquella ultima do lado de lá de fóra. Já os tenho
-apreciado quando estou de serviço. Elle falla muito em casamento e a
-pequena o quer; mas, pelo geito, o velho é que lhe corta as azas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle não tem entrada na casa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Pois isso é que eu acho feio!... Se elle quer casar com a
-menina, devia entender-se com a familia e não estar agora d'aqui
-debaixo a fazer-lhe fosquinhas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim! intrometteu-se o Firmo; mas não vê que aquelle mesmo, o
-Miranda, vae dar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus...
-Quem sabe até se o bruto não tem já de olho por ahi algum cafezista
-pé de boi!... Eu sei o que é essa gente!
-</p>
-<p>
-&mdash;Por isso é que se vê tanta porcaria por esse mundo de Christo! disse
-a Augusta. Filha minha só se casará com quem ella bem quizer; que isto
-de casamentos empurrados á força acabam sempre desgraçando tanto a
-mulher como o homem! Meu marido é pobre e é de côr, mas eu sou feliz,
-porque casei por meu gosto!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! Mais vale um gosto que quatro vintens!
-</p>
-<p>
-N'isto começou a gemer á porta do 35 uma guitarra; era de Jeronymo.
-Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara áquella
-tarde toda a republica do cortiço, ella parecia ainda mais triste e
-mais saudosa do que nunca.
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">«Minha vida tem desgostos,</span><br />
-<span class="i2">Que só eu sei comprender...</span><br />
-<span class="i2">Quando me lembro da terra</span><br />
-<span class="i2">Parece que vou morrer...»</span>
-</div></div>
-
-<p>
-E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por
-fim, a monotona cantiga dos portuguezes enchia de uma alma desconsolada
-o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade
-que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda.
-</p>
-
-<div class="poem"><div class="stanza">
-<span class="i2">«Terra minha, que te adoro,</span><br />
-<span class="i2">Quando é que eu te torno a ver?</span><br />
-<span class="i2">Leva-me d'este desterro;</span><br />
-<span class="i2">Basta já de padecer.»</span>
-</div></div>
-
-<p>
-Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostalgico dos desterrados, iam
-todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e cahindo em tristeza;
-mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do
-Firmo, romperam vibrantemente com um chorado bahiano. Nada mais que os
-primeiros accordes da musica crioula para que o sangue de toda aquella
-gente despertasse logo, como se alguem lhe fustigasse o corpo com
-ortigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais
-ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam,
-eram lubricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem
-serpenteando, como cobras n'uma floresta incendiada; eram ais convulsos,
-chorados em frenezi de amor; musica feita de beijos e soluços gostosos;
-caricia de fera, caricia de doer, fazendo estalar de goso.
-</p>
-<p>
-E aquella musica de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas
-brasileiras, em torno das quaes se nutrem, girando, moscardos sensuaes e
-besoiros venenosos, freneticamente, bebedos do delicioso perfume que os
-mata de volupia.
-</p>
-<p>
-E á viva crepitação da musica bahiana calaram-se as melancolicas
-toadas dos de além-mar. Assim á refulgente luz dos tropicos amortece a
-fresca e doce claridade dos céos da Europa, como se o proprio sol
-americano, vermelho e esbrazeado, viesse, na sua luxuria de sultão,
-beber a lagrima medrosa da decahida rainha dos mares velhos.
-</p>
-<p>
-Jeronymo alheiou-se da sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas
-sobre as cordas, todo attento para aquella musica estranha, que vinha
-dentro d'elle continuar uma revolução começada desde a primeira vez
-em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz
-d'este sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da
-primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o succo da primeira fructa
-provada n'estas terras de braza, e lhe entonteceu a alma o aroma do
-primeiro bogary, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da primeira
-mulher, da primeira mestiça, que junto d'elle sacudio as saias e os
-cabellos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, estranhando-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera, respondeu elle, em voz baixa; deixa ouvir!
-</p>
-<p>
-Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de
-palmas.
-</p>
-<p>
-Jeronymo levantou-se, quasi que machinalmente, e, seguido por Piedade,
-aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos dois mulatos.
-Ahi, de queixo grudado ás costas das mãos contra uma cerca de jardim,
-permaneceu, sem tugir nem mugir, entregue de corpo e alma áquella
-cantiga seductora e voluptuosa que o enleiava e tolhia, como á robusta
-gameleira brava o cipó flexivel, carinhoso e traiçoeiro.
-</p>
-<p>
-E vio a Rita Bahiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de
-hombros e braços nus, para dansar. A lua destoldára-se n'esse momento,
-envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da
-mestiça melhor se accentuavam, cheios de uma graça irresistivel,
-simples, primitiva, feita toda de peccado, toda de paraiso, com muito de
-serpente e muito de mulher.
-</p>
-<p>
-Ella saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as
-ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a
-direita, como n'uma sofreguidão de goso carnal, num requebrado
-luxurioso que a punha offegante; já correndo de barriga empinada; já
-recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse
-afundando n'um prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e
-nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse á vida, soltava um
-gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas,
-descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida
-sapateava, miudo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os
-braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, emquanto a carne
-lhe fervia toda, fibra por fibra, titillando.
-</p>
-<p>
-Em torno o enthusiasmo tocava ao delirio; um grito de applausos explodia
-de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito sabido do
-sangue. E as palmas insistiam, cadentes, certas, n'um rhythmo nervoso,
-n'uma persistencia de loucura. E, arrastado por ella, pulou á arena o
-Firmo, agil, de borracha, a fazer coisas phantasticas com as pernas, a
-derreter-se todo, a sumir-se no chão, a resurgir inteiro com um pulo,
-os pés no espaço batendo os calcanhares, os braços a querer
-fugirem-lhe dos hombros, a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgio
-tambem a Florinda, e logo o Albino e até, quem diria! o grave e
-circumspecto Alexandre.
-</p>
-<p>
-O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que
-não sabiam dansar. Mas, ninguem como a Rita; só ella, só aquelle
-demonio, tinha o magico segredo d'aquelles movimentos de cobra
-amaldiçoada; aquelles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a
-mulata soltava de si e sem aquella voz doce, quebrada, harmoniosa,
-arrogante, meiga e supplicante.
-</p>
-<p>
-E Jeronymo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos
-enamorados.
-</p>
-<p>
-N'aquella mulata estava o grande mysterio, a synthese das impressões
-que elle recebeu chegando aqui: ella era a luz ardente do meio dia; ella
-era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos
-trevos e das baunilhas, que o atordoara nas mattas brasileiras; era a
-palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta;
-era o veneno e era o assucar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e
-era a castanha do cajú, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ella
-era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida,
-que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo d'elle,
-assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela
-saudade da terra, picando-lhe as arterias, para lhe cuspir dentro do
-sangue uma centelha d'aquelle amor septentrional, uma nota d'aquella
-musica feita de gemidos de prazer, uma larva d'aquella nuvem de
-cantharidas que zumbiam em torno da Rita Bahiana e espalhavam-se pelo ar
-n'uma phosphorescencia aphrodisiaca.
-</p>
-<p>
-Isto era o que Jeronymo sentia, mas o que o tonto não podia conceber.
-De todas as impressões d'aquelle resto de domingo só lhe ficou no
-espirito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho,
-mas de mel chuchurreado no calice de flores americanas, d'essas muito
-alvas, cheirosas e humidas, que elle na fazenda via debruçadas
-confidencialmente sobre os limosos pantanos sombrios, onde as oiticicas
-trescalam um aroma que entristece de saudade.
-</p>
-<p>
-E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dansaram, mas o portuguez
-só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fôra cahir nos braços do
-amigo. Piedade, a cabecear de somno, chamára-o varias vezes para se
-recolherem; elle respondeu com um resmungo e não deu pela retirada da
-mulher.
-</p>
-<p>
-Passaram-se horas, e elle tambem não deu pelas horas que fugiram.
-</p>
-<p>
-O circulo do pagode augmentou: vieram de lá defronte a Izaura e a
-Leonor; o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina,
-quizeram dar fé da patuscada um instante antes de cahirem na cama; a
-familia do Miranda puzera-se á janella, divertindo-se com a gentalha da
-estalagem; reunira povo lá fóra na rua; mas Jeronymo nada vira de tudo
-isso; nada vira senão uma coisa, que lhe persistia no espirito: a
-mulata offegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.
-</p>
-<p>
-Só deu por si, quando, já pela madrugada, se callaram de todo os
-instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu á casa.
-</p>
-<p>
-E vio a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que a arrastava pela
-cintura.
-</p>
-<p>
-Jeronymo ficou sózinho no meio da estalagem. A lua, agora inteiramente
-livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silencio na sua
-viagem mysteriosa. As janellas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao
-longe, por detraz da ultima parede do cortiço, erguia-se como um
-monstro illuminado na sua paz. Uma quietação densa pairava já sobre
-tudo; só se distinguiam o bruxulear dos pyrilampos na sombra das hortas
-e dos jardins, e os murmurios das arvores que sonhavam.
-</p>
-<p>
-Mas Jeronymo nada mais sentia, nem ouvia, do que aquella musica
-embalsamada de baunilha, que lhe entontecêra a alma; e comprehendeu
-perfeitamente que dentro d'elle aquelles cabellos crespos, brillantes e
-cheirosos, da mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e
-venenosas, que lhe iam devorar o coração.
-</p>
-<p>
-E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céo, que elle nunca vira senão
-depois de sete horas de somno, que era já quasi occasião de entrar
-para o seu serviço, e resolveu não dormir, porque valia a pena esperar
-de pé.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="VIII">VIII</a></h4>
-
-<p>
-No dia seguinte, Jeronymo largou o trabalho á hora de almoçar e, em
-vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa.
-Mal tocou no que a mulher lhe apresentou á mesa e metteu-se logo depois
-na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e lhe dissesse que
-elle estava incommodado e ficava de descanço aquelle dia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tens tu Jeromo?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Morrinhento, filha. Vae anda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas sentes-te mal?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó mulher! vae fazer o que te disse e ao depois então darás á
-lingoa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na venda!
-</p>
-<p>
-E ella sahio, afflicta. Qualquer novidade no marido, por menor que
-fosse, punha-a doida, «Pois um homem rijo, que nunca cahia doente?
-Seria a febre amarella?...» Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar
-n'isso era bom! Credo!
-</p>
-<p>
-A noticia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi da friage da noite, affirmou a Bruxa; e deu um pulo á casa do
-trabalhador para receitar.
-</p>
-<p>
-O doente repellio-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que elle do que
-precisava era de dormir. Mas não o conseguio: atraz da Bruxa correu a
-segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se durante
-muito tempo em sua casa um entrar e sahir de saias. Jeronymo perdeu a
-paciencia e ia protestar brutalmente contra semelhante invasão, quando,
-pelo cheiro, sentio que a Rita se approximava tambem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah!
-</p>
-<p>
-E desfranzio-se-lhe o rosto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você cahio doente com a minha
-chegada? Se tal soubéra não vinha!
-</p>
-<p>
-Elle rio-se. E era a primeira vez que ria desde a vespera.
-</p>
-<p>
-A mulata aproximou-se da cama.
-</p>
-<p>
-Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as saias apanhadas na
-cintura e os braços completamente nús e frios da lavagem. O seu
-casaquinho branco abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito côr
-de canella.
-</p>
-<p>
-Jeronymo apertou-lhe a mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Gostei de vel-a hontem dansar, disse, muito mais animado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Já tomou algum remedio?...
-</p>
-<p>
-&mdash;A mulher fallou ahi em chá preto...
-</p>
-<p>
-&mdash;Chá! Que asneira! Chá é agoa morna! Isso que você tem é uma
-resfriagem. Vou lhe fazer uma chicara de café bem forte para você
-beber com um gole de paraty, e me dirá se súa ou não, e fica depois
-fino e prompto para outra! Espere ahi!
-</p>
-<p>
-E sahio logo, deixando todo o quarto impregnado d'ella.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, só com respirar aquelle almiscar, parecia melhor. Quando
-Piedade tornou, pesada, triste, resmungando comsigo mesma, elle sentio
-que principiava a enfaral-a; e, quando a infeliz se approximou do
-marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do corpo.
-Voltou-lhe então o máo-estar e desappareceu o ultimo vestigio do
-sorriso que elle tivera havia pouco.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas que sentes tu, Jeromo?... Falla, homem! Não me dizes nada! Assim
-m'assustas... Que tens, diz'lo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não queres o chá? Mas é o remedio, filhinho de Deus!
-</p>
-<p>
-&mdash;Já te disse que tomo oitra mezinha. Oh!
-</p>
-<p>
-Piedade não insistio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Queres tu um escalda-pés?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Tomal-o tu!
-</p>
-<p>
-Ella calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão aspero e secco,
-mas receiou importunal-o. «Era naturalmente a molestia que o punha
-resinguento.»
-</p>
-<p>
-Jeronymo fechára os olhos, para a não ver, e ter-se-ia, se pudesse,
-fechado por dentro, para a não sentir. Ella, porém, coitada! fôra
-assentar-se á beira da cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo
-n'aquelle instante, pura e exclusivamente, para o seu homem, fazendo-se
-muito escrava d'elle, sem vontade propria, acompanhando-lhe os menores
-gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do dono,
-procura adivinhar-lhe as intenções.
-</p>
-<p>
-&mdash;'Stá bem, filha, não vaes tratar do teu serviço?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho! Pedi á Leocadia que
-me esfregasse a roupa. Ella hoje tinha pouco que fazer e...
-</p>
-<p>
-&mdash;Andaste mal...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! Não ha tres dias que fiz outro tanto por ella... E de mais, não
-foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia!... Melhor seria que
-estivesses á tua tina em vez de ficar ahi a murmurar do proximo...
-Anda! vae tomar conta das tuas obrigações.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas estou-te a dizer que não ha transtorno!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Transtorno já é estar eu parado; e peior será pararem os dois!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!...
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu acho que isso é tolice! Vae! anda!
-</p>
-<p>
-Ella ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que
-entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana
-de café com paraty e no hombro um cobertor grosso para dar um suadoiro
-ao doente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata.
-</p>
-<p>
-E deixou-se ficar.
-</p>
-<p>
-Rita, despreoccupadamente, alegre e bemfazeja como sempre, pousou a
-vasilha sobre a commoda do oratorio e abrio o cobertor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto é que o vae pôr fino! disse. Vocês tambem, seus portuguezes,
-por qualquer coisinha ficam logo pr'a morrer, com uma cara da ultima
-hora! E ai, ai, Jesus, meu Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas!
-</p>
-<p>
-Elle rio-se, assentando-se na cama.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois não é assim mesmo? perguntou ella á Piedade, apontando para o
-carão barbado de Jeronymo. Olhe só pr'aquella cara e diga-me se não
-está a pedir que o enterrem!
-</p>
-<p>
-A portugueza não dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, resentida
-contra aquella invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem.
-Não era a intelligencia nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o
-instincto, o faro subtil e desconfiado de toda a femea pelas outras,
-quando sente o seu ninho exposto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está-me a parecer que agora te achas melhor, hein?... desembuchou
-afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir disfarçar de todo o
-seu descontentamento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando o café ao doente.
-Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontral-o
-prompto, ouvio?&mdash;E acrescentou fallando á Piedade, em tom mais baixo e
-pousando-lhe a mão no hombro carnudo:&mdash;Elle d'aqui a nada deve estar
-ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe dois dedos de paraty,
-logo que peça agua. Cuidado com o vento!
-</p>
-<p>
-E sahio expedita, agitando as saias, d'onde se evolavam effluvios de
-mangerona.
-</p>
-<p>
-Piedade chegou-se então para o cavouqueiro, que já tinha sobre as
-pernas o cobertor offerecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela
-á bocca, resmungou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deus queira que isto não te vá fazer mal em vez de bem!... Nunca
-tomas café, nem gostas!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto não é por gosto, filha, é remedio!
-</p>
-<p>
-Elle com effeito nunca entrara com o café e ainda menos com a cachaça;
-mas engolio de uma assentada o conteúdo da tigela, puxando em seguida o
-cobertor até ás ventas.
-</p>
-<p>
-A mulher tratou de abafar-lhe bem os pés e foi buscar um chale para lhe
-cobrir a cabeça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Trata de socegar! Não te mexas!
-</p>
-<p>
-E dispôz-se a ficar junto da cama, a vigial-o, só andando na ponta dos
-pés, abafando a respiração, correndo a cada instante á porta de casa
-para pedir que não fizessem tanta bulha lá fóra; toda ella
-desassocegada, numa afflicção quasi supersticiosa por aquelle
-incommodo de seu homem. Mas Jeronymo não levou muito que a não
-chamasse para lhe mudar a roupa. O suor inundava-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda bem! exclamou ella, radiante.
-</p>
-<p>
-E, depois de fechar hermeticamente a porta do quarto e metter um punhado
-de roupa suja n'uma fresta que havia n'uma das paredes, saccou-lhe fóra
-a camisa molhada, enfiando-lhe logo outra pela cabeça; em seguida
-tirou-lhe as ceroulas e começou, munida de uma toalha, a enxugar-lhe
-todo o corpo, principiando pelas costas, passando depois ao peito e aos
-sovacos, descendo logo ás nadegas, ao ventre e ás pernas, e esfregando
-sempre com tamanho vigor de pulso, que era antes uma maçagem que lhe
-dava; e tanto assim que o sangue do cavouqueiro se revolucionou.
-</p>
-<p>
-E a mulher, a rir-se, lisongeada, ralhava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem juizo! Acommoda-te! Não vês que estás doente?...
-</p>
-<p>
-Elle não insistio. Agasalhou-se de novo e pedio agua.
-</p>
-<p>
-Piedade foi buscar o paraty.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bebe isto, não bebas a agua agora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto é cachaça!
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi a Rita que disse para te dar...
-</p>
-<p>
-Jeronymo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos
-de restillo que havia no copo.
-</p>
-<p>
-Sobrio como era, e depois d'aquelle despendio de suor, o alcool
-produzio-lhe logo de prompto o effeito voluptuoso e agradavel da
-embriaguez nos que não são bebedos: um delicioso desfallecer de todo o
-corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede á
-satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ella
-algum tempo, aproxima-se afinal de nós, n'uma avidez gulosa de beijos.
-Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa
-fresca sobre a pelle, Jeronymo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da
-pedreira ardente e do sol caustico; ouvindo, de olhos fechados, o
-rom-rom monotono da machina de massas, arfando ao longe, e o zum-zum das
-lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminavel cantar de
-gallos á porfia, emquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente,
-annunciando um defunto da parochia.
-</p>
-<p>
-Quando Piedade chegou lá fóra, dando parte do bom resultado do
-remedio, a Rita correu de novo ao quarto do doente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, que me diz agora? Sente-se ou não melhorzinho?
-</p>
-<p>
-Elle voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por unica
-resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com a mão
-direita segurar a d'ella. Queria com isto traduzir o seu reconhecimento,
-e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu; mal porém a sua carne
-lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se d'elle; uma vontade
-desensoffrida de senhorear-se no mesmo instante d'aquella mulher e
-possuil-a inteira, devoral-a num só hausto de luxuria, trincal-a como
-um cajú.
-</p>
-<p>
-Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro, escapou-lhe das garras com
-um pulo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha que peste! Faça-se de tolo, que digo á sua mulher, hein? Ora
-vamos lá!
-</p>
-<p>
-Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado, disfarçou logo,
-acrescentando n'outro tom:&mdash;Agora é tratar de dormir e mudar de roupa,
-se suar outra vez. Até logo!
-</p>
-<p>
-E sahio.
-</p>
-<p>
-Jeronymo ouvio as suas ultimas palavras já de olhos fechados e, quando
-Piedade entrou no quarto, parecia succumbido de fraqueza. A lavadeira
-aproximou-se da cama do marido em ponta de pés, puxou-lhe o lençol
-mais para cima do peito e afastou-se de novo, abafando os passos. Á
-porta de entrada a Augusta, que fora fazer uma visita ao enfermo,
-perguntou-lhe por este com um gesto interrogativo; Piedade respondeu sem
-fallar, pondo a mão no rosto e vergando d'esse lado a cabeça, para
-exprimir que elle agora estava dormindo.
-</p>
-<p>
-As duas sahiram para fallar á vontade; mas, n'essa occasião, lá fóra
-no pateo da estalagem, acabava de armar-se um escandalo medonho. Era o
-caso que o Henriquinho da casa do Miranda ficava ás vezes á janella do
-sobrado, nas horas de preguiço, entre o almoço e o jantar, entretido a
-ver a Leocadia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do grosso
-quadril e o tremular das redondas tetas á larga dentro do cabeção de
-chita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe signaes bregeiros, piscava
-lhe o olho, batendo com a mão direita aberta sobre a mão esquerda
-fechada. Ella respondia, indicando com o pollegar o interior do sobrado,
-como se dissesse que fosse procurar a mulher do dono da casa.
-</p>
-<p>
-N'aquelle dia, porém, o estudante appareceu á janella, trazendo nos
-braços um coelhinho todo branco, que elle na vespera arrematára n'um
-leilão de festa. Leocadia cobiçou o bichinho e, correndo para o
-deposito de garrafas vasias, que ficava por debaixo do sobrado, pedio
-com muito empenho ao Henrique que lh'o désse. Este, sempre com o seu
-systema de conversar por mimica, declarou com um gesto qual era a
-condição da dadiva.
-</p>
-<p>
-Ella meneou a cabeça affirmativamente, e elle fez-lhe signal de que o
-esperasse por detraz do cortiço, no capinzal dos fundos.
-</p>
-<p>
-A familia do Miranda havia sahido. Henrique, mesmo com a roupa de andar
-em casa e sem chapéo, desceu á rua, ganhou um terreno que existia á
-esquerda do sobrado e, com o seu coelho debaixo do braço, atirou-se
-para o capinzal. Leocadia esperava por elle debaixo das mangueiras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui não! disse ella, logo que o vio chegar. Aqui agora podem dar
-com a gente!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então onde?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem cá!
-</p>
-<p>
-E tomou á sua direita, andando ligeira e meio vergada por entre as
-plantas. Henrique seguio-a no mesmo passo, sempre com o coelho
-sobraçado. O calor fazia-o suar e esfogueava-lhe as faces. Ouvia-se o
-martellar dos ferreiros e dos trabalhadores da pedreira.
-</p>
-<p>
-Depois de alguns minutos, ella parou n'um lugar plantado de bambús e
-bananeiras, onde havia o resto de um telheiro em ruinas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui!
-</p>
-<p>
-E Leocadia olhou para os lados, assegurando-se de que estavam a sós.
-Henrique, sem largar o coelho, atirou-se sobre ella, que o conteve:
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera! preciso tirar a saia; está encharcada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não faz mal! segredou elle, impaciente no seu desejo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde me vir um corrimento!
-</p>
-<p>
-E sacou fóra a saia de lã grossa, deixando ver duas pernas, que a
-camisa a custo só cobria até ao joelho, grossas, massiças, de uma
-brancura levemente rósea e toda marcada de mordeduras de pulgas e
-mosquitos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Avia-te! Anda! apressou ella, lançando-se de costas no chão e
-arregaçando a fralda até á cintura; as coxas abertas.
-</p>
-<p>
-O estudante atirou-se sofrego, sentindo-lhe a frescura da sua carne de
-lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho.
-</p>
-<p>
-Passou-se um instante de silencio entre os dois, em que as folhas seccas
-do chão rangeram e farfalharam.
-</p>
-<p>
-Olha! pedio ella, faze-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de
-leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne Molle,
-n'esta ultima barriga, tomou conta de um pequeno ahi na casa de uma
-familia de tratamento, que lhe dava setenta mil reis por mez!... E muito
-bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares
-um filho dou-te outra vez o coelho!
-</p>
-<p>
-E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não largava, começou a
-queixar-se dos repellões que recebia cada vez mais accelerados.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira. Não batas assim com
-elle! mas não o soltes, hein!
-</p>
-<p>
-Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudio-lhe o espasmo e ella fechou os
-olhos e pôz-se a dar com a cabeça de um lado para outro, rilhando os
-dentes.
-</p>
-<p>
-N'isto, passos rapidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na
-direcção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto,
-lobrigou a certa distancia a insociavel figura do Bruno.
-</p>
-<p>
-Não lhe deu tempo a que se approximasse; de um salto galgou por detraz
-das bananeiras e desappareceu por entre o mattagal de bambús, tão
-rapido como o coelho que, vendo se livre, ganhára pela outra banda o
-caminho do capinzal.
-</p>
-<p>
-Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da mulher, esta ainda
-não tinha acabado de vestir a saia molhada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com quem te esfregavas tu, sua vacca?! bradou elle, a botar os bofes
-pela bocca.
-</p>
-<p>
-E, antes que ella respondesse, já uma formidavel punhada a fazia rolar
-por terra.
-</p>
-<p>
-Leocadia abrio n'um berreiro. E foi debaixo de uma chuva de bofetadas e
-pontapés que acabou de amarrar a roupa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora eu vi! sabes? Nega se fores capaz!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá á pata que o pôz! exclamou ella, com a cara que era um tomate.
-Já lhe disse que não quero saber de você pr'a nada, seu bebado!
-</p>
-<p>
-E, vendo que elle ia recomeçar a dansa, abaixou-se depressa, segurou
-com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a seus pés, e
-gritou, erguendo-o sobre a cabeça:
-</p>
-<p>
-&mdash;Chega-te pr'a cá e verás se te abro aqui mesmo ou não o casco!
-</p>
-<p>
-O ferreiro comprehendeu que ella era capaz de fazer o que dizia e
-estacou livido e offegante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Arme a trouxa e rua! sabe?
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir! Queria era uma
-occasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo!
-</p>
-<p>
-E, para metter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga:&mdash;Já
-cá está dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de ama! Ou
-pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho serve,
-diabo do sem-prestimo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas não me has de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, descance! que não levarei nada do que é seu, nem preciso!
-</p>
-<p>
-&mdash;Põe essa pedra no chão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Um corno! Eu arrumo-l'a na cabeça se te chegas pr'a cá!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, sim, sim, com tanto que te musques por uma vez!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então despache o beco!
-</p>
-<p>
-Elle virou-lhe as costas e tornou lentamente por onde viera, de cabeça
-pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando agora um
-soberano desprezo pelo que se passava.
-</p>
-<p>
-Só então foi que ella se lembrou do coelho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando direcção contraria á
-do marido.
-</p>
-<p>
-Este fôra d'ahi direito ao cortiço narrar, a quem quizesse ouvir, o
-que se acabava de dar. O escandalo assanhou a estalagem inteira, como um
-jacto de agua quente sobre um formigueiro. «Ora aquillo tinha de
-acontecer mais hoje mais amanhã!&mdash;Um bello dia a casa vinha
-abaixo!&mdash;A Leocadia parecia não desejar senão isso mesmo!» Mas
-ninguem atinava com quem diabo pilhára o Bruno a mulher no capinzal.
-Fizeram-se mil hypotheses; lembraram-se nomes e nomes, sem se chegar a
-nenhum resultado satisfactorio. O Albino tentou logo arranjar a
-reconciliação no casal, jurando que o Bruno estava enganado com
-certeza e que vira mal. «Leocadia era uma excellente rapariga, incapaz
-de tamanha safadagem!» O ferreiro tapou-lhe a bocca com uma bolacha, e
-ninguem mais se metteu a congraçal-os.
-</p>
-<p>
-Entretanto, o Bruno entrara em casa e lançava pela janella cá para
-fóra tudo o que ia encontrando pertencente á mulher. Uma cadeira fez-se
-pedaços contra as pedras, depois veio um candieiro de kerozene, uma
-trouxa de roupa, saias e casaquinhos de chita, caixas de chapéos cheias
-de trapos, uma gaiola de passaro, uma chaleira; e tudo era arremessado
-com furia ao meio da área, entre o silencio commovido dos que assistiam
-ao despejo. Um chim, que entrára para vender camarões e parara
-distrahido perto da janella do ferreiro, levou na cabeça com uma bilha
-da Bahia e berrava como criança que acaba de ser esbordoada. A Machona,
-que não podia ouvir ninguem gritar mais alto do que ella, cahio-lhe em
-cima aos murros e o pôz fóra do portão com tremenda descompostura.
-«Era o que faltava que viesse tambem aquelle salamaleque do inferno
-para azoinar uma creatura mais do que já estava!» Dona Isabel, com as
-mãos crusadas sobre o ventre, tinha para aquella destruição um
-profundo olhar de lastima. Augusta meneava a cabeça tristemente, sem
-conceber como havia mulheres que procuravam homem, tendo um que lhes
-pertencia. A Bruxa, indifferente, não interrompêra sequer o seu
-trabalho; ao passo que a das Dôres, de mãos nas cadeiras, a saia pelo
-meio das canellas, um cigarro no canto da boca, encarava desdenhosa a
-sanha daquelle marido, tão brutal como o d'ella o fôra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sempre os mesmos pedaços d'asno!... commentava franzindo o nariz. Se
-a tôla da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam
-enjoados, e, se ella não toma a sério a borracheira do casamento, dão
-por páos e por pedras, como esta besta! Uma sucia, todos elles!
-</p>
-<p>
-Florinda ria, como de tudo, e a velha Marcianna queixava-se de que lhe
-respingaram kerozene na roupa estendida ao sol. N'essa occasião
-justamente, um sacco de café, cheio de borra, deu duas voltas no ar e
-espalhou o seu conteúdo, pintalgando de pontos negros os coradoiros.
-Fez-se logo um alarido entre as lavadeiras. «Aquillo não tinha geito,
-que diabo! Armavam lá as suas turras e os outros é que haviam de
-aturar?!... Cebo! que os mais não estavam dispostos a supportar as
-furias de cada um! Quem parira Matheos que o embalasse! Se agora, todas
-as vezes que a Leocadia se fosse espojar no capinzal, o bruto do marido
-tinha de sujar d'aquelle modo o trabalho da gente, ninguem mais poderia
-ganhar ali a sua vida! Que espiga!» Pombinha chegára á porta do
-numero 15, dando fé do barulho, com uma costura na mão, e Nênêm,
-toda afogueada do ferro de engommar, perguntava, com um frouxo de riso,
-se o Bruno ia reformar a mobilia da casa. A Rita fingia não ligar
-importancia ao facto e continuava a lavar á sua tina. «Não faziam
-tanta festa ao tal casamento? Pois que aguentassem! Ella estava bem
-livre de soffrer uma d'aquellas!» O velho Liborio chegára-se, para ver
-se, no meio da confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona,
-notando que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do logar em que se
-achava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sae d'ahi, safado! Toca lá no quer que seja, que te arranco a pelle
-do rabo!
-</p>
-<p>
-Um irmão do santissimo entrára na estalagem, com a sua capa encarnada,
-a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do dinheiro, e
-parára em meio do pateo, supplicando, muito fanhoso: «Uma esmola para
-a cera do Sacramento!» As mulheres abandonaram por um instante as tinas
-e foram beijar devotamente a columbina imagem do Espirito Santo.
-Pingaram na salva moedinhas de vintem.
-</p>
-<p>
-Todavia, o Bruno acabava afinal de despejar o que era da mulher e sahia
-de novo de casa, dando uma volta feroz á fechadura. Atravessou por
-entre o murmurante grupo dos curiosos que permanecia defronte da sua
-porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, apezar
-de ter feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua colera.
-</p>
-<p>
-Leocadia appareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era seu,
-partido e inutilisado, apoderou-se de furia e avançou sobre a porta,
-que o marido acabava de fechar, arremettendo com as nadegas contra as
-duas folhas, que cederam logo, indo ella cahir lá dentro de barriga
-para cima.
-</p>
-<p>
-Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram cá fóra e,
-escancarando a janella com arremeço, começou por sua vez a arrazar e
-destruir tudo que ainda encontrara em casa.
-</p>
-<p>
-Então principiou a verdadeira devastação. E a cada objecto que ella
-varria para o pateo, gritava sempre: «Upa! Toma, diabo!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi vae o relogio! Upa! Toma, diabo!
-</p>
-<p>
-E o relogio espatifou-se na calçada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi vae o alguidar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi vae o jarro!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi vão os copos!
-</p>
-<p>
-&mdash;O cabide!
-</p>
-<p>
-&mdash;O garrafão!
-</p>
-<p>
-&mdash;O bacio!
-</p>
-<p>
-Um riso geral, communicativo, absoluto, abafava o barulho da louça
-quebrando-se contra as pedras. E Leocadia já não precisava acompanhar
-os objectos com a sua phrase de imprecação, porque cada um d'elles era
-recebido cá fóra com um côro que berrava:
-</p>
-<p>
-&mdash;Upa! Toma, diabo!
-</p>
-<p>
-E a limpeza proseguia. João Romão acudio de carreira, mas ninguem se
-incommodou com a presença d'elle. Já defronte da porta do Bruno havia
-uma montanha de cacos accumulados; e o destroço continuava ainda,
-quando o ferreiro reappareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando a
-casa, com um raio de roda de carro na mão direita.
-</p>
-<p>
-Os circumstantes o seguiram, atropelladamente, num clamor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não dá!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não póde!
-</p>
-<p>
-&mdash;Prende!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não deixa bater!
-</p>
-<p>
-&mdash;Larga o páo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Segura!
-</p>
-<p>
-&mdash;Aguenta!
-</p>
-<p>
-&mdash;Cérca!
-</p>
-<p>
-&mdash;Toma o porrete!
-</p>
-<p>
-E Leocadia escapou afinal das páoladas do marido, a quem o povaréo
-desarmára num fecha-fecha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro, a quem,
-aproveitando a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detraz.
-</p>
-<p>
-O Alexandre, que vinha chegando do serviço n'esse momento, apressou-se
-a correr para o logar do conflicto e cheio de autoridade, intimou o
-Bruno a que se contivesse e deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir
-para a estação no mesmo instante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois você não vê esta gallinha, que apanhei hoje com a boca na
-botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o
-Bruno, espumando de raiva e quasi sem folego para fallar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque você pôz em cacos o que é meu! gritou Leocadia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está bom! está bom! disse o policia, procurando dar á voz
-inflexões autoritarias e reconciliadoras. Falle cada um por sua vez!
-Seu marido ... accrescentou elle, voltando-se para a accusada, diz que a
-senhora...
-</p>
-<p>
-&mdash;É mentira! interrompeu ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem era?&mdash;Quem foi?&mdash;Quem era o homem? interrogaram todos
-a um só tempo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem era elle, no fim de contas? inquirio tambem Alexandre.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o ferreiro; mas, se o
-apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas!
-</p>
-<p>
-Houve um côro de gargalhadas.
-</p>
-<p>
-&mdash;É mentira! repetio Leocadia, agora succumbida por uma reacção de
-lagrimas. Ha muito tempo que este malvado anda caçando pretexto para
-romper commigo e, como eu não lh'o dou...
-</p>
-<p>
-Uma explosão de soluços a interrompeu.
-</p>
-<p>
-D'esta vez não riram, mas um bichanar de cochichos formou-se em torno
-do seu pranto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora ... continuou ella, enxugando os olhos na costa da mão; não
-sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, escangalhou-me
-até o que eu trouxe quando me casei com elle!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não disseste que já tinhas ahi dentro com que ganhar a vida?... E
-andar!
-</p>
-<p>
-&mdash;É falso! soluçou Leocadia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle: está tudo
-terminado! Seu marido vae recebel-a em boa paz...
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem eu queria! retorquio a mulher. Prefiro metter-me com um cavallo
-de tilbury a ter de aturar este bruto!
-</p>
-<p>
-E, catando em casa alguma coisa sua que ainda havia, e recolhendo do
-montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitavel, fez de tudo uma grande
-trouxa e foi chamar um carregador.
-</p>
-<p>
-A Rita sahio-lhe ao encontro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei, filha, por ahi!... Hei de encontrar um furo!... Os cães
-não vivem?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera um instante ... disse a mulata. Olha, empurra a trouxa ahi
-para dentro do meu commodo.&mdash;E correndo ao Albino, que
-lavava:&mdash;Passa-me no sabão aquella roupa, ouviste? E, quando Firmo
-acordar, diz-lhe que precisei ir á rua.
-</p>
-<p>
-Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia molhada, atirou nos hombros
-o seu chale de crochet e, batendo nas costas da campanheira,
-segredou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Anda cá commigo! não ficarás á tôa!
-</p>
-<p>
-E as duas sahiram, ambas sacudidas, deixando atraz de si suspensa a
-curiosidade do cortiço inteiro.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="IX">IX</a></h4>
-
-<p>
-Passaram-se semanas. Jeronymo tomava agora, todas as manhãs, uma
-chicara de café bem grosso, á moda da Ritinha, e tragava dois dedos de
-paraty «pr'a cortar a friagem. »
-</p>
-<p>
-Uma transformação, lenta e profunda, operava-se n'elle, dia a dia,
-hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num
-trabalho mysterioso e surdo de chryzallida. A sua energia afrouxava
-lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a
-natureza do Brazil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e
-seductores que o commoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de
-ambição, para idealisar felicidades novas, picantes e violentas;
-tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de
-guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se
-preguiçoso, resignando-se, vencido, ás imposições do sol e do calor,
-muralha de fogo com que o espirito eternamente revoltado do ultimo
-tamoyo entrincheirou a patria contra os conquistadores aventureiros.
-</p>
-<p>
-E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus habitos
-singelos de aldeão portuguez: e Jeronymo abrasileirou-se. A sua casa
-perdeu aquelle ar sombrio e concentrado que a entristecia; já
-appareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos
-de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o
-jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de canna
-substituio o vinho; a farinha de mandioca succedeu á brôa; a carne
-secca e o feijão preto ao bacalháo com batatas e ceboulas cozidas; a
-pimenta malagueta e a pimenta de cheiro invadiram victoriosamente a sua
-mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repellidos pelos
-ruivos e gostosos quitutes bahianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo
-carurú; a couve á mineira desthronou a couve á portugueza; o pirão de
-fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu
-aroma quente, Jeronymo principiou a achar graça no cheiro do fumo e
-não tardou a fumar tambem com os amigos.
-</p>
-<p>
-E o curioso é que, quanto mais ia elle cahindo nos usos e costumes
-brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em
-detrimento das suas forças physicas. Tinha agora o ouvido menos
-grosseiro para a musica, comprehendia até as intenções poeticas dos
-sertanejos, quando cantam á viola os seus amores infelizes; seus olhos,
-d'antes só voltados para a esperança de tornar á terra, agora, como
-os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céo e
-mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do
-Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros
-illimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço,
-surge um monarcha gigante, que o sol veste de oiro e ricas pedrarias
-refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, n'um luxo
-oriental de arabicos principes voluptuosos.
-</p>
-<p>
-Ao passo que com a mulher, a S'ôra Piedade de Jesus, o caso mudava
-muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e
-tapada, recebia a influencia do meio só por fóra, na maneira de viver,
-conservando-se inalteravel quanto ao moral, sem conseguir, á
-semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova patria que
-adoptaram. Cedia passivamente nos habitos de existencia, mas no intimo
-continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel ás
-suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste;
-triste porque o Jeronymo fazia-se outro; triste porque não se passava
-um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque
-chegava a estranhal-o, a desconhecel-o, afigurando-se-lhe até que
-commettia um adulterio, quando á noite acordava assustada ao lado
-d'aquelle homem que não parecia o d'ella, aquelle homem que se lavava
-todos os dias, aquelle homem que aos domingos punha perfumes na barba e
-nos cabellos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não
-lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repellindo
-o caldo que ella lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó filha! porque não experimentas tu fazer uns pitéos á moda de
-cá?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas é que não sei ... balbuciou a pobre mulher.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pede então á Rita que t'o ensine... Aquillo não terá muito
-q'aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ella
-preparou aquelles d'outro dia. Souberam-me tão bem!
-</p>
-<p>
-Este resvalamento do Jeronymo para as coisas do Brasil, penalisavam
-profundamente a infeliz creatura. Era ainda o instincto feminil que lhe
-fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a
-quereria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou
-a mesa.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes.
-Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos,
-dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os
-dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle
-que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do
-marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração
-ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia
-muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde
-esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou
-uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em
-casa da Rita.
-</p>
-<p>
-Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido
-não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto,
-negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias
-e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se
-muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se
-mal!... Tem paciencia!
-</p>
-<p>
-Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos
-que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas
-rebentaram n'aquelle momento.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou
-a soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo.
-</p>
-<p>
-O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo,
-nem que se cuidasse de coisa séria!
-</p>
-<p>
-Piedade desabafou:
-</p>
-<p>
-&mdash;E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes
-não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!
-</p>
-<p>
-E os soluços recrudesciam.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não digas asnices, filha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! eu bem sei o que isto é!...
-</p>
-<p>
-&mdash;É bobagem tua, é o que é!
-</p>
-<p>
-&mdash;Maldita hora em que viemos dar ao raio d'esta estalagem! Antes me
-tivéra cahido um calháo na cabeça!
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue!
-</p>
-<p>
-Esta resinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram
-amiudando. Ah! já não havia duvida que mestre Jeronymo andava meio
-cahido para o lado da Rita Bahiana; não passava pelo numero 9, sempre
-que vinha á estalagem durante o dia, que não parasse á porta um
-instante, para perguntar-lhe pela «saúdinha». O facto de haver a
-mulata lhe offerecido o remedio, quando elle esteve incommodado, foi
-pretexto para lhe fazer presentes amaveis, pôr os seus prestimos á
-disposição d'ella e obsequial-a em extremo todas as vezes que a
-visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito
-da Leocadia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em
-protectora da mulher do ferreiro, Jeronymo affectava grande interesse
-pela «pobrezinha de Christo.»
-</p>
-<p>
-&mdash;Fez bem, 'nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que tem
-bom coração...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, meu amigo, n'este mundo hoje por mim, amanhã por ti!...
-</p>
-<p>
-Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engommadeiras
-do Catette, muito suas camaradas; depois passou-a para uma familia, a
-quem Leocadia se alugou como ama secca; e agora sabia que ella acabava
-de descobrir um bom arranjo n'um collegio de meninas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muito bem! muito bem! applaudia Jeronymo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, o que! O mundo é largo! sentenciou a Bahiana! Ha logar pr'o
-gordo e ha logar pr'o magro! Bem tolo é quem se mata!
-</p>
-<p>
-Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume,
-pela pobrezinha de Christo, a mulata disse que Leocadia estava gravida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Gravida? mas então não é do marido!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde bem ser que sim. Barriga de quatro mezes...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! mas ella não foi ha mais tempo do que isso?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. Vae fazer agora pelo São João quatro mezes justamente.
-</p>
-<p>
-Jeronymo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar com
-as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a
-chegar-se e o ultimo a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo
-bambo, a ver dansar a mulata, abstracto, pateta, esquecido de tudo;
-babão. E ella, consciente do feitiço que lhe punha, ainda mais se
-requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe limpava a
-baba no queixo com a barra da saia.
-</p>
-<p>
-E riam-se.
-</p>
-<p>
-Não! definitivamente estava cahido!
-</p>
-<p>
-Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remedio que lhe
-restituisse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ella no quarto,
-accendeu vélas de cêra, queimou hervas aromaticas e tirou a sorte nas
-cartas.
-</p>
-<p>
-E, depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ella
-dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que
-sahia do baralho uma phrase cabalistica, declarou convicta, muito calma,
-sem tirar os olhos das suas cartas:
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle tem a cabeça virada por uma mulher trigueira.
-</p>
-<p>
-&mdash;É o diacho da Rita Bahiana! exclamou a outra. Bem cá me palpitava
-por dentro! Ai, o meu rico homem!
-</p>
-<p>
-E a chorar, limpando, afflicta, as lagrimas no avental de canhamo,
-supplicou á Bruxa, pelas alminhas do purgatorio, que lhe remediasse
-tamanha desgraça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai, se perco aquella creatura, S'ôra Paula, lamuriou a infeliz entre
-soluços; nem sei que virá a ser de mim n'este mundo de Christo!...
-Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo!
-</p>
-<p>
-A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e désse a beber ao
-seu homem, no café pela manhã, algumas gottas das aguas da lavagem; e,
-se no fim de algum tempo, este regimen não produzisse o desejado
-effeito, então cortasse um pouco dos cabellos do corpo, torrasse-os
-até os reduzir a pó e lh'os ministrasse depois na comida.
-</p>
-<p>
-Piedade ouvio a receita com um silencio respeitoso e attento, o ar
-compungido de quem recebe do medico uma sentença dolorosa para um
-doente que estimamos. Em seguida, metteu na mão da feiticeira uma moeda
-de prata, promettendo dar-lhe coisa melhor se o remedio tivesse bons
-resultados.
-</p>
-<p>
-Mas não era só a portugueza quem se mordia com o descahimento do
-Jeronymo para a mulata, era tambem o Firmo. Havia muito já que este
-andava com a pulga atraz da orelha e, quando passava perto do
-cavouqueiro, olhava-o atravessado.
-</p>
-<p>
-O capadocio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava na
-estalagem; tinha o seu commodo na officina em que trabalhava. Só pelos
-domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não relaxavam o
-seu jantar de pandega. Uma vez em que elle gazéara o serviço, o que
-não era raro, foi vel-a fóra das horas do costume e encontrou-a a
-conversar junto á tina com o portuguez. Passou sem dizer palavra e
-recolheu-se ao numero 9, onde ella foi logo ter de carreira. Firmo não
-lhe disse nada a respeito das suas apprehensões, mas tambem não
-escondeu o seu máo-humor; esteve impertinente e resingueiro toda a
-tarde. Jantou de cara amarrada e durante o paraty, depois do café, só
-fallou em rôlos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrivel,
-recordando façanhas de capoeiragem, nas quaes sangrára taes e taes
-typos de fama; «não contando dois gallegos que mandara pr'ás
-minhocas, porque isso para elle não era gente!&mdash;Com um par de cocadas
-boas ficavam de pés unidos pra sempre!» Rita percebeu os ciumes do
-amigo e fez que não dera por coisa alguma.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte, ás seis horas da manhã, quando elle sahia da casa
-d'ella, encontrou-se com o portuguez, que ia para o trabalho, e o olhar
-que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto,
-cada qual seguio em silencio para o seu lado.
-</p>
-<p>
-Rita deliberou prevenir Jeronymo de que se acautelasse. Conhecia bem o
-amante e sabia de quanto era elle capaz sob a influencia dos ciumes;
-mas, na occasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo
-escandalo acabava de explodir, agora no numero 12, entre a velha
-Marcianna e sua filha Florinda.
-</p>
-<p>
-Marcianna andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal
-d'esta se desregrára havia tres mezes, quando, n'esse dia, não tendo
-as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da meza e foi de
-carreira para o quarto. A velha seguio-a. A rapariga fôra vomitar ao
-bacio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um olhar
-inquiridor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei, mamãe...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que sentes tu?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada...
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada, e estás lançando?... Hein?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sinto nada, não senhora!...
-</p>
-<p>
-A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o vestido,
-levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, tacteando-lhe o
-ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligencias,
-correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assumpto. A
-cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no
-avental, e foi ao numero 12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe varias
-perguntas e mais á mãe, e depois disse friamente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Está de barriga.
-</p>
-<p>
-E afastou-se, sem um gesto de surpreza, nem de censura.
-</p>
-<p>
-Marcianna, tremula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no
-seio e, furiosa, cahio aos murros em cima da filha. Esta, em balde
-tentando escapar-lhe, berrava como uma louca.
-</p>
-<p>
-Abandonaram-se logo todas as tinas do pateo e algumas das mezas do
-frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o numero
-12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janella.
-</p>
-<p>
-Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no
-chão, perguntava-lhe gritando e repetindo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem foi?! Quem foi?!
-</p>
-<p>
-E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem foi?!
-</p>
-<p>
-A pequena berrava, mas não respondia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! não queres dizer por bem? Ora espera!
-</p>
-<p>
-E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura ao canto da sala.
-</p>
-<p>
-Florinda, vendo imminente o cacete, levantou-se de um pulo, ganhou a
-janella e cahio de um salto lá fóra, entre o povo amotinado. Coisa de
-uns nove palmos de altura.
-</p>
-<p>
-As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendel-a da mãe, que surgio
-logo á porta, ameaçando para o grupo, terrivel e armada de páo.
-</p>
-<p>
-Todos procuraram chamal-a á razão:
-</p>
-<p>
-&mdash;Então que é isso, tia Marcianna?! Então que é isso?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ahi o que
-é! Para tanto não lhe faltou geito, nem foi preciso que a gente
-andasse atraz d'ella se matando, como succede sempre que ha um pouco
-mais de serviço e é necessario puxar pelo corpo! Ora está ahi o que
-é!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora, coitada! Assim você
-lhe dá cabo da pelle!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ella ha de dizer
-quem foi ou quebro-lhe os ossos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor! aconselhou a das
-Dôres.
-</p>
-<p>
-Fez-se em torno da rapariga um silencio avido, cheio de curiosidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde, este diabo! Mas
-esperem, que eu lhes mostro se ella falla ou não!
-</p>
-<p>
-E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e tirar-lhe o cacete,
-porque a velha queria crescer de novo para a filha.
-</p>
-<p>
-Ao redor d'esta a curiosidade assanhava-se cada vez mais. Estalavam
-todos por saber quem a tinha emprenhado «Quem foi?! Quem foi?!» esta
-phrase apertava-a num torniquete. Afinal, não houve outro remedio:
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi seu Domingos ... disse ella, chorando e cobrindo o rosto com a
-fralda do vestido, rasgado na lucta.
-</p>
-<p>
-&mdash;O Domingos!...
-</p>
-<p>
-&mdash;O caixeiro da venda!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! foi aquelle cara de nabo? gritou Marcianna. Vem cá!
-</p>
-<p>
-E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até a venda.
-</p>
-<p>
-Os circumstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira.
-</p>
-<p>
-A taverna, como a casa de pasto, ferviam de concurrencia.
-</p>
-<p>
-Ao balcão d'aquella, o Domingos e o Manoel aviavam os freguezes, numa
-roda viva. Havia muitos negros e negras. O barulho era enorme. A Leonor
-lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com outro,
-mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões
-rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nadegas de negrinha
-virgem. Tres marujos inglezes bebiam gengibirra, cantando, ebrios, na
-sua lingua e mascando tabaco.
-</p>
-<p>
-Marcianna na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, que
-a seguia como um animal puxado pela colleira, ao chegar á porta lateral
-da venda, berrou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó seu João Romão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de
-serviço.
-</p>
-<p>
-Bertoleza, com uma grande colher de zinco gottejante de gordura,
-appareceu á porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta
-gente reunida, gritou para seu homem:
-</p>
-<p>
-&mdash;Corre aqui, seu João, que não sei o que houve!
-</p>
-<p>
-Elle veio afinal.
-</p>
-<p>
-Que diabo era aquillo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobrio, deve tomar
-conta d'ella!
-</p>
-<p>
-João Romão ficou perplexo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hein?! Que é lá isso?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi o Domingos! disseram muitas vozes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó seu Domingos!
-</p>
-<p>
-O caixeiro respondeu: «Senhor...» com uma voz de delinquente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Chegue cá!
-</p>
-<p>
-E o criminoso apresentou-se, livido de morte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que fez você com esta pequena?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não fiz nada, não senhor!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi elle, sim! desmentio-o a Florinda.&mdash;O caixeiro desviou os
-olhos, para a não encarar.&mdash;Um dia de manhãzinha, ás quatro horas, no
-capinzal, debaixo das mangueiras...
-</p>
-<p>
-O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse o
-patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da
-fazenda e, como não gosto de caixeiros amigados, póde procurar arranjo
-n'outra parte!...
-</p>
-<p>
-Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se
-lentamente.
-</p>
-<p>
-O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se então pela venda,
-pelo portão da estalagem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se
-em pequenos magotes que discutiam o facto. Principiaram os commentarios,
-os juizos pró e contra o caixeiro; fizeram-se prophecias.
-</p>
-<p>
-Entretanto, Marcianna, sem largar a filha, invadira a casa de João
-Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer?
-</p>
-<p>
-Elle não deu resposta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos! vamos! falle! desembuche!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora lixe-se! resmungou o caixeiro; agora muito vermelho de colera.
-</p>
-<p>
-&mdash;Lixe-se, não!... Mais de vagar com o andôr! Você ha de casar: ella
-é menor!
-</p>
-<p>
-Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos!
-</p>
-<p>
-E despejou da venda, gritando para todos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sabe? O cara de nabo diz que não casa!
-</p>
-<p>
-Esta phrase produzio o effeito de um grito de guerra entre as
-lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande
-indignação.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como, não casa?!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Era só o que faltava!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tinha graça!
-</p>
-<p>
-&mdash;Então mais ninguem póde contar com a honra de sua filha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Se não queria casar pr'a que fez mal?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem não póde com o tempo não inventa modas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou elle casa ou sáe d'aqui com os ossos em sôpa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem não quer ser lobo não lhe vista a pelle!
-</p>
-<p>
-A mais empenhada n'aquella reparação era a Machona, e a mais indignada
-com o facto era Dona Isabel. A primeira corrêra á frente da venda,
-disposta a segurar o culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo
-não tardou que em cada porta, por onde era possivel uma escapula, se
-postassem as outras de sentinella, formando grupos de tres e quatro. E,
-no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e ameaças:
-</p>
-<p>
-&mdash;Das Dôres! toma cuidado, que o patife não espirre por ahi!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó seu João Romão, se o homem não casa, mande nol-o pra cá! Temos
-ainda algumas pequenas que lhe convêm!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas onde está esse ordinario?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Saia o canalha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Está fazendo a trouxa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer escapar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não deixa sahir!
-</p>
-<p>
-&mdash;Chama a policia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde está o Alexandre?
-</p>
-<p>
-E ninguem mais se entendia. Á vista d'aquella agitação, o vendeiro
-foi ter com o Domingos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por emquanto. Logo mais
-lhe direi o que deve fazer.
-</p>
-<p>
-E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então o homem que case! responderam.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou dê-nos pr'a cá o patife!
-</p>
-<p>
-&mdash;Fugir é que não!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não foge! não deixa fugir!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ninguem se arrede!
-</p>
-<p>
-E, como a Marcianna lhe lançasse uma injuria mais fórte, ameaçando-o
-com o punho fechado, o taverneiro jurou que se ella insistisse com
-desaforos, a mandaria jogar lá fóra, junto com a filha, por um urbano.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obrigação, que eu não posso
-perder tempo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ponha-nos então pr'a cá o homem! exigio a mulata velha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Venha o homem! acompanhou o côro.
-</p>
-<p>
-&mdash;É preciso dar-lhe uma lição!
-</p>
-<p>
-&mdash;O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já lhe fallei... Está
-perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá o seu dote!
-Vão descansados; respondo por elle ou pelo dinheiro!
-</p>
-<p>
-Estas palavras apaziguaram os animos; o grupo das lavadeiras afrouxou;
-João Romão recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que
-não arredasse pé de casa antes de noite fechada.
-</p>
-<p>
-&mdash;No mais ... acrescentou; póde tratar de vida nova! Nada o prende
-aqui. Estamos quites.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como? se o senhor ainda não me fez as contas?!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Contas? Que contas? O seu saldo não chega para pagar o dote da
-rapariga!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então eu tenho de pagar um dote?!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou casar... Ah, meu amigo, este negocio de tres vintens é assim!
-Custa dinheiro! Agora, se você quizer, vá queixar-se á policia...
-Está no seu direito! Eu me explicarei em juizo!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Com que, não recebo nada?...
-</p>
-<p>
-&mdash;E não principie com muita coisa, que lhe fecho a porta e deixo-o
-ficar ás turras lá fóra com esses damnados! Você bem vio como estão
-todos a seu respeito! E, se ha pouco não lhe arrancaram os figados,
-agradeça-o a mim! Foi preciso prometter dinheiro e tenho de cahir com
-elle, de certo! mas não é justo, nem eu admitto, que saia da minha
-algibeira, porque não estou disposto a pagar os caprichos de ninguem, e
-muito menos dos meus caixeiros!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Basta! Se quizer, por muito favor, ficar aqui até á noite, ha de
-ficar calado; ao contrario, rua!
-</p>
-<p>
-E afastou-se.
-</p>
-<p>
-Marcianna resolveu não ir ao sub-delegado, sem saber que providencias
-tomaria o vendeiro. Esperaria até ao dia seguinte «para ver só!» O
-que n'esse ella fez foi dar uma boa lavagem na casa e arrumal-a muitas
-vezes, como costumava, sempre que tinha lá as suas zangas.
-</p>
-<p>
-O escandalo não deixou de ser, durante o dia, discutido um só
-instante. Não se fallava n'outra coisa; tanto que, quando, já á
-noite, Augusta e Alexandre receberam uma visita da comadre, a Leonie,
-era ainda esse o principal assumpto das conversas.
-</p>
-<p>
-Leonie, com as suas roupas exageradas e barulhentas de cocote á
-franceza, levantava rumor quando lá ia e punha expressões de assombro
-em todas as caras. O seu vestido de seda côr de aço, enfeitado de
-encarnado sangue de boi, curto, petulante, mostrando uns sapatinhos á
-moda com um salto de quatro dedos de altura; as suas luvas de vinte
-botões que lhe chegavam até aos sovacos; a sua sombrinha vermelha,
-sumida n'uma nuvem de rendas côr de rosa e com um grande cabo cheio de
-arabescos extravagantes; o seu pantafaçudo chapéo de immensas abas
-forradas de veludo escarlate, com um passaro inteiro grudado á copa;
-as suas joias caprichosas, scintillantes de pedras finas: os seus labios
-pintados de carmim; suas palpebras tingidas de violeta; o seu cabello
-artificialmente loiro; tudo isto contrastava tanto com as vestimentas,
-os costumes e as maneiras d'aquella pobre gente, que de todos os lados
-surgiam olhos curiosos a espreital-a pela porta da casinha do Alexandre;
-Augusta, ao ver a sua pequena, a Jujú, como vinha tão embonecada e
-catita, ficou com os d'ella arrazados d'agoa.
-</p>
-<p>
-Leonie trazia sempre muito bem calçada e vestida a afilhada, levando o
-capricho ao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que
-fazia as suas e pela mesma costureira; arranjava-lhe chapéos
-escandalosos como os d'ella e dava-lhe joias. Mas, n'aquelle dia, a
-grande novidade que Jujú apresentava era estar de cabellos loiros,
-quando os tinha castanhos por natureza. Foi caso para uma revolução na
-estalagem; a noticia correu logo de numero a numero, e muitos moradores
-se abalaram do commodo para ver a filhita da Augusta «com cabellos de
-franceza.»
-</p>
-<p>
-Tal successo pôz Leonie radiante de alegria. Aquella afilhada era o seu
-luxo, a sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansaços
-depravados; era o que aos seus proprios olhos a resgatava das
-abjecções do officio. Prostituta de casa aberta, presava todavia com
-admiração e respeito a honestidade vulgar da comadre; sentia-se
-honrada com a sua estima; cobria-a de obsequios de toda a especie. Nos
-instantes que estava ali, entre aquelles seus amigos simplorios, que a
-matariam de ridiculo em qualquer outro logar, nem ella parecia a mesma,
-pois até os olhos lhe mudavam de expressão. E não queria
-preferencias: assentava-se no primeiro banco, bebia agoa pela caneca de
-folha, tomava ao collo o pequenito da comadre e, ás vezes, descalçava
-os sapatos para enfiar os chinellos velhos que encontrasse debaixo da
-cama.
-</p>
-<p>
-Não obstante, o acatamento que lhe votavam Alexandre e a mulher não
-tinha limites; pareciam capazes dos maiores sacrificios por ella.
-Adoravam-na. Achavam-na boa de coração como um anjo, e muito linda nas
-suas roupas de espavento, com o seu rostinho redondo, malicioso e
-petulante, onde reluziam dentes mais alvos que um marfim.
-</p>
-<p>
-Jujú, com um embrulho de balas em cada mão, era carregada de casa em
-casa, passando de braço a braço e levada de bocca em bocca, como um
-idolo milagroso, que todos queriam beijar.
-</p>
-<p>
-E os elogios não cessavam:
-</p>
-<p>
-&mdash;Rica pequena!...
-</p>
-<p>
-&mdash;É um enlevo olhar a gente pr'o demoninho!
-</p>
-<p>
-&mdash;É mesmo uma lindeza de criança!
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma criaturinha dos anjos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma boneca franceza!
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma menina Jesus!
-</p>
-<p>
-O pai acompanhava-a commovido, mas solemne sempre, parando a todo
-momento, como em procissão, á espera que cada qual desafogasse por sua
-vez o enthusiasmo pela criança. Silenciosamente risonho, com os olhos
-humidos, patenteava em todo o seu carão mulato, de bigode que parecia
-postiço, um ar condolente e estupido de um profundo reconhecimento por
-aquella fortuna, que Deus lhe dera á filha, enviando-lhe dos ceus o
-ideal das madrinhas.
-</p>
-<p>
-E, emquanto Jujú percorria a estalagem, conduzida em triumpho, Leonie
-na casa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças,
-discreteava sobre assumptos sérios, fallando compassadamente, cheia de
-inflexões de pessoa pratica e ajuisada, condemnando máos actos e
-desvarios, applaudindo a moral e a virtude. E aquellas mulheres, aliás
-tão alegres e vivazes, não se animavam, defronte d'ella, a rir nem
-levantar a voz, e conversavam a medo, cochichando, a tapar a bocca com a
-mão, tolhidas de respeito pela cocote, que as dominava na sua
-sobranceria de mulher loira vestida de seda e coberta de brilhantes. A
-das Dôres sentio-se orgulhosa, quando Leonie lhe pousou no hombro a
-mãozinha enluvada e rescendente, para lhe perguntar pelo seu homem.
-E não se fartavam de olhar para ella, de admiral-a; chegavam a
-examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as saias, apalpar-lhe as meias,
-levantando-lhe o vestido, com exclamações de assombro á vista de
-tanto luxo de rendas e bordados. A visita sorria, por sua vez commovida.
-Piedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da
-Nossa Senhora da Penha. E Nênêm, no seu enthusiasmo, disse que a
-invejava do fundo de coração, ao que a mãe lhe observou que não
-fosse besta. O Albino contemplava-a em extasis, de mão no queixo, o
-cotovelo no ar. A Rita Bahiana levára-lhe um ramalhete de rosas. Esta
-não se illudia com a posição da loureira, mas dava-lhe apreço talvez
-por isso mesmo e, em parte, porque a achava deveras bonita. «Ora! era
-preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar assim da pelle dos
-homens ricos aquella porção de joias e todo aquelle luxo de roupa por
-dentro e por fóra!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei, filha! pregava depois a mulata, no pateo, a uma
-companheira; seja assim ou assado, a verdade é que ella passa muito bem
-de bocca e nada lhe falta: sua boa casa; seu bom carro para passeiar á
-tarde; theatro toda a noite; bailes quando quer e, aos domingos,
-corridas, regatas, pagodes fóra da cidade e dinheirama grossa para
-gastar á farta! Emfim, só o que afianço é que esta não está
-sujeita, como a Leocadia e outras, a pontapés e cachações de um bruto
-de marido! É dona das suas acções! livre como o lindo amor! Senhora
-do seu corpinho, que ella só entrega a quem muito bem lhe der na
-veneta!
-</p>
-<p>
-&mdash;E Pombinha?... perguntou a visita. Não me appareceu ainda!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! esclareceu Augusta. Não está ahi, foi á sociedade de dansa com
-a mãe.
-</p>
-<p>
-E, como a outra mostrasse na cara não ter comprehendido, explicou que a
-filha de Dona Isabel ia todas as terças, quintas e sabbados, mediante
-dois mil reis por cada noite, servir de dama n'uma sociedade em que os
-caixeiros do commercio aprendiam a dansar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi lá que ella conheceu o Costa... acrescentou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que Costa?
-</p>
-<p>
-&mdash;O noivo! Então a Pombinha já não foi pedida?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, sei...
-</p>
-<p>
-E a cocote perguntou depois, abafando a voz:
-</p>
-<p>
-&mdash;E aquillo?... Já veio afinal?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual! Não é por falta de boa vontade da parte d'ellas, coitadas!
-Agora mesmo a velha fez uma nova promessa á Nossa Senhora da
-Annunciação ... mas não ha meio!
-</p>
-<p>
-D'ahi a pouco, Augusta apresentou-lhe uma chicara de café, que Leonie
-recusou por não poder beber. «Estava em uso de remedios...» Não
-disse porém quaes eram estes, nem para que molestia os tomava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Prefiro um copo de cerveja, declarou ella.
-</p>
-<p>
-E, sem dar tempo a que se oppuzessem, tirou da carteira urna nota de dez
-mil reis, que deu a Agostinho para ir buscar tres garrafas de Carls
-Berg.
-</p>
-<p>
-Á vista dos copos, liberalmente cheios, formou-se um silencio
-enternecido. A cocote distribuio-os por sua propria mão aos
-circumstantes, reservando um para si. Não chegavam. Quiz mandar buscar
-mais; não lh'o permittiram, objectando que duas e tres pessoas podiam
-beber juntas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para que gastar tanto?... Que alma grande!
-</p>
-<p>
-O troco ficou esquecido, de proposito, sobre a commoda, entre uma
-infinita quinquilharia de coisas velhas e bem tratadas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando você, comadre, agora me apparece por lá?... quiz saber
-Leonie.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pr'a semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa. Agora, se a comadre
-tem precisão de alguma ... póde-se apromptar com mais pressa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então é bom mandar-me toalhas e lençóes... Camisas de dormir, é
-verdade! tambem tenho poucas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois d'amanhã está tudo lá.
-</p>
-<p>
-E a noite ia se passando. Deram dez horas. Leonie, impaciente já pelo
-rapaz que ficára de ir buscal-a, mandou ver se elle por acaso estaria
-no portão, á espera.
-</p>
-<p>
-&mdash;E aquelle mesmo que veio da outra vez com a comadre?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não. É um mais alto. De cartola branca.
-</p>
-<p>
-Correu muita gente até á rua. O rapaz não tinha chegado ainda. Leonie
-ficou contrariada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Imprestavel!... resmungou. Faz-me ir sozinha por ahi ou incommodar
-alguem que me acompanhe!
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque a comadre não dorme aqui?... lembrou Augusta. Se quizer,
-arranja-se tudo! Não passará bem como em sua casa, mas uma noite corre
-depressa!...
-</p>
-<p>
-Não! não era possivel! Precisava estar em casa essa noite: no dia
-seguinte pela manhã iriam procural-a muito cedo.
-</p>
-<p>
-N'isto chegou Pombinha com Dona Isabel. Disseram-lhes logo á entrada
-que Leonie estava em casa do Alexandre, e a menina deixou a mãe um
-instante no numero 15 e seguio sozinha para ali, radiante de alegria.
-Gostavam-se muito uma da outra. A cocote recebeu-a com exclamações de
-agrado e beijou-a nos dentes e nos olhos repetidas vezes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, minha flôr, como está essa lindeza? perguntou-lhe, mirando-a
-toda.
-</p>
-<p>
-&mdash;Saudades suas ... respondeu a moça, rindo bonito na sua bocca ainda
-pura.
-</p>
-<p>
-E uma conversa amiga, cheia de interesse para ambas, estabeleceu-se,
-isolando-as de todas as outras. Leonie entregou á Pombinha uma medalha
-de prata que lhe trouxéra; uma tetéia que valia só pela exquisitice,
-representando uma fatia de queijo com um camondongo em cima. Correu logo
-de mão em mão, levantando espantos e gargalhadas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Por um pouco que não me apanhas ... continuou a cocote na sua
-conversa com a menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado
-já, eu estaria longe.&mdash;E mudando de tom, a acarinhar-lhe os
-cabellos:&mdash;Porque não me appareces?... Não tens que receiar: minha
-casa é muito socegada... Já lá tem ido familias!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Nunca vou á cidade... É raro! suspirou Pombinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vai amanhã com tua mãe; jantam as duas commigo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Se mamãe deixar... Olha! ella ahi vem. Peça.
-</p>
-<p>
-Dona Isabel prometteu ir, não no dia seguinte, mas no outro immediato,
-que era domingo. E a palestra durou animada até que chegou, d'ahi a um
-quarto de hora, o rapaz por quem esperava Leonie. Era um moço de vinte
-e poucos annos, sem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e
-muito bem apessoado. A cocote, logo que o vio approximar-se, disse
-baixinho á menina:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é preciso que elle saiba que vais lá domingo, ouviste?
-</p>
-<p>
-Jujú dormia. Resolveram não acordal-a; iria no dia seguinte.
-</p>
-<p>
-Na occasião em que Leonie partia pelo braço do amante, acompanhada
-até ao portão por um sequito de lavadeiras, a Rita, no pateo, beliscou
-a coxa do Jeronymo e soprou-lhe á meia voz:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não lhe cáia o queixo!...
-</p>
-<p>
-O cavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d'hombros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquella pr'a cá,nem pintada!
-</p>
-<p>
-E, para deixar bem patente as suas preferencias, virou o pé do lado e
-bateu com o tamanco na canella da mulata.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha o bruto!... queixou-se esta, levando a mão ao logar da pancada.
-Sempre ha de mostrar que é gallego!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="X">X</a></h4>
-
-<p>
-No outro dia a casa do Miranda estava em preparos de festa. Lia-se no
-«Jornal do Commercio» que S. Ex. fôra agraciado pelo governo
-portuguez como titulo de Barão do Freixal; e como os seus amigos se
-achassem prevenidos para ir comprimental-o no domingo, o negociante
-dispunha-se a recebel-os condignamente.
-</p>
-<p>
-Do cortiço, onde esta novidade causou sensação, viam-se nas janellas
-do sobrado, abertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou
-Izaura, a sacudirem tapetes e capachos, batendo-lhes em cima com um
-páo, os olhos fechados, a cabeça torcida para dentro por causa da
-poeira que a cada pancada se levantava, como fumaça de um tiro de
-peça. Chamaram-se novos criados para aquelles dias. No salão da
-frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia reboliço. Dona
-Estella, de penteador de cambraia enfeitado de laços côr de rosa, era
-lobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a dar as suas
-ordens, abanando-se com um grande leque; ou apparecia no patamar da
-escada do fundo, preoccupada em soerguer as saias contra as aguas sujas
-da lavagem, que escorriam para o quintal. Zulmira tambem ia e vinha, com
-a sua pallidez fria e humida de menina sem sangue. Henrique, de paletó
-branco, ajudava o Botelho nos arranjos da casa e, de instante a
-instante, chegava á janella, para namoriscar Pombinha, que fingia não
-dar por isso, toda embebida na sua costura, á porta do numero 15, numa
-cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a meia de
-seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; só de longo em longo
-espaço, ella desviava os olhos do serviço e erguia-os para o sobrado.
-Entretanto, a figura gorda e encanecida do novo Barão, sobrecasacado,
-com o chapéo alto derreado para traz na cabeça e sem largar o
-guarda-chuva, entrava da rua e atravessava a sala de jantar, seguia até
-á despensa, diligente e esbaforido, indagando se já tinha vindo isto e
-mais aquillo, provando dos vinhos que chegavam em garrafões, examinando
-tudo, voltando-se para a direita e para a esquerda, dando ordens,
-ralhando, exigindo actividade, e depois tornava a sahir, sempre
-apressado, e mettia-se no carro que o esperava á porta da rua.
-</p>
-<p>
-&mdash;Toca! toca! Vamos ver se o fogueteiro apromptou os fogos!
-</p>
-<p>
-E viam-se chegar, quasi sem intermittencia, homens carregados de gigos
-de champanha, caixas de porto e bordeus, barricas de cerveja, cestos e
-cestos de mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus
-e leitões, canastras d'óvos, quartos de carneiro e de porco. E as
-janellas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente,
-sahido do fogo, e travessões, de barro e de ferro, com grandes peças
-de carne em vinha d'alhos, promptos para entrar no forno. Á porta da
-cozinha penduraram pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as
-pernas abertas, lembrando sinistramente uma criança a quem enforcassem
-depois de tirar-lhe a pelle.
-</p>
-<p>
-Todavia, cá em baixo, um caso palpitante agitava a estalagem: Domingos,
-o seductor da Florinda, desapparecêra durante a noite e um novo
-caixeiro o substituia ao balcão.
-</p>
-<p>
-O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe perguntava pelo evadido:
-</p>
-<p>
-&mdash;Sei cá! Creio que não podia trazel-o pendurado ao pescoço!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas você disse que respondia por elle! repontou Marcianna, que
-parecia ter envelhecido dez annos n'aquellas ultimas vinte e quatro
-horas.
-</p>
-<p>
-&mdash;De accordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?... É ter
-paciencia!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então ande com o dote!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que dote? Você está bebada?
-</p>
-<p>
-&mdash;Bebada, hein?! Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de
-mostrar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, não me amole!
-</p>
-<p>
-E João Romão virou-lhe as costas, para fallar á Bertoleza que se
-chegára.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa estar, malvado, que Deus é quem ha de punir por mim e por
-minha filha! exclamou a desgraçada.
-</p>
-<p>
-Mas o vendeiro afastou-se, indifferente ás phrases que uma ou outra
-lavadeira imprecava contra elle. Ellas, porém, já se não mostravam
-tão indignadas como na vespera; uma só noite rolada por cima do
-escandalo bastara para tirar-lhe o merito de novidade.
-</p>
-<p>
-Marcianna foi com a pequena á procura do sub-delegado e voltou
-aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer emquanto não
-apparecesse o delinquente. Mãe e filha passaram todo esse sabbado na
-rua, n'uma roda viva, da secretaria e das estações de policia para o
-escriptorio de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto
-dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais
-considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas
-as partes.
-</p>
-<p>
-Quando as duas, prostradas de cansaço, esbrazeadas de calôr, tornaram
-á tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali
-moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fructa
-que não conseguiram vender na cidade, Marcianna vinha tão furiosa que,
-sem dar palavra á filha e com os braços moidos de esbordoal-a, abrio
-toda a casa e correu a buscar agoa para baldear o chão. Estava
-possessa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto n'uma porcaria!
-Parece que nunca se limpa o diabo d'esta casa! É deixal-a fechada uma
-hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste!
-</p>
-<p>
-E notando que a pequena chorava:&mdash;Agora déste para chorar, hein?! mas
-na occasião do relaxamento havias de estar bem disposta!
-</p>
-<p>
-A filha soluçou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala-te, coisa ruim! Não ouviste?
-</p>
-<p>
-Florinda soluçou mais forte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço chorar com razão!
-</p>
-<p>
-E precipitou-se sobre uma acha de lenha.
-</p>
-<p>
-Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma só
-carreira o pateo da estalagem, fugindo em desfilada pela rua.
-</p>
-<p>
-Ninguem teve tempo de apanhal-a, e um clamor de gallinheiro assustado
-levantou-se entre as lavadeiras.
-</p>
-<p>
-Marcianna foi até ao portão, como uma doida e, comprehendendo que a
-filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos,
-olhando para o espaço. As lagrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E
-logo, sem transição, disparou da colera, que a convulsionava desde a
-manhã da vespera, para cahir n'uma dôr humilde e enternecida de mãe
-que perdeu o filho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Para onde iria ella, meu pai do ceu?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois você desd'hontem que bate na rapariga!... disse-lhe a Rita.
-Fugio-lhe, é bem feito! Que diabo! ella é de carne, não é de ferro!
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha filha!
-</p>
-<p>
-&mdash;É bem feito! Agora chore na cama, que é logar quente!
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha filha! Minha filha! Minha filha!
-</p>
-<p>
-Ninguem quiz tomar o partido da infeliz, á excepção da cabocla velha,
-que foi collocar-se perto d'ella, fitando-a, immovel, com o seu
-desvairado olhar de bruxa feiticeira.
-</p>
-<p>
-Marcianna arrancou-se da abstração plangente em que cahira, para
-arvorar-se terrivel defronte da venda, apostrophando com a mão no ar e
-a carapinha desgrenhada:
-</p>
-<p>
-&mdash;Este gallego é que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão!
-Se não me déres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa!
-</p>
-<p>
-A bruxa sorrio sinistramente ao ouvir estas ultimas palavras.
-</p>
-<p>
-O vendeiro chegou á porta e ordenou em tom secco á Marcianna que
-despejasse o numero 12.
-</p>
-<p>
-&mdash;É andar! é andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um
-urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã, rua!
-</p>
-<p>
-Ah! elle esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de
-uma vez mandara Bertoleza á coisa mais immunda, apenas porque esta lhe
-fizera algumas perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinham visto
-assim, tão fora de si, tão cheio de repellões; nem parecia aquelle
-mesmo homem inalteravel, sempre calmo e methodico.
-</p>
-<p>
-E ninguem seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o facto
-de ter sido o Miranda agraciado com o titulo de Barão.
-</p>
-<p>
-Sim, senhor! aquelle taverneiro, na apparencia tão humilde e tão
-miseravel; aquelle sovina que nunca sahíra dos seus tamancos e da sua
-camisa de riscadinho de Angola; aquelle animal que se alimentava peior
-que os cães, para pôr de parte tudo, tudo, que ganhava ou extorquia;
-aquelle ente atrophiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus
-privilegios e sentimentos de homem; aquelle desgraçado, que nunca
-jamais amára senão ao dinheiro, invejava agora o Miranda, invejava-o
-devéras, com dobrada amargura do que soffrera o marido de Dona Estella,
-quando, por sua vez, o invejara a elle. Acompanhára-o desde que o
-Miranda viera habitar o sobrado com a familia; vira-o nas felizes
-occasiões da vida, cheio de importancia, cercado de amigos e rodeado de
-aduladores; vira-o dar festas e receber em sua casa as figuras mais
-salientes da praça e da politica; vira-o luzir, como um grosso pião de
-ouro, girando por entre damas da melhor e mais fina sociedade
-fluminense; vira-o metter-se em altas especulações commerciaes e
-sahir-se bem; vira seu nome figurar em varias corporações de gente
-escolhida e em subscripções, assignando bellas quantias; vira-o fazer
-parte de festas de caridade e festas de regosijo nacional; vira-o
-elogiado pela imprensa e acclamado como homem de vistas largas e grande
-talento financeiro; vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e nunca
-lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento! quando
-o vendeiro leu no «Jornal do Commercio» que o visinho estava
-barão&mdash;Barão!&mdash;sentio tamanho calafrio em todo o corpo, que a
-vista por um instante se lhe apagou dos olhos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Barão!
-</p>
-<p>
-E durante todo o santo dia não pensou n'outra coisa. «Barão!... Com
-esta é que elle não contava!...» E, defronte da sua preoccupação,
-tudo se convertia em commendas e crachás; até os modestos dois vintens
-de manteiga, que media sobre um pedaço de papel de embrulho para dar ao
-freguez, transformavam-se, de simples mancha amarella, em opulenta
-insígnia de oiro cravejada de brilhantes.
-</p>
-<p>
-Á noite, quando se estirou na cama, ao lado da Bertoleza, para dormir,
-não poude conciliar o somno. Por toda a miseria d'aquelle quarto
-sordido; pelas paredes immundas, pelo chão enlameado de poeira e cebo,
-nos tectos funebremente velados pelas teias de aranha, estrellavam
-pontos luminosos que se iam transformando em gram-cruzes, em habitos e
-veneras de toda a ordem e especie. E em volta do seu espirito, pela
-primeira vez allucinado, um turbilhão de grandezas, que elle mal
-conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de
-seda e rendas, velludo e perolas, collos e braços de mulheres seminuas,
-num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos côr de oiro. E nuvens
-de caudas de vestido e abas de casaca lá iam, rodando deliciosamente,
-ao som de langorosas valsas e á luz de candelabros de mil vélas de
-todas as cores. E carruagens desfilavam reluzentes, com uma corôa á
-portinhola, o cocheiro tezo, de libré, sopeando parelhas de cavallos
-grandes. E interminaveis mezas estendiam-se, serpenteando a perder de
-vista, accumuladas de iguarias, n'uma encantadora confusão de flores,
-luzes, baixellas e crystaes, cercadas de um e de outro lado por luxuoso
-renque de convivas, de taça em punho, brindando o amphitryão.
-</p>
-<p>
-E, porque nada d'isso o vendeiro conhecia de perto, mas apenas pelo
-ruido namorador e fatuo, ficava deslumbrado com o seu proprio sonho.
-Tudo aquillo, que agora lhe deparava o delirio, até ahi só lhe passara
-pelos olhos ou lhe chegara aos ouvidos como o echo e reflexo de um mundo
-inattingivel e longinquo; um mundo habitado por seres superiores; um
-paraizo de gozos excellentes e delicados, que os seus grosseiros
-sentidos repelliam; um conjuncto harmonioso e discreto de sons e côres
-mal definidas e vaporosas; um quadro de manchas pallidas, sussurrantes,
-sem firmezas de tintas, nem contornos, em que se não determinava o que
-era petala de rosa ou aza de borboleta, murmurio de brisa ou ciciar de
-beijos.
-</p>
-<p>
-Não obstante, ao lado d'elle a crioula roncava, de papo para o ar,
-gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma mistura de suor com
-cebola crua e gordura podre.
-</p>
-<p>
-Mas João Romão nem dava por ella; só o que elle via e sentia era todo
-aquelle voluptuoso mundo inaccessivel vir descendo para a terra,
-chegando-se para o seu alcance, lentamente, accentuando-se. E as dubias
-sombras tomavam forma, e as vozes duvidosas e confusas transformavam-se
-em fallas distinctas, e as linhas desenhavam-se nitidas, e tudo ia se
-esclarecendo e tudo se aclarava, n'um reviver de natureza ao raiar do
-sol. Os tenues murmurios suspirosos desdobravam-se em orchestras de
-baile, onde se distinguiam instrumentos, e os surdos rumores indefinidos
-eram já animadas conversas, em que damas e cavalheiros discutiam
-politica, artes, litteratura e sciencia. E uma vida inteira, completa,
-real, descortinou-se amplamente defronte dos seus olhos fascinados; uma
-vida fidalga, de muito luxo, de muito dinheiro; uma vida em palacio,
-entre mobilias preciosas e objectos esplendidos, onde elle se via
-cercado de titulares millionarios, e homens de farda bordada, a quem
-tratava por tu, de igual para igual, pondo-lhes a mão no hombro. E ali
-elle não era, nunca fôra, o dono de um cortiço, de tamancos e em
-mangas de camisa; ali era o Sr. Barão! O Barão do oiro! o Barão das
-grandezas! o Barão dos milhões! Vendeiro? Qual! era o famoso, o enorme
-capitalista! o proprietario sem igual! o incomparavel banqueiro, em
-cujos capitaes se equilibrava a terra, como immenso globo em cima de
-columnas feitas de moedas de oiro. E vio-se logo montado a cavalleiras
-sobre o mundo, pretendendo abarcal-o com as suas pernas curtas; na
-cabeça uma corôa de rei e na mão um sceptro. E logo, de todos os
-cantos do quarto, começaram a jorrar cascatas de libras esterlinas; e a
-seus pés principiou a formar-se um formigueiro de pygmeus em grande
-movimento commercial; e navios descarregavam pilhas e pilhas de fardos
-e caixões marcados com as iniciaes do seu nome; e telegrammas faiscavam
-electricamente em volta da sua cabeça; e paquetes de todas as
-nacionalidades giravam vertiginosamente em torno do seu corpo de
-colosso, arfando e apitando sem tregoa; e rapidos comboios a vapor
-atravessavam-no todo, de um lado a outro, como se o cosessem com uma
-cadeia de wagons.
-</p>
-<p>
-Mas, de repente, tudo desappareceu com a seguinte phrase:
-</p>
-<p>
-&mdash;Acorda, seu João, para ir á praia. São horas!
-</p>
-<p>
-Bertoleza chamava-o aquelle domingo, como todas as manhãs, para ir
-buscar o peixe, que ella tinha de preparar para os seus freguezes. João
-Romão, com medo de ser illudido, não confiava nunca dos empregados a
-menor compra a dinheiro; n'esse dia, porém, não se achou com animo de
-deixar a cama e disse á amiga que mandasse o Manoel.
-</p>
-<p>
-Seriam quatro da madrugada. Elle conseguio então passar pelo somno.
-</p>
-<p>
-Ás seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda resplandecia já.
-Içaram-se bandeiras nas janellas da frente; mudaram-se as cortinas,
-armaram-se florões de murta á entrada e recamaram-se de folhas de
-mangueira o corredor e a calçada. Dona Estella mandou soltar foguetes e
-queimar bombas ao romper da alvorada. Uma banda de musica, em frente á
-porta do sobrado, tocava desde essa hora. O Barão madrugara com a
-familia; todo de branco, com uma gravata de rendas, brilhantes no peito
-da camisa, chegava de vez em quando a uma das janellas, ao lado da
-mulher ou da filha, agradecendo para a rua; e limpava a testa com o
-lenço; accendia charutos, risonho, feliz, resplandecente.
-</p>
-<p>
-João Romão via tudo isto com o coração moído. Certas duvidas
-aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro. Qual seria o melhor e
-o mais acertado:&mdash;ter vivido como elle vivera até ali, curtindo
-privações, em tamancos e mangas de camisa; ou ter feito como o
-Miranda, comendo boas coisas e gosando á farta?... Estaria elle, João
-Romão, habilitado a possuir e desfrutar tratamento igual ao do
-visinho?... Dinheiro não lhe faltava para isso... Sim, de accordo! mas
-teria animo de gastal-o assim, sem mais nem menos?... sacrificar uma boa
-porção de contos de réis, tão penosamente accumulados, em troca de
-uma tetéia para o peito?... Teria animo de dividir o que era seu,
-tomando esposa, fazendo familia e cercando-se de amigos?... Teria animo
-de encher de finas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros,
-quando até ali fôra tão pouco condescendente para com a propria?...
-E, caso resolvesse mudar de vida radicalmente, unir-se a uma senhora bem
-educada e distincta de maneiras, montar um sobrado como o do Miranda e
-volver-se titular, estaria apto para o fazer?... poderia dar conta do
-recado?... Dependeria tudo isso sómente da sua vontade?... «Sem nunca
-ter vestido um paletó, como vestiria uma casaca?... com aquelles pés,
-deformados pelo diabo dos tamancos, criados á solta, sem meias, como
-calçaria sapatos de baile?... E suas mãos, callosas e mal tratadas,
-duras como as de um cavouqueiro, como se ageitariam com a luva?... E
-isso ainda não era tudo! O mais difficil seria o que tivesse de dizer
-aos seus convidados!... Como deveria tratar as damas e cavalheiros, em
-meio de um grande salão cheio de espelhos e cadeiras doiradas?... Como
-se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?...
-</p>
-<p>
-E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo
-forte de querer saltar e um medo invencivel de cahir e quebrar as
-pernas. Afinal, a dolorosa desconfiança de si mesmo e a terrivel
-convicção da sua impotencia para pretender outra coisa que não fosse
-ajuntar dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e
-com que fim, acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a
-sua ambição e despolindo o seu oiro. «Fôra urna besta!... pensou de
-si proprio, amargurado: uma grande besta!... Pois não! porque em tempo
-não tratára de habituar-se logo a certo modo de viver, como faziam
-tantos outros seus patricios e collegas de profissão?... Porque, como
-elles, não aprendêra a dansar? e não frequentára sociedades
-carnavalescas? e não fôra de vez em quando á rua do Ouvidor e aos
-theatros, e a bailes, e a corridas e a passeios?... Porque se não
-habituara com as roupas finas, e com o calçado justo, e com a bengala,
-e com o lenço, e com o charuto, e com o chapéo, e com a cerveja, e com
-tudo que os outros usavam naturalmente, sem precisar de privilegio para
-isso?... Maldita economia!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Teria gasto mais, é verdade?... Não estaria tão bem!... mas, ora
-adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quizesse!...
-Seria um homem civilisado!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Você deu hoje pr'a conversar com as almas, seu João?...
-perguntou-lhe Bertoleza, notando que elle fallava sozinho, distrahido do
-serviço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe-me! Não me amole você tambem. Não estou bom hoje!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó gentes! não fallei por mal!... Crédo!
-</p>
-<p>
-&mdash;'Stá bem! Basta!
-</p>
-<p>
-E o seu máo humor aggravou-se pelo correr do dia. Começou a implicar
-com tudo. Arranjou logo uma péga, á entrada da venda, com o fiscal da
-rua: «Pois elle era lá algum parvo, que tivesse medo de ameaças de
-multas?... Se o bolas do fiscal esperava comel-o por uma perna, como
-costumava fazer com os outros, que experimentasse, para ver só quanto
-lhe custaria a festa!... E que lhe não rosnasse muito, que elle não
-gostava de cães á porta!... Era andar!» Pegou-se depois com a
-Machona, por causa de um gato d'esta, que, a semana passada, lhe fôra
-ao taboleiro do peixe frito. Parava defronte das tinas vazias,
-encolerisado, procurando pretextos para ralhar. Mandava, com um berro,
-sahirem as crianças do seu caminho: «Que praga de piolhos! Arre,
-demonio! Nunca vira gente tão damnada para parir! Pareciam ratas!» Deu
-um encontrão no velho Liborio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sai tu tambem do caminho, fona de uma figa! Não sei que diabo fica
-fazendo cá no mundo um caco velho como este, que já não presta para
-nada!
-</p>
-<p>
-Protestou contra os gallos de um alfaiate, que se divertia a fazel-os
-brigar, no meio de grande roda enthusiasmada e barulhenta. Vituperou os
-italianos, porque estes, na alegre independencia do domingo, tinham á
-porta da casa uma esterqueira da cascas de melancia e laranja, que elles
-comiam tagarelando, assentados sobre a janella e a calçada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quero isto limpo! bramava furioso. Está peior que um chiqueiro de
-porcos! Apre! Tomára que a febre amarella os lamba a todos! maldita
-raça de carcamanos! Hão de trazer-me isto asseiado ou vai tudo para o
-olho da rua! Aqui mando eu!
-</p>
-<p>
-Com a pobre velha Marcianna, que não tratára de despejar o numero 12,
-conforme a intimação da vespera, a sua furia tocou ao delirio. A
-infeliz, desde que Florinda lhe fugira, levava a choramingar e
-maldizer-se, monologando com persistencia maniaca. Não pregou olho
-durante toda a noite; sahíra e entrára na estalagem mais de vinte
-vezes, irrequieta, ululando, como uma cadella a quem roubaram o
-cachorrinho.
-</p>
-<p>
-Estava apatetada; não respondia ás perguntas que lhe dirigiam. João
-Romão fallou-lhe; ella nem sequer se voltou para ouvir. E o vendeiro,
-cada vez mais excitado, foi buscar dois homens e ordenou que esvaziassem
-o numero 12.
-</p>
-<p>
-&mdash;Os tarecos fóra! e já! Aqui mandou eu! Aqui sou eu monarcha!
-</p>
-<p>
-E tinha gestos inflexiveis de despota.
-</p>
-<p>
-Principiou o despejo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! aqui dentro não! Tudo lá fóra! na rua! gritou elle, quando os
-carregadores quizeram depôr no pateo os trens de Marcianna. Lá fóra
-do portão! Lá fóra do portão!
-</p>
-<p>
-E a misera, sem oppôr uma palavra, assistia ao despejo, acocorada na
-rua, com os joelhos juntos, as mãos crusadas sobre as canellas,
-resmungando. Transeuntes paravam, a olhal-a. Formava-se já um grupo de
-curiosos. Mas ninguem entendia o que ella rosnava; era um rabujar
-confuso, interminavel, acompanhado de um unico gesto do cabeça, triste
-e automatico. Ali perto, o colchão velho, já rôto e destripado, os
-moveis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos uteis, as
-louças ordinarias e sujas do uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem,
-um ar indecoroso de interior de quarto de dormir, devassado em flagrante
-intimidade. E veio o homem dos cinco instrumentos, que aos domingos
-apparecia sempre; e fez-se o entra e sáe dos mercadores; e lavadeiras
-ganharam a rua em trajos de passeio, e os taboleiros de roupa engommada,
-que sabiam, cruzaram-se com os saccos de roupa suja, que entravam; e
-Marcianna não se movia do seu lugar, monologando. João Romão
-percorreu o numero 12, escancarando as portas, a dar arres e empurrando
-para fóra, com o pé, algum trapo ou algum frasco vazio que lá ficára
-abandonado; e a enxotada, indifferente a tudo, continuava a sussurrar
-funebremente. Já não chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados
-na sua muda fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ella de
-vez em quando, agora de novo compungidas, e faziam-lhe offerecimentos;
-Marcianna não respondia. Quizeram obrigal-a a comer; não houve meio. A
-desgraçada não prestava attenção a coisa alguma; parecia não dar
-pela presença de ninguem. Chamaram-na pelo nome repetidas vezes; ella
-persistia no seu inintelligivel monologo, sem tirar a vista de um ponto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cruzes! parece que lhe deu alguma!
-</p>
-<p>
-A Augusta chegára-se tambem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Teria ensandecido?... perguntou á Rita, que, a seu lado olhava para
-a infeliz, com um prato de comida na mão. Coitada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tia Marcianna! dizia a mulata. Não fique assim! Levante-se! Metta os
-seus trens pr'a dentro! Vá lá pr'a casa até encontrar arrumação!...
-</p>
-<p>
-Nada! O monologo continuava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe que vai chover! Não tarda a cahir agoa! Já senti dois pingos na
-cara.
-</p>
-<p>
-Qual!
-</p>
-<p>
-A Bruxa, a certa distancia, fitava-a com estranheza, igualmente immovel,
-como por um effeito de suggestão.
-</p>
-<p>
-Rita affastou-se, porque acabava de chegar o Firmo, acompanhado pelo
-Porfiro, trazendo ambos embrulhos para o jantar. O amigo da das Dôres
-tambem veio. Deram tres horas da tarde. A casa do Miranda continuava em
-festa animada, cada vez mais cheia de visitas; lá dentro a musica quasi
-que não tomava folego, enfiando quadrilhas e valsas; moças e meninas
-dansavam na sala da frente, com muito riso; desarrolhavam-se garrafas a
-todo o instante; os criados iam e vinham, de carreira, da sala de jantar
-á despensa e á cozinha, carregados de copos em salvas; Henrique, suado
-e vermelho, apparecia de quando em quando á janella, impaciente por
-não ver Pombinha, que estava esse dia de passeio com a mãe em casa de
-Leonie.
-</p>
-<p>
-João Romão, depois de serrazinar na venda com os caixeiros e com a
-Bertoleza, tornou ao pateo da estalagem, queixando-se de que tudo ali ia
-muito mal. Censurou os trabalhadores da pedreira, nomeando o proprio
-Jeronymo, cuja força physica aliás o intimidára sempre. «Era um
-relaxamento aquella porcaria de serviço! Havia tres semanas que estavam
-com uma broca á tôa, sem atar, nem desatar; afinal ahi chegára o
-domingo e não se havia ainda lascado fogo! Uma verdadeira calaçaria! O
-tal seu Jeronymo, d'antes tão apurado, era agora o primeiro a dar o
-máo exemplo! perdia noites no samba! não largava os rastros da Rita
-Bahiana e parecia embeiçado por ella! Não tinha geito!» Piedade,
-ouvindo o vendeiro dizer mal do seu homem, saltou em defeza d'este com
-duas pedras na mão, e uma contenda travou-se, assanhando todos os
-animos. Felizmente, a chuva, cahindo em cheio, veio dispersar o
-ajuntamento que se tornava serio. Cada um correu para o seu buraco, n'um
-alvoroço exagerado; as crianças despiram-se e vieram cá fóra tomar
-banho debaixo das gotteiras, por pagode, gritando, rindo, saltando e
-atirando-se ao chão, a espernearem; fingindo que nadavam. E lá
-defronte, no sobrado, ferviam brindes, emquanto a agoa jorrava
-copiosamente, alagando o pateo.
-</p>
-<p>
-Quando João Romão entrou na venda, recolhendo-se da chuva, um caixeiro
-entregou-lhe um cartão do Miranda. Era um convite para lá ir á noite
-tomar uma chavena de chá.
-</p>
-<p>
-O vendeiro, a principio, ficou lisongeado com o obsequio, primeiro
-d'esse genero que em sua vida recebia; mas logo depois voltou-lhe a
-colera com maior impeto ainda. Aquelle convite irritava-o como um
-ultraje, uma provocação. «Porque o pulha o convidára, devendo saber
-que elle de certo lá não ia?... Para que, senão para o enfreneziar
-ainda mais do que já estava?!... Seu Miranda que fosse á tabúa com a
-sua festa e com os seus titulos!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Não preciso d'elle para nada!... exclamou o vendeiro. Não preciso,
-nem dependo de nenhum safardana! Se gostasse de festas, dava-as eu!
-</p>
-<p>
-No emtanto, começou a imaginar como sería, no caso que estivesse
-prevenido de roupa e acceitasse o convite; figurou-se bem vestido, de
-panno fino, com uma boa cadeia de relogio, uma gravata com alfinete de
-brilhante; e vio-se lá em cima, no meio da sala, a sorrir para os
-lados, prestando attenção a um, prestando attenção a outro,
-discretamente silencioso e affavel, sentindo que o citavam dos lados em
-voz mortiça e respeitosa como um homem rico, cheio de independencia. E
-adivinhava os olhares approbativos das pessoas sérias; os oculos
-curiosos das velhas assestados sobre elle, procurando ver se estaria ali
-um bom arranjo para uma das filhas de menor cotação.
-</p>
-<p>
-N'esse dia servio mal e porcamente aos freguezes; tratou aos repellões
-a Bertoleza e, quando, já ás cinco horas, deu com a Marcianna, que,
-uns negros por compaixão haviam arrastado para dentro da venda,
-disparatou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora bolas! Pr'a que diabo me mettem em casa este estupor?! Gosto de
-ver taes caridades com o que é dos outros! Isto aqui não é acoito de
-vagabundos!...
-</p>
-<p>
-E, como um policia, todo encharcado de chuva, entrasse para beber um
-gole de paraty, João Romão voltou-se para elle e disse-lhe:&mdash;Camarada,
-esta mulher é gira! não tem domicilio, e eu não hei de, quando fechar
-a porta, ficar com ella aqui dentro da venda!
-</p>
-<p>
-O soldado sahio e, d'ahi a coisa de uma hora, Marcianna era carregada
-para o xadrez, sem o menor protesto e sem interromper o seu monologo de
-demente. Os cacaréos foram recolhidos ao deposito publico por ordem do
-inspector do quarteirão. E a Bruxa era a unica que parecia deveras
-impressionada com tudo aquillo.
-</p>
-<p>
-Entretanto, a chuva cessou completamente, o sol reappareceu, como para
-despedir-se; andorinhas esgaivolaram no ar; e o cortiço palpitou
-inteiro na trefega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa
-engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma
-taça quebrar-se no pateo da estalagem, levantando protestos e
-surriadas.
-</p>
-<p>
-A noite chegou muito bonita, com um bello luar de lua cheia, que
-começou ainda com o crepusculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo
-que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do
-Miranda.
-</p>
-<p>
-Foi um forrobodó valente. A Rita Bahiana essa noite estava de veia para
-a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dansára com tanta graça e
-tamanha lubricidade!
-</p>
-<p>
-Tambem cantou. E cada verso que vinha da sua bocca de mulata era um
-arulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bebado de volupia,
-enroscava-se todo ao violão; e o violão e elle gemiam com o mesmo
-gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos
-sensuaes, n'um desespero de luxuria que penetrava até ao tutano com
-lingoas finissimas de cobra.
-</p>
-<p>
-Jeronymo não poude conter-se: no momento em que a bahiana, offegante de
-cansaço, cahio exhausta, assentando-se ao lado d'ella, o portuguez
-segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão:
-</p>
-<p>
-&mdash;Meu bem! se você quizer estar commigo, dou uma perna ao demo!
-</p>
-<p>
-O mulato não ouvio, mas notou o cochicho e ficou, de má cara, a rondar
-disfarçadamente o rival.
-</p>
-<p>
-O canto e a dansa continuavam todavia, sem afrouxar. Entrou a das
-Dôres. Nênêm, mais uma amiga sua, que fôra passar o dia com ella,
-rodavam de mãos nas cadeiras, rebolando em meio de uma volta de palmas
-cadenciadas, no acompanhamento do rhythmo requebrado da musica.
-</p>
-<p>
-Quando o marido de Piedade disse um segundo cochicho á Rita, Firmo
-precisou empregar grande esforço para não ir logo ás do cabo.
-</p>
-<p>
-Mas, lá pelo meio do pagode, a bahiana cahira na imprudencia de
-derrear-se toda sobre o portuguez e soprar-lhe um segredo, requebrando
-os olhos. Firmo, de um salto, aprumou-se então defronte d'elle,
-medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jeronymo,
-tambem posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual.
-</p>
-<p>
-Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo silencio. Ninguem se
-mexeu do logar em que estava. E, no meio da grande roda, illuminados
-amplamente pelo capitoso luar de Abril, os dois homens, perfilados
-defronte um de outro, olhavam-se em desafio.
-</p>
-<p>
-Jeronymo era alto, espadaúdo, construcção de touro, pescoço de
-Hercules, punho de quebrar um côco com um murro: era a força
-tranquilla, o pulso de chumbo. O outro&mdash;franzino, um palmo mais baixo
-que o portuguez, pernas e braços seccos, agilidade de maracajá: era a
-força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobresalto do
-primeiro instante. Um, solido e resistente; o outro, ligeiro e
-destemido; mas ambos corajosos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Senta! Senta!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada de rôlo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Segue a dansa! gritaram em volta.
-</p>
-<p>
-Piedade erguêra-se para arredar o seu homem d'ali.
-</p>
-<p>
-O cavouqueiro afastou-a com um empurrão, sem tirar a vista de cima do
-mulato.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!... rosnou elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Dar-te um banho de fumaça, gallego ordinario! respondeu Firmo,
-frente a frente; agora avançando e recuando, sempre com um dos pés no
-ar, e bamboleando todo o corpo e meneando os braços, como preparado
-para agarral-o.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o adversario com um
-socco armado; o cabra, porém, deixou-se cahir de costas, rapidamente,
-firmando-se nas mãos, o corpo suspenso, a perna direita levantada; e o
-sôco passou por cima, varando o espaço, emquanto o portuguez apanhava
-no ventre um pontapé inesperado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Canalha! berrou possesso; e ia precipitar-se em cheio sobre o
-mulato, quando uma cabeçada o atirou no chão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Levanta-te, que não dou em defuntos! exclamou o Firmo, de pé,
-repetindo a sua dansa de todo o corpo.
-</p>
-<p>
-O outro erguêra-se logo e, mal se tinha equilibrado, já uma rasteira o
-tombava para a direita, emquanto da esquerda elle recebia uma tapona na
-orelha. Furioso, desferio novo sôco, mas o capoeira deu para traz um
-salto de gato e o portuguez sentio um pontapé nos queixos.
-</p>
-<p>
-Espirrou-lhe sangue da bocca e das ventas. Então fez-se um clamor
-medonho. As mulheres quizeram metter-se de permeio, porém o cabra as
-emborcava com rasteiras rapidas, cujo movimento de pernas apenas se
-percebia. Um horrivel sarilho se formava. João Romão fechou ás
-pressas as portas da venda e trancou o portão da estalagem, correndo
-depois para o logar da briga. O Bruno, os mascates, os trabalhadores da
-pedreira, e todos os outros que tentaram segurar o mulato, tinham rolado
-em torno d'elle, formando-se uma roda limpa, no meio da qual o terrivel
-capoeira, fóra de si, doido, reinava, saltando a um tempo para todos os
-lados, sem consentir que ninguem se approximasse. O terror arrancava
-gritos agudos. Estavam já todos assustados, menos a Rita que, a certa
-distancia, via, de braços crusados, aquelles dois homens a se baterem
-por causa d'ella; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os labios. A lua
-escondêra-se; mudara o tempo: o céo, de limpo que estava, fizéra-se
-côr de lousa; sentia-se um vento humido de chuva. Piedade berrava,
-reclamando policia; tinha levado um troca-queixos do marido, porque
-insistia em tiral-o da lucta. As janellas do Miranda accumulavam-se de
-gente. Ouviam-se apitos, soprados com desespero.
-</p>
-<p>
-N'isto, echoou na estalagem um bramido de féra enraivecida: Firmo
-acabava de receber, sem esperar, uma formidavel cacetada na cabeça. É
-que Jeronymo havia corrido á casa e armára-se com o seu varapáo
-minhoto. E então o mulato, com o rosto banhado de sangue, refilando as
-prezas e espumando de colera, erguêra o braço direito, onde se vio
-scintillar a lamina de uma navalha.
-</p>
-<p>
-Fez-se uma debandada em volta dos dois adversarios, estrepitosa, cheia
-de pavor. Mulheres e homens atropellavam-se, cahindo uns por cima dos
-outros. Albino perdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em
-soluços, que lhe iam matar o homem; a das Dôres soltava censuras e
-maldições contra aquella estupidez de se destriparem por causa de
-entre-pernas de mulher; a Machona, armada com um ferro de engommar,
-jurava abrir as fuças a quem lhe désse um segundo coice como acabava
-ella de receber um nas ancas; Augusta enfiára pela porta do fundo da
-estalagem, para atravessar o capinzal e ir á rua ver se descobria o
-marido, que talvez estivesse de serviço no quarteirão. Por esse lado
-acudiam curiosos, e o pateo enchia-se de gente de fóra. Dona Isabel e
-Pombinha, de volta da casa de Leonie, tiveram difficuldade em chegar ao
-numero 15, onde, mal entraram, fecharam-se por dentro, praguejando a
-velha contra a desordem e lamentando-se da sorte que as lançou
-n'aquelle inferno. Em tanto, no meio de uma nova roda, encintada pelo
-povo, o portuguez e o brasileiro batiam-se.
-</p>
-<p>
-Agora a lucta era regular: havia igualdade de partidos, porque o
-cavouqueiro jogava o páo admiravelmente; jogava-o tão bem quanto o
-outro jogava a sua capoeiragem. Embalde Firmo tentava alcançal-o;
-Jeronymo, sopesando ao meio a grossa vara na mão direita, girava-a com
-tal pericia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por
-uma teia impenetravel e sibilante. Não se lhe via a arma, só se ouvia
-um zunido do ar simultaneamente cortado em todas as direcções.
-</p>
-<p>
-E, ao mesmo tempo que se defendia, atacava. O brasileiro tinha já
-recebido páoladas na testa, no pescoço, nos hombros, nos braços, no
-peito, nos rins e nas pernas. O sangue inundava-o inteiro; elle rugia e
-arfava, iroso e cansado, investindo ora com os pés, ora com a cabeça,
-e livrando-se d'aqui, livrando-se d'ali, aos pulos e ás cambalhotas.
-</p>
-<p>
-A victoria pendia para o lado do portuguez. Os espectadores
-acclamavam-no já com enthusiasmo; mas, de subito, o capoeira mergulhou,
-n'um relance, até ás canellas do adversario e surgio-lhe rente dos
-pés, grudado n'elle, rasgando-lhe o ventre com uma navalhada.
-</p>
-<p>
-Jeronymo soltou um mugido e cahio de borco, segurando os intestinos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Matou! Matou! Matou! exclamaram todos com assombro.
-</p>
-<p>
-Os apitos esfuziaram mais assanhados.
-</p>
-<p>
-Firmo varou pelos fundos do cortiço e desappareceu no capinzal.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pega! Pega!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se de joelhos sobre o
-corpo ensanguentado do marido. Rita viera tambem de carreira lançar-se
-ao chão junto d'elle, para lhe afagar as barbas e os cabellos.
-</p>
-<p>
-&mdash;É preciso o doutor! supplicou aquella, olhando para os lados á
-procura de uma alma caridosa que lhe valesse.
-</p>
-<p>
-Mas n'isto um estardalhaço de formidaveis pranchadas estrugio no
-portão da estalagem. O portão abalou com estrondo e gemeu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Abre! Abre! reclamavam de fóra.
-</p>
-<p>
-João Romão atravessou o pateo, como um general em perigo, gritando a
-todos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não entra a policia! Não deixa entrar! Aguenta! Aguenta!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não entra! Não entra! repercutio a multidão em côro.
-</p>
-<p>
-E todo o cortiço ferveu que nem uma panella ao fogo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aguenta! Aguenta!
-</p>
-<p>
-Jeronymo foi carregado para o quarto, a gemer, nos braços da mulher e
-da mulata.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aguenta! Aguenta!
-</p>
-<p>
-De cada casulo espipavam homens armados de páo, achas de lenha, varaes
-de ferro. Um empenho collectivo os agitava agora, a todos, n'uma
-solidariedade briosa, como se ficassem deshonrados para sempre se a
-policia entrasse ali pela primeira vez. Emquanto se tratava de uma
-simples lucta entre dois rivaes, estava direito! «Jogassem lá as
-cristãs, que o mais homem ficaria com a mulher!» mas agora tratava-se
-de defender a estalagem, a communa, onde cada um tinha a zelar por
-alguem ou alguma coisa querida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não entra! Não entra!
-</p>
-<p>
-E berros atroadores respondiam ás pranchadas, que lá fóra se repetiam
-ferozes.
-</p>
-<p>
-A policia era o grande terror d'aquella gente, porque, sempre que
-penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropicio: á capa de
-evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos,
-quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão
-de odio velho.
-</p>
-<p>
-E, emquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam de
-costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas,
-arrancavam giráos, arrastavam carroças, restos de colchões e saccos
-de cal, formando ás pressas uma barricada.
-</p>
-<p>
-As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia, estalava, começava a
-abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados
-atraz d'ella. Os que entraram de fora por curiosidade não puderam sahir
-e viam-se mettidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram. A Machona
-terrivel fungára as saias e empunhava na mão o seu ferro de engommar.
-A das Dôres, que ninguem dava nada por ella, era uma das mais duras e
-que parecia mais empenhada na defeza.
-</p>
-<p>
-Afinal o portão lascou; um grande rombo abrio se logo; cahiram taboas;
-e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos
-a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um
-sacco de cal, despejado sobre elles, desnorteou-os.
-</p>
-<p>
-Principiou então o sarilho grosso. Os sabres não podiam alcançar
-ninguem por entre a trincheira; ao passo que os projectis, arremeçados
-lá de dentro, desbaratavam o inimigo. Já o sargento tinha a cabeça
-partida e duas praças abandonavam o campo, á falta de ar.
-</p>
-<p>
-Era impossivel invadir aquelle baluarte com tão poucos elementos, mas a
-policia teimava, não mais por obrigação que por necessidade pessoal
-de desforço. Semelhante resistencia os humilhava. Se tivessem
-espingardas fariam fogo. O unico d'elles que conseguio trepar á
-barricada, rolou de lá abaixo sob uma carga de páo e teve de ser
-carregado para a rua pelos companheiros. O Bruno, todo sujo de sangue,
-estava agora armado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem,
-linha na cabeça uma barretina de urbano.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fóra os morcegos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Fóra! Fóra!
-</p>
-<p>
-E, a cada exclamação, tome pedra! tome lenha! tome cal! tome fundo de
-garrafa!
-</p>
-<p>
-Os apitos estridulavam mais e mais fortes.
-</p>
-<p>
-N'essa occasião, porém, Nênêm gritou, correndo na direcção da
-barricada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Acudam aqui! Acudam aqui! Ha fogo no numero 12. Está sahindo fumaça!
-</p>
-<p>
-&mdash;Fogo!
-</p>
-<p>
-A este grito um panico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um
-incendio lamberia aquellas cem casinhas emquanto o diabo esfrega um
-olho!
-</p>
-<p>
-Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar o que era seu.
-E os policias, aproveitando o terror dos adversarios, avançaram com
-impeto, levando na frente o que encontravam e penetrando emfim no
-infernal reducto, a dar espadeiradas para a direita e para a esquerda,
-como quem destroça uma boiada. A multidão atropellava-se,
-desembestando n'um alarido. Uns fugiam á prisão; outros cuidavam em
-defender a casa. Mas as praças, loucas de colera, mettiam dentro as
-portas e iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingança.
-</p>
-<p>
-N'isto, roncou no espaço a trovoada. O vento do norte zunio mais
-estridente e um grande pé d'agoa desabou cerrado.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XI">XI</a></h4>
-
-<p>
-A Bruxa, por influencia suggestiva da loucura de Marcianna, peiorou do
-juizo e tentou incendiar o cortiço.
-</p>
-<p>
-Emquanto os companheiros o defendiam a unhas e dentes, ella, com todo o
-disfarce, carregava palha e sarrafos para o numero 12 e preparava uma
-fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as consequencias foram do
-mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando como
-aquella ao fogo, não escaparam á devastação da policia. Algumas
-ficaram completamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se
-não viera o providencial agoaceiro apagar tambem o outro incendio ainda
-peior, que, de parte a parte, lavrava nos animos. A policia retirou-se
-sem levar nenhum preso. «A ir um, iriam todos á estação! Deus te
-livre! Demais, para que? o que ella queria fazer, fez! Estava
-satisfeita!»
-</p>
-<p>
-Apezar do empenho do João Romão, ninguem conseguio descobrir o autor
-da sinistra tentativa, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar
-olho, depois de reaccommodar, entre plangentes lamentações, o que se
-salvou do destroço. O tempo levantou de novo á meia noite. Ao romper
-da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista
-minuciosa no pateo, avaliando e carpindo, inconsolavel e furioso, o seu
-prejuizo. De vez em quando soltava uma praga. Além do que escangalharam
-os urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito giráo
-quebrado, lampeões em fanicos, hortas e cercas arrazadas; o portão da
-frente e a taboleta foram reduzidos a lenha. João Romão meditava, para
-cobrir o damno, carregar um imposto sobre os moradores da estalagem,
-augmentando-lhes o aluguel dos commodos e o preço dos generos. Vio-se
-n'uma dobadoira durante o dia inteiro; desde pela manhã déra logo os
-providencias para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa
-possivel: mandou buscar novas tinas; fabricar novos giráos e concertar
-os quebrados; pôz gente a remendar o portão e a taboleta. Ao meio dia
-teve de comparecer á presença do subdelegado na secretaria da policia.
-Foi mesmo em mangas de camisa e sem meias; muitos do cortiço o
-acompanharam, quer por espirito de camaradagem, quer por simples
-curiosidade.
-</p>
-<p>
-Uma verdadeira patuscada esse passeio á cidade! Parecia uma romaria;
-algumas mulheres levavam os seus pequenitos ao collo; um magote de
-italianos ia á frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns
-cantavam. Ninguem tomou bonde; e por toda a viagem discutiram e
-altercaram em grande troça, commentando com gargalhadas e chalaças
-gordas o que iam encontrando, a chamar a attenção das ruas por onde
-desfilava a ruidosa farandula.
-</p>
-<p>
-A sala da policia encheu-se.
-</p>
-<p>
-O interrogatorio, exclusivamente dirigido a João Romão, era respondido
-por todos a um só tempo, a despeito dos protestos e das ameaças da
-autoridade, que se vio tonta. Nenhum d'elles nada esclarecia e todos se
-queixavam da policia, exagerando as perdas recebidas na vespera.
-</p>
-<p>
-A respeito de como se travara o conflicto e quem o provocara, o
-taverneiro declarou que nada podia saber ao certo, porque na occasião
-se achava ausente da estalagem. Do que tinha certeza era de que as
-praças lhe invadiram a propriedade e poseram em cacos tudo o que
-encontraram, como se aquillo lá fosse roupa de francez!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem feito! bradou o subdelegado. Não resistissem!
-</p>
-<p>
-Um côro de respostas assanhadas levantou-se para justificar a
-resistencia. «Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam os
-morcegos, quando lhes não sabia alguem pela frente! Esbodegavam até á
-ultima, só pelo gostinho de fazer mal! Pois então uma creatura, porque
-estava a divertir-se um bocado com os amigos, havia de ser aperreada que
-nem boi ladrão?... Tinha lá geito?... Os rôlos era sempre a policia
-quem os levantava com as suas furias! Não se mettesse ella na vida de
-quem vivia socegado no seu canto, e não sahiria tanto barulho!...»
-Como de costume, o espirito de collectividade, que unia aquella gente em
-circulo de ferro, impedio que transpirasse o menor vislumbre de
-denuncia. O subdelegado, depois de dirigir-se inutilmente a um por um,
-despachou o bando, que fez logo a sua retirada, no meio de uma
-alacridade mais quente ainda que a da ida.
-</p>
-<p>
-Lá no cortiço, de portas a dentro, podiam esfaquear-se a vontade, que
-nenhum d'elles, e muito menos a victima, seria capaz de apontar o
-criminoso; tanto que o medico, que, logo depois da invasão da policia,
-desceu da casa do Miranda á estalagem, para soccorrer Jeronymo, não
-conseguio arrancar d'este o menor esclarecimento sobre o motivo da
-navalhada. «Não fôra nada!... Não fôra de proposito!.. Estavam a
-brincar e succedêra aquillo!... Ninguem tivera a menor intenção de
-fazer-lhe móssa!...»
-</p>
-<p>
-Rita mostrou-se de uma incansavel solicitude para com o ferido. Foi ella
-quem correu a buscar os remedios, quem servio de ajudante ao medico e
-quem servio de enfermeiro ao doente. Muitos lá iam, demorando-se um
-instante, para dar fé; ella, porém, desde que Jeronymo se achou
-operado, não lhe abandonou a cabeceira; ao passo que Piedade, afflicta
-e atarantada, não fazia senão chorar e arreliar-se.
-</p>
-<p>
-A mulata, essa não chorava; mas a sua physionomia tinha uma profunda
-expressão de magoa enternecida. Agora toda ella se sentia apegar-se
-áquelle homem bom e forte; áquelle gigante inoffensivo; áquelle
-hercules tranquillo, que mataria o Firmo com uma punhada, mas que, na
-sua boa fé, se deixára navalhar pelo facinora. «E tudo por causa
-d'ella! só por ella!» Seu coração de mulher rendia-se captivo a
-semelhante dedicação ensanguentada e dolorosa. E elle, o misero,
-interrompia as contracções do rosto para sorrir defronte dos olhos
-enamorados da bahiana, feliz n'aquella desgraça que lhe permittia gosar
-dos seus carinhos. E tomava-lhe as mãos, e cingia-lhe a cintura,
-resignado e commovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas a dizer bem
-claro, na sua dôr silenciosa e quieta de animal ferido, que a amava
-muito, que a amava loucamente.
-</p>
-<p>
-Rita affagava-o, já sem a menor sombra de escrupulo, tratando-o por tu,
-ameigando-lhe os cabellos sujos de sangue com a polpa macia da sua mão
-feminil. E, ali mesmo em presença da mulher d'elle, só faltava
-beijal-o com a boca, que com os olhos o devorava de beijos ardentes e
-sequiosos.
-</p>
-<p>
-Depois da meia noite dada, ella e Piedade ficaram sozinhas velando o
-enfermo. Deliberou-se que este iria pela manhã para a Ordem de Santo
-Antonio, de que era irmão. E, com effeito, no dia immediato, emquanto o
-vendeiro e seu bando andavam lá ás voltas com a policia, e o resto do
-cortiço formigava, tagarelando em volta do concerto das tinas e
-giráos, Jeronymo, ao lado da mulher e da Rita, seguia dentro de um
-carro para o hospital.
-</p>
-<p>
-As duas só voltaram de lá á noite, cahindo de fadiga. De resto, toda
-a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo pela cama, se bem que
-n'esse dia as lavadeiras em geral gazeassem o trabalho; as que tinham
-roupa com mais pressa foram lavar fóra ou arrastaram bacias de banho
-para debaixo das bicas, á falta de melhor vasilha para o serviço.
-Discutio-se a campanha da vespera sem variar de assumpto. Aqui era um
-que lembrava as suas proezas com os urbanos, descrevendo enthusiasmado
-os pormenores da lucta; ali, outro repetia, cheio de empafia, os
-desaforos que dissera depois nas bochechas da autoridade; mais adiante
-trocavam se queixas e recriminações; cada qual, mulheres e homens,
-soffrêra o seu prejuizo ou a sua arranhadura, e mostravam entre si,
-numa febre de indignação os objectos partidos ou a parte do corpo
-escoriada.
-</p>
-<p>
-Mas ás nove da noite já não havia viva alma no pateo da estalagem. A
-venda fechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza atirou-se
-ao colchão, estrompada; João Romão recolheu-se junto d'ella, porém
-não conseguio dormir: sentia calafrios e pontadas na cabeça. Chamou
-pela amiga, a gemer, e pedio-lhe que lhe désse alguma coisa para suar.
-Suppunha estar com febre.
-</p>
-<p>
-A crioula só descansou quando, muitas horas adiante, depois de
-mudar-lhe a roupa, o vio pegar no somno; e, d'ahi a pouco, ás quatro da
-madrugada, erguia-se ella, com estalos de juntas, a bocejar, fungando no
-seu estremunhamento pesadão, e pigarreando forte. Acordou o caixeiro
-para ir ao mercado; gargarejou um pouco d'agoa á torneira da cozinha e
-foi fazer fogo para o café dos trabalhadores, riscando phosphoros e
-accendendo cavacos num fogareiro, donde começaram a borbotar grossos
-novelos de fumo espesso.
-</p>
-<p>
-Lá fóra clareava já, e a vida renascia no cortiço. A lucta de todos
-os dias continuava, como se não houvera interrupção. Principiava o
-borborinho. Aquella noite bem dormida punha-os a todos de bom humor.
-</p>
-<p>
-Pombinha, entretanto, nessa manhã acordara abatida e nervosa, sem animo
-de sahir dos lençóes. Pedio café á mãe, bebeu, e tornou a
-abraçar-se nos travesseiros, escondendo o rosto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não te sentes melhor hoje, minha filha?... perguntou-lhe Dona
-Isabel, apalpando-lhe a testa. Febre não tens.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda sinto o corpo molle ... mas não é nada... Isto passa!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi de tanto gelo, que tomaste em casa da madama!... Não te
-dizia?... Agora, o melhor é dar-te um escalda-pés!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! não, por amor de Deus! D'aqui a pouco estou em pé!
-</p>
-<p>
-Ás oito horas, com effeito, levantava-se e fazia, indolentemente, o
-alinho da cabeça, defronte do seu modesto lavatorio de ferro. Dir-se-ia
-sem forças para a menor coisa; toda ella transpirava uma contemplativa
-melancolia de convalescente; havia uma doce expressão dolorosa na
-limpidez crystallina de seus olhos de moça enferma; um pobre sorriso
-pallido a entreabrir-lhe as petalas da boca, sem lhe alegrar os labios,
-que pareciam resequidos á mingoa de beijos de amor; assim a delicada
-planta murcha, languece e morre, se carinhosa borboleta não vae sacudir
-sobre ella as azas prenhes de fecundo e doirado pollen.
-</p>
-<p>
-O passeio á casa de Leonie fizera-lhe muito mal. Trouxe de lá
-impressões e intimos vexames, que nunca mais se apagariam por toda a
-sua vida.
-</p>
-<p>
-A cocote recebeu-a de braços abertos, radiante com apanhal-a junto de
-si, n'aquelles divans fôfos e traidores, entre todo aquelle luxo
-extravagante e requintado, proprio para os vicios grandes. Ordenou á
-criada que não deixasse entrar ninguem, ninguem, nem mesmo o Bebê, e
-assentou-se ao lado da menina, bem juntinho uma da outra, tomando-lhe as
-mãos, fazendo-lhe uma infinidade de perguntas, e pedindo lhe beijos,
-que saboreava gemendo, de olhos fechados.
-</p>
-<p>
-Dona Isabel suspirava tambem, mas d'outro modo; na sua parva
-comprehensão do conforto, aquelles impertinentes espelhos, aquelles
-moveis casquilhos e aquellas cortinas escandalosas arrancavam-lhe
-saudosas recordações do bom tempo e avivavam a sua impaciencia por
-melhor futuro.
-</p>
-<p>
-Ai! assim Deus quizesse ajudal-a!...
-</p>
-<p>
-Ás duas da tarde, Leonie, por sua propria mão, servio ás visitas um
-pequeno lunch de <i>foie-gras</i>, presunto e queijo, acompanhado de
-champanha, gelo e agoa de Seltz; e, sem se descuidar um instante da
-rapariga, tinha para ella extremas solicitudes de namorado: levava-lhe
-a comida á boca, bebia do seu copo, apertava-lhe os dedos por debaixo
-da mesa.
-</p>
-<p>
-Depois da refeição, Dona Isabel, que não estava habituada a tomar
-vinho, sentio vontade de descansar o corpo; Leonie franqueou-lhe um bom
-quarto, com boa cama, e, mal percebeu que a velha dormia, fechou a porta
-pelo lado de fóra, para melhor ficar em liberdade com a pequena.
-</p>
-<p>
-Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem cá, minha flôr!... disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se
-cahir sobre um divan. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca
-por ti!
-</p>
-<p>
-E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que suffocavam a
-menina, enchendo-a de espanto e de um instinctivo temor, cuja origem a
-pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era.
-</p>
-<p>
-A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem largar-lhe a mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Descansemos nós tambem um pouco... propôz, arrastando-a para a
-alcova.
-</p>
-<p>
-Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da cama e, toda perplexa,
-com vontade de affastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento,
-tentou reatar o fio da conversa, que ellas sustentavam um pouco antes,
-á meza, em presença de Dona Isabel. Leonie fingia prestar-lhe
-attenção e nada mais fazia do que affagar-lhe a cintura, as coxas e o
-collo. Depois, como que distrahidamente, começou a desabotoar-lhe o
-corpinho do vestido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Para que?... Não quero despir-me...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou bem assim. Não quero!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tolice a tua! Não vês que sou mulher, tolinha?... De que tens
-medo?... Olha! Vou dar o exemplo!
-</p>
-<p>
-E, n'um relance, desfez-se da roupa, e proseguio na campanha.
-</p>
-<p>
-A menina, vendo-se descomposta, crusou os braços sobre o seio, vermelha
-de pudor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos envesgados, a pupilla
-tremula.
-</p>
-<p>
-E, apezar dos protestos, das supplicas e até das lagrimas da infeliz,
-arrancou-lhe a ultima vestimenta, e precipitou-se contra ella, a
-beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com os labios o roseo bico do
-peito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! Oh! Deixa d'isso! Deixa d'isso! reclamava Pombinha,
-estorcendo-se em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca
-e virginal, que enlouqueciam a prostituta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que mal faz?... Estamos brincando...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! não! balbuciou a victima, repellindo-a.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim! Sim! insistio Leonie, fechando-a entre os braços, como entre
-duas columnas e pondo em contacto com o d'ella todo o seu corpo nú.
-</p>
-<p>
-Pombinha arfava, reluctando; mas o attrito d'aquellas duas grossas pomas
-irrequietas sobre o seu mesquinho peito de donzella impubere, e o roçar
-vertiginoso d'aquelles cabellos asperos e crespos nas estações mais
-sensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a polvora do
-sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.
-</p>
-<p>
-Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em
-crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de
-luxuria, irracional, feroz, revoluteava, em corcovos de egoa, bufando e
-relinchando.
-</p>
-<p>
-E mettia-lhe a lingoa tersa pela bocca e pelas orelhas, e esmagava-lhe
-os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o
-lobulo dos hombros, e agarrava-lhe convulsivamente o cabello, como se
-quizesse arrancal-o aos punhados. Até que, com um assomo mais forte,
-devorou-a num abraço de todo o corpo, ganindo ligeiros gritos, seccos,
-curtos, muito agudos, e a final desabou para o lado, exanime, inerte, os
-membros atirados n'um abandono de bebado, soltando de instante a
-instante um soluço estrangulado.
-</p>
-<p>
-A menina voltára a si e torcêra-se logo em sentido contrario á
-adversaria, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o seu pranto,
-envergonhada e corrida.
-</p>
-<p>
-A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir abrir os olhos, procurou
-animal-a, ameigando-lhe a nuca e as espaduas. Mas Pombinha parecia
-inconsolavel, e a outra teve de erguer-se a meio e puxal-a como uma
-criança para o seu collo, onde ella foi occultando o rosto, a soluçar
-baixinho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não chores assim, meu amor!...
-</p>
-<p>
-Pombinha continuou a soluçar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos! Não quero ver-te d'este modo!... Estás zangada commigo?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzella,
-desgalgando o leito para vestir-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres mal com a
-tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe-me!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem cá, Pombinha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vou! Já disse!
-</p>
-<p>
-E vestia-se com movimentos de raiva. Leonie saltara para junto d'ella e
-pôz-se a beijar-lhe, á força, os ouvidos e o pescoço, fazendo-se
-muito humilde, adulando-a, compromettendo-se a ser sua escrava e
-obedecer-lhe como um cachorrinho, com tanto que aquella tyranna não se
-fosse assim zangada.
-</p>
-<p>
-&mdash;Faço tudo! tudo! mas não fiques mal commigo! Ah! se soubesses como
-eu te adoro!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei! Largue-me!
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera!
-</p>
-<p>
-&mdash;Que amolação! Oh!
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus! Pombinha acabava de
-encasar o ultimo botão do corpinho, e repuxava o pescoço e sacudia os
-braços, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas Leonie cahíra-lhe aos
-pés, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha!... Ouve!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixe-me sahir!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Não has de ir zangada, ou faço aqui um escandalo dos diabos!
-</p>
-<p>
-&mdash;É que mamãe já acordou com certeza!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que acordasse!
-</p>
-<p>
-Agora a meretriz defendia a porta da alcova.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! meu Deus! Deixe-me sahir!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não deixo, sem fazermos as pazes...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que aborrecimento!
-</p>
-<p>
-&mdash;Dá-me um beijo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não dou!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então não sabes!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu grito!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois grita! Que me importa?
-</p>
-<p>
-&mdash;Arrede-se d'ahi, por favor!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Faz as pazes...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não estou zangada, creia! Estou é indisposta... Não me sinto boa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas eu faço questão do beijo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois bem! Está ahi!
-</p>
-<p>
-E beijou-a.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não quero assim! Foi dado de má vontade!...
-</p>
-<p>
-Pombinha deu-lhe outro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me! É um instante!
-</p>
-<p>
-Em tres tempos, lavou-se ligeiramente no bidé, endireitou o penteado
-defronte do espelho, n'um movimento rapido de dedos, e empoou-se, e
-perfumou-se, e enfiou camisa, anagoa e penteador, tudo com uma
-expedição de quem está habituada a vestir-se muitas vezes por dia. E,
-prompta, correu uma vista d'olhos pela menina, desenrugou-lhe a saia,
-concertou-lhe melhor os cabellos e, readquerindo o seu ar tranquillo de
-mulher ajuisada, tomou-a pela cintura e levou-a vagarosamente até á
-sala de jantar, para tomarem vermouth com gazoza.
-</p>
-<p>
-O jantar foi ás seis e meia. Correu frio, não tanto per parte de
-Pombinha, que aliás se mostrava bem incommodada, como porque Dona
-Isabel, dormindo até o momento de a chamarem para mesa, sentia-se
-aziada com o <i>foie-gras</i>. A dona da casa, todavia não se forrou a
-desvelos e fez por alegral-as rindo e contando anecdotas burlescas. Ao
-café appareceu Jujú, que a criada levára a passeiar desde logo depois
-do almoço, e uma affectação de agrados levantou-se em torno da
-pequerrucha. Leonie pôz-se a conversar com ella, fallando como
-criança, dizendo-lhe que mostrasse a Dona Isabel «o seu papatinho
-novo!»
-</p>
-<p>
-Mais tarde, no terraço, emquanto fumava um cigarro, tomou a mão de
-Pombinha e metteu-lhe no dedo um annel com um diamante cercado de
-perolas. A menina recusou o mimo, formalmente. Foi precisa a
-intervenção da velha para que ella consentisse em aceital-o.
-</p>
-<p>
-Ás oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho para a
-estalagem. Durante toda a viagem Pombinha parecia preoccupada e triste.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que tens tu?... perguntou-lhe a mãe duas vezes.
-</p>
-<p>
-E de ambas a filha respondeu:
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada! aborrecimento...
-</p>
-<p>
-No pouco que dormio essa noite, que foi a do barulho com a policia, teve
-sonhos agitados e passou mal todo o dia seguinte, com mollezas de febre
-e dôres no utero. Não arredou pé de casa, nem para ver os destroços
-do conflicto. A noticia do desfloramento e da fuga de Florinda, como a
-da loucura da velha Marcianna, produziram-lhe grande abalo nos nervos.
-</p>
-<p>
-Na manhã immediata, a despeito de fazer-se forte, torceu o nariz ao
-pobre almoço que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe
-as dôres uterinas, não vivas, mas constantes. Não teve animo de pegar
-na costura, e um livro que ella tentou ler foi por varias vezes
-repellido.
-</p>
-<p>
-As onze para o meio dia era tal o seu constrangimento e era tal o seu
-desasocego entre as apertadas paredes do numero 15, que, máo grado os
-protestos da velha, sahio a dar uma volta por detraz do cortiço, á
-sombra dos bambús e das mangueiras.
-</p>
-<p>
-Uma irresistivel necessidade de estar só, completamente só, uma
-afflicção de conversar comsigo mesma, a apartavam do seu estreito
-quarto suffocante, tão tristonho e tão pouco amigo. Pungia-lhe na
-brancura da alma virgem um arrependimento incisivo e negro das torpezas
-da ante-vespera; mas, lubrificada por essa recordação, toda a sua
-carne ria e rejubilava-se, presentindo delicias que lhe pareciam
-reservadas para mais tarde, junto de um homem amado; dentro d'ella
-balbuciavam desejos, até ahi mudos e adormecidos; e mysterios
-desvendavam-se no segredo do seu corpo, enchendo-a de surpreza e
-mergulhando-a em fundas concentrações de extasis. Um ineffavel
-quebranto afrouxava-lhe a energia e destendia-lhe os musculos com uma
-embriaguez de flôres traiçoeiras.
-</p>
-<p>
-Não poude resistir: assentou-se debaixo das arvores, um cotovelo em
-terra, a cabeça reclinada contra a palma da mão.
-</p>
-<p>
-Na doce tranquillidade d'aquella sombra morna, ouviam-se retinir
-distantes a picareta dos homens da pedreira e o martello dos ferreiros
-na forja. E o canto dos trabalhadores, ora mais claro, ora mais
-duvidoso, acompanhando o marulhar dos ventos, ondeava no espaço,
-melancolico e sentido, como um côro religioso de penitentes.
-</p>
-<p>
-O calor tirava do capim um cheiro sensual.
-</p>
-<p>
-A moça fechou as palpebras, vencida pelo seu delicioso entorpecimento,
-e estendeu-se de todo no chão, de barriga para o ar, braços e pernas
-abertas.
-</p>
-<p>
-Adormeceu.
-</p>
-<p>
-Começou logo a sonhar que em de redor ia tudo se fazendo de um côr de
-rosa, a principio muito leve e transparente, depois mais carregado, e
-mais, e mais, até formar-se em torno d'ella uma floresta vermelha, côr
-de sangue, onde largos tinhorões rubros se agitavam lentamente.
-</p>
-<p>
-E vio-se núa, toda núa, exposta ao céo, sob a tepida luz de um sol
-embriagador, que lhe batia de chapa sobre os seios.
-</p>
-<p>
-Mas, pouco a pouco, seus olhos, posto que bem abertos, nada mais
-enxergavam do que uma grande claridade palpitante, onde o sol, feito de
-uma só mancha reluzente, oscillava como um pendulo phantastico.
-</p>
-<p>
-Entretanto, notava que, em volta da sua nudez aloirada pela luz, iam-se
-formando ondulantes camadas sanguineas, que se agitavam, desprendendo
-aromas de flor. E, rodando o olhar, percebeu, cheia de encantos, que se
-achava deitada entre petalas gigantescas, no regaço de uma rosa
-interminavel, em que seu corpo se atufava como em ninho de velludo
-carmezim, bordado de oiro, fofo, macio, trescalante e morno.
-</p>
-<p>
-E suspirando, espreguiçou-se toda n'um enleio de volupia ascetica.
-</p>
-<p>
-Lá do alto o sol a fitava obstinadamente, enamorado das suas mimosas
-fórmas de menina.
-</p>
-<p>
-Ella sorrio para elle, requebrando os olhos, e então o fogoso astro
-tremeu e agitou-se, e, desdobrando-se, abrio-se de par em par em duas
-azas e principiou a fremir, attrahido e perplexo. Mas de repente, nem
-que se de improviso lhe inflammassem os desejos, precipitou-se lá de
-cima agitando as azas, e veio, enorme borboleta de fogo, adejar
-luxuriosamente em torno da immensa rosa, em cujo regaço a virgem
-permanecia com os peitos franqueados.
-</p>
-<p>
-E a donzella, sempre que a borboleta se approximava da rosa, sentia-se
-penetrar de um calor estranho, que lhe accendia, gotta a gotta, todo o
-seu sangue de moça.
-</p>
-<p>
-E a borboleta, sem parar nunca, doidejava em todas as direcções, ora
-fugindo rapida, ora se chegando lentamente, medrosa de tocar com as suas
-antennas de braza a pelle delicada e pura da menina.
-</p>
-<p>
-Esta, delirante de desejos, ardia por ser alcançada e empinava o collo.
-Mas a borboleta fugia.
-</p>
-<p>
-Uma sofreguidão lubrica, desensoffrida, apoderou-se da moça; queria a
-todo custo que a borboleta pousasse n'ella, ao menos um instante, um só
-instante, e a fechasse n'um rapido abraço dentro das suas azas
-ardentes. Mas a borboleta, sempre doida, não conseguia deter-se; mal se
-adiantava, fugia logo, irrequieta, desvairada de volupia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem! Vem! supplicava a donzella, apresentando o corpo. Pousa um
-instante em mim! Queima-me a carne no calor das tuas azas!
-</p>
-<p>
-E a rosa, que a tinha ao collo, é que parecia fallar e não ella. De
-cada vez que a borboleta se avisinhava com as suas negaças, a flôr
-arregaçava-se toda, dilatando as petalas, abrindo o seu pistillo
-vermelho e avido d'aquelle contacto com a luz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não fujas! Não fujas! Pousa um instante!
-</p>
-<p>
-A borboleta não pousou; mas, n'um delirio, convulsa de amor, sacudio as
-azas com mais impeto e uma nuvem de poeira doirada desprendeu-se sobre a
-rosa, fazendo a donzella soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto sob
-aquelle effluvio luminoso e fecundante.
-</p>
-<p>
-N'isto, Pombinha soltou um ai formidavel e despertou sobresaltada,
-levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de susto
-ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentio o grito da puberdade sahir-lhe
-afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente.
-</p>
-<p>
-A natureza sorrio-se commovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze
-badaladas do meio dia. O sol, victorioso, estava a pino e, por entre a
-copagem negra da mangueira, um dos seus raios descia em fio de oiro sobre
-o ventre da rapariga, abençoando a nova mulher que se formava para o
-mundo.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XII">XII</a></h4>
-
-<p>
-Pombinha ergueu-se de um pulo e abrio de carreira para casa. No logar em
-que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos. A
-mãe lavava á tina, ella chamou-a com instancia, enfiando cheia de
-alvoroço pelo numero 15. E ahi, sem uma palavra, ergueu a saia do
-vestido e expôz a Dona Isabel as suas fraldas ensanguentadas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Veio!! perguntou a velha com um grito arrancado do fundo d'alma.
-</p>
-<p>
-A rapariga meneou a cabeça affirmativamente, sorrindo feliz e
-enrubecida.
-</p>
-<p>
-As lagrimas saltaram dos olhos da lavadeira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bemdito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo! exclamou ella,
-cahindo de joelhos defronte da menina e erguendo para Deus o rosto e as
-mãos tremulas.
-</p>
-<p>
-Depois abraçou-se ás pernas da filha e, no arrebatamento da sua
-commoção, beijou-lhe repetidas vezes a barriga e parecia querer beijar
-tambem aquelle sangue abençoado, que lhes abria os horizontes da vida,
-que lhes garantia o futuro; aquelle sangue bom, que descia do ceu, como
-a chuva bemfazeja sobre uma pobre terra esterilisada pela secca.
-</p>
-<p>
-Não se poude conter: emquanto Pombinha mudava de roupa, sahio ella ao
-pateo, apregoando aos quatro ventos a linda noticia. E, se não fôra a
-formal opposição da menina, teria passeado em triumpho a camisa
-ensanguentada, para que todos a vissem bem e para que todos a adorassem,
-entre hymnos de amor, que nem a uma veronica sagrada de um Christo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha filha é mulher! Minha filha é mulher!
-</p>
-<p>
-O facto abalou o coração do cortiço: as duas receberam parabens e
-felicitações. Dona Isabel accendeu velas de cêra á frente do seu
-oratorio, e nesse dia não pegou mais no trabalho, ficou estonteada, sem
-saber o que fazia, a entrar e a sahir de casa, radiante de ventura. De
-cada vez que passava junto da filha dava-lhe um beijo na cabeça e em
-segredo recommendava-lhe todo o cuidado. «Que não apanhasse humidade!
-que não bebesse coisas frias! Que se agazalhasse o melhor possivel e,
-no caso de sentir o corpo molle, que se mettesse logo na cama! Qualquer
-imprudencia poderia ser fatal!...» O seu empenho era pôr o João da
-Costa, no mesmo instante, ao corrente da grande novidade e pedir-lhe que
-marcasse logo o dia do casamento; a menina entendia que não, que era
-feio, mas a mãe arranjou um portador e mandou chamar o rapaz com
-urgencia. Elle appareceu á tarde. A velha convidára gente para jantar;
-matou duas gallinhas, comprou garrafas de vinho, e, á noite, servio,
-ás nove horas, um chá com biscoitos. Nênêm e a das Dôres
-apresentaram-se em trajos de festa; fez-se muita ceremonia; conversou-se
-em voz baixa, formando todos em volta de Pombinha uma solicita cadeia de
-agrados, uma respeitosa preoccupação de bons desejos, a que ella
-respondia sorrindo commovida, como que exhalando da frescura da sua
-virgindade um victorioso aroma de flôr que desabrocha.
-</p>
-<p>
-E a partir d'esse dia Dona Isabel mudou completamente. As suas rugas
-alegraram-se; ouviam-na cantarolar pela manhã, emquanto varria a casa e
-espanava os moveis.
-</p>
-<p>
-Não obstante, depois do tremendo conflicto que acabou em navalhada, uma
-tristeza ia minando uma grande parte da estalagem. Já se não faziam as
-quentes noitadas de violão e dança ao relento. A Rita andava
-aborrecida e concentrada, desde que Jeronymo partio para a ordem; Firmo
-fôra intimado pelo vendeiro a que lhe não puzesse, nunca mais, os pés
-em casa, sob pena de ser entregue á policia; Piedade, que vivia a dar
-ais, carpindo a ausencia do marido, ainda ficou mais consumida com a
-primeira visita que lhe fez ao hospital: encontrou-o frio e sem uma
-palavra de ternura para ella, deixando até perceber a sua impaciencia
-por ouvir fallar da outra, d'aquella maldita mulata dos diabos, que, no
-fim de contas, era a unica culpada de tudo aquillo e havia de ser a sua
-perdição e mais do seu homem! Quando voltou de lá atirou-se á cama,
-a soluçar sem alivio, e n'essa noite não poude pregar olho, senão já
-pela madrugada. Um negro desgosto comia-a por dentro, como tuberculos de
-tisica, e tirava-lhe a vontade para tudo que não fosse chorar.
-</p>
-<p>
-Outro que tambem, coitado! arrastava a vida muito triste, era o Bruno. A
-mulher, que a principio não lhe fizera grande falta, agora o torturava
-com a sua distancia; um mez depois da separação, o desgraçado já
-não podia esconder o seu soffrimento e ralava-se de saudades. A Bruxa,
-a pedido delle tirou a sorte nas cartas e disse-lhe mysteriosamente que
-Leocadia ainda o amava.
-</p>
-<p>
-Só Dona Isabel e a filha andavam devéras satisfeitas. Essas sim! nunca
-tinham tido uma epoca tão boa e tão esperançosa. Bombinha abandonara
-o curso de dança; o noivo ia agora visital-a, invariavelmente, todas as
-noites; chegava sempre ás sete horas e demorava-se até ás dez;
-davam-lhe café numa chicara especial, de porcelana; ás vezes jogavam a
-bisca, e elle mandava buscar, de sua algibeira, uma garrafa de cerveja
-allemã, e ficavam a conversar os tres, cada qual defronte do seu copo,
-a respeito dos projectos de felicidade commum; outras vezes o Costa,
-sempre muito respeitador, muito bom rapaz, accendia o seu charuto da
-Bahia e deixava-se cahir n'uma pasmaceira, a olhar para a moça, todo
-embebido n'ella. Pombinha punha alegrias n'aquelles serões com as suas
-garrulices de pomba que prepara o ninho. Depois do seu idyllio com o sol
-fazia-se muito amiga da existencia, sorvendo a vida em haustos largos,
-como quem acaba de sahir de uma prisão e saborêa o ar livre. Volvia-se
-carnuda e cheia, sazonava que nem uma fructa que nos provoca o appetite
-de morder. Dona Isabel, ao lado d'elles, toscanejava do meio para o fim
-da visita, traçando cruzes na bocca e afugentando os bocejos com
-voluptuosas pitadas da sua insigne tabaqueira.
-</p>
-<p>
-Fixado o dia do casamento, o assumpto inalteravel da conversa era o
-enxoval da noiva e a casinha que o Costa preparava para a lua de mel.
-Iriam todos tres morar juntos; teriam cozinheiro e uma criada que
-lavasse e engommasse. O rapaz trouxera peças de linho e de algodão, e
-ali, á luz amarellado velho candieiro de kerosene, emquanto a mãe
-talhava camisas e lençóes, a filha cosia valentemente n'uma machina
-que lhe offerecêra o noivo.
-</p>
-<p>
-Uma vez, eram duas da tarde, ella pregava rendas n'uma fronha de
-almofada, quando o Bruno, cheio de hesitações, a coçar os cabellos da
-nuca, pallido e mal asseiado, disse-lhe, encostando-se á hombreira da
-porta:
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, nham Pombinha ... tinha-lhe um servicinho a pedir ... mas
-vosmecezinha anda agora tão tomada com o seu enxoval e não ha de
-querer dar-se a maços...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que queres tu, Bruno?
-</p>
-<p>
-&mdash;N'é nada, é que precisava que vosmecezinha me fizesse uma carta
-pr'aquelle diabo ... mas já se vê que não tem cabimento... Fica pr'ao
-depois!
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma carta para tua mulher, não é?
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitada! É mais doida do que ruim! Pois se a gente até dos brutos
-tem pena!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois estás servido. Queres para já?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vale estorvar! Continue seu servicinho! Eu volto pr'outra
-vez!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! anda cá, entra! O que se tem de fazer, faz-se logo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Deus lhe pague! vosmecezinha é mesmo un anjo! Não sei a quem se
-chegue a gente ao depois que já lh'a não tivermos cá!...
-</p>
-<p>
-E continuou a louvar a bondade da rapariga, emquanto esta, toda
-serviçal, preparava numa mezinha redonda os seus apetrechos de
-escripta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos lá, Bruno! que queres tu mandar dizer á Leocadia?
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-lhe, antes de mais nada, que aquillo que quebrei d'ella, que
-dou outro! Que ella fez mal em quebrar tambem o que era meu, mas que fecho
-os olhos! Agoas passadas não movem moinho! Que sei que ella agora está
-desempregada e aos páos; que está a dever para mais de mez na
-estalagem; mas que não precisa dar cabeçadas: que me mande cá o
-senhorio, que me entendo com elle. Que acho bom que ella deixe a casa da
-crioula onde come, porque a mulher já se queixou e já disse, a quem
-quiz ouvir, que aquillo lá não era ponto de vadios e mulheres de má
-vida! Que ella, se tivesse um pouco de tino nem precisava estar ás
-migalhas dos outros, que eu na forja fazia para a trazer de barriga
-cheia e mais aos filhos que Deus mandasse...&mdash;Principiava a tomar
-calor&mdash;Que a culpada de tudo isto é só ella e mais ninguem! tivesse um
-bocado de juizo e não precisava envergonhar a cara por ahi...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso já está dito, Bruno!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois arrume-lhe outra vez, a ver se ella toma brio!
-</p>
-<p>
-&mdash;E que mais?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que lhe não quero mal, nem lhe rogo pragas, mas que é bem feito que
-ella amargue um pouco do pão do diabo, pr'a ficar sabendo que uma
-mulher direita não deve olhar senão pr'a seu marido; e que, se ella
-não fosse tão maluca...
-</p>
-<p>
-&mdash;Já ahi vae você repetir inda uma vez a mesma cantiga!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas diga-lhe sempre, tenha paciencia, nham Pombinha!... Que ainda
-estaria aqui, commigo, como d'antes, sem aguentar repellões
-d'estranhos!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Adiante, Bruno!
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-lhe...
-</p>
-<p>
-E interrompeu-se.
-</p>
-<p>
-Ora, que mais elle tinha a dizer?...
-</p>
-<p>
-Coçou a cabeça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja, Bruno, você é quem sabe o que precisa escrever a sua mulher...
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-lhe...
-</p>
-<p>
-Não se animava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que...
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-lhe... Não! não lhe diga mais nada!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Posso então fechar a carta?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Está bom ... resmungou o ferreiro, decidindo-se. Vá lá! Diga-lhe
-que...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que...
-</p>
-<p>
-Houve um silencio, no qual o desgraçado parecia arrancar de dentro uma
-phrase que, no emtanto, era a unica idéa que o levava a dirigir-se á
-mulher. Afinal, depois de coçar mais vivamente a cabeça, gaguejou com
-a voz estrangulada de soluços:
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-lhe que ... se ella quizer tornar pra minha companhia ... que
-póde vir... Eu esqueço tudo!
-</p>
-<p>
-Pombinha, impressionada pela transformação da voz d'elle, levantou o
-rosto e vio que as lagrimas lhe desfilavam duas a duas, tres a tres,
-pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa
-estranha, ella, que escrevera tantas cartas n'aquellas mesmas
-condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos
-trabalhadores do cortiço, sobresaltava-se agora com os desalentados
-soluços do ferreiro.
-</p>
-<p>
-Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas
-entranhas ella sentio o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos
-para essas violentas miserias dolorosas, a que os poetas davam o bonito
-nome de amor. A sua intellectualidade, tal como seu corpo, desabrochara
-inesperadamente, attingindo de subito, em pleno desenvolvimento, uma
-lucidez que a deliciava e surprendia. Não a commovêra tanto a
-revolução physica. Como que n'aquelle instante o mundo inteiro se
-despia á sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os
-segredos das suas paixões. Agora, encarando as lagrimas do Bruno, ella
-comprehendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade d'esses
-animaes fortes, de musculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se
-deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão
-da fêmea.
-</p>
-<p>
-Aquella pobre flôr de cortiço, escapando á estupidez do meio em que
-desabotoou, tinha de ser fatalmente victima da propria intelligencia. Á
-mingoa de educação, seu espirito trabalhou á revelia, e atraiçoou-a,
-obrigando-a a tirar da substancia caprichosa da sua phantasia de moça
-ignorante e viva, a explicação de tudo que lhe não ensinaram a ver e
-sentir.
-</p>
-<p>
-Bruno retirou-se com a carta. Pombinha pousou os cotovelos na meza e
-tulipou as mãos contra o rosto, a scismar nos homens.
-</p>
-<p>
-Que estranho poder era esse, que a mulher exercia sobre elles, a tal
-ponto, que os infelizes, carregados de deshonra e de ludibrio, ainda
-vinham covardes e supplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ella
-lhes fizera?...
-</p>
-<p>
-E surgio-lhe então uma idéa bem clara da sua propria força e do seu
-proprio valor.
-</p>
-<p>
-Sorrio.
-</p>
-<p>
-E no seu sorriso já havia garras.
-</p>
-<p>
-Uma alluvião de scenas, que ella jamais tentára explicar e que até
-ahi jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora
-nitidas e transparentes. Comprehendeu como era que certos velhos
-respeitaveis, cujas photographias Leonie lhe mostrara no dia que
-passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, captivos e
-submissos, pagando a escravidão com a honra, os bens, e até com a
-propria vida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o
-corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse
-outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor e que no emtanto
-fôra posto no mundo simplesmente para servir ao feminino; escravo
-ridiculo que, para gosar um pouco, precisava tirar da sua mesma illusão
-a substancia do seu goso; ao passo que a mulher, a senhora, a dona
-d'elle, ia tranquillamente desfrutando o seu imperio, endeosada e
-querida, prodigalisando martyrios, que os miseraveis aceitavam
-contritos, a beijar os pés que os deprimiam e as implacaveis mãos que
-os estrangulavam.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, homens! homens!... sussurrou ella de envolta com um suspiro.
-</p>
-<p>
-E pegou de novo na costura, deixando que o pensamento vadiasse á solta,
-emquanto os dedos iam machinalmente pregando as rendas n'aquella
-almofada, em que a sua cabeça teria de repousar para receber o primeiro
-beijo genital.
-</p>
-<p>
-N'um só lance de vista, como quem apanha uma esphera entre as pontas de
-um compasso, medio com as antennas da sua perspicacia mulheril toda
-aquella esterqueira, onde ella, depois de se arrastar por muito tempo
-como larva, um bello dia acordou borboleta á luz do sol. E sentio
-diante dos olhos aquella massa informe de machos e femeas, a comichar, a
-fremir concupiscente, suffocando-se uns aos outros. E vio o Firmo e o
-Jeronymo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadella da
-rua; e vio o Miranda, lá defronte, subalterno ao lado da esposa infiel,
-que se divertia a fazel-o dançar a seus pés seguro pelos chifres; e
-vio o Domingos, que fora da venda, furtando horas ao somno, depois de um
-trabalho de burro, e perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com
-sacrificio, só para ter um instante de luxuria entre as pernas de uma
-desgraçadinha irresponsavel e tola; e tornou a ver o Bruno a soluçar
-pela mulher; e outros ferreiros e hortelões, e cavouqueiros, e
-trabalhadores de toda a especie, um exercito de bestas sensuaes, cujos
-segredos ella possuiu, cujas intimas correspondencias escrevera dia a
-dia, cujos corações conhecia como as palmas das mãos, porque a sua
-escrivaninha era um pequeno confissionario, onde toda a salsugem e todas
-as fezes d'aquella praia de despejo foram arremessadas espumantes de
-dôr e aljofradas de lagrimas.
-</p>
-<p>
-E na sua alma enfermiça e aleijada, no seu espirito rebelde de flôr
-mimosa e peregrina criada n'um monturo, violeta infeliz, que um estrume
-forte de mais para ella atrophiára, a moça presentio bem claro que
-nunca daria de si ao marido que ia ter uma companheira amiga, leal e
-dedicada; presentio que nunca o respeitaria sinceramente como a um ser
-superior por quem damos a vida; que nunca lhe votaria enthusiasmo, e por
-conseguinte nunca lhe teria amor; d'esse de que ella se sentia capaz de
-amar alguem, se na terra houvéra homens dignos disso, Ah! não o amaria
-de certo, porque o Costa era como os outros, passivo e resignado,
-aceitando a existencia que lhe impunham as circumstancias, sem ideaes
-proprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de ambição, sem
-vicios tragicos, sem capacidade para grandes crimes; era mais um animal
-que viera ao mundo para propagar a especie; um pobre diabo emfim que já
-a adorava cegamente e que mais tarde, com ou sem razão, derramaria
-aquellas mesmas lagrimas, ridiculas e vergonhosas, que elle vira
-decorrendo em quentes camarinhas pelas asperas e mal tratadas barbas do
-marido de Leocadia.
-</p>
-<p>
-E não obstante, até então, aquelle matrimonio era o seu sonho
-doirado. Pois agora, nas vesperas de obtel-o, sentia repugnancia em
-dar-se ao noivo, e, se não fôra a mãe, seria muito capaz de dissolver
-o ajuste.
-</p>
-<p>
-Mas, d'ahi a uma semana, a estalagem era toda em reboliço desde logo
-pela manhã. Só se fallava em casamento; havia em cada olhar um
-sanguineo reflexo de noites nupciaes. Desfolharam-se rosas á porta da
-Pombinha. Ás onze horas parou um carro á entrada do cortiço com uma
-senhora gorda, vestida de seda côr de perola. Era a madrinha, que vinha
-buscar a noiva para a egreja de São João Baptista. A cerimonia estava
-marcada para o meio dia. Toda esta formalidade embatucava os
-circumstantes, que se alinhavam immoveis defronte do numero 15, com as
-mãos crusadas atraz, o rosto paralysado por uma commoção respeitosa;
-alguns sorriam enternecidos; quasi todos tinham os olhos resumbrados
-d'agoa.
-</p>
-<p>
-Pombinha surgio á porta de casa, já prompta para desferir o grande
-vôo; de véo e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia
-commovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o seu
-ramalhete de flores artificiaes. Dona Isabel chorava como criança,
-abraçando as amigas, uma por uma.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que lhe dê um bom
-parto, quando vier a primeira barriga!
-</p>
-<p>
-A noiva sorria, de olhos baixos. Uma fimbria de desdem toldava-lhe a
-rosada candura de seus labios. Encaminhou-se para o portão, cercada
-pela bênção de toda aquella gente, cujas lagrimas rebentaram afinal,
-feliz cada um por vel-a feliz e em caminho da posição que lhe competia
-na sociedade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! aquella não nascera para isto!... sentenciou o Alexandre,
-retorcendo o reluzente bigode. Seria lastima se a deixassem ficar aqui!
-</p>
-<p>
-O velho Liborio, cascalhando uma risada decrepita, queixou-se de que o
-maganão do Costa lhe passara a perna, roubando-lhe a namorada.
-</p>
-<p>
-Ingrata! Elle que estava disposto a fazer uma asneira!
-</p>
-<p>
-Nênêm deu uma corrida até á noiva, na occasião em que esta chegava
-á carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pedio-lhe com empenho que
-se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua grinalda de flores de
-larangeira.
-</p>
-<p>
-&mdash;Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e eu tenho tanto medo
-de ficar solteira...! É todo o meu susto!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIII">XIII</a></h4>
-
-<p>
-Á proporção que alguns locatarios abandonavam a estalagem, muitos
-pretendentes surgiam disputando os commodos desalugados. Delporto e
-Pompeu foram varridos pela febre amarella e tres outros italianos
-estiveram em risco de vida. O numero dos hospedes crescia, os casulos
-subdividiam-se em cubiculos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam
-despejando crianças com uma regularidade de gado procreador. Uma
-familia, composta de mãe viuva e cinco filhas solteiras, das quaes
-d'estas a mais velha tinha, trinta annos e a mais moça quinze, veio
-occupar a casa que Dona Isabel esvasiou poucos dias depois do casamento
-de Pombinha.
-</p>
-<p>
-Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o «Cabeça de
-Gato.» Figurava como seu dono um portuguez que tambem tinha venda, mas
-o legitimo proprietario, era um abastado conselheiro, homem de gravata
-lavada, a quem não convinha, por decoro social, apparecer em semelhante
-genero de especulações. E João Romão, estalando de raiva, vio que
-aquella nova republica da miseria promettia ir adiante e ameaçava
-fazer-lhe á sua perigosa concurrencia. Poz-se logo em campo, disposto
-á luta, e começou a perseguir o rival por todos os modos, peitando os
-fiscaes e guardas municipaes, para que o neo deixassem respirar um
-instante com multas e exigencias vexatorias; emquanto pela sorrelfa
-plantava no espirito dos seus inquilinos um verdadeiro odio de partido,
-que os incompatibilisava com a gente do Cabeça de Gato. Aquelle que
-não estivesse disposto a isso ia direitinho para a rua, «que ali se
-não admittia meias medidas a tal respeito! Ali: ou bem peixe ou bem
-carne! Nada de embrulho!» É inutil dizer que a parte contraria lançou
-mão igualmente de todos os meios para guerrear o inimigo, não tardando
-que entre os moradores das duas estalagens rebentasse uma tremenda
-rivalidade, dia a dia aggravada por pequenas brigas e resingas, em que
-as lavadeiras se destacavam sempre com questões de freguezia de roupa.
-No fim de pouco tempo os dois partidos estavam já perfeitamente
-determinados; os habitantes do Cabeça de Gato tomaram por alcunha o
-titulo do seu cortiço, e os de São Romão, tirando o nome do peixe que
-a Bertoleza mais vendia á porta da taverna, foram baptisados por
-«Carapicús.» Quem se désse com um carapicú não podia entreter a
-mais ligeira amisade com um cabeça de gato; mudar-se alguem de uma
-estalagem para a outra era renegar idéas e principios e ficava apontado
-a dedo; denunciar a um contrario o que se passava, fosse o que fosse,
-dentro do circulo opposto, era commetter traição tamanha, que os
-companheiros a puniam a páo. Um vendedor de peixe, que cahio na asneira
-de fallar a um cabeça de gato a respeito de uma briga entre a Machona e
-sua filha, a das Dôres, foi encontrado quasi morto perto do cemiterio
-de São João Baptista. Alexandre, esse então não cochilava com os
-adversarios: nas suas partes policiaes figurava sempre o nome de um
-delles pelo menos, mas entre os proprios policias havia adeptos de um e
-de outro partido; o urbano que entrava na venda de João Romão tinha
-escrupulo de tomar qualquer coisa ao balcão da outra venda. Em meio do
-pateo do Cabeça de Gato arvorára-se uma bandeira amarella; os
-carapicús responderam logo levantando um pavilhão vermelho. E as duas
-côres olhavam-se no ar como um desafio de guerra.
-</p>
-<p>
-A batalha era inevitavel. Questão de tempo.
-</p>
-<p>
-Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem, abandonou o quarto na
-officina e metteu-se lá de sucia com o Porfiro, apezar da opposição
-de Rita, que mais depressa o deixaria a elle do que aos seus velhos
-camaradas de cortiço. D'ahi nasceu certa ponta de discordia entre os
-dois amantes; as suas entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais
-difficeis. A bahiana, por coisa alguma d'esta vida, poria os pés no
-Cabeça de Gato e o Firmo achava-se, como nunca, incompatibilisado com
-os carapicús. Para estar juntos tinham encontros mysteriosos n'um
-calogio de uma velha miseravel de rua de São João Baptista, que lhe
-cedia a cama, mediante esmolas. O capoeira fazia questão de ficar no
-Cabeça de Gato, porque ahi se sentia resguardado contra qualquer
-perceguição que o seu delicto motivasse; de resto, Jeronymo não
-estava morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre elle com gana. No
-Cabeça de Gato, o Firmo conquistára rapidas sympathias e
-constituira-se chefe de malta. Era querido e venerado; os companheiros
-tinham enthusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; sabiam-lhe de
-cór a legenda rica de façanhas e victorias. O Porfiro secundava-o sem
-lhe disputar a primasia, e estes dois, só por si, impunham respeito aos
-carapicús, entre os quaes, não obstante, havia muito boa gente para o
-que désse e viesse.
-</p>
-<p>
-Mas ao cabo de tres mezes, João Romão, notando que os seus interesses
-nada soffriam com a existencia da nova estalagem e, até pelo contrario,
-lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia fazendo no
-bairro, retornou á sua primitiva preoccupação com o Miranda, unica
-rivalidade que verdadeiramente o estimulava.
-</p>
-<p>
-Desde que o visinho surtio com o baronato, o vendeiro transformava-se
-por dentro e por fóra a causar pasmo. Mandou fazer boas roupas e aos
-domingos refestelava-se de casaco branco, e de meias, assentado defronte
-da venda, a ler jornaes. Depois deu para sahir a passeio, vestido de
-casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabello á
-escovinha; pôz a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que elle
-agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Já
-não era o mesmo lambusão! E não parou ahi fez-se: socio de um club de
-dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a uzar
-relogio e cadeia de ouro; correu uma limpeza no seu quarto de dormir,
-mandou soalhal-o, forrou e pintou-o; comprou alguns moveis em segunda
-mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete: principiou a comer com
-guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a tomar vinho,
-não do ordinario que vendia aos trabalhadores, mas de um especial que
-guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para o passeio
-publico depois do jantar ou ia ao theatro São Pedro de Alcantara
-assistir aos espectaculos da tarde; do Jornal do Commercio, que era o
-unico que elle assignava havia já tres annos e tanto, passou a receber
-mais dois outros e a tomar fasciculos de romances francezes traduzidos,
-que o ambicioso lia de cabo a rabo, com uma paciencia de santo, na doce
-convicção de que se instruia.
-</p>
-<p>
-Admittio mais tres caixeiros; já se não prestava muito a servir
-pessoalmente á negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao
-balcão. E em breve o seu typo começou a ser visto com frequencia na
-rua Direita, na praça do commercio e nos bancos, o chapéu alto
-derreado para a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a
-metter-se em altas especulações, aceitava acções de companhias de
-titulos inglezes e só emprestava dinheiro com garantias de boas
-hypothecas.
-</p>
-<p>
-O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o chapéo, parava
-risonho para lhe fallar quando se encontravam na rua, e ás vezes
-trocava com elle dois dedos de palestra á porta da venda. Acabou por
-offerecer-lhe a casa e convidal-o para o dia de annos da mulher, que era
-d'ahi a pouco tempo. João Romão agradeceu o obsequio, desfazendo-se em
-demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá.
-</p>
-<p>
-Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja,
-sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em
-nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo;
-pelo contrario, á medida que elle galgava posição social, a
-desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia
-e ella ficava cá em baixo, abandonada como uma cavalgadura de que já
-não precisamos para continuar a viagem. Começou a cahir em tristeza.
-</p>
-<p>
-O velho Botelho chegava-se tambem para o vendeiro, e ainda mais do que o
-proprio Miranda. O parasita não sabia agora depois do almoço para a
-sua prosa na charutaria, nem voltava á tarde para o jantar, sem
-deter-se um instante á porta do visinho ou, pelo menos, sem lhe gritar
-lá para dentro: «Então, seu João, isso vai ou não vai?...» E tinha
-sempre uma phraze amigavel para lhe atirar cá de fóra. Em geral o
-taverneiro acudia a apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe
-que bebesse alguma coisa.
-</p>
-<p>
-Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não era á
-tôa que o fazia, que aquelle mesmo não mettia prego sem estopa! Tanto
-assim que uma vez, em que os dois sahiram á tardinha para dar um giro
-até á praia, Botelho, depois de fallar com o costumado enthusiasmo do
-seu bello amigo Barão e da virtuosissima familia d'este, accrescentou
-com o olhar fito:
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquella pequena é que lhe estava a calhar, seu João!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Como? Que pequena?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo namoro?... Maganão!
-</p>
-<p>
-O vendeiro quiz negar, mas o outro atalhou:
-</p>
-<p>
-&mdash;É um bom partido, é! Excellente menina ... tem um genio de
-pomba ... uma educação de princeza: até o francez sabe! Toca piano como
-você tem ouvido ... canta o seu bocado ... aprendeu desenho ... muito boa
-mão de agulha!... e...
-</p>
-<p>
-Abaixou a voz e segredou grosso no ouvido do interlocutor:&mdash;Ali, tudo
-aquillo é solido!... Predios e acções do banco!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Você tem certeza d'isso? Já vio?
-</p>
-<p>
-Já! Palavra d'honra!
-</p>
-<p>
-Calaram-se um instante.
-</p>
-<p>
-Botelho continuou depois:
-</p>
-<p>
-&mdash;O Miranda é bom homem, coitado! tem lá as suas fumaças de grandeza,
-mas não o podemos criminar ... são coisas pegadas da mulher; no
-emtanto acho-o com boas disposições a seu respeito ... e, se você
-souber leval-o, apanha-lhe a filha...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella talvez não queira...
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual o que! Pois uma menina d'aquellas, criada a obedecer aos pais,
-sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com
-a familia, que de dentro empurre o negocio e verá se consegue ou não!
-Eu, por exemplo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! se você se mettesse n'isso, que duvida! Dizem que o Miranda só
-faz o que você quer...
-</p>
-<p>
-&mdash;Dizem com razão.
-</p>
-<p>
-&mdash;E você está resolvido a...?
-</p>
-<p>
-&mdash;A protegel-o?... Sim, de certo: n'este mundo estamos nós para servir
-uns aos outros!... apenas, como não sou rico...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negocio e não se
-arrependerá...
-</p>
-<p>
-&mdash;Conforme, conforme...
-</p>
-<p>
-&mdash;Creio que não me suppõe um velhaco!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Por amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilegio!
-</p>
-<p>
-&mdash;Então!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, sim ... em todo o caso fallaremos depois, com mais vagar... Não
-é sangria desatada!
-</p>
-<p>
-E desde então, com effeito, sempre que os dois se pilhavam a sós
-discutiam o seu plano de ataque á filha do Miranda. Botelho queria
-vinte contos de réis, e com papel passado a praso de casamento; o outro
-offerecia dez.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom! então não temos nada feito ... resumio o velho. Trate você do
-negocio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte comigo
-absolutamente... Comprehende?
-</p>
-<p>
-&mdash;Quer dizer que me fará guerra...
-</p>
-<p>
-&mdash;Valha-nos Deus, creatura! não faço guerra a ninguem! guerra está
-você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da bella
-fatia que lhe vou metter no papo!... O Miranda hoje tem para mais de mil
-contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim tambem
-tão facil, como lhe parece talvez...
-</p>
-<p>
-&mdash;Paciencia!
-</p>
-<p>
-&mdash;O Barão ha de sonhar com um genro de certa ordem!...
-</p>
-<p>
-Ahi algum deputado ... algum homem que faça figura na politica aqui da
-terra!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! melhor seria um principe!...
-</p>
-<p>
-&mdash;E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa familia, que lhe ronda
-muito a porta... E ella, ao que parece, não lhe faz má cara...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! n'esse caso é deixal-os lá arranjar a vida!
-</p>
-<p>
-&mdash;É melhor, é! Creio até que com elle será mais facil qualquer
-transacção...
-</p>
-<p>
-&mdash;Então não fallemos mais n'isto! Está acabado!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois não fallemos!
-</p>
-<p>
-Mas no dia seguinte voltaram á questão:
-</p>
-<p>
-&mdash;Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vinte!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vinte, não!
-</p>
-<p>
-&mdash;Por menos não me serve!
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu vinte não dou!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem ninguem o obriga... Adeuzinho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Até mais ver.
-</p>
-<p>
-Quando se encontraram de novo, João Romão rio-se para o outro, sem
-dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não quer
-intrometter-se com o que não é da sua conta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é o diabo!... faceteou aquelle, dando-lhe no hombro uma palmada
-amigavel, Então não ha meio de chegarmos a um accordo?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Vinte!
-</p>
-<p>
-&mdash;E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...?
-</p>
-<p>
-&mdash;Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do Barão um
-chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; acceita o convite, vae,
-e encontrará o terreno preparado.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro
-vintens!
-</p>
-<p>
-O Botelho não faltou ao promettido: dias depois do contracto sellado e
-assignado, João Romão recebeu uma carta do visinho, solicitando-lhe a
-fineza de ir jantar com elle mais a familia.
-</p>
-<p>
-Ah! que revolução não se ferio no espirito do vendeiro! passou dias a
-estudar aquella visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando
-sósinho defronte do espelho do seu lavatorio; afinal, no dia marcado,
-banhou-se em varias agoas, areiou os dentes até fazel-os bem limpos,
-perfumou-se todo dos pés á cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou e
-burnio as unhas, vestio-se de roupa nova em folha, e ás quatro e meia
-da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e
-pretencioso salão de S. Ex.ª.
-</p>
-<p>
-Aos primeiros passos que déra sobre o tapete, onde seus grandes pés,
-affeitos por toda vida á independencia do chinello e do tamanco, se
-destacavam como um par de tartarugas, sentio logo o suor dos grandes
-apuros innundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo
-pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer n'aquelle instante
-uma legoa de carreira ao sol. As suas mãos, vermelhas e redondas,
-gottejavam, e elle não sabia o que fazer d'ellas, depois que o Barão,
-muito solicito, lhe tomou o chapéo e o guarda-chuva.
-</p>
-<p>
-Arrependia-se já de ter lá ido.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor venha
-antes aqui para a janella. Não faça cerimonia! Ó Leonor! trago
-vermouth! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja?
-</p>
-<p>
-João Romão acceitava tudo, com sorrisos de acanhamento, sem animo de
-arriscar palavra. A cerveja fel-o suar ainda mais e, quando appareceram
-na sala Dona Estella e a filha, o pobre diabo chegava a causar dó de
-tão atrapalhado que se via. Por duas vezes escorregou, e n'uma d'ellas
-foi apoiar-se a uma cadeira que tinha rodizios; a cadeira afastou-se e
-elle quasi vai ao chão.
-</p>
-<p>
-Zulmira rio-se, mas disfarçou logo a sua hilaridade pondo-se a
-conversar com a mãe em voz baixa. Agora, refeita nos seus desesete
-annos, não parecia tão anemica e deslavada; vieram-lhe os seios e
-engrossára-lhe o quadril. Estava melhor assim. Dona Estella, coitada!
-é que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a
-despeito da resistencia com que se rendia; tinha já dois dentes
-postiços, pintava o cabello, e dos cantos da bocca duas rugas
-serpenteavam-lhe pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça
-maliciosa dos labios; ainda assim, porém, conservava o pescoço branco,
-liso e grosso, e os seus braços não desmereciam dos antigos creditos.
-</p>
-<p>
-Á meza, a visita comeu tão pouco e tão pouco bebeu, que os donos da
-casa a censuraram jovialmente, fingindo acceitar o facto como prova
-segura de que o jantar não prestava; o obsequiado pedia por amor de
-Deus que não acreditassem em tal e jurava sob palavra de honra que se
-sentia satisfeito e que nunca outra comida lhe soubéra tão bem.
-Botelho lá estava, ao lado de um velhote fazendeiro, que por essa
-occasião hospedava-se com o Miranda. Henrique, approvado no seu
-primeiro anno de medicina, fôra visitar a familia em Minas. Isaura e
-Leonor serviam aos commensaes, rindo ambas á socapa por verem ali o
-João da venda engravatado e com piegas de visita.
-</p>
-<p>
-Depois do jantar appareceu uma familia conhecida, trazendo um rancho de
-moças; vieram tambem alguns rapazes; formaram-se jogos de prendas, e
-João Romão, pela primeira vez em sua vida, vio-se mettido em taes
-funduras. Não se sahio mal todavia.
-</p>
-<p>
-O chá das dez e meia correu sem novidade; e, quando emfim o neophyto se
-pilhou na rua, respirou com independencia, remexendo o pescoço dentro
-do collarinho engommado e soprando com allivio. Uma alegria de Victoria
-transbordava-lhe do coração e fazia-o feliz n'esse momento. Bebeu o ar
-fresco da noite com uma volupia nova para elle e, muito satisfeito
-comsigo mesmo, entrou em casa e recolheu-se, rejubilando com a idéa de
-que ia descalçar aquellas botas, desfazer-se de toda aquella roupa e
-atirar-se á cama, para pensar mais á vontade no seu futuro, cujos
-horizontes se rasgavam agora illuminados de esperança.
-</p>
-<p>
-Mas a bolha do seu desvanecimento engelhou logo á vista de Bertoleza
-que, estendida na cama, roncava, de papo para o ar, com a boca aberta, a
-camisa soerguida sobre o ventre, deixando ver o negrume das pernas
-gordas e lustrosas.
-</p>
-<p>
-E tinha de estirar-se ali, ao lado d'aquella preta fedorenta a cozinha e
-bodum de peixe! Pois, tão cheiroso e radiante como se sentia, havia de
-pôr a cabeça n'aquelle mesmo travesseiro sujo em que se enterrava a
-hedionda carapinha da crioula?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai! ai! gemeu o vendeiro, resignando-se.
-</p>
-<p>
-E despio-se.
-</p>
-<p>
-Uma vez deitado, sem animo de afastar-se da beira da cama, para não se
-encostar com a amiga, surgio-lhe nitida ao espirito a comprehensão do
-estorvo que o diabo d'aquella negra seria para o seu casamento.
-</p>
-<p>
-E elle que até ahi não pensara n'isso!... Ora o demo!
-</p>
-<p>
-Não poude dormir; pôz-se a malucar:
-</p>
-<p>
-Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas que a Bruxa déra
-á Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentio gravida! Mas, afinal,
-de que modo se veria livre d'aquelle trambolho? E não se ter lembrado
-d'isso ha mais tempo!... parecia incrivel!
-</p>
-<p>
-João Romão, com effeito, tão ligado vivêra com a crioula e tanto se
-habituara a vel-a ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição,
-pensou em tudo, menos n'ella.
-</p>
-<p>
-E agora?
-</p>
-<p>
-E malucou no caso até ás duas da madrugada, sem achar furo. Só no dia
-seguinte, ao contemplal-a de cocaras á porta da venda, abrindo e
-destripando peixe, foi que, por associação de idéas, lhe acudio esta
-hypothese:
-</p>
-<p>
-&mdash;E se ella morresse?...
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIV">XIV</a></h4>
-
-<p>
-Iam-se assim os dias, e assim mais de tres mezes se passaram depois da
-noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a bahiana na rua
-de São João Baptista, mas a mulata, já não era a mesma para elle;
-apresentava-se fria, distrahida, ás vezes impertinente, puxando
-questão por dá cá aquella palha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hun! hun! temos mouro na costa! rosnava o capadocio com ciumes. Ora
-queira Deus que eu me engane!
-</p>
-<p>
-Nas entrevistas apresentava-se ella agora sempre um pouco depois da hora
-marcada, e a sua primeira phrase era para dizer que tinha pressa e não
-podia demorar-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou muita apertada de serviço! accrescentava á replica do amante.
-Uma roupa de uma familia que embarca amanhã para o norte! Tem de ficar
-prompta esta noite!
-</p>
-<p>
-Já hontem fiz serão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora estás sempre apertada de serviço!... resmungava o Firmo.
-</p>
-<p>
-&mdash;É que é preciso puxar por elle, filho! Ponha-me eu a dormir e quero
-ver do que como e com que pago a casa! Não ha de ser com o que levo
-daqui!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora essa! Tens coragem de dizer que não te dou nada? E quem foi que
-te deu esse vestido que tens no corpo?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não disse que nunca me désse nada, mas com o que você me dá não
-pago a casa e não ponho a panella no fogo! Tambem não lhe estou
-pedindo coisa alguma! Oh!
-</p>
-<p>
-Azedavam-se d'este modo as suas entrevistas, esfriando as poucas horas
-que os dois tinham para o amor. Um domingo, Firmo esperou bastante tempo
-e Rita não appareceu. O quarto era acanhado e sombrio, sem janellas,
-com um cheiro máo de bafio e humidade. Elle havia levado um embrulho de
-peixe frito, pão e vinho, para almoçarem juntos. Deu meio dia e Firmo
-esperou ainda, passeiando na estreiteza da miseravel alcova, como uma
-onça enjaulada, rosnando pragas obscenas; o sobrolho intumescido, os
-dentes cerrados. «Se aquella safada lhe apparecesse n'aquelle momento,
-elle seria capaz de torcel-a nas mãos!»
-</p>
-<p>
-Á vista do embrulho da comida estoirou-lhe a raiva. Deu um pontapé
-n'uma bacia de louça que havia no chão, perto da cama, e soltou um
-murro na cabeça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Diabo!
-</p>
-<p>
-Depois assentou-se no leito, esperou ainda algum tempo, fungando forte,
-sacudindo as pernas crusadas, e afinal sahio, atirando para dentro do
-quarto uma palavra porca.
-</p>
-<p>
-Pela rua, durante o caminho, jurava que «aquella caro pagaria a
-mulata!» Um sofrejo desejo de castigal-a, no mesmo instante, o attrahia
-ao cortiço de São Romão, mas não se sentio com animo de lá ir, e
-contentou-se em rondar a estalagem. Não conseguio vel-a; resolveu
-esperar até á noite para lhe mandar um recado. E vagou aborrecido pelo
-bairro, arrastando o seu desgosto por aquelle domingo sem pagode. Ás
-duas horas da tarde entrou no botequim do Garnizé, uma espelunca, perto
-da praia, onde elle costumava beber de sucia com o Porfiro. O amigo não
-estava lá. Firmo atirou-se n'uma cadeira, pedio um martello de paraty
-e accendeu um charuto, a pensar. Um mulatinho, morador no Cabeça de
-Gato, veio assentar-se na mesma meza e, sem rodeios, deu-lhe a noticia
-de que na vespera o Jeronymo tivera baixa no hospital.
-</p>
-<p>
-Firmo acordou com um sobresalto.
-</p>
-<p>
-&mdash;O Jeronymo?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Apresentou-se hoje pela manhã na estalagem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como soubeste?
-</p>
-<p>
-&mdash;Disse-me o Pataca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora ahi está o que é! exclamou o capoeira, soltando um murro na
-meza.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é o que? interrogou o outro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada! É cá comigo. Toma alguma coisa?
-</p>
-<p>
-Veio novo copo, e Firmo resmungou no fim de uma pausa:
-</p>
-<p>
-&mdash;É! não ha duvida! Por isto é que a perua ultimamente me anda de
-vento mudado!...
-</p>
-<p>
-E um ciume doido, um desespero feroz rebentou-lhe por dentro e cresceu
-logo como a sede de um ferido. «Oh! precisava vingar-se d'ella! d'ella
-e d'elle! O amaldiçoado resistio á primeira, mas não lhe escaparia da
-segunda!»
-</p>
-<p>
-&mdash;Veja mais um martello de paraty! gritou para o portuguezinho da
-espelunca. E acrescentou, batendo com toda a força o seu petropolis no
-chão:&mdash;E não passa de hoje mesmo!
-</p>
-<p>
-Com o chapéo á ré, a gaforina mais assanhada que de costume, os olhos
-vermelhos, a boca espumando pelos cantos, todo elle respirava uma febre
-de vingança e de odio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha! disse ao companheiro de meza. D'isto, nem pio lá com os
-carapicús! Se abrires o bico dou-te cabo da pelle! Já me conheces!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho nada que fallar! Pr'a que?
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom!
-</p>
-<p>
-E ficaram ainda a beber.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, com effeito, tivera alta e tornára aquelle domingo ao
-cortiço, pela primeira vez depois da doença. Vinha magro, pallido,
-desfigurado, apoiando-se a um pedaço de bambú. Crescêra-lhe a barba e
-o cabello, que elle não queria cortar sem ter cumprido certo juramento
-feito aos seus brios. A mulher fôra buscal-o ao hospital e caminhava ao
-seu lado, igualmente abatida com a molestia do marido e com as causas
-que a determinaram. Os companheiros receberam-no compungidos, tomados de
-uma tristeza respeitosa; um silencio fez-se em torno do convalescente;
-ninguem fallava senão a meia voz; a Rita Bahiana tinha os olhos
-arrazados d'agoa.
-</p>
-<p>
-Piedade levou o seu homem para o quarto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Queres tomar um caldinho? perguntou-lhe. Creio que ainda não estás
-de todo prompto...
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou! contrapôz elle. Diz o doutor que preciso é de andar, para ir
-chamando força ás pernas. Tambem estive tanto tempo preso á cama! Só
-de uma semana p'ra cá é que encostei os pés no chão!
-</p>
-<p>
-Deu alguns passos na sua pequena sala e disse depois, tornando junto da
-mulher:&mdash;O que me saberia bem agora era uma chicrinha de café, mas
-queria-o bom como o faz a Rita... Olha! pede-lhe que o arranje.
-</p>
-<p>
-Piedade soltou um suspiro e sahio vagarosamente, para ir pedir o
-obsequio á mulata. Aquella preferencia pelo café da outra doía-lhe
-duro que nem uma infidelidade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Lá o meu homem quer do seu café e torce o nariz ao de casa... Manda
-pedir-lhe que lhe faça uma chicara. Pode ser? perguntou a portugueza á
-bahiana.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não custa nada! respondeu esta. Com poucas está lá!
-</p>
-<p>
-Mas não foi preciso que o levasse, porque d'ahi a um instante,
-Jeronymo, com o seu ar tranquillo e passivo de quem ainda se não refez
-de todo depois de uma longa molestia, surgio-lhe á porta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o
-cafézinho aqui mesmo...
-</p>
-<p>
-&mdash;Entra, seu Jeronymo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui elle sabe melhor...
-</p>
-<p>
-&mdash;Você pega já com partes! Olha, sua mulher, anda de pé atraz comigo!
-E eu não quero historias!...
-</p>
-<p>
-Jeronymo sacudio os hombros com desdem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitada!... resmungou depois. Muito boa creatura, mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizencia! E mesmo
-vicio de Portugal: comendo e dizendo mal!
-</p>
-<p>
-O portuguez sorveu com delicia um gole de café.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não digo mal, mas confesso que não encontro n'ella umas tantas
-coisas que desejava...
-</p>
-<p>
-E chupou os bigodes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vocês são tudo a mesma sucia! Bem tola é quem vai atraz de labia de
-homem! Eu cá não quero mais saber d'isso... Ao outro despachei já!
-</p>
-<p>
-O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Outro quem? O Firmo?
-</p>
-<p>
-Rita arrependeu-se do que disséra, e gaguejou:
-</p>
-<p>
-&mdash;É um coisa ruim! Não quero saber mais d'elle!... Um traste!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui? Qual! N'essa não cáe! E se vier não lhe abro a porta! Ah!
-quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é verdade, Rita?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que? Que não quero saber mais d'elle? Esta que aqui está nunca mais
-fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle fez-lhe alguma?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei! não quero! acabou-se!
-</p>
-<p>
-&mdash;E que então você tem outro agora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque, Rita?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! não paga a pena!
-</p>
-<p>
-&mdash;E ... se você encontrasse um ... que a quizesse devéras ... para
-sempre?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é com essas!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois diga-lhe que outro officio!
-</p>
-<p>
-Ella se chegou para recolhera chicara, e elle apalpou-lhe a cintura.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha! Escuta!
-</p>
-<p>
-Rita fugio com uma rabanada, e disse rapido, muito a serio:
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa d'isso. Póde tua mulher ver!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem cá!
-</p>
-<p>
-&mdash;Logo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quando?
-</p>
-<p>
-&mdash;Logo mais.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei.
-</p>
-<p>
-&mdash;Preciso muito te fallar...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois sim, mas aqui fica feio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde nos encontramos então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Sei cá!
-</p>
-<p>
-E, vendo que Piedade entrava, ella disfarçou, dizendo sem transição:
-</p>
-<p>
-&mdash;Os banhos frios é que são bons para isso! Põem duro o corpo!
-</p>
-<p>
-A outra, embesourada, atravessou em silencio a pequena sala, foi ter com
-o marido e communicou-lhe que o Zé Carlos queria fallar-lhe, junto com
-o Pataca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ali! fez Jeronymo. Já sei o que é. Até logo, nhá Rita. Obrigado.
-Quando quizer qualquer coisa de nós, lá estamos.
-</p>
-<p>
-Ao sahir no pateo aquelles dois vieram ao seu encontro. O cavouqueiro
-levou-os para a casa, onde a mulher havia posto já a meza do almoço, e
-com um signal prevenio-os de que não fallassem por emquanto sobre o
-assumpto que os trouxera ali. Jeronymo comeu ás pressas e convidou as
-visitas a darem um giro lá fóra.
-</p>
-<p>
-Na rua, perguntou-lhes em tom mysterioso:
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde poderemos fallar á vontade?
-</p>
-<p>
-O Pataca lembrou a venda do Manoel Pépé, defronte do cemiterio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem achado! confirmou Zé Carlos. Ha lá bons fundos para se
-conversar.
-</p>
-<p>
-E os tres puzeram-se a caminho, sem trocar mais palavra até á esquina.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquelle ultimo.
-</p>
-<p>
-&mdash;De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;E o que é que se faz?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é
-encontrado á noite.
-</p>
-<p>
-&mdash;No Garnizé, affirmou o Pataca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Garnizé?
-</p>
-<p>
-&mdash;Aquelle botequim ali ao entrar da rua da Passagem, onde está um
-gallo á taboleta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Defronte da pharmacia nova...
-</p>
-<p>
-&mdash;Justo! Elle vai lá agora todas as noites, e lá esteve hontem, que o
-vi, por signal que n'um gole...
-</p>
-<p>
-Muito bebedo, hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Como uma gambá! Aquillo foi alguma, que a Rita Bahiana lhe pregou de
-fresco!
-</p>
-<p>
-Tinham chegado á venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se sobre
-caixas de sabão vazias, em volta de uma meza de pinho. Pediram paraty
-com assucar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde é que elles se encontravam?... informou-se Jeronymo, affectando
-que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no São
-Romão?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem? A Rita mais elle? Ora o que! Pois se elle agora é todo Cabeça
-de Gato!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella ia lá?
-</p>
-<p>
-&mdash;Duvido! Então logo aquella! Aquella é carapicú até o sabugo das
-unhas!
-</p>
-<p>
-&mdash;Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que continuou
-a fallar a respeito da mulata; emquanto Jeronymo o escutava abstracto,
-sem tirar os olhos de um ponto.
-</p>
-<p>
-O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, disse-lhe
-emborcando o resto do copo:
-</p>
-<p>
-&mdash;Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!..
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda estou muito fraco ... observou lastimoso o convalescente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas o teu páo está forte! E alem disso cá estamos nós dois. Tu
-podes até ficar em casa, se quizeres...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é que não! atalhou aquelle. Não dou o meu quinhão pelos
-dentes da boca!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu cá tambem vou que o melhor seria pespegar-lhe hoje mesmo a
-sova ... declarou o outro. Pão de um dia pr'a outro fica duro!
-</p>
-<p>
-&mdash;E eu estou-lhe com uma gana!... accrescentou o Pataca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois seja hoje mesmo! resolveu Jeronymo. E o dinheiro lá está em
-casa, quarenta pr'a cada um! Em seguida á méla corre logo o cobre! E
-ao depois vai a gente tomar uma fartadela de vinho fino!
-</p>
-<p>
-&mdash;A que horas nos juntamos? perguntou Zé Carlos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Logo ao cahir da noite, aqui mesmo. Está dito?
-</p>
-<p>
-&mdash;E será feito, se Deus quizer!
-</p>
-<p>
-O Pataca accendeu o cachimbo, e os tres puzeram-se a cavaquear
-animadamente sobre o effeito que aquella sova havia de produzir; a cara
-que o cabra faria entre tres bons cacetes. «Então é que queriam ver
-até onde ia a imposturia da navalha! Diabo de um colhordas que, por
-um&mdash;vai tu, irei eu&mdash;arrancava logo pelo ferro!...»
-</p>
-<p>
-Dois trabalhadores, em camisa de meia, entraram na tasca e o grupo
-calou-se. Jeronymo fogueou um cigarro no cachimbo do Pataca e
-despedio-se, relembrando aos companheiros a hora da entrevista e
-atirando sobre a meza um nikel de duzentos reis.
-</p>
-<p>
-Foi direito para o cortiço.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fazes mal em andar por ahi com este sol!... reprehendeu Piedade, ao
-vel-o entrar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois se o doutor me disse que andasse quanto pudesse...
-</p>
-<p>
-Mas recolheu-se á casa, estirou-se na cama e ferrou logo no somno. A
-mulher, que o acompanhara até lá, assim que o vio dormindo, enxotou as
-moscas de junto d'elle, cobrio-lhe a cara com uma cambraia que servia
-para os taboleiros de roupa engommada, e sahio na ponta dos pés,
-deixando a porta encostada.
-</p>
-<p>
-Jantara d'ahi a duas horas, Jeronymo comeu com appetite, bebeu uma
-garrafa de vinho, e a tarde passaram-na os dois de palestra, assentados
-á frente de casa, formando grupo com a Rita e a gente da Machona. Em
-torno d'elles a liberdade feliz do domingo punha alegrias naquella
-tarde. Mulheres amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar livre, mostrando
-a uberdade das tetas cheias. Havia muito riso, muito parolar de
-papagaios; pequenos travessavam, tão depressa rindo como chorando; os
-italianos faziam a ruidosa digestão dos seus jantares de festa;
-ouviam-se cantigas e pragas entre gargalhadas. A Augusta, que estava
-gravida de sete mezes, passeava solemnemente o seu bandulho, levando um
-outro filho ao collo. O Albino, installado defronte de uma mezinha em
-frente á sua porta, fazia, á força de paciencia, um quadro, composto
-de figurinhas de caixa de phosphoros, recortadas a tesoura e grudadas em
-papelão com gomma arabica. E lá em cima, numa das janellas do Miranda,
-João Romão, vestido de casimira clara, uma gravata á moda, já
-familiarisado com a roupa e com a gente fina, conversava com Zulmira
-que, ao lado d'elle, sorrindo de olhos baixos, atirava migalhas de pão
-para as gallinhas do cortiço; ao passo que o vendeiro lançava para
-baixo olhares de desprezo sobre aquella gentalha sensual, que o
-enriquecêra, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol,
-sem outro ideal senão comer, dormir e procrear.
-</p>
-<p>
-Ao cahir da noite, Jeronymo foi, como ficára combinado, á venda do
-Pépé. Os outros dois já lá estavam. Infelizmente havia mais alguem
-na tasca. Tomaram juntos, pelo mesmo copo, um martello de paraty e
-conversaram em voz surda n'uma conspiração sombria em que as suas
-barbas roçavam umas com as outras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Os páos onde estão?... perguntou o cavouqueiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ali, junto ás pipas ... segredou o Pataca, apontando com disfarce
-para uma esteira velha enrolada. Preparei-os ainda ha pouco... Não os
-quiz muito grandes... D'este tamanho.
-</p>
-<p>
-E abrio a mão contra a terra no logar do peito.&mdash;Estiveram de molho
-até agora ... acrescentou, piscando o olho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom! approvou Jeronymo, esgotando o copo com um ultimo gole. Agora
-onde vamos nós? Parece-me ainda cedo para o Garnizé.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda! confirmou o Pataca. Deixemo-nos ficar por aqui mais um pouco
-e ao depois então seguiremos. Eu entro no botequim e vocês me esperam
-fóra no logar que marcarmos... Se o cabra não estiver lá, volto logo
-a dizer-lhes, e, caso esteja, fico ... chego-me para elle, procuro
-entrar em conversa, puxo discussão e afinal desafio-o pr'a rua; elle
-cáe na esparrella, e então vocês dois surgem e mettem-se na dansa,
-como quem não quer a coisa! Que acham?
-</p>
-<p>
-&mdash;Perfeito! applaudio Jeronymo, e gritou para dentro.&mdash;Olha mais
-um martello de paraty!
-</p>
-<p>
-Em seguida enterrou a mão no bolso da calça e saccou um rôlo grosso
-de notas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Podem enxugar á vontade! disse. Aqui ainda ha muito com que!
-</p>
-<p>
-E, ordenando as notas, separou oitenta mil reis, em cedulas de vinte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto é o do ajuste! Este é sagrado! acrescentou, guardando-as na
-algibeira do lado esquerdo.
-</p>
-<p>
-Depois separou ainda vinte mil reis, que atirou sobre a meza.
-</p>
-<p>
-&mdash;Esse ahi é para festejarmos a nossa victoria!
-</p>
-<p>
-E fazendo do resto do seu dinheiro um bolo, que elle, um pouco ebrio,
-apertava nos dedos, agora claros e quasi descalejados, socou-o na
-algibeira do lado direito, explicando entre dentes que ali ficava ainda
-bastante para o que désse e viesse, no caso de algum contratempo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bravo! exclamou Zé Carlos. Isto é o que se chama fazer as coisas á
-fidalga! Haja contar comigo pr'a vida e pr'a morte!
-</p>
-<p>
-O Pataca entendia que podiam tomar agora um pouco de cerveja.
-</p>
-<p>
-&mdash;Cá por mim não quero, mas bebam-na vocês, acudio Jeronymo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Preferia um trago de vinho branco, contraveio o terceiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tudo o que quizerem! franqueou aquelle. Eu tomo tambem um pouco de
-vinho. Não! que o que estamos a beber não é dinheiro de navalhistas,
-foi ganho ao sol e á chuva com o suor do meu rosto! E entornar pr'a
-baixo sem caretas, que este não pesa na consciencia de ninguem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Então, á sua! brindou Zé Carlos, logo que veio o novo reforço.
-Pr'a que não torne você a dar que fazer á má casta dos boticarios!
-</p>
-<p>
-&mdash;Á sua, mestre Jeronymo! concorreu o outro. Jeronymo agradeceu e
-disse, depois de mandar encher os copos:
-</p>
-<p>
-&mdash;Aos amigos e patricios com quem me achei para o meu desforço!
-</p>
-<p>
-E bebeu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Á da Sóra Piedade de Jesus! reclamou o Pataca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Obrigado! respondeu o cavouqueiro, erguendo-se. Bem! Não nos
-deixemos agora ficar aqui toda a noite; mãos á obra! São quasi oito horas.
-</p>
-<p>
-Os outros dois esvaziaram de um trago o que ainda havia no fundo dos
-copos e levantaram-se tambem.
-</p>
-<p>
-&mdash;É muito cedo ainda ... obtemperou Zé Carlos, cuspindo de esguelha e
-limpando o bigode nas costas da mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas talvez tenhamos alguma demora pelo caminho, advertio o
-companheiro, indo buscar junto ás pipas o embrulho dos cacetes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Em todo o caso vamos seguindo, resolveu. Jeronymo, impaciente, nem
-se temesse que a noite lhe fugisse de subito.
-</p>
-<p>
-Pagou a despeza, e os tres sahiram, não cambaleando, mas como que
-empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar para
-frente alguns passos mais rapidos. Seguiram pela rua de Sorocaba e
-tomaram depois a direcção da praia, conversando em voz baixa, muito
-excitados. Só pararam perto do Garnizé.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca.
-</p>
-<p>
-Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos páos e afastando-se de
-mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se mais bebado do
-que realmente estava.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XV">XV</a></h4>
-
-<p>
-O Garnizé tinha bastante gente essa noite. Em volta de umas doze
-mezinhas toscas, de páo, com uma coberta de folha de Flandres pintada
-de branco fingindo marmore, viam-se grupos de tres e quatro homens,
-quasi todos em mangas de camisa, fumando e bebendo no meio de grande
-algazarra. Fazia-se largo consumo de cerveja nacional, vinho virgem,
-paraty e laranginha. No chão coberto de areia havia cascas de queijo de
-Minas, restos de iscas de figado, espinhas de peixe, dando idéa de que
-ali não só se enxugava como tambem se comia. Com effeito, mais para
-dentro, n'um engordurado bufete, junto ao balcão e entre as prateleiras
-de garrafas cheias e arrolhadas, estava um travessão de assado com
-batatas, um osso de presunto e varios pratos de sardinhas fritas. Dois
-candieiros de kerozene fumegavam, encarvoando o tecto. E de uma porta ao
-fundo, que escondia o interior da casa com uma cortina de chita
-vermelha, vinha de vez em quando uma baforada de vozes roucas, que
-parecia morrer em caminho, vencida por aquella densa atmosphera cor de
-opala.
-</p>
-<p>
-O Pataca estacou á entrada, affectando grande bebedeira e procurando
-com disfarce, em todos os grupos, ver se descobria o Firmo. Não o
-conseguio; mas alguem, em certa meza, lhe chamára a attenção, porque
-elle se dirigio para lá. Era uma mulatinha magra, mal vestida,
-acompanhada por uma velha quasi cega e mais um homem, inteiramente
-calvo, que soffria de asthma e, de quando em quando, abalava a meza com
-um frouxo de tosse, fazendo dansar os copos.
-</p>
-<p>
-O Pataca bateu no hombro da rapariga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como vais tu, Florinda?
-</p>
-<p>
-Ella olhou para elle, rindo; disse que ia bem, e perguntou-lhe como
-passava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Róla-se, filha. Tu que fim levaste? Ha um par de quinze dias que te
-não vejo!
-</p>
-<p>
-&mdash;É mesmo. Desde que estou com seu Bento não tenho sahido quasi.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! disse o Pataca, estas amigada? Bom!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Sempre estive!
-</p>
-<p>
-E ella então, muito expansiva com a sua folga d'aquelle domingo e com o
-seu bocado de cerveja, contou que, no dia em que fugio da estalagem,
-ficou na rua e dormio n'umas obras de uma casa em construcção na
-travessa da Passagem, e que no seguinte, offerecendo-se de porta em
-porta, para alugar-se de criada ou de ama secca, encontrou um velho
-solteiro e agebado que a tomou ao seu serviço e metteu-se com ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom! muito bom! annuio Pataca.
-</p>
-<p>
-Mas o diabo do velho era um safado; dava-lhe muita coisa, dinheiro até,
-trazia-a sempre limpa e de barriga cheia; sim senhor! mas queria que
-ella se prestasse a tudo! Brigaram. E, como o vendeiro da esquina estava
-sempre a chamal-a para casa, um bello dia arribou, levando o que
-apanhára ao velho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Estás então agora com o da venda?
-</p>
-<p>
-Não! O tratante, a pretexto de que desconfiava d'ella com o Bento
-marceneiro, pôl-a na rua, chamando a si o que a pobre de Christo
-trouxéra da casa do outro e deixando-a só com a roupa do corpo e ainda
-por cima doente por causa de um aborto que tivera logo que se mettêra
-com semelhante peste. O Bento tomára-a então á sua conta, e ella,
-graças a Deus, por em quanto não tinha razões de queixa.
-</p>
-<p>
-O Pataca olhou em torno de si com o ar de quem procura alguem, e
-Florinda, suppondo que se tratava do seu homem, accrescentou:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não está cá, está lá dentro. Elle, quando joga, não gosta que eu
-fique perto; diz que encabula.
-</p>
-<p>
-&mdash;E tua mãe?
-</p>
-<p>
-&mdash;Coitada! foi pr'o hospicio...
-</p>
-<p>
-E passou logo a fallar a respeito da velha Marcianna; o Pataca, porém,
-já lhe não prestava attenção, porque n'esse momento acabava de
-abrir-se a cortina vermelha, e Firmo surgia muito ebrio, a dar bordos,
-contando, sem conseguir, uma massagada de dinheiro, em notas pequenas,
-que elle afinal entrouxou n'um bolo e recolheu na algibeira das calças.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó Porfiro! não vens? gritou lá para dentro, arrastando a voz.
-</p>
-<p>
-E, depois de esperar inutilmente pela resposta, fez alguns passos na
-sala.
-</p>
-<p>
-O Pataca deu á Florinda um «até logo» rapido e, fingindo-se de novo
-muito bebado, encaminhou-se na direcção em que vinha o mulato.
-</p>
-<p>
-Esbarraram-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Oh! Oh! exclamou o Pataca. Desculpe!
-</p>
-<p>
-Firmo levantou a cabeça e encarou-o com arrogancia; mas desfranzio o
-rosto logo que o reconheceu.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! és tu, seu gallego? Como vai isso? A ladroeira corre?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ladroeira tinha a avó na cuia! Anda a tomar alguma coisa. Queres?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que ha de ser?
-</p>
-<p>
-&mdash;Cerveja. Vai?
-</p>
-<p>
-&mdash;Vá lá.
-</p>
-<p>
-Chegaram-se para o balcão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Uma Guarda velha, ó pequeno! gritou o Pataca.
-</p>
-<p>
-Firmo puxou logo dinheiro para pagar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixa! disse o outro. A lembrança foi minha!
-</p>
-<p>
-Mas, como o Firmo insistisse, consentio-lhe que fizesse a despeza.
-</p>
-<p>
-E os nikeis do troco rolaram no chão, fugindo por entre os dedos do
-mulato, que os tinha duros na tensão muscular da sua embriaguez.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que horas são? perguntou Pataca, olhando quasi de olhos fechados o
-relogio da parede. Oito e meia. Vamos a outra garrafa, mas agora pago
-eu!
-</p>
-<p>
-Beberam de novo, e o coadjutor de Jeronymo, observou depois: Você hoje
-ferrou-a devéras! Estás que te não podes lamber!
-</p>
-<p>
-&mdash;Desgostos ... resmungou o capoeira, sem conseguir lançar da bocca a
-saliva que se lhe grudava á lingua.
-</p>
-<p>
-&mdash;Limpa o queixo que estás cuspido. Desgostos de que? Negocio de
-mulher, aposto!
-</p>
-<p>
-&mdash;A Rita não me appareceu hoje, sabes? Não foi, e eu bem calculo
-porque!
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque?
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque a peste do Jeronymo voltou hoje á estalagem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Não sabia!... A Rita está então com elle?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não está, nem nunca ha de estar, que eu d'aqui mesmo vou á procura
-d'aquelle gallego ordinario e ferro-lhe a sardinha no pandulho!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vieste armado?
-</p>
-<p>
-Firmo saccou da camisa uma navalha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Esconde! não deves mostrar isso aqui! Aquella gente ali da outra
-meza já não nos tira os olhos de cima!
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou me ninando pr'a elles! E que não olhem muito, que lhes dou uma
-de amostra!
-</p>
-<p>
-&mdash;Entrou um urbano! Passa-me a navalha!
-</p>
-<p>
-O capadocio fitou o companheiro, estranhando o pedido.
-</p>
-<p>
-&mdash;E que, explicou aquelle, se te prenderem não te encontram ferro...
-</p>
-<p>
-&mdash;Prender a quem? a mim? Ora, vai-te calar!
-</p>
-<p>
-&mdash;E ella é boa? Deixa ver!
-</p>
-<p>
-&mdash;Isto não é coisa que se deixe ver!
-</p>
-<p>
-&mdash;Bem sabes que não me entendo com armas de barbeiro!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei! Esta é que não me sae das unhas, nem para meu pai, que a
-pedisse!
-</p>
-<p>
-&mdash;É porque não tens confiança em mim!
-</p>
-<p>
-&mdash;Confio nos meus dentes, e esses mesmos me mordem a lingoa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sabes quem vi ainda ha pouco? Não és capaz de adivinhar!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem?
-</p>
-<p>
-&mdash;A Rita.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ali na praia da Saudade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com quem?
-</p>
-<p>
-&mdash;Com um typo que não conheço...
-</p>
-<p>
-Firmo levantou-se de improviso e cambaleou para o lado da sahida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera! rosnou o outro, detendo-o. Se queres vou comtigo; mas é
-preciso ir com geito, porque, se ella nos bispa, foge!
-</p>
-<p>
-O mulato não fez caso d'esta observação e sabio a esbarrar-se por
-todas as mezas. Pataca alcançou-o já na rua e passou-lhe o braço na
-cintura, amigavelmente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos de vagar... disse; senão o passaro se arisca!
-</p>
-<p>
-A praia estava deserta. Cahia um chuvisco. Ventos frios sopravam do mar.
-O ceu era um fundo negro, de uma só tinta; do lado opposto da bahia os
-lampeões pareciam surgir d'agoa, como algas de fogo, mergulhando bem
-fundo as suas tremulas raizes luminosas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde está ella? perguntou o Firmo, sem se aguentar nas pernas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ali mais adiante, perto da pedreira. Caminha, que has de ver!
-</p>
-<p>
-E continuaram a andar para as bandas do hospicio. Mas dois vultos
-surdiram da treva; o Pataca reconheceu-os e abraçou-se de improviso ao
-mulato.
-</p>
-<p>
-&mdash;Segurem-lhe as pernas! gritou para os outros.
-</p>
-<p>
-Os dois vultos, pondo o cacete entre os dentes, apoderaram-se de Firmo,
-que bracejava seguro pelo tronco.
-</p>
-<p>
-Deixára-se agarrar&mdash;estava perdido.
-</p>
-<p>
-Quando Pataca o vio preso pelos sovacos e pela dobra dos joelhos,
-sacou-lhe fóra a navalha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Prompto! Está desarmado!
-</p>
-<p>
-E tomou tambem o seu páo.
-</p>
-<p>
-Soltaram-no então. O capoeira, mal tocou com os pés em terra, desferio
-um golpe com a cabeça, ao mesmo tempo que a primeira cacetada lhe abria
-a nuca. Deu um grito e voltou-se cambaleando. Uma nova páulada
-cantou-lhe nos hombros, e outra em seguida nos rins, e outra nas coxas,
-outra mais violenta quebrou-lhe a clavicula, emquanto outra logo lhe
-rachava a testa e outra lhe apanhava a espinha, e outras, cada vez mais
-rapidas, batiam de novo nos pontos já espancados, até que se
-converteram n'uma carga continua de porretadas, a que o infeliz não
-resistio, rolando no chão, a gottejar sangue de todo o corpo.
-</p>
-<p>
-A chuva engrossava. Elle agora, assim, debaixo d'aquelle bate-bate sem
-tregoas, parecia muito menor, mingoava como se estivesse ao fogo.
-Lembrava um rato morrendo a páo. Um ligeiro tremor convulsivo era
-apenas o que ainda lhe denunciava um resto de vida. Os outros tres não
-diziam palavra, arfavam, a bater sempre, tomados de uma irresistivel
-vertigem de pizar bem a cacete aquella trouxa de carne molle e
-ensanguentada, que grunhia frouxamente a seus pés. Afinal, quando de
-todo já não tinham forças para bater ainda, arrastaram a trouxa até
-a ribanceira da praia e lançaram-na ao mar. Depois, arquejantes,
-deitaram a fugir, á tôa, para os lados da cidade.
-</p>
-<p>
-Chovia agora muito forte. Só pararam no Cattete, ao pé de um kiosque;
-estavam encharcados; pediram paraty e beberam como quem bebe agoa.
-Passava já de onze horas. Desceram pela praia da Lapa; ao chegarem
-debaixo de um lampeão, Jeronymo parou, suando apezar do agoaceiro que
-cahia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aqui têm vocês, disse, tirando do bolso as quatro notas de vinte mil
-reis. Duas para cada um! E agora vamos tomar qualquer coisa quente em
-logar secco.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ali ha um botequim, indicou o Pataca, apontando a rua da Gloria.
-</p>
-<p>
-Subiram por uma das escadinhas que ligam essa rua á praia, e d'ahi a
-pouco installavam-se em volta de uma meza de ferro. Pediram de comer e
-de beber e puzeram-se a conversar em voz soturna, muito cansados.
-</p>
-<p>
-A uma hora da madrugada o dono do café pôl-os fóra. Felizmente chovia
-menos. Os tres tomaram de novo a direcção de Botafogo; em caminho
-Jeronymo perguntou ao Pataca se ainda tinha comsigo a navalha do Firmo e
-pedio-lh'a, ao que o companheiro cedeu sem objecção.
-</p>
-<p>
-&mdash;É para conservar uma lembrança d'aquelle bisborria! explicou o
-cavouqueiro, guardando a arma.
-</p>
-<p>
-Separaram-se defronte da estalagem. Jeronymo entrou sem ruido; foi até
-á casa, espiou pelo buraco da fechadura; havia luz no quarto de dormir;
-comprehendeu que a mulher estava á sua espera, acordada talvez; pensou
-sentir, vindo lá de dentro, o bodum azedo que ella punha de si, fez uma
-careta de nojo e encaminhou-se resolutamente para a casa da mulata, em
-cuja porta bateu devagarinho.
-</p>
-<p>
-Rita, essa noite, recolhêra-se afflicta e assustada. Deixára de ir ter
-com o amante e mais tarde admirava-se como fizera semelhante
-imprudencia; como tivera coragem de pôr em pratica, justamente no
-momento mais perigoso, uma coisa que ella, até ahi, não se sentira com
-animo de praticar. No intimo respeitava o capoeira; tinha-lhe medo.
-Amára-o a principio por affinidade de temperamento, pela irresistivel
-connexão do instincto luxurioso e canalha que predominava em ambos,
-depois continuou a estar com elle por habito, por uma especie de vicio
-que amaldiçoamos sem poder largal-o; mas desde que Jeronymo propendeu
-para ella, fascinando-a com a sua tranquilla seriedade de animal bom e
-forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e
-Rita preferio no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo
-seu lado, cedendo ás imposições mesologicas, enfarava a esposa, sua
-congenere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, era a
-volupia, era o fructo doirado e acre d'estes sertões americanos, onde a
-alma de Jeronymo aprendeu lascivias de macaco e onde seu corpo porejou o
-cheiro sensual dos bodes.
-</p>
-<p>
-Amavam-se brutalmente, e ambos sabiam d'isso. Esse amor irracional e
-empirico carregára-se muito mais, de parte a parte, com o tragico
-incidente da lucta, em que o portuguez fôra victima. Jeronymo
-aureolou-se aos olhos d'ella com uma sympathia de martyr sacrificado á
-mulher que ama; cresceu com aquella navalhada; illuminou-se com o seu
-proprio sangue derramado; e, depois, a ausencia no hospital veio
-completar a crystallisação do seu prestigio, como se o cavouqueiro
-houvera baixado a uma sepultura, arrastando atraz de si a saudade dos
-que o choravam.
-</p>
-<p>
-Entretanto, o mesmo phenomeno se operava no espirito de Jeronymo com
-relação á Rita: arriscar espontaneamente a vida por alguem é aceitar
-um compromisso de ternura, em que empenhamos alma e coração; a mulher
-por quem fazemos tamanho sacrificio, seja ella quem fôr, assume de um
-só vôo em nossa phantasia ás proporções de um ideal. O desterrado,
-á primeira troca de olhares com a bahiana, amou-a logo, porque sentio
-n'ella o resumo de todos os quentes mysterios que o enleiaram
-voluptuosamente n'estas terras da luxuria; amou-a muito mais quando teve
-occasião de jogar a existencia por esse amor, e amou-a loucamente
-durante a triste e dolorosa solidão da enfermaria, em que os seus
-gemidos e suspiros eram todos para ella.
-</p>
-<p>
-A mulata bem que o comprehendeu, mas não teve animo de confessar-lhe
-que tambem morria de amores por elle; receiou prejudical-o. Agora, com
-aquella loucura de faltar á entrevista justamente no dia em que
-Jeronymo voltava á estalagem, a situação parecia-lhe muito
-melindrosa. Firmo, desesperado com a ausencia d'ella, embebedava-se
-naturalmente e vinha ao cortiço provocar o cavouqueiro; a briga
-rebentaria de novo, fatal para um dos dois, se é que não seria para
-ambos. Do que ella sentira pelo navalhista persistia agora apenas o
-medo, não como elle era d'antes, indeterminado e frouxo, mas ao
-contrario, sobresaltado, nervoso, cheio de apprehensões que a punham
-afflicta. Firmo já lhe não apparecia no espirito como um amante
-ciumento e perigoso, mas como um simples facinora, armado de uma velha
-navalha desleal e homicida. O seu medo transformava-se em uma mistura de
-asco e terror. E, sem achar só cego na cama, deixava-se atordoar pelos
-seus presentimentos, quando ouvio bater na porta.
-</p>
-<p>
-&mdash;É elle! disse, com o coração a saltar.
-</p>
-<p>
-E via já de fronte de si o Firmo, bebado, a reclamar o Jeronymo aos
-berros, para esfaqueal-o ali mesmo. Não respondeu ao primeiro chamado;
-ficou escutando.
-</p>
-<p>
-Depois de uma pausa bateram de novo.
-</p>
-<p>
-Ella estranhou o modo pelo qual batiam. Não era natural que o facinora
-procedesse com tanta prudencia. Ergueu-se, foi á janella, abrio uma das
-folhas e espreitou pelas rotulas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem está ahi?... perguntou á meia voz.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sou eu ... disse Jeronymo, chegando-se.
-</p>
-<p>
-Reconheceu-o logo e correu a abrir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Como?! É você, Jeromo?
-</p>
-<p>
-&mdash;Schit! fez elle, pondo o dedo na bocca. Falla baixo. Rita começou a
-tremer: no olhar do portuguez, nas suas mãos encardidas de sangue, no
-seu todo de homem ebrio, encharcado e sujo, havia uma terrivel
-expressão de crime.
-</p>
-<p>
-&mdash;D'onde vens tu?... segredou ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;De cuidar da nossa vida... Ahi tens a navalha com que fui ferido!
-</p>
-<p>
-E atirou-lhe sobre a meza a navalha de Firmo, que a mulata conhecia como
-as palmas da mão.
-</p>
-<p>
-&mdash;E elle?
-</p>
-<p>
-&mdash;Está morto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem o matou?
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu.
-</p>
-<p>
-Calaram-se ambos.
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora ... acrescentou o cavouqueiro, no fim de um silencio arquejado
-por ambos; estou disposto a tudo para ficar comtigo. Sahiremos os dois
-d'aqui para onde melhor fôr... Que dizes tu?
-</p>
-<p>
-&mdash;E tua mulher?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Deixo-lhe as minhas economias de muito tempo e continuarei a pagar o
-collegio á pequena. Sei que não devia abandonal-a, mas pódes ter como
-certo que, ainda que não queiras vir commigo, não ficarei com ella!
-Não sei! já não a posso supportar! Um homem enfára-se! Felizmente
-minha caixa de roupa está ainda na Ordem e posso ir buscal-a pela
-manhã.
-</p>
-<p>
-&mdash;E para onde iremos?
-</p>
-<p>
-&mdash;O que não falta é pr'onde ir! Em qualquer parte estaremos bem. Tenho
-aqui sobre mim uns quinhentos mil réis, para as primeiras despezas.
-Posso ficar cá até ás cinco horas; são duas e meia; saio sem ser
-visto por Piedade; mando-te ao depois dizer o que arranjei, e tu irás
-ter commigo... Está dito? Queres?
-</p>
-<p>
-Rita, em resposta, atirou-se ao pescoço d'elle e pendurou-se-lhe nos
-labios, devorando-o de beijos.
-</p>
-<p>
-Aquelle novo sacrificio do portuguez; aquella dedicação extrema que o
-levava a arremeçar para o lado familia, dignidade, futuro, tudo, tudo
-por ella, enthusiasmou-a loucamente. Depois dos sobresaltos d'esse dia e
-d'essa noite, seus nervos estavam afiados e toda ella electrica.
-</p>
-<p>
-Ah! não se tinha enganado! aquelle homemzarrão herculeo, de musculos
-de touro, era capaz de todas as meiguices do carinho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então? insistio-elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, sim, meu captiveiro! respondeu a bahiana, fallando-lhe na
-bocca; eu quero ir comtigo; quero ser a tua mulata, o bem do teu coração!
-Tu és os meus feitiços!
-</p>
-<p>
-E apalpando-lhe o corpo:&mdash;Mas como estás ensopado! Espera! espera! o
-que não falta aqui é roupa de homem pr'a mudar!... Podias ter uma
-recahida, cruzes! Tira tudo isso que está alagado! Eu vou accender o
-fogareiro e estende-se em cima o que é casimira, para te poderes vestir
-ás cinco horas. Tira as botas! Olha o chapéo como está! Tudo isto
-secca! Tudo isto secca! Mira, toma já um golle de paraty pr'atalhar a
-friage! Depois passa em todo o corpo. Eu vou fazer café!
-</p>
-<p>
-Jeronymo bebeu um bom trago de paraty, mudou de roupa e deitou-se na
-cama de Rita.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vem pr'a cá ... disse, um pouco rouco.
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera! espera! O café está quasi prompto!
-</p>
-<p>
-E ella só foi ter com elle, levando-lhe a chave na fumegante da
-perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores;
-assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires e
-com a outra a chicara, ajudava-o a beber, golle por golle, emquanto seus
-olhos o acarinhavam, scintillantes de impaciencia no antegoso d'aquelle
-primeiro enlace.
-</p>
-<p>
-Depois, atirou fóra a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu
-amado, n'um frenezi de desejo doido.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, ao sentil-a inteira nos seus braços; ao sentir na sua pelle a
-carne quente d'aquella brasileira; ao sentir innundar-lhe o rosto e as
-espaduas, n'um effluvio de baunilha e cumarú, a onda negra e fria da
-cabelleira da mulata: ao sentir esmagarem-se no seu largo e pelludo
-collo de cavouqueiro os dois globos tumidos e macios, e nas suas coxas
-as coxas d'ella; sua alma derreteu-se, fervendo e borbolhando como um
-metal ao fogo, e sahio-lhe pela bocca, pelos olhos, por todos os póros
-do corpo, escandescente, em braza, queimando-lhe as proprias carnes e
-arrancando-lhe gemidos surdos, soluços irrepremiveis, que lhe sacudiam
-os membros, fibra por fibra, n'uma agonia extrema, sobrenatural, uma
-agonia de anjos violentados por diabos, entre a vermelhidão cruenta das
-labaredas do inferno.
-</p>
-<p>
-E com um arranco de besta féra cahiram ambos prostados, arquejando.
-Ella tinha a bocca aberta, a lingoa fóra, os braços duros, os dedos
-inteiriçados, e o corpo todo a tremer-lhe da cabeça aos pés,
-continuamente, como se estivesse morrendo; ao passo que elle, de subito
-arremeçado longe da vida por aquella explosão inesperada dos seus
-sentidos, deixava-se mergulhar n'uma embriaguez deliciosa, atravez da
-qual o mundo inteiro e todo o seu passado fugiam como sombras fatuas. E,
-sem consciencia de nada que o cercava, nem memoria de si proprio, sem
-olhos, sem tino, sem ouvidos, apenas conservava em todo o seu ser uma
-impressão bem clara, viva, inextinguivel: o attrito d'aquella carne
-quente e palpitante, que elle em delirio apertou contra o corpo, e que
-elle ainda sentia latejar-lhe debaixo das mãos, e que elle continuava a
-comprimir machinalmente, como a criança que, já dormindo, affaga ainda
-as tetas em que matou ao mesmo tempo a fome e a sede com que veio ao
-mundo.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVI">XVI</a></h4>
-
-<p>
-A essas horas Piedade de Jesus ainda esperava pelo marido.
-</p>
-<p>
-Ouvíra, assentada impaciente á porta de sua casa, darem oito horas, oito
-e meia; nove, nove e meia. «Que teria acontecido, Mãe Santissima ... Pois
-o homem ainda não estava prompto de todo e punha-se ao fresco,
-mal engolira o jantar, para demorar-se d'aquelle modo?... Elle que nunca
-fôra capaz de semelhantes tonteiras!...»
-</p>
-<p>
-&mdash;Dez horas! Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!
-</p>
-<p>
-Foi até ao portão da estalagem, perguntou a conhecidos que passavam se
-tinham visto Jeronymo; ninguem dava noticias d'elle. Sahio, correu á
-esquina da rua; um silencio de cansaço bocejava n'aquelle resto de
-domingo; ás dez e meia recolheu-se sobresaltada, com o coração a
-sahir-lhe pela garganta, o ouvido alerta, para que ella acudisse ao
-primeiro toque na porta; deitou-se sem tirar a saia, nem apagar de todo
-o candieiro. A ceia frugal de leite fervido e queijo assado com assucar
-e manteiga ficou intacta sobre a meza.
-</p>
-<p>
-Não conseguio dormir: trabalhava-lhe a cabeça, afastando para longe o
-somno. Começou a imaginar perigos, rôlos, em que o seu homem recebia
-novas navalhadas; Firmo figurava em todas as scenas do delirio; em todas
-ellas havia sangue. Afinal, quando, depois de muito virar de um para
-outro lado do colchão, a infeliz ia cahindo em modorra, o mais leve
-rumor lá fóra a fazia erguer-se de pulo e correr á rotula da janella.
-Mais não era o cavouqueiro, da primeira, nem da segunda, nem de nenhuma
-das vezes.
-</p>
-<p>
-Quando principiou a chover, Piedade ficou ainda mais afflicta; na sua
-sobre excitação afigurava-se-lhe agora que o marido estava sobre as
-agoas do mar, embarcado, entregue unicamente á protecção da Virgem,
-em meio de um temporal medonho. Ajoelhou-se defronte do oratorio e rezou
-com a voz emmaranhada por uma agonia suffocadora. A cada trovão
-redobrava o seu sobresalto. E ella, de joelhos, os olhos fitos na imagem
-de Nossa Senhora, sem consciencia do tempo que corria, arfava
-soluçando. De repente, ergueu-se, muito admirada de se ver sozinha,
-como se só n'aquelle instante déra pela falta do marido a seu lado.
-Olhou em torno de si, espavorida, com vontade de chorar, de pedir
-soccorro; as sombras espichadas em volta do candieiro, tracejando
-tremulas pelas paredes e pelo tecto, pareciam querer dizer-lhe alguma
-coisa mysteriosa. Um par de calças, dependurado á porta do quarto, com
-um paletó e um chapéo por cima, representou-lhe de relance o vulto de
-um enforcado, a mexer com as pernas. Benzeu-se. Quiz saber que horas
-eram e não poude; afigurava-se-lhe terem decorrido já tres dias pelo
-menos durante aquella afflicção. Calculou que não tardaria a
-amanhecer, se é que ainda amanheceria; se é que aquella noite infernal
-não se fosse prolongando infinitamente, sem nunca mais apparecer o sol!
-Bebeu um copo d'agoa, bem cheio, apezar de haver pouco antes tomado
-outro, e ficou immovel, de ouvido attento, na espectativa de escutar as
-horas de algum relogio da visinhança.
-</p>
-<p>
-A chuva diminuíra e os ventos principiavam a soprar com desespero. Lá
-de fóra a noite dizia-lhe segredos pelo buraco da fechadura e pelas
-frinchas do telhado e das portas; a cada assobio a misera julgava ver
-surgir um espectro que vinha contar-lhe a morte de Jeronymo. O desejo
-impaciente de saber que horas eram punha-a doida; foi á janella,
-abrio-a; uma rajada humida entrou na sala, esfuziando, e apagou a luz.
-Piedade soltou um grito e começou a procurar a caixa de phosphoros, aos
-esbarrões, sem conseguir reconhecer os objectos que tacteava. Esteve a
-perder os sentidos; afinal achou os phosphoros, accendeu de novo o
-candieiro e fechou a janella. Entrára-lhe um pouco de chuva em casa;
-sentio a roupa molhada no corpo; tomou um novo copo d'agoa; um calafrio
-de febre percorreu-lhe a espinha, e ella atirou-se para a cama, batendo
-o queixo, e metteu-se debaixo dos lençóes, a tiritar de febre. Veio de
-novo a modorra, fechou os olhos; mas ergueu-se logo, assentando-se no
-colchão: parecia lhe ter ouvido alguem fallar lá fóra, na rua; o
-calafrio voltou; ella, tremula, procurava escutar. Se se não enganava,
-distinguira vozes abafadas, conversando, e as vozes eram de homem;
-deixou-se ficar á escuta, concheando a mão atraz da orelha; depois
-ouvio baterem, não na sua porta, mas lá muito mais para adiante, na
-casa da das Dôres, da Rita, ou da Augusta. «Devia ser o Alexandre que
-voltava do serviço...» Quiz ir ter com elle e pedir-lhe noticias de
-Jeronymo, o calafrio porém obrigou-a a ficar debaixo das cobertas.
-</p>
-<p>
-Ás cinco horas levantou-se de novo com um salto. «Já havia gente lá
-fóra com certeza!...» Ouvira ranger a primeira porta; abrio a janella,
-mas ainda estava tão escuro que se não distinguia patavina. Era uma
-preguiçosa madrugada de Agosto, nebulosa, humida; parecia disposta a
-resistir ao dia. «Ó senhores! aquella noite dos diachos não acabaria
-nunca mais?...» Entretanto, adivinhava-se que ia amanhecer. Piedade
-ouvio dentro do pateo, do lado contrario á sua casa, um zum-zum de duas
-vozes cochichando com interesse. «Virgem do céo! dir-se-ia a voz do
-seu homem! E a outra era voz de mulher, credo! Illusão sua com certeza!
-ella essa noite estava para ouvir o que não se dava...» Mas aquelles
-cochichos dialogados na escuridão causavam-lhe extremo alvoroço.
-«Não! Como poderia ser elle?... Que loucura! se o homem estivesse ali
-teria sem duvida procurado a casa!...» E os cochichos persistiam
-emquanto Piedade, toda ouvidos, estalava de agonia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Jeromo! gritou ella.
-</p>
-<p>
-As vozes calaram-se logo, fazendo o silencio completo; depois nada mais
-se ouvio.
-</p>
-<p>
-Piedade ficou á janella. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade
-triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo
-espaço. O ceu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava
-com o remancho das segundas feiras; ouviam-se os pigarros das resacas de
-paraty. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando
-fazer a sua lavagem á bica; as chaminés principiavam a fumegar;
-rescendia o cheiro do café torrado.
-</p>
-<p>
-Piedade atirou um chale em cima dos hombros e sahio ao pateo; a Machona,
-que acabava de apparecer á porta do numero 7 com um berro para acordar
-a familia de uma só vez, gritou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Bons dias, visinha! Seu marido como vai? melhor?
-</p>
-<p>
-Piedade soltou um suspiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai, não m'o porgunte, sóra Leandra!
-</p>
-<p>
-&mdash;Peiorou, filha?
-</p>
-<p>
-&mdash;Não veio esta noite pr'a casa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha o demo! Como não veio? Onde ficou elle então?
-</p>
-<p>
-&mdash;Cá está quem não lh'o sabe responder.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora já se vio?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou com o miolo que é agoa de bacalháo! Não preguei olho durante
-a noite! Forte desgraça a minha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Teria-lhe succedido alguma?...
-</p>
-<p>
-Piedade pôz-se a soluçar, enxugando as lagrimas no chale de lã; ao
-passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma
-trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jeronymo não se
-recolhera aquella noite á estalagem.
-</p>
-<p>
-&mdash;Talvez voltasse pr'o hospital ... obtemperou Augusta, que lavava
-junto a uma tina a gaiola do seu papagaio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas elle hontem veio de muda ... contrapoz Leandra.
-</p>
-<p>
-&mdash;E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou outra
-lavadeira.
-</p>
-<p>
-E os commentarios multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, n'uma
-boa disposição para fazer d'aquillo o escandalo do dia. Piedade
-respondia friamente ás perguntas curiosas que lhe dirigiam as
-companheiras; estava triste e succumbida; não se lavou, não mudou de
-roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na bocca e não lhe
-passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante.
-</p>
-<p>
-&mdash;Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a Machona,
-chegando á porta de sua casa a dar dentadas num pão recheado de
-manteiga. Que diabo, creatura! O homem não te morreu, pr'a estares
-agora ahi a carpir d'esse modo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi tanta
-coisa esta noite!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle te appareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com assombro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que phantasmas...
-</p>
-<p>
-E chorava.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai, credo, filha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Estou desgraçada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se te appareceram almas, de certo; mas põe a fé em Deus, mulher! e
-não te rales d'esse modo, que a desgraça pode ser maior! O choro puxa
-muita coisa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai, o meu rico homem!
-</p>
-<p>
-E o mugido lugubre d'aquella pobre creatura abandonada antepunha á rude
-agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vacca
-chamando ao longe, perdida ao cahir da noite n'um logar desconhecido e
-agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta á outra da estalagem;
-ria-se, cantava-se, soltava-se a lingua; o formigueiro assanhava-se com
-as compras para o almoço; os mercadores entravam e sahiam: a machina de
-massas principiava a bufar. E Piedade, assentada á soleira de sua
-porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a
-hora em que sahíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo,
-n'aquelle limiar de granito, onde ella, tantas vezes, com a cabeça
-encostada ao hombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na
-guitarra d'elle os queridos fados de além mar.
-</p>
-<p>
-E Jeronymo não apparecia.
-</p>
-<p>
-Ella ergueu-se finalmente, foi lá fóra ao capinzal, pôz-se a andar
-agitada, fallando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de
-desespero, quando levantava para o ceu os punhos fechados, dir-se-ia que
-não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquella
-amaldiçoada luz allucinadora, contra aquelle sol crapuloso, que fazia
-ferver o sangue aos homens e mettia-lhes no corpo luxurias de bode.
-Parecia rebellar-se contra aquella natureza alcoviteira, que lhe
-roubára o seu homem para dal-o a outra, porque a outra era gente do seu
-peito e ella não.
-</p>
-<p>
-E maldizia soluçando a hora em que sahira da sua terra; essa boa terra
-cansada, velha, como que enferma; essa boa terra tranquilla, sem
-sobresaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e
-melancolicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e
-esmeraldinos e affogados em tanto sol e em tanto perfume como os d'este
-inferno, onde em cada folha que se pisa ha debaixo um reptil venenoso,
-como em cada flôr que desabotôa e em cada moscardo que adeja ha um
-virus de lascivia. Lá, nos saudosos campos da sua terra, não se ouviam
-em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá, nem pela manhã, ao
-romper do dia, rilhava o bando truculento dos queixadas; lá não varava
-pelas florestas a anta feia e terrivel, quebrando arvores; lá a
-sucurujú não chocalhava a sua campainha funebre, annunciando a morte,
-nem a coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote
-certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria anavalhado pelo ciume de
-um capoeira; lá Jeronymo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e
-meigo, seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que á
-tarde levanta para o ceu de opala o seu olhar humilde, compungido e
-biblico.
-</p>
-<p>
-Maldita a hora em que ella veio! Maldita! mil vezes maldita!
-</p>
-<p>
-E tornando á casa, Piedade ainda mais se enraivecia, porque ali
-defronte, no numero 9, a mulata bahiana, a dansadeira de chorado, a
-cobra assanhada, cantava alegremente, chegando de vez em quando á
-janella para vir soprar fóra a cinza da fornalha do seu ferro de
-engommar, olhando de passagem para a direita e para a esquerda, a
-affectar indifferença pelo que não era de sua conta, e desapparecendo
-logo, sem interromper a cantiga, muito embebida no seu serviço. Ah!
-essa não fez commentarios sobre o estranho procedimento de mestre
-Jeronymo, nem mesmo quiz ouvir noticias d'elle; pouco arredou o pé de
-dentro de casa e, n'esse pouco que sahio, foi ás pressas e sem dar
-trela a ninguem.
-</p>
-<p>
-Nada! que as penas e desgostos não punham a panella no fogo!
-</p>
-<p>
-Entretanto, ah! ah! ella estava bem preoccupada. Apezar do allivio que
-lhe trouxera ao espirito a morte do Firmo e a despeito do seu
-contentamento de passar por uma vez aos braços do cavouqueiro, um
-sobresalto vago e oppressivo esmagava-lhe o coração e matava-a de
-impaciencia por atirar-se á procura de noticias sobre as occorrencias
-da noite; tanto assim que, ás onze horas, mal percebeu que Piedade,
-depois de esperar em vão pelo marido, sahia afflicta em busca d'elle,
-disposta a ir ao hospital, á policia, ao necroterio, ao diabo, com
-tanto que não voltasse sem algum esclarecimento, ella atirou logo o
-trabalho para o canto, enfiou uma saia, crusou o chale no hombro, e
-ganhou o mundo, tambem disposta a não voltar sem saber tim-tim por
-tim-tim o que havia de novo.
-</p>
-<p>
-Foi cada uma para seu lado e só voltaram á tarde, quasi ao mesmo
-tempo, encontrando o cortiço cheio já e assanhado com a noticia da
-morte de Firmo e do terrivel effeito que esta causara no Cabeça de
-Gato, onde o crime era attribuido aos Carapicús, contra os quaes
-juravam-se extremas vinganças de desaffronta. Soprava de lá, rosnando,
-um halito morno de colera mal soffrida e sequiosa que crescia com a
-approximação da noite e parecia sacudir no ar, ameaçadoramente, a
-irrequieta flamula amarella.
-</p>
-<p>
-O sol descambava para o ocaso, indefesso e nú, tingindo o ceu de uma
-vermelhidão presaga e sinistra.
-</p>
-<p>
-Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha
-enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava.
-Soubera em primeiro logar que elle estava vivo, perfeitamente vivo, pois
-fôra visto aquelle mesmo dia, mais de uma vez, no Garnizé e na praia
-da Saudade, a vagar macambuzio; soubera, por intermedio de um rondante
-amigo de Alexandre, que Jeronymo surgira de manhãzinha do capinzal
-perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse elle
-n'aquelle momento de casa, sahindo pelos fundos do cortiço; soubera
-ainda que o cavouqueiro fôra á Ordem buscar a sua caixa de roupa e
-que, na vespera, estivera a beber á farta na venda do Pépé, de sucia
-com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da
-praia, todos tres mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do
-crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera
-aquella noite á casa, porque ficára em grossa pandega com os amigos e
-que, voltando tarde e bebado, dera-lhe para metter-se com a mulata, que
-o aceitou logo. «Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria
-outra coisa!...» Com esta convicção inchou-lhe de subito por dentro
-um novello de ciumes, e ella correu incontinenti para a estalagem, certa
-de que iria encontrar o homem e despejaria contra elle aquella tremenda
-tempestade de resentimentos e despeitos accumulados, que ameaçavam
-suffocal-a se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar
-palavra a ninguem e foi direito á casa; contava encontral-a aberta e a
-sua decepção foi cruel ao vel-a fechada como a deixára. Pedio a chave
-á Machona, que, ao entregal-a, inquirio sobre Jeronymo e pespegou-lhe
-ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo.
-</p>
-<p>
-Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou livida; um pavoroso
-presentimento varou-lhe o espirito como um raio. Afastou-se logo, com
-medo de fallar, e foi tremula e offegante que abrio a porta e metteu-se
-no numero 35.
-</p>
-<p>
-Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido
-nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe á roda, as pernas
-pareciam-lhe de chumbo.
-</p>
-<p>
-Seria elle?!... interrogou a si propria.
-</p>
-<p>
-E os raciocinios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados,
-atropellando-lhe a razão. Não conseguia coordenal-os; entre todas uma
-idéa insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando
-superior, como uma carta maior que o resto do baralho: «Se elle matou
-o Firmo, dormio na estalagem e não veio ter commigo, é porque então
-deixou-me de feita pela Rita!»
-</p>
-<p>
-Tentou fugir a semelhante hypothese; repellio-a indignada. Não! não
-era possivel que o Jeronymo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua
-filha, um homem a quem ella nunca déra razão de queixa e a quem sempre
-respeitára e quizera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a
-abandonasse de um momento para outro, e por quem?! por uma não sei que
-diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro
-como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o
-trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possivel?! Mas então
-porque elle não viéra?... porque não vinha?... porque não dava
-noticias suas?... porque fôra pela manhã á Ordem busquar a caixa da
-roupa?... O Roberto Papa-defuntos dissera-lhe que o encontrara ás duas
-da tarde ali perto, ao dobrar da rua Bambina, e que até pararam um
-instante para conversar. Com mais alguns passos teria chegado á casa!
-Seria possivel, santos do ceu! que o seu homem estivesse disposto a
-nunca mais tornar para junto d'ella?
-</p>
-<p>
-Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha
-satisfeita; estivera com Jeronymo, jantaram juntos, n'uma casa de pasto;
-ficára tudo combinado; arranjára-se o ninho. Não se mudaria logo para
-não dar que fallar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objectos
-mais indispensaveis e que não dessem na vista por occasião do
-transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a
-trabalhar; á noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma
-semana—zaz! fazia-se a mudança completa, e adeus coração!&mdash;Por aqui
-é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João
-Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra á mulher, dizendo com
-boas palavras que, por uma d'essas fatalidades de que nenhuma creatura
-está livre, deixava de viver em companhia d'ella, mas que lhe
-conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o collegio da filha; e,
-feito isto, prompto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres
-e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, n'uma eterna
-embriaguez de gosos.
-</p>
-<p>
-Mas, na occasião em que a bahiana, seguida pelo pequeno, passava
-defronte da porta de Piedade, esta deu um alto da cadeira e gritou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Faz favor?
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a
-dizer no seu todo de impaciencia que não estava disposta a muita
-conversa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Diga-me uma coisa, inquerio aquella; você muda-se?
-</p>
-<p>
-A mulata não contava com semelhante pergunta, assim á queima-roupa;
-ficou calada sem achar o que responder.
-</p>
-<p>
-&mdash;Muda-se, não é verdade? insistio a outra, fazendo-se vermelha.
-</p>
-<p>
-&mdash;E o que tem você com isso? Mude-me ou não, não lhe tenho de dar
-satisfações! Metta-se lá com a sua vida! Ora esta!
-</p>
-<p>
-&mdash;Com a minha vida é que te metteste tu, cigana! exclamou a
-portugueza, sem se conter e avançando para a porta com impeto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hein?! Repete, cutruca ordinaria! berrou a mulata, dando um passo em
-frente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pensas que já não sei de tudo? Maleficiaste-me o homem e agora
-carregas-me com elle! Que a má coisa te saiba, cabra do inferno! Mas
-deixa estar que has de amargar o que o diabo não quiz! quem t'o jura
-sou eu!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pula cá pr'a fóra, perúa chóca, se és capaz!
-</p>
-<p>
-Em torno de Rita já o povaréo se reunia alvoroçado; as lavadeiras
-deixaram logo as tinas e vinham, com os braços nús, cheios de espuma
-de sabão, estacionar ali ao pé, formando roda, silenciosas, sem
-nenhuma d'ellas querer metter-se no barulho. Os homens riam e atiravam
-chufas ás duas contendoras, como succedia sempre quando no cortiço
-qualquer mulher se disputava com outra.
-</p>
-<p>
-&mdash;Isca! Isca! gritavam elles.
-</p>
-<p>
-Ao desafio da mulata, Piedade saltara ao pateo, armada com um dos seus
-tamancos. Uma pedrada recebeu-a em caminho, rachando-lhe a pelle do
-queixo, ao que ella respondeu desfechando contra a adversaria uma
-formidavel pancada na cabeça.
-</p>
-<p>
-E pegaram-se logo a unhas e dentes.
-</p>
-<p>
-Por algum tempo luctaram de pé, engalfinhadas, no meio da grande
-algazarra dos circumstantes. João Romão acudio e quiz separal-as;
-todos protestaram. A familia do Miranda assomou á janella, tomando
-ainda o café de depois do jantar, indifferente, já habituada áquellas
-scenas. Dois partidos todavia se formavam em torno das luctadoras; quasi
-todos os brasileiros eram pela Rita e quasi todos os portuguezes pela
-outra. Discutia-se com febre a superioridade de cada qual dellas;
-rebentavam gritos de enthusiasmo a cada mossa que qualquer das duas
-recebia; e estas, sem se desunharem, tinham já arranhões e mordeduras
-por todo o busto.
-</p>
-<p>
-Quando menos se esperava, ouvio-se um baque pesado e vio-se Piedade de
-bruços no chão e a Rita por cima, escarranchada sobre as suas largas
-ancas, a socar-lhe o cachaço de murros contínuos, desgrenhada, rota,
-offegante, os cabellos cahidos sobre a cara, gritando victoriosa, com a
-bocca escorrendo sangue:
-</p>
-<p>
-&mdash;Toma pr'o teu tabaco! Toma, gallinha podre! Toma, pr'a não te
-metteres commigo! Toma! Toma, baiacú da praia!
-</p>
-<p>
-Os portuguezes precipitaram-se para tirar Piedade de debaixo da mulata.
-Os brasileiros oppozeram-se ferozmente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não póde?
-</p>
-<p>
-&mdash;Enche!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não deixa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não tira!
-</p>
-<p>
-&mdash;Entra! Entra!
-</p>
-<p>
-E as palavras «gallego» e «cabra» cruzaram-se do todos os pontos,
-como bofetadas. Houve um vaváo rapido e surdo, e logo em seguida um
-formidavel rôlo, um rôlo a valer, não mais de duas mulheres, mas de
-uns quarenta e tantos homens de pulso, rebentou como um terremoto. As
-cercas e os giráos desappareceram do chão e estilhaçaram-se no ar,
-estalando em descarga; ao passo que n'uma berraria infernal, n'um
-fecha-fecha de formigueiro em guerra, aquella onda viva ia arrastando o
-que topava no caminho; barracas e tinas, baldes, regadores e caixões de
-planta, tudo rolava entre aquella centena de pernas confundidas e
-doidas. Das janellas do Miranda apitava-se com furia; da rua, em todo o
-quarteirão, novos apitos respondiam; dos fundos do cortiço e pela
-frente surgia povo e mais povo. O pateo estava quasi cheio; ninguem mais
-se entendia; todos davam e todos apanhavam; mulheres e crianças
-berravam. João Romão, clamando furioso, sentia-se impotente para
-conter semelhantes demonios. «Fazer rôlo áquella hora, que
-imprudencia!» Não conseguio fechar as portas da venda, nem o portão
-da estalagem; guardou ás pressas na burra o que havia em dinheiro na
-gaveta, e, armando-se com uma tranca de ferro, pôz-se de sentinella ás
-prateleiras, disposto a abrir o casco ao primeiro que se animasse a
-saltar-lhe o balcão. Bertoleza, lá dentro na cozinha, apromptava uma
-grande chaleira de agoa quente, para defender com ella a propriedade do
-seu homem. E o rôlo a ferver lá fóra, cada vez mais inflammado com um
-terrivel sopro de rivalidade nacional. Ouviam-se, n'um clamor de pragas
-e gemidos, vivas a Portugal e vivas ao Brazil. De vez em quando, o
-povaréo, que continuava a crescer, afastava-se em massa, rugindo de
-medo, mas tornava logo, como a onda no refluxo dos mares. A policia
-appareceu e não se achou com animo de entrar, antes de vir um reforço
-de praças, que um permanente fôra buscar a galope!
-</p>
-<p>
-E o rôlo fervia.
-</p>
-<p>
-Mas, no melhor da lucta, ouvio-se na rua um côro de vozes que se
-approximava das bandas do Cabeça de Gato. Era o canto de guerra dos
-capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicús, para
-vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVII">XVII</a></h4>
-
-<p>
-Mal os Carapicús sentiram a approximação dos rivaes, um grito de
-alarma echoou por toda a estalagem e o rôlo dissolveu-se de improviso,
-sem que a desordem cessasse. Cada qual correu á casa, rapidamente, em
-busca do ferro, do páo e de tudo que servisse para resistir e para
-matar. Um só impulso os impellia a todos; já não havia ali
-brasileiros e portuguezes, havia um só partido que ia ser atacado pelo
-partido contrario; os que se batiam ainda ha pouco emprestavam armas uns
-aos outros, limpando com as costas da mão o sangue das feridas.
-Agostinho, encostado ao lampeão do meio do cortiço, cantava em altos
-berros uma coisa que lhe parecia responder á musica barbara que
-entoavam lá fora os inimigos; a mãe déra-lhe licença, a pedido
-d'elle, para pôr um cinto de Nênêm, em que o pequeno enfiou a faca da
-cozinha. Um mulatinho franzino, que até ahi não fôra notado por
-ninguem no São Romão, postou-se defronte da entrada, de mãos limpas,
-á espera dos invasores; e todos tiveram confiança n'elle, porque o
-ladrão, além de tudo, estava rindo.
-</p>
-<p>
-Os Cabeças de Gato assomaram afinal ao portão. Uns cem homens, em que
-senão via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, a dansar, de
-braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras para que ninguem
-lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéo á ré, com um laço de fita
-amarella fluctuando na copa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Aguenta! Aguenta! Faz frente! clamavam de dentro os Carapicús.
-</p>
-<p>
-E os outros, cantando o seu hymno de guerra, entraram e approximaram-se
-lentamente, a dansar como selvagens.
-</p>
-<p>
-As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão.
-</p>
-<p>
-Os Carapicús enchiam a metade do cortiço. Um silencio arquejado
-succedia á estrepitosa vozeria do rôlo que findara. Sentia-se o hausto
-impaciente da ferocidade que atirava aquelles dois bandos de capoeiras
-um contra o outro. E no emtanto o sol, unico causador de tudo aquillo,
-desapparecia de todo nos limbos do horizonte, indifferente, deixando
-atraz de si as melancolias do crepusculo, que é a saudade da terra
-quando elle se ausenta, levando comsigo a alegria da luz e do calor.
-</p>
-<p>
-Lá na janella do Barão, o Botelho, enthusiasmado como sempre por tudo
-que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de applauso e dava brados de
-commando militar.
-</p>
-<p>
-E os Cabeças de Gato approximavam-se cantando, a dansar, rastejando
-alguns de costas para o chão, firmados nos pulsos e nos calcanhares.
-</p>
-<p>
-Dez Carapicús sahiram em frente; dez Cabeças de Gato se alinharam
-defronte d'elles.
-</p>
-<p>
-E a batalha principiou, não mais desordenada e cega, porém com
-methodo, sob o commando de Porfiro que, sempre a cantar ou a assobiar,
-saltava em todas as direcções, sem nunca ser alcançado por ninguem.
-</p>
-<p>
-Desferiram-se navalhas contra navalhas, jogaram-se as cabeçadas e os
-vôa-pés. Par a par, todos os capoeiras tinham pela frente um
-adversario de igual destreza que respondia a cada investida com um salto
-de gato ou uma queda repentina que annullava o golpe. De parte a parte
-esperavam que o cansaço desequilibrasse as forças, abrindo furo á
-victoria; mas um facto veio neutralisar inda uma vez a campanha: Immenso
-rebentão de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o numero
-88. E agora o incendio era a valer.
-</p>
-<p>
-Houve nas duas maltas um subito espasmo de terror. Abaixaram-se os
-ferros e calou-se o hymno de morte. Um clarão tremendo ensanguentou o
-ar, que se fechou logo de fumaça fulva.
-</p>
-<p>
-A Bruxa conseguira afinal realisar o seu sonho de louca: o cortiço ia
-arder; não haveria meio de reprimir aquelle cruento desovar de
-labaredas. Os Cabeças de Gato, leaes nas suas justas de partido,
-abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o
-auxilio de um sinistro e dispostos até a soccorrer o inimigo, se assim
-fosse preciso. E nenhum dos Carapicús os ferio pelas costas. A lucta
-ficava para outra occasião. E a scena transformou-se n'um relance; os
-mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a
-salvar os miseraveis bens que possuiam sobre a terra. Fechou-se um
-entra-e-sáe de maribondos defronte d'aquellas cem casinhas ameaçadas
-pelo fogo. Homens e mulheres corriam de cá para lá com os tarecos ao
-hombro, numa balburdia de doidos. O pateo e a rua enchiam-se agora de
-camas velhas e colchões espocados. Ninguem se conhecia n'aquelle zumba
-de gritos sem nexo, e choro de crianças esmagadas, e pragas arrancadas
-pela dôr e pelo desespero. Da casa do Barão sahiam clamores
-apopleticos; ouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um
-ataque. E começou a apparecer agoa. Quem a trouxe? Ninguem sabia
-dizel-o; mas viam-se baldes e baldes que se despejavam sobre as chammas.
-</p>
-<p>
-Os sinos da visinhança começaram a badalar.
-</p>
-<p>
-E tudo era um clamor.
-</p>
-<p>
-A Bruxa surgio á janella da sua casa, como a bocca de uma fornalha
-accesa. Estava horrivel; nunca fôra tão bruxa. O seu moreno trigueiro,
-de cabocla velha, reluzia que nem metal em braza; a sua crina preta,
-desgrenhada, escorrida e abundante como a das egoas selvagens, dava-lhe
-um caracter phantastico de furia sabida do inferno. E ella ria-se, ebria
-de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, victoriosa no
-meio d'aquella orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em
-segredo a sua alma extravagante de maluca.
-</p>
-<p>
-Ia atirar-se cá para fóra, quando se ouvio estalar o madeiramento da
-casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca n'um montão
-de brazas.
-</p>
-<p>
-Os sinos continuavam a badalar afflictos. Surgiram agoadeiros com as
-suas pipas em carroça, alvoroçados, fazendo cada qual maior empenho em
-chegar antes dos outros e apanhar os dez mil reis da gratificação. A
-policia defendia a passagem ao povo que queria entrar. A rua lá fóra
-estava já atravancada com o despojo de quasi toda a estalagem. E as
-labaredas iam galopando desembestadas para a direita e para a esquerda
-do numero 88. Um papagaio, esquecido á parede de uma das casinhas e
-preso á gaiola, gritava furioso, como se pedisse soccorro.
-</p>
-<p>
-Dentro de meia hora o cortiço tinha de ficar em cinzas. Mas um fragor
-de repiques de campainhas e estridente silvar de valvulas encheu de
-subito todo o quarteirão, annunciando que chegava o corpo dos
-bombeiros.
-</p>
-<p>
-E logo em seguida apontaram carros á desfilada, e um bando de demonios
-de blusa clara, armados uns de archotes e outros de escadinhas de ferro,
-apoderaram-se do sinistro, dominando-o incontinenti, com uma expedição
-magica, sem uma palavra, sem hesitações e sem atropellos. A um só
-tempo viram-se fartas mangas d'agoa chicoteando o fogo por todos os
-lados; emquanto, sem se saber como, homens, mais ageis que macacos,
-escalavam os telhados abrazados por escadas que mal se distinguiam; e
-outros invadiam o coração vermelho do incendio, a dardejar duchas em
-torno de si, rodando, saltando, piruetando, até estrangularem as
-chammas que se atiravam ferozes para cima d'elles, como dentro de um
-inferno; ao passo que outros, cá de fóra, imperturbaveis, com uma
-limpeza de machina moderna, fusilavam d'agoa toda a estalagem, numero
-por numero, resolvidos a não deixar uma só telha enxuta.
-</p>
-<p>
-O povo applaudia-os enthusiasmado, já esquecido do desastre e só
-attenção para aquelle duello contra o incendio. Quando um bombeiro, de
-cima do telhado, conseguio suffocar uma ninhada de labaredas, que
-surgira defronte d'elle, rebentou cá de baixo uma roda de palmas, e o
-heróe voltou-se para a multidão, sorrindo e agradecendo.
-</p>
-<p>
-Algumas mulheres atiravam-lhe beijos, entre brados de ovação.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XVIII">XVIII</a></h4>
-
-<p>
-Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que o velho Liborio,
-depois de escapar de morrer na confusão do incendio, fugia agoniado
-para o seu esconderijo, seguio-o com disfarce e observou que o
-miseravel, mal deu luz á candeia, começou a tirar offegante alguma
-coisa do seu colchão immundo.
-</p>
-<p>
-Eram garrafas. Tirou a primeira, a segunda, meia duzia d'ellas. Depois
-puxou ás pressas a coberta do catre e fez uma trouxa. Ia de novo ganhar
-a sahida, mas soltou um gemido surdo e cahio no chão sem forças
-arrevessando uma golfada de sangue e cingindo contra o peito o
-mysterioso embrulho.
-</p>
-<p>
-João Romão appareceu, e elle, assim que o vio, redobrou de afflicção
-e torceu-se todo sobre as garrafas, defendendo-as com o corpo inteiro, a
-olhar aterrado e de esguelha para o seu interventor, como se déra cara
-a cara com um bandido. E, a cada passo que o vendeiro adiantava, o
-tremor e o sobresalto do velho recresciam, tirando-lhe da garganta
-grunhidos roucos de animal batido e assustado. Duas vezes tentou
-erguer-se; duas vezes rolou por terra moribundo. João Romão
-objurgou-lhe que qualquer demora ali seria morte certa: o incendio
-avançava. Quiz ajudal-o a carregar o fardo. Liborio, por unica
-resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e
-tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas.
-</p>
-<p>
-Mas, lá de cima, a ponta de uma lingoa de fogo varou o tecto e
-illuminou de vermelho a miseravel pocilga. Liborio tentou ainda um
-esforço supremo, e nada poude, começando a tremer da cabeça aos pés,
-a tremer, a tremer, grudando-se cada vez mais á sua trouxa, e já
-estrebuchava, quando o vendeiro lh'a arrancou das garras com violencia.
-Tambem era tempo, porque, depois de insinuar a lingoa, o fogo mostrou a
-bocca e escancarou afinal a guela devoradora.
-</p>
-<p>
-O tratante fugio de carreira, abraçado á sua preza, em quanto o velho,
-sem conseguir pôr-se de pé, rastreava na pista d'elle,
-difficultosamente, estrangulado de desespero senil, já sem falla,
-rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo elle roxo, os dedos
-enriçados como as unhas de um abutre ferido.
-</p>
-<p>
-João Romão atravessou o pateo de carreira e metteu-se na sua tóca
-para esconder o furto. Ao primeiro exame, de relance, reconheceu logo
-que era dinheiro em papel o que havia nas garrafas. Enterrou a trouxa na
-prateleira de um armario velho cheio de frascos e voltou lá fóra para
-acompanhar o serviço dos bombeiros.
-</p>
-<p>
-Á meia noite estava já completamente extincto o fogo e quatro
-sentinellas rondavam a ruina das trinta e tantas casinhas que arderam. O
-vendeiro só poude voltar á trouxa das garrafas ás cinco horas da
-manhã, quando Bertoleza, que fizera prodigios contra o incendio,
-passava pelo somno, encostada na cama, com a saia ainda enxarcada
-d'agoa, o corpo cheio de pequenas queimaduras. Verificou que as garrafas
-eram oito e estavam cheias até á bocca de notas de todos os valores,
-que ahi foram mettidas, uma a uma, depois de cuidadosamente enroladas e
-dobradas á moda de bilhetes de rifa. Receioso, porém, de que a crioula
-não estivesse bem adormecida e desse pela coisa, João Romão resolveu
-adiar para mais tarde a contagem do dinheiro e guardou o thesouro
-n'outro logar mais seguro.
-</p>
-<p>
-No dia seguinte a policia averiguou os destroços do incendio e mandou
-proceder logo ao desentulho, para retirar os cadaveres que houvesse.
-</p>
-<p>
-Rita desapparecêra da estalagem durante a confusão da noite; Piedade
-cahíra de cama, com um febrão de quarenta gráos; a Machona tinha uma
-orelha rachada e um pé torcido; a das Dôres a cabeça partida; o Bruno
-levara uma navalhada na coxa; dois trabalhadores da pedreira estavam
-gravemente feridos; um italiano perdêra dois dentes da frente, e uma
-filhinha da Augusta Carne Molle morréra esmagada pelo povo. E todos,
-todos se queixavam de damnos recebidos e revoltavam-se contra os rigores
-da sorte. O dia passou-se inteiro na computação dos prejuizos e a
-dar-se balanço no que se salvara do incendio. Sentia-se um fartum
-aborrecido de estorrilho e cinza molhada. Um duro silencio de desconsolo
-embrutecia aquella pobre gente. Vultos sombrios, de mãos crusadas
-atraz, permaneciam horas esquecidas, a olhar immoveis os esqueletos
-carbonisados e ainda humidos das casinhas queimadas. Os cadaveres da
-Bruxa e do Liborio foram carregados para o meio do pateo, disformes,
-horrorosos, e jaziam entre duas vélas accesas, ao relento, á espera do
-carro da Misericordia. Entrava gente a rua para os ver; descobriam-se
-defronte d'elles, e alguns curiosos lançavam piedosamente uma moeda de
-cobre no prato que, aos pés dos dois defuntos, recebia a esmola para a
-mortalha. Em casa de Augusta, sobre uma meza coberta por uma ceremoniosa
-toalha de rendas, estava o cadaverzinho da filha morta, todo enfeitado
-de flôres, com um Christo de latão á cabeceira e dois cirios que
-ardiam tristemente. Alexandre, assentado a um canto da sala, com o rosto
-escondido nas mãos, chorava, aguardando o pesame das visitas;
-fardára-se, só para isso, com o seu melhor uniforme, coitado!
-</p>
-<p>
-O enterro da pequenita foi feito á custa de Leonie, que appareceu ás
-tres da tarde, vestida de setineta côr de creme, n'um carrinho dirigido
-por um cocheiro de calção de flanella branca e libré agaloada de ouro.
-</p>
-<p>
-O Miranda apresentou-se na estalagem logo pela manhã, o ar compungido,
-porém superior. Deu um ligeiro abraço em João Romão, fallou-lhe em
-voz baixa, lamentando aquella catastrophe, mas felicitou-o porque tudo
-estava no seguro.
-</p>
-<p>
-O vendeiro, com effeito, impressionado com a primeira tentativa de
-incendio, tratara de segurar todas as suas propriedades; e, com tamanha
-inspiração o fez que, agora, em vez de lhe trazer o fogo prejuizo,
-até lhe deixava lucros.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, ah, meu caro! Cautela e caldo de gallinha nunca fizeram mal a
-doente!... segredou o dono do cortiço, a rir. Olhe, aquelles é que com
-certeza não gostaram da brincadeira! accrescentou, apontando para o
-lado em que maior era o grupo dos infelizes que tomavam conta dos restos
-de seus tarecos atirados em montão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah, mas esses, que diabo! nada têm que perder!... considerou o
-outro.
-</p>
-<p>
-E os dois visinhos foram até o fim do palco, conversando em voz baixa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou reedificar tudo isto! declarou João Romão, com um gesto energico
-que abrangia toda aquella babylonia desmantelada.
-</p>
-<p>
-E expoz o seu projecto: Tencionava alargar a estalagem, entrando um pouco
-pelo capinzal. Levantaria do lado esquerdo, encostado ao muro do
-Miranda, um novo correr de casinhas, aproveitando assim parte do pateo,
-que não precisava ser tão grande; sobre as outras levantaria um
-segundo andar, com uma longa varanda na frente toda gradeada.
-Negociozinho para ter ali, a dar dinheiro, em vez de uma centena de
-commodos, nada menos de quatrocentos a quinhentos, de doze a vinte e
-cinco mil reis cada um!
-</p>
-<p>
-Ah! elle havia de mostrar como se fazem as coisas bem feitas.
-</p>
-<p>
-O Miranda escutava-o calado, fitando-o com respeito.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você é um homem dos diabos! disse afinal, batendo-lhe no hombro.
-</p>
-<p>
-E, ao sahir de lá, no seu coração vulgar de homem que nunca produzio
-e levou a vida, como todo o mercador, a explorar a boa fé de uns e o
-trabalho intellectual de outros, trazia uma grande admiração pelo
-visinho. O que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se
-n'esse instante n'um enthusiasmo illimitado e cego.
-</p>
-<p>
-&mdash;É um filho da mãe! resmungava elle pela rua, em caminho do seu
-armazem. É de muita força! Pena é estar mettido com a peste d'aquella
-crioula! Nem sei como um homem tão esperto cahio em semelhante asneira!
-</p>
-<p>
-Só lá pelas dez e tanto da noite foi que João Romão, depois de
-certificar-se de que Bertoleza ferrára n'um somno de pedra, resolveu
-dar balanço ás garrafas de Liborio. O diabo é que elle tambem quasi
-que se não aguentava nas pernas e sentia os olhos a fecharem-se-lhe de
-cansaço. Mas não podia socegar sem saber quanto ao certo apanhára do
-avarento.
-</p>
-<p>
-Accendeu uma véla, foi buscar a immunda e preciosa trouxa, e carregou
-com esta para a casa de pasto ao lado da cozinha.
-</p>
-<p>
-Depôz tudo sobre uma das mezas, assentou-se, e principiou a tarefa.
-Tomou a primeira garrafa, tentou despejal-a, batendo-lhe no fundo;
-foi-lhe porém necessario extrahir as notas, uma por uma, porque estavam
-muito socadas e peganhentas de bolor. A proporção que as fisgava, ia
-logo as desenrolando e estendendo cuidadosamente em maço, depois de
-seccar-lhes a humidade ao calor das mãos e da véla. E o prazer que
-elle desfructava n'este serviço punha-lhe em jogo todos os sentidos e
-afugentava-lhe o somno e as fadigas. Mas, ao passar á segunda garrafa,
-soffreu uma dolorosa decepção: quasi todas as cedulas estavam já
-prescriptas pelo thesouro; veio-lhe então o receio de que a melhor
-parte do bôlo se achasse inutilisada; restava-lhe todavia a esperança
-de que fosse aquella garrafa a mais antiga de todas e a peior por
-conseguinte.
-</p>
-<p>
-E continuou com mais ardor o seu delicioso trabalho.
-</p>
-<p>
-Tinha já esvaziado seis, quando notou que a véla, consumida até o
-fim, bruxuleava a extinguir-se; foi buscar outra nova e vio ao mesmo
-tempo que horas eram. «Oh! como a noite corrêra depressa!...» Tres e
-meia da madrugada. «Parecia impossivel!»
-</p>
-<p>
-Ao terminar a contagem, as primeiras carroças passavam lá fóra na rua.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quinze contos, quatrocentos e tantos mil reis!... disse João Romão
-entre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de cedulas que tinha
-defronte dos olhos.
-</p>
-<p>
-Mas oito contos e seiscentos eram em notas já prescriptas. E o
-vendeiro, á vista de tão bella somma, assim tão estupidamente
-compromettida, sentio a indignação de um roubado. Amaldiçoou aquelle
-maldito velho Liborio por tamanho relaxamento; amaldiçoou o governo
-porque limitava, com intenções velhacas, o praso da circulação dos
-seus titulos; chegou até a sentir remorsos por não se ter apoderado do
-thesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros moradores do
-cortiço, lhe appareceu com o colchão as costas, a pedir chorando que
-lhe dessem de esmola um cantinho onde elle se mettesse com sua miseria.
-João Romão tivera sempre uma vidente cobiça sobre aquelle dinheiro
-engarrafado; fariscára-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e
-redondos do abutre decrepito, e convenceu-se de todo, notando que o
-miseravel dava prompto sumisso a qualquer moedinha que lhe cahia nas
-garras.
-</p>
-<p>
-&mdash;Seria um acto de justiça! concluio João Romão; pelo menos seria
-impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse tão barbaramente!
-</p>
-<p>
-Ora adeus! mas sete ricos continhos quasi inteiros ficavam-lhe nas
-unhas. «E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com
-geito... Hoje impingiam-se dois mil reis: amanhã cinco. Não nas
-compras, mas nos trocos... Porque não? Alguem reclamaria, mas muitos
-enguliriam a bucha... Para isso não faltavam estrangeiros e
-caipiras!... E demais, não era crime!... Sim! se havia n'isso
-ladroeira, queixassem-se do governo! o governo é que era o ladrão!
-</p>
-<p>
-&mdash;Em todo o caso, rematou elle, guardando o dinheiro bom e máo e
-dispondo-se a descançar; isto já serve para principiar as obras!
-Deixem estar, que d'aqui a dias eu lhes mostrarei para quanto presto!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XIX">XIX</a></h4>
-
-<p>
-D'ahi a dias, com effeito, a estalagem mettia-se em obras. Á desordem do
-desentulho do incendio succedia a do trabalho dos pedreiros;
-martelava-se ali de pela manhã até á noite, o que aliás não impedia
-que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engommadeiras
-reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete das suas eternas
-cantigas.
-</p>
-<p>
-Os que ficaram sem casa foram aboletados a troxe-moxe por todos os
-cantos, á espera dos novos commodos. Ninguem se mudou para o Cabeça de
-Gato.
-</p>
-<p>
-As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do Miranda;
-os antigos moradores tinham preferencia e vantagens nos preços. Um dos
-italianos feridos morreu na Misericordia e o outro, tambem lá,
-continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhêra-se á Ordem de que
-era irmão, e Leocadia, que não quiz attender áquella carta escripta
-por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o sou homem no hospital. Que
-alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquella mulher levada dos
-diabos, mas de carne dura, a quem elle, apezar de tudo, queria muito.
-Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocadia decidio tornar
-para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito
-séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha bregeirices.
-</p>
-<p>
-Piedade, essa é que se levantou das febres completamente transformada.
-Não parecia a mesma depois do abandono de Jeronymo; emmagrecêra em
-extremo, perdêra as côres do rosto, ficara feia, triste e resmungona;
-mas não se queixava, e ninguem lhe ouvia fallar no nome do esposo.
-</p>
-<p>
-Esses mezes, durante as obras, foram uma época especial para a
-estalagem. O cortiço não dava idéa do seu antigo caracter, tão
-accentuado e no emtanto tão mixto: aquillo agora parecia uma grande
-officina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende
-por signaes. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o
-pó da terra e da madeira sujavam-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de
-pouco tempo, estava tudo prompto; e, com immenso pasmo, viram que a
-venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia tambem entrar
-em obras. O vendeiro resolvera aproveitar d'ella sómente algumas das
-paredes, que eram de um metro de largura, talhadas á portugueza;
-abriria as portas em arco, suspenderia o tecto e levantaria um sobrado,
-mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio
-para metter o do outro no chinello; quatro janellas de frente, oito de
-lado, com um terraço ao fundo. O logar em que elle dormia com
-Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com
-a parte da taverna, um grande armazem, em que o seu commercio iria
-fortalecer-se e alargar-se.
-</p>
-<p>
-O Barão e o Botelho appareciam por lá quasi todos os dias, ambos muito
-interessados pela prosperidade do visinho; examinavam os materiaes
-escolhidos para a construcção, batiam com a biqueira do chapéo de sol
-no pinho de Riga destinado ao assoalho, e affectando-se bons
-entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os dedos um
-punhado da terra e da cal com que os operarios faziam barro. Ás vezes
-chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que não iam
-bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, engravatado,
-calças brancas, collete e corrente de relogio, já não parava na
-venda, e só acompanhava as obras na folga das occupações da rua.
-Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hoteis caros e bebia
-cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do commercio.
-</p>
-<p>
-E a crioula? Como havia de ser?
-</p>
-<p>
-Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam porque
-lhe dissessem. Sim, porque aquella bôa casa que se estava fazendo, e os
-ricos moveis encommendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam
-de vir, não seriam de certo para os beiços da negra velha!
-Conserval-a-ia como criada? Impossivel! Todo Botafogo sabia que elles
-até ahi fizeram vida commum!
-</p>
-<p>
-Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico
-a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si
-mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro
-acharia para semelhante situação.
-</p>
-<p>
-Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um
-homem tão importante e tão digno!
-</p>
-<p>
-Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse
-jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o
-braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia,
-desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza
-exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle
-fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o
-triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e
-tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a
-sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa
-sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava.
-</p>
-<p>
-E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a
-transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e,
-quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A
-desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de
-cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os
-seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não
-era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da
-sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida.
-E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o
-serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a
-deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da
-gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria,
-amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a
-indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara.
-</p>
-<p>
-E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional
-das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que
-morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao
-seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir
-que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono,
-nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de
-Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco
-deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma
-sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a
-deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para
-descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo
-nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda,
-repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que
-nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda
-morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou
-n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que
-causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma
-linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem
-interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um
-habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando
-sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a
-cercava.
-</p>
-<p>
-Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com
-Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de
-abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam
-fazer nada.
-</p>
-<p>
-Botelho havia dito ao vendeiro:
-</p>
-<p>
-&mdash;Faça o pedido! É occasião.
-</p>
-<p>
-&mdash;Hein?
-</p>
-<p>
-&mdash;Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto!
-</p>
-<p>
-&mdash;O Barão dá-m'a?
-</p>
-<p>
-&mdash;Dá.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tem certeza d'isso?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! se não tivesse não lh'o diria d'este modo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle prometteu?
-</p>
-<p>
-&mdash;Fallei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava
-autorisado por você. Fiz mal?
-</p>
-<p>
-&mdash;Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe
-fallar, comprehende?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ou escrever.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tambem.
-</p>
-<p>
-&mdash;E a menina?
-</p>
-<p>
-&mdash;Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres?
-</p>
-<p>
-&mdash;Tenho.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e
-faça o que lhe disse.&mdash;Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú
-está quente!
-</p>
-<p>
-Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde
-trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade
-Nova.
-</p>
-<p>
-Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso
-comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão
-Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar.
-Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo;
-tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita
-roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos;
-comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á
-porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã
-flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas
-de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais
-gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para
-elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era
-muito escrupulosa.
-</p>
-<p>
-A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas;
-tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois
-resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão
-novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu
-tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias
-fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor,
-apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer
-prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle
-collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara
-como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de
-vinho gostoso.
-</p>
-<p>
-Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das
-recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e
-vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do
-coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou.
-</p>
-<p>
-A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma
-rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as
-suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos
-corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de
-lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo
-e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do
-matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite
-de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de
-fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu
-corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com
-hervas aromaticas.
-</p>
-<p>
-O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das
-extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o
-espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e
-deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser
-possuido só por ella, só ella, e mais ninguem.
-</p>
-<p>
-A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle,
-quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta
-gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais
-justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz&mdash;bem
-feito!»
-</p>
-<p>
-Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do
-marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia
-para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a
-que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda
-a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que
-essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a
-pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca
-para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama
-do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma
-esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus
-principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na
-conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era
-teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez.
-Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram
-a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e
-moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas
-economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha,
-aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes.
-</p>
-<p>
-Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos
-ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago
-de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte
-repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool,
-esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida;
-e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello
-de aguardente, para enganar os pezares.
-</p>
-<p>
-Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse
-os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena
-ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita;
-puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da
-physionomia. Já tinha nove annos.
-</p>
-<p>
-Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella
-passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam
-a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha,
-porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para
-mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles
-privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe.
-Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha».
-</p>
-<p>
-Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se
-impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas
-disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?...
-Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora
-adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra
-não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não
-vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a
-ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á
-tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio
-na segunda feira.
-</p>
-<p>
-Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no
-primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar
-á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da
-sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor
-parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos
-domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a
-filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre
-levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de
-roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que
-a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve
-vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito
-raras.
-</p>
-<p>
-Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da
-pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a
-conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida.
-Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da
-pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro
-para educar a filha?!»
-</p>
-<p>
-Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo
-recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella
-insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em
-voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava
-arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia
-de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na
-roda!
-</p>
-<p>
-Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que
-não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a
-energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe
-saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle
-abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada,
-de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a
-mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe
-perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta.
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha pobre velha!... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na cabeça.
-</p>
-<p>
-E os dois emmudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentio
-ancias de atirar-se-lhe nos braços, possuida de imprevista ternura com
-aquelle simples affago do seu homem. Um subito raio de esperança
-illuminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance os negrumes
-accumulados ultimamente no seu coração. Contava não ouvir ali senão
-palavras duras e asperas, ser talvez repellida grosseiramente, insultada
-pela outra e coberta de ridiculo pelos novos companheiros do marido;
-mas, ao encontral-o tambem triste e desgostoso, sua alma prostrou-se
-reconhecida; e, assim que Jeronymo, cujas lagrimas corriam já
-silenciosamente, deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao
-hombro e depois á cintura da esposa, ella desabou, escondendo o rosto
-contra o peito d'elle, n'uma explosão de soluços que lhe faziam vibrar
-o corpo inteiro.
-</p>
-<p>
-Por algum tempo choraram ambos abraçados.
-</p>
-<p>
-&mdash;Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o cavouqueiro
-afinal limpando os olhos. Foi como se eu te tivesse morrido ... mas
-pódes ficar certa de que te estimo e nunca te quiz mal!... Volta para
-casa; eu irei pagar o collegio de nossa filhinha e hei de olhar por ti.
-Vae, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdôe os desgostos que te tenho
-eu dado!
-</p>
-<p>
-E acompanhou-a até ao portão da estalagem.
-</p>
-<p>
-Ella, sem poder pronunciar palavra, sahio cabisbaixa, a enxugar os olhos
-no chale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço
-retardado.
-</p>
-<p>
-Entretanto, Jeronymo não mandou saldar a conta do collegio, no dia
-seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mez; e elle,
-coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ir buscar dinheiro
-n'aquella occasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto
-com a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao
-padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar á
-larga; não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de
-fazer presentes. Elle, receioso de contrarial-a e quebrar o ôvo da sua
-paz, até ahi tão completo com respeito á bahiana, subordinava-se
-calado e affectando até satisfação; no intimo, porém, o infeliz
-soffria deveras. A lembrança constante da filha e da mulher
-apoquentavam-no com pontas de remorso, que dia a dia alastravam na sua
-consciencia, á proporção que esta ia acordando d'aquella cegueira. O
-desgraçado sentia e comprehendia perfeitamente todo o mal da sua
-conducta; mas só a idéa de separar-se da amante, punha-lhe logo o
-sangue doido e apagava-lhe de novo a luz dos raciocinios. «Não! não!
-Tudo que quizessem, menos isso!»
-</p>
-<p>
-E então, para fugir áquella voz irrefutavel, que estava sempre a
-serrazinar dentro delle, bebia em camaradagem com os companheiros e
-habituára-se, dentro em pouco, á embriaguez. Quando Piedade, quinze
-dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, acompanhada
-pela filha, encontrou-o bebendo, n'uma roda de amigos.
-</p>
-<p>
-Jeronymo recebeu-as com grande escarcéo de alegria. Fel-as entrar.
-Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando
-exclamação de enthusiasmo.
-</p>
-<p>
-Com um milhão de raios! Que linda estava a sua morgadinha!
-</p>
-<p>
-Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que
-as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era questão
-decidida!
-</p>
-<p>
-Houve uma scena de constrangimentos, quando a portugueza se vio defronte
-da bahiana.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava
-Jeronymo, a empurral-as uma contra a outra. Não quero aqui caras
-fechadas!
-</p>
-<p>
-As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava
-escarlate de vergonha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora muito bem! accrescentou o cavouqueiro, agora, para a coisa ser
-completa, hão de jantar comnosco!
-</p>
-<p>
-A portugueza oppoz-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não
-aceitou.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não as deixo sahir! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem
-matar as saudades?
-</p>
-<p>
-Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela occasião de entender-se
-com o marido sobre o negocio do collegio. Rita, voluvel como toda a
-mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obzequios com a
-familia do amigo. As outras visitas sahiram antes do jantar.
-</p>
-<p>
-Puzeram-se á mesa ás quatro horas e principiaram a comer com boa
-disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha
-destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de collegio parecia,
-entre aquella gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pae
-acabrunhava-a com as suas solicitudes brutaes e com as suas perguntas
-sobre os estudos. Á excepção d'ella, todos os outros estavam, antes
-da sobremeza, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jeronymo, esse estava
-de todo. Piedade, instigada por elle, esvasiára frequentes vezes o seu
-copo e, ao fim do jantar, déra para queixar-se amargamente da vida; foi
-então que ella, já com azedume na voz, fallou na divida do collegio e
-nas ameaças da directora.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu tambem para ahi
-com essa mastigação! Deixa as tristezas para outra vez! Não nos
-amargures o jantar!
-</p>
-<p>
-&mdash;Triste sorte a minha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ai, ai! que temos lamuria!
-</p>
-<p>
-&mdash;Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim? Pois se é para isso que aqui vens melhor será não tornares
-cá!... resmungou Jeronymo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com
-choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?...
-Tambem o sou e não me queixo de Deus!
-</p>
-<p>
-Piedade abrio a soluçar.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi temos! berrou o marido, erguendo-se e dando uma punhada forte
-sobre a meza. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar,
-ha de estoirar por força! Ora bolas!
-</p>
-<p>
-Senhorinha correu para junto do pae, procurando contel-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sebo! berrou elle, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou
-disposto a aturar isto! Arre!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu não vim cá por passeio!... proseguio Piedade entre lagrimas! Vim
-cá para saber da conta do collegio!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não
-tenho nenhum!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! então com que não pagas?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Com um milhão de raios!
-</p>
-<p>
-&mdash;É que és ainda muito peior do que eu suppunha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e
-despache o becco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira!
-</p>
-<p>
-&mdash;Minha pobre filha! Quem olhará por ella, Senhor dos afflictos?!
-</p>
-<p>
-&mdash;A pequena já não precisa de collegio! deixe-a cá commigo, que nada
-lhe faltará!
-</p>
-<p>
-&mdash;Separar-me de minha filha? a unica pessoa que me resta?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ó mulher! você não está separada d'ella a semana inteira?... Pois
-a pequena, em vez de ficar no collegio, fica aqui, e aos domingos irá
-vel-a! Ora ahi tem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina,
-abraçando-se a Piedade.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! tambem tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os
-diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de
-sobra com que arreliar-me!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos d'aqui! gritou a portugueza, travando da filha pelo braço.
-Maldita a hora em que vim cá!
-</p>
-<p>
-E as duas, mãe e filha, desappareceram; emquanto Jeronymo, passeiando
-de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho.
-</p>
-<p>
-Rita não se mettêra na contenda, nem se mostrára a favor de nenhuma
-das partes. «O homem, se quizesse voltar para junto da mulher, que
-voltasse! Ella não o prenderia, porque amor não era obrigado!»
-</p>
-<p>
-Depois de fallar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma
-cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranginha n'um copo e bebeu-os
-de um trago.
-</p>
-<p>
-&mdash;Arre! Assim tambem não!
-</p>
-<p>
-A mulata então approximou-se d'elle, por detraz; segurou-lhe a cabeça
-entre as mãos e beijou-o na bocca, arredando com os labios a espessura
-dos bigodes.
-</p>
-<p>
-Jeronymo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em
-cheio sobre as suas coxas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não te rales, meu bem! disse ella, affagando-lhe os cabellos. Já
-passou!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tens razão! besta fui eu em deixal-a pôr pé cá dentro de casa!
-</p>
-<p>
-E abraçaram-se com impeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas
-fosse uma interrupção nos seus amores.
-</p>
-<p>
-Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido
-no hombro da filha, esperava que as lagrimas cedessem um pouco, para as
-duas seguirem o seu destino de enxotadas.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XX">XX</a></h4>
-
-<p>
-Chegaram á casa ás nove horas da noite. Piedade levava o coração
-feito em lama; não déra palavra por todo o caminho e logo que recolheu
-a pequena, encostou-se á commoda, soluçando.
-</p>
-<p>
-Estava tudo acabado! Tudo acabado!
-</p>
-<p>
-Foi á garrafa de aguardente, bebeu uma boa porção; chorou ainda,
-tornou a beber, e depois sahio ao pateo, disposta a parasitar a alegria
-dos que se divertiam lá fóra.
-</p>
-<p>
-A das Dôres tivera jantar de festa; ouviam-se as risadas d'ella e a voz
-avinhada e grossa do seu homem, o tal sujeito do commercio, abafadas de
-vez em quando pelos berros da Machona, que ralhava com Agostinho. Em
-diversos pontos cantavam e tocavam viola.
-</p>
-<p>
-Mas o cortiço já não era o mesmo; estava muito differente; mal dava
-idéa do que fôra. O pateo, como João Romão havia promettido,
-estreitára-se com as edificações novas; agora parecia uma rua, todo
-calçado por igual e illuminado por tres lampeões grandes,
-symetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas, seis torneiras
-d'agoa e tres banheiros. Desappareceram as pequenas hortas, os jardins
-de quatro a oito palmos e os immensos depositos de garrafas vasias. Á
-esquerda, até onde acabava o predio do Miranda, estendia-se um novo
-correr de casinhas de porta e janella, e d'ahi por diante, acompanhando
-todo o lado do fundo e dobrando depois para a direita até esbarrar no
-sobrado de João Romão, erguia-se um segundo andar, fechado em cima do
-primeiro por uma estreita e extensa varanda de grades de madeira, para a
-qual se subia por duas escadas, uma em cada extremidade. De cento e
-tantos, a numeração dos commodos elevou-se a mais de quatrocentos; e
-tudo caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas, portas verdes e
-gotteiras encarnadas. Poucos logares havia desoccupados. Alguns
-moradores puzeram plantas á porta e á janella, em meias tinas serradas
-ou em vazos de barro. Albino levou o seu capricho até á cortina de
-labyrintho e chão forrado de esteira. A casa d'elle destacava-se das
-outras; era no andar de baixo, e cá de fóra via-se-lhe o papel
-vermelho da sala, a mobilia muito brunida, jarras de flôres sobre a
-commoda, um lavatorio com o espelho todo cercado de rosas artificiaes,
-um oratorio grande, resplandescente de palmas doiradas e prateadas,
-toalhas de renda por toda a parte, n'um luxo de egreja, casquilho e
-defumado. E elle, o pallido lavadeiro, sempre com o seu lenço cheiroso
-á volta do pescocinho, a sua calça branca de bocca larga, o seu
-cabello molle cahido por detraz das orelhas bambas, preoccupava-se muito
-em arrumar tudo isso, eternamente, como se esperasse a cada instante a
-visita de um estranho. Os companheiros de estalagem elogiavam-lhe
-aquella ordem e aquelle asseio; pena era que lhe dessem as formigas na
-cama! Em verdade, ninguem sabia porque, mas a cama de Albino estava
-sempre coberta de formigas. Elle a destruil-as, e o demonio do bichinho
-a multiplicar-se cada vez mais e mais todos os dias. Uma campanha
-desesperadora, que o trazia triste, e aborrecido da vida. Defronte
-justamente ficava a casa do Bruno e da mulher, toda mobiliada de novo,
-com um grande candieiro de kerosene em frente á entrada, cujo reverbero
-parecia olhar desconfiado lá de dentro para quem passava cá no pateo.
-Agora, entretanto, o casal vivia em santa paz. Leocadia estava discreta;
-sabia-se que ella dava ainda muito que fazer ao corpo sem o concurso do
-marido, mas ninguem dizia quando, nem onde. O Alexandre jurava, que, ao
-entrar ou sahir fora d'horas, nunca a pilhara no vicio; e a esposa, a
-Augusta Carne Molle, ia mais longe na defeza, porque sempre tivera pena
-de Leocadia, pois entendia que aquelle assanhamento por homem não era
-maldade n'ella; era praga de algum bocca do diabo que a quiz e a pobrezinha
-não deixou.&mdash;Estava se vendo d'isso todos os dias!&mdash;tanto
-que ultimamente, depois que a creatura pedio a um padre um pouco de agua
-benta e benzeu-se com esta em certos logares, o fogo desapparecêra
-logo, e ella ahi vivia direita e séria que não dava que fallar a
-ninguem! Augusta ficára com a familia n'uma das casinhas do segundo
-andar, á direita; estava gravida outra vez; e á noite via-se o
-Alexandre, sempre muito circumspecto, a passeiar ao comprido da varanda,
-acalentando uma criancinha ao collo, emquanto a mulher dentro de casa
-cuidava de outras. A filharada crescia-lhes, que mettia medo. «Era um
-no papo, outro no sacco!» Moravam agora tambem d'esse lado os dois
-cumplices de Jeronymo, o Pataca e o Zé Carlos, occupando juntos o mesmo
-commodo; defronte da porta tinham um fogãozinho e um fogareiro, em que
-preparavam elles mesmos a sua comida. Logo adiante era o quarto de um
-empregado do correio, pessoa muito callada, bem vestida e pontual no
-pagamento; sahia todas as manhãs e voltava ás dez da noite
-invariavelmente; aos domingos só ia á rua para comer, e depois
-fechava-se em casa e, houvesse o que houvesse no cortiço, não punha
-mais o nariz de fóra. E, assim como este, notavam-se por ultimo na
-estalagem muitos inquilinos novos, que já não eram gente sem gravata
-e sem meias. A feroz engrenagem d'aquella machina terrivel, que nunca
-parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a
-pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro. Começavam a vir os
-estudantes pobres, com os seus chapéos desabados, o paletó fuveiro,
-uma pontinha de cigarro a queimar-lhes a pennugem do buço, e as
-algibeiras muito cheias, mas só de versos e jornaes; surgiam continuos
-de repartições publicas, caixeiros de botequim, artistas de theatro,
-conductores de bonde, e vendedores de bilhetes de loteria. Do lado
-esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolisada pelos
-italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e
-notava-se que n'esse ponto a estalagem estava já muito mais suja que
-nos outros. Por melhor que João Romão reclamasse, formava-se ahi todos
-os dia uma esterqueira de cascas de melancia e laranja. Era uma communa
-ruidosa e porca a dos demonios dos mascates! Quasi que se não podia
-passar lá, tal a accumulação de taboleiros de louça e objectos de
-vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha de
-Flandres, bonecos e castellos de gesso, realejos, macacos, o diabo! E
-tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres, que
-empestava todo o cortiço. A parte do fundo da varanda era asseiada
-felizmente e destacava-se pela profusão de passaros que lá tinham,
-entre os quaes sobresahia uma arara enorme que, de espaço a espaço,
-soltava um formidavel sibilo estridente e rouco. Por debaixo ficava a
-casa da Machona, cuja porta, como a janella, Nênêm trazia sempre
-enfeitadas de tinhorôes e begonias. O predio do Miranda parecia ter
-recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da
-esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a casa do
-vendeiro, que lá defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar
-sobranceiro e triumphante. João Romão conseguira metter o sobrado do
-visinho no chinello; o seu era mais alto e mais nobre, e então com as
-cortinas e com a mobilia nova impunha respeito. Foi abaixo aquelle
-grosso e velho muro da frente com o seu largo portão de cocheira, e a
-entrada da estalagem era agora dez braças mais para dentro, tendo entre
-ella e a rua um pequeno jardim com bancos e um modesto repuxo ao meio,
-de cimento, imitando pedra. Fôra-se a pittoresca lanterna de vidros
-vermelhos; foram-se as iscas de figado e as sardinhas preparadas ali
-mesmo á porta da venda sobre as brazas; e na taboleta nova, muito maior
-que a primitiva, em vez de «Estalagem de São Romão» lia-se em
-lettras caprichosas:
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p class="center">
-<b>«Avenida São Romão»</b>
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-O Cabeça de Gato estava vencido finalmente, vencido para sempre; nem
-já ninguem se animava a comparar as duas estalagens. Á medida que a de
-João Romão prosperava d'aquelle modo, a outra decahia de todo; raro
-era o dia em que a policia não entrava lá e baldeava tudo aquillo a
-espadeirada de cego. Uma desmoralisação completa! Muitos Cabeças de
-Gato viraram casaca, passando-se para os Carapicús, entre os quaes um
-homem podia até arranjar a vida, se soubesse trabalhar com geito em
-tempo de eleições. Exemplos não faltavam!
-</p>
-<p>
-Depois da partida de Rita, já se não faziam sambas ao relento com o
-choradinho da Bahia, e mesmo a canna verde pouco se dansava e cantava;
-agora o forte eram os forrobodós dentro de casa, com tres ou quatro
-musicos, ceia de café com pão; muita calça branca e muito vestido
-engommado.&mdash;E toca a enfiar para ahi quadrilhas e polkas até romper a
-manhã!
-</p>
-<p>
-Mas n'aquelle domingo o cortiço estava banzeiro; havia apenas uns
-grupos magros, que se divertiam com a viola á porta de casa. O melhor,
-ainda assim, era o da das Dôres. Piedade dirigio-se logo para lá,
-sombria e cabisbaixa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Com o demo! você anda agora que nem o boi castrado! exclamou-lhe o
-Pataca, assentando-se ao lado d'ella. As tristezas atiram-se para traz
-das costas, creatura de Dons! A vida não dá para tanto! O homem
-deixou-te? Ora sebo! mette-te com outro e põe o coração á larga!
-</p>
-<p>
-Ella suspirou em resposta, ainda triste; porém a garrafa de paraty
-correu a roda, de mão em mão, e, á segunda volta, Piedade já parecia
-outra. Começou a conversar e a tomar interesse no pagode. D'ahi a pouco
-era, de todos a mais animada, fallando pelos cotovellos, criticando e
-arremedando as figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar
-a espinha, cahindo por cima della e passando-lhe o braço na cintura.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você ainda é mulher pr'um homem fazer uma asneira!
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha p'ra que lhe deu a ebria! Solta-me a perna, estupor!
-
-O grupo achava graça nos dois e applaudia-os com gargalhadas. E o
-paraty a circular sempre de mão em mão. A das Dôres não descansava
-um momento; mal vinha de encher a garrafa lá dentro de casa, tinha de
-voltar outra vez para enchel-a de novo. «Olha que estafa! Vão beber
-pr'o diabo!» Afinal appareceu com o garrafão e pousou o no meio da
-roda.
-</p>
-<p>
-&mdash;Querem saber? Empinem por ahi mesmo, que já estou com os quartos
-doendo de tanto andar de lá p'ra cá!
-</p>
-<p>
-Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João Romão
-entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dansar ao som de
-palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia
-levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu
-choradinho do Bahia. Era a bôba da roda. Batiam-lhe palmadas no
-trazeiro e com o pé embaraçavam-lhe as pernas, para a ver cahir e
-rebolar-se no chão.
-</p>
-<p>
-O vendeiro, de fraque e chapéo alto, foi direito ao grupo, então muito
-mais reforçado de gente, e intimou a todos que se recolhessem. Aquillo
-já não eram horas para semelhante algazarra!
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos! Vamos! Cada um para sua casa!
-</p>
-<p>
-Piedade foi a unica que protestou, reclamando o seu direito de brincar
-um pouco com os amigos.
-</p>
-<p>
-Que diabo! Não se estava fazendo mal a ninguem!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora vá mas é p'ra cama cozer a mona! vituperou-lhe João Romão,
-repellindo-a. Você, com uma filha quasi mulher, não tem vergonha de
-estar aqui a servir de palhaço?! Forte bebada!
-</p>
-<p>
-Piedade assomou-se com a descompostura, quiz despicar-se, chegou a
-arregaçar as mangas e sungar a saia; mas o Pataca metteu-se no meio e
-conteve-a, pedindo a João Romão que não levasse aquillo em conta,
-porque era tudo cachaça.
-</p>
-<p>
-&mdash;Bom, bom, bom! mas aviem-se! Aviem-se!
-</p>
-<p>
-E não se retirou sem ver a roda dissolvida, e cada qual procurando a
-casa.
-</p>
-<p>
-Recolheram-se todos em silencio; só o Pataca e Piedade deixaram-se
-ficar ainda no pateo, a discutir o acto do vendeiro. O Pataca tambem
-estava bastante toucado. Ambos reconheciam que lhes não convinha
-demorar-se ali, porém nenhum dos dois se sentia disposto a metter-se no
-quarto.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você tem lá alguma coisa que beber em casa? perguntou elle afinal.
-</p>
-<p>
-Ella não sabia ao certo; foi ver. Havia meia garrafa de paraty e um
-resto de vinho. Mas era preciso não fazer barulho, por'mor da pequena
-que estava dormindo.
-</p>
-<p>
-Entraram em ponta de pés, a fallar surdamente. Piedade deu mais luz ao
-candieiro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha agora! Vamos ficar ás escuras! Acabou-se o gaz! O Pataca sahio,
-para ir á casa buscar uma véla, e de volta trouxe tambem um pedaço de
-queijo e dois peixes fritos, que levou ao nariz da lavadeira, sem dizer
-nada. Piedade, aos bordos, desoccupou a meza do engommado o servio dois
-pratos. O outro reclamou vinagre e pimentas e perguntou se havia pão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pão ha. O vinho é que é pouco!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não faz mal! Vae mesmo com a canninha!
-</p>
-<p>
-E assentaram-se. O cortiço dormia já e só se ouviam, no silencio da
-noite, cães que ladravam lá fóra na rua, tristemente. Piedade
-começou a queixar-se da vida veio-lhe uma crise de lagrimas e soluços.
-Quando poude fallar contou o que lhe succedêra essa tarde, narrou os
-pormenores da sua ida com a filha á procura do marido, o jantar em
-commum com a peste da mulata, e afinal a sua humilhação de vir de lá
-enxovalhada e corrida.
-</p>
-<p>
-Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jeronymo mas com o
-d'ella.
-</p>
-<p>
-Rebaixar-se áquelle ponto! com effeito!... Ir procurar o homem lá na
-casa da outra!... Oh!
-</p>
-<p>
-&mdash;Elle tratou-me bem, quando lá fui da primeira vez... Hoje é que não
-sei o que tinha: só faltou pôr-me na rua aos pontapés!
-</p>
-<p>
-&mdash;Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter lhe mettido o páo, para
-você não ser tôla!
-</p>
-<p>
-&mdash;É mesmo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois não! O que não falta são homens, filha! O mundo é grande!
-Para um pé doente ha sempre um chinello velho!&mdash;E ferrou-lhe a mão nas
-pernas&mdash;chega-te para mim, que te esquecerás do outro!
-</p>
-<p>
-Piedade repellio-o.
-</p>
-<p>
-Que se deixasse de asneiras!
-</p>
-<p>
-&mdash;Asneiras! É o que se leva d'esta vida!
-</p>
-<p>
-A pequena acordára lá no quarto e viera descalça até á porta da sala
-de jantar, para espiar o que faziam os dois.
-</p>
-<p>
-Não deram por ella.
-</p>
-<p>
-E a conversa proseguio, esquentando á medida que a garrafa de paraty se
-esvasiava. Piedade deu de mão aos seus desgostos, pôz-se a papaguear
-um pouco; as lagrimas foram-se-lhe; e ella manducou então com appetite,
-rindo já das pilherias do companheiro, que continuava a apalpar-lhe de
-vez em quando as coxas.
-</p>
-<p>
-Aquellas coisas, assim, sem se esperar, é que tinham graça!... dizia
-elle, excitado e vermelho, comendo com a mão, a embeber pedaços de
-peixe no molho das pimentas. Bem tolo era quem se matava!
-</p>
-<p>
-Depois lembrou que não viria fóra de proposito uma chicrinha de café.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não sei se ha, vou ver, respondeu a lavadeira, erguendo-se agarrada
-á meza.
-</p>
-<p>
-E bordejou até á cozinha, a dar esbarrões pela direita e pela
-esquerda.
-</p>
-<p>
-&mdash;Tento no leme, que o mar está forte! exclamou Pataca, levantando-se
-tambem, para ir ajudal-a.
-</p>
-<p>
-Lá perto do fogão agarrou-a de subito, como um gallo abafando uma
-gallinha.
-</p>
-<p>
-&mdash;Larga! reprehendeu a mulher, sem forças para se defender.
-</p>
-<p>
-Elle apanhou-lhe as fraldas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Espera! Deixa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não quero!
-</p>
-<p>
-E ria-se por ver a attitude comica do Pataca vergado defronte d'ella.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que mal faz?... Deixa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sahe d'ahi, diabo!
-</p>
-<p>
-E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao chão.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha que peste! resmungou a desgraçada, quando o adversario
-conseguio saciar-se n'ella. Marráios te partam!
-</p>
-<p>
-E deixou-se ficar por terra. Elle pôz-se de pé e, ao encaminhar-se
-para a sala de jantar, sentio uma ligeira sombra fugirem sua frente. Era
-a pequena, que fora espiar á porta da cozinha.
-</p>
-<p>
-Pataca assustára-se.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem anda aqui a correr como gato?... perguntou voltando a ter com
-Piedade, que permanecia no mesmo logar; agora quasi adormecida.
-</p>
-<p>
-Sacudio-a.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olá! Queres ficar ahi, ó creatura! Levanta-te! Anda a ver o café!
-</p>
-<p>
-E, tentando erguel-a, suspendeu-a por debaixo dos braços. Piedade, mal
-mudou a posição da cabeça, vomitou sobre o peito e a barriga uma
-golphada fetida.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olha o demo! resmungou Pataca. Está que se não póde lamber!
-</p>
-<p>
-E foi preciso arrastal-a até á cama, que nem uma trouxa de roupa suja.
-A infeliz não dava accordo de si.
-</p>
-<p>
-Senhorinha acudira, perguntando afflicta o que tinha a mãe.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não é nada, filha! explicou o Pataca. Deixa-a dormir, que isso
-passa! Olha! se ha limão em casa passa-lhe um pouco atraz da orelha, e
-verás que amanhã acorda fina e prompta p'ra outra!
-</p>
-<p>
-A menina desatou a soluçar.
-</p>
-<p>
-E o Pataca retirou-se, a dar encontrões nos trastes, furioso, porque,
-afinal, não tomára café.
-</p>
-<p>
-&mdash;Sebo!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXI">XXI</a></h4>
-
-<p>
-Ao mesmo tempo, João Romão, em chinellas e camisola, passeava de um
-para outro lado no seu quarto novo. Um aposento largo e forrado de azul
-e branco com flôrinhas amarellas fingindo oiro; havia um tapete aos
-pés da cama, e sobre a peniqueira um despertador de nikel, e a mobilia
-toda era já de casados, porque o esperto não estava para comprar
-moveis duas vezes.
-</p>
-<p>
-Parecia muito preoccupado; pensava em Bertoleza que, a essas horas,
-dormia lá em baixo, n'um vão de escada, aos fundos do armazém, perto
-da commúa.
-</p>
-<p>
-Mas que diabo havia elle de fazer afinal d'aquella peste?...
-</p>
-<p>
-E coçava a cabeça, impaciente por descobrir um meio de ver-se livre
-d'ella.
-</p>
-<p>
-É que n'essa noite o Miranda lhe fallára abertamente sobre o que
-ouvira de Botelho, e estava tudo decidido: Zulmira aceitava-o para
-marido e Dona Estella ia marcar o dia do casamento.
-</p>
-<p>
-O diabo era a Bertoleza!...
-</p>
-<p>
-E o vendeiro ia e vinha no quarto, sem achar uma boa solução para o
-problema.
-</p>
-<p>
-Ora, que raio de difficuldade armára elle proprio para se coser!...
-Como poderia agora mandal-a passear, assim, de um momento para outro, se
-o demonio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo e toda a gente
-na estalagem sabia d'isso?
-</p>
-<p>
-E sentia-se revoltado e impotente defronte d'aquelle tranquillo
-obstaculo que lá estava em baixo, a dormir, fazendo-lhe em silencio um
-mal horrivel, perturbando-lhe estupidamente o curso da sua felicidade,
-retardando-lhe, talvez sem consciencia, a chegada d'esse bello futuro
-conquistado á força de tamanhas privações e sacrificios!
-</p>
-<p>
-Que ferro!
-</p>
-<p>
-Mas, só com lembrar-se da sua união com aquella brasileirinha fina e
-aristocratica, um largo quadro de victorias rasgava-se defronte da
-desensoffrida avidez da sua vaidade. Em primeiro logar fazia-se membro
-de uma familia tradicionalmente orgulhosa, como era, dito por todos, a
-de Dona Estella; em segundo logar augmentava consideravelmente os seus
-bens com o dote da noiva, que era rica; e em terceiro, afinal,
-caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuia, realisando-se
-d'este modo um velho sonho que o vendeiro affagava desde o nascimento da
-sua rivalidade com o visinho.
-</p>
-<p>
-E via-se já na brilhante posição que o esperava: uma vez de dentro,
-associava-se logo com o sogro e iria, pouco a pouco, como quem não quer
-a coisa, o empurrando para o lado, até empolgar-lhe o logar e fazer de
-si um verdadeiro chefe da colonia portugueza no Brasil; depois quando o
-barco estivesse navegando ao largo a todo o panno&mdash;Tome lá alguns
-pares de contos de reis e passe-me para cá o titulo de Visconde!
-</p>
-<p>
-Sim, sim, Visconde! Porque não? E mais tarde, com certeza, Conde! Eram
-favas contadas!
-</p>
-<p>
-Ah! elle, posto nunca o disséra a ninguem, sustentava de si para si nos
-ultimos annos o firme proposito de fazer-se um titular mais graduado que
-o Miranda. E, só depois de ter o titulo nas unhas, é que iria á
-Europa, de passeio, sustentando grandeza, mettendo invejas, cercado de
-adulações, liberal, prodigo, brasileiro, atordoando o mundo velho com
-o seu oiro novo americano!
-</p>
-<p>
-E a Bertoleza? gritava-lhe do interior uma voz impertinente.
-</p>
-<p>
-&mdash;É exacto! E a Bertoleza?... repetia o infeliz, sem interromper o seu
-vae-e-vem ao comprido da alcova.
-</p>
-<p>
-Diabo! E não poder arredar logo da vida aquelle ponto negro; apagal-o
-rapidamente, como quem tira da pelle uma nódoa de lama! Que raiva ter de
-reunir aos vôos mais fulgurosos da sua ambição a idéa mesquinha e
-ridicula d'aquella inconfessavel concubinagem! E não podia deixar de
-pensar no demonio da negra, porque a maldita ali estava perto, a
-rondal-o ameaçadora e sombria; ali estava como o documento vivo das
-suas miserias, já passadas mas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser
-esmagada, devia ser supprimida, porque era tudo que havia de máo na
-vida d'elle! Seria um crime conserval-a a seu lado! Ella era o torpe
-balcão da primitiva bodega; era o aladroado vintemzinho do manteiga em
-papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido á noite ao lado do
-fogareiro á porta da taberna; era o frege immundo e a lista cantada das
-comezanas á portugueza; era o somno roncado num colchão fetido, cheio
-de bichos; ella era a sua cumplice e era todo o seu mal&mdash;devia pois
-extinguir-se! Devia ceder o logar á pallida mocinha de mãos delicadas
-e cabellos perfumados, que era o bem, porque era o que ria e alegrava,
-porque era a vida nova, o romance solfejado ao piano, as flôres nas
-jarras, as sedas e as rendas, o chá servido em porcelanas caras; era
-emfim a doce existencia dos ricos, dos felizes e dos fortes, dos que
-herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esforço, conseguiram accumular
-dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos escrupulosos ou dos
-fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o namorado sorriso da
-filha do Miranda, sentia ainda a leve pressão do braço melindroso que
-se apoiara ao seu, algumas horas antes, em passeio pela praia de
-Botafogo; respirava ainda os perfumes da menina, suaves, escolhidos e
-penetrantes como palavras de amor; nos seus dedos grossos, curtos,
-asperos e vermelhos, conservava a impressão da tepida caricia d'aquella
-mãozinha enluvada que, dentro em pouco, nos prazeres garantidos do
-matrimonio, affagar-lhe-ia as carnes e os cabellos.
-</p>
-<p>
-Mas, e a Bertoleza?...
-</p>
-<p>
-Sim! era preciso acabar com ella! despachal-a! sumil-a por uma vez!
-</p>
-<p>
-Deu meia noite no relogio do armazem. João Romão tomou uma véla e
-desceu aos fundos da casa, onde Bertoleza dormia. Approximou-se d'ella,
-pé ante pé, como um criminoso que leva uma idéa homicida.
-</p>
-<p>
-A crioula estava immovel sobre o enxergão, deitada de lado, com a cara
-escondida no braço direito, que ella dobrára por debaixo da cabeça.
-Apparecia-lhe uma parte do corpo, núa.
-</p>
-<p>
-João Romão contemplou-a por algum tempo, com asco.
-</p>
-<p>
-E era aquillo, aquella miseravel preta que ali dormia indifferentemente,
-o grande estorvo da sua ventura!... Parecia impossivel!
-</p>
-<p>
-&mdash;E se ella morresse?...
-</p>
-<p>
-Esta phrase, que elle tivera, quando pensou pela primeira vez n'aquelle
-obstaculo á sua felicidade, tornava-lhe agora ao espirito, porém já
-amadurecida e transformada n'esta outra:
-</p>
-<p>
-&mdash;E se eu a matasse?
-</p>
-<p>
-Mas logo um calafrio de pavor correu-lhe por todos os nervos.
-</p>
-<p>
-Além disso, como?... Sim, como poderia despachal-a, sem deixar signaes
-compromettedores do crime?... Envenenando-a?... Dariam logo pela
-coisa!... Matal-a a tiro?... Peior! Leval-a a um passeio fóra da
-cidade, bem longe e, no melhor da festa, atiral-a ao mar ou por um
-despenhadeiro, onde a morte fosse infallivel?... Mas como arranjar tudo
-isso, se elles nunca passeiavam juntos?...
-</p>
-<p>
-Diabo!
-</p>
-<p>
-E o desgraçado ficou a pensar, abstracto, de castiçal na mão, sem
-despregar os olhos de cima de Bertoleza, que continuava immovel, com o
-rosto escondido no braço.
-</p>
-<p>
-&mdash;E se eu a esganasse aqui mesmo?...
-</p>
-<p>
-E deu, na ponta dos pés, alguns passos para frente, parando logo, sem
-deixar nunca de contemplal-a.
-</p>
-<p>
-Mas a crioula ergueu de improviso a cabeça e fitou-o com olhos de quem
-não estava dormindo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! fez elle.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que é, seu João?
-</p>
-<p>
-&mdash;Nada. Vim só ver-te... Cheguei ainda não ha muito... Como vais
-tu?... Passou-te a dôr do lado?...
-</p>
-<p>
-Ella meneou os hombros, sem responder ao certo. Houve um silencio entre
-os dois. João Romão não sabia o que dizer e sahío afinal, escoltado
-pelo imperturbavel olhar da crioula, que o intimidava mesmo pelas
-costas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Teria desconfiado? pensou o miseravel, subindo de novo para o
-quarto. Qual? Desconfiar de que?...
-</p>
-<p>
-E metteu-se logo na cama, disposto a não pensar mais n'isso e dormir
-incontinenti. Mas o seu pensamento continuou rebelde a parafusar sobre o
-mesmo assumpto.
-</p>
-<p>
-&mdash;É preciso despachal-a! É preciso despachal-a quanto antes, seja lá
-como fôr! Ella, até agora, não deu ainda signal de si; não abrio o
-bico a respeito da questão; mas, Dona Estella está a marcar o dia do
-casamento; não levará muito tempo para isso ... o Miranda naturalmente
-communica a noticia aos amigos ... o facto corre de bocca em bocca ...
-chega aos ouvidos da crioula, e esta, vendo-se abandonada, estoira!
-estoira com certeza! E agora o verás! Como deve ser bonito, hein?...
-Ir tão bem até aqui e esbarrar na opposição da negra!... E os
-commentarios depois!... O que não dirão os invejosos lá da Praça?...
-«Ah, ah! elle tinha em casa uma amiga, uma preta immunda com quem
-vivia! Que typo! Sempre ha de mostrar que é gentinha de laia muito
-baixa!... E aqui a engazopar-nos com uns ares de capitalista que se
-trata á véla de libra! Olha o Carapicú para que havia de dar! Sáe
-sujo!» E, então, a familia da menina, com medo de cahir tambem na
-bocca do mundo, volta atraz e dá o dito por não dito! Bem sei que ella
-está a par de tudo; isso, olé se está! mas finge-se desentendida,
-porque conta, e com razão, que eu não serei tão parvo que espere o
-dia do casamento sem ter todo sumisso á negra! contam que a coisa
-correrá sem o menor escandalo! E eu, no emtanto, tão besta que nada
-fiz! E a peste da crioula está ahi senhora do terreiro como d'antes, e
-não descubro meio de ver-me livre d'ella!... Ora já se vio como
-arranjei semelhante entalação?... Isto contado não se acredita!
-</p>
-<p>
-E pisava e repisava o caso, sem achar meio de dar-lhe sahida.
-</p>
-<p>
-Diabo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella ha muito que devia estar longe de mim ... fiz mal em não cuidar
-logo d'isso antes de mais nada!... Fui um pedaço d'asno! Se eu a
-tivesse despachado logo, quando ainda se não fallava no meu casamento,
-ninguem desconfiaria da historia: «Porque diabo iria o pobre homem dar
-cabo de uma mulher, com quem vivia na melhor paz e que era até, dentro
-de casa, o seu braço direito?...» Mas agora, depois de todas aquellas
-reformas de vida; depois da separação das camas, e principalmente
-depois que corresse a noticia do casamento, não faltaria de certo quem
-o accusasse, se a negra apparecesse morta de repente!
-</p>
-<p>
-Diabo!
-</p>
-<p>
-Deram quatro horas, e o desgraçado nada de pregar olho; continuava a
-matutar sobre o assumpto, virando se de um para o outro lado da sua
-larga e rangedora cama de casados. Só pelo abrir da aurora conseguio
-passar pelo somno; mas, logo ás sete da manhã, teve de pôr-se a pé:
-o cortiço estava todo alvoroçado com um desastre.
-</p>
-<p>
-A Machona lavava á sua tina, ralhando e discutindo como sempre, quando
-dois trabalhadores, acompanhados de um ruidoso grupo de curiosos,
-trouxeram-lhe sobre uma taboa o cadaver ensanguentado do filho.
-Agostinho havia ido, segundo o costume, brincar á pedreira com outros
-dois rapazitos da estalagem; tinham, cabritando pelas arestas do
-precipicio, subido a uma altura superior a duzentos metros do chão e,
-de repente, faltára-lhe o equilibrio e o infeliz rolou de lá abaixo,
-partindo os ossos e atassalhando as carnes.
-</p>
-<p>
-Todo elle, coitadinho, era uma só massa vermelha; as canellas quebradas
-no joelho, dobravam molles para debaixo das coxas; a cabeça,
-desarticulada, abrira no casco e despejava o pirão dos miolos; n'uma
-das mãos faltavam-lhe todos os dedos e no quadril esquerdo via-se-lhe
-sahir uma ponta de osso ralado pela pedra.
-</p>
-<p>
-Foi um alarme no pateo quando elle chegou.
-</p>
-<p>
-Cruzes! que desgraça!
-</p>
-<p>
-Albino, que lavava ao lado da Machona, teve uma syncope; Nênêm ficou
-que nem doida, porque ella queria muito áquelle irmão; a das Dôres
-imprecou contra os trabalhadores, que deixavam um filho alheio matar-se
-d'aquelle modo em presença d'elles; a mãe, essa apenas soltou um
-bramido de monstro apunhalado no coração e cahio mesquinha junto do
-cadaver, a beijal-o, vagindo como uma criança. Não parecia a mesma!
-</p>
-<p>
-As mães dos outros dois rapazitos esperavam immoveis e lividas pela
-volta dos filhos, e, mal estes chegaram á estalagem, cada uma se
-apoderou logo do seu e cahio-lhe em cima, a soval-os ambos que mettia
-medo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mira-te n'aquelle espelho, tentação do diabo! exclamava uma d'ellas,
-com o pequeno seguro entre as pernas e a encher-lhe a bunda de
-chinelladas. Não era aquelle que devia ir, eras tu, peste! aquelle,
-coitado! ao menos ajudava a mãe, ganhava dois mil reis por mez regando
-as plantas do Commendador, e tu, coisa ruim, só serves para me dar
-consumições! Toma! Toma! Toma!
-</p>
-<p>
-E o chinello cantava entre o berreiro feroz dos dois rapazes.
-</p>
-<p>
-João Romão chegou ao terraço de sua casa, ainda em mangas de camisa,
-e de lá mesmo tomou conhecimento do que acontecera. Contra todos os
-seus habitos impressionou-se com a morte de Agostinho; lamentou-a no
-intimo, tomado de estranhas condolencias.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pobre pequeno! tão novo ... tão esperto ... e cuja vida não
-prejudicava a ninguem, morrer assim, desastradamente!... ao passo que
-aquelle diabo velho da Bertoleza continuava agarrado á existencia,
-envenenando-lhe a felicidade, sem se decidir a despachar o beco!
-</p>
-<p>
-E o demonio da crioula parecia mesmo não estar disposta a ir só com
-duas razões; apezar de triste e acabrunhada, mostrava-se forte e rija.
-Suas pernas curtas e lustrosas eram duas peças de ferro unidas pela
-culatra, das quaes ella trazia um par de balas penduradas em sacco
-contra o peito; as roscas lustrosas do seu cachaço lembravam grossos
-chouriços de sangue, e na sua carapinha compacta ainda não havia um
-fio branco. Aquillo, arre! tinha vida para o rosto do seculo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas deixa estar, que eu te despacho bonito e asseiado!... disse o
-vendeiro de si para si, voltando ao quarto para acabar de vestir-se.
-</p>
-<p>
-Enfiava o collete quando bateram pancadas familiares na porta do
-corredor.
-</p>
-<p>
-&mdash;Então?! Ainda se está em val de lençóes?...
-</p>
-<p>
-Era a voz do Botelho.
-</p>
-<p>
-O vendeiro foi abrir e fel-o entrar ali mesmo para a alcova.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ponha-se a gosto. Como vai você?
-</p>
-<p>
-&mdash;Assim. Não tenho passado lá essas coisas...
-</p>
-<p>
-João Romão deu-lhe noticia da morte do Agostinho e declarou que estava
-com dôr de cabeça. Não sabia que diabo tinha elle aquella noite, que
-não houve meio de pegar direito no somno.
-</p>
-<p>
-&mdash;Calor ... explicou o outro. E proseguio depois de uma pausa,
-accendendo um cigarro: Pois eu vinha cá fallar-lhe... Você não
-repare, mas...
-</p>
-<p>
-João Romão suppoz que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e preparou-se
-para a defeza, queixando-se inopinadamente de que os negocios não lhe
-corriam bem; mas calou-se, porque Botelho accrescentou com o olhar fito
-nas unhas:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não devia fallar n'isto ... são coisas suas lá particulares, em que
-a gente não se mette, mas...
-</p>
-<p>
-O taberneiro comprehendeu logo onde a visita queria chegar e
-approximou-se d'ella, dizendo confidencialmente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Ao contrario! falle com franqueza... Nada de receios...
-</p>
-<p>
-&mdash;É que ... sim, você sabe que eu tenho tratado do seu casamento com a
-Zulmirinha... Lá em casa não se falla agora n'outra coisa ... até a
-propria Dona Estella já está muito bem disposta a seu favor ... mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Desembuche, homem de Deus!
-</p>
-<p>
-&mdash;É que ha um pontinho que é preciso pôr a limpo... Coisa
-insignificante, mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, mas! você não desembuchará por uma vez?... Falle, que diabo!
-</p>
-<p>
-Um caixeiro do armazem appareceu á porta, prevenindo de que o almoço
-estava na meza.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos comer, disse João Romão. Você já almoçou?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ainda não, mas lá em casa contam commigo...
-</p>
-<p>
-O vendeiro mandou o seu empregado dizer lá defronte á familia do
-Barão que seu Botelho não ia ao almoço. E, sem tomar o casaco, passou
-com a visita á sala de jantar.
-</p>
-<p>
-O cheiro activo dos moveis, polidos ainda de fresco, dava ao aposento um
-caracter insociavel de logar deshabitado e por alugar. Os trastes, tão
-nús como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de coisa nova.
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas vamos lá! Que temos então?... inquirio o dono da casa,
-assentando-se á cabeceira da meza, emquanto o outro, junto d'elle,
-tomava logar á extremidade de um dos lados.
-</p>
-<p>
-&mdash;É que, respondeu o velho em tom de mysterio, você tem cá em sua
-companhia uma ... uma crioula, que... Eu não creio, note-se, mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Adiante!
-</p>
-<p>
-&mdash;É! Dizem que ella é coisa sua... Lá em casa rosnou!... O Miranda
-defende-o, affirma que não... Ah! aquillo é uma grande alma! mas Dona
-Estella, você sabe o que são mulheres!... torce o nariz e... Em uma
-palavra: receio que esta historia nos traga qualquer embaraço!...
-</p>
-<p>
-Calou-se, porque acabava de entrar um portuguezinho, trazendo uma
-travessa de carne ensopada com batatas.
-</p>
-<p>
-João Romão não respondeu, mesmo depois que o pequeno sahio; ficou
-abstracto, a bater com a faca entre os dentes.
-</p>
-<p>
-&mdash;Porque você a não manda embora?... arriscou-o Botelho, despejando
-vinho no seu e no copo do companheiro.
-</p>
-<p>
-Ainda d'esta vez não obteve logo resposta; mas o outro tomando, afinal,
-uma resolução, declarou confidencialmente:
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou dizer-lhe toda a coisa como ella é ... e talvez que você até me
-possa auxiliar!...
-</p>
-<p>
-Olhou para os lados, chegou mais a sua cadeira para junto da de Botelho
-e accrescentou em voz baixa:&mdash;Esta mulher metteu-se commigo, quando eu
-principiava minha vida... Então, confesso ... precisava de alguem nos
-casos d'ella, que me ajudasse ... e ajudou-me muito, não nego! Devo-lhe
-isso! não! ajudar-me ajudou!... mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;E depois?
-</p>
-<p>
-&mdash;Depois, ella foi ficando para ahi; foi ficando ... e agora...
-</p>
-<p>
-&mdash;Agora é um trambolho que lhe póde escangalhar a egreginha! É o que
-é!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, que duvida! póde ser um obstaculo sério ao meu casamento! Mas,
-que diabo! eu tambem, você comprehende, não a posso pôr na rua,
-assim, sem mais aquellas!... Seria ingratidão, não lhe parece?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella já sabe em que pé está o negocio?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Deve desconfiar de alguma coisa, que não é tola!... Eu, cá por mim,
-não lhe toquei em nada...
-</p>
-<p>
-&mdash;E você ainda faz vida com ella?
-</p>
-<p>
-&mdash;Qual! ha muito tempo que nem sombras d'isso...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então, meu amigo, é arranjar-lhe uma quitanda em outro bairro;
-dar-lhe algum dinheiro e... Boa viagem! O dente que já não presta
-arranca-se fóra!
-</p>
-<p>
-João Romão ia responder, mas Bertoleza assomou á entrada da sala.
-Vinha tão transformada e tão livida que só com a sua presença
-intimidou profundamente os dois. A indignação tirava-lhe faiscas dos
-olhos e os labios tremiam-lhe de raiva. Logo que fallou veio-lhe espuma
-aos cantos da bocca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira
-á tôa! exclamou ella. Sou negra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me
-comeu a carne tem de roer-me os ossos! Então ha de uma creatura ver
-entrar anno e sahir anno, a puxar pelo corpo todo o santo dia que Deus
-manda ao mundo, desde pela manhãzinha até pelas tantas da noite, para
-ao depois ser jogada no meio da rua, como gallinha podre?! Não! Não ha
-de ser assim, seu João!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas, filha de Deus, quem te disse que eu quero atirar-te á tôa?...
-perguntou o capitalista.
-</p>
-<p>
-&mdash;Eu escutei o que você conversava, seu João! A mim não me cegam
-assim só! Você é fino, mas eu tambem sou! Você está armando
-casamento com a menina de seu Miranda!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sim, estou! Um dia havia de cuidar de meu casamento!... Não hei de
-ficar solteiro toda a vida, que não nasci para pandego! Mas tambem não
-te sacudo na rua, como disseste; ao contrario agora mesmo tratava aqui
-com seu Botelho de arranjar-te uma quitanda e...
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! Com a quitanda principiei; não hei de ser quitandeira até
-morrer! Preciso de um descanço! Para isso mourejei junto de você
-emquanto Deus Nosso Senhor me deu força e saude!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas afinal que diabo queres tu?!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora essa! Quero ficar a seu lado! Quero desfructar o que nós dois
-ganhámos juntos! quero a minha parte no que fizemos com o nosso
-trabalho! quero o meu regalo, como você quer o seu!
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas não vês que isso é um disparate?... Tu não te conheces?... Eu
-te estimo, filha; mas por ti farei o que fôr bem entendido e não
-loucuras! Descança que nada te ha de faltar!... Tinha graça, com
-effeito, que ficassemos vivendo juntos!... Não sei como não me
-propões casamento!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! agora eu não me enxergo! agora eu não presto para nada! Porém,
-quando você precisou de mim não lhe ficava mal servir-se de meu corpo
-e aguentar a sua casa com o meu trabalho! Então a negra servia para um
-tudo; agora não presta para mais nada, e atira-se com ella no monturo
-do cisco! Não! assim tambem Deus não manda! Pois se aos cães velhos
-não se enxotam, porque me hão de pôr fóra d'esta casa, em que metti
-muito suor do meu rosto?... Quer casar, espere então que eu feche
-primeiro os olhos; não seja ingrato!
-</p>
-<p>
-João Romão perdeu por fim a paciencia e retirou-se da sala, atirando
-á amante uma palavrada porca.
-</p>
-<p>
-&mdash;Não vale a pena encanzinar-se ... segredou-lhe o Botelho,
-acompanhando-o até á alcova, onde o vendeiro enterrou com toda a
-força o chapéu na cabeça e enfiou o paletó com a mão fechada em
-murro.
-</p>
-<p>
-&mdash;Arre! Não a posso aturar nem mais um instante! Que vá para o diabo
-que a carregue! em casa é que não me fica!
-</p>
-<p>
-&mdash;Calma, homem de Deus! Calma!
-</p>
-<p>
-&mdash;Se não quizer ir por bem, irá por mal! Sou eu quem o diz!
-</p>
-<p>
-E o vendeiro esfuziou pela escada, levando atraz de si o velhote, que
-mal podia acompanhal-o na carreira. Já na esquina da rua parou e,
-fitando no outro o seu olhar flammejante, perguntou-lhe:
-</p>
-<p>
-&mdash;Você vio?!
-</p>
-<p>
-&mdash;É ... resmungou o parasita, de cabeça baixa, sem interromper os
-passos.
-</p>
-<p>
-E seguiram em silencio, andando agora mais de vagar; ambos preoccupados.
-</p>
-<p>
-No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou se Bertoleza era escrava
-quando João Romão tomou conta d'ella.
-</p>
-<p>
-Esta pergunta trouxe uma inspiração ao vendeiro. Ia pensando em
-mettel-a como idiota no Hospicio de Pedro II, mas accudia-lhe agora
-coisa muito melhor: entregal-a ao seu senhor, restituil-a legalmente á
-escravidão.
-</p>
-<p>
-Não seria difficil ... considerou elle; era só procurar o dono da
-escrava, dizer lhe onde esta se achava refugiada e aquelle ir logo
-buscal-a com a policia.
-</p>
-<p>
-E respondeu ao Botelho:
-</p>
-<p>
-&mdash;Era e é!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! Ella é escrava? De quem?
-</p>
-<p>
-&mdash;De um tal Freitas de Mello. O primeiro nome não sei. Gente de fóra.
-Em casa tenho as notas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora! então a coisa é simples!... Mande-a para o dono!
-</p>
-<p>
-&mdash;E se ella não quizer ir?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Como não?! A policia a obrigará! É boa!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella ha de querer comprar a liberdade...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois que a compre, se o dono consentir!... Você com isso nada mais
-tem que ver! E se ella voltar á sua procura, despache-a logo; se
-insistir, vá então á autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas
-coisas, para ser bem feitas, fazem-se assim ou não se fazem! Olhe que
-aquelle modo com que ella lhe fallou ha pouco é o bastante para você
-ver que semelhante estupor não lhe convém dentro de casa nem mais um
-instante! Digo-lhe até: já não só pelo facto do casamento, mas por
-tudo! Não seja molle!
-</p>
-<p>
-João Romão escutava, caminhando calado, sem mais vislumbres de
-agitação. Tinham chegado á praia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Você quer encarregar-se d'isto? propoz elle ao companheiro, parando
-ambos á espera do bonde; se quizer, póde tratar, que lhe darei uma
-gratificação menos má...
-</p>
-<p>
-&mdash;De quanto?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Cem mil reis!
-</p>
-<p>
-&mdash;Não! dobre!
-</p>
-<p>
-&mdash;Terá os duzentos!
-</p>
-<p>
-&mdash;Está dito! Eu cá, para tudo que fôr pôr cobro a relachamentos de
-negro, estou sempre prompto!
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois então logo mais á tarde lhe darei, ao certo, o nome do dono, o
-logar em que elle residia quando ella veio para mim e o mais que
-encontrar a respeito.
-</p>
-<p>
-&mdash;E o resto fica a meu cuidado! Póde dal-a por despachada!
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXII">XXII</a></h4>
-
-<p>
-Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e
-só trocava com o amigo um ou outro monosyllabo inevitavel no serviço
-da casa. Entre os dois havia agora d'esses olhares de desconfiança, que
-são abysmos de constrangimento entre pessoas que moram juntas. A
-infeliz vivia n'um sobresalto constante; cheia de apprehensões, com
-medos de ser assassinada; só comia do que ella propria preparava para
-si e não dormia senão depois de fechar-se á chave. Á noite o mais
-ligeiro rumor a punha de pé; olhos arregalados, respiração convulsa,
-bocca aberta e prompta para pedir soccorro ao primeiro assalto.
-</p>
-<p>
-No emtanto, em redor do seu desassocego e do seu máo estar, tudo ali
-prosperava forte em grosso, aos contos de reis, com a mesma febre com
-que d'antes, em torno da sua actividade de escrava trabalhadeira, os
-vintens choviam dentro da gaveta da venda. Durante o dia paravam agora
-em frente do armazem carroças e carroças com fardos e caixas, trazidas
-da alfandega, em que se liam as iniciaes de João Romão; e rodavam-se
-pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes partidas de barricas
-de cerveja e de barris de manteiga e de saccos de pimenta. E o armazem,
-com as suas portas escancaradas sobre o publico, engolia tudo de um
-trago, para depois ir deixando sahir de novo, aos poucos com um lucro
-lindissimo, que no fim do anno causava assombros. João Romão fizera-se
-o fornecedor de todas as tabernas e armarinhos de Botafogo; o pequeno
-commercio sortia-se lá para vender a retalho. A sua casa tinha agora,
-um pessoal complicado de primeiros, segundos e terceiros caixeiros,
-além do guarda livros, do comprador, do despachante e do caixa; do seu
-escriptorio sahiam correspondencias em varias linguas e, por dentro das
-grades de madeira polida, onde havia um bufete sempre servido com
-presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos contractos commerciaes,
-transacções em que se arriscavam fortunas; e propunham-se
-negociações de emprezas e privilegios obtidos do governo; e
-realisavam-se vendas e compras de papeis; e concluiam-se emprestimos de
-juros fortes sobre hypothecas de grande valor. E ali ia de tudo: o alto
-e o baixo negociante; capitalistas adulados e mercadores fallidos;
-corredores da praça, zangões, cambistas; empregados publicos, que
-passavam procuração contra o seu ordenado; emprezarios de theatro e
-fundadores de jornaes, em apuros de dinheiro; viuvas, que negociavam o
-seu monte pio; estudantes, que iam receber a sua mezada; e capatazes de
-vários grupos de trabalhadores pagos pela casa; e, destacando-se de
-todos, pela quantidade, os advogados e a gente miuda do fôro, sempre
-inquieta, farisqueira, a metter o nariz em tudo, feia, a papelada
-debaixo do braço, a barba por fazer, o cigarro babado e apagado a um
-canto da bocca.
-</p>
-<p>
-E, como a casa commercial de João Romão, prosperava igualmente a sua
-avenida. Já lá se não admittia assim qualquer pé rapado: para entrar
-era preciso carta de fiança e uma recommendação especial. Os preços
-dos commodos subiam, e muitos dos antigos hospedes, italianos
-principalmente, iam, por economia, desertando para o Cabeça de Gato e
-sendo substituidos por gente mais limpa. Decrescia tambem o numero das
-lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram occupadas agora por
-pequenas familias de operarios, artistas e praticantes de secretaria. O
-cortiço aristocratisava-se. Havia um alfaiate logo á entrada, homem
-sério, de suissas brancas, que cosia na sua machina entre officiaes,
-ajudado pela mulher, uma lisboeta côr de nabo gorda, velhusca, com um
-principio de bigode e cavagnac, mas extremamente circumspecta; em
-seguida um relojoeiro calvo, de oculos, que parecia mumificado atraz da
-vidraça em que elle, sem mudar de posição, trabalhava, da manhã até
-á tarde; depois um pintor de tectos e taboletas, que levou a phantasia
-artistica ao ponto de fazer, a pincel, uma trepadeira em volta da sua
-porta, onde se viam passaros de varias côres e feitios, muitos
-compromettedores para o credito profissional do autor; mais adiante
-installára-se um cigarreiro, que occupava nada menos de tres numeros na
-estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem cigarros, e
-mais tres operarias que preparavam palha de milho e picavam e desfiavam
-tabaco. Florinda, mettida agora com um despachante da estrada de ferro,
-voltára para o São Romão e trazia a sua casinha em muito bonito pé
-de limpeza e arranjo. Estava ainda de luto pela mãe, a pobre velha
-Marcianna, que ultimamente havia morrido no hospicio dos doidos. Aos
-domingos o despachante costumava receber alguns camaradas para jantar, e
-como a rapariga puxava os feitios da Rita Bahiana, as suas noitadas
-acabavam sempre em pagode de dansa e cantarola, mas tudo de portas a
-dentro, que ali já se não admittiam sambas e chinfrinadas ao relento.
-A Machona quebrára um pouco de genio depois da morte de Agostinho e era
-agora visitada por um grupo de moços do commercio, entre os quaes havia
-um pretendente á mão de Nênêm, que se mirrava já de tanto esperar a
-secco por marido. Alexandre fôra promovido a sargento e empertigava-se
-ainda mais dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher,
-sempre indifferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolôr na sua
-molleza humida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com
-frequencia a dar de mammar a um pequerrucho de poucos mezes, empinando
-muito a barriga para a frente, pelo habito de andar sempre gravida. A
-sua comadre Léonie continuava a visital-a de vez em quando, aturdindo
-a actual pacatez d'aquelle cenobio com as suas roupas gritadoras. Uma
-occasião em que lá fóra, um sabado á tarde, produzira grande
-alvoroço entre os decanos da estalagem, porque comsigo levava Pombinha,
-que se atirára ao mundo e vivia agora em companhia d'ella.
-</p>
-<p>
-Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois annos de casada já não
-podia supportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se mulher
-honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espirito, os gostos razos e a sua
-risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouvio-lhe, resignada,
-as confidencias banaes nas horas intimas do matrimonio; attendeu-o nas
-suas exigencias mesquinhas de ciumento que chora; tratou-o com toda a
-solicitude, quando elle esteve a decidir com uma pneumonite aguda;
-procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe fallou nunca em
-coisas que cheirassem a luxo, a arte, a esthetica, a originalidade;
-escondeu a sua mal educada e natural intuição pelo que é grande, ou
-bello, ou arrojado, e fingio ligar interesse ao que elle fazia, ao que
-elle dizia, ao que elle ganhava, ao que elle pensava e ao que elle
-conseguia com paciencia na sua vida estreita de negociante rotineiro;
-mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilibrio e a misera escorregou,
-cahindo nos braços de um bohemio de talento, libertino e poeta, jogador
-e capoeira. O marido não deu logo pela coisa, mas começou a estranhar
-a mulher, a desconfiar d'ella e a espreital-a, até que um bello dia,
-seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado teve a dura certeza de
-que era trahido pela esposa, não mais com o poeta libertino, mas com um
-artista dramatico, que muitas vezes lhe arrancára, a elle, sinceras
-lagrimas de commoção, declamando no theatro em honra da moral
-triumphante e estigmatisando o adulterio com a rethorica mais vehemente
-e indignada.
-</p>
-<p>
-Ah não poude illudir-se! ... e, a despeito do muito que amava á
-ingrata, rompeu com ella e entregou-a á mãe, fugindo em seguida para
-São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não d'esta ultima falcatrua da
-filha, mas das outras primeiras, que bem a mortificaram, coitada!
-desfez-se em lagrimas, aconselhou-a a que se arrependesse e mudasse de
-conducta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo por Pombinha,
-jurando que agora respondia por ella e pedindo-lhe que esquecesse o
-passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz não respondeu á
-carta, e dahi a mezes, Pombinha desappareceu da casa da mãe. Dona
-Isabel quasi morre de desgosto. Para onde teria ido a filha?... «Onde
-está? onde não está! Procura d'aqui! procura d'ahi!» Só a descobrio
-semanas depois; estava morando n'um hotel com Léonie. A serpente vencia
-afinal. Pombinha foi, pelo seu proprio pé, attrahida, metter-se-lhe na
-bocca. A pobre mãe chorou a filha como morta; mas, visto que os
-desgosto não lhe tiraram a vida por uma vez e, como a desgraçada não
-tinha com que matar a fome, nem forças para trabalhar, aceitou de
-cabeça baixa o primeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. E, desde
-então, aceitou sempre, constituindo-se a rapariga no seu unico amparo
-da velhice e sustentando-a com os ganhos da prostituição. Depois, como
-n'este mundo uma creatura a tudo se acostuma, Dona Isabel mudou-se para
-a casa da filha. Mas não apparecia nunca na sala quando havia gente de
-fóra; escondia-se; e, se algum dos frequentadores de Pombinha a pilhava
-de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se criada ou
-dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ella não podia
-tolerar sem apertos de coração, era ver a pequena endemoninhar-se com
-champanha depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali
-mesmo no collo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fóra
-d'horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi se
-sentindo enfraquecer e enfermar, até cahir de cama e mudar-se para uma
-casa de saude, onde afinal morreu.
-</p>
-<p>
-Agora, as duas cocotes, amigas, inseparaveis, terriveis n'aquella
-inquebrantavel solidariedade, que fazia d'ellas uma só cobra de duas
-cabeças dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por toda
-a parte onde houvesse prazer; á tarde, antes do jantar, atravessavam o
-Catette em carro descoberto, com a Jujú ao lado; á noite, no theatro,
-em um camarote de bocca, chamavam sobre si os velhos conselheiros
-desfibrados pela politica e avidos de sensações extremas, ou
-arrastavam para os gabinetes particulares dos hoteis os sensuaes e
-gordos fazendeiros de café, que vinham á côrte esbodegar o farto
-producto das safras do anno, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima
-d'ellas duas passára uma geração inteira de devassos. Pombinha, só
-com tres mezes de cama franca, fizera-se tão perita no officio como a
-outra; a sua infeliz intelligencia, nascida e criada no modesto lodo da
-estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos vicios de largo
-folego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos
-d'aquella vida; seus labios não tocavam em ninguem sem tirar sangue;
-sabia beber, gotta a gotta, pela bocca do homem mais avarento, todo o
-dinheiro que a victima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida
-São Romão, era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos
-e fieis companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas por
-Jujú, a porta da Augusta ficava, como d'antes, cheia de gente, que as
-abençoava com o seu estupido sorriso de pobreza hereditaria e humilde.
-Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de Jeronymo,
-a cuja filha, sua protegida predilecta, votava agora, por sua vez, uma
-sympathia toda especial, identica á que n'outro tempo inspirára ella
-propria á Léonie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente;
-o cortiço estava preparando uma nova prostituta n'aquella pobre menina
-desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.
-</p>
-<p>
-E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de
-Piedade não faltava de todo o pão, porque já ninguem confiava roupa
-á desgraçada, e nem ella podia dar conta de qualquer trabalho.
-</p>
-<p>
-Pobre mulher! chegára ao extremo dos extremos. Coitada! já não
-causava dó, causava repugnancia e nojo. Apagaram-se-lhe os ultimos
-vestigios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria,
-d'essa embriaguez sombria e morbida que se não dissipa nunca. O seu
-quarto era mais immundo e o peior de toda a estalagem; homens malvados
-abusavam d'ella, muitos de uma vez, aproveitando-se da quasi completa
-inconsciencia da infeliz. Agora, o menor trago de aguardente a punha
-logo prompta; acordava todas as manhãs apatetada, muito triste, sem
-animo para viver esse dia, mas era só correr á garrafa e voltavam-lhe
-as risadas frouxas, de bocca que já se não governa. Um empregado de
-João Romão, que ultimamente fazia as vezes d'elle na estalagem, por
-tres vezes a enxotou, e ella, de todas, pedio que lhe dessem alguns dias
-de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao ultimo em que
-Pombinha appareceu por lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro,
-despejaram-lhe os tarecos na rua.
-</p>
-<p>
-E a misera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no Cabeça
-de Gato que, á proporção que o São Romão se engrandecia, mais e
-mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais
-abjecto, mais cortiço, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o
-outro regeitava, como se todo o seu ideal fosse conservar inalteravel,
-para sempre, o verdadeiro typo da estalagem fluminense, a legitima, a
-legendaria; aquella em que ha um samba e um rôlo por noite; aquella em
-que se matam homens sem a policia descobrir os assassinos; viveiro de
-larvas sensuaes em que irmãos dormem misturados com as irmãs na mesma
-lama; paraiso de vermes; brejo de lodo quente o fumegante, donde brota a
-vida brutalmente, como de uma podridão.
-</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="XXIII">XXIII</a></h4>
-
-<p>
-A porta de uma confeitaria da rua do Ouvidor, João Romão, apurado n'um
-fato novo de casimira clara, esperava pela familia do Miranda, que
-n'esse dia andava em compras.
-</p>
-<p>
-Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O tempo
-estava magnifico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e sahia, a passo
-frouxo, da casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé,
-soprando o fumo dos charutos, á espera que desoccupassem uma das
-mezinhas de marmore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda, faziam
-lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradavel de essencias
-e vinagres aromaticos; havia um rumor quente e garrido, mas bem educado;
-namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se olhares no complicado
-encontro dos espelhos; homens bebiam ao balcão e outros conversavam,
-comendo empadinhas junto ás estufas; algumas pessoas liam já os
-primeiros jornaes da tarde; serventes, muito atarefados, despachavam
-compras de doce e biscoitos e faziam sem descançar, pacotes de papel de
-côr, que os compradores levavam pendurados n'um dedo. Ao fundo, de um
-dos lados do salão, aviavam-se grandes encommendas de banquetes para
-essa noite, traziam-se lá de dentro, já promptas, torres e castellos
-de balas e trouxas d'ovos e imponentes peças de cozinha caprichosamente
-enfeitadas; criados desciam das prateleiras as enormes baixellas de
-metal branco, que os companheiros iam embalando em caixões com papel
-fino picado. Os empregados das secretarias publicas vinham tomar o seu
-vermuth com siphão; reporteres insinuavam-se por entre os grupos dos
-jornalistas e dos politicos, com o chapéo á ré, avidos de noticias,
-uma curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão sem deixar a porta,
-apoiado no seu guarda chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos de
-quem passava na rua; alguns paravam para lhe fallar. Elle tinha sorrisos
-e offerecimentos para todos os lados; e consultava o relogio de vez em
-quando.
-</p>
-<p>
-Mas a familia do Barão surgio afinal. Zulmira vinha na frente, com um
-vestido côr de palha justo ao corpo, muito elegante no seu typo de
-fluminense pallida e nervosa; logo depois Dona Estella, grave, toda de
-negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes e do
-bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as, de
-sobrecasaca, fitinha ao peito, o collarinho até ao queixo, botas de
-verniz, chapéo alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João
-Romão, elle sorrio e Zulmira tambem; só Dona Estella conservou
-inalteravel a sua fria mascara de mulher que não dá verdadeira
-importancia senão a si mesma.
-</p>
-<p>
-O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro d'elles,
-cheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com
-empenho a que tomassem alguma coisa.
-</p>
-<p>
-Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira meza que se
-esvaziou. Um criado acudio logo e João Romão, depois de consultar Dona
-Estella, pedio sandwichs doces e moscatel de Setubal. Mas Zulmira
-reclamou sorvete e licor. E só esta fallava; os outros estavam ainda á
-procura de um assumpto para a conversa; afinal o Miranda que, durante
-esse tempo considerava o tecto e as paredes, fez algumas considerações
-sobre as reformas e novos adornos do salão da confeitaria. Dona Estella
-dirigio, de má, a João Romão varias perguntas sobre a companhia
-lyrica, o que confundio por tal modo ao pobre homem, que o poz vermelho
-e o desnorteou de todo. Felizmente, n'esse instante chegava o Botelho e
-trazia uma noticia: a morte de um sargento no quartel; questão entre
-inferior e superior. O sargento, insultado por um official do seu
-batalhão, levantara a mão contra elle, e o official então arrancára
-da espada e atravessára-o de lado a lado. Estava direito! Ah! elle era
-rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantar a mão
-para um official superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que
-duvida!
-</p>
-<p>
-E faiscavam-lhe os olhos no seu inverterado enthusiasmo por tudo que
-cheirasse á farda. Vieram logo as anecdotas analogas; o Miranda contou
-um facto identico que se dera vinte annos atraz e Botelho citou uma
-enfiada d'elles interminavel.
-</p>
-<p>
-Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira e o Barão á
-mulher, e seguiram todos para o largo de São Francisco, lentamente, em
-andar de passeio, acompanhados pelo parasita. Lá chegados Miranda
-queria que o visinho acceitasse um logar no seu carro, mas João Romão
-tinha ainda que fazer na cidade e pedio dispensado obsequio. Botelho
-tambem ficou; e, mal a carroagem partio, este disse ao ouvido do outro,
-sem tomar folego:
-</p>
-<p>
-&mdash;O homem vae hoje, sabe? Está tudo combinado!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ah! vae? perguntou João Romão com interesse, estacando no meio do
-largo. Ora graças! Já não é sem tempo!
-</p>
-<p>
-&mdash;Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! Foi uma
-campanha!
-</p>
-<p>
-&mdash;Ha que tempo já tratamos d'isto!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas que quer você, se o homem não apparecia?... Estava fóra!
-Escrevi-lhe varias vezes, como sabe, e só agora consegui pilhal-o. Fui
-tambem á policia duas vezes e já lá voltei hoje; ficou tudo prompto!
-mas você deve estar em casa para entregar a crioula quando elles lá se
-apresentarem ...
-</p>
-<p>
-&mdash;Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não estar
-presente...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ora essa! Então com quem se entendem elles?.... Não! tenha
-paciencia! é preciso que você lá esteja!
-</p>
-<p>
-&mdash;Você podia fazer as minhas vezes...
-</p>
-<p>
-&mdash;Peior! Assim não arranjamos nada! Qualquer duvida póde entornar o
-caldo! E melhor fazer as coisas bem feitas Que diabo lhe custa isto?...
-Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da lei, e você a
-entrega&mdash;prompto! Fica livre d'ella para sempre, e d'aqui a dias
-estoira o champanha do casorio! Hein, não lhe parece?
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas...
-</p>
-<p>
-&mdash;Ella ha de choramigar, lazer lamurias e coisas, mas você pôe-se duro
-e deixe-a seguir lá o seu destino!...
-</p>
-<p>
-Bolas! não foi você que a fez negra!...
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois vamos lá! creio que são horas.
-</p>
-<p>
-&mdash;Que horas são!
-</p>
-<p>
-&mdash;Tres e vinte.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vamos indo.
-</p>
-<p>
-E desceram de novo a rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes de
-Gonçalves Dias.
-</p>
-<p>
-&mdash;O de São Clemente não está agora, observou o velho. Vou tomar um
-copo d'agoa emquanto o esperamos.
-</p>
-<p>
-Entraram no botequim do logar e, para conversar assentados, pediram dois
-calices de cognac.
-</p>
-<p>
-&mdash;Olhe, acrescentou Botelho; você nem precisa dizer palavra ... faça
-como coisa que não tem nada com isso, comprehende?
-</p>
-<p>
-&mdash;E se o homem quizer os ordenados de todo o tempo em que ella esteve
-em minha companhia?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguem?!... Você
-não sabe lá se a mulher é ou era escrava; tinha-a por livre
-naturalmente; agora apparece o dono, reclama-a, e você a entrega,
-porque não quer ficar com o que lhe não pertence! Ella sim, póde
-pedir o seu saldo de contas; mas para isso você lhe dará qualquer
-coisa...
-</p>
-<p>
-&mdash;Quanto devo dar-lhe?
-</p>
-<p>
-&mdash;Ahi uns quinhentos mil reis, para fazer a coisa á fidalga.
-</p>
-<p>
-&mdash;Pois dou-lh'os.
-</p>
-<p>
-&mdash;E feito isso&mdash;acabou-se! O proprio Miranda vae logo, logo, ter
-com você! Verá!
-</p>
-<p>
-Iam fallar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar,
-assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só
-conseguiram logar muito separados um do outro, de sorte que não puderam
-conversar durante a viagem.
-</p>
-<p>
-No largo da Carioca uma victoria passou por elles, a todo o trote.
-Botelho vergou-se logo para traz, procurando os olhos do vendeiro, a
-rir-se com intenção. Dentro de carro ia Pombinha, coberta de joias, ao
-lado de Henrique; ambos muito alegres, em pandega. O estudante, agora no
-seu quarto anno de medicina, vivia á solta com outros da mesma idade e
-pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de rapazola rico.
-</p>
-<p>
-Ao chegarem á casa, João Romão pedio ao cumplice que entrasse e
-levou-o para o seu escriptorio.
-</p>
-<p>
-&mdash;Descance um pouco ... disse-lhe.
-</p>
-<p>
-&mdash;É, se eu soubesse que elles se não demoravam muito, ficava para
-ajudal-o.
-</p>
-<p>
-&mdash;Talvez só venham depois do jantar, tornou aquelle, assentando-se á
-carteira.
-</p>
-<p>
-Um caixeiro approximou-se d'elle respeitosamente e fez-lhe varias
-perguntas relativas ao serviço do armazem, ao que João Romão
-respondia por monosyllabos de capitalista; interrogou-o por sua vez e,
-como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço e convidou-o a
-sahir.
-</p>
-<p>
-&mdash;Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada.
-</p>
-<p>
-Já não era preciso prevenir lá defronte, porque agora o velho
-parazita comia muitas vezes em casa do visinho.
-</p>
-<p>
-O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente
-dominados por um vago sobresalto. João Romão foi pouco além da sôpa e
-quiz logo a sobremeza.
-</p>
-<p>
-Tomavam café, quando um empregado subio para dizer que lá em baixo
-estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava fallar ao
-dono da casa.
-</p>
-<p>
-&mdash;Vou já! respondeu este.
-</p>
-<p>
-E accrescentou para o Botelho:&mdash;São elles!
-</p>
-<p>
-&mdash;Deve ser, confirmou o velho.
-</p>
-<p>
-&mdash;E desceram logo.
-</p>
-<p>
-&mdash;Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce, chegando ao
-armazem.
-</p>
-<p>
-Um homem alto, com ar de estroina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha
-de papel.
-</p>
-<p>
-João Romão, um pouco tremulo, abrio-a defronte dos olhos e leu-a
-demoradamente. Um silencio formou-se em torno d'elle; os caixeiros
-pararam em meio do serviço, intimidados por aquella scena em que
-entrava a policia.
-</p>
-<p>
-&mdash;Está aqui com effeito ... disse afinal o negociante. Pensei que
-fosse livre...
-</p>
-<p>
-&mdash;É minha escrava, affirmou o outro. Quer entregar-m'a?...
-</p>
-<p>
-&mdash;Mas immediatamente.
-</p>
-<p>
-&mdash;Onde está ella?
-</p>
-<p>
-&mdash;Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...
-</p>
-<p>
-O sujeito fez signal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e
-encaminharam-se todos para o interior da casa. Botelho, á frente
-delles, ensinava-lhes o caminho. João Romão ia atraz, pallido, com as
-mãos crusadas nas costas.
-</p>
-<p>
-Atravessaram o armazem, depois um pequeno corredor que dava para um
-pateo calçado, e chegaram finalmente á cozinha. Bertoleza, que havia
-já feito subir o jantar dos caixeiros, estava de cocaras no chão,
-escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando vio parar defronte
-d'ella aquelle grupo sinistro.
-</p>
-<p>
-Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um
-calafrio percorreu-lhe o corpo. N'um relance de grande perigo
-comprehendeu a situação; adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê
-perdido para sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta
-de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para
-matal-a, restituia-a ao captiveiro.
-</p>
-<p>
-Seu primeiro impulso foi de fugir, Mal, porém, circumvagou os olhos em
-torno de si, procurando escapúla, o senhor adiantou-se d'ella e
-segurou-lhe o hombro.
-</p>
-<p>
-&mdash;É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada
-a seguil-os.&mdash;Prendam-na! É escrava minha!
-</p>
-<p>
-A negra, immovel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das
-mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha,
-olhou aterrada para elles, sem pestanejar:
-</p>
-<p>
-Os policias, vendo que ella se não despachava, desembainharam os
-sabres. Bertoleza então, erguendo-se com impeto de anta bravia, recuou
-de um salto e, antes que alguem conseguisse alcançal-a, já de um só
-golpe certeiro e fundo rasgára o ventre de lado a lado.
-</p>
-<p>
-E depois emborcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa
-lameira de sangue.
-</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>
-João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazem, tapando o
-rosto com as mãos.
-</p>
-<p>
-N'esse momento parava á porta da rua uma carruagem. Era uma commissão
-de abolicionistas que vinham, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o
-diploma de socio benemerito.
-</p>
-<p>
-Elle mandou que os conduzissem para a sala de visitas.
-</p>
-
-<p><br /><br /></p>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O CORTIÇO</span> ***</div>
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-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
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index ab997cb..0000000
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