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-The Project Gutenberg eBook of Saudades de D. Ignez de Castro, by
-Manuel Azevedo
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Saudades de D. Ignez de Castro
-
-Author: Manuel Azevedo
-
-Release Date: October 6, 2022 [eBook #69103]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
- at https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by National Library of Portugal
- (Biblioteca Nacional de Portugal).)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SAUDADES DE D. IGNEZ DE
-CASTRO ***
-
-
-
-
-
-
- SAUDADES
- DE
- D. IGNEZ
- DE CASTRO.
-
-
-
-
- SAUDADES
- DE
- D. IGNEZ
- DE CASTRO.
- PELO LICENCIADO
- MANOEL DE AZEVEDO
- Conimbricense.
- _OFFERECIDA AO SENHOR_
- GUILHERME JOAQUIM
- PAES VELHO.
- _PELO PADRE_
- JOÃO DE GOUVEA
- Prisbitero do habito de S. Pedro.
-
- [Ilustração]
-
- LISBOA:
- Na Officina JOAQUINIANNA DA MUSICA DED.
- Bernardo Fernandes Gayo, Morador na rua das Mudas.
-
- M. DCC. XLV.
- _Com todas as licenças necessarias._
-
-
-
-
- [Ilustração]
-
-
-
-
- DEDICATORIA
-
- AO SENHOR
-
- GUILHERME JOAQUIM
-
- PAES VELHO.
-
-
-_Justo era, que huma taõ excellente obra procurasse hum assyllo taõ
-excelso. Publica-se por meyo da estanpa ao Mundo as Saudades de D.
-Ignez de Castro, Rainha taõ infeliz, como formoza, e vendo eu que he
-perigozo entregar nas mãos do vulgo cousa, para cuja seja materia a
-sua distracçaõ, logo me occoreo, que a offerta só era conveniente em
-V. M. porque sey, que como V. M. he dado às letras, naõ deyxarà de
-amparar hum milagre da Poesia, e juntamente escurecer o alvedrio de hum
-Zoylo. Materia difficel seria o querer expór ao publico a Genelogia de
-V. M. que como conhecida naõ carece de explicação, mas só lembro a V.
-M. que o sangue, que lhe pulsa pelas veyas, mais logra de soberano,
-que de nobre. Dedicar o presente papel a V. M. he como divida,
-porque confórme, diz Seneca, só se conhecem as remuneraçoens pelo
-offerecimento, por essa causa quando eu tenho recebido taõ dilatados
-favores, porque razaõ naõ heyde de manifestar o quanto sou devedor a
-V. M. Aceyte pois o presente obsequio como divida, porque só assim
-lograrey eu a ventura de acertar quando me lembro da sua generosidade
-para o restituir. A pessoa de V. M. guarde Deos pelos annos, que todos
-os seus amigos dezejamos._
-
- Amigo, e Venerador de V. M.
-
- O P. Joaõ de Gouvea
-
-
-
-
- [Ilustração]
-
-
-
-
- SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO.
-
-
-I.
-
- Era na meya idade, a q̃ chegava
- Em fraguas de Zafir o Sol, q̃ ardia,
- e nas asas do tẽpo, q̃ passava,
- Icaro de seus rayos era o dia
- Quando pois com as chammas se abrasava,
- Que morrer incendîdo entaõ queria,
- Sendo por renascer com novo alarde,
- Em cinzas de rubim Féniz da tarde.
-
-
-II.
-
- Na lisongeira planta se enlaçava
- Cortez o vento com gentil porfia,
- E nos jardins a Rosa, que encalmava,
- Em berços de esmeralda adormecia:
- A simples avesinha se banhava
- No murmúreo correr da fonte fria,
- Renovando na vista o doce alento,
- Narciso nos crystaes, Orfêo no vento,
-
-
-III.
-
- Mas Ignez só, que por penar vivia,
- Naufragava em soluços cada instante,
- Ignez, aquella Ignez, que amor fazia
- Por lhe dobrar as magoas mais constante:
- Aquella, em cujas graças competia
- Ser formosa, discreta, e ser amante,
- Em cujas prendas naõ tiveraõ parte
- Artificios da industria, invençoẽs da arte.
-
-
-IV.
-
- A que nos dotes da alma taõ possante,
- Discreta, grave, terna, e generosa,
- Que da mesma bellesa sendo Atlante,
- Tinha por menór prenda o ser formosa:
- Nos donaires do talhe taõ galante,
- Nos alinhos da graça taõ vistosa,
- Que topando na culpa de Narciso,
- Fora sem culpa seu discreto aviso.
-
-
-V.
-
- Mas qual o passarinho descuidado,
- Lisonja mais gentil da tenra idade,
- Foy das maõs do menino aprisionado,
- Que lhe roubou no laço a liberdade:
- Que quando delle mais galanteado,
- Exprimenta no mimo a crueldade:
- E quando a côr das pennas lhe contenta,
- Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta.
-
-
-VI.
-
- Tal Ignez na manhaã dos ternos annos,
- Nas primeyras Auróras da esperança,
- Deo nos laços de amor doces enganos,
- Do vendádo rapaz linda vingança;
- Mas os golpes da Parca deshumanos
- A belleza por flor em flor alcança,
- Exprimentou na sempre amarga sorte
- Por maõs do Deos do amor armas da morte.
-
-
-VII.
-
- Eraõ gentil emprego a seus cuidados
- As finesas de Pedro, que a beldade
- Nelle soube trazer aprisionados
- Sceptro, corôa, vida, e liberdade:
- Entre ambos tinha amor já taõ ligados
- Os soltos alvedrîos da vontade,
- Que foy nelles baldado, e foy perdido
- Nascer Antéros por crescer Cupido.
-
-
-VIII.
-
- Mas oh tyranna dor amor inventa!
- Forçosa foy de Pedro a dura ausencia,
- Atropos da alma, que da pena isenta,
- Nella sabe sentir mortal violencia:
- Como preso, partir-se Pedro intenta,
- E sente na alma, Ignez, nova inclemencia,
- Que quer a sorte, pois amor ordêna,
- Onde naõ chega a morte, offenda a pena.
-
-
-IX.
-
- Quantas vezes, Ignez, no pensamento
- Este desár notaste a teus favores?
- Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento
- Os viste, e vês agora, e verás flores:
- Tanto nas affeiçoens, gosto avarento,
- Este pesár sentiste em teus amores,
- Que naõ posso dizer, que neste emprego
- Estavas, linda Ignez, posta em socego.
-
-
-X.
-
- Entre os braços de Pedro, ardẽte Fragoa,
- Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido,
- Que multiplîca a dôr, e dobra a magoa
- Lograr presente o bem, que he já perdido:
- Dos olhos sólta dous chuveiros de agoa,
- Oceànos de neve, onde Cupîdo
- Quiz da belleza já colhendo as velas,
- Chegasse a tempestade até as estrellas.
-
-
-XI.
-
- Qual em berços de purpura vistosa,
- Delicias da manhaã, da tarde empresa,
- Dos melindres de flor enferma a Rosa,
- Desmayado o verdôr, murcha a lindesa;
- Pois a que foy de Abril pompa lustrosa,
- Livro do amor, emblema da bellesa,
- Perde a graça, por vêr que o Sol lhe talha
- Do mesmo carmesim gala, e mortalha.
-
-
-XII.
-
- Tal do fogo de amor na immensa calma
- A côr Ignez perdeo, que amor ordena,
- Os desmayos, que tinha impressos na alma,
- Trasladasse no rosto a viva pena:
- Já despojo da dôr, da magoa palma,
- Com respirar de flor, arde Açucena,
- Exhála nova dôr ao pensamento,
- Em saudosos ays o doce alento.
-
-
-XIII.
-
- Ay! cadûco prazer, diz lastimada,
- Esperança de hum bem, doce tormento,
- Ay! que por verde murchas apressada,
- Primavéra do amor, da dor portento:
- Ay! melindrosa flor agonizada,
- Despojado Jasmim de qualquer vento,
- Que quando nasce traz na mesma alvûra
- Gala, mortalha, berço, e sepultura.
-
-
-XIV.
-
- Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira
- Duas almas de hum peito, oh noite fria!
- Oh noite, digo, porque a quem suspira,
- Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia:
- A bocca, de que hum _ay_, outro _ay_, retira,
- Jà cansando, mais bayxo repetia,
- Paray Senhor; mas hum soluço ardente
- Suffóca o _par_, repete o _ay_ sómente.
-
-
-XV.
-
- Paray, torna a dizer, meu gosto amado,
- Gloria desta alma, em quanto gloria tinha;
- Mas ay alivio meu! ay meu cuidado!
- Como podeis parar, se gloria minha!
- Mas se destîna o Céo, e manda o Fado
- Esta alma castigar, que amor mantinha,
- Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene,
- Mais almas tenha, porque assim mais pene.
-
-
-XVI.
-
- Mas naõ, que he contra amor esta porfia:
- Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado:
- Muitas almas naõ quero, que sería
- Repartir o tormento a meu cuidado:
- Mas se a pena permitte a companhia
- Nesta ausencia cruel, oh triste Fado!
- Antes que a dor ma roube da partida,
- Levai-me, vida minha, a minha vida.
-
-
-XVII.
-
- Só com vosco, Senhor, irá segura,
- Sem que mortal achaque lhe aconteça;
- Porque talvez do Fado a sorte dura
- Fóra deste meu peito a desconheça:
- Nem poderá temer minha ventura,
- Que sombra de pesar vos entristeça;
- Pois farey no tormento mais esquivo
- Correr por conta da alma o sensitivo.
-
-
-XVIII.
-
- Se só para viver na ley de amante
- Forçosa seja a vida repetida;
- Ay! Senhor, que naõ póde ser bastante
- Para viver ausente huma só vida:
- Porém se amor de vidas taõ possante,
- Huma nos deo para ambos repartida,
- Postoque a dôr entre ambos se accommóda,
- Melhor vos partireis levando-a toda.
-
-
-XIX.
-
- Cá me fica outra vida, que naõ passa,
- Com que padeça morte repetida,
- Que quer amor tyranno, que renaça
- Huma vida das cinzas de outra vida:
- Que como taõ crueis penas me traça,
- Como me traz em fogo convertida,
- A acabar, outra Feniz, me condena,
- Morrendo em cinzas, renascendo em pena.
-
-
-XX.
-
- Ah! quem cuidára, amor, que meus amores
- Fossem fingidas sombras mentirosas?
- Ah! quẽ cuidará, amor, que em teus favores
- Fossem mais as espinhas, do que as Rosas?
- Mas depois, que triunfo a teus ardores,
- Foraõ de Marte as armas generosas;
- Taõ guerreyro ficaste, ufano, e forte,
- Que bem pódes matar a propria morte.
-
-
-XXI.
-
- Mas pois forçosamente me condena,
- A que vos ausenteis, ah tyrannîa!
- Deyxai, deyxai Senhor, deyxai-me a pena,
- Porque só della quero a companhia:
- Na noite mais escura, ou mais serena
- (Que para ausentes nunca nasce o dia)
- Chorarey, permittindo-o minha estrella,
- Mais do que a saudade, a causa della.
-
-
-XXII.
-
- Nas remontadas penhas, nas visinhas
- (Se restar a meus ays penhasco possa)
- Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas,
- Minhas se póde ser, sendo a alma vossa:
- De meus annos a flor entre as espinhas
- Passarey, sem perder esta fé nossa;
- Mas antes perderâõ seu bruto alento
- O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.
-
-
-XXIII.
-
- Mas oh! que he tal a dor de meus retiros,
- E taõ firme na ley da tyrannîa,
- Que vendo, que me assistem meus suspiros,
- Talvez delles me roube a companhia:
- Mas inda mais, e mais acérbos tiros
- Contra mim fulminar amor porfia;
- Pois sem dar attençoens á minha queyxa,
- Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.
-
-
-XXIV.
-
- Qual quando na manhaã naufrága o dia
- Nos undósos crystaes, que o Céo desata,
- O Jasmim desmayado se agonîa
- Dos acháques da gotta, que o maltrata:
- Em desares trocando a galhardia,
- Icaro já nas agoas se retrata,
- O que lisonja foy taõ prateada,
- Se no prado jasmim, nas ondas nada.
-
-
-XXV.
-
- Tal Ignez já de lagrimas banhada,
- De seus olhos gentîs mortaes desares,
- Que quiz a natureza acautelada
- Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares.
- Exhalava de todo agonizada
- O suspiro final a seus pesares:
- Que com vir entre lagrimas undosas,
- Inda na bocca achou maré de rosas.
-
-
-XXVI.
-
- Já Pedro em fim rendido a seu cuidado,
- A dôr quer disfarçar a seu retiro;
- Que como o coraçaõ tem já quebrado,
- Hum pedaço lhe traz cada suspiro:
- E como em fim no peito agonizado
- Sente da mortal frecha o novo tiro,
- Notando Ignez no pranto de seu rogo,
- Exhála em agoa, quanto bebe em fogo.
-
-
-XXVII.
-
- Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora
- Ficar ausente sem partir commigo,
- Que se es vida da minha, que te adora,
- Na alma te levo por viver comtigo:
- Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora,
- Supposto que partir-me em fim prosigo;
- Que se as almas trocar amor consente,
- Nem tu só ficas, nem me parto ausente.
-
-
-XXVIII.
-
- O corpo só se ausenta, a alma naõ parte,
- Que em fim naõ vivo de potencias suas,
- Que como me alimento só de amar-te,
- Bastaõ para viver memorias tuas:
- E porque amor nos tiros, que reparte,
- Fulmina contra mim frechas mais cruas;
- Quando a vida me rouba, outra me ordena,
- Que fora em fim matar-me a menor pena.
-
-
-XXIX.
-
- Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,
- A fazer impossiveis offrecida,
- Pois que contraminando a natureza,
- Teu mesmo amor me mata, e me dá vida:
- Mas como amor notou nessa belleza
- Os impossiveis só de merecida,
- Quiz tomar por razaõ força infallivel,
- Obrar por alcançá-la outro impossivel.
-
-
-XXX.
-
- Bem vês agora, Ignez, como abrasado
- Nos vivos holocaustos de meu peito,
- Meu coraçaõ consagro a teu cuidado
- Em victimas de lagrimas desfeito:
- Agora alcançarás, como alentado
- Todo me sacrifico a teu respeito,
- Pois chega a consagrar-te em viva calma
- Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.
-
-
-XXXI.
-
- Sucçeda á Primavera o secco Estio,
- Á serena manhaã tarde calmosa,
- Seja manso regato, quem foy rio,
- Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa:
- Seja, quem Cravo foy, cadáver frio,
- Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa
- Seja tudo á mudança em fim sujeito,
- Que amor firme será dentro em meu peito.
-
-
-XXXII.
-
- Nessas gentîs madeixas da beldade,
- Em cuja luz do Sol o Sol se nega,
- Onde feito piráta da vontade
- Nas crespas ondas sempre amor navega:
- Nessas, digo, captiva a liberdade
- Em refens minha fé por fé te entrega:
- Nellas deixo por fim com meus alentos
- Alma, cuidados, vida e pensamentos.
-
-
-XXXIII.
-
- A Deos delicia minha, a Deos cuidado,
- A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente,
- Que parta em fim nas magoas sepultado
- Se partir posso de mim mesmo ausente:
- A Deos, que amor nos tinha decretado
- Esta ausencia cruel, forçosa, urgente;
- Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo:
- A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.
-
-
-XXXIV.
-
- Já se remonta Pedro a seus retiros,
- E já de morte em morte Ignez discorre,
- Que como entrega a vida a seus suspiros,
- Quantas vezes suspira, tantas morre:
- O coraçaõ sentindo acérbos tiros
- Pelos olhos sangrado em crystaes corre;
- Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa,
- Porque em cada sangria huma alma lança.
-
-
-XXXV.
-
- Qual na secca vergóntea desfolhada,
- Que despojo restou da tempestade,
- Se lamenta em requebros lastimada
- A casta Rola posta em soledade:
- Soluça, pasma, e geme agonisada,
- Chora, suspira, anéla em crueldade,
- Que seu pesar lhe tem no peito unîdos
- Rigores, magoas, lastimas, gemîdos.
-
-
-XXXVI.
-
- Tal lastimada chora Ignez saudosa,
- No seu mesmo tormento sepultada,
- Nos desvélos do dia cuidadosa,
- Nos descuidos da noite desvelada;
- Já se queixa em suspiros lastimosa,
- Fórma razoens dos ays agonisada:
- Que fez para queixar-se em seus retiros.
- Embaixadores da alma seus suspiros.
-
-
-XXXVII.
-
- Oh! quanto foy de ti teu Pedro amado,
- Formosa Ignez, mas inda mais sentido;
- Pois sendo grande a gloria de logrado,
- Hoje he mayor a magoa de perdido:
- Foy teu prazer á pena apensionado,
- He teu pesar na pena desmedido:
- Entaõ foraõ de Rosas teus favores,
- Agora saõ de Lirios teus amores.
-
-
-XXXVIII.
-
- Já nos braços da Aurora, que assomava,
- Renascido chorava o novo dia,
- Quando Ignez saudosa entaõ negava
- A seu triste pesar a companhia:
- A solidaõ do campo se apartava,
- Onde só lamentava, e só gemia;
- Porque mais no rigor de seus retiros
- A piedade faltasse a seus suspiros.
-
-
-XXXIX.
-
- Entre flores inquire o doce amado,
- Presente em cada flor o considéra,
- E dando hum breve encanto a seu cuidado,
- Busca nas flores quanto em flor perdêra:
- Corre de flor em flor, de prado em prado,
- Tópa só magoas, donde gosto espéra;
- Que foraõ seu praser: e seus favores,
- Perda choradas, quando apenas flores.
-
-
-XL.
-
- Procûra em cada planta, o que anelava,
- Porque no seu tormento engano escolha;
- Mas oh! que em seu pesar escrito achava
- Liçoens para sentir em cada folha:
- Já nas liquidas pérlas, que chorava,
- Penhascos, plãtas, prado, e folhas molha,
- E na lembrança já de hum bem perdido
- Lhe interrõpe hum gemido outro gemido.
-
-
-XLI.
-
- Qual o menino fica enternecido,
- Entre perplexidades pasmadinho,
- Quando no verde prado entretenido
- Lhe foge o gosto atraz de hum passarinho:
- Já soluça, já pasma esmorecido,
- Já busca cada flor, cada raminho,
- Já melindrosos ays, mimoso alento
- Apôs o passarinho leva o vento.
-
-
-XLII.
-
- Tal Ignez na penosa tyrannia
- Entre flores inquire o doce amado;
- Mas foy lisonja só da fantasîa,
- Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado:
- Já queixosa das flores se desvia,
- Já nas queyxas diverte o seu cuidado,
- E nos alentos da alma, com que espira,
- Já soluça, já pasma, já suspira.
-
-
-XLIII.
-
- Na margem de huma fonte se encostava,
- Que já clara correo com seus favores,
- E se delles travêssa murmurava,
- Em lagrimas agora exhála amores:
- Ás plantas, aos penhascos se queixava,
- Outra vez já seu mal contava ás flores
- Onde nos eccos, que respira o monte,
- Suspira o valle, porque chora a fonte.
-
-
-XLIV.
-
- Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia;
- Ay flores! se queyxava enternecida;
- Que sendo vossa vida de hum só dia,
- Muitas horas contais na vossa vida:
- Mas oh! de minha dor mór agonia,
- Oh morte em menor vida repetida!
- Que como em soledades só discorro,
- Nem conto instantes, porque sẽpre morro.
-
-
-XLV.
-
- E vós Rosas no mimo de huma Aurora
- Lograis de vossa adôrno a pompa bella,
- Que talvez por firmar vossa melhóra,
- Tivéstes no nascer tão boa estrella:
- Mas oh! que no pesar, que chóro agora,
- Nestes fogosos ays, que o peito anéla,
- Escolhe minha estrella em triste forte
- Por pena a vida, por lisonja a morte.
-
-
-XLVI.
-
- Vós plantas, que sentis mudavel erro,
- Cifrando em cada folha hum pensamento,
- Se Dezembro lamenta vosso enterro
- Abril em flor vos dá dobrado alento:
- Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro
- Eternisa hum rigor meu sentimento;
- Pois quer amor na sorte, que me ordena,
- Se alimente huma pena de outra pena.
-
-
-XLVII.
-
- E tû bruto penhasco inhabitado,
- Tosco sepulcro de huma clara fonte,
- Es agora de flores matizado,
- Idolo de crystal, gala do monte:
- Mas oh tyranna dor! que meu cuidado
- Hoje lamenta o mal, que chorou honte,
- Vendo, que teu terror com bruto aviso
- Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.
-
-
-XLVIII.
-
- Mas oh queyxas paray, paray cuidados,
- Paray, façamos tregoas pensamento,
- Que dos males talvez communicados,
- Póde nascer desar ao sentimento:
- Correy da alma pedaços distillados,
- Dizey lagrimas minhas meu tormento;
- Minhas naõ digo bem, que juntamente
- Perdi tudo no bem, que chóro ausente.
-
-
-XLIX.
-
- Irmanay-vos, correy mais cuydadosas,
- Seja vosso correr mais repetido,
- Naõ cuideis, que vos choro caudalosas,
- Porque deis desaffogo a meu sentido:
- Que como nas memorias rigorosas
- Vossa causa lamento, que hey perdido,
- Se talvez mitigaes hum sentimento,
- Naõ tem valôr nas perdas vosso alento.
-
-
-L.
-
- Oh! corraõ com valor vossas violencias
- Por duplicar incendios a meu rogo,
- Que naõ fora querer sentir ausencias,
- Se vos chorára só por desaffogo:
- Que posto deis alivio ás inclemencias,
- Naõ podeis dar alivios a meu fogo;
- Que como sou das penas avarenta,
- Qualquer alivio vosso me atormenta.
-
-
-LI.
-
- Correy livres, correy, que amor ordena,
- Sejais a meu rigor ancia penosa,
- Que naõ comprais alivios a huma pena,
- Quando chegais a ser paga forçosa:
- Que pois amor por força me condena
- Tributar-vos por divida custosa;
- Mal podeis mitigar o mal, que tenho,
- Quando sois do que devo desempenho.
-
-
-LII.
-
- Naõ me póde obrigar outro motivo,
- Se naõ chorar-vos só por naturesa,
- Que quer, que seja amor por excessivo
- Tributo natural, o que he finesa:
- Que como a seu querer sujeita vivo,
- Rendida a seu querer captiva, e presa,
- Do pranto, que saudosa me convinha,
- Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.
-
-
-LIII.
-
- Em vós sentir agora mais penosas,
- De ser mudas razoens faço argumento,
- Que quando naõ chegais a ser queyxosas,
- Naõ limitaes a dor ao sentimento:
- Que foreis só lisonjas enganosas,
- Mas naõ crueis verdugos ao tormento,
- Quando na voz queixosa, que formára,
- Lastimas a meus ays solicitára.
-
-
-LIV.
-
- Mais duro sentimento, mais nocivo
- No ser da alma pedaços vos confesso,
- Pois se levais a parte com que vivo,
- A parte me deyxais, com que padeço;
- Que como neste mal por excessivo
- Repartida minha alma reconheço,
- Se levais huma parte naõ pequena,
- A vida póde ser, mas nunca a pena.
-
-
-LV.
-
- Oh! torna atraz arroyo fugitivo,
- Alma da penha, coraçaõ do monte,
- Torna atraz, que meu pranto successivo
- Te fará Rio quando apenas fonte,
- Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo,
- Detem-te, espera, que meus males conte,
- Que vás talvez com prata taõ custosa
- Calçar as plantas de huma ingrata Rosa.
-
-
-LVI.
-
- Se te vás despenhar ambicioso
- Por aspirar a creditos de Rio,
- Léva meu triste pranto lachrimoso,
- Oceâno será teu senhorîo:
- Embarga teu correr taõ cuidadoso,
- Suspende teu caudal, teu desvarîo,
- Que lá terás no már onde te escondas,
- Quantas lagrimas levas, tantas ondas.
-
-
-LVII.
-
- Mas oh! paray razoens, tornay gemidos,
- A dor interpretay, que o peito sente,
- Que talvez em meus ays por repetidos
- Os eccos ouça de quem choro ausente:
- Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos,
- Ay! quem pudéra amor ter-vos presente!
- Mas deyxai-me fallar, talvez que possa
- Ouvir na minha voz eccos da vossa.
-
-
-LVIII.
-
- Aqui, meu doce amor, meu bem querido,
- Se me duplîca a dôr ao pensamento,
- Pois quando em vós, me falta meu sentido,
- Naõ me póde faltar meu sentimento:
- Em vós lamenta a dor meu bem perdido,
- Em mim renova a dor novo tormento;
- Mas creyo, doce amor, que sentir possa
- Menos a minha dor, que a falta vossa.
-
-
-LIX.
-
- Menos dor, menor danno em fim tivéra,
- Menos cruel sentira o meu cuidado,
- Quando neste rigor, que padecera,
- Me podéra esquecer do que hey logrado:
- Mas ay! que nesta dor outra me espera,
- E hum mal outro me traz apensionado;
- Pois chego a padecer em meu sentido
- O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.
-
-
-LX.
-
- Bem conheço, que posso na lembrança
- Vossas prendas lograr, meu doce esposo,
- Mas o bem, que se perde na esperança,
- Fica, quando lembrado, mais penoso:
- Mas nesta triste dor, dura esquivança,
- Se me duplica amor mais rigoroso;
- Pois só quer meu sentido avincular-se,
- Para mais padecer, a mais lembrar-se.
-
-
-LXI.
-
- Assim chorava Ignez, e assim gemia,
- Mas oh tragica dor! rara estranhesa!
- Que já tópa nas maõs da tyrannia
- Armas sempre mortaes contra a bellesa:
- Nas maõs de dous tyrannos já se via,
- Entre crueis espadas, tosca empresa!
- Mas que Rosa no campo Aurora molhas,
- A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas?
-
-
-LXII.
-
- Paray, detende a furia procellosa,
- Paray, paray, detende o bruto alento:
- Que contra o fresco mimo de huma Rosa,
- Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento?
- Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa,
- Remonta agora mais teu soffrimento,
- Que temo, linda Ignez, teus lindos brios
- Accrescentem coraes a tantos fios.
-
-
-LXIII.
-
- Qual nas tecidas silvas da espessûra,
- Labyrintho de espinhas intrincado
- Com balîdos se queyxa da ventura
- O simples cordeyrinho aprisionado:
- Já soluça em melindres com ternûra
- Das maternas delicias apartado:
- O que mimos achou na branda hervinha,
- Acha mortal rigor em cada espinha.
-
-
-LXIV.
-
- Tal lastimada Ignez troca em gemidos,
- Quantas vozes no peito articulava,
- Em quanto os dous algoses sementidos
- As maõs lhe prendẽ, com que amor matava:
- Já fugindo os alentos aos sentidos,
- O soluçar as vozes lhe embargava:
- Mas oh! que amor lhe deo no pensamento
- Razoens ao pranto, voz ao sentimento.
-
-
-LXV.
-
- Ay tyrannos crueis! oh sorte dura!
- Entre suspiros, diz agonizada,
- Que delicto commette a formosura,
- Com que possa a bellesa ser culpada?
- Oh! deyxai-me esta vida em pena escura,
- Se me quereis a morte dilatada;
- Que nesta triste dor taõ repetida
- Menos me mata a morte, do que a vida.
-
-
-LXVI.
-
- Oh! suspendey sentença taõ penosa,
- Mitigay por hum pouco a crueldade,
- Que naõ podeis dar morte rigorosa,
- Que possa matar mais, que a saudade:
- Mas já que minha dôr menos piedosa,
- Vos naõ póde causar nova piedade,
- Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos,
- Unica prenda só de meus sentidos.
-
-
-LXVII.
-
- Ay! charas prendas minhas taõ queridas,
- Reliquias de amor, da alma pedaços;
- Ay! como sentireis em mim perdidas
- As mimosas delicias de meus braços:
- Mas pois naõ póde ser entre homicidas
- Lograr, amores meus, vossos abraços,
- A Deos, ficai-vos já gostos amados,
- A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.
-
-
-LXVIII.
-
- Mais quiséra fallar enternecida,
- Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte!
- Hum tyranno cruel, torpe homicîda,
- Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte:
- Inclîna o lacteo collo amortecida,
- Avassallada já da infausta sorte,
- Exhála a vida o corpo de alabastro,
- Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.
-
-
-LXIX.
-
- Qual a branca Açucena, que cortada,
- Sente do ferro, ou tempo, a crueldade,
- Em seu mesmo candôr amortalhada,
- Defunta flor em flor na flor da idade:
- Á qual ficaõ sómente de engraçada
- Os antigos riscunhos da beldade:
- Tal fica a bella Ignez amortecida
- Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.
-
-
-LXX.
-
- Vós agora, troféos da formosura,
- Apparencias vitaes de ramalhete,
- Colhey as vélas, porque a pouca altûra
- Qualquer onda vos mólha o galhardete:
- Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura
- Acha, se berços, campas no alegrête:
- Attentay léve flor, bellesa vaã,
- Que he mais antiga a tarde, que a manhaã.
-
-
-~FIM~
-
-_da primeyra parte_.
-
-[Ilustração]
-
-
-
-
-[Ilustração]
-
-
-
-
-SEGUNDA PARTE
-
-
-I.
-
- Ja da fatal tragédia retiradas
- As restantes ruinas da feresa,
- Ficaraõ só no cãpo idolatradas
- Hũas breves reliquias da bellesa:
- Ausente Pedro, sem que as mal logradas
- Lamentasse memorias da firmêsa:
- Taõ dittoso nas magoas se discorre,
- Que morre ufâno, sem saber que morre.
-
-
-II.
-
- Queixosa em fim feneçe a galhardia,
- Solicîta queixûmes a ternûra,
- Vendo jà no desdem da tyrannia
- Menos cruel a Parca, que a ventûra:
- Que como qualquer dote se avalia
- Por symptôma fatal da formosúra,
- Aquella mesma ditta, que entre sortes
- Cumûla prendas, mutiplîca mortes.
-
-
-III.
-
- Á ventura se queyxa, que a beldade
- Fosse causa da perda, porque unida
- Naquellas prendas da melhor idade,
- Fez acabar rigôr, o que era vida;
- Mas a Parca tyranna por vaidade
- Solicita bellesas advertida;
- Porque dellas talvez se naõ cuidára,
- Morre fora huma prenda, e só matára.
-
-
-IV.
-
- Só suspiraõ, só choraõ lastimosas
- (Que naõ pára nas queyxas a finesa)
- Aquellas, que restaraõ só piedosas
- Troyas do amor, reliquias da bellesa:
- Aquellas, digo, prendas lachrimosas,
- Dous Infantes gentîs, a que naturesa
- Deyxou com vida, porque em seu tribûto
- Fosse a morte da flor vida do fructo.
-
-
-V.
-
- Qual nos braços da planta mais visinha
- Em roupas de rubîm, cama olorosa,
- Sentindo huma lanceta em cada espinha,
- Sangrada no jardim fenece a Rosa:
- Consagrando-se flor, quem foy Rainha,
- Em vivos holocaustos sanguinosa,
- De cujas cinzas restaõ por grinalda
- Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.
-
-
-VI.
-
- Que pesáres, que penas, que rigores
- Amor formáva, cada qual sentia,
- Qual nos gemidos soluçando amores,
- Em carinhossas magoas confundia:
- Qual desmayado no tapiz das flores,
- Se recosta trophéo da tyrannia,
- Notando aquelle peito, cujo enfeite
- Lhe troca em pena, quanto foy deleite.
-
-
-VII.
-
- Quantas vezes fallando enternecidos,
- Em soluços lhe pára o doce alento!
- Quantas na voz do monte repetidos
- Os saudosos ays lhe torna o vento:
- Quantas a ser naufragio dos sentidos,
- Se deriva em chrystaes o sentimento;
- Pois quer a dor, querendo amor agora,
- Chórem dous Soes a falta de huma Auróra.
-
-
-VIII.
-
- Alentado o rigor, duplîca em tiros,
- Se bem globos de fogo, esphéras de agoa;
- Naõ resiste Clavêl, que nos retiros,
- Naõ morra espûma, e naõ feneça fragoa:
- Multiplica-se o vento nos suspiros,
- Fogósos rayos lhe despede a magoa:
- Já naõ sabe nascêr, nem brilhar Rosa,
- Que naõ pasme defuncta mariposa.
-
-
-IX.
-
- Nem tribûtaõ lisonjas aos sentidos
- Nestas mudas razoens, que amor ordena,
- Que sujeitos amantes desunidos,
- Aquelle, que mais chóra, esse mais pena:
- E se lagrimas saõ nos mais sentidos
- Almas do coraçaõ, bem se condena
- Qualquer a mais sentir; pois he patente,
- Que quem mais almas tem, muito mais sẽte.
-
-
-X.
-
- A solidaõ de Pedro imaginada,
- Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos,
- Que nem morrêra Ignez, se retirada,
- Naõ sentira distante os seus effeitos:
- Que como seja amor, muito apertada,
- Se gentil, uniaõ de dous sujeitos;
- Quando matar hum delles amor trata,
- Se desunir os dous hum só naõ matta.
-
-
-XI.
-
- Assi passaõ da mágoa a ser espanto
- Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos,
- Narciso cada qual do proprio pranto,
- Phaetontes em fim de seus gemidos:
- Se foraõ gala da bellesa, em quanto
- Eraõ gentîs desvelos dos sentidos,
- Lastimas ficaõ já da tenra idade,
- Culpas de amor, delictos da beldade.
-
-
-XII.
-
- Quaes simples avesinhas, que roubadas
- Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora,
- Dos maternaes alentos apartadas,
- Suspira cada qual, cada qual chóra:
- As que foraõ do campo idolatradas
- Oraculos do Sol, linguas da Auróra,
- De si mesmas agora occulta fragoa,
- Concebem pena, quando abortaõ magoa.
-
-
-XIII.
-
- Mas já funesta voz, turbado alento
- Por linguas de metal enrouquecido
- Formava o Semideos monstro violento,
- Gigante pela fama conhecido.
- Aquelle, cujo aládo atrevimento
- Se remonta veloz, e taõ subido;
- Porque nelle talvez o mundo veja
- Voarem pennas a pesár da inveja.
-
-
-XIV,
-
- La fez a túba lastimoso effeito
- Nos alentos de Pedro, que em suspiros
- Os mais dos eccos lhe interpréta o peito
- Dobrando mágoas, renovando tiros:
- Quando apenas em fim na dôr desfeito
- O coraçaõ se pasma, que em retiros
- Suffocado talvez da intensa calma,
- Se isentou de correr por conta da alma.
-
-
-XV.
-
- No combáte fatal deste desmayo
- (Lastimoso parenthesis da vida!)
- Tribûta vivas ao mortal ensayo,
- A sentinella da alma já vencida:
- Naõ morre Pedro, naõ, que aquelle rayo
- Foy lançada de amor, que repetida,
- Se pertende matár, a quem suspira,
- Menos o mata, se lhe a vida tira.
-
-
-XVI.
-
- Assi vivendo morre, quando amante;
- Assi morrendo vive, quando ausente;
- Que se morre, pois pena por distante,
- Vive tambem, pois ama, porque sente:
- Mas em fim naõ passâra tanto ávante
- Nas finesas amor, que fora urgente
- Acabar-se na vida, se roubára,
- E taõ fino naõ ser, se naõ matára.
-
-
-XVII.
-
- Mas quem diria agora o que sentiste
- Nesta, Pedro, de amor menos ventura,
- Dos carinhos ausente, que já viste
- Brotar melindres, produsir brandûra?
- Oh! que dirias, Pedro, quando abriste
- Aquelles dous conceitos da ternûra!
- Os olhos digo; mas amor ordena
- Parte das queixas interpréte a pena.
-
-
-XVIII.
-
- Já no pardo capuz, roupas saudosas
- Emmudecida a terra se encobria,
- E nos hombros das nuvens tenebrosas
- Ataúdes de sombra o tempo erguia,
- Consagrando com tochas lachrimosas
- Mudas exequias ao defuncto dia,
- Dando claros sinaes ao Jovem louro
- Em torres de Zaphir os signos de ouro.
-
-
-XIX.
-
- Quando a favor da vida o sentimento
- Novos em Pedro reproduz gemidos,
- Sendo sumilher da alma o novo alento,
- Que lhe corre as cortinas aos sentidos:
- Mas já liquida dôr, claro tormento
- Se acredita nos olhos advertidos,
- Que quem nas penas solitario mora,
- Só lhe resiste vivo, em quanto chora.
-
-
-XX.
-
- Solicita retîros, em que unidas
- Se acreditaõ de finas as saudádes,
- Que saõ mais primorosas, se sentidas,
- Naõ permittem motivos a piedades:
- Tributaraõ labéos de mal nascidas;
- A naõ passarem móstra de vaidades,
- Quando naõ foraõ mais, que eternisadas,
- Solitarias, occultas, retiradas.
-
-
-XXI.
-
- E já nas solidoens entretenido
- Interpréta lisonjas aos cuidados,
- Pois vay vendo nas flores advertido
- Morraes prendas, alinhos mal logrados:
- Mas apenas se lembra enternecido
- Daquelles Soes agora imaginados,
- Quando já vacilante se discorre,
- Aqui pasma, allî geme, acolá morre.
-
-
-XXII.
-
- Qual Girasol gigante, que atrevido
- A beber rayos amoroso aspira,
- Se bem, que entre zeloso, e presumido
- Desdenha ufâno, temoroso gira:
- Mas vendo apenas, que o galân querido
- Com disfarces de nacar se retira,
- Porque se vê das glorias todo ausente,
- Languido pasma, cuidadoso sente.
-
-
-XXIII.
-
- Em fim rompe nas queixas amorosas
- Agora Pedro, quando as vê sentidas,
- Que naõ pódem livrar-se de penosas,
- Quando sabem fugir a ser ouvidas:
- E só discretas saõ, se rigorosas,
- As que menos se presaõ de entendidas;
- Que já por isso Pedro se as pertende,
- He só porque a si mesmo naõ se entende.
-
-
-XXIV.
-
- Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada!
- Minha te chamo, quando assi perdida,
- Que se naõ tens as veras de lograda,
- O desár naõ padeces de esquecida:
- Como gloria maltratas, se lembrada?
- Como molestas gloria possuida?
- Na pósse logras ancias de fallivel,
- Na memoria rigores de impossivel.
-
-
-XXV.
-
- Como soube deixar-me assi frustrado
- Este rigor, que gloria se habilita,
- Quando me fez mayor, que o mesmo Fado,
- Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita?
- Quem me disséra então, que este cuidado
- Fosse Rosa, que apenas se acredita,
- Quando se vê nas maõs da naturesa
- Trophéo da dôr, sangria da bellesa.
-
-
-XXVI.
-
- Ay triste solidaõ! ay pena ingrata!
- Quanto menos cruel foras agora,
- Se permittindo a magoa, que maltrata,
- Naõ roubáras a gloria, que te adóra:
- Mas esta dôr naõ fora, que assi mata,
- Rigoroso pesár, se assi naõ fora;
- Pois naõ se méde o mal de quem suspira,
- Pelo que tem, senaõ pelo que tira.
-
-
-XXVII.
-
- Mas inda mais avante acompanhada
- Desta dôr outra pena já me alcança;
- Pois na magoa da perda lamentada
- Os alivios me rouba da esperança:
- Mas como, se naõ fora eternisada,
- Maltratára das glorias a mudança?
- Que o pesár sem remedio padecido,
- Mata porque hade ser, e porque ha sido.
-
-
-XXVIII.
-
- Nem pódem mitigar esta saudade
- Assistencias de amor, porque resiste
- Outra nova razaõ da soledade,
- Que nas distancias desse amor consiste:
- Que como aquelle objecto da vontade
- Hoje feito impossivel naõ me assiste,
- Sendo vinculo amor entre subjeitos,
- Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.
-
-
-XXIX.
-
- Só deixára de ser eternisada
- Esta dor, mas só fora divertida,
- Se a memoria da pena imaginada
- Naõ passára a ser pena padecida:
- Só razão de praser, quando lembrada,
- Essa gloria tivera, que he perdida,
- Se sendo assi passada na lembrança
- Soubéra ser futûra na esperança.
-
-
-XXX.
-
- Nem queixumes de lagrimas sentidas
- Alivios pódem ser nesta saudade,
- Que sendo partes da alma desunidas,
- Saõ causas naturaes da soledade:
- Porque quando nos olhos advertidas,
- Procuraõ fugitivas liberdade,
- Aquella mesma vida, que me alenta,
- Tambem nellas partida se me ausenta.
-
-
-XXXI.
-
- Oh quem me déra já ser assistido
- Dos penhascos talvez, que o monte cria!
- Mas quem naõ tem razoens para sentido,
- Naõ póde ter nas magoas companhia:
- E hum rigor por ausencias padecido,
- Com nenhuma presença se alivîa;
- Que quem nas ancias, que padece hũ triste,
- Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste.
-
-
-XXXII.
-
- E menos me permitte esta esquivança
- Ser de vós assistido, lindas flores,
- Pois por gentis emblemas da mudança
- Jeroglyphico sois de meus amores:
- E se produzis glorias na lembrança,
- Mal podeis assistir a meus rigores;
- Que naõ faz assistencia nos retiros,
- Quem motiva principios aos suspiros.
-
-
-XXXIII.
-
- Nem já, féras, talvez vossa brutesa
- Resta para topar branda piedade;
- Mas como póde ser, se a naturesa
- As noticias vos néga da saudade?
- E no fatal rigor de huma tristesa,
- Nos efeitos mortaes da soledade,
- Naõ póde ser a dor compadecida,
- Sem que seja na causa conhecida.
-
-
-XXXIV.
-
- Nem sereis, avesinhas, no saudôso
- Companheiras gentîs a meus retiros,
- Que diversos sujeitos no penoso,
- Tem diversas as magoas nos suspiros:
- E bem se vê, que o mal todo invejoso
- Mais a mim, do que a vós fulmina os tiros;
- Pois nûm rigôr fatal hum, damno esquivo,
- Mais mata o racional, que o sensitivo.
-
-
-XXXV.
-
- E menos podeis ser a meus sentidos
- Deleitoso carinho na saudade,
- Lisonjeiros arroyos, que atrevidos
- Solicitaes dos olhos a vaidade:
- Mas como? se a meus ays, e a meus gemidos
- Multiplicaes melhor a soledáde;
- Pois em vós retratado, e descontente,
- De mim mesmo me vejo estar ausente.
-
-
-XXXVI.
-
- Mas ainda assi paray, que se melhora
- Nestas lagrimas minhas vosso augmento:
- Se professais correntes, como agora
- Sabeis livres fugir ao sentimento?
- Paray, naõ murmureis, que nisso fora
- Muito mais conhecido vosso alento;
- Olhay que se condena, ou se aventûra,
- A naõ fazer remansos quem murmûra.
-
-
-XXXVII.
-
- E vós paray nas queixas amorosas,
- Galantes cortesans da soledade,
- Que naõ fazeis os pontos de queixosas
- Quando dais tantas falsas na saudade:
- Paray, digo, a meus ays, paray piedosas,
- Paray nos quebros, tende a liberdade,
- Aprendereis a ser nestes retiros
- Hum Féniz cada qual de meus suspiros.
-
-
-XXXVIII.
-
- Paray gentîs emblemas da vaidade,
- Flores, digo, paray, paray saudosas,
- Naõ bebais presunçoens, que a pouca idade
- Sereis de meus incendios mariposas:
- Aprendey dos alinhos da beldade,
- De vossa vida, digo, a ser piedosas;
- Que sempre foy nas regras da ternûra
- Muy capaz de liçoens a formosura.
-
-
-XXXIX.
-
- Paray féras tambem nesses ruidos,
- Guardas do monte, archeiros da ferêsa,
- Fazey caso das penas, que os bramîdos
- Argumentos parecem da brutêsa:
- Isto basta, paray, que os entendidos
- Pódem talvez notar vossa estranhesa:
- Minhas queixas ouvi, que alivio fora,
- Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.
-
-
-XL.
-
- Paray broncos penhascos, que o Céo cria
- Para pardos Atlantes dos retiros,
- Se vos vence huma liquida porfia,
- Como já resistis a meus suspiros?
- Mas oh! que digo! páre a covardia,
- Exhále o peyto, multiplique os tiros,
- Duplîque amor, e dobre o sentimento,
- Agoa nos olhos, nos suspiros vento.
-
-
-XLI.
-
- Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo
- Undósa parte, derretido alento,
- Se liquida sangrîa ao desaffogo,
- Lisonjeira lancêta ao sentimento:
- Se excessivo queixúme, ardente rogo,
- Se verte em nuvem, se distille em vento,
- Naõ fique planta, que a pesár do espanto,
- Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.
-
-
-XLII.
-
- Sejaõ linguas dos olhos mudas agoas,
- Intérpretes da dor tristes retiros,
- Eloquencias do peito vivas fragoas,
- Razoens do coraçaõ ternos suspiros,
- Rhetóricas da pena ardentes magoas,
- Elegancias de amor dobrados tiros:
- Emmudeça a razaõ, que só parece,
- Sabe tambem sentir, quando emmudece.
-
-
-XLIII.
-
- Distille o coraçaõ, duplique o vento
- Ethnas a seu pesár, agoas ao rogo;
- Morra por glorias de seu mesmo alento
- Troya nas ondas, e Narciso em fogo:
- Incendios solicîte ao sentimento,
- Diluvios multiplìque ao desafogo,
- Sendo de seu rigor o mesmo ensayo,
- Nas causas nuvem, nos effeitos rayo.
-
-
-XLIV.
-
- Naõ cresça lirio, que naõ sinta os tiros,
- Clavél naõ gire, que naõ pasme em fragoas;
- O que Féniz naõ for entre os suspiros,
- Morra já Faetonte sobre as agoas:
- Sejaõ vozes as magoas nos reriros,
- Que melhor nos retiros se ouvem magoas,
- Se se póde na dor, que amor ordena,
- Ouvir a magoa sem sentir a pena.
-
-
-XLV.
-
- Naõ reste planta, que se atreva a tãto,
- Que naõ murche dos ays enternecidos,
- Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto,
- Se naõ séque ludibrio dos gemidos:
- Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto
- Lastimosos naufragios dos sentidos;
- Seja neste pesár, nesta esquivança
- Charybdes da alma o Cabo da esperança.
-
-
-XLVI.
-
- Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade,
- Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento,
- A naõ serem Jasmins na brevidade,
- Naõ seriaõ Perpetuas no tormento:
- Só tu terrivel ancia da saudade
- Eternizas agora o sentimento;
- Porque quando matar-me amor ordena,
- Me deixas vida, com que o corpo pena.
-
-
-XLVII.
-
- Quem soubéra cuidar, que a mais crescida
- Tyrannîa cruel da dor mais forte
- Fosse, quando nas perdas de huma vida
- Impossiveis sentisse de huma morte:
- Mas he rigor da magoa repetida
- Por industria fatal da iniqua sorte;
- Porque quando talvez matar-me trata,
- Por topar-me sem vida, naõ me mata.
-
-
-XLVIII.
-
- E se fora da vida roubadora
- Esta sorte fatal, tormento esquivo,
- Tivera só por pena matadora
- Qualidades de grande no intensivo:
- Mas naõ, que como amor pertende agora
- Cumulár intensoens ao sensitivo,
- Naõ quer, que amor me mate, pois durára
- Muito menos a pena, se matára.
-
-
-IL.
-
- Agora alcançarás, prenda querida,
- Os rigores de amor na minha sorte,
- Pois agora me quer roubar a vida,
- Só por ma naõ tirar primeyro a morte:
- Mas ay! que a pena se duplîca unida:
- Mas ay! que a magoa se eternisa forte;
- Pois que vejo na dor do mal esquivo,
- Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.
-
-
-L.
-
- Mas agora na pena, que me entrega,
- Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira,
- Que padeça na morte, que o mal nega,
- E que pene na vida, que amor tira:
- Aqui verás, Ignez, a quanto chega
- Esta pena de amor, que amor, conspira;
- Pois agora naõ sey, no que discorro,
- Se vivo ausente, nem se ausente morro.
-
-
-LI.
-
- Mas em fim: que me queixo dos rigores,
- Com que talvez amor me tyrannisa,
- Quando mais martyrisaõ seus favores,
- Onde qualquer lembrança os eternisa:
- Pois quando apenas se alentaraõ flores,
- Passaraõ quasi flor, que se agonìa;
- Por isso a minha queixa mais se ordena
- A sentir seu desdem, que a minha pena.
-
-
-LII.
-
- Oh duro amor! oh fragoa dos gemidos,
- Prisaõ da vida, Argel da liberdade,
- Martyrio da alma, guerra dos sentidos,
- Encanto doce da melhor vontade!
- Teus favores só foraõ conhecidos
- Por gentîs prendas da mais tenra idade,
- A naõ serem primeyro teus favores
- Seccas espinhas, que animadas flores.
-
-
-LIII.
-
- Que cuidados naõ causas Jovem cego?
- Que rigores naõ dás ao pensamento?
- Que delicias naõ roubas ao socego?
- Que lisonjas naõ finges ao tormento?
- A que peitos naõ dás custoso emprego?
- A que vida naõ tiras doce alento?
- De que genios naõ reinas? de que idades?
- De que prendas gentìs? de que beldades?
-
-
-LIV.
-
- Quem me disséra, quando Ignez lograva
- Nos carinhos gentîs de seus favores,
- Quando nelles amor idolatrava,
- Para poder talvez morrer de amores!
- Quem me dissera, logo, que aspirava
- Hum cadúco praser a taes rigores!
- Quem me disséra então, que da ventura
- Era mortal delicto a formosura!
-
-
-LV.
-
- Quem disséra, que os laços de alvedrios,
- Gentîs madeixas, onde a naturesa
- Repartio liberal por tantos fios
- Os melhores extremos da bellesa,
- Esses agora, que acabarão brios,
- Se arrastão já bandeiras da tristesa?
- Mas que muito, se nunca em seus ensayos
- Nenhum por Louro se isentou de rayos.
-
-
-LVI.
-
- Oh bem, que pouco duras possuido!
- Só logras algum ser, quando esperado;
- Nos molestos receyos de perdido
- Tyrannizas o gosto de alcançado;
- Oh sonhada lisonja do sentido!
- Oh mais terrivel ancia do cuidado!
- Flor, que apenas se vê, quando se chora
- Enteada do Sol, filha da Aurora.
-
-
-LVII.
-
- Aquelles olhos donde o Sol furtava
- Os melhores thesouros da vaidade,
- E em lusidas capellas consagrava
- Dous altares Amor a huma beldade:
- Aquelles, cuja luz interpretava
- Os occultos archivos da vontade,
- Estes mesmos erarios da bellesa
- Deixa a perder de vista huma feresa.
-
-
-LVIII.
-
- Oh debil gloria lisonjeiro ensayo!
- Babél da vida, lingua do escarmento,
- Desfeita sombra do mais breve rayo,
- Quebrado vidro da mais tibio vento:
- Jasmim, que pasma de qualquer desmayo,
- Cravo, que morres de teu mesmo alento!
- Oh gloria humana! em fim gloria sonhada,
- Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada.
-
-
-LIX.
-
- Aquella bocca, donde a mais lustrosa
- Se divisava purpura incendida,
- Em quem se vio nascendo a bella Rosa
- Com menos folhas, quando mais partida
- Agora só se occulta lastimosa
- Em desmayos de neve amortecida;
- Mas que prenda não tem que formosura,
- Muito menor a vida que a ventura!
-
-
-LX.
-
- La pretende nascer Cravo lusido,
- Mas em casa gentil botão fechado;
- Porque aquella manhaã, que o vê nascido,
- O chorasse primeyro amortalhado:
- Quem, ô purpurea flor, taõ presumido?
- Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado?
- Que lhe chegue a tecer a naturesa
- A mortalha primeyro, que a bellesa.
-
-
-LXI.
-
- Aquelle brando afleyo da ternûra,
- Aquelle doce Argél da liberdade,
- Aquelle emblema só da formosura,
- Aquelle bello encanto da vontade,
- Aquelle gentil pasmo da ventura,
- Aquelle rico erario da vaidade,
- Nos alinhos se vê já confundida,
- Troféo da morte, lastima da vida.
-
-
-LXII.
-
- Que pouca duraçaõ, que mal segura,
- Tem nas prendas da vida huma bellesa!
- Só vive em quanto nasce a formosura,
- Espira, em quanto vive a gentilesa:
- Em fim, mais morre, quãto em fim mais dura,
- Mortalidades traz por naturesa;
- Quanto mais alentada, e mais lusida,
- Mais accidentes logra, e menos vida.
-
-
-LXIII.
-
- Mas se saõ melindrosa enfermidade
- Prendas de amor, e dotes de huma vida,
- Que muito, bella Ignez, que essa beldade
- Fosse de teus alentos homicida:
- Comtigo a morte foy no Abril da idade,
- Menos ambiciosa, que atrevida,
- Sem reparar, Ignez, que teus rigores
- Perdessem fructos por cortarem flores.
-
-
-LXIV.
-
- Mas viveràs, Ignes, que amor ordena
- Nestas memorias, donde a tyrannia
- Por naõ lograr-se mal a minha pena,
- Debuxàra melhor tua galhardia:
- Aqui veràs, Ignes, se me condena
- Amor, que por tyranno se avalia,
- A fazer impossiveis, pois discorro
- Viver lembrado, quando auzente morro.
-
-
-LXV.
-
- Morra no ramalhete flor cobarde
- A que Rosa nasceo mais alentada,
- Vomitando rubins pague na tarde
- Quantas perolas bebeu na madrugada:
- Seja bruto fiscal de tanto alarde
- O mesmo dia, que a chorou cortada,
- Que nenhuma manhãa, nem tarde temo
- As contas tomar possa a tanto extremo.
-
-
-LXVI.
-
- Aqui passo tal vez a mais quererte,
- Onde chego mais fino a mais lembrarme,
- Porque foraõ distancias de naõ verte
- Incentivos quiçà para olvidarme:
- Mas nem topo motivos de perderte
- Nesses teus infalliveis de deixarme,
- Que, sendo vida minha, sò pudera
- Por perdida julgarte, se eu morrera.
-
-
-LXVII.
-
- Assim se queixa Pedro, quando ausente
- Daquellas prendas nunca esquecidas,
- Pois amor, que lembradas as consente,
- As pintou bellas, quando as vio perdidas;
- Quando nas pennas, que dobradas sente,
- Quando nas queixas, que repete unidas,
- Jà desmayando pasma, porque ordena
- A mesma queixa, que se calle a penna.
-
-
-LXVIII.
-
- Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde,
- Quando fragoas se alenta, incendios gyra,
- Funesta tumba de seu mesmo alarde,
- Bebendo rayos, abrazado espira:
- O que roxo matìz a pennas arde,
- Parda nuvem murchando se retira,
- Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo
- Lhe corre galas para novo ensayo.
-
-
-LXIX.
-
- Assim Pedro se pasma, e naõ consente
- Os sentidos queyxumes, que derrama,
- Que se vive queixoso quem mais sente;
- Poem limite nas queixas quẽ mais ama;
- Mas aqui lhe concede amor presente
- Aquellas prendas, com que mais o inflãma,
- Que saõ talvez motivos do socego
- As memorias gentis do doce emprego.
-
-
-LXX.
-
- Agora, humanas prendas, se entendidas
- O desdem desprezais da infausta sorte,
- Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas,
- Que naõ saibaõ passar àlem da morte:
- Attentay, se notardes advertidas,
- Que naquelle de amor rigor mais forte
- Aconteceo da misera, e mesquinha,
- Que depois de ser morta foy Rainha.
-
-
-~FIM~
-
-_Da segunda parte_.
-
-[Ilustração]
-
-
-
-
- PARTE UNICA,
-
- OU
-
- TERCEIRA
-
- DAS
-
- SAUDADES,
-
- E
-
- SENTIMENTOS
-
- DE
-
- D. MARIA
-
- DE LARA.
-
-
-
-
-[Ilustração: _No grande sentimento, que teve da prizão se seu
-esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas
-lagrymas._]
-
-
-
-
-_Choray, sem descançar, olhos cançados._
-
-
-GLOZA I.
-
- Pois fostes olhos meus por quẽ mereço
- Da culpa o perdaõ que busco, e quero,
- Instrumento do mal que hoje padeço,
- Tambem o podeis ser do bem que espero:
- Jà de meus altos pensamentos desço,
- A vil estado humilde, duro, e fero,
- E jà que os males meus por vos saõ dados
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-II.
-
- Mortiferos enganos procurastes,
- Dos quaes muy graves damnos padeceis,
- E pois de ver o mal nunca cansastes
- De chorar pelo bem nunca canseis:
- E já que os grandes bens que eniquilastes,
- Por quem vòs suspirais, por quem gemeis,
- Chorando poderaõ ser renovados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-III.
-
- Das agoas que de vós estaõ manando
- Fazey hum rio claro, hum rio manso,
- Que eu folgo de vos ver cançar chorando
- Pois chorando ganhais vosso descanço;
- Nas cousas em que vos hides cansando
- Nessas me alegro, e eu nessas descanço,
- E pois nos faz o choro descançados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-IV.
-
- Choray naõ descanceis, pois que ganhais
- Chorando quantos bens aqui perdestes;
- Póde ser, que nas agoas, que chorais,
- Laveis as nodoas grandes, que fizestes:
- Choray as grandes magoas, que me dais,
- Pelo gosto, que vós sem mim tivestes:
- Choray males presentes, e passados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-V.
-
- Tantas agoas de vós sejaõ lançadas,
- Que affoguem vossos torpes desvarîos:
- E posto que estas agoas saõ salgadas
- Por ellas se navéga a doces Rios:
- Soffrey, por ver-des culpas affogadas,
- Tempestades crueis, calmas, e frios;
- Choray, se dezejais ser perdoados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-VI.
-
- Acîma desta terra tem subido
- As agoas do diluvio taõ sómente;
- Porém as vossas poucas tem-se erguîdo
- Encima deste Céo mais eminente:
- E lá movendo estaõ com seu ruido
- A Deos, Senhor Supremo, Omnipotente;
- E se delle quereis ser muito amados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-VII.
-
- Produzem temporal, terrestre fruto,
- As agoas, que os Céos daõ no duro inverno;
- Porém o vosso choro, sem ser muito,
- Produz fruto celeste, e sempiterno:
- Nunca de vós o campo esteja enxuto
- Chorando o mal antigo, e o mal moderno;
- Choray, seráõ os males desterrados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-VIII.
-
- As agoas, que vós vedes ir correndo,
- Que parece que vaõ de vós fugindo,
- Por natureza vaõ ao mar descendo,
- As vossas por virtude a Deos subindo,
- Humas chegando ao mar, vaõ-se perdendo
- As outras ante Deos ficaõ assistindo:
- E se quereis de Deos ser estimados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-IX.
-
- As agoas que das fontes vaõ manando,
- Fazem na terra vil vozes terréstes;
- Porém estas, que vós ides chorando
- No Céo Empyreo saõ vozes celestes:
- Chovey, olhos, chovey, iraõ brotando
- Os bens, que cõ a secura aqui perdestes;
- Os quaes se desejais ver restaurados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-X.
-
- Com muitas agoas cá vay-se apurando
- Qualquer pequeno vaso estando immundo;
- Mas vós com bem pouca agoa estais lavando
- Immunda culpa, mór que o mesmo mũdo:
- Por isso naõ canceis de estar chorando,
- De lagrimas fazendo hum mar profundo;
- E pois por ellas sois galardoados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-XI.
-
- As agoas cá vaõ só satisfazendo
- A sede aos animaes, que as vaõ gostando;
- Mas estas, que de vós estaõ nascendo
- A vosso Deos a sede estaõ matando:
- Sempre estejaõ de vós agoas correndo,
- Pois por ellas o bem vem navegando;
- Do qual se quereis ser certificados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-XII.
-
- Ninguem se afogarà se naõ lançado
- Em agoas que o possaõ estar molhando,
- Mas vòs sem que molheis vosso peccado,
- O afogais nesta agoa que ies chorando:
- E pois tendes o mal jà desterrado,
- E os bens por vossas agoas vaõ entrando
- Atè que os possais ver desembarcados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-XIII.
-
- Choray os annos uteis que gastastes,
- Choray o rico tempo que perdestes,
- Choray os bens divinos que deixastes,
- Choray males crueis que cometestes:
- Choray enganos vãos que tanto amastes,
- Choray conselhos bons que aborrecestes,
- Choray olhos no bem jà melhorados,
- _Choray, sem descançar, olhos cançados_.
-
-
-
-
- OITAVAS CONSOLATORIAS
-
- _Sobre o mesmo pezar_.
-
-
-I.
-
- Ainda que a dor da razão priva,
- Quãdo a causa della he muito amada,
- Ainda que a paixaõ prende, e cativa,
- Os discursos de huma alma atormentada.
- A fé que sobre a mente he bem que viva,
- Pois anda sobre os Ceos alevantada,
- Dos males que sentis, e dos que vedes,
- Vos consola com os bens, que por fé crédes.
-
-
-II.
-
- O Deos, centro das almas, guia, e norte,
- Por quem cada qual dellas he regidas,
- Fez que esta nossa vida fosse morte,
- Depois que sua morte fez a vida:
- Assim quem vive mais tem peor sorte,
- Pois que padece morte mais comprida,
- Porq̃ naõ logra mais quem tem mais annos,
- Mas quem mais annos tẽ, sofre mais dãnos.
-
-
-III.
-
- Aquelle puro espirito encastoado;
- No delicado corpo que vos vieis,
- Sò consentia ser de vòs amado,
- Porque o divino amor lhe consentieis;
- E pois que Deos aos Ceos o tinha dado,
- E vòs só do emprestado possueis,
- Porque haveis de chorar de ver que Deos,
- Da terra quer levar o que he dos Ceos?
-
-
-IV.
-
- Tanto o amador melhor padece,
- O trabalho por mais duro que seja,
- Quanto delle o pezar mais enriquece,
- A cousa que mais ama, e mais deseja.
- Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse,
- Naõ quer que a terra indigna mais a veja,
- Possa mais o seu bem para alegrar-vos,
- Do que pòde esse mal para cançar-vos.
-
-
-V.
-
- He tençaõ do amor à razaõ dada,
- Que os bens que busca ainda em seu perigo,
- Mais saõ para os dar à cousa amada,
- Que naõ para logralos sò comsigo:
- Pois se estes a que esta alma foy chamada,
- Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo,
- Folgay de carecer da parte vossa,
- Porque ella a parte, e o todo lograr possa.
-
-
-VI.
-
- Quem vive no terrestre Purgatorio,
- Vive para ir gozar de hum bem eterno,
- E em quanto tinheis nella o transitorio;
- Em tanto naõ tinha ella o sempiterno,
- Pois se he ponto de fé, claro, e notorio,
- Que acaba o bem antigo, e o bem moderno,
- Se lhe querieis bem, num bem está posta,
- No qual todos os bens possue, e gosta.
-
-
-VII.
-
- Mas vòs a quem a dor custa mais caro,
- Direis do damno della atormentado,
- Que naõ chorais da esposa o rico amparo
- Mas que chorais a vòs desamparado.
- Porèm sabendo Deos que era muy raro,
- Poder viver sem amar, e ser amado,
- Amar sua belleza vos convida,
- E quer que vendo a morte, ameis a vida.
-
-
-VIII.
-
- Porque este autor de toda a formosura,
- Movido da feição, não de rigor,
- Vos tira dante os olhos a pintura,
- Porque ponhais os olhos no pintor;
- O casto amor que tinheis foy figura,
- Do real, verdadeiro, e puro amor,
- Que se Deos vos tirou cousa tào bella,
- Foy por vos dar a si que o he mais que ella.
-
-
-IX.
-
- As cousas que da terra vaõ passando,
- Que nòs andamos nella pretendendo,
- Naõ saõ para os lograr nellas parando,
- Mas para Deos por ellas irmos vendo;
- Assim esta que vos hieis amando,
- Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo,
- Que no humano amor vos enssayasseis,
- Porque o divino amor representasseis.
-
-
-
-
- OITAVAS
-
- _Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a
- liberdade de seu marido._
-
-
-I.
-
- He muito natural de quem carece,
- Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza,
- Louvalo a quem o tem, porque conhece,
- Que louvado se ama, estima, e preza:
- E como bens mais altos appetece,
- Toma de mòr estado, mòr empreza,
- O bem que desprezou esse festeja,
- E o bem que naõ alcança, esse deseja.
-
-
-II.
-
- Na corte em que morais louvais a fonte,
- O monte, a solidaõ, bosque cerrado,
- Da qual muito dizeis do prado, e monte,
- Mas muyto mais se vè no monte, e prado;
- Por mais que ninguem diga, e mais que cõte
- Naõ fica ditto nada, nem contado,
- Porque he o que se diz morta pintura,
- E o que se vè real viva figura.
-
-
-III.
-
- Eu cà no monte moro, e naõ com elle,
- Vòs na corte morais, mas he com ella,
- Quem logra o monte logra o doce delle,
- Quem sofre a corte sofre o agro della:
- Diga a corte do monte o bem que ha nelle,
- Diga o monte da corte o mal que ha nella,
- Porque he regra direita de amizade,
- Que pague huma verdade outra verdade.
-
-
-IV.
-
- Ahi por dar calor a huma esperança,
- Que com dadivas grandes só aquenta,
- Se perde o que se tem, e naõ se alcança,
- Se naõ o que molesta, e que atormenta;
- Ahi se peza tudo em tal balança,
- Que na maõ desigual só se sustenta,
- E com taõ maõ fiel que o mais pezado,
- Contra direito tràs mais levantado.
-
-
-V.
-
- De palavras se faz rica almoeda,
- Que deixaõ pobres sempre os compradores,
- Onde comprais cõ tempo, e cõ a moeda,
- As esperanças vãs aos vendedores;
- Gastais a vida, o pam, o pano, e a seda,
- Desejos só vos daõ como penhores,
- Que cada qual por grande preço empenha,
- A quem, ou gasta o tempo, ou desempenha.
-
-
-VI.
-
- Ahi onde repousa a esperança,
- A sombra da infamia, e da deshonra,
- Onde a vosso pezar anda a privança
- Taõ alta que os pès tras sobre a honra:
- Ahi onde se tira o ferro à lança,
- Que seu dono levanta, louva, e honra,
- Onde os merecimentos se escurecem,
- Com fantasticos lumes, que apparecem.
-
-
-VII.
-
- O fim da pertençaõ he duvidoso,
- E o trabalho della sempre he certo,
- Mas se o mal vos afasta, que he penoso,
- O apparente bem chegarvos perto;
- O dezejo do fim traz-vos mimoso,
- Molesta-vos porèm o vello incerto,
- E se sabe a proveito o falso engano,
- Depois de experimentado sabe a damno.
-
-
-VIII.
-
- Ahi onde se vem com liberdade
- Andar todos os doudos desatados,
- Aquem, ou a sciencia, ou dignidade,
- Por mal de quem os vè tras embuçados,
- Detras da vã mentira anda a verdade,
- Para poder falar com os mais privados,
- Ahi vos he pezado, mas forçoso,
- Rogar, fingir, temer, e estar queixoso.
-
-
-IX.
-
- Rogar a peito duro, e empedernido,
- Que só com metais ricos se quebranta,
- Em que lançais algum, mas taõ perdido,
- Que nem pode ser situ, nem ser manta,
- Rogar por termo humilde, mas fingido,
- Que vos abate avòs, outrem levanta,
- Rogo que faz Senhor, ao que he ouvinte,
- E ao que roga faz pobre pedinte.
-
-
-X.
-
- Fingir, andando sempre atormentado,
- Para o alheyo bem grande alvoroço,
- Fingir que desejais de ser creado
- De quem pudera ser creado vosso:
- Fingir alegre rostro, a rostro irado,
- Que vos desejais ver sem seu pescoço,
- Fingir palavras vãs tintas com cores,
- Que sendo ellas de fel, pareçaõ amores.
-
-
-XI.
-
- Temer que seja falsa a esperança;
- Que tanto tarda, cansa, e tanto custa,
- Temer que os bens, que a fama vos alcansa,
- Vos negue a Corte ingrata, dura injusta,
- Temer que este temor que tanto cança,
- Seja da esperança a paga justa,
- Que sejaõ os cortesaõs prometimentos
- Sem nenhuma largura comprimentos.
-
-
-XII.
-
- Estar queixoso de ver quanto alcançaraõ,
- Os que parios em paz nunca correraõ,
- Queixoso de ver bens que transbordaraõ,
- Fóra dos que estes bens naõ mereceraõ,
- Queixoso de ver que inda naõ pagaraõ,
- Serviços que fiados se fizeraõ
- Queixoso porque o mào sem seu trabalho,
- Faz bigorna do bom, faz de si malho.
-
-
-XIII.
-
- A terra em que repouso, em que descanso,
- Na qual livres cuidados apascento
- Cento me dà por hum, que nella lanço,
- A corte davos hum, lançais-lhe cento,
- Compra-se cà com gosto o que he descanso;
- Comprais lá cõ desgosto o que he tormento,
- O bem que tem o monte nunca o nega,
- O mal que tem a corte, sempre chega.
-
-
-XIV.
-
- Depois que o mundo vão experimẽtastes,
- Depois de ser por sorte despachado,
- Me diz que vos deraõ, e o que gastastes,
- E achais que o que trazeis que foy comprado,
- Sabeis quã caro em fim tudo comprastes
- Na corte, que vos tem desenganado,
- Na qual quando as merces saõ muito largas,
- Despachaõ só com cargos, que saõ cargas.
-
-
-
-
- OITAVAS
-
- _Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro
- de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir,
- segundo as pennas, que à acompanhava._
-
-
-I.
-
- Ficay esteriles campos, calvos montes,
- Incultas serras, tristes arvoredos,
- Ribeiras seccas, peçonhentas fontes,
- Medonhos valles, asperos rochedos;
- Ficai mal assombrados orizontes,
- Parados rios, desiguaes penedos,
- Que jà me naõ vereis como me vistes,
- Inda que o ser mudeis de serdes tristes.
-
-
-II.
-
- Meus sentidos trouxestes jà fechados,
- Que agora sem vos ver já trago abertos,
- De ouro, e de azul vestistes meus cuidados,
- Mas agora os vereis de dò cubertos;
- Se os vistes andar sempre acompanhados,
- Metidos os vereis pelos desertos,
- Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ
- E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.
-
-
-III.
-
- Sempre senti pezar, nunca alegria,
- Nunca em vòs descançei, sempre cançava,
- O bem que achava em vòs, de mim fugia,
- Mas se me achava o mal, em mim parava:
- A treição me dava, e me feria
- Se delle por diante me escuzava,
- Notai deste meu mal este segredo,
- Que sendo matador, he falso, e tredo.
-
-
-IV.
-
- Em vós todos os bens vi contrafeitos,
- Cujas internas formas eraõ dores,
- Em vós topey pastores lobos feitos,
- Porém ainda em trajos de pastores;
- A estes procureis, e vãos respeitos,
- Dos bens alheyos vi destruidores,
- Gostando só do mal que entaõ causavaõ,
- E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.
-
-
-V.
-
- Mais feroces, que lobos, pois que querem
- Sustentar-se dos males, que causarem:
- Que os lobos mataõ gado por comerem,
- Mas estes só matavaõ por matarem;
- Sómente se recream em offenderem,
- Os que mais suas leys contrariarem,
- Porque a contradicçaõ faz inimigos
- Daquelles, que antes della foraõ amigos.
-
-
-VI.
-
- Nenhum seu proprio estado já respeita
- E trazem nas aldeas em que moraõ
- Rebuços de virtude contrafeita,
- E rostos naturaes do mal que adoraõ:
- Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita,
- E em todas por seu mal sempre peòram,
- Taõ amigos do bem, que vivo o enterram,
- E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.
-
-
-VII.
-
- De Astioge se diz que aborrecia
- A Cyro moço tenro, e delicado,
- A quem morte cruel traçava, e ordia;
- Porque era pretensor do seu Reynado;
- Porém o odio destes naõ se cria,
- Por enveja, ou temor demasiado,
- Sò com odio do bem, o bem perseguem,
- Por seguirem o mal, que todos seguem.
-
-
-VIII.
-
- Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo,
- Quem me importuna, turba, e desordena,
- Se a cegueira que tem he seu castigo,
- E sua mà vontade he sua pena;
- Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo,
- Se Deos assim o traça, assim ordena
- Que tudo quanto ha, tenha adversario,
- E seja o homem de si cruel contrario.
-
-
-IX.
-
- Saõ estes desliaes adoradores
- Da propria vontade cega, e dura,
- Que fazem de seus vicios seus senhores,
- E só para seu mal mostraõ brandura,
- Das sempiternas leys contraditores,
- Trazendo destas leys a vestidura,
- Amadores do mal, e da mentira,
- Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.
-
-
-X.
-
- Vestem a perversaõ com sua nobreza,
- Querem fazer da noite claro dia,
- Sua maldade cobrem, com a riqueza,
- Rebução com poder a tyrannia:
- Disfarçaõ sua furia em fortaleza,
- A vontade cruel julgaõ por pia,
- Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ,
- E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.
-
-
-XI.
-
- Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ
- A seus filhos mataraõ por peccarem,
- Mas estes mais crueis que os que passaraõ
- Querem-lhos inventar para os matarem;
- Os bens dignos de premio nunca olharaõ,
- Sò vem os males para os castigarem,
- E o que he furia cruel digna de espanto,
- Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.
-
-
-XII.
-
- Falo com reprovados, que abterno
- Foraõ por culpa sua condemnados,
- Ao fogo abrazador do escuro inferno,
- Sepulchro dos que jà saõ reprovados;
- Juizo foy divino, e sempiterno,
- Que os juizos humanos traz cançados,
- Que vivaõ de mistura os escolhidos,
- Com os que se haõ de perder, e já perdidos.
-
-
-XIII.
-
- Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo
- Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem,
- E póde vir a ser que os que defendo
- Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem,
- Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo
- Senaõ segundo as obras que aparecem:
- Porèm a graça de huns naõ he segura,
- E nem a culpa de outros sempre dura.
-
-
-XIV.
-
- O Principe das trevas naõ pretende
- Com todos seus vassalos preseguirnos?
- Naõ nos deseja mal, naõ nos offende?
- E naõ estuda sempre em destruirnos?
- Naõ temos nòs a Deos que nos defende,
- Se elle quer offendernos, e oprimirnos?
- Se nòs sem paixam nossa o desprezamos,
- Porque com seus ministros nos cançamos?
-
-
-XV.
-
- Que ter amigos taes he sorte boa,
- Pois saõ occasiões para a vitoria,
- Artifices sutis da altiva coroa,
- Que Deos costuma dar na eterna gloria;
- Naõ quero que me cause, ou que me doa,
- Trazelos como trago na memoria,
- Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina,
- Saõ meyos de mayor graça divina.
-
-
-XVI.
-
- Quem nunca aborreceo o ferro agudo
- Com que o barbeyro destro dà a sangria,
- Se para o mal que vem serve de escudo,
- Lançando à força o mal que havia:
- Quem trata mal o instrumento tudo,
- Que dente lhe arrancou, que lhe dohia?
- Amem-se pois amigos que daõ pena,
- Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.
-
-
-XVII.
-
- Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem,
- Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ,
- Com os males com que os justos enriquecẽ,
- Que exercitaõ no bem quando maltrataõ,
- A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem,
- A si destruem, cansaõ, e disbarataõ,
- A quem dos bens alheyos qualquer copia,
- Serve de afronta, penna, e magoa propria.
-
-
-XVIII.
-
- O profeta David Deos defendia,
- Do Rey perverso injusto que o buscava,
- Saul por huma parte o perseguia,
- E Deos por outra parte o sublimava,
- Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria,
- Destroe Deos o Rey que o invejava,
- Quem sofre reyna, quem perdoa alcança,
- He o odio do mào a espada, e a lança.
-
-
-XIX.
-
- Assim que està por ley jà definido,
- A qual se tem no mundo publicado,
- Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido,
- E empena fica o bem quando he passado;
- Hum passando deixou triste o sentido,
- Outro durando o traz desenganado;
- Porque hey de gastar bem que tanto damna,
- E temer mal que tanto desengana.
-
-
-XX.
-
- Assim Deos o permitte, assim o ordena,
- Que nesta vida triste, e transitoria,
- Com gloria vaã se ganhe eterna pena,
- Com pena temporal eterna gloria:
- O gosto sempre a alma dezordena,
- A penna faz a vida meritoria,
- Quando se gosta o bem entaõ escurece,
- Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece.
-
-
-
-
-SONETO.
-
-
- Horas breves de meu contentamento,
- Nunca me pareceo quando vos tinha
- Que vos visse mudadas taõ azinha,
- Em taõ compridos annos de tormento.
- As minhas torres que fundei no vento,
- O vento mas levou que mas sustinha,
- Do mal que me ficou a culpa he minha,
- Pois sobre cousas vãas fiz fundamẽto.
- Amor com falsas mostras aparece,
- Tudo possivel faz, tudo assegura,
- Mas logo no melhor desaparece,
- Ó grande mal, estranha desventura,
- Por hum breve prazer que desfalece,
- Aventurar hum bem que sempre dura.
-
-
-
-
- OITAVAS
-
- _Que fes a mudança do Mundo no espelho de seu esposo, sobre que
-ponderou a variedade delle segundo o discurso, com que glosou o Soneto
-186. das Rimas do Principe dos Poetas o Grande Luis de Camões, que fica
- na pagina antecedente._
-
-
-GLOZA I.
-
- Agora q̃ meu mal trouxe a meu dãno
- Mil annos se detẽ hũ duro inverno,
- Que quẽ em hum sò momẽto acha hũ anno,
- Hum anno lhe parece tempo eterno;
- Assim por castigar meu cego engano,
- Por quem jà me naõ rejo nem governo,
- As horas mudaõ em annos de tormento,
- Horas breves de meu contentamento.
-
-
-II.
-
- O gosto por algum tempo me destes,
- Porque vindo o desgosto mais durasse,
- Que se no falso bem me detivestes,
- Foy por manchar o mal quando chegasse,
- Logo me pareceo quando vistes,
- Que nunca longos annos vos lograsse,
- Mas que fosseis agora a penna minha,
- Nunca me pareceo quando vos tinha.
-
-
-III.
-
- E com me parecer que vos detinheis,
- O vosso vaõ soheyto me mostrava,
- Ser taõ certa a mudança do que tinheis
- Como a posse do bem que entaõ lograva:
- Cuidey, ó horas breves, quando vinheis,
- Que o tempo por algum tempo vos dava,
- Mas nunca presumio esta alma minha,
- Que vos visse mudadas taõ azinha.
-
-
-IV.
-
- Bem podes em breve tempo conhecer,
- Que por discurso as cousas vay sabendo,
- Que a brevidade occulta do prazer,
- Da vaidade delle está nascendo;
- Mas como a payxaõ tira o saber,
- Naõ pude nesse tempo ir entendendo,
- Que vos mudasse o vil contentamento,
- Em taõ compridos annos de tormento.
-
-
-V.
-
- Naõ julga o vaõ juizo apaixonado,
- Com segunda razaõ, alta, e profunda,
- Que quando o fundamento vay errado,
- Errado hade ficar quanto se funda;
- Assim para ficar mais magoado,
- E porque o erro meu mais se confunda,
- Em vento resolveo meu fundamento,
- As minhas torres, que fundei no vento.
-
-
-VI.
-
- Naõ pode ser constante a esperança,
- Fundada sobre hum falso pensamento,
- Porque a constante, e firme segurança
- Procede de ser firme o fundamento:
- Por isso vi taõ cedo esta mudança,
- Porque as torres que fiz fundei no vento,
- E como eu no vento as torres tinha,
- O vento mas levou, que mas sostinha.
-
-
-VII.
-
- Culpa de meu perverso, e vaõ sentido,
- Que vendo só mal huma sombra boa,
- Mas estimou o mal pelo vestido,
- Do que estimou o bem pela pessoa:
- Mas posto que me veja hoje perdido,
- Em penna que a razaõ tanto magóa,
- Como buscar o bem sò a mim convinha,
- Do mal que ficou a culpa he minha.
-
-
-VIII.
-
- Por culpa só morre, e padece,
- Quem quer que as armas deu a seu amigo,
- Bem mostra que seu mal naõ aborrece,
- Quem deste mesmo mal ama o perigo;
- Pois logo se a razaõ isto conhece,
- Justo tormento foy, justo castigo,
- Que tudo me levaste o leve vento,
- Pois sobre cousas vãas fiz fundamento.
-
-
-IX.
-
- Sente o cego amador em seus amores,
- A paga do serviço ser o engano,
- Converterem-se os bens em puras dores,
- Ser o proveito pouco, muito o damno;
- Mentirosas lisonjas os louvores,
- O fim de seu trabalho hum desengano,
- Porém nestas verdades que conhece,
- Amor com falsas mostras aparece.
-
-
-X.
-
- Tudo o que vê cruel, mostra amoroso,
- Tudo o que he puro, mal finge bem puro,
- Tudo o que certo he, faz duvidoso,
- E tudo o que se vay, dà por seguro;
- Tudo que doce he, diz que he penoso,
- Tudo o que he manifesto, mostra escuro,
- Tudo confunde amor, tudo mistura,
- Tudo possivel faz, tudo assegura.
-
-
-XI.
-
- Mostra que pode dar contentamentos,
- Aquelle que de taes mostras se fia,
- E mostra que he remedio de tormentos,
- Instrumento do bem, e da alegria;
- Mostra que faz seguros fundamentos,
- E que leva segura, e recta via,
- Mostra que a vida toda permanece,
- Mas logo no melhor desaparece.
-
-
-XII.
-
- Mas ó razaõ perversa, e infernal,
- Pois tens a eleiçaõ taõ cega, e injusta,
- Que queres dar hum bem que tanto val,
- Por hum perverso mal, que tanto custa:
- Que por iguaes teu bem, queiras teu mal,
- E que aborreças tanto a vida justa?
- Que ames mais que a vida a morte dura,
- Ó grande mal, estranha desventura.
-
-
-XIII.
-
- Nesta alegria falsa, a qual eu douro,
- Com minha razaõ torpe, e com meu erro,
- Onde as promessas saõ de fino ouro,
- E as dadivas saõ de duro ferro;
- Trocava o rico preço, e o thesouro,
- Que me levava à patria do desterro,
- Trocava o eterno bem que permanece,
- Por hum breve prazer que desfalece.
-
-
-XIV.
-
- Sò o torpe juizo, e insensato,
- A quem verdades tais saõ odiosas,
- Das cousas preza mais o aparato,
- Do que preza, e ama as mesmas cousas;
- Sò este a quem por falso jà naõ trato,
- Pode por falsas mostras, mas fermosas,
- Por huma breve, e vãa desventura,
- Aventura hum bem que sempre dura.
-
-
-
-
- OITAVAS
-
- _Que fez dirigidas a sua magoa, na consideraçaõ do discurso
- antecedente; e juntamente mostrando o quanto perturbado tinha com
- pennas o seu coraçaõ sobre que glosou o Mote seguinte._
-
- _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra._
-
-
-GLOZA I.
-
- Naõ pode ser a chama quente, e fria,
- Na tempestade estar o ar sereno,
- Na noyte escura verse o claro dia,
- O fogo abrazador sentir-se ameno,
- Acharse na tristeza à alegria,
- E poder ser mezinha, o que he veneno,
- Naõ se pòde ajuntar o ceo com a terra,
- _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.
-
-
-II.
-
- Naõ se acha pelo mar caminho aberto,
- A Lua naõ se vè nunca constante,
- Nem pode o que he desordem ser concerto,
- O preto, o branco ser, hum mesmo instante;
- Na incerteza acharse o tempo certo,
- Nem ser hum mesmo sabio, e ignorante,
- Ninguem na patria fica, e se desterra,
- _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.
-
-
-III.
-
- Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno,
- Ninguem em seu tormento, tem sua gloria
- Em seu proveito pode achar seu damno,
- E sua destruiçaõ sua victoria,
- Naõ mora o desengano, no engano,
- Naõ he a vida eterna transitoria,
- Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra,
- _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.
-
-
-IV.
-
- Naõ pòde ser prudente o vicioso,
- Sollicito, sagaz, o descuidado,
- Nem manso pode ser o furioso,
- Nem pode estar contente o magoado,
- Naõ he o temerario temeroso,
- Nem he ditoso o mal afortunado,
- Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra,
- _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.
-
-
-V.
-
- Naõ pode o que he doença ser saude,
- O que he prodigo ser tambem avaro,
- Naõ pode ser peccado o que he virtude,
- O que custa barato, custar caro;
- O engenhoso ser grosseiro, e rude,
- Aquillo que he commum puder ser raro,
- Naõ resplandece o ouro se se enterra,
- _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.
-
-
-VI.
-
- Naõ he resplandecente o abysmo escuro,
- Naõ pode ser traiçaõ, o que he lealdade,
- O puro bem, naõ se acha no mal puro,
- A mentira naõ pode ser verdade;
- O fundamento vaõ naõ he seguro,
- Nem pode ser segura a falsidade,
- E assim como naõ cabe o Ceo na terra,
- _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_.
-
-
-
-
- OITAVAS
-
-_Que ultimamente fez com grande espirito, quando se vio dezenganada do
- mundo, e conheceo a sua variedade sobre que glosou o Mote seguinte._
-
- _Salid sin duelo lagrimas corriendo._
-
-
-GLOZA I.
-
- Ay Dios, ay alma mia, ay dura suerte,
- Ay triste como estoy tan affligida,
- Pues que pude peccando dar la muerte,
- A quien no puedo dar llorando vida;
- Fue ser mi culpa tal, tanta dura, y fuerte,
- Que solo de Dios, es bien entendida,
- Y pues es tal mi mal que no lo entiendo,
- _Salid sin duelo lagrimas corriendo_.
-
-
-II.
-
- Quien me diera, mi Dios, pues te offendi,
- Pues con tanto plazer te he offendido,
- Que fuera igual a el mal que cometi
- El pezar de tenerlo cometido:
- Quien pudiera, Senhor, vengarte en mi,
- Por todo quanto bien he destruido,
- Mas si llorando el mal en parte imiendo,
- _Salid sin duelo lagrimas corriendo_.
-
-
-III.
-
- Sin ti quizo el mal mi coraçon,
- Pero contigo del es levantado,
- Pues que para poder darme el perdon,
- Me dás arrepentirme del peccado;
- Abage-se al profundo la razon,
- Pues a Dios de lo alto ha derribado,
- Venid suspiros ya, venid saliendo,
- _Salid sin duelo lagrimas corriendo_.
-
-
-IV.
-
- Menos dolor tuviera en la memoria
- Del mal, que a tantos males me condena
- Si me quitara a mi tan dulce gloria,
- Y no te diera a ti tan dura pena,
- Mas pues mi culpa yá es tan notoria,
- Sea notorio el llanto, que ella ordena,
- Y por mostrar que mal me està doliendo,
- _Salid sin duelo lagrimas corriendo_.
-
-
-V.
-
- Holgara ò Dias remedio del engaño,
- Que en camino te puzo taõ estrecho
- Que ansi como del mal fue tuyo el daño,
- Pudiera ser del bien tuyo el provecho,
- Pero teniendo de esto el desengaño
- Mirando en tu persona abierto el pecho,
- Con voz llorosa, y triste ando diziendo,
- _Salid sin duelo lagrimas corriendo_.
-
-
-VI.
-
- Vi la causa del mal quize agradarla,
- Ya veo la del bien quiero sentirla,
- Miré la falcedad, quize abraçarla,
- Yà miro la verdad quiero seguirla;
- Si para tanto mal fue desecharla,
- Por mucho mayor bien era admitirla,
- Y en quanto su ausencia estoy sintiendo,
- _Salid sin duelo lagrimas corriendo_.
-
-
- ~FIM~
-
- _da Terceira, e ultima parte_.
-
- [Ilustração]
-
-
-
-
- VIRTUDES, E VICIOS,
-
- _Feitas pela mesma Autora à instancia de huma Religiosa devota, as
- quaes virtudes augmentaõ as Religoens para melhor servir a Deos Nosso
- Senhor sendo-lhe contrarios os vicios que as destroe._
-
-
-_Humildade._
-
- Sempre nos baixos me encerra
- A luz que a Deos me prendeo,
- Mas quanto deço na terra
- Tanto me sobem no Ceo.
-
-
-_Liberalidade._
-
- Cubro o bom, cubro o iniquo
- Tudo comigo se cobre,
- Comigo he rico, o que he pobre
- Sem mim he pobre, o que he rico.
-
-
-_Castidade._
-
- Quem contra mim nunca erra
- Quem comigo a si venceo,
- Fica estrangeiro na terra,
- Faz-se natural do Ceo.
-
-
-_Paciencia._
-
- Quem por meu respeito cansa
- Sofrendo o mal que parece,
- Tudo vence, e tudo alcança,
- Tudo tem, tudo merece.
-
-
-_Temperança._
-
- Sou temperada virtude
- Que todo o corpo governa,
- Dou-lhe temporal saude
- A alma saude eterna.
-
-
-_Charidade_.
-
- Sou amada, e amadora
- Do mais perverso louvada,
- Das creaturas, criada,
- Mas das virtudes senhora.
-
-
-_Diligencia._
-
- Quem nesta vida me tem
- Logra o bem acrescentado,
- Que a diligencia no bem,
- Faz que o bem seja dobrado.
-
-
-_Prudencia._
-
- Sou prudente em toda a hora,
- Cousa com que sou contente;
- Porque em quanto sou prudente
- Naõ posso ser peccadora.
-
-
-_Silencio._
-
- Dẽtro em mim mesmo me encerro
- Tudo ouço, e tudo callo;
- Porque tanto menos erro,
- Quanto menos vezes falo.
-
-
-_Fè._
-
- Sou fè que da alma desterra
- O mal, que a escureço,
- Estando presa na terra
- Subo mil vezes ao Ceo.
-
-
-_Esperança._
-
- Espero hum bem immortal
- Donde os bens todos me vem;
- Porque a esperança do bem,
- A doça a penna do mal.
-
-
-_Penitencia._
-
- Sou a virtude que tem
- Contra o mal grande potencia,
- Sou a feliz penitencia,
- Que converte o mal em bem.
-
-
-_Oração._
-
- Posto que grosseira, e rude,
- Sempre oro em meu coração;
- Porque só nesta Oração,
- Se a prende toda a virtude.
-
-
-_Perseverança._
-
- Persevero sem mudança,
- Insisto sem me mover,
- Pois tudo pode vencer
- A longa perseverança.
-
-
-_Mansidaõ._
-
- Mansa sou, e assim alcanço,
- Quanto prometem os Ceos,
- Que o que na vida he mais manso,
- He mais semelhante a Deos.
-
-
-_Fortaleza._
-
- Resistir he meu officio,
- Tudo venço com firmeza,
- Porque a firme fortaleza,
- Vence, e mata todo o vicio.
-
-
-_Verdade._
-
- Sempre acho quem me louve
- Por ser natural dos Ceos,
- A Deos ouve, quem me ouve,
- Quem me busca, busca a Deos.
-
-
-_Misericordia._
-
- Sou das virtudes concordia,
- Estou na terra, estou nos Ceos:
- Sou huma cousa como Deos,
- Pois que sou misericordia.
-
-
-_Abstinencia._
-
- Tenho o rosto feo, e fero
- Mas sou de summa excellencia,
- Sou o custo da abstinencia,
- Que os apetites tempero.
-
-
-_Desprezo do mundo._
-
- O mundo, ou o immundo
- Deixo, como reyno alheyo,
- Pois com desprezo do mundo
- Todo o mundo senhoreo.
-
-
-_Constancia._
-
- Sou forte firme, e prestante,
- Tenho a Deos, e Deos me tem,
- Quem no bem he taõ constante,
- Bem he que tenha tal bem.
-
-
-_Justiça._
-
- A Deos tenho por farol
- Nunca me cega a cubiça,
- Senaõ sou Sol de Justiça,
- Sou justiça mais que o sol.
-
-
-_Pobreza._
-
- Ninguem por mim se governa,
- Antes sou mui perseguida,
- Sendo miseria da vida,
- Posso dar a vida eterna.
-
-
-_Mortificação._
-
- Sou das virtudes hum cofre
- Porque a todas faço a cama,
- Se persigo a quem me sofre,
- Guarlado-o a quem me ama.
-
-
-_Paz da alma._
-
- Quem me logra cà na terra,
- Quem me tem do Ceo me traz,
- Na terra me sinto em paz,
- Por mayor que seja a guerra.
-
-
-_Modestia._
-
- Sou composta e sou honesta
- Exemplar aos que me vem,
- Com exemplo de modestia,
- Provoco todos ao bem.
-
-
-_Gratidaõ._
-
- Folgo de ser gratidaõ,
- Porque meus bens conhecendo,
- Agradeço o que me daõ,
- E mereço o que pertendo.
-
-
-_Simplicidade._
-
- Quem me logra, e quem me tem
- He quasi celestial,
- Nunca cahe em nenhum mal,
- Porque sempre cuida bem.
-
-
-_Pureza da alma._
-
- Todo bem sigo, e procuro
- Todo mal me he odioso,
- Tudo quero virtuoso,
- Tudo alimpo, tudo apuro.
-
-
-_Zelo do bem._
-
- Naõ me traz no coraçaõ,
- O máo, o perverso, e rude,
- Pareço as vezes paixaõ,
- Porèm sempre sou virtude.
-
-
-_Desprezo proprio._
-
- Pois no mal naõ faço pauza,
- Tudo faço em meu despeito,
- Desprezo o mal como effeito,
- E amim como propria causa.
-
-
-_Renunciaçaõ._
-
- Deime com favor dos Ceos,
- A Deos meu ultimo fim,
- Porque dandome eu a Deos,
- Se me desse Deos a mim.
-
-
-_Innocencia._
-
- Sò de mim se entende, e cre
- Que sem mal posso ter bem,
- Quem me tem nunca me vé,
- Quem me vè ja me não tem.
-
-
-_Correiçaõ fraterna._
-
- Dos vicios sou adversaria,
- Todo o mundo me ha mister,
- Sendo a todos necessaria,
- Ninguem me pode sofrer.
-
-
-_Recolhimento._
-
- Recolhimento procuro,
- Do corpo, alma, e sentido,
- Pois quanto mais recolhido,
- Tanto do mal mais seguro.
-
-
-_Continencia._
-
- Sempre ando em companhia
- Da singular castidade,
- Em minha difficuldade,
- Consiste minha valia.
-
-
-_Discripçaõ._
-
- Eu tiro de todo enleyo
- A qualquer juizo rude,
- Sou a que descobre o meyo
- Em que consiste a virtude.
-
-
-_Amor Divino._
-
- Na terra sou peregrino,
- Porém no Ceo sou Senhor,
- Sendo Deos divino amor,
- Faz-me Deos amor divino.
-
-
-_Amor do proximo._
-
- Depois que subo às alturas,
- Por amar a meu senhor,
- Como subo ao creador,
- Devo amar as creaturas.
-
-_Devoçaõ._
-
- Faço doce o que he penoso,
- Faço leve o que he muy grave,
- Tudo o que he difficultoso,
- Faço facil, e suave.
-
-
-_Fervor._
-
- A muitos pareço louco,
- Que naõ conhecem meu fruto
- Ainda que eu faça muito,
- Tudo me parece pouco.
-
-
-_Graça._
-
- Tudo comigo se cobre,
- Das paixoens tenho a victoria,
- Sem mim nenhuma boa obra,
- Pòde merecer a gloria.
-
-
-_Bem exemplo._
-
- Edifico os que me vem,
- Honrarey a quem me der,
- Sò com as mostras do bem,
- Muytos bens faço fazer.
-
-
-_Conformidade._
-
- Sou conforme o meu querer,
- A Deos de quem tudo espero,
- Porque tudo quanto quero,
- Seja tudo o que elle quer.
-
-
-_Pura tençaõ._
-
- Subiraõ à mayor alteza,
- Os Santos por minha via,
- Conforme a minha pureza,
- Tem as virtudes valia.
-
-
-_Temor de Deos._
-
- Por naõ fazer hum aggravo,
- A Deos chego a todo extremo,
- Posto que sou escravo,
- Sò como seu filho o temo.
-
-
-_Negaçaõ propria._
-
- Como em tudo a Deos me entrego
- Como me devo entregar,
- Em tudo o que he meu me nego
- Por naõ vir a arrenegar.
-
-
-_Obediencia._
-
- Faço prudentes os rudes,
- Que sé regem sò por mim,
- Sou principio, e sou fim,
- De todas as mais virtudes.
-
-
-_Vergonha._
-
- Tanto duro virtuosa,
- Devota, sesuda, e prompta,
- Quanto duro vergonhosa,
- A quem comigo se encontra.
-
-
-_Brandura._
-
- De ninguem desprezadora,
- De todos muito prezada,
- De alguns naõ sou amadora,
- Mas sou de todos amada.
-
-
-_Cortezia._
-
- Quem me tem fama terà,
- Que he o meu mais proprio fruto,
- Sem dar nada quem me dà,
- Fica recebendo muito.
-
-
-_Compaixaõ._
-
- Conversando entre a gente,
- Com vontade pouco esquiva,
- Mereço por compassiva,
- A gloria do paciente.
-
-
-_Lealdade._
-
- O mundo bem me dezeja,
- Mas naõ toma por guia,
- A que sou na frontaria,
- Sou nas costas da Igreja.
-
-
-_Consciencia._
-
- Aviso do mal, e bem,
- A quem, ou bem, ou mal quer,
- Quem quer que me naõ tiver,
- Nenhuma virtude tem.
-
-
-~VICIOS.~ _Soberba._
-
-
- Trago o rostro sesudo,
- Ando melanconizada,
- Cuido de mim que sou tudo,
- E eu sou menos, que nada.
-
-
-_Avareza._
-
- Nada dou, tudo retenho,
- Atè a mim me nego o bem,
- Peço quanto os outros tem,
- Naõ dou nada do que tenho.
-
-
-_Ira._
-
- Para tudo sou mofina,
- Ando amarella, e rayvosa,
- O mimo brando me indigna,
- Como palavra afrontosa.
-
-
-_Inveja._
-
- He minha condiçaõ tal,
- Que me naõ sofre ninguem,
- Porque atè o alheyo bem,
- Me serve de proprio mal.
-
-
-_Preguiça._
-
- Nunca me quero mover,
- Porque em nada me resolva
- Mas que o mundo se resolva,
- Naõ me posso resolver.
-
-
-_Discordia._
-
- Atè a mim me contradigo,
- Nem me regem, nem eu rejo,
- Ninguem peleja comigo,
- E eu com todos pelejo.
-
-
-_Liviandade._
-
- Do canto muy pouco alcanço
- Mas em todo o tempo canto,
- Sem som bailo, trinco, e danço
- Mas, que a casa esteja em pranto.
-
-
-_Presumpçaõ._
-
- Seco afrol nunca dou fruto,
- Por ser meu sentido louco,
- Se de mim presumo muito,
- He porque sey muito pouco.
-
-
-_Vaidade._
-
- Pretendo as honras mayores
- Por maranhas, e invenções.
- Sempre desejo louvores,
- E eu mereço reprehenções.
-
-
-_Ignorancia._
-
- A pena tenho por gloria
- Porque me falta o juizo
- O que he parvoice notoria
- Julgo eu por raro aviso.
-
-
-_Chocarrice._
-
- Por nada me movo a riso
- Sò zõbando mostro engenho,
- Naõ falo nunca de siso,
- Porque nenhum siso tenho.
-
-
-_Amor proprio._
-
- Com caridade me escuzo,
- Porque assi me naõ conheçaõ
- Só para mim quero tudo,
- Os outros mas que pereção.
-
-
-_Desconfiança._
-
- Sem ninguem me affligir,
- Eu mesmo me afflijo a mim
- Todos quantos vejo rir,
- Cuido que se rim de mim.
-
-
-_Prodigalidade._
-
- Quem os meus bẽs me levou
- Não mos sabe agradecer,
- Não ha misterio que eu dou,
- E eu dou o que hey mister.
-
-
-_Curiosidade._
-
- O que falão, e sonhão
- As outras, quero entender
- tè que venho a fazer
- Mil cousas que me envergonhaõ.
-
-
-_Melindre._
-
- Acho grossas as finezas,
- Sou dalfelua, e algodão
- Os mimos são asperezas,
- Epara minha condição.
-
-
-_Mentira._
-
- Por ruas, e por travessas,
- Cantar historias pretendo,
- Quando falo, falo às avessas,
- Do que sey, e do que entendo.
-
-
-_Pouco segredo._
-
- Qualquer cousinha me encalma
- Que a outrem, ou a mim toca
- Tudo o que me metem na alma
- Lanço logo pela boca.
-
-
-_Concordia._
-
- Naõ pretendo prefeiçaõ,
- Por ser covarde, e ser rude,
- Com medo do que diraõ,
- Deixo de ter mayor virtude.
-
-
-_Vingança._
-
- Por mais que as outras me afagem
- E por branduras me levem,
- Nenhuma cousa me devem,
- Que dobrado me naõ paguem.
-
-
-_Malicia._
-
- Só de mim todo o mal vem
- Ou mortal, ou venial,
- Sou inventora do mal,
- Destruidora do bem.
-
-
-_Incredulidade._
-
- De meu mal endurecida,
- Só por mesma me eu rejo,
- O mal creyo só de ouvida,
- E o bem nem quando o vejo.
-
-
-_Odio._
-
- Nunca procuro meu bem,
- Porque meu mal naõ conheço,
- Sou penna de quem me tem,
- Sem ser mal de quem aborreço.
-
-
-_Hypocresia._
-
- Sou dobrada, triste, e rude,
- Enganar he meu officio;
- Pela casca sou virtude,
- Mas pelo miolo vicio.
-
-
-_Murmuraçaõ._
-
- De minha irmãa por mil meyos
- Encubro os bens que saõ seus,
- Publico os males alheyos,
- Naõ sey esconder os meus.
-
-
-_Traiçaõ._
-
- Com fingido, e ledo rostro
- Offereço meu serviço,
- A muitos rio no rostro,
- A quem mordo no toutiço.
-
-
-_Desenvoltura._
-
- Males que faço, e naõ callo
- Em mim moraõ, e naõ mim jazẽ,
- Mil palavras verdes falo
- Que os rostros vermelhos fazem.
-
-
-_Pertinacia._
-
- Nenhum conselho me val
- Naõ me convence ninguem,
- Sou como rocha no mal,
- E como cana no bem.
-
-
-_Inconstancia._
-
- O bem em mim nunca para
- Muy pequeno mal me espanta,
- Soa huma hora Santa Clara,
- Noutra, nem Clara, nem Santa?
-
-
-_Occiosidade._
-
- Vivo em continuo descuido
- Num, e noutro me embaraço,
- Se naõ faço o mal que cuido,
- Cuido no mal que naõ faço.
-
-
-_Lisongeria._
-
- Nenhuma cousa reprovo,
- Ou seja mal dita, ou feita,
- Tudo louvo, tudo approvo
- Por ser a todos aceita.
-
-
-_Interesse._
-
- Costumo de usar cruezas
- Com vizinho, e com estranho
- Cayo em cem mil baixezas
- Sò por tirar qualquer ganho.
-
-
-_Zelo indiscreto._
-
- Como a ordem naõ entendo,
- Porque me ey de governar,
- Tudo quero emmendar,
- Mas a mim nunca me emmendo.
-
-_Mà condicçaõ._
-
- Posto que todos me emmẽdem,
- Ninguem faz comigo avença,
- Cuido que todos me offendem,
- E eu sò sou minha offensa.
-
-
-_Afeiçaõ desordenada._
-
- Nenhuma alma hoje me tem
- Que seja esperitual,
- Quando quero mayor bem,
- Entaõ me faço mòr mal.
-
-
-_Amor profano._
-
- Por fantastica invensaõ
- Procede meu bem querer,
- Por bens que naõ pòdem ser,
- Sofro o mal que jà saõ.
-
-
-_Arrogancia._
-
- Da graõ soberba sou filha,
- Cuido que saõ meus os Ceos,
- O mal propio naõ me humilha,
- E incho com o bem de Deos.
-
-
-_Distraiçaõ._
-
- Do que he culpa, faço graça,
- Do que he peccado, ventura,
- A alma trago na praça,
- E o corpo na clausura.
-
-
-_Descortesia._
-
- A honra como thesouro,
- Nego a todos por mais brio,
- Faço della fino ouro,
- Porque a pezo ouro, e fio.
-
-
-_Temeridade._
-
- Por muy indescretos meyos,
- Espreito alheos peccados,
- Naõ entendo meus cuidados,
- Julgo cuidados alheos.
-
-
-_Dureza._
-
- No cuidar, no fallar erro,
- Por ter duro o coraçaõ,
- Fallo palavras de ferro,
- Cuido que saõ de algodaõ.
-
-
-_Rudeza._
-
- Erro agòra, e sempre errey,
- Nem entendi, nem entendo,
- Sempre apprendendo me sey,
- Mas nunca sey, o que apprendo.
-
-
-_Mexerico._
-
- Por malicia, e por parvoice,
- Pecco huma, e outra vez,
- Dizendo o mal que outrem disse,
- Faço o mal, que elle naõ fez.
-
-
-_Fraqueza da Alma._
-
- Os que de mim se fiarem,
- Mal lhe irá, se me tiverem,
- Cayo, sem me derrubarem,
- Mas naõ me ergo, sem me erguerem.
-
-
-_Ingratidaõ._
-
- Amizades se desfazem,
- Por mim, porque naõ me atrevo,
- Pagar mercès que me fazem,
- E conhecer as que devo.
-
-
- ~FIM.~
-
- [Ilustração]
-
-
-
-
-Notas
-
-Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.
-
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SAUDADES DE D. IGNEZ DE
-CASTRO ***
-
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- Saudades De D. Ignez De Castro, by Manuel de Azevedo—A Project Gutenberg eBook
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-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Saudades de D. Ignez de Castro</span>, by Manuel Azevedo</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
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-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Saudades de D. Ignez de Castro</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Manuel Azevedo</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: October 6, 2022 [eBook #69103]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>SAUDADES DE D. IGNEZ DE CASTRO</span> ***</div>
-
-
-
-
-<h1>SAUDADES<br />
-<span class="small">DE</span><br />
-<span class="big">D. IGNEZ</span><br />
-DE CASTRO.</h1>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-
-<p class="center">
-<span class="big">SAUDADES</span><br />
-DE<br />
-<span class="xbig">D. IGNEZ</span><br />
-<span class="big">DE CASTRO.</span><br />
-PELO LICENCIADO<br />
-MANOEL DE AZEVEDO<br />
-Conimbricense.<br />
-<i>OFFERECIDA AO SENHOR</i><br />
-<span class="big">GUILHERME JOAQUIM</span><br />
-PAES VELHO.<br />
-<i>PELO PADRE</i><br />
-<span class="big">JOÃO DE GOUVEA</span><br />
-Prisbitero do habito de S. Pedro.</p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001">
-<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Publisher mark; imagen da editora" />
-</span></p>
-<p class="center">
-<span class="big">LISBOA:</span><br />
-<span class="small">Na Officina JOAQUINIANNA DA MUSICA DED.</span><br />
-<span class="small">Bernardo Fernandes Gayo, Morador na rua das Mudas.</span><br />
-</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">
-<span class="small">M. DCC. XLV.</span><br />
-<span class="small"><i>Com todas as licenças necessarias.</i></span><br />
-</p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002">
-<img src="images/002.jpg" class="w50" alt="Decorative border; imagem decorativa" />
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="DEDICATORIA">DEDICATORIA<br /><span class="small">AO SENHOR</span><br />GUILHERME JOAQUIM<br /><span class="small">PAES VELHO.</span></h2>
-</div>
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_j.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-<p class="drop-cap"><i><span class="upper-case">Justo</span> era, que huma taõ excellente obra procurasse hum assyllo taõ
-excelso. Publica-se por meyo da estanpa ao Mundo as Saudades de D.
-Ignez de Castro, Rainha taõ infeliz, como formoza, e vendo eu que he
-perigozo entregar nas mãos do vulgo cousa, para cuja seja materia a
-sua distracçaõ, logo me occoreo, que a offerta só era conveniente em
-V. M. porque sey, que como V. M. he dado às letras, naõ deyxarà de
-amparar hum milagre da Poesia, e juntamente escurecer o alvedrio de hum
-Zoylo. Materia difficel seria o querer expór ao publico a Genelogia de
-V. M. que como conhecida naõ carece de explicação, mas só lembro a V.
-M. que o sangue, que lhe pulsa pelas veyas, mais logra de soberano,
-que de nobre. Dedicar o presente papel a V. M. he como divida,
-porque confórme, diz Seneca, só se conhecem as remuneraçoens pelo
-offerecimento, por essa causa quando eu tenho recebido taõ dilatados
-favores, porque razaõ naõ heyde de manifestar o quanto sou devedor a
-V. M. Aceyte pois o presente obsequio como divida, porque só assim
-lograrey eu a ventura de acertar quando me lembro da sua generosidade
-para o restituir. A pessoa de V. M. guarde Deos pelos annos, que todos
-os seus amigos dezejamos.</i></p>
-
-<p class="right">
-<span class="mr">Amigo, e Venerador de V. M.</span><br />
-<br />
-O P. Joaõ de Gouvea<br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p>
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img003">
-<img src="images/003.jpg" class="w50" alt="Decorative border; imagen decorativa" />
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="SAUDADES_DE_DONNA_IGNEZ_DE_CASTRO">SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO.</h2>
-</div>
-
-
-<h3>I.</h3>
-<div>
- <img class="drop-cap-poetry" src="images/dc_e.jpg" width="50" height="57" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap-poetry poetry"><span style="margin-left: 1em;"><span class="upper-case">Era</span> na meya idade, a q̃ chegava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em fraguas de Zafir o Sol, q̃ ardia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">e nas asas do tẽpo, q̃ passava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Icaro de seus rayos era o dia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando pois com as chammas se abrasava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que morrer incendîdo entaõ queria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sendo por renascer com novo alarde,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em cinzas de rubim Féniz da tarde.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_2">[Pg 2]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Na lisongeira planta se enlaçava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cortez o vento com gentil porfia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E nos jardins a Rosa, que encalmava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em berços de esmeralda adormecia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A simples avesinha se banhava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">No murmúreo correr da fonte fria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Renovando na vista o doce alento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Narciso nos crystaes, Orfêo no vento,</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas Ignez só, que por penar vivia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naufragava em soluços cada instante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ignez, aquella Ignez, que amor fazia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por lhe dobrar as magoas mais constante:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquella, em cujas graças competia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ser formosa, discreta, e ser amante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em cujas prendas naõ tiveraõ parte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Artificios da industria, invençoẽs da arte.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A que nos dotes da alma taõ possante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Discreta, grave, terna, e generosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que da mesma bellesa sendo Atlante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tinha por menór prenda o ser formosa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos donaires do talhe taõ galante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos alinhos da graça taõ vistosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que topando na culpa de Narciso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fora sem culpa seu discreto aviso.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas qual o passarinho descuidado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lisonja mais gentil da tenra idade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Foy das maõs do menino aprisionado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que lhe roubou no laço a liberdade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quando delle mais galanteado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exprimenta no mimo a crueldade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E quando a côr das pennas lhe contenta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tal Ignez na manhaã dos ternos annos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas primeyras Auróras da esperança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deo nos laços de amor doces enganos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do vendádo rapaz linda vingança;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas os golpes da Parca deshumanos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A belleza por flor em flor alcança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exprimentou na sempre amarga sorte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por maõs do Deos do amor armas da morte.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>VII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Eraõ gentil emprego a seus cuidados</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As finesas de Pedro, que a beldade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nelle soube trazer aprisionados</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sceptro, corôa, vida, e liberdade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Entre ambos tinha amor já taõ ligados</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os soltos alvedrîos da vontade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que foy nelles baldado, e foy perdido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nascer Antéros por crescer Cupido.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span></p>
-
-
-<h3>VIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas oh tyranna dor amor inventa!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Forçosa foy de Pedro a dura ausencia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Atropos da alma, que da pena isenta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nella sabe sentir mortal violencia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como preso, partir-se Pedro intenta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E sente na alma, Ignez, nova inclemencia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quer a sorte, pois amor ordêna,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde naõ chega a morte, offenda a pena.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quantas vezes, Ignez, no pensamento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Este desár notaste a teus favores?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os viste, e vês agora, e verás flores:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tanto nas affeiçoens, gosto avarento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Este pesár sentiste em teus amores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ posso dizer, que neste emprego</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Estavas, linda Ignez, posta em socego.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span></p>
-
-
-<h3>X.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Entre os braços de Pedro, ardẽte Fragoa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que multiplîca a dôr, e dobra a magoa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lograr presente o bem, que he já perdido:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos olhos sólta dous chuveiros de agoa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oceànos de neve, onde Cupîdo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quiz da belleza já colhendo as velas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chegasse a tempestade até as estrellas.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual em berços de purpura vistosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Delicias da manhaã, da tarde empresa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos melindres de flor enferma a Rosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Desmayado o verdôr, murcha a lindesa;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois a que foy de Abril pompa lustrosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Livro do amor, emblema da bellesa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Perde a graça, por vêr que o Sol lhe talha</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do mesmo carmesim gala, e mortalha.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span></p>
-
-
-<h3>XII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tal do fogo de amor na immensa calma</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A côr Ignez perdeo, que amor ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os desmayos, que tinha impressos na alma,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trasladasse no rosto a viva pena:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já despojo da dôr, da magoa palma,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com respirar de flor, arde Açucena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exhála nova dôr ao pensamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em saudosos ays o doce alento.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay! cadûco prazer, diz lastimada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Esperança de hum bem, doce tormento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay! que por verde murchas apressada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Primavéra do amor, da dor portento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay! melindrosa flor agonizada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Despojado Jasmim de qualquer vento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quando nasce traz na mesma alvûra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Gala, mortalha, berço, e sepultura.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span></p>
-
-
-<h3>XIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Duas almas de hum peito, oh noite fria!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh noite, digo, porque a quem suspira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A bocca, de que hum <i>ay</i>, outro <i>ay</i>, retira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Jà cansando, mais bayxo repetia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Paray Senhor; mas hum soluço ardente</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Suffóca o <i>par</i>, repete o <i>ay</i> sómente.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Paray, torna a dizer, meu gosto amado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Gloria desta alma, em quanto gloria tinha;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas ay alivio meu! ay meu cuidado!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como podeis parar, se gloria minha!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas se destîna o Céo, e manda o Fado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Esta alma castigar, que amor mantinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mais almas tenha, porque assim mais pene.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span></p>
-
-
-<h3>XVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas naõ, que he contra amor esta porfia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muitas almas naõ quero, que sería</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Repartir o tormento a meu cuidado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas se a pena permitte a companhia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nesta ausencia cruel, oh triste Fado!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Antes que a dor ma roube da partida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Levai-me, vida minha, a minha vida.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Só com vosco, Senhor, irá segura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem que mortal achaque lhe aconteça;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque talvez do Fado a sorte dura</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fóra deste meu peito a desconheça:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem poderá temer minha ventura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sombra de pesar vos entristeça;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois farey no tormento mais esquivo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Correr por conta da alma o sensitivo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span></p>
-
-
-<h3>XVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Se só para viver na ley de amante</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Forçosa seja a vida repetida;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay!&#160; Senhor, que naõ póde ser bastante</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Para viver ausente huma só vida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém se amor de vidas taõ possante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Huma nos deo para ambos repartida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Postoque a dôr entre ambos se accommóda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Melhor vos partireis levando-a toda.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Cá me fica outra vida, que naõ passa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com que padeça morte repetida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quer amor tyranno, que renaça</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Huma vida das cinzas de outra vida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como taõ crueis penas me traça,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como me traz em fogo convertida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A acabar, outra Feniz, me condena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Morrendo em cinzas, renascendo em pena.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span></p>
-
-
-<h3>XX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ah! quem cuidára, amor, que meus amores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fossem fingidas sombras mentirosas?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ah! quẽ cuidará, amor, que em teus favores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fossem mais as espinhas, do que as Rosas?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas depois, que triunfo a teus ardores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Foraõ de Marte as armas generosas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Taõ guerreyro ficaste, ufano, e forte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que bem pódes matar a propria morte.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas pois forçosamente me condena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A que vos ausenteis, ah tyrannîa!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deyxai, deyxai Senhor, deyxai-me a pena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque só della quero a companhia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na noite mais escura, ou mais serena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">(Que para ausentes nunca nasce o dia)</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chorarey, permittindo-o minha estrella,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mais do que a saudade, a causa della.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span></p>
-
-
-<h3>XXII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nas remontadas penhas, nas visinhas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">(Se restar a meus ays penhasco possa)</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Minhas se póde ser, sendo a alma vossa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De meus annos a flor entre as espinhas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Passarey, sem perder esta fé nossa;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas antes perderâõ seu bruto alento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas oh! que he tal a dor de meus retiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E taõ firme na ley da tyrannîa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vendo, que me assistem meus suspiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Talvez delles me roube a companhia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas inda mais, e mais acérbos tiros</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Contra mim fulminar amor porfia;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois sem dar attençoens á minha queyxa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p>
-
-
-<h3>XXIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual quando na manhaã naufrága o dia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos undósos crystaes, que o Céo desata,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O Jasmim desmayado se agonîa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos acháques da gotta, que o maltrata:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em desares trocando a galhardia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Icaro já nas agoas se retrata,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O que lisonja foy taõ prateada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se no prado jasmim, nas ondas nada.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tal Ignez já de lagrimas banhada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De seus olhos gentîs mortaes desares,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quiz a natureza acautelada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exhalava de todo agonizada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O suspiro final a seus pesares:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que com vir entre lagrimas undosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Inda na bocca achou maré de rosas.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span></p>
-
-
-<h3>XXVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Já Pedro em fim rendido a seu cuidado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A dôr quer disfarçar a seu retiro;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como o coraçaõ tem já quebrado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hum pedaço lhe traz cada suspiro:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E como em fim no peito agonizado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sente da mortal frecha o novo tiro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Notando Ignez no pranto de seu rogo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exhála em agoa, quanto bebe em fogo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ficar ausente sem partir commigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que se es vida da minha, que te adora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na alma te levo por viver comtigo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Supposto que partir-me em fim prosigo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que se as almas trocar amor consente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem tu só ficas, nem me parto ausente.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span></p>
-
-
-<h3>XXVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O corpo só se ausenta, a alma naõ parte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que em fim naõ vivo de potencias suas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como me alimento só de amar-te,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Bastaõ para viver memorias tuas:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E porque amor nos tiros, que reparte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fulmina contra mim frechas mais cruas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando a vida me rouba, outra me ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que fora em fim matar-me a menor pena.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A fazer impossiveis offrecida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois que contraminando a natureza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Teu mesmo amor me mata, e me dá vida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas como amor notou nessa belleza</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os impossiveis só de merecida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quiz tomar por razaõ força infallivel,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Obrar por alcançá-la outro impossivel.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p>
-
-
-<h3>XXX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Bem vês agora, Ignez, como abrasado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos vivos holocaustos de meu peito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Meu coraçaõ consagro a teu cuidado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em victimas de lagrimas desfeito:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Agora alcançarás, como alentado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Todo me sacrifico a teu respeito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois chega a consagrar-te em viva calma</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sucçeda á Primavera o secco Estio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Á serena manhaã tarde calmosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja manso regato, quem foy rio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja, quem Cravo foy, cadáver frio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja tudo á mudança em fim sujeito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que amor firme será dentro em meu peito.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span></p>
-
-
-<h3>XXXII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nessas gentîs madeixas da beldade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em cuja luz do Sol o Sol se nega,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde feito piráta da vontade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas crespas ondas sempre amor navega:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nessas, digo, captiva a liberdade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em refens minha fé por fé te entrega:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nellas deixo por fim com meus alentos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Alma, cuidados, vida e pensamentos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A Deos delicia minha, a Deos cuidado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que parta em fim nas magoas sepultado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se partir posso de mim mesmo ausente:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos, que amor nos tinha decretado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Esta ausencia cruel, forçosa, urgente;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span></p>
-
-
-<h3>XXXIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Já se remonta Pedro a seus retiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E já de morte em morte Ignez discorre,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como entrega a vida a seus suspiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quantas vezes suspira, tantas morre:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O coraçaõ sentindo acérbos tiros</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pelos olhos sangrado em crystaes corre;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque em cada sangria huma alma lança.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual na secca vergóntea desfolhada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que despojo restou da tempestade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se lamenta em requebros lastimada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A casta Rola posta em soledade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Soluça, pasma, e geme agonisada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chora, suspira, anéla em crueldade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que seu pesar lhe tem no peito unîdos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rigores, magoas, lastimas, gemîdos.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span></p>
-
-
-<h3>XXXVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tal lastimada chora Ignez saudosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">No seu mesmo tormento sepultada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos desvélos do dia cuidadosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos descuidos da noite desvelada;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já se queixa em suspiros lastimosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fórma razoens dos ays agonisada:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que fez para queixar-se em seus retiros.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Embaixadores da alma seus suspiros.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Oh! quanto foy de ti teu Pedro amado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Formosa Ignez, mas inda mais sentido;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois sendo grande a gloria de logrado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hoje he mayor a magoa de perdido:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Foy teu prazer á pena apensionado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">He teu pesar na pena desmedido:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Entaõ foraõ de Rosas teus favores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Agora saõ de Lirios teus amores.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span></p>
-
-
-<h3>XXXVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Já nos braços da Aurora, que assomava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Renascido chorava o novo dia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando Ignez saudosa entaõ negava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A seu triste pesar a companhia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A solidaõ do campo se apartava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde só lamentava, e só gemia;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque mais no rigor de seus retiros</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A piedade faltasse a seus suspiros.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Entre flores inquire o doce amado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Presente em cada flor o considéra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E dando hum breve encanto a seu cuidado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Busca nas flores quanto em flor perdêra:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Corre de flor em flor, de prado em prado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tópa só magoas, donde gosto espéra;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que foraõ seu praser: e seus favores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Perda choradas, quando apenas flores.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span></p>
-
-
-<h3>XL.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Procûra em cada planta, o que anelava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque no seu tormento engano escolha;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que em seu pesar escrito achava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Liçoens para sentir em cada folha:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já nas liquidas pérlas, que chorava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Penhascos, plãtas, prado, e folhas molha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E na lembrança já de hum bem perdido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lhe interrõpe hum gemido outro gemido.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual o menino fica enternecido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Entre perplexidades pasmadinho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando no verde prado entretenido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lhe foge o gosto atraz de hum passarinho:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já soluça, já pasma esmorecido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já busca cada flor, cada raminho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já melindrosos ays, mimoso alento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Apôs o passarinho leva o vento.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span></p>
-
-
-<h3>XLII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tal Ignez na penosa tyrannia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Entre flores inquire o doce amado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas foy lisonja só da fantasîa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já queixosa das flores se desvia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já nas queyxas diverte o seu cuidado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E nos alentos da alma, com que espira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já soluça, já pasma, já suspira.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Na margem de huma fonte se encostava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que já clara correo com seus favores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E se delles travêssa murmurava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em lagrimas agora exhála amores:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ás plantas, aos penhascos se queixava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Outra vez já seu mal contava ás flores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde nos eccos, que respira o monte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Suspira o valle, porque chora a fonte.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p>
-
-
-<h3>XLIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay flores! se queyxava enternecida;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sendo vossa vida de hum só dia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muitas horas contais na vossa vida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! de minha dor mór agonia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh morte em menor vida repetida!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como em soledades só discorro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem conto instantes, porque sẽpre morro.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E vós Rosas no mimo de huma Aurora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lograis de vossa adôrno a pompa bella,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que talvez por firmar vossa melhóra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tivéstes no nascer tão boa estrella:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que no pesar, que chóro agora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nestes fogosos ays, que o peito anéla,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Escolhe minha estrella em triste forte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por pena a vida, por lisonja a morte.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span></p>
-
-
-<h3>XLVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Vós plantas, que sentis mudavel erro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cifrando em cada folha hum pensamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se Dezembro lamenta vosso enterro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Abril em flor vos dá dobrado alento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Eternisa hum rigor meu sentimento;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois quer amor na sorte, que me ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se alimente huma pena de outra pena.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E tû bruto penhasco inhabitado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tosco sepulcro de huma clara fonte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Es agora de flores matizado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Idolo de crystal, gala do monte:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh tyranna dor! que meu cuidado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hoje lamenta o mal, que chorou honte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vendo, que teu terror com bruto aviso</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span></p>
-
-
-<h3>XLVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas oh queyxas paray, paray cuidados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Paray, façamos tregoas pensamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que dos males talvez communicados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Póde nascer desar ao sentimento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Correy da alma pedaços distillados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dizey lagrimas minhas meu tormento;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Minhas naõ digo bem, que juntamente</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Perdi tudo no bem, que chóro ausente.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Irmanay-vos, correy mais cuydadosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja vosso correr mais repetido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ cuideis, que vos choro caudalosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque deis desaffogo a meu sentido:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como nas memorias rigorosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vossa causa lamento, que hey perdido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se talvez mitigaes hum sentimento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ tem valôr nas perdas vosso alento.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span></p>
-
-
-<h3>L.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Oh! corraõ com valor vossas violencias</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por duplicar incendios a meu rogo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ fora querer sentir ausencias,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se vos chorára só por desaffogo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que posto deis alivio ás inclemencias,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ podeis dar alivios a meu fogo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como sou das penas avarenta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qualquer alivio vosso me atormenta.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Correy livres, correy, que amor ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sejais a meu rigor ancia penosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ comprais alivios a huma pena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando chegais a ser paga forçosa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que pois amor por força me condena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tributar-vos por divida custosa;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mal podeis mitigar o mal, que tenho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando sois do que devo desempenho.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span></p>
-
-
-<h3>LII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ me póde obrigar outro motivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se naõ chorar-vos só por naturesa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quer, que seja amor por excessivo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tributo natural, o que he finesa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como a seu querer sujeita vivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rendida a seu querer captiva, e presa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do pranto, que saudosa me convinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Em vós sentir agora mais penosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De ser mudas razoens faço argumento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quando naõ chegais a ser queyxosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ limitaes a dor ao sentimento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que foreis só lisonjas enganosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ crueis verdugos ao tormento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando na voz queixosa, que formára,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lastimas a meus ays solicitára.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span></p>
-
-
-<h3>LIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mais duro sentimento, mais nocivo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">No ser da alma pedaços vos confesso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois se levais a parte com que vivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A parte me deyxais, com que padeço;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como neste mal por excessivo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Repartida minha alma reconheço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se levais huma parte naõ pequena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A vida póde ser, mas nunca a pena.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Oh! torna atraz arroyo fugitivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Alma da penha, coraçaõ do monte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Torna atraz, que meu pranto successivo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Te fará Rio quando apenas fonte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Detem-te, espera, que meus males conte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vás talvez com prata taõ custosa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Calçar as plantas de huma ingrata Rosa.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span></p>
-
-
-<h3>LVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Se te vás despenhar ambicioso</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por aspirar a creditos de Rio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Léva meu triste pranto lachrimoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oceâno será teu senhorîo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Embarga teu correr taõ cuidadoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Suspende teu caudal, teu desvarîo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que lá terás no már onde te escondas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quantas lagrimas levas, tantas ondas.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas oh! paray razoens, tornay gemidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A dor interpretay, que o peito sente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que talvez em meus ays por repetidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os eccos ouça de quem choro ausente:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay! quem pudéra amor ter-vos presente!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas deyxai-me fallar, talvez que possa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ouvir na minha voz eccos da vossa.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span></p>
-
-
-<h3>LVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Aqui, meu doce amor, meu bem querido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se me duplîca a dôr ao pensamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois quando em vós, me falta meu sentido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ me póde faltar meu sentimento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em vós lamenta a dor meu bem perdido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em mim renova a dor novo tormento;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas creyo, doce amor, que sentir possa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Menos a minha dor, que a falta vossa.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Menos dor, menor danno em fim tivéra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Menos cruel sentira o meu cuidado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando neste rigor, que padecera,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Me podéra esquecer do que hey logrado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que nesta dor outra me espera,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E hum mal outro me traz apensionado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois chego a padecer em meu sentido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span></p>
-
-
-<h3>LX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Bem conheço, que posso na lembrança</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vossas prendas lograr, meu doce esposo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas o bem, que se perde na esperança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fica, quando lembrado, mais penoso:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas nesta triste dor, dura esquivança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se me duplica amor mais rigoroso;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois só quer meu sentido avincular-se,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Para mais padecer, a mais lembrar-se.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Assim chorava Ignez, e assim gemia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh tragica dor! rara estranhesa!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que já tópa nas maõs da tyrannia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Armas sempre mortaes contra a bellesa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas maõs de dous tyrannos já se via,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Entre crueis espadas, tosca empresa!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas que Rosa no campo Aurora molhas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas?</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span></p>
-
-
-<h3>LXII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Paray, detende a furia procellosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Paray, paray, detende o bruto alento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que contra o fresco mimo de huma Rosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Remonta agora mais teu soffrimento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que temo, linda Ignez, teus lindos brios</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Accrescentem coraes a tantos fios.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual nas tecidas silvas da espessûra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Labyrintho de espinhas intrincado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com balîdos se queyxa da ventura</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O simples cordeyrinho aprisionado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já soluça em melindres com ternûra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Das maternas delicias apartado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O que mimos achou na branda hervinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Acha mortal rigor em cada espinha.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span></p>
-
-
-<h3>LXIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tal lastimada Ignez troca em gemidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quantas vozes no peito articulava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em quanto os dous algoses sementidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As maõs lhe prendẽ, com que amor matava:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já fugindo os alentos aos sentidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O soluçar as vozes lhe embargava:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que amor lhe deo no pensamento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Razoens ao pranto, voz ao sentimento.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay&#160; tyrannos crueis! oh sorte dura!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Entre suspiros, diz agonizada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que delicto commette a formosura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com que possa a bellesa ser culpada?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh! deyxai-me esta vida em pena escura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se me quereis a morte dilatada;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nesta triste dor taõ repetida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Menos me mata a morte, do que a vida.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></p>
-
-
-<h3>LXVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Oh! suspendey sentença taõ penosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mitigay por hum pouco a crueldade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ podeis dar morte rigorosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que possa matar mais, que a saudade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas já que minha dôr menos piedosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vos naõ póde causar nova piedade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Unica prenda só de meus sentidos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay! charas prendas minhas taõ queridas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Reliquias de amor, da alma pedaços;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay! como sentireis em mim perdidas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As mimosas delicias de meus braços:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas pois naõ póde ser entre homicidas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lograr, amores meus, vossos abraços,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos, ficai-vos já gostos amados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p>
-
-
-<h3>LXVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mais quiséra fallar enternecida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hum tyranno cruel, torpe homicîda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Inclîna o lacteo collo amortecida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Avassallada já da infausta sorte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exhála a vida o corpo de alabastro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual a branca Açucena, que cortada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sente do ferro, ou tempo, a crueldade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em seu mesmo candôr amortalhada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Defunta flor em flor na flor da idade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Á qual ficaõ sómente de engraçada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os antigos riscunhos da beldade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tal fica a bella Ignez amortecida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span></p>
-
-
-<h3>LXX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Vós agora, troféos da formosura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Apparencias vitaes de ramalhete,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Colhey as vélas, porque a pouca altûra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qualquer onda vos mólha o galhardete:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Acha, se berços, campas no alegrête:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Attentay léve flor, bellesa vaã,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que he mais antiga a tarde, que a manhaã.</span><br />
-</p>
-
-
-<p class="center p4 big"><em>FIM</em></p>
-
-<p class="center"><i>da primeyra parte</i>.</p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img004">
-<img src="images/004.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagem decorativa" />
-</span></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img005">
-<img src="images/005.jpg" class="w50" alt="Decorative border; imagen decorativa" />
-</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="SEGUNDA_PARTE">SEGUNDA PARTE</h2>
-</div>
-
-
-<h3>I.</h3>
-
-<div>
- <img class="drop-cap-poetry" src="images/dc_j.jpg" width="50" height="57" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap-poetry poetry"><span style="margin-left: 1em;"><span class="upper-case">Ja</span> da fatal tragédia retiradas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As restantes ruinas da feresa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ficaraõ só no cãpo idolatradas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hũas breves reliquias da bellesa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ausente Pedro, sem que as mal logradas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lamentasse memorias da firmêsa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Taõ dittoso nas magoas se discorre,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que morre ufâno, sem saber que morre.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Queixosa em fim feneçe a galhardia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Solicîta queixûmes a ternûra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vendo jà no desdem da tyrannia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Menos cruel a Parca, que a ventûra:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como qualquer dote se avalia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por symptôma fatal da formosúra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquella mesma ditta, que entre sortes</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cumûla prendas, mutiplîca mortes.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Á ventura se queyxa, que a beldade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fosse causa da perda, porque unida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naquellas prendas da melhor idade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fez acabar rigôr, o que era vida;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas a Parca tyranna por vaidade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Solicita bellesas advertida;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque dellas talvez se naõ cuidára,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Morre fora huma prenda, e só matára.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Só suspiraõ, só choraõ lastimosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">(Que naõ pára nas queyxas a finesa)</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquellas, que restaraõ só piedosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Troyas do amor, reliquias da bellesa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquellas, digo, prendas lachrimosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dous Infantes gentîs, a que naturesa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deyxou com vida, porque em seu tribûto</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fosse a morte da flor vida do fructo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual nos braços da planta mais visinha</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em roupas de rubîm, cama olorosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sentindo huma lanceta em cada espinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sangrada no jardim fenece a Rosa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Consagrando-se flor, quem foy Rainha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em vivos holocaustos sanguinosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De cujas cinzas restaõ por grinalda</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Que pesáres, que penas, que rigores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Amor formáva, cada qual sentia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qual nos gemidos soluçando amores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em carinhossas magoas confundia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qual desmayado no tapiz das flores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se recosta trophéo da tyrannia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Notando aquelle peito, cujo enfeite</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lhe troca em pena, quanto foy deleite.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>VII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quantas vezes fallando enternecidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em soluços lhe pára o doce alento!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quantas na voz do monte repetidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os saudosos ays lhe torna o vento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quantas a ser naufragio dos sentidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se deriva em chrystaes o sentimento;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois quer a dor, querendo amor agora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chórem dous Soes a falta de huma Auróra.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span></p>
-
-
-<h3>VIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Alentado o rigor, duplîca em tiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se bem globos de fogo, esphéras de agoa;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ resiste Clavêl, que nos retiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ morra espûma, e naõ feneça fragoa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Multiplica-se o vento nos suspiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fogósos rayos lhe despede a magoa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Já naõ sabe nascêr, nem brilhar Rosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ pasme defuncta mariposa.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nem tribûtaõ lisonjas aos sentidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nestas mudas razoens, que amor ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sujeitos amantes desunidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle, que mais chóra, esse mais pena:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E se lagrimas saõ nos mais sentidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Almas do coraçaõ, bem se condena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qualquer a mais sentir; pois he patente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quem mais almas tem, muito mais sẽte.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span></p>
-
-
-<h3>X.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A solidaõ de Pedro imaginada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nem morrêra Ignez, se retirada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ sentira distante os seus effeitos:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como seja amor, muito apertada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se gentil, uniaõ de dous sujeitos;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando matar hum delles amor trata,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se desunir os dous hum só naõ matta.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Assi passaõ da mágoa a ser espanto</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Narciso cada qual do proprio pranto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Phaetontes em fim de seus gemidos:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se foraõ gala da bellesa, em quanto</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Eraõ gentîs desvelos dos sentidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lastimas ficaõ já da tenra idade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Culpas de amor, delictos da beldade.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span></p>
-
-
-<h3>XII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quaes simples avesinhas, que roubadas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos maternaes alentos apartadas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Suspira cada qual, cada qual chóra:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As que foraõ do campo idolatradas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oraculos do Sol, linguas da Auróra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De si mesmas agora occulta fragoa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Concebem pena, quando abortaõ magoa.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas já funesta voz, turbado alento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por linguas de metal enrouquecido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Formava o Semideos monstro violento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Gigante pela fama conhecido.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle, cujo aládo atrevimento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se remonta veloz, e taõ subido;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque nelle talvez o mundo veja</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Voarem pennas a pesár da inveja.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span></p>
-
-
-<h3>XIV,</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">La fez a túba lastimoso effeito</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos alentos de Pedro, que em suspiros</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os mais dos eccos lhe interpréta o peito</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dobrando mágoas, renovando tiros:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando apenas em fim na dôr desfeito</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O coraçaõ se pasma, que em retiros</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Suffocado talvez da intensa calma,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se isentou de correr por conta da alma.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">No combáte fatal deste desmayo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">(Lastimoso parenthesis da vida!)</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tribûta vivas ao mortal ensayo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A sentinella da alma já vencida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ morre Pedro, naõ, que aquelle rayo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Foy lançada de amor, que repetida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se pertende matár, a quem suspira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Menos o mata, se lhe a vida tira.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span></p>
-
-
-<h3>XVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Assi vivendo morre, quando amante;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Assi morrendo vive, quando ausente;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que se morre, pois pena por distante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vive tambem, pois ama, porque sente:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas em fim naõ passâra tanto ávante</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas finesas amor, que fora urgente</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Acabar-se na vida, se roubára,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E taõ fino naõ ser, se naõ matára.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas quem diria agora o que sentiste</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nesta, Pedro, de amor menos ventura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos carinhos ausente, que já viste</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Brotar melindres, produsir brandûra?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh! que dirias, Pedro, quando abriste</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelles dous conceitos da ternûra!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os olhos digo; mas amor ordena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Parte das queixas interpréte a pena.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span></p>
-
-
-<h3>XVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Já no pardo capuz, roupas saudosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Emmudecida a terra se encobria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E nos hombros das nuvens tenebrosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ataúdes de sombra o tempo erguia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Consagrando com tochas lachrimosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mudas exequias ao defuncto dia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dando claros sinaes ao Jovem louro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em torres de Zaphir os signos de ouro.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quando a favor da vida o sentimento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Novos em Pedro reproduz gemidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sendo sumilher da alma o novo alento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que lhe corre as cortinas aos sentidos:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas já liquida dôr, claro tormento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se acredita nos olhos advertidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quem nas penas solitario mora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só lhe resiste vivo, em quanto chora.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span></p>
-
-
-<h3>XX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Solicita retîros, em que unidas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se acreditaõ de finas as saudádes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que saõ mais primorosas, se sentidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ permittem motivos a piedades:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tributaraõ labéos de mal nascidas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A naõ passarem móstra de vaidades,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando naõ foraõ mais, que eternisadas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Solitarias, occultas, retiradas.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E já nas solidoens entretenido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Interpréta lisonjas aos cuidados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois vay vendo nas flores advertido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Morraes prendas, alinhos mal logrados:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas apenas se lembra enternecido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Daquelles Soes agora imaginados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando já vacilante se discorre,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aqui pasma, allî geme, acolá morre.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span></p>
-
-
-<h3>XXII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual Girasol gigante, que atrevido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A beber rayos amoroso aspira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se bem, que entre zeloso, e presumido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Desdenha ufâno, temoroso gira:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas vendo apenas, que o galân querido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com disfarces de nacar se retira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque se vê das glorias todo ausente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Languido pasma, cuidadoso sente.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Em fim rompe nas queixas amorosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Agora Pedro, quando as vê sentidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ pódem livrar-se de penosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando sabem fugir a ser ouvidas:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E só discretas saõ, se rigorosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As que menos se presaõ de entendidas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que já por isso Pedro se as pertende,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">He só porque a si mesmo naõ se entende.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span></p>
-
-
-<h3>XXIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Minha te chamo, quando assi perdida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que se naõ tens as veras de lograda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O desár naõ padeces de esquecida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como gloria maltratas, se lembrada?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como molestas gloria possuida?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na pósse logras ancias de fallivel,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na memoria rigores de impossivel.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Como soube deixar-me assi frustrado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Este rigor, que gloria se habilita,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando me fez mayor, que o mesmo Fado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me disséra então, que este cuidado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fosse Rosa, que apenas se acredita,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando se vê nas maõs da naturesa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trophéo da dôr, sangria da bellesa.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span></p>
-
-
-<h3>XXVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay triste solidaõ! ay pena ingrata!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quanto menos cruel foras agora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se permittindo a magoa, que maltrata,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ roubáras a gloria, que te adóra:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas esta dôr naõ fora, que assi mata,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rigoroso pesár, se assi naõ fora;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois naõ se méde o mal de quem suspira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pelo que tem, senaõ pelo que tira.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas inda mais avante acompanhada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Desta dôr outra pena já me alcança;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois na magoa da perda lamentada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os alivios me rouba da esperança:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas como, se naõ fora eternisada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Maltratára das glorias a mudança?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que o pesár sem remedio padecido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mata porque hade ser, e porque ha sido.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span></p>
-
-
-<h3>XXVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nem pódem mitigar esta saudade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Assistencias de amor, porque resiste</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Outra nova razaõ da soledade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nas distancias desse amor consiste:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que como aquelle objecto da vontade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hoje feito impossivel naõ me assiste,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sendo vinculo amor entre subjeitos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Só deixára de ser eternisada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Esta dor, mas só fora divertida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se a memoria da pena imaginada</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ passára a ser pena padecida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só razão de praser, quando lembrada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Essa gloria tivera, que he perdida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se sendo assi passada na lembrança</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Soubéra ser futûra na esperança.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span></p>
-
-
-<h3>XXX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nem queixumes de lagrimas sentidas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Alivios pódem ser nesta saudade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sendo partes da alma desunidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Saõ causas naturaes da soledade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque quando nos olhos advertidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Procuraõ fugitivas liberdade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquella mesma vida, que me alenta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tambem nellas partida se me ausenta.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Oh quem me déra já ser assistido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos penhascos talvez, que o monte cria!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas quem naõ tem razoens para sentido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ póde ter nas magoas companhia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E hum rigor por ausencias padecido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com nenhuma presença se alivîa;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quem nas ancias, que padece hũ triste,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span></p>
-
-
-<h3>XXXII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E menos me permitte esta esquivança</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ser de vós assistido, lindas flores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois por gentis emblemas da mudança</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Jeroglyphico sois de meus amores:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E se produzis glorias na lembrança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mal podeis assistir a meus rigores;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ faz assistencia nos retiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem motiva principios aos suspiros.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nem já, féras, talvez vossa brutesa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Resta para topar branda piedade;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas como póde ser, se a naturesa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As noticias vos néga da saudade?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E no fatal rigor de huma tristesa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos efeitos mortaes da soledade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ póde ser a dor compadecida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem que seja na causa conhecida.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span></p>
-
-
-<h3>XXXIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nem sereis, avesinhas, no saudôso</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Companheiras gentîs a meus retiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que diversos sujeitos no penoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tem diversas as magoas nos suspiros:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E bem se vê, que o mal todo invejoso</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mais a mim, do que a vós fulmina os tiros;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois nûm rigôr fatal hum, damno esquivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mais mata o racional, que o sensitivo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E menos podeis ser a meus sentidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deleitoso carinho na saudade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lisonjeiros arroyos, que atrevidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Solicitaes dos olhos a vaidade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas como? se a meus ays, e a meus gemidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Multiplicaes melhor a soledáde;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois em vós retratado, e descontente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De mim mesmo me vejo estar ausente.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p>
-
-
-<h3>XXXVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas ainda assi paray, que se melhora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nestas lagrimas minhas vosso augmento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se professais correntes, como agora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sabeis livres fugir ao sentimento?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Paray, naõ murmureis, que nisso fora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muito mais conhecido vosso alento;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Olhay que se condena, ou se aventûra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A naõ fazer remansos quem murmûra.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E vós paray nas queixas amorosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Galantes cortesans da soledade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ fazeis os pontos de queixosas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando dais tantas falsas na saudade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Paray, digo, a meus ays, paray piedosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Paray nos quebros, tende a liberdade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aprendereis a ser nestes retiros</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hum Féniz cada qual de meus suspiros.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span></p>
-
-
-<h3>XXXVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Paray gentîs emblemas da vaidade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Flores, digo, paray, paray saudosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ bebais presunçoens, que a pouca idade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sereis de meus incendios mariposas:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aprendey dos alinhos da beldade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De vossa vida, digo, a ser piedosas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sempre foy nas regras da ternûra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muy capaz de liçoens a formosura.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XXXIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Paray féras tambem nesses ruidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Guardas do monte, archeiros da ferêsa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fazey caso das penas, que os bramîdos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Argumentos parecem da brutêsa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Isto basta, paray, que os entendidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pódem talvez notar vossa estranhesa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Minhas queixas ouvi, que alivio fora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span></p>
-
-
-<h3>XL.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Paray broncos penhascos, que o Céo cria</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Para pardos Atlantes dos retiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se vos vence huma liquida porfia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como já resistis a meus suspiros?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que digo! páre a covardia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exhále o peyto, multiplique os tiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Duplîque amor, e dobre o sentimento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Agoa nos olhos, nos suspiros vento.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Undósa parte, derretido alento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se liquida sangrîa ao desaffogo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lisonjeira lancêta ao sentimento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se excessivo queixúme, ardente rogo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se verte em nuvem, se distille em vento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ fique planta, que a pesár do espanto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p>
-
-
-<h3>XLII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sejaõ linguas dos olhos mudas agoas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Intérpretes da dor tristes retiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Eloquencias do peito vivas fragoas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Razoens do coraçaõ ternos suspiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rhetóricas da pena ardentes magoas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Elegancias de amor dobrados tiros:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Emmudeça a razaõ, que só parece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sabe tambem sentir, quando emmudece.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Distille o coraçaõ, duplique o vento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ethnas a seu pesár, agoas ao rogo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Morra por glorias de seu mesmo alento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Troya nas ondas, e Narciso em fogo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Incendios solicîte ao sentimento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Diluvios multiplìque ao desafogo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sendo de seu rigor o mesmo ensayo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas causas nuvem, nos effeitos rayo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p>
-
-
-<h3>XLIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ cresça lirio, que naõ sinta os tiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Clavél naõ gire, que naõ pasme em fragoas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O que Féniz naõ for entre os suspiros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Morra já Faetonte sobre as agoas:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sejaõ vozes as magoas nos reriros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que melhor nos retiros se ouvem magoas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se se póde na dor, que amor ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ouvir a magoa sem sentir a pena.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ reste planta, que se atreva a tãto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ murche dos ays enternecidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se naõ séque ludibrio dos&#160; gemidos:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lastimosos naufragios dos sentidos;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja neste pesár, nesta esquivança</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Charybdes da alma o Cabo da esperança.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span></p>
-
-
-<h3>XLVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A naõ serem Jasmins na brevidade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ seriaõ Perpetuas no tormento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só tu terrivel ancia da saudade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Eternizas agora o sentimento;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque quando matar-me amor ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Me deixas vida, com que o corpo pena.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XLVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem soubéra cuidar, que a mais crescida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tyrannîa cruel da dor mais forte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fosse, quando nas perdas de huma vida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Impossiveis sentisse de huma morte:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas he rigor da magoa repetida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por industria fatal da iniqua sorte;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque quando talvez matar-me trata,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por topar-me sem vida, naõ me mata.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span></p>
-
-
-<h3>XLVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E se fora da vida roubadora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Esta sorte fatal, tormento esquivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tivera só por pena matadora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qualidades de grande no intensivo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ, que como amor pertende agora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cumulár intensoens ao sensitivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ quer, que amor me mate, pois durára</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muito menos a pena, se matára.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IL.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Agora alcançarás, prenda querida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os rigores de amor na minha sorte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois agora me quer roubar a vida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só por ma naõ tirar primeyro a morte:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que a pena se duplîca unida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que a magoa se eternisa forte;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois que vejo na dor do mal esquivo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span></p>
-
-
-<h3>L.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas agora na pena, que me entrega,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que padeça na morte, que o mal nega,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E que pene na vida, que amor tira:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aqui verás, Ignez, a quanto chega</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Esta pena de amor, que amor, conspira;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois agora naõ sey, no que discorro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se vivo ausente, nem se ausente morro.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas em fim: que me queixo dos rigores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com que talvez amor me tyrannisa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando mais martyrisaõ seus favores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde qualquer lembrança os eternisa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois quando apenas se alentaraõ flores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Passaraõ quasi flor, que se agonìa;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por isso a minha queixa mais se ordena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A sentir seu desdem, que a minha pena.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span></p>
-
-
-<h3>LII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Oh duro amor! oh fragoa dos gemidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Prisaõ da vida, Argel da liberdade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Martyrio da alma, guerra dos sentidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Encanto doce da melhor vontade!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Teus favores só foraõ conhecidos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por gentîs prendas da mais tenra idade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A naõ serem primeyro teus favores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seccas espinhas, que animadas flores.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Que cuidados naõ causas Jovem cego?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que rigores naõ dás ao pensamento?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que delicias naõ roubas ao socego?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que lisonjas naõ finges ao tormento?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A que peitos naõ dás custoso emprego?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A que vida naõ tiras doce alento?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De que genios naõ reinas? de que idades?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De que prendas gentìs?&#160; de que beldades?</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span></p>
-
-
-<h3>LIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem me disséra, quando Ignez lograva</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos carinhos gentîs de seus favores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando nelles amor idolatrava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Para poder talvez morrer de amores!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me dissera, logo, que aspirava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hum cadúco praser a taes rigores!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me disséra então, que da ventura</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Era mortal delicto a formosura!</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem disséra, que os laços de alvedrios,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Gentîs madeixas, onde a naturesa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Repartio liberal por tantos fios</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os melhores extremos da bellesa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Esses agora, que acabarão brios,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se arrastão já bandeiras da tristesa?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas que muito, se nunca em seus ensayos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nenhum por Louro se isentou de rayos.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></p>
-
-
-<h3>LVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Oh bem, que pouco duras possuido!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só logras algum ser, quando esperado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos molestos receyos de perdido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tyrannizas o gosto de alcançado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh sonhada lisonja do sentido!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh mais terrivel ancia do cuidado!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Flor, que apenas se vê, quando se chora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Enteada do Sol, filha da Aurora.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Aquelles olhos donde o Sol furtava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os melhores thesouros da vaidade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E em lusidas capellas consagrava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dous altares Amor a huma beldade:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelles, cuja luz interpretava</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os occultos archivos da vontade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Estes mesmos erarios da bellesa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deixa a perder de vista huma feresa.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p>
-
-
-<h3>LVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Oh debil gloria lisonjeiro ensayo!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Babél da vida, lingua do escarmento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Desfeita sombra do mais breve rayo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quebrado vidro da mais tibio vento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Jasmim, que pasma de qualquer desmayo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cravo, que morres de teu mesmo alento!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh gloria humana! em fim gloria sonhada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Aquella bocca, donde a mais lustrosa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se divisava purpura incendida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em quem se vio nascendo a bella Rosa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com menos folhas, quando mais partida</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Agora só se occulta lastimosa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em desmayos de neve amortecida;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas que prenda não tem que formosura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muito menor a vida que a ventura!</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></p>
-
-
-<h3>LX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">La pretende nascer Cravo lusido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas em casa gentil botão fechado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque aquella manhaã, que o vê nascido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O chorasse primeyro amortalhado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem, ô purpurea flor, taõ presumido?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que lhe chegue a tecer a naturesa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A mortalha primeyro, que a bellesa.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Aquelle brando afleyo da ternûra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle doce Argél da liberdade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle emblema só da formosura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle bello encanto da vontade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle gentil pasmo da ventura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle rico erario da vaidade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nos alinhos se vê já confundida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Troféo da morte, lastima da vida.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span></p>
-
-
-<h3>LXII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Que pouca duraçaõ, que mal segura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tem nas prendas da vida huma bellesa!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só vive em quanto nasce a formosura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Espira, em quanto vive a gentilesa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em fim, mais morre, quãto em fim mais dura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mortalidades traz por naturesa;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quanto mais alentada, e mais lusida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mais accidentes logra, e menos vida.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas se saõ melindrosa enfermidade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Prendas de amor, e dotes de huma vida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que muito, bella Ignez, que essa beldade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fosse de teus alentos homicida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Comtigo a morte foy no Abril da idade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Menos ambiciosa, que atrevida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem reparar, Ignez, que teus rigores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Perdessem fructos por cortarem flores.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span></p>
-
-
-<h3>LXIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas viveràs, Ignes, que amor ordena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nestas memorias, donde a tyrannia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por naõ lograr-se mal a minha pena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Debuxàra melhor tua galhardia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aqui veràs, Ignes, se me condena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Amor, que por tyranno se avalia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A fazer impossiveis, pois discorro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Viver lembrado, quando auzente morro.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Morra no ramalhete flor cobarde</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A que Rosa nasceo&#160; mais alentada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vomitando rubins pague na tarde</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quantas perolas bebeu na madrugada:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja bruto fiscal de tanto alarde</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mesmo dia, que&#160; a chorou cortada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nenhuma manhãa, nem tarde temo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As contas tomar possa a tanto extremo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span></p>
-
-
-<h3>LXVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Aqui passo tal vez a mais quererte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde chego mais fino a mais lembrarme,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque foraõ distancias de naõ verte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Incentivos quiçà para olvidarme:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas nem topo motivos de perderte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nesses teus infalliveis de deixarme,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que, sendo vida minha, sò pudera</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por perdida julgarte, se eu morrera.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Assim se queixa Pedro, quando ausente</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Daquellas prendas nunca esquecidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois amor, que lembradas as consente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As pintou bellas, quando as vio perdidas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando nas pennas, que dobradas sente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando nas queixas, que repete unidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Jà desmayando pasma, porque ordena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A mesma queixa, que se calle a penna.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span></p>
-
-
-<h3>LXVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando fragoas se alenta, incendios gyra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Funesta tumba de seu mesmo alarde,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Bebendo rayos, abrazado espira:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O que roxo matìz a pennas arde,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Parda nuvem murchando se retira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lhe corre galas para novo ensayo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>LXIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Assim Pedro se pasma, e naõ consente</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os sentidos queyxumes, que derrama,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que se vive queixoso quem mais sente;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Poem limite nas queixas quẽ mais ama;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas aqui lhe concede amor presente</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquellas prendas, com que mais o inflãma,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que saõ talvez motivos do socego</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As memorias gentis do doce emprego.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p>
-
-
-<h3>LXX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Agora, humanas prendas, se entendidas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O desdem desprezais da infausta sorte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ saibaõ passar àlem da morte:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Attentay, se notardes advertidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naquelle de amor rigor mais forte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aconteceo da misera, e mesquinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que depois de ser morta foy Rainha.</span><br />
-</p>
-
-
-<p class="center big p4"><em>FIM</em></p>
-
-<p class="center"><i>Da segunda parte</i>.</p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img006">
-<img src="images/006.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagem decorativa" />
-</span></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-
-<h2><span class="big">PARTE UNICA,</span><br />
-<span class="small">OU</span><br />
-TERCEIRA<br />
-<span class="small">DAS</span><br />
-SAUDADES,<br />
-<span class="small">E</span><br />
-SENTIMENTOS<br /><span class="small">DE</span>
-<br />
-<span class="big">D. MARIA</span><br />
-DE LARA.</h2></div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img007">
-<img src="images/007.jpg" class="w50" alt="No grande sentimento, que teve da prizão se seu
-esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas
-lagrymas." />
-</span></p>
-<p class="center caption"><i>No grande sentimento, que teve da prizão se seu
-esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas
-lagrymas.</i></p>
-</div>
-
-
-<p class="center"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados.</i></p>
-
-
-<h3>GLOZA I.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Pois fostes olhos meus por quẽ mereço</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Da culpa o perdaõ que busco, e quero,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Instrumento do mal que hoje padeço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tambem o podeis ser do bem que espero:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Jà de meus altos pensamentos desço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A vil estado humilde, duro, e fero,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E jà que os males meus por vos saõ dados</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mortiferos enganos procurastes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos quaes muy graves damnos padeceis,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E pois de ver o mal nunca cansastes</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De chorar pelo bem nunca canseis:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E já que os grandes bens que eniquilastes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por quem vòs suspirais, por quem gemeis,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chorando poderaõ ser renovados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Das agoas que de vós estaõ manando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fazey hum rio claro, hum rio manso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que eu folgo de vos ver cançar chorando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois chorando ganhais vosso descanço;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas cousas em que vos hides cansando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nessas me alegro, e eu nessas descanço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E pois nos faz o choro descançados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Choray naõ descanceis, pois que ganhais</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chorando quantos bens aqui perdestes;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Póde ser, que nas agoas, que chorais,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Laveis as nodoas grandes, que fizestes:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray as grandes magoas, que me dais,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pelo gosto, que vós sem mim tivestes:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray males presentes, e passados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tantas agoas de vós sejaõ lançadas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que affoguem vossos torpes desvarîos:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E posto que estas agoas saõ salgadas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por ellas se navéga a doces Rios:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Soffrey, por ver-des culpas affogadas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tempestades crueis, calmas, e frios;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray, se dezejais ser perdoados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Acîma desta terra tem subido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As agoas do diluvio taõ sómente;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém as vossas poucas tem-se erguîdo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Encima deste Céo mais eminente:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E lá movendo estaõ com seu ruido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos, Senhor Supremo, Omnipotente;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E se delle quereis ser muito amados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>VII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Produzem temporal, terrestre fruto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As agoas, que os Céos daõ no duro inverno;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém o vosso choro, sem ser muito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Produz fruto celeste, e sempiterno:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nunca de vós o campo esteja enxuto</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chorando o mal antigo, e o mal moderno;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray, seráõ os males desterrados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span></p>
-
-
-<h3>VIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">As agoas, que vós vedes ir correndo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que parece que vaõ de vós fugindo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por natureza vaõ ao mar descendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As vossas por virtude a Deos subindo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Humas chegando ao mar, vaõ-se perdendo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As outras ante Deos ficaõ assistindo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E se quereis de Deos ser estimados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">As agoas que das fontes vaõ manando,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fazem na terra vil vozes terréstes;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém estas, que vós ides chorando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">No Céo Empyreo saõ vozes celestes:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chovey, olhos, chovey, iraõ brotando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os bens, que cõ a secura aqui perdestes;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os quaes se desejais ver restaurados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span></p>
-
-
-<h3>X.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Com muitas agoas cá vay-se apurando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qualquer pequeno vaso estando immundo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas vós com bem pouca agoa estais lavando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Immunda culpa, mór que o mesmo mũdo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por isso naõ canceis de estar chorando,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De lagrimas fazendo hum mar profundo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E pois por ellas sois galardoados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">As agoas cá vaõ só satisfazendo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A sede aos animaes, que as vaõ gostando;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas estas, que de vós estaõ nascendo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A vosso Deos a sede estaõ matando:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sempre estejaõ de vós agoas correndo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois por ellas o bem vem navegando;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do qual se quereis ser certificados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p>
-
-
-<h3>XII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ninguem se afogarà se naõ lançado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em agoas que o possaõ estar molhando,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas vòs sem que molheis vosso peccado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O afogais nesta agoa que ies chorando:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E pois tendes o mal jà desterrado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E os bens por vossas agoas vaõ entrando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Atè que os possais ver desembarcados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Choray os annos uteis que gastastes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray o rico tempo que perdestes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray os bens divinos que deixastes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray males crueis que cometestes:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray enganos vãos que tanto amastes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray conselhos bons que aborrecestes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Choray olhos no bem jà melhorados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="OITAVAS_CONSOLATORIAS">OITAVAS CONSOLATORIAS</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Sobre o mesmo pezar</i>.</p>
-
-
-<h3>I.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ainda que a dor da razão priva,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quãdo a causa della he muito amada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ainda que a paixaõ prende, e cativa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os discursos de huma alma atormentada.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A fé que sobre a mente he bem que viva,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois anda sobre os Ceos alevantada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos males que sentis, e dos que vedes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vos consola com os bens, que por fé crédes.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O Deos, centro das almas, guia, e norte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por quem cada qual dellas he regidas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fez que esta nossa vida fosse morte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Depois que sua morte fez a vida:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Assim quem vive mais tem peor sorte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois que padece morte mais comprida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porq̃ naõ logra mais quem tem mais annos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas quem mais annos tẽ, sofre mais dãnos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Aquelle puro espirito encastoado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">No delicado corpo que vos vieis,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò consentia ser de vòs amado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque o divino amor lhe consentieis;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E pois que Deos aos Ceos o tinha dado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E vòs só do emprestado possueis,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque haveis de chorar de ver que Deos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Da terra quer levar o que he dos Ceos?</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tanto o amador melhor padece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O trabalho por mais duro que seja,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quanto delle o pezar mais enriquece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A cousa que mais ama, e mais deseja.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ quer que a terra indigna mais a veja,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Possa mais o seu bem para alegrar-vos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do que pòde esse mal para cançar-vos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">He tençaõ do amor à razaõ dada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que os bens que busca ainda em seu perigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mais saõ para os dar à cousa amada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ para logralos sò comsigo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois se estes a que esta alma foy chamada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Folgay de carecer da parte vossa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque ella a parte, e o todo lograr possa.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem vive no terrestre Purgatorio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vive para ir gozar de hum bem eterno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E em quanto tinheis nella o transitorio;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em tanto naõ tinha ella o sempiterno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois se he ponto de fé, claro, e notorio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que acaba o bem antigo, e o bem moderno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se lhe querieis bem, num bem está posta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">No qual todos os bens possue, e gosta.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>VII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas vòs a quem a dor custa mais caro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Direis do damno della atormentado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ chorais da esposa o rico amparo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas que chorais a vòs desamparado.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porèm sabendo Deos que era muy raro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Poder viver sem amar, e ser amado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Amar sua belleza vos convida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E quer que vendo a morte, ameis a vida.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p>
-
-
-<h3>VIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Porque este autor de toda a formosura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Movido da feição, não de rigor,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vos tira dante os olhos a pintura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque ponhais os olhos no pintor;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O casto amor que tinheis foy figura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do real, verdadeiro, e puro amor,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que se Deos vos tirou cousa tào bella,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Foy por vos dar a si que o he mais que ella.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">As cousas que da terra vaõ passando,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nòs andamos nella pretendendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ saõ para os lograr nellas parando,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas para Deos por ellas irmos vendo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Assim esta que vos hieis amando,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que no humano amor vos enssayasseis,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque o divino amor representasseis.</span><br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="OITAVAS">OITAVAS</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a
-liberdade de seu marido.</i></p>
-
-
-<h3>I.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">He muito natural de quem carece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Louvalo a quem o tem, porque conhece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que louvado se ama, estima, e preza:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E como bens mais altos appetece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Toma de mòr estado, mòr empreza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O bem que desprezou esse festeja,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o bem que naõ alcança, esse deseja.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Na corte em que morais louvais a fonte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O monte, a solidaõ, bosque cerrado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Da qual muito dizeis do prado, e monte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas muyto mais se vè no monte, e prado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por mais que ninguem diga, e mais que cõte</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ fica ditto nada, nem contado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque he o que se diz morta pintura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o que se vè real viva figura.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Eu cà no monte moro, e naõ com elle,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vòs na corte morais, mas he com ella,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem logra o monte logra o doce delle,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem sofre a corte sofre o agro della:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Diga a corte do monte o bem que ha nelle,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Diga o monte da corte o mal que ha nella,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque he regra direita de amizade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que pague huma verdade outra verdade.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ahi por dar calor a huma esperança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que com dadivas grandes só aquenta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se perde o que se tem, e naõ se alcança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se naõ o que molesta, e que atormenta;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ahi se peza tudo em tal balança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que na maõ desigual só se sustenta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E com taõ maõ fiel que o mais pezado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Contra direito tràs mais levantado.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">De palavras se faz rica almoeda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que deixaõ pobres sempre os compradores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde comprais cõ tempo, e cõ a moeda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As esperanças vãs aos vendedores;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Gastais a vida, o pam, o pano, e a seda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Desejos só vos daõ como penhores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que cada qual por grande preço empenha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quem, ou gasta o tempo, ou desempenha.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ahi onde repousa a esperança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A sombra da infamia, e da deshonra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde a vosso pezar anda a privança</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Taõ alta que os pès tras sobre a honra:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ahi onde se tira o ferro à lança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que seu dono levanta, louva, e honra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde os merecimentos se escurecem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com fantasticos lumes, que apparecem.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>VII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O fim da pertençaõ he duvidoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o trabalho della sempre he certo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas se o mal vos afasta, que he penoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O apparente bem chegarvos perto;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O dezejo do fim traz-vos mimoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Molesta-vos porèm o vello incerto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E se sabe a proveito o falso engano,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Depois de experimentado sabe a damno.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span></p>
-
-
-<h3>VIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ahi onde se vem com liberdade</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Andar todos os doudos desatados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquem, ou a sciencia, ou dignidade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por mal de quem os vè tras embuçados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Detras da vã mentira anda a verdade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Para poder falar com os mais privados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ahi vos he pezado, mas forçoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rogar, fingir, temer, e estar queixoso.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Rogar a peito duro, e empedernido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que só com metais ricos se quebranta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em que lançais algum, mas taõ perdido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nem pode ser situ, nem ser manta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rogar por termo humilde, mas fingido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vos abate avòs, outrem levanta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rogo que faz Senhor, ao que he ouvinte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E ao que roga faz pobre pedinte.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span></p>
-
-
-<h3>X.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Fingir, andando sempre atormentado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Para o alheyo bem grande alvoroço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fingir que desejais de ser creado</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De quem pudera ser creado vosso:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fingir alegre rostro, a rostro irado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vos desejais ver sem seu pescoço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fingir palavras vãs tintas com cores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sendo ellas de fel, pareçaõ amores.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Temer que seja falsa a esperança;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que tanto tarda, cansa, e tanto custa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Temer que os bens, que a fama vos alcansa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vos negue a Corte ingrata, dura injusta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Temer que este temor que tanto cança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja da esperança a paga justa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sejaõ os cortesaõs prometimentos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem nenhuma largura comprimentos.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span></p>
-
-
-<h3>XII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Estar queixoso de ver quanto alcançaraõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os que parios em paz nunca correraõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Queixoso de ver bens que transbordaraõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fóra dos que estes bens naõ mereceraõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Queixoso de ver que inda naõ pagaraõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Serviços que fiados se fizeraõ</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Queixoso porque o mào sem seu trabalho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faz bigorna do bom, faz de si malho.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A terra em que repouso, em que descanso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na qual livres cuidados apascento</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cento me dà por hum, que nella lanço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A corte davos hum, lançais-lhe cento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Compra-se cà com gosto o que he descanso;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Comprais lá cõ desgosto o que he tormento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O bem que tem o monte nunca o nega,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mal que tem a corte, sempre chega.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span></p>
-
-
-<h3>XIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Depois que o mundo vão experimẽtastes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Depois de ser por sorte despachado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Me diz que vos deraõ, e o que gastastes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E achais que o que trazeis que foy comprado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sabeis quã caro em fim tudo comprastes</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na corte, que vos tem desenganado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na qual quando as merces saõ muito largas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Despachaõ só com cargos, que saõ cargas.</span><br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="OITAVAS2">OITAVAS</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro
-de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir,
-segundo as pennas, que à acompanhava.</i></p>
-
-
-<h3>I.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ficay esteriles campos, calvos montes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Incultas serras, tristes arvoredos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ribeiras seccas, peçonhentas fontes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Medonhos valles, asperos rochedos;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ficai mal assombrados orizontes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Parados rios, desiguaes penedos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que jà me naõ vereis como me vistes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Inda que o ser mudeis de serdes tristes.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Meus sentidos trouxestes jà fechados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que agora sem vos ver já trago abertos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De ouro, e de azul vestistes meus cuidados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas agora os vereis de dò cubertos;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se os vistes andar sempre acompanhados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Metidos os vereis pelos desertos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sempre senti pezar, nunca alegria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nunca em vòs descançei, sempre cançava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O bem que achava em vòs, de mim fugia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas se me achava o mal, em mim parava:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A treição me dava, e me feria</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se delle por diante me escuzava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Notai deste meu mal este segredo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sendo matador, he falso, e tredo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Em vós todos os bens vi contrafeitos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cujas internas formas eraõ dores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em vós topey pastores lobos feitos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém ainda em trajos de pastores;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A estes procureis, e vãos respeitos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dos bens alheyos vi destruidores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Gostando só do mal que entaõ causavaõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mais feroces, que lobos, pois que querem</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sustentar-se dos males, que causarem:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que os lobos mataõ gado por comerem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas estes só matavaõ por matarem;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sómente se recream em offenderem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os que mais suas leys contrariarem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque a contradicçaõ faz inimigos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Daquelles, que antes della foraõ amigos.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nenhum seu proprio estado já respeita</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E trazem nas aldeas em que moraõ</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rebuços de virtude contrafeita,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E rostos naturaes do mal que adoraõ:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E em todas por seu mal sempre peòram,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Taõ amigos do bem, que vivo o enterram,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>VII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">De Astioge se diz que aborrecia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Cyro moço tenro, e delicado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quem morte cruel traçava, e ordia;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque era pretensor do seu Reynado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém o odio destes naõ se cria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por enveja, ou temor demasiado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò com odio do bem, o bem perseguem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por seguirem o mal, que todos seguem.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span></p>
-
-
-<h3>VIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me importuna, turba, e desordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se a cegueira que tem he seu castigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E sua mà vontade he sua pena;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se Deos assim o traça, assim ordena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que tudo quanto ha, tenha adversario,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E seja o homem de si cruel contrario.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Saõ estes desliaes adoradores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Da propria vontade cega, e dura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que fazem de seus vicios seus senhores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E só para seu mal mostraõ brandura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Das sempiternas leys contraditores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trazendo destas leys a vestidura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Amadores do mal, e da mentira,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span></p>
-
-
-<h3>X.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Vestem a perversaõ com sua nobreza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Querem fazer da noite claro dia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sua maldade cobrem, com a riqueza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Rebução com poder a tyrannia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Disfarçaõ sua furia em fortaleza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A vontade cruel julgaõ por pia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A seus filhos mataraõ por peccarem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas estes mais crueis que os que passaraõ</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Querem-lhos inventar para os matarem;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os bens dignos de premio nunca olharaõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò vem os males para os castigarem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o que he furia cruel digna de espanto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p>
-
-
-<h3>XII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Falo com reprovados, que abterno</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Foraõ por culpa sua condemnados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ao fogo abrazador do escuro inferno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sepulchro dos que jà saõ reprovados;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Juizo foy divino, e sempiterno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que os juizos humanos traz cançados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vivaõ de mistura os escolhidos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com os que se haõ de perder, e já perdidos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E póde vir a ser que os que defendo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Senaõ segundo as obras que aparecem:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porèm a graça de huns naõ he segura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E nem a culpa de outros sempre dura.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span></p>
-
-
-<h3>XIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O Principe das trevas naõ pretende</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com todos seus vassalos preseguirnos?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ nos deseja mal, naõ nos offende?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E naõ estuda sempre em destruirnos?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ temos nòs a Deos que nos defende,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se elle quer offendernos, e oprimirnos?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se nòs sem paixam nossa o desprezamos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque com seus ministros nos cançamos?</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Que ter amigos taes he sorte boa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois saõ occasiões para a vitoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Artifices sutis da altiva coroa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que Deos costuma dar na eterna gloria;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ quero que me cause, ou que me doa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trazelos como trago na memoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Saõ meyos de mayor graça divina.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span></p>
-
-
-<h3>XVI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem nunca aborreceo o ferro agudo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com que o barbeyro destro dà a sangria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se para o mal que vem serve de escudo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lançando à força o mal que havia:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem trata mal o instrumento tudo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que dente lhe arrancou, que lhe dohia?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Amem-se pois amigos que daõ pena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XVII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com os males com que os justos enriquecẽ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que exercitaõ no bem quando maltrataõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A si destruem, cansaõ, e disbarataõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quem dos bens alheyos qualquer copia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Serve de afronta, penna, e magoa propria.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span></p>
-
-
-<h3>XVIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O profeta David Deos defendia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do Rey perverso injusto que o buscava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Saul por huma parte o perseguia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E Deos por outra parte o sublimava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Destroe Deos o Rey que o invejava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem sofre reyna, quem perdoa alcança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">He o odio do mào a espada, e a lança.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Assim que està por ley jà definido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A qual se tem no mundo publicado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E empena fica o bem quando he passado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hum passando deixou triste o sentido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Outro durando o traz desenganado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque hey de gastar bem que tanto damna,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E temer mal que tanto desengana.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span></p>
-
-
-<h3>XX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Assim Deos o permitte, assim o ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nesta vida triste, e transitoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com gloria vaã se ganhe eterna pena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com pena temporal eterna gloria:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O gosto sempre a alma dezordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A penna faz a vida meritoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando se gosta o bem entaõ escurece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece.</span><br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="SONETO">SONETO.</h2>
-</div>
-
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Horas breves de meu contentamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nunca me pareceo quando vos tinha</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vos visse mudadas taõ azinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em taõ compridos annos de tormento.</span><br />
-<span style="margin-left: 2em;">As minhas torres que fundei no vento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O vento mas levou que mas sustinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do mal que me ficou a culpa he minha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois sobre cousas vãas fiz fundamẽto.</span><br />
-<span style="margin-left: 2em;">Amor com falsas mostras aparece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo possivel faz, tudo assegura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas logo no melhor desaparece,</span><br />
-<span style="margin-left: 2em;">Ó grande mal, estranha desventura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por hum breve prazer que desfalece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aventurar hum bem que sempre dura.</span><br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="OITAVAS3">OITAVAS</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Que fes a mudança do Mundo no espelho de seu esposo, sobre que
-ponderou a variedade delle segundo o discurso, com que glosou o Soneto
-186. das Rimas do Principe dos Poetas o Grande Luis de Camões, que fica
-na pagina antecedente.</i></p>
-
-
-<h3>GLOZA I.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Agora q̃ meu mal trouxe a meu dãno</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mil annos se detẽ hũ duro inverno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quẽ em hum sò momẽto acha hũ anno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hum anno lhe parece tempo eterno;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Assim por castigar meu cego engano,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por quem jà me naõ rejo nem governo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As horas mudaõ em annos de tormento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Horas breves de meu contentamento.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O gosto por algum tempo me destes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque vindo o desgosto mais durasse,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que se no falso bem me detivestes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Foy por manchar o mal quando chegasse,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Logo me pareceo quando vistes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que nunca longos annos vos lograsse,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas que fosseis agora a penna minha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nunca me pareceo quando vos tinha.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">E com me parecer que vos detinheis,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O vosso vaõ soheyto me mostrava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ser taõ certa a mudança do que tinheis</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como a posse do bem que entaõ lograva:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cuidey, ó horas breves, quando vinheis,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que o tempo por algum tempo vos dava,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas nunca presumio esta alma minha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vos visse mudadas taõ azinha.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Bem podes em breve tempo conhecer,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que por discurso as cousas vay sabendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que a brevidade occulta do prazer,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Da vaidade delle está nascendo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas como a payxaõ tira o saber,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ pude nesse tempo ir entendendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vos mudasse o vil contentamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em taõ compridos annos de tormento.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ julga o vaõ juizo apaixonado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com segunda razaõ, alta, e profunda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que quando o fundamento vay errado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Errado hade ficar quanto se funda;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Assim para ficar mais magoado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E porque o erro meu mais se confunda,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em vento resolveo meu fundamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As minhas torres, que fundei no vento.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode ser constante a esperança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fundada sobre hum falso pensamento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque a constante, e firme segurança</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Procede de ser firme o fundamento:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por isso vi taõ cedo esta mudança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque as torres que fiz fundei no vento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E como eu no vento as torres tinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O vento mas levou, que mas sostinha.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>VII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Culpa de meu perverso, e vaõ sentido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que vendo só mal huma sombra boa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas estimou o mal pelo vestido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do que estimou o bem pela pessoa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas posto que me veja hoje perdido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em penna que a razaõ tanto magóa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como buscar o bem sò a mim convinha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do mal que ficou a culpa he minha.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span></p>
-
-
-<h3>VIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por culpa só morre, e padece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem quer que as armas deu a seu amigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Bem mostra que seu mal naõ aborrece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem deste mesmo mal ama o perigo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois logo se a razaõ isto conhece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Justo tormento foy, justo castigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que tudo me levaste o leve vento,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois sobre cousas vãas fiz fundamento.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>IX.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sente o cego amador em seus amores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A paga do serviço ser o engano,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Converterem-se os bens em puras dores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ser o proveito pouco, muito o damno;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mentirosas lisonjas os louvores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O fim de seu trabalho hum desengano,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém nestas verdades que conhece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Amor com falsas mostras aparece.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span></p>
-
-
-<h3>X.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tudo o que vê cruel, mostra amoroso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que he puro, mal finge bem puro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que certo he, faz duvidoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E tudo o que se vay, dà por seguro;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo que doce he, diz que he penoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que he manifesto, mostra escuro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo confunde amor, tudo mistura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo possivel faz, tudo assegura.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mostra que pode dar contentamentos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquelle que de taes mostras se fia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E mostra que he remedio de tormentos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Instrumento do bem, e da alegria;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mostra que faz seguros fundamentos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E que leva segura, e recta via,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mostra que a vida toda permanece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas logo no melhor desaparece.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span></p>
-
-
-<h3>XII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mas ó razaõ perversa, e infernal,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois tens a eleiçaõ taõ cega, e injusta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que queres dar hum bem que tanto val,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por hum perverso mal, que tanto custa:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que por iguaes teu bem, queiras teu mal,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E que aborreças tanto a vida justa?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que ames mais que a vida a morte dura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ó grande mal, estranha desventura.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>XIII.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nesta alegria falsa, a qual eu douro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com minha razaõ torpe, e com meu erro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Onde as promessas saõ de fino ouro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E as dadivas saõ de duro ferro;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trocava o rico preço, e o thesouro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que me levava à patria do desterro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Trocava o eterno bem que permanece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por hum breve prazer que desfalece.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p>
-
-
-<h3>XIV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sò o torpe juizo, e insensato,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quem verdades tais saõ odiosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Das cousas preza mais o aparato,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do que preza, e ama as mesmas cousas;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò este a quem por falso jà naõ trato,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pode por falsas mostras, mas fermosas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por huma breve, e vãa desventura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aventura hum bem que sempre dura.</span><br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="OITAVAS4">OITAVAS</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Que fez dirigidas a sua magoa, na consideraçaõ do discurso
-antecedente; e juntamente mostrando o quanto perturbado tinha com
-pennas o seu coraçaõ sobre que glosou o Mote seguinte.</i></p>
-
-<p class="center"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.</i></p>
-
-
-<h3>GLOZA I.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode ser a chama quente, e fria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na tempestade estar o ar sereno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na noyte escura verse o claro dia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O fogo abrazador sentir-se ameno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Acharse na tristeza à alegria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E poder ser mezinha, o que he veneno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ se pòde ajuntar o ceo com a terra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ se acha pelo mar caminho aberto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Lua naõ se vè nunca constante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem pode o que he desordem ser concerto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O preto, o branco ser, hum mesmo instante;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na incerteza acharse o tempo certo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem ser hum mesmo sabio, e ignorante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ninguem na patria fica, e se desterra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ninguem em seu tormento, tem sua gloria</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em seu proveito pode achar seu damno,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E sua destruiçaõ sua victoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ mora o desengano, no engano,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ he a vida eterna transitoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ pòde ser prudente o vicioso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sollicito, sagaz, o descuidado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem manso pode ser o furioso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem pode estar contente o magoado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ he o temerario temeroso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem he ditoso o mal afortunado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode o que he doença ser saude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O que he prodigo ser tambem avaro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ pode ser peccado o que he virtude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O que custa barato, custar caro;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O engenhoso ser grosseiro, e rude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aquillo que he commum puder ser raro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ resplandece o ouro se se enterra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ he resplandecente o abysmo escuro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ pode ser traiçaõ, o que he lealdade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O puro bem, naõ se acha no mal puro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A mentira naõ pode ser verdade;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O fundamento vaõ naõ he seguro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem pode ser segura a falsidade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E assim como naõ cabe o Ceo na terra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br />
-</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="OITAVAS5">OITAVAS</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Que ultimamente fez com grande espirito, quando se vio dezenganada
-do mundo, e conheceo a sua variedade sobre que glosou o Mote
-seguinte.</i></p>
-
-<p class="center"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo.</i></p>
-
-
-<h3>GLOZA I.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ay Dios, ay alma mia, ay dura suerte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ay triste como estoy tan affligida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pues que pude peccando dar la muerte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quien no puedo dar llorando vida;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fue ser mi culpa tal, tanta dura, y fuerte,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que solo de Dios, es bien entendida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Y pues es tal mi mal que no lo entiendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span></p>
-
-
-<h3>II.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quien me diera, mi Dios, pues te offendi,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pues con tanto plazer te he offendido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que fuera igual a el mal que cometi</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">El pezar de tenerlo cometido:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quien pudiera, Senhor, vengarte en mi,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por todo quanto bien he destruido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas si llorando el mal en parte imiendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>III.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sin ti quizo el mal mi coraçon,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pero contigo del es levantado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pues que para poder darme el perdon,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Me dás arrepentirme del peccado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Abage-se al profundo la razon,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pues a Dios de lo alto ha derribado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Venid suspiros ya, venid saliendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p>
-
-
-<h3>IV.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Menos dolor tuviera en la memoria</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Del mal, que a tantos males me condena</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Si me quitara a mi tan dulce gloria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Y no te diera a ti tan dura pena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas pues mi culpa yá es tan notoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sea notorio el llanto, que ella ordena,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Y por mostrar que mal me està doliendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3>V.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Holgara ò Dias remedio del engaño,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que en camino te puzo taõ estrecho</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que ansi como del mal fue tuyo el daño,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pudiera ser del bien tuyo el provecho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pero teniendo de esto el desengaño</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mirando en tu persona abierto el pecho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Con voz llorosa, y triste ando diziendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span></p>
-
-
-<h3>VI.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Vi la causa del mal quize agradarla,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ya veo la del bien quiero sentirla,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Miré la falcedad, quize abraçarla,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Yà miro la verdad quiero seguirla;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Si para tanto mal fue desecharla,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por mucho mayor bien era admitirla,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Y en quanto su ausencia estoy sintiendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-<p class="center big p4"><em>FIM</em></p>
-
-<p class="center"><i>da Terceira, e ultima parte</i>.</p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img008">
-<img src="images/006.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagen decorativa" />
-</span></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="VIRTUDES_E_VICIOS">VIRTUDES, E VICIOS,</h2>
-</div>
-
-<p class="center"><i>Feitas pela mesma Autora à instancia de huma Religiosa devota, as
-quaes virtudes augmentaõ as Religoens para melhor servir a Deos Nosso
-Senhor sendo-lhe contrarios os vicios que as destroe.</i></p>
-
-
-<h3><i>Humildade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sempre nos baixos me encerra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A luz que a Deos me prendeo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas quanto deço na terra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tanto me sobem no Ceo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Liberalidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Cubro o bom, cubro o iniquo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo comigo se cobre,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Comigo he rico, o que he pobre</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem mim he pobre, o que he rico.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p>
-
-
-<h3><i>Castidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem contra mim nunca erra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem comigo a si venceo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fica estrangeiro na terra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faz-se natural do Ceo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Paciencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem por meu respeito cansa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sofrendo o mal que parece,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo vence, e tudo alcança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo tem, tudo merece.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Temperança.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou temperada virtude</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que todo o corpo governa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dou-lhe temporal saude</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A alma saude eterna.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Charidade</i>.</h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou amada, e amadora</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do mais perverso louvada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Das creaturas, criada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas das virtudes senhora.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span></p>
-
-
-<h3><i>Diligencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem nesta vida me tem</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Logra o bem acrescentado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que a diligencia no bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faz que o bem seja dobrado.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Prudencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou prudente em toda a hora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cousa com que sou contente;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque em quanto sou prudente</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ posso ser peccadora.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Silencio.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Dẽtro em mim mesmo me encerro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo ouço, e tudo callo;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque tanto menos erro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quanto menos vezes falo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Fè.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou fè que da alma desterra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mal, que a escureço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Estando presa na terra</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Subo mil vezes ao Ceo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span></p>
-
-
-<h3><i>Esperança.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Espero hum bem immortal</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Donde os bens todos me vem;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque a esperança do bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A doça a penna do mal.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Penitencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou a virtude que tem</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Contra o mal grande potencia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou a feliz penitencia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que converte o mal em bem.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Oração.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Posto que grosseira, e rude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sempre oro em meu coração;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque só nesta Oração,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se a prende toda a virtude.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Perseverança.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Persevero sem mudança,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Insisto sem me mover,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois tudo pode vencer</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A longa perseverança.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span></p>
-
-
-<h3><i>Mansidaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Mansa sou, e assim alcanço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quanto prometem os Ceos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que o que na vida he mais manso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">He mais semelhante a Deos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Fortaleza.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Resistir he meu officio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo venço com firmeza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque a firme fortaleza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vence, e mata todo o vicio.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Verdade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sempre acho quem me louve</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por ser natural dos Ceos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos ouve, quem me ouve,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me busca, busca a Deos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Misericordia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou das virtudes concordia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Estou na terra, estou nos Ceos:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou huma cousa como Deos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois que sou misericordia.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span></p>
-
-
-<h3><i>Abstinencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tenho o rosto feo, e fero</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas sou de summa excellencia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou o custo da abstinencia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que os apetites tempero.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Desprezo do mundo.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O mundo, ou o immundo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deixo, como reyno alheyo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois com desprezo do mundo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Todo o mundo senhoreo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Constancia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou forte firme, e prestante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tenho a Deos, e Deos me tem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem no bem he taõ constante,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Bem he que tenha tal bem.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Justiça.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A Deos tenho por farol</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nunca me cega a cubiça,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Senaõ sou Sol de Justiça,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou justiça mais que o sol.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p>
-
-
-<h3><i>Pobreza.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Ninguem por mim se governa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Antes sou mui perseguida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sendo miseria da vida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Posso dar a vida eterna.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Mortificação.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou das virtudes hum cofre</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque a todas faço a cama,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se persigo a quem me sofre,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Guarlado-o a quem me ama.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Paz da alma.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem me logra cà na terra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me tem do Ceo me traz,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Na terra me sinto em paz,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por mayor que seja a guerra.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Modestia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou composta e sou honesta</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Exemplar aos que me vem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com exemplo de modestia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Provoco todos ao bem.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span></p>
-
-
-<h3><i>Gratidaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Folgo de ser gratidaõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque meus bens conhecendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Agradeço o que me daõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E mereço o que pertendo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Simplicidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem me logra, e quem me tem</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">He quasi celestial,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nunca cahe em nenhum mal,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque sempre cuida bem.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Pureza da alma.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Todo bem sigo, e procuro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Todo mal me he odioso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo quero virtuoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo alimpo, tudo apuro.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Zelo do bem.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ me traz no coraçaõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O máo, o perverso, e rude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pareço as vezes paixaõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porèm sempre sou virtude.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span></p>
-
-
-<h3><i>Desprezo proprio.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Pois no mal naõ faço pauza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo faço em meu despeito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Desprezo o mal como effeito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E amim como propria causa.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Renunciaçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Deime com favor dos Ceos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos meu ultimo fim,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque dandome eu a Deos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se me desse Deos a mim.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Innocencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sò de mim se entende, e cre</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sem mal posso ter bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me tem nunca me vé,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem me vè ja me não tem.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Correiçaõ fraterna.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Dos vicios sou adversaria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Todo o mundo me ha mister,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sendo a todos necessaria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ninguem me pode sofrer.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p>
-
-
-<h3><i>Recolhimento.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Recolhimento procuro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do corpo, alma, e sentido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pois quanto mais recolhido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tanto do mal mais seguro.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Continencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sempre ando em companhia</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Da singular castidade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em minha difficuldade,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Consiste minha valia.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Discripçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Eu tiro de todo enleyo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A qualquer juizo rude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou a que descobre o meyo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em que consiste a virtude.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Amor Divino.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Na terra sou peregrino,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porém no Ceo sou Senhor,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sendo Deos divino amor,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faz-me Deos amor divino.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span></p>
-
-
-<h3><i>Amor do proximo.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Depois que subo às alturas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por amar a meu senhor,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como subo ao creador,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Devo amar as creaturas.</span><br />
-</p>
-
-<h3><i>Devoçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Faço doce o que he penoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faço leve o que he muy grave,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que he difficultoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faço facil, e suave.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Fervor.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A muitos pareço louco,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que naõ conhecem meu fruto</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ainda que eu faça muito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo me parece pouco.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Graça.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tudo comigo se cobre,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Das paixoens tenho a victoria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem mim nenhuma boa obra,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pòde merecer a gloria.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span></p>
-
-
-<h3><i>Bem exemplo.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Edifico os que me vem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Honrarey a quem me der,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò com as mostras do bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muytos bens faço fazer.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Conformidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou conforme o meu querer,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos de quem tudo espero,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque tudo quanto quero,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Seja tudo o que elle quer.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Pura tençaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Subiraõ à mayor alteza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os Santos por minha via,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Conforme a minha pureza,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tem as virtudes valia.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Temor de Deos.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por naõ fazer hum aggravo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A Deos chego a todo extremo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Posto que sou escravo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò como seu filho o temo.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span></p>
-
-
-<h3><i>Negaçaõ propria.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Como em tudo a Deos me entrego</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como me devo entregar,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em tudo o que he meu me nego</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por naõ vir a arrenegar.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Obediencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Faço prudentes os rudes,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que sé regem sò por mim,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou principio, e sou fim,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De todas as mais virtudes.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Vergonha.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Tanto duro virtuosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Devota, sesuda, e prompta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quanto duro vergonhosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quem comigo se encontra.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Brandura.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">De ninguem desprezadora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De todos muito prezada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">De alguns naõ sou amadora,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas sou de todos amada.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span></p>
-
-
-<h3><i>Cortezia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem me tem fama terà,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que he o meu mais proprio fruto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem dar nada quem me dà,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fica recebendo muito.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Compaixaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Conversando entre a gente,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com vontade pouco esquiva,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mereço por compassiva,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A gloria do paciente.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Lealdade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O mundo bem me dezeja,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ toma por guia,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A que sou na frontaria,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou nas costas da Igreja.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Consciencia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Aviso do mal, e bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quem, ou bem, ou mal quer,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem quer que me naõ tiver,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nenhuma virtude tem.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p>
-
-
-<h3><em>VICIOS.</em> <i>Soberba.</i></h3>
-
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Trago o rostro sesudo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ando melanconizada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cuido de mim que sou tudo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E eu sou menos, que nada.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Avareza.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nada dou, tudo retenho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Atè a mim me nego o bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Peço quanto os outros tem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ dou nada do que tenho.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Ira.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Para tudo sou mofina,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ando amarella, e rayvosa,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mimo brando me indigna,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como palavra afrontosa.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Inveja.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">He minha condiçaõ tal,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que me naõ sofre ninguem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque atè o alheyo bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Me serve de proprio mal.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span></p>
-
-
-<h3><i>Preguiça.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nunca me quero mover,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque em nada me resolva</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas que o mundo se resolva,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ me posso resolver.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Discordia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Atè a mim me contradigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem me regem, nem eu rejo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ninguem peleja comigo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E eu com todos pelejo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Liviandade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Do canto muy pouco alcanço</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas em todo o tempo canto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem som bailo, trinco, e danço</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas, que a casa esteja em pranto.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Presumpçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Seco afrol nunca dou fruto,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por ser meu sentido louco,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se de mim presumo muito,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">He porque sey muito pouco.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span></p>
-
-
-<h3><i>Vaidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Pretendo as honras mayores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por maranhas, e invenções.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sempre desejo louvores,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E eu mereço reprehenções.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Ignorancia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A pena tenho por gloria</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque me falta o juizo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O que he parvoice notoria</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Julgo eu por raro aviso.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Chocarrice.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por nada me movo a riso</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò zõbando mostro engenho,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ falo nunca de siso,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque nenhum siso tenho.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Amor proprio.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Com caridade me escuzo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque assi me naõ conheçaõ</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só para mim quero tudo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os outros mas que pereção.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span></p>
-
-
-<h3><i>Desconfiança.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sem ninguem me affligir,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Eu mesmo me afflijo a mim</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Todos quantos vejo rir,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cuido que se rim de mim.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Prodigalidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Quem os meus bẽs me levou</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Não mos sabe agradecer,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Não ha misterio que eu dou,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E eu dou o que hey mister.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Curiosidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O que falão, e sonhão</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">As outras, quero entender</span><br />
-<span style="margin-left: 2em;">tè que venho a fazer</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mil cousas que me envergonhaõ.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Melindre.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Acho grossas as finezas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou dalfelua, e algodão</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os mimos são asperezas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Epara minha condição.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span></p>
-
-
-<h3><i>Mentira.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por ruas, e por travessas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cantar historias pretendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando falo, falo às avessas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do que sey, e do que entendo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Pouco segredo.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Qualquer cousinha me encalma</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que a outrem, ou a mim toca</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que me metem na alma</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lanço logo pela boca.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Concordia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Naõ pretendo prefeiçaõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por ser covarde, e ser rude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com medo do que diraõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deixo de ter mayor virtude.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Vingança.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por mais que as outras me afagem</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E por branduras me levem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nenhuma cousa me devem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que dobrado me naõ paguem.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span></p>
-
-
-<h3><i>Malicia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Só de mim todo o mal vem</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ou mortal, ou venial,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou inventora do mal,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Destruidora do bem.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Incredulidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">De meu mal endurecida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só por mesma me eu rejo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mal creyo só de ouvida,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o bem nem quando o vejo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Odio.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nunca procuro meu bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque meu mal naõ conheço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou penna de quem me tem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sem ser mal de quem aborreço.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Hypocresia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Sou dobrada, triste, e rude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Enganar he meu officio;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pela casca sou virtude,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas pelo miolo vicio.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span></p>
-
-
-<h3><i>Murmuraçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">De minha irmãa por mil meyos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Encubro os bens que saõ seus,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Publico os males alheyos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ sey esconder os meus.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Traiçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Com fingido, e ledo rostro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Offereço meu serviço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A muitos rio no rostro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A quem mordo no toutiço.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Desenvoltura.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Males que faço, e naõ callo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Em mim moraõ, e naõ mim jazẽ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mil palavras verdes falo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que os rostros vermelhos fazem.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Pertinacia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nenhum conselho me val</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ me convence ninguem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sou como rocha no mal,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E como cana no bem.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span></p>
-
-
-<h3><i>Inconstancia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">O bem em mim nunca para</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Muy pequeno mal me espanta,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Soa huma hora Santa Clara,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Noutra, nem Clara, nem Santa?</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Occiosidade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Vivo em continuo descuido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Num, e noutro me embaraço,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Se naõ faço o mal que cuido,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cuido no mal que naõ faço.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Lisongeria.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nenhuma cousa reprovo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ou seja mal dita, ou feita,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo louvo, tudo approvo</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por ser a todos aceita.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Interesse.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Costumo de usar cruezas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Com vizinho, e com estranho</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cayo em cem mil baixezas</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sò por tirar qualquer ganho.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p>
-
-
-<h3><i>Zelo indiscreto.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Como a ordem naõ entendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque me ey de governar,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tudo quero emmendar,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas a mim nunca me emmendo.</span><br />
-</p>
-
-<h3><i>Mà condicçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Posto que todos me emmẽdem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ninguem faz comigo avença,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cuido que todos me offendem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E eu sò sou minha offensa.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Afeiçaõ desordenada.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Nenhuma alma hoje me tem</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que seja esperitual,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando quero mayor bem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Entaõ me faço mòr mal.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Amor profano.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por fantastica invensaõ</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Procede meu bem querer,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por bens que naõ pòdem ser,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sofro o mal que jà saõ.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span></p>
-
-
-<h3><i>Arrogancia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Da graõ soberba sou filha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cuido que saõ meus os Ceos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">O mal propio naõ me humilha,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E incho com o bem de Deos.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Distraiçaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Do que he culpa, faço graça,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Do que he peccado, ventura,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">A alma trago na praça,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o corpo na clausura.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Descortesia.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">A honra como thesouro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nego a todos por mais brio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faço della fino ouro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Porque a pezo ouro, e fio.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Temeridade.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por muy indescretos meyos,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Espreito alheos peccados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Naõ entendo meus cuidados,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Julgo cuidados alheos.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p>
-
-
-<h3><i>Dureza.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">No cuidar, no fallar erro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por ter duro o coraçaõ,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fallo palavras de ferro,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cuido que saõ de algodaõ.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Rudeza.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Erro agòra, e sempre errey,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nem entendi, nem entendo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sempre apprendendo me sey,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas nunca sey, o que apprendo.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Mexerico.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Por malicia, e por parvoice,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pecco huma, e outra vez,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Dizendo o mal que outrem disse,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Faço o mal, que elle naõ fez.</span><br />
-</p>
-
-
-<h3><i>Fraqueza da Alma.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Os que de mim se fiarem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mal lhe irá, se me tiverem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Cayo, sem me derrubarem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ me ergo, sem me erguerem.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span></p>
-
-
-<h3><i>Ingratidaõ.</i></h3>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 2em;">Amizades se desfazem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por mim, porque naõ me atrevo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Pagar mercès que me fazem,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E conhecer as que devo.</span><br />
-</p>
-
-
-<p class="center p4 big"><em>FIM.</em></p>
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img009">
-<img src="images/004.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagem decorativa" />
-</span></p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter transnote">
-<h2 class="nobreak" id="Notas">Notas</h2>
-
-
-<p>Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.</p>
-</div>
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-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>SAUDADES DE D. IGNEZ DE CASTRO</span> ***</div>
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
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-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
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-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
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-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
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-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
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-
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-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
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-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
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-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
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-</div>
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-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
-</body>
-</html>
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