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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: Saudades de D. Ignez de Castro - -Author: Manuel Azevedo - -Release Date: October 6, 2022 [eBook #69103] - -Language: Portuguese - -Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team - at https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by National Library of Portugal - (Biblioteca Nacional de Portugal).) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SAUDADES DE D. IGNEZ DE -CASTRO *** - - - - - - - SAUDADES - DE - D. IGNEZ - DE CASTRO. - - - - - SAUDADES - DE - D. IGNEZ - DE CASTRO. - PELO LICENCIADO - MANOEL DE AZEVEDO - Conimbricense. - _OFFERECIDA AO SENHOR_ - GUILHERME JOAQUIM - PAES VELHO. - _PELO PADRE_ - JOÃO DE GOUVEA - Prisbitero do habito de S. Pedro. - - [Ilustração] - - LISBOA: - Na Officina JOAQUINIANNA DA MUSICA DED. - Bernardo Fernandes Gayo, Morador na rua das Mudas. - - M. DCC. XLV. - _Com todas as licenças necessarias._ - - - - - [Ilustração] - - - - - DEDICATORIA - - AO SENHOR - - GUILHERME JOAQUIM - - PAES VELHO. - - -_Justo era, que huma taõ excellente obra procurasse hum assyllo taõ -excelso. Publica-se por meyo da estanpa ao Mundo as Saudades de D. -Ignez de Castro, Rainha taõ infeliz, como formoza, e vendo eu que he -perigozo entregar nas mãos do vulgo cousa, para cuja seja materia a -sua distracçaõ, logo me occoreo, que a offerta só era conveniente em -V. M. porque sey, que como V. M. he dado às letras, naõ deyxarà de -amparar hum milagre da Poesia, e juntamente escurecer o alvedrio de hum -Zoylo. Materia difficel seria o querer expór ao publico a Genelogia de -V. M. que como conhecida naõ carece de explicação, mas só lembro a V. -M. que o sangue, que lhe pulsa pelas veyas, mais logra de soberano, -que de nobre. Dedicar o presente papel a V. M. he como divida, -porque confórme, diz Seneca, só se conhecem as remuneraçoens pelo -offerecimento, por essa causa quando eu tenho recebido taõ dilatados -favores, porque razaõ naõ heyde de manifestar o quanto sou devedor a -V. M. Aceyte pois o presente obsequio como divida, porque só assim -lograrey eu a ventura de acertar quando me lembro da sua generosidade -para o restituir. A pessoa de V. M. guarde Deos pelos annos, que todos -os seus amigos dezejamos._ - - Amigo, e Venerador de V. M. - - O P. Joaõ de Gouvea - - - - - [Ilustração] - - - - - SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO. - - -I. - - Era na meya idade, a q̃ chegava - Em fraguas de Zafir o Sol, q̃ ardia, - e nas asas do tẽpo, q̃ passava, - Icaro de seus rayos era o dia - Quando pois com as chammas se abrasava, - Que morrer incendîdo entaõ queria, - Sendo por renascer com novo alarde, - Em cinzas de rubim Féniz da tarde. - - -II. - - Na lisongeira planta se enlaçava - Cortez o vento com gentil porfia, - E nos jardins a Rosa, que encalmava, - Em berços de esmeralda adormecia: - A simples avesinha se banhava - No murmúreo correr da fonte fria, - Renovando na vista o doce alento, - Narciso nos crystaes, Orfêo no vento, - - -III. - - Mas Ignez só, que por penar vivia, - Naufragava em soluços cada instante, - Ignez, aquella Ignez, que amor fazia - Por lhe dobrar as magoas mais constante: - Aquella, em cujas graças competia - Ser formosa, discreta, e ser amante, - Em cujas prendas naõ tiveraõ parte - Artificios da industria, invençoẽs da arte. - - -IV. - - A que nos dotes da alma taõ possante, - Discreta, grave, terna, e generosa, - Que da mesma bellesa sendo Atlante, - Tinha por menór prenda o ser formosa: - Nos donaires do talhe taõ galante, - Nos alinhos da graça taõ vistosa, - Que topando na culpa de Narciso, - Fora sem culpa seu discreto aviso. - - -V. - - Mas qual o passarinho descuidado, - Lisonja mais gentil da tenra idade, - Foy das maõs do menino aprisionado, - Que lhe roubou no laço a liberdade: - Que quando delle mais galanteado, - Exprimenta no mimo a crueldade: - E quando a côr das pennas lhe contenta, - Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta. - - -VI. - - Tal Ignez na manhaã dos ternos annos, - Nas primeyras Auróras da esperança, - Deo nos laços de amor doces enganos, - Do vendádo rapaz linda vingança; - Mas os golpes da Parca deshumanos - A belleza por flor em flor alcança, - Exprimentou na sempre amarga sorte - Por maõs do Deos do amor armas da morte. - - -VII. - - Eraõ gentil emprego a seus cuidados - As finesas de Pedro, que a beldade - Nelle soube trazer aprisionados - Sceptro, corôa, vida, e liberdade: - Entre ambos tinha amor já taõ ligados - Os soltos alvedrîos da vontade, - Que foy nelles baldado, e foy perdido - Nascer Antéros por crescer Cupido. - - -VIII. - - Mas oh tyranna dor amor inventa! - Forçosa foy de Pedro a dura ausencia, - Atropos da alma, que da pena isenta, - Nella sabe sentir mortal violencia: - Como preso, partir-se Pedro intenta, - E sente na alma, Ignez, nova inclemencia, - Que quer a sorte, pois amor ordêna, - Onde naõ chega a morte, offenda a pena. - - -IX. - - Quantas vezes, Ignez, no pensamento - Este desár notaste a teus favores? - Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento - Os viste, e vês agora, e verás flores: - Tanto nas affeiçoens, gosto avarento, - Este pesár sentiste em teus amores, - Que naõ posso dizer, que neste emprego - Estavas, linda Ignez, posta em socego. - - -X. - - Entre os braços de Pedro, ardẽte Fragoa, - Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido, - Que multiplîca a dôr, e dobra a magoa - Lograr presente o bem, que he já perdido: - Dos olhos sólta dous chuveiros de agoa, - Oceànos de neve, onde Cupîdo - Quiz da belleza já colhendo as velas, - Chegasse a tempestade até as estrellas. - - -XI. - - Qual em berços de purpura vistosa, - Delicias da manhaã, da tarde empresa, - Dos melindres de flor enferma a Rosa, - Desmayado o verdôr, murcha a lindesa; - Pois a que foy de Abril pompa lustrosa, - Livro do amor, emblema da bellesa, - Perde a graça, por vêr que o Sol lhe talha - Do mesmo carmesim gala, e mortalha. - - -XII. - - Tal do fogo de amor na immensa calma - A côr Ignez perdeo, que amor ordena, - Os desmayos, que tinha impressos na alma, - Trasladasse no rosto a viva pena: - Já despojo da dôr, da magoa palma, - Com respirar de flor, arde Açucena, - Exhála nova dôr ao pensamento, - Em saudosos ays o doce alento. - - -XIII. - - Ay! cadûco prazer, diz lastimada, - Esperança de hum bem, doce tormento, - Ay! que por verde murchas apressada, - Primavéra do amor, da dor portento: - Ay! melindrosa flor agonizada, - Despojado Jasmim de qualquer vento, - Que quando nasce traz na mesma alvûra - Gala, mortalha, berço, e sepultura. - - -XIV. - - Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira - Duas almas de hum peito, oh noite fria! - Oh noite, digo, porque a quem suspira, - Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia: - A bocca, de que hum _ay_, outro _ay_, retira, - Jà cansando, mais bayxo repetia, - Paray Senhor; mas hum soluço ardente - Suffóca o _par_, repete o _ay_ sómente. - - -XV. - - Paray, torna a dizer, meu gosto amado, - Gloria desta alma, em quanto gloria tinha; - Mas ay alivio meu! ay meu cuidado! - Como podeis parar, se gloria minha! - Mas se destîna o Céo, e manda o Fado - Esta alma castigar, que amor mantinha, - Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene, - Mais almas tenha, porque assim mais pene. - - -XVI. - - Mas naõ, que he contra amor esta porfia: - Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado: - Muitas almas naõ quero, que sería - Repartir o tormento a meu cuidado: - Mas se a pena permitte a companhia - Nesta ausencia cruel, oh triste Fado! - Antes que a dor ma roube da partida, - Levai-me, vida minha, a minha vida. - - -XVII. - - Só com vosco, Senhor, irá segura, - Sem que mortal achaque lhe aconteça; - Porque talvez do Fado a sorte dura - Fóra deste meu peito a desconheça: - Nem poderá temer minha ventura, - Que sombra de pesar vos entristeça; - Pois farey no tormento mais esquivo - Correr por conta da alma o sensitivo. - - -XVIII. - - Se só para viver na ley de amante - Forçosa seja a vida repetida; - Ay! Senhor, que naõ póde ser bastante - Para viver ausente huma só vida: - Porém se amor de vidas taõ possante, - Huma nos deo para ambos repartida, - Postoque a dôr entre ambos se accommóda, - Melhor vos partireis levando-a toda. - - -XIX. - - Cá me fica outra vida, que naõ passa, - Com que padeça morte repetida, - Que quer amor tyranno, que renaça - Huma vida das cinzas de outra vida: - Que como taõ crueis penas me traça, - Como me traz em fogo convertida, - A acabar, outra Feniz, me condena, - Morrendo em cinzas, renascendo em pena. - - -XX. - - Ah! quem cuidára, amor, que meus amores - Fossem fingidas sombras mentirosas? - Ah! quẽ cuidará, amor, que em teus favores - Fossem mais as espinhas, do que as Rosas? - Mas depois, que triunfo a teus ardores, - Foraõ de Marte as armas generosas; - Taõ guerreyro ficaste, ufano, e forte, - Que bem pódes matar a propria morte. - - -XXI. - - Mas pois forçosamente me condena, - A que vos ausenteis, ah tyrannîa! - Deyxai, deyxai Senhor, deyxai-me a pena, - Porque só della quero a companhia: - Na noite mais escura, ou mais serena - (Que para ausentes nunca nasce o dia) - Chorarey, permittindo-o minha estrella, - Mais do que a saudade, a causa della. - - -XXII. - - Nas remontadas penhas, nas visinhas - (Se restar a meus ays penhasco possa) - Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas, - Minhas se póde ser, sendo a alma vossa: - De meus annos a flor entre as espinhas - Passarey, sem perder esta fé nossa; - Mas antes perderâõ seu bruto alento - O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento. - - -XXIII. - - Mas oh! que he tal a dor de meus retiros, - E taõ firme na ley da tyrannîa, - Que vendo, que me assistem meus suspiros, - Talvez delles me roube a companhia: - Mas inda mais, e mais acérbos tiros - Contra mim fulminar amor porfia; - Pois sem dar attençoens á minha queyxa, - Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa. - - -XXIV. - - Qual quando na manhaã naufrága o dia - Nos undósos crystaes, que o Céo desata, - O Jasmim desmayado se agonîa - Dos acháques da gotta, que o maltrata: - Em desares trocando a galhardia, - Icaro já nas agoas se retrata, - O que lisonja foy taõ prateada, - Se no prado jasmim, nas ondas nada. - - -XXV. - - Tal Ignez já de lagrimas banhada, - De seus olhos gentîs mortaes desares, - Que quiz a natureza acautelada - Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares. - Exhalava de todo agonizada - O suspiro final a seus pesares: - Que com vir entre lagrimas undosas, - Inda na bocca achou maré de rosas. - - -XXVI. - - Já Pedro em fim rendido a seu cuidado, - A dôr quer disfarçar a seu retiro; - Que como o coraçaõ tem já quebrado, - Hum pedaço lhe traz cada suspiro: - E como em fim no peito agonizado - Sente da mortal frecha o novo tiro, - Notando Ignez no pranto de seu rogo, - Exhála em agoa, quanto bebe em fogo. - - -XXVII. - - Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora - Ficar ausente sem partir commigo, - Que se es vida da minha, que te adora, - Na alma te levo por viver comtigo: - Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora, - Supposto que partir-me em fim prosigo; - Que se as almas trocar amor consente, - Nem tu só ficas, nem me parto ausente. - - -XXVIII. - - O corpo só se ausenta, a alma naõ parte, - Que em fim naõ vivo de potencias suas, - Que como me alimento só de amar-te, - Bastaõ para viver memorias tuas: - E porque amor nos tiros, que reparte, - Fulmina contra mim frechas mais cruas; - Quando a vida me rouba, outra me ordena, - Que fora em fim matar-me a menor pena. - - -XXIX. - - Mas nota, Ignez formosa, esta fineza, - A fazer impossiveis offrecida, - Pois que contraminando a natureza, - Teu mesmo amor me mata, e me dá vida: - Mas como amor notou nessa belleza - Os impossiveis só de merecida, - Quiz tomar por razaõ força infallivel, - Obrar por alcançá-la outro impossivel. - - -XXX. - - Bem vês agora, Ignez, como abrasado - Nos vivos holocaustos de meu peito, - Meu coraçaõ consagro a teu cuidado - Em victimas de lagrimas desfeito: - Agora alcançarás, como alentado - Todo me sacrifico a teu respeito, - Pois chega a consagrar-te em viva calma - Sangue do coraçaõ, reliquias da alma. - - -XXXI. - - Sucçeda á Primavera o secco Estio, - Á serena manhaã tarde calmosa, - Seja manso regato, quem foy rio, - Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa: - Seja, quem Cravo foy, cadáver frio, - Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa - Seja tudo á mudança em fim sujeito, - Que amor firme será dentro em meu peito. - - -XXXII. - - Nessas gentîs madeixas da beldade, - Em cuja luz do Sol o Sol se nega, - Onde feito piráta da vontade - Nas crespas ondas sempre amor navega: - Nessas, digo, captiva a liberdade - Em refens minha fé por fé te entrega: - Nellas deixo por fim com meus alentos - Alma, cuidados, vida e pensamentos. - - -XXXIII. - - A Deos delicia minha, a Deos cuidado, - A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente, - Que parta em fim nas magoas sepultado - Se partir posso de mim mesmo ausente: - A Deos, que amor nos tinha decretado - Esta ausencia cruel, forçosa, urgente; - Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo: - A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo. - - -XXXIV. - - Já se remonta Pedro a seus retiros, - E já de morte em morte Ignez discorre, - Que como entrega a vida a seus suspiros, - Quantas vezes suspira, tantas morre: - O coraçaõ sentindo acérbos tiros - Pelos olhos sangrado em crystaes corre; - Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa, - Porque em cada sangria huma alma lança. - - -XXXV. - - Qual na secca vergóntea desfolhada, - Que despojo restou da tempestade, - Se lamenta em requebros lastimada - A casta Rola posta em soledade: - Soluça, pasma, e geme agonisada, - Chora, suspira, anéla em crueldade, - Que seu pesar lhe tem no peito unîdos - Rigores, magoas, lastimas, gemîdos. - - -XXXVI. - - Tal lastimada chora Ignez saudosa, - No seu mesmo tormento sepultada, - Nos desvélos do dia cuidadosa, - Nos descuidos da noite desvelada; - Já se queixa em suspiros lastimosa, - Fórma razoens dos ays agonisada: - Que fez para queixar-se em seus retiros. - Embaixadores da alma seus suspiros. - - -XXXVII. - - Oh! quanto foy de ti teu Pedro amado, - Formosa Ignez, mas inda mais sentido; - Pois sendo grande a gloria de logrado, - Hoje he mayor a magoa de perdido: - Foy teu prazer á pena apensionado, - He teu pesar na pena desmedido: - Entaõ foraõ de Rosas teus favores, - Agora saõ de Lirios teus amores. - - -XXXVIII. - - Já nos braços da Aurora, que assomava, - Renascido chorava o novo dia, - Quando Ignez saudosa entaõ negava - A seu triste pesar a companhia: - A solidaõ do campo se apartava, - Onde só lamentava, e só gemia; - Porque mais no rigor de seus retiros - A piedade faltasse a seus suspiros. - - -XXXIX. - - Entre flores inquire o doce amado, - Presente em cada flor o considéra, - E dando hum breve encanto a seu cuidado, - Busca nas flores quanto em flor perdêra: - Corre de flor em flor, de prado em prado, - Tópa só magoas, donde gosto espéra; - Que foraõ seu praser: e seus favores, - Perda choradas, quando apenas flores. - - -XL. - - Procûra em cada planta, o que anelava, - Porque no seu tormento engano escolha; - Mas oh! que em seu pesar escrito achava - Liçoens para sentir em cada folha: - Já nas liquidas pérlas, que chorava, - Penhascos, plãtas, prado, e folhas molha, - E na lembrança já de hum bem perdido - Lhe interrõpe hum gemido outro gemido. - - -XLI. - - Qual o menino fica enternecido, - Entre perplexidades pasmadinho, - Quando no verde prado entretenido - Lhe foge o gosto atraz de hum passarinho: - Já soluça, já pasma esmorecido, - Já busca cada flor, cada raminho, - Já melindrosos ays, mimoso alento - Apôs o passarinho leva o vento. - - -XLII. - - Tal Ignez na penosa tyrannia - Entre flores inquire o doce amado; - Mas foy lisonja só da fantasîa, - Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado: - Já queixosa das flores se desvia, - Já nas queyxas diverte o seu cuidado, - E nos alentos da alma, com que espira, - Já soluça, já pasma, já suspira. - - -XLIII. - - Na margem de huma fonte se encostava, - Que já clara correo com seus favores, - E se delles travêssa murmurava, - Em lagrimas agora exhála amores: - Ás plantas, aos penhascos se queixava, - Outra vez já seu mal contava ás flores - Onde nos eccos, que respira o monte, - Suspira o valle, porque chora a fonte. - - -XLIV. - - Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia; - Ay flores! se queyxava enternecida; - Que sendo vossa vida de hum só dia, - Muitas horas contais na vossa vida: - Mas oh! de minha dor mór agonia, - Oh morte em menor vida repetida! - Que como em soledades só discorro, - Nem conto instantes, porque sẽpre morro. - - -XLV. - - E vós Rosas no mimo de huma Aurora - Lograis de vossa adôrno a pompa bella, - Que talvez por firmar vossa melhóra, - Tivéstes no nascer tão boa estrella: - Mas oh! que no pesar, que chóro agora, - Nestes fogosos ays, que o peito anéla, - Escolhe minha estrella em triste forte - Por pena a vida, por lisonja a morte. - - -XLVI. - - Vós plantas, que sentis mudavel erro, - Cifrando em cada folha hum pensamento, - Se Dezembro lamenta vosso enterro - Abril em flor vos dá dobrado alento: - Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro - Eternisa hum rigor meu sentimento; - Pois quer amor na sorte, que me ordena, - Se alimente huma pena de outra pena. - - -XLVII. - - E tû bruto penhasco inhabitado, - Tosco sepulcro de huma clara fonte, - Es agora de flores matizado, - Idolo de crystal, gala do monte: - Mas oh tyranna dor! que meu cuidado - Hoje lamenta o mal, que chorou honte, - Vendo, que teu terror com bruto aviso - Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso. - - -XLVIII. - - Mas oh queyxas paray, paray cuidados, - Paray, façamos tregoas pensamento, - Que dos males talvez communicados, - Póde nascer desar ao sentimento: - Correy da alma pedaços distillados, - Dizey lagrimas minhas meu tormento; - Minhas naõ digo bem, que juntamente - Perdi tudo no bem, que chóro ausente. - - -XLIX. - - Irmanay-vos, correy mais cuydadosas, - Seja vosso correr mais repetido, - Naõ cuideis, que vos choro caudalosas, - Porque deis desaffogo a meu sentido: - Que como nas memorias rigorosas - Vossa causa lamento, que hey perdido, - Se talvez mitigaes hum sentimento, - Naõ tem valôr nas perdas vosso alento. - - -L. - - Oh! corraõ com valor vossas violencias - Por duplicar incendios a meu rogo, - Que naõ fora querer sentir ausencias, - Se vos chorára só por desaffogo: - Que posto deis alivio ás inclemencias, - Naõ podeis dar alivios a meu fogo; - Que como sou das penas avarenta, - Qualquer alivio vosso me atormenta. - - -LI. - - Correy livres, correy, que amor ordena, - Sejais a meu rigor ancia penosa, - Que naõ comprais alivios a huma pena, - Quando chegais a ser paga forçosa: - Que pois amor por força me condena - Tributar-vos por divida custosa; - Mal podeis mitigar o mal, que tenho, - Quando sois do que devo desempenho. - - -LII. - - Naõ me póde obrigar outro motivo, - Se naõ chorar-vos só por naturesa, - Que quer, que seja amor por excessivo - Tributo natural, o que he finesa: - Que como a seu querer sujeita vivo, - Rendida a seu querer captiva, e presa, - Do pranto, que saudosa me convinha, - Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha. - - -LIII. - - Em vós sentir agora mais penosas, - De ser mudas razoens faço argumento, - Que quando naõ chegais a ser queyxosas, - Naõ limitaes a dor ao sentimento: - Que foreis só lisonjas enganosas, - Mas naõ crueis verdugos ao tormento, - Quando na voz queixosa, que formára, - Lastimas a meus ays solicitára. - - -LIV. - - Mais duro sentimento, mais nocivo - No ser da alma pedaços vos confesso, - Pois se levais a parte com que vivo, - A parte me deyxais, com que padeço; - Que como neste mal por excessivo - Repartida minha alma reconheço, - Se levais huma parte naõ pequena, - A vida póde ser, mas nunca a pena. - - -LV. - - Oh! torna atraz arroyo fugitivo, - Alma da penha, coraçaõ do monte, - Torna atraz, que meu pranto successivo - Te fará Rio quando apenas fonte, - Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo, - Detem-te, espera, que meus males conte, - Que vás talvez com prata taõ custosa - Calçar as plantas de huma ingrata Rosa. - - -LVI. - - Se te vás despenhar ambicioso - Por aspirar a creditos de Rio, - Léva meu triste pranto lachrimoso, - Oceâno será teu senhorîo: - Embarga teu correr taõ cuidadoso, - Suspende teu caudal, teu desvarîo, - Que lá terás no már onde te escondas, - Quantas lagrimas levas, tantas ondas. - - -LVII. - - Mas oh! paray razoens, tornay gemidos, - A dor interpretay, que o peito sente, - Que talvez em meus ays por repetidos - Os eccos ouça de quem choro ausente: - Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos, - Ay! quem pudéra amor ter-vos presente! - Mas deyxai-me fallar, talvez que possa - Ouvir na minha voz eccos da vossa. - - -LVIII. - - Aqui, meu doce amor, meu bem querido, - Se me duplîca a dôr ao pensamento, - Pois quando em vós, me falta meu sentido, - Naõ me póde faltar meu sentimento: - Em vós lamenta a dor meu bem perdido, - Em mim renova a dor novo tormento; - Mas creyo, doce amor, que sentir possa - Menos a minha dor, que a falta vossa. - - -LIX. - - Menos dor, menor danno em fim tivéra, - Menos cruel sentira o meu cuidado, - Quando neste rigor, que padecera, - Me podéra esquecer do que hey logrado: - Mas ay! que nesta dor outra me espera, - E hum mal outro me traz apensionado; - Pois chego a padecer em meu sentido - O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido. - - -LX. - - Bem conheço, que posso na lembrança - Vossas prendas lograr, meu doce esposo, - Mas o bem, que se perde na esperança, - Fica, quando lembrado, mais penoso: - Mas nesta triste dor, dura esquivança, - Se me duplica amor mais rigoroso; - Pois só quer meu sentido avincular-se, - Para mais padecer, a mais lembrar-se. - - -LXI. - - Assim chorava Ignez, e assim gemia, - Mas oh tragica dor! rara estranhesa! - Que já tópa nas maõs da tyrannia - Armas sempre mortaes contra a bellesa: - Nas maõs de dous tyrannos já se via, - Entre crueis espadas, tosca empresa! - Mas que Rosa no campo Aurora molhas, - A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas? - - -LXII. - - Paray, detende a furia procellosa, - Paray, paray, detende o bruto alento: - Que contra o fresco mimo de huma Rosa, - Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento? - Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa, - Remonta agora mais teu soffrimento, - Que temo, linda Ignez, teus lindos brios - Accrescentem coraes a tantos fios. - - -LXIII. - - Qual nas tecidas silvas da espessûra, - Labyrintho de espinhas intrincado - Com balîdos se queyxa da ventura - O simples cordeyrinho aprisionado: - Já soluça em melindres com ternûra - Das maternas delicias apartado: - O que mimos achou na branda hervinha, - Acha mortal rigor em cada espinha. - - -LXIV. - - Tal lastimada Ignez troca em gemidos, - Quantas vozes no peito articulava, - Em quanto os dous algoses sementidos - As maõs lhe prendẽ, com que amor matava: - Já fugindo os alentos aos sentidos, - O soluçar as vozes lhe embargava: - Mas oh! que amor lhe deo no pensamento - Razoens ao pranto, voz ao sentimento. - - -LXV. - - Ay tyrannos crueis! oh sorte dura! - Entre suspiros, diz agonizada, - Que delicto commette a formosura, - Com que possa a bellesa ser culpada? - Oh! deyxai-me esta vida em pena escura, - Se me quereis a morte dilatada; - Que nesta triste dor taõ repetida - Menos me mata a morte, do que a vida. - - -LXVI. - - Oh! suspendey sentença taõ penosa, - Mitigay por hum pouco a crueldade, - Que naõ podeis dar morte rigorosa, - Que possa matar mais, que a saudade: - Mas já que minha dôr menos piedosa, - Vos naõ póde causar nova piedade, - Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos, - Unica prenda só de meus sentidos. - - -LXVII. - - Ay! charas prendas minhas taõ queridas, - Reliquias de amor, da alma pedaços; - Ay! como sentireis em mim perdidas - As mimosas delicias de meus braços: - Mas pois naõ póde ser entre homicidas - Lograr, amores meus, vossos abraços, - A Deos, ficai-vos já gostos amados, - A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados. - - -LXVIII. - - Mais quiséra fallar enternecida, - Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte! - Hum tyranno cruel, torpe homicîda, - Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte: - Inclîna o lacteo collo amortecida, - Avassallada já da infausta sorte, - Exhála a vida o corpo de alabastro, - Feneçe amor com Donna Ignez de Castro. - - -LXIX. - - Qual a branca Açucena, que cortada, - Sente do ferro, ou tempo, a crueldade, - Em seu mesmo candôr amortalhada, - Defunta flor em flor na flor da idade: - Á qual ficaõ sómente de engraçada - Os antigos riscunhos da beldade: - Tal fica a bella Ignez amortecida - Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida. - - -LXX. - - Vós agora, troféos da formosura, - Apparencias vitaes de ramalhete, - Colhey as vélas, porque a pouca altûra - Qualquer onda vos mólha o galhardete: - Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura - Acha, se berços, campas no alegrête: - Attentay léve flor, bellesa vaã, - Que he mais antiga a tarde, que a manhaã. - - -~FIM~ - -_da primeyra parte_. - -[Ilustração] - - - - -[Ilustração] - - - - -SEGUNDA PARTE - - -I. - - Ja da fatal tragédia retiradas - As restantes ruinas da feresa, - Ficaraõ só no cãpo idolatradas - Hũas breves reliquias da bellesa: - Ausente Pedro, sem que as mal logradas - Lamentasse memorias da firmêsa: - Taõ dittoso nas magoas se discorre, - Que morre ufâno, sem saber que morre. - - -II. - - Queixosa em fim feneçe a galhardia, - Solicîta queixûmes a ternûra, - Vendo jà no desdem da tyrannia - Menos cruel a Parca, que a ventûra: - Que como qualquer dote se avalia - Por symptôma fatal da formosúra, - Aquella mesma ditta, que entre sortes - Cumûla prendas, mutiplîca mortes. - - -III. - - Á ventura se queyxa, que a beldade - Fosse causa da perda, porque unida - Naquellas prendas da melhor idade, - Fez acabar rigôr, o que era vida; - Mas a Parca tyranna por vaidade - Solicita bellesas advertida; - Porque dellas talvez se naõ cuidára, - Morre fora huma prenda, e só matára. - - -IV. - - Só suspiraõ, só choraõ lastimosas - (Que naõ pára nas queyxas a finesa) - Aquellas, que restaraõ só piedosas - Troyas do amor, reliquias da bellesa: - Aquellas, digo, prendas lachrimosas, - Dous Infantes gentîs, a que naturesa - Deyxou com vida, porque em seu tribûto - Fosse a morte da flor vida do fructo. - - -V. - - Qual nos braços da planta mais visinha - Em roupas de rubîm, cama olorosa, - Sentindo huma lanceta em cada espinha, - Sangrada no jardim fenece a Rosa: - Consagrando-se flor, quem foy Rainha, - Em vivos holocaustos sanguinosa, - De cujas cinzas restaõ por grinalda - Reliquias de ouro em cófre de esmeralda. - - -VI. - - Que pesáres, que penas, que rigores - Amor formáva, cada qual sentia, - Qual nos gemidos soluçando amores, - Em carinhossas magoas confundia: - Qual desmayado no tapiz das flores, - Se recosta trophéo da tyrannia, - Notando aquelle peito, cujo enfeite - Lhe troca em pena, quanto foy deleite. - - -VII. - - Quantas vezes fallando enternecidos, - Em soluços lhe pára o doce alento! - Quantas na voz do monte repetidos - Os saudosos ays lhe torna o vento: - Quantas a ser naufragio dos sentidos, - Se deriva em chrystaes o sentimento; - Pois quer a dor, querendo amor agora, - Chórem dous Soes a falta de huma Auróra. - - -VIII. - - Alentado o rigor, duplîca em tiros, - Se bem globos de fogo, esphéras de agoa; - Naõ resiste Clavêl, que nos retiros, - Naõ morra espûma, e naõ feneça fragoa: - Multiplica-se o vento nos suspiros, - Fogósos rayos lhe despede a magoa: - Já naõ sabe nascêr, nem brilhar Rosa, - Que naõ pasme defuncta mariposa. - - -IX. - - Nem tribûtaõ lisonjas aos sentidos - Nestas mudas razoens, que amor ordena, - Que sujeitos amantes desunidos, - Aquelle, que mais chóra, esse mais pena: - E se lagrimas saõ nos mais sentidos - Almas do coraçaõ, bem se condena - Qualquer a mais sentir; pois he patente, - Que quem mais almas tem, muito mais sẽte. - - -X. - - A solidaõ de Pedro imaginada, - Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos, - Que nem morrêra Ignez, se retirada, - Naõ sentira distante os seus effeitos: - Que como seja amor, muito apertada, - Se gentil, uniaõ de dous sujeitos; - Quando matar hum delles amor trata, - Se desunir os dous hum só naõ matta. - - -XI. - - Assi passaõ da mágoa a ser espanto - Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos, - Narciso cada qual do proprio pranto, - Phaetontes em fim de seus gemidos: - Se foraõ gala da bellesa, em quanto - Eraõ gentîs desvelos dos sentidos, - Lastimas ficaõ já da tenra idade, - Culpas de amor, delictos da beldade. - - -XII. - - Quaes simples avesinhas, que roubadas - Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora, - Dos maternaes alentos apartadas, - Suspira cada qual, cada qual chóra: - As que foraõ do campo idolatradas - Oraculos do Sol, linguas da Auróra, - De si mesmas agora occulta fragoa, - Concebem pena, quando abortaõ magoa. - - -XIII. - - Mas já funesta voz, turbado alento - Por linguas de metal enrouquecido - Formava o Semideos monstro violento, - Gigante pela fama conhecido. - Aquelle, cujo aládo atrevimento - Se remonta veloz, e taõ subido; - Porque nelle talvez o mundo veja - Voarem pennas a pesár da inveja. - - -XIV, - - La fez a túba lastimoso effeito - Nos alentos de Pedro, que em suspiros - Os mais dos eccos lhe interpréta o peito - Dobrando mágoas, renovando tiros: - Quando apenas em fim na dôr desfeito - O coraçaõ se pasma, que em retiros - Suffocado talvez da intensa calma, - Se isentou de correr por conta da alma. - - -XV. - - No combáte fatal deste desmayo - (Lastimoso parenthesis da vida!) - Tribûta vivas ao mortal ensayo, - A sentinella da alma já vencida: - Naõ morre Pedro, naõ, que aquelle rayo - Foy lançada de amor, que repetida, - Se pertende matár, a quem suspira, - Menos o mata, se lhe a vida tira. - - -XVI. - - Assi vivendo morre, quando amante; - Assi morrendo vive, quando ausente; - Que se morre, pois pena por distante, - Vive tambem, pois ama, porque sente: - Mas em fim naõ passâra tanto ávante - Nas finesas amor, que fora urgente - Acabar-se na vida, se roubára, - E taõ fino naõ ser, se naõ matára. - - -XVII. - - Mas quem diria agora o que sentiste - Nesta, Pedro, de amor menos ventura, - Dos carinhos ausente, que já viste - Brotar melindres, produsir brandûra? - Oh! que dirias, Pedro, quando abriste - Aquelles dous conceitos da ternûra! - Os olhos digo; mas amor ordena - Parte das queixas interpréte a pena. - - -XVIII. - - Já no pardo capuz, roupas saudosas - Emmudecida a terra se encobria, - E nos hombros das nuvens tenebrosas - Ataúdes de sombra o tempo erguia, - Consagrando com tochas lachrimosas - Mudas exequias ao defuncto dia, - Dando claros sinaes ao Jovem louro - Em torres de Zaphir os signos de ouro. - - -XIX. - - Quando a favor da vida o sentimento - Novos em Pedro reproduz gemidos, - Sendo sumilher da alma o novo alento, - Que lhe corre as cortinas aos sentidos: - Mas já liquida dôr, claro tormento - Se acredita nos olhos advertidos, - Que quem nas penas solitario mora, - Só lhe resiste vivo, em quanto chora. - - -XX. - - Solicita retîros, em que unidas - Se acreditaõ de finas as saudádes, - Que saõ mais primorosas, se sentidas, - Naõ permittem motivos a piedades: - Tributaraõ labéos de mal nascidas; - A naõ passarem móstra de vaidades, - Quando naõ foraõ mais, que eternisadas, - Solitarias, occultas, retiradas. - - -XXI. - - E já nas solidoens entretenido - Interpréta lisonjas aos cuidados, - Pois vay vendo nas flores advertido - Morraes prendas, alinhos mal logrados: - Mas apenas se lembra enternecido - Daquelles Soes agora imaginados, - Quando já vacilante se discorre, - Aqui pasma, allî geme, acolá morre. - - -XXII. - - Qual Girasol gigante, que atrevido - A beber rayos amoroso aspira, - Se bem, que entre zeloso, e presumido - Desdenha ufâno, temoroso gira: - Mas vendo apenas, que o galân querido - Com disfarces de nacar se retira, - Porque se vê das glorias todo ausente, - Languido pasma, cuidadoso sente. - - -XXIII. - - Em fim rompe nas queixas amorosas - Agora Pedro, quando as vê sentidas, - Que naõ pódem livrar-se de penosas, - Quando sabem fugir a ser ouvidas: - E só discretas saõ, se rigorosas, - As que menos se presaõ de entendidas; - Que já por isso Pedro se as pertende, - He só porque a si mesmo naõ se entende. - - -XXIV. - - Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada! - Minha te chamo, quando assi perdida, - Que se naõ tens as veras de lograda, - O desár naõ padeces de esquecida: - Como gloria maltratas, se lembrada? - Como molestas gloria possuida? - Na pósse logras ancias de fallivel, - Na memoria rigores de impossivel. - - -XXV. - - Como soube deixar-me assi frustrado - Este rigor, que gloria se habilita, - Quando me fez mayor, que o mesmo Fado, - Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita? - Quem me disséra então, que este cuidado - Fosse Rosa, que apenas se acredita, - Quando se vê nas maõs da naturesa - Trophéo da dôr, sangria da bellesa. - - -XXVI. - - Ay triste solidaõ! ay pena ingrata! - Quanto menos cruel foras agora, - Se permittindo a magoa, que maltrata, - Naõ roubáras a gloria, que te adóra: - Mas esta dôr naõ fora, que assi mata, - Rigoroso pesár, se assi naõ fora; - Pois naõ se méde o mal de quem suspira, - Pelo que tem, senaõ pelo que tira. - - -XXVII. - - Mas inda mais avante acompanhada - Desta dôr outra pena já me alcança; - Pois na magoa da perda lamentada - Os alivios me rouba da esperança: - Mas como, se naõ fora eternisada, - Maltratára das glorias a mudança? - Que o pesár sem remedio padecido, - Mata porque hade ser, e porque ha sido. - - -XXVIII. - - Nem pódem mitigar esta saudade - Assistencias de amor, porque resiste - Outra nova razaõ da soledade, - Que nas distancias desse amor consiste: - Que como aquelle objecto da vontade - Hoje feito impossivel naõ me assiste, - Sendo vinculo amor entre subjeitos, - Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos. - - -XXIX. - - Só deixára de ser eternisada - Esta dor, mas só fora divertida, - Se a memoria da pena imaginada - Naõ passára a ser pena padecida: - Só razão de praser, quando lembrada, - Essa gloria tivera, que he perdida, - Se sendo assi passada na lembrança - Soubéra ser futûra na esperança. - - -XXX. - - Nem queixumes de lagrimas sentidas - Alivios pódem ser nesta saudade, - Que sendo partes da alma desunidas, - Saõ causas naturaes da soledade: - Porque quando nos olhos advertidas, - Procuraõ fugitivas liberdade, - Aquella mesma vida, que me alenta, - Tambem nellas partida se me ausenta. - - -XXXI. - - Oh quem me déra já ser assistido - Dos penhascos talvez, que o monte cria! - Mas quem naõ tem razoens para sentido, - Naõ póde ter nas magoas companhia: - E hum rigor por ausencias padecido, - Com nenhuma presença se alivîa; - Que quem nas ancias, que padece hũ triste, - Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste. - - -XXXII. - - E menos me permitte esta esquivança - Ser de vós assistido, lindas flores, - Pois por gentis emblemas da mudança - Jeroglyphico sois de meus amores: - E se produzis glorias na lembrança, - Mal podeis assistir a meus rigores; - Que naõ faz assistencia nos retiros, - Quem motiva principios aos suspiros. - - -XXXIII. - - Nem já, féras, talvez vossa brutesa - Resta para topar branda piedade; - Mas como póde ser, se a naturesa - As noticias vos néga da saudade? - E no fatal rigor de huma tristesa, - Nos efeitos mortaes da soledade, - Naõ póde ser a dor compadecida, - Sem que seja na causa conhecida. - - -XXXIV. - - Nem sereis, avesinhas, no saudôso - Companheiras gentîs a meus retiros, - Que diversos sujeitos no penoso, - Tem diversas as magoas nos suspiros: - E bem se vê, que o mal todo invejoso - Mais a mim, do que a vós fulmina os tiros; - Pois nûm rigôr fatal hum, damno esquivo, - Mais mata o racional, que o sensitivo. - - -XXXV. - - E menos podeis ser a meus sentidos - Deleitoso carinho na saudade, - Lisonjeiros arroyos, que atrevidos - Solicitaes dos olhos a vaidade: - Mas como? se a meus ays, e a meus gemidos - Multiplicaes melhor a soledáde; - Pois em vós retratado, e descontente, - De mim mesmo me vejo estar ausente. - - -XXXVI. - - Mas ainda assi paray, que se melhora - Nestas lagrimas minhas vosso augmento: - Se professais correntes, como agora - Sabeis livres fugir ao sentimento? - Paray, naõ murmureis, que nisso fora - Muito mais conhecido vosso alento; - Olhay que se condena, ou se aventûra, - A naõ fazer remansos quem murmûra. - - -XXXVII. - - E vós paray nas queixas amorosas, - Galantes cortesans da soledade, - Que naõ fazeis os pontos de queixosas - Quando dais tantas falsas na saudade: - Paray, digo, a meus ays, paray piedosas, - Paray nos quebros, tende a liberdade, - Aprendereis a ser nestes retiros - Hum Féniz cada qual de meus suspiros. - - -XXXVIII. - - Paray gentîs emblemas da vaidade, - Flores, digo, paray, paray saudosas, - Naõ bebais presunçoens, que a pouca idade - Sereis de meus incendios mariposas: - Aprendey dos alinhos da beldade, - De vossa vida, digo, a ser piedosas; - Que sempre foy nas regras da ternûra - Muy capaz de liçoens a formosura. - - -XXXIX. - - Paray féras tambem nesses ruidos, - Guardas do monte, archeiros da ferêsa, - Fazey caso das penas, que os bramîdos - Argumentos parecem da brutêsa: - Isto basta, paray, que os entendidos - Pódem talvez notar vossa estranhesa: - Minhas queixas ouvi, que alivio fora, - Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora. - - -XL. - - Paray broncos penhascos, que o Céo cria - Para pardos Atlantes dos retiros, - Se vos vence huma liquida porfia, - Como já resistis a meus suspiros? - Mas oh! que digo! páre a covardia, - Exhále o peyto, multiplique os tiros, - Duplîque amor, e dobre o sentimento, - Agoa nos olhos, nos suspiros vento. - - -XLI. - - Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo - Undósa parte, derretido alento, - Se liquida sangrîa ao desaffogo, - Lisonjeira lancêta ao sentimento: - Se excessivo queixúme, ardente rogo, - Se verte em nuvem, se distille em vento, - Naõ fique planta, que a pesár do espanto, - Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto. - - -XLII. - - Sejaõ linguas dos olhos mudas agoas, - Intérpretes da dor tristes retiros, - Eloquencias do peito vivas fragoas, - Razoens do coraçaõ ternos suspiros, - Rhetóricas da pena ardentes magoas, - Elegancias de amor dobrados tiros: - Emmudeça a razaõ, que só parece, - Sabe tambem sentir, quando emmudece. - - -XLIII. - - Distille o coraçaõ, duplique o vento - Ethnas a seu pesár, agoas ao rogo; - Morra por glorias de seu mesmo alento - Troya nas ondas, e Narciso em fogo: - Incendios solicîte ao sentimento, - Diluvios multiplìque ao desafogo, - Sendo de seu rigor o mesmo ensayo, - Nas causas nuvem, nos effeitos rayo. - - -XLIV. - - Naõ cresça lirio, que naõ sinta os tiros, - Clavél naõ gire, que naõ pasme em fragoas; - O que Féniz naõ for entre os suspiros, - Morra já Faetonte sobre as agoas: - Sejaõ vozes as magoas nos reriros, - Que melhor nos retiros se ouvem magoas, - Se se póde na dor, que amor ordena, - Ouvir a magoa sem sentir a pena. - - -XLV. - - Naõ reste planta, que se atreva a tãto, - Que naõ murche dos ays enternecidos, - Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto, - Se naõ séque ludibrio dos gemidos: - Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto - Lastimosos naufragios dos sentidos; - Seja neste pesár, nesta esquivança - Charybdes da alma o Cabo da esperança. - - -XLVI. - - Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade, - Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento, - A naõ serem Jasmins na brevidade, - Naõ seriaõ Perpetuas no tormento: - Só tu terrivel ancia da saudade - Eternizas agora o sentimento; - Porque quando matar-me amor ordena, - Me deixas vida, com que o corpo pena. - - -XLVII. - - Quem soubéra cuidar, que a mais crescida - Tyrannîa cruel da dor mais forte - Fosse, quando nas perdas de huma vida - Impossiveis sentisse de huma morte: - Mas he rigor da magoa repetida - Por industria fatal da iniqua sorte; - Porque quando talvez matar-me trata, - Por topar-me sem vida, naõ me mata. - - -XLVIII. - - E se fora da vida roubadora - Esta sorte fatal, tormento esquivo, - Tivera só por pena matadora - Qualidades de grande no intensivo: - Mas naõ, que como amor pertende agora - Cumulár intensoens ao sensitivo, - Naõ quer, que amor me mate, pois durára - Muito menos a pena, se matára. - - -IL. - - Agora alcançarás, prenda querida, - Os rigores de amor na minha sorte, - Pois agora me quer roubar a vida, - Só por ma naõ tirar primeyro a morte: - Mas ay! que a pena se duplîca unida: - Mas ay! que a magoa se eternisa forte; - Pois que vejo na dor do mal esquivo, - Que naõ posso morrer, porque naõ vivo. - - -L. - - Mas agora na pena, que me entrega, - Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira, - Que padeça na morte, que o mal nega, - E que pene na vida, que amor tira: - Aqui verás, Ignez, a quanto chega - Esta pena de amor, que amor, conspira; - Pois agora naõ sey, no que discorro, - Se vivo ausente, nem se ausente morro. - - -LI. - - Mas em fim: que me queixo dos rigores, - Com que talvez amor me tyrannisa, - Quando mais martyrisaõ seus favores, - Onde qualquer lembrança os eternisa: - Pois quando apenas se alentaraõ flores, - Passaraõ quasi flor, que se agonìa; - Por isso a minha queixa mais se ordena - A sentir seu desdem, que a minha pena. - - -LII. - - Oh duro amor! oh fragoa dos gemidos, - Prisaõ da vida, Argel da liberdade, - Martyrio da alma, guerra dos sentidos, - Encanto doce da melhor vontade! - Teus favores só foraõ conhecidos - Por gentîs prendas da mais tenra idade, - A naõ serem primeyro teus favores - Seccas espinhas, que animadas flores. - - -LIII. - - Que cuidados naõ causas Jovem cego? - Que rigores naõ dás ao pensamento? - Que delicias naõ roubas ao socego? - Que lisonjas naõ finges ao tormento? - A que peitos naõ dás custoso emprego? - A que vida naõ tiras doce alento? - De que genios naõ reinas? de que idades? - De que prendas gentìs? de que beldades? - - -LIV. - - Quem me disséra, quando Ignez lograva - Nos carinhos gentîs de seus favores, - Quando nelles amor idolatrava, - Para poder talvez morrer de amores! - Quem me dissera, logo, que aspirava - Hum cadúco praser a taes rigores! - Quem me disséra então, que da ventura - Era mortal delicto a formosura! - - -LV. - - Quem disséra, que os laços de alvedrios, - Gentîs madeixas, onde a naturesa - Repartio liberal por tantos fios - Os melhores extremos da bellesa, - Esses agora, que acabarão brios, - Se arrastão já bandeiras da tristesa? - Mas que muito, se nunca em seus ensayos - Nenhum por Louro se isentou de rayos. - - -LVI. - - Oh bem, que pouco duras possuido! - Só logras algum ser, quando esperado; - Nos molestos receyos de perdido - Tyrannizas o gosto de alcançado; - Oh sonhada lisonja do sentido! - Oh mais terrivel ancia do cuidado! - Flor, que apenas se vê, quando se chora - Enteada do Sol, filha da Aurora. - - -LVII. - - Aquelles olhos donde o Sol furtava - Os melhores thesouros da vaidade, - E em lusidas capellas consagrava - Dous altares Amor a huma beldade: - Aquelles, cuja luz interpretava - Os occultos archivos da vontade, - Estes mesmos erarios da bellesa - Deixa a perder de vista huma feresa. - - -LVIII. - - Oh debil gloria lisonjeiro ensayo! - Babél da vida, lingua do escarmento, - Desfeita sombra do mais breve rayo, - Quebrado vidro da mais tibio vento: - Jasmim, que pasma de qualquer desmayo, - Cravo, que morres de teu mesmo alento! - Oh gloria humana! em fim gloria sonhada, - Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada. - - -LIX. - - Aquella bocca, donde a mais lustrosa - Se divisava purpura incendida, - Em quem se vio nascendo a bella Rosa - Com menos folhas, quando mais partida - Agora só se occulta lastimosa - Em desmayos de neve amortecida; - Mas que prenda não tem que formosura, - Muito menor a vida que a ventura! - - -LX. - - La pretende nascer Cravo lusido, - Mas em casa gentil botão fechado; - Porque aquella manhaã, que o vê nascido, - O chorasse primeyro amortalhado: - Quem, ô purpurea flor, taõ presumido? - Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado? - Que lhe chegue a tecer a naturesa - A mortalha primeyro, que a bellesa. - - -LXI. - - Aquelle brando afleyo da ternûra, - Aquelle doce Argél da liberdade, - Aquelle emblema só da formosura, - Aquelle bello encanto da vontade, - Aquelle gentil pasmo da ventura, - Aquelle rico erario da vaidade, - Nos alinhos se vê já confundida, - Troféo da morte, lastima da vida. - - -LXII. - - Que pouca duraçaõ, que mal segura, - Tem nas prendas da vida huma bellesa! - Só vive em quanto nasce a formosura, - Espira, em quanto vive a gentilesa: - Em fim, mais morre, quãto em fim mais dura, - Mortalidades traz por naturesa; - Quanto mais alentada, e mais lusida, - Mais accidentes logra, e menos vida. - - -LXIII. - - Mas se saõ melindrosa enfermidade - Prendas de amor, e dotes de huma vida, - Que muito, bella Ignez, que essa beldade - Fosse de teus alentos homicida: - Comtigo a morte foy no Abril da idade, - Menos ambiciosa, que atrevida, - Sem reparar, Ignez, que teus rigores - Perdessem fructos por cortarem flores. - - -LXIV. - - Mas viveràs, Ignes, que amor ordena - Nestas memorias, donde a tyrannia - Por naõ lograr-se mal a minha pena, - Debuxàra melhor tua galhardia: - Aqui veràs, Ignes, se me condena - Amor, que por tyranno se avalia, - A fazer impossiveis, pois discorro - Viver lembrado, quando auzente morro. - - -LXV. - - Morra no ramalhete flor cobarde - A que Rosa nasceo mais alentada, - Vomitando rubins pague na tarde - Quantas perolas bebeu na madrugada: - Seja bruto fiscal de tanto alarde - O mesmo dia, que a chorou cortada, - Que nenhuma manhãa, nem tarde temo - As contas tomar possa a tanto extremo. - - -LXVI. - - Aqui passo tal vez a mais quererte, - Onde chego mais fino a mais lembrarme, - Porque foraõ distancias de naõ verte - Incentivos quiçà para olvidarme: - Mas nem topo motivos de perderte - Nesses teus infalliveis de deixarme, - Que, sendo vida minha, sò pudera - Por perdida julgarte, se eu morrera. - - -LXVII. - - Assim se queixa Pedro, quando ausente - Daquellas prendas nunca esquecidas, - Pois amor, que lembradas as consente, - As pintou bellas, quando as vio perdidas; - Quando nas pennas, que dobradas sente, - Quando nas queixas, que repete unidas, - Jà desmayando pasma, porque ordena - A mesma queixa, que se calle a penna. - - -LXVIII. - - Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde, - Quando fragoas se alenta, incendios gyra, - Funesta tumba de seu mesmo alarde, - Bebendo rayos, abrazado espira: - O que roxo matìz a pennas arde, - Parda nuvem murchando se retira, - Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo - Lhe corre galas para novo ensayo. - - -LXIX. - - Assim Pedro se pasma, e naõ consente - Os sentidos queyxumes, que derrama, - Que se vive queixoso quem mais sente; - Poem limite nas queixas quẽ mais ama; - Mas aqui lhe concede amor presente - Aquellas prendas, com que mais o inflãma, - Que saõ talvez motivos do socego - As memorias gentis do doce emprego. - - -LXX. - - Agora, humanas prendas, se entendidas - O desdem desprezais da infausta sorte, - Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas, - Que naõ saibaõ passar àlem da morte: - Attentay, se notardes advertidas, - Que naquelle de amor rigor mais forte - Aconteceo da misera, e mesquinha, - Que depois de ser morta foy Rainha. - - -~FIM~ - -_Da segunda parte_. - -[Ilustração] - - - - - PARTE UNICA, - - OU - - TERCEIRA - - DAS - - SAUDADES, - - E - - SENTIMENTOS - - DE - - D. MARIA - - DE LARA. - - - - -[Ilustração: _No grande sentimento, que teve da prizão se seu -esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas -lagrymas._] - - - - -_Choray, sem descançar, olhos cançados._ - - -GLOZA I. - - Pois fostes olhos meus por quẽ mereço - Da culpa o perdaõ que busco, e quero, - Instrumento do mal que hoje padeço, - Tambem o podeis ser do bem que espero: - Jà de meus altos pensamentos desço, - A vil estado humilde, duro, e fero, - E jà que os males meus por vos saõ dados - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -II. - - Mortiferos enganos procurastes, - Dos quaes muy graves damnos padeceis, - E pois de ver o mal nunca cansastes - De chorar pelo bem nunca canseis: - E já que os grandes bens que eniquilastes, - Por quem vòs suspirais, por quem gemeis, - Chorando poderaõ ser renovados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -III. - - Das agoas que de vós estaõ manando - Fazey hum rio claro, hum rio manso, - Que eu folgo de vos ver cançar chorando - Pois chorando ganhais vosso descanço; - Nas cousas em que vos hides cansando - Nessas me alegro, e eu nessas descanço, - E pois nos faz o choro descançados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -IV. - - Choray naõ descanceis, pois que ganhais - Chorando quantos bens aqui perdestes; - Póde ser, que nas agoas, que chorais, - Laveis as nodoas grandes, que fizestes: - Choray as grandes magoas, que me dais, - Pelo gosto, que vós sem mim tivestes: - Choray males presentes, e passados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -V. - - Tantas agoas de vós sejaõ lançadas, - Que affoguem vossos torpes desvarîos: - E posto que estas agoas saõ salgadas - Por ellas se navéga a doces Rios: - Soffrey, por ver-des culpas affogadas, - Tempestades crueis, calmas, e frios; - Choray, se dezejais ser perdoados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -VI. - - Acîma desta terra tem subido - As agoas do diluvio taõ sómente; - Porém as vossas poucas tem-se erguîdo - Encima deste Céo mais eminente: - E lá movendo estaõ com seu ruido - A Deos, Senhor Supremo, Omnipotente; - E se delle quereis ser muito amados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -VII. - - Produzem temporal, terrestre fruto, - As agoas, que os Céos daõ no duro inverno; - Porém o vosso choro, sem ser muito, - Produz fruto celeste, e sempiterno: - Nunca de vós o campo esteja enxuto - Chorando o mal antigo, e o mal moderno; - Choray, seráõ os males desterrados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -VIII. - - As agoas, que vós vedes ir correndo, - Que parece que vaõ de vós fugindo, - Por natureza vaõ ao mar descendo, - As vossas por virtude a Deos subindo, - Humas chegando ao mar, vaõ-se perdendo - As outras ante Deos ficaõ assistindo: - E se quereis de Deos ser estimados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -IX. - - As agoas que das fontes vaõ manando, - Fazem na terra vil vozes terréstes; - Porém estas, que vós ides chorando - No Céo Empyreo saõ vozes celestes: - Chovey, olhos, chovey, iraõ brotando - Os bens, que cõ a secura aqui perdestes; - Os quaes se desejais ver restaurados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -X. - - Com muitas agoas cá vay-se apurando - Qualquer pequeno vaso estando immundo; - Mas vós com bem pouca agoa estais lavando - Immunda culpa, mór que o mesmo mũdo: - Por isso naõ canceis de estar chorando, - De lagrimas fazendo hum mar profundo; - E pois por ellas sois galardoados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -XI. - - As agoas cá vaõ só satisfazendo - A sede aos animaes, que as vaõ gostando; - Mas estas, que de vós estaõ nascendo - A vosso Deos a sede estaõ matando: - Sempre estejaõ de vós agoas correndo, - Pois por ellas o bem vem navegando; - Do qual se quereis ser certificados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -XII. - - Ninguem se afogarà se naõ lançado - Em agoas que o possaõ estar molhando, - Mas vòs sem que molheis vosso peccado, - O afogais nesta agoa que ies chorando: - E pois tendes o mal jà desterrado, - E os bens por vossas agoas vaõ entrando - Atè que os possais ver desembarcados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - -XIII. - - Choray os annos uteis que gastastes, - Choray o rico tempo que perdestes, - Choray os bens divinos que deixastes, - Choray males crueis que cometestes: - Choray enganos vãos que tanto amastes, - Choray conselhos bons que aborrecestes, - Choray olhos no bem jà melhorados, - _Choray, sem descançar, olhos cançados_. - - - - - OITAVAS CONSOLATORIAS - - _Sobre o mesmo pezar_. - - -I. - - Ainda que a dor da razão priva, - Quãdo a causa della he muito amada, - Ainda que a paixaõ prende, e cativa, - Os discursos de huma alma atormentada. - A fé que sobre a mente he bem que viva, - Pois anda sobre os Ceos alevantada, - Dos males que sentis, e dos que vedes, - Vos consola com os bens, que por fé crédes. - - -II. - - O Deos, centro das almas, guia, e norte, - Por quem cada qual dellas he regidas, - Fez que esta nossa vida fosse morte, - Depois que sua morte fez a vida: - Assim quem vive mais tem peor sorte, - Pois que padece morte mais comprida, - Porq̃ naõ logra mais quem tem mais annos, - Mas quem mais annos tẽ, sofre mais dãnos. - - -III. - - Aquelle puro espirito encastoado; - No delicado corpo que vos vieis, - Sò consentia ser de vòs amado, - Porque o divino amor lhe consentieis; - E pois que Deos aos Ceos o tinha dado, - E vòs só do emprestado possueis, - Porque haveis de chorar de ver que Deos, - Da terra quer levar o que he dos Ceos? - - -IV. - - Tanto o amador melhor padece, - O trabalho por mais duro que seja, - Quanto delle o pezar mais enriquece, - A cousa que mais ama, e mais deseja. - Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse, - Naõ quer que a terra indigna mais a veja, - Possa mais o seu bem para alegrar-vos, - Do que pòde esse mal para cançar-vos. - - -V. - - He tençaõ do amor à razaõ dada, - Que os bens que busca ainda em seu perigo, - Mais saõ para os dar à cousa amada, - Que naõ para logralos sò comsigo: - Pois se estes a que esta alma foy chamada, - Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo, - Folgay de carecer da parte vossa, - Porque ella a parte, e o todo lograr possa. - - -VI. - - Quem vive no terrestre Purgatorio, - Vive para ir gozar de hum bem eterno, - E em quanto tinheis nella o transitorio; - Em tanto naõ tinha ella o sempiterno, - Pois se he ponto de fé, claro, e notorio, - Que acaba o bem antigo, e o bem moderno, - Se lhe querieis bem, num bem está posta, - No qual todos os bens possue, e gosta. - - -VII. - - Mas vòs a quem a dor custa mais caro, - Direis do damno della atormentado, - Que naõ chorais da esposa o rico amparo - Mas que chorais a vòs desamparado. - Porèm sabendo Deos que era muy raro, - Poder viver sem amar, e ser amado, - Amar sua belleza vos convida, - E quer que vendo a morte, ameis a vida. - - -VIII. - - Porque este autor de toda a formosura, - Movido da feição, não de rigor, - Vos tira dante os olhos a pintura, - Porque ponhais os olhos no pintor; - O casto amor que tinheis foy figura, - Do real, verdadeiro, e puro amor, - Que se Deos vos tirou cousa tào bella, - Foy por vos dar a si que o he mais que ella. - - -IX. - - As cousas que da terra vaõ passando, - Que nòs andamos nella pretendendo, - Naõ saõ para os lograr nellas parando, - Mas para Deos por ellas irmos vendo; - Assim esta que vos hieis amando, - Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo, - Que no humano amor vos enssayasseis, - Porque o divino amor representasseis. - - - - - OITAVAS - - _Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a - liberdade de seu marido._ - - -I. - - He muito natural de quem carece, - Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza, - Louvalo a quem o tem, porque conhece, - Que louvado se ama, estima, e preza: - E como bens mais altos appetece, - Toma de mòr estado, mòr empreza, - O bem que desprezou esse festeja, - E o bem que naõ alcança, esse deseja. - - -II. - - Na corte em que morais louvais a fonte, - O monte, a solidaõ, bosque cerrado, - Da qual muito dizeis do prado, e monte, - Mas muyto mais se vè no monte, e prado; - Por mais que ninguem diga, e mais que cõte - Naõ fica ditto nada, nem contado, - Porque he o que se diz morta pintura, - E o que se vè real viva figura. - - -III. - - Eu cà no monte moro, e naõ com elle, - Vòs na corte morais, mas he com ella, - Quem logra o monte logra o doce delle, - Quem sofre a corte sofre o agro della: - Diga a corte do monte o bem que ha nelle, - Diga o monte da corte o mal que ha nella, - Porque he regra direita de amizade, - Que pague huma verdade outra verdade. - - -IV. - - Ahi por dar calor a huma esperança, - Que com dadivas grandes só aquenta, - Se perde o que se tem, e naõ se alcança, - Se naõ o que molesta, e que atormenta; - Ahi se peza tudo em tal balança, - Que na maõ desigual só se sustenta, - E com taõ maõ fiel que o mais pezado, - Contra direito tràs mais levantado. - - -V. - - De palavras se faz rica almoeda, - Que deixaõ pobres sempre os compradores, - Onde comprais cõ tempo, e cõ a moeda, - As esperanças vãs aos vendedores; - Gastais a vida, o pam, o pano, e a seda, - Desejos só vos daõ como penhores, - Que cada qual por grande preço empenha, - A quem, ou gasta o tempo, ou desempenha. - - -VI. - - Ahi onde repousa a esperança, - A sombra da infamia, e da deshonra, - Onde a vosso pezar anda a privança - Taõ alta que os pès tras sobre a honra: - Ahi onde se tira o ferro à lança, - Que seu dono levanta, louva, e honra, - Onde os merecimentos se escurecem, - Com fantasticos lumes, que apparecem. - - -VII. - - O fim da pertençaõ he duvidoso, - E o trabalho della sempre he certo, - Mas se o mal vos afasta, que he penoso, - O apparente bem chegarvos perto; - O dezejo do fim traz-vos mimoso, - Molesta-vos porèm o vello incerto, - E se sabe a proveito o falso engano, - Depois de experimentado sabe a damno. - - -VIII. - - Ahi onde se vem com liberdade - Andar todos os doudos desatados, - Aquem, ou a sciencia, ou dignidade, - Por mal de quem os vè tras embuçados, - Detras da vã mentira anda a verdade, - Para poder falar com os mais privados, - Ahi vos he pezado, mas forçoso, - Rogar, fingir, temer, e estar queixoso. - - -IX. - - Rogar a peito duro, e empedernido, - Que só com metais ricos se quebranta, - Em que lançais algum, mas taõ perdido, - Que nem pode ser situ, nem ser manta, - Rogar por termo humilde, mas fingido, - Que vos abate avòs, outrem levanta, - Rogo que faz Senhor, ao que he ouvinte, - E ao que roga faz pobre pedinte. - - -X. - - Fingir, andando sempre atormentado, - Para o alheyo bem grande alvoroço, - Fingir que desejais de ser creado - De quem pudera ser creado vosso: - Fingir alegre rostro, a rostro irado, - Que vos desejais ver sem seu pescoço, - Fingir palavras vãs tintas com cores, - Que sendo ellas de fel, pareçaõ amores. - - -XI. - - Temer que seja falsa a esperança; - Que tanto tarda, cansa, e tanto custa, - Temer que os bens, que a fama vos alcansa, - Vos negue a Corte ingrata, dura injusta, - Temer que este temor que tanto cança, - Seja da esperança a paga justa, - Que sejaõ os cortesaõs prometimentos - Sem nenhuma largura comprimentos. - - -XII. - - Estar queixoso de ver quanto alcançaraõ, - Os que parios em paz nunca correraõ, - Queixoso de ver bens que transbordaraõ, - Fóra dos que estes bens naõ mereceraõ, - Queixoso de ver que inda naõ pagaraõ, - Serviços que fiados se fizeraõ - Queixoso porque o mào sem seu trabalho, - Faz bigorna do bom, faz de si malho. - - -XIII. - - A terra em que repouso, em que descanso, - Na qual livres cuidados apascento - Cento me dà por hum, que nella lanço, - A corte davos hum, lançais-lhe cento, - Compra-se cà com gosto o que he descanso; - Comprais lá cõ desgosto o que he tormento, - O bem que tem o monte nunca o nega, - O mal que tem a corte, sempre chega. - - -XIV. - - Depois que o mundo vão experimẽtastes, - Depois de ser por sorte despachado, - Me diz que vos deraõ, e o que gastastes, - E achais que o que trazeis que foy comprado, - Sabeis quã caro em fim tudo comprastes - Na corte, que vos tem desenganado, - Na qual quando as merces saõ muito largas, - Despachaõ só com cargos, que saõ cargas. - - - - - OITAVAS - - _Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro - de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir, - segundo as pennas, que à acompanhava._ - - -I. - - Ficay esteriles campos, calvos montes, - Incultas serras, tristes arvoredos, - Ribeiras seccas, peçonhentas fontes, - Medonhos valles, asperos rochedos; - Ficai mal assombrados orizontes, - Parados rios, desiguaes penedos, - Que jà me naõ vereis como me vistes, - Inda que o ser mudeis de serdes tristes. - - -II. - - Meus sentidos trouxestes jà fechados, - Que agora sem vos ver já trago abertos, - De ouro, e de azul vestistes meus cuidados, - Mas agora os vereis de dò cubertos; - Se os vistes andar sempre acompanhados, - Metidos os vereis pelos desertos, - Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ - E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ. - - -III. - - Sempre senti pezar, nunca alegria, - Nunca em vòs descançei, sempre cançava, - O bem que achava em vòs, de mim fugia, - Mas se me achava o mal, em mim parava: - A treição me dava, e me feria - Se delle por diante me escuzava, - Notai deste meu mal este segredo, - Que sendo matador, he falso, e tredo. - - -IV. - - Em vós todos os bens vi contrafeitos, - Cujas internas formas eraõ dores, - Em vós topey pastores lobos feitos, - Porém ainda em trajos de pastores; - A estes procureis, e vãos respeitos, - Dos bens alheyos vi destruidores, - Gostando só do mal que entaõ causavaõ, - E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ. - - -V. - - Mais feroces, que lobos, pois que querem - Sustentar-se dos males, que causarem: - Que os lobos mataõ gado por comerem, - Mas estes só matavaõ por matarem; - Sómente se recream em offenderem, - Os que mais suas leys contrariarem, - Porque a contradicçaõ faz inimigos - Daquelles, que antes della foraõ amigos. - - -VI. - - Nenhum seu proprio estado já respeita - E trazem nas aldeas em que moraõ - Rebuços de virtude contrafeita, - E rostos naturaes do mal que adoraõ: - Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita, - E em todas por seu mal sempre peòram, - Taõ amigos do bem, que vivo o enterram, - E taõ destros no mal, que nunca o erraõ. - - -VII. - - De Astioge se diz que aborrecia - A Cyro moço tenro, e delicado, - A quem morte cruel traçava, e ordia; - Porque era pretensor do seu Reynado; - Porém o odio destes naõ se cria, - Por enveja, ou temor demasiado, - Sò com odio do bem, o bem perseguem, - Por seguirem o mal, que todos seguem. - - -VIII. - - Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo, - Quem me importuna, turba, e desordena, - Se a cegueira que tem he seu castigo, - E sua mà vontade he sua pena; - Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo, - Se Deos assim o traça, assim ordena - Que tudo quanto ha, tenha adversario, - E seja o homem de si cruel contrario. - - -IX. - - Saõ estes desliaes adoradores - Da propria vontade cega, e dura, - Que fazem de seus vicios seus senhores, - E só para seu mal mostraõ brandura, - Das sempiternas leys contraditores, - Trazendo destas leys a vestidura, - Amadores do mal, e da mentira, - Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira. - - -X. - - Vestem a perversaõ com sua nobreza, - Querem fazer da noite claro dia, - Sua maldade cobrem, com a riqueza, - Rebução com poder a tyrannia: - Disfarçaõ sua furia em fortaleza, - A vontade cruel julgaõ por pia, - Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ, - E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ. - - -XI. - - Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ - A seus filhos mataraõ por peccarem, - Mas estes mais crueis que os que passaraõ - Querem-lhos inventar para os matarem; - Os bens dignos de premio nunca olharaõ, - Sò vem os males para os castigarem, - E o que he furia cruel digna de espanto, - Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo. - - -XII. - - Falo com reprovados, que abterno - Foraõ por culpa sua condemnados, - Ao fogo abrazador do escuro inferno, - Sepulchro dos que jà saõ reprovados; - Juizo foy divino, e sempiterno, - Que os juizos humanos traz cançados, - Que vivaõ de mistura os escolhidos, - Com os que se haõ de perder, e já perdidos. - - -XIII. - - Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo - Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem, - E póde vir a ser que os que defendo - Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem, - Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo - Senaõ segundo as obras que aparecem: - Porèm a graça de huns naõ he segura, - E nem a culpa de outros sempre dura. - - -XIV. - - O Principe das trevas naõ pretende - Com todos seus vassalos preseguirnos? - Naõ nos deseja mal, naõ nos offende? - E naõ estuda sempre em destruirnos? - Naõ temos nòs a Deos que nos defende, - Se elle quer offendernos, e oprimirnos? - Se nòs sem paixam nossa o desprezamos, - Porque com seus ministros nos cançamos? - - -XV. - - Que ter amigos taes he sorte boa, - Pois saõ occasiões para a vitoria, - Artifices sutis da altiva coroa, - Que Deos costuma dar na eterna gloria; - Naõ quero que me cause, ou que me doa, - Trazelos como trago na memoria, - Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina, - Saõ meyos de mayor graça divina. - - -XVI. - - Quem nunca aborreceo o ferro agudo - Com que o barbeyro destro dà a sangria, - Se para o mal que vem serve de escudo, - Lançando à força o mal que havia: - Quem trata mal o instrumento tudo, - Que dente lhe arrancou, que lhe dohia? - Amem-se pois amigos que daõ pena, - Pois Deos meyos os faz do bem que ordena. - - -XVII. - - Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem, - Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ, - Com os males com que os justos enriquecẽ, - Que exercitaõ no bem quando maltrataõ, - A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem, - A si destruem, cansaõ, e disbarataõ, - A quem dos bens alheyos qualquer copia, - Serve de afronta, penna, e magoa propria. - - -XVIII. - - O profeta David Deos defendia, - Do Rey perverso injusto que o buscava, - Saul por huma parte o perseguia, - E Deos por outra parte o sublimava, - Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria, - Destroe Deos o Rey que o invejava, - Quem sofre reyna, quem perdoa alcança, - He o odio do mào a espada, e a lança. - - -XIX. - - Assim que està por ley jà definido, - A qual se tem no mundo publicado, - Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido, - E empena fica o bem quando he passado; - Hum passando deixou triste o sentido, - Outro durando o traz desenganado; - Porque hey de gastar bem que tanto damna, - E temer mal que tanto desengana. - - -XX. - - Assim Deos o permitte, assim o ordena, - Que nesta vida triste, e transitoria, - Com gloria vaã se ganhe eterna pena, - Com pena temporal eterna gloria: - O gosto sempre a alma dezordena, - A penna faz a vida meritoria, - Quando se gosta o bem entaõ escurece, - Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece. - - - - -SONETO. - - - Horas breves de meu contentamento, - Nunca me pareceo quando vos tinha - Que vos visse mudadas taõ azinha, - Em taõ compridos annos de tormento. - As minhas torres que fundei no vento, - O vento mas levou que mas sustinha, - Do mal que me ficou a culpa he minha, - Pois sobre cousas vãas fiz fundamẽto. - Amor com falsas mostras aparece, - Tudo possivel faz, tudo assegura, - Mas logo no melhor desaparece, - Ó grande mal, estranha desventura, - Por hum breve prazer que desfalece, - Aventurar hum bem que sempre dura. - - - - - OITAVAS - - _Que fes a mudança do Mundo no espelho de seu esposo, sobre que -ponderou a variedade delle segundo o discurso, com que glosou o Soneto -186. das Rimas do Principe dos Poetas o Grande Luis de Camões, que fica - na pagina antecedente._ - - -GLOZA I. - - Agora q̃ meu mal trouxe a meu dãno - Mil annos se detẽ hũ duro inverno, - Que quẽ em hum sò momẽto acha hũ anno, - Hum anno lhe parece tempo eterno; - Assim por castigar meu cego engano, - Por quem jà me naõ rejo nem governo, - As horas mudaõ em annos de tormento, - Horas breves de meu contentamento. - - -II. - - O gosto por algum tempo me destes, - Porque vindo o desgosto mais durasse, - Que se no falso bem me detivestes, - Foy por manchar o mal quando chegasse, - Logo me pareceo quando vistes, - Que nunca longos annos vos lograsse, - Mas que fosseis agora a penna minha, - Nunca me pareceo quando vos tinha. - - -III. - - E com me parecer que vos detinheis, - O vosso vaõ soheyto me mostrava, - Ser taõ certa a mudança do que tinheis - Como a posse do bem que entaõ lograva: - Cuidey, ó horas breves, quando vinheis, - Que o tempo por algum tempo vos dava, - Mas nunca presumio esta alma minha, - Que vos visse mudadas taõ azinha. - - -IV. - - Bem podes em breve tempo conhecer, - Que por discurso as cousas vay sabendo, - Que a brevidade occulta do prazer, - Da vaidade delle está nascendo; - Mas como a payxaõ tira o saber, - Naõ pude nesse tempo ir entendendo, - Que vos mudasse o vil contentamento, - Em taõ compridos annos de tormento. - - -V. - - Naõ julga o vaõ juizo apaixonado, - Com segunda razaõ, alta, e profunda, - Que quando o fundamento vay errado, - Errado hade ficar quanto se funda; - Assim para ficar mais magoado, - E porque o erro meu mais se confunda, - Em vento resolveo meu fundamento, - As minhas torres, que fundei no vento. - - -VI. - - Naõ pode ser constante a esperança, - Fundada sobre hum falso pensamento, - Porque a constante, e firme segurança - Procede de ser firme o fundamento: - Por isso vi taõ cedo esta mudança, - Porque as torres que fiz fundei no vento, - E como eu no vento as torres tinha, - O vento mas levou, que mas sostinha. - - -VII. - - Culpa de meu perverso, e vaõ sentido, - Que vendo só mal huma sombra boa, - Mas estimou o mal pelo vestido, - Do que estimou o bem pela pessoa: - Mas posto que me veja hoje perdido, - Em penna que a razaõ tanto magóa, - Como buscar o bem sò a mim convinha, - Do mal que ficou a culpa he minha. - - -VIII. - - Por culpa só morre, e padece, - Quem quer que as armas deu a seu amigo, - Bem mostra que seu mal naõ aborrece, - Quem deste mesmo mal ama o perigo; - Pois logo se a razaõ isto conhece, - Justo tormento foy, justo castigo, - Que tudo me levaste o leve vento, - Pois sobre cousas vãas fiz fundamento. - - -IX. - - Sente o cego amador em seus amores, - A paga do serviço ser o engano, - Converterem-se os bens em puras dores, - Ser o proveito pouco, muito o damno; - Mentirosas lisonjas os louvores, - O fim de seu trabalho hum desengano, - Porém nestas verdades que conhece, - Amor com falsas mostras aparece. - - -X. - - Tudo o que vê cruel, mostra amoroso, - Tudo o que he puro, mal finge bem puro, - Tudo o que certo he, faz duvidoso, - E tudo o que se vay, dà por seguro; - Tudo que doce he, diz que he penoso, - Tudo o que he manifesto, mostra escuro, - Tudo confunde amor, tudo mistura, - Tudo possivel faz, tudo assegura. - - -XI. - - Mostra que pode dar contentamentos, - Aquelle que de taes mostras se fia, - E mostra que he remedio de tormentos, - Instrumento do bem, e da alegria; - Mostra que faz seguros fundamentos, - E que leva segura, e recta via, - Mostra que a vida toda permanece, - Mas logo no melhor desaparece. - - -XII. - - Mas ó razaõ perversa, e infernal, - Pois tens a eleiçaõ taõ cega, e injusta, - Que queres dar hum bem que tanto val, - Por hum perverso mal, que tanto custa: - Que por iguaes teu bem, queiras teu mal, - E que aborreças tanto a vida justa? - Que ames mais que a vida a morte dura, - Ó grande mal, estranha desventura. - - -XIII. - - Nesta alegria falsa, a qual eu douro, - Com minha razaõ torpe, e com meu erro, - Onde as promessas saõ de fino ouro, - E as dadivas saõ de duro ferro; - Trocava o rico preço, e o thesouro, - Que me levava à patria do desterro, - Trocava o eterno bem que permanece, - Por hum breve prazer que desfalece. - - -XIV. - - Sò o torpe juizo, e insensato, - A quem verdades tais saõ odiosas, - Das cousas preza mais o aparato, - Do que preza, e ama as mesmas cousas; - Sò este a quem por falso jà naõ trato, - Pode por falsas mostras, mas fermosas, - Por huma breve, e vãa desventura, - Aventura hum bem que sempre dura. - - - - - OITAVAS - - _Que fez dirigidas a sua magoa, na consideraçaõ do discurso - antecedente; e juntamente mostrando o quanto perturbado tinha com - pennas o seu coraçaõ sobre que glosou o Mote seguinte._ - - _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra._ - - -GLOZA I. - - Naõ pode ser a chama quente, e fria, - Na tempestade estar o ar sereno, - Na noyte escura verse o claro dia, - O fogo abrazador sentir-se ameno, - Acharse na tristeza à alegria, - E poder ser mezinha, o que he veneno, - Naõ se pòde ajuntar o ceo com a terra, - _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_. - - -II. - - Naõ se acha pelo mar caminho aberto, - A Lua naõ se vè nunca constante, - Nem pode o que he desordem ser concerto, - O preto, o branco ser, hum mesmo instante; - Na incerteza acharse o tempo certo, - Nem ser hum mesmo sabio, e ignorante, - Ninguem na patria fica, e se desterra, - _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_. - - -III. - - Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno, - Ninguem em seu tormento, tem sua gloria - Em seu proveito pode achar seu damno, - E sua destruiçaõ sua victoria, - Naõ mora o desengano, no engano, - Naõ he a vida eterna transitoria, - Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra, - _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_. - - -IV. - - Naõ pòde ser prudente o vicioso, - Sollicito, sagaz, o descuidado, - Nem manso pode ser o furioso, - Nem pode estar contente o magoado, - Naõ he o temerario temeroso, - Nem he ditoso o mal afortunado, - Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra, - _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_. - - -V. - - Naõ pode o que he doença ser saude, - O que he prodigo ser tambem avaro, - Naõ pode ser peccado o que he virtude, - O que custa barato, custar caro; - O engenhoso ser grosseiro, e rude, - Aquillo que he commum puder ser raro, - Naõ resplandece o ouro se se enterra, - _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_. - - -VI. - - Naõ he resplandecente o abysmo escuro, - Naõ pode ser traiçaõ, o que he lealdade, - O puro bem, naõ se acha no mal puro, - A mentira naõ pode ser verdade; - O fundamento vaõ naõ he seguro, - Nem pode ser segura a falsidade, - E assim como naõ cabe o Ceo na terra, - _Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra_. - - - - - OITAVAS - -_Que ultimamente fez com grande espirito, quando se vio dezenganada do - mundo, e conheceo a sua variedade sobre que glosou o Mote seguinte._ - - _Salid sin duelo lagrimas corriendo._ - - -GLOZA I. - - Ay Dios, ay alma mia, ay dura suerte, - Ay triste como estoy tan affligida, - Pues que pude peccando dar la muerte, - A quien no puedo dar llorando vida; - Fue ser mi culpa tal, tanta dura, y fuerte, - Que solo de Dios, es bien entendida, - Y pues es tal mi mal que no lo entiendo, - _Salid sin duelo lagrimas corriendo_. - - -II. - - Quien me diera, mi Dios, pues te offendi, - Pues con tanto plazer te he offendido, - Que fuera igual a el mal que cometi - El pezar de tenerlo cometido: - Quien pudiera, Senhor, vengarte en mi, - Por todo quanto bien he destruido, - Mas si llorando el mal en parte imiendo, - _Salid sin duelo lagrimas corriendo_. - - -III. - - Sin ti quizo el mal mi coraçon, - Pero contigo del es levantado, - Pues que para poder darme el perdon, - Me dás arrepentirme del peccado; - Abage-se al profundo la razon, - Pues a Dios de lo alto ha derribado, - Venid suspiros ya, venid saliendo, - _Salid sin duelo lagrimas corriendo_. - - -IV. - - Menos dolor tuviera en la memoria - Del mal, que a tantos males me condena - Si me quitara a mi tan dulce gloria, - Y no te diera a ti tan dura pena, - Mas pues mi culpa yá es tan notoria, - Sea notorio el llanto, que ella ordena, - Y por mostrar que mal me està doliendo, - _Salid sin duelo lagrimas corriendo_. - - -V. - - Holgara ò Dias remedio del engaño, - Que en camino te puzo taõ estrecho - Que ansi como del mal fue tuyo el daño, - Pudiera ser del bien tuyo el provecho, - Pero teniendo de esto el desengaño - Mirando en tu persona abierto el pecho, - Con voz llorosa, y triste ando diziendo, - _Salid sin duelo lagrimas corriendo_. - - -VI. - - Vi la causa del mal quize agradarla, - Ya veo la del bien quiero sentirla, - Miré la falcedad, quize abraçarla, - Yà miro la verdad quiero seguirla; - Si para tanto mal fue desecharla, - Por mucho mayor bien era admitirla, - Y en quanto su ausencia estoy sintiendo, - _Salid sin duelo lagrimas corriendo_. - - - ~FIM~ - - _da Terceira, e ultima parte_. - - [Ilustração] - - - - - VIRTUDES, E VICIOS, - - _Feitas pela mesma Autora à instancia de huma Religiosa devota, as - quaes virtudes augmentaõ as Religoens para melhor servir a Deos Nosso - Senhor sendo-lhe contrarios os vicios que as destroe._ - - -_Humildade._ - - Sempre nos baixos me encerra - A luz que a Deos me prendeo, - Mas quanto deço na terra - Tanto me sobem no Ceo. - - -_Liberalidade._ - - Cubro o bom, cubro o iniquo - Tudo comigo se cobre, - Comigo he rico, o que he pobre - Sem mim he pobre, o que he rico. - - -_Castidade._ - - Quem contra mim nunca erra - Quem comigo a si venceo, - Fica estrangeiro na terra, - Faz-se natural do Ceo. - - -_Paciencia._ - - Quem por meu respeito cansa - Sofrendo o mal que parece, - Tudo vence, e tudo alcança, - Tudo tem, tudo merece. - - -_Temperança._ - - Sou temperada virtude - Que todo o corpo governa, - Dou-lhe temporal saude - A alma saude eterna. - - -_Charidade_. - - Sou amada, e amadora - Do mais perverso louvada, - Das creaturas, criada, - Mas das virtudes senhora. - - -_Diligencia._ - - Quem nesta vida me tem - Logra o bem acrescentado, - Que a diligencia no bem, - Faz que o bem seja dobrado. - - -_Prudencia._ - - Sou prudente em toda a hora, - Cousa com que sou contente; - Porque em quanto sou prudente - Naõ posso ser peccadora. - - -_Silencio._ - - Dẽtro em mim mesmo me encerro - Tudo ouço, e tudo callo; - Porque tanto menos erro, - Quanto menos vezes falo. - - -_Fè._ - - Sou fè que da alma desterra - O mal, que a escureço, - Estando presa na terra - Subo mil vezes ao Ceo. - - -_Esperança._ - - Espero hum bem immortal - Donde os bens todos me vem; - Porque a esperança do bem, - A doça a penna do mal. - - -_Penitencia._ - - Sou a virtude que tem - Contra o mal grande potencia, - Sou a feliz penitencia, - Que converte o mal em bem. - - -_Oração._ - - Posto que grosseira, e rude, - Sempre oro em meu coração; - Porque só nesta Oração, - Se a prende toda a virtude. - - -_Perseverança._ - - Persevero sem mudança, - Insisto sem me mover, - Pois tudo pode vencer - A longa perseverança. - - -_Mansidaõ._ - - Mansa sou, e assim alcanço, - Quanto prometem os Ceos, - Que o que na vida he mais manso, - He mais semelhante a Deos. - - -_Fortaleza._ - - Resistir he meu officio, - Tudo venço com firmeza, - Porque a firme fortaleza, - Vence, e mata todo o vicio. - - -_Verdade._ - - Sempre acho quem me louve - Por ser natural dos Ceos, - A Deos ouve, quem me ouve, - Quem me busca, busca a Deos. - - -_Misericordia._ - - Sou das virtudes concordia, - Estou na terra, estou nos Ceos: - Sou huma cousa como Deos, - Pois que sou misericordia. - - -_Abstinencia._ - - Tenho o rosto feo, e fero - Mas sou de summa excellencia, - Sou o custo da abstinencia, - Que os apetites tempero. - - -_Desprezo do mundo._ - - O mundo, ou o immundo - Deixo, como reyno alheyo, - Pois com desprezo do mundo - Todo o mundo senhoreo. - - -_Constancia._ - - Sou forte firme, e prestante, - Tenho a Deos, e Deos me tem, - Quem no bem he taõ constante, - Bem he que tenha tal bem. - - -_Justiça._ - - A Deos tenho por farol - Nunca me cega a cubiça, - Senaõ sou Sol de Justiça, - Sou justiça mais que o sol. - - -_Pobreza._ - - Ninguem por mim se governa, - Antes sou mui perseguida, - Sendo miseria da vida, - Posso dar a vida eterna. - - -_Mortificação._ - - Sou das virtudes hum cofre - Porque a todas faço a cama, - Se persigo a quem me sofre, - Guarlado-o a quem me ama. - - -_Paz da alma._ - - Quem me logra cà na terra, - Quem me tem do Ceo me traz, - Na terra me sinto em paz, - Por mayor que seja a guerra. - - -_Modestia._ - - Sou composta e sou honesta - Exemplar aos que me vem, - Com exemplo de modestia, - Provoco todos ao bem. - - -_Gratidaõ._ - - Folgo de ser gratidaõ, - Porque meus bens conhecendo, - Agradeço o que me daõ, - E mereço o que pertendo. - - -_Simplicidade._ - - Quem me logra, e quem me tem - He quasi celestial, - Nunca cahe em nenhum mal, - Porque sempre cuida bem. - - -_Pureza da alma._ - - Todo bem sigo, e procuro - Todo mal me he odioso, - Tudo quero virtuoso, - Tudo alimpo, tudo apuro. - - -_Zelo do bem._ - - Naõ me traz no coraçaõ, - O máo, o perverso, e rude, - Pareço as vezes paixaõ, - Porèm sempre sou virtude. - - -_Desprezo proprio._ - - Pois no mal naõ faço pauza, - Tudo faço em meu despeito, - Desprezo o mal como effeito, - E amim como propria causa. - - -_Renunciaçaõ._ - - Deime com favor dos Ceos, - A Deos meu ultimo fim, - Porque dandome eu a Deos, - Se me desse Deos a mim. - - -_Innocencia._ - - Sò de mim se entende, e cre - Que sem mal posso ter bem, - Quem me tem nunca me vé, - Quem me vè ja me não tem. - - -_Correiçaõ fraterna._ - - Dos vicios sou adversaria, - Todo o mundo me ha mister, - Sendo a todos necessaria, - Ninguem me pode sofrer. - - -_Recolhimento._ - - Recolhimento procuro, - Do corpo, alma, e sentido, - Pois quanto mais recolhido, - Tanto do mal mais seguro. - - -_Continencia._ - - Sempre ando em companhia - Da singular castidade, - Em minha difficuldade, - Consiste minha valia. - - -_Discripçaõ._ - - Eu tiro de todo enleyo - A qualquer juizo rude, - Sou a que descobre o meyo - Em que consiste a virtude. - - -_Amor Divino._ - - Na terra sou peregrino, - Porém no Ceo sou Senhor, - Sendo Deos divino amor, - Faz-me Deos amor divino. - - -_Amor do proximo._ - - Depois que subo às alturas, - Por amar a meu senhor, - Como subo ao creador, - Devo amar as creaturas. - -_Devoçaõ._ - - Faço doce o que he penoso, - Faço leve o que he muy grave, - Tudo o que he difficultoso, - Faço facil, e suave. - - -_Fervor._ - - A muitos pareço louco, - Que naõ conhecem meu fruto - Ainda que eu faça muito, - Tudo me parece pouco. - - -_Graça._ - - Tudo comigo se cobre, - Das paixoens tenho a victoria, - Sem mim nenhuma boa obra, - Pòde merecer a gloria. - - -_Bem exemplo._ - - Edifico os que me vem, - Honrarey a quem me der, - Sò com as mostras do bem, - Muytos bens faço fazer. - - -_Conformidade._ - - Sou conforme o meu querer, - A Deos de quem tudo espero, - Porque tudo quanto quero, - Seja tudo o que elle quer. - - -_Pura tençaõ._ - - Subiraõ à mayor alteza, - Os Santos por minha via, - Conforme a minha pureza, - Tem as virtudes valia. - - -_Temor de Deos._ - - Por naõ fazer hum aggravo, - A Deos chego a todo extremo, - Posto que sou escravo, - Sò como seu filho o temo. - - -_Negaçaõ propria._ - - Como em tudo a Deos me entrego - Como me devo entregar, - Em tudo o que he meu me nego - Por naõ vir a arrenegar. - - -_Obediencia._ - - Faço prudentes os rudes, - Que sé regem sò por mim, - Sou principio, e sou fim, - De todas as mais virtudes. - - -_Vergonha._ - - Tanto duro virtuosa, - Devota, sesuda, e prompta, - Quanto duro vergonhosa, - A quem comigo se encontra. - - -_Brandura._ - - De ninguem desprezadora, - De todos muito prezada, - De alguns naõ sou amadora, - Mas sou de todos amada. - - -_Cortezia._ - - Quem me tem fama terà, - Que he o meu mais proprio fruto, - Sem dar nada quem me dà, - Fica recebendo muito. - - -_Compaixaõ._ - - Conversando entre a gente, - Com vontade pouco esquiva, - Mereço por compassiva, - A gloria do paciente. - - -_Lealdade._ - - O mundo bem me dezeja, - Mas naõ toma por guia, - A que sou na frontaria, - Sou nas costas da Igreja. - - -_Consciencia._ - - Aviso do mal, e bem, - A quem, ou bem, ou mal quer, - Quem quer que me naõ tiver, - Nenhuma virtude tem. - - -~VICIOS.~ _Soberba._ - - - Trago o rostro sesudo, - Ando melanconizada, - Cuido de mim que sou tudo, - E eu sou menos, que nada. - - -_Avareza._ - - Nada dou, tudo retenho, - Atè a mim me nego o bem, - Peço quanto os outros tem, - Naõ dou nada do que tenho. - - -_Ira._ - - Para tudo sou mofina, - Ando amarella, e rayvosa, - O mimo brando me indigna, - Como palavra afrontosa. - - -_Inveja._ - - He minha condiçaõ tal, - Que me naõ sofre ninguem, - Porque atè o alheyo bem, - Me serve de proprio mal. - - -_Preguiça._ - - Nunca me quero mover, - Porque em nada me resolva - Mas que o mundo se resolva, - Naõ me posso resolver. - - -_Discordia._ - - Atè a mim me contradigo, - Nem me regem, nem eu rejo, - Ninguem peleja comigo, - E eu com todos pelejo. - - -_Liviandade._ - - Do canto muy pouco alcanço - Mas em todo o tempo canto, - Sem som bailo, trinco, e danço - Mas, que a casa esteja em pranto. - - -_Presumpçaõ._ - - Seco afrol nunca dou fruto, - Por ser meu sentido louco, - Se de mim presumo muito, - He porque sey muito pouco. - - -_Vaidade._ - - Pretendo as honras mayores - Por maranhas, e invenções. - Sempre desejo louvores, - E eu mereço reprehenções. - - -_Ignorancia._ - - A pena tenho por gloria - Porque me falta o juizo - O que he parvoice notoria - Julgo eu por raro aviso. - - -_Chocarrice._ - - Por nada me movo a riso - Sò zõbando mostro engenho, - Naõ falo nunca de siso, - Porque nenhum siso tenho. - - -_Amor proprio._ - - Com caridade me escuzo, - Porque assi me naõ conheçaõ - Só para mim quero tudo, - Os outros mas que pereção. - - -_Desconfiança._ - - Sem ninguem me affligir, - Eu mesmo me afflijo a mim - Todos quantos vejo rir, - Cuido que se rim de mim. - - -_Prodigalidade._ - - Quem os meus bẽs me levou - Não mos sabe agradecer, - Não ha misterio que eu dou, - E eu dou o que hey mister. - - -_Curiosidade._ - - O que falão, e sonhão - As outras, quero entender - tè que venho a fazer - Mil cousas que me envergonhaõ. - - -_Melindre._ - - Acho grossas as finezas, - Sou dalfelua, e algodão - Os mimos são asperezas, - Epara minha condição. - - -_Mentira._ - - Por ruas, e por travessas, - Cantar historias pretendo, - Quando falo, falo às avessas, - Do que sey, e do que entendo. - - -_Pouco segredo._ - - Qualquer cousinha me encalma - Que a outrem, ou a mim toca - Tudo o que me metem na alma - Lanço logo pela boca. - - -_Concordia._ - - Naõ pretendo prefeiçaõ, - Por ser covarde, e ser rude, - Com medo do que diraõ, - Deixo de ter mayor virtude. - - -_Vingança._ - - Por mais que as outras me afagem - E por branduras me levem, - Nenhuma cousa me devem, - Que dobrado me naõ paguem. - - -_Malicia._ - - Só de mim todo o mal vem - Ou mortal, ou venial, - Sou inventora do mal, - Destruidora do bem. - - -_Incredulidade._ - - De meu mal endurecida, - Só por mesma me eu rejo, - O mal creyo só de ouvida, - E o bem nem quando o vejo. - - -_Odio._ - - Nunca procuro meu bem, - Porque meu mal naõ conheço, - Sou penna de quem me tem, - Sem ser mal de quem aborreço. - - -_Hypocresia._ - - Sou dobrada, triste, e rude, - Enganar he meu officio; - Pela casca sou virtude, - Mas pelo miolo vicio. - - -_Murmuraçaõ._ - - De minha irmãa por mil meyos - Encubro os bens que saõ seus, - Publico os males alheyos, - Naõ sey esconder os meus. - - -_Traiçaõ._ - - Com fingido, e ledo rostro - Offereço meu serviço, - A muitos rio no rostro, - A quem mordo no toutiço. - - -_Desenvoltura._ - - Males que faço, e naõ callo - Em mim moraõ, e naõ mim jazẽ, - Mil palavras verdes falo - Que os rostros vermelhos fazem. - - -_Pertinacia._ - - Nenhum conselho me val - Naõ me convence ninguem, - Sou como rocha no mal, - E como cana no bem. - - -_Inconstancia._ - - O bem em mim nunca para - Muy pequeno mal me espanta, - Soa huma hora Santa Clara, - Noutra, nem Clara, nem Santa? - - -_Occiosidade._ - - Vivo em continuo descuido - Num, e noutro me embaraço, - Se naõ faço o mal que cuido, - Cuido no mal que naõ faço. - - -_Lisongeria._ - - Nenhuma cousa reprovo, - Ou seja mal dita, ou feita, - Tudo louvo, tudo approvo - Por ser a todos aceita. - - -_Interesse._ - - Costumo de usar cruezas - Com vizinho, e com estranho - Cayo em cem mil baixezas - Sò por tirar qualquer ganho. - - -_Zelo indiscreto._ - - Como a ordem naõ entendo, - Porque me ey de governar, - Tudo quero emmendar, - Mas a mim nunca me emmendo. - -_Mà condicçaõ._ - - Posto que todos me emmẽdem, - Ninguem faz comigo avença, - Cuido que todos me offendem, - E eu sò sou minha offensa. - - -_Afeiçaõ desordenada._ - - Nenhuma alma hoje me tem - Que seja esperitual, - Quando quero mayor bem, - Entaõ me faço mòr mal. - - -_Amor profano._ - - Por fantastica invensaõ - Procede meu bem querer, - Por bens que naõ pòdem ser, - Sofro o mal que jà saõ. - - -_Arrogancia._ - - Da graõ soberba sou filha, - Cuido que saõ meus os Ceos, - O mal propio naõ me humilha, - E incho com o bem de Deos. - - -_Distraiçaõ._ - - Do que he culpa, faço graça, - Do que he peccado, ventura, - A alma trago na praça, - E o corpo na clausura. - - -_Descortesia._ - - A honra como thesouro, - Nego a todos por mais brio, - Faço della fino ouro, - Porque a pezo ouro, e fio. - - -_Temeridade._ - - Por muy indescretos meyos, - Espreito alheos peccados, - Naõ entendo meus cuidados, - Julgo cuidados alheos. - - -_Dureza._ - - No cuidar, no fallar erro, - Por ter duro o coraçaõ, - Fallo palavras de ferro, - Cuido que saõ de algodaõ. - - -_Rudeza._ - - Erro agòra, e sempre errey, - Nem entendi, nem entendo, - Sempre apprendendo me sey, - Mas nunca sey, o que apprendo. - - -_Mexerico._ - - Por malicia, e por parvoice, - Pecco huma, e outra vez, - Dizendo o mal que outrem disse, - Faço o mal, que elle naõ fez. - - -_Fraqueza da Alma._ - - Os que de mim se fiarem, - Mal lhe irá, se me tiverem, - Cayo, sem me derrubarem, - Mas naõ me ergo, sem me erguerem. - - -_Ingratidaõ._ - - Amizades se desfazem, - Por mim, porque naõ me atrevo, - Pagar mercès que me fazem, - E conhecer as que devo. - - - ~FIM.~ - - [Ilustração] - - - - -Notas - -Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos. - - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SAUDADES DE D. IGNEZ DE -CASTRO *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for -copies of this eBook, complying with the trademark license is very -easy. 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Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/69103-0.zip b/old/69103-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index c99de1e..0000000 --- a/old/69103-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h.zip b/old/69103-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index d352d40..0000000 --- a/old/69103-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/69103-h.htm b/old/69103-h/69103-h.htm deleted file mode 100644 index 3fd9e65..0000000 --- a/old/69103-h/69103-h.htm +++ /dev/null @@ -1,5296 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> -<head> - <meta charset="UTF-8" /> - <title> - Saudades De D. Ignez De Castro, by Manuel de Azevedo—A Project Gutenberg eBook - </title> - <link rel="icon" href="images/cover.jpg" type="image/x-cover" /> - <style> /* <![CDATA[ */ - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent: 0em; -} - -.p2 {margin-top: 2em;} -.p4 {margin-top: 4em;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: 33.5%; - margin-right: 33.5%; - clear: both; -} - -hr.chap {width: 65%; margin-left: 17.5%; margin-right: 17.5%;} -@media print { hr.chap {display: none; visibility: hidden;} } - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em; margin-left: 47.5%; margin-right: 47.5%;} - -div.chapter {page-break-before: always;} -h2.nobreak {page-break-before: avoid;} - -img.drop-cap -{ - float: left; - margin: 0 0.5em 0 0; -} - -p.drop-cap:first-letter -{ - color: transparent; - visibility: hidden; - margin-left: -0.9em; -} - -.x-ebookmaker img.drop-cap -{ - display: none; -} - -.x-ebookmaker p.drop-cap:first-letter -{ - color: inherit; - visibility: visible; - margin-left: 0; -} - - -img.drop-cap-poetry -{ - margin-left: 37%; - float: left; -} - -p.drop-cap-poetry:first-letter -{ - color: transparent; - visibility: hidden; - margin-left: -0.9em; -} - -.x-ebookmaker img.drop-cap-poetry -{ - margin-left: 10%; - float: left; - display: none; -} - -.x-ebookmaker p.drop-cap-poetry:first-letter -{ - color: inherit; - visibility: visible; - margin-left: 0; -} - -.upper-case -{ - text-transform: uppercase; -} - - -.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ - /* visibility: hidden; */ - position: absolute; - left: 92%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; - font-weight: normal; - font-variant: normal; - text-indent: 0; -} - -.center {text-align: center; text-indent: 0em;} - -.right {text-align: right; text-indent: 0em;} - -.caption {font-weight: bold;} - -/* Images */ - -img { - max-width: 100%; - height: auto; -} -.w50 {width: 50%;} -.x-ebookmaker .w50 {width: 75%;} -.w25 {width: 25%;} -.x-ebookmaker .w25 {width: 35%;} -.w10 {width: 10%;} -.x-ebookmaker .w10 {width: 13%;} - -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; - page-break-inside: avoid; - max-width: 100%; -} - -/* Poetry */ -.poetry {text-align: left; margin-left: 38%; margin-right: 10%; text-indent: 0em;} -/* uncomment the next line for centered poetry in browsers */ -/* .poetry {display: inline-block;} */ -/* large inline blocks don't split well on paged devices */ -@media print { .poetry {display: block;} } -.x-ebookmaker .poetry {display: block; margin-left: 10%; margin-right: 5%;} - -/* Transcriber's notes */ -.transnote {background-color: #E6E6FA; - color: black; - font-size:smaller; - padding:0.5em; - margin-bottom:5em; - font-family:sans-serif, serif; } - -.xbig {font-size: 2em;} -.big {font-size: 1.2em;} -.small {font-size: 0.8em;} - -.mr {margin-right: 2em;} - -abbr[title] { - text-decoration: none; -} - - /* ]]> */ </style> -</head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Saudades de D. Ignez de Castro</span>, by Manuel Azevedo</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Saudades de D. Ignez de Castro</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Manuel Azevedo</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: October 6, 2022 [eBook #69103]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>SAUDADES DE D. IGNEZ DE CASTRO</span> ***</div> - - - - -<h1>SAUDADES<br /> -<span class="small">DE</span><br /> -<span class="big">D. IGNEZ</span><br /> -DE CASTRO.</h1> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - - -<p class="center"> -<span class="big">SAUDADES</span><br /> -DE<br /> -<span class="xbig">D. IGNEZ</span><br /> -<span class="big">DE CASTRO.</span><br /> -PELO LICENCIADO<br /> -MANOEL DE AZEVEDO<br /> -Conimbricense.<br /> -<i>OFFERECIDA AO SENHOR</i><br /> -<span class="big">GUILHERME JOAQUIM</span><br /> -PAES VELHO.<br /> -<i>PELO PADRE</i><br /> -<span class="big">JOÃO DE GOUVEA</span><br /> -Prisbitero do habito de S. Pedro.</p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001"> -<img src="images/001.jpg" class="w10" alt="Publisher mark; imagen da editora" /> -</span></p> -<p class="center"> -<span class="big">LISBOA:</span><br /> -<span class="small">Na Officina JOAQUINIANNA DA MUSICA DED.</span><br /> -<span class="small">Bernardo Fernandes Gayo, Morador na rua das Mudas.</span><br /> -</p> -<hr class="r5" /> -<p class="center"> -<span class="small">M. DCC. XLV.</span><br /> -<span class="small"><i>Com todas as licenças necessarias.</i></span><br /> -</p> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img002"> -<img src="images/002.jpg" class="w50" alt="Decorative border; imagem decorativa" /> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="DEDICATORIA">DEDICATORIA<br /><span class="small">AO SENHOR</span><br />GUILHERME JOAQUIM<br /><span class="small">PAES VELHO.</span></h2> -</div> - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_j.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> -<p class="drop-cap"><i><span class="upper-case">Justo</span> era, que huma taõ excellente obra procurasse hum assyllo taõ -excelso. Publica-se por meyo da estanpa ao Mundo as Saudades de D. -Ignez de Castro, Rainha taõ infeliz, como formoza, e vendo eu que he -perigozo entregar nas mãos do vulgo cousa, para cuja seja materia a -sua distracçaõ, logo me occoreo, que a offerta só era conveniente em -V. M. porque sey, que como V. M. he dado às letras, naõ deyxarà de -amparar hum milagre da Poesia, e juntamente escurecer o alvedrio de hum -Zoylo. Materia difficel seria o querer expór ao publico a Genelogia de -V. M. que como conhecida naõ carece de explicação, mas só lembro a V. -M. que o sangue, que lhe pulsa pelas veyas, mais logra de soberano, -que de nobre. Dedicar o presente papel a V. M. he como divida, -porque confórme, diz Seneca, só se conhecem as remuneraçoens pelo -offerecimento, por essa causa quando eu tenho recebido taõ dilatados -favores, porque razaõ naõ heyde de manifestar o quanto sou devedor a -V. M. Aceyte pois o presente obsequio como divida, porque só assim -lograrey eu a ventura de acertar quando me lembro da sua generosidade -para o restituir. A pessoa de V. M. guarde Deos pelos annos, que todos -os seus amigos dezejamos.</i></p> - -<p class="right"> -<span class="mr">Amigo, e Venerador de V. M.</span><br /> -<br /> -O P. Joaõ de Gouvea<br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p> -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img003"> -<img src="images/003.jpg" class="w50" alt="Decorative border; imagen decorativa" /> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="SAUDADES_DE_DONNA_IGNEZ_DE_CASTRO">SAUDADES DE DONNA IGNEZ DE CASTRO.</h2> -</div> - - -<h3>I.</h3> -<div> - <img class="drop-cap-poetry" src="images/dc_e.jpg" width="50" height="57" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap-poetry poetry"><span style="margin-left: 1em;"><span class="upper-case">Era</span> na meya idade, a q̃ chegava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em fraguas de Zafir o Sol, q̃ ardia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">e nas asas do tẽpo, q̃ passava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Icaro de seus rayos era o dia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando pois com as chammas se abrasava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que morrer incendîdo entaõ queria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sendo por renascer com novo alarde,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em cinzas de rubim Féniz da tarde.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_2">[Pg 2]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Na lisongeira planta se enlaçava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cortez o vento com gentil porfia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E nos jardins a Rosa, que encalmava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em berços de esmeralda adormecia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A simples avesinha se banhava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">No murmúreo correr da fonte fria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Renovando na vista o doce alento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Narciso nos crystaes, Orfêo no vento,</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas Ignez só, que por penar vivia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naufragava em soluços cada instante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ignez, aquella Ignez, que amor fazia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por lhe dobrar as magoas mais constante:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquella, em cujas graças competia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ser formosa, discreta, e ser amante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em cujas prendas naõ tiveraõ parte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Artificios da industria, invençoẽs da arte.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A que nos dotes da alma taõ possante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Discreta, grave, terna, e generosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que da mesma bellesa sendo Atlante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tinha por menór prenda o ser formosa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos donaires do talhe taõ galante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos alinhos da graça taõ vistosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que topando na culpa de Narciso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fora sem culpa seu discreto aviso.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas qual o passarinho descuidado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lisonja mais gentil da tenra idade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Foy das maõs do menino aprisionado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que lhe roubou no laço a liberdade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quando delle mais galanteado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exprimenta no mimo a crueldade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E quando a côr das pennas lhe contenta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas que lhe tira, mais lhas accrescenta.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tal Ignez na manhaã dos ternos annos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas primeyras Auróras da esperança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deo nos laços de amor doces enganos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do vendádo rapaz linda vingança;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas os golpes da Parca deshumanos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A belleza por flor em flor alcança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exprimentou na sempre amarga sorte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por maõs do Deos do amor armas da morte.</span><br /> -</p> - - -<h3>VII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Eraõ gentil emprego a seus cuidados</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As finesas de Pedro, que a beldade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nelle soube trazer aprisionados</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sceptro, corôa, vida, e liberdade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Entre ambos tinha amor já taõ ligados</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os soltos alvedrîos da vontade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que foy nelles baldado, e foy perdido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nascer Antéros por crescer Cupido.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span></p> - - -<h3>VIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas oh tyranna dor amor inventa!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Forçosa foy de Pedro a dura ausencia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Atropos da alma, que da pena isenta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nella sabe sentir mortal violencia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como preso, partir-se Pedro intenta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E sente na alma, Ignez, nova inclemencia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quer a sorte, pois amor ordêna,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde naõ chega a morte, offenda a pena.</span><br /> -</p> - - -<h3>IX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quantas vezes, Ignez, no pensamento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Este desár notaste a teus favores?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quantas vezes, Ignez, na maõ do vento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os viste, e vês agora, e verás flores:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tanto nas affeiçoens, gosto avarento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Este pesár sentiste em teus amores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ posso dizer, que neste emprego</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Estavas, linda Ignez, posta em socego.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span></p> - - -<h3>X.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Entre os braços de Pedro, ardẽte Fragoa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se encosta Ignez sem vida, e sem sentido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que multiplîca a dôr, e dobra a magoa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lograr presente o bem, que he já perdido:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos olhos sólta dous chuveiros de agoa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oceànos de neve, onde Cupîdo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quiz da belleza já colhendo as velas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chegasse a tempestade até as estrellas.</span><br /> -</p> - - -<h3>XI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual em berços de purpura vistosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Delicias da manhaã, da tarde empresa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos melindres de flor enferma a Rosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Desmayado o verdôr, murcha a lindesa;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois a que foy de Abril pompa lustrosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Livro do amor, emblema da bellesa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Perde a graça, por vêr que o Sol lhe talha</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do mesmo carmesim gala, e mortalha.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span></p> - - -<h3>XII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tal do fogo de amor na immensa calma</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A côr Ignez perdeo, que amor ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os desmayos, que tinha impressos na alma,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Trasladasse no rosto a viva pena:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já despojo da dôr, da magoa palma,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com respirar de flor, arde Açucena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exhála nova dôr ao pensamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em saudosos ays o doce alento.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay! cadûco prazer, diz lastimada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Esperança de hum bem, doce tormento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay! que por verde murchas apressada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Primavéra do amor, da dor portento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay! melindrosa flor agonizada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Despojado Jasmim de qualquer vento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quando nasce traz na mesma alvûra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Gala, mortalha, berço, e sepultura.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span></p> - - -<h3>XIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay! que chegas, oh dia! em que amor tira</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Duas almas de hum peito, oh noite fria!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh noite, digo, porque a quem suspira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fóge a luz, morre o Sol, acaba o dia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A bocca, de que hum <i>ay</i>, outro <i>ay</i>, retira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Jà cansando, mais bayxo repetia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Paray Senhor; mas hum soluço ardente</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Suffóca o <i>par</i>, repete o <i>ay</i> sómente.</span><br /> -</p> - - -<h3>XV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Paray, torna a dizer, meu gosto amado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Gloria desta alma, em quanto gloria tinha;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas ay alivio meu! ay meu cuidado!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como podeis parar, se gloria minha!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas se destîna o Céo, e manda o Fado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Esta alma castigar, que amor mantinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deixai-me a vossa, porque a sorte ordene,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mais almas tenha, porque assim mais pene.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span></p> - - -<h3>XVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas naõ, que he contra amor esta porfia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muitas almas naõ quero, que sería</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Repartir o tormento a meu cuidado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas se a pena permitte a companhia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nesta ausencia cruel, oh triste Fado!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Antes que a dor ma roube da partida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Levai-me, vida minha, a minha vida.</span><br /> -</p> - - -<h3>XVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Só com vosco, Senhor, irá segura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem que mortal achaque lhe aconteça;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque talvez do Fado a sorte dura</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fóra deste meu peito a desconheça:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem poderá temer minha ventura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sombra de pesar vos entristeça;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois farey no tormento mais esquivo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Correr por conta da alma o sensitivo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span></p> - - -<h3>XVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Se só para viver na ley de amante</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Forçosa seja a vida repetida;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay!  Senhor, que naõ póde ser bastante</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Para viver ausente huma só vida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém se amor de vidas taõ possante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Huma nos deo para ambos repartida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Postoque a dôr entre ambos se accommóda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Melhor vos partireis levando-a toda.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Cá me fica outra vida, que naõ passa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com que padeça morte repetida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quer amor tyranno, que renaça</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Huma vida das cinzas de outra vida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como taõ crueis penas me traça,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como me traz em fogo convertida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A acabar, outra Feniz, me condena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Morrendo em cinzas, renascendo em pena.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span></p> - - -<h3>XX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ah! quem cuidára, amor, que meus amores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fossem fingidas sombras mentirosas?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ah! quẽ cuidará, amor, que em teus favores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fossem mais as espinhas, do que as Rosas?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas depois, que triunfo a teus ardores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Foraõ de Marte as armas generosas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Taõ guerreyro ficaste, ufano, e forte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que bem pódes matar a propria morte.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas pois forçosamente me condena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A que vos ausenteis, ah tyrannîa!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deyxai, deyxai Senhor, deyxai-me a pena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque só della quero a companhia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na noite mais escura, ou mais serena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">(Que para ausentes nunca nasce o dia)</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chorarey, permittindo-o minha estrella,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mais do que a saudade, a causa della.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span></p> - - -<h3>XXII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nas remontadas penhas, nas visinhas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">(Se restar a meus ays penhasco possa)</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Minhas se póde ser, sendo a alma vossa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De meus annos a flor entre as espinhas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Passarey, sem perder esta fé nossa;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas antes perderâõ seu bruto alento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas oh! que he tal a dor de meus retiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E taõ firme na ley da tyrannîa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vendo, que me assistem meus suspiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Talvez delles me roube a companhia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas inda mais, e mais acérbos tiros</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Contra mim fulminar amor porfia;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois sem dar attençoens á minha queyxa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p> - - -<h3>XXIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual quando na manhaã naufrága o dia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos undósos crystaes, que o Céo desata,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O Jasmim desmayado se agonîa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos acháques da gotta, que o maltrata:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em desares trocando a galhardia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Icaro já nas agoas se retrata,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O que lisonja foy taõ prateada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se no prado jasmim, nas ondas nada.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tal Ignez já de lagrimas banhada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De seus olhos gentîs mortaes desares,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quiz a natureza acautelada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exhalava de todo agonizada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O suspiro final a seus pesares:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que com vir entre lagrimas undosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Inda na bocca achou maré de rosas.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span></p> - - -<h3>XXVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Já Pedro em fim rendido a seu cuidado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A dôr quer disfarçar a seu retiro;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como o coraçaõ tem já quebrado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hum pedaço lhe traz cada suspiro:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E como em fim no peito agonizado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sente da mortal frecha o novo tiro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Notando Ignez no pranto de seu rogo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exhála em agoa, quanto bebe em fogo.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ chores, diz, formosa Ignez, agora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ficar ausente sem partir commigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que se es vida da minha, que te adora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na alma te levo por viver comtigo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ pertendo ausentar-me hoje, Senhora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Supposto que partir-me em fim prosigo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que se as almas trocar amor consente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem tu só ficas, nem me parto ausente.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span></p> - - -<h3>XXVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O corpo só se ausenta, a alma naõ parte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que em fim naõ vivo de potencias suas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como me alimento só de amar-te,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Bastaõ para viver memorias tuas:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E porque amor nos tiros, que reparte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fulmina contra mim frechas mais cruas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando a vida me rouba, outra me ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que fora em fim matar-me a menor pena.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas nota, Ignez formosa, esta fineza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A fazer impossiveis offrecida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois que contraminando a natureza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Teu mesmo amor me mata, e me dá vida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas como amor notou nessa belleza</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os impossiveis só de merecida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quiz tomar por razaõ força infallivel,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Obrar por alcançá-la outro impossivel.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span></p> - - -<h3>XXX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Bem vês agora, Ignez, como abrasado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos vivos holocaustos de meu peito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Meu coraçaõ consagro a teu cuidado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em victimas de lagrimas desfeito:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Agora alcançarás, como alentado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Todo me sacrifico a teu respeito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois chega a consagrar-te em viva calma</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sangue do coraçaõ, reliquias da alma.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sucçeda á Primavera o secco Estio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Á serena manhaã tarde calmosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja manso regato, quem foy rio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sejaõ seccas reliquias, quem foy Rosa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja, quem Cravo foy, cadáver frio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja quem foy Jasmim, cinza olorosa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja tudo á mudança em fim sujeito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que amor firme será dentro em meu peito.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span></p> - - -<h3>XXXII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nessas gentîs madeixas da beldade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em cuja luz do Sol o Sol se nega,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde feito piráta da vontade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas crespas ondas sempre amor navega:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nessas, digo, captiva a liberdade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em refens minha fé por fé te entrega:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nellas deixo por fim com meus alentos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Alma, cuidados, vida e pensamentos.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A Deos delicia minha, a Deos cuidado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos Senhora, a Deos, que amor cõsente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que parta em fim nas magoas sepultado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se partir posso de mim mesmo ausente:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos, que amor nos tinha decretado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Esta ausencia cruel, forçosa, urgente;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! formosa Ignez, q̃ em vaõ me queixo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos, q̃ em fim me parto, em fim te deixo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span></p> - - -<h3>XXXIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Já se remonta Pedro a seus retiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E já de morte em morte Ignez discorre,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como entrega a vida a seus suspiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quantas vezes suspira, tantas morre:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O coraçaõ sentindo acérbos tiros</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pelos olhos sangrado em crystaes corre;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que no sangrar-se em vaõ se cansa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque em cada sangria huma alma lança.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual na secca vergóntea desfolhada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que despojo restou da tempestade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se lamenta em requebros lastimada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A casta Rola posta em soledade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Soluça, pasma, e geme agonisada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chora, suspira, anéla em crueldade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que seu pesar lhe tem no peito unîdos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rigores, magoas, lastimas, gemîdos.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span></p> - - -<h3>XXXVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tal lastimada chora Ignez saudosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">No seu mesmo tormento sepultada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos desvélos do dia cuidadosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos descuidos da noite desvelada;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já se queixa em suspiros lastimosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fórma razoens dos ays agonisada:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que fez para queixar-se em seus retiros.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Embaixadores da alma seus suspiros.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Oh! quanto foy de ti teu Pedro amado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Formosa Ignez, mas inda mais sentido;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois sendo grande a gloria de logrado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hoje he mayor a magoa de perdido:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Foy teu prazer á pena apensionado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">He teu pesar na pena desmedido:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Entaõ foraõ de Rosas teus favores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Agora saõ de Lirios teus amores.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span></p> - - -<h3>XXXVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Já nos braços da Aurora, que assomava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Renascido chorava o novo dia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando Ignez saudosa entaõ negava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A seu triste pesar a companhia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A solidaõ do campo se apartava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde só lamentava, e só gemia;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque mais no rigor de seus retiros</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A piedade faltasse a seus suspiros.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Entre flores inquire o doce amado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Presente em cada flor o considéra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E dando hum breve encanto a seu cuidado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Busca nas flores quanto em flor perdêra:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Corre de flor em flor, de prado em prado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tópa só magoas, donde gosto espéra;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que foraõ seu praser: e seus favores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Perda choradas, quando apenas flores.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span></p> - - -<h3>XL.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Procûra em cada planta, o que anelava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque no seu tormento engano escolha;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que em seu pesar escrito achava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Liçoens para sentir em cada folha:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já nas liquidas pérlas, que chorava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Penhascos, plãtas, prado, e folhas molha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E na lembrança já de hum bem perdido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lhe interrõpe hum gemido outro gemido.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual o menino fica enternecido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Entre perplexidades pasmadinho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando no verde prado entretenido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lhe foge o gosto atraz de hum passarinho:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já soluça, já pasma esmorecido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já busca cada flor, cada raminho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já melindrosos ays, mimoso alento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Apôs o passarinho leva o vento.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span></p> - - -<h3>XLII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tal Ignez na penosa tyrannia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Entre flores inquire o doce amado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas foy lisonja só da fantasîa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois mais se nega hum bem, quãdo buscado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já queixosa das flores se desvia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já nas queyxas diverte o seu cuidado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E nos alentos da alma, com que espira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já soluça, já pasma, já suspira.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Na margem de huma fonte se encostava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que já clara correo com seus favores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E se delles travêssa murmurava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em lagrimas agora exhála amores:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ás plantas, aos penhascos se queixava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Outra vez já seu mal contava ás flores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde nos eccos, que respira o monte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Suspira o valle, porque chora a fonte.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p> - - -<h3>XLIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay! cadûcas bellezas, lhes dizia;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay flores! se queyxava enternecida;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sendo vossa vida de hum só dia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muitas horas contais na vossa vida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! de minha dor mór agonia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh morte em menor vida repetida!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como em soledades só discorro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem conto instantes, porque sẽpre morro.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E vós Rosas no mimo de huma Aurora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lograis de vossa adôrno a pompa bella,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que talvez por firmar vossa melhóra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tivéstes no nascer tão boa estrella:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que no pesar, que chóro agora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nestes fogosos ays, que o peito anéla,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Escolhe minha estrella em triste forte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por pena a vida, por lisonja a morte.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span></p> - - -<h3>XLVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Vós plantas, que sentis mudavel erro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cifrando em cada folha hum pensamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se Dezembro lamenta vosso enterro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Abril em flor vos dá dobrado alento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! q̃ em meu sentir, e em meu desterro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Eternisa hum rigor meu sentimento;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois quer amor na sorte, que me ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se alimente huma pena de outra pena.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E tû bruto penhasco inhabitado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tosco sepulcro de huma clara fonte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Es agora de flores matizado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Idolo de crystal, gala do monte:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh tyranna dor! que meu cuidado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hoje lamenta o mal, que chorou honte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vendo, que teu terror com bruto aviso</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Honte foy Polifêmo, hoje he Narciso.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span></p> - - -<h3>XLVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas oh queyxas paray, paray cuidados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Paray, façamos tregoas pensamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que dos males talvez communicados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Póde nascer desar ao sentimento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Correy da alma pedaços distillados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dizey lagrimas minhas meu tormento;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Minhas naõ digo bem, que juntamente</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Perdi tudo no bem, que chóro ausente.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Irmanay-vos, correy mais cuydadosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja vosso correr mais repetido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ cuideis, que vos choro caudalosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque deis desaffogo a meu sentido:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como nas memorias rigorosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vossa causa lamento, que hey perdido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se talvez mitigaes hum sentimento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ tem valôr nas perdas vosso alento.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span></p> - - -<h3>L.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Oh! corraõ com valor vossas violencias</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por duplicar incendios a meu rogo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ fora querer sentir ausencias,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se vos chorára só por desaffogo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que posto deis alivio ás inclemencias,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ podeis dar alivios a meu fogo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como sou das penas avarenta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qualquer alivio vosso me atormenta.</span><br /> -</p> - - -<h3>LI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Correy livres, correy, que amor ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sejais a meu rigor ancia penosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ comprais alivios a huma pena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando chegais a ser paga forçosa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que pois amor por força me condena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tributar-vos por divida custosa;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mal podeis mitigar o mal, que tenho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando sois do que devo desempenho.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span></p> - - -<h3>LII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ me póde obrigar outro motivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se naõ chorar-vos só por naturesa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quer, que seja amor por excessivo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tributo natural, o que he finesa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como a seu querer sujeita vivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rendida a seu querer captiva, e presa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do pranto, que saudosa me convinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se naõ pode isentar a affeyçaõ minha.</span><br /> -</p> - - -<h3>LIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Em vós sentir agora mais penosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De ser mudas razoens faço argumento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quando naõ chegais a ser queyxosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ limitaes a dor ao sentimento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que foreis só lisonjas enganosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ crueis verdugos ao tormento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando na voz queixosa, que formára,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lastimas a meus ays solicitára.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span></p> - - -<h3>LIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mais duro sentimento, mais nocivo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">No ser da alma pedaços vos confesso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois se levais a parte com que vivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A parte me deyxais, com que padeço;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como neste mal por excessivo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Repartida minha alma reconheço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se levais huma parte naõ pequena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A vida póde ser, mas nunca a pena.</span><br /> -</p> - - -<h3>LV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Oh! torna atraz arroyo fugitivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Alma da penha, coraçaõ do monte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Torna atraz, que meu pranto successivo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Te fará Rio quando apenas fonte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh! torna atraz veloz, detem-te esquivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Detem-te, espera, que meus males conte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vás talvez com prata taõ custosa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Calçar as plantas de huma ingrata Rosa.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span></p> - - -<h3>LVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Se te vás despenhar ambicioso</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por aspirar a creditos de Rio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Léva meu triste pranto lachrimoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oceâno será teu senhorîo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Embarga teu correr taõ cuidadoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Suspende teu caudal, teu desvarîo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que lá terás no már onde te escondas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quantas lagrimas levas, tantas ondas.</span><br /> -</p> - - -<h3>LVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas oh! paray razoens, tornay gemidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A dor interpretay, que o peito sente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que talvez em meus ays por repetidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os eccos ouça de quem choro ausente:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay! doce ausente meu, naõ dos sentidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay! quem pudéra amor ter-vos presente!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas deyxai-me fallar, talvez que possa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ouvir na minha voz eccos da vossa.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span></p> - - -<h3>LVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Aqui, meu doce amor, meu bem querido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se me duplîca a dôr ao pensamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois quando em vós, me falta meu sentido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ me póde faltar meu sentimento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em vós lamenta a dor meu bem perdido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em mim renova a dor novo tormento;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas creyo, doce amor, que sentir possa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Menos a minha dor, que a falta vossa.</span><br /> -</p> - - -<h3>LIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Menos dor, menor danno em fim tivéra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Menos cruel sentira o meu cuidado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando neste rigor, que padecera,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Me podéra esquecer do que hey logrado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que nesta dor outra me espera,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E hum mal outro me traz apensionado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois chego a padecer em meu sentido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span></p> - - -<h3>LX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Bem conheço, que posso na lembrança</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vossas prendas lograr, meu doce esposo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas o bem, que se perde na esperança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fica, quando lembrado, mais penoso:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas nesta triste dor, dura esquivança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se me duplica amor mais rigoroso;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois só quer meu sentido avincular-se,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Para mais padecer, a mais lembrar-se.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Assim chorava Ignez, e assim gemia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh tragica dor! rara estranhesa!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que já tópa nas maõs da tyrannia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Armas sempre mortaes contra a bellesa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas maõs de dous tyrannos já se via,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Entre crueis espadas, tosca empresa!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas que Rosa no campo Aurora molhas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A que naõ falte a vida, e sóbrem folhas?</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span></p> - - -<h3>LXII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Paray, detende a furia procellosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Paray, paray, detende o bruto alento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que contra o fresco mimo de huma Rosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ah! que sobeja hum Sol, e basta hũ vento?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! discreta Ignez, Garça formosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Remonta agora mais teu soffrimento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que temo, linda Ignez, teus lindos brios</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Accrescentem coraes a tantos fios.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual nas tecidas silvas da espessûra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Labyrintho de espinhas intrincado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com balîdos se queyxa da ventura</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O simples cordeyrinho aprisionado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já soluça em melindres com ternûra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Das maternas delicias apartado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O que mimos achou na branda hervinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Acha mortal rigor em cada espinha.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span></p> - - -<h3>LXIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tal lastimada Ignez troca em gemidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quantas vozes no peito articulava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em quanto os dous algoses sementidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As maõs lhe prendẽ, com que amor matava:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já fugindo os alentos aos sentidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O soluçar as vozes lhe embargava:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que amor lhe deo no pensamento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Razoens ao pranto, voz ao sentimento.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay  tyrannos crueis! oh sorte dura!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Entre suspiros, diz agonizada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que delicto commette a formosura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com que possa a bellesa ser culpada?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh! deyxai-me esta vida em pena escura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se me quereis a morte dilatada;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nesta triste dor taõ repetida</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Menos me mata a morte, do que a vida.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></p> - - -<h3>LXVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Oh! suspendey sentença taõ penosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mitigay por hum pouco a crueldade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ podeis dar morte rigorosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que possa matar mais, que a saudade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas já que minha dôr menos piedosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vos naõ póde causar nova piedade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ me roubeis meus filhos, taõ queridos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Unica prenda só de meus sentidos.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay! charas prendas minhas taõ queridas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Reliquias de amor, da alma pedaços;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay! como sentireis em mim perdidas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As mimosas delicias de meus braços:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas pois naõ póde ser entre homicidas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lograr, amores meus, vossos abraços,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos, ficai-vos já gostos amados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos alma, a Deos vida, a Deos cuidados.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p> - - -<h3>LXVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mais quiséra fallar enternecida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! indigna acçaõ de hum peito forte!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hum tyranno cruel, torpe homicîda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos fios de hum punhal lhe teçe a morte:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Inclîna o lacteo collo amortecida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Avassallada já da infausta sorte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exhála a vida o corpo de alabastro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Feneçe amor com Donna Ignez de Castro.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual a branca Açucena, que cortada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sente do ferro, ou tempo, a crueldade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em seu mesmo candôr amortalhada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Defunta flor em flor na flor da idade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Á qual ficaõ sómente de engraçada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os antigos riscunhos da beldade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tal fica a bella Ignez amortecida</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem gala, luz, sem cor, graça, nem vida.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span></p> - - -<h3>LXX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Vós agora, troféos da formosura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Apparencias vitaes de ramalhete,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Colhey as vélas, porque a pouca altûra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qualquer onda vos mólha o galhardete:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Olhay, que a branca Rosa, flor mais pura</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Acha, se berços, campas no alegrête:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Attentay léve flor, bellesa vaã,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que he mais antiga a tarde, que a manhaã.</span><br /> -</p> - - -<p class="center p4 big"><em>FIM</em></p> - -<p class="center"><i>da primeyra parte</i>.</p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img004"> -<img src="images/004.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagem decorativa" /> -</span></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img005"> -<img src="images/005.jpg" class="w50" alt="Decorative border; imagen decorativa" /> -</span></p> -<h2 class="nobreak" id="SEGUNDA_PARTE">SEGUNDA PARTE</h2> -</div> - - -<h3>I.</h3> - -<div> - <img class="drop-cap-poetry" src="images/dc_j.jpg" width="50" height="57" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap-poetry poetry"><span style="margin-left: 1em;"><span class="upper-case">Ja</span> da fatal tragédia retiradas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As restantes ruinas da feresa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ficaraõ só no cãpo idolatradas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hũas breves reliquias da bellesa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ausente Pedro, sem que as mal logradas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lamentasse memorias da firmêsa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Taõ dittoso nas magoas se discorre,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que morre ufâno, sem saber que morre.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Queixosa em fim feneçe a galhardia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Solicîta queixûmes a ternûra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vendo jà no desdem da tyrannia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Menos cruel a Parca, que a ventûra:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como qualquer dote se avalia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por symptôma fatal da formosúra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquella mesma ditta, que entre sortes</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cumûla prendas, mutiplîca mortes.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Á ventura se queyxa, que a beldade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fosse causa da perda, porque unida</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naquellas prendas da melhor idade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fez acabar rigôr, o que era vida;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas a Parca tyranna por vaidade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Solicita bellesas advertida;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque dellas talvez se naõ cuidára,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Morre fora huma prenda, e só matára.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Só suspiraõ, só choraõ lastimosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">(Que naõ pára nas queyxas a finesa)</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquellas, que restaraõ só piedosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Troyas do amor, reliquias da bellesa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquellas, digo, prendas lachrimosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dous Infantes gentîs, a que naturesa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deyxou com vida, porque em seu tribûto</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fosse a morte da flor vida do fructo.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual nos braços da planta mais visinha</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em roupas de rubîm, cama olorosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sentindo huma lanceta em cada espinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sangrada no jardim fenece a Rosa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Consagrando-se flor, quem foy Rainha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em vivos holocaustos sanguinosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De cujas cinzas restaõ por grinalda</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Reliquias de ouro em cófre de esmeralda.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Que pesáres, que penas, que rigores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Amor formáva, cada qual sentia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qual nos gemidos soluçando amores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em carinhossas magoas confundia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qual desmayado no tapiz das flores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se recosta trophéo da tyrannia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Notando aquelle peito, cujo enfeite</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lhe troca em pena, quanto foy deleite.</span><br /> -</p> - - -<h3>VII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quantas vezes fallando enternecidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em soluços lhe pára o doce alento!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quantas na voz do monte repetidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os saudosos ays lhe torna o vento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quantas a ser naufragio dos sentidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se deriva em chrystaes o sentimento;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois quer a dor, querendo amor agora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chórem dous Soes a falta de huma Auróra.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span></p> - - -<h3>VIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Alentado o rigor, duplîca em tiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se bem globos de fogo, esphéras de agoa;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ resiste Clavêl, que nos retiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ morra espûma, e naõ feneça fragoa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Multiplica-se o vento nos suspiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fogósos rayos lhe despede a magoa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Já naõ sabe nascêr, nem brilhar Rosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ pasme defuncta mariposa.</span><br /> -</p> - - -<h3>IX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nem tribûtaõ lisonjas aos sentidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nestas mudas razoens, que amor ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sujeitos amantes desunidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle, que mais chóra, esse mais pena:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E se lagrimas saõ nos mais sentidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Almas do coraçaõ, bem se condena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qualquer a mais sentir; pois he patente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quem mais almas tem, muito mais sẽte.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span></p> - - -<h3>X.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A solidaõ de Pedro imaginada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lhe accende as almas, lhe distilla os peytos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nem morrêra Ignez, se retirada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ sentira distante os seus effeitos:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como seja amor, muito apertada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se gentil, uniaõ de dous sujeitos;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando matar hum delles amor trata,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se desunir os dous hum só naõ matta.</span><br /> -</p> - - -<h3>XI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Assi passaõ da mágoa a ser espanto</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os dous ayos do mimo, os dous Cupìdos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Narciso cada qual do proprio pranto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Phaetontes em fim de seus gemidos:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se foraõ gala da bellesa, em quanto</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Eraõ gentîs desvelos dos sentidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lastimas ficaõ já da tenra idade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Culpas de amor, delictos da beldade.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span></p> - - -<h3>XII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quaes simples avesinhas, que roubadas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ás lisonjas de Abril, mimos de Flora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos maternaes alentos apartadas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Suspira cada qual, cada qual chóra:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As que foraõ do campo idolatradas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oraculos do Sol, linguas da Auróra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De si mesmas agora occulta fragoa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Concebem pena, quando abortaõ magoa.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas já funesta voz, turbado alento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por linguas de metal enrouquecido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Formava o Semideos monstro violento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Gigante pela fama conhecido.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle, cujo aládo atrevimento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se remonta veloz, e taõ subido;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque nelle talvez o mundo veja</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Voarem pennas a pesár da inveja.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span></p> - - -<h3>XIV,</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">La fez a túba lastimoso effeito</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos alentos de Pedro, que em suspiros</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os mais dos eccos lhe interpréta o peito</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dobrando mágoas, renovando tiros:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando apenas em fim na dôr desfeito</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O coraçaõ se pasma, que em retiros</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Suffocado talvez da intensa calma,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se isentou de correr por conta da alma.</span><br /> -</p> - - -<h3>XV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">No combáte fatal deste desmayo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">(Lastimoso parenthesis da vida!)</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tribûta vivas ao mortal ensayo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A sentinella da alma já vencida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ morre Pedro, naõ, que aquelle rayo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Foy lançada de amor, que repetida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se pertende matár, a quem suspira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Menos o mata, se lhe a vida tira.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span></p> - - -<h3>XVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Assi vivendo morre, quando amante;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Assi morrendo vive, quando ausente;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que se morre, pois pena por distante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vive tambem, pois ama, porque sente:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas em fim naõ passâra tanto ávante</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas finesas amor, que fora urgente</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Acabar-se na vida, se roubára,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E taõ fino naõ ser, se naõ matára.</span><br /> -</p> - - -<h3>XVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas quem diria agora o que sentiste</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nesta, Pedro, de amor menos ventura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos carinhos ausente, que já viste</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Brotar melindres, produsir brandûra?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh! que dirias, Pedro, quando abriste</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelles dous conceitos da ternûra!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os olhos digo; mas amor ordena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Parte das queixas interpréte a pena.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span></p> - - -<h3>XVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Já no pardo capuz, roupas saudosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Emmudecida a terra se encobria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E nos hombros das nuvens tenebrosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ataúdes de sombra o tempo erguia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Consagrando com tochas lachrimosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mudas exequias ao defuncto dia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dando claros sinaes ao Jovem louro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em torres de Zaphir os signos de ouro.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quando a favor da vida o sentimento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Novos em Pedro reproduz gemidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sendo sumilher da alma o novo alento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que lhe corre as cortinas aos sentidos:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas já liquida dôr, claro tormento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se acredita nos olhos advertidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quem nas penas solitario mora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só lhe resiste vivo, em quanto chora.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span></p> - - -<h3>XX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Solicita retîros, em que unidas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se acreditaõ de finas as saudádes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que saõ mais primorosas, se sentidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ permittem motivos a piedades:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tributaraõ labéos de mal nascidas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A naõ passarem móstra de vaidades,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando naõ foraõ mais, que eternisadas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Solitarias, occultas, retiradas.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E já nas solidoens entretenido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Interpréta lisonjas aos cuidados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois vay vendo nas flores advertido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Morraes prendas, alinhos mal logrados:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas apenas se lembra enternecido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Daquelles Soes agora imaginados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando já vacilante se discorre,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aqui pasma, allî geme, acolá morre.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span></p> - - -<h3>XXII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual Girasol gigante, que atrevido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A beber rayos amoroso aspira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se bem, que entre zeloso, e presumido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Desdenha ufâno, temoroso gira:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas vendo apenas, que o galân querido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com disfarces de nacar se retira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque se vê das glorias todo ausente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Languido pasma, cuidadoso sente.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Em fim rompe nas queixas amorosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Agora Pedro, quando as vê sentidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ pódem livrar-se de penosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando sabem fugir a ser ouvidas:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E só discretas saõ, se rigorosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As que menos se presaõ de entendidas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que já por isso Pedro se as pertende,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">He só porque a si mesmo naõ se entende.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span></p> - - -<h3>XXIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay! gloria minha, diz, gloria sonhada!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Minha te chamo, quando assi perdida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que se naõ tens as veras de lograda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O desár naõ padeces de esquecida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como gloria maltratas, se lembrada?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como molestas gloria possuida?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na pósse logras ancias de fallivel,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na memoria rigores de impossivel.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Como soube deixar-me assi frustrado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Este rigor, que gloria se habilita,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando me fez mayor, que o mesmo Fado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mayor, que amor, mayor q̃ a mesma dita?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me disséra então, que este cuidado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fosse Rosa, que apenas se acredita,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando se vê nas maõs da naturesa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Trophéo da dôr, sangria da bellesa.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span></p> - - -<h3>XXVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay triste solidaõ! ay pena ingrata!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quanto menos cruel foras agora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se permittindo a magoa, que maltrata,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ roubáras a gloria, que te adóra:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas esta dôr naõ fora, que assi mata,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rigoroso pesár, se assi naõ fora;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois naõ se méde o mal de quem suspira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pelo que tem, senaõ pelo que tira.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas inda mais avante acompanhada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Desta dôr outra pena já me alcança;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois na magoa da perda lamentada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os alivios me rouba da esperança:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas como, se naõ fora eternisada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Maltratára das glorias a mudança?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que o pesár sem remedio padecido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mata porque hade ser, e porque ha sido.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span></p> - - -<h3>XXVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nem pódem mitigar esta saudade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Assistencias de amor, porque resiste</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Outra nova razaõ da soledade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nas distancias desse amor consiste:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que como aquelle objecto da vontade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hoje feito impossivel naõ me assiste,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sendo vinculo amor entre subjeitos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ tendo extremos, naõ produz effeitos.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Só deixára de ser eternisada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Esta dor, mas só fora divertida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se a memoria da pena imaginada</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ passára a ser pena padecida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só razão de praser, quando lembrada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Essa gloria tivera, que he perdida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se sendo assi passada na lembrança</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Soubéra ser futûra na esperança.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span></p> - - -<h3>XXX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nem queixumes de lagrimas sentidas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Alivios pódem ser nesta saudade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sendo partes da alma desunidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Saõ causas naturaes da soledade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque quando nos olhos advertidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Procuraõ fugitivas liberdade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquella mesma vida, que me alenta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tambem nellas partida se me ausenta.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Oh quem me déra já ser assistido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos penhascos talvez, que o monte cria!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas quem naõ tem razoens para sentido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ póde ter nas magoas companhia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E hum rigor por ausencias padecido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com nenhuma presença se alivîa;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quem nas ancias, que padece hũ triste,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Juntamente naõ pena, naõ lhe assiste.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span></p> - - -<h3>XXXII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E menos me permitte esta esquivança</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ser de vós assistido, lindas flores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois por gentis emblemas da mudança</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Jeroglyphico sois de meus amores:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E se produzis glorias na lembrança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mal podeis assistir a meus rigores;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ faz assistencia nos retiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem motiva principios aos suspiros.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nem já, féras, talvez vossa brutesa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Resta para topar branda piedade;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas como póde ser, se a naturesa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As noticias vos néga da saudade?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E no fatal rigor de huma tristesa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos efeitos mortaes da soledade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ póde ser a dor compadecida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem que seja na causa conhecida.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span></p> - - -<h3>XXXIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nem sereis, avesinhas, no saudôso</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Companheiras gentîs a meus retiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que diversos sujeitos no penoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tem diversas as magoas nos suspiros:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E bem se vê, que o mal todo invejoso</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mais a mim, do que a vós fulmina os tiros;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois nûm rigôr fatal hum, damno esquivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mais mata o racional, que o sensitivo.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E menos podeis ser a meus sentidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deleitoso carinho na saudade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lisonjeiros arroyos, que atrevidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Solicitaes dos olhos a vaidade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas como? se a meus ays, e a meus gemidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Multiplicaes melhor a soledáde;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois em vós retratado, e descontente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De mim mesmo me vejo estar ausente.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span></p> - - -<h3>XXXVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas ainda assi paray, que se melhora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nestas lagrimas minhas vosso augmento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se professais correntes, como agora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sabeis livres fugir ao sentimento?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Paray, naõ murmureis, que nisso fora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muito mais conhecido vosso alento;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Olhay que se condena, ou se aventûra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A naõ fazer remansos quem murmûra.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E vós paray nas queixas amorosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Galantes cortesans da soledade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ fazeis os pontos de queixosas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando dais tantas falsas na saudade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Paray, digo, a meus ays, paray piedosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Paray nos quebros, tende a liberdade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aprendereis a ser nestes retiros</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hum Féniz cada qual de meus suspiros.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span></p> - - -<h3>XXXVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Paray gentîs emblemas da vaidade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Flores, digo, paray, paray saudosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ bebais presunçoens, que a pouca idade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sereis de meus incendios mariposas:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aprendey dos alinhos da beldade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De vossa vida, digo, a ser piedosas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sempre foy nas regras da ternûra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muy capaz de liçoens a formosura.</span><br /> -</p> - - -<h3>XXXIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Paray féras tambem nesses ruidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Guardas do monte, archeiros da ferêsa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fazey caso das penas, que os bramîdos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Argumentos parecem da brutêsa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Isto basta, paray, que os entendidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pódem talvez notar vossa estranhesa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Minhas queixas ouvi, que alivio fora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem naõ póde fallar, me ouvisse agora.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span></p> - - -<h3>XL.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Paray broncos penhascos, que o Céo cria</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Para pardos Atlantes dos retiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se vos vence huma liquida porfia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como já resistis a meus suspiros?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas oh! que digo! páre a covardia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exhále o peyto, multiplique os tiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Duplîque amor, e dobre o sentimento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Agoa nos olhos, nos suspiros vento.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ferîdo o coraçaõ tribûte em fogo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Undósa parte, derretido alento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se liquida sangrîa ao desaffogo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lisonjeira lancêta ao sentimento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se excessivo queixúme, ardente rogo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se verte em nuvem, se distille em vento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ fique planta, que a pesár do espanto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ morra em fogo, naõ se afogue em prãto.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p> - - -<h3>XLII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sejaõ linguas dos olhos mudas agoas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Intérpretes da dor tristes retiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Eloquencias do peito vivas fragoas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Razoens do coraçaõ ternos suspiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rhetóricas da pena ardentes magoas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Elegancias de amor dobrados tiros:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Emmudeça a razaõ, que só parece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sabe tambem sentir, quando emmudece.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Distille o coraçaõ, duplique o vento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ethnas a seu pesár, agoas ao rogo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Morra por glorias de seu mesmo alento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Troya nas ondas, e Narciso em fogo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Incendios solicîte ao sentimento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Diluvios multiplìque ao desafogo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sendo de seu rigor o mesmo ensayo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas causas nuvem, nos effeitos rayo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p> - - -<h3>XLIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ cresça lirio, que naõ sinta os tiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Clavél naõ gire, que naõ pasme em fragoas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O que Féniz naõ for entre os suspiros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Morra já Faetonte sobre as agoas:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sejaõ vozes as magoas nos reriros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que melhor nos retiros se ouvem magoas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se se póde na dor, que amor ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ouvir a magoa sem sentir a pena.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ reste planta, que se atreva a tãto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ murche dos ays enternecidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rosa naõ fique, que, a pesár do espanto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se naõ séque ludibrio dos  gemidos:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em fim, duplique a dor, prodûza o pranto</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lastimosos naufragios dos sentidos;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja neste pesár, nesta esquivança</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Charybdes da alma o Cabo da esperança.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span></p> - - -<h3>XLVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas ay! que as plantas no desdẽ da idade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que as flores no rigor de hũ vento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A naõ serem Jasmins na brevidade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ seriaõ Perpetuas no tormento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só tu terrivel ancia da saudade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Eternizas agora o sentimento;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque quando matar-me amor ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Me deixas vida, com que o corpo pena.</span><br /> -</p> - - -<h3>XLVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem soubéra cuidar, que a mais crescida</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tyrannîa cruel da dor mais forte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fosse, quando nas perdas de huma vida</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Impossiveis sentisse de huma morte:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas he rigor da magoa repetida</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por industria fatal da iniqua sorte;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque quando talvez matar-me trata,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por topar-me sem vida, naõ me mata.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span></p> - - -<h3>XLVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E se fora da vida roubadora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Esta sorte fatal, tormento esquivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tivera só por pena matadora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qualidades de grande no intensivo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ, que como amor pertende agora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cumulár intensoens ao sensitivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ quer, que amor me mate, pois durára</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muito menos a pena, se matára.</span><br /> -</p> - - -<h3>IL.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Agora alcançarás, prenda querida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os rigores de amor na minha sorte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois agora me quer roubar a vida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só por ma naõ tirar primeyro a morte:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que a pena se duplîca unida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas ay! que a magoa se eternisa forte;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois que vejo na dor do mal esquivo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ posso morrer, porque naõ vivo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span></p> - - -<h3>L.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas agora na pena, que me entrega,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vejo, que quer a dôr, e a mais aspira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que padeça na morte, que o mal nega,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E que pene na vida, que amor tira:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aqui verás, Ignez, a quanto chega</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Esta pena de amor, que amor, conspira;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois agora naõ sey, no que discorro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se vivo ausente, nem se ausente morro.</span><br /> -</p> - - -<h3>LI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas em fim: que me queixo dos rigores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com que talvez amor me tyrannisa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando mais martyrisaõ seus favores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde qualquer lembrança os eternisa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois quando apenas se alentaraõ flores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Passaraõ quasi flor, que se agonìa;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por isso a minha queixa mais se ordena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A sentir seu desdem, que a minha pena.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span></p> - - -<h3>LII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Oh duro amor! oh fragoa dos gemidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Prisaõ da vida, Argel da liberdade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Martyrio da alma, guerra dos sentidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Encanto doce da melhor vontade!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Teus favores só foraõ conhecidos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por gentîs prendas da mais tenra idade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A naõ serem primeyro teus favores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seccas espinhas, que animadas flores.</span><br /> -</p> - - -<h3>LIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Que cuidados naõ causas Jovem cego?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que rigores naõ dás ao pensamento?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que delicias naõ roubas ao socego?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que lisonjas naõ finges ao tormento?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A que peitos naõ dás custoso emprego?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A que vida naõ tiras doce alento?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De que genios naõ reinas? de que idades?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De que prendas gentìs?  de que beldades?</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span></p> - - -<h3>LIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem me disséra, quando Ignez lograva</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos carinhos gentîs de seus favores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando nelles amor idolatrava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Para poder talvez morrer de amores!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me dissera, logo, que aspirava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hum cadúco praser a taes rigores!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me disséra então, que da ventura</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Era mortal delicto a formosura!</span><br /> -</p> - - -<h3>LV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem disséra, que os laços de alvedrios,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Gentîs madeixas, onde a naturesa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Repartio liberal por tantos fios</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os melhores extremos da bellesa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Esses agora, que acabarão brios,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se arrastão já bandeiras da tristesa?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas que muito, se nunca em seus ensayos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nenhum por Louro se isentou de rayos.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span></p> - - -<h3>LVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Oh bem, que pouco duras possuido!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só logras algum ser, quando esperado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos molestos receyos de perdido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tyrannizas o gosto de alcançado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh sonhada lisonja do sentido!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh mais terrivel ancia do cuidado!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Flor, que apenas se vê, quando se chora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Enteada do Sol, filha da Aurora.</span><br /> -</p> - - -<h3>LVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Aquelles olhos donde o Sol furtava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os melhores thesouros da vaidade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E em lusidas capellas consagrava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dous altares Amor a huma beldade:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelles, cuja luz interpretava</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os occultos archivos da vontade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Estes mesmos erarios da bellesa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deixa a perder de vista huma feresa.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p> - - -<h3>LVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Oh debil gloria lisonjeiro ensayo!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Babél da vida, lingua do escarmento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Desfeita sombra do mais breve rayo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quebrado vidro da mais tibio vento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Jasmim, que pasma de qualquer desmayo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cravo, que morres de teu mesmo alento!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh gloria humana! em fim gloria sonhada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vida, Sombra, Jasmim, ou Cravo, ou nada.</span><br /> -</p> - - -<h3>LIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Aquella bocca, donde a mais lustrosa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se divisava purpura incendida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em quem se vio nascendo a bella Rosa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com menos folhas, quando mais partida</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Agora só se occulta lastimosa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em desmayos de neve amortecida;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas que prenda não tem que formosura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muito menor a vida que a ventura!</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></p> - - -<h3>LX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">La pretende nascer Cravo lusido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas em casa gentil botão fechado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque aquella manhaã, que o vê nascido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O chorasse primeyro amortalhado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem, ô purpurea flor, taõ presumido?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas quem, Cravo gentil, taõ lastimado?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que lhe chegue a tecer a naturesa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A mortalha primeyro, que a bellesa.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Aquelle brando afleyo da ternûra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle doce Argél da liberdade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle emblema só da formosura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle bello encanto da vontade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle gentil pasmo da ventura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle rico erario da vaidade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nos alinhos se vê já confundida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Troféo da morte, lastima da vida.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span></p> - - -<h3>LXII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Que pouca duraçaõ, que mal segura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tem nas prendas da vida huma bellesa!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só vive em quanto nasce a formosura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Espira, em quanto vive a gentilesa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em fim, mais morre, quãto em fim mais dura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mortalidades traz por naturesa;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quanto mais alentada, e mais lusida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mais accidentes logra, e menos vida.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas se saõ melindrosa enfermidade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Prendas de amor, e dotes de huma vida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que muito, bella Ignez, que essa beldade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fosse de teus alentos homicida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Comtigo a morte foy no Abril da idade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Menos ambiciosa, que atrevida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem reparar, Ignez, que teus rigores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Perdessem fructos por cortarem flores.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span></p> - - -<h3>LXIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas viveràs, Ignes, que amor ordena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nestas memorias, donde a tyrannia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por naõ lograr-se mal a minha pena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Debuxàra melhor tua galhardia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aqui veràs, Ignes, se me condena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Amor, que por tyranno se avalia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A fazer impossiveis, pois discorro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Viver lembrado, quando auzente morro.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Morra no ramalhete flor cobarde</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A que Rosa nasceo  mais alentada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vomitando rubins pague na tarde</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quantas perolas bebeu na madrugada:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja bruto fiscal de tanto alarde</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mesmo dia, que  a chorou cortada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nenhuma manhãa, nem tarde temo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As contas tomar possa a tanto extremo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span></p> - - -<h3>LXVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Aqui passo tal vez a mais quererte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde chego mais fino a mais lembrarme,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque foraõ distancias de naõ verte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Incentivos quiçà para olvidarme:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas nem topo motivos de perderte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nesses teus infalliveis de deixarme,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que, sendo vida minha, sò pudera</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por perdida julgarte, se eu morrera.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Assim se queixa Pedro, quando ausente</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Daquellas prendas nunca esquecidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois amor, que lembradas as consente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As pintou bellas, quando as vio perdidas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando nas pennas, que dobradas sente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando nas queixas, que repete unidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Jà desmayando pasma, porque ordena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A mesma queixa, que se calle a penna.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span></p> - - -<h3>LXVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qual o Lyrio gentil nas mãos da tarde,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando fragoas se alenta, incendios gyra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Funesta tumba de seu mesmo alarde,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Bebendo rayos, abrazado espira:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O que roxo matìz a pennas arde,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Parda nuvem murchando se retira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em quanto a Aurora tarda, q̃ de hum rayo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lhe corre galas para novo ensayo.</span><br /> -</p> - - -<h3>LXIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Assim Pedro se pasma, e naõ consente</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os sentidos queyxumes, que derrama,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que se vive queixoso quem mais sente;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Poem limite nas queixas quẽ mais ama;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas aqui lhe concede amor presente</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquellas prendas, com que mais o inflãma,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que saõ talvez motivos do socego</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As memorias gentis do doce emprego.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p> - - -<h3>LXX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Agora, humanas prendas, se entendidas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O desdem desprezais da infausta sorte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ duraõ taõ pouco vossas vidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ saibaõ passar àlem da morte:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Attentay, se notardes advertidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naquelle de amor rigor mais forte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aconteceo da misera, e mesquinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que depois de ser morta foy Rainha.</span><br /> -</p> - - -<p class="center big p4"><em>FIM</em></p> - -<p class="center"><i>Da segunda parte</i>.</p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img006"> -<img src="images/006.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagem decorativa" /> -</span></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span></p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - - -<h2><span class="big">PARTE UNICA,</span><br /> -<span class="small">OU</span><br /> -TERCEIRA<br /> -<span class="small">DAS</span><br /> -SAUDADES,<br /> -<span class="small">E</span><br /> -SENTIMENTOS<br /><span class="small">DE</span> -<br /> -<span class="big">D. MARIA</span><br /> -DE LARA.</h2></div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img007"> -<img src="images/007.jpg" class="w50" alt="No grande sentimento, que teve da prizão se seu -esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas -lagrymas." /> -</span></p> -<p class="center caption"><i>No grande sentimento, que teve da prizão se seu -esposo, Glosou em Oitavas o Mote seguinte em que se ve a causa de suas -lagrymas.</i></p> -</div> - - -<p class="center"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados.</i></p> - - -<h3>GLOZA I.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Pois fostes olhos meus por quẽ mereço</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Da culpa o perdaõ que busco, e quero,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Instrumento do mal que hoje padeço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tambem o podeis ser do bem que espero:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Jà de meus altos pensamentos desço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A vil estado humilde, duro, e fero,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E jà que os males meus por vos saõ dados</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mortiferos enganos procurastes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos quaes muy graves damnos padeceis,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E pois de ver o mal nunca cansastes</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De chorar pelo bem nunca canseis:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E já que os grandes bens que eniquilastes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por quem vòs suspirais, por quem gemeis,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chorando poderaõ ser renovados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Das agoas que de vós estaõ manando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fazey hum rio claro, hum rio manso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que eu folgo de vos ver cançar chorando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois chorando ganhais vosso descanço;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas cousas em que vos hides cansando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nessas me alegro, e eu nessas descanço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E pois nos faz o choro descançados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Choray naõ descanceis, pois que ganhais</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chorando quantos bens aqui perdestes;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Póde ser, que nas agoas, que chorais,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Laveis as nodoas grandes, que fizestes:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray as grandes magoas, que me dais,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pelo gosto, que vós sem mim tivestes:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray males presentes, e passados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tantas agoas de vós sejaõ lançadas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que affoguem vossos torpes desvarîos:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E posto que estas agoas saõ salgadas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por ellas se navéga a doces Rios:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Soffrey, por ver-des culpas affogadas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tempestades crueis, calmas, e frios;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray, se dezejais ser perdoados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Acîma desta terra tem subido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As agoas do diluvio taõ sómente;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém as vossas poucas tem-se erguîdo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Encima deste Céo mais eminente:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E lá movendo estaõ com seu ruido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos, Senhor Supremo, Omnipotente;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E se delle quereis ser muito amados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>VII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Produzem temporal, terrestre fruto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As agoas, que os Céos daõ no duro inverno;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém o vosso choro, sem ser muito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Produz fruto celeste, e sempiterno:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nunca de vós o campo esteja enxuto</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chorando o mal antigo, e o mal moderno;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray, seráõ os males desterrados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span></p> - - -<h3>VIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">As agoas, que vós vedes ir correndo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que parece que vaõ de vós fugindo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por natureza vaõ ao mar descendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As vossas por virtude a Deos subindo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Humas chegando ao mar, vaõ-se perdendo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As outras ante Deos ficaõ assistindo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E se quereis de Deos ser estimados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>IX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">As agoas que das fontes vaõ manando,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fazem na terra vil vozes terréstes;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém estas, que vós ides chorando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">No Céo Empyreo saõ vozes celestes:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chovey, olhos, chovey, iraõ brotando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os bens, que cõ a secura aqui perdestes;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os quaes se desejais ver restaurados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span></p> - - -<h3>X.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Com muitas agoas cá vay-se apurando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qualquer pequeno vaso estando immundo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas vós com bem pouca agoa estais lavando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Immunda culpa, mór que o mesmo mũdo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por isso naõ canceis de estar chorando,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De lagrimas fazendo hum mar profundo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E pois por ellas sois galardoados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>XI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">As agoas cá vaõ só satisfazendo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A sede aos animaes, que as vaõ gostando;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas estas, que de vós estaõ nascendo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A vosso Deos a sede estaõ matando:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sempre estejaõ de vós agoas correndo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois por ellas o bem vem navegando;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do qual se quereis ser certificados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p> - - -<h3>XII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ninguem se afogarà se naõ lançado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em agoas que o possaõ estar molhando,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas vòs sem que molheis vosso peccado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O afogais nesta agoa que ies chorando:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E pois tendes o mal jà desterrado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E os bens por vossas agoas vaõ entrando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Atè que os possais ver desembarcados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Choray os annos uteis que gastastes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray o rico tempo que perdestes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray os bens divinos que deixastes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray males crueis que cometestes:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray enganos vãos que tanto amastes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray conselhos bons que aborrecestes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Choray olhos no bem jà melhorados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Choray, sem descançar, olhos cançados</i>.</span><br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="OITAVAS_CONSOLATORIAS">OITAVAS CONSOLATORIAS</h2> -</div> - -<p class="center"><i>Sobre o mesmo pezar</i>.</p> - - -<h3>I.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ainda que a dor da razão priva,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quãdo a causa della he muito amada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ainda que a paixaõ prende, e cativa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os discursos de huma alma atormentada.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A fé que sobre a mente he bem que viva,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois anda sobre os Ceos alevantada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos males que sentis, e dos que vedes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vos consola com os bens, que por fé crédes.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O Deos, centro das almas, guia, e norte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por quem cada qual dellas he regidas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fez que esta nossa vida fosse morte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Depois que sua morte fez a vida:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Assim quem vive mais tem peor sorte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois que padece morte mais comprida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porq̃ naõ logra mais quem tem mais annos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas quem mais annos tẽ, sofre mais dãnos.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Aquelle puro espirito encastoado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">No delicado corpo que vos vieis,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò consentia ser de vòs amado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque o divino amor lhe consentieis;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E pois que Deos aos Ceos o tinha dado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E vòs só do emprestado possueis,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque haveis de chorar de ver que Deos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Da terra quer levar o que he dos Ceos?</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tanto o amador melhor padece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O trabalho por mais duro que seja,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quanto delle o pezar mais enriquece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A cousa que mais ama, e mais deseja.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ quer que a terra indigna mais a veja,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Possa mais o seu bem para alegrar-vos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do que pòde esse mal para cançar-vos.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">He tençaõ do amor à razaõ dada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que os bens que busca ainda em seu perigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mais saõ para os dar à cousa amada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ para logralos sò comsigo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois se estes a que esta alma foy chamada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Folgay de carecer da parte vossa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque ella a parte, e o todo lograr possa.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem vive no terrestre Purgatorio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vive para ir gozar de hum bem eterno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E em quanto tinheis nella o transitorio;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em tanto naõ tinha ella o sempiterno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois se he ponto de fé, claro, e notorio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que acaba o bem antigo, e o bem moderno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se lhe querieis bem, num bem está posta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">No qual todos os bens possue, e gosta.</span><br /> -</p> - - -<h3>VII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas vòs a quem a dor custa mais caro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Direis do damno della atormentado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ chorais da esposa o rico amparo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas que chorais a vòs desamparado.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porèm sabendo Deos que era muy raro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Poder viver sem amar, e ser amado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Amar sua belleza vos convida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E quer que vendo a morte, ameis a vida.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p> - - -<h3>VIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Porque este autor de toda a formosura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Movido da feição, não de rigor,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vos tira dante os olhos a pintura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque ponhais os olhos no pintor;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O casto amor que tinheis foy figura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do real, verdadeiro, e puro amor,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que se Deos vos tirou cousa tào bella,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Foy por vos dar a si que o he mais que ella.</span><br /> -</p> - - -<h3>IX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">As cousas que da terra vaõ passando,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nòs andamos nella pretendendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ saõ para os lograr nellas parando,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas para Deos por ellas irmos vendo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Assim esta que vos hieis amando,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sabey, que ordenou Deos, segundo entendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que no humano amor vos enssayasseis,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque o divino amor representasseis.</span><br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="OITAVAS">OITAVAS</h2> -</div> - -<p class="center"><i>Sobre assistir na Corte, para onde veyo solicitar o haverem a -liberdade de seu marido.</i></p> - - -<h3>I.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">He muito natural de quem carece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do bem q̃ desprezou, ou q̃ despreza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Louvalo a quem o tem, porque conhece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que louvado se ama, estima, e preza:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E como bens mais altos appetece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Toma de mòr estado, mòr empreza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O bem que desprezou esse festeja,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o bem que naõ alcança, esse deseja.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Na corte em que morais louvais a fonte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O monte, a solidaõ, bosque cerrado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Da qual muito dizeis do prado, e monte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas muyto mais se vè no monte, e prado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por mais que ninguem diga, e mais que cõte</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ fica ditto nada, nem contado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque he o que se diz morta pintura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o que se vè real viva figura.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Eu cà no monte moro, e naõ com elle,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vòs na corte morais, mas he com ella,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem logra o monte logra o doce delle,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem sofre a corte sofre o agro della:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Diga a corte do monte o bem que ha nelle,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Diga o monte da corte o mal que ha nella,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque he regra direita de amizade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que pague huma verdade outra verdade.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ahi por dar calor a huma esperança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que com dadivas grandes só aquenta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se perde o que se tem, e naõ se alcança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se naõ o que molesta, e que atormenta;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ahi se peza tudo em tal balança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que na maõ desigual só se sustenta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E com taõ maõ fiel que o mais pezado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Contra direito tràs mais levantado.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">De palavras se faz rica almoeda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que deixaõ pobres sempre os compradores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde comprais cõ tempo, e cõ a moeda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As esperanças vãs aos vendedores;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Gastais a vida, o pam, o pano, e a seda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Desejos só vos daõ como penhores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que cada qual por grande preço empenha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quem, ou gasta o tempo, ou desempenha.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ahi onde repousa a esperança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A sombra da infamia, e da deshonra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde a vosso pezar anda a privança</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Taõ alta que os pès tras sobre a honra:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ahi onde se tira o ferro à lança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que seu dono levanta, louva, e honra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde os merecimentos se escurecem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com fantasticos lumes, que apparecem.</span><br /> -</p> - - -<h3>VII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O fim da pertençaõ he duvidoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o trabalho della sempre he certo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas se o mal vos afasta, que he penoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O apparente bem chegarvos perto;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O dezejo do fim traz-vos mimoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Molesta-vos porèm o vello incerto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E se sabe a proveito o falso engano,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Depois de experimentado sabe a damno.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span></p> - - -<h3>VIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ahi onde se vem com liberdade</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Andar todos os doudos desatados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquem, ou a sciencia, ou dignidade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por mal de quem os vè tras embuçados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Detras da vã mentira anda a verdade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Para poder falar com os mais privados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ahi vos he pezado, mas forçoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rogar, fingir, temer, e estar queixoso.</span><br /> -</p> - - -<h3>IX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Rogar a peito duro, e empedernido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que só com metais ricos se quebranta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em que lançais algum, mas taõ perdido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nem pode ser situ, nem ser manta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rogar por termo humilde, mas fingido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vos abate avòs, outrem levanta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rogo que faz Senhor, ao que he ouvinte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E ao que roga faz pobre pedinte.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span></p> - - -<h3>X.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Fingir, andando sempre atormentado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Para o alheyo bem grande alvoroço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fingir que desejais de ser creado</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De quem pudera ser creado vosso:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fingir alegre rostro, a rostro irado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vos desejais ver sem seu pescoço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fingir palavras vãs tintas com cores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sendo ellas de fel, pareçaõ amores.</span><br /> -</p> - - -<h3>XI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Temer que seja falsa a esperança;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que tanto tarda, cansa, e tanto custa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Temer que os bens, que a fama vos alcansa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vos negue a Corte ingrata, dura injusta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Temer que este temor que tanto cança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja da esperança a paga justa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sejaõ os cortesaõs prometimentos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem nenhuma largura comprimentos.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span></p> - - -<h3>XII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Estar queixoso de ver quanto alcançaraõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os que parios em paz nunca correraõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Queixoso de ver bens que transbordaraõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fóra dos que estes bens naõ mereceraõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Queixoso de ver que inda naõ pagaraõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Serviços que fiados se fizeraõ</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Queixoso porque o mào sem seu trabalho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faz bigorna do bom, faz de si malho.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A terra em que repouso, em que descanso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na qual livres cuidados apascento</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cento me dà por hum, que nella lanço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A corte davos hum, lançais-lhe cento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Compra-se cà com gosto o que he descanso;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Comprais lá cõ desgosto o que he tormento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O bem que tem o monte nunca o nega,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mal que tem a corte, sempre chega.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span></p> - - -<h3>XIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Depois que o mundo vão experimẽtastes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Depois de ser por sorte despachado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Me diz que vos deraõ, e o que gastastes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E achais que o que trazeis que foy comprado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sabeis quã caro em fim tudo comprastes</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na corte, que vos tem desenganado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na qual quando as merces saõ muito largas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Despachaõ só com cargos, que saõ cargas.</span><br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="OITAVAS2">OITAVAS</h2> -</div> - -<p class="center"><i>Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum Mosteyro -de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que poderia vir, -segundo as pennas, que à acompanhava.</i></p> - - -<h3>I.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ficay esteriles campos, calvos montes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Incultas serras, tristes arvoredos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ribeiras seccas, peçonhentas fontes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Medonhos valles, asperos rochedos;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ficai mal assombrados orizontes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Parados rios, desiguaes penedos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que jà me naõ vereis como me vistes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Inda que o ser mudeis de serdes tristes.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Meus sentidos trouxestes jà fechados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que agora sem vos ver já trago abertos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De ouro, e de azul vestistes meus cuidados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas agora os vereis de dò cubertos;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se os vistes andar sempre acompanhados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Metidos os vereis pelos desertos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sempre senti pezar, nunca alegria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nunca em vòs descançei, sempre cançava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O bem que achava em vòs, de mim fugia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas se me achava o mal, em mim parava:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A treição me dava, e me feria</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se delle por diante me escuzava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Notai deste meu mal este segredo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sendo matador, he falso, e tredo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Em vós todos os bens vi contrafeitos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cujas internas formas eraõ dores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em vós topey pastores lobos feitos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém ainda em trajos de pastores;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A estes procureis, e vãos respeitos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dos bens alheyos vi destruidores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Gostando só do mal que entaõ causavaõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E roubando os taes bens, que naõ gostavaõ.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mais feroces, que lobos, pois que querem</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sustentar-se dos males, que causarem:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que os lobos mataõ gado por comerem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas estes só matavaõ por matarem;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sómente se recream em offenderem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os que mais suas leys contrariarem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque a contradicçaõ faz inimigos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Daquelles, que antes della foraõ amigos.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nenhum seu proprio estado já respeita</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E trazem nas aldeas em que moraõ</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rebuços de virtude contrafeita,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E rostos naturaes do mal que adoraõ:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Condẽnam a ley do Ceo por muito estreita,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E em todas por seu mal sempre peòram,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Taõ amigos do bem, que vivo o enterram,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E taõ destros no mal, que nunca o erraõ.</span><br /> -</p> - - -<h3>VII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">De Astioge se diz que aborrecia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Cyro moço tenro, e delicado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quem morte cruel traçava, e ordia;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque era pretensor do seu Reynado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém o odio destes naõ se cria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por enveja, ou temor demasiado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò com odio do bem, o bem perseguem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por seguirem o mal, que todos seguem.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span></p> - - -<h3>VIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas eu que escrevo, canto, falo, ou digo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me importuna, turba, e desordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se a cegueira que tem he seu castigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E sua mà vontade he sua pena;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem tem o mundo, que naõ tenha amigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se Deos assim o traça, assim ordena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que tudo quanto ha, tenha adversario,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E seja o homem de si cruel contrario.</span><br /> -</p> - - -<h3>IX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Saõ estes desliaes adoradores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Da propria vontade cega, e dura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que fazem de seus vicios seus senhores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E só para seu mal mostraõ brandura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Das sempiternas leys contraditores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Trazendo destas leys a vestidura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Amadores do mal, e da mentira,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span></p> - - -<h3>X.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Vestem a perversaõ com sua nobreza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Querem fazer da noite claro dia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sua maldade cobrem, com a riqueza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Rebução com poder a tyrannia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Disfarçaõ sua furia em fortaleza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A vontade cruel julgaõ por pia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.</span><br /> -</p> - - -<h3>XI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A seus filhos mataraõ por peccarem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas estes mais crueis que os que passaraõ</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Querem-lhos inventar para os matarem;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os bens dignos de premio nunca olharaõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò vem os males para os castigarem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o que he furia cruel digna de espanto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p> - - -<h3>XII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Falo com reprovados, que abterno</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Foraõ por culpa sua condemnados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ao fogo abrazador do escuro inferno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sepulchro dos que jà saõ reprovados;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Juizo foy divino, e sempiterno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que os juizos humanos traz cançados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vivaõ de mistura os escolhidos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com os que se haõ de perder, e já perdidos.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas ay que póde ser q̃ os que reprehendo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Subaõ do mal ao bem que naõ conhecem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E póde vir a ser que os que defendo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deçaõ do bem ao mal, que hoje aborrecem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quaes saõ os de Deos, eu naõ no entẽdo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Senaõ segundo as obras que aparecem:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porèm a graça de huns naõ he segura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E nem a culpa de outros sempre dura.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span></p> - - -<h3>XIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O Principe das trevas naõ pretende</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com todos seus vassalos preseguirnos?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ nos deseja mal, naõ nos offende?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E naõ estuda sempre em destruirnos?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ temos nòs a Deos que nos defende,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se elle quer offendernos, e oprimirnos?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se nòs sem paixam nossa o desprezamos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque com seus ministros nos cançamos?</span><br /> -</p> - - -<h3>XV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Que ter amigos taes he sorte boa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois saõ occasiões para a vitoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Artifices sutis da altiva coroa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que Deos costuma dar na eterna gloria;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ quero que me cause, ou que me doa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Trazelos como trago na memoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque, ou sejaõ cilicio, ou disciplina,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Saõ meyos de mayor graça divina.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span></p> - - -<h3>XVI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem nunca aborreceo o ferro agudo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com que o barbeyro destro dà a sangria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se para o mal que vem serve de escudo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lançando à força o mal que havia:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem trata mal o instrumento tudo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que dente lhe arrancou, que lhe dohia?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Amem-se pois amigos que daõ pena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois Deos meyos os faz do bem que ordena.</span><br /> -</p> - - -<h3>XVII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Chorẽse os dãnos seus que naõ conhecem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois que primeiro a si se offendem, e mataõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com os males com que os justos enriquecẽ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que exercitaõ no bem quando maltrataõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A si oprimem, damnaõ, a si empobrecem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A si destruem, cansaõ, e disbarataõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quem dos bens alheyos qualquer copia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Serve de afronta, penna, e magoa propria.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span></p> - - -<h3>XVIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O profeta David Deos defendia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do Rey perverso injusto que o buscava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Saul por huma parte o perseguia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E Deos por outra parte o sublimava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Levanta-o Deos por Rey, porque o sofria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Destroe Deos o Rey que o invejava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem sofre reyna, quem perdoa alcança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">He o odio do mào a espada, e a lança.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Assim que està por ley jà definido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A qual se tem no mundo publicado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que em bẽ redunda o mal quãdo he sofrido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E empena fica o bem quando he passado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hum passando deixou triste o sentido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Outro durando o traz desenganado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque hey de gastar bem que tanto damna,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E temer mal que tanto desengana.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span></p> - - -<h3>XX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Assim Deos o permitte, assim o ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nesta vida triste, e transitoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com gloria vaã se ganhe eterna pena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com pena temporal eterna gloria:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O gosto sempre a alma dezordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A penna faz a vida meritoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando se gosta o bem entaõ escurece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando o trabalho cansa, entaõ enriquece.</span><br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="SONETO">SONETO.</h2> -</div> - - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Horas breves de meu contentamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nunca me pareceo quando vos tinha</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vos visse mudadas taõ azinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em taõ compridos annos de tormento.</span><br /> -<span style="margin-left: 2em;">As minhas torres que fundei no vento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O vento mas levou que mas sustinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do mal que me ficou a culpa he minha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois sobre cousas vãas fiz fundamẽto.</span><br /> -<span style="margin-left: 2em;">Amor com falsas mostras aparece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo possivel faz, tudo assegura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas logo no melhor desaparece,</span><br /> -<span style="margin-left: 2em;">Ó grande mal, estranha desventura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por hum breve prazer que desfalece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aventurar hum bem que sempre dura.</span><br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="OITAVAS3">OITAVAS</h2> -</div> - -<p class="center"><i>Que fes a mudança do Mundo no espelho de seu esposo, sobre que -ponderou a variedade delle segundo o discurso, com que glosou o Soneto -186. das Rimas do Principe dos Poetas o Grande Luis de Camões, que fica -na pagina antecedente.</i></p> - - -<h3>GLOZA I.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Agora q̃ meu mal trouxe a meu dãno</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mil annos se detẽ hũ duro inverno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quẽ em hum sò momẽto acha hũ anno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hum anno lhe parece tempo eterno;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Assim por castigar meu cego engano,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por quem jà me naõ rejo nem governo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As horas mudaõ em annos de tormento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Horas breves de meu contentamento.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O gosto por algum tempo me destes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque vindo o desgosto mais durasse,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que se no falso bem me detivestes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Foy por manchar o mal quando chegasse,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Logo me pareceo quando vistes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que nunca longos annos vos lograsse,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas que fosseis agora a penna minha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nunca me pareceo quando vos tinha.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">E com me parecer que vos detinheis,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O vosso vaõ soheyto me mostrava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ser taõ certa a mudança do que tinheis</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como a posse do bem que entaõ lograva:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cuidey, ó horas breves, quando vinheis,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que o tempo por algum tempo vos dava,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas nunca presumio esta alma minha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vos visse mudadas taõ azinha.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Bem podes em breve tempo conhecer,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que por discurso as cousas vay sabendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que a brevidade occulta do prazer,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Da vaidade delle está nascendo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas como a payxaõ tira o saber,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ pude nesse tempo ir entendendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vos mudasse o vil contentamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em taõ compridos annos de tormento.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ julga o vaõ juizo apaixonado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com segunda razaõ, alta, e profunda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que quando o fundamento vay errado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Errado hade ficar quanto se funda;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Assim para ficar mais magoado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E porque o erro meu mais se confunda,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em vento resolveo meu fundamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As minhas torres, que fundei no vento.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode ser constante a esperança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fundada sobre hum falso pensamento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque a constante, e firme segurança</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Procede de ser firme o fundamento:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por isso vi taõ cedo esta mudança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque as torres que fiz fundei no vento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E como eu no vento as torres tinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O vento mas levou, que mas sostinha.</span><br /> -</p> - - -<h3>VII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Culpa de meu perverso, e vaõ sentido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que vendo só mal huma sombra boa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas estimou o mal pelo vestido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do que estimou o bem pela pessoa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas posto que me veja hoje perdido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em penna que a razaõ tanto magóa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como buscar o bem sò a mim convinha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do mal que ficou a culpa he minha.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span></p> - - -<h3>VIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por culpa só morre, e padece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem quer que as armas deu a seu amigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Bem mostra que seu mal naõ aborrece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem deste mesmo mal ama o perigo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois logo se a razaõ isto conhece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Justo tormento foy, justo castigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que tudo me levaste o leve vento,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois sobre cousas vãas fiz fundamento.</span><br /> -</p> - - -<h3>IX.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sente o cego amador em seus amores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A paga do serviço ser o engano,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Converterem-se os bens em puras dores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ser o proveito pouco, muito o damno;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mentirosas lisonjas os louvores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O fim de seu trabalho hum desengano,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém nestas verdades que conhece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Amor com falsas mostras aparece.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span></p> - - -<h3>X.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tudo o que vê cruel, mostra amoroso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que he puro, mal finge bem puro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que certo he, faz duvidoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E tudo o que se vay, dà por seguro;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo que doce he, diz que he penoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que he manifesto, mostra escuro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo confunde amor, tudo mistura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo possivel faz, tudo assegura.</span><br /> -</p> - - -<h3>XI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mostra que pode dar contentamentos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquelle que de taes mostras se fia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E mostra que he remedio de tormentos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Instrumento do bem, e da alegria;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mostra que faz seguros fundamentos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E que leva segura, e recta via,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mostra que a vida toda permanece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas logo no melhor desaparece.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span></p> - - -<h3>XII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mas ó razaõ perversa, e infernal,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois tens a eleiçaõ taõ cega, e injusta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que queres dar hum bem que tanto val,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por hum perverso mal, que tanto custa:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que por iguaes teu bem, queiras teu mal,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E que aborreças tanto a vida justa?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que ames mais que a vida a morte dura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ó grande mal, estranha desventura.</span><br /> -</p> - - -<h3>XIII.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nesta alegria falsa, a qual eu douro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com minha razaõ torpe, e com meu erro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Onde as promessas saõ de fino ouro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E as dadivas saõ de duro ferro;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Trocava o rico preço, e o thesouro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que me levava à patria do desterro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Trocava o eterno bem que permanece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por hum breve prazer que desfalece.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p> - - -<h3>XIV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sò o torpe juizo, e insensato,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quem verdades tais saõ odiosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Das cousas preza mais o aparato,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do que preza, e ama as mesmas cousas;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò este a quem por falso jà naõ trato,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pode por falsas mostras, mas fermosas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por huma breve, e vãa desventura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aventura hum bem que sempre dura.</span><br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="OITAVAS4">OITAVAS</h2> -</div> - -<p class="center"><i>Que fez dirigidas a sua magoa, na consideraçaõ do discurso -antecedente; e juntamente mostrando o quanto perturbado tinha com -pennas o seu coraçaõ sobre que glosou o Mote seguinte.</i></p> - -<p class="center"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra.</i></p> - - -<h3>GLOZA I.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode ser a chama quente, e fria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na tempestade estar o ar sereno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na noyte escura verse o claro dia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O fogo abrazador sentir-se ameno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Acharse na tristeza à alegria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E poder ser mezinha, o que he veneno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ se pòde ajuntar o ceo com a terra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ se acha pelo mar caminho aberto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Lua naõ se vè nunca constante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem pode o que he desordem ser concerto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O preto, o branco ser, hum mesmo instante;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na incerteza acharse o tempo certo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem ser hum mesmo sabio, e ignorante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ninguem na patria fica, e se desterra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode ser piadoso, o que he tyranno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ninguem em seu tormento, tem sua gloria</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em seu proveito pode achar seu damno,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E sua destruiçaõ sua victoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ mora o desengano, no engano,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ he a vida eterna transitoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ sobe o valle nunca, mais que a serra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ pòde ser prudente o vicioso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sollicito, sagaz, o descuidado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem manso pode ser o furioso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem pode estar contente o magoado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ he o temerario temeroso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem he ditoso o mal afortunado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ninguẽ em hũ mesmo tempo acerta, e erra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ pode o que he doença ser saude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O que he prodigo ser tambem avaro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ pode ser peccado o que he virtude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O que custa barato, custar caro;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O engenhoso ser grosseiro, e rude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aquillo que he commum puder ser raro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ resplandece o ouro se se enterra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ he resplandecente o abysmo escuro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ pode ser traiçaõ, o que he lealdade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O puro bem, naõ se acha no mal puro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A mentira naõ pode ser verdade;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O fundamento vaõ naõ he seguro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem pode ser segura a falsidade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E assim como naõ cabe o Ceo na terra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Naõ cabe a mesma paz, na mesma guerra</i>.</span><br /> -</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="OITAVAS5">OITAVAS</h2> -</div> - -<p class="center"><i>Que ultimamente fez com grande espirito, quando se vio dezenganada -do mundo, e conheceo a sua variedade sobre que glosou o Mote -seguinte.</i></p> - -<p class="center"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo.</i></p> - - -<h3>GLOZA I.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ay Dios, ay alma mia, ay dura suerte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ay triste como estoy tan affligida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pues que pude peccando dar la muerte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quien no puedo dar llorando vida;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fue ser mi culpa tal, tanta dura, y fuerte,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que solo de Dios, es bien entendida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Y pues es tal mi mal que no lo entiendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span></p> - - -<h3>II.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quien me diera, mi Dios, pues te offendi,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pues con tanto plazer te he offendido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que fuera igual a el mal que cometi</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">El pezar de tenerlo cometido:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quien pudiera, Senhor, vengarte en mi,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por todo quanto bien he destruido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas si llorando el mal en parte imiendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>III.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sin ti quizo el mal mi coraçon,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pero contigo del es levantado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pues que para poder darme el perdon,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Me dás arrepentirme del peccado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Abage-se al profundo la razon,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pues a Dios de lo alto ha derribado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Venid suspiros ya, venid saliendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p> - - -<h3>IV.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Menos dolor tuviera en la memoria</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Del mal, que a tantos males me condena</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Si me quitara a mi tan dulce gloria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Y no te diera a ti tan dura pena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas pues mi culpa yá es tan notoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sea notorio el llanto, que ella ordena,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Y por mostrar que mal me està doliendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br /> -</p> - - -<h3>V.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Holgara ò Dias remedio del engaño,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que en camino te puzo taõ estrecho</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que ansi como del mal fue tuyo el daño,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pudiera ser del bien tuyo el provecho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pero teniendo de esto el desengaño</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mirando en tu persona abierto el pecho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Con voz llorosa, y triste ando diziendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span></p> - - -<h3>VI.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Vi la causa del mal quize agradarla,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ya veo la del bien quiero sentirla,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Miré la falcedad, quize abraçarla,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Yà miro la verdad quiero seguirla;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Si para tanto mal fue desecharla,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por mucho mayor bien era admitirla,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Y en quanto su ausencia estoy sintiendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Salid sin duelo lagrimas corriendo</i>.</span><br /> -</p> - - -<p class="center big p4"><em>FIM</em></p> - -<p class="center"><i>da Terceira, e ultima parte</i>.</p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img008"> -<img src="images/006.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagen decorativa" /> -</span></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="VIRTUDES_E_VICIOS">VIRTUDES, E VICIOS,</h2> -</div> - -<p class="center"><i>Feitas pela mesma Autora à instancia de huma Religiosa devota, as -quaes virtudes augmentaõ as Religoens para melhor servir a Deos Nosso -Senhor sendo-lhe contrarios os vicios que as destroe.</i></p> - - -<h3><i>Humildade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sempre nos baixos me encerra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A luz que a Deos me prendeo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas quanto deço na terra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tanto me sobem no Ceo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Liberalidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Cubro o bom, cubro o iniquo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo comigo se cobre,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Comigo he rico, o que he pobre</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem mim he pobre, o que he rico.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p> - - -<h3><i>Castidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem contra mim nunca erra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem comigo a si venceo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fica estrangeiro na terra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faz-se natural do Ceo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Paciencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem por meu respeito cansa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sofrendo o mal que parece,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo vence, e tudo alcança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo tem, tudo merece.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Temperança.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou temperada virtude</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que todo o corpo governa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dou-lhe temporal saude</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A alma saude eterna.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Charidade</i>.</h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou amada, e amadora</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do mais perverso louvada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Das creaturas, criada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas das virtudes senhora.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span></p> - - -<h3><i>Diligencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem nesta vida me tem</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Logra o bem acrescentado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que a diligencia no bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faz que o bem seja dobrado.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Prudencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou prudente em toda a hora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cousa com que sou contente;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque em quanto sou prudente</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ posso ser peccadora.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Silencio.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Dẽtro em mim mesmo me encerro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo ouço, e tudo callo;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque tanto menos erro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quanto menos vezes falo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Fè.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou fè que da alma desterra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mal, que a escureço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Estando presa na terra</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Subo mil vezes ao Ceo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span></p> - - -<h3><i>Esperança.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Espero hum bem immortal</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Donde os bens todos me vem;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque a esperança do bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A doça a penna do mal.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Penitencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou a virtude que tem</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Contra o mal grande potencia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou a feliz penitencia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que converte o mal em bem.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Oração.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Posto que grosseira, e rude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sempre oro em meu coração;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque só nesta Oração,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se a prende toda a virtude.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Perseverança.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Persevero sem mudança,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Insisto sem me mover,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois tudo pode vencer</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A longa perseverança.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span></p> - - -<h3><i>Mansidaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Mansa sou, e assim alcanço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quanto prometem os Ceos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que o que na vida he mais manso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">He mais semelhante a Deos.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Fortaleza.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Resistir he meu officio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo venço com firmeza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque a firme fortaleza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vence, e mata todo o vicio.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Verdade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sempre acho quem me louve</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por ser natural dos Ceos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos ouve, quem me ouve,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me busca, busca a Deos.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Misericordia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou das virtudes concordia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Estou na terra, estou nos Ceos:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou huma cousa como Deos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois que sou misericordia.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span></p> - - -<h3><i>Abstinencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tenho o rosto feo, e fero</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas sou de summa excellencia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou o custo da abstinencia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que os apetites tempero.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Desprezo do mundo.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O mundo, ou o immundo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deixo, como reyno alheyo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois com desprezo do mundo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Todo o mundo senhoreo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Constancia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou forte firme, e prestante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tenho a Deos, e Deos me tem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem no bem he taõ constante,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Bem he que tenha tal bem.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Justiça.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A Deos tenho por farol</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nunca me cega a cubiça,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Senaõ sou Sol de Justiça,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou justiça mais que o sol.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p> - - -<h3><i>Pobreza.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Ninguem por mim se governa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Antes sou mui perseguida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sendo miseria da vida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Posso dar a vida eterna.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Mortificação.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou das virtudes hum cofre</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque a todas faço a cama,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se persigo a quem me sofre,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Guarlado-o a quem me ama.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Paz da alma.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem me logra cà na terra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me tem do Ceo me traz,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Na terra me sinto em paz,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por mayor que seja a guerra.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Modestia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou composta e sou honesta</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Exemplar aos que me vem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com exemplo de modestia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Provoco todos ao bem.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span></p> - - -<h3><i>Gratidaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Folgo de ser gratidaõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque meus bens conhecendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Agradeço o que me daõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E mereço o que pertendo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Simplicidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem me logra, e quem me tem</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">He quasi celestial,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nunca cahe em nenhum mal,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque sempre cuida bem.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Pureza da alma.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Todo bem sigo, e procuro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Todo mal me he odioso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo quero virtuoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo alimpo, tudo apuro.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Zelo do bem.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ me traz no coraçaõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O máo, o perverso, e rude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pareço as vezes paixaõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porèm sempre sou virtude.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span></p> - - -<h3><i>Desprezo proprio.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Pois no mal naõ faço pauza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo faço em meu despeito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Desprezo o mal como effeito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E amim como propria causa.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Renunciaçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Deime com favor dos Ceos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos meu ultimo fim,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque dandome eu a Deos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se me desse Deos a mim.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Innocencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sò de mim se entende, e cre</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sem mal posso ter bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me tem nunca me vé,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem me vè ja me não tem.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Correiçaõ fraterna.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Dos vicios sou adversaria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Todo o mundo me ha mister,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sendo a todos necessaria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ninguem me pode sofrer.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p> - - -<h3><i>Recolhimento.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Recolhimento procuro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do corpo, alma, e sentido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pois quanto mais recolhido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tanto do mal mais seguro.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Continencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sempre ando em companhia</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Da singular castidade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em minha difficuldade,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Consiste minha valia.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Discripçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Eu tiro de todo enleyo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A qualquer juizo rude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou a que descobre o meyo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em que consiste a virtude.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Amor Divino.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Na terra sou peregrino,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porém no Ceo sou Senhor,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sendo Deos divino amor,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faz-me Deos amor divino.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span></p> - - -<h3><i>Amor do proximo.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Depois que subo às alturas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por amar a meu senhor,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como subo ao creador,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Devo amar as creaturas.</span><br /> -</p> - -<h3><i>Devoçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Faço doce o que he penoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faço leve o que he muy grave,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que he difficultoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faço facil, e suave.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Fervor.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A muitos pareço louco,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que naõ conhecem meu fruto</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ainda que eu faça muito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo me parece pouco.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Graça.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tudo comigo se cobre,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Das paixoens tenho a victoria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem mim nenhuma boa obra,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pòde merecer a gloria.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span></p> - - -<h3><i>Bem exemplo.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Edifico os que me vem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Honrarey a quem me der,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò com as mostras do bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muytos bens faço fazer.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Conformidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou conforme o meu querer,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos de quem tudo espero,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque tudo quanto quero,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Seja tudo o que elle quer.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Pura tençaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Subiraõ à mayor alteza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os Santos por minha via,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Conforme a minha pureza,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tem as virtudes valia.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Temor de Deos.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por naõ fazer hum aggravo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A Deos chego a todo extremo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Posto que sou escravo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò como seu filho o temo.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span></p> - - -<h3><i>Negaçaõ propria.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Como em tudo a Deos me entrego</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como me devo entregar,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em tudo o que he meu me nego</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por naõ vir a arrenegar.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Obediencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Faço prudentes os rudes,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que sé regem sò por mim,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou principio, e sou fim,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De todas as mais virtudes.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Vergonha.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Tanto duro virtuosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Devota, sesuda, e prompta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quanto duro vergonhosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quem comigo se encontra.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Brandura.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">De ninguem desprezadora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De todos muito prezada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">De alguns naõ sou amadora,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas sou de todos amada.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span></p> - - -<h3><i>Cortezia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem me tem fama terà,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que he o meu mais proprio fruto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem dar nada quem me dà,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fica recebendo muito.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Compaixaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Conversando entre a gente,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com vontade pouco esquiva,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mereço por compassiva,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A gloria do paciente.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Lealdade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O mundo bem me dezeja,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ toma por guia,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A que sou na frontaria,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou nas costas da Igreja.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Consciencia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Aviso do mal, e bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quem, ou bem, ou mal quer,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem quer que me naõ tiver,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nenhuma virtude tem.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span></p> - - -<h3><em>VICIOS.</em> <i>Soberba.</i></h3> - - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Trago o rostro sesudo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ando melanconizada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cuido de mim que sou tudo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E eu sou menos, que nada.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Avareza.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nada dou, tudo retenho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Atè a mim me nego o bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Peço quanto os outros tem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ dou nada do que tenho.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Ira.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Para tudo sou mofina,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ando amarella, e rayvosa,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mimo brando me indigna,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como palavra afrontosa.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Inveja.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">He minha condiçaõ tal,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que me naõ sofre ninguem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque atè o alheyo bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Me serve de proprio mal.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span></p> - - -<h3><i>Preguiça.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nunca me quero mover,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque em nada me resolva</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas que o mundo se resolva,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ me posso resolver.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Discordia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Atè a mim me contradigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem me regem, nem eu rejo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ninguem peleja comigo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E eu com todos pelejo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Liviandade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Do canto muy pouco alcanço</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas em todo o tempo canto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem som bailo, trinco, e danço</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas, que a casa esteja em pranto.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Presumpçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Seco afrol nunca dou fruto,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por ser meu sentido louco,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se de mim presumo muito,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">He porque sey muito pouco.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span></p> - - -<h3><i>Vaidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Pretendo as honras mayores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por maranhas, e invenções.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sempre desejo louvores,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E eu mereço reprehenções.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Ignorancia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A pena tenho por gloria</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque me falta o juizo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O que he parvoice notoria</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Julgo eu por raro aviso.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Chocarrice.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por nada me movo a riso</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò zõbando mostro engenho,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ falo nunca de siso,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque nenhum siso tenho.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Amor proprio.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Com caridade me escuzo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque assi me naõ conheçaõ</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só para mim quero tudo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os outros mas que pereção.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span></p> - - -<h3><i>Desconfiança.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sem ninguem me affligir,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Eu mesmo me afflijo a mim</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Todos quantos vejo rir,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cuido que se rim de mim.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Prodigalidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Quem os meus bẽs me levou</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Não mos sabe agradecer,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Não ha misterio que eu dou,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E eu dou o que hey mister.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Curiosidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O que falão, e sonhão</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">As outras, quero entender</span><br /> -<span style="margin-left: 2em;">tè que venho a fazer</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mil cousas que me envergonhaõ.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Melindre.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Acho grossas as finezas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou dalfelua, e algodão</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os mimos são asperezas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Epara minha condição.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span></p> - - -<h3><i>Mentira.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por ruas, e por travessas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cantar historias pretendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando falo, falo às avessas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do que sey, e do que entendo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Pouco segredo.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Qualquer cousinha me encalma</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que a outrem, ou a mim toca</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo o que me metem na alma</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lanço logo pela boca.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Concordia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Naõ pretendo prefeiçaõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por ser covarde, e ser rude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com medo do que diraõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deixo de ter mayor virtude.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Vingança.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por mais que as outras me afagem</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E por branduras me levem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nenhuma cousa me devem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que dobrado me naõ paguem.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span></p> - - -<h3><i>Malicia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Só de mim todo o mal vem</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ou mortal, ou venial,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou inventora do mal,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Destruidora do bem.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Incredulidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">De meu mal endurecida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só por mesma me eu rejo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mal creyo só de ouvida,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o bem nem quando o vejo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Odio.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nunca procuro meu bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque meu mal naõ conheço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou penna de quem me tem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sem ser mal de quem aborreço.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Hypocresia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Sou dobrada, triste, e rude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Enganar he meu officio;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pela casca sou virtude,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas pelo miolo vicio.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span></p> - - -<h3><i>Murmuraçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">De minha irmãa por mil meyos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Encubro os bens que saõ seus,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Publico os males alheyos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ sey esconder os meus.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Traiçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Com fingido, e ledo rostro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Offereço meu serviço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A muitos rio no rostro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A quem mordo no toutiço.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Desenvoltura.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Males que faço, e naõ callo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Em mim moraõ, e naõ mim jazẽ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mil palavras verdes falo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que os rostros vermelhos fazem.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Pertinacia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nenhum conselho me val</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ me convence ninguem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sou como rocha no mal,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E como cana no bem.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span></p> - - -<h3><i>Inconstancia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">O bem em mim nunca para</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Muy pequeno mal me espanta,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Soa huma hora Santa Clara,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Noutra, nem Clara, nem Santa?</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Occiosidade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Vivo em continuo descuido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Num, e noutro me embaraço,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Se naõ faço o mal que cuido,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cuido no mal que naõ faço.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Lisongeria.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nenhuma cousa reprovo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ou seja mal dita, ou feita,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo louvo, tudo approvo</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por ser a todos aceita.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Interesse.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Costumo de usar cruezas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Com vizinho, e com estranho</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cayo em cem mil baixezas</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sò por tirar qualquer ganho.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span></p> - - -<h3><i>Zelo indiscreto.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Como a ordem naõ entendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque me ey de governar,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tudo quero emmendar,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas a mim nunca me emmendo.</span><br /> -</p> - -<h3><i>Mà condicçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Posto que todos me emmẽdem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ninguem faz comigo avença,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cuido que todos me offendem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E eu sò sou minha offensa.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Afeiçaõ desordenada.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Nenhuma alma hoje me tem</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que seja esperitual,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando quero mayor bem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Entaõ me faço mòr mal.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Amor profano.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por fantastica invensaõ</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Procede meu bem querer,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por bens que naõ pòdem ser,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sofro o mal que jà saõ.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span></p> - - -<h3><i>Arrogancia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Da graõ soberba sou filha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cuido que saõ meus os Ceos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">O mal propio naõ me humilha,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E incho com o bem de Deos.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Distraiçaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Do que he culpa, faço graça,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Do que he peccado, ventura,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">A alma trago na praça,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o corpo na clausura.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Descortesia.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">A honra como thesouro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nego a todos por mais brio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faço della fino ouro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Porque a pezo ouro, e fio.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Temeridade.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por muy indescretos meyos,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Espreito alheos peccados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Naõ entendo meus cuidados,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Julgo cuidados alheos.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p> - - -<h3><i>Dureza.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">No cuidar, no fallar erro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por ter duro o coraçaõ,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fallo palavras de ferro,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cuido que saõ de algodaõ.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Rudeza.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Erro agòra, e sempre errey,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nem entendi, nem entendo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sempre apprendendo me sey,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas nunca sey, o que apprendo.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Mexerico.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Por malicia, e por parvoice,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pecco huma, e outra vez,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Dizendo o mal que outrem disse,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Faço o mal, que elle naõ fez.</span><br /> -</p> - - -<h3><i>Fraqueza da Alma.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Os que de mim se fiarem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mal lhe irá, se me tiverem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Cayo, sem me derrubarem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas naõ me ergo, sem me erguerem.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span></p> - - -<h3><i>Ingratidaõ.</i></h3> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 2em;">Amizades se desfazem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por mim, porque naõ me atrevo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Pagar mercès que me fazem,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E conhecer as que devo.</span><br /> -</p> - - -<p class="center p4 big"><em>FIM.</em></p> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img009"> -<img src="images/004.jpg" class="w25" alt="Decorative image; imagem decorativa" /> -</span></p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter transnote"> -<h2 class="nobreak" id="Notas">Notas</h2> - - -<p>Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.</p> -</div> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>SAUDADES DE D. IGNEZ DE CASTRO</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg™ electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg™ electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg™ -electronic works. See paragraph 1.E below. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the -Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg™ electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. 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The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg™ License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg™ work (any work -on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the -phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: -</div> - -<blockquote> - <div style='display:block; margin:1em 0'> - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most - other parts of the world at no cost and with almost no restrictions - whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms - of the Project Gutenberg License included with this eBook or online - at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. 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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg™ -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg™ work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg™ work, and (c) any -Defect you cause. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. 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Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> -</html> - diff --git a/old/69103-h/images/001.jpg b/old/69103-h/images/001.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 85c061e..0000000 --- a/old/69103-h/images/001.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/002.jpg b/old/69103-h/images/002.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index e6d4bf6..0000000 --- a/old/69103-h/images/002.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/003.jpg b/old/69103-h/images/003.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 07b41d8..0000000 --- a/old/69103-h/images/003.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/004.jpg b/old/69103-h/images/004.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 3b9e646..0000000 --- a/old/69103-h/images/004.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/005.jpg b/old/69103-h/images/005.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 20ea544..0000000 --- a/old/69103-h/images/005.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/006.jpg b/old/69103-h/images/006.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 62b18e1..0000000 --- a/old/69103-h/images/006.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/007.jpg b/old/69103-h/images/007.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 6069ffd..0000000 --- a/old/69103-h/images/007.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/cover.jpg b/old/69103-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2dac6bc..0000000 --- a/old/69103-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/dc_e.jpg b/old/69103-h/images/dc_e.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 709001e..0000000 --- a/old/69103-h/images/dc_e.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/69103-h/images/dc_j.jpg b/old/69103-h/images/dc_j.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 139702b..0000000 --- a/old/69103-h/images/dc_j.jpg +++ /dev/null |
