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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: Prosas barbaras - com uma introd. por Jayme Batalha Reis. - -Author: Eça de Queirós - -Contributor: Jaime Batalha Reis - -Release Date: September 13, 2022 [eBook #68986] - -Language: Portuguese - -Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the - Online Distributed Proofreading Team at - https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by The Internet Archive) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK PROSAS BARBARAS *** - - - - - -Obras do mesmo auctor - - - =O crime do padre Amaro.= Quarta edição inteiramente refundida, - recomposta, e differente na fórma e na acção - da edição primitiva. 1 grosso volume 1$200 - =Os Maias.= Segunda edição. 2 grossos volumes 2$000 - =A Cidade e as Serras.= 800 - =O Mandarim.= Quarta edição. 1 volume 500 - =O primo Bazilio.= Quarta edição. 1 grosso volume 1$000 - =A Reliquia.= Terceira edição. 1 grosso volume 1$000 - =Contos.= 1 volume 600 - =As minas de Salomão.= 1 volume 600 - =Correspondencia de Fradique Mendes.= 1 volume 600 - =Revista de Portugal.= 4 grossos volumes 12$000 - =A Illustre Casa de Ramires.= 1 volume 1$000 - - - _No prélo_: - - =Cartas de Inglaterra.= - =Echos de Paris.= - =S. Christovam= (inedito). - - -[Illustration: Monumento erigido a Eça de Queiroz - -Obra do eminente esculptor Teixeira Lopes] - - - - - EÇA DE QUEIROZ - - PROSAS - BARBARAS - - Com uma Introducção por Jayme Batalha Reis - - [Illustration] - - PORTO - LIVRARIA CHARDRON - LELLO & IRMÃO, EDITORES - - 1903 - - Todos os direitos reservados. - - - - -Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão -Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a -garantia que lhe offerece a lei n.ᵒ 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o -competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do -art. 13.ᵒ da mesma Lei. - - -_Porto--Imprensa Moderna._ - - - - -INTRODUCÇÃO. - -Na primeira phase da vida litteraria de Eça de Queiroz. - - -I - -Julgaram os Editores d'este livro ser necessario explicar como elle se -escreveu e se denominou. - -Fui talvez a testemunha mais proxima da redacção dos escriptos agora -reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparavel do -author. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biographia. Tento -esboçar n'ella a figura do homem e a do escriptor, taes como as -conheci, ao formarem-se as creações d'este livro,--as circumstancias e -os espiritos que influenciaram a aliás extraordinaria originalidade do -genio d'Eça de Queiroz. - -Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus -_Folhetins_ na _Gazeta de Portugal_, que fôra fundada por Antonio -Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 annos antes -da apparição do primeiro d'elles e terminou (Janeiro de 1868,) pouco -mais d'um anno depois da publicação do ultimo, sendo,--em rivalidade -com a _Revolução de Setembro_, dirigida por Rodrigues Sampaio,--o -mais brilhante periodico do tempo. A _Gazeta de Portugal_ publicava, -além das do seu fundador, frequentes producções de Antonio Feliciano -de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebello da Silva, Camillo -Castello Branco, Julio Cesar Machado, Thomaz Ribeiro, Zacharias -d'Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha Rivara,--quasi todos -os consagrados de então. Os _Novos_ que ahi escreviam, ficavam, -por este facto, para logo consagrados. Ahi primeiro appareceram no -_folhetim_, triumphalmente, Matheus de Magalhães, Pinheiro Chagas, -Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio de Freitas.») -Todos estes escriptores se continuavam uns aos outros, sem contrastes -nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas acceites e -classificadas pelos applausos d'um publico hereditariamente satisfeito. - -Em 1866 a _Gazeta de Portugal_ entrára porém em decadencia; começava -a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu o formato. A -14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal, poeta, dramaturgo, -romancista, historiador, estadista, orador, diplomata,--para muitos, -«o mestre», legitimo successor de Almeida Garrett,--despedira-se da -direcção litteraria que até então, pelo menos nominalmente, exercera. -Os collaboradores litterarios mais assiduos, mais legitimamente -representantes do gosto geral, eram já então, no _folhetim_ da _Gazeta -de Portugal_, Santos Nazareth e Luiz Quirino Chaves. Por essa epoca -Teixeira de Vasconcellos publicou ahi o seu romance _A Ermida de -Castromino_, seguido, desde os primeiros dias de 1866, por _O Diamante -do Commendador_ do visconde Ponson du Terrail... - -Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a apparecer uns -_Folhetins_ assignados «Eça de Queiroz». - -Ninguem conhecia a pessoa designada por estes appelidos que, por algum -tempo, se suppoz serem um pseudonymo. - -Os _Folhetins_ de Eça de Queiroz foram todavia notados;--mas como -novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde -a Redacção da _Gazeta de Portugal_, até aos centros intellectuaes -reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do -publico. Para este, uma ou outra phrase os arrumou logo no que então -se chamava «a Escola Coimbran»,--centro litterario e philosophico -dedicado, como se suppunha, a escrever por modo systematicamente -inintelligivel. Citavam-se, por modelos de comico inconsciente, -as scenas, as imagens, os epithetos d'esses _Folhetins_, lidos -em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias -Silva e Rodrigues, no Gremio litterario, nos Salões poeticos e -politicos e n'outros centros representativos do tempo. O Severo,--o -Severo dos Anjos,--principal e celebre Noticiarista da _Gazeta de -Portugal_, entalando o monoculo ao canto do olho direito, inventava -quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus _Folhetins_, -epigrammas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos, -exagerando, com intenção comica, o seu natural gaguejar, concluia: - ---Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra, -que seja inteiramente doido, que haja nos seus _Contos_, sempre, dois -cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que escre...va...va...va em -francez. - -Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses _Folhetins_,--em -Dezembro de 1867,--já ninguem pensava no author d'elles. - -Que importava ao Café Martinho, ao Gremio _supposto_ litterario, e aos -circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo estylo? -Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... não sei que; -os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia seguiam o seu -curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que dormitavam... e -nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes cultas. - - -II - -Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias -que é inutil mencionar frequentava a Redacção da _Gazeta de Portugal_, -no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de S. Carlos. - -Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito -magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça -pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto -intenso e amarello desmaiado: - -Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta -e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas, -o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa -triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre -olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito -negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca -grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de -marfim velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços, -faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de -copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo XVI -que se veem nos retratos do Duque d'Alba, de Philippe II de Hespanha, -ou de Henrique III de França. - -Era o Eça de Queiroz. - -Contava o quer que fosse a um tempo tragico e comico, nervosamente, -dando a espaços gargalhadas--_ricanements_, como se diria em -francez,--curtas, e sinistras. - -O Severo, de monoculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda, -amarella e ironica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas. - -Saí n'essa noute do Escriptorio da _Gazeta de Portugal_ com o Eça de -Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por annos, -não nos separámos quasi. - -O Eça de Queiroz terminára em 1866 o curso de Direito na Universidade -de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pae era magistrado. Por -tradicções de familia, e como consequencia natural dos seus estudos, -deveria seguir, elle tambem, a magistratura official, ou, pelo menos, -fazer-se advogado. Supponho que n'este intuito frequentou algum tempo -um Escriptorio em Lisboa. - -Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a -ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas. - -Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do -predio n.ᵒ 26. O seu quarto--pequeno, com uma mesa ao centro e uma -estante para poucos livros,--dava para a rua do Principe. Ahi foram, em -parte, escriptos os _Folhetins_ das _Prosas barbaras_. - - -III - -Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade: - -Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos -logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco -frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado. - -Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O -Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado -de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz -comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira -chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa -continuar a beber café, ás vezes até madrugada. - -N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos -_Contos_ agora reunidos em volume. - -Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do -Guarda-mór,[1] em pleno Bairro alto. - -No meu quarto de estudante[2] havia um grande armario cheio de livros, -cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se -escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por -Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a -Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi -sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos -Calafates[3] em frente a predios baixos que, por isso, não impediam -o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma -impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios -moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando -activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes, -para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam, -pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o -_Eterno feminino_. - -Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com -um rolo de papel na mão, dizendo: - ---Sou eu, sim, amigo. - -E alludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequencia, -phantasticamente appareciam nos seus _Contos_, accrescentava: - ---Sou eu e os meus abutres: Vimos crear, devorando cadaveres! - -Muitas cousas preoccupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava: - -Durante tempos só poude escrever em certo papel almaço, que elle -proprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41 -da rua larga de S. Roque. - -Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por -isso, no ultimo momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já -este inopportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso, -antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicavel. - -Tinha o terror das correntes d'ar, e andava continuamente a fechar a -janella, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava, -murmurando em voz cava: - ---É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino! - -A luz do candieiro de petroleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de -modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre -o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o _abat-jour_, com longas -tiras de papel. - -Não podia supportar poeira nas mãos, e levantava-se a miudo da mesa -para ir, cuidadosamente,--interrompendo a composição, mas recitando em -voz alta as phrases que tinha escripto,--lavar as pontas dos dedos. - -Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o -papel que olhava muito de perto. - -E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não -attendia a cousa alguma,--embrulhando o cigarro, indo lavar as mãos ou -fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas -altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando -ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente -as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde -ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular. - -Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco: -As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente, -e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a -desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma, -acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe -occorria. - -Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus _Contos_, a figura e -a voz completavam-lhe as phantasticas creações: - -Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica, -livido,--na penumbra das projecções do candieiro,--os olhos esburacados -por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o -pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado, -os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e -espanto, a voz lugubre, sentimental,--emphaticamente pathetica, ou -gargalhando sinistramente,--declamava. - -Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos -havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,--ou -estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé -e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia -phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então, -n'esses bairros, mouriscas ou medievaes. - ---Ás casas sem luz,--escreveu Eça de Queiroz,[4]--teem o aspecto calmo -e sinistro dos rostos idiotas. - -D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura, -divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens -agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos -ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos -se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras... -Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de -sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis... -Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram -varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de -se dispersarem pela cidade. - -Nas noutes mais serenas,--nas noutes de luar,--saíamos da cidade e -íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo, -conversando, improvisando, até nascer o Sol. - -De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás -nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha -casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a -roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma -mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo, -respectivamente, e dispondo as botas á porta,--para que o meu -creado as limpasse, sem nos acordar,--tambem, pelo mesmo methodo, -ordenadamente emparelhadas. - -E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos -supersticiosos, murmurava persignando-se: - ---É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas: -Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos -acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados. - -Na epoca em que se publicaram os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_, -eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O mais assiduo -era, por esse tempo,--além do Eça de Queiroz, o Salomão Saragga -que, quando apparecia, se occupava toda a noute em explicar-nos, -simultaneamente, a construcção de carruagens, a fabricação de tecidos -com desperdicios de lan, o livro do Propheta Isaias, e os Historiadores -das origens do Christianismo. - -De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me: - ---Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar. -Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto -humano,--inverosimil, se fôr possivel tanto,--a aventura, a lenda em -acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,--o -João de Sá Nogueira,--d'Artagnan d'Africa em disponibilidade. - -E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar, -que á ceia nos contava,--durante o bacalhau com batatas, o meio biffe, -e o Collares,--as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões. - - -IV - -Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de -Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor -historico. - -O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do -meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto -Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores -mestres da especialidade em Lisboa. - -N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o _Pot-pourri_ e as -_Variações_. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero -de _Rêveries_. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido ao -piano, attingia-se com os _Nocturnos_ de Ravina e Döhler. Os arranjos -operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes realisado. - -Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára piano, -harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como repertorio -de estudo, os _Preludios_ e _Fugas_ de Bach, as _Sonatas_ de Mozart e -Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann e Chopin. - -Os _Folhetins_ de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só -comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que, -justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos -grandes creadores da musica moderna. - -Esses _Folhetins_ pareceram-me uma grande novidade,--não tanto nos -assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim -encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura -portugueza, insufficientissimamente revelados. - -Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses _Folhetins_ eram, ainda no -anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da lingua -portugueza;--como haviam sido, para todo o sul da Europa, á apparição -do _Romantismo_ francez nos primeiros annos do seculo XIX, as mesmas -ideias e estylos semelhantes. - -N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que -geralmente se denomina um _Romantico_. Elle proprio dizia da epoca -immediatamente anterior: - -«N'aquelles tempos o _Romantismo_ estava nas nossas almas. Faziamos -devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»[5] - -E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se -gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica» -que leva ao «hospital romantico...»[6] - -Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais -evidentes da Litteratura, uma inalteravel saude: Só certos factos do -espirito perfeitamente determinados,--só as ideias e os sentimentos -susceptiveis de clara determinação,--eram n'essa Litteratura expressos. -Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos, -os generos litterarios,--tudo parecia claramente, definitivamente -assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema -de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações, com o -minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na Europa, -em geral, a gente culta, do seculo XVI ao seculo XVIII. - -Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes -inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos -sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos -se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas -dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se -transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou -exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções -de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o -branco descobriram-se gradações infinitas. - -Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou -então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos -psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos, -susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns -que podiam ser nitidamente,--como que linearmente,--desenhados, -inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só -podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se -por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias -e os sentimentos que todos os homens conscientemente reconhecem -como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos -inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote, -prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das -almas. - -Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito, -resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos -pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais -conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas -as nevroses. - -Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos -estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a -pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,--por isso -quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais -exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes. - -Toda esta revelação espiritual,--toda esta descoberta de regiões -ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de -aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de -moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,--pareceu ser, ás -gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença -mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade. - -A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido, -o nome de _Romantismo_,--facto esthetico, ainda hoje em busca de -sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece -poder essencialmente definir-se, como a _procura directa_ de _fórmas -de expressão_, para todos os sentimentos e todas as ideias, por isso, -para as _mais intimas ideias_ e os _mais vagos sentimentos_ do espirito -humano. - -Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo -XVIII, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa durante -o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis -neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em -Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio -e saude normal. - -O _Romantismo_ pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada d'essa -«Edade media». - -É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da -Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças -humanas,--com o integral resultado de forças naturaes que são,--deram -fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido -tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e -da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado, -cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua -phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes, -com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos -christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou -mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e -haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre -animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações -de espiritos e actividades. - -Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade Media, -sem duvida solicitaram a interpretação dos _Romanticos_, cuja rasão de -ser, cuja missão era tambem, como já mostrei, expressar completamente, -até aos mais profundos e subtis, todos os factos do espirito. - -Mas o chamado _Romantismo_ deu-se na Europa dos fins do seculo XVIII -aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse tempo a Litteratura -do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda apresentar o -_romantico_ Eça de Queiroz aos _Romanticos_ portuguezes de 1866? - -É o que vou explicar: - -O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa, -e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e -nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as -terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres -elementares.[7] - -N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez, -definição, brilho,--e correlativamente perdendo meias tintas, -claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com -simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas -das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das -atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões -profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava -tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente -aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os _Romanticos_ das -raças do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por -uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos -de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na -construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado -da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma -humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da -Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas -mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos. - -Eis porque tantos romanticos portuguezes,--no extremo dos paizes claros -do meio dia,[8] só fôram superficialmente romanticos. - -Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis -do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do -explicavel,--como que para preencher as lacunas deixadas no -completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do -comprehensivel,--existem com effeito, infinitamente, as necessidades -mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso. - -É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas -estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem -completo se sente, por vezes, essencialmente possesso. - -Essas fórmas constituem a _Arte_ e a _Litteratura mystica e -phantastica_. - -A França,--a mais norte das Nações definidoras,--recebeu, em grande -parte, a sua _Litteratura phantastica_ da Allemanha. Da Allemanha, por -intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a 1867, -em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez. - -E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades -intimas e latentes, me commoveu ella,--a mim e a outros espiritos -contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem -sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos -das raças e dos climas claros e definidores do sul. - - -V - -Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de -Queiroz,--aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas -primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu -posso dar testemunho,--fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo -de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente, -mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e, -envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo. - -A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,--a de -Heine,--foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres -contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por -Anthero de Quental sob o nome de _Primaveras romanticas_, e no que este -diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;[9] vê-se -tambem nas poesias primeiro escriptas para o _Seculo_ XIX de Penafiel, -de 1864 a 1865, e depois colligidas, com o titulo de _Lyra meridional_, -por Antonio de Azevedo Castello Branco. - -Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas -traducções francezas,--algumas feitas pelo proprio author, outras por -este em collaboração com Gerardo de Nerval,--um caracter novo. - -Heine é para mim,--e não é para todos ainda hoje, mesmo na -Allemanha,--um dos maiores escriptores das linguas germanicas. -Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um -verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades -musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o -francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se -torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a -um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do -espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como -que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos -biblicos. - -Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,--que -eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,--quando Eça de -Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle -me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos -_Reisebilder_ onde Heine,--a quem a musica sempre suggeria fórmas e -côres definidas,--conta as transformações phantasticas porque a seus -olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação da -sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo XVIII, assassino -por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as abobadas -de cathedraes, genio planeta entre as harmonias apotheoticas das -espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos dos -auditorios. - -Em muitas paginas das _Prosas barbaras_ se encontra a influencia d'esta -lenda phantastica de Paganini. - -O conto a _Ladainha da dôr_, que tem o proprio Paganini por -assumpto,[10] é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.[11] As -_Notas marginaes_[12] parecem estancias do _Intermezzo_ ou do _Livro de -Lazaro_. - -Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da -França no _Romantismo_ germanico. Foi elle o primeiro traductor francez -do _Fausto_ de Goethe, e, como já disse, o collaborador, com Heine, na -traducção d'algumas das obras d'este ultimo. - -É evidente, nas paginas das _Prosas barbaras_, a influencia dos -proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos -mysteriosos e phantasticos sonetos que começam: - - _Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé, - Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie... - Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé - Porte le soleil noir de la mélancolie!_...[13] - -Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu -estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição -mythographica e profunda,--sobretudo nos 8 primeiros volumes da -sua _Historia de França_,--da _Edade media_, da _Renascença_ e da -_Reforma_,--e, na _Sorcière_, pela materialisação sentimental e -explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta Historia do -Diabo,--foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de Queiroz. - -H. Heine,--allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um -espirito francez,--Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, em -França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima e -completa das suas obras, que o _Romantismo phantastico_ principalmente -impressionou a Eça de Queiroz. - -Por toda a parte, nos escriptos das _Prosas barbaras_, se encontram -os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular germanico, os -aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades da Historia -do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias do romantico -portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, «as velhas -mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha a quem -o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas de Vecker -a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos Burgraves», -«os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo a alma -pelo segredo da circulação do sangue»,--que passam de continuo nas -narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da -floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios», -as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia -de Walpurgis, as cathedraes da Allemanha, o Rheno, o Mar do Norte, -«a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem as velhas -baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a poesia popular -foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... ás lareiras -dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde vão os -_Minnesingers_ errantes», onde se celebram as «kermesses de Leipzig» e -se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer desenhou a sua -_Melancolia_, onde correm as caçadas phantasticas do _Freischütz_ e -passam os Imperadores do Santo Imperio, _Fausto_, _Mephistopheles_, -_Margarida_, Luthero... Spohr Weber... - -O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua -influencia consideravel em Eça de Queiroz,[14] só se deu d'uma maneira -importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição em -volume das _Flores do Mal_ só tarde lhe chegou ás mãos. Recordo-me, -na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca do Gremio -litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas francezas, as -poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez publicado. - -Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio, -impassivel, correcto de maneiras e _toilettes_, sempre preoccupado com -a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o phantastico -é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem duvida, em -profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; mas para -principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão lucidamente -estranha. N'elle o delirio é sempre critico, a nevrose intensa, mas -methodisada. Cria na arte o _frisson nouveau_ que Victor Hugo celebra, -mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores fórmas da sabia lingua -franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé a pé, vibração a -vibração.[15] - -São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva -a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de -transição, quando, gradualmente impressionado pelo _Realismo_ e por -Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de -escriptos. - -Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan -Poe, que Eça de Queiroz,--ainda então ignorante de inglez,--só -conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria -com que o espirito americano determinou o nevrosismo das _Historias -extraordinarias_, accentua-se ainda mais,--privado, em todo o caso, da -indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,--nas fórmas -logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França. - -Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato -intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,--Musset, -Gautier, Mallefille,--é sensivel n'este primeiro periodo da vida -litteraria de Eça de Queiroz. - -As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se -são pouco numerosas e superficiaes:--quasi sómente as da poesia -popular,[16] e as de alguns seus companheiros de Coimbra,--João -de Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, -o _Milhafre_[17] que suggerio a Anthero de Quental uma das suas -poesias.[18] - -Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da -lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e -quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que -nova lingua portuguesa. - -Mas esta _Introducção_ ás _Prosas barbaras_ tem por fim explical-as; -não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que differenças -profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico do Escriptor -portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia poderosa de Eça -de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens do norte e a -imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador meridional; -não tem emfim que provar como todas as influencias notadas se sentem -apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente original, -que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias paginas -reunidas n'este livro. - - -VI - -Na intenção d'Eça de Queiroz os _Folhetins_ da _Gazeta de -Portugal_,--apesar da sua desconnexão episodica,--formavam serie, -obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra systematica, -cujos capitulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas, -pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos: - - -A - - --------------------------------+-----+--------+--- - _Symphonia de abertura_[19] | 1866|Outubro | 7 - _Macbeth_ | » | » | 14 - _Poetas do Mal_[19] | » | » | 21 - _A Ladainha da dôr_ | » | » | 28 - _Os mortos_ | » |Novembro| 4 - _As Miserias: I Entre a Neve_ | » | » | 13 - _Farças_[19] | » | » | 18 - _Ao Acaso_[20] | » | » | 27 - _O Miautonomah_ | » |Dezembro| 2 - _Mysticismo humoristico_ | » | » | 23 - --------------------------------+-----+--------+--- - - -B - - ---------------------------------+----+--------+--- - _O Milhafre_[22] |1867| Outubro| 6 - _Lisboa_[23] | » | » | 13 - _O Senhor Diabo_[24] | » | » | 20 - _Uma carta_ (_a Carlos Mayer_) | » |Novembro| 3 - _Da Pintura em Portugal_[21] | » | » | 10 - _O Lume_ | » | » | 17 - _Mephistopheles_ (_J. Petit_)[25]| » |Dezembro| 1 - _Omphalia Benoiton_[21] | » | » | 15 - _Memorias d'uma forca_ | » | » | 22 - ---------------------------------+----+--------+--- - -O primeiro _Folhetim_ em data,--março de 1866,--as _Notas -marginaes_,--tendo por epigraphe as phrases interrompidas d'uma trova -á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela traducção -franceza das Poesias de Heine, foi inserido, na _Gazeta de Portugal_, -fóra do seu logar. - -Porque os _Folhetins_ teem uma introducção formal,--uma _Symphonia -d'abertura_, que se publica a 7 de outubro de 1866,--e continuam, quasi -sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23 de Dezembro do -mesmo anno. Uma longa ausencia de Lisboa interrompe a publicação: Dos -primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça de Queiroz reside -no Alemtejo, onde funda e redige o _Districto d'Evora_, periodico -politico, litterario e noticioso. Os folhetins da _Gazeta de Portugal_ -recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem até 22 de Dezembro do mesmo -anno de 1867. - -A _Symphonia de abertura_[26] prepara, com efeito, o espirito para a -ideia que os differentes trechos depois vão desenvolvendo. N'elles a -phantasia,--livremente, irregularmente, fragmentariamente,--esboça, -suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episodios, em -allegorias phantasticas e como que musicalmente vagas: - -Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde -os templos de Ellora,--onde elles andavam ferozes por entre os -Elephantes,--até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando -d'amor»... «desde a materia negra e informe, até ás serenidades vivas -para além das nuvens, das estrellas e dos caminhos lacteos». - -N'estas viagens ideaes os Deuses teem uma companheira que intimamente -estabelece a sua communicação com os homens,--a Arte. - -Da historia visionaria d'esta,--na longa peregrinação divina,--a -_Symphonia de abertura_, faz-nos ouvir,--_adagio_ ou _vivace_, _piano_ -ou _forte_,--alguns trechos maravilhosamente instrumentados:... - -«Quando» os povos--na Chaldea, no Egypto, na Grecia,--«plantavam -tendas debaixo das estrellas», ... e, mais tarde, em céos de profundo -mysticismo christão, nas regiões transcendentes «onde as proprias -estrellas são» apenas, «gotas de sombra...»[27] - -Entreveem-se, fluctuando em imagens, as differentes Artes: - -A Architectura «que se abriu em transparencias e transfigurações, como -se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito». - -A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades, -dissipando-se nos amollecimentos divinos...» - -«...no terror da natureza, onde o diabo era visivel... a alma allemã -tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pallidos -silencios que se exhalavam divinamente no canto...» - -Esvae-se «aquella melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos -versiculos...» - -«Apparece Luthero», a alma allemã... que desfalecia n'aquellas -melancolias immensas que Alberto Dürer revelou...» - -Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte, -sumiu-se com a approximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões -da carne...» - -Até que outra vez «se produziu, na nossa epoca, como a Grecia produziu -a Esculptura, como a Europa gothica produziu a Architectura...» - -Chega-se assim aos tempos modernos: - -«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se -chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e -Shakespeare. A alma queria subir aquelles escarpamentos divinos para -colher a flôr do ideal.»[28] - -A melancolia dá côr ao _Romantismo_... - -«O typo em quem se resumem todos os soffrimentos, todas as -desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações, os -lyrismos d'esta epoca pallida e doentia: _Fausto_, _Manfredo_, _Lara_, -_Antony_, _Werther_, _Rolla_, _D. Juan_...» que saem então de «toda uma -mocidade pallida e nervosa, de «toda uma primavera...» - -«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,--eis ahi a -Musica...», «aquella vaga Ophelia que se chama Musica...», «uma voz -inesperada em que se entendem os desconsolados...»[29] - -Constitue-se emfim a Musica moderna: - -«A Allemanha... a loura Allemanha de ideal seriedade, luminosa, um -tanto nuvem, cheia de vapores e de constellações... A Allemanha que -pensa com um doce ruido ineffavel», fórma a sua «Musica que é o vapor -da Arte...» - -E, ao lado d'ella, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do -palpavel... d'ondeante como seda invisivel». - -Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da _Symphonia de -abertura_. - -Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os _Cantos -fragmentarios_ d'um immenso _Poema_: - -O Universo é um infinito de almas. As cousas teem sentimentos -humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de -todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem -nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas -inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma -é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente -inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes, -e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o -sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e -independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados -destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida -mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica -e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora. - -Com este vago thema geral, o _Poema_ em prosa d'Eça de Queiroz -propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da -visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra -sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de -vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,--todas as -vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados -d'uma escala musical;--era a phantasia tocando, um momento apenas, -o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada -pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e -clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses -de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos -symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do -christianismo,--a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria -pallida e doce figura de Jesus,--vão egualmente perder-se e ser -esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o -calculo demonstravel.[30] - -Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,[31] e Michelet[32] -recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»[33] que se ouviu pelo mundo -ao apparecer de novas crenças. - -O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz -é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então, -a ironia,--que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do -seu espirito,--fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques -tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um -mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é -illusorio, que só parece povoado por metaphoras,--e enternece-se, -e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as -produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo, -inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade, -vagamente symbolisada por todas essas imagens.[34] - -Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente -reaes,--da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em -Coimbra,--é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que -o seu espirito procura expressão. - -Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda, -parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da -arte. - - -VII - -Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e -originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a -necessidade de metrificar,--quasi que o mesmo genero de necessidade -de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa, -pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas -das mais patheticas inflexões. - -Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da -concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica, -apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a -havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve -sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos -technicos da metrificação. - -São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume -as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos -alexandrinos:[35] - - Oh Satan tenebroso, tragico fulminado, - Tu vencerás em mim o intimo Deus bom - Não com as armas biblicas com que bateste os astros, - Mas vindo unicamente vestido á Benoiton. - -Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada -com a assignatura de C. Fradique Mendes:[36] - - -Serenata de Satan ás estrellas - - Nas noites triviaes e desoladas, - Como vos quero, mysticas estrellas!... - Lucidas, antigas camaradas... - Gotas de luz no frio ar nevadas, - Podesse a minha boca inda bebel-as! - - Não vos conheço já. Por onde eu ando!... - Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz, - Que Christo estaes no Céo crucificando? - Quem triste pelo ar vos foi soltando - Profundos, soluçantes ais de luz! - - Oh viagem nas nuvens desmanchadas! - Doces serões do Céo entre as estrellas! - Hoje só ais, ou lagrimas caladas... - Ai! sementes de luz mal semeadas, - Ave do Céo, podesse eu ir comel-as! - - Triste, triste loucura, oh flor's da cruz, - Quando vos eu dizia soluçando: - --Afastai-vos de mim cardos de luz!-- - Podesse eu ter agora os pés bem nus, - Inda por entre vós i-los rasgando! - - * * * * * - - Hoje estou velho, e só, e corcovado; - Causa-me espanto a sombra d'uma estola; - Enche-me o peito um tedio desolado: - E corro o mundo todo, esfomeado, - Aos abutres do Céo pedindo esmola. - - Eu sou Satan o triste, o derrubado! - Mas vós estrellas sois o musgo velho - Das paredes do Céo deshabitado, - E a poeira que se ergue ao ar calado, - Quando eu bato com o pé no Evangelho! - - O Céo é Cemiterio trivial: - Vós sois o pó dos deuses sepultados! - Deuses, magros esboços do ideal! - Só com rasgar-se a folha d'um missal, - Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados. - - Eu sou expulso, roto, escarnecido; - Mas a vós já ninguem vos quer as leis - Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido! - Lembrae-vos que sois pó enegrecido - E cedo em negro pó vos tornareis.[37] - -Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de -improvisação poetica: - -Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, -o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem. - -A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia. - -Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre. - -Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré -enchente fez-nos fluctuar. - -Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se -levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa. - -Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em -busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo, -continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os -nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle -apenas pagaria um insufficiente repasto. - -Que fazer? - ---Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,--fazendo o gesto consagrado -de bater na testa.--Tenho uma ideia genial,--accrescentou, erguendo -tremulamente os braços ao Céo:--Sigam-me. - -E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, -com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos -invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios -horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á -calçada que leva de Belem á Ajuda. - -Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando. - -Seriam quasi 5 horas da manhã. - -Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa -baixa, de janellas cerradas, e bateu. - -Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus -somnos. - -O Eça de Queiroz explicou-nos: - ---Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um _tiro_. Só elle nos póde -salvar, n'este deserto. - -E continuou a bater durante minutos. - -Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta -resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, -e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de -caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro. - ---Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas -horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de -produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. -Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello, -com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India -e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,--sequins, -dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos... - -O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões. - ---Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,--disse o Eça de -Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade. - -Voltámos a Belem. - -E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma -guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a -caldeirada que encommendáramos, o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do -primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução -seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro: - - Christo deu-nos o amor, - Robespierre a liberdade; - Malheiro deu-nos tres pintos: - Qual d'elles deu a verdade? - -O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica -dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera -jámais fazer versos,--mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo -penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas -humanas. - -Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4 -decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a -ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão. - -Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o -Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz, -eram d'uma graça scintillante. - -D'outra vez dois dos nossos amigos,--o capitão João de Sá e o -Zagallo,--convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros. - -Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego. -Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos, -desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam -comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós -mesmos partir, descobrimos que haviamos gasto, em bacalhau e Collares, -um dinheirão que não tinhamos na algibeira. - -Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves -e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem -vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno. - -O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á -tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar -com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas. - -Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno, -rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa -onde dormiramos eram caiadas. Então,--depois de almoçarmos ainda a -credito,--com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes -com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo -e hilariante, mixto, como genero, do _Childe Harold_ e _D. Juan_ de -Byron, do _Mardoche_ e _Namouna_ de Musset, do _Intermezzo_ de Heine, e -da _Fabia_ de Francisco Palha. Este exercicio durou por 4 ou 5 horas. -Duas das paredes da casa ficaram, até á altura de homem, cobertas de -versos. - -Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do -Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente -de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela -phantasia, pela graça, pelo inesperado. - - -VIII - -Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficára em minha casa, -quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabello muito -curto, faces pallidas, feições miudas, ligeiro buço sobre os beiços -grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por -cima d'esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz -aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo -uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabello aos caracoes -louros, bigode lourissimo pendente. - -Acordámos. - ---Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando. - ---Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama. - -Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,[38] o João de Souza -Chavarro.[39] - ---Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de -Rezende. - -N'essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,--um Restaurante -celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela -quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de -assumptos inintelligiveis. - -N'esse jantar demonstrou-se o vasto ridiculo do _Romantismo_, -descreveu-se, discutiu-se e approvou-se o _Realismo_ na arte, fez-se -a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade, -da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no -estylo, na toilette,--a apotheose de todas as correcções. Terminámos, -depois da meia noute, abraçando effusivamente o velho Andrews,--o -inglez que tinha uma lenda mysteriosa, e que alli jantou, durante -annos, despejando por noute, em silencio, com methodo, lentidão e -continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto. - -Tempos depois o Eça de Queiroz partia em viagem com o conde de -Rezende:--_Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et le -chevalier de Queiroz_,--diziam jornaes do Cairo. Assistiram á -inauguração do Canal de Suez, visitaram o Egypto e a Palestina. - -Na Primavera de 1869, estavamos uma tarde,--o Anthero de Quental e -eu,--na casa que então habitavamos a São Pedro de Alcantara, quando -entrou o Eça de Queiroz que chegára, havia pouco, do Oriente, e ainda -não viramos: - -Trajava uma longa sobrecasaca aberta; cobria-lhe o peito, em relevo, um -_plastron_ que nos pareceu enorme, sobre o qual se erguia um collarinho -altissimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os botões -uniam pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande parte das -mãos mettidas em luvas amarellas muito claras. Vestia calças claras, -arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas pintas -amarellas e sapatos muito compridos, inglezes, de polimento. Tinha na -cabeça um chapeu alto, de pello de seda brilhantissimo. E olhava-nos -com um monoculo que lhe estava sempre a cahir e que elle por isso, -abrindo a boca em esgares sarcasticos, a miudo reentalava no canto do -olho direito. - -Abraçámol-o com enthusiasmo--e cobrimol-o de epigramas. - -Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos typos, scenas nos -bazares do Cairo, no deserto egypcio,--os guias, os cheiks, e á noute, -em volta das fogueiras, os camellos, «de expressão humoristica, -sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador, -por sobre os hombros dos beduinos attentos, graves e encruzados. - -Contou-nos, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o -uso do _Haschich_, e as visões phantasticas que nos preparava,--por -que elle e o conde de Rezende haviam trazido _Haschich_ em geleia, em -bolos, e em pastilhas que se fumavam n'uns cachimbos especiaes. - -Mas pretendia haver voltado doentissimo, de uma extrema debilidade, de -uma morbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de continuo, um -grande lenço perfumado de seda branca com que limpava a testa, cofiava -a barba, que atirava sobre a mesa, interrompendo-se para entalar o -monoculo e exclamar em voz desmaiada: - ---Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu deliquio! o meu -_apoplêté_! Meninos, depressa, os meus saes... onde estão os meus -saes?!... - -E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de saes que -aspirava soffregamente. - -Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de -Queiroz: mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando -elle conversava, quando elle contava, quando elle representava algum -personagem que quizesse imitar ou a que quizesse dar vida. Parecia, com -o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de replica, de -graça, o representante d'uma raça especial fallando em Portugal uma -lingua nova. - -Ouvimol-o toda aquella tarde, fômos jantar com elle,--não o podiamos -largar. - -As ideias estheticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo, -profundamente modificado. - -Citava especialmente a _Salammbó_ e a _Tentação de Santo Antão_ de -Gustavo Flaubert. Preoccupava-se com a perfeição da forma, com a -realisação da côr, segundo este litterato. Lia tambem a _Vida de -Jesus_, o _São Paulo_, de Ernesto Renan, e as _Memorias de Judas_, de -Petrucelli della Gattina. - -Foi sob estas influencias que,--com as impressões locaes da sua recente -viagem á Palestina,--começou em Lisboa, a escrever a _Morte de Jesus_, -publicada em folhetins, na _Revolução de Setembro_, de 13 de Abril a 8 -de Julho de 1870. - -Mas havia escripto, além do que se publicou,--uns capitulos que elle me -leu, e depois sem duvida destruiu ou se perderam. - - -IX - -Entre os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_ e a _Morte de Jesus_ na -_Revolução de Setembro_, medeiam quasi 3 annos. - -Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito d'Eça de -Queiroz continuava. - -Um dia veio mostrar-nos, ao Anthero de Quental e a mim, o primeiro -esboço, muito desenvolvido,--tão extenso que levou varias noutes a -ler,--d'um romance intitulado _Historia d'um lindo corpo_. - -Foi a sua primeira tentativa de Litteratura realista. A ideia da obra -era, até certo ponto, se bem me recordo, a do _Affaire Clémenceau_ -de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte, -devida á influencia dos processos da _Madame Bovary_, e da _Educação -Sentimental_ de Gustavo Flaubert. - -Pouco depois,--em 1871,--Eça de Queiroz descrevia n'uma das -_Conferencias democraticas_ do Casino, _o Realismo na arte_, expondo -as ideias em parte praticadas por Flaubert e Courbet, e theoricamente -descriptas, por Proudhon, no livro _Do principio da arte e do seu -destino social_. - -O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução -exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente. -A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma -admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso -de sentimento. - -Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos -antigos _Contos phantasticos_ da _Gazeta de Portugal_ e lhe reli, se -não me engano, _As memorias d'uma forca_.[40] - -Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas -sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto, -o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão -pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo--dizia elle,--na -construcção da phrase e no emprego dos vocabulos. - -Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo: - ---Tens talvez razão,--está claro, tens razão. Talvez se deva republicar -isso em livro;--mas sob o titulo critico e severo de _Prosas barbaras_. - -Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do -desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu -devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas -mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,--e de -todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX. - -Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação: - -Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado -o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão -maravilhosamente vivêra. - -Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,--por esse -tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não -longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto -fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle: - ---«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o -teu antigo conselho: Ennevoei-me, outra vez, totalmente, no -phantastico,--n'aquelle velho phantastico da _Gazeta de Portugal_, -feito agora com menos _abutres_, e em _prosa_ talvez menos _barbara_ -que então: Estou escrevendo a vida diabolica e milagrosa de São Frei -Gil;--e por signal,--dir-to-hei agora aqui, quando justamente nos -achamos sob arvoredos,--que a nossa riquissima lingua portugueza me -parece deficiente em côres com que se pintem selvas;--e tambem te -confiarei que, tendo mettido, por minhas proprias mãos, o santo bruxo -n'uma floresta, não sei como o hei-de tirar de lá». - - Cintra, Setembro de 1903. - - _Jayme Batalha Reis._ - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[1] Hoje, travessa do Gremio Luzitano. - -[2] Veja-se Eça de Queiroz. _Um genio que era um Santo. Anthero de -Quental. In memoriam_--Porto, 1896, pp. 499-502; J. Batalha Reis, -_Annos de Lisboa_, Idem, 442-445. - -[3] Hoje, rua do Diario de Noticias. - -[4] Pag. 107 do presente livro. - -[5] Veja-se p. 133 do presente volume. - -[6] 3 de Novembro de 1867, p. 142 do presente volume. Veja-se tambem a -_Carta a Carlos Mayer_, pp. 133-145. - -[7] «Na Europa o Sul representa ... a maneira de ser exterior, como -o Norte representa o vago sentimento intimo...» Eça de Queiroz, _Da -Pintura em Portugal_, _Gazeta de Portugal_, 10 de Novembro de 1867. - -[8] «... nós ... os que estamos n'este canto da velha terra portugueza, -com a alma serena, sob o céo claro...» Eça de Queiroz, _Symphonia de -Abertura_, _Gazeta de Portugal_, 7 de outubro, 1866. - -[9] «du Heine de deuxième qualité». Anthero de Quental, _Carta a -Wilhelm Storck_, 14 maio 1887. - -[10] Pp. 27-43 do presente volume. - -[11] H. Heine, _Reisebilder_. _Les nuits florentines_, II, 316-330, -(cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu). - -[12] Pp. 2-13 do presente volume. - -[13] Veja-se pp. 8, XV; 10, XX; e _passim_, no presente volume. - -«Luzia um grande sol, mas negro; o sol da melancolia...» _Symphonia de -abertura_, _Gazeta de Portugal_, 7, outubro, 1866. - -[14] Veja-se pp. 5, VIII; 89, 98 e _passim_ do presente volume. - -[15] «...Baudelaire, poeta rethorico,...» A. Z. (Eça de Queiroz) -_Leituras modernas_. _Districto d'Evora_, 6, janeiro 1876, p. 2. - -[16] Vejam-se pp. 112, 120-121, 122, 131. - -[17] Vejam-se pp. 93-101 do presente volume. - -[18] _O Monge_, destruida pelo author e nunca publicada. - - ... aux voûtes gothiques - Des portiques, - Les vieux saints de pierre athlétiques - Priant tout bas pour les vivants! - - A. DE MUSSET, _Premières Poésies, Stances, 1828_. - - -[19] Não incluido no presente volume. - -[20] Com o titulo «A Peninsula» no presente volume. - -[21] Não incluido no presente volume. - -[22] Tem uma Introducção omittida no presente volume. - -[23] Tem uma epigraphe e primeira parte omittidas no presente volume. - -[24] Tem uma pequena introducção omittida no presente volume. - -[25] Tem uma parte critica relativa ao cantor Julio Petit omittida no -presente volume. - -[26] _Gazeta de Portugal._ 7 de outubro 1866. - -[27] «Constelações, gotas de sombra», p. 100 do presente livro. - -[28] Veja-se Victor Hugo, _William Shakespeare_; principalmente, -_Livre_ II; _Les Génies_, II. Veja-se tambem p. 22 do presente volume. - -[29] Veja-se, p. 20 d'este volume, uma outra definição de Musica. - -[30] «Oh, egoismo humano, os que vão morrer saudam-te», Eça de Queiroz, -_O Milhafre, Introducção, Gazeta de Portugal_, 6 de outubro de 1867. - -[31] _De l'Allemagne._ _Les Dieux en exil_, IX partie, pp. 181-242 -(cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu). - -[32] _La Sorcière._ - -[33] Veja-se p. 6, XIII, do presente livro. - -[34] As visões «são as attitudes phantasticas e desmanchadas que a -sombra dá ás verdades», p. 91 do presente livro. - -«... à ceux qui ont mis leur foi dans les rêves comme dans les seules -réalités.» Edgar Allan Poe, Eureka. trad. de Ch. Baudelaire. - -[35] _Omphalia Benoiton_, _Gazeta de Portugal_, 15 Dezembro, 1867. - -[36] Os versos citados na _Revista Moderna_ (20, Novembro 1897, p. -324) não são de Eça de Queiroz. Nunca elle publicou na _Revolução -de Setembro_, em folhetins,--como tambem na _Revista Moderna_ se -affirma,--os primeiros cantos d'um poema, _A tentação de S. Jeronymo_. -Existe, com effeito, de Eça de Queiroz, mas inedito, um poemeto sobre -este assumpto. - -[37] _Revolução de Setembro_, 29 de Agosto de 1869. - -[38] Hoje conde de Rezende. - -[39] Official da marinha real portuguesa, e desde 1881, Consul geral de -Portugal nas ilhas Sandwich. - -[40] Vejam-se pp. 161-172 do presente volume. - - - - - - -PROSAS BARBARAS - - - - -NOTAS MARGINAES - - - ...... d'este lado do rio - ...... o namorado, - E a moça dos olhos pretos - ...... do outro lado. - - Mas o rio era profundo, - Não se podiam juntar. - Nunca o sol encontra a lua. - Tal andava aquelle par. - - ............. flores - ..... á agua iam dar; - ........ os beijos - Ficavam todos no ar. - - A moça ............... - Disse adeus ao namorado; - E foi ................ - ...... bandas do povoado. - - Elle ficou amarello, - Como a vela d'um altar. - Mas se o rio .......... - Não se podiam juntar. - - Anoiteceu.............. - Por alli andou penando: - E por fim lançou-se ao rio, - E o rio ............... - - ......................... - ......................... - Mas as flores foram prender-se - Nas suas mãos côr de cera. - -Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restos d'uma velha -cantiga, alguem escreveu estas notas desordenadas e extranhas: - - -I - -Ó dôce cantiga dos namorados da beira do rio, tu és uma verdade sempre -nova! Ainda hoje o triste anda penando nas aguas escuras; e os teus -olhos, ó serena rapariga, são eternamente falsos! - -Não era assim que eu pensava no tempo d'aquelles nossos amores, ó nome -que eu não escrevo! d'aquelles amores tão dôces como a suavidade das -nossas noites d'outomno--tão coloridos e vagos como aquellas nuvens, -que sempre no ar andavamos formando e desmanchando! - - -II - -Ó voluptuosidade! tu és a imagem do Oceano nos teus caprichos. Agora -embalas-te, dôcemente doirada com os ultimos raios do sol: depois -dormes tranquilla, aos calores silenciosos: por fim agitas-te, cheia de -tempestades. - - -III - -E, quando eu te via, não via mais as flôres, nem as pombas, nem as -estrellas: mas, quando pensava em ti, via-te delicada como todas -as flores, voluptuosa como todas as pombas, luminosa como todas as -estrellas. - - -IV - -Ás vezes, solitario e silencioso, via passar na sombra, diante -de mim, como uma legião d'inspirações rhapsodicas, os teus olhos -humidos, como violetas debaixo d'agua--depois os teus braços da côr do -marmore--depois os teus cabellos negros e fluctuantes... Em fim, sobre -um fundo maravilhoso, tu apparecias superiormente serena, perfeita e -luminosa! - - -V - -De cada um dos teus desejos nascia uma flôr. - -E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam dôcemente -aquellas flôres marginaes. - -E as flôres cresciam, cresciam até se tornarem magnolias grandes; o -vento tomava-as preguiçosamente pela haste; e ellas, inclinando os -seus rostos pallidos, contavam-lhe os perfumes de mais segredo. - -E as magnolias iam crescendo até se tornarem n'uma arvore immensa. -Então o vento enroscava-se no tronco, insinuava-se nos ramos, e fazia -palpitar as folhas sonoras. - -E então a arvore estremecia, como n'um sonho agitado; depois -adormecia--e dava em redor uma sombra serena e consoladora. - - -VI - -Quando te vejo, despertam no meu pobre coração as melodias e as dôces -melancolias d'amor, como na primavera se reanimam as aves e desabrocham -as violetas. - -Quando me fallas, tudo se alumia com constellações apaixonadas, e -parece que passam dentro de mim todos os aromas das magnolias. - -Mas se me dizes que _me queres muito_, sinto que vem logo um estranho -inverno descorar-me as faces, desfolhar-me a alma de todas as emoções, -e cobrir de geada todos os loucos desejos. - -Oh! nunca me digas que _me queres muito_! - - -VII - -Tua irmã é carinhosa, e dôce, e meiga, e casta, e consoladora. - -Tu és altiva, inquieta, e desdenhosa. - -Tua irmã!... Mas se ella não tem o timbre suave da tua voz, o luminoso -fulgor dos teus olhos, a côr mimosa dos teus cabellos! Mas se ninguem -tem a santa, a purificadora brancura da tua fronte! - - -VIII - -Os teus olhos negros são como duas flores do mal. Os seus olhos azues -são como duas dôces elegias. - -E a flor do lotus, a apaixonada flor do lotus, sómente se abre á doçura -immensa da lua! - - -IX - -Oh! minha bem amada! eu já vi os teus olhos brilharem dolorosamente, -como duas estrellas negras de melancolia: tinhas tu então rasgado um -veu côr de papoula, que te cobria. - - -X - -Tu estavas na egreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma -fidalga hespanhola. - -Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia--_Jesus!_ - -Mas nos labios tinhas um colorido avelludado e luminoso, como o das -flores vermelhas mettidas na agua; e na linha de sombra dos teus labios -corria um sorriso, que só dizia--_amor!_ - -Talvez um dia ainda te encontre na egreja. Sómente, então, os -teus labios estarão descorados como a fadiga e timidos como o -arrependimento. Sómente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos -esfomeados, e terão aquella luz desejosa e ávida, que têm as estrellas. - - -XI - -Foi debaixo das arvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de -violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva. - -Foi lá que me disseste aquellas palavras, que me pareceram uma -blasphemia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nullo, como um -sacerdote esbofeteado pelo seu Deus! - - -XII - -Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu -vestido! - -Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas -pequenas--as pobres ondas!--soluçando, choravam sobre a areia. - - -XIII - -Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas, -que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e -a sua nudez era doce e melodiosa. - -Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande -Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos, -as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias; -serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias. - -Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e -envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da -frescura das plantas. - -Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades -de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma -apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens. -E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e -avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que -vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam, -junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como -aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue! - -Esta historia é de ha seiscentos annos--e de hontem á noite... - - -XIV - -Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pelle macia. - -Todos os teus pensamentos se moviam n'uma comedia extravagante e solta. - -Abafavas burguezmente a musica do teu corpo em chailes pesados e largas -saias: e a seda dos teus vestidos tinha um fremito indefinido de -sarabanda--e de cachucha. - - -XV - -Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrellas, -como grandes olhos curiosos, espreitavam atravez da folhagem. Eu -era o tenebroso, o inconsolavel, o viuvo. Errava pela floresta, e -a espaços cantava uma canção vagamente triste como o susurro dos -cyprestes:--depois dizia palavras iradas, e asperas como os cardos;--e -mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saía-me -pelos labios, como uma açucena branca que se abre dentro de um copo, e -que o enche. - -E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem amada! os ramos -estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar ás -cantigas, ás iras e ás orações todas os caminhos do ceu. - - -XVI - -Tu pensavas que o teu amor me envolvia mollemente como um largo vestido -de seda, todo forrado de arminhos. - -E um dia, ó minha bem amada de cabellos côr de amora! viéste despir-m'o -de golpe, com um rosto colorido de risos. - -Mas o vestido estava collado ao corpo--vinte vezes collado ao corpo: e -tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me -jorros de sangue, e arrancou-me os cabellos, e deixou-me, ó minha bem -amada de braços d'aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida! - - -XVII - -Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras -para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és -tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra. - - -XVIII - -Eu abri aquelle coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri -lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia, -como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de -folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por -cima da folhagem mugidora esvoaçava, baloiçada por ventos immensos, -uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam -com os ossos dos cotovelos as carnes molles, e lambiam o sangue que -escorria das orbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e -desfallecidas em voluptuosidades mais morbidas do que os orvalhos da -lua. - -Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado, -pequeno, e feminino;--e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que -lhe dei um beijo! - - -XIX - -Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios--e olhava para as -nuvens. - -Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante. - -Outr'ora--ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aereas das -nixes por entre a musica dos cannaviaes! ó ondinas humidas! ó danças -nebulosas das wilis! ó espiritos gentis e vaporosos, que andaveis -nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecieis dentro -do calice dos lirios brancos, embalados como n'um berço! ó dôces e -enganadoras creaturas, que povoaveis e alumiaveis tudo como estrellas -romanticas!--outr'ora os rios, o ceu e os arvoredos encobriam-vos, ó -invisiveis! mas como em tecido fino, que deixa passar todos os aromas e -todas as côres. - -E agora os rios, o ceu, os arvoredos estão desertos. - -Os arvoredos só contam, como velhos palradores, historias de gigantes, -loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da -folhagem. - -O ceu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos -serios d'um craneo immenso. - -Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher. - - -XX - -Andamos todos soffrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados -pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bençãos fecundas. -A esperança fugiu para além das estrellas, das nuvens e dos caminhos -lacteos. Nos corações nascem amores sombrios e loucos. E tudo porque -um dia nasceu uma creança estranha, que foi alimentada com um leite -morbido como a lua, e envolta n'uma tunica livida como a morte! - - -XXI - -Onde estará ella agora--a minha bem-amada, aquella creança de olhar -profundo? - -Era n'aquellas almofadas que ella se recostava: era por alli que ella -passava--e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e -perfumavam. - -A pé! a pé! meus desejos! Acordae, acordae, e ide buscar-m'a! Accendei -todas as estrellas, e ide procural-a pelos caminhos escuros! Desgrenhae -os cabellos verdes das florestas! Assoprae a espuma das ondas! -Dispersae as multidões! Quebrae os encantos! Ide procural-a pelos -astros! Despedaçae as tendas aereas, onde vivem os sonhos! - -Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando solitario e -silencioso, como um pombal d'onde fugiram todas as pombas. - - -XXII - -«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas -que me consolem! Só resta morrer.» - -E o corpo diz á alma: - -«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos -sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te, -filha, como eu velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu -soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás -vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim, -onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e -sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te -voluptuosamente--a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes -morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar -errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar -nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas -rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores -tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos! -E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!» - -E a alma dizia ao corpo: - -«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada, -indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo. -Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas, -que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha -ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir -fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos -para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia. - -«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a -que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda, -que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em -breve não te lembrarás mais de mim. - -«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de -estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem _alma_ como eu--ou se -chamem _aroma_--ou, então, se chamem _som_. - -«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia, -encontrares os átomos _d'aquella que eu tanto amei_, não te juntes -com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a flôr -ha-de mirrar-se;--se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de -apagar-se;--se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...» - - - - -MACBETH - - -Foi no tempo de Philippe II, tragico môcho do Catholicismo, que -Shakspeare creou o seu drama épico de Macbeth. - -É desde então que aquella figura, que exhala noite e humidade, erra -pelo enorme ceu negro, livida no meio das tempestades, alumiada e -crescida por um estranho reflexo de saques e de incendios, em quanto -os abutres, os corvos, os milhafres, os gaviões, as corujas vôam em -circulos sobre a sua tragica cabeça esguedelhada. - -As outras imaginações nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet, Lear, -Othello e pisam com pé tragico o sólo augusto da epopeia, todas têm -junto de si o dôce corpo de uma mulher para lhes embalar no seio as -angustias tenebrosas, como n'um leito mysterioso, para lhes fazer subir -por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem. - -Essas fórmas femininas andam impalpavelmente, como radiações de luz, -em redor d'aquellas terriveis cariatides do mal: ellas derramam-se -sobre aquellas almas nocturnas, como umas auroras vivas, cheias -de meiguices, d'orvalhos, de claridades, de fecundos descanços, -purificadoras e transfiguradoras. - -Assim Ophelia, humida dos beijos da agua, segue o seu dolente e -lacrimoso Hamlet; Desdémona derramou o seu perdão, como um oleo santo, -sobre a agonia flammejante de Othello: e Cordelia estira os seus -braços como azas de benção, e, com gestos de coroação, ampara a cabeça -desvairada do velho rei Lear. Macbeth, esse vae seguido na sombra pelos -seus negros vassallos--os incendios, as pestes, os derrubamentos. - -Macbeth é o mal-phantasma. Elle não é d'aquelles lobos que andam, pela -noite da historia, dilacerando as liberdades e as patrias. Não. - -É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra, -seria o egual de Satan. Quando a sua corôa reluz na escuridão, parece -que as constellações devem seguir aquelle reflexo terrivel, curiosas -de saber que sombria aventura vae elle tentar contra o Homem. Porque -é certo que elle provoca a attenção do infinito, e tem mysteriosas -affinidades na noite. - -Elle atravessa todo aquelle drama como um espectro. - -Quando as Ondinas saíam fóra da agua a namorar os moços formosos -debaixo dos platanos, denunciavam-se, as pobres, porque a orla do seu -vestido estava sempre ensopada d'agua. Macbeth é assim: debalde se -cobre de purpuras, e se assenta aos banquetes, e falla de manobras -de guerra com os seus capitães tenebrosos, e se queixa que lhe foge o -somno, para parecer humano: os que se approximam d'elle empallidecem, -porque a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa. - -Elle ouve a predicção das soberanias flammejantes da bocca esverdeada -das feiticeiras, que se dão, lascivas, aos beijos do vento, por cima -das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a -noite de sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terraços, -entrevê o luzir dos punhaes: não póde sentar-se aos banquetes -resplandecentes, entre os risos sonoros, sem vér diante de si, com a -lividez dos que fizeram a viagem maldita, o espectro de Banquo, d'onde -se exhalam os castigos. Por fim, quando toda a Escocia sangra, porque -passou Macbeth esmagando as cidades, assolando os campos, enegrecendo o -ceu com o fumo--luto dos incendios--não são os exercitos que o vencem: -a natureza ouviu as queixas humanas, os brados de justiça que saíam -dos postes, das queimadas, das forcas, dos cemiterios, ouviu a alegria -estridente dos abutres, dos córvos e dos milhafres--e destaca então uma -floresta, que vae com ruido tragico esmagar o homem sinistro. N'este -castigo, Shakspeare é maior que Eschilo. Eschilo, quando vê Prometheu -pregado no Caucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade -de marmore dos deuses de nomes sonoros, vem, pallido, ajoelhar junto -d'aquelle rochedo ideal e santo como um altar; e, suffocado, apenas -póde fazer um gesto supplicante ao velho Mar, para que mande as suas -Oceanides consolar o vencido enorme. - -Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo, -derrubar os capacetes heraldicos, matar os instinctos, matar os -Macduffs, matar as creanças d'olhar divino, as mulheres de seios -fecundos, matar a patria--corre desvairado, toma uma floresta e vem -esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e -aquelle castigo passa com o ruido terrivel do carro da justiça. - -Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa--Lady Macbeth. Lady Macbeth -é a serenidade do mal. Ella, com a sua attitude soberana e barbara, -tem a vaga semelhança d'uma Juno homerica. Tem em si toda a grandiosa -rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte. - -Ella é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ella passa -no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes -parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que funebre resignação: -as coleras e os castigos têm quasi piedade d'aquella mulher esteril. -Ella não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não -tem a maternidade. Alguem, feroz e desconhecido, lhe tirou aquelles -amollecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a attitude -hirta e rigida do mal. - -Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de marmores e -de bronzes, e erguida ao longe n'uma lividez silenciosa, tendo -por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos -estremecimentos d'alma, as oppressões e as violencias, e vem então -lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições, -accende com um olhar as sinistras queimadas pela planicie, e volta -para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a -cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue. - -E no emtanto, quando ella passa, o olhar perde-se na contemplação -perigosa d'aquelle busto forte, d'aquelles braços de aço, d'aquella -testa que tem reflexos de opala, d'aquelles cabellos poderosos de um -negro flammejante, d'aquelle seio de fórma barbara. E então abre-se -na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente. -Aquelle olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores -humidos e de mugidos de aguas. E a alma, esquecida da justiça e do -bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que -cercam aquella mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a -vestem, destrançar-lhe os cabellos pelas molles sombras e dissolver-se -n'aquelle olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O -coração ri-se dos gemidos da Escocia e do ultimo high-lander, que morre -contemplativo, tocando as árias da sua montanha na ultima cabana, e -lastima unicamente Macbeth porque tem para matar--só um Duncan. Suffoca -o peito a negra lembrança de um desfallecimento lascivo, n'aquelles -braços de marmore pallido, salpicados de sangue. A contemplação -d'aquella terrivel Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e -tremulo, como se sobre elle se estendesse a nudez de uma deusa. - -Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quiz revelar no seu poema -musical de _Macbeth_. - -Ha, sem duvida, na obra immensa de Shakspeare creações que devem dar -a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida -de sensualidades pesadas, coberta com velludos de prégas molles e -silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes -feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de -luz; os corpos luminosos feitos de argillas ideaes: ha almas tão puras -como musicas de constellações, tão terriveis como as fulgurações do -desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Elle semeou -alli, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes, -as angustias, as melancolias, a duvida, a paternidade, a covardia--eu -sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sêdas, farrapos, lutos, purpuras, -sudarios; umas cabeças têm corôas flammejantes, outras cabeças têm -corôas de violetas: aquellas creações têm nos labios o lyrismo, a ode, -a imprecação, a satyra, a chocarrice: ha architecturas, tormentas -afflictas, arvoredos sagrados, luares e apparições. Assim caminha -enorme aquella obra, tentando a grande aventura da immortalidade! Para -dar a vida e o sopro ideal a esta creação immensa, é necessario que -venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuarios, o -lyrismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra. - -A musica deve ser a voz de tudo aquillo que alli está silencioso, sem -ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o -comprehender,--a voz das estrellas, das pedras, das nuvens, das flôres, -de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lacteas, falla -muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturaes, para que o -nosso extasi as possa escutar. Quando Julietta suspira ao seu balcão, -desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em -pequenas estrellinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite, -em roda d'ella, as flôres, as vegetações, aquellas molles divindades -núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que -cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas -das raizes, que são as estrelas--tudo se balança n'aquella evaporação -de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade -do seu jardim, como um diamante no seio d'uma negra: e toda a natureza -está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos -pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma -de Ophelia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos -como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e -se desmancham, o lyrismo do celeste William empallidece como um heroe -derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e -branca, revelar todas aquellas vibrações celestes. - -E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas -musicaes do que as figuras historicas. - -São aquellas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem -soffrer, que nos transfiguram a alma. - -Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette, -e Beatriz de Cenci, e a idyllica Ignez de Castro? Nós vemos estes -desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, attentos á justiça -de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquellas fatalidades, -mostramos lá em cima o grande azul constellado. - -Mas que Julietta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar -fulgurante pelo espaço, para allumiar a fuga de Romeu até Mantua; que -Desdémona diga a _canção do salgueiro_, onde se morre de amor; que -appareça entre os lutos reaes o enterro virginal de Ophelia, nós vamos, -desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos mysteriosos sóbe -lá cima, até á radiosa bondade divina, o côro supplicante das lagrimas. - -No emtanto, parece que as imaginações terriveis e ferozes dos poetas -não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os -maestros querem subir aquelles escarpamentos divinos, cáem, sem fòlego, -junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lyrismo, o -sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de -cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de petalas macias, e de -vapores de luz. - -Sem fallar em Gounod, que não comprehendeu a grande figura de Fausto, -mas pôz divinas vibrações nos labios de Margarida, o grande Rossini não -pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Othello, e ficou-se -a chorar um chôro celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro. - -Assim tambem Verdi, o luminoso Verdi, não comprehendeu aquellas trevas, -que Shakspeare derramou na alma de Macbeth. - -Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de -nós outros, os portuguezes, é, realmente, o unico compositor italiano -verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti; -Rossini retirou-se da arte. - -Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume -santo, o desvairamento ideal, o deus, aquelle sôpro de que falla a -_Biblia_. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa -energica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer -que seja de rigido e de metallico n'aquella sonoridade sensual: elle -sabe excitar as sonoridades materiaes, mas não consegue arrancar a alma -do seu vestido de carne e leval-a, núa e possuida do infinito, pelas -regiões das surpresas radiosas. - -Todo o enthusiasmo que Verdi tem alimentado na Italia, provém do -momento grave em que se revelou. - -N'esse tempo a Italia revolvia o poema convulsivo da sua -reconstituição: os italianos, que tinham adormecido n'aquella rede -tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a -erguer-se e a experimentar os seus musculos frouxos e amolecidos de -amor e de sonhos. N'esse momento Verdi foi pela Italia com um canto -poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquella musica -apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as -energias: e a Italia seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na -alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades. - -No Norte, quando a Allemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no -seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas, -apparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas -poesias da Allemanha, melodias feitas quasi dos cantos populares, -que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra, -rhapsodos errantes: e quando a grande patria, ouvindo as caçadas de -Samosel pelas florestas da Thuringia, os estremecimentos dos elfos -vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mythologias do -Rheno, vivendo, soffrendo, voando, susurrando n'um livre canto, -ergueu-se terrivel, entoou tambem, ella, o velho canto de Luthero, -couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida, -ficou, sevéra e illuminada, esperando junto do Rheno, tendo a um lado o -espectro da honra e a outro lado o phantasma da justiça. - -Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul, -o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aquelles enthusiasmos -foram fecundos: as duas patrias sangram ainda: e as flautas tristes do -Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquelle chôro lento e -doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade -que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Italia! Pobre Allemanha! -Deus vos envolva n'um olhar de benção e de repouso, n'este tempo em que -estamos, que é a vespera das agonias! - -Mas, voltando ao _Macbeth_, é certo que Verdi fez d'aquella figura -desvairada um heroe italiano, melodioso e mau. Por toda aquella opera -anda errante um terror transparente e molle. Será porque a musica, a -meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquellas duas -almas pavorosas saídas da noite e pesadas de materia? Não sei. O certo -é que aquella opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece -que o velho heroe livido entrou n'este tempo moderno, amolleceu-se em -voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas -da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth -contar a sua velha legenda tragica sobre uma scena resplandecente. Com -effeito, aquella opera faz saudades do drama de Shakspeare: era alli -que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de -tres cabeças: era por aquelle terraço, onde mugia o vento, que elles -atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan. - -E assim, emquanto aquellas figuras lyricas se adiantam para a orchestra -de poderosos alentos, com as gargantas túmidas de melodias gemedoras -e violentas, a alma póde deixar o seu querido corpo e ir por cima dos -mares e dos continentes, para os descampados da Escocia, vêr passar -aquellas sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo -as legendas, galopam de noite nos clarões das tempestades, uivando -manobras de batalha. - -E depois póde a alma voltar, para ouvir aquella confusão de ruidos -coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que -estremecem, que gemem e que gritam, e que se vão desvanecendo em volta -do corpo e cobrindo-o como uma onda. Emquanto se canta _Macbeth_, a -alma póde andar longe, pelo paiz das chimeras. - - - - -A LADAINHA DA DOR - - (AO SNR. A. A. TEIXEIRA DE VASCONCELLOS) - - -O musico Berlioz, ao voltar das bandas molles da Italia e das ilhas -da Grecia de lividos escarpamentos, sem serenidades idyllicas e sem -myrthos--recebeu nas ruinas das _Sorveiras_, junto de Nizza, onde elle -trabalhava na sua symphonia de _Harold_, toda cheia do mar, esta carta -vinda de França: - - «O pintor Lyser voltou da Bohemia com a sua doidice elegiaca. Pedi-lhe - o retrato de Paganini como tu querias, mas elle disse-me, em segredo, - que fôra o diabo que lhe guiára a mão n'aquelles traços, e queria - conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão - n'uma pasta, entre um desenho do velho Claudio Loreno e um retrato de - Dante. - -Hontem, ao cair da tarde, estavamos ambos sentados juntos da janella. -O ar entrava todo emmaranhado nos cordões verdes das trepadeiras: nós -estavamos calados e abandonados á doçura divina das cousas. - -O pobre Lyser, com os seus grandes cabellos caídos, tomou o retrato -de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos, -de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens: -e, entre aquellas efflorescencias, escreveu os nomes de Dante, de -Hamlet, de Romeu e de Sancho Pansa, dizendo com a sua voz dolente: -«Paganini tinha alguma cousa de todos estes homens». Depois, no cimo -do cartão, desenhou a figura de Ophelia levada pela corrente, e um -morcego, com as azas dobradas, olhando tristemente, d'entre as cannas -debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente -como no seu elemento, e os grandes cabellos louros emmaranhados nos -limos da agua: e por baixo escreveu: «Duvída, Ophelia, do meu amor, -da verdade luminosa das estrellas, dos coloridos das folhas, da luz -branca do sol». E depois, com a voz séria: «Paganini, sobretudo, era um -morcego...» - -É assim aquelle pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe -morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua -rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as hervas molhadas. O -dia estava nublado. «Minha pobre irmã, disse elle, que nem póde levar -presa no seu lindo vestido uma restea de sol!» Sabes a religião que -Lyser tem pelo sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos -caminhos, sob a grande luz sonora do sol. N'essa noite em que a irmã -foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de -Lully, e de vez em quando compunha as dobras de um chale que tinha -lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido n'uma saudade mais -dôce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o ceu estava nublado, -elle dizia, de vez em quando, á morta: «Não tenhas pena, cá fóra nem -estrellas ha.» - -Foram-n'o buscar de madrugada, e elle vinha lento, dependurando-se do -fato do coveiro como uma creança, a quem assustam os uivos dos cães e o -chiar dos carros. - -Dias depois voltou ao cemiterio e o coveiro não o deixou entrar: o -pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lagrimas. «É -uma cousa de pressa que tenho a dizer a minha irmã» affirmava elle com -a voz passada de supplicações. O coveiro estava dentro fallando com uma -mulher de cabellos côr de vinho: e como a quizesse prender n'um abraço -barbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caíu sobre uma sepultura -toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos -vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura, resmungando: -«Malditos tropeços!» - -Por fim, veiu abrir a grade enferrujada ao pobre Lyser e com uma grande -voz: «Vá, que já são horas de entrar sem licença.» Lyser sumiu-se entre -os cyprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra: -«Luiza, se lá em cima encontrares a estrella Vesper, pergunta-lhe de -que tintas se faz a côr de rosa da tarde e os seus reflexos de rôxo -pallido; preciso sabel-o. Hontem dei o teu chale branco a uma pobre: -dize-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se -passares de noite por estas alamedas, não te approximes da casa do -coveiro; vive lá uma má mulher.» - -Dias depois chamou-me e disse-me: «Sabe? começo a acreditar que -minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma cousa: quando tiver alguma -camelia não a esmague, talvez seja feita do seio da pobre rapariga.» E -afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de -agua: mas de repente, voltando-se e com a voz cheia de supplicações, -accrescentou: «Nem as violetas: talvez sejam feitas dos olhos d'ella!» -Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre arvores onde havia o -sol, o côro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos -fructos: elle ia com a face toda tomada pela côr quente e fecunda da -vida. - -«Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz dôce e lenta como um -escorrer de mel: não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das -eiras e dançava debaixo dos platanos, morre nos frios de fevereiro. -Ha-de ter visto por esse tempo os pobres namorados que andam chorando -sobre as covas com os cabellos caídos. Então aquelles corpos das -raparigas desfazem-se. Alguem, que sabe e que vê, aproveita aquellas -fórmas e aquelles coloridos: da pelle do seio fazem-se petalas de -camelia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da côr dos labios -fazem-se os rainuculos, dos halitos perdidos fazem-se os cheiros -bons, e do olhar, da meiguice, do desejo d'ellas faz-se a primavéra, -o dôce ar das madrugadas de maio. De modo que de noite as flôres que -estão nos vasos, na sombra das alcôvas, conversam das suas existencias -passadas; fallam das danças ruidosas á guitarra; d'aquella manhã em -que a ponta do seio veiu espreitar, pela abertura do vestido, os olhos -do namorado; d'aquella tarde em que a face se vestiu de côr de rosa -para receber a visita de um bigode louro; d'aquella noite em que as -palpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quasi a -dizer _sim_. E se uma noite espreitar as flôres que estão nos castos -paraizos das alcôvas, ha-de-as vêr saír dos vasos, entrelaçarem as -fórmas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga similhança de um corpo -feminino.» - -É assim o pintor Lyser. Fez-se noite n'aquella alma, e por isso ella -tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o -languido, o estrellado. - -Agora deseja morrer e ser enterrado n'uma paisagem casta, assoalhada, -murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu -amigo Claudio Loreno. - -Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se -arrasta entre hervas seccas e ramagens, ao dorso de uma onda, á prôa -de uma barca de pesca; assim aquelle espirito, ao retirar-se d'aquelle -corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e -meigo--ao amor, á melancolia, á compaixão, á arte. - -Quando cheguei do Baltico, soube que Paganini se retirára de França: -tive a respeito d'elle grandes conversações com o rabequista Sica, que -pensa em fazer, para o verão, uma peregrinação pela Syria. - -Estavamos horas debaixo das tilias, fallando do chimerico espirito de -Paganini, até que as estrellas appareciam, contemplativas e augustas. -Sica contou-me toda a legenda idyllica e barbara de Paganini: os -seus amores em Verona, aquella cantora enfezada, de mãos macias e -sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquelle abbade de -fivelas luzentes, com quem ella ia debaixo dos velludos silenciosos, -n'um entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo paiz de -Cythera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odysseia de prisões e -de degredos: aquellas noites em que elle, poderoso e solitario, entrava -na confidencia dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lagrimas, -em que aquelle tragico homem, enroscado nas palhas do seu carcere, -olhava ao longe o mar Mediterraneo amollecido por aquella mollesa que -escorre dos astros e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda. - -Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre ás horas escuras -via as fivelas do abbade luzirem na noite. «Ás vezes o remorso, -affirmava elle, é bondoso, encarna-se em cousas que têm uma vida, uma -carnação, um sangue, uma mollesa, que se podem abrandar, a quem se póde -supplicar; mas aquellas fivelas metallicas, inertes, rigidas, eram um -remorso frio, surdo, inflexivel, faziam-me subir ao rosto o suor do -antigo Josaphat.» - -Dizia tambem Paganini, que uma das suas grandes torturas, no carcere, -fôra assistir, pela visão, á decomposição fria do corpo da pobre -cantora Marietta. Elle via aquelle corpo sem oleos, nem sacramentos, -debaixo das terras limosas e tumidas de seiva, esverdear-se entre as -ossadas. Via de noite, perto de si, aquella terrivel decomposição das -carnes, aquellas brancuras inertes, aquellas molles curvas sugadas -pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramineas, os -cyprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e -inchada! - -Então, alli, tomou odio á natureza: elle atravessava sempre as frescas -fecundidades, as searas, todas as verdes fórmas da vida, os campos e -as granjas, com um horror judaico e mystico. Só perdoava ao mar: e ás -vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das aguas do mar do Norte -tocar na rabeca as velhas cantigas scandinavas e as balladas runicas; -e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse andar, durante a -eternidade, nos verdes embalos da agua. - -Foram terriveis todos aquelles annos de prisão. - -O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com -os estudantes da nova Allemanha, indo pelos burgos, pelos povoados, -pelas cabanas de lareiras somnolentas, cantando ás estrellas e dizendo, -na sua rabeca, sob a lucidez do ceu do Norte, as velhas balladas da -Thuringia. - -Contou-me o amor da duqueza de Weimar por Paganini; e como uma noite de -concerto em duas cordas da rabeca elle disse o dialogo mysterioso de -duas vozes que se fallavam debaixo do arvoredo, depois entre sedas de -cortinas, ao fresco ar d'um balcão, e depois ainda na terra, debaixo -das raizes dos cyprestes, e, por fim, indefinidas, tenues, luminosas, -entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros. - -Era uma allusão desconhecida, que encheu de lagrimas a duqueza de -Weimar. - -Aquelle homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. D'elle -retirára-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o -amor, a indignação, a paternidade, a emoção. - -Lento, com os seus cabellos caídos, livido, com as terriveis rugas da -face semelhantes aos _f f_ d'uma rabeca, com as mãos transparentes, -cheias de agilidade e de deslocações, com os seus grandes casacos -escuros de pregas hieraticas, atravessava os povoados, os silencios, -as scenas resplandecentes, poderoso e solitario, procurando sempre, -aos pés, uma cóva onde não se esfolhassem arvores, onde não nascessem -hervas, sem saber que na noite, na humidade, nas choças, nas pedreiras, -nas estradas, nas costas, ha uma raça que soffre, e que ha beiços -lividos da fome, e que ha febres silenciosas e amores desertos, -e suores d'angustia, e apodrecimentos de honras, e uivos d'almas -afflictas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de bellezas. - -Sica contou-me tambem o grande poder musical de Paganini e a sua -attitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades: e -contou-me tambem, meu amigo, aquella noite gloriosa e flammejante em -que se tocava a tua symphonia de _Romeo e Julietta_, e em que elle -veiu, entre os applausos e as vozes de corôação, ajoelhar e beijar-te -as mãos, dizendo com os olhos cheios de agua:--Sois outro Beethoven! - -Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emmudeceu: -trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas -conversações da noite; aquella doença não o vergou mais; elle tinha já -o silencio--estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez--estoicismo do -corpo. - -Passava então com o rabequista Sica horas inteiras, tocando rabeca ou -guitarra. Ultimamente, preoccupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca -só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: «Quando eu estiver para -morrer, pensar que a hei-de deixar aqui, entre as mulheres d'aço, -estes jornalistas lividos e os agiotas calvos, no meio d'esta multidão -esfomeada de materialidades! que se ha-de encher de pó a um canto, -ella, cheia de alma e de legenda!» - -No emtanto, elle acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca -havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra, ir-se-iam -confundir com o corpo d'elle nos átomos das arvores, ou das estrellas, -ou das aguas. E escrevia então: «Que felicidade poder ter a mesma -folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!» - -Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; ás -vezes tomava a guitarra e ia tocar n'ella para junto da rabeca, com -um gesto de caricias brandas, com um lento correr de dedos, como se -estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma; -elle queria pôr todos os seus interiores divinos n'aquelle gemer de -guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada. - -Por esse tempo, um dia que elle estava com Sica, escreveu assim: «Já -me não fio na minha rabeca; acredito que ella não ha-de lamentar a -minha morte. Não morre, não! Ha-de dar-se ao primeiro que a tomar nos -braços; ha-de dar-se com suffocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos -segredos, mysticos, voluptuosos e illuminados, que me dizia a mim... -Que importa á rabeca que o pobre musico apodreça debaixo da terra?!» - -Ultimamente o musico Sica necessitou ir á costa normanda, porque tinha -lá seu pae, velho marinheiro, morrendo junto das aguas; e quando -voltou, coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha -partido para o sul. - -Adeus, não te demores em Nizza. Acaba depressa a tua symphonia do -_Harold_, e recommenda-me ao nosso velho amigo--o Mar.» - - * * * * * - -Tempo depois, o homem, que tinha mandado esta carta, recebeu est'outra -de Berlioz: - - «Estou ainda todo frio das visões d'esta noite. Sabes que móro nas - _Sorveiras_, que são umas ruinas junto do mar, pedras bem conhecidas - por toda a populaça do ar: abrigam-se alli, como n'uma pousada, os - viajantes sombrios da atmosphera, que são as chuvas esguedelhadas, os - ventos uivadores, os granizos, as molles brumas e os nevoeiros. Em - redor estão espalhados os casebres dos pescadores, todos conchegados, - como as ovelhas quando anda temporal no monte; a costa é terrível e, - no emtanto, o mar tem, ás vezes, serenidades só similhantes ao calmo - olhar d'um idiota. - - Este povo trigueiro de pescadores sáe, logo de madrugada, para os - balouços da agua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias - de legenda e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em - baixo, junto da voz da maresia, aquellas cantigas fortes de deitar - redes, robustas como calabres e sãs como o sol. É uma bella vida! - Durante o verão, nas séstas silenciosas do mar, todos andam na pesca, - os velhos, as creanças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de - forte seio--estas bellas mulheres da costa da Italia, que eram tão - desejadas pelos marinheiros gregos e phenicios, que tinham visto - Mileto, Abydos e Corintho. - - Agora que o outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se - ao vento, e vae para o interior dos povoados juntar-se nos campos á - outra pobre gente curvada, que lavra e que semeia. - - Hontem fui, n'uma barca de pescador, até ao ponto em que o Var - desagua. Sabes que é n'este tempo que as pombas emigram para o sul; - reunem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterraneo, fazendo - nodoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o sol descia: o barco - vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos - ondulosos. O mar tinha uma serenidade olympica. - - Eu havia-me abandonado ás mollesas da tarde, e, todo estirado á pôpa, - via o ceu cobrir-se d'uma côr rosada, como d'um rubor de castidade. As - estrellas começavam a apparecer. D'onde vinham ellas? E d'onde é que - vem a noite de tão longe, que parece suada de luz? Eu via-as tremer, - e pensava que ellas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões, - sem deuses. A'quellas horas tambem apparecem as ondinas na agua; quem - sabe se as estrellas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm - de noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegiaco? Quem sabe - se são arvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros - fructos--a melancolia, o amor, a sensualidade? - - Depois ri-me d'estas imaginações; mas nas aguas do Mediterraneo, ao - anoitecer, n'um barco de pesca, vendo ao longe as linhas molles da - costa de Italia, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia - vêr as estrellas como nas verdades e nos positivismos modernos, e - esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace. - - E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da - bem-amada, sol da minha natureza, sem dôres mordentes, sem febres - silenciosas, e ir assim, entre as fulgurações do desejo, e os - deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores, - e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, n'um lento - desmaio da carne, para a frialdade da terra e alli sentir-me, - lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas, - pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescencias! - - Ora quando assim vinhamos, vi, na linha escura e aspera da costa, uma - massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegiaca. - - --Que luz é aquella, meu velho?--disse eu, da pôpa. - - O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram - direitos, escorrendo, todos esverdeados das algas. - - --Aquella luz, senhor, é a casa das _Serenas_. A estas horas está - alli, abandonado, um pobre homem que morreu lá hontem. Tinha chegado - aqui ha pouco, e era mais amarello que a cera do altar; até na costa - diziam os velhos que elle se vendera ao diabo! Deus me perdôe por - fallar assim n'isto, de noite, em cima das aguas! Ah! senhor, diziam - que tocava na sua rabeca maldita que nem no ceu... Chamavam-lhe - Paganini. - - E o pescador metteu os remos na agua, cantando n'uma melopeia dolente: - - Altra volta gieri biele, - Blanch'e rossa com'un fiore. - Ma ora nò. Non son piu biele - Consumata dal'amore. - - E depois, voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das marés, - continuou: - - --E os padres agora não lhe querem cantar as suas ladainhas e - enterral-o em terra santa. Se fosse meu parente e tal succedesse, ia - para o fundo do mar. Debaixo da agua anda muito corpo de patrões e - pilotos: elles não morreram, não; andam ainda vivos; e quando um pobre - homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento, - quando o peixe anda arredio, elles costumam afugentar a pescaria com - ramos de coral para as bandas da rede!... - - O pescador fallava assim, lentamente, com a voz pesada da religião das - legendas. - - Eu levava os olhos rasos de agua e pensava que nunca tinha ouvido - tocar o triste Paganini: sempre que elle deu os seus concertos, eu - estava longe da França. - - Entrei nas _Sorveiras_ com o peito cheio de friezas e de mortalidades. - Quiz trabalhar, mas sentia-me dissolvido na pesada materialidade das - cousas. - - Tomaram-me uns molles cansaços e fiquei sem pensamentos, sem desejos, - inerte e silencioso como um pombal d'onde fugiram todas as pombas. - Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e o uivar dos cães que andam - de noite na praia, esfomeados. O mar estava pesado de gemidos sob a - noite lenta e mystica. - - Ora quando assim estava, ouvi, distante, como vindo das alturas - hieraticas das nuvens e das vias-lacteas, o gemido de uma - rabeca.--Quem é que, áquellas horas, n'uma costa aspera de ventos - furiosos, quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da - lareira, enrodilhados nos farrapos dos mantéos--tocava assim rabeca - junto do mar? - - Fui, amedrontado, ao meu antigo balcão gothico e olhei pelas - transparencias doentias da noite. Nada. As ondas choravam o seu chôro - mystico e as estrellas estavam na sua immobilidade de onde se exhalam - religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um - soluço de medo, para junto do brazeiro: então ouvi de novo aquelle - som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar como uma nevoa - sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então, - distinctamente, com os ouvidos da carne, a musica de uma rabeca, - acompanhada, surdamente, pelo mar. - - Ao principio foi uma melodia de fresca serenata, que a agua - acompanhava com um marulho humido e alegre: e ao mesmo tempo, ao - longe, havia o gemer rythmico do vento. - - Então, durante uns momentos, eu ouvi uma musica estranha de rabeca, - acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações, e vozes - pesadas de lagrimas, e melodias tragicas com dôres da natureza, e - sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta - corria, como a agua corre, lodosa, entre os juncos e os cannaviaes. - - Havia vozes de rabeca, afflictas e barbaras: e ás vezes, dôces - mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca, - delgada, tenue, clara como um fio de som. Eu não te sei dizer o que - era aquella musica sobrenatural, elegiaca, selvagem, tragica, suave e - escarnecedora! - - Por fim, de repente, toda aquella orchestra poderosa se calou, como - um bando de abutres e aves de noite gritando afflictas, com tragicas - palpitações de azas, que vêm pousar, n'um silencio, sobre um rochedo - das aguas. Então senti, de entre aquella amontoação apocalyptica de - harmonias, desprender-se, solitaria, a voz da rabeca, e vir, de leve, - tocar junto do meu balcão com meiguice, com mollesa, com volupia--as - variações do _Carnaval de Veneza_. - - Ninguem me póde tirar do coração, que foi a alma de Paganini que - deixou o seu corpo na natureza solitaria das _Serenas_, e veiu dizer o - adeus da musica ao seu velho amigo. - - Adeus, meu meigo artista! Soffre e transfigura-te pela dôr: eu aqui - estou, cheio de saudades da nossa dôce França, junto das aguas tristes - do Mediterraneo. - - Creio que, depois da noite de hontem, nunca mais terei o riso sonoro - e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de - saudação, o terrivel temporal que agora vae na costa.» - -O homem a quem esta carta foi escripta, era um artista, um pintor -como Lantara, vivendo descuidado na bohemia errante das miserias, -das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os -contactos do corpo: no meio d'aquellas loucuras esteve sempre como -uma pomba adormecida. Aquelle pobre rapaz vivia n'uma trapeira, onde -trabalhava sem sol, n'aquellas alturas silenciosas e castas, onde -vivem e crescem as flôres do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a -um hospital: e alli era sagradamente velado por uma enfermeira dôce, -delicada e branca como uma virgem de oiro fino de um livro de legendas: -o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava, -pediu um dia á enfermeira a sua touca engommada e lisa, e com um lapis -desenhou alli, como um agradecimento d'alma, toda a sorte de delicadas -imaginações--azas abertas, corôas de folhagens, ondas que vinham beijar -um pé branco, corôações de caridades. - -Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre -pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce -rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem; -escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio -Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a -chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas, aos -montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a -orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e -inerte. - -A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da -Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela -belleza sagrada e espiritual da morte. - - * * * * * - -Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna, -e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos -pobres. - - - - -ENTRE A NEVE - - (A ANSELMO D'ANDRADE) - - -O lenhador, pela madrugada, ergueu-se da enxerga e accendeu a candeia. - -Junto da lareira, engelhado de frio, cavado de magresa, dormia um rapaz -enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfallecia de -febre: até ao anoitecer da vespera andára pelo negro matto, e depois -nem teve um magro caldo junto das somnolencias da lareira. - -Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos, -que á noite, quando resavam, todos arripiados e magros, em redor da -mãe, suffocavam no chôro da fome: por isso, áquellas horas, por entre -os nevoeiros molles, elle ia pelos montes, pelas collinas, pelos -pinheiraes, rachar, cortar e desramar, a asperos ventos, na grande neve -silenciosa. - -O rapaz dormia com os pés inteiriçados e todos brancos da lama secca: -tinha os grandes cabellos espalhados, e branco tinha o peito. A um -canto, sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da mãe, as duas -creanças dormiam com os cotovellos arroxeados--dissolvidas no somno do -frio e da fome. O lenhador tirou a jaleca que levava para os montes, -embrulhou-lhes os pés regelados, e com a candeia foi debruçar-se sobre -a enxerga onde dormia a mulher: ella tinha o corpo collado ao fraco -calor da enxerga como a um seio amado, os braços caidos e frouxos -como os de uma mulher esteril: os seus cabellos negros espalhavam-se -tristemente pela enxerga como um luto: e a manta esburacada modelava a -fórma casta e fecunda dos seus peitos. - -Então o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas, -cobriu-se com o capuz de saragoça e foi-se lento, esfomeado e -esqueletico, pelos grandes caminhos, duros, lividos e cobertos de -nevoas. - -O seu casebre ficava perdido ao pé dos montes, longe dos povoados, -entre umas poucas de arvores que erguiam para o ar os seus braços -negros, descarnados, nús e supplicantes. - -Alli vivia aquella familia transida dos frios, emagrecida das fomes, -diante da neve e dos invernos, com os peitos cheios da religião do -sol, das searas e das fecundidades sonoras e alumiadas--como cousas -flammejantes e divinas, que estão tão longe como Deus, inaccessiveis, -na poeira da luz, entre os paraizos. O pae ia todos os dias para os -grandes montes lidar entre a ramaria: a mulher, em casa, cosia os -farrapos ao pé da lareira sem lume, e ao anoitecer ia para junto da -porta desconjuntada dos ventos, gretada dos frios, vêr se, pelos -atalhos enevoados, via chegar o marido, lento, curvado sob os grandes -feixes de lenha. - -O lenhador caminhava para as bandas dos montes. - -A neve caia, levemente. A alma aconchegava-se dentro do corpo--como -n'um vestido santo, amedrontada pela dureza sobrenatural das cousas. -Porque toda aquella natureza tinha estranhas barbaridades. - -A manhã vinha escura, lenta e lacrimosa, como uma viuva á hora dos -enterros: e á pouca luz tenue, os pedaços de gelo pendurados dos cardos -e das urzes tinham o aspecto de farrapos de mortalhas: sobre as arvores -immoveis, os passaros, quietos e mudos, eriçavam as plumagens aos -ventos cortantes. - -O lenhador caminhava sempre, rasgando-se nas silvas, orvalhado dos -pingos das arvores, pallido e sereno. - -Ia lento. Pensava nos lavradores, que áquellas horas, nas terras -quentes, saem, assobiando sob a noite religiosa e alumiada, entre as -hervas altas, ao resplandecimento fecundo dos orvalhos, guiando pelos -sulcos, emquanto as andorinhas gritam alegres e gloriosas, os bois -fortes, lentos e bons. Elle tinha a mulher e os filhos esfomeados no -casebre; desfazia-se em suores e em cansaços, e nem sempre aquellas -faces amadas se enchiam das côres da vida. Era o frio, era a fome; nem -uma manta nova, nem uma pouca de lã! O bom Deus, lá em cima, parece -que está tão bem agasalhado ao calor dos seus paraizos e das suas -estrellas, que se não lembra da pobre gente dos campos e dos montes que -se arrepia de frio. E havia gente que via sempre os filhos bem quentes -e bem córados! - -Assim pensava o triste, caminhando, pesado, molhado e todo cheio de -cousas dolorosas e morbidas. A neve vinha descendo como um immenso -desprendimento de lãs. - -E elle pensava que podia ser um abastado dos campos, e vêr á noite, -em volta da sua lareira flamejante e serena, toda a multidão dura dos -ceifadores e dos semeadores, entre os bons risos, em redor da grande -tijela de caldo, ao estalido das castanhas, na attitude dos bons e dos -simples. - -A neve ia caindo direita e vaga: e ouvia-se o rumor--indefinido como -de um mar, laborioso como de uma colmeia--das multidões doentias dos -pinheiros. - -O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enovelladas -nas pedras, esfarrapadas pelos cardos: e ás vezes um corvo, passando -silencioso e nocturno, vinha bater o ar em redor d'elle com uma -selvagem palpitação de azas. - -Começava a espalhar-se o dia. Elle sentia-se só entre aquella natureza -inimiga e barbara; e por vezes o braço, enfraquecido da febre, vergava -sob o machado e as cordas humidas. - -Elle ia entrando pelo pinheiral, indolente. O pinheiral era cerrado, e -a noite continuava ainda no encruzamento das ramagens lividas. A neve, -que caía sobre os ramos, desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva. - -As arvores estavam como tomadas de um susto religioso. - -Quando saíu do pinheiral, em caminho para os montes, lembrou-lhe -quando ia para as escamisadas n'uma aldeia do sul, e sob a luz -apaixonada e melodica das constellações cantava á viola junto d'uma -dôce rapariga de testa santa e de cabellos côr de amora; e elle, o -perdido, amollecia o olhar a passeal-o, pela abertura do lenço, sobre a -brancura do collo d'ella! - -Hoje, áquellas horas, pensava elle, aquella pobre mulher gemia na sua -alma, vendo os filhos, sem um bocado de pão, andarem pelo casebre -humido, rotos, dependurando-se-lhe das saias, gemendo: _mãe! mãe!_ E os -olhos do desgraçado tremiam-lhe nas aguas do chôro. - -O lenhador apertou o machado e entrou na floresta. - -Os velhos carvalhos violentos e propheticos, os choupos desfallecidos, -os castanheiros ruidosos, os olmos gigantescos, as ramagens e os -silvados eriçados onde o vento brada afflicto, todas aquellas verduras -vivas e sãs que cantam ao sol, no empoeiramento da luz crúa--toda -aquella sombria Diana esguedelhada, que se chama a floresta, dormia sob -as oppressões da neve, triste, silenciosa, estoica e soberba. - -O lenhador, com o machado erguido, ia por entre a floresta; elle -conhecia aquellas estranhas attitudes, aquelles escarpamentos de neve, -as faces pensadoras dos rochedos, todo o emmaranhamento de ramos, de -folhas, d'onde cáem gottas como um echo de chuvas passadas: e todavia, -ao endireitar-se contra um velho carvalho, empallideceu, como diante de -uma profanação. - -O seu coração simples e bom não comprehendia, mas sentia aquellas vidas -immoveis, silenciosas e sonoras, que são arvores, ramagens, arbustos, -florescencias; elle tinha compaixão dos gemidos dos troncos, das -cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que sacrificava -alli, á fome dos filhos, vidas infinitas de arvores. - -O lenhador atirou o machado contra o tronco do carvalho--e toda a -arvore immensa ficou tomada de vibrações dolorosas: e as suas ramagens -estenderam-se caidas, sem vida e sem força, pelo tronco, como para se -vêrem morrer sem gemidos, n'um silencio soberbo e selvagem. - -O sol veiu livido, molle, desfallecido, sem força, sem vitalidade, -sem ascenção flammejante e sagrada, entre nevoas arrastadas, entre -esvaecimentos lugubres de nuvens. Começavam a esvoaçar os passaros, -piando tristemente. - -E o lenhador, com o peito arqueado, os cabellos desmanchados, vermelho, -feroz, com o machado erguido nas mãos, com tragicos encarniçamentos, -luctava contra os troncos, contra os ramos, contra as raizes, contra -as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens -negras, de braços mortos de arvores, caidos e inertes como armaduras -vencidas. - -Aquellas arvores que tanto tempo levaram a formar-se, e a enrijar, e -a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da -chuva, e a enlaçar as molles nudezas das nevoas e dos vapores, aquellas -arvores cheias das mordeduras de novembro, cheias de legenda e do -cheiro das tormentas, encolhiam os ramos n'um estremecimento medroso -quando o machado reluzia lugubremente no ar. - -Elle tinha a camisa solta e esfarrapada: os sóccos faziam covas na -neve: e, esfomeado, terrivel, ia a grandes passos pela floresta, -rasgando os silvados, esmigalhando as raizes, envolto em estilhas, em -fibras partidas, com gestos tragicos, afastando com o machado o vôo dos -córvos; e, todo cheio do amor dos filhos, torturava as arvores, com -golpes flammejantes, gritando-lhes: _covardes!_ - -Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e as -nevoas, e a febre, e a dôr, até ao anoitecer. - -Tinha já um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas, duras -como os seus braços: encravou no meio o machado: o feixe enorme estava -encostado a um monte de neve: as duas pontas da corda por onde elle o -havia de erguer, pendiam negras e humidas: então curvou-se todo para -tomar o feixe sobre as costas largas: mas quando o ia a erguer, lento e -cansado, sentiu os musculos afrouxarem, as mãos esfriarem, subiu-lhe um -desfallecimento, e caiu, com os cabellos suados e collados á testa; e -os seus dedos inteiriçados esburacaram a neve. - -Assim esteve perdido na mollesa do esvaecimento, até que abriu os -olhos vagarosos, e ficou-se encostado ao feixe, silencioso e cheio de -tremuras. - -Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava -tomado de uma pallidez opaca e severa: caía uma chuva vaporisada: todo -o chão estava pesado de neve. - -Ao pé do lenhador estava estendido um grande tronco engelhado, morto, -sem raizes, sem ramagem, sem seiva: por um lado começava a desfazel-o a -podridão. - -Em redor erguiam-se as multidões de arvores cobertas de neve, -adelgaçadas entre as transparencias do nevoeiro, tristes e nocturnas -como monges brancos. - -Ao fundo abria-se uma clareira, que deixava vêr ao longe a grande luz, -que se ia, serena e timida. - -O lenhador, com o pescoço nú, o peito dolorido e ensopado, agarrou as -cordas do feixe e, enrijando os musculos, com a face congestionada, as -fontes inchadas, as grandes veias saídas como cordagens, e as pernas -hirtas, violentou o corpo para se erguer. Mas caíu sobre a neve, -amollecido, suffocado, e coberto das friezas humidas da febre. - -Então ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nú, coberto de neve, e -a pensar que o seu corpo ia alli finar-se e dissipar-se entre as -podridões dos troncos. - -E toda a sua carne foi tomada por uma vibração terrivel. Tinham-lhe -lembrado os filhos e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia, quando -elle entrava, a neve dos cabellos e as silvas da jaleca. - -A neve caía triste. Áquellas horas ella esperava, junto da porta, a -vêr se o via ao longe chegar, curvado debaixo dos seus feixes, pelos -caminhos brancos de neve. - -Ella estaria com uma mão apoiada á hombreira, e com a outra agazalhando -as creanças nas dobras da saia, contra os frios da noite. - -E elle estava alli só, esmagado, sob a neve implacavel! - -E quando o não vissem vir?! E elle procurava na memoria se já alguma -vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca. - -Se o não vissem chegar, iriam todos, chorando e bradando, com a -candeia acobertada do vento, procural-o pelas urzes sinistras. - -Ás vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra -subirem pelos troncos como um fumo terrivel; e sempre aquelle -enovellamento de similhanças humanas subia até se perder nas -transparencias lividas do ar. - -A neve caía como escorrida das nuvens. - -E elle pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte -na neve, sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras -da ventania, silencioso e solitario como um lobo! - -Então aquelle corpo, pisado, rôxo, tiritando entre as roupas molhadas, -dissolvido nas mollesas da nevoa, inteiriçou-se; com os olhos -flammejantes, os dentes irados, tomado de risos, esfarrapado dos -cardos, endireitou-se e, suffocado, esguedelhado, hirto, livido, deu um -grito na noite. - -Houve um levantamento assustado de passaros por toda a ramagem escura. -E veiu um vento e levou, nas suas espiraes violentas, um enovellamento -de folhas. E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Não havia ninguem -pelo monte. Estava só. Só! Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros -perdidos. Só! E iam-se os passaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Elle -ficava só. - -Então, vendo em redor a floresta solitaria e negra, a amontoação -crescente das sombras, o esvaecimento livido dos ultimos ramos, as -attitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das raizes, sentindo ao -longe o uivo dos lobos e por cima da cabeça o esvoaçar dos córvos, -estirou-se de bruços e bradou, na noite, sob a neve e o ruido dos -ramos:--Jesus! - -E toda a floresta ficou silenciosa, indifferente, soberba; os córvos -voaram gritando; elle caíu, fraco, desalentado, roto, agonisante, -macerado; e de cima o grande ceu, o ceu justo, o ceu sereno, o ceu -sagrado, o ceu consolador cuspia neve sobre aquella carne miseravel. - -E ficou inerte. A neve caía desfeita e branca. Estava estirado. Via por -cima a grande immobilidade da floresta, os nevoeiros, que deixavam caír -farrapos que lhe vinham roçar o rosto, e a sombra espectral do feixe de -lenha. - -Elle sentia o corpo entorpecido pelo frio, e na testa e nos olhos -abrazamentos mordentes: e parecia-lhe que lhe mordia as costas uma -chaga immensa, que tivesse terriveis ardores ao contacto da neve, sob o -peso do corpo. - -Ás vezes soluçava. E, quando assim estava, viu grandes sombras que lhe -esvoaçavam sobre a cabeça e fugiam bradando afflictas, com um terrivel -ruido d'azas, esbranquiçadas da neve, apavoradas e ferozes. - -Eram os córvos. Tremeu todo. Elle entrevia-os já quando elles viessem -pousar-lhe sobre o peito, e curvados, batendo as azas, meio suspensos, -enterrar-lhe os bicos negros na pobre carne. - -Então moveu dolorosamente o braço entorpecido e apalpou em redor: -encontrou um ramo solto, negro, espinhoso: lançou-o contra as sombras -negras dos córvos; mas elle tinha a mão quasi inanimada pelo frio, e o -ramo, debilmente arremessado, veio-lhe caír sobre a face, e rasgou-lhe -a carne com os espinhos. Já, porém, as mãos inertes não tiveram força -para o tirar. - -E poz-se a chorar. Os córvos voavam terriveis: elle enterrava o pé na -neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os córvos desciam. - -A neve caía e já lhe cobria as pernas hirtas. Elle então, vendo a -floresta que o ensopava de agua, o chão que lhe coalhava a vida, o -vento que o transia, a neve que o enterrava, os córvos que vinham -comêl-o, todas as hostilidades selvagens das cousas, encheu-se de -cóleras, e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou -rijamente a cabeça sobre o feixe--e poz-se a morrer. - -Então veiu repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre -lenhador sentir, n'aquelle vento, o som de um chôro e uma voz bradando -afflicta. - -O vento redobrou de furia: dispersou os córvos: elles balançavam-se nas -azas entre os redemoinhos do sopro feroz. - -A neve caía: e os braços do lenhador já estavam cobertos, e todo o -peito estava coberto. Os córvos fugiam: e todo o bando apparecia como -uma sombra indecisa e pesada. - -A neve caía. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a -bocca. - -Os córvos iam-se sumindo nas transparencias da noite... - -A neve caía, contínua, silenciosa. A testa do pobre estava coberta, e -apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes cabellos -escuros. - -A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos. - -E a neve descia. As sombras dos córvos sumiram-se para além das ramas -negras. - -Os cabellos desappareceram. Só ficou a neve! - - - - -OS MORTOS - - -Hontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Emquanto nas -dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, deante -do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus -queridos mortos, elles andam dispersos pela grande natureza, pelas -florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da -seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras d'acre cheiro. - -A sua carne soffreu, empallideceu com os medos, emmagreceu com as -febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas -frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do -sol, nos átomos da noite constellada e suave. - -Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio -da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a -seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corollas, de -ramagens ondulosas. - -Os que morreram sobre as aguas do mar, desfazem-se entre as verdes -profundidades, entre as areias, os coraes, as conchas, os rochedos, e -vêm depois, sob a fórma d'ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite -estirar-se ao peso da mollesa que escorre dos astros, ou de madrugada, -cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o -povo dos pescadores, silencioso e trigueiro. - -Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos, -são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hieratica das -estrellas, pelos vapores molles das nuvens, pelas auroras; são os -átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores. - -Assim os mortos são felizes. - -Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empallidecidos, -esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos -deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses, -riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no -meio d'esta forte vitalidade--como um lavrador que suspende a enxada e -se fica, todo amarello, a pensar na velhice sem pão e sem lume--estamos -sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos, -aterrados, nos esfriamentos lugubres do tumulo. - -E entretanto os mortos, que são os paes, as irmãs, as bem-amadas, -as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas aguas, pelos -astros--serenos e immaculados. E porque tememos a morte? Que instincto -tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta fórma humana, estes -cabellos, estes olhos, estes braços enrodilhados de musculos? As -arvores, as florescencias, as hervas, as folhas, são tambem fórmas da -vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas familias das -constellações, pelos planetas, pelas arvores, pelos lividos interiores -da terra, pelas aguas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a -seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha attracções, -amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações, -pollens, alma, movimento--vida. Porque ha de então ser esta fórma, que -tem braços e cabellos, e não aquella, que tem ramos e folhagens? - -A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados, -luminosos, bestiaes, divinos. - -Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana, -onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza, -na serenidade, na fecundidade, na força. - -Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma -transfiguração sagrada. Mal cáem sobre elles as ultimas pazadas de -terra e o canto dos padres, barbaro e dolente, se perde com o fumo dos -cirios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a -grande vegetação esfomeada; elle vae dar-se alli como pasto ás boccas -sinistras das raizes: elle amollece entre as humidades da terra e -desfaz-se em podridões: então as raizes começam a sugar e a comer: a -podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se -pelos ramos, palpita dentro da arvore, engrossa, fecunda, arredonda-se -nas exhuberancias dos gomos, e abre-se depois em folhagens, em -florescencias e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o -sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos -pastores, e vive sereno, repousado, na floresta immensa. - -E no emtanto, junto d'aquelle corpo, que soffreu a metempsycose do bem, -foi enterrado outro, n'um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e -embalsamado. Entre a enorme palpitação diffusa, emquanto em redor se -vae operando a lenta transformação da semente, onde já estão em germen -as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde -o vento atormentará, entre as raizes fortes e retorcidas dos arbustos, -entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades -creadoras da terra fecunda, o cadaver embalsamado alli está, inteiro, -hirto, rijo, feio, livido. Elle inveja os átomos livres e soltos, que -sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e -escorrem, como grãos d'um sacco, desde as constellações e os cometas, -até ás espumas castas das fontes: alli, sequestrado á natureza, não -se póde dissolver na eterna materia forte: não tornará a vêr o sol, -as noites amollecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que -estranha fatalidade pesava sobre elle, que nem a morte o libertou? - -Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da belleza -e da harmonia; movermo-nos na atmosphera serena do bem e da liberdade; -ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tyrannos; -sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada--e depois, ó santa -Natureza! toma os nossos corpos para fazer d'elles arvores cheias de -sombra e ramos resplandecentes! - -E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos -n'uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e -fecunda, nos enche todo o interior, despertando alli, como faz nas -madrugadas de maio, os córos de passaros: e depois ha um responso -sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os -terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma -hostia mysteriosa. - -Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as arvores estão -graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva -flammejante e serena que a floresta veste: e ella murmura um canto -dolente e sacro, acompanhado pelos passaros religiosos, e d'entre as -ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga -hostia: e, ao fim da missa, as arvores, balançando os ramos, parecem -lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua -benção soberba. - -Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes, -purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio -do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de -confidencias. - -São os nossos queridos mortos que nos fallam; e então toda a materia -tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar, -com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios -amados... - -E depois a natureza tem immensos perdões e reconciliações formidaveis; -todos os odios tragicos, todos os corações ferozes se fundem -divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ella não escolhe; tudo -lhe é bom; as raizes das rosas pastam a podridão dos tyrannos; e dos -homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz -carvalhos austeros e cedros religiosos. - -Ella é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa -Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos--o do homem -luminoso e o do homem escuro--andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas -auroras e nas mesmas corollas. - -Ella acolhe, indifferente, todos os ritos, todas as religiões: as -mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas -dos ritos de Baccho, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois, -agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constellações, o pobre -Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue, -bradando afflicto na noite das Agonias. - -Ás horas em que acabo estas linhas, vae o dia a declinar: agora, lá -ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre -os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e -parece-me vêl-o d'aqui, entre as transparencias morbidas do anoitecer, -distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que elle assim -espalha pelos sulcos fecundantes: são elles que se tornaram seáras e -que lhe hão de encher o celleiro; são elles que lhe dão a comer a sua -carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações! - -Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer -com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na -natureza que se deve procurar a religião: não é nas hostias mysticas -que anda o corpo de Jesus--é nas flôres das larangeiras. - - - - -A PENINSULA - - -Ainda hontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre -tinhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendencias, somnolenta, -chata, fria, burgueza, cheia de espantos e de servilidades: e que este -velho canto da terra, cheio de arvores e de sol, tinha sido patria -forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, epica! - -Ah! foi ha muito tempo... - -Era n'aquelle tempo em que a Italia rodeava os papas severos; e olhavam -para o ceu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa, -uma profunda transformação social. Na Allemanha, Luthero entrava em -Worms, com um canto batalhador, em nome do espirito e da alma. O -Papado ia morrer. Era necessario que todo o Sul se alliasse na cruzada -catholica. - -Toda a revolta de Luthero foi tomada, ao principio, por um d'aquelles -lentos suspiros allemães, que se perdiam no côro profano, luminoso, -embalador e forte do Sul. - -Viu-se, depois, que era a voz immensa da alma do Norte, toda uma -humanidade austera e vital, que se movia, que vinha fallar, pensar, -examinar, revelar, sob o peso da theocracia romana, dos papas, dos -imperadores, das tyrannias, dos sacerdocios. - -Todo o Sul catholico estremeceu: aquella revolta vinha imprevista e -rapida: um dia, a imperceptivel e vasta humanidade, quando fosse, -uma madrugada, para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma -deserta, e, ao longe, o catholicismo dissipando-se com um som hieratico -de psalmos, e um colorido vermelho de fogueiras. - -Era necessario salvar o Sul. - -A Italia tinha-se familiarisado com o christianismo: tinha-se -acostumado ás santas macerações de Jesus, á transparencia ascetica das -virgens: os renunciamentos e os medos catholicos já a não vergavam para -o pó. Ella, cheia de sol, e de sons, e de forças, começava a olhar -a natureza, as grandes fecundidades, as vitalidades poderosas, as -melodias moventes da carne. - -Os velhos Deuses da Grecia tinham-se refugiado na alma italiana: ao -principio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela -dôr, encolhidos, soluçantes, miseraveis: depois, lentamente, foram -apparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrosia e um som d'idyllio; e os -seus corpos, sãos como astros, occuparam, por fim, toda a alma italiana -com choreias, derramações de nectares, palpitações de luz, divinos -resplandecimentos de vida. - -A Italia tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do -infinito: e os poucos que se curvavam sobre a _Divina Comedia_, não era -para vêr os castigos e os paraizos, mas para sentir as palpitações, que -lá tinham ficado, da alma de Florença. - -A Italia seguia Petrarcha: mas em Petrarcha havia ainda uma religião e -um mysticismo--o amor: e a Laura dos _Sonetos_, como a Virgem mystica, -prendia nas humilhações religiosas todos os cavalleiros do Sul. A -Italia então deixou Petrarcha e rodeou Ariosto, o aventureiro, o -jovial, o descrente, cavalleiro e escarnecedor. - -Foi então que se ouviu aquella voz do Norte. - -Todas as cohortes catholicas andavam dispersas, galhofeiras e -namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta -Pulci, guiadas por Lorenzo do Medicis e pelo cardeal Bembo, cantando -ás estrellas, adorando as Violantes, rindo de Fra-Angelico, acclamando -Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do -sol, da musica e das noites profanas. - -Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Luthero. Todos os -catholicos correram instinctivamente, rodearam os papas severos, -Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os psalmos e as missas de Marcello, -cheias dos renascimentos asceticos, e foram seguindo o Tasso, que -voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus. - -E o papa continuou caminhando, sereno e terrivel, deixando as sombras -das masmorras de Galileo e de Campanella, e mais longe o fumo das -fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno. - -Tal era a lucta do Norte e do Sul. - -Ora, durante essa lucta das religiões e das patrias, a Peninsula, -encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistro -cavalleiro de Deus, armava as caravellas e os galeões para as bandas -desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós -outros, os peninsulares, appareciamos ás demais nações como velhos -lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como -calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios -de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terriveis. - -De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto -um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiaes e -núas, sob a benção dos padres: alli mesmo, sobre a areia, ao rumor das -maresias, escrevia a historia tragica da sua viagem, e uma madrugada, -tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a -banda das Indias. - -Era assim. Todos os annos, aquella multidão immensa de aventureiros -embarcava nos galeões, entre os psalmos o os chóros, e elles iam, -silenciosos e flammejantes, por entre as sonoras illimitações, os -ventos afflictos e os tremores da agua--para os nevoeiros inexplorados. - -Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as -constellações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e -as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Christo, -cantando os psalmos ao côro dos furacões, todos reluzentes de armaduras -e de divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e -de doçuras de apostolos. - -Iam como n'uma gloria e em nome de Deus! E quando encontravam as -hostilidades e os encrespamentos irados dos elementos, as oppressões -infinitas dos ventos e das aguas, erguiam as mãos como para uma -excommunhão, e bradavam, soberbos, áquelles sôpros e áquellas maresias, -os versiculos do Evangelho segundo S. João. - -Ora aquelles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e -poetas. Escreviam os seus feitos. - -Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convez das -caravellas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da India, -sob as immobilidades crúas da luz: escreviam cobertos das espumas, -ennegrecidos pelos fumos, trémulos das iras das batalhas. Por isso -enchiam as suas chronicas e os seus poemas d'uma estranha prodigalidade -de força e de vida. E os seus diarios de bordo tinham, muitas vezes, a -simplicidade epica de Homero. - -Mas elles tambem tinham amores, ciumes, paternidades, paixões, lyrismos -interiores, e as saudades da patria nasciam n'aquellas almas como -grandes assucenas que se abrem dentro d'um vaso, e que o enchem. - -De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, -deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, emquanto os -pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens immensas das -estrellas, e todo o mar enorme se amollecia como um seio cansado, elles -contavam em voz baixa, com as cabeças juntas, as historias de amores, -os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da patria. - -E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farças, comedias e elegias. - -E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar, -tomavam a fórma popular. - -Estavam longe da Europa, das plasticas da Italia, dos renascimentos -gregos e romanos, das antigas fórmas rituaes, das educações classicas. - -Não conheciam isto. - -Mas lembravam-se sempre das cantigas da patria, das lendas heroicas, -dos romances populares, que elles tinham ouvido pelos campos, com que -os velhos embalavam os netos, que se cantam do noite ás estrellas por -Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos -godos e dos arabes. Porque o povo, na Peninsula, tinha uma poesia, sua -exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, -em que escarnecia os alcaides e celebrava os heroes. - -Fazia d'aquella poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande -leito mysterioso onde adormecia as tristezas: era alli que procurava -confortos, recompensas, e as ideias da patria. - -No Norte, a poesia popular foi a Invisivel que levou, pela mão, os -trovadores, filhos das glebas, até ás lareiras dos senhorios feudaes: -foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça, -mysticos e sensuaes, soltaram para as brancas castellãs que entreviam -nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, ás -estrellas, pelos altos terraços; ou entre as arvores, ao entardecer, -quando as ogivas, cheias do sol obliquo, estão flammejantes como -mitras. - -E as castellãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e -cheios do paraizo. Admiravel influencia da poesia, que produziu, pelo -amor, um renascimento social! - -Mas a poesia da Peninsula era unicamente do povo: era a epopeia -austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo del Carpio, -exterminador de barbaros. Na Peninsula, o povo estava sob uma condição -especial; tinha uma importancia no estado forte, fecunda e soberba: -a Peninsula tinha passado os primeiros annos da sua constituição -nas luctas terriveis do forte Mahomet e do Christo mystico; ora o -popular da Peninsula não era um servo, era um christão: consagrado -pelos baptismos, era uma força individual, que impellia e dissolvia o -elemento mourisco, sensual e poderoso. - -Ora foi sob a fórma popular que aquelles batalhadores e poetas, que vão -hoje tomando a vaga attitude da legenda, escreveram os seus poemas, as -suas cantatas, as suas comedias e os seus sonetos. - -Então toda a litteratura peninsular tem uma originalidade profunda, -independente de fórmas e ritos: a arte, o drama, a poesia, sáem -das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades -meridionaes: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades -esqueciam as suas tradições, a sua historia, a sua velha alma, para -se envolverem nas fórmas antigas. Era a Renascença. Então apparece o -theatro hespanhol, original, cavalheiresco, energico, apaixonado, cheio -de selvagens palpitações, de lances, de religião: theatro onde a cruz -é um personagem; onde fallam lacaios, heroes, santos, ventos, galeões; -onde todas as fórmas da vida se confundem--o riso, o chôro, a ironia, a -satyra, o madrigal... - -Depois uma pintura mystica e sensual: não é a espiritualisação da alma, -é antes a immortalisação da carne, inspirada d'aquelle mysticismo -hespanhol, que sob a influencia da natureza, do clima, da politica, -da raça, parece mais cheio das tragicas iras de Jehovah, do que das -doçuras de Jesus. - -Depois uma musica, como a do _Dies irae_, obra dos terriveis -dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: musica -ascetica e flammejante, onde a natureza apparece, tragica e desgrenhada. - -Uma arte onde se torcem todas as chammas do inferno, e todas as -pedrarias dos paraizos catholicos, que parece uma lucta tragica -e comica da vida e da morte; uma egreja cheia de renunciamentos -mysticos, mas onde o mysticismo parece mais um desespero de não poder -saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a -alma nas contemplações divinas: uma defeza do catholicismo, tragica -e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdocios: -confusão dos imperadores com os santos e das corôas de metal com as -corôas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o -sentimento mais apparente é o rancor. - -Ao mesmo tempo uma austeridade monastica em tempo de guerra: caravellas -que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações -das estrellas: quasi, por vezes, uma reconciliação apparente do -Mahometanismo e do Christianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o -elemento da intriga que quer entrar na politica, vindo substituir o -elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa visinha. Depois -um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a -America e as Indias como um paraizo de oiros, de metaes e de soberanias. - -Tal é o aspecto mais geral da Hespanha nas vesperas da Renascença. - -É dramatica aquella vida. - -Não admira, por isso, que a fórma suprema da sua arte--fosse o drama. - -Em Portugal, não é este rigorosamente o fundo do genio: ha mais -serenidade na força: o caracter portuguez é mais parecido com o -caracter italiano: os nossos sabios, os nossos viajantes, os nossos -descobridores, tinham mais a lucidez do tempo de Galileo do que a fé -do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso Portugal não -resistiu nada á influencia italiana. O renascimento da antiguidade, a -serenidade plastica, a frieza classica, acclimatam-se na Hespanha, mas -com dôr e com lucta: foi necessario que a Hespanha já não acreditasse -na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar, -pelos caminhos, o magro D. Quixote. - -Em Portugal não: o genio antigo acclimatou-se: transformou-se mesmo: -perdeu o elemento vital e fecundo--e ficou-lhe o elemento rhetorico. - -Oh Arcadia! Oh moços pastoris e burguezes! Oh classicos! - - - - -O «MIAUTONOMAH» - - -Ha duzentos annos, uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco -na Hollanda humida e ubere, e, sob o equinoxio e os grandes ventos, -miseraveis, austeros, levando uma Biblia, partiram para as bandas da -America. - -Duzentos annos depois, estes homens que tinham ido, solitarios, n'um -barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra epica pelo -Mediterraneo, pelo Pacifico, pelo mar das Indias, pelo Atlantico, pelos -mares do Norte. - -Aquella colonia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados, -rotos, que dormiam ás humidades do ar n'uma capa esfarrapada, é hoje a -America do Norte--os Estados-Unidos. - -America do Norte significa trabalho, fé, heroismo, industria, capital, -força e materia. - -Ultimamente via eu o _Miautonomah_, sinistro e negro caçador de -esquadras: é toda a imagem da America--frio, sereno, contente, -material, e cheio de fogos, de estrondos, de machinismos, de forças e -de fulminações. - -É o que amedronta n'aquelle navio:--a frieza na força. - -Elle representa a consciencia soberba da força e da industria, e os -grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos -elementos: elle tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o -Mediterraneo, os grandes desvairamentos da agua, os ventos immensos, -os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente -apparecidos, os nevoeiros perfidos, os magnetismos, as electricidades, -toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se -preparam:--cordagens, velames, mastreações, complicações e resistencias -de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que -transforma as hostilidades em auxilios; elle, o _Miautonomah_, -contenta-se com uma taboa rasa. - -Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um -formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o -arsenal reluzente das abordagens; a elle basta-lhe uma muralha de ferro. - -O vento é temido: nas vastas solidões azues, elle é o lobo sinistro -que anda rodando e uivando, á caça dos navios; elle acalenta o mar, -massa inerte e salgada: elle faz com a agua estranhas nupcias ferozes; -extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens, -persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares -do Norte, quando elle sopra, as estrellas têm maior tremor: mas o -grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violencia, com a -força, e defende-se com o esvaecimento. - -O _Miautonomah_ é assim: ataca serenamente, com violencias enormes, com -fulminações tragicas, e defende-se com a impassibilidade e quasi com o -esvaecimento. - -Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas -flammejantes, entre os terriveis fulgores do fogo, e os phantasmas do -fumo, e as effervescencias da agua--elle passa, solta a sua fulminação -enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio, -impassivel, mudo, tenebroso, coberto de ferro. - -Elle não receia o mar: os outros navios erguem amuradas immensas para -conter o encrespamento da onda: forram-n'as de cobre, erriçam-n'as -de pregaria. O _Miautonomah_ não: elle julga a demencia do mar um -prejuizo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da agua: -satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericordia dá-lhe -hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a -triturar, a roer--dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro -enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado, -mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas, -agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:--Lá anda o mar a -varrer e a lavar o tombadilho.--E com effeito, o velho oceano dos -diluvios faz, humildemente, o serviço dos ultimos grumetes. - -Em cima, na superficie da agua, ha o vento, as espumas, os nevoeiros, -as chuvas, as trombas; elle, aborrecido, afasta-se d'este bando -miseravel e vae investigar o fundo das aguas, as vegetações -phantasticas, a região dos coraes, as cavernas enceladicas as purezas -infinitas da transparencia, todo esse mundo submarino de que os velhos -mareantes fallavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de -ferro, enorme, elle brutalisa aquellas virgindades do mar: em baixo, a -tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e -desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio -com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem, -cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a -Biblia--serenos. - -Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a -amontoação confusa de calabres e de lonas--o tombadilho aberto é cheio -de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das -conchas, das espumas, das aves do mar. - -Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitarios, -com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da -materia. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos -aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flammejantes que -dão a vida aos machinismos--vermelhas como corações sobrenaturaes: o -ar é descido por machinas de respiração, pulmões terriveis: e um vento -geral, fecundo, benefico, escorre constantemente por todo o negro -bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores -pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo, -aquelle navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas. - -Ora sobre aquelle negro navio, sobre os machinismos frios, aquellas -forças pavorosas, aquellas fogueiras terriveis, no convez, entre as -negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, -esvoaçando na sua gaiola--canta um canario. - -Tal é o _Miautonomah_, navio de guerra da America do Norte. - -Nós entrevemos a America como uma officina sombria, sonora e -resplandecente, perdida ao longe nos mares. - -Entrevemol-a assim: movimentos immensos de capital; adoração exclusiva -e unica do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de -meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico; -atmosphera pesada de positivismos estereis; uma febre quasi dolorosa -do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças: -extremo despreso pelos territorios; preoccupação exclusiva do util -e do economico; doutrinas de uma philosophia e uma moral egoista e -mercantil: todo o pensamento repassado d'essa influencia: uma fria -liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação -terrivel da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas, -colonisações, exportações collossaes, forças extremas; accumulação -immensa de industrias, esquadras terriveis, uma estranha derramação de -jornaes, de pamphletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e -por fim um profundo tedio pelo vasio que deixa na alma a adoração do -deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação -entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma -bella costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos, -com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as -fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa, -fecunda, eleita, desapparecendo entre as industrias, os fumos das -fabricas, as construcções, os machinismos,--como a herva d'uma campina -fertil que desapparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões. - -A vida da America do Norte é quasi um paroxismo. - -Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme, -superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro? - -Todos os dias dizem á Europa:--Olhae para os Estados Unidos, lá está o -ideal liberal, democratico, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal -economico. - -Mas a America consagra a doutrina egoista de Monroe, pela qual uma -nacionalidade se encolhe na sua geographia e na sua vitalidade, longe -das outras patrias; esquece as suas antigas tradicções democraticas -e as ideias geraes para se perder no movimento das industrias e das -mercancias; allia-se com a Russia. A raça saxonia vae desconhecendo os -grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoismos -politicos e nas preoccupações mercantis, scisma conquistas e extensões -de territorios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento -positivo e egoista, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas, -que fumegam negramente. - -Uma das inferioridades da America é a falta de sciencias philosophicas, -de sciencias historicas e de sciencias sociaes. - -A nação que não tem sabios, grandes criticos, analysadores, -philosophos, reconstruidores, asperos buscadores do ideal, não póde -pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral. - -Emquanto a superioridade foi d'aquelles que batalhavam, que lançavam -grandes massas de cavallarias, que appareciam reluzentes entre as -metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a -superioridade foi d'aquelles que pensavam, que descobriam systemas, -civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a -geologia, a astronomia, a philosophia, o Oriente caíu, miseravel e -rasteiro. - -Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas sciencias historicas. -Inferioridade! As sciencias historicas são a base fecunda das sciencias -sociaes. - -É a superioridade da Europa: sob a mesma apparencia de febre industrial -ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova -humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça. - -O nosso mundo europeu tambem é uma extranha amontoação de contrastes -e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas -as efflorescencias fecundas e todas as velhas podridões: politicas -superficiaes e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres -consciencias e a tyrannia dos velhos ritos: diplomacias pacificas e -transigentes, e um espirito de guerra surdo, acceso e flammejante: -territorios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e -pela philosophia dos conquistadores e dos heroes: restos de influencias -monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionario; -humanitarismo fundido com o mais aspero egoismo; um chaos horrivel -de contradicçoes, e em cima, triumphal e soberba, a industria, entre -as musicas dos metaes, as architecturas das Bolsas, reluzente, -scintillante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho -eterno--que são fortunas, imperios, festas, empresas collossaes. - -Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre, -move-se em germen um novo mundo, o mundo da justiça social e economica. - -Este germen é que a America não tem, creio eu. - -Porque toda a America economica se explica por esta formula: feudalismo -industrial. - -Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas, -de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza -amontoa-se em proveito da alta finança--com detrimento das pequenas -industrias. - -Logo que na ordem economica não haja um balanço exacto de forças, de -producção, de salarios, de trabalhos, de beneficios, de impostos, -haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao -mesmo tempo uma democracia de proletarios que emmagrece, definha, e -dissipa-se nas miserias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam -estas terriveis desuniformidades. - -Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o -trabalho pela repugnancia que excita, pela absorpção completa de toda -a vitalidade physica, pela aniquilação e quebrantamento da seiva -material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção--por -isso mesmo, sobreexcita o espirito, estende os ideaes, abre grandes -vasios na alma, complica as necessidades, torna insupportavel a -pobreza: nas grandes democracias industriaes onde as posições são -obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha -mil motores--a ambição, a inveja, a esperança, o desejo--o cerebro -aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o _querer -chegar_ torna-se uma verdadeira doença d'alma: exageram-se os meios: e -toda a seiva moral se altera e se deforma. - -É o que vae acontecendo na America; debaixo da frieza apparente, -move-se todo um inundo terrivel de desejos, de desesperanças, de -vontades violentas, de aspirações nevralgicas. - -Depois, como no meio das industrias ruidosas e absorvedoras muitas -amarguras ficam por adoçar, muitas angustias por serenar, muitas fomes -por matar, muitas ignorancias por alumiar, tudo isso se ergue terrivel -no meio da febre da vida social, e torna-a mais perigosa. Londres dá -hoje o aspecto d'esta lucta. - -De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o -desejo das riquezas, aferventa o cerebro, sobreexcita a sensibilidade: -a população cresce, a concorrencia é aspera, as necessidades -descomedidas, infinitas as complicações economicas, e ahi está sempre -entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a lucta dos -interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades, e por fim -as revoluções politicas. - -E todavia a liberdade da America parece tão confiada, tão assente, tão -satisfeita! - -No emtanto ha muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda ha pouco -deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos, -a sua industria, o seu egoismo, o seu profundo interesse, e arma -exercitos, esquadras, dissipa milhões, e vae bater-se por uma ideia, -por uma abstracção, por um principio, pela justiça. - -O Sul queria manter a escravatura; o escravo que trabalhe, que cultive, -que produza, que sue, que morra sob a força metallica, baça e sinistra -do clima e do sol. Pois bem. O Norte quer a liberdade, o amor das -raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo -direito! E dispersa os exercitos da Virginia. - -Taes coisas me lembraram ha dias, ao visitar o _Miautonomah_, fundeado -no nosso Tejo. - - - - -MYSTICISMO HUMORISTICO - - -Voltei. É agora que as toutinegras emigram. - -Andei pelos campos, n'este ar desfallecido do inverno outonal. - -Agora o azul está indolentemente bello. Tem quasi uma ironica -serenidade. É o azul intenso, frio, triumphante. Tem a luz, a belleza, -a força, a ineffabilidade. Agora a luz enternecida dos campos -arrasta-se pelas grandes aguas quietas e pallidas, onde o vento revolve -e espalha a agonia das folhas. - -Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranquiçada, escondida entre -as bençãos indolentes das arvores. Tinha a serena quietação de quem -tem ouvido segredos extaticos, e era triste e religiosa como a entrada -amarellecida de um convento catholico. Havia uma corrente de agua -delgada que fazia claras murmurações, e era como o acompanhamento, -natural e melodico, de uma ecloga latina. Entre as arvores estava um -banco solitario, que o musgo ia cobrindo. Nas plantas, nas clematites, -nas trepadeiras que o cercavam, havia um murmurio como de vozes -distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e molhada -do banco tinha a tristeza das pedras do cemiterio, á luz consoladora, -purificadora e branca, que cáe dos ceus outonaes. - -Agora, sobre aquelle banco, dorme estirada a grande luz do sol, e á -noite o luar, porque já não ha n'aquella casa namorados contemplativos -que venham, de noite ou á sésta, despertar, para se poderem sentar -alli, aquelles dormentes de luz. - -Aquella casa abandonada faz lembrar amores mysticos: e, quando se vê á -luz dolente do escurecer, faz subir do coração como um sabor de beijos -antigos e esquecidos. - -As arvores erguiam, em attitudes violentas e propheticas, os seus -braços nús, engelhados, supplicantes para o frio azul, esperando, no -entorpecimento, a fermentação violenta das seivas. Os ramos frios -e nitidos deixavam passar indifferentes, sem as suspender, sem as -acariciar, as molles nudezas das nuvens. - -Toda a natureza, no tempo dos frios, está impassivel e somnolenta. - - * * * * * - -Passei por um cemiterio. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um -rosto inerte e animal. A luz dissipava-se, e uma estrella que se chama -Venus luzia, metallica, ardente, desejosa, lucilante, n'um fundo -sinistro de ramagens. - -O coveiro é um semeador. Semeia corpos. Sómente não tem a esperança nem -o amor das colheitas. Quem sabe se os corpos, que se atiram á valla, -sementes funebres, se abrem, lá em cima, em searas divinas de que nós -apenas vemos a ponta das raizes, que são as estrellas? Mas não. A alma -morre. O corpo revive e dissipa-se na materia enorme. - -É na alma que estão as más vontades, os negros remorsos, as lacerações -do mal: o corpo desce livre, novo e são para as uberdades limosas das -covas. - -Quando chega o ultimo frio, odios, amores, tristezas, invejas, -melancholias, desejos, todos cançados das luctas e da vida, dizem á -natureza como gladiadores vencidos:--_Os que vão morrer saúdam-te!_--E -morrem. - -A vida e o seu supplicio é absorvida na insensibilidade da natureza, -no silencio perpetuo, na força fatal e céga. E a materia vae pelos -ares, pelas planicies, amollece-se nas sombras, vivifica-se nos raios -claros, é rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruido, movimento, -estremecimento confuso do corpo de Cybéle: e a materia sente a vida -universal, a palpitação do átomo debaixo da fórma, sente-se banhada -pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impellida -para a luz magnetica dos astros e dilacerada nos asperos movimentos da -terra. A materia tem a consciencia augusta da sua vitalidade. E assim, -sob a tua impassibilidade, ha uma angustia immensa, uma vida ardente, -impiedosa, uma alma terrivel, oh formidavel natureza! - -A noite descia: caía de cima uma claridade lactea; pesava um austero -e lento silencio; a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores -desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade -indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me dos Elysios olympicos -e mythologicos onde na claridade, passam as sombras heroicas, serenas, -brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol! - - * * * * * - -Eu ia escutando os passos da doce noite, que vinha caminhando. Ia-me -afundando no tedio, como um navio roto n'uma maré do equinoxio. -Enchiam-me a alma crepusculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro. -Áquellas horas, os lymphaticos, os innocentes, os mysticos, encontram -nos arvoredos languidezas e elevações asceticas. Mas eu tremia entre a -ramaria inquieta como um mar, mysteriosa como um firmamento:--tremia -como um homem medroso que visse erguer-se um morto. Toda aquella negra -decoração de ramos torcidos, de folhagens lividas, de silencios, -enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e -transfiguradora do occaso dava aos troncos um estranho aspecto de -luctadores, vindos do sangue e dos incendios: os sinos distantes eram -como vozes indefinidas de miseria e de dôr. - -Passava um vento incessante e perseguidor. Os môchos voavam, e as aguas -sonoras eram como vozes vingativas e tragicas. A lua, entorpecida, -passava por detraz da estacada de ramos. O vento era rouco e lento -como um canto catholico de officios. E o grasnar lento e arrastado dos -córvos parecia uma ladainha barbara de padres. As arvores doentias -rangiam ao vento hybernal, o ar estava diaphano, lacteo e mortuario. As -estrellas que appareciam tinham o olhar lancinante. - -Cheguei á estalagem. Em baixo, na lareira, um magro fogo lambia as -fuligens. A luz do meu quarto tinha a lividez dos cirios, e o espelho -tinha reflexos pallidos, como de sombras mythologicas que passassem. -Ouviam-se os lobos. - -Lembraram-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o -ceu derrama somnolencias; então tambem eu ia por entre as arvores, e -ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir atravez -da bruma, entre o acre cheiro das efflorescencias. Aquellas vozes -claras eram doces, santas, saídas de crystaes, como veladas por um -luar. Eram como claridades sonoras de estrellas. Era uma multidão de -fórmas divinas que assim cantavam, divindades feericas, willis, nixes, -peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos. -Aquellas nudezas celestes, filhas do fogo, flôres do mal, ondas do -ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as scintillações -estellares franjavam de pallidezas. No meio dos nevoeiros humanos, -ellas faziam resplandecer deante dos olhos as visões paradisiacas, -as creaturas sideraes de languidos mysticismos. Ellas iam n'aquelles -enlaçamentos, brancas e loiras, cheias de lyrismo, com os pés vermelhos -e magoados de terem pisado auroras; iam poisando nos jacinthos, nos -myrthos, nas rosas barbaras cheias de sangue radioso: iam rolando sobre -a brancura soluçante dos lyrios: e a sua voz triste subia, por entre o -azul lacteo, para a lua chorosa. - - * * * * * - -Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma mumia, -pensando n'estas coisas, vi, repentinamente, atravez das vidraças, a -lua apparecer-me. - -Mas não era aquella pura e immaculada lua côr d'opala--que derrama -brancuras, como se atravez do azul caissem lyrios. Era uma lua -metallica, fria, hostil, material como uma moeda d'oiro nova. - -Ella apparecia-me mortuaria e livida como uma sombra finada, que se -ergue ás grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rapido, estava -cheio das minhas agonias. - - * * * * * - -Ora n'essa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha -feito saltimbanco. - -Fez bem. Cançado dos pedantes, dos burguezes, dos ventres mercantis, -dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco, e vive entre os -palhaços. Faz forças coberto de farrapos luzentes, engole espadas, -dança farto de vinho como um Sileno. Dorme n'uma capa esfarrapada, com -a nuca sobre um tambor, á frescura das estrellas e sob a bondade dos -luares. - -Ás vezes tem frio e fome, e gela n'uns calções feitos de veludilho -e de galões d'oiro. Anda errante de villa em villa, e a populaça da -lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre -a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de -desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as -materialidades felizes? - -Elle tem a multidão extatica e enlevada nos giros dos seus sapatos. E -tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão, -e annelladas e fortes como negros pennachos de voluptuosidade: e a sua -testa tem um reflexo de luar, de marmore e d'espelho: e tem um bello -seio de fórmas barbaras. - -Elle pula á noite, no circo alumiado, emquanto as toutinegras cantam -nos cannaviaes. Elle faz girar vinte punhaes agudos em volta da cabeça, -n'um circulo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquelle diadema -terrivel e faiscante, e o saltimbanco impassivel, grave, enfarinhado, -sob aquella corôa de luz, tomal-o-á por um idolo e fal-o-á igual aos -deuses! - -Elle, o meu saltimbanco, tem a alma de oiro e o coração de diamante--e -ri-se, ri-se, quando o vento sôa como flauta do inverno, e ao concerto -das corujas e das ondas as estrellas dançam. - -A miseria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da -bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem -sol. E não soffrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado, -applaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes -tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu -melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes, os tambores! - -Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que -são as visões? São as attitudes, phantasticas e desmanchadas, que a -sombra dá ás verdades. Já pensava assim o poeta Li-Tai-Pè, que escrevia -sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e laccas, ao aroma -dos nenuphares, vestido de sedas amarellas, perfumado de sandalo--dôce, -contemplativo, branco, diante d'um vaso de margaridas! - - - - -O MILHAFRE - - -Um dia um homem entrou n'uma casa arruinada. No portal havia um nicho -com um santo de pedra, que lia uma Biblia, tambem de pedra. Em redor, -na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia -hervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre -as suas palpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as -cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa -dos regimentos, e o santo lia attentamente o seu livro de pedra. - -Vinham defronte dançar saltimbancos, passavam as frescas serenatas, -vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de -pedra sobre as paginas inertes. As devotas, lentas e desfallecidas, -beijavam-lhe os pés nús, os homens severos saúdavam-o, as creanças -olhavam-o com os seus grandes olhos inanimados, os cães ladravam-lhe á -calva: o santo, curvado, seguia o espirito de Deus por entre as lettras -do livro. - -Passavam os fardos, os mercadores crestados pela industria, os poetas -languidos que desfallecem nas cançonetas, os histriões que cantam nos -tablados, mulheres mais preciosas que o ambar, os sabios, os mendigos, -as virtuosas e as melodramaticas:--e o santo lia o seu livro prophetico. - -Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os cyprestes--ais de -folhagem--os homens, perguntavam entre si:--«Que lê tão attentamente -aquelle santo, que nem sequer nos olha?» E os enxurros, que passam -rosnando, diziam:--«Que lê tão devotamente aquelle santo, que nem -sequer nos escuta?» - -Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras cáem de somno, -quando os homens estão cheios de comida e de inercia--a lua, que ao -nascer é material e metallica como uma moeda d'oiro nova, depois, -na suavidade do azul, é tão pura, tão casta, tão immaculada, tão -consoladora, como uma chaga de Christo por onde se lhe visse a alma. -A essas horas, uma creança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo -pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o -santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a -grande luz dos seus olhos, aquella creança miseravel, adormecida sobre -as lages. - -Depois os planetas, a lua, a noite seguiam a sua viagem immensa para o -oeste, e a leste começava uma claridade: eram as hesitações da luz do -dia, medrosa por ter de descer ás miserias dos homens. - -As bandeiras ainda estavam desfallecidas, sonhavam as arvores, a cidade -dormia como outr'ora Sodoma. Acordavam então as andorinhas. Esvoaçavam -gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, poisar no nicho. - -As andorinhas estavam nas intimidades e nas confidencias do santo. - -Ora o vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grãos -e de sementes: a chuva cáe lúcida e fresca. O santo aparava a chuva -nas prégas da capa, e os grãos nas paginas do livro. E as andorinhas, -quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a -Biblia de Deus. E, em quanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as -azas nas barbas do santo, beijavam-se na sua bocca, aninhavam-se-lhe -entre os braços, cobriam-n'o todo; e o sol, quando chegava, ficava -maravilhado de vêr aquelle pobre santo de pedra, que elle não conhecia -do Paraizo, com os pés entre as hervas verdes, rindo, sereno, sob a luz -immensa, e todo vestido d'azas! - - * * * * * - -O homem entrou na casa arruinada e foi, atravez de pedras esverdeadas, -de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, do -muralhas leprosas de musgo, de escadarias miseraveis, até uma sala -enorme, escura e tragica, e tão alta, que involuntariamente o olhar -procurava as constellações n'aquella sombra. - -No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabeça -macerada do Christo, as traves pôdres do tecto abriam uma larga fenda. -Por alli vinha a chuva escorrer-lhe nos cabellos como o antigo suor do -Jardim das Oliveiras, vinham os granisos magoal-o como as pedras da -paixão, vinha o sol alumial-o como a tocha de Judas, e a lua vinha, -tambem, tornal-o mais livido, como n'aquella noite em que elle, depois -de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalem, sentiu poisar na -sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou. - -Sobre a cabeça e sobre os braços do Christo havia teias d'aranha; em -baixo os ratos roíam-lhe a cruz. - -Então o homem sentiu que aquelle seio constellado, e aquella bocca -d'onde saíu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a -podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Christo, vendo o homem -afflicto e miseravel, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito -que o homem, encontrando Christo abandonado, profanado e roído, lhe -limpasse da cabeça as aranhas! Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, -sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as -mãos, quiz arredar o milhafre. - -E a ave, então, com a antiga voz dos animaes da Biblia, do Apocalypse -e dos livros dos prophetas, disse surdamente: «Homem, deixa a cruz -socegada!» - -Atravez das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as -azas, dizia: - -«Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem -agora estrellas, soes, planetas, scintillações, carbunculos. É o pó -dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua -farça acabou em desterros. - -«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nús. - -«Este ficou, solitario, alumiando. Elle perdoou emquanto os outros -luctaram, elle amou emquanto os outros choraram: por isso fica -emquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale -tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silencio -dos myrthos dois olhares bem-amados. - -«Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o -apodrecimento. Elle póde bem dar ás aranhas o seu corpo de madeira, -pois que vos deu a vós o seu corpo de carne--a vós, que pregaes com -o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janellas -e o Christo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os -cabellos de madeira depois de lhe ter arrancado os cabellos vivos; a -vós, que quereis lavar as nodoas que elle tem no peito, e não vêdes -as immundicies que tendes na alma. Tudo o que elle creou, o amor, -o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquelle -evangelho da vida-nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de -bichos, tão immundo como o seio d'esta imagem antiga. A materia, o -impudor, o apetite rude, o odio, o aviltamento, o trafico, a miseria e -a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam -sujando a cabeça d'este Christo! E não reparaes, e não vêdes, sobre os -espiritos, sobre os corações, sobre as consciencias, o pó, a caliça, o -caruncho, os ratos e os vermes! - -«Sim, é verdade: tudo é magnifico, e são, e banhado de sol. As cidades -são limpas e caiadas, só as consciencias é que tem nodoas; as praças -estão cheias de illuminações, só os corações é que estão escuros; os -caes estão arejados, só os espiritos é que suffocam; os corpos estão -sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas -é que andam núas, miseraveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a -farça, os paraisos artificiaes, as arcas venaes, e tambem o esfriamento -do tumulo! Oh amigos intimos dos vermes, como vós cuidaes do corpo, e o -lavaes, e o amaciaes, e o engordaes--para a pastagem escura das cóvas! - -«Homem, que fizeste tu da alma? Ao principio não era conhecida, depois -foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor -matal-a--mas não certamente de cançaço com viagens a Deus! Déstel-a a -despedaçar á negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo: -para esse uma religião, um asylo forte como o sol, os sete sellos da -lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o immaculado, o -pontifical, o victorioso. Prohibição a Deus de lhe tocar. Para elle -palacios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação -dos astros. Para elle a inviolabilidade: _Não matarás!_ - -«Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se -de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e -os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos -despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes, -deixamos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue, -e viemos, para viver, acceitar, com os capões, a domesticidade nos -parques resplandecentes, ou andamo-nos mostrando aos imbecis, pelas -feiras, n'uma gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a -natureza immensa, as afflicções do vento, as nupcias do mar, de terem -luctado nas tempestades e insultado as estrellas, vêem, modestamente, -comer bichinhos no saguão dos burguezes! Eu, que tinha estado entre a -força, quiz, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido -na noite de Deus, quiz, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, -entretanto, a alma morre esmagada e solitaria, e a grande vida moderna, -a vida do sol, da musica, dos metaes, vae, entre fulgurações, pisando -e cuspindo n'aquella coisa miseravel. E ainda está quente o sangue de -Jesus! - -«Homem, que fizeste tu do pensamento? - -«Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lho -no seio as sete dôres. Coube-lhe a dôr e o escarneo. É necessario -que, nas cidades, os pensadores e os artistas extaticos soffram e -sangrem: os triumphos dos homens da materia são como os dos antigos -imperadores--só são completos quando passam entre torturas. E quem -havia de soluçar sobre a scena moderna da paixão, senão os que têem -alma? - -«Amam, suffocam, cáem, agonisam, e entretanto vae passando a cohorte -dos victoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se d'aquelles -corações, como os botões d'oiro das suas camisas apupam a luz dos -astros. - -«E os que quizerem viver e tiverem a alma grande, bella e heroica, têem -de se baixar á estatura burgueza e mercantil dos cerebros modernos. Os -deuses olympicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas -antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de -Juno viveria n'um pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os -cavalleiros andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o tragico -S. Jeronymo seria presidente d'uma junta de parochia. D'este modo tu -acceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida -moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, musica, tu que creaste -a Allemanha, far-me-ás uma contradança; vem, architectura, tu que deste -hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, esculptura, tu que -fizeste o povo dos deuses, ó bella esculptura! vem fazer-me um gavetão. -Oh! tristes domesticidades do ideal!» - -Houve um silencio. Havia na sala um ar mystico, como para a concepção -d'um Deus. - -O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar d'uma flauta. E o olhar -do Christo errava, contemplativo e attento, entre as estrellas -innumeraveis, emquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a -cruz. - -«Vae-te, disse o milhafre. Os ratos róem a cruz, eu estou velho: a -antiga geração das aves da noite vae-se. Os prégos já se despregam, a -cruz apodrece. E quando ella se desfizer, atirarei o seu pó á grande -natureza, ao elevar da lua, que vale o elevar da hostia. Irei, oh meu -Deus! para além dos soes e dos caminhos lacteos, onde as constellações -são gôttas de sombra, certo--eu que sou da vasta terra, o selvagem -dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos -montes--certo de que, se os homens não derem a cruz aos Christos, não -lh'a dará tambem a natureza. E eu, que roí as ossadas verdes, tendo -visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado n'uma -cruz, irei tambem, entre os soes meio doidos, eu, que devastei, e -matei, e escorri do sangue, crucificar-me n'um astro!» - -Assim fallou, lentamente, aquelle milhafre philosophico e lettrado, -emquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim fallava, -de cima d'uma cruz, n'uma sala legendaria, longe das maravilhas -dos Cains burguezes, n'estes tempos livres, sensatos, verdadeiros, -magnificos, em que, como se não pódem pôr certas verdades na bocca dos -homens, tem de se dependurar do bico dos milhafres. - - - - -LISBOA - - -Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apezar -dos asphaltos, das fabricas, dos gazometros, dos caes, ainda aqui as -primaveras escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados -ainda se beijam as pombas: ainda, no silencio, o ar escorre pelas -cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um -poeta impopular. - -Lisboa que faz? - -Antigamente a cidade, _urbs_, era o logar que pensava e que fallava, -que tinha o verbo e a luz. Roma creou a justiça, Athenas idealisou a -carne, Jerusalem crucificou a alma. Por isso Roma caíu, e os porcos -enlameiam os restos de Athenas, e os cães uivam no silencio de -Jerusalem. Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram: os -seus ouvidos escutaram muito o pensamento, e ensurdeceram: as suas mãos -esculpiram muito o ideal, e tolheram-se. - -Pensar é soffrer, alumiar é luctar. A noite, ao succumbir, lucta com -a madrugada, e deixa-lhe a chaga incuravel do sol: d'ella escorre a -luz. As superstições, os preconceitos, os erros, os prejuizos, as -fatalidades, luctam com a alma, e deixam-lhe a ferida insanavel do -ideal: d'ella escorre a verdade. Esta ferida dá a febre, o cansaço, -o desespero, a convulsão. Paris tem esta antiga e tragica ferida que -teve Athenas, Babylonia e Jerusalem. Soffre, porque pensa. Os pés têm -a intimidade da lama, as azas têm a camaradagem da luz. Todo o pé quer -ser aza. - -D'ahi ambições, desalentos, luctas obscuras, perdições, descrenças, -fulgurações do mal, impurezas, traições, invejas, injurias, -torturas:--a congestão do espirito! São estas as dôres immensas, as -nodoas do pensamento, as manchas do sol. - -Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbavel, -silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terriveis. -Tem a sensatez, a prudencia, a economia, o medo. Não quer alumiar, -para não luctar; não quer pensar, para não soffrer. Não quer crear, -pensar, apostolar, criticar. Escuta e applaude toda a voz, ou sejam -as imprecações de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que -solucem, as florestas que se lamentem! Ella tem o riso radioso e sereno. - -Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre, -caiada e fresca. Não tem de catar as suas miserias, nem de amparar o -páo das forcas: por isso commenta Sancho Pansa. Não tem de construir -a cathedral das ideias, nem de compôr a symphonia da alma: por isso -escuta os melros nas varzeas, e resa as _Ave Marias_. Paris, Londres, -New-York, Berlim, suam e trabalham, em espirito. Ella não tem que -semear: por isso resona ao sol. - -Ás vezes, porém, commette o mal, enterrando ideias. Onde? Na escuridão, -no silencio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas! - - * * * * * - -Como Roma, ella tem as sete collinas; como Athenas, tem um ceu tão -transparente que poderia viver n'elle o povo dos deuses; como Tyro, é -aventureira do mar; como Jerusalem, crucifica os que lhe querem dar uma -alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come. - -Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que -os astros vêm longe, que as azas sonham com o vento, que os olhos das -flôres se fecham de somno. Deus não vê, da sua varanda de sol, que, -para esta velha cidade, heroica e legendaria, que nos seus velhos dias -tomou o peccado da gula, o abdomen é uma realidade livre! Até alli, -durante o dia, os seus cabellos caíam como ramos de salgueiros, as suas -faces estavam amarelladas, dos seus olhos chovia dôr; ainda não tinha -comido! Depois, á noite, quando sáe do alimento como d'uma victoria, os -olhares são gritos de luz, os cabellos plumas gloriosas, o peito arca -de ideaes: comeu! - - Lisboa nem cria, nem inicia; vae. - -Em religião, nem tem a devoção dos monges, nem a impiedade ironica: -é simples. Antigamente faz vir um Christo crucificado, erguendo os -braços supplicantes, no prestito dos enforcados: hoje choraria pela -Mãe Dolorosa, depois de ter erguido uma estatua a Voltaire: penduraria -ao pescoço, singelamente, com as contas de um rosario, a sua antiga -viola de Alfama. - -Em politica, copia Sancho Pansa. - -Não tem a coragem que se dedica, nem o medo soluçante: parece ter -justamente o heroismo de uma espada embainhada: na campanha da Europa, -todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda. Tem a -religião sensual do sol, do calor, e do sonino: na Beresina, apupava as -neves! - -Não tem a febre das especulações e das industrias, nem o amor das -contemplações e dos sonhos: tem um trabalho cheio de séstas: em abril -suspende a enxada para vêr voltar as andorinhas. - -No vicio é timida: copia desgeitosamente as Babylonias distantes: -aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés: apara as unhas ao -diabo; é o banho tepido dos peccados mortaes. - - * * * * * - -Adoradora, em architectura, da linha recta dos palacios de crystal; -sectaria, em esculptura, dos _biscuits_ de Sèvres; namorada, em -poesia, do visconde d'Arlincourt--no theatro quer a magica: tem sede -e fome d'aquelle ideal: quer as montanhas transparentes, os palacios -de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, architecturas de luz -e sons, papeis collados, vermelhão e ouropeis, mulheres despidas, -pedraria, e oiro, oiro, oiro, e ainda oiro, e mulheres despidas, e -mais oiro! Lisboa, por sobre uma scena resplandecente, vê as fórmas -estranhas que toma o sonho da imbecilidade: quer a magica: em verdade, -a magica é o espectro solar do idiotismo! - -Vem a noite, e Lisboa toma a impassibilidade das penedias. - -As casas, sem luz, têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas. -A illuminação é um côro de gaz, bocejando. Das encruzilhadas das ruas -solitarias, de todo este deserto de cantarias e de vidraças, exhala-se -uma somnolencia fluida, um halito de tedio. Lisboa, de noite, é tão -silenciosa que quasi se sente o crescer da herva que a ha-de cobrir no -dia das ruinas. - -É tão triste, que a noite parece um arrependimento da vida! Nas bellas -moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos, em -palhas, por toda a parte, ha um vasto somno inerte e vegetal. - -Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a familia _Vicio_, a gente -crepuscular, os herdeiros terriveis de Lovelace e de D. Juan Tenorio? - -Compram, na penumbra domestica, o amor fuliginoso das cosinheiras, -comem, melancholicamente, mexilhões nas tavernas; os mais pobres -encostam-se ás esquinas, esfarrapados e doentes, cariatides somnolentas -do tedio! - -E nas casas? Ahi, nos andares resplandecentes, onde as mãos são macias -e macios os sentimentos, estão, concentradas e sérias, fórmas vestidas -de luto, como os viuvos, ou vestidas de branco, como as monjas. E -suaves são as fallas, e o andar cheio de ondulações como o nadar das -sereias, e as danças severas como a celebração d'um rito: e suaves -são as petalas, e as musicas chorosas, e as luzes, aves de claridade -presas, que palpitam e querem o livre azul: mas sobre a alma, e os -corpos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos viuvos e a frialdade -das monjas. E isto são as festas! - -Mais acima, nos andares modestos, resonam aquellas familias, vulgares -e asperas, que nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a -belleza, a graça, a paixão, como insectos entre os cabellos d'uma -santa, e morrem solitarias, invejosas, com os corações cheios de -revolta, porque não amaram! - -Depois, mais em cima, nos ultimos andares, é a gente do trabalho: -operarios severos, doces raparigas com alma de passaro, gargantas onde, -como nas veigas de Israel, todo o dia se canta; e, tambem, a gente -estupida e metallica que tem a brutalidade do trabalho com a rudeza do -coração, indoles asperas, olhos invejosos, mãos avaras, peitos vasios, -que a essas horas da noite, com os cabellos caidos, vêem a vida tão -núa, tão apertada, tão brutal, tão suja como a sua trapeira! - -E depois mais acima, debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados, -os miseraveis, a essas horas, com grandes olhos aterrados, catam-se, ou -roem as côdeas, ou gemem de dôr, ou morrem entre a caliça e as aranhas, -ou se remendam, cantando impuramente! - -E por cima (como na jerarchia da dôr, das tristezas do pobre, só estão -as chagas do Christo) o grande azul, sereno, transparente, cheio de -universos, esconde, por detraz da gradaria dos astros, o Mysterio e a -Graça! - -A essas horas, ó miseria das cidades! longe dos conservatorios, e das -academias, e das magicas, pelos prados e pelas varzeas, representam-se -as verdes comedias da natureza: os rouxinoes dão a replica ás folhas -melodiosas, as flôres choram pelas desgraças de um melro amoroso, os -olmos teem attitudes grotescas de palhaços, e o ceu, como um amante -tragico, criva-se de punhaladas de luz! - - * * * * * - -Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações d'um peito -desmaiado. Não ha ambições explosivas; não ha ruas resplandecentes -cheias de tropeis de cavalgadas, de tempestades d'oiro, de velludos -lascivos: não ha amores melodramaticos: não ha as luminosas -efflorescencias das almas namoradas da arte: não ha as festas feericas, -e as convulsões dos cerebros industriaes. - -Ha escassez de vida; um frio senso pratico; a preoccupação exclusiva do -util; uma seriedade emphatica; e a adoração burgueza e serena da moeda -de cinco tostões--da moeda de cinco tostões, branca, perfeita, celeste, -pura, immaculada, consoladora, purificadora! - - * * * * * - -O luxo dos vestuarios é reflectido, pausado, calculado. - -Um outro luxo ha, mais doido: esse, quando é novo, ruge, resplandece, -deixa-se balançar em grandes prégas desfallecidas--um pouco baixamente, -de camaradagem com a lama. Mais tarde, depois das ostentações e dos -amores, envergonha-se e vae-se mascarar ás tinturarias: nos seus velhos -dias anda, miseravel, pedindo esmola por casa das adelas! - -A Lisboa material tem posições moraes. Ha sitios que dão, aos que -os pisam, uma individualidade. O lagedo e a cantaria consagram -espiritos. Encontrar-se no _Chiado_--significa ter a fina flôr da -graça, a vivacidade conceituosa e costumes dissipados. Estar no -_Martinho_--revela inspiração, divindade interior, lyrismo e politica. -Oh Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas! - - * * * * * - -Lisboa tem compaixões celestes: agrupa-se, em côro de lagrimas, para -vêr a morte d'um cão: mas afasta-se logo, assobiando, se começa a -agonia d'uma alma. Tem tambem uma curiosidade timida e facil: senta-se -nos passeios pelo estio, entre o pó, olympicamente, como os Deuses -entre a luz, e fica attenta, concentrada, suspensa, idiota--a vêr -caminhar seis mil pernas! - - * * * * * - -Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis; outro dia aborreceu-se -o acolheu os imperadores. Ás vezes Lisboa aborrece-se--e entra na -politica. - -Lisboa toma então attitudes, clama, conjura nas esquinas, é -bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas -tyrannias derrubadas, reler a cartilha! - - * * * * * - -Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se! - -Nos tempos mythologicos, ás vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa -e mãe, fiava na roca d'ebano incrustada de lapis, e dobava as lãs -vermelhas de Mileto. Vinha, porém, um dia no anno em que a mulher -ia, no Olympo, ser deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes; -debalde lhe pediam que não fosse, temendo que ella, mulher e deusa, -não se acostumasse, na volta, ás lampadas de gineceu, ella que só ia -ser alumiada pelos astros do Olympo. Debalde: chegado o momento, nada -impedia a esposa de ser divindade: via-se aquelle corpo casto, argilla -ideal, azular-se e, transparencia viva, perder-se na luz. - -Lisboa é assim. Vem um dia em que ella quer voltar ao seu elemento -primitivo, e ninguem a póde impedir de ser lama: é pelo entrudo. - -Suja-se então livremente, faz tempestades nojentas; n'aquelles dias o -seu tedio é feito d'immundicie. - -Transfigura-se. E como a Deusa deixava, na antiguidade, os filhos e -os lares, para ir ser luz, Lisboa esquece as funcções do seu tedio, -a religião da moeda d'oiro, o sacerdocio da economia, as attitudes -emphaticas do seu pudor, para se dar livremente á lama! - -Lisboa é a hospedaria do vento. O antigo Euro paga a hospedagem, -atirando a poeira ás ruas, ás praças, ás avenidas, aos caes, á cara de -Lisboa! Sublime adulação: suja-a! - -Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Collisão! Lisboa, cidade -inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo! - - * * * * * - -Athenas produziu a esculptura, Roma fez o direito, Paris inventou a -revolução, a Allemanha achou o mysticismo. Lisboa que creou? - -O _Fado_. - -_Fatum_ era um Deus no Olympo; n'estes bairros é uma comedia. Tem uma -orchestra de guitarras, e uma illuminação do cigarros. O palco está -mobilado com uma enxerga. A scena final é no hospital ou na enxovia. - -O panno de fundo é uma mortalha! - - * * * * * - -Todos os dias, quando o sol se vae lavar, nas aguas, dos olhares dos -homens, quando os corpos estão em flôr e passam os olhos pretos, de que -Deus é avaro, e a maledicencia se abre como uma tulipa, e os risos são -clarões, e a vida se balouça cheia de sonhos, de lustres de olhares, -de beijos côr do sol, de camelias e de pomadas, passam na rua umas -carruagens lentas, com grandes arabescos doirados: são coches; as suas -armas são caveiras; vão alli os mortos. - -«Anda, cocheiro: é um freguez que vae para a cova: a passo! Alto de S. -João! A eternidade toma-te á hora!» - -E emquanto o pobre morto vae, que dizem os que o viram partir, -soluçando? - -Os filhos dizem: «Tinha de ser...» - -A esposa diz: «Vestida de luto!...» - -O agiota: «Não foi mau freguez.» - -Os medicos: «É um caso interessante...» - -Os que o levam para a cova: «Era pesado, o maroto!» - -O coveiro canta: - - O preto que vem d'Angola - Traz a bordo fava rica. - -Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquelle homem: vestiste-o com os teus -cabellos, alimentaste-o com o teu halito, coroaste-o com o teu olhar, -divinisaste-o com o teu desejo: elle era formoso, e são, e forte, e -apaixonado: mas se passares por ao pé d'elle agora, oh pobre mulher -chorosa, põe bem a mão no nariz! - - * * * * * - -Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, resona, soluça e cachimba. E -se algumas lagrimas em ti cairem, vae-as enxugar depressa ao sol! -Fica-te em paz! Os que teem alma não querem a luz dos teus olhos; pódes -consumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar, -sempre erguido para lá, ninguem terá ciumes do ceu! - -Os que teem coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes -emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas -para elle, ninguem terá ciumes de Deus! - -Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua -resplandecente, a linha magnifica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh -clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce -Lisboa, coroada de ceu, resigna-te--a não ter alma! - - - - -O SENHOR DIABO - - -Conhecem o Diabo? Não serei eu quem lhes conte a vida d'elle. E todavia -sei de cór a sua legenda tragica, luminosa, celeste, grotesca e suave! - -O Diabo é a figura mais dramatica da Historia da Alma. A sua vida -é a grande aventura do Mal. Foi elle que inventou os enfeites que -enlanguescem a alma, e as armas que ensanguentam o corpo. E todavia, -em certos momentos da historia, o Diabo é o representante immenso do -direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É -então uma especie de Pan sinistro, onde rugem as fundas rebelliões da -natureza. Combate o sacerdocio e a virgindade; aconselha a Christo que -viva, o aos mysticos que entrem na humanidade. - -É incomprehensivel: tortura os santos e defende a egreja. No seculo XVI -é o maior zelador da colheita dos dizimos. - -É envenenador e estrangulador. É impostor, tyranno, vaidoso e -traidor. Todavia conspira contra os imperadores da Allemanha: consulta -Aristoteles e Santo Agostinho, e supplicia Judas que vendeu Christo, e -Brutus que apunhalou Cesar. - -O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza immensa e doce. Tem talvez a -nostalgia do ceu! - -Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lucifer, _o que leva a luz_, -revolta-se contra Jehovah, e commanda uma grande batalha entre as -nuvens. - -Depois tenta Eva, engana o propheta Daniel, apupa Job, tortura Sara, -e em Babylonia é jogador, palhaço, diffamador, libertino e carrasco. -Quando os deuses foram exilados, elle acampa com elles nas florestas -humidas da Gallia e embarca expedições olympicas nos navios do -imperador Constancio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus, -vem torturar os monges do Occidente. - -Escarnecia S. Macario, cantava psalmos na egreja de Alexandria, -offerecia ramos de cravos a Santa Pelagia, roubava as gallinhas do -abbade de Cluny, espicaçava os olhos a S. Sulpicio e á noite vinha, -cançado e empoeirado, bater á portaria do convento dos dominicanos, em -Florença, e ia dormir na cella de Savonarola. - -Estudava o hebreu, discutia com Luthero, annotava glosas para Calvino, -lia attentamente a Biblia e vinha ao anoitecer para as encrusilhadas da -Allemanha jogar com os frades mendicantes, sentado na relva, sobre a -sella do seu cavallo. - -Intentava processos contra a Virgem: e era o pontifice da missa negra, -depois de ter inspirado os juizes de Socrates. Nos seus velhos dias, -elle que tinha discutido com Attila planos de batalha, deu-se ao -peccado da gula. - -E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e -somnolento, apupou-o. Então o demonographo Wier escreve contra elle -pamphletos sanguinolentos, e Voltaire criva-o d'epigrammas. - -O Diabo sorri, olha em roda de si para os calvarios desertos, escreve -as suas memorias, e n'um dia ennevoado, depois de ter dito adeus aos -seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso. - -O Diabo foi celebrado pelos sabios e pelos poetas. Proclus ensinou a -sua substancia, Presul as suas aventuras da noite, S. Thomaz revelou -o seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a -sua inconstancia jovial. João Dique escreveu sobre a sua eloquencia e -Jacques I, de Inglaterra, fez a corographia dos seus estados. Milton -disse a sua belleza e Dante a sua tragedia. Os monges ergueram-lhe -estatuas. O seu sepulchro é a natureza. - -O Diabo amou muito. - -Foi namorado gentil, marido, pae de gerações sinistras. Foi querido, -na antiguidade, da mãe de Cesar, e na meia-edade foi amado da bella -Olympia. Casou no Brabante com a filha d'um mercador. Tinha entrevistas -languidas com Fredegonda, que assassinou duas gerações. Era o namorado -das frescas serenatas dadas ás mulheres dos mercadores de Veneza. - -Escrevia melancolicamente ás monjas dos conventos da Allemanha. - -_Feminæ in illius amore delectantur_, diz tragicamente o abbade Cesar -de Helenbach. No seculo XII tentava com olhares cheios de sol as mães -melodramaticas dos Burgraves. Na Escossia havia grande miseria sobre -os montes: o Diabo comprava por 15 _schellings_ o amor das mulheres -dos _highlanders_, e pagava-lhes com o dinheiro falso que fabricava em -companhia de Philippe I, de Luiz VI, de Luiz VII, de Philippe o Bello, -do rei João, de Luiz XI, de Henrique II, com o mesmo cobre de que se -faziam as caldeiras onde eram cosidos vivos os moedeiros falsos. - - * * * * * - -Mas eu quero só contar a historia de um amor infeliz do Diabo, nas -terras do norte. - -Oh mulheres! vós todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura, -nem os simples, nem os balsamos, nem os orvalhos, nem as resas, nem o -pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir esta historia florida! - -Era na Allemanha, onde nasce a flôr do absyntho. - -A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepelliz -do senhor arcebispo d'Ulm. - -Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras, -de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Christo -de marfim. As plantas limpavam piedosamente, com as suas mãos de -folhas, o sangue das chagas; as pombas, com o calor do seu collo, -aqueciam os pés doloridos. No fundo da casa, o pae d'ella, o velho, -bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos de Italia, e as cidras da -Dinamarca. Era vaidoso, gordo, somnolento e mau. - -E sempre a rapariga fiava. Preso á roca por um fio branco, sempre o -fuso saltava; preso ao seu coração por uma tristeza, sempre pulava um -desejo. - -E todo o dia fiava. - -Ora debaixo da varanda passava um lindo moço, delicado, melodioso e -timido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro. - -Ella, sentada junto do crucifixo, cobria os pés de Jesus com os seus -grandes cabellos louros. - -As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra -a cabeça da imagem. Parecia que toda a alma de Christo alli -estava--consolando, em cima, sob fórma de planta, amando, em baixo, sob -fórma de mulher. - -Elle, o branco moço, era o peregrino d'aquella santa. E o seu olhar -procurava sempre o coração da doce rapariga, e o seu olhar d'ella, -séria e branca, ia procurar a alma do caro bem amado. - -Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de -luz, contar o que tinham visto. Era um encanto! - ---Se tu soubesses!--dizia um olhar.--A alma d'ella é immaculada. - ---Se tu visses!--dizia o outro.--O coração d'elle é sereno, forte e -vermelho. - ---É consolador, aquelle peito onde ha estrellas!... - ---É purificador, aquelle seio onde ha bençãos! - -E olhavam ambos, silenciosos, extaticos, perfeitos. E a cidade vivia, -as arvores rosnavam sob o balcão dos eleitores, a trompa de caça -soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos -liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das egrejas, as -amendoeiras tinham flôr, e o Rheno cantigas de ceifeiras. - -E elles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Christo -aninhava as almas. - -Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o -ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou -dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria, na varanda, fiava a -sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos. - -Então, no silencio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck, que -os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar: - - Os teus olhos, bem amada, - São duas noites cerradas. - Mas os labios são de luz. - Lá se cantam alvoradas. - - Os teus seios, minha graça, - São duas portas de cêra. - Fôra a minha boca um sol, - Como elle as derretêra! - - Os teus labios, flôr de carne, - São portas do paraizo: - E o banquinho de S. Pedro - É no teu dente do sizo. - - Queria ter uma camisa - D'um tecido bem fiado, - Feita do todos os ais - Que o teu peito já tem dado. - - Quando nos fôrmos casar, - Canta missa o rouxinol. - E o teu vestido de noiva - Será tecido de sol! - - A benção nos deitará - Algum antigo carvalho! - E por enfeites de boda - Teremos gottas de orvalho! - -E, ao cimo da rua, appareceu um homem forte, d'uma pallidez de marmore. -Tinha os olhos negros como os dois soes legendarios do paiz do Mal. -Negros eram os cabellos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao -peito do corpete uma flôr vermelha de cactus. - -Atraz vinha um pagem perfeito como uma das antigas estatuas, que -fizeram na Grecia a lenda da belleza. Andava convulsivamente como se -ferisse os pés no lagedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apollos -de marmore. Dos seus vestidos saía um cheiro a ambrozia. A testa era -triste e serena como as dos que teem a saudade immortal d'uma patria -querida. Trazia na mão uma amphora esculpida em Mileto, onde se sentia -a suavidade dos nectares olympicos. - -O homem da pallidez de marmore veiu até junto da varanda, e, entre as -supplicas gemidas de guitarra, disse sonoramente: - ---A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de -homem vão como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor, -das suas mãos ao seu collo? - -E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente, -com grandes risadas frias e metallicas: - - Quem depenna um rouxinol - E rasga uma triste flôr, - Mostra que dentro do peito - Só tem farrapos d'amor. - -E ergueu para a varanda os seus olhos terriveis e desoladores, como -blasphemias de luz. Maria tinha levado a sua roca e só havia na varanda -as aves, as flôres e Jesus! - ---A toutinegra voou--disse jovialmente. - -E indo para Jusel: - ---É que talvez sentisse a visinhança do abutre. Que diz o Bacharel? - -Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida. - ---No meu tempo, senhor Suspiro,--disse o homem dos olhos negros, -cruzando lentamente os braços--já havia aqui duas espadas, a fazer -rebentar na sombra flôres de faiscas. Mas os heroes vão-se, e os homens -nascem cada vez mais da dôr das mulheres. Vejam isto! É um coração com -gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as côres, -menos vermelho e solido. Pois bem! Aquella rapariga tem uns cabellos -louros que dizem bem com os meus cabellos pretos. As cintas delgadas -querem os braços fortes. Os labios, vermelhos de desejo, gostam das -armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel! - -Jusel tinha descido as suas grandes palpebras elegiacas, e via as -petalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados, -desprendidos do seu peito. - -O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a mão: - ---Bacharel Ternura--disse--ha aqui perto um logar onde os goivos -nascem expressamente para os innocentes que morrem. Se tens alguns -bens a deixar, recommendo-te este excellente Rabil.--Era o pagem.--É -necessario proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que -findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração -á bem amada, á moda dos trovadores, eu me encarrego de lh'o trazer, -bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu és formoso, amado, -branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil! E uma farça bem feita ao -Compadre lá de cima dos soes, dilacerar-lhe esta belleza! Se namoravas -alguma estrella, eu lhe mandarei, por bom portador, os teus ultimos -adeuses. Em quanto aos sacramentos, são inuteis: eu me encarrego de -te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos: -annuncia no Inferno o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas -em duello secreto, armas honradas! - -E batendo heroicamente nos copos da espada: - ---Eu tenho aqui esta debilidade: onde está a tua força? - ---Alli!--respondeu Jusel, mostrando Christo na varanda das plantas e -das pombas, allumiado pelo sol que descia, branco entre a folhagem, -agonisante entre as palpitações das azas. - ---Ah!--disse cavamente o homem da flôr de cactus.--A mim, Rabil! -Lembras-te de Acteon, de Apollo, de Derceto, de Inachus e de Marte? - ---Eram os meus irmãos...--disse lentamente o pagem, hirto como uma -figura de pedra. - ---Pois bem, Rabil, para a frente, atravez da noite! Cheira-me aqui ás -terras de Jerusalem! - -E sumiram-se debaixo das arcarias e das pilastras, sinistros, soluçando. - -Na noite seguinte, havia pela Allemanha um grande luar purificador. -Maria estava debruçada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins -concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar, -suspirava para aquelle corpo feminino e branco, como nos jardins a -agua, que sobe em repuxo, suspira murmurosamente para o azul. - -Maria disse suspiradamente: - ---Vem. - -Jusel subiu á varanda, radioso. Sentaram-se ao pé da imagem. O ar -estava tão sereno como na patria das almas. Os dois corpos dobravam-se, -um para o outro, como se os estivessem approximando os braços d'um Deus. - -As folhagens escuras, que envolviam o Christo, estendiam-se sobre as -duas cabeças louras com gestos de benção. Havia na molleza das sombras -um mysterio nupcial. Jusel tinha as mãos d'ella presas como passaros -captivos, e dizia, com a voz humilde dos corações primitivos: - ---Queria bem vêr-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios -infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era -n'um campo. Tu estavas de pé, immovel: ouvia-se um côro que cantava -dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espiritos. -E diziam uns:--Aquelle côro é de mortos: são os amantes infelizes que -choram no coração d'aquella mulher.--Outros diziam:--São as tristezas -dos minnesingers errantes que alli soluçam.--Outros diziam:--Sim, -aquelle côro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram alli -do exilio.--E então eu adiantei-me e disse:--Sim, sim, aquelle côro é -de mortos: são os desejos que ella teve por mim, que se lembram e que -gemem.--Que sonho tão mau, tão mau! - ---Porque estás tu--dizia ella--todos os dias encostado ao pilar, com as -mãos quasi postas? - ---Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem. - -Calaram-se. Elles eram, n'aquelle momento, a alma florida da noite. - ---Quaes são os meus olhos? quaes são os teus olhos?--dizia Jusel.--Nem -eu sei! - -E ficaram calados. Ella sentia os desejos, que se desprendiam dos olhos -d'elle, virem, como passaros feridos que gemem, cair no fundo da sua -alma, sonorosamente. - -E inclinando o corpo: - ---Conheces meu pae?--disse ella. - ---Não. Que importa? - ---Ai, se tu soubesses!... - ---Que importa? Estou aqui. Se elle te quer bem, ha-de gostar d'este -meu amor, sempre aos teus pés como um cão. O que quero eu? Ter a tua -alma presa, bem presa, como um passaro captivo. Esta paixão toda -deixa-te tão immaculada, que se morresses podias ser enterrada na -transparencia do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque? -Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quizesses, deixava-me andar -esfarrapado. Por eu entrar no teu coração, não tires nada d'elle, não? -Tens lá a fé de Jesus, e a saudade de tua mãe: deixa estar: damo-nos -todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um ceu -constellado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem -a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu? -Casemo-nos no coração de Jesus! Dá-me essa agulheta, que te prende o -cabello. Será a nossa estola. - -E com a ponta da agulheta, de pé, junto da imagem, afastando os ramos, -transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Christo as iniciaes -dos dois nomes enlaçados--J. e M. - ---É o nosso noivado!--disse elle.--O ceu atira-nos os astros, confeitos -de luz. Christo não se esquecerá d'este amor que chora aos seus pés. As -exhalações divinas que saírem do seu peito apparecerão, lá em cima, com -a fórma das nossas lettras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu -já lh'o tinha dito, a elle, ás estrellas, ás plantas, aos passaros, ás -florescencias; porque, vês tu? as flôres, as constellações, as pombas, -tudo isto, toda esta effusão do bondade, de innocencia, de graça, era -simplesmente, oh adorada! um eterno bilhete de amor que eu te escrevia! - -E ajoelhados, extaticos, calados, elles sentiam misturar-se ao seu -coração, ás suas confidencias, aos seus desejos, toda a vaga e immensa -bondade da religião da Graça. - -E as suas almas fallavam, cheias de mysterio: - ---Vês tu?--dizia a alma d'ella.--Quando te vejo, parece que Deus -diminue, e se contráe, e se vem aninhar todo no teu coração; quando -penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange -o ceu e os universos, e encerra por toda a parte Deus! - ---O meu coração--suspirava a alma d'elle--é uma concha. O teu amor é o -mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida n'esse mar. Mas, -se tu me expulsares de ti, como n'uma concha abandonada se ouve ainda o -rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o susurro do -teu amor! - ---Olha--dizia a alma d'ella--eu sou como um campo. Tenho arvores e -relvas. O que ha em mim de maternidade é arvore para te cobrir, o que -ha em mim de paixão é relva para tu pisares! - ---Sabes tu?--dizia a alma d'elle.--No ceu ha uma floresta invisivel de -que apenas se veem as pontas das raizes, que são as estrellas. Tu eras -a toutinegra d'aquelles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, ha -muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o -sol te allumia, triste, se a chuva te molha. Ha muito que te vejo vir -descendo: quando cairás tu nos meus braços?... - -E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam -deslumbradas, ineffaveis, ternas: confundidas, tinham o ceu por -elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua -esperança a madrugada, o seu amor a vida, e, sempre mais ternas e mais -vastas, envolviam tudo o que do mundo sóbe de justo, de perfeito, de -casto, as orações, os prantos, os ideaes, e estendiam-se por todo o -ceu, unidas e immensas--para Deus passar por cima! - -E então, á porta da varanda, houve uma risada metallica, immensa e -sonora. Elles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. Á -porta estava o pae de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atraz, o homem de -pallidez de marmore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra. -O pagem ria, fazendo uma claridade na sombra. - -O pae foi lentamente para Jusel e disse, com escarneo: - ---Onde queres ser enforcado, villão? - ---Pae, pae!--gritou Maria afflicta, com uma convulsão de lagrimas, -enlaçando o corpo do velho.--Não. É meu marido, casamos as almas! Olhe, -alli está. Veja. Alli, na imagem!... - ---O que?... - ---Alli, no peito. Veja. Os nossos nomes enlaçados como n'uma -escriptura. Veja. É meu marido! Só me quer bem. Mas veja. Sobre o peito -de Jesus, no logar do coração. Mesmo sobre o coração! E elle, o doce -Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida! - -O velho olhava as lettras enlaçadas como uns esponsaes divinos que se -tinham refugiado no seio de Christo. - ---Raspa, meu velho, que isso é marfim!--gritou o homem dos olhos negros. - -O velho foi para a imagem com a faca do cinturão. Tremia. Ia arrancar -as raizes d'aquelle amor, até ao peito immaculado de Jesus! - -E então a imagem, sob o justo e incorruptivel olhar da luz, despregou -uma das suas mãos feridas, e cobriu sobre o peito as lettras desposadas. - ---É elle, Rabil!--gritou o homem da flôr de cactus. - -O velho soluçava. - -E então o homem pallido, que tocava na guitarra d'Inspruck, onde os -pastores de Helyberg enroscam heras, veio tristemente junto da imagem, -enlaçou os braços dos namorados, como se vê nas velhas estampas -allemãs, e disse ao pae: - ---Abençôa-os, velho! - -E saíu, batendo rijamente nos copos da espada. - ---Mas quem é?...--disse o velho apavorado. - ---Mais baixo!--disse o pagem da amphora de Mileto.--É o Senhor -Diabo!... Mil desejos, meus noivos! - - * * * * * - -Pelas horas da madrugada, na estrada de Vecker, onde as cerejeiras -luzem, o homem dos grandes cabellos negros dizia ao pagem branco como -os Apollos do marmore: - ---Estou velho. Vae-se-me a vida. Sou o ultimo dos que combateram nas -estrellas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro, -no peito, um rumor de perdão. Gostava d'aquella rapariga. Lindos -cabellos louros, quem vos dera no tempo do ceu! Já não estou para -aventuras de amor! A bella Imperia diz que eu me vendi a Deus! - ---A bella Imperia!--disse o pagem.--As mulheres! vaidades, vaidades! -As mulheres bellas foram-se com os deuses bellos. Hoje os homens são -mysticos, frades, santos, namorados, trovadores! As mulheres são feias, -avaras, magras, burguezas, vestidas de burel, cingidas de cilicios, com -uma pouca d'alma incommoda, e uma carne tão diaphana, que se vê atravez -o lodo primitivo! Miserias! Ai Athenas! Corintho! Mileto! Tenedos! -Abydos! - ---Vou achando risivel a obra dos Seis Dias! As estrellas tremem de medo -e de dôr. A lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo -mundo e a apparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui prodigo. -Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando--para -não morrer de tedio! Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento, -podre, vil e immundo--e sê todavia um astro no ceu, impostor! E comtudo -o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquelle, para amar, feriu com -uma agulheta o peito da imagem. Como nos antigos tempos, o homem não -começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta a -minha ultima aventura. Vou para o meio da natureza, para junto do livre -mar, pôr-me socegadamente a morrer. - ---Tambem os diabos se vão! Adeus, Satan! - ---Adeus, Ganymedes! - -E o homem e o pagem separaram-se na noite. - -A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra. - ---Estás tambem deserto!...--disse, olhando para a cruz.--Os infames -pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu! Soffreste -calado. - -E sentando-se nos degraus do cruzeiro, emquanto vinha a madrugada, -afinou a guitarra e cantou, no silencio: - - _Quem vos desfolhou, estrellas, - Dos arvoredos da luz?_ - -E com uma grande risada melancolica: - - _Chegará o outono ao diabo? - Virâ o inverno a Jesus?_ - - - - -UMA CARTA - -(A CARLOS MAYER) - - - _Meu caro Mayer_: - -N'aquelles tempos, segundo a formula do Evangelho, o romantismo estava -nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de -Shakspeare. - -Lembras-te do teu quarto da rua do Forno (creio eu) no ultimo andar, -quasi nas confidencias humoristicas das estrellas? O busto de -Shakspeare, que era o nosso calvario da arte, estava alli, ao pé d'uma -medalha do Dante, e da _Innocencia_ de Greuze! Lembra-me tambem uma -gravura do _Juizo Final_ e dois esboços hollandezes. Sobre a estante, -por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de Mirabeau e d'alguns -volumes da Encyclopedia--n'um quadro, a figura de Napoleão, sobre uns -rochedos emphaticos, via os prantos do mar e o vôo das gaivotas. Tinhas -tambem uma collecção de mineraes, e duas caveiras polidas e lavadas, -que riam serenamente. O meu quarto, no Salvador, era mais austero. -Na parede, havia pintada a carvão uma grande cruz. Em redor, estavam -escriptos versiculos da Biblia e disticos da _Imitação_. Mas, como eu -andasse n'esse tempo constipado, P., um pagão, fez raspar toda aquella -decoração ascetica, dizendo que o mysticismo, prohibindo o sol, o -calor, os banhos tepidos, as flanellas, todos os cuidados corporaes, me -era nocivo, e que o atheismo era para mim uma necessidade hygienica. -T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes com pelle humana: um -outro achou ostentosa a pelle humana, e disse, beatificamente, que, -como mais modesta e mais duradoira, lhe parecia preferivel a pelle -_cathedratica_. Outro instou para que se forrasse o quarto com as -folhas dos compendios; eu oppuz-me asperamente a isso, dando as mesmas -dolorosas razões que daria um preso, se lhe quizessem forrar as paredes -da enxovia com um tecido feito dos seus proprios remorsos! Tirou-se á -sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes com pelle humana. -Dispersamo-nos, lentos e tristes, para ir assassinar gente! - -Reunia-se alli um concilio formidavel. - -O mais implacavel era A. Que ideias e que camisas! - -Foi elle que, um dia, na aula de direito canonico, prophetisou, com -gestos tragicos, a destruição de Babylonia! Vinha tambem S., todo -armado: entrava ordinariamente pela janella, galhardamente, como -Almaviva, estendia sobre os timidos a grande sombra protectora dos seus -bigodes, e pela noite alta saía á caça dos lobos. Perseguia debalde -um bando de lobos errantes, que, segundo elle, deviam ter acampado -na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha tambem M., de sinistras -ironias: um dia, no Bussaco, encontra um homem de suissas apostolicas, -corre para elle, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem -esmaga um insecto.--O que faz?!--bradava o homem.--Estou a catal-o; -o senhor, entre esta floresta, faz-me o effeito d'uma pulga entre as -barbas de Moysés! - -E continuou a esmagal-o. - -No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do -romantismo coimbrão. - -Alli, muitas vezes, sentado sobre a _Mechanica celeste_ de Laplace, tu -me mostraste, mysteriosamente, um systema solar que tinhas creado e que -tinhas fechado dentro d'um frasco. Os universos, eram globulos d'agua. -Um dia um cão entornou aquelle firmamento! - -Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e -do rio. Liamos: eu declamava _Hamlet_, tu tocavas na tua rebeca a -morbida _Lucia_! Muitas vezes, entre um concilio revolucionario, tu -lias em pé sobre a mesa, dramaticamente, os _Iambes_ de Barbier--os -_Iambes_, de que o classico A. dizia gravemente terem um defeito: serem -sublimes! Celebravamos cerimonias d'um culto desconhecido diante do -busto de Shakspeare. Davamos grandes batalhas! Combates crueis! Ainda -a seriedade estremece! Eram dois bandos. De um lado os pagãos, os -classicos, os positivistas; do outro os barbaros, os romanticos, os -mysticos. - -As balas eram nomes: arremessavamos, de bando a bando, -sanguinolentamente, os nomes dos grotescos de cada seita. Um romantico -feria um classico, gritando-lhe com gesto terrivel: _Domingos dos -Reis-Quita!_ O classico cambaleava, mas respondia vingativo: _Gilbert -da Pixérécourt!_ Deves-te lembrar que uma vez um classico traiçoeiro -atirou desapiedadamente ao peito de um adversario romantico este nome -mortal: _Visconde d'Arlincourt!_ O romantico levou dolorosamente a mão -ao coração, e caíu inanimado. - -Quando o levantamos não era um cadaver, mas era um convertido. Desertou -para as fileiras classicas, por não querer pertencer a um bando que -tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de Damocles: o -Visconde d'Arlincourt! Lembras-te de certo que nós fômos os Samsões -dos Philisteus classicos: não os derrotamos com a mesma queixada, mas -apunhalamol-os, um a um, com nomes de classicos portuguezes. Um dia -debandaram, atordoados, em quanto que nós do topo da escada gritavamos -sem quartel: _Sá de Miranda! Garção! Semedo! Quita! Sepulveda!_ - -Já cançados, sem armas, atiravamos-lhes estes nomes como pedras. - -Lembras-te dos ensaios dos _Amigos Intimos_? Havia uma palavra que -eu não conseguia pronunciar bem: era--_solidariedade_. Na noite da -representação, tomei o partido de a cantar, separando as syllabas -como notas de musica. Era na _casa dos adereços_ do theatro, que nós -discutiamos com T. a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina, -arredando bastidores, proclamavamos o _Moysés_ e o _Pensieroso_ com -grave detrimento da Venus de Milo--a grande Aphrodite. Depois das -representações, havia ceias semelhantes ás bodas de Gamacho! Uma noite -saimos todos, de mantos, com corôas de loiro, symbolisando a geração -dos Petrarcas, e cantando um côro lacrimoso. - -Tinha havido na rua de... uma reunião, e as familias, ao saír, -dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquella multidão de -phantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, offerecido a Deus -em nome dos discipulos de Petrarca! - -Aquella epocha foi uma pequena _Restauração_, tanta era a vida, a seiva -espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adoravamos o theatro. O -theatro era a paixão, a lucta, a dôr, o coração arrancado, e gemendo, -sangrando, rolando sobre uma scena resplandecente. O nosso theatro--era -Shakspeare e Hugo, o os comicos hespanhoes, sombrios e magnificos, do -seculo XVI. - -Admittiamos tambem a satyra no theatro, mas a satyra sanguinolenta, -Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo riso -gaulez, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de Tacito--para -pintar a cara macia do egoismo humano. - -Tinhamos um hemicyclo de poetas. Collocados sob um ponto de vista -exclusivo, só era admittido á nossa communhão o que derivasse da força, -do rugido da natureza, da palpitação selvagem da vida e da paixão. - -Tinhamos, ao mesmo tempo, occultamente, um idealismo doentio e -dissolvente. O nosso grande compositor era Beethoven; e todavia eu, -desgraçado de mim! adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te, amigo, -de teres n'esse tempo condescendido com Novalis e Luiz Tieck. - -Para nós (e com grandes pancadas contrictas sobre o peito o digo) -Portugal não tinha direito de cidade na região da arte e da alma. -Aceitavamol-o como paiz d'acção. Um dos maiores poetas de Portugal, -para nós, era Vasco da Gama! Tinhamos um systema de nações-almas e -nações-braços. Assim, para nós, a maior epopeia portugueza era a -exploração do mar. As suas rimas eram conquistas. As scenas dos seus -dramas escorriam de sangue junto ás muralhas de Diu. - -Litterariamente, Portugal, na nossa opinião, era simplesmente o -pretexto para o _Bosquejo Historico_ do snr. padre Figueiredo. Do -passado, apenas acreditavamos em João de Barros e Camões. Garrett -tinha-se separado de nós, tomando pelo atalho que leva a Deus, e -legando á geração presente a pouca alma que ella ainda tem. - -Os contemporaneos, ai! não os conheciamos. Hoje eu, e creio que tu, -conhecemos bem os nobres espiritos que se obstinam em pensar no meio -d'este deserto d'almas, uns junto da historia, outros junto do verso, -alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o romance. - -Mas, n'aquella epocha d'espontaneidade, só viamos o que era -verdadeiramente e incontestavelmente sol! - -Discutiamos largamente a natureza, e eu lembro-me de te ouvir -fallar, deante daquella luz que cáe desfeita em tristeza no _Penedo -da Saudade_, ácerca da formação das nebuloses, e, partindo d'ahi, -descrever o homem e Deus, até á procissão da vespera. - -Havia entre nós todas as theorias e todas as seitas: havia republicanos -barbaros, e republicanos poeticos; havia mysticos que praticavam as -eclogas de Virgilio; havia materialistas sentimentaes e melancolicos -que proclamavam a materia com uma meiga languidez nos olhos, e fallavam -da força vital, quasi de joelhos, com as mãos amorosamente postas; -havia pagãos que lamentavam as suas penas de amor, castamente, sob -a nevoa luminosa dos astros. Tudo havia, e tambem a serena amizade -incorruptivel, o fecundo amor do dever, e a ingenuidade risonha de tudo -o que desperta. - -Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magnifica, e na vida -real eram todos contemplativos, melancolicos e timidos. E tu sabes qual -era o grande espirito, hoje longe de nós, que explicava Proudhon com a -serena familiaridade dos sabios, e nas aulas, dizia, com voz timida, -referindo-se aos jurisconsultos antigos: «... O snr. Pegas... S. S.ᵃ -o digno Paiva e Pona... O nobre cavalheiro Cujacio..., etc.» Tremia -diante d'aquelles commentadores, como diante de idolos mysteriosos; e -imaginava abrandal-os, dando-lhes venerações. - -Tal era aquelle concilio. A força severa do espirito precisa d'estas -precursoras explosões de vida. Hoje pouco resta d'esses camaradas. -Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o braço, -reunem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de -Henrique IV. - -Todos se perderam. Uns estão bem longe, para além do mar. Outros -soffrem os tedios da vida official. Outros vivem nas castas serenidades -do lar. Outros apodrecem debaixo da herva, e o que nós amavamos -n'elles--a alma--dissipou-se, e o que viamos--o corpo--anda em redor de -nós, nas metempsichoses, no ar, nas plantas, e nas pedras; mas nós não -comprehendemos ainda o seu silencio, como elles já não percebem o nosso -ruido! - -Ora quem, n'esse tempo, me tivesse fallado dos seculos classicos de -Augusto e de Pericles, fazia-me uma injuria pessoal; e hoje em presença -d'esta doença desoladora dos espiritos, d'estas chagas luminosas e -incuraveis que as almas teem, eu estou quasi prompto a ir declarar, com -a vela na mão, como os antigos convertidos, que o pensamento tem tido -apenas tres epochas: Pericles, Augusto e Luiz XIV. É o cyclo dos tres -tyrannos! E, embora se lastime que as ideias nasçam com os escravos, -eu acho magnifico e verdadeiro que aquellas datas gloriosas sejam o -jazigo de tudo quanto a alma humana tem creado. _Confiteor._ Salve, -Aristoteles! - -Mas o mal é que em volta d'aquellas epochas, que são cimos luminosos, -em baixo, crepusculos constellados, move-se uma população selvagem, -disforme e revolucionaria. Alli ha o crime, a paixão, a lucta, a dôr, -o sangue, o amor, o ciume, a morte e a duvida--todas as meias-tintas -do mal! Quem desce d'aquelles cimos, que são gloria, luz, e verdade, -onde habitam as almas nobres de Horacio, de La Harpe, de Boileau, de -Reis Quita, de Garção, de Caminha, e companhia, quem desce áquelles -fundos perversos topa com figuras gigantescas e horriveis: Shakspeare, -o humano; Dante, o sobrenatural; Rabelais, o escarnecedor; Isaias, o -propheta; Juvenal, o vingador; Eschylo, o fatal. Aquellas figuras -devastam! - -E é um encontro peor que o da Floresta Mysteriosa, no começo da _Divina -Comedia_. Adeus, as serenidades idyllicas dos tempos de Pericles e de -Augusto! Adeus, as claras aguas da alegria nos olhos! Adeus, as tepidas -branduras, e os descanços arcadicos! - -Aquelles poetas terriveis arrastam-nos, deslumbram-nos d'ideal, -esmagam-nos de paixão: dão-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre -a pobre alma: o amor, a melancolia, a paixão, o ciume, o mysticismo, a -ironia, o desespero, a duvida. Além d'isso não respeitam a felicidade -corporal do egoismo humano: atrevem-se a dar o terrivel espectaculo da -dôr. O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos arrancados, e o -seu coração caido na lama, pisado pelos filhos, cuspido pelos lacaios, -apupado pela populaça! - -Aquelles poetas abrem na alma longes surprehendentes. Quem os lê sente -entrar em si, bruscamente, o infinito! - -Soffre, como os sacerdotes antigos soffriam com a presença de Deus! - -E entretanto os que se deixaram ficar na luz branca, em companhia dos -espiritos inoffensivos de Racine, de Horacio, de Virgilio, de todos os -classicos, vivem contente e socegadamente na sua fé ordinaria, na sua -virtude, na sua somnolencia hygienica! - -É que esses inoffensivos fazem um ruido que embala, põem um _abat-jour_ -ao ideal, trazem a paixão açaimada, e põem _caio_ na face da dôr. - -Mas os que desceram ás regiões romanticas ficaram com a alma doente, -febril, anciada, nostalgica. Ahi está como se explica toda esta geração -moderna, contemplativa e doente! Porque--digamos a verdade--hoje a -vida do pensamento é um vasto hospital d'almas. E os gemidos, que sáem -dos leitos, são os dramas, os poemas, os romances modernos. Hoje, -incontestavelmente, pensar é soffrer. A enfermeira, que se chama -Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas classicos, esses, -não obrigam a pensar: são a simplicidade, a frieza, a narrativa, a -superficie, a affectação, a convenção--tudo menos a alma, com a sua -tragi-comedia de dôres e de duvidas! - -Nós, meu amigo, somos uma geração desilludida por tres revoluções, -amollecida por uma invenção horrivel--a musica, tomada da duvida -religiosa, geração que vê esvaecer-se Christo, a quem tanto tempo -amou, e não vê chegar a liberdade, por quem ha bastante tempo espera. -Quaes podem ser as obras d'esta geração? Creações febris, convulsões -cerebraes, idealistas e doentias, todo um pesadello moral. Por isso -temos tido toda a serie de figuras melodramaticas, desde Fausto até Mr. -de Camors. - -Qual vale mais: esta doença magnifica, ou a saude vulgar e inutil, que -se goza no clima tepido que vae desde Racine até Scribe? Eu prefiro -corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre se chama -Julietta e a ultima Margarida! - -Os outros, os saudaveis, os doutrinarios da arte, os petrificadores da -paixão, os sacerdotes da tradição e do _magister dixit_, não pertencem -á arte pura: pertencem aos archivos. São documentos historicos. São -momentos sociaes vistos atravez da arte. Racine explica Luiz XIV. -E como na historia livre e pura se não póde conceber Luiz XIV, na -arte pura e livre não se póde admittir Racine. Toda a nossa Arcadia -explica os reinos de D. João V, de D. José I e de D. Maria I. Por -essa litteratura se pódem conhecer todos os sentimentos monarchicos -do tempo, o espirito cortezão, a influencia clerical, a sujeição -d'ante-camara, as subtilezas moraes, a serenidade emphatica, a -magestade theatral, toda essa somma de falsos sentimentos e de falsos -costumes que era o antigo regimen. E aquella litteratura falsa, -ridicula, sendo excellente como documento, é grotesca como arte. - -Na arte só têm importancia os que criam almas, e não os que reproduzem -costumes. - -A arte é a historia da alma. Queremos vêr o homem--não o homem -dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas -instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, collocado -na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a -representação dos caracteres taes quaes elles seriam, abandonados á sua -vontade intelligente e livre, sem as peias sociaes. Ahi está o que dá a -Shakspeare a supremacia na arte. Foi o maior creador d'almas. Revelou -a natureza espontanea: soltou as paixões em liberdade e mostrou a sua -livre acção. É ahi que se póde estudar o homem. É o que faz tambem a -grandeza de certos typos capitaes de Balzac, o _Barão Hulot_, _Goriot_, -_Graudet_. Realisam o seu destino, longe da associação humana, sob a -livre logica das paixões. - -No emtanto, ás vezes, os que reflectem o seu tempo--criam: e é quando -não só revelam o caracter d'um momento, um estado convencional e -passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma d'um povo. É o que faz -a grandeza de João de Barros. Historiador, revelou o genio de Portugal, -o espirito aventureiro misturado de exaltação religiosa, o heroismo -supersticioso. Camões, o filho da Renascença e das imitações latinas, -não tem o espirito epico de João de Barros, que ás vezes, n'uma pagina, -constroe toda a antiga alma heroica da patria. - -Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua phase rhetorica; e os -poetas modernos de França, Mallarmé, Dierx, Sully-Prudhomme, Catulle -Mendés, Heredia, Ricard, L'Isle-Adam, etc., fabricam maldições ao -mundo e á materia, com a mesma sabia reflexão e estudo com que os -poetas de 1810 fabricavam madrigaes. Uma certa escola, saída de Charles -Baudelaire, affecta amores pelo mal: como os histriões medrosos põem -vermelhão na face, para encobrir a pallidez, elles tingem a alma de -perversidade negra para encobrir o desfallecimento. - -Ha pouco fallei de _Mr. de Camors_. Ainda um livro nostalgico. Ainda -Manfredo e D. Juan sob uma fórma remoçada e theatral. - -Mr. de Camors é um mystico. Tem todos os desfallecimentos d'alma, todos -os desmaios do desejo dos heroes poeticos de 1830. - -Traz só de mais um apparato: o materialismo. Mascara-se de -impassibilidade: mas quando? Justamente quando, pela posição politica, -pelo resplandecimento financeiro, pela força dos habitos e das -ligações, elle tem uma vida compassada e material--em que a alma -adormece. E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas, -quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão, -ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo, a -pobre alma, chorando afflicta, torturando-se, e pedindo com as mãos -postas ás estrellas um refugio sereno! - -Aqui, em Portugal, tambem ha uma grande doença. Fallaria n'isso agora, -se não estivesse fatigado de escrever. - -Mas a peor das doenças é a doença que affecta ares languidos; que -compõe, ao morrer, a voluptuosidade do olhar; que, quando já sente o -frio da morte, suspira correctamente: Adeus! - -O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir, contra -os meus habitos impassivelmente silenciosos, a fallar vagamente em -litteratura? Nada, senão que, n'um dia de tristeza e de frio, eu -quiz fazer uma romaria saudosa áquelles tempos distantes era que -nós viviamos n'uma noite de ideias e de desejos, allumiados pelos -astros--Shakspeare, Dante, Rabelais, S. João, Gœthe e Cervantes, e -tendo sempre na alma aquella ternura luminosa que vinha d'uma aurora -serena, clara, immensa, purificadora e consoladora--Jesus Christo! - - Teu - - _E. de Q._ - - - - -O LUME - - -Agora, de inverno, no campo, as noites são asperas e hostis. Toda -a natureza está impassivel e entorpecida, esperando a fermentação -violenta das seivas. As arvores erguem os braços nús, miseraveis e -supplicantes. E as aguas, que no outono estavam quietas e pallidas, e -que em maio faziam claras murmurações, tão melodicas como o rythmo d'um -idyllio latino, teem agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e -lento como um canto catholico d'officios: as chuvas cáem de cima, como -escarneos triumphantes e ruidosos. - -Ás vezes, vem a lua--não aquella immaculada lua côr d'opala, d'onde -se exhala um nevoeiro magnetico que faz a alma docemente doente, mas -uma lua metallica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas -legendas catholicas. - -Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no -tedio, silenciosamente, como um navio roto n'uma calmaria, e vae, por -instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do -fogo. E, emquanto a força vital se dissolve n'uma somnolencia fluida, -elle sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que -lhe falla como n'um extase profano: - - * * * * * - -«Sou eu--diz a voz--eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o -teu velho Deus mysterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha -em ti de grande e de justo--a familia e o trabalho. A minha historia é -triste, luminosa e terrivel, immunda e meiga. Eu fui o teu companheiro -das noites da India, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch -das religiões da velha Africa, ensanguentado e tragico: e sou agora o -escravo a quem tu mandas mover as machinas. - -«Sempre escondido e silencioso, occupando a um canto o mais pequeno -espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, -e fico, nas tuas horas negras de dôr e de miseria, calado ao pé de -ti, lambendo-te os pés como um cão. Na India, lembras-te? durante as -noites primitivas, eu fui o bom _Agni_ que te allumiava, que espantava -os chacaes e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores -religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus seccos: assim, -para onde tu fôsses, ou solitario ou em bando, encontravas-me sempre -aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade -humana da familia. - -«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus barbaros trabalhos, no -principio, quando a vasta natureza te combatia. E eu era o amigo -unico, o alliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros -beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos. - -«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta -tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza -e força, era então a tua sepultura imminente. Quando saías de ao pé -de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os -sêres implacaveis--o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que -te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudarios. -Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma -resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume -que te enxugava, que te allumiava, que te dava o pão, a força ou a fé. -Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em -casa, esperando os teus cançaços. Ella fiava, limpava o chão da cabana, -tirava a agua fresca, e adormecia o filho no seio branco como n'um -leito espiritual: eu estava quieto e attento, combatendo a sombra e a -noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de -luz para o teu somno, dando á cabana a serenidade tepida, e ás tuas -fadigas um paraiso de socego, de silencio e de calor. - -«Em volta de mim, creou-se a familia. Eu era o purificador da tua -natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os -braços, e ampara na hora das dôres. - -«Eu tenho ainda por ti aquelle amor servil e adulador, que se glorifica -quando abdica, que tem um extase quando se dá a uma humilhação. Quando -te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta -grande alma de chamma, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam -as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de -negro--justamente como o corpo d'um amor abandonado. - -«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um -affago, quando me revolves--desperto, revivo, canto psalmos de luz, -requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são -gritos de fogo, scintillações que são beijos; e como n'uma rapariga, -para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em -rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos -labios, toda a minha dôr e o meu abatimento se vae desfeito em fumo! - -«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss, -tantos santos, e tantos martyres, e tantos hallucinados de Deus! Fui -eu que queimei, nas cidades mysteriosas de Africa, as creanças e as -virgens no altar de Moloch. - -«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante -os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o -confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco! -Podia ir comtigo, insensivelmente--lareira, se era o teu amor que me -assoprava, incendio, se era a tua colera--no tempo em que tu eras uma -força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciencia. Comtigo só me -alliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te -tenho consolado das servidões dolorosas. - -«No tempo das cathedraes, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão -livre, nem a voz, nem o somno, nem a esperança, eu dei-te o que mais -agrada ao escravo--o direito de mandar. Em volta de mim, a familia -ajoelhava á tua voz, resava ao teu olhar, erguia a hostia do amor ao -teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava. -Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho -representado a essencia humana. Eu tenho advogado a causa da vida. - -«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o mysticismo. Eu sou o -bem. A familia, o trabalho, a educação, esta trindade mysteriosa da -vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no -circulo da minha luz. Tudo para além é sombra--sombra na parede, e -sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte; -debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os unicos -momentos verdadeiros e sãos fôram aquelles em que estiveste ao pé de -mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a creança. Então -realisaste o ideal, o symbolo--Deus, que as religiões esboçam e as -criticas dissipam. - -«Lembras-te da India? - -«Alli tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos -novilhos, e o filho, encarnação mysteriosa do amor das almas, e a minha -doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia -em ti no estado de presentimento. - -«Depois d'isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações, -de religiões, de conquistas, de descobertas, d'ideaes. - -«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfallecimento, a -dôr e o mal. - -«Eras puro e são: estás morbido e enfraquecido. Eras forte: estás -rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste -ironia: o teu largo olhar é uma aspera desconfiança. - -«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E -tudo o que ella tinha de terrivel e de doloroso, tudo hoje tu tens: a -independencia desesperada do mar, o mysterio doentio da floresta, o -chôro afflicto das aguas, a inquietação do vento, a barbaridade das -feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com -surdas irritações, com rebelliões formidaveis. Ahi está. De cada vez -que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma -chaga. - -«Foste crear o mysticismo: vieste com a nostalgia incuravel. Quizeste -crear os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade, -que vae sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para -te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e -da materia exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o -egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas -obras ahi estão immensas, accumuladas, contraditorias e inuteis. Tens -uma complicação infinita de azas que te impede o vôo. - -«A mim, abandonaste-me. - -«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante, -miseravel, sobrecarregado d'infamias, e, para viver, vendendo-me ao -carrasco! - -«Mas conservei sempre a minha chamma, casta e familiar, para o dia em -que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos -teus irmãos. - -«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus -instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiaes, ou lascivos. Eu dou-te -o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do -movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor, -dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que -prepara para o trabalho. Eu sou a cura, intelligente e boa, do mal -natural. Eu allumio-te nas vigilias dolorosas. Quando estás entorpecido -na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres -e a tua alma vae partir, eu allumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco -Christo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu -sou junto das praias o grito de luz que te chama. - -«E o que fazes tu em paga d'este amor que se dá, que cria, e que -purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que -embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor, -movimento que é força: os dois termos da tua vida--pureza e -putrefacção! Eu que vivia, allumiava, creava em liberdade, estou -encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o -motor da miseria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças -estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas. -Sou o collaborador dos martyrios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o -fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a -infamia. Fazes de mim _explosão_. Obrigas-me a devastar na guerra! - -«Eu sou a pureza, o trabalho, a familia, a paixão casta: levas-me a ser -o mal, a viuvez, o pranto e a dôr! Tenho um cortejo d'ambulancias e de -macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a arvore -que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão! - -«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não -quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros -que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu -allumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a -Christo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a familia, a intimidade -casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu -velho camarada das choupanas da India! não me faças ser explosão, morte -e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando -estiver allumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços--não -sinta entre as minhas chammas bailarem espectros!» - - - - -MEPHISTOPHELES - - -No _Fausto_, de Charles Gounod, a figura dramatica e synthetica é -Mephistopheles. - -Em volta d'elle, Fausto canta artificialmente como um lyrico histrião -d'operas; Margarida sente as primeiras rebelliões nervosas do -desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo -Cherubim; a alma legendaria do rei de Thule canta na sua torre que -molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem -a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande -figura angulosa, nervosa, elastica, incisiva, atravessa, sinistra, o -drama--os seus lyrismos nostalgicos, as suas sensualidades tristes, -os seus mysticismos artificiaes--glorificando a força brutal do -dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto -espiritualista para a violencia lasciva, combatendo a serena inspiração -do Christo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção -da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação--com o riso -tragico do mal! - -Aquella opera é uma simples aventura do antigo Diabo. - -N'ella, o Fausto não é o sabio que penetrou a medicina, a physica, a -logica, a dialectica, a dogmatica, a theologia, a metaphysica, para -quem os seis mil annos do passado são apenas o prefacio do saber -humano, que procura o X terrivel da equação dos astros, e que ao ruido -que faz a sua alma buscando atravez da natureza o Deus fugitivo, -o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os -desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o -homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que -se recolhe n'um stoicismo tragico, tendo todavia, sempre, dentro do -peito, o côro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das asperas -curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vae ao fundo -do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem d'ella, que é o -ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito -moderno. - -Não. Na opera, Fausto é simplesmente um d'aquelles ambiciosos -grotescos, que contratavam por escripto com o velho Diabo, nos -claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo, -por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro -e que os estofos, uma coisa inutil e esteril, que se lhe atirava -desabridamente--e que era simplesmente a alma! - -As legendas estão cheias d'estas negociações. - -Cornelio Agrippa vende a alma pelos segredos da philosophia; o abbade -de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a -alma, n'uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as -tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Hespanha, e uma -perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as -mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo -Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança! -Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga -clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando! - -O Diabo cumpria escrupulosamente o contracto: havia para estas -negociações uma jurisprudencia dogmatica. Sujeitava-se mesmo a -acompanhar o contratador, como uma inspiração visivel, como um -camarada de perigos, para lhe facilitar a ampla realisação do desejo. -Seguia Agrippa sob a fórma d'um escudeiro, vestido de negro, com o -nome de _Sujeito_. Seguia Fausto, vestido d'escarlate, com o nome de -Mephistopheles. Nada mais. - -Margarida, não é, na opera de Gounod, como em Gœthe, o symbolo da -alma allemã, simples, casta, soffredora, d'aquella alma allemã que, -como na _Melancolia_ d'Alberto Dürer, quando a materia, a tyrannia, -a desesperança a opprimem, só sabe resignadamente, dobrar as suas -azas; aquella alma allemã que exhala toda a sua immensa dôr em frescas -cantigas religiosamente humanas, que tem todas as simplicidades, todas -as intelligencias, todos os deveres, que quando olha para a terra é -para amar, quando olha para o ceu é para orar, quando olha para si é -para morrer. Não. A Margarida da musica sabia de Gounod, é uma alma -lyrica, nebulosa, nostalgica, sensual, para quem o amor é um magnetismo -suave, a oração uma lucta com o mal, a morte um libertamento romantico -da vida--insufficiente e vasia. Este Fausto tem na alma um lyrismo -theatral, esta Margarida um paraiso artificial. - -Mas elle, o bom Mephistopheles, tem uma vida real e poderosa. É elle--a -antiga creatura terrivel e grotesca, vaidosa, infame e tragica. É -o antigo Satanaz das legendas. É elle--o mesmo a quem os Severios -ouviram dizer que antes queria devorar uma alma, do que voltar, entre -purificações, para os seus antigos camaradas, os astros, _sidera -lucida_! É elle, o eterno inspirador dos hereticos e dos impostores, -elle que ensinava os oraculos aos crocodilos de Arsineë, e aos -carvalhos propheticos de Dodona, e que dava a Manés, o homem impio, -a ascetica pallidez dos monges, como dá a Fausto, velho e tepido, o -resplandecente magnetismo do olhar. Elle, que segundo as tradições -judaicas, inventou os enfeitos e as joias, para ferir os castos -instinctos da mulher--e que atirava os coraes ao regaço das mulheres -de Brabante, como mostra a Margarida a côr traiçoeira e hypocrita das -perolas. É elle o mesmo que em Babylonia tomava as attitudes hieraticas -de um Deus, e fugia do olhar de Daniel--como na kermesse de Leipzig -toma a voz sinistra e rouca do dinheiro, e cáe, torturado e covarde, -diante da serena apparição das cruzes das espadas. É elle o antigo -Diabo que dava aos monges da Thebaida o mal da _acedia_, como dá á -pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges do Occidente; dá-lhes -as chagas e as dores de Job, envolve-os nas visões magnificas do mal. - -As virgens diaphanas fazem, no silencio da noite, as mil orações da -prostração: os monges passam os annos em jejuns dolorosos. Debalde! Se -se deitam na neve, a neve toma um calor vital e lascivo que os definha: -se bebem a agua fria e purificadora das fontes, a agua dá-lhes ao -corpo a palpitação dos vastos appetites. Se querem resar no silencio, -ouvem os risos ambrosiacos dos Deuses sensuaes, e o gemer desfallecido -dos bandolins. Tambem a pobre Margarida, se queria fiar castamente, -e chorar o velho rei de Thule, sentia a melodia da carne cantar-lhe -baixo: «Vê como Fausto, o cavalleiro vestido de velludo, é branco, e -bello, e são, e forte.» - -Os monges d'Alexandria andavam de noite, pelos corredores solitarios e -sonoros, com as cruzes alçadas, cantando, para o afastar, os versiculos -do Evangelho, e regando com agua santa as lages do claustro: assim o -gentil Siebel asperge, tristemente, as flôres maculadas de maio. - -E ao mesmo tempo este Diabo terrivel, que andava disperso nos -elementos, de tal sorte que o vento era a sua tosse, elle que era o -carrasco da inquisição, a fera dramatica das almas, elle que redigiu -a sentença de Christo, que accendeu as fogueiras das feiticeiras, que -celebrava o _sabbat_, onde á luz d'uma lampada sem oleo, prégava o -sermão dos sete peccados, elle que tinha por filhos, Merlino, Roberto -de Normandia, Attila e os Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco, -bailarino, poeta, jogador e palhaço. Bebia gloriosamente o vinho das -missas do Papa. Tinha uma taverna no Inferno, onde se comiam, com -molho de beata, as almas dos usurarios. Dava serenatas ás patricias de -Veneza. Fazia sonetos correctos e academicos ás abbadessas de Vecker. -Vestia-se de velludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes -das universidades livres, e assignava-se _Belzebuth, cosinheiro do -Inferno_. Os trovadores cantaram esta legenda faceta das farças de -Satan. - -Tomou tanta familiaridade com o homem, que Luthero sujou-o de tinta, e -Rabelais deu-lhe piparotes. Na Allemanha, na noite de 30 de abril, dava -um sarau magnifico nas alturas de Borx-belg. Era a noite do Walpurgis. -Havia a grande dança das nudezas. Nas noites claras, as estrellas -assistiam, com a impassibilidade de vestaes. - -Assim é a figura complexa de Mephistopheles. Durante a opera de Gounod, -esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama dos amores -e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso, como -aquellas figuras de Satan, que nas cathedraes da Allemanha deixam -cair do ultimo corucheu uma risada de pedra, que nos nichos, nas -esculpturas, nas rosaceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas -as figuras de santos, de virgens e de anjos--vae gelar as aspirações -ideaes e os sentimentos do ceu. - -Toda aquella musica da opera, que envolve Mephistopheles, é a vaga -melodia sombria do mal. Tem o escarneo, tem a violencia, tem as trevas, -a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta e vence. - - - - -MEMORIAS D'UMA FORCA - - -Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento d'este papel, -onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua -historia. Esta forca intentava escrever as suas tragicas _Memorias_. -Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Arvore, ninguem sabia -tão bem o mysterio da natureza; forca, ninguem conhecia melhor o -homem. Nenhum tão espontaneo e verdadeiro como o homem que se torce na -ponta d'uma corda--a não ser aquelle que lhe carrega sobre os hombros! -Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu. - -Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que -copío--resumo das suas dôres, vaga apparencia de gritos instinctivos. -Pudesse ella ter escripto a sua vida complexa, cheia de sangue e de -melancolia! É tempo de sabermos, emfim, qual é a opinião que a vasta -natureza, montes, arvores e aguas, fazem do homem imperceptivel. -Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papeis -que guardo avaramente, e que são as _Memorias d'um Atomo_ e os -_Apontamentos de Viagem d'uma Raiz de Cypreste_. - - * * * * * - -Diz assim o fragmento que eu copío--e que é simplesmente o prologo das -_Memorias_: - -«Sou d'uma antiga familia de carvalhos, raça austera e forte--que já na -antiguidade deixava caír, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era -uma familia hospitaleira e historica: d'ella tinham saído navios para -a derrota tenebrosa das Indias, contos de lanças para os hallucinados -das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram -Savonarola, Espinosa e Luthero. Meu pae, esquecido das altas tradições -sonoras e da sua heraldica vegetal, teve uma vida inerte, material e -profana. Não respeitava as nobres moraes antigas, nem a ideal tradição -religiosa, nem os deveres da historia. Era uma arvore materialista. -Tinha sido pervertida pelos encyclopedistas da vegetação. Não tinha -fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do sol, da seiva e da agua. -Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, em quanto -sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, -acolhia os grandes concertos de passaros bohemios, cuspia a chuva -sobre o povo curvado e humilde das hervas e das plantas e, de noite, -enlaçado pelas heras lascivas, resonava sob o silencio sideral. Quando -vinha o inverno, com a passividade animal d'um mendigo, erguia para a -impassivel ironia do azul os seus braços magros e supplicantes! - -«Por isso nós, os seus filhos, não fômos felizes na vida vegetal. -Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços: ramo -contemplativo e romantico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, -pelo escarneo, pela farça e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de -sol, de poeira, aspero solitario da vida, luctador dos ventos e das -neves, forte e trabalhador, foi arrancado d'entre nós, para ir ser -taboa d'esquife!--Eu, o mais lastimavel, vim a ser forca! - -«Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades -na floresta. Eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das -fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a -umas pobres violetas, que viviam por baixo de nós, doces raparigas -lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da -vegetação. Agasalhava todos os passaros na vespera dos temporaes. Era -eu quem asylava a chuva. Ella vinha, com os cabellos esguedelhados, -perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens -e as folhas, e escondia-a alli, ao calor da seiva. O vento passava, -confundido e imbecil. Então a pobre chuva, que o via longe, assobiando -lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gotta -por gotta, para o vento a não perceber, e ia, de rastos, por entre a -herva, acolher-se á vasta mãe Agua! Tive por esse tempo uma amisade -com um rouxinol, que vinha conversar commigo durante as longas horas -constelladas do silencio. O pobre rouxinol tinha uma pena d'amor! -Tinha vivido n'um paiz distante, onde os noivados teem mais molles -preguiças: lá se enamorára: commigo chorava em suspiros lyricos. E tão -mystica pena era que me disseram que o triste, de dôr e desesperança, -se deixára caír na agua! Pobre rouxinol! Ninguem tão amante, tão viuvo -e tão casto! - -«Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo -vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens, -como dedos, para apontar á pobre alma afflicta de lagrimas todos os -caminhos do ceu! - -«Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante! - -«Emfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um d'aquelles -homens metallicos que fazem o trafico da vegetação veiu arrancar-me á -arvore. Não sabia eu o que me queriam. Deitaram-me sobre um carro e, -ao caír da noite, os bois começaram a caminhar, emquanto ao lado um -homem cantava no silencio da noite. Eu ia ferido e desfallecido. Via as -estrellas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar -da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das -arvores. Eram vozes amigas que me chamavam! - -«Por cima de mim voavam aves immensas. Eu sentia-me desfallecer, n'um -torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade -das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, iamos entrando n'uma cidade. As -janellas olhavam-me com olhos ensanguentados e cheios d'um sol irado. -Eu só conhecia as cidades pelas historias que d'ellas contavam as -andorinhas, nos serões sonoros da espessura. Mas como ia deitado e -amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia um rumor -aspero e desafinado, onde havia soluços, risos, bocejos, e mais o surdo -roçar da lama, e o tinido sombrio dos metaes. Eu sentia emfim o cheiro -mortal do homem! Fui arremessado para um pateo infecto, onde não havia -o azul e o ar. Comecei então a comprehender que uma grande immundicie -cobre a alma do homem, porque elle se esconde tanto das vistas do sol! - -«Uns homens vieram, que me deram despresivelmente com os pés. Eu estava -n'um estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da -patria vegetal. Ao outro dia, um homem veiu para mim e deu-me golpes -de machado. Não senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez -amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando. -Senti lentamente renascer a consciencia e a vitalidade. Parecia-me -que eu estava transformado n'uma outra vida organica. Não sentia a -magnetica fermentação da seiva, a energia vital dos filamentos e a -superficie viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a -pé. Sob a brancura silenciosa e compassiva da lua, tive uma saudade -infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, das relvas, de toda -a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu -sentia que ia para uma vida real, de serviço e de trabalho. Mas qual? -Tinha ouvido fallar das arvores que vão ser lenha, aquecem e criam, e, -tomando entre a convivencia do homem a nostalgia de Deus, luctam com os -seus braços de chammas para se desprender da terra: essas dissipam-se -na augusta transfiguração do fumo, vão ser nuvens, ter a intimidade das -estrellas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos immortaes, -e sentir os passos de Deus! - -«Eu tinha ouvido fallar das que vão ser vigas da casa do homem: essas, -felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce força dos -beijos e dos risos; são amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a ellas -os corpos dolorosos dos Christos, são os pedestaes da paixão humana, -têem a alegria immensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das -creanças, ais namorados, confidencias, suspiros, elegias da voz, tudo -o que lhes faz lembrar as murmurações da agua, o estremecimento das -folhas, as cantigas dos ventos--toda essa graça escorre sobre ellas, -que já gosaram a luz da materia, como uma immensa e bondosa luz da alma. - -«Eu tinha ouvido fallar tambem das arvores de bom destino, que vão ser -mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do -temporal, viajar, vêr, luctar, viver, levadas pelas aguas, atravez do -infinito, entre surprezas radiosas--como almas arrancadas do corpo que -fazem pela primeira vez a viagem do ceu! - -«Que iria eu ser?...--Chegamos. Tive então a visão real do meu destino. -Eu ia ser forca! - -«Fiquei inerte, dissolvida na afflicção. Ergueram-me. Deixaram-me só, -tenebrosa, n'um campo. Tinha, emfim, entrado na realidade pungente -da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre -cheias de cadeias, de cordas e de pregos, tinham vindo aos carvalhos -austeros buscar um cumplice! Eu ia ser a eterna companheira das -agonias. Presos a mim, iam baloiçar-se os cadaveres, como outr'ora as -verdes ramagens orvalhadas! - -«Eu ia dar esses negros fructos: os mortos! - -«O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a -companheira dos passaros, doces tenores errantes, as agonias -soluçantes, os gemidos da suffocação! As almas, ao partir, -rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a arvore do silencio e do mysterio -religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos psalmos sonoros -da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me -ás nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a -arvore viva dos montes, d'intimidade com a podridão, do camaradagem com -o carrasco, sustentando alegremente um cadaver pelo pescoço, para os -corvos o esfarraparem! - -«E isto ia ser! Fiquei hirta o impassivel como nas nossas florestas os -lobos, quando se sentem morrer. - -«Era a afflicção. Eu via ao longo a cidade coberta de nevoa. - -«Veiu o sol. Em roda de mim começou a juntar-se o povo. Depois, atravez -d'um desfallecimento, senti o ruido de musicas tristes, o rumor pesado -dos batalhões, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois cirios, -vinha um homem livido. Então, confusamente, como nas apparencias -inconsistentes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibração -electrica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto catholico -dos mortos! - -«Voltou-me a consciencia. - -«Estava só. O povo dispersava-se e descia para os povoados. Ninguem! A -voz dos padres descia lentamente, como a ultima agua d'uma maré. Era ao -fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio, -com a cabeça caída e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me! - -«Eu sentia o frio e a lenta ascensão da podridão. Ia ficar alli, de -noite, só, n'aquelle descampado sinistro, tendo nos braços aquelle -cadaver! Ninguem! - -«O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma d'aquelle cadaver? Tinha -passado já? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibrações? -Eu sentia os passos da triste noite, que vinha. O vento empurrava o -cadaver, a corda rangia. - -«Eu tremia, n'uma febre vegetal, dilacerante e silenciosa. Não podia -ficar alli só. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos pedaços, para -a antiga patria das folhas. Não. O vento era brando: quasi sómente -a respiração da sombra! Tinha vindo então o tempo em que a grande -natureza, a natureza religiosa, era abandonada ás féras humanas? Os -carvalhos já não eram pois, uma alma? Podiam, com justiça, vir o -machado e as cordas buscar os ramos creados pela seiva, pela agua e -pelo sol, trabalho suado da natureza, fórma resplandecente da intenção -de Deus, e leval-os para as impiedades, para os tablados da forca onde -apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as -ramagens puras, que fôram testemunhas das religiões, já não serviam -senão para executar as penalidades humanas? Serviam só para sustentar -as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condemnados se torcem? Não -podia ser. - -«Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos, -que sabem o segredo e comprehendem a vegetação, achariam grotesco que -as arvores, depois de terem sido collocadas por Deus na floresta com os -braços estendidos, para abençoar a terra e a agua, fôssem arrastadas -para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o braço da forca -para abençoar os carrascos! - -«E depois de sustentarem os ramos de verdura--que são os fios -mysteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra--fôssem -sustentar as cordas da forca, que são as fitas infames, por onde o -homem se prende á podridão! Não! se as raizes dos cyprestes contassem -isto em casa dos mortos--faziam estalar de riso a sepultura! - -«Assim fallava eu na solidão. A noite vinha lenta e fatal. O cadaver -baloiçava-se ao vento. Comecei a sentir palpitações de azas. Voavam -sombras por cima de mim. Eram os corvos. Poisaram. Eu sentia o roçar -das suas pennas immundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se, -ruidosos, cravando-me as garras. - -«Um poisou no cadaver e poz-se a roer-lhe a face! Solucei dentro do -mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma arvore das -florestas a quem os ventos fallavam! Servia agora para afiar os bicos -dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cadaveres, -como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus--soluçava -eu ainda--eu não quero ser reliquia de tortura: eu alimentava, não -quero aniquillar: era a amiga do semeador, não quero ser a alliada do -coveiro! Eu não posso e não sei ser a justiça. A vegetação tem uma -augusta ignorancia: a ignorancia do sol, do orvalho e dos astros. Os -bons, os angelicos, os maus são os mesmos corpos inviolaveis, para a -grande natureza sublime e compassiva. Oh meu Deus, liberta-me d'este -mal humano tão aguçado e tão grande, que se trespassa a si, atravessa -de lado a lado a natureza, e ainda te vae ferir, a ti, no ceu! Oh! -Deus, o ceu azul, todas as manhãs, me dava os orvalhos, o calor -fecundo, a belleza immaterial e fluida da brancura, a transfiguração -pela luz, toda a bondade, toda a graça, toda a saude:--não queiras que, -em compensação, eu lhe mostre, ámanhã, ao seu primeiro olhar, este -cadaver esfarrapado! - -«Mas Deus dormia, entre os seus paraisos de luz. Vivi tres annos -n'estas angustias. - -«Enforquei um homem--um pensador, um politico, filho do bem e da -verdade, alma formosa cheia das fórmas do ideal, combatente da luz. Foi -vencido: foi enforcado. - -«Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ella. -O seu crime era o amor, que Platão chama _mysterio_, e Jesus chamou -_lei_. O codigo puniu a fatalidade magnetica da attracção das almas, e -corrigiu Deus com a forca! - -«Enforquei tambem um ladrão. Este homem era tambem operario. Tinha -mulher, filhos, irmãos e mãe. No inverno não teve trabalho, nem lume, -nem pão. Tomado d'um desespero nervoso, roubou. Foi enforcado ao sol -posto. Os corvos não vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e -são. Era um pobre corpo que tinha succumbido por eu o apertar de mais, -como a alma tinha succumbido por Deus a alargar e a encher. - -«Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dôr -intima; não me desprezou: o sol allumiava-me com glorificação, as -nuvens vinham arrastar por mim a sua molle nudez, o vento fallava-me -e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegetação -saudava-me com meigas inclinações da folhagem: Deus mandava-me o -orvalho, frescura que promettia o perdão natural. - -«Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia -esfriar, mandou-me os seus vestidos d'hera. Os corvos não voltaram: -não voltaram os carrascos. Sentia entrar em mim a antiga serenidade -da natureza divina. As efflorescencias, que tinham fugido de mim, -deixando-me só no solo aspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de -mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me. -Eu sentia chegar a podridão. Um dia de nevoas e de ventos, deixei-me -caír tristemente no chão, entre a relva e a humidade, e puz-me -silenciosamente a morrer. - -«Os musgos e as relvas cobriram-me, e eu comecei a sentir-me dissolver -na materia enorme, com uma doçura ineffavel. - -«O corpo esfria-me: eu tenho a consciencia da minha transformação lenta -de podridão em terra. Vou, vou. Oh terra, adeus! Eu derramo-me já pelas -raizes. Os atomos fogem para toda a vasta natureza, para a luz, para -a verdura. Mal ouço o rumor humano. Oh antiga Cybele, eu vou escorrer -na circulação material do teu corpo! Vejo ainda indistinctamente -a apparencia humana, como uma confusão de ideias, de desejos, de -desalentos, entre os quaes passam, diaphanamente, bailando, cadaveres! -Mal te vejo, oh mal humano! No meio da vasta felicidade diffusa do -azul, tu és apenas, como um fio de sangue! As efflorescencias, como -vidas esfomeadas, começam a pastar-me! Não é verdade que ainda lá em -baixo, no poente, os abutres fazem o inventario do corpo humano? Oh -materia, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta! -Eu vejo já os astros correrem como lagrimas pela face do ceu. Quem -chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formidavel da terra! Oh mundo -escuro, de lama e d'oiro, que és um astro no infinito,--adeus! adeus! ---deixo-te herdeiro da minha corda pôdre!» - - - - -A MORTE DE JESUS - - -Por estranhos acasos encontrei este velho manuscripto copiado, n'um -latim barbaro, do antigo papyros primitivo. Não o traduzo textualmente: -seria incomprehensivel, irritaria os nossos habitos criticos, -psycologicos! Transporto para a linguagem moderna, complexa, ductil, -sabia, o estreito dizer antigo. - -Assim ordenado, este documento, que não encerra coisas novas, põe -todavia em relevo muitos estados de espirito, muitas situações civis de -uma pessoa excepcional, que tem notavelmente merecido n'estes ultimos -tempos a attenção da historia e da critica. - - Jerusalem, Mediterranean Hotel, no Acra, 1 de Dezembro de 1839. - - - - -A MORTE DE JESUS[41] - - _Dies irae, dies illa..._ - - - - -I - - -O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho -e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade -sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuarias de Siloeh, quero -contar o que sei e o que vi d'um homem excellente, que na minha -mocidade esteve, pelos acasos providenciaes da sympathia, intimamente -ligado á minha vida. N'estes ultimos tempos, sobretudo, a sua imagem -vive activa e poderosa no meu cerebro; e quando, pelo findar da tarde, -a esta luz maguada que então habita no ceu da Judea, eu me vou sentar -junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e -a velha Sião, cheia de claridade, e as ruinas de David, é n'elle que -penso--e n'esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba -escura, o andar agil e firme, e a esperança facil. - -Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da -cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão -fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro. - -Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro, -João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e -socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha, -retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade, -andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a -sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus, -Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor? -Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos -esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida! - -É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e -bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e -comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres. - -Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço. -A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção -de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se -trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem: -alli se orava, se celebrava, se tratavam as questões civis, se -julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei, -se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes -e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições. -Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria -havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos -pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os -romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo, -observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra, -exercitarem-se em luctas. - -A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as -portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que -se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos, -ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam -tocados de impureza. - -Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse) -que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da -lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham -estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli -vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas -de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo -era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma -feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de -Cesarêa, do que o interior da casa de Deus. - -Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os -escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi -cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho -dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae -cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella -sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem -na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a -sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi -se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma, -de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal. - -Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho, -entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas -d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica -indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros. - -Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus, -respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da -lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga, -querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito -sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se -ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola, -contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando, -vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se, -n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução sobre a testa, com a mão -toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam -pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem -os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres, -os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste: -caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés -nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios -de appetites, como um homem sanguineo! - -Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos -sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade: -são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos -nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto -a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as -bellas mulheres da Idumea. - -Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o -tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi -por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a -policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por -quem os meus olhos ainda se humedecem. - -Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres -ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte -das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a -multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito -que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros -tinham-se vindo encruzar nas suas esteiras junto das columnatas, com -as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia, -cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa -gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores, -havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha -os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da -Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle -era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha -o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições -inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura -erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia -do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem. - -Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras, -arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam. - ---Ide!--disse-lhes elle então--vós fazeis da casa da oração uma caverna -de ladrões! - -E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas. -Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação -sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas -que gritavam. Eu olhava, admirado. - ---Quem é este?--perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle, -e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan. - ---Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea! - - - - -II - - -Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos -prophetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vae até -Joppé. Não direi o que penso da intenção prophetica e da crença -messianica. Só direi que os prophetas que, no meu tempo, vieram e eram -lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz collectiva, a -esperança, a consolação e o allivio. - -O povo era profundamente infeliz: os saducceus afogados nos seus -repousos, os phariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e -doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além -de tudo estavam longe do povo, n'uma separação desdenhosa e emphatica. -Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto. -Já na vida estreita e toda commum de Jerusalem, já nas conversações -dos atrios do templo, já nas minhas demoras em Bethel, em Ephraim, em -Galilea, eu via, comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado, -eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo, -refugiava-se, maltratado da terra, na esperança d'um libertador, d'um -Messias. O judeu é dado a preoccupações divinas e a sua verdadeira -patria é em Deus. - -Uma serie d'homens fortes e piedosos eram os interpretes d'este desejo -ideal, eram a voz d'aquella melancholia, e eram os amigos do pobre, os -asperos juizes do rico, os consoladores austeros. - -O povo, suffocado pela sua paixão interior, sentia-se alliviado, -consolado, quando um propheta fallava. Os prophetas confirmavam a -vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a -paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: d'ahi a -exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em -desejo e vontade. De sorte que todos os annos appareciam videntes e -inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria. -Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja -original, amigo do pobre, annunciador da boa nova: Schammaï, Hillel, -Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça, -viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da -esperança religiosa, não tinham a paixão messianica. Eram espiritos -sabios e justos, e não videntes possuidos de fé. - -Ora, n'esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por elle -a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda d'elle; -tinham desalentos, esperavam avidamente os signaes mysticos, e as -almas fallavam baixo, porque vinha o Senhor! - -Eu mesmo tinha visto muitos prophetas, muitos mestres innovadores; -não conhecia João Baptista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia -que elle tambem prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a -olympica Herodiade, se definhava n'uma prisão de Antipas. - -No emtanto nunca nenhum d'esses homens me dera uma sensação feliz como -esse Jesus de Nazareth. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz -poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me n'uma vaga -e imprevista perturbação, como quando se olha para o ceu, que se suppõe -escuro, e de repente se vê uma estrella immortalmente luminosa. - -N'essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado -do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se -conhecia Jesus de Nazareth, que prégava na Galilea. Simeon disse-me, -com um riso: - ---Que sabes tu que possa vir de bom de Nazareth? - -Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos -conversando n'esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram -fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco orthodoxos: -que o sangue estava n'elles muito misturado; que tinham muito do -samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos -a fallar, insufficientes a pensar; e que _idiotismo galileo_ era um -proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a gente de Galilea me parecia -simples e dedicada; que quem vive n'uma natureza tão humana, tão cheia -de aguas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades -finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sobrios; -e que Isaias tinha dito:--«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali, -caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu -uma grande luz!» - ---Ora, Simeon--dizia eu--estas palavras de Isaias indicam que na -Galilea póde nascer um propheta! - -Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de -Salomão: a natural belleza, as arvores, as vinhas, a perspectiva suave -e recolhida dos valles de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca -serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatorios -de Salomão, fazem d'aquelle logar um retiro bom para espiritos sabios, -para aquelles que teem no coração uma ideia, ou que são habitados por -uma esperança: alli se reunem assim muitos de Jerusalem! N'aquelle dia -andava alli, absorvido, grave e vagaroso, o sabio Gamaliel. Gamaliel -era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza, -a tradição--elle era a sciencia; se os outros eram a lei--elle era -a justiça. Eu, preoccupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se -conhecia aquelle homem severo: - ---Pelo que sei d'elle--disse Gamaliel--penso que é um justo. - -Guardei com amor esta palavra: ella correspondia á attracção suave -e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a -Jerusalem, pensava n'elle: via-o irritado e augusto: imaginei-o cheio -da colera do justo e da rebellião do opprimido: o que elle prégava -decerto era a condemnação do rico e a humilhação do phariseu. Era o que -tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um propheta amado e seguido, -que fôsse a alma d'uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o -povo, anniquilasse os sacerdocios corrompidos, expulsasse o romano, -que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha -Judea, que fôsse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos. -Produzira a Galilea esta alma terrivel? Ou será Elias ressuscitado -d'entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada -para casa de Hannan. - -Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do -templo o fôsse seu genro Caiphaz; mas elle era o espirito, a direcção, -o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era -velho, sabedor das tradições, astuto; possuia enormes riquezas, -conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo. - -N'um dos largos pateos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume -reunirem-se em volta d'um grande fogo, quando o frio entristecia -Jerusalem, os officiaes do templo: ás vezes vinham escribas, doutores, -sacerdotes affaveis. Aquelle grupo, sempre egual, era como uma -consciencia um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava -algum austero doutor phariseu, pedia-se a um soldado expedicionario -que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das -collinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas -latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam nas suas -barbas brancas. N'essa noite, quando eu atravessava o atrio d'Hannan, -cruzei-me com aquelle galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus -de Nazareth, na galeria de Salomão. Elle costumava vir alli vêr -uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea. -Chameio-o, tomei-lhe as mãos, fallei-lhe affavelmente em Jesus de -Nazareth: eu, emfim, comprehendia bem aquelle que por um imprevisto -interesse, pela elevação da sua palavra, pela belleza do seu aspecto, -habitava já no meu peito, como um amigo d'antiga mocidade. - - - - -III - - -João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples, -mas penetradas de fé e de desejo. - -Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o, -pela intuição, em Nazareth, educado por aquella doce paizagem da -Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras -patriarchaes. - -Eu tinha alli viajado, e muitas vezes me tinha sentado n'um rochedo, -nas alturas de Nazareth. Se algum logar ha no mundo em que o homem -sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o -contingente e fugitivo das affeições e dos desejos, é alli, n'aquelle -vasto e socegado horizonte, em que parece que o ceu exerce mais -profundamente a sua attracção infinita sobre a alma captiva. - -Que pomares, que prados, que humanas aguas, que aldeias delicadamente -adormecidas entre as figueiras e as vinhas! - -E eu via Jesus, imaginando, esperando, n'aquelle humido paraizo da -Galilea e nas suas montanhas queridas, de bellas fórmas amorosas! - -Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus, -entrando a fallar nas synagogas, correndo as aldeias, ajudando as -pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrellas tão -bellas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que -encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e -ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes. - -Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e -apenas teem visto da natureza as suas collinas calvas e os seus valles -cheios de mortos, riem quando se lhes falla na natureza do norte, na -fecundidade da Samaria e da Galilea e na excellencia d'aquella gente. - -Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações, -será por alguem vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta -Jerusalem aspera, secca, toda de pedra e de indifferença, só fará -espiritos estreitos, phariseus argumentadores, escribas e lapidadores -d'homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach, -de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da -seiva das arvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe d'aquellas sombras -e do rumor d'aquellas aguas. Jerusalem será a lei, a auctoridade, a -sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o -sacrificio. - -Alli não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias syrias que eu amo, onde -as mulheres teem o seio pacifico, os homens a força serena, e até -os pequenos burros teem um olhar doce, em que parece habitar uma -resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede -a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia aspera, qualidades -de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, tumulos gregos dos -Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos -regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas -de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas -estradas da Galilea: vêem-se os casaes escurecidos pelas sombras -das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras -estrelladas de vermelho: vae-se n'uma fresca espessura povoada d'aves -gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente deante d'uma -porta, á sombra d'um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as -fórmas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da -fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se -encontram phariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos! - -Era alli que Jesus vivia, fallando pelos campos, pelos casaes e nas -synagogas: alli devia ser escutado: não tinha sabios da lei para o -contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer -a verdade aos simples! - -O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me -d'uma affeição ineffavel pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de -Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas -suas aldeias e pelos caminhos das suas villas! Ai! Magdala, Chorazin, -Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, secco, -pallido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha -esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de agua, -onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo, -cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago -cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do -lago, cheia de tamarindos, onde a agua, tão azul como os olhos das -mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas -verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do -meu peito, as pudesse sepultar fóra de mim, escolheria a tua relva, ó -terra de Nephtali! - -Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores; -aquelle clima é tão doce, tão affavel, que o homem pouco pensa no -seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as -estrellas, ao rumor da agua. Jesus pescava, ou fallava n'uma barca, no -socegado embalar da agua, aos seus companheiros de rede: assentava-se -ás vezes sobre as collinas, que são d'uma viva liberdade d'ar e de luz, -e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se -a si, ensinava o seu coração, fallava das esperanças do reino de Deus. -Elle amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os -lyrios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das -creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: elle pedia apenas -que o amassem, e não tinha razões inflammadas de propheta. Elle era o -centro de todo o amor na verde Galilea: dava a esperança ás almas: -dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre. - ---O ceu é dos simples--dizia elle.--Os que choram serão consolados; os -miseraveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a -mim: sereis saciados. Sêde pacificos, sêde puros. Se vos perseguirem no -reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do ceu. Segui-me, segui-me!... - -E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casaes: -as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz immortal dos seus -olhos. Todos queriam errar com elle pelo paiz de Genezareth, comendo os -fructos casuaes dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos. - -Elle explicava Deus de um modo novo: ninguem o conhecia melhor: elle -era a consciencia viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo -de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitario, tenebroso, -irritavel: o seu Deus era o pae, o consolador, o purificador, o -eternamente sereno, o eternamente justo. - -O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade, -a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrificio. - ---Se vos ferirem, offerecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos -perseguirem, orae! Que merito ha em amar os que nos amam? - -Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia, -era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos phariseus: -com effeito, para que são tantas purificações, tantos cilicios, tantos -usos de piedade? Para que hão de os phariseus trazer nas suas tunicas -as tiras de papyrus, que são o signal da devoção, e para que dão a -esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda? - ---Quando tu deres a esmola--dizia o Mestre de Nazareth--que a tua mão -esquerda não saiba o que fez a direita. - -E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que elle não -era como os mais prophetas, não se retirava para o deserto, não se -emmagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas -rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás -vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que ahi estava mais -na fraternidade dos seus, e no coração de Deus. - -João fallava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joanna, mulher de -Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia -do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, ahi e em Tiberiade, tinha -tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicavel era a -essencia d'aquelle ser; tinha espasmos, contracções, enthusiasmos -perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril -pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notaveis d'então, -penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de -phariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos -os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo -o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação -das moreias em reservatorios, a composição de aromaticos, o estudo -das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi -para Magdala. Ahi viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do -Mestre, e amava a sua figura delicada e bella. Tinha, porém, fortes -impaciencias, erguia discordias com os discipulos, retirava-se para -o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era -maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza. - -Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica -franjas de Tyro. - -Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os -publicanos, todos os peccadores. - -Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais -(dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de -Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça -tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um -propheta irritado? - ---O Mestre é a propria doçura--dizia-me João. - -D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador? - ---Desde quando é elle assim?--perguntava eu a João. - ---Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem. - - - - -IV - - -Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto -eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham -desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o -meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades -ou desdens. - -O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores -approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; -encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das -piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os -pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam -a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos -cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes. - -Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um -velho camarada do templo, Josué, que andava ha muito pelas villas -de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem -conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal. -Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho -de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero, -attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado -João, a essencia do Rabbi da Galilea. - -Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que -conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, -mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que -prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição -e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica, -sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os -sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos -pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas; -que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se -associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções, -nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem -auctoridade entre os doutos e entre os ricos. - -Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos -phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio -d'Hannan. - -Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela -rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um -contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea, -e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era -um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto -e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos -Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das -esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo? - -Encontrei João, conversando no atrio lageado com um homem da milicia -sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente -estrellada de lampadas. - ---João--disse eu--dize o que vem fazer a Jerusalem o sabio de Nazareth? - -João olhou-me: - ---Vem á festa da Paschoa--disse elle, lento. - ---João--insisti--pelo Messias, e pela liberdade do Baptista, -prisioneiro d'Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo? - ---Prégar--disse João. - -Comprehendi, rapidamente, todos os resultados d'aquella lucta original. - ---Vae!--lhe disse eu exaltado--dize-lhe que parta, que volte para o -lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com -os que o amam, socegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as -portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como -propheta á columna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre -das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os -prophetas! - -João tinha o espanto nos olhos, na voz. - ---Eliziel! Eliziel! - ---Que volte, que volte para a Galilea! - -E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos -interiores d'Hannan. - -O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre -largas pelles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava syria, de Damasco, -cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices. - - - - -V - - -No outro dia, casualmente, tive ordem de Caiphaz para ir á Galilea, -em serviço das synagogas: a concentração dos sacerdotes rituaes -em Jerusalem obriga assim os officiaes do templo a successivas -peregrinações; porque as synagogas estão dominadas pelos escribas e -pelos sophorins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas. - -Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a -todo o paiz que fôra até ahi o centro amado de Jesus. - -Em toda a região do lago achei muitos espiritos, ou mais simples, ou -mais lucidos, ou mais amantes, singularmente occupados na sympathia e -na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazareth. - -Fallavam-me longamente da sua doutrina nas synagogas, das suas palavras -nas collinas: e a figura moral de Jesus accentuava-se, definia-se -progressivamente no meu espirito. - -Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som -captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da -rede: fallava devagar; entre silencios, as altas verdades, as palavras -profundas appareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante, -tocado de uma luz inesperada. Contava parabolas, historias; repetia -com paciencia, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, attentos, -outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam -pasmados a agua. Elle fallava, socegado, ou afagava uma creança, ou, -contando as parabolas, concertava a sua rede. - -Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida. -Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores. - ---Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuario--dizia -elle.--Olhae as aves do ceu: não semeiam, nem ceifam, e o pae dos ceus -é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos -campos. - ---Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lyrios: não -trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua -gloria, não estava vestido como nenhum d'elles na sua simples candura. -E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, ámanhã -seccam, não o fará por vós, homens de pouca fé?! - -Por isso os discipulos seguiam-o assim, enlevados n'aquellas ambições -ideaes, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. N'aquelle pensamento, -o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que -assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade. - ---Vendei o que possuís--dizia elle--dae o dinheiro em esmolas! - -Realmente de que servem na Galilea as riquezas? - -Alli só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul, -mais repouso á agua: o pobre, o mendigo, é o rei mysterioso d'aquella -gloria da folhagem e da luz: para elle se vestem as açucenas de branco, -para elle resplandecem os regatos. - -Jesus glorificava o pobre: n'aquelle evangelho da Galilea, o rico -é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: elle tem os -largos vestidos faceis, macios; elle come sobre leitos cobertos de -pelles; elle enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come -escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a -sua tunica; traz apertada á cintura, tendo sobre ella uma pedra, a -moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuario -do pobre, e da brancura do lyrio; elle velará para que ao homem não -falte o pão e á rola o grão: elle fará no ceu, ao pobre, um sacco, um -thesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões. - -O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o -emmagreceu na vida, uma chamma o consumirá na existencia extra-humana. -O pobre estará junto de Deus, e a sua face será immortal e altiva. - ---Porque, em verdade, vos digo--ensinava o Mestre--que é mais facil -passar um camelo pelo fundo d'uma agulha, do que entrar um rico no -reino de Deus. - -Assim fallava elle á beira do lago, e, desprendendo os homens dos -fataes cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da -vida. Os tedios da existencia ordinaria, a discordia dos interesses, -as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da -miseria, a apathia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as -desconsolações da doença, todos estes antigos demonios desappareciam e -a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir, -esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da -terra tem alimentado. - -A alma tinha emfim um logar, o _seu_ logar, o seu espaço, que era o -_reino de Deus_. O reino de Deus era o reino das creanças, dos simples, -dos desherdados da vida, dos que soffrem, e até do samaritano, e até do -pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós não quereis -esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os phariseus, os -saducceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os principes! vinde -vós, pois, os humildes, os repellidos, os lapidados, os enfermos, os -culpados, todos os que elles repellem, todos os que elles amaldiçoam! -Desgraçados de vós, oh ricos, que estaes saciados, porque tereis fome! -Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis em lagrimas! - -Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existencias -sacerdotaes! Os nossos prophetas já tinham, contra o rico impio e duro, -coleras terriveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora o -Rabbi feria assim violentamente todo o judaismo sacerdotal do templo, -porque fazia, dos que elle despreza e domina, os preferidos, os bem -amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o phariseu -não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto? -Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se -á entrada dado santuario tocaram n'um mendigo ou n'um publicano? - -Mas Jesus, na immortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal -divino, já não sómente chamava a si o desherdado, mas chamava o culpado. - ---O culpado é infeliz--dizia:--merece por isso mais que o justo o calor -do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso, -porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas. - ---Havia uma mulher aqui--dizia-me o homem bom de Chorasin, que me -explicava estas coisas immortaes--que era repellida, mal vista, -amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da -synagoga se approximavam d'ella, mas de noite, sob as figueiras -do cemiterio, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a -tunica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se -inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquella -palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue -Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se -sente amante, mais se sente perdoada. - -Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada -palavra, julgavam-se já no paraizo immortal. Elle ia seguido dos -seus, confundido com todas as alegrias, apparecendo nas bodas e -nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada -na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou -montado n'um pequeno burro, que os discipulos cobriam com as tunicas; -ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, fallava -ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casaes, nos hortos; as -creanças vinham, vinham as mulheres:--«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa -nova: és tu o Messias?»--Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores -fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães -mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos -vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: elle ria, agasalhava-os; -quando elle passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho. -Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viuvas limpavam as suas -lagrimas; elle fallava de Deus, e endireitava as cannas de milho caidas -no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe: - ---Mestre, tu és bom. - ---Bom só é Deus--dizia elle, sorrindo. - ---Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraizo? - ---Amae os outros, dae aos pobres, segui-me! - -E seguiam-o todos, enlevados n'aquelle sonho ideal, o mais bello, o -mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem. - -Então o ceu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela -primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez -o estreito sorriso do velho conteve a esperança! - - - - -VI - - -Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do -captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz d'aquellas palavras. - -Voltei a Jerusalem: passei sobre o Thabor, d'onde se vê a larga -planicie d'Esdrelon, amada dos heroes, o branco Hermon, Endor, e as -montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda -escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph -foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, patria da forte -Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades d'Israel, -hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto -da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah: -Siloeh, onde se fez a partilha do territorio entre as tribus, e onde -pousou pela primeira vez o tabernaculo, depois da conquista de Canaan. - -Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de -seivas e de rosas: junto ao Jordão andavam ainda alguns discipulos de -João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lugubres collinas de -Judá, asylo de prophetas, tumulo dos heroes: uma madrugada entrei, só, -em Jerusalem. - -N'esse dia logo, subi ao templo. Junto dos porticos exteriores, onde -trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi, -entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazareth. Estavam -parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante -d'um cambiador de moeda, trocava drachmas, attento. Parei, commovido, -a olhar profundamente o Rabbi. Elle estava triste: os braços caidos, -sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas, -delicadas, pessoaes, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os -olhos cheios d'infinito, que pareciam olhar d'um logar inaccessivel, a -testa larga, expressiva como a immobilidade d'um ceu, assemelhavam-se, -superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra--aos olhos, á -testa d'Hillel, de Jesus de Sirach e d'um outro, que era como elles -dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A bocca tinha uma fórma -tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia -que d'ella só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno -dos labios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma -gravidade, uma belleza austera, que denunciavam a origem das palavras -elevadas, e faziam sentir o propheta. Parecia-me vêr-lhe, na parte -inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão d'energia, que o tornavam -um pouco semelhante a Judas Galannite, o poderoso agitador, em quem a -acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples. - -Elle olhava os trabalhos dos porticos, com um desdem sereno. Nos -galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento. - -Entrei no santuario: nas camaras dos serviços dois escribas -argumentavam junto da arca do thesoiro, com exclamações abundantes. -Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara -no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias -da piscina probatica; que argumentára com os escribas, e que em casa de -Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi: - ---Elle é bom e justo: mas não diz coisas novas. - -Argumentava-se muito sobre aquella palavra contida o desdenhosa do -sabio Gamaliel, entre os privados d'Hannan. - ---Mas Gamaliel--dizia soberbamente o escriba--é um homem alheio a -nós; entretem relações com essa gente da escola d'Alexandria; viaja -demoradamente em Sichem onde estão os hereticos, e em Cesarea onde -estão os romanos, e dá-se á cultura hellenica, desprezando a lei. - ---Homem--disse eu--em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo -as lettras gregas? - -O escriba riu finamente, como em triumpho: - ---Pois não diz o texto:--e a sua voz era compassada e -emphatica--«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres -desagradarás ao Eterno?» Ora--e traçava amplamente a capa, tossindo, -victorioso--ora Gamaliel só não desagradará ao Eterno se estudar a -sabedoria grega n'um tempo, que não seja nem a noite nem o dia. - -O outro escriba, que era Eliel, d'Ephraim, approvou ruidosamente, -batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se, -risonhos. - -Saí das camaras leviticas, á hora setima, quando ha nos terraços do -templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as -folhas de metal diante de si, em movimentos rythmicos; outros vinham -comprar offertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre -questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo -passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que -annunciam a hora dos sacrificios: os doentes cantavam os psalmos; as -mulheres leviticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores, -espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das -primeiras columnas, batendo em discos de metal. - -Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado -de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosanna, ao filho de -David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que elle era -entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe -o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns -phariseus, tomados d'exaltacão, queriam a convocação do sanhedrin. Um -velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadencia da escola -prophetica d'Israel. - ---É um ignorante--diziam, com desprezo, vastos doutores. - -Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas -eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido d'um arvoredo, fallava do -Mestre: alguns velhos diziam:--Sim, sim, irmãos, este é um propheta! - ---É o Christo! É o Messias!--clamavam grandes vozes. - -Muitos iam, correndo, prostrar-se deante da porta da Arca bradando: - ---Graças, Senhor, o Messias chegou! - -Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo -templo, gritando: - ---É o Messias, é o propheta da Galilea! - -Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo: - ---Que dizeis? Vós não conheceis a lei! - ---A lei diz que o Messias virá, e que Elias resuscitará! - ---Calae-vos!--bradavam os escribas--Sois tambem galileos? Não sabeis -que a escriptura diz que o Messias ha-de ser da geração de David? E não -sabeis vós que este é o filho do carpinteiro Joseph, e d'uma mulher da -aldeia de Caná? Não vol-o tem dito todos os que veem de Nazareth? - ---É verdade, é verdade--diziam alguns. - ---E não sabeis--continuavam--que os textos dizem que o Messias nascerá -em Bethleem, e onde nasceu este? Em Nazareth, bem o sabeis. - -Uma voz, receiosa mas irritada, disse: - ---Pois elle nasceu em Bethleem! - ---Em Nazareth!--bradaram alguns escribas. - ---Sim, sim, em Nazareth--disse a gente. - ---É, pois, o Christo?! Ide, homens amaldiçoados que andaes afastados da -escriptura!... - -Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias -areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no -Tyrepeon. - - - - -VII - - -Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a porta dos Rebanhos, -atravessado o Cedron, subido a Bethania. - -Quando eu voltava para Bezetha, veio a mim um homem muito conhecido em -Jerusalem, que era Jesus Bar'Abbas. Era uma figura descarnada, torta, -arqueada, cheia de cicatrizes, immunda, rindo sempre, em farrapos. Era -uma especie de truão de Jerusalem. Tinha gracejos, farças, deslocações: -espancavam-o, elle ria, estendia uma ponta da tunica para aparar -os drachmas. Encontrava-se com a sua lampada em todos os noivados, -gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições, -em todos os supplicios com uma cantara de _posca_, para vender aos -soldados. Tinha todos os desastres da miseria, do vicio, e era servil. -Os soldados expedicionarios espancavam-o, ás vezes prendiam-n'o, -mas o povo cobria-o com uma protecção avara. Era casado. Tinha uma -voz vibrante, forte para cantar os psalmos e imitava os prophetas, -prégando. Cheirava miseravelmente a alho. - -Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que n'essa noite -Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os officiaes do -templo e sacerdotes, fóra das muralhas, em Betphagé. - -Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com -orgulho que fôra amigo do gladiador Esterius. - -Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus -atrios. - -N'essa noite fui a casa do Hannan. Nos pateos, João aquecia-se ao lume, -junto da velha de Capharnaum. - -Caiphaz e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos: -Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caiphaz -aquilino, duro, aspero, tinha uma attitude desdenhosa. Dois escribas, -encrusados no chão, comiam. - -Quando o serão ia remoto, repentinamente Caiphaz mandou-me a casa de -Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava: -tinha havido exigencias do legado imperial sobre os vasos do templo. - -Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era -negra, quente, molle: ouviam-se apenas uivar os cães. - -Em Betphagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a -ceia, sob um grande velario feito á moda grega, suspenso ás ramagens -dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas -lampadas resplandeciam. Flôres de Damasco, rosas de Jerichó, jasmins -de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros -de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da molle vitalidade que -dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cantharos envoltos em -palha, jarros cinzelados. Os escravos phrygios, com os longos cabellos -relusentes de oleo, giravam apressados. - -Havia alli membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos, -sadduceus, phariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em -sacrificios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos -deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram -gordos, fortes, vermelhos. Quasi todos tinham a physionomia aspera, -adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas. - -O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma -ampla respiração aos peitos, uma feliz scintillação aos agudos olhos -negros. Havia largas risadas. Phariseus austeros, que se ferem -nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos d'aço brunido, -devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e -desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns, -decrepitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas -mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras. - -Alguns, estendidos sobre leitos como animaes que ruminam, tinham as -tunicas soltas, os braços nús. Cabeças energicas, duras, mostravam uma -expressão irritada, fixa, vasia; os velhos tinham largos risos cynicos. -Uns dormiam, outros cantavam. Um velho curvado, frouxo, rouco, -lembrava as mulheres e os phariseus. Entre esta multidão sacerdotal -havia um romano. Era Publius Sextus, logar tenente do legado imperial; -fallava com palavras abundantes, largos gestos. Era pallido, com uma -pequena cabeça energica e voluntaria; era devasso, servil, falso, -luxuoso, e vinha de Caprea. Era alli escutado como um propheta na -antiga Israel; fallava da via Appia, das festas de Roma. - -Eu escutava, encostado a uma arvore, na escuridão, concentrado o triste: - ---Só em Roma se vive--dizia elle.--Isto é peor que o bairro das -Esquilias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo -Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem -aqui como Evandro recebeu Hercules, com farinha cosida e uma esteira -espartana! - ---Mas vós outros, os romanos, sois glutões e amigos do vinho!--disse -Nathaul, um escriba, homem invejoso, com labios carnaes. - -Mas Publius fallava d'uma ceia em casa de Atticus, antes de vir a Ostia -embarcar com o legado da Syria. - ---Quereis saber?--perguntava. - ---Dizei, dizei--gritavam curiosamente pela meza. - ---O chão era de mosaicos gregos. Entre as columnas havia largos pannos -tecidos d'aço, pesados, á moda de Carthago. Um vapor d'agua tepida -penetrava os musculos, enlanguescia. Tinhamos esfregado os braços, o -peito, com pedaços de pelle de tigre humedecida d'oleo. Os membros -estavam ageis, faceis para as danças, para as escravas! Do tecto caíam -folhas de rosas humidas! - -Todos tinham olhos scintillantes; estendiam-se para escutar; alguns -estavam de pé, junto de Publius. - ---O trinchador--dizia elle--o trinchador, meus amigos, era o proprio -Tripherius! Tinhamos lebre, gazella, faisão de Lichtia, cabras da -Getulia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido herva, e -tartarugas delicadamente preparadas em môlhos da Campania, na propria -concha, polida, transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas -nadando no azeite de Venafre! As taças eram d'ambar. Que dizeis vós? - -Os austeros doutores, os graves herodianos, os phariseus, cevados, -oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a bocca riscada de vinho, -tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius. - -Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo. -Todos admiravam. - -O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em -tecidos diaphanos, correndo em choreias, em volta dos triclinios, e -aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!--E -fallava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz -branda, curvando-se: - ---Que estas mulheres syrias--dizia--teem uns olhos escuros, que valem -centenares de sestercios! - -Os outros riam. Fallavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam, -desejavam. - ---Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas são devassas, e -tudo alli terminará, como em Sodoma e Ninive! - -Quem assim fallava era um phariseu, Essen, homem magro, livido, cavado -de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e -parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para -lembrar a morte e o terror de Jehovah! - ---Devassas, dignas do fogo--para vós, devotos e zelozos! Mas bellezas -impeccaveis, immortaes, para quem póde desapertar a rêde d'oiro, em que -ellas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que -as fazem mais appetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que -ellas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea. - -Publius fallava, inflammado, descomposto: tinha gestos lascivos; -bradava os nomes das damas romanas: - ---Vêde Laupella, uma patricia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do -actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que -em plenos jogos megalesios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu -na estatua do Pudor! - -Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam: - ---Contae, contae! - -Enchiam as amphoras; arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa, -com a cabeça appoiada nos braços, esperavam voltados para Publius, -com olhos perturbados. Os velhos abriam largamente uma bocca escura, -sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos. Um escriba da arca do -thesoiro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz aspera, arrastada. O -circulo de cabeças avidas, duras, curiosas, destacava violentamente -no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a tunica -clara manchada de vinho; tinha os braços nús, brancos, femininos: e com -largos gestos: - ---E Tucia! e Tucia!--gritava--Eu vi-a um dia no theatro, quando o -actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascivias o papel de Leda, -torcer-se no seu logar, arrancar a rêde dos seus seios, e com os olhos -mortalmente languidos chamar a altas vozes:--Bactylo, Bactylo, vem! - -Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:--Bactylo, Bactylo! - -Os velhos torciam-se nos seus triclinios, tomados de riso, de -escandalo. Alguns escribas gritavam:--_Viva Roma!_ Os phariseus tinham -olhos terriveis, e uma attenção avida. Um cortava violentamente o pau -do estrado, mordendo os labios! - -Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolencia dos -escravos, queria lançar fogo ao velarium, e dizia: - ---Quem conhece Cessenia? Ninguem conhece Cessenia? Cessenia tinha de -dote seis milhões de sestercios. Casou com Sertorius, o pobre, com a -condição de poder escrever deante do marido os bilhetes aos amantes, o -poder ir deitar-se uma vez cada mez, para quem entrar, no leito alugado -de um lupanar do Suburra! - -Os escribas riam, esvasiavam as taças, desafogavam o pescoço das -tunicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas á -cintura, onde está escripta a lei. Um, ebrio, com os olhos riscados do -sangue, pedia o culto de Baal. - -Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclinios, curvados, -enroscados, immoveis. Os phariseus torciam os braços, fallavam de Tyro. - -Publius clamava: - ---Pois que ha de melhor que vêr uma patricia, de longo penteado e saia -curta, depois de estar cheia d'ostras e lagostas irritantes, beber de -um trago n'uma enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre -o mosaico humido de vinho, caír sobre o nosso peito, gritando em grego: -_minha alma, minha vida, ai!_ - -E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a -garganta tumida de suspiros, arquejando! - -Os escribas, os phariseus estavam cheios de delirio e de vinho. Riam -animalmente. Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão: -mordiam as almofadas dos triclinios. Derramavam o vinho sobre os -vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças exaltados. Um -jogava a lucta com uma arvore, depois envolvia-a, beijava-a. Cantavam -em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões -lascivas. Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados. -Corriam, inflammados, como n'um mysterio sagrado. Alguns gabavam-se de -devassidões occultas. Fallavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres, -de prostituições sagradas no fundo dos bosques! - -Publius gritava: - ---Não sabeis, phariseus, não sabeis a aventura de Lentullus? - ---Não, não!--bradavam alguns penetrados da alegria, do escandalo, de -curiosidades inflammadas! - ---Lentullus casa com uma virgem patricia, neta de consules: nove mezes -depois prepara, segundo o costume, para o filho que vae nascer, o berço -de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no ás -boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da via Appia rompe em -risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Eurialo, e -tinha, como elle, trez verrugas no queixo. - -A risada fazia o ar sonoro. Publius de pé, manchado, com a tunica rôta, -descomposto, gritava: - ---Ouvi, ouvi! - -Escutavam com um riso inquieto. - -E Publius, emphatico: - ---Os actores--dizia--os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta, -os truões, são os paes de todas as creanças que nascem na nobreza -romana! - -Um velho phariseu, elevando sacerdotalmente uma amphora, gritou com uma -voz terrivel: - ---Vivam os truões! - -A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão. -Era bestial e immundo. - -Bar'Abbas, espancado, cambaleava, blasphemando, jovial. - -O vinho começava a domal-os: alguns escorregavam, caiam, agitavam-se -como agonisantes, e perdiam os espiritos n'um somno petrificado. Outros -penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da herva -e da agua. Uns fallavam como n'um delirio grotesco. Dois escribas -argumentavam, freneticos, hostis. Um forte e vasto phariseu, de bruços -sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, roía monotonamente uma flôr. - -Simeon resonava no seu estrado. Publius no chão humido. Os escravos -deitavam pelles sobre os dormentes. Os lampadarios extinguiam-se. Vinha -um frio humido. Cantavam os gallos. - -Eu atravessei o pomar, subi a um terraço. - -Uma claridade assustada, abatida, apparecia. Eu via ainda reluzirem -lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das -Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito d'um -chacal. Via Bethania; alli Jesus dormia sereno, puro, impeccavel. - -Voltei aos porticos da casa, pela rua areada do pomar. Alli havia -um rumor; os escravos, agitados, fallavam. Alguns da milicia do -templo tinham encontrado, no portico de David, nas lages, uma mulher -nos braços d'um homem. Era uma adultera; a milicia trazia-a a casa -de Simeon, que n'aquella semana fazia a condemnação dos desacatos -ao templo, em nome do sanhedrin. A milicia tinha sido diligente, -apressada, minuciosa, porque a miseravel, era mulher de Bar'Abbas, e -todos queriam vêr as contorsões joviaes, o desgosto grotesco do truão! -Mas Bar'Abbas estava prostrado, immovel, enroscado no chão. - -Fui ao logar do velario: os doutores, os phariseus acordavam: era já -manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis; -aconchegavam-se nos mantos, lividos, tomados do frio: procuravam os -cintos das tunicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as -laminas da lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam agua -clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam, -mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de -rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas. -Simeon, absorto, somnolento, bocejava: - ---Vinde--dizia-lhe eu--tendes serviço; vieram uns da policia, com uma -miseravel mulher. - -Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava, -arrastando os coturnos, para o seu pateo civil. Phariseus, doutores, -membros do sanhedrim, seguiam-n'o. O pateo era largo, em columnas. Uma -lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava. - -Os da milicia fallavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em -cantharos. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil, -soluçava. A tunica aberta, deixava vêr a forma impeccavel do seio. - -Simeon interrogava. - ---Vem presa--dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no -silencio;--acharam-n'a á porta do templo, no portico de David. Vêde-a. -Estava em acto d'adulterio. - ---Oh!--disseram todos indignados. - -E phariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos -mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando: - ---Lapidada, lapidada!--disseram irritados. - -Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados, erguendo os -mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher -adultera. - -Essen afastou-se, e fallou junto ao ouvido de Simeon. - ---Sim, sim--disse Simeon, e voltando-se para os da milicia:--Esta -mulher que seja aqui guardada até á hora sexta. - -Eu saí. Os soldados romanos, abriam com estrondo metallico as portas -de Jerusalem. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes -dos hortos de Betphagé, da Bethania: os camponezes de Bethel traziam -os saccos de trigo: passavam solemnemente as fileiras de camelos. Um -beduino de Idumeia conduzia rebanhos: as rezes balavam. Do alto da -torre Antonia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores -sentados em seus burros: um vidente clamava! - - - - -VIII - - -Eu ia triste: o amanhecer, a apparição espiritual da aurora, enche -de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne. -Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu -artificio, tão altivos despresos. - -Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me, -obscuro e inconsolado, para os meus monotonos officios do templo. -Alguns dos phariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de -Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrificios. - -O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia: -pensava nos prados da Galilea, nas aguas do lago, nas espessas -folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga, -pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse -um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planicies de -Saron! - -A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido d'um mercado: -a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia -material, dura, mesquinha, suffocante! Ia-me encostar á balaustrada -da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do -monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuarios, de roçar -pelos phariseus, escribas, por aquellas hierarchias sacerdotaes que -me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em -bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos -mortos. - -Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria -odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre. -Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via -uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação: -os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi -enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes -que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa -das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia -em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um -açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende -a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso -imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples -e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos! - -Invejava quasi o romano, o grego, o mercador de Tyro, que não são de -Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o -Aera e o Moriah, captivos e gementes! - -Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?--perguntava a mim mesmo. - ---Temos uma patria? Não!--E olhava a torre Antonia, onde os -expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra. - ---Temos uma religião, uma fé? Não!--E via os sacrificadores vestindo -os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados, -bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto -Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea! - ---Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!--E olhava -aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra, -e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para -agradar ao Senhor! - -Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles -frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que -não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não -habitava Jerusalem! - -Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a -popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte, -Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na -escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde -escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me--ou resultados da -noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia, -ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um -dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade. - ---Ah! Jesus de Nazareth--pensava eu--é o unico homem que nos poderia -salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples, -que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção? - -Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal, -terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o -homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma -melancholica e transcendente? - -O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas -largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a -Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias -a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz, -porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este -movimento popular? - -Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede -soccorro. - ---Porque não?!--dizia eu--Surprehendi já nos seus olhos uma vontade -dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo? - -E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me, -como inesperadas consolações. - -O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos -porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir -dos bois: tinha a sensação de natureza verde, de tempos repousados, -contentes. - -O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga -escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do -portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza, -cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender -ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e -limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura, -nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado, -dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os -mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos, -tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a -indifferença. - -O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado, -suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar -á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus -campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin. -N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção -que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves, -idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da -Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica, -toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus. - -Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade, -de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a -resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no -ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de -Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado -póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas, -a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude -indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias -sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições -pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma -acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu -ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior -do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a -argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar -o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e -transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce -futuro, terno, purificado, coberto de luz! - -E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as -hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de -egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro, -hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem? -Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus, -como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias, -escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um -templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com -amargura para as edificações de Herodes, o grande! - -Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do -Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no -meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de -tantas forças civis! - -Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus -olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou -um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas -incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava, -infinitamente triste, com um desdem abatido. - -Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias: -mas um grande rumor encheu o templo. - -Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o -baixo recinto do templo. - -Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de -vozes, de gritos penetrantes. - -Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus, -couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, -phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da -lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações. -Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, -abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros -desmanchados, os pés riscados de sangue, a tunica despedaçada, o rosto -levemente aquilino tomado de afflicção. - -A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores -de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario: -vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com -fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os -coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas. - -Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus: -havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e -estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam -avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes -balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça -de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os -pateos. - -O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos -seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os -soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada, -abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes -cabellos, com uma semelhança pagã. - -Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para -Jesus, e com a voz austera, altiva, disse: - ---Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que -foi achada em adulterio nos porticos do templo. - ---Lapidada! lapidada!--prorompeu a multidão. - -Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se -os gritos agudos, arrastados, das mulheres. - -Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os -soldados riam. - -O escriba fallava, com gestos abundantes: - ---Rabbi--dizia--a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera -deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas -tu, Rabbi? - -Jesus olhou o escriba serenamente. - ---O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados--gritou alguem entre -a multidão. - -Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava: - ---Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos! - -E um phariseu bradou: - ---É o Salomão das mulheres perdidas. - -Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio -onde anda escripta a lei, e exclamava: - ---Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar. - -O povo cruel dizia n'um clamor: - ---Lapidada, que seja lapidada! - -Alguns phariseus gritavam: - ---E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth! - -Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia -templaria. A multidão era espessa: os mendigos apregoavam _posca_; -os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas d'escarlate: os -doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo -os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas cabeças de -legionarios espreitavam. - -Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou: - ---Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas. - -Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as -costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas -barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os -phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo: - ---Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que -despreza a lei. - -Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin. - -Mas na multidão havia uma oscillação: sentiam-se gritos, risadas -joviaes, vozes; o povo afastava-se: e d'entre a sua escura espessura -vinha empurrado, repellido, atirado, um homem. - -E vozes alegres bradavam: - ---Ahi vae Jesus Bar'Abbas, ahi vae! - -O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, n'essa -aspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus. - -Era Bar'Abbas. - -Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages. - -E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com -ambas as mãos, violentamente, uma ponta da tunica, estendeu-a para a -multidão, gritando: - ---Quem dá para o luto? - -O povo ria; bradava: - ---Lapidae-a, lapidae-a! - -Bar'Abbas dizia: - ---Lapidae-a, dae-me para o luto! - -E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava. - -Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os phariseus, os escribas -diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei. - ---Falla, Rabbi, falla!--gritavam-lhe d'entre a multidão. - -Mas Jesus olhava sereno, calado. - -Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente, -colerica, bradou: - ---Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer -o perdão da mulher adultera. - -Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a -morte. - -Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso, -irritado: - ---Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle -manda lapidal-a. - -Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua -estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse: - ---Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se julgar sem peccado, -que lhe atire a primeira pedra! - -A sua voz era forte, concava, mysteriosa:--assustava. - -A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se: -os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos -choravam: vozes diziam:--É o Messias, é o Messias! Todos se -dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos. - -Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos -irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da -milicia templaria. - -Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava -concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha -educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que -nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial, -a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações -inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea. - ---Sim, sim--dizia eu--Jesus de Nazareth, pelo seu genio simples e -justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre -a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela -influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez, -a ser a regeneração d'Israel. Se elle tem apenas o espirito, eu terei -por elle a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, timido, mais especulativo -que activo, como poderia eu ser o homem decisivo d'uma insurreição?! - -Mas o tedio da vida presente, uma mocidade ávida d'acção, o desdem -irreconciliavel pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em -mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo -de me approximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de -Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a -Jesus de Nazareth. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta -dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: _Shalon_, -que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta -fallaria a Jesus. - -Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com -aquelle homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo -me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais -prompto de fé. - - - - -IX - - -Á hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares, que têm a -sua raiz na encosta, onde assenta o bairro de Bezetha: era n'um horto, -junto ao monte das Oliveiras, que eu ia vêr Jesus de Nazareth. - -A noite estava cheia d'um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob -as largas ramagens: um silencio doce occupava a terra. Ouvi apenas um -canto, triste, arrastado: alguma pobre mulher embalava o filho, chorava -o marido levado para as legiões de Roma. - -O homem que me guiava, abriu uma porta, estreita, de vime: entrei n'um -espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura d'agua, cheiro -do plantas. - -A lua allumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de -pedra: ahi, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro, -o olhar afogado no espaço allumiado, estava Jesus. - -Ergueu-se lentamente, e disse: - ---Paz. - ---Paz e alegria, Rabbi!--disse eu.--Velavas? - ---Velo sempre. Bemaventurado o que vela! Elle é como o servo diligente, -que espera acordado o seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente -chegar, corre logo a abrir. - -Jesus calou-se, perdendo o olhar no ineffavel espaço luminoso. - -Eu approximei-me, e com uma voz profunda, convencida, disse: - ---Creio em ti, Mestre! - -Jesus olhava, enlevado, transcendente. - -Havia um silencio: eu estava constrangido, e dizia para o chamar ás -nossas communs imaginações: - ---Rabbi, o que é necessario, segundo pensas, para alcançar, feliz, a -vida eterna? - -Jesus pousou em mim, demoradamente, os seus olhos severos. - ---Serves o templo--disse--serves a lei, e não conheces a lei; a lei que -diz? - ---A lei--disse eu--ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros -como a nós. - ---E eu digo como a lei. - -E olhava-me, penetrantemente: fallava como n'um sonho, ou a alguem -invisivel. - ---Não se póde servir bem a dois amos: um d'elles se ha de desprezar, -outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch. - -Comprehendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um -emissario do templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho -contra elle. - -Respondi com uma dignidade dura: - ---Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Elle sabe que -creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por -traz das portas dos blasphemadores da lei. O meu corpo serve e vive no -templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado comtigo, em desejo e -em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João. - -O Rabbi considerava-me attento. - ---O homem--disse elle--dá testemunho do homem: só Deus conhece os -corações. - ---Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente d'Israel, -tu julga, ou condemna minha alma. - -Dizia isto grave, firme, aspero. Jesus de Nazareth, com o rosto -esclarecido, disse-me docemente: - ---A fé salva. - -E depois d'um momento: - ---E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou? - ---Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Baptista ressuscitado; outros -que és o Messias; os phariseus pensam que és um blasphemador ambicioso, -ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade. - ---E tu quem dizes que eu sou? - ---Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciencia das coisas -divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, n'um tempo -humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hypocrisias, -vingar a patria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve -ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito -estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o -phariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador! - ---Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a -perdel-as. - ---E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este -sacerdocio rico e indifferente, este culto ensanguentado e hypocrita? -É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre -choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbitrio dos favoritos -imbecis de Tiberio? - ---Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo. - ---Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te -pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando -no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casaes? E pensas que -isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha secca? -Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras -das creanças de Chorasin, e contando parabolas, entre os campos, aos -simples e ás mulheres? Comprehendo que a tua ambição não seja maior, -e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples. -Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se -tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu, -se não és uma forte intensidade de vontade? As maximas que tu prégas -são de Hillel, são de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha -coisas novas no teu ensino, mas o que n'ellas ha de grande é a tua -força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor -do sacrificio, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas -qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de -Caná? Não podia teu pae ser levado legionario para Roma? De que nos -servem essas parabolas, essas ironias, essas respostas excellentes, se -ellas não vão ferir a riqueza do saducceu, a hypocrisia do escriba, -a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as -predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade -abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado, -civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das -trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunaes, templos, -officios, mercados, sacerdocios, escolas, tudo fortemente ligado, -se dissipe como uma visão, porque um homem sympathico se ergue n'um -caminho e diz:--Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pae -celeste!--Não! tal não será, Rabbi! - ---Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta--eu sei?--como -um grão de mostarda, e dissesseis áquelle monte: passa-te d'ahi! o -monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando -estarei entre ti? - -O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso. - ---Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus. -Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós soffremos e choramos muito -baixo na terra. - -Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia: - ---Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realisar -o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te -aos homens que têem a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas: -nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz -sem um propheta! Como tens tu pensado realisar o teu reino de Deus? -Pela doçura e pela paciencia, ou pela força e pela revolta? Não pódes -hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que -te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas, -com os miseraveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as -creanças que te sorriem? - ---Deus esconde muitas coisas aos sabios, que revela ás creanças. - ---Para que pregas então no templo, contra os phariseus e os principes? - ---Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração! - ---Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que -só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem? - ---Só o desdem dá a paz. - ---Dá a inercia, o sacrificio e as virtudes passivas. E se ámanhã tu -pudesses começar a vêr realisado no mundo esse reino dos pobres, dos -simples, dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada -para a tua palavra? Se visses tudo transformado, por uma acção -energica, revolucionaria, pela nossa acção? - -Jesus caminhava, inquieto: o seu olhar vibrava. As minhas palavras -davam-lhe inesperadas perturbações. - -Nós viamos o templo luzir na branca polidez da pedra sob o luar: eu -dizia-lhe, profundo: - ---Olha, vê o templo: hoje alli tudo é intriga, artificio, apparato, -riqueza, sangue, hypocrisia, vaidade: ámanhã seria o logar mais santo -da terra. - -Jesus cobria o templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu -desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto á face: - ---Ouve: em Jerusalem ha descontentes: alguns membros do sanhedrin estão -irritados com a familia d'Elanan, com Beothos: Gamaliel não ama o -templo: o baixo povo do mercado detesta phariseus e escribas; é nosso; -a Galilea é nossa; a Perea é nossa; mandar-se-ão emissarios a Joppé; -toda a Judea se erguerá:--tu serás o propheta. Queres? O teu sonho do -lago de Tiberiade será então vivo, real, palpavel, existente sob as -nuvens!--Queres? - -A noite era immortalmente bella: havia uma bondade no ar: o mundo -parecia-me possuido de um elemento diverso. - -Eu fallava confusamente, ora contra os phariseus, ora contra os -romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal, -nem a inercia d'um povo egoista. Uma grande tentação captivou o -espirito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos: - ---Rabbi, Rabbi, depois do phariseu, será a vez do romano! Tu serás o -maior da Judea: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico, -terás aniquilado o hypocrita, terás expulso o romano: serás pela -justiça egual a Ezequiel, pela força egual aos Machabeus: serás como -David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de -Israel. - -Eu fallava exaltado: mostrava-lhe Jerusalem e dizia-lhe: - ---Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel! - -Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e -transcendente o ceu cheio da lua serena, o ineffavel silencio, a pura -belleza do infinito, o profundo mysterio onde Deus habita, disse-me: - ---Vae-te: o meu reino não é d'este mundo!... - -Olhei longamente o Rabbi, lamentei o seu desdem, sorri da sua palavra: -e calado, concentrado, sahi pelo caminho de Betphagé. - -Uma claridade apparecia: os gallos cantavam. No outro dia, pela hora da -tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galilea. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[41] Este trabalho de Eça de Queiroz, escripto por occasião da sua -viagem ao Egypto e á Palestina em 1869, foi publicado em 1870 na -_Revolução de Setembro_, ficando todavia incompleto. - - (_N. dos E._) - - -FIM - - - - -INDICE - - - Pag. - - Introducção v - - Notas marginaes 1 - - Macbeth 15 - - A ladainha da dôr 27 - - Entre a neve 45 - - Os mortos 57 - - A Peninsula 65 - - O «Miautonomah» 75 - - Mysticismo humoristico 85 - - O milhafre 93 - - Lisboa 103 - - O Senhor Diabo 115 - - Uma carta 133 - - O lume 147 - - Mephistopheles 155 - - Memorias d'uma forca 161 - - A morte de Jesus 173 - - - - -ERRATA - - -Pag. XXV, linha 8: onde se lê _Poo_, deve lêr-se _Poe_. - -Pag. XXXIV, linha 14: onde se lê _Trata-se das viagens dos Deuses_, -deve lêr-se: _Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos -Deuses_, etc. - -Pag. XLV, linha 6: onde se lê _Roberpierre_, deve lêr-se _Robespierre_. - -Pag. 58, linha 4: onde se lê _embalarem-se_, deve lêr-se _embalar-se_; -mesma pag., linha 5: onde se lê _estirarem-se_, deve lêr-se -_estirar-se_; mesma pag., linha 8: onde se lê _acalentarem_, deve -lêr-se _acalentar_. - -Pag. 63, linha 2: onde se lê _com o amores_, deve lêr-se _com os -amores_. - -Pag. 88, linha 15: onde se lê _enchiam-me_, deve lêr-se _enchia-me_. - -Pag. 168, linha 21: onde se lê _eram paus, uma alma_, deve lêr-se -_eram, pois, uma alma_. - -Pag. 172, linha 10: onde se lê _pastarem-me_, deve lêr-se _pastar-me_. - - - - -Notas - -Os problemas na errata foram corrigidos. - -Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK PROSAS BARBARAS *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. 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Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you -are not located in the United States, you will have to check the laws of the -country where you are located before using this eBook. -</div> -</div> - -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Prosas barbaras</span></p> -<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>com uma introd. por Jayme Batalha Reis.</span></p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Eça de Queirós</p> -<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Contributor: Jaime Batalha Reis</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: September 13, 2022 [eBook #68986]</p> -<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p> - <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)</p> -<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>PROSAS BARBARAS</span> ***</div> - - - - - - -<h2>Obras do mesmo auctor</h2> - -<hr class="r5" /> -<table class="autotable"> -<tr><td class="tdl"><b>O crime do padre Amaro.</b> Quarta edição inteiramente refundida, -recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume</td><td class="tdr">1$200</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>Os Maias.</b> Segunda edição. 2 grossos volumes</td><td class="tdr">2$000</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>A Cidade e as Serras.</b></td><td class="tdr">800</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>O Mandarim.</b> Quarta edição. 1 volume</td><td class="tdr">500</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>O primo Bazilio.</b> Quarta edição. 1 grosso volume</td><td class="tdr">1$000</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>A Reliquia.</b> Terceira edição. 1 grosso volume</td><td class="tdr">1$000</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>Contos.</b> 1 volume</td><td class="tdr">600</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>As minas de Salomão.</b> 1 volume</td><td class="tdr">600</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>Correspondencia de Fradique Mendes.</b> 1 volume</td><td class="tdr">600</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>Revista de Portugal.</b> 4 grossos volumes</td><td class="tdr">12$000</td></tr> -<tr><td class="tdl"><b>A Illustre Casa de Ramires.</b> 1 volume</td><td class="tdr">1$000</td></tr> -</table> -<p> -<span style="margin-left: 1em;"><i>No prélo</i>:</span><br /> -</p><p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><b>Cartas de Inglaterra.</b></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><b>Echos de Paris.</b></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><b>S. Christovam</b> (inedito).</span><br /> -</p> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001"> - <img src="images/001.jpg" class="w50" alt="Monumento erigido a Eça de Queiroz, Obra do eminente esculptor Teixeira Lopes" /> -</span></p> - -<p class="center caption">Monumento erigido a Eça de Queiroz<br />Obra do eminente esculptor Teixeira Lopes</p> - -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - - -<p class="center big"> -<span class="smcap">Eça de Queiroz</span><br /> -</p> -<hr class="r5" /> -<h1><span class="smcap">Prosas Barbaras</span></h1> - -<p class="center"> -Com uma Introducção por Jayme Batalha Reis<br /> -</p> -<p class="center p4"><span class="figcenter" id="img002"> - <img src="images/002.jpg" class="w10" alt="Imagem da livraria" /> -</span></p> -<p class="center p4"> -PORTO<br /> -<span class="big">LIVRARIA CHARDRON</span><br /> -<span class="smcap small">Lello & Irmão, editores</span><br /> -</p> -<hr class="r5" /> -<p class="center"> -1903<br /> -<span class="small">Todos os direitos reservados.</span><br /> -</p> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p>Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão -Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a -garantia que lhe offerece a lei n.ᵒ 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o -competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do -art. 13.ᵒ da mesma Lei.</p> -</div> - -<hr class="r5" /> -<p class="center"><i>Porto—Imprensa Moderna.</i></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_v">[v]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO.</h2> -</div> - -<p class="center caption">Na primeira phase da vida litteraria de Eça de Queiroz.</p> - - -<h3>I</h3> - -<p>Julgaram os Editores d'este livro ser necessario explicar como elle se -escreveu e se denominou.</p> - -<p>Fui talvez a testemunha mais proxima da redacção dos escriptos agora -reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparavel do -author. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biographia. Tento -esboçar n'ella a figura do homem e a do escriptor, taes como as -conheci, ao formarem-se as creações d'este livro,—as circumstancias e -os espiritos que influenciaram a aliás extraordinaria originalidade do -genio d'Eça de Queiroz.</p> - -<p>Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus -<i>Folhetins</i> na <i>Gazeta de Portugal</i>, que fôra fundada por -Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 annos -antes da apparição do primeiro d'elles e terminou (Janeiro de 1868,) -pouco mais d'um anno depois da publicação do ultimo, sendo,—em -rivalidade com a <i>Revolução de Setembro</i>, dirigida por Rodrigues -Sampaio,—o mais brilhante periodico<span class="pagenum" id="Page_vi">[vi]</span> do tempo. A <i>Gazeta de -Portugal</i> publicava, além das do seu fundador, frequentes producções -de Antonio Feliciano de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebello -da Silva, Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado, Thomaz -Ribeiro, Zacharias d'Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha -Rivara,—quasi todos os consagrados de então. Os <i>Novos</i> que ahi -escreviam, ficavam, por este facto, para logo consagrados. Ahi primeiro -appareceram no <i>folhetim</i>, triumphalmente, Matheus de Magalhães, -Pinheiro Chagas, Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio -de Freitas.») Todos estes escriptores se continuavam uns aos outros, -sem contrastes nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas -acceites e classificadas pelos applausos d'um publico hereditariamente -satisfeito.</p> - -<p>Em 1866 a <i>Gazeta de Portugal</i> entrára porém em decadencia; -começava a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu -o formato. A 14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal, -poeta, dramaturgo, romancista, historiador, estadista, orador, -diplomata,—para muitos, «o mestre», legitimo successor de Almeida -Garrett,—despedira-se da direcção litteraria que até então, pelo menos -nominalmente, exercera. Os collaboradores litterarios mais assiduos, -mais legitimamente representantes do gosto geral, eram já então, no -<i>folhetim</i> da <i>Gazeta de Portugal</i>, Santos Nazareth e Luiz -Quirino Chaves. Por essa epoca Teixeira de Vasconcellos publicou ahi o -seu romance <i>A Ermida de Castromino</i>, seguido, desde os primeiros -dias de 1866, por <i>O Diamante do Commendador</i> do visconde Ponson -du Terrail...</p> - -<p>Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a apparecer uns -<i>Folhetins</i> assignados «Eça de Queiroz».</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_vii">[vii]</span></p> - -<p>Ninguem conhecia a pessoa designada por estes appelidos que, por algum -tempo, se suppoz serem um pseudonymo.</p> - -<p>Os <i>Folhetins</i> de Eça de Queiroz foram todavia notados;—mas como -novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde a -Redacção da <i>Gazeta de Portugal</i>, até aos centros intellectuaes -reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do -publico. Para este, uma ou outra phrase os arrumou logo no que então -se chamava «a Escola Coimbran»,—centro litterario e philosophico -dedicado, como se suppunha, a escrever por modo systematicamente -inintelligivel. Citavam-se, por modelos de comico inconsciente, as -scenas, as imagens, os epithetos d'esses <i>Folhetins</i>, lidos -em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias -Silva e Rodrigues, no Gremio litterario, nos Salões poeticos e -politicos e n'outros centros representativos do tempo. O Severo,—o -Severo dos Anjos,—principal e celebre Noticiarista da <i>Gazeta de -Portugal</i>, entalando o monoculo ao canto do olho direito, inventava -quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus <i>Folhetins</i>, -epigrammas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos, -exagerando, com intenção comica, o seu natural gaguejar, concluia:</p> - -<p>—Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra, -que seja inteiramente doido, que haja nos seus <i>Contos</i>, -sempre, dois cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que -escre...va...va...va em francez.</p> - -<p>Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses <i>Folhetins</i>,—em -Dezembro de 1867,—já ninguem pensava no author d'elles.</p> - -<p>Que importava ao Café Martinho, ao Gremio <i>supposto</i><span class="pagenum" id="Page_viii">[viii]</span> litterario, -e aos circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo -estylo? Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... -não sei que; os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia -seguiam o seu curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que -dormitavam... e nada mais era de interesse, em Portugal, para as -classes cultas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_ix">[ix]</span></p> - - -<h3>II</h3> - -<p>Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias -que é inutil mencionar frequentava a Redacção da <i>Gazeta de -Portugal</i>, no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de -S. Carlos.</p> - -<p>Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito -magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça -pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto -intenso e amarello desmaiado:</p> - -<p>Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta -e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas, -o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa -triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre -olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito -negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca -grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de -marfim<span class="pagenum" id="Page_x">[x]</span> velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços, -faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de -copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo -<span class="allsmcap">XVI</span> que se veem nos retratos do Duque d'Alba, de Philippe II -de Hespanha, ou de Henrique <span class="allsmcap">III</span> de França.</p> - -<p>Era o Eça de Queiroz.</p> - -<p>Contava o quer que fosse a um tempo tragico e comico, nervosamente, -dando a espaços gargalhadas—<i>ricanements</i>, como se diria em -francez,—curtas, e sinistras.</p> - -<p>O Severo, de monoculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda, -amarella e ironica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.</p> - -<p>Saí n'essa noute do Escriptorio da <i>Gazeta de Portugal</i> com o Eça -de Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por -annos, não nos separámos quasi.</p> - -<p>O Eça de Queiroz terminára em 1866 o curso de Direito na Universidade -de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pae era magistrado. Por -tradicções de familia, e como consequencia natural dos seus estudos, -deveria seguir, elle tambem, a magistratura official, ou, pelo menos, -fazer-se advogado. Supponho que n'este intuito frequentou algum tempo -um Escriptorio em Lisboa.</p> - -<p>Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a -ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas.</p> - -<p>Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do -predio n.ᵒ 26. O seu quarto—pequeno, com uma mesa ao centro e uma -estante para poucos livros,—dava para a rua do Principe. Ahi foram, em -parte, escriptos os <i>Folhetins</i> das <i>Prosas barbaras</i>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xi">[xi]</span></p> - - -<h3>III</h3> - -<p>Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:</p> - -<p>Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos -logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco -frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.</p> - -<p>Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O -Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado -de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz -comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira -chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa -continuar a beber café, ás vezes até madrugada.</p> - -<p>N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos -<i>Contos</i> agora reunidos em volume.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xii">[xii]</span></p> - -<p>Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do -Guarda-mór,<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> em pleno Bairro alto.</p> - -<p>No meu quarto de estudante<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> havia um grande armario cheio de livros, -cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se -escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por -Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a -Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi -sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos -Calafates<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> em frente a predios baixos que, por isso, não impediam -o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma -impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios -moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando -activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes, -para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam, -pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o -<i>Eterno feminino</i>.</p> - -<p>Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com -um rolo de papel na mão, dizendo:</p> - -<p>—Sou eu, sim, amigo.</p> - -<p>E alludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequencia, -phantasticamente appareciam nos seus <i>Contos</i>, accrescentava:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xiii">[xiii]</span></p> - -<p>—Sou eu e os meus abutres: Vimos crear, devorando cadaveres!</p> - -<p>Muitas cousas preoccupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava:</p> - -<p>Durante tempos só poude escrever em certo papel almaço, que elle -proprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41 -da rua larga de S. Roque.</p> - -<p>Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por -isso, no ultimo momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já -este inopportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso, -antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicavel.</p> - -<p>Tinha o terror das correntes d'ar, e andava continuamente a fechar a -janella, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava, -murmurando em voz cava:</p> - -<p>—É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino!</p> - -<p>A luz do candieiro de petroleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de -modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre -o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o <i>abat-jour</i>, com -longas tiras de papel.</p> - -<p>Não podia supportar poeira nas mãos, e levantava-se a miudo da mesa -para ir, cuidadosamente,—interrompendo a composição, mas recitando em -voz alta as phrases que tinha escripto,—lavar as pontas dos dedos.</p> - -<p>Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o -papel que olhava muito de perto.</p> - -<p>E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não -attendia a cousa alguma,—embrulhando<span class="pagenum" id="Page_xiv">[xiv]</span> o cigarro, indo lavar as mãos ou -fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas -altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando -ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente -as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde -ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.</p> - -<p>Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco: -As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente, -e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a -desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma, -acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe -occorria.</p> - -<p>Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus <i>Contos</i>, a -figura e a voz completavam-lhe as phantasticas creações:</p> - -<p>Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica, -livido,—na penumbra das projecções do candieiro,—os olhos esburacados -por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o -pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado, -os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e -espanto, a voz lugubre, sentimental,—emphaticamente pathetica, ou -gargalhando sinistramente,—declamava.</p> - -<p>Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos -havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,—ou -estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé -e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia<span class="pagenum" id="Page_xv">[xv]</span> -phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então, -n'esses bairros, mouriscas ou medievaes.</p> - -<p>—Ás casas sem luz,—escreveu Eça de Queiroz,<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a>—teem o aspecto calmo -e sinistro dos rostos idiotas.</p> - -<p>D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura, -divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens -agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos -ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos -se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras... -Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de -sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis... -Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram -varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de -se dispersarem pela cidade.</p> - -<p>Nas noutes mais serenas,—nas noutes de luar,—saíamos da cidade e -íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo, -conversando, improvisando, até nascer o Sol.</p> - -<p>De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás -nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha -casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a -roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma -mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo, -respectivamente, e dispondo as botas á<span class="pagenum" id="Page_xvi">[xvi]</span> porta,—para que o meu -creado as limpasse, sem nos acordar,—tambem, pelo mesmo methodo, -ordenadamente emparelhadas.</p> - -<p>E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos -supersticiosos, murmurava persignando-se:</p> - -<p>—É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas: -Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos -acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados.</p> - -<p>Na epoca em que se publicaram os <i>Folhetins</i> da <i>Gazeta de -Portugal</i>, eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. -O mais assiduo era, por esse tempo,—além do Eça de Queiroz, o -Salomão Saragga que, quando apparecia, se occupava toda a noute -em explicar-nos, simultaneamente, a construcção de carruagens, a -fabricação de tecidos com desperdicios de lan, o livro do Propheta -Isaias, e os Historiadores das origens do Christianismo.</p> - -<p>De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:</p> - -<p>—Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar. -Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto -humano,—inverosimil, se fôr possivel tanto,—a aventura, a lenda em -acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,—o -João de Sá Nogueira,—d'Artagnan d'Africa em disponibilidade.</p> - -<p>E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar, -que á ceia nos contava,—durante o bacalhau com batatas, o meio biffe, -e o Collares,—as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xvii">[xvii]</span></p> - - -<h3>IV</h3> - -<p>Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de -Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor -historico.</p> - -<p>O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do -meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto -Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores -mestres da especialidade em Lisboa.</p> - -<p>N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o <i>Pot-pourri</i> e as -<i>Variações</i>. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero -de <i>Rêveries</i>. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido -ao piano, attingia-se com os <i>Nocturnos</i> de Ravina e Döhler. -Os arranjos operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes -realisado.</p> - -<p>Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára -piano, harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como -repertorio de estudo, os <i>Preludios</i> e <i>Fugas</i> de Bach, as -<i>Sonatas</i> de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann -e Chopin.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xviii">[xviii]</span></p> - -<p>Os <i>Folhetins</i> de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só -comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que, -justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos -grandes creadores da musica moderna.</p> - -<p>Esses <i>Folhetins</i> pareceram-me uma grande novidade,—não tanto nos -assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim -encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura -portugueza, insufficientissimamente revelados.</p> - -<p>Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses <i>Folhetins</i> eram, -ainda no anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da -lingua portugueza;—como haviam sido, para todo o sul da Europa, á -apparição do <i>Romantismo</i> francez nos primeiros annos do seculo -<span class="allsmcap">XIX</span>, as mesmas ideias e estylos semelhantes.</p> - -<p>N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que -geralmente se denomina um <i>Romantico</i>. Elle proprio dizia da epoca -immediatamente anterior:</p> - -<p>«N'aquelles tempos o <i>Romantismo</i> estava nas nossas almas. -Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a></p> - -<p>E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se -gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica» -que leva ao «hospital romantico...»<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p> - -<p>Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais -evidentes da Litteratura, uma inalteravel<span class="pagenum" id="Page_xix">[xix]</span> saude: Só certos factos do -espirito perfeitamente determinados,—só as ideias e os sentimentos -susceptiveis de clara determinação,—eram n'essa Litteratura expressos. -Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos, -os generos litterarios,—tudo parecia claramente, definitivamente -assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema -de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações, -com o minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na -Europa, em geral, a gente culta, do seculo <span class="allsmcap">XVI</span> ao seculo -<span class="allsmcap">XVIII</span>.</p> - -<p>Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes -inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos -sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos -se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas -dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se -transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou -exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções -de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o -branco descobriram-se gradações infinitas.</p> - -<p>Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou -então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos -psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos, -susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns -que podiam ser nitidamente,—como que linearmente,—desenhados, -inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só -podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se -por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias -e os sentimentos que todos<span class="pagenum" id="Page_xx">[xx]</span> os homens conscientemente reconhecem -como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos -inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote, -prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das -almas.</p> - -<p>Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito, -resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos -pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais -conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas -as nevroses.</p> - -<p>Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos -estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a -pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,—por isso -quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais -exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes.</p> - -<p>Toda esta revelação espiritual,—toda esta descoberta de regiões -ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de -aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de -moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,—pareceu ser, ás -gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença -mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.</p> - -<p>A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido, o -nome de <i>Romantismo</i>,—facto esthetico, ainda hoje em busca de -sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece -poder essencialmente definir-se, como a <i>procura directa</i> de -<i>fórmas de expressão</i>, para todos os sentimentos e todas as -ideias, por isso,<span class="pagenum" id="Page_xxi">[xxi]</span> para as <i>mais intimas ideias</i> e os <i>mais -vagos sentimentos</i> do espirito humano.</p> - -<p>Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo -<span class="allsmcap">XVIII</span>, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa -durante o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis -neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em -Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio -e saude normal.</p> - -<p>O <i>Romantismo</i> pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada -d'essa «Edade media».</p> - -<p>É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da -Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças -humanas,—com o integral resultado de forças naturaes que são,—deram -fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido -tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e -da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado, -cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua -phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes, -com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos -christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou -mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e -haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre -animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações -de espiritos e actividades.</p> - -<p>Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade -Media, sem duvida solicitaram a interpretação dos <i>Romanticos</i>, -cuja rasão de ser, cuja missão<span class="pagenum" id="Page_xxii">[xxii]</span> era tambem, como já mostrei, expressar -completamente, até aos mais profundos e subtis, todos os factos do -espirito.</p> - -<p>Mas o chamado <i>Romantismo</i> deu-se na Europa dos fins do seculo -<span class="allsmcap">XVIII</span> aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse -tempo a Litteratura do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda -apresentar o <i>romantico</i> Eça de Queiroz aos <i>Romanticos</i> -portuguezes de 1866?</p> - -<p>É o que vou explicar:</p> - -<p>O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa, -e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e -nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as -terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres -elementares.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p> - -<p>N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez, -definição, brilho,—e correlativamente perdendo meias tintas, -claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com -simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas -das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das -atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões -profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava -tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente -aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os <i>Romanticos</i> -das raças<span class="pagenum" id="Page_xxiii">[xxiii]</span> do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por -uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos -de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na -construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado -da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma -humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da -Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas -mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos.</p> - -<p>Eis porque tantos romanticos portuguezes,—no extremo dos paizes claros -do meio dia,<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a> só fôram superficialmente romanticos.</p> - -<p>Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis -do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do -explicavel,—como que para preencher as lacunas deixadas no -completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do -comprehensivel,—existem com effeito, infinitamente, as necessidades -mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.</p> - -<p>É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas -estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem -completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.</p> - -<p>Essas fórmas constituem a <i>Arte</i> e a <i>Litteratura mystica e -phantastica</i>.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xxiv">[xxiv]</span></p> - -<p>A França,—a mais norte das Nações definidoras,—recebeu, em grande -parte, a sua <i>Litteratura phantastica</i> da Allemanha. Da Allemanha, -por intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a -1867, em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.</p> - -<p>E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades -intimas e latentes, me commoveu ella,—a mim e a outros espiritos -contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem -sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos -das raças e dos climas claros e definidores do sul.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xxv">[xxv]</span></p> - - -<h3>V</h3> - -<p>Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de -Queiroz,—aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas -primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu -posso dar testemunho,—fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo -de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente, -mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e, -envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.</p> - -<p>A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,—a de -Heine,—foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres -contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por -Anthero de Quental sob o nome de <i>Primaveras romanticas</i>, e no que -este diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a> -vê-se tambem nas poesias primeiro<span class="pagenum" id="Page_xxvi">[xxvi]</span> escriptas para o <i>Seculo</i> -<span class="allsmcap">XIX</span> de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois colligidas, com -o titulo de <i>Lyra meridional</i>, por Antonio de Azevedo Castello -Branco.</p> - -<p>Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas -traducções francezas,—algumas feitas pelo proprio author, outras por -este em collaboração com Gerardo de Nerval,—um caracter novo.</p> - -<p>Heine é para mim,—e não é para todos ainda hoje, mesmo na -Allemanha,—um dos maiores escriptores das linguas germanicas. -Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um -verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades -musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o -francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se -torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a -um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do -espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como -que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos -biblicos.</p> - -<p>Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,—que -eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,—quando Eça de -Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle -me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos -<i>Reisebilder</i> onde Heine,—a quem a musica sempre suggeria fórmas -e côres definidas,—conta as transformações phantasticas porque a -seus olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação -da sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo <span class="allsmcap">XVIII</span>, -assassino por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as -abobadas de cathedraes, genio planeta entre<span class="pagenum" id="Page_xxvii">[xxvii]</span> as harmonias apotheoticas -das espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos -dos auditorios.</p> - -<p>Em muitas paginas das <i>Prosas barbaras</i> se encontra a influencia -d'esta lenda phantastica de Paganini.</p> - -<p>O conto a <i>Ladainha da dôr</i>, que tem o proprio Paganini por -assumpto,<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a> é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> As -<i>Notas marginaes</i><a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> parecem estancias do <i>Intermezzo</i> ou do -<i>Livro de Lazaro</i>.</p> - -<p>Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da -França no <i>Romantismo</i> germanico. Foi elle o primeiro traductor -francez do <i>Fausto</i> de Goethe, e, como já disse, o collaborador, -com Heine, na traducção d'algumas das obras d'este ultimo.</p> - -<p>É evidente, nas paginas das <i>Prosas barbaras</i>, a influencia dos -proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos -mysteriosos e phantasticos sonetos que começam:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé,</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie...</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Porte le soleil noir de la mélancolie!</i>...<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a></span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xxviii">[xxviii]</span></p> - -<p>Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu -estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição -mythographica e profunda,—sobretudo nos 8 primeiros volumes da sua -<i>Historia de França</i>,—da <i>Edade media</i>, da <i>Renascença</i> -e da <i>Reforma</i>,—e, na <i>Sorcière</i>, pela materialisação -sentimental e explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta -Historia do Diabo,—foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de -Queiroz.</p> - -<p>H. Heine,—allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um -espirito francez,—Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, -em França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima -e completa das suas obras, que o <i>Romantismo phantastico</i> -principalmente impressionou a Eça de Queiroz.</p> - -<p>Por toda a parte, nos escriptos das <i>Prosas barbaras</i>, se -encontram os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular -germanico, os aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades -da Historia do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias -do romantico portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, -«as velhas mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha -a quem o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas -de Vecker a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos -Burgraves», «os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo -a alma pelo segredo da circulação do sangue»,—que passam de continuo -nas narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da -floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios», -as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia -de Walpurgis, as cathedraes da<span class="pagenum" id="Page_xxix">[xxix]</span> Allemanha, o Rheno, o Mar do -Norte, «a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem -as velhas baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a -poesia popular foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... -ás lareiras dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde -vão os <i>Minnesingers</i> errantes», onde se celebram as «kermesses -de Leipzig» e se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer -desenhou a sua <i>Melancolia</i>, onde correm as caçadas phantasticas -do <i>Freischütz</i> e passam os Imperadores do Santo Imperio, -<i>Fausto</i>, <i>Mephistopheles</i>, <i>Margarida</i>, Luthero... -Spohr Weber...</p> - -<p>O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua -influencia consideravel em Eça de Queiroz,<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> só se deu d'uma maneira -importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição -em volume das <i>Flores do Mal</i> só tarde lhe chegou ás mãos. -Recordo-me, na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca -do Gremio litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas -francezas, as poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez -publicado.</p> - -<p>Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio, -impassivel, correcto de maneiras e <i>toilettes</i>, sempre preoccupado -com a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o -phantastico é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem -duvida, em profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; -mas para principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão -lucidamente estranha. N'elle o delirio é<span class="pagenum" id="Page_xxx">[xxx]</span> sempre critico, a nevrose -intensa, mas methodisada. Cria na arte o <i>frisson nouveau</i> que -Victor Hugo celebra, mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores -fórmas da sabia lingua franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé -a pé, vibração a vibração.<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p> - -<p>São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva -a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de -transição, quando, gradualmente impressionado pelo <i>Realismo</i> e -por Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de -escriptos.</p> - -<p>Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan -Poe, que Eça de Queiroz,—ainda então ignorante de inglez,—só -conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria com -que o espirito americano determinou o nevrosismo das <i>Historias -extraordinarias</i>, accentua-se ainda mais,—privado, em todo o caso, -da indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,—nas -fórmas logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França.</p> - -<p>Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato -intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,—Musset, -Gautier, Mallefille,—é sensivel n'este primeiro periodo da vida -litteraria de Eça de Queiroz.</p> - -<p>As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se -são pouco numerosas e superficiaes:—quasi<span class="pagenum" id="Page_xxxi">[xxxi]</span> sómente as da poesia -popular,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> e as de alguns seus companheiros de Coimbra,—João de -Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, o -<i>Milhafre</i><a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> que suggerio a Anthero de Quental uma das suas -poesias.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a></p> - -<p>Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da -lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e -quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que -nova lingua portuguesa.</p> - -<p>Mas esta <i>Introducção</i> ás <i>Prosas barbaras</i> tem por fim -explical-as; não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que -differenças profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico -do Escriptor portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia -poderosa de Eça de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens -do norte e a imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador -meridional; não tem emfim que provar como todas as influencias notadas -se sentem apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente -original, que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias -paginas reunidas n'este livro.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xxxii">[xxxii]</span></p> -<h3>VI</h3> - -<p>Na intenção d'Eça de Queiroz os <i>Folhetins</i> da <i>Gazeta de -Portugal</i>,—apesar da sua desconnexão episodica,—formavam serie, -obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra systematica, -cujos capitulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas, -pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos:</p> - - -<p class="center caption">A</p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt"><td class="tdl"><i>Symphonia de abertura</i><a id="FNanchor_19a" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></td><td class="bl tdc">1866</td><td class="bl tdc">Outubro</td><td class="bl tdr">7</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Macbeth</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">14</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Poetas do Mal</i><a id="FNanchor_19b" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">21</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>A Ladainha da dôr</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">28</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Os mortos</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Novembro</td><td class="bl tdr">4</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>As Miserias: I Entre a Neve</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">13</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Farças</i><a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">18</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Ao Acaso</i><a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">27</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>O Miautonomah</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Dezembro</td><td class="bl tdr">2</td></tr> -<tr class="bb"><td class="tdl"><i>Mysticismo humoristico</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">23</td></tr> -</table> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xxxiii">[xxxiii]</span></p> -<p class="center caption">B</p> - -<table class="autotable"> -<tr class="bt"><td class="tdl"><i>O Milhafre</i><a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a></td><td class="bl tdc">1867</td><td class="bl tdc">Outubro</td><td class="bl tdr">6</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Lisboa</i><a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">13</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>O Senhor Diabo</i><a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">20</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Uma carta</i> (<i>a Carlos Mayer</i>)</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Novembro</td><td class="bl tdr">3</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Da Pintura em Portugal</i><a id="FNanchor_21a" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">10</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>O Lume</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">17</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Mephistopheles</i> (<i>J. Petit</i>)<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Dezembro</td><td class="bl tdr">1</td></tr> -<tr><td class="tdl"><i>Omphalia Benoiton</i><a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">15</td></tr> -<tr class="bb"><td class="tdl"><i>Memorias d'uma forca</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">22</td></tr> -</table> - -<p>O primeiro <i>Folhetim</i> em data,—março de 1866,—as <i>Notas -marginaes</i>,—tendo por epigraphe as phrases interrompidas d'uma -trova á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela -traducção franceza das Poesias de Heine, foi inserido, na <i>Gazeta de -Portugal</i>, fóra do seu logar.</p> - -<p>Porque os <i>Folhetins</i> teem uma introducção formal,—uma -<i>Symphonia d'abertura</i>, que se publica a 7 de outubro de 1866,—e -continuam, quasi sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23 -de Dezembro do mesmo<span class="pagenum" id="Page_xxxiv">[xxxiv]</span> anno. Uma longa ausencia de Lisboa interrompe a -publicação: Dos primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça -de Queiroz reside no Alemtejo, onde funda e redige o <i>Districto -d'Evora</i>, periodico politico, litterario e noticioso. Os folhetins -da <i>Gazeta de Portugal</i> recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem -até 22 de Dezembro do mesmo anno de 1867.</p> - -<p>A <i>Symphonia de abertura</i><a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> prepara, com efeito, o espirito para -a ideia que os differentes trechos depois vão desenvolvendo. N'elles -a phantasia,—livremente, irregularmente, fragmentariamente,—esboça, -suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episodios, em -allegorias phantasticas e como que musicalmente vagas:</p> - -<p>Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde -os templos de Ellora,—onde elles andavam ferozes por entre os -Elephantes,—até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando -d'amor»... «desde a materia negra e informe, até ás serenidades vivas -para além das nuvens, das estrellas e dos caminhos lacteos».</p> - -<p>N'estas viagens ideaes os Deuses teem uma companheira que intimamente -estabelece a sua communicação com os homens,—a Arte.</p> - -<p>Da historia visionaria d'esta,—na longa peregrinação divina,—a -<i>Symphonia de abertura</i>, faz-nos ouvir,—<i>adagio</i> ou -<i>vivace</i>, <i>piano</i> ou <i>forte</i>,—alguns trechos -maravilhosamente instrumentados:...</p> - -<p>«Quando» os povos—na Chaldea, no Egypto, na Grecia,—«plantavam -tendas debaixo das estrellas», ... e, mais tarde, em céos de profundo -mysticismo christão, nas<span class="pagenum" id="Page_xxxv">[xxxv]</span> regiões transcendentes «onde as proprias -estrellas são» apenas, «gotas de sombra...»<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a></p> - -<p>Entreveem-se, fluctuando em imagens, as differentes Artes:</p> - -<p>A Architectura «que se abriu em transparencias e transfigurações, como -se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito».</p> - -<p>A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades, -dissipando-se nos amollecimentos divinos...»</p> - -<p>«...no terror da natureza, onde o diabo era visivel... a alma allemã -tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pallidos -silencios que se exhalavam divinamente no canto...»</p> - -<p>Esvae-se «aquella melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos -versiculos...»</p> - -<p>«Apparece Luthero», a alma allemã... que desfalecia n'aquellas -melancolias immensas que Alberto Dürer revelou...»</p> - -<p>Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte, -sumiu-se com a approximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões -da carne...»</p> - -<p>Até que outra vez «se produziu, na nossa epoca, como a Grecia produziu -a Esculptura, como a Europa gothica produziu a Architectura...»</p> - -<p>Chega-se assim aos tempos modernos:</p> - -<p>«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se -chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e -Shakespeare.<span class="pagenum" id="Page_xxxvi">[xxxvi]</span> A alma queria subir aquelles escarpamentos divinos para -colher a flôr do ideal.»<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a></p> - -<p>A melancolia dá côr ao <i>Romantismo</i>...</p> - -<p>«O typo em quem se resumem todos os soffrimentos, todas as -desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações, -os lyrismos d'esta epoca pallida e doentia: <i>Fausto</i>, -<i>Manfredo</i>, <i>Lara</i>, <i>Antony</i>, <i>Werther</i>, -<i>Rolla</i>, <i>D. Juan</i>...» que saem então de «toda uma mocidade -pallida e nervosa, de «toda uma primavera...»</p> - -<p>«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,—eis ahi a -Musica...», «aquella vaga Ophelia que se chama Musica...», «uma voz -inesperada em que se entendem os desconsolados...»<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a></p> - -<p>Constitue-se emfim a Musica moderna:</p> - -<p>«A Allemanha... a loura Allemanha de ideal seriedade, luminosa, um -tanto nuvem, cheia de vapores e de constellações... A Allemanha que -pensa com um doce ruido ineffavel», fórma a sua «Musica que é o vapor -da Arte...»</p> - -<p>E, ao lado d'ella, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do -palpavel... d'ondeante como seda invisivel».</p> - -<p>Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da <i>Symphonia de -abertura</i>.</p> - -<p>Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os <i>Cantos -fragmentarios</i> d'um immenso <i>Poema</i>:</p> - -<p>O Universo é um infinito de almas. As cousas teem<span class="pagenum" id="Page_xxxvii">[xxxvii]</span> sentimentos -humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de -todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem -nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas -inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma -é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente -inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes, -e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o -sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e -independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados -destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida -mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica -e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.</p> - -<p>Com este vago thema geral, o <i>Poema</i> em prosa d'Eça de Queiroz -propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da -visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra -sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de -vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,—todas as -vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados -d'uma escala musical;—era a phantasia tocando, um momento apenas, -o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada -pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e -clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses -de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos -symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do -christianismo,—a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria -pallida e doce figura de Jesus,—vão egualmente perder-se e ser<span class="pagenum" id="Page_xxxviii">[xxxviii]</span> -esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o -calculo demonstravel.<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a></p> - -<p>Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> e Michelet<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a> -recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a> que se ouviu pelo mundo -ao apparecer de novas crenças.</p> - -<p>O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz -é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então, -a ironia,—que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do -seu espirito,—fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques -tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um -mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é -illusorio, que só parece povoado por metaphoras,—e enternece-se, -e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as -produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo, -inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade, -vagamente symbolisada por todas essas imagens.<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xxxix">[xxxix]</span></p> - -<p>Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente -reaes,—da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em -Coimbra,—é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que -o seu espirito procura expressão.</p> - -<p>Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda, -parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da -arte.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xl">[xl]</span></p> - - -<h3>VII</h3> - -<p>Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e -originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a -necessidade de metrificar,—quasi que o mesmo genero de necessidade -de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa, -pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas -das mais patheticas inflexões.</p> - -<p>Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da -concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica, -apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a -havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve -sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos -technicos da metrificação.</p> - -<p>São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume -as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos -alexandrinos:<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xli">[xli]</span></p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Oh Satan tenebroso, tragico fulminado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tu vencerás em mim o intimo Deus bom</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Não com as armas biblicas com que bateste os astros,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.</span><br /> -</p> - -<p>Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada -com a assignatura de C. Fradique Mendes:<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a></p> - - -<p class="center">Serenata de Satan ás estrellas</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Nas noites triviaes e desoladas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como vos quero, mysticas estrellas!...</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lucidas, antigas camaradas...</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Gotas de luz no frio ar nevadas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Podesse a minha boca inda bebel-as!</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Não vos conheço já. Por onde eu ando!...</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Que Christo estaes no Céo crucificando?</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quem triste pelo ar vos foi soltando</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Profundos, soluçantes ais de luz!</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh viagem nas nuvens desmanchadas!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Doces serões do Céo entre as estrellas!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Hoje só ais, ou lagrimas caladas...</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ai! sementes de luz mal semeadas,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!</span><br /> -</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_xlii">[xlii]</span></p> -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando vos eu dizia soluçando:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">—Afastai-vos de mim cardos de luz!—</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Podesse eu ter agora os pés bem nus,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Inda por entre vós i-los rasgando!</span><br /> -<br /></p> -<hr class="tb" /><p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Hoje estou velho, e só, e corcovado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Causa-me espanto a sombra d'uma estola;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Enche-me o peito um tedio desolado:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E corro o mundo todo, esfomeado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Aos abutres do Céo pedindo esmola.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Eu sou Satan o triste, o derrubado!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas vós estrellas sois o musgo velho</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Das paredes do Céo deshabitado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E a poeira que se ergue ao ar calado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando eu bato com o pé no Evangelho!</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">O Céo é Cemiterio trivial:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vós sois o pó dos deuses sepultados!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Deuses, magros esboços do ideal!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só com rasgar-se a folha d'um missal,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Eu sou expulso, roto, escarnecido;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas a vós já ninguem vos quer as leis</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lembrae-vos que sois pó enegrecido</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E cedo em negro pó vos tornareis.<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a></span><br /> -</p> - -<p>Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de -improvisação poetica:</p> - -<p>Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de<span class="pagenum" id="Page_xliii">[xliii]</span> cear, o Eça de Queiroz, -o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem.</p> - -<p>A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.</p> - -<p>Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.</p> - -<p>Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré -enchente fez-nos fluctuar.</p> - -<p>Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se -levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa.</p> - -<p>Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em -busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo, -continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os -nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle -apenas pagaria um insufficiente repasto.</p> - -<p>Que fazer?</p> - -<p>—Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,—fazendo o gesto consagrado -de bater na testa.—Tenho uma ideia genial,—accrescentou, erguendo -tremulamente os braços ao Céo:—Sigam-me.</p> - -<p>E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, -com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos -invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios -horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á -calçada que leva de Belem á Ajuda.</p> - -<p>Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando.</p> - -<p>Seriam quasi 5 horas da manhã.</p> - -<p>Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz<span class="pagenum" id="Page_xliv">[xliv]</span> dirigiu-se a uma casa -baixa, de janellas cerradas, e bateu.</p> - -<p>Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus -somnos.</p> - -<p>O Eça de Queiroz explicou-nos:</p> - -<p>—Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um <i>tiro</i>. Só elle nos -póde salvar, n'este deserto.</p> - -<p>E continuou a bater durante minutos.</p> - -<p>Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta -resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, -e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de -caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro.</p> - -<p>—Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas -horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de -produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. -Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello, -com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India -e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,—sequins, -dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...</p> - -<p>O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões.</p> - -<p>—Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,—disse o Eça de -Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade.</p> - -<p>Voltámos a Belem.</p> - -<p>E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma -guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a -caldeirada que encommendáramos,<span class="pagenum" id="Page_xlv">[xlv]</span> o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do -primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução -seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Christo deu-nos o amor,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Robespierre a liberdade;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Malheiro deu-nos tres pintos:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Qual d'elles deu a verdade?</span><br /> -</p> - -<p>O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica -dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera -jámais fazer versos,—mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo -penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas -humanas.</p> - -<p>Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4 -decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a -ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.</p> - -<p>Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o -Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz, -eram d'uma graça scintillante.</p> - -<p>D'outra vez dois dos nossos amigos,—o capitão João de Sá e o -Zagallo,—convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros.</p> - -<p>Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego. -Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos, -desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam -comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós -mesmos partir, descobrimos que<span class="pagenum" id="Page_xlvi">[xlvi]</span> haviamos gasto, em bacalhau e Collares, -um dinheirão que não tinhamos na algibeira.</p> - -<p>Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves -e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem -vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno.</p> - -<p>O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á -tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar -com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas.</p> - -<p>Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno, -rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa -onde dormiramos eram caiadas. Então,—depois de almoçarmos ainda a -credito,—com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes -com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo -e hilariante, mixto, como genero, do <i>Childe Harold</i> e <i>D. -Juan</i> de Byron, do <i>Mardoche</i> e <i>Namouna</i> de Musset, do -<i>Intermezzo</i> de Heine, e da <i>Fabia</i> de Francisco Palha. Este -exercicio durou por 4 ou 5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, até -á altura de homem, cobertas de versos.</p> - -<p>Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do -Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente -de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela -phantasia, pela graça, pelo inesperado.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xlvii">[xlvii]</span></p> - - -<h3>VIII</h3> - -<p>Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficára em minha casa, -quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabello muito -curto, faces pallidas, feições miudas, ligeiro buço sobre os beiços -grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por -cima d'esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz -aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo -uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabello aos caracoes -louros, bigode lourissimo pendente.</p> - -<p>Acordámos.</p> - -<p>—Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando.</p> - -<p>—Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama.</p> - -<p>Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a> o João de Souza -Chavarro.<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a></p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_xlviii">[xlviii]</span></p> - -<p>—Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de -Rezende.</p> - -<p>N'essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,—um Restaurante -celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela -quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de -assumptos inintelligiveis.</p> - -<p>N'esse jantar demonstrou-se o vasto ridiculo do <i>Romantismo</i>, -descreveu-se, discutiu-se e approvou-se o <i>Realismo</i> na arte, -fez-se a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade, -da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no -estylo, na toilette,—a apotheose de todas as correcções. Terminámos, -depois da meia noute, abraçando effusivamente o velho Andrews,—o -inglez que tinha uma lenda mysteriosa, e que alli jantou, durante -annos, despejando por noute, em silencio, com methodo, lentidão e -continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto.</p> - -<p>Tempos depois o Eça de Queiroz partia em viagem com o conde de -Rezende:—<i>Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et le -chevalier de Queiroz</i>,—diziam jornaes do Cairo. Assistiram á -inauguração do Canal de Suez, visitaram o Egypto e a Palestina.</p> - -<p>Na Primavera de 1869, estavamos uma tarde,—o Anthero de Quental e -eu,—na casa que então habitavamos a São Pedro de Alcantara, quando -entrou o Eça de Queiroz que chegára, havia pouco, do Oriente, e ainda -não viramos:</p> - -<p>Trajava uma longa sobrecasaca aberta; cobria-lhe o peito, em relevo, -um <i>plastron</i> que nos pareceu enorme, sobre o qual se erguia um -collarinho altissimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os -botões uniam<span class="pagenum" id="Page_xlix">[xlix]</span> pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande -parte das mãos mettidas em luvas amarellas muito claras. Vestia calças -claras, arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas -pintas amarellas e sapatos muito compridos, inglezes, de polimento. -Tinha na cabeça um chapeu alto, de pello de seda brilhantissimo. E -olhava-nos com um monoculo que lhe estava sempre a cahir e que elle -por isso, abrindo a boca em esgares sarcasticos, a miudo reentalava no -canto do olho direito.</p> - -<p>Abraçámol-o com enthusiasmo—e cobrimol-o de epigramas.</p> - -<p>Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos typos, scenas nos -bazares do Cairo, no deserto egypcio,—os guias, os cheiks, e á noute, -em volta das fogueiras, os camellos, «de expressão humoristica, -sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador, -por sobre os hombros dos beduinos attentos, graves e encruzados.</p> - -<p>Contou-nos, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o uso -do <i>Haschich</i>, e as visões phantasticas que nos preparava,—por -que elle e o conde de Rezende haviam trazido <i>Haschich</i> em geleia, -em bolos, e em pastilhas que se fumavam n'uns cachimbos especiaes.</p> - -<p>Mas pretendia haver voltado doentissimo, de uma extrema debilidade, de -uma morbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de continuo, um -grande lenço perfumado de seda branca com que limpava a testa, cofiava -a barba, que atirava sobre a mesa, interrompendo-se para entalar o -monoculo e exclamar em voz desmaiada:</p> - -<p>—Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu deliquio! o meu -<i>apoplêté</i>! Meninos, depressa, os meus saes... onde estão os meus -saes?!...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_l">[l]</span></p> - -<p>E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de saes que -aspirava soffregamente.</p> - -<p>Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de -Queiroz: mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando -elle conversava, quando elle contava, quando elle representava algum -personagem que quizesse imitar ou a que quizesse dar vida. Parecia, com -o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de replica, de -graça, o representante d'uma raça especial fallando em Portugal uma -lingua nova.</p> - -<p>Ouvimol-o toda aquella tarde, fômos jantar com elle,—não o podiamos -largar.</p> - -<p>As ideias estheticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo, -profundamente modificado.</p> - -<p>Citava especialmente a <i>Salammbó</i> e a <i>Tentação de Santo -Antão</i> de Gustavo Flaubert. Preoccupava-se com a perfeição da forma, -com a realisação da côr, segundo este litterato. Lia tambem a <i>Vida -de Jesus</i>, o <i>São Paulo</i>, de Ernesto Renan, e as <i>Memorias de -Judas</i>, de Petrucelli della Gattina.</p> - -<p>Foi sob estas influencias que,—com as impressões locaes da sua recente -viagem á Palestina,—começou em Lisboa, a escrever a <i>Morte de -Jesus</i>, publicada em folhetins, na <i>Revolução de Setembro</i>, de -13 de Abril a 8 de Julho de 1870.</p> - -<p>Mas havia escripto, além do que se publicou,—uns capitulos que elle me -leu, e depois sem duvida destruiu ou se perderam.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_li">[li]</span></p> - - -<h3>IX</h3> - -<p>Entre os <i>Folhetins</i> da <i>Gazeta de Portugal</i> e a <i>Morte de -Jesus</i> na <i>Revolução de Setembro</i>, medeiam quasi 3 annos.</p> - -<p>Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito d'Eça de -Queiroz continuava.</p> - -<p>Um dia veio mostrar-nos, ao Anthero de Quental e a mim, o primeiro -esboço, muito desenvolvido,—tão extenso que levou varias noutes a -ler,—d'um romance intitulado <i>Historia d'um lindo corpo</i>.</p> - -<p>Foi a sua primeira tentativa de Litteratura realista. A ideia da obra -era, até certo ponto, se bem me recordo, a do <i>Affaire Clémenceau</i> -de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte, devida -á influencia dos processos da <i>Madame Bovary</i>, e da <i>Educação -Sentimental</i> de Gustavo Flaubert.</p> - -<p>Pouco depois,—em 1871,—Eça de Queiroz descrevia n'uma das -<i>Conferencias democraticas</i> do Casino, <i>o Realismo na arte</i>, -expondo as ideias em parte praticadas por<span class="pagenum" id="Page_lii">[lii]</span> Flaubert e Courbet, e -theoricamente descriptas, por Proudhon, no livro <i>Do principio da -arte e do seu destino social</i>.</p> - -<p>O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução -exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente. -A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma -admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso -de sentimento.</p> - -<p>Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos -antigos <i>Contos phantasticos</i> da <i>Gazeta de Portugal</i> e lhe -reli, se não me engano, <i>As memorias d'uma forca</i>.<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a></p> - -<p>Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas -sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto, -o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão -pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo—dizia elle,—na -construcção da phrase e no emprego dos vocabulos.</p> - -<p>Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo:</p> - -<p>—Tens talvez razão,—está claro, tens razão. Talvez se deva republicar -isso em livro;—mas sob o titulo critico e severo de <i>Prosas -barbaras</i>.</p> - -<p>Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do -desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu -devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas -mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,—e de -todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_liii">[liii]</span></p> - -<p>Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação:</p> - -<p>Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado -o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão -maravilhosamente vivêra.</p> - -<p>Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,—por esse -tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não -longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto -fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle:</p> - -<p>—«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o -teu antigo conselho: Ennevoei-me, outra vez, totalmente, no -phantastico,—n'aquelle velho phantastico da <i>Gazeta de Portugal</i>, -feito agora com menos <i>abutres</i>, e em <i>prosa</i> talvez menos -<i>barbara</i> que então: Estou escrevendo a vida diabolica e milagrosa -de São Frei Gil;—e por signal,—dir-to-hei agora aqui, quando -justamente nos achamos sob arvoredos,—que a nossa riquissima lingua -portugueza me parece deficiente em côres com que se pintem selvas;—e -tambem te confiarei que, tendo mettido, por minhas proprias mãos, o -santo bruxo n'uma floresta, não sei como o hei-de tirar de lá».</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>Cintra, Setembro de 1903.</p> -</div> - -<p class="right"> -<i>Jayme Batalha Reis.</i><br /> -</p> -<div class="footnotes"> - -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Hoje, travessa do Gremio Luzitano.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Veja-se Eça de Queiroz. <i>Um genio que era um Santo. -Anthero de Quental. In memoriam</i>—Porto, 1896, pp. 499-502; J. -Batalha Reis, <i>Annos de Lisboa</i>, Idem, 442-445.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Hoje, rua do Diario de Noticias.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Pag. 107 do presente livro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> Veja-se p. 133 do presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> 3 de Novembro de 1867, p. 142 do presente volume. Veja-se -tambem a <i>Carta a Carlos Mayer</i>, pp. 133-145.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> «Na Europa o Sul representa ... a maneira de ser exterior, -como o Norte representa o vago sentimento intimo...» Eça de Queiroz, -<i>Da Pintura em Portugal</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 10 de -Novembro de 1867.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> «... nós ... os que estamos n'este canto da velha terra -portugueza, com a alma serena, sob o céo claro...» Eça de Queiroz, -<i>Symphonia de Abertura</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 7 de outubro, -1866.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> «du Heine de deuxième qualité». Anthero de Quental, -<i>Carta a Wilhelm Storck</i>, 14 maio 1887.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Pp. 27-43 do presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> H. Heine, <i>Reisebilder</i>. <i>Les nuits -florentines</i>, <span class="allsmcap">II</span>, 316-330, (cito a traducção franceza que -Eça de Queiroz conheceu).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Pp. 2-13 do presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Veja-se pp. 8, <span class="allsmcap">XV</span>; 10, <span class="allsmcap">XX</span>; e -<i>passim</i>, no presente volume.</p> - -<p>«Luzia um grande sol, mas negro; o sol da melancolia...» <i>Symphonia -de abertura</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 7, outubro, 1866.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Veja-se pp. 5, <span class="allsmcap">VIII</span>; 89, 98 e <i>passim</i> do -presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> «...Baudelaire, poeta rethorico,...» A. Z. (Eça de -Queiroz) <i>Leituras modernas</i>. <i>Districto d'Evora</i>, 6, janeiro -1876, p. 2.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Vejam-se pp. 112, 120-121, 122, 131.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Vejam-se pp. 93-101 do presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> <i>O Monge</i>, destruida pelo author e nunca publicada.</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">... aux voûtes gothiques</span><br /> -<span style="margin-left: 7em;">Des portiques,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Les vieux saints de pierre athlétiques</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Priant tout bas pour les vivants!</span><br /> -</p> - -<p> -<span style="margin-left: 1em;"><span class="smcap">A. de Musset</span>, <i>Premières Poésies, Stances, 1828</i>.</span><br /> -</p> - - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Não incluido no presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Com o titulo «A Peninsula» no presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Não incluido no presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Tem uma Introducção omittida no presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Tem uma epigraphe e primeira parte omittidas no presente -volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Tem uma pequena introducção omittida no presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Tem uma parte critica relativa ao cantor Julio Petit -omittida no presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> <i>Gazeta de Portugal.</i> 7 de outubro 1866.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> «Constelações, gotas de sombra», p. 100 do presente -livro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Veja-se Victor Hugo, <i>William Shakespeare</i>; -principalmente, <i>Livre</i> II; <i>Les Génies</i>, II. Veja-se tambem -p. 22 do presente volume.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Veja-se, p. 20 d'este volume, uma outra definição de -Musica.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> «Oh, egoismo humano, os que vão morrer saudam-te», Eça -de Queiroz, <i>O Milhafre, Introducção, Gazeta de Portugal</i>, 6 de -outubro de 1867.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> <i>De l'Allemagne.</i> <i>Les Dieux en exil</i>, IX -partie, pp. 181-242 (cito a traducção franceza que Eça de Queiroz -conheceu).</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> <i>La Sorcière.</i></p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Veja-se p. 6, XIII, do presente livro.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> As visões «são as attitudes phantasticas e desmanchadas -que a sombra dá ás verdades», p. 91 do presente livro.</p> - -<p>«... à ceux qui ont mis leur foi dans les rêves comme dans les seules -réalités.» Edgar Allan Poe, Eureka. trad. de Ch. Baudelaire.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> <i>Omphalia Benoiton</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 15 -Dezembro, 1867.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Os versos citados na <i>Revista Moderna</i> (20, Novembro -1897, p. 324) não são de Eça de Queiroz. Nunca elle publicou na -<i>Revolução de Setembro</i>, em folhetins,—como tambem na <i>Revista -Moderna</i> se affirma,—os primeiros cantos d'um poema, <i>A tentação -de S. Jeronymo</i>. Existe, com effeito, de Eça de Queiroz, mas -inedito, um poemeto sobre este assumpto.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> <i>Revolução de Setembro</i>, 29 de Agosto de 1869.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Hoje conde de Rezende.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Official da marinha real portuguesa, e desde 1881, Consul -geral de Portugal nas ilhas Sandwich.</p> - -</div> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> Vejam-se pp. 161-172 do presente volume.</p> - -</div> -</div> - -<p><span class="pagenum" id="Page_1">[1]</span></p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p class="center xbig">PROSAS BARBARAS</p> -</div> -<hr class="r5" /> -<h2 class="nobreak" id="NOTAS_MARGINAES">NOTAS MARGINAES</h2> - - - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">...... d'este lado do rio</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">...... o namorado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E a moça dos olhos pretos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">...... do outro lado.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas o rio era profundo,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Não se podiam juntar.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nunca o sol encontra a lua.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Tal andava aquelle par.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">............. flores</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">..... á agua iam dar;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">........ os beijos</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ficavam todos no ar.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">A moça ...............</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Disse adeus ao namorado;</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E foi ................</span><br /> -<span class="pagenum" id="Page_2">[2]</span><span style="margin-left: 1em;">...... bandas do povoado.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Elle ficou amarello,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como a vela d'um altar.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas se o rio ..........</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Não se podiam juntar.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Anoiteceu..............</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Por alli andou penando:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E por fim lançou-se ao rio,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o rio ...............</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">.........................</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">.........................</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas as flores foram prender-se</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Nas suas mãos côr de cera.</span><br /> -</p> - -<p>Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restos d'uma velha -cantiga, alguem escreveu estas notas desordenadas e extranhas:</p> - - -<h3>I</h3> - -<p>Ó dôce cantiga dos namorados da beira do rio, tu és uma verdade sempre -nova! Ainda hoje o triste anda penando nas aguas escuras; e os teus -olhos, ó serena rapariga, são eternamente falsos!</p> - -<p>Não era assim que eu pensava no tempo d'aquelles nossos amores, ó nome -que eu não escrevo! d'aquelles amores tão dôces como a suavidade das -nossas noites d'outomno—tão coloridos e vagos como aquellas nuvens, -que sempre no ar andavamos formando e desmanchando!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_3">[3]</span></p> - - -<h3>II</h3> - -<p>Ó voluptuosidade! tu és a imagem do Oceano nos teus caprichos. Agora -embalas-te, dôcemente doirada com os ultimos raios do sol: depois -dormes tranquilla, aos calores silenciosos: por fim agitas-te, cheia de -tempestades.</p> - - -<h3>III</h3> - -<p>E, quando eu te via, não via mais as flôres, nem as pombas, nem as -estrellas: mas, quando pensava em ti, via-te delicada como todas -as flores, voluptuosa como todas as pombas, luminosa como todas as -estrellas.</p> - - -<h3>IV</h3> - -<p>Ás vezes, solitario e silencioso, via passar na sombra, diante -de mim, como uma legião d'inspirações rhapsodicas, os teus olhos -humidos, como violetas debaixo d'agua—depois os teus braços da côr do -marmore—depois os teus cabellos negros e fluctuantes... Em fim, sobre -um fundo maravilhoso, tu apparecias superiormente serena, perfeita e -luminosa!</p> - - -<h3>V</h3> - -<p>De cada um dos teus desejos nascia uma flôr.</p> - -<p>E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam dôcemente -aquellas flôres marginaes.</p> - -<p>E as flôres cresciam, cresciam até se tornarem magnolias grandes; o -vento tomava-as preguiçosamente<span class="pagenum" id="Page_4">[4]</span> pela haste; e ellas, inclinando os -seus rostos pallidos, contavam-lhe os perfumes de mais segredo.</p> - -<p>E as magnolias iam crescendo até se tornarem n'uma arvore immensa. -Então o vento enroscava-se no tronco, insinuava-se nos ramos, e fazia -palpitar as folhas sonoras.</p> - -<p>E então a arvore estremecia, como n'um sonho agitado; depois -adormecia—e dava em redor uma sombra serena e consoladora.</p> - - -<h3>VI</h3> - -<p>Quando te vejo, despertam no meu pobre coração as melodias e as dôces -melancolias d'amor, como na primavera se reanimam as aves e desabrocham -as violetas.</p> - -<p>Quando me fallas, tudo se alumia com constellações apaixonadas, e -parece que passam dentro de mim todos os aromas das magnolias.</p> - -<p>Mas se me dizes que <i>me queres muito</i>, sinto que vem logo um -estranho inverno descorar-me as faces, desfolhar-me a alma de todas as -emoções, e cobrir de geada todos os loucos desejos.</p> - -<p>Oh! nunca me digas que <i>me queres muito</i>!</p> - - -<h3>VII</h3> - -<p>Tua irmã é carinhosa, e dôce, e meiga, e casta, e consoladora.</p> - -<p>Tu és altiva, inquieta, e desdenhosa.</p> - -<p>Tua irmã!... Mas se ella não tem o timbre suave da tua voz, o luminoso -fulgor dos teus olhos, a côr<span class="pagenum" id="Page_5">[5]</span> mimosa dos teus cabellos! Mas se ninguem -tem a santa, a purificadora brancura da tua fronte!</p> - - -<h3>VIII</h3> - -<p>Os teus olhos negros são como duas flores do mal. Os seus olhos azues -são como duas dôces elegias.</p> - -<p>E a flor do lotus, a apaixonada flor do lotus, sómente se abre á doçura -immensa da lua!</p> - - -<h3>IX</h3> - -<p>Oh! minha bem amada! eu já vi os teus olhos brilharem dolorosamente, -como duas estrellas negras de melancolia: tinhas tu então rasgado um -veu côr de papoula, que te cobria.</p> - - -<h3>X</h3> - -<p>Tu estavas na egreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma -fidalga hespanhola.</p> - -<p>Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia—<i>Jesus!</i></p> - -<p>Mas nos labios tinhas um colorido avelludado e luminoso, como o das -flores vermelhas mettidas na agua; e na linha de sombra dos teus labios -corria um sorriso, que só dizia—<i>amor!</i></p> - -<p>Talvez um dia ainda te encontre na egreja. Sómente, então, os -teus labios estarão descorados como a fadiga e timidos como o -arrependimento. Sómente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos -esfomeados,<span class="pagenum" id="Page_6">[6]</span> e terão aquella luz desejosa e ávida, que têm as estrellas.</p> - - -<h3>XI</h3> - -<p>Foi debaixo das arvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de -violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva.</p> - -<p>Foi lá que me disseste aquellas palavras, que me pareceram uma -blasphemia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nullo, como um -sacerdote esbofeteado pelo seu Deus!</p> - - -<h3>XII</h3> - -<p>Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu -vestido!</p> - -<p>Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas -pequenas—as pobres ondas!—soluçando, choravam sobre a areia.</p> - - -<h3>XIII</h3> - -<p>Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas, -que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e -a sua nudez era doce e melodiosa.</p> - -<p>Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande -Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos, -as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias; -serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_7">[7]</span></p> - -<p>Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e -envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da -frescura das plantas.</p> - -<p>Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades -de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma -apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens. -E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e -avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que -vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam, -junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como -aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!</p> - -<p>Esta historia é de ha seiscentos annos—e de hontem á noite...</p> - - -<h3>XIV</h3> - -<p>Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pelle macia.</p> - -<p>Todos os teus pensamentos se moviam n'uma comedia extravagante e solta.</p> - -<p>Abafavas burguezmente a musica do teu corpo em chailes pesados e largas -saias: e a seda dos teus vestidos tinha um fremito indefinido de -sarabanda—e de cachucha.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_8">[8]</span></p> - - -<h3>XV</h3> - -<p>Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrellas, -como grandes olhos curiosos, espreitavam atravez da folhagem. Eu -era o tenebroso, o inconsolavel, o viuvo. Errava pela floresta, e -a espaços cantava uma canção vagamente triste como o susurro dos -cyprestes:—depois dizia palavras iradas, e asperas como os cardos;—e -mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saía-me -pelos labios, como uma açucena branca que se abre dentro de um copo, e -que o enche.</p> - -<p>E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem amada! os ramos -estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar ás -cantigas, ás iras e ás orações todas os caminhos do ceu.</p> - - -<h3>XVI</h3> - -<p>Tu pensavas que o teu amor me envolvia mollemente como um largo vestido -de seda, todo forrado de arminhos.</p> - -<p>E um dia, ó minha bem amada de cabellos côr de amora! viéste despir-m'o -de golpe, com um rosto colorido de risos.</p> - -<p>Mas o vestido estava collado ao corpo—vinte vezes collado ao corpo: e -tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me -jorros de sangue, e arrancou-me os cabellos, e deixou-me, ó minha bem -amada de braços d'aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_9">[9]</span></p> - - -<h3>XVII</h3> - -<p>Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras -para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és -tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra.</p> - - -<h3>XVIII</h3> - -<p>Eu abri aquelle coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri -lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia, -como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de -folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por -cima da folhagem mugidora esvoaçava, baloiçada por ventos immensos, -uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam -com os ossos dos cotovelos as carnes molles, e lambiam o sangue que -escorria das orbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e -desfallecidas em voluptuosidades mais morbidas do que os orvalhos da -lua.</p> - -<p>Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado, -pequeno, e feminino;—e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que -lhe dei um beijo!</p> - - -<h3>XIX</h3> - -<p>Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios—e olhava para as -nuvens.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_10">[10]</span></p> - -<p>Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante.</p> - -<p>Outr'ora—ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aereas das -nixes por entre a musica dos cannaviaes! ó ondinas humidas! ó danças -nebulosas das wilis! ó espiritos gentis e vaporosos, que andaveis -nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecieis dentro -do calice dos lirios brancos, embalados como n'um berço! ó dôces e -enganadoras creaturas, que povoaveis e alumiaveis tudo como estrellas -romanticas!—outr'ora os rios, o ceu e os arvoredos encobriam-vos, ó -invisiveis! mas como em tecido fino, que deixa passar todos os aromas e -todas as côres.</p> - -<p>E agora os rios, o ceu, os arvoredos estão desertos.</p> - -<p>Os arvoredos só contam, como velhos palradores, historias de gigantes, -loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da -folhagem.</p> - -<p>O ceu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos -serios d'um craneo immenso.</p> - -<p>Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher.</p> - - -<h3>XX</h3> - -<p>Andamos todos soffrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados -pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bençãos fecundas. -A esperança fugiu para além das estrellas, das nuvens e dos caminhos -lacteos. Nos corações nascem amores<span class="pagenum" id="Page_11">[11]</span> sombrios e loucos. E tudo porque -um dia nasceu uma creança estranha, que foi alimentada com um leite -morbido como a lua, e envolta n'uma tunica livida como a morte!</p> - - -<h3>XXI</h3> - -<p>Onde estará ella agora—a minha bem-amada, aquella creança de olhar -profundo?</p> - -<p>Era n'aquellas almofadas que ella se recostava: era por alli que ella -passava—e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e -perfumavam.</p> - -<p>A pé! a pé! meus desejos! Acordae, acordae, e ide buscar-m'a! Accendei -todas as estrellas, e ide procural-a pelos caminhos escuros! Desgrenhae -os cabellos verdes das florestas! Assoprae a espuma das ondas! -Dispersae as multidões! Quebrae os encantos! Ide procural-a pelos -astros! Despedaçae as tendas aereas, onde vivem os sonhos!</p> - -<p>Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando solitario e -silencioso, como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.</p> - - -<h3>XXII</h3> - -<p>«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas -que me consolem! Só resta morrer.»</p> - -<p>E o corpo diz á alma:</p> - -<p>«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos -sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te, -filha, como eu<span class="pagenum" id="Page_12">[12]</span> velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu -soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás -vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim, -onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e -sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te -voluptuosamente—a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes -morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar -errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar -nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas -rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores -tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos! -E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!»</p> - -<p>E a alma dizia ao corpo:</p> - -<p>«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada, -indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo. -Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas, -que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha -ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir -fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos -para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia.</p> - -<p>«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a -que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda, -que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em -breve não te lembrarás mais de mim.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_13">[13]</span></p> - -<p>«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de -estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem <i>alma</i> como eu—ou -se chamem <i>aroma</i>—ou, então, se chamem <i>som</i>.</p> - -<p>«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia, -encontrares os átomos <i>d'aquella que eu tanto amei</i>, não te -juntes com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a -flôr ha-de mirrar-se;—se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de -apagar-se;—se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...»</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_15">[15]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="MACBETH">MACBETH</h2> -</div> - - -<p>Foi no tempo de Philippe <span class="allsmcap">II</span>, tragico môcho do Catholicismo, -que Shakspeare creou o seu drama épico de Macbeth.</p> - -<p>É desde então que aquella figura, que exhala noite e humidade, erra -pelo enorme ceu negro, livida no meio das tempestades, alumiada e -crescida por um estranho reflexo de saques e de incendios, em quanto -os abutres, os corvos, os milhafres, os gaviões, as corujas vôam em -circulos sobre a sua tragica cabeça esguedelhada.</p> - -<p>As outras imaginações nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet, Lear, -Othello e pisam com pé tragico o sólo augusto da epopeia, todas têm -junto de si o dôce corpo de uma mulher para lhes embalar no seio as -angustias tenebrosas, como n'um leito mysterioso, para lhes fazer subir -por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem.</p> - -<p>Essas fórmas femininas andam impalpavelmente,<span class="pagenum" id="Page_16">[16]</span> como radiações de luz, -em redor d'aquellas terriveis cariatides do mal: ellas derramam-se -sobre aquellas almas nocturnas, como umas auroras vivas, cheias -de meiguices, d'orvalhos, de claridades, de fecundos descanços, -purificadoras e transfiguradoras.</p> - -<p>Assim Ophelia, humida dos beijos da agua, segue o seu dolente e -lacrimoso Hamlet; Desdémona derramou o seu perdão, como um oleo santo, -sobre a agonia flammejante de Othello: e Cordelia estira os seus -braços como azas de benção, e, com gestos de coroação, ampara a cabeça -desvairada do velho rei Lear. Macbeth, esse vae seguido na sombra pelos -seus negros vassallos—os incendios, as pestes, os derrubamentos.</p> - -<p>Macbeth é o mal-phantasma. Elle não é d'aquelles lobos que andam, pela -noite da historia, dilacerando as liberdades e as patrias. Não.</p> - -<p>É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra, -seria o egual de Satan. Quando a sua corôa reluz na escuridão, parece -que as constellações devem seguir aquelle reflexo terrivel, curiosas -de saber que sombria aventura vae elle tentar contra o Homem. Porque -é certo que elle provoca a attenção do infinito, e tem mysteriosas -affinidades na noite.</p> - -<p>Elle atravessa todo aquelle drama como um espectro.</p> - -<p>Quando as Ondinas saíam fóra da agua a namorar os moços formosos -debaixo dos platanos, denunciavam-se, as pobres, porque a orla do seu -vestido estava sempre ensopada d'agua. Macbeth é assim: debalde se -cobre de purpuras, e se assenta aos banquetes,<span class="pagenum" id="Page_17">[17]</span> e falla de manobras -de guerra com os seus capitães tenebrosos, e se queixa que lhe foge o -somno, para parecer humano: os que se approximam d'elle empallidecem, -porque a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa.</p> - -<p>Elle ouve a predicção das soberanias flammejantes da bocca esverdeada -das feiticeiras, que se dão, lascivas, aos beijos do vento, por cima -das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a -noite de sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terraços, -entrevê o luzir dos punhaes: não póde sentar-se aos banquetes -resplandecentes, entre os risos sonoros, sem vér diante de si, com a -lividez dos que fizeram a viagem maldita, o espectro de Banquo, d'onde -se exhalam os castigos. Por fim, quando toda a Escocia sangra, porque -passou Macbeth esmagando as cidades, assolando os campos, enegrecendo o -ceu com o fumo—luto dos incendios—não são os exercitos que o vencem: -a natureza ouviu as queixas humanas, os brados de justiça que saíam -dos postes, das queimadas, das forcas, dos cemiterios, ouviu a alegria -estridente dos abutres, dos córvos e dos milhafres—e destaca então uma -floresta, que vae com ruido tragico esmagar o homem sinistro. N'este -castigo, Shakspeare é maior que Eschilo. Eschilo, quando vê Prometheu -pregado no Caucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade -de marmore dos deuses de nomes sonoros, vem, pallido, ajoelhar junto -d'aquelle rochedo ideal e santo como um altar; e, suffocado, apenas -póde fazer um gesto supplicante ao velho Mar, para que mande as suas -Oceanides consolar o vencido enorme.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_18">[18]</span></p> - -<p>Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo, -derrubar os capacetes heraldicos, matar os instinctos, matar os -Macduffs, matar as creanças d'olhar divino, as mulheres de seios -fecundos, matar a patria—corre desvairado, toma uma floresta e vem -esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e -aquelle castigo passa com o ruido terrivel do carro da justiça.</p> - -<p>Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa—Lady Macbeth. Lady Macbeth -é a serenidade do mal. Ella, com a sua attitude soberana e barbara, -tem a vaga semelhança d'uma Juno homerica. Tem em si toda a grandiosa -rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte.</p> - -<p>Ella é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ella passa -no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes -parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que funebre resignação: -as coleras e os castigos têm quasi piedade d'aquella mulher esteril. -Ella não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não -tem a maternidade. Alguem, feroz e desconhecido, lhe tirou aquelles -amollecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a attitude -hirta e rigida do mal.</p> - -<p>Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de marmores e -de bronzes, e erguida ao longe n'uma lividez silenciosa, tendo -por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos -estremecimentos d'alma, as oppressões e as violencias, e vem então -lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições, -accende com um olhar as sinistras<span class="pagenum" id="Page_19">[19]</span> queimadas pela planicie, e volta -para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a -cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue.</p> - -<p>E no emtanto, quando ella passa, o olhar perde-se na contemplação -perigosa d'aquelle busto forte, d'aquelles braços de aço, d'aquella -testa que tem reflexos de opala, d'aquelles cabellos poderosos de um -negro flammejante, d'aquelle seio de fórma barbara. E então abre-se -na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente. -Aquelle olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores -humidos e de mugidos de aguas. E a alma, esquecida da justiça e do -bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que -cercam aquella mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a -vestem, destrançar-lhe os cabellos pelas molles sombras e dissolver-se -n'aquelle olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O -coração ri-se dos gemidos da Escocia e do ultimo high-lander, que morre -contemplativo, tocando as árias da sua montanha na ultima cabana, e -lastima unicamente Macbeth porque tem para matar—só um Duncan. Suffoca -o peito a negra lembrança de um desfallecimento lascivo, n'aquelles -braços de marmore pallido, salpicados de sangue. A contemplação -d'aquella terrivel Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e -tremulo, como se sobre elle se estendesse a nudez de uma deusa.</p> - -<p>Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quiz revelar no seu poema -musical de <i>Macbeth</i>.</p> - -<p>Ha, sem duvida, na obra immensa de Shakspeare<span class="pagenum" id="Page_20">[20]</span> creações que devem dar -a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida -de sensualidades pesadas, coberta com velludos de prégas molles e -silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes -feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de -luz; os corpos luminosos feitos de argillas ideaes: ha almas tão puras -como musicas de constellações, tão terriveis como as fulgurações do -desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Elle semeou -alli, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes, -as angustias, as melancolias, a duvida, a paternidade, a covardia—eu -sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sêdas, farrapos, lutos, purpuras, -sudarios; umas cabeças têm corôas flammejantes, outras cabeças têm -corôas de violetas: aquellas creações têm nos labios o lyrismo, a ode, -a imprecação, a satyra, a chocarrice: ha architecturas, tormentas -afflictas, arvoredos sagrados, luares e apparições. Assim caminha -enorme aquella obra, tentando a grande aventura da immortalidade! Para -dar a vida e o sopro ideal a esta creação immensa, é necessario que -venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuarios, o -lyrismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra.</p> - -<p>A musica deve ser a voz de tudo aquillo que alli está silencioso, sem -ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o -comprehender,—a voz das estrellas, das pedras, das nuvens, das flôres, -de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lacteas, falla -muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturaes, para que o -nosso extasi as<span class="pagenum" id="Page_21">[21]</span> possa escutar. Quando Julietta suspira ao seu balcão, -desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em -pequenas estrellinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite, -em roda d'ella, as flôres, as vegetações, aquellas molles divindades -núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que -cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas -das raizes, que são as estrelas—tudo se balança n'aquella evaporação -de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade -do seu jardim, como um diamante no seio d'uma negra: e toda a natureza -está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos -pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma -de Ophelia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos -como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e -se desmancham, o lyrismo do celeste William empallidece como um heroe -derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e -branca, revelar todas aquellas vibrações celestes.</p> - -<p>E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas -musicaes do que as figuras historicas.</p> - -<p>São aquellas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem -soffrer, que nos transfiguram a alma.</p> - -<p>Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette, -e Beatriz de Cenci, e a idyllica Ignez de Castro? Nós vemos estes -desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, attentos á justiça<span class="pagenum" id="Page_22">[22]</span> -de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquellas fatalidades, -mostramos lá em cima o grande azul constellado.</p> - -<p>Mas que Julietta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar -fulgurante pelo espaço, para allumiar a fuga de Romeu até Mantua; que -Desdémona diga a <i>canção do salgueiro</i>, onde se morre de amor; que -appareça entre os lutos reaes o enterro virginal de Ophelia, nós vamos, -desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos mysteriosos sóbe -lá cima, até á radiosa bondade divina, o côro supplicante das lagrimas.</p> - -<p>No emtanto, parece que as imaginações terriveis e ferozes dos poetas -não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os -maestros querem subir aquelles escarpamentos divinos, cáem, sem fòlego, -junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lyrismo, o -sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de -cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de petalas macias, e de -vapores de luz.</p> - -<p>Sem fallar em Gounod, que não comprehendeu a grande figura de Fausto, -mas pôz divinas vibrações nos labios de Margarida, o grande Rossini não -pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Othello, e ficou-se -a chorar um chôro celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro.</p> - -<p>Assim tambem Verdi, o luminoso Verdi, não comprehendeu aquellas trevas, -que Shakspeare derramou na alma de Macbeth.</p> - -<p>Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de -nós outros, os portuguezes,<span class="pagenum" id="Page_23">[23]</span> é, realmente, o unico compositor italiano -verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti; -Rossini retirou-se da arte.</p> - -<p>Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume -santo, o desvairamento ideal, o deus, aquelle sôpro de que falla a -<i>Biblia</i>. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa -energica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer -que seja de rigido e de metallico n'aquella sonoridade sensual: elle -sabe excitar as sonoridades materiaes, mas não consegue arrancar a alma -do seu vestido de carne e leval-a, núa e possuida do infinito, pelas -regiões das surpresas radiosas.</p> - -<p>Todo o enthusiasmo que Verdi tem alimentado na Italia, provém do -momento grave em que se revelou.</p> - -<p>N'esse tempo a Italia revolvia o poema convulsivo da sua -reconstituição: os italianos, que tinham adormecido n'aquella rede -tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a -erguer-se e a experimentar os seus musculos frouxos e amolecidos de -amor e de sonhos. N'esse momento Verdi foi pela Italia com um canto -poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquella musica -apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as -energias: e a Italia seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na -alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades.</p> - -<p>No Norte, quando a Allemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no -seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas,<span class="pagenum" id="Page_24">[24]</span> -apparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas -poesias da Allemanha, melodias feitas quasi dos cantos populares, -que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra, -rhapsodos errantes: e quando a grande patria, ouvindo as caçadas de -Samosel pelas florestas da Thuringia, os estremecimentos dos elfos -vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mythologias do -Rheno, vivendo, soffrendo, voando, susurrando n'um livre canto, -ergueu-se terrivel, entoou tambem, ella, o velho canto de Luthero, -couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida, -ficou, sevéra e illuminada, esperando junto do Rheno, tendo a um lado o -espectro da honra e a outro lado o phantasma da justiça.</p> - -<p>Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul, -o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aquelles enthusiasmos -foram fecundos: as duas patrias sangram ainda: e as flautas tristes do -Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquelle chôro lento e -doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade -que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Italia! Pobre Allemanha! -Deus vos envolva n'um olhar de benção e de repouso, n'este tempo em que -estamos, que é a vespera das agonias!</p> - -<p>Mas, voltando ao <i>Macbeth</i>, é certo que Verdi fez d'aquella figura -desvairada um heroe italiano, melodioso e mau. Por toda aquella opera -anda errante um terror transparente e molle. Será porque a musica, a -meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquellas duas -almas pavorosas saídas<span class="pagenum" id="Page_25">[25]</span> da noite e pesadas de materia? Não sei. O certo -é que aquella opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece -que o velho heroe livido entrou n'este tempo moderno, amolleceu-se em -voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas -da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth -contar a sua velha legenda tragica sobre uma scena resplandecente. Com -effeito, aquella opera faz saudades do drama de Shakspeare: era alli -que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de -tres cabeças: era por aquelle terraço, onde mugia o vento, que elles -atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan.</p> - -<p>E assim, emquanto aquellas figuras lyricas se adiantam para a orchestra -de poderosos alentos, com as gargantas túmidas de melodias gemedoras -e violentas, a alma póde deixar o seu querido corpo e ir por cima dos -mares e dos continentes, para os descampados da Escocia, vêr passar -aquellas sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo -as legendas, galopam de noite nos clarões das tempestades, uivando -manobras de batalha.</p> - -<p>E depois póde a alma voltar, para ouvir aquella confusão de ruidos -coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que -estremecem, que gemem e que gritam, e que se vão desvanecendo em volta -do corpo e cobrindo-o como uma onda. Emquanto se canta <i>Macbeth</i>, -a alma póde andar longe, pelo paiz das chimeras.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_27">[27]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="A_LADAINHA_DA_DOR">A LADAINHA DA DOR</h2> -</div> - -<p class="right"> -(AO SNR. A. A. TEIXEIRA DE VASCONCELLOS)<br /> -</p> - - -<p>O musico Berlioz, ao voltar das bandas molles da Italia e das ilhas -da Grecia de lividos escarpamentos, sem serenidades idyllicas e sem -myrthos—recebeu nas ruinas das <i>Sorveiras</i>, junto de Nizza, onde -elle trabalhava na sua symphonia de <i>Harold</i>, toda cheia do mar, -esta carta vinda de França:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«O pintor Lyser voltou da Bohemia com a sua doidice elegiaca. Pedi-lhe -o retrato de Paganini como tu querias, mas elle disse-me, em segredo, -que fôra o diabo que lhe guiára a mão n'aquelles traços, e queria -conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão -n'uma pasta, entre um desenho do velho Claudio Loreno e um retrato de -Dante.</p> -</div> - -<p>Hontem, ao cair da tarde, estavamos ambos sentados juntos da janella. -O ar entrava todo emmaranhado nos cordões verdes das trepadeiras: nós -estavamos calados e abandonados á doçura divina das cousas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_28">[28]</span></p> - -<p>O pobre Lyser, com os seus grandes cabellos caídos, tomou o retrato -de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos, -de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens: -e, entre aquellas efflorescencias, escreveu os nomes de Dante, de -Hamlet, de Romeu e de Sancho Pansa, dizendo com a sua voz dolente: -«Paganini tinha alguma cousa de todos estes homens». Depois, no cimo -do cartão, desenhou a figura de Ophelia levada pela corrente, e um -morcego, com as azas dobradas, olhando tristemente, d'entre as cannas -debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente -como no seu elemento, e os grandes cabellos louros emmaranhados nos -limos da agua: e por baixo escreveu: «Duvída, Ophelia, do meu amor, -da verdade luminosa das estrellas, dos coloridos das folhas, da luz -branca do sol». E depois, com a voz séria: «Paganini, sobretudo, era um -morcego...»</p> - -<p>É assim aquelle pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe -morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua -rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as hervas molhadas. O -dia estava nublado. «Minha pobre irmã, disse elle, que nem póde levar -presa no seu lindo vestido uma restea de sol!» Sabes a religião que -Lyser tem pelo sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos -caminhos, sob a grande luz sonora do sol. N'essa noite em que a irmã -foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de -Lully, e de vez em quando compunha as dobras de um chale que tinha -lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido n'uma saudade<span class="pagenum" id="Page_29">[29]</span> mais -dôce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o ceu estava nublado, -elle dizia, de vez em quando, á morta: «Não tenhas pena, cá fóra nem -estrellas ha.»</p> - -<p>Foram-n'o buscar de madrugada, e elle vinha lento, dependurando-se do -fato do coveiro como uma creança, a quem assustam os uivos dos cães e o -chiar dos carros.</p> - -<p>Dias depois voltou ao cemiterio e o coveiro não o deixou entrar: o -pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lagrimas. «É -uma cousa de pressa que tenho a dizer a minha irmã» affirmava elle com -a voz passada de supplicações. O coveiro estava dentro fallando com uma -mulher de cabellos côr de vinho: e como a quizesse prender n'um abraço -barbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caíu sobre uma sepultura -toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos -vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura, resmungando: -«Malditos tropeços!»</p> - -<p>Por fim, veiu abrir a grade enferrujada ao pobre Lyser e com uma grande -voz: «Vá, que já são horas de entrar sem licença.» Lyser sumiu-se entre -os cyprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra: -«Luiza, se lá em cima encontrares a estrella Vesper, pergunta-lhe de -que tintas se faz a côr de rosa da tarde e os seus reflexos de rôxo -pallido; preciso sabel-o. Hontem dei o teu chale branco a uma pobre: -dize-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se -passares de noite por estas alamedas, não te approximes da casa do -coveiro; vive lá uma má mulher.»</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_30">[30]</span></p> - -<p>Dias depois chamou-me e disse-me: «Sabe? começo a acreditar que -minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma cousa: quando tiver alguma -camelia não a esmague, talvez seja feita do seio da pobre rapariga.» E -afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de -agua: mas de repente, voltando-se e com a voz cheia de supplicações, -accrescentou: «Nem as violetas: talvez sejam feitas dos olhos d'ella!» -Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre arvores onde havia o -sol, o côro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos -fructos: elle ia com a face toda tomada pela côr quente e fecunda da -vida.</p> - -<p>«Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz dôce e lenta como um -escorrer de mel: não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das -eiras e dançava debaixo dos platanos, morre nos frios de fevereiro. -Ha-de ter visto por esse tempo os pobres namorados que andam chorando -sobre as covas com os cabellos caídos. Então aquelles corpos das -raparigas desfazem-se. Alguem, que sabe e que vê, aproveita aquellas -fórmas e aquelles coloridos: da pelle do seio fazem-se petalas de -camelia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da côr dos labios -fazem-se os rainuculos, dos halitos perdidos fazem-se os cheiros -bons, e do olhar, da meiguice, do desejo d'ellas faz-se a primavéra, -o dôce ar das madrugadas de maio. De modo que de noite as flôres que -estão nos vasos, na sombra das alcôvas, conversam das suas existencias -passadas; fallam das danças ruidosas á guitarra; d'aquella manhã em -que a ponta do seio veiu espreitar, pela abertura do vestido, os olhos -do<span class="pagenum" id="Page_31">[31]</span> namorado; d'aquella tarde em que a face se vestiu de côr de rosa -para receber a visita de um bigode louro; d'aquella noite em que as -palpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quasi a -dizer <i>sim</i>. E se uma noite espreitar as flôres que estão nos -castos paraizos das alcôvas, ha-de-as vêr saír dos vasos, entrelaçarem -as fórmas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga similhança de um -corpo feminino.»</p> - -<p>É assim o pintor Lyser. Fez-se noite n'aquella alma, e por isso ella -tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o -languido, o estrellado.</p> - -<p>Agora deseja morrer e ser enterrado n'uma paisagem casta, assoalhada, -murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu -amigo Claudio Loreno.</p> - -<p>Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se -arrasta entre hervas seccas e ramagens, ao dorso de uma onda, á prôa -de uma barca de pesca; assim aquelle espirito, ao retirar-se d'aquelle -corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e -meigo—ao amor, á melancolia, á compaixão, á arte.</p> - -<p>Quando cheguei do Baltico, soube que Paganini se retirára de França: -tive a respeito d'elle grandes conversações com o rabequista Sica, que -pensa em fazer, para o verão, uma peregrinação pela Syria.</p> - -<p>Estavamos horas debaixo das tilias, fallando do chimerico espirito de -Paganini, até que as estrellas appareciam, contemplativas e augustas. -Sica contou-me<span class="pagenum" id="Page_32">[32]</span> toda a legenda idyllica e barbara de Paganini: os -seus amores em Verona, aquella cantora enfezada, de mãos macias e -sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquelle abbade de -fivelas luzentes, com quem ella ia debaixo dos velludos silenciosos, -n'um entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo paiz de -Cythera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odysseia de prisões e -de degredos: aquellas noites em que elle, poderoso e solitario, entrava -na confidencia dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lagrimas, -em que aquelle tragico homem, enroscado nas palhas do seu carcere, -olhava ao longe o mar Mediterraneo amollecido por aquella mollesa que -escorre dos astros e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda.</p> - -<p>Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre ás horas escuras -via as fivelas do abbade luzirem na noite. «Ás vezes o remorso, -affirmava elle, é bondoso, encarna-se em cousas que têm uma vida, uma -carnação, um sangue, uma mollesa, que se podem abrandar, a quem se póde -supplicar; mas aquellas fivelas metallicas, inertes, rigidas, eram um -remorso frio, surdo, inflexivel, faziam-me subir ao rosto o suor do -antigo Josaphat.»</p> - -<p>Dizia tambem Paganini, que uma das suas grandes torturas, no carcere, -fôra assistir, pela visão, á decomposição fria do corpo da pobre -cantora Marietta. Elle via aquelle corpo sem oleos, nem sacramentos, -debaixo das terras limosas e tumidas de seiva, esverdear-se entre as -ossadas. Via de noite, perto de si, aquella terrivel decomposição das -carnes, aquellas brancuras inertes, aquellas molles curvas sugadas<span class="pagenum" id="Page_33">[33]</span> -pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramineas, os -cyprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e -inchada!</p> - -<p>Então, alli, tomou odio á natureza: elle atravessava sempre as frescas -fecundidades, as searas, todas as verdes fórmas da vida, os campos e -as granjas, com um horror judaico e mystico. Só perdoava ao mar: e ás -vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das aguas do mar do Norte -tocar na rabeca as velhas cantigas scandinavas e as balladas runicas; -e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse andar, durante a -eternidade, nos verdes embalos da agua.</p> - -<p>Foram terriveis todos aquelles annos de prisão.</p> - -<p>O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com -os estudantes da nova Allemanha, indo pelos burgos, pelos povoados, -pelas cabanas de lareiras somnolentas, cantando ás estrellas e dizendo, -na sua rabeca, sob a lucidez do ceu do Norte, as velhas balladas da -Thuringia.</p> - -<p>Contou-me o amor da duqueza de Weimar por Paganini; e como uma noite de -concerto em duas cordas da rabeca elle disse o dialogo mysterioso de -duas vozes que se fallavam debaixo do arvoredo, depois entre sedas de -cortinas, ao fresco ar d'um balcão, e depois ainda na terra, debaixo -das raizes dos cyprestes, e, por fim, indefinidas, tenues, luminosas, -entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.</p> - -<p>Era uma allusão desconhecida, que encheu de lagrimas a duqueza de -Weimar.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_34">[34]</span></p> - -<p>Aquelle homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. D'elle -retirára-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o -amor, a indignação, a paternidade, a emoção.</p> - -<p>Lento, com os seus cabellos caídos, livido, com as terriveis rugas -da face semelhantes aos <i>f f</i> d'uma rabeca, com as mãos -transparentes, cheias de agilidade e de deslocações, com os seus -grandes casacos escuros de pregas hieraticas, atravessava os povoados, -os silencios, as scenas resplandecentes, poderoso e solitario, -procurando sempre, aos pés, uma cóva onde não se esfolhassem arvores, -onde não nascessem hervas, sem saber que na noite, na humidade, nas -choças, nas pedreiras, nas estradas, nas costas, ha uma raça que -soffre, e que ha beiços lividos da fome, e que ha febres silenciosas -e amores desertos, e suores d'angustia, e apodrecimentos de honras, e -uivos d'almas afflictas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de -bellezas.</p> - -<p>Sica contou-me tambem o grande poder musical de Paganini e a sua -attitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades: e -contou-me tambem, meu amigo, aquella noite gloriosa e flammejante em -que se tocava a tua symphonia de <i>Romeo e Julietta</i>, e em que elle -veiu, entre os applausos e as vozes de corôação, ajoelhar e beijar-te -as mãos, dizendo com os olhos cheios de agua:—Sois outro Beethoven!</p> - -<p>Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emmudeceu: -trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas -conversações da noite; aquella doença não o vergou<span class="pagenum" id="Page_35">[35]</span> mais; elle tinha já -o silencio—estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez—estoicismo do -corpo.</p> - -<p>Passava então com o rabequista Sica horas inteiras, tocando rabeca ou -guitarra. Ultimamente, preoccupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca -só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: «Quando eu estiver para -morrer, pensar que a hei-de deixar aqui, entre as mulheres d'aço, -estes jornalistas lividos e os agiotas calvos, no meio d'esta multidão -esfomeada de materialidades! que se ha-de encher de pó a um canto, -ella, cheia de alma e de legenda!»</p> - -<p>No emtanto, elle acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca -havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra, ir-se-iam -confundir com o corpo d'elle nos átomos das arvores, ou das estrellas, -ou das aguas. E escrevia então: «Que felicidade poder ter a mesma -folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!»</p> - -<p>Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; ás -vezes tomava a guitarra e ia tocar n'ella para junto da rabeca, com -um gesto de caricias brandas, com um lento correr de dedos, como se -estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma; -elle queria pôr todos os seus interiores divinos n'aquelle gemer de -guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada.</p> - -<p>Por esse tempo, um dia que elle estava com Sica, escreveu assim: «Já -me não fio na minha rabeca; acredito que ella não ha-de lamentar a -minha morte. Não morre, não! Ha-de dar-se ao primeiro<span class="pagenum" id="Page_36">[36]</span> que a tomar nos -braços; ha-de dar-se com suffocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos -segredos, mysticos, voluptuosos e illuminados, que me dizia a mim... -Que importa á rabeca que o pobre musico apodreça debaixo da terra?!»</p> - -<p>Ultimamente o musico Sica necessitou ir á costa normanda, porque tinha -lá seu pae, velho marinheiro, morrendo junto das aguas; e quando -voltou, coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha -partido para o sul.</p> - -<p>Adeus, não te demores em Nizza. Acaba depressa a tua symphonia do -<i>Harold</i>, e recommenda-me ao nosso velho amigo—o Mar.»</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Tempo depois, o homem, que tinha mandado esta carta, recebeu est'outra -de Berlioz:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«Estou ainda todo frio das visões d'esta noite. Sabes que móro nas -<i>Sorveiras</i>, que são umas ruinas junto do mar, pedras bem -conhecidas por toda a populaça do ar: abrigam-se alli, como n'uma -pousada, os viajantes sombrios da atmosphera, que são as chuvas -esguedelhadas, os ventos uivadores, os granizos, as molles brumas e -os nevoeiros. Em redor estão espalhados os casebres dos pescadores, -todos conchegados, como as ovelhas quando anda temporal no monte; a -costa é terrível e, no emtanto, o mar tem, ás vezes, serenidades só -similhantes ao calmo olhar d'um idiota.</p> - -<p>Este povo trigueiro de pescadores sáe, logo de madrugada, para os -balouços da agua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias -de legenda<span class="pagenum" id="Page_37">[37]</span> e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em -baixo, junto da voz da maresia, aquellas cantigas fortes de deitar -redes, robustas como calabres e sãs como o sol. É uma bella vida! -Durante o verão, nas séstas silenciosas do mar, todos andam na pesca, -os velhos, as creanças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de -forte seio—estas bellas mulheres da costa da Italia, que eram tão -desejadas pelos marinheiros gregos e phenicios, que tinham visto -Mileto, Abydos e Corintho.</p> - -<p>Agora que o outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se -ao vento, e vae para o interior dos povoados juntar-se nos campos á -outra pobre gente curvada, que lavra e que semeia.</p> - -<p>Hontem fui, n'uma barca de pescador, até ao ponto em que o Var -desagua. Sabes que é n'este tempo que as pombas emigram para o sul; -reunem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterraneo, fazendo -nodoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o sol descia: o barco -vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos -ondulosos. O mar tinha uma serenidade olympica.</p> - -<p>Eu havia-me abandonado ás mollesas da tarde, e, todo estirado á pôpa, -via o ceu cobrir-se d'uma côr rosada, como d'um rubor de castidade. As -estrellas começavam a apparecer. D'onde vinham ellas? E d'onde é que -vem a noite de tão longe, que parece suada de luz? Eu via-as tremer, -e pensava que ellas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões, -sem deuses. A'quellas horas tambem apparecem as ondinas na agua; quem -sabe se as estrellas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm -de<span class="pagenum" id="Page_38">[38]</span> noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegiaco? Quem sabe -se são arvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros -fructos—a melancolia, o amor, a sensualidade?</p> - -<p>Depois ri-me d'estas imaginações; mas nas aguas do Mediterraneo, ao -anoitecer, n'um barco de pesca, vendo ao longe as linhas molles da -costa de Italia, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia -vêr as estrellas como nas verdades e nos positivismos modernos, e -esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace.</p> - -<p>E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da -bem-amada, sol da minha natureza, sem dôres mordentes, sem febres -silenciosas, e ir assim, entre as fulgurações do desejo, e os -deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores, -e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, n'um lento -desmaio da carne, para a frialdade da terra e alli sentir-me, -lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas, -pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescencias!</p> - -<p>Ora quando assim vinhamos, vi, na linha escura e aspera da costa, uma -massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegiaca.</p> - -<p>—Que luz é aquella, meu velho?—disse eu, da pôpa.</p> - -<p>O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram -direitos, escorrendo, todos esverdeados das algas.</p> - -<p>—Aquella luz, senhor, é a casa das <i>Serenas</i>. A estas horas -está alli, abandonado, um pobre homem<span class="pagenum" id="Page_39">[39]</span> que morreu lá hontem. Tinha -chegado aqui ha pouco, e era mais amarello que a cera do altar; até na -costa diziam os velhos que elle se vendera ao diabo! Deus me perdôe -por fallar assim n'isto, de noite, em cima das aguas! Ah! senhor, -diziam que tocava na sua rabeca maldita que nem no ceu... Chamavam-lhe -Paganini.</p> - -<p>E o pescador metteu os remos na agua, cantando n'uma melopeia dolente:</p> - -<p class="poetry"> -Altra volta gieri biele,<br /> -Blanch'e rossa com'un fiore.<br /> -Ma ora nò. Non son piu biele<br /> -Consumata dal'amore.<br /> -</p> - -<p>E depois, voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das marés, -continuou:</p> - -<p>—E os padres agora não lhe querem cantar as suas ladainhas e -enterral-o em terra santa. Se fosse meu parente e tal succedesse, ia -para o fundo do mar. Debaixo da agua anda muito corpo de patrões e -pilotos: elles não morreram, não; andam ainda vivos; e quando um pobre -homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento, -quando o peixe anda arredio, elles costumam afugentar a pescaria com -ramos de coral para as bandas da rede!...</p> - -<p>O pescador fallava assim, lentamente, com a voz pesada da religião das -legendas.</p> - -<p>Eu levava os olhos rasos de agua e pensava que nunca tinha ouvido -tocar o triste Paganini: sempre<span class="pagenum" id="Page_40">[40]</span> que elle deu os seus concertos, eu -estava longe da França.</p> - -<p>Entrei nas <i>Sorveiras</i> com o peito cheio de friezas e de -mortalidades. Quiz trabalhar, mas sentia-me dissolvido na pesada -materialidade das cousas.</p> - -<p>Tomaram-me uns molles cansaços e fiquei sem pensamentos, sem desejos, -inerte e silencioso como um pombal d'onde fugiram todas as pombas. -Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e o uivar dos cães que andam -de noite na praia, esfomeados. O mar estava pesado de gemidos sob a -noite lenta e mystica.</p> - -<p>Ora quando assim estava, ouvi, distante, como vindo das alturas -hieraticas das nuvens e das vias-lacteas, o gemido de uma -rabeca.—Quem é que, áquellas horas, n'uma costa aspera de ventos -furiosos, quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da -lareira, enrodilhados nos farrapos dos mantéos—tocava assim rabeca -junto do mar?</p> - -<p>Fui, amedrontado, ao meu antigo balcão gothico e olhei pelas -transparencias doentias da noite. Nada. As ondas choravam o seu chôro -mystico e as estrellas estavam na sua immobilidade de onde se exhalam -religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um -soluço de medo, para junto do brazeiro: então ouvi de novo aquelle -som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar como uma nevoa -sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então, -distinctamente, com os ouvidos da carne, a musica de uma rabeca, -acompanhada, surdamente, pelo mar.</p> - -<p>Ao principio foi uma melodia de fresca serenata, que a agua -acompanhava com um marulho humido<span class="pagenum" id="Page_41">[41]</span> e alegre: e ao mesmo tempo, ao -longe, havia o gemer rythmico do vento.</p> - -<p>Então, durante uns momentos, eu ouvi uma musica estranha de rabeca, -acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações, e vozes -pesadas de lagrimas, e melodias tragicas com dôres da natureza, e -sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta -corria, como a agua corre, lodosa, entre os juncos e os cannaviaes.</p> - -<p>Havia vozes de rabeca, afflictas e barbaras: e ás vezes, dôces -mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca, -delgada, tenue, clara como um fio de som. Eu não te sei dizer o que -era aquella musica sobrenatural, elegiaca, selvagem, tragica, suave e -escarnecedora!</p> - -<p>Por fim, de repente, toda aquella orchestra poderosa se calou, como -um bando de abutres e aves de noite gritando afflictas, com tragicas -palpitações de azas, que vêm pousar, n'um silencio, sobre um rochedo -das aguas. Então senti, de entre aquella amontoação apocalyptica de -harmonias, desprender-se, solitaria, a voz da rabeca, e vir, de leve, -tocar junto do meu balcão com meiguice, com mollesa, com volupia—as -variações do <i>Carnaval de Veneza</i>.</p> - -<p>Ninguem me póde tirar do coração, que foi a alma de Paganini que -deixou o seu corpo na natureza solitaria das <i>Serenas</i>, e veiu -dizer o adeus da musica ao seu velho amigo.</p> - -<p>Adeus, meu meigo artista! Soffre e transfigura-te pela dôr: eu aqui -estou, cheio de saudades da nossa dôce França, junto das aguas tristes -do Mediterraneo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_42">[42]</span></p> - -<p>Creio que, depois da noite de hontem, nunca mais terei o riso sonoro -e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de -saudação, o terrivel temporal que agora vae na costa.»</p> -</div> - -<p>O homem a quem esta carta foi escripta, era um artista, um pintor -como Lantara, vivendo descuidado na bohemia errante das miserias, -das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os -contactos do corpo: no meio d'aquellas loucuras esteve sempre como -uma pomba adormecida. Aquelle pobre rapaz vivia n'uma trapeira, onde -trabalhava sem sol, n'aquellas alturas silenciosas e castas, onde -vivem e crescem as flôres do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a -um hospital: e alli era sagradamente velado por uma enfermeira dôce, -delicada e branca como uma virgem de oiro fino de um livro de legendas: -o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava, -pediu um dia á enfermeira a sua touca engommada e lisa, e com um lapis -desenhou alli, como um agradecimento d'alma, toda a sorte de delicadas -imaginações—azas abertas, corôas de folhagens, ondas que vinham beijar -um pé branco, corôações de caridades.</p> - -<p>Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre -pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce -rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem; -escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio -Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a -chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas,<span class="pagenum" id="Page_43">[43]</span> aos -montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a -orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e -inerte.</p> - -<p>A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da -Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela -belleza sagrada e espiritual da morte.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna, -e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos -pobres.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_45">[45]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="ENTRE_A_NEVE">ENTRE A NEVE</h2> -</div> - -<p class="right">(A ANSELMO D'ANDRADE)<br /> -</p> - - -<p>O lenhador, pela madrugada, ergueu-se da enxerga e accendeu a candeia.</p> - -<p>Junto da lareira, engelhado de frio, cavado de magresa, dormia um rapaz -enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfallecia de -febre: até ao anoitecer da vespera andára pelo negro matto, e depois -nem teve um magro caldo junto das somnolencias da lareira.</p> - -<p>Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos, -que á noite, quando resavam, todos arripiados e magros, em redor da -mãe, suffocavam no chôro da fome: por isso, áquellas horas, por entre -os nevoeiros molles, elle ia pelos montes, pelas collinas, pelos -pinheiraes, rachar, cortar e desramar, a asperos ventos, na grande neve -silenciosa.</p> - -<p>O rapaz dormia com os pés inteiriçados e todos brancos da lama secca: -tinha os grandes cabellos<span class="pagenum" id="Page_46">[46]</span> espalhados, e branco tinha o peito. A um -canto, sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da mãe, as duas -creanças dormiam com os cotovellos arroxeados—dissolvidas no somno do -frio e da fome. O lenhador tirou a jaleca que levava para os montes, -embrulhou-lhes os pés regelados, e com a candeia foi debruçar-se sobre -a enxerga onde dormia a mulher: ella tinha o corpo collado ao fraco -calor da enxerga como a um seio amado, os braços caidos e frouxos -como os de uma mulher esteril: os seus cabellos negros espalhavam-se -tristemente pela enxerga como um luto: e a manta esburacada modelava a -fórma casta e fecunda dos seus peitos.</p> - -<p>Então o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas, -cobriu-se com o capuz de saragoça e foi-se lento, esfomeado e -esqueletico, pelos grandes caminhos, duros, lividos e cobertos de -nevoas.</p> - -<p>O seu casebre ficava perdido ao pé dos montes, longe dos povoados, -entre umas poucas de arvores que erguiam para o ar os seus braços -negros, descarnados, nús e supplicantes.</p> - -<p>Alli vivia aquella familia transida dos frios, emagrecida das fomes, -diante da neve e dos invernos, com os peitos cheios da religião do -sol, das searas e das fecundidades sonoras e alumiadas—como cousas -flammejantes e divinas, que estão tão longe como Deus, inaccessiveis, -na poeira da luz, entre os paraizos. O pae ia todos os dias para os -grandes montes lidar entre a ramaria: a mulher, em casa, cosia os -farrapos ao pé da lareira sem lume, e ao anoitecer ia para junto da -porta desconjuntada dos ventos, gretada dos frios, vêr se, pelos -atalhos enevoados, via<span class="pagenum" id="Page_47">[47]</span> chegar o marido, lento, curvado sob os grandes -feixes de lenha.</p> - -<p>O lenhador caminhava para as bandas dos montes.</p> - -<p>A neve caia, levemente. A alma aconchegava-se dentro do corpo—como -n'um vestido santo, amedrontada pela dureza sobrenatural das cousas. -Porque toda aquella natureza tinha estranhas barbaridades.</p> - -<p>A manhã vinha escura, lenta e lacrimosa, como uma viuva á hora dos -enterros: e á pouca luz tenue, os pedaços de gelo pendurados dos cardos -e das urzes tinham o aspecto de farrapos de mortalhas: sobre as arvores -immoveis, os passaros, quietos e mudos, eriçavam as plumagens aos -ventos cortantes.</p> - -<p>O lenhador caminhava sempre, rasgando-se nas silvas, orvalhado dos -pingos das arvores, pallido e sereno.</p> - -<p>Ia lento. Pensava nos lavradores, que áquellas horas, nas terras -quentes, saem, assobiando sob a noite religiosa e alumiada, entre as -hervas altas, ao resplandecimento fecundo dos orvalhos, guiando pelos -sulcos, emquanto as andorinhas gritam alegres e gloriosas, os bois -fortes, lentos e bons. Elle tinha a mulher e os filhos esfomeados no -casebre; desfazia-se em suores e em cansaços, e nem sempre aquellas -faces amadas se enchiam das côres da vida. Era o frio, era a fome; nem -uma manta nova, nem uma pouca de lã! O bom Deus, lá em cima, parece -que está tão bem agasalhado ao calor dos seus paraizos e das suas -estrellas, que se não lembra da pobre gente dos campos e dos montes que -se arrepia de<span class="pagenum" id="Page_48">[48]</span> frio. E havia gente que via sempre os filhos bem quentes -e bem córados!</p> - -<p>Assim pensava o triste, caminhando, pesado, molhado e todo cheio de -cousas dolorosas e morbidas. A neve vinha descendo como um immenso -desprendimento de lãs.</p> - -<p>E elle pensava que podia ser um abastado dos campos, e vêr á noite, -em volta da sua lareira flamejante e serena, toda a multidão dura dos -ceifadores e dos semeadores, entre os bons risos, em redor da grande -tijela de caldo, ao estalido das castanhas, na attitude dos bons e dos -simples.</p> - -<p>A neve ia caindo direita e vaga: e ouvia-se o rumor—indefinido como -de um mar, laborioso como de uma colmeia—das multidões doentias dos -pinheiros.</p> - -<p>O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enovelladas -nas pedras, esfarrapadas pelos cardos: e ás vezes um corvo, passando -silencioso e nocturno, vinha bater o ar em redor d'elle com uma -selvagem palpitação de azas.</p> - -<p>Começava a espalhar-se o dia. Elle sentia-se só entre aquella natureza -inimiga e barbara; e por vezes o braço, enfraquecido da febre, vergava -sob o machado e as cordas humidas.</p> - -<p>Elle ia entrando pelo pinheiral, indolente. O pinheiral era cerrado, e -a noite continuava ainda no encruzamento das ramagens lividas. A neve, -que caía sobre os ramos, desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva.</p> - -<p>As arvores estavam como tomadas de um susto religioso.</p> - -<p>Quando saíu do pinheiral, em caminho para os<span class="pagenum" id="Page_49">[49]</span> montes, lembrou-lhe -quando ia para as escamisadas n'uma aldeia do sul, e sob a luz -apaixonada e melodica das constellações cantava á viola junto d'uma -dôce rapariga de testa santa e de cabellos côr de amora; e elle, o -perdido, amollecia o olhar a passeal-o, pela abertura do lenço, sobre a -brancura do collo d'ella!</p> - -<p>Hoje, áquellas horas, pensava elle, aquella pobre mulher gemia na sua -alma, vendo os filhos, sem um bocado de pão, andarem pelo casebre -humido, rotos, dependurando-se-lhe das saias, gemendo: <i>mãe! mãe!</i> -E os olhos do desgraçado tremiam-lhe nas aguas do chôro.</p> - -<p>O lenhador apertou o machado e entrou na floresta.</p> - -<p>Os velhos carvalhos violentos e propheticos, os choupos desfallecidos, -os castanheiros ruidosos, os olmos gigantescos, as ramagens e os -silvados eriçados onde o vento brada afflicto, todas aquellas verduras -vivas e sãs que cantam ao sol, no empoeiramento da luz crúa—toda -aquella sombria Diana esguedelhada, que se chama a floresta, dormia sob -as oppressões da neve, triste, silenciosa, estoica e soberba.</p> - -<p>O lenhador, com o machado erguido, ia por entre a floresta; elle -conhecia aquellas estranhas attitudes, aquelles escarpamentos de neve, -as faces pensadoras dos rochedos, todo o emmaranhamento de ramos, de -folhas, d'onde cáem gottas como um echo de chuvas passadas: e todavia, -ao endireitar-se contra um velho carvalho, empallideceu, como diante de -uma profanação.</p> - -<p>O seu coração simples e bom não comprehendia, mas sentia aquellas vidas -immoveis, silenciosas e sonoras, que são arvores, ramagens, arbustos, -florescencias; elle tinha compaixão dos gemidos dos troncos,<span class="pagenum" id="Page_50">[50]</span> das -cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que sacrificava -alli, á fome dos filhos, vidas infinitas de arvores.</p> - -<p>O lenhador atirou o machado contra o tronco do carvalho—e toda a -arvore immensa ficou tomada de vibrações dolorosas: e as suas ramagens -estenderam-se caidas, sem vida e sem força, pelo tronco, como para se -vêrem morrer sem gemidos, n'um silencio soberbo e selvagem.</p> - -<p>O sol veiu livido, molle, desfallecido, sem força, sem vitalidade, -sem ascenção flammejante e sagrada, entre nevoas arrastadas, entre -esvaecimentos lugubres de nuvens. Começavam a esvoaçar os passaros, -piando tristemente.</p> - -<p>E o lenhador, com o peito arqueado, os cabellos desmanchados, vermelho, -feroz, com o machado erguido nas mãos, com tragicos encarniçamentos, -luctava contra os troncos, contra os ramos, contra as raizes, contra -as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens -negras, de braços mortos de arvores, caidos e inertes como armaduras -vencidas.</p> - -<p>Aquellas arvores que tanto tempo levaram a formar-se, e a enrijar, e -a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da -chuva, e a enlaçar as molles nudezas das nevoas e dos vapores, aquellas -arvores cheias das mordeduras de novembro, cheias de legenda e do -cheiro das tormentas, encolhiam os ramos n'um estremecimento medroso -quando o machado reluzia lugubremente no ar.</p> - -<p>Elle tinha a camisa solta e esfarrapada: os sóccos faziam covas na -neve: e, esfomeado, terrivel,<span class="pagenum" id="Page_51">[51]</span> ia a grandes passos pela floresta, -rasgando os silvados, esmigalhando as raizes, envolto em estilhas, em -fibras partidas, com gestos tragicos, afastando com o machado o vôo dos -córvos; e, todo cheio do amor dos filhos, torturava as arvores, com -golpes flammejantes, gritando-lhes: <i>covardes!</i></p> - -<p>Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e as -nevoas, e a febre, e a dôr, até ao anoitecer.</p> - -<p>Tinha já um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas, duras -como os seus braços: encravou no meio o machado: o feixe enorme estava -encostado a um monte de neve: as duas pontas da corda por onde elle o -havia de erguer, pendiam negras e humidas: então curvou-se todo para -tomar o feixe sobre as costas largas: mas quando o ia a erguer, lento e -cansado, sentiu os musculos afrouxarem, as mãos esfriarem, subiu-lhe um -desfallecimento, e caiu, com os cabellos suados e collados á testa; e -os seus dedos inteiriçados esburacaram a neve.</p> - -<p>Assim esteve perdido na mollesa do esvaecimento, até que abriu os -olhos vagarosos, e ficou-se encostado ao feixe, silencioso e cheio de -tremuras.</p> - -<p>Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava -tomado de uma pallidez opaca e severa: caía uma chuva vaporisada: todo -o chão estava pesado de neve.</p> - -<p>Ao pé do lenhador estava estendido um grande tronco engelhado, morto, -sem raizes, sem ramagem, sem seiva: por um lado começava a desfazel-o a -podridão.</p> - -<p>Em redor erguiam-se as multidões de arvores cobertas<span class="pagenum" id="Page_52">[52]</span> de neve, -adelgaçadas entre as transparencias do nevoeiro, tristes e nocturnas -como monges brancos.</p> - -<p>Ao fundo abria-se uma clareira, que deixava vêr ao longe a grande luz, -que se ia, serena e timida.</p> - -<p>O lenhador, com o pescoço nú, o peito dolorido e ensopado, agarrou as -cordas do feixe e, enrijando os musculos, com a face congestionada, as -fontes inchadas, as grandes veias saídas como cordagens, e as pernas -hirtas, violentou o corpo para se erguer. Mas caíu sobre a neve, -amollecido, suffocado, e coberto das friezas humidas da febre.</p> - -<p>Então ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nú, coberto de neve, e -a pensar que o seu corpo ia alli finar-se e dissipar-se entre as -podridões dos troncos.</p> - -<p>E toda a sua carne foi tomada por uma vibração terrivel. Tinham-lhe -lembrado os filhos e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia, quando -elle entrava, a neve dos cabellos e as silvas da jaleca.</p> - -<p>A neve caía triste. Áquellas horas ella esperava, junto da porta, a -vêr se o via ao longe chegar, curvado debaixo dos seus feixes, pelos -caminhos brancos de neve.</p> - -<p>Ella estaria com uma mão apoiada á hombreira, e com a outra agazalhando -as creanças nas dobras da saia, contra os frios da noite.</p> - -<p>E elle estava alli só, esmagado, sob a neve implacavel!</p> - -<p>E quando o não vissem vir?! E elle procurava na memoria se já alguma -vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca.</p> - -<p>Se o não vissem chegar, iriam todos, chorando<span class="pagenum" id="Page_53">[53]</span> e bradando, com a -candeia acobertada do vento, procural-o pelas urzes sinistras.</p> - -<p>Ás vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra -subirem pelos troncos como um fumo terrivel; e sempre aquelle -enovellamento de similhanças humanas subia até se perder nas -transparencias lividas do ar.</p> - -<p>A neve caía como escorrida das nuvens.</p> - -<p>E elle pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte -na neve, sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras -da ventania, silencioso e solitario como um lobo!</p> - -<p>Então aquelle corpo, pisado, rôxo, tiritando entre as roupas molhadas, -dissolvido nas mollesas da nevoa, inteiriçou-se; com os olhos -flammejantes, os dentes irados, tomado de risos, esfarrapado dos -cardos, endireitou-se e, suffocado, esguedelhado, hirto, livido, deu um -grito na noite.</p> - -<p>Houve um levantamento assustado de passaros por toda a ramagem escura. -E veiu um vento e levou, nas suas espiraes violentas, um enovellamento -de folhas. E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Não havia ninguem -pelo monte. Estava só. Só! Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros -perdidos. Só! E iam-se os passaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Elle -ficava só.</p> - -<p>Então, vendo em redor a floresta solitaria e negra, a amontoação -crescente das sombras, o esvaecimento livido dos ultimos ramos, as -attitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das raizes, sentindo ao -longe o uivo dos lobos e por cima da cabeça o esvoaçar dos córvos, -estirou-se de bruços e bradou, na noite, sob a neve e o ruido dos -ramos:—Jesus!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_54">[54]</span></p> - -<p>E toda a floresta ficou silenciosa, indifferente, soberba; os córvos -voaram gritando; elle caíu, fraco, desalentado, roto, agonisante, -macerado; e de cima o grande ceu, o ceu justo, o ceu sereno, o ceu -sagrado, o ceu consolador cuspia neve sobre aquella carne miseravel.</p> - -<p>E ficou inerte. A neve caía desfeita e branca. Estava estirado. Via por -cima a grande immobilidade da floresta, os nevoeiros, que deixavam caír -farrapos que lhe vinham roçar o rosto, e a sombra espectral do feixe de -lenha.</p> - -<p>Elle sentia o corpo entorpecido pelo frio, e na testa e nos olhos -abrazamentos mordentes: e parecia-lhe que lhe mordia as costas uma -chaga immensa, que tivesse terriveis ardores ao contacto da neve, sob o -peso do corpo.</p> - -<p>Ás vezes soluçava. E, quando assim estava, viu grandes sombras que lhe -esvoaçavam sobre a cabeça e fugiam bradando afflictas, com um terrivel -ruido d'azas, esbranquiçadas da neve, apavoradas e ferozes.</p> - -<p>Eram os córvos. Tremeu todo. Elle entrevia-os já quando elles viessem -pousar-lhe sobre o peito, e curvados, batendo as azas, meio suspensos, -enterrar-lhe os bicos negros na pobre carne.</p> - -<p>Então moveu dolorosamente o braço entorpecido e apalpou em redor: -encontrou um ramo solto, negro, espinhoso: lançou-o contra as sombras -negras dos córvos; mas elle tinha a mão quasi inanimada pelo frio, e o -ramo, debilmente arremessado, veio-lhe caír sobre a face, e rasgou-lhe -a carne com os espinhos. Já, porém, as mãos inertes não tiveram força -para o tirar.</p> - -<p>E poz-se a chorar. Os córvos voavam terriveis:<span class="pagenum" id="Page_55">[55]</span> elle enterrava o pé na -neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os córvos desciam.</p> - -<p>A neve caía e já lhe cobria as pernas hirtas. Elle então, vendo a -floresta que o ensopava de agua, o chão que lhe coalhava a vida, o -vento que o transia, a neve que o enterrava, os córvos que vinham -comêl-o, todas as hostilidades selvagens das cousas, encheu-se de -cóleras, e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou -rijamente a cabeça sobre o feixe—e poz-se a morrer.</p> - -<p>Então veiu repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre -lenhador sentir, n'aquelle vento, o som de um chôro e uma voz bradando -afflicta.</p> - -<p>O vento redobrou de furia: dispersou os córvos: elles balançavam-se nas -azas entre os redemoinhos do sopro feroz.</p> - -<p>A neve caía: e os braços do lenhador já estavam cobertos, e todo o -peito estava coberto. Os córvos fugiam: e todo o bando apparecia como -uma sombra indecisa e pesada.</p> - -<p>A neve caía. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a -bocca.</p> - -<p>Os córvos iam-se sumindo nas transparencias da noite...</p> - -<p>A neve caía, contínua, silenciosa. A testa do pobre estava coberta, e -apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes cabellos -escuros.</p> - -<p>A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.</p> - -<p>E a neve descia. As sombras dos córvos sumiram-se para além das ramas -negras.</p> - -<p>Os cabellos desappareceram. Só ficou a neve!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_57">[57]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="OS_MORTOS">OS MORTOS</h2> -</div> - - -<p>Hontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Emquanto nas -dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, deante -do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus -queridos mortos, elles andam dispersos pela grande natureza, pelas -florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da -seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras d'acre cheiro.</p> - -<p>A sua carne soffreu, empallideceu com os medos, emmagreceu com as -febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas -frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do -sol, nos átomos da noite constellada e suave.</p> - -<p>Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio -da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a -seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corollas, de -ramagens ondulosas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_58">[58]</span></p> - -<p>Os que morreram sobre as aguas do mar, desfazem-se entre as verdes -profundidades, entre as areias, os coraes, as conchas, os rochedos, e -vêm depois, sob a fórma d'ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite -estirar-se ao peso da mollesa que escorre dos astros, ou de madrugada, -cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o -povo dos pescadores, silencioso e trigueiro.</p> - -<p>Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos, -são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hieratica das -estrellas, pelos vapores molles das nuvens, pelas auroras; são os -átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.</p> - -<p>Assim os mortos são felizes.</p> - -<p>Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empallidecidos, -esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos -deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses, -riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no -meio d'esta forte vitalidade—como um lavrador que suspende a enxada e -se fica, todo amarello, a pensar na velhice sem pão e sem lume—estamos -sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos, -aterrados, nos esfriamentos lugubres do tumulo.</p> - -<p>E entretanto os mortos, que são os paes, as irmãs, as bem-amadas, -as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas aguas, pelos -astros—serenos e immaculados. E porque tememos a morte? Que instincto -tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta<span class="pagenum" id="Page_59">[59]</span> fórma humana, estes -cabellos, estes olhos, estes braços enrodilhados de musculos? As -arvores, as florescencias, as hervas, as folhas, são tambem fórmas da -vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas familias das -constellações, pelos planetas, pelas arvores, pelos lividos interiores -da terra, pelas aguas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a -seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha attracções, -amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações, -pollens, alma, movimento—vida. Porque ha de então ser esta fórma, que -tem braços e cabellos, e não aquella, que tem ramos e folhagens?</p> - -<p>A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados, -luminosos, bestiaes, divinos.</p> - -<p>Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana, -onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza, -na serenidade, na fecundidade, na força.</p> - -<p>Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma -transfiguração sagrada. Mal cáem sobre elles as ultimas pazadas de -terra e o canto dos padres, barbaro e dolente, se perde com o fumo dos -cirios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a -grande vegetação esfomeada; elle vae dar-se alli como pasto ás boccas -sinistras das raizes: elle amollece entre as humidades da terra e -desfaz-se em podridões: então as raizes começam a sugar e a comer: a -podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se -pelos ramos, palpita dentro da arvore, engrossa, fecunda, arredonda-se -nas exhuberancias dos gomos, e abre-se<span class="pagenum" id="Page_60">[60]</span> depois em folhagens, em -florescencias e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o -sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos -pastores, e vive sereno, repousado, na floresta immensa.</p> - -<p>E no emtanto, junto d'aquelle corpo, que soffreu a metempsycose do bem, -foi enterrado outro, n'um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e -embalsamado. Entre a enorme palpitação diffusa, emquanto em redor se -vae operando a lenta transformação da semente, onde já estão em germen -as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde -o vento atormentará, entre as raizes fortes e retorcidas dos arbustos, -entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades -creadoras da terra fecunda, o cadaver embalsamado alli está, inteiro, -hirto, rijo, feio, livido. Elle inveja os átomos livres e soltos, que -sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e -escorrem, como grãos d'um sacco, desde as constellações e os cometas, -até ás espumas castas das fontes: alli, sequestrado á natureza, não -se póde dissolver na eterna materia forte: não tornará a vêr o sol, -as noites amollecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que -estranha fatalidade pesava sobre elle, que nem a morte o libertou?</p> - -<p>Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da belleza -e da harmonia; movermo-nos na atmosphera serena do bem e da liberdade; -ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tyrannos; -sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada—e depois, ó santa -Natureza!<span class="pagenum" id="Page_61">[61]</span> toma os nossos corpos para fazer d'elles arvores cheias de -sombra e ramos resplandecentes!</p> - -<p>E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos -n'uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e -fecunda, nos enche todo o interior, despertando alli, como faz nas -madrugadas de maio, os córos de passaros: e depois ha um responso -sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os -terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma -hostia mysteriosa.</p> - -<p>Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as arvores estão -graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva -flammejante e serena que a floresta veste: e ella murmura um canto -dolente e sacro, acompanhado pelos passaros religiosos, e d'entre as -ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga -hostia: e, ao fim da missa, as arvores, balançando os ramos, parecem -lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua -benção soberba.</p> - -<p>Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes, -purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio -do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de -confidencias.</p> - -<p>São os nossos queridos mortos que nos fallam; e então toda a materia -tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar, -com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios -amados...</p> - -<p>E depois a natureza tem immensos perdões e reconciliações<span class="pagenum" id="Page_62">[62]</span> formidaveis; -todos os odios tragicos, todos os corações ferozes se fundem -divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ella não escolhe; tudo -lhe é bom; as raizes das rosas pastam a podridão dos tyrannos; e dos -homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz -carvalhos austeros e cedros religiosos.</p> - -<p>Ella é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa -Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos—o do homem -luminoso e o do homem escuro—andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas -auroras e nas mesmas corollas.</p> - -<p>Ella acolhe, indifferente, todos os ritos, todas as religiões: as -mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas -dos ritos de Baccho, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois, -agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constellações, o pobre -Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue, -bradando afflicto na noite das Agonias.</p> - -<p>Ás horas em que acabo estas linhas, vae o dia a declinar: agora, lá -ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre -os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e -parece-me vêl-o d'aqui, entre as transparencias morbidas do anoitecer, -distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que elle assim -espalha pelos sulcos fecundantes: são elles que se tornaram seáras e -que lhe hão de encher o celleiro; são elles que lhe dão a comer a sua -carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_63">[63]</span></p> - -<p>Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer -com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na -natureza que se deve procurar a religião: não é nas hostias mysticas -que anda o corpo de Jesus—é nas flôres das larangeiras.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_65">[65]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="A_PENINSULA">A PENINSULA</h2> -</div> - - -<p>Ainda hontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre -tinhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendencias, somnolenta, -chata, fria, burgueza, cheia de espantos e de servilidades: e que este -velho canto da terra, cheio de arvores e de sol, tinha sido patria -forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, epica!</p> - -<p>Ah! foi ha muito tempo...</p> - -<p>Era n'aquelle tempo em que a Italia rodeava os papas severos; e olhavam -para o ceu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa, -uma profunda transformação social. Na Allemanha, Luthero entrava em -Worms, com um canto batalhador, em nome do espirito e da alma. O -Papado ia morrer. Era necessario que todo o Sul se alliasse na cruzada -catholica.</p> - -<p>Toda a revolta de Luthero foi tomada, ao principio, por um d'aquelles -lentos suspiros allemães, que<span class="pagenum" id="Page_66">[66]</span> se perdiam no côro profano, luminoso, -embalador e forte do Sul.</p> - -<p>Viu-se, depois, que era a voz immensa da alma do Norte, toda uma -humanidade austera e vital, que se movia, que vinha fallar, pensar, -examinar, revelar, sob o peso da theocracia romana, dos papas, dos -imperadores, das tyrannias, dos sacerdocios.</p> - -<p>Todo o Sul catholico estremeceu: aquella revolta vinha imprevista e -rapida: um dia, a imperceptivel e vasta humanidade, quando fosse, -uma madrugada, para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma -deserta, e, ao longe, o catholicismo dissipando-se com um som hieratico -de psalmos, e um colorido vermelho de fogueiras.</p> - -<p>Era necessario salvar o Sul.</p> - -<p>A Italia tinha-se familiarisado com o christianismo: tinha-se -acostumado ás santas macerações de Jesus, á transparencia ascetica das -virgens: os renunciamentos e os medos catholicos já a não vergavam para -o pó. Ella, cheia de sol, e de sons, e de forças, começava a olhar -a natureza, as grandes fecundidades, as vitalidades poderosas, as -melodias moventes da carne.</p> - -<p>Os velhos Deuses da Grecia tinham-se refugiado na alma italiana: ao -principio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela -dôr, encolhidos, soluçantes, miseraveis: depois, lentamente, foram -apparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrosia e um som d'idyllio; e os -seus corpos, sãos como astros, occuparam, por fim, toda a alma italiana -com choreias, derramações de nectares, palpitações de luz, divinos -resplandecimentos de vida.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_67">[67]</span></p> - -<p>A Italia tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do -infinito: e os poucos que se curvavam sobre a <i>Divina Comedia</i>, -não era para vêr os castigos e os paraizos, mas para sentir as -palpitações, que lá tinham ficado, da alma de Florença.</p> - -<p>A Italia seguia Petrarcha: mas em Petrarcha havia ainda uma religião -e um mysticismo—o amor: e a Laura dos <i>Sonetos</i>, como a Virgem -mystica, prendia nas humilhações religiosas todos os cavalleiros do -Sul. A Italia então deixou Petrarcha e rodeou Ariosto, o aventureiro, o -jovial, o descrente, cavalleiro e escarnecedor.</p> - -<p>Foi então que se ouviu aquella voz do Norte.</p> - -<p>Todas as cohortes catholicas andavam dispersas, galhofeiras e -namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta -Pulci, guiadas por Lorenzo do Medicis e pelo cardeal Bembo, cantando -ás estrellas, adorando as Violantes, rindo de Fra-Angelico, acclamando -Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do -sol, da musica e das noites profanas.</p> - -<p>Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Luthero. Todos os -catholicos correram instinctivamente, rodearam os papas severos, -Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os psalmos e as missas de Marcello, -cheias dos renascimentos asceticos, e foram seguindo o Tasso, que -voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus.</p> - -<p>E o papa continuou caminhando, sereno e terrivel, deixando as sombras -das masmorras de Galileo e de Campanella, e mais longe o fumo das -fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_68">[68]</span></p> - -<p>Tal era a lucta do Norte e do Sul.</p> - -<p>Ora, durante essa lucta das religiões e das patrias, a Peninsula, -encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistro -cavalleiro de Deus, armava as caravellas e os galeões para as bandas -desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós -outros, os peninsulares, appareciamos ás demais nações como velhos -lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como -calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios -de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terriveis.</p> - -<p>De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto -um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiaes e -núas, sob a benção dos padres: alli mesmo, sobre a areia, ao rumor das -maresias, escrevia a historia tragica da sua viagem, e uma madrugada, -tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a -banda das Indias.</p> - -<p>Era assim. Todos os annos, aquella multidão immensa de aventureiros -embarcava nos galeões, entre os psalmos o os chóros, e elles iam, -silenciosos e flammejantes, por entre as sonoras illimitações, os -ventos afflictos e os tremores da agua—para os nevoeiros inexplorados.</p> - -<p>Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as -constellações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e -as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Christo, -cantando os psalmos ao côro dos furacões, todos reluzentes de armaduras -e de divisas de amor,<span class="pagenum" id="Page_69">[69]</span> com a alma cheia de altivezas de batalhadores e -de doçuras de apostolos.</p> - -<p>Iam como n'uma gloria e em nome de Deus! E quando encontravam as -hostilidades e os encrespamentos irados dos elementos, as oppressões -infinitas dos ventos e das aguas, erguiam as mãos como para uma -excommunhão, e bradavam, soberbos, áquelles sôpros e áquellas maresias, -os versiculos do Evangelho segundo S. João.</p> - -<p>Ora aquelles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e -poetas. Escreviam os seus feitos.</p> - -<p>Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convez das -caravellas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da India, -sob as immobilidades crúas da luz: escreviam cobertos das espumas, -ennegrecidos pelos fumos, trémulos das iras das batalhas. Por isso -enchiam as suas chronicas e os seus poemas d'uma estranha prodigalidade -de força e de vida. E os seus diarios de bordo tinham, muitas vezes, a -simplicidade epica de Homero.</p> - -<p>Mas elles tambem tinham amores, ciumes, paternidades, paixões, lyrismos -interiores, e as saudades da patria nasciam n'aquellas almas como -grandes assucenas que se abrem dentro d'um vaso, e que o enchem.</p> - -<p>De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, -deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, emquanto os -pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens immensas das -estrellas, e todo o mar enorme se amollecia como um seio cansado, elles -contavam em voz baixa, com as<span class="pagenum" id="Page_70">[70]</span> cabeças juntas, as historias de amores, -os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da patria.</p> - -<p>E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farças, comedias e elegias.</p> - -<p>E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar, -tomavam a fórma popular.</p> - -<p>Estavam longe da Europa, das plasticas da Italia, dos renascimentos -gregos e romanos, das antigas fórmas rituaes, das educações classicas.</p> - -<p>Não conheciam isto.</p> - -<p>Mas lembravam-se sempre das cantigas da patria, das lendas heroicas, -dos romances populares, que elles tinham ouvido pelos campos, com que -os velhos embalavam os netos, que se cantam do noite ás estrellas por -Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos -godos e dos arabes. Porque o povo, na Peninsula, tinha uma poesia, sua -exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, -em que escarnecia os alcaides e celebrava os heroes.</p> - -<p>Fazia d'aquella poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande -leito mysterioso onde adormecia as tristezas: era alli que procurava -confortos, recompensas, e as ideias da patria.</p> - -<p>No Norte, a poesia popular foi a Invisivel que levou, pela mão, os -trovadores, filhos das glebas, até ás lareiras dos senhorios feudaes: -foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça, -mysticos e sensuaes, soltaram para as brancas castellãs que entreviam -nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, ás -estrellas, pelos altos terraços; ou entre as arvores, ao entardecer, -quando<span class="pagenum" id="Page_71">[71]</span> as ogivas, cheias do sol obliquo, estão flammejantes como -mitras.</p> - -<p>E as castellãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e -cheios do paraizo. Admiravel influencia da poesia, que produziu, pelo -amor, um renascimento social!</p> - -<p>Mas a poesia da Peninsula era unicamente do povo: era a epopeia -austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo del Carpio, -exterminador de barbaros. Na Peninsula, o povo estava sob uma condição -especial; tinha uma importancia no estado forte, fecunda e soberba: -a Peninsula tinha passado os primeiros annos da sua constituição -nas luctas terriveis do forte Mahomet e do Christo mystico; ora o -popular da Peninsula não era um servo, era um christão: consagrado -pelos baptismos, era uma força individual, que impellia e dissolvia o -elemento mourisco, sensual e poderoso.</p> - -<p>Ora foi sob a fórma popular que aquelles batalhadores e poetas, que vão -hoje tomando a vaga attitude da legenda, escreveram os seus poemas, as -suas cantatas, as suas comedias e os seus sonetos.</p> - -<p>Então toda a litteratura peninsular tem uma originalidade profunda, -independente de fórmas e ritos: a arte, o drama, a poesia, sáem -das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades -meridionaes: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades -esqueciam as suas tradições, a sua historia, a sua velha alma, para -se envolverem nas fórmas antigas. Era a Renascença. Então apparece o -theatro hespanhol, original, cavalheiresco, energico, apaixonado, cheio -de selvagens palpitações, de lances,<span class="pagenum" id="Page_72">[72]</span> de religião: theatro onde a cruz -é um personagem; onde fallam lacaios, heroes, santos, ventos, galeões; -onde todas as fórmas da vida se confundem—o riso, o chôro, a ironia, a -satyra, o madrigal...</p> - -<p>Depois uma pintura mystica e sensual: não é a espiritualisação da alma, -é antes a immortalisação da carne, inspirada d'aquelle mysticismo -hespanhol, que sob a influencia da natureza, do clima, da politica, -da raça, parece mais cheio das tragicas iras de Jehovah, do que das -doçuras de Jesus.</p> - -<p>Depois uma musica, como a do <i>Dies irae</i>, obra dos terriveis -dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: musica -ascetica e flammejante, onde a natureza apparece, tragica e desgrenhada.</p> - -<p>Uma arte onde se torcem todas as chammas do inferno, e todas as -pedrarias dos paraizos catholicos, que parece uma lucta tragica -e comica da vida e da morte; uma egreja cheia de renunciamentos -mysticos, mas onde o mysticismo parece mais um desespero de não poder -saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a -alma nas contemplações divinas: uma defeza do catholicismo, tragica -e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdocios: -confusão dos imperadores com os santos e das corôas de metal com as -corôas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o -sentimento mais apparente é o rancor.</p> - -<p>Ao mesmo tempo uma austeridade monastica em tempo de guerra: caravellas -que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações -das estrellas:<span class="pagenum" id="Page_73">[73]</span> quasi, por vezes, uma reconciliação apparente do -Mahometanismo e do Christianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o -elemento da intriga que quer entrar na politica, vindo substituir o -elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa visinha. Depois -um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a -America e as Indias como um paraizo de oiros, de metaes e de soberanias.</p> - -<p>Tal é o aspecto mais geral da Hespanha nas vesperas da Renascença.</p> - -<p>É dramatica aquella vida.</p> - -<p>Não admira, por isso, que a fórma suprema da sua arte—fosse o drama.</p> - -<p>Em Portugal, não é este rigorosamente o fundo do genio: ha mais -serenidade na força: o caracter portuguez é mais parecido com o -caracter italiano: os nossos sabios, os nossos viajantes, os nossos -descobridores, tinham mais a lucidez do tempo de Galileo do que a fé -do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso Portugal não -resistiu nada á influencia italiana. O renascimento da antiguidade, a -serenidade plastica, a frieza classica, acclimatam-se na Hespanha, mas -com dôr e com lucta: foi necessario que a Hespanha já não acreditasse -na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar, -pelos caminhos, o magro D. Quixote.</p> - -<p>Em Portugal não: o genio antigo acclimatou-se: transformou-se mesmo: -perdeu o elemento vital e fecundo—e ficou-lhe o elemento rhetorico.</p> - -<p>Oh Arcadia! Oh moços pastoris e burguezes! Oh classicos!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_75">[75]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="O_MIAUTONOMAH">O «MIAUTONOMAH»</h2> -</div> - - -<p>Ha duzentos annos, uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco -na Hollanda humida e ubere, e, sob o equinoxio e os grandes ventos, -miseraveis, austeros, levando uma Biblia, partiram para as bandas da -America.</p> - -<p>Duzentos annos depois, estes homens que tinham ido, solitarios, n'um -barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra epica pelo -Mediterraneo, pelo Pacifico, pelo mar das Indias, pelo Atlantico, pelos -mares do Norte.</p> - -<p>Aquella colonia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados, -rotos, que dormiam ás humidades do ar n'uma capa esfarrapada, é hoje a -America do Norte—os Estados-Unidos.</p> - -<p>America do Norte significa trabalho, fé, heroismo, industria, capital, -força e materia.</p> - -<p>Ultimamente via eu o <i>Miautonomah</i>, sinistro e negro caçador -de esquadras: é toda a imagem da<span class="pagenum" id="Page_76">[76]</span> America—frio, sereno, contente, -material, e cheio de fogos, de estrondos, de machinismos, de forças e -de fulminações.</p> - -<p>É o que amedronta n'aquelle navio:—a frieza na força.</p> - -<p>Elle representa a consciencia soberba da força e da industria, e os -grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos -elementos: elle tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o -Mediterraneo, os grandes desvairamentos da agua, os ventos immensos, -os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente -apparecidos, os nevoeiros perfidos, os magnetismos, as electricidades, -toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se -preparam:—cordagens, velames, mastreações, complicações e resistencias -de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que -transforma as hostilidades em auxilios; elle, o <i>Miautonomah</i>, -contenta-se com uma taboa rasa.</p> - -<p>Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um -formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o -arsenal reluzente das abordagens; a elle basta-lhe uma muralha de ferro.</p> - -<p>O vento é temido: nas vastas solidões azues, elle é o lobo sinistro -que anda rodando e uivando, á caça dos navios; elle acalenta o mar, -massa inerte e salgada: elle faz com a agua estranhas nupcias ferozes; -extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens, -persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares -do Norte, quando elle sopra, as estrellas têm maior tremor: mas o<span class="pagenum" id="Page_77">[77]</span> -grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violencia, com a -força, e defende-se com o esvaecimento.</p> - -<p>O <i>Miautonomah</i> é assim: ataca serenamente, com violencias -enormes, com fulminações tragicas, e defende-se com a impassibilidade e -quasi com o esvaecimento.</p> - -<p>Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas -flammejantes, entre os terriveis fulgores do fogo, e os phantasmas do -fumo, e as effervescencias da agua—elle passa, solta a sua fulminação -enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio, -impassivel, mudo, tenebroso, coberto de ferro.</p> - -<p>Elle não receia o mar: os outros navios erguem amuradas immensas para -conter o encrespamento da onda: forram-n'as de cobre, erriçam-n'as -de pregaria. O <i>Miautonomah</i> não: elle julga a demencia do mar -um prejuizo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da -agua: satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericordia dá-lhe -hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a -triturar, a roer—dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro -enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado, -mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas, -agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:—Lá anda o mar a -varrer e a lavar o tombadilho.—E com effeito, o velho oceano dos -diluvios faz, humildemente, o serviço dos ultimos grumetes.</p> - -<p>Em cima, na superficie da agua, ha o vento, as espumas, os nevoeiros, -as chuvas, as trombas; elle, aborrecido, afasta-se d'este bando -miseravel e vae investigar<span class="pagenum" id="Page_78">[78]</span> o fundo das aguas, as vegetações -phantasticas, a região dos coraes, as cavernas enceladicas as purezas -infinitas da transparencia, todo esse mundo submarino de que os velhos -mareantes fallavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de -ferro, enorme, elle brutalisa aquellas virgindades do mar: em baixo, a -tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e -desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio -com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem, -cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a -Biblia—serenos.</p> - -<p>Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a -amontoação confusa de calabres e de lonas—o tombadilho aberto é cheio -de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das -conchas, das espumas, das aves do mar.</p> - -<p>Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitarios, -com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da -materia. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos -aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flammejantes que -dão a vida aos machinismos—vermelhas como corações sobrenaturaes: o -ar é descido por machinas de respiração, pulmões terriveis: e um vento -geral, fecundo, benefico, escorre constantemente por todo o negro -bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores -pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo, -aquelle navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_79">[79]</span></p> - -<p>Ora sobre aquelle negro navio, sobre os machinismos frios, aquellas -forças pavorosas, aquellas fogueiras terriveis, no convez, entre as -negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, -esvoaçando na sua gaiola—canta um canario.</p> - -<p>Tal é o <i>Miautonomah</i>, navio de guerra da America do Norte.</p> - -<p>Nós entrevemos a America como uma officina sombria, sonora e -resplandecente, perdida ao longe nos mares.</p> - -<p>Entrevemol-a assim: movimentos immensos de capital; adoração exclusiva -e unica do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de -meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico; -atmosphera pesada de positivismos estereis; uma febre quasi dolorosa -do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças: -extremo despreso pelos territorios; preoccupação exclusiva do util -e do economico; doutrinas de uma philosophia e uma moral egoista e -mercantil: todo o pensamento repassado d'essa influencia: uma fria -liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação -terrivel da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas, -colonisações, exportações collossaes, forças extremas; accumulação -immensa de industrias, esquadras terriveis, uma estranha derramação de -jornaes, de pamphletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e -por fim um profundo tedio pelo vasio que deixa na alma a adoração do -deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação -entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma<span class="pagenum" id="Page_80">[80]</span> -bella costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos, -com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as -fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa, -fecunda, eleita, desapparecendo entre as industrias, os fumos das -fabricas, as construcções, os machinismos,—como a herva d'uma campina -fertil que desapparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões.</p> - -<p>A vida da America do Norte é quasi um paroxismo.</p> - -<p>Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme, -superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro?</p> - -<p>Todos os dias dizem á Europa:—Olhae para os Estados Unidos, lá está o -ideal liberal, democratico, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal -economico.</p> - -<p>Mas a America consagra a doutrina egoista de Monroe, pela qual uma -nacionalidade se encolhe na sua geographia e na sua vitalidade, longe -das outras patrias; esquece as suas antigas tradicções democraticas -e as ideias geraes para se perder no movimento das industrias e das -mercancias; allia-se com a Russia. A raça saxonia vae desconhecendo os -grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoismos -politicos e nas preoccupações mercantis, scisma conquistas e extensões -de territorios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento -positivo e egoista, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas, -que fumegam negramente.</p> - -<p>Uma das inferioridades da America é a falta de sciencias philosophicas, -de sciencias historicas e de sciencias sociaes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_81">[81]</span></p> - -<p>A nação que não tem sabios, grandes criticos, analysadores, -philosophos, reconstruidores, asperos buscadores do ideal, não póde -pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral.</p> - -<p>Emquanto a superioridade foi d'aquelles que batalhavam, que lançavam -grandes massas de cavallarias, que appareciam reluzentes entre as -metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a -superioridade foi d'aquelles que pensavam, que descobriam systemas, -civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a -geologia, a astronomia, a philosophia, o Oriente caíu, miseravel e -rasteiro.</p> - -<p>Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas sciencias historicas. -Inferioridade! As sciencias historicas são a base fecunda das sciencias -sociaes.</p> - -<p>É a superioridade da Europa: sob a mesma apparencia de febre industrial -ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova -humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça.</p> - -<p>O nosso mundo europeu tambem é uma extranha amontoação de contrastes -e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas -as efflorescencias fecundas e todas as velhas podridões: politicas -superficiaes e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres -consciencias e a tyrannia dos velhos ritos: diplomacias pacificas e -transigentes, e um espirito de guerra surdo, acceso e flammejante: -territorios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e -pela philosophia dos conquistadores e dos heroes: restos de influencias -monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionario;<span class="pagenum" id="Page_82">[82]</span> -humanitarismo fundido com o mais aspero egoismo; um chaos horrivel -de contradicçoes, e em cima, triumphal e soberba, a industria, entre -as musicas dos metaes, as architecturas das Bolsas, reluzente, -scintillante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho -eterno—que são fortunas, imperios, festas, empresas collossaes.</p> - -<p>Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre, -move-se em germen um novo mundo, o mundo da justiça social e economica.</p> - -<p>Este germen é que a America não tem, creio eu.</p> - -<p>Porque toda a America economica se explica por esta formula: feudalismo -industrial.</p> - -<p>Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas, -de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza -amontoa-se em proveito da alta finança—com detrimento das pequenas -industrias.</p> - -<p>Logo que na ordem economica não haja um balanço exacto de forças, de -producção, de salarios, de trabalhos, de beneficios, de impostos, -haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao -mesmo tempo uma democracia de proletarios que emmagrece, definha, e -dissipa-se nas miserias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam -estas terriveis desuniformidades.</p> - -<p>Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o -trabalho pela repugnancia que excita, pela absorpção completa de toda -a vitalidade physica, pela aniquilação e quebrantamento da seiva -material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção—por -isso mesmo, sobreexcita o espirito,<span class="pagenum" id="Page_83">[83]</span> estende os ideaes, abre grandes -vasios na alma, complica as necessidades, torna insupportavel a -pobreza: nas grandes democracias industriaes onde as posições são -obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha -mil motores—a ambição, a inveja, a esperança, o desejo—o cerebro -aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o <i>querer -chegar</i> torna-se uma verdadeira doença d'alma: exageram-se os meios: -e toda a seiva moral se altera e se deforma.</p> - -<p>É o que vae acontecendo na America; debaixo da frieza apparente, -move-se todo um inundo terrivel de desejos, de desesperanças, de -vontades violentas, de aspirações nevralgicas.</p> - -<p>Depois, como no meio das industrias ruidosas e absorvedoras muitas -amarguras ficam por adoçar, muitas angustias por serenar, muitas fomes -por matar, muitas ignorancias por alumiar, tudo isso se ergue terrivel -no meio da febre da vida social, e torna-a mais perigosa. Londres dá -hoje o aspecto d'esta lucta.</p> - -<p>De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o -desejo das riquezas, aferventa o cerebro, sobreexcita a sensibilidade: -a população cresce, a concorrencia é aspera, as necessidades -descomedidas, infinitas as complicações economicas, e ahi está sempre -entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a lucta dos -interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades, e por fim -as revoluções politicas.</p> - -<p>E todavia a liberdade da America parece tão confiada, tão assente, tão -satisfeita!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_84">[84]</span></p> - -<p>No emtanto ha muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda ha pouco -deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos, -a sua industria, o seu egoismo, o seu profundo interesse, e arma -exercitos, esquadras, dissipa milhões, e vae bater-se por uma ideia, -por uma abstracção, por um principio, pela justiça.</p> - -<p>O Sul queria manter a escravatura; o escravo que trabalhe, que cultive, -que produza, que sue, que morra sob a força metallica, baça e sinistra -do clima e do sol. Pois bem. O Norte quer a liberdade, o amor das -raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo -direito! E dispersa os exercitos da Virginia.</p> - -<p>Taes coisas me lembraram ha dias, ao visitar o <i>Miautonomah</i>, -fundeado no nosso Tejo.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_85">[85]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="MYSTICISMO_HUMORISTICO">MYSTICISMO HUMORISTICO</h2> -</div> - - -<p>Voltei. É agora que as toutinegras emigram.</p> - -<p>Andei pelos campos, n'este ar desfallecido do inverno outonal.</p> - -<p>Agora o azul está indolentemente bello. Tem quasi uma ironica -serenidade. É o azul intenso, frio, triumphante. Tem a luz, a belleza, -a força, a ineffabilidade. Agora a luz enternecida dos campos -arrasta-se pelas grandes aguas quietas e pallidas, onde o vento revolve -e espalha a agonia das folhas.</p> - -<p>Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranquiçada, escondida entre -as bençãos indolentes das arvores. Tinha a serena quietação de quem -tem ouvido segredos extaticos, e era triste e religiosa como a entrada -amarellecida de um convento catholico. Havia uma corrente de agua -delgada que fazia claras murmurações, e era como o acompanhamento, -natural e melodico, de uma ecloga latina. Entre as arvores estava um -banco solitario, que o musgo ia<span class="pagenum" id="Page_86">[86]</span> cobrindo. Nas plantas, nas clematites, -nas trepadeiras que o cercavam, havia um murmurio como de vozes -distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e molhada -do banco tinha a tristeza das pedras do cemiterio, á luz consoladora, -purificadora e branca, que cáe dos ceus outonaes.</p> - -<p>Agora, sobre aquelle banco, dorme estirada a grande luz do sol, e á -noite o luar, porque já não ha n'aquella casa namorados contemplativos -que venham, de noite ou á sésta, despertar, para se poderem sentar -alli, aquelles dormentes de luz.</p> - -<p>Aquella casa abandonada faz lembrar amores mysticos: e, quando se vê á -luz dolente do escurecer, faz subir do coração como um sabor de beijos -antigos e esquecidos.</p> - -<p>As arvores erguiam, em attitudes violentas e propheticas, os seus -braços nús, engelhados, supplicantes para o frio azul, esperando, no -entorpecimento, a fermentação violenta das seivas. Os ramos frios -e nitidos deixavam passar indifferentes, sem as suspender, sem as -acariciar, as molles nudezas das nuvens.</p> - -<p>Toda a natureza, no tempo dos frios, está impassivel e somnolenta.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Passei por um cemiterio. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um -rosto inerte e animal. A luz dissipava-se, e uma estrella que se chama -Venus luzia, metallica, ardente, desejosa, lucilante, n'um fundo -sinistro de ramagens.</p> - -<p>O coveiro é um semeador. Semeia corpos. Sómente não tem a esperança nem -o amor das colheitas. Quem sabe se os corpos, que se atiram á valla,<span class="pagenum" id="Page_87">[87]</span> -sementes funebres, se abrem, lá em cima, em searas divinas de que nós -apenas vemos a ponta das raizes, que são as estrellas? Mas não. A alma -morre. O corpo revive e dissipa-se na materia enorme.</p> - -<p>É na alma que estão as más vontades, os negros remorsos, as lacerações -do mal: o corpo desce livre, novo e são para as uberdades limosas das -covas.</p> - -<p>Quando chega o ultimo frio, odios, amores, tristezas, invejas, -melancholias, desejos, todos cançados das luctas e da vida, dizem -á natureza como gladiadores vencidos:—<i>Os que vão morrer -saúdam-te!</i>—E morrem.</p> - -<p>A vida e o seu supplicio é absorvida na insensibilidade da natureza, -no silencio perpetuo, na força fatal e céga. E a materia vae pelos -ares, pelas planicies, amollece-se nas sombras, vivifica-se nos raios -claros, é rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruido, movimento, -estremecimento confuso do corpo de Cybéle: e a materia sente a vida -universal, a palpitação do átomo debaixo da fórma, sente-se banhada -pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impellida -para a luz magnetica dos astros e dilacerada nos asperos movimentos da -terra. A materia tem a consciencia augusta da sua vitalidade. E assim, -sob a tua impassibilidade, ha uma angustia immensa, uma vida ardente, -impiedosa, uma alma terrivel, oh formidavel natureza!</p> - -<p>A noite descia: caía de cima uma claridade lactea; pesava um austero -e lento silencio; a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores -desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade -indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me<span class="pagenum" id="Page_88">[88]</span> dos Elysios olympicos -e mythologicos onde na claridade, passam as sombras heroicas, serenas, -brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Eu ia escutando os passos da doce noite, que vinha caminhando. Ia-me -afundando no tedio, como um navio roto n'uma maré do equinoxio. -Enchiam-me a alma crepusculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro. -Áquellas horas, os lymphaticos, os innocentes, os mysticos, encontram -nos arvoredos languidezas e elevações asceticas. Mas eu tremia entre a -ramaria inquieta como um mar, mysteriosa como um firmamento:—tremia -como um homem medroso que visse erguer-se um morto. Toda aquella negra -decoração de ramos torcidos, de folhagens lividas, de silencios, -enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e -transfiguradora do occaso dava aos troncos um estranho aspecto de -luctadores, vindos do sangue e dos incendios: os sinos distantes eram -como vozes indefinidas de miseria e de dôr.</p> - -<p>Passava um vento incessante e perseguidor. Os môchos voavam, e as aguas -sonoras eram como vozes vingativas e tragicas. A lua, entorpecida, -passava por detraz da estacada de ramos. O vento era rouco e lento -como um canto catholico de officios. E o grasnar lento e arrastado dos -córvos parecia uma ladainha barbara de padres. As arvores doentias -rangiam ao vento hybernal, o ar estava diaphano, lacteo e mortuario. As -estrellas que appareciam tinham o olhar lancinante.</p> - -<p>Cheguei á estalagem. Em baixo, na lareira, um magro fogo lambia as -fuligens. A luz do meu quarto<span class="pagenum" id="Page_89">[89]</span> tinha a lividez dos cirios, e o espelho -tinha reflexos pallidos, como de sombras mythologicas que passassem. -Ouviam-se os lobos.</p> - -<p>Lembraram-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o -ceu derrama somnolencias; então tambem eu ia por entre as arvores, e -ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir atravez -da bruma, entre o acre cheiro das efflorescencias. Aquellas vozes -claras eram doces, santas, saídas de crystaes, como veladas por um -luar. Eram como claridades sonoras de estrellas. Era uma multidão de -fórmas divinas que assim cantavam, divindades feericas, willis, nixes, -peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos. -Aquellas nudezas celestes, filhas do fogo, flôres do mal, ondas do -ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as scintillações -estellares franjavam de pallidezas. No meio dos nevoeiros humanos, -ellas faziam resplandecer deante dos olhos as visões paradisiacas, -as creaturas sideraes de languidos mysticismos. Ellas iam n'aquelles -enlaçamentos, brancas e loiras, cheias de lyrismo, com os pés vermelhos -e magoados de terem pisado auroras; iam poisando nos jacinthos, nos -myrthos, nas rosas barbaras cheias de sangue radioso: iam rolando sobre -a brancura soluçante dos lyrios: e a sua voz triste subia, por entre o -azul lacteo, para a lua chorosa.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma mumia, -pensando n'estas coisas, vi, repentinamente, atravez das vidraças, a -lua apparecer-me.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_90">[90]</span></p> - -<p>Mas não era aquella pura e immaculada lua côr d'opala—que derrama -brancuras, como se atravez do azul caissem lyrios. Era uma lua -metallica, fria, hostil, material como uma moeda d'oiro nova.</p> - -<p>Ella apparecia-me mortuaria e livida como uma sombra finada, que se -ergue ás grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rapido, estava -cheio das minhas agonias.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Ora n'essa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha -feito saltimbanco.</p> - -<p>Fez bem. Cançado dos pedantes, dos burguezes, dos ventres mercantis, -dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco, e vive entre os -palhaços. Faz forças coberto de farrapos luzentes, engole espadas, -dança farto de vinho como um Sileno. Dorme n'uma capa esfarrapada, com -a nuca sobre um tambor, á frescura das estrellas e sob a bondade dos -luares.</p> - -<p>Ás vezes tem frio e fome, e gela n'uns calções feitos de veludilho -e de galões d'oiro. Anda errante de villa em villa, e a populaça da -lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre -a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de -desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as -materialidades felizes?</p> - -<p>Elle tem a multidão extatica e enlevada nos giros dos seus sapatos. E -tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão, -e annelladas e fortes como negros pennachos de voluptuosidade: e a sua -testa tem um reflexo de luar, de<span class="pagenum" id="Page_91">[91]</span> marmore e d'espelho: e tem um bello -seio de fórmas barbaras.</p> - -<p>Elle pula á noite, no circo alumiado, emquanto as toutinegras cantam -nos cannaviaes. Elle faz girar vinte punhaes agudos em volta da cabeça, -n'um circulo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquelle diadema -terrivel e faiscante, e o saltimbanco impassivel, grave, enfarinhado, -sob aquella corôa de luz, tomal-o-á por um idolo e fal-o-á igual aos -deuses!</p> - -<p>Elle, o meu saltimbanco, tem a alma de oiro e o coração de diamante—e -ri-se, ri-se, quando o vento sôa como flauta do inverno, e ao concerto -das corujas e das ondas as estrellas dançam.</p> - -<p>A miseria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da -bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem -sol. E não soffrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado, -applaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes -tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu -melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes, os tambores!</p> - -<p>Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que -são as visões? São as attitudes, phantasticas e desmanchadas, que a -sombra dá ás verdades. Já pensava assim o poeta Li-Tai-Pè, que escrevia -sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e laccas, ao aroma -dos nenuphares, vestido de sedas amarellas, perfumado de sandalo—dôce, -contemplativo, branco, diante d'um vaso de margaridas!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_93">[93]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="O_MILHAFRE">O MILHAFRE</h2> -</div> - - -<p>Um dia um homem entrou n'uma casa arruinada. No portal havia um nicho -com um santo de pedra, que lia uma Biblia, tambem de pedra. Em redor, -na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia -hervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre -as suas palpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as -cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa -dos regimentos, e o santo lia attentamente o seu livro de pedra.</p> - -<p>Vinham defronte dançar saltimbancos, passavam as frescas serenatas, -vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de -pedra sobre as paginas inertes. As devotas, lentas e desfallecidas, -beijavam-lhe os pés nús, os homens severos saúdavam-o, as creanças -olhavam-o com os seus grandes olhos inanimados, os cães ladravam-lhe á -calva: o santo, curvado, seguia o espirito de Deus por entre as lettras -do livro.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_94">[94]</span></p> - -<p>Passavam os fardos, os mercadores crestados pela industria, os poetas -languidos que desfallecem nas cançonetas, os histriões que cantam nos -tablados, mulheres mais preciosas que o ambar, os sabios, os mendigos, -as virtuosas e as melodramaticas:—e o santo lia o seu livro prophetico.</p> - -<p>Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os cyprestes—ais de -folhagem—os homens, perguntavam entre si:—«Que lê tão attentamente -aquelle santo, que nem sequer nos olha?» E os enxurros, que passam -rosnando, diziam:—«Que lê tão devotamente aquelle santo, que nem -sequer nos escuta?»</p> - -<p>Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras cáem de somno, -quando os homens estão cheios de comida e de inercia—a lua, que ao -nascer é material e metallica como uma moeda d'oiro nova, depois, -na suavidade do azul, é tão pura, tão casta, tão immaculada, tão -consoladora, como uma chaga de Christo por onde se lhe visse a alma. -A essas horas, uma creança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo -pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o -santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a -grande luz dos seus olhos, aquella creança miseravel, adormecida sobre -as lages.</p> - -<p>Depois os planetas, a lua, a noite seguiam a sua viagem immensa para o -oeste, e a leste começava uma claridade: eram as hesitações da luz do -dia, medrosa por ter de descer ás miserias dos homens.</p> - -<p>As bandeiras ainda estavam desfallecidas, sonhavam as arvores, a cidade -dormia como outr'ora Sodoma. Acordavam então as andorinhas. Esvoaçavam<span class="pagenum" id="Page_95">[95]</span> -gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, poisar no nicho.</p> - -<p>As andorinhas estavam nas intimidades e nas confidencias do santo.</p> - -<p>Ora o vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grãos -e de sementes: a chuva cáe lúcida e fresca. O santo aparava a chuva -nas prégas da capa, e os grãos nas paginas do livro. E as andorinhas, -quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a -Biblia de Deus. E, em quanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as -azas nas barbas do santo, beijavam-se na sua bocca, aninhavam-se-lhe -entre os braços, cobriam-n'o todo; e o sol, quando chegava, ficava -maravilhado de vêr aquelle pobre santo de pedra, que elle não conhecia -do Paraizo, com os pés entre as hervas verdes, rindo, sereno, sob a luz -immensa, e todo vestido d'azas!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>O homem entrou na casa arruinada e foi, atravez de pedras esverdeadas, -de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, do -muralhas leprosas de musgo, de escadarias miseraveis, até uma sala -enorme, escura e tragica, e tão alta, que involuntariamente o olhar -procurava as constellações n'aquella sombra.</p> - -<p>No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabeça -macerada do Christo, as traves pôdres do tecto abriam uma larga fenda. -Por alli vinha a chuva escorrer-lhe nos cabellos como o antigo suor do -Jardim das Oliveiras, vinham os granisos magoal-o como as pedras da -paixão, vinha o sol alumial-o<span class="pagenum" id="Page_96">[96]</span> como a tocha de Judas, e a lua vinha, -tambem, tornal-o mais livido, como n'aquella noite em que elle, depois -de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalem, sentiu poisar na -sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou.</p> - -<p>Sobre a cabeça e sobre os braços do Christo havia teias d'aranha; em -baixo os ratos roíam-lhe a cruz.</p> - -<p>Então o homem sentiu que aquelle seio constellado, e aquella bocca -d'onde saíu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a -podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Christo, vendo o homem -afflicto e miseravel, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito -que o homem, encontrando Christo abandonado, profanado e roído, lhe -limpasse da cabeça as aranhas! Mas, quando ia a limpar a imagem, viu, -sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as -mãos, quiz arredar o milhafre.</p> - -<p>E a ave, então, com a antiga voz dos animaes da Biblia, do Apocalypse -e dos livros dos prophetas, disse surdamente: «Homem, deixa a cruz -socegada!»</p> - -<p>Atravez das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as -azas, dizia:</p> - -<p>«Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem -agora estrellas, soes, planetas, scintillações, carbunculos. É o pó -dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua -farça acabou em desterros.</p> - -<p>«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nús.</p> - -<p>«Este ficou, solitario, alumiando. Elle perdoou emquanto os outros -luctaram, elle amou emquanto os<span class="pagenum" id="Page_97">[97]</span> outros choraram: por isso fica -emquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale -tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silencio -dos myrthos dois olhares bem-amados.</p> - -<p>«Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o -apodrecimento. Elle póde bem dar ás aranhas o seu corpo de madeira, -pois que vos deu a vós o seu corpo de carne—a vós, que pregaes com -o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janellas -e o Christo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os -cabellos de madeira depois de lhe ter arrancado os cabellos vivos; a -vós, que quereis lavar as nodoas que elle tem no peito, e não vêdes -as immundicies que tendes na alma. Tudo o que elle creou, o amor, -o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquelle -evangelho da vida-nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de -bichos, tão immundo como o seio d'esta imagem antiga. A materia, o -impudor, o apetite rude, o odio, o aviltamento, o trafico, a miseria e -a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam -sujando a cabeça d'este Christo! E não reparaes, e não vêdes, sobre os -espiritos, sobre os corações, sobre as consciencias, o pó, a caliça, o -caruncho, os ratos e os vermes!</p> - -<p>«Sim, é verdade: tudo é magnifico, e são, e banhado de sol. As cidades -são limpas e caiadas, só as consciencias é que tem nodoas; as praças -estão cheias de illuminações, só os corações é que estão escuros; os -caes estão arejados, só os espiritos é que suffocam; os corpos estão -sãos, cobertos de estofos, frescos e<span class="pagenum" id="Page_98">[98]</span> resplandecentes, só as almas -é que andam núas, miseraveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a -farça, os paraisos artificiaes, as arcas venaes, e tambem o esfriamento -do tumulo! Oh amigos intimos dos vermes, como vós cuidaes do corpo, e o -lavaes, e o amaciaes, e o engordaes—para a pastagem escura das cóvas!</p> - -<p>«Homem, que fizeste tu da alma? Ao principio não era conhecida, depois -foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor -matal-a—mas não certamente de cançaço com viagens a Deus! Déstel-a a -despedaçar á negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo: -para esse uma religião, um asylo forte como o sol, os sete sellos da -lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o immaculado, o -pontifical, o victorioso. Prohibição a Deus de lhe tocar. Para elle -palacios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação -dos astros. Para elle a inviolabilidade: <i>Não matarás!</i></p> - -<p>«Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se -de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e -os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos -despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes, -deixamos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue, -e viemos, para viver, acceitar, com os capões, a domesticidade nos -parques resplandecentes, ou andamo-nos mostrando aos imbecis, pelas -feiras, n'uma gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a -natureza immensa, as afflicções do vento, as nupcias do mar, de<span class="pagenum" id="Page_99">[99]</span> terem -luctado nas tempestades e insultado as estrellas, vêem, modestamente, -comer bichinhos no saguão dos burguezes! Eu, que tinha estado entre a -força, quiz, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido -na noite de Deus, quiz, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E, -entretanto, a alma morre esmagada e solitaria, e a grande vida moderna, -a vida do sol, da musica, dos metaes, vae, entre fulgurações, pisando -e cuspindo n'aquella coisa miseravel. E ainda está quente o sangue de -Jesus!</p> - -<p>«Homem, que fizeste tu do pensamento?</p> - -<p>«Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lho -no seio as sete dôres. Coube-lhe a dôr e o escarneo. É necessario -que, nas cidades, os pensadores e os artistas extaticos soffram e -sangrem: os triumphos dos homens da materia são como os dos antigos -imperadores—só são completos quando passam entre torturas. E quem -havia de soluçar sobre a scena moderna da paixão, senão os que têem -alma?</p> - -<p>«Amam, suffocam, cáem, agonisam, e entretanto vae passando a cohorte -dos victoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se d'aquelles -corações, como os botões d'oiro das suas camisas apupam a luz dos -astros.</p> - -<p>«E os que quizerem viver e tiverem a alma grande, bella e heroica, têem -de se baixar á estatura burgueza e mercantil dos cerebros modernos. Os -deuses olympicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas -antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de -Juno viveria n'um pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os -cavalleiros<span class="pagenum" id="Page_100">[100]</span> andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o tragico -S. Jeronymo seria presidente d'uma junta de parochia. D'este modo tu -acceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida -moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, musica, tu que creaste -a Allemanha, far-me-ás uma contradança; vem, architectura, tu que deste -hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, esculptura, tu que -fizeste o povo dos deuses, ó bella esculptura! vem fazer-me um gavetão. -Oh! tristes domesticidades do ideal!»</p> - -<p>Houve um silencio. Havia na sala um ar mystico, como para a concepção -d'um Deus.</p> - -<p>O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar d'uma flauta. E o olhar -do Christo errava, contemplativo e attento, entre as estrellas -innumeraveis, emquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a -cruz.</p> - -<p>«Vae-te, disse o milhafre. Os ratos róem a cruz, eu estou velho: a -antiga geração das aves da noite vae-se. Os prégos já se despregam, a -cruz apodrece. E quando ella se desfizer, atirarei o seu pó á grande -natureza, ao elevar da lua, que vale o elevar da hostia. Irei, oh meu -Deus! para além dos soes e dos caminhos lacteos, onde as constellações -são gôttas de sombra, certo—eu que sou da vasta terra, o selvagem -dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos -montes—certo de que, se os homens não derem a cruz aos Christos, não -lh'a dará tambem a natureza. E eu, que roí as ossadas verdes, tendo -visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado n'uma -cruz, irei tambem, entre os<span class="pagenum" id="Page_101">[101]</span> soes meio doidos, eu, que devastei, e -matei, e escorri do sangue, crucificar-me n'um astro!»</p> - -<p>Assim fallou, lentamente, aquelle milhafre philosophico e lettrado, -emquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim fallava, -de cima d'uma cruz, n'uma sala legendaria, longe das maravilhas -dos Cains burguezes, n'estes tempos livres, sensatos, verdadeiros, -magnificos, em que, como se não pódem pôr certas verdades na bocca dos -homens, tem de se dependurar do bico dos milhafres.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_103">[103]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="LISBOA">LISBOA</h2> -</div> - - -<p>Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apezar -dos asphaltos, das fabricas, dos gazometros, dos caes, ainda aqui as -primaveras escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados -ainda se beijam as pombas: ainda, no silencio, o ar escorre pelas -cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um -poeta impopular.</p> - -<p>Lisboa que faz?</p> - -<p>Antigamente a cidade, <i>urbs</i>, era o logar que pensava e que -fallava, que tinha o verbo e a luz. Roma creou a justiça, Athenas -idealisou a carne, Jerusalem crucificou a alma. Por isso Roma caíu, e -os porcos enlameiam os restos de Athenas, e os cães uivam no silencio -de Jerusalem. Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram: os -seus ouvidos escutaram muito o pensamento, e ensurdeceram: as suas mãos -esculpiram muito o ideal, e tolheram-se.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_104">[104]</span></p> - -<p>Pensar é soffrer, alumiar é luctar. A noite, ao succumbir, lucta com -a madrugada, e deixa-lhe a chaga incuravel do sol: d'ella escorre a -luz. As superstições, os preconceitos, os erros, os prejuizos, as -fatalidades, luctam com a alma, e deixam-lhe a ferida insanavel do -ideal: d'ella escorre a verdade. Esta ferida dá a febre, o cansaço, -o desespero, a convulsão. Paris tem esta antiga e tragica ferida que -teve Athenas, Babylonia e Jerusalem. Soffre, porque pensa. Os pés têm -a intimidade da lama, as azas têm a camaradagem da luz. Todo o pé quer -ser aza.</p> - -<p>D'ahi ambições, desalentos, luctas obscuras, perdições, descrenças, -fulgurações do mal, impurezas, traições, invejas, injurias, -torturas:—a congestão do espirito! São estas as dôres immensas, as -nodoas do pensamento, as manchas do sol.</p> - -<p>Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbavel, -silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terriveis. -Tem a sensatez, a prudencia, a economia, o medo. Não quer alumiar, -para não luctar; não quer pensar, para não soffrer. Não quer crear, -pensar, apostolar, criticar. Escuta e applaude toda a voz, ou sejam -as imprecações de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que -solucem, as florestas que se lamentem! Ella tem o riso radioso e sereno.</p> - -<p>Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre, -caiada e fresca. Não tem de catar as suas miserias, nem de amparar o -páo das forcas: por isso commenta Sancho Pansa. Não tem de construir -a cathedral das ideias, nem de compôr a symphonia da alma: por isso -escuta os melros nas varzeas,<span class="pagenum" id="Page_105">[105]</span> e resa as <i>Ave Marias</i>. Paris, -Londres, New-York, Berlim, suam e trabalham, em espirito. Ella não tem -que semear: por isso resona ao sol.</p> - -<p>Ás vezes, porém, commette o mal, enterrando ideias. Onde? Na escuridão, -no silencio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Como Roma, ella tem as sete collinas; como Athenas, tem um ceu tão -transparente que poderia viver n'elle o povo dos deuses; como Tyro, é -aventureira do mar; como Jerusalem, crucifica os que lhe querem dar uma -alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come.</p> - -<p>Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que -os astros vêm longe, que as azas sonham com o vento, que os olhos das -flôres se fecham de somno. Deus não vê, da sua varanda de sol, que, -para esta velha cidade, heroica e legendaria, que nos seus velhos dias -tomou o peccado da gula, o abdomen é uma realidade livre! Até alli, -durante o dia, os seus cabellos caíam como ramos de salgueiros, as suas -faces estavam amarelladas, dos seus olhos chovia dôr; ainda não tinha -comido! Depois, á noite, quando sáe do alimento como d'uma victoria, os -olhares são gritos de luz, os cabellos plumas gloriosas, o peito arca -de ideaes: comeu!</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>Lisboa nem cria, nem inicia; vae.</p> -</div> - -<p>Em religião, nem tem a devoção dos monges, nem a impiedade ironica: -é simples. Antigamente faz vir um Christo crucificado, erguendo os -braços<span class="pagenum" id="Page_106">[106]</span> supplicantes, no prestito dos enforcados: hoje choraria pela -Mãe Dolorosa, depois de ter erguido uma estatua a Voltaire: penduraria -ao pescoço, singelamente, com as contas de um rosario, a sua antiga -viola de Alfama.</p> - -<p>Em politica, copia Sancho Pansa.</p> - -<p>Não tem a coragem que se dedica, nem o medo soluçante: parece ter -justamente o heroismo de uma espada embainhada: na campanha da Europa, -todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda. Tem a -religião sensual do sol, do calor, e do sonino: na Beresina, apupava as -neves!</p> - -<p>Não tem a febre das especulações e das industrias, nem o amor das -contemplações e dos sonhos: tem um trabalho cheio de séstas: em abril -suspende a enxada para vêr voltar as andorinhas.</p> - -<p>No vicio é timida: copia desgeitosamente as Babylonias distantes: -aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés: apara as unhas ao -diabo; é o banho tepido dos peccados mortaes.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Adoradora, em architectura, da linha recta dos palacios de crystal; -sectaria, em esculptura, dos <i>biscuits</i> de Sèvres; namorada, em -poesia, do visconde d'Arlincourt—no theatro quer a magica: tem sede -e fome d'aquelle ideal: quer as montanhas transparentes, os palacios -de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, architecturas de luz -e sons, papeis collados, vermelhão e ouropeis, mulheres despidas, -pedraria, e oiro, oiro, oiro, e ainda oiro, e mulheres despidas, e -mais oiro! Lisboa, por sobre uma scena resplandecente, vê as fórmas -estranhas que toma o sonho da<span class="pagenum" id="Page_107">[107]</span> imbecilidade: quer a magica: em verdade, -a magica é o espectro solar do idiotismo!</p> - -<p>Vem a noite, e Lisboa toma a impassibilidade das penedias.</p> - -<p>As casas, sem luz, têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas. -A illuminação é um côro de gaz, bocejando. Das encruzilhadas das ruas -solitarias, de todo este deserto de cantarias e de vidraças, exhala-se -uma somnolencia fluida, um halito de tedio. Lisboa, de noite, é tão -silenciosa que quasi se sente o crescer da herva que a ha-de cobrir no -dia das ruinas.</p> - -<p>É tão triste, que a noite parece um arrependimento da vida! Nas bellas -moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos, em -palhas, por toda a parte, ha um vasto somno inerte e vegetal.</p> - -<p>Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a familia <i>Vicio</i>, -a gente crepuscular, os herdeiros terriveis de Lovelace e de D. Juan -Tenorio?</p> - -<p>Compram, na penumbra domestica, o amor fuliginoso das cosinheiras, -comem, melancholicamente, mexilhões nas tavernas; os mais pobres -encostam-se ás esquinas, esfarrapados e doentes, cariatides somnolentas -do tedio!</p> - -<p>E nas casas? Ahi, nos andares resplandecentes, onde as mãos são macias -e macios os sentimentos, estão, concentradas e sérias, fórmas vestidas -de luto, como os viuvos, ou vestidas de branco, como as monjas. E -suaves são as fallas, e o andar cheio de ondulações como o nadar das -sereias, e as danças severas como a celebração d'um rito: e suaves -são as petalas, e as musicas chorosas, e as luzes, aves de<span class="pagenum" id="Page_108">[108]</span> claridade -presas, que palpitam e querem o livre azul: mas sobre a alma, e os -corpos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos viuvos e a frialdade -das monjas. E isto são as festas!</p> - -<p>Mais acima, nos andares modestos, resonam aquellas familias, vulgares -e asperas, que nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a -belleza, a graça, a paixão, como insectos entre os cabellos d'uma -santa, e morrem solitarias, invejosas, com os corações cheios de -revolta, porque não amaram!</p> - -<p>Depois, mais em cima, nos ultimos andares, é a gente do trabalho: -operarios severos, doces raparigas com alma de passaro, gargantas onde, -como nas veigas de Israel, todo o dia se canta; e, tambem, a gente -estupida e metallica que tem a brutalidade do trabalho com a rudeza do -coração, indoles asperas, olhos invejosos, mãos avaras, peitos vasios, -que a essas horas da noite, com os cabellos caidos, vêem a vida tão -núa, tão apertada, tão brutal, tão suja como a sua trapeira!</p> - -<p>E depois mais acima, debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados, -os miseraveis, a essas horas, com grandes olhos aterrados, catam-se, ou -roem as côdeas, ou gemem de dôr, ou morrem entre a caliça e as aranhas, -ou se remendam, cantando impuramente!</p> - -<p>E por cima (como na jerarchia da dôr, das tristezas do pobre, só estão -as chagas do Christo) o grande azul, sereno, transparente, cheio de -universos, esconde, por detraz da gradaria dos astros, o Mysterio e a -Graça!</p> - -<p>A essas horas, ó miseria das cidades! longe dos<span class="pagenum" id="Page_109">[109]</span> conservatorios, e das -academias, e das magicas, pelos prados e pelas varzeas, representam-se -as verdes comedias da natureza: os rouxinoes dão a replica ás folhas -melodiosas, as flôres choram pelas desgraças de um melro amoroso, os -olmos teem attitudes grotescas de palhaços, e o ceu, como um amante -tragico, criva-se de punhaladas de luz!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações d'um peito -desmaiado. Não ha ambições explosivas; não ha ruas resplandecentes -cheias de tropeis de cavalgadas, de tempestades d'oiro, de velludos -lascivos: não ha amores melodramaticos: não ha as luminosas -efflorescencias das almas namoradas da arte: não ha as festas feericas, -e as convulsões dos cerebros industriaes.</p> - -<p>Ha escassez de vida; um frio senso pratico; a preoccupação exclusiva do -util; uma seriedade emphatica; e a adoração burgueza e serena da moeda -de cinco tostões—da moeda de cinco tostões, branca, perfeita, celeste, -pura, immaculada, consoladora, purificadora!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>O luxo dos vestuarios é reflectido, pausado, calculado.</p> - -<p>Um outro luxo ha, mais doido: esse, quando é novo, ruge, resplandece, -deixa-se balançar em grandes prégas desfallecidas—um pouco baixamente, -de camaradagem com a lama. Mais tarde, depois das ostentações e dos -amores, envergonha-se e vae-se mascarar ás tinturarias: nos seus velhos -dias anda, miseravel, pedindo esmola por casa das adelas!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_110">[110]</span></p> - -<p>A Lisboa material tem posições moraes. Ha sitios que dão, aos que -os pisam, uma individualidade. O lagedo e a cantaria consagram -espiritos. Encontrar-se no <i>Chiado</i>—significa ter a fina flôr -da graça, a vivacidade conceituosa e costumes dissipados. Estar no -<i>Martinho</i>—revela inspiração, divindade interior, lyrismo e -politica. Oh Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Lisboa tem compaixões celestes: agrupa-se, em côro de lagrimas, para -vêr a morte d'um cão: mas afasta-se logo, assobiando, se começa a -agonia d'uma alma. Tem tambem uma curiosidade timida e facil: senta-se -nos passeios pelo estio, entre o pó, olympicamente, como os Deuses -entre a luz, e fica attenta, concentrada, suspensa, idiota—a vêr -caminhar seis mil pernas!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis; outro dia aborreceu-se -o acolheu os imperadores. Ás vezes Lisboa aborrece-se—e entra na -politica.</p> - -<p>Lisboa toma então attitudes, clama, conjura nas esquinas, é -bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas -tyrannias derrubadas, reler a cartilha!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se!</p> - -<p>Nos tempos mythologicos, ás vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa -e mãe, fiava na roca d'ebano incrustada de lapis, e dobava as lãs -vermelhas de Mileto. Vinha, porém, um dia no anno em que a mulher<span class="pagenum" id="Page_111">[111]</span> -ia, no Olympo, ser deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes; -debalde lhe pediam que não fosse, temendo que ella, mulher e deusa, -não se acostumasse, na volta, ás lampadas de gineceu, ella que só ia -ser alumiada pelos astros do Olympo. Debalde: chegado o momento, nada -impedia a esposa de ser divindade: via-se aquelle corpo casto, argilla -ideal, azular-se e, transparencia viva, perder-se na luz.</p> - -<p>Lisboa é assim. Vem um dia em que ella quer voltar ao seu elemento -primitivo, e ninguem a póde impedir de ser lama: é pelo entrudo.</p> - -<p>Suja-se então livremente, faz tempestades nojentas; n'aquelles dias o -seu tedio é feito d'immundicie.</p> - -<p>Transfigura-se. E como a Deusa deixava, na antiguidade, os filhos e -os lares, para ir ser luz, Lisboa esquece as funcções do seu tedio, -a religião da moeda d'oiro, o sacerdocio da economia, as attitudes -emphaticas do seu pudor, para se dar livremente á lama!</p> - -<p>Lisboa é a hospedaria do vento. O antigo Euro paga a hospedagem, -atirando a poeira ás ruas, ás praças, ás avenidas, aos caes, á cara de -Lisboa! Sublime adulação: suja-a!</p> - -<p>Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Collisão! Lisboa, cidade -inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Athenas produziu a esculptura, Roma fez o direito, Paris inventou a -revolução, a Allemanha achou o mysticismo. Lisboa que creou?</p> - -<p>O <i>Fado</i>.</p> - -<p><i>Fatum</i> era um Deus no Olympo; n'estes bairros é uma comedia. -Tem uma orchestra de guitarras, e<span class="pagenum" id="Page_112">[112]</span> uma illuminação do cigarros. O -palco está mobilado com uma enxerga. A scena final é no hospital ou na -enxovia.</p> - -<p>O panno de fundo é uma mortalha!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Todos os dias, quando o sol se vae lavar, nas aguas, dos olhares dos -homens, quando os corpos estão em flôr e passam os olhos pretos, de que -Deus é avaro, e a maledicencia se abre como uma tulipa, e os risos são -clarões, e a vida se balouça cheia de sonhos, de lustres de olhares, -de beijos côr do sol, de camelias e de pomadas, passam na rua umas -carruagens lentas, com grandes arabescos doirados: são coches; as suas -armas são caveiras; vão alli os mortos.</p> - -<p>«Anda, cocheiro: é um freguez que vae para a cova: a passo! Alto de S. -João! A eternidade toma-te á hora!»</p> - -<p>E emquanto o pobre morto vae, que dizem os que o viram partir, -soluçando?</p> - -<p>Os filhos dizem: «Tinha de ser...»</p> - -<p>A esposa diz: «Vestida de luto!...»</p> - -<p>O agiota: «Não foi mau freguez.»</p> - -<p>Os medicos: «É um caso interessante...»</p> - -<p>Os que o levam para a cova: «Era pesado, o maroto!»</p> - -<p>O coveiro canta:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">O preto que vem d'Angola</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Traz a bordo fava rica.</span><br /> -</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_113">[113]</span></p> - -<p>Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquelle homem: vestiste-o com os teus -cabellos, alimentaste-o com o teu halito, coroaste-o com o teu olhar, -divinisaste-o com o teu desejo: elle era formoso, e são, e forte, e -apaixonado: mas se passares por ao pé d'elle agora, oh pobre mulher -chorosa, põe bem a mão no nariz!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, resona, soluça e cachimba. E -se algumas lagrimas em ti cairem, vae-as enxugar depressa ao sol! -Fica-te em paz! Os que teem alma não querem a luz dos teus olhos; pódes -consumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar, -sempre erguido para lá, ninguem terá ciumes do ceu!</p> - -<p>Os que teem coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes -emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas -para elle, ninguem terá ciumes de Deus!</p> - -<p>Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua -resplandecente, a linha magnifica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh -clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce -Lisboa, coroada de ceu, resigna-te—a não ter alma!</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_115">[115]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="O_SENHOR_DIABO">O SENHOR DIABO</h2> -</div> - - -<p>Conhecem o Diabo? Não serei eu quem lhes conte a vida d'elle. E todavia -sei de cór a sua legenda tragica, luminosa, celeste, grotesca e suave!</p> - -<p>O Diabo é a figura mais dramatica da Historia da Alma. A sua vida -é a grande aventura do Mal. Foi elle que inventou os enfeites que -enlanguescem a alma, e as armas que ensanguentam o corpo. E todavia, -em certos momentos da historia, o Diabo é o representante immenso do -direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É -então uma especie de Pan sinistro, onde rugem as fundas rebelliões da -natureza. Combate o sacerdocio e a virgindade; aconselha a Christo que -viva, o aos mysticos que entrem na humanidade.</p> - -<p>É incomprehensivel: tortura os santos e defende a egreja. No seculo -<span class="allsmcap">XVI</span> é o maior zelador da colheita dos dizimos.</p> - -<p>É envenenador e estrangulador. É impostor, tyranno,<span class="pagenum" id="Page_116">[116]</span> vaidoso e -traidor. Todavia conspira contra os imperadores da Allemanha: consulta -Aristoteles e Santo Agostinho, e supplicia Judas que vendeu Christo, e -Brutus que apunhalou Cesar.</p> - -<p>O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza immensa e doce. Tem talvez a -nostalgia do ceu!</p> - -<p>Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lucifer, <i>o que leva a -luz</i>, revolta-se contra Jehovah, e commanda uma grande batalha entre -as nuvens.</p> - -<p>Depois tenta Eva, engana o propheta Daniel, apupa Job, tortura Sara, -e em Babylonia é jogador, palhaço, diffamador, libertino e carrasco. -Quando os deuses foram exilados, elle acampa com elles nas florestas -humidas da Gallia e embarca expedições olympicas nos navios do -imperador Constancio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus, -vem torturar os monges do Occidente.</p> - -<p>Escarnecia S. Macario, cantava psalmos na egreja de Alexandria, -offerecia ramos de cravos a Santa Pelagia, roubava as gallinhas do -abbade de Cluny, espicaçava os olhos a S. Sulpicio e á noite vinha, -cançado e empoeirado, bater á portaria do convento dos dominicanos, em -Florença, e ia dormir na cella de Savonarola.</p> - -<p>Estudava o hebreu, discutia com Luthero, annotava glosas para Calvino, -lia attentamente a Biblia e vinha ao anoitecer para as encrusilhadas da -Allemanha jogar com os frades mendicantes, sentado na relva, sobre a -sella do seu cavallo.</p> - -<p>Intentava processos contra a Virgem: e era o pontifice da missa negra, -depois de ter inspirado os juizes de Socrates. Nos seus velhos dias, -elle que tinha<span class="pagenum" id="Page_117">[117]</span> discutido com Attila planos de batalha, deu-se ao -peccado da gula.</p> - -<p>E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e -somnolento, apupou-o. Então o demonographo Wier escreve contra elle -pamphletos sanguinolentos, e Voltaire criva-o d'epigrammas.</p> - -<p>O Diabo sorri, olha em roda de si para os calvarios desertos, escreve -as suas memorias, e n'um dia ennevoado, depois de ter dito adeus aos -seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso.</p> - -<p>O Diabo foi celebrado pelos sabios e pelos poetas. Proclus ensinou a -sua substancia, Presul as suas aventuras da noite, S. Thomaz revelou -o seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a -sua inconstancia jovial. João Dique escreveu sobre a sua eloquencia e -Jacques I, de Inglaterra, fez a corographia dos seus estados. Milton -disse a sua belleza e Dante a sua tragedia. Os monges ergueram-lhe -estatuas. O seu sepulchro é a natureza.</p> - -<p>O Diabo amou muito.</p> - -<p>Foi namorado gentil, marido, pae de gerações sinistras. Foi querido, -na antiguidade, da mãe de Cesar, e na meia-edade foi amado da bella -Olympia. Casou no Brabante com a filha d'um mercador. Tinha entrevistas -languidas com Fredegonda, que assassinou duas gerações. Era o namorado -das frescas serenatas dadas ás mulheres dos mercadores de Veneza.</p> - -<p>Escrevia melancolicamente ás monjas dos conventos da Allemanha.</p> - -<p><i>Feminæ in illius amore delectantur</i>, diz tragicamente o abbade -Cesar de Helenbach. No seculo XII<span class="pagenum" id="Page_118">[118]</span> tentava com olhares cheios de sol -as mães melodramaticas dos Burgraves. Na Escossia havia grande miseria -sobre os montes: o Diabo comprava por 15 <i>schellings</i> o amor das -mulheres dos <i>highlanders</i>, e pagava-lhes com o dinheiro falso que -fabricava em companhia de Philippe <span class="allsmcap">I</span>, de Luiz <span class="allsmcap">VI</span>, -de Luiz <span class="allsmcap">VII</span>, de Philippe o Bello, do rei João, de Luiz -<span class="allsmcap">XI</span>, de Henrique <span class="allsmcap">II</span>, com o mesmo cobre de que se -faziam as caldeiras onde eram cosidos vivos os moedeiros falsos.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Mas eu quero só contar a historia de um amor infeliz do Diabo, nas -terras do norte.</p> - -<p>Oh mulheres! vós todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura, -nem os simples, nem os balsamos, nem os orvalhos, nem as resas, nem o -pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir esta historia florida!</p> - -<p>Era na Allemanha, onde nasce a flôr do absyntho.</p> - -<p>A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepelliz -do senhor arcebispo d'Ulm.</p> - -<p>Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras, -de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Christo -de marfim. As plantas limpavam piedosamente, com as suas mãos de -folhas, o sangue das chagas; as pombas, com o calor do seu collo, -aqueciam os pés doloridos. No fundo da casa, o pae d'ella, o velho, -bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos de Italia, e as cidras da -Dinamarca. Era vaidoso, gordo, somnolento e mau.</p> - -<p>E sempre a rapariga fiava. Preso á roca por um fio branco, sempre o -fuso saltava; preso ao seu coração por uma tristeza, sempre pulava um -desejo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_119">[119]</span></p> - -<p>E todo o dia fiava.</p> - -<p>Ora debaixo da varanda passava um lindo moço, delicado, melodioso e -timido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro.</p> - -<p>Ella, sentada junto do crucifixo, cobria os pés de Jesus com os seus -grandes cabellos louros.</p> - -<p>As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra -a cabeça da imagem. Parecia que toda a alma de Christo alli -estava—consolando, em cima, sob fórma de planta, amando, em baixo, sob -fórma de mulher.</p> - -<p>Elle, o branco moço, era o peregrino d'aquella santa. E o seu olhar -procurava sempre o coração da doce rapariga, e o seu olhar d'ella, -séria e branca, ia procurar a alma do caro bem amado.</p> - -<p>Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de -luz, contar o que tinham visto. Era um encanto!</p> - -<p>—Se tu soubesses!—dizia um olhar.—A alma d'ella é immaculada.</p> - -<p>—Se tu visses!—dizia o outro.—O coração d'elle é sereno, forte e -vermelho.</p> - -<p>—É consolador, aquelle peito onde ha estrellas!...</p> - -<p>—É purificador, aquelle seio onde ha bençãos!</p> - -<p>E olhavam ambos, silenciosos, extaticos, perfeitos. E a cidade vivia, -as arvores rosnavam sob o balcão dos eleitores, a trompa de caça -soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos -liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das egrejas, as -amendoeiras tinham flôr, e o Rheno cantigas de ceifeiras.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_120">[120]</span></p> - -<p>E elles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Christo -aninhava as almas.</p> - -<p>Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o -ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou -dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria, na varanda, fiava a -sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.</p> - -<p>Então, no silencio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck, que -os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Os teus olhos, bem amada,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">São duas noites cerradas.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mas os labios são de luz.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Lá se cantam alvoradas.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os teus seios, minha graça,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">São duas portas de cêra.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Fôra a minha boca um sol,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Como elle as derretêra!</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Os teus labios, flôr de carne,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">São portas do paraizo:</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o banquinho de S. Pedro</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">É no teu dente do sizo.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Queria ter uma camisa</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">D'um tecido bem fiado,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Feita do todos os ais</span><br /> -<span class="pagenum" id="Page_121">[121]</span><span style="margin-left: 1em;">Que o teu peito já tem dado.</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">Quando nos fôrmos casar,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Canta missa o rouxinol.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E o teu vestido de noiva</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Será tecido de sol!</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 1em;">A benção nos deitará</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Algum antigo carvalho!</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E por enfeites de boda</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Teremos gottas de orvalho!</span><br /> -</p> - -<p>E, ao cimo da rua, appareceu um homem forte, d'uma pallidez de marmore. -Tinha os olhos negros como os dois soes legendarios do paiz do Mal. -Negros eram os cabellos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao -peito do corpete uma flôr vermelha de cactus.</p> - -<p>Atraz vinha um pagem perfeito como uma das antigas estatuas, que -fizeram na Grecia a lenda da belleza. Andava convulsivamente como se -ferisse os pés no lagedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apollos -de marmore. Dos seus vestidos saía um cheiro a ambrozia. A testa era -triste e serena como as dos que teem a saudade immortal d'uma patria -querida. Trazia na mão uma amphora esculpida em Mileto, onde se sentia -a suavidade dos nectares olympicos.</p> - -<p>O homem da pallidez de marmore veiu até junto da varanda, e, entre as -supplicas gemidas de guitarra, disse sonoramente:</p> - -<p>—A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de -homem vão como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor, -das suas mãos ao seu collo?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_122">[122]</span></p> - -<p>E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente, -com grandes risadas frias e metallicas:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">Quem depenna um rouxinol</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">E rasga uma triste flôr,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Mostra que dentro do peito</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Só tem farrapos d'amor.</span><br /> -</p> - -<p>E ergueu para a varanda os seus olhos terriveis e desoladores, como -blasphemias de luz. Maria tinha levado a sua roca e só havia na varanda -as aves, as flôres e Jesus!</p> - -<p>—A toutinegra voou—disse jovialmente.</p> - -<p>E indo para Jusel:</p> - -<p>—É que talvez sentisse a visinhança do abutre. Que diz o Bacharel?</p> - -<p>Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.</p> - -<p>—No meu tempo, senhor Suspiro,—disse o homem dos olhos negros, -cruzando lentamente os braços—já havia aqui duas espadas, a fazer -rebentar na sombra flôres de faiscas. Mas os heroes vão-se, e os homens -nascem cada vez mais da dôr das mulheres. Vejam isto! É um coração com -gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as côres, -menos vermelho e solido. Pois bem! Aquella rapariga tem uns cabellos -louros que dizem bem com os meus cabellos pretos. As cintas delgadas -querem os braços fortes. Os labios, vermelhos de desejo, gostam das -armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_123">[123]</span></p> - -<p>Jusel tinha descido as suas grandes palpebras elegiacas, e via as -petalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados, -desprendidos do seu peito.</p> - -<p>O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a mão:</p> - -<p>—Bacharel Ternura—disse—ha aqui perto um logar onde os goivos -nascem expressamente para os innocentes que morrem. Se tens alguns -bens a deixar, recommendo-te este excellente Rabil.—Era o pagem.—É -necessario proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que -findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração -á bem amada, á moda dos trovadores, eu me encarrego de lh'o trazer, -bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu és formoso, amado, -branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil! E uma farça bem feita ao -Compadre lá de cima dos soes, dilacerar-lhe esta belleza! Se namoravas -alguma estrella, eu lhe mandarei, por bom portador, os teus ultimos -adeuses. Em quanto aos sacramentos, são inuteis: eu me encarrego de -te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos: -annuncia no Inferno o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas -em duello secreto, armas honradas!</p> - -<p>E batendo heroicamente nos copos da espada:</p> - -<p>—Eu tenho aqui esta debilidade: onde está a tua força?</p> - -<p>—Alli!—respondeu Jusel, mostrando Christo na varanda das plantas e -das pombas, allumiado pelo sol que descia, branco entre a folhagem, -agonisante entre as palpitações das azas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_124">[124]</span></p> - -<p>—Ah!—disse cavamente o homem da flôr de cactus.—A mim, Rabil! -Lembras-te de Acteon, de Apollo, de Derceto, de Inachus e de Marte?</p> - -<p>—Eram os meus irmãos...—disse lentamente o pagem, hirto como uma -figura de pedra.</p> - -<p>—Pois bem, Rabil, para a frente, atravez da noite! Cheira-me aqui ás -terras de Jerusalem!</p> - -<p>E sumiram-se debaixo das arcarias e das pilastras, sinistros, soluçando.</p> - -<p>Na noite seguinte, havia pela Allemanha um grande luar purificador. -Maria estava debruçada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins -concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar, -suspirava para aquelle corpo feminino e branco, como nos jardins a -agua, que sobe em repuxo, suspira murmurosamente para o azul.</p> - -<p>Maria disse suspiradamente:</p> - -<p>—Vem.</p> - -<p>Jusel subiu á varanda, radioso. Sentaram-se ao pé da imagem. O ar -estava tão sereno como na patria das almas. Os dois corpos dobravam-se, -um para o outro, como se os estivessem approximando os braços d'um Deus.</p> - -<p>As folhagens escuras, que envolviam o Christo, estendiam-se sobre as -duas cabeças louras com gestos de benção. Havia na molleza das sombras -um mysterio nupcial. Jusel tinha as mãos d'ella presas como passaros -captivos, e dizia, com a voz humilde dos corações primitivos:</p> - -<p>—Queria bem vêr-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios -infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era -n'um<span class="pagenum" id="Page_125">[125]</span> campo. Tu estavas de pé, immovel: ouvia-se um côro que cantava -dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espiritos. -E diziam uns:—Aquelle côro é de mortos: são os amantes infelizes que -choram no coração d'aquella mulher.—Outros diziam:—São as tristezas -dos minnesingers errantes que alli soluçam.—Outros diziam:—Sim, -aquelle côro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram alli -do exilio.—E então eu adiantei-me e disse:—Sim, sim, aquelle côro é -de mortos: são os desejos que ella teve por mim, que se lembram e que -gemem.—Que sonho tão mau, tão mau!</p> - -<p>—Porque estás tu—dizia ella—todos os dias encostado ao pilar, com as -mãos quasi postas?</p> - -<p>—Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.</p> - -<p>Calaram-se. Elles eram, n'aquelle momento, a alma florida da noite.</p> - -<p>—Quaes são os meus olhos? quaes são os teus olhos?—dizia Jusel.—Nem -eu sei!</p> - -<p>E ficaram calados. Ella sentia os desejos, que se desprendiam dos olhos -d'elle, virem, como passaros feridos que gemem, cair no fundo da sua -alma, sonorosamente.</p> - -<p>E inclinando o corpo:</p> - -<p>—Conheces meu pae?—disse ella.</p> - -<p>—Não. Que importa?</p> - -<p>—Ai, se tu soubesses!...</p> - -<p>—Que importa? Estou aqui. Se elle te quer bem, ha-de gostar d'este -meu amor, sempre aos teus pés como um cão. O que quero eu? Ter a tua -alma presa, bem presa, como um passaro captivo. Esta<span class="pagenum" id="Page_126">[126]</span> paixão toda -deixa-te tão immaculada, que se morresses podias ser enterrada na -transparencia do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque? -Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quizesses, deixava-me andar -esfarrapado. Por eu entrar no teu coração, não tires nada d'elle, não? -Tens lá a fé de Jesus, e a saudade de tua mãe: deixa estar: damo-nos -todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um ceu -constellado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem -a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu? -Casemo-nos no coração de Jesus! Dá-me essa agulheta, que te prende o -cabello. Será a nossa estola.</p> - -<p>E com a ponta da agulheta, de pé, junto da imagem, afastando os ramos, -transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Christo as iniciaes -dos dois nomes enlaçados—J. e M.</p> - -<p>—É o nosso noivado!—disse elle.—O ceu atira-nos os astros, confeitos -de luz. Christo não se esquecerá d'este amor que chora aos seus pés. As -exhalações divinas que saírem do seu peito apparecerão, lá em cima, com -a fórma das nossas lettras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu -já lh'o tinha dito, a elle, ás estrellas, ás plantas, aos passaros, ás -florescencias; porque, vês tu? as flôres, as constellações, as pombas, -tudo isto, toda esta effusão do bondade, de innocencia, de graça, era -simplesmente, oh adorada! um eterno bilhete de amor que eu te escrevia!</p> - -<p>E ajoelhados, extaticos, calados, elles sentiam misturar-se ao seu -coração, ás suas confidencias, aos seus<span class="pagenum" id="Page_127">[127]</span> desejos, toda a vaga e immensa -bondade da religião da Graça.</p> - -<p>E as suas almas fallavam, cheias de mysterio:</p> - -<p>—Vês tu?—dizia a alma d'ella.—Quando te vejo, parece que Deus -diminue, e se contráe, e se vem aninhar todo no teu coração; quando -penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange -o ceu e os universos, e encerra por toda a parte Deus!</p> - -<p>—O meu coração—suspirava a alma d'elle—é uma concha. O teu amor é o -mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida n'esse mar. Mas, -se tu me expulsares de ti, como n'uma concha abandonada se ouve ainda o -rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o susurro do -teu amor!</p> - -<p>—Olha—dizia a alma d'ella—eu sou como um campo. Tenho arvores e -relvas. O que ha em mim de maternidade é arvore para te cobrir, o que -ha em mim de paixão é relva para tu pisares!</p> - -<p>—Sabes tu?—dizia a alma d'elle.—No ceu ha uma floresta invisivel de -que apenas se veem as pontas das raizes, que são as estrellas. Tu eras -a toutinegra d'aquelles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, ha -muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o -sol te allumia, triste, se a chuva te molha. Ha muito que te vejo vir -descendo: quando cairás tu nos meus braços?...</p> - -<p>E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam -deslumbradas, ineffaveis, ternas: confundidas, tinham o ceu por -elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua -esperança<span class="pagenum" id="Page_128">[128]</span> a madrugada, o seu amor a vida, e, sempre mais ternas e mais -vastas, envolviam tudo o que do mundo sóbe de justo, de perfeito, de -casto, as orações, os prantos, os ideaes, e estendiam-se por todo o -ceu, unidas e immensas—para Deus passar por cima!</p> - -<p>E então, á porta da varanda, houve uma risada metallica, immensa e -sonora. Elles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. Á -porta estava o pae de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atraz, o homem de -pallidez de marmore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra. -O pagem ria, fazendo uma claridade na sombra.</p> - -<p>O pae foi lentamente para Jusel e disse, com escarneo:</p> - -<p>—Onde queres ser enforcado, villão?</p> - -<p>—Pae, pae!—gritou Maria afflicta, com uma convulsão de lagrimas, -enlaçando o corpo do velho.—Não. É meu marido, casamos as almas! Olhe, -alli está. Veja. Alli, na imagem!...</p> - -<p>—O que?...</p> - -<p>—Alli, no peito. Veja. Os nossos nomes enlaçados como n'uma -escriptura. Veja. É meu marido! Só me quer bem. Mas veja. Sobre o peito -de Jesus, no logar do coração. Mesmo sobre o coração! E elle, o doce -Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida!</p> - -<p>O velho olhava as lettras enlaçadas como uns esponsaes divinos que se -tinham refugiado no seio de Christo.</p> - -<p>—Raspa, meu velho, que isso é marfim!—gritou o homem dos olhos negros.</p> - -<p>O velho foi para a imagem com a faca do cinturão.<span class="pagenum" id="Page_129">[129]</span> Tremia. Ia arrancar -as raizes d'aquelle amor, até ao peito immaculado de Jesus!</p> - -<p>E então a imagem, sob o justo e incorruptivel olhar da luz, despregou -uma das suas mãos feridas, e cobriu sobre o peito as lettras desposadas.</p> - -<p>—É elle, Rabil!—gritou o homem da flôr de cactus.</p> - -<p>O velho soluçava.</p> - -<p>E então o homem pallido, que tocava na guitarra d'Inspruck, onde os -pastores de Helyberg enroscam heras, veio tristemente junto da imagem, -enlaçou os braços dos namorados, como se vê nas velhas estampas -allemãs, e disse ao pae:</p> - -<p>—Abençôa-os, velho!</p> - -<p>E saíu, batendo rijamente nos copos da espada.</p> - -<p>—Mas quem é?...—disse o velho apavorado.</p> - -<p>—Mais baixo!—disse o pagem da amphora de Mileto.—É o Senhor -Diabo!... Mil desejos, meus noivos!</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Pelas horas da madrugada, na estrada de Vecker, onde as cerejeiras -luzem, o homem dos grandes cabellos negros dizia ao pagem branco como -os Apollos do marmore:</p> - -<p>—Estou velho. Vae-se-me a vida. Sou o ultimo dos que combateram nas -estrellas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro, -no peito, um rumor de perdão. Gostava d'aquella rapariga. Lindos -cabellos louros, quem vos dera no tempo do ceu! Já não estou para -aventuras de amor! A bella Imperia diz que eu me vendi a Deus!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_130">[130]</span></p> - -<p>—A bella Imperia!—disse o pagem.—As mulheres! vaidades, vaidades! -As mulheres bellas foram-se com os deuses bellos. Hoje os homens são -mysticos, frades, santos, namorados, trovadores! As mulheres são feias, -avaras, magras, burguezas, vestidas de burel, cingidas de cilicios, com -uma pouca d'alma incommoda, e uma carne tão diaphana, que se vê atravez -o lodo primitivo! Miserias! Ai Athenas! Corintho! Mileto! Tenedos! -Abydos!</p> - -<p>—Vou achando risivel a obra dos Seis Dias! As estrellas tremem de medo -e de dôr. A lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo -mundo e a apparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui prodigo. -Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando—para -não morrer de tedio! Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento, -podre, vil e immundo—e sê todavia um astro no ceu, impostor! E comtudo -o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquelle, para amar, feriu com -uma agulheta o peito da imagem. Como nos antigos tempos, o homem não -começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta a -minha ultima aventura. Vou para o meio da natureza, para junto do livre -mar, pôr-me socegadamente a morrer.</p> - -<p>—Tambem os diabos se vão! Adeus, Satan!</p> - -<p>—Adeus, Ganymedes!</p> - -<p>E o homem e o pagem separaram-se na noite.</p> - -<p>A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra.</p> - -<p>—Estás tambem deserto!...—disse, olhando para a cruz.—Os infames -pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu! Soffreste -calado.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_131">[131]</span></p> - -<p>E sentando-se nos degraus do cruzeiro, emquanto vinha a madrugada, -afinou a guitarra e cantou, no silencio:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Quem vos desfolhou, estrellas,</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Dos arvoredos da luz?</i></span><br /> -</p> - -<p>E com uma grande risada melancolica:</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Chegará o outono ao diabo?</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Virâ o inverno a Jesus?</i></span><br /> -</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_133">[133]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="UMA_CARTA">UMA CARTA</h2> -</div> -<hr class="r5" /> - -<p class="center">(A CARLOS MAYER)</p> - - -<p class="right"> -<i>Meu caro Mayer</i>:<br /> -</p> - -<p>N'aquelles tempos, segundo a formula do Evangelho, o romantismo estava -nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de -Shakspeare.</p> - -<p>Lembras-te do teu quarto da rua do Forno (creio eu) no ultimo -andar, quasi nas confidencias humoristicas das estrellas? O busto -de Shakspeare, que era o nosso calvario da arte, estava alli, ao pé -d'uma medalha do Dante, e da <i>Innocencia</i> de Greuze! Lembra-me -tambem uma gravura do <i>Juizo Final</i> e dois esboços hollandezes. -Sobre a estante, por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de -Mirabeau e d'alguns volumes da Encyclopedia—n'um quadro, a figura de -Napoleão, sobre uns rochedos emphaticos, via os prantos do mar e o vôo -das gaivotas. Tinhas tambem uma collecção de mineraes, e duas caveiras -polidas e lavadas, que riam serenamente. O meu quarto, no Salvador, -era mais austero. Na<span class="pagenum" id="Page_134">[134]</span> parede, havia pintada a carvão uma grande -cruz. Em redor, estavam escriptos versiculos da Biblia e disticos da -<i>Imitação</i>. Mas, como eu andasse n'esse tempo constipado, P., -um pagão, fez raspar toda aquella decoração ascetica, dizendo que o -mysticismo, prohibindo o sol, o calor, os banhos tepidos, as flanellas, -todos os cuidados corporaes, me era nocivo, e que o atheismo era para -mim uma necessidade hygienica. T. aconselhou, então, que se forrassem -as paredes com pelle humana: um outro achou ostentosa a pelle humana, -e disse, beatificamente, que, como mais modesta e mais duradoira, lhe -parecia preferivel a pelle <i>cathedratica</i>. Outro instou para -que se forrasse o quarto com as folhas dos compendios; eu oppuz-me -asperamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um -preso, se lhe quizessem forrar as paredes da enxovia com um tecido -feito dos seus proprios remorsos! Tirou-se á sorte. Destinou a sorte -que se forrassem as paredes com pelle humana. Dispersamo-nos, lentos e -tristes, para ir assassinar gente!</p> - -<p>Reunia-se alli um concilio formidavel.</p> - -<p>O mais implacavel era A. Que ideias e que camisas!</p> - -<p>Foi elle que, um dia, na aula de direito canonico, prophetisou, com -gestos tragicos, a destruição de Babylonia! Vinha tambem S., todo -armado: entrava ordinariamente pela janella, galhardamente, como -Almaviva, estendia sobre os timidos a grande sombra protectora dos seus -bigodes, e pela noite alta saía á caça dos lobos. Perseguia debalde -um bando de lobos errantes, que, segundo elle, deviam ter acampado<span class="pagenum" id="Page_135">[135]</span> -na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha tambem M., de sinistras -ironias: um dia, no Bussaco, encontra um homem de suissas apostolicas, -corre para elle, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem -esmaga um insecto.—O que faz?!—bradava o homem.—Estou a catal-o; -o senhor, entre esta floresta, faz-me o effeito d'uma pulga entre as -barbas de Moysés!</p> - -<p>E continuou a esmagal-o.</p> - -<p>No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do -romantismo coimbrão.</p> - -<p>Alli, muitas vezes, sentado sobre a <i>Mechanica celeste</i> de -Laplace, tu me mostraste, mysteriosamente, um systema solar que tinhas -creado e que tinhas fechado dentro d'um frasco. Os universos, eram -globulos d'agua. Um dia um cão entornou aquelle firmamento!</p> - -<p>Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e do -rio. Liamos: eu declamava <i>Hamlet</i>, tu tocavas na tua rebeca a -morbida <i>Lucia</i>! Muitas vezes, entre um concilio revolucionario, -tu lias em pé sobre a mesa, dramaticamente, os <i>Iambes</i> de -Barbier—os <i>Iambes</i>, de que o classico A. dizia gravemente -terem um defeito: serem sublimes! Celebravamos cerimonias d'um culto -desconhecido diante do busto de Shakspeare. Davamos grandes batalhas! -Combates crueis! Ainda a seriedade estremece! Eram dois bandos. De um -lado os pagãos, os classicos, os positivistas; do outro os barbaros, os -romanticos, os mysticos.</p> - -<p>As balas eram nomes: arremessavamos, de bando a bando, -sanguinolentamente, os nomes dos grotescos<span class="pagenum" id="Page_136">[136]</span> de cada seita. Um romantico -feria um classico, gritando-lhe com gesto terrivel: <i>Domingos dos -Reis-Quita!</i> O classico cambaleava, mas respondia vingativo: -<i>Gilbert da Pixérécourt!</i> Deves-te lembrar que uma vez um classico -traiçoeiro atirou desapiedadamente ao peito de um adversario romantico -este nome mortal: <i>Visconde d'Arlincourt!</i> O romantico levou -dolorosamente a mão ao coração, e caíu inanimado.</p> - -<p>Quando o levantamos não era um cadaver, mas era um convertido. Desertou -para as fileiras classicas, por não querer pertencer a um bando que -tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de Damocles: o -Visconde d'Arlincourt! Lembras-te de certo que nós fômos os Samsões -dos Philisteus classicos: não os derrotamos com a mesma queixada, mas -apunhalamol-os, um a um, com nomes de classicos portuguezes. Um dia -debandaram, atordoados, em quanto que nós do topo da escada gritavamos -sem quartel: <i>Sá de Miranda! Garção! Semedo! Quita! Sepulveda!</i></p> - -<p>Já cançados, sem armas, atiravamos-lhes estes nomes como pedras.</p> - -<p>Lembras-te dos ensaios dos <i>Amigos Intimos</i>? Havia uma palavra que -eu não conseguia pronunciar bem: era—<i>solidariedade</i>. Na noite -da representação, tomei o partido de a cantar, separando as syllabas -como notas de musica. Era na <i>casa dos adereços</i> do theatro, -que nós discutiamos com T. a superioridade da arte grega. A pregar -uma cortina, arredando bastidores, proclamavamos o <i>Moysés</i> e o -<i>Pensieroso</i> com grave detrimento da Venus de Milo—a<span class="pagenum" id="Page_137">[137]</span> grande -Aphrodite. Depois das representações, havia ceias semelhantes ás bodas -de Gamacho! Uma noite saimos todos, de mantos, com corôas de loiro, -symbolisando a geração dos Petrarcas, e cantando um côro lacrimoso.</p> - -<p>Tinha havido na rua de... uma reunião, e as familias, ao saír, -dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquella multidão de -phantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, offerecido a Deus -em nome dos discipulos de Petrarca!</p> - -<p>Aquella epocha foi uma pequena <i>Restauração</i>, tanta era a vida, -a seiva espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adoravamos o -theatro. O theatro era a paixão, a lucta, a dôr, o coração arrancado, -e gemendo, sangrando, rolando sobre uma scena resplandecente. O nosso -theatro—era Shakspeare e Hugo, o os comicos hespanhoes, sombrios e -magnificos, do seculo <span class="allsmcap">XVI</span>.</p> - -<p>Admittiamos tambem a satyra no theatro, mas a satyra sanguinolenta, -Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo riso -gaulez, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de Tacito—para -pintar a cara macia do egoismo humano.</p> - -<p>Tinhamos um hemicyclo de poetas. Collocados sob um ponto de vista -exclusivo, só era admittido á nossa communhão o que derivasse da força, -do rugido da natureza, da palpitação selvagem da vida e da paixão.</p> - -<p>Tinhamos, ao mesmo tempo, occultamente, um idealismo doentio e -dissolvente. O nosso grande compositor era Beethoven; e todavia eu, -desgraçado de mim! adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te,<span class="pagenum" id="Page_138">[138]</span> amigo, -de teres n'esse tempo condescendido com Novalis e Luiz Tieck.</p> - -<p>Para nós (e com grandes pancadas contrictas sobre o peito o digo) -Portugal não tinha direito de cidade na região da arte e da alma. -Aceitavamol-o como paiz d'acção. Um dos maiores poetas de Portugal, -para nós, era Vasco da Gama! Tinhamos um systema de nações-almas e -nações-braços. Assim, para nós, a maior epopeia portugueza era a -exploração do mar. As suas rimas eram conquistas. As scenas dos seus -dramas escorriam de sangue junto ás muralhas de Diu.</p> - -<p>Litterariamente, Portugal, na nossa opinião, era simplesmente o -pretexto para o <i>Bosquejo Historico</i> do snr. padre Figueiredo. -Do passado, apenas acreditavamos em João de Barros e Camões. Garrett -tinha-se separado de nós, tomando pelo atalho que leva a Deus, e -legando á geração presente a pouca alma que ella ainda tem.</p> - -<p>Os contemporaneos, ai! não os conheciamos. Hoje eu, e creio que tu, -conhecemos bem os nobres espiritos que se obstinam em pensar no meio -d'este deserto d'almas, uns junto da historia, outros junto do verso, -alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o romance.</p> - -<p>Mas, n'aquella epocha d'espontaneidade, só viamos o que era -verdadeiramente e incontestavelmente sol!</p> - -<p>Discutiamos largamente a natureza, e eu lembro-me de te ouvir fallar, -deante daquella luz que cáe desfeita em tristeza no <i>Penedo da -Saudade</i>, ácerca da formação das nebuloses, e, partindo d'ahi, -descrever o homem e Deus, até á procissão da vespera.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_139">[139]</span></p> - -<p>Havia entre nós todas as theorias e todas as seitas: havia republicanos -barbaros, e republicanos poeticos; havia mysticos que praticavam as -eclogas de Virgilio; havia materialistas sentimentaes e melancolicos -que proclamavam a materia com uma meiga languidez nos olhos, e fallavam -da força vital, quasi de joelhos, com as mãos amorosamente postas; -havia pagãos que lamentavam as suas penas de amor, castamente, sob -a nevoa luminosa dos astros. Tudo havia, e tambem a serena amizade -incorruptivel, o fecundo amor do dever, e a ingenuidade risonha de tudo -o que desperta.</p> - -<p>Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magnifica, e na vida -real eram todos contemplativos, melancolicos e timidos. E tu sabes qual -era o grande espirito, hoje longe de nós, que explicava Proudhon com a -serena familiaridade dos sabios, e nas aulas, dizia, com voz timida, -referindo-se aos jurisconsultos antigos: «... O snr. Pegas... S. S.ᵃ -o digno Paiva e Pona... O nobre cavalheiro Cujacio..., etc.» Tremia -diante d'aquelles commentadores, como diante de idolos mysteriosos; e -imaginava abrandal-os, dando-lhes venerações.</p> - -<p>Tal era aquelle concilio. A força severa do espirito precisa d'estas -precursoras explosões de vida. Hoje pouco resta d'esses camaradas. -Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o braço, -reunem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de -Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p> - -<p>Todos se perderam. Uns estão bem longe, para além do mar. Outros -soffrem os tedios da vida official. Outros vivem nas castas serenidades -do lar.<span class="pagenum" id="Page_140">[140]</span> Outros apodrecem debaixo da herva, e o que nós amavamos -n'elles—a alma—dissipou-se, e o que viamos—o corpo—anda em redor de -nós, nas metempsichoses, no ar, nas plantas, e nas pedras; mas nós não -comprehendemos ainda o seu silencio, como elles já não percebem o nosso -ruido!</p> - -<p>Ora quem, n'esse tempo, me tivesse fallado dos seculos classicos de -Augusto e de Pericles, fazia-me uma injuria pessoal; e hoje em presença -d'esta doença desoladora dos espiritos, d'estas chagas luminosas e -incuraveis que as almas teem, eu estou quasi prompto a ir declarar, -com a vela na mão, como os antigos convertidos, que o pensamento tem -tido apenas tres epochas: Pericles, Augusto e Luiz <span class="allsmcap">XIV</span>. É o -cyclo dos tres tyrannos! E, embora se lastime que as ideias nasçam -com os escravos, eu acho magnifico e verdadeiro que aquellas datas -gloriosas sejam o jazigo de tudo quanto a alma humana tem creado. -<i>Confiteor.</i> Salve, Aristoteles!</p> - -<p>Mas o mal é que em volta d'aquellas epochas, que são cimos luminosos, -em baixo, crepusculos constellados, move-se uma população selvagem, -disforme e revolucionaria. Alli ha o crime, a paixão, a lucta, a dôr, -o sangue, o amor, o ciume, a morte e a duvida—todas as meias-tintas -do mal! Quem desce d'aquelles cimos, que são gloria, luz, e verdade, -onde habitam as almas nobres de Horacio, de La Harpe, de Boileau, de -Reis Quita, de Garção, de Caminha, e companhia, quem desce áquelles -fundos perversos topa com figuras gigantescas e horriveis: Shakspeare, -o humano; Dante, o sobrenatural; Rabelais, o escarnecedor; Isaias, o -propheta; Juvenal,<span class="pagenum" id="Page_141">[141]</span> o vingador; Eschylo, o fatal. Aquellas figuras -devastam!</p> - -<p>E é um encontro peor que o da Floresta Mysteriosa, no começo da -<i>Divina Comedia</i>. Adeus, as serenidades idyllicas dos tempos de -Pericles e de Augusto! Adeus, as claras aguas da alegria nos olhos! -Adeus, as tepidas branduras, e os descanços arcadicos!</p> - -<p>Aquelles poetas terriveis arrastam-nos, deslumbram-nos d'ideal, -esmagam-nos de paixão: dão-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre -a pobre alma: o amor, a melancolia, a paixão, o ciume, o mysticismo, a -ironia, o desespero, a duvida. Além d'isso não respeitam a felicidade -corporal do egoismo humano: atrevem-se a dar o terrivel espectaculo da -dôr. O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos arrancados, e o -seu coração caido na lama, pisado pelos filhos, cuspido pelos lacaios, -apupado pela populaça!</p> - -<p>Aquelles poetas abrem na alma longes surprehendentes. Quem os lê sente -entrar em si, bruscamente, o infinito!</p> - -<p>Soffre, como os sacerdotes antigos soffriam com a presença de Deus!</p> - -<p>E entretanto os que se deixaram ficar na luz branca, em companhia dos -espiritos inoffensivos de Racine, de Horacio, de Virgilio, de todos os -classicos, vivem contente e socegadamente na sua fé ordinaria, na sua -virtude, na sua somnolencia hygienica!</p> - -<p>É que esses inoffensivos fazem um ruido que embala, põem um -<i>abat-jour</i> ao ideal, trazem a paixão açaimada, e põem <i>caio</i> -na face da dôr.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_142">[142]</span></p> - -<p>Mas os que desceram ás regiões romanticas ficaram com a alma doente, -febril, anciada, nostalgica. Ahi está como se explica toda esta geração -moderna, contemplativa e doente! Porque—digamos a verdade—hoje a -vida do pensamento é um vasto hospital d'almas. E os gemidos, que sáem -dos leitos, são os dramas, os poemas, os romances modernos. Hoje, -incontestavelmente, pensar é soffrer. A enfermeira, que se chama -Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas classicos, esses, -não obrigam a pensar: são a simplicidade, a frieza, a narrativa, a -superficie, a affectação, a convenção—tudo menos a alma, com a sua -tragi-comedia de dôres e de duvidas!</p> - -<p>Nós, meu amigo, somos uma geração desilludida por tres revoluções, -amollecida por uma invenção horrivel—a musica, tomada da duvida -religiosa, geração que vê esvaecer-se Christo, a quem tanto tempo -amou, e não vê chegar a liberdade, por quem ha bastante tempo espera. -Quaes podem ser as obras d'esta geração? Creações febris, convulsões -cerebraes, idealistas e doentias, todo um pesadello moral. Por isso -temos tido toda a serie de figuras melodramaticas, desde Fausto até Mr. -de Camors.</p> - -<p>Qual vale mais: esta doença magnifica, ou a saude vulgar e inutil, que -se goza no clima tepido que vae desde Racine até Scribe? Eu prefiro -corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre se chama -Julietta e a ultima Margarida!</p> - -<p>Os outros, os saudaveis, os doutrinarios da arte, os petrificadores -da paixão, os sacerdotes da tradição e do <i>magister dixit</i>, -não pertencem á arte pura: pertencem<span class="pagenum" id="Page_143">[143]</span> aos archivos. São documentos -historicos. São momentos sociaes vistos atravez da arte. Racine -explica Luiz <span class="allsmcap">XIV</span>. E como na historia livre e pura se não póde -conceber Luiz <span class="allsmcap">XIV</span>, na arte pura e livre não se póde admittir -Racine. Toda a nossa Arcadia explica os reinos de D. João <span class="allsmcap">V</span>, -de D. José <span class="allsmcap">I</span> e de D. Maria <span class="allsmcap">I</span>. Por essa litteratura -se pódem conhecer todos os sentimentos monarchicos do tempo, o -espirito cortezão, a influencia clerical, a sujeição d'ante-camara, as -subtilezas moraes, a serenidade emphatica, a magestade theatral, toda -essa somma de falsos sentimentos e de falsos costumes que era o antigo -regimen. E aquella litteratura falsa, ridicula, sendo excellente como -documento, é grotesca como arte.</p> - -<p>Na arte só têm importancia os que criam almas, e não os que reproduzem -costumes.</p> - -<p>A arte é a historia da alma. Queremos vêr o homem—não o homem -dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas -instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, collocado -na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a -representação dos caracteres taes quaes elles seriam, abandonados á sua -vontade intelligente e livre, sem as peias sociaes. Ahi está o que dá a -Shakspeare a supremacia na arte. Foi o maior creador d'almas. Revelou -a natureza espontanea: soltou as paixões em liberdade e mostrou a sua -livre acção. É ahi que se póde estudar o homem. É o que faz tambem a -grandeza de certos typos capitaes de Balzac, o <i>Barão Hulot</i>, -<i>Goriot</i>, <i>Graudet</i>. Realisam o seu destino, longe da -associação humana, sob a livre logica das paixões.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_144">[144]</span></p> - -<p>No emtanto, ás vezes, os que reflectem o seu tempo—criam: e é quando -não só revelam o caracter d'um momento, um estado convencional e -passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma d'um povo. É o que faz -a grandeza de João de Barros. Historiador, revelou o genio de Portugal, -o espirito aventureiro misturado de exaltação religiosa, o heroismo -supersticioso. Camões, o filho da Renascença e das imitações latinas, -não tem o espirito epico de João de Barros, que ás vezes, n'uma pagina, -constroe toda a antiga alma heroica da patria.</p> - -<p>Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua phase rhetorica; e os -poetas modernos de França, Mallarmé, Dierx, Sully-Prudhomme, Catulle -Mendés, Heredia, Ricard, L'Isle-Adam, etc., fabricam maldições ao -mundo e á materia, com a mesma sabia reflexão e estudo com que os -poetas de 1810 fabricavam madrigaes. Uma certa escola, saída de Charles -Baudelaire, affecta amores pelo mal: como os histriões medrosos põem -vermelhão na face, para encobrir a pallidez, elles tingem a alma de -perversidade negra para encobrir o desfallecimento.</p> - -<p>Ha pouco fallei de <i>Mr. de Camors</i>. Ainda um livro nostalgico. -Ainda Manfredo e D. Juan sob uma fórma remoçada e theatral.</p> - -<p>Mr. de Camors é um mystico. Tem todos os desfallecimentos d'alma, todos -os desmaios do desejo dos heroes poeticos de 1830.</p> - -<p>Traz só de mais um apparato: o materialismo. Mascara-se de -impassibilidade: mas quando? Justamente quando, pela posição politica, -pelo resplandecimento financeiro, pela força dos habitos e das<span class="pagenum" id="Page_145">[145]</span> -ligações, elle tem uma vida compassada e material—em que a alma -adormece. E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas, -quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão, -ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo, a -pobre alma, chorando afflicta, torturando-se, e pedindo com as mãos -postas ás estrellas um refugio sereno!</p> - -<p>Aqui, em Portugal, tambem ha uma grande doença. Fallaria n'isso agora, -se não estivesse fatigado de escrever.</p> - -<p>Mas a peor das doenças é a doença que affecta ares languidos; que -compõe, ao morrer, a voluptuosidade do olhar; que, quando já sente o -frio da morte, suspira correctamente: Adeus!</p> - -<p>O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir, contra -os meus habitos impassivelmente silenciosos, a fallar vagamente em -litteratura? Nada, senão que, n'um dia de tristeza e de frio, eu -quiz fazer uma romaria saudosa áquelles tempos distantes era que -nós viviamos n'uma noite de ideias e de desejos, allumiados pelos -astros—Shakspeare, Dante, Rabelais, S. João, Gœthe e Cervantes, e -tendo sempre na alma aquella ternura luminosa que vinha d'uma aurora -serena, clara, immensa, purificadora e consoladora—Jesus Christo!</p> - -<p class="right"> -Teu<br /> -<br /> -<i>E. de Q.</i><br /> -</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_147">[147]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="O_LUME">O LUME</h2> -</div> - - -<p>Agora, de inverno, no campo, as noites são asperas e hostis. Toda -a natureza está impassivel e entorpecida, esperando a fermentação -violenta das seivas. As arvores erguem os braços nús, miseraveis e -supplicantes. E as aguas, que no outono estavam quietas e pallidas, e -que em maio faziam claras murmurações, tão melodicas como o rythmo d'um -idyllio latino, teem agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e -lento como um canto catholico d'officios: as chuvas cáem de cima, como -escarneos triumphantes e ruidosos.</p> - -<p>Ás vezes, vem a lua—não aquella immaculada lua côr d'opala, d'onde -se exhala um nevoeiro magnetico que faz a alma docemente doente, mas -uma lua metallica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas -legendas catholicas.</p> - -<p>Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no -tedio, silenciosamente, como um<span class="pagenum" id="Page_148">[148]</span> navio roto n'uma calmaria, e vae, por -instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do -fogo. E, emquanto a força vital se dissolve n'uma somnolencia fluida, -elle sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que -lhe falla como n'um extase profano:</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>«Sou eu—diz a voz—eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o -teu velho Deus mysterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha -em ti de grande e de justo—a familia e o trabalho. A minha historia é -triste, luminosa e terrivel, immunda e meiga. Eu fui o teu companheiro -das noites da India, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch -das religiões da velha Africa, ensanguentado e tragico: e sou agora o -escravo a quem tu mandas mover as machinas.</p> - -<p>«Sempre escondido e silencioso, occupando a um canto o mais pequeno -espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e -fico, nas tuas horas negras de dôr e de miseria, calado ao pé de ti, -lambendo-te os pés como um cão. Na India, lembras-te? durante as noites -primitivas, eu fui o bom <i>Agni</i> que te allumiava, que espantava -os chacaes e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores -religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus seccos: assim, -para onde tu fôsses, ou solitario ou em bando, encontravas-me sempre -aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade -humana da familia.</p> - -<p>«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus barbaros trabalhos, no -principio, quando a vasta natureza<span class="pagenum" id="Page_149">[149]</span> te combatia. E eu era o amigo -unico, o alliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros -beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos.</p> - -<p>«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta -tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza -e força, era então a tua sepultura imminente. Quando saías de ao pé -de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os -sêres implacaveis—o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que -te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudarios. -Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma -resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume -que te enxugava, que te allumiava, que te dava o pão, a força ou a fé. -Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em -casa, esperando os teus cançaços. Ella fiava, limpava o chão da cabana, -tirava a agua fresca, e adormecia o filho no seio branco como n'um -leito espiritual: eu estava quieto e attento, combatendo a sombra e a -noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de -luz para o teu somno, dando á cabana a serenidade tepida, e ás tuas -fadigas um paraiso de socego, de silencio e de calor.</p> - -<p>«Em volta de mim, creou-se a familia. Eu era o purificador da tua -natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os -braços, e ampara na hora das dôres.</p> - -<p>«Eu tenho ainda por ti aquelle amor servil e adulador, que se glorifica -quando abdica, que tem<span class="pagenum" id="Page_150">[150]</span> um extase quando se dá a uma humilhação. Quando -te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta -grande alma de chamma, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam -as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de -negro—justamente como o corpo d'um amor abandonado.</p> - -<p>«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um -affago, quando me revolves—desperto, revivo, canto psalmos de luz, -requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são -gritos de fogo, scintillações que são beijos; e como n'uma rapariga, -para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em -rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos -labios, toda a minha dôr e o meu abatimento se vae desfeito em fumo!</p> - -<p>«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss, -tantos santos, e tantos martyres, e tantos hallucinados de Deus! Fui -eu que queimei, nas cidades mysteriosas de Africa, as creanças e as -virgens no altar de Moloch.</p> - -<p>«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante -os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o -confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco! -Podia ir comtigo, insensivelmente—lareira, se era o teu amor que me -assoprava, incendio, se era a tua colera—no tempo em que tu eras uma -força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciencia. Comtigo só me -alliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te -tenho consolado das servidões dolorosas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_151">[151]</span></p> - -<p>«No tempo das cathedraes, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão -livre, nem a voz, nem o somno, nem a esperança, eu dei-te o que mais -agrada ao escravo—o direito de mandar. Em volta de mim, a familia -ajoelhava á tua voz, resava ao teu olhar, erguia a hostia do amor ao -teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava. -Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho -representado a essencia humana. Eu tenho advogado a causa da vida.</p> - -<p>«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o mysticismo. Eu sou o -bem. A familia, o trabalho, a educação, esta trindade mysteriosa da -vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no -circulo da minha luz. Tudo para além é sombra—sombra na parede, e -sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte; -debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os unicos -momentos verdadeiros e sãos fôram aquelles em que estiveste ao pé de -mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a creança. Então -realisaste o ideal, o symbolo—Deus, que as religiões esboçam e as -criticas dissipam.</p> - -<p>«Lembras-te da India?</p> - -<p>«Alli tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos -novilhos, e o filho, encarnação mysteriosa do amor das almas, e a minha -doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia -em ti no estado de presentimento.</p> - -<p>«Depois d'isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações, -de religiões, de conquistas, de descobertas, d'ideaes.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_152">[152]</span></p> - -<p>«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfallecimento, a -dôr e o mal.</p> - -<p>«Eras puro e são: estás morbido e enfraquecido. Eras forte: estás -rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste -ironia: o teu largo olhar é uma aspera desconfiança.</p> - -<p>«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E -tudo o que ella tinha de terrivel e de doloroso, tudo hoje tu tens: a -independencia desesperada do mar, o mysterio doentio da floresta, o -chôro afflicto das aguas, a inquietação do vento, a barbaridade das -feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com -surdas irritações, com rebelliões formidaveis. Ahi está. De cada vez -que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma -chaga.</p> - -<p>«Foste crear o mysticismo: vieste com a nostalgia incuravel. Quizeste -crear os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade, -que vae sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para -te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e -da materia exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o -egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas -obras ahi estão immensas, accumuladas, contraditorias e inuteis. Tens -uma complicação infinita de azas que te impede o vôo.</p> - -<p>«A mim, abandonaste-me.</p> - -<p>«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante, -miseravel, sobrecarregado d'infamias, e, para viver, vendendo-me ao -carrasco!</p> - -<p>«Mas conservei sempre a minha chamma, casta<span class="pagenum" id="Page_153">[153]</span> e familiar, para o dia em -que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos -teus irmãos.</p> - -<p>«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus -instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiaes, ou lascivos. Eu dou-te -o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do -movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor, -dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que -prepara para o trabalho. Eu sou a cura, intelligente e boa, do mal -natural. Eu allumio-te nas vigilias dolorosas. Quando estás entorpecido -na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres -e a tua alma vae partir, eu allumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco -Christo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu -sou junto das praias o grito de luz que te chama.</p> - -<p>«E o que fazes tu em paga d'este amor que se dá, que cria, e que -purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que -embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor, -movimento que é força: os dois termos da tua vida—pureza e -putrefacção! Eu que vivia, allumiava, creava em liberdade, estou -encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o -motor da miseria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças -estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas. -Sou o collaborador dos martyrios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o -fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a -infamia. Fazes de mim <i>explosão</i>. Obrigas-me a devastar na guerra!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_154">[154]</span></p> - -<p>«Eu sou a pureza, o trabalho, a familia, a paixão casta: levas-me a ser -o mal, a viuvez, o pranto e a dôr! Tenho um cortejo d'ambulancias e de -macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a arvore -que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!</p> - -<p>«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não -quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros -que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu -allumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a -Christo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a familia, a intimidade -casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu -velho camarada das choupanas da India! não me faças ser explosão, morte -e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando -estiver allumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços—não -sinta entre as minhas chammas bailarem espectros!»</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_155">[155]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="MEPHISTOPHELES">MEPHISTOPHELES</h2> -</div> - - -<p>No <i>Fausto</i>, de Charles Gounod, a figura dramatica e synthetica é -Mephistopheles.</p> - -<p>Em volta d'elle, Fausto canta artificialmente como um lyrico histrião -d'operas; Margarida sente as primeiras rebelliões nervosas do -desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo -Cherubim; a alma legendaria do rei de Thule canta na sua torre que -molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem -a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande -figura angulosa, nervosa, elastica, incisiva, atravessa, sinistra, o -drama—os seus lyrismos nostalgicos, as suas sensualidades tristes, -os seus mysticismos artificiaes—glorificando a força brutal do -dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto -espiritualista para a violencia lasciva, combatendo a serena inspiração -do Christo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção<span class="pagenum" id="Page_156">[156]</span> -da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação—com o riso -tragico do mal!</p> - -<p>Aquella opera é uma simples aventura do antigo Diabo.</p> - -<p>N'ella, o Fausto não é o sabio que penetrou a medicina, a physica, a -logica, a dialectica, a dogmatica, a theologia, a metaphysica, para -quem os seis mil annos do passado são apenas o prefacio do saber -humano, que procura o X terrivel da equação dos astros, e que ao ruido -que faz a sua alma buscando atravez da natureza o Deus fugitivo, -o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os -desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o -homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que -se recolhe n'um stoicismo tragico, tendo todavia, sempre, dentro do -peito, o côro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das asperas -curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vae ao fundo -do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem d'ella, que é o -ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito -moderno.</p> - -<p>Não. Na opera, Fausto é simplesmente um d'aquelles ambiciosos -grotescos, que contratavam por escripto com o velho Diabo, nos -claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo, -por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro -e que os estofos, uma coisa inutil e esteril, que se lhe atirava -desabridamente—e que era simplesmente a alma!</p> - -<p>As legendas estão cheias d'estas negociações.</p> - -<p>Cornelio Agrippa vende a alma pelos segredos<span class="pagenum" id="Page_157">[157]</span> da philosophia; o abbade -de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a -alma, n'uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as -tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Hespanha, e uma -perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as -mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo -Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança! -Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga -clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando!</p> - -<p>O Diabo cumpria escrupulosamente o contracto: havia para estas -negociações uma jurisprudencia dogmatica. Sujeitava-se mesmo a -acompanhar o contratador, como uma inspiração visivel, como um camarada -de perigos, para lhe facilitar a ampla realisação do desejo. Seguia -Agrippa sob a fórma d'um escudeiro, vestido de negro, com o nome de -<i>Sujeito</i>. Seguia Fausto, vestido d'escarlate, com o nome de -Mephistopheles. Nada mais.</p> - -<p>Margarida, não é, na opera de Gounod, como em Gœthe, o symbolo da alma -allemã, simples, casta, soffredora, d'aquella alma allemã que, como -na <i>Melancolia</i> d'Alberto Dürer, quando a materia, a tyrannia, -a desesperança a opprimem, só sabe resignadamente, dobrar as suas -azas; aquella alma allemã que exhala toda a sua immensa dôr em frescas -cantigas religiosamente humanas, que tem todas as simplicidades, todas -as intelligencias, todos os deveres, que quando olha para a terra é -para amar, quando olha para o ceu é para orar, quando olha para si é<span class="pagenum" id="Page_158">[158]</span> -para morrer. Não. A Margarida da musica sabia de Gounod, é uma alma -lyrica, nebulosa, nostalgica, sensual, para quem o amor é um magnetismo -suave, a oração uma lucta com o mal, a morte um libertamento romantico -da vida—insufficiente e vasia. Este Fausto tem na alma um lyrismo -theatral, esta Margarida um paraiso artificial.</p> - -<p>Mas elle, o bom Mephistopheles, tem uma vida real e poderosa. É elle—a -antiga creatura terrivel e grotesca, vaidosa, infame e tragica. É -o antigo Satanaz das legendas. É elle—o mesmo a quem os Severios -ouviram dizer que antes queria devorar uma alma, do que voltar, entre -purificações, para os seus antigos camaradas, os astros, <i>sidera -lucida</i>! É elle, o eterno inspirador dos hereticos e dos impostores, -elle que ensinava os oraculos aos crocodilos de Arsineë, e aos -carvalhos propheticos de Dodona, e que dava a Manés, o homem impio, -a ascetica pallidez dos monges, como dá a Fausto, velho e tepido, o -resplandecente magnetismo do olhar. Elle, que segundo as tradições -judaicas, inventou os enfeitos e as joias, para ferir os castos -instinctos da mulher—e que atirava os coraes ao regaço das mulheres -de Brabante, como mostra a Margarida a côr traiçoeira e hypocrita das -perolas. É elle o mesmo que em Babylonia tomava as attitudes hieraticas -de um Deus, e fugia do olhar de Daniel—como na kermesse de Leipzig -toma a voz sinistra e rouca do dinheiro, e cáe, torturado e covarde, -diante da serena apparição das cruzes das espadas. É elle o antigo -Diabo que dava aos monges da Thebaida o mal da <i>acedia</i>, como dá á -pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges<span class="pagenum" id="Page_159">[159]</span> do Occidente; dá-lhes -as chagas e as dores de Job, envolve-os nas visões magnificas do mal.</p> - -<p>As virgens diaphanas fazem, no silencio da noite, as mil orações da -prostração: os monges passam os annos em jejuns dolorosos. Debalde! Se -se deitam na neve, a neve toma um calor vital e lascivo que os definha: -se bebem a agua fria e purificadora das fontes, a agua dá-lhes ao -corpo a palpitação dos vastos appetites. Se querem resar no silencio, -ouvem os risos ambrosiacos dos Deuses sensuaes, e o gemer desfallecido -dos bandolins. Tambem a pobre Margarida, se queria fiar castamente, -e chorar o velho rei de Thule, sentia a melodia da carne cantar-lhe -baixo: «Vê como Fausto, o cavalleiro vestido de velludo, é branco, e -bello, e são, e forte.»</p> - -<p>Os monges d'Alexandria andavam de noite, pelos corredores solitarios e -sonoros, com as cruzes alçadas, cantando, para o afastar, os versiculos -do Evangelho, e regando com agua santa as lages do claustro: assim o -gentil Siebel asperge, tristemente, as flôres maculadas de maio.</p> - -<p>E ao mesmo tempo este Diabo terrivel, que andava disperso nos -elementos, de tal sorte que o vento era a sua tosse, elle que era o -carrasco da inquisição, a fera dramatica das almas, elle que redigiu -a sentença de Christo, que accendeu as fogueiras das feiticeiras, que -celebrava o <i>sabbat</i>, onde á luz d'uma lampada sem oleo, prégava o -sermão dos sete peccados, elle que tinha por filhos, Merlino, Roberto -de Normandia, Attila e os Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco, -bailarino, poeta, jogador e palhaço. Bebia gloriosamente o vinho das -missas do Papa. Tinha<span class="pagenum" id="Page_160">[160]</span> uma taverna no Inferno, onde se comiam, com -molho de beata, as almas dos usurarios. Dava serenatas ás patricias de -Veneza. Fazia sonetos correctos e academicos ás abbadessas de Vecker. -Vestia-se de velludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes -das universidades livres, e assignava-se <i>Belzebuth, cosinheiro do -Inferno</i>. Os trovadores cantaram esta legenda faceta das farças de -Satan.</p> - -<p>Tomou tanta familiaridade com o homem, que Luthero sujou-o de tinta, e -Rabelais deu-lhe piparotes. Na Allemanha, na noite de 30 de abril, dava -um sarau magnifico nas alturas de Borx-belg. Era a noite do Walpurgis. -Havia a grande dança das nudezas. Nas noites claras, as estrellas -assistiam, com a impassibilidade de vestaes.</p> - -<p>Assim é a figura complexa de Mephistopheles. Durante a opera de Gounod, -esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama dos amores -e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso, como -aquellas figuras de Satan, que nas cathedraes da Allemanha deixam -cair do ultimo corucheu uma risada de pedra, que nos nichos, nas -esculpturas, nas rosaceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas -as figuras de santos, de virgens e de anjos—vae gelar as aspirações -ideaes e os sentimentos do ceu.</p> - -<p>Toda aquella musica da opera, que envolve Mephistopheles, é a vaga -melodia sombria do mal. Tem o escarneo, tem a violencia, tem as trevas, -a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta e vence.</p> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_161">[161]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="MEMORIAS_DUMA_FORCA">MEMORIAS D'UMA FORCA</h2> -</div> - - -<p>Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento d'este -papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa -da sua historia. Esta forca intentava escrever as suas tragicas -<i>Memorias</i>. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Arvore, -ninguem sabia tão bem o mysterio da natureza; forca, ninguem conhecia -melhor o homem. Nenhum tão espontaneo e verdadeiro como o homem que se -torce na ponta d'uma corda—a não ser aquelle que lhe carrega sobre os -hombros! Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu.</p> - -<p>Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que -copío—resumo das suas dôres, vaga apparencia de gritos instinctivos. -Pudesse ella ter escripto a sua vida complexa, cheia de sangue e de -melancolia! É tempo de sabermos, emfim, qual é a opinião que a vasta -natureza, montes, arvores e aguas, fazem do homem imperceptivel. -Talvez<span class="pagenum" id="Page_162">[162]</span> este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papeis -que guardo avaramente, e que são as <i>Memorias d'um Atomo</i> e os -<i>Apontamentos de Viagem d'uma Raiz de Cypreste</i>.</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Diz assim o fragmento que eu copío—e que é simplesmente o prologo das -<i>Memorias</i>:</p> - -<p>«Sou d'uma antiga familia de carvalhos, raça austera e forte—que já na -antiguidade deixava caír, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era -uma familia hospitaleira e historica: d'ella tinham saído navios para -a derrota tenebrosa das Indias, contos de lanças para os hallucinados -das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram -Savonarola, Espinosa e Luthero. Meu pae, esquecido das altas tradições -sonoras e da sua heraldica vegetal, teve uma vida inerte, material e -profana. Não respeitava as nobres moraes antigas, nem a ideal tradição -religiosa, nem os deveres da historia. Era uma arvore materialista. -Tinha sido pervertida pelos encyclopedistas da vegetação. Não tinha -fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do sol, da seiva e da agua. -Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, em quanto -sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, -acolhia os grandes concertos de passaros bohemios, cuspia a chuva -sobre o povo curvado e humilde das hervas e das plantas e, de noite, -enlaçado pelas heras lascivas, resonava sob o silencio sideral. Quando -vinha o inverno, com a passividade animal<span class="pagenum" id="Page_163">[163]</span> d'um mendigo, erguia para a -impassivel ironia do azul os seus braços magros e supplicantes!</p> - -<p>«Por isso nós, os seus filhos, não fômos felizes na vida vegetal. -Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços: ramo -contemplativo e romantico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, -pelo escarneo, pela farça e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de -sol, de poeira, aspero solitario da vida, luctador dos ventos e das -neves, forte e trabalhador, foi arrancado d'entre nós, para ir ser -taboa d'esquife!—Eu, o mais lastimavel, vim a ser forca!</p> - -<p>«Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades -na floresta. Eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das -fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a -umas pobres violetas, que viviam por baixo de nós, doces raparigas -lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da -vegetação. Agasalhava todos os passaros na vespera dos temporaes. Era -eu quem asylava a chuva. Ella vinha, com os cabellos esguedelhados, -perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens -e as folhas, e escondia-a alli, ao calor da seiva. O vento passava, -confundido e imbecil. Então a pobre chuva, que o via longe, assobiando -lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gotta -por gotta, para o vento a não perceber, e ia, de rastos, por entre a -herva, acolher-se á vasta mãe Agua! Tive por esse tempo uma amisade -com um rouxinol, que vinha conversar commigo durante as longas horas -constelladas do silencio. O pobre rouxinol<span class="pagenum" id="Page_164">[164]</span> tinha uma pena d'amor! -Tinha vivido n'um paiz distante, onde os noivados teem mais molles -preguiças: lá se enamorára: commigo chorava em suspiros lyricos. E tão -mystica pena era que me disseram que o triste, de dôr e desesperança, -se deixára caír na agua! Pobre rouxinol! Ninguem tão amante, tão viuvo -e tão casto!</p> - -<p>«Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo -vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens, -como dedos, para apontar á pobre alma afflicta de lagrimas todos os -caminhos do ceu!</p> - -<p>«Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante!</p> - -<p>«Emfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um d'aquelles -homens metallicos que fazem o trafico da vegetação veiu arrancar-me á -arvore. Não sabia eu o que me queriam. Deitaram-me sobre um carro e, -ao caír da noite, os bois começaram a caminhar, emquanto ao lado um -homem cantava no silencio da noite. Eu ia ferido e desfallecido. Via as -estrellas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar -da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das -arvores. Eram vozes amigas que me chamavam!</p> - -<p>«Por cima de mim voavam aves immensas. Eu sentia-me desfallecer, n'um -torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade -das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, iamos entrando n'uma cidade. As -janellas olhavam-me com olhos ensanguentados e cheios d'um sol irado. -Eu só conhecia as cidades pelas historias que d'ellas contavam as<span class="pagenum" id="Page_165">[165]</span> -andorinhas, nos serões sonoros da espessura. Mas como ia deitado e -amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia um rumor -aspero e desafinado, onde havia soluços, risos, bocejos, e mais o surdo -roçar da lama, e o tinido sombrio dos metaes. Eu sentia emfim o cheiro -mortal do homem! Fui arremessado para um pateo infecto, onde não havia -o azul e o ar. Comecei então a comprehender que uma grande immundicie -cobre a alma do homem, porque elle se esconde tanto das vistas do sol!</p> - -<p>«Uns homens vieram, que me deram despresivelmente com os pés. Eu estava -n'um estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da -patria vegetal. Ao outro dia, um homem veiu para mim e deu-me golpes -de machado. Não senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez -amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando. -Senti lentamente renascer a consciencia e a vitalidade. Parecia-me -que eu estava transformado n'uma outra vida organica. Não sentia a -magnetica fermentação da seiva, a energia vital dos filamentos e a -superficie viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a -pé. Sob a brancura silenciosa e compassiva da lua, tive uma saudade -infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, das relvas, de toda -a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu -sentia que ia para uma vida real, de serviço e de trabalho. Mas qual? -Tinha ouvido fallar das arvores que vão ser lenha, aquecem e criam, e, -tomando entre a convivencia do homem a nostalgia de Deus, luctam com os -seus braços de chammas<span class="pagenum" id="Page_166">[166]</span> para se desprender da terra: essas dissipam-se -na augusta transfiguração do fumo, vão ser nuvens, ter a intimidade das -estrellas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos immortaes, -e sentir os passos de Deus!</p> - -<p>«Eu tinha ouvido fallar das que vão ser vigas da casa do homem: essas, -felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce força dos -beijos e dos risos; são amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a ellas -os corpos dolorosos dos Christos, são os pedestaes da paixão humana, -têem a alegria immensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das -creanças, ais namorados, confidencias, suspiros, elegias da voz, tudo -o que lhes faz lembrar as murmurações da agua, o estremecimento das -folhas, as cantigas dos ventos—toda essa graça escorre sobre ellas, -que já gosaram a luz da materia, como uma immensa e bondosa luz da alma.</p> - -<p>«Eu tinha ouvido fallar tambem das arvores de bom destino, que vão ser -mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do -temporal, viajar, vêr, luctar, viver, levadas pelas aguas, atravez do -infinito, entre surprezas radiosas—como almas arrancadas do corpo que -fazem pela primeira vez a viagem do ceu!</p> - -<p>«Que iria eu ser?...—Chegamos. Tive então a visão real do meu destino. -Eu ia ser forca!</p> - -<p>«Fiquei inerte, dissolvida na afflicção. Ergueram-me. Deixaram-me só, -tenebrosa, n'um campo. Tinha, emfim, entrado na realidade pungente -da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre -cheias de cadeias, de cordas e de<span class="pagenum" id="Page_167">[167]</span> pregos, tinham vindo aos carvalhos -austeros buscar um cumplice! Eu ia ser a eterna companheira das -agonias. Presos a mim, iam baloiçar-se os cadaveres, como outr'ora as -verdes ramagens orvalhadas!</p> - -<p>«Eu ia dar esses negros fructos: os mortos!</p> - -<p>«O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a -companheira dos passaros, doces tenores errantes, as agonias -soluçantes, os gemidos da suffocação! As almas, ao partir, -rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a arvore do silencio e do mysterio -religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos psalmos sonoros -da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me -ás nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a -arvore viva dos montes, d'intimidade com a podridão, do camaradagem com -o carrasco, sustentando alegremente um cadaver pelo pescoço, para os -corvos o esfarraparem!</p> - -<p>«E isto ia ser! Fiquei hirta o impassivel como nas nossas florestas os -lobos, quando se sentem morrer.</p> - -<p>«Era a afflicção. Eu via ao longo a cidade coberta de nevoa.</p> - -<p>«Veiu o sol. Em roda de mim começou a juntar-se o povo. Depois, atravez -d'um desfallecimento, senti o ruido de musicas tristes, o rumor pesado -dos batalhões, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois cirios, -vinha um homem livido. Então, confusamente, como nas apparencias -inconsistentes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibração -electrica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto catholico -dos mortos!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_168">[168]</span></p> - -<p>«Voltou-me a consciencia.</p> - -<p>«Estava só. O povo dispersava-se e descia para os povoados. Ninguem! A -voz dos padres descia lentamente, como a ultima agua d'uma maré. Era ao -fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio, -com a cabeça caída e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me!</p> - -<p>«Eu sentia o frio e a lenta ascensão da podridão. Ia ficar alli, de -noite, só, n'aquelle descampado sinistro, tendo nos braços aquelle -cadaver! Ninguem!</p> - -<p>«O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma d'aquelle cadaver? Tinha -passado já? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibrações? -Eu sentia os passos da triste noite, que vinha. O vento empurrava o -cadaver, a corda rangia.</p> - -<p>«Eu tremia, n'uma febre vegetal, dilacerante e silenciosa. Não podia -ficar alli só. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos pedaços, para -a antiga patria das folhas. Não. O vento era brando: quasi sómente -a respiração da sombra! Tinha vindo então o tempo em que a grande -natureza, a natureza religiosa, era abandonada ás féras humanas? Os -carvalhos já não eram pois, uma alma? Podiam, com justiça, vir o -machado e as cordas buscar os ramos creados pela seiva, pela agua e -pelo sol, trabalho suado da natureza, fórma resplandecente da intenção -de Deus, e leval-os para as impiedades, para os tablados da forca onde -apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as -ramagens puras, que fôram testemunhas das religiões, já não serviam -senão para executar as penalidades humanas?<span class="pagenum" id="Page_169">[169]</span> Serviam só para sustentar -as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condemnados se torcem? Não -podia ser.</p> - -<p>«Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos, -que sabem o segredo e comprehendem a vegetação, achariam grotesco que -as arvores, depois de terem sido collocadas por Deus na floresta com os -braços estendidos, para abençoar a terra e a agua, fôssem arrastadas -para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o braço da forca -para abençoar os carrascos!</p> - -<p>«E depois de sustentarem os ramos de verdura—que são os fios -mysteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra—fôssem -sustentar as cordas da forca, que são as fitas infames, por onde o -homem se prende á podridão! Não! se as raizes dos cyprestes contassem -isto em casa dos mortos—faziam estalar de riso a sepultura!</p> - -<p>«Assim fallava eu na solidão. A noite vinha lenta e fatal. O cadaver -baloiçava-se ao vento. Comecei a sentir palpitações de azas. Voavam -sombras por cima de mim. Eram os corvos. Poisaram. Eu sentia o roçar -das suas pennas immundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se, -ruidosos, cravando-me as garras.</p> - -<p>«Um poisou no cadaver e poz-se a roer-lhe a face! Solucei dentro do -mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma arvore das -florestas a quem os ventos fallavam! Servia agora para afiar os bicos -dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cadaveres, -como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus—soluçava<span class="pagenum" id="Page_170">[170]</span> -eu ainda—eu não quero ser reliquia de tortura: eu alimentava, não -quero aniquillar: era a amiga do semeador, não quero ser a alliada do -coveiro! Eu não posso e não sei ser a justiça. A vegetação tem uma -augusta ignorancia: a ignorancia do sol, do orvalho e dos astros. Os -bons, os angelicos, os maus são os mesmos corpos inviolaveis, para a -grande natureza sublime e compassiva. Oh meu Deus, liberta-me d'este -mal humano tão aguçado e tão grande, que se trespassa a si, atravessa -de lado a lado a natureza, e ainda te vae ferir, a ti, no ceu! Oh! -Deus, o ceu azul, todas as manhãs, me dava os orvalhos, o calor -fecundo, a belleza immaterial e fluida da brancura, a transfiguração -pela luz, toda a bondade, toda a graça, toda a saude:—não queiras que, -em compensação, eu lhe mostre, ámanhã, ao seu primeiro olhar, este -cadaver esfarrapado!</p> - -<p>«Mas Deus dormia, entre os seus paraisos de luz. Vivi tres annos -n'estas angustias.</p> - -<p>«Enforquei um homem—um pensador, um politico, filho do bem e da -verdade, alma formosa cheia das fórmas do ideal, combatente da luz. Foi -vencido: foi enforcado.</p> - -<p>«Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ella. -O seu crime era o amor, que Platão chama <i>mysterio</i>, e Jesus -chamou <i>lei</i>. O codigo puniu a fatalidade magnetica da attracção -das almas, e corrigiu Deus com a forca!</p> - -<p>«Enforquei tambem um ladrão. Este homem era tambem operario. Tinha -mulher, filhos, irmãos e mãe. No inverno não teve trabalho, nem lume, -nem pão. Tomado d'um desespero nervoso, roubou. Foi<span class="pagenum" id="Page_171">[171]</span> enforcado ao sol -posto. Os corvos não vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e -são. Era um pobre corpo que tinha succumbido por eu o apertar de mais, -como a alma tinha succumbido por Deus a alargar e a encher.</p> - -<p>«Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dôr -intima; não me desprezou: o sol allumiava-me com glorificação, as -nuvens vinham arrastar por mim a sua molle nudez, o vento fallava-me -e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegetação -saudava-me com meigas inclinações da folhagem: Deus mandava-me o -orvalho, frescura que promettia o perdão natural.</p> - -<p>«Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia -esfriar, mandou-me os seus vestidos d'hera. Os corvos não voltaram: -não voltaram os carrascos. Sentia entrar em mim a antiga serenidade -da natureza divina. As efflorescencias, que tinham fugido de mim, -deixando-me só no solo aspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de -mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me. -Eu sentia chegar a podridão. Um dia de nevoas e de ventos, deixei-me -caír tristemente no chão, entre a relva e a humidade, e puz-me -silenciosamente a morrer.</p> - -<p>«Os musgos e as relvas cobriram-me, e eu comecei a sentir-me dissolver -na materia enorme, com uma doçura ineffavel.</p> - -<p>«O corpo esfria-me: eu tenho a consciencia da minha transformação lenta -de podridão em terra. Vou, vou. Oh terra, adeus! Eu derramo-me já pelas -raizes. Os atomos fogem para toda a vasta natureza,<span class="pagenum" id="Page_172">[172]</span> para a luz, para -a verdura. Mal ouço o rumor humano. Oh antiga Cybele, eu vou escorrer -na circulação material do teu corpo! Vejo ainda indistinctamente -a apparencia humana, como uma confusão de ideias, de desejos, de -desalentos, entre os quaes passam, diaphanamente, bailando, cadaveres! -Mal te vejo, oh mal humano! No meio da vasta felicidade diffusa do -azul, tu és apenas, como um fio de sangue! As efflorescencias, como -vidas esfomeadas, começam a pastar-me! Não é verdade que ainda lá em -baixo, no poente, os abutres fazem o inventario do corpo humano? Oh -materia, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta! -Eu vejo já os astros correrem como lagrimas pela face do ceu. Quem -chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formidavel da terra! Oh mundo -escuro, de lama e d'oiro, que és um astro no infinito,—adeus! adeus! -—deixo-te herdeiro da minha corda pôdre!»</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_173">[173]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_175">[175]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="A_MORTE_DE_JESUS">A MORTE DE JESUS</h2> -</div> - - -<p>Por estranhos acasos encontrei este velho manuscripto copiado, n'um -latim barbaro, do antigo papyros primitivo. Não o traduzo textualmente: -seria incomprehensivel, irritaria os nossos habitos criticos, -psycologicos! Transporto para a linguagem moderna, complexa, ductil, -sabia, o estreito dizer antigo.</p> - -<p>Assim ordenado, este documento, que não encerra coisas novas, põe -todavia em relevo muitos estados de espirito, muitas situações civis de -uma pessoa excepcional, que tem notavelmente merecido n'estes ultimos -tempos a attenção da historia e da critica.</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>Jerusalem, Mediterranean Hotel, no Acra, 1 de Dezembro de 1839.</p> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<h2 id="MORTE_JESUS">A MORTE DE JESUS<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a></h2> - -<p class="right"> -<i>Dies irae, dies illa...</i><br /> -</p> - - -<h3 class="nobreak" id="I">I</h3> -</div> - - -<p>O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho -e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade -sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuarias de Siloeh, quero -contar o que sei e o que vi d'um homem excellente, que na minha -mocidade esteve, pelos acasos providenciaes da sympathia, intimamente -ligado á minha vida. N'estes ultimos tempos, sobretudo, a sua imagem -vive activa e poderosa no meu cerebro; e quando, pelo findar da tarde, -a esta luz maguada que então habita no ceu da Judea, eu me vou sentar -junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e -a velha Sião, cheia<span class="pagenum" id="Page_178">[178]</span> de claridade, e as ruinas de David, é n'elle que -penso—e n'esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba -escura, o andar agil e firme, e a esperança facil.</p> - -<p>Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da -cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão -fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.</p> - -<p>Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro, -João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e -socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha, -retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade, -andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a -sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus, -Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor? -Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos -esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida!</p> - -<p>É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e -bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e -comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.</p> - -<p>Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço. -A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção -de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se -trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem: -alli se orava, se celebrava, se<span class="pagenum" id="Page_179">[179]</span> tratavam as questões civis, se -julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei, -se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes -e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições. -Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria -havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos -pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os -romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo, -observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra, -exercitarem-se em luctas.</p> - -<p>A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as -portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que -se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos, -ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam -tocados de impureza.</p> - -<p>Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse) -que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da -lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham -estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli -vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas -de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo -era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma -feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de -Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_180">[180]</span></p> - -<p>Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os -escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi -cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho -dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae -cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella -sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem -na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a -sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi -se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma, -de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal.</p> - -<p>Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho, -entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas -d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica -indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros.</p> - -<p>Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus, -respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da -lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga, -querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito -sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se -ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola, -contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando, -vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se, -n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução<span class="pagenum" id="Page_181">[181]</span> sobre a testa, com a mão -toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam -pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem -os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres, -os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste: -caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés -nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios -de appetites, como um homem sanguineo!</p> - -<p>Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos -sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade: -são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos -nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto -a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as -bellas mulheres da Idumea.</p> - -<p>Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o -tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi -por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a -policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por -quem os meus olhos ainda se humedecem.</p> - -<p>Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres -ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte -das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a -multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito -que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros -tinham-se vindo encruzar<span class="pagenum" id="Page_182">[182]</span> nas suas esteiras junto das columnatas, com -as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia, -cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa -gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores, -havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha -os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da -Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle -era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha -o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições -inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura -erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia -do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.</p> - -<p>Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras, -arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.</p> - -<p>—Ide!—disse-lhes elle então—vós fazeis da casa da oração uma caverna -de ladrões!</p> - -<p>E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas. -Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação -sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas -que gritavam. Eu olhava, admirado.</p> - -<p>—Quem é este?—perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle, -e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan.</p> - -<p>—Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_183">[183]</span></p> - -<h3>II</h3> - - -<p>Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos -prophetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vae até -Joppé. Não direi o que penso da intenção prophetica e da crença -messianica. Só direi que os prophetas que, no meu tempo, vieram e eram -lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz collectiva, a -esperança, a consolação e o allivio.</p> - -<p>O povo era profundamente infeliz: os saducceus afogados nos seus -repousos, os phariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e -doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além -de tudo estavam longe do povo, n'uma separação desdenhosa e emphatica. -Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto. -Já na vida estreita e toda commum de Jerusalem, já nas conversações -dos atrios do templo, já nas minhas demoras em Bethel, em Ephraim, em -Galilea, eu via,<span class="pagenum" id="Page_184">[184]</span> comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado, -eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo, -refugiava-se, maltratado da terra, na esperança d'um libertador, d'um -Messias. O judeu é dado a preoccupações divinas e a sua verdadeira -patria é em Deus.</p> - -<p>Uma serie d'homens fortes e piedosos eram os interpretes d'este desejo -ideal, eram a voz d'aquella melancholia, e eram os amigos do pobre, os -asperos juizes do rico, os consoladores austeros.</p> - -<p>O povo, suffocado pela sua paixão interior, sentia-se alliviado, -consolado, quando um propheta fallava. Os prophetas confirmavam a -vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a -paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: d'ahi a -exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em -desejo e vontade. De sorte que todos os annos appareciam videntes e -inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria. -Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja -original, amigo do pobre, annunciador da boa nova: Schammaï, Hillel, -Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça, -viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da -esperança religiosa, não tinham a paixão messianica. Eram espiritos -sabios e justos, e não videntes possuidos de fé.</p> - -<p>Ora, n'esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por elle -a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda d'elle; -tinham desalentos, esperavam avidamente os signaes<span class="pagenum" id="Page_185">[185]</span> mysticos, e as -almas fallavam baixo, porque vinha o Senhor!</p> - -<p>Eu mesmo tinha visto muitos prophetas, muitos mestres innovadores; -não conhecia João Baptista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia -que elle tambem prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a -olympica Herodiade, se definhava n'uma prisão de Antipas.</p> - -<p>No emtanto nunca nenhum d'esses homens me dera uma sensação feliz como -esse Jesus de Nazareth. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz -poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me n'uma vaga -e imprevista perturbação, como quando se olha para o ceu, que se suppõe -escuro, e de repente se vê uma estrella immortalmente luminosa.</p> - -<p>N'essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado -do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se -conhecia Jesus de Nazareth, que prégava na Galilea. Simeon disse-me, -com um riso:</p> - -<p>—Que sabes tu que possa vir de bom de Nazareth?</p> - -<p>Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos -conversando n'esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram -fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco orthodoxos: -que o sangue estava n'elles muito misturado; que tinham muito do -samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos a -fallar, insufficientes a pensar; e que <i>idiotismo galileo</i> era um -proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a<span class="pagenum" id="Page_186">[186]</span> gente de Galilea me parecia -simples e dedicada; que quem vive n'uma natureza tão humana, tão cheia -de aguas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades -finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sobrios; -e que Isaias tinha dito:—«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali, -caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu -uma grande luz!»</p> - -<p>—Ora, Simeon—dizia eu—estas palavras de Isaias indicam que na -Galilea póde nascer um propheta!</p> - -<p>Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de -Salomão: a natural belleza, as arvores, as vinhas, a perspectiva suave -e recolhida dos valles de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca -serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatorios -de Salomão, fazem d'aquelle logar um retiro bom para espiritos sabios, -para aquelles que teem no coração uma ideia, ou que são habitados por -uma esperança: alli se reunem assim muitos de Jerusalem! N'aquelle dia -andava alli, absorvido, grave e vagaroso, o sabio Gamaliel. Gamaliel -era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza, -a tradição—elle era a sciencia; se os outros eram a lei—elle era -a justiça. Eu, preoccupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se -conhecia aquelle homem severo:</p> - -<p>—Pelo que sei d'elle—disse Gamaliel—penso que é um justo.</p> - -<p>Guardei com amor esta palavra: ella correspondia á attracção suave -e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a -Jerusalem, pensava n'elle: via-o irritado e augusto: imaginei-o<span class="pagenum" id="Page_187">[187]</span> cheio -da colera do justo e da rebellião do opprimido: o que elle prégava -decerto era a condemnação do rico e a humilhação do phariseu. Era o que -tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um propheta amado e seguido, -que fôsse a alma d'uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o -povo, anniquilasse os sacerdocios corrompidos, expulsasse o romano, -que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha -Judea, que fôsse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos. -Produzira a Galilea esta alma terrivel? Ou será Elias ressuscitado -d'entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada -para casa de Hannan.</p> - -<p>Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do -templo o fôsse seu genro Caiphaz; mas elle era o espirito, a direcção, -o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era -velho, sabedor das tradições, astuto; possuia enormes riquezas, -conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo.</p> - -<p>N'um dos largos pateos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume -reunirem-se em volta d'um grande fogo, quando o frio entristecia -Jerusalem, os officiaes do templo: ás vezes vinham escribas, doutores, -sacerdotes affaveis. Aquelle grupo, sempre egual, era como uma -consciencia um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava -algum austero doutor phariseu, pedia-se a um soldado expedicionario -que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das -collinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas -latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam<span class="pagenum" id="Page_188">[188]</span> nas suas -barbas brancas. N'essa noite, quando eu atravessava o atrio d'Hannan, -cruzei-me com aquelle galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus -de Nazareth, na galeria de Salomão. Elle costumava vir alli vêr -uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea. -Chameio-o, tomei-lhe as mãos, fallei-lhe affavelmente em Jesus de -Nazareth: eu, emfim, comprehendia bem aquelle que por um imprevisto -interesse, pela elevação da sua palavra, pela belleza do seu aspecto, -habitava já no meu peito, como um amigo d'antiga mocidade.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_189">[189]</span></p> - -<h3>III</h3> - - -<p>João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples, -mas penetradas de fé e de desejo.</p> - -<p>Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o, -pela intuição, em Nazareth, educado por aquella doce paizagem da -Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras -patriarchaes.</p> - -<p>Eu tinha alli viajado, e muitas vezes me tinha sentado n'um rochedo, -nas alturas de Nazareth. Se algum logar ha no mundo em que o homem -sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o -contingente e fugitivo das affeições e dos desejos, é alli, n'aquelle -vasto e socegado horizonte, em que parece que o ceu exerce mais -profundamente a sua attracção infinita sobre a alma captiva.</p> - -<p>Que pomares, que prados, que humanas aguas, que aldeias delicadamente -adormecidas entre as figueiras e as vinhas!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_190">[190]</span></p> - -<p>E eu via Jesus, imaginando, esperando, n'aquelle humido paraizo da -Galilea e nas suas montanhas queridas, de bellas fórmas amorosas!</p> - -<p>Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus, -entrando a fallar nas synagogas, correndo as aldeias, ajudando as -pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrellas tão -bellas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que -encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e -ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes.</p> - -<p>Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e -apenas teem visto da natureza as suas collinas calvas e os seus valles -cheios de mortos, riem quando se lhes falla na natureza do norte, na -fecundidade da Samaria e da Galilea e na excellencia d'aquella gente.</p> - -<p>Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações, -será por alguem vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta -Jerusalem aspera, secca, toda de pedra e de indifferença, só fará -espiritos estreitos, phariseus argumentadores, escribas e lapidadores -d'homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach, -de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da -seiva das arvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe d'aquellas sombras -e do rumor d'aquellas aguas. Jerusalem será a lei, a auctoridade, a -sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o -sacrificio.</p> - -<p>Alli não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias syrias que eu amo, onde -as mulheres teem o seio<span class="pagenum" id="Page_191">[191]</span> pacifico, os homens a força serena, e até -os pequenos burros teem um olhar doce, em que parece habitar uma -resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede -a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia aspera, qualidades -de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, tumulos gregos dos -Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos -regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas -de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas -estradas da Galilea: vêem-se os casaes escurecidos pelas sombras -das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras -estrelladas de vermelho: vae-se n'uma fresca espessura povoada d'aves -gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente deante d'uma -porta, á sombra d'um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as -fórmas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da -fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se -encontram phariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos!</p> - -<p>Era alli que Jesus vivia, fallando pelos campos, pelos casaes e nas -synagogas: alli devia ser escutado: não tinha sabios da lei para o -contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer -a verdade aos simples!</p> - -<p>O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me -d'uma affeição ineffavel pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de -Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas -suas aldeias e pelos caminhos das suas villas! Ai!<span class="pagenum" id="Page_192">[192]</span> Magdala, Chorazin, -Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, secco, -pallido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha -esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de agua, -onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo, -cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago -cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do -lago, cheia de tamarindos, onde a agua, tão azul como os olhos das -mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas -verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do -meu peito, as pudesse sepultar fóra de mim, escolheria a tua relva, ó -terra de Nephtali!</p> - -<p>Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores; -aquelle clima é tão doce, tão affavel, que o homem pouco pensa no -seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as -estrellas, ao rumor da agua. Jesus pescava, ou fallava n'uma barca, no -socegado embalar da agua, aos seus companheiros de rede: assentava-se -ás vezes sobre as collinas, que são d'uma viva liberdade d'ar e de luz, -e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se -a si, ensinava o seu coração, fallava das esperanças do reino de Deus. -Elle amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os -lyrios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das -creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: elle pedia apenas -que o amassem, e não tinha razões inflammadas de propheta. Elle era o -centro de todo o amor na verde<span class="pagenum" id="Page_193">[193]</span> Galilea: dava a esperança ás almas: -dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre.</p> - -<p>—O ceu é dos simples—dizia elle.—Os que choram serão consolados; os -miseraveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a -mim: sereis saciados. Sêde pacificos, sêde puros. Se vos perseguirem no -reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do ceu. Segui-me, segui-me!...</p> - -<p>E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casaes: -as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz immortal dos seus -olhos. Todos queriam errar com elle pelo paiz de Genezareth, comendo os -fructos casuaes dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos.</p> - -<p>Elle explicava Deus de um modo novo: ninguem o conhecia melhor: elle -era a consciencia viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo -de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitario, tenebroso, -irritavel: o seu Deus era o pae, o consolador, o purificador, o -eternamente sereno, o eternamente justo.</p> - -<p>O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade, -a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrificio.</p> - -<p>—Se vos ferirem, offerecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos -perseguirem, orae! Que merito ha em amar os que nos amam?</p> - -<p>Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia, -era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos phariseus: -com effeito, para que são tantas purificações, tantos cilicios, tantos -usos de piedade? Para que hão de os<span class="pagenum" id="Page_194">[194]</span> phariseus trazer nas suas tunicas -as tiras de papyrus, que são o signal da devoção, e para que dão a -esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda?</p> - -<p>—Quando tu deres a esmola—dizia o Mestre de Nazareth—que a tua mão -esquerda não saiba o que fez a direita.</p> - -<p>E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que elle não -era como os mais prophetas, não se retirava para o deserto, não se -emmagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas -rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás -vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que ahi estava mais -na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.</p> - -<p>João fallava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joanna, mulher de -Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia -do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, ahi e em Tiberiade, tinha -tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicavel era a -essencia d'aquelle ser; tinha espasmos, contracções, enthusiasmos -perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril -pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notaveis d'então, -penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de -phariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos -os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo -o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação -das moreias em reservatorios, a composição<span class="pagenum" id="Page_195">[195]</span> de aromaticos, o estudo -das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi -para Magdala. Ahi viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do -Mestre, e amava a sua figura delicada e bella. Tinha, porém, fortes -impaciencias, erguia discordias com os discipulos, retirava-se para -o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era -maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.</p> - -<p>Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica -franjas de Tyro.</p> - -<p>Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os -publicanos, todos os peccadores.</p> - -<p>Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais -(dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de -Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça -tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um -propheta irritado?</p> - -<p>—O Mestre é a propria doçura—dizia-me João.</p> - -<p>D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador?</p> - -<p>—Desde quando é elle assim?—perguntava eu a João.</p> - -<p>—Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_197">[197]</span></p> - -<h3>IV</h3> - - -<p>Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto -eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham -desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o -meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades -ou desdens.</p> - -<p>O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores -approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; -encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das -piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os -pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam -a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos -cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.</p> - -<p>Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um -velho camarada do templo,<span class="pagenum" id="Page_198">[198]</span> Josué, que andava ha muito pelas villas -de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem -conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal. -Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho -de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero, -attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado -João, a essencia do Rabbi da Galilea.</p> - -<p>Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que -conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, -mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que -prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição -e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica, -sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os -sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos -pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas; -que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se -associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções, -nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem -auctoridade entre os doutos e entre os ricos.</p> - -<p>Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos -phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio -d'Hannan.</p> - -<p>Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela -rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um<span class="pagenum" id="Page_199">[199]</span> -contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea, -e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era -um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto -e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos -Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das -esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo?</p> - -<p>Encontrei João, conversando no atrio lageado com um homem da milicia -sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente -estrellada de lampadas.</p> - -<p>—João—disse eu—dize o que vem fazer a Jerusalem o sabio de Nazareth?</p> - -<p>João olhou-me:</p> - -<p>—Vem á festa da Paschoa—disse elle, lento.</p> - -<p>—João—insisti—pelo Messias, e pela liberdade do Baptista, -prisioneiro d'Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo?</p> - -<p>—Prégar—disse João.</p> - -<p>Comprehendi, rapidamente, todos os resultados d'aquella lucta original.</p> - -<p>—Vae!—lhe disse eu exaltado—dize-lhe que parta, que volte para o -lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com -os que o amam, socegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as -portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como -propheta á columna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre -das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os -prophetas!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_200">[200]</span></p> - -<p>João tinha o espanto nos olhos, na voz.</p> - -<p>—Eliziel! Eliziel!</p> - -<p>—Que volte, que volte para a Galilea!</p> - -<p>E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos -interiores d'Hannan.</p> - -<p>O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre -largas pelles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava syria, de Damasco, -cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices.</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_201">[201]</span></p> - -<h3>V</h3> - - -<p>No outro dia, casualmente, tive ordem de Caiphaz para ir á Galilea, -em serviço das synagogas: a concentração dos sacerdotes rituaes -em Jerusalem obriga assim os officiaes do templo a successivas -peregrinações; porque as synagogas estão dominadas pelos escribas e -pelos sophorins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas.</p> - -<p>Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a -todo o paiz que fôra até ahi o centro amado de Jesus.</p> - -<p>Em toda a região do lago achei muitos espiritos, ou mais simples, ou -mais lucidos, ou mais amantes, singularmente occupados na sympathia e -na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazareth.</p> - -<p>Fallavam-me longamente da sua doutrina nas synagogas, das suas palavras -nas collinas: e a figura moral de Jesus accentuava-se, definia-se -progressivamente no meu espirito.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_202">[202]</span></p> - -<p>Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som -captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da -rede: fallava devagar; entre silencios, as altas verdades, as palavras -profundas appareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante, -tocado de uma luz inesperada. Contava parabolas, historias; repetia -com paciencia, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, attentos, -outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam -pasmados a agua. Elle fallava, socegado, ou afagava uma creança, ou, -contando as parabolas, concertava a sua rede.</p> - -<p>Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida. -Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores.</p> - -<p>—Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuario—dizia -elle.—Olhae as aves do ceu: não semeiam, nem ceifam, e o pae dos ceus -é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos -campos.</p> - -<p>—Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lyrios: não -trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua -gloria, não estava vestido como nenhum d'elles na sua simples candura. -E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, ámanhã -seccam, não o fará por vós, homens de pouca fé?!</p> - -<p>Por isso os discipulos seguiam-o assim, enlevados n'aquellas ambições -ideaes, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. N'aquelle pensamento, -o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo,<span class="pagenum" id="Page_203">[203]</span> um traidor, que -assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade.</p> - -<p>—Vendei o que possuís—dizia elle—dae o dinheiro em esmolas!</p> - -<p>Realmente de que servem na Galilea as riquezas?</p> - -<p>Alli só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul, -mais repouso á agua: o pobre, o mendigo, é o rei mysterioso d'aquella -gloria da folhagem e da luz: para elle se vestem as açucenas de branco, -para elle resplandecem os regatos.</p> - -<p>Jesus glorificava o pobre: n'aquelle evangelho da Galilea, o rico -é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: elle tem os -largos vestidos faceis, macios; elle come sobre leitos cobertos de -pelles; elle enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come -escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a -sua tunica; traz apertada á cintura, tendo sobre ella uma pedra, a -moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuario -do pobre, e da brancura do lyrio; elle velará para que ao homem não -falte o pão e á rola o grão: elle fará no ceu, ao pobre, um sacco, um -thesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões.</p> - -<p>O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o -emmagreceu na vida, uma chamma o consumirá na existencia extra-humana. -O pobre estará junto de Deus, e a sua face será immortal e altiva.</p> - -<p>—Porque, em verdade, vos digo—ensinava o Mestre—que é mais facil -passar um camelo pelo<span class="pagenum" id="Page_204">[204]</span> fundo d'uma agulha, do que entrar um rico no -reino de Deus.</p> - -<p>Assim fallava elle á beira do lago, e, desprendendo os homens dos -fataes cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da -vida. Os tedios da existencia ordinaria, a discordia dos interesses, -as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da -miseria, a apathia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as -desconsolações da doença, todos estes antigos demonios desappareciam e -a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir, -esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da -terra tem alimentado.</p> - -<p>A alma tinha emfim um logar, o <i>seu</i> logar, o seu espaço, que era -o <i>reino de Deus</i>. O reino de Deus era o reino das creanças, dos -simples, dos desherdados da vida, dos que soffrem, e até do samaritano, -e até do pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós -não quereis esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os -phariseus, os saducceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os -principes! vinde vós, pois, os humildes, os repellidos, os lapidados, -os enfermos, os culpados, todos os que elles repellem, todos os que -elles amaldiçoam! Desgraçados de vós, oh ricos, que estaes saciados, -porque tereis fome! Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis -em lagrimas!</p> - -<p>Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existencias -sacerdotaes! Os nossos prophetas já tinham, contra o rico impio e duro, -coleras terriveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora<span class="pagenum" id="Page_205">[205]</span> o -Rabbi feria assim violentamente todo o judaismo sacerdotal do templo, -porque fazia, dos que elle despreza e domina, os preferidos, os bem -amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o phariseu -não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto? -Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se -á entrada dado santuario tocaram n'um mendigo ou n'um publicano?</p> - -<p>Mas Jesus, na immortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal -divino, já não sómente chamava a si o desherdado, mas chamava o culpado.</p> - -<p>—O culpado é infeliz—dizia:—merece por isso mais que o justo o calor -do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso, -porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas.</p> - -<p>—Havia uma mulher aqui—dizia-me o homem bom de Chorasin, que me -explicava estas coisas immortaes—que era repellida, mal vista, -amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da -synagoga se approximavam d'ella, mas de noite, sob as figueiras -do cemiterio, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a -tunica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se -inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquella -palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue -Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se -sente amante, mais se sente perdoada.</p> - -<p>Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada -palavra, julgavam-se já no paraizo immortal. Elle ia seguido dos -seus, confundido<span class="pagenum" id="Page_206">[206]</span> com todas as alegrias, apparecendo nas bodas e -nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada -na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou -montado n'um pequeno burro, que os discipulos cobriam com as tunicas; -ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, fallava -ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casaes, nos hortos; as -creanças vinham, vinham as mulheres:—«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa -nova: és tu o Messias?»—Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores -fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães -mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos -vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: elle ria, agasalhava-os; -quando elle passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho. -Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viuvas limpavam as suas -lagrimas; elle fallava de Deus, e endireitava as cannas de milho caidas -no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:</p> - -<p>—Mestre, tu és bom.</p> - -<p>—Bom só é Deus—dizia elle, sorrindo.</p> - -<p>—Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraizo?</p> - -<p>—Amae os outros, dae aos pobres, segui-me!</p> - -<p>E seguiam-o todos, enlevados n'aquelle sonho ideal, o mais bello, o -mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.</p> - -<p>Então o ceu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela -primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez -o estreito sorriso do velho conteve a esperança!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_207">[207]</span></p> - -<h3>VI</h3> - - -<p>Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do -captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz d'aquellas palavras.</p> - -<p>Voltei a Jerusalem: passei sobre o Thabor, d'onde se vê a larga -planicie d'Esdrelon, amada dos heroes, o branco Hermon, Endor, e as -montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda -escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph -foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, patria da forte -Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades d'Israel, -hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto -da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah: -Siloeh, onde se fez a partilha do territorio entre as tribus, e onde -pousou pela primeira vez o tabernaculo, depois da conquista de Canaan.</p> - -<p>Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de -seivas e de rosas: junto ao<span class="pagenum" id="Page_208">[208]</span> Jordão andavam ainda alguns discipulos de -João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lugubres collinas de -Judá, asylo de prophetas, tumulo dos heroes: uma madrugada entrei, só, -em Jerusalem.</p> - -<p>N'esse dia logo, subi ao templo. Junto dos porticos exteriores, onde -trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi, -entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazareth. Estavam -parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante -d'um cambiador de moeda, trocava drachmas, attento. Parei, commovido, -a olhar profundamente o Rabbi. Elle estava triste: os braços caidos, -sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas, -delicadas, pessoaes, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os -olhos cheios d'infinito, que pareciam olhar d'um logar inaccessivel, a -testa larga, expressiva como a immobilidade d'um ceu, assemelhavam-se, -superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra—aos olhos, á -testa d'Hillel, de Jesus de Sirach e d'um outro, que era como elles -dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A bocca tinha uma fórma -tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia -que d'ella só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno -dos labios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma -gravidade, uma belleza austera, que denunciavam a origem das palavras -elevadas, e faziam sentir o propheta. Parecia-me vêr-lhe, na parte -inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão d'energia, que o tornavam -um pouco semelhante a Judas<span class="pagenum" id="Page_209">[209]</span> Galannite, o poderoso agitador, em quem a -acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.</p> - -<p>Elle olhava os trabalhos dos porticos, com um desdem sereno. Nos -galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento.</p> - -<p>Entrei no santuario: nas camaras dos serviços dois escribas -argumentavam junto da arca do thesoiro, com exclamações abundantes. -Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara -no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias -da piscina probatica; que argumentára com os escribas, e que em casa de -Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi:</p> - -<p>—Elle é bom e justo: mas não diz coisas novas.</p> - -<p>Argumentava-se muito sobre aquella palavra contida o desdenhosa do -sabio Gamaliel, entre os privados d'Hannan.</p> - -<p>—Mas Gamaliel—dizia soberbamente o escriba—é um homem alheio a -nós; entretem relações com essa gente da escola d'Alexandria; viaja -demoradamente em Sichem onde estão os hereticos, e em Cesarea onde -estão os romanos, e dá-se á cultura hellenica, desprezando a lei.</p> - -<p>—Homem—disse eu—em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo -as lettras gregas?</p> - -<p>O escriba riu finamente, como em triumpho:</p> - -<p>—Pois não diz o texto:—e a sua voz era compassada e -emphatica—«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres -desagradarás ao Eterno?» Ora—e traçava amplamente a capa, tossindo, -victorioso—ora Gamaliel só não desagradará ao<span class="pagenum" id="Page_210">[210]</span> Eterno se estudar a -sabedoria grega n'um tempo, que não seja nem a noite nem o dia.</p> - -<p>O outro escriba, que era Eliel, d'Ephraim, approvou ruidosamente, -batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se, -risonhos.</p> - -<p>Saí das camaras leviticas, á hora setima, quando ha nos terraços do -templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as -folhas de metal diante de si, em movimentos rythmicos; outros vinham -comprar offertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre -questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo -passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que -annunciam a hora dos sacrificios: os doentes cantavam os psalmos; as -mulheres leviticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores, -espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das -primeiras columnas, batendo em discos de metal.</p> - -<p>Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado -de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosanna, ao filho de -David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que elle era -entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe -o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns -phariseus, tomados d'exaltacão, queriam a convocação do sanhedrin. Um -velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadencia da escola -prophetica d'Israel.</p> - -<p>—É um ignorante—diziam, com desprezo, vastos doutores.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_211">[211]</span></p> - -<p>Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas -eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido d'um arvoredo, fallava do -Mestre: alguns velhos diziam:—Sim, sim, irmãos, este é um propheta!</p> - -<p>—É o Christo! É o Messias!—clamavam grandes vozes.</p> - -<p>Muitos iam, correndo, prostrar-se deante da porta da Arca bradando:</p> - -<p>—Graças, Senhor, o Messias chegou!</p> - -<p>Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo -templo, gritando:</p> - -<p>—É o Messias, é o propheta da Galilea!</p> - -<p>Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo:</p> - -<p>—Que dizeis? Vós não conheceis a lei!</p> - -<p>—A lei diz que o Messias virá, e que Elias resuscitará!</p> - -<p>—Calae-vos!—bradavam os escribas—Sois tambem galileos? Não sabeis -que a escriptura diz que o Messias ha-de ser da geração de David? E não -sabeis vós que este é o filho do carpinteiro Joseph, e d'uma mulher da -aldeia de Caná? Não vol-o tem dito todos os que veem de Nazareth?</p> - -<p>—É verdade, é verdade—diziam alguns.</p> - -<p>—E não sabeis—continuavam—que os textos dizem que o Messias nascerá -em Bethleem, e onde nasceu este? Em Nazareth, bem o sabeis.</p> - -<p>Uma voz, receiosa mas irritada, disse:</p> - -<p>—Pois elle nasceu em Bethleem!</p> - -<p>—Em Nazareth!—bradaram alguns escribas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_212">[212]</span></p> - -<p>—Sim, sim, em Nazareth—disse a gente.</p> - -<p>—É, pois, o Christo?! Ide, homens amaldiçoados que andaes afastados da -escriptura!...</p> - -<p>Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias -areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no -Tyrepeon.</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_213">[213]</span></p> - -<h3>VII</h3> - - -<p>Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a porta dos Rebanhos, -atravessado o Cedron, subido a Bethania.</p> - -<p>Quando eu voltava para Bezetha, veio a mim um homem muito conhecido em -Jerusalem, que era Jesus Bar'Abbas. Era uma figura descarnada, torta, -arqueada, cheia de cicatrizes, immunda, rindo sempre, em farrapos. Era -uma especie de truão de Jerusalem. Tinha gracejos, farças, deslocações: -espancavam-o, elle ria, estendia uma ponta da tunica para aparar -os drachmas. Encontrava-se com a sua lampada em todos os noivados, -gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições, em -todos os supplicios com uma cantara de <i>posca</i>, para vender aos -soldados. Tinha todos os desastres da miseria, do vicio, e era servil. -Os soldados expedicionarios espancavam-o, ás vezes prendiam-n'o, -mas o povo cobria-o com uma protecção avara. Era casado. Tinha uma -voz vibrante, forte para cantar os<span class="pagenum" id="Page_214">[214]</span> psalmos e imitava os prophetas, -prégando. Cheirava miseravelmente a alho.</p> - -<p>Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que n'essa noite -Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os officiaes do -templo e sacerdotes, fóra das muralhas, em Betphagé.</p> - -<p>Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com -orgulho que fôra amigo do gladiador Esterius.</p> - -<p>Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus -atrios.</p> - -<p>N'essa noite fui a casa do Hannan. Nos pateos, João aquecia-se ao lume, -junto da velha de Capharnaum.</p> - -<p>Caiphaz e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos: -Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caiphaz -aquilino, duro, aspero, tinha uma attitude desdenhosa. Dois escribas, -encrusados no chão, comiam.</p> - -<p>Quando o serão ia remoto, repentinamente Caiphaz mandou-me a casa de -Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava: -tinha havido exigencias do legado imperial sobre os vasos do templo.</p> - -<p>Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era -negra, quente, molle: ouviam-se apenas uivar os cães.</p> - -<p>Em Betphagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a -ceia, sob um grande velario feito á moda grega, suspenso ás ramagens -dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas -lampadas resplandeciam. Flôres de<span class="pagenum" id="Page_215">[215]</span> Damasco, rosas de Jerichó, jasmins -de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros -de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da molle vitalidade que -dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cantharos envoltos em -palha, jarros cinzelados. Os escravos phrygios, com os longos cabellos -relusentes de oleo, giravam apressados.</p> - -<p>Havia alli membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos, -sadduceus, phariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em -sacrificios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos -deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram -gordos, fortes, vermelhos. Quasi todos tinham a physionomia aspera, -adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas.</p> - -<p>O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma -ampla respiração aos peitos, uma feliz scintillação aos agudos olhos -negros. Havia largas risadas. Phariseus austeros, que se ferem -nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos d'aço brunido, -devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e -desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns, -decrepitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas -mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras.</p> - -<p>Alguns, estendidos sobre leitos como animaes que ruminam, tinham as -tunicas soltas, os braços nús. Cabeças energicas, duras, mostravam uma -expressão irritada, fixa, vasia; os velhos tinham largos risos cynicos. -Uns dormiam, outros cantavam. Um velho<span class="pagenum" id="Page_216">[216]</span> curvado, frouxo, rouco, -lembrava as mulheres e os phariseus. Entre esta multidão sacerdotal -havia um romano. Era Publius Sextus, logar tenente do legado imperial; -fallava com palavras abundantes, largos gestos. Era pallido, com uma -pequena cabeça energica e voluntaria; era devasso, servil, falso, -luxuoso, e vinha de Caprea. Era alli escutado como um propheta na -antiga Israel; fallava da via Appia, das festas de Roma.</p> - -<p>Eu escutava, encostado a uma arvore, na escuridão, concentrado o triste:</p> - -<p>—Só em Roma se vive—dizia elle.—Isto é peor que o bairro das -Esquilias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo -Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem -aqui como Evandro recebeu Hercules, com farinha cosida e uma esteira -espartana!</p> - -<p>—Mas vós outros, os romanos, sois glutões e amigos do vinho!—disse -Nathaul, um escriba, homem invejoso, com labios carnaes.</p> - -<p>Mas Publius fallava d'uma ceia em casa de Atticus, antes de vir a Ostia -embarcar com o legado da Syria.</p> - -<p>—Quereis saber?—perguntava.</p> - -<p>—Dizei, dizei—gritavam curiosamente pela meza.</p> - -<p>—O chão era de mosaicos gregos. Entre as columnas havia largos pannos -tecidos d'aço, pesados, á moda de Carthago. Um vapor d'agua tepida -penetrava os musculos, enlanguescia. Tinhamos esfregado os braços, o -peito, com pedaços de pelle de tigre humedecida d'oleo. Os membros -estavam ageis, faceis<span class="pagenum" id="Page_217">[217]</span> para as danças, para as escravas! Do tecto caíam -folhas de rosas humidas!</p> - -<p>Todos tinham olhos scintillantes; estendiam-se para escutar; alguns -estavam de pé, junto de Publius.</p> - -<p>—O trinchador—dizia elle—o trinchador, meus amigos, era o proprio -Tripherius! Tinhamos lebre, gazella, faisão de Lichtia, cabras da -Getulia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido herva, e -tartarugas delicadamente preparadas em môlhos da Campania, na propria -concha, polida, transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas -nadando no azeite de Venafre! As taças eram d'ambar. Que dizeis vós?</p> - -<p>Os austeros doutores, os graves herodianos, os phariseus, cevados, -oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a bocca riscada de vinho, -tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius.</p> - -<p>Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo. -Todos admiravam.</p> - -<p>O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em -tecidos diaphanos, correndo em choreias, em volta dos triclinios, e -aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!—E -fallava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz -branda, curvando-se:</p> - -<p>—Que estas mulheres syrias—dizia—teem uns olhos escuros, que valem -centenares de sestercios!</p> - -<p>Os outros riam. Fallavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam, -desejavam.</p> - -<p>—Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas<span class="pagenum" id="Page_218">[218]</span> são devassas, e -tudo alli terminará, como em Sodoma e Ninive!</p> - -<p>Quem assim fallava era um phariseu, Essen, homem magro, livido, cavado -de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e -parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para -lembrar a morte e o terror de Jehovah!</p> - -<p>—Devassas, dignas do fogo—para vós, devotos e zelozos! Mas bellezas -impeccaveis, immortaes, para quem póde desapertar a rêde d'oiro, em que -ellas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que -as fazem mais appetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que -ellas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.</p> - -<p>Publius fallava, inflammado, descomposto: tinha gestos lascivos; -bradava os nomes das damas romanas:</p> - -<p>—Vêde Laupella, uma patricia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do -actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que -em plenos jogos megalesios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu -na estatua do Pudor!</p> - -<p>Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam:</p> - -<p>—Contae, contae!</p> - -<p>Enchiam as amphoras; arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa, -com a cabeça appoiada nos braços, esperavam voltados para Publius, -com olhos perturbados. Os velhos abriam largamente uma bocca escura, -sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos. Um escriba da arca do -thesoiro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz aspera, arrastada. O -circulo de cabeças avidas, duras,<span class="pagenum" id="Page_219">[219]</span> curiosas, destacava violentamente -no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a tunica -clara manchada de vinho; tinha os braços nús, brancos, femininos: e com -largos gestos:</p> - -<p>—E Tucia! e Tucia!—gritava—Eu vi-a um dia no theatro, quando o -actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascivias o papel de Leda, -torcer-se no seu logar, arrancar a rêde dos seus seios, e com os olhos -mortalmente languidos chamar a altas vozes:—Bactylo, Bactylo, vem!</p> - -<p>Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:—Bactylo, Bactylo!</p> - -<p>Os velhos torciam-se nos seus triclinios, tomados de riso, de -escandalo. Alguns escribas gritavam:—<i>Viva Roma!</i> Os phariseus -tinham olhos terriveis, e uma attenção avida. Um cortava violentamente -o pau do estrado, mordendo os labios!</p> - -<p>Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolencia dos -escravos, queria lançar fogo ao velarium, e dizia:</p> - -<p>—Quem conhece Cessenia? Ninguem conhece Cessenia? Cessenia tinha de -dote seis milhões de sestercios. Casou com Sertorius, o pobre, com a -condição de poder escrever deante do marido os bilhetes aos amantes, o -poder ir deitar-se uma vez cada mez, para quem entrar, no leito alugado -de um lupanar do Suburra!</p> - -<p>Os escribas riam, esvasiavam as taças, desafogavam o pescoço das -tunicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas á -cintura, onde está escripta a lei. Um, ebrio, com os olhos riscados do -sangue, pedia o culto de Baal.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_220">[220]</span></p> - -<p>Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclinios, curvados, -enroscados, immoveis. Os phariseus torciam os braços, fallavam de Tyro.</p> - -<p>Publius clamava:</p> - -<p>—Pois que ha de melhor que vêr uma patricia, de longo penteado e saia -curta, depois de estar cheia d'ostras e lagostas irritantes, beber de -um trago n'uma enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre -o mosaico humido de vinho, caír sobre o nosso peito, gritando em grego: -<i>minha alma, minha vida, ai!</i></p> - -<p>E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a -garganta tumida de suspiros, arquejando!</p> - -<p>Os escribas, os phariseus estavam cheios de delirio e de vinho. Riam -animalmente. Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão: -mordiam as almofadas dos triclinios. Derramavam o vinho sobre os -vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças exaltados. Um -jogava a lucta com uma arvore, depois envolvia-a, beijava-a. Cantavam -em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões -lascivas. Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados. -Corriam, inflammados, como n'um mysterio sagrado. Alguns gabavam-se de -devassidões occultas. Fallavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres, -de prostituições sagradas no fundo dos bosques!</p> - -<p>Publius gritava:</p> - -<p>—Não sabeis, phariseus, não sabeis a aventura de Lentullus?</p> - -<p>—Não, não!—bradavam alguns penetrados da<span class="pagenum" id="Page_221">[221]</span> alegria, do escandalo, de -curiosidades inflammadas!</p> - -<p>—Lentullus casa com uma virgem patricia, neta de consules: nove mezes -depois prepara, segundo o costume, para o filho que vae nascer, o berço -de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no ás -boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da via Appia rompe em -risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Eurialo, e -tinha, como elle, trez verrugas no queixo.</p> - -<p>A risada fazia o ar sonoro. Publius de pé, manchado, com a tunica rôta, -descomposto, gritava:</p> - -<p>—Ouvi, ouvi!</p> - -<p>Escutavam com um riso inquieto.</p> - -<p>E Publius, emphatico:</p> - -<p>—Os actores—dizia—os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta, -os truões, são os paes de todas as creanças que nascem na nobreza -romana!</p> - -<p>Um velho phariseu, elevando sacerdotalmente uma amphora, gritou com uma -voz terrivel:</p> - -<p>—Vivam os truões!</p> - -<p>A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão. -Era bestial e immundo.</p> - -<p>Bar'Abbas, espancado, cambaleava, blasphemando, jovial.</p> - -<p>O vinho começava a domal-os: alguns escorregavam, caiam, agitavam-se -como agonisantes, e perdiam os espiritos n'um somno petrificado. Outros -penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da herva -e da agua. Uns fallavam como n'um delirio grotesco. Dois escribas -argumentavam, freneticos, hostis. Um forte e vasto phariseu, de bruços<span class="pagenum" id="Page_222">[222]</span> -sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, roía monotonamente uma flôr.</p> - -<p>Simeon resonava no seu estrado. Publius no chão humido. Os escravos -deitavam pelles sobre os dormentes. Os lampadarios extinguiam-se. Vinha -um frio humido. Cantavam os gallos.</p> - -<p>Eu atravessei o pomar, subi a um terraço.</p> - -<p>Uma claridade assustada, abatida, apparecia. Eu via ainda reluzirem -lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das -Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito d'um -chacal. Via Bethania; alli Jesus dormia sereno, puro, impeccavel.</p> - -<p>Voltei aos porticos da casa, pela rua areada do pomar. Alli havia -um rumor; os escravos, agitados, fallavam. Alguns da milicia do -templo tinham encontrado, no portico de David, nas lages, uma mulher -nos braços d'um homem. Era uma adultera; a milicia trazia-a a casa -de Simeon, que n'aquella semana fazia a condemnação dos desacatos -ao templo, em nome do sanhedrin. A milicia tinha sido diligente, -apressada, minuciosa, porque a miseravel, era mulher de Bar'Abbas, e -todos queriam vêr as contorsões joviaes, o desgosto grotesco do truão! -Mas Bar'Abbas estava prostrado, immovel, enroscado no chão.</p> - -<p>Fui ao logar do velario: os doutores, os phariseus acordavam: era já -manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis; -aconchegavam-se nos mantos, lividos, tomados do frio: procuravam os -cintos das tunicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as -laminas da lei;<span class="pagenum" id="Page_223">[223]</span> sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam agua -clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam, -mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de -rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas. -Simeon, absorto, somnolento, bocejava:</p> - -<p>—Vinde—dizia-lhe eu—tendes serviço; vieram uns da policia, com uma -miseravel mulher.</p> - -<p>Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava, -arrastando os coturnos, para o seu pateo civil. Phariseus, doutores, -membros do sanhedrim, seguiam-n'o. O pateo era largo, em columnas. Uma -lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.</p> - -<p>Os da milicia fallavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em -cantharos. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil, -soluçava. A tunica aberta, deixava vêr a forma impeccavel do seio.</p> - -<p>Simeon interrogava.</p> - -<p>—Vem presa—dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no -silencio;—acharam-n'a á porta do templo, no portico de David. Vêde-a. -Estava em acto d'adulterio.</p> - -<p>—Oh!—disseram todos indignados.</p> - -<p>E phariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos -mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando:</p> - -<p>—Lapidada, lapidada!—disseram irritados.</p> - -<p>Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados, erguendo os -mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher -adultera.</p> - -<p>Essen afastou-se, e fallou junto ao ouvido de Simeon.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_224">[224]</span></p> - -<p>—Sim, sim—disse Simeon, e voltando-se para os da milicia:—Esta -mulher que seja aqui guardada até á hora sexta.</p> - -<p>Eu saí. Os soldados romanos, abriam com estrondo metallico as portas -de Jerusalem. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes -dos hortos de Betphagé, da Bethania: os camponezes de Bethel traziam -os saccos de trigo: passavam solemnemente as fileiras de camelos. Um -beduino de Idumeia conduzia rebanhos: as rezes balavam. Do alto da -torre Antonia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores -sentados em seus burros: um vidente clamava!</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_225">[225]</span></p> - -<h3>VIII</h3> - - -<p>Eu ia triste: o amanhecer, a apparição espiritual da aurora, enche -de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne. -Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu -artificio, tão altivos despresos.</p> - -<p>Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me, -obscuro e inconsolado, para os meus monotonos officios do templo. -Alguns dos phariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de -Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrificios.</p> - -<p>O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia: -pensava nos prados da Galilea, nas aguas do lago, nas espessas -folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga, -pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse -um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planicies de -Saron!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_226">[226]</span></p> - -<p>A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido d'um mercado: -a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia -material, dura, mesquinha, suffocante! Ia-me encostar á balaustrada -da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do -monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuarios, de roçar -pelos phariseus, escribas, por aquellas hierarchias sacerdotaes que -me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em -bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos -mortos.</p> - -<p>Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria -odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre. -Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via -uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação: -os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi -enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes -que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa -das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia -em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um -açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende -a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso -imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples -e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos!</p> - -<p>Invejava quasi o romano, o grego, o mercador<span class="pagenum" id="Page_227">[227]</span> de Tyro, que não são de -Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o -Aera e o Moriah, captivos e gementes!</p> - -<p>Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?—perguntava a mim mesmo.</p> - -<p>—Temos uma patria? Não!—E olhava a torre Antonia, onde os -expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra.</p> - -<p>—Temos uma religião, uma fé? Não!—E via os sacrificadores vestindo -os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados, -bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto -Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!</p> - -<p>—Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!—E olhava -aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra, -e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para -agradar ao Senhor!</p> - -<p>Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles -frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que -não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não -habitava Jerusalem!</p> - -<p>Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a -popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte, -Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na -escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde -escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me—ou resultados da -noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia,<span class="pagenum" id="Page_228">[228]</span> -ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um -dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade.</p> - -<p>—Ah! Jesus de Nazareth—pensava eu—é o unico homem que nos poderia -salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples, -que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção?</p> - -<p>Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal, -terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o -homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma -melancholica e transcendente?</p> - -<p>O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas -largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a -Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias -a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz, -porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este -movimento popular?</p> - -<p>Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede -soccorro.</p> - -<p>—Porque não?!—dizia eu—Surprehendi já nos seus olhos uma vontade -dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo?</p> - -<p>E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me, -como inesperadas consolações.</p> - -<p>O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos -porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir -dos bois: tinha a<span class="pagenum" id="Page_229">[229]</span> sensação de natureza verde, de tempos repousados, -contentes.</p> - -<p>O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga -escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do -portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza, -cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender -ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e -limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura, -nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado, -dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os -mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos, -tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a -indifferença.</p> - -<p>O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado, -suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar -á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus -campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin. -N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção -que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves, -idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da -Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica, -toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.</p> - -<p>Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade, -de desdem. E onde tinha tomado<span class="pagenum" id="Page_230">[230]</span> o doce Mestre do lago a energia, a -resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no -ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de -Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado -póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas, -a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude -indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias -sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições -pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma -acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu -ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior -do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a -argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar -o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e -transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce -futuro, terno, purificado, coberto de luz!</p> - -<p>E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as -hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de -egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro, -hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem? -Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus, -como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias, -escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um -templo edificado como<span class="pagenum" id="Page_231">[231]</span> uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com -amargura para as edificações de Herodes, o grande!</p> - -<p>Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do -Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no -meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de -tantas forças civis!</p> - -<p>Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus -olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou -um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas -incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava, -infinitamente triste, com um desdem abatido.</p> - -<p>Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias: -mas um grande rumor encheu o templo.</p> - -<p>Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o -baixo recinto do templo.</p> - -<p>Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de -vozes, de gritos penetrantes.</p> - -<p>Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus, -couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, -phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da -lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações. -Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía, -abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros -desmanchados, os pés riscados de sangue,<span class="pagenum" id="Page_232">[232]</span> a tunica despedaçada, o rosto -levemente aquilino tomado de afflicção.</p> - -<p>A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores -de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario: -vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com -fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os -coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.</p> - -<p>Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus: -havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e -estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam -avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes -balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça -de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os -pateos.</p> - -<p>O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos -seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os -soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada, -abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes -cabellos, com uma semelhança pagã.</p> - -<p>Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para -Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:</p> - -<p>—Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que -foi achada em adulterio nos porticos do templo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_233">[233]</span></p> - -<p>—Lapidada! lapidada!—prorompeu a multidão.</p> - -<p>Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se -os gritos agudos, arrastados, das mulheres.</p> - -<p>Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os -soldados riam.</p> - -<p>O escriba fallava, com gestos abundantes:</p> - -<p>—Rabbi—dizia—a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera -deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas -tu, Rabbi?</p> - -<p>Jesus olhou o escriba serenamente.</p> - -<p>—O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados—gritou alguem entre -a multidão.</p> - -<p>Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava:</p> - -<p>—Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos!</p> - -<p>E um phariseu bradou:</p> - -<p>—É o Salomão das mulheres perdidas.</p> - -<p>Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio -onde anda escripta a lei, e exclamava:</p> - -<p>—Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.</p> - -<p>O povo cruel dizia n'um clamor:</p> - -<p>—Lapidada, que seja lapidada!</p> - -<p>Alguns phariseus gritavam:</p> - -<p>—E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth!</p> - -<p>Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia -templaria. A multidão era espessa:<span class="pagenum" id="Page_234">[234]</span> os mendigos apregoavam -<i>posca</i>; os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas -d'escarlate: os doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as -chagas, dizendo os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas -cabeças de legionarios espreitavam.</p> - -<p>Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:</p> - -<p>—Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.</p> - -<p>Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as -costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas -barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os -phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:</p> - -<p>—Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que -despreza a lei.</p> - -<p>Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin.</p> - -<p>Mas na multidão havia uma oscillação: sentiam-se gritos, risadas -joviaes, vozes; o povo afastava-se: e d'entre a sua escura espessura -vinha empurrado, repellido, atirado, um homem.</p> - -<p>E vozes alegres bradavam:</p> - -<p>—Ahi vae Jesus Bar'Abbas, ahi vae!</p> - -<p>O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, n'essa -aspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus.</p> - -<p>Era Bar'Abbas.</p> - -<p>Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages.</p> - -<p>E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se,<span class="pagenum" id="Page_235">[235]</span> recuava, e tomando, com -ambas as mãos, violentamente, uma ponta da tunica, estendeu-a para a -multidão, gritando:</p> - -<p>—Quem dá para o luto?</p> - -<p>O povo ria; bradava:</p> - -<p>—Lapidae-a, lapidae-a!</p> - -<p>Bar'Abbas dizia:</p> - -<p>—Lapidae-a, dae-me para o luto!</p> - -<p>E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava.</p> - -<p>Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os phariseus, os escribas -diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei.</p> - -<p>—Falla, Rabbi, falla!—gritavam-lhe d'entre a multidão.</p> - -<p>Mas Jesus olhava sereno, calado.</p> - -<p>Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente, -colerica, bradou:</p> - -<p>—Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer -o perdão da mulher adultera.</p> - -<p>Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a -morte.</p> - -<p>Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso, -irritado:</p> - -<p>—Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle -manda lapidal-a.</p> - -<p>Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua -estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse:</p> - -<p>—Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se<span class="pagenum" id="Page_236">[236]</span> julgar sem peccado, -que lhe atire a primeira pedra!</p> - -<p>A sua voz era forte, concava, mysteriosa:—assustava.</p> - -<p>A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se: -os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos -choravam: vozes diziam:—É o Messias, é o Messias! Todos se -dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos.</p> - -<p>Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos -irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da -milicia templaria.</p> - -<p>Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava -concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha -educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que -nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial, -a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações -inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.</p> - -<p>—Sim, sim—dizia eu—Jesus de Nazareth, pelo seu genio simples e -justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre -a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela -influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez, -a ser a regeneração d'Israel. Se elle tem apenas o espirito, eu terei -por elle a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, timido, mais especulativo -que activo, como poderia eu ser o homem decisivo d'uma insurreição?!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_237">[237]</span></p> - -<p>Mas o tedio da vida presente, uma mocidade ávida d'acção, o desdem -irreconciliavel pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em -mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo -de me approximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de -Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a -Jesus de Nazareth. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta -dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: <i>Shalon</i>, -que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta -fallaria a Jesus.</p> - -<p>Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com -aquelle homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo -me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais -prompto de fé.</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_239">[239]</span></p> - -<h3>IX</h3> - - -<p>Á hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares, que têm a -sua raiz na encosta, onde assenta o bairro de Bezetha: era n'um horto, -junto ao monte das Oliveiras, que eu ia vêr Jesus de Nazareth.</p> - -<p>A noite estava cheia d'um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob -as largas ramagens: um silencio doce occupava a terra. Ouvi apenas um -canto, triste, arrastado: alguma pobre mulher embalava o filho, chorava -o marido levado para as legiões de Roma.</p> - -<p>O homem que me guiava, abriu uma porta, estreita, de vime: entrei n'um -espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura d'agua, cheiro -do plantas.</p> - -<p>A lua allumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de -pedra: ahi, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro, -o olhar afogado no espaço allumiado, estava Jesus.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_240">[240]</span></p> - -<p>Ergueu-se lentamente, e disse:</p> - -<p>—Paz.</p> - -<p>—Paz e alegria, Rabbi!—disse eu.—Velavas?</p> - -<p>—Velo sempre. Bemaventurado o que vela! Elle é como o servo diligente, -que espera acordado o seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente -chegar, corre logo a abrir.</p> - -<p>Jesus calou-se, perdendo o olhar no ineffavel espaço luminoso.</p> - -<p>Eu approximei-me, e com uma voz profunda, convencida, disse:</p> - -<p>—Creio em ti, Mestre!</p> - -<p>Jesus olhava, enlevado, transcendente.</p> - -<p>Havia um silencio: eu estava constrangido, e dizia para o chamar ás -nossas communs imaginações:</p> - -<p>—Rabbi, o que é necessario, segundo pensas, para alcançar, feliz, a -vida eterna?</p> - -<p>Jesus pousou em mim, demoradamente, os seus olhos severos.</p> - -<p>—Serves o templo—disse—serves a lei, e não conheces a lei; a lei que -diz?</p> - -<p>—A lei—disse eu—ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros -como a nós.</p> - -<p>—E eu digo como a lei.</p> - -<p>E olhava-me, penetrantemente: fallava como n'um sonho, ou a alguem -invisivel.</p> - -<p>—Não se póde servir bem a dois amos: um d'elles se ha de desprezar, -outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.</p> - -<p>Comprehendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um -emissario do templo<span class="pagenum" id="Page_241">[241]</span> para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho -contra elle.</p> - -<p>Respondi com uma dignidade dura:</p> - -<p>—Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Elle sabe que -creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por -traz das portas dos blasphemadores da lei. O meu corpo serve e vive no -templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado comtigo, em desejo e -em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João.</p> - -<p>O Rabbi considerava-me attento.</p> - -<p>—O homem—disse elle—dá testemunho do homem: só Deus conhece os -corações.</p> - -<p>—Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente d'Israel, -tu julga, ou condemna minha alma.</p> - -<p>Dizia isto grave, firme, aspero. Jesus de Nazareth, com o rosto -esclarecido, disse-me docemente:</p> - -<p>—A fé salva.</p> - -<p>E depois d'um momento:</p> - -<p>—E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou?</p> - -<p>—Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Baptista ressuscitado; outros -que és o Messias; os phariseus pensam que és um blasphemador ambicioso, -ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade.</p> - -<p>—E tu quem dizes que eu sou?</p> - -<p>—Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciencia das coisas -divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, n'um tempo -humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as<span class="pagenum" id="Page_242">[242]</span> hypocrisias, -vingar a patria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve -ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito -estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o -phariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador!</p> - -<p>—Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a -perdel-as.</p> - -<p>—E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este -sacerdocio rico e indifferente, este culto ensanguentado e hypocrita? -É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre -choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbitrio dos favoritos -imbecis de Tiberio?</p> - -<p>—Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.</p> - -<p>—Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te -pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando -no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casaes? E pensas que -isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha secca? -Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras -das creanças de Chorasin, e contando parabolas, entre os campos, aos -simples e ás mulheres? Comprehendo que a tua ambição não seja maior, -e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples. -Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se -tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu, -se não és uma forte intensidade de vontade? As maximas que tu prégas -são de Hillel, são<span class="pagenum" id="Page_243">[243]</span> de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha -coisas novas no teu ensino, mas o que n'ellas ha de grande é a tua -força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor -do sacrificio, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas -qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de -Caná? Não podia teu pae ser levado legionario para Roma? De que nos -servem essas parabolas, essas ironias, essas respostas excellentes, se -ellas não vão ferir a riqueza do saducceu, a hypocrisia do escriba, -a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as -predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade -abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado, -civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das -trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunaes, templos, -officios, mercados, sacerdocios, escolas, tudo fortemente ligado, -se dissipe como uma visão, porque um homem sympathico se ergue n'um -caminho e diz:—Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pae -celeste!—Não! tal não será, Rabbi!</p> - -<p>—Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta—eu sei?—como -um grão de mostarda, e dissesseis áquelle monte: passa-te d'ahi! o -monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando -estarei entre ti?</p> - -<p>O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso.</p> - -<p>—Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus. -Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós soffremos e choramos muito -baixo na terra.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_244">[244]</span></p> - -<p>Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:</p> - -<p>—Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realisar -o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te -aos homens que têem a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas: -nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz -sem um propheta! Como tens tu pensado realisar o teu reino de Deus? -Pela doçura e pela paciencia, ou pela força e pela revolta? Não pódes -hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que -te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas, -com os miseraveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as -creanças que te sorriem?</p> - -<p>—Deus esconde muitas coisas aos sabios, que revela ás creanças.</p> - -<p>—Para que pregas então no templo, contra os phariseus e os principes?</p> - -<p>—Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração!</p> - -<p>—Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que -só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem?</p> - -<p>—Só o desdem dá a paz.</p> - -<p>—Dá a inercia, o sacrificio e as virtudes passivas. E se ámanhã tu -pudesses começar a vêr realisado no mundo esse reino dos pobres, dos -simples, dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada -para a tua palavra? Se visses tudo transformado, por uma acção -energica, revolucionaria, pela nossa acção?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_245">[245]</span></p> - -<p>Jesus caminhava, inquieto: o seu olhar vibrava. As minhas palavras -davam-lhe inesperadas perturbações.</p> - -<p>Nós viamos o templo luzir na branca polidez da pedra sob o luar: eu -dizia-lhe, profundo:</p> - -<p>—Olha, vê o templo: hoje alli tudo é intriga, artificio, apparato, -riqueza, sangue, hypocrisia, vaidade: ámanhã seria o logar mais santo -da terra.</p> - -<p>Jesus cobria o templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu -desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto á face:</p> - -<p>—Ouve: em Jerusalem ha descontentes: alguns membros do sanhedrin estão -irritados com a familia d'Elanan, com Beothos: Gamaliel não ama o -templo: o baixo povo do mercado detesta phariseus e escribas; é nosso; -a Galilea é nossa; a Perea é nossa; mandar-se-ão emissarios a Joppé; -toda a Judea se erguerá:—tu serás o propheta. Queres? O teu sonho do -lago de Tiberiade será então vivo, real, palpavel, existente sob as -nuvens!—Queres?</p> - -<p>A noite era immortalmente bella: havia uma bondade no ar: o mundo -parecia-me possuido de um elemento diverso.</p> - -<p>Eu fallava confusamente, ora contra os phariseus, ora contra os -romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal, -nem a inercia d'um povo egoista. Uma grande tentação captivou o -espirito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos:</p> - -<p>—Rabbi, Rabbi, depois do phariseu, será a vez do romano! Tu serás o -maior da Judea: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico, -terás aniquilado<span class="pagenum" id="Page_246">[246]</span> o hypocrita, terás expulso o romano: serás pela -justiça egual a Ezequiel, pela força egual aos Machabeus: serás como -David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de -Israel.</p> - -<p>Eu fallava exaltado: mostrava-lhe Jerusalem e dizia-lhe:</p> - -<p>—Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel!</p> - -<p>Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e -transcendente o ceu cheio da lua serena, o ineffavel silencio, a pura -belleza do infinito, o profundo mysterio onde Deus habita, disse-me:</p> - -<p>—Vae-te: o meu reino não é d'este mundo!...</p> - -<p>Olhei longamente o Rabbi, lamentei o seu desdem, sorri da sua palavra: -e calado, concentrado, sahi pelo caminho de Betphagé.</p> - -<p>Uma claridade apparecia: os gallos cantavam. No outro dia, pela hora da -tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galilea.</p> -<div class="footnotes"> -<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> Este trabalho de Eça de Queiroz, escripto por occasião da -sua viagem ao Egypto e á Palestina em 1869, foi publicado em 1870 na -<i>Revolução de Setembro</i>, ficando todavia incompleto.</p> - -<p class="right"> -(<i>N. dos E.</i>)<br /> -</p> -</div> - -</div> - - - -<p class="center p2">FIM</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2> -</div> - - -<table class="autotable"> -<tr><th></th><th class="tdr">Pag.</th></tr> -<tr><td class="tdl"><a href="#INTRODUCCAO">Introducção</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_v">v</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"><a href="#NOTAS_MARGINAES">Notas marginaes</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_1">1</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#MACBETH">Macbeth</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_15">15</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#A_LADAINHA_DA_DOR">A ladainha da dôr</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_27">27</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#ENTRE_A_NEVE">Entre a neve</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_45">45</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#OS_MORTOS">Os mortos</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_57">57</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#A_PENINSULA">A Peninsula</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_65">65</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#O_MIAUTONOMAH">O «Miautonomah»</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_75">75</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#MYSTICISMO_HUMORISTICO">Mysticismo humoristico</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_85">85</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#O_MILHAFRE">O milhafre</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_93">93</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#LISBOA">Lisboa</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_103">103</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#O_SENHOR_DIABO">O Senhor Diabo</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_115">115</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#UMA_CARTA">Uma carta</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_133">133</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#O_LUME">O lume</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_147">147</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#MEPHISTOPHELES">Mephistopheles</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_155">155</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#MEMORIAS_DUMA_FORCA">Memorias d'uma forca</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_161">161</a></td></tr> -<tr><td class="tdl"> -<a href="#A_MORTE_DE_JESUS">A morte de Jesus</a></td> -<td class="tdr page"><a href="#Page_173">173</a></td></tr> -</table> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="ERRATA">ERRATA</h2> -</div> - - -<p><a href="#Page_xxv">Pag. <span class="allsmcap">XXV</span></a>, linha 8: onde se lê <i>Poo</i>, deve lêr-se -<i>Poe</i>.</p> - -<p><a href="#Page_xxxiv">Pag. <span class="allsmcap">XXXIV</span></a>, linha 14: onde se lê <i>Trata-se das viagens dos -Deuses</i>, deve lêr-se: <i>Trata-se, na «Symphonia de abertura», das -viagens dos Deuses</i>, etc.</p> - -<p><a href="#Page_xlv">Pag. <span class="allsmcap">XLV</span></a>, linha 6: onde se lê <i>Roberpierre</i>, deve lêr-se -<i>Robespierre</i>.</p> - -<p><a href="#Page_58">Pag. 58</a>, linha 4: onde se lê <i>embalarem-se</i>, deve lêr-se -<i>embalar-se</i>; mesma pag., linha 5: onde se lê <i>estirarem-se</i>, -deve lêr-se <i>estirar-se</i>; mesma pag., linha 8: onde se lê -<i>acalentarem</i>, deve lêr-se <i>acalentar</i>.</p> - -<p><a href="#Page_63">Pag. 63</a>, linha 2: onde se lê <i>com o amores</i>, deve lêr-se <i>com os -amores</i>.</p> - -<p><a href="#Page_88">Pag. 88</a>, linha 15: onde se lê <i>enchiam-me</i>, deve lêr-se -<i>enchia-me</i>.</p> - -<p><a href="#Page_168">Pag. 168</a>, linha 21: onde se lê <i>eram paus, uma alma</i>, deve lêr-se -<i>eram, pois, uma alma</i>.</p> - -<p><a href="#Page_172">Pag. 172</a>, linha 10: onde se lê <i>pastarem-me</i>, deve lêr-se -<i>pastar-me</i>.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter transnote"> -<h2 class="nobreak" id="Notas">Notas</h2> - - -<p>Os problemas na errata foram corrigidos.</p> - -<p>Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.</p> -</div> - -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>PROSAS BARBARAS</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. 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