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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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-The Project Gutenberg eBook of Prosas barbaras, by Eça de Queirós
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: Prosas barbaras
- com uma introd. por Jayme Batalha Reis.
-
-Author: Eça de Queirós
-
-Contributor: Jaime Batalha Reis
-
-Release Date: September 13, 2022 [eBook #68986]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the
- Online Distributed Proofreading Team at
- https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by The Internet Archive)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK PROSAS BARBARAS ***
-
-
-
-
-
-Obras do mesmo auctor
-
-
- =O crime do padre Amaro.= Quarta edição inteiramente refundida,
- recomposta, e differente na fórma e na acção
- da edição primitiva. 1 grosso volume 1$200
- =Os Maias.= Segunda edição. 2 grossos volumes 2$000
- =A Cidade e as Serras.= 800
- =O Mandarim.= Quarta edição. 1 volume 500
- =O primo Bazilio.= Quarta edição. 1 grosso volume 1$000
- =A Reliquia.= Terceira edição. 1 grosso volume 1$000
- =Contos.= 1 volume 600
- =As minas de Salomão.= 1 volume 600
- =Correspondencia de Fradique Mendes.= 1 volume 600
- =Revista de Portugal.= 4 grossos volumes 12$000
- =A Illustre Casa de Ramires.= 1 volume 1$000
-
-
- _No prélo_:
-
- =Cartas de Inglaterra.=
- =Echos de Paris.=
- =S. Christovam= (inedito).
-
-
-[Illustration: Monumento erigido a Eça de Queiroz
-
-Obra do eminente esculptor Teixeira Lopes]
-
-
-
-
- EÇA DE QUEIROZ
-
- PROSAS
- BARBARAS
-
- Com uma Introducção por Jayme Batalha Reis
-
- [Illustration]
-
- PORTO
- LIVRARIA CHARDRON
- LELLO & IRMÃO, EDITORES
-
- 1903
-
- Todos os direitos reservados.
-
-
-
-
-Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
-Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a
-garantia que lhe offerece a lei n.ᵒ 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o
-competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do
-art. 13.ᵒ da mesma Lei.
-
-
-_Porto--Imprensa Moderna._
-
-
-
-
-INTRODUCÇÃO.
-
-Na primeira phase da vida litteraria de Eça de Queiroz.
-
-
-I
-
-Julgaram os Editores d'este livro ser necessario explicar como elle se
-escreveu e se denominou.
-
-Fui talvez a testemunha mais proxima da redacção dos escriptos agora
-reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparavel do
-author. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biographia. Tento
-esboçar n'ella a figura do homem e a do escriptor, taes como as
-conheci, ao formarem-se as creações d'este livro,--as circumstancias e
-os espiritos que influenciaram a aliás extraordinaria originalidade do
-genio d'Eça de Queiroz.
-
-Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus
-_Folhetins_ na _Gazeta de Portugal_, que fôra fundada por Antonio
-Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 annos antes
-da apparição do primeiro d'elles e terminou (Janeiro de 1868,) pouco
-mais d'um anno depois da publicação do ultimo, sendo,--em rivalidade
-com a _Revolução de Setembro_, dirigida por Rodrigues Sampaio,--o
-mais brilhante periodico do tempo. A _Gazeta de Portugal_ publicava,
-além das do seu fundador, frequentes producções de Antonio Feliciano
-de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebello da Silva, Camillo
-Castello Branco, Julio Cesar Machado, Thomaz Ribeiro, Zacharias
-d'Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha Rivara,--quasi todos
-os consagrados de então. Os _Novos_ que ahi escreviam, ficavam,
-por este facto, para logo consagrados. Ahi primeiro appareceram no
-_folhetim_, triumphalmente, Matheus de Magalhães, Pinheiro Chagas,
-Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio de Freitas.»)
-Todos estes escriptores se continuavam uns aos outros, sem contrastes
-nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas acceites e
-classificadas pelos applausos d'um publico hereditariamente satisfeito.
-
-Em 1866 a _Gazeta de Portugal_ entrára porém em decadencia; começava
-a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu o formato. A
-14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal, poeta, dramaturgo,
-romancista, historiador, estadista, orador, diplomata,--para muitos,
-«o mestre», legitimo successor de Almeida Garrett,--despedira-se da
-direcção litteraria que até então, pelo menos nominalmente, exercera.
-Os collaboradores litterarios mais assiduos, mais legitimamente
-representantes do gosto geral, eram já então, no _folhetim_ da _Gazeta
-de Portugal_, Santos Nazareth e Luiz Quirino Chaves. Por essa epoca
-Teixeira de Vasconcellos publicou ahi o seu romance _A Ermida de
-Castromino_, seguido, desde os primeiros dias de 1866, por _O Diamante
-do Commendador_ do visconde Ponson du Terrail...
-
-Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a apparecer uns
-_Folhetins_ assignados «Eça de Queiroz».
-
-Ninguem conhecia a pessoa designada por estes appelidos que, por algum
-tempo, se suppoz serem um pseudonymo.
-
-Os _Folhetins_ de Eça de Queiroz foram todavia notados;--mas como
-novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde
-a Redacção da _Gazeta de Portugal_, até aos centros intellectuaes
-reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do
-publico. Para este, uma ou outra phrase os arrumou logo no que então
-se chamava «a Escola Coimbran»,--centro litterario e philosophico
-dedicado, como se suppunha, a escrever por modo systematicamente
-inintelligivel. Citavam-se, por modelos de comico inconsciente,
-as scenas, as imagens, os epithetos d'esses _Folhetins_, lidos
-em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias
-Silva e Rodrigues, no Gremio litterario, nos Salões poeticos e
-politicos e n'outros centros representativos do tempo. O Severo,--o
-Severo dos Anjos,--principal e celebre Noticiarista da _Gazeta de
-Portugal_, entalando o monoculo ao canto do olho direito, inventava
-quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus _Folhetins_,
-epigrammas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos,
-exagerando, com intenção comica, o seu natural gaguejar, concluia:
-
---Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra,
-que seja inteiramente doido, que haja nos seus _Contos_, sempre, dois
-cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que escre...va...va...va em
-francez.
-
-Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses _Folhetins_,--em
-Dezembro de 1867,--já ninguem pensava no author d'elles.
-
-Que importava ao Café Martinho, ao Gremio _supposto_ litterario, e aos
-circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo estylo?
-Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento... não sei que;
-os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia seguiam o seu
-curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que dormitavam... e
-nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes cultas.
-
-
-II
-
-Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias
-que é inutil mencionar frequentava a Redacção da _Gazeta de Portugal_,
-no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de S. Carlos.
-
-Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito
-magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça
-pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto
-intenso e amarello desmaiado:
-
-Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta
-e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas,
-o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa
-triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre
-olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito
-negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca
-grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de
-marfim velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços,
-faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de
-copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo XVI
-que se veem nos retratos do Duque d'Alba, de Philippe II de Hespanha,
-ou de Henrique III de França.
-
-Era o Eça de Queiroz.
-
-Contava o quer que fosse a um tempo tragico e comico, nervosamente,
-dando a espaços gargalhadas--_ricanements_, como se diria em
-francez,--curtas, e sinistras.
-
-O Severo, de monoculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda,
-amarella e ironica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.
-
-Saí n'essa noute do Escriptorio da _Gazeta de Portugal_ com o Eça de
-Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por annos,
-não nos separámos quasi.
-
-O Eça de Queiroz terminára em 1866 o curso de Direito na Universidade
-de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pae era magistrado. Por
-tradicções de familia, e como consequencia natural dos seus estudos,
-deveria seguir, elle tambem, a magistratura official, ou, pelo menos,
-fazer-se advogado. Supponho que n'este intuito frequentou algum tempo
-um Escriptorio em Lisboa.
-
-Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a
-ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas.
-
-Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do
-predio n.ᵒ 26. O seu quarto--pequeno, com uma mesa ao centro e uma
-estante para poucos livros,--dava para a rua do Principe. Ahi foram, em
-parte, escriptos os _Folhetins_ das _Prosas barbaras_.
-
-
-III
-
-Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:
-
-Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos
-logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco
-frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.
-
-Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O
-Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado
-de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz
-comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira
-chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa
-continuar a beber café, ás vezes até madrugada.
-
-N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos
-_Contos_ agora reunidos em volume.
-
-Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do
-Guarda-mór,[1] em pleno Bairro alto.
-
-No meu quarto de estudante[2] havia um grande armario cheio de livros,
-cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se
-escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por
-Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a
-Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi
-sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos
-Calafates[3] em frente a predios baixos que, por isso, não impediam
-o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma
-impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios
-moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando
-activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes,
-para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam,
-pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o
-_Eterno feminino_.
-
-Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com
-um rolo de papel na mão, dizendo:
-
---Sou eu, sim, amigo.
-
-E alludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequencia,
-phantasticamente appareciam nos seus _Contos_, accrescentava:
-
---Sou eu e os meus abutres: Vimos crear, devorando cadaveres!
-
-Muitas cousas preoccupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava:
-
-Durante tempos só poude escrever em certo papel almaço, que elle
-proprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41
-da rua larga de S. Roque.
-
-Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por
-isso, no ultimo momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já
-este inopportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso,
-antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicavel.
-
-Tinha o terror das correntes d'ar, e andava continuamente a fechar a
-janella, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava,
-murmurando em voz cava:
-
---É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino!
-
-A luz do candieiro de petroleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de
-modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre
-o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o _abat-jour_, com longas
-tiras de papel.
-
-Não podia supportar poeira nas mãos, e levantava-se a miudo da mesa
-para ir, cuidadosamente,--interrompendo a composição, mas recitando em
-voz alta as phrases que tinha escripto,--lavar as pontas dos dedos.
-
-Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o
-papel que olhava muito de perto.
-
-E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não
-attendia a cousa alguma,--embrulhando o cigarro, indo lavar as mãos ou
-fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas
-altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando
-ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente
-as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde
-ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.
-
-Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco:
-As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente,
-e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a
-desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma,
-acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe
-occorria.
-
-Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus _Contos_, a figura e
-a voz completavam-lhe as phantasticas creações:
-
-Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica,
-livido,--na penumbra das projecções do candieiro,--os olhos esburacados
-por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o
-pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado,
-os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e
-espanto, a voz lugubre, sentimental,--emphaticamente pathetica, ou
-gargalhando sinistramente,--declamava.
-
-Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos
-havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,--ou
-estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé
-e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia
-phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então,
-n'esses bairros, mouriscas ou medievaes.
-
---Ás casas sem luz,--escreveu Eça de Queiroz,[4]--teem o aspecto calmo
-e sinistro dos rostos idiotas.
-
-D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura,
-divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens
-agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos
-ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos
-se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras...
-Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de
-sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis...
-Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram
-varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de
-se dispersarem pela cidade.
-
-Nas noutes mais serenas,--nas noutes de luar,--saíamos da cidade e
-íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo,
-conversando, improvisando, até nascer o Sol.
-
-De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás
-nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha
-casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a
-roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma
-mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo,
-respectivamente, e dispondo as botas á porta,--para que o meu
-creado as limpasse, sem nos acordar,--tambem, pelo mesmo methodo,
-ordenadamente emparelhadas.
-
-E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos
-supersticiosos, murmurava persignando-se:
-
---É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas:
-Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos
-acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados.
-
-Na epoca em que se publicaram os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_,
-eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O mais assiduo
-era, por esse tempo,--além do Eça de Queiroz, o Salomão Saragga
-que, quando apparecia, se occupava toda a noute em explicar-nos,
-simultaneamente, a construcção de carruagens, a fabricação de tecidos
-com desperdicios de lan, o livro do Propheta Isaias, e os Historiadores
-das origens do Christianismo.
-
-De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:
-
---Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar.
-Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto
-humano,--inverosimil, se fôr possivel tanto,--a aventura, a lenda em
-acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,--o
-João de Sá Nogueira,--d'Artagnan d'Africa em disponibilidade.
-
-E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar,
-que á ceia nos contava,--durante o bacalhau com batatas, o meio biffe,
-e o Collares,--as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.
-
-
-IV
-
-Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de
-Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor
-historico.
-
-O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do
-meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto
-Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores
-mestres da especialidade em Lisboa.
-
-N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o _Pot-pourri_ e as
-_Variações_. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero
-de _Rêveries_. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido ao
-piano, attingia-se com os _Nocturnos_ de Ravina e Döhler. Os arranjos
-operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes realisado.
-
-Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára piano,
-harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como repertorio
-de estudo, os _Preludios_ e _Fugas_ de Bach, as _Sonatas_ de Mozart e
-Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann e Chopin.
-
-Os _Folhetins_ de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só
-comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que,
-justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos
-grandes creadores da musica moderna.
-
-Esses _Folhetins_ pareceram-me uma grande novidade,--não tanto nos
-assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim
-encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura
-portugueza, insufficientissimamente revelados.
-
-Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses _Folhetins_ eram, ainda no
-anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da lingua
-portugueza;--como haviam sido, para todo o sul da Europa, á apparição
-do _Romantismo_ francez nos primeiros annos do seculo XIX, as mesmas
-ideias e estylos semelhantes.
-
-N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que
-geralmente se denomina um _Romantico_. Elle proprio dizia da epoca
-immediatamente anterior:
-
-«N'aquelles tempos o _Romantismo_ estava nas nossas almas. Faziamos
-devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»[5]
-
-E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se
-gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica»
-que leva ao «hospital romantico...»[6]
-
-Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais
-evidentes da Litteratura, uma inalteravel saude: Só certos factos do
-espirito perfeitamente determinados,--só as ideias e os sentimentos
-susceptiveis de clara determinação,--eram n'essa Litteratura expressos.
-Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos,
-os generos litterarios,--tudo parecia claramente, definitivamente
-assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema
-de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações, com o
-minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na Europa,
-em geral, a gente culta, do seculo XVI ao seculo XVIII.
-
-Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes
-inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos
-sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos
-se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas
-dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se
-transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou
-exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções
-de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o
-branco descobriram-se gradações infinitas.
-
-Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou
-então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos
-psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos,
-susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns
-que podiam ser nitidamente,--como que linearmente,--desenhados,
-inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só
-podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se
-por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias
-e os sentimentos que todos os homens conscientemente reconhecem
-como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos
-inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote,
-prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das
-almas.
-
-Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito,
-resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos
-pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais
-conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas
-as nevroses.
-
-Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos
-estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a
-pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,--por isso
-quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais
-exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes.
-
-Toda esta revelação espiritual,--toda esta descoberta de regiões
-ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de
-aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de
-moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,--pareceu ser, ás
-gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença
-mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.
-
-A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido,
-o nome de _Romantismo_,--facto esthetico, ainda hoje em busca de
-sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece
-poder essencialmente definir-se, como a _procura directa_ de _fórmas
-de expressão_, para todos os sentimentos e todas as ideias, por isso,
-para as _mais intimas ideias_ e os _mais vagos sentimentos_ do espirito
-humano.
-
-Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo
-XVIII, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa durante
-o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis
-neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em
-Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio
-e saude normal.
-
-O _Romantismo_ pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada d'essa
-«Edade media».
-
-É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da
-Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças
-humanas,--com o integral resultado de forças naturaes que são,--deram
-fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido
-tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e
-da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado,
-cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua
-phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes,
-com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos
-christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou
-mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e
-haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre
-animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações
-de espiritos e actividades.
-
-Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade Media,
-sem duvida solicitaram a interpretação dos _Romanticos_, cuja rasão de
-ser, cuja missão era tambem, como já mostrei, expressar completamente,
-até aos mais profundos e subtis, todos os factos do espirito.
-
-Mas o chamado _Romantismo_ deu-se na Europa dos fins do seculo XVIII
-aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse tempo a Litteratura
-do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda apresentar o
-_romantico_ Eça de Queiroz aos _Romanticos_ portuguezes de 1866?
-
-É o que vou explicar:
-
-O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa,
-e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e
-nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as
-terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres
-elementares.[7]
-
-N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez,
-definição, brilho,--e correlativamente perdendo meias tintas,
-claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com
-simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas
-das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das
-atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões
-profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava
-tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente
-aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os _Romanticos_ das
-raças do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por
-uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos
-de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na
-construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado
-da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma
-humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da
-Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas
-mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos.
-
-Eis porque tantos romanticos portuguezes,--no extremo dos paizes claros
-do meio dia,[8] só fôram superficialmente romanticos.
-
-Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis
-do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do
-explicavel,--como que para preencher as lacunas deixadas no
-completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do
-comprehensivel,--existem com effeito, infinitamente, as necessidades
-mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.
-
-É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas
-estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem
-completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.
-
-Essas fórmas constituem a _Arte_ e a _Litteratura mystica e
-phantastica_.
-
-A França,--a mais norte das Nações definidoras,--recebeu, em grande
-parte, a sua _Litteratura phantastica_ da Allemanha. Da Allemanha, por
-intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a 1867,
-em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.
-
-E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades
-intimas e latentes, me commoveu ella,--a mim e a outros espiritos
-contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem
-sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos
-das raças e dos climas claros e definidores do sul.
-
-
-V
-
-Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de
-Queiroz,--aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas
-primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu
-posso dar testemunho,--fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo
-de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente,
-mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e,
-envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.
-
-A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,--a de
-Heine,--foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres
-contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por
-Anthero de Quental sob o nome de _Primaveras romanticas_, e no que este
-diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;[9] vê-se
-tambem nas poesias primeiro escriptas para o _Seculo_ XIX de Penafiel,
-de 1864 a 1865, e depois colligidas, com o titulo de _Lyra meridional_,
-por Antonio de Azevedo Castello Branco.
-
-Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas
-traducções francezas,--algumas feitas pelo proprio author, outras por
-este em collaboração com Gerardo de Nerval,--um caracter novo.
-
-Heine é para mim,--e não é para todos ainda hoje, mesmo na
-Allemanha,--um dos maiores escriptores das linguas germanicas.
-Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um
-verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades
-musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o
-francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se
-torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a
-um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do
-espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como
-que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos
-biblicos.
-
-Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,--que
-eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,--quando Eça de
-Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle
-me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos
-_Reisebilder_ onde Heine,--a quem a musica sempre suggeria fórmas e
-côres definidas,--conta as transformações phantasticas porque a seus
-olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação da
-sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo XVIII, assassino
-por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as abobadas
-de cathedraes, genio planeta entre as harmonias apotheoticas das
-espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos dos
-auditorios.
-
-Em muitas paginas das _Prosas barbaras_ se encontra a influencia d'esta
-lenda phantastica de Paganini.
-
-O conto a _Ladainha da dôr_, que tem o proprio Paganini por
-assumpto,[10] é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.[11] As
-_Notas marginaes_[12] parecem estancias do _Intermezzo_ ou do _Livro de
-Lazaro_.
-
-Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da
-França no _Romantismo_ germanico. Foi elle o primeiro traductor francez
-do _Fausto_ de Goethe, e, como já disse, o collaborador, com Heine, na
-traducção d'algumas das obras d'este ultimo.
-
-É evidente, nas paginas das _Prosas barbaras_, a influencia dos
-proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos
-mysteriosos e phantasticos sonetos que começam:
-
- _Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé,
- Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie...
- Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé
- Porte le soleil noir de la mélancolie!_...[13]
-
-Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu
-estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição
-mythographica e profunda,--sobretudo nos 8 primeiros volumes da
-sua _Historia de França_,--da _Edade media_, da _Renascença_ e da
-_Reforma_,--e, na _Sorcière_, pela materialisação sentimental e
-explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta Historia do
-Diabo,--foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de Queiroz.
-
-H. Heine,--allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um
-espirito francez,--Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam, em
-França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima e
-completa das suas obras, que o _Romantismo phantastico_ principalmente
-impressionou a Eça de Queiroz.
-
-Por toda a parte, nos escriptos das _Prosas barbaras_, se encontram
-os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular germanico, os
-aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades da Historia
-do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias do romantico
-portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas, «as velhas
-mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha a quem
-o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas de Vecker
-a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos Burgraves»,
-«os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo a alma
-pelo segredo da circulação do sangue»,--que passam de continuo nas
-narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da
-floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios»,
-as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia
-de Walpurgis, as cathedraes da Allemanha, o Rheno, o Mar do Norte,
-«a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem as velhas
-baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a poesia popular
-foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores... ás lareiras
-dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde vão os
-_Minnesingers_ errantes», onde se celebram as «kermesses de Leipzig» e
-se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer desenhou a sua
-_Melancolia_, onde correm as caçadas phantasticas do _Freischütz_ e
-passam os Imperadores do Santo Imperio, _Fausto_, _Mephistopheles_,
-_Margarida_, Luthero... Spohr Weber...
-
-O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua
-influencia consideravel em Eça de Queiroz,[14] só se deu d'uma maneira
-importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição em
-volume das _Flores do Mal_ só tarde lhe chegou ás mãos. Recordo-me,
-na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca do Gremio
-litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas francezas, as
-poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez publicado.
-
-Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio,
-impassivel, correcto de maneiras e _toilettes_, sempre preoccupado com
-a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o phantastico
-é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem duvida, em
-profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito; mas para
-principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão lucidamente
-estranha. N'elle o delirio é sempre critico, a nevrose intensa, mas
-methodisada. Cria na arte o _frisson nouveau_ que Victor Hugo celebra,
-mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores fórmas da sabia lingua
-franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé a pé, vibração a
-vibração.[15]
-
-São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva
-a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de
-transição, quando, gradualmente impressionado pelo _Realismo_ e por
-Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de
-escriptos.
-
-Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan
-Poe, que Eça de Queiroz,--ainda então ignorante de inglez,--só
-conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria
-com que o espirito americano determinou o nevrosismo das _Historias
-extraordinarias_, accentua-se ainda mais,--privado, em todo o caso, da
-indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,--nas fórmas
-logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França.
-
-Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato
-intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,--Musset,
-Gautier, Mallefille,--é sensivel n'este primeiro periodo da vida
-litteraria de Eça de Queiroz.
-
-As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se
-são pouco numerosas e superficiaes:--quasi sómente as da poesia
-popular,[16] e as de alguns seus companheiros de Coimbra,--João
-de Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz,
-o _Milhafre_[17] que suggerio a Anthero de Quental uma das suas
-poesias.[18]
-
-Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da
-lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e
-quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que
-nova lingua portuguesa.
-
-Mas esta _Introducção_ ás _Prosas barbaras_ tem por fim explical-as;
-não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que differenças
-profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico do Escriptor
-portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia poderosa de Eça
-de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens do norte e a
-imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador meridional;
-não tem emfim que provar como todas as influencias notadas se sentem
-apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente original,
-que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias paginas
-reunidas n'este livro.
-
-
-VI
-
-Na intenção d'Eça de Queiroz os _Folhetins_ da _Gazeta de
-Portugal_,--apesar da sua desconnexão episodica,--formavam serie,
-obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra systematica,
-cujos capitulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas,
-pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos:
-
-
-A
-
- --------------------------------+-----+--------+---
- _Symphonia de abertura_[19] | 1866|Outubro | 7
- _Macbeth_ | » | » | 14
- _Poetas do Mal_[19] | » | » | 21
- _A Ladainha da dôr_ | » | » | 28
- _Os mortos_ | » |Novembro| 4
- _As Miserias: I Entre a Neve_ | » | » | 13
- _Farças_[19] | » | » | 18
- _Ao Acaso_[20] | » | » | 27
- _O Miautonomah_ | » |Dezembro| 2
- _Mysticismo humoristico_ | » | » | 23
- --------------------------------+-----+--------+---
-
-
-B
-
- ---------------------------------+----+--------+---
- _O Milhafre_[22] |1867| Outubro| 6
- _Lisboa_[23] | » | » | 13
- _O Senhor Diabo_[24] | » | » | 20
- _Uma carta_ (_a Carlos Mayer_) | » |Novembro| 3
- _Da Pintura em Portugal_[21] | » | » | 10
- _O Lume_ | » | » | 17
- _Mephistopheles_ (_J. Petit_)[25]| » |Dezembro| 1
- _Omphalia Benoiton_[21] | » | » | 15
- _Memorias d'uma forca_ | » | » | 22
- ---------------------------------+----+--------+---
-
-O primeiro _Folhetim_ em data,--março de 1866,--as _Notas
-marginaes_,--tendo por epigraphe as phrases interrompidas d'uma trova
-á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela traducção
-franceza das Poesias de Heine, foi inserido, na _Gazeta de Portugal_,
-fóra do seu logar.
-
-Porque os _Folhetins_ teem uma introducção formal,--uma _Symphonia
-d'abertura_, que se publica a 7 de outubro de 1866,--e continuam, quasi
-sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23 de Dezembro do
-mesmo anno. Uma longa ausencia de Lisboa interrompe a publicação: Dos
-primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça de Queiroz reside
-no Alemtejo, onde funda e redige o _Districto d'Evora_, periodico
-politico, litterario e noticioso. Os folhetins da _Gazeta de Portugal_
-recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem até 22 de Dezembro do mesmo
-anno de 1867.
-
-A _Symphonia de abertura_[26] prepara, com efeito, o espirito para a
-ideia que os differentes trechos depois vão desenvolvendo. N'elles a
-phantasia,--livremente, irregularmente, fragmentariamente,--esboça,
-suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episodios, em
-allegorias phantasticas e como que musicalmente vagas:
-
-Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde
-os templos de Ellora,--onde elles andavam ferozes por entre os
-Elephantes,--até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando
-d'amor»... «desde a materia negra e informe, até ás serenidades vivas
-para além das nuvens, das estrellas e dos caminhos lacteos».
-
-N'estas viagens ideaes os Deuses teem uma companheira que intimamente
-estabelece a sua communicação com os homens,--a Arte.
-
-Da historia visionaria d'esta,--na longa peregrinação divina,--a
-_Symphonia de abertura_, faz-nos ouvir,--_adagio_ ou _vivace_, _piano_
-ou _forte_,--alguns trechos maravilhosamente instrumentados:...
-
-«Quando» os povos--na Chaldea, no Egypto, na Grecia,--«plantavam
-tendas debaixo das estrellas», ... e, mais tarde, em céos de profundo
-mysticismo christão, nas regiões transcendentes «onde as proprias
-estrellas são» apenas, «gotas de sombra...»[27]
-
-Entreveem-se, fluctuando em imagens, as differentes Artes:
-
-A Architectura «que se abriu em transparencias e transfigurações, como
-se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito».
-
-A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades,
-dissipando-se nos amollecimentos divinos...»
-
-«...no terror da natureza, onde o diabo era visivel... a alma allemã
-tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pallidos
-silencios que se exhalavam divinamente no canto...»
-
-Esvae-se «aquella melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos
-versiculos...»
-
-«Apparece Luthero», a alma allemã... que desfalecia n'aquellas
-melancolias immensas que Alberto Dürer revelou...»
-
-Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte,
-sumiu-se com a approximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões
-da carne...»
-
-Até que outra vez «se produziu, na nossa epoca, como a Grecia produziu
-a Esculptura, como a Europa gothica produziu a Architectura...»
-
-Chega-se assim aos tempos modernos:
-
-«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se
-chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e
-Shakespeare. A alma queria subir aquelles escarpamentos divinos para
-colher a flôr do ideal.»[28]
-
-A melancolia dá côr ao _Romantismo_...
-
-«O typo em quem se resumem todos os soffrimentos, todas as
-desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações, os
-lyrismos d'esta epoca pallida e doentia: _Fausto_, _Manfredo_, _Lara_,
-_Antony_, _Werther_, _Rolla_, _D. Juan_...» que saem então de «toda uma
-mocidade pallida e nervosa, de «toda uma primavera...»
-
-«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,--eis ahi a
-Musica...», «aquella vaga Ophelia que se chama Musica...», «uma voz
-inesperada em que se entendem os desconsolados...»[29]
-
-Constitue-se emfim a Musica moderna:
-
-«A Allemanha... a loura Allemanha de ideal seriedade, luminosa, um
-tanto nuvem, cheia de vapores e de constellações... A Allemanha que
-pensa com um doce ruido ineffavel», fórma a sua «Musica que é o vapor
-da Arte...»
-
-E, ao lado d'ella, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do
-palpavel... d'ondeante como seda invisivel».
-
-Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da _Symphonia de
-abertura_.
-
-Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os _Cantos
-fragmentarios_ d'um immenso _Poema_:
-
-O Universo é um infinito de almas. As cousas teem sentimentos
-humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de
-todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem
-nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas
-inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma
-é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente
-inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes,
-e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o
-sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e
-independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados
-destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida
-mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica
-e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.
-
-Com este vago thema geral, o _Poema_ em prosa d'Eça de Queiroz
-propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da
-visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra
-sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de
-vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,--todas as
-vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados
-d'uma escala musical;--era a phantasia tocando, um momento apenas,
-o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada
-pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e
-clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses
-de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos
-symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do
-christianismo,--a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria
-pallida e doce figura de Jesus,--vão egualmente perder-se e ser
-esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o
-calculo demonstravel.[30]
-
-Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,[31] e Michelet[32]
-recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»[33] que se ouviu pelo mundo
-ao apparecer de novas crenças.
-
-O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz
-é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então,
-a ironia,--que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do
-seu espirito,--fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques
-tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um
-mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é
-illusorio, que só parece povoado por metaphoras,--e enternece-se,
-e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as
-produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo,
-inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade,
-vagamente symbolisada por todas essas imagens.[34]
-
-Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente
-reaes,--da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em
-Coimbra,--é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que
-o seu espirito procura expressão.
-
-Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda,
-parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da
-arte.
-
-
-VII
-
-Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e
-originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a
-necessidade de metrificar,--quasi que o mesmo genero de necessidade
-de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa,
-pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas
-das mais patheticas inflexões.
-
-Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da
-concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica,
-apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a
-havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve
-sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos
-technicos da metrificação.
-
-São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume
-as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos
-alexandrinos:[35]
-
- Oh Satan tenebroso, tragico fulminado,
- Tu vencerás em mim o intimo Deus bom
- Não com as armas biblicas com que bateste os astros,
- Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.
-
-Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada
-com a assignatura de C. Fradique Mendes:[36]
-
-
-Serenata de Satan ás estrellas
-
- Nas noites triviaes e desoladas,
- Como vos quero, mysticas estrellas!...
- Lucidas, antigas camaradas...
- Gotas de luz no frio ar nevadas,
- Podesse a minha boca inda bebel-as!
-
- Não vos conheço já. Por onde eu ando!...
- Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz,
- Que Christo estaes no Céo crucificando?
- Quem triste pelo ar vos foi soltando
- Profundos, soluçantes ais de luz!
-
- Oh viagem nas nuvens desmanchadas!
- Doces serões do Céo entre as estrellas!
- Hoje só ais, ou lagrimas caladas...
- Ai! sementes de luz mal semeadas,
- Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!
-
- Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,
- Quando vos eu dizia soluçando:
- --Afastai-vos de mim cardos de luz!--
- Podesse eu ter agora os pés bem nus,
- Inda por entre vós i-los rasgando!
-
- * * * * *
-
- Hoje estou velho, e só, e corcovado;
- Causa-me espanto a sombra d'uma estola;
- Enche-me o peito um tedio desolado:
- E corro o mundo todo, esfomeado,
- Aos abutres do Céo pedindo esmola.
-
- Eu sou Satan o triste, o derrubado!
- Mas vós estrellas sois o musgo velho
- Das paredes do Céo deshabitado,
- E a poeira que se ergue ao ar calado,
- Quando eu bato com o pé no Evangelho!
-
- O Céo é Cemiterio trivial:
- Vós sois o pó dos deuses sepultados!
- Deuses, magros esboços do ideal!
- Só com rasgar-se a folha d'um missal,
- Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.
-
- Eu sou expulso, roto, escarnecido;
- Mas a vós já ninguem vos quer as leis
- Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido!
- Lembrae-vos que sois pó enegrecido
- E cedo em negro pó vos tornareis.[37]
-
-Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de
-improvisação poetica:
-
-Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz,
-o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem.
-
-A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.
-
-Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.
-
-Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré
-enchente fez-nos fluctuar.
-
-Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se
-levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa.
-
-Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em
-busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo,
-continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os
-nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle
-apenas pagaria um insufficiente repasto.
-
-Que fazer?
-
---Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,--fazendo o gesto consagrado
-de bater na testa.--Tenho uma ideia genial,--accrescentou, erguendo
-tremulamente os braços ao Céo:--Sigam-me.
-
-E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse,
-com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos
-invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios
-horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á
-calçada que leva de Belem á Ajuda.
-
-Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando.
-
-Seriam quasi 5 horas da manhã.
-
-Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa
-baixa, de janellas cerradas, e bateu.
-
-Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus
-somnos.
-
-O Eça de Queiroz explicou-nos:
-
---Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um _tiro_. Só elle nos póde
-salvar, n'este deserto.
-
-E continuou a bater durante minutos.
-
-Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta
-resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho,
-e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de
-caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro.
-
---Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas
-horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de
-produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar.
-Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello,
-com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India
-e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,--sequins,
-dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...
-
-O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões.
-
---Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,--disse o Eça de
-Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade.
-
-Voltámos a Belem.
-
-E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma
-guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a
-caldeirada que encommendáramos, o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do
-primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução
-seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:
-
- Christo deu-nos o amor,
- Robespierre a liberdade;
- Malheiro deu-nos tres pintos:
- Qual d'elles deu a verdade?
-
-O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica
-dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera
-jámais fazer versos,--mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo
-penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas
-humanas.
-
-Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4
-decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a
-ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.
-
-Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o
-Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz,
-eram d'uma graça scintillante.
-
-D'outra vez dois dos nossos amigos,--o capitão João de Sá e o
-Zagallo,--convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros.
-
-Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego.
-Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos,
-desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam
-comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós
-mesmos partir, descobrimos que haviamos gasto, em bacalhau e Collares,
-um dinheirão que não tinhamos na algibeira.
-
-Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves
-e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem
-vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno.
-
-O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á
-tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar
-com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas.
-
-Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno,
-rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa
-onde dormiramos eram caiadas. Então,--depois de almoçarmos ainda a
-credito,--com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes
-com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo
-e hilariante, mixto, como genero, do _Childe Harold_ e _D. Juan_ de
-Byron, do _Mardoche_ e _Namouna_ de Musset, do _Intermezzo_ de Heine, e
-da _Fabia_ de Francisco Palha. Este exercicio durou por 4 ou 5 horas.
-Duas das paredes da casa ficaram, até á altura de homem, cobertas de
-versos.
-
-Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do
-Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente
-de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela
-phantasia, pela graça, pelo inesperado.
-
-
-VIII
-
-Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficára em minha casa,
-quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabello muito
-curto, faces pallidas, feições miudas, ligeiro buço sobre os beiços
-grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por
-cima d'esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz
-aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo
-uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabello aos caracoes
-louros, bigode lourissimo pendente.
-
-Acordámos.
-
---Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando.
-
---Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama.
-
-Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,[38] o João de Souza
-Chavarro.[39]
-
---Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de
-Rezende.
-
-N'essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,--um Restaurante
-celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela
-quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de
-assumptos inintelligiveis.
-
-N'esse jantar demonstrou-se o vasto ridiculo do _Romantismo_,
-descreveu-se, discutiu-se e approvou-se o _Realismo_ na arte, fez-se
-a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade,
-da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no
-estylo, na toilette,--a apotheose de todas as correcções. Terminámos,
-depois da meia noute, abraçando effusivamente o velho Andrews,--o
-inglez que tinha uma lenda mysteriosa, e que alli jantou, durante
-annos, despejando por noute, em silencio, com methodo, lentidão e
-continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto.
-
-Tempos depois o Eça de Queiroz partia em viagem com o conde de
-Rezende:--_Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et le
-chevalier de Queiroz_,--diziam jornaes do Cairo. Assistiram á
-inauguração do Canal de Suez, visitaram o Egypto e a Palestina.
-
-Na Primavera de 1869, estavamos uma tarde,--o Anthero de Quental e
-eu,--na casa que então habitavamos a São Pedro de Alcantara, quando
-entrou o Eça de Queiroz que chegára, havia pouco, do Oriente, e ainda
-não viramos:
-
-Trajava uma longa sobrecasaca aberta; cobria-lhe o peito, em relevo, um
-_plastron_ que nos pareceu enorme, sobre o qual se erguia um collarinho
-altissimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os botões
-uniam pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande parte das
-mãos mettidas em luvas amarellas muito claras. Vestia calças claras,
-arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas pintas
-amarellas e sapatos muito compridos, inglezes, de polimento. Tinha na
-cabeça um chapeu alto, de pello de seda brilhantissimo. E olhava-nos
-com um monoculo que lhe estava sempre a cahir e que elle por isso,
-abrindo a boca em esgares sarcasticos, a miudo reentalava no canto do
-olho direito.
-
-Abraçámol-o com enthusiasmo--e cobrimol-o de epigramas.
-
-Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos typos, scenas nos
-bazares do Cairo, no deserto egypcio,--os guias, os cheiks, e á noute,
-em volta das fogueiras, os camellos, «de expressão humoristica,
-sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador,
-por sobre os hombros dos beduinos attentos, graves e encruzados.
-
-Contou-nos, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o
-uso do _Haschich_, e as visões phantasticas que nos preparava,--por
-que elle e o conde de Rezende haviam trazido _Haschich_ em geleia, em
-bolos, e em pastilhas que se fumavam n'uns cachimbos especiaes.
-
-Mas pretendia haver voltado doentissimo, de uma extrema debilidade, de
-uma morbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de continuo, um
-grande lenço perfumado de seda branca com que limpava a testa, cofiava
-a barba, que atirava sobre a mesa, interrompendo-se para entalar o
-monoculo e exclamar em voz desmaiada:
-
---Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu deliquio! o meu
-_apoplêté_! Meninos, depressa, os meus saes... onde estão os meus
-saes?!...
-
-E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de saes que
-aspirava soffregamente.
-
-Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de
-Queiroz: mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando
-elle conversava, quando elle contava, quando elle representava algum
-personagem que quizesse imitar ou a que quizesse dar vida. Parecia, com
-o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de replica, de
-graça, o representante d'uma raça especial fallando em Portugal uma
-lingua nova.
-
-Ouvimol-o toda aquella tarde, fômos jantar com elle,--não o podiamos
-largar.
-
-As ideias estheticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo,
-profundamente modificado.
-
-Citava especialmente a _Salammbó_ e a _Tentação de Santo Antão_ de
-Gustavo Flaubert. Preoccupava-se com a perfeição da forma, com a
-realisação da côr, segundo este litterato. Lia tambem a _Vida de
-Jesus_, o _São Paulo_, de Ernesto Renan, e as _Memorias de Judas_, de
-Petrucelli della Gattina.
-
-Foi sob estas influencias que,--com as impressões locaes da sua recente
-viagem á Palestina,--começou em Lisboa, a escrever a _Morte de Jesus_,
-publicada em folhetins, na _Revolução de Setembro_, de 13 de Abril a 8
-de Julho de 1870.
-
-Mas havia escripto, além do que se publicou,--uns capitulos que elle me
-leu, e depois sem duvida destruiu ou se perderam.
-
-
-IX
-
-Entre os _Folhetins_ da _Gazeta de Portugal_ e a _Morte de Jesus_ na
-_Revolução de Setembro_, medeiam quasi 3 annos.
-
-Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito d'Eça de
-Queiroz continuava.
-
-Um dia veio mostrar-nos, ao Anthero de Quental e a mim, o primeiro
-esboço, muito desenvolvido,--tão extenso que levou varias noutes a
-ler,--d'um romance intitulado _Historia d'um lindo corpo_.
-
-Foi a sua primeira tentativa de Litteratura realista. A ideia da obra
-era, até certo ponto, se bem me recordo, a do _Affaire Clémenceau_
-de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte,
-devida á influencia dos processos da _Madame Bovary_, e da _Educação
-Sentimental_ de Gustavo Flaubert.
-
-Pouco depois,--em 1871,--Eça de Queiroz descrevia n'uma das
-_Conferencias democraticas_ do Casino, _o Realismo na arte_, expondo
-as ideias em parte praticadas por Flaubert e Courbet, e theoricamente
-descriptas, por Proudhon, no livro _Do principio da arte e do seu
-destino social_.
-
-O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução
-exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente.
-A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma
-admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso
-de sentimento.
-
-Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos
-antigos _Contos phantasticos_ da _Gazeta de Portugal_ e lhe reli, se
-não me engano, _As memorias d'uma forca_.[40]
-
-Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas
-sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto,
-o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão
-pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo--dizia elle,--na
-construcção da phrase e no emprego dos vocabulos.
-
-Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo:
-
---Tens talvez razão,--está claro, tens razão. Talvez se deva republicar
-isso em livro;--mas sob o titulo critico e severo de _Prosas barbaras_.
-
-Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do
-desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu
-devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas
-mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,--e de
-todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX.
-
-Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação:
-
-Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado
-o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão
-maravilhosamente vivêra.
-
-Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,--por esse
-tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não
-longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto
-fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle:
-
---«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o
-teu antigo conselho: Ennevoei-me, outra vez, totalmente, no
-phantastico,--n'aquelle velho phantastico da _Gazeta de Portugal_,
-feito agora com menos _abutres_, e em _prosa_ talvez menos _barbara_
-que então: Estou escrevendo a vida diabolica e milagrosa de São Frei
-Gil;--e por signal,--dir-to-hei agora aqui, quando justamente nos
-achamos sob arvoredos,--que a nossa riquissima lingua portugueza me
-parece deficiente em côres com que se pintem selvas;--e tambem te
-confiarei que, tendo mettido, por minhas proprias mãos, o santo bruxo
-n'uma floresta, não sei como o hei-de tirar de lá».
-
- Cintra, Setembro de 1903.
-
- _Jayme Batalha Reis._
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[1] Hoje, travessa do Gremio Luzitano.
-
-[2] Veja-se Eça de Queiroz. _Um genio que era um Santo. Anthero de
-Quental. In memoriam_--Porto, 1896, pp. 499-502; J. Batalha Reis,
-_Annos de Lisboa_, Idem, 442-445.
-
-[3] Hoje, rua do Diario de Noticias.
-
-[4] Pag. 107 do presente livro.
-
-[5] Veja-se p. 133 do presente volume.
-
-[6] 3 de Novembro de 1867, p. 142 do presente volume. Veja-se tambem a
-_Carta a Carlos Mayer_, pp. 133-145.
-
-[7] «Na Europa o Sul representa ... a maneira de ser exterior, como
-o Norte representa o vago sentimento intimo...» Eça de Queiroz, _Da
-Pintura em Portugal_, _Gazeta de Portugal_, 10 de Novembro de 1867.
-
-[8] «... nós ... os que estamos n'este canto da velha terra portugueza,
-com a alma serena, sob o céo claro...» Eça de Queiroz, _Symphonia de
-Abertura_, _Gazeta de Portugal_, 7 de outubro, 1866.
-
-[9] «du Heine de deuxième qualité». Anthero de Quental, _Carta a
-Wilhelm Storck_, 14 maio 1887.
-
-[10] Pp. 27-43 do presente volume.
-
-[11] H. Heine, _Reisebilder_. _Les nuits florentines_, II, 316-330,
-(cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu).
-
-[12] Pp. 2-13 do presente volume.
-
-[13] Veja-se pp. 8, XV; 10, XX; e _passim_, no presente volume.
-
-«Luzia um grande sol, mas negro; o sol da melancolia...» _Symphonia de
-abertura_, _Gazeta de Portugal_, 7, outubro, 1866.
-
-[14] Veja-se pp. 5, VIII; 89, 98 e _passim_ do presente volume.
-
-[15] «...Baudelaire, poeta rethorico,...» A. Z. (Eça de Queiroz)
-_Leituras modernas_. _Districto d'Evora_, 6, janeiro 1876, p. 2.
-
-[16] Vejam-se pp. 112, 120-121, 122, 131.
-
-[17] Vejam-se pp. 93-101 do presente volume.
-
-[18] _O Monge_, destruida pelo author e nunca publicada.
-
- ... aux voûtes gothiques
- Des portiques,
- Les vieux saints de pierre athlétiques
- Priant tout bas pour les vivants!
-
- A. DE MUSSET, _Premières Poésies, Stances, 1828_.
-
-
-[19] Não incluido no presente volume.
-
-[20] Com o titulo «A Peninsula» no presente volume.
-
-[21] Não incluido no presente volume.
-
-[22] Tem uma Introducção omittida no presente volume.
-
-[23] Tem uma epigraphe e primeira parte omittidas no presente volume.
-
-[24] Tem uma pequena introducção omittida no presente volume.
-
-[25] Tem uma parte critica relativa ao cantor Julio Petit omittida no
-presente volume.
-
-[26] _Gazeta de Portugal._ 7 de outubro 1866.
-
-[27] «Constelações, gotas de sombra», p. 100 do presente livro.
-
-[28] Veja-se Victor Hugo, _William Shakespeare_; principalmente,
-_Livre_ II; _Les Génies_, II. Veja-se tambem p. 22 do presente volume.
-
-[29] Veja-se, p. 20 d'este volume, uma outra definição de Musica.
-
-[30] «Oh, egoismo humano, os que vão morrer saudam-te», Eça de Queiroz,
-_O Milhafre, Introducção, Gazeta de Portugal_, 6 de outubro de 1867.
-
-[31] _De l'Allemagne._ _Les Dieux en exil_, IX partie, pp. 181-242
-(cito a traducção franceza que Eça de Queiroz conheceu).
-
-[32] _La Sorcière._
-
-[33] Veja-se p. 6, XIII, do presente livro.
-
-[34] As visões «são as attitudes phantasticas e desmanchadas que a
-sombra dá ás verdades», p. 91 do presente livro.
-
-«... à ceux qui ont mis leur foi dans les rêves comme dans les seules
-réalités.» Edgar Allan Poe, Eureka. trad. de Ch. Baudelaire.
-
-[35] _Omphalia Benoiton_, _Gazeta de Portugal_, 15 Dezembro, 1867.
-
-[36] Os versos citados na _Revista Moderna_ (20, Novembro 1897, p.
-324) não são de Eça de Queiroz. Nunca elle publicou na _Revolução
-de Setembro_, em folhetins,--como tambem na _Revista Moderna_ se
-affirma,--os primeiros cantos d'um poema, _A tentação de S. Jeronymo_.
-Existe, com effeito, de Eça de Queiroz, mas inedito, um poemeto sobre
-este assumpto.
-
-[37] _Revolução de Setembro_, 29 de Agosto de 1869.
-
-[38] Hoje conde de Rezende.
-
-[39] Official da marinha real portuguesa, e desde 1881, Consul geral de
-Portugal nas ilhas Sandwich.
-
-[40] Vejam-se pp. 161-172 do presente volume.
-
-
-
-
-
-
-PROSAS BARBARAS
-
-
-
-
-NOTAS MARGINAES
-
-
- ...... d'este lado do rio
- ...... o namorado,
- E a moça dos olhos pretos
- ...... do outro lado.
-
- Mas o rio era profundo,
- Não se podiam juntar.
- Nunca o sol encontra a lua.
- Tal andava aquelle par.
-
- ............. flores
- ..... á agua iam dar;
- ........ os beijos
- Ficavam todos no ar.
-
- A moça ...............
- Disse adeus ao namorado;
- E foi ................
- ...... bandas do povoado.
-
- Elle ficou amarello,
- Como a vela d'um altar.
- Mas se o rio ..........
- Não se podiam juntar.
-
- Anoiteceu..............
- Por alli andou penando:
- E por fim lançou-se ao rio,
- E o rio ...............
-
- .........................
- .........................
- Mas as flores foram prender-se
- Nas suas mãos côr de cera.
-
-Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restos d'uma velha
-cantiga, alguem escreveu estas notas desordenadas e extranhas:
-
-
-I
-
-Ó dôce cantiga dos namorados da beira do rio, tu és uma verdade sempre
-nova! Ainda hoje o triste anda penando nas aguas escuras; e os teus
-olhos, ó serena rapariga, são eternamente falsos!
-
-Não era assim que eu pensava no tempo d'aquelles nossos amores, ó nome
-que eu não escrevo! d'aquelles amores tão dôces como a suavidade das
-nossas noites d'outomno--tão coloridos e vagos como aquellas nuvens,
-que sempre no ar andavamos formando e desmanchando!
-
-
-II
-
-Ó voluptuosidade! tu és a imagem do Oceano nos teus caprichos. Agora
-embalas-te, dôcemente doirada com os ultimos raios do sol: depois
-dormes tranquilla, aos calores silenciosos: por fim agitas-te, cheia de
-tempestades.
-
-
-III
-
-E, quando eu te via, não via mais as flôres, nem as pombas, nem as
-estrellas: mas, quando pensava em ti, via-te delicada como todas
-as flores, voluptuosa como todas as pombas, luminosa como todas as
-estrellas.
-
-
-IV
-
-Ás vezes, solitario e silencioso, via passar na sombra, diante
-de mim, como uma legião d'inspirações rhapsodicas, os teus olhos
-humidos, como violetas debaixo d'agua--depois os teus braços da côr do
-marmore--depois os teus cabellos negros e fluctuantes... Em fim, sobre
-um fundo maravilhoso, tu apparecias superiormente serena, perfeita e
-luminosa!
-
-
-V
-
-De cada um dos teus desejos nascia uma flôr.
-
-E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam dôcemente
-aquellas flôres marginaes.
-
-E as flôres cresciam, cresciam até se tornarem magnolias grandes; o
-vento tomava-as preguiçosamente pela haste; e ellas, inclinando os
-seus rostos pallidos, contavam-lhe os perfumes de mais segredo.
-
-E as magnolias iam crescendo até se tornarem n'uma arvore immensa.
-Então o vento enroscava-se no tronco, insinuava-se nos ramos, e fazia
-palpitar as folhas sonoras.
-
-E então a arvore estremecia, como n'um sonho agitado; depois
-adormecia--e dava em redor uma sombra serena e consoladora.
-
-
-VI
-
-Quando te vejo, despertam no meu pobre coração as melodias e as dôces
-melancolias d'amor, como na primavera se reanimam as aves e desabrocham
-as violetas.
-
-Quando me fallas, tudo se alumia com constellações apaixonadas, e
-parece que passam dentro de mim todos os aromas das magnolias.
-
-Mas se me dizes que _me queres muito_, sinto que vem logo um estranho
-inverno descorar-me as faces, desfolhar-me a alma de todas as emoções,
-e cobrir de geada todos os loucos desejos.
-
-Oh! nunca me digas que _me queres muito_!
-
-
-VII
-
-Tua irmã é carinhosa, e dôce, e meiga, e casta, e consoladora.
-
-Tu és altiva, inquieta, e desdenhosa.
-
-Tua irmã!... Mas se ella não tem o timbre suave da tua voz, o luminoso
-fulgor dos teus olhos, a côr mimosa dos teus cabellos! Mas se ninguem
-tem a santa, a purificadora brancura da tua fronte!
-
-
-VIII
-
-Os teus olhos negros são como duas flores do mal. Os seus olhos azues
-são como duas dôces elegias.
-
-E a flor do lotus, a apaixonada flor do lotus, sómente se abre á doçura
-immensa da lua!
-
-
-IX
-
-Oh! minha bem amada! eu já vi os teus olhos brilharem dolorosamente,
-como duas estrellas negras de melancolia: tinhas tu então rasgado um
-veu côr de papoula, que te cobria.
-
-
-X
-
-Tu estavas na egreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma
-fidalga hespanhola.
-
-Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia--_Jesus!_
-
-Mas nos labios tinhas um colorido avelludado e luminoso, como o das
-flores vermelhas mettidas na agua; e na linha de sombra dos teus labios
-corria um sorriso, que só dizia--_amor!_
-
-Talvez um dia ainda te encontre na egreja. Sómente, então, os
-teus labios estarão descorados como a fadiga e timidos como o
-arrependimento. Sómente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos
-esfomeados, e terão aquella luz desejosa e ávida, que têm as estrellas.
-
-
-XI
-
-Foi debaixo das arvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de
-violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva.
-
-Foi lá que me disseste aquellas palavras, que me pareceram uma
-blasphemia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nullo, como um
-sacerdote esbofeteado pelo seu Deus!
-
-
-XII
-
-Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu
-vestido!
-
-Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas
-pequenas--as pobres ondas!--soluçando, choravam sobre a areia.
-
-
-XIII
-
-Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas,
-que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e
-a sua nudez era doce e melodiosa.
-
-Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande
-Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos,
-as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias;
-serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.
-
-Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e
-envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da
-frescura das plantas.
-
-Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades
-de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma
-apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens.
-E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e
-avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que
-vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam,
-junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como
-aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!
-
-Esta historia é de ha seiscentos annos--e de hontem á noite...
-
-
-XIV
-
-Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pelle macia.
-
-Todos os teus pensamentos se moviam n'uma comedia extravagante e solta.
-
-Abafavas burguezmente a musica do teu corpo em chailes pesados e largas
-saias: e a seda dos teus vestidos tinha um fremito indefinido de
-sarabanda--e de cachucha.
-
-
-XV
-
-Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrellas,
-como grandes olhos curiosos, espreitavam atravez da folhagem. Eu
-era o tenebroso, o inconsolavel, o viuvo. Errava pela floresta, e
-a espaços cantava uma canção vagamente triste como o susurro dos
-cyprestes:--depois dizia palavras iradas, e asperas como os cardos;--e
-mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saía-me
-pelos labios, como uma açucena branca que se abre dentro de um copo, e
-que o enche.
-
-E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem amada! os ramos
-estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar ás
-cantigas, ás iras e ás orações todas os caminhos do ceu.
-
-
-XVI
-
-Tu pensavas que o teu amor me envolvia mollemente como um largo vestido
-de seda, todo forrado de arminhos.
-
-E um dia, ó minha bem amada de cabellos côr de amora! viéste despir-m'o
-de golpe, com um rosto colorido de risos.
-
-Mas o vestido estava collado ao corpo--vinte vezes collado ao corpo: e
-tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me
-jorros de sangue, e arrancou-me os cabellos, e deixou-me, ó minha bem
-amada de braços d'aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida!
-
-
-XVII
-
-Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras
-para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és
-tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra.
-
-
-XVIII
-
-Eu abri aquelle coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri
-lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia,
-como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de
-folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por
-cima da folhagem mugidora esvoaçava, baloiçada por ventos immensos,
-uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam
-com os ossos dos cotovelos as carnes molles, e lambiam o sangue que
-escorria das orbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e
-desfallecidas em voluptuosidades mais morbidas do que os orvalhos da
-lua.
-
-Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado,
-pequeno, e feminino;--e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que
-lhe dei um beijo!
-
-
-XIX
-
-Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios--e olhava para as
-nuvens.
-
-Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante.
-
-Outr'ora--ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aereas das
-nixes por entre a musica dos cannaviaes! ó ondinas humidas! ó danças
-nebulosas das wilis! ó espiritos gentis e vaporosos, que andaveis
-nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecieis dentro
-do calice dos lirios brancos, embalados como n'um berço! ó dôces e
-enganadoras creaturas, que povoaveis e alumiaveis tudo como estrellas
-romanticas!--outr'ora os rios, o ceu e os arvoredos encobriam-vos, ó
-invisiveis! mas como em tecido fino, que deixa passar todos os aromas e
-todas as côres.
-
-E agora os rios, o ceu, os arvoredos estão desertos.
-
-Os arvoredos só contam, como velhos palradores, historias de gigantes,
-loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da
-folhagem.
-
-O ceu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos
-serios d'um craneo immenso.
-
-Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher.
-
-
-XX
-
-Andamos todos soffrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados
-pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bençãos fecundas.
-A esperança fugiu para além das estrellas, das nuvens e dos caminhos
-lacteos. Nos corações nascem amores sombrios e loucos. E tudo porque
-um dia nasceu uma creança estranha, que foi alimentada com um leite
-morbido como a lua, e envolta n'uma tunica livida como a morte!
-
-
-XXI
-
-Onde estará ella agora--a minha bem-amada, aquella creança de olhar
-profundo?
-
-Era n'aquellas almofadas que ella se recostava: era por alli que ella
-passava--e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e
-perfumavam.
-
-A pé! a pé! meus desejos! Acordae, acordae, e ide buscar-m'a! Accendei
-todas as estrellas, e ide procural-a pelos caminhos escuros! Desgrenhae
-os cabellos verdes das florestas! Assoprae a espuma das ondas!
-Dispersae as multidões! Quebrae os encantos! Ide procural-a pelos
-astros! Despedaçae as tendas aereas, onde vivem os sonhos!
-
-Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando solitario e
-silencioso, como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.
-
-
-XXII
-
-«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas
-que me consolem! Só resta morrer.»
-
-E o corpo diz á alma:
-
-«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos
-sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te,
-filha, como eu velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu
-soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás
-vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim,
-onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e
-sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te
-voluptuosamente--a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes
-morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar
-errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar
-nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas
-rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores
-tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos!
-E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!»
-
-E a alma dizia ao corpo:
-
-«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada,
-indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo.
-Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas,
-que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha
-ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir
-fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos
-para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia.
-
-«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a
-que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda,
-que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em
-breve não te lembrarás mais de mim.
-
-«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de
-estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem _alma_ como eu--ou se
-chamem _aroma_--ou, então, se chamem _som_.
-
-«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia,
-encontrares os átomos _d'aquella que eu tanto amei_, não te juntes
-com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a flôr
-ha-de mirrar-se;--se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de
-apagar-se;--se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...»
-
-
-
-
-MACBETH
-
-
-Foi no tempo de Philippe II, tragico môcho do Catholicismo, que
-Shakspeare creou o seu drama épico de Macbeth.
-
-É desde então que aquella figura, que exhala noite e humidade, erra
-pelo enorme ceu negro, livida no meio das tempestades, alumiada e
-crescida por um estranho reflexo de saques e de incendios, em quanto
-os abutres, os corvos, os milhafres, os gaviões, as corujas vôam em
-circulos sobre a sua tragica cabeça esguedelhada.
-
-As outras imaginações nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet, Lear,
-Othello e pisam com pé tragico o sólo augusto da epopeia, todas têm
-junto de si o dôce corpo de uma mulher para lhes embalar no seio as
-angustias tenebrosas, como n'um leito mysterioso, para lhes fazer subir
-por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem.
-
-Essas fórmas femininas andam impalpavelmente, como radiações de luz,
-em redor d'aquellas terriveis cariatides do mal: ellas derramam-se
-sobre aquellas almas nocturnas, como umas auroras vivas, cheias
-de meiguices, d'orvalhos, de claridades, de fecundos descanços,
-purificadoras e transfiguradoras.
-
-Assim Ophelia, humida dos beijos da agua, segue o seu dolente e
-lacrimoso Hamlet; Desdémona derramou o seu perdão, como um oleo santo,
-sobre a agonia flammejante de Othello: e Cordelia estira os seus
-braços como azas de benção, e, com gestos de coroação, ampara a cabeça
-desvairada do velho rei Lear. Macbeth, esse vae seguido na sombra pelos
-seus negros vassallos--os incendios, as pestes, os derrubamentos.
-
-Macbeth é o mal-phantasma. Elle não é d'aquelles lobos que andam, pela
-noite da historia, dilacerando as liberdades e as patrias. Não.
-
-É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra,
-seria o egual de Satan. Quando a sua corôa reluz na escuridão, parece
-que as constellações devem seguir aquelle reflexo terrivel, curiosas
-de saber que sombria aventura vae elle tentar contra o Homem. Porque
-é certo que elle provoca a attenção do infinito, e tem mysteriosas
-affinidades na noite.
-
-Elle atravessa todo aquelle drama como um espectro.
-
-Quando as Ondinas saíam fóra da agua a namorar os moços formosos
-debaixo dos platanos, denunciavam-se, as pobres, porque a orla do seu
-vestido estava sempre ensopada d'agua. Macbeth é assim: debalde se
-cobre de purpuras, e se assenta aos banquetes, e falla de manobras
-de guerra com os seus capitães tenebrosos, e se queixa que lhe foge o
-somno, para parecer humano: os que se approximam d'elle empallidecem,
-porque a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa.
-
-Elle ouve a predicção das soberanias flammejantes da bocca esverdeada
-das feiticeiras, que se dão, lascivas, aos beijos do vento, por cima
-das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a
-noite de sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terraços,
-entrevê o luzir dos punhaes: não póde sentar-se aos banquetes
-resplandecentes, entre os risos sonoros, sem vér diante de si, com a
-lividez dos que fizeram a viagem maldita, o espectro de Banquo, d'onde
-se exhalam os castigos. Por fim, quando toda a Escocia sangra, porque
-passou Macbeth esmagando as cidades, assolando os campos, enegrecendo o
-ceu com o fumo--luto dos incendios--não são os exercitos que o vencem:
-a natureza ouviu as queixas humanas, os brados de justiça que saíam
-dos postes, das queimadas, das forcas, dos cemiterios, ouviu a alegria
-estridente dos abutres, dos córvos e dos milhafres--e destaca então uma
-floresta, que vae com ruido tragico esmagar o homem sinistro. N'este
-castigo, Shakspeare é maior que Eschilo. Eschilo, quando vê Prometheu
-pregado no Caucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade
-de marmore dos deuses de nomes sonoros, vem, pallido, ajoelhar junto
-d'aquelle rochedo ideal e santo como um altar; e, suffocado, apenas
-póde fazer um gesto supplicante ao velho Mar, para que mande as suas
-Oceanides consolar o vencido enorme.
-
-Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo,
-derrubar os capacetes heraldicos, matar os instinctos, matar os
-Macduffs, matar as creanças d'olhar divino, as mulheres de seios
-fecundos, matar a patria--corre desvairado, toma uma floresta e vem
-esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e
-aquelle castigo passa com o ruido terrivel do carro da justiça.
-
-Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa--Lady Macbeth. Lady Macbeth
-é a serenidade do mal. Ella, com a sua attitude soberana e barbara,
-tem a vaga semelhança d'uma Juno homerica. Tem em si toda a grandiosa
-rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte.
-
-Ella é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ella passa
-no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes
-parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que funebre resignação:
-as coleras e os castigos têm quasi piedade d'aquella mulher esteril.
-Ella não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não
-tem a maternidade. Alguem, feroz e desconhecido, lhe tirou aquelles
-amollecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a attitude
-hirta e rigida do mal.
-
-Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de marmores e
-de bronzes, e erguida ao longe n'uma lividez silenciosa, tendo
-por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos
-estremecimentos d'alma, as oppressões e as violencias, e vem então
-lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições,
-accende com um olhar as sinistras queimadas pela planicie, e volta
-para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a
-cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue.
-
-E no emtanto, quando ella passa, o olhar perde-se na contemplação
-perigosa d'aquelle busto forte, d'aquelles braços de aço, d'aquella
-testa que tem reflexos de opala, d'aquelles cabellos poderosos de um
-negro flammejante, d'aquelle seio de fórma barbara. E então abre-se
-na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente.
-Aquelle olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores
-humidos e de mugidos de aguas. E a alma, esquecida da justiça e do
-bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que
-cercam aquella mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a
-vestem, destrançar-lhe os cabellos pelas molles sombras e dissolver-se
-n'aquelle olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O
-coração ri-se dos gemidos da Escocia e do ultimo high-lander, que morre
-contemplativo, tocando as árias da sua montanha na ultima cabana, e
-lastima unicamente Macbeth porque tem para matar--só um Duncan. Suffoca
-o peito a negra lembrança de um desfallecimento lascivo, n'aquelles
-braços de marmore pallido, salpicados de sangue. A contemplação
-d'aquella terrivel Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e
-tremulo, como se sobre elle se estendesse a nudez de uma deusa.
-
-Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quiz revelar no seu poema
-musical de _Macbeth_.
-
-Ha, sem duvida, na obra immensa de Shakspeare creações que devem dar
-a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida
-de sensualidades pesadas, coberta com velludos de prégas molles e
-silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes
-feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de
-luz; os corpos luminosos feitos de argillas ideaes: ha almas tão puras
-como musicas de constellações, tão terriveis como as fulgurações do
-desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Elle semeou
-alli, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes,
-as angustias, as melancolias, a duvida, a paternidade, a covardia--eu
-sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sêdas, farrapos, lutos, purpuras,
-sudarios; umas cabeças têm corôas flammejantes, outras cabeças têm
-corôas de violetas: aquellas creações têm nos labios o lyrismo, a ode,
-a imprecação, a satyra, a chocarrice: ha architecturas, tormentas
-afflictas, arvoredos sagrados, luares e apparições. Assim caminha
-enorme aquella obra, tentando a grande aventura da immortalidade! Para
-dar a vida e o sopro ideal a esta creação immensa, é necessario que
-venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuarios, o
-lyrismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra.
-
-A musica deve ser a voz de tudo aquillo que alli está silencioso, sem
-ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o
-comprehender,--a voz das estrellas, das pedras, das nuvens, das flôres,
-de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lacteas, falla
-muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturaes, para que o
-nosso extasi as possa escutar. Quando Julietta suspira ao seu balcão,
-desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em
-pequenas estrellinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite,
-em roda d'ella, as flôres, as vegetações, aquellas molles divindades
-núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que
-cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas
-das raizes, que são as estrelas--tudo se balança n'aquella evaporação
-de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade
-do seu jardim, como um diamante no seio d'uma negra: e toda a natureza
-está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos
-pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma
-de Ophelia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos
-como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e
-se desmancham, o lyrismo do celeste William empallidece como um heroe
-derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e
-branca, revelar todas aquellas vibrações celestes.
-
-E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas
-musicaes do que as figuras historicas.
-
-São aquellas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem
-soffrer, que nos transfiguram a alma.
-
-Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette,
-e Beatriz de Cenci, e a idyllica Ignez de Castro? Nós vemos estes
-desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, attentos á justiça
-de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquellas fatalidades,
-mostramos lá em cima o grande azul constellado.
-
-Mas que Julietta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar
-fulgurante pelo espaço, para allumiar a fuga de Romeu até Mantua; que
-Desdémona diga a _canção do salgueiro_, onde se morre de amor; que
-appareça entre os lutos reaes o enterro virginal de Ophelia, nós vamos,
-desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos mysteriosos sóbe
-lá cima, até á radiosa bondade divina, o côro supplicante das lagrimas.
-
-No emtanto, parece que as imaginações terriveis e ferozes dos poetas
-não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os
-maestros querem subir aquelles escarpamentos divinos, cáem, sem fòlego,
-junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lyrismo, o
-sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de
-cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de petalas macias, e de
-vapores de luz.
-
-Sem fallar em Gounod, que não comprehendeu a grande figura de Fausto,
-mas pôz divinas vibrações nos labios de Margarida, o grande Rossini não
-pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Othello, e ficou-se
-a chorar um chôro celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro.
-
-Assim tambem Verdi, o luminoso Verdi, não comprehendeu aquellas trevas,
-que Shakspeare derramou na alma de Macbeth.
-
-Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de
-nós outros, os portuguezes, é, realmente, o unico compositor italiano
-verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti;
-Rossini retirou-se da arte.
-
-Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume
-santo, o desvairamento ideal, o deus, aquelle sôpro de que falla a
-_Biblia_. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa
-energica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer
-que seja de rigido e de metallico n'aquella sonoridade sensual: elle
-sabe excitar as sonoridades materiaes, mas não consegue arrancar a alma
-do seu vestido de carne e leval-a, núa e possuida do infinito, pelas
-regiões das surpresas radiosas.
-
-Todo o enthusiasmo que Verdi tem alimentado na Italia, provém do
-momento grave em que se revelou.
-
-N'esse tempo a Italia revolvia o poema convulsivo da sua
-reconstituição: os italianos, que tinham adormecido n'aquella rede
-tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a
-erguer-se e a experimentar os seus musculos frouxos e amolecidos de
-amor e de sonhos. N'esse momento Verdi foi pela Italia com um canto
-poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquella musica
-apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as
-energias: e a Italia seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na
-alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades.
-
-No Norte, quando a Allemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no
-seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas,
-apparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas
-poesias da Allemanha, melodias feitas quasi dos cantos populares,
-que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra,
-rhapsodos errantes: e quando a grande patria, ouvindo as caçadas de
-Samosel pelas florestas da Thuringia, os estremecimentos dos elfos
-vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mythologias do
-Rheno, vivendo, soffrendo, voando, susurrando n'um livre canto,
-ergueu-se terrivel, entoou tambem, ella, o velho canto de Luthero,
-couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida,
-ficou, sevéra e illuminada, esperando junto do Rheno, tendo a um lado o
-espectro da honra e a outro lado o phantasma da justiça.
-
-Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul,
-o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aquelles enthusiasmos
-foram fecundos: as duas patrias sangram ainda: e as flautas tristes do
-Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquelle chôro lento e
-doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade
-que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Italia! Pobre Allemanha!
-Deus vos envolva n'um olhar de benção e de repouso, n'este tempo em que
-estamos, que é a vespera das agonias!
-
-Mas, voltando ao _Macbeth_, é certo que Verdi fez d'aquella figura
-desvairada um heroe italiano, melodioso e mau. Por toda aquella opera
-anda errante um terror transparente e molle. Será porque a musica, a
-meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquellas duas
-almas pavorosas saídas da noite e pesadas de materia? Não sei. O certo
-é que aquella opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece
-que o velho heroe livido entrou n'este tempo moderno, amolleceu-se em
-voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas
-da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth
-contar a sua velha legenda tragica sobre uma scena resplandecente. Com
-effeito, aquella opera faz saudades do drama de Shakspeare: era alli
-que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de
-tres cabeças: era por aquelle terraço, onde mugia o vento, que elles
-atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan.
-
-E assim, emquanto aquellas figuras lyricas se adiantam para a orchestra
-de poderosos alentos, com as gargantas túmidas de melodias gemedoras
-e violentas, a alma póde deixar o seu querido corpo e ir por cima dos
-mares e dos continentes, para os descampados da Escocia, vêr passar
-aquellas sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo
-as legendas, galopam de noite nos clarões das tempestades, uivando
-manobras de batalha.
-
-E depois póde a alma voltar, para ouvir aquella confusão de ruidos
-coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que
-estremecem, que gemem e que gritam, e que se vão desvanecendo em volta
-do corpo e cobrindo-o como uma onda. Emquanto se canta _Macbeth_, a
-alma póde andar longe, pelo paiz das chimeras.
-
-
-
-
-A LADAINHA DA DOR
-
- (AO SNR. A. A. TEIXEIRA DE VASCONCELLOS)
-
-
-O musico Berlioz, ao voltar das bandas molles da Italia e das ilhas
-da Grecia de lividos escarpamentos, sem serenidades idyllicas e sem
-myrthos--recebeu nas ruinas das _Sorveiras_, junto de Nizza, onde elle
-trabalhava na sua symphonia de _Harold_, toda cheia do mar, esta carta
-vinda de França:
-
- «O pintor Lyser voltou da Bohemia com a sua doidice elegiaca. Pedi-lhe
- o retrato de Paganini como tu querias, mas elle disse-me, em segredo,
- que fôra o diabo que lhe guiára a mão n'aquelles traços, e queria
- conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão
- n'uma pasta, entre um desenho do velho Claudio Loreno e um retrato de
- Dante.
-
-Hontem, ao cair da tarde, estavamos ambos sentados juntos da janella.
-O ar entrava todo emmaranhado nos cordões verdes das trepadeiras: nós
-estavamos calados e abandonados á doçura divina das cousas.
-
-O pobre Lyser, com os seus grandes cabellos caídos, tomou o retrato
-de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos,
-de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens:
-e, entre aquellas efflorescencias, escreveu os nomes de Dante, de
-Hamlet, de Romeu e de Sancho Pansa, dizendo com a sua voz dolente:
-«Paganini tinha alguma cousa de todos estes homens». Depois, no cimo
-do cartão, desenhou a figura de Ophelia levada pela corrente, e um
-morcego, com as azas dobradas, olhando tristemente, d'entre as cannas
-debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente
-como no seu elemento, e os grandes cabellos louros emmaranhados nos
-limos da agua: e por baixo escreveu: «Duvída, Ophelia, do meu amor,
-da verdade luminosa das estrellas, dos coloridos das folhas, da luz
-branca do sol». E depois, com a voz séria: «Paganini, sobretudo, era um
-morcego...»
-
-É assim aquelle pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe
-morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua
-rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as hervas molhadas. O
-dia estava nublado. «Minha pobre irmã, disse elle, que nem póde levar
-presa no seu lindo vestido uma restea de sol!» Sabes a religião que
-Lyser tem pelo sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos
-caminhos, sob a grande luz sonora do sol. N'essa noite em que a irmã
-foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de
-Lully, e de vez em quando compunha as dobras de um chale que tinha
-lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido n'uma saudade mais
-dôce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o ceu estava nublado,
-elle dizia, de vez em quando, á morta: «Não tenhas pena, cá fóra nem
-estrellas ha.»
-
-Foram-n'o buscar de madrugada, e elle vinha lento, dependurando-se do
-fato do coveiro como uma creança, a quem assustam os uivos dos cães e o
-chiar dos carros.
-
-Dias depois voltou ao cemiterio e o coveiro não o deixou entrar: o
-pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lagrimas. «É
-uma cousa de pressa que tenho a dizer a minha irmã» affirmava elle com
-a voz passada de supplicações. O coveiro estava dentro fallando com uma
-mulher de cabellos côr de vinho: e como a quizesse prender n'um abraço
-barbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caíu sobre uma sepultura
-toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos
-vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura, resmungando:
-«Malditos tropeços!»
-
-Por fim, veiu abrir a grade enferrujada ao pobre Lyser e com uma grande
-voz: «Vá, que já são horas de entrar sem licença.» Lyser sumiu-se entre
-os cyprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra:
-«Luiza, se lá em cima encontrares a estrella Vesper, pergunta-lhe de
-que tintas se faz a côr de rosa da tarde e os seus reflexos de rôxo
-pallido; preciso sabel-o. Hontem dei o teu chale branco a uma pobre:
-dize-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se
-passares de noite por estas alamedas, não te approximes da casa do
-coveiro; vive lá uma má mulher.»
-
-Dias depois chamou-me e disse-me: «Sabe? começo a acreditar que
-minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma cousa: quando tiver alguma
-camelia não a esmague, talvez seja feita do seio da pobre rapariga.» E
-afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de
-agua: mas de repente, voltando-se e com a voz cheia de supplicações,
-accrescentou: «Nem as violetas: talvez sejam feitas dos olhos d'ella!»
-Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre arvores onde havia o
-sol, o côro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos
-fructos: elle ia com a face toda tomada pela côr quente e fecunda da
-vida.
-
-«Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz dôce e lenta como um
-escorrer de mel: não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das
-eiras e dançava debaixo dos platanos, morre nos frios de fevereiro.
-Ha-de ter visto por esse tempo os pobres namorados que andam chorando
-sobre as covas com os cabellos caídos. Então aquelles corpos das
-raparigas desfazem-se. Alguem, que sabe e que vê, aproveita aquellas
-fórmas e aquelles coloridos: da pelle do seio fazem-se petalas de
-camelia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da côr dos labios
-fazem-se os rainuculos, dos halitos perdidos fazem-se os cheiros
-bons, e do olhar, da meiguice, do desejo d'ellas faz-se a primavéra,
-o dôce ar das madrugadas de maio. De modo que de noite as flôres que
-estão nos vasos, na sombra das alcôvas, conversam das suas existencias
-passadas; fallam das danças ruidosas á guitarra; d'aquella manhã em
-que a ponta do seio veiu espreitar, pela abertura do vestido, os olhos
-do namorado; d'aquella tarde em que a face se vestiu de côr de rosa
-para receber a visita de um bigode louro; d'aquella noite em que as
-palpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quasi a
-dizer _sim_. E se uma noite espreitar as flôres que estão nos castos
-paraizos das alcôvas, ha-de-as vêr saír dos vasos, entrelaçarem as
-fórmas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga similhança de um corpo
-feminino.»
-
-É assim o pintor Lyser. Fez-se noite n'aquella alma, e por isso ella
-tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o
-languido, o estrellado.
-
-Agora deseja morrer e ser enterrado n'uma paisagem casta, assoalhada,
-murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu
-amigo Claudio Loreno.
-
-Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se
-arrasta entre hervas seccas e ramagens, ao dorso de uma onda, á prôa
-de uma barca de pesca; assim aquelle espirito, ao retirar-se d'aquelle
-corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e
-meigo--ao amor, á melancolia, á compaixão, á arte.
-
-Quando cheguei do Baltico, soube que Paganini se retirára de França:
-tive a respeito d'elle grandes conversações com o rabequista Sica, que
-pensa em fazer, para o verão, uma peregrinação pela Syria.
-
-Estavamos horas debaixo das tilias, fallando do chimerico espirito de
-Paganini, até que as estrellas appareciam, contemplativas e augustas.
-Sica contou-me toda a legenda idyllica e barbara de Paganini: os
-seus amores em Verona, aquella cantora enfezada, de mãos macias e
-sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquelle abbade de
-fivelas luzentes, com quem ella ia debaixo dos velludos silenciosos,
-n'um entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo paiz de
-Cythera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odysseia de prisões e
-de degredos: aquellas noites em que elle, poderoso e solitario, entrava
-na confidencia dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lagrimas,
-em que aquelle tragico homem, enroscado nas palhas do seu carcere,
-olhava ao longe o mar Mediterraneo amollecido por aquella mollesa que
-escorre dos astros e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda.
-
-Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre ás horas escuras
-via as fivelas do abbade luzirem na noite. «Ás vezes o remorso,
-affirmava elle, é bondoso, encarna-se em cousas que têm uma vida, uma
-carnação, um sangue, uma mollesa, que se podem abrandar, a quem se póde
-supplicar; mas aquellas fivelas metallicas, inertes, rigidas, eram um
-remorso frio, surdo, inflexivel, faziam-me subir ao rosto o suor do
-antigo Josaphat.»
-
-Dizia tambem Paganini, que uma das suas grandes torturas, no carcere,
-fôra assistir, pela visão, á decomposição fria do corpo da pobre
-cantora Marietta. Elle via aquelle corpo sem oleos, nem sacramentos,
-debaixo das terras limosas e tumidas de seiva, esverdear-se entre as
-ossadas. Via de noite, perto de si, aquella terrivel decomposição das
-carnes, aquellas brancuras inertes, aquellas molles curvas sugadas
-pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramineas, os
-cyprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e
-inchada!
-
-Então, alli, tomou odio á natureza: elle atravessava sempre as frescas
-fecundidades, as searas, todas as verdes fórmas da vida, os campos e
-as granjas, com um horror judaico e mystico. Só perdoava ao mar: e ás
-vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das aguas do mar do Norte
-tocar na rabeca as velhas cantigas scandinavas e as balladas runicas;
-e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse andar, durante a
-eternidade, nos verdes embalos da agua.
-
-Foram terriveis todos aquelles annos de prisão.
-
-O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com
-os estudantes da nova Allemanha, indo pelos burgos, pelos povoados,
-pelas cabanas de lareiras somnolentas, cantando ás estrellas e dizendo,
-na sua rabeca, sob a lucidez do ceu do Norte, as velhas balladas da
-Thuringia.
-
-Contou-me o amor da duqueza de Weimar por Paganini; e como uma noite de
-concerto em duas cordas da rabeca elle disse o dialogo mysterioso de
-duas vozes que se fallavam debaixo do arvoredo, depois entre sedas de
-cortinas, ao fresco ar d'um balcão, e depois ainda na terra, debaixo
-das raizes dos cyprestes, e, por fim, indefinidas, tenues, luminosas,
-entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.
-
-Era uma allusão desconhecida, que encheu de lagrimas a duqueza de
-Weimar.
-
-Aquelle homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. D'elle
-retirára-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o
-amor, a indignação, a paternidade, a emoção.
-
-Lento, com os seus cabellos caídos, livido, com as terriveis rugas da
-face semelhantes aos _f f_ d'uma rabeca, com as mãos transparentes,
-cheias de agilidade e de deslocações, com os seus grandes casacos
-escuros de pregas hieraticas, atravessava os povoados, os silencios,
-as scenas resplandecentes, poderoso e solitario, procurando sempre,
-aos pés, uma cóva onde não se esfolhassem arvores, onde não nascessem
-hervas, sem saber que na noite, na humidade, nas choças, nas pedreiras,
-nas estradas, nas costas, ha uma raça que soffre, e que ha beiços
-lividos da fome, e que ha febres silenciosas e amores desertos,
-e suores d'angustia, e apodrecimentos de honras, e uivos d'almas
-afflictas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de bellezas.
-
-Sica contou-me tambem o grande poder musical de Paganini e a sua
-attitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades: e
-contou-me tambem, meu amigo, aquella noite gloriosa e flammejante em
-que se tocava a tua symphonia de _Romeo e Julietta_, e em que elle
-veiu, entre os applausos e as vozes de corôação, ajoelhar e beijar-te
-as mãos, dizendo com os olhos cheios de agua:--Sois outro Beethoven!
-
-Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emmudeceu:
-trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas
-conversações da noite; aquella doença não o vergou mais; elle tinha já
-o silencio--estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez--estoicismo do
-corpo.
-
-Passava então com o rabequista Sica horas inteiras, tocando rabeca ou
-guitarra. Ultimamente, preoccupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca
-só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: «Quando eu estiver para
-morrer, pensar que a hei-de deixar aqui, entre as mulheres d'aço,
-estes jornalistas lividos e os agiotas calvos, no meio d'esta multidão
-esfomeada de materialidades! que se ha-de encher de pó a um canto,
-ella, cheia de alma e de legenda!»
-
-No emtanto, elle acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca
-havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra, ir-se-iam
-confundir com o corpo d'elle nos átomos das arvores, ou das estrellas,
-ou das aguas. E escrevia então: «Que felicidade poder ter a mesma
-folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!»
-
-Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; ás
-vezes tomava a guitarra e ia tocar n'ella para junto da rabeca, com
-um gesto de caricias brandas, com um lento correr de dedos, como se
-estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma;
-elle queria pôr todos os seus interiores divinos n'aquelle gemer de
-guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada.
-
-Por esse tempo, um dia que elle estava com Sica, escreveu assim: «Já
-me não fio na minha rabeca; acredito que ella não ha-de lamentar a
-minha morte. Não morre, não! Ha-de dar-se ao primeiro que a tomar nos
-braços; ha-de dar-se com suffocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos
-segredos, mysticos, voluptuosos e illuminados, que me dizia a mim...
-Que importa á rabeca que o pobre musico apodreça debaixo da terra?!»
-
-Ultimamente o musico Sica necessitou ir á costa normanda, porque tinha
-lá seu pae, velho marinheiro, morrendo junto das aguas; e quando
-voltou, coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha
-partido para o sul.
-
-Adeus, não te demores em Nizza. Acaba depressa a tua symphonia do
-_Harold_, e recommenda-me ao nosso velho amigo--o Mar.»
-
- * * * * *
-
-Tempo depois, o homem, que tinha mandado esta carta, recebeu est'outra
-de Berlioz:
-
- «Estou ainda todo frio das visões d'esta noite. Sabes que móro nas
- _Sorveiras_, que são umas ruinas junto do mar, pedras bem conhecidas
- por toda a populaça do ar: abrigam-se alli, como n'uma pousada, os
- viajantes sombrios da atmosphera, que são as chuvas esguedelhadas, os
- ventos uivadores, os granizos, as molles brumas e os nevoeiros. Em
- redor estão espalhados os casebres dos pescadores, todos conchegados,
- como as ovelhas quando anda temporal no monte; a costa é terrível e,
- no emtanto, o mar tem, ás vezes, serenidades só similhantes ao calmo
- olhar d'um idiota.
-
- Este povo trigueiro de pescadores sáe, logo de madrugada, para os
- balouços da agua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias
- de legenda e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em
- baixo, junto da voz da maresia, aquellas cantigas fortes de deitar
- redes, robustas como calabres e sãs como o sol. É uma bella vida!
- Durante o verão, nas séstas silenciosas do mar, todos andam na pesca,
- os velhos, as creanças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de
- forte seio--estas bellas mulheres da costa da Italia, que eram tão
- desejadas pelos marinheiros gregos e phenicios, que tinham visto
- Mileto, Abydos e Corintho.
-
- Agora que o outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se
- ao vento, e vae para o interior dos povoados juntar-se nos campos á
- outra pobre gente curvada, que lavra e que semeia.
-
- Hontem fui, n'uma barca de pescador, até ao ponto em que o Var
- desagua. Sabes que é n'este tempo que as pombas emigram para o sul;
- reunem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterraneo, fazendo
- nodoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o sol descia: o barco
- vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos
- ondulosos. O mar tinha uma serenidade olympica.
-
- Eu havia-me abandonado ás mollesas da tarde, e, todo estirado á pôpa,
- via o ceu cobrir-se d'uma côr rosada, como d'um rubor de castidade. As
- estrellas começavam a apparecer. D'onde vinham ellas? E d'onde é que
- vem a noite de tão longe, que parece suada de luz? Eu via-as tremer,
- e pensava que ellas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões,
- sem deuses. A'quellas horas tambem apparecem as ondinas na agua; quem
- sabe se as estrellas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm
- de noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegiaco? Quem sabe
- se são arvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros
- fructos--a melancolia, o amor, a sensualidade?
-
- Depois ri-me d'estas imaginações; mas nas aguas do Mediterraneo, ao
- anoitecer, n'um barco de pesca, vendo ao longe as linhas molles da
- costa de Italia, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia
- vêr as estrellas como nas verdades e nos positivismos modernos, e
- esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace.
-
- E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da
- bem-amada, sol da minha natureza, sem dôres mordentes, sem febres
- silenciosas, e ir assim, entre as fulgurações do desejo, e os
- deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores,
- e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, n'um lento
- desmaio da carne, para a frialdade da terra e alli sentir-me,
- lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas,
- pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescencias!
-
- Ora quando assim vinhamos, vi, na linha escura e aspera da costa, uma
- massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegiaca.
-
- --Que luz é aquella, meu velho?--disse eu, da pôpa.
-
- O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram
- direitos, escorrendo, todos esverdeados das algas.
-
- --Aquella luz, senhor, é a casa das _Serenas_. A estas horas está
- alli, abandonado, um pobre homem que morreu lá hontem. Tinha chegado
- aqui ha pouco, e era mais amarello que a cera do altar; até na costa
- diziam os velhos que elle se vendera ao diabo! Deus me perdôe por
- fallar assim n'isto, de noite, em cima das aguas! Ah! senhor, diziam
- que tocava na sua rabeca maldita que nem no ceu... Chamavam-lhe
- Paganini.
-
- E o pescador metteu os remos na agua, cantando n'uma melopeia dolente:
-
- Altra volta gieri biele,
- Blanch'e rossa com'un fiore.
- Ma ora nò. Non son piu biele
- Consumata dal'amore.
-
- E depois, voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das marés,
- continuou:
-
- --E os padres agora não lhe querem cantar as suas ladainhas e
- enterral-o em terra santa. Se fosse meu parente e tal succedesse, ia
- para o fundo do mar. Debaixo da agua anda muito corpo de patrões e
- pilotos: elles não morreram, não; andam ainda vivos; e quando um pobre
- homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento,
- quando o peixe anda arredio, elles costumam afugentar a pescaria com
- ramos de coral para as bandas da rede!...
-
- O pescador fallava assim, lentamente, com a voz pesada da religião das
- legendas.
-
- Eu levava os olhos rasos de agua e pensava que nunca tinha ouvido
- tocar o triste Paganini: sempre que elle deu os seus concertos, eu
- estava longe da França.
-
- Entrei nas _Sorveiras_ com o peito cheio de friezas e de mortalidades.
- Quiz trabalhar, mas sentia-me dissolvido na pesada materialidade das
- cousas.
-
- Tomaram-me uns molles cansaços e fiquei sem pensamentos, sem desejos,
- inerte e silencioso como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.
- Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e o uivar dos cães que andam
- de noite na praia, esfomeados. O mar estava pesado de gemidos sob a
- noite lenta e mystica.
-
- Ora quando assim estava, ouvi, distante, como vindo das alturas
- hieraticas das nuvens e das vias-lacteas, o gemido de uma
- rabeca.--Quem é que, áquellas horas, n'uma costa aspera de ventos
- furiosos, quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da
- lareira, enrodilhados nos farrapos dos mantéos--tocava assim rabeca
- junto do mar?
-
- Fui, amedrontado, ao meu antigo balcão gothico e olhei pelas
- transparencias doentias da noite. Nada. As ondas choravam o seu chôro
- mystico e as estrellas estavam na sua immobilidade de onde se exhalam
- religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um
- soluço de medo, para junto do brazeiro: então ouvi de novo aquelle
- som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar como uma nevoa
- sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então,
- distinctamente, com os ouvidos da carne, a musica de uma rabeca,
- acompanhada, surdamente, pelo mar.
-
- Ao principio foi uma melodia de fresca serenata, que a agua
- acompanhava com um marulho humido e alegre: e ao mesmo tempo, ao
- longe, havia o gemer rythmico do vento.
-
- Então, durante uns momentos, eu ouvi uma musica estranha de rabeca,
- acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações, e vozes
- pesadas de lagrimas, e melodias tragicas com dôres da natureza, e
- sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta
- corria, como a agua corre, lodosa, entre os juncos e os cannaviaes.
-
- Havia vozes de rabeca, afflictas e barbaras: e ás vezes, dôces
- mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca,
- delgada, tenue, clara como um fio de som. Eu não te sei dizer o que
- era aquella musica sobrenatural, elegiaca, selvagem, tragica, suave e
- escarnecedora!
-
- Por fim, de repente, toda aquella orchestra poderosa se calou, como
- um bando de abutres e aves de noite gritando afflictas, com tragicas
- palpitações de azas, que vêm pousar, n'um silencio, sobre um rochedo
- das aguas. Então senti, de entre aquella amontoação apocalyptica de
- harmonias, desprender-se, solitaria, a voz da rabeca, e vir, de leve,
- tocar junto do meu balcão com meiguice, com mollesa, com volupia--as
- variações do _Carnaval de Veneza_.
-
- Ninguem me póde tirar do coração, que foi a alma de Paganini que
- deixou o seu corpo na natureza solitaria das _Serenas_, e veiu dizer o
- adeus da musica ao seu velho amigo.
-
- Adeus, meu meigo artista! Soffre e transfigura-te pela dôr: eu aqui
- estou, cheio de saudades da nossa dôce França, junto das aguas tristes
- do Mediterraneo.
-
- Creio que, depois da noite de hontem, nunca mais terei o riso sonoro
- e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de
- saudação, o terrivel temporal que agora vae na costa.»
-
-O homem a quem esta carta foi escripta, era um artista, um pintor
-como Lantara, vivendo descuidado na bohemia errante das miserias,
-das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os
-contactos do corpo: no meio d'aquellas loucuras esteve sempre como
-uma pomba adormecida. Aquelle pobre rapaz vivia n'uma trapeira, onde
-trabalhava sem sol, n'aquellas alturas silenciosas e castas, onde
-vivem e crescem as flôres do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a
-um hospital: e alli era sagradamente velado por uma enfermeira dôce,
-delicada e branca como uma virgem de oiro fino de um livro de legendas:
-o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava,
-pediu um dia á enfermeira a sua touca engommada e lisa, e com um lapis
-desenhou alli, como um agradecimento d'alma, toda a sorte de delicadas
-imaginações--azas abertas, corôas de folhagens, ondas que vinham beijar
-um pé branco, corôações de caridades.
-
-Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre
-pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce
-rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem;
-escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio
-Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a
-chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas, aos
-montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a
-orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e
-inerte.
-
-A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da
-Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela
-belleza sagrada e espiritual da morte.
-
- * * * * *
-
-Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna,
-e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos
-pobres.
-
-
-
-
-ENTRE A NEVE
-
- (A ANSELMO D'ANDRADE)
-
-
-O lenhador, pela madrugada, ergueu-se da enxerga e accendeu a candeia.
-
-Junto da lareira, engelhado de frio, cavado de magresa, dormia um rapaz
-enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfallecia de
-febre: até ao anoitecer da vespera andára pelo negro matto, e depois
-nem teve um magro caldo junto das somnolencias da lareira.
-
-Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos,
-que á noite, quando resavam, todos arripiados e magros, em redor da
-mãe, suffocavam no chôro da fome: por isso, áquellas horas, por entre
-os nevoeiros molles, elle ia pelos montes, pelas collinas, pelos
-pinheiraes, rachar, cortar e desramar, a asperos ventos, na grande neve
-silenciosa.
-
-O rapaz dormia com os pés inteiriçados e todos brancos da lama secca:
-tinha os grandes cabellos espalhados, e branco tinha o peito. A um
-canto, sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da mãe, as duas
-creanças dormiam com os cotovellos arroxeados--dissolvidas no somno do
-frio e da fome. O lenhador tirou a jaleca que levava para os montes,
-embrulhou-lhes os pés regelados, e com a candeia foi debruçar-se sobre
-a enxerga onde dormia a mulher: ella tinha o corpo collado ao fraco
-calor da enxerga como a um seio amado, os braços caidos e frouxos
-como os de uma mulher esteril: os seus cabellos negros espalhavam-se
-tristemente pela enxerga como um luto: e a manta esburacada modelava a
-fórma casta e fecunda dos seus peitos.
-
-Então o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas,
-cobriu-se com o capuz de saragoça e foi-se lento, esfomeado e
-esqueletico, pelos grandes caminhos, duros, lividos e cobertos de
-nevoas.
-
-O seu casebre ficava perdido ao pé dos montes, longe dos povoados,
-entre umas poucas de arvores que erguiam para o ar os seus braços
-negros, descarnados, nús e supplicantes.
-
-Alli vivia aquella familia transida dos frios, emagrecida das fomes,
-diante da neve e dos invernos, com os peitos cheios da religião do
-sol, das searas e das fecundidades sonoras e alumiadas--como cousas
-flammejantes e divinas, que estão tão longe como Deus, inaccessiveis,
-na poeira da luz, entre os paraizos. O pae ia todos os dias para os
-grandes montes lidar entre a ramaria: a mulher, em casa, cosia os
-farrapos ao pé da lareira sem lume, e ao anoitecer ia para junto da
-porta desconjuntada dos ventos, gretada dos frios, vêr se, pelos
-atalhos enevoados, via chegar o marido, lento, curvado sob os grandes
-feixes de lenha.
-
-O lenhador caminhava para as bandas dos montes.
-
-A neve caia, levemente. A alma aconchegava-se dentro do corpo--como
-n'um vestido santo, amedrontada pela dureza sobrenatural das cousas.
-Porque toda aquella natureza tinha estranhas barbaridades.
-
-A manhã vinha escura, lenta e lacrimosa, como uma viuva á hora dos
-enterros: e á pouca luz tenue, os pedaços de gelo pendurados dos cardos
-e das urzes tinham o aspecto de farrapos de mortalhas: sobre as arvores
-immoveis, os passaros, quietos e mudos, eriçavam as plumagens aos
-ventos cortantes.
-
-O lenhador caminhava sempre, rasgando-se nas silvas, orvalhado dos
-pingos das arvores, pallido e sereno.
-
-Ia lento. Pensava nos lavradores, que áquellas horas, nas terras
-quentes, saem, assobiando sob a noite religiosa e alumiada, entre as
-hervas altas, ao resplandecimento fecundo dos orvalhos, guiando pelos
-sulcos, emquanto as andorinhas gritam alegres e gloriosas, os bois
-fortes, lentos e bons. Elle tinha a mulher e os filhos esfomeados no
-casebre; desfazia-se em suores e em cansaços, e nem sempre aquellas
-faces amadas se enchiam das côres da vida. Era o frio, era a fome; nem
-uma manta nova, nem uma pouca de lã! O bom Deus, lá em cima, parece
-que está tão bem agasalhado ao calor dos seus paraizos e das suas
-estrellas, que se não lembra da pobre gente dos campos e dos montes que
-se arrepia de frio. E havia gente que via sempre os filhos bem quentes
-e bem córados!
-
-Assim pensava o triste, caminhando, pesado, molhado e todo cheio de
-cousas dolorosas e morbidas. A neve vinha descendo como um immenso
-desprendimento de lãs.
-
-E elle pensava que podia ser um abastado dos campos, e vêr á noite,
-em volta da sua lareira flamejante e serena, toda a multidão dura dos
-ceifadores e dos semeadores, entre os bons risos, em redor da grande
-tijela de caldo, ao estalido das castanhas, na attitude dos bons e dos
-simples.
-
-A neve ia caindo direita e vaga: e ouvia-se o rumor--indefinido como
-de um mar, laborioso como de uma colmeia--das multidões doentias dos
-pinheiros.
-
-O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enovelladas
-nas pedras, esfarrapadas pelos cardos: e ás vezes um corvo, passando
-silencioso e nocturno, vinha bater o ar em redor d'elle com uma
-selvagem palpitação de azas.
-
-Começava a espalhar-se o dia. Elle sentia-se só entre aquella natureza
-inimiga e barbara; e por vezes o braço, enfraquecido da febre, vergava
-sob o machado e as cordas humidas.
-
-Elle ia entrando pelo pinheiral, indolente. O pinheiral era cerrado, e
-a noite continuava ainda no encruzamento das ramagens lividas. A neve,
-que caía sobre os ramos, desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva.
-
-As arvores estavam como tomadas de um susto religioso.
-
-Quando saíu do pinheiral, em caminho para os montes, lembrou-lhe
-quando ia para as escamisadas n'uma aldeia do sul, e sob a luz
-apaixonada e melodica das constellações cantava á viola junto d'uma
-dôce rapariga de testa santa e de cabellos côr de amora; e elle, o
-perdido, amollecia o olhar a passeal-o, pela abertura do lenço, sobre a
-brancura do collo d'ella!
-
-Hoje, áquellas horas, pensava elle, aquella pobre mulher gemia na sua
-alma, vendo os filhos, sem um bocado de pão, andarem pelo casebre
-humido, rotos, dependurando-se-lhe das saias, gemendo: _mãe! mãe!_ E os
-olhos do desgraçado tremiam-lhe nas aguas do chôro.
-
-O lenhador apertou o machado e entrou na floresta.
-
-Os velhos carvalhos violentos e propheticos, os choupos desfallecidos,
-os castanheiros ruidosos, os olmos gigantescos, as ramagens e os
-silvados eriçados onde o vento brada afflicto, todas aquellas verduras
-vivas e sãs que cantam ao sol, no empoeiramento da luz crúa--toda
-aquella sombria Diana esguedelhada, que se chama a floresta, dormia sob
-as oppressões da neve, triste, silenciosa, estoica e soberba.
-
-O lenhador, com o machado erguido, ia por entre a floresta; elle
-conhecia aquellas estranhas attitudes, aquelles escarpamentos de neve,
-as faces pensadoras dos rochedos, todo o emmaranhamento de ramos, de
-folhas, d'onde cáem gottas como um echo de chuvas passadas: e todavia,
-ao endireitar-se contra um velho carvalho, empallideceu, como diante de
-uma profanação.
-
-O seu coração simples e bom não comprehendia, mas sentia aquellas vidas
-immoveis, silenciosas e sonoras, que são arvores, ramagens, arbustos,
-florescencias; elle tinha compaixão dos gemidos dos troncos, das
-cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que sacrificava
-alli, á fome dos filhos, vidas infinitas de arvores.
-
-O lenhador atirou o machado contra o tronco do carvalho--e toda a
-arvore immensa ficou tomada de vibrações dolorosas: e as suas ramagens
-estenderam-se caidas, sem vida e sem força, pelo tronco, como para se
-vêrem morrer sem gemidos, n'um silencio soberbo e selvagem.
-
-O sol veiu livido, molle, desfallecido, sem força, sem vitalidade,
-sem ascenção flammejante e sagrada, entre nevoas arrastadas, entre
-esvaecimentos lugubres de nuvens. Começavam a esvoaçar os passaros,
-piando tristemente.
-
-E o lenhador, com o peito arqueado, os cabellos desmanchados, vermelho,
-feroz, com o machado erguido nas mãos, com tragicos encarniçamentos,
-luctava contra os troncos, contra os ramos, contra as raizes, contra
-as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens
-negras, de braços mortos de arvores, caidos e inertes como armaduras
-vencidas.
-
-Aquellas arvores que tanto tempo levaram a formar-se, e a enrijar, e
-a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da
-chuva, e a enlaçar as molles nudezas das nevoas e dos vapores, aquellas
-arvores cheias das mordeduras de novembro, cheias de legenda e do
-cheiro das tormentas, encolhiam os ramos n'um estremecimento medroso
-quando o machado reluzia lugubremente no ar.
-
-Elle tinha a camisa solta e esfarrapada: os sóccos faziam covas na
-neve: e, esfomeado, terrivel, ia a grandes passos pela floresta,
-rasgando os silvados, esmigalhando as raizes, envolto em estilhas, em
-fibras partidas, com gestos tragicos, afastando com o machado o vôo dos
-córvos; e, todo cheio do amor dos filhos, torturava as arvores, com
-golpes flammejantes, gritando-lhes: _covardes!_
-
-Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e as
-nevoas, e a febre, e a dôr, até ao anoitecer.
-
-Tinha já um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas, duras
-como os seus braços: encravou no meio o machado: o feixe enorme estava
-encostado a um monte de neve: as duas pontas da corda por onde elle o
-havia de erguer, pendiam negras e humidas: então curvou-se todo para
-tomar o feixe sobre as costas largas: mas quando o ia a erguer, lento e
-cansado, sentiu os musculos afrouxarem, as mãos esfriarem, subiu-lhe um
-desfallecimento, e caiu, com os cabellos suados e collados á testa; e
-os seus dedos inteiriçados esburacaram a neve.
-
-Assim esteve perdido na mollesa do esvaecimento, até que abriu os
-olhos vagarosos, e ficou-se encostado ao feixe, silencioso e cheio de
-tremuras.
-
-Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava
-tomado de uma pallidez opaca e severa: caía uma chuva vaporisada: todo
-o chão estava pesado de neve.
-
-Ao pé do lenhador estava estendido um grande tronco engelhado, morto,
-sem raizes, sem ramagem, sem seiva: por um lado começava a desfazel-o a
-podridão.
-
-Em redor erguiam-se as multidões de arvores cobertas de neve,
-adelgaçadas entre as transparencias do nevoeiro, tristes e nocturnas
-como monges brancos.
-
-Ao fundo abria-se uma clareira, que deixava vêr ao longe a grande luz,
-que se ia, serena e timida.
-
-O lenhador, com o pescoço nú, o peito dolorido e ensopado, agarrou as
-cordas do feixe e, enrijando os musculos, com a face congestionada, as
-fontes inchadas, as grandes veias saídas como cordagens, e as pernas
-hirtas, violentou o corpo para se erguer. Mas caíu sobre a neve,
-amollecido, suffocado, e coberto das friezas humidas da febre.
-
-Então ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nú, coberto de neve, e
-a pensar que o seu corpo ia alli finar-se e dissipar-se entre as
-podridões dos troncos.
-
-E toda a sua carne foi tomada por uma vibração terrivel. Tinham-lhe
-lembrado os filhos e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia, quando
-elle entrava, a neve dos cabellos e as silvas da jaleca.
-
-A neve caía triste. Áquellas horas ella esperava, junto da porta, a
-vêr se o via ao longe chegar, curvado debaixo dos seus feixes, pelos
-caminhos brancos de neve.
-
-Ella estaria com uma mão apoiada á hombreira, e com a outra agazalhando
-as creanças nas dobras da saia, contra os frios da noite.
-
-E elle estava alli só, esmagado, sob a neve implacavel!
-
-E quando o não vissem vir?! E elle procurava na memoria se já alguma
-vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca.
-
-Se o não vissem chegar, iriam todos, chorando e bradando, com a
-candeia acobertada do vento, procural-o pelas urzes sinistras.
-
-Ás vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra
-subirem pelos troncos como um fumo terrivel; e sempre aquelle
-enovellamento de similhanças humanas subia até se perder nas
-transparencias lividas do ar.
-
-A neve caía como escorrida das nuvens.
-
-E elle pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte
-na neve, sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras
-da ventania, silencioso e solitario como um lobo!
-
-Então aquelle corpo, pisado, rôxo, tiritando entre as roupas molhadas,
-dissolvido nas mollesas da nevoa, inteiriçou-se; com os olhos
-flammejantes, os dentes irados, tomado de risos, esfarrapado dos
-cardos, endireitou-se e, suffocado, esguedelhado, hirto, livido, deu um
-grito na noite.
-
-Houve um levantamento assustado de passaros por toda a ramagem escura.
-E veiu um vento e levou, nas suas espiraes violentas, um enovellamento
-de folhas. E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Não havia ninguem
-pelo monte. Estava só. Só! Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros
-perdidos. Só! E iam-se os passaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Elle
-ficava só.
-
-Então, vendo em redor a floresta solitaria e negra, a amontoação
-crescente das sombras, o esvaecimento livido dos ultimos ramos, as
-attitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das raizes, sentindo ao
-longe o uivo dos lobos e por cima da cabeça o esvoaçar dos córvos,
-estirou-se de bruços e bradou, na noite, sob a neve e o ruido dos
-ramos:--Jesus!
-
-E toda a floresta ficou silenciosa, indifferente, soberba; os córvos
-voaram gritando; elle caíu, fraco, desalentado, roto, agonisante,
-macerado; e de cima o grande ceu, o ceu justo, o ceu sereno, o ceu
-sagrado, o ceu consolador cuspia neve sobre aquella carne miseravel.
-
-E ficou inerte. A neve caía desfeita e branca. Estava estirado. Via por
-cima a grande immobilidade da floresta, os nevoeiros, que deixavam caír
-farrapos que lhe vinham roçar o rosto, e a sombra espectral do feixe de
-lenha.
-
-Elle sentia o corpo entorpecido pelo frio, e na testa e nos olhos
-abrazamentos mordentes: e parecia-lhe que lhe mordia as costas uma
-chaga immensa, que tivesse terriveis ardores ao contacto da neve, sob o
-peso do corpo.
-
-Ás vezes soluçava. E, quando assim estava, viu grandes sombras que lhe
-esvoaçavam sobre a cabeça e fugiam bradando afflictas, com um terrivel
-ruido d'azas, esbranquiçadas da neve, apavoradas e ferozes.
-
-Eram os córvos. Tremeu todo. Elle entrevia-os já quando elles viessem
-pousar-lhe sobre o peito, e curvados, batendo as azas, meio suspensos,
-enterrar-lhe os bicos negros na pobre carne.
-
-Então moveu dolorosamente o braço entorpecido e apalpou em redor:
-encontrou um ramo solto, negro, espinhoso: lançou-o contra as sombras
-negras dos córvos; mas elle tinha a mão quasi inanimada pelo frio, e o
-ramo, debilmente arremessado, veio-lhe caír sobre a face, e rasgou-lhe
-a carne com os espinhos. Já, porém, as mãos inertes não tiveram força
-para o tirar.
-
-E poz-se a chorar. Os córvos voavam terriveis: elle enterrava o pé na
-neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os córvos desciam.
-
-A neve caía e já lhe cobria as pernas hirtas. Elle então, vendo a
-floresta que o ensopava de agua, o chão que lhe coalhava a vida, o
-vento que o transia, a neve que o enterrava, os córvos que vinham
-comêl-o, todas as hostilidades selvagens das cousas, encheu-se de
-cóleras, e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou
-rijamente a cabeça sobre o feixe--e poz-se a morrer.
-
-Então veiu repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre
-lenhador sentir, n'aquelle vento, o som de um chôro e uma voz bradando
-afflicta.
-
-O vento redobrou de furia: dispersou os córvos: elles balançavam-se nas
-azas entre os redemoinhos do sopro feroz.
-
-A neve caía: e os braços do lenhador já estavam cobertos, e todo o
-peito estava coberto. Os córvos fugiam: e todo o bando apparecia como
-uma sombra indecisa e pesada.
-
-A neve caía. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a
-bocca.
-
-Os córvos iam-se sumindo nas transparencias da noite...
-
-A neve caía, contínua, silenciosa. A testa do pobre estava coberta, e
-apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes cabellos
-escuros.
-
-A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.
-
-E a neve descia. As sombras dos córvos sumiram-se para além das ramas
-negras.
-
-Os cabellos desappareceram. Só ficou a neve!
-
-
-
-
-OS MORTOS
-
-
-Hontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Emquanto nas
-dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, deante
-do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus
-queridos mortos, elles andam dispersos pela grande natureza, pelas
-florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da
-seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras d'acre cheiro.
-
-A sua carne soffreu, empallideceu com os medos, emmagreceu com as
-febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas
-frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do
-sol, nos átomos da noite constellada e suave.
-
-Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio
-da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a
-seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corollas, de
-ramagens ondulosas.
-
-Os que morreram sobre as aguas do mar, desfazem-se entre as verdes
-profundidades, entre as areias, os coraes, as conchas, os rochedos, e
-vêm depois, sob a fórma d'ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite
-estirar-se ao peso da mollesa que escorre dos astros, ou de madrugada,
-cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o
-povo dos pescadores, silencioso e trigueiro.
-
-Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos,
-são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hieratica das
-estrellas, pelos vapores molles das nuvens, pelas auroras; são os
-átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.
-
-Assim os mortos são felizes.
-
-Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empallidecidos,
-esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos
-deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses,
-riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no
-meio d'esta forte vitalidade--como um lavrador que suspende a enxada e
-se fica, todo amarello, a pensar na velhice sem pão e sem lume--estamos
-sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos,
-aterrados, nos esfriamentos lugubres do tumulo.
-
-E entretanto os mortos, que são os paes, as irmãs, as bem-amadas,
-as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas aguas, pelos
-astros--serenos e immaculados. E porque tememos a morte? Que instincto
-tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta fórma humana, estes
-cabellos, estes olhos, estes braços enrodilhados de musculos? As
-arvores, as florescencias, as hervas, as folhas, são tambem fórmas da
-vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas familias das
-constellações, pelos planetas, pelas arvores, pelos lividos interiores
-da terra, pelas aguas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a
-seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha attracções,
-amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações,
-pollens, alma, movimento--vida. Porque ha de então ser esta fórma, que
-tem braços e cabellos, e não aquella, que tem ramos e folhagens?
-
-A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados,
-luminosos, bestiaes, divinos.
-
-Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana,
-onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza,
-na serenidade, na fecundidade, na força.
-
-Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma
-transfiguração sagrada. Mal cáem sobre elles as ultimas pazadas de
-terra e o canto dos padres, barbaro e dolente, se perde com o fumo dos
-cirios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a
-grande vegetação esfomeada; elle vae dar-se alli como pasto ás boccas
-sinistras das raizes: elle amollece entre as humidades da terra e
-desfaz-se em podridões: então as raizes começam a sugar e a comer: a
-podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se
-pelos ramos, palpita dentro da arvore, engrossa, fecunda, arredonda-se
-nas exhuberancias dos gomos, e abre-se depois em folhagens, em
-florescencias e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o
-sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos
-pastores, e vive sereno, repousado, na floresta immensa.
-
-E no emtanto, junto d'aquelle corpo, que soffreu a metempsycose do bem,
-foi enterrado outro, n'um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e
-embalsamado. Entre a enorme palpitação diffusa, emquanto em redor se
-vae operando a lenta transformação da semente, onde já estão em germen
-as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde
-o vento atormentará, entre as raizes fortes e retorcidas dos arbustos,
-entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades
-creadoras da terra fecunda, o cadaver embalsamado alli está, inteiro,
-hirto, rijo, feio, livido. Elle inveja os átomos livres e soltos, que
-sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e
-escorrem, como grãos d'um sacco, desde as constellações e os cometas,
-até ás espumas castas das fontes: alli, sequestrado á natureza, não
-se póde dissolver na eterna materia forte: não tornará a vêr o sol,
-as noites amollecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que
-estranha fatalidade pesava sobre elle, que nem a morte o libertou?
-
-Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da belleza
-e da harmonia; movermo-nos na atmosphera serena do bem e da liberdade;
-ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tyrannos;
-sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada--e depois, ó santa
-Natureza! toma os nossos corpos para fazer d'elles arvores cheias de
-sombra e ramos resplandecentes!
-
-E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos
-n'uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e
-fecunda, nos enche todo o interior, despertando alli, como faz nas
-madrugadas de maio, os córos de passaros: e depois ha um responso
-sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os
-terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma
-hostia mysteriosa.
-
-Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as arvores estão
-graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva
-flammejante e serena que a floresta veste: e ella murmura um canto
-dolente e sacro, acompanhado pelos passaros religiosos, e d'entre as
-ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga
-hostia: e, ao fim da missa, as arvores, balançando os ramos, parecem
-lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua
-benção soberba.
-
-Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes,
-purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio
-do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de
-confidencias.
-
-São os nossos queridos mortos que nos fallam; e então toda a materia
-tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar,
-com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios
-amados...
-
-E depois a natureza tem immensos perdões e reconciliações formidaveis;
-todos os odios tragicos, todos os corações ferozes se fundem
-divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ella não escolhe; tudo
-lhe é bom; as raizes das rosas pastam a podridão dos tyrannos; e dos
-homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz
-carvalhos austeros e cedros religiosos.
-
-Ella é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa
-Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos--o do homem
-luminoso e o do homem escuro--andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas
-auroras e nas mesmas corollas.
-
-Ella acolhe, indifferente, todos os ritos, todas as religiões: as
-mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas
-dos ritos de Baccho, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois,
-agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constellações, o pobre
-Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue,
-bradando afflicto na noite das Agonias.
-
-Ás horas em que acabo estas linhas, vae o dia a declinar: agora, lá
-ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre
-os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e
-parece-me vêl-o d'aqui, entre as transparencias morbidas do anoitecer,
-distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que elle assim
-espalha pelos sulcos fecundantes: são elles que se tornaram seáras e
-que lhe hão de encher o celleiro; são elles que lhe dão a comer a sua
-carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações!
-
-Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer
-com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na
-natureza que se deve procurar a religião: não é nas hostias mysticas
-que anda o corpo de Jesus--é nas flôres das larangeiras.
-
-
-
-
-A PENINSULA
-
-
-Ainda hontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre
-tinhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendencias, somnolenta,
-chata, fria, burgueza, cheia de espantos e de servilidades: e que este
-velho canto da terra, cheio de arvores e de sol, tinha sido patria
-forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, epica!
-
-Ah! foi ha muito tempo...
-
-Era n'aquelle tempo em que a Italia rodeava os papas severos; e olhavam
-para o ceu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa,
-uma profunda transformação social. Na Allemanha, Luthero entrava em
-Worms, com um canto batalhador, em nome do espirito e da alma. O
-Papado ia morrer. Era necessario que todo o Sul se alliasse na cruzada
-catholica.
-
-Toda a revolta de Luthero foi tomada, ao principio, por um d'aquelles
-lentos suspiros allemães, que se perdiam no côro profano, luminoso,
-embalador e forte do Sul.
-
-Viu-se, depois, que era a voz immensa da alma do Norte, toda uma
-humanidade austera e vital, que se movia, que vinha fallar, pensar,
-examinar, revelar, sob o peso da theocracia romana, dos papas, dos
-imperadores, das tyrannias, dos sacerdocios.
-
-Todo o Sul catholico estremeceu: aquella revolta vinha imprevista e
-rapida: um dia, a imperceptivel e vasta humanidade, quando fosse,
-uma madrugada, para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma
-deserta, e, ao longe, o catholicismo dissipando-se com um som hieratico
-de psalmos, e um colorido vermelho de fogueiras.
-
-Era necessario salvar o Sul.
-
-A Italia tinha-se familiarisado com o christianismo: tinha-se
-acostumado ás santas macerações de Jesus, á transparencia ascetica das
-virgens: os renunciamentos e os medos catholicos já a não vergavam para
-o pó. Ella, cheia de sol, e de sons, e de forças, começava a olhar
-a natureza, as grandes fecundidades, as vitalidades poderosas, as
-melodias moventes da carne.
-
-Os velhos Deuses da Grecia tinham-se refugiado na alma italiana: ao
-principio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela
-dôr, encolhidos, soluçantes, miseraveis: depois, lentamente, foram
-apparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrosia e um som d'idyllio; e os
-seus corpos, sãos como astros, occuparam, por fim, toda a alma italiana
-com choreias, derramações de nectares, palpitações de luz, divinos
-resplandecimentos de vida.
-
-A Italia tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do
-infinito: e os poucos que se curvavam sobre a _Divina Comedia_, não era
-para vêr os castigos e os paraizos, mas para sentir as palpitações, que
-lá tinham ficado, da alma de Florença.
-
-A Italia seguia Petrarcha: mas em Petrarcha havia ainda uma religião e
-um mysticismo--o amor: e a Laura dos _Sonetos_, como a Virgem mystica,
-prendia nas humilhações religiosas todos os cavalleiros do Sul. A
-Italia então deixou Petrarcha e rodeou Ariosto, o aventureiro, o
-jovial, o descrente, cavalleiro e escarnecedor.
-
-Foi então que se ouviu aquella voz do Norte.
-
-Todas as cohortes catholicas andavam dispersas, galhofeiras e
-namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta
-Pulci, guiadas por Lorenzo do Medicis e pelo cardeal Bembo, cantando
-ás estrellas, adorando as Violantes, rindo de Fra-Angelico, acclamando
-Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do
-sol, da musica e das noites profanas.
-
-Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Luthero. Todos os
-catholicos correram instinctivamente, rodearam os papas severos,
-Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os psalmos e as missas de Marcello,
-cheias dos renascimentos asceticos, e foram seguindo o Tasso, que
-voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus.
-
-E o papa continuou caminhando, sereno e terrivel, deixando as sombras
-das masmorras de Galileo e de Campanella, e mais longe o fumo das
-fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno.
-
-Tal era a lucta do Norte e do Sul.
-
-Ora, durante essa lucta das religiões e das patrias, a Peninsula,
-encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistro
-cavalleiro de Deus, armava as caravellas e os galeões para as bandas
-desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós
-outros, os peninsulares, appareciamos ás demais nações como velhos
-lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como
-calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios
-de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terriveis.
-
-De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto
-um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiaes e
-núas, sob a benção dos padres: alli mesmo, sobre a areia, ao rumor das
-maresias, escrevia a historia tragica da sua viagem, e uma madrugada,
-tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a
-banda das Indias.
-
-Era assim. Todos os annos, aquella multidão immensa de aventureiros
-embarcava nos galeões, entre os psalmos o os chóros, e elles iam,
-silenciosos e flammejantes, por entre as sonoras illimitações, os
-ventos afflictos e os tremores da agua--para os nevoeiros inexplorados.
-
-Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as
-constellações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e
-as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Christo,
-cantando os psalmos ao côro dos furacões, todos reluzentes de armaduras
-e de divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e
-de doçuras de apostolos.
-
-Iam como n'uma gloria e em nome de Deus! E quando encontravam as
-hostilidades e os encrespamentos irados dos elementos, as oppressões
-infinitas dos ventos e das aguas, erguiam as mãos como para uma
-excommunhão, e bradavam, soberbos, áquelles sôpros e áquellas maresias,
-os versiculos do Evangelho segundo S. João.
-
-Ora aquelles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e
-poetas. Escreviam os seus feitos.
-
-Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convez das
-caravellas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da India,
-sob as immobilidades crúas da luz: escreviam cobertos das espumas,
-ennegrecidos pelos fumos, trémulos das iras das batalhas. Por isso
-enchiam as suas chronicas e os seus poemas d'uma estranha prodigalidade
-de força e de vida. E os seus diarios de bordo tinham, muitas vezes, a
-simplicidade epica de Homero.
-
-Mas elles tambem tinham amores, ciumes, paternidades, paixões, lyrismos
-interiores, e as saudades da patria nasciam n'aquellas almas como
-grandes assucenas que se abrem dentro d'um vaso, e que o enchem.
-
-De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados,
-deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, emquanto os
-pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens immensas das
-estrellas, e todo o mar enorme se amollecia como um seio cansado, elles
-contavam em voz baixa, com as cabeças juntas, as historias de amores,
-os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da patria.
-
-E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farças, comedias e elegias.
-
-E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar,
-tomavam a fórma popular.
-
-Estavam longe da Europa, das plasticas da Italia, dos renascimentos
-gregos e romanos, das antigas fórmas rituaes, das educações classicas.
-
-Não conheciam isto.
-
-Mas lembravam-se sempre das cantigas da patria, das lendas heroicas,
-dos romances populares, que elles tinham ouvido pelos campos, com que
-os velhos embalavam os netos, que se cantam do noite ás estrellas por
-Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos
-godos e dos arabes. Porque o povo, na Peninsula, tinha uma poesia, sua
-exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos,
-em que escarnecia os alcaides e celebrava os heroes.
-
-Fazia d'aquella poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande
-leito mysterioso onde adormecia as tristezas: era alli que procurava
-confortos, recompensas, e as ideias da patria.
-
-No Norte, a poesia popular foi a Invisivel que levou, pela mão, os
-trovadores, filhos das glebas, até ás lareiras dos senhorios feudaes:
-foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça,
-mysticos e sensuaes, soltaram para as brancas castellãs que entreviam
-nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, ás
-estrellas, pelos altos terraços; ou entre as arvores, ao entardecer,
-quando as ogivas, cheias do sol obliquo, estão flammejantes como
-mitras.
-
-E as castellãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e
-cheios do paraizo. Admiravel influencia da poesia, que produziu, pelo
-amor, um renascimento social!
-
-Mas a poesia da Peninsula era unicamente do povo: era a epopeia
-austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo del Carpio,
-exterminador de barbaros. Na Peninsula, o povo estava sob uma condição
-especial; tinha uma importancia no estado forte, fecunda e soberba:
-a Peninsula tinha passado os primeiros annos da sua constituição
-nas luctas terriveis do forte Mahomet e do Christo mystico; ora o
-popular da Peninsula não era um servo, era um christão: consagrado
-pelos baptismos, era uma força individual, que impellia e dissolvia o
-elemento mourisco, sensual e poderoso.
-
-Ora foi sob a fórma popular que aquelles batalhadores e poetas, que vão
-hoje tomando a vaga attitude da legenda, escreveram os seus poemas, as
-suas cantatas, as suas comedias e os seus sonetos.
-
-Então toda a litteratura peninsular tem uma originalidade profunda,
-independente de fórmas e ritos: a arte, o drama, a poesia, sáem
-das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades
-meridionaes: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades
-esqueciam as suas tradições, a sua historia, a sua velha alma, para
-se envolverem nas fórmas antigas. Era a Renascença. Então apparece o
-theatro hespanhol, original, cavalheiresco, energico, apaixonado, cheio
-de selvagens palpitações, de lances, de religião: theatro onde a cruz
-é um personagem; onde fallam lacaios, heroes, santos, ventos, galeões;
-onde todas as fórmas da vida se confundem--o riso, o chôro, a ironia, a
-satyra, o madrigal...
-
-Depois uma pintura mystica e sensual: não é a espiritualisação da alma,
-é antes a immortalisação da carne, inspirada d'aquelle mysticismo
-hespanhol, que sob a influencia da natureza, do clima, da politica,
-da raça, parece mais cheio das tragicas iras de Jehovah, do que das
-doçuras de Jesus.
-
-Depois uma musica, como a do _Dies irae_, obra dos terriveis
-dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: musica
-ascetica e flammejante, onde a natureza apparece, tragica e desgrenhada.
-
-Uma arte onde se torcem todas as chammas do inferno, e todas as
-pedrarias dos paraizos catholicos, que parece uma lucta tragica
-e comica da vida e da morte; uma egreja cheia de renunciamentos
-mysticos, mas onde o mysticismo parece mais um desespero de não poder
-saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a
-alma nas contemplações divinas: uma defeza do catholicismo, tragica
-e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdocios:
-confusão dos imperadores com os santos e das corôas de metal com as
-corôas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o
-sentimento mais apparente é o rancor.
-
-Ao mesmo tempo uma austeridade monastica em tempo de guerra: caravellas
-que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações
-das estrellas: quasi, por vezes, uma reconciliação apparente do
-Mahometanismo e do Christianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o
-elemento da intriga que quer entrar na politica, vindo substituir o
-elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa visinha. Depois
-um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a
-America e as Indias como um paraizo de oiros, de metaes e de soberanias.
-
-Tal é o aspecto mais geral da Hespanha nas vesperas da Renascença.
-
-É dramatica aquella vida.
-
-Não admira, por isso, que a fórma suprema da sua arte--fosse o drama.
-
-Em Portugal, não é este rigorosamente o fundo do genio: ha mais
-serenidade na força: o caracter portuguez é mais parecido com o
-caracter italiano: os nossos sabios, os nossos viajantes, os nossos
-descobridores, tinham mais a lucidez do tempo de Galileo do que a fé
-do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso Portugal não
-resistiu nada á influencia italiana. O renascimento da antiguidade, a
-serenidade plastica, a frieza classica, acclimatam-se na Hespanha, mas
-com dôr e com lucta: foi necessario que a Hespanha já não acreditasse
-na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar,
-pelos caminhos, o magro D. Quixote.
-
-Em Portugal não: o genio antigo acclimatou-se: transformou-se mesmo:
-perdeu o elemento vital e fecundo--e ficou-lhe o elemento rhetorico.
-
-Oh Arcadia! Oh moços pastoris e burguezes! Oh classicos!
-
-
-
-
-O «MIAUTONOMAH»
-
-
-Ha duzentos annos, uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco
-na Hollanda humida e ubere, e, sob o equinoxio e os grandes ventos,
-miseraveis, austeros, levando uma Biblia, partiram para as bandas da
-America.
-
-Duzentos annos depois, estes homens que tinham ido, solitarios, n'um
-barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra epica pelo
-Mediterraneo, pelo Pacifico, pelo mar das Indias, pelo Atlantico, pelos
-mares do Norte.
-
-Aquella colonia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados,
-rotos, que dormiam ás humidades do ar n'uma capa esfarrapada, é hoje a
-America do Norte--os Estados-Unidos.
-
-America do Norte significa trabalho, fé, heroismo, industria, capital,
-força e materia.
-
-Ultimamente via eu o _Miautonomah_, sinistro e negro caçador de
-esquadras: é toda a imagem da America--frio, sereno, contente,
-material, e cheio de fogos, de estrondos, de machinismos, de forças e
-de fulminações.
-
-É o que amedronta n'aquelle navio:--a frieza na força.
-
-Elle representa a consciencia soberba da força e da industria, e os
-grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos
-elementos: elle tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o
-Mediterraneo, os grandes desvairamentos da agua, os ventos immensos,
-os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente
-apparecidos, os nevoeiros perfidos, os magnetismos, as electricidades,
-toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se
-preparam:--cordagens, velames, mastreações, complicações e resistencias
-de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que
-transforma as hostilidades em auxilios; elle, o _Miautonomah_,
-contenta-se com uma taboa rasa.
-
-Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um
-formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o
-arsenal reluzente das abordagens; a elle basta-lhe uma muralha de ferro.
-
-O vento é temido: nas vastas solidões azues, elle é o lobo sinistro
-que anda rodando e uivando, á caça dos navios; elle acalenta o mar,
-massa inerte e salgada: elle faz com a agua estranhas nupcias ferozes;
-extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens,
-persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares
-do Norte, quando elle sopra, as estrellas têm maior tremor: mas o
-grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violencia, com a
-força, e defende-se com o esvaecimento.
-
-O _Miautonomah_ é assim: ataca serenamente, com violencias enormes, com
-fulminações tragicas, e defende-se com a impassibilidade e quasi com o
-esvaecimento.
-
-Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas
-flammejantes, entre os terriveis fulgores do fogo, e os phantasmas do
-fumo, e as effervescencias da agua--elle passa, solta a sua fulminação
-enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio,
-impassivel, mudo, tenebroso, coberto de ferro.
-
-Elle não receia o mar: os outros navios erguem amuradas immensas para
-conter o encrespamento da onda: forram-n'as de cobre, erriçam-n'as
-de pregaria. O _Miautonomah_ não: elle julga a demencia do mar um
-prejuizo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da agua:
-satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericordia dá-lhe
-hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a
-triturar, a roer--dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro
-enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado,
-mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas,
-agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:--Lá anda o mar a
-varrer e a lavar o tombadilho.--E com effeito, o velho oceano dos
-diluvios faz, humildemente, o serviço dos ultimos grumetes.
-
-Em cima, na superficie da agua, ha o vento, as espumas, os nevoeiros,
-as chuvas, as trombas; elle, aborrecido, afasta-se d'este bando
-miseravel e vae investigar o fundo das aguas, as vegetações
-phantasticas, a região dos coraes, as cavernas enceladicas as purezas
-infinitas da transparencia, todo esse mundo submarino de que os velhos
-mareantes fallavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de
-ferro, enorme, elle brutalisa aquellas virgindades do mar: em baixo, a
-tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e
-desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio
-com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem,
-cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a
-Biblia--serenos.
-
-Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a
-amontoação confusa de calabres e de lonas--o tombadilho aberto é cheio
-de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das
-conchas, das espumas, das aves do mar.
-
-Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitarios,
-com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da
-materia. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos
-aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flammejantes que
-dão a vida aos machinismos--vermelhas como corações sobrenaturaes: o
-ar é descido por machinas de respiração, pulmões terriveis: e um vento
-geral, fecundo, benefico, escorre constantemente por todo o negro
-bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores
-pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo,
-aquelle navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas.
-
-Ora sobre aquelle negro navio, sobre os machinismos frios, aquellas
-forças pavorosas, aquellas fogueiras terriveis, no convez, entre as
-negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo,
-esvoaçando na sua gaiola--canta um canario.
-
-Tal é o _Miautonomah_, navio de guerra da America do Norte.
-
-Nós entrevemos a America como uma officina sombria, sonora e
-resplandecente, perdida ao longe nos mares.
-
-Entrevemol-a assim: movimentos immensos de capital; adoração exclusiva
-e unica do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de
-meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico;
-atmosphera pesada de positivismos estereis; uma febre quasi dolorosa
-do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças:
-extremo despreso pelos territorios; preoccupação exclusiva do util
-e do economico; doutrinas de uma philosophia e uma moral egoista e
-mercantil: todo o pensamento repassado d'essa influencia: uma fria
-liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação
-terrivel da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas,
-colonisações, exportações collossaes, forças extremas; accumulação
-immensa de industrias, esquadras terriveis, uma estranha derramação de
-jornaes, de pamphletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e
-por fim um profundo tedio pelo vasio que deixa na alma a adoração do
-deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação
-entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma
-bella costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos,
-com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as
-fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa,
-fecunda, eleita, desapparecendo entre as industrias, os fumos das
-fabricas, as construcções, os machinismos,--como a herva d'uma campina
-fertil que desapparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões.
-
-A vida da America do Norte é quasi um paroxismo.
-
-Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme,
-superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro?
-
-Todos os dias dizem á Europa:--Olhae para os Estados Unidos, lá está o
-ideal liberal, democratico, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal
-economico.
-
-Mas a America consagra a doutrina egoista de Monroe, pela qual uma
-nacionalidade se encolhe na sua geographia e na sua vitalidade, longe
-das outras patrias; esquece as suas antigas tradicções democraticas
-e as ideias geraes para se perder no movimento das industrias e das
-mercancias; allia-se com a Russia. A raça saxonia vae desconhecendo os
-grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoismos
-politicos e nas preoccupações mercantis, scisma conquistas e extensões
-de territorios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento
-positivo e egoista, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas,
-que fumegam negramente.
-
-Uma das inferioridades da America é a falta de sciencias philosophicas,
-de sciencias historicas e de sciencias sociaes.
-
-A nação que não tem sabios, grandes criticos, analysadores,
-philosophos, reconstruidores, asperos buscadores do ideal, não póde
-pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral.
-
-Emquanto a superioridade foi d'aquelles que batalhavam, que lançavam
-grandes massas de cavallarias, que appareciam reluzentes entre as
-metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a
-superioridade foi d'aquelles que pensavam, que descobriam systemas,
-civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a
-geologia, a astronomia, a philosophia, o Oriente caíu, miseravel e
-rasteiro.
-
-Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas sciencias historicas.
-Inferioridade! As sciencias historicas são a base fecunda das sciencias
-sociaes.
-
-É a superioridade da Europa: sob a mesma apparencia de febre industrial
-ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova
-humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça.
-
-O nosso mundo europeu tambem é uma extranha amontoação de contrastes
-e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas
-as efflorescencias fecundas e todas as velhas podridões: politicas
-superficiaes e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres
-consciencias e a tyrannia dos velhos ritos: diplomacias pacificas e
-transigentes, e um espirito de guerra surdo, acceso e flammejante:
-territorios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e
-pela philosophia dos conquistadores e dos heroes: restos de influencias
-monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionario;
-humanitarismo fundido com o mais aspero egoismo; um chaos horrivel
-de contradicçoes, e em cima, triumphal e soberba, a industria, entre
-as musicas dos metaes, as architecturas das Bolsas, reluzente,
-scintillante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho
-eterno--que são fortunas, imperios, festas, empresas collossaes.
-
-Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre,
-move-se em germen um novo mundo, o mundo da justiça social e economica.
-
-Este germen é que a America não tem, creio eu.
-
-Porque toda a America economica se explica por esta formula: feudalismo
-industrial.
-
-Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas,
-de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza
-amontoa-se em proveito da alta finança--com detrimento das pequenas
-industrias.
-
-Logo que na ordem economica não haja um balanço exacto de forças, de
-producção, de salarios, de trabalhos, de beneficios, de impostos,
-haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao
-mesmo tempo uma democracia de proletarios que emmagrece, definha, e
-dissipa-se nas miserias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam
-estas terriveis desuniformidades.
-
-Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o
-trabalho pela repugnancia que excita, pela absorpção completa de toda
-a vitalidade physica, pela aniquilação e quebrantamento da seiva
-material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção--por
-isso mesmo, sobreexcita o espirito, estende os ideaes, abre grandes
-vasios na alma, complica as necessidades, torna insupportavel a
-pobreza: nas grandes democracias industriaes onde as posições são
-obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha
-mil motores--a ambição, a inveja, a esperança, o desejo--o cerebro
-aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o _querer
-chegar_ torna-se uma verdadeira doença d'alma: exageram-se os meios: e
-toda a seiva moral se altera e se deforma.
-
-É o que vae acontecendo na America; debaixo da frieza apparente,
-move-se todo um inundo terrivel de desejos, de desesperanças, de
-vontades violentas, de aspirações nevralgicas.
-
-Depois, como no meio das industrias ruidosas e absorvedoras muitas
-amarguras ficam por adoçar, muitas angustias por serenar, muitas fomes
-por matar, muitas ignorancias por alumiar, tudo isso se ergue terrivel
-no meio da febre da vida social, e torna-a mais perigosa. Londres dá
-hoje o aspecto d'esta lucta.
-
-De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o
-desejo das riquezas, aferventa o cerebro, sobreexcita a sensibilidade:
-a população cresce, a concorrencia é aspera, as necessidades
-descomedidas, infinitas as complicações economicas, e ahi está sempre
-entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a lucta dos
-interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades, e por fim
-as revoluções politicas.
-
-E todavia a liberdade da America parece tão confiada, tão assente, tão
-satisfeita!
-
-No emtanto ha muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda ha pouco
-deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos,
-a sua industria, o seu egoismo, o seu profundo interesse, e arma
-exercitos, esquadras, dissipa milhões, e vae bater-se por uma ideia,
-por uma abstracção, por um principio, pela justiça.
-
-O Sul queria manter a escravatura; o escravo que trabalhe, que cultive,
-que produza, que sue, que morra sob a força metallica, baça e sinistra
-do clima e do sol. Pois bem. O Norte quer a liberdade, o amor das
-raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo
-direito! E dispersa os exercitos da Virginia.
-
-Taes coisas me lembraram ha dias, ao visitar o _Miautonomah_, fundeado
-no nosso Tejo.
-
-
-
-
-MYSTICISMO HUMORISTICO
-
-
-Voltei. É agora que as toutinegras emigram.
-
-Andei pelos campos, n'este ar desfallecido do inverno outonal.
-
-Agora o azul está indolentemente bello. Tem quasi uma ironica
-serenidade. É o azul intenso, frio, triumphante. Tem a luz, a belleza,
-a força, a ineffabilidade. Agora a luz enternecida dos campos
-arrasta-se pelas grandes aguas quietas e pallidas, onde o vento revolve
-e espalha a agonia das folhas.
-
-Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranquiçada, escondida entre
-as bençãos indolentes das arvores. Tinha a serena quietação de quem
-tem ouvido segredos extaticos, e era triste e religiosa como a entrada
-amarellecida de um convento catholico. Havia uma corrente de agua
-delgada que fazia claras murmurações, e era como o acompanhamento,
-natural e melodico, de uma ecloga latina. Entre as arvores estava um
-banco solitario, que o musgo ia cobrindo. Nas plantas, nas clematites,
-nas trepadeiras que o cercavam, havia um murmurio como de vozes
-distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e molhada
-do banco tinha a tristeza das pedras do cemiterio, á luz consoladora,
-purificadora e branca, que cáe dos ceus outonaes.
-
-Agora, sobre aquelle banco, dorme estirada a grande luz do sol, e á
-noite o luar, porque já não ha n'aquella casa namorados contemplativos
-que venham, de noite ou á sésta, despertar, para se poderem sentar
-alli, aquelles dormentes de luz.
-
-Aquella casa abandonada faz lembrar amores mysticos: e, quando se vê á
-luz dolente do escurecer, faz subir do coração como um sabor de beijos
-antigos e esquecidos.
-
-As arvores erguiam, em attitudes violentas e propheticas, os seus
-braços nús, engelhados, supplicantes para o frio azul, esperando, no
-entorpecimento, a fermentação violenta das seivas. Os ramos frios
-e nitidos deixavam passar indifferentes, sem as suspender, sem as
-acariciar, as molles nudezas das nuvens.
-
-Toda a natureza, no tempo dos frios, está impassivel e somnolenta.
-
- * * * * *
-
-Passei por um cemiterio. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um
-rosto inerte e animal. A luz dissipava-se, e uma estrella que se chama
-Venus luzia, metallica, ardente, desejosa, lucilante, n'um fundo
-sinistro de ramagens.
-
-O coveiro é um semeador. Semeia corpos. Sómente não tem a esperança nem
-o amor das colheitas. Quem sabe se os corpos, que se atiram á valla,
-sementes funebres, se abrem, lá em cima, em searas divinas de que nós
-apenas vemos a ponta das raizes, que são as estrellas? Mas não. A alma
-morre. O corpo revive e dissipa-se na materia enorme.
-
-É na alma que estão as más vontades, os negros remorsos, as lacerações
-do mal: o corpo desce livre, novo e são para as uberdades limosas das
-covas.
-
-Quando chega o ultimo frio, odios, amores, tristezas, invejas,
-melancholias, desejos, todos cançados das luctas e da vida, dizem á
-natureza como gladiadores vencidos:--_Os que vão morrer saúdam-te!_--E
-morrem.
-
-A vida e o seu supplicio é absorvida na insensibilidade da natureza,
-no silencio perpetuo, na força fatal e céga. E a materia vae pelos
-ares, pelas planicies, amollece-se nas sombras, vivifica-se nos raios
-claros, é rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruido, movimento,
-estremecimento confuso do corpo de Cybéle: e a materia sente a vida
-universal, a palpitação do átomo debaixo da fórma, sente-se banhada
-pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impellida
-para a luz magnetica dos astros e dilacerada nos asperos movimentos da
-terra. A materia tem a consciencia augusta da sua vitalidade. E assim,
-sob a tua impassibilidade, ha uma angustia immensa, uma vida ardente,
-impiedosa, uma alma terrivel, oh formidavel natureza!
-
-A noite descia: caía de cima uma claridade lactea; pesava um austero
-e lento silencio; a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores
-desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade
-indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me dos Elysios olympicos
-e mythologicos onde na claridade, passam as sombras heroicas, serenas,
-brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol!
-
- * * * * *
-
-Eu ia escutando os passos da doce noite, que vinha caminhando. Ia-me
-afundando no tedio, como um navio roto n'uma maré do equinoxio.
-Enchiam-me a alma crepusculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro.
-Áquellas horas, os lymphaticos, os innocentes, os mysticos, encontram
-nos arvoredos languidezas e elevações asceticas. Mas eu tremia entre a
-ramaria inquieta como um mar, mysteriosa como um firmamento:--tremia
-como um homem medroso que visse erguer-se um morto. Toda aquella negra
-decoração de ramos torcidos, de folhagens lividas, de silencios,
-enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e
-transfiguradora do occaso dava aos troncos um estranho aspecto de
-luctadores, vindos do sangue e dos incendios: os sinos distantes eram
-como vozes indefinidas de miseria e de dôr.
-
-Passava um vento incessante e perseguidor. Os môchos voavam, e as aguas
-sonoras eram como vozes vingativas e tragicas. A lua, entorpecida,
-passava por detraz da estacada de ramos. O vento era rouco e lento
-como um canto catholico de officios. E o grasnar lento e arrastado dos
-córvos parecia uma ladainha barbara de padres. As arvores doentias
-rangiam ao vento hybernal, o ar estava diaphano, lacteo e mortuario. As
-estrellas que appareciam tinham o olhar lancinante.
-
-Cheguei á estalagem. Em baixo, na lareira, um magro fogo lambia as
-fuligens. A luz do meu quarto tinha a lividez dos cirios, e o espelho
-tinha reflexos pallidos, como de sombras mythologicas que passassem.
-Ouviam-se os lobos.
-
-Lembraram-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o
-ceu derrama somnolencias; então tambem eu ia por entre as arvores, e
-ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir atravez
-da bruma, entre o acre cheiro das efflorescencias. Aquellas vozes
-claras eram doces, santas, saídas de crystaes, como veladas por um
-luar. Eram como claridades sonoras de estrellas. Era uma multidão de
-fórmas divinas que assim cantavam, divindades feericas, willis, nixes,
-peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos.
-Aquellas nudezas celestes, filhas do fogo, flôres do mal, ondas do
-ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as scintillações
-estellares franjavam de pallidezas. No meio dos nevoeiros humanos,
-ellas faziam resplandecer deante dos olhos as visões paradisiacas,
-as creaturas sideraes de languidos mysticismos. Ellas iam n'aquelles
-enlaçamentos, brancas e loiras, cheias de lyrismo, com os pés vermelhos
-e magoados de terem pisado auroras; iam poisando nos jacinthos, nos
-myrthos, nas rosas barbaras cheias de sangue radioso: iam rolando sobre
-a brancura soluçante dos lyrios: e a sua voz triste subia, por entre o
-azul lacteo, para a lua chorosa.
-
- * * * * *
-
-Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma mumia,
-pensando n'estas coisas, vi, repentinamente, atravez das vidraças, a
-lua apparecer-me.
-
-Mas não era aquella pura e immaculada lua côr d'opala--que derrama
-brancuras, como se atravez do azul caissem lyrios. Era uma lua
-metallica, fria, hostil, material como uma moeda d'oiro nova.
-
-Ella apparecia-me mortuaria e livida como uma sombra finada, que se
-ergue ás grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rapido, estava
-cheio das minhas agonias.
-
- * * * * *
-
-Ora n'essa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha
-feito saltimbanco.
-
-Fez bem. Cançado dos pedantes, dos burguezes, dos ventres mercantis,
-dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco, e vive entre os
-palhaços. Faz forças coberto de farrapos luzentes, engole espadas,
-dança farto de vinho como um Sileno. Dorme n'uma capa esfarrapada, com
-a nuca sobre um tambor, á frescura das estrellas e sob a bondade dos
-luares.
-
-Ás vezes tem frio e fome, e gela n'uns calções feitos de veludilho
-e de galões d'oiro. Anda errante de villa em villa, e a populaça da
-lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre
-a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de
-desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as
-materialidades felizes?
-
-Elle tem a multidão extatica e enlevada nos giros dos seus sapatos. E
-tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão,
-e annelladas e fortes como negros pennachos de voluptuosidade: e a sua
-testa tem um reflexo de luar, de marmore e d'espelho: e tem um bello
-seio de fórmas barbaras.
-
-Elle pula á noite, no circo alumiado, emquanto as toutinegras cantam
-nos cannaviaes. Elle faz girar vinte punhaes agudos em volta da cabeça,
-n'um circulo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquelle diadema
-terrivel e faiscante, e o saltimbanco impassivel, grave, enfarinhado,
-sob aquella corôa de luz, tomal-o-á por um idolo e fal-o-á igual aos
-deuses!
-
-Elle, o meu saltimbanco, tem a alma de oiro e o coração de diamante--e
-ri-se, ri-se, quando o vento sôa como flauta do inverno, e ao concerto
-das corujas e das ondas as estrellas dançam.
-
-A miseria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da
-bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem
-sol. E não soffrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado,
-applaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes
-tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu
-melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes, os tambores!
-
-Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que
-são as visões? São as attitudes, phantasticas e desmanchadas, que a
-sombra dá ás verdades. Já pensava assim o poeta Li-Tai-Pè, que escrevia
-sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e laccas, ao aroma
-dos nenuphares, vestido de sedas amarellas, perfumado de sandalo--dôce,
-contemplativo, branco, diante d'um vaso de margaridas!
-
-
-
-
-O MILHAFRE
-
-
-Um dia um homem entrou n'uma casa arruinada. No portal havia um nicho
-com um santo de pedra, que lia uma Biblia, tambem de pedra. Em redor,
-na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia
-hervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre
-as suas palpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as
-cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa
-dos regimentos, e o santo lia attentamente o seu livro de pedra.
-
-Vinham defronte dançar saltimbancos, passavam as frescas serenatas,
-vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de
-pedra sobre as paginas inertes. As devotas, lentas e desfallecidas,
-beijavam-lhe os pés nús, os homens severos saúdavam-o, as creanças
-olhavam-o com os seus grandes olhos inanimados, os cães ladravam-lhe á
-calva: o santo, curvado, seguia o espirito de Deus por entre as lettras
-do livro.
-
-Passavam os fardos, os mercadores crestados pela industria, os poetas
-languidos que desfallecem nas cançonetas, os histriões que cantam nos
-tablados, mulheres mais preciosas que o ambar, os sabios, os mendigos,
-as virtuosas e as melodramaticas:--e o santo lia o seu livro prophetico.
-
-Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os cyprestes--ais de
-folhagem--os homens, perguntavam entre si:--«Que lê tão attentamente
-aquelle santo, que nem sequer nos olha?» E os enxurros, que passam
-rosnando, diziam:--«Que lê tão devotamente aquelle santo, que nem
-sequer nos escuta?»
-
-Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras cáem de somno,
-quando os homens estão cheios de comida e de inercia--a lua, que ao
-nascer é material e metallica como uma moeda d'oiro nova, depois,
-na suavidade do azul, é tão pura, tão casta, tão immaculada, tão
-consoladora, como uma chaga de Christo por onde se lhe visse a alma.
-A essas horas, uma creança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo
-pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o
-santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a
-grande luz dos seus olhos, aquella creança miseravel, adormecida sobre
-as lages.
-
-Depois os planetas, a lua, a noite seguiam a sua viagem immensa para o
-oeste, e a leste começava uma claridade: eram as hesitações da luz do
-dia, medrosa por ter de descer ás miserias dos homens.
-
-As bandeiras ainda estavam desfallecidas, sonhavam as arvores, a cidade
-dormia como outr'ora Sodoma. Acordavam então as andorinhas. Esvoaçavam
-gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, poisar no nicho.
-
-As andorinhas estavam nas intimidades e nas confidencias do santo.
-
-Ora o vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grãos
-e de sementes: a chuva cáe lúcida e fresca. O santo aparava a chuva
-nas prégas da capa, e os grãos nas paginas do livro. E as andorinhas,
-quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a
-Biblia de Deus. E, em quanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as
-azas nas barbas do santo, beijavam-se na sua bocca, aninhavam-se-lhe
-entre os braços, cobriam-n'o todo; e o sol, quando chegava, ficava
-maravilhado de vêr aquelle pobre santo de pedra, que elle não conhecia
-do Paraizo, com os pés entre as hervas verdes, rindo, sereno, sob a luz
-immensa, e todo vestido d'azas!
-
- * * * * *
-
-O homem entrou na casa arruinada e foi, atravez de pedras esverdeadas,
-de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, do
-muralhas leprosas de musgo, de escadarias miseraveis, até uma sala
-enorme, escura e tragica, e tão alta, que involuntariamente o olhar
-procurava as constellações n'aquella sombra.
-
-No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabeça
-macerada do Christo, as traves pôdres do tecto abriam uma larga fenda.
-Por alli vinha a chuva escorrer-lhe nos cabellos como o antigo suor do
-Jardim das Oliveiras, vinham os granisos magoal-o como as pedras da
-paixão, vinha o sol alumial-o como a tocha de Judas, e a lua vinha,
-tambem, tornal-o mais livido, como n'aquella noite em que elle, depois
-de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalem, sentiu poisar na
-sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou.
-
-Sobre a cabeça e sobre os braços do Christo havia teias d'aranha; em
-baixo os ratos roíam-lhe a cruz.
-
-Então o homem sentiu que aquelle seio constellado, e aquella bocca
-d'onde saíu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a
-podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Christo, vendo o homem
-afflicto e miseravel, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito
-que o homem, encontrando Christo abandonado, profanado e roído, lhe
-limpasse da cabeça as aranhas! Mas, quando ia a limpar a imagem, viu,
-sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as
-mãos, quiz arredar o milhafre.
-
-E a ave, então, com a antiga voz dos animaes da Biblia, do Apocalypse
-e dos livros dos prophetas, disse surdamente: «Homem, deixa a cruz
-socegada!»
-
-Atravez das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as
-azas, dizia:
-
-«Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem
-agora estrellas, soes, planetas, scintillações, carbunculos. É o pó
-dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua
-farça acabou em desterros.
-
-«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nús.
-
-«Este ficou, solitario, alumiando. Elle perdoou emquanto os outros
-luctaram, elle amou emquanto os outros choraram: por isso fica
-emquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale
-tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silencio
-dos myrthos dois olhares bem-amados.
-
-«Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o
-apodrecimento. Elle póde bem dar ás aranhas o seu corpo de madeira,
-pois que vos deu a vós o seu corpo de carne--a vós, que pregaes com
-o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janellas
-e o Christo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os
-cabellos de madeira depois de lhe ter arrancado os cabellos vivos; a
-vós, que quereis lavar as nodoas que elle tem no peito, e não vêdes
-as immundicies que tendes na alma. Tudo o que elle creou, o amor,
-o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquelle
-evangelho da vida-nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de
-bichos, tão immundo como o seio d'esta imagem antiga. A materia, o
-impudor, o apetite rude, o odio, o aviltamento, o trafico, a miseria e
-a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam
-sujando a cabeça d'este Christo! E não reparaes, e não vêdes, sobre os
-espiritos, sobre os corações, sobre as consciencias, o pó, a caliça, o
-caruncho, os ratos e os vermes!
-
-«Sim, é verdade: tudo é magnifico, e são, e banhado de sol. As cidades
-são limpas e caiadas, só as consciencias é que tem nodoas; as praças
-estão cheias de illuminações, só os corações é que estão escuros; os
-caes estão arejados, só os espiritos é que suffocam; os corpos estão
-sãos, cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, só as almas
-é que andam núas, miseraveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a
-farça, os paraisos artificiaes, as arcas venaes, e tambem o esfriamento
-do tumulo! Oh amigos intimos dos vermes, como vós cuidaes do corpo, e o
-lavaes, e o amaciaes, e o engordaes--para a pastagem escura das cóvas!
-
-«Homem, que fizeste tu da alma? Ao principio não era conhecida, depois
-foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor
-matal-a--mas não certamente de cançaço com viagens a Deus! Déstel-a a
-despedaçar á negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo:
-para esse uma religião, um asylo forte como o sol, os sete sellos da
-lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o immaculado, o
-pontifical, o victorioso. Prohibição a Deus de lhe tocar. Para elle
-palacios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação
-dos astros. Para elle a inviolabilidade: _Não matarás!_
-
-«Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se
-de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e
-os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos
-despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes,
-deixamos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue,
-e viemos, para viver, acceitar, com os capões, a domesticidade nos
-parques resplandecentes, ou andamo-nos mostrando aos imbecis, pelas
-feiras, n'uma gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a
-natureza immensa, as afflicções do vento, as nupcias do mar, de terem
-luctado nas tempestades e insultado as estrellas, vêem, modestamente,
-comer bichinhos no saguão dos burguezes! Eu, que tinha estado entre a
-força, quiz, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido
-na noite de Deus, quiz, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E,
-entretanto, a alma morre esmagada e solitaria, e a grande vida moderna,
-a vida do sol, da musica, dos metaes, vae, entre fulgurações, pisando
-e cuspindo n'aquella coisa miseravel. E ainda está quente o sangue de
-Jesus!
-
-«Homem, que fizeste tu do pensamento?
-
-«Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lho
-no seio as sete dôres. Coube-lhe a dôr e o escarneo. É necessario
-que, nas cidades, os pensadores e os artistas extaticos soffram e
-sangrem: os triumphos dos homens da materia são como os dos antigos
-imperadores--só são completos quando passam entre torturas. E quem
-havia de soluçar sobre a scena moderna da paixão, senão os que têem
-alma?
-
-«Amam, suffocam, cáem, agonisam, e entretanto vae passando a cohorte
-dos victoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se d'aquelles
-corações, como os botões d'oiro das suas camisas apupam a luz dos
-astros.
-
-«E os que quizerem viver e tiverem a alma grande, bella e heroica, têem
-de se baixar á estatura burgueza e mercantil dos cerebros modernos. Os
-deuses olympicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas
-antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de
-Juno viveria n'um pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os
-cavalleiros andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o tragico
-S. Jeronymo seria presidente d'uma junta de parochia. D'este modo tu
-acceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida
-moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, musica, tu que creaste
-a Allemanha, far-me-ás uma contradança; vem, architectura, tu que deste
-hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, esculptura, tu que
-fizeste o povo dos deuses, ó bella esculptura! vem fazer-me um gavetão.
-Oh! tristes domesticidades do ideal!»
-
-Houve um silencio. Havia na sala um ar mystico, como para a concepção
-d'um Deus.
-
-O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar d'uma flauta. E o olhar
-do Christo errava, contemplativo e attento, entre as estrellas
-innumeraveis, emquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a
-cruz.
-
-«Vae-te, disse o milhafre. Os ratos róem a cruz, eu estou velho: a
-antiga geração das aves da noite vae-se. Os prégos já se despregam, a
-cruz apodrece. E quando ella se desfizer, atirarei o seu pó á grande
-natureza, ao elevar da lua, que vale o elevar da hostia. Irei, oh meu
-Deus! para além dos soes e dos caminhos lacteos, onde as constellações
-são gôttas de sombra, certo--eu que sou da vasta terra, o selvagem
-dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos
-montes--certo de que, se os homens não derem a cruz aos Christos, não
-lh'a dará tambem a natureza. E eu, que roí as ossadas verdes, tendo
-visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado n'uma
-cruz, irei tambem, entre os soes meio doidos, eu, que devastei, e
-matei, e escorri do sangue, crucificar-me n'um astro!»
-
-Assim fallou, lentamente, aquelle milhafre philosophico e lettrado,
-emquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim fallava,
-de cima d'uma cruz, n'uma sala legendaria, longe das maravilhas
-dos Cains burguezes, n'estes tempos livres, sensatos, verdadeiros,
-magnificos, em que, como se não pódem pôr certas verdades na bocca dos
-homens, tem de se dependurar do bico dos milhafres.
-
-
-
-
-LISBOA
-
-
-Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apezar
-dos asphaltos, das fabricas, dos gazometros, dos caes, ainda aqui as
-primaveras escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados
-ainda se beijam as pombas: ainda, no silencio, o ar escorre pelas
-cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um
-poeta impopular.
-
-Lisboa que faz?
-
-Antigamente a cidade, _urbs_, era o logar que pensava e que fallava,
-que tinha o verbo e a luz. Roma creou a justiça, Athenas idealisou a
-carne, Jerusalem crucificou a alma. Por isso Roma caíu, e os porcos
-enlameiam os restos de Athenas, e os cães uivam no silencio de
-Jerusalem. Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram: os
-seus ouvidos escutaram muito o pensamento, e ensurdeceram: as suas mãos
-esculpiram muito o ideal, e tolheram-se.
-
-Pensar é soffrer, alumiar é luctar. A noite, ao succumbir, lucta com
-a madrugada, e deixa-lhe a chaga incuravel do sol: d'ella escorre a
-luz. As superstições, os preconceitos, os erros, os prejuizos, as
-fatalidades, luctam com a alma, e deixam-lhe a ferida insanavel do
-ideal: d'ella escorre a verdade. Esta ferida dá a febre, o cansaço,
-o desespero, a convulsão. Paris tem esta antiga e tragica ferida que
-teve Athenas, Babylonia e Jerusalem. Soffre, porque pensa. Os pés têm
-a intimidade da lama, as azas têm a camaradagem da luz. Todo o pé quer
-ser aza.
-
-D'ahi ambições, desalentos, luctas obscuras, perdições, descrenças,
-fulgurações do mal, impurezas, traições, invejas, injurias,
-torturas:--a congestão do espirito! São estas as dôres immensas, as
-nodoas do pensamento, as manchas do sol.
-
-Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbavel,
-silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terriveis.
-Tem a sensatez, a prudencia, a economia, o medo. Não quer alumiar,
-para não luctar; não quer pensar, para não soffrer. Não quer crear,
-pensar, apostolar, criticar. Escuta e applaude toda a voz, ou sejam
-as imprecações de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que
-solucem, as florestas que se lamentem! Ella tem o riso radioso e sereno.
-
-Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre,
-caiada e fresca. Não tem de catar as suas miserias, nem de amparar o
-páo das forcas: por isso commenta Sancho Pansa. Não tem de construir
-a cathedral das ideias, nem de compôr a symphonia da alma: por isso
-escuta os melros nas varzeas, e resa as _Ave Marias_. Paris, Londres,
-New-York, Berlim, suam e trabalham, em espirito. Ella não tem que
-semear: por isso resona ao sol.
-
-Ás vezes, porém, commette o mal, enterrando ideias. Onde? Na escuridão,
-no silencio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas!
-
- * * * * *
-
-Como Roma, ella tem as sete collinas; como Athenas, tem um ceu tão
-transparente que poderia viver n'elle o povo dos deuses; como Tyro, é
-aventureira do mar; como Jerusalem, crucifica os que lhe querem dar uma
-alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come.
-
-Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que
-os astros vêm longe, que as azas sonham com o vento, que os olhos das
-flôres se fecham de somno. Deus não vê, da sua varanda de sol, que,
-para esta velha cidade, heroica e legendaria, que nos seus velhos dias
-tomou o peccado da gula, o abdomen é uma realidade livre! Até alli,
-durante o dia, os seus cabellos caíam como ramos de salgueiros, as suas
-faces estavam amarelladas, dos seus olhos chovia dôr; ainda não tinha
-comido! Depois, á noite, quando sáe do alimento como d'uma victoria, os
-olhares são gritos de luz, os cabellos plumas gloriosas, o peito arca
-de ideaes: comeu!
-
- Lisboa nem cria, nem inicia; vae.
-
-Em religião, nem tem a devoção dos monges, nem a impiedade ironica:
-é simples. Antigamente faz vir um Christo crucificado, erguendo os
-braços supplicantes, no prestito dos enforcados: hoje choraria pela
-Mãe Dolorosa, depois de ter erguido uma estatua a Voltaire: penduraria
-ao pescoço, singelamente, com as contas de um rosario, a sua antiga
-viola de Alfama.
-
-Em politica, copia Sancho Pansa.
-
-Não tem a coragem que se dedica, nem o medo soluçante: parece ter
-justamente o heroismo de uma espada embainhada: na campanha da Europa,
-todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda. Tem a
-religião sensual do sol, do calor, e do sonino: na Beresina, apupava as
-neves!
-
-Não tem a febre das especulações e das industrias, nem o amor das
-contemplações e dos sonhos: tem um trabalho cheio de séstas: em abril
-suspende a enxada para vêr voltar as andorinhas.
-
-No vicio é timida: copia desgeitosamente as Babylonias distantes:
-aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés: apara as unhas ao
-diabo; é o banho tepido dos peccados mortaes.
-
- * * * * *
-
-Adoradora, em architectura, da linha recta dos palacios de crystal;
-sectaria, em esculptura, dos _biscuits_ de Sèvres; namorada, em
-poesia, do visconde d'Arlincourt--no theatro quer a magica: tem sede
-e fome d'aquelle ideal: quer as montanhas transparentes, os palacios
-de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, architecturas de luz
-e sons, papeis collados, vermelhão e ouropeis, mulheres despidas,
-pedraria, e oiro, oiro, oiro, e ainda oiro, e mulheres despidas, e
-mais oiro! Lisboa, por sobre uma scena resplandecente, vê as fórmas
-estranhas que toma o sonho da imbecilidade: quer a magica: em verdade,
-a magica é o espectro solar do idiotismo!
-
-Vem a noite, e Lisboa toma a impassibilidade das penedias.
-
-As casas, sem luz, têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.
-A illuminação é um côro de gaz, bocejando. Das encruzilhadas das ruas
-solitarias, de todo este deserto de cantarias e de vidraças, exhala-se
-uma somnolencia fluida, um halito de tedio. Lisboa, de noite, é tão
-silenciosa que quasi se sente o crescer da herva que a ha-de cobrir no
-dia das ruinas.
-
-É tão triste, que a noite parece um arrependimento da vida! Nas bellas
-moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos, em
-palhas, por toda a parte, ha um vasto somno inerte e vegetal.
-
-Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a familia _Vicio_, a gente
-crepuscular, os herdeiros terriveis de Lovelace e de D. Juan Tenorio?
-
-Compram, na penumbra domestica, o amor fuliginoso das cosinheiras,
-comem, melancholicamente, mexilhões nas tavernas; os mais pobres
-encostam-se ás esquinas, esfarrapados e doentes, cariatides somnolentas
-do tedio!
-
-E nas casas? Ahi, nos andares resplandecentes, onde as mãos são macias
-e macios os sentimentos, estão, concentradas e sérias, fórmas vestidas
-de luto, como os viuvos, ou vestidas de branco, como as monjas. E
-suaves são as fallas, e o andar cheio de ondulações como o nadar das
-sereias, e as danças severas como a celebração d'um rito: e suaves
-são as petalas, e as musicas chorosas, e as luzes, aves de claridade
-presas, que palpitam e querem o livre azul: mas sobre a alma, e os
-corpos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos viuvos e a frialdade
-das monjas. E isto são as festas!
-
-Mais acima, nos andares modestos, resonam aquellas familias, vulgares
-e asperas, que nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a
-belleza, a graça, a paixão, como insectos entre os cabellos d'uma
-santa, e morrem solitarias, invejosas, com os corações cheios de
-revolta, porque não amaram!
-
-Depois, mais em cima, nos ultimos andares, é a gente do trabalho:
-operarios severos, doces raparigas com alma de passaro, gargantas onde,
-como nas veigas de Israel, todo o dia se canta; e, tambem, a gente
-estupida e metallica que tem a brutalidade do trabalho com a rudeza do
-coração, indoles asperas, olhos invejosos, mãos avaras, peitos vasios,
-que a essas horas da noite, com os cabellos caidos, vêem a vida tão
-núa, tão apertada, tão brutal, tão suja como a sua trapeira!
-
-E depois mais acima, debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados,
-os miseraveis, a essas horas, com grandes olhos aterrados, catam-se, ou
-roem as côdeas, ou gemem de dôr, ou morrem entre a caliça e as aranhas,
-ou se remendam, cantando impuramente!
-
-E por cima (como na jerarchia da dôr, das tristezas do pobre, só estão
-as chagas do Christo) o grande azul, sereno, transparente, cheio de
-universos, esconde, por detraz da gradaria dos astros, o Mysterio e a
-Graça!
-
-A essas horas, ó miseria das cidades! longe dos conservatorios, e das
-academias, e das magicas, pelos prados e pelas varzeas, representam-se
-as verdes comedias da natureza: os rouxinoes dão a replica ás folhas
-melodiosas, as flôres choram pelas desgraças de um melro amoroso, os
-olmos teem attitudes grotescas de palhaços, e o ceu, como um amante
-tragico, criva-se de punhaladas de luz!
-
- * * * * *
-
-Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações d'um peito
-desmaiado. Não ha ambições explosivas; não ha ruas resplandecentes
-cheias de tropeis de cavalgadas, de tempestades d'oiro, de velludos
-lascivos: não ha amores melodramaticos: não ha as luminosas
-efflorescencias das almas namoradas da arte: não ha as festas feericas,
-e as convulsões dos cerebros industriaes.
-
-Ha escassez de vida; um frio senso pratico; a preoccupação exclusiva do
-util; uma seriedade emphatica; e a adoração burgueza e serena da moeda
-de cinco tostões--da moeda de cinco tostões, branca, perfeita, celeste,
-pura, immaculada, consoladora, purificadora!
-
- * * * * *
-
-O luxo dos vestuarios é reflectido, pausado, calculado.
-
-Um outro luxo ha, mais doido: esse, quando é novo, ruge, resplandece,
-deixa-se balançar em grandes prégas desfallecidas--um pouco baixamente,
-de camaradagem com a lama. Mais tarde, depois das ostentações e dos
-amores, envergonha-se e vae-se mascarar ás tinturarias: nos seus velhos
-dias anda, miseravel, pedindo esmola por casa das adelas!
-
-A Lisboa material tem posições moraes. Ha sitios que dão, aos que
-os pisam, uma individualidade. O lagedo e a cantaria consagram
-espiritos. Encontrar-se no _Chiado_--significa ter a fina flôr da
-graça, a vivacidade conceituosa e costumes dissipados. Estar no
-_Martinho_--revela inspiração, divindade interior, lyrismo e politica.
-Oh Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas!
-
- * * * * *
-
-Lisboa tem compaixões celestes: agrupa-se, em côro de lagrimas, para
-vêr a morte d'um cão: mas afasta-se logo, assobiando, se começa a
-agonia d'uma alma. Tem tambem uma curiosidade timida e facil: senta-se
-nos passeios pelo estio, entre o pó, olympicamente, como os Deuses
-entre a luz, e fica attenta, concentrada, suspensa, idiota--a vêr
-caminhar seis mil pernas!
-
- * * * * *
-
-Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis; outro dia aborreceu-se
-o acolheu os imperadores. Ás vezes Lisboa aborrece-se--e entra na
-politica.
-
-Lisboa toma então attitudes, clama, conjura nas esquinas, é
-bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas
-tyrannias derrubadas, reler a cartilha!
-
- * * * * *
-
-Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se!
-
-Nos tempos mythologicos, ás vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa
-e mãe, fiava na roca d'ebano incrustada de lapis, e dobava as lãs
-vermelhas de Mileto. Vinha, porém, um dia no anno em que a mulher
-ia, no Olympo, ser deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes;
-debalde lhe pediam que não fosse, temendo que ella, mulher e deusa,
-não se acostumasse, na volta, ás lampadas de gineceu, ella que só ia
-ser alumiada pelos astros do Olympo. Debalde: chegado o momento, nada
-impedia a esposa de ser divindade: via-se aquelle corpo casto, argilla
-ideal, azular-se e, transparencia viva, perder-se na luz.
-
-Lisboa é assim. Vem um dia em que ella quer voltar ao seu elemento
-primitivo, e ninguem a póde impedir de ser lama: é pelo entrudo.
-
-Suja-se então livremente, faz tempestades nojentas; n'aquelles dias o
-seu tedio é feito d'immundicie.
-
-Transfigura-se. E como a Deusa deixava, na antiguidade, os filhos e
-os lares, para ir ser luz, Lisboa esquece as funcções do seu tedio,
-a religião da moeda d'oiro, o sacerdocio da economia, as attitudes
-emphaticas do seu pudor, para se dar livremente á lama!
-
-Lisboa é a hospedaria do vento. O antigo Euro paga a hospedagem,
-atirando a poeira ás ruas, ás praças, ás avenidas, aos caes, á cara de
-Lisboa! Sublime adulação: suja-a!
-
-Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Collisão! Lisboa, cidade
-inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo!
-
- * * * * *
-
-Athenas produziu a esculptura, Roma fez o direito, Paris inventou a
-revolução, a Allemanha achou o mysticismo. Lisboa que creou?
-
-O _Fado_.
-
-_Fatum_ era um Deus no Olympo; n'estes bairros é uma comedia. Tem uma
-orchestra de guitarras, e uma illuminação do cigarros. O palco está
-mobilado com uma enxerga. A scena final é no hospital ou na enxovia.
-
-O panno de fundo é uma mortalha!
-
- * * * * *
-
-Todos os dias, quando o sol se vae lavar, nas aguas, dos olhares dos
-homens, quando os corpos estão em flôr e passam os olhos pretos, de que
-Deus é avaro, e a maledicencia se abre como uma tulipa, e os risos são
-clarões, e a vida se balouça cheia de sonhos, de lustres de olhares,
-de beijos côr do sol, de camelias e de pomadas, passam na rua umas
-carruagens lentas, com grandes arabescos doirados: são coches; as suas
-armas são caveiras; vão alli os mortos.
-
-«Anda, cocheiro: é um freguez que vae para a cova: a passo! Alto de S.
-João! A eternidade toma-te á hora!»
-
-E emquanto o pobre morto vae, que dizem os que o viram partir,
-soluçando?
-
-Os filhos dizem: «Tinha de ser...»
-
-A esposa diz: «Vestida de luto!...»
-
-O agiota: «Não foi mau freguez.»
-
-Os medicos: «É um caso interessante...»
-
-Os que o levam para a cova: «Era pesado, o maroto!»
-
-O coveiro canta:
-
- O preto que vem d'Angola
- Traz a bordo fava rica.
-
-Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquelle homem: vestiste-o com os teus
-cabellos, alimentaste-o com o teu halito, coroaste-o com o teu olhar,
-divinisaste-o com o teu desejo: elle era formoso, e são, e forte, e
-apaixonado: mas se passares por ao pé d'elle agora, oh pobre mulher
-chorosa, põe bem a mão no nariz!
-
- * * * * *
-
-Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, resona, soluça e cachimba. E
-se algumas lagrimas em ti cairem, vae-as enxugar depressa ao sol!
-Fica-te em paz! Os que teem alma não querem a luz dos teus olhos; pódes
-consumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar,
-sempre erguido para lá, ninguem terá ciumes do ceu!
-
-Os que teem coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes
-emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas
-para elle, ninguem terá ciumes de Deus!
-
-Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua
-resplandecente, a linha magnifica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh
-clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce
-Lisboa, coroada de ceu, resigna-te--a não ter alma!
-
-
-
-
-O SENHOR DIABO
-
-
-Conhecem o Diabo? Não serei eu quem lhes conte a vida d'elle. E todavia
-sei de cór a sua legenda tragica, luminosa, celeste, grotesca e suave!
-
-O Diabo é a figura mais dramatica da Historia da Alma. A sua vida
-é a grande aventura do Mal. Foi elle que inventou os enfeites que
-enlanguescem a alma, e as armas que ensanguentam o corpo. E todavia,
-em certos momentos da historia, o Diabo é o representante immenso do
-direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É
-então uma especie de Pan sinistro, onde rugem as fundas rebelliões da
-natureza. Combate o sacerdocio e a virgindade; aconselha a Christo que
-viva, o aos mysticos que entrem na humanidade.
-
-É incomprehensivel: tortura os santos e defende a egreja. No seculo XVI
-é o maior zelador da colheita dos dizimos.
-
-É envenenador e estrangulador. É impostor, tyranno, vaidoso e
-traidor. Todavia conspira contra os imperadores da Allemanha: consulta
-Aristoteles e Santo Agostinho, e supplicia Judas que vendeu Christo, e
-Brutus que apunhalou Cesar.
-
-O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza immensa e doce. Tem talvez a
-nostalgia do ceu!
-
-Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lucifer, _o que leva a luz_,
-revolta-se contra Jehovah, e commanda uma grande batalha entre as
-nuvens.
-
-Depois tenta Eva, engana o propheta Daniel, apupa Job, tortura Sara,
-e em Babylonia é jogador, palhaço, diffamador, libertino e carrasco.
-Quando os deuses foram exilados, elle acampa com elles nas florestas
-humidas da Gallia e embarca expedições olympicas nos navios do
-imperador Constancio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus,
-vem torturar os monges do Occidente.
-
-Escarnecia S. Macario, cantava psalmos na egreja de Alexandria,
-offerecia ramos de cravos a Santa Pelagia, roubava as gallinhas do
-abbade de Cluny, espicaçava os olhos a S. Sulpicio e á noite vinha,
-cançado e empoeirado, bater á portaria do convento dos dominicanos, em
-Florença, e ia dormir na cella de Savonarola.
-
-Estudava o hebreu, discutia com Luthero, annotava glosas para Calvino,
-lia attentamente a Biblia e vinha ao anoitecer para as encrusilhadas da
-Allemanha jogar com os frades mendicantes, sentado na relva, sobre a
-sella do seu cavallo.
-
-Intentava processos contra a Virgem: e era o pontifice da missa negra,
-depois de ter inspirado os juizes de Socrates. Nos seus velhos dias,
-elle que tinha discutido com Attila planos de batalha, deu-se ao
-peccado da gula.
-
-E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e
-somnolento, apupou-o. Então o demonographo Wier escreve contra elle
-pamphletos sanguinolentos, e Voltaire criva-o d'epigrammas.
-
-O Diabo sorri, olha em roda de si para os calvarios desertos, escreve
-as suas memorias, e n'um dia ennevoado, depois de ter dito adeus aos
-seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso.
-
-O Diabo foi celebrado pelos sabios e pelos poetas. Proclus ensinou a
-sua substancia, Presul as suas aventuras da noite, S. Thomaz revelou
-o seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a
-sua inconstancia jovial. João Dique escreveu sobre a sua eloquencia e
-Jacques I, de Inglaterra, fez a corographia dos seus estados. Milton
-disse a sua belleza e Dante a sua tragedia. Os monges ergueram-lhe
-estatuas. O seu sepulchro é a natureza.
-
-O Diabo amou muito.
-
-Foi namorado gentil, marido, pae de gerações sinistras. Foi querido,
-na antiguidade, da mãe de Cesar, e na meia-edade foi amado da bella
-Olympia. Casou no Brabante com a filha d'um mercador. Tinha entrevistas
-languidas com Fredegonda, que assassinou duas gerações. Era o namorado
-das frescas serenatas dadas ás mulheres dos mercadores de Veneza.
-
-Escrevia melancolicamente ás monjas dos conventos da Allemanha.
-
-_Feminæ in illius amore delectantur_, diz tragicamente o abbade Cesar
-de Helenbach. No seculo XII tentava com olhares cheios de sol as mães
-melodramaticas dos Burgraves. Na Escossia havia grande miseria sobre
-os montes: o Diabo comprava por 15 _schellings_ o amor das mulheres
-dos _highlanders_, e pagava-lhes com o dinheiro falso que fabricava em
-companhia de Philippe I, de Luiz VI, de Luiz VII, de Philippe o Bello,
-do rei João, de Luiz XI, de Henrique II, com o mesmo cobre de que se
-faziam as caldeiras onde eram cosidos vivos os moedeiros falsos.
-
- * * * * *
-
-Mas eu quero só contar a historia de um amor infeliz do Diabo, nas
-terras do norte.
-
-Oh mulheres! vós todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura,
-nem os simples, nem os balsamos, nem os orvalhos, nem as resas, nem o
-pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir esta historia florida!
-
-Era na Allemanha, onde nasce a flôr do absyntho.
-
-A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepelliz
-do senhor arcebispo d'Ulm.
-
-Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras,
-de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Christo
-de marfim. As plantas limpavam piedosamente, com as suas mãos de
-folhas, o sangue das chagas; as pombas, com o calor do seu collo,
-aqueciam os pés doloridos. No fundo da casa, o pae d'ella, o velho,
-bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos de Italia, e as cidras da
-Dinamarca. Era vaidoso, gordo, somnolento e mau.
-
-E sempre a rapariga fiava. Preso á roca por um fio branco, sempre o
-fuso saltava; preso ao seu coração por uma tristeza, sempre pulava um
-desejo.
-
-E todo o dia fiava.
-
-Ora debaixo da varanda passava um lindo moço, delicado, melodioso e
-timido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro.
-
-Ella, sentada junto do crucifixo, cobria os pés de Jesus com os seus
-grandes cabellos louros.
-
-As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra
-a cabeça da imagem. Parecia que toda a alma de Christo alli
-estava--consolando, em cima, sob fórma de planta, amando, em baixo, sob
-fórma de mulher.
-
-Elle, o branco moço, era o peregrino d'aquella santa. E o seu olhar
-procurava sempre o coração da doce rapariga, e o seu olhar d'ella,
-séria e branca, ia procurar a alma do caro bem amado.
-
-Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de
-luz, contar o que tinham visto. Era um encanto!
-
---Se tu soubesses!--dizia um olhar.--A alma d'ella é immaculada.
-
---Se tu visses!--dizia o outro.--O coração d'elle é sereno, forte e
-vermelho.
-
---É consolador, aquelle peito onde ha estrellas!...
-
---É purificador, aquelle seio onde ha bençãos!
-
-E olhavam ambos, silenciosos, extaticos, perfeitos. E a cidade vivia,
-as arvores rosnavam sob o balcão dos eleitores, a trompa de caça
-soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos
-liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das egrejas, as
-amendoeiras tinham flôr, e o Rheno cantigas de ceifeiras.
-
-E elles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Christo
-aninhava as almas.
-
-Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o
-ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou
-dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria, na varanda, fiava a
-sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.
-
-Então, no silencio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck, que
-os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:
-
- Os teus olhos, bem amada,
- São duas noites cerradas.
- Mas os labios são de luz.
- Lá se cantam alvoradas.
-
- Os teus seios, minha graça,
- São duas portas de cêra.
- Fôra a minha boca um sol,
- Como elle as derretêra!
-
- Os teus labios, flôr de carne,
- São portas do paraizo:
- E o banquinho de S. Pedro
- É no teu dente do sizo.
-
- Queria ter uma camisa
- D'um tecido bem fiado,
- Feita do todos os ais
- Que o teu peito já tem dado.
-
- Quando nos fôrmos casar,
- Canta missa o rouxinol.
- E o teu vestido de noiva
- Será tecido de sol!
-
- A benção nos deitará
- Algum antigo carvalho!
- E por enfeites de boda
- Teremos gottas de orvalho!
-
-E, ao cimo da rua, appareceu um homem forte, d'uma pallidez de marmore.
-Tinha os olhos negros como os dois soes legendarios do paiz do Mal.
-Negros eram os cabellos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao
-peito do corpete uma flôr vermelha de cactus.
-
-Atraz vinha um pagem perfeito como uma das antigas estatuas, que
-fizeram na Grecia a lenda da belleza. Andava convulsivamente como se
-ferisse os pés no lagedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apollos
-de marmore. Dos seus vestidos saía um cheiro a ambrozia. A testa era
-triste e serena como as dos que teem a saudade immortal d'uma patria
-querida. Trazia na mão uma amphora esculpida em Mileto, onde se sentia
-a suavidade dos nectares olympicos.
-
-O homem da pallidez de marmore veiu até junto da varanda, e, entre as
-supplicas gemidas de guitarra, disse sonoramente:
-
---A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de
-homem vão como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor,
-das suas mãos ao seu collo?
-
-E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente,
-com grandes risadas frias e metallicas:
-
- Quem depenna um rouxinol
- E rasga uma triste flôr,
- Mostra que dentro do peito
- Só tem farrapos d'amor.
-
-E ergueu para a varanda os seus olhos terriveis e desoladores, como
-blasphemias de luz. Maria tinha levado a sua roca e só havia na varanda
-as aves, as flôres e Jesus!
-
---A toutinegra voou--disse jovialmente.
-
-E indo para Jusel:
-
---É que talvez sentisse a visinhança do abutre. Que diz o Bacharel?
-
-Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.
-
---No meu tempo, senhor Suspiro,--disse o homem dos olhos negros,
-cruzando lentamente os braços--já havia aqui duas espadas, a fazer
-rebentar na sombra flôres de faiscas. Mas os heroes vão-se, e os homens
-nascem cada vez mais da dôr das mulheres. Vejam isto! É um coração com
-gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as côres,
-menos vermelho e solido. Pois bem! Aquella rapariga tem uns cabellos
-louros que dizem bem com os meus cabellos pretos. As cintas delgadas
-querem os braços fortes. Os labios, vermelhos de desejo, gostam das
-armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel!
-
-Jusel tinha descido as suas grandes palpebras elegiacas, e via as
-petalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados,
-desprendidos do seu peito.
-
-O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a mão:
-
---Bacharel Ternura--disse--ha aqui perto um logar onde os goivos
-nascem expressamente para os innocentes que morrem. Se tens alguns
-bens a deixar, recommendo-te este excellente Rabil.--Era o pagem.--É
-necessario proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que
-findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração
-á bem amada, á moda dos trovadores, eu me encarrego de lh'o trazer,
-bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu és formoso, amado,
-branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil! E uma farça bem feita ao
-Compadre lá de cima dos soes, dilacerar-lhe esta belleza! Se namoravas
-alguma estrella, eu lhe mandarei, por bom portador, os teus ultimos
-adeuses. Em quanto aos sacramentos, são inuteis: eu me encarrego de
-te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos:
-annuncia no Inferno o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas
-em duello secreto, armas honradas!
-
-E batendo heroicamente nos copos da espada:
-
---Eu tenho aqui esta debilidade: onde está a tua força?
-
---Alli!--respondeu Jusel, mostrando Christo na varanda das plantas e
-das pombas, allumiado pelo sol que descia, branco entre a folhagem,
-agonisante entre as palpitações das azas.
-
---Ah!--disse cavamente o homem da flôr de cactus.--A mim, Rabil!
-Lembras-te de Acteon, de Apollo, de Derceto, de Inachus e de Marte?
-
---Eram os meus irmãos...--disse lentamente o pagem, hirto como uma
-figura de pedra.
-
---Pois bem, Rabil, para a frente, atravez da noite! Cheira-me aqui ás
-terras de Jerusalem!
-
-E sumiram-se debaixo das arcarias e das pilastras, sinistros, soluçando.
-
-Na noite seguinte, havia pela Allemanha um grande luar purificador.
-Maria estava debruçada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins
-concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar,
-suspirava para aquelle corpo feminino e branco, como nos jardins a
-agua, que sobe em repuxo, suspira murmurosamente para o azul.
-
-Maria disse suspiradamente:
-
---Vem.
-
-Jusel subiu á varanda, radioso. Sentaram-se ao pé da imagem. O ar
-estava tão sereno como na patria das almas. Os dois corpos dobravam-se,
-um para o outro, como se os estivessem approximando os braços d'um Deus.
-
-As folhagens escuras, que envolviam o Christo, estendiam-se sobre as
-duas cabeças louras com gestos de benção. Havia na molleza das sombras
-um mysterio nupcial. Jusel tinha as mãos d'ella presas como passaros
-captivos, e dizia, com a voz humilde dos corações primitivos:
-
---Queria bem vêr-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios
-infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era
-n'um campo. Tu estavas de pé, immovel: ouvia-se um côro que cantava
-dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espiritos.
-E diziam uns:--Aquelle côro é de mortos: são os amantes infelizes que
-choram no coração d'aquella mulher.--Outros diziam:--São as tristezas
-dos minnesingers errantes que alli soluçam.--Outros diziam:--Sim,
-aquelle côro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram alli
-do exilio.--E então eu adiantei-me e disse:--Sim, sim, aquelle côro é
-de mortos: são os desejos que ella teve por mim, que se lembram e que
-gemem.--Que sonho tão mau, tão mau!
-
---Porque estás tu--dizia ella--todos os dias encostado ao pilar, com as
-mãos quasi postas?
-
---Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.
-
-Calaram-se. Elles eram, n'aquelle momento, a alma florida da noite.
-
---Quaes são os meus olhos? quaes são os teus olhos?--dizia Jusel.--Nem
-eu sei!
-
-E ficaram calados. Ella sentia os desejos, que se desprendiam dos olhos
-d'elle, virem, como passaros feridos que gemem, cair no fundo da sua
-alma, sonorosamente.
-
-E inclinando o corpo:
-
---Conheces meu pae?--disse ella.
-
---Não. Que importa?
-
---Ai, se tu soubesses!...
-
---Que importa? Estou aqui. Se elle te quer bem, ha-de gostar d'este
-meu amor, sempre aos teus pés como um cão. O que quero eu? Ter a tua
-alma presa, bem presa, como um passaro captivo. Esta paixão toda
-deixa-te tão immaculada, que se morresses podias ser enterrada na
-transparencia do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque?
-Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quizesses, deixava-me andar
-esfarrapado. Por eu entrar no teu coração, não tires nada d'elle, não?
-Tens lá a fé de Jesus, e a saudade de tua mãe: deixa estar: damo-nos
-todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um ceu
-constellado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem
-a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu?
-Casemo-nos no coração de Jesus! Dá-me essa agulheta, que te prende o
-cabello. Será a nossa estola.
-
-E com a ponta da agulheta, de pé, junto da imagem, afastando os ramos,
-transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Christo as iniciaes
-dos dois nomes enlaçados--J. e M.
-
---É o nosso noivado!--disse elle.--O ceu atira-nos os astros, confeitos
-de luz. Christo não se esquecerá d'este amor que chora aos seus pés. As
-exhalações divinas que saírem do seu peito apparecerão, lá em cima, com
-a fórma das nossas lettras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu
-já lh'o tinha dito, a elle, ás estrellas, ás plantas, aos passaros, ás
-florescencias; porque, vês tu? as flôres, as constellações, as pombas,
-tudo isto, toda esta effusão do bondade, de innocencia, de graça, era
-simplesmente, oh adorada! um eterno bilhete de amor que eu te escrevia!
-
-E ajoelhados, extaticos, calados, elles sentiam misturar-se ao seu
-coração, ás suas confidencias, aos seus desejos, toda a vaga e immensa
-bondade da religião da Graça.
-
-E as suas almas fallavam, cheias de mysterio:
-
---Vês tu?--dizia a alma d'ella.--Quando te vejo, parece que Deus
-diminue, e se contráe, e se vem aninhar todo no teu coração; quando
-penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange
-o ceu e os universos, e encerra por toda a parte Deus!
-
---O meu coração--suspirava a alma d'elle--é uma concha. O teu amor é o
-mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida n'esse mar. Mas,
-se tu me expulsares de ti, como n'uma concha abandonada se ouve ainda o
-rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o susurro do
-teu amor!
-
---Olha--dizia a alma d'ella--eu sou como um campo. Tenho arvores e
-relvas. O que ha em mim de maternidade é arvore para te cobrir, o que
-ha em mim de paixão é relva para tu pisares!
-
---Sabes tu?--dizia a alma d'elle.--No ceu ha uma floresta invisivel de
-que apenas se veem as pontas das raizes, que são as estrellas. Tu eras
-a toutinegra d'aquelles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, ha
-muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o
-sol te allumia, triste, se a chuva te molha. Ha muito que te vejo vir
-descendo: quando cairás tu nos meus braços?...
-
-E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam
-deslumbradas, ineffaveis, ternas: confundidas, tinham o ceu por
-elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua
-esperança a madrugada, o seu amor a vida, e, sempre mais ternas e mais
-vastas, envolviam tudo o que do mundo sóbe de justo, de perfeito, de
-casto, as orações, os prantos, os ideaes, e estendiam-se por todo o
-ceu, unidas e immensas--para Deus passar por cima!
-
-E então, á porta da varanda, houve uma risada metallica, immensa e
-sonora. Elles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. Á
-porta estava o pae de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atraz, o homem de
-pallidez de marmore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra.
-O pagem ria, fazendo uma claridade na sombra.
-
-O pae foi lentamente para Jusel e disse, com escarneo:
-
---Onde queres ser enforcado, villão?
-
---Pae, pae!--gritou Maria afflicta, com uma convulsão de lagrimas,
-enlaçando o corpo do velho.--Não. É meu marido, casamos as almas! Olhe,
-alli está. Veja. Alli, na imagem!...
-
---O que?...
-
---Alli, no peito. Veja. Os nossos nomes enlaçados como n'uma
-escriptura. Veja. É meu marido! Só me quer bem. Mas veja. Sobre o peito
-de Jesus, no logar do coração. Mesmo sobre o coração! E elle, o doce
-Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida!
-
-O velho olhava as lettras enlaçadas como uns esponsaes divinos que se
-tinham refugiado no seio de Christo.
-
---Raspa, meu velho, que isso é marfim!--gritou o homem dos olhos negros.
-
-O velho foi para a imagem com a faca do cinturão. Tremia. Ia arrancar
-as raizes d'aquelle amor, até ao peito immaculado de Jesus!
-
-E então a imagem, sob o justo e incorruptivel olhar da luz, despregou
-uma das suas mãos feridas, e cobriu sobre o peito as lettras desposadas.
-
---É elle, Rabil!--gritou o homem da flôr de cactus.
-
-O velho soluçava.
-
-E então o homem pallido, que tocava na guitarra d'Inspruck, onde os
-pastores de Helyberg enroscam heras, veio tristemente junto da imagem,
-enlaçou os braços dos namorados, como se vê nas velhas estampas
-allemãs, e disse ao pae:
-
---Abençôa-os, velho!
-
-E saíu, batendo rijamente nos copos da espada.
-
---Mas quem é?...--disse o velho apavorado.
-
---Mais baixo!--disse o pagem da amphora de Mileto.--É o Senhor
-Diabo!... Mil desejos, meus noivos!
-
- * * * * *
-
-Pelas horas da madrugada, na estrada de Vecker, onde as cerejeiras
-luzem, o homem dos grandes cabellos negros dizia ao pagem branco como
-os Apollos do marmore:
-
---Estou velho. Vae-se-me a vida. Sou o ultimo dos que combateram nas
-estrellas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro,
-no peito, um rumor de perdão. Gostava d'aquella rapariga. Lindos
-cabellos louros, quem vos dera no tempo do ceu! Já não estou para
-aventuras de amor! A bella Imperia diz que eu me vendi a Deus!
-
---A bella Imperia!--disse o pagem.--As mulheres! vaidades, vaidades!
-As mulheres bellas foram-se com os deuses bellos. Hoje os homens são
-mysticos, frades, santos, namorados, trovadores! As mulheres são feias,
-avaras, magras, burguezas, vestidas de burel, cingidas de cilicios, com
-uma pouca d'alma incommoda, e uma carne tão diaphana, que se vê atravez
-o lodo primitivo! Miserias! Ai Athenas! Corintho! Mileto! Tenedos!
-Abydos!
-
---Vou achando risivel a obra dos Seis Dias! As estrellas tremem de medo
-e de dôr. A lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo
-mundo e a apparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui prodigo.
-Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando--para
-não morrer de tedio! Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento,
-podre, vil e immundo--e sê todavia um astro no ceu, impostor! E comtudo
-o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquelle, para amar, feriu com
-uma agulheta o peito da imagem. Como nos antigos tempos, o homem não
-começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta a
-minha ultima aventura. Vou para o meio da natureza, para junto do livre
-mar, pôr-me socegadamente a morrer.
-
---Tambem os diabos se vão! Adeus, Satan!
-
---Adeus, Ganymedes!
-
-E o homem e o pagem separaram-se na noite.
-
-A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra.
-
---Estás tambem deserto!...--disse, olhando para a cruz.--Os infames
-pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu! Soffreste
-calado.
-
-E sentando-se nos degraus do cruzeiro, emquanto vinha a madrugada,
-afinou a guitarra e cantou, no silencio:
-
- _Quem vos desfolhou, estrellas,
- Dos arvoredos da luz?_
-
-E com uma grande risada melancolica:
-
- _Chegará o outono ao diabo?
- Virâ o inverno a Jesus?_
-
-
-
-
-UMA CARTA
-
-(A CARLOS MAYER)
-
-
- _Meu caro Mayer_:
-
-N'aquelles tempos, segundo a formula do Evangelho, o romantismo estava
-nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de
-Shakspeare.
-
-Lembras-te do teu quarto da rua do Forno (creio eu) no ultimo andar,
-quasi nas confidencias humoristicas das estrellas? O busto de
-Shakspeare, que era o nosso calvario da arte, estava alli, ao pé d'uma
-medalha do Dante, e da _Innocencia_ de Greuze! Lembra-me tambem uma
-gravura do _Juizo Final_ e dois esboços hollandezes. Sobre a estante,
-por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de Mirabeau e d'alguns
-volumes da Encyclopedia--n'um quadro, a figura de Napoleão, sobre uns
-rochedos emphaticos, via os prantos do mar e o vôo das gaivotas. Tinhas
-tambem uma collecção de mineraes, e duas caveiras polidas e lavadas,
-que riam serenamente. O meu quarto, no Salvador, era mais austero.
-Na parede, havia pintada a carvão uma grande cruz. Em redor, estavam
-escriptos versiculos da Biblia e disticos da _Imitação_. Mas, como eu
-andasse n'esse tempo constipado, P., um pagão, fez raspar toda aquella
-decoração ascetica, dizendo que o mysticismo, prohibindo o sol, o
-calor, os banhos tepidos, as flanellas, todos os cuidados corporaes, me
-era nocivo, e que o atheismo era para mim uma necessidade hygienica.
-T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes com pelle humana: um
-outro achou ostentosa a pelle humana, e disse, beatificamente, que,
-como mais modesta e mais duradoira, lhe parecia preferivel a pelle
-_cathedratica_. Outro instou para que se forrasse o quarto com as
-folhas dos compendios; eu oppuz-me asperamente a isso, dando as mesmas
-dolorosas razões que daria um preso, se lhe quizessem forrar as paredes
-da enxovia com um tecido feito dos seus proprios remorsos! Tirou-se á
-sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes com pelle humana.
-Dispersamo-nos, lentos e tristes, para ir assassinar gente!
-
-Reunia-se alli um concilio formidavel.
-
-O mais implacavel era A. Que ideias e que camisas!
-
-Foi elle que, um dia, na aula de direito canonico, prophetisou, com
-gestos tragicos, a destruição de Babylonia! Vinha tambem S., todo
-armado: entrava ordinariamente pela janella, galhardamente, como
-Almaviva, estendia sobre os timidos a grande sombra protectora dos seus
-bigodes, e pela noite alta saía á caça dos lobos. Perseguia debalde
-um bando de lobos errantes, que, segundo elle, deviam ter acampado
-na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha tambem M., de sinistras
-ironias: um dia, no Bussaco, encontra um homem de suissas apostolicas,
-corre para elle, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem
-esmaga um insecto.--O que faz?!--bradava o homem.--Estou a catal-o;
-o senhor, entre esta floresta, faz-me o effeito d'uma pulga entre as
-barbas de Moysés!
-
-E continuou a esmagal-o.
-
-No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do
-romantismo coimbrão.
-
-Alli, muitas vezes, sentado sobre a _Mechanica celeste_ de Laplace, tu
-me mostraste, mysteriosamente, um systema solar que tinhas creado e que
-tinhas fechado dentro d'um frasco. Os universos, eram globulos d'agua.
-Um dia um cão entornou aquelle firmamento!
-
-Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e
-do rio. Liamos: eu declamava _Hamlet_, tu tocavas na tua rebeca a
-morbida _Lucia_! Muitas vezes, entre um concilio revolucionario, tu
-lias em pé sobre a mesa, dramaticamente, os _Iambes_ de Barbier--os
-_Iambes_, de que o classico A. dizia gravemente terem um defeito: serem
-sublimes! Celebravamos cerimonias d'um culto desconhecido diante do
-busto de Shakspeare. Davamos grandes batalhas! Combates crueis! Ainda
-a seriedade estremece! Eram dois bandos. De um lado os pagãos, os
-classicos, os positivistas; do outro os barbaros, os romanticos, os
-mysticos.
-
-As balas eram nomes: arremessavamos, de bando a bando,
-sanguinolentamente, os nomes dos grotescos de cada seita. Um romantico
-feria um classico, gritando-lhe com gesto terrivel: _Domingos dos
-Reis-Quita!_ O classico cambaleava, mas respondia vingativo: _Gilbert
-da Pixérécourt!_ Deves-te lembrar que uma vez um classico traiçoeiro
-atirou desapiedadamente ao peito de um adversario romantico este nome
-mortal: _Visconde d'Arlincourt!_ O romantico levou dolorosamente a mão
-ao coração, e caíu inanimado.
-
-Quando o levantamos não era um cadaver, mas era um convertido. Desertou
-para as fileiras classicas, por não querer pertencer a um bando que
-tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de Damocles: o
-Visconde d'Arlincourt! Lembras-te de certo que nós fômos os Samsões
-dos Philisteus classicos: não os derrotamos com a mesma queixada, mas
-apunhalamol-os, um a um, com nomes de classicos portuguezes. Um dia
-debandaram, atordoados, em quanto que nós do topo da escada gritavamos
-sem quartel: _Sá de Miranda! Garção! Semedo! Quita! Sepulveda!_
-
-Já cançados, sem armas, atiravamos-lhes estes nomes como pedras.
-
-Lembras-te dos ensaios dos _Amigos Intimos_? Havia uma palavra que
-eu não conseguia pronunciar bem: era--_solidariedade_. Na noite da
-representação, tomei o partido de a cantar, separando as syllabas
-como notas de musica. Era na _casa dos adereços_ do theatro, que nós
-discutiamos com T. a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina,
-arredando bastidores, proclamavamos o _Moysés_ e o _Pensieroso_ com
-grave detrimento da Venus de Milo--a grande Aphrodite. Depois das
-representações, havia ceias semelhantes ás bodas de Gamacho! Uma noite
-saimos todos, de mantos, com corôas de loiro, symbolisando a geração
-dos Petrarcas, e cantando um côro lacrimoso.
-
-Tinha havido na rua de... uma reunião, e as familias, ao saír,
-dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquella multidão de
-phantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, offerecido a Deus
-em nome dos discipulos de Petrarca!
-
-Aquella epocha foi uma pequena _Restauração_, tanta era a vida, a seiva
-espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adoravamos o theatro. O
-theatro era a paixão, a lucta, a dôr, o coração arrancado, e gemendo,
-sangrando, rolando sobre uma scena resplandecente. O nosso theatro--era
-Shakspeare e Hugo, o os comicos hespanhoes, sombrios e magnificos, do
-seculo XVI.
-
-Admittiamos tambem a satyra no theatro, mas a satyra sanguinolenta,
-Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo riso
-gaulez, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de Tacito--para
-pintar a cara macia do egoismo humano.
-
-Tinhamos um hemicyclo de poetas. Collocados sob um ponto de vista
-exclusivo, só era admittido á nossa communhão o que derivasse da força,
-do rugido da natureza, da palpitação selvagem da vida e da paixão.
-
-Tinhamos, ao mesmo tempo, occultamente, um idealismo doentio e
-dissolvente. O nosso grande compositor era Beethoven; e todavia eu,
-desgraçado de mim! adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te, amigo,
-de teres n'esse tempo condescendido com Novalis e Luiz Tieck.
-
-Para nós (e com grandes pancadas contrictas sobre o peito o digo)
-Portugal não tinha direito de cidade na região da arte e da alma.
-Aceitavamol-o como paiz d'acção. Um dos maiores poetas de Portugal,
-para nós, era Vasco da Gama! Tinhamos um systema de nações-almas e
-nações-braços. Assim, para nós, a maior epopeia portugueza era a
-exploração do mar. As suas rimas eram conquistas. As scenas dos seus
-dramas escorriam de sangue junto ás muralhas de Diu.
-
-Litterariamente, Portugal, na nossa opinião, era simplesmente o
-pretexto para o _Bosquejo Historico_ do snr. padre Figueiredo. Do
-passado, apenas acreditavamos em João de Barros e Camões. Garrett
-tinha-se separado de nós, tomando pelo atalho que leva a Deus, e
-legando á geração presente a pouca alma que ella ainda tem.
-
-Os contemporaneos, ai! não os conheciamos. Hoje eu, e creio que tu,
-conhecemos bem os nobres espiritos que se obstinam em pensar no meio
-d'este deserto d'almas, uns junto da historia, outros junto do verso,
-alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o romance.
-
-Mas, n'aquella epocha d'espontaneidade, só viamos o que era
-verdadeiramente e incontestavelmente sol!
-
-Discutiamos largamente a natureza, e eu lembro-me de te ouvir
-fallar, deante daquella luz que cáe desfeita em tristeza no _Penedo
-da Saudade_, ácerca da formação das nebuloses, e, partindo d'ahi,
-descrever o homem e Deus, até á procissão da vespera.
-
-Havia entre nós todas as theorias e todas as seitas: havia republicanos
-barbaros, e republicanos poeticos; havia mysticos que praticavam as
-eclogas de Virgilio; havia materialistas sentimentaes e melancolicos
-que proclamavam a materia com uma meiga languidez nos olhos, e fallavam
-da força vital, quasi de joelhos, com as mãos amorosamente postas;
-havia pagãos que lamentavam as suas penas de amor, castamente, sob
-a nevoa luminosa dos astros. Tudo havia, e tambem a serena amizade
-incorruptivel, o fecundo amor do dever, e a ingenuidade risonha de tudo
-o que desperta.
-
-Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magnifica, e na vida
-real eram todos contemplativos, melancolicos e timidos. E tu sabes qual
-era o grande espirito, hoje longe de nós, que explicava Proudhon com a
-serena familiaridade dos sabios, e nas aulas, dizia, com voz timida,
-referindo-se aos jurisconsultos antigos: «... O snr. Pegas... S. S.ᵃ
-o digno Paiva e Pona... O nobre cavalheiro Cujacio..., etc.» Tremia
-diante d'aquelles commentadores, como diante de idolos mysteriosos; e
-imaginava abrandal-os, dando-lhes venerações.
-
-Tal era aquelle concilio. A força severa do espirito precisa d'estas
-precursoras explosões de vida. Hoje pouco resta d'esses camaradas.
-Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o braço,
-reunem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de
-Henrique IV.
-
-Todos se perderam. Uns estão bem longe, para além do mar. Outros
-soffrem os tedios da vida official. Outros vivem nas castas serenidades
-do lar. Outros apodrecem debaixo da herva, e o que nós amavamos
-n'elles--a alma--dissipou-se, e o que viamos--o corpo--anda em redor de
-nós, nas metempsichoses, no ar, nas plantas, e nas pedras; mas nós não
-comprehendemos ainda o seu silencio, como elles já não percebem o nosso
-ruido!
-
-Ora quem, n'esse tempo, me tivesse fallado dos seculos classicos de
-Augusto e de Pericles, fazia-me uma injuria pessoal; e hoje em presença
-d'esta doença desoladora dos espiritos, d'estas chagas luminosas e
-incuraveis que as almas teem, eu estou quasi prompto a ir declarar, com
-a vela na mão, como os antigos convertidos, que o pensamento tem tido
-apenas tres epochas: Pericles, Augusto e Luiz XIV. É o cyclo dos tres
-tyrannos! E, embora se lastime que as ideias nasçam com os escravos,
-eu acho magnifico e verdadeiro que aquellas datas gloriosas sejam o
-jazigo de tudo quanto a alma humana tem creado. _Confiteor._ Salve,
-Aristoteles!
-
-Mas o mal é que em volta d'aquellas epochas, que são cimos luminosos,
-em baixo, crepusculos constellados, move-se uma população selvagem,
-disforme e revolucionaria. Alli ha o crime, a paixão, a lucta, a dôr,
-o sangue, o amor, o ciume, a morte e a duvida--todas as meias-tintas
-do mal! Quem desce d'aquelles cimos, que são gloria, luz, e verdade,
-onde habitam as almas nobres de Horacio, de La Harpe, de Boileau, de
-Reis Quita, de Garção, de Caminha, e companhia, quem desce áquelles
-fundos perversos topa com figuras gigantescas e horriveis: Shakspeare,
-o humano; Dante, o sobrenatural; Rabelais, o escarnecedor; Isaias, o
-propheta; Juvenal, o vingador; Eschylo, o fatal. Aquellas figuras
-devastam!
-
-E é um encontro peor que o da Floresta Mysteriosa, no começo da _Divina
-Comedia_. Adeus, as serenidades idyllicas dos tempos de Pericles e de
-Augusto! Adeus, as claras aguas da alegria nos olhos! Adeus, as tepidas
-branduras, e os descanços arcadicos!
-
-Aquelles poetas terriveis arrastam-nos, deslumbram-nos d'ideal,
-esmagam-nos de paixão: dão-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre
-a pobre alma: o amor, a melancolia, a paixão, o ciume, o mysticismo, a
-ironia, o desespero, a duvida. Além d'isso não respeitam a felicidade
-corporal do egoismo humano: atrevem-se a dar o terrivel espectaculo da
-dôr. O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos arrancados, e o
-seu coração caido na lama, pisado pelos filhos, cuspido pelos lacaios,
-apupado pela populaça!
-
-Aquelles poetas abrem na alma longes surprehendentes. Quem os lê sente
-entrar em si, bruscamente, o infinito!
-
-Soffre, como os sacerdotes antigos soffriam com a presença de Deus!
-
-E entretanto os que se deixaram ficar na luz branca, em companhia dos
-espiritos inoffensivos de Racine, de Horacio, de Virgilio, de todos os
-classicos, vivem contente e socegadamente na sua fé ordinaria, na sua
-virtude, na sua somnolencia hygienica!
-
-É que esses inoffensivos fazem um ruido que embala, põem um _abat-jour_
-ao ideal, trazem a paixão açaimada, e põem _caio_ na face da dôr.
-
-Mas os que desceram ás regiões romanticas ficaram com a alma doente,
-febril, anciada, nostalgica. Ahi está como se explica toda esta geração
-moderna, contemplativa e doente! Porque--digamos a verdade--hoje a
-vida do pensamento é um vasto hospital d'almas. E os gemidos, que sáem
-dos leitos, são os dramas, os poemas, os romances modernos. Hoje,
-incontestavelmente, pensar é soffrer. A enfermeira, que se chama
-Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas classicos, esses,
-não obrigam a pensar: são a simplicidade, a frieza, a narrativa, a
-superficie, a affectação, a convenção--tudo menos a alma, com a sua
-tragi-comedia de dôres e de duvidas!
-
-Nós, meu amigo, somos uma geração desilludida por tres revoluções,
-amollecida por uma invenção horrivel--a musica, tomada da duvida
-religiosa, geração que vê esvaecer-se Christo, a quem tanto tempo
-amou, e não vê chegar a liberdade, por quem ha bastante tempo espera.
-Quaes podem ser as obras d'esta geração? Creações febris, convulsões
-cerebraes, idealistas e doentias, todo um pesadello moral. Por isso
-temos tido toda a serie de figuras melodramaticas, desde Fausto até Mr.
-de Camors.
-
-Qual vale mais: esta doença magnifica, ou a saude vulgar e inutil, que
-se goza no clima tepido que vae desde Racine até Scribe? Eu prefiro
-corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre se chama
-Julietta e a ultima Margarida!
-
-Os outros, os saudaveis, os doutrinarios da arte, os petrificadores da
-paixão, os sacerdotes da tradição e do _magister dixit_, não pertencem
-á arte pura: pertencem aos archivos. São documentos historicos. São
-momentos sociaes vistos atravez da arte. Racine explica Luiz XIV.
-E como na historia livre e pura se não póde conceber Luiz XIV, na
-arte pura e livre não se póde admittir Racine. Toda a nossa Arcadia
-explica os reinos de D. João V, de D. José I e de D. Maria I. Por
-essa litteratura se pódem conhecer todos os sentimentos monarchicos
-do tempo, o espirito cortezão, a influencia clerical, a sujeição
-d'ante-camara, as subtilezas moraes, a serenidade emphatica, a
-magestade theatral, toda essa somma de falsos sentimentos e de falsos
-costumes que era o antigo regimen. E aquella litteratura falsa,
-ridicula, sendo excellente como documento, é grotesca como arte.
-
-Na arte só têm importancia os que criam almas, e não os que reproduzem
-costumes.
-
-A arte é a historia da alma. Queremos vêr o homem--não o homem
-dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas
-instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, collocado
-na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a
-representação dos caracteres taes quaes elles seriam, abandonados á sua
-vontade intelligente e livre, sem as peias sociaes. Ahi está o que dá a
-Shakspeare a supremacia na arte. Foi o maior creador d'almas. Revelou
-a natureza espontanea: soltou as paixões em liberdade e mostrou a sua
-livre acção. É ahi que se póde estudar o homem. É o que faz tambem a
-grandeza de certos typos capitaes de Balzac, o _Barão Hulot_, _Goriot_,
-_Graudet_. Realisam o seu destino, longe da associação humana, sob a
-livre logica das paixões.
-
-No emtanto, ás vezes, os que reflectem o seu tempo--criam: e é quando
-não só revelam o caracter d'um momento, um estado convencional e
-passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma d'um povo. É o que faz
-a grandeza de João de Barros. Historiador, revelou o genio de Portugal,
-o espirito aventureiro misturado de exaltação religiosa, o heroismo
-supersticioso. Camões, o filho da Renascença e das imitações latinas,
-não tem o espirito epico de João de Barros, que ás vezes, n'uma pagina,
-constroe toda a antiga alma heroica da patria.
-
-Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua phase rhetorica; e os
-poetas modernos de França, Mallarmé, Dierx, Sully-Prudhomme, Catulle
-Mendés, Heredia, Ricard, L'Isle-Adam, etc., fabricam maldições ao
-mundo e á materia, com a mesma sabia reflexão e estudo com que os
-poetas de 1810 fabricavam madrigaes. Uma certa escola, saída de Charles
-Baudelaire, affecta amores pelo mal: como os histriões medrosos põem
-vermelhão na face, para encobrir a pallidez, elles tingem a alma de
-perversidade negra para encobrir o desfallecimento.
-
-Ha pouco fallei de _Mr. de Camors_. Ainda um livro nostalgico. Ainda
-Manfredo e D. Juan sob uma fórma remoçada e theatral.
-
-Mr. de Camors é um mystico. Tem todos os desfallecimentos d'alma, todos
-os desmaios do desejo dos heroes poeticos de 1830.
-
-Traz só de mais um apparato: o materialismo. Mascara-se de
-impassibilidade: mas quando? Justamente quando, pela posição politica,
-pelo resplandecimento financeiro, pela força dos habitos e das
-ligações, elle tem uma vida compassada e material--em que a alma
-adormece. E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas,
-quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão,
-ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo, a
-pobre alma, chorando afflicta, torturando-se, e pedindo com as mãos
-postas ás estrellas um refugio sereno!
-
-Aqui, em Portugal, tambem ha uma grande doença. Fallaria n'isso agora,
-se não estivesse fatigado de escrever.
-
-Mas a peor das doenças é a doença que affecta ares languidos; que
-compõe, ao morrer, a voluptuosidade do olhar; que, quando já sente o
-frio da morte, suspira correctamente: Adeus!
-
-O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir, contra
-os meus habitos impassivelmente silenciosos, a fallar vagamente em
-litteratura? Nada, senão que, n'um dia de tristeza e de frio, eu
-quiz fazer uma romaria saudosa áquelles tempos distantes era que
-nós viviamos n'uma noite de ideias e de desejos, allumiados pelos
-astros--Shakspeare, Dante, Rabelais, S. João, Gœthe e Cervantes, e
-tendo sempre na alma aquella ternura luminosa que vinha d'uma aurora
-serena, clara, immensa, purificadora e consoladora--Jesus Christo!
-
- Teu
-
- _E. de Q._
-
-
-
-
-O LUME
-
-
-Agora, de inverno, no campo, as noites são asperas e hostis. Toda
-a natureza está impassivel e entorpecida, esperando a fermentação
-violenta das seivas. As arvores erguem os braços nús, miseraveis e
-supplicantes. E as aguas, que no outono estavam quietas e pallidas, e
-que em maio faziam claras murmurações, tão melodicas como o rythmo d'um
-idyllio latino, teem agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e
-lento como um canto catholico d'officios: as chuvas cáem de cima, como
-escarneos triumphantes e ruidosos.
-
-Ás vezes, vem a lua--não aquella immaculada lua côr d'opala, d'onde
-se exhala um nevoeiro magnetico que faz a alma docemente doente, mas
-uma lua metallica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas
-legendas catholicas.
-
-Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no
-tedio, silenciosamente, como um navio roto n'uma calmaria, e vae, por
-instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do
-fogo. E, emquanto a força vital se dissolve n'uma somnolencia fluida,
-elle sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que
-lhe falla como n'um extase profano:
-
- * * * * *
-
-«Sou eu--diz a voz--eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o
-teu velho Deus mysterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha
-em ti de grande e de justo--a familia e o trabalho. A minha historia é
-triste, luminosa e terrivel, immunda e meiga. Eu fui o teu companheiro
-das noites da India, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch
-das religiões da velha Africa, ensanguentado e tragico: e sou agora o
-escravo a quem tu mandas mover as machinas.
-
-«Sempre escondido e silencioso, occupando a um canto o mais pequeno
-espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas,
-e fico, nas tuas horas negras de dôr e de miseria, calado ao pé de
-ti, lambendo-te os pés como um cão. Na India, lembras-te? durante as
-noites primitivas, eu fui o bom _Agni_ que te allumiava, que espantava
-os chacaes e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores
-religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus seccos: assim,
-para onde tu fôsses, ou solitario ou em bando, encontravas-me sempre
-aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade
-humana da familia.
-
-«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus barbaros trabalhos, no
-principio, quando a vasta natureza te combatia. E eu era o amigo
-unico, o alliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros
-beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos.
-
-«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta
-tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza
-e força, era então a tua sepultura imminente. Quando saías de ao pé
-de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os
-sêres implacaveis--o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que
-te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudarios.
-Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma
-resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume
-que te enxugava, que te allumiava, que te dava o pão, a força ou a fé.
-Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em
-casa, esperando os teus cançaços. Ella fiava, limpava o chão da cabana,
-tirava a agua fresca, e adormecia o filho no seio branco como n'um
-leito espiritual: eu estava quieto e attento, combatendo a sombra e a
-noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de
-luz para o teu somno, dando á cabana a serenidade tepida, e ás tuas
-fadigas um paraiso de socego, de silencio e de calor.
-
-«Em volta de mim, creou-se a familia. Eu era o purificador da tua
-natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os
-braços, e ampara na hora das dôres.
-
-«Eu tenho ainda por ti aquelle amor servil e adulador, que se glorifica
-quando abdica, que tem um extase quando se dá a uma humilhação. Quando
-te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta
-grande alma de chamma, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam
-as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de
-negro--justamente como o corpo d'um amor abandonado.
-
-«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um
-affago, quando me revolves--desperto, revivo, canto psalmos de luz,
-requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são
-gritos de fogo, scintillações que são beijos; e como n'uma rapariga,
-para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em
-rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos
-labios, toda a minha dôr e o meu abatimento se vae desfeito em fumo!
-
-«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss,
-tantos santos, e tantos martyres, e tantos hallucinados de Deus! Fui
-eu que queimei, nas cidades mysteriosas de Africa, as creanças e as
-virgens no altar de Moloch.
-
-«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante
-os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o
-confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco!
-Podia ir comtigo, insensivelmente--lareira, se era o teu amor que me
-assoprava, incendio, se era a tua colera--no tempo em que tu eras uma
-força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciencia. Comtigo só me
-alliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te
-tenho consolado das servidões dolorosas.
-
-«No tempo das cathedraes, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão
-livre, nem a voz, nem o somno, nem a esperança, eu dei-te o que mais
-agrada ao escravo--o direito de mandar. Em volta de mim, a familia
-ajoelhava á tua voz, resava ao teu olhar, erguia a hostia do amor ao
-teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava.
-Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho
-representado a essencia humana. Eu tenho advogado a causa da vida.
-
-«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o mysticismo. Eu sou o
-bem. A familia, o trabalho, a educação, esta trindade mysteriosa da
-vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no
-circulo da minha luz. Tudo para além é sombra--sombra na parede, e
-sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte;
-debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os unicos
-momentos verdadeiros e sãos fôram aquelles em que estiveste ao pé de
-mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a creança. Então
-realisaste o ideal, o symbolo--Deus, que as religiões esboçam e as
-criticas dissipam.
-
-«Lembras-te da India?
-
-«Alli tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos
-novilhos, e o filho, encarnação mysteriosa do amor das almas, e a minha
-doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia
-em ti no estado de presentimento.
-
-«Depois d'isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações,
-de religiões, de conquistas, de descobertas, d'ideaes.
-
-«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfallecimento, a
-dôr e o mal.
-
-«Eras puro e são: estás morbido e enfraquecido. Eras forte: estás
-rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste
-ironia: o teu largo olhar é uma aspera desconfiança.
-
-«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E
-tudo o que ella tinha de terrivel e de doloroso, tudo hoje tu tens: a
-independencia desesperada do mar, o mysterio doentio da floresta, o
-chôro afflicto das aguas, a inquietação do vento, a barbaridade das
-feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com
-surdas irritações, com rebelliões formidaveis. Ahi está. De cada vez
-que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma
-chaga.
-
-«Foste crear o mysticismo: vieste com a nostalgia incuravel. Quizeste
-crear os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade,
-que vae sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para
-te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e
-da materia exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o
-egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas
-obras ahi estão immensas, accumuladas, contraditorias e inuteis. Tens
-uma complicação infinita de azas que te impede o vôo.
-
-«A mim, abandonaste-me.
-
-«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante,
-miseravel, sobrecarregado d'infamias, e, para viver, vendendo-me ao
-carrasco!
-
-«Mas conservei sempre a minha chamma, casta e familiar, para o dia em
-que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos
-teus irmãos.
-
-«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus
-instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiaes, ou lascivos. Eu dou-te
-o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do
-movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor,
-dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que
-prepara para o trabalho. Eu sou a cura, intelligente e boa, do mal
-natural. Eu allumio-te nas vigilias dolorosas. Quando estás entorpecido
-na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres
-e a tua alma vae partir, eu allumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco
-Christo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu
-sou junto das praias o grito de luz que te chama.
-
-«E o que fazes tu em paga d'este amor que se dá, que cria, e que
-purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que
-embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor,
-movimento que é força: os dois termos da tua vida--pureza e
-putrefacção! Eu que vivia, allumiava, creava em liberdade, estou
-encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o
-motor da miseria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças
-estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas.
-Sou o collaborador dos martyrios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o
-fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a
-infamia. Fazes de mim _explosão_. Obrigas-me a devastar na guerra!
-
-«Eu sou a pureza, o trabalho, a familia, a paixão casta: levas-me a ser
-o mal, a viuvez, o pranto e a dôr! Tenho um cortejo d'ambulancias e de
-macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a arvore
-que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!
-
-«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não
-quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros
-que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu
-allumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a
-Christo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a familia, a intimidade
-casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu
-velho camarada das choupanas da India! não me faças ser explosão, morte
-e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando
-estiver allumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços--não
-sinta entre as minhas chammas bailarem espectros!»
-
-
-
-
-MEPHISTOPHELES
-
-
-No _Fausto_, de Charles Gounod, a figura dramatica e synthetica é
-Mephistopheles.
-
-Em volta d'elle, Fausto canta artificialmente como um lyrico histrião
-d'operas; Margarida sente as primeiras rebelliões nervosas do
-desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo
-Cherubim; a alma legendaria do rei de Thule canta na sua torre que
-molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem
-a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande
-figura angulosa, nervosa, elastica, incisiva, atravessa, sinistra, o
-drama--os seus lyrismos nostalgicos, as suas sensualidades tristes,
-os seus mysticismos artificiaes--glorificando a força brutal do
-dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto
-espiritualista para a violencia lasciva, combatendo a serena inspiração
-do Christo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção
-da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação--com o riso
-tragico do mal!
-
-Aquella opera é uma simples aventura do antigo Diabo.
-
-N'ella, o Fausto não é o sabio que penetrou a medicina, a physica, a
-logica, a dialectica, a dogmatica, a theologia, a metaphysica, para
-quem os seis mil annos do passado são apenas o prefacio do saber
-humano, que procura o X terrivel da equação dos astros, e que ao ruido
-que faz a sua alma buscando atravez da natureza o Deus fugitivo,
-o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os
-desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o
-homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que
-se recolhe n'um stoicismo tragico, tendo todavia, sempre, dentro do
-peito, o côro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das asperas
-curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vae ao fundo
-do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem d'ella, que é o
-ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito
-moderno.
-
-Não. Na opera, Fausto é simplesmente um d'aquelles ambiciosos
-grotescos, que contratavam por escripto com o velho Diabo, nos
-claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo,
-por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro
-e que os estofos, uma coisa inutil e esteril, que se lhe atirava
-desabridamente--e que era simplesmente a alma!
-
-As legendas estão cheias d'estas negociações.
-
-Cornelio Agrippa vende a alma pelos segredos da philosophia; o abbade
-de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a
-alma, n'uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as
-tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Hespanha, e uma
-perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as
-mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo
-Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança!
-Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga
-clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando!
-
-O Diabo cumpria escrupulosamente o contracto: havia para estas
-negociações uma jurisprudencia dogmatica. Sujeitava-se mesmo a
-acompanhar o contratador, como uma inspiração visivel, como um
-camarada de perigos, para lhe facilitar a ampla realisação do desejo.
-Seguia Agrippa sob a fórma d'um escudeiro, vestido de negro, com o
-nome de _Sujeito_. Seguia Fausto, vestido d'escarlate, com o nome de
-Mephistopheles. Nada mais.
-
-Margarida, não é, na opera de Gounod, como em Gœthe, o symbolo da
-alma allemã, simples, casta, soffredora, d'aquella alma allemã que,
-como na _Melancolia_ d'Alberto Dürer, quando a materia, a tyrannia,
-a desesperança a opprimem, só sabe resignadamente, dobrar as suas
-azas; aquella alma allemã que exhala toda a sua immensa dôr em frescas
-cantigas religiosamente humanas, que tem todas as simplicidades, todas
-as intelligencias, todos os deveres, que quando olha para a terra é
-para amar, quando olha para o ceu é para orar, quando olha para si é
-para morrer. Não. A Margarida da musica sabia de Gounod, é uma alma
-lyrica, nebulosa, nostalgica, sensual, para quem o amor é um magnetismo
-suave, a oração uma lucta com o mal, a morte um libertamento romantico
-da vida--insufficiente e vasia. Este Fausto tem na alma um lyrismo
-theatral, esta Margarida um paraiso artificial.
-
-Mas elle, o bom Mephistopheles, tem uma vida real e poderosa. É elle--a
-antiga creatura terrivel e grotesca, vaidosa, infame e tragica. É
-o antigo Satanaz das legendas. É elle--o mesmo a quem os Severios
-ouviram dizer que antes queria devorar uma alma, do que voltar, entre
-purificações, para os seus antigos camaradas, os astros, _sidera
-lucida_! É elle, o eterno inspirador dos hereticos e dos impostores,
-elle que ensinava os oraculos aos crocodilos de Arsineë, e aos
-carvalhos propheticos de Dodona, e que dava a Manés, o homem impio,
-a ascetica pallidez dos monges, como dá a Fausto, velho e tepido, o
-resplandecente magnetismo do olhar. Elle, que segundo as tradições
-judaicas, inventou os enfeitos e as joias, para ferir os castos
-instinctos da mulher--e que atirava os coraes ao regaço das mulheres
-de Brabante, como mostra a Margarida a côr traiçoeira e hypocrita das
-perolas. É elle o mesmo que em Babylonia tomava as attitudes hieraticas
-de um Deus, e fugia do olhar de Daniel--como na kermesse de Leipzig
-toma a voz sinistra e rouca do dinheiro, e cáe, torturado e covarde,
-diante da serena apparição das cruzes das espadas. É elle o antigo
-Diabo que dava aos monges da Thebaida o mal da _acedia_, como dá á
-pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges do Occidente; dá-lhes
-as chagas e as dores de Job, envolve-os nas visões magnificas do mal.
-
-As virgens diaphanas fazem, no silencio da noite, as mil orações da
-prostração: os monges passam os annos em jejuns dolorosos. Debalde! Se
-se deitam na neve, a neve toma um calor vital e lascivo que os definha:
-se bebem a agua fria e purificadora das fontes, a agua dá-lhes ao
-corpo a palpitação dos vastos appetites. Se querem resar no silencio,
-ouvem os risos ambrosiacos dos Deuses sensuaes, e o gemer desfallecido
-dos bandolins. Tambem a pobre Margarida, se queria fiar castamente,
-e chorar o velho rei de Thule, sentia a melodia da carne cantar-lhe
-baixo: «Vê como Fausto, o cavalleiro vestido de velludo, é branco, e
-bello, e são, e forte.»
-
-Os monges d'Alexandria andavam de noite, pelos corredores solitarios e
-sonoros, com as cruzes alçadas, cantando, para o afastar, os versiculos
-do Evangelho, e regando com agua santa as lages do claustro: assim o
-gentil Siebel asperge, tristemente, as flôres maculadas de maio.
-
-E ao mesmo tempo este Diabo terrivel, que andava disperso nos
-elementos, de tal sorte que o vento era a sua tosse, elle que era o
-carrasco da inquisição, a fera dramatica das almas, elle que redigiu
-a sentença de Christo, que accendeu as fogueiras das feiticeiras, que
-celebrava o _sabbat_, onde á luz d'uma lampada sem oleo, prégava o
-sermão dos sete peccados, elle que tinha por filhos, Merlino, Roberto
-de Normandia, Attila e os Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco,
-bailarino, poeta, jogador e palhaço. Bebia gloriosamente o vinho das
-missas do Papa. Tinha uma taverna no Inferno, onde se comiam, com
-molho de beata, as almas dos usurarios. Dava serenatas ás patricias de
-Veneza. Fazia sonetos correctos e academicos ás abbadessas de Vecker.
-Vestia-se de velludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes
-das universidades livres, e assignava-se _Belzebuth, cosinheiro do
-Inferno_. Os trovadores cantaram esta legenda faceta das farças de
-Satan.
-
-Tomou tanta familiaridade com o homem, que Luthero sujou-o de tinta, e
-Rabelais deu-lhe piparotes. Na Allemanha, na noite de 30 de abril, dava
-um sarau magnifico nas alturas de Borx-belg. Era a noite do Walpurgis.
-Havia a grande dança das nudezas. Nas noites claras, as estrellas
-assistiam, com a impassibilidade de vestaes.
-
-Assim é a figura complexa de Mephistopheles. Durante a opera de Gounod,
-esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama dos amores
-e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso, como
-aquellas figuras de Satan, que nas cathedraes da Allemanha deixam
-cair do ultimo corucheu uma risada de pedra, que nos nichos, nas
-esculpturas, nas rosaceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas
-as figuras de santos, de virgens e de anjos--vae gelar as aspirações
-ideaes e os sentimentos do ceu.
-
-Toda aquella musica da opera, que envolve Mephistopheles, é a vaga
-melodia sombria do mal. Tem o escarneo, tem a violencia, tem as trevas,
-a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta e vence.
-
-
-
-
-MEMORIAS D'UMA FORCA
-
-
-Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento d'este papel,
-onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua
-historia. Esta forca intentava escrever as suas tragicas _Memorias_.
-Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Arvore, ninguem sabia
-tão bem o mysterio da natureza; forca, ninguem conhecia melhor o
-homem. Nenhum tão espontaneo e verdadeiro como o homem que se torce na
-ponta d'uma corda--a não ser aquelle que lhe carrega sobre os hombros!
-Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu.
-
-Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que
-copío--resumo das suas dôres, vaga apparencia de gritos instinctivos.
-Pudesse ella ter escripto a sua vida complexa, cheia de sangue e de
-melancolia! É tempo de sabermos, emfim, qual é a opinião que a vasta
-natureza, montes, arvores e aguas, fazem do homem imperceptivel.
-Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papeis
-que guardo avaramente, e que são as _Memorias d'um Atomo_ e os
-_Apontamentos de Viagem d'uma Raiz de Cypreste_.
-
- * * * * *
-
-Diz assim o fragmento que eu copío--e que é simplesmente o prologo das
-_Memorias_:
-
-«Sou d'uma antiga familia de carvalhos, raça austera e forte--que já na
-antiguidade deixava caír, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era
-uma familia hospitaleira e historica: d'ella tinham saído navios para
-a derrota tenebrosa das Indias, contos de lanças para os hallucinados
-das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram
-Savonarola, Espinosa e Luthero. Meu pae, esquecido das altas tradições
-sonoras e da sua heraldica vegetal, teve uma vida inerte, material e
-profana. Não respeitava as nobres moraes antigas, nem a ideal tradição
-religiosa, nem os deveres da historia. Era uma arvore materialista.
-Tinha sido pervertida pelos encyclopedistas da vegetação. Não tinha
-fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do sol, da seiva e da agua.
-Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, em quanto
-sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol,
-acolhia os grandes concertos de passaros bohemios, cuspia a chuva
-sobre o povo curvado e humilde das hervas e das plantas e, de noite,
-enlaçado pelas heras lascivas, resonava sob o silencio sideral. Quando
-vinha o inverno, com a passividade animal d'um mendigo, erguia para a
-impassivel ironia do azul os seus braços magros e supplicantes!
-
-«Por isso nós, os seus filhos, não fômos felizes na vida vegetal.
-Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços: ramo
-contemplativo e romantico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa,
-pelo escarneo, pela farça e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de
-sol, de poeira, aspero solitario da vida, luctador dos ventos e das
-neves, forte e trabalhador, foi arrancado d'entre nós, para ir ser
-taboa d'esquife!--Eu, o mais lastimavel, vim a ser forca!
-
-«Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades
-na floresta. Eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das
-fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a
-umas pobres violetas, que viviam por baixo de nós, doces raparigas
-lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da
-vegetação. Agasalhava todos os passaros na vespera dos temporaes. Era
-eu quem asylava a chuva. Ella vinha, com os cabellos esguedelhados,
-perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens
-e as folhas, e escondia-a alli, ao calor da seiva. O vento passava,
-confundido e imbecil. Então a pobre chuva, que o via longe, assobiando
-lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gotta
-por gotta, para o vento a não perceber, e ia, de rastos, por entre a
-herva, acolher-se á vasta mãe Agua! Tive por esse tempo uma amisade
-com um rouxinol, que vinha conversar commigo durante as longas horas
-constelladas do silencio. O pobre rouxinol tinha uma pena d'amor!
-Tinha vivido n'um paiz distante, onde os noivados teem mais molles
-preguiças: lá se enamorára: commigo chorava em suspiros lyricos. E tão
-mystica pena era que me disseram que o triste, de dôr e desesperança,
-se deixára caír na agua! Pobre rouxinol! Ninguem tão amante, tão viuvo
-e tão casto!
-
-«Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo
-vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens,
-como dedos, para apontar á pobre alma afflicta de lagrimas todos os
-caminhos do ceu!
-
-«Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante!
-
-«Emfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um d'aquelles
-homens metallicos que fazem o trafico da vegetação veiu arrancar-me á
-arvore. Não sabia eu o que me queriam. Deitaram-me sobre um carro e,
-ao caír da noite, os bois começaram a caminhar, emquanto ao lado um
-homem cantava no silencio da noite. Eu ia ferido e desfallecido. Via as
-estrellas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar
-da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das
-arvores. Eram vozes amigas que me chamavam!
-
-«Por cima de mim voavam aves immensas. Eu sentia-me desfallecer, n'um
-torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade
-das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, iamos entrando n'uma cidade. As
-janellas olhavam-me com olhos ensanguentados e cheios d'um sol irado.
-Eu só conhecia as cidades pelas historias que d'ellas contavam as
-andorinhas, nos serões sonoros da espessura. Mas como ia deitado e
-amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia um rumor
-aspero e desafinado, onde havia soluços, risos, bocejos, e mais o surdo
-roçar da lama, e o tinido sombrio dos metaes. Eu sentia emfim o cheiro
-mortal do homem! Fui arremessado para um pateo infecto, onde não havia
-o azul e o ar. Comecei então a comprehender que uma grande immundicie
-cobre a alma do homem, porque elle se esconde tanto das vistas do sol!
-
-«Uns homens vieram, que me deram despresivelmente com os pés. Eu estava
-n'um estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da
-patria vegetal. Ao outro dia, um homem veiu para mim e deu-me golpes
-de machado. Não senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez
-amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando.
-Senti lentamente renascer a consciencia e a vitalidade. Parecia-me
-que eu estava transformado n'uma outra vida organica. Não sentia a
-magnetica fermentação da seiva, a energia vital dos filamentos e a
-superficie viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a
-pé. Sob a brancura silenciosa e compassiva da lua, tive uma saudade
-infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, das relvas, de toda
-a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu
-sentia que ia para uma vida real, de serviço e de trabalho. Mas qual?
-Tinha ouvido fallar das arvores que vão ser lenha, aquecem e criam, e,
-tomando entre a convivencia do homem a nostalgia de Deus, luctam com os
-seus braços de chammas para se desprender da terra: essas dissipam-se
-na augusta transfiguração do fumo, vão ser nuvens, ter a intimidade das
-estrellas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos immortaes,
-e sentir os passos de Deus!
-
-«Eu tinha ouvido fallar das que vão ser vigas da casa do homem: essas,
-felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce força dos
-beijos e dos risos; são amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a ellas
-os corpos dolorosos dos Christos, são os pedestaes da paixão humana,
-têem a alegria immensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das
-creanças, ais namorados, confidencias, suspiros, elegias da voz, tudo
-o que lhes faz lembrar as murmurações da agua, o estremecimento das
-folhas, as cantigas dos ventos--toda essa graça escorre sobre ellas,
-que já gosaram a luz da materia, como uma immensa e bondosa luz da alma.
-
-«Eu tinha ouvido fallar tambem das arvores de bom destino, que vão ser
-mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do
-temporal, viajar, vêr, luctar, viver, levadas pelas aguas, atravez do
-infinito, entre surprezas radiosas--como almas arrancadas do corpo que
-fazem pela primeira vez a viagem do ceu!
-
-«Que iria eu ser?...--Chegamos. Tive então a visão real do meu destino.
-Eu ia ser forca!
-
-«Fiquei inerte, dissolvida na afflicção. Ergueram-me. Deixaram-me só,
-tenebrosa, n'um campo. Tinha, emfim, entrado na realidade pungente
-da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre
-cheias de cadeias, de cordas e de pregos, tinham vindo aos carvalhos
-austeros buscar um cumplice! Eu ia ser a eterna companheira das
-agonias. Presos a mim, iam baloiçar-se os cadaveres, como outr'ora as
-verdes ramagens orvalhadas!
-
-«Eu ia dar esses negros fructos: os mortos!
-
-«O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a
-companheira dos passaros, doces tenores errantes, as agonias
-soluçantes, os gemidos da suffocação! As almas, ao partir,
-rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a arvore do silencio e do mysterio
-religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos psalmos sonoros
-da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me
-ás nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a
-arvore viva dos montes, d'intimidade com a podridão, do camaradagem com
-o carrasco, sustentando alegremente um cadaver pelo pescoço, para os
-corvos o esfarraparem!
-
-«E isto ia ser! Fiquei hirta o impassivel como nas nossas florestas os
-lobos, quando se sentem morrer.
-
-«Era a afflicção. Eu via ao longo a cidade coberta de nevoa.
-
-«Veiu o sol. Em roda de mim começou a juntar-se o povo. Depois, atravez
-d'um desfallecimento, senti o ruido de musicas tristes, o rumor pesado
-dos batalhões, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois cirios,
-vinha um homem livido. Então, confusamente, como nas apparencias
-inconsistentes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibração
-electrica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto catholico
-dos mortos!
-
-«Voltou-me a consciencia.
-
-«Estava só. O povo dispersava-se e descia para os povoados. Ninguem! A
-voz dos padres descia lentamente, como a ultima agua d'uma maré. Era ao
-fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio,
-com a cabeça caída e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me!
-
-«Eu sentia o frio e a lenta ascensão da podridão. Ia ficar alli, de
-noite, só, n'aquelle descampado sinistro, tendo nos braços aquelle
-cadaver! Ninguem!
-
-«O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma d'aquelle cadaver? Tinha
-passado já? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibrações?
-Eu sentia os passos da triste noite, que vinha. O vento empurrava o
-cadaver, a corda rangia.
-
-«Eu tremia, n'uma febre vegetal, dilacerante e silenciosa. Não podia
-ficar alli só. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos pedaços, para
-a antiga patria das folhas. Não. O vento era brando: quasi sómente
-a respiração da sombra! Tinha vindo então o tempo em que a grande
-natureza, a natureza religiosa, era abandonada ás féras humanas? Os
-carvalhos já não eram pois, uma alma? Podiam, com justiça, vir o
-machado e as cordas buscar os ramos creados pela seiva, pela agua e
-pelo sol, trabalho suado da natureza, fórma resplandecente da intenção
-de Deus, e leval-os para as impiedades, para os tablados da forca onde
-apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as
-ramagens puras, que fôram testemunhas das religiões, já não serviam
-senão para executar as penalidades humanas? Serviam só para sustentar
-as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condemnados se torcem? Não
-podia ser.
-
-«Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos,
-que sabem o segredo e comprehendem a vegetação, achariam grotesco que
-as arvores, depois de terem sido collocadas por Deus na floresta com os
-braços estendidos, para abençoar a terra e a agua, fôssem arrastadas
-para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o braço da forca
-para abençoar os carrascos!
-
-«E depois de sustentarem os ramos de verdura--que são os fios
-mysteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra--fôssem
-sustentar as cordas da forca, que são as fitas infames, por onde o
-homem se prende á podridão! Não! se as raizes dos cyprestes contassem
-isto em casa dos mortos--faziam estalar de riso a sepultura!
-
-«Assim fallava eu na solidão. A noite vinha lenta e fatal. O cadaver
-baloiçava-se ao vento. Comecei a sentir palpitações de azas. Voavam
-sombras por cima de mim. Eram os corvos. Poisaram. Eu sentia o roçar
-das suas pennas immundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se,
-ruidosos, cravando-me as garras.
-
-«Um poisou no cadaver e poz-se a roer-lhe a face! Solucei dentro do
-mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma arvore das
-florestas a quem os ventos fallavam! Servia agora para afiar os bicos
-dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cadaveres,
-como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus--soluçava
-eu ainda--eu não quero ser reliquia de tortura: eu alimentava, não
-quero aniquillar: era a amiga do semeador, não quero ser a alliada do
-coveiro! Eu não posso e não sei ser a justiça. A vegetação tem uma
-augusta ignorancia: a ignorancia do sol, do orvalho e dos astros. Os
-bons, os angelicos, os maus são os mesmos corpos inviolaveis, para a
-grande natureza sublime e compassiva. Oh meu Deus, liberta-me d'este
-mal humano tão aguçado e tão grande, que se trespassa a si, atravessa
-de lado a lado a natureza, e ainda te vae ferir, a ti, no ceu! Oh!
-Deus, o ceu azul, todas as manhãs, me dava os orvalhos, o calor
-fecundo, a belleza immaterial e fluida da brancura, a transfiguração
-pela luz, toda a bondade, toda a graça, toda a saude:--não queiras que,
-em compensação, eu lhe mostre, ámanhã, ao seu primeiro olhar, este
-cadaver esfarrapado!
-
-«Mas Deus dormia, entre os seus paraisos de luz. Vivi tres annos
-n'estas angustias.
-
-«Enforquei um homem--um pensador, um politico, filho do bem e da
-verdade, alma formosa cheia das fórmas do ideal, combatente da luz. Foi
-vencido: foi enforcado.
-
-«Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ella.
-O seu crime era o amor, que Platão chama _mysterio_, e Jesus chamou
-_lei_. O codigo puniu a fatalidade magnetica da attracção das almas, e
-corrigiu Deus com a forca!
-
-«Enforquei tambem um ladrão. Este homem era tambem operario. Tinha
-mulher, filhos, irmãos e mãe. No inverno não teve trabalho, nem lume,
-nem pão. Tomado d'um desespero nervoso, roubou. Foi enforcado ao sol
-posto. Os corvos não vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e
-são. Era um pobre corpo que tinha succumbido por eu o apertar de mais,
-como a alma tinha succumbido por Deus a alargar e a encher.
-
-«Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dôr
-intima; não me desprezou: o sol allumiava-me com glorificação, as
-nuvens vinham arrastar por mim a sua molle nudez, o vento fallava-me
-e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegetação
-saudava-me com meigas inclinações da folhagem: Deus mandava-me o
-orvalho, frescura que promettia o perdão natural.
-
-«Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia
-esfriar, mandou-me os seus vestidos d'hera. Os corvos não voltaram:
-não voltaram os carrascos. Sentia entrar em mim a antiga serenidade
-da natureza divina. As efflorescencias, que tinham fugido de mim,
-deixando-me só no solo aspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de
-mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me.
-Eu sentia chegar a podridão. Um dia de nevoas e de ventos, deixei-me
-caír tristemente no chão, entre a relva e a humidade, e puz-me
-silenciosamente a morrer.
-
-«Os musgos e as relvas cobriram-me, e eu comecei a sentir-me dissolver
-na materia enorme, com uma doçura ineffavel.
-
-«O corpo esfria-me: eu tenho a consciencia da minha transformação lenta
-de podridão em terra. Vou, vou. Oh terra, adeus! Eu derramo-me já pelas
-raizes. Os atomos fogem para toda a vasta natureza, para a luz, para
-a verdura. Mal ouço o rumor humano. Oh antiga Cybele, eu vou escorrer
-na circulação material do teu corpo! Vejo ainda indistinctamente
-a apparencia humana, como uma confusão de ideias, de desejos, de
-desalentos, entre os quaes passam, diaphanamente, bailando, cadaveres!
-Mal te vejo, oh mal humano! No meio da vasta felicidade diffusa do
-azul, tu és apenas, como um fio de sangue! As efflorescencias, como
-vidas esfomeadas, começam a pastar-me! Não é verdade que ainda lá em
-baixo, no poente, os abutres fazem o inventario do corpo humano? Oh
-materia, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta!
-Eu vejo já os astros correrem como lagrimas pela face do ceu. Quem
-chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formidavel da terra! Oh mundo
-escuro, de lama e d'oiro, que és um astro no infinito,--adeus! adeus!
---deixo-te herdeiro da minha corda pôdre!»
-
-
-
-
-A MORTE DE JESUS
-
-
-Por estranhos acasos encontrei este velho manuscripto copiado, n'um
-latim barbaro, do antigo papyros primitivo. Não o traduzo textualmente:
-seria incomprehensivel, irritaria os nossos habitos criticos,
-psycologicos! Transporto para a linguagem moderna, complexa, ductil,
-sabia, o estreito dizer antigo.
-
-Assim ordenado, este documento, que não encerra coisas novas, põe
-todavia em relevo muitos estados de espirito, muitas situações civis de
-uma pessoa excepcional, que tem notavelmente merecido n'estes ultimos
-tempos a attenção da historia e da critica.
-
- Jerusalem, Mediterranean Hotel, no Acra, 1 de Dezembro de 1839.
-
-
-
-
-A MORTE DE JESUS[41]
-
- _Dies irae, dies illa..._
-
-
-
-
-I
-
-
-O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho
-e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade
-sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuarias de Siloeh, quero
-contar o que sei e o que vi d'um homem excellente, que na minha
-mocidade esteve, pelos acasos providenciaes da sympathia, intimamente
-ligado á minha vida. N'estes ultimos tempos, sobretudo, a sua imagem
-vive activa e poderosa no meu cerebro; e quando, pelo findar da tarde,
-a esta luz maguada que então habita no ceu da Judea, eu me vou sentar
-junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e
-a velha Sião, cheia de claridade, e as ruinas de David, é n'elle que
-penso--e n'esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba
-escura, o andar agil e firme, e a esperança facil.
-
-Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da
-cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão
-fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.
-
-Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro,
-João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e
-socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha,
-retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade,
-andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a
-sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus,
-Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor?
-Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos
-esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida!
-
-É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e
-bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e
-comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.
-
-Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço.
-A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção
-de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se
-trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem:
-alli se orava, se celebrava, se tratavam as questões civis, se
-julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei,
-se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes
-e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições.
-Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria
-havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos
-pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os
-romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo,
-observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra,
-exercitarem-se em luctas.
-
-A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as
-portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que
-se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos,
-ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam
-tocados de impureza.
-
-Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse)
-que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da
-lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham
-estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli
-vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas
-de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo
-era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma
-feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de
-Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.
-
-Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os
-escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi
-cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho
-dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae
-cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella
-sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem
-na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a
-sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi
-se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma,
-de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal.
-
-Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho,
-entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas
-d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica
-indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros.
-
-Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus,
-respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da
-lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga,
-querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito
-sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se
-ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola,
-contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando,
-vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se,
-n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução sobre a testa, com a mão
-toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam
-pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem
-os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres,
-os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste:
-caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés
-nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios
-de appetites, como um homem sanguineo!
-
-Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos
-sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade:
-são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos
-nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto
-a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as
-bellas mulheres da Idumea.
-
-Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o
-tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi
-por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a
-policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por
-quem os meus olhos ainda se humedecem.
-
-Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres
-ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte
-das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a
-multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito
-que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros
-tinham-se vindo encruzar nas suas esteiras junto das columnatas, com
-as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia,
-cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa
-gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores,
-havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha
-os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da
-Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle
-era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha
-o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições
-inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura
-erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia
-do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.
-
-Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras,
-arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.
-
---Ide!--disse-lhes elle então--vós fazeis da casa da oração uma caverna
-de ladrões!
-
-E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas.
-Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação
-sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas
-que gritavam. Eu olhava, admirado.
-
---Quem é este?--perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle,
-e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan.
-
---Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea!
-
-
-
-
-II
-
-
-Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos
-prophetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vae até
-Joppé. Não direi o que penso da intenção prophetica e da crença
-messianica. Só direi que os prophetas que, no meu tempo, vieram e eram
-lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz collectiva, a
-esperança, a consolação e o allivio.
-
-O povo era profundamente infeliz: os saducceus afogados nos seus
-repousos, os phariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e
-doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além
-de tudo estavam longe do povo, n'uma separação desdenhosa e emphatica.
-Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto.
-Já na vida estreita e toda commum de Jerusalem, já nas conversações
-dos atrios do templo, já nas minhas demoras em Bethel, em Ephraim, em
-Galilea, eu via, comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado,
-eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo,
-refugiava-se, maltratado da terra, na esperança d'um libertador, d'um
-Messias. O judeu é dado a preoccupações divinas e a sua verdadeira
-patria é em Deus.
-
-Uma serie d'homens fortes e piedosos eram os interpretes d'este desejo
-ideal, eram a voz d'aquella melancholia, e eram os amigos do pobre, os
-asperos juizes do rico, os consoladores austeros.
-
-O povo, suffocado pela sua paixão interior, sentia-se alliviado,
-consolado, quando um propheta fallava. Os prophetas confirmavam a
-vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a
-paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: d'ahi a
-exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em
-desejo e vontade. De sorte que todos os annos appareciam videntes e
-inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria.
-Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja
-original, amigo do pobre, annunciador da boa nova: Schammaï, Hillel,
-Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça,
-viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da
-esperança religiosa, não tinham a paixão messianica. Eram espiritos
-sabios e justos, e não videntes possuidos de fé.
-
-Ora, n'esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por elle
-a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda d'elle;
-tinham desalentos, esperavam avidamente os signaes mysticos, e as
-almas fallavam baixo, porque vinha o Senhor!
-
-Eu mesmo tinha visto muitos prophetas, muitos mestres innovadores;
-não conhecia João Baptista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia
-que elle tambem prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a
-olympica Herodiade, se definhava n'uma prisão de Antipas.
-
-No emtanto nunca nenhum d'esses homens me dera uma sensação feliz como
-esse Jesus de Nazareth. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz
-poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me n'uma vaga
-e imprevista perturbação, como quando se olha para o ceu, que se suppõe
-escuro, e de repente se vê uma estrella immortalmente luminosa.
-
-N'essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado
-do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se
-conhecia Jesus de Nazareth, que prégava na Galilea. Simeon disse-me,
-com um riso:
-
---Que sabes tu que possa vir de bom de Nazareth?
-
-Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos
-conversando n'esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram
-fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco orthodoxos:
-que o sangue estava n'elles muito misturado; que tinham muito do
-samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos
-a fallar, insufficientes a pensar; e que _idiotismo galileo_ era um
-proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a gente de Galilea me parecia
-simples e dedicada; que quem vive n'uma natureza tão humana, tão cheia
-de aguas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades
-finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sobrios;
-e que Isaias tinha dito:--«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali,
-caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu
-uma grande luz!»
-
---Ora, Simeon--dizia eu--estas palavras de Isaias indicam que na
-Galilea póde nascer um propheta!
-
-Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de
-Salomão: a natural belleza, as arvores, as vinhas, a perspectiva suave
-e recolhida dos valles de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca
-serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatorios
-de Salomão, fazem d'aquelle logar um retiro bom para espiritos sabios,
-para aquelles que teem no coração uma ideia, ou que são habitados por
-uma esperança: alli se reunem assim muitos de Jerusalem! N'aquelle dia
-andava alli, absorvido, grave e vagaroso, o sabio Gamaliel. Gamaliel
-era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza,
-a tradição--elle era a sciencia; se os outros eram a lei--elle era
-a justiça. Eu, preoccupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se
-conhecia aquelle homem severo:
-
---Pelo que sei d'elle--disse Gamaliel--penso que é um justo.
-
-Guardei com amor esta palavra: ella correspondia á attracção suave
-e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a
-Jerusalem, pensava n'elle: via-o irritado e augusto: imaginei-o cheio
-da colera do justo e da rebellião do opprimido: o que elle prégava
-decerto era a condemnação do rico e a humilhação do phariseu. Era o que
-tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um propheta amado e seguido,
-que fôsse a alma d'uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o
-povo, anniquilasse os sacerdocios corrompidos, expulsasse o romano,
-que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha
-Judea, que fôsse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos.
-Produzira a Galilea esta alma terrivel? Ou será Elias ressuscitado
-d'entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada
-para casa de Hannan.
-
-Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do
-templo o fôsse seu genro Caiphaz; mas elle era o espirito, a direcção,
-o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era
-velho, sabedor das tradições, astuto; possuia enormes riquezas,
-conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo.
-
-N'um dos largos pateos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume
-reunirem-se em volta d'um grande fogo, quando o frio entristecia
-Jerusalem, os officiaes do templo: ás vezes vinham escribas, doutores,
-sacerdotes affaveis. Aquelle grupo, sempre egual, era como uma
-consciencia um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava
-algum austero doutor phariseu, pedia-se a um soldado expedicionario
-que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das
-collinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas
-latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam nas suas
-barbas brancas. N'essa noite, quando eu atravessava o atrio d'Hannan,
-cruzei-me com aquelle galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus
-de Nazareth, na galeria de Salomão. Elle costumava vir alli vêr
-uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea.
-Chameio-o, tomei-lhe as mãos, fallei-lhe affavelmente em Jesus de
-Nazareth: eu, emfim, comprehendia bem aquelle que por um imprevisto
-interesse, pela elevação da sua palavra, pela belleza do seu aspecto,
-habitava já no meu peito, como um amigo d'antiga mocidade.
-
-
-
-
-III
-
-
-João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples,
-mas penetradas de fé e de desejo.
-
-Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o,
-pela intuição, em Nazareth, educado por aquella doce paizagem da
-Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras
-patriarchaes.
-
-Eu tinha alli viajado, e muitas vezes me tinha sentado n'um rochedo,
-nas alturas de Nazareth. Se algum logar ha no mundo em que o homem
-sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o
-contingente e fugitivo das affeições e dos desejos, é alli, n'aquelle
-vasto e socegado horizonte, em que parece que o ceu exerce mais
-profundamente a sua attracção infinita sobre a alma captiva.
-
-Que pomares, que prados, que humanas aguas, que aldeias delicadamente
-adormecidas entre as figueiras e as vinhas!
-
-E eu via Jesus, imaginando, esperando, n'aquelle humido paraizo da
-Galilea e nas suas montanhas queridas, de bellas fórmas amorosas!
-
-Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus,
-entrando a fallar nas synagogas, correndo as aldeias, ajudando as
-pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrellas tão
-bellas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que
-encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e
-ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes.
-
-Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e
-apenas teem visto da natureza as suas collinas calvas e os seus valles
-cheios de mortos, riem quando se lhes falla na natureza do norte, na
-fecundidade da Samaria e da Galilea e na excellencia d'aquella gente.
-
-Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações,
-será por alguem vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta
-Jerusalem aspera, secca, toda de pedra e de indifferença, só fará
-espiritos estreitos, phariseus argumentadores, escribas e lapidadores
-d'homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach,
-de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da
-seiva das arvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe d'aquellas sombras
-e do rumor d'aquellas aguas. Jerusalem será a lei, a auctoridade, a
-sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o
-sacrificio.
-
-Alli não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias syrias que eu amo, onde
-as mulheres teem o seio pacifico, os homens a força serena, e até
-os pequenos burros teem um olhar doce, em que parece habitar uma
-resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede
-a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia aspera, qualidades
-de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, tumulos gregos dos
-Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos
-regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas
-de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas
-estradas da Galilea: vêem-se os casaes escurecidos pelas sombras
-das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras
-estrelladas de vermelho: vae-se n'uma fresca espessura povoada d'aves
-gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente deante d'uma
-porta, á sombra d'um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as
-fórmas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da
-fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se
-encontram phariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos!
-
-Era alli que Jesus vivia, fallando pelos campos, pelos casaes e nas
-synagogas: alli devia ser escutado: não tinha sabios da lei para o
-contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer
-a verdade aos simples!
-
-O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me
-d'uma affeição ineffavel pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de
-Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas
-suas aldeias e pelos caminhos das suas villas! Ai! Magdala, Chorazin,
-Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, secco,
-pallido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha
-esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de agua,
-onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo,
-cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago
-cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do
-lago, cheia de tamarindos, onde a agua, tão azul como os olhos das
-mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas
-verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do
-meu peito, as pudesse sepultar fóra de mim, escolheria a tua relva, ó
-terra de Nephtali!
-
-Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores;
-aquelle clima é tão doce, tão affavel, que o homem pouco pensa no
-seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as
-estrellas, ao rumor da agua. Jesus pescava, ou fallava n'uma barca, no
-socegado embalar da agua, aos seus companheiros de rede: assentava-se
-ás vezes sobre as collinas, que são d'uma viva liberdade d'ar e de luz,
-e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se
-a si, ensinava o seu coração, fallava das esperanças do reino de Deus.
-Elle amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os
-lyrios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das
-creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: elle pedia apenas
-que o amassem, e não tinha razões inflammadas de propheta. Elle era o
-centro de todo o amor na verde Galilea: dava a esperança ás almas:
-dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre.
-
---O ceu é dos simples--dizia elle.--Os que choram serão consolados; os
-miseraveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a
-mim: sereis saciados. Sêde pacificos, sêde puros. Se vos perseguirem no
-reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do ceu. Segui-me, segui-me!...
-
-E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casaes:
-as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz immortal dos seus
-olhos. Todos queriam errar com elle pelo paiz de Genezareth, comendo os
-fructos casuaes dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos.
-
-Elle explicava Deus de um modo novo: ninguem o conhecia melhor: elle
-era a consciencia viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo
-de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitario, tenebroso,
-irritavel: o seu Deus era o pae, o consolador, o purificador, o
-eternamente sereno, o eternamente justo.
-
-O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade,
-a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrificio.
-
---Se vos ferirem, offerecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos
-perseguirem, orae! Que merito ha em amar os que nos amam?
-
-Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia,
-era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos phariseus:
-com effeito, para que são tantas purificações, tantos cilicios, tantos
-usos de piedade? Para que hão de os phariseus trazer nas suas tunicas
-as tiras de papyrus, que são o signal da devoção, e para que dão a
-esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda?
-
---Quando tu deres a esmola--dizia o Mestre de Nazareth--que a tua mão
-esquerda não saiba o que fez a direita.
-
-E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que elle não
-era como os mais prophetas, não se retirava para o deserto, não se
-emmagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas
-rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás
-vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que ahi estava mais
-na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.
-
-João fallava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joanna, mulher de
-Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia
-do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, ahi e em Tiberiade, tinha
-tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicavel era a
-essencia d'aquelle ser; tinha espasmos, contracções, enthusiasmos
-perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril
-pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notaveis d'então,
-penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de
-phariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos
-os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo
-o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação
-das moreias em reservatorios, a composição de aromaticos, o estudo
-das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi
-para Magdala. Ahi viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do
-Mestre, e amava a sua figura delicada e bella. Tinha, porém, fortes
-impaciencias, erguia discordias com os discipulos, retirava-se para
-o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era
-maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.
-
-Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica
-franjas de Tyro.
-
-Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os
-publicanos, todos os peccadores.
-
-Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais
-(dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de
-Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça
-tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um
-propheta irritado?
-
---O Mestre é a propria doçura--dizia-me João.
-
-D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador?
-
---Desde quando é elle assim?--perguntava eu a João.
-
---Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto
-eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham
-desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o
-meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades
-ou desdens.
-
-O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores
-approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras;
-encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das
-piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os
-pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam
-a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos
-cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.
-
-Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um
-velho camarada do templo, Josué, que andava ha muito pelas villas
-de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem
-conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal.
-Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho
-de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero,
-attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado
-João, a essencia do Rabbi da Galilea.
-
-Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que
-conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado,
-mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que
-prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição
-e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica,
-sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os
-sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos
-pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas;
-que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se
-associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções,
-nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem
-auctoridade entre os doutos e entre os ricos.
-
-Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos
-phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio
-d'Hannan.
-
-Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela
-rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um
-contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea,
-e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era
-um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto
-e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos
-Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das
-esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo?
-
-Encontrei João, conversando no atrio lageado com um homem da milicia
-sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente
-estrellada de lampadas.
-
---João--disse eu--dize o que vem fazer a Jerusalem o sabio de Nazareth?
-
-João olhou-me:
-
---Vem á festa da Paschoa--disse elle, lento.
-
---João--insisti--pelo Messias, e pela liberdade do Baptista,
-prisioneiro d'Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo?
-
---Prégar--disse João.
-
-Comprehendi, rapidamente, todos os resultados d'aquella lucta original.
-
---Vae!--lhe disse eu exaltado--dize-lhe que parta, que volte para o
-lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com
-os que o amam, socegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as
-portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como
-propheta á columna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre
-das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os
-prophetas!
-
-João tinha o espanto nos olhos, na voz.
-
---Eliziel! Eliziel!
-
---Que volte, que volte para a Galilea!
-
-E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos
-interiores d'Hannan.
-
-O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre
-largas pelles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava syria, de Damasco,
-cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices.
-
-
-
-
-V
-
-
-No outro dia, casualmente, tive ordem de Caiphaz para ir á Galilea,
-em serviço das synagogas: a concentração dos sacerdotes rituaes
-em Jerusalem obriga assim os officiaes do templo a successivas
-peregrinações; porque as synagogas estão dominadas pelos escribas e
-pelos sophorins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas.
-
-Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a
-todo o paiz que fôra até ahi o centro amado de Jesus.
-
-Em toda a região do lago achei muitos espiritos, ou mais simples, ou
-mais lucidos, ou mais amantes, singularmente occupados na sympathia e
-na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazareth.
-
-Fallavam-me longamente da sua doutrina nas synagogas, das suas palavras
-nas collinas: e a figura moral de Jesus accentuava-se, definia-se
-progressivamente no meu espirito.
-
-Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som
-captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da
-rede: fallava devagar; entre silencios, as altas verdades, as palavras
-profundas appareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante,
-tocado de uma luz inesperada. Contava parabolas, historias; repetia
-com paciencia, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, attentos,
-outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam
-pasmados a agua. Elle fallava, socegado, ou afagava uma creança, ou,
-contando as parabolas, concertava a sua rede.
-
-Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida.
-Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores.
-
---Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuario--dizia
-elle.--Olhae as aves do ceu: não semeiam, nem ceifam, e o pae dos ceus
-é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos
-campos.
-
---Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lyrios: não
-trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua
-gloria, não estava vestido como nenhum d'elles na sua simples candura.
-E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, ámanhã
-seccam, não o fará por vós, homens de pouca fé?!
-
-Por isso os discipulos seguiam-o assim, enlevados n'aquellas ambições
-ideaes, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. N'aquelle pensamento,
-o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que
-assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade.
-
---Vendei o que possuís--dizia elle--dae o dinheiro em esmolas!
-
-Realmente de que servem na Galilea as riquezas?
-
-Alli só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul,
-mais repouso á agua: o pobre, o mendigo, é o rei mysterioso d'aquella
-gloria da folhagem e da luz: para elle se vestem as açucenas de branco,
-para elle resplandecem os regatos.
-
-Jesus glorificava o pobre: n'aquelle evangelho da Galilea, o rico
-é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: elle tem os
-largos vestidos faceis, macios; elle come sobre leitos cobertos de
-pelles; elle enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come
-escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a
-sua tunica; traz apertada á cintura, tendo sobre ella uma pedra, a
-moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuario
-do pobre, e da brancura do lyrio; elle velará para que ao homem não
-falte o pão e á rola o grão: elle fará no ceu, ao pobre, um sacco, um
-thesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões.
-
-O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o
-emmagreceu na vida, uma chamma o consumirá na existencia extra-humana.
-O pobre estará junto de Deus, e a sua face será immortal e altiva.
-
---Porque, em verdade, vos digo--ensinava o Mestre--que é mais facil
-passar um camelo pelo fundo d'uma agulha, do que entrar um rico no
-reino de Deus.
-
-Assim fallava elle á beira do lago, e, desprendendo os homens dos
-fataes cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da
-vida. Os tedios da existencia ordinaria, a discordia dos interesses,
-as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da
-miseria, a apathia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as
-desconsolações da doença, todos estes antigos demonios desappareciam e
-a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir,
-esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da
-terra tem alimentado.
-
-A alma tinha emfim um logar, o _seu_ logar, o seu espaço, que era o
-_reino de Deus_. O reino de Deus era o reino das creanças, dos simples,
-dos desherdados da vida, dos que soffrem, e até do samaritano, e até do
-pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós não quereis
-esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os phariseus, os
-saducceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os principes! vinde
-vós, pois, os humildes, os repellidos, os lapidados, os enfermos, os
-culpados, todos os que elles repellem, todos os que elles amaldiçoam!
-Desgraçados de vós, oh ricos, que estaes saciados, porque tereis fome!
-Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis em lagrimas!
-
-Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existencias
-sacerdotaes! Os nossos prophetas já tinham, contra o rico impio e duro,
-coleras terriveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora o
-Rabbi feria assim violentamente todo o judaismo sacerdotal do templo,
-porque fazia, dos que elle despreza e domina, os preferidos, os bem
-amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o phariseu
-não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto?
-Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se
-á entrada dado santuario tocaram n'um mendigo ou n'um publicano?
-
-Mas Jesus, na immortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal
-divino, já não sómente chamava a si o desherdado, mas chamava o culpado.
-
---O culpado é infeliz--dizia:--merece por isso mais que o justo o calor
-do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso,
-porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas.
-
---Havia uma mulher aqui--dizia-me o homem bom de Chorasin, que me
-explicava estas coisas immortaes--que era repellida, mal vista,
-amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da
-synagoga se approximavam d'ella, mas de noite, sob as figueiras
-do cemiterio, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a
-tunica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se
-inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquella
-palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue
-Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se
-sente amante, mais se sente perdoada.
-
-Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada
-palavra, julgavam-se já no paraizo immortal. Elle ia seguido dos
-seus, confundido com todas as alegrias, apparecendo nas bodas e
-nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada
-na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou
-montado n'um pequeno burro, que os discipulos cobriam com as tunicas;
-ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, fallava
-ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casaes, nos hortos; as
-creanças vinham, vinham as mulheres:--«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa
-nova: és tu o Messias?»--Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores
-fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães
-mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos
-vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: elle ria, agasalhava-os;
-quando elle passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho.
-Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viuvas limpavam as suas
-lagrimas; elle fallava de Deus, e endireitava as cannas de milho caidas
-no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:
-
---Mestre, tu és bom.
-
---Bom só é Deus--dizia elle, sorrindo.
-
---Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraizo?
-
---Amae os outros, dae aos pobres, segui-me!
-
-E seguiam-o todos, enlevados n'aquelle sonho ideal, o mais bello, o
-mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.
-
-Então o ceu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela
-primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez
-o estreito sorriso do velho conteve a esperança!
-
-
-
-
-VI
-
-
-Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do
-captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz d'aquellas palavras.
-
-Voltei a Jerusalem: passei sobre o Thabor, d'onde se vê a larga
-planicie d'Esdrelon, amada dos heroes, o branco Hermon, Endor, e as
-montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda
-escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph
-foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, patria da forte
-Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades d'Israel,
-hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto
-da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah:
-Siloeh, onde se fez a partilha do territorio entre as tribus, e onde
-pousou pela primeira vez o tabernaculo, depois da conquista de Canaan.
-
-Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de
-seivas e de rosas: junto ao Jordão andavam ainda alguns discipulos de
-João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lugubres collinas de
-Judá, asylo de prophetas, tumulo dos heroes: uma madrugada entrei, só,
-em Jerusalem.
-
-N'esse dia logo, subi ao templo. Junto dos porticos exteriores, onde
-trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi,
-entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazareth. Estavam
-parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante
-d'um cambiador de moeda, trocava drachmas, attento. Parei, commovido,
-a olhar profundamente o Rabbi. Elle estava triste: os braços caidos,
-sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas,
-delicadas, pessoaes, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os
-olhos cheios d'infinito, que pareciam olhar d'um logar inaccessivel, a
-testa larga, expressiva como a immobilidade d'um ceu, assemelhavam-se,
-superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra--aos olhos, á
-testa d'Hillel, de Jesus de Sirach e d'um outro, que era como elles
-dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A bocca tinha uma fórma
-tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia
-que d'ella só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno
-dos labios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma
-gravidade, uma belleza austera, que denunciavam a origem das palavras
-elevadas, e faziam sentir o propheta. Parecia-me vêr-lhe, na parte
-inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão d'energia, que o tornavam
-um pouco semelhante a Judas Galannite, o poderoso agitador, em quem a
-acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.
-
-Elle olhava os trabalhos dos porticos, com um desdem sereno. Nos
-galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento.
-
-Entrei no santuario: nas camaras dos serviços dois escribas
-argumentavam junto da arca do thesoiro, com exclamações abundantes.
-Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara
-no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias
-da piscina probatica; que argumentára com os escribas, e que em casa de
-Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi:
-
---Elle é bom e justo: mas não diz coisas novas.
-
-Argumentava-se muito sobre aquella palavra contida o desdenhosa do
-sabio Gamaliel, entre os privados d'Hannan.
-
---Mas Gamaliel--dizia soberbamente o escriba--é um homem alheio a
-nós; entretem relações com essa gente da escola d'Alexandria; viaja
-demoradamente em Sichem onde estão os hereticos, e em Cesarea onde
-estão os romanos, e dá-se á cultura hellenica, desprezando a lei.
-
---Homem--disse eu--em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo
-as lettras gregas?
-
-O escriba riu finamente, como em triumpho:
-
---Pois não diz o texto:--e a sua voz era compassada e
-emphatica--«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres
-desagradarás ao Eterno?» Ora--e traçava amplamente a capa, tossindo,
-victorioso--ora Gamaliel só não desagradará ao Eterno se estudar a
-sabedoria grega n'um tempo, que não seja nem a noite nem o dia.
-
-O outro escriba, que era Eliel, d'Ephraim, approvou ruidosamente,
-batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se,
-risonhos.
-
-Saí das camaras leviticas, á hora setima, quando ha nos terraços do
-templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as
-folhas de metal diante de si, em movimentos rythmicos; outros vinham
-comprar offertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre
-questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo
-passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que
-annunciam a hora dos sacrificios: os doentes cantavam os psalmos; as
-mulheres leviticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores,
-espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das
-primeiras columnas, batendo em discos de metal.
-
-Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado
-de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosanna, ao filho de
-David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que elle era
-entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe
-o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns
-phariseus, tomados d'exaltacão, queriam a convocação do sanhedrin. Um
-velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadencia da escola
-prophetica d'Israel.
-
---É um ignorante--diziam, com desprezo, vastos doutores.
-
-Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas
-eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido d'um arvoredo, fallava do
-Mestre: alguns velhos diziam:--Sim, sim, irmãos, este é um propheta!
-
---É o Christo! É o Messias!--clamavam grandes vozes.
-
-Muitos iam, correndo, prostrar-se deante da porta da Arca bradando:
-
---Graças, Senhor, o Messias chegou!
-
-Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo
-templo, gritando:
-
---É o Messias, é o propheta da Galilea!
-
-Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo:
-
---Que dizeis? Vós não conheceis a lei!
-
---A lei diz que o Messias virá, e que Elias resuscitará!
-
---Calae-vos!--bradavam os escribas--Sois tambem galileos? Não sabeis
-que a escriptura diz que o Messias ha-de ser da geração de David? E não
-sabeis vós que este é o filho do carpinteiro Joseph, e d'uma mulher da
-aldeia de Caná? Não vol-o tem dito todos os que veem de Nazareth?
-
---É verdade, é verdade--diziam alguns.
-
---E não sabeis--continuavam--que os textos dizem que o Messias nascerá
-em Bethleem, e onde nasceu este? Em Nazareth, bem o sabeis.
-
-Uma voz, receiosa mas irritada, disse:
-
---Pois elle nasceu em Bethleem!
-
---Em Nazareth!--bradaram alguns escribas.
-
---Sim, sim, em Nazareth--disse a gente.
-
---É, pois, o Christo?! Ide, homens amaldiçoados que andaes afastados da
-escriptura!...
-
-Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias
-areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no
-Tyrepeon.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a porta dos Rebanhos,
-atravessado o Cedron, subido a Bethania.
-
-Quando eu voltava para Bezetha, veio a mim um homem muito conhecido em
-Jerusalem, que era Jesus Bar'Abbas. Era uma figura descarnada, torta,
-arqueada, cheia de cicatrizes, immunda, rindo sempre, em farrapos. Era
-uma especie de truão de Jerusalem. Tinha gracejos, farças, deslocações:
-espancavam-o, elle ria, estendia uma ponta da tunica para aparar
-os drachmas. Encontrava-se com a sua lampada em todos os noivados,
-gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições,
-em todos os supplicios com uma cantara de _posca_, para vender aos
-soldados. Tinha todos os desastres da miseria, do vicio, e era servil.
-Os soldados expedicionarios espancavam-o, ás vezes prendiam-n'o,
-mas o povo cobria-o com uma protecção avara. Era casado. Tinha uma
-voz vibrante, forte para cantar os psalmos e imitava os prophetas,
-prégando. Cheirava miseravelmente a alho.
-
-Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que n'essa noite
-Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os officiaes do
-templo e sacerdotes, fóra das muralhas, em Betphagé.
-
-Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com
-orgulho que fôra amigo do gladiador Esterius.
-
-Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus
-atrios.
-
-N'essa noite fui a casa do Hannan. Nos pateos, João aquecia-se ao lume,
-junto da velha de Capharnaum.
-
-Caiphaz e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos:
-Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caiphaz
-aquilino, duro, aspero, tinha uma attitude desdenhosa. Dois escribas,
-encrusados no chão, comiam.
-
-Quando o serão ia remoto, repentinamente Caiphaz mandou-me a casa de
-Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava:
-tinha havido exigencias do legado imperial sobre os vasos do templo.
-
-Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era
-negra, quente, molle: ouviam-se apenas uivar os cães.
-
-Em Betphagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a
-ceia, sob um grande velario feito á moda grega, suspenso ás ramagens
-dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas
-lampadas resplandeciam. Flôres de Damasco, rosas de Jerichó, jasmins
-de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros
-de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da molle vitalidade que
-dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cantharos envoltos em
-palha, jarros cinzelados. Os escravos phrygios, com os longos cabellos
-relusentes de oleo, giravam apressados.
-
-Havia alli membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos,
-sadduceus, phariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em
-sacrificios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos
-deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram
-gordos, fortes, vermelhos. Quasi todos tinham a physionomia aspera,
-adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas.
-
-O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma
-ampla respiração aos peitos, uma feliz scintillação aos agudos olhos
-negros. Havia largas risadas. Phariseus austeros, que se ferem
-nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos d'aço brunido,
-devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e
-desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns,
-decrepitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas
-mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras.
-
-Alguns, estendidos sobre leitos como animaes que ruminam, tinham as
-tunicas soltas, os braços nús. Cabeças energicas, duras, mostravam uma
-expressão irritada, fixa, vasia; os velhos tinham largos risos cynicos.
-Uns dormiam, outros cantavam. Um velho curvado, frouxo, rouco,
-lembrava as mulheres e os phariseus. Entre esta multidão sacerdotal
-havia um romano. Era Publius Sextus, logar tenente do legado imperial;
-fallava com palavras abundantes, largos gestos. Era pallido, com uma
-pequena cabeça energica e voluntaria; era devasso, servil, falso,
-luxuoso, e vinha de Caprea. Era alli escutado como um propheta na
-antiga Israel; fallava da via Appia, das festas de Roma.
-
-Eu escutava, encostado a uma arvore, na escuridão, concentrado o triste:
-
---Só em Roma se vive--dizia elle.--Isto é peor que o bairro das
-Esquilias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo
-Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem
-aqui como Evandro recebeu Hercules, com farinha cosida e uma esteira
-espartana!
-
---Mas vós outros, os romanos, sois glutões e amigos do vinho!--disse
-Nathaul, um escriba, homem invejoso, com labios carnaes.
-
-Mas Publius fallava d'uma ceia em casa de Atticus, antes de vir a Ostia
-embarcar com o legado da Syria.
-
---Quereis saber?--perguntava.
-
---Dizei, dizei--gritavam curiosamente pela meza.
-
---O chão era de mosaicos gregos. Entre as columnas havia largos pannos
-tecidos d'aço, pesados, á moda de Carthago. Um vapor d'agua tepida
-penetrava os musculos, enlanguescia. Tinhamos esfregado os braços, o
-peito, com pedaços de pelle de tigre humedecida d'oleo. Os membros
-estavam ageis, faceis para as danças, para as escravas! Do tecto caíam
-folhas de rosas humidas!
-
-Todos tinham olhos scintillantes; estendiam-se para escutar; alguns
-estavam de pé, junto de Publius.
-
---O trinchador--dizia elle--o trinchador, meus amigos, era o proprio
-Tripherius! Tinhamos lebre, gazella, faisão de Lichtia, cabras da
-Getulia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido herva, e
-tartarugas delicadamente preparadas em môlhos da Campania, na propria
-concha, polida, transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas
-nadando no azeite de Venafre! As taças eram d'ambar. Que dizeis vós?
-
-Os austeros doutores, os graves herodianos, os phariseus, cevados,
-oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a bocca riscada de vinho,
-tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius.
-
-Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo.
-Todos admiravam.
-
-O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em
-tecidos diaphanos, correndo em choreias, em volta dos triclinios, e
-aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!--E
-fallava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz
-branda, curvando-se:
-
---Que estas mulheres syrias--dizia--teem uns olhos escuros, que valem
-centenares de sestercios!
-
-Os outros riam. Fallavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam,
-desejavam.
-
---Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas são devassas, e
-tudo alli terminará, como em Sodoma e Ninive!
-
-Quem assim fallava era um phariseu, Essen, homem magro, livido, cavado
-de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e
-parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para
-lembrar a morte e o terror de Jehovah!
-
---Devassas, dignas do fogo--para vós, devotos e zelozos! Mas bellezas
-impeccaveis, immortaes, para quem póde desapertar a rêde d'oiro, em que
-ellas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que
-as fazem mais appetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que
-ellas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.
-
-Publius fallava, inflammado, descomposto: tinha gestos lascivos;
-bradava os nomes das damas romanas:
-
---Vêde Laupella, uma patricia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do
-actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que
-em plenos jogos megalesios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu
-na estatua do Pudor!
-
-Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam:
-
---Contae, contae!
-
-Enchiam as amphoras; arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa,
-com a cabeça appoiada nos braços, esperavam voltados para Publius,
-com olhos perturbados. Os velhos abriam largamente uma bocca escura,
-sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos. Um escriba da arca do
-thesoiro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz aspera, arrastada. O
-circulo de cabeças avidas, duras, curiosas, destacava violentamente
-no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a tunica
-clara manchada de vinho; tinha os braços nús, brancos, femininos: e com
-largos gestos:
-
---E Tucia! e Tucia!--gritava--Eu vi-a um dia no theatro, quando o
-actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascivias o papel de Leda,
-torcer-se no seu logar, arrancar a rêde dos seus seios, e com os olhos
-mortalmente languidos chamar a altas vozes:--Bactylo, Bactylo, vem!
-
-Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:--Bactylo, Bactylo!
-
-Os velhos torciam-se nos seus triclinios, tomados de riso, de
-escandalo. Alguns escribas gritavam:--_Viva Roma!_ Os phariseus tinham
-olhos terriveis, e uma attenção avida. Um cortava violentamente o pau
-do estrado, mordendo os labios!
-
-Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolencia dos
-escravos, queria lançar fogo ao velarium, e dizia:
-
---Quem conhece Cessenia? Ninguem conhece Cessenia? Cessenia tinha de
-dote seis milhões de sestercios. Casou com Sertorius, o pobre, com a
-condição de poder escrever deante do marido os bilhetes aos amantes, o
-poder ir deitar-se uma vez cada mez, para quem entrar, no leito alugado
-de um lupanar do Suburra!
-
-Os escribas riam, esvasiavam as taças, desafogavam o pescoço das
-tunicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas á
-cintura, onde está escripta a lei. Um, ebrio, com os olhos riscados do
-sangue, pedia o culto de Baal.
-
-Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclinios, curvados,
-enroscados, immoveis. Os phariseus torciam os braços, fallavam de Tyro.
-
-Publius clamava:
-
---Pois que ha de melhor que vêr uma patricia, de longo penteado e saia
-curta, depois de estar cheia d'ostras e lagostas irritantes, beber de
-um trago n'uma enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre
-o mosaico humido de vinho, caír sobre o nosso peito, gritando em grego:
-_minha alma, minha vida, ai!_
-
-E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a
-garganta tumida de suspiros, arquejando!
-
-Os escribas, os phariseus estavam cheios de delirio e de vinho. Riam
-animalmente. Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão:
-mordiam as almofadas dos triclinios. Derramavam o vinho sobre os
-vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças exaltados. Um
-jogava a lucta com uma arvore, depois envolvia-a, beijava-a. Cantavam
-em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões
-lascivas. Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados.
-Corriam, inflammados, como n'um mysterio sagrado. Alguns gabavam-se de
-devassidões occultas. Fallavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres,
-de prostituições sagradas no fundo dos bosques!
-
-Publius gritava:
-
---Não sabeis, phariseus, não sabeis a aventura de Lentullus?
-
---Não, não!--bradavam alguns penetrados da alegria, do escandalo, de
-curiosidades inflammadas!
-
---Lentullus casa com uma virgem patricia, neta de consules: nove mezes
-depois prepara, segundo o costume, para o filho que vae nascer, o berço
-de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no ás
-boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da via Appia rompe em
-risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Eurialo, e
-tinha, como elle, trez verrugas no queixo.
-
-A risada fazia o ar sonoro. Publius de pé, manchado, com a tunica rôta,
-descomposto, gritava:
-
---Ouvi, ouvi!
-
-Escutavam com um riso inquieto.
-
-E Publius, emphatico:
-
---Os actores--dizia--os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta,
-os truões, são os paes de todas as creanças que nascem na nobreza
-romana!
-
-Um velho phariseu, elevando sacerdotalmente uma amphora, gritou com uma
-voz terrivel:
-
---Vivam os truões!
-
-A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão.
-Era bestial e immundo.
-
-Bar'Abbas, espancado, cambaleava, blasphemando, jovial.
-
-O vinho começava a domal-os: alguns escorregavam, caiam, agitavam-se
-como agonisantes, e perdiam os espiritos n'um somno petrificado. Outros
-penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da herva
-e da agua. Uns fallavam como n'um delirio grotesco. Dois escribas
-argumentavam, freneticos, hostis. Um forte e vasto phariseu, de bruços
-sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, roía monotonamente uma flôr.
-
-Simeon resonava no seu estrado. Publius no chão humido. Os escravos
-deitavam pelles sobre os dormentes. Os lampadarios extinguiam-se. Vinha
-um frio humido. Cantavam os gallos.
-
-Eu atravessei o pomar, subi a um terraço.
-
-Uma claridade assustada, abatida, apparecia. Eu via ainda reluzirem
-lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das
-Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito d'um
-chacal. Via Bethania; alli Jesus dormia sereno, puro, impeccavel.
-
-Voltei aos porticos da casa, pela rua areada do pomar. Alli havia
-um rumor; os escravos, agitados, fallavam. Alguns da milicia do
-templo tinham encontrado, no portico de David, nas lages, uma mulher
-nos braços d'um homem. Era uma adultera; a milicia trazia-a a casa
-de Simeon, que n'aquella semana fazia a condemnação dos desacatos
-ao templo, em nome do sanhedrin. A milicia tinha sido diligente,
-apressada, minuciosa, porque a miseravel, era mulher de Bar'Abbas, e
-todos queriam vêr as contorsões joviaes, o desgosto grotesco do truão!
-Mas Bar'Abbas estava prostrado, immovel, enroscado no chão.
-
-Fui ao logar do velario: os doutores, os phariseus acordavam: era já
-manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis;
-aconchegavam-se nos mantos, lividos, tomados do frio: procuravam os
-cintos das tunicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as
-laminas da lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam agua
-clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam,
-mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de
-rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas.
-Simeon, absorto, somnolento, bocejava:
-
---Vinde--dizia-lhe eu--tendes serviço; vieram uns da policia, com uma
-miseravel mulher.
-
-Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava,
-arrastando os coturnos, para o seu pateo civil. Phariseus, doutores,
-membros do sanhedrim, seguiam-n'o. O pateo era largo, em columnas. Uma
-lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.
-
-Os da milicia fallavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em
-cantharos. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil,
-soluçava. A tunica aberta, deixava vêr a forma impeccavel do seio.
-
-Simeon interrogava.
-
---Vem presa--dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no
-silencio;--acharam-n'a á porta do templo, no portico de David. Vêde-a.
-Estava em acto d'adulterio.
-
---Oh!--disseram todos indignados.
-
-E phariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos
-mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando:
-
---Lapidada, lapidada!--disseram irritados.
-
-Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados, erguendo os
-mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher
-adultera.
-
-Essen afastou-se, e fallou junto ao ouvido de Simeon.
-
---Sim, sim--disse Simeon, e voltando-se para os da milicia:--Esta
-mulher que seja aqui guardada até á hora sexta.
-
-Eu saí. Os soldados romanos, abriam com estrondo metallico as portas
-de Jerusalem. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes
-dos hortos de Betphagé, da Bethania: os camponezes de Bethel traziam
-os saccos de trigo: passavam solemnemente as fileiras de camelos. Um
-beduino de Idumeia conduzia rebanhos: as rezes balavam. Do alto da
-torre Antonia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores
-sentados em seus burros: um vidente clamava!
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Eu ia triste: o amanhecer, a apparição espiritual da aurora, enche
-de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne.
-Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu
-artificio, tão altivos despresos.
-
-Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me,
-obscuro e inconsolado, para os meus monotonos officios do templo.
-Alguns dos phariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de
-Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrificios.
-
-O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia:
-pensava nos prados da Galilea, nas aguas do lago, nas espessas
-folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga,
-pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse
-um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planicies de
-Saron!
-
-A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido d'um mercado:
-a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia
-material, dura, mesquinha, suffocante! Ia-me encostar á balaustrada
-da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do
-monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuarios, de roçar
-pelos phariseus, escribas, por aquellas hierarchias sacerdotaes que
-me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em
-bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos
-mortos.
-
-Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria
-odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre.
-Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via
-uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação:
-os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi
-enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes
-que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa
-das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia
-em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um
-açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende
-a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso
-imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples
-e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos!
-
-Invejava quasi o romano, o grego, o mercador de Tyro, que não são de
-Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o
-Aera e o Moriah, captivos e gementes!
-
-Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?--perguntava a mim mesmo.
-
---Temos uma patria? Não!--E olhava a torre Antonia, onde os
-expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra.
-
---Temos uma religião, uma fé? Não!--E via os sacrificadores vestindo
-os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados,
-bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto
-Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!
-
---Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!--E olhava
-aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra,
-e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para
-agradar ao Senhor!
-
-Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles
-frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que
-não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não
-habitava Jerusalem!
-
-Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a
-popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte,
-Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na
-escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde
-escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me--ou resultados da
-noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia,
-ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um
-dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade.
-
---Ah! Jesus de Nazareth--pensava eu--é o unico homem que nos poderia
-salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples,
-que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção?
-
-Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal,
-terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o
-homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma
-melancholica e transcendente?
-
-O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas
-largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a
-Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias
-a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz,
-porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este
-movimento popular?
-
-Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede
-soccorro.
-
---Porque não?!--dizia eu--Surprehendi já nos seus olhos uma vontade
-dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo?
-
-E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me,
-como inesperadas consolações.
-
-O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos
-porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir
-dos bois: tinha a sensação de natureza verde, de tempos repousados,
-contentes.
-
-O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga
-escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do
-portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza,
-cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender
-ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e
-limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura,
-nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado,
-dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os
-mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos,
-tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a
-indifferença.
-
-O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado,
-suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar
-á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus
-campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin.
-N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção
-que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves,
-idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da
-Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica,
-toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.
-
-Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade,
-de desdem. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a
-resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no
-ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de
-Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado
-póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas,
-a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude
-indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias
-sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições
-pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma
-acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu
-ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior
-do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a
-argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar
-o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e
-transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce
-futuro, terno, purificado, coberto de luz!
-
-E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as
-hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de
-egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro,
-hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem?
-Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus,
-como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias,
-escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um
-templo edificado como uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com
-amargura para as edificações de Herodes, o grande!
-
-Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do
-Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no
-meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de
-tantas forças civis!
-
-Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus
-olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou
-um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas
-incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava,
-infinitamente triste, com um desdem abatido.
-
-Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias:
-mas um grande rumor encheu o templo.
-
-Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o
-baixo recinto do templo.
-
-Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de
-vozes, de gritos penetrantes.
-
-Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus,
-couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas,
-phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da
-lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações.
-Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía,
-abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros
-desmanchados, os pés riscados de sangue, a tunica despedaçada, o rosto
-levemente aquilino tomado de afflicção.
-
-A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores
-de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario:
-vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com
-fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os
-coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.
-
-Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus:
-havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e
-estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam
-avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes
-balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça
-de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os
-pateos.
-
-O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos
-seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os
-soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada,
-abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes
-cabellos, com uma semelhança pagã.
-
-Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para
-Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:
-
---Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que
-foi achada em adulterio nos porticos do templo.
-
---Lapidada! lapidada!--prorompeu a multidão.
-
-Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se
-os gritos agudos, arrastados, das mulheres.
-
-Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os
-soldados riam.
-
-O escriba fallava, com gestos abundantes:
-
---Rabbi--dizia--a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera
-deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas
-tu, Rabbi?
-
-Jesus olhou o escriba serenamente.
-
---O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados--gritou alguem entre
-a multidão.
-
-Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava:
-
---Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos!
-
-E um phariseu bradou:
-
---É o Salomão das mulheres perdidas.
-
-Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio
-onde anda escripta a lei, e exclamava:
-
---Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.
-
-O povo cruel dizia n'um clamor:
-
---Lapidada, que seja lapidada!
-
-Alguns phariseus gritavam:
-
---E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth!
-
-Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia
-templaria. A multidão era espessa: os mendigos apregoavam _posca_;
-os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas d'escarlate: os
-doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo
-os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas cabeças de
-legionarios espreitavam.
-
-Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:
-
---Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.
-
-Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as
-costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas
-barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os
-phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:
-
---Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que
-despreza a lei.
-
-Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin.
-
-Mas na multidão havia uma oscillação: sentiam-se gritos, risadas
-joviaes, vozes; o povo afastava-se: e d'entre a sua escura espessura
-vinha empurrado, repellido, atirado, um homem.
-
-E vozes alegres bradavam:
-
---Ahi vae Jesus Bar'Abbas, ahi vae!
-
-O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, n'essa
-aspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus.
-
-Era Bar'Abbas.
-
-Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages.
-
-E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com
-ambas as mãos, violentamente, uma ponta da tunica, estendeu-a para a
-multidão, gritando:
-
---Quem dá para o luto?
-
-O povo ria; bradava:
-
---Lapidae-a, lapidae-a!
-
-Bar'Abbas dizia:
-
---Lapidae-a, dae-me para o luto!
-
-E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava.
-
-Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os phariseus, os escribas
-diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei.
-
---Falla, Rabbi, falla!--gritavam-lhe d'entre a multidão.
-
-Mas Jesus olhava sereno, calado.
-
-Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente,
-colerica, bradou:
-
---Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer
-o perdão da mulher adultera.
-
-Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a
-morte.
-
-Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso,
-irritado:
-
---Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle
-manda lapidal-a.
-
-Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua
-estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse:
-
---Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se julgar sem peccado,
-que lhe atire a primeira pedra!
-
-A sua voz era forte, concava, mysteriosa:--assustava.
-
-A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se:
-os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos
-choravam: vozes diziam:--É o Messias, é o Messias! Todos se
-dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos.
-
-Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos
-irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da
-milicia templaria.
-
-Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava
-concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha
-educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que
-nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial,
-a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações
-inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.
-
---Sim, sim--dizia eu--Jesus de Nazareth, pelo seu genio simples e
-justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre
-a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela
-influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez,
-a ser a regeneração d'Israel. Se elle tem apenas o espirito, eu terei
-por elle a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, timido, mais especulativo
-que activo, como poderia eu ser o homem decisivo d'uma insurreição?!
-
-Mas o tedio da vida presente, uma mocidade ávida d'acção, o desdem
-irreconciliavel pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em
-mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo
-de me approximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de
-Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a
-Jesus de Nazareth. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta
-dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: _Shalon_,
-que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta
-fallaria a Jesus.
-
-Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com
-aquelle homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo
-me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais
-prompto de fé.
-
-
-
-
-IX
-
-
-Á hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares, que têm a
-sua raiz na encosta, onde assenta o bairro de Bezetha: era n'um horto,
-junto ao monte das Oliveiras, que eu ia vêr Jesus de Nazareth.
-
-A noite estava cheia d'um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob
-as largas ramagens: um silencio doce occupava a terra. Ouvi apenas um
-canto, triste, arrastado: alguma pobre mulher embalava o filho, chorava
-o marido levado para as legiões de Roma.
-
-O homem que me guiava, abriu uma porta, estreita, de vime: entrei n'um
-espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura d'agua, cheiro
-do plantas.
-
-A lua allumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de
-pedra: ahi, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro,
-o olhar afogado no espaço allumiado, estava Jesus.
-
-Ergueu-se lentamente, e disse:
-
---Paz.
-
---Paz e alegria, Rabbi!--disse eu.--Velavas?
-
---Velo sempre. Bemaventurado o que vela! Elle é como o servo diligente,
-que espera acordado o seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente
-chegar, corre logo a abrir.
-
-Jesus calou-se, perdendo o olhar no ineffavel espaço luminoso.
-
-Eu approximei-me, e com uma voz profunda, convencida, disse:
-
---Creio em ti, Mestre!
-
-Jesus olhava, enlevado, transcendente.
-
-Havia um silencio: eu estava constrangido, e dizia para o chamar ás
-nossas communs imaginações:
-
---Rabbi, o que é necessario, segundo pensas, para alcançar, feliz, a
-vida eterna?
-
-Jesus pousou em mim, demoradamente, os seus olhos severos.
-
---Serves o templo--disse--serves a lei, e não conheces a lei; a lei que
-diz?
-
---A lei--disse eu--ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros
-como a nós.
-
---E eu digo como a lei.
-
-E olhava-me, penetrantemente: fallava como n'um sonho, ou a alguem
-invisivel.
-
---Não se póde servir bem a dois amos: um d'elles se ha de desprezar,
-outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.
-
-Comprehendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um
-emissario do templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho
-contra elle.
-
-Respondi com uma dignidade dura:
-
---Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Elle sabe que
-creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por
-traz das portas dos blasphemadores da lei. O meu corpo serve e vive no
-templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado comtigo, em desejo e
-em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João.
-
-O Rabbi considerava-me attento.
-
---O homem--disse elle--dá testemunho do homem: só Deus conhece os
-corações.
-
---Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente d'Israel,
-tu julga, ou condemna minha alma.
-
-Dizia isto grave, firme, aspero. Jesus de Nazareth, com o rosto
-esclarecido, disse-me docemente:
-
---A fé salva.
-
-E depois d'um momento:
-
---E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou?
-
---Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Baptista ressuscitado; outros
-que és o Messias; os phariseus pensam que és um blasphemador ambicioso,
-ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade.
-
---E tu quem dizes que eu sou?
-
---Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciencia das coisas
-divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, n'um tempo
-humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as hypocrisias,
-vingar a patria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve
-ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito
-estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o
-phariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador!
-
---Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a
-perdel-as.
-
---E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este
-sacerdocio rico e indifferente, este culto ensanguentado e hypocrita?
-É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre
-choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbitrio dos favoritos
-imbecis de Tiberio?
-
---Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.
-
---Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te
-pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando
-no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casaes? E pensas que
-isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha secca?
-Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras
-das creanças de Chorasin, e contando parabolas, entre os campos, aos
-simples e ás mulheres? Comprehendo que a tua ambição não seja maior,
-e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples.
-Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se
-tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu,
-se não és uma forte intensidade de vontade? As maximas que tu prégas
-são de Hillel, são de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha
-coisas novas no teu ensino, mas o que n'ellas ha de grande é a tua
-força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor
-do sacrificio, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas
-qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de
-Caná? Não podia teu pae ser levado legionario para Roma? De que nos
-servem essas parabolas, essas ironias, essas respostas excellentes, se
-ellas não vão ferir a riqueza do saducceu, a hypocrisia do escriba,
-a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as
-predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade
-abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado,
-civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das
-trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunaes, templos,
-officios, mercados, sacerdocios, escolas, tudo fortemente ligado,
-se dissipe como uma visão, porque um homem sympathico se ergue n'um
-caminho e diz:--Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pae
-celeste!--Não! tal não será, Rabbi!
-
---Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta--eu sei?--como
-um grão de mostarda, e dissesseis áquelle monte: passa-te d'ahi! o
-monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando
-estarei entre ti?
-
-O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso.
-
---Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus.
-Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós soffremos e choramos muito
-baixo na terra.
-
-Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:
-
---Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realisar
-o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te
-aos homens que têem a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas:
-nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz
-sem um propheta! Como tens tu pensado realisar o teu reino de Deus?
-Pela doçura e pela paciencia, ou pela força e pela revolta? Não pódes
-hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que
-te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas,
-com os miseraveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as
-creanças que te sorriem?
-
---Deus esconde muitas coisas aos sabios, que revela ás creanças.
-
---Para que pregas então no templo, contra os phariseus e os principes?
-
---Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração!
-
---Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que
-só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem?
-
---Só o desdem dá a paz.
-
---Dá a inercia, o sacrificio e as virtudes passivas. E se ámanhã tu
-pudesses começar a vêr realisado no mundo esse reino dos pobres, dos
-simples, dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada
-para a tua palavra? Se visses tudo transformado, por uma acção
-energica, revolucionaria, pela nossa acção?
-
-Jesus caminhava, inquieto: o seu olhar vibrava. As minhas palavras
-davam-lhe inesperadas perturbações.
-
-Nós viamos o templo luzir na branca polidez da pedra sob o luar: eu
-dizia-lhe, profundo:
-
---Olha, vê o templo: hoje alli tudo é intriga, artificio, apparato,
-riqueza, sangue, hypocrisia, vaidade: ámanhã seria o logar mais santo
-da terra.
-
-Jesus cobria o templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu
-desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto á face:
-
---Ouve: em Jerusalem ha descontentes: alguns membros do sanhedrin estão
-irritados com a familia d'Elanan, com Beothos: Gamaliel não ama o
-templo: o baixo povo do mercado detesta phariseus e escribas; é nosso;
-a Galilea é nossa; a Perea é nossa; mandar-se-ão emissarios a Joppé;
-toda a Judea se erguerá:--tu serás o propheta. Queres? O teu sonho do
-lago de Tiberiade será então vivo, real, palpavel, existente sob as
-nuvens!--Queres?
-
-A noite era immortalmente bella: havia uma bondade no ar: o mundo
-parecia-me possuido de um elemento diverso.
-
-Eu fallava confusamente, ora contra os phariseus, ora contra os
-romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal,
-nem a inercia d'um povo egoista. Uma grande tentação captivou o
-espirito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos:
-
---Rabbi, Rabbi, depois do phariseu, será a vez do romano! Tu serás o
-maior da Judea: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico,
-terás aniquilado o hypocrita, terás expulso o romano: serás pela
-justiça egual a Ezequiel, pela força egual aos Machabeus: serás como
-David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de
-Israel.
-
-Eu fallava exaltado: mostrava-lhe Jerusalem e dizia-lhe:
-
---Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel!
-
-Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e
-transcendente o ceu cheio da lua serena, o ineffavel silencio, a pura
-belleza do infinito, o profundo mysterio onde Deus habita, disse-me:
-
---Vae-te: o meu reino não é d'este mundo!...
-
-Olhei longamente o Rabbi, lamentei o seu desdem, sorri da sua palavra:
-e calado, concentrado, sahi pelo caminho de Betphagé.
-
-Uma claridade apparecia: os gallos cantavam. No outro dia, pela hora da
-tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galilea.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[41] Este trabalho de Eça de Queiroz, escripto por occasião da sua
-viagem ao Egypto e á Palestina em 1869, foi publicado em 1870 na
-_Revolução de Setembro_, ficando todavia incompleto.
-
- (_N. dos E._)
-
-
-FIM
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- Pag.
-
- Introducção v
-
- Notas marginaes 1
-
- Macbeth 15
-
- A ladainha da dôr 27
-
- Entre a neve 45
-
- Os mortos 57
-
- A Peninsula 65
-
- O «Miautonomah» 75
-
- Mysticismo humoristico 85
-
- O milhafre 93
-
- Lisboa 103
-
- O Senhor Diabo 115
-
- Uma carta 133
-
- O lume 147
-
- Mephistopheles 155
-
- Memorias d'uma forca 161
-
- A morte de Jesus 173
-
-
-
-
-ERRATA
-
-
-Pag. XXV, linha 8: onde se lê _Poo_, deve lêr-se _Poe_.
-
-Pag. XXXIV, linha 14: onde se lê _Trata-se das viagens dos Deuses_,
-deve lêr-se: _Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos
-Deuses_, etc.
-
-Pag. XLV, linha 6: onde se lê _Roberpierre_, deve lêr-se _Robespierre_.
-
-Pag. 58, linha 4: onde se lê _embalarem-se_, deve lêr-se _embalar-se_;
-mesma pag., linha 5: onde se lê _estirarem-se_, deve lêr-se
-_estirar-se_; mesma pag., linha 8: onde se lê _acalentarem_, deve
-lêr-se _acalentar_.
-
-Pag. 63, linha 2: onde se lê _com o amores_, deve lêr-se _com os
-amores_.
-
-Pag. 88, linha 15: onde se lê _enchiam-me_, deve lêr-se _enchia-me_.
-
-Pag. 168, linha 21: onde se lê _eram paus, uma alma_, deve lêr-se
-_eram, pois, uma alma_.
-
-Pag. 172, linha 10: onde se lê _pastarem-me_, deve lêr-se _pastar-me_.
-
-
-
-
-Notas
-
-Os problemas na errata foram corrigidos.
-
-Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.
-
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-
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- Prosas Bárbaras, by Eça de Queiroz—A Project Gutenberg eBook
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-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>Prosas barbaras</span>, by Eça de Queirós</p>
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
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-are not located in the United States, you will have to check the laws of the
-country where you are located before using this eBook.
-</div>
-</div>
-
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: <span lang='pt' xml:lang='pt'>Prosas barbaras</span></p>
-<p style='display:block; margin-left:2em; text-indent:0; margin-top:0; margin-bottom:1em;'><span lang='pt' xml:lang='pt'>com uma introd. por Jayme Batalha Reis.</span></p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Eça de Queirós</p>
-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Contributor: Jaime Batalha Reis</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: September 13, 2022 [eBook #68986]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>PROSAS BARBARAS</span> ***</div>
-
-
-
-
-
-
-<h2>Obras do mesmo auctor</h2>
-
-<hr class="r5" />
-<table class="autotable">
-<tr><td class="tdl"><b>O crime do padre Amaro.</b> Quarta edição inteiramente refundida,
-recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso volume</td><td class="tdr">1$200</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>Os Maias.</b> Segunda edição. 2 grossos volumes</td><td class="tdr">2$000</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>A Cidade e as Serras.</b></td><td class="tdr">800</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>O Mandarim.</b> Quarta edição. 1 volume</td><td class="tdr">500</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>O primo Bazilio.</b> Quarta edição. 1 grosso volume</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>A Reliquia.</b> Terceira edição. 1 grosso volume</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>Contos.</b> 1 volume</td><td class="tdr">600</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>As minas de Salomão.</b> 1 volume</td><td class="tdr">600</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>Correspondencia de Fradique Mendes.</b> 1 volume</td><td class="tdr">600</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>Revista de Portugal.</b> 4 grossos volumes</td><td class="tdr">12$000</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><b>A Illustre Casa de Ramires.</b> 1 volume</td><td class="tdr">1$000</td></tr>
-</table>
-<p>
-<span style="margin-left: 1em;"><i>No prélo</i>:</span><br />
-</p><p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><b>Cartas de Inglaterra.</b></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><b>Echos de Paris.</b></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><b>S. Christovam</b> (inedito).</span><br />
-</p>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p class="center p2"><span class="figcenter" id="img001">
- <img src="images/001.jpg" class="w50" alt="Monumento erigido a Eça de Queiroz, Obra do eminente esculptor Teixeira Lopes" />
-</span></p>
-
-<p class="center caption">Monumento erigido a Eça de Queiroz<br />Obra do eminente esculptor Teixeira Lopes</p>
-
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-
-<p class="center big">
-<span class="smcap">Eça de Queiroz</span><br />
-</p>
-<hr class="r5" />
-<h1><span class="smcap">Prosas Barbaras</span></h1>
-
-<p class="center">
-Com uma Introducção por Jayme Batalha Reis<br />
-</p>
-<p class="center p4"><span class="figcenter" id="img002">
- <img src="images/002.jpg" class="w10" alt="Imagem da livraria" />
-</span></p>
-<p class="center p4">
-PORTO<br />
-<span class="big">LIVRARIA CHARDRON</span><br />
-<span class="smcap small">Lello &amp; Irmão, editores</span><br />
-</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center">
-1903<br />
-<span class="small">Todos os direitos reservados.</span><br />
-</p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p>Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
-Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a
-garantia que lhe offerece a lei n.ᵒ 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o
-competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do
-art. 13.ᵒ da mesma Lei.</p>
-</div>
-
-<hr class="r5" />
-<p class="center"><i>Porto—Imprensa Moderna.</i></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_v">[v]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO.</h2>
-</div>
-
-<p class="center caption">Na primeira phase da vida litteraria de Eça de Queiroz.</p>
-
-
-<h3>I</h3>
-
-<p>Julgaram os Editores d'este livro ser necessario explicar como elle se
-escreveu e se denominou.</p>
-
-<p>Fui talvez a testemunha mais proxima da redacção dos escriptos agora
-reunidos em volume, e por esse tempo, o amigo mais inseparavel do
-author. Esta Introducção é pois uma pagina da sua biographia. Tento
-esboçar n'ella a figura do homem e a do escriptor, taes como as
-conheci, ao formarem-se as creações d'este livro,—as circumstancias e
-os espiritos que influenciaram a aliás extraordinaria originalidade do
-genio d'Eça de Queiroz.</p>
-
-<p>Quando nos encontrámos, já estavam publicados alguns dos seus
-<i>Folhetins</i> na <i>Gazeta de Portugal</i>, que fôra fundada por
-Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos (Novembro de 1862), 4 annos
-antes da apparição do primeiro d'elles e terminou (Janeiro de 1868,)
-pouco mais d'um anno depois da publicação do ultimo, sendo,—em
-rivalidade com a <i>Revolução de Setembro</i>, dirigida por Rodrigues
-Sampaio,—o mais brilhante periodico<span class="pagenum" id="Page_vi">[vi]</span> do tempo. A <i>Gazeta de
-Portugal</i> publicava, além das do seu fundador, frequentes producções
-de Antonio Feliciano de Castilho, José Castilho, Mendes Leal, Rebello
-da Silva, Camillo Castello Branco, Julio Cesar Machado, Thomaz
-Ribeiro, Zacharias d'Aça, Graça Barreto, Silveira da Motta, Cunha
-Rivara,—quasi todos os consagrados de então. Os <i>Novos</i> que ahi
-escreviam, ficavam, por este facto, para logo consagrados. Ahi primeiro
-appareceram no <i>folhetim</i>, triumphalmente, Matheus de Magalhães,
-Pinheiro Chagas, Osorio de Vasconcellos e Xavier da Cunha («Olympio
-de Freitas.») Todos estes escriptores se continuavam uns aos outros,
-sem contrastes nem revoluções, apenas levemente desenvolvendo formulas
-acceites e classificadas pelos applausos d'um publico hereditariamente
-satisfeito.</p>
-
-<p>Em 1866 a <i>Gazeta de Portugal</i> entrára porém em decadencia;
-começava a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu
-o formato. A 14 de Julho de 1866, José da Silva Mendes Leal,
-poeta, dramaturgo, romancista, historiador, estadista, orador,
-diplomata,—para muitos, «o mestre», legitimo successor de Almeida
-Garrett,—despedira-se da direcção litteraria que até então, pelo menos
-nominalmente, exercera. Os collaboradores litterarios mais assiduos,
-mais legitimamente representantes do gosto geral, eram já então, no
-<i>folhetim</i> da <i>Gazeta de Portugal</i>, Santos Nazareth e Luiz
-Quirino Chaves. Por essa epoca Teixeira de Vasconcellos publicou ahi o
-seu romance <i>A Ermida de Castromino</i>, seguido, desde os primeiros
-dias de 1866, por <i>O Diamante do Commendador</i> do visconde Ponson
-du Terrail...</p>
-
-<p>Repentinamente, (em Março de 1866), começaram a apparecer uns
-<i>Folhetins</i> assignados «Eça de Queiroz».</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_vii">[vii]</span></p>
-
-<p>Ninguem conhecia a pessoa designada por estes appelidos que, por algum
-tempo, se suppoz serem um pseudonymo.</p>
-
-<p>Os <i>Folhetins</i> de Eça de Queiroz foram todavia notados;—mas como
-novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde a
-Redacção da <i>Gazeta de Portugal</i>, até aos centros intellectuaes
-reconhecidos do paiz, e até á parte mais grave, culta e influente do
-publico. Para este, uma ou outra phrase os arrumou logo no que então
-se chamava «a Escola Coimbran»,—centro litterario e philosophico
-dedicado, como se suppunha, a escrever por modo systematicamente
-inintelligivel. Citavam-se, por modelos de comico inconsciente, as
-scenas, as imagens, os epithetos d'esses <i>Folhetins</i>, lidos
-em voz alta, entre gargalhadas, no Café Martinho, nas Livrarias
-Silva e Rodrigues, no Gremio litterario, nos Salões poeticos e
-politicos e n'outros centros representativos do tempo. O Severo,—o
-Severo dos Anjos,—principal e celebre Noticiarista da <i>Gazeta de
-Portugal</i>, entalando o monoculo ao canto do olho direito, inventava
-quotidianamente, sobre o Eça de Queiroz e os seus <i>Folhetins</i>,
-epigrammas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcellos,
-exagerando, com intenção comica, o seu natural gaguejar, concluia:</p>
-
-<p>—Tem muito talento este rapaz; mas é pena que residisse em Coimbra,
-que seja inteiramente doido, que haja nos seus <i>Contos</i>,
-sempre, dois cadaveres amando-se n'um banco do Rocio, e que
-escre...va...va...va em francez.</p>
-
-<p>Pouco tempo depois de publicado o ultimo d'esses <i>Folhetins</i>,—em
-Dezembro de 1867,—já ninguem pensava no author d'elles.</p>
-
-<p>Que importava ao Café Martinho, ao Gremio <i>supposto</i><span class="pagenum" id="Page_viii">[viii]</span> litterario,
-e aos circulos politicos, a apparição d'um novo escriptor com um novo
-estylo? Era ministro... não sei quem; discutia-se no Parlamento...
-não sei que; os negocios iam andando; os namoricos e a maledicencia
-seguiam o seu curso; a arte, serena e commedida, não sacudia os que
-dormitavam... e nada mais era de interesse, em Portugal, para as
-classes cultas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_ix">[ix]</span></p>
-
-
-<h3>II</h3>
-
-<p>Eu era, por 1867, estudante em Lisboa e muito novo. Por circumstancias
-que é inutil mencionar frequentava a Redacção da <i>Gazeta de
-Portugal</i>, no n.ᵒ 26 da travessa da Parreirinha, perto do Theatro de
-S. Carlos.</p>
-
-<p>Uma noute, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito
-magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça
-pequena e aguda. Esta figura mostrava-se inteiramente desenhada a preto
-intenso e amarello desmaiado:</p>
-
-<p>Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada até á barba, uma gravata alta
-e preta, umas calças pretas. Tinha as faces lividas e magrissimas,
-o cabello corredio muito preto, do qual se destacava uma madeixa
-triangular, ondulante, na testa pallida que parecia estreita, sobre
-olhos cobertos por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito
-negros. Um bigode farto, e tambem muito preto, caía aos lados da bocca
-grande e entreaberta. As mãos longas, de dedos muito finos côr de
-marfim<span class="pagenum" id="Page_x">[x]</span> velho, na extremidade de dois magros e longuissimos braços,
-faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chapéo de
-copa alta e conica, mas de feltro baço, como os chapéos do seculo
-<span class="allsmcap">XVI</span> que se veem nos retratos do Duque d'Alba, de Philippe II
-de Hespanha, ou de Henrique <span class="allsmcap">III</span> de França.</p>
-
-<p>Era o Eça de Queiroz.</p>
-
-<p>Contava o quer que fosse a um tempo tragico e comico, nervosamente,
-dando a espaços gargalhadas—<i>ricanements</i>, como se diria em
-francez,—curtas, e sinistras.</p>
-
-<p>O Severo, de monoculo fincado no olho direito, a larga mascara gorda,
-amarella e ironica, muito dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.</p>
-
-<p>Saí n'essa noute do Escriptorio da <i>Gazeta de Portugal</i> com o Eça
-de Queiroz, jantámos e passámos a noute juntos, e desde então, por
-annos, não nos separámos quasi.</p>
-
-<p>O Eça de Queiroz terminára em 1866 o curso de Direito na Universidade
-de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pae era magistrado. Por
-tradicções de familia, e como consequencia natural dos seus estudos,
-deveria seguir, elle tambem, a magistratura official, ou, pelo menos,
-fazer-se advogado. Supponho que n'este intuito frequentou algum tempo
-um Escriptorio em Lisboa.</p>
-
-<p>Mas a Arte tomava-o já a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo a
-ler, a scismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das cousas.</p>
-
-<p>Eça de Queiroz morava em casa da familia, ao Rocio, no 4.ᵒ andar do
-predio n.ᵒ 26. O seu quarto—pequeno, com uma mesa ao centro e uma
-estante para poucos livros,—dava para a rua do Principe. Ahi foram, em
-parte, escriptos os <i>Folhetins</i> das <i>Prosas barbaras</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xi">[xi]</span></p>
-
-
-<h3>III</h3>
-
-<p>Haviamos-nos creado um mundo como que áparte da realidade:</p>
-
-<p>Quando por algum tempo nos separavamos durante o dia, reuniamos-nos
-logo, ás horas de jantar, ou depois, n'um qualquer Restaurante pouco
-frequentado, cerca da rua larga de S. Roque ou do Chiado.</p>
-
-<p>Á sobremeza o café abria-nos as regiões visionarias em que viviamos: O
-Eça de Queiroz bebia-o com attenção concentrada e reverente, curvado
-de alto sobre a chavena, para onde cada feição, principalmente o nariz
-comprido e adunco, como que se prolongava aguçada. A uma primeira
-chavena seguia-se uma segunda e uma terceira; e iamos para minha casa
-continuar a beber café, ás vezes até madrugada.</p>
-
-<p>N'estas circumstancias foram escriptos, por Eça de Queiroz, muitos dos
-<i>Contos</i> agora reunidos em volume.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xii">[xii]</span></p>
-
-<p>Eu morava no primeiro andar da casa n.ᵒ 19 da então travessa do
-Guarda-mór,<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> em pleno Bairro alto.</p>
-
-<p>No meu quarto de estudante<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a> havia um grande armario cheio de livros,
-cavado na espessura da parede, uma grande mesa central sobre que se
-escrevia, e uma secretaria de feitio estranho, dada a meu pae por
-Almeida Garrett, usada por este para escrever de pé, que suggerio a
-Eça de Queiroz a fórma da mesa onde, annos depois, em Paris, quasi
-sempre trabalhava. Uma larga janella de sacada abria para a rua dos
-Calafates<a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a> em frente a predios baixos que, por isso, não impediam
-o accesso do ar, da luz, e a vista d'um espaço aberto que dava uma
-impressão de villa de provincia. No mais proximo d'esses predios
-moravam duas raparigas, muito novas e bonitas, a cantar, costurando
-activamente o dia inteiro, entre craveiros e mangericões, por vezes,
-para o Eça de Queiroz e outros lyricos phantasistas que me visitavam,
-pontos de partida de longas variações, em verso e prosa, sobre o
-<i>Eterno feminino</i>.</p>
-
-<p>Certas noutes, entrava o Eça de Queiroz, já tarde, no meu quarto, com
-um rolo de papel na mão, dizendo:</p>
-
-<p>—Sou eu, sim, amigo.</p>
-
-<p>E alludindo aos corvos, milhafres, gaviões, que com tanta frequencia,
-phantasticamente appareciam nos seus <i>Contos</i>, accrescentava:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xiii">[xiii]</span></p>
-
-<p>—Sou eu e os meus abutres: Vimos crear, devorando cadaveres!</p>
-
-<p>Muitas cousas preoccupavam o Eça de Queiroz quando trabalhava:</p>
-
-<p>Durante tempos só poude escrever em certo papel almaço, que elle
-proprio ia comprar a uma loja pequena de chá e papel selado, no n.ᵒ 41
-da rua larga de S. Roque.</p>
-
-<p>Havia de entrar no meu quarto com o pé direito, suspendendo-se por
-isso, no ultimo momento, recuando o pé esquerdo agourento, quando já
-este inopportunamente se adiantasse, e fazendo, hesitante e confuso,
-antes de emfim passar a porta, um ruido inexplicavel.</p>
-
-<p>Tinha o terror das correntes d'ar, e andava continuamente a fechar a
-janella, ou as portas, a mudar a posição da cadeira onde se sentava,
-murmurando em voz cava:</p>
-
-<p>—É a pneumonia, a congestão-pulmonar fulminante, a morte, menino!</p>
-
-<p>A luz do candieiro de petroleo, que eu usava, feria-lhe a vista; de
-modo que, afim de a concentrar sobre o papel em que escrevia, ou sobre
-o livro em leitura, prolongava, do seu lado, o <i>abat-jour</i>, com
-longas tiras de papel.</p>
-
-<p>Não podia supportar poeira nas mãos, e levantava-se a miudo da mesa
-para ir, cuidadosamente,—interrompendo a composição, mas recitando em
-voz alta as phrases que tinha escripto,—lavar as pontas dos dedos.</p>
-
-<p>Fumava constantemente cigarros, em quanto trabalhava, inclinado sobre o
-papel que olhava muito de perto.</p>
-
-<p>E, uma vez embebido nas suas creações, não fallava, não escutava, não
-attendia a cousa alguma,—embrulhando<span class="pagenum" id="Page_xiv">[xiv]</span> o cigarro, indo lavar as mãos ou
-fechar a porta, passeando pela casa, sempre muito curvo, com passadas
-altas e largas, fazendo gestos de dialogar com alguem, resfolegando
-ruidosamente, abrindo muito os olhos, elevando e baixando nervosamente
-as sobrancelhas, as palpebras, e as rugas horizontaes da testa, onde
-ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia, negra e triangular.</p>
-
-<p>Escrevia com extrema facilidade e, n'esta epoca, emendava muito pouco:
-As imagens, os epithetos occorriam-lhe abundantes, tumultuosamente,
-e elle redigia rapido, insensivel a repetição de palavras ou a
-desequilibrio de periodos, sem exigencias criticas de fórma,
-acceitando, commovido, o que tão espontaneamente, tão sinceramente lhe
-occorria.</p>
-
-<p>Quando n'essas noutes, elle me lia alguns dos seus <i>Contos</i>, a
-figura e a voz completavam-lhe as phantasticas creações:</p>
-
-<p>Erguia-se quasi nos bicos dos pés, de uma magresa esqueletica,
-livido,—na penumbra das projecções do candieiro,—os olhos esburacados
-por sombras ao fundo das orbitas, sob as lunetas de aro preto, o
-pescoço inverosimilmente prolongado, as faces cavadas, o nariz afilado,
-os braços lineares, interminaveis. Então, com gestos de apparição e
-espanto, a voz lugubre, sentimental,—emphaticamente pathetica, ou
-gargalhando sinistramente,—declamava.</p>
-
-<p>Ás vezes, alta noute, quando a excitação do trabalho e do café nos
-havia quasi allucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro alto,—ou
-estendiamos as nossas explorações á Mouraria, á Alfama, em volta da Sé
-e pelas encostas do Castello de São Jorge, a examinar a physionomia<span class="pagenum" id="Page_xv">[xv]</span>
-phantastica, e quasi humana, das casas antigas, algumas ainda então,
-n'esses bairros, mouriscas ou medievaes.</p>
-
-<p>—Ás casas sem luz,—escreveu Eça de Queiroz,<a id="FNanchor_4" href="#Footnote_4" class="fnanchor">[4]</a>—teem o aspecto calmo
-e sinistro dos rostos idiotas.</p>
-
-<p>D'uma vez, quasi de madrugada, seguindo a rua de São Boaventura,
-divisámos ao longe, no Pateo do Conde de Soure, uma fila de homens
-agigantados, segurando como que longas e grossas lanças, cujos
-ferros se perdiam talvez na atmosphera mal alumiada e cujos coutos
-se esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras...
-Estes homens eram para nós apenas esboçados por grandes massas de
-sombra e luz... D'alguns saíam barbas hirsutas... Estavam immoveis...
-Tivemos a impressão d'um quadro sobrenatural... Aproximámos-nos... Eram
-varredores municipaes que esperavam, encostados ás vassouras, a hora de
-se dispersarem pela cidade.</p>
-
-<p>Nas noutes mais serenas,—nas noutes de luar,—saíamos da cidade e
-íamos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens do Tejo,
-conversando, improvisando, até nascer o Sol.</p>
-
-<p>De ordinario, nas noutes de composição e conversa, ou em seguida ás
-nossas divagações peripateticas, o Eça de Queiroz dormia em minha
-casa. E havia, para elle, ritos determinados no modo de dispôr a
-roupa que despia, antes de se deitar, collocando os punhos sobre uma
-mesa pela ordem por que os tinha usado, no braço direito e esquerdo,
-respectivamente, e dispondo as botas á<span class="pagenum" id="Page_xvi">[xvi]</span> porta,—para que o meu
-creado as limpasse, sem nos acordar,—tambem, pelo mesmo methodo,
-ordenadamente emparelhadas.</p>
-
-<p>E ao metter-se na cama, para explicar os seus movimentos
-supersticiosos, murmurava persignando-se:</p>
-
-<p>—É preciso obedecer com fé e sem exame ás leis subtis das cousas:
-Ninguem sabe exactamente, menino, de que possa depender o curso dos
-acontecimentos, e o mysterio complicado dos Fados.</p>
-
-<p>Na epoca em que se publicaram os <i>Folhetins</i> da <i>Gazeta de
-Portugal</i>, eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa.
-O mais assiduo era, por esse tempo,—além do Eça de Queiroz, o
-Salomão Saragga que, quando apparecia, se occupava toda a noute
-em explicar-nos, simultaneamente, a construcção de carruagens, a
-fabricação de tecidos com desperdicios de lan, o livro do Propheta
-Isaias, e os Historiadores das origens do Christianismo.</p>
-
-<p>De tempos a tempos, o Eça de Queiroz dizia-me:</p>
-
-<p>—Estamos-nos tornando impressos. Basta de lêr e imaginar.
-Precisamos d'um banho de vida pratica. É-nos indispensavel o acto
-humano,—inverosimil, se fôr possivel tanto,—a aventura, a lenda em
-acção, o heroe palpavel: Vamos pois cear com o capitão João de Sá,—o
-João de Sá Nogueira,—d'Artagnan d'Africa em disponibilidade.</p>
-
-<p>E iamos, com effeito, encontrar este nosso amigo, official do Ultramar,
-que á ceia nos contava,—durante o bacalhau com batatas, o meio biffe,
-e o Collares,—as pitorescas façanhas das suas viagens nos sertões.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xvii">[xvii]</span></p>
-
-
-<h3>IV</h3>
-
-<p>Havendo eu pertencido á primeira geração affectada pelos escriptos de
-Eça de Queiroz, as recordações do meu sentir de então teem talvez valor
-historico.</p>
-
-<p>O anno de 1867 é uma das datas capitaes na historia da educação do
-meu espirito. A predominante paixão pela musica ligára-me a Augusto
-Machado, que estudava então piano e harmonia com dois dos melhores
-mestres da especialidade em Lisboa.</p>
-
-<p>N'esta cidade floresciam, por esse tempo, o <i>Pot-pourri</i> e as
-<i>Variações</i>. A sensibilidade publica alimentava-se d'um sem numero
-de <i>Rêveries</i>. O gráo supremo do pathetico geralmente conhecido
-ao piano, attingia-se com os <i>Nocturnos</i> de Ravina e Döhler.
-Os arranjos operaticos de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes
-realisado.</p>
-
-<p>Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursára
-piano, harmonia e composição com Alberto de Lavignac, trazia, como
-repertorio de estudo, os <i>Preludios</i> e <i>Fugas</i> de Bach, as
-<i>Sonatas</i> de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn, Schumann
-e Chopin.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xviii">[xviii]</span></p>
-
-<p>Os <i>Folhetins</i> de Eça de Queiroz fizeram-me uma impressão só
-comparavel, em profundidade e consequencias subjectivas, á que,
-justamente pela mesma epoca, me fazia a descoberta das obras dos
-grandes creadores da musica moderna.</p>
-
-<p>Esses <i>Folhetins</i> pareceram-me uma grande novidade,—não tanto nos
-assumptos e na intenção, como no poder de realisação artistica: Emfim
-encontravam fórmas intensas de expressão, factos, antes, na Litteratura
-portugueza, insufficientissimamente revelados.</p>
-
-<p>Pelos pontos de vista, pelo estylo, esses <i>Folhetins</i> eram,
-ainda no anno de 1866, uma quasi inteira novidade para os Leitores da
-lingua portugueza;—como haviam sido, para todo o sul da Europa, á
-apparição do <i>Romantismo</i> francez nos primeiros annos do seculo
-<span class="allsmcap">XIX</span>, as mesmas ideias e estylos semelhantes.</p>
-
-<p>N'esses primeiros escriptos Eça de Queiroz era, na verdade, o que
-geralmente se denomina um <i>Romantico</i>. Elle proprio dizia da epoca
-immediatamente anterior:</p>
-
-<p>«N'aquelles tempos o <i>Romantismo</i> estava nas nossas almas.
-Faziamos devotamente oração diante do busto de Shakespeare.»<a id="FNanchor_5" href="#Footnote_5" class="fnanchor">[5]</a></p>
-
-<p>E, então mesmo, achava ser preferivel, «á saude vulgar e inutil que se
-gosa no clima tepido que habitam Racine e Scribe... a doença magnifica»
-que leva ao «hospital romantico...»<a id="FNanchor_6" href="#Footnote_6" class="fnanchor">[6]</a></p>
-
-<p>Com effeito, por uns dois seculos, pareceu gosar-se, nas regiões mais
-evidentes da Litteratura, uma inalteravel<span class="pagenum" id="Page_xix">[xix]</span> saude: Só certos factos do
-espirito perfeitamente determinados,—só as ideias e os sentimentos
-susceptiveis de clara determinação,—eram n'essa Litteratura expressos.
-Os meios de expressão uzados, os vocabulos e os seus grupamentos,
-os generos litterarios,—tudo parecia claramente, definitivamente
-assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas, n'um systema
-de symetria, de equilibrio, de ordem, applicavel sem hesitações,
-com o minimo esforço, na mais segura tranquillidade. Assim viveu na
-Europa, em geral, a gente culta, do seculo <span class="allsmcap">XVI</span> ao seculo
-<span class="allsmcap">XVIII</span>.</p>
-
-<p>Começaram pelos meados d'este, a mostrar-se nos espiritos signaes
-inquietadores: Além das ideias completamente comprehensiveis e dos
-sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos
-se impozeram á expressão dos Litteratos. Entre as grandes fórmas
-dos affectos, como entre as côres mais vivas, distinguiram-se
-transições e meias tintas: Os homens não pareceram estar sempre, ou
-exhuberantemente alegres, ou definitivamente tristes. Havia commoções
-de sentimentos entremediarios ao amor e ao odio. Entre o preto e o
-branco descobriram-se gradações infinitas.</p>
-
-<p>Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, começou
-então, pouco a pouco, a mostrar-se o centro de grandes grupos
-psychologicos, de factos espirituaes diversamente complexos,
-susceptiveis de definição variavel, de claresa decrescente: uns
-que podiam ser nitidamente,—como que linearmente,—desenhados,
-inteiramente descriptos, completamente illuminados; outros que só
-podiam indeterminadamente suggerir-se, summariamente indicar-se
-por vagas massas de côr, de sombra e de luz; uns que são as ideias
-e os sentimentos que todos<span class="pagenum" id="Page_xx">[xx]</span> os homens conscientemente reconhecem
-como a materia superficial da existencia; outros mais ou menos
-inconscientemente dominantes, sem nome ou descripção que os esgote,
-prolongando-se pelas profundidades insondaveis e inexpressiveis das
-almas.</p>
-
-<p>Do conhecimento d'estes estados mais subtis e ráros do espirito,
-resultou, inevitavelmente, a sua cultura; os systemas nervosos
-pareceram desenvolver-se em sentidos anormaes: e imprevistas, ou mais
-conscientes vibrações vieram impôr-se, crear ou tornar mais complexas
-as nevroses.</p>
-
-<p>Novas fórmas de expressão foram necessarias, não só para os novos
-estados da consciencia, mas porque cada espirito começou a sentir e a
-pensar independentemente, reconhecendo dever procurar por si,—por isso
-quanto possivel fóra de formulas e regras já feitas, os termos que mais
-exactamente lhe symbolisassem as concepções pessoaes.</p>
-
-<p>Toda esta revelação espiritual,—toda esta descoberta de regiões
-ignoradas ou indolentes dos espiritos, toda esta apparição de
-aspirações, de incertezas, de incoherencias novas, toda esta quebra de
-moldes, todo este desequilibrar de forças e symetrias,—pareceu ser, ás
-gentes cultas, serenas e classicamente imitativas, uma grande doença
-mental, ou variadas doenças nervosas que atacassem a humanidade.</p>
-
-<p>A este estado dos espiritos e da Litteratura deu-se, como é sabido, o
-nome de <i>Romantismo</i>,—facto esthetico, ainda hoje em busca de
-sufficiente definição, mas que, pelo que deixo explicado, me parece
-poder essencialmente definir-se, como a <i>procura directa</i> de
-<i>fórmas de expressão</i>, para todos os sentimentos e todas as
-ideias, por isso,<span class="pagenum" id="Page_xxi">[xxi]</span> para as <i>mais intimas ideias</i> e os <i>mais
-vagos sentimentos</i> do espirito humano.</p>
-
-<p>Muitos pretendem que essa doença moral foi apenas, nos fins do seculo
-<span class="allsmcap">XVIII</span>, a reincidencia da epidemia que devastára a Europa
-durante o periodo secular desdenhosamente denominado, por os saudaveis
-neo-greco-romanos, como a «Edade Media», escura, de transição, que em
-Historia ha a considerar entre os dois periodos classicos de equilibrio
-e saude normal.</p>
-
-<p>O <i>Romantismo</i> pareceu ser, geralmente, a resurreição idealisada
-d'essa «Edade media».</p>
-
-<p>É que, durante esta, gradualmente se formaram as nações modernas da
-Europa na sua intima complexidade sentimental. N'ellas as forças
-humanas,—com o integral resultado de forças naturaes que são,—deram
-fórma aos mais intimos sentimentos do espirito. Os povos haviam vivido
-tradiccionalmente mergulhados nas creações completas da sua arte e
-da sua religião; haviam amado, adorado, temido, trabalhado, luctado,
-cantado, dançado, cercados por todas as vibrações inconscientes da sua
-phantasia; haviam formado com a interpretação dos aspectos naturaes,
-com os genios e as fadas de mil religiões evolutivas, os novos santos
-christãos e milagrosos; haviam sentido em cada ser, organico ou
-mineral, real ou phantasiado, propicio ou hostil, influencia humana, e
-haviam-se supposto indissoluvelmente solidarios com uma natureza sempre
-animada, por onde os proprios cadaveres se dispersavam em pulverisações
-de espiritos e actividades.</p>
-
-<p>Estas manifestações da vida espontanea dos povos durante a Edade
-Media, sem duvida solicitaram a interpretação dos <i>Romanticos</i>,
-cuja rasão de ser, cuja missão<span class="pagenum" id="Page_xxii">[xxii]</span> era tambem, como já mostrei, expressar
-completamente, até aos mais profundos e subtis, todos os factos do
-espirito.</p>
-
-<p>Mas o chamado <i>Romantismo</i> deu-se na Europa dos fins do seculo
-<span class="allsmcap">XVIII</span> aos annos de 1830 ou 1850, modificando durante esse
-tempo a Litteratura do remoto Portugal. Que novidades podia pois ainda
-apresentar o <i>romantico</i> Eça de Queiroz aos <i>Romanticos</i>
-portuguezes de 1866?</p>
-
-<p>É o que vou explicar:</p>
-
-<p>O Romantismo tomou, primeiro, corpo saliente, ao norte da Europa,
-e só depois se estendeu ao sul. Veio dos paizes de luz attenuada e
-nevoas visionarias, indeterminadoras de fórmas e de côres, para as
-terras de sol brilhante, atmosphera limpida, fórmas vincadas e côres
-elementares.<a id="FNanchor_7" href="#Footnote_7" class="fnanchor">[7]</a></p>
-
-<p>N'esta descida atravez das latitudes as ideias fôram ganhando nitidez,
-definição, brilho,—e correlativamente perdendo meias tintas,
-claro escuro, indeterminação. Os sentimentos, transportados com
-simplificações lucidas á superficie dos espiritos, pelos artistas
-das terras do sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das
-atmospheras de attenuada illuminação, que os rodeiam nas regiões
-profundas onde elles nascem completos. Emquanto o norte expressava
-tudo o que nas ideias é quasi apenas suggerivel, o sul tão sómente
-aproveitou o que póde nitidamente descrever-se. Os <i>Romanticos</i>
-das raças<span class="pagenum" id="Page_xxiii">[xxiii]</span> do sul da Europa começaram a fazer assim, mais uma vez, por
-uma fatalidade atavica e climaterica, o que os antepassados cultos
-de muitos d'elles completamente consumaram, muitos seculos antes, na
-construcção equilibrada e nitida do Classicismo greco-romano, resultado
-da atrofia esthetica e religiosa de exhuberantes regiões da alma
-humana, pela reducção das mysteriosas formações mysticas do Oriente, da
-Hellade e da Italia, aos moldes rethoricos, ás esculpturas luminosas
-mas frias, e ás biografias anecdoticas dos polytheismos heroicos.</p>
-
-<p>Eis porque tantos romanticos portuguezes,—no extremo dos paizes claros
-do meio dia,<a id="FNanchor_8" href="#Footnote_8" class="fnanchor">[8]</a> só fôram superficialmente romanticos.</p>
-
-<p>Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais indeterminaveis
-do espirito, para além do real, do logico, do coherente, do
-explicavel,—como que para preencher as lacunas deixadas no
-completo da totalidade psychica, pelas definições fragmentarias do
-comprehensivel,—existem com effeito, infinitamente, as necessidades
-mysteriosas do contradictorio, do sobrenatural, do maravilhoso.</p>
-
-<p>É para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, fórmas
-estheticas e religiosas especiaes, e é d'ellas que todo o homem
-completo se sente, por vezes, essencialmente possesso.</p>
-
-<p>Essas fórmas constituem a <i>Arte</i> e a <i>Litteratura mystica e
-phantastica</i>.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xxiv">[xxiv]</span></p>
-
-<p>A França,—a mais norte das Nações definidoras,—recebeu, em grande
-parte, a sua <i>Litteratura phantastica</i> da Allemanha. Da Allemanha,
-por intervenção da França, a recebeu Portugal. Teve ella, de 1866 a
-1867, em Eça de Queiroz, o seu mais genial representante portuguez.</p>
-
-<p>E porque essa Litteratura me punha em vibração tantas faculdades
-intimas e latentes, me commoveu ella,—a mim e a outros espiritos
-contemporaneos da minha primeira mocidade, talvez por educação, e quem
-sabe se por atavismo, não inteiramente, ou não exclusivamente filhos
-das raças e dos climas claros e definidores do sul.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xxv">[xxv]</span></p>
-
-
-<h3>V</h3>
-
-<p>Assim as primeiras influencias que actuaram em Eça de
-Queiroz,—aquellas que mais evidentemente se reconhecem nas suas
-primeiras creações litterarias, os escriptores de cuja frequencia eu
-posso dar testemunho,—fôram, principalmente, Henrique Heine, Gerardo
-de Nerval, Julio Michelet, Carlos Baudelaire; mais distantemente,
-mais em segunda mão, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, Poe; e,
-envolvendo tudo poderosamente, Victor Hugo.</p>
-
-<p>A maior influencia n'esse periodo sobre Eça de Queiroz,—a de
-Heine,—foi tambem consideravel sobre alguns dos seus mais illustres
-contemporaneos e amigos: Vê-se nas poesias, mais tarde reunidas por
-Anthero de Quental sob o nome de <i>Primaveras romanticas</i>, e no que
-este diz de si nas paginas autobiographicas que estão publicadas;<a id="FNanchor_9" href="#Footnote_9" class="fnanchor">[9]</a>
-vê-se tambem nas poesias primeiro<span class="pagenum" id="Page_xxvi">[xxvi]</span> escriptas para o <i>Seculo</i>
-<span class="allsmcap">XIX</span> de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois colligidas, com
-o titulo de <i>Lyra meridional</i>, por Antonio de Azevedo Castello
-Branco.</p>
-
-<p>Eça de Queiroz não sabia allemão. As obras de Heine adquirem nas
-traducções francezas,—algumas feitas pelo proprio author, outras por
-este em collaboração com Gerardo de Nerval,—um caracter novo.</p>
-
-<p>Heine é para mim,—e não é para todos ainda hoje, mesmo na
-Allemanha,—um dos maiores escriptores das linguas germanicas.
-Traduzil-o é, sem duvida, empobrecel-o: foi elle quem disse que «um
-verso traduzido é um raio de lua... empalhado». Mas as qualidades
-musicaes de som e rhythmo que as suas obras perdem, ao passar para o
-francez, são substituidas por outras: a singeleza pathetica como que se
-torna mais dolorosa á claridade nitida da nova lingua; o humorismo, a
-um tempo ironico e ingenuo, como que se faz mais subtil nas fórmas do
-espirito latino; os versos, passados a prosa de rhythmos incertos, como
-que adquirem uma indeterminação, um vago, que faz lembrar versiculos
-biblicos.</p>
-
-<p>Recordo-me da impressão nova que me fizeram as poesias de Heine,—que
-eu decorára no Collegio allemão, onde fui educado,—quando Eça de
-Queiroz m'as fez conhecer em francez; e d'uma noute em que elle
-me declamou emphaticamente, quasi com lagrimas, as paginas dos
-<i>Reisebilder</i> onde Heine,—a quem a musica sempre suggeria fórmas
-e côres definidas,—conta as transformações phantasticas porque a
-seus olhos passára, n'um concerto, Paganini, tornado, pela evocação
-da sobrenatural rabeca, em galan cortejante do seculo <span class="allsmcap">XVIII</span>,
-assassino por ciumes, forçado, monge solitario junto ao mar e sob as
-abobadas de cathedraes, genio planeta entre<span class="pagenum" id="Page_xxvii">[xxvii]</span> as harmonias apotheoticas
-das espheras, ou figura humilde e grutesca, agradecendo os applausos
-dos auditorios.</p>
-
-<p>Em muitas paginas das <i>Prosas barbaras</i> se encontra a influencia
-d'esta lenda phantastica de Paganini.</p>
-
-<p>O conto a <i>Ladainha da dôr</i>, que tem o proprio Paganini por
-assumpto,<a id="FNanchor_10" href="#Footnote_10" class="fnanchor">[10]</a> é directamente inspirado por Heine e por Berlioz.<a id="FNanchor_11" href="#Footnote_11" class="fnanchor">[11]</a> As
-<i>Notas marginaes</i><a id="FNanchor_12" href="#Footnote_12" class="fnanchor">[12]</a> parecem estancias do <i>Intermezzo</i> ou do
-<i>Livro de Lazaro</i>.</p>
-
-<p>Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da
-França no <i>Romantismo</i> germanico. Foi elle o primeiro traductor
-francez do <i>Fausto</i> de Goethe, e, como já disse, o collaborador,
-com Heine, na traducção d'algumas das obras d'este ultimo.</p>
-
-<p>É evidente, nas paginas das <i>Prosas barbaras</i>, a influencia dos
-proprios escriptos originaes de Gerardo de Nerval, principalmente a dos
-mysteriosos e phantasticos sonetos que começam:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Je suis le ténébreux, le veuf, l'inconsolé,</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Le Prince d'Aquitaine à la tour abolie...</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Ma seule étoile est morte, et mon Luth constellé</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Porte le soleil noir de la mélancolie!</i>...<a id="FNanchor_13" href="#Footnote_13" class="fnanchor">[13]</a></span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xxviii">[xxviii]</span></p>
-
-<p>Julio Michelet, pela originalidade, pelo poder evocador do seu
-estylo, pelo dom de crear vida intima e phantastica, pela resurreição
-mythographica e profunda,—sobretudo nos 8 primeiros volumes da sua
-<i>Historia de França</i>,—da <i>Edade media</i>, da <i>Renascença</i>
-e da <i>Reforma</i>,—e, na <i>Sorcière</i>, pela materialisação
-sentimental e explicação, a um tempo natural e visionaria, da vasta
-Historia do Diabo,—foi um dos paes artisticos do primeiro Eça de
-Queiroz.</p>
-
-<p>H. Heine,—allemão que aliaz alguns criticos chegam a considerar um
-espirito francez,—Gerardo de Nerval e Julio Michelet representam,
-em França, profundas influencias allemãs. Foi na fórma vaga, intima
-e completa das suas obras, que o <i>Romantismo phantastico</i>
-principalmente impressionou a Eça de Queiroz.</p>
-
-<p>Por toda a parte, nos escriptos das <i>Prosas barbaras</i>, se
-encontram os mythos, as côres e fórmas do maravilhoso popular
-germanico, os aspectos evocadores da natureza allemã, as personalidades
-da Historia do Norte da Europa localisando, a cada passo, as historias
-do romantico portuguez: São as Nixes, as Wilis, os Elfos, as Ondinas,
-«as velhas mythologias do Rheno», «as Monjas dos Conventos da Allemanha
-a quem o diabo escreve», «o abbade de Helenbach», «as abbadessas
-de Vecker a quem o diabo faz sonetos», «as mães melodramaticas dos
-Burgraves», «os Pastores de Helyberg», «o abbade de Tritheim vendendo
-a alma pelo segredo da circulação do sangue»,—que passam de continuo
-nas narrações; e «as encruzilhadas da Allemanha», «as encruzilhadas da
-floresta negra», «as florestas da Thuringia», «os prados hircinios»,
-as alturas do Borxberg, onde a 30 de Abril se encanta a assembleia
-de Walpurgis, as cathedraes da<span class="pagenum" id="Page_xxix">[xxix]</span> Allemanha, o Rheno, o Mar do
-Norte, «a Allemanha onde nasce a flôr do Absyntho», onde se ouvem
-as velhas baladas da Thuringia e a guitarra de Inspruck, onde «a
-poesia popular foi a Invisivel que levou pela mão os trovadores...
-ás lareiras dos senhorios feudaes...», «ás brancas castellans onde
-vão os <i>Minnesingers</i> errantes», onde se celebram as «kermesses
-de Leipzig» e se bebe «a cerveja de Heidelberg», onde Alberto Dürer
-desenhou a sua <i>Melancolia</i>, onde correm as caçadas phantasticas
-do <i>Freischütz</i> e passam os Imperadores do Santo Imperio,
-<i>Fausto</i>, <i>Mephistopheles</i>, <i>Margarida</i>, Luthero...
-Spohr Weber...</p>
-
-<p>O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua
-influencia consideravel em Eça de Queiroz,<a id="FNanchor_14" href="#Footnote_14" class="fnanchor">[14]</a> só se deu d'uma maneira
-importante, depois da dos authores que acabo de mencionar. A edição
-em volume das <i>Flores do Mal</i> só tarde lhe chegou ás mãos.
-Recordo-me, na falta d'ella, de passarmos muitas noutes na Bibliotheca
-do Gremio litterario, procurando, em collecções antigas de Revistas
-francezas, as poesias que Baudelaire ahi havia pela primeira vez
-publicado.</p>
-
-<p>Carlos Baudelaire é um espirito essencialmente francez. Frio,
-impassivel, correcto de maneiras e <i>toilettes</i>, sempre preoccupado
-com a realisação duma certa symetria de fórma, o mysterio, o
-phantastico é, por elle, intellectualmente sentido. Penetrou, sem
-duvida, em profundas, tenebrosas e inexploradas regiões do espirito;
-mas para principalmente revelar o que n'ellas é capaz de expressão
-lucidamente estranha. N'elle o delirio é<span class="pagenum" id="Page_xxx">[xxx]</span> sempre critico, a nevrose
-intensa, mas methodisada. Cria na arte o <i>frisson nouveau</i> que
-Victor Hugo celebra, mas compõe-n'o rigorosamente segundo as melhores
-fórmas da sabia lingua franceza, com syntaxe directa e rimas ricas, pé
-a pé, vibração a vibração.<a id="FNanchor_15" href="#Footnote_15" class="fnanchor">[15]</a></p>
-
-<p>São, porém, estas qualidades especiaes que tornam mais tarde decisiva
-a influencia de Carlos Baudelaire sobre Eça de Queiroz, no periodo de
-transição, quando, gradualmente impressionado pelo <i>Realismo</i> e
-por Gustavo Flaubert, elle justamente denominou a presente collecção de
-escriptos.</p>
-
-<p>Exerceu-se no mesmo sentido a influencia das obras de Edgar Allan
-Poe, que Eça de Queiroz,—ainda então ignorante de inglez,—só
-conheceu pelas traducções francezas de Baudelaire. A nitidez fria com
-que o espirito americano determinou o nevrosismo das <i>Historias
-extraordinarias</i>, accentua-se ainda mais,—privado, em todo o caso,
-da indeterminação litteraria e fluctuante da lingua ingleza,—nas
-fórmas logicas e lapidares d'um dos mais claros escriptores da França.</p>
-
-<p>Indico apenas, como já disse, as influencias dominantes; mas o trato
-intimo com quasi todos os grandes romanticos francezes,—Musset,
-Gautier, Mallefille,—é sensivel n'este primeiro periodo da vida
-litteraria de Eça de Queiroz.</p>
-
-<p>As influencias portuguezas importantes que pódem distinguir-se
-são pouco numerosas e superficiaes:—quasi<span class="pagenum" id="Page_xxxi">[xxxi]</span> sómente as da poesia
-popular,<a id="FNanchor_16" href="#Footnote_16" class="fnanchor">[16]</a> e as de alguns seus companheiros de Coimbra,—João de
-Deus, Anthero de Quental. Foi aliás o conto de Eça de Queiroz, o
-<i>Milhafre</i><a id="FNanchor_17" href="#Footnote_17" class="fnanchor">[17]</a> que suggerio a Anthero de Quental uma das suas
-poesias.<a id="FNanchor_18" href="#Footnote_18" class="fnanchor">[18]</a></p>
-
-<p>Na fórma litteraria, a acção reconhecivel em Eça de Queiroz é a da
-lingua franceza: Foi por meio de muitas das fórmas da syntaxe d'esta, e
-quasi se póde dizer, do seu vocabulario, que elle modelou uma como que
-nova lingua portuguesa.</p>
-
-<p>Mas esta <i>Introducção</i> ás <i>Prosas barbaras</i> tem por fim
-explical-as; não critical-as: Não lhe cumpre por isso mostrar que
-differenças profundas ha, entre o phantastico allemão e o phantastico
-do Escriptor portuguez, entre a ironia subtil de Heine e a ironia
-poderosa de Eça de Queiroz, entre a phantasia ingenua e vaga dos homens
-do norte e a imaginação eloquente, exhuberante, e imprevista do creador
-meridional; não tem emfim que provar como todas as influencias notadas
-se sentem apenas á superficie da obra do grande artista eminentemente
-original, que escreveu, na sua primeira mocidade, as extraordinarias
-paginas reunidas n'este livro.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xxxii">[xxxii]</span></p>
-<h3>VI</h3>
-
-<p>Na intenção d'Eça de Queiroz os <i>Folhetins</i> da <i>Gazeta de
-Portugal</i>,—apesar da sua desconnexão episodica,—formavam serie,
-obedeciam a um pensamento, constituiam um corpo, uma obra systematica,
-cujos capitulos, separados por lacunas que nunca fôram preenchidas,
-pódem, chronologicamente, reunir-se nos seguintes dois grupos:</p>
-
-
-<p class="center caption">A</p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt"><td class="tdl"><i>Symphonia de abertura</i><a id="FNanchor_19a" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></td><td class="bl tdc">1866</td><td class="bl tdc">Outubro</td><td class="bl tdr">7</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Macbeth</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">14</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Poetas do Mal</i><a id="FNanchor_19b" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">21</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>A Ladainha da dôr</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">28</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Os mortos</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Novembro</td><td class="bl tdr">4</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>As Miserias: I Entre a Neve</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">13</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Farças</i><a id="FNanchor_19" href="#Footnote_19" class="fnanchor">[19]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">18</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Ao Acaso</i><a id="FNanchor_20" href="#Footnote_20" class="fnanchor">[20]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">27</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>O Miautonomah</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Dezembro</td><td class="bl tdr">2</td></tr>
-<tr class="bb"><td class="tdl"><i>Mysticismo humoristico</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">23</td></tr>
-</table>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xxxiii">[xxxiii]</span></p>
-<p class="center caption">B</p>
-
-<table class="autotable">
-<tr class="bt"><td class="tdl"><i>O Milhafre</i><a id="FNanchor_22" href="#Footnote_22" class="fnanchor">[22]</a></td><td class="bl tdc">1867</td><td class="bl tdc">Outubro</td><td class="bl tdr">6</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Lisboa</i><a id="FNanchor_23" href="#Footnote_23" class="fnanchor">[23]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">13</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>O Senhor Diabo</i><a id="FNanchor_24" href="#Footnote_24" class="fnanchor">[24]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">20</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Uma carta</i> (<i>a Carlos Mayer</i>)</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Novembro</td><td class="bl tdr">3</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Da Pintura em Portugal</i><a id="FNanchor_21a" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">10</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>O Lume</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">17</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Mephistopheles</i> (<i>J. Petit</i>)<a id="FNanchor_25" href="#Footnote_25" class="fnanchor">[25]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">Dezembro</td><td class="bl tdr">1</td></tr>
-<tr><td class="tdl"><i>Omphalia Benoiton</i><a id="FNanchor_21" href="#Footnote_21" class="fnanchor">[21]</a></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">15</td></tr>
-<tr class="bb"><td class="tdl"><i>Memorias d'uma forca</i></td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdc">»</td><td class="bl tdr">22</td></tr>
-</table>
-
-<p>O primeiro <i>Folhetim</i> em data,—março de 1866,—as <i>Notas
-marginaes</i>,—tendo por epigraphe as phrases interrompidas d'uma
-trova á Bernardim Ribeiro, e influenciado, como já mostrei, pela
-traducção franceza das Poesias de Heine, foi inserido, na <i>Gazeta de
-Portugal</i>, fóra do seu logar.</p>
-
-<p>Porque os <i>Folhetins</i> teem uma introducção formal,—uma
-<i>Symphonia d'abertura</i>, que se publica a 7 de outubro de 1866,—e
-continuam, quasi sem interrupção, semanalmente, aos domingos, até 23
-de Dezembro do mesmo<span class="pagenum" id="Page_xxxiv">[xxxiv]</span> anno. Uma longa ausencia de Lisboa interrompe a
-publicação: Dos primeiros dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867 Eça
-de Queiroz reside no Alemtejo, onde funda e redige o <i>Districto
-d'Evora</i>, periodico politico, litterario e noticioso. Os folhetins
-da <i>Gazeta de Portugal</i> recomeçam no dia 6 de Outubro, e proseguem
-até 22 de Dezembro do mesmo anno de 1867.</p>
-
-<p>A <i>Symphonia de abertura</i><a id="FNanchor_26" href="#Footnote_26" class="fnanchor">[26]</a> prepara, com efeito, o espirito para
-a ideia que os differentes trechos depois vão desenvolvendo. N'elles
-a phantasia,—livremente, irregularmente, fragmentariamente,—esboça,
-suggere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em episodios, em
-allegorias phantasticas e como que musicalmente vagas:</p>
-
-<p>Trata-se, na «Symphonia de abertura», das viagens dos Deuses, «desde
-os templos de Ellora,—onde elles andavam ferozes por entre os
-Elephantes,—até á cruz de Jesus, onde um rouxinol veio pousar cantando
-d'amor»... «desde a materia negra e informe, até ás serenidades vivas
-para além das nuvens, das estrellas e dos caminhos lacteos».</p>
-
-<p>N'estas viagens ideaes os Deuses teem uma companheira que intimamente
-estabelece a sua communicação com os homens,—a Arte.</p>
-
-<p>Da historia visionaria d'esta,—na longa peregrinação divina,—a
-<i>Symphonia de abertura</i>, faz-nos ouvir,—<i>adagio</i> ou
-<i>vivace</i>, <i>piano</i> ou <i>forte</i>,—alguns trechos
-maravilhosamente instrumentados:...</p>
-
-<p>«Quando» os povos—na Chaldea, no Egypto, na Grecia,—«plantavam
-tendas debaixo das estrellas», ... e, mais tarde, em céos de profundo
-mysticismo christão, nas<span class="pagenum" id="Page_xxxv">[xxxv]</span> regiões transcendentes «onde as proprias
-estrellas são» apenas, «gotas de sombra...»<a id="FNanchor_27" href="#Footnote_27" class="fnanchor">[27]</a></p>
-
-<p>Entreveem-se, fluctuando em imagens, as differentes Artes:</p>
-
-<p>A Architectura «que se abriu em transparencias e transfigurações, como
-se quizesse ser, no espaço, a morada suspensa do espirito».</p>
-
-<p>A Musica emfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades,
-dissipando-se nos amollecimentos divinos...»</p>
-
-<p>«...no terror da natureza, onde o diabo era visivel... a alma allemã
-tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de pallidos
-silencios que se exhalavam divinamente no canto...»</p>
-
-<p>Esvae-se «aquella melopea grega esfarrapada pela aspereza do latim dos
-versiculos...»</p>
-
-<p>«Apparece Luthero», a alma allemã... que desfalecia n'aquellas
-melancolias immensas que Alberto Dürer revelou...»</p>
-
-<p>Mas «a Musica, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte,
-sumiu-se com a approximação da Renascença que vinha cheia das rebeliões
-da carne...»</p>
-
-<p>Até que outra vez «se produziu, na nossa epoca, como a Grecia produziu
-a Esculptura, como a Europa gothica produziu a Architectura...»</p>
-
-<p>Chega-se assim aos tempos modernos:</p>
-
-<p>«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se
-chamavam Homero, Eschylo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e
-Shakespeare.<span class="pagenum" id="Page_xxxvi">[xxxvi]</span> A alma queria subir aquelles escarpamentos divinos para
-colher a flôr do ideal.»<a id="FNanchor_28" href="#Footnote_28" class="fnanchor">[28]</a></p>
-
-<p>A melancolia dá côr ao <i>Romantismo</i>...</p>
-
-<p>«O typo em quem se resumem todos os soffrimentos, todas as
-desesperanças, as melancolias, as incertezas, as aspirações,
-os lyrismos d'esta epoca pallida e doentia: <i>Fausto</i>,
-<i>Manfredo</i>, <i>Lara</i>, <i>Antony</i>, <i>Werther</i>,
-<i>Rolla</i>, <i>D. Juan</i>...» que saem então de «toda uma mocidade
-pallida e nervosa, de «toda uma primavera...»</p>
-
-<p>«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela Arte,—eis ahi a
-Musica...», «aquella vaga Ophelia que se chama Musica...», «uma voz
-inesperada em que se entendem os desconsolados...»<a id="FNanchor_29" href="#Footnote_29" class="fnanchor">[29]</a></p>
-
-<p>Constitue-se emfim a Musica moderna:</p>
-
-<p>«A Allemanha... a loura Allemanha de ideal seriedade, luminosa, um
-tanto nuvem, cheia de vapores e de constellações... A Allemanha que
-pensa com um doce ruido ineffavel», fórma a sua «Musica que é o vapor
-da Arte...»</p>
-
-<p>E, ao lado d'ella, «a Musica italiana... tendo o quer que seja do
-palpavel... d'ondeante como seda invisivel».</p>
-
-<p>Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da <i>Symphonia de
-abertura</i>.</p>
-
-<p>Os escriptos colligidos n'este volume são assim, em prosa, os <i>Cantos
-fragmentarios</i> d'um immenso <i>Poema</i>:</p>
-
-<p>O Universo é um infinito de almas. As cousas teem<span class="pagenum" id="Page_xxxvii">[xxxvii]</span> sentimentos
-humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a pulverisação de
-todas as mortes. Os que morrem vão diffundir-se nas cousas, sem
-nas decomposições aniquilarem a personalidade, passando por fórmas
-inferiores no homem, e por fórmas purificadas na natureza. Na alma
-é que se concebe, cria, o mal: o corpo, a materia, essencialmente
-inalteravel, volta sempre á pureza natural. Dos successivos ideaes,
-e das successivas e profundas commoções, o homem gera, para todo o
-sempre, Deuses que o dominam, que vivem d'uma vida sentimental e
-independente, mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados
-destinos, que se asylam, errantes, em todos os grandes centros de vida
-mysteriosa da creação, que se fazem seducção sob a fórma ainda angelica
-e já ironica do diabo, que se dispersam na natureza transformadora.</p>
-
-<p>Com este vago thema geral, o <i>Poema</i> em prosa d'Eça de Queiroz
-propunha-se a ser a expressão das mais profundas regiões do sonho, da
-visão, do indeterminavel, do substracto phantastico que se encontra
-sob a realidade evidente, queria tornar sonoras as capacidades de
-vibração musical que fórmam a intimidade de todos os seres,—todas as
-vibrações impossiveis de completamente reduzir aos sons calculados
-d'uma escala musical;—era a phantasia tocando, um momento apenas,
-o mundo da realidade, para logo se afastar d'elle, voando, exilada
-pela incomprehensão, pela insensibilidade, pela determinação nitida e
-clara das forças sensatas do espirito. E assim, após os bellos Deuses
-de marmore, que se escondem fugitivos nas florestas ainda cheias dos
-symbolos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou reprobos do
-christianismo,—a propria ironia espiritualista de Satanaz, a propria
-pallida e doce figura de Jesus,—vão egualmente perder-se e ser<span class="pagenum" id="Page_xxxviii">[xxxviii]</span>
-esquecidas: Morreu a phantasia. São futeis todas as illusões. Reina o
-calculo demonstravel.<a id="FNanchor_30" href="#Footnote_30" class="fnanchor">[30]</a></p>
-
-<p>Heine tambem já contára o exilio dos antigos Deuses,<a id="FNanchor_31" href="#Footnote_31" class="fnanchor">[31]</a> e Michelet<a id="FNanchor_32" href="#Footnote_32" class="fnanchor">[32]</a>
-recorda o brado, «Le Grand Pan est mort!»<a id="FNanchor_33" href="#Footnote_33" class="fnanchor">[33]</a> que se ouviu pelo mundo
-ao apparecer de novas crenças.</p>
-
-<p>O que caracterisa este momento da vida litteraria d'Eça de Queiroz
-é a sincera commoção do crear phantastico, sem excluir, já então,
-a ironia,—que mais tarde é o principal instrumento de trabalho do
-seu espirito,—fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques
-tão vivos e reaes a todas as suas obras. Consegue assim crear um
-mundo imaginario, um scenario de allegorias; sabe que esse mundo é
-illusorio, que só parece povoado por metaphoras,—e enternece-se,
-e commove-se, e communica essa ternura e essa commoção como se as
-produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo,
-inexplicavelmente, que com effeito exista uma profunda realidade,
-vagamente symbolisada por todas essas imagens.<a id="FNanchor_34" href="#Footnote_34" class="fnanchor">[34]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xxxix">[xxxix]</span></p>
-
-<p>Como quer que episodicamente falle de assumptos inteiramente
-reaes,—da America do Norte, de Lisboa, da vida de estudante em
-Coimbra,—é sempre o mesmo substracto visionario da realidade para que
-o seu espirito procura expressão.</p>
-
-<p>Esta situação especial do espirito de muitos artistas não foi ainda,
-parece-me, sufficientemente estudada pela critica e pela philosophia da
-arte.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xl">[xl]</span></p>
-
-
-<h3>VII</h3>
-
-<p>Eça de Queiroz tinha, por essa epoca, a mesma exhuberancia e
-originalidade de phantasia em verso: porque sentia muitas vezes a
-necessidade de metrificar,—quasi que o mesmo genero de necessidade
-de som e rythmo que o fazia com frequencia cantarolar, em voz baixa,
-pequenas phrases musicaes, quasi sempre erradas, mas sempre impregnadas
-das mais patheticas inflexões.</p>
-
-<p>Os versos que compunha tinham um enorme relevo pela originalidade da
-concepção e das imagens, e conservavam ainda a fluencia romantica,
-apaixonada, phantastica, dos primeiros escriptos, quando já elle a
-havia quasi inteiramente eliminado da sua prosa realista. Mas teve
-sempre grande difficuldade em comprehender e sentir os processos
-technicos da metrificação.</p>
-
-<p>São exactamente do periodo dos escriptos colligidos no presente volume
-as linhas seguintes que deviam, na intenção do author, ser versos
-alexandrinos:<a id="FNanchor_35" href="#Footnote_35" class="fnanchor">[35]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xli">[xli]</span></p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Oh Satan tenebroso, tragico fulminado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tu vencerás em mim o intimo Deus bom</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Não com as armas biblicas com que bateste os astros,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas vindo unicamente vestido á Benoiton.</span><br />
-</p>
-
-<p>Mas é de pouco depois a seguinte admiravel poesia, mais tarde publicada
-com a assignatura de C. Fradique Mendes:<a id="FNanchor_36" href="#Footnote_36" class="fnanchor">[36]</a></p>
-
-
-<p class="center">Serenata de Satan ás estrellas</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Nas noites triviaes e desoladas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como vos quero, mysticas estrellas!...</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lucidas, antigas camaradas...</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Gotas de luz no frio ar nevadas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Podesse a minha boca inda bebel-as!</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Não vos conheço já. Por onde eu ando!...</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Sois vós, mysticos pregos d'uma cruz,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Que Christo estaes no Céo crucificando?</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quem triste pelo ar vos foi soltando</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Profundos, soluçantes ais de luz!</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh viagem nas nuvens desmanchadas!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Doces serões do Céo entre as estrellas!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Hoje só ais, ou lagrimas caladas...</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ai! sementes de luz mal semeadas,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ave do Céo, podesse eu ir comel-as!</span><br />
-</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_xlii">[xlii]</span></p>
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Triste, triste loucura, oh flor's da cruz,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando vos eu dizia soluçando:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">—Afastai-vos de mim cardos de luz!—</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Podesse eu ter agora os pés bem nus,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Inda por entre vós i-los rasgando!</span><br />
-<br /></p>
-<hr class="tb" /><p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Hoje estou velho, e só, e corcovado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Causa-me espanto a sombra d'uma estola;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Enche-me o peito um tedio desolado:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E corro o mundo todo, esfomeado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Aos abutres do Céo pedindo esmola.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Eu sou Satan o triste, o derrubado!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas vós estrellas sois o musgo velho</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Das paredes do Céo deshabitado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E a poeira que se ergue ao ar calado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando eu bato com o pé no Evangelho!</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">O Céo é Cemiterio trivial:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vós sois o pó dos deuses sepultados!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Deuses, magros esboços do ideal!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só com rasgar-se a folha d'um missal,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Vós cahis mortos, hirtos, gangrenados.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Eu sou expulso, roto, escarnecido;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas a vós já ninguem vos quer as leis</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Oh! velho Deus, oh! Christo dolorido!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lembrae-vos que sois pó enegrecido</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E cedo em negro pó vos tornareis.<a id="FNanchor_37" href="#Footnote_37" class="fnanchor">[37]</a></span><br />
-</p>
-
-<p>Dois episodios mostrarão o seu então quasi permanente desejo de
-improvisação poetica:</p>
-
-<p>Uma noute, no verão de 1867 ou 1868, depois de<span class="pagenum" id="Page_xliii">[xliii]</span> cear, o Eça de Queiroz,
-o Salomão Saragga e eu, fômos de passeio, conversando, até Belem.</p>
-
-<p>A noute estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.</p>
-
-<p>Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos á praia da Torre.</p>
-
-<p>Quasi varado na areia, havia um barco. Mettemos-nos dentro. A maré
-enchente fez-nos fluctuar.</p>
-
-<p>Ahi continuámos a nossa conversação até que o dia appareceu e o sol se
-levantou por detraz da casaria e dos altos de Lisboa.</p>
-
-<p>Desembarcámos então e dirigimos-nos para Belem, com fome, em
-busca d'uma Taberna ou Restaurante. Queriamos almoçar alli mesmo,
-continuando, á beira do rio, a nossa discussão. Mas conheciamos os
-nossos tres apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que elle
-apenas pagaria um insufficiente repasto.</p>
-
-<p>Que fazer?</p>
-
-<p>—Tenho uma ideia, disse o Eça de Queiroz,—fazendo o gesto consagrado
-de bater na testa.—Tenho uma ideia genial,—accrescentou, erguendo
-tremulamente os braços ao Céo:—Sigam-me.</p>
-
-<p>E negro, esguio, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse,
-com passos largos e rythmicos, que pareciam saltar obstaculos
-invisiveis, a sombra da figura esguia e immensa, projectada pelos raios
-horizontaes do sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção á
-calçada que leva de Belem á Ajuda.</p>
-
-<p>Salomão Saragga e eu iamos atraz, famelicos, murmurando.</p>
-
-<p>Seriam quasi 5 horas da manhã.</p>
-
-<p>Junto da Egreja da Memoria o Eça de Queiroz<span class="pagenum" id="Page_xliv">[xliv]</span> dirigiu-se a uma casa
-baixa, de janellas cerradas, e bateu.</p>
-
-<p>Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus
-somnos.</p>
-
-<p>O Eça de Queiroz explicou-nos:</p>
-
-<p>—Móra aqui o Mancilia a quem vamos dár um <i>tiro</i>. Só elle nos
-póde salvar, n'este deserto.</p>
-
-<p>E continuou a bater durante minutos.</p>
-
-<p>Por fim ouviu-se fallar dentro da casa. Alguem abrio a porta
-resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho,
-e uns olhos, entre terriveis e risonhos, sob uma grande trunfa de
-caracoes desordenados. Era o Lourenço Malheiro.</p>
-
-<p>—Menino, contou o Eça de Queiroz, estamos esfomeados após muitas
-horas de incalculavel creação romantica. Jurámos não morrer antes de
-produzirmos 3 obras de genio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar.
-Mas olha lá... Communicámos toda a noute, espectralmente, no Restello,
-com as armadas portuguezas que d'alli fôram ao descobrimento da India
-e do Brazil: Dá-nos pois dinheiros antigos e suggestivos,—sequins,
-dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos...</p>
-
-<p>O Malheiro foi dentro e trouxe tres moedas de cinco tostões.</p>
-
-<p>—Ouvirás fallar da tua generosa dadiva, Mancilia,—disse o Eça de
-Queiroz apertando-lhe as mãos com commoção e solemnidade.</p>
-
-<p>Voltámos a Belem.</p>
-
-<p>E, emquanto na cosinha da Taberna, onde bebiam marinheiros e uma
-guitarra gemia phrases do Fado, se preparava a pescada com batatas e a
-caldeirada que encommendáramos,<span class="pagenum" id="Page_xlv">[xlv]</span> o Eça de Queiroz e eu, n'um quarto do
-primeiro andar, organisavamos o seguinte problema cuja glosa e solução
-seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Christo deu-nos o amor,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Robespierre a liberdade;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Malheiro deu-nos tres pintos:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Qual d'elles deu a verdade?</span><br />
-</p>
-
-<p>O Salomão Saragga fez-nos uma sabia dissertação sobre a prosa rythmica
-dos livros hebraicos e declarou-nos que, como Semita puro, não pudera
-jámais fazer versos,—mas comporia, para o caso memoravel, um Psalmo
-penitenciario sobre a vaidade da pescada cosida e das caldeiradas
-humanas.</p>
-
-<p>Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em 4
-decimas, cantadas alli logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a
-ouvir-se gemer na cosinha ao rés-do-chão.</p>
-
-<p>Perderam-se estas decimas que com effeito sobrescriptámos para o
-Lourenço Malheiro, e duas das quaes, escriptas pelo Eça de Queiroz,
-eram d'uma graça scintillante.</p>
-
-<p>D'outra vez dois dos nossos amigos,—o capitão João de Sá e o
-Zagallo,—convenceram-nos a irmos com elles a uma espera de touros.</p>
-
-<p>Na volta, de madrugada, abancámos a cear n'uma tasca ao Arco do Cego.
-Eramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Appareciam amigos, conhecidos,
-desconhecidos. Nós, expansivamente, iamos convidando. Elles iam
-comendo, bebendo, desapparecendo. Quando rompeu o dia e quizemos nós
-mesmos partir, descobrimos que<span class="pagenum" id="Page_xlvi">[xlvi]</span> haviamos gasto, em bacalhau e Collares,
-um dinheirão que não tinhamos na algibeira.</p>
-
-<p>Comeramos n'um pateo onde havia gallinhas, perto d'uma horta com couves
-e uma parreira. Ao lado, dava para esse pateo uma casa estreita, sem
-vidraças, onde se guardava fructa, legumes seccos e feno.</p>
-
-<p>O Eça de Queiroz e eu, já somnolentos, resolvêmos esperar alli, até á
-tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagallo nos viessem desempenhar
-com o dinheiro necessario a pagar as nossas dividas.</p>
-
-<p>Cerca do meio dia acordavamos sobre os mólhos aromaticos do feno,
-rodeados por gallinhas e pombos familiares. As paredes da casa
-onde dormiramos eram caiadas. Então,—depois de almoçarmos ainda a
-credito,—com dois lapis, comendo fructa, começámos a cobrir as paredes
-com um longo poema, indeterminado, lyrico, humoristico, tristissimo
-e hilariante, mixto, como genero, do <i>Childe Harold</i> e <i>D.
-Juan</i> de Byron, do <i>Mardoche</i> e <i>Namouna</i> de Musset, do
-<i>Intermezzo</i> de Heine, e da <i>Fabia</i> de Francisco Palha. Este
-exercicio durou por 4 ou 5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, até
-á altura de homem, cobertas de versos.</p>
-
-<p>Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do
-Eça de Queiroz n'esta collaboração extravagante. Lembro-me nitidamente
-de que havia n'ella trechos espantosos pelas imagens originaes, pela
-phantasia, pela graça, pelo inesperado.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xlvii">[xlvii]</span></p>
-
-
-<h3>VIII</h3>
-
-<p>Ainda dormiamos, um dia que o Eça de Queiroz ficára em minha casa,
-quando á porta do quarto apareceu uma pequena cabeça de cabello muito
-curto, faces pallidas, feições miudas, ligeiro buço sobre os beiços
-grossos, e uns olhos pequenos, piscos, risonhos e maliciosos. Por
-cima d'esta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz
-aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo
-uma terceira cabeça rosada, de olhos avermelhados, cabello aos caracoes
-louros, bigode lourissimo pendente.</p>
-
-<p>Acordámos.</p>
-
-<p>—Luiz! Manoel! exclamou o Eça de Queiroz bocejando.</p>
-
-<p>—Chavarro! Conclui eu sentando-me na cama.</p>
-
-<p>Eram o conde Luiz de Rezende, seu irmão Manoel,<a id="FNanchor_38" href="#Footnote_38" class="fnanchor">[38]</a> o João de Souza
-Chavarro.<a id="FNanchor_39" href="#Footnote_39" class="fnanchor">[39]</a></p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_xlviii">[xlviii]</span></p>
-
-<p>—Chegámos do Porto. Vimos buscal-os para jantar, disse o conde de
-Rezende.</p>
-
-<p>N'essa noute jantámos no José Manoel, ao Caes do Sodré,—um Restaurante
-celebre, a preço fixo, onde nós causavamos devastação e horror, pela
-quantidade inverosimil do que comiamos, discutindo toda a sorte de
-assumptos inintelligiveis.</p>
-
-<p>N'esse jantar demonstrou-se o vasto ridiculo do <i>Romantismo</i>,
-descreveu-se, discutiu-se e approvou-se o <i>Realismo</i> na arte,
-fez-se a apologia violenta e clamorosa da frieza, da impassibilidade,
-da serenidade critica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no
-estylo, na toilette,—a apotheose de todas as correcções. Terminámos,
-depois da meia noute, abraçando effusivamente o velho Andrews,—o
-inglez que tinha uma lenda mysteriosa, e que alli jantou, durante
-annos, despejando por noute, em silencio, com methodo, lentidão e
-continuidade, 3 garrafas de vinho do Porto.</p>
-
-<p>Tempos depois o Eça de Queiroz partia em viagem com o conde de
-Rezende:—<i>Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et le
-chevalier de Queiroz</i>,—diziam jornaes do Cairo. Assistiram á
-inauguração do Canal de Suez, visitaram o Egypto e a Palestina.</p>
-
-<p>Na Primavera de 1869, estavamos uma tarde,—o Anthero de Quental e
-eu,—na casa que então habitavamos a São Pedro de Alcantara, quando
-entrou o Eça de Queiroz que chegára, havia pouco, do Oriente, e ainda
-não viramos:</p>
-
-<p>Trajava uma longa sobrecasaca aberta; cobria-lhe o peito, em relevo,
-um <i>plastron</i> que nos pareceu enorme, sobre o qual se erguia um
-collarinho altissimo, onde a custo a cabeça se movia. Os punhos, que os
-botões uniam<span class="pagenum" id="Page_xlix">[xlix]</span> pelo centro com uma corrente de ouro, encobriam grande
-parte das mãos mettidas em luvas amarellas muito claras. Vestia calças
-claras, arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas
-pintas amarellas e sapatos muito compridos, inglezes, de polimento.
-Tinha na cabeça um chapeu alto, de pello de seda brilhantissimo. E
-olhava-nos com um monoculo que lhe estava sempre a cahir e que elle
-por isso, abrindo a boca em esgares sarcasticos, a miudo reentalava no
-canto do olho direito.</p>
-
-<p>Abraçámol-o com enthusiasmo—e cobrimol-o de epigramas.</p>
-
-<p>Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos typos, scenas nos
-bazares do Cairo, no deserto egypcio,—os guias, os cheiks, e á noute,
-em volta das fogueiras, os camellos, «de expressão humoristica,
-sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador,
-por sobre os hombros dos beduinos attentos, graves e encruzados.</p>
-
-<p>Contou-nos, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o uso
-do <i>Haschich</i>, e as visões phantasticas que nos preparava,—por
-que elle e o conde de Rezende haviam trazido <i>Haschich</i> em geleia,
-em bolos, e em pastilhas que se fumavam n'uns cachimbos especiaes.</p>
-
-<p>Mas pretendia haver voltado doentissimo, de uma extrema debilidade, de
-uma morbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de continuo, um
-grande lenço perfumado de seda branca com que limpava a testa, cofiava
-a barba, que atirava sobre a mesa, interrompendo-se para entalar o
-monoculo e exclamar em voz desmaiada:</p>
-
-<p>—Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu deliquio! o meu
-<i>apoplêté</i>! Meninos, depressa, os meus saes... onde estão os meus
-saes?!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_l">[l]</span></p>
-
-<p>E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de saes que
-aspirava soffregamente.</p>
-
-<p>Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de
-Queiroz: mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando
-elle conversava, quando elle contava, quando elle representava algum
-personagem que quizesse imitar ou a que quizesse dar vida. Parecia, com
-o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de replica, de
-graça, o representante d'uma raça especial fallando em Portugal uma
-lingua nova.</p>
-
-<p>Ouvimol-o toda aquella tarde, fômos jantar com elle,—não o podiamos
-largar.</p>
-
-<p>As ideias estheticas de Eça de Queiroz haviam-se, a esse tempo,
-profundamente modificado.</p>
-
-<p>Citava especialmente a <i>Salammbó</i> e a <i>Tentação de Santo
-Antão</i> de Gustavo Flaubert. Preoccupava-se com a perfeição da forma,
-com a realisação da côr, segundo este litterato. Lia tambem a <i>Vida
-de Jesus</i>, o <i>São Paulo</i>, de Ernesto Renan, e as <i>Memorias de
-Judas</i>, de Petrucelli della Gattina.</p>
-
-<p>Foi sob estas influencias que,—com as impressões locaes da sua recente
-viagem á Palestina,—começou em Lisboa, a escrever a <i>Morte de
-Jesus</i>, publicada em folhetins, na <i>Revolução de Setembro</i>, de
-13 de Abril a 8 de Julho de 1870.</p>
-
-<p>Mas havia escripto, além do que se publicou,—uns capitulos que elle me
-leu, e depois sem duvida destruiu ou se perderam.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_li">[li]</span></p>
-
-
-<h3>IX</h3>
-
-<p>Entre os <i>Folhetins</i> da <i>Gazeta de Portugal</i> e a <i>Morte de
-Jesus</i> na <i>Revolução de Setembro</i>, medeiam quasi 3 annos.</p>
-
-<p>Passou mais tempo ainda. A evolução critica do espirito d'Eça de
-Queiroz continuava.</p>
-
-<p>Um dia veio mostrar-nos, ao Anthero de Quental e a mim, o primeiro
-esboço, muito desenvolvido,—tão extenso que levou varias noutes a
-ler,—d'um romance intitulado <i>Historia d'um lindo corpo</i>.</p>
-
-<p>Foi a sua primeira tentativa de Litteratura realista. A ideia da obra
-era, até certo ponto, se bem me recordo, a do <i>Affaire Clémenceau</i>
-de Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte, devida
-á influencia dos processos da <i>Madame Bovary</i>, e da <i>Educação
-Sentimental</i> de Gustavo Flaubert.</p>
-
-<p>Pouco depois,—em 1871,—Eça de Queiroz descrevia n'uma das
-<i>Conferencias democraticas</i> do Casino, <i>o Realismo na arte</i>,
-expondo as ideias em parte praticadas por<span class="pagenum" id="Page_lii">[lii]</span> Flaubert e Courbet, e
-theoricamente descriptas, por Proudhon, no livro <i>Do principio da
-arte e do seu destino social</i>.</p>
-
-<p>O fim da Arte é, desde então, para Eça de Queiroz, a reprodução
-exacta da natureza, da realidade, impessoalmente, impassivelmente.
-A intervenção da ironia representa a fórma superior, a unica fórma
-admissivel da opinião se manifestar e a correção para qualquer excesso
-de sentimento.</p>
-
-<p>Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos
-antigos <i>Contos phantasticos</i> da <i>Gazeta de Portugal</i> e lhe
-reli, se não me engano, <i>As memorias d'uma forca</i>.<a id="FNanchor_40" href="#Footnote_40" class="fnanchor">[40]</a></p>
-
-<p>Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queiroz soltava gargalhadas
-sarcasticas, gritos de indignação contra as imagens, o assumpto,
-o estylo: não comprehendia como podesse ter escripto assim, tão
-pessoalmente, tão apaixonadamente, com tanto desleixo—dizia elle,—na
-construcção da phrase e no emprego dos vocabulos.</p>
-
-<p>Mas depois d'uma longa discussão concluiu dizendo:</p>
-
-<p>—Tens talvez razão,—está claro, tens razão. Talvez se deva republicar
-isso em livro;—mas sob o titulo critico e severo de <i>Prosas
-barbaras</i>.</p>
-
-<p>Não pertence a esta Introducção descrever as subsequentes phases do
-desenvolvimento esthetico, e da obra litteraria de Eça de Queiroz, e eu
-devo resistir á tentação de mostrar aqui como elle foi um dos artistas
-mais eminentes da Litteratura portuguesa de todos os tempos,—e de
-todas as Litteraturas, nos ultimos annos do seculo XIX.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_liii">[liii]</span></p>
-
-<p>Juntarei ainda, apenas, uma ultima recordação:</p>
-
-<p>Eu lamentava sempre muito que Eça de Queiroz houvesse abandonado
-o mundo das creações phantasticas onde a sua imaginação tão
-maravilhosamente vivêra.</p>
-
-<p>Um dia, no verão de 1891, foi o Eça de Queiroz a minha casa,—por esse
-tempo, em Vaucresson, n'uma clareira da floresta de Saint Germain, não
-longe de Paris. Então, passeando sob as arvores do macisso de alto
-fuste que rodeia os Lagos romanticos de Saint Cucufas, contou-me elle:</p>
-
-<p>—«Saberás, por ventura com satisfação, que estou seguindo o
-teu antigo conselho: Ennevoei-me, outra vez, totalmente, no
-phantastico,—n'aquelle velho phantastico da <i>Gazeta de Portugal</i>,
-feito agora com menos <i>abutres</i>, e em <i>prosa</i> talvez menos
-<i>barbara</i> que então: Estou escrevendo a vida diabolica e milagrosa
-de São Frei Gil;—e por signal,—dir-to-hei agora aqui, quando
-justamente nos achamos sob arvoredos,—que a nossa riquissima lingua
-portugueza me parece deficiente em côres com que se pintem selvas;—e
-tambem te confiarei que, tendo mettido, por minhas proprias mãos, o
-santo bruxo n'uma floresta, não sei como o hei-de tirar de lá».</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>Cintra, Setembro de 1903.</p>
-</div>
-
-<p class="right">
-<i>Jayme Batalha Reis.</i><br />
-</p>
-<div class="footnotes">
-
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Hoje, travessa do Gremio Luzitano.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> Veja-se Eça de Queiroz. <i>Um genio que era um Santo.
-Anthero de Quental. In memoriam</i>—Porto, 1896, pp. 499-502; J.
-Batalha Reis, <i>Annos de Lisboa</i>, Idem, 442-445.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Hoje, rua do Diario de Noticias.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_4" href="#FNanchor_4" class="label">[4]</a> Pag. 107 do presente livro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_5" href="#FNanchor_5" class="label">[5]</a> Veja-se p. 133 do presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_6" href="#FNanchor_6" class="label">[6]</a> 3 de Novembro de 1867, p. 142 do presente volume. Veja-se
-tambem a <i>Carta a Carlos Mayer</i>, pp. 133-145.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_7" href="#FNanchor_7" class="label">[7]</a> «Na Europa o Sul representa ... a maneira de ser exterior,
-como o Norte representa o vago sentimento intimo...» Eça de Queiroz,
-<i>Da Pintura em Portugal</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 10 de
-Novembro de 1867.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_8" href="#FNanchor_8" class="label">[8]</a> «... nós ... os que estamos n'este canto da velha terra
-portugueza, com a alma serena, sob o céo claro...» Eça de Queiroz,
-<i>Symphonia de Abertura</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 7 de outubro,
-1866.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_9" href="#FNanchor_9" class="label">[9]</a> «du Heine de deuxième qualité». Anthero de Quental,
-<i>Carta a Wilhelm Storck</i>, 14 maio 1887.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_10" href="#FNanchor_10" class="label">[10]</a> Pp. 27-43 do presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_11" href="#FNanchor_11" class="label">[11]</a> H. Heine, <i>Reisebilder</i>. <i>Les nuits
-florentines</i>, <span class="allsmcap">II</span>, 316-330, (cito a traducção franceza que
-Eça de Queiroz conheceu).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_12" href="#FNanchor_12" class="label">[12]</a> Pp. 2-13 do presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_13" href="#FNanchor_13" class="label">[13]</a> Veja-se pp. 8, <span class="allsmcap">XV</span>; 10, <span class="allsmcap">XX</span>; e
-<i>passim</i>, no presente volume.</p>
-
-<p>«Luzia um grande sol, mas negro; o sol da melancolia...» <i>Symphonia
-de abertura</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 7, outubro, 1866.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_14" href="#FNanchor_14" class="label">[14]</a> Veja-se pp. 5, <span class="allsmcap">VIII</span>; 89, 98 e <i>passim</i> do
-presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_15" href="#FNanchor_15" class="label">[15]</a> «...Baudelaire, poeta rethorico,...» A. Z. (Eça de
-Queiroz) <i>Leituras modernas</i>. <i>Districto d'Evora</i>, 6, janeiro
-1876, p. 2.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_16" href="#FNanchor_16" class="label">[16]</a> Vejam-se pp. 112, 120-121, 122, 131.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_17" href="#FNanchor_17" class="label">[17]</a> Vejam-se pp. 93-101 do presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_18" href="#FNanchor_18" class="label">[18]</a> <i>O Monge</i>, destruida pelo author e nunca publicada.</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">... aux voûtes gothiques</span><br />
-<span style="margin-left: 7em;">Des portiques,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Les vieux saints de pierre athlétiques</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Priant tout bas pour les vivants!</span><br />
-</p>
-
-<p>
-<span style="margin-left: 1em;"><span class="smcap">A. de Musset</span>, <i>Premières Poésies, Stances, 1828</i>.</span><br />
-</p>
-
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_19" href="#FNanchor_19" class="label">[19]</a> Não incluido no presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_20" href="#FNanchor_20" class="label">[20]</a> Com o titulo «A Peninsula» no presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_21" href="#FNanchor_21" class="label">[21]</a> Não incluido no presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_22" href="#FNanchor_22" class="label">[22]</a> Tem uma Introducção omittida no presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_23" href="#FNanchor_23" class="label">[23]</a> Tem uma epigraphe e primeira parte omittidas no presente
-volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_24" href="#FNanchor_24" class="label">[24]</a> Tem uma pequena introducção omittida no presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_25" href="#FNanchor_25" class="label">[25]</a> Tem uma parte critica relativa ao cantor Julio Petit
-omittida no presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_26" href="#FNanchor_26" class="label">[26]</a> <i>Gazeta de Portugal.</i> 7 de outubro 1866.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_27" href="#FNanchor_27" class="label">[27]</a> «Constelações, gotas de sombra», p. 100 do presente
-livro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_28" href="#FNanchor_28" class="label">[28]</a> Veja-se Victor Hugo, <i>William Shakespeare</i>;
-principalmente, <i>Livre</i> II; <i>Les Génies</i>, II. Veja-se tambem
-p. 22 do presente volume.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_29" href="#FNanchor_29" class="label">[29]</a> Veja-se, p. 20 d'este volume, uma outra definição de
-Musica.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_30" href="#FNanchor_30" class="label">[30]</a> «Oh, egoismo humano, os que vão morrer saudam-te», Eça
-de Queiroz, <i>O Milhafre, Introducção, Gazeta de Portugal</i>, 6 de
-outubro de 1867.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_31" href="#FNanchor_31" class="label">[31]</a> <i>De l'Allemagne.</i> <i>Les Dieux en exil</i>, IX
-partie, pp. 181-242 (cito a traducção franceza que Eça de Queiroz
-conheceu).</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_32" href="#FNanchor_32" class="label">[32]</a> <i>La Sorcière.</i></p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_33" href="#FNanchor_33" class="label">[33]</a> Veja-se p. 6, XIII, do presente livro.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_34" href="#FNanchor_34" class="label">[34]</a> As visões «são as attitudes phantasticas e desmanchadas
-que a sombra dá ás verdades», p. 91 do presente livro.</p>
-
-<p>«... à ceux qui ont mis leur foi dans les rêves comme dans les seules
-réalités.» Edgar Allan Poe, Eureka. trad. de Ch. Baudelaire.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_35" href="#FNanchor_35" class="label">[35]</a> <i>Omphalia Benoiton</i>, <i>Gazeta de Portugal</i>, 15
-Dezembro, 1867.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_36" href="#FNanchor_36" class="label">[36]</a> Os versos citados na <i>Revista Moderna</i> (20, Novembro
-1897, p. 324) não são de Eça de Queiroz. Nunca elle publicou na
-<i>Revolução de Setembro</i>, em folhetins,—como tambem na <i>Revista
-Moderna</i> se affirma,—os primeiros cantos d'um poema, <i>A tentação
-de S. Jeronymo</i>. Existe, com effeito, de Eça de Queiroz, mas
-inedito, um poemeto sobre este assumpto.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_37" href="#FNanchor_37" class="label">[37]</a> <i>Revolução de Setembro</i>, 29 de Agosto de 1869.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_38" href="#FNanchor_38" class="label">[38]</a> Hoje conde de Rezende.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_39" href="#FNanchor_39" class="label">[39]</a> Official da marinha real portuguesa, e desde 1881, Consul
-geral de Portugal nas ilhas Sandwich.</p>
-
-</div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_40" href="#FNanchor_40" class="label">[40]</a> Vejam-se pp. 161-172 do presente volume.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_1">[1]</span></p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p class="center xbig">PROSAS BARBARAS</p>
-</div>
-<hr class="r5" />
-<h2 class="nobreak" id="NOTAS_MARGINAES">NOTAS MARGINAES</h2>
-
-
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">...... d'este lado do rio</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">...... o namorado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E a moça dos olhos pretos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">...... do outro lado.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas o rio era profundo,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Não se podiam juntar.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nunca o sol encontra a lua.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Tal andava aquelle par.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">............. flores</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">..... á agua iam dar;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">........ os beijos</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ficavam todos no ar.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">A moça ...............</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Disse adeus ao namorado;</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E foi ................</span><br />
-<span class="pagenum" id="Page_2">[2]</span><span style="margin-left: 1em;">...... bandas do povoado.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Elle ficou amarello,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como a vela d'um altar.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas se o rio ..........</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Não se podiam juntar.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Anoiteceu..............</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Por alli andou penando:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E por fim lançou-se ao rio,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o rio ...............</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">.........................</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">.........................</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas as flores foram prender-se</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Nas suas mãos côr de cera.</span><br />
-</p>
-
-<p>Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restos d'uma velha
-cantiga, alguem escreveu estas notas desordenadas e extranhas:</p>
-
-
-<h3>I</h3>
-
-<p>Ó dôce cantiga dos namorados da beira do rio, tu és uma verdade sempre
-nova! Ainda hoje o triste anda penando nas aguas escuras; e os teus
-olhos, ó serena rapariga, são eternamente falsos!</p>
-
-<p>Não era assim que eu pensava no tempo d'aquelles nossos amores, ó nome
-que eu não escrevo! d'aquelles amores tão dôces como a suavidade das
-nossas noites d'outomno—tão coloridos e vagos como aquellas nuvens,
-que sempre no ar andavamos formando e desmanchando!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_3">[3]</span></p>
-
-
-<h3>II</h3>
-
-<p>Ó voluptuosidade! tu és a imagem do Oceano nos teus caprichos. Agora
-embalas-te, dôcemente doirada com os ultimos raios do sol: depois
-dormes tranquilla, aos calores silenciosos: por fim agitas-te, cheia de
-tempestades.</p>
-
-
-<h3>III</h3>
-
-<p>E, quando eu te via, não via mais as flôres, nem as pombas, nem as
-estrellas: mas, quando pensava em ti, via-te delicada como todas
-as flores, voluptuosa como todas as pombas, luminosa como todas as
-estrellas.</p>
-
-
-<h3>IV</h3>
-
-<p>Ás vezes, solitario e silencioso, via passar na sombra, diante
-de mim, como uma legião d'inspirações rhapsodicas, os teus olhos
-humidos, como violetas debaixo d'agua—depois os teus braços da côr do
-marmore—depois os teus cabellos negros e fluctuantes... Em fim, sobre
-um fundo maravilhoso, tu apparecias superiormente serena, perfeita e
-luminosa!</p>
-
-
-<h3>V</h3>
-
-<p>De cada um dos teus desejos nascia uma flôr.</p>
-
-<p>E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam dôcemente
-aquellas flôres marginaes.</p>
-
-<p>E as flôres cresciam, cresciam até se tornarem magnolias grandes; o
-vento tomava-as preguiçosamente<span class="pagenum" id="Page_4">[4]</span> pela haste; e ellas, inclinando os
-seus rostos pallidos, contavam-lhe os perfumes de mais segredo.</p>
-
-<p>E as magnolias iam crescendo até se tornarem n'uma arvore immensa.
-Então o vento enroscava-se no tronco, insinuava-se nos ramos, e fazia
-palpitar as folhas sonoras.</p>
-
-<p>E então a arvore estremecia, como n'um sonho agitado; depois
-adormecia—e dava em redor uma sombra serena e consoladora.</p>
-
-
-<h3>VI</h3>
-
-<p>Quando te vejo, despertam no meu pobre coração as melodias e as dôces
-melancolias d'amor, como na primavera se reanimam as aves e desabrocham
-as violetas.</p>
-
-<p>Quando me fallas, tudo se alumia com constellações apaixonadas, e
-parece que passam dentro de mim todos os aromas das magnolias.</p>
-
-<p>Mas se me dizes que <i>me queres muito</i>, sinto que vem logo um
-estranho inverno descorar-me as faces, desfolhar-me a alma de todas as
-emoções, e cobrir de geada todos os loucos desejos.</p>
-
-<p>Oh! nunca me digas que <i>me queres muito</i>!</p>
-
-
-<h3>VII</h3>
-
-<p>Tua irmã é carinhosa, e dôce, e meiga, e casta, e consoladora.</p>
-
-<p>Tu és altiva, inquieta, e desdenhosa.</p>
-
-<p>Tua irmã!... Mas se ella não tem o timbre suave da tua voz, o luminoso
-fulgor dos teus olhos, a côr<span class="pagenum" id="Page_5">[5]</span> mimosa dos teus cabellos! Mas se ninguem
-tem a santa, a purificadora brancura da tua fronte!</p>
-
-
-<h3>VIII</h3>
-
-<p>Os teus olhos negros são como duas flores do mal. Os seus olhos azues
-são como duas dôces elegias.</p>
-
-<p>E a flor do lotus, a apaixonada flor do lotus, sómente se abre á doçura
-immensa da lua!</p>
-
-
-<h3>IX</h3>
-
-<p>Oh! minha bem amada! eu já vi os teus olhos brilharem dolorosamente,
-como duas estrellas negras de melancolia: tinhas tu então rasgado um
-veu côr de papoula, que te cobria.</p>
-
-
-<h3>X</h3>
-
-<p>Tu estavas na egreja, curvada e perdida nas tuas orações, como uma
-fidalga hespanhola.</p>
-
-<p>Tinhas um olhar velado e piedoso, um olhar que só dizia—<i>Jesus!</i></p>
-
-<p>Mas nos labios tinhas um colorido avelludado e luminoso, como o das
-flores vermelhas mettidas na agua; e na linha de sombra dos teus labios
-corria um sorriso, que só dizia—<i>amor!</i></p>
-
-<p>Talvez um dia ainda te encontre na egreja. Sómente, então, os
-teus labios estarão descorados como a fadiga e timidos como o
-arrependimento. Sómente, então, os teus olhos estarão fixos como os dos
-esfomeados,<span class="pagenum" id="Page_6">[6]</span> e terão aquella luz desejosa e ávida, que têm as estrellas.</p>
-
-
-<h3>XI</h3>
-
-<p>Foi debaixo das arvores. Voavam as pombas brancas. Morriam aromas de
-violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva.</p>
-
-<p>Foi lá que me disseste aquellas palavras, que me pareceram uma
-blasphemia que te vinha do coração. Eu fiquei hirto e nullo, como um
-sacerdote esbofeteado pelo seu Deus!</p>
-
-
-<h3>XII</h3>
-
-<p>Eu tinha o rosto coberto de lagrimas: e ella compunha as prégas do seu
-vestido!</p>
-
-<p>Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas
-pequenas—as pobres ondas!—soluçando, choravam sobre a areia.</p>
-
-
-<h3>XIII</h3>
-
-<p>Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas,
-que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e
-a sua nudez era doce e melodiosa.</p>
-
-<p>Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande
-Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos,
-as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias;
-serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_7">[7]</span></p>
-
-<p>Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e
-envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da
-frescura das plantas.</p>
-
-<p>Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades
-de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma
-apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens.
-E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e
-avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que
-vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam,
-junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como
-aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!</p>
-
-<p>Esta historia é de ha seiscentos annos—e de hontem á noite...</p>
-
-
-<h3>XIV</h3>
-
-<p>Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pelle macia.</p>
-
-<p>Todos os teus pensamentos se moviam n'uma comedia extravagante e solta.</p>
-
-<p>Abafavas burguezmente a musica do teu corpo em chailes pesados e largas
-saias: e a seda dos teus vestidos tinha um fremito indefinido de
-sarabanda—e de cachucha.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_8">[8]</span></p>
-
-
-<h3>XV</h3>
-
-<p>Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrellas,
-como grandes olhos curiosos, espreitavam atravez da folhagem. Eu
-era o tenebroso, o inconsolavel, o viuvo. Errava pela floresta, e
-a espaços cantava uma canção vagamente triste como o susurro dos
-cyprestes:—depois dizia palavras iradas, e asperas como os cardos;—e
-mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saía-me
-pelos labios, como uma açucena branca que se abre dentro de um copo, e
-que o enche.</p>
-
-<p>E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem amada! os ramos
-estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar ás
-cantigas, ás iras e ás orações todas os caminhos do ceu.</p>
-
-
-<h3>XVI</h3>
-
-<p>Tu pensavas que o teu amor me envolvia mollemente como um largo vestido
-de seda, todo forrado de arminhos.</p>
-
-<p>E um dia, ó minha bem amada de cabellos côr de amora! viéste despir-m'o
-de golpe, com um rosto colorido de risos.</p>
-
-<p>Mas o vestido estava collado ao corpo—vinte vezes collado ao corpo: e
-tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me
-jorros de sangue, e arrancou-me os cabellos, e deixou-me, ó minha bem
-amada de braços d'aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_9">[9]</span></p>
-
-
-<h3>XVII</h3>
-
-<p>Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras
-para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és
-tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra.</p>
-
-
-<h3>XVIII</h3>
-
-<p>Eu abri aquelle coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri
-lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia,
-como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de
-folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por
-cima da folhagem mugidora esvoaçava, baloiçada por ventos immensos,
-uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam
-com os ossos dos cotovelos as carnes molles, e lambiam o sangue que
-escorria das orbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e
-desfallecidas em voluptuosidades mais morbidas do que os orvalhos da
-lua.</p>
-
-<p>Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado,
-pequeno, e feminino;—e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que
-lhe dei um beijo!</p>
-
-
-<h3>XIX</h3>
-
-<p>Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios—e olhava para as
-nuvens.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_10">[10]</span></p>
-
-<p>Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante.</p>
-
-<p>Outr'ora—ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aereas das
-nixes por entre a musica dos cannaviaes! ó ondinas humidas! ó danças
-nebulosas das wilis! ó espiritos gentis e vaporosos, que andaveis
-nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecieis dentro
-do calice dos lirios brancos, embalados como n'um berço! ó dôces e
-enganadoras creaturas, que povoaveis e alumiaveis tudo como estrellas
-romanticas!—outr'ora os rios, o ceu e os arvoredos encobriam-vos, ó
-invisiveis! mas como em tecido fino, que deixa passar todos os aromas e
-todas as côres.</p>
-
-<p>E agora os rios, o ceu, os arvoredos estão desertos.</p>
-
-<p>Os arvoredos só contam, como velhos palradores, historias de gigantes,
-loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da
-folhagem.</p>
-
-<p>O ceu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos
-serios d'um craneo immenso.</p>
-
-<p>Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher.</p>
-
-
-<h3>XX</h3>
-
-<p>Andamos todos soffrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados
-pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bençãos fecundas.
-A esperança fugiu para além das estrellas, das nuvens e dos caminhos
-lacteos. Nos corações nascem amores<span class="pagenum" id="Page_11">[11]</span> sombrios e loucos. E tudo porque
-um dia nasceu uma creança estranha, que foi alimentada com um leite
-morbido como a lua, e envolta n'uma tunica livida como a morte!</p>
-
-
-<h3>XXI</h3>
-
-<p>Onde estará ella agora—a minha bem-amada, aquella creança de olhar
-profundo?</p>
-
-<p>Era n'aquellas almofadas que ella se recostava: era por alli que ella
-passava—e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e
-perfumavam.</p>
-
-<p>A pé! a pé! meus desejos! Acordae, acordae, e ide buscar-m'a! Accendei
-todas as estrellas, e ide procural-a pelos caminhos escuros! Desgrenhae
-os cabellos verdes das florestas! Assoprae a espuma das ondas!
-Dispersae as multidões! Quebrae os encantos! Ide procural-a pelos
-astros! Despedaçae as tendas aereas, onde vivem os sonhos!</p>
-
-<p>Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando solitario e
-silencioso, como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.</p>
-
-
-<h3>XXII</h3>
-
-<p>«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas
-que me consolem! Só resta morrer.»</p>
-
-<p>E o corpo diz á alma:</p>
-
-<p>«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos
-sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te,
-filha, como eu<span class="pagenum" id="Page_12">[12]</span> velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu
-soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás
-vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim,
-onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e
-sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te
-voluptuosamente—a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes
-morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar
-errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar
-nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas
-rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores
-tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos!
-E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!»</p>
-
-<p>E a alma dizia ao corpo:</p>
-
-<p>«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada,
-indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo.
-Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas,
-que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha
-ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir
-fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos
-para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia.</p>
-
-<p>«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a
-que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda,
-que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em
-breve não te lembrarás mais de mim.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_13">[13]</span></p>
-
-<p>«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de
-estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem <i>alma</i> como eu—ou
-se chamem <i>aroma</i>—ou, então, se chamem <i>som</i>.</p>
-
-<p>«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia,
-encontrares os átomos <i>d'aquella que eu tanto amei</i>, não te
-juntes com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a
-flôr ha-de mirrar-se;—se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de
-apagar-se;—se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...»</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_15">[15]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="MACBETH">MACBETH</h2>
-</div>
-
-
-<p>Foi no tempo de Philippe <span class="allsmcap">II</span>, tragico môcho do Catholicismo,
-que Shakspeare creou o seu drama épico de Macbeth.</p>
-
-<p>É desde então que aquella figura, que exhala noite e humidade, erra
-pelo enorme ceu negro, livida no meio das tempestades, alumiada e
-crescida por um estranho reflexo de saques e de incendios, em quanto
-os abutres, os corvos, os milhafres, os gaviões, as corujas vôam em
-circulos sobre a sua tragica cabeça esguedelhada.</p>
-
-<p>As outras imaginações nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet, Lear,
-Othello e pisam com pé tragico o sólo augusto da epopeia, todas têm
-junto de si o dôce corpo de uma mulher para lhes embalar no seio as
-angustias tenebrosas, como n'um leito mysterioso, para lhes fazer subir
-por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem.</p>
-
-<p>Essas fórmas femininas andam impalpavelmente,<span class="pagenum" id="Page_16">[16]</span> como radiações de luz,
-em redor d'aquellas terriveis cariatides do mal: ellas derramam-se
-sobre aquellas almas nocturnas, como umas auroras vivas, cheias
-de meiguices, d'orvalhos, de claridades, de fecundos descanços,
-purificadoras e transfiguradoras.</p>
-
-<p>Assim Ophelia, humida dos beijos da agua, segue o seu dolente e
-lacrimoso Hamlet; Desdémona derramou o seu perdão, como um oleo santo,
-sobre a agonia flammejante de Othello: e Cordelia estira os seus
-braços como azas de benção, e, com gestos de coroação, ampara a cabeça
-desvairada do velho rei Lear. Macbeth, esse vae seguido na sombra pelos
-seus negros vassallos—os incendios, as pestes, os derrubamentos.</p>
-
-<p>Macbeth é o mal-phantasma. Elle não é d'aquelles lobos que andam, pela
-noite da historia, dilacerando as liberdades e as patrias. Não.</p>
-
-<p>É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra,
-seria o egual de Satan. Quando a sua corôa reluz na escuridão, parece
-que as constellações devem seguir aquelle reflexo terrivel, curiosas
-de saber que sombria aventura vae elle tentar contra o Homem. Porque
-é certo que elle provoca a attenção do infinito, e tem mysteriosas
-affinidades na noite.</p>
-
-<p>Elle atravessa todo aquelle drama como um espectro.</p>
-
-<p>Quando as Ondinas saíam fóra da agua a namorar os moços formosos
-debaixo dos platanos, denunciavam-se, as pobres, porque a orla do seu
-vestido estava sempre ensopada d'agua. Macbeth é assim: debalde se
-cobre de purpuras, e se assenta aos banquetes,<span class="pagenum" id="Page_17">[17]</span> e falla de manobras
-de guerra com os seus capitães tenebrosos, e se queixa que lhe foge o
-somno, para parecer humano: os que se approximam d'elle empallidecem,
-porque a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa.</p>
-
-<p>Elle ouve a predicção das soberanias flammejantes da bocca esverdeada
-das feiticeiras, que se dão, lascivas, aos beijos do vento, por cima
-das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a
-noite de sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terraços,
-entrevê o luzir dos punhaes: não póde sentar-se aos banquetes
-resplandecentes, entre os risos sonoros, sem vér diante de si, com a
-lividez dos que fizeram a viagem maldita, o espectro de Banquo, d'onde
-se exhalam os castigos. Por fim, quando toda a Escocia sangra, porque
-passou Macbeth esmagando as cidades, assolando os campos, enegrecendo o
-ceu com o fumo—luto dos incendios—não são os exercitos que o vencem:
-a natureza ouviu as queixas humanas, os brados de justiça que saíam
-dos postes, das queimadas, das forcas, dos cemiterios, ouviu a alegria
-estridente dos abutres, dos córvos e dos milhafres—e destaca então uma
-floresta, que vae com ruido tragico esmagar o homem sinistro. N'este
-castigo, Shakspeare é maior que Eschilo. Eschilo, quando vê Prometheu
-pregado no Caucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade
-de marmore dos deuses de nomes sonoros, vem, pallido, ajoelhar junto
-d'aquelle rochedo ideal e santo como um altar; e, suffocado, apenas
-póde fazer um gesto supplicante ao velho Mar, para que mande as suas
-Oceanides consolar o vencido enorme.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_18">[18]</span></p>
-
-<p>Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo,
-derrubar os capacetes heraldicos, matar os instinctos, matar os
-Macduffs, matar as creanças d'olhar divino, as mulheres de seios
-fecundos, matar a patria—corre desvairado, toma uma floresta e vem
-esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e
-aquelle castigo passa com o ruido terrivel do carro da justiça.</p>
-
-<p>Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa—Lady Macbeth. Lady Macbeth
-é a serenidade do mal. Ella, com a sua attitude soberana e barbara,
-tem a vaga semelhança d'uma Juno homerica. Tem em si toda a grandiosa
-rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte.</p>
-
-<p>Ella é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ella passa
-no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes
-parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que funebre resignação:
-as coleras e os castigos têm quasi piedade d'aquella mulher esteril.
-Ella não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não
-tem a maternidade. Alguem, feroz e desconhecido, lhe tirou aquelles
-amollecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a attitude
-hirta e rigida do mal.</p>
-
-<p>Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de marmores e
-de bronzes, e erguida ao longe n'uma lividez silenciosa, tendo
-por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos
-estremecimentos d'alma, as oppressões e as violencias, e vem então
-lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições,
-accende com um olhar as sinistras<span class="pagenum" id="Page_19">[19]</span> queimadas pela planicie, e volta
-para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a
-cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue.</p>
-
-<p>E no emtanto, quando ella passa, o olhar perde-se na contemplação
-perigosa d'aquelle busto forte, d'aquelles braços de aço, d'aquella
-testa que tem reflexos de opala, d'aquelles cabellos poderosos de um
-negro flammejante, d'aquelle seio de fórma barbara. E então abre-se
-na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente.
-Aquelle olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores
-humidos e de mugidos de aguas. E a alma, esquecida da justiça e do
-bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que
-cercam aquella mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a
-vestem, destrançar-lhe os cabellos pelas molles sombras e dissolver-se
-n'aquelle olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O
-coração ri-se dos gemidos da Escocia e do ultimo high-lander, que morre
-contemplativo, tocando as árias da sua montanha na ultima cabana, e
-lastima unicamente Macbeth porque tem para matar—só um Duncan. Suffoca
-o peito a negra lembrança de um desfallecimento lascivo, n'aquelles
-braços de marmore pallido, salpicados de sangue. A contemplação
-d'aquella terrivel Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e
-tremulo, como se sobre elle se estendesse a nudez de uma deusa.</p>
-
-<p>Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quiz revelar no seu poema
-musical de <i>Macbeth</i>.</p>
-
-<p>Ha, sem duvida, na obra immensa de Shakspeare<span class="pagenum" id="Page_20">[20]</span> creações que devem dar
-a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida
-de sensualidades pesadas, coberta com velludos de prégas molles e
-silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes
-feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de
-luz; os corpos luminosos feitos de argillas ideaes: ha almas tão puras
-como musicas de constellações, tão terriveis como as fulgurações do
-desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Elle semeou
-alli, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes,
-as angustias, as melancolias, a duvida, a paternidade, a covardia—eu
-sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sêdas, farrapos, lutos, purpuras,
-sudarios; umas cabeças têm corôas flammejantes, outras cabeças têm
-corôas de violetas: aquellas creações têm nos labios o lyrismo, a ode,
-a imprecação, a satyra, a chocarrice: ha architecturas, tormentas
-afflictas, arvoredos sagrados, luares e apparições. Assim caminha
-enorme aquella obra, tentando a grande aventura da immortalidade! Para
-dar a vida e o sopro ideal a esta creação immensa, é necessario que
-venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuarios, o
-lyrismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra.</p>
-
-<p>A musica deve ser a voz de tudo aquillo que alli está silencioso, sem
-ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o
-comprehender,—a voz das estrellas, das pedras, das nuvens, das flôres,
-de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lacteas, falla
-muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturaes, para que o
-nosso extasi as<span class="pagenum" id="Page_21">[21]</span> possa escutar. Quando Julietta suspira ao seu balcão,
-desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em
-pequenas estrellinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite,
-em roda d'ella, as flôres, as vegetações, aquellas molles divindades
-núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que
-cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas
-das raizes, que são as estrelas—tudo se balança n'aquella evaporação
-de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade
-do seu jardim, como um diamante no seio d'uma negra: e toda a natureza
-está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos
-pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma
-de Ophelia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos
-como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e
-se desmancham, o lyrismo do celeste William empallidece como um heroe
-derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e
-branca, revelar todas aquellas vibrações celestes.</p>
-
-<p>E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas
-musicaes do que as figuras historicas.</p>
-
-<p>São aquellas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem
-soffrer, que nos transfiguram a alma.</p>
-
-<p>Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette,
-e Beatriz de Cenci, e a idyllica Ignez de Castro? Nós vemos estes
-desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, attentos á justiça<span class="pagenum" id="Page_22">[22]</span>
-de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquellas fatalidades,
-mostramos lá em cima o grande azul constellado.</p>
-
-<p>Mas que Julietta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar
-fulgurante pelo espaço, para allumiar a fuga de Romeu até Mantua; que
-Desdémona diga a <i>canção do salgueiro</i>, onde se morre de amor; que
-appareça entre os lutos reaes o enterro virginal de Ophelia, nós vamos,
-desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos mysteriosos sóbe
-lá cima, até á radiosa bondade divina, o côro supplicante das lagrimas.</p>
-
-<p>No emtanto, parece que as imaginações terriveis e ferozes dos poetas
-não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os
-maestros querem subir aquelles escarpamentos divinos, cáem, sem fòlego,
-junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lyrismo, o
-sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de
-cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de petalas macias, e de
-vapores de luz.</p>
-
-<p>Sem fallar em Gounod, que não comprehendeu a grande figura de Fausto,
-mas pôz divinas vibrações nos labios de Margarida, o grande Rossini não
-pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Othello, e ficou-se
-a chorar um chôro celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro.</p>
-
-<p>Assim tambem Verdi, o luminoso Verdi, não comprehendeu aquellas trevas,
-que Shakspeare derramou na alma de Macbeth.</p>
-
-<p>Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de
-nós outros, os portuguezes,<span class="pagenum" id="Page_23">[23]</span> é, realmente, o unico compositor italiano
-verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti;
-Rossini retirou-se da arte.</p>
-
-<p>Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume
-santo, o desvairamento ideal, o deus, aquelle sôpro de que falla a
-<i>Biblia</i>. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa
-energica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer
-que seja de rigido e de metallico n'aquella sonoridade sensual: elle
-sabe excitar as sonoridades materiaes, mas não consegue arrancar a alma
-do seu vestido de carne e leval-a, núa e possuida do infinito, pelas
-regiões das surpresas radiosas.</p>
-
-<p>Todo o enthusiasmo que Verdi tem alimentado na Italia, provém do
-momento grave em que se revelou.</p>
-
-<p>N'esse tempo a Italia revolvia o poema convulsivo da sua
-reconstituição: os italianos, que tinham adormecido n'aquella rede
-tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a
-erguer-se e a experimentar os seus musculos frouxos e amolecidos de
-amor e de sonhos. N'esse momento Verdi foi pela Italia com um canto
-poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquella musica
-apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as
-energias: e a Italia seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na
-alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades.</p>
-
-<p>No Norte, quando a Allemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no
-seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas,<span class="pagenum" id="Page_24">[24]</span>
-apparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas
-poesias da Allemanha, melodias feitas quasi dos cantos populares,
-que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra,
-rhapsodos errantes: e quando a grande patria, ouvindo as caçadas de
-Samosel pelas florestas da Thuringia, os estremecimentos dos elfos
-vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mythologias do
-Rheno, vivendo, soffrendo, voando, susurrando n'um livre canto,
-ergueu-se terrivel, entoou tambem, ella, o velho canto de Luthero,
-couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida,
-ficou, sevéra e illuminada, esperando junto do Rheno, tendo a um lado o
-espectro da honra e a outro lado o phantasma da justiça.</p>
-
-<p>Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul,
-o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aquelles enthusiasmos
-foram fecundos: as duas patrias sangram ainda: e as flautas tristes do
-Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquelle chôro lento e
-doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade
-que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Italia! Pobre Allemanha!
-Deus vos envolva n'um olhar de benção e de repouso, n'este tempo em que
-estamos, que é a vespera das agonias!</p>
-
-<p>Mas, voltando ao <i>Macbeth</i>, é certo que Verdi fez d'aquella figura
-desvairada um heroe italiano, melodioso e mau. Por toda aquella opera
-anda errante um terror transparente e molle. Será porque a musica, a
-meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquellas duas
-almas pavorosas saídas<span class="pagenum" id="Page_25">[25]</span> da noite e pesadas de materia? Não sei. O certo
-é que aquella opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece
-que o velho heroe livido entrou n'este tempo moderno, amolleceu-se em
-voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas
-da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth
-contar a sua velha legenda tragica sobre uma scena resplandecente. Com
-effeito, aquella opera faz saudades do drama de Shakspeare: era alli
-que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de
-tres cabeças: era por aquelle terraço, onde mugia o vento, que elles
-atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan.</p>
-
-<p>E assim, emquanto aquellas figuras lyricas se adiantam para a orchestra
-de poderosos alentos, com as gargantas túmidas de melodias gemedoras
-e violentas, a alma póde deixar o seu querido corpo e ir por cima dos
-mares e dos continentes, para os descampados da Escocia, vêr passar
-aquellas sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo
-as legendas, galopam de noite nos clarões das tempestades, uivando
-manobras de batalha.</p>
-
-<p>E depois póde a alma voltar, para ouvir aquella confusão de ruidos
-coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que
-estremecem, que gemem e que gritam, e que se vão desvanecendo em volta
-do corpo e cobrindo-o como uma onda. Emquanto se canta <i>Macbeth</i>,
-a alma póde andar longe, pelo paiz das chimeras.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_27">[27]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="A_LADAINHA_DA_DOR">A LADAINHA DA DOR</h2>
-</div>
-
-<p class="right">
-(AO SNR. A. A. TEIXEIRA DE VASCONCELLOS)<br />
-</p>
-
-
-<p>O musico Berlioz, ao voltar das bandas molles da Italia e das ilhas
-da Grecia de lividos escarpamentos, sem serenidades idyllicas e sem
-myrthos—recebeu nas ruinas das <i>Sorveiras</i>, junto de Nizza, onde
-elle trabalhava na sua symphonia de <i>Harold</i>, toda cheia do mar,
-esta carta vinda de França:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«O pintor Lyser voltou da Bohemia com a sua doidice elegiaca. Pedi-lhe
-o retrato de Paganini como tu querias, mas elle disse-me, em segredo,
-que fôra o diabo que lhe guiára a mão n'aquelles traços, e queria
-conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão
-n'uma pasta, entre um desenho do velho Claudio Loreno e um retrato de
-Dante.</p>
-</div>
-
-<p>Hontem, ao cair da tarde, estavamos ambos sentados juntos da janella.
-O ar entrava todo emmaranhado nos cordões verdes das trepadeiras: nós
-estavamos calados e abandonados á doçura divina das cousas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_28">[28]</span></p>
-
-<p>O pobre Lyser, com os seus grandes cabellos caídos, tomou o retrato
-de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos,
-de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens:
-e, entre aquellas efflorescencias, escreveu os nomes de Dante, de
-Hamlet, de Romeu e de Sancho Pansa, dizendo com a sua voz dolente:
-«Paganini tinha alguma cousa de todos estes homens». Depois, no cimo
-do cartão, desenhou a figura de Ophelia levada pela corrente, e um
-morcego, com as azas dobradas, olhando tristemente, d'entre as cannas
-debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente
-como no seu elemento, e os grandes cabellos louros emmaranhados nos
-limos da agua: e por baixo escreveu: «Duvída, Ophelia, do meu amor,
-da verdade luminosa das estrellas, dos coloridos das folhas, da luz
-branca do sol». E depois, com a voz séria: «Paganini, sobretudo, era um
-morcego...»</p>
-
-<p>É assim aquelle pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe
-morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua
-rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as hervas molhadas. O
-dia estava nublado. «Minha pobre irmã, disse elle, que nem póde levar
-presa no seu lindo vestido uma restea de sol!» Sabes a religião que
-Lyser tem pelo sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos
-caminhos, sob a grande luz sonora do sol. N'essa noite em que a irmã
-foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de
-Lully, e de vez em quando compunha as dobras de um chale que tinha
-lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido n'uma saudade<span class="pagenum" id="Page_29">[29]</span> mais
-dôce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o ceu estava nublado,
-elle dizia, de vez em quando, á morta: «Não tenhas pena, cá fóra nem
-estrellas ha.»</p>
-
-<p>Foram-n'o buscar de madrugada, e elle vinha lento, dependurando-se do
-fato do coveiro como uma creança, a quem assustam os uivos dos cães e o
-chiar dos carros.</p>
-
-<p>Dias depois voltou ao cemiterio e o coveiro não o deixou entrar: o
-pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lagrimas. «É
-uma cousa de pressa que tenho a dizer a minha irmã» affirmava elle com
-a voz passada de supplicações. O coveiro estava dentro fallando com uma
-mulher de cabellos côr de vinho: e como a quizesse prender n'um abraço
-barbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caíu sobre uma sepultura
-toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos
-vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura, resmungando:
-«Malditos tropeços!»</p>
-
-<p>Por fim, veiu abrir a grade enferrujada ao pobre Lyser e com uma grande
-voz: «Vá, que já são horas de entrar sem licença.» Lyser sumiu-se entre
-os cyprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra:
-«Luiza, se lá em cima encontrares a estrella Vesper, pergunta-lhe de
-que tintas se faz a côr de rosa da tarde e os seus reflexos de rôxo
-pallido; preciso sabel-o. Hontem dei o teu chale branco a uma pobre:
-dize-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se
-passares de noite por estas alamedas, não te approximes da casa do
-coveiro; vive lá uma má mulher.»</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_30">[30]</span></p>
-
-<p>Dias depois chamou-me e disse-me: «Sabe? começo a acreditar que
-minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma cousa: quando tiver alguma
-camelia não a esmague, talvez seja feita do seio da pobre rapariga.» E
-afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de
-agua: mas de repente, voltando-se e com a voz cheia de supplicações,
-accrescentou: «Nem as violetas: talvez sejam feitas dos olhos d'ella!»
-Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre arvores onde havia o
-sol, o côro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos
-fructos: elle ia com a face toda tomada pela côr quente e fecunda da
-vida.</p>
-
-<p>«Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz dôce e lenta como um
-escorrer de mel: não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das
-eiras e dançava debaixo dos platanos, morre nos frios de fevereiro.
-Ha-de ter visto por esse tempo os pobres namorados que andam chorando
-sobre as covas com os cabellos caídos. Então aquelles corpos das
-raparigas desfazem-se. Alguem, que sabe e que vê, aproveita aquellas
-fórmas e aquelles coloridos: da pelle do seio fazem-se petalas de
-camelia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da côr dos labios
-fazem-se os rainuculos, dos halitos perdidos fazem-se os cheiros
-bons, e do olhar, da meiguice, do desejo d'ellas faz-se a primavéra,
-o dôce ar das madrugadas de maio. De modo que de noite as flôres que
-estão nos vasos, na sombra das alcôvas, conversam das suas existencias
-passadas; fallam das danças ruidosas á guitarra; d'aquella manhã em
-que a ponta do seio veiu espreitar, pela abertura do vestido, os olhos
-do<span class="pagenum" id="Page_31">[31]</span> namorado; d'aquella tarde em que a face se vestiu de côr de rosa
-para receber a visita de um bigode louro; d'aquella noite em que as
-palpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quasi a
-dizer <i>sim</i>. E se uma noite espreitar as flôres que estão nos
-castos paraizos das alcôvas, ha-de-as vêr saír dos vasos, entrelaçarem
-as fórmas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga similhança de um
-corpo feminino.»</p>
-
-<p>É assim o pintor Lyser. Fez-se noite n'aquella alma, e por isso ella
-tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o
-languido, o estrellado.</p>
-
-<p>Agora deseja morrer e ser enterrado n'uma paisagem casta, assoalhada,
-murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu
-amigo Claudio Loreno.</p>
-
-<p>Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se
-arrasta entre hervas seccas e ramagens, ao dorso de uma onda, á prôa
-de uma barca de pesca; assim aquelle espirito, ao retirar-se d'aquelle
-corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e
-meigo—ao amor, á melancolia, á compaixão, á arte.</p>
-
-<p>Quando cheguei do Baltico, soube que Paganini se retirára de França:
-tive a respeito d'elle grandes conversações com o rabequista Sica, que
-pensa em fazer, para o verão, uma peregrinação pela Syria.</p>
-
-<p>Estavamos horas debaixo das tilias, fallando do chimerico espirito de
-Paganini, até que as estrellas appareciam, contemplativas e augustas.
-Sica contou-me<span class="pagenum" id="Page_32">[32]</span> toda a legenda idyllica e barbara de Paganini: os
-seus amores em Verona, aquella cantora enfezada, de mãos macias e
-sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquelle abbade de
-fivelas luzentes, com quem ella ia debaixo dos velludos silenciosos,
-n'um entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo paiz de
-Cythera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odysseia de prisões e
-de degredos: aquellas noites em que elle, poderoso e solitario, entrava
-na confidencia dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lagrimas,
-em que aquelle tragico homem, enroscado nas palhas do seu carcere,
-olhava ao longe o mar Mediterraneo amollecido por aquella mollesa que
-escorre dos astros e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda.</p>
-
-<p>Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre ás horas escuras
-via as fivelas do abbade luzirem na noite. «Ás vezes o remorso,
-affirmava elle, é bondoso, encarna-se em cousas que têm uma vida, uma
-carnação, um sangue, uma mollesa, que se podem abrandar, a quem se póde
-supplicar; mas aquellas fivelas metallicas, inertes, rigidas, eram um
-remorso frio, surdo, inflexivel, faziam-me subir ao rosto o suor do
-antigo Josaphat.»</p>
-
-<p>Dizia tambem Paganini, que uma das suas grandes torturas, no carcere,
-fôra assistir, pela visão, á decomposição fria do corpo da pobre
-cantora Marietta. Elle via aquelle corpo sem oleos, nem sacramentos,
-debaixo das terras limosas e tumidas de seiva, esverdear-se entre as
-ossadas. Via de noite, perto de si, aquella terrivel decomposição das
-carnes, aquellas brancuras inertes, aquellas molles curvas sugadas<span class="pagenum" id="Page_33">[33]</span>
-pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramineas, os
-cyprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e
-inchada!</p>
-
-<p>Então, alli, tomou odio á natureza: elle atravessava sempre as frescas
-fecundidades, as searas, todas as verdes fórmas da vida, os campos e
-as granjas, com um horror judaico e mystico. Só perdoava ao mar: e ás
-vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das aguas do mar do Norte
-tocar na rabeca as velhas cantigas scandinavas e as balladas runicas;
-e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse andar, durante a
-eternidade, nos verdes embalos da agua.</p>
-
-<p>Foram terriveis todos aquelles annos de prisão.</p>
-
-<p>O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com
-os estudantes da nova Allemanha, indo pelos burgos, pelos povoados,
-pelas cabanas de lareiras somnolentas, cantando ás estrellas e dizendo,
-na sua rabeca, sob a lucidez do ceu do Norte, as velhas balladas da
-Thuringia.</p>
-
-<p>Contou-me o amor da duqueza de Weimar por Paganini; e como uma noite de
-concerto em duas cordas da rabeca elle disse o dialogo mysterioso de
-duas vozes que se fallavam debaixo do arvoredo, depois entre sedas de
-cortinas, ao fresco ar d'um balcão, e depois ainda na terra, debaixo
-das raizes dos cyprestes, e, por fim, indefinidas, tenues, luminosas,
-entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.</p>
-
-<p>Era uma allusão desconhecida, que encheu de lagrimas a duqueza de
-Weimar.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_34">[34]</span></p>
-
-<p>Aquelle homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. D'elle
-retirára-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o
-amor, a indignação, a paternidade, a emoção.</p>
-
-<p>Lento, com os seus cabellos caídos, livido, com as terriveis rugas
-da face semelhantes aos <i>f f</i> d'uma rabeca, com as mãos
-transparentes, cheias de agilidade e de deslocações, com os seus
-grandes casacos escuros de pregas hieraticas, atravessava os povoados,
-os silencios, as scenas resplandecentes, poderoso e solitario,
-procurando sempre, aos pés, uma cóva onde não se esfolhassem arvores,
-onde não nascessem hervas, sem saber que na noite, na humidade, nas
-choças, nas pedreiras, nas estradas, nas costas, ha uma raça que
-soffre, e que ha beiços lividos da fome, e que ha febres silenciosas
-e amores desertos, e suores d'angustia, e apodrecimentos de honras, e
-uivos d'almas afflictas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de
-bellezas.</p>
-
-<p>Sica contou-me tambem o grande poder musical de Paganini e a sua
-attitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades: e
-contou-me tambem, meu amigo, aquella noite gloriosa e flammejante em
-que se tocava a tua symphonia de <i>Romeo e Julietta</i>, e em que elle
-veiu, entre os applausos e as vozes de corôação, ajoelhar e beijar-te
-as mãos, dizendo com os olhos cheios de agua:—Sois outro Beethoven!</p>
-
-<p>Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emmudeceu:
-trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas
-conversações da noite; aquella doença não o vergou<span class="pagenum" id="Page_35">[35]</span> mais; elle tinha já
-o silencio—estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez—estoicismo do
-corpo.</p>
-
-<p>Passava então com o rabequista Sica horas inteiras, tocando rabeca ou
-guitarra. Ultimamente, preoccupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca
-só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: «Quando eu estiver para
-morrer, pensar que a hei-de deixar aqui, entre as mulheres d'aço,
-estes jornalistas lividos e os agiotas calvos, no meio d'esta multidão
-esfomeada de materialidades! que se ha-de encher de pó a um canto,
-ella, cheia de alma e de legenda!»</p>
-
-<p>No emtanto, elle acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca
-havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra, ir-se-iam
-confundir com o corpo d'elle nos átomos das arvores, ou das estrellas,
-ou das aguas. E escrevia então: «Que felicidade poder ter a mesma
-folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!»</p>
-
-<p>Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; ás
-vezes tomava a guitarra e ia tocar n'ella para junto da rabeca, com
-um gesto de caricias brandas, com um lento correr de dedos, como se
-estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma;
-elle queria pôr todos os seus interiores divinos n'aquelle gemer de
-guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada.</p>
-
-<p>Por esse tempo, um dia que elle estava com Sica, escreveu assim: «Já
-me não fio na minha rabeca; acredito que ella não ha-de lamentar a
-minha morte. Não morre, não! Ha-de dar-se ao primeiro<span class="pagenum" id="Page_36">[36]</span> que a tomar nos
-braços; ha-de dar-se com suffocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos
-segredos, mysticos, voluptuosos e illuminados, que me dizia a mim...
-Que importa á rabeca que o pobre musico apodreça debaixo da terra?!»</p>
-
-<p>Ultimamente o musico Sica necessitou ir á costa normanda, porque tinha
-lá seu pae, velho marinheiro, morrendo junto das aguas; e quando
-voltou, coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha
-partido para o sul.</p>
-
-<p>Adeus, não te demores em Nizza. Acaba depressa a tua symphonia do
-<i>Harold</i>, e recommenda-me ao nosso velho amigo—o Mar.»</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Tempo depois, o homem, que tinha mandado esta carta, recebeu est'outra
-de Berlioz:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«Estou ainda todo frio das visões d'esta noite. Sabes que móro nas
-<i>Sorveiras</i>, que são umas ruinas junto do mar, pedras bem
-conhecidas por toda a populaça do ar: abrigam-se alli, como n'uma
-pousada, os viajantes sombrios da atmosphera, que são as chuvas
-esguedelhadas, os ventos uivadores, os granizos, as molles brumas e
-os nevoeiros. Em redor estão espalhados os casebres dos pescadores,
-todos conchegados, como as ovelhas quando anda temporal no monte; a
-costa é terrível e, no emtanto, o mar tem, ás vezes, serenidades só
-similhantes ao calmo olhar d'um idiota.</p>
-
-<p>Este povo trigueiro de pescadores sáe, logo de madrugada, para os
-balouços da agua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias
-de legenda<span class="pagenum" id="Page_37">[37]</span> e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em
-baixo, junto da voz da maresia, aquellas cantigas fortes de deitar
-redes, robustas como calabres e sãs como o sol. É uma bella vida!
-Durante o verão, nas séstas silenciosas do mar, todos andam na pesca,
-os velhos, as creanças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de
-forte seio—estas bellas mulheres da costa da Italia, que eram tão
-desejadas pelos marinheiros gregos e phenicios, que tinham visto
-Mileto, Abydos e Corintho.</p>
-
-<p>Agora que o outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se
-ao vento, e vae para o interior dos povoados juntar-se nos campos á
-outra pobre gente curvada, que lavra e que semeia.</p>
-
-<p>Hontem fui, n'uma barca de pescador, até ao ponto em que o Var
-desagua. Sabes que é n'este tempo que as pombas emigram para o sul;
-reunem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterraneo, fazendo
-nodoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o sol descia: o barco
-vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos
-ondulosos. O mar tinha uma serenidade olympica.</p>
-
-<p>Eu havia-me abandonado ás mollesas da tarde, e, todo estirado á pôpa,
-via o ceu cobrir-se d'uma côr rosada, como d'um rubor de castidade. As
-estrellas começavam a apparecer. D'onde vinham ellas? E d'onde é que
-vem a noite de tão longe, que parece suada de luz? Eu via-as tremer,
-e pensava que ellas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões,
-sem deuses. A'quellas horas tambem apparecem as ondinas na agua; quem
-sabe se as estrellas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm
-de<span class="pagenum" id="Page_38">[38]</span> noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegiaco? Quem sabe
-se são arvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros
-fructos—a melancolia, o amor, a sensualidade?</p>
-
-<p>Depois ri-me d'estas imaginações; mas nas aguas do Mediterraneo, ao
-anoitecer, n'um barco de pesca, vendo ao longe as linhas molles da
-costa de Italia, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia
-vêr as estrellas como nas verdades e nos positivismos modernos, e
-esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace.</p>
-
-<p>E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da
-bem-amada, sol da minha natureza, sem dôres mordentes, sem febres
-silenciosas, e ir assim, entre as fulgurações do desejo, e os
-deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores,
-e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, n'um lento
-desmaio da carne, para a frialdade da terra e alli sentir-me,
-lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas,
-pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescencias!</p>
-
-<p>Ora quando assim vinhamos, vi, na linha escura e aspera da costa, uma
-massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegiaca.</p>
-
-<p>—Que luz é aquella, meu velho?—disse eu, da pôpa.</p>
-
-<p>O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram
-direitos, escorrendo, todos esverdeados das algas.</p>
-
-<p>—Aquella luz, senhor, é a casa das <i>Serenas</i>. A estas horas
-está alli, abandonado, um pobre homem<span class="pagenum" id="Page_39">[39]</span> que morreu lá hontem. Tinha
-chegado aqui ha pouco, e era mais amarello que a cera do altar; até na
-costa diziam os velhos que elle se vendera ao diabo! Deus me perdôe
-por fallar assim n'isto, de noite, em cima das aguas! Ah! senhor,
-diziam que tocava na sua rabeca maldita que nem no ceu... Chamavam-lhe
-Paganini.</p>
-
-<p>E o pescador metteu os remos na agua, cantando n'uma melopeia dolente:</p>
-
-<p class="poetry">
-Altra volta gieri biele,<br />
-Blanch'e rossa com'un fiore.<br />
-Ma ora nò. Non son piu biele<br />
-Consumata dal'amore.<br />
-</p>
-
-<p>E depois, voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das marés,
-continuou:</p>
-
-<p>—E os padres agora não lhe querem cantar as suas ladainhas e
-enterral-o em terra santa. Se fosse meu parente e tal succedesse, ia
-para o fundo do mar. Debaixo da agua anda muito corpo de patrões e
-pilotos: elles não morreram, não; andam ainda vivos; e quando um pobre
-homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento,
-quando o peixe anda arredio, elles costumam afugentar a pescaria com
-ramos de coral para as bandas da rede!...</p>
-
-<p>O pescador fallava assim, lentamente, com a voz pesada da religião das
-legendas.</p>
-
-<p>Eu levava os olhos rasos de agua e pensava que nunca tinha ouvido
-tocar o triste Paganini: sempre<span class="pagenum" id="Page_40">[40]</span> que elle deu os seus concertos, eu
-estava longe da França.</p>
-
-<p>Entrei nas <i>Sorveiras</i> com o peito cheio de friezas e de
-mortalidades. Quiz trabalhar, mas sentia-me dissolvido na pesada
-materialidade das cousas.</p>
-
-<p>Tomaram-me uns molles cansaços e fiquei sem pensamentos, sem desejos,
-inerte e silencioso como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.
-Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e o uivar dos cães que andam
-de noite na praia, esfomeados. O mar estava pesado de gemidos sob a
-noite lenta e mystica.</p>
-
-<p>Ora quando assim estava, ouvi, distante, como vindo das alturas
-hieraticas das nuvens e das vias-lacteas, o gemido de uma
-rabeca.—Quem é que, áquellas horas, n'uma costa aspera de ventos
-furiosos, quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da
-lareira, enrodilhados nos farrapos dos mantéos—tocava assim rabeca
-junto do mar?</p>
-
-<p>Fui, amedrontado, ao meu antigo balcão gothico e olhei pelas
-transparencias doentias da noite. Nada. As ondas choravam o seu chôro
-mystico e as estrellas estavam na sua immobilidade de onde se exhalam
-religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um
-soluço de medo, para junto do brazeiro: então ouvi de novo aquelle
-som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar como uma nevoa
-sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então,
-distinctamente, com os ouvidos da carne, a musica de uma rabeca,
-acompanhada, surdamente, pelo mar.</p>
-
-<p>Ao principio foi uma melodia de fresca serenata, que a agua
-acompanhava com um marulho humido<span class="pagenum" id="Page_41">[41]</span> e alegre: e ao mesmo tempo, ao
-longe, havia o gemer rythmico do vento.</p>
-
-<p>Então, durante uns momentos, eu ouvi uma musica estranha de rabeca,
-acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações, e vozes
-pesadas de lagrimas, e melodias tragicas com dôres da natureza, e
-sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta
-corria, como a agua corre, lodosa, entre os juncos e os cannaviaes.</p>
-
-<p>Havia vozes de rabeca, afflictas e barbaras: e ás vezes, dôces
-mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca,
-delgada, tenue, clara como um fio de som. Eu não te sei dizer o que
-era aquella musica sobrenatural, elegiaca, selvagem, tragica, suave e
-escarnecedora!</p>
-
-<p>Por fim, de repente, toda aquella orchestra poderosa se calou, como
-um bando de abutres e aves de noite gritando afflictas, com tragicas
-palpitações de azas, que vêm pousar, n'um silencio, sobre um rochedo
-das aguas. Então senti, de entre aquella amontoação apocalyptica de
-harmonias, desprender-se, solitaria, a voz da rabeca, e vir, de leve,
-tocar junto do meu balcão com meiguice, com mollesa, com volupia—as
-variações do <i>Carnaval de Veneza</i>.</p>
-
-<p>Ninguem me póde tirar do coração, que foi a alma de Paganini que
-deixou o seu corpo na natureza solitaria das <i>Serenas</i>, e veiu
-dizer o adeus da musica ao seu velho amigo.</p>
-
-<p>Adeus, meu meigo artista! Soffre e transfigura-te pela dôr: eu aqui
-estou, cheio de saudades da nossa dôce França, junto das aguas tristes
-do Mediterraneo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_42">[42]</span></p>
-
-<p>Creio que, depois da noite de hontem, nunca mais terei o riso sonoro
-e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de
-saudação, o terrivel temporal que agora vae na costa.»</p>
-</div>
-
-<p>O homem a quem esta carta foi escripta, era um artista, um pintor
-como Lantara, vivendo descuidado na bohemia errante das miserias,
-das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os
-contactos do corpo: no meio d'aquellas loucuras esteve sempre como
-uma pomba adormecida. Aquelle pobre rapaz vivia n'uma trapeira, onde
-trabalhava sem sol, n'aquellas alturas silenciosas e castas, onde
-vivem e crescem as flôres do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a
-um hospital: e alli era sagradamente velado por uma enfermeira dôce,
-delicada e branca como uma virgem de oiro fino de um livro de legendas:
-o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava,
-pediu um dia á enfermeira a sua touca engommada e lisa, e com um lapis
-desenhou alli, como um agradecimento d'alma, toda a sorte de delicadas
-imaginações—azas abertas, corôas de folhagens, ondas que vinham beijar
-um pé branco, corôações de caridades.</p>
-
-<p>Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veiu encontrar o pobre
-pintor com as mãos postas diante d'um retabulo alumiado; a dôce
-rapariga cuidou, no seu coração, que elle se encommendava á Virgem;
-escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Claudio
-Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se e disse-lhe, quasi a
-chorar: «Deixo o meu corpo aos rios, ás arvores, ás abelhas,<span class="pagenum" id="Page_43">[43]</span> aos
-montes, ás searas, a toda a mãe Natureza.» Depois curvou-se, beijou a
-orla do vestido da enfermeira, e ficou-se enroscado no chão, frio e
-inerte.</p>
-
-<p>A enfermeira pousou a luz do retabulo junto do corpo, tirou a toalha da
-Virgem e estendeu-a sobre a face pallida do triste, transfigurado pela
-belleza sagrada e espiritual da morte.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam de farças de taverna,
-e cantavam más cantigas, levaram aquelle branco corpo á valla dos
-pobres.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_45">[45]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="ENTRE_A_NEVE">ENTRE A NEVE</h2>
-</div>
-
-<p class="right">(A ANSELMO D'ANDRADE)<br />
-</p>
-
-
-<p>O lenhador, pela madrugada, ergueu-se da enxerga e accendeu a candeia.</p>
-
-<p>Junto da lareira, engelhado de frio, cavado de magresa, dormia um rapaz
-enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfallecia de
-febre: até ao anoitecer da vespera andára pelo negro matto, e depois
-nem teve um magro caldo junto das somnolencias da lareira.</p>
-
-<p>Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos,
-que á noite, quando resavam, todos arripiados e magros, em redor da
-mãe, suffocavam no chôro da fome: por isso, áquellas horas, por entre
-os nevoeiros molles, elle ia pelos montes, pelas collinas, pelos
-pinheiraes, rachar, cortar e desramar, a asperos ventos, na grande neve
-silenciosa.</p>
-
-<p>O rapaz dormia com os pés inteiriçados e todos brancos da lama secca:
-tinha os grandes cabellos<span class="pagenum" id="Page_46">[46]</span> espalhados, e branco tinha o peito. A um
-canto, sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da mãe, as duas
-creanças dormiam com os cotovellos arroxeados—dissolvidas no somno do
-frio e da fome. O lenhador tirou a jaleca que levava para os montes,
-embrulhou-lhes os pés regelados, e com a candeia foi debruçar-se sobre
-a enxerga onde dormia a mulher: ella tinha o corpo collado ao fraco
-calor da enxerga como a um seio amado, os braços caidos e frouxos
-como os de uma mulher esteril: os seus cabellos negros espalhavam-se
-tristemente pela enxerga como um luto: e a manta esburacada modelava a
-fórma casta e fecunda dos seus peitos.</p>
-
-<p>Então o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas,
-cobriu-se com o capuz de saragoça e foi-se lento, esfomeado e
-esqueletico, pelos grandes caminhos, duros, lividos e cobertos de
-nevoas.</p>
-
-<p>O seu casebre ficava perdido ao pé dos montes, longe dos povoados,
-entre umas poucas de arvores que erguiam para o ar os seus braços
-negros, descarnados, nús e supplicantes.</p>
-
-<p>Alli vivia aquella familia transida dos frios, emagrecida das fomes,
-diante da neve e dos invernos, com os peitos cheios da religião do
-sol, das searas e das fecundidades sonoras e alumiadas—como cousas
-flammejantes e divinas, que estão tão longe como Deus, inaccessiveis,
-na poeira da luz, entre os paraizos. O pae ia todos os dias para os
-grandes montes lidar entre a ramaria: a mulher, em casa, cosia os
-farrapos ao pé da lareira sem lume, e ao anoitecer ia para junto da
-porta desconjuntada dos ventos, gretada dos frios, vêr se, pelos
-atalhos enevoados, via<span class="pagenum" id="Page_47">[47]</span> chegar o marido, lento, curvado sob os grandes
-feixes de lenha.</p>
-
-<p>O lenhador caminhava para as bandas dos montes.</p>
-
-<p>A neve caia, levemente. A alma aconchegava-se dentro do corpo—como
-n'um vestido santo, amedrontada pela dureza sobrenatural das cousas.
-Porque toda aquella natureza tinha estranhas barbaridades.</p>
-
-<p>A manhã vinha escura, lenta e lacrimosa, como uma viuva á hora dos
-enterros: e á pouca luz tenue, os pedaços de gelo pendurados dos cardos
-e das urzes tinham o aspecto de farrapos de mortalhas: sobre as arvores
-immoveis, os passaros, quietos e mudos, eriçavam as plumagens aos
-ventos cortantes.</p>
-
-<p>O lenhador caminhava sempre, rasgando-se nas silvas, orvalhado dos
-pingos das arvores, pallido e sereno.</p>
-
-<p>Ia lento. Pensava nos lavradores, que áquellas horas, nas terras
-quentes, saem, assobiando sob a noite religiosa e alumiada, entre as
-hervas altas, ao resplandecimento fecundo dos orvalhos, guiando pelos
-sulcos, emquanto as andorinhas gritam alegres e gloriosas, os bois
-fortes, lentos e bons. Elle tinha a mulher e os filhos esfomeados no
-casebre; desfazia-se em suores e em cansaços, e nem sempre aquellas
-faces amadas se enchiam das côres da vida. Era o frio, era a fome; nem
-uma manta nova, nem uma pouca de lã! O bom Deus, lá em cima, parece
-que está tão bem agasalhado ao calor dos seus paraizos e das suas
-estrellas, que se não lembra da pobre gente dos campos e dos montes que
-se arrepia de<span class="pagenum" id="Page_48">[48]</span> frio. E havia gente que via sempre os filhos bem quentes
-e bem córados!</p>
-
-<p>Assim pensava o triste, caminhando, pesado, molhado e todo cheio de
-cousas dolorosas e morbidas. A neve vinha descendo como um immenso
-desprendimento de lãs.</p>
-
-<p>E elle pensava que podia ser um abastado dos campos, e vêr á noite,
-em volta da sua lareira flamejante e serena, toda a multidão dura dos
-ceifadores e dos semeadores, entre os bons risos, em redor da grande
-tijela de caldo, ao estalido das castanhas, na attitude dos bons e dos
-simples.</p>
-
-<p>A neve ia caindo direita e vaga: e ouvia-se o rumor—indefinido como
-de um mar, laborioso como de uma colmeia—das multidões doentias dos
-pinheiros.</p>
-
-<p>O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enovelladas
-nas pedras, esfarrapadas pelos cardos: e ás vezes um corvo, passando
-silencioso e nocturno, vinha bater o ar em redor d'elle com uma
-selvagem palpitação de azas.</p>
-
-<p>Começava a espalhar-se o dia. Elle sentia-se só entre aquella natureza
-inimiga e barbara; e por vezes o braço, enfraquecido da febre, vergava
-sob o machado e as cordas humidas.</p>
-
-<p>Elle ia entrando pelo pinheiral, indolente. O pinheiral era cerrado, e
-a noite continuava ainda no encruzamento das ramagens lividas. A neve,
-que caía sobre os ramos, desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva.</p>
-
-<p>As arvores estavam como tomadas de um susto religioso.</p>
-
-<p>Quando saíu do pinheiral, em caminho para os<span class="pagenum" id="Page_49">[49]</span> montes, lembrou-lhe
-quando ia para as escamisadas n'uma aldeia do sul, e sob a luz
-apaixonada e melodica das constellações cantava á viola junto d'uma
-dôce rapariga de testa santa e de cabellos côr de amora; e elle, o
-perdido, amollecia o olhar a passeal-o, pela abertura do lenço, sobre a
-brancura do collo d'ella!</p>
-
-<p>Hoje, áquellas horas, pensava elle, aquella pobre mulher gemia na sua
-alma, vendo os filhos, sem um bocado de pão, andarem pelo casebre
-humido, rotos, dependurando-se-lhe das saias, gemendo: <i>mãe! mãe!</i>
-E os olhos do desgraçado tremiam-lhe nas aguas do chôro.</p>
-
-<p>O lenhador apertou o machado e entrou na floresta.</p>
-
-<p>Os velhos carvalhos violentos e propheticos, os choupos desfallecidos,
-os castanheiros ruidosos, os olmos gigantescos, as ramagens e os
-silvados eriçados onde o vento brada afflicto, todas aquellas verduras
-vivas e sãs que cantam ao sol, no empoeiramento da luz crúa—toda
-aquella sombria Diana esguedelhada, que se chama a floresta, dormia sob
-as oppressões da neve, triste, silenciosa, estoica e soberba.</p>
-
-<p>O lenhador, com o machado erguido, ia por entre a floresta; elle
-conhecia aquellas estranhas attitudes, aquelles escarpamentos de neve,
-as faces pensadoras dos rochedos, todo o emmaranhamento de ramos, de
-folhas, d'onde cáem gottas como um echo de chuvas passadas: e todavia,
-ao endireitar-se contra um velho carvalho, empallideceu, como diante de
-uma profanação.</p>
-
-<p>O seu coração simples e bom não comprehendia, mas sentia aquellas vidas
-immoveis, silenciosas e sonoras, que são arvores, ramagens, arbustos,
-florescencias; elle tinha compaixão dos gemidos dos troncos,<span class="pagenum" id="Page_50">[50]</span> das
-cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que sacrificava
-alli, á fome dos filhos, vidas infinitas de arvores.</p>
-
-<p>O lenhador atirou o machado contra o tronco do carvalho—e toda a
-arvore immensa ficou tomada de vibrações dolorosas: e as suas ramagens
-estenderam-se caidas, sem vida e sem força, pelo tronco, como para se
-vêrem morrer sem gemidos, n'um silencio soberbo e selvagem.</p>
-
-<p>O sol veiu livido, molle, desfallecido, sem força, sem vitalidade,
-sem ascenção flammejante e sagrada, entre nevoas arrastadas, entre
-esvaecimentos lugubres de nuvens. Começavam a esvoaçar os passaros,
-piando tristemente.</p>
-
-<p>E o lenhador, com o peito arqueado, os cabellos desmanchados, vermelho,
-feroz, com o machado erguido nas mãos, com tragicos encarniçamentos,
-luctava contra os troncos, contra os ramos, contra as raizes, contra
-as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens
-negras, de braços mortos de arvores, caidos e inertes como armaduras
-vencidas.</p>
-
-<p>Aquellas arvores que tanto tempo levaram a formar-se, e a enrijar, e
-a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da
-chuva, e a enlaçar as molles nudezas das nevoas e dos vapores, aquellas
-arvores cheias das mordeduras de novembro, cheias de legenda e do
-cheiro das tormentas, encolhiam os ramos n'um estremecimento medroso
-quando o machado reluzia lugubremente no ar.</p>
-
-<p>Elle tinha a camisa solta e esfarrapada: os sóccos faziam covas na
-neve: e, esfomeado, terrivel,<span class="pagenum" id="Page_51">[51]</span> ia a grandes passos pela floresta,
-rasgando os silvados, esmigalhando as raizes, envolto em estilhas, em
-fibras partidas, com gestos tragicos, afastando com o machado o vôo dos
-córvos; e, todo cheio do amor dos filhos, torturava as arvores, com
-golpes flammejantes, gritando-lhes: <i>covardes!</i></p>
-
-<p>Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e as
-nevoas, e a febre, e a dôr, até ao anoitecer.</p>
-
-<p>Tinha já um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas, duras
-como os seus braços: encravou no meio o machado: o feixe enorme estava
-encostado a um monte de neve: as duas pontas da corda por onde elle o
-havia de erguer, pendiam negras e humidas: então curvou-se todo para
-tomar o feixe sobre as costas largas: mas quando o ia a erguer, lento e
-cansado, sentiu os musculos afrouxarem, as mãos esfriarem, subiu-lhe um
-desfallecimento, e caiu, com os cabellos suados e collados á testa; e
-os seus dedos inteiriçados esburacaram a neve.</p>
-
-<p>Assim esteve perdido na mollesa do esvaecimento, até que abriu os
-olhos vagarosos, e ficou-se encostado ao feixe, silencioso e cheio de
-tremuras.</p>
-
-<p>Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava
-tomado de uma pallidez opaca e severa: caía uma chuva vaporisada: todo
-o chão estava pesado de neve.</p>
-
-<p>Ao pé do lenhador estava estendido um grande tronco engelhado, morto,
-sem raizes, sem ramagem, sem seiva: por um lado começava a desfazel-o a
-podridão.</p>
-
-<p>Em redor erguiam-se as multidões de arvores cobertas<span class="pagenum" id="Page_52">[52]</span> de neve,
-adelgaçadas entre as transparencias do nevoeiro, tristes e nocturnas
-como monges brancos.</p>
-
-<p>Ao fundo abria-se uma clareira, que deixava vêr ao longe a grande luz,
-que se ia, serena e timida.</p>
-
-<p>O lenhador, com o pescoço nú, o peito dolorido e ensopado, agarrou as
-cordas do feixe e, enrijando os musculos, com a face congestionada, as
-fontes inchadas, as grandes veias saídas como cordagens, e as pernas
-hirtas, violentou o corpo para se erguer. Mas caíu sobre a neve,
-amollecido, suffocado, e coberto das friezas humidas da febre.</p>
-
-<p>Então ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nú, coberto de neve, e
-a pensar que o seu corpo ia alli finar-se e dissipar-se entre as
-podridões dos troncos.</p>
-
-<p>E toda a sua carne foi tomada por uma vibração terrivel. Tinham-lhe
-lembrado os filhos e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia, quando
-elle entrava, a neve dos cabellos e as silvas da jaleca.</p>
-
-<p>A neve caía triste. Áquellas horas ella esperava, junto da porta, a
-vêr se o via ao longe chegar, curvado debaixo dos seus feixes, pelos
-caminhos brancos de neve.</p>
-
-<p>Ella estaria com uma mão apoiada á hombreira, e com a outra agazalhando
-as creanças nas dobras da saia, contra os frios da noite.</p>
-
-<p>E elle estava alli só, esmagado, sob a neve implacavel!</p>
-
-<p>E quando o não vissem vir?! E elle procurava na memoria se já alguma
-vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca.</p>
-
-<p>Se o não vissem chegar, iriam todos, chorando<span class="pagenum" id="Page_53">[53]</span> e bradando, com a
-candeia acobertada do vento, procural-o pelas urzes sinistras.</p>
-
-<p>Ás vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra
-subirem pelos troncos como um fumo terrivel; e sempre aquelle
-enovellamento de similhanças humanas subia até se perder nas
-transparencias lividas do ar.</p>
-
-<p>A neve caía como escorrida das nuvens.</p>
-
-<p>E elle pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte
-na neve, sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras
-da ventania, silencioso e solitario como um lobo!</p>
-
-<p>Então aquelle corpo, pisado, rôxo, tiritando entre as roupas molhadas,
-dissolvido nas mollesas da nevoa, inteiriçou-se; com os olhos
-flammejantes, os dentes irados, tomado de risos, esfarrapado dos
-cardos, endireitou-se e, suffocado, esguedelhado, hirto, livido, deu um
-grito na noite.</p>
-
-<p>Houve um levantamento assustado de passaros por toda a ramagem escura.
-E veiu um vento e levou, nas suas espiraes violentas, um enovellamento
-de folhas. E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Não havia ninguem
-pelo monte. Estava só. Só! Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros
-perdidos. Só! E iam-se os passaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Elle
-ficava só.</p>
-
-<p>Então, vendo em redor a floresta solitaria e negra, a amontoação
-crescente das sombras, o esvaecimento livido dos ultimos ramos, as
-attitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das raizes, sentindo ao
-longe o uivo dos lobos e por cima da cabeça o esvoaçar dos córvos,
-estirou-se de bruços e bradou, na noite, sob a neve e o ruido dos
-ramos:—Jesus!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_54">[54]</span></p>
-
-<p>E toda a floresta ficou silenciosa, indifferente, soberba; os córvos
-voaram gritando; elle caíu, fraco, desalentado, roto, agonisante,
-macerado; e de cima o grande ceu, o ceu justo, o ceu sereno, o ceu
-sagrado, o ceu consolador cuspia neve sobre aquella carne miseravel.</p>
-
-<p>E ficou inerte. A neve caía desfeita e branca. Estava estirado. Via por
-cima a grande immobilidade da floresta, os nevoeiros, que deixavam caír
-farrapos que lhe vinham roçar o rosto, e a sombra espectral do feixe de
-lenha.</p>
-
-<p>Elle sentia o corpo entorpecido pelo frio, e na testa e nos olhos
-abrazamentos mordentes: e parecia-lhe que lhe mordia as costas uma
-chaga immensa, que tivesse terriveis ardores ao contacto da neve, sob o
-peso do corpo.</p>
-
-<p>Ás vezes soluçava. E, quando assim estava, viu grandes sombras que lhe
-esvoaçavam sobre a cabeça e fugiam bradando afflictas, com um terrivel
-ruido d'azas, esbranquiçadas da neve, apavoradas e ferozes.</p>
-
-<p>Eram os córvos. Tremeu todo. Elle entrevia-os já quando elles viessem
-pousar-lhe sobre o peito, e curvados, batendo as azas, meio suspensos,
-enterrar-lhe os bicos negros na pobre carne.</p>
-
-<p>Então moveu dolorosamente o braço entorpecido e apalpou em redor:
-encontrou um ramo solto, negro, espinhoso: lançou-o contra as sombras
-negras dos córvos; mas elle tinha a mão quasi inanimada pelo frio, e o
-ramo, debilmente arremessado, veio-lhe caír sobre a face, e rasgou-lhe
-a carne com os espinhos. Já, porém, as mãos inertes não tiveram força
-para o tirar.</p>
-
-<p>E poz-se a chorar. Os córvos voavam terriveis:<span class="pagenum" id="Page_55">[55]</span> elle enterrava o pé na
-neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os córvos desciam.</p>
-
-<p>A neve caía e já lhe cobria as pernas hirtas. Elle então, vendo a
-floresta que o ensopava de agua, o chão que lhe coalhava a vida, o
-vento que o transia, a neve que o enterrava, os córvos que vinham
-comêl-o, todas as hostilidades selvagens das cousas, encheu-se de
-cóleras, e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou
-rijamente a cabeça sobre o feixe—e poz-se a morrer.</p>
-
-<p>Então veiu repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre
-lenhador sentir, n'aquelle vento, o som de um chôro e uma voz bradando
-afflicta.</p>
-
-<p>O vento redobrou de furia: dispersou os córvos: elles balançavam-se nas
-azas entre os redemoinhos do sopro feroz.</p>
-
-<p>A neve caía: e os braços do lenhador já estavam cobertos, e todo o
-peito estava coberto. Os córvos fugiam: e todo o bando apparecia como
-uma sombra indecisa e pesada.</p>
-
-<p>A neve caía. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a
-bocca.</p>
-
-<p>Os córvos iam-se sumindo nas transparencias da noite...</p>
-
-<p>A neve caía, contínua, silenciosa. A testa do pobre estava coberta, e
-apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes cabellos
-escuros.</p>
-
-<p>A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.</p>
-
-<p>E a neve descia. As sombras dos córvos sumiram-se para além das ramas
-negras.</p>
-
-<p>Os cabellos desappareceram. Só ficou a neve!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_57">[57]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="OS_MORTOS">OS MORTOS</h2>
-</div>
-
-
-<p>Hontem foi o dia dos mortos. Os mortos são felizes. Emquanto nas
-dolentes celebrações da Igreja, ao pé dos altares luzentes, deante
-do Jesus rôxo e descarnado, os tristes e os simples rezam pelos seus
-queridos mortos, elles andam dispersos pela grande natureza, pelas
-florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da
-seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras d'acre cheiro.</p>
-
-<p>A sua carne soffreu, empallideceu com os medos, emmagreceu com as
-febres, engelhou-se com os frios; mas agora anda, repousada e sã, pelas
-frescas vegetações, pelos fructos coloridos, na luz selvagem e vital do
-sol, nos átomos da noite constellada e suave.</p>
-
-<p>Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se no seio
-da terra planturosa, foram sugados pelas raízes e, confundidos com a
-seiva, vêm outra vez para o sol, em fórma de fructos, de corollas, de
-ramagens ondulosas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_58">[58]</span></p>
-
-<p>Os que morreram sobre as aguas do mar, desfazem-se entre as verdes
-profundidades, entre as areias, os coraes, as conchas, os rochedos, e
-vêm depois, sob a fórma d'ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de noite
-estirar-se ao peso da mollesa que escorre dos astros, ou de madrugada,
-cantando com barbaridades de rainhas e doçuras de santas, acalentar o
-povo dos pescadores, silencioso e trigueiro.</p>
-
-<p>Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos,
-são consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hieratica das
-estrellas, pelos vapores molles das nuvens, pelas auroras; são os
-átomos de luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.</p>
-
-<p>Assim os mortos são felizes.</p>
-
-<p>Nós outros andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empallidecidos,
-esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos
-deslumbramentos da carne; celebramos as religiões, esboçamos Deuses,
-riscamos sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no
-meio d'esta forte vitalidade—como um lavrador que suspende a enxada e
-se fica, todo amarello, a pensar na velhice sem pão e sem lume—estamos
-sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras, para pensarmos,
-aterrados, nos esfriamentos lugubres do tumulo.</p>
-
-<p>E entretanto os mortos, que são os paes, as irmãs, as bem-amadas,
-as mães, estão pela natureza, pelos montes, pelas aguas, pelos
-astros—serenos e immaculados. E porque tememos a morte? Que instincto
-tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta<span class="pagenum" id="Page_59">[59]</span> fórma humana, estes
-cabellos, estes olhos, estes braços enrodilhados de musculos? As
-arvores, as florescencias, as hervas, as folhas, são tambem fórmas da
-vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas familias das
-constellações, pelos planetas, pelas arvores, pelos lividos interiores
-da terra, pelas aguas, pelos vapores, pelos prados fecundos, escorre a
-seiva, o átomo santo, a alma universal! Por toda a parte ha attracções,
-amores, antagonismos, repulsões, polarisações, alegrias, estiolações,
-pollens, alma, movimento—vida. Porque ha de então ser esta fórma, que
-tem braços e cabellos, e não aquella, que tem ramos e folhagens?</p>
-
-<p>A vitalidade é a mesma, cheia dos mesmos instinctos negros, sagrados,
-luminosos, bestiaes, divinos.</p>
-
-<p>Por isso os mortos são felizes, porque andam longe da fórma humana,
-onde ha o mal, pela grande natureza santa, onde só ha o bem, na pureza,
-na serenidade, na fecundidade, na força.</p>
-
-<p>Bemaventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma
-transfiguração sagrada. Mal cáem sobre elles as ultimas pazadas de
-terra e o canto dos padres, barbaro e dolente, se perde com o fumo dos
-cirios, o corpo fica só na plenitude da noite e do silencio, perante a
-grande vegetação esfomeada; elle vae dar-se alli como pasto ás boccas
-sinistras das raizes: elle amollece entre as humidades da terra e
-desfaz-se em podridões: então as raizes começam a sugar e a comer: a
-podridão transforma-se em seiva: a seiva sobe pelos troncos, estende-se
-pelos ramos, palpita dentro da arvore, engrossa, fecunda, arredonda-se
-nas exhuberancias dos gomos, e abre-se<span class="pagenum" id="Page_60">[60]</span> depois em folhagens, em
-florescencias e em fructos: e o corpo transformado vê outra vez o
-sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve as cantigas dos
-pastores, e vive sereno, repousado, na floresta immensa.</p>
-
-<p>E no emtanto, junto d'aquelle corpo, que soffreu a metempsycose do bem,
-foi enterrado outro, n'um caixão de chumbo, entre pedra e cal, hirto e
-embalsamado. Entre a enorme palpitação diffusa, emquanto em redor se
-vae operando a lenta transformação da semente, onde já estão em germen
-as folhas, os troncos, os fructos, as flores, os ramos que mais tarde
-o vento atormentará, entre as raizes fortes e retorcidas dos arbustos,
-entre as ondas da seiva, entre as uberdades e as voluptuosidades
-creadoras da terra fecunda, o cadaver embalsamado alli está, inteiro,
-hirto, rijo, feio, livido. Elle inveja os átomos livres e soltos, que
-sobem e descem no encruzamento das vitalidades, que se deslocam e
-escorrem, como grãos d'um sacco, desde as constellações e os cometas,
-até ás espumas castas das fontes: alli, sequestrado á natureza, não
-se póde dissolver na eterna materia forte: não tornará a vêr o sol,
-as noites amollecidas de orvalhos, os soluços lascivos do mar... Que
-estranha fatalidade pesava sobre elle, que nem a morte o libertou?</p>
-
-<p>Oh! possamos nós todos ter sempre em vida a religião do sol, da belleza
-e da harmonia; movermo-nos na atmosphera serena do bem e da liberdade;
-ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de tyrannos;
-sentir o enlaçamento divino dos braços da bem-amada—e depois, ó santa
-Natureza!<span class="pagenum" id="Page_61">[61]</span> toma os nossos corpos para fazer d'elles arvores cheias de
-sombra e ramos resplandecentes!</p>
-
-<p>E ao menos, durante a vida, convivamos com a natureza. Quando entramos
-n'uma floresta, parece que a luz do sol, que escorre abundante e
-fecunda, nos enche todo o interior, despertando alli, como faz nas
-madrugadas de maio, os córos de passaros: e depois ha um responso
-sagrado, como se todas as iras, e as amarguras, e os desalentos, e os
-terrores, se curvassem na mesma humildade, ao elevar-se na alma uma
-hostia mysteriosa.</p>
-
-<p>Durante o dia ha, nas florestas, uma santa celebração: as arvores estão
-graves como sacerdotes: as flôres incensam: a luz do sol é a alva
-flammejante e serena que a floresta veste: e ella murmura um canto
-dolente e sacro, acompanhado pelos passaros religiosos, e d'entre as
-ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como uma vaga
-hostia: e, ao fim da missa, as arvores, balançando os ramos, parecem
-lançar ao povo curvado das plantas, das hervas, e das relvas, a sua
-benção soberba.</p>
-
-<p>Ora quando passamos entre estas celebrações, tristes, humildes,
-purificados, de entre a folhagem que se aninha, inquieta, no seio
-do vento, sáe, para nós, toda a sorte de vozes, de saudações e de
-confidencias.</p>
-
-<p>São os nossos queridos mortos que nos fallam; e então toda a materia
-tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a ir pousar,
-com suavidade e doçura, nos seios da folhagem, que já foram seios
-amados...</p>
-
-<p>E depois a natureza tem immensos perdões e reconciliações<span class="pagenum" id="Page_62">[62]</span> formidaveis;
-todos os odios tragicos, todos os corações ferozes se fundem
-divinamente na promiscuidade sagrada da terra. Ella não escolhe; tudo
-lhe é bom; as raizes das rosas pastam a podridão dos tyrannos; e dos
-homens que na terra ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz
-carvalhos austeros e cedros religiosos.</p>
-
-<p>Ella é mais dôce que as religiões: nas Escripturas Judas atraiçôa
-Jesus, e no emtanto ha muito tempo que os dois corpos—o do homem
-luminoso e o do homem escuro—andam enlaçados e dissolvidos nas mesmas
-auroras e nas mesmas corollas.</p>
-
-<p>Ella acolhe, indifferente, todos os ritos, todas as religiões: as
-mesmas oliveiras, que na Grecia encobriam, serenas, as choreias núas
-dos ritos de Baccho, cheios de ondulações lascivas, encobriram depois,
-agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constellações, o pobre
-Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando sangue,
-bradando afflicto na noite das Agonias.</p>
-
-<p>Ás horas em que acabo estas linhas, vae o dia a declinar: agora, lá
-ao longe, nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre
-os sulcos, roto e sereno, espalhando o grão com gesto augusto: e
-parece-me vêl-o d'aqui, entre as transparencias morbidas do anoitecer,
-distribuindo a vida: são os corpos dos seus avós, que elle assim
-espalha pelos sulcos fecundantes: são elles que se tornaram seáras e
-que lhe hão de encher o celleiro; são elles que lhe dão a comer a sua
-carne e a beber o seu sangue. Sagradas transfigurações!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_63">[63]</span></p>
-
-<p>Assim, é na natureza que devemos ir procurar as consolações, estremecer
-com os amores mortos, chorar no seio das maternidades passadas. É na
-natureza que se deve procurar a religião: não é nas hostias mysticas
-que anda o corpo de Jesus—é nas flôres das larangeiras.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_65">[65]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="A_PENINSULA">A PENINSULA</h2>
-</div>
-
-
-<p>Ainda hontem eu pensava que nós outros, os peninsulares, nem sempre
-tinhamos sido uma nação estreita, de pequenas tendencias, somnolenta,
-chata, fria, burgueza, cheia de espantos e de servilidades: e que este
-velho canto da terra, cheio de arvores e de sol, tinha sido patria
-forte, sã, viva, fecunda, formosa, aventureira, epica!</p>
-
-<p>Ah! foi ha muito tempo...</p>
-
-<p>Era n'aquelle tempo em que a Italia rodeava os papas severos; e olhavam
-para o ceu as virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia, pela Europa,
-uma profunda transformação social. Na Allemanha, Luthero entrava em
-Worms, com um canto batalhador, em nome do espirito e da alma. O
-Papado ia morrer. Era necessario que todo o Sul se alliasse na cruzada
-catholica.</p>
-
-<p>Toda a revolta de Luthero foi tomada, ao principio, por um d'aquelles
-lentos suspiros allemães, que<span class="pagenum" id="Page_66">[66]</span> se perdiam no côro profano, luminoso,
-embalador e forte do Sul.</p>
-
-<p>Viu-se, depois, que era a voz immensa da alma do Norte, toda uma
-humanidade austera e vital, que se movia, que vinha fallar, pensar,
-examinar, revelar, sob o peso da theocracia romana, dos papas, dos
-imperadores, das tyrannias, dos sacerdocios.</p>
-
-<p>Todo o Sul catholico estremeceu: aquella revolta vinha imprevista e
-rapida: um dia, a imperceptivel e vasta humanidade, quando fosse,
-uma madrugada, para as suas adorações, podia encontrar a velha Roma
-deserta, e, ao longe, o catholicismo dissipando-se com um som hieratico
-de psalmos, e um colorido vermelho de fogueiras.</p>
-
-<p>Era necessario salvar o Sul.</p>
-
-<p>A Italia tinha-se familiarisado com o christianismo: tinha-se
-acostumado ás santas macerações de Jesus, á transparencia ascetica das
-virgens: os renunciamentos e os medos catholicos já a não vergavam para
-o pó. Ella, cheia de sol, e de sons, e de forças, começava a olhar
-a natureza, as grandes fecundidades, as vitalidades poderosas, as
-melodias moventes da carne.</p>
-
-<p>Os velhos Deuses da Grecia tinham-se refugiado na alma italiana: ao
-principio andavam no fundo, como recordação leve, transfigurados pela
-dôr, encolhidos, soluçantes, miseraveis: depois, lentamente, foram
-apparecendo, espalhou-se um cheiro de ambrosia e um som d'idyllio; e os
-seus corpos, sãos como astros, occuparam, por fim, toda a alma italiana
-com choreias, derramações de nectares, palpitações de luz, divinos
-resplandecimentos de vida.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_67">[67]</span></p>
-
-<p>A Italia tinha-se afastado de Dante e das visões devoradoras do
-infinito: e os poucos que se curvavam sobre a <i>Divina Comedia</i>,
-não era para vêr os castigos e os paraizos, mas para sentir as
-palpitações, que lá tinham ficado, da alma de Florença.</p>
-
-<p>A Italia seguia Petrarcha: mas em Petrarcha havia ainda uma religião
-e um mysticismo—o amor: e a Laura dos <i>Sonetos</i>, como a Virgem
-mystica, prendia nas humilhações religiosas todos os cavalleiros do
-Sul. A Italia então deixou Petrarcha e rodeou Ariosto, o aventureiro, o
-jovial, o descrente, cavalleiro e escarnecedor.</p>
-
-<p>Foi então que se ouviu aquella voz do Norte.</p>
-
-<p>Todas as cohortes catholicas andavam dispersas, galhofeiras e
-namoradas, rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta
-Pulci, guiadas por Lorenzo do Medicis e pelo cardeal Bembo, cantando
-ás estrellas, adorando as Violantes, rindo de Fra-Angelico, acclamando
-Ticiano, cobertas das sedas de Veneza, com o peito cheio da religião do
-sol, da musica e das noites profanas.</p>
-
-<p>Foi então que se ouviu a voz do Norte, o canto de Luthero. Todos os
-catholicos correram instinctivamente, rodearam os papas severos,
-Adriano VI, Clemente VIII, cantaram os psalmos e as missas de Marcello,
-cheias dos renascimentos asceticos, e foram seguindo o Tasso, que
-voltava, apaixonado e religioso, para Dante e para Deus.</p>
-
-<p>E o papa continuou caminhando, sereno e terrivel, deixando as sombras
-das masmorras de Galileo e de Campanella, e mais longe o fumo das
-fogueiras de Vanini e de Giordano Bruno.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_68">[68]</span></p>
-
-<p>Tal era a lucta do Norte e do Sul.</p>
-
-<p>Ora, durante essa lucta das religiões e das patrias, a Peninsula,
-encolhida nas suas montanhas, coberta de sol, violenta, sinistro
-cavalleiro de Deus, armava as caravellas e os galeões para as bandas
-desconhecidas das ilhas, dos continentes, dos cabos temerosos. Nós
-outros, os peninsulares, appareciamos ás demais nações como velhos
-lobos do mar, sempre sobre os tombadilhos, trigueiros, rijos como
-calabres, sãos como o sol, ensurdecidos pelo clamor das marés, cheios
-de legendas, e perdidos, ao longe, nas brumas terriveis.</p>
-
-<p>De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto
-um mundo, que lá tinham ficado infinitas multidões, negras, bestiaes e
-núas, sob a benção dos padres: alli mesmo, sobre a areia, ao rumor das
-maresias, escrevia a historia tragica da sua viagem, e uma madrugada,
-tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e bons, para a
-banda das Indias.</p>
-
-<p>Era assim. Todos os annos, aquella multidão immensa de aventureiros
-embarcava nos galeões, entre os psalmos o os chóros, e elles iam,
-silenciosos e flammejantes, por entre as sonoras illimitações, os
-ventos afflictos e os tremores da agua—para os nevoeiros inexplorados.</p>
-
-<p>Iam em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as
-constellações augustas, entre as tempestades, os rochedos, os climas e
-as correntes, de pé nos tombadilhos, descobertos, rodeando um Christo,
-cantando os psalmos ao côro dos furacões, todos reluzentes de armaduras
-e de divisas de amor,<span class="pagenum" id="Page_69">[69]</span> com a alma cheia de altivezas de batalhadores e
-de doçuras de apostolos.</p>
-
-<p>Iam como n'uma gloria e em nome de Deus! E quando encontravam as
-hostilidades e os encrespamentos irados dos elementos, as oppressões
-infinitas dos ventos e das aguas, erguiam as mãos como para uma
-excommunhão, e bradavam, soberbos, áquelles sôpros e áquellas maresias,
-os versiculos do Evangelho segundo S. João.</p>
-
-<p>Ora aquelles homens, marinheiros e batalhadores, eram historiadores e
-poetas. Escreviam os seus feitos.</p>
-
-<p>Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no convez das
-caravellas, nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da India,
-sob as immobilidades crúas da luz: escreviam cobertos das espumas,
-ennegrecidos pelos fumos, trémulos das iras das batalhas. Por isso
-enchiam as suas chronicas e os seus poemas d'uma estranha prodigalidade
-de força e de vida. E os seus diarios de bordo tinham, muitas vezes, a
-simplicidade epica de Homero.</p>
-
-<p>Mas elles tambem tinham amores, ciumes, paternidades, paixões, lyrismos
-interiores, e as saudades da patria nasciam n'aquellas almas como
-grandes assucenas que se abrem dentro d'um vaso, e que o enchem.</p>
-
-<p>De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados,
-deitados entre as cordagens, aos embalos das marés, emquanto os
-pilotos, silenciosos, seguiam com os olhos as viagens immensas das
-estrellas, e todo o mar enorme se amollecia como um seio cansado, elles
-contavam em voz baixa, com as<span class="pagenum" id="Page_70">[70]</span> cabeças juntas, as historias de amores,
-os torneios, as aventuras, as serenatas, e a vida da patria.</p>
-
-<p>E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farças, comedias e elegias.</p>
-
-<p>E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do sol e do mar,
-tomavam a fórma popular.</p>
-
-<p>Estavam longe da Europa, das plasticas da Italia, dos renascimentos
-gregos e romanos, das antigas fórmas rituaes, das educações classicas.</p>
-
-<p>Não conheciam isto.</p>
-
-<p>Mas lembravam-se sempre das cantigas da patria, das lendas heroicas,
-dos romances populares, que elles tinham ouvido pelos campos, com que
-os velhos embalavam os netos, que se cantam do noite ás estrellas por
-Sevilha e por Granada e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos
-godos e dos arabes. Porque o povo, na Peninsula, tinha uma poesia, sua
-exclusivamente, que cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos,
-em que escarnecia os alcaides e celebrava os heroes.</p>
-
-<p>Fazia d'aquella poesia um uso sagrado: era a sua consolação, o grande
-leito mysterioso onde adormecia as tristezas: era alli que procurava
-confortos, recompensas, e as ideias da patria.</p>
-
-<p>No Norte, a poesia popular foi a Invisivel que levou, pela mão, os
-trovadores, filhos das glebas, até ás lareiras dos senhorios feudaes:
-foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da populaça,
-mysticos e sensuaes, soltaram para as brancas castellãs que entreviam
-nos torneios, cobertas de pedrarias; ou passando de noite, brancas, ás
-estrellas, pelos altos terraços; ou entre as arvores, ao entardecer,
-quando<span class="pagenum" id="Page_71">[71]</span> as ogivas, cheias do sol obliquo, estão flammejantes como
-mitras.</p>
-
-<p>E as castellãs abriram os braços para os poetas tristes, indolentes, e
-cheios do paraizo. Admiravel influencia da poesia, que produziu, pelo
-amor, um renascimento social!</p>
-
-<p>Mas a poesia da Peninsula era unicamente do povo: era a epopeia
-austera do Cid, exterminador de mouros, e de Bernardo del Carpio,
-exterminador de barbaros. Na Peninsula, o povo estava sob uma condição
-especial; tinha uma importancia no estado forte, fecunda e soberba:
-a Peninsula tinha passado os primeiros annos da sua constituição
-nas luctas terriveis do forte Mahomet e do Christo mystico; ora o
-popular da Peninsula não era um servo, era um christão: consagrado
-pelos baptismos, era uma força individual, que impellia e dissolvia o
-elemento mourisco, sensual e poderoso.</p>
-
-<p>Ora foi sob a fórma popular que aquelles batalhadores e poetas, que vão
-hoje tomando a vaga attitude da legenda, escreveram os seus poemas, as
-suas cantatas, as suas comedias e os seus sonetos.</p>
-
-<p>Então toda a litteratura peninsular tem uma originalidade profunda,
-independente de fórmas e ritos: a arte, o drama, a poesia, sáem
-das tradições populares, do clima, do sol, de todas as vitalidades
-meridionaes: isto quando pelo resto da Europa todas as nacionalidades
-esqueciam as suas tradições, a sua historia, a sua velha alma, para
-se envolverem nas fórmas antigas. Era a Renascença. Então apparece o
-theatro hespanhol, original, cavalheiresco, energico, apaixonado, cheio
-de selvagens palpitações, de lances,<span class="pagenum" id="Page_72">[72]</span> de religião: theatro onde a cruz
-é um personagem; onde fallam lacaios, heroes, santos, ventos, galeões;
-onde todas as fórmas da vida se confundem—o riso, o chôro, a ironia, a
-satyra, o madrigal...</p>
-
-<p>Depois uma pintura mystica e sensual: não é a espiritualisação da alma,
-é antes a immortalisação da carne, inspirada d'aquelle mysticismo
-hespanhol, que sob a influencia da natureza, do clima, da politica,
-da raça, parece mais cheio das tragicas iras de Jehovah, do que das
-doçuras de Jesus.</p>
-
-<p>Depois uma musica, como a do <i>Dies irae</i>, obra dos terriveis
-dominicanos: um poema de morte: uma das maiores agonias da alma: musica
-ascetica e flammejante, onde a natureza apparece, tragica e desgrenhada.</p>
-
-<p>Uma arte onde se torcem todas as chammas do inferno, e todas as
-pedrarias dos paraizos catholicos, que parece uma lucta tragica
-e comica da vida e da morte; uma egreja cheia de renunciamentos
-mysticos, mas onde o mysticismo parece mais um desespero de não poder
-saciar-se dos bens do mundo, do que uma aspiração a poder fartar a
-alma nas contemplações divinas: uma defeza do catholicismo, tragica
-e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerdocios:
-confusão dos imperadores com os santos e das corôas de metal com as
-corôas de luz: uma vida superabundante: ascetismos ferozes e onde o
-sentimento mais apparente é o rancor.</p>
-
-<p>Ao mesmo tempo uma austeridade monastica em tempo de guerra: caravellas
-que partem, sem cartas nem roteiros, sob as simples indicações
-das estrellas:<span class="pagenum" id="Page_73">[73]</span> quasi, por vezes, uma reconciliação apparente do
-Mahometanismo e do Christianismo: uma paixão avara pelo dinheiro: o
-elemento da intriga que quer entrar na politica, vindo substituir o
-elemento da força: combates cavalheirescos com a Europa visinha. Depois
-um sol ardente: um sangue exigente: uma carnação soberba: ao longe a
-America e as Indias como um paraizo de oiros, de metaes e de soberanias.</p>
-
-<p>Tal é o aspecto mais geral da Hespanha nas vesperas da Renascença.</p>
-
-<p>É dramatica aquella vida.</p>
-
-<p>Não admira, por isso, que a fórma suprema da sua arte—fosse o drama.</p>
-
-<p>Em Portugal, não é este rigorosamente o fundo do genio: ha mais
-serenidade na força: o caracter portuguez é mais parecido com o
-caracter italiano: os nossos sabios, os nossos viajantes, os nossos
-descobridores, tinham mais a lucidez do tempo de Galileo do que a fé
-do tempo de Dante: as navegações são prudentes: por isso Portugal não
-resistiu nada á influencia italiana. O renascimento da antiguidade, a
-serenidade plastica, a frieza classica, acclimatam-se na Hespanha, mas
-com dôr e com lucta: foi necessario que a Hespanha já não acreditasse
-na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes começasse a fazer trotar,
-pelos caminhos, o magro D. Quixote.</p>
-
-<p>Em Portugal não: o genio antigo acclimatou-se: transformou-se mesmo:
-perdeu o elemento vital e fecundo—e ficou-lhe o elemento rhetorico.</p>
-
-<p>Oh Arcadia! Oh moços pastoris e burguezes! Oh classicos!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[75]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="O_MIAUTONOMAH">O «MIAUTONOMAH»</h2>
-</div>
-
-
-<p>Ha duzentos annos, uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco
-na Hollanda humida e ubere, e, sob o equinoxio e os grandes ventos,
-miseraveis, austeros, levando uma Biblia, partiram para as bandas da
-America.</p>
-
-<p>Duzentos annos depois, estes homens que tinham ido, solitarios, n'um
-barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra epica pelo
-Mediterraneo, pelo Pacifico, pelo mar das Indias, pelo Atlantico, pelos
-mares do Norte.</p>
-
-<p>Aquella colonia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados,
-rotos, que dormiam ás humidades do ar n'uma capa esfarrapada, é hoje a
-America do Norte—os Estados-Unidos.</p>
-
-<p>America do Norte significa trabalho, fé, heroismo, industria, capital,
-força e materia.</p>
-
-<p>Ultimamente via eu o <i>Miautonomah</i>, sinistro e negro caçador
-de esquadras: é toda a imagem da<span class="pagenum" id="Page_76">[76]</span> America—frio, sereno, contente,
-material, e cheio de fogos, de estrondos, de machinismos, de forças e
-de fulminações.</p>
-
-<p>É o que amedronta n'aquelle navio:—a frieza na força.</p>
-
-<p>Elle representa a consciencia soberba da força e da industria, e os
-grandes orgulhos do calculo: despréza as iras e as hostilidades dos
-elementos: elle tem de atravessar o Pacifico, o Oceano Indico, o
-Mediterraneo, os grandes desvairamentos da agua, os ventos immensos,
-os equinoxios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente
-apparecidos, os nevoeiros perfidos, os magnetismos, as electricidades,
-toda a vil populaça das tempestades. Então todos os navios se
-preparam:—cordagens, velames, mastreações, complicações e resistencias
-de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres, que
-transforma as hostilidades em auxilios; elle, o <i>Miautonomah</i>,
-contenta-se com uma taboa rasa.</p>
-
-<p>Em tempo de lucta precavem-se os almirantes e os cabos de guerra: um
-formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o
-arsenal reluzente das abordagens; a elle basta-lhe uma muralha de ferro.</p>
-
-<p>O vento é temido: nas vastas solidões azues, elle é o lobo sinistro
-que anda rodando e uivando, á caça dos navios; elle acalenta o mar,
-massa inerte e salgada: elle faz com a agua estranhas nupcias ferozes;
-extermina, cantando com alegrias barbaras; esfarrapa as nuvens,
-persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares
-do Norte, quando elle sopra, as estrellas têm maior tremor: mas o<span class="pagenum" id="Page_77">[77]</span>
-grande horror do vento, é que ataca com o peso, com a violencia, com a
-força, e defende-se com o esvaecimento.</p>
-
-<p>O <i>Miautonomah</i> é assim: ataca serenamente, com violencias
-enormes, com fulminações tragicas, e defende-se com a impassibilidade e
-quasi com o esvaecimento.</p>
-
-<p>Na lucta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas
-flammejantes, entre os terriveis fulgores do fogo, e os phantasmas do
-fumo, e as effervescencias da agua—elle passa, solta a sua fulminação
-enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio,
-impassivel, mudo, tenebroso, coberto de ferro.</p>
-
-<p>Elle não receia o mar: os outros navios erguem amuradas immensas para
-conter o encrespamento da onda: forram-n'as de cobre, erriçam-n'as
-de pregaria. O <i>Miautonomah</i> não: elle julga a demencia do mar
-um prejuizo: corta a amurada e fica com o convez raso, ao rez da
-agua: satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericordia dá-lhe
-hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a
-triturar, a roer—dá-lhe, por compaixão, uma varanda de hastes de ferro
-enferrujado, e pedaços de corda pôdre. E o mar entra, desesperado,
-mugindo, e lambe o chão do navio americano: em baixo, nas camas,
-agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem:—Lá anda o mar a
-varrer e a lavar o tombadilho.—E com effeito, o velho oceano dos
-diluvios faz, humildemente, o serviço dos ultimos grumetes.</p>
-
-<p>Em cima, na superficie da agua, ha o vento, as espumas, os nevoeiros,
-as chuvas, as trombas; elle, aborrecido, afasta-se d'este bando
-miseravel e vae investigar<span class="pagenum" id="Page_78">[78]</span> o fundo das aguas, as vegetações
-phantasticas, a região dos coraes, as cavernas enceladicas as purezas
-infinitas da transparencia, todo esse mundo submarino de que os velhos
-mareantes fallavam, benzendo-se com terror religioso: com a quilha de
-ferro, enorme, elle brutalisa aquellas virgindades do mar: em baixo, a
-tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar, e torce-se, e
-desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convez do navio
-com o ruido de mil carros de batalha; os marinheiros, em baixo, riem,
-cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos machinismos, cachimbam, e leem a
-Biblia—serenos.</p>
-
-<p>Como não ha mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a
-amontoação confusa de calabres e de lonas—o tombadilho aberto é cheio
-de ar e de luz: e, durante as viagens, é uma pousada das algas, das
-conchas, das espumas, das aves do mar.</p>
-
-<p>Dentro são as machinas, as forças: os motores trabalham solitarios,
-com vozes, impaciencias, preguiças, friamente, como as fatalidades da
-materia. Ao atravessar os espaços obscuros, vê-se o frio luzir dos
-aços, e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flammejantes que
-dão a vida aos machinismos—vermelhas como corações sobrenaturaes: o
-ar é descido por machinas de respiração, pulmões terriveis: e um vento
-geral, fecundo, benefico, escorre constantemente por todo o negro
-bôjo. Fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores
-pesados, e frescuras das manhãs do Sul. Nas suas viagens pelo mundo,
-aquelle navio desmente, quando quer, os climas e as temperaturas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_79">[79]</span></p>
-
-<p>Ora sobre aquelle negro navio, sobre os machinismos frios, aquellas
-forças pavorosas, aquellas fogueiras terriveis, no convez, entre as
-negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo,
-esvoaçando na sua gaiola—canta um canario.</p>
-
-<p>Tal é o <i>Miautonomah</i>, navio de guerra da America do Norte.</p>
-
-<p>Nós entrevemos a America como uma officina sombria, sonora e
-resplandecente, perdida ao longe nos mares.</p>
-
-<p>Entrevemol-a assim: movimentos immensos de capital; adoração exclusiva
-e unica do deus Dollar; superabundancia de vida; exaggeração de
-meios: violenta predominação do individualismo: grande senso pratico;
-atmosphera pesada de positivismos estereis; uma febre quasi dolorosa
-do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças:
-extremo despreso pelos territorios; preoccupação exclusiva do util
-e do economico; doutrinas de uma philosophia e uma moral egoista e
-mercantil: todo o pensamento repassado d'essa influencia: uma fria
-liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação
-terrivel da burguezia; movimentos, construcções, machinismos, fabricas,
-colonisações, exportações collossaes, forças extremas; accumulação
-immensa de industrias, esquadras terriveis, uma estranha derramação de
-jornaes, de pamphletos, de gazetas, de revistas; um luxo excessivo; e
-por fim um profundo tedio pelo vasio que deixa na alma a adoração do
-deus Dollar. Assim entrevemos a America, ao longe, como uma estação
-entre a Europa e a Asia, aberta ao Atlantico e ao Pacifico, com uma<span class="pagenum" id="Page_80">[80]</span>
-bella costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos,
-com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as
-fabricas, as plantações, os engenhos; e depois uma natureza vigorosa,
-fecunda, eleita, desapparecendo entre as industrias, os fumos das
-fabricas, as construcções, os machinismos,—como a herva d'uma campina
-fertil que desapparece sob uma amontoação tumultuaria de multidões.</p>
-
-<p>A vida da America do Norte é quasi um paroxismo.</p>
-
-<p>Representa decididamente uma grande força, uma vitalidade enorme,
-superabundante. Mas será essa a vida ideal, fecunda, a vida do futuro?</p>
-
-<p>Todos os dias dizem á Europa:—Olhae para os Estados Unidos, lá está o
-ideal liberal, democratico, e, sobre tudo, a grande questão, o ideal
-economico.</p>
-
-<p>Mas a America consagra a doutrina egoista de Monroe, pela qual uma
-nacionalidade se encolhe na sua geographia e na sua vitalidade, longe
-das outras patrias; esquece as suas antigas tradicções democraticas
-e as ideias geraes para se perder no movimento das industrias e das
-mercancias; allia-se com a Russia. A raça saxonia vae desconhecendo os
-grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoismos
-politicos e nas preoccupações mercantis, scisma conquistas e extensões
-de territorios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento
-positivo e egoista, e a grande figura sideral do Direito ás fabricas,
-que fumegam negramente.</p>
-
-<p>Uma das inferioridades da America é a falta de sciencias philosophicas,
-de sciencias historicas e de sciencias sociaes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">[81]</span></p>
-
-<p>A nação que não tem sabios, grandes criticos, analysadores,
-philosophos, reconstruidores, asperos buscadores do ideal, não póde
-pesar muito no mundo politico, como não póde pesar muito no mundo moral.</p>
-
-<p>Emquanto a superioridade foi d'aquelles que batalhavam, que lançavam
-grandes massas de cavallarias, que appareciam reluzentes entre as
-metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a
-superioridade foi d'aquelles que pensavam, que descobriam systemas,
-civilisações, que estudavam a terra, os astros, o homem, e faziam a
-geologia, a astronomia, a philosophia, o Oriente caíu, miseravel e
-rasteiro.</p>
-
-<p>Ha sobretudo na America um profundo desleixo nas sciencias historicas.
-Inferioridade! As sciencias historicas são a base fecunda das sciencias
-sociaes.</p>
-
-<p>É a superioridade da Europa: sob a mesma apparencia de febre industrial
-ha uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova
-humanidade sobre o direito, a rasão e a justiça.</p>
-
-<p>O nosso mundo europeu tambem é uma extranha amontoação de contrastes
-e de destinos; é uma epocha, esta, anormal, em que se encontram todas
-as efflorescencias fecundas e todas as velhas podridões: politicas
-superficiaes e grandes fanatismos de ideias; um desafogo das livres
-consciencias e a tyrannia dos velhos ritos: diplomacias pacificas e
-transigentes, e um espirito de guerra surdo, acceso e flammejante:
-territorios violentados e conquistados, e a aniquilação pela historia e
-pela philosophia dos conquistadores e dos heroes: restos de influencias
-monarchicas, entre explosões de individualismo revolucionario;<span class="pagenum" id="Page_82">[82]</span>
-humanitarismo fundido com o mais aspero egoismo; um chaos horrivel
-de contradicçoes, e em cima, triumphal e soberba, a industria, entre
-as musicas dos metaes, as architecturas das Bolsas, reluzente,
-scintillante, colorida, sonora, em quanto no vento passa o seu sonho
-eterno—que são fortunas, imperios, festas, empresas collossaes.</p>
-
-<p>Ora em baixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, bom, livre,
-move-se em germen um novo mundo, o mundo da justiça social e economica.</p>
-
-<p>Este germen é que a America não tem, creio eu.</p>
-
-<p>Porque toda a America economica se explica por esta formula: feudalismo
-industrial.</p>
-
-<p>Diz-se que na America ha um constante augmento de trafico, de receitas,
-de riquezas: ha augmento; mas não ha justa distribuição. A riqueza
-amontoa-se em proveito da alta finança—com detrimento das pequenas
-industrias.</p>
-
-<p>Logo que na ordem economica não haja um balanço exacto de forças, de
-producção, de salarios, de trabalhos, de beneficios, de impostos,
-haverá uma aristocracia financeira, que cresce, engorda, incha, e ao
-mesmo tempo uma democracia de proletarios que emmagrece, definha, e
-dissipa-se nas miserias: e como o desequilibrio não cessa, não cessam
-estas terriveis desuniformidades.</p>
-
-<p>Mas o grande mal da predominação exclusiva da industria é este: o
-trabalho pela repugnancia que excita, pela absorpção completa de toda
-a vitalidade physica, pela aniquilação e quebrantamento da seiva
-material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção—por
-isso mesmo, sobreexcita o espirito,<span class="pagenum" id="Page_83">[83]</span> estende os ideaes, abre grandes
-vasios na alma, complica as necessidades, torna insupportavel a
-pobreza: nas grandes democracias industriaes onde as posições são
-obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde ha
-mil motores—a ambição, a inveja, a esperança, o desejo—o cerebro
-aquece-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossiveis; o <i>querer
-chegar</i> torna-se uma verdadeira doença d'alma: exageram-se os meios:
-e toda a seiva moral se altera e se deforma.</p>
-
-<p>É o que vae acontecendo na America; debaixo da frieza apparente,
-move-se todo um inundo terrivel de desejos, de desesperanças, de
-vontades violentas, de aspirações nevralgicas.</p>
-
-<p>Depois, como no meio das industrias ruidosas e absorvedoras muitas
-amarguras ficam por adoçar, muitas angustias por serenar, muitas fomes
-por matar, muitas ignorancias por alumiar, tudo isso se ergue terrivel
-no meio da febre da vida social, e torna-a mais perigosa. Londres dá
-hoje o aspecto d'esta lucta.</p>
-
-<p>De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o
-desejo das riquezas, aferventa o cerebro, sobreexcita a sensibilidade:
-a população cresce, a concorrencia é aspera, as necessidades
-descomedidas, infinitas as complicações economicas, e ahi está sempre
-entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a lucta dos
-interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades, e por fim
-as revoluções politicas.</p>
-
-<p>E todavia a liberdade da America parece tão confiada, tão assente, tão
-satisfeita!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_84">[84]</span></p>
-
-<p>No emtanto ha muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda ha pouco
-deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos,
-a sua industria, o seu egoismo, o seu profundo interesse, e arma
-exercitos, esquadras, dissipa milhões, e vae bater-se por uma ideia,
-por uma abstracção, por um principio, pela justiça.</p>
-
-<p>O Sul queria manter a escravatura; o escravo que trabalhe, que cultive,
-que produza, que sue, que morra sob a força metallica, baça e sinistra
-do clima e do sol. Pois bem. O Norte quer a liberdade, o amor das
-raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo
-direito! E dispersa os exercitos da Virginia.</p>
-
-<p>Taes coisas me lembraram ha dias, ao visitar o <i>Miautonomah</i>,
-fundeado no nosso Tejo.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_85">[85]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="MYSTICISMO_HUMORISTICO">MYSTICISMO HUMORISTICO</h2>
-</div>
-
-
-<p>Voltei. É agora que as toutinegras emigram.</p>
-
-<p>Andei pelos campos, n'este ar desfallecido do inverno outonal.</p>
-
-<p>Agora o azul está indolentemente bello. Tem quasi uma ironica
-serenidade. É o azul intenso, frio, triumphante. Tem a luz, a belleza,
-a força, a ineffabilidade. Agora a luz enternecida dos campos
-arrasta-se pelas grandes aguas quietas e pallidas, onde o vento revolve
-e espalha a agonia das folhas.</p>
-
-<p>Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranquiçada, escondida entre
-as bençãos indolentes das arvores. Tinha a serena quietação de quem
-tem ouvido segredos extaticos, e era triste e religiosa como a entrada
-amarellecida de um convento catholico. Havia uma corrente de agua
-delgada que fazia claras murmurações, e era como o acompanhamento,
-natural e melodico, de uma ecloga latina. Entre as arvores estava um
-banco solitario, que o musgo ia<span class="pagenum" id="Page_86">[86]</span> cobrindo. Nas plantas, nas clematites,
-nas trepadeiras que o cercavam, havia um murmurio como de vozes
-distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e molhada
-do banco tinha a tristeza das pedras do cemiterio, á luz consoladora,
-purificadora e branca, que cáe dos ceus outonaes.</p>
-
-<p>Agora, sobre aquelle banco, dorme estirada a grande luz do sol, e á
-noite o luar, porque já não ha n'aquella casa namorados contemplativos
-que venham, de noite ou á sésta, despertar, para se poderem sentar
-alli, aquelles dormentes de luz.</p>
-
-<p>Aquella casa abandonada faz lembrar amores mysticos: e, quando se vê á
-luz dolente do escurecer, faz subir do coração como um sabor de beijos
-antigos e esquecidos.</p>
-
-<p>As arvores erguiam, em attitudes violentas e propheticas, os seus
-braços nús, engelhados, supplicantes para o frio azul, esperando, no
-entorpecimento, a fermentação violenta das seivas. Os ramos frios
-e nitidos deixavam passar indifferentes, sem as suspender, sem as
-acariciar, as molles nudezas das nuvens.</p>
-
-<p>Toda a natureza, no tempo dos frios, está impassivel e somnolenta.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Passei por um cemiterio. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um
-rosto inerte e animal. A luz dissipava-se, e uma estrella que se chama
-Venus luzia, metallica, ardente, desejosa, lucilante, n'um fundo
-sinistro de ramagens.</p>
-
-<p>O coveiro é um semeador. Semeia corpos. Sómente não tem a esperança nem
-o amor das colheitas. Quem sabe se os corpos, que se atiram á valla,<span class="pagenum" id="Page_87">[87]</span>
-sementes funebres, se abrem, lá em cima, em searas divinas de que nós
-apenas vemos a ponta das raizes, que são as estrellas? Mas não. A alma
-morre. O corpo revive e dissipa-se na materia enorme.</p>
-
-<p>É na alma que estão as más vontades, os negros remorsos, as lacerações
-do mal: o corpo desce livre, novo e são para as uberdades limosas das
-covas.</p>
-
-<p>Quando chega o ultimo frio, odios, amores, tristezas, invejas,
-melancholias, desejos, todos cançados das luctas e da vida, dizem
-á natureza como gladiadores vencidos:—<i>Os que vão morrer
-saúdam-te!</i>—E morrem.</p>
-
-<p>A vida e o seu supplicio é absorvida na insensibilidade da natureza,
-no silencio perpetuo, na força fatal e céga. E a materia vae pelos
-ares, pelas planicies, amollece-se nas sombras, vivifica-se nos raios
-claros, é rochedo, floresta, torrente, fluido, vapor, ruido, movimento,
-estremecimento confuso do corpo de Cybéle: e a materia sente a vida
-universal, a palpitação do átomo debaixo da fórma, sente-se banhada
-pelas claridades suaves e pelos cheiros dos fenos, sente-se impellida
-para a luz magnetica dos astros e dilacerada nos asperos movimentos da
-terra. A materia tem a consciencia augusta da sua vitalidade. E assim,
-sob a tua impassibilidade, ha uma angustia immensa, uma vida ardente,
-impiedosa, uma alma terrivel, oh formidavel natureza!</p>
-
-<p>A noite descia: caía de cima uma claridade lactea; pesava um austero
-e lento silencio; a larga brancura celeste era gloriosa; os pastores
-desciam com os rebanhos lentos, balando; havia pelo ar uma bondade
-indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me<span class="pagenum" id="Page_88">[88]</span> dos Elysios olympicos
-e mythologicos onde na claridade, passam as sombras heroicas, serenas,
-brancas, leves, levadas por um vento divino. Claridades sem sol!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Eu ia escutando os passos da doce noite, que vinha caminhando. Ia-me
-afundando no tedio, como um navio roto n'uma maré do equinoxio.
-Enchiam-me a alma crepusculos brancos. Entrei no grande arvoredo negro.
-Áquellas horas, os lymphaticos, os innocentes, os mysticos, encontram
-nos arvoredos languidezas e elevações asceticas. Mas eu tremia entre a
-ramaria inquieta como um mar, mysteriosa como um firmamento:—tremia
-como um homem medroso que visse erguer-se um morto. Toda aquella negra
-decoração de ramos torcidos, de folhagens lividas, de silencios,
-enchia-me de um terror profundo e trivial. A luz dissipada e
-transfiguradora do occaso dava aos troncos um estranho aspecto de
-luctadores, vindos do sangue e dos incendios: os sinos distantes eram
-como vozes indefinidas de miseria e de dôr.</p>
-
-<p>Passava um vento incessante e perseguidor. Os môchos voavam, e as aguas
-sonoras eram como vozes vingativas e tragicas. A lua, entorpecida,
-passava por detraz da estacada de ramos. O vento era rouco e lento
-como um canto catholico de officios. E o grasnar lento e arrastado dos
-córvos parecia uma ladainha barbara de padres. As arvores doentias
-rangiam ao vento hybernal, o ar estava diaphano, lacteo e mortuario. As
-estrellas que appareciam tinham o olhar lancinante.</p>
-
-<p>Cheguei á estalagem. Em baixo, na lareira, um magro fogo lambia as
-fuligens. A luz do meu quarto<span class="pagenum" id="Page_89">[89]</span> tinha a lividez dos cirios, e o espelho
-tinha reflexos pallidos, como de sombras mythologicas que passassem.
-Ouviam-se os lobos.</p>
-
-<p>Lembraram-me então as outras noites, claras, doces, lentas, em que o
-ceu derrama somnolencias; então tambem eu ia por entre as arvores, e
-ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia retinir atravez
-da bruma, entre o acre cheiro das efflorescencias. Aquellas vozes
-claras eram doces, santas, saídas de crystaes, como veladas por um
-luar. Eram como claridades sonoras de estrellas. Era uma multidão de
-fórmas divinas que assim cantavam, divindades feericas, willis, nixes,
-peris, fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos.
-Aquellas nudezas celestes, filhas do fogo, flôres do mal, ondas do
-ar, entrelaçavam-se, dançando nas obscuridades, que as scintillações
-estellares franjavam de pallidezas. No meio dos nevoeiros humanos,
-ellas faziam resplandecer deante dos olhos as visões paradisiacas,
-as creaturas sideraes de languidos mysticismos. Ellas iam n'aquelles
-enlaçamentos, brancas e loiras, cheias de lyrismo, com os pés vermelhos
-e magoados de terem pisado auroras; iam poisando nos jacinthos, nos
-myrthos, nas rosas barbaras cheias de sangue radioso: iam rolando sobre
-a brancura soluçante dos lyrios: e a sua voz triste subia, por entre o
-azul lacteo, para a lua chorosa.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma mumia,
-pensando n'estas coisas, vi, repentinamente, atravez das vidraças, a
-lua apparecer-me.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_90">[90]</span></p>
-
-<p>Mas não era aquella pura e immaculada lua côr d'opala—que derrama
-brancuras, como se atravez do azul caissem lyrios. Era uma lua
-metallica, fria, hostil, material como uma moeda d'oiro nova.</p>
-
-<p>Ella apparecia-me mortuaria e livida como uma sombra finada, que se
-ergue ás grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e rapido, estava
-cheio das minhas agonias.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Ora n'essa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha
-feito saltimbanco.</p>
-
-<p>Fez bem. Cançado dos pedantes, dos burguezes, dos ventres mercantis,
-dos imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco, e vive entre os
-palhaços. Faz forças coberto de farrapos luzentes, engole espadas,
-dança farto de vinho como um Sileno. Dorme n'uma capa esfarrapada, com
-a nuca sobre um tambor, á frescura das estrellas e sob a bondade dos
-luares.</p>
-
-<p>Ás vezes tem frio e fome, e gela n'uns calções feitos de veludilho
-e de galões d'oiro. Anda errante de villa em villa, e a populaça da
-lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente. Dança sobre
-a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem soluçar de
-desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as grandezas e as
-materialidades felizes?</p>
-
-<p>Elle tem a multidão extatica e enlevada nos giros dos seus sapatos. E
-tem uma bem-amada de tranças tão compridas como os ramos de um chorão,
-e annelladas e fortes como negros pennachos de voluptuosidade: e a sua
-testa tem um reflexo de luar, de<span class="pagenum" id="Page_91">[91]</span> marmore e d'espelho: e tem um bello
-seio de fórmas barbaras.</p>
-
-<p>Elle pula á noite, no circo alumiado, emquanto as toutinegras cantam
-nos cannaviaes. Elle faz girar vinte punhaes agudos em volta da cabeça,
-n'um circulo puro e sonoro. E a multidão, um dia, vendo aquelle diadema
-terrivel e faiscante, e o saltimbanco impassivel, grave, enfarinhado,
-sob aquella corôa de luz, tomal-o-á por um idolo e fal-o-á igual aos
-deuses!</p>
-
-<p>Elle, o meu saltimbanco, tem a alma de oiro e o coração de diamante—e
-ri-se, ri-se, quando o vento sôa como flauta do inverno, e ao concerto
-das corujas e das ondas as estrellas dançam.</p>
-
-<p>A miseria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da
-bem-amada, morrerá sem pão, sem luz, sem calor, sem orações e sem
-sol. E não soffrerá mais. Viu durante a vida todo um povo curvado,
-applaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes
-tocarão o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocarão o seu
-melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes, os tambores!</p>
-
-<p>Todas estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que é o sonho? O que
-são as visões? São as attitudes, phantasticas e desmanchadas, que a
-sombra dá ás verdades. Já pensava assim o poeta Li-Tai-Pè, que escrevia
-sobre as coisas santas da China, entre porcelanas e laccas, ao aroma
-dos nenuphares, vestido de sedas amarellas, perfumado de sandalo—dôce,
-contemplativo, branco, diante d'um vaso de margaridas!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_93">[93]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="O_MILHAFRE">O MILHAFRE</h2>
-</div>
-
-
-<p>Um dia um homem entrou n'uma casa arruinada. No portal havia um nicho
-com um santo de pedra, que lia uma Biblia, tambem de pedra. Em redor,
-na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia
-hervas molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre
-as suas palpebras de pedra descidas sobre o livro sagrado. Passavam as
-cavalgadas, os enterros silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa
-dos regimentos, e o santo lia attentamente o seu livro de pedra.</p>
-
-<p>Vinham defronte dançar saltimbancos, passavam as frescas serenatas,
-vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de
-pedra sobre as paginas inertes. As devotas, lentas e desfallecidas,
-beijavam-lhe os pés nús, os homens severos saúdavam-o, as creanças
-olhavam-o com os seus grandes olhos inanimados, os cães ladravam-lhe á
-calva: o santo, curvado, seguia o espirito de Deus por entre as lettras
-do livro.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_94">[94]</span></p>
-
-<p>Passavam os fardos, os mercadores crestados pela industria, os poetas
-languidos que desfallecem nas cançonetas, os histriões que cantam nos
-tablados, mulheres mais preciosas que o ambar, os sabios, os mendigos,
-as virtuosas e as melodramaticas:—e o santo lia o seu livro prophetico.</p>
-
-<p>Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os cyprestes—ais de
-folhagem—os homens, perguntavam entre si:—«Que lê tão attentamente
-aquelle santo, que nem sequer nos olha?» E os enxurros, que passam
-rosnando, diziam:—«Que lê tão devotamente aquelle santo, que nem
-sequer nos escuta?»</p>
-
-<p>Ora o santo lia assim. De noite, quando as bandeiras cáem de somno,
-quando os homens estão cheios de comida e de inercia—a lua, que ao
-nascer é material e metallica como uma moeda d'oiro nova, depois,
-na suavidade do azul, é tão pura, tão casta, tão immaculada, tão
-consoladora, como uma chaga de Christo por onde se lhe visse a alma.
-A essas horas, uma creança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo
-pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o
-santo afastava um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a
-grande luz dos seus olhos, aquella creança miseravel, adormecida sobre
-as lages.</p>
-
-<p>Depois os planetas, a lua, a noite seguiam a sua viagem immensa para o
-oeste, e a leste começava uma claridade: eram as hesitações da luz do
-dia, medrosa por ter de descer ás miserias dos homens.</p>
-
-<p>As bandeiras ainda estavam desfallecidas, sonhavam as arvores, a cidade
-dormia como outr'ora Sodoma. Acordavam então as andorinhas. Esvoaçavam<span class="pagenum" id="Page_95">[95]</span>
-gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, poisar no nicho.</p>
-
-<p>As andorinhas estavam nas intimidades e nas confidencias do santo.</p>
-
-<p>Ora o vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grãos
-e de sementes: a chuva cáe lúcida e fresca. O santo aparava a chuva
-nas prégas da capa, e os grãos nas paginas do livro. E as andorinhas,
-quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a
-Biblia de Deus. E, em quanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as
-azas nas barbas do santo, beijavam-se na sua bocca, aninhavam-se-lhe
-entre os braços, cobriam-n'o todo; e o sol, quando chegava, ficava
-maravilhado de vêr aquelle pobre santo de pedra, que elle não conhecia
-do Paraizo, com os pés entre as hervas verdes, rindo, sereno, sob a luz
-immensa, e todo vestido d'azas!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>O homem entrou na casa arruinada e foi, atravez de pedras esverdeadas,
-de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos, do
-muralhas leprosas de musgo, de escadarias miseraveis, até uma sala
-enorme, escura e tragica, e tão alta, que involuntariamente o olhar
-procurava as constellações n'aquella sombra.</p>
-
-<p>No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabeça
-macerada do Christo, as traves pôdres do tecto abriam uma larga fenda.
-Por alli vinha a chuva escorrer-lhe nos cabellos como o antigo suor do
-Jardim das Oliveiras, vinham os granisos magoal-o como as pedras da
-paixão, vinha o sol alumial-o<span class="pagenum" id="Page_96">[96]</span> como a tocha de Judas, e a lua vinha,
-tambem, tornal-o mais livido, como n'aquella noite em que elle, depois
-de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalem, sentiu poisar na
-sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou.</p>
-
-<p>Sobre a cabeça e sobre os braços do Christo havia teias d'aranha; em
-baixo os ratos roíam-lhe a cruz.</p>
-
-<p>Então o homem sentiu que aquelle seio constellado, e aquella bocca
-d'onde saíu a revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a
-podridão, a caliça e os bichos; e que, se um dia Christo, vendo o homem
-afflicto e miseravel, lhe tinha arrancado da alma o mal, não era muito
-que o homem, encontrando Christo abandonado, profanado e roído, lhe
-limpasse da cabeça as aranhas! Mas, quando ia a limpar a imagem, viu,
-sobre a cruz, junto da mão pregada, um milhafre enorme. O homem, com as
-mãos, quiz arredar o milhafre.</p>
-
-<p>E a ave, então, com a antiga voz dos animaes da Biblia, do Apocalypse
-e dos livros dos prophetas, disse surdamente: «Homem, deixa a cruz
-socegada!»</p>
-
-<p>Atravez das fendas viam-se os astros sagrados. E o milhafre, batendo as
-azas, dizia:</p>
-
-<p>«Deixa a cruz, deixa! Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem
-agora estrellas, soes, planetas, scintillações, carbunculos. É o pó
-dos Deuses mortos. Todos se finaram, histriões ensanguentados, e a sua
-farça acabou em desterros.</p>
-
-<p>«Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nús.</p>
-
-<p>«Este ficou, solitario, alumiando. Elle perdoou emquanto os outros
-luctaram, elle amou emquanto os<span class="pagenum" id="Page_97">[97]</span> outros choraram: por isso fica
-emquanto os outros passam. Deixa. Esta cruz, que é de madeira, vale
-tanto como as que lá em cima fazem os raios dos astros, ou no silencio
-dos myrthos dois olhares bem-amados.</p>
-
-<p>«Deixa as aranhas, o pó, a caliça, os bichos, a neve, a geada, o
-apodrecimento. Elle póde bem dar ás aranhas o seu corpo de madeira,
-pois que vos deu a vós o seu corpo de carne—a vós, que pregaes com
-o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das janellas
-e o Christo no alto dos montes; a vós, que lhe vindes limpar os
-cabellos de madeira depois de lhe ter arrancado os cabellos vivos; a
-vós, que quereis lavar as nodoas que elle tem no peito, e não vêdes
-as immundicies que tendes na alma. Tudo o que elle creou, o amor,
-o ideal, o perdão, a fé, o pudor, a religião, Deus, todo aquelle
-evangelho da vida-nova anda pelo mundo, tão degradado, tão coberto de
-bichos, tão immundo como o seio d'esta imagem antiga. A materia, o
-impudor, o apetite rude, o odio, o aviltamento, o trafico, a miseria e
-a penalidade, andam sujando a tua alma, ó homem! como as aranhas andam
-sujando a cabeça d'este Christo! E não reparaes, e não vêdes, sobre os
-espiritos, sobre os corações, sobre as consciencias, o pó, a caliça, o
-caruncho, os ratos e os vermes!</p>
-
-<p>«Sim, é verdade: tudo é magnifico, e são, e banhado de sol. As cidades
-são limpas e caiadas, só as consciencias é que tem nodoas; as praças
-estão cheias de illuminações, só os corações é que estão escuros; os
-caes estão arejados, só os espiritos é que suffocam; os corpos estão
-sãos, cobertos de estofos, frescos e<span class="pagenum" id="Page_98">[98]</span> resplandecentes, só as almas
-é que andam núas, miseraveis e leprosas. De resto, tendes o riso, a
-farça, os paraisos artificiaes, as arcas venaes, e tambem o esfriamento
-do tumulo! Oh amigos intimos dos vermes, como vós cuidaes do corpo, e o
-lavaes, e o amaciaes, e o engordaes—para a pastagem escura das cóvas!</p>
-
-<p>«Homem, que fizeste tu da alma? Ao principio não era conhecida, depois
-foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente, julgaste melhor
-matal-a—mas não certamente de cançaço com viagens a Deus! Déstel-a a
-despedaçar á negra matilha do mal. Em compensação, guardaste o corpo:
-para esse uma religião, um asylo forte como o sol, os sete sellos da
-lei e a escolta dos regimentos. Esse é o sagrado, o immaculado, o
-pontifical, o victorioso. Prohibição a Deus de lhe tocar. Para elle
-palacios, cortejos, serralhos, estofos, pedrarias, o sol e a iluminação
-dos astros. Para elle a inviolabilidade: <i>Não matarás!</i></p>
-
-<p>«Começaram então as cruzes a ficar desertas, os cepos a encher-se
-de musgo, as forcas a apodrecer nos caminhos. Nós, os milhafres, e
-os nossos camaradas, os abutres, para quem já não havia corpos nos
-despenhadeiros, ladrões arroxeados pela corda, afogados disformes,
-deixamos os grandes montes e os rios, as vastas tradições do sangue,
-e viemos, para viver, acceitar, com os capões, a domesticidade nos
-parques resplandecentes, ou andamo-nos mostrando aos imbecis, pelas
-feiras, n'uma gaiola! E as aves da noite, depois de terem visto a
-natureza immensa, as afflicções do vento, as nupcias do mar, de<span class="pagenum" id="Page_99">[99]</span> terem
-luctado nas tempestades e insultado as estrellas, vêem, modestamente,
-comer bichinhos no saguão dos burguezes! Eu, que tinha estado entre a
-força, quiz, ao menos, ficar entre a graça; e, depois de ter vivido
-na noite de Deus, quiz, ao menos, morrer na madrugada de Jesus! E,
-entretanto, a alma morre esmagada e solitaria, e a grande vida moderna,
-a vida do sol, da musica, dos metaes, vae, entre fulgurações, pisando
-e cuspindo n'aquella coisa miseravel. E ainda está quente o sangue de
-Jesus!</p>
-
-<p>«Homem, que fizeste tu do pensamento?</p>
-
-<p>«Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo. Cravaste-lho
-no seio as sete dôres. Coube-lhe a dôr e o escarneo. É necessario
-que, nas cidades, os pensadores e os artistas extaticos soffram e
-sangrem: os triumphos dos homens da materia são como os dos antigos
-imperadores—só são completos quando passam entre torturas. E quem
-havia de soluçar sobre a scena moderna da paixão, senão os que têem
-alma?</p>
-
-<p>«Amam, suffocam, cáem, agonisam, e entretanto vae passando a cohorte
-dos victoriosos e dos reluzentes, e as suas bolsas riem-se d'aquelles
-corações, como os botões d'oiro das suas camisas apupam a luz dos
-astros.</p>
-
-<p>«E os que quizerem viver e tiverem a alma grande, bella e heroica, têem
-de se baixar á estatura burgueza e mercantil dos cerebros modernos. Os
-deuses olympicos, se não se deixassem ajuizadamente finar nas florestas
-antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo pavão de
-Juno viveria n'um pomar dos arrabaldes. Homero seria localista. Os
-cavalleiros<span class="pagenum" id="Page_100">[100]</span> andantes roubariam lenços nos ajuntamentos, e o tragico
-S. Jeronymo seria presidente d'uma junta de parochia. D'este modo tu
-acceitas a arte, o pensamento, a alma. Não, arte, não te vás; a vida
-moderna dar-te-á uma libré resplandecente; vem, musica, tu que creaste
-a Allemanha, far-me-ás uma contradança; vem, architectura, tu que deste
-hospitalidade a Deus, far-me-ás uma estufa; vem, esculptura, tu que
-fizeste o povo dos deuses, ó bella esculptura! vem fazer-me um gavetão.
-Oh! tristes domesticidades do ideal!»</p>
-
-<p>Houve um silencio. Havia na sala um ar mystico, como para a concepção
-d'um Deus.</p>
-
-<p>O milhafre esvoaçava. Ouvia-se o chorar d'uma flauta. E o olhar
-do Christo errava, contemplativo e attento, entre as estrellas
-innumeraveis, emquanto na escuridão, aos seus pés, os ratos lhe roíam a
-cruz.</p>
-
-<p>«Vae-te, disse o milhafre. Os ratos róem a cruz, eu estou velho: a
-antiga geração das aves da noite vae-se. Os prégos já se despregam, a
-cruz apodrece. E quando ella se desfizer, atirarei o seu pó á grande
-natureza, ao elevar da lua, que vale o elevar da hostia. Irei, oh meu
-Deus! para além dos soes e dos caminhos lacteos, onde as constellações
-são gôttas de sombra, certo—eu que sou da vasta terra, o selvagem
-dos prados, a respiração dos antros, eu que sou a palpitação dos
-montes—certo de que, se os homens não derem a cruz aos Christos, não
-lh'a dará tambem a natureza. E eu, que roí as ossadas verdes, tendo
-visto sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado n'uma
-cruz, irei tambem, entre os<span class="pagenum" id="Page_101">[101]</span> soes meio doidos, eu, que devastei, e
-matei, e escorri do sangue, crucificar-me n'um astro!»</p>
-
-<p>Assim fallou, lentamente, aquelle milhafre philosophico e lettrado,
-emquanto as violas gemiam, e os pobres tremiam de frio; assim fallava,
-de cima d'uma cruz, n'uma sala legendaria, longe das maravilhas
-dos Cains burguezes, n'estes tempos livres, sensatos, verdadeiros,
-magnificos, em que, como se não pódem pôr certas verdades na bocca dos
-homens, tem de se dependurar do bico dos milhafres.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_103">[103]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="LISBOA">LISBOA</h2>
-</div>
-
-
-<p>Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apezar
-dos asphaltos, das fabricas, dos gazometros, dos caes, ainda aqui as
-primaveras escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados
-ainda se beijam as pombas: ainda, no silencio, o ar escorre pelas
-cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um
-poeta impopular.</p>
-
-<p>Lisboa que faz?</p>
-
-<p>Antigamente a cidade, <i>urbs</i>, era o logar que pensava e que
-fallava, que tinha o verbo e a luz. Roma creou a justiça, Athenas
-idealisou a carne, Jerusalem crucificou a alma. Por isso Roma caíu, e
-os porcos enlameiam os restos de Athenas, e os cães uivam no silencio
-de Jerusalem. Os seus olhos olharam muito para a verdade, e cegaram: os
-seus ouvidos escutaram muito o pensamento, e ensurdeceram: as suas mãos
-esculpiram muito o ideal, e tolheram-se.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_104">[104]</span></p>
-
-<p>Pensar é soffrer, alumiar é luctar. A noite, ao succumbir, lucta com
-a madrugada, e deixa-lhe a chaga incuravel do sol: d'ella escorre a
-luz. As superstições, os preconceitos, os erros, os prejuizos, as
-fatalidades, luctam com a alma, e deixam-lhe a ferida insanavel do
-ideal: d'ella escorre a verdade. Esta ferida dá a febre, o cansaço,
-o desespero, a convulsão. Paris tem esta antiga e tragica ferida que
-teve Athenas, Babylonia e Jerusalem. Soffre, porque pensa. Os pés têm
-a intimidade da lama, as azas têm a camaradagem da luz. Todo o pé quer
-ser aza.</p>
-
-<p>D'ahi ambições, desalentos, luctas obscuras, perdições, descrenças,
-fulgurações do mal, impurezas, traições, invejas, injurias,
-torturas:—a congestão do espirito! São estas as dôres immensas, as
-nodoas do pensamento, as manchas do sol.</p>
-
-<p>Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbavel,
-silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terriveis.
-Tem a sensatez, a prudencia, a economia, o medo. Não quer alumiar,
-para não luctar; não quer pensar, para não soffrer. Não quer crear,
-pensar, apostolar, criticar. Escuta e applaude toda a voz, ou sejam
-as imprecações de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que
-solucem, as florestas que se lamentem! Ella tem o riso radioso e sereno.</p>
-
-<p>Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre,
-caiada e fresca. Não tem de catar as suas miserias, nem de amparar o
-páo das forcas: por isso commenta Sancho Pansa. Não tem de construir
-a cathedral das ideias, nem de compôr a symphonia da alma: por isso
-escuta os melros nas varzeas,<span class="pagenum" id="Page_105">[105]</span> e resa as <i>Ave Marias</i>. Paris,
-Londres, New-York, Berlim, suam e trabalham, em espirito. Ella não tem
-que semear: por isso resona ao sol.</p>
-
-<p>Ás vezes, porém, commette o mal, enterrando ideias. Onde? Na escuridão,
-no silencio, no desprezo. Lisboa é um pouco coveira d'almas!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Como Roma, ella tem as sete collinas; como Athenas, tem um ceu tão
-transparente que poderia viver n'elle o povo dos deuses; como Tyro, é
-aventureira do mar; como Jerusalem, crucifica os que lhe querem dar uma
-alma. Todavia, Lisboa o que faz? Come.</p>
-
-<p>Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que
-os astros vêm longe, que as azas sonham com o vento, que os olhos das
-flôres se fecham de somno. Deus não vê, da sua varanda de sol, que,
-para esta velha cidade, heroica e legendaria, que nos seus velhos dias
-tomou o peccado da gula, o abdomen é uma realidade livre! Até alli,
-durante o dia, os seus cabellos caíam como ramos de salgueiros, as suas
-faces estavam amarelladas, dos seus olhos chovia dôr; ainda não tinha
-comido! Depois, á noite, quando sáe do alimento como d'uma victoria, os
-olhares são gritos de luz, os cabellos plumas gloriosas, o peito arca
-de ideaes: comeu!</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>Lisboa nem cria, nem inicia; vae.</p>
-</div>
-
-<p>Em religião, nem tem a devoção dos monges, nem a impiedade ironica:
-é simples. Antigamente faz vir um Christo crucificado, erguendo os
-braços<span class="pagenum" id="Page_106">[106]</span> supplicantes, no prestito dos enforcados: hoje choraria pela
-Mãe Dolorosa, depois de ter erguido uma estatua a Voltaire: penduraria
-ao pescoço, singelamente, com as contas de um rosario, a sua antiga
-viola de Alfama.</p>
-
-<p>Em politica, copia Sancho Pansa.</p>
-
-<p>Não tem a coragem que se dedica, nem o medo soluçante: parece ter
-justamente o heroismo de uma espada embainhada: na campanha da Europa,
-todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda. Tem a
-religião sensual do sol, do calor, e do sonino: na Beresina, apupava as
-neves!</p>
-
-<p>Não tem a febre das especulações e das industrias, nem o amor das
-contemplações e dos sonhos: tem um trabalho cheio de séstas: em abril
-suspende a enxada para vêr voltar as andorinhas.</p>
-
-<p>No vicio é timida: copia desgeitosamente as Babylonias distantes:
-aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os pés: apara as unhas ao
-diabo; é o banho tepido dos peccados mortaes.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Adoradora, em architectura, da linha recta dos palacios de crystal;
-sectaria, em esculptura, dos <i>biscuits</i> de Sèvres; namorada, em
-poesia, do visconde d'Arlincourt—no theatro quer a magica: tem sede
-e fome d'aquelle ideal: quer as montanhas transparentes, os palacios
-de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, architecturas de luz
-e sons, papeis collados, vermelhão e ouropeis, mulheres despidas,
-pedraria, e oiro, oiro, oiro, e ainda oiro, e mulheres despidas, e
-mais oiro! Lisboa, por sobre uma scena resplandecente, vê as fórmas
-estranhas que toma o sonho da<span class="pagenum" id="Page_107">[107]</span> imbecilidade: quer a magica: em verdade,
-a magica é o espectro solar do idiotismo!</p>
-
-<p>Vem a noite, e Lisboa toma a impassibilidade das penedias.</p>
-
-<p>As casas, sem luz, têm o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.
-A illuminação é um côro de gaz, bocejando. Das encruzilhadas das ruas
-solitarias, de todo este deserto de cantarias e de vidraças, exhala-se
-uma somnolencia fluida, um halito de tedio. Lisboa, de noite, é tão
-silenciosa que quasi se sente o crescer da herva que a ha-de cobrir no
-dia das ruinas.</p>
-
-<p>É tão triste, que a noite parece um arrependimento da vida! Nas bellas
-moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos, em
-palhas, por toda a parte, ha um vasto somno inerte e vegetal.</p>
-
-<p>Que fazem, entretanto, os errantes da noite, a familia <i>Vicio</i>,
-a gente crepuscular, os herdeiros terriveis de Lovelace e de D. Juan
-Tenorio?</p>
-
-<p>Compram, na penumbra domestica, o amor fuliginoso das cosinheiras,
-comem, melancholicamente, mexilhões nas tavernas; os mais pobres
-encostam-se ás esquinas, esfarrapados e doentes, cariatides somnolentas
-do tedio!</p>
-
-<p>E nas casas? Ahi, nos andares resplandecentes, onde as mãos são macias
-e macios os sentimentos, estão, concentradas e sérias, fórmas vestidas
-de luto, como os viuvos, ou vestidas de branco, como as monjas. E
-suaves são as fallas, e o andar cheio de ondulações como o nadar das
-sereias, e as danças severas como a celebração d'um rito: e suaves
-são as petalas, e as musicas chorosas, e as luzes, aves de<span class="pagenum" id="Page_108">[108]</span> claridade
-presas, que palpitam e querem o livre azul: mas sobre a alma, e os
-corpos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos viuvos e a frialdade
-das monjas. E isto são as festas!</p>
-
-<p>Mais acima, nos andares modestos, resonam aquellas familias, vulgares
-e asperas, que nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a
-belleza, a graça, a paixão, como insectos entre os cabellos d'uma
-santa, e morrem solitarias, invejosas, com os corações cheios de
-revolta, porque não amaram!</p>
-
-<p>Depois, mais em cima, nos ultimos andares, é a gente do trabalho:
-operarios severos, doces raparigas com alma de passaro, gargantas onde,
-como nas veigas de Israel, todo o dia se canta; e, tambem, a gente
-estupida e metallica que tem a brutalidade do trabalho com a rudeza do
-coração, indoles asperas, olhos invejosos, mãos avaras, peitos vasios,
-que a essas horas da noite, com os cabellos caidos, vêem a vida tão
-núa, tão apertada, tão brutal, tão suja como a sua trapeira!</p>
-
-<p>E depois mais acima, debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados,
-os miseraveis, a essas horas, com grandes olhos aterrados, catam-se, ou
-roem as côdeas, ou gemem de dôr, ou morrem entre a caliça e as aranhas,
-ou se remendam, cantando impuramente!</p>
-
-<p>E por cima (como na jerarchia da dôr, das tristezas do pobre, só estão
-as chagas do Christo) o grande azul, sereno, transparente, cheio de
-universos, esconde, por detraz da gradaria dos astros, o Mysterio e a
-Graça!</p>
-
-<p>A essas horas, ó miseria das cidades! longe dos<span class="pagenum" id="Page_109">[109]</span> conservatorios, e das
-academias, e das magicas, pelos prados e pelas varzeas, representam-se
-as verdes comedias da natureza: os rouxinoes dão a replica ás folhas
-melodiosas, as flôres choram pelas desgraças de um melro amoroso, os
-olmos teem attitudes grotescas de palhaços, e o ceu, como um amante
-tragico, criva-se de punhaladas de luz!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações d'um peito
-desmaiado. Não ha ambições explosivas; não ha ruas resplandecentes
-cheias de tropeis de cavalgadas, de tempestades d'oiro, de velludos
-lascivos: não ha amores melodramaticos: não ha as luminosas
-efflorescencias das almas namoradas da arte: não ha as festas feericas,
-e as convulsões dos cerebros industriaes.</p>
-
-<p>Ha escassez de vida; um frio senso pratico; a preoccupação exclusiva do
-util; uma seriedade emphatica; e a adoração burgueza e serena da moeda
-de cinco tostões—da moeda de cinco tostões, branca, perfeita, celeste,
-pura, immaculada, consoladora, purificadora!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>O luxo dos vestuarios é reflectido, pausado, calculado.</p>
-
-<p>Um outro luxo ha, mais doido: esse, quando é novo, ruge, resplandece,
-deixa-se balançar em grandes prégas desfallecidas—um pouco baixamente,
-de camaradagem com a lama. Mais tarde, depois das ostentações e dos
-amores, envergonha-se e vae-se mascarar ás tinturarias: nos seus velhos
-dias anda, miseravel, pedindo esmola por casa das adelas!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_110">[110]</span></p>
-
-<p>A Lisboa material tem posições moraes. Ha sitios que dão, aos que
-os pisam, uma individualidade. O lagedo e a cantaria consagram
-espiritos. Encontrar-se no <i>Chiado</i>—significa ter a fina flôr
-da graça, a vivacidade conceituosa e costumes dissipados. Estar no
-<i>Martinho</i>—revela inspiração, divindade interior, lyrismo e
-politica. Oh Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Lisboa tem compaixões celestes: agrupa-se, em côro de lagrimas, para
-vêr a morte d'um cão: mas afasta-se logo, assobiando, se começa a
-agonia d'uma alma. Tem tambem uma curiosidade timida e facil: senta-se
-nos passeios pelo estio, entre o pó, olympicamente, como os Deuses
-entre a luz, e fica attenta, concentrada, suspensa, idiota—a vêr
-caminhar seis mil pernas!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis; outro dia aborreceu-se
-o acolheu os imperadores. Ás vezes Lisboa aborrece-se—e entra na
-politica.</p>
-
-<p>Lisboa toma então attitudes, clama, conjura nas esquinas, é
-bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas
-tyrannias derrubadas, reler a cartilha!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se!</p>
-
-<p>Nos tempos mythologicos, ás vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa
-e mãe, fiava na roca d'ebano incrustada de lapis, e dobava as lãs
-vermelhas de Mileto. Vinha, porém, um dia no anno em que a mulher<span class="pagenum" id="Page_111">[111]</span>
-ia, no Olympo, ser deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes;
-debalde lhe pediam que não fosse, temendo que ella, mulher e deusa,
-não se acostumasse, na volta, ás lampadas de gineceu, ella que só ia
-ser alumiada pelos astros do Olympo. Debalde: chegado o momento, nada
-impedia a esposa de ser divindade: via-se aquelle corpo casto, argilla
-ideal, azular-se e, transparencia viva, perder-se na luz.</p>
-
-<p>Lisboa é assim. Vem um dia em que ella quer voltar ao seu elemento
-primitivo, e ninguem a póde impedir de ser lama: é pelo entrudo.</p>
-
-<p>Suja-se então livremente, faz tempestades nojentas; n'aquelles dias o
-seu tedio é feito d'immundicie.</p>
-
-<p>Transfigura-se. E como a Deusa deixava, na antiguidade, os filhos e
-os lares, para ir ser luz, Lisboa esquece as funcções do seu tedio,
-a religião da moeda d'oiro, o sacerdocio da economia, as attitudes
-emphaticas do seu pudor, para se dar livremente á lama!</p>
-
-<p>Lisboa é a hospedaria do vento. O antigo Euro paga a hospedagem,
-atirando a poeira ás ruas, ás praças, ás avenidas, aos caes, á cara de
-Lisboa! Sublime adulação: suja-a!</p>
-
-<p>Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Collisão! Lisboa, cidade
-inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Athenas produziu a esculptura, Roma fez o direito, Paris inventou a
-revolução, a Allemanha achou o mysticismo. Lisboa que creou?</p>
-
-<p>O <i>Fado</i>.</p>
-
-<p><i>Fatum</i> era um Deus no Olympo; n'estes bairros é uma comedia.
-Tem uma orchestra de guitarras, e<span class="pagenum" id="Page_112">[112]</span> uma illuminação do cigarros. O
-palco está mobilado com uma enxerga. A scena final é no hospital ou na
-enxovia.</p>
-
-<p>O panno de fundo é uma mortalha!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Todos os dias, quando o sol se vae lavar, nas aguas, dos olhares dos
-homens, quando os corpos estão em flôr e passam os olhos pretos, de que
-Deus é avaro, e a maledicencia se abre como uma tulipa, e os risos são
-clarões, e a vida se balouça cheia de sonhos, de lustres de olhares,
-de beijos côr do sol, de camelias e de pomadas, passam na rua umas
-carruagens lentas, com grandes arabescos doirados: são coches; as suas
-armas são caveiras; vão alli os mortos.</p>
-
-<p>«Anda, cocheiro: é um freguez que vae para a cova: a passo! Alto de S.
-João! A eternidade toma-te á hora!»</p>
-
-<p>E emquanto o pobre morto vae, que dizem os que o viram partir,
-soluçando?</p>
-
-<p>Os filhos dizem: «Tinha de ser...»</p>
-
-<p>A esposa diz: «Vestida de luto!...»</p>
-
-<p>O agiota: «Não foi mau freguez.»</p>
-
-<p>Os medicos: «É um caso interessante...»</p>
-
-<p>Os que o levam para a cova: «Era pesado, o maroto!»</p>
-
-<p>O coveiro canta:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">O preto que vem d'Angola</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Traz a bordo fava rica.</span><br />
-</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_113">[113]</span></p>
-
-<p>Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquelle homem: vestiste-o com os teus
-cabellos, alimentaste-o com o teu halito, coroaste-o com o teu olhar,
-divinisaste-o com o teu desejo: elle era formoso, e são, e forte, e
-apaixonado: mas se passares por ao pé d'elle agora, oh pobre mulher
-chorosa, põe bem a mão no nariz!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Fica-te em paz, Lisboa! Dorme, digere, resona, soluça e cachimba. E
-se algumas lagrimas em ti cairem, vae-as enxugar depressa ao sol!
-Fica-te em paz! Os que teem alma não querem a luz dos teus olhos; pódes
-consumil-a a contemplar o ceu e os universos; por causa do teu olhar,
-sempre erguido para lá, ninguem terá ciumes do ceu!</p>
-
-<p>Os que teem coração, não querem as caricias das tuas mãos; pódes
-emmagrecel-as a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas
-para elle, ninguem terá ciumes de Deus!</p>
-
-<p>Tu tens a belleza, a força, a luz, a graça, a plastica, a agua
-resplandecente, a linha magnifica! Resigna-te, oh Lisboa querida, oh
-clara cidade bem-amada, oh casta graça silenciosa, resigna-te, oh doce
-Lisboa, coroada de ceu, resigna-te—a não ter alma!</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_115">[115]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="O_SENHOR_DIABO">O SENHOR DIABO</h2>
-</div>
-
-
-<p>Conhecem o Diabo? Não serei eu quem lhes conte a vida d'elle. E todavia
-sei de cór a sua legenda tragica, luminosa, celeste, grotesca e suave!</p>
-
-<p>O Diabo é a figura mais dramatica da Historia da Alma. A sua vida
-é a grande aventura do Mal. Foi elle que inventou os enfeites que
-enlanguescem a alma, e as armas que ensanguentam o corpo. E todavia,
-em certos momentos da historia, o Diabo é o representante immenso do
-direito humano. Quer a liberdade, a fecundidade, a força, a lei. É
-então uma especie de Pan sinistro, onde rugem as fundas rebelliões da
-natureza. Combate o sacerdocio e a virgindade; aconselha a Christo que
-viva, o aos mysticos que entrem na humanidade.</p>
-
-<p>É incomprehensivel: tortura os santos e defende a egreja. No seculo
-<span class="allsmcap">XVI</span> é o maior zelador da colheita dos dizimos.</p>
-
-<p>É envenenador e estrangulador. É impostor, tyranno,<span class="pagenum" id="Page_116">[116]</span> vaidoso e
-traidor. Todavia conspira contra os imperadores da Allemanha: consulta
-Aristoteles e Santo Agostinho, e supplicia Judas que vendeu Christo, e
-Brutus que apunhalou Cesar.</p>
-
-<p>O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza immensa e doce. Tem talvez a
-nostalgia do ceu!</p>
-
-<p>Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lucifer, <i>o que leva a
-luz</i>, revolta-se contra Jehovah, e commanda uma grande batalha entre
-as nuvens.</p>
-
-<p>Depois tenta Eva, engana o propheta Daniel, apupa Job, tortura Sara,
-e em Babylonia é jogador, palhaço, diffamador, libertino e carrasco.
-Quando os deuses foram exilados, elle acampa com elles nas florestas
-humidas da Gallia e embarca expedições olympicas nos navios do
-imperador Constancio. Cheio de medo diante dos olhos tristes de Jesus,
-vem torturar os monges do Occidente.</p>
-
-<p>Escarnecia S. Macario, cantava psalmos na egreja de Alexandria,
-offerecia ramos de cravos a Santa Pelagia, roubava as gallinhas do
-abbade de Cluny, espicaçava os olhos a S. Sulpicio e á noite vinha,
-cançado e empoeirado, bater á portaria do convento dos dominicanos, em
-Florença, e ia dormir na cella de Savonarola.</p>
-
-<p>Estudava o hebreu, discutia com Luthero, annotava glosas para Calvino,
-lia attentamente a Biblia e vinha ao anoitecer para as encrusilhadas da
-Allemanha jogar com os frades mendicantes, sentado na relva, sobre a
-sella do seu cavallo.</p>
-
-<p>Intentava processos contra a Virgem: e era o pontifice da missa negra,
-depois de ter inspirado os juizes de Socrates. Nos seus velhos dias,
-elle que tinha<span class="pagenum" id="Page_117">[117]</span> discutido com Attila planos de batalha, deu-se ao
-peccado da gula.</p>
-
-<p>E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e
-somnolento, apupou-o. Então o demonographo Wier escreve contra elle
-pamphletos sanguinolentos, e Voltaire criva-o d'epigrammas.</p>
-
-<p>O Diabo sorri, olha em roda de si para os calvarios desertos, escreve
-as suas memorias, e n'um dia ennevoado, depois de ter dito adeus aos
-seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso.</p>
-
-<p>O Diabo foi celebrado pelos sabios e pelos poetas. Proclus ensinou a
-sua substancia, Presul as suas aventuras da noite, S. Thomaz revelou
-o seu destino. Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a
-sua inconstancia jovial. João Dique escreveu sobre a sua eloquencia e
-Jacques I, de Inglaterra, fez a corographia dos seus estados. Milton
-disse a sua belleza e Dante a sua tragedia. Os monges ergueram-lhe
-estatuas. O seu sepulchro é a natureza.</p>
-
-<p>O Diabo amou muito.</p>
-
-<p>Foi namorado gentil, marido, pae de gerações sinistras. Foi querido,
-na antiguidade, da mãe de Cesar, e na meia-edade foi amado da bella
-Olympia. Casou no Brabante com a filha d'um mercador. Tinha entrevistas
-languidas com Fredegonda, que assassinou duas gerações. Era o namorado
-das frescas serenatas dadas ás mulheres dos mercadores de Veneza.</p>
-
-<p>Escrevia melancolicamente ás monjas dos conventos da Allemanha.</p>
-
-<p><i>Feminæ in illius amore delectantur</i>, diz tragicamente o abbade
-Cesar de Helenbach. No seculo XII<span class="pagenum" id="Page_118">[118]</span> tentava com olhares cheios de sol
-as mães melodramaticas dos Burgraves. Na Escossia havia grande miseria
-sobre os montes: o Diabo comprava por 15 <i>schellings</i> o amor das
-mulheres dos <i>highlanders</i>, e pagava-lhes com o dinheiro falso que
-fabricava em companhia de Philippe <span class="allsmcap">I</span>, de Luiz <span class="allsmcap">VI</span>,
-de Luiz <span class="allsmcap">VII</span>, de Philippe o Bello, do rei João, de Luiz
-<span class="allsmcap">XI</span>, de Henrique <span class="allsmcap">II</span>, com o mesmo cobre de que se
-faziam as caldeiras onde eram cosidos vivos os moedeiros falsos.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Mas eu quero só contar a historia de um amor infeliz do Diabo, nas
-terras do norte.</p>
-
-<p>Oh mulheres! vós todas que tendes dentro do peito o mal que nada cura,
-nem os simples, nem os balsamos, nem os orvalhos, nem as resas, nem o
-pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir esta historia florida!</p>
-
-<p>Era na Allemanha, onde nasce a flôr do absyntho.</p>
-
-<p>A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepelliz
-do senhor arcebispo d'Ulm.</p>
-
-<p>Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras,
-de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Christo
-de marfim. As plantas limpavam piedosamente, com as suas mãos de
-folhas, o sangue das chagas; as pombas, com o calor do seu collo,
-aqueciam os pés doloridos. No fundo da casa, o pae d'ella, o velho,
-bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos de Italia, e as cidras da
-Dinamarca. Era vaidoso, gordo, somnolento e mau.</p>
-
-<p>E sempre a rapariga fiava. Preso á roca por um fio branco, sempre o
-fuso saltava; preso ao seu coração por uma tristeza, sempre pulava um
-desejo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_119">[119]</span></p>
-
-<p>E todo o dia fiava.</p>
-
-<p>Ora debaixo da varanda passava um lindo moço, delicado, melodioso e
-timido. Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro.</p>
-
-<p>Ella, sentada junto do crucifixo, cobria os pés de Jesus com os seus
-grandes cabellos louros.</p>
-
-<p>As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra
-a cabeça da imagem. Parecia que toda a alma de Christo alli
-estava—consolando, em cima, sob fórma de planta, amando, em baixo, sob
-fórma de mulher.</p>
-
-<p>Elle, o branco moço, era o peregrino d'aquella santa. E o seu olhar
-procurava sempre o coração da doce rapariga, e o seu olhar d'ella,
-séria e branca, ia procurar a alma do caro bem amado.</p>
-
-<p>Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de
-luz, contar o que tinham visto. Era um encanto!</p>
-
-<p>—Se tu soubesses!—dizia um olhar.—A alma d'ella é immaculada.</p>
-
-<p>—Se tu visses!—dizia o outro.—O coração d'elle é sereno, forte e
-vermelho.</p>
-
-<p>—É consolador, aquelle peito onde ha estrellas!...</p>
-
-<p>—É purificador, aquelle seio onde ha bençãos!</p>
-
-<p>E olhavam ambos, silenciosos, extaticos, perfeitos. E a cidade vivia,
-as arvores rosnavam sob o balcão dos eleitores, a trompa de caça
-soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos
-liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das egrejas, as
-amendoeiras tinham flôr, e o Rheno cantigas de ceifeiras.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_120">[120]</span></p>
-
-<p>E elles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Christo
-aninhava as almas.</p>
-
-<p>Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o
-ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou
-dos reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria, na varanda, fiava a
-sua estriga. Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.</p>
-
-<p>Então, no silencio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck, que
-os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Os teus olhos, bem amada,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">São duas noites cerradas.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mas os labios são de luz.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Lá se cantam alvoradas.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os teus seios, minha graça,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">São duas portas de cêra.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Fôra a minha boca um sol,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Como elle as derretêra!</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Os teus labios, flôr de carne,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">São portas do paraizo:</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o banquinho de S. Pedro</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">É no teu dente do sizo.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Queria ter uma camisa</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">D'um tecido bem fiado,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Feita do todos os ais</span><br />
-<span class="pagenum" id="Page_121">[121]</span><span style="margin-left: 1em;">Que o teu peito já tem dado.</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">Quando nos fôrmos casar,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Canta missa o rouxinol.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E o teu vestido de noiva</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Será tecido de sol!</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 1em;">A benção nos deitará</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Algum antigo carvalho!</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E por enfeites de boda</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Teremos gottas de orvalho!</span><br />
-</p>
-
-<p>E, ao cimo da rua, appareceu um homem forte, d'uma pallidez de marmore.
-Tinha os olhos negros como os dois soes legendarios do paiz do Mal.
-Negros eram os cabellos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao
-peito do corpete uma flôr vermelha de cactus.</p>
-
-<p>Atraz vinha um pagem perfeito como uma das antigas estatuas, que
-fizeram na Grecia a lenda da belleza. Andava convulsivamente como se
-ferisse os pés no lagedo. Tinha os olhos inertes e fixos dos Apollos
-de marmore. Dos seus vestidos saía um cheiro a ambrozia. A testa era
-triste e serena como as dos que teem a saudade immortal d'uma patria
-querida. Trazia na mão uma amphora esculpida em Mileto, onde se sentia
-a suavidade dos nectares olympicos.</p>
-
-<p>O homem da pallidez de marmore veiu até junto da varanda, e, entre as
-supplicas gemidas de guitarra, disse sonoramente:</p>
-
-<p>—A gentil moça, a linda Yseult da varanda, deixa que estes beiços de
-homem vão como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria de amor,
-das suas mãos ao seu collo?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_122">[122]</span></p>
-
-<p>E olhando para Jusel, que desfolhava uma margarida, cantou lentamente,
-com grandes risadas frias e metallicas:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">Quem depenna um rouxinol</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">E rasga uma triste flôr,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Mostra que dentro do peito</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Só tem farrapos d'amor.</span><br />
-</p>
-
-<p>E ergueu para a varanda os seus olhos terriveis e desoladores, como
-blasphemias de luz. Maria tinha levado a sua roca e só havia na varanda
-as aves, as flôres e Jesus!</p>
-
-<p>—A toutinegra voou—disse jovialmente.</p>
-
-<p>E indo para Jusel:</p>
-
-<p>—É que talvez sentisse a visinhança do abutre. Que diz o Bacharel?</p>
-
-<p>Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.</p>
-
-<p>—No meu tempo, senhor Suspiro,—disse o homem dos olhos negros,
-cruzando lentamente os braços—já havia aqui duas espadas, a fazer
-rebentar na sombra flôres de faiscas. Mas os heroes vão-se, e os homens
-nascem cada vez mais da dôr das mulheres. Vejam isto! É um coração com
-gibão e gorra. Mas coração branco, pardo, alvacento, de todas as côres,
-menos vermelho e solido. Pois bem! Aquella rapariga tem uns cabellos
-louros que dizem bem com os meus cabellos pretos. As cintas delgadas
-querem os braços fortes. Os labios, vermelhos de desejo, gostam das
-armas vermelhas de sangue. É minha a dama, senhor Bacharel!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_123">[123]</span></p>
-
-<p>Jusel tinha descido as suas grandes palpebras elegiacas, e via as
-petalas arrancadas da margarida caírem como desejos assassinados,
-desprendidos do seu peito.</p>
-
-<p>O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a mão:</p>
-
-<p>—Bacharel Ternura—disse—ha aqui perto um logar onde os goivos
-nascem expressamente para os innocentes que morrem. Se tens alguns
-bens a deixar, recommendo-te este excellente Rabil.—Era o pagem.—É
-necessario proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde que
-findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o coração
-á bem amada, á moda dos trovadores, eu me encarrego de lh'o trazer,
-bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu és formoso, amado,
-branco, delicado, perfeito. Vê-me isto, Rabil! E uma farça bem feita ao
-Compadre lá de cima dos soes, dilacerar-lhe esta belleza! Se namoravas
-alguma estrella, eu lhe mandarei, por bom portador, os teus ultimos
-adeuses. Em quanto aos sacramentos, são inuteis: eu me encarrego de
-te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rondó de defuntos:
-annuncia no Inferno o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas
-em duello secreto, armas honradas!</p>
-
-<p>E batendo heroicamente nos copos da espada:</p>
-
-<p>—Eu tenho aqui esta debilidade: onde está a tua força?</p>
-
-<p>—Alli!—respondeu Jusel, mostrando Christo na varanda das plantas e
-das pombas, allumiado pelo sol que descia, branco entre a folhagem,
-agonisante entre as palpitações das azas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_124">[124]</span></p>
-
-<p>—Ah!—disse cavamente o homem da flôr de cactus.—A mim, Rabil!
-Lembras-te de Acteon, de Apollo, de Derceto, de Inachus e de Marte?</p>
-
-<p>—Eram os meus irmãos...—disse lentamente o pagem, hirto como uma
-figura de pedra.</p>
-
-<p>—Pois bem, Rabil, para a frente, atravez da noite! Cheira-me aqui ás
-terras de Jerusalem!</p>
-
-<p>E sumiram-se debaixo das arcarias e das pilastras, sinistros, soluçando.</p>
-
-<p>Na noite seguinte, havia pela Allemanha um grande luar purificador.
-Maria estava debruçada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins
-concebem. Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar,
-suspirava para aquelle corpo feminino e branco, como nos jardins a
-agua, que sobe em repuxo, suspira murmurosamente para o azul.</p>
-
-<p>Maria disse suspiradamente:</p>
-
-<p>—Vem.</p>
-
-<p>Jusel subiu á varanda, radioso. Sentaram-se ao pé da imagem. O ar
-estava tão sereno como na patria das almas. Os dois corpos dobravam-se,
-um para o outro, como se os estivessem approximando os braços d'um Deus.</p>
-
-<p>As folhagens escuras, que envolviam o Christo, estendiam-se sobre as
-duas cabeças louras com gestos de benção. Havia na molleza das sombras
-um mysterio nupcial. Jusel tinha as mãos d'ella presas como passaros
-captivos, e dizia, com a voz humilde dos corações primitivos:</p>
-
-<p>—Queria bem vêr-te, assim, ao pé de mim. Se soubesses! Tenho receios
-infinitos. És tão loura, tão branca! Tive um sonho que me assustou. Era
-n'um<span class="pagenum" id="Page_125">[125]</span> campo. Tu estavas de pé, immovel: ouvia-se um côro que cantava
-dentro do teu coração! Em redor andava uma dança nebulosa de espiritos.
-E diziam uns:—Aquelle côro é de mortos: são os amantes infelizes que
-choram no coração d'aquella mulher.—Outros diziam:—São as tristezas
-dos minnesingers errantes que alli soluçam.—Outros diziam:—Sim,
-aquelle côro é de mortos: são os nossos deuses queridos que choram alli
-do exilio.—E então eu adiantei-me e disse:—Sim, sim, aquelle côro é
-de mortos: são os desejos que ella teve por mim, que se lembram e que
-gemem.—Que sonho tão mau, tão mau!</p>
-
-<p>—Porque estás tu—dizia ella—todos os dias encostado ao pilar, com as
-mãos quasi postas?</p>
-
-<p>—Estou a ler as cartas de luz que os teus olhos me escrevem.</p>
-
-<p>Calaram-se. Elles eram, n'aquelle momento, a alma florida da noite.</p>
-
-<p>—Quaes são os meus olhos? quaes são os teus olhos?—dizia Jusel.—Nem
-eu sei!</p>
-
-<p>E ficaram calados. Ella sentia os desejos, que se desprendiam dos olhos
-d'elle, virem, como passaros feridos que gemem, cair no fundo da sua
-alma, sonorosamente.</p>
-
-<p>E inclinando o corpo:</p>
-
-<p>—Conheces meu pae?—disse ella.</p>
-
-<p>—Não. Que importa?</p>
-
-<p>—Ai, se tu soubesses!...</p>
-
-<p>—Que importa? Estou aqui. Se elle te quer bem, ha-de gostar d'este
-meu amor, sempre aos teus pés como um cão. O que quero eu? Ter a tua
-alma presa, bem presa, como um passaro captivo. Esta<span class="pagenum" id="Page_126">[126]</span> paixão toda
-deixa-te tão immaculada, que se morresses podias ser enterrada na
-transparencia do azul. Os desejos são uma hera: queres que os arranque?
-Tu és o pretexto da minha alma. Se me não quizesses, deixava-me andar
-esfarrapado. Por eu entrar no teu coração, não tires nada d'elle, não?
-Tens lá a fé de Jesus, e a saudade de tua mãe: deixa estar: damo-nos
-todos bem, lá dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um ceu
-constellado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares, vem
-a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu?
-Casemo-nos no coração de Jesus! Dá-me essa agulheta, que te prende o
-cabello. Será a nossa estola.</p>
-
-<p>E com a ponta da agulheta, de pé, junto da imagem, afastando os ramos,
-transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Christo as iniciaes
-dos dois nomes enlaçados—J. e M.</p>
-
-<p>—É o nosso noivado!—disse elle.—O ceu atira-nos os astros, confeitos
-de luz. Christo não se esquecerá d'este amor que chora aos seus pés. As
-exhalações divinas que saírem do seu peito apparecerão, lá em cima, com
-a fórma das nossas lettras. Deus saberá este segredo. Que importa? Eu
-já lh'o tinha dito, a elle, ás estrellas, ás plantas, aos passaros, ás
-florescencias; porque, vês tu? as flôres, as constellações, as pombas,
-tudo isto, toda esta effusão do bondade, de innocencia, de graça, era
-simplesmente, oh adorada! um eterno bilhete de amor que eu te escrevia!</p>
-
-<p>E ajoelhados, extaticos, calados, elles sentiam misturar-se ao seu
-coração, ás suas confidencias, aos seus<span class="pagenum" id="Page_127">[127]</span> desejos, toda a vaga e immensa
-bondade da religião da Graça.</p>
-
-<p>E as suas almas fallavam, cheias de mysterio:</p>
-
-<p>—Vês tu?—dizia a alma d'ella.—Quando te vejo, parece que Deus
-diminue, e se contráe, e se vem aninhar todo no teu coração; quando
-penso em ti, parece-me que o teu coração se alarga, se estende, abrange
-o ceu e os universos, e encerra por toda a parte Deus!</p>
-
-<p>—O meu coração—suspirava a alma d'elle—é uma concha. O teu amor é o
-mar. Muito tempo esta concha viverá afogada e perdida n'esse mar. Mas,
-se tu me expulsares de ti, como n'uma concha abandonada se ouve ainda o
-rumor do mar, no meu coração abandonado se escutará sempre o susurro do
-teu amor!</p>
-
-<p>—Olha—dizia a alma d'ella—eu sou como um campo. Tenho arvores e
-relvas. O que ha em mim de maternidade é arvore para te cobrir, o que
-ha em mim de paixão é relva para tu pisares!</p>
-
-<p>—Sabes tu?—dizia a alma d'elle.—No ceu ha uma floresta invisivel de
-que apenas se veem as pontas das raizes, que são as estrellas. Tu eras
-a toutinegra d'aquelles arvoredos. Os meus desejos feriram-te. Eu, ha
-muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente, se o
-sol te allumia, triste, se a chuva te molha. Ha muito que te vejo vir
-descendo: quando cairás tu nos meus braços?...</p>
-
-<p>E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam
-deslumbradas, ineffaveis, ternas: confundidas, tinham o ceu por
-elemento, os seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua
-esperança<span class="pagenum" id="Page_128">[128]</span> a madrugada, o seu amor a vida, e, sempre mais ternas e mais
-vastas, envolviam tudo o que do mundo sóbe de justo, de perfeito, de
-casto, as orações, os prantos, os ideaes, e estendiam-se por todo o
-ceu, unidas e immensas—para Deus passar por cima!</p>
-
-<p>E então, á porta da varanda, houve uma risada metallica, immensa e
-sonora. Elles ergueram-se resplandecentes, puros, vestidos de graça. Á
-porta estava o pae de Maria, hirto, gordo, sinistro. Atraz, o homem de
-pallidez de marmore balançava vaidosamente a pluma escarlate da gorra.
-O pagem ria, fazendo uma claridade na sombra.</p>
-
-<p>O pae foi lentamente para Jusel e disse, com escarneo:</p>
-
-<p>—Onde queres ser enforcado, villão?</p>
-
-<p>—Pae, pae!—gritou Maria afflicta, com uma convulsão de lagrimas,
-enlaçando o corpo do velho.—Não. É meu marido, casamos as almas! Olhe,
-alli está. Veja. Alli, na imagem!...</p>
-
-<p>—O que?...</p>
-
-<p>—Alli, no peito. Veja. Os nossos nomes enlaçados como n'uma
-escriptura. Veja. É meu marido! Só me quer bem. Mas veja. Sobre o peito
-de Jesus, no logar do coração. Mesmo sobre o coração! E elle, o doce
-Jesus, deixou que lhe fizessem mais esta ferida!</p>
-
-<p>O velho olhava as lettras enlaçadas como uns esponsaes divinos que se
-tinham refugiado no seio de Christo.</p>
-
-<p>—Raspa, meu velho, que isso é marfim!—gritou o homem dos olhos negros.</p>
-
-<p>O velho foi para a imagem com a faca do cinturão.<span class="pagenum" id="Page_129">[129]</span> Tremia. Ia arrancar
-as raizes d'aquelle amor, até ao peito immaculado de Jesus!</p>
-
-<p>E então a imagem, sob o justo e incorruptivel olhar da luz, despregou
-uma das suas mãos feridas, e cobriu sobre o peito as lettras desposadas.</p>
-
-<p>—É elle, Rabil!—gritou o homem da flôr de cactus.</p>
-
-<p>O velho soluçava.</p>
-
-<p>E então o homem pallido, que tocava na guitarra d'Inspruck, onde os
-pastores de Helyberg enroscam heras, veio tristemente junto da imagem,
-enlaçou os braços dos namorados, como se vê nas velhas estampas
-allemãs, e disse ao pae:</p>
-
-<p>—Abençôa-os, velho!</p>
-
-<p>E saíu, batendo rijamente nos copos da espada.</p>
-
-<p>—Mas quem é?...—disse o velho apavorado.</p>
-
-<p>—Mais baixo!—disse o pagem da amphora de Mileto.—É o Senhor
-Diabo!... Mil desejos, meus noivos!</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Pelas horas da madrugada, na estrada de Vecker, onde as cerejeiras
-luzem, o homem dos grandes cabellos negros dizia ao pagem branco como
-os Apollos do marmore:</p>
-
-<p>—Estou velho. Vae-se-me a vida. Sou o ultimo dos que combateram nas
-estrellas. Os abutres já me apupam. É estranho: sinto nascer cá dentro,
-no peito, um rumor de perdão. Gostava d'aquella rapariga. Lindos
-cabellos louros, quem vos dera no tempo do ceu! Já não estou para
-aventuras de amor! A bella Imperia diz que eu me vendi a Deus!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_130">[130]</span></p>
-
-<p>—A bella Imperia!—disse o pagem.—As mulheres! vaidades, vaidades!
-As mulheres bellas foram-se com os deuses bellos. Hoje os homens são
-mysticos, frades, santos, namorados, trovadores! As mulheres são feias,
-avaras, magras, burguezas, vestidas de burel, cingidas de cilicios, com
-uma pouca d'alma incommoda, e uma carne tão diaphana, que se vê atravez
-o lodo primitivo! Miserias! Ai Athenas! Corintho! Mileto! Tenedos!
-Abydos!</p>
-
-<p>—Vou achando risivel a obra dos Seis Dias! As estrellas tremem de medo
-e de dôr. A lua é um sol fulminado. Começa a escassear o sangue pelo
-mundo e a apparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui prodigo.
-Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando—para
-não morrer de tedio! Fica-te em paz, mundo! Sê infame, lamacento,
-podre, vil e immundo—e sê todavia um astro no ceu, impostor! E comtudo
-o homem não mudou. É o mesmo. Não viste? Aquelle, para amar, feriu com
-uma agulheta o peito da imagem. Como nos antigos tempos, o homem não
-começa a gozar um bem, sem primeiro rasgar a carne a um Deus! É esta a
-minha ultima aventura. Vou para o meio da natureza, para junto do livre
-mar, pôr-me socegadamente a morrer.</p>
-
-<p>—Tambem os diabos se vão! Adeus, Satan!</p>
-
-<p>—Adeus, Ganymedes!</p>
-
-<p>E o homem e o pagem separaram-se na noite.</p>
-
-<p>A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra.</p>
-
-<p>—Estás tambem deserto!...—disse, olhando para a cruz.—Os infames
-pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que eu! Soffreste
-calado.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_131">[131]</span></p>
-
-<p>E sentando-se nos degraus do cruzeiro, emquanto vinha a madrugada,
-afinou a guitarra e cantou, no silencio:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Quem vos desfolhou, estrellas,</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Dos arvoredos da luz?</i></span><br />
-</p>
-
-<p>E com uma grande risada melancolica:</p>
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Chegará o outono ao diabo?</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Virâ o inverno a Jesus?</i></span><br />
-</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_133">[133]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="UMA_CARTA">UMA CARTA</h2>
-</div>
-<hr class="r5" />
-
-<p class="center">(A CARLOS MAYER)</p>
-
-
-<p class="right">
-<i>Meu caro Mayer</i>:<br />
-</p>
-
-<p>N'aquelles tempos, segundo a formula do Evangelho, o romantismo estava
-nas nossas almas. Faziamos devotamente oração diante do busto de
-Shakspeare.</p>
-
-<p>Lembras-te do teu quarto da rua do Forno (creio eu) no ultimo
-andar, quasi nas confidencias humoristicas das estrellas? O busto
-de Shakspeare, que era o nosso calvario da arte, estava alli, ao pé
-d'uma medalha do Dante, e da <i>Innocencia</i> de Greuze! Lembra-me
-tambem uma gravura do <i>Juizo Final</i> e dois esboços hollandezes.
-Sobre a estante, por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de
-Mirabeau e d'alguns volumes da Encyclopedia—n'um quadro, a figura de
-Napoleão, sobre uns rochedos emphaticos, via os prantos do mar e o vôo
-das gaivotas. Tinhas tambem uma collecção de mineraes, e duas caveiras
-polidas e lavadas, que riam serenamente. O meu quarto, no Salvador,
-era mais austero. Na<span class="pagenum" id="Page_134">[134]</span> parede, havia pintada a carvão uma grande
-cruz. Em redor, estavam escriptos versiculos da Biblia e disticos da
-<i>Imitação</i>. Mas, como eu andasse n'esse tempo constipado, P.,
-um pagão, fez raspar toda aquella decoração ascetica, dizendo que o
-mysticismo, prohibindo o sol, o calor, os banhos tepidos, as flanellas,
-todos os cuidados corporaes, me era nocivo, e que o atheismo era para
-mim uma necessidade hygienica. T. aconselhou, então, que se forrassem
-as paredes com pelle humana: um outro achou ostentosa a pelle humana,
-e disse, beatificamente, que, como mais modesta e mais duradoira, lhe
-parecia preferivel a pelle <i>cathedratica</i>. Outro instou para
-que se forrasse o quarto com as folhas dos compendios; eu oppuz-me
-asperamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões que daria um
-preso, se lhe quizessem forrar as paredes da enxovia com um tecido
-feito dos seus proprios remorsos! Tirou-se á sorte. Destinou a sorte
-que se forrassem as paredes com pelle humana. Dispersamo-nos, lentos e
-tristes, para ir assassinar gente!</p>
-
-<p>Reunia-se alli um concilio formidavel.</p>
-
-<p>O mais implacavel era A. Que ideias e que camisas!</p>
-
-<p>Foi elle que, um dia, na aula de direito canonico, prophetisou, com
-gestos tragicos, a destruição de Babylonia! Vinha tambem S., todo
-armado: entrava ordinariamente pela janella, galhardamente, como
-Almaviva, estendia sobre os timidos a grande sombra protectora dos seus
-bigodes, e pela noite alta saía á caça dos lobos. Perseguia debalde
-um bando de lobos errantes, que, segundo elle, deviam ter acampado<span class="pagenum" id="Page_135">[135]</span>
-na humidade melodiosa do Salgueiral. Vinha tambem M., de sinistras
-ironias: um dia, no Bussaco, encontra um homem de suissas apostolicas,
-corre para elle, e aperta-o entre as mãos robustas, com o gesto de quem
-esmaga um insecto.—O que faz?!—bradava o homem.—Estou a catal-o;
-o senhor, entre esta floresta, faz-me o effeito d'uma pulga entre as
-barbas de Moysés!</p>
-
-<p>E continuou a esmagal-o.</p>
-
-<p>No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do
-romantismo coimbrão.</p>
-
-<p>Alli, muitas vezes, sentado sobre a <i>Mechanica celeste</i> de
-Laplace, tu me mostraste, mysteriosamente, um systema solar que tinhas
-creado e que tinhas fechado dentro d'um frasco. Os universos, eram
-globulos d'agua. Um dia um cão entornou aquelle firmamento!</p>
-
-<p>Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e do
-rio. Liamos: eu declamava <i>Hamlet</i>, tu tocavas na tua rebeca a
-morbida <i>Lucia</i>! Muitas vezes, entre um concilio revolucionario,
-tu lias em pé sobre a mesa, dramaticamente, os <i>Iambes</i> de
-Barbier—os <i>Iambes</i>, de que o classico A. dizia gravemente
-terem um defeito: serem sublimes! Celebravamos cerimonias d'um culto
-desconhecido diante do busto de Shakspeare. Davamos grandes batalhas!
-Combates crueis! Ainda a seriedade estremece! Eram dois bandos. De um
-lado os pagãos, os classicos, os positivistas; do outro os barbaros, os
-romanticos, os mysticos.</p>
-
-<p>As balas eram nomes: arremessavamos, de bando a bando,
-sanguinolentamente, os nomes dos grotescos<span class="pagenum" id="Page_136">[136]</span> de cada seita. Um romantico
-feria um classico, gritando-lhe com gesto terrivel: <i>Domingos dos
-Reis-Quita!</i> O classico cambaleava, mas respondia vingativo:
-<i>Gilbert da Pixérécourt!</i> Deves-te lembrar que uma vez um classico
-traiçoeiro atirou desapiedadamente ao peito de um adversario romantico
-este nome mortal: <i>Visconde d'Arlincourt!</i> O romantico levou
-dolorosamente a mão ao coração, e caíu inanimado.</p>
-
-<p>Quando o levantamos não era um cadaver, mas era um convertido. Desertou
-para as fileiras classicas, por não querer pertencer a um bando que
-tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de Damocles: o
-Visconde d'Arlincourt! Lembras-te de certo que nós fômos os Samsões
-dos Philisteus classicos: não os derrotamos com a mesma queixada, mas
-apunhalamol-os, um a um, com nomes de classicos portuguezes. Um dia
-debandaram, atordoados, em quanto que nós do topo da escada gritavamos
-sem quartel: <i>Sá de Miranda! Garção! Semedo! Quita! Sepulveda!</i></p>
-
-<p>Já cançados, sem armas, atiravamos-lhes estes nomes como pedras.</p>
-
-<p>Lembras-te dos ensaios dos <i>Amigos Intimos</i>? Havia uma palavra que
-eu não conseguia pronunciar bem: era—<i>solidariedade</i>. Na noite
-da representação, tomei o partido de a cantar, separando as syllabas
-como notas de musica. Era na <i>casa dos adereços</i> do theatro,
-que nós discutiamos com T. a superioridade da arte grega. A pregar
-uma cortina, arredando bastidores, proclamavamos o <i>Moysés</i> e o
-<i>Pensieroso</i> com grave detrimento da Venus de Milo—a<span class="pagenum" id="Page_137">[137]</span> grande
-Aphrodite. Depois das representações, havia ceias semelhantes ás bodas
-de Gamacho! Uma noite saimos todos, de mantos, com corôas de loiro,
-symbolisando a geração dos Petrarcas, e cantando um côro lacrimoso.</p>
-
-<p>Tinha havido na rua de... uma reunião, e as familias, ao saír,
-dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquella multidão de
-phantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, offerecido a Deus
-em nome dos discipulos de Petrarca!</p>
-
-<p>Aquella epocha foi uma pequena <i>Restauração</i>, tanta era a vida,
-a seiva espiritual, a vaga convulsão melodiosa da alma. Adoravamos o
-theatro. O theatro era a paixão, a lucta, a dôr, o coração arrancado,
-e gemendo, sangrando, rolando sobre uma scena resplandecente. O nosso
-theatro—era Shakspeare e Hugo, o os comicos hespanhoes, sombrios e
-magnificos, do seculo <span class="allsmcap">XVI</span>.</p>
-
-<p>Admittiamos tambem a satyra no theatro, mas a satyra sanguinolenta,
-Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo riso
-gaulez, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de Tacito—para
-pintar a cara macia do egoismo humano.</p>
-
-<p>Tinhamos um hemicyclo de poetas. Collocados sob um ponto de vista
-exclusivo, só era admittido á nossa communhão o que derivasse da força,
-do rugido da natureza, da palpitação selvagem da vida e da paixão.</p>
-
-<p>Tinhamos, ao mesmo tempo, occultamente, um idealismo doentio e
-dissolvente. O nosso grande compositor era Beethoven; e todavia eu,
-desgraçado de mim! adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te,<span class="pagenum" id="Page_138">[138]</span> amigo,
-de teres n'esse tempo condescendido com Novalis e Luiz Tieck.</p>
-
-<p>Para nós (e com grandes pancadas contrictas sobre o peito o digo)
-Portugal não tinha direito de cidade na região da arte e da alma.
-Aceitavamol-o como paiz d'acção. Um dos maiores poetas de Portugal,
-para nós, era Vasco da Gama! Tinhamos um systema de nações-almas e
-nações-braços. Assim, para nós, a maior epopeia portugueza era a
-exploração do mar. As suas rimas eram conquistas. As scenas dos seus
-dramas escorriam de sangue junto ás muralhas de Diu.</p>
-
-<p>Litterariamente, Portugal, na nossa opinião, era simplesmente o
-pretexto para o <i>Bosquejo Historico</i> do snr. padre Figueiredo.
-Do passado, apenas acreditavamos em João de Barros e Camões. Garrett
-tinha-se separado de nós, tomando pelo atalho que leva a Deus, e
-legando á geração presente a pouca alma que ella ainda tem.</p>
-
-<p>Os contemporaneos, ai! não os conheciamos. Hoje eu, e creio que tu,
-conhecemos bem os nobres espiritos que se obstinam em pensar no meio
-d'este deserto d'almas, uns junto da historia, outros junto do verso,
-alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o romance.</p>
-
-<p>Mas, n'aquella epocha d'espontaneidade, só viamos o que era
-verdadeiramente e incontestavelmente sol!</p>
-
-<p>Discutiamos largamente a natureza, e eu lembro-me de te ouvir fallar,
-deante daquella luz que cáe desfeita em tristeza no <i>Penedo da
-Saudade</i>, ácerca da formação das nebuloses, e, partindo d'ahi,
-descrever o homem e Deus, até á procissão da vespera.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_139">[139]</span></p>
-
-<p>Havia entre nós todas as theorias e todas as seitas: havia republicanos
-barbaros, e republicanos poeticos; havia mysticos que praticavam as
-eclogas de Virgilio; havia materialistas sentimentaes e melancolicos
-que proclamavam a materia com uma meiga languidez nos olhos, e fallavam
-da força vital, quasi de joelhos, com as mãos amorosamente postas;
-havia pagãos que lamentavam as suas penas de amor, castamente, sob
-a nevoa luminosa dos astros. Tudo havia, e tambem a serena amizade
-incorruptivel, o fecundo amor do dever, e a ingenuidade risonha de tudo
-o que desperta.</p>
-
-<p>Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magnifica, e na vida
-real eram todos contemplativos, melancolicos e timidos. E tu sabes qual
-era o grande espirito, hoje longe de nós, que explicava Proudhon com a
-serena familiaridade dos sabios, e nas aulas, dizia, com voz timida,
-referindo-se aos jurisconsultos antigos: «... O snr. Pegas... S. S.ᵃ
-o digno Paiva e Pona... O nobre cavalheiro Cujacio..., etc.» Tremia
-diante d'aquelles commentadores, como diante de idolos mysteriosos; e
-imaginava abrandal-os, dando-lhes venerações.</p>
-
-<p>Tal era aquelle concilio. A força severa do espirito precisa d'estas
-precursoras explosões de vida. Hoje pouco resta d'esses camaradas.
-Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o braço,
-reunem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de
-Henrique <span class="allsmcap">IV</span>.</p>
-
-<p>Todos se perderam. Uns estão bem longe, para além do mar. Outros
-soffrem os tedios da vida official. Outros vivem nas castas serenidades
-do lar.<span class="pagenum" id="Page_140">[140]</span> Outros apodrecem debaixo da herva, e o que nós amavamos
-n'elles—a alma—dissipou-se, e o que viamos—o corpo—anda em redor de
-nós, nas metempsichoses, no ar, nas plantas, e nas pedras; mas nós não
-comprehendemos ainda o seu silencio, como elles já não percebem o nosso
-ruido!</p>
-
-<p>Ora quem, n'esse tempo, me tivesse fallado dos seculos classicos de
-Augusto e de Pericles, fazia-me uma injuria pessoal; e hoje em presença
-d'esta doença desoladora dos espiritos, d'estas chagas luminosas e
-incuraveis que as almas teem, eu estou quasi prompto a ir declarar,
-com a vela na mão, como os antigos convertidos, que o pensamento tem
-tido apenas tres epochas: Pericles, Augusto e Luiz <span class="allsmcap">XIV</span>. É o
-cyclo dos tres tyrannos! E, embora se lastime que as ideias nasçam
-com os escravos, eu acho magnifico e verdadeiro que aquellas datas
-gloriosas sejam o jazigo de tudo quanto a alma humana tem creado.
-<i>Confiteor.</i> Salve, Aristoteles!</p>
-
-<p>Mas o mal é que em volta d'aquellas epochas, que são cimos luminosos,
-em baixo, crepusculos constellados, move-se uma população selvagem,
-disforme e revolucionaria. Alli ha o crime, a paixão, a lucta, a dôr,
-o sangue, o amor, o ciume, a morte e a duvida—todas as meias-tintas
-do mal! Quem desce d'aquelles cimos, que são gloria, luz, e verdade,
-onde habitam as almas nobres de Horacio, de La Harpe, de Boileau, de
-Reis Quita, de Garção, de Caminha, e companhia, quem desce áquelles
-fundos perversos topa com figuras gigantescas e horriveis: Shakspeare,
-o humano; Dante, o sobrenatural; Rabelais, o escarnecedor; Isaias, o
-propheta; Juvenal,<span class="pagenum" id="Page_141">[141]</span> o vingador; Eschylo, o fatal. Aquellas figuras
-devastam!</p>
-
-<p>E é um encontro peor que o da Floresta Mysteriosa, no começo da
-<i>Divina Comedia</i>. Adeus, as serenidades idyllicas dos tempos de
-Pericles e de Augusto! Adeus, as claras aguas da alegria nos olhos!
-Adeus, as tepidas branduras, e os descanços arcadicos!</p>
-
-<p>Aquelles poetas terriveis arrastam-nos, deslumbram-nos d'ideal,
-esmagam-nos de paixão: dão-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre
-a pobre alma: o amor, a melancolia, a paixão, o ciume, o mysticismo, a
-ironia, o desespero, a duvida. Além d'isso não respeitam a felicidade
-corporal do egoismo humano: atrevem-se a dar o terrivel espectaculo da
-dôr. O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos arrancados, e o
-seu coração caido na lama, pisado pelos filhos, cuspido pelos lacaios,
-apupado pela populaça!</p>
-
-<p>Aquelles poetas abrem na alma longes surprehendentes. Quem os lê sente
-entrar em si, bruscamente, o infinito!</p>
-
-<p>Soffre, como os sacerdotes antigos soffriam com a presença de Deus!</p>
-
-<p>E entretanto os que se deixaram ficar na luz branca, em companhia dos
-espiritos inoffensivos de Racine, de Horacio, de Virgilio, de todos os
-classicos, vivem contente e socegadamente na sua fé ordinaria, na sua
-virtude, na sua somnolencia hygienica!</p>
-
-<p>É que esses inoffensivos fazem um ruido que embala, põem um
-<i>abat-jour</i> ao ideal, trazem a paixão açaimada, e põem <i>caio</i>
-na face da dôr.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_142">[142]</span></p>
-
-<p>Mas os que desceram ás regiões romanticas ficaram com a alma doente,
-febril, anciada, nostalgica. Ahi está como se explica toda esta geração
-moderna, contemplativa e doente! Porque—digamos a verdade—hoje a
-vida do pensamento é um vasto hospital d'almas. E os gemidos, que sáem
-dos leitos, são os dramas, os poemas, os romances modernos. Hoje,
-incontestavelmente, pensar é soffrer. A enfermeira, que se chama
-Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas classicos, esses,
-não obrigam a pensar: são a simplicidade, a frieza, a narrativa, a
-superficie, a affectação, a convenção—tudo menos a alma, com a sua
-tragi-comedia de dôres e de duvidas!</p>
-
-<p>Nós, meu amigo, somos uma geração desilludida por tres revoluções,
-amollecida por uma invenção horrivel—a musica, tomada da duvida
-religiosa, geração que vê esvaecer-se Christo, a quem tanto tempo
-amou, e não vê chegar a liberdade, por quem ha bastante tempo espera.
-Quaes podem ser as obras d'esta geração? Creações febris, convulsões
-cerebraes, idealistas e doentias, todo um pesadello moral. Por isso
-temos tido toda a serie de figuras melodramaticas, desde Fausto até Mr.
-de Camors.</p>
-
-<p>Qual vale mais: esta doença magnifica, ou a saude vulgar e inutil, que
-se goza no clima tepido que vae desde Racine até Scribe? Eu prefiro
-corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre se chama
-Julietta e a ultima Margarida!</p>
-
-<p>Os outros, os saudaveis, os doutrinarios da arte, os petrificadores
-da paixão, os sacerdotes da tradição e do <i>magister dixit</i>,
-não pertencem á arte pura: pertencem<span class="pagenum" id="Page_143">[143]</span> aos archivos. São documentos
-historicos. São momentos sociaes vistos atravez da arte. Racine
-explica Luiz <span class="allsmcap">XIV</span>. E como na historia livre e pura se não póde
-conceber Luiz <span class="allsmcap">XIV</span>, na arte pura e livre não se póde admittir
-Racine. Toda a nossa Arcadia explica os reinos de D. João <span class="allsmcap">V</span>,
-de D. José <span class="allsmcap">I</span> e de D. Maria <span class="allsmcap">I</span>. Por essa litteratura
-se pódem conhecer todos os sentimentos monarchicos do tempo, o
-espirito cortezão, a influencia clerical, a sujeição d'ante-camara, as
-subtilezas moraes, a serenidade emphatica, a magestade theatral, toda
-essa somma de falsos sentimentos e de falsos costumes que era o antigo
-regimen. E aquella litteratura falsa, ridicula, sendo excellente como
-documento, é grotesca como arte.</p>
-
-<p>Na arte só têm importancia os que criam almas, e não os que reproduzem
-costumes.</p>
-
-<p>A arte é a historia da alma. Queremos vêr o homem—não o homem
-dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas
-instituições, transformado pela cidade, mas o homem livre, collocado
-na livre natureza, entre as livres paixões. A arte é simplesmente a
-representação dos caracteres taes quaes elles seriam, abandonados á sua
-vontade intelligente e livre, sem as peias sociaes. Ahi está o que dá a
-Shakspeare a supremacia na arte. Foi o maior creador d'almas. Revelou
-a natureza espontanea: soltou as paixões em liberdade e mostrou a sua
-livre acção. É ahi que se póde estudar o homem. É o que faz tambem a
-grandeza de certos typos capitaes de Balzac, o <i>Barão Hulot</i>,
-<i>Goriot</i>, <i>Graudet</i>. Realisam o seu destino, longe da
-associação humana, sob a livre logica das paixões.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_144">[144]</span></p>
-
-<p>No emtanto, ás vezes, os que reflectem o seu tempo—criam: e é quando
-não só revelam o caracter d'um momento, um estado convencional e
-passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma d'um povo. É o que faz
-a grandeza de João de Barros. Historiador, revelou o genio de Portugal,
-o espirito aventureiro misturado de exaltação religiosa, o heroismo
-supersticioso. Camões, o filho da Renascença e das imitações latinas,
-não tem o espirito epico de João de Barros, que ás vezes, n'uma pagina,
-constroe toda a antiga alma heroica da patria.</p>
-
-<p>Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua phase rhetorica; e os
-poetas modernos de França, Mallarmé, Dierx, Sully-Prudhomme, Catulle
-Mendés, Heredia, Ricard, L'Isle-Adam, etc., fabricam maldições ao
-mundo e á materia, com a mesma sabia reflexão e estudo com que os
-poetas de 1810 fabricavam madrigaes. Uma certa escola, saída de Charles
-Baudelaire, affecta amores pelo mal: como os histriões medrosos põem
-vermelhão na face, para encobrir a pallidez, elles tingem a alma de
-perversidade negra para encobrir o desfallecimento.</p>
-
-<p>Ha pouco fallei de <i>Mr. de Camors</i>. Ainda um livro nostalgico.
-Ainda Manfredo e D. Juan sob uma fórma remoçada e theatral.</p>
-
-<p>Mr. de Camors é um mystico. Tem todos os desfallecimentos d'alma, todos
-os desmaios do desejo dos heroes poeticos de 1830.</p>
-
-<p>Traz só de mais um apparato: o materialismo. Mascara-se de
-impassibilidade: mas quando? Justamente quando, pela posição politica,
-pelo resplandecimento financeiro, pela força dos habitos e das<span class="pagenum" id="Page_145">[145]</span>
-ligações, elle tem uma vida compassada e material—em que a alma
-adormece. E, como a alma adormece, calam-se os seus gemidos. Mas,
-quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paixão,
-ou pelo dever, ou pela paternidade, ou pelo remorso, começa logo, a
-pobre alma, chorando afflicta, torturando-se, e pedindo com as mãos
-postas ás estrellas um refugio sereno!</p>
-
-<p>Aqui, em Portugal, tambem ha uma grande doença. Fallaria n'isso agora,
-se não estivesse fatigado de escrever.</p>
-
-<p>Mas a peor das doenças é a doença que affecta ares languidos; que
-compõe, ao morrer, a voluptuosidade do olhar; que, quando já sente o
-frio da morte, suspira correctamente: Adeus!</p>
-
-<p>O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir, contra
-os meus habitos impassivelmente silenciosos, a fallar vagamente em
-litteratura? Nada, senão que, n'um dia de tristeza e de frio, eu
-quiz fazer uma romaria saudosa áquelles tempos distantes era que
-nós viviamos n'uma noite de ideias e de desejos, allumiados pelos
-astros—Shakspeare, Dante, Rabelais, S. João, Gœthe e Cervantes, e
-tendo sempre na alma aquella ternura luminosa que vinha d'uma aurora
-serena, clara, immensa, purificadora e consoladora—Jesus Christo!</p>
-
-<p class="right">
-Teu<br />
-<br />
-<i>E. de Q.</i><br />
-</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_147">[147]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="O_LUME">O LUME</h2>
-</div>
-
-
-<p>Agora, de inverno, no campo, as noites são asperas e hostis. Toda
-a natureza está impassivel e entorpecida, esperando a fermentação
-violenta das seivas. As arvores erguem os braços nús, miseraveis e
-supplicantes. E as aguas, que no outono estavam quietas e pallidas, e
-que em maio faziam claras murmurações, tão melodicas como o rythmo d'um
-idyllio latino, teem agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e
-lento como um canto catholico d'officios: as chuvas cáem de cima, como
-escarneos triumphantes e ruidosos.</p>
-
-<p>Ás vezes, vem a lua—não aquella immaculada lua côr d'opala, d'onde
-se exhala um nevoeiro magnetico que faz a alma docemente doente, mas
-uma lua metallica, fria e livida, como a face dos corpos finados, nas
-legendas catholicas.</p>
-
-<p>Então, o homem sente a sua pequenina e inutil alma afundar-se no
-tedio, silenciosamente, como um<span class="pagenum" id="Page_148">[148]</span> navio roto n'uma calmaria, e vae, por
-instincto, dar-se á intimidade consoladora da lareira, das brazas e do
-fogo. E, emquanto a força vital se dissolve n'uma somnolencia fluida,
-elle sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que
-lhe falla como n'um extase profano:</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>«Sou eu—diz a voz—eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o
-teu velho Deus mysterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que ha
-em ti de grande e de justo—a familia e o trabalho. A minha historia é
-triste, luminosa e terrivel, immunda e meiga. Eu fui o teu companheiro
-das noites da India, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch
-das religiões da velha Africa, ensanguentado e tragico: e sou agora o
-escravo a quem tu mandas mover as machinas.</p>
-
-<p>«Sempre escondido e silencioso, occupando a um canto o mais pequeno
-espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e
-fico, nas tuas horas negras de dôr e de miseria, calado ao pé de ti,
-lambendo-te os pés como um cão. Na India, lembras-te? durante as noites
-primitivas, eu fui o bom <i>Agni</i> que te allumiava, que espantava
-os chacaes e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores
-religiosos e simples. Escondia-me nas pedras, e nos paus seccos: assim,
-para onde tu fôsses, ou solitario ou em bando, encontravas-me sempre
-aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu creaste a trindade
-humana da familia.</p>
-
-<p>«Era ao pé de mim que tu descançavas dos teus barbaros trabalhos, no
-principio, quando a vasta natureza<span class="pagenum" id="Page_149">[149]</span> te combatia. E eu era o amigo
-unico, o alliado radioso. E eu tive a confidencia dos teus primeiros
-beijos. E eu sabia as tuas dôres e os teus medos.</p>
-
-<p>«Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta
-tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defeza
-e força, era então a tua sepultura imminente. Quando saías de ao pé
-de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os
-sêres implacaveis—o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que
-te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudarios.
-Tudo, sob a pressão doentia do sol, era para ti força inimiga ou fórma
-resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume
-que te enxugava, que te allumiava, que te dava o pão, a força ou a fé.
-Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficavamos em
-casa, esperando os teus cançaços. Ella fiava, limpava o chão da cabana,
-tirava a agua fresca, e adormecia o filho no seio branco como n'um
-leito espiritual: eu estava quieto e attento, combatendo a sombra e a
-noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um docel de vida e de
-luz para o teu somno, dando á cabana a serenidade tepida, e ás tuas
-fadigas um paraiso de socego, de silencio e de calor.</p>
-
-<p>«Em volta de mim, creou-se a familia. Eu era o purificador da tua
-natureza. Era o Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os
-braços, e ampara na hora das dôres.</p>
-
-<p>«Eu tenho ainda por ti aquelle amor servil e adulador, que se glorifica
-quando abdica, que tem<span class="pagenum" id="Page_150">[150]</span> um extase quando se dá a uma humilhação. Quando
-te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta
-grande alma de chamma, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam
-as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes, e cheias de
-negro—justamente como o corpo d'um amor abandonado.</p>
-
-<p>«Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um
-affago, quando me revolves—desperto, revivo, canto psalmos de luz,
-requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são
-gritos de fogo, scintillações que são beijos; e como n'uma rapariga,
-para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em
-rir, em mim, mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos
-labios, toda a minha dôr e o meu abatimento se vae desfeito em fumo!</p>
-
-<p>«Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss,
-tantos santos, e tantos martyres, e tantos hallucinados de Deus! Fui
-eu que queimei, nas cidades mysteriosas de Africa, as creanças e as
-virgens no altar de Moloch.</p>
-
-<p>«Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante
-os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o
-confidente, o pão, o calor, a vida! Não queiras que eu seja o carrasco!
-Podia ir comtigo, insensivelmente—lareira, se era o teu amor que me
-assoprava, incendio, se era a tua colera—no tempo em que tu eras uma
-força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciencia. Comtigo só me
-alliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te
-tenho consolado das servidões dolorosas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_151">[151]</span></p>
-
-<p>«No tempo das cathedraes, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão
-livre, nem a voz, nem o somno, nem a esperança, eu dei-te o que mais
-agrada ao escravo—o direito de mandar. Em volta de mim, a familia
-ajoelhava á tua voz, resava ao teu olhar, erguia a hostia do amor ao
-teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que t'as dava.
-Como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho
-representado a essencia humana. Eu tenho advogado a causa da vida.</p>
-
-<p>«A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o mysticismo. Eu sou o
-bem. A familia, o trabalho, a educação, esta trindade mysteriosa da
-vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no
-circulo da minha luz. Tudo para além é sombra—sombra na parede, e
-sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte;
-debalde! Trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inutil! Os unicos
-momentos verdadeiros e sãos fôram aquelles em que estiveste ao pé de
-mim, olhando castamente a mulher, ensinando a lêr a creança. Então
-realisaste o ideal, o symbolo—Deus, que as religiões esboçam e as
-criticas dissipam.</p>
-
-<p>«Lembras-te da India?</p>
-
-<p>«Alli tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos
-novilhos, e o filho, encarnação mysteriosa do amor das almas, e a minha
-doce presença. Trabalhavas, aquecias-te, amavas, dormias. A alma vivia
-em ti no estado de presentimento.</p>
-
-<p>«Depois d'isso, tens tido uma vida legendaria de luctas, de creações,
-de religiões, de conquistas, de descobertas, d'ideaes.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_152">[152]</span></p>
-
-<p>«O que augmentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfallecimento, a
-dôr e o mal.</p>
-
-<p>«Eras puro e são: estás morbido e enfraquecido. Eras forte: estás
-rachitico. Eras sereno: estás torturado. O teu bom riso é uma triste
-ironia: o teu largo olhar é uma aspera desconfiança.</p>
-
-<p>«Tinhas por inimiga a natureza. Vencestel-a? Não. Absorvestel-a. E
-tudo o que ella tinha de terrivel e de doloroso, tudo hoje tu tens: a
-independencia desesperada do mar, o mysterio doentio da floresta, o
-chôro afflicto das aguas, a inquietação do vento, a barbaridade das
-feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com
-surdas irritações, com rebelliões formidaveis. Ahi está. De cada vez
-que te apartaste de mim, do socego do meu calor, voltaste trazendo uma
-chaga.</p>
-
-<p>«Foste crear o mysticismo: vieste com a nostalgia incuravel. Quizeste
-crear os Direitos do Homem: trouxeste um mal divino chamado Liberdade,
-que vae sempre fugindo de ti, e só ás vezes se volta de repente, para
-te borrifar de sangue! Quizeste ir construir a adoração do corpo e
-da materia exclusiva: trouxeste o elemento dissolvente da força e o
-egoismo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas
-obras ahi estão immensas, accumuladas, contraditorias e inuteis. Tens
-uma complicação infinita de azas que te impede o vôo.</p>
-
-<p>«A mim, abandonaste-me.</p>
-
-<p>«Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as luctas, andei errante,
-miseravel, sobrecarregado d'infamias, e, para viver, vendendo-me ao
-carrasco!</p>
-
-<p>«Mas conservei sempre a minha chamma, casta<span class="pagenum" id="Page_153">[153]</span> e familiar, para o dia em
-que quizesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos
-teus irmãos.</p>
-
-<p>«Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus
-instinctos luminosos, ou sagrados, ou materiaes, ou lascivos. Eu dou-te
-o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do
-movimento na alma, dou-te a sensualidade somnolenta que exhala amor,
-dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação, e a força que
-prepara para o trabalho. Eu sou a cura, intelligente e boa, do mal
-natural. Eu allumio-te nas vigilias dolorosas. Quando estás entorpecido
-na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres
-e a tua alma vae partir, eu allumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco
-Christo nos altares para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu
-sou junto das praias o grito de luz que te chama.</p>
-
-<p>«E o que fazes tu em paga d'este amor que se dá, que cria, e que
-purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das machinas. A mim que
-embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor,
-movimento que é força: os dois termos da tua vida—pureza e
-putrefacção! Eu que vivia, allumiava, creava em liberdade, estou
-encadeado e martyrisado na tarefa brutal das industrias. Fazes-me o
-motor da miseria. Nas fabricas, as creaturas doentias, as creanças
-estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes são as minhas victimas.
-Sou o collaborador dos martyrios que lhes infliges. Tu, homem, tomas o
-fogo, o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salario a
-infamia. Fazes de mim <i>explosão</i>. Obrigas-me a devastar na guerra!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_154">[154]</span></p>
-
-<p>«Eu sou a pureza, o trabalho, a familia, a paixão casta: levas-me a ser
-o mal, a viuvez, o pranto e a dôr! Tenho um cortejo d'ambulancias e de
-macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! maldita seja a arvore
-que consentir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!</p>
-
-<p>«Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não
-quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros
-que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu
-allumio o mais que posso as egrejas, mas parece-me que tu não vês bem a
-Christo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a familia, a intimidade
-casta e o bem. Peço-t'o, rojando-me como um mendigo. Oh homem, oh meu
-velho camarada das choupanas da India! não me faças ser explosão, morte
-e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando
-estiver allumiando e aquecendo os beijos, as orações e os berços—não
-sinta entre as minhas chammas bailarem espectros!»</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_155">[155]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="MEPHISTOPHELES">MEPHISTOPHELES</h2>
-</div>
-
-
-<p>No <i>Fausto</i>, de Charles Gounod, a figura dramatica e synthetica é
-Mephistopheles.</p>
-
-<p>Em volta d'elle, Fausto canta artificialmente como um lyrico histrião
-d'operas; Margarida sente as primeiras rebelliões nervosas do
-desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo
-Cherubim; a alma legendaria do rei de Thule canta na sua torre que
-molha a espuma do mar; o povo celebra as kermesses, e os judeus dizem
-a musica da avaresa: mas só Mephistopheles vive! E a sua grande
-figura angulosa, nervosa, elastica, incisiva, atravessa, sinistra, o
-drama—os seus lyrismos nostalgicos, as suas sensualidades tristes,
-os seus mysticismos artificiaes—glorificando a força brutal do
-dinheiro, escarnecendo as castidades expirantes, empurrando o Fausto
-espiritualista para a violencia lasciva, combatendo a serena inspiração
-do Christo, negociando em almas, e abatendo toda a penosa construcção<span class="pagenum" id="Page_156">[156]</span>
-da honra, do dever, do perdão, do amor, da purificação—com o riso
-tragico do mal!</p>
-
-<p>Aquella opera é uma simples aventura do antigo Diabo.</p>
-
-<p>N'ella, o Fausto não é o sabio que penetrou a medicina, a physica, a
-logica, a dialectica, a dogmatica, a theologia, a metaphysica, para
-quem os seis mil annos do passado são apenas o prefacio do saber
-humano, que procura o X terrivel da equação dos astros, e que ao ruido
-que faz a sua alma buscando atravez da natureza o Deus fugitivo,
-o Mysterio, só consegue despertar os dormentes do seu coração, os
-desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: não é o
-homem que se enoja das vasias realidades da vida e da paixão, e que
-se recolhe n'um stoicismo tragico, tendo todavia, sempre, dentro do
-peito, o côro soluçante e rebelde dos desejos infinitos e das asperas
-curiosidades, até que em fim, mais sereno e transfigurado, vae ao fundo
-do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem d'ella, que é o
-ideal da fórma antiga, um filho, Euphorion, que é o ideal do espirito
-moderno.</p>
-
-<p>Não. Na opera, Fausto é simplesmente um d'aquelles ambiciosos
-grotescos, que contratavam por escripto com o velho Diabo, nos
-claustros malditos, e lhe compravam a realisação de um desejo,
-por uma pequena coisa despresivel, menos valiosa que o dinheiro
-e que os estofos, uma coisa inutil e esteril, que se lhe atirava
-desabridamente—e que era simplesmente a alma!</p>
-
-<p>As legendas estão cheias d'estas negociações.</p>
-
-<p>Cornelio Agrippa vende a alma pelos segredos<span class="pagenum" id="Page_157">[157]</span> da philosophia; o abbade
-de Tritheim pelo segredo da circulação do sangue; Falstaff vende a
-alma, n'uma sexta-feira santa, á noite, quando estavam fechadas as
-tavernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Hespanha, e uma
-perna de capão. Luiz Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as
-mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo
-Dugdale, um namorador do condado de Landshire, por uma lição de dança!
-Fausto vende desprendidamente a alma, pelo amor vulgar de uma rapariga
-clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando!</p>
-
-<p>O Diabo cumpria escrupulosamente o contracto: havia para estas
-negociações uma jurisprudencia dogmatica. Sujeitava-se mesmo a
-acompanhar o contratador, como uma inspiração visivel, como um camarada
-de perigos, para lhe facilitar a ampla realisação do desejo. Seguia
-Agrippa sob a fórma d'um escudeiro, vestido de negro, com o nome de
-<i>Sujeito</i>. Seguia Fausto, vestido d'escarlate, com o nome de
-Mephistopheles. Nada mais.</p>
-
-<p>Margarida, não é, na opera de Gounod, como em Gœthe, o symbolo da alma
-allemã, simples, casta, soffredora, d'aquella alma allemã que, como
-na <i>Melancolia</i> d'Alberto Dürer, quando a materia, a tyrannia,
-a desesperança a opprimem, só sabe resignadamente, dobrar as suas
-azas; aquella alma allemã que exhala toda a sua immensa dôr em frescas
-cantigas religiosamente humanas, que tem todas as simplicidades, todas
-as intelligencias, todos os deveres, que quando olha para a terra é
-para amar, quando olha para o ceu é para orar, quando olha para si é<span class="pagenum" id="Page_158">[158]</span>
-para morrer. Não. A Margarida da musica sabia de Gounod, é uma alma
-lyrica, nebulosa, nostalgica, sensual, para quem o amor é um magnetismo
-suave, a oração uma lucta com o mal, a morte um libertamento romantico
-da vida—insufficiente e vasia. Este Fausto tem na alma um lyrismo
-theatral, esta Margarida um paraiso artificial.</p>
-
-<p>Mas elle, o bom Mephistopheles, tem uma vida real e poderosa. É elle—a
-antiga creatura terrivel e grotesca, vaidosa, infame e tragica. É
-o antigo Satanaz das legendas. É elle—o mesmo a quem os Severios
-ouviram dizer que antes queria devorar uma alma, do que voltar, entre
-purificações, para os seus antigos camaradas, os astros, <i>sidera
-lucida</i>! É elle, o eterno inspirador dos hereticos e dos impostores,
-elle que ensinava os oraculos aos crocodilos de Arsineë, e aos
-carvalhos propheticos de Dodona, e que dava a Manés, o homem impio,
-a ascetica pallidez dos monges, como dá a Fausto, velho e tepido, o
-resplandecente magnetismo do olhar. Elle, que segundo as tradições
-judaicas, inventou os enfeitos e as joias, para ferir os castos
-instinctos da mulher—e que atirava os coraes ao regaço das mulheres
-de Brabante, como mostra a Margarida a côr traiçoeira e hypocrita das
-perolas. É elle o mesmo que em Babylonia tomava as attitudes hieraticas
-de um Deus, e fugia do olhar de Daniel—como na kermesse de Leipzig
-toma a voz sinistra e rouca do dinheiro, e cáe, torturado e covarde,
-diante da serena apparição das cruzes das espadas. É elle o antigo
-Diabo que dava aos monges da Thebaida o mal da <i>acedia</i>, como dá á
-pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges<span class="pagenum" id="Page_159">[159]</span> do Occidente; dá-lhes
-as chagas e as dores de Job, envolve-os nas visões magnificas do mal.</p>
-
-<p>As virgens diaphanas fazem, no silencio da noite, as mil orações da
-prostração: os monges passam os annos em jejuns dolorosos. Debalde! Se
-se deitam na neve, a neve toma um calor vital e lascivo que os definha:
-se bebem a agua fria e purificadora das fontes, a agua dá-lhes ao
-corpo a palpitação dos vastos appetites. Se querem resar no silencio,
-ouvem os risos ambrosiacos dos Deuses sensuaes, e o gemer desfallecido
-dos bandolins. Tambem a pobre Margarida, se queria fiar castamente,
-e chorar o velho rei de Thule, sentia a melodia da carne cantar-lhe
-baixo: «Vê como Fausto, o cavalleiro vestido de velludo, é branco, e
-bello, e são, e forte.»</p>
-
-<p>Os monges d'Alexandria andavam de noite, pelos corredores solitarios e
-sonoros, com as cruzes alçadas, cantando, para o afastar, os versiculos
-do Evangelho, e regando com agua santa as lages do claustro: assim o
-gentil Siebel asperge, tristemente, as flôres maculadas de maio.</p>
-
-<p>E ao mesmo tempo este Diabo terrivel, que andava disperso nos
-elementos, de tal sorte que o vento era a sua tosse, elle que era o
-carrasco da inquisição, a fera dramatica das almas, elle que redigiu
-a sentença de Christo, que accendeu as fogueiras das feiticeiras, que
-celebrava o <i>sabbat</i>, onde á luz d'uma lampada sem oleo, prégava o
-sermão dos sete peccados, elle que tinha por filhos, Merlino, Roberto
-de Normandia, Attila e os Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco,
-bailarino, poeta, jogador e palhaço. Bebia gloriosamente o vinho das
-missas do Papa. Tinha<span class="pagenum" id="Page_160">[160]</span> uma taverna no Inferno, onde se comiam, com
-molho de beata, as almas dos usurarios. Dava serenatas ás patricias de
-Veneza. Fazia sonetos correctos e academicos ás abbadessas de Vecker.
-Vestia-se de velludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes
-das universidades livres, e assignava-se <i>Belzebuth, cosinheiro do
-Inferno</i>. Os trovadores cantaram esta legenda faceta das farças de
-Satan.</p>
-
-<p>Tomou tanta familiaridade com o homem, que Luthero sujou-o de tinta, e
-Rabelais deu-lhe piparotes. Na Allemanha, na noite de 30 de abril, dava
-um sarau magnifico nas alturas de Borx-belg. Era a noite do Walpurgis.
-Havia a grande dança das nudezas. Nas noites claras, as estrellas
-assistiam, com a impassibilidade de vestaes.</p>
-
-<p>Assim é a figura complexa de Mephistopheles. Durante a opera de Gounod,
-esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama dos amores
-e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso, como
-aquellas figuras de Satan, que nas cathedraes da Allemanha deixam
-cair do ultimo corucheu uma risada de pedra, que nos nichos, nas
-esculpturas, nas rosaceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas
-as figuras de santos, de virgens e de anjos—vae gelar as aspirações
-ideaes e os sentimentos do ceu.</p>
-
-<p>Toda aquella musica da opera, que envolve Mephistopheles, é a vaga
-melodia sombria do mal. Tem o escarneo, tem a violencia, tem as trevas,
-a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta e vence.</p>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_161">[161]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="MEMORIAS_DUMA_FORCA">MEMORIAS D'UMA FORCA</h2>
-</div>
-
-
-<p>Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento d'este
-papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa
-da sua historia. Esta forca intentava escrever as suas tragicas
-<i>Memorias</i>. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Arvore,
-ninguem sabia tão bem o mysterio da natureza; forca, ninguem conhecia
-melhor o homem. Nenhum tão espontaneo e verdadeiro como o homem que se
-torce na ponta d'uma corda—a não ser aquelle que lhe carrega sobre os
-hombros! Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu.</p>
-
-<p>Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que
-copío—resumo das suas dôres, vaga apparencia de gritos instinctivos.
-Pudesse ella ter escripto a sua vida complexa, cheia de sangue e de
-melancolia! É tempo de sabermos, emfim, qual é a opinião que a vasta
-natureza, montes, arvores e aguas, fazem do homem imperceptivel.
-Talvez<span class="pagenum" id="Page_162">[162]</span> este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papeis
-que guardo avaramente, e que são as <i>Memorias d'um Atomo</i> e os
-<i>Apontamentos de Viagem d'uma Raiz de Cypreste</i>.</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Diz assim o fragmento que eu copío—e que é simplesmente o prologo das
-<i>Memorias</i>:</p>
-
-<p>«Sou d'uma antiga familia de carvalhos, raça austera e forte—que já na
-antiguidade deixava caír, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era
-uma familia hospitaleira e historica: d'ella tinham saído navios para
-a derrota tenebrosa das Indias, contos de lanças para os hallucinados
-das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram
-Savonarola, Espinosa e Luthero. Meu pae, esquecido das altas tradições
-sonoras e da sua heraldica vegetal, teve uma vida inerte, material e
-profana. Não respeitava as nobres moraes antigas, nem a ideal tradição
-religiosa, nem os deveres da historia. Era uma arvore materialista.
-Tinha sido pervertida pelos encyclopedistas da vegetação. Não tinha
-fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do sol, da seiva e da agua.
-Era o grande libertino da floresta pensativa. No verão, em quanto
-sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol,
-acolhia os grandes concertos de passaros bohemios, cuspia a chuva
-sobre o povo curvado e humilde das hervas e das plantas e, de noite,
-enlaçado pelas heras lascivas, resonava sob o silencio sideral. Quando
-vinha o inverno, com a passividade animal<span class="pagenum" id="Page_163">[163]</span> d'um mendigo, erguia para a
-impassivel ironia do azul os seus braços magros e supplicantes!</p>
-
-<p>«Por isso nós, os seus filhos, não fômos felizes na vida vegetal.
-Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços: ramo
-contemplativo e romantico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa,
-pelo escarneo, pela farça e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de
-sol, de poeira, aspero solitario da vida, luctador dos ventos e das
-neves, forte e trabalhador, foi arrancado d'entre nós, para ir ser
-taboa d'esquife!—Eu, o mais lastimavel, vim a ser forca!</p>
-
-<p>«Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades
-na floresta. Eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das
-fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a
-umas pobres violetas, que viviam por baixo de nós, doces raparigas
-lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da
-vegetação. Agasalhava todos os passaros na vespera dos temporaes. Era
-eu quem asylava a chuva. Ella vinha, com os cabellos esguedelhados,
-perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens
-e as folhas, e escondia-a alli, ao calor da seiva. O vento passava,
-confundido e imbecil. Então a pobre chuva, que o via longe, assobiando
-lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gotta
-por gotta, para o vento a não perceber, e ia, de rastos, por entre a
-herva, acolher-se á vasta mãe Agua! Tive por esse tempo uma amisade
-com um rouxinol, que vinha conversar commigo durante as longas horas
-constelladas do silencio. O pobre rouxinol<span class="pagenum" id="Page_164">[164]</span> tinha uma pena d'amor!
-Tinha vivido n'um paiz distante, onde os noivados teem mais molles
-preguiças: lá se enamorára: commigo chorava em suspiros lyricos. E tão
-mystica pena era que me disseram que o triste, de dôr e desesperança,
-se deixára caír na agua! Pobre rouxinol! Ninguem tão amante, tão viuvo
-e tão casto!</p>
-
-<p>«Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo
-vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens,
-como dedos, para apontar á pobre alma afflicta de lagrimas todos os
-caminhos do ceu!</p>
-
-<p>«Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante!</p>
-
-<p>«Emfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um d'aquelles
-homens metallicos que fazem o trafico da vegetação veiu arrancar-me á
-arvore. Não sabia eu o que me queriam. Deitaram-me sobre um carro e,
-ao caír da noite, os bois começaram a caminhar, emquanto ao lado um
-homem cantava no silencio da noite. Eu ia ferido e desfallecido. Via as
-estrellas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar
-da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das
-arvores. Eram vozes amigas que me chamavam!</p>
-
-<p>«Por cima de mim voavam aves immensas. Eu sentia-me desfallecer, n'um
-torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade
-das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, iamos entrando n'uma cidade. As
-janellas olhavam-me com olhos ensanguentados e cheios d'um sol irado.
-Eu só conhecia as cidades pelas historias que d'ellas contavam as<span class="pagenum" id="Page_165">[165]</span>
-andorinhas, nos serões sonoros da espessura. Mas como ia deitado e
-amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia um rumor
-aspero e desafinado, onde havia soluços, risos, bocejos, e mais o surdo
-roçar da lama, e o tinido sombrio dos metaes. Eu sentia emfim o cheiro
-mortal do homem! Fui arremessado para um pateo infecto, onde não havia
-o azul e o ar. Comecei então a comprehender que uma grande immundicie
-cobre a alma do homem, porque elle se esconde tanto das vistas do sol!</p>
-
-<p>«Uns homens vieram, que me deram despresivelmente com os pés. Eu estava
-n'um estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da
-patria vegetal. Ao outro dia, um homem veiu para mim e deu-me golpes
-de machado. Não senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez
-amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando.
-Senti lentamente renascer a consciencia e a vitalidade. Parecia-me
-que eu estava transformado n'uma outra vida organica. Não sentia a
-magnetica fermentação da seiva, a energia vital dos filamentos e a
-superficie viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a
-pé. Sob a brancura silenciosa e compassiva da lua, tive uma saudade
-infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, das relvas, de toda
-a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu
-sentia que ia para uma vida real, de serviço e de trabalho. Mas qual?
-Tinha ouvido fallar das arvores que vão ser lenha, aquecem e criam, e,
-tomando entre a convivencia do homem a nostalgia de Deus, luctam com os
-seus braços de chammas<span class="pagenum" id="Page_166">[166]</span> para se desprender da terra: essas dissipam-se
-na augusta transfiguração do fumo, vão ser nuvens, ter a intimidade das
-estrellas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos immortaes,
-e sentir os passos de Deus!</p>
-
-<p>«Eu tinha ouvido fallar das que vão ser vigas da casa do homem: essas,
-felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce força dos
-beijos e dos risos; são amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a ellas
-os corpos dolorosos dos Christos, são os pedestaes da paixão humana,
-têem a alegria immensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das
-creanças, ais namorados, confidencias, suspiros, elegias da voz, tudo
-o que lhes faz lembrar as murmurações da agua, o estremecimento das
-folhas, as cantigas dos ventos—toda essa graça escorre sobre ellas,
-que já gosaram a luz da materia, como uma immensa e bondosa luz da alma.</p>
-
-<p>«Eu tinha ouvido fallar tambem das arvores de bom destino, que vão ser
-mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do
-temporal, viajar, vêr, luctar, viver, levadas pelas aguas, atravez do
-infinito, entre surprezas radiosas—como almas arrancadas do corpo que
-fazem pela primeira vez a viagem do ceu!</p>
-
-<p>«Que iria eu ser?...—Chegamos. Tive então a visão real do meu destino.
-Eu ia ser forca!</p>
-
-<p>«Fiquei inerte, dissolvida na afflicção. Ergueram-me. Deixaram-me só,
-tenebrosa, n'um campo. Tinha, emfim, entrado na realidade pungente
-da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre
-cheias de cadeias, de cordas e de<span class="pagenum" id="Page_167">[167]</span> pregos, tinham vindo aos carvalhos
-austeros buscar um cumplice! Eu ia ser a eterna companheira das
-agonias. Presos a mim, iam baloiçar-se os cadaveres, como outr'ora as
-verdes ramagens orvalhadas!</p>
-
-<p>«Eu ia dar esses negros fructos: os mortos!</p>
-
-<p>«O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a
-companheira dos passaros, doces tenores errantes, as agonias
-soluçantes, os gemidos da suffocação! As almas, ao partir,
-rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a arvore do silencio e do mysterio
-religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos psalmos sonoros
-da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me
-ás nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a
-arvore viva dos montes, d'intimidade com a podridão, do camaradagem com
-o carrasco, sustentando alegremente um cadaver pelo pescoço, para os
-corvos o esfarraparem!</p>
-
-<p>«E isto ia ser! Fiquei hirta o impassivel como nas nossas florestas os
-lobos, quando se sentem morrer.</p>
-
-<p>«Era a afflicção. Eu via ao longo a cidade coberta de nevoa.</p>
-
-<p>«Veiu o sol. Em roda de mim começou a juntar-se o povo. Depois, atravez
-d'um desfallecimento, senti o ruido de musicas tristes, o rumor pesado
-dos batalhões, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois cirios,
-vinha um homem livido. Então, confusamente, como nas apparencias
-inconsistentes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibração
-electrica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto catholico
-dos mortos!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_168">[168]</span></p>
-
-<p>«Voltou-me a consciencia.</p>
-
-<p>«Estava só. O povo dispersava-se e descia para os povoados. Ninguem! A
-voz dos padres descia lentamente, como a ultima agua d'uma maré. Era ao
-fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio,
-com a cabeça caída e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me!</p>
-
-<p>«Eu sentia o frio e a lenta ascensão da podridão. Ia ficar alli, de
-noite, só, n'aquelle descampado sinistro, tendo nos braços aquelle
-cadaver! Ninguem!</p>
-
-<p>«O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma d'aquelle cadaver? Tinha
-passado já? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibrações?
-Eu sentia os passos da triste noite, que vinha. O vento empurrava o
-cadaver, a corda rangia.</p>
-
-<p>«Eu tremia, n'uma febre vegetal, dilacerante e silenciosa. Não podia
-ficar alli só. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos pedaços, para
-a antiga patria das folhas. Não. O vento era brando: quasi sómente
-a respiração da sombra! Tinha vindo então o tempo em que a grande
-natureza, a natureza religiosa, era abandonada ás féras humanas? Os
-carvalhos já não eram pois, uma alma? Podiam, com justiça, vir o
-machado e as cordas buscar os ramos creados pela seiva, pela agua e
-pelo sol, trabalho suado da natureza, fórma resplandecente da intenção
-de Deus, e leval-os para as impiedades, para os tablados da forca onde
-apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as
-ramagens puras, que fôram testemunhas das religiões, já não serviam
-senão para executar as penalidades humanas?<span class="pagenum" id="Page_169">[169]</span> Serviam só para sustentar
-as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condemnados se torcem? Não
-podia ser.</p>
-
-<p>«Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos,
-que sabem o segredo e comprehendem a vegetação, achariam grotesco que
-as arvores, depois de terem sido collocadas por Deus na floresta com os
-braços estendidos, para abençoar a terra e a agua, fôssem arrastadas
-para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o braço da forca
-para abençoar os carrascos!</p>
-
-<p>«E depois de sustentarem os ramos de verdura—que são os fios
-mysteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra—fôssem
-sustentar as cordas da forca, que são as fitas infames, por onde o
-homem se prende á podridão! Não! se as raizes dos cyprestes contassem
-isto em casa dos mortos—faziam estalar de riso a sepultura!</p>
-
-<p>«Assim fallava eu na solidão. A noite vinha lenta e fatal. O cadaver
-baloiçava-se ao vento. Comecei a sentir palpitações de azas. Voavam
-sombras por cima de mim. Eram os corvos. Poisaram. Eu sentia o roçar
-das suas pennas immundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se,
-ruidosos, cravando-me as garras.</p>
-
-<p>«Um poisou no cadaver e poz-se a roer-lhe a face! Solucei dentro do
-mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma arvore das
-florestas a quem os ventos fallavam! Servia agora para afiar os bicos
-dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cadaveres,
-como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus—soluçava<span class="pagenum" id="Page_170">[170]</span>
-eu ainda—eu não quero ser reliquia de tortura: eu alimentava, não
-quero aniquillar: era a amiga do semeador, não quero ser a alliada do
-coveiro! Eu não posso e não sei ser a justiça. A vegetação tem uma
-augusta ignorancia: a ignorancia do sol, do orvalho e dos astros. Os
-bons, os angelicos, os maus são os mesmos corpos inviolaveis, para a
-grande natureza sublime e compassiva. Oh meu Deus, liberta-me d'este
-mal humano tão aguçado e tão grande, que se trespassa a si, atravessa
-de lado a lado a natureza, e ainda te vae ferir, a ti, no ceu! Oh!
-Deus, o ceu azul, todas as manhãs, me dava os orvalhos, o calor
-fecundo, a belleza immaterial e fluida da brancura, a transfiguração
-pela luz, toda a bondade, toda a graça, toda a saude:—não queiras que,
-em compensação, eu lhe mostre, ámanhã, ao seu primeiro olhar, este
-cadaver esfarrapado!</p>
-
-<p>«Mas Deus dormia, entre os seus paraisos de luz. Vivi tres annos
-n'estas angustias.</p>
-
-<p>«Enforquei um homem—um pensador, um politico, filho do bem e da
-verdade, alma formosa cheia das fórmas do ideal, combatente da luz. Foi
-vencido: foi enforcado.</p>
-
-<p>«Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ella.
-O seu crime era o amor, que Platão chama <i>mysterio</i>, e Jesus
-chamou <i>lei</i>. O codigo puniu a fatalidade magnetica da attracção
-das almas, e corrigiu Deus com a forca!</p>
-
-<p>«Enforquei tambem um ladrão. Este homem era tambem operario. Tinha
-mulher, filhos, irmãos e mãe. No inverno não teve trabalho, nem lume,
-nem pão. Tomado d'um desespero nervoso, roubou. Foi<span class="pagenum" id="Page_171">[171]</span> enforcado ao sol
-posto. Os corvos não vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e
-são. Era um pobre corpo que tinha succumbido por eu o apertar de mais,
-como a alma tinha succumbido por Deus a alargar e a encher.</p>
-
-<p>«Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dôr
-intima; não me desprezou: o sol allumiava-me com glorificação, as
-nuvens vinham arrastar por mim a sua molle nudez, o vento fallava-me
-e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegetação
-saudava-me com meigas inclinações da folhagem: Deus mandava-me o
-orvalho, frescura que promettia o perdão natural.</p>
-
-<p>«Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia
-esfriar, mandou-me os seus vestidos d'hera. Os corvos não voltaram:
-não voltaram os carrascos. Sentia entrar em mim a antiga serenidade
-da natureza divina. As efflorescencias, que tinham fugido de mim,
-deixando-me só no solo aspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de
-mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me.
-Eu sentia chegar a podridão. Um dia de nevoas e de ventos, deixei-me
-caír tristemente no chão, entre a relva e a humidade, e puz-me
-silenciosamente a morrer.</p>
-
-<p>«Os musgos e as relvas cobriram-me, e eu comecei a sentir-me dissolver
-na materia enorme, com uma doçura ineffavel.</p>
-
-<p>«O corpo esfria-me: eu tenho a consciencia da minha transformação lenta
-de podridão em terra. Vou, vou. Oh terra, adeus! Eu derramo-me já pelas
-raizes. Os atomos fogem para toda a vasta natureza,<span class="pagenum" id="Page_172">[172]</span> para a luz, para
-a verdura. Mal ouço o rumor humano. Oh antiga Cybele, eu vou escorrer
-na circulação material do teu corpo! Vejo ainda indistinctamente
-a apparencia humana, como uma confusão de ideias, de desejos, de
-desalentos, entre os quaes passam, diaphanamente, bailando, cadaveres!
-Mal te vejo, oh mal humano! No meio da vasta felicidade diffusa do
-azul, tu és apenas, como um fio de sangue! As efflorescencias, como
-vidas esfomeadas, começam a pastar-me! Não é verdade que ainda lá em
-baixo, no poente, os abutres fazem o inventario do corpo humano? Oh
-materia, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta!
-Eu vejo já os astros correrem como lagrimas pela face do ceu. Quem
-chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formidavel da terra! Oh mundo
-escuro, de lama e d'oiro, que és um astro no infinito,—adeus! adeus!
-—deixo-te herdeiro da minha corda pôdre!»</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_173">[173]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_175">[175]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="A_MORTE_DE_JESUS">A MORTE DE JESUS</h2>
-</div>
-
-
-<p>Por estranhos acasos encontrei este velho manuscripto copiado, n'um
-latim barbaro, do antigo papyros primitivo. Não o traduzo textualmente:
-seria incomprehensivel, irritaria os nossos habitos criticos,
-psycologicos! Transporto para a linguagem moderna, complexa, ductil,
-sabia, o estreito dizer antigo.</p>
-
-<p>Assim ordenado, este documento, que não encerra coisas novas, põe
-todavia em relevo muitos estados de espirito, muitas situações civis de
-uma pessoa excepcional, que tem notavelmente merecido n'estes ultimos
-tempos a attenção da historia e da critica.</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>Jerusalem, Mediterranean Hotel, no Acra, 1 de Dezembro de 1839.</p>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<h2 id="MORTE_JESUS">A MORTE DE JESUS<a id="FNanchor_41" href="#Footnote_41" class="fnanchor">[41]</a></h2>
-
-<p class="right">
-<i>Dies irae, dies illa...</i><br />
-</p>
-
-
-<h3 class="nobreak" id="I">I</h3>
-</div>
-
-
-<p>O meu nome é Eliziel, e fui capitão da policia do templo: estou velho
-e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a eternidade
-sob uma pedra lisa em Josaphat, ou nas mortuarias de Siloeh, quero
-contar o que sei e o que vi d'um homem excellente, que na minha
-mocidade esteve, pelos acasos providenciaes da sympathia, intimamente
-ligado á minha vida. N'estes ultimos tempos, sobretudo, a sua imagem
-vive activa e poderosa no meu cerebro; e quando, pelo findar da tarde,
-a esta luz maguada que então habita no ceu da Judea, eu me vou sentar
-junto ao branco tumulo de Rachel, olhando as muralhas de Jerusalem e
-a velha Sião, cheia<span class="pagenum" id="Page_178">[178]</span> de claridade, e as ruinas de David, é n'elle que
-penso—e n'esses tempos distantes em que eu tinha a força, a barba
-escura, o andar agil e firme, e a esperança facil.</p>
-
-<p>Eu sou o mais velho da geração d'esse homem: aqui vivo, afastado da
-cruel Jerusalem, em Bethlem, junto d'esse poço que tem uma agua tão
-fresca e consoladora, que David a lamentava no desterro.</p>
-
-<p>Os outros onde estão? Onde estaes vós Thomaz, Matheus, Simão, Pedro,
-João? Onde estaes vós? Judas de Karioth sei que morreu obscuro e
-socegado no campo de Haceldama; Poncio Pilatos está em Hespanha,
-retirado e pobre, elle o velho amigo de Tiberio. Antipas, Herodiade,
-andam na afflicção dos desterros; Hannan morreu, mas a sua memoria e a
-sua doutrina ainda governam o templo. Onde estão os mais: Nicodemus,
-Joseph, Maria, as santas mulheres, Cleophas, Gamaliel, o sabio doutor?
-Uns estão no valle de Josaphat, outros no valle d'Hinnon, todos
-esquecidos. Tanto a memoria do homem é como a onda fugitiva e perfida!</p>
-
-<p>É por isso, para que se não perca a lembrança d'aquelle homem justo e
-bom, que eu procuro dizer com simplicidade e verdade tudo quanto vi e
-comprehendi da sua vida, tão breve pelos dias, tão longa pelas dôres.</p>
-
-<p>Quando o conheci em Jerusalem, pela festa da Paschoa, era eu moço.
-A minha vida passava-se toda no templo. O templo, reconstrucção
-de Herodes o Grande, estava então novo e resplandecente: ainda se
-trabalhava nos porticos exteriores. Alli era o centro de Jerusalem:
-alli se orava, se celebrava, se<span class="pagenum" id="Page_179">[179]</span> tratavam as questões civis, se
-julgavam os condemnados, se estabeleciam as escolas rabbinicas da lei,
-se discutiam os editos de Roma, o procedimento dos legados imperiaes
-e dos procuradores, se curavam os doentes, se tramavam as sedições.
-Os romanos não podiam entrar no templo: no atrio da primeira galeria
-havia inscripções, em grego e em latim, que vedavam aos gentios, aos
-pagãos e aos samaritanos penetrar além. No emtanto nós viamos sempre os
-romanos nos terraços da torre Antonia, que domina o recinto do templo,
-observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra,
-exercitarem-se em luctas.</p>
-
-<p>A mim, como official da policia do templo, competia-me abrir, fechar as
-portas, impedir que se entrasse no santuario com bastões ou armas, que
-se sujassem as lages dos terraços com lama, que se passasse com fardos,
-ou que viessem orar junto ás columnas do santuario os que estavam
-tocados de impureza.</p>
-
-<p>Eu era escrupuloso e attento, e desgostava-me (e muitas vezes o disse)
-que o serviço do culto auctorisasse factos indignos da santidade da
-lei e da consagração do logar, porque, no recinto do templo, vinham
-estabelecer-se toda a sorte de vendedores e do bazares: vinham alli
-vender os animaes para os sacrificios, os estofos, os veus, as faixas
-de Tyro; trocava-se a moeda; negociava-se o azeite: e, como o templo
-era o centro vital de Jerusalem, havia alli toda a semelhança de uma
-feira: pregões, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pagão de
-Cesarêa, do que o interior da casa de Deus.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_180">[180]</span></p>
-
-<p>Outra coisa me irritava alli, singularmente: eram os phariseus, os
-escribas, e os doutores da lei; não os estimo: entre elles só vi
-cerimonias, odios, disputas estereis. Nunca comprehendi o orgulho
-dos doutores, nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria grega: meu pae
-cultivava as lettras hellenicas, e tinha-me dado conhecimento d'aquella
-sciencia, incorrendo assim na ira dos doutores phariseus, que envolvem
-na mesma maldição o que cria porcos, e o que ensina a seu filho a
-sciencia grega. Meu pae tinha viajado no Egypto, em Alexandria, e ahi
-se tinha ligado com um sabio, Philon, judeu pela mãe, grego pela alma,
-de quem os mestres das synagogas diziam o maior mal.</p>
-
-<p>Desde então tinha-se tomado d'affeição pela sciencia grega, e velho,
-entretinha-se a fazer passar ao meu espirito as grandes doutrinas
-d'aquellas gentes. Ora o odio dos escribas pela sciencia hellenica
-indignava-me. Demais, elles são repulsivos e grosseiros.</p>
-
-<p>Os phariseus, especialmente, são asperos, desdenhosos, maus,
-respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o espirito da
-lei. Em tudo cheios d'artificio e de vaidade: se entram na synagoga,
-querem o melhor logar, o mais largo, e todos os veem batendo no peito
-sob a amplidão do manto: se vão pela rua ou pelo campo, prostram-se
-ruidosamente a orar, se veem o olhar do homem: se dão uma esmola,
-contam-a como virtude, apregoam-a como exemplo: e sempre argumentando,
-vociferando, enchendo o santuario de disputas e de invectivas! Se,
-n'uma ceia, algum dos convivas faz a ablução<span class="pagenum" id="Page_181">[181]</span> sobre a testa, com a mão
-toda, em logar de a fazer só com dois dedos, amaldiçoam-n'o, clamam
-pelas iras de Jehovah e levantam-se escandalisados: nunca ninguem
-os vê consolar uma viuva, ou ajudar um velho a andar: os pobres,
-os abandonados, são para elles como os que estão tocados da peste:
-caminham com os olhos fechados para não vêrem as mulheres, e com os pés
-nús para se ferirem nas pedras: mas, por baixo do seu zelo, são cheios
-de appetites, como um homem sanguineo!</p>
-
-<p>Quanto é melhor que estes o alto sacerdocio, que é todo da seita dos
-sadduceus e dos boethozins! Ha ahi mais sinceridade, e mais humanidade:
-são homens pacatos e faustuosos, que intrigam com Roma, não teem zelos
-nem devoções irritantes, amam o socego, as lindas casas de campo junto
-a Sião ou para além de Bezetha, os molles estofos de Sidon, ou as
-bellas mulheres da Idumea.</p>
-
-<p>Mas o que, na vida do templo, me indignava superiormente era o vêl-o
-tornado um logar de commercio, de venda e de troca de moeda. E foi
-por estes odiosos mercadores do templo, que além d'isso me tornavam a
-policia difficil e fatigante, que eu conheci o homem ineffavel, por
-quem os meus olhos ainda se humedecem.</p>
-
-<p>Um dia, entrava eu na galeria de Salomão, que é a que tem tres
-ordens de columnas, o tecto de cedro lavrado, e olha para o monte
-das Oliveiras. Era na festa da Paschoa, quando ella se enche com a
-multidão dos peregrinos. Um soldado da milicia do templo tinha-me dito
-que, contra os avisos, dois mercadores de pombas e de carneiros tenros
-tinham-se vindo encruzar<span class="pagenum" id="Page_182">[182]</span> nas suas esteiras junto das columnatas, com
-as rezes enfeitadas de escarlate, e os cestos d'aves brancas. Eu ia,
-cheio de colera, para os condemnar, quando vi em redor uma confusa
-gente dominada pelo forte ruido d'uma voz: defronte dos mercadores,
-havia um homem de pé, que lhes fallava. Era alto, magro, fraco: tinha
-os cabellos louros, pendentes, separados ao meio, cabellos d'homem da
-Galilea: mesmo, percebi logo, pelo accento e pela pronuncia, que elle
-era galileo: n'aquelle momento o seu rosto era irritado e severo: tinha
-o gesto largo ao modo dos que pregam nas synagogas, tinha as feições
-inflammadas, os olhos cheios d'uma luz indignada: a sua estatura
-erguida pela colera, enobrecida pela justiça das suas palavras, cheia
-do seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.</p>
-
-<p>Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras,
-arrastavam as rezes: as pombas esvoaçavam.</p>
-
-<p>—Ide!—disse-lhes elle então—vós fazeis da casa da oração uma caverna
-de ladrões!</p>
-
-<p>E com a mão violenta empurrou-os largamente, para além das columnas.
-Elles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma approvação
-sympathica para o da Galilea: alguns riam: havia creanças assustadas
-que gritavam. Eu olhava, admirado.</p>
-
-<p>—Quem é este?—perguntei a João, um galileo, que estava junto d'elle,
-e que eu conhecia de o ter encontrado no atrio da casa d'Hannan.</p>
-
-<p>—Não o conheces tu? É Jesus de Nazareth, propheta da Galilea!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_183">[183]</span></p>
-
-<h3>II</h3>
-
-
-<p>Durante a minha vida do templo eu tinha visto muitos videntes, muitos
-prophetas: vinham da Galilea, da Judea, de todo o paiz que vae até
-Joppé. Não direi o que penso da intenção prophetica e da crença
-messianica. Só direi que os prophetas que, no meu tempo, vieram e eram
-lapidados ás portas de Jerusalem, eram bons; eram uma voz collectiva, a
-esperança, a consolação e o allivio.</p>
-
-<p>O povo era profundamente infeliz: os saducceus afogados nos seus
-repousos, os phariseus perdidos nas suas devoções, os escribas e
-doutores absorvidos nas suas escolas, não viam o estado das almas. Além
-de tudo estavam longe do povo, n'uma separação desdenhosa e emphatica.
-Eu estava profundamente ligado ao povo pela raça e pelo instincto.
-Já na vida estreita e toda commum de Jerusalem, já nas conversações
-dos atrios do templo, já nas minhas demoras em Bethel, em Ephraim, em
-Galilea, eu via,<span class="pagenum" id="Page_184">[184]</span> comprehendia, sabia o povo. Infeliz, desprezado,
-eternamente escravo, esmagado pelo tributo da dominação e pelo dizimo,
-refugiava-se, maltratado da terra, na esperança d'um libertador, d'um
-Messias. O judeu é dado a preoccupações divinas e a sua verdadeira
-patria é em Deus.</p>
-
-<p>Uma serie d'homens fortes e piedosos eram os interpretes d'este desejo
-ideal, eram a voz d'aquella melancholia, e eram os amigos do pobre, os
-asperos juizes do rico, os consoladores austeros.</p>
-
-<p>O povo, suffocado pela sua paixão interior, sentia-se alliviado,
-consolado, quando um propheta fallava. Os prophetas confirmavam a
-vinda do Messias, diziam-lhe a figura e as acções, a piedade e a
-paixão, esfarrapavam os seus vestidos, iam viver no deserto: d'ahi a
-exaltação tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em
-desejo e vontade. De sorte que todos os annos appareciam videntes e
-inspirados, que o sanhedrin mandava lapidar á Porta Esterquilinaria.
-Mas lamentavam-o, porque o povo segue sempre todo o movimento que seja
-original, amigo do pobre, annunciador da boa nova: Schammaï, Hillel,
-Jesus de Sirach, que tiveram altos pensamentos de puresa e de justiça,
-viveram ignorados da Judea e da Galilea porque não pregavam em nome da
-esperança religiosa, não tinham a paixão messianica. Eram espiritos
-sabios e justos, e não videntes possuidos de fé.</p>
-
-<p>Ora, n'esse tempo a esperança do Messias era activa. Clamavam por elle
-a Deus, jejuavam, oravam, para não morrerem antes da vinda d'elle;
-tinham desalentos, esperavam avidamente os signaes<span class="pagenum" id="Page_185">[185]</span> mysticos, e as
-almas fallavam baixo, porque vinha o Senhor!</p>
-
-<p>Eu mesmo tinha visto muitos prophetas, muitos mestres innovadores;
-não conhecia João Baptista, que vivia no deserto do Jordão, mas sabia
-que elle tambem prégava um renascimento, e que, tendo escandalisado a
-olympica Herodiade, se definhava n'uma prisão de Antipas.</p>
-
-<p>No emtanto nunca nenhum d'esses homens me dera uma sensação feliz como
-esse Jesus de Nazareth. Os seus olhos cheios de infinito, a sua voz
-poderosa e serena, a justiça das suas palavras, deixáram-me n'uma vaga
-e imprevista perturbação, como quando se olha para o ceu, que se suppõe
-escuro, e de repente se vê uma estrella immortalmente luminosa.</p>
-
-<p>N'essa tarde, como eu caminhasse pela encosta do Sião, para o lado
-do horto de Salomão, com Simeon, escriba do templo, perguntei-lhe se
-conhecia Jesus de Nazareth, que prégava na Galilea. Simeon disse-me,
-com um riso:</p>
-
-<p>—Que sabes tu que possa vir de bom de Nazareth?</p>
-
-<p>Realmente toda a Galilea é muito desprezada pelos de Jerusalem. Fômos
-conversando n'esta apreciação: Simeon dizia-me que os galileos eram
-fracos, femininos, imbecis: que eram ignorantes e pouco orthodoxos:
-que o sangue estava n'elles muito misturado; que tinham muito do
-samaritanismo; que a sua pronuncia era viciosa; que eram grotescos a
-fallar, insufficientes a pensar; e que <i>idiotismo galileo</i> era um
-proverbio de Jerusalem. Eu respondia que a<span class="pagenum" id="Page_186">[186]</span> gente de Galilea me parecia
-simples e dedicada; que quem vive n'uma natureza tão humana, tão cheia
-de aguas, tão auxiliada das sombras, não podia deixar de ter qualidades
-finas e harmoniosas; que os galileos eram trabalhadores e sobrios;
-e que Isaias tinha dito:—«Oh terra de Zabulon e terra de Nephtali,
-caminho do mar, Galilea dos gentios, o povo que caminhava na sombra viu
-uma grande luz!»</p>
-
-<p>—Ora, Simeon—dizia eu—estas palavras de Isaias indicam que na
-Galilea póde nascer um propheta!</p>
-
-<p>Iamos assim largamente conversando, quando chegamos ao horto de
-Salomão: a natural belleza, as arvores, as vinhas, a perspectiva suave
-e recolhida dos valles de Jerusalem, a silenciosa espessura, a fresca
-serenidade, os bandos de pombos que veem beber aos velhos reservatorios
-de Salomão, fazem d'aquelle logar um retiro bom para espiritos sabios,
-para aquelles que teem no coração uma ideia, ou que são habitados por
-uma esperança: alli se reunem assim muitos de Jerusalem! N'aquelle dia
-andava alli, absorvido, grave e vagaroso, o sabio Gamaliel. Gamaliel
-era o maior do templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza,
-a tradição—elle era a sciencia; se os outros eram a lei—elle era
-a justiça. Eu, preoccupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se
-conhecia aquelle homem severo:</p>
-
-<p>—Pelo que sei d'elle—disse Gamaliel—penso que é um justo.</p>
-
-<p>Guardei com amor esta palavra: ella correspondia á attracção suave
-e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galilea. Ao voltar a
-Jerusalem, pensava n'elle: via-o irritado e augusto: imaginei-o<span class="pagenum" id="Page_187">[187]</span> cheio
-da colera do justo e da rebellião do opprimido: o que elle prégava
-decerto era a condemnação do rico e a humilhação do phariseu. Era o que
-tu precisavas, Jerusalem, dizia eu, era um propheta amado e seguido,
-que fôsse a alma d'uma infinita desgraça que se vinga, que erguesse o
-povo, anniquilasse os sacerdocios corrompidos, expulsasse o romano,
-que reconstituisse nas almas a velha Israel, nas instituições a velha
-Judea, que fôsse o homem forte e puro, e o continuador dos Machabeos.
-Produzira a Galilea esta alma terrivel? Ou será Elias ressuscitado
-d'entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me pela noite pesada
-para casa de Hannan.</p>
-
-<p>Hannan era o grande sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do
-templo o fôsse seu genro Caiphaz; mas elle era o espirito, a direcção,
-o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do templo. Era
-velho, sabedor das tradições, astuto; possuia enormes riquezas,
-conspirava contra Roma, era concentrado e soberbo.</p>
-
-<p>N'um dos largos pateos cobertos de sua casa, em Bezetha, era costume
-reunirem-se em volta d'um grande fogo, quando o frio entristecia
-Jerusalem, os officiaes do templo: ás vezes vinham escribas, doutores,
-sacerdotes affaveis. Aquelle grupo, sempre egual, era como uma
-consciencia um pouco mordente do templo. Ás vezes, quando não estava
-algum austero doutor phariseu, pedia-se a um soldado expedicionario
-que entrasse para junto do lume, dava-se-lhe do vinho de Sidon e das
-collinas do Libano, e pedia-se-lhe que cantasse algumas das cantigas
-latinas do bairro de Suburra. Alguns velhos sacerdotes riam<span class="pagenum" id="Page_188">[188]</span> nas suas
-barbas brancas. N'essa noite, quando eu atravessava o atrio d'Hannan,
-cruzei-me com aquelle galileo, João, que eu tinha visto junto a Jesus
-de Nazareth, na galeria de Salomão. Elle costumava vir alli vêr
-uma velha, guardadora dos cães, que era de Capharnaum, na Galilea.
-Chameio-o, tomei-lhe as mãos, fallei-lhe affavelmente em Jesus de
-Nazareth: eu, emfim, comprehendia bem aquelle que por um imprevisto
-interesse, pela elevação da sua palavra, pela belleza do seu aspecto,
-habitava já no meu peito, como um amigo d'antiga mocidade.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_189">[189]</span></p>
-
-<h3>III</h3>
-
-
-<p>João disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples,
-mas penetradas de fé e de desejo.</p>
-
-<p>Eu reconstrui então, em espirito, a vida obscura de Jesus: vi-o,
-pela intuição, em Nazareth, educado por aquella doce paizagem da
-Galilea, sob a influencia do Carmelo, das serras do Tabor e das terras
-patriarchaes.</p>
-
-<p>Eu tinha alli viajado, e muitas vezes me tinha sentado n'um rochedo,
-nas alturas de Nazareth. Se algum logar ha no mundo em que o homem
-sinta a estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o
-contingente e fugitivo das affeições e dos desejos, é alli, n'aquelle
-vasto e socegado horizonte, em que parece que o ceu exerce mais
-profundamente a sua attracção infinita sobre a alma captiva.</p>
-
-<p>Que pomares, que prados, que humanas aguas, que aldeias delicadamente
-adormecidas entre as figueiras e as vinhas!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_190">[190]</span></p>
-
-<p>E eu via Jesus, imaginando, esperando, n'aquelle humido paraizo da
-Galilea e nas suas montanhas queridas, de bellas fórmas amorosas!</p>
-
-<p>Vi-o com os seus primeiros amigos, já possuido da ideia do seu Deus,
-entrando a fallar nas synagogas, correndo as aldeias, ajudando as
-pescas, dormindo nos largos terraços sob a luz das estrellas tão
-bellas, tão expressivas como na velha Chaldea; chamando os que
-encontrava para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e
-ao Deus interior que o habitava em alimento ás almas infelizes.</p>
-
-<p>Os de Jerusalem, que nunca saíram das suas estreitas e duras ruas, e
-apenas teem visto da natureza as suas collinas calvas e os seus valles
-cheios de mortos, riem quando se lhes falla na natureza do norte, na
-fecundidade da Samaria e da Galilea e na excellencia d'aquella gente.</p>
-
-<p>Pois, se Jerusalem tem de ser erguida das suas choradas humilhações,
-será por alguem vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galilea! Esta
-Jerusalem aspera, secca, toda de pedra e de indifferença, só fará
-espiritos estreitos, phariseus argumentadores, escribas e lapidadores
-d'homens. O sangue de Judas Galannite, de Hillel, do filho de Sirach,
-de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo, é parente da
-seiva das arvores da Galilea. Uma elevação ideal sáe d'aquellas sombras
-e do rumor d'aquellas aguas. Jerusalem será a lei, a auctoridade, a
-sabedoria, a habilidade, a astucia; mas a Galilea será a virtude e o
-sacrificio.</p>
-
-<p>Alli não ha cidadãos: ha as pequenas aldeias syrias que eu amo, onde
-as mulheres teem o seio<span class="pagenum" id="Page_191">[191]</span> pacifico, os homens a força serena, e até
-os pequenos burros teem um olhar doce, em que parece habitar uma
-resignação humana. Tudo é fecundo, bem cultivado: a abundancia impede
-a hostilidade ao imposto, a avaresa, a economia aspera, qualidades
-de Jerusalem. Ah! laminas doiradas do templo, tumulos gregos dos
-Herodes, com relevos de folhagens, como eu vos dera por um dos pequenos
-regatos azulados, que dormem e sonham, na espessura amada das cearas
-de Chorazin! Porque não conheço melhor alegria, do que andar pelas
-estradas da Galilea: vêem-se os casaes escurecidos pelas sombras
-das figueiras, das vinhas, os pomares de nogueiras, de romanzeiras
-estrelladas de vermelho: vae-se n'uma fresca espessura povoada d'aves
-gloriosas! Quando se está fatigado, senta-se a gente deante d'uma
-porta, á sombra d'um cedro, bebe-se o vinho de Safed, olham-se as
-fórmas languidas das montanhas, conversa-se com as mulheres que veem da
-fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salomão! E não se
-encontram phariseus, nem escribas, nem sadducceus, nem herodianos!</p>
-
-<p>Era alli que Jesus vivia, fallando pelos campos, pelos casaes e nas
-synagogas: alli devia ser escutado: não tinha sabios da lei para o
-contradizer e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer
-a verdade aos simples!</p>
-
-<p>O que João me contava da doce vida do lago de Tiberiade enchia-me
-d'uma affeição ineffavel pelo doce mestre. Eu conheço bem o lago de
-Tiberiade, todo o paiz de Genezareth: muitas alvoradas andei pelas
-suas aldeias e pelos caminhos das suas villas! Ai!<span class="pagenum" id="Page_192">[192]</span> Magdala, Chorazin,
-Bethsaida, margens do lago, logares que eu choro, hoje, velho, secco,
-pallido de saudades pela força do meu peito e pela altura da minha
-esperança! Ó arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de agua,
-onde os meus pés faziam erguer as rolas! Ó caminho estreito do rochedo,
-cheio de musgos! Ó rio salgado, que nasces ao pé do lago e logo no lago
-cáes, e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! Ó margem do
-lago, cheia de tamarindos, onde a agua, tão azul como os olhos das
-mulheres de Tyro, vem terminar sem ondas, sem afflicções, nas hervas
-verde-negras! Ó Galilea, se as ideias moças, que trago mortas dentro do
-meu peito, as pudesse sepultar fóra de mim, escolheria a tua relva, ó
-terra de Nephtali!</p>
-
-<p>Jesus e os seus amigos viviam ao pé do lago, da vida de pescadores;
-aquelle clima é tão doce, tão affavel, que o homem pouco pensa no
-seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia, sob as
-estrellas, ao rumor da agua. Jesus pescava, ou fallava n'uma barca, no
-socegado embalar da agua, aos seus companheiros de rede: assentava-se
-ás vezes sobre as collinas, que são d'uma viva liberdade d'ar e de luz,
-e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de creanças, prégava-se
-a si, ensinava o seu coração, fallava das esperanças do reino de Deus.
-Elle amava tudo o que era delicado, as mulheres, as creanças, os
-lyrios, as aves: a sua palavra era, assim, tão suave como os olhos das
-creanças, tão pacifica como o caminhar dos regatos: elle pedia apenas
-que o amassem, e não tinha razões inflammadas de propheta. Elle era o
-centro de todo o amor na verde<span class="pagenum" id="Page_193">[193]</span> Galilea: dava a esperança ás almas:
-dizia a vinda do Senhor, o fim das lagrimas, as glorias do pobre.</p>
-
-<p>—O ceu é dos simples—dizia elle.—Os que choram serão consolados; os
-miseraveis possuirão a terra. Tendes fome e sede de justiça? Vinde a
-mim: sereis saciados. Sêde pacificos, sêde puros. Se vos perseguirem no
-reino da terra, abrir-se-vos-á o reino do ceu. Segui-me, segui-me!...</p>
-
-<p>E seguiam-no; abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casaes:
-as creanças amavam-o: as mulheres iam presas da luz immortal dos seus
-olhos. Todos queriam errar com elle pelo paiz de Genezareth, comendo os
-fructos casuaes dos pomares, bebendo como as rezes no fio dos regatos.</p>
-
-<p>Elle explicava Deus de um modo novo: ninguem o conhecia melhor: elle
-era a consciencia viva de Deus. O seu Deus não era Jehovah, amigo
-de Israel, inimigo dos homens: não era o ser solitario, tenebroso,
-irritavel: o seu Deus era o pae, o consolador, o purificador, o
-eternamente sereno, o eternamente justo.</p>
-
-<p>O Mestre prégava a fraternidade entre os homens, o perdão, a caridade,
-a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrificio.</p>
-
-<p>—Se vos ferirem, offerecei-vos; se vos odiarem, amae; se vos
-perseguirem, orae! Que merito ha em amar os que nos amam?</p>
-
-<p>Uma coisa que singularmente me tocava no ensino que João me repetia,
-era a condemnação dos usos do templo, dos zelos devotos dos phariseus:
-com effeito, para que são tantas purificações, tantos cilicios, tantos
-usos de piedade? Para que hão de os<span class="pagenum" id="Page_194">[194]</span> phariseus trazer nas suas tunicas
-as tiras de papyrus, que são o signal da devoção, e para que dão a
-esmola, de pé, nas escadarias do templo, gritando, e elevando a moeda?</p>
-
-<p>—Quando tu deres a esmola—dizia o Mestre de Nazareth—que a tua mão
-esquerda não saiba o que fez a direita.</p>
-
-<p>E esta palavra enchia-me o coração. E alegrava-me o saber que elle não
-era como os mais prophetas, não se retirava para o deserto, não se
-emmagrecia em jejuns, não rasgava os seus vestidos, não se feria nas
-rochas agudas: vivia como um simples e como um pobre, e se procurava ás
-vezes os logares retirados, e amava as montanhas, é que ahi estava mais
-na fraternidade dos seus, e no coração de Deus.</p>
-
-<p>João fallava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joanna, mulher de
-Khouza, Salomé, Maria de Cleophas e Maria de Magdala, que eu conhecia
-do Acra, em Jerusalem. Maria de Magdala, ahi e em Tiberiade, tinha
-tido uma vida apaixonada e impura: uma exaltação inexplicavel era a
-essencia d'aquelle ser; tinha espasmos, contracções, enthusiasmos
-perturbados: julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril
-pelo amor dos homens; ligava-se com os doutores notaveis d'então,
-penetrava em discussões e explicações da lei, depois andava cercado de
-phariseus e envolta em devoções: mas tinha o amor dos estofos, e todos
-os dias chorava. Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo
-o que fazia era com paixão: a cultura das plantas raras, a creação
-das moreias em reservatorios, a composição<span class="pagenum" id="Page_195">[195]</span> de aromaticos, o estudo
-das hervas, tudo tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi
-para Magdala. Ahi viu Jesus, prégando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do
-Mestre, e amava a sua figura delicada e bella. Tinha, porém, fortes
-impaciencias, erguia discordias com os discipulos, retirava-se para
-o deserto. Mas voltava, porque a sua dedicação suave pelo Mestre era
-maior, e domava a sua tenebrosa e confusa natureza.</p>
-
-<p>Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser á tunica
-franjas de Tyro.</p>
-
-<p>Jesus, de resto, acceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os
-publicanos, todos os peccadores.</p>
-
-<p>Tal era Jesus, segundo João. Eu estava cheio de admiração. Demais
-(dizia eu) aquelle homem que eu vi no templo, com as indignações de
-Isaias, é pois suave como o ceu da Galilea!? Realmente, uma raça
-tão humana, tão simples, tão abundante, tão pacifica poderia dar um
-propheta irritado?</p>
-
-<p>—O Mestre é a propria doçura—dizia-me João.</p>
-
-<p>D'onde vinha então aquella colera, aquelle gesto de Messias vingador?</p>
-
-<p>—Desde quando é elle assim?—perguntava eu a João.</p>
-
-<p>—Dizes bem. O Rabbi mudou desde que chegou a Jerusalem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_197">[197]</span></p>
-
-<h3>IV</h3>
-
-
-<p>Era já manhã e ainda João me contava estas coisas pacificas, emquanto
-eu seguia para o templo. Ia perturbado, sem centro moral. Ora me vinham
-desejos de ir á Galilea seguir os passos de Jesus de Nazareth, ora o
-meu velho orgulho estreito de homem do templo me suscitava hostilidades
-ou desdens.</p>
-
-<p>O templo abria-se, chegavam os phariseus, os devotos; os doutores
-approximavam-se nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras;
-encruzavam-se nas suas esteiras os mercadores; tirava-se a agua das
-piscinas, accendiam-se os purificadores, desdobravam-se os velarios; os
-pregões annunciavam os debates civis, as vendas de campos; começavam
-a installar-se as escolas rabbinicas; o oiro tinia nas bancas dos
-cambiadôres; havia risadas; ouvia-se o balar das rezes.</p>
-
-<p>Quando eu estava vigiando os serviços, veio a mim, todo alegre, um
-velho camarada do templo,<span class="pagenum" id="Page_198">[198]</span> Josué, que andava ha muito pelas villas
-de Galilea para a organisação dos sophorins nas synagogas. Era homem
-conhecedor das tradições e cheio de experiencia da vida sacerdotal.
-Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrinação Jesus de Nazareth, filho
-de Maria de Caná, e os seus companheiros. Elle era douto, sincero,
-attento; devia saber explicar-me, melhor do que o simples, o exaltado
-João, a essencia do Rabbi da Galilea.</p>
-
-<p>Disse-me, com effeito, que vira Jesus na synagoga de Chorasin; que
-conhecia a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado,
-mais tarde ou mais cedo, a ser lapidado ás portas de Bethel; que
-prégava toda a sorte de impiedades; que combatia a lei, a tradição
-e os textos; que fallava contrariamente á velha sabedoria judaica,
-sendo ignorante e moço; que não respeitava nem os ricos, nem os
-sacerdotes, nem os phariseus; que queria distribuir as riquezas pelos
-pobres; que vivia em companhia de mendigos e de mulheres perversas;
-que dormia ao acaso pelos hortos; que não tinha casa nem campo; que se
-associava com o publicano e até com o pagão; que não fazia as abluções,
-nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galilea, sem
-auctoridade entre os doutos e entre os ricos.</p>
-
-<p>Eu ouvia, calado, estas palavras, que eram todo o espirito dos
-phariseus e dos doutores. E, quando sahi do templo, corri ao atrio
-d'Hannan.</p>
-
-<p>Jesus de Nazareth era-me já sympathico e intimo, pelo sentimento e pela
-rasão. Mas o que era aquelle homem? Era um simples visionario? Era um<span class="pagenum" id="Page_199">[199]</span>
-contemplador, cheio da melancholia que dão as espessuras de Galilea,
-e tomado d'um desdem divino? Era um espirito cheio de sabedoria? Era
-um continuador de Judas Galannite? Vinha elle prégar contra o imposto
-e contra o dizimo? Era elle hostil a Cezar, e cheio da tradicção dos
-Machabeus? Era um simples? Era um crente? Era um especulador frio das
-esperanças messianicas? Vinha elle atacar o espirito do templo?</p>
-
-<p>Encontrei João, conversando no atrio lageado com um homem da milicia
-sacerdotal. Chamei-o para uma longa galeria escura, vagamente
-estrellada de lampadas.</p>
-
-<p>—João—disse eu—dize o que vem fazer a Jerusalem o sabio de Nazareth?</p>
-
-<p>João olhou-me:</p>
-
-<p>—Vem á festa da Paschoa—disse elle, lento.</p>
-
-<p>—João—insisti—pelo Messias, e pela liberdade do Baptista,
-prisioneiro d'Antipas, dize-me a que vem Jesus, a Jerusalem e ao templo?</p>
-
-<p>—Prégar—disse João.</p>
-
-<p>Comprehendi, rapidamente, todos os resultados d'aquella lucta original.</p>
-
-<p>—Vae!—lhe disse eu exaltado—dize-lhe que parta, que volte para o
-lago de Tiberiade! Que viva nas suas montanhas, com o seu Deus, com
-os que o amam, socegado, no repouso dos campos. Que vá, que evite as
-portas de Jerusalem! Dize-lhe que não venha nunca encostar-se como
-propheta á columna do templo! Que volte para a Galilea, que se lembre
-das pedras que estão á Porta Esterquilinaria e que são para lapidar os
-prophetas!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_200">[200]</span></p>
-
-<p>João tinha o espanto nos olhos, na voz.</p>
-
-<p>—Eliziel! Eliziel!</p>
-
-<p>—Que volte, que volte para a Galilea!</p>
-
-<p>E subi rapidamente pela escadaria de granito verde, que levava aos
-interiores d'Hannan.</p>
-
-<p>O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre
-largas pelles, arroz e mel. Ao pé, uma escrava syria, de Damasco,
-cantava. Jesus Bar'Abbas, defronte, fazia momices.</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_201">[201]</span></p>
-
-<h3>V</h3>
-
-
-<p>No outro dia, casualmente, tive ordem de Caiphaz para ir á Galilea,
-em serviço das synagogas: a concentração dos sacerdotes rituaes
-em Jerusalem obriga assim os officiaes do templo a successivas
-peregrinações; porque as synagogas estão dominadas pelos escribas e
-pelos sophorins, e por isso agitadas em perpetuas intrigas.</p>
-
-<p>Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Bethsaida, a Chorazin, a
-todo o paiz que fôra até ahi o centro amado de Jesus.</p>
-
-<p>Em toda a região do lago achei muitos espiritos, ou mais simples, ou
-mais lucidos, ou mais amantes, singularmente occupados na sympathia e
-na razão pela pessoa, pela doutrina do Rabbi de Nazareth.</p>
-
-<p>Fallavam-me longamente da sua doutrina nas synagogas, das suas palavras
-nas collinas: e a figura moral de Jesus accentuava-se, definia-se
-progressivamente no meu espirito.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_202">[202]</span></p>
-
-<p>Diziam-me que a voz do Mestre era doce, unctuosa, que só o seu som
-captivante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da
-rede: fallava devagar; entre silencios, as altas verdades, as palavras
-profundas appareciam de repente como uma centelha sáe de um diamante,
-tocado de uma luz inesperada. Contava parabolas, historias; repetia
-com paciencia, sorrindo: uns estavam deitados, preguiçosos, attentos,
-outros remendavam as velas, alguns sentados aos seus pés olhavam
-pasmados a agua. Elle fallava, socegado, ou afagava uma creança, ou,
-contando as parabolas, concertava a sua rede.</p>
-
-<p>Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida.
-Tinha um desdem elevado pelas coisas exteriores.</p>
-
-<p>—Não vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestuario—dizia
-elle.—Olhae as aves do ceu: não semeiam, nem ceifam, e o pae dos ceus
-é quem as alimenta; e não sois vós mais que as aves que esvoaçam nos
-campos.</p>
-
-<p>—Para que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vêde os lyrios: não
-trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salomão, em toda a sua
-gloria, não estava vestido como nenhum d'elles na sua simples candura.
-E o que Deus faz pelas hervas dos campos que florescem hoje, ámanhã
-seccam, não o fará por vós, homens de pouca fé?!</p>
-
-<p>Por isso os discipulos seguiam-o assim, enlevados n'aquellas ambições
-ideaes, sem roupas, sem provisões, sem dinheiro. N'aquelle pensamento,
-o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo,<span class="pagenum" id="Page_203">[203]</span> um traidor, que
-assim como se toma da ferrugem, dá á alma a esterilidade.</p>
-
-<p>—Vendei o que possuís—dizia elle—dae o dinheiro em esmolas!</p>
-
-<p>Realmente de que servem na Galilea as riquezas?</p>
-
-<p>Alli só ha a verde natureza: o dinheiro não dá mais infinito ao azul,
-mais repouso á agua: o pobre, o mendigo, é o rei mysterioso d'aquella
-gloria da folhagem e da luz: para elle se vestem as açucenas de branco,
-para elle resplandecem os regatos.</p>
-
-<p>Jesus glorificava o pobre: n'aquelle evangelho da Galilea, o rico
-é considerado o inimigo, o pagão, o cruel, o inquieto: elle tem os
-largos vestidos faceis, macios; elle come sobre leitos cobertos de
-pelles; elle enterra os braços nus nas moedas do cofre; o pobre come
-escassamente as hervas mal cosidas dos hortos; remenda, á candeia, a
-sua tunica; traz apertada á cintura, tendo sobre ella uma pedra, a
-moeda de cobre que é a sua fortuna. Bem: Deus tomará conta do vestuario
-do pobre, e da brancura do lyrio; elle velará para que ao homem não
-falte o pão e á rola o grão: elle fará no ceu, ao pobre, um sacco, um
-thesoiro de boas obras, de gloria, sem temor da ferrugem e dos ladrões.</p>
-
-<p>O rico irá para a Gehenna, para o fogo inextinguivel: um cuidado o
-emmagreceu na vida, uma chamma o consumirá na existencia extra-humana.
-O pobre estará junto de Deus, e a sua face será immortal e altiva.</p>
-
-<p>—Porque, em verdade, vos digo—ensinava o Mestre—que é mais facil
-passar um camelo pelo<span class="pagenum" id="Page_204">[204]</span> fundo d'uma agulha, do que entrar um rico no
-reino de Deus.</p>
-
-<p>Assim fallava elle á beira do lago, e, desprendendo os homens dos
-fataes cuidados do mundo, era o creador da paz e o consolador da
-vida. Os tedios da existencia ordinaria, a discordia dos interesses,
-as humilhações da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia da
-miseria, a apathia da necessidade, as afflicções da obscuridade, as
-desconsolações da doença, todos estes antigos demonios desappareciam e
-a velha cabeça humana, obscura, captiva, pesada, podia emfim sentir,
-esperar, repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que o pão da
-terra tem alimentado.</p>
-
-<p>A alma tinha emfim um logar, o <i>seu</i> logar, o seu espaço, que era
-o <i>reino de Deus</i>. O reino de Deus era o reino das creanças, dos
-simples, dos desherdados da vida, dos que soffrem, e até do samaritano,
-e até do pagão e do publicano, e até do que habita Sidon. Ah! Vós
-não quereis esperar nas minhas palavras, amar no meu peito, vós, os
-phariseus, os saducceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes, os
-principes! vinde vós, pois, os humildes, os repellidos, os lapidados,
-os enfermos, os culpados, todos os que elles repellem, todos os que
-elles amaldiçoam! Desgraçados de vós, oh ricos, que estaes saciados,
-porque tereis fome! Desgraçados de vós que rides, porque vos desfareis
-em lagrimas!</p>
-
-<p>Boas palavras que eu amo, eu, que conheço as ricas existencias
-sacerdotaes! Os nossos prophetas já tinham, contra o rico impio e duro,
-coleras terriveis em vingança do pobre, que é doce e piedoso. Ora<span class="pagenum" id="Page_205">[205]</span> o
-Rabbi feria assim violentamente todo o judaismo sacerdotal do templo,
-porque fazia, dos que elle despreza e domina, os preferidos, os bem
-amados, os amigos de Deus! Que significa, na verdade, que o phariseu
-não queira comer com o samaritano e com o pobre recebedor do imposto?
-Que quer dizer que os levitas vão lavar á piscina os seus vestidos, se
-á entrada dado santuario tocaram n'um mendigo ou n'um publicano?</p>
-
-<p>Mas Jesus, na immortal ascenção a que obrigava as almas para o ideal
-divino, já não sómente chamava a si o desherdado, mas chamava o culpado.</p>
-
-<p>—O culpado é infeliz—dizia:—merece por isso mais que o justo o calor
-do meu seio. O filho prodigo merece mais amor do que o filho cuidadoso,
-porque é triste na sua alma, e todo em lagrimas.</p>
-
-<p>—Havia uma mulher aqui—dizia-me o homem bom de Chorasin, que me
-explicava estas coisas immortaes—que era repellida, mal vista,
-amaldiçoada; as mães honestas não a queriam vêr: só os escribas da
-synagoga se approximavam d'ella, mas de noite, sob as figueiras
-do cemiterio, porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a
-tunica, e resmungavam maldições. Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se
-inesperadamente perdoada, viu-se solta da fatalidade por aquella
-palavra piedosa, e pela fé purificou-se. É Maria de Cleophas. Segue
-Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama, e quanto mais se
-sente amante, mais se sente perdoada.</p>
-
-<p>Os pobres galileos, que nunca tinham ouvido uma tão doce e elevada
-palavra, julgavam-se já no paraizo immortal. Elle ia seguido dos
-seus, confundido<span class="pagenum" id="Page_206">[206]</span> com todas as alegrias, apparecendo nas bodas e
-nas noites de noivados, misturando-se ás dansas, com a sua lampada
-na mão; caminhava pelos campos a pé, dizendo as boas palavras, ou
-montado n'um pequeno burro, que os discipulos cobriam com as tunicas;
-ás vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao pé da fonte, fallava
-ás mulheres, escutava os cantares; entrava nos casaes, nos hortos; as
-creanças vinham, vinham as mulheres:—«Rabbi, Rabbi, dize-nos a boa
-nova: és tu o Messias?»—Limpavam-lhe os pés, iam buscar os melhores
-fructos, os vinhos doirados, os legumes que nadam em azeite; as mães
-mostravam-lhe os filhos de peito, que com as suas pequeninas mãos
-vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: elle ria, agasalhava-os;
-quando elle passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho.
-Os doentes vinham tocar as suas mãos, as viuvas limpavam as suas
-lagrimas; elle fallava de Deus, e endireitava as cannas de milho caidas
-no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:</p>
-
-<p>—Mestre, tu és bom.</p>
-
-<p>—Bom só é Deus—dizia elle, sorrindo.</p>
-
-<p>—Mestre, que havemos de fazer para entrar no paraizo?</p>
-
-<p>—Amae os outros, dae aos pobres, segui-me!</p>
-
-<p>E seguiam-o todos, enlevados n'aquelle sonho ideal, o mais bello, o
-mais doce, o mais acima da terra que até hoje tem feito o homem.</p>
-
-<p>Então o ceu amigo e compassivo tocou na lacrimosa terra; então, pela
-primeira vez, o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela primeira vez
-o estreito sorriso do velho conteve a esperança!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_207">[207]</span></p>
-
-<h3>VI</h3>
-
-
-<p>Mal sei dizer o que o meu pobre espirito, educado na antiga lição do
-captiveiro, sentia ao suave calor humano e feliz d'aquellas palavras.</p>
-
-<p>Voltei a Jerusalem: passei sobre o Thabor, d'onde se vê a larga
-planicie d'Esdrelon, amada dos heroes, o branco Hermon, Endor, e as
-montanhas de Galaad: descancei em Djenea, a cidade dos Levitas, toda
-escondida entre oliveiras e palmeiras; depois em Dethem onde Joseph
-foi vendido por seus irmãos: depois na velha Bethulia, patria da forte
-Judith: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades d'Israel,
-hoje caída, coberta com muralhas e bastiões de Herodes: Sichem, junto
-da qual Abrahão ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos do Moriah:
-Siloeh, onde se fez a partilha do territorio entre as tribus, e onde
-pousou pela primeira vez o tabernaculo, depois da conquista de Canaan.</p>
-
-<p>Depois desviei-me para os lados de Jerichó, que estava então cheio de
-seivas e de rosas: junto ao<span class="pagenum" id="Page_208">[208]</span> Jordão andavam ainda alguns discipulos de
-João, cheios de saudade e de desejo: atravessei as lugubres collinas de
-Judá, asylo de prophetas, tumulo dos heroes: uma madrugada entrei, só,
-em Jerusalem.</p>
-
-<p>N'esse dia logo, subi ao templo. Junto dos porticos exteriores, onde
-trabalhavam ainda cinzeladores de Cesarea, pedreiros de Samaria, vi,
-entre homens da Galiléa, a alta figura de Jesus de Nazareth. Estavam
-parados, esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante
-d'um cambiador de moeda, trocava drachmas, attento. Parei, commovido,
-a olhar profundamente o Rabbi. Elle estava triste: os braços caidos,
-sem vontade, sem gesto: a cabeça desanimada. Tinha, nas feições finas,
-delicadas, pessoaes, uma abstracção, uma transcendente serenidade. Os
-olhos cheios d'infinito, que pareciam olhar d'um logar inaccessivel, a
-testa larga, expressiva como a immobilidade d'um ceu, assemelhavam-se,
-superficialmente, como o corpo se assemelha á sombra—aos olhos, á
-testa d'Hillel, de Jesus de Sirach e d'um outro, que era como elles
-dado ás contemplações, á abstracção, ao ideal. A bocca tinha uma fórma
-tão pura, tão leve, uma mobilidade tão penetrada de graça, que parecia
-que d'ella só deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte contorno
-dos labios, a sua linha que era como um arco em descanço, tinham uma
-gravidade, uma belleza austera, que denunciavam a origem das palavras
-elevadas, e faziam sentir o propheta. Parecia-me vêr-lhe, na parte
-inferior do rosto, uma firmeza, uma expressão d'energia, que o tornavam
-um pouco semelhante a Judas<span class="pagenum" id="Page_209">[209]</span> Galannite, o poderoso agitador, em quem a
-acção era como um sangue vivo. De resto, um ar simples.</p>
-
-<p>Elle olhava os trabalhos dos porticos, com um desdem sereno. Nos
-galileos sentia-se o constrangimento, o isolamento.</p>
-
-<p>Entrei no santuario: nas camaras dos serviços dois escribas
-argumentavam junto da arca do thesoiro, com exclamações abundantes.
-Interroguei-os; disseram-me que o Rabbi de Galiléa muitas vezes prégara
-no templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias
-da piscina probatica; que argumentára com os escribas, e que em casa de
-Hannan, na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabbi:</p>
-
-<p>—Elle é bom e justo: mas não diz coisas novas.</p>
-
-<p>Argumentava-se muito sobre aquella palavra contida o desdenhosa do
-sabio Gamaliel, entre os privados d'Hannan.</p>
-
-<p>—Mas Gamaliel—dizia soberbamente o escriba—é um homem alheio a
-nós; entretem relações com essa gente da escola d'Alexandria; viaja
-demoradamente em Sichem onde estão os hereticos, e em Cesarea onde
-estão os romanos, e dá-se á cultura hellenica, desprezando a lei.</p>
-
-<p>—Homem—disse eu—em que despreza Gamaliel a lei, estudando e sabendo
-as lettras gregas?</p>
-
-<p>O escriba riu finamente, como em triumpho:</p>
-
-<p>—Pois não diz o texto:—e a sua voz era compassada e
-emphatica—«Estudarás a lei de noite e de dia, e se assim não fizeres
-desagradarás ao Eterno?» Ora—e traçava amplamente a capa, tossindo,
-victorioso—ora Gamaliel só não desagradará ao<span class="pagenum" id="Page_210">[210]</span> Eterno se estudar a
-sabedoria grega n'um tempo, que não seja nem a noite nem o dia.</p>
-
-<p>O outro escriba, que era Eliel, d'Ephraim, approvou ruidosamente,
-batendo no peito. E sob a sombra pesada do velarium saudaram-se,
-risonhos.</p>
-
-<p>Saí das camaras leviticas, á hora setima, quando ha nos terraços do
-templo uma vida poderosa. Uns argumentavam, ou estudavam a lei, com as
-folhas de metal diante de si, em movimentos rythmicos; outros vinham
-comprar offertas de pombas e cordeiros; alguns consultavam sobre
-questões agrarias; muitos vinham trocar moedas; os serventes do templo
-passavam com as rezes a leval-as ás piscinas; tocavam as trompas que
-annunciam a hora dos sacrificios: os doentes cantavam os psalmos; as
-mulheres leviticas lavavam as vestes brancas nos tanques exteriores,
-espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das
-primeiras columnas, batendo em discos de metal.</p>
-
-<p>Eu entrei na galeria de Salomão, toda sonora de vozes. Jesus, cercado
-de galileos, tinha ensinado. Alguns gritavam: «Hosanna, ao filho de
-David!»: porque os pobres, os doentes e as creanças, vendo que elle era
-entre os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe
-o filho de David; os escribas riam, bocejavam desdenhosos. Alguns
-phariseus, tomados d'exaltacão, queriam a convocação do sanhedrin. Um
-velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decadencia da escola
-prophetica d'Israel.</p>
-
-<p>—É um ignorante—diziam, com desprezo, vastos doutores.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_211">[211]</span></p>
-
-<p>Asperos, zelozos, com a cabeça envolvida na ponta do manto, as barbas
-eriçadas, insultavam-o. O povo, com o ruido d'um arvoredo, fallava do
-Mestre: alguns velhos diziam:—Sim, sim, irmãos, este é um propheta!</p>
-
-<p>—É o Christo! É o Messias!—clamavam grandes vozes.</p>
-
-<p>Muitos iam, correndo, prostrar-se deante da porta da Arca bradando:</p>
-
-<p>—Graças, Senhor, o Messias chegou!</p>
-
-<p>Os sacerdotes interrogavam, inquietos. Os homens espalhavam-se pelo
-templo, gritando:</p>
-
-<p>—É o Messias, é o propheta da Galilea!</p>
-
-<p>Os escribas andavam entre a multidão, explicando, convencendo:</p>
-
-<p>—Que dizeis? Vós não conheceis a lei!</p>
-
-<p>—A lei diz que o Messias virá, e que Elias resuscitará!</p>
-
-<p>—Calae-vos!—bradavam os escribas—Sois tambem galileos? Não sabeis
-que a escriptura diz que o Messias ha-de ser da geração de David? E não
-sabeis vós que este é o filho do carpinteiro Joseph, e d'uma mulher da
-aldeia de Caná? Não vol-o tem dito todos os que veem de Nazareth?</p>
-
-<p>—É verdade, é verdade—diziam alguns.</p>
-
-<p>—E não sabeis—continuavam—que os textos dizem que o Messias nascerá
-em Bethleem, e onde nasceu este? Em Nazareth, bem o sabeis.</p>
-
-<p>Uma voz, receiosa mas irritada, disse:</p>
-
-<p>—Pois elle nasceu em Bethleem!</p>
-
-<p>—Em Nazareth!—bradaram alguns escribas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_212">[212]</span></p>
-
-<p>—Sim, sim, em Nazareth—disse a gente.</p>
-
-<p>—É, pois, o Christo?! Ide, homens amaldiçoados que andaes afastados da
-escriptura!...</p>
-
-<p>Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as largas escadarias
-areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando no
-Tyrepeon.</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_213">[213]</span></p>
-
-<h3>VII</h3>
-
-
-<p>Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha saído a porta dos Rebanhos,
-atravessado o Cedron, subido a Bethania.</p>
-
-<p>Quando eu voltava para Bezetha, veio a mim um homem muito conhecido em
-Jerusalem, que era Jesus Bar'Abbas. Era uma figura descarnada, torta,
-arqueada, cheia de cicatrizes, immunda, rindo sempre, em farrapos. Era
-uma especie de truão de Jerusalem. Tinha gracejos, farças, deslocações:
-espancavam-o, elle ria, estendia uma ponta da tunica para aparar
-os drachmas. Encontrava-se com a sua lampada em todos os noivados,
-gritando em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedições, em
-todos os supplicios com uma cantara de <i>posca</i>, para vender aos
-soldados. Tinha todos os desastres da miseria, do vicio, e era servil.
-Os soldados expedicionarios espancavam-o, ás vezes prendiam-n'o,
-mas o povo cobria-o com uma protecção avara. Era casado. Tinha uma
-voz vibrante, forte para cantar os<span class="pagenum" id="Page_214">[214]</span> psalmos e imitava os prophetas,
-prégando. Cheirava miseravelmente a alho.</p>
-
-<p>Jesus Bar'Abbas pediu-me um drachma, e disse-me que n'essa noite
-Simeon, um rico do sanhedrin, tinha uma ceia para os officiaes do
-templo e sacerdotes, fóra das muralhas, em Betphagé.</p>
-
-<p>Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com
-orgulho que fôra amigo do gladiador Esterius.</p>
-
-<p>Bar'Abbas fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos seus
-atrios.</p>
-
-<p>N'essa noite fui a casa do Hannan. Nos pateos, João aquecia-se ao lume,
-junto da velha de Capharnaum.</p>
-
-<p>Caiphaz e Gamaliel estavam com Hannan. Gamaliel dizia versos gregos:
-Hannan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caiphaz
-aquilino, duro, aspero, tinha uma attitude desdenhosa. Dois escribas,
-encrusados no chão, comiam.</p>
-
-<p>Quando o serão ia remoto, repentinamente Caiphaz mandou-me a casa de
-Simeon. O sanhedrin devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava:
-tinha havido exigencias do legado imperial sobre os vasos do templo.</p>
-
-<p>Um escravo negro de Hannan seguia-me com uma lanterna; a noite era
-negra, quente, molle: ouviam-se apenas uivar os cães.</p>
-
-<p>Em Betphagé, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a
-ceia, sob um grande velario feito á moda grega, suspenso ás ramagens
-dos cedros. O chão estava coberto de areia vermelha, luzidia. Largas
-lampadas resplandeciam. Flôres de<span class="pagenum" id="Page_215">[215]</span> Damasco, rosas de Jerichó, jasmins
-de Chorasin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros
-de Perca como serpentes verdes, penetravam o ar da molle vitalidade que
-dão os aromas. No chão estavam amphoras, grossos cantharos envoltos em
-palha, jarros cinzelados. Os escravos phrygios, com os longos cabellos
-relusentes de oleo, giravam apressados.</p>
-
-<p>Havia alli membros do sanhedrin, escribas, sacerdotes, herodianos,
-sadduceus, phariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em
-sacrificios: alguns costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos
-deitados em estrados, cobertos com lãs de Babylonia. Alguns eram
-gordos, fortes, vermelhos. Quasi todos tinham a physionomia aspera,
-adunca, eriçada de barbas. Relusiam cabeças calvas.</p>
-
-<p>O vinho doirado, o vinho de Safed, um falerno de Cesarea, dava uma
-ampla respiração aos peitos, uma feliz scintillação aos agudos olhos
-negros. Havia largas risadas. Phariseus austeros, que se ferem
-nas pedras dos caminhos, curvados sobre os discos d'aço brunido,
-devoravam com um ruido devoto. Outros tinham olhares anciosos, e
-desapercebidamente, esvasiavam as largas taças de bronze. Alguns,
-decrepitos, desdentados, tinham sobre a barba fios de molho. Velhas
-mãos tremulas e lividas levantavam as amphoras.</p>
-
-<p>Alguns, estendidos sobre leitos como animaes que ruminam, tinham as
-tunicas soltas, os braços nús. Cabeças energicas, duras, mostravam uma
-expressão irritada, fixa, vasia; os velhos tinham largos risos cynicos.
-Uns dormiam, outros cantavam. Um velho<span class="pagenum" id="Page_216">[216]</span> curvado, frouxo, rouco,
-lembrava as mulheres e os phariseus. Entre esta multidão sacerdotal
-havia um romano. Era Publius Sextus, logar tenente do legado imperial;
-fallava com palavras abundantes, largos gestos. Era pallido, com uma
-pequena cabeça energica e voluntaria; era devasso, servil, falso,
-luxuoso, e vinha de Caprea. Era alli escutado como um propheta na
-antiga Israel; fallava da via Appia, das festas de Roma.</p>
-
-<p>Eu escutava, encostado a uma arvore, na escuridão, concentrado o triste:</p>
-
-<p>—Só em Roma se vive—dizia elle.—Isto é peor que o bairro das
-Esquilias. Não é por vós, Simeon, que tendes a escola do vosso amigo
-Ventidius, homem que sabe comer; mas, na verdade, que nos recebem
-aqui como Evandro recebeu Hercules, com farinha cosida e uma esteira
-espartana!</p>
-
-<p>—Mas vós outros, os romanos, sois glutões e amigos do vinho!—disse
-Nathaul, um escriba, homem invejoso, com labios carnaes.</p>
-
-<p>Mas Publius fallava d'uma ceia em casa de Atticus, antes de vir a Ostia
-embarcar com o legado da Syria.</p>
-
-<p>—Quereis saber?—perguntava.</p>
-
-<p>—Dizei, dizei—gritavam curiosamente pela meza.</p>
-
-<p>—O chão era de mosaicos gregos. Entre as columnas havia largos pannos
-tecidos d'aço, pesados, á moda de Carthago. Um vapor d'agua tepida
-penetrava os musculos, enlanguescia. Tinhamos esfregado os braços, o
-peito, com pedaços de pelle de tigre humedecida d'oleo. Os membros
-estavam ageis, faceis<span class="pagenum" id="Page_217">[217]</span> para as danças, para as escravas! Do tecto caíam
-folhas de rosas humidas!</p>
-
-<p>Todos tinham olhos scintillantes; estendiam-se para escutar; alguns
-estavam de pé, junto de Publius.</p>
-
-<p>—O trinchador—dizia elle—o trinchador, meus amigos, era o proprio
-Tripherius! Tinhamos lebre, gazella, faisão de Lichtia, cabras da
-Getulia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca tinham comido herva, e
-tartarugas delicadamente preparadas em môlhos da Campania, na propria
-concha, polida, transparente! Moreias do lago Lustrino, lagostas
-nadando no azeite de Venafre! As taças eram d'ambar. Que dizeis vós?</p>
-
-<p>Os austeros doutores, os graves herodianos, os phariseus, cevados,
-oleosos, com os beiços luzidios de môlhos, a bocca riscada de vinho,
-tinham um olhar avido, guloso, impio, para as palavras de Publius.</p>
-
-<p>Bar'Abbas, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo.
-Todos admiravam.</p>
-
-<p>O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam, envoltas em
-tecidos diaphanos, correndo em choreias, em volta dos triclinios, e
-aspergiam a cabeça dos saciados, com lilazes molhados em Falerno!—E
-fallava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz
-branda, curvando-se:</p>
-
-<p>—Que estas mulheres syrias—dizia—teem uns olhos escuros, que valem
-centenares de sestercios!</p>
-
-<p>Os outros riam. Fallavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam,
-desejavam.</p>
-
-<p>—Estas mulheres são castas e cuidadosas, as romanas<span class="pagenum" id="Page_218">[218]</span> são devassas, e
-tudo alli terminará, como em Sodoma e Ninive!</p>
-
-<p>Quem assim fallava era um phariseu, Essen, homem magro, livido, cavado
-de jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. Não comia, e
-parecia constrangido, isolado. Tinha vindo para amaldiçoar, para
-lembrar a morte e o terror de Jehovah!</p>
-
-<p>—Devassas, dignas do fogo—para vós, devotos e zelozos! Mas bellezas
-impeccaveis, immortaes, para quem póde desapertar a rêde d'oiro, em que
-ellas prendem o seio! São os seus costumes que as tornam desejadas, que
-as fazem mais appetitosas que todas as farinhas molhadas em leite que
-ellas põem na face, e que todos os unguentos de Poppea.</p>
-
-<p>Publius fallava, inflammado, descomposto: tinha gestos lascivos;
-bradava os nomes das damas romanas:</p>
-
-<p>—Vêde Laupella, uma patricia! E Medullina! E Hillia, que se namorou do
-actor Urbius, e Hippra que fugiu com o gladiador Sergio, e Hipulla, que
-em plenos jogos megalesios, diante do povo romano e das legiões, cuspiu
-na estatua do Pudor!</p>
-
-<p>Uma larga risada sacudia os peitos. Bradavam:</p>
-
-<p>—Contae, contae!</p>
-
-<p>Enchiam as amphoras; arrepelavam os escravos. De bruços, sobre a mesa,
-com a cabeça appoiada nos braços, esperavam voltados para Publius,
-com olhos perturbados. Os velhos abriam largamente uma bocca escura,
-sem dentes. Os olhos reluziam. Havia gritos. Um escriba da arca do
-thesoiro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz aspera, arrastada. O
-circulo de cabeças avidas, duras,<span class="pagenum" id="Page_219">[219]</span> curiosas, destacava violentamente
-no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas: tinha a tunica
-clara manchada de vinho; tinha os braços nús, brancos, femininos: e com
-largos gestos:</p>
-
-<p>—E Tucia! e Tucia!—gritava—Eu vi-a um dia no theatro, quando o
-actor Bactylo fazia com toda a sorte de lascivias o papel de Leda,
-torcer-se no seu logar, arrancar a rêde dos seus seios, e com os olhos
-mortalmente languidos chamar a altas vozes:—Bactylo, Bactylo, vem!</p>
-
-<p>Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:—Bactylo, Bactylo!</p>
-
-<p>Os velhos torciam-se nos seus triclinios, tomados de riso, de
-escandalo. Alguns escribas gritavam:—<i>Viva Roma!</i> Os phariseus
-tinham olhos terriveis, e uma attenção avida. Um cortava violentamente
-o pau do estrado, mordendo os labios!</p>
-
-<p>Publius pedia falerno, folhas de louro, insultava a indolencia dos
-escravos, queria lançar fogo ao velarium, e dizia:</p>
-
-<p>—Quem conhece Cessenia? Ninguem conhece Cessenia? Cessenia tinha de
-dote seis milhões de sestercios. Casou com Sertorius, o pobre, com a
-condição de poder escrever deante do marido os bilhetes aos amantes, o
-poder ir deitar-se uma vez cada mez, para quem entrar, no leito alugado
-de um lupanar do Suburra!</p>
-
-<p>Os escribas riam, esvasiavam as taças, desafogavam o pescoço das
-tunicas pesadas, lançavam para longe as folhas de metal presas á
-cintura, onde está escripta a lei. Um, ebrio, com os olhos riscados do
-sangue, pedia o culto de Baal.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_220">[220]</span></p>
-
-<p>Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os triclinios, curvados,
-enroscados, immoveis. Os phariseus torciam os braços, fallavam de Tyro.</p>
-
-<p>Publius clamava:</p>
-
-<p>—Pois que ha de melhor que vêr uma patricia, de longo penteado e saia
-curta, depois de estar cheia d'ostras e lagostas irritantes, beber de
-um trago n'uma enorme taça o falerno consular, e vir, resvalando sobre
-o mosaico humido de vinho, caír sobre o nosso peito, gritando em grego:
-<i>minha alma, minha vida, ai!</i></p>
-
-<p>E Publius arqueava lascivamente os braços, deixando pender a cabeça, a
-garganta tumida de suspiros, arquejando!</p>
-
-<p>Os escribas, os phariseus estavam cheios de delirio e de vinho. Riam
-animalmente. Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no chão:
-mordiam as almofadas dos triclinios. Derramavam o vinho sobre os
-vestidos, abraçavam os escravos, quebravam as taças exaltados. Um
-jogava a lucta com uma arvore, depois envolvia-a, beijava-a. Cantavam
-em grande voz os cantos do tempo de Salomão, dando-lhe expressões
-lascivas. Feriam a cabeça contra os grandes jarros cinzelados.
-Corriam, inflammados, como n'um mysterio sagrado. Alguns gabavam-se de
-devassidões occultas. Fallavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres,
-de prostituições sagradas no fundo dos bosques!</p>
-
-<p>Publius gritava:</p>
-
-<p>—Não sabeis, phariseus, não sabeis a aventura de Lentullus?</p>
-
-<p>—Não, não!—bradavam alguns penetrados da<span class="pagenum" id="Page_221">[221]</span> alegria, do escandalo, de
-curiosidades inflammadas!</p>
-
-<p>—Lentullus casa com uma virgem patricia, neta de consules: nove mezes
-depois prepara, segundo o costume, para o filho que vae nascer, o berço
-de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e expõe-no ás
-boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza da via Appia rompe em
-risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva do bufão Eurialo, e
-tinha, como elle, trez verrugas no queixo.</p>
-
-<p>A risada fazia o ar sonoro. Publius de pé, manchado, com a tunica rôta,
-descomposto, gritava:</p>
-
-<p>—Ouvi, ouvi!</p>
-
-<p>Escutavam com um riso inquieto.</p>
-
-<p>E Publius, emphatico:</p>
-
-<p>—Os actores—dizia—os gladiadores, os bufões, os tocadores de flauta,
-os truões, são os paes de todas as creanças que nascem na nobreza
-romana!</p>
-
-<p>Um velho phariseu, elevando sacerdotalmente uma amphora, gritou com uma
-voz terrivel:</p>
-
-<p>—Vivam os truões!</p>
-
-<p>A multidão sacerdotal bradava, uivava, cantava, rojava-se pelo chão.
-Era bestial e immundo.</p>
-
-<p>Bar'Abbas, espancado, cambaleava, blasphemando, jovial.</p>
-
-<p>O vinho começava a domal-os: alguns escorregavam, caiam, agitavam-se
-como agonisantes, e perdiam os espiritos n'um somno petrificado. Outros
-penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da herva
-e da agua. Uns fallavam como n'um delirio grotesco. Dois escribas
-argumentavam, freneticos, hostis. Um forte e vasto phariseu, de bruços<span class="pagenum" id="Page_222">[222]</span>
-sobre a mesa, o olhar fixo, bestial, roía monotonamente uma flôr.</p>
-
-<p>Simeon resonava no seu estrado. Publius no chão humido. Os escravos
-deitavam pelles sobre os dormentes. Os lampadarios extinguiam-se. Vinha
-um frio humido. Cantavam os gallos.</p>
-
-<p>Eu atravessei o pomar, subi a um terraço.</p>
-
-<p>Uma claridade assustada, abatida, apparecia. Eu via ainda reluzirem
-lampadas nos pequenos bazares, que estão sob os cedros do monte das
-Oliveiras. Ouvia-se o rumor grave do Cedron; por vezes o grito d'um
-chacal. Via Bethania; alli Jesus dormia sereno, puro, impeccavel.</p>
-
-<p>Voltei aos porticos da casa, pela rua areada do pomar. Alli havia
-um rumor; os escravos, agitados, fallavam. Alguns da milicia do
-templo tinham encontrado, no portico de David, nas lages, uma mulher
-nos braços d'um homem. Era uma adultera; a milicia trazia-a a casa
-de Simeon, que n'aquella semana fazia a condemnação dos desacatos
-ao templo, em nome do sanhedrin. A milicia tinha sido diligente,
-apressada, minuciosa, porque a miseravel, era mulher de Bar'Abbas, e
-todos queriam vêr as contorsões joviaes, o desgosto grotesco do truão!
-Mas Bar'Abbas estava prostrado, immovel, enroscado no chão.</p>
-
-<p>Fui ao logar do velario: os doutores, os phariseus acordavam: era já
-manhã azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados, hostis;
-aconchegavam-se nos mantos, lividos, tomados do frio: procuravam os
-cintos das tunicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as
-laminas da lei;<span class="pagenum" id="Page_223">[223]</span> sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam agua
-clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam,
-mergulhando a cabeça, enchiam as taças; alguns iam estirar-se, de
-rastos, junto de um regato, e bebiam com a cabeça entre as hervas.
-Simeon, absorto, somnolento, bocejava:</p>
-
-<p>—Vinde—dizia-lhe eu—tendes serviço; vieram uns da policia, com uma
-miseravel mulher.</p>
-
-<p>Simeon, tremulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava,
-arrastando os coturnos, para o seu pateo civil. Phariseus, doutores,
-membros do sanhedrim, seguiam-n'o. O pateo era largo, em columnas. Uma
-lampada esmorecia. O cão acorrentado rosnava.</p>
-
-<p>Os da milicia fallavam, riam, partiam um pão escuro, bebiam em
-cantharos. A mulher caída sobre o chão, rota, somnolenta, imbecil,
-soluçava. A tunica aberta, deixava vêr a forma impeccavel do seio.</p>
-
-<p>Simeon interrogava.</p>
-
-<p>—Vem presa—dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no
-silencio;—acharam-n'a á porta do templo, no portico de David. Vêde-a.
-Estava em acto d'adulterio.</p>
-
-<p>—Oh!—disseram todos indignados.</p>
-
-<p>E phariseus, scribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabeça nos
-mantos, estendiam a mão espalmada, esconjurando:</p>
-
-<p>—Lapidada, lapidada!—disseram irritados.</p>
-
-<p>Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E saíam apressados, erguendo os
-mantos, para que não tocassem o chão, impuro pelo contacto da mulher
-adultera.</p>
-
-<p>Essen afastou-se, e fallou junto ao ouvido de Simeon.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_224">[224]</span></p>
-
-<p>—Sim, sim—disse Simeon, e voltando-se para os da milicia:—Esta
-mulher que seja aqui guardada até á hora sexta.</p>
-
-<p>Eu saí. Os soldados romanos, abriam com estrondo metallico as portas
-de Jerusalem. A multidão apressava-se: vinham os vendedores de legumes
-dos hortos de Betphagé, da Bethania: os camponezes de Bethel traziam
-os saccos de trigo: passavam solemnemente as fileiras de camelos. Um
-beduino de Idumeia conduzia rebanhos: as rezes balavam. Do alto da
-torre Antonia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores
-sentados em seus burros: um vidente clamava!</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_225">[225]</span></p>
-
-<h3>VIII</h3>
-
-
-<p>Eu ia triste: o amanhecer, a apparição espiritual da aurora, enche
-de melancholia, depois das noites tomadas de vinho, fartas de carne.
-Demais, nunca os tenebrosos devotos me tinham despertado, pelo seu
-artificio, tão altivos despresos.</p>
-
-<p>Mal dormi, durante o roxo da madrugada: á hora quarta, encaminhei-me,
-obscuro e inconsolado, para os meus monotonos officios do templo.
-Alguns dos phariseus, dos escribas, que se tinham rojado nas relvas de
-Simeon, já argumentavam, ajustavam rezes para os sacrificios.</p>
-
-<p>O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afegava-me na melancholia:
-pensava nos prados da Galilea, nas aguas do lago, nas espessas
-folhagens: Jerusalem, cidade de pedra escura e de negra intriga,
-pesava-me. Sentia-me desligado da vida sacerdotal. E dizia: Se eu fosse
-um pobre cultivador das vinhas de Safed, um semeador das planicies de
-Saron!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_226">[226]</span></p>
-
-<p>A multidão provincial enchia o templo: havia o ruido d'um mercado:
-a minha irritação crescia: percebia em volta de mim uma influencia
-material, dura, mesquinha, suffocante! Ia-me encostar á balaustrada
-da galeria de Salomão, olhava as verduras, as hortas, os cedros do
-monte das Oliveiras: mas tinha de entrar nos santuarios, de roçar
-pelos phariseus, escribas, por aquellas hierarchias sacerdotaes que
-me amargavam. As columnas enormes e brancas, as portas esculpidas em
-bronze irritavam-me: invejava a herva que cresce junto ás pedras dos
-mortos.</p>
-
-<p>Aquella vida sem fé, sem dignidade, era-me tão odiosa como me seria
-odioso o meu corpo se elle se petrificasse, deixando-me a alma livre.
-Para qualquer lado que olhasse d'aquella organisação sacerdotal, só via
-uma hypocrisia ou uma especulação, ou uma vaidade, ou uma humilhação:
-os sacerdotes que se prostram á entrada do santuario, no seu extasi
-enfastiado; os argumentadores vãos, artificiaes, vasios; os doentes
-que cantam os psalmos, mendigam, riem, fazem a ostentação ruidosa
-das suas chagas, tudo me dava um tedio obscuro e atormentado. Sentia
-em mim coleras de barbaro: agradava-me a ideia de despresar com um
-açoute aquelle sacerdocio aviltado que vive do templo, lhe comprehende
-a vaidade e lhe acceita o lucro. Quantas vezes eu percebi o sorriso
-imperceptivel dos sacerdotes sacrificadores, diante da piedade simples
-e crente de pobres galileos e de provinciaes ingenuos!</p>
-
-<p>Invejava quasi o romano, o grego, o mercador<span class="pagenum" id="Page_227">[227]</span> de Tyro, que não são de
-Jerusalem, nem do templo, que não habitam n'este espaço duro, entre o
-Aera e o Moriah, captivos e gementes!</p>
-
-<p>Que temos nós em Jerusalem de bom, de justo?—perguntava a mim mesmo.</p>
-
-<p>—Temos uma patria? Não!—E olhava a torre Antonia, onde os
-expedicionarios, com grande ruido, atiravam á barra.</p>
-
-<p>—Temos uma religião, uma fé? Não!—E via os sacrificadores vestindo
-os pertuaes, para degolar as pombas da raça sagrada, enfastiados,
-bocejando das noites mal dormidas na encosta de Sião ou na rua do Alto
-Mercado, no leito das cortezãs de Cesarea!</p>
-
-<p>—Temos nós uma sciencia, uma lei elevada, forte, justa? Não!—E olhava
-aquelles estereis, consumidos doutores, clamando contra uma palavra,
-e argumentando se os papyrus devem ser enrolados, ou dobrados para
-agradar ao Senhor!</p>
-
-<p>Até a brancura do templo, aquellas escadarias novas polidas, aquelles
-frisos pallidos e nitidos, me faziam o effeito do quer que fosse que
-não tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia que o ideal já não
-habitava Jerusalem!</p>
-
-<p>Ambicionava ter a palavra de Isaias, a sciencia de Gamaliel, a
-popularidade de Judas Galannite, e á frente das multidões do norte,
-Galileos e Samaritanos, gente espontanea e forte, derrubar tudo na
-escura cidade, desde o portico onde era o phariseu, até á ameia d'onde
-escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me—ou resultados da
-noite perturbada, ou suggestões d'um estado elevado de consciencia,<span class="pagenum" id="Page_228">[228]</span>
-ou, emfim, effeitos da reacção que em toda a alma honesta apparece um
-dia, contra o que ella julga o erro ou a vaidade.</p>
-
-<p>—Ah! Jesus de Nazareth—pensava eu—é o unico homem que nos poderia
-salvar, ou como um Messias, ou como um Machabeu, ou como um simples,
-que tem a fé e a justiça! Mas terá elle a acção?</p>
-
-<p>Aquelles braços, consumidos de se erguerem em vão para o seu ideal,
-terão o vigor de sustentar a velha espada da patria Judea? Será elle o
-homem humano, forte, duro? Ou o seu corpo é apenas o carcere d'uma alma
-melancholica e transcendente?</p>
-
-<p>O Rabbi de Nazareth tem popularidade na Galilea; as suas maximas
-largas, onde cabem o peccador e o pagão, chamar-lhe-ão a Samaria: a
-Perea é um paiz de prophetas; o povo de Jerusalem soffre todos os dias
-a vexação de Roma: todo o paiz cultivado, que vae até Joppé, é infeliz,
-porque o tributo devora a seára. Poderá Jesus de Nazareth fazer este
-movimento popular?</p>
-
-<p>Porque a ideia d'uma patria perseguia-me, como uma voz que pede
-soccorro.</p>
-
-<p>—Porque não?!—dizia eu—Surprehendi já nos seus olhos uma vontade
-dura: porque ha-de elle ser apenas abstracção, ou symbolo?</p>
-
-<p>E pensava em fallar a Jesus de Nazareth. Estas ideias aliviaram-me,
-como inesperadas consolações.</p>
-
-<p>O dia azulava-se, enchia-se de sol immortal. Eu sentia, junto aos
-porticos, onde esperam as rezes dos sacrificios, o profundo mugir
-dos bois: tinha a<span class="pagenum" id="Page_229">[229]</span> sensação de natureza verde, de tempos repousados,
-contentes.</p>
-
-<p>O templo estava cheio do rumor da multidão civil. Eu descia a larga
-escadaria para o pateo da balaustrada. Vi Jesus de Nazareth junto do
-portico onde estão as inscripções latinas e gregas d'entrada defeza,
-cercado de galileos, de povo. Os de Jerusalem começavam a attender
-ás palavras de Jesus: ainda que penetrados da educação pharisaica, e
-limitados n'um espirito estreito e hostil, achavam verdade, doçura,
-nas parabolas do Rabbi da Galilea: era o povo do baixo mercado,
-dos arredores de Bethania, de Betphagé, do Monte das Oliveiras. Os
-mercadores, os ricos, mesmo os mais afastados dos zelos pharisaicos,
-tinham para a palavra do Mestre o riso aspero, o desdem, ou a
-indifferença.</p>
-
-<p>O Rabbi de Nazareth estava triste. Sentia-se de certo isolado,
-suffocado, n'aquelle mundo hostil, argumentador. Jerusalem devia pesar
-á alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus
-campos da Galilea, as solidões constelladas, os pomares de Chorasin.
-N'aquella alma passava-se uma lucta dolorosa entre a fé, a convicção
-que o retinha em Jerusalem, e os seus instinctos todos suaves,
-idyllicos, que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da
-Galilea! A sua vida até ahi tinha sido larga, facil como a sua tunica,
-toda penetrada do amor, da luz paradisiaca do reino de Deus.</p>
-
-<p>Em Jerusalem a sua vida seria de lucta, de intriga, de hostilidade,
-de desdem. E onde tinha tomado<span class="pagenum" id="Page_230">[230]</span> o doce Mestre do lago a energia, a
-resistente fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da agua, no
-ar doce das montanhas da Galilea, na leitura serena da synagoga de
-Magdala, no amor humildo dos seus companheiros? O homem muito amado
-póde ser forte? A felicidade sympathica, as intimidades femininas,
-a piedade dos velhos, pódem dar a dureza, a altivez, a attitude
-indomavel? Não, não: em presença d'aquellas poderosas hierarchias
-sacerdotaes, da hostilidade minuciosa dos escribas, das opposições
-pharisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusalem, a sua alma
-acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no seu
-ideal, como em uma concha. O receio da morte era, n'elle, decerto maior
-do que a repugnancia que devia fazer á sua alma virginal o escarneo, a
-argumentação vingativa, o opprobrio. Viver sempre na Galilea, pregar
-o seu coração, dar-se em amor e em verdade aos infelizes mal amados e
-transviados, ter a eterna serenidade do seu idyllio social, que doce
-futuro, terno, purificado, coberto de luz!</p>
-
-<p>E estava elle bem certo de convencer as almas, de converter as
-hostilidades? Como seria comprehendida a sua palavra d'amor, de
-egualdade, de perdão, de pobreza, n'este mundo todo egoista, avaro,
-hierarchico, politico? Não ia ser repellido por um immenso desdem?
-Elle só pela sua palavra etherea, pela promessa do reino de Deus,
-como luctaria com estes sacerdotes que têm liteiras, milicias,
-escravos phrygios, columnas de marmore grandes como torres, e um
-templo edificado como<span class="pagenum" id="Page_231">[231]</span> uma eternidade? E os seus olhos voltavam-se com
-amargura para as edificações de Herodes, o grande!</p>
-
-<p>Os galileos tomaram, nas suas feições e perfil, da melancholia do
-Mestre: elles, pobres camponezes ignorantes, sentiam-se esmagados no
-meio de tantos marmores do templo, de tanta sciencia de doutores, de
-tantas forças civis!</p>
-
-<p>Jesus ia, com passos casuaes, pelos terraços do templo: os seus
-olhos tinham um vago ineffavel: os discipulos mostravam-lhe ou
-um sacrificador revestido, resplandecente, ou as altas columnas
-incrustadas de jaspe, ou as laminas de oiro do santuario: elle olhava,
-infinitamente triste, com um desdem abatido.</p>
-
-<p>Eu estudava junto d'elle o movimento provavel, logico, das suas ideias:
-mas um grande rumor encheu o templo.</p>
-
-<p>Jesus de Nazareth estava nos altos terraços, d'onde se domina todo o
-baixo recinto do templo.</p>
-
-<p>Pelos pateos, pelas escadarias, approximava-se uma multidão cheia de
-vozes, de gritos penetrantes.</p>
-
-<p>Adeante, entre alguns da milicia sacerdotal, armados de paus,
-couraçados de pelles de bufalo, vinha uma mulher, arrastada; escribas,
-phariseus, herodianos, inflammados de zelo, cheios das vinganças da
-lei, vinham em volta, com largos gestos de colera, asperas imprecações.
-Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo caía,
-abatia-se, duramente espancada: tinha fortes cabellos negros
-desmanchados, os pés riscados de sangue,<span class="pagenum" id="Page_232">[232]</span> a tunica despedaçada, o rosto
-levemente aquilino tomado de afflicção.</p>
-
-<p>A multidão dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores
-de pombas, os cambiadores d'oiro: os escribas saíam do santuario:
-vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com
-fardos, ou conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavam-se, os
-coxos corriam com grandes deslocações nas suas muletas.</p>
-
-<p>Todos interrogavam, queriam penetrar até aos soldados, aos phariseus:
-havia uma curiosidade barbara: alguns subiam ás balaustradas, e
-estendendo o manto sobre a cabeça, contra o pesado sol, olhavam
-avidamente: as aves de sacrificio, assustadas, esvoaçavam, as rezes
-balavam. Os sacerdotes revestidos á porta do santuario, sobre a tripeça
-de bronze, olhavam, interrogavam. A multidão enchia as escadarias e os
-pateos.</p>
-
-<p>O Rabbi de Nazareth estava no terraço, immovel, sereno, cercado dos
-seus galileos: defronte d'elle havia um espaço batido do sol: os
-soldados pararam alli, e a mulher caíu sobre a pedra, suffocada,
-abandonada, torcendo os braços. Era alta, esculptural, de fortes
-cabellos, com uma semelhança pagã.</p>
-
-<p>Então, n'um grande silencio, um escriba, que vinha, caminhou para
-Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:</p>
-
-<p>—Rabbi, sabemos que és justo e verdadeiro; aqui está uma mulher que
-foi achada em adulterio nos porticos do templo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_233">[233]</span></p>
-
-<p>—Lapidada! lapidada!—prorompeu a multidão.</p>
-
-<p>Erguiam-se braços com paus; appareciam rostos inflammados; sentiam-se
-os gritos agudos, arrastados, das mulheres.</p>
-
-<p>Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus pés a mulher soluçava; os
-soldados riam.</p>
-
-<p>O escriba fallava, com gestos abundantes:</p>
-
-<p>—Rabbi—dizia—a lei de Moysés, a nossa lei, diz que a mulher adultera
-deve ser lapidada; mas tu que a commentas, explica a lei; o que pensas
-tu, Rabbi?</p>
-
-<p>Jesus olhou o escriba serenamente.</p>
-
-<p>—O Rabbi de Nazareth perdoa sempre esses peccados—gritou alguem entre
-a multidão.</p>
-
-<p>Sentiram-se risos. Um velho, aspero, adunco, gritava:</p>
-
-<p>—Elle vive com as mulheres possessas; elle vive com os publicanos!</p>
-
-<p>E um phariseu bradou:</p>
-
-<p>—É o Salomão das mulheres perdidas.</p>
-
-<p>Toda a multidão riu largamente, mas o escriba mostrava o plilecterio
-onde anda escripta a lei, e exclamava:</p>
-
-<p>—Ouve bem, Rabbi, a lei de Moysés manda-a lapidar.</p>
-
-<p>O povo cruel dizia n'um clamor:</p>
-
-<p>—Lapidada, que seja lapidada!</p>
-
-<p>Alguns phariseus gritavam:</p>
-
-<p>—E o Rabbi, e o Rabbi de Nazareth!</p>
-
-<p>Os sacerdotes, escandalisados, faziam vêr os centuriões da milicia
-templaria. A multidão era espessa:<span class="pagenum" id="Page_234">[234]</span> os mendigos apregoavam
-<i>posca</i>; os vendedores de Betphagé mostravam pombas enfeitadas
-d'escarlate: os doentes da piscina iam entre a gente, mostrando as
-chagas, dizendo os psalmos, pedindo drachmas: da torre Antonia algumas
-cabeças de legionarios espreitavam.</p>
-
-<p>Então uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:</p>
-
-<p>—Essa é a mulher de Jesus Bar'Abbas.</p>
-
-<p>Uma risada sonora, pesada, tomou o povo: os soldados apertavam as
-costellas; os sacerdotes, junto ás portas da ara, riam nas suas longas
-barbas, fazendo oscillar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto, os
-phariseus iam entre os homens, contentes de riso, dizendo:</p>
-
-<p>—Esse Rabbi de Galilea quer que seja perdoada; é um homem impuro, que
-despreza a lei.</p>
-
-<p>Alguns queriam levar o Mestre perante o sanhedrin.</p>
-
-<p>Mas na multidão havia uma oscillação: sentiam-se gritos, risadas
-joviaes, vozes; o povo afastava-se: e d'entre a sua escura espessura
-vinha empurrado, repellido, atirado, um homem.</p>
-
-<p>E vozes alegres bradavam:</p>
-
-<p>—Ahi vae Jesus Bar'Abbas, ahi vae!</p>
-
-<p>O homem, esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando, n'essa
-aspera inquitação, como um boi espantado, junto de Jesus.</p>
-
-<p>Era Bar'Abbas.</p>
-
-<p>Viu a mulher soluçando, caida sobre as largas lages.</p>
-
-<p>E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se,<span class="pagenum" id="Page_235">[235]</span> recuava, e tomando, com
-ambas as mãos, violentamente, uma ponta da tunica, estendeu-a para a
-multidão, gritando:</p>
-
-<p>—Quem dá para o luto?</p>
-
-<p>O povo ria; bradava:</p>
-
-<p>—Lapidae-a, lapidae-a!</p>
-
-<p>Bar'Abbas dizia:</p>
-
-<p>—Lapidae-a, dae-me para o luto!</p>
-
-<p>E ria, com grandes contorsões, com visagens. A mulher chorava.</p>
-
-<p>Havia um clamor; o povo pedia a lapidação; os phariseus, os escribas
-diziam que o Rabbi queria o perdão, o desprezo da lei.</p>
-
-<p>—Falla, Rabbi, falla!—gritavam-lhe d'entre a multidão.</p>
-
-<p>Mas Jesus olhava sereno, calado.</p>
-
-<p>Então um escriba, erguendo os braços, convulso, com a voz mordente,
-colerica, bradou:</p>
-
-<p>—Sim, sim, povo de Jerusalem! O Rabbi de Galilea despreza a lei, quer
-o perdão da mulher adultera.</p>
-
-<p>Ergueu-se um clamor inimigo: alguns zelosos erguiam paus, pediam a
-morte.</p>
-
-<p>Mas João, exaltado, tomando o braço ao escriba, bradou-lhe poderoso,
-irritado:</p>
-
-<p>—Quem te disse que o Rabbi de Nazareth perdoa á mulher adultera? Elle
-manda lapidal-a.</p>
-
-<p>Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua
-estatura, para a multidão, com um olhar inflammado de luz, disse:</p>
-
-<p>—Sim, lapidae-a! E aquelle de vós outros que se<span class="pagenum" id="Page_236">[236]</span> julgar sem peccado,
-que lhe atire a primeira pedra!</p>
-
-<p>A sua voz era forte, concava, mysteriosa:—assustava.</p>
-
-<p>A immensa multidão estava calada, absorta: alguns rumores elevaram-se:
-os phariseus, os escribas afastaram-se, rosnando. Alguns velhos
-choravam: vozes diziam:—É o Messias, é o Messias! Todos se
-dispersavam. Os largos pateos reluziam ao sol, quasi desertos.</p>
-
-<p>Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os phariseus, em grupos
-irritados, commentavam, á porta do santuario, entre os centuriões da
-milicia templaria.</p>
-
-<p>Eu que tantas vezes assistira ás lapidações d'adulteras, estava
-concentrado, absorto: aquella palavra, caída no meio da minha
-educação judaica, perturbava toda a organisação do mundo interior que
-nos habita. Alegrava-me em vêr, com uma palavra simples e genial,
-a hypocrisia d'uma raça ferida na sua essencia: tinha admirações
-inesperadas pelo espirito harmonioso do Mestre da Galilea.</p>
-
-<p>—Sim, sim—dizia eu—Jesus de Nazareth, pelo seu genio simples e
-justo, pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo seu ensino sobre
-a riqueza, sobre os pobres, sobre o perdão, sobre o culto, e pela
-influencia poderosa do seu ser sobre os homens, está destinado, talvez,
-a ser a regeneração d'Israel. Se elle tem apenas o espirito, eu terei
-por elle a força. Ai de mim! Ignorado, fraco, timido, mais especulativo
-que activo, como poderia eu ser o homem decisivo d'uma insurreição?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_237">[237]</span></p>
-
-<p>Mas o tedio da vida presente, uma mocidade ávida d'acção, o desdem
-irreconciliavel pelo templo e pela sua gente, o prestigio que em
-mim tinha a vida do agitador Judas Galannite, tudo isso e o desejo
-de me approximar do Mestre da Galilea me levou a procurar João, de
-Capharnaum, e a pedir-lhe, simplesmente, rapidamente, que me levasse a
-Jesus de Nazareth. João disse-me que á noite estivesse junto á Porta
-dos Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra: <i>Shalon</i>,
-que era a saudação usada do Rabbi, que o seguisse, e pela noite alta
-fallaria a Jesus.</p>
-
-<p>Uma tremula inquietação me tomou até ao anoitecer: o contacto com
-aquelle homem, a gravidade das ideias que eu lhe levava, o perigo, tudo
-me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais
-prompto de fé.</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_239">[239]</span></p>
-
-<h3>IX</h3>
-
-
-<p>Á hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares, que têm a
-sua raiz na encosta, onde assenta o bairro de Bezetha: era n'um horto,
-junto ao monte das Oliveiras, que eu ia vêr Jesus de Nazareth.</p>
-
-<p>A noite estava cheia d'um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob
-as largas ramagens: um silencio doce occupava a terra. Ouvi apenas um
-canto, triste, arrastado: alguma pobre mulher embalava o filho, chorava
-o marido levado para as legiões de Roma.</p>
-
-<p>O homem que me guiava, abriu uma porta, estreita, de vime: entrei n'um
-espaço coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura d'agua, cheiro
-do plantas.</p>
-
-<p>A lua allumiava, defronte, um espaço aberto, areado, com um banco de
-pedra: ahi, com os braços cruzados no regaço, a cabeça apoiada ao muro,
-o olhar afogado no espaço allumiado, estava Jesus.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_240">[240]</span></p>
-
-<p>Ergueu-se lentamente, e disse:</p>
-
-<p>—Paz.</p>
-
-<p>—Paz e alegria, Rabbi!—disse eu.—Velavas?</p>
-
-<p>—Velo sempre. Bemaventurado o que vela! Elle é como o servo diligente,
-que espera acordado o seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente
-chegar, corre logo a abrir.</p>
-
-<p>Jesus calou-se, perdendo o olhar no ineffavel espaço luminoso.</p>
-
-<p>Eu approximei-me, e com uma voz profunda, convencida, disse:</p>
-
-<p>—Creio em ti, Mestre!</p>
-
-<p>Jesus olhava, enlevado, transcendente.</p>
-
-<p>Havia um silencio: eu estava constrangido, e dizia para o chamar ás
-nossas communs imaginações:</p>
-
-<p>—Rabbi, o que é necessario, segundo pensas, para alcançar, feliz, a
-vida eterna?</p>
-
-<p>Jesus pousou em mim, demoradamente, os seus olhos severos.</p>
-
-<p>—Serves o templo—disse—serves a lei, e não conheces a lei; a lei que
-diz?</p>
-
-<p>—A lei—disse eu—ensina que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros
-como a nós.</p>
-
-<p>—E eu digo como a lei.</p>
-
-<p>E olhava-me, penetrantemente: fallava como n'um sonho, ou a alguem
-invisivel.</p>
-
-<p>—Não se póde servir bem a dois amos: um d'elles se ha de desprezar,
-outro servir. Não se adora no mesmo coração a Deus e a Moloch.</p>
-
-<p>Comprehendi que o Rabbi não tinha confiança em mim: que me julgava um
-emissario do templo<span class="pagenum" id="Page_241">[241]</span> para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho
-contra elle.</p>
-
-<p>Respondi com uma dignidade dura:</p>
-
-<p>—Tens para mim palavras desconfiadas, Rabbi. Chama João, Elle sabe que
-creio em ti, e que não vou dar-vos testemunhos, que o Sanhedrin põe por
-traz das portas dos blasphemadores da lei. O meu corpo serve e vive no
-templo, mas muitas vezes o meu espirito tem andado comtigo, em desejo e
-em verdade, no teu lago de Tiberiade. Chama João.</p>
-
-<p>O Rabbi considerava-me attento.</p>
-
-<p>—O homem—disse elle—dá testemunho do homem: só Deus conhece os
-corações.</p>
-
-<p>—Pois bem: tu, que, segundo dizem, és hoje o maior vidente d'Israel,
-tu julga, ou condemna minha alma.</p>
-
-<p>Dizia isto grave, firme, aspero. Jesus de Nazareth, com o rosto
-esclarecido, disse-me docemente:</p>
-
-<p>—A fé salva.</p>
-
-<p>E depois d'um momento:</p>
-
-<p>—E quem dizem então os de Jerusalem que eu sou?</p>
-
-<p>—Uns, Mestre, dizem que és Elias ou o Baptista ressuscitado; outros
-que és o Messias; os phariseus pensam que és um blasphemador ambicioso,
-ou um simples sincero; a maior parte ignora-te: esta é a verdade.</p>
-
-<p>—E tu quem dizes que eu sou?</p>
-
-<p>—Eu digo que és um homem justo e uma elevada consciencia das coisas
-divinas. Digo que és um homem mandado providencialmente, n'um tempo
-humilhado e vil, para erguer as almas, desmascarar as<span class="pagenum" id="Page_242">[242]</span> hypocrisias,
-vingar a patria! Penso que se tens de ter uma acção no mundo, essa deve
-ser insurgir-te contra a aristocracia do templo, contra este espirito
-estreito de Jerusalem, contra este culto pagão das tradicções, contra o
-phariseu e contra o romano, ser o consolador e ser o vingador!</p>
-
-<p>—Homem, em que espirito estás?! Eu vim a salvar as almas, e não a
-perdel-as.</p>
-
-<p>—E é perdel-as tornal-as justas? É perdel-as o combater este
-sacerdocio rico e indifferente, este culto ensanguentado e hypocrita?
-É perdel-as o quebrar-lhes este destino que as traz escravas, sempre
-choradas e sempre perdidas, e agora sob o arbitrio dos favoritos
-imbecis de Tiberio?</p>
-
-<p>—Essas coisas pequenas não me pertencem: são do mundo.</p>
-
-<p>—Perdoa, Rabbi: mas a que vieste então? E tu quem dizes que és, te
-pergunto eu agora? Queres ficar eternamamente prégando e contemplando
-no Lago de Tiberiade, e andar errante pelos casaes? E pensas que
-isso influirá sobre os homens, tanto sequer como uma folha secca?
-Pensas fazer uma revolução na Judea, acariciando as cabeças loiras
-das creanças de Chorasin, e contando parabolas, entre os campos, aos
-simples e ás mulheres? Comprehendo que a tua ambição não seja maior,
-e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade dos simples.
-Mas então para que vieste a Jerusalem? Para que prégas no templo? Se
-tu não és uma iniciativa revolucionaria, o que és então? Que és tu,
-se não és uma forte intensidade de vontade? As maximas que tu prégas
-são de Hillel, são<span class="pagenum" id="Page_243">[243]</span> de Gamaliel, são de Jesus de Sirach: sei que ha
-coisas novas no teu ensino, mas o que n'ellas ha de grande é a tua
-força de convicção, e a tua fé, e a tua profunda virtude, e o teu amor
-do sacrificio, e a tua infinita vontade. De que te servem então estas
-qualidades, para que as guardas? Não és tu judeu? Não é tua mãe de
-Caná? Não podia teu pae ser levado legionario para Roma? De que nos
-servem essas parabolas, essas ironias, essas respostas excellentes, se
-ellas não vão ferir a riqueza do saducceu, a hypocrisia do escriba,
-a vexação do romano? Queres abster-te da acção? Imaginas que as
-predicas do templo e o ensino sobre as montanhas, só pela sua verdade
-abstracta, pódem combater, vencer um mundo completo, organisado,
-civil, rico, amado? Imaginas que se póde repetir o milagre das
-trompas de Jerichó! Crês tu que um mundo inteiro, tribunaes, templos,
-officios, mercados, sacerdocios, escolas, tudo fortemente ligado,
-se dissipe como uma visão, porque um homem sympathico se ergue n'um
-caminho e diz:—Amae-vos uns aos outros, e sereis amados do vosso Pae
-celeste!—Não! tal não será, Rabbi!</p>
-
-<p>—Pela vossa incredulidade! que se tivesseis a fé, tanta—eu sei?—como
-um grão de mostarda, e dissesseis áquelle monte: passa-te d'ahi! o
-monte passaria! Oh geração incredula, geração incredula, até quando
-estarei entre ti?</p>
-
-<p>O Rabbi dava largos passos, atormentado, doloroso.</p>
-
-<p>—Rabbi, Rabbi, escuta-me! Eu tenho a tua fé, amo o teu reino de Deus.
-Mas o teu Deus consola muito em cima, e nós soffremos e choramos muito
-baixo na terra.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_244">[244]</span></p>
-
-<p>Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:</p>
-
-<p>—Escuta, Rabbi: consinto que, só pela tua palavra, tu possas realisar
-o teu reino de Deus. Mas então deixa esses galileos simples, liga-te
-aos homens que têem a força, a sciencia e o segredo das coisas humanas:
-nós seremos a acção, sê tu o nosso Messias. Na Judea, nada se faz
-sem um propheta! Como tens tu pensado realisar o teu reino de Deus?
-Pela doçura e pela paciencia, ou pela força e pela revolta? Não pódes
-hesitar, se pensas. Queres fazer um renascimento, com os galileos que
-te cercam, com os publicanos infelizes, com os doentes que curas,
-com os miseraveis que consolas, com as mulheres que te amam, com as
-creanças que te sorriem?</p>
-
-<p>—Deus esconde muitas coisas aos sabios, que revela ás creanças.</p>
-
-<p>—Para que pregas então no templo, contra os phariseus e os principes?</p>
-
-<p>—Deixa pelo espirito dos simples e creanças operar-se a regeneração!</p>
-
-<p>—Na verdade, Rabbi, dize-me: entendes tu que no mundo nada vale, e que
-só o teu ideal póde dar felicidade e socego? Professas tu o desdem?</p>
-
-<p>—Só o desdem dá a paz.</p>
-
-<p>—Dá a inercia, o sacrificio e as virtudes passivas. E se ámanhã tu
-pudesses começar a vêr realisado no mundo esse reino dos pobres, dos
-simples, dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra bem preparada
-para a tua palavra? Se visses tudo transformado, por uma acção
-energica, revolucionaria, pela nossa acção?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_245">[245]</span></p>
-
-<p>Jesus caminhava, inquieto: o seu olhar vibrava. As minhas palavras
-davam-lhe inesperadas perturbações.</p>
-
-<p>Nós viamos o templo luzir na branca polidez da pedra sob o luar: eu
-dizia-lhe, profundo:</p>
-
-<p>—Olha, vê o templo: hoje alli tudo é intriga, artificio, apparato,
-riqueza, sangue, hypocrisia, vaidade: ámanhã seria o logar mais santo
-da terra.</p>
-
-<p>Jesus cobria o templo com um vasto olhar, cheio da fulguração do seu
-desejo. Eu tinha-lhe tomado as mãos, dizia-lhe baixo, junto á face:</p>
-
-<p>—Ouve: em Jerusalem ha descontentes: alguns membros do sanhedrin estão
-irritados com a familia d'Elanan, com Beothos: Gamaliel não ama o
-templo: o baixo povo do mercado detesta phariseus e escribas; é nosso;
-a Galilea é nossa; a Perea é nossa; mandar-se-ão emissarios a Joppé;
-toda a Judea se erguerá:—tu serás o propheta. Queres? O teu sonho do
-lago de Tiberiade será então vivo, real, palpavel, existente sob as
-nuvens!—Queres?</p>
-
-<p>A noite era immortalmente bella: havia uma bondade no ar: o mundo
-parecia-me possuido de um elemento diverso.</p>
-
-<p>Eu fallava confusamente, ora contra os phariseus, ora contra os
-romanos: e não conhecia nem a força de Roma, nem o poder sacerdotal,
-nem a inercia d'um povo egoista. Uma grande tentação captivou o
-espirito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as mãos:</p>
-
-<p>—Rabbi, Rabbi, depois do phariseu, será a vez do romano! Tu serás o
-maior da Judea: terás glorificado o pobre, terás humilhado o rico,
-terás aniquilado<span class="pagenum" id="Page_246">[246]</span> o hypocrita, terás expulso o romano: serás pela
-justiça egual a Ezequiel, pela força egual aos Machabeus: serás como
-David, terás a Palestina desde o Jordão até ao mar, e serás o rei de
-Israel.</p>
-
-<p>Eu fallava exaltado: mostrava-lhe Jerusalem e dizia-lhe:</p>
-
-<p>—Terás a Palestina até ao mar, serás o rei de Israel!</p>
-
-<p>Mas Jesus, erguendo a mão, mostrando-me com um gesto elevado e
-transcendente o ceu cheio da lua serena, o ineffavel silencio, a pura
-belleza do infinito, o profundo mysterio onde Deus habita, disse-me:</p>
-
-<p>—Vae-te: o meu reino não é d'este mundo!...</p>
-
-<p>Olhei longamente o Rabbi, lamentei o seu desdem, sorri da sua palavra:
-e calado, concentrado, sahi pelo caminho de Betphagé.</p>
-
-<p>Uma claridade apparecia: os gallos cantavam. No outro dia, pela hora da
-tarde, Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galilea.</p>
-<div class="footnotes">
-<h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_41" href="#FNanchor_41" class="label">[41]</a> Este trabalho de Eça de Queiroz, escripto por occasião da
-sua viagem ao Egypto e á Palestina em 1869, foi publicado em 1870 na
-<i>Revolução de Setembro</i>, ficando todavia incompleto.</p>
-
-<p class="right">
-(<i>N. dos E.</i>)<br />
-</p>
-</div>
-
-</div>
-
-
-
-<p class="center p2">FIM</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="INDICE">INDICE</h2>
-</div>
-
-
-<table class="autotable">
-<tr><th></th><th class="tdr">Pag.</th></tr>
-<tr><td class="tdl"><a href="#INTRODUCCAO">Introducção</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_v">v</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl"><a href="#NOTAS_MARGINAES">Notas marginaes</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_1">1</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#MACBETH">Macbeth</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_15">15</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#A_LADAINHA_DA_DOR">A ladainha da dôr</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_27">27</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#ENTRE_A_NEVE">Entre a neve</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_45">45</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#OS_MORTOS">Os mortos</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_57">57</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#A_PENINSULA">A Peninsula</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_65">65</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#O_MIAUTONOMAH">O «Miautonomah»</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_75">75</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#MYSTICISMO_HUMORISTICO">Mysticismo humoristico</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_85">85</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#O_MILHAFRE">O milhafre</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_93">93</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#LISBOA">Lisboa</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_103">103</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#O_SENHOR_DIABO">O Senhor Diabo</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_115">115</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#UMA_CARTA">Uma carta</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_133">133</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#O_LUME">O lume</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_147">147</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#MEPHISTOPHELES">Mephistopheles</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_155">155</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#MEMORIAS_DUMA_FORCA">Memorias d'uma forca</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_161">161</a></td></tr>
-<tr><td class="tdl">
-<a href="#A_MORTE_DE_JESUS">A morte de Jesus</a></td>
-<td class="tdr page"><a href="#Page_173">173</a></td></tr>
-</table>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="ERRATA">ERRATA</h2>
-</div>
-
-
-<p><a href="#Page_xxv">Pag. <span class="allsmcap">XXV</span></a>, linha 8: onde se lê <i>Poo</i>, deve lêr-se
-<i>Poe</i>.</p>
-
-<p><a href="#Page_xxxiv">Pag. <span class="allsmcap">XXXIV</span></a>, linha 14: onde se lê <i>Trata-se das viagens dos
-Deuses</i>, deve lêr-se: <i>Trata-se, na «Symphonia de abertura», das
-viagens dos Deuses</i>, etc.</p>
-
-<p><a href="#Page_xlv">Pag. <span class="allsmcap">XLV</span></a>, linha 6: onde se lê <i>Roberpierre</i>, deve lêr-se
-<i>Robespierre</i>.</p>
-
-<p><a href="#Page_58">Pag. 58</a>, linha 4: onde se lê <i>embalarem-se</i>, deve lêr-se
-<i>embalar-se</i>; mesma pag., linha 5: onde se lê <i>estirarem-se</i>,
-deve lêr-se <i>estirar-se</i>; mesma pag., linha 8: onde se lê
-<i>acalentarem</i>, deve lêr-se <i>acalentar</i>.</p>
-
-<p><a href="#Page_63">Pag. 63</a>, linha 2: onde se lê <i>com o amores</i>, deve lêr-se <i>com os
-amores</i>.</p>
-
-<p><a href="#Page_88">Pag. 88</a>, linha 15: onde se lê <i>enchiam-me</i>, deve lêr-se
-<i>enchia-me</i>.</p>
-
-<p><a href="#Page_168">Pag. 168</a>, linha 21: onde se lê <i>eram paus, uma alma</i>, deve lêr-se
-<i>eram, pois, uma alma</i>.</p>
-
-<p><a href="#Page_172">Pag. 172</a>, linha 10: onde se lê <i>pastarem-me</i>, deve lêr-se
-<i>pastar-me</i>.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter transnote">
-<h2 class="nobreak" id="Notas">Notas</h2>
-
-
-<p>Os problemas na errata foram corrigidos.</p>
-
-<p>Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.</p>
-</div>
-
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>PROSAS BARBARAS</span> ***</div>
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-
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-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
-electronic works in formats readable by the widest variety of
-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&#8482;&#8217;s
-goals and ensuring that the Project Gutenberg&#8482; collection will
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-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg&#8482; and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
-visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
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-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
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-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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