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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: O esqueleto - Romance - -Author: Camillo Castelo Branco - -Release Date: September 9, 2022 [eBook #68932] - -Language: Portuguese - -Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at - https://www.pgdp.net (This file was produced from images - generously made available by The Internet Archive) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ESQUELETO *** - - - - - -Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA - -VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS - -DAS - -LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS - -Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc. - - -Volumes in-8.ᵒ de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente -edição, em optimo papel. Preço de cada volume 200 réis brochado, ou -300 réis elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias -accresce o porte do correio. - - -Volumes publicados - - N.ᵒ 1--_Tristezas á Beira-Mar_, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol. - N.ᵒ 2--_Contos ao Luar_, por Julio Cezar Machado, 1 vol. - N.ᵒ 3--_Carmen_, romance de Merimée, traducção de Mariano Level, - 1 vol. - N.ᵒ 4--_A Feira de Paris_, por Iriel, 1 vol. (2.ᵃ edição). - N.ᵒ 5--_O direito dos filhos_, George Ohnet, 1 vol. - N.ᵒ 6--_John Bull e a sua ilha_, traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol. - N.ᵒ 7--_O juramento da duqueza_, romance historico por P. Chagas, - 1 vol. - N.ᵒ 8--_A lenda da meia-noite_, romance phantastico, por P. Chagas, - 1 vol. - N.ᵒ 9--_A joia do vice-rei_, romance historico, por Pinheiro Chagas, - 1 vol. - N.ᵒ 10--_Vinte annos de vida litteraria_, por Alberto Pimentel, 1 vol. - N.ᵒ 11--_Honra d’artista_, romance de Octavio Feuillet, traducção de - Pinheiro Chagas, 1 vol. - N.ᵒ 12--_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade Coelho, - 1 vol. - N.ᵒˢ 13 e 14--_A aventura d’um polaco_, por Victor Cherbuliez, - traducção de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol. - N.ᵒ 15--_Os contos do tio Joaquim_, por R. Paganino, 1 vol. - N.ᵒ 16--_As batalhas da vida_, contos por Guiomar Torrezão, 1 vol. - N.ᵒ 17--_Noites de Cintra_, romance por Alberto Pimentel, 1 vol. - N.ᵒˢ 18 e 19--_Em segredo_, romance, trad. de Margarida de Sequeira, - 2 vol. - N.ᵒˢ 20 e 21--_A irmã da Caridade_, por Emilio Castellar, traducção de - L. Q. Chaves, 2 vol. - N.ᵒ 22--_Migalhas de historia portugueza_, por Pinheiro Chagas, 1 vol. - N.ᵒ 23--_A Cruz de Brilhantes_, por A. Campos, 1 vol. - N.ᵒ 24--_Contos_, de Affonso Botelho, 1 vol. - N.ᵒ 25--_Contos phantasticos_, por Theophilo Braga, 1 vol. - N.ᵒ 26--_O mysterio da estrada de Cintra_, por Eça de Queiroz e - Ramalho Ortigão, 1 vol. - N.ᵒ 27--_O naufragio de Vicente Sodré_ rom. historico de P. Chagas, - 1 vol. - N.ᵒ 28--_Vid’airada_, por Alfredo Mesquita, 1 vol. - N.ᵒ 29--_O Bacharel Ramires_, por Candido Figueiredo, 1 vol. - N.ᵒˢ 30 e 31--_Amor á antiga_ romance de Caiel, 2 vol. - N.ᵒ 32--_As Netas do Padre Eterno_, por Alberto Pimentel. - N.ᵒ 33--_Contos_, de Pedro Ivo, 1 vol. - N.ᵒ 34--_O correio de Lyão_, por Pierre Zaccone. - N.ᵒ 35--_Vida de Lisboa_, por Alberto Pimentel. - N.ᵒ 36--_Historias de Frades_ por Lino d’Assumpção. - N.ᵒ 37--_Obras primas_, por Chateaubriand. - N.ᵒ 38--_O Exilado_, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo. - N.ᵒ 39--_Poema da Mocidade_, por Pinheiro Chagas. - N.ᵒˢ 40 e 41--_A Vida em Lisboa_, por Julio Cesar Machado. - N.ᵒˢ 42 e 43--_Espelho de Portuguezes_, por Alberto Pimentel. - N.ᵒ 44--_A Fada d’Auteuil_, por Ponson du Terrail, traducção de - Pinheiro Chagas. - N.ᵒ 45--_A Volta do Chiado_, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo). - - - Requisições á Parceria Antonio Maria Pereira - _Rua Augusta, 50, 52, 54--LISBOA_ - - - - -COLLECÇÃO ECONOMICA - -Volumes de in-16.ᵒ, de 240 a 320 - - -ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES - -A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis) - - - * N.ᵒ 1--Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de - _Tartarin nos Alpes_; por A. Daudet. - * N.ᵒ 2--Pedro e João, por Guy de Maupassant. - * N.ᵒ 3--Sergio Panine, por Jorge Ohnet. - N.ᵒ 4--O Sonho, por Emilio Zola. - N.ᵒ 5--Soror Philomena, por Edmond e Jules Goncourt. - N.ᵒ 6--O medico assassino, por Octavio Féré. - N.ᵒ 7--Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot. - * N.ᵒ 8--O amigo Fritz, por Erckmann Chatrian. - N.ᵒ 9--Vogando, por Guy de Maupassant. - * N.ᵒ 10--Um romance de mulher, por Pierre Mael. - * N.ᵒ 11--Vontade, por Jorge Ohnet. - * N.ᵒ 12--O Nababo, por A. Daudet. - * N.ᵒ 13--Um coração de mulher, por Paul Bourget. - * N.ᵒ 14--Beatriz, por Rider Haggard. - * N.ᵒ 15--O crime, por Gabriel d’Annunzio. - * N.ᵒ 16--Lise Fleuron, por Ohnet. - N.ᵒ 17--Os dois rivaes, por Armand Lapointe. - N.ᵒ 18--O ultimo amor, por Jorge Ohnet. - N.ᵒ 19--Um Bulgaro, por Ivan Tourgueneff. - N.ᵒ 20--Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp. - N.ᵒ 21--Forte como a morte, por Guy de Maupassant. - * N.ᵒ 22--A alma de Pedro, de J. Ohnet. - N.ᵒ 23--Camilla, de Guérin-Ginisty. - N.ᵒ 24--Trahida, de Maxime Paz. - N.ᵒ 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot. - N.ᵒ 26--Magdalena Férat, por Emilio Zola. - N.ᵒ 27--Os Reis no exilio, por A. Daudet. - N.ᵒ 28--Divida de odio, por Jorge Ohnet. - N.ᵒ 29--Mentiras, por Paul Bourget. - N.ᵒ 30--Marinheiro, por Pierre Loti. - N.ᵒ 31--A montanha do Diabo, por Eugenio Sue. - N.ᵒ 32--A Evangelista, por A. Daudet. - * N.ᵒ 33--Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest. - N.ᵒˢ 34 e 35--Odio antigo, por Jorge Ohnet. - N.ᵒ 36--Parisienses!... romance, por H. Davenel. - N.ᵒ 37--Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband. - N.ᵒ 38--A confissão de Carolina, romance. - N.ᵒ 39--Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland. - N.ᵒ 40--Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins. - N.ᵒ 41--O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet. - N.ᵒ 42--A agonia de uma alma, romance, por Ossip Schubin. - N.ᵒ 43--Memorias d’um burro, por Madame Ségur. - N.ᵒ 44--A nihilista, por Catulle Mendés. - N.ᵒ 45--O grande Industrial, por George Ohnet. - N.ᵒ 46--Morta d’amor, por Albert Delpit. - N.ᵒ 47--João Sbogar, por Carlos Nadier. - N.ᵒ 48--Viagem sentimental, por Sterne. - N.ᵒ 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg. - -Todos os vol. com este signal * estão esgotados mas vão ser -reimpressos. - - - - -OBRAS - -DE - -CAMILLO CASTELLO BRANCO - -EDIÇÃO POPULAR - - - - -V - -O ESQUELETO - - - - -VOLUMES PUBLICADOS - - - I--Coisas espantosas. - II--As tres irmans. - III--A engeitada. - IV--Doze casamentos felizes. - V--O esqueleto. - - - - - _CAMILLO CASTELLO BRANCO_ - - O ESQUELETO - - ROMANCE - - _TERCEIRA EDIÇÃO_ - - LISBOA - PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA--LIVRARIA-EDITORA - _Rua Augusta, 50, 52, 54_ - 1902 - - - - - LISBOA - _Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira_ - =Rua dos Correeiros, 70 72= - - - - -PREFACIO - - -Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito -desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa. - -Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais -de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da -sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao -despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente. - -Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e -concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás -vezes, da verosimilhança. - -Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. -O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as. -Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que -é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e -largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito -poisal-os em alegretes de flores. - -São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida. - -Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia -social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos -amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu -finalmente? - -Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este -paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não -serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a -probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica. - -Ha poucos dias, tivémos esta pratica: - ---Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que -lavra nos pantanos da sociedade--observou-me o meu amigo. - ---Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não -acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem -romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de -dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, -sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães -culpadas. - ---Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes -das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios--redarguiu o -cavalheiro. - ---Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta -da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado -sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas; -concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as -requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de -as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com -uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance -ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto -innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem -angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo. - ---Acho-lhe rasão--obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus -livros--mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas -desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que -revolvam essas sentinas hediondas? - -Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum -para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume -que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga -social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas -protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em -todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade, -e alvorotam a quietação dos pais de familia. - - - - -I - - -Era justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos -portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que, -poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se -que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para -ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835, -sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho -aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita. - -Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se -da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi -respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam -a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico. -Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com um lacaio; -apeiava no hotel do Pêxe,[1] saía a provêr-se de objectos de luxo nas -lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques, -que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha. - -O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as -praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida -particular. - -Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e -estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a -surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez. - -Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era -superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico. - -Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo: - ---A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes... - ---Não é possivel...--disse o francez abstrahido. - ---Não é possivel?!--replicou o outro. - ---A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber -quem a não conhece. - ---E conhece-a o senhor? - ---Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia -que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava -encontral-a. Onde vive ella? - ---Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto, com um fidalgo -transmontano, chamado Nicoláo de Mesquita. - -O chanceller escreveu na sua carteira, e disse: - ---A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes -de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta -infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi -hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este -calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu -que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante -affronta! - -O francez retirou-se apressado. - -Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos -seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul -francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense. - -O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado. - -O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder -explicitamente se nomeava testemunhas, disse: - ---Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz. -Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me -contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho. - -O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e -replicou: - ---Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me -n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se -melhor nas estradas. - -O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até -sangrarem. - -A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu -assustada a indagar a causa. - -Nicoláo respondeu glacialmente: - ---Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não -me bato. - ---Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é -temivel!--acudiu ella. - -O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente: - ---Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito -coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher. - -Pungente grosseria! - -A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não -tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!... - -É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e -devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores -novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem -sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis -annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam -de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde -fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz -pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta -escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração. - -Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára -os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que -propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante! -Amára até ao absoluto despreso de si mesmo. Seguira-a de Lyão á -Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido -fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua -industria. - -Depois, ainda um anno se não tinha passado, e já Nicoláo media a -profundeza de sua ignominia, e espedaçava-se ás garras do opprobrio -de si proprio. Tardia honra, que nunca pode chamar-se rehabilitação: -penitencia, que no conceito do mundo terá remido os arrependidos; mas -que no juizo da Providencia deve de ser apenas começo de expiação, -começo de expiação muito longa. - -Chegado a Portugal, Nicoláo ainda tinha mãe. Repugnou-lhe entrar em -sua casa com uma mulher, mais perdida aos olhos d’elle que aos da -sociedade, se a conhecesse. Já lhe parecia que o apresental-a como -sua esposa era injuriar as virtudes de sua mãe, e injuriar-se a si. -Não mais se levantará deante do homem, que a estimou, a mulher assim -desprezada. - -Alugou a quinta nos arrabaldes do Porto, e ahi ficou. - -A franceza era a mulher coherente com o seu crime. A mudança da -physionomia do amante, a nudeza da phrase baixa e sêca, a nenhuma -poesia do gesto e da palavra, os longos silencios interpollados de -suspiros, os vincos da fronte, os sorrisos contrafeitos, as abstracções -e respostas incongruentes, que mais carecia ella para cahir em joelhos -aos pés do algoz da sua felicidade, e pedir-lhe a morte? - -Não se lembrou d’isso. Era mulher, e franceza. Ao pungimento da -deshonra botaram-se os fios no habito de a praticar. Caíra de tão alto, -que já não media com a vista a altura da queda. As mulheres que chegam -até aqui, tocam a extrema do pudor. - -D’ahi em diante, se choram, não é remorso, é a aspide do orgulho que as -morde. - -Margarida Froment acceitava a liberdade do amante, em proveito do amor -decadente. Cuidava ella que as pompas no trajar remoçariam o affecto -envelhecido. Vestia-se e galleava a primor. Achava-se linda. Aos -vinte e oito annos não invejava o frescor das suas quinze primaveras. -Offerecia-se assim aos olhos de Nicoláo, e muitas vezes cuidou que -triumphava quando queria. Esta vaidade era-lhe um esteio. Em quanto um -demonio amigo lhe desse tal escudo, contava ella com a victoria sobre o -fastio do amante. - -Quando a tristeza a alquebrava mais, era se, no lavor de enfeitar-se, -lhe vinha á lembrança que seu marido a tinha amado muito, ainda -desenfeitada. - -Tristeza de vaidade dorida, e mais coisa nenhuma que possamos chamar -_castigo_. - -Os castigos, ao chegarem, rasgam por outras fibras mais sensiveis. - -O fidalgo, que pendia aos quarenta annos, pensava em sacudir o -jugo; mas as correias apertavam-n’o tanto e em tantas voltas, que -era impossivel desdal-as sem despedaçar os restantes liames da sua -dignidade. - -Abandonal-a era coroar a infamia. - -Dar-lhe recursos e bons conselhos, muitas vezes lhe quiz propôr este -accordo; mas receiava a recusa, e a desordem inevitavel d’essa hora em -deante. - -Os obstaculos saturavam-lhe de fel novo o amargôr do enfado. - -Até que, no termo de seis annos, appareceu o chanceller, não sei se -tolo, se sublime, a desaggravar o amigo, do mesmo modo que um inimigo o -faria, se quizesse ajuntar á desgraça a irrisão. Os francezes usam uns -processos especiaes de honrar os amigos. - -Nicoláo de Mesquita era valoroso; porém, reflexionador. Dissera elle: -_é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer -mulher_. Essa sua maxima arrefecia as fervuras da coragem; do pundonor -não havemos de dizer, que esse tinha claudicado, e ficara tolhido para -todos os effeitos da dignidade, logo que elle seduziu a mulher do -homem, incapaz de reputal-o infame. - -Não se quiz bater com testemunhas: era natural que evitasse bater-se -sem ellas. - -Absteve-se de ir ao Porto, e reflectiu ponderosamente no escape de -taes aperturas. Achou que era tempo de espesinhar considerações de -menor alcance. Propoz á franceza uma separação temporaria, e urgente -á quietação de ambos. Margarida ouviu-o de boa fé. Acceitou alguns -mil cruzados; residencia no Porto, se lhe desprazia viver na quinta; -e a segurança de se reunirem na provincia, assim que a entrevada mãe -de Nicoláo passasse a melhor vida. Annuiu a franceza, dizendo em tom -lastimoso que de bom grado, e com o coração cheio de lagrimas, se -immolava á tranquilidade do amante. - -Nicoláo foi para Traz-os-Montes, e Margarida Froment para uma casa -ricamente alfaiada na Torre da Marca. - -O chanceller, perdida a esperança de tirar os olhos do scelerado á -ponta de florete, escreveu ao amigo, contando-lhe o seu intento, e o -encontro inesperado. - -Ernesto Froment accusou a carta recebida, e não falou da mulher. Parece -que tinha lá tres, todas mais fieis, e póde ser que mais formosas. - -Por este lado, o acaso--não ouso dizer a Providencia--se amerceara -do esposo trahido. Quem dos dois soffria mais, ou presentia o -emborrascarem-se as porvindouras tormentas, era Margarida. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[1] Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, onde se -hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade. _Habent sua -fata_... os palacios! - - - - -II - - -O morgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos -tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns -temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher -fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de -que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando -inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe -tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja. - -Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da -mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o -mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros. - -Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar, -nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados. -Perguntava á desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em -tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras -mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se -de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens -que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa, -assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das -mulheres suas contemporaneas. - -Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao -Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor -a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas -instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam -depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza -da saudade. - -Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos -ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios -proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não -demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do -chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou, -recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia -ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias -que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas -supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida. -Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia, -Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é -renuncia. O ciume faz então prodigios que nivellam o mais descaroado -orgulho com a allucinação de Werther ou Othello. - -Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves -concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia -celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis -annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na -primavera entre as alvissimas flores do espinheiro. - -Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que -Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o -morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas -esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis -louros do seu cabello á espadua de outro homem. - -De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:--Parece que tem vinte annos! -Como está moço, e que airosidade na dança! - ---Pois tem perto de quarenta!--Atalhava um moço de vinte, com um -sorriso e abanar de cabeça desdenhoso. - -Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment. - -Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o -ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a -responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o. - -Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze -dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares -e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o -leve incommodo de contar anecdotas joviaes, costumes estrangeiros, -amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir, -iguarias para todos os paladares. - -Beatriz era das que folgava das historietas facetas. Casos de lagrimas -enterneciam-n’a até lhe molestarem os nervos. Pediu ella a seu primo -contos engraçados. E Nicoláo, que nunca em sua vida tivera graça, -transverteu-se por milagre de amor, e fez rir a filha de seu primo. A -sós comsigo, o morgado da Palmeira, que vira muito e brilhante mundo, -quasi que de si mesmo ria. - -Voltou a casa onde o chamára o aviso de estar a mãe em perigo de vida. -Assistiu-lhe á morte, fez-lhe enterro pomposo, encerrou-se por oito -dias, pagou as visitas, e voltou para Chaves. - -D’este successo não deu parte a Margarida nem respondeu ás cartas, que -encontrára, queixosas do seu silencio. A esposa de Ernesto Froment -tinha morrido para o amante como para o marido. A Providencia ordenára -á formosa de Chaves que lançasse a prevaricadora no fogo expiatorio, -não lavareda devorante, mas brazido lento, que lhe fosse queimando -fibra por fibra os orgãos todos onde a vida humana pode soffrer e -morrer mil vezes. Nicoláo lembrava-se d’ella com susto, e ás vezes com -remorso; o susto de a vêr atravessar-se em seus designios; o remorso de -atiral-a a um caminho, sem saida que não seja garganta de voragem. - -Adeante! Nicoláo de Mesquita conhecia milhares de exemplos. Em -Paris, cada homem dos admirados e invejados no bosque de Bolonha, no -café Tortoni, nos centros da mocidade insigne, podia contar dezenas -d’aquellas historias, laudas da biographia dolorosa que as mulheres -das salas repetiam sem horror. - -O horror das mulheres das salas era para as victimas. - -Homens sacrificados é que elle não conhecêra. Homens que immolassem -os melhores annos da sua mocidade a um dever, que o mundo chama um -escandalo. Homens que, em cada primavera do coração, arrancassem os -renovos promettedores de muitas alegrias, e os atirassem fenecidos aos -pés de uma como estatua, incapaz de avaliar a renunciação, ou, peior -ainda, persuadida do dever do sacrificio. - -N’isto cogitára elle em todos os dias dos seis annos de captiveiro. - -Agora, na liberdade, era preciso ser homem como todos, ser forte para -não ser infeliz e ridiculo: porque a desgraça dos penitentes, que -não podem nobilitar, com alguma sombra de moral commum, o grandioso -holocausto de sua liberdade, é irrisoria. - -E depois, quem sabe? - -Margarida voltará para França, onde tem o marido, e a mãe. Se o marido -a recebe, feliz culpa que a mette ao caminho da rehabilitação! Se a -rejeita, a mãe lhe abrirá os braços e o sanctuario da familia lhe -purificará o espirito. Esta moralidade, subitamente formada no animo do -morgado, é uma zombaria da virtude. Faz-se muita moralidade assim; a -sociedade ás vezes applaude-a, e sae em auxilio dos moralisadores. - -Com estas hypotheses combatia Nicoláo de Mesquita o impertinente -remorso, quando ia para Chaves. Porém assim que se refugiou sob os -olhos tutelares de Beatriz, a chimera da consciencia fugiu espavorida. - -Martinho Xavier perguntára a sua filha se o primo de Vidago lhe dizia -particularmente palavras indicativas de algum sentimento mais forte que -o do parentesco e amisade. - -Beatriz córou. O pae ficou satisfeito. - -E, n’outro ensejo, perguntou-lhe: - ---Gostas do primo Nicoláo? Sê sincera, minha filha. - ---Não desgosto... balbuciou a pomba. - ---E, se elle quizesse ser teu marido, acceitarias de boa vontade? - ---Querendo meu pae... - ---Eu não quero, nem deixo de querer. Consulto a tua vontade. - ---Eu... - ---Acceitas? - ---Pois sim... - ---Mas--tornou Martinho Xavier--tu, antes da vinda de Nicoláo, parece -que acceitavas a côrte do primo de Fayoens, que foi creado comtigo. - -Beatriz córou e calou-se. O pae achou prudente calar-se tambem, n’este -artigo melindroso, e volveu ao essencial. - ---Nicoláo perguntou-me se o teu coração estava livre. Respondi que o -suppunha desprendido de affeição seria. Quiz elle saber se tu quererias -ligar a tua mocidade aos annos já adeantados de um homem, que te amaria -como esposo, e estremeceria como pae. Vou dar-lhe a tua resposta, se é -que lh’a não déste. - -A menina fez um gesto de assentimento. - -O morgado da Palmeira, no dia seguinte, disse a Beatriz: - ---Quer meditar algum tempo antes de ser minha esposa, prima Beatriz? - ---Já respondi, primo Nicoláo. - ---Despede-se sem saudades da sua mocidade? Não deixa impressão que a -possa magoar? - ---Não... - ---Nenhum homem que lhe inquietasse o coração?... - ---Nenhum... - ---Acredito-a, Beatriz. Pois saiba que ha-de ser venturosa, quanto os -anjos podem ser n’este mundo. Hei de obrigal-a com extremos de amor a -ser minha amiga. Vêr-me-ha invelhecer, e então sentirá por mim affecto -de filha. O homem, na minha edade, sabe como se faz a felicidade de uma -mulher. Entrego-lhe o coração maculado, mas ainda forte de vida, a vida -do coração, que é a poesia das almas enthusiastas. Se eu me sentisse -gasto e insensivel, a prima Beatriz, com o segredo que teve de influir -um sagrado fogo no gelo da minha vida moral, havia de fazer o menor -milagre de remoçar-me. Será feliz, minha prima: juro-lh’o, beijando-lhe -esta mão pura! - -Beatriz cedeu facilmente a mão, para não prejudicar o ritual do -juramento. - -Se Deus fosse carne, e tivesse labios susceptiveis de obedecerem ás -contracções convulsas dos musculos faciaes, ria-se sardonicamente -d’aquelle juramento. - -O lance, digno de ser pintado com as branduras de Bernardin de S. -Pierre, foi interrompido por um criado, que apresentava a Nicoláo de -Mesquita uma carta, vinda em mão propria, de Villa Pouca de Aguiar, -distante de Chaves tres ou quatro leguas. - -O morgado viu o sobrescripto, e mudou de côr. - -Era a lettra de Margarida Froment, que havia chegado a Villa Pouca na -tarde do dia anterior. - -O contheudo eram duas palavras: ESTOU AQUI. - -Beatriz ergueu-se em ponta de pés. Adoravel curiosidade! Viu; mas não -entendeu. Era em francez. Encarou no primo e disse sobresaltada: - ---Que é?! - ---Um amigo que me chama a Villa Pouca, tartamudeou. - ---E porque não vem cá? replicou a innocente com a cavillosa dialectica -de uma senhora já esquecida do tempo em que passou pelas varzeas -floridas da innocencia. - ---É um francez, meu amigo, que vae de passagem para Hespanha, e precisa -de recursos. - ---Não se assignou?! redarguiu candidamente Beatriz. - ---Não, porque... porque é perseguido em Portugal, e receiou que se -desencaminhasse a carta. - ---E vae, primo? - ---Sem demora. Devo-lhe obsequios. - -Estas palavras já foram ditas com toda a quietação de animo. Beatriz -socegou; mas, depois que Nicoláo saiu, inquietou-se e mandou, a -occultas do pae, um criado a Villa Pouca, espiar os passos do morgado -da Palmeira. - -Amava-o: estou em crêr que o amava. - -Nicoláo de Mesquita ia chammejando de raiva a Margarida. Esporeava o -cavallo que devorou as leguas em furiosa desfilada. Soffreava a brida -instantaneamente, para meditar no que faria. Baralhavam-se-lhe os -planos, todos miseraveis, senão abjectos. - -Apeou á porta da estalagem. - -A franceza esperou-o no topo da escada, abrindo os braços. Nicoláo -apertou-lhe a mão, e disse-lhe glacialmente: - ---Que é isto? - -Margarida transfigurou-se. Deixou cair mortalmente os braços, e disse -então dorida e irritada: - ---Para que veio aqui? - ---Pois a tua carta que significa? Diz. - ---Nada. Respondesse: «Não conheço a desgraçada, a perdida, a infame -que me escreve. Desgracei-a eu, perdi-a eu, infamei-a eu; mas não a -conheço.» Respondesse assim, senhor Nicoláo de Mesquita. Antes isto, -que repellir a mulher que de braços abertos lhe offerece o coração -traspassado de dôres. - ---Vem cá, Margarida! tornou o morgado, simulando meiguice. Vem -conversar commigo. Tu és injusta, ou estás enganada. - -A franceza abriu a porta do seu quarto. Nicoláo sentou-se a limpar as -bagas de suor. E ella ficou em pé defronte d’elle, hirta, sublime, -formosa, e formidavel de odio, de amor, de desesperação, de ternura, um -indefinivel conjuncto de demonio da soberba, e anjo da agonia. - -E elle estava como se a não visse, fitando-a nos olhos coruscantes. -Latejavam-lhe as fontes batidas de dentro por clavas de ferro. Seria um -atroz pezadelo, se não fosse um abafar de vergonha e rancor. - -Margarida esperou alguns segundos, e disse: - ---Conversemos, pois. - -Nicoláo ergueu-se de golpe, e exclamou: - ---Desprézo a ironia! - ---Isso é uma miseria, senhor Nicoláo, retorquiu serenamente a franceza. -Conversemos, pois! - - - - -III - - -Reprovo a sua vinda aqui! disse Nicoláo empregando o _vous_ do despeito -ou da cerimonia, que, n’este dialogo em francez, era, de parte a parte, -odio. - ---Já sei, respondeu Margarida. Reprova que eu viesse. Reprovada e -maldita sou eu de toda a gente. Como todas as almas me fugiam, vim -acoitar-me na sua. Agora vejo que estou sosinha no mundo. Se eu quizer -amigas, hei de ir procural-as á ultima escaleira da degradação. - ---Que desatino!--exclamou o morgado.--Faltaram-lhe meios com que viver -honestamente? - ---Honestamente vivia eu em casa de meu marido, senhor Nicoláo de -Mesquita! O senhor prégou-me a desmoralisação, e agora está-me -doutrinando a honestidade! Que escarneo! O seu dinheiro não pode -rehabilitar a mulher que a sua perversa indole abysmou! O senhor faz -mulheres perdidas, não refaz honestas! - ---Pois bem! - ---Pois bem o que? - ---Faça o que quizer. - -Margarida fitou-o arquejante de colera, e levou com impetuoso frenesi -as mãos aos olhos, murmurando estas palavras, que elle não ouviu: - ---Covarde e infame! - -Nicoláo erguera-se, saira á saleta contigua, aspirando haustos de ar, e -baforando ruidosamente as expirações fumegantes. A franceza atirára-se -ao leito, afogada de soluços, e clamando: - ---Estás vingado, Ernesto, estás vingado, meu infeliz marido! - -Nicoláo ouvira isto, e estorcia em desespero os dedos de ambas as mãos -enclavinhadas sobre o peito. - -Encostou-se ao batente da porta do quarto, e contemplou-a. Teve -dó. Lembrou-se do que fôra aquella mulher em casa de seu marido. O -contentamento, a estima publica, os regalos, o respeito de amigos, a -consideração das mulheres honestas, o acanhamento com que a tratavam as -deshonestas, o orgulho e paixão do esposo. Lembrou-lhe tudo, vendo-a -assim soluçante, a confessar a sua culpa, e a sentir na consciencia -o travor do calix expiatorio. E, por sobre tudo isto, o lembrar-se -Nicoláo da sua deshonra d’elle! aquellas lagrimas a cairem-lhe no -coração! e o terrivel irremediavel da desgraça de tres victimas, que -elle fizera, contando-se pela mais atormentada das tres!... - -Acercou-se de Margarida e disse-lhe com brandura: - ---Não chores. Tens no mundo um amigo, Margarida! - -A franceza levantou a face brilhante de lagrimas e escarlate febril. -Fixou a vista immovel n’um ponto da parede fronteira, e permaneceu -silenciosa largo espaço. - -O morgado, observando-a assim, fez um tregeito de impaciencia. Era o -fastio, a luctar com a commiseração, e a dominal-a. - -A sombra de Beatriz passou entre ambos. Seguiram-n’a os olhos d’alma -de Nicoláo. Os da face ficaram postos em Margarida; mas sómente viam -n’ella o estorvo, a miseria repulsiva, as lagrimas accusadoras. Duas -idéas se travaram a repellões no animo do morgado: romper violenta e -definitivamente com a franceza ou enganal-a com blandicias e promessas. -Venceu o mais vil dos expedientes. - -O maximo sacrificio, que Nicoláo podia fazer á sua paixão pela prima, -era compôr o gesto de carinhos; modelar a voz pelo tom vehemente do -coração ingrato, mas arrependido; repetir as phrases que seis annos se -não repetiram aos ouvidos da franceza. - -N’este intuito, ajoelhando deante de Margarida, irrompeu n’uma lamuria -destoada da accentuação da verdade, um declamar de actor pessimo, uma -coisa que, na consciencia propriamente do declamador, o devia de estar -envilecendo! - -Margarida foi cruel. Riu-se! castigou-o atrozmente envergonhando-o em -rosto, quanto elle o estava no seu intimo senso. - -Nicoláo de Mesquita ergueu-se de salto, e sentiu ao correr dos braços -um prurido nervoso, umas fervuras de sangue, que lhe recurvavam os -dedos; era a convulsiva ancia de esganar a mulher que o comprehendera -e escarnecia. - ---Que infame riso é esse? exclamou o morgado cavamente, chispando -áscuas dos olhos e beiços. - ---É o riso da dignidade! respondeu a franceza, sem se desmentir na -postura. - ---A dignidade de madame Froment! redarguiu elle, espirando um frouxo de -riso sarcastico. - ---Condemna-se, insultando-me, homem sem alma! replicou Margarida. -Madame Froment era uma digna esposa até ao dia em que seu marido foi -deshonrado por quem elle recebêra em sua casa. - ---Quem a ouvisse cuidaria que eu me servi do punhal de Tarquinio! - ---Foi mais cynico, e vilão, e covarde, senhor Nicoláo! As suas armas -foram mais perfidas. - ---Mas Lucrecia não se matou!... - ---Não! bramiu ella furiosa, não se mata, porque é necessario que o -senhor veja como eu me debato e agoniso no lodaçal em que me deixa. -Havemos de expiar ambos, ouviu, senhor Mesquita? Havemos de nos -espedaçar um ao outro! Eu acceito a vida com os horrores todos, que me -esperam... acceito-a com a condição de o vêr castigado. - -Nicoláo riu-se e sahiu do quarto, atirando com as melenas lustrosas de -suor para a nuca. - -Seguiu-o, instantes depois, Margarida, e disse-lhe serenamente: - ---Venho responder ao seu riso. - ---Deixe-me! bradou o morgado. - ---Deixo, tornou ella. Está o senhor livre de mim; a Providencia é que -não o deixará... Ver-nos-hemos! - -E saiu da saleta, desceu ao pateo da estalagem, e ordenou ao arrieiro, -que tirasse o cavallo da estrebaria. Entretanto pagou as despezas da -hospedagem, e sentou-se n’um banco de pedra, com os braços cruzados -sobre o seio, e a face pendida sobre elles. - -Nicoláo de Mesquita desceu pouco depois e reconheceu um criado de -Beatriz, que saía apressado do pateo. Sobresaltou-se, cuidando que era -espionado, e surprehendido em flagrante de mentira e perfidia. Passou -por deante de Margarida, como se não a visse, e saiu a rua procurando o -criado, que não viu. Voltou ao pateo, já quando a franceza cavalgava. -Quedou-se a contemplal-a estupidamente, n’um indescriptivel spasmo de -brutificação. Margarida passou rente com elle, estalejando o chicote na -anca da cavalgadura. Tinha elle saido da villa, quando Nicoláo tirou -fóra o cavallo, e picou á redea solta no seguimento de Margarida. Não -saberia dizer elle que intento o impulsava. Chegou de par com ella, -colheu as bridas de impeto, e perguntou: - ---Onde vaes, desgraçada? - ---Á sorte! respondeu a franceza. - ---Pára e reflexiona, Margarida!... - -A franceza parou, sorriu sardonicamente e disse: - ---Bem! Aqui estou. Que quer de mim? - -A pergunta conturbou o morgado. Bruxuleava uma luzinha de piedade -ainda n’aquelle animo afflicto. Era verdadeira afflicção a d’elle! A -pergunta demandava uma só resposta digna, e consolativa. Essa nem já -insidiosamente podia elle dal-a. A sobranceria de Margarida rebatia -algum expediente compassivo. Se ella chorasse, ganharia temporariamente -uns exteriores de estima, o supremo sacrificio praticavel pelo homem, -que faz obedecer á delicadeza o fastio; sacrificio de que vivem -resignadas, senão felizes, muitas mulheres, as virtuosas principalmente. - -Não deu tempo ás reflexões d’elle nem ás nossas a repetida pergunta da -franceza: - ---Que quer de mim? - ---Que domine esse feroz orgulho, que a perde! - ---Bella resposta, senhor Nicoláo! replicou Margarida, sacudindo as -rédeas com um tremor nervoso da mão. Deixar meu marido foi uma virtude -do coração, como o cavalheiro lhe chamava; a virtuosa não se perdeu -então; perde-se agora porque é orgulhosa até á ferocidade... é isso? -que escarneo, senhor Mesquita!... - -Susteve-se, esperando qualquer resposta. As desgraçadas, n’estes -lances, usam uma logica irrespondivel. Nicoláo tinha a lingua -preza--consintam a figura--por dois dedos da sua prima Beatriz. -Expressão compadecida não vingava nenhuma com que applacasse o -irritamento de Margarida. Assim que no animo lhe pungia a commiseração, -ahi estavam logo os dois dedos de Beatriz a entalarem-lhe na lingua o -termo brando, a claridade mesmo da mentira. - -A franceza, sobre-excitada pelo silencio significativo do morgado da -Palmeira, disse com energia e sem lagrimas: - ---Eu, senhor, não vim queixar-me da sua ingratidão. Bem sabe que o -deixei apertar-me cinco annos a corda na garganta, sem soltar um -gemido. A sua consideração por mim morreu, quando a sociedade me -desconsiderou. O senhor, desde o momento em que deixou de vêr ao meu -lado o estimulo do seu crime, não soube que fazer aos loiros da -victoria. Eu, ao lado de meu marido, era uma mulher disputada pelo amor -d’elle; escondida ás pedradas do mundo, perdi o valor que me davam os -respeitos sociaes. As pedradas mais certeiras e dolorosas eram as suas, -senhor Nicoláo. E não me queixei, nem isto é queixar-me. Da vilania é -que eu me dou por affrontada. Deixou-me no Porto com vil astucia, e nem -por dignidade propria sustentou a mascara. Era a vida de sua mãe que -repellia a mulher perdida da honesta casa da Palmeira: morreu sua mãe, -e o senhor, aturdido pela dôr da orphandade, não poude dispôr da cabeça -para me dar parte do seu lucto... - ---Não admitto remoques sobre objectos tão serios! interrompeu iracundo -o morgado. - ---O senhor não póde considerar-se um objecto serio! acudiu de prompto a -franceza. Ridicula é a sua aleivosia, senhor Nicoláo! Ridiculo, se não -quer que diga infame, é o seu silencio de vinte dias ás minhas cartas! -Ridiculo, é esse falso pundonor com que vem em defeza da honestidade -dos seus lares! Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos á candida -sobrinha de Chaves que... - -Nicoláo cresceu sobre os estribos, levou a mão direita á testa -escaldante, e baforou fumaradas de rancor. Abrasava-o dentro o sarcasmo -do _amor dos quarenta annos_. Tortura mais lacerante nem a inquisição -poderia invental-a para uso de mulheres inexoraveis como Margarida! -Teve-lhe medo ella quando o viu assim roxo e vulcanico a chammejar -pelos olhos, inteiriçado sobre o sellim, pavoroso, e ainda ridiculo, no -rigor da palavra, e no entender da franceza. - -O desfecho d’este relanço devia ser tambem irrisorio. Nicoláo de -Mesquita recaiu de golpe sobre o sellim, retorceu de violento empuxão -o pescoço do cavallo, deu-lhe de esporas com frenesi, e despediu n’uma -corrida desapoderada por aquella rechan do Valle d’Aguiar fóra, e tão -cosido ás crinas do fumegante alasão, que dava uns longes de Mazeppa, -arrebatado pelo corcel creado na vertiginosa phantasia de Byron. - -E Margarida Froment ria-se, em quanto o pasmado arrieiro exclamava: - ---O cavallo endoideceu! Vae-se esbarrar com dez milheiros de diabos! - -A franceza sorriu ainda, e disse serenamente: - ---Vamos para o Porto. - -Nicoláo havia transmontado o horisonte, fechado por uma gandra. Nem uma -só vez voltara o rosto. Espicaçava-o um demonio zombeteiro, cascalhando -as palavras: _Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos_... - -Quem disse a Margarida que Nicoláo amava a sobrinha de Chaves? Os -romancistas, desconsiderados ou distrahidos, faltam com a cortezia -devida aos leitores, descuidando-se em responderem a estes reparos -justos, com que a critica amoravelmente nos dá o seu beliscão. - -A franceza, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Villa Real. Ao -arraiar da manhã, cavalgou, e fóra da villa, n’uma esplanada de monte, -chamado o «Arcabuzado», parou a examinar um mau retabulo, em que um -pincel de 1811 contava á posteridade o caso triste do espingardeamento -de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o -pae do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto -successo contou-lh’o, em frente do painel, um mancebo, que desde a -hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavallo. Não ousaria elle -intrometter-se a dar explicações, se a franceza, por gesto convidativo, -o não animasse a sair-se d’aquelle spasmo mudo, que as mulheres -formosas incutem nos provincianos, gente, pelo commum, contemplativa -até ao extasis. - -Concluida a historia do painel, o moço alinhou o cavallo com o de -Margarida, quanto a estrada o permittia, e foi dizendo quem era e para -onde jornadeava. Modestamente omittiu na noticia da sua pessoa que era -um fidalgo do Valle d’Aguiar, senhor do solar e castello d’aquelle -nome, descendente por varonia de Duarte de Almeida, o celebrado -alferes da bandeira, que, a defendel-a com mãos e dentes, perdêra os -dentes e as mãos na batalha de Tóro, em 1476. Fallou, porém, no seu -castello, que a franceza traduziu _château_, «casa-campestre», coisa -de nenhuma importancia archeologica. Ricardo de Almeida ignorava a -lingua franceza, o que vinha a ser uma falta para dar do seu castello -solarengo uma cabal idéa. - -Margarida perguntou-lhe se conhecia Nicoláo de Mesquita. - ---É meu proximo parente; respondeu Ricardo de Almeida, e de prompto -conjecturou acertadamente quem era a sua companheira de jornada, -por ter ouvido dizer que o do Vidago tinha vivido no Porto com uma -estrangeira. - ---Tem-n’o visto? perguntou ella. - ---Visitei-o quando lhe morreu a mãe... - ---Pois a mãe de Nicoláo morreu?! acudiu Margarida com alvoroço. - ---Ha tres semanas. - -Margarida mordeu o labio inferior. - ---Vossa excellencia conhece meu primo? perguntou Ricardo por delicadeza. - ---Alguma coisa, respondeu ella abstrahidamente, e disse logo com -vivacidade: - ---Elle está em Vidago? - ---Quando eu sai de minha casa, ha quatro dias, tive noticia de que elle -estava em Chaves. - ---Chaves é longe? - ---Nove leguas, minha senhora. - ---Que faz elle em Chaves? - ---Namora uma sobrinha, com quem provavelmente vae casar. - -Margarida fitou nos olhos o interlocutor, e disse: - ---O senhor sabe quem sou, e graceja comigo. - ---Desconfio que vossa excellencia é uma senhora que veiu da emigração -acompanhando Nicoláo de Mesquita; porém, de nenhum modo ousaria -gracejar com uma senhora, que me parece infeliz na sua sorte. - -Margarida, por espaço de uma legua, não proferiu palavra. Ricardo tinha -menos espirito que o necessario para divertil-a da sua introversão. - -Assomaram ao alto da serra do Mezio, d’onde se avistava a magnifica -chan do valle de Aguiar, e o castello dos Almeidas, negrejando sobre um -morro de rochas na quebrada das montanhas do Alvão. - ---O meu castello é além, disse Ricardo apontando. - ---É uma fortaleza feudal? perguntou Margarida. - -O fidalgo deu a data da fundação do castello, e contou a façanha de -Duarte de Almeida, modelada pela inventiva com que ella anda cantada em -verso no _Romanceiro Portuguez_ do senhor Ignacio Pizarro de Moraes -Sarmento. A franceza parecia escutal-o. - -A meio do valle, Ricardo perguntou á dama se queria ser acompanhada. - ---Separa-se aqui? - ---A minha estrada é esta da esquerda. - ---Pois adeus, cavalheiro! - ---Se vossa excellencia, por distracção, quizer alguma vez honrar -aquelle castello... - ---Muito agradecida... As mulheres, fadadas com o meu infortunio, nunca -podem distrahir os olhos do ponto negro da sua desgraça. Adeus. - -Margarida, lá ao longe, olhou terceira vez ao longo do caminho, que -deixára, e viu immovel o fidalgo castellão no local onde se despediram. - ---Não envelheci ainda! disse ella entre si. - -Foi-lhe immensa consolação este desabafo da vaidade! - - - - -IV - - -Margarida, na volta de Villa Pouca, reparou no castello, e pensou no -descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciencia: -«Amal-o-hia eu, se podesse... O coração da mulher não se engana... -Aquelle moço amava-me hontem...» - -Custa a crêr o soliloquio! - -Ainda não ha meia hora que ella viu, ennovelados em poeira, o -cavalleiro e o cavallo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se -preoccupa do affecto inspirado a um estranho, que hontem vira! Que -coração e juizo tem esta creatura! É um coração e juizo exoticos: -coisas de França; que em Portugal--terra onde mais sinceramente -e ajuizadamente se ama e morre d’amor--nenhuma senhora, em caso -similhante, faria monologos d’aquelles. - -Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas, -contiguas ao castello apontava um oculo á estrada que descia de Villa -Pouca, e monologava tambem: «É ella... e vem sósinha...» - -O cavallo estava sellado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do -miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se -despedira. A franceza reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra. -Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem póde ser -não fosse, ainda que arrancasse o homem amado ás presas da menina de -Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada -de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmurios no coração -ennoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma -alegria que a vingava! Na infancia do seu amor de donzella, nenhuma -hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade! - -Ricardo apeou, atirou as rédeas á mão do lacaio, e adeantou-se ao -encontro da franceza, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior: - ---É tarde para vossa excellencia ir pernoitar a Villa Real. No espaço -de tres grandes leguas não encontra pousada. Venho offerecer-lhe a -minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem. - ---Acceito muito agradecida--respondeu Margarida, estendendo o braço -á mão convulsa do fidalgo. Ainda mesmo que sobejassem hospedarias na -estrada, eu acceitaria a sua hospedagem, senhor Ricardo. - -O mancebo cavalgou, e deu o passo a Margarida no estreito caminho que -levava ao Pontido. - -Iam ambos concentrados: ella, no enlevo da consideração que recebia; -elle, no seu amor. Devemos cuidar assim da franceza; porque não ha -contentamento comparavel ao da mulher desestimada da sociedade, -quando se lhe depara prova de respeito, urbanidade sem mescla de amor -aviltante. Parecia-lhe á dama que estava no tempo em que a respeitavam, -e talvez a amavam os amigos da sua familia, sem exclusão dos amigos -de seu marido, facto que nos escandalisa muito a nós, e medianamente -agastaria a esposa de Ernesto Froment. - -Quanto ao enlevo amoroso de Ricardo de Almeida, havemos de inferil-o -naturalmente de um successo, que prende com esta historia. Fôra o -caso que elle, por veredas transversaes, no dia anterior, chegara, -primeiro que Margarida, a Villa Pouca. Alojára-se na unica estalagem da -terra, e no quarto immediato ao que devia occupar a franceza. Ouvira-a -fallar de um portador que fosse de noite a Chaves. Desvelára a noite, -espiando a resposta. Dera tento da chegada de seu primo Nicoláo. Ouvira -o dialogo na alcôva e na saleta. Até os soluços da franceza ouvira, -quando o morgado, fóra do quarto, expedia uns sons roucos da colera -que o afogava. Assim que Margarida desceu ao pateo, Ricardo saira pelo -quintalejo da estalagem, e fôra montar o cavallo, que tinha acautelado -de suspeitas em outra casa. Desgarrando da estrada, voltou ao Pontido, -e subiu á crista das fragas com o oculo, tremendo que a reconciliação -se fizesse entre Nicoláo e Margarida. Ora isto, se não era amor, e amor -á antiga, coevo talvez do castello senhorial do rico homem, não sei -dar-lhe nome, a não querer o leitor que isto fossem ciladas do demonio, -em conformidade com as interpretações de santos e doutissimos sujeitos. -Quer anjo, quer demonio que lhe instillasse no peito o nectar ou a -peçonha, o exacto é que Ricardo de Almeida apresentou a suas venerandas -tias D. Margarida Froment, sem dizer quem era, d’onde vinha, e para -onde ia. Caso unico no solar dos Almeidas. - -Perguntava D. Simôa ao sobrinho, em quanto D. Sancha entretinha a -hospeda suspeita: - ---Mas onde conheceste, menino, esta dama? Como veio ella parar aqui lá -d’esses mundos de Christo? - ---Sei que é um anjo: viria do ceu!--respondeu Ricardo. - ---Do ceu?!... Vê lá bem, menino! Olha que teu tio avô, o senhor bispo -de Coimbra, dizia que as mulheres assim galantes eram mensageiras do -inimigo. - ---Ora minha tia...--volvia o moço afagando-a.--Receba sem escrupulos a -pobre senhora, que é tão galante como desgraçada. - ---Então que tem ella, menino?--instava D. Simôa com malicia. - ---A sua alma pura, minha tia, não póde comprehender o mal que fizeram -a esta senhora. No entanto, eu responderei ás perguntas de vossa -excellencia assim que ella sair ao seu destino. - ---Mas...--redarguiu a velha--o mal que lhe fizeram has de remedial-o -tu?... - -Esta interrogação abona a sagacidade de D. Simôa; a innocencia não -direi, com medo de errar. As Sanchas e Simôas dos solares provincianos, -por via de regra, tinham tempo para tudo: tempo para Deus e tempo -para os primos. Cada uma tinha o seu frade que a absolvia e lhe dava -noticias de todas as devoções com indulgencia plenaria. A balança de -S. Miguel estava sempre no oiro fio com estas damas, que mortificavam -Deus e o demonio ao mesmo tempo. A Deus, sophismavam as velleidades com -as indulgencias do Espirito Santo; ao demonio faziam figas por sobre -as espaduas anchas dos frades respectivos. Se as donas do castello de -Aguiar tinham sido d’esta laia, não sei; asseveraram-me, porém, que -ellas foram enterradas de palmito e corôas de rosas brancas: isto diz -muito em credito d’aquellas senhoras. No tocante a cheiro de santidade, -as opiniões na freguezia divergem. - -Como quer que fosse, D. Simôa, n’aquella noite, inventou uma enxaqueca, -e recolheu-se á sua alcova. D. Sancha saiu da sala para ir ver a mana, -e voltou á sala com outra cara. O certo é que a franceza achou-se -sósinha á ceia com Ricardo, que estava odiando as velhas. - -Margarida sem presumir de aguda, entendeu tudo e condoeu-se do mal -abafado soffrimento de Ricardo. - ---Não se afflija por amor de mim--disse ella. Eu acceito o menos preço -de suas tias, sem azedume. Com que titulos se apresenta á estima de -duas senhoras desconhecidas uma mulher que viaja sósinha!?... Muito -sentida vou, se as delicadas attenções do cavalheiro o fizeram cair no -desagrado de suas tias!... - ---Eu sou independente, minha senhora--respondeu Ricardo.--Minhas tias, -n’esta casa, teem um pequeno patrimonio, e o direito de se retirarem -com elle. A minha emancipação começa de hoje. - ---Por Deus!--atalhou Margarida, simulando pesar.--Não dê desgostos -ás pobres senhoras! Olhe que ellas não fizeram mais do que fariam -quaesquer outras. Eu conheço um pouco a vida de provincia em França, -e creio que em Portugal é identico o modo de sentir. Recebem-se -sempre desconfiadamente as forasteiras, que se não recommendam logo -com appellidos heraldicos, nem denunciam pela libré de seus criados -procedencia illustre. Ambos peccamos por leviandade, mr. Ricardo de -Almeida: vossa excellencia errou em convidar a mulher que não póde -explicar honestamente a sua vida, e eu pequei em acceitar o convite, -como se a consciencia de maior dignidade me habilitasse a relacionar-me -com duas damas da alta nobreza e, a meu ver, das primeiras virtudes. - -A essencial feição da indole de Margarida Froment era a ironia; mas, a -compostura de rosto com que desfechava os remoques, não lh’a deixava -entre-vêr facilmente. Ricardo, pelos menos, recebeu como ingenua -a phrase laudatoria das virtudes de suas tias; e, sorrindo com um -tregeito especial de beiços, deu vislumbres de incerteza em quanto á -primazia das mesmas virtudes. - -O fidalgo ergueu-se de golpe, e tangeu uma campainha. - -Entrou á sala um escudeiro. - ---A criada de sala?--perguntou Ricardo. - ---Está no quarto das fidalgas. - ---Que venha aqui. - -Entrou a criada. - ---Conduza esta senhora ao seu aposento--disse Ricardo--e conserve-se no -quarto proximo, esperando as ordens que a sr.ᵃ D. Margarida lhe der. - ---Mas as fidalgas...--balbuciou a aia. - ---Ordenei!--atalhou o moço--e, voltando-se a Margarida, disse:--Quando -vossa excellencia quizer recolher-se... - ---Irei já; mas dispenso os serviços da sua criada--observou a franceza. - -Ao romper da manhã, Margarida estava preparada, como se recolhêra á -alcôva. Parecia ter chorado, e velado o restante da noite. Á mesma -hora, Ricardo mandava preparar os cavallos, e enfardar a sua bagagem. -Quando sentiu movimento no quarto da franceza, esperou-a na ante-camara -e disse-lhe: - ---Resolvi ir ver o Porto. Se vossa excellencia me consente, irei em sua -companhia. - ---Que mais posso eu desejar?--disse Margarida--Mas... eu vim trazer a -desordem a esta casa... Que pesar, meu Deus! - ---Veio apenas trazer uma noite de amargura a um homem que a présa -deveras, minha senhora. De resto, eu vejo melhor o mundo depois que -vossa excellencia aqui entrou. - -As velhas tinham sido avisadas dos preparativos do sobrinho. -Ergueram-se espavoridas e tresnoitadas a procurarem Ricardo. - -Pediram-lhe contas da sua inesperada resolução, e elle respondeu-lhes -com uma mesura de cabeça, e passou. D. Sancha exclamou, e D. Simôa -quiz ir á sala dos retratos accusar a degeneração do neto. Os retratos -teriam medo, se as vissem com os josésinhos côr de cidra enfiados pelas -mangas, e as estrigas do cabello estupentudas. D’ahi a pouco, ouviram -a estropeada dos cavallos no pateo, e o rugido do alteroso portão -rodando nos gonzos. Foram á janella e viram a franceza de par com o -sobrinho, e uma carga de bahus no seguimento da escandalosa cavalgada. -Desmaiaram-se reciprocamente nos braços uma da outra, e assim estiveram -até horas de almoço, depois do qual mandaram chamar os parentes -circumfusos nas proximas seis leguas. - -Lembrou D. Sancha que o primo Nicoláo de Mesquita, como homem que tinha -visto muito mundo, seria o mais habil para convencer Ricardo a fugir -dos braços da aventureira franceza, com quem se fôra por essas terras -fóra. Foi chamado o capellão para notar e escrever a carta e assignal-a -em nome das senhoras que não sabiam escrever. O egresso franciscano -fez uma exposição pavorosa do escandalo, citando, com referencia á -franceza, todo o mal que Santo Agostinho e S. João Chrysostomo haviam -dito das mulheres. - -Este periodo é notavel: - - ................................................. - - «Aqui tendes, caro sobrinho, o desdouro que a vontade do Senhor nos - reservava á nossa velhice. Uma forasteira, vinda de França, por - instigação de Satanaz, rouba-nos a menina dos olhos, o nosso Ricardo, - que tão humilde nos tinha sido até agora, e tão bem comportado, que - não consta em todas estas freguezias que elle botasse a perder filha - de caseiro. Suppõe a gente que elle arranjou esta tentação lá por - Villa Real, onde esteve quatro dias. Mas clama justiça do céo vir - elle com ella para esta casa, onde não ha memoria de entrar mulher - desconhecida! Chama-se ella Margarida, e pelo donaire e modos bem se - vê que é mulher affeita a correr mundo. Nunca vimos creatura com tanto - palavriado! Aqui ninguem nos póde valer como o nosso parente Nicoláo. - Lembrae-vos que sois do mesmo sangue do nosso Ricardo; pois que vossa - bisavó era irmã do bisavô do nosso sobrinho. Elle dizia que vós sois - um homem de grande entendimento e sabedoria, porque tendes experiencia - do mundo. Se estimaes esta familia, que tambem é a vossa, fazei-nos o - favor de ir a Villa Real, ou onde elle estiver com a tal aventureira, - e despersuadi-o do peccado e da loucura. Lembrae-lhe a honra da sua - linhagem, e trazei-o para sua casa antes que a franceza lhe derranque - a alma, etc.» - -Este é o periodo em que Sancha e Simôa choraram torrencialmente, e o -egresso tambem. - -Partiu um criado com a carta para o Vidago, ou para onde Nicoláo de -Mesquita estivesse. Do Vidago passou a Chaves, a procural-o em casa de -Martinho Xavier. Foi entregue a carta ao morgado de Palmeira, a tempo -que elle estava amollentando os asperrimos ciumes de Beatriz, informada -do encontro em Villa Pouca, pelo espião que mandára. Nicoláo tinha -inventado não sabemos que romances á conta da mulher, que o criado de -Beatriz affirmára ser linda como as estrellas e mocetona de uma vez, -modo seu de exprimir a maxima perfectibilidade da belleza mulheril. -A prima repellia desabridamente as humilimas explicações, que reviam -absurdeza, e deficiencia de estudo previo. Chegou, porém, a carta, com -a indicação de onde vinha. - ---Que me quererão estas serêsmas do Pontido? disse Nicoláo. - -Leu, e no decurso das duas primeiras paginas fradescas, resadas em voz -alta, interrompeu-se exclamando: - ---Que vem a ser isto?! - -Relanceou os olhos sobre a terceira pagina, e viu as palavras -_franceza Margarida_. Mudou de côr, e leu d’ahi em diante mentalmente. -Beatriz desconfiou, e foi, irreflectidamente, com liberdade de noiva, -e indelicadeza de menina que não ganhou no collegio premios de -civilidade, espreitar o dizer da carta. Nicoláo furtou-se á curiosidade -e augmentou a suspeita. A menina saiu da sala com arrebatamento, e foi -dizer ao pai: - ---Já não quero casar com o tio Nicoláo. (Já era tio!) - ---Porque, menina?! - ---Porque sim... É um infiel! - ---Ora, creança!... Saibamos isso por miudos. - -Beatriz contou o encontro com uma mulher em Villa Pouca, e o -recebimento da carta, que elle escondêra, depois de ter lido uma porção -d’ella a dizer mal das mulheres. - -Martinho Xavier riu-se dos amuos da menina, e foi entender-se com o -primo. - -Nicoláo, depois de se ficar pasmado uns tres minutos no periodo que -transladamos, quiz dispor as suas idéas, em ordem a conjecturar o -abstruso enlace de Margarida com Ricardo de Almeida, duas pessoas que -nunca se tinham visto. Este reparo denota que Nicoláo não conseguira -coordenar as suas idéas. Pois as duas pessoas não se haviam de ter -visto, ao menos quando uma era roubada pela outra? - -Respondia elle a esta pergunta do siso-commum, quando Martinho Xavier -entrou, dizendo: - ---Que vem a ser isto, primo Mesquita? A Beatriz está zangada. Que lhe -fizeste? que mulher é essa com quem estiveste em Villa Pouca? E essa -carta, em que se diz mal das mulheres que vem a ser? A pequena foi -dizer-me que não quer casar comtigo! - -Nicoláo reflectiu, e achou um miraculoso expediente de justificação. -Deu a carta a ler ao primo dizendo: - ---Eu duvidei contar a tua filha uma historia de honestidade muito -equivoca. Ahi verás que me chamam as tias Almeidas para reduzir o -sobrinho a deixar uma mulher que o perde. Esta mulher é a mesma que -veiu a Villa Pouca para captar a minha estima, e mover-me a induzir meu -primo Ricardo a casar com ella. Aqui tens, primo Xavier, como eu me -vejo enredado n’uma teia, que me faz malquisto de tua filha. Se queres, -explica-lhe tu o que é isto. Eu não sei fazel-o sem cuidar que ultrajo -o seu pudor. - -Martinho expediu uma sincera gargalhada, e exclamou: - ---Dá-me a carta, que eu vou pacificar a pobre menina. - -D’ahi a pouco, Beatriz entrou muito agraciada á presença de Nicoláo, e -disse, toda affagos: - ---O primo perdoa-me, pois não perdoa? - ---E, por amor do seu ciume, cada vez a adoro mais, Beatriz!--respondeu -o morgado ternamente. - - - - -V - - -Nicoláo respondeu ás tias Almeidas que as suas occupações o estorvavam -de ir moralisar o primo Ricardo. Consolava-as, porém, com a certeza de -que o sobrinho prodigo voltaria cedo curado da sua hydropisia amorosa, -depois de algumas sangrias copiosas nas algibeiras. O egresso, lendo -este paragrapho, exclamou: - ---Isto que elle diz é assim, fidalgas. O senhor Nicoláo bem se vê que -andou muito mundo! - -As velhas sentiram-se alliviadas, e accenderam velas de arratel a Santo -Antonio, e outros bem aventurados que privam na côrte celestial. - -Este acontecimento estupendo, passada a rija impressão do choque, deu -largas ao espirito do morgado. Mulher que tão facil e estupidamente -passára ao dominio d’outro homem, estava definida. Espinho de remorso -de havel-a abandonado seria baixesa e indignidade consentil-o na alma. -Arrependido estava elle de a não ter abandonado ha muito, por umas -verduras de pundonor, em que elle victimára seis escuros e dissaboridos -annos de sua vida. Tudo pelo melhor! Azavam-se-lhes as coisas para um -viver tranquillo e desapertado de responsabilidades e reminiscencias -perturbadoras. - -Cuidaram logo em tirar dispensa de parentesco para o casamento. Nicoláo -andava alegremente na faina de renovar as alfaias da casa de Palmeira, -e lustrar as velhas, que provavam as antigas pompas do solar dos -Mesquitas. N’este lidar, em que o coração tomava a melhoria do seu -cargo, o morgado remoçava, puerilisava-se, tinha tolices perdoaveis, -que Beatriz era digna de enlouquecer qualquer homem amado. As mulheres -lindas confessavam que ella era formosa: as mulheres são evangelhos, -quando tal dizem d’outra. E, alem de formosa, rica. Fidalga, está dito -tudo, se o timbre das armas de Fayões e de Palmeira, e das Olarias, -é o mesmo timbre dos Sousas Vahias cuja representante é Beatriz. Em -quanto a puresa, não ousariam os serafins esquadrinhar-lh’a. É o -elo interposto á flor e á estrella em materia de innocencia. Tivera -escassamente uma sombra de cortejo de seu primo Raphael Garção -Cogominho, decimo quarto senhor de Fayões. A bonina da serra não fica -mais pura, quando um cordeirinho a bafeja, do que ficou Beatriz com uns -beijos que lhe havia dado o primo nas faces purpurejadas. Afóra isto, -que é nada, o maná dos israelitas não choveu mais candido e impolluto -das amphoras do ceu. Assim se desculpa a exultação de Nicoláo nos -preparativos para os esposorios mais fallados e invejados d’aquella -redondeza. - -As pessoas que tinham visto os requebros de Beatriz por seu primo -Raphael maravilharam-se da transferencia, e mais ainda da conformidade -do moço de Fayões. - -Era este mancebo filho unico de paes opulentos, e o mais galhardo e -galan rapaz d’aquellas terras. Tinha peccados grandes, que os invejosos -das suas proezas desejariam esconder, se podessem. A humanidade, sua -conhecida, dividira-se em dois bandos: os homens contra, as mulheres -por elle. Raphael não se queixava; punha peito aos adversarios, excepto -o coração que esse andava repartido e desfibrado pelas defensoras. -Era coisa de prodigio a paz em que tantas odiando-se reciprocamente, -viviam com elle, e saiam a enristar, não lanças, mas linguas--as mais -perfurantes e contundentes armas conhecidas--em honra de Raphael Garção -Cogominho, quando algum barbaro desdenhoso lhe desluzia no garbo com -que esporeava o ginete a galões e trancos, ou na adamada denguice com -que requestava toda a mulher indistinctamente. - -E muitas o amavam, áquem e além Tamega, por essa Gallisa dentro. No -entender dos sisudos censores de seus maus costumes, faltava-lhe a -fibra susceptivel do coração que se doe das inconstancias d’uma mulher. -Em confirmação d’este juizo, depunha o ter ido Raphael para Hespanha em -seguimento de uma andaluza, que apparecêra na feira de Santo Antonio -em Villa Real, tocando pandeiro e castanhetas. Alguem conjecturou -que Beatriz accedêra a casar com o tio por despique do primo; varias -senhoras, no proposito de desdoural-a, affirmavam que ella optára -pelo mais rico, sem levar em conta a differença das edades, e os -dissabores futuros. Tudo isto eram vozes do mundo, que se banqueteava -em casa de Martinho Xavier e se enfrascava nos melhores vinhos a -brindar o prospero enlace do extremado cavalleiro de Palmeira com a -encantadora Beatriz. A verdade, porém, das rompidas intelligencias da -menina e de Raphael já está dita: fôra um brincar da borboleta com uma -flôr de madre-silva; mais lyrismo não tem anachreontica nenhuma, se a -anachreontica fôr das mais honestas. - -O morgadinho de Fayões nunca pensára em casar-se. Tinha então vinte -e quatro annos; muito dinheiro, muita saude, leitura de _Clarisse -Harlowe_, da _Nova Heloisa_, do _D. João_, e outros modelos de algozes -de corações. É o que elle tinha lido em dois annos que estivera em -Coimbra. - -Não obstante, a pureza da filha de Martinho Xavier enfreou-lhe a -indole; póde ser tambem que a desconfiança do pae lhe contraminasse -algum intento menos honroso. Disputal-a a Nicoláo de Mesquita, sem o -proposito de desposal-a, era um desaire; soffrer era uma semsaboria -indigna dos Tenorios e Lovelaces e Saint-Preux das suas leituras. -Felizmente que a andaluza lhe barateou um sorriso, e encareceu um -beijo na feira de Villa Real. Este duro osso do officio irritou-lhe a -vaidade. A hespanhola pareceu-lhe uma Esmeralda, como Victor Hugo a -encontrára inventada por um escriptor castelhano. Alli por Villa Real -andavam uns Claudios Froulos a quererem seduzir-lh’a. Esporearam-lhe -o ciume. Não havia que vêr. Seis mulheres bonitas de Chaves, dezenas -d’ellas do alto da provincia, duzias de galanteios incipientes e -decadentes, todas foram sacrificadas á funambula do pandeiro e das -castanhetas. - -Varias pessoas lamentaram a sorte d’este mancebo no banquete nupcial -de Beatriz e Nicoláo. Os mais penetrativos convivas olhavam de esconso -a noiva, e o marido tambem; todavia a menina escutava as lastimas como -se as não comprehendesse. O anjo estava como estrangeiro entre aquelle -gentio, que fallava a linguagem barbaresca das paixões deshonestas. - -No dia seguinte, os esposados foram para o Vidago, com grande comitiva. -No trajecto de tres leguas estoiraram constantemente bombardas e -foguetes. As festas continuaram na casa de Palmeira tres dias e tres -noites. A grandeza de quinze leguas ao sul, e tres ao norte, a entestar -com a Galliza, confluiu com suas librés a honrar a mais cheia lua -de ambrosia, que ainda tiveram noivos desde que as luas se ingerem -ridiculamente nos noivados. - -As senhoras do Castello d’Aguiar, tias de Ricardo, saiam da liteira a -visitarem o seu parente de Vidago, e a senhora D. Beatriz que ainda era -parente d’ellas, em razão de haver casado Mem de Sousa, em 1410, com D. -Briolanja de Almeida. Além da etiqueta, moveu-as ao sacrificio poderem -fallar do sobrinho Ricardo, e pedirem consolações ao homem experiente. - -D. Sancha, assim que o ensejo se lhe ageitou, rompeu em pranto desfeito -n’estes termos: - ---A felicidade que estaes gosando, sobrinhos, perdemos a esperança de -que o nosso Ricardo a venha gosar! - ---Que noticias tem vossa excellencia de Ricardo?--atalhou Nicoláo. - ---Não nos escreve o ingrato! Ha tres mezes que foi, e não voltou. - ---Pois não sabem onde elle foi parar com essa mulher? - ---Sabemos, sabemos... Estão no Porto. Ricardo tem escripto aos feitores -das quintas, a mandar ir dinheiro. Não fazeis uma idéa, sobrinho, do -dinheiro que tem ido!... Se assim vae, Deus nos feche os olhos antes de -o vermos empenhar os vinculos. Agora soubemos que elle mandou vender os -foros de Barroso por quatro mil cruzados, e a melhor quinta da Terra -quente! Haverá um mez que o senhor padre Ambrosio, nosso capellão, foi -de nosso mando ao Porto a ver se o convertia. Quereis vós saber, meus -sobrinhos, o que elle viu? Elle aqui está que o conte. Diga lá, senhor -padre Ambrosio. - -O egresso sibilou uma pitada, assoou-se, dobrou o lenço de -quadradinhos, embolçou-o na algibeira da batina, compoz o rosto, -ageitou as mãos sobre a proeminencia do estomago, e tirou estas -palavras do peito: - ---Assim que cheguei ao Porto, fui a casa das senhoras Noronhas, primas -de suas excellencias, para o fim de me ellas mandarem ensinar as ruas, -e a morada do fidalgo. Saíu comigo o capelão a indagações, e soubemos -que elle estava a banhos de mar na Foz, com a maldita estrangeira. -Aluguei um jumento, com o devido respeito, e puz-me a caminho para -a Foz. Eis que, á saída do Porto, vejo vir o senhor Ricardo n’uma -carroça descoberta, com a franceza á sua direita, e dois lacaios, um -adeante e outro atraz, sentados na dita carroça. Fiquei passado. Quiz -chamal-o, grudou-se-me a lingua ao ceu da bocca! Elle passou sem dar -tino de mim; e eu fiquei perplexo, verdadeiramente perplexo! Que hei -de eu fazer? Deixei ir o jumento, com o devido respeito: fui á Foz, -resolvido a esperar que elle voltasse. Teria eu andado obra d’um quarto -de legua, eis que ahi torna a carroça n’uma galopada, que parecia um -esquadrão de cavallaria. Parei. O senhor Ricardo viu-me, a carroça -pára, e elle diz: «Por aqui, padre Ambrosio? Isso que é?»--«Venho em -cata de vossa excellencia»--disse eu.--N’isto, saltou elle á estrada, -e apropinquou-se de mim, ajudando-me a desmontar, e perguntou-me: «Ha -novidade em casa? Morreu alguma das tias?» - ---Vejam que perverso aquelle!--interrompeu D. Sancha. - ---A perguntar se morremos!--accrescentou D. Simôa, com uma visagem de -quem promette viver muito. - ---Se vossas excellencias permittem, disse o padre Ambrosio, continuarei -a minha exposição. - ---Póde continuar, disseram unanimemente as velhas. - ---Não, excellentissimo senhor, não morreu, graças a Deus, nenhuma de -suas tias. Teem padecido muito, mas vivem para honra da familia dos -Almeidas. Temos que fallar largamente, senhor Ricardo. - -«Pois bem, padre Ambrosio», disse elle, entre na minha -carruagem.--«Muito obrigado, muito obrigado», disse eu. «Ha de -entrar»--teimou o fidalgo; e, pegando-me d’este braço, fez-me subir, -e sentar mesmo ao lado da franceza hombro com hombro. O senhoras e -senhores! eu suava por todos os orificios! - -Beatriz soltou uma convulsão de riso indomavel, Nicoláo de Mesquita -cravou os dentes nas borlas do chambre. As senhoras Almeidas pasmaram -do descôco de Beatriz. O narrador abriu a bocca, e ficou-se espantado. -Esse silencio, e estas visagens eram cócegas a nova casquinada de -Beatriz. A senhora ergueu-se de salto, e fugiu sala fóra com as mãos -nas ilhargas. - ---Ella de que se riu, sobrinho?! perguntou D. Sancha. - ---É flato, respondeu Nicoláo. - ---Ah! coitadinha! disse D. Simôa. Mandae-lhe fazer um chá de ortelã e -tilia. - ---Aquillo passa-lhe, tornou o morgado. Queira continuar, senhor padre -Ambrosio. - ---Vinha eu dizendo que... - ---Entrou no carro...--lembrou Nicoláo. - ---Justamente, e alli vamos nós por aquella estrada além, que eu não -sei para onde me levavam, nem dava tino de mim. Ia afflicto! Aquella -mensageira de Satanaz ao pé de mim! Nunca volvi o rosto para a ver! Que -diria o mundo, vendo um homem com estas vestes sacerdotaes, sentado á -beira d’aquella mulher! Eu levava o meu capote de camellão, puxei-o -para deante afim de esconder a batina, mas a cara havia de denunciar a -minha vergonha: eu ia como um pimento em toda a extensão da palavra! O -fidalgo perguntou se eu gostava de andar em carruagem. Respondi-lhe que -não e o demonio da franceza disse não sei que, lá na sua amaldiçoada -linguagem, e o senhor Ricardo riu-se. Eis que chegamos ao portão da -casa do senhor Ricardo. A mulher do peccado deu um salto para fóra, -que parecia um passaro a saltar, deixando ver os laços dos sapatos, e -umas fitas pretas encruzadas nos artelhos! Assim a vestira o inferno -para perdição das almas. Assim apparecia o demonio entrajado aos santos -da Thebaida! Porque a verdade ha de dizel-a minha bocca indignada: -Satanaz nunca fez mulher mais guapa para recrutar almas n’este mundo! -Eu tinha-a visto de passagem na casa do Pontido, quando ella pernoitou -lá, e achei que era bem composta de feições; mas agora d’esta vez -pareceu-me muito mais galharda. Nunca vi outra nem espero que os meus -olhos tornem a ver mulher assim!... Santa Maria Egypcia, e Santa -Margarida de Cortona, que eu já vi pintadas, quando eram peccadoras, -dou-lhes a minha palavra que não tinham tantos adornos infernaes!... -Vamos adeante. O senhor Ricardo levou-me a uma sala espaçosa, e toda -adornada de cadeiras de almofada, e ricos escabellos de seda. Fez-me -sentar n’um, em que cuidei que ia por elle dentro, e o fidalgo riu-se, -e explicou-me o caso, dizendo que o assento era de molas.--«Tudo -delicias do peccado!»--exclamei eu, erguendo-me; e elle, o perdido, -exclamou tambem: «delicias da civilisação, padre Ambrosio!» Então, -comecei eu o meu discurso, que levava meditado, e que não repito, -para não enfadar vossas excellencias. O meu discurso foi attinente ao -proposito de o accordar do seu lethargo. Citei-lhe o divino e o humano. -Invoquei as sombras illustres dos Almeidas, dos Mesquitas, dos Coelhos, -dos Pizarros, todos ascendentes d’esta nobilissima familia. Ouviu-me em -silencio. E quando eu esperava que dos olhos lhe rebentasse o pranto -da contricção, ouviu-se uma campainha, e elle, cortando-me o final do -discurso, disse: «padre Ambrosio, vamos jantar, que está na mesa.» -Escandalisei-me d’esta especie de mangação; e disse: «--Na casa do -impio não comerás nem beberás!»--São palavras da biblia santa. Peguei -na bengala e no chapéu para saír. Eis que elle me enrosca o braço no -pescoço, e diz: «Ha de jantar, que tenho que lhe dizer.» A resistencia -era impossivel, que o senhor Ricardo, desde menino, foi sempre despota. -E de mais a mais, eu estava a cair de debilidade, porque não tinha -comido ao almoço. Deixei-me levar. Eis que vejo a estrangeira sentada -á mesa! Vieram-me outra vez os suores. Fiquei sentado defronte d’ella. -Foi ella que me fez o prato, e me perguntou se eu queria mais. Comi -iguarias que nunca vi na minha vida! A sôpa não a pude levar. Tinha uns -pedacitos de animalculos, que lá chamam camarões. A maldita comia uns -bichos crus com sumo de limão! - ---Credo! exclamou D. Sancha. - ---Creio que se chamam ôstras!--continuou o padre, e teve logo de se -interromper, porque D. Simôa, engulhada com a descripção infanda dos -bichos crus, estava a luctar com o vomito. - -Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor -de amendoa, padre Ambrosio continuou: - ---Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle -jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de -um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo -levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia. - ---Por mim! disse Nicoláo. - ---Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossa excellencia tinha -casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava -n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu -uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado -pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o -sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim. -Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe -a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas -tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir. - -N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro -da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre; -mas o narrador repetiu ainda: - ---Palavras, que eu não me atrevo a repetir. - ---Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...--disse D. Sancha. - ---Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo. -Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que -meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia. - ---Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa -senhoria é um... não ouso dizer. - ---Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso -sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós! - ---E que havia de pagar dente por dente, e olho por olho...--ajuntou o -capellão. - ---Basta! interrompeu o morgado com desabrimento. Eu despreso o que esse -miseravel disse! - ---Mas que mal lhe fizeste tu a elle, primo? perguntou Beatriz. - ---Nenhum, minha querida. Que mal poderia eu fazer-lhe?! Agastaram-n’o -contra mim as expressões que escrevi a minhas tias com referencia -ao desatino d’elle. Bem! prohibo que em minha casa se deprima ou -se louve o homem que me insulta. Préso muito vossas excellencias, -minhas senhoras, mas não sei que lhes faça, nem ha que fazer contra -os desvarios de seu sobrinho. Quando elle voltar, eu irei pedir-lhe -explicações do epitheto com que me brindou. No entanto, peço que me não -perturbem a felicidade que devo a este anjo. - -E, dizendo, aconchegou do seio Beatriz, e ella, encostando o ouvido ao -seio esquerdo, disse admirada: - ---Com que força o teu coração palpita, primo! - - - - -VI - - -Acabaram-se os festejos no Vidago. - -Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára. - -Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros -e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas -amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada. -Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios. -Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe -adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do -Porto. - -Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do -resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para -todas as horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes, -honrada na consciencia propria e no conceito do mundo. - -Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não -esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições. - -Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis. - -Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao -inculpavel beijo de um primo. - -Para uma _fortuna_ desfalcada por grandes desbarates, um grande -patrimonio de filha unica. - -Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das -trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma? -Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas -se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama. - -Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado -restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e -faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de -Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da -insipida existencia dos senhores do Vidago. - -Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do -marido: - ---Tu és feliz? - -E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de -amarga ironia de si mesma: - ---Sou... - -O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma -aberta dizia ao genro: - ---Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens -estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo? - ---Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo -terreal--respondia o morgado. - ---E receiaes ser desgraçados lá? - ---Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos -vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a -solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se -á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não -engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves. - ---Não sei... murmurou Martinho. - ---Por que dizes que não sabes? - ---Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas -regalias da sociedade culta. - ---Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado, -renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um -conciliabulo de murmurações com as outras mulheres. - ---Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na -Inglaterra... - ---É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier. - ---Não é isso... - ---Então que é? - ---É o estares gasto, primo. - ---Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua -filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz? - ---Não: pelo contrario, diz que tu a adoras. - ---Pois bem: que outro galardão querias tu como pae? - ---Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta -serenidade desfeche em fastio... - ---Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da -sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher. -Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou -Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e -accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a -patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier. - ---Está bom...--murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os -hombros, fechando as palpebras. - -Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto -desbotado da filha. - ---Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente. - ---Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece -que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias -e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a -agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos -domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa -vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o -reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear, -e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente -muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui -mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá, -e da nossa casa, e das minhas amigas! A Therezinha Pizarro fala de -mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa -da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a -Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael? - ---Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella -cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze -dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado -para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade, -e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido -desmarcado! - ---Elle falou-lhe de mim? - ---Falou; perguntou-me se estavas contente. - ---E o pae que lhe disse? - ---Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima. - ---Fez bem. Não quero que elle se vingue. - ---Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio? - ---Não... mas... - ---Explica-te. - ---O pae bem sabia que elle me fazia a côrte. - ---Uma brincadeira... - ---Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle. - ---Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com -quem casar... - ---Quem sabe!... - ---Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo -leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de -todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrando -todos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter -pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma -tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá -louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares -com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo -casamento. - -Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete -cotovellos. - ---Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle. - ---É admiravel! - ---Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras -francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes -ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra, -duzentas e tantas variedades. - ---Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho. - ---Ora essa!--acudiu Nicoláo.--Se deixavamos a nossa casa para ir ver as -paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas -estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais -para se ver na copia que no original! - ---Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos--replicou o -fidalgo flaviense. - ---Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o _D. José_, da -memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da memoria. -Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos -Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita, -que me perguntava se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres -pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha -bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram -repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final. -Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher? -Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão -subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia, -surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume. - ---Está decidido que não saes de Vidago--retorquiu Martinho. - ---Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se -Beatriz o exigir. - ---Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...--disse a -senhora. - -Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse: - ---Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido... - ---Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo. -Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido? - ---É conforme...--atalhou Nicoláo.--Pois sim, iremos a Chaves. - ---Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando -conformidade. - ---Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e -contrariado. - ---O que fôr da tua vontade--respondeu ella affavelmente, sopesando o -despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir. - -De feito, ao outro dia partiram para Chaves. - -Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella -do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe -a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da -infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus -amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz -escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o -coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então -era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do -seio angustiado. - -Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella -afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que -tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura -sorte a havia creado o pae com tanto mimo. - -Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e -contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi -Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse, -para no dia seguinte voltar a Palmeira. - -Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias -parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia -do pae, pretextando impedimento de saude. - -Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção -entrou, vindo de Basto. - -Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando: - ---Como está mudada, prima! - -Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr. - ---E eu que a considerava tão afortunada!--tornou Raphael. - ---E quem te disse a ti que ella o não é?!--interveiu Martinho Xavier, -de má sombra. - ---Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da -alegria!--respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron. - ---Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...--contrariou -Martinho. - ---Isso não sei--contraveio o morgado de Fayões. - ---Sei eu. - ---Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve -doença, tornou Raphael. - -Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou -tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto. - -Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que -providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não -edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja -perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito. -O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal -n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto -me querer ingerir n’um cantinho d’este romance. - -Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma -visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe -a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em -caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o -coração para receber as lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama, -e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades. - -Concentrou-se. - -Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse, -mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A -precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a -saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença -de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia -empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel -desgraça. - -Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e -trocavam expressões vãs. - ---Porque soffres, prima?--perguntava elle. - ---Eu não soffro. - ---Mas que tristeza é essa? - ---Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo? - ---Nada, Beatriz. - ---Mas estás tão pensativo!... - ---Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria -não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu -casei tarde para lhes achar prazer. - -O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o. - -E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva -suffocada. - -Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo -mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e -viu intacto o almoço. - ---Porque não comes?--perguntou elle. - ---Não posso--respondeu seccamente a senhora. - ---Queres que chame um cirurgião? - ---A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a -morte. - -Nicoláo riu-se sarcasticamente. - -Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para -abafar soluços. - -O marido contemplou-a com azedume, affastou-se. - -Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora. - -Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment! - - - - -VII - - -Saudades de Margarida Froment? - -A pergunta póde abonar a candura, mas não abona a experiencia de quem -se dignou fazer-m’a. - -Saudades de Margarida, porque havia sido amada apaixonadamente. - -Porque era ainda bella, quando foi abandonada. - -Porque houvera um homem que a tomára despresada nos braços, e a -mostrava ao mundo com soberba de a possuir. - -Porque esse homem era moço, gentil, fidalgo, e requestado das mais -extremadas formosuras da provincia. - -Porque esse homem, em vez de escondel-a nas sombras d’umas arvores, -galeava pomposamente com ella, offuscando os olhos pavidos da moral -publica. - -Porque Margarida tinha prodigiosas graças, de que Nicoláo se estava -lembrando agora. - -Porque Margarida, sobre ser espirituosa, era um talento que bastava a -entreter e lisongear o mais cubiçoso espirito. - -Porque Margarida lhe havia sido leal até o momento de ser -grosseiramente repellida. - -Porque chorava, quando elle cruamente a odiava. - -Porque era bella, digamol-o segunda vez, porque era bella. - -E mais que tudo, porque era de outro. - -Aqui estão os _porquês_ da miseria do coração de Nicoláo de Mesquita, -barro commum da humanidade, miseria deploravel, que importa chorarmos -todos, por ser nossa a miseria, e não sabermos como se póde com lodo e -lagrimas reconstruir uma coisa melhor do que a fez o Creador. - -Peregrina belleza era Beatriz; esposa casta e paciente nenhuma se -lhe avantajava; mulher para o ideal, e anjo para a sensação, nenhuma -como ella; virtudes, graças, lagrimas do seio sem macula: tudo que -mais prende o amor, e a misericordia quando o amor se extingue; tudo -superabundava na esposa de dezesete annos; mas Beatriz era de Nicoláo -indissoluvelmente, e Margarida estava sendo de Ricardo. - -Que repulsivo confronto entre as duas mulheres! - -Que mal premiada a honra, sujeita a comparações tão aviltantes! - -Ora, a saudade do morgado da Palmeira excruciava-o. Era um ferro -candente a fistular-lhe as entranhas. Da quinta do Porto, onde se -anojára cinco annos, recordava-se como Lucifer do ceu. Parecia-lhe -que Beatriz era o archanjo do montante de fogo, a repulsal-o -eternamente das delicias do coração. Fugia de si mesmo como corrido -de sua ignominia. Punha os olhos supplicantes no oratorio de sua mãe. -Apertava ao seio a esposa, como se esperasse apagar a flamma infernal -em contacto da mulher pura. Margarida arrancava-o pelos cabellos -dos braços da esposa, arrastava-o até se assentar com elle n’alguma -amenidade das florestas, e ahi lhe dizia as phrases embriagantes dos -primeiros mezes da sua paixão em Bruxellas, ou, debulhada em lagrimas, -se queixava da ingratidão com que elle desamparára a mulher, por amor -d’elle perdida, sem amigos, sem marido e talvez sem pão. - -Era um supplicio expiador! Nicoláo conheceu que era preciso Deus para -a misericordia, logo que lhe reconheceu a mão no peso do castigo. Não -bastava o amor desesperançado: cumpria que o remorso lhe envenenasse o -sangue: remorso de infamar um amigo e de lhe atirar ao gozo dos homens -a mulher infamada! - -Tinha momentos de contemplal-o com pavor Beatriz. Falava-lhe, e elle -estremecia, articulando desatinos. Punha-lhe a mão no rosto abrazeado, -e elle repellia os afagos, e voltava depois a procural-os, chorando. - -Beatriz mandou secretamente chamar o pae. - -Assim que Nicoláo presentiu Martinho Xavier no pateo de sua casa, saiu -enraivecido, e voltou depois envergonhado da sua raiva, sem dar tino da -razão da fuga nem da vergonha. - -A attribulada senhora contára ao pae a incomprehensivel agitação do -marido. Martinho chorava abraçado á filha, quando Nicoláo entrou. O -lance foi acerbo! Nicoláo acercou-se de ambos, abraçou-os, e disse com -voz balbuciante: - ---Eu fiz a vossa desgraça e a minha. Perdoae-me! - -Beatriz condoeu-se. O pae levou-o nos braços á sala immediata, -gesticulando á filha que os não seguisse, e perguntou: - ---Isto que é, primo Mesquita? Que mal te fazemos nós? - ---Queixei-me eu de ti ou de Beatriz?--disse maviosamente o morgado. - ---É arrependimento de te haveres casado? - ---É... Arrependimento de infelicitar a tua filha digna de uma alma -estranha aos vicios e ás villanias atrozes. - ---Pois bem, Nicoláo... remediemos o remediavel. Se a presença de minha -filha te atormenta, eu levo-a para minha casa, que tambem é tua e -d’ella. Se o amor tornar, vae buscal-a; se, sem Beatriz, viveres mais -tranquillo, ella que fique em Chaves. - ---Não!... atalhou o morgado.--A minha desgraça não se remedeia assim, -nem d’outro modo. É um anathema! e um calix intransitivo. Hei de -bebel-o trago a trago!... - ---Santo Deus!--acudiu Martinho Xavier--que segredo é esse da tua vida? -Se eu te visse na sociedade, cuidaria que te apaixonaste, primo! E -então appellaria do teu coração para a tua honra. - ---E se eu não tivesse honra!...--exclamou Nicoláo, e saiu -impetuosamente da sala. - -Martinho perguntou á filha: - ---Teu marido recebe cartas suspeitas? - ---Não, que eu saiba, meu pae. Recebe jornaes, e raras vezes tem cartas -de França. - ---E essas cartas sabes o que ellas conteem? - ---Sei, porque são de um portuguez, e nada dizem de suspeito. Só, aqui -ha tempos, li uma, que falava n’uma Margarida, e entendi que era a -franceza do Ricardo de Almeida. Vim a saber que ella era casada, porque -diz assim, pouco mais ou menos: «o marido de Margarida está gordo e -devasso; e desforra-se.» Não percebi isto, nem me importou. Perguntei -ao primo se a tal franceza era casada, e elle respondeu-me bruscamente -que não sabia, nem eu me devia importar com as cartas que elle recebia. -Porque me pergunta o pae se elle recebe cartas suspeitas? - ---Nada, filha. - ---Desconfia que elle ame outra mulher!--instou ella alvorotada. - ---Desconfiei. - ---É impossivel! exclamou Beatriz--Quem hade ser? Aqui ninguem vem; nós -não vamos a parte nenhuma. - ---Então que suppões tu d’esta pasmosa torvação de teu marido? - ---Que me aborrece. - ---Não é assim. - ---É, meu pae. Elle não póde deixar de sentir por mim o que eu sinto por -elle. - ---Pois não o amas, Beatriz? - ---Como hei de eu amal-o n’este martyrio? Sabe lá o que eu soffro ha -dez mezes! E então, nos ultimos tres, não tenho refrigerio... Uma hora -abraça-me, outra repelle-me. Já temi que elle endoudecesse... Meu -pae,--proseguiu ella com vehemente fervor de supplica--tire-me d’aqui, -leve-me para si, restitua-me uma parte da satisfação que eu tinha de -viver, antes d’esta fatalidade! - ---Paciencia por alguns dias, filha!--replicou o pae enternecido -a pranto.--Isso não póde ser assim. O mundo assacaria aleivosias -deshonrosas para todos. Já agora tem força por mais algum tempo; é o -teu bom pae que t’o pede. - ---Terei--disse resignada Beatriz. - -Martinho deteve-se alguns dias no Vidago e saia com frequencia a longos -passeios de cavallo com o genro. Da mesmeidade dos annos, da amizade -da infancia e sobre tudo da necessidade da expansão, resultou que o -morgado da Palmeira, n’um d’aquelles passeios, communicasse ao primo -os pormenores todos da sua angustia. O assombro de Martinho Xavier foi -afflictivo. Pôde muito comsigo que não lançasse em rosto ao marido de -sua filha a protervia, a perfidia, a villania com que tramára o engano, -do encontro com a franceza em Villa Pouca; e mais ainda o villipendio -do emparelhar o amor de sua filha com o de uma collareja transmissivel -de homem para homem. Era santa a indignação do pae! - -Ouviu-o silencioso, e apenas lhe disse: - ---Vence-te, se poderes; se te não poderes vencer, dá-me minha filha, -e vae disputar essa mulher a teu primo Ricardo, que eu creio que lh’a -tiras; e elle ou outro, quando estiveres saciado, t’a virão tirar. - -Nicoláo pungiu-se e arrependeu-se da revelação. - -Exigiu-lhe o juramento de calar o segredo a sua mulher. Martinho Xavier -respondeu: - ---Quando se trata de affrontar minha filha, escuso de jurar que não hei -de affrontal-a. O que te peço é que a deixes ir estar quinze dias em -minha companhia. - ---Pois sim, mas dispensa-me de acompanhal-a. Espero que a solidão e -meditação me curem. Logo que eu me sinta mais tratavel, irei buscal-a, -e passarei comtigo algumas semanas. Iremos todos a Madrid; eu mudarei -de vida, entrarei outra vez no mundo; e darei á minha pobre Beatriz o -contentamento que lhe roubei. - ---Deus te ouça!--exclamou jubilosamente Martinho Xavier. - -Beatriz cuidou de abafar de alegria, quando o pae lhe noticiou a ida. -Tratou de emmalar os seus adornos com tal prestesa, e de tamanho -afogadilho, que de sobra denotava a levesa dos dezesete annos, e a -facil transposição do seu espirito da dôr para o contentamento. Nicoláo -despediu-se d’ella com os olhos a reverem lagrimas. Os de Beatriz nem -de leve se marejaram. Partiram. - -N’este mesmo dia abriu Nicoláo de Mesquita a _Coalisão_, jornal -portuense, e, acaso, relanceando a vista ao folhetim, depararam-se-lhe -as palavras _Margarida Froment_. Leu o folhetim, que se intitulava: - - -Á BEIRA-MAR - -Era uma mescla de verso e prosa, consoante o gosto dos litteratos -amphibios d’aquelle tempo. Começava assim n’este estylo fraldoso e -apopletico, vulgarmente chamado biblico: - - «......................................... - - «E o teu cantar é saudoso como o das filhas de Israel ás abras das - aguas plangitivas do Euphrates. - - «E as harpas eolias gemem bafejadas por teus labios, como a cythara de - Saul. - - «Oh Agar, sentada nas areias estuosas do deserto de Berzabé! Canta, - canta, oh filha das lagrimas! - - Ai! quantas vezes, ó triste, - Esse teu amargo pranto - Desafogaste no canto! - Ai! quantas vezes sentiste - Mais precisão de chorar!... - Ai! canta, canta, que ha lagrimas - No teu dorido cantar! - - ............................................. - - Ao cantar te acode a infancia - Com seus sorrisos e flores; - Feres notas que te falam - Como falavam amores, - Outras são gemidos d’alma; - Mas todos teem seu gozar! - Ai! canta, canta, anjo triste, - Quando quizeres chorar! - - ............................................. - - «E o archanjo d’aquelles hymnos tem sobre a terra um nome. Na - linguagem de homens chama-se _Margarida Froment_; mas, nos archivos do - céu, o nome que tem é _Martyr do Coração_. - - «Por que o teu seio foi alanceado fibra a fibra pelo primeiro precito, - que te esculpiu um anathema na fronte, onde os raios fulgidos do sol - desciam a roubar seu esplendor! - - «E esse maldito de Deus feriu-te na aza de anjo, ó pomba dos paramos - olympicos, e tu caiste ao tremedal da humanidade. - - «Ó Margarida! quem sabe ahi dizer sobre a terra a alegria das tuas - angustias! - - «E eu vi-te por uma d’essas noites esplendidas, como as sonha o arabe - no dulcissimo torpor dos seus magicos narcoticos! - - «Illuminava o inferno d’este mundo, oh houri, enviada pelo Deus dos - ismaelitas. - - «A tua belleza era o arrebol matutino. - - «E os teus olhos afuzilavam torrentes electricas como os relampagos - abertos da mão de Jehovah nas cumiadas do Sinay. - - «E os teus labios desprenderam um cantar, cuja maviosidade fazia - chorar os anjos no ceu, e os demonios no inferno. - - «E o homem, que te havia roubado aos braços do esposo, esse não - chorava, porque uma aragem da região glacial das trevas lhe tinha - congelado as glandulas, e o sangue nos pulmões, e fizera d’aquelle - coração um cinerario hediondo, como os pomos de Pentapolis! - - «Oh Margarida, que dôr será a tua, insondavel e immensissima, quando o - coração te paira por terras de França, e vês a mãe que te carpe, e o - marido que aperta ao seio o inutil punhal de sua vingança!... - - «Ai! canta, canta, que ha lagrimas - No teu dorido cantar! - Ai quantas vezes sentiste - Mais precisão de chorar... - Ai! canta, canta, anjo triste!» - - ............................................. - -Seria crueza dar a copia integral do folhetim, que ao deante, era muito -mais puxado do peito, e menos intelligivel. - -O poeta datara-o na Foz em outubro de 1840. - -Uma local do mesmo numero da gazeta, dizia: - - «_Á beira-mar._ Com este titulo publicamos hoje um folhetim de um - nosso amigo, que tão brilhantemente se estreia. As letras patrias - devem esperar d’este mancebo fructos tão sasoados quanto as flores - são bellas. Á parte o talento senão genio, do mavioso poeta, devemos - confessar que o motivo de sua inspiração não podia sair com menos - de uma obra prima. Tambem nós tivemos a honra e o jubilo de escutar - hontem á noite a voz melodiosissima de mad. Margarida Froment, dama já - conhecida por sua belleza e intelligencia. Agradecemos cordealmente - ao cavalheiro Ricardo de Almeida o convite que nos proporcionou - ajuntarmos o nosso brado de admiração ao de tantos, que se gosaram o - prazer de ouvir a hospeda de sua excellencia. Do folhetim do nosso - jovem amigo infere-se que ha profundas e ao mesmo tempo sublimes dôres - no coração d’esta senhora. Ai da consciencia do refalsado caracter que - privou a sociedade de uma gloria! - - «Que o mundo é inexoravel com as desgraçadas, que, ainda abatidas do - ceu, roçam as nuvens com a fronte. Silencio! Saudemos o formoso anjo - da harmonia, e não perguntemos a Deus por que não teve mão d’esta - filha querida, ao despenhar-se!» - -Nicoláo de Mesquita leu a chorar as ultimas linhas d’esta noticia. - - - - -VIII - - -Ricardo de Almeida sentiu no seu braço o tremor do braço de Margarida, -quando, por noite de lua cheia, passeiavam á Beira-Douro, no sitio de -Sovereiras, em S. João da Foz. N’aquelle relanço perpassára por elles -um encapotado. - -A franceza vira uns olhos faiscantes por sobre a fimbria avelludada -da capa: eram os olhos de Nicoláo de Mesquita. Voltára o pescoço para -observar-lhe o andar: reconheceu-o. - ---É o Mesquita! murmurou ella assustada, amiudando o andar. - ---Devagar! disse o fidalgo do Pontido. Que importa que seja?! - ---Dizes bem... Que importa que seja? - -Nicoláo voltára no encalço d’elles apertando o pé. Ricardo de Almeida -deu tino d’isto, e affroixou o passo. Margarida tirava por elle com -força. - ---Que significa este medo? perguntou o moço, offendido da inquietação -da franceza. - ---Nada, meu amor, disse ella. - -Ricardo parou, e Nicoláo foi ávante. - ---Queria vêr-te indifferente á apparição d’este homem! observou Ricardo -com intenção, e gesto magoado. - ---Creança! ciciou ella com encantador sorriso. A indifferença é o -despreso, e eu odeio. - -Entraram silenciosos em casa, e viram ao longe o vulto na esplanada que -entesta com a fortaleza. Ricardo saiu rebuçado e armado. O do Vidago já -lá não estava. Deteve-se o indiscreto cioso nas travessas visinhas de -sua casa. - -Eram onze horas. - -A franceza abriu as janellas, sentou-se ao piano, e cantou uma romança -franceza. As vibrações da voz eram desnaturaes. Havia a paixão da -saudade n’aquelle cantar. - -Nicoláo de Mesquita escutava-a da janella do hotel, e Ricardo da -escuridão de uma viella intransitada. - -Calou-se a voz. - -O marido de Beatriz sentou-se a escrever a quinta folha de uma carta a -Margarida. O castellão de Aguiar foi de manso, por sobre tapetes, até -ao piano de Margarida, e surprehendeu-a com os cotovellos apoiados no -teclado, e o rosto entre as mãos. Tocou-lhe no hombro: ella expediu um -grito argentino como a mais alta das notas que acabava de cantar, e -surriu-se por lhe ser mais prompto o riso que as lagrimas. - ---Tu amas Nicoláo? perguntou Ricardo com uma precipitação infantil. - ---Que semsaboria! disse Margarida, e abaixou a fronte carregada. - ---Porque estás triste? Que recordas? - ---O tempo em que eu era feliz, meu amigo. - ---Com Nicoláo? - ---Não: com minha mãe, com meu marido, com a estimação propria, e com a -estimação do mundo. - ---E é Nicoláo quem te desperta essas recordações? - ---Naturalmente... Foi elle quem tudo me roubou. - ---Então não o amas? voltou elle com muita ternura, beijando-lhe as mãos. - ---Nem que elle me restituisse tudo o que perdi. - -No dia seguinte, o jockey de Nicoláo apresentou a Margarida, na -ausencia do amo, uma carta volumosa. - ---Quem te deu isto? perguntou a franceza. - ---Um criado do hotel inglez. - -Margarida leu as vinte laudas; quando a vista se lhe turvava, depunha -a carta e enxugava os olhos. Finda a leitura, escreveu na margem da -ultima folha: _Esta carta é o prefacio da minha vingança_. Lacrou-a e -devolveu-a pelo jockey, dizendo: - ---Se trouxeres outra, envio-te com ella a teu amo. - -Assim que Ricardo entrou, Margarida foi cariciosamente aos braços -d’elle, e disse: - ---Vamos. Tens medo de fraquear, Margarida? - ---Não. Se eu podesse fraquear, a mudança de terra seria debilitar-me, -em vez de robustecer-me. - -Na tarde d’este dia, Nicoláo de Mesquita viu passar em carro Margarida -e Ricardo, caminho do Porto. Esperou-os no regresso até noite alta. -Era uma cabeça perdida, a esta hora, a do miserando homem! Sabia que -tinha duas pistolas entre mãos, e que sobre sua cabeça ia estalar a -maior e ultima tempestade. O alvor da manhã bruniu-lhe o rosto livido -de um verniz embaciado de cadaver. Ao raiar do sol foi para casa, que -Margarida e Ricardo não voltaram. - -Ás dez horas, estava febril no leito. Na sala do hotel, proximo do seu -quarto, conversavam algumas vozes. Eram cavalheiros da provincia. Dizia -um: - ---O Ricardo e a franceza embarcaram para Lisboa ás nove horas. - ---Gasta como um principe o transmontano! - ---Que fortuna tem elle? - ---Dizem que está vendendo. - ---A mulher vale bem a pena de gastar-se a fortuna, e ficar a gente com -a doce recordação de a ter tido a ella. - ---Não pensou assim Nicoláo de Mesquita, o antigo possuidor. - ---Nunca vi esse leão. - ---Conheci-o eu. Foi elle quem a tirou ao marido. Teve-a por ahi com -modesto recato. Depois, foi casar-se na provincia com a mais bonita -creança que os meus olhos viram em Chaves, e nas primeiras cidades da -Europa. Aquillo é que é saber viver! - ---Mas a Margarida Froment é uma grande mulher!... confessem!... - ---Confessamos, mas quem a faz maior é o patavina do Ricardo! Estas -_soirées_ que elle dá são de um ridiculo monumental! Apresentou-m’a -como sua hospeda! Que baboseira! A gente faz-se tola, e vae ser -apresentado á hospeda... - ---Assim é que se faz o escandalo por grosso. - ---Quando elle tiver vendido as ameias de um castello, que tem na -provincia, a hospeda muda de hospedaria. - ---Tomáras tu que ella mandasse preparar aposentos em tua casa... - ---Pagando-m’os. - ---Maganão! por tua vontade não espera ella que o Ricardo venda os -torreões do solar dos _Almeidas por quem sempre o Tejo chora_... - ---Era publica e notoria a tua paixão. - ---Gostava d’ella: não ha nada mais humano. - ---Mas parece que não mareaste bem n’aquelle rumo... Foste a pique, eim? - ---Ha derrotas que são triumphos. Fez-me o favor de me offerecer a sua -amisade fraternal. - ---Que irmã! É uma honra ser irmão d’aquella Margarida... - ---Confessemos que a mulher é leal. Ave rara n’esta terra! - ---E mais rara nas aves arribadas de França. - -O fallarío proseguiu. Nicoláo ouvira tudo encostado aos alisares da -porta. - -Entrou um novo interlocutor, que foi muito festejado. Era Raphael -Garção que chegava de Chaves. - ---Aqui está quem conhece Ricardo de Almeida... Sabes que elle foi hoje -para Lisboa com a franceza? - ---Foi! ó diabo! eu vinha conquistar a franceza! disse Raphael. Nunca a -vi! E eu não posso ser mais que Cesar. É preciso vêr para vencer; por -em quanto, apenas fiz o que pude: cheguei. - ---Vens mal informado! É de uma fidelidade, que toca o limite do -escandalo. Vinhas a isso? - ---Algum de vossês conhece Nicoláo de Mesquita? perguntou Raphael. - ---O antecessor de Ricardo?... - ---Como antecessor de Ricardo?! Que tem a franceza com o Mesquita? - ---Estás em dia!... Pois não sabes que o Mesquita veio de França com -esta mulher? - ---Na provincia ignora-se essa coisa... Pois... Vocês teem a certeza...? - ---Vi-os eu no Porto, em 1834 até 1839. Isto é do dominio universal -desde a rua da Reboleira até á viella de Fradellos, na cidade invicta! - ---Sabem se elle está por ahi, o Mesquita? - ---Não. - ---Deve estar, e eu vim procural-o. Saí de Chaves a buscal-o em casa. -Disseram-me que elle tinha saído para Villa Real. Em Villa Real tive -noticias que elle passára em Amarante. Em Amarante disseram-me que o -tinham encontrado em Baltar. O homem está aqui e agora me convenço de -que a franceza não é estranha a esta mysteriosa jornada. Pobre Beatriz! -Lembras-te d’aquella minha prima que te mostrei em Chaves, Albuquerque? - ---Ainda ha pouco falei d’ella. Que linda mulher! Já sei que ella casou -com o Mesquita. Não lhe fazias tu a côrte n’aquelle tempo? - ---Amei-a com o unico amor nobre e santo que tenho experimentado; mas, -como tudo que é nobre e santo não apega n’esta lama do mundo, assim que -a vi despregar o vôo para as serenas regiões do matrimonio, agarrei-me -ao pandeiro de uma andaluza, e fui terras de Castella dentro, em -conquista d’aquelle gallego coração, que só me comprehendeu, depois que -eu lhe mostrei um _porte-monnaie_ maior que o coração. Quando voltei, -achei minha prima casada com o primo Nicoláo. As melhores flores -d’aquelle rosto estavam amortecidas; mas ainda assim, não sei de outra -mais linda. Ha de haver seis dias que cheguei a Chaves, e encontrei -grande agitação em casa do tio Martinho Xavier. Era Beatriz que estava -em perigo de vida a lançar golphadas de sangue... - -Abriram-se de golpe as portas de um quarto, e appareceu Nicoláo de -Mesquita, com as faces incendidas e os cabellos descompostos. Volveram -todos áquelle ponto os olhos, e Raphael Garção vacillou em reconhecel-o. - ---O sr. Raphael Garção pode entrar no quarto de Nicoláo de -Mesquita--disse o morgado n’um tom solemne, que pareceria ficção -theatral, se elle não estivesse febricitante. - -O de Fayões entrou como espavorido d’aquelle aspecto esgazeado. - ---Minha mulher que tem? perguntou Nicoláo com a respiração anciada. - ---Não a vi. Encarregou-me o tio Martinho de procurar o senhor Mesquita, -e dizer-lhe que a prima Beatriz estava em perigo. Quiz desempenhar o -recado, e vim dar-lh’o ao Porto. - ---Eu parto sem demora. O senhor Raphael Garção vae dar-me sua palavra -de honra de occultar de minha prima que me encontrou aqui?--disse -solemnemente Nicoláo. - ---É escusada a solemnidade do juramento, senhor Mesquita. - ---Dirá que me foi procurar á quinta da Murça. - ---O que vossa excellencia quizer que eu diga. - ---E, se ella tiver morrido, meu Deus! exclamou o morgado. Pois o ceu -ha de castigar-me assim, por eu não saber esconder n’este perdido -coração aquelle anjo! Oh!... que infernaes abysmos eu tenho cavado em -redor de mim!... Hei de afinal despedaçar-me, como aquella maldita -vaticinou!... Alli fóra, senhor Raphael, contaram-lhe o meu opprobrio! -Não sabe, não sabe que aviltada alma é a minha!... Eu vim aqui por amor -de uma mulher perdida, que passeia orgulhosamente a sua devassidão á -luz do sol. É uma condemnação de que não póde salvar-me a mulher sem -nodoa, a doce e celestial creatura, que eu amo tanto!... Deus não -m’a ha de levar! Tão nova e tão linda!... Como eu a adoro, senhor -Garção!... Creia que eu amo minha mulher com o ardentissimo fogo de um -remorso, que me está sendo a tortura dos reprobos!... - -Raphael ouvia-o espantado. A gesticulação e o cavernoso do clamor -impressionavam; mas Raphael era futil de mais para ponderar a ingente -dôr, que se desentranhava em termos de tragedia velha. - -O leitor naturalmente faz o que não fez o frivolo morgado de Fayões; é -capaz de rir-se, e perguntar-me que especie de doidice é a de Nicoláo -de Mesquita. - -É uma especie de doidice, que se chama a razão humana. Á gente de juizo -pode offendel-a a resposta paradoxal; mas os philosophos, que tambem -são uma especialidade de doidos, hão de admittir-m’a em sã e escorreita -dialectica. - -Levantemos o véu, onde elle não estiver roto, de sobre o coração do -morgado da Palmeira. - -Chegára elle da Foz com a alma lanhada de remorsos, e a cabeça -estonteada de uma vertigem de amor. Estas duas paixões exacerbavam-se -uma á outra. Sem a saudade o remorso seria chimera. - -Margarida, era, ou parecia, feliz: despontaram-se logo os espinhos do -remorso. Ficou o amor. Repelliu-o Margarida devolvendo-lhe a carta com -um sarcasmo: esvaiu-se o amor. Logo, nem amor, nem remorso. - -Outras duas paixões o assaltearam logo: o orgulho e o rancor. -Estas paixões queria Nicoláo de Mesquita desabafal-as pelas boccas -das pistollas; porém como as victimas se furtaram á hecatomba, -sobrevieram as agonias da vingança mallograda, e logo a febre. -Ora, desde que as doenças moraes se consubstanciam no corpo e se -submettem ás prescripções da pathologia medica, a individualidade -da alma anniquila-se, e a paixão, degenerada em desconcerto dos -systemas sanguineo e nervoso, ou se cura medicinalmente, ou mata, -com o pseudonymo de congestão cerebral, febre typhoide, ou qualquer -nomenclatura significativa de que a pessoa sem duvida nenhuma, está -bem morta. Os convalescentes d’estes ataques--e raros são os que -succumbem--assim que o sangue lhes funcciona normalmente, sentem-se -por egual alliviados de alma e corpo. A vertigem, que os quebrantou, -deixa leves estragos no espirito, remediaveis com a mera acção do -tempo. Nicoláo de Mesquita, agudissimamente affectado, como se viu, -fez crise em menos de vinte e quatro horas, porque a seu favor -conspiraram calmantes muito efficazes. A palestra dos provincianos, -desdourando Margarida embaciara-lhe o prestigio. Bem sabem que -thermometro é este do prestigio para graduar a temperatura do coração -humano. Ao mesmo tempo, os encarecimentos á formosura de Beatriz, sem -palavra que a desairasse, sobredouravam a aureola na fronte da esposa -virtuosa. Depois, n’este conflicto, entre o odio a Margarida, e o amor -escandecente a Beatriz, chega a nova da perigosa enfermidade. Nicoláo, -se podesse escrever o relatorio das suas sensações e revoluções -sanguineas e um medico as pozesse em termos de se lerem com um -embrechado de nomes gregos, a gente não entendia nada; mas acreditava -que se deram grandes phenomenos no coração do morgado. O capitalissimo -de todos é que elle, depois da explosão que lhe ouvimos, não fallou -mais em Margarida Froment, e galopou noite e dia arrebentando cavallos, -até chegar a Chaves. - -Beatriz estava á janella, quando seu marido e Raphael apearam. - -Nicolau expediu, ao vel-a, um grito de jubilo. No topo da escada -tomou-a nos braços, e beijou-a soffregamente. Era um phrenesi de -ternura assustador! - -Estava ella encantadoramente desmaiada. As mulheres assim pallidas, se -a pallidez é symptoma de irem breve a outros mundos, devemos crer que o -seu creador começa então a namoral-as para depois as levar para si. - - - - -IX - - -O assustadiço amor de pae encarecêra a doença de Beatriz. O perigo -de vida fôra uma ligeira hemorrhagia nazal, que não deu tempo a -glorificarem-se as sciencias medicas de mais um triumpho. - -Observou o morgado um ar de resentimento assim no rosto da esposa como -no de Martinho Xavier. Á cordealidade dos abraços responderam-lhe -glacialmente, e ás perguntas sobre a enfermidade de Beatriz davam umas -respostas ironicas e enfastiadas. - -Raphael Garção, no bom intento de conciliar os animos, contou que fôra -á quinta de Murça procurar o primo, e o encontrára doente, com o medico -á cabeceira; e ajuntou que por pouco o não matára com a noticia da -perigosa enfermidade da prima Beatriz. - -O mentiroso radiou uma luz nova nos olhos de Martinho Xavier, e -entreabriu nos labios de Beatriz um sorriso de indulto. Nicoláo, assim -que o lanço se lhe ageitou, apertou-lhe a mão e disse: - ---Graças, meu bom amigo! - ---Mentir como o diabo, diz Voltaire--respondeu o de Fayões.--A verdade -póde ser a ventura dos predestinados; porém nós, miseros peccadores, -carecemos de mentir a torto e a direito, primo Mesquita. - ---Sem deshonra propria, nem damno alheio--acrescentou o do Vidago. - ---Ah! vossa excellencia quer moralisar-me? O lobo despe a pelle, e -enverga a sotaina? Primo Nicoláo, quem tem uma mulher como Beatriz... - ---Cale-se que podem ouvir-nos... - ---Deixe estar que eu hei de castigar o Ricardo. Quem lhe ha de empalmar -a franceza hei de ser eu. Assim que me constar que ella está no Porto, -vou lá: quero inscrever o nome de Margarida Froment n’uma casa em -branco, que deixei entre a Aldonza Lourenzo do pandeiro, e uma primeira -tragica do theatro de Amarante. Orçam na moralidade. - -Arrugou-se a fronte de Nicoláo de Mesquita. Pezara-lhe o ultrage: é que -elle vira n’aquelle momento Margarida Froment, encostada ao braço de -seu marido, oito annos antes, repartindo recursos e consolações pelos -operarios da sua fabrica de Leão, enfermos, e de mãos postas a orarem -pelo anjo da caridade. - -Esbordava-lhe o coração de lagrimas, quando se arredou friamente do -sarcastico mancebo. Foi intermittencia momentanea. - -Martinho Xavier abriu as suas salas, n’aquella noite, á sociedade -flaviense. Beatriz dançou com seu marido, como ha vinte annos se -fazia na provincia sem irrisão. Raphael distinguiu-se no solo inglez, -e aprimorou-se n’uma gavota com sua prima. A gentil senhora respirava -a peito cheio o ar tepido e balsamico das salas. O setim da cutis -retingiu-se-lhe. O marido parecia-lhe outro homem e as flores das -jarras figuravam-lhe as primeiras da sua nova primavera. Dava ares de -creança; e o marido consolava-se de vêl-a assim. - -Seguiram-se outros bailes, e Nicoláo de boa vontade em todos. Balbuciou -Beatriz o desejo de residir em Chaves. Em poucos dias, se passaram -as preciosas decorações do palacio de Palmeira para outro de Chaves. -Martinho Xavier estava em permanentes acções de graças ao Senhor dos -Milagres! Via a filha feliz e o genro transfigurado. - -No viver intimo, a mudança da indole de Beatriz fôra menos sensivel -do que devêra presumir-se. Aquelle temperamento, fóra da quentura dos -salões esfriava. Recebia os affagos do marido, como se elle meramente -fosse o tio Nicoláo. Ella mesma não sabia dar-se conta da atonia -da sua alma. Parecia-lhe que o tinha amado um anno antes, sem dar -tento de uns cabellos brancos, que lhe listravam o bigode, nem da -calvicie incipiente que lhe affeiava um tanto a cabeça. Calculava, -computava os annos, e chegava á exactissima deducção de uma coisa -que a mortificava: e era que o marido havia de ter cincoenta e dois -annos, quando ella tivesse trinta. Nicoláo era intuitivamente advertido -d’estas secretas meditações. Revelava-lhes a razão esclarecida; mas, -assim mesmo, confiava bastante de si para deixar-se avassallar de uma -suspeita indecorosa a sua mulher. Erro palmar dos homens, que foram -muito queridos até aos trinta annos, e se presumem encouraçados e -invulneraveis ás injurias do tempo e ás desgraças, que não pouparam -propriamente os deuses olympicos, e outros mais importantes deuses -terrestres. - -Chegado o verão d’aquelle anno de 1841, o morgado da Palmeira foi -passar a sasão estiva no seu solar, convidando a acompanhal-o algumas -damas e cavalheiros parentes, sem olvidar-se de Raphael Garção, por -quem cobrára grande estima. Se alguma hora lhe sombreou o espirito a -lembrança ingrata de que fôra Raphael o espertador do coração de sua -mulher, acudiam-lhe á memoria as palavras ouvidas no hotel da Foz com -referencia ao puro e respeitoso amor que lhe sagrára. As suspeitas -fugiam logo envergonhadas, e a confiança restabelecia-se, cimentada nas -virtudes de Beatriz, e nas mil diversões amorosas do morgado de Fayões. - -Por outro prisma via as coisas Martinho Xavier, sem embargo do conceito -que formava da filha. Raphael é que para elle significava o supremo -patife das duas provincias do norte, juizo, a meu vêr, moderado, -attentos os adulterios, seducções e barganterias femeaes, que corriam -por sua conta. Assim, pois, era certo surgir, como por encanto, -Martinho Xavier á beira da filha, logo que Raphael Garção se avisinhava -d’ella sem testemunhas de acrisolada probidade. Este resguardo não o -revelava elle ao genro; porém, visando ao scôpo com a pontaria n’outro -alvo, desfazia nas qualidades do sobrinho, e contava os adulterios com -taes visagens, que um marido cioso, na posição de Nicoláo, teria desde -logo horror do seu proprio infortunio, enforcaria a mulher. - -O morgado ouvia as tenebrosas historias, e dizia: - ---Ha-de ser a quarta parte do que diz o mundo, primo Martinho. Não -sejamos vulgo. Eu, antes de emigrar, gosei fama de ter um harem na -minha quinta da Ribeira d’Oura, e de ter obrigado cinco paes de familia -a enclausurarem as filhas, e de ser a causa funesta de alguns maridos -aferrolharem as esposas infidas na casa do Ferro[2]. Pois, meu amigo, -sob minha palavra de cavalheiro te assevero, que antes de emigrar, -apenas tinha galanteado uma tecedeira, a qual tecedeira galanteava ao -mesmo tempo o meu padre capellão, e veiu por fim a casar com o meu -lacaio. Eu era isto, quando tu e os outros hypocritas--disse elle -sorrindo--me chamaveis o terror das familias. Pois argumenta de mim -para Raphael Garção. Que sabemos nós positivamente? O que elle nos -conta, com a fatuidade propria da sua edade. As atoardas que correm, -quem as verifica? Os maridos infelizes? Que é d’elles? - ---Calam-se--respondeu Martinho Xavier. - ---Isso não é nas nossas montanhas, primo. Os maridos ultrajados, quando -se calam, fazem fallar a bocca das clavinas. - -A discrição do pae de Beatriz rematava aqui o dialogo. Nicoláo -permanecia alguns minutos pensativo, e ia de um relanço insuspeito -devassar o coração de sua mulher, e espiar os olhos do hospede. -Encontrava-os sempre distraidos um do outro, ou conversando as mais -innocentes praticas, na presença de Martinho. - -N’um d’aquelles dias, ergueram-se alegres vozes subitamente na casa -de Palmeira. Foi por que, findo o almoço, Nicoláo de Mesquita, -tartamudeando de commovido, annunciou que sua esposa sentia os -primeiros indicios da maternidade. Foram as senhoras beijal-a nos -braços do pae, e os cavalheiros brindaram clamorosamente o vigesimo -quinto senhor de Palmeira. Ao terceiro dia, ao setimo, e ao decimo -quinto, depois da nova, celebraram o jubilo com trez bailes, e trez -jantares, e trez ceias. Concorreram os poetas de Villa Real, de Chaves, -de toda a terra em que Deus plantára um poeta, com capacidade de fazer -um soneto. - -Beatriz era infantilmente amimada por seu marido, que chorava -alvoraçado pela deliciosa expectação da paternidade! Andava elle a -inventar-lhe incommodos, para ter o goso de a desvelar com branduras -e melindres, que excediam a seriedade de um marido. Receava que a -chilreada dos passaros lhe turvasse o somno matutino, e mandava á noite -espancar a passarinhada das copas dos chorões. Cuidou que o aroma das -flores damnificasse á geração e mandou cavar os alegretes e taboleiros -sobpostos ás janellas do seu quarto. Com estas competiam outras -crendices não menos irrisorias. - -Assim que as chuvas de outubro ameaçaram, cuidou-se na mudança para -Chaves. - -Martinho Xavier contrastava a alegria de todos. Definhava-se a olhos -visto, e respondia com estranho aspeito aos cuidados de Beatriz, e com -rancoroso gesto ás delicadas attenções de Raphael. - -Fôra o caso que elle, n’uma ante-manhã, ouvira abrir subtilmente uma -porta envidraçada do quarto de Raphael, e o vira passar ao jardim, e -sumir-se entre uns maciços de murta, e voltar, instantes depois, a -fechar-se no quarto. Isto preoccupou-o em dolorosas conjecturas. - -Assim que foi dia claro, desceu Martinho Xavier ao jardim, fez umas -voltas na visinhança dos maciços, e emboscou-se n’elles, sem ser -visto. Examinou os recantos, esquadrinhando algum vestigio. Dois vasos -de porcellana ladeavam a entrada de uma gruta, comada de maracujás e -baunilhas. Meditou, e desistiu de atinar com o intento de Raphael. -Saiu, reflectiu ainda, e retrocedeu. Levantou um dos vasos, e viu que -a terra secca, rebordando-lhe o fundo, indicava que não fôra bulido. -Examinou o outro, e descobriu claros indicios de ter sido deslocado e, -na terra em que elle assentava, o signal de ter alli estado um corpo -mais liso, pois que o restante da terra estava crespo das saliencias do -vaso. Inferiu que estivera alli uma carta. Assim se explica a maceração -do rosto do fidalgo, e a severidade com que tratava a filha, e repulsão -odienta com que afastava de si o sobrinho. Quinze dias se erguêra de -noite, esperando a alvorada, e mallogrando-se-lhe as vigilias. - -Ao anoitecer, porém, da vespera da mudança para Chaves, viu elle sair a -filha apressada de entre os maciços, e responder ao marido que chamava -de uma janella. Ao mesmo tempo descobriu a distancia, mal embrenhado -n’um bosquete de amoreiras, o morgado de Fayões, olhando na direcção -das murteiras. Correu Martinho Xavier, encoberto pela ramagem, a -erguer o vaso suspeito. Encontrou uma carta. O papel caiu-lhe das mãos -convulsas. Quiz sair; mas o tremor das pernas forçou-o a sentar-se no -banco de cortiça, que adornava o interior do caramanchel. Cerrára-se a -noite. Ouviu fremir a folhagem perto. Era Raphael Garção, que saltava -por entre uns buxos defesos á observação da casa. Acercou-se o moço -lestamente do vaso, levantou-o, palpou, esteve um instante suspenso, -deixou-o baixar; mas, ao tempo que o pousava, sentiu uma pressão -de ferro nas vertebras cervicaes, e bateu em cheio com o rosto no -gradeamento do caramanchel. Reconheceu a mão que o sopesava, quando -ouviu a palavra: - ---Infame! - ---Meu tio! murmurou elle--por quem é!... - ---A tua morte, villão!--bradou suffocado o pae de Beatriz--a tua morte, -villissimo lacaio, seria um escandalo, quando não, havia de arrancar-te -a collada. Ouve-me bem, canalha! se esta noite não te despedires com -qualquer pretexto, e o sol de ámanhã te vir n’esta casa, maldito seja -eu, se te não matar. Entendeste-me bem, biltre? - ---Cumprirei a sua vontade--respondeu Raphael. - ---Ámanhã minha filha e meu genro vão para Chaves--tornou Martinho -Xavier.--Se você não quizer ser azorragado debaixo dos olhos d’ella -pelos meus criados, não passe mais debaixo das suas janellas. Martinho -Xavier cumpre o que promette. - -Saiu o pae de Beatriz, e encerrou-se no seu quarto. Abriu a carta, -leu-a, e desafogou-se n’uma profunda expiração de contentamento. - -Dizia assim a carta: - -«Meu pae desconfia. A tristeza d’elle não póde ser motivada por outra -coisa. O ar carrancudo com que me falla é mais uma prova. Reparo que -tambem te encara com maus olhos. Sejamos cuidadosos, meu primo. -Eu amo-te muito; mas não te posso sacrificar mais do que as minhas -lagrimas. Deus me livre que o tio N. suspeite que eu te amo. Se tu vês -que será util conviveres menos em minha casa, poupa-me algum grande -dissabor. Tem sempre comtigo a certeza de que eu te quero muito, e que, -se por agora não posso ser para ti mais que irmã, póde ser que um dia -seja o mais que posso ser, e o que Deus não quiz que fossemos... _tua -esposa_! Quem sabe, meu R!... Ha acontecimentos tão inesperados!... -Lembra-te que tenho dezoito annos, e elle... Adeus, adeus, que o tio -não me deixa uma hora sósinha. Vou ver se ainda posso levar a carta.» - -Era rasoavel o contentamento de Martinho Xavier. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[2] O _Ferro_ era por aquelle tempo, no Porto, um recolhimento, ou -carcere, paradeiro das adulteras. - - - - -X - - -Á hora da ceia, faltou Raphael Garção. - -Nicoláo soube que elle estava no seu quarto, e pedia desculpa de não -comparecer á mesa. Foi elle buscal-o: encontrou-o emmalando o fato. - ---Isso é que é pressa de entroixar, primo Raphael!--disse o -morgado,--deixe isso, que tem tempo. Nós só vamos ámanhã por tarde. - ---Mas eu vou partir esta noite, primo Mesquita. - ---Como assim? Venha contar-nos essa aventura á mesa, que está Beatriz á -espera. Temos empreza! não póde deixar de ser... - -Travou-lhe do braço, e levou-o, exclamando, ao entrar na casa da ceia: - ---Fui encontral-o a dobrar a roupa, e saberão que se despede á meia -noite! - -Beatriz encarou-o com affectuosa melancolia. Martinho Xavier fitou a -filha. Raphael não poz olhos em nenhum. - -O morgado proseguiu em tom de galhofa: - ---É negocio de damas! Alguma victima saudosa que, do leito dos -paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe! - -Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um -partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha á saida do primo, e -arrependida de lhe ter aconselhado a ausencia. - ---Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que -é séria e respeitavel a magua do nosso Raphael! É a primeira vez que -o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é -longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João -de Marana e o amado de Clarisse comiam ás horas, e o Byron ceiou -optimamente no dia ou na noite em que uma das suas martyres se afogou -no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo -Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, á meia noite, -primo Garção? - ---É verdade...--respondeu Raphael, affectando com violento artificio, o -seu natural alegre. - ---E quando volta a Chaves? - ---Não sei, primo. - ---Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e -estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permitta-me fallar-lhe com -sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importancia do -passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o. -Se o pundonor o não impelle, fique. Distinga entre dever e dever. -Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa -deshonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma -errada consciencia nos aconselha. - -Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse: - ---Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita, -não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde elle quizer! - ---Pois eu decerto o deixo ir para onde elle quizer; mas o admoestal-o -como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo -Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiencia... - ---Pois sim, de accordo--replicou o pae de Beatriz amaciando a voz, -receoso de denunciar a causa da sua colera--farto de admoestal-o -estou eu, e estão todas as pessoas de bem... É malhar em ferro frio. -Deixal-o, deixal-o, que o mundo ha de ensinal-o. Quando chegar aos meus -annos, elle chorará os que desbaratou na libertinagem. - -Correu breve e triste a ceia. Ao levantarem-se da mesa, Raphael -despediu-se de Beatriz, sem atrever-se a olhal-a em rosto, porque o -pae, á beira da filha, não o desfitava. Beatriz articulou umas palavras -banaes, sêccas e tão contrafeitas, que por si mesmas, á custa de muita -arte, a denunciariam a um marido precatado. Do tio Martinho, não -pôde despedir-se, que, a disfarce, saíra da sala. Nicoláo seguiu-o -ao quarto, offereceu-lhe dinheiro, se o necessitava, e conseguiu -arrancar-lhe um imaginoso segredo da sua aventura. Pelos modos, uma -menina de Basto, não podendo occultar dos pais o testemunho de sua -desgraçada paixão, fugira de casa, e invocava o pae do filhito que lhe -estremecia no seio. Mentir como o diabo, tinha dito Raphael pela bocca -de Voltaire. - -Á meia noite saiu o pae do menino, que estremecia no seio da tão -coitada de Basto, e Nicoláo, em termos patheticos, foi contar a Beatriz -a revelação do primo. A senhora fingiu compadecer-se das calamidades da -menina do filhinho, e aproveitou o ensejo para chorar as suas saudades -na presença do marido, que se desentranhou em consolações distractivas, -que não fosse ella perigar por demasia de sensibilidade. A sorte de -tantos maridos espertos! Faz pena vêr a despotica ingerencia que tem -a comedia nos lances mais graves! A humanidade a chorar e um histrião -a cobrir a toada do choro com o tilintar do barrete! É triste, mas -necessario isto ao regimento da sociedade. - -Saíram para Chaves no dia seguinte. - -Beatriz ia triste, e recolhida. As caricias do esposo enfastiavam-n’a. -O pae, nada blandicioso, fazia-lhe mal com o seu olhar, e dizia-lhe á -puridade umas phrases amphibologicas de que ella ficava sentida, sem -ousar pedir esclarecimentos. - -As palavras que mais a pungiram e intimidaram foram estas: - ---Ai, de ti se teu marido se me queixa da tua frieza! Terás em mim um -verdugo, e não um pae. - -A ameaça logrou menos do que devêra esperar-se. Beatriz desconfiava que -o pae lhe surprehendesse o coração n’algum descuidoso olhar ou gesto a -Raphael; porém, quando assim fosse, as provas contra a sua honestidade -eram nenhumas, e ella facilmente se defenderia das suspeitas -calumniosas. - -Era de vêr que a retirada de Raphael havia de ser descontada na -affeição ao marido. A esposa criminosa, ou propensa ao crime, costuma -dar, pelo menos, ao marido um millesimo do amor que prodigalisa ao -amante. Se, todavia, o amante lhe foge, nem o quinhão diminutissimo do -marido lhe deixa. Isto tambem é triste, e atroz! - -Nicoláo attribuia as securas e enojos de sua mulher aos mysterios -phenomenicos da geração. Tambem elle tinha accessos biliosos de -impaciencia, irritados pelos caprichos de Beatriz; mas soffreava-se, -affastando-se. Queixar-se é que não. No entanto, Martinho Xavier, -lendo-lhe no rosto alquebrado o desgosto da má vida intima da casa, -abstinha-se de interrogal-o, e dizia á filha: - ---Tu não me attendeste; mas afinal será tarde, quando caires em ti. -Já te disse que, em te faltando a estima do marido, não contes com a -estima do pae, Beatriz?... - ---Que quer isso dizer, meu pae? atalhou ella. Tantas ameaças, tantas -ameaças! Que crimes tenho eu? - ---As mais criminosas intenções!... Silencio! silencio!... ouviste -Beatriz! Muito juizo para remediar o mal feito... Se assim não fôr... - - * * * * * - -Raphael Garção estava na sua casa de Fayões. Quizera distanciar-se de -Chaves, sair a uma viagem longa, distrahir-se, esquecer-se; mas não -pudera. Estava alli preso pela corrente de um grande amor a sua prima. -Era o primeiro, o unico, porque não amára outra, desde que nos labios -d’ella, ainda solteira, depozera, como n’um altar, as primicias do -seu coração. Sem os estorvos, póde ser que outra mulher o roubasse ás -froixas glorias de uma facil proesa; mas depois do aviltante castigo -do tio, e da vergonha com que saiu da Palmeira, queria elle superar as -difficuldades para sentir-se remunerado do seu vilipendio. Era isto -a um tempo galardão ao amor, e galardão á vingança. Eram os vinte e -dois annos, e a má índole, acerada pela educação que tivera, á lei da -natureza bruta. Não sei tambem se eram o Lovelace, e o Saint-Preux, e o -D. João Tenorio. Era tudo, incluindo n’esta mistura o elle ser homem, -feito á similhança e imagem de... Fóra com a blasfemia! - -Empenhou-se Raphael, mediante os serviços de algum amigo de Chaves, em -fazer entregar a Beatriz uma carta explicativa da sua rapida saída de -Palmeira, o degredo que se elle impozéra na triste soledade de Fayões. -Uma dama das mais acreditadas de Chaves foi a portadora da carta. - -Então sómente comprehendeu Beatriz o valor das ameaças de seu pae, e o -gume do perigo em que estava sua honestidade, e talvez sua vida, se á -mão do marido passasse a carta de Raphael. - -Nicoláo ganhou com este descobrimento por um lado, e perdeu pelo outro. -Os ganhos eram os exteriores affectuosos com que a mulher o indemnisava -dos desdens passados. As perdas foram restabelecer-se a correspondencia -epistolar entre Beatriz e o primo. - -A illustre alcôfa d’esta correspondencia andava espiada por Martinho -Xavier, á conta de ser irmã de um particular amigo e contubernal -parasita de Raphael. D’esta espionagem, confiada á aia de Beatriz, -velha de rija tempera de virtude, resultou ser a correctora cupidinaria -avisada para não voltar a casa de Nicoláo de Mesquita, sob pena de -ser publicada como negociadora de amores adulteros. O aviso foi dado -face a face por Martinho Xavier, que tinha brutalidades de fidalgo -montezinho. - -O que elle não podia era contraminar a corrupção dos criados. Beatriz -continuou a receber cartas do primo; e Nicoláo a experimentar as -caricias de sua senhora. Ó Azaïs!... - -Decorreram uns seis mezes de vigilancia assidua do fidalgo. Rondava as -portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Fayões para lhe -segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira -de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a -fiscalisar o grangeio das quintas. - -Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pae. -Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de -mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa. -Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A commissão de parentes, -encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castello de -Aguiar. Com muito sacrificio foram de liteira as velhinhas, amolgadas -por grandes desgostos. Nicoláo, quando as viu, teve arrepios de espinha -dorsal. Interrogou a commissão, a qual respondeu que os Almeidas do -Valle de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as familias. -Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as -levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz ácerca de -Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a -dama, assim que esteve a sós com ellas e o capellão adjunto, lhes desse -azo á expansão das lastimas. - -Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e -que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de trez -annos. - -Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da -escravidão do demonio, desfigurado na franceza, e vinha a ser o -patrocinio de um santo, parente da familia, que tinha sido grande -peccador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida -santamente: o qual santo era S. Gil de Santarem. - -Que S. Gil de Santarem era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não -ha duvida nenhuma, e vae demonstrar-se para confusão dos praguentos. - -Estamos em tempo do senhor rei D. Affonso Henriques, que santa gloria -haja. - -Depois da milagrosa victoria de Ourique, os barões da comitiva do rei -conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus -sabe como. O bravo rico-homem de Galliza, Fernão Martins de Almeida, -despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço -Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas -do Valle de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se -com a filha de D. Payo Mendo Gil, senhor das terras de Cavallaria, -termo da cidade de Vizeu junto á villa de Vouzella. Preferiu o -castellão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a -cargo de irmãos. D’este consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou -em 1184 com Ruy Paes de Valladares, do conselho d’el-rei D. Sancho I, -seu mordomo-mór, e alcaide-mór do castello de Coimbra. Estes são os -bem-aventurados paes de Gil Rodrigues, conhecido e venerado do leitor -pio por S. Gil de Santarem, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto -portuguez. - -Nada menos que este santo, inquestionavel parente das senhoras -Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguineo dos braços -satanicos da franceza. No entanto, alguns mezes haviam passado, depois -do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energumeno voltasse, -cumprido o seu fadario. Sem embargo, ellas esperavam, e razão era que -esperassem. Alguem faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro, -antigo pactuario do demonio: que estes milagres, nos tempos correntes, -bastam a fazel-os algumas lettras a vencer na mão de um usurario. A -onzena tem convertido mais perdularios do que a vida mirifica de S. Gil. - -O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado -metade dos seus haveres, e perto iria n’aquelle desperdicio. Sustentava -em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida -a cada requestador que lhe varava ao coração o stylete do ciume. Os -galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e -pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante -desconfiado, e de são juizo para entender que o facil para elle não -seria extremamente difficil para o restante da humanidade. - -Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas -o não menor castigo das mulheres na condição da franceza é inspirarem -suspeitas aviltadoras áquelles mesmos que as estremecem, e authorisarem -o galanteio de quem quer que meramente as deseja. - -Seja como fôr, as senhoras D. Sancha e Simôa choravam lagrimas como -punhos, quando Martinho Xavier saiu do salão do baile a procurar -Beatriz que tambem chorava com as velhas. - -Uma paixão explora veios de lagrimas desconhecidos. Chorava, porque -amava, a mal-sorteada senhora! - - - - -XI - - -A espionagem, sem intermissão, de Martinho Xavier gerou no animo da -filha um secreto e mal disfarçado odio. Bem queria ella sacudir o jugo; -mas a mordaça, a carta fatal, estava em mão de seu pae: ella mesma -a viu quando se lhe queixou amargamente de a privarem da companhia -d’aquella amiga interventora na correspondencia. O pae, sem proferir um -monossyllabo, mostrara-lhe a carta, e voltára as costas. - -Planeou a sua emancipação Beatriz com um expediente assim natural que -insuspeito. Revelou desejos ao marido de voltar a Palmeira, á suave -quietação da sua casa. Nicoláo abraçou alegremente a proposta, e -exultou de ouvil-a motivar assim o intento: - ---Agora, que tenho o meu filho, basta-me este prazer, e o teu amor -ás necessidades da minha alma. Já me fatigam tantos parabens, tantas -visitas, tantas etiquetas! Apeteço a solidão comtigo e com elle. Mudei -inteiramente, primo Nicoláo. Os filhos parece que envelhecem a gente! E -de mais eu quero que o nosso Martinho seja creado ao ar do campo, e não -n’estas estufas da cidade. Verás como eu agora me dou bem na aldeia! -Quero ir comtigo ás quintas, e gosar a doce liberdade de uma aldeã. -Estás contente da minha reforma? - ---Se estou, filha!...--clamou o marido, apertando-a contra o -coração--se estou contente, eu, que por amor de ti, e contra o meu -genio, tenho andado n’estas balburdias de bailes e jantares! Eu tambem -espero que o nosso filhinho te aformoseie os quadros aldeãos, que tão -aborrecidos te pareceram. Um filho é uma estrella que nos alinda o ceu -da terra em que vivemos. Sempre esperei que desejasses voltar para -Palmeira com esta creancinha. As mães experimentam um santo egoismo de -sua felicidade, quando são mães pelo coração, que as ha tão frivolas, -minha querida prima, que apenas se dizem mães por terem sentido os -soffrimentos da maternidade. - ---O peior, atalhou ella, é que meu pae vae zangar-se com a nossa -partida... - ---Porquê? zangar-se!... - ---Que queres? A amizade do meu pae é extremosa até á importunação! -Eu não devia dizer isto; mas olha, primo, já me impacientam tantos -cuidados comigo! Em solteira, deixava-me mais liberdade!... - ---É que teu pae adora-te, Beatriz! - ---Bem sei; mas os excessos de ternura incommodam. Tenho marido e filho -para amar e presar: não posso attender ás extremosas pieguices de meu -pae. Agora ha de elle cuidar que eu vou enfastiar-me na aldeia, e -começa ahi com os seus discursos a demover-te de irmos. - ---Seria escusado, que nós iremos, prima. - ---Pois então, Nicoláosinho, se elle nos contrariar não o contradigas, -para o pouparmos a maior magua. Vamos preparando a partida de nosso -vagar, e evitemos questões. - ---Pensa bem, Beatriz... Teu pae tem singularidades estranhas, que -destoam do meu genio... - ---Muitas!... - ---Este odio entranhado, que elle tem ao primo Raphael, é absurdo! - ---De certo. - ---Sei que o pobre moço está em Fayões, e não voltou a nossa casa. -Precisamente o rapaz foi magoado da rudeza com que teu pae o tratou á -ceia, na ultima noite. - ---Parece-me que sim. - ---Já perguntei ao primo Martinho porque não tornaria Raphael a Chaves, -desde que lá estamos. Respondeu-me que não valia a pena notar-se a -falta d’elle. Quiz convidal-o para o baile do baptisado, e teu pae -respondeu-me formalmente que não! - ---Caprichos... - ---Ruins caprichos! Eu transigi para obviar resentimentos; mas... Tu has -de consentir, filha, que eu te confesse uma culpa... sim?... - ---Que é, primo? - ---Não podendo justificar a antipathia de teu pae com Raphael, cheguei -a conjecturar se elle desconfiaria de alguma infame intenção de teu -primo... - ---Infame intenção! a que respeito? - ---A respeito de ti... - ---Ora essa!... Tu enlouqueceste? - ---Não, menina, confesso-me. - ---Pois não te perdôo, Nicoláo!--exclamou ella irada sobre posse, e -escarlate por effeito da surpreendente suspeita. - ---Perdoas, que eu,--tornou caricioso o marido--tanta justiça te fiz -que nem levemente indaguei... para não dar direito a que alguem te -suppozesse um instante criminosa. Nem com esta prova de respeito ás -tuas virtudes me perdoas? - -Beatriz deixou-se beijar e sorriu. - -Nicoláo continuou: - ---Em prova da confiança que me mereces, assim que estivermos em -Palmeira, convidarei Raphael. - ---Não quero! atalhou Beatriz com vehemencia. Magoas-me cruelmente se o -fizeres. - ---Compreendo o teu pundonor, tornou Nicoláo, soberbo do pundonor de sua -esposa. - -N’este dia, disse o morgado ao sogro: - ---Vamos passar algum tempo á aldeia. - ---Fazeis bem, respondeu Martinho; Beatriz precisa de bons ares, que -está com má côr. - ---E, talvez, lá fiquemos, se ella quizer. - ---É natural que não. - ---Pois enganas-te primo: ella mesmo aventou a idéa da mudança. - ---Sim. Ella?! - -Martinho Xavier ficou pensativo largo espaço, e replicou: - ---Foi subita essa determinação de Beatriz? - ---Disse-m’a hoje. - ---Está bom... - ---O filho operou uma tal mudança no espirito de Beatriz--tornou Nicoláo. - ---Deve ser isso... disse abstraidamente Martinho Xavier. - ---Encheu-me de jubilo esta grave transformação aos dezoito annos. - ---São raras estas transformações, tornou o outro meditativo. - ---Vaes comnosco? - ---Vou, respondeu Martinho energicamente. Vou sem duvida. - ---Estimamol-o deveras. - -Relatou Nicoláo a sua mulher a substancia d’este dialogo, e a resolução -no pae. - ---Vae comnosco? exclamou ella com irreflectido transporte. Forte -perseguição?... É de mais?... Para que me casei eu? Ou bem sou filha, -ou sou esposa! - ---Podes ser ambas as coisas dignamente; acudiu o marido. - ---Ora!...--redarguiu ella com arremeço; e, caindo em si, ajuntou -abatendo a voz: Deixal-o ir... que eu para Chaves não volto... Se meu -pae não podia viver sem mim, para que me casou?... A minha scisma é -esta. Sim! para que me casou? - ---N’isso tens razão, prima. - ---Pois não tenho? Quer affagos e cuidados, que eu não posso repartir. -Sou esposa e mãe; e além d’isso preciso olhar pela minha casa. - ---Pois, meu amor, deixal-o ir; trata-o com amizade de filha, e -mostra-te feliz, que elle te deixará viver em tua casa. - -Grande parte d’esta pratica foi communicada a Martinho Xavier pela -aia de Beatriz. O fidalgo aguardou occasião de encontral-a a sós, e -disse-lhe: - ---Sei que intenções te levam para Palmeira. - ---Sabe... que intenções?!... - ---Não admitto interrogatorio... Quero ser ouvido em silencio. Resolvi -acompanhar-te para te defender do abysmo. Mudei. Não vou. Escuso de ir. -O abysmo está aberto. Vaes cair, desgraçada! E tão depressa caires, -irei mostrar-te lá com o dedo a teu marido: «Ella ahi está despenhada. -Quiz salval-a, e não pude. Agora escarra-lha na cara, que tu não tens -esposa, nem eu filha!» - ---Meu pae!--exclamou ella afflicta.--Meu pae, eu não sou criminosa! - ---Vaes sel-o. - ---Juro-lhe que não! - ---Mentes a ti propria. Raphael está recebendo cartas tuas; um dos teus -criados entrega-te cartas do libertino, do carrasco da tua honra. - ---É falso... - ---Falso é o teu juramento, Beatriz! Não me desmintas, que eu -justifico-me na presença de teu marido. - ---Por quem é... por alma de minha mãe!... bradou ella soluçando. - ---Tua mãe foi uma santa. Se está no céo e te vê a consciencia, lá mesmo -ao ceu lhe mandaste um inferno, coração perdido! Ficas sabendo que eu -vigio as tuas acções e as de Raphael. Escuso de seguir-te a Palmeira. -Eu hei de saber pontualmente a hora a que te precipitas. Então me -verás!... - -Voltou o rosto ás lagrimas da filha e saiu. - -Dias depois, preparadas as bagagens, e posta a hora da partida, foi -Nicoláo avisar o sogro. Martinho Xavier estava de cama com febres, e -differiu a sua ida para mais tarde. Observou o morgado que elle, ao -apertar-lhe a mão, chorava. Foi despedir-se da filha á cabeceira do -leito; e, n’um instante que ficaram sósinhos, disse-lhe o pae: - ---Se Deus me levasse agora d’este mundo, furtava-me á formidavel -angustia que me preparas. - ---Juro-lhe que não. - ---Antes do terceiro juramento, perder-te-has--murmurou Martinho Xavier. - -Despediram-se. - -Beatriz saiu no proposito de esmagar o coração debaixo do peso da -honra. Estava aberta uma egreja, e ella entrou a pedir á Virgem que lhe -désse forças, e orou longo tempo. Ergueu-se consolada e forte. - -Escreveu a Raphael supplicando-lhe que lhe não escrevesse mais, que -a deixasse morrer de saudades, mas sem o stygma de uma vilipendiosa -desgraça. Prometteu-lhe amal-o no céu; e pela vida de seu filho, jurou -que se mataria antes de ultrajar seu marido. - -Esta carta era uma rehabilitação. - -Foi para Palmeira. Ia doente e amargurada. Parece isto contra-senso. -Devia ir jubilosa de sua valentia. Não é assim. As mulheres, depois -d’estes triumphos, caem desfallecidas. O que lhes dá forças a ellas são -as fragilidades. - -Passados quinze dias, espantou-se ella do silencio de Raphael, e disse -entre si: _Não me tinha amor!_ Passado um mez, disse: _Tenho-lhe odio!_ - -Martinho Xavier convalesceu rapidamente, assim que lhe deram uma alegre -nova. - -Foi a Palmeira, e, na presença da filha, fallou assim a Nicoláo: - ---Não sabes a façanha de Raphael? - ---Não sei nada. Aqui não tem vindo ninguem d’esses sitios. - ---Pois ouve lá... - ---É o caso da menina de Basto? - ---Que menina de Basto?! Essa historia não sei eu. O que eu sei é que -chegou a Chaves um coronel de cavallaria, casado com uma senhora de -fina educação, e vinte annos, ou coisa assim. A senhora deu-se mal -com os ares de Chaves, e foi para a quinta de S. Lourenço, proxima -a Fayões. Em menos de quinze dias, Raphael tomou conta da esposa do -coronel, e foi para Hespanha. Pergunto eu agora a meu primo Nicoláo, se -o mundo diz a vigesima parte da verdade? - ---Aquillo é um lastimavel doido!...--observou o morgado com pena.--E -ella parece-me mais doida ainda! Se elle bem soubesse que futuro o -espera com as disciplinas da vingança!... - -Beatriz ouvira a historia, com immobilidade de estatua. Á reflexão do -marido fez um gesto forçado de assentimento. Assim que o filho vagiu no -berço, correu para junto d’elle, chorou em ancias abafadas nas roupas -do berço, que embalava para se lhe não ouvirem os soluços. - ---Mentirá meu pae para me desvanecer? pensava ella comsigo, e, ao mesmo -tempo, resava á Mãe de Jesus, pedindo-lhe o esquecimento do homem fatal. - -Não mentira Martinho Xavier. - -Raphael, assim que recebeu a ultima carta de Beatriz, chorou o tempo -desbaratado n’uma esperança, além da qual se carregaram assentadoras -borrascas. Doeu-se da força d’alma com que ella o despedia, e tirou a -injudiciosa illação de que era mediocremente amado, porque as grandes -paixões querem o estampido, e o sêvo das grandes desgraças. Nenhum dos -seus romances fazia menção honrosa de heroes que se deixassem morrer da -peçonha do ideal. Olhou o moço em si; viu-se com vinte e tres annos, -futuro largo, vinte primaveras ainda a reflorirem-se. Enojou-se da -inercia de seis mezes, em que deixara anazarem-se as suas ardentes -faculdades. Saltou para o sellim do melhor cavallo, desfilou por montes -e valles, visitou primas, que elle denominava o seu medalheiro de -estudos numismaticos, restaurou galanteios antigos, antigos de seis -mezes; e, n’esta andadura, foi dar á quinta de S. Lourenço, onde vivia -um general reformado, com trez sobrinhas. - -Apresentaram-lhe a hospeda, esposa do coronel, nem formosa nem -sympathica, mas interessante pela melodia com que vibrava a escala -chromatica em cada dezena de palavras que dizia: era lisboeta a dama. -O galanteio começou alli, sem advertencia do general. Continuou nos -quatorze dias subsequentes, cuidando o dono da casa que a namorada -era uma de suas sobrinhas. O coronel, porque era marido, receava -que o general se enganasse: revelou as suas duvidas, e o bravo do -Bussaco respondeu que tinha em bom uso a espada com que espostejara um -esquadrão de francezes. Em bom uso estava de certo a espada; virgem, -talvez. Descançava o coronel na espada do seu amigo, quando a esposa -lhe ia arrebatada no arção da sella do mais possante murzello de -Raphael. - -Aqui está a simples historia, que, posta em escriptura por mais aparada -penna, faria chorar os leitores. - -Muita gente ri-se d’isto. Outra levanta os olhos ao ceu: contempla o -imperturbavel movimento dos astros, interroga o Creador, e diz: - ---E então? - -A Providencia responde, depois que os interrogadores estão esquecidos -da sua audacia sacrilega. - - - - -XII - - -Este enorme escandalo estrondeou tres semanas, e caiu á voragem -silenciosa dos factos consummados. Corridos tres mezes, a fugidiça -estava em Lisboa com a mãe; e Raphael Garção, de volta de Hespanha, -entrára ás escondidas em Fayões, e lia romances no seu gabinete. O -coronel, corrido do vexame, pedira transferencia para o Alemtejo. - -Raphael tinha pae e mãe, que incessantemente offereciam ao Eterno o -calix de suas dôres em desconto do peccado da má educação, que haviam -dado ao filho. A mãe, temerosa do juramento que o general fizera -de matar Garção com a espada do Bussaco, alternava, com o marido, -sentinella ao filho para elle não sair de casa. O velhaco, assim que -as atalaias, por noite velha descuravam a sobre-rolda e ressonavam, -saltava da janella ás espaduas do criado confidente, e ia refrigerar a -cabeça, exercitar a força musculosa, e beber a sorvos os perfumes da -manhã. - -Assim devia presumir-se até de madrugada de um dia em que elle voltou -com as costas crivadas de chumbo e uma orelha farpada. Extrairam-lhe -as balinhas, e cicatrisaram-lhe as orelhas. Passados dias entrou n’um -recolhimento de Villa Real uma filha de um boticario de Fayões, e então -se aventou que Raphael Garção topára no pharmaceutico a fôrma do seu -pé, como lá dizem. - -Martinho Xavier foi a Palmeira contar este escandalo supplementar. -Nicoláo riu-se e disse: - ---Ha doidos que se fazem perdoar e estimar! As tolices de Raphael têem -graça. - ---É preciso ouvir-t’o, para se crer que fallas de Raphael com tão -absurda sympathia!--censurou Martinho.--E jámais, ajuntou a meia voz, -na presença de tua mulher: Isso desauthorisa a gravidade de teus annos -e estado, primo Mesquita! - ---Valha-te Deus, Martinho! redarguiu o morgado. Tu vens a ser muito -rabujento, homem! Pareces um ancião com o barbaçudo aprumo de um -patriarcha! És inexoravel com os moços e principalmente com teu -sobrinho!... Quantas capas deixaste tu ficar por mãos impudicas, ha -vinte annos, quando te eu conheci o primeiro casquilho de Chaves e seu -termo? - ---Não pratiquei desafôros! Atalhou Martinho. - ---Graças á tua boa indole, e ao captiveiro do coração em que te teve -seis annos a minha bella prima com quem casaste. É preciso perdoar -aos rapazes, que não podem reconstruir o seu temperamento, nem -remediar aos vinte e tres annos os vicios da educação. Raphael não é -despresivel, quanto se te figura; é digno de dó. Vem pagar o que eu não -sei bem se é culpa d’elle. Os doidos da bitóla de Raphael teem sempre -o mau sestro de encontrarem doidos da mesma natureza. Cumpre ponderar -esta notavel attenuante, primo Xavier. O mundo não faz d’isto cabedal, -nem desconta. Se Raphael attentasse em mulheres morigeradas, não -descobria a esposa do coronel, nem a filha do boticario. - ---Foram seduzidas! bradou Martinho. - ---Pois isso é claro! Toda a mulher precisa que a seduzam; e se a não -seduzem, trata ella de seduzir-se a si mesma. - ---Regra geral, portanto! - ---Regra geral para as mulheres desviadas do caminho da honra. - ---E entendes que Raphael tão somente pode perder as desviadas? - ---Cuido que sim. - ---E as honradas são invulneraveis? - ---Como o calcanhar do heroe de Homero. - ---Estás gracejando... Chega-me aqui o ouvido. - -Nicoláo inclinou-lhe a orelha, e Martinho segredou: - ---A Margarida Froment estava desviada do caminho da honra quando a -perdeste? - -Nicoláo retraiu de salto a cabeça, e não respondeu. - -Beatriz descórou, suspeitando loucamente uma revelação horrivel. - -Cessou a polemica. - -Estavam no mez de junho. - -Beatriz lembrou um passeio á feira annual de Santo Antonio a Villa -Real. Martinho Xavier acompanhou-os. - -Nicoláo e a mulher compravam objectos de oiro n’uma barraca. Raphael -Garção passava e viu-os, e parou. Casualmente voltou a face Beatriz, e -expediu um grito. Vira-o, e tremêra no braço do marido. O morgado olhou -em roda de si, e perguntára: - ---Que foi? - ---Pisaram-me...--disse Beatriz. - ---Canalha! bradou rancorosamente o morgado no rosto das pessoas mais -chegadas ao balcão do ourives. - -Passaram a outras barracas. - ---Espera! disse com alvoroço Nicoláo.--Queres tu vêr o primo Raphel?! - ---Onde? perguntou ella serenamente. - ---Além! aquelle sujeito de jaqueta de alamares, e botas á Frederico. - ---Parece-me que é. - ---Vamos ter com elle. - ---E se o pai está por ahi? - ---Que importa? - ---Bem sabes que nos faz um sermão. - ---Ouviremos o sermão com devota paciencia. Vamos ouvir este sublime -doido... Elle olha para nós... reconhece-nos... - -E chamou-o com um aceno. - -Raphael avisinhou-se: faltava-lhe ar, como se o coração, dilatado pelos -arquejos, lhe tomasse todo o peito. - ---Venha cá, D. João, venha cá!--disse com alegre sombra Nicoláo--que é -feito de si, homem perdido? - -Raphael cortejou grave e cerimoniosamente a prima; abraçou o morgado, e -respondeu solemne: - ---_Homem perdido_... é o nome que justamente me frisa. Perdido como -todos os homens que atiraram o coração ás sarças de desesperança. - ---Que estylo!--atalhou Nicoláo, e que merencorio gesto você está -fazendo! Tire lá essa mascara dos quarenta annos, e seja rapaz emquanto -seu tio Martinho não apparece por ahi. - ---Está cá meu tio? - ---Está... respondeu Beatriz, levantando do chão os olhos em que Raphael -viu um vidrado de lagrimas. - ---O primo Raphael que faz aqui? perguntou o morgado. - ---Nem eu sei, sinceramente lh’o digo. - ---Sei eu, e bom será... que o boticario de Fayões o não saiba... - -O moço não abriu leve sorriso; abaixou os olhos e murmurou: - ---Seja generoso, primo Nicoláo. Eu não espero da sua mão a esponja do -fel. Creia que tenho sido muito desgraçado, e perdoe-me não ter podido -ser feliz. - -Apertou a mão da prima, abraçou ligeiramente o morgado, e afastou-se -velozmente. - -Nicoláo quedou-se immovel e silencioso. - -D’ahi a segundos disse a Beatriz: - ---Creio que teu primo é sinceramente desgraçado!... - ---Parece... Como está magro e pallido! - ---E talvez não tenha um amigo!... um amigo sincero que o defenda de -novos pricipicios... Quem me dera poder vellar o destino d’este rapaz! - ---Pobre moço!... murmurou Beatriz, embebendo as lagrimas no lenço. - ---Não te afflijas assim, menina. Se eu lhe não fallar, hei de -escrever-lhe. Está em excellente idade para rehaver os creditos -perdidos, e depois, é rico; a riqueza é meia rehabilitação, quando não -é rehabilitação inteira e mais metade. - -Caminhando, encontraram Martinho Xavier, que crescia para elles com a -vista derramada, e amarello. - ---Que tens? perguntou Nicoláo. - ---Nada... respondeu Xavier, ferindo a filha com repetidos olhares -penetrativos. - ---Que tens, homem? viste o monstro? - ---Que monstro? - ---O Raphael, o tigre, a basilisco?--perguntou o morgado, sorrindo. - ---Vi... e tu tambem? - ---Esteve ainda agora comnosco. Eu queria que tu o ouvisses... - ---Para que? - ---Está revirado. Falla como um S. João, que vem do deserto ao -povoado prégar o _agite penitentiam_! Confessou os desvarios que o -infelicitaram, e fugiu de nós sem nos dar tempo a consolal-o. - ---Faltava-lhe a hypocrisia! atalhou Martinho.--Cerrou a mêda agora, não -tem duvida. O fecho da abobada é a hypocrisia! - ---Que inexoravel e cru homem tu és, primo! - ---Sou, sou flagello inquebrantavel de infames--bradou Martinho com -espanto dos transeuntes. - ---Está bom... disse brandamente Beatriz. Não questionem... Meu pae, -perdoe a quem é infeliz, e despreze-o. Vamos embora d’aqui... As -minhas compras estão feitas. Vamos para Palmeira, Nicoláo. - ---Pois não has de ir á noite ao theatro, filha? - ---Não... se me amas, partamos já. - -Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao -sogro: - ---Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer -que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de -teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra -que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras -com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades. -Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me -insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que -eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e -parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por -tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não -receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os, -quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha. - -Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre -as mãos, soltando estas gementes palavras: - ---Meu Deus, meu Deus! - ---Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido. - -Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido -inclinado á face d’elle. - ---Que é?! disse ella agitada. - ---Não sei... - ---Vão, e adeus!--murmurou Martinho, erguendo-se com energia. - ---Ficas em Villa Real? - ---Fico: tenho ahi uns cavallos em ajuste. Só poderei ir ámanhã ou -depois. - ---Queres que esperemos, Beatriz? perguntou Nicoláo. - ---Esperemos...--respondeu ella desopprimida da abafação do susto. - ---Não, que eu vou direito a Chaves--contrariou Martinho Xavier. - ---E quando voltas a Palmeira? - ---Quando poder. - -Saiu adeante d’elles, apertando convulsivamente a mão da filha, quando -se ella inclinou a beijar a d’elle. - ---É mysterioso teu pae!...--ponderou Nicoláo. - ---Pois que te disse? - ---Ouviu-me umas observações duras de se ouvirem, e chorou, como -viste... E não póde deixar de ser o que eu já suppuz... Teu pae é -ludibrio de alguma intriga a teu respeito. - ---Intriga? - ---Sim... Levaram-n’o a uma terrivel suspeita... de ti e de Raphael. -Faz mal em se não declarar. A injuria reflecte-se em mim... Eu queria -mostrar-lhe a elle, ainda mais que ao mundo, a tua innocencia. - ---Pois alguem me considera culpada?!--atalhou extremamente resentida -Beatriz. - ---Não digo tanto; mas com capacidade para culpada. - ---Quem?... Eu mereço isto!... Pois tu podes presumir?... - ---Se eu podesse presumir, não t’o diria, minha querida prima. -Esperava... Facilitava-te as occasiões; e, quando t’o dissesse, a tua -bocca não poderia defender-se. Comprehendeste-me bem? - ---O ar com que me estás fallando, Nicoláo... - ---É a primeira vez que reparas n’este ar. Deus permittirá que seja a -ultima. - ---Desconfias da minha lealdade, Nicoláo? - ---Já respondi, Beatriz. Não desconfio. A tua agonia de morte começaria -desde a desconfiança. - -Repostos na bonançosa vida de Palmeira, ataram o fio quebrado das -serenas alegrias, que irradiavam á volta do berço da creancinha. -Bonançosa vida, escrevi eu, porque os exteriores condiziam com a -palavra; todavia, no recondito d’alma de Beatriz, estava o aspide -roedor, que lhe torvava os sonhos de infernaes alegrias, ou horridas -visualidades. Abria os olhos molhados de culposas lagrimas, e -seccava-as ao bafejo do filhinho. Seguiam-se no dia as intermittencias -da noite. Uma hora, relampagueava-lhe a esperança uma luz vividissima, -ao clarão da qual divisava a imagem de Raphael. Outra hora sentia -atravez do seio uma vibração glacial, como se a larga lamina de ferro -lhe abrisse bulhões de sangue: n’esta visão infanda era a imagem do -marido que lhe avultava descomposta pela vertigem do odio. Refugiava-se -ainda sob a egide do anjo, a creancinha, que inclinava o rosto á face -d’ella, e balbuciava a primeira syllaba das suas reminiscencias do ceu. - -Martinho Xavier lá estava em Chaves. Decorreram dois mezes, e elle -não voltou á Palmeira. Foram visital-o e levar-lhe o neto e afilhado. -Acharam-n’o quebrantado com o pezo de mais dez annos. Encaneceram-lhe -os cabellos, arrugaram-se-lhe as faces, amortiçou-se a luz dos -olhos, arados pela bafagem ardente, que não tinha respiradouro. Para -elle a perdição da filha era um anathema indeclinavel. Entrou-se -do convencimento de ser ella o instrumento providencial do castigo -de Nicoláo de Mesquita. A deshonra de Ernesto Froment havia de ser -vingada. A sua amada Beatriz, a innocente das perversidades do marido, -obedecia ao sobre-humano impulso da indefectivel justiça. Minguava-lhe -illustração para combater o prejuizo. Accusava de injusta a Providencia -quando lhe genuflectia, e subpunha a cabeça de sua filha a uma absurda -fulminação. - -Á força de apprehender n’isto, desordenou-se-lhe a intelligencia por -uns paradoxos de fatalismo, que implicavam á religiosidade do seu -caracter. - -Encarava de fito na filha e chorava. Affagava o neto, e perguntava-lhe: - ---Entendes tu a minha dôr, anjo do ceu? - -Descaía um severo olhar sobre Nicoláo, e dizia-lhe: - ---Não devias casar nunca, sem saldar contas com a Providencia. - -O marido de Beatriz suspeitou da inteireza intellectual do sogro. Era -para isso. Quiz arrancal-o da solidão do seu quarto, e trazel-o para -Palmeira. Foi invencivel a resistencia muda do precoce velho, que -apenas contava quarenta e oito annos. Quiz Beatriz ficar em Chaves, e o -pae rejeitou o alvitre, como desnecessario á sua morte. - -Voltaram a Palmeira. - -Parece que lhes soavam n’alma de ambos as medonhas alvoradas de um dia -de infinita calamidade. O ceu era o mesmo, a creancinha brincava entre -elles com as flôres inverniças; ao passo que os paes, sem se revelarem, -olhavam sobre o menino com os olhos lagrimosos. - ---Porque choramos nós?--perguntava Nicoláo. - - - - -XIII - - -Chegou ao Vidago a noticia do apalavrado casamento de Raphael Garção -com a morgada de Santo Aleixo, bella e rica, de primeira stirpe; -transmontana, e costumes irreprehensiveis. - ---Aqui tens, Beatriz, disse Nicoláo, como teu pae se illudiu com o -descredito de Raphael. Quando as cem trombetas atroam a provincia a -divulgar escandalos, offerece-se ao generalissimo da desmoralisação um -casamento de primeira ordem!... - ---É verdade... admira... ella é bonita...--gaguejou Beatriz, -humedecendo os labios calcinados do fogo da alma. - ---Será elle tão desastrado que regeite a proposta? É de esperar que -não. Aquelles ares de reforma, que lhe vimos, não podem ser hypocrisia, -como teu pae diz. Hypocrisia comnosco porque e para que? - ---Sim... para que!... - ---Vou escrever-lhe a felicital-o, e instigal-o a casar-se... - ---Não faças isso, atalhou Beatriz. Sabes tu se elles serão felizes? -Deixa-os lá. Se elle um dia se arrepender, escusa de lembrar-se de que -o aconselhaste. - ---Pensas com acerto, mas sempre quero saber d’elle mesmo se é certo o -projecto. - ---Isso lá... - ---Vejo-te inclinada a julgar de teu primo desfavoravelmente, Beatriz! - ---Não... eu... o que entendo é que... a mulher casada com o primo -Raphael não ha de ser feliz... porque... é muito cedo para achar prazer -á vida tranquilla, que tem sido o que tu sabes em tão pouco tempo... E -pode ser que eu me engane... Oxalá... - -Escreveu Nicoláo ao morgado de Fayões. Ao outro dia, mostrou a resposta -a Beatriz, exclamando: - ---O rapaz passou de uma demencia vulgar a uma demencia exquisita! -Ha seis mezes era um libertino. Agora não se sabe o que é. Vê lá a -resposta de Raphael. - -Leu Beatriz: - - «Meu presado amigo e excellentissimo primo. - - «Agradeço os sinceros emboras que se digna enviar-me; lamento, porém, - que se baldassem os seus bons desejos emquanto ao meu casamento: As - raias da minha doudice não vão tão longe. Todo o tolo tem as suas - demarcações. - - «É certo que pessoas da familia de Santo Aleixo propozeram a meu pae - o enlace a que vossa excellencia allude. Meu pae consultou-me, e eu - rejeitei. Mas, porque, a rejeição divulgada seria offensiva ao orgulho - dos visigodos de Santo Aleixo, resolveu a discrição que se deixasse - correr o boato da minha annuencia, até esquecer a proposta. Esta é que - é a verdade. - - «Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei, - porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei - ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que - ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade, - saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração, - sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o - restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para - os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?! - - «Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas - curta. - - «Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus - respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma - inalteravel amizade. Sou, etc.» - ---Que te parece o espiritualismo do rapaz? perguntou Nicoláo á esposa -que disfarçava o tremor das mãos. - ---Que singularidade!... tartamudeou Beatriz. - ---Estou em crêr que lhe extrairam o sangue máo que elle tinha, com os -grãos de chumbo das costas! tornou Nicoláo sorrindo. Hei de mandar esta -carta a teu pae. - ---Para que?! interrompeu ella com ancia. Tu já sabes que meu pae lhe -chamou impostor... - ---Por isso mesmo: quero convencel-o. - ---Vaes inquietal-o, primo... Que nos importa a nós o juizo que forma -o pae? Raphael não solicita amizade d’elle... para que has de tu -solicital-a! - ---Tens razão, menina. Farto de disputações estou eu. - -Facilmente salta ao espirito do leitor a repugnancia de Beatriz. Bem -lembrada estava ella da carta surpreendida pelo pae. As ultimas linhas -de Raphael eram a resposta. Martinho Xavier se as lesse, saltaria -do leito, e correria furioso ao Vidago para esconjurar a procella -sobranceira. - -Nicoláo, como quem se diverte, replicou em longa carta, recheiada de -jocosidades, ácerca do sonho e da reserva do coração para as nupcias -celestiaes. Gracejava a respeito do ceu, e de muitas outras figurações, -que os padres e os amantes inventam, no intuito de irem apanhando o -melhor que podem as bellas coisas da terra. A escrever, Nicoláo de -Mesquita remoçava aos espiritos dos vinte annos, com seus laivos de -facecia um tanto cynica. - -Leu esta carta a Beatriz, e viu que lhe desagradava. - ---Em parte não a entendo--disse ella--bem sabes que eu sei quasi nada, -e tu empregas ahi palavras que eu não conheço; mas parece-me que tu -não sentes o que dizes, quando fazes zombaria do ceu e dos padres para -escarnecer a tal mulher do sonho... - ---Pois de certo, Beatriz, redarguiu o marido ingenuamente, eu escrevo -isto como brincadeira de nenhum peso no animo de Raphael. A minha -ideia é o passatempo de uma correspondencia que deve ser preciosa por -parte de um rapaz de espirito, perdido nas supremas regiões do bello. - ---Então sim... compreendo agora que... - -Se ella continuasse em voz alta a idéa, diria: _que é este um meio -honesto de eu ter semanalmente uma carta indirecta de Raphael_. Assim -foi. - -Ao fim de dois mezes, Nicoláo de Mesquita possuia um interessante -epistolario, que o recreava infinitamente. A remontada poesia de -Raphael denotava um espirito igualmente apaixonado que opulento dos -atavios do mais selecto romancista. A erudição tambem não lhe era -esquiva: marchetava as suas cartas de sentenças, hauridas de prosadores -e lyricos que melhor trataram os theoremas do espiritualismo. - -Beatriz estava contente. A occultas do marido, relia, decifrava, e -illucidava as phrases obscuras. Sobejava-lhe agudeza de coração para -adivinhar até as citações francezas. - -Isto durou assim n’este remançoso contentamento conjugal, até que -Martinho Xavier inesperadamente appareceu em Palmeira. - -Antes de vêr a filha, e sem consentir que o lacaio recolhesse os -cavallos, chamou o genro ao bosque do jardim, e disse-lhe: - ---Tens tido uma correspondencia de dois mezes com Raphael. - ---Tenho. - ---Com que fim? - ---Nenhum fim, um divertimento... coisa de nenhuma significação. - ---Peço-te que me mostres as cartas de Raphael. - ---Immediatamente: sobe, que a leitura é demorada. - ---Não subo: espero aqui. - ---Os cavallos ficam no pateo?! - ---Ficam: não me demoro. - ---E não vens vêr tua filha? - ---Ainda não; traz-me as cartas. - -Beatriz tremeu e descorou, quando viu Nicoláo tirar da papeleira o -masso das cartas. - ---Que é?! perguntou ella agitada. - ---Que ha de ser?... a demencia de teu pae... Quer vêr as cartas. - ---Disseste-lhe... - ---Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi elle que m’as pediu... -Affliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz! - -Assim que o marido saiu, tomou o filho nos braços, e correu os salões -da casa, sem atinar com algum intento. - -Martinho Xavier leu vagarosamente as cartas, pedindo a traducção dos -dizeres em francez. - -Acabada a leitura exclamou: - ---Este homem é um infame! - ---Porque? - ---Porque estas cartas são uma cilada á tua honra e á minha, e á honra -de minha filha. - ---Explica-te, primo Xavier! acudiu com arrebatamento Nicoláo. - ---Expliquei-me de mais ao marido de minha filha... Agora... agora, -Nicoláo de Mesquita, lavei as mãos! Arranquei da consciencia o ultimo -espinho. Fiz o que pude, disse o que podia dizer. Faz o que a tua -dignidade te ordenar. - -Ia retirar-se; mas o marido de Beatriz susteve-o, exclamando: - ---Has de repetir-me essas palavras em presença de minha mulher. - ---Não! não!--exclamou o velho movido a lagrimas--Não! que eu matal-a-ia -se ella ousasse injuriar esta dignidade de pae que a defende! Tua -mulher está sem macula na face, Nicoláo, pelos ossos de meu pae t’o -juro! Mas perante mim, se ella ousar mentir-te, o braço de pae vingará -a tua honra. - -Saiu impetuosamente, e saltou á sélla com o vigor frenetico dos vinte -annos. - -O morgado estacou. Atormentava-o um dilemma cruelissimo: era sua mulher -criminosa, ou seu sogro mentecapto? - -Subiu ao quarto de Beatriz: encontrou-a com o filho no collo, e o rosto -purpureado da escandecencia das lagrimas mal enxutas. Contemplou-a -silencioso, e ella não pôde supportar os coriscos dos olhos d’elle. - ---Que segredo da tua deshonra tem teu pae, Beatriz!?--perguntou elle -com terrivel placidez. - ---Da minha deshonra? nenhum! Eu nunca trahi os meus deveres... - ---Não é sómente a deshonestidade a quebra dos deveres. Pergunto eu que -ha entre ti e Raphael Garção? - ---Nada, absolutamente nada existe. Morto veja eu n’este instante o -filhinho em meus braços, se eu te minto! - -Nicoláo recordou mentalmente as palavras de Martinho Xavier: _Tua -mulher está sem macula na face; pelos ossos de teu pae t’o juro_. -Refrigerou-se-lhe o sangue. O juramento da esposa, sobre a vida do -filho, podia muito com elle. Saiu a passo lento do quarto; fechou-se no -seu gabinete, e repassou detidamente as cartas de Raphael Garção. - -Julgal-o-hieis desencavernado do antro de Trophonius, quando saiu do -quarto. Era uma amargura de semblante em que facil se prevê que nunca -mais se ha de abrir um riso. Nicoláo vira tudo, adivinhára tudo a um -clarão do inferno, e tambem vira a essa luz o vulto de Ernesto Froment. -Porém, o que elle vira e adivinhára era pouco para considerar-se tão -punido quanto offensor. Via o fundo do abysmo; mas via-o de alto. Sua -mulher era amada; mas o amador esperava galardoar-se no ceu. Isto, se -não consola, offende medianamente um marido. Era ainda incerto que ella -o amasse; era ainda perdoavel que ella o tivesse amado em solteira; -seria até possivel e quasi desculpavel que ella lhe promettesse -esposal-o na bem-aventurança. Meditou estas e outras coisas entre as -arvores, e voltou ao gabinete a relêr as cartas. Recordou os relanços -em que sua mulher fizera especial reparo, quando elle as lia. Notou, -combinou, inferiu, e confortou-se com as noventa e nove probabilidades -da pureza de sua esposa, salvando o espirito d’esta conclusão -purificante. - -Voltou ao quarto de Beatriz, e disse-lhe com brandura, mas torvado o -aspeito: - ---Mataste a minha felicidade... e a tua. D’hora ávante seremos dois -desgraçados que se contemplam. Vives, porque a tua honestidade ainda -não está morta. Foi a alma que peccou; convém que a alma soffra. Quando -os corpos estão manchados, então é honra espedaçal-os. É occasião de te -contar que, ha cento e tantos annos, houve n’esta casa uma adultera. -Deitou-se uma noite tranquillamente ao lado do marido, e foi ao outro -dia tirada do leito para ser amortalhada. As cinzas d’ella estão -alli na capella no jazigo da esquerda. Não se recolheu ainda áquella -sepultura nenhum cadaver. Eu quizera que não fosses tu a companheira -dos ossos da unica adultera d’esta familia em quinhentos annos sabidos. - ---Mas eu estou innocente, meu Deus!--exclamou Beatriz, tirando pelas -madeixas com tresvariada angustia. - ---Bem sei--disse soturnamente o marido. - ---Pois, se sabes, porque me insultas? - ---Eu conversei comtigo, Beatriz: os lacaios é que insultam. Meu -terceiro avô não me consta que insultasse a minha terceira avó, que -está alli no jazigo do lado esquerdo. - ---Pois bem!... mata-me e mata-me já, que eu do fundo de minha alma te -abomino, e perdôo. Esta creança te amaldiçoará em meu nome. - -Era sublime o exaspero de Beatriz, com o filho nos braços, -contorcendo-se em altos gritos. Nicoláo tirou-lhe a creança, apertou-a -ao seio, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e exclamou: - ---Tu não me amaldiçoarás, meu filho!... Porque tu és meu filho, és, -sinto-te entranhado em meu coração!... - -D’ahi a horas, o morgado ordenava aos seus criados que preparassem as -liteiras para jornada longa. - -Dois dias depois, os fidalgos de Palmeira sairam caminho de Lisboa. E -Raphael Garção recebia da mão de uma mulher entrajada de mendiga estas -linhas: - -«Vamos para Lisboa. Meu pae denunciou tudo. Sou uma martyr. Não me -esqueças, anjo da minha vida. Eu perdoei-te, e amo-te mais que nunca. -Maldito seja este homem, que me ameaça com a morte!... No ceu, no ceu -nos veremos, meu R. Adeus. Sei que não torno a ver-te.» - -Raphael Garção, á terceira leitura, disse entre si: - ---Verás! - - - - -XIV - - -Appareceu em Chaves Raphael Garção despedindo-se de viagem para França. -Deixou um bilhete a seu tio Martinho Xavier, mostrando-se pesaroso de -não poder abraçal-o. Notou no seu _remember_ dezenas de encommendas das -senhoras flavienses, _novidades_ de Pariz, que ellas haviam de estreiar -nas bodas da morgada de Santo Aleixo. O boato corrente era que o -morgado de Fayões ia comprar a Pariz o presente de noivado, e encravar -os brilhantes e adereços de sua mãe em feitios modernos. - -Saiu Raphael por Hespanha, e entrou em Portugal pela Extremadura. -Chegou a Lisboa, e informou-se da residencia de Ricardo de Almeida. -Margarida Froment é quem dava nome ao transmontano em Lisboa. No -_hotel de Italia_, na rua de S. Francisco, onde Raphael se alojara -recatadamente hospedava-se um diplomata francez, conhecido da sua -compatriota. - -Ao outro dia, o morgado de Fayões escreveu a Ricardo de Almeida, -marginando a carta com a recommendação de _reserva_. Chamava ao _hotel -de Italia_ o seu primo e amigo. Tudo primos! Pode chamar-se o romance -dos primos esta novella! - ---Que fazes em Lisboa?--perguntou o fidalgo de Aguiar. - ---Vim aqui para esconder-me. - ---Vens fugido? - ---Não, homem: venho na piugada de uma mulher que me fugiu com a alma, e -o marido com ella. - ---Casada!... Agouro-te desgraça!...--atalhou gravemente Ricardo. - ---Ah! tu estás assim?!... Onde tens tu vivido, rapaz? e com quem tens -vivido, velhaco? - ---Larga resposta me pedes, e mais tarde t’a darei. Vamos ao ponto. É -conhecida a mulher? - ---É a prima Beatriz Vahia. - ---A mulher de Nicoláo!... Então o homem está a contas com a Providencia -mais cedo do que eu esperava!... - ---A Providencia não entra n’isto, homem!... Tu sabias que nos amavamos -eu e ella? - ---Parecia que sim... - ---O tio Martinho casou-a... - ---Porque tu a deixaste casar: logo, não amavas a prima Beatriz. - ---Olha se podes ouvir-me sem grande dispendio das formulas do -raciocinio: esse «logo» cheira-me a lente de prima! Bem sabes que perdi -dois annos de Coimbra, porque não pude fazer exame de logica. Será -moda em Lisboa fallar-se de mulheres em syllogismo? Quando eu vinha -por aqui passar ha cinco annos, não havia logica para esta casta de -gente!... Saberás, pois, primo Almeida, que Beatriz está em Lisboa, e -eu quero que me saibas onde está Beatriz. És capaz? - ---Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é -coisa notoria a chegada do morgado de Palmeira! - ---Ora não faças a terra maior do que ella é;--replicou Raphael.--Eu -cheguei hontem á noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia -onde morava madame Margarida Froment. - ---É que as francezas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os -morgados de Traz-os-Montes. - ---De accordo; mas achas difficil saber-se onde está o Mesquita? - -Se não se hospedasse em casa de parentes, é facil pela relação policial -das hospedarias. - ---Cuida-me disso, e fallemos agora de ti. És feliz, rapaz? - ---Sou. - ---Dois annos! uma mulher dois annos!... Tu achaste a coisa que os -poetas andam a sonhar ha seis mil annos! Dois annos de felicidade com -a mesmissima e identica creatura!... Que segredos tem ella? Belleza -offuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma -coisa, homem!... Parece-me que te vejo no castello d’Aguiar a fazer a -côrte por um oculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés -no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste! - ---Ainda não; mas fiz coisa peior: desbaratei o melhor da minha casa. - ---Já sei: isso consta ha muito por lá... As tias Almeidas e o capellão -choram por toda a parte os teus desperdicios. Então estás pobre? queres -dinheiro? - ---Pobre ainda não: tenho trem, e um palacete, e _soirée_ ás terças -feiras. - ---Vives sardanapalamente! E, por sobre tudo isso, a franceza, que tu -amas! Devéras amas? falla a verdade. - ---Amo, porque me não merece confiança nenhuma. - ---Esse _porque_ é especie nova para mim! Oh diabo! eu costumo desprezar -as mulheres pela razão por que tu as amas!... Isso não é amor, dou-te a -minha palavra de homem que leu Byron, Balzac, Henri Beile, e todos os -praxistas _ad hoc_. - ---Então que é? - ---É uma peçonha composta de uma grande dóse de orgulho, e outra grande -dóse de tolice. Perdoarás: fallemos rudemente como lá nas nossas -montanhas. Ella atraiçoou-te? - ---Não... - ---Que tu saibas... - ---Sei que não; mas tem um ideal. - ---A boas horas! Cuidei que estas creaturas não consumiam d’isso, e -andavam satisfeitas com vestidos e diamantes e carruagem! De mais a -mais, a despeza do ideal! - ---Tu rebaixas muito a mulher, primo Almeida! - ---Eu!?... tu é que m’a puzeste debaixo dos pés, dizendo-me que ella te -não merecia confiança. - ---Mas posso ser injusto. - ---Ah! então diz-me isso. O certo é que a zelas muito porque a amas -desmarcadamente, eim! - ---Suspeito que ella, se Nicoláo de Mesquita a requestasse, me deixaria. - ---Logo... (cá vem a logica, se permittes uma excepção) logo: a mulher -não tem vergonha. - ---É barbara a conclusão! Tu ignoras o passado d’esta senhora... - ---Sei tudo: contou-me tudo o Mesquita, no mesmo dia em que tu saiste da -Foz com ella para Lisboa. - ---E elle ainda a ama? - ---N’aquelle dia estava cheio de amor! Tocava as raias do delirio e da -irrisão. Aturei-o duas horas e levei-o a casa. - ---E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo. - ---Depois, esqueceu-a, e fez-se amantissimo da mulher. Foi uma desgraça -para nós ambos a reconsideração. - ---Porquê? - ---Porque estavas livre da franceza tu, e eu amaria desassombradamente a -prima Beatriz. - ---Virá elle a Lisboa com intenções? - ---Não sei, mas parece-me que ninguem vem conquistar, ou reconquistar -uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para -ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava -as reliquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus creditos -para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu genio. A tua -propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são -os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher -porção de sentimento, que na vida honesta, e á sombra das suas arvores -gigantes, te daria mananciaes de prazeres. Se eu tivesse a tua alma, -bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis mezes -a trabalhar na refundição da minha indole, e fiquei mais aleijado. -Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as á -natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar -dois annos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração -puro de uma esposa! - ---Sinceramente te digo que já pensei n’isso. - ---Ah? tu já pensaste n’isso? Então não amas a Margarida. - ---Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção, -retorquio sorrindo Ricardo. - ---Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavallo -que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde -a est’outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que -outra póde dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em -flagrante absurdo! Isto só o faz quem não póde fazer exame da arte -de raciocinar. Parabens, primo! Dás-me esperanças de te vêr sair -d’esta ingloria estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio. -Sae d’isto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por -descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros -sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma cousa importante. Estás -nos vinte e seis annos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas? -Nunca pensaste n’isto? - ---Já. - ---E que vês no teu futuro, quando hypothecares a ultima geira? - ---Vejo um par de excellentes pistolas. - ---Essa visão é judiciosa, e não sei realmente desvanecer-t’a. Aqui é -que eu queria o egresso que te ensinou o cathecismo. O que eu posso -dizer-te, desprendido de toda a pretenção philosophica, é que tu és -um asno pyramidal, se continuas assim; e não haverá pyramides que -perpetuem a tua asneira, se te matas depois de teres assim vivido. -Depois do que, tenho a dizer-te que disponhas da minha casa como tua, e -vás saber onde mora a prima Beatriz. - ---Pois sim, e fallaremos depois--disse Ricardo de Almeida, e saiu com -animo agitado pelo impulso das phrases ora graves, ora picarescas, do -morgado de Fayões. - -Poucas horas depois, voltou o castellão de Aguiar noticiando que -Nicoláo de Mesquita se hospedára n’um hotel francez da rua dos -Romulares. - ---Obrigado, primo! Venceste a primeira batalha: agora seguem-se os -triumphos! exclamou Raphael. - ---Que tencionas fazer agora? - ---Vou mandar o meu criado alugar uma casa fronteira. O hotel francez -necessariamente está defronte de alguma casa. - ---Sem questão; mas se a casa tem inquilinos? - ---O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas. - ---Estás a mangar!... - ---Ninguem manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no -quinto, ou quarto andar do predio mora um empregado publico, que vae -rebater duas cedulas para pagar um semestre da casa, que alugou por -cincoenta mil réis. O meu criado offerece-lhe quarenta soberanos, e -diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas!» Antes das doze, o -empregado publico saí com seis cadeiras e duas panellas, e eu entro com -esta ponderosa alfaia de um coração em chammas. Impugna lá se podes! - ---E depois? - ---Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janellas, e eu tenho -olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que magicos, que peregrinos -olhos tem! Deixo as omissões á tua discrição. E agora vai-te embora que -eu vou dar credenciaes ao criado. Á noite vou a tua casa. - -O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves -do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia -seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do signal. - -Fechou-se Raphael n’uma sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz -passar a noite com o primo Almeida. - -Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e -disse-lhe pouco depois: - ---Ricardo passou com vossa excellencia algumas horas do dia... - ---Não ha duvida, minha senhora. - ---Facilmente conheci que o senhor Garção exerce uma sinistra influencia -no animo de seu primo. - ---Porque, madame? Sinistra influencia!... - ---Certamente, que elle entrou em casa com uma linguagem nova. - -Raphael relanceou os olhos ao primo, e disse entre si: «Este homem será -mais inepto do que eu presumo?» - -E, replicando a Margarida, disse: - ---Bem vê, minha senhora, que a minha idade não authorisa a dirigir -o espirito de ninguem, particularmente de uma pessoa, que vossa -excellencia domina com absoluto imperio. - ---Agradecida! tornou ella com ironico sorriso. - ---Eu não previa tão aspero acolhimento d’esta dama! disse Raphael ao -primo. Que significa este desastre? - ---Imaginação d’esta senhora! respondeu Ricardo. - ---Imaginação e dignidade! acudiu em tom grave a franceza. - -Raphael lembrou-se do verso de Molière, que já occorreu ao leitor e -sorriu-se para dentro. - -Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a -aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o marmore da jardineira. - -Raphael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando -com uma camelia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse -ao hospede com requebro maviosissimo de voz: - ---Vossa excellencia veiu a Lisboa buscar seu primo? - ---Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh’o, se elle estivesse -longe de vossa excellencia. - ---O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh’a, porque as -mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se -vista de palavras usadas nos salões. - ---Oh! minha senhora! acudiu Raphael, balbuciando. - -Entrou um escudeiro annunciando uns sujeitos da primeira plana -genealogica. - -Margarida pôde ainda accrescentar a meia voz, em quanto Ricardo saiu ao -encontro dos cavalheiros: - ---Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem. - ---Isso que prova, minha senhora? respondeu o morgado de Fayões. - - - - -XV - - -De relance, disse Raphael a Ricardo que ia sair para esquivar-se a -apresentações. E ajuntou: - ---Estrago tudo, se me faço conhecido em Lisboa. Como hoje não é -terça-feira, cuidei que estarias só. Adeus. Faz os meus cumprimentos á -tua amiga. E apparece. - -No decurso do seguinte dia, o criado de Raphael comprou a mobilia de -um quarto, e recolheu-a, ao fechar-se a noite, na casa fronteira ao -hotel. Antemanhã, prevenido com chave de trinco, entrou Raphael, e -pregou cortinas na janella destinada a observatorio. Instruiu o criado -sobre cousas do estomago, e fechou-se a continuar a carta que daria um -opusculo de cincoenta paginas em oitavo francez. Era a historia do seu -amor desde os quinze annos até áquella hora de ineffavel amargura. Ás -nove horas levantou mão de sobre a setima pagina do sexto caderno, e -foi encostar-se á vidraça encortinada. Esperou impacientado uma hora. -Todas as janellas estavam abertas, e ao maior numero tinham chegado -mulheres e homens. Nicoláo era madrugador e Beatriz tambem; mas nem a -sombra lhes vira no interior dos quartos. Ás dez horas assomou a uma -janella uma criada com trajes da provincia. Suspeitou o moço que fosse -a ama do filho de Beatriz, e animou-se. D’ahi a momentos chegou Nicoláo -á beira da ama, e affagou o menino dando-lhe para brincar as borlas do -chambre. - -Saiu a ama e ficou o morgado da Palmeira encaracolando as guias do -bigode, e baforando fumaças do charuto. - -Fitou-lhe Raphael o binoculo por entre o resquicio das cortinas -justapostas ás vidraças; e viu, no interior da saleta ou ante-camara, -Beatriz reclinada nas almofadas de um canapé, e a ama sentada no tapete -com o menino, que brincava com os longos anneis do cabello da mãe. - -Nicoláo volveu o rosto para dentro, disse breves palavras, e voltou a -debruçar-se no peitoril da janella. Depois, retirou-se, ficando Beatriz -no canapé. Passado um quarto d’hora, saiu o morgado á saleta de chapéu, -vestindo as luvas; e apertando a mão da mulher, inclinou-se a beijar o -filho e saiu. - -Beatriz levantou-se da postura inclinada, e sentou-se. A ama saiu á -janella mostrando ao menino um papagaio da casa proxima. A creança dava -valor aos bracinhos, e festejava com tregeitos e risos as cascalhadas -do passaro. Beatriz veiu á janella gosar da alegria do filho. Raphael -estremeceu: era outra mulher sua prima; mas tambem formosa a outra -mulher figurada. - -Tinha sido redonda e purpurina de rosto; agora emaciava-lhe a palidez -um rosto oval. Alvejavam-lhe agora os labios, que o escarlate do rubi -enrubescera. A transparencia das cartilagens do nariz era tal que se -mostrava ao alcance do oculo. Posto que melindrosa de compleição, havia -sido abundante de carnes, ou os ossos tão delicados que se escondiam -sob uma subtil epiderme. Raphael descobrira-lhe no despeitorado do -roupão de velludo azul a magreza do pescoço e as saliencias das -claviculas. Não podia desfitar as lentes d’aquella encantadora mulher, -que todavia já não era a sua prima Beatriz. - -Saiu da janella a ama, e fitou a senhora, enlevada n’uns sons de piano, -que lhe davam rebates de saudade de alguma bella e triste memoria do -seu passado. - -Raphael depoz o oculo, reflectiu um instante, e correu a vidraça com -estrondo. Beatriz relançou a vista á janella que se abrira; ergueu-se -de salto, do peitoril da sua; admirou anceada o homem que lhe sorria; -levantou machinalmente as mãos em postura supplicante, e desprendeu um -ai estridente. - -Raphael fez pé atraz, logo que viu a orla do vestido da ama, que vinha -correndo. Beatriz affastou-se ao interior da saleta, e caiu no canapé. -Pouco depois, levantou-se, contemplou fixamente a janella fronteira, -entreviu Raphael que se approximava da primeira luz, e sorriu. A ama -atravessou a ante-camara, e Beatriz recolheu-se ao interior da casa -onde devia de estar a alcova. - -Posto que a gentil visinha não fosse exactamente a linda Beatriz, o -morgado de Fayões sentia-se apaixonado d’ella, e radioso de jubilo. - -Esperava-o o almoço, foi para a mesa, e lembrou-se das palavras de -Nicoláo de Mesquita: «coração a um lado; estomago a outro». Almoçou -como almoça toda a gente que se levanta feliz, e como os infelizes que -não jantaram no dia anterior. - ---Não saias, disse elle ao criado. - -Ao meio dia, voltou Beatriz á janella: vestira-se a primor de graça -e simplicidade. Os caracoes ondeavam-lhe nas espaduas estremecidas -pela viração do mar. As rosas encarnaram-se nas faces. Os labios -coloriram-se dos reflexos do rosto. A prima Beatriz estava passando por -mais milagrosa transformação que a primeira. - -Assim que viu Raphael, retraiu-se ao meio da saleta, e fez-lhe um gesto -de espanto e uma pergunta por acenos. O primo respondeu, mostrando-lhe -uma carta, e chamando ao seu lado o criado conhecido de Beatriz. -Ella mostrou irresolução temerosa, e o criado, brevemente instruido, -atravessou a rua e subiu ao terceiro andar do hotel. - -A esposa de Nicoláo chamou a ama á janella, e disse-lhe: - ---Entretém o menino com o papagaio. - -Depois foi ao mainel da escada correspondente ao terceiro andar, -recebeu a carta, e disse ao criado: - ---Ámanhã á mesma hora, respondo. O primo que tenha muita cautella... Eu -não volto hoje á janella, senão á tarde. - -Raphael desceu as vidraças e cortinas. Mandou comprar os ultimos -romances francezes, e saboreou as horas na leitura e na meditação, com -intervallos de espionagem. - -Viu de uma vez Nicoláo de Mesquita passeando na saleta, e gesticulando -com os braços desabridamente. - -Era um dialogo violento com sua mulher... - -Assim que entrou fez reparo no ataviamento de Beatriz, e disse: - ---Maravilha! Desde que estás em Lisboa, é a primeira vez que te vestes -e penteias com esmero! - ---Não cuidei que se fazia notar uma coisa tão insignificante, primo! -objectou ella com amavel sombra. - ---Pois não! Nem pallida, nem quebrantada, um ar de excellente saude! - ---Parece que folgavas com vêr-me pallida! Estarás chorando a esperança -perdida de me veres brevemente morta? - ---Pelo contrario... respondeu ironico, folgo muito de te vêr tão -vivedoura... - -Um exquisito instincto impelliu á janella Nicoláo de Mesquita, e todas -as janellas lateraes e fronteiras foram mais ou menos examinadas. - -Beatriz entendeu a disfarçada analyse, e, olhando por sobre o hombro -d’elle, viu hermeticamente fechadas todas as janellas de Raphael. - ---Tive hoje carta de teu pae, disse o marido, com melhor phisionomia e -brandura de voz. - ---Como está elle? - ---Melhor. Diz que vem a Lisboa. - ---Oxalá... - ---Dá-me a noticia do proximo casamento de Raphael com a Angela de Santo -Aleixo. - ---Sim?... - ---É verdade. - -Nicoláo fixava de perto o semblante da prima, e satisfactoriamente -observava a quietação e a côr inalteravel da indifferença. - ---Raphael, continuou elle, foi a Pariz comprar as prendas do casamento. - ---Deve trazer-lhe coisas lindissimas! observou Beatriz com um sorriso -frivolo. - ---Vou jurar que elle não volta cá tão cedo. Pariz é o engodo, e o -tonico das almas estragadas. Quando elle achar o deleite que tem em -si aquelle bello inferno de Pariz, esquece a morgada de Santo Aleixo, -e acha em cada franceza feia uma mulher superior ás mais formosas de -Portugal. - -Beatriz magoou-se; não se magoaria, antes de lêr a carta de Raphael, em -que elle, indelicadamente, contava as scenas occorridas com Margarida -Froment, antes e depois do casamento de Nicoláo. - -O despeito respirou estas imprudentes expressões: - ---Bem sei; as francezas são muito amaveis; mas é triste que os amantes -das francezas sacrifiquem as mulheres que nasceram e viveram felizes e -amadas em Portugal. - ---Que quer dizer isso, prima? interrogou elle, avincando a fronte. - ---A consciencia que te responda. - ---Como sabes tu que...? - -Susteve-se, e murmurou com retrincado sorriso: - ---Bem sei... bem sei... O infame havia de preparar o terreno... Faremos -contas mais tarde... - ---Que contas? atalhou Beatriz, fingindo-se ultrajada pela suspeita. - ---As contas que se liquidam com os traidores! - ---E tu já as deste, primo? não deves nada? - ---Abstenha-se de interrogar-me, senhora! A perfidia... não ousa tanto. -Abaixa a cabeça, e cala-se! Entendeu? - ---A perfidia!... teimou ella com azedume. A perfidia!... sempre a -palavra injuriosa!... As perfidias despresam-se, primo Nicoláo! Eu -tenho o patrimonio de minha mãe com que posso viver. Quando quizer -separemo-nos! - ---Póde ser... concluiu o marido, saindo da sala. - -Ao fim da tarde, Raphael escassamente divisou atravez da vidraça -Beatriz, que lhe fizera signal de não abrir a janella. - -O amor subtilisara-lhe a esperteza. Desconfiou que Nicoláo, alvorotado -pelo esmerado trajar d’aquelle dia, de qualquer angulo da rua a estaria -espionando. A suspeita era acertada. O criado de Raphael vira o morgado -da Palmeira, encoberto pelos cunhaes das casas esquinadas, a espreitar -as janellas do hotel. - -Á noite, Raphael Garção foi encerrar-se no seu quarto do _hotel de -Italia_, onde era conhecido pelo nome do seu criado, que tirára -passaporte em Hespanha. Raras vezes um espirito leviano prevê tão -miudamente as superveniencias nocivas ao bom exito de uma empreza! Cada -Fausto acareia as simpathias de um diabo invisivel, que o aconselha, -até á hora definitiva em que lhe toma conta da alma, se é que uma alma, -infernada por mulheres, póde servir de pasto aos griphos das alimarias -do reino escuro. - -Encontrou Raphael o primo Almeida, que o esperava sobremodo attribulado. - ---Que tens tu? perguntou o de Fayões. Foi a franceza que te deu tratos -de polé! Aposto! - ---Coisa peior. - ---Fugiu-te?! - ---Não: surprehendi na algibeira d’um criado uma carta para ella -do Mesquita. Facilmente se conhece que Margarida o auctorisou a -escrever-lhe, respondendo á primeira que recebeu. Apresentei a carta -á franceza, e ella, a infame, leu-a placidamente, e disse: «Sem -contradicção, esta carta é para mim.» - ---E tu mataste-a? - ---Zombas com a suprema desgraça, Raphael? - ---Não: congratulo-me com a suprema felicidade! Despediste-a? - ---Não... foi ella quem se despediu. - ---Oiro sobre azul. Então já lá vae!... - ---Teria ido, se me não dissesse isto: «Sou culpada; mas criminosa, não. -Respondi a um desventurado, que está pagando as dôres que eu recebo das -tuas mãos!» - ---Oh! acudiu Raphael com afflicção, que atrocissima lembrança! -Disseste-lhe que eu amava Beatriz! - ---Não. - ---Por tua honra? - ---Por minha honra. - ---Estava perdida a minha pobre prima! A franceza, por vingança ou por -interesse, accusava a mulher ao Mesquita... Seria uma fatalidade!... - ---Socega, que eu não lhe fallei em Nicoláo: era de interesse meu -occultar os dissabores do homem que ella ainda ama. O que Margarida não -póde perdoar é ser elle feliz. - ---O caso é que ella ficou...--volveu Raphael. - ---Pedi-lhe eu que ficasse, emquanto o coração a não impellisse a outro -homem. - ---E ella ficou? Não sei qual dos dois é mais admiravel! Vocês devem -ter um pelo outro a maior desconsideração!... Está claro que te não -podes arrancar da mulher... - ---Eu não sei o que está claro.--disse Ricardo de Almeida.--Escura sei -eu que está a minha alma como as trevas dos condemnados. Eu saí de casa -allucinado, e procurei-te para te contar a minha deliberação: como te -não encontrei, nem te quiz procurar na rua dos Romulares, desisti do -teu parecer, e mandei desafiar Nicoláo de Mesquita. Ámanhã ás onze -horas é procurado pelos padrinhos. - ---Então é certo que endoudeceste?--exclamou Raphael Garção.--Em -primeiro logar, a mulher por quem te bates, se o duello fosse uma coisa -elevada e seria, baixava-o á infima irrisão. Em segundo logar, Nicoláo -de Mesquita não se bate, e humilha-te, respondendo que as Margaridas -Froments tão sómente merecem paladinos, que se desafiem a vêr quem -gasta mais com ellas. Em terceiro logar, quando te batesses... Que -armas jogas? Ha dois annos não jogavas nenhuma... - ---Nem hoje. - ---Pois então, Deus haja misericordia da tua alma, porque Nicoláo de -Mesquita é professor em todas as armas, sem excepção de côr ou feitio! -Ahi vaes tu offerecer o peito ao estoque ou á bala, tu, Ricardo de -Almeida, um rapaz de futuro, um dos mais estimaveis e nobres moços -da provincia! E assim te deixas morrer irrisoriamente por amor ou -desprezo--não sei o que é--de uma mulher despejada, que te abandonou! -Abre a tua alma a um raio de luz, desgraçado! Crava as proprias -unhas no coração ou na cabeça, e arranca de lá essa ignominia, que -te sacrifica a uma coisa que não póde ser amor!... Tu vaes d’aqui -procurar os padrinhos, e retirar a proposta. Depois, vens residir -n’este hotel, e desimpedir a porta de tua casa para que a franceza saia -livremente sem as angustias da despedida. O dever, a dignidade é isto! - ---Tenho vergonha de retirar a proposta--replicou Almeida.--Em Lisboa um -caso d’estes é a perda irreparavel da reputação. - ---Da valentia! - ---Da honra. - ---Então é a honra convencional que te move, já não é o ultraje... - ---É tudo. Não desisto... Emquanto a morrer, sinceramente, com todas as -veras de minha alma te digo que me não importa. Antecipo um acabar mais -obscuro... porque eu, em me vendo pobre, já te disse que me suicido... -Além de pobre, desprezado d’esta mulher, que nem o coração me deixou... - ---Tens ainda um grande coração, porque podes chorar, meu rico -Ricardo--atalhou Raphael abraçando-o.--De hoje em deante és meu irmão! -Hei de disputar-te ao diabo e vencerei! - - - - -XVI - - -Ás onze horas do dia immediato, um criado do hotel apresentou a Nicoláo -de Mesquita dois bilhetes de uns sujeitos que esperavam na sala. Eram -nomes de tomo na velha fidalguia d’estes reinos. - -Desceu o morgado da Palmeira á sala. Um dos cavalheiros com a graça -amavel e affectuosa de quem vae convidar um amigo para um alegre -festim, disse que elle e o seu amigo D. Fulano de tal haviam sido -encarregados pelo primo Ricardo de Almeida de fazerem expressa ao -excellentissimo Nicoláo de Mesquita, cavalheiro que elles propoentes -conheciam de nome, e de mui illustre parentella em Lisboa, a sua -resolução de pleitear com as armas no campo da honra o direito de -repellir uma affronta. - ---Affronta, ajuntou Mesquita, que vossas excellencias terão a bondade -summa de nomear. - ---Cartas escriptas a uma dama, que vive em companhia do cavalheiro -offendido, madame Margarida Froment. - ---A dama de que se trata, disse o morgado, é uma mulher que eu -sustentava minha amante, estabelecida em residencia minha no Porto, no -dia 26 de outubro de 1839, ás tres horas da tarde; e ás quatro horas, -pouco mais ou menos, d’esse dia, e anno, o senhor Ricardo de Almeida -senhoreou-se d’ella. Qual dos dois entendem vossas excellencias que foi -o affrontado? - ---Não viemos munidos de instrucções para responder a vossa excellencia. - ---Instruidos vossas excellencias, recebo as suas ordens, pedindo -licença para observar-lhes que tenho em minha companhia minha mulher, -e o local é inconveniente para o proseguimento d’estas negociações. -Vossas excellencias consentirão que os cavalheiros, chamados a -representarem-me n’esta indiscreta pendencia, se encontrem em logar -designado por vossas excellencias. - -Reunidos os quatro agentes, dois nomeados por Nicoláo, em casa de um -d’elles, saiu D. Fulano a colher instrucções de Ricardo de Almeida, e -voltou confirmando o declarado por Nicoláo de Mesquita, com pequenas -variantes, que não alteravam a substancia. Em consequencia do que, -lavrou-se acta com os seguintes considerandos: - -«Os abaixo assignados, incumbidos de accordarem mutuamente na -deliberação a tomar sobre um conflicto de honra entre o senhor Ricardo -de Almeida e Noronha Valladares Riba-fria de Aguiar Falcão Athayde, -morgado do Pontido, e o senhor Nicoláo de Mesquita Sotto-mayor -Sepulveda Cão e Aboim da Nobrega e Neiva, Morgado da Palmeira do Vidago; - -«Considerando que a franceza Margarida, actualmente, e desde 1839, -contubernal de Ricardo de Almeida, era considerada em dominio de -Nicoláo de Mesquita, ao tempo em que foi requestada pelo segundo dos -citados cavalheiros possuidores; - -«Considerando que Nicoláo de Mesquita foi o primeiro ferido no seu -coração, ou no seu amor proprio, termos equivalentes na questão -subjeita; - -«Considerando que o primeiro affrontado entendeu acertadamente que os -pleitos de honra são objectos sacratissimos em que as leviandades de -uma mulher desdoirada não devem preponderar; - -«Considerando que Margarida, _ipso facto_, se havia constituido materia -_primi capientis_[3], e desde logo coisa apropriavel sem desaire de -quem quer que fosse, nem titulo de propriedade valido; - -«Considerando que Nicoláo de Mesquita havia dado o exemplo de cordura -e desprendimento quando lhe foi extorquido um dominio, que elle -voltava a requestar, sem offensa de Ricardo de Almeida, nem das leis -consuetudinarias; - -«Considerando que a unica pessoa presumivel de offendida seria -Margarida, offensa que não se deu, por ella mesma affoitamente se -gloriar de ser a pessoa a quem endereçava a carta, o corpo de delicto -na questão litigada; - -«Considerando, finalmente, que a dignidade de dois cavalheiros não deve -baixar a contender sobre materia que nunca se pode provar honrosamente -discutida; - -«Os abaixo assignados resolveram que não ha offensa, nem leve desdouro, -cuja desaffronta nobilite as armas nas mãos dos cavalheiros, de quem -receberam authoridade para esta ou outra deliberação.--Lisboa, e casa -de D. João d’Ornellas Themudo, 20 de junho de 1842.» - -Seguem as assignaturas. - -Ricardo de Almeida recebeu a copia d’esta coisa e gemeu surdamente -angustiado pela humilhação, que aviltava a mulher dos seus sacrificios. -Ponderou na crueza e alarvaria de certas palavras escusaveis na -formalidade da acta: os padrinhos offenderam-se do reparo, sairam -abespinhados, e consultaram os reinicolas em duellos sobre se deviam -desafial-o. - -Nicoláo de Mesquita riu dos considerandos, como fórma e como -substancia; achou-os magnificos de ironias e patuscada; agradeceu -infinitamente os serviços dos seus bons amigos; os quaes, azoados com o -riso equivoco do Mesquita, por um cabello que o não desafiaram tambem. - -Os cavalheiros signatarios por parte de Ricardo, bem que lhe -desculpassem a defeza de Margarida e o tratassem com deferencia e -amizade em publico, não voltaram mais a casa d’elle, onde jantavam e -passavam d’antes as noites com frequencia. Motivaram este procedimento, -allegando que se achavam mal com Margarida Froment nas salas de um -amigo. Os sabedores d’este acume de pundonor imitaram os praxistas da -elegancia e dos brios: ninguem volveu ao palacete de Andaluz. - -Queixou-se Ricardo ao primo Raphael dos briosos devassos; e o de Fayões -invectivou contra os considerandos, lamentando não poder sahir a -publico e desafiar, um a um, ou todos quatro de pancada, os signatarios -da indecorosa acta. E d’aqui passou a lastimar Margarida Froment, com -uns termos tão compungidos, que propriamente Ricardo se espantava do -reviramento. - -A mudança era racional. Raphael era mais meditativo que o commum dos -homens das suas manhas e costumes. Cogitara elle que se a franceza, -embora estranha ao seu amor á prima, se reconciliasse com Nicoláo, -facilmente lhe diria que Raphael Garção lhe fôra apresentado por -Almeida. Assaltado por tal medo, cuidou em dominar egoistamente o fraco -espirito de Ricardo, persuadindo-o a sair com ella de Lisboa para o -Porto, ou para o estrangeiro, em ordem a que Nicoláo de Mesquita não -lograsse a vingança desde muito planeada. - -O morgado do Pontido, obtemperado muito á vaidade, e já pouquissimo -ao amor, conveio em retirar-se á sua casa da Foz no Porto, e differir -opportunamente a desligar-se de Margarida, cujo descredito o enojava. -Deploravel orgulho de homem, que julga purificar com a sua estimação a -mulher empéstada no conceito dos outros! - -Propoz elle á franceza a saída para o Porto. - ---Não vou--respondeu ella firme e rapida.--O desprezo dos teus amigos -não me afugenta de Lisboa; o mais que pode é afugentar-me de tua casa. - ---Desprezo os meus amigos--replicou Ricardo. Vamos... porque... - ---Porque vamos?--acudiu Margarida ás suspensivas reticencias. - ---Porque desconfio da tua lealdade. - ---Aqui?... Porque has de ter mais confiança lá?... - ---Confessas, pois... - ---Confesso que te sou pesada, e que me pesa de o ser. Eu surprehendi -muitas vezes o teu espirito, e resignei-me. Esperei que elle fallasse: -foi teu primo que te ensinou a eloquencia do tedio. Morri desde logo -para ti, porque tudo esmaguei na minha queda, mesmo o meu orgulho, esta -luz do ceu ou do inferno que nunca deixa escurecer a dignidade das -peccadoras apedrejadas, que não encontram Jesus. Os teus amigos sabiam -que impunemente podiam offerecer aos teus olhos um libello injurioso -que tu deixaste mal guardado para que eu me podesse vêr n’aquelle -espelho, e admirar a continuação da tua generosidade em baixar até -ao esterquilinio onde me atiraram. Convenci-me de que sou a mulher -descripta n’este papel em que a minha baixeza corre parelhas com a tua. -É impraticavel a nossa convivencia. Reciprocamente nos desprezamos, -Ricardo. - ---Queres, portanto, dizer... - ---Que nos desliguemos. - ---Por que voltas aos amores antigos? - ---Não te dou contas das minhas tenções: bem sabes que ha dois annos e -meio as não dei a Nicoláo de Mesquita. - ---O que me espanta é que vivesses dois annos commigo!... - ---Por que te espanta? - ---Precisamente ninguem te inquietou... disse elle afiando o sarcasmo -com o riso. - ---Espera! - -Margarida abriu uma papeleira, e tirou de um falso alguns massetes de -cartas, que desatou, e derramou sobre a jardineira. - ---Lê as cartas recebidas em Lisboa pela mulher, que ninguem inquietava. -Ahi reconhecerás a lettra dos teus principaes amigos. Ahi estão cartas -dos signatarios da acta do duello, que se não fez porque Margarida -_é coisa apropriavel, sem titulo de propriedade valida_. Vae agora -perguntar a cada um dos teus amigos se possue carta da Margarida. -São grandes fidalgos, e alguns--especialmente os que não te pediam -dinheiro--são ricos e prodigos. Vae perguntar-lhes se a mulher, _a -materia que nunca se póde provar honrosamente discutida_, baixou até -elles, quando lhe rastejavam os pés, acceitando o desprezo, com a mesma -abjecção com que traiam o amigo. Vae... - ---Basta!--Exclamou Ricardo, engriphando os dedos nos punhados de -cartas, que atirou ao pavimento.--Basta, Margarida, que eu estou -expiando infernalmente crimes que não pratiquei! Segue-me, segue-me por -piedade, e fujamos de Lisboa, senão fizeste de mim um assassino! - ---Por minha causa não o serás, Ricardo. Attende-me bem: estas coisas -são providenciaes. Eu sou escrava de um impulso sobrenatural. Não sei -quem me leva nem onde vou. Ha oito dias que eu desprezava Nicoláo de -Mesquita... - ---E hoje?...--atalhou com ancias Ricardo. - ---Hoje... nenhum de nós sabe que fatal magnetismo nos arremessa um -contra o outro, como dois ebrios que se despedaçam a rir... - ---Pois tu vaes para Nicoláo?! - ---Não sei para onde vou. - ---Sabes que elle é casado... - ---Sei: que me importa a mim saber o que elle é? Casada era eu, e feliz, -e rica e abençoada de todas as esposas e de todas as mães!... - ---Que perdição a tua, que estrella, santo Deus! Exclamou em lagrimas -Ricardo. - ---Compadeces-te? Que faria... se visses a minha alma!...--soluçou -Margarida. - ---Oh! mas não vás que eu amo-te! - ---Não mintas... Deus quer que d’aqui a uma hora me desprezes. Tu -amaste-me sem saber por que: hoje odeias-me, sem poder justificar o -teu odio. A carta de Nicoláo? Não pode ser! Que viste n’esta carta? -Um homem que dizia: «A tua compaixão suavisou a minha dôr. Não me -abomines, não peças a Deus o meu castigo, que eu já sinto na garganta -a mão vingadora de teu marido!» O restante da carta que era? lagrimas, -supplicas, reminiscencias do tempo em que me vira presada da sociedade, -e pura como elle já não vê sua mulher. Podeste abominar-me tu, e -tolerar que os teus ignobeis amigos me insultem por causa de similhante -carta? Oh! se elles tiverem irmãs, ou esposas, alguma hora lhes passará -no espirito a imagem de Margarida Froment, que não pode delir com -lagrimas o appellido de seu esposo! - ---Não vês que choro e que te amo, Margarida!--clamava de mãos postas -Ricardo, inclinado aos joelhos d’ella. - ---Dignidade, meu amigo! disse ella, erguendo-o.--Dou-te este nome com -a sinceridade e honestidade de uma santa. Acceita-o que não pódes ser -mais nada para mim. - -E saiu da presença de Ricardo. Elle seguiu-a a brados dilacerantes, e -ella acolheu-o nos braços, murmurando: - ---Ouve-me, meu amigo. Eu pensei hontem em suicidar-me. Se hoje não -visse o papel assignado por quatro miseraveis estaria morta a esta -hora. Salvou-me aquella ignominia, Deus sabe para quantas mais atrozes. -Nicoláo de Mesquita, n’este momento, sabe que eu vou pertencer-lhe... - ---Infame!--exclamou Ricardo arrancando-se-lhe dos braços.--Que infame -és tu, mulher sem pejo, que te vaes vender ao homem que te abandonou! - ---Vender não, meu amigo--atalhou ella com a brandura de um sorriso sem -nome nas expressões variadas da agonia.--Eu não me vendo: compro o -direito de me espedaçar lentamente. - ---Não te entendo, miseravel!--rebramiu Ricardo com os punhos cerrados, -e os braços ameaçadores. - ---Espero que me não insultes como um homem vil!--disse Margarida, -retraindo a face aos punhos convulsos do allucinado. - -Ricardo caiu na tormentosa consciencia da sua indignidade, e fugiu da -vista da franceza, que soluçava como na ultima entrevista com Nicoláo, -na estalagem de Villa Pouca. - -No esplendido salão do seu palacete, Ricardo examinava um par de -pistollas, e substituia por outros os fulminantes oxidados. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[3] Aos redactores da acta, modelo de continencia da linguagem no -genero, agradecemos o latim, sem o qual a não poderiamos trasladar na -integra. - - O AUTHOR. - - - - -XVII - - -Ás dez horas da noite d’esse dia, Ricardo de Almeida fez pavor a -Raphael Garção, quando lhe entrou no quarto, no _hotel de Italia_, -tartamudeando offegante umas phrases sem tino, cortadas por soluços. - -Atirou-se aos braços do primo com desalento mulheril, e chorou mais -copiosamente do que a razão critica das senhoras viris concede que -chore um homem. - -Com espaçosas intercadencias de anciado silencio, contou Ricardo o -violento dialogo com Margarida. O morgado de Fayões escutou-o com o -desprazer que incutem as debilidades do coração alheio aos homens de -rija tempera, e disse: - ---Eu repito as palavras de Margarida: «agora dignidade, Ricardo.» Sae -de Lisboa. Não te aconselho que busques diversões ao espirito no -grande mundo, nem aqui nem n’outra parte. Os homens da tua convivencia -devem ser odiosos em Lisboa: os infames foram elles; mas o ridiculo és -tu. Fóra de Lisboa tambem te aconselho que desistas de distracções, -que as não encontrarás. Nas salas ha alegrias, o mais afiado golpe que -te póde atirar a indifferença. Vae para a tua aldeia, concentra-te, -padece, esquece á força de ninguem te suscitar reminiscencias d’ella. -Isto é duro de ouvir-se; mas quem te prometter outras consolações, -engana-te primo. Dignidade sobretudo. Eu amava Beatriz com a paixão -de homem de minha indole, que seis mezes se esconde a devorar-se na -duvida, e a purificar-se para merecel-a. Ao fim de seis mezes, Beatriz -desenganou-me. Invoquei o meu dever! e antes de trinta dias, estava -distrahido, não te direi honestamente, mas estava curado da ferida, que -já não podia sangrar, sem desdouro da minha consciencia... Nota lá, -primo Ricardo que a nossa provincia está recamada de bonitas mulheres, -portuguezas de lei, materia excellente com o espirito necessario. -Lembro-te o que já te disse, respeito ao desfalque de tua casa, ao -infortunio de não ter nenhuma, e á tua inhabilidade para recuperares o -grande patrimonio sacrificado. Se resistes ás admoestações, que te faz -um doido no seu lucido intervallo, maldigo a hora em que me intrometti -nas coisas da tua vida. - -Ricardo parecia attendel-o com uma fixidez de olhar espavorido: é -provavel que o não ouvisse. N’este comenos, entrou no quarto o criado -de Raphael, alvoroçadamente. - ---Que tens?!--perguntou o amo. - ---Acaba de entrar na hospedaria o senhor Nicoláo. - -Raphael ergueu-se, relanceando a vista ás pistolas. - ---Entrou com elle uma senhora--continuou o criado. - -Ergueu-se Ricardo de salto, exclamando: - ---É ella!... é Margarida! - ---Eu estava no quarto do porteiro--continuou o criado--quando elles -saltaram de uma sége. Poucos minutos antes, tinham chegado uns gallegos -carregados de malas, e disseram que as mandava um senhor, que ás quatro -horas tinha falado com o dono da hospedaria. Eu escondi-me assim que -o conheci, e dei tino de que a mulher, que entrou com elle, falava -estrangeiro. - -Ricardo fez um salto arrebatado á porta. Raphael reteve-o, exclamando: - ---Alto ahi, mentecapto! Que vaes fazer? - ---Apunhalal-os. - ---É justo; mas manda saber primeiro o numero do quarto em que os has -de matar--replicou o de Fayões com agastada ironia.--Se não tivesse -compaixão de ti, despresava-te, Ricardo! - -E, voltando ao criado, mandou-o observar o que podesse. - ---Vamos sair ambos--tornou elle ao primo, que arquejava prostrado no -sophá.--D’aqui a pouco, o Mesquita sabe que estou em Lisboa, se o não -sabe já. Pobre Beatriz! Calcula a minha afflicção, Ricardo! Trata-se -da honra e talvez da vida d’aquelle anjo... e, todavia, olha se me vês -mudar de côr! Que miseraveis somos! Attraimos o raio da desgraça, e -choramos como mulheres, assim que ouvimos o trovão! Ergue-te d’ahi, -coisa, que pareces homem! Vaes comigo para outro hotel? - ---Irei. - ---E brevemente iremos para a provincia, que Beatriz não se demora em -Lisboa, ou é fechada em algum convento. - -Pouco depois, voltou o criado, informando que Nicoláo tomara o segundo -andar do hotel, e que os criados andavam a mudar a bagagem dos hospedes -para o primeiro, e a trastejar ricamente os quartos. Accrescentou que a -estrangeira era franceza, segundo ouvira dizer, e se chamava Margarida, -porque elle mesmo espreitára e ouvíra o senhor morgado da Palmeira -chamal-a assim. - -Ricardo escutava-o com o ar estupido de um surdo-mudo. - ---Fecha as minhas malas, ordenou Raphael. Queres tu, Ricardo? Vamos -para tua casa. Vou ser teu hospede! Tens tu champagne, ou absyntho, -ou a demencia engarrafada em casa? Vamo-nos embriagar, e depois -reflectiremos. Se entramos com a razão n’este labyrintho, estamos -perdidos. Valeu? - ---Vamos, disse Ricardo. - ---Conduz as bagagens ao largo de Andaluz, tornou Raphael ao criado. -Os gallegos que te guiem. Paga a conta no hotel, e voltarás depois a -saber, com disfarce, se o sr. Mesquita se demorou, ou pernoitou aqui. - -Sairam cautelosamente, e mandaram parar a sége perto da casa de -Ricardo. Informou-se o morgado com os criados. Margarida Froment, ao -escurecer, fechára os seus bahus, e mandára entregal-os a gallegos. Ás -nove horas e meia, parára uma carruagem particular com libré defronte -do palacete, e o guarda portão vira, á claridade das lanternas, que -estava dentro um homem embuçado fumando. Margarida saiu, sem dar -palavra aos criados, e saltou ao estribo. - -Depois ouviram-n’a dar um ai já dentro, quando se fechava a portinhola -da carruagem que despediu á desfilada. - ---Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr -escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores -vinhos! ordem ao escanção! - -Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os -licores mais excitantes. - -Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e -cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O -de Fayões exclamava: - ---Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não -seja vinho! - -Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia, -e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados -transportaram-n’o ao leito. - -A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação, -de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no -peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A -cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége estava -ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta do _hotel de Italia_. -Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo ainda -estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para chegar á -uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo. Apeou. -Entrou no pateo do _hotel francez_. Subiu ao terceiro andar. Abriu a -porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu marido. Raphael -entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era a primeira vez -que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos braços; e elle -abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam lume. - ---Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás -mãos d’elle!--murmurou abafada Beatriz. - ---Nicoláo vem á uma hora. - ---Por que o sabes? onde está elle? - ---Com Margarida, no hotel em que eu morava. - ---Com a franceza!...--exclamou ella espavorida. - ---Sim!... com a franceza, que ha duas horas tirou de casa de Ricardo... -Abençoado crime, que me restitue a tua alma inteira! Era o destino!... -Eras minha, anjo da infancia! As penas do infinito inferno para a minha -alma, se eu deixar de amar-te n’este mundo e no outro... Olha como é -bella a nossa vida!... Oh! tu não endoudeces de prazer, Beatriz?... - ---Ó Raphael!... tu atterras-me!...--clamou ella, afogando-lhe no peito -as altas aspirações, que saiam gementes.--É possivel que eu esteja -em teus braços, ó meu amor!... Que alegria e que medo eu sinto!... -Foge, que não vá ser este o primeiro e ultimo instante da minha -felicidade!... Foge, Raphael!... Oiço chorar o meu filhinho... isto é -agouro... a creança chama-me... é o anjo que me está accusando... - -A eloquencia persuasiva de Raphael contra as appreensões de Beatriz, -era de todo o ponto nulla em quanto á expressão, mas de seus labios -mudos resaltavam scintillas, que offuscavam os olhos de Beatriz. -Fechou-os ella para não vêr o incendio; mas o mixto de lacerante -peçonha e prazer vertiginoso que lhe escaldou as veias, só havemos de -comparal-o á infernal deleitação da primeira mulher, que um dia pôde -dizer: «Caí; mas vinguei-me.» - -Decorridos cincoenta e oito minutos, Raphael entrava na sége, a tempo -que a carruagem de Nicoláo de Mesquita parava á porta do hotel. - -O marido de Beatriz entrou com alegre sombra na sala e á esposa que não -ousava encaral-o, disse: - ---Estás zangada, filha? tens razão; demorei-me com os primos -Albuquerques, forçado por etiquetas aborrecidas... Por que te não -deitaste, priminha? - ---Não era meu costume... - ---Pois, sim, mas de hora em deante, quando eu me demorar além das onze -horas, deita-te, sem susto da minha demora. Alguns amigos conseguiram -de mim que eu os coadjuvasse n’umas conspirações politicas contra o -conde de Thomar. É forçoso contribuir para a salvação da patria, quando -menos tempo nos resta para viver n’ella. Os annos trazem comsigo o amor -da patria; e por este motivo, póde ser que eu me detenha por fóra, -extraordinariamente; e desgosta-me muito se me esperares; porque não -estou por lá descançado. Fazes-me isso, sim, prima? - ---Pois sim... deitar-me-hei. - ---Bonita! o menino como tem passado a noite? - ---Bem. - ---E tu que fizeste? Lêste? - ---Li. - ---Gostas das _Meditações_ de Lamartine?--disse elle, tomando o livro de -sobre a almofada do canapé. - ---Muito... São tristes...--respondeu ella. - ---Qual te fala mais ao coração? - ---A _Tristeza_. - ---Bem sei...--acudiu elle, recitando de cór: - - De mes jours pâllissans le flambeau se consume, - Il s’éteint par degrés au souffle du malheur, - Ou, s’il jette parfois une faible lueur - C’est quand ton souvenir dans mon sein se rallume. - ---Mas--proseguiu o morgado--o que ha no teu coração é o _souvenir_ do -poeta de Elvira. - ---Ha. - ---Qual?!... - ---A recordação do anjo da minha mocidade. - ---Teu primo?--atalhou irado o marido. - ---Não... o anjo da minha innocencia. - -Nicoláo sorriu-se, compondo o desmancho do rosto, e disse com -maviosidade: - ---Queria vêr-te feliz, prima! - ---Feliz... como tu? - -Esta pergunta deu-lhe uma pancada na alma. A reflexão combateu o -preconceito, e respondeu: - ---Sim, feliz como eu, que te adoro, e te perdôo as maguas todas com que -por vezes perturbas a immensa felicidade de te haver merecido... - ---São quasi duas horas...--observou Beatriz, depois de uma longa -expansão de termos affectuosos do marido. - ---Queres dormir, prima? - ---Se eu podesse... doe-me tanto a cabeça!... - ---Pois sim, vae, meu amor: eu espertei com o muito café que bebi, -e aproveito a vigilia para ir escrever aos feitores. Vou alugar um -palacete onde o encontrar. Aqui estamos incommodados com a pequena -casa, e a bulha da rua. Gostas de ficar em Lisboa alguns mezes? - ---É-me indifferente. - ---Dizem que teremos bello theatro lyrico. Tomarei um camarote de -assignatura. As primas Camaras e as primas Mesquitas irão comtigo, -quando os embaraços da politica me não deixarem... Diz-me cá, prima... -Tu desejarias ser viscondessa do Vidago? Offerece-se-me excellente -occasião, assim que o ministerio cair. Vê lá, queres? - ---O que tu quizeres, primo... O que eu agora muito queria era dormir... -Sinto-me tão desfallecida!... - ---Pois vae, filha, vae; mas ama-me muito, sim? Vem dar-me um beijo... e -até ámanhã. - -Nicoláo abancou a escrever aos feitores. Eis aqui o specimen de uma das -cartas aos feitores: - - «Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos... - Abro ao acaso as _Meditações_ de Lamartine, e leio no _Canto d’amor_: - - «Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles - «Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait? - «.......................................... - - «Parle-moi!... que ta voix me touche! - «Chaque parole sur ta bouche - «Est un écho mélodieux!... - - «.......................................................» - -Esta carta começa lyrica de mais para um feitor! - - - - -XVIII - - -Ricardo de Almeida, quando Raphael entrou, dormitava anciado, -bracejando, e resmoneando sons desligados. Á cabeceira estava o -escudeiro, homem de annos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e -servo dos Almeidas desde a infancia. O velho chorava e dizia a Raphael: - ---Saberá vossa excellencia que é a primeira vez que vejo assim meu amo -turvado do juizo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas! - ---Isto não é desgraça, homem!--contestou Raphael Garção.--As bebedeiras -são ás vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho? - ---Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no -purgatorio; mas a de meu amo, ou eu me engano, ou cae direita no -inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como -ao seu santo parente fr. Gil de Santarem. Vossa excellencia sabe a vida -d’este parente do senhor morgado? - ---Has de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja -polvora, e alegra-te, que o fadario de teu amo está a quebrar-se. - ---Deus o ouça, meu senhor!--disse o velho, e foi á cosinha filtrar -alegremente o café. - -Raphael estirou-se n’uma flacida ottomana, e sentiu-se na mais feliz -hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho. -Coordenava as reminiscencias de tres quartos de hora, e convencia-se -da real existencia da sua fortuna após um arrojo que o coração não -praticaria sem a escandecencia dos vinhos. Erguia-se de impeto, e -mirava-se n’um espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o -invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido -põe o homem n’estes ridiculos arrôbos de si mesmo. - -Chegou a bandeja do café. Raphael fez-se servir reclinado nos coxins, e -disse: - ---Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a historia de S. Gil, meu -maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me -alguma coisa de Margarida. - -Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um -romperem-se-lhe as fibras da larynge: - ---Margarida!? - ---Que é lá?--acudiu Raphael.--Uma chavena de café, primo Ricardo! - -O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se, reconheceu-se, -no aperto da desesperançada angustia, e exclamou: - ---Que perdição!... que horror me faz a vida!... - -O mordomo saiu entalado de suspiros. Raphael deu-lhe a chavena, e -exortou-o a esperar a boa crise mais rapida que o regular. - ---A materia bruta de sensibilidade--explicava elle--ha de gastar-se -mais depressa em ti, que a consomes com maior energia que o vulgar dos -homens. - -Ricardo saltou oscillante do leito, e abriu as janellas do quarto, -aspirando a tragos a viração da antemanhã. - ---Estou melhor--disse elle.--Que soubeste de Margarida? - ---Soube que Nicoláo saiu de lá fixamente á uma hora. - ---Onde estiveste?... aqui? - ---Não: estive com a prima Beatriz. - ---No hotel? - ---Sim, no hotel. - ---Como a fortuna te bafeja!--disse com tristeza Ricardo. - ---A fortuna só desampara os fracos. Devias saber isto do nosso -Virgilio: os fracos e os tolos, accrescento eu ao illustre poeta. Tu, -meu amado primo, funestamente acumulas fraqueza... - ---E tolice--concluiu Ricardo. - ---Estava eu a procurar um termo com mais euphonia; mas tu o disseste. -Os dois annos, immolados á franceza, poderás tel-os dourado de faceis e -doidas alegrias, á mistura com alguns precalsos inevitaveis, dos quaes -a gente se paga usurariamente com delicias. Olha que n’este mundo ha -unicamente um estudo sério e digno de vigilias: é salvar a cabeça do -coração. Na cabeça é que estão os olhos que descortinam o futuro. A -cabeça é quem vê o primeiro barranco em que é honra saltar, e o segundo -em que é parvoiçada cair. Certos sujeitos, quando cuidam que o ideal os -eleva, burrificam-se. Chegada a occasião de se destramarem habilmente -de uma rede, escouceiam, enredam-se mais, e descambam na lama. Felizes -aquelles que podem, como tu, dizer á desgraça: «Atraz, maldita, que eu -tenho vinte e cinco annos!» De que bordo estás, Ricardo, que fazes? - ---Retirar-me ámanhã de Lisboa, ou matal-a. - ---Sou de voto que te retires. Vae convalescer e volta ao mundo. -Regenera os teus haveres, e torna a dissipal-os, se o bom anjo da tua -indole te não apegar á dôce vida que deixaste. Eu preciso d’esta casa, -mobilada como está, com as carruagens e cavallos. - ---Tudo ahi te fica--disse Ricardo. - ---Depois que me disseres o custo de tudo. Convém que saibas que minha -tia-avó, fallecida ha dois annos, conservára intactos os cofres de -meu tio-avô, governador do Brazil. Fui seu herdeiro. Achei cento e -cincoenta mil cruzados em ouro. Gasto estes cabedaes, com a certeza -de que sou o forçado herdeiro de uma casa que rende quatorze contos -de réis. Já sabes que se a tua mobilia e trens podem valer dez mil -cruzados, ou vinte, este dispendio nem levemente altera os meus planos. -Se me queres obsequiar, crê que me não obsequeias com o emprestimo -d’estes objectos: incommodas-me. - ---Como quizeres--conveiu Ricardo. - ---Agora presumo que o Mesquita não sae tão cedo de Lisboa, a menos que -Margarida me não denuncie. A vida em hospedarias arrisca a segurança -das minhas excursões. Sou, portanto, o dono d’isto, e tu és desde agora -o meu hospede, e bom é que o sejas por pouco, se é que desistes de dar -o ultimo pregão da tua miseria. - -Repontava a estrella d’alva. Raphael mandou atrellar os cavallos, e -despediu-se, até á noite, de Ricardo. Saiu e recolheu-se á casa da -rua dos Romulares. Dormiu bem-aventuradamente cinco horas, ergueu-se -como as innocentes avesinhas em manhã de abril, festivo, illuminado -de interiores contentamentos, trauteando cançonetas hespanholas. Foi -espreitar á janella: viu Nicoláo á beira da esposa: elle bem assombrado -e risonho; ella esmaiada da côr e melancolica. Beatriz entreviu-o -de um insuspeito lanço de vista. Córou até ás orelhas; alindou-se, -purpurejou-se quanto pode o pejo de uma recordação, alanceada pelo -espinho do crime sem remorso. - -Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida -Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se -não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que ha menos -santas; mas tambem ha mais quem incense as peccadoras. O inferno -lucrou, e o ceu creio eu que perdeu quasi nada. - -Á uma hora, saiu Nicoláo, e entrou o criado de Raphael com um bilhete -que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de -poder verter-lhe no seio lagrimas que o suffocavam. Seguiram-se -horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das trez da tarde, -Beatriz parecia desafogada das lagrimas impertinentes: surria, -tregeitava, inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o -marido beijando-a carinhoso. Raphael jantou, dormiu, sonhou phantasias -deleitosas que eram, ainda assim, pallidos arremêdos das alegrias -verdadeiras. - -Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Fayões á casa de Andaluz. -Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez -novas exortações á coragem vacillante do primo, incitou-o a gosar-se -de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas. -Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois mezes de distancia, havia de -afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da -desgraça. - -Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu -mordomo, e d’alli, fechando os olhos a todos os logares despertadores -de memorias saudosas, passou á sua casa do Pontido. - -As tias não sairam a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada -abalou-as de modo, que desfalleceram abraçadas uma n’outra. Ricardo -beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo alli prometteram -erguer um altar na capella da casa consagrada ao seu parente S. Gil. - -Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fôra -ingrata. A Providencia seria injusta, se prolongasse o supplicio -do homem, que nenhumas dôres causára com o seu desvario. Se déra -escandalo, os escandalisados escarneciam-n’o e vingavam agora a moral -publica. Foi por isso que o ceu se abonançou. A solidão restituiu-lhe, -a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na -delapidação dos seus bens. Desempenhou os hypothecados, restaurando -rendas bastantes a um decente passadio. - -Padre Ambrosio, o virtuoso egresso, perdoára-lhe o descredito em que -tinham andado na Foz as suas vestes, roçadas pelas sedas da pactuada -do inferno. Havia elle sido chamado para Mirandella, onde tinha um -irmão, chegado do Brazil, com centenares de contos. Foi visitar o -irmão, e sobrinhas; mas voltou ao Pontido, cuja casa lhe déra, em 1833, -hospitalidade de parente, e disvelos de familia muito sua. O brazileiro -foi visitar o irmão, e levou comsigo uma das tres filhas. Ricardo de -Almeida quiz honrar o irmão de seu mestre, e saiu a recebel-o no pateo, -e a receber na portinhola da liteira a mão da brazileira. Depois, -voltou ás suas graves cogitações, aos longos passeios nas montanhas do -Alvão, ás fadigas da caça, e aos chumbados somnos das noites infinitas -do inverno. - -A brazileira via sorrir aquelle mancebo pallido com a graça dos -infelizes que não podem queixar-se. Perguntou a D. Sancha o segredo -d’aquella serena e affavel melancolia. O egresso fez uma narrativa dos -infortunios do fidalgo, com tanto engenho que não feriu de leve o pudor -da sobrinha. - -Laura, a brazileira, ficou amando o moço triste. Despediu-se d’elle sem -poder fital-o, e bem-disse a lagrima que a denunciava. - -O irmão do padre Ambrosio saiu encantado da lhaneza e cordealidade -com que fôra acolhido por familia tão illustre. «Se eu fosse fidalgo, -escrevia elle ao irmão, daria a minha Laura e cem contos de réis a esse -bello moço, que me captivou, e fez para sempre triste a minha filha. -Alguns meus amigos e companheiros de trabalho e fortuna teem comprado -a fidalguia para hombrearem com as raças nobres; mas eu tenho sido o -primeiro a rir d’elles, e serei o ultimo a comprar nobreza, quando -todos formos nobres, o que vem a succeder, se não houver diluvio por -estes vinte annos. Não digas isto ao teu discipulo, que não vá elle -afugentar á minha custa a sua tristeza. A tanto não me sacrifico eu, -nem a nossa Laura quer que a sacrifique.» - -Uma carta de Ricardo a Raphael, dois mezes depois, desenvolve e remata -o episodio, necessario ao contexto d’estas biographias. Dizia assim: - - «É constante ainda o boato da tua residencia em Paris. As damas de - Chaves esperam as encommendas. Teus paes soffrem com a falta das tuas - noticias. Apenas receberam a carta, que mandaste lançar á caixa em - Pariz. A Angela de Santo Aleixo, para que ninguem possa duvidar de - que tu vens casar com ella, casou antes de hontem com o morgado das - Boticas. - - «O tio Martinho Xavier já desconfiou da lealdade do teu passaporte - para França. Desconfia tambem tu da espionagem d’elle em Lisboa. - - «Eu não dou nada pela duração da tua felicidade. Já de cá te imaginei - enfastiado. A mim dizias-me tu assombrado: «Dois annos a mesma - mulher!» Eu digo-te sem assombro, por que te conheço: «Dois mezes o - mesmo anjo!» - - «Agora, se queres, fallar-te-hei de mim. Caso. A historia da - felicidade é uma palavra só. Não caso com prima nenhuma. É a filha de - um homem que enriqueceu a trabalhar. Saiu de Mirandella com um chapéo - braguez e uma véstia de cotim. Entrou em Mirandella com quatrocentos - contos, e trez filhas, e a jaqueta e o chapéo, que ainda mostra aos - duvidosos da sua origem. - - «Laura é brazileira, é galante, faz dezoito annos, escreveu-me com - pouco esmero de grammatica, e incluia as cartas abertas nas do pae. - Agora está em nossa casa, e minhas tias amam-n’a. Eu estimo-a, e creio - que virei a amal-a. Sei que se affligem os nossos parentes com este - alcance. Se meu avô Duarte de Almeida não morresse mutilado de mãos - e dentes, a opinião de nossos primos é que elle viria estrangular-me - e morder-me. Estes primos compraram-me as quintas ao desbarato, e - promettem revender-m’as pelo duplo. Pedirei a meu avô Duarte de - Almeida que os sove a ponta-pés, visto que não pode dispôr das mãos, - assim como tu dispões do teu irmão agradecido, Ricardo.» - -Raphael Garção, lida esta carta, ponderou, e disse entre si: «Parece-me -que Ricardo é mais feliz do que eu!» - -E, com intervallo de um soliloquio mental, fallou com o seu demonio, e -disse-lhe: «É crivel que eu esteja enfastiado de Beatriz?!» - ---Pois não é?!--respondeu o demonio. - - - - -XIX - - -Raphael Garção enfastiado de Beatriz!...--Castigo do ceu!--Dispensemos -a intervenção do ceu nas baixezas que o não exaltam. Temos cá em -baixo a comesinha e espalmada explicação de tudo que é feio, triste e -nauseativo. - -Enfastiou-se Raphael Garção por sete razões: - -1.ᵃ Ninguem o estorvava de ir vêr sua prima duas horas de cada noite, -regularmente. - -2.ᵃ As horas do dia, passadas na sua residencia clandestina da rua dos -Romulares, começaram a parecer-lhe longas, e a casa mal arejada, e os -visinhos do quarto andar insupportaveis com o strupido do rapazio. - -3.ᵃ Beatriz exigía-lhe que elle passasse o dia alli, receiando que -outra mulher o estorvasse instantaneamente de a vêr a ella. - -Observação á rasão terceira: Se Beatriz lhe dissesse que a sua -assiduidade n’aquella janella punha em risco o segredo, Raphael -cuidaria que o terceiro andar estava perfumado de caçoulas orientaes; e -que o tropel dos meninos de cima era um soido das harmonias dos astros. - -4.ᵃ razão. As substancias alimenticias chegavam sempre frias e -derrancadas á rua dos Romulares, por virem do largo do Chafariz de -Andaluz. Esta razão é vergonhosa! - -5.ᵃ Dormia Raphael trez a quatro escassas horas em cada noite, para -entrar com a aurora na casa fétida. Pesava-lhe a cabeça, a miudo; e, -á decima quarta noite de visita ao hotel, se se descuida, bocejava na -presença de sua prima. - -6.ᵃ Era curiosissimo de touros e côrtes, e não podia ir ao curro nem ao -parlamento. - -7.ᵃ Queria conversar, queria gente, queria dar jantares, e fazer -brindes mysteriosos a Beatriz; mas o relacionar-se era victimar a sua -felicidade ás suspeitas de Nicoláo de Mesquita. - -Estas razões encadearam-se no fim do primeiro mez, e estavam já na -forja os élos de outras sete, quando Nicoláo de Mesquita alugou e -mobilou um palacete no largo de S. Sebastião da Pedreira. - -Raphael melhorou de vida. Livrou-se do terceiro andar. Dormia nove -horas. Comia o seu jantar em bom estado. Além d’isto, morava perto de -Beatriz, e saia de noite a beber bons ares pela estrada de Palhavã até -ao Campo Grande. - -De mais a mais, Beatriz, perdido o susto, e identificada ao facto -assustador, em vez de ir passar as noites com suas primas Camaras ou -Mesquitas, descia pela travessa dos Carros, e volitava da sege de praça -a uma porta do jardim de seu primo, e ahi se espantava da velocidade -instantanea das duas horas costumadas. - -Isto durou um mez, a beneplacito do coração de Raphael. - -Coincide com esta época o conciso dialogo, que elle teve com o seu anjo -mau no final do anterior capitulo, depois de haver lido a carta de -Ricardo de Almeida. - -O morgado de Fayões ficava em casa, quando sua prima ia ao theatro. -Não o affligiam ciumes, nem saudades, nem anceios de vel-a sobreluzir -entre a constellação das estrellas de S. Carlos, as quaes--digamol-o de -fugida--se não tivessem luz propria, seriam invisiveis á luz da sala. - -O que elle queria era ir por si, e não por ella. - -Reflexionando comsigo, dizia elle: - ---O mais aperreado dos tres sou eu. O marido está com Margarida -Froment, nectarisando a existencia com as delicias da segunda edição do -seu amor. Beatriz está no theatro a vêr-se formosa na face das outras, -e a saborear-se nas melodias de Verdi. Eu estou aqui a resolver-me do -sophá para a poltrona; e, se quizer ao menos vêr o ceu estrellado, -quando não ha nuvens, hei de bater os dentes de frio por essas ruas, -onde não conheço viva alma! - -O corollario do discurso era algum axioma, dos que elle tinha composto -para uso do seu primo Ricardo. - -Queixou-se uma vez delicadamente d’este sequestro do mundo á prima. -Beatriz amuou, e doeu-se de não ser bastante a dar-lhe mundos -encantados de extasis e fontes inexhauriveis de poesia. Desfez-se a -nevoa, ao calor de um osculo, no breve aguaceiro de mimosas lagrimas. -Gongorisemos estas lindas coisas do coração. - -A despeito, porém, de Beatriz, Raphael deu em ir a S. Carlos, quando -ella ia, indagando préviamente se o primo Nicoláo passava a noite no -_hotel de Italia_. Furtava-se ao reconhecimento de rapazes conhecidos -da universidade, e sumia-se entre a mó de alguns sujeitos gordos, que -faziam perder a individualidade a todo o homem magro. - -Beatriz, guiada pelo coração que lhe fallou aos olhos, apanhou-o, e -assustou-se; porém, como o visse a contemplal-a, perdoou-lhe. - -Assim, pois, melhorou algum tanto mais a vida de Raphael Garção, e -decorreram dois mezes suavemente, sem variante notavel. - -Em março d’aquelle anno de 1843, disse Nicoláo á senhora que precisava -de ir a Santarem com alguns correligionarios politicos preparar o -terreno para uma revolução, tendo de demorar-se n’esta diligencia -forçada trez dias. Beatriz ageitou o rosto a uns ares tristes, e o -marido licenciou-a, como lenitivo á saudade, a ir passar algum dia a -casa das primas Camaras, em Bemfica. - -Contou ella, exultando, o caso ao primo. - ---Bella occasião de irmos passar um dia a Cintra!--exclamou Raphael! - -Ficaram pactuadas as delicias de Cintra. - -Nicoláo despediu-se á tarde da esposa, e foi, senão mentiu, para -Santarem. - -Ao alvorecer toda risos a manhã do outro dia, Beatriz saiu fóra da -barreira, que lhe ficava á porta, entrou na carruagem de Raphael; e -elles ahi vão á competencia com o jubilo dos passarinhos, estrada fóra. - -Chegaram a Cintra. Parou a carruagem á porta do _Victor_. Raphael -apeiou-se, foi dentro procurar um quarto alegre e espaçoso com vistas -sobre os arvoredos das quintas subjacentes. - -Dizia um criado que os quartos principaes estavam tomados; e apenas -dispunha de um sem janella, mas limpo como todos. - -Objectou o morgado que vinha com elle uma senhora, e em tal caso iria -buscar hospedagem n’outra parte. - -N’isto, abriu-se uma porta de um quarto proximo, e saiu á sala de -entrada Nicoláo de Mesquita. - ---Por aqui, primo Garção?!--disse o de Vidago sem sombra de -mal-querença. - -O choque perturbou o sangue frio de Raphael por momentos. Fez-se logo, -porém, a reacção dos imperterritos espiritos. - ---É verdade, primo Mesquita!... Vossa excellencia aqui!... Eu julgava-o -ha muito em Palmeira. Cinco mezes em Lisboa! - ---Aqui estou embaraçado por coisas da politica. Afinal caí n’este -lodaçal commum. E vossê d’onde vem? - ---De Pariz. Cheguei hontem á tarde. Venho vêr Cintra e vou breve para a -provincia. - ---Veio só?... perguntou, Nicoláo, surrindo. - ---Porque pergunta se vim só?--replicou Raphael atalhando. - ---É porque ouvi dizer ao criado que trazia uma senhora. - ---Ah!... sim... eu trago uma senhora... - ---Não se atrapalhe, homem! Quem vem de Pariz não póde deixar de trazer -uma mulher...--tornou Mesquita com o rosto aberto e alma lavada. - ---Mas vossê não vai casar com a Angela de Santo Aleixo?! Que destino ha -de dar o primo á creatura que leva? - ---Hei de pensar n’isso, primo... - ---Afinal--volveu o marido de Beatriz--o visionario desistiu das nupcias -celestiaes!... - ---Que remedio!... - ---Bem lh’o disse eu, seu rapazola!... Fica por cá hoje? - ---Provavelmente... Vossa excellencia vem com a prima Beatriz? - ---Não: vim só...--Beatriz--continuou Nicoláo com o semblante menos -ridente--vive toda entregue aos ministerios caseiros e ao amor do filho. - ---Queira vossa excellencia fazer-lhe os meus cumprimentos, que eu parto -ámanhã talvez, e peço me dispense de procural-os. Adeus. - ---Então já?... - ---Vou em busca de outra pousada. - ---Olhe cá! a companheira é parisiense? - ---Não primo, é de Marselha... Adeus!... - ---Ah! sim? são bellas mulheres essas... - -Raphael já estava no rocio ou patim do hotel, e Nicoláo acompanhava-o, -dissimulando o intento de vêr a franceza. - -O morgado de Fayões transpirava de afflicto, e sentia-se estupido para -inventar um obstaculo á desastrosa coincidencia! - -Beatriz reconhecêra a falla do marido, e tremia na mais natural e -horrente perplexidade. - -Estava tolhida de pavor. - -Raphael parou, torcendo o bigode, e friccionando a concha da orelha -esquerda. Parece que tinha uma idéa salvadora na orelha esquerda. - -Chamou o cocheiro e disse-lhe: - ---Desanda a carruagem, e pára á porta de outra hospedaria, que ahi está -em cima á direita. - ---A senhora vae?--perguntou o criado. - ---Vae. - ---Maganão!--disse o Mesquita, batendo-lhe no hombro--vossê não quiz que -eu visse a mulher! - ---Essa é boa, primo Nicoláo!... Que tem que a veja!... Eu confio -bastante n’ella e no primo!...--respondeu jovialmente o morgado de -Fayões. - ---Póde confiar, que eu puz ponto nos desvarios--concordou o do -Vidago.--Agora, a minha dama é a politica. - ---Cuidado com as perfidias d’essa dama, primo! Eu antes me quero com as -devassidões das outras. - ---É por que vossê não tem amor patrio, e está na sua época de -desperdiçar as forças do espirito. - ---Diz bem, meu amigo, e, se me dá licença, vou dormir um pouco para -recuperal-as. Apparece? - ---Não sei se poderei: espero aqui uns politicos que vem de Lisboa. - ---Pois então divirtam-se: e até á vista, primo Nicoláo. - -Beatriz não quizera apeiar, sem entender a estranheza d’aquelle -encontro. Sentia uns angustiosos apertões de medo, que os criados não -compreendiam. - -Raphael entrou na carruagem, e disse: - ---Já para Lisboa! - -E contou o simples caso da apparição de Nicoláo. Beatriz aquietou-se, -e riu, quando o primo lhe contava o comico dialogo com o marido. Mas -o susto sobreveiu, quando Raphael conjecturou que Margarida, áquella -hora, poderia revelar coisas que os perdessem. - -No entanto, Margarida Froment, que despertára no momento em que Nicoláo -entrava no quarto, perguntou-lhe: - ---D’onde vens? - ---De encontrar aqui um parente, que chegou hontem de França. - ---Está cá? - ---Vinha procurar quarto; mas não o encontrou digno da franceza, que -trazia comsigo. - ---Viste-a? É galante? - ---Não a vi. O rapaz tem medo que lh’a bebam os ares. - ---Então elle é velho?! - ---Tem vinte e quatro annos. Já te fallei n’elle. É o Raphael Garção. - ---Ah, disse Margarida com um sorriso indefinivel.--Esse teu primo é -aquelle que amou tua mulher? - ---Justamente. - ---E veiu agora de Pariz? - ---Sim. - ---Ha quanto tempo estava elle em França? - ---Ha cinco ou seis mezes. - ---Cuidei que o vira ha trez em casa do Ricardo... Que figura tem? É -um rapaz magro, de melenas escuras, bigode, e uma cicatriz na face -esquerda? - ---Tal qual... Tu viste um homem assim?! interpellou o morgado, -atrigando-se. - ---Vi... ha trez mezes, poucas noites antes de sair da casa do Almeida. - ---Mas é a primeira vez que me fallas d’elle!... - ---Não sei para que havia de fallar-te de um homem, que me não importa! - ---Mas eu disse-te que suspeitava... - ---Que suspeitavas de um primo de tua mulher que estava em França. Como -me não disseste o nome d’elle, nem a época em que tinha ido, eu não -podia suppôr que a visita de Ricardo era o primo de quem me fallavas... -Que pensativo estás, Nicoláo!... - ---O que eu penso é uma horrenda coisa!... balbuciou cavamente o -morgado, e saiu. - ---Onde vaes?! acudiu Margarida. - ---Não me sigas... espera-me, que eu tenho a cabeça perdida... - -Foi á porta da hospedaria que Raphael indicára ao cocheiro. Perguntou -se alli não parára uma carruagem. Informaram-n’o que estivera lá um -trem com uma senhora, obra de dez minutos; e partira de grande batida, -assim que chegou um sujeito, e disse ao cocheiro: «Já para Lisboa.» -Pediu os signaes da senhora: Disseram-lhe que era magrinha, branca de -neve e tinha uma capa de casimira escarlate. - ---Maldição! rugiu o morgado com os dentes cerrados. - -Voltou ao _Victor_, e mandou pôr os cavallos á carruagem. Foi ao quarto -de Margarida, e exclamou: - ---É horrivel o que acontece!... - ---Que é, filho?! perguntou a franceza, mais agitada que o natural. - ---Vamos para Lisboa!... Já!... Eu tenho sido atraiçoado!... - ---Por mim, santo Deus? exclamou a franceza. - ---Não, por minha mulher. - ---Tens provas?! - ---Era ella que vinha com o infame! Era ella, e eu vou arrancar-lhe o -coração!... e apunhalal-o a elle! - ---Reflexiona, meu anjo!--redarguiu Margarida Froment.--Tu estás -desvairado! Pois tu viste-a? - ---Não. Fugiram. Branca, magra, e capa escarlate!... Era ella! Está -morta, juro-te que morre hoje, se não estiver escondida nos abysmos do -inferno! - ---Que pequena alma!--observou a franceza.--Quando assim fosse, não -terias a coragem de Ernesto Froment? - -Nicoláo fitou-a com spasmo de furioso, e bramiu: - ---Porque me dizes tu isso? - ---Porque meu marido, como sabes, não me veiu procurar onde me tu -trouxeste. Sei que vive feliz, e esquecido da deshonra, e de sua mulher. - ---Eu não sou Ernesto Froment! exclamou irado. Sou Nicoláo de Mesquita. - ---Egual a Ernesto Froment perante a desgraça, acrescentou Margarida. - ---Basta! - ---Falta-me dizer umas breves palavras, tornou ella. Eu não hei de ir -andar comtigo atraz de tua mulher. Vae, e deixa-me aqui ficar. Se -quizeres, volta, ou manda-me buscar, depois de teres concluido essa -empreza. - ---Vem, que eu, á entrada de Bemfica, mando-te levar ao hotel. Vem, -Margarida, se não estás apostada a tirar-me o resto da minha razão! - ---Pois sim, vamos. - -Que supplicio no trajecto d’aquellas cinco leguas, tão vagarosas! Que -confrangimentos de alma, e revolutear de viboras assanhadas no peito!... - -Parou a carruagem em Bemfica, onde moravam as primas Camaras. - -Nicoláo mandou o cocheiro conduzir Margarida ao hotel, e encaminhou-se -por uma azinhaga á quinta das primas. - -Bateu ao portão. Houve grande demora em abrirem-lhe. Chegou uma criada -a uma janella gradeada do muro, e perguntou: - ---É vossa excellencia, senhor Mesquita? - ---Sou: a senhora D. Beatriz está cá? disse elle offegante. - ---Está sim, meu senhor. - ---Está?! reperguntou com espanto. - ---Já disse que está... Eu vou pedir a chave para abrir o portão. - -Ia grande alvoroto nos quartos das senhoras Camaras. - -Beatriz estava em convulsões; e uma das primas casada dizia-lhe: - ---Que mulher esta!... Ó tola, animo, que está tudo prevenido, criadas e -tudo!... Tira essa capa, e cobre-te com a minha azul, que é a irmã da -tua. É uma cautella, que tu não sabes se elle te viu... - ---Sacudam-lhe o pó do chapeu! disse outra senhora Camara, tambem casada. - -E o marido d’esta senhora accrescentou: - ---Porte-se com coragem, prima Beatriz. - -O tardio abrir-se do portão deu tempo a tudo isto. - -Quando Nicoláo avistou a escadaria do palacete, já sua mulher, entre -as senhoras Camaras, estavam no patim, vozeando um alarido de alegre -recepção ao primo Mesquita. - -O reparo que elle fez logo foi na capa, que lhe saiu azul. Ainda assim -a cara denotava o inferno interior. - ---Não foste a Santarem?! perguntou Beatriz com jovial admiração. - ---Assim, assim!--applaudiu a meia voz uma das senhoras -casadas.--Falla-lhe n’esse tom. - -Nicoláo subiu a escada, ainda esbofado. - ---Vieste a pé?! disse Beatriz. Que canceira é essa! Tu d’onde vens? de -Lisboa? como ficava o menino? Viste-o, filho? - ---Muito bem! disse á puridade uma senhora Camara, a outra senhora -Camara, ambas casadas com maridos espertos. - -O morgado sentou-se n’um banco de ferro. Era a mais inclassificavel das -phisionomias benemeritas de um estudo phisiologico. - ---Que tens tu? volveu Beatriz. Querem vêr que te aconteceu com o -demonio da politica alguma desgraça! - ---A que horas saiste hoje de casa? perguntou abruptamente Mesquita. - ---De manhã cedo, respondeu uma das senhoras Camaras, porque nos veiu -pôr a pé a travêssa da prima, eram seis horas e meia. - ---Essa pergunta que significa! inquiriu Beatriz, arrugando a testa. - ---O primo está afflicto! A sua pergunta quer dizer alguma coisa! -observou outra senhora. - -Beatriz entrou de repelão na sala, encarando-o com uma sobranceria de -quem esmaga a affronta sob os tacões das botinhas. - ---Entre, primo Mesquita, pediu o marido de uma das senhoras. Vossa -excellencia está preoccupado. - ---Peço perdão! disse Nicoláo. Eu devo confessar, visto que Beatriz se -retirou offendida, que uma gravissima suspeita me trouxe aqui. - ---Suspeita injuriosa á pobre senhora? perguntou a prima Carolina. - ---Eu suppuz que minha mulher esteve em Cintra, ha trez ou quatro horas. - ---Que horror! exclamou uma; e as outras, com as mãos no rosto, -conclamaram: - ---Que horror! Deus de misericordia! - ---Em Cintra!? - ---Ha trez horas!? - ---Haveria olhos infames que tal vissem! - ---Quem lhe disse isso? - ---Como se ataca a honra de um anjo! - -Fallavam todas a um tempo. O proprio sujeito, que era marido, cruzou os -braços, abanou a cabeça, e disse: - ---Que hedionda calumnia! - ---Venha pedir perdão á prima Beatriz! disse uma dama de cincoenta -annos, que tinha ao seu lado uma filha de vinte e outra de dezoito. Vá -pedir perdão á innocente menina! Em Cintra!? Pois ella chega aqui ás -seis horas e meia, a pé, coitadinha, que não tinha trem, nem o achava -áquella hora... e esteve em Cintra ha quatro horas!... Que mundo, que -mundo!... - -Nicoláo ergueu-se, e foi pelo braço do cavalheiro a um quarto, onde -Beatriz se refugiara com uma das senhoras. - -Estava ella com a pallida fronte apoiada na palma da mão, e os olhos -no regaço, sobre a mão da sua amiga, que a confortava. - -Nicoláo acercou-se d’ella, tocou-lhe na face, e disse commovido: - ---Então, filha!... perdoas-me? - ---Não quero saber o que hei de perdoar-lhe, respondeu Beatriz com -severidade. - ---Perdoa, perdoa--disse uma senhora Camara, que não averiguamos se era -casada--perdoa, porque as desconfianças são a prova do amor. - -Eram seis horas da tarde. Ia o jantar para a meza. Nicoláo pediu -desculpa de não poder assistir. Foi para Lisboa, e ficou de mandar á -noite a carruagem buscar sua mulher. - -Entrou de boa cara no _hotel de Italia_, e disse a Margarida. - ---Sou um asneirão! Beatriz estava desde as seis horas e meia da manhã -em casa das primas Camaras! Pobre mulher! - ---E pobres homens...--ajuntou Margarida com um sorriso perverso--pobres -homens os ciosos como tu!... - - - - -XX - - -O papel, que Beatriz representava com as comediantes Camaras, não -ajustava ao seu caracter. A senhora, obrigada a valer-se das primas, e -a promover o escarnecerem-lhe o pae do seu filho, sentia-se humilhada, -e ridicula, em seu marido, rebaixado á condição dos Sganarellos e -Dandins de Molière. - -As senhoras Camaras, até á hora em que Beatriz lhes appareceu, exorando -que a defendessem de alguma suspeita de seu marido, consideravam-n’a -esposa immaculada, e abstinham-se de conversarem licenciosamente deante -d’ella. Beatriz, ao arrancar de repente a mascara, não sentiu a dôr -do impuxão; mas depois, quando ouviu as chacotas allusivas ao marido -enganado, teve vergonha, e condoeu-se d’elle. - -Figurava, para desopprimir-se, as perfidias do esposo, a ida para -Cintra com a franceza, o desapêgo d’alma com que a tratava, e o ar -ameaçador com que, por mero orgulho, lhe prescrevia os deveres. Isto -podia muito com ella; mas não a rehabilitava aos olhos das senhoras, -que, desde aquella hora, na ausencia do marido de uma, a fizera -confidente de passagens mais ou menos analogas, e algumas peores de -devassidão e escarneo marital. - -Beatriz saiu á noite, anojada d’ellas e de si. O marido não estava em -casa, nem lá tinha ido averiguar dos criados. Os criados de Mesquita -vendiam o seu silencio a Raphael Garção, e lastimar-se-iam na hora -em que se rompessem as ligações da fidalga com o mais generoso dos -mortaes, que elles haviam conhecido, relacionado com suas amas. - -Escreveu no mesmo ponto Beatriz ao primo, relatando o successo de -Bemfica, salvos os relanços irrisorios. Raphael deu louvores á sua -estrella, e disse comsigo: «É necessario acabar com isto, antes que -estalle borrasca! Não desprezemos este aviso!» - -Beatriz, porém, afervorava-se mais em ternura desde que presagiára -algum desastre. Lembrou-se que Nicoláo, com as provas da deslealdade -d’ella, era homem talvez para matal-a, ou repellil-a com desprezo. -O pae, o severo Martinho Xavier, aferrolhal-a-ia n’um convento, ou -vingaria o marido, n’um rapto de furioso odio. Beatriz precisava contar -com o refugio e amparo do homem amante, corajoso, rico, e affrontador -de todos os respeitos sociaes por amor d’ella. Faltava-lhe animo e -impudor, digamol-o assim, para prevenir Raphael no sentido dos seus -presagios. O bizarro moço acudiu ás balbuciações da prima, anhelando a -hora em que ella se despenhasse dos respeitos vãos do mundo aos braços -defensores do esposo de sua alma. Alentou-se o espirito da senhora. -Achou-se mais destemida, e mais segura na rampa da sua perdição. - -Escreveu o morgado da Palmeira ao sogro, e dizia-lhe n’um -post-scriptum: «Aqui vi Raphael, que chegou de Pariz. Leva uma -franceza. Doido até á morte!» - -Martinho Xavier respondeu: - -«No tocante a Raphael Garção ouso pedir á tua bondade que me não falles -mais. Eu fallei muito a respeito d’este homem. Hoje a ti peço, aos mais -ordeno que me não fallem n’elle.» - -Martinho Xavier, velho amigo do governador civil de Lisboa, sabia, -mediante as faceis pesquisas policiaes, onde morava Raphael em Lisboa. -Concluiu muito mais além do que a alçada da policia devassou, e -calou-se para não ir elle hastear o patibulo da deshonra da filha. - -Nicoláo de Mesquita ponderou em nada as palavras do sogro. - -Revieram dias serenos, serenos de sobejo para a lethargia de Raphael. -Sensação nova para elle! até saudades dos paes o inquietavam! -Parecia-lhe que na provincia havia de amar mais poeta, e mais -intensamente sua prima. - -Este constrangimento adoentou-o sem artificio. Beatriz deu tento de -sua tristeza, e considerou-se desamada. Chorou e fez-se aborrecida. A -mulher, nas condições de Beatriz, nada vence com lagrimas, e ás vezes -dissolve com ellas os filamentos que a prendem á estima que se desfaz. -Raphael queixou-se amargamente da injustiça e da ingratidão. - ---Avalias mal, disse elle, um homem dos meus annos, e com o meu -temperamento, que está, ha sete mezes, privado da liberdade, e até de -ar, no centro de Lisboa, rodeado de prazeres, attraido pelas diversões -de que amante nenhum se abstém. - ---Eu cuidei que eras assim feliz!... atalhou ella seccando as lagrimas -ao incendio do subito arrependimento. - ---Feliz... de certo fui e sou; mas custa-me que tu chores, quando eu me -queixo que não posso com esta vida... Tens tu força de mover teu marido -a ir para a provincia? - ---Eu não tenho força nenhuma, primo... - ---Experimenta, Beatriz: diz-lhe que estás doente: póde ser que elle te -deixe ir para Palmeira. Se elle quizer ficar com a franceza, que te faz -isso? - ---A mim que me ha de fazer?!... Pois sim, eu lhe pedirei que me deixe -ir para Palmeira... E perdoa-me, disse ella, enternecedora, perdoa-me, -Raphael, que bem conheço que estás doente, e aborrecido como eu de -Lisboa. Quem me dera nas minhas arvores, e á margem do meu Tamega!... -Amei-te com tanto coração n’aquelles sitios!... Tenho saudades da gruta -em que eu ia buscar as tuas cartas e levar as minhas! Conheço todas as -plantas d’onde tu colheste uma flôr, que deixavas cair entre as murtas -para eu a murchar ao calor do meu seio. Tambem te lembras? - ---De tudo, minha filha!...--disse Raphael commovido.--De tudo me lembro -em que teus olhos pousaram um instante. Voltaremos nós áquelle ceu?... -Vêr-nos-ha uma d’aquellas noites estrelladas da nossa terra? - -Estavam mais liricos que o seu costume. O morgado de Fayões era -alma pouco puxada á fieira do idillio. As estrellas distraiam-n’o -mediocremente, e a lua incommodava-o com demasias de luz, nas suas -escaramuças nocturnas á pacifica honestidade dos infelizes, como o -pharmaceutico, e o coronel, e outros de lacrimavel memoria. No tocante -a Beatriz, até áquella hora, minguára-lhe tempo aos devaneios pelo -azul dos céus da sua terra e canteiros do seu jardim. Nos romances, -que lêra, se alguns amantes se detinham em palestras concernentes ás -estrellas, e sombras de platanos, admirava-se ella da impertinencia dos -authores, que tão pouco, em certas conjuncções, conheciam o coração -de duas pessoas apaixonadas, ardentes, novas, doidas, escondidas uma -n’outra como dois anjos, que não entendem o mundo. - -Desde este dia, ou noite, Beatriz ficou pensando sempre em voltar -á aldeia. Tambem ella esperava que o seu Raphael centuplicasse os -carinhos, além, n’aquelles convidativos bosques, onde parece que o -coração se dilata, e enche do amor dos mil amores que a natureza espira. - -Pediu ao marido que a levasse a Palmeira, se elle queria passar o verão -em Lisboa. - -Nicoláo respondeu que não podia ir, nem viver sem ella. - ---E se te eu disser que me sinto deperecer, e brevemente morrerei em -Lisboa?--replicou ella. - ---Não morrerás, menina. Pelo contrario, a vida da aldeia ser-te-ia hoje -um incessante fastio. - ---Como quizeres, primo...--tornou Beatriz com despeito.--Ainda assim, -has de consentir que eu, se me sentir peior, escreva a meu pae, -pedindo-lhe que me venha buscar. Tenho um filho, e quero viver para meu -filho. - ---Pois vive em Lisboa, priminha, que estes ares são purissimos, se me -não engano. - ---Tu nunca te enganas, meu primo--retorquiu, surrindo amargamente;--mas -tambem não enganas ninguem. - ---Explica-te! - ---Mais tarde... - ---Porque não ha de ser já?! - ---Porque ainda se não gastou a paciencia... Não me faças mais -perguntas, visto que eu tenho a delicadeza de te não responder. Se um -dia me queixar, não ha de ser de ti. - -Nicoláo recolheu a colera e a interrogação imprudente. Compreendeu que -Beatriz lhe conhecia deslealdade; e, do aprumo glacial com que ella o -invectivou, tambem inferiu que não era amado. - -Resignou-se, e protestou acautelar-se, visto que ainda era tempo. As -cautelas consistiram em sondar e precatar a fidelidade dos criados. Ia -bem n’aquelle rumo! - -Passados dias, voltou Beatriz a pedir-lhe que a levasse para Palmeira. -Nicoláo respondeu: - ---Póde ser na semana que vem. - -Escreveu a um amigo de Chaves, perguntando-lhe se Raphael Garção tinha -casado com a Angela de Santo Aleixo. Disseram-lhe que Angela havia -casado, quatro mezes antes, com o morgado das Boticas, e que o morgado -de Fayões ninguem sabia d’elle, porque não escrevia a ninguem. - ---Então que é isto?--perguntava Nicoláo á sua razão esclarecida.--O -homem disse-me em Cintra que ia para casa, e ninguem sabe d’elle!... -Não negou que ia casar com Angela, e Angela estava casada!... Mas, se -elle estivesse em Lisboa, e Beatriz o soubesse, seria um contra-senso -querer ella ir para a provincia! Isto não falha aos dictames de uma -razão escorreita! Já sei o que é: o doido escondeu-se por aqui, ou -no Porto, ou na provincia com a franceza. É o que é. Martinho Xavier -sabe-o, e, irado contra esse escandalo, prohibe que lhe fallem n’elle. -Minha mulher é estranha a tudo isto. Vejo-a doente, e receio que ella -se queixe ao pae. Sabe a minha vida misteriosa, e, se eu a contrario, -é capaz de me denunciar. Martinho Xavier vem a Lisboa, e toma conta -da filha. Remediemos as eventualidades. Vou para Palmeira com minha -mulher, e preparo residencia á franceza na minha quinta de Ribeira -d’Oura. No inverno seguinte, deixo Beatriz em Chaves com o pae, e volto -a Lisboa com Margarida. - -Beatriz recebeu a nova da partida. Avisou Raphael, que antecedeu oito -dias a jornada, entrando outra vez em Hespanha. A mobilia da casa de -Andaluz foi vendida em globo, em nome do seu criado. O desabafado moço -cuidou que saia de Lisboa com um pulmão desfeito, e o outro atacado de -tuberculos. - -Entrou Raphael Garção em Chaves, com dois caixotes de encommendas de -Pariz, mandadas comprar no Chiado. Andou entregando os objectos ás -primas, com as quaes fallava difficilmente o portuguez. As senhoras -achavam-n’o assim mais interessante. As donzellas gostavam de ser -chamadas _mamasélles_ e _chères cousines_, pronuncia que feria os -ouvidos lusitanissimos das velhas. De Chaves foi para Fayões, onde se -espantou de não encontrar cincoenta e tantas cartas, que havia escripto -a seus paes, de differentes cidades do mundo. Os velhos choravam -abraçados n’elle, como se o filho, por milagre de Jesus, quebrasse -a campa. Julgavam-n’o como morto, não obstante Ricardo de Almeida, -compadecido d’elles, lhes haver asseverado, de mez a mez, que Raphael -Garção vivia. O morgado queixou-se acremente da inconstancia da prima -de Santo Aleixo, e protestou casar-se por vindicta com a mais rica -herdeira. - -Passados dias, foi visitar Ricardo ao castello de Aguiar. Viu Laura, -a pomba do ceu, que depuzera o ramo de oliveira no coração do amante -de Margarida. Inclinou-se com ingenuo respeito deante da mulher, que -o recebia com um surriso de estima. Sabia ella quanto seu esposo -devia a Raphael Garção, perdido no conceito publico, e ao mesmo tempo -bajulado dos paes, querido das mulheres, e invejado dos homens. Ricardo -pintára-lhe vantajosamente o caracter de Raphael, omittindo o desdouro -dos seus amores adulteros. Laura uma vez lhe revelára a esperança -de vêr uma das suas irmãs casadas com o morgado de Fayões. Ricardo -singelamente lhe disse: - ---Não penses em tal. Raphael ha de morrer solteiro, porque ha de morrer -novo. - -Regosijou-se a dama brazileira de vêr Raphael com saudavel exterior, -e uns vislumbres de espirito fatigado de correr mundo á procura -das aventuras vãs e estragadoras do coração. Julgava ella que as -leviandades do fidalgo eram amar sem destino, gastar o sentimento em -affectos inconsequentes, e com mulheres devastadas pelas paixões, -falsas paixões que desluzem as illusões candidas da alma, como as -côres postiças corroem a natural purpura do rosto. - -Largas horas praticaram os dois amigos em passeios na serra, por onde -Raphael tragava saude, e renovava o sangue. Fallava de Beatriz com -saudade, por que a distancia lh’a aureolava com o resplendor de outros -tempos. Revelava os seus intentos a Ricardo, que, sem fortalecer o -discurso com axiomas, lhe pedia que rompesse uma alliança, promettedora -de cortar-se mais tarde com mais doloroso golpe. - ---E cuidas tu que Beatriz não morre, deixando-a agora eu?--dizia entre -piedoso e fatuo o de Fayões. - ---Cuido que não morreria, primo Raphael. Merecia a pena experimentares -quinze dias. - ---Fez-te barbaro a felicidade, Ricardo!... Assim, queres tu que eu faça -uma fria e selvagem experiencia na vida da mulher que me ama, e que tem -posto a risco a honra e a vida por amor de mim? - ---Não, primo... O que eu queria era induzir-te a salvar-lhe a honra, -que a vida não tem marido que lh’a tire. - ---E, depois,--redarguiu Raphael, que querias tu fazer de mim? - ---O mesmo que tu indirectamente fizeste do teu primo Ricardo. - ---Levar-me ao casamento? - ---Levar-te á honra, e a honra depois que te inspirasse, meu amigo. - - - - -XXI - - -Chegaram os fidalgos ao Vidago. Beatriz entrou contente na enorme gruta -de arvores seculares, que emboscavam a casa de Palmeira. - -Quinze dias depois, Margarida Froment, com o seu mordomo e criadas, -aposentavam-se na quinta da Ribeira d’Oura. Nos arredores corria que -esta dama, com suas aias, e mordomo, vestidos á bizarra, era uma -illustre estrangeira, que viajava, e parára alli, embellesada nos -encantos do sitio. - -Martinho Xavier não visitou a filha, e, respondendo ao genro, que -lhe annunciava a chegada, nem promettia ir vel-o, por estorvo de -enfermidades, nem o convidava a ir a Chaves. Nicoláo de Mesquita -azedou-se da indelicadeza, e disse á mulher que o pae era uma creatura -intractavel. - -Informou-se o morgado do viver de Raphael. Colheu que vivia muito -no Pontido com Ricardo, e com os amores começados de uma cunhada de -Ricardo, dotada com duzentos e cincoenta mil cruzados. Varreram-se-lhe -as suspeitas do pensamento. Foi á Ribeira d’Oura; deteve-se oito dias, -e voltou forçado pelas conveniencias, e já não pelo ciume. - -N’este espaço de tempo, Raphael Garção passou trez dias no palacete -de Palmeira, e revistou com Beatriz, nas cálidas horas das noites de -julho, os maciços das murtas, os alegretes das flores almejadas em -Lisboa, os arvoredos cerrados, as margens do Tamega rumoroso. Noites -lindas, scismadoras como as do tempo ido, mas que differentes ao -espirito de Raphael! Poesia espontanea, essa fenecêra como as flores de -então. A poesia de agora, tirada á força da fantasia, era toda arte de -coração fatigado. Beatriz é que era sinceramente ditosa. - -Raphael estava alli e pensava em Amelia, irmã de Laura, trigueira como -sua irmã, olhos mais ardentes, espiritos mais scintillantes, cheia de -graça na conversação, e de meigas puerilidades no seu amor. - -Acontecia, porém, que o pae de Amelia desconfiava do caracter de -Raphael. Repugnava-lhe o tom galhofeiro do primo de Ricardo de Almeida. -Achava-o mundano de mais; bom para as salas; verde de mais para a vida -intima. Não obstante, ligeiramente contradizia a propensão da filha. - -Raphael não podia romper de vez o enlace com Beatriz; promettia, porém, -ser forte e honrado, assim que o casamento se tratasse. - -Aqui o temos, pois, transtornado, e seduzido pelo exemplo da felicidade -do primo. As differenças de genio, que mezes antes observára elle, -entre si e Ricardo, tornaram em identidade de aspirações. Dizia-lhe -o castellão de Aguiar que principiasse a sua reforma, renunciando ás -abominaveis intelligencias com a esposa de Nicoláo de Mesquita. Raphael -mentiu, protestou despedir-se d’ella cavalheiramente, recolheu-se a -Fayões; e assim que houve nova da segunda ida de Nicoláo á quinta da -Ribeira d’Oura, voltou para Vidago. - -Martinho Xavier sabia os passos do genro, e os do sobrinho. Ao genro -perdoára; ao sobrinho não pudera. Um dia, chamou dois valentes filhos -de um caseiro das suas terras de Barrozo. Deu a cada um seu bacamarte; -e, ao cerrar da noite, ordenou-lhes que o esperassem fóra de Chaves, -com um cavallo á redea. No sellim iam afivelados coldres de pistolas de -alcance. - -Á meia noite, haviam caminhado quatro leguas. A casa acastellada de -Fayões negrejava como um morro de fragas, a um oitavo de legua distante. - -Martinho parou e disse: - ---Á uma hora devem aqui passar dois homens a cavallo. Se o que vier á -rectaguarda fizer algum movimento com armas, atirem a matar. Ao que -vier na frente não lhe ponham mão. Se acontecer matar o criado, fujam, -e esperem-me além Tamega. Eu lá irei ter. - -Antes da hora marcada aos criados, que se embrenharam n’uma bouça, -ouviu-se perto o strupido de cavallos no declive pedregoso da calçada. -A estrada achanava-se ao cimo da ladeira. - -Raphael Garção viu ante si um cavalleiro, quedo e immovel como estatua. - ---Quem é?--perguntou engatilhando uma pistola. - ---Sou Martinho Xavier, pae de Beatriz. - ---Meu tio!--exclamou Raphael, abaixando o braço da pistola. - ---Arreda lá com o parentesco, infame villão!--bradou o velho.--Vae -perguntar a tua mãe que lacaio te deu o sangue plebeu que te gira nas -veias! - ---Essa affronta não fere minha mãe, senhor Xavier! respondeu o de -Fayões erguido nos estribos. - -O criado de Raphael, seu companheiro e guarda desde os quinze annos, -esporeou o cavallo com um bacamarte em punho. - ---Alto ahi!--ordenou Raphael ao seu valente criado. - -O homem susteve o impeto do cavallo, e recebeu no mesmo ponto, duas -balas em cheio peito. Oscilou sobre a sella, inclinou a cabeça ao -pescoço do empinado cavallo, e, destribado caiu morto em terra. - ---É uma espera de assassinos?--exclamou Raphael, abocando a pistola ao -peito do tio. - ---Como quizeres, canalha! Vaes agora morrer tu, ás mãos de um velho, -que deshonraste. Desfecha, corôa a tua vida com o homicidio! Mata quem -te vae varar esse perverso coração!... O pae de Beatriz deve morrer ás -tuas mãos! - -Raphael abaixou a arma apontada, e disse: - ---Atire! aqui me tem mais perto!... - -E impelliu a trancos o cavallo para a frente, e quasi ao alcance do -braço de Martinho. - -O velho retirou o dedo convulso, que premia o gatilho. - ---Antes quer que os seus criados me assassinem?--exclamou -Raphael.--Pois então que atirem elles! Um homem innocente está alli -morto no chão; matem agora o criminoso; desculpem-se de uma barbaridade -com um acto de justiça. Salvem a honra de seu amo, que o sangue do meu -criado não lhe póde lavar as nodoas! - -Martinho Xavier fraquejara. Aquelle silencio era uma estrangulação que -lhe afogava na garganta a voz. Contara comsigo para uma desaffronta, -que, nas cogitações do seu quarto, lhe parecêra heroica. A presença do -cadaver, e o animo frio de Raphael conturbaram-n’o. - ---A deshonra de minha filha!...--balbuciou elle. E as lagrimas -romperam-lhe em torrentes, e a pistola caiu-lhe da mão.--A minha -amada filha... prostituida... por um sobrinho de seu pae... pelo -companheiro da sua infancia, que eu tinha em meus braços, quando -ambos se beijavam... E pudeste, Raphael, tu, pudeste perdel-a, quando -devias guardar a dignidade dos teus, respeitar a esposa de um amigo, -a filha de um velho, que te estremecêra como pae... Tu, filho de uma -irmã de minha mulher!... Maldito sejas!... Deus não quer que eu possa -castigar-te... Divina Providencia, eu vos entrego este criminoso!... -Castigae-o vós! - -Martinho Xavier desandou o cavallo, e partiu vagarosamente. Carecia de -forças, para accelerar a carreira. - -Raphael desmontou, ergueu pelos hombros o criado, quiz acostal-o á riba -da estrada; mas o corpo inerte resvalava com a cabeça pendida, e os -braços desarticulados. O collete e a camisa fumegavam ainda queimados -pelas buchas dos bacamartes. O morgado tirou as mãos ensanguentadas; e -desistiu de esperar signal de vida. - -Voltou a Fayões a chamar criados com uma maca de carregar. -Transportou-o a casa, e não deixou que fosse avisada a justiça. -Amortalhou-o e depositou-o na capella do palacete. Foi suffragado com a -decencia das pessoas da sua familia, e distinctamente sepultado ao pé -do jazigo dos Cogominhos Garções. - -Quinze dias depois d’este successo, Martinho Xavier enfermou -gravemente, e prohibiu que Beatriz fosse avisada. Sem embargo, chegou -a Palmeira a nova da perigosa doença do fidalgo. Nicoláo de Mesquita, -sopesando o despeito, foi com a esposa e o filho a Chaves. - -Era irrecusavel o accesso ao quarto do enfermo. Sentou-se com -transporte de ira o velho, quando viu a filha. Contemplou-a com os -olhos arraiados, e acovados nas orbitas azues. Apontou-a com o braço -tremente e murmurou: - ---O crime!... a lividez patibular do crime!... A maceração da -consciencia no rosto que foi tão bello!... Vae-te, amaldiçoada!... Olha -que pesa sobre ti uma vida innocente, que eu fiz matar! - -Nicoláo, que se detivera consultando os medicos, acudiu aos brados -roucos de Martinho, e viu sua mulher ajoelhada aos pés do leito, e -lavada em lagrimas. - -Assim que o intreviu no reposteiro, o velho carregou a fronte, e bradou: - ---Quem te chamou aqui, devasso? Vae para as vergonhosas delicias da -mulher, que achaste mais digna quando era mais perdida. Vae cumprir -a tua expiação, e não venhas ser testemunha da minha. Dei-te essa -desgraçada, que ahi está, cuidando que a guardarias no santuario de um -amor digno. Não podeste, porque vinhas do crime sordido, havias de -voltar ao mesmo abysmo, e arrastal-a comtigo! Vão-se ambos da minha -presença, e... despedacem-se! - -Nicoláo estava corrido na presença das pessoas que o acompanharam ao -quarto. Retrocedeu taciturno, perguntando aos medicos se seu sogro -estava doudo. Os medicos, suspeitosos da justa supposição do morgado, -entraram ao quarto a examinar-lhe os olhos e os movimentos. Martinho -compreendeu-os, e disse placidamente: - ---Eu não estou doudo, meus amigos. Escusam de examinar-me. Se vêm -lagrimas, são de desgraça, e não de demencia. Peço-lhes o favor de me -deixarem repousar... E, se ahi está alguma senhora, queiram pedir-lhe -que venha transportar d’ahi essa creatura. - -E apontou para Beatriz, que desfallecêra. - -Levada nos braços de duas damas, a filha de Martinho Xavier cobrou o -alento, e, expediu, com vibrantes gritos, repetidos golfos de sangue. -O marido sentou-se ao lado do leito onde a depuzeram, e encarou-a com -feroz catadura. É que das palavras de Martinho se convencêra que a -filha fôra accusar a ligação com Margarida Froment. Como os deixassem -breve tempo sósinhos, o marido acurvou-se ao ouvido da esposa, e -disse-lhe: - ---Que esperavas lucrar tu com a denuncia, desgraçada? - ---Qual denuncia, miseravel?--perguntou ella, erguendo-se de salto. - ---Falla baixo! e responde: que lucraste?... - ---Sae dos meus olhos, que te detesto!--exclamou Beatriz voltando-se de -repellão. - -Replicou Nicoláo com uma convulsão de riso sarcastico, e saiu da -alcôva. Entraram senhoras a rodearem o leito de Beatriz. Encararam -n’ella com assombro, sem ousarem interrogal-a. - ---Meu pae?--perguntou ella. - ---Está socegado. - ---Morrerá?!--tornou Beatriz muito commovida. - ---Talvez não: os doutores dizem que a molestia é moral; mas a causa -toda a gente a ignora. Sabe-se que saiu á noite, ha quinze dias; voltou -de madrugada; fechou-se no quarto; e adoeceu, como se vê. - -Uma das melhores amigas de Beatriz inclinou-se-lhe ao ouvido, e, -pedindo venia ás outras, perguntou-lhe: - ---Tu sabes da morte do criado de teu primo Raphael? - ---Não--respondeu Beatriz agitada. - ---Pois mataram-n’o na mesma noite em que teu pae saiu; meus irmãos -dizem que a doença do tio Martinho está ligada a este acontecimento. - -A senhora concentrou-se, e não respondeu nem esclareceu a tal respeito -coisa nenhuma. - -Reinou de novo um silencio de pesames mortuarios no quarto; porém, na -saleta proxima, alguns cavalheiros conversavam com Nicoláo. - -Dizia um d’elles. - ---Este anno tem sido fertil em casamentos. As melhores herdeiras foram -empalmadas; mas o melhor dote, que veiu para estes sitios, entre Chaves -e Villa Real, foi o de Ricardo de Almeida. Cem contos em moeda! - -Revelava outro: - ---Cem contos de réis a cada filha, sendo trez as que tem o tal ricaço -de Mirandella, negreiro segundo dizem. Sabem vossês que uma das filhas -vae casar... com quem imaginam? - ---Isso é sabido, acudiu outro. Casa com o Raphael Garção... - -Um estridente grito de Beatriz agitou de encontro á porta do quarto os -cavalheiros. Nicoláo entrou com elles, e viu sua mulher debatendo-se -freneticamente nos braços de duas senhoras. Erguia-se ella a prumo, -estorcendo-se e inteiriçando-se em afflictivas ancias. Depois, ao -recair, quebrada de forças nos braços amparadores, bolçava sangue, e -recurvava as unhas sobre o peito, como se quizesse arrancar um cauterio -do coração. - -Uma só pessoa compreendia cabalmente aquella agonia. Era o marido. - - - - -XXII - - -Chega uma hora, em que a mulher, esfacelada pelas cordas em que -estrebuxa, quando a mão inexoravel do dever lh’as estira e reaperta, -sente em si a desesperada ousadia de pregoar á face do proprio marido -o seu amor maldito. Se o insulto á moral se não desprende então dos -labios febris da energumena, é porque em todo o coração, congestionado -de sangue peçonhento, como que se abre uma valvula por onde os pulmões -ingerem um oxigenio purificante. Esta lufada de bom ar não tem que vêr -com os orgãos communs das funcções respiratorias. É fluido estranho á -sciencia de Bichat e Orfilla: chama-se _Esperança_. - -Foi a esperança que poz mordaça aos delirios de Beatriz. A presença -do marido, em cujo rosto revia o escarneo rancoroso, exagitava-a -em anciadas remettidas contra os braços que sustinham. N’uma -intermittencia de quebranto, a filha de Martinho Xavier tirou da luz -do seu inferno um clarão de duvida, e logo o deleite satanico da -esperança. E surriu, e atirou com aquelle surriso á cara de Nicoláo de -Mesquita. - -Avisaram o velho do estado afflictivo de sua filha, pessoas -inteiramente alheias ao complicado enredo do infortunio de ambos. -Martinho mandou dizer a Beatriz que viesse ao seu quarto. A senhora -cobrou forças, e, descomposta de feições, abeirou-se á cama do pae. - ---Já não é tempo de evitar o espectaculo da nossa desgraça, Beatriz? -perguntou elle. - ---É, meu pae,--disse ella.--Eu vou voluntariamente morrer n’um -convento: mas deixem-me levar o meu filho. - ---O convento que significa? Em que se rehabilita a deshonra, fechada -n’um convento? Responde, Beatriz! - ---Morre-se... murmurou ella. - ---Não morre... desespera-se, e redobram as forças que impellem ao -crime. Não te chamei para te propôr convento. O que eu quero é o -segredo da tua queda. É preciso que mintas ao mundo. Vai com teu -marido para Palmeira. Dilacerem-se a occultas da gente, se não podem -reciprocamente perdoar-se. A tua ignominia é ainda ignorada. Teu marido -sabe-a? - -Beatriz fez um gesto negativo, baixando os olhos e escondendo o rosto. - ---Nem desconfia? tornou o pae. - ---Não sei... murmurou ella. - ---Pois salva-me a mim! Emenda-te, desgraçada! Deixa-me morrer, e -depois... depois expõe á sociedade o opprobrio de duas familias, e o -teu filho que receba a herança! - -Beatriz ajoelhou, beijando soffregamente a mão do pae. - -Nicoláo de Mesquita entrou n’esta conjuncção, e disse tranquillamente: - ---Estás melhor, primo Martinho? - ---Creio que sim... Podeis ir para vossa casa, quando vos aprouver. Eu -vou sahir de Chaves para uma de minhas quintas, logo que possa. - ---Observo que te impacienta a nossa... ou pelo menos a minha -presença...--replicou Nicoláo.--A prima Beatriz, se queres, fica, e eu -irei. - ---Vão ambos... Beatriz pertence-te. - -No dia seguinte, seguiram para Vidago. - -No trajecto de algumas leguas não trocaram palavra. Beatriz ia de -liteira com o filho. O marido cavalgava, e adeantára-se a grande -distancia. Depois, na encruzilhada de duas estradas, avisinhou-se rente -com a liteira, e disse: - ---Eu vou á quinta de Valdez e demoro-me lá alguns dias. - -Apertou a mão da esposa, beijou o filho, e seguiu outra estrada. - -Beatriz exultou. - -Chegada a Palmeira, escreveu, e mandou o criado de confiança a Fayões -com uma carta. Era a carta um grito de angustia, uma invocação á -misericordia de Raphael. - -O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa -de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas -da seguinte noite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas -desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava -na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se -encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida -Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista. - -O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago, -entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de -duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao -encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As -rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços -no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau -tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja -pancada é mortal. - -Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam -armados a guardarem as raias do seu territorio. - -O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra, -havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa. - -As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras -sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a -alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos -até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram -atalaias até alta noite. - -Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões. -Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da -partida, sem perceber o intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a -Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho -Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus -perigosos encontros. - ---Tudo lhe direi em viva voz--continuou Raphael Garção.--Não ir é -fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve, -é desgraçadissima. - ---Melhoras a situação d’ella?--replicou Ricardo. - ---Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de -honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua -cunhada que eu amo deveras. - -Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem, -e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta -prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que -Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente -perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de -Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data -d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer -com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a -como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a -Beatriz sem ella. - -Depois, com os seus dois valentes a pé, e elle cavalgado no seu garboso -frisão, foram caminho de Palmeira, por caminhos transversaes. - -Raphael ia triste. Nunca os prantos de sua mãe o compungiram assim! -O pae descêra ao pateo e dera-lhe um abraço, estando já Raphael com -o pé no estribo. Os criados esperavam-n’o fóra da aldeia, para não -alvoroçarem os velhos. - -Ás dez horas e meia da noite, o morgado de Fayões apeou além Tamega, -d’onde se enxergavam alvejantes chaminés e claras-boias da casa de -Palmeira. Raphael esperou o signal convencionado--uma luz na alta -janella d’um mirante acastellado. Ás onze horas illuminou-se o mirante -e elle aproximou-se, entregando o cavallo á guarda dos criados com -ordem de voltarem na noite seguinte. Cingiu-se á fachada do edificio, -d’onde costumava ver Beatriz n’uma janella para lhe indicar qual das -portas estava aberta. - ---Espera!--disse-lhe ella--que ainda não pude mandar abrir a porta. -Andam fora dois criados, por causa das desordens da romaria. - -Raphael tinha ouvido o tiroteio, de distancia de meia legua, e entendeu -a referencia. - -Beatriz continuou: - ---Os criados estão ali para baixo com outros homens, e não podem -tardar... A noite está linda... havemos de passear no jardim? - ---Sim, filha. - ---Amas-me ainda? tens pena da tua desgraçada Beatriz? - ---Amo-te, prima; não vejo, porém, motivo de compaixão. - ---Se tu soubesses o que eu tenho soffrido... o que eu soffri em Chaves. -Espera! - -Ouviram grande fallario. - ---São elles que vem ahi, proseguiu ella agitada. Olha, Raphael; -esconde-te alli ao lado da casa... Está lá um aqueducto aberto; entra -para dentro, e deixa-os passar. Logo que os dois criados, em que não -tenho confiança, entrarem, vou eu mesma abrir-te a porta do jardim. Tem -paciencia... - ---Sim, filha!... eu espero que elles passem, e aproveito a frescura do -aqueducto, disse surrindo Raphael; e, acostado á parede do jardim, foi -indo até encontrar a bocca da mina. - -Os criados pararam ainda, conversando com os seus companheiros sobre a -batalha da tarde. Dizia um d’elles: - ---O que eu tenho pena é de levar esta bala para casa na clavina! - ---Tambem eu! - ---Por hoje não ha mais que vêr! disse um terceiro. Vamos embora. - ---Querem vocês que nós dêmos a ultima descarga? - ---Valeu! clamaram todos. - ---Aqui não! disse um dos criados de Beatriz, que a fidalga toma medo. -Vão descarregar os bacamartes ahi para diante. - -Despediram-se dos que ficaram uns quatro que seguiram, aperrando as -armas, e polvorisando as pederneiras. - -Quando chegaram a pouca distancia da mina, em que Raphael se escondêra, -disse um: - ---Se vocês querem vêr o que é berrar uma clavina, vamos estoiral-as -dentro da mina. Isso faz ahi um trovão, que nem peça de artilheria. - ---Está dito. - -Raphael devêra ouvir a proposta, se a este tempo não viesse do outro -lado uma estropeada de dois cavallos, que perpassavam deante da mina. - -Os cavalleiros, cirurgiões das cercanias, estiveram conversando com -os homens armados, e contando que vinham de examinar os feridos e os -mortos nos montados da romaria. - -A este tempo já Beatriz estava á janella, maldizendo a paragem dos -homens n’aquelle sitio. Os cavalleiros seguiram o seu caminho, e os das -clavinas disseram: - ---Vá! é agora! os tiros todos a um tempo! - -E desfecharam os quatro bacamartes contra a bocca da mina. - -Raphael Garção, como empurrado pelas duas balas que lhe entraram no -peito, recuou alguns passos e caiu de bôrco, e os braços cruzados entre -o peito e a terra. - -Os lavradores, depois da descarga, levantaram grande grita e apupada. -D’além, dos confins da freguezia, irrompeu medonha celeuma de brados, e -estrondear de tiros. - -Observou um dos homens: - ---Querem vocês vêr que os patifes entraram na freguezia? Carrega e -avança, rapazes!... - -E correram em direitura ao ponto da vozearia. - -Beatriz esperou alguns minutos, dizendo entre si: - ---Elle agora já podia sair da mina, que por aqui não está ninguem! - -Esperou ainda alguns segundos... e disse á sua criada confidente, que -estava com ella: - ---Isto que será?! Elle não apparece!... Tu que pensas?... - ---Eu não sei, fidalga! respondeu a criada. Terá medo de ser visto, por -alguem, que nós d’aqui não enxerguemos, e o fidalgo veja lá de dentro -da mina... - ---Ha de ser isso... mas olha... a noite está tão clara... e eu não -vejo ninguem por alli!... Vamos nós lá? - ---Pois vamos, senhora... eu não tenho medo nenhum. - ---Nem eu... Estará elle já no jardim? - -Desceram de mansinho ao jardim, olharam os recantos sombrios, -descerraram a porta, sairam ao caminho, e paráram á bocca da mina. - ---Raphael!... chamou ella, primo Raphael!... Não falla! Onde está -elle?... Ó meu filho!... - -Ouviu um gemido no interior da mina. - ---Ouviste? perguntou Beatriz á criada, que tremia--ouviste um gemido? - ---Ouvi, fidalga!... Santo Deus, misericordia! que será?! - ---Raphael! Raphael!... clamou a brados Beatriz, e entrou mina dentro, -chamando sempre, até tropeçar e cair sobre um corpo inerte. - ---Uma luz, uma luz!--exclamou ella.--Raphael! tu estás morto?! - ---Morto!...--balbuciou elle--Adeus!... - -E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia. - ---Uma luz!... bradou ainda Beatriz. - -A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela. - -Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face -ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que -saiam das paredes do aqueducto! - - - - -XXIII - - -Saiu a criada á bocca da mina, no desvariado intento de chamar quem -levasse d’ali a fidalga. - -Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou -com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada -e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da -parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, n’estes -desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se -affeiçoara, como usam affeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não -obstante, em conflicto de tanta angustia, a sua idéa, quando se viu no -escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem. -N’esta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões n’uma -toada medonha. - -Avisinhou-se ás apalpadelas, e tirou por ella de sobre o cadaver; -mas os braços de Beatriz estavam empedernidos ás ilhargas do morto. -Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços. -Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem -importar-se da crueldade e desamor do acto. Foi ao seu quarto, embolçou -os valores que tinha; e, tirante esta ultima prova de bom senso, no -mais parecia doida a correr por aquella estrada fóra sem destino. - -Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da lethargia, e -sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar -abraçada no cadaver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o -corpo glacial de um morto, e ella esfregava as palpebras, e arrefecia -as mãos na testa. - ---Que horror de sonho!...--exclamava suffocada--e, apalpando as costas -de Raphael, continuava a dizer em sua alma:--Parece que o sinto debaixo -das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!... - -Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que -foi o supplicio indescriptivel do completo despertar. Ergueu-se de -salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadaver com -frenetica ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a -cabeça como hirta; apertou-a convulsamente á face d’ella; correu-lhe a -mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu, -levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de -seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de -encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se -viu sósinha, e não soube compreender que profundezas de abysmo eram -aquellas; e que circo de chammas havia de abranger-lhe o espirito; e -que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida, -a torturada por tormentos, não sabidos de nome n’este mundo, caiu, a -poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um -raio. - -Ás trez horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram -aquella mulher, envolta n’um manto branco, ferretado de sangue. - -Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa. -Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz. - -No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira -d’Oura a chamar Nicoláo de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens -a procurarem não sabiam elles quem; viam a fidalga ensanguentada, e -julgaram-n’a ferida. As criadas examinaram-n’a, e apenas lhe viram o -rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos -visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o -rosto sobre a pedra. - -O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ella se -apalpou. - -Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao -leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de socego. Rasgou -as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou -de gritar, e interrogava os espavoridos circumstantes, perguntando -quem matára Raphael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam. -Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicoláo de Mesquita atirava-se -do leito fóra, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do -rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e -testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em -paroxismos. - -A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias -os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto -parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que -chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a -um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava. - -Nem um monosillabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!... - -Morrêra. - -Ao anoitecer, chegou Nicoláo de Mesquita. Já desde o alto da serra -eminente a Palmeira ouvira o dobrar dos sinos. Tangiam as torres das -irmandades de todas as freguezias proximas. - -Apeiou, correu ao quarto de sua mulher, e viu-a, na ante-camara, -amortalhada, com Martinho Xavier á cabeceira do esquife. - ---Que é isto!--exclamou elle--expliquem-me esta horrenda desgraça!... - -Martinho Xavier não respondeu. Nicoláo instou pela resposta com -gesticulação de furioso, guinando os olhos ameaçadores a todos os lados. - -Saiu ás salas, cheias de gente. Ergueu um brado, pedindo a historia da -morte de sua mulher. - ---Ninguem sabe responder--disse uma voz. - -Acercaram-n’o os cirurgiões, e contaram o que sabiam: os criados -depozeram lealmente o que tinham visto, e accrescentaram que a ama do -menino desapparecera. - ---Vão buscal-a! vão prendel-a!--rebramiu Nicoláo. - -Martinho Xavier acompanhou o cadaver da filha até ao jazigo da capella, -depois de ter assistido aos responsorios. Saiu da capella; e, sem -entrar a despedir-se do pae do seu neto, tomou a creancinha nos braços, -e accelerou o trote do cavallo, caminho de Chaves. - -Nicoláo de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o -levava ao collo, á saida da capella. - -Saltou furioso d’entre os cavalheiros que o rodeavam, e quiz ir na -pista do sogro. Retiveram-n’o, lembrando-lhe que ainda estava quente o -cadaver de Beatriz. - -No outro dia, por noite, chegaram á vista de Palmeira os criados -de Raphael Garção com o cavallo, na fórma das ordens de seu amo. -Esperaram-n’o a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se -cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam -parados n’aquelle sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos -entre ferros, declararam a que fins tinham vindo. - -Nicoláo de Mesquita ordenou que os trouxessem á sua presença. -Atterrados pelo apparato, contaram tudo. O morgado suppoz, um momento, -que Raphael Garção fôra o motor da morte de sua mulher ou com suas -proprias mãos a estrangulára, e fugira para Hespanha. O boato -correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os paes de Raphael, -surpreendidos por esta nova, sairam caminho de Palmeira. Ricardo de -Almeida appareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu -o seu amigo com a eloquencia da verdade e da angustia, na presença de -numeroso publico, exclamando: - ---O assassino de um, ou de ambos foi Nicoláo de Mesquita! - -Enganavam-se todos. - -Os paes de Raphael Garção escutavam as differentes vozes com um spasmo -e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo; -procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois mezes. -Apagada a esperança de tornar a vel-o, foi procural-o n’outros mundos. -O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o -jazigo em que lh’a fecharam, e d’alli saiu idiota para a escuridade de -uma camara, onde agonisou dez annos. - -Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Raphael tinha sido -assassinado por ordem de Nicoláo, não podia soffrer que a voz publica -infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não -podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e -contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Raphael com sua -prima, e as intenções com que elle saira de casa d’elle para Palmeira. -O velho achou rasoavel a supposição do morgado do Pontido; mas a sua -angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e -morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria elle -vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!... -Pediu elle a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse -a lembrança da horrivel tragedia na sua onda de sangue. - -Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mez os processos -começados estagnaram-se, á mingua de indicios. Martinho Xavier, instado -para restituir o neto, desappareceu com elle, e com boa parte dos seus -cabedaes. O menino tinha quatro annos, n’aquella época. Seu avô dizia -que o queria roubar ás reminiscencias do opprobrio e da morte de sua -mãe. Refugiára-se com o seu thesouro em Londres. - -Nicoláo de Mesquita foi para a Ribeira d’Oura buscar as consolações -de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral d’esta mulher -figurou-se-lhe um demonio, que o escarnecia na sua ignominia, a -ignominia de ser deshonrado, como suppunha dos boatos propalados pelo -Almeida, no intuito de o condemnar a elle como homicida de Raphael e -Beatriz. - -Era uma figuração meramente este reparo no escarneo de Margarida. A -franceza ageitou as feições á magua do seu amigo: interiormente é -que ella se deleitava atrozmente, vendo-se no juizo do mundo e de -Nicoláo tão deshonrada como a mulher purissima, por amor de quem fôra -abandonada á generosidade do primeiro homem que quiz acoital-a da -vergonha de pedir ella um amante em troca de um jantar e de um vestido. - -Os exteriores da franceza eram, pois, uma chimera do morgado de -Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que -todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A -publicidade da sua ignominia, aggravada com a hypothese de ter sido -elle o assassino, afóra o perdimento do filho, ao qual a Providencia -lhe suscitára no coração um amor incendiario, estas angustias, -centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida d’este -homem um espectaculo aborrecido ás raras pessoas que o tratavam, e, -mais que a todas, a Margarida Froment. - -Assim que ella proferia uma palavra de banal consolação, Nicoláo -enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos -consummados, com a deshonra de muitos homens. - -Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das -valvulas do seu fel--o fel que o desprezo da sociedade emborca -violentamente na consciencia das mulheres despreziveis--e rebatia-lhe -as injurias com aviltamentos. - -A repetição d’estes conflictos disparou na ameaça de rompimento por -parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu: - ---Pois vae-te, mulher fatal! vae! que a tua expiação ainda não começou! -Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui n’esta agonia, que tu -vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas, -quando devias laval-as com lagrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que -Beatriz fosse victima da seducção! Tu, que interiormente exultas com -o meu opprobrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois -vae-te, vae, maldita, e deixa-me morrer! - -Margarida preparava os seus bahus, para ausentar-se; e Nicoláo -lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando: - ---Não me deixes n’esta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não -tenho ninguem! ninguem! até o filho me roubaram!... - -A franceza condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos -braços com ficticia ternura, e desprezava-o tanto quanto elle mais se -envilecia. - -As maviosidades momentaneas de Nicoláo pareciam ridiculas caricias -de velho idiota: os exasperos, interpollados com as caricias, -afeiavam-n’o horrivelmente. - -Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum accesso de furia -sanguinaria. - -Induziu-o a sair da quinta da Ribeira d’Oura para Lisboa. Nicoláo -recebeu jovialmente o alvitre; mas d’ahi a nada, rompia em exclamações -contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade á sua -deshonra. - ---Está mentecapto!--dizia entre si a franceza.--O diabo que o ature!... - -Nicoláo de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois mezes, -abrir as janellas e arejar o palacete que nunca mais se abrira. -Meditava em transferir para alli a franceza, desejo que ella -manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de -Vidago eram magnificos. - -Deteve-se a revolver as commodas e bahus de Beatriz, onde não encontrou -papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda -estavam fechadas no quarto, porque ninguem dava noticia da paragem que -ella tinha. - -Nicoláo fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas, -e uma medalha de oiro com o retrato de Raphael Garção, e uma manilha -com cabello identica áquella com que o amante de Beatriz morrêra. - -O morgado leu as cartas, sem excepção d’aquella em que Raphael alludia -galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Camaras em -Bemfica. - -Nicoláo sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadaver de Beatriz ao -jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas -fontes. Desistiu da lamentavel inepcia, e fugiu como de si mesmo para -a Ribeira d’Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment. - -Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas: - - «Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A - mulher fatal não quer fazer mais victimas. Adeus. - - «MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT». - -Nicoláo, corridos trez minutos de estupefacção, exclamou: - ---Pois ha Deus que castigue assim!? - - - - -XXIV - - -A interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providencia -que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus. - -Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providencia que mais -queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face -do guzano, que se pascia em sua podridão. - -Desde aquella hora, Nicoláo, olhando-se no baço espelho da sua -consciencia, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se -gosava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro annos, -via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condemnado -nas ultimas setenta horas do oratorio. - -«Eu posso ainda levantar-me d’este abatimento!--dizia comsigo -elle.--Irei longe d’aqui, irei a França, a Italia, a toda a parte onde -a riqueza inventa delicias, irei gosar, esquecer-me, viver!» - -Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso -da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga, -assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a. - -Duas vezes tivera as malas feitas para sair de Portugal: porém, á hora -de partir, senhoreava-o a cachexia com desalento anniquilador, que o -forçava a desistir, exclamando: - ---Onde vou eu? Em que parte do mundo se acabam os limites ao meu -inferno? - -E então, commovia a lagrimas vel-o chorar a elle com saudades do -filho; mas nem a consolação amarga d’estes prantos lhe era concedida! -Sobresaltava-o a duvida de ser elle o pae d’aquella creança. Calculava -épocas, via attentamente a data gravada na manilha de oiro, que -encontrára na caixa da ama: agora, inferia d’aquella data provas -concludentes da legitimidade do filho de Beatriz; logo, convencia-se da -fallivel significancia das lettras gravadas, podendo ellas meramente -commemorar o dia em que fôra dada a prenda. Execrava então o filho, -emquanto a soledade e a insulação de toda a convivencia, lh’o não -mostrava como esteio unico á vida. - -Vagando de quinta em quinta, afinal deixou-se ficar em Palmeira, -encerrado, em pouquissimo da casa, estranho ao governo d’ella, -inaccessivel a foreiros, a criados, a raros amigos que o procuravam. -Um só homem conseguira entrar no quarto de Nicoláo de Mesquita: era -o octogenario reitor, varão de preclaras virtudes, que adivinhara o -essencial da angustia do fidalgo, que elle baptisara e beijara nos -braços de sua mãe, quando assistiu ás estrondosas festas do baptisado. -Quantos esforços fez o santo homem para o tirar á luz e ás distracções -do campo todos se mallograram. Chamava-lhe o pensamento a coisas de -lavoira, obras começadas, melhoramentos que fazer, a reconstrucção da -torre de menagem meio arruinada. - -Nicoláo respondia: - ---O meu tumulo está edificado ha duzentos annos: não tenho outras obras -que faça, padre reitor. - -Ainda receioso de impaciental-o, o ancião teimava em fallar-lhe de -obras. - -Um dia, trez mezes depois da morte de Beatriz, dizia o clerigo: - ---Quando vi abrir-se o aqueducto da agua que vae dar ao jardim, e -andarem lá trabalhadores, cuidei que vossa excellencia resolvera, como -seus paes haviam tencionado, formar um grande tanque no terreiro para -beberem os cavallos. Esteve a mina aberta uns dias, e depois, logo -depois que sua excellencia a senhora D. Beatriz que Deus tem, falleceu, -fechou-se o aqueducto. - ---É que eu mandei suspender todas as obras--respondeu Nicoláo--e o -feitor mandou logo empedrar a bocca da mina. - ---E por que não hade vossa excellencia entretêr as suas horas n’uma -obra tão util para a casa e para o povo? - ---Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo. - ---O povo creio eu que importa a vossa excellencia, meu bom fidalgo, -porque paes e avós d’este povo foram sempre como filhos dos ricos -homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa -excellencia lhe desse para as suas necessidades a agua que superabunda -nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores seccam -as fontes, vae buscar, a grande custo e perda de tempo, a agua á -freguezia proxima. Aqui tem vossa excellencia que está em sua mão, com -pequenissimo dispendio, soccorrer este povo, que tão alegre ficou, -assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excellencia. -Parece que tem praga de inveja aquella obra! Seu excellentissimo -avô abriu a mina, o paesinho de vossa excellencia continuou-a, o -senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por -pouco encontrar-se com o aqueducto, que desce da serra, vejo eu os -jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa! - -Nicoláo ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como -sempre, assim que a expressão do tedio assomava no rosto do morgado -como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sósinho, padre -reitor.» - -D’este dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a -sepultura de Raphael Garção, e que o apodrecimento do cadaver não -chegou a ser presentido pelo fetido das exhalações. - - - - -XXV - - -O virtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo -fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem -d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas -de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino -estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em -collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella -unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que -elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo -sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o -apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo -de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a -residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito, -e facilmente se deparou ás investigações policiaes o velho fidalgo -vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel. -Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole, -apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho -passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o -nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não -prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo -batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e -licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro. - -Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem -de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara -a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os -olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse -affectuosa e tristemente: - ---Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma? - -O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino -reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz -tremida e balbuciante falla: - ---O meu papá não morreu? O avô disse que sim. - ---Morri, meu filho, morri!--respondeu soluçante o desgraçado. - -Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão -divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe: - ---Abraça-o, Martinho, que é teu pae. - ---E a mamã--perguntou o menino, apertado nos braços do pae.--E a mamã -tambem não morreu? Onde está ella? - -O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do -pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as -taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas -descobriam. - -Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve -pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha. - -Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe -compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura: - ---Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas -desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas -culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim? - ---Que és um desgraçado--respondeu serenamente o pae de Beatriz. - ---Bem hajas!--volveu Nicoláo.--Escuso perguntar-te se me julgas o -assassino de Raphael Garção. - ---Que me importaria isso?... redarguiu Martinho. Seria bem morto, se -era infame! - ---Atrozmente infame!... E quem me assevéra que elle não vive? - -Martinho Xavier encarou penetrantemente nos olhos de Nicoláo, e disse: - ---Quem matou, pois Raphael? Morto está elle. Raphael tinha um só amigo; -era Ricardo de Almeida. Tenho uma carta d’elle. Cartas recebidas todos -os paquetes. Ricardo nunca mais teve novas de Raphael... Quem o matou -pois? - ---Não sei, pela vida de meu filho t’o juro, Martinho Xavier, se a -minha palavra perdeu a tua confiança! Deus fulmine este anjo que é tudo -o que me resta, se eu comprehendo que morte foi a de Beatriz e se tenho -sombra de suspeita do destino que levou o villão, que tantas vezes me -apontaste como... - ---Basta! interrompeu o velho, está aqui uma creança, que Deus dotou -com precoce entendimento. Ha dois nomes que eu exijo que este menino -esqueça. Vens buscar teu filho? - ---Não, primo: venho pedir-te que voltes com elle e commigo a Portugal. - ---Não: leva-o, e deixa-me morrer, onde mais não veja a sombra de minha -filha. - ---Ficarei comtigo, Martinho Xavier, e com meu filho, disse Nicoláo. -Virei eu perturbar o teu socego? - ---Vens: mas eu acceito de boa vontade o que está determinado por Deus. -Ficarás comnosco. Assistirás á educação de Martinho; e, quando elle -tiver a sabedoria, que contrabalança as desventuras, e fortalece o -animo para subjugal-as, então ireis para a patria, e eu estarei já -morto e esquecido. - -Nicoláo de Mesquita apresentou-se na vivenda do sogro, sem intentar -melhoral-a. Afóra os contentamentos aspirados nos labios da creança, -o restante da sua vida era dôr sem intermissão. Nenhuma variedade -procurava ás suas meditações, não podia sequer conversar com o primo em -assumptos ligados ao nome de Beatriz. Se o pae, do secreto de alma, lhe -havia perdoado, envergonhar-se-hia de confessal-o. Como já não podia -maldizel-a, tambem fugia de suscitar reminiscencias d’ella. - -Assim passaram, n’esta angustiosa e contemplativa mudez, um anno. - -Martinho, observando com dôr o desperecimento do genro, suggeriu a -ideia de irem vêr França. Nicoláo approvou-a indifferentemente. Como -conhecia as miudezas de Paris e outras cidades, disse que a todas iriam -excepto Leão. Aqui devia viver o marido de Margarida Froment. - -Foram, e ao terceiro dia de residencia em Pariz, Nicoláo viu no -_boulevard dos Italianos_ um homem conhecido, encostado á vidraça de um -estabelecimento de modas; era o chanceller, que havia sido do consulado -francez no Porto. D’ahi a segundos, viu sahir uma mulher de bello -exterior, e dar o braço áquelle homem: era Margarida Froment. - -De maneira que o brioso amigo do marido da infame, como elle a -catalogára, o campeão voluntario da honra de Ernesto, degenerára tanto -em pundonor de espiritos, que aberta a conjuncção prospera, tomou conta -da mulher do seu amigo. - -Margarida cravou os olhos em Nicoláo e fez pé atraz de espantada. O -morgado inclinára-se a ouvir uma pergunta do filho. Martinho Xavier -fôra estranho ao lanço. - -Volvidos quinze dias, Nicoláo, passando no bosque de Bolonha, viu um -homem que guiava um phaetonte, em que iam duas mulheres de imponente -belleza, e brilhantemente vestidas, inclinadas para o elegante -conductor de fogosos cavallos. Reconheceu-o. - -Ao pé d’elle estava uma roda de francezes, um dos quaes, apontando o -transeunte do phaetonte, dizia aos outros: - ---Ahi vae Ernesto Froment espalhando os ultimos dez mil francos da -fabrica vendida. - -Outro ajuntou: - ---Em dez annos gastou duzentos mil francos. - -Ainda um terceiro: - ---Com seis magnificas mulheres. Diz elle que os ultimos mil francos ha -de engulil-os como Gilbert enguliu a chave. - ---A comparação é modesta! observou um. - ---Gilbert, acudiu outro, estremece de horror sabendo que foi parodiado -por uma bêsta maior da marca. - -Nicoláo passou ávante, e dizia entre si: - ---Ernesto e Margarida não expiam, porque se não devem nada. - -Vista a grande cidade, Martinho Xavier desejou a quietação da sua -casinha suburbana de Londres. Nicoláo seguiu-o automaticamente, -discutindo em segredo a ordem das leis providenciaes. A inducção que -vimos inferir da impunidade de Margarida, e do alegre viver de Ernesto, -prova que o homem principiava a formar um systema racional em materia -de expiações. - -Tem escapado a muito philosopho e theologo a grande verdade, que elle -apanhou pela incoercivel guedelha. É effectivamente verdade que uns -certos maridos de umas certas mulheres não expiam, porque não se devem -nada. - -A respeito d’estes e d’estas parece que a Providencia diz em linguagem -chã: - -«Lá se entendam e lá se avenham.» - -Margarida, Nicoláo e Raphael foram exceptuados d’este menospreço da -Providencia. - - - - -XXVI - - -N’uma casa de Villa Real de Traz-os-Montes, em março de 1849, um -sujeito lia á sua familia a seguinte correspondencia de Chaves -publicada no jornal portuense _O Nacional_, d’aquelle mez e anno: - - _Sr. redactor._ - - «Remetto ao seu jornal a singela narrativa de um estranho successo, - que veiu esclarecer os mysterios de uma tragedia de familia, sobre a - qual ha quatro annos a opinião publica tem aventurado opiniões, aliás - infamantes, algumas das quaes desgraçadamente se verificam hoje. - - «Em agosto de 1844, o morgado de Fayões, Raphael Garção Cogominho, - rapaz de costumes não louvaveis, mas egual a muitos que o mundo - respeita, lisonjeia e admira, desappareceu da casa de seus paes, e - nunca mais voltou. - - «Ao mesmo tempo... (muito me custa ter de escrever os nomes de - pessoas que figuram ou figuraram n’este drama; porém, sacrificando - á verdade, e desejando que na minha narrativa ninguem veja um - romance, sou forçado a não esconder nenhuma das luzes que alumiam - este acontecimento tenebroso). Ao mesmo tempo, D. Beatriz de Sousa, - mulher do morgado da Palmeira do Vidago, Nicoláo de Mesquita, morria, - segundo disseram os facultativos, de uma congestão cerebral, ou febre - thraumatica, consecutiva a ferimentos na face. - - «No dia seguinte, os criados de Raphael Garção procuraram seu amo na - quinta de Palmeira, para onde elle viéra de noite e furtivamente. Os - criados, interrogados pelo marido da senhora morta, confessaram a - intenção que os levava alli, e foram despedidos. - - «A voz publica francamente disse que o morgado de Fayões morrêra - ás mãos do marido de sua prima Beatriz, ou por ordem d’elle; e que - a esposa, suspeita de deslealdade, se não perecêra no mesmo ponto, - succumbira depois dos flagicios bem claramente denunciados nas - contusões da face. - - «A ausencia do morgado da Palmeira, na noite em que estes factos se - deram, confirmava desconfianças sobre as probabilidades da astucia - com que o senhor da casa, praticado ou mandado praticar o crime, se - fingia distante do local. Como quer que fosse, do cadaver de Raphael - Garção nenhuns indicios alcançaram as pesquizas da justiça, e sobre o - cadaver de Beatriz de Souza nenhum exame se fez. O provavel e quasi - evidenciado é que ambos estavam mortos. - - «Passados sete ou oito mezes, o morgado da Palmeira foi para Londres, - em demanda do filho, que o avô, nobilissimo cavalheiro de Chaves, lhe - arrebatára. Decorridos dois annos, voltou para Portugal Nicoláo de - Mesquita, e o filho, a tomar conta dos grandes haveres do sogro, que - falleceu em Londres. - - «No principio do corrente anno, quando a memoria da obscura tragedia - estava delida no impersistente espirito do publico, quiz a Providencia - que o morgado da Palmeira, com a sua propria mão, fosse apontar o - infallivel testemunho do seu crime. É bem certo, segundo a phrase da - Escriptura, que Deus enlouquece aquelles que quer perder! - - «Os operarios, que por ordem de Mesquita desempedravam a porta de um - aqueducto, que estivera aberto quatro annos antes, e se fechára dois - dias depois da morte de Beatriz de Sousa, encontraram a quinze passos - distantes da abertura da mina um esqueleto. - - «Os ossos não tinham já fibra de carne adherente, conforme ouvi aos - facultativos examinadores. As cartilagens e ligamentos, com quanto - articulassem a ossada, principiavam a esphacelar-se, e muitos se - desfibraram ao contacto do ar. O esqueleto estava de bruços; e cingida - á volta do radio e cubito, ossos correspondentes ao ante-braço, tinha - uma especie de pulseira, chamada manilha, com um retrato pendente, - perfeitamente conservado no marfim, encastoada em oiro, com o rosto de - esmalte, no reverso do qual se lê uma data, e as iniciaes enlaçadas de - Raphael Garção e Beatriz de Sousa. - - «Quando os jornaleiros descobriram o esqueleto, estava Nicoláo de - Mesquita em Chaves. Os mineiros fugiram espavoridos, e foram contar - o succedido ao regedor. Este mandou guardar por cabos de policia o - aqueducto, e officiou á auctoridade. O aviso chegou simultaneamente ao - morgado, que partiu para Palmeira. - - «A auctoridade, chegada ao mesmo tempo, consentiu que Nicoláo de - Mesquita penetrasse no aqueducto com uma lampada, visto que sem o - exame dos peritos não se podia levantar o esqueleto, em conformidade - com as ordens do morgado. - - «O regedor, que seguiu Nicoláo de Mesquita, observou com grande - assombro, um acto de extraordinaria ferocidade; e foi que o morgado - depois de examinar a manilha pendente do pulso do esqueleto, fez um - gesto de raiva frenetica: e, com um pé assentado em cheio no arcaboiço - das costellas, fez que debaixo rangessem e estalassem os ossos do - peito e costas. O regedor conteve-o de espalhar a ossada a pontapés, - com risco de ser espancado pelo furioso dentro da mina. - - «As auctoridades, depois do exame, tomaram conta da ossada, para - continuação de averiguações. - - «Sr. redactor, como se vê, o indicio de um assassinio está manifesto - a todas as luzes; mas o indigitado homicida, porque é fidalgo e - opulento, está no liberrimo goso dos seus direitos civis. Se fosse um - pobre, já estava preso, e teria sido interrogado em casa de Anaz, e - Caifaz, e Pilatos. - - «Alguem saiu já em defeza de Nicoláo de Mesquita, allegando que elle, - se fosse o assassino, de modo nenhum mandaria bolir no aqueducto. Esta - razão tem uma face acceitavel, e outra incumbe á justiça mostral-a. Em - quanto a mim e á maioria dos pareceres, o matador de Raphael Garção, - cujos olhos são indubitavelmente aquelles, foi Nicoláo de Mesquita, - vigesimo segundo senhor da Torre e morgado de Palmeira de Vidago. - - «Conte com a noticia circumstanciada d’este processo, e com a verdade - incorruptivel, do seu constante leitor, - - «EPAMINONDAS TEBANO.» - ---O que ahi está é tudo mentira! exclamou uma voz d’entre as pessoas, -que escutavam a leitura da correspondencia. - -Confluiram todas as vistas para a pessoa que bradara, e viram a criada -da casa, Maria Joanna, que deixara cair o fuso, e com a mão levantada -repetia: - ---Juro pela salvação da minha alma, que o senhor morgado da Palmeira -não matou o senhor Raphael. - ---Como sabes tu isso?! perguntou o patrão. - ---Sei-o, porque era criada da senhora D. Beatriz; fui eu quem creou -o menino de que ahi se falla na gazeta. Assisti ao ultimo arranco do -senhor Raphael. E, se até agora me calei, é porque não soube que o meu -amo pagava innocente. - ---Conta o que sabes, Maria, e prepara-te para ir esclarecer a justiça, -voltou o patrão. - -A antiga confidente de Beatriz relatou as desgraças de sua ama e do -assassinado amante d’ella. - -No dia seguinte, partiu para Chaves, com recommendações do cavalheiro -de Villa Real, e foi levada á presença da auctoridade, deante de quem -e de testemunhas, expoz o modo como Raphael Garção fôra encontrado, -e a supposição de que elle fôra morto por uns homens que dispararam -as armas para dentro da mina. Era preciso ouvir o depoimento dos -homens. Maria Joanna indicou dois criados de Palmeira para dizerem -quem eram elles, por terem estado, poucos momentos antes, conversando -juntos. Os criados ainda o eram de Nicoláo de Mesquita. Foram citados -a comparecerem na policia; e, interrogados, lembraram-se dos nomes -dos quatro valentões da sanguinaria romaria. Os indicados depuzeram -conformemente ao depoimento da creadora de Martinho, e as suspeitas -declinaram de sobre a cabeça de Nicoláo de Mesquita. - -O cavalheiro de Villa Real, volvidas duas semanas, leu uma segunda -correspondencia do _Epaminondas_, antipoda involuntario do Epaminondas -de Tebas, na qual as suas conjecturas eram rectificadas, com grande -magua de as haver estampado no primeiro afôgo da sua indignação. A -indignação dos correspondentes da provincia é coisa de grão pavor quasi -sempre! - -A correspondencia rematava assim: - - «Os ossos de Raphael Garção foram religiosa e pomposamente conduzidos - de Chaves para Fayões, e depostos no jazigo de seus avós. O pae de - Raphael, que ainda vive doido, na escuridade do seu quarto, onde - apenas recebe á força quem lhe ministra o sustento de tão horrivel - viver, morrerá sem saber que os ossos do seu filho unico repousam - na mesma sepultura da mãe, que morreu saudosa d’elle. A criada - Maria Joanna salvou o morgado de Palmeira de um injusto ferrete: - não obstante, o marido de Beatriz, com justa ou injusta razão (não - ouso decidir-me) não consente esta mulher deante dos seus olhos. - Consta-me que lhe mandara entregar as suas caixas, que ainda estavam - em Palmeira, e uma esmola valiosa por mão do menino que se creou aos - peitos d’ella. - - «Finalmente, senhor redactor, em vista do desenlace d’esta infanda - historia, devemos olhar ao ceu, e baixar os olhos confundidos, deante - da mysteriosa justiça da divina providencia! Raphael Garção morreu. - Beatriz viu-o agonisar. Ambos expiraram no praso de vinte e quatro - horas. Nicoláo de Mesquita geme ha quatro annos sob o peso de uma cruz - de ferro. Estas angustias pode ser que correspondam a antigos crimes. - Em summa, ninguem se transvie do caminho da virtude, que o do crime - está ladeado de infernaes abysmos. - - «EPAMINONDAS.» - - - - - - -XXVII - - -Nicoláo de Mesquita, em 1850, voltou para Inglaterra com o seu filho, a -residir no _cottage_ de seu sogro. O menino, aos sete annos, entrou em -collegio, e passava os dias feriados com seu pae. - -N’uma estação de ferias, o morgado saiu com o filho a passar uns -dias em Pariz, em companhia de uma familia ingleza, proprietaria da -residencia em que fallecera Martinho Xavier, e a quem Nicoláo devia -o obsequioso cuidado de attentar nas necessidades do filho sem mãe e -sem carinhos de mulher, aos quaes se aquece o coração das creanças, e -as virtudes fermentam n’elle. O aspecto macilento e sempre sombrio do -portuguez acareára a discreta piedade da familia ingleza. - -Adivinhavam n’elle um desmarcado infeliz, talvez um delinquente: -mas, o remorso ou pena immerecida, o que elle inspirava nas almas -contemplativas era compaixão. - -Estavam, pois, em Pariz, no anno de 1852, quando Nicoláo, ao sair da -egreja de Notre-Dame, onde fôra ouvir prégar Lacordaire, ouviu entre a -multidão uma voz muito proxima do ouvido, que lhe dizia: - ---Nicoláo de Mesquita. - -Olhou de golpe, e viu Margarida Froment. Estremeceu. Aquella mulher -devia ter quarenta annos; a decadencia era justificada; mas a velhice, -quasi repellente, não. - ---Custa-me a reconhecel-a, madame!--disse Nicoláo com os olhos afogados -em lagrimas. - -A franceza deteve-se entalada pela angustia da humilhação, e disse: - ---Não venho pedir-lhe nada: quiz que me visse. Reduziu-me a isto, -senhor Mesquita. - ---Eu!... santo Deus!--atalhou Nicoláo enxugando as lagrimas. - ---Aqui tem a Margarida Froment de 1834--proseguiu ella.--Casualmente -nos achamos á porta do templo em que ambos saltámos da carruagem de -meu marido para visitarmos as antiguidades d’esta egreja. Recorde-se -da mulher de então: sou eu. É esta Margarida que empenhou hontem o seu -melhor vestido para ter hoje um almoço. Já lhe disse que não venho -pedir nada; quero que me veja. - ---Mas a senhora attribula-me horrivelmente!--exclamou Nicoláo entalado -de gemidos.--Não foi Margarida quem abandonou a casa de que era -senhora? Expulsei-a eu? - ---Não lhe respondo, senhor Mesquita. Olhe de cima do despenhadeiro onde -me poz, e pergunte á Providencia por que estou aqui, porque sou isto -que vê! - ---Pois que hei de eu fazer-lhe agora, senhora! Que quer de mim? Eu -sou muito desgraçado; mas sou rico ainda. Quer recursos para viver -decentemente? Diga sem repugnancia. - ---Não, senhor; nada lhe pedi: quero que me veja! - ---Mas, infeliz, que vida foi a sua que...? - ---A minha vida é isto!--interrompeu Margarida com -vehemencia.--Perguntei-lhe eu que vida era a sua? Leio-lh’a no rosto. A -minha historia aqui está tambem escripta na cara de Margarida Froment -de 1834. Eu tinha então vinte annos, vinte mil libras para gastar -cada anno, e o respeito do mundo, o amor de meu marido, que reduzi á -libertinagem extrema para me esquecer, e á derradeira indigencia para -com o tinido do oiro ensurdecer-se ao grito da infamia, que lhe deixei -perpetuamente nos ouvidos. Póde ser que Ernesto Froment ainda lhe peça -uma esmola, senhor Mesquita. Dê-lh’a, que o desgraçado não saberá quem -lh’a dá. Dê-lhe a elle a esmola que eu rejeito, porque o hospital -reserva-me duas taboas, e a pedra da mesa anatomica um funeral condigno. - -Nicoláo soluçava; Margarida bateu-lhe no hombro, e exclamou surdamente: - ---Viu-me? Agora... adeus! - -E sumiu-se entre a multidão. - -Como descêra até ali Margarida Froment? - -Uma palavra o diz: envelhecêra. - -Os ultimos quatro annos da sua vida tinham sido o vasquejar, os -relampagos da luz que vae apagar-se. Os amantes não quizeram assistir -ás trevas. Viram-lhe a primeira ruga na fronte, o amortiçar-se o raio -coruscante dos olhos, o artificio da pelle, o lustroso sobrenatural das -madeixas. - -Fugiram-lhe, e ella, orgulhosa sempre, não solicitava piedade. - -Desenganou-se, despida dos artificios. O espelho foi-lhe a garganta do -abysmo. Viu-se e despenhou-se á extrema devassidão, cuidando que morria -assim mais depressa. - -Ernesto encontrou-a no portico do _Mont-de-Piété_. Ella saia -de empenhar o chale, elle entrava a empenhar o casaco. Não se -reconheceram. O empregado na recepção de penhores, ao escrever o -appellido de Ernesto, disse-lhe: - ---Sahiu n’este instante uma Froment. É sua parenta Margarida Froment? - ---Saiu agora? - ---Agora mesmo. - ---Desgraçada? - ---Aqui não vem ninguem feliz? - ---Que signaes tem? - ---Uma cara de fome, um mantelete de côr duvidosa. Empenhou um chale por -quatro francos. - -Ernesto desceu rapidamente. Era difficil encontral-a. Fitou em rosto -as mulheres todas que denunciavam fome, e trajavam manteletes de côr -duvidosa. Não viu Margarida em nenhum, e pozera os olhos n’ella, a -ultima que vira comprar um pão. - -Margarida reparou no homem que a fitava. A desfiguração de Ernesto era -menos sensivel. Conheceu-o, e disse-lhe: - ---Queres metade d’este pão, Ernesto? - ---Quem és tu?!--perguntou elle. - ---Uma condemnada por Deus, que te pede a morte. - ---És Margarida?--perguntou Ernesto serenamente. - ---Sou. - ---Não te matei, quando era honra matar-te. Agora, vive, e segue o teu -caminho. Deus ha-de cumular sobre ti a pena do teu crime, e a pena -egual aos tormentos que soffro, sem ter sido culpado. Vae teu caminho. - -Vivia ainda em Leão a mãe de Margarida. Pela terceira vez a desamparada -se lhe foi lançar aos pés. Foi repulsada sempre pelas criadas de sua -mãe. - -Tinha um irmão rico nas Antilhas. Pediu-lhe tres vezes perdão do seu -infortunio, e uma esmola. A segunda e terceira cartas não foram abertas. - -O francez morreu solteiro e rico, no momento de retirar-se a França. - -A mãe de Margarida herdou muitos milhares de francos. Os jornaes -contaram o successo. Margarida foi quarta vez ajoelhar-se á porta do -quarto de sua mãe. - ---Não tenho filha,--respondeu a descaroada.--Não cuides que terás -quinhão na riqueza de meu filho. Eu gastarei o que tenho em obras -piedosas. - -E, quando scismava em dar brado com as suas obras piedosas, morreu n’um -como deliramento de amor da humanidade. - -Margarida Froment recolheu quatrocentos mil francos. Mandou procurar -o marido a Pariz. Encontraram-n’o secretario de uma companhia de -cavallinhos, a franco por dia. - -Ernesto recebeu lettras de duzentos mil francos, e estas breves linhas: - -«Dava-te metade do meu pão: hoje dou-te metade da minha fortuna, e a -outra, se a quizeres.» - -Ernesto acceitou a sua quota parte, e desistiu da outra, muito em -conformidade com a lei, dispensando-se até de administrar a massa do -casal, o que em boa jurisprudencia lhe era permittido. - -Margarida, se fosse solteira, podia escolher bons casamentos. Dizia-se -em Leão que ella era os melhores quarenta annos e as mais bellas ruinas -que ainda tinham visto os olhos dos seus pretensores, offuscados pela -prefulgencia de duzentos mil francos. - -Ernesto foi para Londres. Metteu nos bancos o seu capital, e deu-se a -uma vida de confortos modestos, e reparação da saude. Tonisado pela -regularidade e sadia alimentação ingleza, achou que a inercia lhe -pesava. Como tivera fabrica de estôfos, entrou em negocio de algodões, -não para anumerar aos seus cabedaes, mas para entreter-se. - -A familia ingleza, relacionada com Nicoláo de Mesquita, possuia fabrica -em Manchester, e comprava algodões aos importadores. Ernesto Froment -negociava com os Smitts, necessariamente haviam de ser Smitts, ou Johns. - -Uma vez estava Ernesto no escriptorio dos Smitts, ou Johns, e entrou um -homem de barbas intonsas e alvissimas, com um menino pela mão. - -O fabricante inglez chamou-lhe: «_Master Nicoláo de Mesquita._» - -Ernesto, como se lhe dessem com uma bala na face esquerda, voltou a -cabeça á direita, e perguntou em inglez: - ---É de Portugal este _a knight_ (cavalheiro)? - ---Sim, das visinhanças do eden do vinho--respondeu o industrial. - -Mediu-o de alto a baixo. - -Nicoláo estremeceu involuntariamente, e perguntou: - ---É inglez, o senhor? - -Ernesto não respondeu. O britanico é que disse: - ---É francez. E eu lhe apresento mr. Ernesto Froment, honrado mercador -de algodões. - -Nenhum dos apresentados se moveu. O inglez espantou-se, e disse entre -si: «_Inelegancy! improper!..._» - -Ernesto Froment saíu, sem inclinar a vista a Nicoláo. - -Smitt ou John perguntou ao portuguez a significação d’aquella frieza. - -Mesquita respondeu com um sorriso, e uma lividez de torvação espavorida. - -Subiu com o filho aos aposentos das ladys, e, convulso de lagrimas, -pediu que lhe não desamparassem o filho, se elle morresse. - -Alvorotaram-se as senhoras, e a um tempo interrogaram a terrivel -presumpção de morte breve. Nicoláo gelava com a sua taciturnidade. -Cuidaram as damas que o secreto desgosto da existencia d’este homem lhe -transtornára o espirito. Relataram ao honrado velho as lagrimas e rogos -do portuguez. - -O commerciante foi procurar Ernesto Froment, e pediu-lhe -encarecidamente o mysterio da sua vida com a de Nicoláo de Mesquita. - -O francez fingiu estranhar a desconchavada pergunta; porém, instado -pelo commovido inglez, contou a sua vida, desde a infamissima perfidia -de Nicoláo, seu commensal durante a emigração, até á escaleira de -opprobrios a que descêra, despedaçando o trabalho de seus paes, para -esquecer a affronta. - -O inglez chorava, e odiava Nicoláo de Mesquita. - ---Qual é agora o seu intento a respeito do portuguez? perguntou o velho. - ---Matal-o! - ---Oh!...--exclamou Smith ou John. - ---Matal-o inevitavelmente!--repetiu Ernesto. - ---Oh!... - -Passada uma breve pausa, o inglez saíu, dizendo-lhe:--espere-me duas -horas que eu venho. - -Antes das duas horas, entrou o inglez no escriptorio de Ernesto -Froment, com um menino de dez annos pela mão, e disse enternecido a -prantos: - ---Este menino é filho de Nicoláo de Mesquita, e vem aqui de joelhos -pedir a vida de seu pae. - -Martinho ajoelhou. Ernesto levantou a cabeça, estendeu a mão ao -fabricante, e disse em voz tremente: - ---As nossas negociações estão fechadas. - ---Oh!... porque? - ---Porque me retiro ámanhã de Inglaterra. - -Assim foi. Ernesto saíu para Italia. - -O inglez, porém, procurou Nicoláo, entregou-lhe o menino, e disse-lhe: - ---A sua vida não corre perigo, senhor Nicoláo; tenho, porém, a -observar-lhe que não posso ser seu amigo, nem a minha casa póde -recebel-o. - -Fez uma breve cortezia, e sahiu. - - - - -CONCLUSÃO - - -Nicoláo de Mesquita, cortado de desgostos, e inclinado á sepultura com -desejos de fechar-se n’ella, saiu de Londres com o filho. A desgraça -não lhe dava treguas. - -Trouxe de Pariz mestres para Martinho, habeis na sciencia, e prendas de -educação esmerada. - -Voltou á torre solarenga, e chamou a si duas velhas senhoras, parentas -de Martinho Xavier, para lhe regerem a casa e especialmente velarem o -bem-estar do filho. - -Passou dois annos por tal maneira abatido de espirito, que deu -comsigo, quasi aniquilado de raciocinio, nos extremos preconceitos da -religião desfigurada por visualidades. Acercou-se de missionarios de -todo cégos á luz do Espirito Santo, em quanto ao teor de aligeirar o -peso de certas amarguras. Dos missionarios resvalou ás superstições -lastimaveis no homem que tivera intelligencia clara, e sciencia -pratica. Prestava ouvidos e coração a coisas de agoiro, e sortilegios. -De enlevos na contemplação do Supremo Senhor do céu e terra, descia a -pactuar com uma boçal velhinha, santa famigerada, o quebramento do seu -fadario. Esta escuridade prenunciava as trevas do sepulcro. - -A piedade não o forrava aos impetos de um odio á sombra de Beatriz. -Nunca mais entrou á capella onde esperavam o ultimo juizo as cinzas da -infeliz. Os missionarios não souberam extirpar-lhe da alma o cancro do -rancor: davam-lhe amulêtos, e orações prófugas do espirito immundo. - -Mandára erigir um santuario na recamara do seu quarto, e ahi se -exercitava em soliloquios mentaes, entoando com fervorosos assomos -de illuminado as amorosas apostrophes ao divino dos padres Chagas e -Bernardes. Se não tivesse descançado no Senhor aquelle Santo parocho, o -penitente iria pela mão do velho á estrada recta da divina misericordia. - -Uma tarde, Nicoláo de Mesquita, após a sobre-excitação febril de -algumas horas, chamou criados com alavancas, e desceu á capella, onde -não havia entrado desde a morte de sua mulher. - -Mandou levantar a pedra do jazigo e extrair a ossada que estivesse -mais á flôr da sepultura. Os criados suando de pavor, curvaram-se -a remexer os ossos; mas superstições, ou abalo sobre-natural, não -ousou tocar-lhes; e, um após outro, fugiram da capella, ao verem -desfigurarem-se medonhamente as feições do fidalgo. - -Nicoláo travou da alavanca, e tentou mettel-a ás junturas argamassadas -do jazigo da esquerda, onde estavam as solitarias cinzas da unica -adultera d’aquella familia. N’este esforço e reluctancia com as -difficuldades de abalar a pedra, extenuou-se, perdeu o alento, e caiu -de rosto contra o degrau do altar, exclamando vozes inintelligiveis. - -As velhas senhoras, o filho, os mestres e os criados acudiram á -capella, e tomaram-n’o em braços. Nicoláo revolvia a lingua na abobada -palatina, e tirava uns sons roucos, arripiadores, como gritos de ave -nocturna. - -Chamaram medicos e sacerdotes. A medicina capitulou de paralisia o -incuravel ataque. Os padres ungiram-no, que a lingua não podia accusar -as angustias da alma. - -N’uma lucta de spasmos e ancias se desprendeu, ao fim de vinte e quatro -horas, o atormentado espirito de Nicoláo de Mesquita. - -Ao cair a pedra sepulcral sobre o cadaver, justaposto aos ossos de -Beatriz de Sousa, a piedade impõe-nos silencio. Vimos o que é a justiça -de Deus na terra; n’outros mundos é-nos defeso devassal-a. - -Martinho de Mesquita foi tutellado de Ricardo de Almeida, um dos seus -mais proximos parentes, por parte de sua mãe. É hoje marido da morgada -do Pontido, filha de Ricardo e Laura. - -Ainda vivem os ditosos que o morgado de Fayões invejára nos seus -ultimos dias de vida. N’aquella casa ha um só incentivo a lagrimas: é a -memoria de Raphael Garção. - -Dizem-nos que o filho de Beatriz, desde que ouviu a historia de sua -mãe, tem dias de attribulado recolhimento. Possue o retrato d’ella, -pendente da manilha, tirada do esqueleto de Raphael, e conservado -na casa do Pontido. Uma vez sua mulher surprehendeu-o absorvido na -contemplação do retrato. Poz-lhe a mão na espadua, e elle, voltando a -bella imagem de sua mãe aos olhos da esposa, disse, banhado em lagrimas: - ---Como não havia de perdel-a o mundo, se ella era tão formosa! - - -FIM - - - - -OBRAS COMPLETAS - -DE - -J. P. OLIVEIRA MARTINS - - -I. Historia nacional: - - HISTORIA DA CIVILISAÇÃO IBERICA, 4.ᵃ ed. (1897), 1 vol. br. 700 rs. - Enc. 900. - - HISTORIA DE PORTUGAL, 6.ᵃ ed. (1901), 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800. - - O BRAZIL E AS COLONIAS PORTUGUEZAS, 3.ᵃ ed. (1888), 1 vol., br. 700 - rs. Enc. 900. - - PORTUGAL CONTEMPORANEO, 3.ᵃ ed. (1895), 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. - 2$400. - - PORTUGAL NOS MARES, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900. - - CAMÕES, OS LUSIADAS E A RENASCENÇA EM PORTUGAL, (1891). 1 vol., br. - 600 rs. Enc. 800. - - NAVEGACIONES Y DESCUBRIMIENTOS DE LOS PORTUGUESES, (_ed. do Ateneo de - Madrid_, 1892), 1 vol. (não entrou no commercio.) - - A VIDA DE NUN’ALVARES, 2.ᵃ ed. (1894), 1 vol., br. 2$000 rs. Cart. - 2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200. - - OS FILHOS DE D. JOÃO I, 2.ᵃ ed., 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800 rs. - - O PRINCIPE PERFEITO, (1895) 1 vol., br. 2$000 rs. Encad., folhas - doiradas, 3$200 rs. - - -II. Historia geral: - - ELEMENTOS DE ANTHROPOLOGIA, 4.ᵃ ed. (1895), 1 vol., br. 700 rs. Enc. - 900. - - AS RAÇAS HUMANAS E A CIVILISAÇÃO PRIMITIVA, 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. - 1$800 rs. - - SYSTEMA DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 2.ᵃ ed. (1895) 1 vol., br. 800 rs. Enc. - 1$000. - - QUADRO DAS INSTITUIÇÕES PRIMITIVAS, 2.ᵃ ed. (1893) 1 vol., br. 700 rs. - Enc. 900. - - O REGIME DAS RIQUEZAS, 2.ᵃ ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800. - - HISTORIA DA REPUBLICA ROMANA, 2.ᵃ ed., 1897, 2 vol., br. 2$000 rs. - Enc. 2$400. - - O HELLENISMO E A CIVILISAÇÃO CHRISTÃ, 2.ᵃ ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc. - 1$000 rs. - - TABOAS DE CHRONOLOGIA E GEOGRAPHIA HISTORICA, (1884), 1 vol., br. - 1$000 rs. Encadernado 1$200. - - -III. Varia: - - A CIRCULAÇÃO FIDUCIARIA, 2.ᵃ ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc. 1$000 rs. - - A REORGANISAÇÃO DO BANCO DE PORTUGAL, _opusculo_, (1877) br. 150 rs. - - O ARTIGO «BANCO» no _Diccionario Universal Portuguez_, (1877), 1 vol, - br. 500 rs. - - POLITICA E ECONOMIA NACIONAL, (1885), 1 vol., br. 700 rs. - - PROJECTO DE LEI DE FOMENTO RURAL, _apresentado á camara dos deputados - na sessão de 1887_, 1 vol., br. 300 rs. - - ELOGIO HISTORICO DE ANSELMO J. BRAAMCAMP, _ed. part._ (1886), 1 vol. - (esgotado). - - THEOPHILO BRAGA E O CANCIONEIRO, _opusculo_, (1869) esgotado. - - O SOCIALISMO, (1872-3), 2 vol., br. 1$200. (Esgotado) - - AS ELEIÇÕES, _opusculo_, (1878), br. 200 rs. - - CARTEIRA DE UM JORNALISTA: I. _Portugal em Africa_, (1891), 1 vol., - br. 400 rs. - - INGLATERRA DE HOJE, CARTAS DE UM VIAJANTE, 2.ᵃ ed., (1894), 1 vol., - br. 600 rs. Enc. 800. - -CARTAS PENINSULARES, (1895), 1 vol. br. 600 rs. Enc. 800 rs. - - - - -Obras de José Quintino Travassos Lopes - - -=Nova grammatica elementar da lingua portugueza=, redigida segundo as -theorias modernas, e contendo quadros synopticos muito uteis, cart. 160 -réis. - -=Compendio de arithmetica e systema metrico=, 28.ᵃ edição, contendo 29 -gravuras e mais de 2.000 exercicios e problemas, reformado segundo os -actuaes programmas, br. 200 réis, cart. 280 réis. - -=Resumo de arithmetica e systema metrico=, 5.ᵃ edição, muito augmentada -e contendo 13 gravuras, approvado pelo antigo conselho superior de -instrucção publica, br. 100 réis, cart. 180 réis. - -=Dois mil exercicios e problemas de arithmetica e systema metrico=, -abrangendo os programmas do ensino elementar e complementar, em br. 160 -rs., cart. 240 rs. - -=Compendio de historia patria=, 13.ᵃ edição, reformada, e contendo no -fim uma noticia resumida dos factos principaes de cada reinado, br. 160 -réis, cart. 240 réis. - -=Compendio de historia sagrada=, 2.ᵃ edição, illustrada com muitas -gravuras, approvado pelo antigo conselho superior de instrucçâo -publica, br. 160 réis, cart, 240 rs. - -=Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre objectos.--1.ᵃ -parte=, 9.ᵃ edição, muito augmentada, ornada com gravuras e vinhetas, -dedicada ás creanças de 7 a 9 annos, br. 160 réis, cart. 240 réis; com -encad. de luxo para premios e brindes, 300 réis. - -=Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre objectos.--2.ᵃ -parte=, 6.ᵃ edição, ornada com gravuras e vinhetas, dedicada ás -creanças de 10 a 12 annos, br. 160 réis, cart. 240 réis; com encad. de -luxo, para premios e brindes, 360 réis. - -=Leituras Correntes e Intuitivas=, obra adoptada para o ensino official -primario, 300 réis, cart. - -=Historias de animaes, sua vida, costumes, anecdotas, fabulas, -etc.--noções amenas de zoologia para creanças--lições sobre objectos=, -3 volumes, obra interessantissima, ornada com 400 gravuras e vinhetas, -br. 200 réis cada volume, cart. 280 réis; com encad. de luxo, para -premios e brindes, 400 réis. - -=Os contos da avózinha=, collecção illustrada de historias, lendas, -fabulas e contos, com 300 gravuras, 3 volumes, br. 160 réis, cart. 240 -réis, com encad. de luxo, para premios e brindes, 360 réis cada volume. - -=Noções elementares de geometria intuitiva=, contendo 97 gravuras, br. -100 réis, cart. 180 réis. - -=Grammatica elementar da lingua portugueza=, 22.ᵃ edição, br. 160 réis, -cart. 240 réis. - -=Chave= (A) =da Sciencia=, por Brewer e Moigno. Nova traducção, -extraordinariamente desenvolvida e ampliada pelos traductores J. Q. -Travassos Lopes e J. T. da Silva Bastos.--Obra completa, 3 vols., -edição de luxo, grande formato, illustrado com centenares de gravuras, -br. 4$500 réis, enc. 6$000 réis. - - - - -OBRAS DE CARLOS AUGUSTO PINTO FERREIRA - -Engenheiro machinista, capitão-tenente graduado da Armada - -INDISPENSAVEIS A INDUSTRIAES, OPERARIOS, ENGENHEIROS, ARCHITECTOS, ETC. - - - =Engenheiro= (O) =d’algibeira=, livro portatil e utilissimo, especie - de _vademecum_ onde se acham compendiadas grande quantidade de - formulas e dados praticos com applicação á engenheria nos seus - differentes ramos; 3.ᵃ edição muito augmentada. Este livro deve ser o - companheiro indispensavel do contra-mestre, do mestre, do architecto - e finalmente do engenheiro; para todos tem materia util. Livrinho - nitidamente impresso, contendo mais de 150 tabellas.--Preço 800 réis - br., 1$000 réis enc. - - =Guia do fogueiro conductor de machinas de vapor=, approvado pela - associação dos engenheiros civis portuguezes. Livro escripto - expressamente para servir de ensinamento pratico aos fogueiros, e - em harmonia com a portaria do ministerio da marinha que obriga esta - classe de individuos a serem examinados. Contém 230 paginas em 8.ᵒ - francez, com bastantes gravuras intercaladas no texto e duas bellas - estampas, 2.ᵃ edição.--Preço 800 rs. br., 1$100 réis enc. - - =Guia de mechanica pratica=, precedida de noções elementares de - arithmetica, algebra e geometria indispensaveis para facilitar a - resolução dos diversos problemas de mechanica. Volume de 557 paginas - em oitavo francez, nitidamente impresso, contendo mais de cem - gravuras intercaladas no texto e cinco bellas estampas no fim. Livro - indispensavel, não só aos industriaes, mas a todos os individuos que - desejarem pôr em pratica quaesquer trabalhos mechanicos.--6.ᵃ edição. - Preço 1$600 rs. br., 1$900 rs. enc. - - =Manual elementar e pratico sobre machinas de vapor maritimas - antigas e modernas, comprehendendo as de dupla, triplice e quadrupla - expansão=--Livro utilissimo para quem precisa fazer algum estudo sobre - machinas maritimas, construil-as, mandal-as construir, ou dirigil-as. - Vol. de 420 pag. em 8.ᵒ francez, contendo 40 gravuras intercaladas no - texto e 2 magnificas estampas. Os engenheiros machinistas encontrarão - n’este livro indicações de grande utilidade para o desempenho da sua - difficil missão. Preço 2$000 réis br., 2$400 réis enc. - - =Manual de noções elementares de technologia=, Livro utilissimo - para todos os que se dedicam á industria, e tratando dos seguintes - assumptos:--Madeiras.--Rochas e pedras.--Carvão.--Metaes.--Materias - textis.--Construcções. Adornado de muitas gravuras explicativas. Preço - 500 réis br., 700 réis enc. - - =Opusculo ácerca das machinas mixtas de alta e baixa pressão=, - applicadas aos navios movidos a vapor. 2.ᵃ edição, Preço 600 réis br., - 800 réis enc. - - - - -Notas - -Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos. - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ESQUELETO *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. 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Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our website which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This website includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/68932-0.zip b/old/68932-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index c807817..0000000 --- a/old/68932-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h.zip b/old/68932-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 343a43d..0000000 --- a/old/68932-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/68932-h.htm b/old/68932-h/68932-h.htm deleted file mode 100644 index 393202c..0000000 --- a/old/68932-h/68932-h.htm +++ /dev/null @@ -1,9616 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> -<head> - <meta charset="UTF-8" /> - <title> - O esqueleto, by Camillo Castello Branco—A Project Gutenberg eBook - </title> - <link rel="icon" href="images/cover.jpg" type="image/x-cover" /> - <style> /* <![CDATA[ */ - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; - text-indent: 1em; -} - -.p2 {margin-top: 2em;} -.p4 {margin-top: 4em;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: 33.5%; - margin-right: 33.5%; - clear: both; -} - -hr.tb {width: 45%; margin-left: 27.5%; margin-right: 27.5%;} -hr.chap {width: 65%; margin-left: 17.5%; margin-right: 17.5%;} -@media print { hr.chap {display: none; visibility: hidden;} } - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em; margin-left: 47.5%; margin-right: 47.5%;} - -div.chapter {page-break-before: always;} -h2.nobreak {page-break-before: avoid;} - -.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ - /* visibility: hidden; */ - position: absolute; - left: 92%; - font-size: smaller; - text-align: right; - font-style: normal; - font-weight: normal; - font-variant: normal; - text-indent: 0; -} - -.blockquot { - margin-left: 5%; - margin-right: 5%; -} - -.center {text-align: center; text-indent: 0em;} - -.right {text-align: right; text-indent: 0em;} - -.smcap {font-variant: small-caps;} - -.allsmcap {font-variant: small-caps; text-transform: lowercase;} - -/* Images */ - -img { - max-width: 100%; - height: auto; -} - -/* Footnotes */ -.footnotes {border: 1px dashed; margin-top: 1em;} - -.footnote {margin-left: 10%; margin-right: 10%; font-size: 0.9em;} - -.footnote .label {position: absolute; right: 84%; text-align: right;} - -.fnanchor { - vertical-align: super; - font-size: .8em; - text-decoration: - none; -} - -img.drop-cap -{ - float: left; - margin: 0 0.5em 0 0; -} - -p.drop-cap:first-letter -{ - color: transparent; - visibility: hidden; - margin-left: -0.9em; -} - -.x-ebookmaker img.drop-cap -{ - display: none; -} - -.x-ebookmaker p.drop-cap:first-letter -{ - color: inherit; - visibility: visible; - margin-left: 0; -} - -.upper-case -{ - text-transform: uppercase; -} - -/* Poetry */ -.poetry {text-align: left; margin-left: 5%; margin-right: 5%; text-indent: 0em;} -/* uncomment the next line for centered poetry in browsers */ -/* .poetry {display: inline-block;} */ -/* large inline blocks don't split well on paged devices */ -@media print { .poetry {display: block;} } -.x-ebookmaker .poetry {display: block;} - -/* Transcriber's notes */ -.transnote {background-color: #E6E6FA; - color: black; - font-size:smaller; - padding:0.5em; - margin-bottom:5em; - font-family:sans-serif, serif; } - -.big {font-size: 1.2em;} -.small {font-size: 0.8em;} - -abbr[title] { - text-decoration: none; -} - - /* ]]> */ </style> -</head> -<body> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<p style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold'>The Project Gutenberg eBook of <span lang='pt' xml:lang='pt'>O esqueleto</span>, by Camillo Castelo Branco</p> -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online -at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. 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Preço de cada volume 200 réis brochado, ou -300 réis elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias -accresce o porte do correio.</p> -<hr class="r5" /> - -<p class="center big">Volumes publicados</p> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 1—<i>Tristezas á Beira-Mar</i>, romance de Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 2—<i>Contos ao Luar</i>, por Julio Cezar Machado, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 3—<i>Carmen</i>, romance de Merimée, traducção de Mariano Level, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 4—<i>A Feira de Paris</i>, por Iriel, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> (2.ᵃ edição).</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 5—<i>O direito dos filhos</i>, George Ohnet, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 6—<i>John Bull e a sua ilha</i>, traducção de Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 7—<i>O juramento da duqueza</i>, romance historico por P. Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 8—<i>A lenda da meia-noite</i>, romance phantastico, por P. Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 9—<i>A joia do vice-rei</i>, romance historico, por Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 10—<i>Vinte annos de vida litteraria</i>, por Alberto Pimentel, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 11—<i>Honra d’artista</i>, romance de Octavio Feuillet, traducção de Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 12—<i>Os meus amores</i>, contos e balladas, por Trindade Coelho, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 13 e 14—<i>A aventura d’um polaco</i>, por Victor Cherbuliez, traducção de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 15—<i>Os contos do tio Joaquim</i>, por R. Paganino, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 16—<i>As batalhas da vida</i>, contos por Guiomar Torrezão, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 17—<i>Noites de Cintra</i>, romance por Alberto Pimentel, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 18 e 19—<i>Em segredo</i>, romance, trad. de Margarida de Sequeira, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 20 e 21—<i>A irmã da Caridade</i>, por Emilio Castellar, traducção de L. Q. Chaves, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 22—<i>Migalhas de historia portugueza</i>, por Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 23—<i>A Cruz de Brilhantes</i>, por A. Campos, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 24—<i>Contos</i>, de Affonso Botelho, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 25—<i>Contos phantasticos</i>, por Theophilo Braga, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 26—<i>O mysterio da estrada de Cintra</i>, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 27—<i>O naufragio de Vicente Sodré</i> rom. historico de P. Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 28—<i>Vid’airada</i>, por Alfredo Mesquita, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 29—<i>O Bacharel Ramires</i>, por Candido Figueiredo, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 30 e 31—<i>Amor á antiga</i> romance de Caiel, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 32—<i>As Netas do Padre Eterno</i>, por Alberto Pimentel.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 33—<i>Contos</i>, de Pedro Ivo, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 34—<i>O correio de Lyão</i>, por Pierre Zaccone.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 35—<i>Vida de Lisboa</i>, por Alberto Pimentel.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 36—<i>Historias de Frades</i> por Lino d’Assumpção.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 37—<i>Obras primas</i>, por Chateaubriand.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 38—<i>O Exilado</i>, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 39—<i>Poema da Mocidade</i>, por Pinheiro Chagas.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 40 e 41—<i>A Vida em Lisboa</i>, por Julio Cesar Machado.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 42 e 43—<i>Espelho de Portuguezes</i>, por Alberto Pimentel.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 44—<i>A Fada d’Auteuil</i>, por Ponson du Terrail, traducção de Pinheiro Chagas.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 45—<i>A Volta do Chiado</i>, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo).</span><br /> -</p> - -<hr class="r5" /> -<p class="center"> -<span class="big">Requisições á Parceria Antonio Maria Pereira</span><br /> -<i>Rua Augusta, 50, 52, 54—LISBOA</i><br /> -</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="COLLECCAO_ECONOMICA">COLLECÇÃO ECONOMICA</h2> -</div> - -<p class="center">Volumes de in-16.ᵒ, de 240 a 320</p> -<hr class="r5" /> - -<p class="center big">ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES</p> - -<p class="center">A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis)</p> - - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 1—Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de <i>Tartarin nos Alpes</i>; por A. Daudet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 2—Pedro e João, por Guy de Maupassant.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 3—Sergio Panine, por Jorge Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 4—O Sonho, por Emilio Zola.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 5—Soror Philomena, por Edmond e Jules Goncourt.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 6—O medico assassino, por Octavio Féré.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 7—Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 8—O amigo Fritz, por Erckmann Chatrian.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 9—Vogando, por Guy de Maupassant.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 10—Um romance de mulher, por Pierre Mael.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 11—Vontade, por Jorge Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 12—O Nababo, por A. Daudet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 13—Um coração de mulher, por Paul Bourget.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 14—Beatriz, por Rider Haggard.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 15—O crime, por Gabriel d’Annunzio.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 16—Lise Fleuron, por Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 17—Os dois rivaes, por Armand Lapointe.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 18—O ultimo amor, por Jorge Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 19—Um Bulgaro, por Ivan Tourgueneff.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 20—Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 21—Forte como a morte, por Guy de Maupassant.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 22—A alma de Pedro, de J. Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 23—Camilla, de Guérin-Ginisty.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 24—Trahida, de Maxime Paz.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 25—Sua Magestade o Amor, por A. Belot.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 26—Magdalena Férat, por Emilio Zola.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 27—Os Reis no exilio, por A. Daudet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 28—Divida de odio, por Jorge Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 29—Mentiras, por Paul Bourget.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 30—Marinheiro, por Pierre Loti.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 31—A montanha do Diabo, por Eugenio Sue.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 32—A Evangelista, por A. Daudet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 33—Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 34 e 35—Odio antigo, por Jorge Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 36—Parisienses!... romance, por H. Davenel.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 37—Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 38—A confissão de Carolina, romance.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 39—Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 40—Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 41—O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 42—A agonia de uma alma, romance, por Ossip Schubin.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 43—Memorias d’um burro, por Madame Ségur.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 44—A nihilista, por Catulle Mendés.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 45—O grande Industrial, por George Ohnet.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 46—Morta d’amor, por Albert Delpit.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 47—João Sbogar, por Carlos Nadier.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 48—Viagem sentimental, por Sterne.</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 49—O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.</span><br /> -</p> - -<p>Todos os <abbr title="volume">vol.</abbr> com este signal * estão esgotados mas vão ser -reimpressos.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p class="center big">OBRAS -</p> - -<p class="center small">DE</p> - -<p class="center">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> - -<p class="center small">EDIÇÃO POPULAR</p> - - -<hr class="r5" /><p class="center big">V</p> -<h2 class="nobreak">O ESQUELETO</h2> -</div> - - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="VOLUMES_PUBLICADOS">VOLUMES PUBLICADOS</h2> -</div> -<hr class="r5" /> - -<p class="poetry"> -<span style="margin-left: 3em;">I—Coisas espantosas.</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">II—As tres irmans.</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">III—A engeitada.</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">IV—Doze casamentos felizes.</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">V—O esqueleto.</span><br /> -</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - - -<p class="center big"> -<i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p> -<hr class="r5" /> -<h1>O ESQUELETO</h1> -<p class="center big p2"> -ROMANCE</p> -<hr class="r5" /> -<p class="center"><i>TERCEIRA EDIÇÃO</i></p> -<hr class="r5" /> -<p class="center p4"> -LISBOA<br /> -<span class="small"><span class="smcap">Parceria Antonio Maria Pereira—Livraria-editora</span><br /> -<i>Rua Augusta, 50, 52, 54</i><br /> -1902</span><br /> -</p> - - -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> - -<p class="center p4"> -LISBOA<br /> -<i>Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira</i><br /> -<b>Rua dos Correeiros, 70 72</b><br /> -</p></div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="PREFACIO">PREFACIO</h2> -</div> - - -<p>Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito -desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.</p> - -<p>Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais -de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da -sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao -despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.</p> - -<p>Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e -concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás -vezes, da verosimilhança.</p> - -<p>Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. -O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as. -Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que -é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e -largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito -poisal-os em alegretes de flores.</p> - -<p>São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_2">[Pg 2]</span></p> - -<p>Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia -social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos -amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu -finalmente?</p> - -<p>Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este -paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não -serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a -probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.</p> - -<p>Ha poucos dias, tivémos esta pratica:</p> - -<p>—Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que -lavra nos pantanos da sociedade—observou-me o meu amigo.</p> - -<p>—Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não -acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem -romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de -dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, -sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães -culpadas.</p> - -<p>—Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes -das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios—redarguiu o -cavalheiro.</p> - -<p>—Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta -da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado -sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas; -concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as -requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de -as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com -uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance -ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto -innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem -angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.</p> - -<p>—Acho-lhe rasão—obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus -livros—mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas -desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que -revolvam essas sentinas hediondas?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p> - -<p>Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum -para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume -que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga -social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas -protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em -todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade, -e alvorotam a quietação dos pais de familia.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="I">I</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_e.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Era</span> justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos -portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que, -poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se -que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para -ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835, -sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho -aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se -da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi -respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam -a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico. -Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span> um lacaio; -apeiava no hotel do Pêxe,<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> saía a provêr-se de objectos de luxo nas -lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques, -que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.</p> - -<p>O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as -praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida -particular.</p> - -<p>Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e -estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a -surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez.</p> - -<p>Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era -superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico.</p> - -<p>Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo:</p> - -<p>—A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes...</p> - -<p>—Não é possivel...—disse o francez abstrahido.</p> - -<p>—Não é possivel?!—replicou o outro.</p> - -<p>—A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber -quem a não conhece.</p> - -<p>—E conhece-a o senhor?</p> - -<p>—Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia -que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava -encontral-a. Onde vive ella?</p> - -<p>—Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto,<span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span> com um fidalgo transmontano, -chamado Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>O chanceller escreveu na sua carteira, e disse:</p> - -<p>—A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes -de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta -infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi -hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este -calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu -que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante -affronta!</p> - -<p>O francez retirou-se apressado.</p> - -<p>Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos -seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul -francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense.</p> - -<p>O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado.</p> - -<p>O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder -explicitamente se nomeava testemunhas, disse:</p> - -<p>—Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz. -Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me -contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho.</p> - -<p>O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e -replicou:</p> - -<p>—Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me -n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se -melhor nas estradas.</p> - -<p>O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até -sangrarem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span></p> - -<p>A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu -assustada a indagar a causa.</p> - -<p>Nicoláo respondeu glacialmente:</p> - -<p>—Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não -me bato.</p> - -<p>—Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é -temivel!—acudiu ella.</p> - -<p>O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:</p> - -<p>—Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito -coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.</p> - -<p>Pungente grosseria!</p> - -<p>A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não -tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!...</p> - -<p>É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e -devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores -novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem -sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis -annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam -de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde -fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz -pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta -escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára -os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que -propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante! -Amára até ao absoluto despreso de si mesmo.<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span> Seguira-a de Lyão á -Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido -fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua -industria.</p> - -<p>Depois, ainda um anno se não tinha passado, e já Nicoláo media a -profundeza de sua ignominia, e espedaçava-se ás garras do opprobrio -de si proprio. Tardia honra, que nunca pode chamar-se rehabilitação: -penitencia, que no conceito do mundo terá remido os arrependidos; mas -que no juizo da Providencia deve de ser apenas começo de expiação, -começo de expiação muito longa.</p> - -<p>Chegado a Portugal, Nicoláo ainda tinha mãe. Repugnou-lhe entrar em -sua casa com uma mulher, mais perdida aos olhos d’elle que aos da -sociedade, se a conhecesse. Já lhe parecia que o apresental-a como -sua esposa era injuriar as virtudes de sua mãe, e injuriar-se a si. -Não mais se levantará deante do homem, que a estimou, a mulher assim -desprezada.</p> - -<p>Alugou a quinta nos arrabaldes do Porto, e ahi ficou.</p> - -<p>A franceza era a mulher coherente com o seu crime. A mudança da -physionomia do amante, a nudeza da phrase baixa e sêca, a nenhuma -poesia do gesto e da palavra, os longos silencios interpollados de -suspiros, os vincos da fronte, os sorrisos contrafeitos, as abstracções -e respostas incongruentes, que mais carecia ella para cahir em joelhos -aos pés do algoz da sua felicidade, e pedir-lhe a morte?</p> - -<p>Não se lembrou d’isso. Era mulher, e franceza. Ao pungimento da -deshonra botaram-se os fios no habito de a praticar. Caíra de tão alto, -que já não media com a vista a altura da queda. As mulheres<span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span> que chegam -até aqui, tocam a extrema do pudor.</p> - -<p>D’ahi em diante, se choram, não é remorso, é a aspide do orgulho que as -morde.</p> - -<p>Margarida Froment acceitava a liberdade do amante, em proveito do amor -decadente. Cuidava ella que as pompas no trajar remoçariam o affecto -envelhecido. Vestia-se e galleava a primor. Achava-se linda. Aos -vinte e oito annos não invejava o frescor das suas quinze primaveras. -Offerecia-se assim aos olhos de Nicoláo, e muitas vezes cuidou que -triumphava quando queria. Esta vaidade era-lhe um esteio. Em quanto um -demonio amigo lhe desse tal escudo, contava ella com a victoria sobre o -fastio do amante.</p> - -<p>Quando a tristeza a alquebrava mais, era se, no lavor de enfeitar-se, -lhe vinha á lembrança que seu marido a tinha amado muito, ainda -desenfeitada.</p> - -<p>Tristeza de vaidade dorida, e mais coisa nenhuma que possamos chamar -<i>castigo</i>.</p> - -<p>Os castigos, ao chegarem, rasgam por outras fibras mais sensiveis.</p> - -<p>O fidalgo, que pendia aos quarenta annos, pensava em sacudir o -jugo; mas as correias apertavam-n’o tanto e em tantas voltas, que -era impossivel desdal-as sem despedaçar os restantes liames da sua -dignidade.</p> - -<p>Abandonal-a era coroar a infamia.</p> - -<p>Dar-lhe recursos e bons conselhos, muitas vezes lhe quiz propôr este -accordo; mas receiava a recusa, e a desordem inevitavel d’essa hora em -deante.</p> - -<p>Os obstaculos saturavam-lhe de fel novo o amargôr do enfado.</p> - -<p>Até que, no termo de seis annos, appareceu o<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span> chanceller, não sei se -tolo, se sublime, a desaggravar o amigo, do mesmo modo que um inimigo o -faria, se quizesse ajuntar á desgraça a irrisão. Os francezes usam uns -processos especiaes de honrar os amigos.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita era valoroso; porém, reflexionador. Dissera elle: -<em>é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de -qualquer mulher</em>. Essa sua maxima arrefecia as fervuras da coragem; -do pundonor não havemos de dizer, que esse tinha claudicado, e ficara -tolhido para todos os effeitos da dignidade, logo que elle seduziu a -mulher do homem, incapaz de reputal-o infame.</p> - -<p>Não se quiz bater com testemunhas: era natural que evitasse bater-se -sem ellas.</p> - -<p>Absteve-se de ir ao Porto, e reflectiu ponderosamente no escape de -taes aperturas. Achou que era tempo de espesinhar considerações de -menor alcance. Propoz á franceza uma separação temporaria, e urgente -á quietação de ambos. Margarida ouviu-o de boa fé. Acceitou alguns -mil cruzados; residencia no Porto, se lhe desprazia viver na quinta; -e a segurança de se reunirem na provincia, assim que a entrevada mãe -de Nicoláo passasse a melhor vida. Annuiu a franceza, dizendo em tom -lastimoso que de bom grado, e com o coração cheio de lagrimas, se -immolava á tranquilidade do amante.</p> - -<p>Nicoláo foi para Traz-os-Montes, e Margarida Froment para uma casa -ricamente alfaiada na Torre da Marca.</p> - -<p>O chanceller, perdida a esperança de tirar os olhos do scelerado á -ponta de florete, escreveu ao amigo, contando-lhe o seu intento, e o -encontro inesperado.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span></p> - -<p>Ernesto Froment accusou a carta recebida, e não falou da mulher. Parece -que tinha lá tres, todas mais fieis, e póde ser que mais formosas.</p> - -<p>Por este lado, o acaso—não ouso dizer a Providencia—se amerceara -do esposo trahido. Quem dos dois soffria mais, ou presentia o -emborrascarem-se as porvindouras tormentas, era Margarida.</p> - - -<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, -onde se hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade. -<i lang="la" xml:lang="la">Habent sua fata</i>... os palacios!</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="II">II</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> morgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos -tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns -temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher -fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de -que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando -inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe -tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja.</p> - -<p>Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da -mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o -mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros.</p> - -<p>Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar, -nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados. -Perguntava<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span> á desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em -tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras -mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se -de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens -que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa, -assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das -mulheres suas contemporaneas.</p> - -<p>Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao -Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor -a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas -instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam -depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza -da saudade.</p> - -<p>Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos -ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios -proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não -demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do -chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou, -recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia -ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias -que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas -supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida. -Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia, -Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é -renuncia. O ciume faz então prodigios<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span> que nivellam o mais descaroado -orgulho com a allucinação de Werther ou Othello.</p> - -<p>Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves -concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia -celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis -annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na -primavera entre as alvissimas flores do espinheiro.</p> - -<p>Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que -Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o -morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas -esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis -louros do seu cabello á espadua de outro homem.</p> - -<p>De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:—Parece que tem vinte annos! -Como está moço, e que airosidade na dança!</p> - -<p>—Pois tem perto de quarenta!—Atalhava um moço de vinte, com um -sorriso e abanar de cabeça desdenhoso.</p> - -<p>Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment.</p> - -<p>Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o -ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a -responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o.</p> - -<p>Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze -dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares -e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o -leve incommodo de contar<span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span> anecdotas joviaes, costumes estrangeiros, -amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir, -iguarias para todos os paladares.</p> - -<p>Beatriz era das que folgava das historietas facetas. Casos de lagrimas -enterneciam-n’a até lhe molestarem os nervos. Pediu ella a seu primo -contos engraçados. E Nicoláo, que nunca em sua vida tivera graça, -transverteu-se por milagre de amor, e fez rir a filha de seu primo. A -sós comsigo, o morgado da Palmeira, que vira muito e brilhante mundo, -quasi que de si mesmo ria.</p> - -<p>Voltou a casa onde o chamára o aviso de estar a mãe em perigo de vida. -Assistiu-lhe á morte, fez-lhe enterro pomposo, encerrou-se por oito -dias, pagou as visitas, e voltou para Chaves.</p> - -<p>D’este successo não deu parte a Margarida nem respondeu ás cartas, que -encontrára, queixosas do seu silencio. A esposa de Ernesto Froment -tinha morrido para o amante como para o marido. A Providencia ordenára -á formosa de Chaves que lançasse a prevaricadora no fogo expiatorio, -não lavareda devorante, mas brazido lento, que lhe fosse queimando -fibra por fibra os orgãos todos onde a vida humana pode soffrer e -morrer mil vezes. Nicoláo lembrava-se d’ella com susto, e ás vezes com -remorso; o susto de a vêr atravessar-se em seus designios; o remorso de -atiral-a a um caminho, sem saida que não seja garganta de voragem.</p> - -<p>Adeante! Nicoláo de Mesquita conhecia milhares de exemplos. Em -Paris, cada homem dos admirados e invejados no bosque de Bolonha, no -café Tortoni, nos centros da mocidade insigne, podia contar dezenas -d’aquellas historias, laudas da biographia<span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span> dolorosa que as mulheres -das salas repetiam sem horror.</p> - -<p>O horror das mulheres das salas era para as victimas.</p> - -<p>Homens sacrificados é que elle não conhecêra. Homens que immolassem -os melhores annos da sua mocidade a um dever, que o mundo chama um -escandalo. Homens que, em cada primavera do coração, arrancassem os -renovos promettedores de muitas alegrias, e os atirassem fenecidos aos -pés de uma como estatua, incapaz de avaliar a renunciação, ou, peior -ainda, persuadida do dever do sacrificio.</p> - -<p>N’isto cogitára elle em todos os dias dos seis annos de captiveiro.</p> - -<p>Agora, na liberdade, era preciso ser homem como todos, ser forte para -não ser infeliz e ridiculo: porque a desgraça dos penitentes, que -não podem nobilitar, com alguma sombra de moral commum, o grandioso -holocausto de sua liberdade, é irrisoria.</p> - -<p>E depois, quem sabe?</p> - -<p>Margarida voltará para França, onde tem o marido, e a mãe. Se o marido -a recebe, feliz culpa que a mette ao caminho da rehabilitação! Se a -rejeita, a mãe lhe abrirá os braços e o sanctuario da familia lhe -purificará o espirito. Esta moralidade, subitamente formada no animo do -morgado, é uma zombaria da virtude. Faz-se muita moralidade assim; a -sociedade ás vezes applaude-a, e sae em auxilio dos moralisadores.</p> - -<p>Com estas hypotheses combatia Nicoláo de Mesquita o impertinente -remorso, quando ia para Chaves. Porém assim que se refugiou sob os -olhos tutelares<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span> de Beatriz, a chimera da consciencia fugiu espavorida.</p> - -<p>Martinho Xavier perguntára a sua filha se o primo de Vidago lhe dizia -particularmente palavras indicativas de algum sentimento mais forte que -o do parentesco e amisade.</p> - -<p>Beatriz córou. O pae ficou satisfeito.</p> - -<p>E, n’outro ensejo, perguntou-lhe:</p> - -<p>—Gostas do primo Nicoláo? Sê sincera, minha filha.</p> - -<p>—Não desgosto... balbuciou a pomba.</p> - -<p>—E, se elle quizesse ser teu marido, acceitarias de boa vontade?</p> - -<p>—Querendo meu pae...</p> - -<p>—Eu não quero, nem deixo de querer. Consulto a tua vontade.</p> - -<p>—Eu...</p> - -<p>—Acceitas?</p> - -<p>—Pois sim...</p> - -<p>—Mas—tornou Martinho Xavier—tu, antes da vinda de Nicoláo, parece -que acceitavas a côrte do primo de Fayoens, que foi creado comtigo.</p> - -<p>Beatriz córou e calou-se. O pae achou prudente calar-se tambem, n’este -artigo melindroso, e volveu ao essencial.</p> - -<p>—Nicoláo perguntou-me se o teu coração estava livre. Respondi que o -suppunha desprendido de affeição seria. Quiz elle saber se tu quererias -ligar a tua mocidade aos annos já adeantados de um homem, que te amaria -como esposo, e estremeceria como pae. Vou dar-lhe a tua resposta, se é -que lh’a não déste.</p> - -<p>A menina fez um gesto de assentimento.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span></p> - -<p>O morgado da Palmeira, no dia seguinte, disse a Beatriz:</p> - -<p>—Quer meditar algum tempo antes de ser minha esposa, prima Beatriz?</p> - -<p>—Já respondi, primo Nicoláo.</p> - -<p>—Despede-se sem saudades da sua mocidade? Não deixa impressão que a -possa magoar?</p> - -<p>—Não...</p> - -<p>—Nenhum homem que lhe inquietasse o coração?...</p> - -<p>—Nenhum...</p> - -<p>—Acredito-a, Beatriz. Pois saiba que ha-de ser venturosa, quanto os -anjos podem ser n’este mundo. Hei de obrigal-a com extremos de amor a -ser minha amiga. Vêr-me-ha invelhecer, e então sentirá por mim affecto -de filha. O homem, na minha edade, sabe como se faz a felicidade de uma -mulher. Entrego-lhe o coração maculado, mas ainda forte de vida, a vida -do coração, que é a poesia das almas enthusiastas. Se eu me sentisse -gasto e insensivel, a prima Beatriz, com o segredo que teve de influir -um sagrado fogo no gelo da minha vida moral, havia de fazer o menor -milagre de remoçar-me. Será feliz, minha prima: juro-lh’o, beijando-lhe -esta mão pura!</p> - -<p>Beatriz cedeu facilmente a mão, para não prejudicar o ritual do -juramento.</p> - -<p>Se Deus fosse carne, e tivesse labios susceptiveis de obedecerem ás -contracções convulsas dos musculos faciaes, ria-se sardonicamente -d’aquelle juramento.</p> - -<p>O lance, digno de ser pintado com as branduras de Bernardin de S. -Pierre, foi interrompido por um criado, que apresentava a Nicoláo de -Mesquita uma<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span> carta, vinda em mão propria, de Villa Pouca de Aguiar, -distante de Chaves tres ou quatro leguas.</p> - -<p>O morgado viu o sobrescripto, e mudou de côr.</p> - -<p>Era a lettra de Margarida Froment, que havia chegado a Villa Pouca na -tarde do dia anterior.</p> - -<p>O contheudo eram duas palavras: <span class="allsmcap">ESTOU AQUI</span>.</p> - -<p>Beatriz ergueu-se em ponta de pés. Adoravel curiosidade! Viu; mas não -entendeu. Era em francez. Encarou no primo e disse sobresaltada:</p> - -<p>—Que é?!</p> - -<p>—Um amigo que me chama a Villa Pouca, tartamudeou.</p> - -<p>—E porque não vem cá? replicou a innocente com a cavillosa dialectica -de uma senhora já esquecida do tempo em que passou pelas varzeas -floridas da innocencia.</p> - -<p>—É um francez, meu amigo, que vae de passagem para Hespanha, e precisa -de recursos.</p> - -<p>—Não se assignou?! redarguiu candidamente Beatriz.</p> - -<p>—Não, porque... porque é perseguido em Portugal, e receiou que se -desencaminhasse a carta.</p> - -<p>—E vae, primo?</p> - -<p>—Sem demora. Devo-lhe obsequios.</p> - -<p>Estas palavras já foram ditas com toda a quietação de animo. Beatriz -socegou; mas, depois que Nicoláo saiu, inquietou-se e mandou, a -occultas do pae, um criado a Villa Pouca, espiar os passos do morgado -da Palmeira.</p> - -<p>Amava-o: estou em crêr que o amava.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita ia chammejando de raiva a Margarida. Esporeava o -cavallo que devorou as leguas em furiosa desfilada. Soffreava a brida -instantaneamente, para meditar no que faria. Baralhavam-se-lhe<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span> os -planos, todos miseraveis, senão abjectos.</p> - -<p>Apeou á porta da estalagem.</p> - -<p>A franceza esperou-o no topo da escada, abrindo os braços. Nicoláo -apertou-lhe a mão, e disse-lhe glacialmente:</p> - -<p>—Que é isto?</p> - -<p>Margarida transfigurou-se. Deixou cair mortalmente os braços, e disse -então dorida e irritada:</p> - -<p>—Para que veio aqui?</p> - -<p>—Pois a tua carta que significa? Diz.</p> - -<p>—Nada. Respondesse: «Não conheço a desgraçada, a perdida, a infame -que me escreve. Desgracei-a eu, perdi-a eu, infamei-a eu; mas não a -conheço.» Respondesse assim, senhor Nicoláo de Mesquita. Antes isto, -que repellir a mulher que de braços abertos lhe offerece o coração -traspassado de dôres.</p> - -<p>—Vem cá, Margarida! tornou o morgado, simulando meiguice. Vem -conversar commigo. Tu és injusta, ou estás enganada.</p> - -<p>A franceza abriu a porta do seu quarto. Nicoláo sentou-se a limpar as -bagas de suor. E ella ficou em pé defronte d’elle, hirta, sublime, -formosa, e formidavel de odio, de amor, de desesperação, de ternura, um -indefinivel conjuncto de demonio da soberba, e anjo da agonia.</p> - -<p>E elle estava como se a não visse, fitando-a nos olhos coruscantes. -Latejavam-lhe as fontes batidas de dentro por clavas de ferro. Seria um -atroz pezadelo, se não fosse um abafar de vergonha e rancor.</p> - -<p>Margarida esperou alguns segundos, e disse:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span></p> - -<p>—Conversemos, pois.</p> - -<p>Nicoláo ergueu-se de golpe, e exclamou:</p> - -<p>—Desprézo a ironia!</p> - -<p>—Isso é uma miseria, senhor Nicoláo, retorquiu serenamente a franceza. -Conversemos, pois!</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="III">III</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Reprovo</span> a sua vinda aqui! disse Nicoláo empregando o <i lang="fr" xml:lang="fr">vous</i> do -despeito ou da cerimonia, que, n’este dialogo em francez, era, de parte -a parte, odio.</p> - -<p>—Já sei, respondeu Margarida. Reprova que eu viesse. Reprovada e -maldita sou eu de toda a gente. Como todas as almas me fugiam, vim -acoitar-me na sua. Agora vejo que estou sosinha no mundo. Se eu quizer -amigas, hei de ir procural-as á ultima escaleira da degradação.</p> - -<p>—Que desatino!—exclamou o morgado.—Faltaram-lhe meios com que viver -honestamente?</p> - -<p>—Honestamente vivia eu em casa de meu marido, senhor Nicoláo de -Mesquita! O senhor prégou-me a desmoralisação, e agora está-me -doutrinando a honestidade! Que escarneo! O seu dinheiro não pode -rehabilitar a mulher que a sua perversa indole<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span> abysmou! O senhor faz -mulheres perdidas, não refaz honestas!</p> - -<p>—Pois bem!</p> - -<p>—Pois bem o que?</p> - -<p>—Faça o que quizer.</p> - -<p>Margarida fitou-o arquejante de colera, e levou com impetuoso frenesi -as mãos aos olhos, murmurando estas palavras, que elle não ouviu:</p> - -<p>—Covarde e infame!</p> - -<p>Nicoláo erguera-se, saira á saleta contigua, aspirando haustos de ar, e -baforando ruidosamente as expirações fumegantes. A franceza atirára-se -ao leito, afogada de soluços, e clamando:</p> - -<p>—Estás vingado, Ernesto, estás vingado, meu infeliz marido!</p> - -<p>Nicoláo ouvira isto, e estorcia em desespero os dedos de ambas as mãos -enclavinhadas sobre o peito.</p> - -<p>Encostou-se ao batente da porta do quarto, e contemplou-a. Teve -dó. Lembrou-se do que fôra aquella mulher em casa de seu marido. O -contentamento, a estima publica, os regalos, o respeito de amigos, a -consideração das mulheres honestas, o acanhamento com que a tratavam as -deshonestas, o orgulho e paixão do esposo. Lembrou-lhe tudo, vendo-a -assim soluçante, a confessar a sua culpa, e a sentir na consciencia -o travor do calix expiatorio. E, por sobre tudo isto, o lembrar-se -Nicoláo da sua deshonra d’elle! aquellas lagrimas a cairem-lhe no -coração! e o terrivel irremediavel da desgraça de tres victimas, que -elle fizera, contando-se pela mais atormentada das tres!...</p> - -<p>Acercou-se de Margarida e disse-lhe com brandura:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span></p> - -<p>—Não chores. Tens no mundo um amigo, Margarida!</p> - -<p>A franceza levantou a face brilhante de lagrimas e escarlate febril. -Fixou a vista immovel n’um ponto da parede fronteira, e permaneceu -silenciosa largo espaço.</p> - -<p>O morgado, observando-a assim, fez um tregeito de impaciencia. Era o -fastio, a luctar com a commiseração, e a dominal-a.</p> - -<p>A sombra de Beatriz passou entre ambos. Seguiram-n’a os olhos d’alma -de Nicoláo. Os da face ficaram postos em Margarida; mas sómente viam -n’ella o estorvo, a miseria repulsiva, as lagrimas accusadoras. Duas -idéas se travaram a repellões no animo do morgado: romper violenta e -definitivamente com a franceza ou enganal-a com blandicias e promessas. -Venceu o mais vil dos expedientes.</p> - -<p>O maximo sacrificio, que Nicoláo podia fazer á sua paixão pela prima, -era compôr o gesto de carinhos; modelar a voz pelo tom vehemente do -coração ingrato, mas arrependido; repetir as phrases que seis annos se -não repetiram aos ouvidos da franceza.</p> - -<p>N’este intuito, ajoelhando deante de Margarida, irrompeu n’uma lamuria -destoada da accentuação da verdade, um declamar de actor pessimo, uma -coisa que, na consciencia propriamente do declamador, o devia de estar -envilecendo!</p> - -<p>Margarida foi cruel. Riu-se! castigou-o atrozmente envergonhando-o em -rosto, quanto elle o estava no seu intimo senso.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita ergueu-se de salto, e sentiu ao correr dos braços -um prurido nervoso, umas fervuras de sangue, que lhe recurvavam os -dedos; era<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span> a convulsiva ancia de esganar a mulher que o comprehendera -e escarnecia.</p> - -<p>—Que infame riso é esse? exclamou o morgado cavamente, chispando -áscuas dos olhos e beiços.</p> - -<p>—É o riso da dignidade! respondeu a franceza, sem se desmentir na -postura.</p> - -<p>—A dignidade de madame Froment! redarguiu elle, espirando um frouxo de -riso sarcastico.</p> - -<p>—Condemna-se, insultando-me, homem sem alma! replicou Margarida. -Madame Froment era uma digna esposa até ao dia em que seu marido foi -deshonrado por quem elle recebêra em sua casa.</p> - -<p>—Quem a ouvisse cuidaria que eu me servi do punhal de Tarquinio!</p> - -<p>—Foi mais cynico, e vilão, e covarde, senhor Nicoláo! As suas armas -foram mais perfidas.</p> - -<p>—Mas Lucrecia não se matou!...</p> - -<p>—Não! bramiu ella furiosa, não se mata, porque é necessario que o -senhor veja como eu me debato e agoniso no lodaçal em que me deixa. -Havemos de expiar ambos, ouviu, senhor Mesquita? Havemos de nos -espedaçar um ao outro! Eu acceito a vida com os horrores todos, que me -esperam... acceito-a com a condição de o vêr castigado.</p> - -<p>Nicoláo riu-se e sahiu do quarto, atirando com as melenas lustrosas de -suor para a nuca.</p> - -<p>Seguiu-o, instantes depois, Margarida, e disse-lhe serenamente:</p> - -<p>—Venho responder ao seu riso.</p> - -<p>—Deixe-me! bradou o morgado.</p> - -<p>—Deixo, tornou ella. Está o senhor livre de mim; a Providencia é que -não o deixará... Ver-nos-hemos!</p> - -<p>E saiu da saleta, desceu ao pateo da estalagem,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span> e ordenou ao arrieiro, -que tirasse o cavallo da estrebaria. Entretanto pagou as despezas da -hospedagem, e sentou-se n’um banco de pedra, com os braços cruzados -sobre o seio, e a face pendida sobre elles.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita desceu pouco depois e reconheceu um criado de -Beatriz, que saía apressado do pateo. Sobresaltou-se, cuidando que era -espionado, e surprehendido em flagrante de mentira e perfidia. Passou -por deante de Margarida, como se não a visse, e saiu a rua procurando o -criado, que não viu. Voltou ao pateo, já quando a franceza cavalgava. -Quedou-se a contemplal-a estupidamente, n’um indescriptivel spasmo de -brutificação. Margarida passou rente com elle, estalejando o chicote na -anca da cavalgadura. Tinha elle saido da villa, quando Nicoláo tirou -fóra o cavallo, e picou á redea solta no seguimento de Margarida. Não -saberia dizer elle que intento o impulsava. Chegou de par com ella, -colheu as bridas de impeto, e perguntou:</p> - -<p>—Onde vaes, desgraçada?</p> - -<p>—Á sorte! respondeu a franceza.</p> - -<p>—Pára e reflexiona, Margarida!...</p> - -<p>A franceza parou, sorriu sardonicamente e disse:</p> - -<p>—Bem! Aqui estou. Que quer de mim?</p> - -<p>A pergunta conturbou o morgado. Bruxuleava uma luzinha de piedade -ainda n’aquelle animo afflicto. Era verdadeira afflicção a d’elle! A -pergunta demandava uma só resposta digna, e consolativa. Essa nem já -insidiosamente podia elle dal-a. A sobranceria de Margarida rebatia -algum expediente compassivo. Se ella chorasse, ganharia temporariamente -uns exteriores de estima, o supremo sacrificio praticavel pelo homem, -que faz obedecer á delicadeza<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span> o fastio; sacrificio de que vivem -resignadas, senão felizes, muitas mulheres, as virtuosas principalmente.</p> - -<p>Não deu tempo ás reflexões d’elle nem ás nossas a repetida pergunta da -franceza:</p> - -<p>—Que quer de mim?</p> - -<p>—Que domine esse feroz orgulho, que a perde!</p> - -<p>—Bella resposta, senhor Nicoláo! replicou Margarida, sacudindo as -rédeas com um tremor nervoso da mão. Deixar meu marido foi uma virtude -do coração, como o cavalheiro lhe chamava; a virtuosa não se perdeu -então; perde-se agora porque é orgulhosa até á ferocidade... é isso? -que escarneo, senhor Mesquita!...</p> - -<p>Susteve-se, esperando qualquer resposta. As desgraçadas, n’estes -lances, usam uma logica irrespondivel. Nicoláo tinha a lingua -preza—consintam a figura—por dois dedos da sua prima Beatriz. -Expressão compadecida não vingava nenhuma com que applacasse o -irritamento de Margarida. Assim que no animo lhe pungia a commiseração, -ahi estavam logo os dois dedos de Beatriz a entalarem-lhe na lingua o -termo brando, a claridade mesmo da mentira.</p> - -<p>A franceza, sobre-excitada pelo silencio significativo do morgado da -Palmeira, disse com energia e sem lagrimas:</p> - -<p>—Eu, senhor, não vim queixar-me da sua ingratidão. Bem sabe que o -deixei apertar-me cinco annos a corda na garganta, sem soltar um -gemido. A sua consideração por mim morreu, quando a sociedade me -desconsiderou. O senhor, desde o momento em que deixou de vêr ao meu -lado o estimulo do seu crime, não soube que fazer aos loiros da<span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span> -victoria. Eu, ao lado de meu marido, era uma mulher disputada pelo amor -d’elle; escondida ás pedradas do mundo, perdi o valor que me davam os -respeitos sociaes. As pedradas mais certeiras e dolorosas eram as suas, -senhor Nicoláo. E não me queixei, nem isto é queixar-me. Da vilania é -que eu me dou por affrontada. Deixou-me no Porto com vil astucia, e nem -por dignidade propria sustentou a mascara. Era a vida de sua mãe que -repellia a mulher perdida da honesta casa da Palmeira: morreu sua mãe, -e o senhor, aturdido pela dôr da orphandade, não poude dispôr da cabeça -para me dar parte do seu lucto...</p> - -<p>—Não admitto remoques sobre objectos tão serios! interrompeu iracundo -o morgado.</p> - -<p>—O senhor não póde considerar-se um objecto serio! acudiu de prompto a -franceza. Ridicula é a sua aleivosia, senhor Nicoláo! Ridiculo, se não -quer que diga infame, é o seu silencio de vinte dias ás minhas cartas! -Ridiculo, é esse falso pundonor com que vem em defeza da honestidade -dos seus lares! Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos á candida -sobrinha de Chaves que...</p> - -<p>Nicoláo cresceu sobre os estribos, levou a mão direita á testa -escaldante, e baforou fumaradas de rancor. Abrasava-o dentro o sarcasmo -do <em>amor dos quarenta annos</em>. Tortura mais lacerante nem a -inquisição poderia invental-a para uso de mulheres inexoraveis como -Margarida! Teve-lhe medo ella quando o viu assim roxo e vulcanico a -chammejar pelos olhos, inteiriçado sobre o sellim, pavoroso, e ainda -ridiculo, no rigor da palavra, e no entender da franceza.</p> - -<p>O desfecho d’este relanço devia ser tambem<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span> irrisorio. Nicoláo de -Mesquita recaiu de golpe sobre o sellim, retorceu de violento empuxão -o pescoço do cavallo, deu-lhe de esporas com frenesi, e despediu n’uma -corrida desapoderada por aquella rechan do Valle d’Aguiar fóra, e tão -cosido ás crinas do fumegante alasão, que dava uns longes de Mazeppa, -arrebatado pelo corcel creado na vertiginosa phantasia de Byron.</p> - -<p>E Margarida Froment ria-se, em quanto o pasmado arrieiro exclamava:</p> - -<p>—O cavallo endoideceu! Vae-se esbarrar com dez milheiros de diabos!</p> - -<p>A franceza sorriu ainda, e disse serenamente:</p> - -<p>—Vamos para o Porto.</p> - -<p>Nicoláo havia transmontado o horisonte, fechado por uma gandra. Nem uma -só vez voltara o rosto. Espicaçava-o um demonio zombeteiro, cascalhando -as palavras: <em>Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos</em>...</p> - -<p>Quem disse a Margarida que Nicoláo amava a sobrinha de Chaves? Os -romancistas, desconsiderados ou distrahidos, faltam com a cortezia -devida aos leitores, descuidando-se em responderem a estes reparos -justos, com que a critica amoravelmente nos dá o seu beliscão.</p> - -<p>A franceza, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Villa Real. Ao -arraiar da manhã, cavalgou, e fóra da villa, n’uma esplanada de monte, -chamado o «Arcabuzado», parou a examinar um mau retabulo, em que um -pincel de 1811 contava á posteridade o caso triste do espingardeamento -de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o -pae do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto -successo contou-lh’o,<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span> em frente do painel, um mancebo, que desde a -hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavallo. Não ousaria elle -intrometter-se a dar explicações, se a franceza, por gesto convidativo, -o não animasse a sair-se d’aquelle spasmo mudo, que as mulheres -formosas incutem nos provincianos, gente, pelo commum, contemplativa -até ao extasis.</p> - -<p>Concluida a historia do painel, o moço alinhou o cavallo com o de -Margarida, quanto a estrada o permittia, e foi dizendo quem era e para -onde jornadeava. Modestamente omittiu na noticia da sua pessoa que era -um fidalgo do Valle d’Aguiar, senhor do solar e castello d’aquelle -nome, descendente por varonia de Duarte de Almeida, o celebrado alferes -da bandeira, que, a defendel-a com mãos e dentes, perdêra os dentes e -as mãos na batalha de Tóro, em 1476. Fallou, porém, no seu castello, -que a franceza traduziu <i lang="fr" xml:lang="fr">château</i>, «casa-campestre», coisa de -nenhuma importancia archeologica. Ricardo de Almeida ignorava a -lingua franceza, o que vinha a ser uma falta para dar do seu castello -solarengo uma cabal idéa.</p> - -<p>Margarida perguntou-lhe se conhecia Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>—É meu proximo parente; respondeu Ricardo de Almeida, e de prompto -conjecturou acertadamente quem era a sua companheira de jornada, -por ter ouvido dizer que o do Vidago tinha vivido no Porto com uma -estrangeira.</p> - -<p>—Tem-n’o visto? perguntou ella.</p> - -<p>—Visitei-o quando lhe morreu a mãe...</p> - -<p>—Pois a mãe de Nicoláo morreu?! acudiu Margarida com alvoroço.</p> - -<p>—Ha tres semanas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span></p> - -<p>Margarida mordeu o labio inferior.</p> - -<p>—Vossa excellencia conhece meu primo? perguntou Ricardo por delicadeza.</p> - -<p>—Alguma coisa, respondeu ella abstrahidamente, e disse logo com -vivacidade:</p> - -<p>—Elle está em Vidago?</p> - -<p>—Quando eu sai de minha casa, ha quatro dias, tive noticia de que elle -estava em Chaves.</p> - -<p>—Chaves é longe?</p> - -<p>—Nove leguas, minha senhora.</p> - -<p>—Que faz elle em Chaves?</p> - -<p>—Namora uma sobrinha, com quem provavelmente vae casar.</p> - -<p>Margarida fitou nos olhos o interlocutor, e disse:</p> - -<p>—O senhor sabe quem sou, e graceja comigo.</p> - -<p>—Desconfio que vossa excellencia é uma senhora que veiu da emigração -acompanhando Nicoláo de Mesquita; porém, de nenhum modo ousaria -gracejar com uma senhora, que me parece infeliz na sua sorte.</p> - -<p>Margarida, por espaço de uma legua, não proferiu palavra. Ricardo tinha -menos espirito que o necessario para divertil-a da sua introversão.</p> - -<p>Assomaram ao alto da serra do Mezio, d’onde se avistava a magnifica -chan do valle de Aguiar, e o castello dos Almeidas, negrejando sobre um -morro de rochas na quebrada das montanhas do Alvão.</p> - -<p>—O meu castello é além, disse Ricardo apontando.</p> - -<p>—É uma fortaleza feudal? perguntou Margarida.</p> - -<p>O fidalgo deu a data da fundação do castello, e contou a façanha de -Duarte de Almeida, modelada pela inventiva com que ella anda cantada -em verso no <i>Romanceiro Portuguez</i> do senhor Ignacio Pizarro<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> de -Moraes Sarmento. A franceza parecia escutal-o.</p> - -<p>A meio do valle, Ricardo perguntou á dama se queria ser acompanhada.</p> - -<p>—Separa-se aqui?</p> - -<p>—A minha estrada é esta da esquerda.</p> - -<p>—Pois adeus, cavalheiro!</p> - -<p>—Se vossa excellencia, por distracção, quizer alguma vez honrar -aquelle castello...</p> - -<p>—Muito agradecida... As mulheres, fadadas com o meu infortunio, nunca -podem distrahir os olhos do ponto negro da sua desgraça. Adeus.</p> - -<p>Margarida, lá ao longe, olhou terceira vez ao longo do caminho, que -deixára, e viu immovel o fidalgo castellão no local onde se despediram.</p> - -<p>—Não envelheci ainda! disse ella entre si.</p> - -<p>Foi-lhe immensa consolação este desabafo da vaidade!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="IV">IV</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_m.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Margarida</span>, na volta de Villa Pouca, reparou no castello, e pensou no -descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciencia: -«Amal-o-hia eu, se podesse... O coração da mulher não se engana... -Aquelle moço amava-me hontem...»</p> - -<p>Custa a crêr o soliloquio!</p> - -<p>Ainda não ha meia hora que ella viu, ennovelados em poeira, o -cavalleiro e o cavallo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se -preoccupa do affecto inspirado a um estranho, que hontem vira! Que -coração e juizo tem esta creatura! É um coração e juizo exoticos: -coisas de França; que em Portugal—terra onde mais sinceramente -e ajuizadamente se ama e morre d’amor—nenhuma senhora, em caso -similhante, faria monologos d’aquelles.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span></p> - -<p>Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas, -contiguas ao castello apontava um oculo á estrada que descia de Villa -Pouca, e monologava tambem: «É ella... e vem sósinha...»</p> - -<p>O cavallo estava sellado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do -miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se -despedira. A franceza reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra. -Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem póde ser -não fosse, ainda que arrancasse o homem amado ás presas da menina de -Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada -de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmurios no coração -ennoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma -alegria que a vingava! Na infancia do seu amor de donzella, nenhuma -hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade!</p> - -<p>Ricardo apeou, atirou as rédeas á mão do lacaio, e adeantou-se ao -encontro da franceza, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior:</p> - -<p>—É tarde para vossa excellencia ir pernoitar a Villa Real. No espaço -de tres grandes leguas não encontra pousada. Venho offerecer-lhe a -minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem.</p> - -<p>—Acceito muito agradecida—respondeu Margarida, estendendo o braço -á mão convulsa do fidalgo. Ainda mesmo que sobejassem hospedarias na -estrada, eu acceitaria a sua hospedagem, senhor Ricardo.</p> - -<p>O mancebo cavalgou, e deu o passo a Margarida no estreito caminho que -levava ao Pontido.</p> - -<p>Iam ambos concentrados: ella, no enlevo da consideração<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> que recebia; -elle, no seu amor. Devemos cuidar assim da franceza; porque não ha -contentamento comparavel ao da mulher desestimada da sociedade, -quando se lhe depara prova de respeito, urbanidade sem mescla de amor -aviltante. Parecia-lhe á dama que estava no tempo em que a respeitavam, -e talvez a amavam os amigos da sua familia, sem exclusão dos amigos -de seu marido, facto que nos escandalisa muito a nós, e medianamente -agastaria a esposa de Ernesto Froment.</p> - -<p>Quanto ao enlevo amoroso de Ricardo de Almeida, havemos de inferil-o -naturalmente de um successo, que prende com esta historia. Fôra o -caso que elle, por veredas transversaes, no dia anterior, chegara, -primeiro que Margarida, a Villa Pouca. Alojára-se na unica estalagem da -terra, e no quarto immediato ao que devia occupar a franceza. Ouvira-a -fallar de um portador que fosse de noite a Chaves. Desvelára a noite, -espiando a resposta. Dera tento da chegada de seu primo Nicoláo. Ouvira -o dialogo na alcôva e na saleta. Até os soluços da franceza ouvira, -quando o morgado, fóra do quarto, expedia uns sons roucos da colera -que o afogava. Assim que Margarida desceu ao pateo, Ricardo saira pelo -quintalejo da estalagem, e fôra montar o cavallo, que tinha acautelado -de suspeitas em outra casa. Desgarrando da estrada, voltou ao Pontido, -e subiu á crista das fragas com o oculo, tremendo que a reconciliação -se fizesse entre Nicoláo e Margarida. Ora isto, se não era amor, e amor -á antiga, coevo talvez do castello senhorial do rico homem, não sei -dar-lhe nome, a não querer o leitor que isto fossem ciladas do demonio, -em conformidade com as interpretações de santos e doutissimos sujeitos. -Quer<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> anjo, quer demonio que lhe instillasse no peito o nectar ou a -peçonha, o exacto é que Ricardo de Almeida apresentou a suas venerandas -tias D. Margarida Froment, sem dizer quem era, d’onde vinha, e para -onde ia. Caso unico no solar dos Almeidas.</p> - -<p>Perguntava D. Simôa ao sobrinho, em quanto D. Sancha entretinha a -hospeda suspeita:</p> - -<p>—Mas onde conheceste, menino, esta dama? Como veio ella parar aqui lá -d’esses mundos de Christo?</p> - -<p>—Sei que é um anjo: viria do ceu!—respondeu Ricardo.</p> - -<p>—Do ceu?!... Vê lá bem, menino! Olha que teu tio avô, o senhor bispo -de Coimbra, dizia que as mulheres assim galantes eram mensageiras do -inimigo.</p> - -<p>—Ora minha tia...—volvia o moço afagando-a.—Receba sem escrupulos a -pobre senhora, que é tão galante como desgraçada.</p> - -<p>—Então que tem ella, menino?—instava D. Simôa com malicia.</p> - -<p>—A sua alma pura, minha tia, não póde comprehender o mal que fizeram -a esta senhora. No entanto, eu responderei ás perguntas de vossa -excellencia assim que ella sair ao seu destino.</p> - -<p>—Mas...—redarguiu a velha—o mal que lhe fizeram has de remedial-o -tu?...</p> - -<p>Esta interrogação abona a sagacidade de D. Simôa; a innocencia não -direi, com medo de errar. As Sanchas e Simôas dos solares provincianos, -por via de regra, tinham tempo para tudo: tempo para Deus e tempo -para os primos. Cada uma tinha o seu frade que a absolvia e lhe dava -noticias de<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span> todas as devoções com indulgencia plenaria. A balança de -S. Miguel estava sempre no oiro fio com estas damas, que mortificavam -Deus e o demonio ao mesmo tempo. A Deus, sophismavam as velleidades com -as indulgencias do Espirito Santo; ao demonio faziam figas por sobre -as espaduas anchas dos frades respectivos. Se as donas do castello de -Aguiar tinham sido d’esta laia, não sei; asseveraram-me, porém, que -ellas foram enterradas de palmito e corôas de rosas brancas: isto diz -muito em credito d’aquellas senhoras. No tocante a cheiro de santidade, -as opiniões na freguezia divergem.</p> - -<p>Como quer que fosse, D. Simôa, n’aquella noite, inventou uma enxaqueca, -e recolheu-se á sua alcova. D. Sancha saiu da sala para ir ver a mana, -e voltou á sala com outra cara. O certo é que a franceza achou-se -sósinha á ceia com Ricardo, que estava odiando as velhas.</p> - -<p>Margarida sem presumir de aguda, entendeu tudo e condoeu-se do mal -abafado soffrimento de Ricardo.</p> - -<p>—Não se afflija por amor de mim—disse ella. Eu acceito o menos preço -de suas tias, sem azedume. Com que titulos se apresenta á estima de -duas senhoras desconhecidas uma mulher que viaja sósinha!?... Muito -sentida vou, se as delicadas attenções do cavalheiro o fizeram cair no -desagrado de suas tias!...</p> - -<p>—Eu sou independente, minha senhora—respondeu Ricardo.—Minhas tias, -n’esta casa, teem um pequeno patrimonio, e o direito de se retirarem -com elle. A minha emancipação começa de hoje.</p> - -<p>—Por Deus!—atalhou Margarida, simulando pesar.—Não dê desgostos -ás pobres senhoras!<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> Olhe que ellas não fizeram mais do que fariam -quaesquer outras. Eu conheço um pouco a vida de provincia em França, -e creio que em Portugal é identico o modo de sentir. Recebem-se -sempre desconfiadamente as forasteiras, que se não recommendam logo -com appellidos heraldicos, nem denunciam pela libré de seus criados -procedencia illustre. Ambos peccamos por leviandade, mr. Ricardo de -Almeida: vossa excellencia errou em convidar a mulher que não póde -explicar honestamente a sua vida, e eu pequei em acceitar o convite, -como se a consciencia de maior dignidade me habilitasse a relacionar-me -com duas damas da alta nobreza e, a meu ver, das primeiras virtudes.</p> - -<p>A essencial feição da indole de Margarida Froment era a ironia; mas, a -compostura de rosto com que desfechava os remoques, não lh’a deixava -entre-vêr facilmente. Ricardo, pelos menos, recebeu como ingenua -a phrase laudatoria das virtudes de suas tias; e, sorrindo com um -tregeito especial de beiços, deu vislumbres de incerteza em quanto á -primazia das mesmas virtudes.</p> - -<p>O fidalgo ergueu-se de golpe, e tangeu uma campainha.</p> - -<p>Entrou á sala um escudeiro.</p> - -<p>—A criada de sala?—perguntou Ricardo.</p> - -<p>—Está no quarto das fidalgas.</p> - -<p>—Que venha aqui.</p> - -<p>Entrou a criada.</p> - -<p>—Conduza esta senhora ao seu aposento—disse Ricardo—e conserve-se no -quarto proximo, esperando as ordens que a sr.ᵃ D. Margarida lhe der.</p> - -<p>—Mas as fidalgas...—balbuciou a aia.</p> - -<p>—Ordenei!—atalhou o moço—e, voltando-se a<span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span> Margarida, disse:—Quando -vossa excellencia quizer recolher-se...</p> - -<p>—Irei já; mas dispenso os serviços da sua criada—observou a franceza.</p> - -<p>Ao romper da manhã, Margarida estava preparada, como se recolhêra á -alcôva. Parecia ter chorado, e velado o restante da noite. Á mesma -hora, Ricardo mandava preparar os cavallos, e enfardar a sua bagagem. -Quando sentiu movimento no quarto da franceza, esperou-a na ante-camara -e disse-lhe:</p> - -<p>—Resolvi ir ver o Porto. Se vossa excellencia me consente, irei em sua -companhia.</p> - -<p>—Que mais posso eu desejar?—disse Margarida—Mas... eu vim trazer a -desordem a esta casa... Que pesar, meu Deus!</p> - -<p>—Veio apenas trazer uma noite de amargura a um homem que a présa -deveras, minha senhora. De resto, eu vejo melhor o mundo depois que -vossa excellencia aqui entrou.</p> - -<p>As velhas tinham sido avisadas dos preparativos do sobrinho. -Ergueram-se espavoridas e tresnoitadas a procurarem Ricardo.</p> - -<p>Pediram-lhe contas da sua inesperada resolução, e elle respondeu-lhes -com uma mesura de cabeça, e passou. D. Sancha exclamou, e D. Simôa -quiz ir á sala dos retratos accusar a degeneração do neto. Os retratos -teriam medo, se as vissem com os josésinhos côr de cidra enfiados pelas -mangas, e as estrigas do cabello estupentudas. D’ahi a pouco, ouviram -a estropeada dos cavallos no pateo, e o rugido do alteroso portão -rodando nos gonzos. Foram á janella e viram a franceza de par com o -sobrinho, e uma carga de bahus no seguimento da<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> escandalosa cavalgada. -Desmaiaram-se reciprocamente nos braços uma da outra, e assim estiveram -até horas de almoço, depois do qual mandaram chamar os parentes -circumfusos nas proximas seis leguas.</p> - -<p>Lembrou D. Sancha que o primo Nicoláo de Mesquita, como homem que tinha -visto muito mundo, seria o mais habil para convencer Ricardo a fugir -dos braços da aventureira franceza, com quem se fôra por essas terras -fóra. Foi chamado o capellão para notar e escrever a carta e assignal-a -em nome das senhoras que não sabiam escrever. O egresso franciscano -fez uma exposição pavorosa do escandalo, citando, com referencia á -franceza, todo o mal que Santo Agostinho e S. João Chrysostomo haviam -dito das mulheres.</p> - -<p>Este periodo é notavel:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p class="center">.................................................</p> - -<p>«Aqui tendes, caro sobrinho, o desdouro que a vontade do Senhor nos -reservava á nossa velhice. Uma forasteira, vinda de França, por -instigação de Satanaz, rouba-nos a menina dos olhos, o nosso Ricardo, -que tão humilde nos tinha sido até agora, e tão bem comportado, que -não consta em todas estas freguezias que elle botasse a perder filha -de caseiro. Suppõe a gente que elle arranjou esta tentação lá por -Villa Real, onde esteve quatro dias. Mas clama justiça do céo vir -elle com ella para esta casa, onde não ha memoria de entrar mulher -desconhecida! Chama-se ella Margarida, e pelo donaire e modos bem se -vê que é mulher affeita a correr mundo. Nunca vimos creatura com tanto -palavriado! Aqui ninguem nos póde valer como o nosso parente Nicoláo. -Lembrae-vos que<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span> sois do mesmo sangue do nosso Ricardo; pois que vossa -bisavó era irmã do bisavô do nosso sobrinho. Elle dizia que vós sois -um homem de grande entendimento e sabedoria, porque tendes experiencia -do mundo. Se estimaes esta familia, que tambem é a vossa, fazei-nos o -favor de ir a Villa Real, ou onde elle estiver com a tal aventureira, -e despersuadi-o do peccado e da loucura. Lembrae-lhe a honra da sua -linhagem, e trazei-o para sua casa antes que a franceza lhe derranque -a alma, etc.»</p> -</div> - -<p>Este é o periodo em que Sancha e Simôa choraram torrencialmente, e o -egresso tambem.</p> - -<p>Partiu um criado com a carta para o Vidago, ou para onde Nicoláo de -Mesquita estivesse. Do Vidago passou a Chaves, a procural-o em casa de -Martinho Xavier. Foi entregue a carta ao morgado de Palmeira, a tempo -que elle estava amollentando os asperrimos ciumes de Beatriz, informada -do encontro em Villa Pouca, pelo espião que mandára. Nicoláo tinha -inventado não sabemos que romances á conta da mulher, que o criado de -Beatriz affirmára ser linda como as estrellas e mocetona de uma vez, -modo seu de exprimir a maxima perfectibilidade da belleza mulheril. -A prima repellia desabridamente as humilimas explicações, que reviam -absurdeza, e deficiencia de estudo previo. Chegou, porém, a carta, com -a indicação de onde vinha.</p> - -<p>—Que me quererão estas serêsmas do Pontido? disse Nicoláo.</p> - -<p>Leu, e no decurso das duas primeiras paginas fradescas, resadas em voz -alta, interrompeu-se exclamando:</p> - -<p>—Que vem a ser isto?!</p> - -<p>Relanceou os olhos sobre a terceira pagina, e<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> viu as palavras -<i>franceza Margarida</i>. Mudou de côr, e leu d’ahi em diante -mentalmente. Beatriz desconfiou, e foi, irreflectidamente, com -liberdade de noiva, e indelicadeza de menina que não ganhou no collegio -premios de civilidade, espreitar o dizer da carta. Nicoláo furtou-se -á curiosidade e augmentou a suspeita. A menina saiu da sala com -arrebatamento, e foi dizer ao pai:</p> - -<p>—Já não quero casar com o tio Nicoláo. (Já era tio!)</p> - -<p>—Porque, menina?!</p> - -<p>—Porque sim... É um infiel!</p> - -<p>—Ora, creança!... Saibamos isso por miudos.</p> - -<p>Beatriz contou o encontro com uma mulher em Villa Pouca, e o -recebimento da carta, que elle escondêra, depois de ter lido uma porção -d’ella a dizer mal das mulheres.</p> - -<p>Martinho Xavier riu-se dos amuos da menina, e foi entender-se com o -primo.</p> - -<p>Nicoláo, depois de se ficar pasmado uns tres minutos no periodo que -transladamos, quiz dispor as suas idéas, em ordem a conjecturar o -abstruso enlace de Margarida com Ricardo de Almeida, duas pessoas que -nunca se tinham visto. Este reparo denota que Nicoláo não conseguira -coordenar as suas idéas. Pois as duas pessoas não se haviam de ter -visto, ao menos quando uma era roubada pela outra?</p> - -<p>Respondia elle a esta pergunta do siso-commum, quando Martinho Xavier -entrou, dizendo:</p> - -<p>—Que vem a ser isto, primo Mesquita? A Beatriz está zangada. Que lhe -fizeste? que mulher é essa com quem estiveste em Villa Pouca? E essa -carta, em que se diz mal das mulheres que vem a<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> ser? A pequena foi -dizer-me que não quer casar comtigo!</p> - -<p>Nicoláo reflectiu, e achou um miraculoso expediente de justificação. -Deu a carta a ler ao primo dizendo:</p> - -<p>—Eu duvidei contar a tua filha uma historia de honestidade muito -equivoca. Ahi verás que me chamam as tias Almeidas para reduzir o -sobrinho a deixar uma mulher que o perde. Esta mulher é a mesma que -veiu a Villa Pouca para captar a minha estima, e mover-me a induzir meu -primo Ricardo a casar com ella. Aqui tens, primo Xavier, como eu me -vejo enredado n’uma teia, que me faz malquisto de tua filha. Se queres, -explica-lhe tu o que é isto. Eu não sei fazel-o sem cuidar que ultrajo -o seu pudor.</p> - -<p>Martinho expediu uma sincera gargalhada, e exclamou:</p> - -<p>—Dá-me a carta, que eu vou pacificar a pobre menina.</p> - -<p>D’ahi a pouco, Beatriz entrou muito agraciada á presença de Nicoláo, e -disse, toda affagos:</p> - -<p>—O primo perdoa-me, pois não perdoa?</p> - -<p>—E, por amor do seu ciume, cada vez a adoro mais, Beatriz!—respondeu -o morgado ternamente.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="V">V</h2> -</div> - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Nicoláo</span> respondeu ás tias Almeidas que as suas occupações o estorvavam -de ir moralisar o primo Ricardo. Consolava-as, porém, com a certeza de -que o sobrinho prodigo voltaria cedo curado da sua hydropisia amorosa, -depois de algumas sangrias copiosas nas algibeiras. O egresso, lendo -este paragrapho, exclamou:</p> - -<p>—Isto que elle diz é assim, fidalgas. O senhor Nicoláo bem se vê que -andou muito mundo!</p> - -<p>As velhas sentiram-se alliviadas, e accenderam velas de arratel a Santo -Antonio, e outros bem aventurados que privam na côrte celestial.</p> - -<p>Este acontecimento estupendo, passada a rija impressão do choque, deu -largas ao espirito do morgado. Mulher que tão facil e estupidamente -passára ao dominio d’outro homem, estava definida.<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span> Espinho de remorso -de havel-a abandonado seria baixesa e indignidade consentil-o na alma. -Arrependido estava elle de a não ter abandonado ha muito, por umas -verduras de pundonor, em que elle victimára seis escuros e dissaboridos -annos de sua vida. Tudo pelo melhor! Azavam-se-lhes as coisas para um -viver tranquillo e desapertado de responsabilidades e reminiscencias -perturbadoras.</p> - -<p>Cuidaram logo em tirar dispensa de parentesco para o casamento. Nicoláo -andava alegremente na faina de renovar as alfaias da casa de Palmeira, -e lustrar as velhas, que provavam as antigas pompas do solar dos -Mesquitas. N’este lidar, em que o coração tomava a melhoria do seu -cargo, o morgado remoçava, puerilisava-se, tinha tolices perdoaveis, -que Beatriz era digna de enlouquecer qualquer homem amado. As mulheres -lindas confessavam que ella era formosa: as mulheres são evangelhos, -quando tal dizem d’outra. E, alem de formosa, rica. Fidalga, está dito -tudo, se o timbre das armas de Fayões e de Palmeira, e das Olarias, -é o mesmo timbre dos Sousas Vahias cuja representante é Beatriz. Em -quanto a puresa, não ousariam os serafins esquadrinhar-lh’a. É o -elo interposto á flor e á estrella em materia de innocencia. Tivera -escassamente uma sombra de cortejo de seu primo Raphael Garção -Cogominho, decimo quarto senhor de Fayões. A bonina da serra não fica -mais pura, quando um cordeirinho a bafeja, do que ficou Beatriz com uns -beijos que lhe havia dado o primo nas faces purpurejadas. Afóra isto, -que é nada, o maná dos israelitas não choveu mais candido e impolluto -das amphoras do ceu. Assim se desculpa a exultação de Nicoláo nos -preparativos para os esposorios<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span> mais fallados e invejados d’aquella -redondeza.</p> - -<p>As pessoas que tinham visto os requebros de Beatriz por seu primo -Raphael maravilharam-se da transferencia, e mais ainda da conformidade -do moço de Fayões.</p> - -<p>Era este mancebo filho unico de paes opulentos, e o mais galhardo e -galan rapaz d’aquellas terras. Tinha peccados grandes, que os invejosos -das suas proezas desejariam esconder, se podessem. A humanidade, sua -conhecida, dividira-se em dois bandos: os homens contra, as mulheres -por elle. Raphael não se queixava; punha peito aos adversarios, excepto -o coração que esse andava repartido e desfibrado pelas defensoras. -Era coisa de prodigio a paz em que tantas odiando-se reciprocamente, -viviam com elle, e saiam a enristar, não lanças, mas linguas—as mais -perfurantes e contundentes armas conhecidas—em honra de Raphael Garção -Cogominho, quando algum barbaro desdenhoso lhe desluzia no garbo com -que esporeava o ginete a galões e trancos, ou na adamada denguice com -que requestava toda a mulher indistinctamente.</p> - -<p>E muitas o amavam, áquem e além Tamega, por essa Gallisa dentro. No -entender dos sisudos censores de seus maus costumes, faltava-lhe a -fibra susceptivel do coração que se doe das inconstancias d’uma mulher. -Em confirmação d’este juizo, depunha o ter ido Raphael para Hespanha em -seguimento de uma andaluza, que apparecêra na feira de Santo Antonio -em Villa Real, tocando pandeiro e castanhetas. Alguem conjecturou -que Beatriz accedêra a casar com o tio por despique do primo; varias -senhoras, no proposito de desdoural-a, affirmavam<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span> que ella optára -pelo mais rico, sem levar em conta a differença das edades, e os -dissabores futuros. Tudo isto eram vozes do mundo, que se banqueteava -em casa de Martinho Xavier e se enfrascava nos melhores vinhos a -brindar o prospero enlace do extremado cavalleiro de Palmeira com a -encantadora Beatriz. A verdade, porém, das rompidas intelligencias da -menina e de Raphael já está dita: fôra um brincar da borboleta com uma -flôr de madre-silva; mais lyrismo não tem anachreontica nenhuma, se a -anachreontica fôr das mais honestas.</p> - -<p>O morgadinho de Fayões nunca pensára em casar-se. Tinha então vinte -e quatro annos; muito dinheiro, muita saude, leitura de <i>Clarisse -Harlowe</i>, da <i>Nova Heloisa</i>, do <i>D. João</i>, e outros -modelos de algozes de corações. É o que elle tinha lido em dois annos -que estivera em Coimbra.</p> - -<p>Não obstante, a pureza da filha de Martinho Xavier enfreou-lhe a -indole; póde ser tambem que a desconfiança do pae lhe contraminasse -algum intento menos honroso. Disputal-a a Nicoláo de Mesquita, sem o -proposito de desposal-a, era um desaire; soffrer era uma semsaboria -indigna dos Tenorios e Lovelaces e Saint-Preux das suas leituras. -Felizmente que a andaluza lhe barateou um sorriso, e encareceu um -beijo na feira de Villa Real. Este duro osso do officio irritou-lhe a -vaidade. A hespanhola pareceu-lhe uma Esmeralda, como Victor Hugo a -encontrára inventada por um escriptor castelhano. Alli por Villa Real -andavam uns Claudios Froulos a quererem seduzir-lh’a. Esporearam-lhe -o ciume. Não havia que vêr. Seis mulheres bonitas de Chaves, dezenas -d’ellas do alto da provincia, duzias de<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span> galanteios incipientes e -decadentes, todas foram sacrificadas á funambula do pandeiro e das -castanhetas.</p> - -<p>Varias pessoas lamentaram a sorte d’este mancebo no banquete nupcial -de Beatriz e Nicoláo. Os mais penetrativos convivas olhavam de esconso -a noiva, e o marido tambem; todavia a menina escutava as lastimas como -se as não comprehendesse. O anjo estava como estrangeiro entre aquelle -gentio, que fallava a linguagem barbaresca das paixões deshonestas.</p> - -<p>No dia seguinte, os esposados foram para o Vidago, com grande comitiva. -No trajecto de tres leguas estoiraram constantemente bombardas e -foguetes. As festas continuaram na casa de Palmeira tres dias e tres -noites. A grandeza de quinze leguas ao sul, e tres ao norte, a entestar -com a Galliza, confluiu com suas librés a honrar a mais cheia lua -de ambrosia, que ainda tiveram noivos desde que as luas se ingerem -ridiculamente nos noivados.</p> - -<p>As senhoras do Castello d’Aguiar, tias de Ricardo, saiam da liteira a -visitarem o seu parente de Vidago, e a senhora D. Beatriz que ainda era -parente d’ellas, em razão de haver casado Mem de Sousa, em 1410, com D. -Briolanja de Almeida. Além da etiqueta, moveu-as ao sacrificio poderem -fallar do sobrinho Ricardo, e pedirem consolações ao homem experiente.</p> - -<p>D. Sancha, assim que o ensejo se lhe ageitou, rompeu em pranto desfeito -n’estes termos:</p> - -<p>—A felicidade que estaes gosando, sobrinhos, perdemos a esperança de -que o nosso Ricardo a venha gosar!</p> - -<p>—Que noticias tem vossa excellencia de Ricardo?—atalhou Nicoláo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span></p> - -<p>—Não nos escreve o ingrato! Ha tres mezes que foi, e não voltou.</p> - -<p>—Pois não sabem onde elle foi parar com essa mulher?</p> - -<p>—Sabemos, sabemos... Estão no Porto. Ricardo tem escripto aos feitores -das quintas, a mandar ir dinheiro. Não fazeis uma idéa, sobrinho, do -dinheiro que tem ido!... Se assim vae, Deus nos feche os olhos antes de -o vermos empenhar os vinculos. Agora soubemos que elle mandou vender os -foros de Barroso por quatro mil cruzados, e a melhor quinta da Terra -quente! Haverá um mez que o senhor padre Ambrosio, nosso capellão, foi -de nosso mando ao Porto a ver se o convertia. Quereis vós saber, meus -sobrinhos, o que elle viu? Elle aqui está que o conte. Diga lá, senhor -padre Ambrosio.</p> - -<p>O egresso sibilou uma pitada, assoou-se, dobrou o lenço de -quadradinhos, embolçou-o na algibeira da batina, compoz o rosto, -ageitou as mãos sobre a proeminencia do estomago, e tirou estas -palavras do peito:</p> - -<p>—Assim que cheguei ao Porto, fui a casa das senhoras Noronhas, primas -de suas excellencias, para o fim de me ellas mandarem ensinar as ruas, -e a morada do fidalgo. Saíu comigo o capelão a indagações, e soubemos -que elle estava a banhos de mar na Foz, com a maldita estrangeira. -Aluguei um jumento, com o devido respeito, e puz-me a caminho para -a Foz. Eis que, á saída do Porto, vejo vir o senhor Ricardo n’uma -carroça descoberta, com a franceza á sua direita, e dois lacaios, um -adeante e outro atraz, sentados na dita carroça. Fiquei passado. Quiz -chamal-o, grudou-se-me a lingua<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span> ao ceu da bocca! Elle passou sem dar -tino de mim; e eu fiquei perplexo, verdadeiramente perplexo! Que hei -de eu fazer? Deixei ir o jumento, com o devido respeito: fui á Foz, -resolvido a esperar que elle voltasse. Teria eu andado obra d’um quarto -de legua, eis que ahi torna a carroça n’uma galopada, que parecia um -esquadrão de cavallaria. Parei. O senhor Ricardo viu-me, a carroça -pára, e elle diz: «Por aqui, padre Ambrosio? Isso que é?»—«Venho em -cata de vossa excellencia»—disse eu.—N’isto, saltou elle á estrada, -e apropinquou-se de mim, ajudando-me a desmontar, e perguntou-me: «Ha -novidade em casa? Morreu alguma das tias?»</p> - -<p>—Vejam que perverso aquelle!—interrompeu D. Sancha.</p> - -<p>—A perguntar se morremos!—accrescentou D. Simôa, com uma visagem de -quem promette viver muito.</p> - -<p>—Se vossas excellencias permittem, disse o padre Ambrosio, continuarei -a minha exposição.</p> - -<p>—Póde continuar, disseram unanimemente as velhas.</p> - -<p>—Não, excellentissimo senhor, não morreu, graças a Deus, nenhuma de -suas tias. Teem padecido muito, mas vivem para honra da familia dos -Almeidas. Temos que fallar largamente, senhor Ricardo.</p> - -<p>«Pois bem, padre Ambrosio», disse elle, entre na minha -carruagem.—«Muito obrigado, muito obrigado», disse eu. «Ha de -entrar»—teimou o fidalgo; e, pegando-me d’este braço, fez-me subir, -e sentar mesmo ao lado da franceza hombro com hombro. O senhoras e -senhores! eu suava por todos os orificios!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span></p> - -<p>Beatriz soltou uma convulsão de riso indomavel, Nicoláo de Mesquita -cravou os dentes nas borlas do chambre. As senhoras Almeidas pasmaram -do descôco de Beatriz. O narrador abriu a bocca, e ficou-se espantado. -Esse silencio, e estas visagens eram cócegas a nova casquinada de -Beatriz. A senhora ergueu-se de salto, e fugiu sala fóra com as mãos -nas ilhargas.</p> - -<p>—Ella de que se riu, sobrinho?! perguntou D. Sancha.</p> - -<p>—É flato, respondeu Nicoláo.</p> - -<p>—Ah! coitadinha! disse D. Simôa. Mandae-lhe fazer um chá de ortelã e -tilia.</p> - -<p>—Aquillo passa-lhe, tornou o morgado. Queira continuar, senhor padre -Ambrosio.</p> - -<p>—Vinha eu dizendo que...</p> - -<p>—Entrou no carro...—lembrou Nicoláo.</p> - -<p>—Justamente, e alli vamos nós por aquella estrada além, que eu não -sei para onde me levavam, nem dava tino de mim. Ia afflicto! Aquella -mensageira de Satanaz ao pé de mim! Nunca volvi o rosto para a ver! Que -diria o mundo, vendo um homem com estas vestes sacerdotaes, sentado á -beira d’aquella mulher! Eu levava o meu capote de camellão, puxei-o -para deante afim de esconder a batina, mas a cara havia de denunciar a -minha vergonha: eu ia como um pimento em toda a extensão da palavra! O -fidalgo perguntou se eu gostava de andar em carruagem. Respondi-lhe que -não e o demonio da franceza disse não sei que, lá na sua amaldiçoada -linguagem, e o senhor Ricardo riu-se. Eis que chegamos ao portão da -casa do senhor Ricardo. A mulher do peccado deu um salto para fóra, -que parecia um passaro a saltar, deixando<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span> ver os laços dos sapatos, e -umas fitas pretas encruzadas nos artelhos! Assim a vestira o inferno -para perdição das almas. Assim apparecia o demonio entrajado aos santos -da Thebaida! Porque a verdade ha de dizel-a minha bocca indignada: -Satanaz nunca fez mulher mais guapa para recrutar almas n’este mundo! -Eu tinha-a visto de passagem na casa do Pontido, quando ella pernoitou -lá, e achei que era bem composta de feições; mas agora d’esta vez -pareceu-me muito mais galharda. Nunca vi outra nem espero que os meus -olhos tornem a ver mulher assim!... Santa Maria Egypcia, e Santa -Margarida de Cortona, que eu já vi pintadas, quando eram peccadoras, -dou-lhes a minha palavra que não tinham tantos adornos infernaes!... -Vamos adeante. O senhor Ricardo levou-me a uma sala espaçosa, e toda -adornada de cadeiras de almofada, e ricos escabellos de seda. Fez-me -sentar n’um, em que cuidei que ia por elle dentro, e o fidalgo riu-se, -e explicou-me o caso, dizendo que o assento era de molas.—«Tudo -delicias do peccado!»—exclamei eu, erguendo-me; e elle, o perdido, -exclamou tambem: «delicias da civilisação, padre Ambrosio!» Então, -comecei eu o meu discurso, que levava meditado, e que não repito, -para não enfadar vossas excellencias. O meu discurso foi attinente ao -proposito de o accordar do seu lethargo. Citei-lhe o divino e o humano. -Invoquei as sombras illustres dos Almeidas, dos Mesquitas, dos Coelhos, -dos Pizarros, todos ascendentes d’esta nobilissima familia. Ouviu-me em -silencio. E quando eu esperava que dos olhos lhe rebentasse o pranto -da contricção, ouviu-se uma campainha, e elle, cortando-me o final do -discurso, disse: «padre<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span> Ambrosio, vamos jantar, que está na mesa.» -Escandalisei-me d’esta especie de mangação; e disse: «—Na casa do -impio não comerás nem beberás!»—São palavras da biblia santa. Peguei -na bengala e no chapéu para saír. Eis que elle me enrosca o braço no -pescoço, e diz: «Ha de jantar, que tenho que lhe dizer.» A resistencia -era impossivel, que o senhor Ricardo, desde menino, foi sempre despota. -E de mais a mais, eu estava a cair de debilidade, porque não tinha -comido ao almoço. Deixei-me levar. Eis que vejo a estrangeira sentada -á mesa! Vieram-me outra vez os suores. Fiquei sentado defronte d’ella. -Foi ella que me fez o prato, e me perguntou se eu queria mais. Comi -iguarias que nunca vi na minha vida! A sôpa não a pude levar. Tinha uns -pedacitos de animalculos, que lá chamam camarões. A maldita comia uns -bichos crus com sumo de limão!</p> - -<p>—Credo! exclamou D. Sancha.</p> - -<p>—Creio que se chamam ôstras!—continuou o padre, e teve logo de se -interromper, porque D. Simôa, engulhada com a descripção infanda dos -bichos crus, estava a luctar com o vomito.</p> - -<p>Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor -de amendoa, padre Ambrosio continuou:</p> - -<p>—Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle -jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de -um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo -levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia.</p> - -<p>—Por mim! disse Nicoláo.</p> - -<p>—Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossa<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> excellencia tinha -casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava -n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu -uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado -pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o -sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim. -Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe -a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas -tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir.</p> - -<p>N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro -da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre; -mas o narrador repetiu ainda:</p> - -<p>—Palavras, que eu não me atrevo a repetir.</p> - -<p>—Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...—disse D. Sancha.</p> - -<p>—Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo. -Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que -meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia.</p> - -<p>—Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa -senhoria é um... não ouso dizer.</p> - -<p>—Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso -sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós!</p> - -<p>—E que havia de pagar dente por dente, e olho por olho...—ajuntou o -capellão.</p> - -<p>—Basta! interrompeu o morgado com desabrimento. Eu despreso o que esse -miseravel disse!</p> - -<p>—Mas que mal lhe fizeste tu a elle, primo? perguntou Beatriz.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p> - -<p>—Nenhum, minha querida. Que mal poderia eu fazer-lhe?! Agastaram-n’o -contra mim as expressões que escrevi a minhas tias com referencia -ao desatino d’elle. Bem! prohibo que em minha casa se deprima ou -se louve o homem que me insulta. Préso muito vossas excellencias, -minhas senhoras, mas não sei que lhes faça, nem ha que fazer contra -os desvarios de seu sobrinho. Quando elle voltar, eu irei pedir-lhe -explicações do epitheto com que me brindou. No entanto, peço que me não -perturbem a felicidade que devo a este anjo.</p> - -<p>E, dizendo, aconchegou do seio Beatriz, e ella, encostando o ouvido ao -seio esquerdo, disse admirada:</p> - -<p>—Com que força o teu coração palpita, primo!</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="VI">VI</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_a.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Acabaram-se</span> os festejos no Vidago.</p> - -<p>Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára.</p> - -<p>Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros -e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas -amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada. -Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios. -Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe -adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do -Porto.</p> - -<p>Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do -resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para -todas as<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span> horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes, -honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.</p> - -<p>Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não -esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.</p> - -<p>Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.</p> - -<p>Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao -inculpavel beijo de um primo.</p> - -<p>Para uma <em>fortuna</em> desfalcada por grandes desbarates, um grande -patrimonio de filha unica.</p> - -<p>Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das -trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma? -Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas -se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.</p> - -<p>Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado -restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e -faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de -Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da -insipida existencia dos senhores do Vidago.</p> - -<p>Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do -marido:</p> - -<p>—Tu és feliz?</p> - -<p>E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de -amarga ironia de si mesma:</p> - -<p>—Sou...</p> - -<p>O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma -aberta dizia ao genro:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span></p> - -<p>—Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens -estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo?</p> - -<p>—Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo -terreal—respondia o morgado.</p> - -<p>—E receiaes ser desgraçados lá?</p> - -<p>—Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos -vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a -solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se -á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não -engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves.</p> - -<p>—Não sei... murmurou Martinho.</p> - -<p>—Por que dizes que não sabes?</p> - -<p>—Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas -regalias da sociedade culta.</p> - -<p>—Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado, -renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um -conciliabulo de murmurações com as outras mulheres.</p> - -<p>—Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na -Inglaterra...</p> - -<p>—É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier.</p> - -<p>—Não é isso...</p> - -<p>—Então que é?</p> - -<p>—É o estares gasto, primo.</p> - -<p>—Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua -filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz?</p> - -<p>—Não: pelo contrario, diz que tu a adoras.</p> - -<p>—Pois bem: que outro galardão querias tu como pae?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span></p> - -<p>—Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta -serenidade desfeche em fastio...</p> - -<p>—Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da -sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher. -Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou -Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e -accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a -patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier.</p> - -<p>—Está bom...—murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os -hombros, fechando as palpebras.</p> - -<p>Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto -desbotado da filha.</p> - -<p>—Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente.</p> - -<p>—Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece -que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias -e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a -agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos -domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa -vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o -reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear, -e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente -muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui -mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá, -e da nossa casa, e das minhas amigas! A Therezinha<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span> Pizarro fala de -mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa -da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a -Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael?</p> - -<p>—Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella -cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze -dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado -para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade, -e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido -desmarcado!</p> - -<p>—Elle falou-lhe de mim?</p> - -<p>—Falou; perguntou-me se estavas contente.</p> - -<p>—E o pae que lhe disse?</p> - -<p>—Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima.</p> - -<p>—Fez bem. Não quero que elle se vingue.</p> - -<p>—Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio?</p> - -<p>—Não... mas...</p> - -<p>—Explica-te.</p> - -<p>—O pae bem sabia que elle me fazia a côrte.</p> - -<p>—Uma brincadeira...</p> - -<p>—Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle.</p> - -<p>—Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com -quem casar...</p> - -<p>—Quem sabe!...</p> - -<p>—Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo -leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de -todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrando<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span> -todos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter -pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma -tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá -louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares -com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo -casamento.</p> - -<p>Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete -cotovellos.</p> - -<p>—Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.</p> - -<p>—É admiravel!</p> - -<p>—Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras -francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes -ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra, -duzentas e tantas variedades.</p> - -<p>—Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.</p> - -<p>—Ora essa!—acudiu Nicoláo.—Se deixavamos a nossa casa para ir ver as -paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas -estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais -para se ver na copia que no original!</p> - -<p>—Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos—replicou o -fidalgo flaviense.</p> - -<p>—Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o <i>D. José</i>, -da memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da -memoria. Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos -Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita, -que me perguntava<span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span> se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres -pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha -bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram -repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final. -Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher? -Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão -subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia, -surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.</p> - -<p>—Está decidido que não saes de Vidago—retorquiu Martinho.</p> - -<p>—Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se -Beatriz o exigir.</p> - -<p>—Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...—disse a -senhora.</p> - -<p>Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse:</p> - -<p>—Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido...</p> - -<p>—Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo. -Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido?</p> - -<p>—É conforme...—atalhou Nicoláo.—Pois sim, iremos a Chaves.</p> - -<p>—Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando -conformidade.</p> - -<p>—Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e -contrariado.</p> - -<p>—O que fôr da tua vontade—respondeu ella affavelmente, sopesando o -despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p> - -<p>De feito, ao outro dia partiram para Chaves.</p> - -<p>Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella -do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe -a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da -infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus -amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz -escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o -coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então -era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do -seio angustiado.</p> - -<p>Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella -afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que -tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura -sorte a havia creado o pae com tanto mimo.</p> - -<p>Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e -contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi -Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse, -para no dia seguinte voltar a Palmeira.</p> - -<p>Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias -parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia -do pae, pretextando impedimento de saude.</p> - -<p>Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção -entrou, vindo de Basto.</p> - -<p>Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando:</p> - -<p>—Como está mudada, prima!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></p> - -<p>Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr.</p> - -<p>—E eu que a considerava tão afortunada!—tornou Raphael.</p> - -<p>—E quem te disse a ti que ella o não é?!—interveiu Martinho Xavier, -de má sombra.</p> - -<p>—Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da -alegria!—respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron.</p> - -<p>—Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...—contrariou -Martinho.</p> - -<p>—Isso não sei—contraveio o morgado de Fayões.</p> - -<p>—Sei eu.</p> - -<p>—Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve -doença, tornou Raphael.</p> - -<p>Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou -tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto.</p> - -<p>Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que -providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não -edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja -perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito. -O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal -n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto -me querer ingerir n’um cantinho d’este romance.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma -visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe -a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em -caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o -coração para receber<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> as lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama, -e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades.</p> - -<p>Concentrou-se.</p> - -<p>Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse, -mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A -precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a -saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença -de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia -empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel -desgraça.</p> - -<p>Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e -trocavam expressões vãs.</p> - -<p>—Porque soffres, prima?—perguntava elle.</p> - -<p>—Eu não soffro.</p> - -<p>—Mas que tristeza é essa?</p> - -<p>—Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo?</p> - -<p>—Nada, Beatriz.</p> - -<p>—Mas estás tão pensativo!...</p> - -<p>—Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria -não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu -casei tarde para lhes achar prazer.</p> - -<p>O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o.</p> - -<p>E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva -suffocada.</p> - -<p>Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo -mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e -viu intacto o almoço.</p> - -<p>—Porque não comes?—perguntou elle.</p> - -<p>—Não posso—respondeu seccamente a senhora.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span></p> - -<p>—Queres que chame um cirurgião?</p> - -<p>—A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a -morte.</p> - -<p>Nicoláo riu-se sarcasticamente.</p> - -<p>Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para -abafar soluços.</p> - -<p>O marido contemplou-a com azedume, affastou-se.</p> - -<p>Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora.</p> - -<p>Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="VII">VII</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_s.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Saudades</span> de Margarida Froment?</p> - -<p>A pergunta póde abonar a candura, mas não abona a experiencia de quem -se dignou fazer-m’a.</p> - -<p>Saudades de Margarida, porque havia sido amada apaixonadamente.</p> - -<p>Porque era ainda bella, quando foi abandonada.</p> - -<p>Porque houvera um homem que a tomára despresada nos braços, e a -mostrava ao mundo com soberba de a possuir.</p> - -<p>Porque esse homem era moço, gentil, fidalgo, e requestado das mais -extremadas formosuras da provincia.</p> - -<p>Porque esse homem, em vez de escondel-a nas sombras d’umas arvores, -galeava pomposamente com ella, offuscando os olhos pavidos da moral -publica.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p> - -<p>Porque Margarida tinha prodigiosas graças, de que Nicoláo se estava -lembrando agora.</p> - -<p>Porque Margarida, sobre ser espirituosa, era um talento que bastava a -entreter e lisongear o mais cubiçoso espirito.</p> - -<p>Porque Margarida lhe havia sido leal até o momento de ser -grosseiramente repellida.</p> - -<p>Porque chorava, quando elle cruamente a odiava.</p> - -<p>Porque era bella, digamol-o segunda vez, porque era bella.</p> - -<p>E mais que tudo, porque era de outro.</p> - -<p>Aqui estão os <em>porquês</em> da miseria do coração de Nicoláo de -Mesquita, barro commum da humanidade, miseria deploravel, que importa -chorarmos todos, por ser nossa a miseria, e não sabermos como se póde -com lodo e lagrimas reconstruir uma coisa melhor do que a fez o Creador.</p> - -<p>Peregrina belleza era Beatriz; esposa casta e paciente nenhuma se -lhe avantajava; mulher para o ideal, e anjo para a sensação, nenhuma -como ella; virtudes, graças, lagrimas do seio sem macula: tudo que -mais prende o amor, e a misericordia quando o amor se extingue; tudo -superabundava na esposa de dezesete annos; mas Beatriz era de Nicoláo -indissoluvelmente, e Margarida estava sendo de Ricardo.</p> - -<p>Que repulsivo confronto entre as duas mulheres!</p> - -<p>Que mal premiada a honra, sujeita a comparações tão aviltantes!</p> - -<p>Ora, a saudade do morgado da Palmeira excruciava-o. Era um ferro -candente a fistular-lhe as entranhas. Da quinta do Porto, onde se -anojára cinco annos, recordava-se como Lucifer do ceu. Parecia-lhe -que Beatriz era o archanjo do montante de fogo,<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span> a repulsal-o -eternamente das delicias do coração. Fugia de si mesmo como corrido -de sua ignominia. Punha os olhos supplicantes no oratorio de sua mãe. -Apertava ao seio a esposa, como se esperasse apagar a flamma infernal -em contacto da mulher pura. Margarida arrancava-o pelos cabellos -dos braços da esposa, arrastava-o até se assentar com elle n’alguma -amenidade das florestas, e ahi lhe dizia as phrases embriagantes dos -primeiros mezes da sua paixão em Bruxellas, ou, debulhada em lagrimas, -se queixava da ingratidão com que elle desamparára a mulher, por amor -d’elle perdida, sem amigos, sem marido e talvez sem pão.</p> - -<p>Era um supplicio expiador! Nicoláo conheceu que era preciso Deus para -a misericordia, logo que lhe reconheceu a mão no peso do castigo. Não -bastava o amor desesperançado: cumpria que o remorso lhe envenenasse o -sangue: remorso de infamar um amigo e de lhe atirar ao gozo dos homens -a mulher infamada!</p> - -<p>Tinha momentos de contemplal-o com pavor Beatriz. Falava-lhe, e elle -estremecia, articulando desatinos. Punha-lhe a mão no rosto abrazeado, -e elle repellia os afagos, e voltava depois a procural-os, chorando.</p> - -<p>Beatriz mandou secretamente chamar o pae.</p> - -<p>Assim que Nicoláo presentiu Martinho Xavier no pateo de sua casa, saiu -enraivecido, e voltou depois envergonhado da sua raiva, sem dar tino da -razão da fuga nem da vergonha.</p> - -<p>A attribulada senhora contára ao pae a incomprehensivel agitação do -marido. Martinho chorava abraçado á filha, quando Nicoláo entrou. O -lance foi<span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span> acerbo! Nicoláo acercou-se de ambos, abraçou-os, e disse com -voz balbuciante:</p> - -<p>—Eu fiz a vossa desgraça e a minha. Perdoae-me!</p> - -<p>Beatriz condoeu-se. O pae levou-o nos braços á sala immediata, -gesticulando á filha que os não seguisse, e perguntou:</p> - -<p>—Isto que é, primo Mesquita? Que mal te fazemos nós?</p> - -<p>—Queixei-me eu de ti ou de Beatriz?—disse maviosamente o morgado.</p> - -<p>—É arrependimento de te haveres casado?</p> - -<p>—É... Arrependimento de infelicitar a tua filha digna de uma alma -estranha aos vicios e ás villanias atrozes.</p> - -<p>—Pois bem, Nicoláo... remediemos o remediavel. Se a presença de minha -filha te atormenta, eu levo-a para minha casa, que tambem é tua e -d’ella. Se o amor tornar, vae buscal-a; se, sem Beatriz, viveres mais -tranquillo, ella que fique em Chaves.</p> - -<p>—Não!... atalhou o morgado.—A minha desgraça não se remedeia assim, -nem d’outro modo. É um anathema! e um calix intransitivo. Hei de -bebel-o trago a trago!...</p> - -<p>—Santo Deus!—acudiu Martinho Xavier—que segredo é esse da tua vida? -Se eu te visse na sociedade, cuidaria que te apaixonaste, primo! E -então appellaria do teu coração para a tua honra.</p> - -<p>—E se eu não tivesse honra!...—exclamou Nicoláo, e saiu -impetuosamente da sala.</p> - -<p>Martinho perguntou á filha:</p> - -<p>—Teu marido recebe cartas suspeitas?</p> - -<p>—Não, que eu saiba, meu pae. Recebe jornaes, e raras vezes tem cartas -de França.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p> - -<p>—E essas cartas sabes o que ellas conteem?</p> - -<p>—Sei, porque são de um portuguez, e nada dizem de suspeito. Só, aqui -ha tempos, li uma, que falava n’uma Margarida, e entendi que era a -franceza do Ricardo de Almeida. Vim a saber que ella era casada, porque -diz assim, pouco mais ou menos: «o marido de Margarida está gordo e -devasso; e desforra-se.» Não percebi isto, nem me importou. Perguntei -ao primo se a tal franceza era casada, e elle respondeu-me bruscamente -que não sabia, nem eu me devia importar com as cartas que elle recebia. -Porque me pergunta o pae se elle recebe cartas suspeitas?</p> - -<p>—Nada, filha.</p> - -<p>—Desconfia que elle ame outra mulher!—instou ella alvorotada.</p> - -<p>—Desconfiei.</p> - -<p>—É impossivel! exclamou Beatriz—Quem hade ser? Aqui ninguem vem; nós -não vamos a parte nenhuma.</p> - -<p>—Então que suppões tu d’esta pasmosa torvação de teu marido?</p> - -<p>—Que me aborrece.</p> - -<p>—Não é assim.</p> - -<p>—É, meu pae. Elle não póde deixar de sentir por mim o que eu sinto por -elle.</p> - -<p>—Pois não o amas, Beatriz?</p> - -<p>—Como hei de eu amal-o n’este martyrio? Sabe lá o que eu soffro ha -dez mezes! E então, nos ultimos tres, não tenho refrigerio... Uma hora -abraça-me, outra repelle-me. Já temi que elle endoudecesse... Meu -pae,—proseguiu ella com vehemente fervor de supplica—tire-me d’aqui, -leve-me para si,<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> restitua-me uma parte da satisfação que eu tinha de -viver, antes d’esta fatalidade!</p> - -<p>—Paciencia por alguns dias, filha!—replicou o pae enternecido -a pranto.—Isso não póde ser assim. O mundo assacaria aleivosias -deshonrosas para todos. Já agora tem força por mais algum tempo; é o -teu bom pae que t’o pede.</p> - -<p>—Terei—disse resignada Beatriz.</p> - -<p>Martinho deteve-se alguns dias no Vidago e saia com frequencia a longos -passeios de cavallo com o genro. Da mesmeidade dos annos, da amizade -da infancia e sobre tudo da necessidade da expansão, resultou que o -morgado da Palmeira, n’um d’aquelles passeios, communicasse ao primo -os pormenores todos da sua angustia. O assombro de Martinho Xavier foi -afflictivo. Pôde muito comsigo que não lançasse em rosto ao marido de -sua filha a protervia, a perfidia, a villania com que tramára o engano, -do encontro com a franceza em Villa Pouca; e mais ainda o villipendio -do emparelhar o amor de sua filha com o de uma collareja transmissivel -de homem para homem. Era santa a indignação do pae!</p> - -<p>Ouviu-o silencioso, e apenas lhe disse:</p> - -<p>—Vence-te, se poderes; se te não poderes vencer, dá-me minha filha, -e vae disputar essa mulher a teu primo Ricardo, que eu creio que lh’a -tiras; e elle ou outro, quando estiveres saciado, t’a virão tirar.</p> - -<p>Nicoláo pungiu-se e arrependeu-se da revelação.</p> - -<p>Exigiu-lhe o juramento de calar o segredo a sua mulher. Martinho Xavier -respondeu:</p> - -<p>—Quando se trata de affrontar minha filha, escuso de jurar que não hei -de affrontal-a. O que te<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span> peço é que a deixes ir estar quinze dias em -minha companhia.</p> - -<p>—Pois sim, mas dispensa-me de acompanhal-a. Espero que a solidão e -meditação me curem. Logo que eu me sinta mais tratavel, irei buscal-a, -e passarei comtigo algumas semanas. Iremos todos a Madrid; eu mudarei -de vida, entrarei outra vez no mundo; e darei á minha pobre Beatriz o -contentamento que lhe roubei.</p> - -<p>—Deus te ouça!—exclamou jubilosamente Martinho Xavier.</p> - -<p>Beatriz cuidou de abafar de alegria, quando o pae lhe noticiou a ida. -Tratou de emmalar os seus adornos com tal prestesa, e de tamanho -afogadilho, que de sobra denotava a levesa dos dezesete annos, e a -facil transposição do seu espirito da dôr para o contentamento. Nicoláo -despediu-se d’ella com os olhos a reverem lagrimas. Os de Beatriz nem -de leve se marejaram. Partiram.</p> - -<p>N’este mesmo dia abriu Nicoláo de Mesquita a <i>Coalisão</i>, jornal -portuense, e, acaso, relanceando a vista ao folhetim, depararam-se-lhe -as palavras <i>Margarida Froment</i>. Leu o folhetim, que se intitulava:</p> - - -<p>Á BEIRA-MAR</p> - -<p>Era uma mescla de verso e prosa, consoante o gosto dos litteratos -amphibios d’aquelle tempo. Começava assim n’este estylo fraldoso e -apopletico, vulgarmente chamado biblico:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«.........................................</p> - -<p>«E o teu cantar é saudoso como o das filhas de Israel ás abras das -aguas plangitivas do Euphrates.</p> - -<p>«E as harpas eolias gemem bafejadas por teus labios, como a cythara de -Saul.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span></p> - -<p>«Oh Agar, sentada nas areias estuosas do deserto de Berzabé! Canta, -canta, oh filha das lagrimas!</p> - -<p class="poetry"> -Ai! quantas vezes, ó triste,<br /> -Esse teu amargo pranto<br /> -Desafogaste no canto!<br /> -Ai! quantas vezes sentiste<br /> -Mais precisão de chorar!...<br /> -Ai! canta, canta, que ha lagrimas<br /> -No teu dorido cantar!</p> -<p class="poetry">.............................................</p> -<p class="poetry"> -Ao cantar te acode a infancia<br /> -Com seus sorrisos e flores;<br /> -Feres notas que te falam<br /> -Como falavam amores,<br /> -Outras são gemidos d’alma;<br /> -Mas todos teem seu gozar!<br /> -Ai! canta, canta, anjo triste,<br /> -Quando quizeres chorar!<br /> -</p> - -<p class="poetry">.............................................</p> - -<p>«E o archanjo d’aquelles hymnos tem sobre a terra um nome. Na -linguagem de homens chama-se <i>Margarida Froment</i>; mas, nos -archivos do céu, o nome que tem é <i>Martyr do Coração</i>.</p> - -<p>«Por que o teu seio foi alanceado fibra a fibra pelo primeiro precito, -que te esculpiu um anathema na fronte, onde os raios fulgidos do sol -desciam a roubar seu esplendor!</p> - -<p>«E esse maldito de Deus feriu-te na aza de anjo, ó pomba dos paramos -olympicos, e tu caiste ao tremedal da humanidade.</p> - -<p>«Ó Margarida! quem sabe ahi dizer sobre a terra a alegria das tuas -angustias!</p> - -<p>«E eu vi-te por uma d’essas noites esplendidas, como as sonha o arabe -no dulcissimo torpor dos seus magicos narcoticos!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span></p> - -<p>«Illuminava o inferno d’este mundo, oh houri, enviada pelo Deus dos -ismaelitas.</p> - -<p>«A tua belleza era o arrebol matutino.</p> - -<p>«E os teus olhos afuzilavam torrentes electricas como os relampagos -abertos da mão de Jehovah nas cumiadas do Sinay.</p> - -<p>«E os teus labios desprenderam um cantar, cuja maviosidade fazia -chorar os anjos no ceu, e os demonios no inferno.</p> - -<p>«E o homem, que te havia roubado aos braços do esposo, esse não -chorava, porque uma aragem da região glacial das trevas lhe tinha -congelado as glandulas, e o sangue nos pulmões, e fizera d’aquelle -coração um cinerario hediondo, como os pomos de Pentapolis!</p> - -<p>«Oh Margarida, que dôr será a tua, insondavel e immensissima, quando o -coração te paira por terras de França, e vês a mãe que te carpe, e o -marido que aperta ao seio o inutil punhal de sua vingança!...</p> - -<p class="poetry"> -«Ai! canta, canta, que ha lagrimas<br /> -No teu dorido cantar!<br /> -Ai quantas vezes sentiste<br /> -Mais precisão de chorar...<br /> -Ai! canta, canta, anjo triste!»<br /> -</p> - -<p class="poetry">.............................................</p> -</div> - -<p>Seria crueza dar a copia integral do folhetim, que ao deante, era muito -mais puxado do peito, e menos intelligivel.</p> - -<p>O poeta datara-o na Foz em outubro de 1840.</p> - -<p>Uma local do mesmo numero da gazeta, dizia:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«<i>Á beira-mar.</i> Com este titulo publicamos hoje um folhetim de -um nosso amigo, que tão brilhantemente<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span> se estreia. As letras patrias -devem esperar d’este mancebo fructos tão sasoados quanto as flores -são bellas. Á parte o talento senão genio, do mavioso poeta, devemos -confessar que o motivo de sua inspiração não podia sair com menos -de uma obra prima. Tambem nós tivemos a honra e o jubilo de escutar -hontem á noite a voz melodiosissima de mad. Margarida Froment, dama já -conhecida por sua belleza e intelligencia. Agradecemos cordealmente -ao cavalheiro Ricardo de Almeida o convite que nos proporcionou -ajuntarmos o nosso brado de admiração ao de tantos, que se gosaram o -prazer de ouvir a hospeda de sua excellencia. Do folhetim do nosso -jovem amigo infere-se que ha profundas e ao mesmo tempo sublimes dôres -no coração d’esta senhora. Ai da consciencia do refalsado caracter que -privou a sociedade de uma gloria!</p> - -<p>«Que o mundo é inexoravel com as desgraçadas, que, ainda abatidas do -ceu, roçam as nuvens com a fronte. Silencio! Saudemos o formoso anjo -da harmonia, e não perguntemos a Deus por que não teve mão d’esta -filha querida, ao despenhar-se!»</p> -</div> - -<p>Nicoláo de Mesquita leu a chorar as ultimas linhas d’esta noticia.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ricardo</span> de Almeida sentiu no seu braço o tremor do braço de Margarida, -quando, por noite de lua cheia, passeiavam á Beira-Douro, no sitio de -Sovereiras, em S. João da Foz. N’aquelle relanço perpassára por elles -um encapotado.</p> - -<p>A franceza vira uns olhos faiscantes por sobre a fimbria avelludada -da capa: eram os olhos de Nicoláo de Mesquita. Voltára o pescoço para -observar-lhe o andar: reconheceu-o.</p> - -<p>—É o Mesquita! murmurou ella assustada, amiudando o andar.</p> - -<p>—Devagar! disse o fidalgo do Pontido. Que importa que seja?!</p> - -<p>—Dizes bem... Que importa que seja?</p> - -<p>Nicoláo voltára no encalço d’elles apertando o pé. Ricardo de Almeida -deu tino d’isto, e affroixou o passo. Margarida tirava por elle com -força.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span></p> - -<p>—Que significa este medo? perguntou o moço, offendido da inquietação -da franceza.</p> - -<p>—Nada, meu amor, disse ella.</p> - -<p>Ricardo parou, e Nicoláo foi ávante.</p> - -<p>—Queria vêr-te indifferente á apparição d’este homem! observou Ricardo -com intenção, e gesto magoado.</p> - -<p>—Creança! ciciou ella com encantador sorriso. A indifferença é o -despreso, e eu odeio.</p> - -<p>Entraram silenciosos em casa, e viram ao longe o vulto na esplanada que -entesta com a fortaleza. Ricardo saiu rebuçado e armado. O do Vidago já -lá não estava. Deteve-se o indiscreto cioso nas travessas visinhas de -sua casa.</p> - -<p>Eram onze horas.</p> - -<p>A franceza abriu as janellas, sentou-se ao piano, e cantou uma romança -franceza. As vibrações da voz eram desnaturaes. Havia a paixão da -saudade n’aquelle cantar.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita escutava-a da janella do hotel, e Ricardo da -escuridão de uma viella intransitada.</p> - -<p>Calou-se a voz.</p> - -<p>O marido de Beatriz sentou-se a escrever a quinta folha de uma carta a -Margarida. O castellão de Aguiar foi de manso, por sobre tapetes, até -ao piano de Margarida, e surprehendeu-a com os cotovellos apoiados no -teclado, e o rosto entre as mãos. Tocou-lhe no hombro: ella expediu um -grito argentino como a mais alta das notas que acabava de cantar, e -surriu-se por lhe ser mais prompto o riso que as lagrimas.</p> - -<p>—Tu amas Nicoláo? perguntou Ricardo com uma precipitação infantil.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p> - -<p>—Que semsaboria! disse Margarida, e abaixou a fronte carregada.</p> - -<p>—Porque estás triste? Que recordas?</p> - -<p>—O tempo em que eu era feliz, meu amigo.</p> - -<p>—Com Nicoláo?</p> - -<p>—Não: com minha mãe, com meu marido, com a estimação propria, e com a -estimação do mundo.</p> - -<p>—E é Nicoláo quem te desperta essas recordações?</p> - -<p>—Naturalmente... Foi elle quem tudo me roubou.</p> - -<p>—Então não o amas? voltou elle com muita ternura, beijando-lhe as mãos.</p> - -<p>—Nem que elle me restituisse tudo o que perdi.</p> - -<p>No dia seguinte, o jockey de Nicoláo apresentou a Margarida, na -ausencia do amo, uma carta volumosa.</p> - -<p>—Quem te deu isto? perguntou a franceza.</p> - -<p>—Um criado do hotel inglez.</p> - -<p>Margarida leu as vinte laudas; quando a vista se lhe turvava, depunha -a carta e enxugava os olhos. Finda a leitura, escreveu na margem -da ultima folha: <em>Esta carta é o prefacio da minha vingança</em>. -Lacrou-a e devolveu-a pelo jockey, dizendo:</p> - -<p>—Se trouxeres outra, envio-te com ella a teu amo.</p> - -<p>Assim que Ricardo entrou, Margarida foi cariciosamente aos braços -d’elle, e disse:</p> - -<p>—Vamos. Tens medo de fraquear, Margarida?</p> - -<p>—Não. Se eu podesse fraquear, a mudança de terra seria debilitar-me, -em vez de robustecer-me.</p> - -<p>Na tarde d’este dia, Nicoláo de Mesquita viu passar em carro Margarida -e Ricardo, caminho do Porto. Esperou-os no regresso até noite alta. -Era uma<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> cabeça perdida, a esta hora, a do miserando homem! Sabia que -tinha duas pistolas entre mãos, e que sobre sua cabeça ia estalar a -maior e ultima tempestade. O alvor da manhã bruniu-lhe o rosto livido -de um verniz embaciado de cadaver. Ao raiar do sol foi para casa, que -Margarida e Ricardo não voltaram.</p> - -<p>Ás dez horas, estava febril no leito. Na sala do hotel, proximo do seu -quarto, conversavam algumas vozes. Eram cavalheiros da provincia. Dizia -um:</p> - -<p>—O Ricardo e a franceza embarcaram para Lisboa ás nove horas.</p> - -<p>—Gasta como um principe o transmontano!</p> - -<p>—Que fortuna tem elle?</p> - -<p>—Dizem que está vendendo.</p> - -<p>—A mulher vale bem a pena de gastar-se a fortuna, e ficar a gente com -a doce recordação de a ter tido a ella.</p> - -<p>—Não pensou assim Nicoláo de Mesquita, o antigo possuidor.</p> - -<p>—Nunca vi esse leão.</p> - -<p>—Conheci-o eu. Foi elle quem a tirou ao marido. Teve-a por ahi com -modesto recato. Depois, foi casar-se na provincia com a mais bonita -creança que os meus olhos viram em Chaves, e nas primeiras cidades da -Europa. Aquillo é que é saber viver!</p> - -<p>—Mas a Margarida Froment é uma grande mulher!... confessem!...</p> - -<p>—Confessamos, mas quem a faz maior é o patavina do Ricardo! -Estas <i lang="fr" xml:lang="fr">soirées</i> que elle dá são de um ridiculo monumental! -Apresentou-m’a como sua hospeda! Que baboseira! A gente faz-se tola, e -vae ser apresentado á hospeda...</p> - -<p>—Assim é que se faz o escandalo por grosso.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span></p> - -<p>—Quando elle tiver vendido as ameias de um castello, que tem na -provincia, a hospeda muda de hospedaria.</p> - -<p>—Tomáras tu que ella mandasse preparar aposentos em tua casa...</p> - -<p>—Pagando-m’os.</p> - -<p>—Maganão! por tua vontade não espera ella que o Ricardo venda os -torreões do solar dos <i>Almeidas por quem sempre o Tejo chora</i>...</p> - -<p>—Era publica e notoria a tua paixão.</p> - -<p>—Gostava d’ella: não ha nada mais humano.</p> - -<p>—Mas parece que não mareaste bem n’aquelle rumo... Foste a pique, eim?</p> - -<p>—Ha derrotas que são triumphos. Fez-me o favor de me offerecer a sua -amisade fraternal.</p> - -<p>—Que irmã! É uma honra ser irmão d’aquella Margarida...</p> - -<p>—Confessemos que a mulher é leal. Ave rara n’esta terra!</p> - -<p>—E mais rara nas aves arribadas de França.</p> - -<p>O fallarío proseguiu. Nicoláo ouvira tudo encostado aos alisares da -porta.</p> - -<p>Entrou um novo interlocutor, que foi muito festejado. Era Raphael -Garção que chegava de Chaves.</p> - -<p>—Aqui está quem conhece Ricardo de Almeida... Sabes que elle foi hoje -para Lisboa com a franceza?</p> - -<p>—Foi! ó diabo! eu vinha conquistar a franceza! disse Raphael. Nunca a -vi! E eu não posso ser mais que Cesar. É preciso vêr para vencer; por -em quanto, apenas fiz o que pude: cheguei.</p> - -<p>—Vens mal informado! É de uma fidelidade, que toca o limite do -escandalo. Vinhas a isso?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p> - -<p>—Algum de vossês conhece Nicoláo de Mesquita? perguntou Raphael.</p> - -<p>—O antecessor de Ricardo?...</p> - -<p>—Como antecessor de Ricardo?! Que tem a franceza com o Mesquita?</p> - -<p>—Estás em dia!... Pois não sabes que o Mesquita veio de França com -esta mulher?</p> - -<p>—Na provincia ignora-se essa coisa... Pois... Vocês teem a certeza...?</p> - -<p>—Vi-os eu no Porto, em 1834 até 1839. Isto é do dominio universal -desde a rua da Reboleira até á viella de Fradellos, na cidade invicta!</p> - -<p>—Sabem se elle está por ahi, o Mesquita?</p> - -<p>—Não.</p> - -<p>—Deve estar, e eu vim procural-o. Saí de Chaves a buscal-o em casa. -Disseram-me que elle tinha saído para Villa Real. Em Villa Real tive -noticias que elle passára em Amarante. Em Amarante disseram-me que o -tinham encontrado em Baltar. O homem está aqui e agora me convenço de -que a franceza não é estranha a esta mysteriosa jornada. Pobre Beatriz! -Lembras-te d’aquella minha prima que te mostrei em Chaves, Albuquerque?</p> - -<p>—Ainda ha pouco falei d’ella. Que linda mulher! Já sei que ella casou -com o Mesquita. Não lhe fazias tu a côrte n’aquelle tempo?</p> - -<p>—Amei-a com o unico amor nobre e santo que tenho experimentado; mas, -como tudo que é nobre e santo não apega n’esta lama do mundo, assim que -a vi despregar o vôo para as serenas regiões do matrimonio, agarrei-me -ao pandeiro de uma andaluza, e fui terras de Castella dentro, em -conquista d’aquelle gallego coração, que só me comprehendeu, depois que -eu lhe mostrei um <i lang="fr" xml:lang="fr">porte-monnaie</i><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span> maior que o coração. Quando -voltei, achei minha prima casada com o primo Nicoláo. As melhores -flores d’aquelle rosto estavam amortecidas; mas ainda assim, não sei -de outra mais linda. Ha de haver seis dias que cheguei a Chaves, e -encontrei grande agitação em casa do tio Martinho Xavier. Era Beatriz -que estava em perigo de vida a lançar golphadas de sangue...</p> - -<p>Abriram-se de golpe as portas de um quarto, e appareceu Nicoláo de -Mesquita, com as faces incendidas e os cabellos descompostos. Volveram -todos áquelle ponto os olhos, e Raphael Garção vacillou em reconhecel-o.</p> - -<p>—O sr. Raphael Garção pode entrar no quarto de Nicoláo de -Mesquita—disse o morgado n’um tom solemne, que pareceria ficção -theatral, se elle não estivesse febricitante.</p> - -<p>O de Fayões entrou como espavorido d’aquelle aspecto esgazeado.</p> - -<p>—Minha mulher que tem? perguntou Nicoláo com a respiração anciada.</p> - -<p>—Não a vi. Encarregou-me o tio Martinho de procurar o senhor Mesquita, -e dizer-lhe que a prima Beatriz estava em perigo. Quiz desempenhar o -recado, e vim dar-lh’o ao Porto.</p> - -<p>—Eu parto sem demora. O senhor Raphael Garção vae dar-me sua palavra -de honra de occultar de minha prima que me encontrou aqui?—disse -solemnemente Nicoláo.</p> - -<p>—É escusada a solemnidade do juramento, senhor Mesquita.</p> - -<p>—Dirá que me foi procurar á quinta da Murça.</p> - -<p>—O que vossa excellencia quizer que eu diga.</p> - -<p>—E, se ella tiver morrido, meu Deus! exclamou<span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span> o morgado. Pois o ceu -ha de castigar-me assim, por eu não saber esconder n’este perdido -coração aquelle anjo! Oh!... que infernaes abysmos eu tenho cavado em -redor de mim!... Hei de afinal despedaçar-me, como aquella maldita -vaticinou!... Alli fóra, senhor Raphael, contaram-lhe o meu opprobrio! -Não sabe, não sabe que aviltada alma é a minha!... Eu vim aqui por amor -de uma mulher perdida, que passeia orgulhosamente a sua devassidão á -luz do sol. É uma condemnação de que não póde salvar-me a mulher sem -nodoa, a doce e celestial creatura, que eu amo tanto!... Deus não -m’a ha de levar! Tão nova e tão linda!... Como eu a adoro, senhor -Garção!... Creia que eu amo minha mulher com o ardentissimo fogo de um -remorso, que me está sendo a tortura dos reprobos!...</p> - -<p>Raphael ouvia-o espantado. A gesticulação e o cavernoso do clamor -impressionavam; mas Raphael era futil de mais para ponderar a ingente -dôr, que se desentranhava em termos de tragedia velha.</p> - -<p>O leitor naturalmente faz o que não fez o frivolo morgado de Fayões; é -capaz de rir-se, e perguntar-me que especie de doidice é a de Nicoláo -de Mesquita.</p> - -<p>É uma especie de doidice, que se chama a razão humana. Á gente de juizo -pode offendel-a a resposta paradoxal; mas os philosophos, que tambem -são uma especialidade de doidos, hão de admittir-m’a em sã e escorreita -dialectica.</p> - -<p>Levantemos o véu, onde elle não estiver roto, de sobre o coração do -morgado da Palmeira.</p> - -<p>Chegára elle da Foz com a alma lanhada de remorsos, e a cabeça -estonteada de uma vertigem de<span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span> amor. Estas duas paixões exacerbavam-se -uma á outra. Sem a saudade o remorso seria chimera.</p> - -<p>Margarida, era, ou parecia, feliz: despontaram-se logo os espinhos do -remorso. Ficou o amor. Repelliu-o Margarida devolvendo-lhe a carta com -um sarcasmo: esvaiu-se o amor. Logo, nem amor, nem remorso.</p> - -<p>Outras duas paixões o assaltearam logo: o orgulho e o rancor. -Estas paixões queria Nicoláo de Mesquita desabafal-as pelas boccas -das pistollas; porém como as victimas se furtaram á hecatomba, -sobrevieram as agonias da vingança mallograda, e logo a febre. -Ora, desde que as doenças moraes se consubstanciam no corpo e se -submettem ás prescripções da pathologia medica, a individualidade -da alma anniquila-se, e a paixão, degenerada em desconcerto dos -systemas sanguineo e nervoso, ou se cura medicinalmente, ou mata, -com o pseudonymo de congestão cerebral, febre typhoide, ou qualquer -nomenclatura significativa de que a pessoa sem duvida nenhuma, está -bem morta. Os convalescentes d’estes ataques—e raros são os que -succumbem—assim que o sangue lhes funcciona normalmente, sentem-se -por egual alliviados de alma e corpo. A vertigem, que os quebrantou, -deixa leves estragos no espirito, remediaveis com a mera acção do -tempo. Nicoláo de Mesquita, agudissimamente affectado, como se viu, -fez crise em menos de vinte e quatro horas, porque a seu favor -conspiraram calmantes muito efficazes. A palestra dos provincianos, -desdourando Margarida embaciara-lhe o prestigio. Bem sabem que -thermometro é este do prestigio para graduar a temperatura do coração -humano. Ao mesmo tempo, os encarecimentos á formosura de<span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span> Beatriz, sem -palavra que a desairasse, sobredouravam a aureola na fronte da esposa -virtuosa. Depois, n’este conflicto, entre o odio a Margarida, e o amor -escandecente a Beatriz, chega a nova da perigosa enfermidade. Nicoláo, -se podesse escrever o relatorio das suas sensações e revoluções -sanguineas e um medico as pozesse em termos de se lerem com um -embrechado de nomes gregos, a gente não entendia nada; mas acreditava -que se deram grandes phenomenos no coração do morgado. O capitalissimo -de todos é que elle, depois da explosão que lhe ouvimos, não fallou -mais em Margarida Froment, e galopou noite e dia arrebentando cavallos, -até chegar a Chaves.</p> - -<p>Beatriz estava á janella, quando seu marido e Raphael apearam.</p> - -<p>Nicolau expediu, ao vel-a, um grito de jubilo. No topo da escada -tomou-a nos braços, e beijou-a soffregamente. Era um phrenesi de -ternura assustador!</p> - -<p>Estava ella encantadoramente desmaiada. As mulheres assim pallidas, se -a pallidez é symptoma de irem breve a outros mundos, devemos crer que o -seu creador começa então a namoral-as para depois as levar para si.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="IX">IX</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> assustadiço amor de pae encarecêra a doença de Beatriz. O perigo -de vida fôra uma ligeira hemorrhagia nazal, que não deu tempo a -glorificarem-se as sciencias medicas de mais um triumpho.</p> - -<p>Observou o morgado um ar de resentimento assim no rosto da esposa como -no de Martinho Xavier. Á cordealidade dos abraços responderam-lhe -glacialmente, e ás perguntas sobre a enfermidade de Beatriz davam umas -respostas ironicas e enfastiadas.</p> - -<p>Raphael Garção, no bom intento de conciliar os animos, contou que fôra -á quinta de Murça procurar o primo, e o encontrára doente, com o medico -á cabeceira; e ajuntou que por pouco o não matára com a noticia da -perigosa enfermidade da prima Beatriz.</p> - -<p>O mentiroso radiou uma luz nova nos olhos de Martinho Xavier, e -entreabriu nos labios de Beatriz<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> um sorriso de indulto. Nicoláo, assim -que o lanço se lhe ageitou, apertou-lhe a mão e disse:</p> - -<p>—Graças, meu bom amigo!</p> - -<p>—Mentir como o diabo, diz Voltaire—respondeu o de Fayões.—A verdade -póde ser a ventura dos predestinados; porém nós, miseros peccadores, -carecemos de mentir a torto e a direito, primo Mesquita.</p> - -<p>—Sem deshonra propria, nem damno alheio—acrescentou o do Vidago.</p> - -<p>—Ah! vossa excellencia quer moralisar-me? O lobo despe a pelle, e -enverga a sotaina? Primo Nicoláo, quem tem uma mulher como Beatriz...</p> - -<p>—Cale-se que podem ouvir-nos...</p> - -<p>—Deixe estar que eu hei de castigar o Ricardo. Quem lhe ha de empalmar -a franceza hei de ser eu. Assim que me constar que ella está no Porto, -vou lá: quero inscrever o nome de Margarida Froment n’uma casa em -branco, que deixei entre a Aldonza Lourenzo do pandeiro, e uma primeira -tragica do theatro de Amarante. Orçam na moralidade.</p> - -<p>Arrugou-se a fronte de Nicoláo de Mesquita. Pezara-lhe o ultrage: é que -elle vira n’aquelle momento Margarida Froment, encostada ao braço de -seu marido, oito annos antes, repartindo recursos e consolações pelos -operarios da sua fabrica de Leão, enfermos, e de mãos postas a orarem -pelo anjo da caridade.</p> - -<p>Esbordava-lhe o coração de lagrimas, quando se arredou friamente do -sarcastico mancebo. Foi intermittencia momentanea.</p> - -<p>Martinho Xavier abriu as suas salas, n’aquella noite, á sociedade -flaviense. Beatriz dançou com<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span> seu marido, como ha vinte annos se -fazia na provincia sem irrisão. Raphael distinguiu-se no solo inglez, -e aprimorou-se n’uma gavota com sua prima. A gentil senhora respirava -a peito cheio o ar tepido e balsamico das salas. O setim da cutis -retingiu-se-lhe. O marido parecia-lhe outro homem e as flores das -jarras figuravam-lhe as primeiras da sua nova primavera. Dava ares de -creança; e o marido consolava-se de vêl-a assim.</p> - -<p>Seguiram-se outros bailes, e Nicoláo de boa vontade em todos. Balbuciou -Beatriz o desejo de residir em Chaves. Em poucos dias, se passaram -as preciosas decorações do palacio de Palmeira para outro de Chaves. -Martinho Xavier estava em permanentes acções de graças ao Senhor dos -Milagres! Via a filha feliz e o genro transfigurado.</p> - -<p>No viver intimo, a mudança da indole de Beatriz fôra menos sensivel -do que devêra presumir-se. Aquelle temperamento, fóra da quentura dos -salões esfriava. Recebia os affagos do marido, como se elle meramente -fosse o tio Nicoláo. Ella mesma não sabia dar-se conta da atonia -da sua alma. Parecia-lhe que o tinha amado um anno antes, sem dar -tento de uns cabellos brancos, que lhe listravam o bigode, nem da -calvicie incipiente que lhe affeiava um tanto a cabeça. Calculava, -computava os annos, e chegava á exactissima deducção de uma coisa -que a mortificava: e era que o marido havia de ter cincoenta e dois -annos, quando ella tivesse trinta. Nicoláo era intuitivamente advertido -d’estas secretas meditações. Revelava-lhes a razão esclarecida; mas, -assim mesmo, confiava bastante de si para deixar-se avassallar de uma -suspeita indecorosa a sua mulher. Erro palmar dos homens, que foram<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span> -muito queridos até aos trinta annos, e se presumem encouraçados e -invulneraveis ás injurias do tempo e ás desgraças, que não pouparam -propriamente os deuses olympicos, e outros mais importantes deuses -terrestres.</p> - -<p>Chegado o verão d’aquelle anno de 1841, o morgado da Palmeira foi -passar a sasão estiva no seu solar, convidando a acompanhal-o algumas -damas e cavalheiros parentes, sem olvidar-se de Raphael Garção, por -quem cobrára grande estima. Se alguma hora lhe sombreou o espirito a -lembrança ingrata de que fôra Raphael o espertador do coração de sua -mulher, acudiam-lhe á memoria as palavras ouvidas no hotel da Foz com -referencia ao puro e respeitoso amor que lhe sagrára. As suspeitas -fugiam logo envergonhadas, e a confiança restabelecia-se, cimentada nas -virtudes de Beatriz, e nas mil diversões amorosas do morgado de Fayões.</p> - -<p>Por outro prisma via as coisas Martinho Xavier, sem embargo do conceito -que formava da filha. Raphael é que para elle significava o supremo -patife das duas provincias do norte, juizo, a meu vêr, moderado, -attentos os adulterios, seducções e barganterias femeaes, que corriam -por sua conta. Assim, pois, era certo surgir, como por encanto, -Martinho Xavier á beira da filha, logo que Raphael Garção se avisinhava -d’ella sem testemunhas de acrisolada probidade. Este resguardo não o -revelava elle ao genro; porém, visando ao scôpo com a pontaria n’outro -alvo, desfazia nas qualidades do sobrinho, e contava os adulterios com -taes visagens, que um marido cioso, na posição de Nicoláo, teria desde -logo horror do seu proprio infortunio, enforcaria a mulher.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span></p> - -<p>O morgado ouvia as tenebrosas historias, e dizia:</p> - -<p>—Ha-de ser a quarta parte do que diz o mundo, primo Martinho. Não -sejamos vulgo. Eu, antes de emigrar, gosei fama de ter um harem na -minha quinta da Ribeira d’Oura, e de ter obrigado cinco paes de familia -a enclausurarem as filhas, e de ser a causa funesta de alguns maridos -aferrolharem as esposas infidas na casa do Ferro<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>. Pois, meu amigo, -sob minha palavra de cavalheiro te assevero, que antes de emigrar, -apenas tinha galanteado uma tecedeira, a qual tecedeira galanteava ao -mesmo tempo o meu padre capellão, e veiu por fim a casar com o meu -lacaio. Eu era isto, quando tu e os outros hypocritas—disse elle -sorrindo—me chamaveis o terror das familias. Pois argumenta de mim -para Raphael Garção. Que sabemos nós positivamente? O que elle nos -conta, com a fatuidade propria da sua edade. As atoardas que correm, -quem as verifica? Os maridos infelizes? Que é d’elles?</p> - -<p>—Calam-se—respondeu Martinho Xavier.</p> - -<p>—Isso não é nas nossas montanhas, primo. Os maridos ultrajados, quando -se calam, fazem fallar a bocca das clavinas.</p> - -<p>A discrição do pae de Beatriz rematava aqui o dialogo. Nicoláo -permanecia alguns minutos pensativo, e ia de um relanço insuspeito -devassar o coração de sua mulher, e espiar os olhos do hospede. -Encontrava-os sempre distraidos um do outro, ou conversando as mais -innocentes praticas, na presença de Martinho.</p> -<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p> -<p>N’um d’aquelles dias, ergueram-se alegres vozes subitamente na casa -de Palmeira. Foi por que, findo o almoço, Nicoláo de Mesquita, -tartamudeando de commovido, annunciou que sua esposa sentia os -primeiros indicios da maternidade. Foram as senhoras beijal-a nos -braços do pae, e os cavalheiros brindaram clamorosamente o vigesimo -quinto senhor de Palmeira. Ao terceiro dia, ao setimo, e ao decimo -quinto, depois da nova, celebraram o jubilo com trez bailes, e trez -jantares, e trez ceias. Concorreram os poetas de Villa Real, de Chaves, -de toda a terra em que Deus plantára um poeta, com capacidade de fazer -um soneto.</p> - -<p>Beatriz era infantilmente amimada por seu marido, que chorava -alvoraçado pela deliciosa expectação da paternidade! Andava elle a -inventar-lhe incommodos, para ter o goso de a desvelar com branduras -e melindres, que excediam a seriedade de um marido. Receava que a -chilreada dos passaros lhe turvasse o somno matutino, e mandava á noite -espancar a passarinhada das copas dos chorões. Cuidou que o aroma das -flores damnificasse á geração e mandou cavar os alegretes e taboleiros -sobpostos ás janellas do seu quarto. Com estas competiam outras -crendices não menos irrisorias.</p> - -<p>Assim que as chuvas de outubro ameaçaram, cuidou-se na mudança para -Chaves.</p> - -<p>Martinho Xavier contrastava a alegria de todos. Definhava-se a olhos -visto, e respondia com estranho aspeito aos cuidados de Beatriz, e com -rancoroso gesto ás delicadas attenções de Raphael.</p> - -<p>Fôra o caso que elle, n’uma ante-manhã, ouvira abrir subtilmente uma -porta envidraçada do quarto de Raphael, e o vira passar ao jardim, e -sumir-se<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> entre uns maciços de murta, e voltar, instantes depois, a -fechar-se no quarto. Isto preoccupou-o em dolorosas conjecturas.</p> - -<p>Assim que foi dia claro, desceu Martinho Xavier ao jardim, fez umas -voltas na visinhança dos maciços, e emboscou-se n’elles, sem ser -visto. Examinou os recantos, esquadrinhando algum vestigio. Dois vasos -de porcellana ladeavam a entrada de uma gruta, comada de maracujás e -baunilhas. Meditou, e desistiu de atinar com o intento de Raphael. -Saiu, reflectiu ainda, e retrocedeu. Levantou um dos vasos, e viu que -a terra secca, rebordando-lhe o fundo, indicava que não fôra bulido. -Examinou o outro, e descobriu claros indicios de ter sido deslocado e, -na terra em que elle assentava, o signal de ter alli estado um corpo -mais liso, pois que o restante da terra estava crespo das saliencias do -vaso. Inferiu que estivera alli uma carta. Assim se explica a maceração -do rosto do fidalgo, e a severidade com que tratava a filha, e repulsão -odienta com que afastava de si o sobrinho. Quinze dias se erguêra de -noite, esperando a alvorada, e mallogrando-se-lhe as vigilias.</p> - -<p>Ao anoitecer, porém, da vespera da mudança para Chaves, viu elle sair a -filha apressada de entre os maciços, e responder ao marido que chamava -de uma janella. Ao mesmo tempo descobriu a distancia, mal embrenhado -n’um bosquete de amoreiras, o morgado de Fayões, olhando na direcção -das murteiras. Correu Martinho Xavier, encoberto pela ramagem, a -erguer o vaso suspeito. Encontrou uma carta. O papel caiu-lhe das mãos -convulsas. Quiz sair; mas o tremor das pernas forçou-o a sentar-se no -banco de cortiça, que adornava o interior<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> do caramanchel. Cerrára-se a -noite. Ouviu fremir a folhagem perto. Era Raphael Garção, que saltava -por entre uns buxos defesos á observação da casa. Acercou-se o moço -lestamente do vaso, levantou-o, palpou, esteve um instante suspenso, -deixou-o baixar; mas, ao tempo que o pousava, sentiu uma pressão -de ferro nas vertebras cervicaes, e bateu em cheio com o rosto no -gradeamento do caramanchel. Reconheceu a mão que o sopesava, quando -ouviu a palavra:</p> - -<p>—Infame!</p> - -<p>—Meu tio! murmurou elle—por quem é!...</p> - -<p>—A tua morte, villão!—bradou suffocado o pae de Beatriz—a tua morte, -villissimo lacaio, seria um escandalo, quando não, havia de arrancar-te -a collada. Ouve-me bem, canalha! se esta noite não te despedires com -qualquer pretexto, e o sol de ámanhã te vir n’esta casa, maldito seja -eu, se te não matar. Entendeste-me bem, biltre?</p> - -<p>—Cumprirei a sua vontade—respondeu Raphael.</p> - -<p>—Ámanhã minha filha e meu genro vão para Chaves—tornou Martinho -Xavier.—Se você não quizer ser azorragado debaixo dos olhos d’ella -pelos meus criados, não passe mais debaixo das suas janellas. Martinho -Xavier cumpre o que promette.</p> - -<p>Saiu o pae de Beatriz, e encerrou-se no seu quarto. Abriu a carta, -leu-a, e desafogou-se n’uma profunda expiração de contentamento.</p> - -<p>Dizia assim a carta:</p> - -<p>«Meu pae desconfia. A tristeza d’elle não póde ser motivada por outra -coisa. O ar carrancudo com que me falla é mais uma prova. Reparo que -tambem te encara com maus olhos. Sejamos cuidadosos,<span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span> meu primo. -Eu amo-te muito; mas não te posso sacrificar mais do que as minhas -lagrimas. Deus me livre que o tio N. suspeite que eu te amo. Se tu vês -que será util conviveres menos em minha casa, poupa-me algum grande -dissabor. Tem sempre comtigo a certeza de que eu te quero muito, e que, -se por agora não posso ser para ti mais que irmã, póde ser que um dia -seja o mais que posso ser, e o que Deus não quiz que fossemos... <em>tua -esposa</em>! Quem sabe, meu R!... Ha acontecimentos tão inesperados!... -Lembra-te que tenho dezoito annos, e elle... Adeus, adeus, que o tio -não me deixa uma hora sósinha. Vou ver se ainda posso levar a carta.»</p> - -<p>Era rasoavel o contentamento de Martinho Xavier.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span></p> - - -<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> O <i>Ferro</i> era por aquelle tempo, no Porto, um -recolhimento, ou carcere, paradeiro das adulteras.</p> - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="X">X</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_a.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Á</span> hora da ceia, faltou Raphael Garção.</p> - -<p>Nicoláo soube que elle estava no seu quarto, e pedia desculpa de não -comparecer á mesa. Foi elle buscal-o: encontrou-o emmalando o fato.</p> - -<p>—Isso é que é pressa de entroixar, primo Raphael!—disse o -morgado,—deixe isso, que tem tempo. Nós só vamos ámanhã por tarde.</p> - -<p>—Mas eu vou partir esta noite, primo Mesquita.</p> - -<p>—Como assim? Venha contar-nos essa aventura á mesa, que está Beatriz á -espera. Temos empreza! não póde deixar de ser...</p> - -<p>Travou-lhe do braço, e levou-o, exclamando, ao entrar na casa da ceia:</p> - -<p>—Fui encontral-o a dobrar a roupa, e saberão que se despede á meia -noite!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span></p> - -<p>Beatriz encarou-o com affectuosa melancolia. Martinho Xavier fitou a -filha. Raphael não poz olhos em nenhum.</p> - -<p>O morgado proseguiu em tom de galhofa:</p> - -<p>—É negocio de damas! Alguma victima saudosa que, do leito dos -paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe!</p> - -<p>Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um -partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha á saida do primo, e -arrependida de lhe ter aconselhado a ausencia.</p> - -<p>—Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que -é séria e respeitavel a magua do nosso Raphael! É a primeira vez que -o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é -longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João -de Marana e o amado de Clarisse comiam ás horas, e o Byron ceiou -optimamente no dia ou na noite em que uma das suas martyres se afogou -no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo -Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, á meia noite, -primo Garção?</p> - -<p>—É verdade...—respondeu Raphael, affectando com violento artificio, o -seu natural alegre.</p> - -<p>—E quando volta a Chaves?</p> - -<p>—Não sei, primo.</p> - -<p>—Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e -estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permitta-me fallar-lhe com -sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importancia do -passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o. -Se o pundonor o não impelle, fique. Distinga entre dever e<span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span> dever. -Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa -deshonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma -errada consciencia nos aconselha.</p> - -<p>Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse:</p> - -<p>—Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita, -não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde elle quizer!</p> - -<p>—Pois eu decerto o deixo ir para onde elle quizer; mas o admoestal-o -como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo -Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiencia...</p> - -<p>—Pois sim, de accordo—replicou o pae de Beatriz amaciando a voz, -receoso de denunciar a causa da sua colera—farto de admoestal-o -estou eu, e estão todas as pessoas de bem... É malhar em ferro frio. -Deixal-o, deixal-o, que o mundo ha de ensinal-o. Quando chegar aos meus -annos, elle chorará os que desbaratou na libertinagem.</p> - -<p>Correu breve e triste a ceia. Ao levantarem-se da mesa, Raphael -despediu-se de Beatriz, sem atrever-se a olhal-a em rosto, porque o -pae, á beira da filha, não o desfitava. Beatriz articulou umas palavras -banaes, sêccas e tão contrafeitas, que por si mesmas, á custa de muita -arte, a denunciariam a um marido precatado. Do tio Martinho, não -pôde despedir-se, que, a disfarce, saíra da sala. Nicoláo seguiu-o -ao quarto, offereceu-lhe dinheiro, se o necessitava, e conseguiu -arrancar-lhe um imaginoso segredo da sua aventura. Pelos modos, uma -menina de Basto, não podendo occultar dos pais o testemunho de sua -desgraçada paixão, fugira de casa,<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> e invocava o pae do filhito que lhe -estremecia no seio. Mentir como o diabo, tinha dito Raphael pela bocca -de Voltaire.</p> - -<p>Á meia noite saiu o pae do menino, que estremecia no seio da tão -coitada de Basto, e Nicoláo, em termos patheticos, foi contar a Beatriz -a revelação do primo. A senhora fingiu compadecer-se das calamidades da -menina do filhinho, e aproveitou o ensejo para chorar as suas saudades -na presença do marido, que se desentranhou em consolações distractivas, -que não fosse ella perigar por demasia de sensibilidade. A sorte de -tantos maridos espertos! Faz pena vêr a despotica ingerencia que tem -a comedia nos lances mais graves! A humanidade a chorar e um histrião -a cobrir a toada do choro com o tilintar do barrete! É triste, mas -necessario isto ao regimento da sociedade.</p> - -<p>Saíram para Chaves no dia seguinte.</p> - -<p>Beatriz ia triste, e recolhida. As caricias do esposo enfastiavam-n’a. -O pae, nada blandicioso, fazia-lhe mal com o seu olhar, e dizia-lhe á -puridade umas phrases amphibologicas de que ella ficava sentida, sem -ousar pedir esclarecimentos.</p> - -<p>As palavras que mais a pungiram e intimidaram foram estas:</p> - -<p>—Ai, de ti se teu marido se me queixa da tua frieza! Terás em mim um -verdugo, e não um pae.</p> - -<p>A ameaça logrou menos do que devêra esperar-se. Beatriz desconfiava que -o pae lhe surprehendesse o coração n’algum descuidoso olhar ou gesto a -Raphael; porém, quando assim fosse, as provas contra a sua honestidade -eram nenhumas, e ella facilmente se defenderia das suspeitas -calumniosas.</p> - -<p>Era de vêr que a retirada de Raphael havia de<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> ser descontada na -affeição ao marido. A esposa criminosa, ou propensa ao crime, costuma -dar, pelo menos, ao marido um millesimo do amor que prodigalisa ao -amante. Se, todavia, o amante lhe foge, nem o quinhão diminutissimo do -marido lhe deixa. Isto tambem é triste, e atroz!</p> - -<p>Nicoláo attribuia as securas e enojos de sua mulher aos mysterios -phenomenicos da geração. Tambem elle tinha accessos biliosos de -impaciencia, irritados pelos caprichos de Beatriz; mas soffreava-se, -affastando-se. Queixar-se é que não. No entanto, Martinho Xavier, -lendo-lhe no rosto alquebrado o desgosto da má vida intima da casa, -abstinha-se de interrogal-o, e dizia á filha:</p> - -<p>—Tu não me attendeste; mas afinal será tarde, quando caires em ti. -Já te disse que, em te faltando a estima do marido, não contes com a -estima do pae, Beatriz?...</p> - -<p>—Que quer isso dizer, meu pae? atalhou ella. Tantas ameaças, tantas -ameaças! Que crimes tenho eu?</p> - -<p>—As mais criminosas intenções!... Silencio! silencio!... ouviste -Beatriz! Muito juizo para remediar o mal feito... Se assim não fôr...</p> - -<hr class="tb" /> - -<p>Raphael Garção estava na sua casa de Fayões. Quizera distanciar-se de -Chaves, sair a uma viagem longa, distrahir-se, esquecer-se; mas não -pudera. Estava alli preso pela corrente de um grande amor a sua prima. -Era o primeiro, o unico, porque não amára outra, desde que nos labios -d’ella, ainda solteira, depozera, como n’um altar, as primicias do -seu coração. Sem os estorvos, póde ser que outra mulher o roubasse ás -froixas glorias de uma<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> facil proesa; mas depois do aviltante castigo -do tio, e da vergonha com que saiu da Palmeira, queria elle superar as -difficuldades para sentir-se remunerado do seu vilipendio. Era isto -a um tempo galardão ao amor, e galardão á vingança. Eram os vinte e -dois annos, e a má índole, acerada pela educação que tivera, á lei da -natureza bruta. Não sei tambem se eram o Lovelace, e o Saint-Preux, e o -D. João Tenorio. Era tudo, incluindo n’esta mistura o elle ser homem, -feito á similhança e imagem de... Fóra com a blasfemia!</p> - -<p>Empenhou-se Raphael, mediante os serviços de algum amigo de Chaves, em -fazer entregar a Beatriz uma carta explicativa da sua rapida saída de -Palmeira, o degredo que se elle impozéra na triste soledade de Fayões. -Uma dama das mais acreditadas de Chaves foi a portadora da carta.</p> - -<p>Então sómente comprehendeu Beatriz o valor das ameaças de seu pae, e o -gume do perigo em que estava sua honestidade, e talvez sua vida, se á -mão do marido passasse a carta de Raphael.</p> - -<p>Nicoláo ganhou com este descobrimento por um lado, e perdeu pelo outro. -Os ganhos eram os exteriores affectuosos com que a mulher o indemnisava -dos desdens passados. As perdas foram restabelecer-se a correspondencia -epistolar entre Beatriz e o primo.</p> - -<p>A illustre alcôfa d’esta correspondencia andava espiada por Martinho -Xavier, á conta de ser irmã de um particular amigo e contubernal -parasita de Raphael. D’esta espionagem, confiada á aia de Beatriz, -velha de rija tempera de virtude, resultou ser a correctora cupidinaria -avisada para não voltar a casa de Nicoláo de Mesquita, sob pena de -ser publicada<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> como negociadora de amores adulteros. O aviso foi dado -face a face por Martinho Xavier, que tinha brutalidades de fidalgo -montezinho.</p> - -<p>O que elle não podia era contraminar a corrupção dos criados. Beatriz -continuou a receber cartas do primo; e Nicoláo a experimentar as -caricias de sua senhora. Ó Azaïs!...</p> - -<p>Decorreram uns seis mezes de vigilancia assidua do fidalgo. Rondava as -portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Fayões para lhe -segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira -de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a -fiscalisar o grangeio das quintas.</p> - -<p>Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pae. -Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de -mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa. -Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A commissão de parentes, -encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castello de -Aguiar. Com muito sacrificio foram de liteira as velhinhas, amolgadas -por grandes desgostos. Nicoláo, quando as viu, teve arrepios de espinha -dorsal. Interrogou a commissão, a qual respondeu que os Almeidas do -Valle de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as familias. -Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as -levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz ácerca de -Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a -dama, assim que esteve a sós com ellas e o capellão adjunto, lhes desse -azo á expansão das lastimas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span></p> - -<p>Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e -que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de trez -annos.</p> - -<p>Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da -escravidão do demonio, desfigurado na franceza, e vinha a ser o -patrocinio de um santo, parente da familia, que tinha sido grande -peccador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida -santamente: o qual santo era S. Gil de Santarem.</p> - -<p>Que S. Gil de Santarem era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não -ha duvida nenhuma, e vae demonstrar-se para confusão dos praguentos.</p> - -<p>Estamos em tempo do senhor rei D. Affonso Henriques, que santa gloria -haja.</p> - -<p>Depois da milagrosa victoria de Ourique, os barões da comitiva do rei -conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus -sabe como. O bravo rico-homem de Galliza, Fernão Martins de Almeida, -despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço -Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas -do Valle de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se -com a filha de D. Payo Mendo Gil, senhor das terras de Cavallaria, -termo da cidade de Vizeu junto á villa de Vouzella. Preferiu o -castellão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a -cargo de irmãos. D’este consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou -em 1184 com Ruy Paes de Valladares, do conselho d’el-rei D. Sancho I, -seu mordomo-mór, e alcaide-mór do castello de Coimbra. Estes são os -bem-aventurados paes de Gil Rodrigues,<span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span> conhecido e venerado do leitor -pio por S. Gil de Santarem, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto -portuguez.</p> - -<p>Nada menos que este santo, inquestionavel parente das senhoras -Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguineo dos braços -satanicos da franceza. No entanto, alguns mezes haviam passado, depois -do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energumeno voltasse, -cumprido o seu fadario. Sem embargo, ellas esperavam, e razão era que -esperassem. Alguem faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro, -antigo pactuario do demonio: que estes milagres, nos tempos correntes, -bastam a fazel-os algumas lettras a vencer na mão de um usurario. A -onzena tem convertido mais perdularios do que a vida mirifica de S. Gil.</p> - -<p>O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado -metade dos seus haveres, e perto iria n’aquelle desperdicio. Sustentava -em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida -a cada requestador que lhe varava ao coração o stylete do ciume. Os -galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e -pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante -desconfiado, e de são juizo para entender que o facil para elle não -seria extremamente difficil para o restante da humanidade.</p> - -<p>Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas -o não menor castigo das mulheres na condição da franceza é inspirarem -suspeitas aviltadoras áquelles mesmos que as estremecem, e authorisarem -o galanteio de quem quer que meramente as deseja.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span></p> - -<p>Seja como fôr, as senhoras D. Sancha e Simôa choravam lagrimas como -punhos, quando Martinho Xavier saiu do salão do baile a procurar -Beatriz que tambem chorava com as velhas.</p> - -<p>Uma paixão explora veios de lagrimas desconhecidos. Chorava, porque -amava, a mal-sorteada senhora!</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XI">XI</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_a2.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">A</span> espionagem, sem intermissão, de Martinho Xavier gerou no animo da -filha um secreto e mal disfarçado odio. Bem queria ella sacudir o jugo; -mas a mordaça, a carta fatal, estava em mão de seu pae: ella mesma -a viu quando se lhe queixou amargamente de a privarem da companhia -d’aquella amiga interventora na correspondencia. O pae, sem proferir um -monossyllabo, mostrara-lhe a carta, e voltára as costas.</p> - -<p>Planeou a sua emancipação Beatriz com um expediente assim natural que -insuspeito. Revelou desejos ao marido de voltar a Palmeira, á suave -quietação da sua casa. Nicoláo abraçou alegremente a proposta, e -exultou de ouvil-a motivar assim o intento:</p> - -<p>—Agora, que tenho o meu filho, basta-me este<span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span> prazer, e o teu amor -ás necessidades da minha alma. Já me fatigam tantos parabens, tantas -visitas, tantas etiquetas! Apeteço a solidão comtigo e com elle. Mudei -inteiramente, primo Nicoláo. Os filhos parece que envelhecem a gente! E -de mais eu quero que o nosso Martinho seja creado ao ar do campo, e não -n’estas estufas da cidade. Verás como eu agora me dou bem na aldeia! -Quero ir comtigo ás quintas, e gosar a doce liberdade de uma aldeã. -Estás contente da minha reforma?</p> - -<p>—Se estou, filha!...—clamou o marido, apertando-a contra o -coração—se estou contente, eu, que por amor de ti, e contra o meu -genio, tenho andado n’estas balburdias de bailes e jantares! Eu tambem -espero que o nosso filhinho te aformoseie os quadros aldeãos, que tão -aborrecidos te pareceram. Um filho é uma estrella que nos alinda o ceu -da terra em que vivemos. Sempre esperei que desejasses voltar para -Palmeira com esta creancinha. As mães experimentam um santo egoismo de -sua felicidade, quando são mães pelo coração, que as ha tão frivolas, -minha querida prima, que apenas se dizem mães por terem sentido os -soffrimentos da maternidade.</p> - -<p>—O peior, atalhou ella, é que meu pae vae zangar-se com a nossa -partida...</p> - -<p>—Porquê? zangar-se!...</p> - -<p>—Que queres? A amizade do meu pae é extremosa até á importunação! -Eu não devia dizer isto; mas olha, primo, já me impacientam tantos -cuidados comigo! Em solteira, deixava-me mais liberdade!...</p> - -<p>—É que teu pae adora-te, Beatriz!</p> - -<p>—Bem sei; mas os excessos de ternura incommodam.<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span> Tenho marido e filho -para amar e presar: não posso attender ás extremosas pieguices de meu -pae. Agora ha de elle cuidar que eu vou enfastiar-me na aldeia, e -começa ahi com os seus discursos a demover-te de irmos.</p> - -<p>—Seria escusado, que nós iremos, prima.</p> - -<p>—Pois então, Nicoláosinho, se elle nos contrariar não o contradigas, -para o pouparmos a maior magua. Vamos preparando a partida de nosso -vagar, e evitemos questões.</p> - -<p>—Pensa bem, Beatriz... Teu pae tem singularidades estranhas, que -destoam do meu genio...</p> - -<p>—Muitas!...</p> - -<p>—Este odio entranhado, que elle tem ao primo Raphael, é absurdo!</p> - -<p>—De certo.</p> - -<p>—Sei que o pobre moço está em Fayões, e não voltou a nossa casa. -Precisamente o rapaz foi magoado da rudeza com que teu pae o tratou á -ceia, na ultima noite.</p> - -<p>—Parece-me que sim.</p> - -<p>—Já perguntei ao primo Martinho porque não tornaria Raphael a Chaves, -desde que lá estamos. Respondeu-me que não valia a pena notar-se a -falta d’elle. Quiz convidal-o para o baile do baptisado, e teu pae -respondeu-me formalmente que não!</p> - -<p>—Caprichos...</p> - -<p>—Ruins caprichos! Eu transigi para obviar resentimentos; mas... Tu has -de consentir, filha, que eu te confesse uma culpa... sim?...</p> - -<p>—Que é, primo?</p> - -<p>—Não podendo justificar a antipathia de teu pae com Raphael, cheguei -a conjecturar se elle desconfiaria de alguma infame intenção de teu -primo...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p> - -<p>—Infame intenção! a que respeito?</p> - -<p>—A respeito de ti...</p> - -<p>—Ora essa!... Tu enlouqueceste?</p> - -<p>—Não, menina, confesso-me.</p> - -<p>—Pois não te perdôo, Nicoláo!—exclamou ella irada sobre posse, e -escarlate por effeito da surpreendente suspeita.</p> - -<p>—Perdoas, que eu,—tornou caricioso o marido—tanta justiça te fiz -que nem levemente indaguei... para não dar direito a que alguem te -suppozesse um instante criminosa. Nem com esta prova de respeito ás -tuas virtudes me perdoas?</p> - -<p>Beatriz deixou-se beijar e sorriu.</p> - -<p>Nicoláo continuou:</p> - -<p>—Em prova da confiança que me mereces, assim que estivermos em -Palmeira, convidarei Raphael.</p> - -<p>—Não quero! atalhou Beatriz com vehemencia. Magoas-me cruelmente se o -fizeres.</p> - -<p>—Compreendo o teu pundonor, tornou Nicoláo, soberbo do pundonor de sua -esposa.</p> - -<p>N’este dia, disse o morgado ao sogro:</p> - -<p>—Vamos passar algum tempo á aldeia.</p> - -<p>—Fazeis bem, respondeu Martinho; Beatriz precisa de bons ares, que -está com má côr.</p> - -<p>—E, talvez, lá fiquemos, se ella quizer.</p> - -<p>—É natural que não.</p> - -<p>—Pois enganas-te primo: ella mesmo aventou a idéa da mudança.</p> - -<p>—Sim. Ella?!</p> - -<p>Martinho Xavier ficou pensativo largo espaço, e replicou:</p> - -<p>—Foi subita essa determinação de Beatriz?</p> - -<p>—Disse-m’a hoje.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span></p> - -<p>—Está bom...</p> - -<p>—O filho operou uma tal mudança no espirito de Beatriz—tornou Nicoláo.</p> - -<p>—Deve ser isso... disse abstraidamente Martinho Xavier.</p> - -<p>—Encheu-me de jubilo esta grave transformação aos dezoito annos.</p> - -<p>—São raras estas transformações, tornou o outro meditativo.</p> - -<p>—Vaes comnosco?</p> - -<p>—Vou, respondeu Martinho energicamente. Vou sem duvida.</p> - -<p>—Estimamol-o deveras.</p> - -<p>Relatou Nicoláo a sua mulher a substancia d’este dialogo, e a resolução -no pae.</p> - -<p>—Vae comnosco? exclamou ella com irreflectido transporte. Forte -perseguição?... É de mais?... Para que me casei eu? Ou bem sou filha, -ou sou esposa!</p> - -<p>—Podes ser ambas as coisas dignamente; acudiu o marido.</p> - -<p>—Ora!...—redarguiu ella com arremeço; e, caindo em si, ajuntou -abatendo a voz: Deixal-o ir... que eu para Chaves não volto... Se meu -pae não podia viver sem mim, para que me casou?... A minha scisma é -esta. Sim! para que me casou?</p> - -<p>—N’isso tens razão, prima.</p> - -<p>—Pois não tenho? Quer affagos e cuidados, que eu não posso repartir. -Sou esposa e mãe; e além d’isso preciso olhar pela minha casa.</p> - -<p>—Pois, meu amor, deixal-o ir; trata-o com amizade de filha, e -mostra-te feliz, que elle te deixará viver em tua casa.</p> - -<p>Grande parte d’esta pratica foi communicada a<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span> Martinho Xavier pela -aia de Beatriz. O fidalgo aguardou occasião de encontral-a a sós, e -disse-lhe:</p> - -<p>—Sei que intenções te levam para Palmeira.</p> - -<p>—Sabe... que intenções?!...</p> - -<p>—Não admitto interrogatorio... Quero ser ouvido em silencio. Resolvi -acompanhar-te para te defender do abysmo. Mudei. Não vou. Escuso de ir. -O abysmo está aberto. Vaes cair, desgraçada! E tão depressa caires, -irei mostrar-te lá com o dedo a teu marido: «Ella ahi está despenhada. -Quiz salval-a, e não pude. Agora escarra-lha na cara, que tu não tens -esposa, nem eu filha!»</p> - -<p>—Meu pae!—exclamou ella afflicta.—Meu pae, eu não sou criminosa!</p> - -<p>—Vaes sel-o.</p> - -<p>—Juro-lhe que não!</p> - -<p>—Mentes a ti propria. Raphael está recebendo cartas tuas; um dos teus -criados entrega-te cartas do libertino, do carrasco da tua honra.</p> - -<p>—É falso...</p> - -<p>—Falso é o teu juramento, Beatriz! Não me desmintas, que eu -justifico-me na presença de teu marido.</p> - -<p>—Por quem é... por alma de minha mãe!... bradou ella soluçando.</p> - -<p>—Tua mãe foi uma santa. Se está no céo e te vê a consciencia, lá mesmo -ao ceu lhe mandaste um inferno, coração perdido! Ficas sabendo que eu -vigio as tuas acções e as de Raphael. Escuso de seguir-te a Palmeira. -Eu hei de saber pontualmente a hora a que te precipitas. Então me -verás!...</p> - -<p>Voltou o rosto ás lagrimas da filha e saiu.</p> - -<p>Dias depois, preparadas as bagagens, e posta a<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span> hora da partida, foi -Nicoláo avisar o sogro. Martinho Xavier estava de cama com febres, e -differiu a sua ida para mais tarde. Observou o morgado que elle, ao -apertar-lhe a mão, chorava. Foi despedir-se da filha á cabeceira do -leito; e, n’um instante que ficaram sósinhos, disse-lhe o pae:</p> - -<p>—Se Deus me levasse agora d’este mundo, furtava-me á formidavel -angustia que me preparas.</p> - -<p>—Juro-lhe que não.</p> - -<p>—Antes do terceiro juramento, perder-te-has—murmurou Martinho Xavier.</p> - -<p>Despediram-se.</p> - -<p>Beatriz saiu no proposito de esmagar o coração debaixo do peso da -honra. Estava aberta uma egreja, e ella entrou a pedir á Virgem que lhe -désse forças, e orou longo tempo. Ergueu-se consolada e forte.</p> - -<p>Escreveu a Raphael supplicando-lhe que lhe não escrevesse mais, que -a deixasse morrer de saudades, mas sem o stygma de uma vilipendiosa -desgraça. Prometteu-lhe amal-o no céu; e pela vida de seu filho, jurou -que se mataria antes de ultrajar seu marido.</p> - -<p>Esta carta era uma rehabilitação.</p> - -<p>Foi para Palmeira. Ia doente e amargurada. Parece isto contra-senso. -Devia ir jubilosa de sua valentia. Não é assim. As mulheres, depois -d’estes triumphos, caem desfallecidas. O que lhes dá forças a ellas são -as fragilidades.</p> - -<p>Passados quinze dias, espantou-se ella do silencio de Raphael, e disse -entre si: <em>Não me tinha amor!</em> Passado um mez, disse: <em>Tenho-lhe -odio!</em></p> - -<p>Martinho Xavier convalesceu rapidamente, assim que lhe deram uma alegre -nova.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span></p> - -<p>Foi a Palmeira, e, na presença da filha, fallou assim a Nicoláo:</p> - -<p>—Não sabes a façanha de Raphael?</p> - -<p>—Não sei nada. Aqui não tem vindo ninguem d’esses sitios.</p> - -<p>—Pois ouve lá...</p> - -<p>—É o caso da menina de Basto?</p> - -<p>—Que menina de Basto?! Essa historia não sei eu. O que eu sei é que -chegou a Chaves um coronel de cavallaria, casado com uma senhora de -fina educação, e vinte annos, ou coisa assim. A senhora deu-se mal -com os ares de Chaves, e foi para a quinta de S. Lourenço, proxima -a Fayões. Em menos de quinze dias, Raphael tomou conta da esposa do -coronel, e foi para Hespanha. Pergunto eu agora a meu primo Nicoláo, se -o mundo diz a vigesima parte da verdade?</p> - -<p>—Aquillo é um lastimavel doido!...—observou o morgado com pena.—E -ella parece-me mais doida ainda! Se elle bem soubesse que futuro o -espera com as disciplinas da vingança!...</p> - -<p>Beatriz ouvira a historia, com immobilidade de estatua. Á reflexão do -marido fez um gesto forçado de assentimento. Assim que o filho vagiu no -berço, correu para junto d’elle, chorou em ancias abafadas nas roupas -do berço, que embalava para se lhe não ouvirem os soluços.</p> - -<p>—Mentirá meu pae para me desvanecer? pensava ella comsigo, e, ao mesmo -tempo, resava á Mãe de Jesus, pedindo-lhe o esquecimento do homem fatal.</p> - -<p>Não mentira Martinho Xavier.</p> - -<p>Raphael, assim que recebeu a ultima carta de Beatriz, chorou o tempo -desbaratado n’uma esperança,<span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span> além da qual se carregaram assentadoras -borrascas. Doeu-se da força d’alma com que ella o despedia, e tirou a -injudiciosa illação de que era mediocremente amado, porque as grandes -paixões querem o estampido, e o sêvo das grandes desgraças. Nenhum dos -seus romances fazia menção honrosa de heroes que se deixassem morrer da -peçonha do ideal. Olhou o moço em si; viu-se com vinte e tres annos, -futuro largo, vinte primaveras ainda a reflorirem-se. Enojou-se da -inercia de seis mezes, em que deixara anazarem-se as suas ardentes -faculdades. Saltou para o sellim do melhor cavallo, desfilou por montes -e valles, visitou primas, que elle denominava o seu medalheiro de -estudos numismaticos, restaurou galanteios antigos, antigos de seis -mezes; e, n’esta andadura, foi dar á quinta de S. Lourenço, onde vivia -um general reformado, com trez sobrinhas.</p> - -<p>Apresentaram-lhe a hospeda, esposa do coronel, nem formosa nem -sympathica, mas interessante pela melodia com que vibrava a escala -chromatica em cada dezena de palavras que dizia: era lisboeta a dama. -O galanteio começou alli, sem advertencia do general. Continuou nos -quatorze dias subsequentes, cuidando o dono da casa que a namorada -era uma de suas sobrinhas. O coronel, porque era marido, receava -que o general se enganasse: revelou as suas duvidas, e o bravo do -Bussaco respondeu que tinha em bom uso a espada com que espostejara um -esquadrão de francezes. Em bom uso estava de certo a espada; virgem, -talvez. Descançava o coronel na espada do seu amigo, quando a esposa -lhe ia arrebatada no arção da sella do mais possante murzello de -Raphael.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span></p> - -<p>Aqui está a simples historia, que, posta em escriptura por mais aparada -penna, faria chorar os leitores.</p> - -<p>Muita gente ri-se d’isto. Outra levanta os olhos ao ceu: contempla o -imperturbavel movimento dos astros, interroga o Creador, e diz:</p> - -<p>—E então?</p> - -<p>A Providencia responde, depois que os interrogadores estão esquecidos -da sua audacia sacrilega.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XII">XII</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_e.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Este</span> enorme escandalo estrondeou tres semanas, e caiu á voragem -silenciosa dos factos consummados. Corridos tres mezes, a fugidiça -estava em Lisboa com a mãe; e Raphael Garção, de volta de Hespanha, -entrára ás escondidas em Fayões, e lia romances no seu gabinete. O -coronel, corrido do vexame, pedira transferencia para o Alemtejo.</p> - -<p>Raphael tinha pae e mãe, que incessantemente offereciam ao Eterno o -calix de suas dôres em desconto do peccado da má educação, que haviam -dado ao filho. A mãe, temerosa do juramento que o general fizera -de matar Garção com a espada do Bussaco, alternava, com o marido, -sentinella ao filho para elle não sair de casa. O velhaco, assim que -as atalaias, por noite velha descuravam a sobre-rolda<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span> e ressonavam, -saltava da janella ás espaduas do criado confidente, e ia refrigerar a -cabeça, exercitar a força musculosa, e beber a sorvos os perfumes da -manhã.</p> - -<p>Assim devia presumir-se até de madrugada de um dia em que elle voltou -com as costas crivadas de chumbo e uma orelha farpada. Extrairam-lhe -as balinhas, e cicatrisaram-lhe as orelhas. Passados dias entrou n’um -recolhimento de Villa Real uma filha de um boticario de Fayões, e então -se aventou que Raphael Garção topára no pharmaceutico a fôrma do seu -pé, como lá dizem.</p> - -<p>Martinho Xavier foi a Palmeira contar este escandalo supplementar. -Nicoláo riu-se e disse:</p> - -<p>—Ha doidos que se fazem perdoar e estimar! As tolices de Raphael têem -graça.</p> - -<p>—É preciso ouvir-t’o, para se crer que fallas de Raphael com tão -absurda sympathia!—censurou Martinho.—E jámais, ajuntou a meia voz, -na presença de tua mulher: Isso desauthorisa a gravidade de teus annos -e estado, primo Mesquita!</p> - -<p>—Valha-te Deus, Martinho! redarguiu o morgado. Tu vens a ser muito -rabujento, homem! Pareces um ancião com o barbaçudo aprumo de um -patriarcha! És inexoravel com os moços e principalmente com teu -sobrinho!... Quantas capas deixaste tu ficar por mãos impudicas, ha -vinte annos, quando te eu conheci o primeiro casquilho de Chaves e seu -termo?</p> - -<p>—Não pratiquei desafôros! Atalhou Martinho.</p> - -<p>—Graças á tua boa indole, e ao captiveiro do coração em que te teve -seis annos a minha bella prima com quem casaste. É preciso perdoar -aos rapazes, que não podem reconstruir o seu temperamento,<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> nem -remediar aos vinte e tres annos os vicios da educação. Raphael não é -despresivel, quanto se te figura; é digno de dó. Vem pagar o que eu não -sei bem se é culpa d’elle. Os doidos da bitóla de Raphael teem sempre -o mau sestro de encontrarem doidos da mesma natureza. Cumpre ponderar -esta notavel attenuante, primo Xavier. O mundo não faz d’isto cabedal, -nem desconta. Se Raphael attentasse em mulheres morigeradas, não -descobria a esposa do coronel, nem a filha do boticario.</p> - -<p>—Foram seduzidas! bradou Martinho.</p> - -<p>—Pois isso é claro! Toda a mulher precisa que a seduzam; e se a não -seduzem, trata ella de seduzir-se a si mesma.</p> - -<p>—Regra geral, portanto!</p> - -<p>—Regra geral para as mulheres desviadas do caminho da honra.</p> - -<p>—E entendes que Raphael tão somente pode perder as desviadas?</p> - -<p>—Cuido que sim.</p> - -<p>—E as honradas são invulneraveis?</p> - -<p>—Como o calcanhar do heroe de Homero.</p> - -<p>—Estás gracejando... Chega-me aqui o ouvido.</p> - -<p>Nicoláo inclinou-lhe a orelha, e Martinho segredou:</p> - -<p>—A Margarida Froment estava desviada do caminho da honra quando a -perdeste?</p> - -<p>Nicoláo retraiu de salto a cabeça, e não respondeu.</p> - -<p>Beatriz descórou, suspeitando loucamente uma revelação horrivel.</p> - -<p>Cessou a polemica.</p> - -<p>Estavam no mez de junho.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p> - -<p>Beatriz lembrou um passeio á feira annual de Santo Antonio a Villa -Real. Martinho Xavier acompanhou-os.</p> - -<p>Nicoláo e a mulher compravam objectos de oiro n’uma barraca. Raphael -Garção passava e viu-os, e parou. Casualmente voltou a face Beatriz, e -expediu um grito. Vira-o, e tremêra no braço do marido. O morgado olhou -em roda de si, e perguntára:</p> - -<p>—Que foi?</p> - -<p>—Pisaram-me...—disse Beatriz.</p> - -<p>—Canalha! bradou rancorosamente o morgado no rosto das pessoas mais -chegadas ao balcão do ourives.</p> - -<p>Passaram a outras barracas.</p> - -<p>—Espera! disse com alvoroço Nicoláo.—Queres tu vêr o primo Raphel?!</p> - -<p>—Onde? perguntou ella serenamente.</p> - -<p>—Além! aquelle sujeito de jaqueta de alamares, e botas á Frederico.</p> - -<p>—Parece-me que é.</p> - -<p>—Vamos ter com elle.</p> - -<p>—E se o pai está por ahi?</p> - -<p>—Que importa?</p> - -<p>—Bem sabes que nos faz um sermão.</p> - -<p>—Ouviremos o sermão com devota paciencia. Vamos ouvir este sublime -doido... Elle olha para nós... reconhece-nos...</p> - -<p>E chamou-o com um aceno.</p> - -<p>Raphael avisinhou-se: faltava-lhe ar, como se o coração, dilatado pelos -arquejos, lhe tomasse todo o peito.</p> - -<p>—Venha cá, D. João, venha cá!—disse com alegre sombra Nicoláo—que é -feito de si, homem perdido?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span></p> - -<p>Raphael cortejou grave e cerimoniosamente a prima; abraçou o morgado, e -respondeu solemne:</p> - -<p>—<em>Homem perdido</em>... é o nome que justamente me frisa. Perdido -como todos os homens que atiraram o coração ás sarças de desesperança.</p> - -<p>—Que estylo!—atalhou Nicoláo, e que merencorio gesto você está -fazendo! Tire lá essa mascara dos quarenta annos, e seja rapaz emquanto -seu tio Martinho não apparece por ahi.</p> - -<p>—Está cá meu tio?</p> - -<p>—Está... respondeu Beatriz, levantando do chão os olhos em que Raphael -viu um vidrado de lagrimas.</p> - -<p>—O primo Raphael que faz aqui? perguntou o morgado.</p> - -<p>—Nem eu sei, sinceramente lh’o digo.</p> - -<p>—Sei eu, e bom será... que o boticario de Fayões o não saiba...</p> - -<p>O moço não abriu leve sorriso; abaixou os olhos e murmurou:</p> - -<p>—Seja generoso, primo Nicoláo. Eu não espero da sua mão a esponja do -fel. Creia que tenho sido muito desgraçado, e perdoe-me não ter podido -ser feliz.</p> - -<p>Apertou a mão da prima, abraçou ligeiramente o morgado, e afastou-se -velozmente.</p> - -<p>Nicoláo quedou-se immovel e silencioso.</p> - -<p>D’ahi a segundos disse a Beatriz:</p> - -<p>—Creio que teu primo é sinceramente desgraçado!...</p> - -<p>—Parece... Como está magro e pallido!</p> - -<p>—E talvez não tenha um amigo!... um amigo sincero que o defenda de -novos pricipicios... Quem me dera poder vellar o destino d’este rapaz!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span></p> - -<p>—Pobre moço!... murmurou Beatriz, embebendo as lagrimas no lenço.</p> - -<p>—Não te afflijas assim, menina. Se eu lhe não fallar, hei de -escrever-lhe. Está em excellente idade para rehaver os creditos -perdidos, e depois, é rico; a riqueza é meia rehabilitação, quando não -é rehabilitação inteira e mais metade.</p> - -<p>Caminhando, encontraram Martinho Xavier, que crescia para elles com a -vista derramada, e amarello.</p> - -<p>—Que tens? perguntou Nicoláo.</p> - -<p>—Nada... respondeu Xavier, ferindo a filha com repetidos olhares -penetrativos.</p> - -<p>—Que tens, homem? viste o monstro?</p> - -<p>—Que monstro?</p> - -<p>—O Raphael, o tigre, a basilisco?—perguntou o morgado, sorrindo.</p> - -<p>—Vi... e tu tambem?</p> - -<p>—Esteve ainda agora comnosco. Eu queria que tu o ouvisses...</p> - -<p>—Para que?</p> - -<p>—Está revirado. Falla como um S. João, que vem do deserto ao povoado -prégar o <em>agite penitentiam</em>! Confessou os desvarios que o -infelicitaram, e fugiu de nós sem nos dar tempo a consolal-o.</p> - -<p>—Faltava-lhe a hypocrisia! atalhou Martinho.—Cerrou a mêda agora, não -tem duvida. O fecho da abobada é a hypocrisia!</p> - -<p>—Que inexoravel e cru homem tu és, primo!</p> - -<p>—Sou, sou flagello inquebrantavel de infames—bradou Martinho com -espanto dos transeuntes.</p> - -<p>—Está bom... disse brandamente Beatriz. Não questionem... Meu pae, -perdoe a quem é infeliz,<span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span> e despreze-o. Vamos embora d’aqui... As -minhas compras estão feitas. Vamos para Palmeira, Nicoláo.</p> - -<p>—Pois não has de ir á noite ao theatro, filha?</p> - -<p>—Não... se me amas, partamos já.</p> - -<p>Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao -sogro:</p> - -<p>—Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer -que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de -teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra -que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras -com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades. -Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me -insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que -eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e -parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por -tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não -receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os, -quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha.</p> - -<p>Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre -as mãos, soltando estas gementes palavras:</p> - -<p>—Meu Deus, meu Deus!</p> - -<p>—Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido.</p> - -<p>Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido -inclinado á face d’elle.</p> - -<p>—Que é?! disse ella agitada.</p> - -<p>—Não sei...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span></p> - -<p>—Vão, e adeus!—murmurou Martinho, erguendo-se com energia.</p> - -<p>—Ficas em Villa Real?</p> - -<p>—Fico: tenho ahi uns cavallos em ajuste. Só poderei ir ámanhã ou -depois.</p> - -<p>—Queres que esperemos, Beatriz? perguntou Nicoláo.</p> - -<p>—Esperemos...—respondeu ella desopprimida da abafação do susto.</p> - -<p>—Não, que eu vou direito a Chaves—contrariou Martinho Xavier.</p> - -<p>—E quando voltas a Palmeira?</p> - -<p>—Quando poder.</p> - -<p>Saiu adeante d’elles, apertando convulsivamente a mão da filha, quando -se ella inclinou a beijar a d’elle.</p> - -<p>—É mysterioso teu pae!...—ponderou Nicoláo.</p> - -<p>—Pois que te disse?</p> - -<p>—Ouviu-me umas observações duras de se ouvirem, e chorou, como -viste... E não póde deixar de ser o que eu já suppuz... Teu pae é -ludibrio de alguma intriga a teu respeito.</p> - -<p>—Intriga?</p> - -<p>—Sim... Levaram-n’o a uma terrivel suspeita... de ti e de Raphael. -Faz mal em se não declarar. A injuria reflecte-se em mim... Eu queria -mostrar-lhe a elle, ainda mais que ao mundo, a tua innocencia.</p> - -<p>—Pois alguem me considera culpada?!—atalhou extremamente resentida -Beatriz.</p> - -<p>—Não digo tanto; mas com capacidade para culpada.</p> - -<p>—Quem?... Eu mereço isto!... Pois tu podes presumir?...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p> - -<p>—Se eu podesse presumir, não t’o diria, minha querida prima. -Esperava... Facilitava-te as occasiões; e, quando t’o dissesse, a tua -bocca não poderia defender-se. Comprehendeste-me bem?</p> - -<p>—O ar com que me estás fallando, Nicoláo...</p> - -<p>—É a primeira vez que reparas n’este ar. Deus permittirá que seja a -ultima.</p> - -<p>—Desconfias da minha lealdade, Nicoláo?</p> - -<p>—Já respondi, Beatriz. Não desconfio. A tua agonia de morte começaria -desde a desconfiança.</p> - -<p>Repostos na bonançosa vida de Palmeira, ataram o fio quebrado das -serenas alegrias, que irradiavam á volta do berço da creancinha. -Bonançosa vida, escrevi eu, porque os exteriores condiziam com a -palavra; todavia, no recondito d’alma de Beatriz, estava o aspide -roedor, que lhe torvava os sonhos de infernaes alegrias, ou horridas -visualidades. Abria os olhos molhados de culposas lagrimas, e -seccava-as ao bafejo do filhinho. Seguiam-se no dia as intermittencias -da noite. Uma hora, relampagueava-lhe a esperança uma luz vividissima, -ao clarão da qual divisava a imagem de Raphael. Outra hora sentia -atravez do seio uma vibração glacial, como se a larga lamina de ferro -lhe abrisse bulhões de sangue: n’esta visão infanda era a imagem do -marido que lhe avultava descomposta pela vertigem do odio. Refugiava-se -ainda sob a egide do anjo, a creancinha, que inclinava o rosto á face -d’ella, e balbuciava a primeira syllaba das suas reminiscencias do ceu.</p> - -<p>Martinho Xavier lá estava em Chaves. Decorreram dois mezes, e elle -não voltou á Palmeira. Foram visital-o e levar-lhe o neto e afilhado. -Acharam-n’o quebrantado com o pezo de mais dez annos.<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span> Encaneceram-lhe -os cabellos, arrugaram-se-lhe as faces, amortiçou-se a luz dos -olhos, arados pela bafagem ardente, que não tinha respiradouro. Para -elle a perdição da filha era um anathema indeclinavel. Entrou-se -do convencimento de ser ella o instrumento providencial do castigo -de Nicoláo de Mesquita. A deshonra de Ernesto Froment havia de ser -vingada. A sua amada Beatriz, a innocente das perversidades do marido, -obedecia ao sobre-humano impulso da indefectivel justiça. Minguava-lhe -illustração para combater o prejuizo. Accusava de injusta a Providencia -quando lhe genuflectia, e subpunha a cabeça de sua filha a uma absurda -fulminação.</p> - -<p>Á força de apprehender n’isto, desordenou-se-lhe a intelligencia por -uns paradoxos de fatalismo, que implicavam á religiosidade do seu -caracter.</p> - -<p>Encarava de fito na filha e chorava. Affagava o neto, e perguntava-lhe:</p> - -<p>—Entendes tu a minha dôr, anjo do ceu?</p> - -<p>Descaía um severo olhar sobre Nicoláo, e dizia-lhe:</p> - -<p>—Não devias casar nunca, sem saldar contas com a Providencia.</p> - -<p>O marido de Beatriz suspeitou da inteireza intellectual do sogro. Era -para isso. Quiz arrancal-o da solidão do seu quarto, e trazel-o para -Palmeira. Foi invencivel a resistencia muda do precoce velho, que -apenas contava quarenta e oito annos. Quiz Beatriz ficar em Chaves, e o -pae rejeitou o alvitre, como desnecessario á sua morte.</p> - -<p>Voltaram a Palmeira.</p> - -<p>Parece que lhes soavam n’alma de ambos as medonhas alvoradas de um dia -de infinita calamidade.<span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span> O ceu era o mesmo, a creancinha brincava entre -elles com as flôres inverniças; ao passo que os paes, sem se revelarem, -olhavam sobre o menino com os olhos lagrimosos.</p> - -<p>—Porque choramos nós?—perguntava Nicoláo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XIII">XIII</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Chegou</span> ao Vidago a noticia do apalavrado casamento de Raphael Garção -com a morgada de Santo Aleixo, bella e rica, de primeira stirpe; -transmontana, e costumes irreprehensiveis.</p> - -<p>—Aqui tens, Beatriz, disse Nicoláo, como teu pae se illudiu com o -descredito de Raphael. Quando as cem trombetas atroam a provincia a -divulgar escandalos, offerece-se ao generalissimo da desmoralisação um -casamento de primeira ordem!...</p> - -<p>—É verdade... admira... ella é bonita...—gaguejou Beatriz, -humedecendo os labios calcinados do fogo da alma.</p> - -<p>—Será elle tão desastrado que regeite a proposta? É de esperar que -não. Aquelles ares de reforma, que lhe vimos, não podem ser hypocrisia, -como<span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span> teu pae diz. Hypocrisia comnosco porque e para que?</p> - -<p>—Sim... para que!...</p> - -<p>—Vou escrever-lhe a felicital-o, e instigal-o a casar-se...</p> - -<p>—Não faças isso, atalhou Beatriz. Sabes tu se elles serão felizes? -Deixa-os lá. Se elle um dia se arrepender, escusa de lembrar-se de que -o aconselhaste.</p> - -<p>—Pensas com acerto, mas sempre quero saber d’elle mesmo se é certo o -projecto.</p> - -<p>—Isso lá...</p> - -<p>—Vejo-te inclinada a julgar de teu primo desfavoravelmente, Beatriz!</p> - -<p>—Não... eu... o que entendo é que... a mulher casada com o primo -Raphael não ha de ser feliz... porque... é muito cedo para achar prazer -á vida tranquilla, que tem sido o que tu sabes em tão pouco tempo... E -pode ser que eu me engane... Oxalá...</p> - -<p>Escreveu Nicoláo ao morgado de Fayões. Ao outro dia, mostrou a resposta -a Beatriz, exclamando:</p> - -<p>—O rapaz passou de uma demencia vulgar a uma demencia exquisita! -Ha seis mezes era um libertino. Agora não se sabe o que é. Vê lá a -resposta de Raphael.</p> - -<p>Leu Beatriz:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«Meu presado amigo e excellentissimo primo.</p> - -<p>«Agradeço os sinceros emboras que se digna enviar-me; lamento, porém, -que se baldassem os seus bons desejos emquanto ao meu casamento: As -raias da minha doudice não vão tão longe. Todo o tolo tem as suas -demarcações.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span></p> - -<p>«É certo que pessoas da familia de Santo Aleixo propozeram a meu pae -o enlace a que vossa excellencia allude. Meu pae consultou-me, e eu -rejeitei. Mas, porque, a rejeição divulgada seria offensiva ao orgulho -dos visigodos de Santo Aleixo, resolveu a discrição que se deixasse -correr o boato da minha annuencia, até esquecer a proposta. Esta é que -é a verdade.</p> - -<p>«Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei, -porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei -ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que -ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade, -saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração, -sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o -restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para -os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?!</p> - -<p>«Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas -curta.</p> - -<p>«Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus -respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma -inalteravel amizade. Sou, etc.»</p> -</div> - -<p>—Que te parece o espiritualismo do rapaz? perguntou Nicoláo á esposa -que disfarçava o tremor das mãos.</p> - -<p>—Que singularidade!... tartamudeou Beatriz.</p> - -<p>—Estou em crêr que lhe extrairam o sangue máo que elle tinha, com os -grãos de chumbo das costas! tornou Nicoláo sorrindo. Hei de mandar esta -carta a teu pae.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span></p> - -<p>—Para que?! interrompeu ella com ancia. Tu já sabes que meu pae lhe -chamou impostor...</p> - -<p>—Por isso mesmo: quero convencel-o.</p> - -<p>—Vaes inquietal-o, primo... Que nos importa a nós o juizo que forma -o pae? Raphael não solicita amizade d’elle... para que has de tu -solicital-a!</p> - -<p>—Tens razão, menina. Farto de disputações estou eu.</p> - -<p>Facilmente salta ao espirito do leitor a repugnancia de Beatriz. Bem -lembrada estava ella da carta surpreendida pelo pae. As ultimas linhas -de Raphael eram a resposta. Martinho Xavier se as lesse, saltaria -do leito, e correria furioso ao Vidago para esconjurar a procella -sobranceira.</p> - -<p>Nicoláo, como quem se diverte, replicou em longa carta, recheiada de -jocosidades, ácerca do sonho e da reserva do coração para as nupcias -celestiaes. Gracejava a respeito do ceu, e de muitas outras figurações, -que os padres e os amantes inventam, no intuito de irem apanhando o -melhor que podem as bellas coisas da terra. A escrever, Nicoláo de -Mesquita remoçava aos espiritos dos vinte annos, com seus laivos de -facecia um tanto cynica.</p> - -<p>Leu esta carta a Beatriz, e viu que lhe desagradava.</p> - -<p>—Em parte não a entendo—disse ella—bem sabes que eu sei quasi nada, -e tu empregas ahi palavras que eu não conheço; mas parece-me que tu -não sentes o que dizes, quando fazes zombaria do ceu e dos padres para -escarnecer a tal mulher do sonho...</p> - -<p>—Pois de certo, Beatriz, redarguiu o marido ingenuamente, eu escrevo -isto como brincadeira de nenhum peso no animo de Raphael. A minha -ideia<span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span> é o passatempo de uma correspondencia que deve ser preciosa por -parte de um rapaz de espirito, perdido nas supremas regiões do bello.</p> - -<p>—Então sim... compreendo agora que...</p> - -<p>Se ella continuasse em voz alta a idéa, diria: <em>que é este um meio -honesto de eu ter semanalmente uma carta indirecta de Raphael</em>. -Assim foi.</p> - -<p>Ao fim de dois mezes, Nicoláo de Mesquita possuia um interessante -epistolario, que o recreava infinitamente. A remontada poesia de -Raphael denotava um espirito igualmente apaixonado que opulento dos -atavios do mais selecto romancista. A erudição tambem não lhe era -esquiva: marchetava as suas cartas de sentenças, hauridas de prosadores -e lyricos que melhor trataram os theoremas do espiritualismo.</p> - -<p>Beatriz estava contente. A occultas do marido, relia, decifrava, e -illucidava as phrases obscuras. Sobejava-lhe agudeza de coração para -adivinhar até as citações francezas.</p> - -<p>Isto durou assim n’este remançoso contentamento conjugal, até que -Martinho Xavier inesperadamente appareceu em Palmeira.</p> - -<p>Antes de vêr a filha, e sem consentir que o lacaio recolhesse os -cavallos, chamou o genro ao bosque do jardim, e disse-lhe:</p> - -<p>—Tens tido uma correspondencia de dois mezes com Raphael.</p> - -<p>—Tenho.</p> - -<p>—Com que fim?</p> - -<p>—Nenhum fim, um divertimento... coisa de nenhuma significação.</p> - -<p>—Peço-te que me mostres as cartas de Raphael.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span></p> - -<p>—Immediatamente: sobe, que a leitura é demorada.</p> - -<p>—Não subo: espero aqui.</p> - -<p>—Os cavallos ficam no pateo?!</p> - -<p>—Ficam: não me demoro.</p> - -<p>—E não vens vêr tua filha?</p> - -<p>—Ainda não; traz-me as cartas.</p> - -<p>Beatriz tremeu e descorou, quando viu Nicoláo tirar da papeleira o -masso das cartas.</p> - -<p>—Que é?! perguntou ella agitada.</p> - -<p>—Que ha de ser?... a demencia de teu pae... Quer vêr as cartas.</p> - -<p>—Disseste-lhe...</p> - -<p>—Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi elle que m’as pediu... -Affliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz!</p> - -<p>Assim que o marido saiu, tomou o filho nos braços, e correu os salões -da casa, sem atinar com algum intento.</p> - -<p>Martinho Xavier leu vagarosamente as cartas, pedindo a traducção dos -dizeres em francez.</p> - -<p>Acabada a leitura exclamou:</p> - -<p>—Este homem é um infame!</p> - -<p>—Porque?</p> - -<p>—Porque estas cartas são uma cilada á tua honra e á minha, e á honra -de minha filha.</p> - -<p>—Explica-te, primo Xavier! acudiu com arrebatamento Nicoláo.</p> - -<p>—Expliquei-me de mais ao marido de minha filha... Agora... agora, -Nicoláo de Mesquita, lavei as mãos! Arranquei da consciencia o ultimo -espinho. Fiz o que pude, disse o que podia dizer. Faz o que a tua -dignidade te ordenar.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span></p> - -<p>Ia retirar-se; mas o marido de Beatriz susteve-o, exclamando:</p> - -<p>—Has de repetir-me essas palavras em presença de minha mulher.</p> - -<p>—Não! não!—exclamou o velho movido a lagrimas—Não! que eu matal-a-ia -se ella ousasse injuriar esta dignidade de pae que a defende! Tua -mulher está sem macula na face, Nicoláo, pelos ossos de meu pae t’o -juro! Mas perante mim, se ella ousar mentir-te, o braço de pae vingará -a tua honra.</p> - -<p>Saiu impetuosamente, e saltou á sélla com o vigor frenetico dos vinte -annos.</p> - -<p>O morgado estacou. Atormentava-o um dilemma cruelissimo: era sua mulher -criminosa, ou seu sogro mentecapto?</p> - -<p>Subiu ao quarto de Beatriz: encontrou-a com o filho no collo, e o rosto -purpureado da escandecencia das lagrimas mal enxutas. Contemplou-a -silencioso, e ella não pôde supportar os coriscos dos olhos d’elle.</p> - -<p>—Que segredo da tua deshonra tem teu pae, Beatriz!?—perguntou elle -com terrivel placidez.</p> - -<p>—Da minha deshonra? nenhum! Eu nunca trahi os meus deveres...</p> - -<p>—Não é sómente a deshonestidade a quebra dos deveres. Pergunto eu que -ha entre ti e Raphael Garção?</p> - -<p>—Nada, absolutamente nada existe. Morto veja eu n’este instante o -filhinho em meus braços, se eu te minto!</p> - -<p>Nicoláo recordou mentalmente as palavras de Martinho Xavier: <em>Tua -mulher está sem macula na face; pelos ossos de teu pae t’o juro</em>. -Refrigerou-se-lhe o sangue. O juramento da esposa, sobre a vida do<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span> -filho, podia muito com elle. Saiu a passo lento do quarto; fechou-se no -seu gabinete, e repassou detidamente as cartas de Raphael Garção.</p> - -<p>Julgal-o-hieis desencavernado do antro de Trophonius, quando saiu do -quarto. Era uma amargura de semblante em que facil se prevê que nunca -mais se ha de abrir um riso. Nicoláo vira tudo, adivinhára tudo a um -clarão do inferno, e tambem vira a essa luz o vulto de Ernesto Froment. -Porém, o que elle vira e adivinhára era pouco para considerar-se tão -punido quanto offensor. Via o fundo do abysmo; mas via-o de alto. Sua -mulher era amada; mas o amador esperava galardoar-se no ceu. Isto, se -não consola, offende medianamente um marido. Era ainda incerto que ella -o amasse; era ainda perdoavel que ella o tivesse amado em solteira; -seria até possivel e quasi desculpavel que ella lhe promettesse -esposal-o na bem-aventurança. Meditou estas e outras coisas entre as -arvores, e voltou ao gabinete a relêr as cartas. Recordou os relanços -em que sua mulher fizera especial reparo, quando elle as lia. Notou, -combinou, inferiu, e confortou-se com as noventa e nove probabilidades -da pureza de sua esposa, salvando o espirito d’esta conclusão -purificante.</p> - -<p>Voltou ao quarto de Beatriz, e disse-lhe com brandura, mas torvado o -aspeito:</p> - -<p>—Mataste a minha felicidade... e a tua. D’hora ávante seremos dois -desgraçados que se contemplam. Vives, porque a tua honestidade ainda -não está morta. Foi a alma que peccou; convém que a alma soffra. Quando -os corpos estão manchados, então é honra espedaçal-os. É occasião de te -contar que, ha cento e tantos annos, houve n’esta casa<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span> uma adultera. -Deitou-se uma noite tranquillamente ao lado do marido, e foi ao outro -dia tirada do leito para ser amortalhada. As cinzas d’ella estão -alli na capella no jazigo da esquerda. Não se recolheu ainda áquella -sepultura nenhum cadaver. Eu quizera que não fosses tu a companheira -dos ossos da unica adultera d’esta familia em quinhentos annos sabidos.</p> - -<p>—Mas eu estou innocente, meu Deus!—exclamou Beatriz, tirando pelas -madeixas com tresvariada angustia.</p> - -<p>—Bem sei—disse soturnamente o marido.</p> - -<p>—Pois, se sabes, porque me insultas?</p> - -<p>—Eu conversei comtigo, Beatriz: os lacaios é que insultam. Meu -terceiro avô não me consta que insultasse a minha terceira avó, que -está alli no jazigo do lado esquerdo.</p> - -<p>—Pois bem!... mata-me e mata-me já, que eu do fundo de minha alma te -abomino, e perdôo. Esta creança te amaldiçoará em meu nome.</p> - -<p>Era sublime o exaspero de Beatriz, com o filho nos braços, -contorcendo-se em altos gritos. Nicoláo tirou-lhe a creança, apertou-a -ao seio, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e exclamou:</p> - -<p>—Tu não me amaldiçoarás, meu filho!... Porque tu és meu filho, és, -sinto-te entranhado em meu coração!...</p> - -<p>D’ahi a horas, o morgado ordenava aos seus criados que preparassem as -liteiras para jornada longa.</p> - -<p>Dois dias depois, os fidalgos de Palmeira sairam caminho de Lisboa. E -Raphael Garção recebia da mão de uma mulher entrajada de mendiga estas -linhas:</p> - -<p>«Vamos para Lisboa. Meu pae denunciou tudo.<span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span> Sou uma martyr. Não me -esqueças, anjo da minha vida. Eu perdoei-te, e amo-te mais que nunca. -Maldito seja este homem, que me ameaça com a morte!... No ceu, no ceu -nos veremos, meu R. Adeus. Sei que não torno a ver-te.»</p> - -<p>Raphael Garção, á terceira leitura, disse entre si:</p> - -<p>—Verás!</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XIV">XIV</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_a3.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Appareceu</span> em Chaves Raphael Garção despedindo-se de viagem para França. -Deixou um bilhete a seu tio Martinho Xavier, mostrando-se pesaroso -de não poder abraçal-o. Notou no seu <i lang="en" xml:lang="en">remember</i> dezenas de -encommendas das senhoras flavienses, <em>novidades</em> de Pariz, que -ellas haviam de estreiar nas bodas da morgada de Santo Aleixo. O boato -corrente era que o morgado de Fayões ia comprar a Pariz o presente de -noivado, e encravar os brilhantes e adereços de sua mãe em feitios -modernos.</p> - -<p>Saiu Raphael por Hespanha, e entrou em Portugal pela Extremadura. -Chegou a Lisboa, e informou-se da residencia de Ricardo de Almeida. -Margarida Froment é quem dava nome ao transmontano em Lisboa. No -<i>hotel de Italia</i>, na rua de S.<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span> Francisco, onde Raphael se -alojara recatadamente hospedava-se um diplomata francez, conhecido da -sua compatriota.</p> - -<p>Ao outro dia, o morgado de Fayões escreveu a Ricardo de Almeida, -marginando a carta com a recommendação de <em>reserva</em>. Chamava ao -<i>hotel de Italia</i> o seu primo e amigo. Tudo primos! Pode chamar-se -o romance dos primos esta novella!</p> - -<p>—Que fazes em Lisboa?—perguntou o fidalgo de Aguiar.</p> - -<p>—Vim aqui para esconder-me.</p> - -<p>—Vens fugido?</p> - -<p>—Não, homem: venho na piugada de uma mulher que me fugiu com a alma, e -o marido com ella.</p> - -<p>—Casada!... Agouro-te desgraça!...—atalhou gravemente Ricardo.</p> - -<p>—Ah! tu estás assim?!... Onde tens tu vivido, rapaz? e com quem tens -vivido, velhaco?</p> - -<p>—Larga resposta me pedes, e mais tarde t’a darei. Vamos ao ponto. É -conhecida a mulher?</p> - -<p>—É a prima Beatriz Vahia.</p> - -<p>—A mulher de Nicoláo!... Então o homem está a contas com a Providencia -mais cedo do que eu esperava!...</p> - -<p>—A Providencia não entra n’isto, homem!... Tu sabias que nos amavamos -eu e ella?</p> - -<p>—Parecia que sim...</p> - -<p>—O tio Martinho casou-a...</p> - -<p>—Porque tu a deixaste casar: logo, não amavas a prima Beatriz.</p> - -<p>—Olha se podes ouvir-me sem grande dispendio das formulas do -raciocinio: esse «logo» cheira-me a lente de prima! Bem sabes que perdi -dois annos de Coimbra, porque não pude fazer exame de logica.<span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span> Será -moda em Lisboa fallar-se de mulheres em syllogismo? Quando eu vinha -por aqui passar ha cinco annos, não havia logica para esta casta de -gente!... Saberás, pois, primo Almeida, que Beatriz está em Lisboa, e -eu quero que me saibas onde está Beatriz. És capaz?</p> - -<p>—Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é -coisa notoria a chegada do morgado de Palmeira!</p> - -<p>—Ora não faças a terra maior do que ella é;—replicou Raphael.—Eu -cheguei hontem á noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia -onde morava madame Margarida Froment.</p> - -<p>—É que as francezas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os -morgados de Traz-os-Montes.</p> - -<p>—De accordo; mas achas difficil saber-se onde está o Mesquita?</p> - -<p>Se não se hospedasse em casa de parentes, é facil pela relação policial -das hospedarias.</p> - -<p>—Cuida-me disso, e fallemos agora de ti. És feliz, rapaz?</p> - -<p>—Sou.</p> - -<p>—Dois annos! uma mulher dois annos!... Tu achaste a coisa que os -poetas andam a sonhar ha seis mil annos! Dois annos de felicidade com -a mesmissima e identica creatura!... Que segredos tem ella? Belleza -offuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma -coisa, homem!... Parece-me que te vejo no castello d’Aguiar a fazer a -côrte por um oculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés -no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste!</p> - -<p>—Ainda não; mas fiz coisa peior: desbaratei o melhor da minha casa.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span></p> - -<p>—Já sei: isso consta ha muito por lá... As tias Almeidas e o capellão -choram por toda a parte os teus desperdicios. Então estás pobre? queres -dinheiro?</p> - -<p>—Pobre ainda não: tenho trem, e um palacete, e <i lang="fr" xml:lang="fr">soirée</i> ás terças -feiras.</p> - -<p>—Vives sardanapalamente! E, por sobre tudo isso, a franceza, que tu -amas! Devéras amas? falla a verdade.</p> - -<p>—Amo, porque me não merece confiança nenhuma.</p> - -<p>—Esse <em>porque</em> é especie nova para mim! Oh diabo! eu costumo -desprezar as mulheres pela razão por que tu as amas!... Isso não é -amor, dou-te a minha palavra de homem que leu Byron, Balzac, Henri -Beile, e todos os praxistas <i lang="la" xml:lang="la">ad hoc</i>.</p> - -<p>—Então que é?</p> - -<p>—É uma peçonha composta de uma grande dóse de orgulho, e outra grande -dóse de tolice. Perdoarás: fallemos rudemente como lá nas nossas -montanhas. Ella atraiçoou-te?</p> - -<p>—Não...</p> - -<p>—Que tu saibas...</p> - -<p>—Sei que não; mas tem um ideal.</p> - -<p>—A boas horas! Cuidei que estas creaturas não consumiam d’isso, e -andavam satisfeitas com vestidos e diamantes e carruagem! De mais a -mais, a despeza do ideal!</p> - -<p>—Tu rebaixas muito a mulher, primo Almeida!</p> - -<p>—Eu!?... tu é que m’a puzeste debaixo dos pés, dizendo-me que ella te -não merecia confiança.</p> - -<p>—Mas posso ser injusto.</p> - -<p>—Ah! então diz-me isso. O certo é que a zelas muito porque a amas -desmarcadamente, eim!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p> - -<p>—Suspeito que ella, se Nicoláo de Mesquita a requestasse, me deixaria.</p> - -<p>—Logo... (cá vem a logica, se permittes uma excepção) logo: a mulher -não tem vergonha.</p> - -<p>—É barbara a conclusão! Tu ignoras o passado d’esta senhora...</p> - -<p>—Sei tudo: contou-me tudo o Mesquita, no mesmo dia em que tu saiste da -Foz com ella para Lisboa.</p> - -<p>—E elle ainda a ama?</p> - -<p>—N’aquelle dia estava cheio de amor! Tocava as raias do delirio e da -irrisão. Aturei-o duas horas e levei-o a casa.</p> - -<p>—E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo.</p> - -<p>—Depois, esqueceu-a, e fez-se amantissimo da mulher. Foi uma desgraça -para nós ambos a reconsideração.</p> - -<p>—Porquê?</p> - -<p>—Porque estavas livre da franceza tu, e eu amaria desassombradamente a -prima Beatriz.</p> - -<p>—Virá elle a Lisboa com intenções?</p> - -<p>—Não sei, mas parece-me que ninguem vem conquistar, ou reconquistar -uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para -ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava -as reliquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus creditos -para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu genio. A tua -propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são -os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher -porção de sentimento, que na vida honesta, e á sombra das suas arvores -gigantes, te daria<span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span> mananciaes de prazeres. Se eu tivesse a tua alma, -bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis mezes -a trabalhar na refundição da minha indole, e fiquei mais aleijado. -Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as á -natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar -dois annos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração -puro de uma esposa!</p> - -<p>—Sinceramente te digo que já pensei n’isso.</p> - -<p>—Ah? tu já pensaste n’isso? Então não amas a Margarida.</p> - -<p>—Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção, -retorquio sorrindo Ricardo.</p> - -<p>—Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavallo -que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde -a est’outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que -outra póde dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em -flagrante absurdo! Isto só o faz quem não póde fazer exame da arte -de raciocinar. Parabens, primo! Dás-me esperanças de te vêr sair -d’esta ingloria estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio. -Sae d’isto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por -descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros -sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma cousa importante. Estás -nos vinte e seis annos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas? -Nunca pensaste n’isto?</p> - -<p>—Já.</p> - -<p>—E que vês no teu futuro, quando hypothecares a ultima geira?</p> - -<p>—Vejo um par de excellentes pistolas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span></p> - -<p>—Essa visão é judiciosa, e não sei realmente desvanecer-t’a. Aqui é -que eu queria o egresso que te ensinou o cathecismo. O que eu posso -dizer-te, desprendido de toda a pretenção philosophica, é que tu és -um asno pyramidal, se continuas assim; e não haverá pyramides que -perpetuem a tua asneira, se te matas depois de teres assim vivido. -Depois do que, tenho a dizer-te que disponhas da minha casa como tua, e -vás saber onde mora a prima Beatriz.</p> - -<p>—Pois sim, e fallaremos depois—disse Ricardo de Almeida, e saiu com -animo agitado pelo impulso das phrases ora graves, ora picarescas, do -morgado de Fayões.</p> - -<p>Poucas horas depois, voltou o castellão de Aguiar noticiando que -Nicoláo de Mesquita se hospedára n’um hotel francez da rua dos -Romulares.</p> - -<p>—Obrigado, primo! Venceste a primeira batalha: agora seguem-se os -triumphos! exclamou Raphael.</p> - -<p>—Que tencionas fazer agora?</p> - -<p>—Vou mandar o meu criado alugar uma casa fronteira. O hotel francez -necessariamente está defronte de alguma casa.</p> - -<p>—Sem questão; mas se a casa tem inquilinos?</p> - -<p>—O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas.</p> - -<p>—Estás a mangar!...</p> - -<p>—Ninguem manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no -quinto, ou quarto andar do predio mora um empregado publico, que vae -rebater duas cedulas para pagar um semestre da casa, que alugou por -cincoenta mil réis. O meu criado offerece-lhe quarenta soberanos, e -diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas!» Antes das doze,<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> o -empregado publico saí com seis cadeiras e duas panellas, e eu entro com -esta ponderosa alfaia de um coração em chammas. Impugna lá se podes!</p> - -<p>—E depois?</p> - -<p>—Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janellas, e eu tenho -olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que magicos, que peregrinos -olhos tem! Deixo as omissões á tua discrição. E agora vai-te embora que -eu vou dar credenciaes ao criado. Á noite vou a tua casa.</p> - -<p>O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves -do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia -seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do signal.</p> - -<p>Fechou-se Raphael n’uma sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz -passar a noite com o primo Almeida.</p> - -<p>Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e -disse-lhe pouco depois:</p> - -<p>—Ricardo passou com vossa excellencia algumas horas do dia...</p> - -<p>—Não ha duvida, minha senhora.</p> - -<p>—Facilmente conheci que o senhor Garção exerce uma sinistra influencia -no animo de seu primo.</p> - -<p>—Porque, madame? Sinistra influencia!...</p> - -<p>—Certamente, que elle entrou em casa com uma linguagem nova.</p> - -<p>Raphael relanceou os olhos ao primo, e disse entre si: «Este homem será -mais inepto do que eu presumo?»</p> - -<p>E, replicando a Margarida, disse:</p> - -<p>—Bem vê, minha senhora, que a minha idade<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> não authorisa a dirigir -o espirito de ninguem, particularmente de uma pessoa, que vossa -excellencia domina com absoluto imperio.</p> - -<p>—Agradecida! tornou ella com ironico sorriso.</p> - -<p>—Eu não previa tão aspero acolhimento d’esta dama! disse Raphael ao -primo. Que significa este desastre?</p> - -<p>—Imaginação d’esta senhora! respondeu Ricardo.</p> - -<p>—Imaginação e dignidade! acudiu em tom grave a franceza.</p> - -<p>Raphael lembrou-se do verso de Molière, que já occorreu ao leitor e -sorriu-se para dentro.</p> - -<p>Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a -aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o marmore da jardineira.</p> - -<p>Raphael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando -com uma camelia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse -ao hospede com requebro maviosissimo de voz:</p> - -<p>—Vossa excellencia veiu a Lisboa buscar seu primo?</p> - -<p>—Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh’o, se elle estivesse -longe de vossa excellencia.</p> - -<p>—O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh’a, porque as -mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se -vista de palavras usadas nos salões.</p> - -<p>—Oh! minha senhora! acudiu Raphael, balbuciando.</p> - -<p>Entrou um escudeiro annunciando uns sujeitos da primeira plana -genealogica.</p> - -<p>Margarida pôde ainda accrescentar a meia voz, em quanto Ricardo saiu ao -encontro dos cavalheiros:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span></p> - -<p>—Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem.</p> - -<p>—Isso que prova, minha senhora? respondeu o morgado de Fayões.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XV">XV</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_d.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">De</span> relance, disse Raphael a Ricardo que ia sair para esquivar-se a -apresentações. E ajuntou:</p> - -<p>—Estrago tudo, se me faço conhecido em Lisboa. Como hoje não é -terça-feira, cuidei que estarias só. Adeus. Faz os meus cumprimentos á -tua amiga. E apparece.</p> - -<p>No decurso do seguinte dia, o criado de Raphael comprou a mobilia de -um quarto, e recolheu-a, ao fechar-se a noite, na casa fronteira ao -hotel. Antemanhã, prevenido com chave de trinco, entrou Raphael, e -pregou cortinas na janella destinada a observatorio. Instruiu o criado -sobre cousas do estomago, e fechou-se a continuar a carta que daria um -opusculo de cincoenta paginas em oitavo francez. Era a historia do seu -amor desde os quinze<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> annos até áquella hora de ineffavel amargura. Ás -nove horas levantou mão de sobre a setima pagina do sexto caderno, e -foi encostar-se á vidraça encortinada. Esperou impacientado uma hora. -Todas as janellas estavam abertas, e ao maior numero tinham chegado -mulheres e homens. Nicoláo era madrugador e Beatriz tambem; mas nem a -sombra lhes vira no interior dos quartos. Ás dez horas assomou a uma -janella uma criada com trajes da provincia. Suspeitou o moço que fosse -a ama do filho de Beatriz, e animou-se. D’ahi a momentos chegou Nicoláo -á beira da ama, e affagou o menino dando-lhe para brincar as borlas do -chambre.</p> - -<p>Saiu a ama e ficou o morgado da Palmeira encaracolando as guias do -bigode, e baforando fumaças do charuto.</p> - -<p>Fitou-lhe Raphael o binoculo por entre o resquicio das cortinas -justapostas ás vidraças; e viu, no interior da saleta ou ante-camara, -Beatriz reclinada nas almofadas de um canapé, e a ama sentada no tapete -com o menino, que brincava com os longos anneis do cabello da mãe.</p> - -<p>Nicoláo volveu o rosto para dentro, disse breves palavras, e voltou a -debruçar-se no peitoril da janella. Depois, retirou-se, ficando Beatriz -no canapé. Passado um quarto d’hora, saiu o morgado á saleta de chapéu, -vestindo as luvas; e apertando a mão da mulher, inclinou-se a beijar o -filho e saiu.</p> - -<p>Beatriz levantou-se da postura inclinada, e sentou-se. A ama saiu á -janella mostrando ao menino um papagaio da casa proxima. A creança dava -valor aos bracinhos, e festejava com tregeitos e risos as cascalhadas -do passaro. Beatriz veiu á janella gosar da alegria do filho. Raphael -estremeceu: era outra<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> mulher sua prima; mas tambem formosa a outra -mulher figurada.</p> - -<p>Tinha sido redonda e purpurina de rosto; agora emaciava-lhe a palidez -um rosto oval. Alvejavam-lhe agora os labios, que o escarlate do rubi -enrubescera. A transparencia das cartilagens do nariz era tal que se -mostrava ao alcance do oculo. Posto que melindrosa de compleição, havia -sido abundante de carnes, ou os ossos tão delicados que se escondiam -sob uma subtil epiderme. Raphael descobrira-lhe no despeitorado do -roupão de velludo azul a magreza do pescoço e as saliencias das -claviculas. Não podia desfitar as lentes d’aquella encantadora mulher, -que todavia já não era a sua prima Beatriz.</p> - -<p>Saiu da janella a ama, e fitou a senhora, enlevada n’uns sons de piano, -que lhe davam rebates de saudade de alguma bella e triste memoria do -seu passado.</p> - -<p>Raphael depoz o oculo, reflectiu um instante, e correu a vidraça com -estrondo. Beatriz relançou a vista á janella que se abrira; ergueu-se -de salto, do peitoril da sua; admirou anceada o homem que lhe sorria; -levantou machinalmente as mãos em postura supplicante, e desprendeu um -ai estridente.</p> - -<p>Raphael fez pé atraz, logo que viu a orla do vestido da ama, que vinha -correndo. Beatriz affastou-se ao interior da saleta, e caiu no canapé. -Pouco depois, levantou-se, contemplou fixamente a janella fronteira, -entreviu Raphael que se approximava da primeira luz, e sorriu. A ama -atravessou a ante-camara, e Beatriz recolheu-se ao interior da casa -onde devia de estar a alcova.</p> - -<p>Posto que a gentil visinha não fosse exactamente<span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span> a linda Beatriz, o -morgado de Fayões sentia-se apaixonado d’ella, e radioso de jubilo.</p> - -<p>Esperava-o o almoço, foi para a mesa, e lembrou-se das palavras de -Nicoláo de Mesquita: «coração a um lado; estomago a outro». Almoçou -como almoça toda a gente que se levanta feliz, e como os infelizes que -não jantaram no dia anterior.</p> - -<p>—Não saias, disse elle ao criado.</p> - -<p>Ao meio dia, voltou Beatriz á janella: vestira-se a primor de graça -e simplicidade. Os caracoes ondeavam-lhe nas espaduas estremecidas -pela viração do mar. As rosas encarnaram-se nas faces. Os labios -coloriram-se dos reflexos do rosto. A prima Beatriz estava passando por -mais milagrosa transformação que a primeira.</p> - -<p>Assim que viu Raphael, retraiu-se ao meio da saleta, e fez-lhe um gesto -de espanto e uma pergunta por acenos. O primo respondeu, mostrando-lhe -uma carta, e chamando ao seu lado o criado conhecido de Beatriz. -Ella mostrou irresolução temerosa, e o criado, brevemente instruido, -atravessou a rua e subiu ao terceiro andar do hotel.</p> - -<p>A esposa de Nicoláo chamou a ama á janella, e disse-lhe:</p> - -<p>—Entretém o menino com o papagaio.</p> - -<p>Depois foi ao mainel da escada correspondente ao terceiro andar, -recebeu a carta, e disse ao criado:</p> - -<p>—Ámanhã á mesma hora, respondo. O primo que tenha muita cautella... Eu -não volto hoje á janella, senão á tarde.</p> - -<p>Raphael desceu as vidraças e cortinas. Mandou comprar os ultimos -romances francezes, e saboreou as horas na leitura e na meditação, com -intervallos de espionagem.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span></p> - -<p>Viu de uma vez Nicoláo de Mesquita passeando na saleta, e gesticulando -com os braços desabridamente.</p> - -<p>Era um dialogo violento com sua mulher...</p> - -<p>Assim que entrou fez reparo no ataviamento de Beatriz, e disse:</p> - -<p>—Maravilha! Desde que estás em Lisboa, é a primeira vez que te vestes -e penteias com esmero!</p> - -<p>—Não cuidei que se fazia notar uma coisa tão insignificante, primo! -objectou ella com amavel sombra.</p> - -<p>—Pois não! Nem pallida, nem quebrantada, um ar de excellente saude!</p> - -<p>—Parece que folgavas com vêr-me pallida! Estarás chorando a esperança -perdida de me veres brevemente morta?</p> - -<p>—Pelo contrario... respondeu ironico, folgo muito de te vêr tão -vivedoura...</p> - -<p>Um exquisito instincto impelliu á janella Nicoláo de Mesquita, e todas -as janellas lateraes e fronteiras foram mais ou menos examinadas.</p> - -<p>Beatriz entendeu a disfarçada analyse, e, olhando por sobre o hombro -d’elle, viu hermeticamente fechadas todas as janellas de Raphael.</p> - -<p>—Tive hoje carta de teu pae, disse o marido, com melhor phisionomia e -brandura de voz.</p> - -<p>—Como está elle?</p> - -<p>—Melhor. Diz que vem a Lisboa.</p> - -<p>—Oxalá...</p> - -<p>—Dá-me a noticia do proximo casamento de Raphael com a Angela de Santo -Aleixo.</p> - -<p>—Sim?...</p> - -<p>—É verdade.</p> - -<p>Nicoláo fixava de perto o semblante da prima, e<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span> satisfactoriamente -observava a quietação e a côr inalteravel da indifferença.</p> - -<p>—Raphael, continuou elle, foi a Pariz comprar as prendas do casamento.</p> - -<p>—Deve trazer-lhe coisas lindissimas! observou Beatriz com um sorriso -frivolo.</p> - -<p>—Vou jurar que elle não volta cá tão cedo. Pariz é o engodo, e o -tonico das almas estragadas. Quando elle achar o deleite que tem em -si aquelle bello inferno de Pariz, esquece a morgada de Santo Aleixo, -e acha em cada franceza feia uma mulher superior ás mais formosas de -Portugal.</p> - -<p>Beatriz magoou-se; não se magoaria, antes de lêr a carta de Raphael, em -que elle, indelicadamente, contava as scenas occorridas com Margarida -Froment, antes e depois do casamento de Nicoláo.</p> - -<p>O despeito respirou estas imprudentes expressões:</p> - -<p>—Bem sei; as francezas são muito amaveis; mas é triste que os amantes -das francezas sacrifiquem as mulheres que nasceram e viveram felizes e -amadas em Portugal.</p> - -<p>—Que quer dizer isso, prima? interrogou elle, avincando a fronte.</p> - -<p>—A consciencia que te responda.</p> - -<p>—Como sabes tu que...?</p> - -<p>Susteve-se, e murmurou com retrincado sorriso:</p> - -<p>—Bem sei... bem sei... O infame havia de preparar o terreno... Faremos -contas mais tarde...</p> - -<p>—Que contas? atalhou Beatriz, fingindo-se ultrajada pela suspeita.</p> - -<p>—As contas que se liquidam com os traidores!</p> - -<p>—E tu já as deste, primo? não deves nada?</p> - -<p>—Abstenha-se de interrogar-me, senhora! A perfidia...<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> não ousa tanto. -Abaixa a cabeça, e cala-se! Entendeu?</p> - -<p>—A perfidia!... teimou ella com azedume. A perfidia!... sempre a -palavra injuriosa!... As perfidias despresam-se, primo Nicoláo! Eu -tenho o patrimonio de minha mãe com que posso viver. Quando quizer -separemo-nos!</p> - -<p>—Póde ser... concluiu o marido, saindo da sala.</p> - -<p>Ao fim da tarde, Raphael escassamente divisou atravez da vidraça -Beatriz, que lhe fizera signal de não abrir a janella.</p> - -<p>O amor subtilisara-lhe a esperteza. Desconfiou que Nicoláo, alvorotado -pelo esmerado trajar d’aquelle dia, de qualquer angulo da rua a estaria -espionando. A suspeita era acertada. O criado de Raphael vira o morgado -da Palmeira, encoberto pelos cunhaes das casas esquinadas, a espreitar -as janellas do hotel.</p> - -<p>Á noite, Raphael Garção foi encerrar-se no seu quarto do <i>hotel de -Italia</i>, onde era conhecido pelo nome do seu criado, que tirára -passaporte em Hespanha. Raras vezes um espirito leviano prevê tão -miudamente as superveniencias nocivas ao bom exito de uma empreza! Cada -Fausto acareia as simpathias de um diabo invisivel, que o aconselha, -até á hora definitiva em que lhe toma conta da alma, se é que uma alma, -infernada por mulheres, póde servir de pasto aos griphos das alimarias -do reino escuro.</p> - -<p>Encontrou Raphael o primo Almeida, que o esperava sobremodo attribulado.</p> - -<p>—Que tens tu? perguntou o de Fayões. Foi a franceza que te deu tratos -de polé! Aposto!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span></p> - -<p>—Coisa peior.</p> - -<p>—Fugiu-te?!</p> - -<p>—Não: surprehendi na algibeira d’um criado uma carta para ella -do Mesquita. Facilmente se conhece que Margarida o auctorisou a -escrever-lhe, respondendo á primeira que recebeu. Apresentei a carta -á franceza, e ella, a infame, leu-a placidamente, e disse: «Sem -contradicção, esta carta é para mim.»</p> - -<p>—E tu mataste-a?</p> - -<p>—Zombas com a suprema desgraça, Raphael?</p> - -<p>—Não: congratulo-me com a suprema felicidade! Despediste-a?</p> - -<p>—Não... foi ella quem se despediu.</p> - -<p>—Oiro sobre azul. Então já lá vae!...</p> - -<p>—Teria ido, se me não dissesse isto: «Sou culpada; mas criminosa, não. -Respondi a um desventurado, que está pagando as dôres que eu recebo das -tuas mãos!»</p> - -<p>—Oh! acudiu Raphael com afflicção, que atrocissima lembrança! -Disseste-lhe que eu amava Beatriz!</p> - -<p>—Não.</p> - -<p>—Por tua honra?</p> - -<p>—Por minha honra.</p> - -<p>—Estava perdida a minha pobre prima! A franceza, por vingança ou por -interesse, accusava a mulher ao Mesquita... Seria uma fatalidade!...</p> - -<p>—Socega, que eu não lhe fallei em Nicoláo: era de interesse meu -occultar os dissabores do homem que ella ainda ama. O que Margarida não -póde perdoar é ser elle feliz.</p> - -<p>—O caso é que ella ficou...—volveu Raphael.</p> - -<p>—Pedi-lhe eu que ficasse, emquanto o coração a não impellisse a outro -homem.</p> - -<p>—E ella ficou? Não sei qual dos dois é mais admiravel!<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> Vocês devem -ter um pelo outro a maior desconsideração!... Está claro que te não -podes arrancar da mulher...</p> - -<p>—Eu não sei o que está claro.—disse Ricardo de Almeida.—Escura sei -eu que está a minha alma como as trevas dos condemnados. Eu saí de casa -allucinado, e procurei-te para te contar a minha deliberação: como te -não encontrei, nem te quiz procurar na rua dos Romulares, desisti do -teu parecer, e mandei desafiar Nicoláo de Mesquita. Ámanhã ás onze -horas é procurado pelos padrinhos.</p> - -<p>—Então é certo que endoudeceste?—exclamou Raphael Garção.—Em -primeiro logar, a mulher por quem te bates, se o duello fosse uma coisa -elevada e seria, baixava-o á infima irrisão. Em segundo logar, Nicoláo -de Mesquita não se bate, e humilha-te, respondendo que as Margaridas -Froments tão sómente merecem paladinos, que se desafiem a vêr quem -gasta mais com ellas. Em terceiro logar, quando te batesses... Que -armas jogas? Ha dois annos não jogavas nenhuma...</p> - -<p>—Nem hoje.</p> - -<p>—Pois então, Deus haja misericordia da tua alma, porque Nicoláo de -Mesquita é professor em todas as armas, sem excepção de côr ou feitio! -Ahi vaes tu offerecer o peito ao estoque ou á bala, tu, Ricardo de -Almeida, um rapaz de futuro, um dos mais estimaveis e nobres moços -da provincia! E assim te deixas morrer irrisoriamente por amor ou -desprezo—não sei o que é—de uma mulher despejada, que te abandonou! -Abre a tua alma a um raio de luz, desgraçado! Crava as proprias -unhas no coração ou na cabeça, e arranca de lá essa ignominia, que -te sacrifica a uma coisa que não póde ser amor!...<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span> Tu vaes d’aqui -procurar os padrinhos, e retirar a proposta. Depois, vens residir -n’este hotel, e desimpedir a porta de tua casa para que a franceza saia -livremente sem as angustias da despedida. O dever, a dignidade é isto!</p> - -<p>—Tenho vergonha de retirar a proposta—replicou Almeida.—Em Lisboa um -caso d’estes é a perda irreparavel da reputação.</p> - -<p>—Da valentia!</p> - -<p>—Da honra.</p> - -<p>—Então é a honra convencional que te move, já não é o ultraje...</p> - -<p>—É tudo. Não desisto... Emquanto a morrer, sinceramente, com todas as -veras de minha alma te digo que me não importa. Antecipo um acabar mais -obscuro... porque eu, em me vendo pobre, já te disse que me suicido... -Além de pobre, desprezado d’esta mulher, que nem o coração me deixou...</p> - -<p>—Tens ainda um grande coração, porque podes chorar, meu rico -Ricardo—atalhou Raphael abraçando-o.—De hoje em deante és meu irmão! -Hei de disputar-te ao diabo e vencerei!</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XVI">XVI</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_a3.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ás</span> onze horas do dia immediato, um criado do hotel apresentou a Nicoláo -de Mesquita dois bilhetes de uns sujeitos que esperavam na sala. Eram -nomes de tomo na velha fidalguia d’estes reinos.</p> - -<p>Desceu o morgado da Palmeira á sala. Um dos cavalheiros com a graça -amavel e affectuosa de quem vae convidar um amigo para um alegre -festim, disse que elle e o seu amigo D. Fulano de tal haviam sido -encarregados pelo primo Ricardo de Almeida de fazerem expressa ao -excellentissimo Nicoláo de Mesquita, cavalheiro que elles propoentes -conheciam de nome, e de mui illustre parentella em Lisboa, a sua -resolução de pleitear com as armas no campo da honra o direito de -repellir uma affronta.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span></p> - -<p>—Affronta, ajuntou Mesquita, que vossas excellencias terão a bondade -summa de nomear.</p> - -<p>—Cartas escriptas a uma dama, que vive em companhia do cavalheiro -offendido, madame Margarida Froment.</p> - -<p>—A dama de que se trata, disse o morgado, é uma mulher que eu -sustentava minha amante, estabelecida em residencia minha no Porto, no -dia 26 de outubro de 1839, ás tres horas da tarde; e ás quatro horas, -pouco mais ou menos, d’esse dia, e anno, o senhor Ricardo de Almeida -senhoreou-se d’ella. Qual dos dois entendem vossas excellencias que foi -o affrontado?</p> - -<p>—Não viemos munidos de instrucções para responder a vossa excellencia.</p> - -<p>—Instruidos vossas excellencias, recebo as suas ordens, pedindo -licença para observar-lhes que tenho em minha companhia minha mulher, -e o local é inconveniente para o proseguimento d’estas negociações. -Vossas excellencias consentirão que os cavalheiros, chamados a -representarem-me n’esta indiscreta pendencia, se encontrem em logar -designado por vossas excellencias.</p> - -<p>Reunidos os quatro agentes, dois nomeados por Nicoláo, em casa de um -d’elles, saiu D. Fulano a colher instrucções de Ricardo de Almeida, e -voltou confirmando o declarado por Nicoláo de Mesquita, com pequenas -variantes, que não alteravam a substancia. Em consequencia do que, -lavrou-se acta com os seguintes considerandos:</p> - -<p>«Os abaixo assignados, incumbidos de accordarem mutuamente na -deliberação a tomar sobre um conflicto de honra entre o senhor Ricardo -de Almeida e Noronha Valladares Riba-fria de Aguiar Falcão<span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span> Athayde, -morgado do Pontido, e o senhor Nicoláo de Mesquita Sotto-mayor -Sepulveda Cão e Aboim da Nobrega e Neiva, Morgado da Palmeira do Vidago;</p> - -<p>«Considerando que a franceza Margarida, actualmente, e desde 1839, -contubernal de Ricardo de Almeida, era considerada em dominio de -Nicoláo de Mesquita, ao tempo em que foi requestada pelo segundo dos -citados cavalheiros possuidores;</p> - -<p>«Considerando que Nicoláo de Mesquita foi o primeiro ferido no seu -coração, ou no seu amor proprio, termos equivalentes na questão -subjeita;</p> - -<p>«Considerando que o primeiro affrontado entendeu acertadamente que os -pleitos de honra são objectos sacratissimos em que as leviandades de -uma mulher desdoirada não devem preponderar;</p> - -<p>«Considerando que Margarida, <i lang="la" xml:lang="la">ipso facto</i>, se havia constituido -materia <i lang="la" xml:lang="la">primi capientis</i><a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a>, e desde logo coisa apropriavel sem -desaire de quem quer que fosse, nem titulo de propriedade valido;</p> - -<p>«Considerando que Nicoláo de Mesquita havia dado o exemplo de cordura -e desprendimento quando lhe foi extorquido um dominio, que elle -voltava a requestar, sem offensa de Ricardo de Almeida, nem das leis -consuetudinarias;</p> - -<p>«Considerando que a unica pessoa presumivel de offendida seria -Margarida, offensa que não se deu, por ella mesma affoitamente se -gloriar de ser a pessoa<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span> a quem endereçava a carta, o corpo de delicto -na questão litigada;</p> - -<p>«Considerando, finalmente, que a dignidade de dois cavalheiros não deve -baixar a contender sobre materia que nunca se pode provar honrosamente -discutida;</p> - -<p>«Os abaixo assignados resolveram que não ha offensa, nem leve desdouro, -cuja desaffronta nobilite as armas nas mãos dos cavalheiros, de quem -receberam authoridade para esta ou outra deliberação.—Lisboa, e casa -de D. João d’Ornellas Themudo, 20 de junho de 1842.»</p> - -<p>Seguem as assignaturas.</p> - -<p>Ricardo de Almeida recebeu a copia d’esta coisa e gemeu surdamente -angustiado pela humilhação, que aviltava a mulher dos seus sacrificios. -Ponderou na crueza e alarvaria de certas palavras escusaveis na -formalidade da acta: os padrinhos offenderam-se do reparo, sairam -abespinhados, e consultaram os reinicolas em duellos sobre se deviam -desafial-o.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita riu dos considerandos, como fórma e como -substancia; achou-os magnificos de ironias e patuscada; agradeceu -infinitamente os serviços dos seus bons amigos; os quaes, azoados com o -riso equivoco do Mesquita, por um cabello que o não desafiaram tambem.</p> - -<p>Os cavalheiros signatarios por parte de Ricardo, bem que lhe -desculpassem a defeza de Margarida e o tratassem com deferencia e -amizade em publico, não voltaram mais a casa d’elle, onde jantavam e -passavam d’antes as noites com frequencia. Motivaram este procedimento, -allegando que se achavam mal com Margarida Froment nas salas de um -amigo. Os sabedores d’este acume de pundonor imitaram<span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span> os praxistas da -elegancia e dos brios: ninguem volveu ao palacete de Andaluz.</p> - -<p>Queixou-se Ricardo ao primo Raphael dos briosos devassos; e o de Fayões -invectivou contra os considerandos, lamentando não poder sahir a -publico e desafiar, um a um, ou todos quatro de pancada, os signatarios -da indecorosa acta. E d’aqui passou a lastimar Margarida Froment, com -uns termos tão compungidos, que propriamente Ricardo se espantava do -reviramento.</p> - -<p>A mudança era racional. Raphael era mais meditativo que o commum dos -homens das suas manhas e costumes. Cogitara elle que se a franceza, -embora estranha ao seu amor á prima, se reconciliasse com Nicoláo, -facilmente lhe diria que Raphael Garção lhe fôra apresentado por -Almeida. Assaltado por tal medo, cuidou em dominar egoistamente o fraco -espirito de Ricardo, persuadindo-o a sair com ella de Lisboa para o -Porto, ou para o estrangeiro, em ordem a que Nicoláo de Mesquita não -lograsse a vingança desde muito planeada.</p> - -<p>O morgado do Pontido, obtemperado muito á vaidade, e já pouquissimo -ao amor, conveio em retirar-se á sua casa da Foz no Porto, e differir -opportunamente a desligar-se de Margarida, cujo descredito o enojava. -Deploravel orgulho de homem, que julga purificar com a sua estimação a -mulher empéstada no conceito dos outros!</p> - -<p>Propoz elle á franceza a saída para o Porto.</p> - -<p>—Não vou—respondeu ella firme e rapida.—O desprezo dos teus amigos -não me afugenta de Lisboa; o mais que pode é afugentar-me de tua casa.</p> - -<p>—Desprezo os meus amigos—replicou Ricardo. Vamos... porque...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span></p> - -<p>—Porque vamos?—acudiu Margarida ás suspensivas reticencias.</p> - -<p>—Porque desconfio da tua lealdade.</p> - -<p>—Aqui?... Porque has de ter mais confiança lá?...</p> - -<p>—Confessas, pois...</p> - -<p>—Confesso que te sou pesada, e que me pesa de o ser. Eu surprehendi -muitas vezes o teu espirito, e resignei-me. Esperei que elle fallasse: -foi teu primo que te ensinou a eloquencia do tedio. Morri desde logo -para ti, porque tudo esmaguei na minha queda, mesmo o meu orgulho, esta -luz do ceu ou do inferno que nunca deixa escurecer a dignidade das -peccadoras apedrejadas, que não encontram Jesus. Os teus amigos sabiam -que impunemente podiam offerecer aos teus olhos um libello injurioso -que tu deixaste mal guardado para que eu me podesse vêr n’aquelle -espelho, e admirar a continuação da tua generosidade em baixar até -ao esterquilinio onde me atiraram. Convenci-me de que sou a mulher -descripta n’este papel em que a minha baixeza corre parelhas com a tua. -É impraticavel a nossa convivencia. Reciprocamente nos desprezamos, -Ricardo.</p> - -<p>—Queres, portanto, dizer...</p> - -<p>—Que nos desliguemos.</p> - -<p>—Por que voltas aos amores antigos?</p> - -<p>—Não te dou contas das minhas tenções: bem sabes que ha dois annos e -meio as não dei a Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>—O que me espanta é que vivesses dois annos commigo!...</p> - -<p>—Por que te espanta?</p> - -<p>—Precisamente ninguem te inquietou... disse elle afiando o sarcasmo -com o riso.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span></p> - -<p>—Espera!</p> - -<p>Margarida abriu uma papeleira, e tirou de um falso alguns massetes de -cartas, que desatou, e derramou sobre a jardineira.</p> - -<p>—Lê as cartas recebidas em Lisboa pela mulher, que ninguem inquietava. -Ahi reconhecerás a lettra dos teus principaes amigos. Ahi estão cartas -dos signatarios da acta do duello, que se não fez porque Margarida <em>é -coisa apropriavel, sem titulo de propriedade valida</em>. Vae agora -perguntar a cada um dos teus amigos se possue carta da Margarida. -São grandes fidalgos, e alguns—especialmente os que não te pediam -dinheiro—são ricos e prodigos. Vae perguntar-lhes se a mulher, <em>a -materia que nunca se póde provar honrosamente discutida</em>, baixou até -elles, quando lhe rastejavam os pés, acceitando o desprezo, com a mesma -abjecção com que traiam o amigo. Vae...</p> - -<p>—Basta!—Exclamou Ricardo, engriphando os dedos nos punhados de -cartas, que atirou ao pavimento.—Basta, Margarida, que eu estou -expiando infernalmente crimes que não pratiquei! Segue-me, segue-me por -piedade, e fujamos de Lisboa, senão fizeste de mim um assassino!</p> - -<p>—Por minha causa não o serás, Ricardo. Attende-me bem: estas coisas -são providenciaes. Eu sou escrava de um impulso sobrenatural. Não sei -quem me leva nem onde vou. Ha oito dias que eu desprezava Nicoláo de -Mesquita...</p> - -<p>—E hoje?...—atalhou com ancias Ricardo.</p> - -<p>—Hoje... nenhum de nós sabe que fatal magnetismo nos arremessa um -contra o outro, como dois ebrios que se despedaçam a rir...</p> - -<p>—Pois tu vaes para Nicoláo?!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span></p> - -<p>—Não sei para onde vou.</p> - -<p>—Sabes que elle é casado...</p> - -<p>—Sei: que me importa a mim saber o que elle é? Casada era eu, e feliz, -e rica e abençoada de todas as esposas e de todas as mães!...</p> - -<p>—Que perdição a tua, que estrella, santo Deus! Exclamou em lagrimas -Ricardo.</p> - -<p>—Compadeces-te? Que faria... se visses a minha alma!...—soluçou -Margarida.</p> - -<p>—Oh! mas não vás que eu amo-te!</p> - -<p>—Não mintas... Deus quer que d’aqui a uma hora me desprezes. Tu -amaste-me sem saber por que: hoje odeias-me, sem poder justificar o -teu odio. A carta de Nicoláo? Não pode ser! Que viste n’esta carta? -Um homem que dizia: «A tua compaixão suavisou a minha dôr. Não me -abomines, não peças a Deus o meu castigo, que eu já sinto na garganta -a mão vingadora de teu marido!» O restante da carta que era? lagrimas, -supplicas, reminiscencias do tempo em que me vira presada da sociedade, -e pura como elle já não vê sua mulher. Podeste abominar-me tu, e -tolerar que os teus ignobeis amigos me insultem por causa de similhante -carta? Oh! se elles tiverem irmãs, ou esposas, alguma hora lhes passará -no espirito a imagem de Margarida Froment, que não pode delir com -lagrimas o appellido de seu esposo!</p> - -<p>—Não vês que choro e que te amo, Margarida!—clamava de mãos postas -Ricardo, inclinado aos joelhos d’ella.</p> - -<p>—Dignidade, meu amigo! disse ella, erguendo-o.—Dou-te este nome com -a sinceridade e honestidade de uma santa. Acceita-o que não pódes ser -mais nada para mim.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span></p> - -<p>E saiu da presença de Ricardo. Elle seguiu-a a brados dilacerantes, e -ella acolheu-o nos braços, murmurando:</p> - -<p>—Ouve-me, meu amigo. Eu pensei hontem em suicidar-me. Se hoje não -visse o papel assignado por quatro miseraveis estaria morta a esta -hora. Salvou-me aquella ignominia, Deus sabe para quantas mais atrozes. -Nicoláo de Mesquita, n’este momento, sabe que eu vou pertencer-lhe...</p> - -<p>—Infame!—exclamou Ricardo arrancando-se-lhe dos braços.—Que infame -és tu, mulher sem pejo, que te vaes vender ao homem que te abandonou!</p> - -<p>—Vender não, meu amigo—atalhou ella com a brandura de um sorriso sem -nome nas expressões variadas da agonia.—Eu não me vendo: compro o -direito de me espedaçar lentamente.</p> - -<p>—Não te entendo, miseravel!—rebramiu Ricardo com os punhos cerrados, -e os braços ameaçadores.</p> - -<p>—Espero que me não insultes como um homem vil!—disse Margarida, -retraindo a face aos punhos convulsos do allucinado.</p> - -<p>Ricardo caiu na tormentosa consciencia da sua indignidade, e fugiu da -vista da franceza, que soluçava como na ultima entrevista com Nicoláo, -na estalagem de Villa Pouca.</p> - -<p>No esplendido salão do seu palacete, Ricardo examinava um par de -pistollas, e substituia por outros os fulminantes oxidados.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span></p> - - -<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3> - -<div class="footnote"> - -<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Aos redactores da acta, modelo de continencia da linguagem -no genero, agradecemos o latim, sem o qual a não poderiamos trasladar -na integra.</p> - -<p> -<span style="margin-left: 1em;">O AUTHOR.</span><br /> -</p> - - -</div> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XVII">XVII</h2> -</div> - - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_a2.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ás</span> dez horas da noite d’esse dia, Ricardo de Almeida fez pavor a -Raphael Garção, quando lhe entrou no quarto, no <i>hotel de Italia</i>, -tartamudeando offegante umas phrases sem tino, cortadas por soluços.</p> - -<p>Atirou-se aos braços do primo com desalento mulheril, e chorou mais -copiosamente do que a razão critica das senhoras viris concede que -chore um homem.</p> - -<p>Com espaçosas intercadencias de anciado silencio, contou Ricardo o -violento dialogo com Margarida. O morgado de Fayões escutou-o com o -desprazer que incutem as debilidades do coração alheio aos homens de -rija tempera, e disse:</p> - -<p>—Eu repito as palavras de Margarida: «agora dignidade, Ricardo.» Sae -de Lisboa. Não te aconselho<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span> que busques diversões ao espirito no -grande mundo, nem aqui nem n’outra parte. Os homens da tua convivencia -devem ser odiosos em Lisboa: os infames foram elles; mas o ridiculo és -tu. Fóra de Lisboa tambem te aconselho que desistas de distracções, -que as não encontrarás. Nas salas ha alegrias, o mais afiado golpe que -te póde atirar a indifferença. Vae para a tua aldeia, concentra-te, -padece, esquece á força de ninguem te suscitar reminiscencias d’ella. -Isto é duro de ouvir-se; mas quem te prometter outras consolações, -engana-te primo. Dignidade sobretudo. Eu amava Beatriz com a paixão -de homem de minha indole, que seis mezes se esconde a devorar-se na -duvida, e a purificar-se para merecel-a. Ao fim de seis mezes, Beatriz -desenganou-me. Invoquei o meu dever! e antes de trinta dias, estava -distrahido, não te direi honestamente, mas estava curado da ferida, que -já não podia sangrar, sem desdouro da minha consciencia... Nota lá, -primo Ricardo que a nossa provincia está recamada de bonitas mulheres, -portuguezas de lei, materia excellente com o espirito necessario. -Lembro-te o que já te disse, respeito ao desfalque de tua casa, ao -infortunio de não ter nenhuma, e á tua inhabilidade para recuperares o -grande patrimonio sacrificado. Se resistes ás admoestações, que te faz -um doido no seu lucido intervallo, maldigo a hora em que me intrometti -nas coisas da tua vida.</p> - -<p>Ricardo parecia attendel-o com uma fixidez de olhar espavorido: é -provavel que o não ouvisse. N’este comenos, entrou no quarto o criado -de Raphael, alvoroçadamente.</p> - -<p>—Que tens?!—perguntou o amo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span></p> - -<p>—Acaba de entrar na hospedaria o senhor Nicoláo.</p> - -<p>Raphael ergueu-se, relanceando a vista ás pistolas.</p> - -<p>—Entrou com elle uma senhora—continuou o criado.</p> - -<p>Ergueu-se Ricardo de salto, exclamando:</p> - -<p>—É ella!... é Margarida!</p> - -<p>—Eu estava no quarto do porteiro—continuou o criado—quando elles -saltaram de uma sége. Poucos minutos antes, tinham chegado uns gallegos -carregados de malas, e disseram que as mandava um senhor, que ás quatro -horas tinha falado com o dono da hospedaria. Eu escondi-me assim que -o conheci, e dei tino de que a mulher, que entrou com elle, falava -estrangeiro.</p> - -<p>Ricardo fez um salto arrebatado á porta. Raphael reteve-o, exclamando:</p> - -<p>—Alto ahi, mentecapto! Que vaes fazer?</p> - -<p>—Apunhalal-os.</p> - -<p>—É justo; mas manda saber primeiro o numero do quarto em que os has -de matar—replicou o de Fayões com agastada ironia.—Se não tivesse -compaixão de ti, despresava-te, Ricardo!</p> - -<p>E, voltando ao criado, mandou-o observar o que podesse.</p> - -<p>—Vamos sair ambos—tornou elle ao primo, que arquejava prostrado no -sophá.—D’aqui a pouco, o Mesquita sabe que estou em Lisboa, se o não -sabe já. Pobre Beatriz! Calcula a minha afflicção, Ricardo! Trata-se -da honra e talvez da vida d’aquelle anjo... e, todavia, olha se me vês -mudar de côr! Que miseraveis somos! Attraimos o raio da desgraça, e -choramos como mulheres, assim que ouvimos<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> o trovão! Ergue-te d’ahi, -coisa, que pareces homem! Vaes comigo para outro hotel?</p> - -<p>—Irei.</p> - -<p>—E brevemente iremos para a provincia, que Beatriz não se demora em -Lisboa, ou é fechada em algum convento.</p> - -<p>Pouco depois, voltou o criado, informando que Nicoláo tomara o segundo -andar do hotel, e que os criados andavam a mudar a bagagem dos hospedes -para o primeiro, e a trastejar ricamente os quartos. Accrescentou que a -estrangeira era franceza, segundo ouvira dizer, e se chamava Margarida, -porque elle mesmo espreitára e ouvíra o senhor morgado da Palmeira -chamal-a assim.</p> - -<p>Ricardo escutava-o com o ar estupido de um surdo-mudo.</p> - -<p>—Fecha as minhas malas, ordenou Raphael. Queres tu, Ricardo? Vamos -para tua casa. Vou ser teu hospede! Tens tu champagne, ou absyntho, -ou a demencia engarrafada em casa? Vamo-nos embriagar, e depois -reflectiremos. Se entramos com a razão n’este labyrintho, estamos -perdidos. Valeu?</p> - -<p>—Vamos, disse Ricardo.</p> - -<p>—Conduz as bagagens ao largo de Andaluz, tornou Raphael ao criado. -Os gallegos que te guiem. Paga a conta no hotel, e voltarás depois a -saber, com disfarce, se o sr. Mesquita se demorou, ou pernoitou aqui.</p> - -<p>Sairam cautelosamente, e mandaram parar a sége perto da casa de -Ricardo. Informou-se o morgado com os criados. Margarida Froment, ao -escurecer, fechára os seus bahus, e mandára entregal-os a gallegos. Ás -nove horas e meia, parára uma carruagem particular com libré defronte -do palacete, e o<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span> guarda portão vira, á claridade das lanternas, que -estava dentro um homem embuçado fumando. Margarida saiu, sem dar -palavra aos criados, e saltou ao estribo.</p> - -<p>Depois ouviram-n’a dar um ai já dentro, quando se fechava a portinhola -da carruagem que despediu á desfilada.</p> - -<p>—Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr -escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores -vinhos! ordem ao escanção!</p> - -<p>Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os -licores mais excitantes.</p> - -<p>Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e -cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O -de Fayões exclamava:</p> - -<p>—Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não -seja vinho!</p> - -<p>Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia, -e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados -transportaram-n’o ao leito.</p> - -<p>A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação, -de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no -peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A -cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége -estava ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta do <i>hotel de -Italia</i>. Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo -ainda estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para -chegar á uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo.<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span> -Apeou. Entrou no pateo do <i>hotel francez</i>. Subiu ao terceiro -andar. Abriu a porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu -marido. Raphael entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era -a primeira vez que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos -braços; e elle abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam -lume.</p> - -<p>—Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás -mãos d’elle!—murmurou abafada Beatriz.</p> - -<p>—Nicoláo vem á uma hora.</p> - -<p>—Por que o sabes? onde está elle?</p> - -<p>—Com Margarida, no hotel em que eu morava.</p> - -<p>—Com a franceza!...—exclamou ella espavorida.</p> - -<p>—Sim!... com a franceza, que ha duas horas tirou de casa de Ricardo... -Abençoado crime, que me restitue a tua alma inteira! Era o destino!... -Eras minha, anjo da infancia! As penas do infinito inferno para a minha -alma, se eu deixar de amar-te n’este mundo e no outro... Olha como é -bella a nossa vida!... Oh! tu não endoudeces de prazer, Beatriz?...</p> - -<p>—Ó Raphael!... tu atterras-me!...—clamou ella, afogando-lhe no peito -as altas aspirações, que saiam gementes.—É possivel que eu esteja -em teus braços, ó meu amor!... Que alegria e que medo eu sinto!... -Foge, que não vá ser este o primeiro e ultimo instante da minha -felicidade!... Foge, Raphael!... Oiço chorar o meu filhinho... isto é -agouro... a creança chama-me... é o anjo que me está accusando...</p> - -<p>A eloquencia persuasiva de Raphael contra as<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span> appreensões de Beatriz, -era de todo o ponto nulla em quanto á expressão, mas de seus labios -mudos resaltavam scintillas, que offuscavam os olhos de Beatriz. -Fechou-os ella para não vêr o incendio; mas o mixto de lacerante -peçonha e prazer vertiginoso que lhe escaldou as veias, só havemos de -comparal-o á infernal deleitação da primeira mulher, que um dia pôde -dizer: «Caí; mas vinguei-me.»</p> - -<p>Decorridos cincoenta e oito minutos, Raphael entrava na sége, a tempo -que a carruagem de Nicoláo de Mesquita parava á porta do hotel.</p> - -<p>O marido de Beatriz entrou com alegre sombra na sala e á esposa que não -ousava encaral-o, disse:</p> - -<p>—Estás zangada, filha? tens razão; demorei-me com os primos -Albuquerques, forçado por etiquetas aborrecidas... Por que te não -deitaste, priminha?</p> - -<p>—Não era meu costume...</p> - -<p>—Pois, sim, mas de hora em deante, quando eu me demorar além das onze -horas, deita-te, sem susto da minha demora. Alguns amigos conseguiram -de mim que eu os coadjuvasse n’umas conspirações politicas contra o -conde de Thomar. É forçoso contribuir para a salvação da patria, quando -menos tempo nos resta para viver n’ella. Os annos trazem comsigo o amor -da patria; e por este motivo, póde ser que eu me detenha por fóra, -extraordinariamente; e desgosta-me muito se me esperares; porque não -estou por lá descançado. Fazes-me isso, sim, prima?</p> - -<p>—Pois sim... deitar-me-hei.</p> - -<p>—Bonita! o menino como tem passado a noite?</p> - -<p>—Bem.</p> - -<p>—E tu que fizeste? Lêste?</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span></p> - -<p>—Li.</p> - -<p>—Gostas das <i>Meditações</i> de Lamartine?—disse elle, tomando o -livro de sobre a almofada do canapé.</p> - -<p>—Muito... São tristes...—respondeu ella.</p> - -<p>—Qual te fala mais ao coração?</p> - -<p>—A <i>Tristeza</i>.</p> - -<p>—Bem sei...—acudiu elle, recitando de cór:</p> - -<p> -<span style="margin-left: 1em;">De mes jours pâllissans le flambeau se consume,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Il s’éteint par degrés au souffle du malheur,</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">Ou, s’il jette parfois une faible lueur</span><br /> -<span style="margin-left: 1em;">C’est quand ton souvenir dans mon sein se rallume.</span><br /> -</p> - -<p>—Mas—proseguiu o morgado—o que ha no teu coração é o <i lang="en" xml:lang="en">souvenir</i> -do poeta de Elvira.</p> - -<p>—Ha.</p> - -<p>—Qual?!...</p> - -<p>—A recordação do anjo da minha mocidade.</p> - -<p>—Teu primo?—atalhou irado o marido.</p> - -<p>—Não... o anjo da minha innocencia.</p> - -<p>Nicoláo sorriu-se, compondo o desmancho do rosto, e disse com -maviosidade:</p> - -<p>—Queria vêr-te feliz, prima!</p> - -<p>—Feliz... como tu?</p> - -<p>Esta pergunta deu-lhe uma pancada na alma. A reflexão combateu o -preconceito, e respondeu:</p> - -<p>—Sim, feliz como eu, que te adoro, e te perdôo as maguas todas com que -por vezes perturbas a immensa felicidade de te haver merecido...</p> - -<p>—São quasi duas horas...—observou Beatriz, depois de uma longa -expansão de termos affectuosos do marido.</p> - -<p>—Queres dormir, prima?</p> - -<p>—Se eu podesse... doe-me tanto a cabeça!...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span></p> - -<p>—Pois sim, vae, meu amor: eu espertei com o muito café que bebi, -e aproveito a vigilia para ir escrever aos feitores. Vou alugar um -palacete onde o encontrar. Aqui estamos incommodados com a pequena -casa, e a bulha da rua. Gostas de ficar em Lisboa alguns mezes?</p> - -<p>—É-me indifferente.</p> - -<p>—Dizem que teremos bello theatro lyrico. Tomarei um camarote de -assignatura. As primas Camaras e as primas Mesquitas irão comtigo, -quando os embaraços da politica me não deixarem... Diz-me cá, prima... -Tu desejarias ser viscondessa do Vidago? Offerece-se-me excellente -occasião, assim que o ministerio cair. Vê lá, queres?</p> - -<p>—O que tu quizeres, primo... O que eu agora muito queria era dormir... -Sinto-me tão desfallecida!...</p> - -<p>—Pois vae, filha, vae; mas ama-me muito, sim? Vem dar-me um beijo... e -até ámanhã.</p> - -<p>Nicoláo abancou a escrever aos feitores. Eis aqui o specimen de uma das -cartas aos feitores:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos... -Abro ao acaso as <i>Meditações</i> de Lamartine, e leio no <i>Canto -d’amor</i>:</p> - -<p class="poetry" xml:lang="fr" lang="fr"> -«Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles<br /> -«Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait?<br /> -«..........................................<br /> -<br /> -«Parle-moi!... que ta voix me touche!<br /> -«Chaque parole sur ta bouche<br /> -«Est un écho mélodieux!...<br /> -</p> - -<p class="poetry">«.......................................................»</p> -</div> - -<p>Esta carta começa lyrica de mais para um feitor!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XVIII">XVIII</h2> -</div> - - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ricardo</span> de Almeida, quando Raphael entrou, dormitava anciado, -bracejando, e resmoneando sons desligados. Á cabeceira estava o -escudeiro, homem de annos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e -servo dos Almeidas desde a infancia. O velho chorava e dizia a Raphael:</p> - -<p>—Saberá vossa excellencia que é a primeira vez que vejo assim meu amo -turvado do juizo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas!</p> - -<p>—Isto não é desgraça, homem!—contestou Raphael Garção.—As bebedeiras -são ás vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho?</p> - -<p>—Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no -purgatorio; mas a de meu<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> amo, ou eu me engano, ou cae direita no -inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como -ao seu santo parente fr. Gil de Santarem. Vossa excellencia sabe a vida -d’este parente do senhor morgado?</p> - -<p>—Has de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja -polvora, e alegra-te, que o fadario de teu amo está a quebrar-se.</p> - -<p>—Deus o ouça, meu senhor!—disse o velho, e foi á cosinha filtrar -alegremente o café.</p> - -<p>Raphael estirou-se n’uma flacida ottomana, e sentiu-se na mais feliz -hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho. -Coordenava as reminiscencias de tres quartos de hora, e convencia-se -da real existencia da sua fortuna após um arrojo que o coração não -praticaria sem a escandecencia dos vinhos. Erguia-se de impeto, e -mirava-se n’um espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o -invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido -põe o homem n’estes ridiculos arrôbos de si mesmo.</p> - -<p>Chegou a bandeja do café. Raphael fez-se servir reclinado nos coxins, e -disse:</p> - -<p>—Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a historia de S. Gil, meu -maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me -alguma coisa de Margarida.</p> - -<p>Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um -romperem-se-lhe as fibras da larynge:</p> - -<p>—Margarida!?</p> - -<p>—Que é lá?—acudiu Raphael.—Uma chavena de café, primo Ricardo!</p> - -<p>O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se,<span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span> reconheceu-se, -no aperto da desesperançada angustia, e exclamou:</p> - -<p>—Que perdição!... que horror me faz a vida!...</p> - -<p>O mordomo saiu entalado de suspiros. Raphael deu-lhe a chavena, e -exortou-o a esperar a boa crise mais rapida que o regular.</p> - -<p>—A materia bruta de sensibilidade—explicava elle—ha de gastar-se -mais depressa em ti, que a consomes com maior energia que o vulgar dos -homens.</p> - -<p>Ricardo saltou oscillante do leito, e abriu as janellas do quarto, -aspirando a tragos a viração da antemanhã.</p> - -<p>—Estou melhor—disse elle.—Que soubeste de Margarida?</p> - -<p>—Soube que Nicoláo saiu de lá fixamente á uma hora.</p> - -<p>—Onde estiveste?... aqui?</p> - -<p>—Não: estive com a prima Beatriz.</p> - -<p>—No hotel?</p> - -<p>—Sim, no hotel.</p> - -<p>—Como a fortuna te bafeja!—disse com tristeza Ricardo.</p> - -<p>—A fortuna só desampara os fracos. Devias saber isto do nosso -Virgilio: os fracos e os tolos, accrescento eu ao illustre poeta. Tu, -meu amado primo, funestamente acumulas fraqueza...</p> - -<p>—E tolice—concluiu Ricardo.</p> - -<p>—Estava eu a procurar um termo com mais euphonia; mas tu o disseste. -Os dois annos, immolados á franceza, poderás tel-os dourado de faceis e -doidas alegrias, á mistura com alguns precalsos inevitaveis, dos quaes -a gente se paga usurariamente com delicias. Olha que n’este mundo ha -unicamente<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> um estudo sério e digno de vigilias: é salvar a cabeça do -coração. Na cabeça é que estão os olhos que descortinam o futuro. A -cabeça é quem vê o primeiro barranco em que é honra saltar, e o segundo -em que é parvoiçada cair. Certos sujeitos, quando cuidam que o ideal os -eleva, burrificam-se. Chegada a occasião de se destramarem habilmente -de uma rede, escouceiam, enredam-se mais, e descambam na lama. Felizes -aquelles que podem, como tu, dizer á desgraça: «Atraz, maldita, que eu -tenho vinte e cinco annos!» De que bordo estás, Ricardo, que fazes?</p> - -<p>—Retirar-me ámanhã de Lisboa, ou matal-a.</p> - -<p>—Sou de voto que te retires. Vae convalescer e volta ao mundo. -Regenera os teus haveres, e torna a dissipal-os, se o bom anjo da tua -indole te não apegar á dôce vida que deixaste. Eu preciso d’esta casa, -mobilada como está, com as carruagens e cavallos.</p> - -<p>—Tudo ahi te fica—disse Ricardo.</p> - -<p>—Depois que me disseres o custo de tudo. Convém que saibas que minha -tia-avó, fallecida ha dois annos, conservára intactos os cofres de -meu tio-avô, governador do Brazil. Fui seu herdeiro. Achei cento e -cincoenta mil cruzados em ouro. Gasto estes cabedaes, com a certeza -de que sou o forçado herdeiro de uma casa que rende quatorze contos -de réis. Já sabes que se a tua mobilia e trens podem valer dez mil -cruzados, ou vinte, este dispendio nem levemente altera os meus planos. -Se me queres obsequiar, crê que me não obsequeias com o emprestimo -d’estes objectos: incommodas-me.</p> - -<p>—Como quizeres—conveiu Ricardo.</p> - -<p>—Agora presumo que o Mesquita não sae tão<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> cedo de Lisboa, a menos que -Margarida me não denuncie. A vida em hospedarias arrisca a segurança -das minhas excursões. Sou, portanto, o dono d’isto, e tu és desde agora -o meu hospede, e bom é que o sejas por pouco, se é que desistes de dar -o ultimo pregão da tua miseria.</p> - -<p>Repontava a estrella d’alva. Raphael mandou atrellar os cavallos, e -despediu-se, até á noite, de Ricardo. Saiu e recolheu-se á casa da -rua dos Romulares. Dormiu bem-aventuradamente cinco horas, ergueu-se -como as innocentes avesinhas em manhã de abril, festivo, illuminado -de interiores contentamentos, trauteando cançonetas hespanholas. Foi -espreitar á janella: viu Nicoláo á beira da esposa: elle bem assombrado -e risonho; ella esmaiada da côr e melancolica. Beatriz entreviu-o -de um insuspeito lanço de vista. Córou até ás orelhas; alindou-se, -purpurejou-se quanto pode o pejo de uma recordação, alanceada pelo -espinho do crime sem remorso.</p> - -<p>Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida -Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se -não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que ha menos -santas; mas tambem ha mais quem incense as peccadoras. O inferno -lucrou, e o ceu creio eu que perdeu quasi nada.</p> - -<p>Á uma hora, saiu Nicoláo, e entrou o criado de Raphael com um bilhete -que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de -poder verter-lhe no seio lagrimas que o suffocavam. Seguiram-se -horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das trez da tarde, -Beatriz parecia desafogada das lagrimas impertinentes: surria, -tregeitava,<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span> inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o -marido beijando-a carinhoso. Raphael jantou, dormiu, sonhou phantasias -deleitosas que eram, ainda assim, pallidos arremêdos das alegrias -verdadeiras.</p> - -<p>Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Fayões á casa de Andaluz. -Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez -novas exortações á coragem vacillante do primo, incitou-o a gosar-se -de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas. -Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois mezes de distancia, havia de -afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da -desgraça.</p> - -<p>Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu -mordomo, e d’alli, fechando os olhos a todos os logares despertadores -de memorias saudosas, passou á sua casa do Pontido.</p> - -<p>As tias não sairam a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada -abalou-as de modo, que desfalleceram abraçadas uma n’outra. Ricardo -beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo alli prometteram -erguer um altar na capella da casa consagrada ao seu parente S. Gil.</p> - -<p>Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fôra -ingrata. A Providencia seria injusta, se prolongasse o supplicio -do homem, que nenhumas dôres causára com o seu desvario. Se déra -escandalo, os escandalisados escarneciam-n’o e vingavam agora a moral -publica. Foi por isso que o ceu se abonançou. A solidão restituiu-lhe, -a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na -delapidação dos seus bens. Desempenhou<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> os hypothecados, restaurando -rendas bastantes a um decente passadio.</p> - -<p>Padre Ambrosio, o virtuoso egresso, perdoára-lhe o descredito em que -tinham andado na Foz as suas vestes, roçadas pelas sedas da pactuada -do inferno. Havia elle sido chamado para Mirandella, onde tinha um -irmão, chegado do Brazil, com centenares de contos. Foi visitar o -irmão, e sobrinhas; mas voltou ao Pontido, cuja casa lhe déra, em 1833, -hospitalidade de parente, e disvelos de familia muito sua. O brazileiro -foi visitar o irmão, e levou comsigo uma das tres filhas. Ricardo de -Almeida quiz honrar o irmão de seu mestre, e saiu a recebel-o no pateo, -e a receber na portinhola da liteira a mão da brazileira. Depois, -voltou ás suas graves cogitações, aos longos passeios nas montanhas do -Alvão, ás fadigas da caça, e aos chumbados somnos das noites infinitas -do inverno.</p> - -<p>A brazileira via sorrir aquelle mancebo pallido com a graça dos -infelizes que não podem queixar-se. Perguntou a D. Sancha o segredo -d’aquella serena e affavel melancolia. O egresso fez uma narrativa dos -infortunios do fidalgo, com tanto engenho que não feriu de leve o pudor -da sobrinha.</p> - -<p>Laura, a brazileira, ficou amando o moço triste. Despediu-se d’elle sem -poder fital-o, e bem-disse a lagrima que a denunciava.</p> - -<p>O irmão do padre Ambrosio saiu encantado da lhaneza e cordealidade -com que fôra acolhido por familia tão illustre. «Se eu fosse fidalgo, -escrevia elle ao irmão, daria a minha Laura e cem contos de réis a esse -bello moço, que me captivou, e fez para sempre triste a minha filha. -Alguns meus amigos e companheiros de trabalho e fortuna teem<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> comprado -a fidalguia para hombrearem com as raças nobres; mas eu tenho sido o -primeiro a rir d’elles, e serei o ultimo a comprar nobreza, quando -todos formos nobres, o que vem a succeder, se não houver diluvio por -estes vinte annos. Não digas isto ao teu discipulo, que não vá elle -afugentar á minha custa a sua tristeza. A tanto não me sacrifico eu, -nem a nossa Laura quer que a sacrifique.»</p> - -<p>Uma carta de Ricardo a Raphael, dois mezes depois, desenvolve e remata -o episodio, necessario ao contexto d’estas biographias. Dizia assim:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«É constante ainda o boato da tua residencia em Paris. As damas de -Chaves esperam as encommendas. Teus paes soffrem com a falta das tuas -noticias. Apenas receberam a carta, que mandaste lançar á caixa em -Pariz. A Angela de Santo Aleixo, para que ninguem possa duvidar de -que tu vens casar com ella, casou antes de hontem com o morgado das -Boticas.</p> - -<p>«O tio Martinho Xavier já desconfiou da lealdade do teu passaporte -para França. Desconfia tambem tu da espionagem d’elle em Lisboa.</p> - -<p>«Eu não dou nada pela duração da tua felicidade. Já de cá te imaginei -enfastiado. A mim dizias-me tu assombrado: «Dois annos a mesma -mulher!» Eu digo-te sem assombro, por que te conheço: «Dois mezes o -mesmo anjo!»</p> - -<p>«Agora, se queres, fallar-te-hei de mim. Caso. A historia da -felicidade é uma palavra só. Não caso com prima nenhuma. É a filha de -um homem que enriqueceu a trabalhar. Saiu de Mirandella com um chapéo -braguez e uma véstia de cotim. Entrou em Mirandella com quatrocentos -contos, e trez filhas,<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span> e a jaqueta e o chapéo, que ainda mostra aos -duvidosos da sua origem.</p> - -<p>«Laura é brazileira, é galante, faz dezoito annos, escreveu-me com -pouco esmero de grammatica, e incluia as cartas abertas nas do pae. -Agora está em nossa casa, e minhas tias amam-n’a. Eu estimo-a, e creio -que virei a amal-a. Sei que se affligem os nossos parentes com este -alcance. Se meu avô Duarte de Almeida não morresse mutilado de mãos -e dentes, a opinião de nossos primos é que elle viria estrangular-me -e morder-me. Estes primos compraram-me as quintas ao desbarato, e -promettem revender-m’as pelo duplo. Pedirei a meu avô Duarte de -Almeida que os sove a ponta-pés, visto que não pode dispôr das mãos, -assim como tu dispões do teu irmão agradecido, Ricardo.»</p> -</div> - -<p>Raphael Garção, lida esta carta, ponderou, e disse entre si: «Parece-me -que Ricardo é mais feliz do que eu!»</p> - -<p>E, com intervallo de um soliloquio mental, fallou com o seu demonio, e -disse-lhe: «É crivel que eu esteja enfastiado de Beatriz?!»</p> - -<p>—Pois não é?!—respondeu o demonio.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XIX">XIX</h2> -</div> - - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Raphael</span> Garção enfastiado de Beatriz!...—Castigo do ceu!—Dispensemos -a intervenção do ceu nas baixezas que o não exaltam. Temos cá em -baixo a comesinha e espalmada explicação de tudo que é feio, triste e -nauseativo.</p> - -<p>Enfastiou-se Raphael Garção por sete razões:</p> - -<p>1.ᵃ Ninguem o estorvava de ir vêr sua prima duas horas de cada noite, -regularmente.</p> - -<p>2.ᵃ As horas do dia, passadas na sua residencia clandestina da rua dos -Romulares, começaram a parecer-lhe longas, e a casa mal arejada, e os -visinhos do quarto andar insupportaveis com o strupido do rapazio.</p> - -<p>3.ᵃ Beatriz exigía-lhe que elle passasse o dia alli, receiando que -outra mulher o estorvasse instantaneamente de a vêr a ella.</p> - -<p>Observação á rasão terceira: Se Beatriz lhe dissesse<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> que a sua -assiduidade n’aquella janella punha em risco o segredo, Raphael -cuidaria que o terceiro andar estava perfumado de caçoulas orientaes; e -que o tropel dos meninos de cima era um soido das harmonias dos astros.</p> - -<p>4.ᵃ razão. As substancias alimenticias chegavam sempre frias e -derrancadas á rua dos Romulares, por virem do largo do Chafariz de -Andaluz. Esta razão é vergonhosa!</p> - -<p>5.ᵃ Dormia Raphael trez a quatro escassas horas em cada noite, para -entrar com a aurora na casa fétida. Pesava-lhe a cabeça, a miudo; e, -á decima quarta noite de visita ao hotel, se se descuida, bocejava na -presença de sua prima.</p> - -<p>6.ᵃ Era curiosissimo de touros e côrtes, e não podia ir ao curro nem ao -parlamento.</p> - -<p>7.ᵃ Queria conversar, queria gente, queria dar jantares, e fazer -brindes mysteriosos a Beatriz; mas o relacionar-se era victimar a sua -felicidade ás suspeitas de Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>Estas razões encadearam-se no fim do primeiro mez, e estavam já na -forja os élos de outras sete, quando Nicoláo de Mesquita alugou e -mobilou um palacete no largo de S. Sebastião da Pedreira.</p> - -<p>Raphael melhorou de vida. Livrou-se do terceiro andar. Dormia nove -horas. Comia o seu jantar em bom estado. Além d’isto, morava perto de -Beatriz, e saia de noite a beber bons ares pela estrada de Palhavã até -ao Campo Grande.</p> - -<p>De mais a mais, Beatriz, perdido o susto, e identificada ao facto -assustador, em vez de ir passar as noites com suas primas Camaras ou -Mesquitas, descia pela travessa dos Carros, e volitava da sege de praça -a uma porta do jardim de seu primo, e ahi se<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> espantava da velocidade -instantanea das duas horas costumadas.</p> - -<p>Isto durou um mez, a beneplacito do coração de Raphael.</p> - -<p>Coincide com esta época o conciso dialogo, que elle teve com o seu anjo -mau no final do anterior capitulo, depois de haver lido a carta de -Ricardo de Almeida.</p> - -<p>O morgado de Fayões ficava em casa, quando sua prima ia ao theatro. -Não o affligiam ciumes, nem saudades, nem anceios de vel-a sobreluzir -entre a constellação das estrellas de S. Carlos, as quaes—digamol-o de -fugida—se não tivessem luz propria, seriam invisiveis á luz da sala.</p> - -<p>O que elle queria era ir por si, e não por ella.</p> - -<p>Reflexionando comsigo, dizia elle:</p> - -<p>—O mais aperreado dos tres sou eu. O marido está com Margarida -Froment, nectarisando a existencia com as delicias da segunda edição do -seu amor. Beatriz está no theatro a vêr-se formosa na face das outras, -e a saborear-se nas melodias de Verdi. Eu estou aqui a resolver-me do -sophá para a poltrona; e, se quizer ao menos vêr o ceu estrellado, -quando não ha nuvens, hei de bater os dentes de frio por essas ruas, -onde não conheço viva alma!</p> - -<p>O corollario do discurso era algum axioma, dos que elle tinha composto -para uso do seu primo Ricardo.</p> - -<p>Queixou-se uma vez delicadamente d’este sequestro do mundo á prima. -Beatriz amuou, e doeu-se de não ser bastante a dar-lhe mundos -encantados de extasis e fontes inexhauriveis de poesia. Desfez-se a -nevoa, ao calor de um osculo, no breve aguaceiro<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> de mimosas lagrimas. -Gongorisemos estas lindas coisas do coração.</p> - -<p>A despeito, porém, de Beatriz, Raphael deu em ir a S. Carlos, quando -ella ia, indagando préviamente se o primo Nicoláo passava a noite -no <i>hotel de Italia</i>. Furtava-se ao reconhecimento de rapazes -conhecidos da universidade, e sumia-se entre a mó de alguns sujeitos -gordos, que faziam perder a individualidade a todo o homem magro.</p> - -<p>Beatriz, guiada pelo coração que lhe fallou aos olhos, apanhou-o, e -assustou-se; porém, como o visse a contemplal-a, perdoou-lhe.</p> - -<p>Assim, pois, melhorou algum tanto mais a vida de Raphael Garção, e -decorreram dois mezes suavemente, sem variante notavel.</p> - -<p>Em março d’aquelle anno de 1843, disse Nicoláo á senhora que precisava -de ir a Santarem com alguns correligionarios politicos preparar o -terreno para uma revolução, tendo de demorar-se n’esta diligencia -forçada trez dias. Beatriz ageitou o rosto a uns ares tristes, e o -marido licenciou-a, como lenitivo á saudade, a ir passar algum dia a -casa das primas Camaras, em Bemfica.</p> - -<p>Contou ella, exultando, o caso ao primo.</p> - -<p>—Bella occasião de irmos passar um dia a Cintra!—exclamou Raphael!</p> - -<p>Ficaram pactuadas as delicias de Cintra.</p> - -<p>Nicoláo despediu-se á tarde da esposa, e foi, senão mentiu, para -Santarem.</p> - -<p>Ao alvorecer toda risos a manhã do outro dia, Beatriz saiu fóra da -barreira, que lhe ficava á porta, entrou na carruagem de Raphael; e -elles ahi vão á competencia com o jubilo dos passarinhos, estrada fóra.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span></p> - -<p>Chegaram a Cintra. Parou a carruagem á porta do <i>Victor</i>. Raphael -apeiou-se, foi dentro procurar um quarto alegre e espaçoso com vistas -sobre os arvoredos das quintas subjacentes.</p> - -<p>Dizia um criado que os quartos principaes estavam tomados; e apenas -dispunha de um sem janella, mas limpo como todos.</p> - -<p>Objectou o morgado que vinha com elle uma senhora, e em tal caso iria -buscar hospedagem n’outra parte.</p> - -<p>N’isto, abriu-se uma porta de um quarto proximo, e saiu á sala de -entrada Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>—Por aqui, primo Garção?!—disse o de Vidago sem sombra de -mal-querença.</p> - -<p>O choque perturbou o sangue frio de Raphael por momentos. Fez-se logo, -porém, a reacção dos imperterritos espiritos.</p> - -<p>—É verdade, primo Mesquita!... Vossa excellencia aqui!... Eu julgava-o -ha muito em Palmeira. Cinco mezes em Lisboa!</p> - -<p>—Aqui estou embaraçado por coisas da politica. Afinal caí n’este -lodaçal commum. E vossê d’onde vem?</p> - -<p>—De Pariz. Cheguei hontem á tarde. Venho vêr Cintra e vou breve para a -provincia.</p> - -<p>—Veio só?... perguntou, Nicoláo, surrindo.</p> - -<p>—Porque pergunta se vim só?—replicou Raphael atalhando.</p> - -<p>—É porque ouvi dizer ao criado que trazia uma senhora.</p> - -<p>—Ah!... sim... eu trago uma senhora...</p> - -<p>—Não se atrapalhe, homem! Quem vem de Pariz não póde deixar de trazer -uma mulher...—tornou Mesquita com o rosto aberto e alma lavada.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span></p> - -<p>—Mas vossê não vai casar com a Angela de Santo Aleixo?! Que destino ha -de dar o primo á creatura que leva?</p> - -<p>—Hei de pensar n’isso, primo...</p> - -<p>—Afinal—volveu o marido de Beatriz—o visionario desistiu das nupcias -celestiaes!...</p> - -<p>—Que remedio!...</p> - -<p>—Bem lh’o disse eu, seu rapazola!... Fica por cá hoje?</p> - -<p>—Provavelmente... Vossa excellencia vem com a prima Beatriz?</p> - -<p>—Não: vim só...—Beatriz—continuou Nicoláo com o semblante menos -ridente—vive toda entregue aos ministerios caseiros e ao amor do filho.</p> - -<p>—Queira vossa excellencia fazer-lhe os meus cumprimentos, que eu parto -ámanhã talvez, e peço me dispense de procural-os. Adeus.</p> - -<p>—Então já?...</p> - -<p>—Vou em busca de outra pousada.</p> - -<p>—Olhe cá! a companheira é parisiense?</p> - -<p>—Não primo, é de Marselha... Adeus!...</p> - -<p>—Ah! sim? são bellas mulheres essas...</p> - -<p>Raphael já estava no rocio ou patim do hotel, e Nicoláo acompanhava-o, -dissimulando o intento de vêr a franceza.</p> - -<p>O morgado de Fayões transpirava de afflicto, e sentia-se estupido para -inventar um obstaculo á desastrosa coincidencia!</p> - -<p>Beatriz reconhecêra a falla do marido, e tremia na mais natural e -horrente perplexidade.</p> - -<p>Estava tolhida de pavor.</p> - -<p>Raphael parou, torcendo o bigode, e friccionando a concha da orelha -esquerda. Parece que tinha uma idéa salvadora na orelha esquerda.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span></p> - -<p>Chamou o cocheiro e disse-lhe:</p> - -<p>—Desanda a carruagem, e pára á porta de outra hospedaria, que ahi está -em cima á direita.</p> - -<p>—A senhora vae?—perguntou o criado.</p> - -<p>—Vae.</p> - -<p>—Maganão!—disse o Mesquita, batendo-lhe no hombro—vossê não quiz que -eu visse a mulher!</p> - -<p>—Essa é boa, primo Nicoláo!... Que tem que a veja!... Eu confio -bastante n’ella e no primo!...—respondeu jovialmente o morgado de -Fayões.</p> - -<p>—Póde confiar, que eu puz ponto nos desvarios—concordou o do -Vidago.—Agora, a minha dama é a politica.</p> - -<p>—Cuidado com as perfidias d’essa dama, primo! Eu antes me quero com as -devassidões das outras.</p> - -<p>—É por que vossê não tem amor patrio, e está na sua época de -desperdiçar as forças do espirito.</p> - -<p>—Diz bem, meu amigo, e, se me dá licença, vou dormir um pouco para -recuperal-as. Apparece?</p> - -<p>—Não sei se poderei: espero aqui uns politicos que vem de Lisboa.</p> - -<p>—Pois então divirtam-se: e até á vista, primo Nicoláo.</p> - -<p>Beatriz não quizera apeiar, sem entender a estranheza d’aquelle -encontro. Sentia uns angustiosos apertões de medo, que os criados não -compreendiam.</p> - -<p>Raphael entrou na carruagem, e disse:</p> - -<p>—Já para Lisboa!</p> - -<p>E contou o simples caso da apparição de Nicoláo. Beatriz aquietou-se, -e riu, quando o primo lhe contava o comico dialogo com o marido. Mas -o susto sobreveiu, quando Raphael conjecturou que<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> Margarida, áquella -hora, poderia revelar coisas que os perdessem.</p> - -<p>No entanto, Margarida Froment, que despertára no momento em que Nicoláo -entrava no quarto, perguntou-lhe:</p> - -<p>—D’onde vens?</p> - -<p>—De encontrar aqui um parente, que chegou hontem de França.</p> - -<p>—Está cá?</p> - -<p>—Vinha procurar quarto; mas não o encontrou digno da franceza, que -trazia comsigo.</p> - -<p>—Viste-a? É galante?</p> - -<p>—Não a vi. O rapaz tem medo que lh’a bebam os ares.</p> - -<p>—Então elle é velho?!</p> - -<p>—Tem vinte e quatro annos. Já te fallei n’elle. É o Raphael Garção.</p> - -<p>—Ah, disse Margarida com um sorriso indefinivel.—Esse teu primo é -aquelle que amou tua mulher?</p> - -<p>—Justamente.</p> - -<p>—E veiu agora de Pariz?</p> - -<p>—Sim.</p> - -<p>—Ha quanto tempo estava elle em França?</p> - -<p>—Ha cinco ou seis mezes.</p> - -<p>—Cuidei que o vira ha trez em casa do Ricardo... Que figura tem? É -um rapaz magro, de melenas escuras, bigode, e uma cicatriz na face -esquerda?</p> - -<p>—Tal qual... Tu viste um homem assim?! interpellou o morgado, -atrigando-se.</p> - -<p>—Vi... ha trez mezes, poucas noites antes de sair da casa do Almeida.</p> - -<p>—Mas é a primeira vez que me fallas d’elle!...</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span></p> - -<p>—Não sei para que havia de fallar-te de um homem, que me não importa!</p> - -<p>—Mas eu disse-te que suspeitava...</p> - -<p>—Que suspeitavas de um primo de tua mulher que estava em França. Como -me não disseste o nome d’elle, nem a época em que tinha ido, eu não -podia suppôr que a visita de Ricardo era o primo de quem me fallavas... -Que pensativo estás, Nicoláo!...</p> - -<p>—O que eu penso é uma horrenda coisa!... balbuciou cavamente o -morgado, e saiu.</p> - -<p>—Onde vaes?! acudiu Margarida.</p> - -<p>—Não me sigas... espera-me, que eu tenho a cabeça perdida...</p> - -<p>Foi á porta da hospedaria que Raphael indicára ao cocheiro. Perguntou -se alli não parára uma carruagem. Informaram-n’o que estivera lá um -trem com uma senhora, obra de dez minutos; e partira de grande batida, -assim que chegou um sujeito, e disse ao cocheiro: «Já para Lisboa.» -Pediu os signaes da senhora: Disseram-lhe que era magrinha, branca de -neve e tinha uma capa de casimira escarlate.</p> - -<p>—Maldição! rugiu o morgado com os dentes cerrados.</p> - -<p>Voltou ao <i>Victor</i>, e mandou pôr os cavallos á carruagem. Foi ao -quarto de Margarida, e exclamou:</p> - -<p>—É horrivel o que acontece!...</p> - -<p>—Que é, filho?! perguntou a franceza, mais agitada que o natural.</p> - -<p>—Vamos para Lisboa!... Já!... Eu tenho sido atraiçoado!...</p> - -<p>—Por mim, santo Deus? exclamou a franceza.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span></p> - -<p>—Não, por minha mulher.</p> - -<p>—Tens provas?!</p> - -<p>—Era ella que vinha com o infame! Era ella, e eu vou arrancar-lhe o -coração!... e apunhalal-o a elle!</p> - -<p>—Reflexiona, meu anjo!—redarguiu Margarida Froment.—Tu estás -desvairado! Pois tu viste-a?</p> - -<p>—Não. Fugiram. Branca, magra, e capa escarlate!... Era ella! Está -morta, juro-te que morre hoje, se não estiver escondida nos abysmos do -inferno!</p> - -<p>—Que pequena alma!—observou a franceza.—Quando assim fosse, não -terias a coragem de Ernesto Froment?</p> - -<p>Nicoláo fitou-a com spasmo de furioso, e bramiu:</p> - -<p>—Porque me dizes tu isso?</p> - -<p>—Porque meu marido, como sabes, não me veiu procurar onde me tu -trouxeste. Sei que vive feliz, e esquecido da deshonra, e de sua mulher.</p> - -<p>—Eu não sou Ernesto Froment! exclamou irado. Sou Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>—Egual a Ernesto Froment perante a desgraça, acrescentou Margarida.</p> - -<p>—Basta!</p> - -<p>—Falta-me dizer umas breves palavras, tornou ella. Eu não hei de ir -andar comtigo atraz de tua mulher. Vae, e deixa-me aqui ficar. Se -quizeres, volta, ou manda-me buscar, depois de teres concluido essa -empreza.</p> - -<p>—Vem, que eu, á entrada de Bemfica, mando-te levar ao hotel. Vem, -Margarida, se não estás apostada a tirar-me o resto da minha razão!</p> - -<p>—Pois sim, vamos.</p> - -<p>Que supplicio no trajecto d’aquellas cinco leguas,<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> tão vagarosas! Que -confrangimentos de alma, e revolutear de viboras assanhadas no peito!...</p> - -<p>Parou a carruagem em Bemfica, onde moravam as primas Camaras.</p> - -<p>Nicoláo mandou o cocheiro conduzir Margarida ao hotel, e encaminhou-se -por uma azinhaga á quinta das primas.</p> - -<p>Bateu ao portão. Houve grande demora em abrirem-lhe. Chegou uma criada -a uma janella gradeada do muro, e perguntou:</p> - -<p>—É vossa excellencia, senhor Mesquita?</p> - -<p>—Sou: a senhora D. Beatriz está cá? disse elle offegante.</p> - -<p>—Está sim, meu senhor.</p> - -<p>—Está?! reperguntou com espanto.</p> - -<p>—Já disse que está... Eu vou pedir a chave para abrir o portão.</p> - -<p>Ia grande alvoroto nos quartos das senhoras Camaras.</p> - -<p>Beatriz estava em convulsões; e uma das primas casada dizia-lhe:</p> - -<p>—Que mulher esta!... Ó tola, animo, que está tudo prevenido, criadas e -tudo!... Tira essa capa, e cobre-te com a minha azul, que é a irmã da -tua. É uma cautella, que tu não sabes se elle te viu...</p> - -<p>—Sacudam-lhe o pó do chapeu! disse outra senhora Camara, tambem casada.</p> - -<p>E o marido d’esta senhora accrescentou:</p> - -<p>—Porte-se com coragem, prima Beatriz.</p> - -<p>O tardio abrir-se do portão deu tempo a tudo isto.</p> - -<p>Quando Nicoláo avistou a escadaria do palacete, já sua mulher, entre -as senhoras Camaras, estavam<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span> no patim, vozeando um alarido de alegre -recepção ao primo Mesquita.</p> - -<p>O reparo que elle fez logo foi na capa, que lhe saiu azul. Ainda assim -a cara denotava o inferno interior.</p> - -<p>—Não foste a Santarem?! perguntou Beatriz com jovial admiração.</p> - -<p>—Assim, assim!—applaudiu a meia voz uma das senhoras -casadas.—Falla-lhe n’esse tom.</p> - -<p>Nicoláo subiu a escada, ainda esbofado.</p> - -<p>—Vieste a pé?! disse Beatriz. Que canceira é essa! Tu d’onde vens? de -Lisboa? como ficava o menino? Viste-o, filho?</p> - -<p>—Muito bem! disse á puridade uma senhora Camara, a outra senhora -Camara, ambas casadas com maridos espertos.</p> - -<p>O morgado sentou-se n’um banco de ferro. Era a mais inclassificavel das -phisionomias benemeritas de um estudo phisiologico.</p> - -<p>—Que tens tu? volveu Beatriz. Querem vêr que te aconteceu com o -demonio da politica alguma desgraça!</p> - -<p>—A que horas saiste hoje de casa? perguntou abruptamente Mesquita.</p> - -<p>—De manhã cedo, respondeu uma das senhoras Camaras, porque nos veiu -pôr a pé a travêssa da prima, eram seis horas e meia.</p> - -<p>—Essa pergunta que significa! inquiriu Beatriz, arrugando a testa.</p> - -<p>—O primo está afflicto! A sua pergunta quer dizer alguma coisa! -observou outra senhora.</p> - -<p>Beatriz entrou de repelão na sala, encarando-o com uma sobranceria de -quem esmaga a affronta sob os tacões das botinhas.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span></p> - -<p>—Entre, primo Mesquita, pediu o marido de uma das senhoras. Vossa -excellencia está preoccupado.</p> - -<p>—Peço perdão! disse Nicoláo. Eu devo confessar, visto que Beatriz se -retirou offendida, que uma gravissima suspeita me trouxe aqui.</p> - -<p>—Suspeita injuriosa á pobre senhora? perguntou a prima Carolina.</p> - -<p>—Eu suppuz que minha mulher esteve em Cintra, ha trez ou quatro horas.</p> - -<p>—Que horror! exclamou uma; e as outras, com as mãos no rosto, -conclamaram:</p> - -<p>—Que horror! Deus de misericordia!</p> - -<p>—Em Cintra!?</p> - -<p>—Ha trez horas!?</p> - -<p>—Haveria olhos infames que tal vissem!</p> - -<p>—Quem lhe disse isso?</p> - -<p>—Como se ataca a honra de um anjo!</p> - -<p>Fallavam todas a um tempo. O proprio sujeito, que era marido, cruzou os -braços, abanou a cabeça, e disse:</p> - -<p>—Que hedionda calumnia!</p> - -<p>—Venha pedir perdão á prima Beatriz! disse uma dama de cincoenta -annos, que tinha ao seu lado uma filha de vinte e outra de dezoito. Vá -pedir perdão á innocente menina! Em Cintra!? Pois ella chega aqui ás -seis horas e meia, a pé, coitadinha, que não tinha trem, nem o achava -áquella hora... e esteve em Cintra ha quatro horas!... Que mundo, que -mundo!...</p> - -<p>Nicoláo ergueu-se, e foi pelo braço do cavalheiro a um quarto, onde -Beatriz se refugiara com uma das senhoras.</p> - -<p>Estava ella com a pallida fronte apoiada na palma<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> da mão, e os olhos -no regaço, sobre a mão da sua amiga, que a confortava.</p> - -<p>Nicoláo acercou-se d’ella, tocou-lhe na face, e disse commovido:</p> - -<p>—Então, filha!... perdoas-me?</p> - -<p>—Não quero saber o que hei de perdoar-lhe, respondeu Beatriz com -severidade.</p> - -<p>—Perdoa, perdoa—disse uma senhora Camara, que não averiguamos se era -casada—perdoa, porque as desconfianças são a prova do amor.</p> - -<p>Eram seis horas da tarde. Ia o jantar para a meza. Nicoláo pediu -desculpa de não poder assistir. Foi para Lisboa, e ficou de mandar á -noite a carruagem buscar sua mulher.</p> - -<p>Entrou de boa cara no <i>hotel de Italia</i>, e disse a Margarida.</p> - -<p>—Sou um asneirão! Beatriz estava desde as seis horas e meia da manhã -em casa das primas Camaras! Pobre mulher!</p> - -<p>—E pobres homens...—ajuntou Margarida com um sorriso perverso—pobres -homens os ciosos como tu!...</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XX">XX</h2> -</div> - - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> papel, que Beatriz representava com as comediantes Camaras, não -ajustava ao seu caracter. A senhora, obrigada a valer-se das primas, e -a promover o escarnecerem-lhe o pae do seu filho, sentia-se humilhada, -e ridicula, em seu marido, rebaixado á condição dos Sganarellos e -Dandins de Molière.</p> - -<p>As senhoras Camaras, até á hora em que Beatriz lhes appareceu, exorando -que a defendessem de alguma suspeita de seu marido, consideravam-n’a -esposa immaculada, e abstinham-se de conversarem licenciosamente deante -d’ella. Beatriz, ao arrancar de repente a mascara, não sentiu a dôr -do impuxão; mas depois, quando ouviu as chacotas allusivas ao marido -enganado, teve vergonha, e condoeu-se d’elle.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span></p> - -<p>Figurava, para desopprimir-se, as perfidias do esposo, a ida para -Cintra com a franceza, o desapêgo d’alma com que a tratava, e o ar -ameaçador com que, por mero orgulho, lhe prescrevia os deveres. Isto -podia muito com ella; mas não a rehabilitava aos olhos das senhoras, -que, desde aquella hora, na ausencia do marido de uma, a fizera -confidente de passagens mais ou menos analogas, e algumas peores de -devassidão e escarneo marital.</p> - -<p>Beatriz saiu á noite, anojada d’ellas e de si. O marido não estava em -casa, nem lá tinha ido averiguar dos criados. Os criados de Mesquita -vendiam o seu silencio a Raphael Garção, e lastimar-se-iam na hora -em que se rompessem as ligações da fidalga com o mais generoso dos -mortaes, que elles haviam conhecido, relacionado com suas amas.</p> - -<p>Escreveu no mesmo ponto Beatriz ao primo, relatando o successo de -Bemfica, salvos os relanços irrisorios. Raphael deu louvores á sua -estrella, e disse comsigo: «É necessario acabar com isto, antes que -estalle borrasca! Não desprezemos este aviso!»</p> - -<p>Beatriz, porém, afervorava-se mais em ternura desde que presagiára -algum desastre. Lembrou-se que Nicoláo, com as provas da deslealdade -d’ella, era homem talvez para matal-a, ou repellil-a com desprezo. -O pae, o severo Martinho Xavier, aferrolhal-a-ia n’um convento, ou -vingaria o marido, n’um rapto de furioso odio. Beatriz precisava contar -com o refugio e amparo do homem amante, corajoso, rico, e affrontador -de todos os respeitos sociaes por amor d’ella. Faltava-lhe animo e -impudor, digamol-o assim, para prevenir Raphael no sentido<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span> dos seus -presagios. O bizarro moço acudiu ás balbuciações da prima, anhelando a -hora em que ella se despenhasse dos respeitos vãos do mundo aos braços -defensores do esposo de sua alma. Alentou-se o espirito da senhora. -Achou-se mais destemida, e mais segura na rampa da sua perdição.</p> - -<p>Escreveu o morgado da Palmeira ao sogro, e dizia-lhe n’um -post-scriptum: «Aqui vi Raphael, que chegou de Pariz. Leva uma -franceza. Doido até á morte!»</p> - -<p>Martinho Xavier respondeu:</p> - -<p>«No tocante a Raphael Garção ouso pedir á tua bondade que me não falles -mais. Eu fallei muito a respeito d’este homem. Hoje a ti peço, aos mais -ordeno que me não fallem n’elle.»</p> - -<p>Martinho Xavier, velho amigo do governador civil de Lisboa, sabia, -mediante as faceis pesquisas policiaes, onde morava Raphael em Lisboa. -Concluiu muito mais além do que a alçada da policia devassou, e -calou-se para não ir elle hastear o patibulo da deshonra da filha.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita ponderou em nada as palavras do sogro.</p> - -<p>Revieram dias serenos, serenos de sobejo para a lethargia de Raphael. -Sensação nova para elle! até saudades dos paes o inquietavam! -Parecia-lhe que na provincia havia de amar mais poeta, e mais -intensamente sua prima.</p> - -<p>Este constrangimento adoentou-o sem artificio. Beatriz deu tento de -sua tristeza, e considerou-se desamada. Chorou e fez-se aborrecida. A -mulher, nas condições de Beatriz, nada vence com lagrimas, e ás vezes -dissolve com ellas os filamentos que a prendem á estima que se desfaz. -Raphael<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span> queixou-se amargamente da injustiça e da ingratidão.</p> - -<p>—Avalias mal, disse elle, um homem dos meus annos, e com o meu -temperamento, que está, ha sete mezes, privado da liberdade, e até de -ar, no centro de Lisboa, rodeado de prazeres, attraido pelas diversões -de que amante nenhum se abstém.</p> - -<p>—Eu cuidei que eras assim feliz!... atalhou ella seccando as lagrimas -ao incendio do subito arrependimento.</p> - -<p>—Feliz... de certo fui e sou; mas custa-me que tu chores, quando eu me -queixo que não posso com esta vida... Tens tu força de mover teu marido -a ir para a provincia?</p> - -<p>—Eu não tenho força nenhuma, primo...</p> - -<p>—Experimenta, Beatriz: diz-lhe que estás doente: póde ser que elle te -deixe ir para Palmeira. Se elle quizer ficar com a franceza, que te faz -isso?</p> - -<p>—A mim que me ha de fazer?!... Pois sim, eu lhe pedirei que me deixe -ir para Palmeira... E perdoa-me, disse ella, enternecedora, perdoa-me, -Raphael, que bem conheço que estás doente, e aborrecido como eu de -Lisboa. Quem me dera nas minhas arvores, e á margem do meu Tamega!... -Amei-te com tanto coração n’aquelles sitios!... Tenho saudades da gruta -em que eu ia buscar as tuas cartas e levar as minhas! Conheço todas as -plantas d’onde tu colheste uma flôr, que deixavas cair entre as murtas -para eu a murchar ao calor do meu seio. Tambem te lembras?</p> - -<p>—De tudo, minha filha!...—disse Raphael commovido.—De tudo me lembro -em que teus olhos pousaram um instante. Voltaremos nós áquelle<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span> ceu?... -Vêr-nos-ha uma d’aquellas noites estrelladas da nossa terra?</p> - -<p>Estavam mais liricos que o seu costume. O morgado de Fayões era -alma pouco puxada á fieira do idillio. As estrellas distraiam-n’o -mediocremente, e a lua incommodava-o com demasias de luz, nas suas -escaramuças nocturnas á pacifica honestidade dos infelizes, como o -pharmaceutico, e o coronel, e outros de lacrimavel memoria. No tocante -a Beatriz, até áquella hora, minguára-lhe tempo aos devaneios pelo -azul dos céus da sua terra e canteiros do seu jardim. Nos romances, -que lêra, se alguns amantes se detinham em palestras concernentes ás -estrellas, e sombras de platanos, admirava-se ella da impertinencia dos -authores, que tão pouco, em certas conjuncções, conheciam o coração -de duas pessoas apaixonadas, ardentes, novas, doidas, escondidas uma -n’outra como dois anjos, que não entendem o mundo.</p> - -<p>Desde este dia, ou noite, Beatriz ficou pensando sempre em voltar -á aldeia. Tambem ella esperava que o seu Raphael centuplicasse os -carinhos, além, n’aquelles convidativos bosques, onde parece que o -coração se dilata, e enche do amor dos mil amores que a natureza espira.</p> - -<p>Pediu ao marido que a levasse a Palmeira, se elle queria passar o verão -em Lisboa.</p> - -<p>Nicoláo respondeu que não podia ir, nem viver sem ella.</p> - -<p>—E se te eu disser que me sinto deperecer, e brevemente morrerei em -Lisboa?—replicou ella.</p> - -<p>—Não morrerás, menina. Pelo contrario, a vida da aldeia ser-te-ia hoje -um incessante fastio.</p> - -<p>—Como quizeres, primo...—tornou Beatriz<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span> com despeito.—Ainda assim, -has de consentir que eu, se me sentir peior, escreva a meu pae, -pedindo-lhe que me venha buscar. Tenho um filho, e quero viver para meu -filho.</p> - -<p>—Pois vive em Lisboa, priminha, que estes ares são purissimos, se me -não engano.</p> - -<p>—Tu nunca te enganas, meu primo—retorquiu, surrindo amargamente;—mas -tambem não enganas ninguem.</p> - -<p>—Explica-te!</p> - -<p>—Mais tarde...</p> - -<p>—Porque não ha de ser já?!</p> - -<p>—Porque ainda se não gastou a paciencia... Não me faças mais -perguntas, visto que eu tenho a delicadeza de te não responder. Se um -dia me queixar, não ha de ser de ti.</p> - -<p>Nicoláo recolheu a colera e a interrogação imprudente. Compreendeu que -Beatriz lhe conhecia deslealdade; e, do aprumo glacial com que ella o -invectivou, tambem inferiu que não era amado.</p> - -<p>Resignou-se, e protestou acautelar-se, visto que ainda era tempo. As -cautelas consistiram em sondar e precatar a fidelidade dos criados. Ia -bem n’aquelle rumo!</p> - -<p>Passados dias, voltou Beatriz a pedir-lhe que a levasse para Palmeira. -Nicoláo respondeu:</p> - -<p>—Póde ser na semana que vem.</p> - -<p>Escreveu a um amigo de Chaves, perguntando-lhe se Raphael Garção tinha -casado com a Angela de Santo Aleixo. Disseram-lhe que Angela havia -casado, quatro mezes antes, com o morgado das Boticas, e que o morgado -de Fayões ninguem sabia d’elle, porque não escrevia a ninguem.</p> - -<p>—Então que é isto?—perguntava Nicoláo á sua<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> razão esclarecida.—O -homem disse-me em Cintra que ia para casa, e ninguem sabe d’elle!... -Não negou que ia casar com Angela, e Angela estava casada!... Mas, se -elle estivesse em Lisboa, e Beatriz o soubesse, seria um contra-senso -querer ella ir para a provincia! Isto não falha aos dictames de uma -razão escorreita! Já sei o que é: o doido escondeu-se por aqui, ou -no Porto, ou na provincia com a franceza. É o que é. Martinho Xavier -sabe-o, e, irado contra esse escandalo, prohibe que lhe fallem n’elle. -Minha mulher é estranha a tudo isto. Vejo-a doente, e receio que ella -se queixe ao pae. Sabe a minha vida misteriosa, e, se eu a contrario, -é capaz de me denunciar. Martinho Xavier vem a Lisboa, e toma conta -da filha. Remediemos as eventualidades. Vou para Palmeira com minha -mulher, e preparo residencia á franceza na minha quinta de Ribeira -d’Oura. No inverno seguinte, deixo Beatriz em Chaves com o pae, e volto -a Lisboa com Margarida.</p> - -<p>Beatriz recebeu a nova da partida. Avisou Raphael, que antecedeu oito -dias a jornada, entrando outra vez em Hespanha. A mobilia da casa de -Andaluz foi vendida em globo, em nome do seu criado. O desabafado moço -cuidou que saia de Lisboa com um pulmão desfeito, e o outro atacado de -tuberculos.</p> - -<p>Entrou Raphael Garção em Chaves, com dois caixotes de encommendas de -Pariz, mandadas comprar no Chiado. Andou entregando os objectos ás -primas, com as quaes fallava difficilmente o portuguez. As senhoras -achavam-n’o assim mais interessante. As donzellas gostavam de ser -chamadas <i lang="fr" xml:lang="fr">mamasélles</i> e <i lang="fr" xml:lang="fr">chères cousines</i>, pronuncia que -feria os<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> ouvidos lusitanissimos das velhas. De Chaves foi para Fayões, -onde se espantou de não encontrar cincoenta e tantas cartas, que havia -escripto a seus paes, de differentes cidades do mundo. Os velhos -choravam abraçados n’elle, como se o filho, por milagre de Jesus, -quebrasse a campa. Julgavam-n’o como morto, não obstante Ricardo de -Almeida, compadecido d’elles, lhes haver asseverado, de mez a mez, que -Raphael Garção vivia. O morgado queixou-se acremente da inconstancia -da prima de Santo Aleixo, e protestou casar-se por vindicta com a mais -rica herdeira.</p> - -<p>Passados dias, foi visitar Ricardo ao castello de Aguiar. Viu Laura, -a pomba do ceu, que depuzera o ramo de oliveira no coração do amante -de Margarida. Inclinou-se com ingenuo respeito deante da mulher, que -o recebia com um surriso de estima. Sabia ella quanto seu esposo -devia a Raphael Garção, perdido no conceito publico, e ao mesmo tempo -bajulado dos paes, querido das mulheres, e invejado dos homens. Ricardo -pintára-lhe vantajosamente o caracter de Raphael, omittindo o desdouro -dos seus amores adulteros. Laura uma vez lhe revelára a esperança -de vêr uma das suas irmãs casadas com o morgado de Fayões. Ricardo -singelamente lhe disse:</p> - -<p>—Não penses em tal. Raphael ha de morrer solteiro, porque ha de morrer -novo.</p> - -<p>Regosijou-se a dama brazileira de vêr Raphael com saudavel exterior, -e uns vislumbres de espirito fatigado de correr mundo á procura -das aventuras vãs e estragadoras do coração. Julgava ella que as -leviandades do fidalgo eram amar sem destino, gastar o sentimento em -affectos inconsequentes, e com mulheres devastadas pelas paixões, -falsas paixões<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> que desluzem as illusões candidas da alma, como as -côres postiças corroem a natural purpura do rosto.</p> - -<p>Largas horas praticaram os dois amigos em passeios na serra, por onde -Raphael tragava saude, e renovava o sangue. Fallava de Beatriz com -saudade, por que a distancia lh’a aureolava com o resplendor de outros -tempos. Revelava os seus intentos a Ricardo, que, sem fortalecer o -discurso com axiomas, lhe pedia que rompesse uma alliança, promettedora -de cortar-se mais tarde com mais doloroso golpe.</p> - -<p>—E cuidas tu que Beatriz não morre, deixando-a agora eu?—dizia entre -piedoso e fatuo o de Fayões.</p> - -<p>—Cuido que não morreria, primo Raphael. Merecia a pena experimentares -quinze dias.</p> - -<p>—Fez-te barbaro a felicidade, Ricardo!... Assim, queres tu que eu faça -uma fria e selvagem experiencia na vida da mulher que me ama, e que tem -posto a risco a honra e a vida por amor de mim?</p> - -<p>—Não, primo... O que eu queria era induzir-te a salvar-lhe a honra, -que a vida não tem marido que lh’a tire.</p> - -<p>—E, depois,—redarguiu Raphael, que querias tu fazer de mim?</p> - -<p>—O mesmo que tu indirectamente fizeste do teu primo Ricardo.</p> - -<p>—Levar-me ao casamento?</p> - -<p>—Levar-te á honra, e a honra depois que te inspirasse, meu amigo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XXI">XXI</h2> -</div> - - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Chegaram</span> os fidalgos ao Vidago. Beatriz entrou contente na enorme gruta -de arvores seculares, que emboscavam a casa de Palmeira.</p> - -<p>Quinze dias depois, Margarida Froment, com o seu mordomo e criadas, -aposentavam-se na quinta da Ribeira d’Oura. Nos arredores corria que -esta dama, com suas aias, e mordomo, vestidos á bizarra, era uma -illustre estrangeira, que viajava, e parára alli, embellesada nos -encantos do sitio.</p> - -<p>Martinho Xavier não visitou a filha, e, respondendo ao genro, que -lhe annunciava a chegada, nem promettia ir vel-o, por estorvo de -enfermidades, nem o convidava a ir a Chaves. Nicoláo de Mesquita -azedou-se da indelicadeza, e disse á mulher que o pae era uma creatura -intractavel.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span></p> - -<p>Informou-se o morgado do viver de Raphael. Colheu que vivia muito -no Pontido com Ricardo, e com os amores começados de uma cunhada de -Ricardo, dotada com duzentos e cincoenta mil cruzados. Varreram-se-lhe -as suspeitas do pensamento. Foi á Ribeira d’Oura; deteve-se oito dias, -e voltou forçado pelas conveniencias, e já não pelo ciume.</p> - -<p>N’este espaço de tempo, Raphael Garção passou trez dias no palacete -de Palmeira, e revistou com Beatriz, nas cálidas horas das noites de -julho, os maciços das murtas, os alegretes das flores almejadas em -Lisboa, os arvoredos cerrados, as margens do Tamega rumoroso. Noites -lindas, scismadoras como as do tempo ido, mas que differentes ao -espirito de Raphael! Poesia espontanea, essa fenecêra como as flores de -então. A poesia de agora, tirada á força da fantasia, era toda arte de -coração fatigado. Beatriz é que era sinceramente ditosa.</p> - -<p>Raphael estava alli e pensava em Amelia, irmã de Laura, trigueira como -sua irmã, olhos mais ardentes, espiritos mais scintillantes, cheia de -graça na conversação, e de meigas puerilidades no seu amor.</p> - -<p>Acontecia, porém, que o pae de Amelia desconfiava do caracter de -Raphael. Repugnava-lhe o tom galhofeiro do primo de Ricardo de Almeida. -Achava-o mundano de mais; bom para as salas; verde de mais para a vida -intima. Não obstante, ligeiramente contradizia a propensão da filha.</p> - -<p>Raphael não podia romper de vez o enlace com Beatriz; promettia, porém, -ser forte e honrado, assim que o casamento se tratasse.</p> - -<p>Aqui o temos, pois, transtornado, e seduzido pelo exemplo da felicidade -do primo. As differenças de<span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span> genio, que mezes antes observára elle, -entre si e Ricardo, tornaram em identidade de aspirações. Dizia-lhe -o castellão de Aguiar que principiasse a sua reforma, renunciando ás -abominaveis intelligencias com a esposa de Nicoláo de Mesquita. Raphael -mentiu, protestou despedir-se d’ella cavalheiramente, recolheu-se a -Fayões; e assim que houve nova da segunda ida de Nicoláo á quinta da -Ribeira d’Oura, voltou para Vidago.</p> - -<p>Martinho Xavier sabia os passos do genro, e os do sobrinho. Ao genro -perdoára; ao sobrinho não pudera. Um dia, chamou dois valentes filhos -de um caseiro das suas terras de Barrozo. Deu a cada um seu bacamarte; -e, ao cerrar da noite, ordenou-lhes que o esperassem fóra de Chaves, -com um cavallo á redea. No sellim iam afivelados coldres de pistolas de -alcance.</p> - -<p>Á meia noite, haviam caminhado quatro leguas. A casa acastellada de -Fayões negrejava como um morro de fragas, a um oitavo de legua distante.</p> - -<p>Martinho parou e disse:</p> - -<p>—Á uma hora devem aqui passar dois homens a cavallo. Se o que vier á -rectaguarda fizer algum movimento com armas, atirem a matar. Ao que -vier na frente não lhe ponham mão. Se acontecer matar o criado, fujam, -e esperem-me além Tamega. Eu lá irei ter.</p> - -<p>Antes da hora marcada aos criados, que se embrenharam n’uma bouça, -ouviu-se perto o strupido de cavallos no declive pedregoso da calçada. -A estrada achanava-se ao cimo da ladeira.</p> - -<p>Raphael Garção viu ante si um cavalleiro, quedo e immovel como estatua.</p> - -<p>—Quem é?—perguntou engatilhando uma pistola.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span></p> - -<p>—Sou Martinho Xavier, pae de Beatriz.</p> - -<p>—Meu tio!—exclamou Raphael, abaixando o braço da pistola.</p> - -<p>—Arreda lá com o parentesco, infame villão!—bradou o velho.—Vae -perguntar a tua mãe que lacaio te deu o sangue plebeu que te gira nas -veias!</p> - -<p>—Essa affronta não fere minha mãe, senhor Xavier! respondeu o de -Fayões erguido nos estribos.</p> - -<p>O criado de Raphael, seu companheiro e guarda desde os quinze annos, -esporeou o cavallo com um bacamarte em punho.</p> - -<p>—Alto ahi!—ordenou Raphael ao seu valente criado.</p> - -<p>O homem susteve o impeto do cavallo, e recebeu no mesmo ponto, duas -balas em cheio peito. Oscilou sobre a sella, inclinou a cabeça ao -pescoço do empinado cavallo, e, destribado caiu morto em terra.</p> - -<p>—É uma espera de assassinos?—exclamou Raphael, abocando a pistola ao -peito do tio.</p> - -<p>—Como quizeres, canalha! Vaes agora morrer tu, ás mãos de um velho, -que deshonraste. Desfecha, corôa a tua vida com o homicidio! Mata quem -te vae varar esse perverso coração!... O pae de Beatriz deve morrer ás -tuas mãos!</p> - -<p>Raphael abaixou a arma apontada, e disse:</p> - -<p>—Atire! aqui me tem mais perto!...</p> - -<p>E impelliu a trancos o cavallo para a frente, e quasi ao alcance do -braço de Martinho.</p> - -<p>O velho retirou o dedo convulso, que premia o gatilho.</p> - -<p>—Antes quer que os seus criados me assassinem?—exclamou -Raphael.—Pois então que atirem elles!<span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span> Um homem innocente está alli -morto no chão; matem agora o criminoso; desculpem-se de uma barbaridade -com um acto de justiça. Salvem a honra de seu amo, que o sangue do meu -criado não lhe póde lavar as nodoas!</p> - -<p>Martinho Xavier fraquejara. Aquelle silencio era uma estrangulação que -lhe afogava na garganta a voz. Contara comsigo para uma desaffronta, -que, nas cogitações do seu quarto, lhe parecêra heroica. A presença do -cadaver, e o animo frio de Raphael conturbaram-n’o.</p> - -<p>—A deshonra de minha filha!...—balbuciou elle. E as lagrimas -romperam-lhe em torrentes, e a pistola caiu-lhe da mão.—A minha -amada filha... prostituida... por um sobrinho de seu pae... pelo -companheiro da sua infancia, que eu tinha em meus braços, quando -ambos se beijavam... E pudeste, Raphael, tu, pudeste perdel-a, quando -devias guardar a dignidade dos teus, respeitar a esposa de um amigo, -a filha de um velho, que te estremecêra como pae... Tu, filho de uma -irmã de minha mulher!... Maldito sejas!... Deus não quer que eu possa -castigar-te... Divina Providencia, eu vos entrego este criminoso!... -Castigae-o vós!</p> - -<p>Martinho Xavier desandou o cavallo, e partiu vagarosamente. Carecia de -forças, para accelerar a carreira.</p> - -<p>Raphael desmontou, ergueu pelos hombros o criado, quiz acostal-o á riba -da estrada; mas o corpo inerte resvalava com a cabeça pendida, e os -braços desarticulados. O collete e a camisa fumegavam ainda queimados -pelas buchas dos bacamartes. O morgado tirou as mãos ensanguentadas; e -desistiu de esperar signal de vida.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span></p> - -<p>Voltou a Fayões a chamar criados com uma maca de carregar. -Transportou-o a casa, e não deixou que fosse avisada a justiça. -Amortalhou-o e depositou-o na capella do palacete. Foi suffragado com a -decencia das pessoas da sua familia, e distinctamente sepultado ao pé -do jazigo dos Cogominhos Garções.</p> - -<p>Quinze dias depois d’este successo, Martinho Xavier enfermou -gravemente, e prohibiu que Beatriz fosse avisada. Sem embargo, chegou -a Palmeira a nova da perigosa doença do fidalgo. Nicoláo de Mesquita, -sopesando o despeito, foi com a esposa e o filho a Chaves.</p> - -<p>Era irrecusavel o accesso ao quarto do enfermo. Sentou-se com -transporte de ira o velho, quando viu a filha. Contemplou-a com os -olhos arraiados, e acovados nas orbitas azues. Apontou-a com o braço -tremente e murmurou:</p> - -<p>—O crime!... a lividez patibular do crime!... A maceração da -consciencia no rosto que foi tão bello!... Vae-te, amaldiçoada!... Olha -que pesa sobre ti uma vida innocente, que eu fiz matar!</p> - -<p>Nicoláo, que se detivera consultando os medicos, acudiu aos brados -roucos de Martinho, e viu sua mulher ajoelhada aos pés do leito, e -lavada em lagrimas.</p> - -<p>Assim que o intreviu no reposteiro, o velho carregou a fronte, e bradou:</p> - -<p>—Quem te chamou aqui, devasso? Vae para as vergonhosas delicias da -mulher, que achaste mais digna quando era mais perdida. Vae cumprir -a tua expiação, e não venhas ser testemunha da minha. Dei-te essa -desgraçada, que ahi está, cuidando que a guardarias no santuario de um -amor digno. Não<span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span> podeste, porque vinhas do crime sordido, havias de -voltar ao mesmo abysmo, e arrastal-a comtigo! Vão-se ambos da minha -presença, e... despedacem-se!</p> - -<p>Nicoláo estava corrido na presença das pessoas que o acompanharam ao -quarto. Retrocedeu taciturno, perguntando aos medicos se seu sogro -estava doudo. Os medicos, suspeitosos da justa supposição do morgado, -entraram ao quarto a examinar-lhe os olhos e os movimentos. Martinho -compreendeu-os, e disse placidamente:</p> - -<p>—Eu não estou doudo, meus amigos. Escusam de examinar-me. Se vêm -lagrimas, são de desgraça, e não de demencia. Peço-lhes o favor de me -deixarem repousar... E, se ahi está alguma senhora, queiram pedir-lhe -que venha transportar d’ahi essa creatura.</p> - -<p>E apontou para Beatriz, que desfallecêra.</p> - -<p>Levada nos braços de duas damas, a filha de Martinho Xavier cobrou o -alento, e, expediu, com vibrantes gritos, repetidos golfos de sangue. -O marido sentou-se ao lado do leito onde a depuzeram, e encarou-a com -feroz catadura. É que das palavras de Martinho se convencêra que a -filha fôra accusar a ligação com Margarida Froment. Como os deixassem -breve tempo sósinhos, o marido acurvou-se ao ouvido da esposa, e -disse-lhe:</p> - -<p>—Que esperavas lucrar tu com a denuncia, desgraçada?</p> - -<p>—Qual denuncia, miseravel?—perguntou ella, erguendo-se de salto.</p> - -<p>—Falla baixo! e responde: que lucraste?...</p> - -<p>—Sae dos meus olhos, que te detesto!—exclamou Beatriz voltando-se de -repellão.</p> - -<p>Replicou Nicoláo com uma convulsão de riso sarcastico,<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span> e saiu da -alcôva. Entraram senhoras a rodearem o leito de Beatriz. Encararam -n’ella com assombro, sem ousarem interrogal-a.</p> - -<p>—Meu pae?—perguntou ella.</p> - -<p>—Está socegado.</p> - -<p>—Morrerá?!—tornou Beatriz muito commovida.</p> - -<p>—Talvez não: os doutores dizem que a molestia é moral; mas a causa -toda a gente a ignora. Sabe-se que saiu á noite, ha quinze dias; voltou -de madrugada; fechou-se no quarto; e adoeceu, como se vê.</p> - -<p>Uma das melhores amigas de Beatriz inclinou-se-lhe ao ouvido, e, -pedindo venia ás outras, perguntou-lhe:</p> - -<p>—Tu sabes da morte do criado de teu primo Raphael?</p> - -<p>—Não—respondeu Beatriz agitada.</p> - -<p>—Pois mataram-n’o na mesma noite em que teu pae saiu; meus irmãos -dizem que a doença do tio Martinho está ligada a este acontecimento.</p> - -<p>A senhora concentrou-se, e não respondeu nem esclareceu a tal respeito -coisa nenhuma.</p> - -<p>Reinou de novo um silencio de pesames mortuarios no quarto; porém, na -saleta proxima, alguns cavalheiros conversavam com Nicoláo.</p> - -<p>Dizia um d’elles.</p> - -<p>—Este anno tem sido fertil em casamentos. As melhores herdeiras foram -empalmadas; mas o melhor dote, que veiu para estes sitios, entre Chaves -e Villa Real, foi o de Ricardo de Almeida. Cem contos em moeda!</p> - -<p>Revelava outro:</p> - -<p>—Cem contos de réis a cada filha, sendo trez as que tem o tal ricaço -de Mirandella, negreiro segundo<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span> dizem. Sabem vossês que uma das filhas -vae casar... com quem imaginam?</p> - -<p>—Isso é sabido, acudiu outro. Casa com o Raphael Garção...</p> - -<p>Um estridente grito de Beatriz agitou de encontro á porta do quarto os -cavalheiros. Nicoláo entrou com elles, e viu sua mulher debatendo-se -freneticamente nos braços de duas senhoras. Erguia-se ella a prumo, -estorcendo-se e inteiriçando-se em afflictivas ancias. Depois, ao -recair, quebrada de forças nos braços amparadores, bolçava sangue, e -recurvava as unhas sobre o peito, como se quizesse arrancar um cauterio -do coração.</p> - -<p>Uma só pessoa compreendia cabalmente aquella agonia. Era o marido.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XXII">XXII</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Chega</span> uma hora, em que a mulher, esfacelada pelas cordas em que -estrebuxa, quando a mão inexoravel do dever lh’as estira e reaperta, -sente em si a desesperada ousadia de pregoar á face do proprio marido -o seu amor maldito. Se o insulto á moral se não desprende então dos -labios febris da energumena, é porque em todo o coração, congestionado -de sangue peçonhento, como que se abre uma valvula por onde os pulmões -ingerem um oxigenio purificante. Esta lufada de bom ar não tem que vêr -com os orgãos communs das funcções respiratorias. É fluido estranho á -sciencia de Bichat e Orfilla: chama-se <i>Esperança</i>.</p> - -<p>Foi a esperança que poz mordaça aos delirios de Beatriz. A presença -do marido, em cujo rosto revia<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span> o escarneo rancoroso, exagitava-a -em anciadas remettidas contra os braços que sustinham. N’uma -intermittencia de quebranto, a filha de Martinho Xavier tirou da luz -do seu inferno um clarão de duvida, e logo o deleite satanico da -esperança. E surriu, e atirou com aquelle surriso á cara de Nicoláo de -Mesquita.</p> - -<p>Avisaram o velho do estado afflictivo de sua filha, pessoas -inteiramente alheias ao complicado enredo do infortunio de ambos. -Martinho mandou dizer a Beatriz que viesse ao seu quarto. A senhora -cobrou forças, e, descomposta de feições, abeirou-se á cama do pae.</p> - -<p>—Já não é tempo de evitar o espectaculo da nossa desgraça, Beatriz? -perguntou elle.</p> - -<p>—É, meu pae,—disse ella.—Eu vou voluntariamente morrer n’um -convento: mas deixem-me levar o meu filho.</p> - -<p>—O convento que significa? Em que se rehabilita a deshonra, fechada -n’um convento? Responde, Beatriz!</p> - -<p>—Morre-se... murmurou ella.</p> - -<p>—Não morre... desespera-se, e redobram as forças que impellem ao -crime. Não te chamei para te propôr convento. O que eu quero é o -segredo da tua queda. É preciso que mintas ao mundo. Vai com teu -marido para Palmeira. Dilacerem-se a occultas da gente, se não podem -reciprocamente perdoar-se. A tua ignominia é ainda ignorada. Teu marido -sabe-a?</p> - -<p>Beatriz fez um gesto negativo, baixando os olhos e escondendo o rosto.</p> - -<p>—Nem desconfia? tornou o pae.</p> - -<p>—Não sei... murmurou ella.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span></p> - -<p>—Pois salva-me a mim! Emenda-te, desgraçada! Deixa-me morrer, e -depois... depois expõe á sociedade o opprobrio de duas familias, e o -teu filho que receba a herança!</p> - -<p>Beatriz ajoelhou, beijando soffregamente a mão do pae.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita entrou n’esta conjuncção, e disse tranquillamente:</p> - -<p>—Estás melhor, primo Martinho?</p> - -<p>—Creio que sim... Podeis ir para vossa casa, quando vos aprouver. Eu -vou sahir de Chaves para uma de minhas quintas, logo que possa.</p> - -<p>—Observo que te impacienta a nossa... ou pelo menos a minha -presença...—replicou Nicoláo.—A prima Beatriz, se queres, fica, e eu -irei.</p> - -<p>—Vão ambos... Beatriz pertence-te.</p> - -<p>No dia seguinte, seguiram para Vidago.</p> - -<p>No trajecto de algumas leguas não trocaram palavra. Beatriz ia de -liteira com o filho. O marido cavalgava, e adeantára-se a grande -distancia. Depois, na encruzilhada de duas estradas, avisinhou-se rente -com a liteira, e disse:</p> - -<p>—Eu vou á quinta de Valdez e demoro-me lá alguns dias.</p> - -<p>Apertou a mão da esposa, beijou o filho, e seguiu outra estrada.</p> - -<p>Beatriz exultou.</p> - -<p>Chegada a Palmeira, escreveu, e mandou o criado de confiança a Fayões -com uma carta. Era a carta um grito de angustia, uma invocação á -misericordia de Raphael.</p> - -<p>O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa -de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas -da seguinte<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span> noite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas -desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava -na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se -encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida -Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista.</p> - -<p>O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago, -entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de -duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao -encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As -rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços -no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau -tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja -pancada é mortal.</p> - -<p>Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam -armados a guardarem as raias do seu territorio.</p> - -<p>O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra, -havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa.</p> - -<p>As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras -sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a -alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos -até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram -atalaias até alta noite.</p> - -<p>Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões. -Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da -partida, sem perceber<span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span> o intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a -Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho -Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus -perigosos encontros.</p> - -<p>—Tudo lhe direi em viva voz—continuou Raphael Garção.—Não ir é -fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve, -é desgraçadissima.</p> - -<p>—Melhoras a situação d’ella?—replicou Ricardo.</p> - -<p>—Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de -honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua -cunhada que eu amo deveras.</p> - -<p>Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem, -e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta -prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que -Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente -perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de -Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data -d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer -com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a -como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a -Beatriz sem ella.</p> - -<p>Depois, com os seus dois valentes a pé, e elle cavalgado no seu garboso -frisão, foram caminho de Palmeira, por caminhos transversaes.</p> - -<p>Raphael ia triste. Nunca os prantos de sua mãe o compungiram assim! -O pae descêra ao pateo e<span class="pagenum" id="Page_232">[Pg 232]</span> dera-lhe um abraço, estando já Raphael com -o pé no estribo. Os criados esperavam-n’o fóra da aldeia, para não -alvoroçarem os velhos.</p> - -<p>Ás dez horas e meia da noite, o morgado de Fayões apeou além Tamega, -d’onde se enxergavam alvejantes chaminés e claras-boias da casa de -Palmeira. Raphael esperou o signal convencionado—uma luz na alta -janella d’um mirante acastellado. Ás onze horas illuminou-se o mirante -e elle aproximou-se, entregando o cavallo á guarda dos criados com -ordem de voltarem na noite seguinte. Cingiu-se á fachada do edificio, -d’onde costumava ver Beatriz n’uma janella para lhe indicar qual das -portas estava aberta.</p> - -<p>—Espera!—disse-lhe ella—que ainda não pude mandar abrir a porta. -Andam fora dois criados, por causa das desordens da romaria.</p> - -<p>Raphael tinha ouvido o tiroteio, de distancia de meia legua, e entendeu -a referencia.</p> - -<p>Beatriz continuou:</p> - -<p>—Os criados estão ali para baixo com outros homens, e não podem -tardar... A noite está linda... havemos de passear no jardim?</p> - -<p>—Sim, filha.</p> - -<p>—Amas-me ainda? tens pena da tua desgraçada Beatriz?</p> - -<p>—Amo-te, prima; não vejo, porém, motivo de compaixão.</p> - -<p>—Se tu soubesses o que eu tenho soffrido... o que eu soffri em Chaves. -Espera!</p> - -<p>Ouviram grande fallario.</p> - -<p>—São elles que vem ahi, proseguiu ella agitada. Olha, Raphael; -esconde-te alli ao lado da casa... Está lá um aqueducto aberto; entra -para dentro, e<span class="pagenum" id="Page_233">[Pg 233]</span> deixa-os passar. Logo que os dois criados, em que não -tenho confiança, entrarem, vou eu mesma abrir-te a porta do jardim. Tem -paciencia...</p> - -<p>—Sim, filha!... eu espero que elles passem, e aproveito a frescura do -aqueducto, disse surrindo Raphael; e, acostado á parede do jardim, foi -indo até encontrar a bocca da mina.</p> - -<p>Os criados pararam ainda, conversando com os seus companheiros sobre a -batalha da tarde. Dizia um d’elles:</p> - -<p>—O que eu tenho pena é de levar esta bala para casa na clavina!</p> - -<p>—Tambem eu!</p> - -<p>—Por hoje não ha mais que vêr! disse um terceiro. Vamos embora.</p> - -<p>—Querem vocês que nós dêmos a ultima descarga?</p> - -<p>—Valeu! clamaram todos.</p> - -<p>—Aqui não! disse um dos criados de Beatriz, que a fidalga toma medo. -Vão descarregar os bacamartes ahi para diante.</p> - -<p>Despediram-se dos que ficaram uns quatro que seguiram, aperrando as -armas, e polvorisando as pederneiras.</p> - -<p>Quando chegaram a pouca distancia da mina, em que Raphael se escondêra, -disse um:</p> - -<p>—Se vocês querem vêr o que é berrar uma clavina, vamos estoiral-as -dentro da mina. Isso faz ahi um trovão, que nem peça de artilheria.</p> - -<p>—Está dito.</p> - -<p>Raphael devêra ouvir a proposta, se a este tempo não viesse do outro -lado uma estropeada de dois cavallos, que perpassavam deante da mina.</p> - -<p>Os cavalleiros, cirurgiões das cercanias, estiveram<span class="pagenum" id="Page_234">[Pg 234]</span> conversando com -os homens armados, e contando que vinham de examinar os feridos e os -mortos nos montados da romaria.</p> - -<p>A este tempo já Beatriz estava á janella, maldizendo a paragem dos -homens n’aquelle sitio. Os cavalleiros seguiram o seu caminho, e os das -clavinas disseram:</p> - -<p>—Vá! é agora! os tiros todos a um tempo!</p> - -<p>E desfecharam os quatro bacamartes contra a bocca da mina.</p> - -<p>Raphael Garção, como empurrado pelas duas balas que lhe entraram no -peito, recuou alguns passos e caiu de bôrco, e os braços cruzados entre -o peito e a terra.</p> - -<p>Os lavradores, depois da descarga, levantaram grande grita e apupada. -D’além, dos confins da freguezia, irrompeu medonha celeuma de brados, e -estrondear de tiros.</p> - -<p>Observou um dos homens:</p> - -<p>—Querem vocês vêr que os patifes entraram na freguezia? Carrega e -avança, rapazes!...</p> - -<p>E correram em direitura ao ponto da vozearia.</p> - -<p>Beatriz esperou alguns minutos, dizendo entre si:</p> - -<p>—Elle agora já podia sair da mina, que por aqui não está ninguem!</p> - -<p>Esperou ainda alguns segundos... e disse á sua criada confidente, que -estava com ella:</p> - -<p>—Isto que será?! Elle não apparece!... Tu que pensas?...</p> - -<p>—Eu não sei, fidalga! respondeu a criada. Terá medo de ser visto, por -alguem, que nós d’aqui não enxerguemos, e o fidalgo veja lá de dentro -da mina...</p> - -<p>—Ha de ser isso... mas olha... a noite está<span class="pagenum" id="Page_235">[Pg 235]</span> tão clara... e eu não -vejo ninguem por alli!... Vamos nós lá?</p> - -<p>—Pois vamos, senhora... eu não tenho medo nenhum.</p> - -<p>—Nem eu... Estará elle já no jardim?</p> - -<p>Desceram de mansinho ao jardim, olharam os recantos sombrios, -descerraram a porta, sairam ao caminho, e paráram á bocca da mina.</p> - -<p>—Raphael!... chamou ella, primo Raphael!... Não falla! Onde está -elle?... Ó meu filho!...</p> - -<p>Ouviu um gemido no interior da mina.</p> - -<p>—Ouviste? perguntou Beatriz á criada, que tremia—ouviste um gemido?</p> - -<p>—Ouvi, fidalga!... Santo Deus, misericordia! que será?!</p> - -<p>—Raphael! Raphael!... clamou a brados Beatriz, e entrou mina dentro, -chamando sempre, até tropeçar e cair sobre um corpo inerte.</p> - -<p>—Uma luz, uma luz!—exclamou ella.—Raphael! tu estás morto?!</p> - -<p>—Morto!...—balbuciou elle—Adeus!...</p> - -<p>E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia.</p> - -<p>—Uma luz!... bradou ainda Beatriz.</p> - -<p>A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela.</p> - -<p>Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face -ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que -saiam das paredes do aqueducto!</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_236">[Pg 236]</span></p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_237">[Pg 237]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XXIII">XXIII</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_s.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Saiu</span> a criada á bocca da mina, no desvariado intento de chamar quem -levasse d’ali a fidalga.</p> - -<p>Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou -com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada -e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da -parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, n’estes -desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se -affeiçoara, como usam affeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não -obstante, em conflicto de tanta angustia, a sua idéa, quando se viu no -escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem. -N’esta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões n’uma -toada medonha.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_238">[Pg 238]</span></p> - -<p>Avisinhou-se ás apalpadelas, e tirou por ella de sobre o cadaver; -mas os braços de Beatriz estavam empedernidos ás ilhargas do morto. -Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços. -Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem -importar-se da crueldade e desamor do acto. Foi ao seu quarto, embolçou -os valores que tinha; e, tirante esta ultima prova de bom senso, no -mais parecia doida a correr por aquella estrada fóra sem destino.</p> - -<p>Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da lethargia, e -sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar -abraçada no cadaver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o -corpo glacial de um morto, e ella esfregava as palpebras, e arrefecia -as mãos na testa.</p> - -<p>—Que horror de sonho!...—exclamava suffocada—e, apalpando as costas -de Raphael, continuava a dizer em sua alma:—Parece que o sinto debaixo -das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!...</p> - -<p>Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que -foi o supplicio indescriptivel do completo despertar. Ergueu-se de -salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadaver com -frenetica ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a -cabeça como hirta; apertou-a convulsamente á face d’ella; correu-lhe a -mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu, -levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de -seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de -encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se -viu sósinha, e não<span class="pagenum" id="Page_239">[Pg 239]</span> soube compreender que profundezas de abysmo eram -aquellas; e que circo de chammas havia de abranger-lhe o espirito; e -que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida, -a torturada por tormentos, não sabidos de nome n’este mundo, caiu, a -poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um -raio.</p> - -<p>Ás trez horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram -aquella mulher, envolta n’um manto branco, ferretado de sangue.</p> - -<p>Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa. -Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz.</p> - -<p>No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira -d’Oura a chamar Nicoláo de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens -a procurarem não sabiam elles quem; viam a fidalga ensanguentada, e -julgaram-n’a ferida. As criadas examinaram-n’a, e apenas lhe viram o -rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos -visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o -rosto sobre a pedra.</p> - -<p>O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ella se -apalpou.</p> - -<p>Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao -leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de socego. Rasgou -as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou -de gritar, e interrogava os espavoridos circumstantes, perguntando -quem matára Raphael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam. -Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicoláo de Mesquita atirava-se -do leito fóra, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do<span class="pagenum" id="Page_240">[Pg 240]</span> -rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e -testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em -paroxismos.</p> - -<p>A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias -os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto -parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que -chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a -um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava.</p> - -<p>Nem um monosillabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!...</p> - -<p>Morrêra.</p> - -<p>Ao anoitecer, chegou Nicoláo de Mesquita. Já desde o alto da serra -eminente a Palmeira ouvira o dobrar dos sinos. Tangiam as torres das -irmandades de todas as freguezias proximas.</p> - -<p>Apeiou, correu ao quarto de sua mulher, e viu-a, na ante-camara, -amortalhada, com Martinho Xavier á cabeceira do esquife.</p> - -<p>—Que é isto!—exclamou elle—expliquem-me esta horrenda desgraça!...</p> - -<p>Martinho Xavier não respondeu. Nicoláo instou pela resposta com -gesticulação de furioso, guinando os olhos ameaçadores a todos os lados.</p> - -<p>Saiu ás salas, cheias de gente. Ergueu um brado, pedindo a historia da -morte de sua mulher.</p> - -<p>—Ninguem sabe responder—disse uma voz.</p> - -<p>Acercaram-n’o os cirurgiões, e contaram o que sabiam: os criados -depozeram lealmente o que tinham visto, e accrescentaram que a ama do -menino desapparecera.</p> - -<p>—Vão buscal-a! vão prendel-a!—rebramiu Nicoláo.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_241">[Pg 241]</span></p> - -<p>Martinho Xavier acompanhou o cadaver da filha até ao jazigo da capella, -depois de ter assistido aos responsorios. Saiu da capella; e, sem -entrar a despedir-se do pae do seu neto, tomou a creancinha nos braços, -e accelerou o trote do cavallo, caminho de Chaves.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o -levava ao collo, á saida da capella.</p> - -<p>Saltou furioso d’entre os cavalheiros que o rodeavam, e quiz ir na -pista do sogro. Retiveram-n’o, lembrando-lhe que ainda estava quente o -cadaver de Beatriz.</p> - -<p>No outro dia, por noite, chegaram á vista de Palmeira os criados -de Raphael Garção com o cavallo, na fórma das ordens de seu amo. -Esperaram-n’o a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se -cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam -parados n’aquelle sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos -entre ferros, declararam a que fins tinham vindo.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita ordenou que os trouxessem á sua presença. -Atterrados pelo apparato, contaram tudo. O morgado suppoz, um momento, -que Raphael Garção fôra o motor da morte de sua mulher ou com suas -proprias mãos a estrangulára, e fugira para Hespanha. O boato -correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os paes de Raphael, -surpreendidos por esta nova, sairam caminho de Palmeira. Ricardo de -Almeida appareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu -o seu amigo com a eloquencia da verdade e da angustia, na presença de -numeroso publico, exclamando:</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_242">[Pg 242]</span></p> - -<p>—O assassino de um, ou de ambos foi Nicoláo de Mesquita!</p> - -<p>Enganavam-se todos.</p> - -<p>Os paes de Raphael Garção escutavam as differentes vozes com um spasmo -e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo; -procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois mezes. -Apagada a esperança de tornar a vel-o, foi procural-o n’outros mundos. -O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o -jazigo em que lh’a fecharam, e d’alli saiu idiota para a escuridade de -uma camara, onde agonisou dez annos.</p> - -<p>Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Raphael tinha sido -assassinado por ordem de Nicoláo, não podia soffrer que a voz publica -infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não -podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e -contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Raphael com sua -prima, e as intenções com que elle saira de casa d’elle para Palmeira. -O velho achou rasoavel a supposição do morgado do Pontido; mas a sua -angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e -morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria elle -vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!... -Pediu elle a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse -a lembrança da horrivel tragedia na sua onda de sangue.</p> - -<p>Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mez os processos -começados estagnaram-se, á mingua de indicios. Martinho Xavier, instado -para restituir o neto, desappareceu com elle, e com boa<span class="pagenum" id="Page_243">[Pg 243]</span> parte dos seus -cabedaes. O menino tinha quatro annos, n’aquella época. Seu avô dizia -que o queria roubar ás reminiscencias do opprobrio e da morte de sua -mãe. Refugiára-se com o seu thesouro em Londres.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita foi para a Ribeira d’Oura buscar as consolações -de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral d’esta mulher -figurou-se-lhe um demonio, que o escarnecia na sua ignominia, a -ignominia de ser deshonrado, como suppunha dos boatos propalados pelo -Almeida, no intuito de o condemnar a elle como homicida de Raphael e -Beatriz.</p> - -<p>Era uma figuração meramente este reparo no escarneo de Margarida. A -franceza ageitou as feições á magua do seu amigo: interiormente é -que ella se deleitava atrozmente, vendo-se no juizo do mundo e de -Nicoláo tão deshonrada como a mulher purissima, por amor de quem fôra -abandonada á generosidade do primeiro homem que quiz acoital-a da -vergonha de pedir ella um amante em troca de um jantar e de um vestido.</p> - -<p>Os exteriores da franceza eram, pois, uma chimera do morgado de -Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que -todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A -publicidade da sua ignominia, aggravada com a hypothese de ter sido -elle o assassino, afóra o perdimento do filho, ao qual a Providencia -lhe suscitára no coração um amor incendiario, estas angustias, -centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida d’este -homem um espectaculo aborrecido ás raras pessoas que o tratavam, e, -mais que a todas, a Margarida Froment.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_244">[Pg 244]</span></p> - -<p>Assim que ella proferia uma palavra de banal consolação, Nicoláo -enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos -consummados, com a deshonra de muitos homens.</p> - -<p>Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das -valvulas do seu fel—o fel que o desprezo da sociedade emborca -violentamente na consciencia das mulheres despreziveis—e rebatia-lhe -as injurias com aviltamentos.</p> - -<p>A repetição d’estes conflictos disparou na ameaça de rompimento por -parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu:</p> - -<p>—Pois vae-te, mulher fatal! vae! que a tua expiação ainda não começou! -Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui n’esta agonia, que tu -vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas, -quando devias laval-as com lagrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que -Beatriz fosse victima da seducção! Tu, que interiormente exultas com -o meu opprobrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois -vae-te, vae, maldita, e deixa-me morrer!</p> - -<p>Margarida preparava os seus bahus, para ausentar-se; e Nicoláo -lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando:</p> - -<p>—Não me deixes n’esta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não -tenho ninguem! ninguem! até o filho me roubaram!...</p> - -<p>A franceza condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos -braços com ficticia ternura, e desprezava-o tanto quanto elle mais se -envilecia.</p> - -<p>As maviosidades momentaneas de Nicoláo pareciam ridiculas caricias -de velho idiota: os exasperos,<span class="pagenum" id="Page_245">[Pg 245]</span> interpollados com as caricias, -afeiavam-n’o horrivelmente.</p> - -<p>Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum accesso de furia -sanguinaria.</p> - -<p>Induziu-o a sair da quinta da Ribeira d’Oura para Lisboa. Nicoláo -recebeu jovialmente o alvitre; mas d’ahi a nada, rompia em exclamações -contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade á sua -deshonra.</p> - -<p>—Está mentecapto!—dizia entre si a franceza.—O diabo que o ature!...</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois mezes, -abrir as janellas e arejar o palacete que nunca mais se abrira. -Meditava em transferir para alli a franceza, desejo que ella -manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de -Vidago eram magnificos.</p> - -<p>Deteve-se a revolver as commodas e bahus de Beatriz, onde não encontrou -papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda -estavam fechadas no quarto, porque ninguem dava noticia da paragem que -ella tinha.</p> - -<p>Nicoláo fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas, -e uma medalha de oiro com o retrato de Raphael Garção, e uma manilha -com cabello identica áquella com que o amante de Beatriz morrêra.</p> - -<p>O morgado leu as cartas, sem excepção d’aquella em que Raphael alludia -galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Camaras em -Bemfica.</p> - -<p>Nicoláo sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadaver de Beatriz ao -jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas -fontes. Desistiu<span class="pagenum" id="Page_246">[Pg 246]</span> da lamentavel inepcia, e fugiu como de si mesmo para -a Ribeira d’Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment.</p> - -<p>Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A -mulher fatal não quer fazer mais victimas. Adeus.</p> - -<p class="right"> -«MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT».<br /> -</p> -</div> - -<p>Nicoláo, corridos trez minutos de estupefacção, exclamou:</p> - -<p>—Pois ha Deus que castigue assim!?</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_247">[Pg 247]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XXIV">XXIV</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_a3.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">A</span> interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providencia -que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus.</p> - -<p>Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providencia que mais -queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face -do guzano, que se pascia em sua podridão.</p> - -<p>Desde aquella hora, Nicoláo, olhando-se no baço espelho da sua -consciencia, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se -gosava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro annos, -via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condemnado -nas ultimas setenta horas do oratorio.</p> - -<p>«Eu posso ainda levantar-me d’este abatimento!—dizia<span class="pagenum" id="Page_248">[Pg 248]</span> comsigo -elle.—Irei longe d’aqui, irei a França, a Italia, a toda a parte onde -a riqueza inventa delicias, irei gosar, esquecer-me, viver!»</p> - -<p>Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso -da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga, -assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a.</p> - -<p>Duas vezes tivera as malas feitas para sair de Portugal: porém, á hora -de partir, senhoreava-o a cachexia com desalento anniquilador, que o -forçava a desistir, exclamando:</p> - -<p>—Onde vou eu? Em que parte do mundo se acabam os limites ao meu -inferno?</p> - -<p>E então, commovia a lagrimas vel-o chorar a elle com saudades do -filho; mas nem a consolação amarga d’estes prantos lhe era concedida! -Sobresaltava-o a duvida de ser elle o pae d’aquella creança. Calculava -épocas, via attentamente a data gravada na manilha de oiro, que -encontrára na caixa da ama: agora, inferia d’aquella data provas -concludentes da legitimidade do filho de Beatriz; logo, convencia-se da -fallivel significancia das lettras gravadas, podendo ellas meramente -commemorar o dia em que fôra dada a prenda. Execrava então o filho, -emquanto a soledade e a insulação de toda a convivencia, lh’o não -mostrava como esteio unico á vida.</p> - -<p>Vagando de quinta em quinta, afinal deixou-se ficar em Palmeira, -encerrado, em pouquissimo da casa, estranho ao governo d’ella, -inaccessivel a foreiros, a criados, a raros amigos que o procuravam. -Um só homem conseguira entrar no quarto de Nicoláo de Mesquita: era -o octogenario reitor, varão de<span class="pagenum" id="Page_249">[Pg 249]</span> preclaras virtudes, que adivinhara o -essencial da angustia do fidalgo, que elle baptisara e beijara nos -braços de sua mãe, quando assistiu ás estrondosas festas do baptisado. -Quantos esforços fez o santo homem para o tirar á luz e ás distracções -do campo todos se mallograram. Chamava-lhe o pensamento a coisas de -lavoira, obras começadas, melhoramentos que fazer, a reconstrucção da -torre de menagem meio arruinada.</p> - -<p>Nicoláo respondia:</p> - -<p>—O meu tumulo está edificado ha duzentos annos: não tenho outras obras -que faça, padre reitor.</p> - -<p>Ainda receioso de impaciental-o, o ancião teimava em fallar-lhe de -obras.</p> - -<p>Um dia, trez mezes depois da morte de Beatriz, dizia o clerigo:</p> - -<p>—Quando vi abrir-se o aqueducto da agua que vae dar ao jardim, e -andarem lá trabalhadores, cuidei que vossa excellencia resolvera, como -seus paes haviam tencionado, formar um grande tanque no terreiro para -beberem os cavallos. Esteve a mina aberta uns dias, e depois, logo -depois que sua excellencia a senhora D. Beatriz que Deus tem, falleceu, -fechou-se o aqueducto.</p> - -<p>—É que eu mandei suspender todas as obras—respondeu Nicoláo—e o -feitor mandou logo empedrar a bocca da mina.</p> - -<p>—E por que não hade vossa excellencia entretêr as suas horas n’uma -obra tão util para a casa e para o povo?</p> - -<p>—Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo.</p> - -<p>—O povo creio eu que importa a vossa excellencia, meu bom fidalgo, -porque paes e avós d’este<span class="pagenum" id="Page_250">[Pg 250]</span> povo foram sempre como filhos dos ricos -homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa -excellencia lhe desse para as suas necessidades a agua que superabunda -nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores seccam -as fontes, vae buscar, a grande custo e perda de tempo, a agua á -freguezia proxima. Aqui tem vossa excellencia que está em sua mão, com -pequenissimo dispendio, soccorrer este povo, que tão alegre ficou, -assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excellencia. -Parece que tem praga de inveja aquella obra! Seu excellentissimo -avô abriu a mina, o paesinho de vossa excellencia continuou-a, o -senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por -pouco encontrar-se com o aqueducto, que desce da serra, vejo eu os -jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa!</p> - -<p>Nicoláo ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como -sempre, assim que a expressão do tedio assomava no rosto do morgado -como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sósinho, padre -reitor.»</p> - -<p>D’este dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a -sepultura de Raphael Garção, e que o apodrecimento do cadaver não -chegou a ser presentido pelo fetido das exhalações.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_251">[Pg 251]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XXV">XXV</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> virtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo -fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem -d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas -de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino -estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em -collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella -unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que -elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo -sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o -apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo -de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a -residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito, -e facilmente se deparou ás investigações<span class="pagenum" id="Page_252">[Pg 252]</span> policiaes o velho fidalgo -vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel. -Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole, -apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho -passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o -nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não -prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo -batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e -licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro.</p> - -<p>Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem -de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara -a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os -olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse -affectuosa e tristemente:</p> - -<p>—Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma?</p> - -<p>O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino -reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz -tremida e balbuciante falla:</p> - -<p>—O meu papá não morreu? O avô disse que sim.</p> - -<p>—Morri, meu filho, morri!—respondeu soluçante o desgraçado.</p> - -<p>Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão -divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe:</p> - -<p>—Abraça-o, Martinho, que é teu pae.</p> - -<p>—E a mamã—perguntou o menino, apertado<span class="pagenum" id="Page_253">[Pg 253]</span> nos braços do pae.—E a mamã -tambem não morreu? Onde está ella?</p> - -<p>O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do -pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as -taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas -descobriam.</p> - -<p>Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve -pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha.</p> - -<p>Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe -compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura:</p> - -<p>—Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas -desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas -culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim?</p> - -<p>—Que és um desgraçado—respondeu serenamente o pae de Beatriz.</p> - -<p>—Bem hajas!—volveu Nicoláo.—Escuso perguntar-te se me julgas o -assassino de Raphael Garção.</p> - -<p>—Que me importaria isso?... redarguiu Martinho. Seria bem morto, se -era infame!</p> - -<p>—Atrozmente infame!... E quem me assevéra que elle não vive?</p> - -<p>Martinho Xavier encarou penetrantemente nos olhos de Nicoláo, e disse:</p> - -<p>—Quem matou, pois Raphael? Morto está elle. Raphael tinha um só amigo; -era Ricardo de Almeida. Tenho uma carta d’elle. Cartas recebidas todos -os paquetes. Ricardo nunca mais teve novas de Raphael... Quem o matou -pois?</p> - -<p>—Não sei, pela vida de meu filho t’o juro, Martinho<span class="pagenum" id="Page_254">[Pg 254]</span> Xavier, se a -minha palavra perdeu a tua confiança! Deus fulmine este anjo que é tudo -o que me resta, se eu comprehendo que morte foi a de Beatriz e se tenho -sombra de suspeita do destino que levou o villão, que tantas vezes me -apontaste como...</p> - -<p>—Basta! interrompeu o velho, está aqui uma creança, que Deus dotou -com precoce entendimento. Ha dois nomes que eu exijo que este menino -esqueça. Vens buscar teu filho?</p> - -<p>—Não, primo: venho pedir-te que voltes com elle e commigo a Portugal.</p> - -<p>—Não: leva-o, e deixa-me morrer, onde mais não veja a sombra de minha -filha.</p> - -<p>—Ficarei comtigo, Martinho Xavier, e com meu filho, disse Nicoláo. -Virei eu perturbar o teu socego?</p> - -<p>—Vens: mas eu acceito de boa vontade o que está determinado por Deus. -Ficarás comnosco. Assistirás á educação de Martinho; e, quando elle -tiver a sabedoria, que contrabalança as desventuras, e fortalece o -animo para subjugal-as, então ireis para a patria, e eu estarei já -morto e esquecido.</p> - -<p>Nicoláo de Mesquita apresentou-se na vivenda do sogro, sem intentar -melhoral-a. Afóra os contentamentos aspirados nos labios da creança, -o restante da sua vida era dôr sem intermissão. Nenhuma variedade -procurava ás suas meditações, não podia sequer conversar com o primo em -assumptos ligados ao nome de Beatriz. Se o pae, do secreto de alma, lhe -havia perdoado, envergonhar-se-hia de confessal-o. Como já não podia -maldizel-a, tambem fugia de suscitar reminiscencias d’ella.</p> - -<p>Assim passaram, n’esta angustiosa e contemplativa mudez, um anno.</p> - -<p>Martinho, observando com dôr o desperecimento<span class="pagenum" id="Page_255">[Pg 255]</span> do genro, suggeriu a -ideia de irem vêr França. Nicoláo approvou-a indifferentemente. Como -conhecia as miudezas de Paris e outras cidades, disse que a todas iriam -excepto Leão. Aqui devia viver o marido de Margarida Froment.</p> - -<p>Foram, e ao terceiro dia de residencia em Pariz, Nicoláo viu no -<i>boulevard dos Italianos</i> um homem conhecido, encostado á vidraça -de um estabelecimento de modas; era o chanceller, que havia sido do -consulado francez no Porto. D’ahi a segundos, viu sahir uma mulher de -bello exterior, e dar o braço áquelle homem: era Margarida Froment.</p> - -<p>De maneira que o brioso amigo do marido da infame, como elle a -catalogára, o campeão voluntario da honra de Ernesto, degenerára tanto -em pundonor de espiritos, que aberta a conjuncção prospera, tomou conta -da mulher do seu amigo.</p> - -<p>Margarida cravou os olhos em Nicoláo e fez pé atraz de espantada. O -morgado inclinára-se a ouvir uma pergunta do filho. Martinho Xavier -fôra estranho ao lanço.</p> - -<p>Volvidos quinze dias, Nicoláo, passando no bosque de Bolonha, viu um -homem que guiava um phaetonte, em que iam duas mulheres de imponente -belleza, e brilhantemente vestidas, inclinadas para o elegante -conductor de fogosos cavallos. Reconheceu-o.</p> - -<p>Ao pé d’elle estava uma roda de francezes, um dos quaes, apontando o -transeunte do phaetonte, dizia aos outros:</p> - -<p>—Ahi vae Ernesto Froment espalhando os ultimos dez mil francos da -fabrica vendida.</p> - -<p>Outro ajuntou:</p> - -<p>—Em dez annos gastou duzentos mil francos.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_256">[Pg 256]</span></p> - -<p>Ainda um terceiro:</p> - -<p>—Com seis magnificas mulheres. Diz elle que os ultimos mil francos ha -de engulil-os como Gilbert enguliu a chave.</p> - -<p>—A comparação é modesta! observou um.</p> - -<p>—Gilbert, acudiu outro, estremece de horror sabendo que foi parodiado -por uma bêsta maior da marca.</p> - -<p>Nicoláo passou ávante, e dizia entre si:</p> - -<p>—Ernesto e Margarida não expiam, porque se não devem nada.</p> - -<p>Vista a grande cidade, Martinho Xavier desejou a quietação da sua -casinha suburbana de Londres. Nicoláo seguiu-o automaticamente, -discutindo em segredo a ordem das leis providenciaes. A inducção que -vimos inferir da impunidade de Margarida, e do alegre viver de Ernesto, -prova que o homem principiava a formar um systema racional em materia -de expiações.</p> - -<p>Tem escapado a muito philosopho e theologo a grande verdade, que elle -apanhou pela incoercivel guedelha. É effectivamente verdade que uns -certos maridos de umas certas mulheres não expiam, porque não se devem -nada.</p> - -<p>A respeito d’estes e d’estas parece que a Providencia diz em linguagem -chã:</p> - -<p>«Lá se entendam e lá se avenham.»</p> - -<p>Margarida, Nicoláo e Raphael foram exceptuados d’este menospreço da -Providencia.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_257">[Pg 257]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="XXVI">XXVI</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">N’uma</span> casa de Villa Real de Traz-os-Montes, em março de 1849, um -sujeito lia á sua familia a seguinte correspondencia de Chaves -publicada no jornal portuense <i>O Nacional</i>, d’aquelle mez e anno:</p> - -<div class="blockquot"> -<p> -<i>Sr. redactor.</i><br /> -</p> - -<p>«Remetto ao seu jornal a singela narrativa de um estranho successo, -que veiu esclarecer os mysterios de uma tragedia de familia, sobre a -qual ha quatro annos a opinião publica tem aventurado opiniões, aliás -infamantes, algumas das quaes desgraçadamente se verificam hoje.</p> - -<p>«Em agosto de 1844, o morgado de Fayões, Raphael Garção Cogominho, -rapaz de costumes não louvaveis, mas egual a muitos que o mundo -respeita,<span class="pagenum" id="Page_258">[Pg 258]</span> lisonjeia e admira, desappareceu da casa de seus paes, e -nunca mais voltou.</p> - -<p>«Ao mesmo tempo... (muito me custa ter de escrever os nomes de -pessoas que figuram ou figuraram n’este drama; porém, sacrificando -á verdade, e desejando que na minha narrativa ninguem veja um -romance, sou forçado a não esconder nenhuma das luzes que alumiam -este acontecimento tenebroso). Ao mesmo tempo, D. Beatriz de Sousa, -mulher do morgado da Palmeira do Vidago, Nicoláo de Mesquita, morria, -segundo disseram os facultativos, de uma congestão cerebral, ou febre -thraumatica, consecutiva a ferimentos na face.</p> - -<p>«No dia seguinte, os criados de Raphael Garção procuraram seu amo na -quinta de Palmeira, para onde elle viéra de noite e furtivamente. Os -criados, interrogados pelo marido da senhora morta, confessaram a -intenção que os levava alli, e foram despedidos.</p> - -<p>«A voz publica francamente disse que o morgado de Fayões morrêra -ás mãos do marido de sua prima Beatriz, ou por ordem d’elle; e que -a esposa, suspeita de deslealdade, se não perecêra no mesmo ponto, -succumbira depois dos flagicios bem claramente denunciados nas -contusões da face.</p> - -<p>«A ausencia do morgado da Palmeira, na noite em que estes factos se -deram, confirmava desconfianças sobre as probabilidades da astucia -com que o senhor da casa, praticado ou mandado praticar o crime, se -fingia distante do local. Como quer que fosse, do cadaver de Raphael -Garção nenhuns indicios alcançaram as pesquizas da justiça, e sobre o -cadaver de Beatriz de Souza nenhum exame se fez. O provavel e quasi -evidenciado é que ambos estavam mortos.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_259">[Pg 259]</span></p> - -<p>«Passados sete ou oito mezes, o morgado da Palmeira foi para Londres, -em demanda do filho, que o avô, nobilissimo cavalheiro de Chaves, lhe -arrebatára. Decorridos dois annos, voltou para Portugal Nicoláo de -Mesquita, e o filho, a tomar conta dos grandes haveres do sogro, que -falleceu em Londres.</p> - -<p>«No principio do corrente anno, quando a memoria da obscura tragedia -estava delida no impersistente espirito do publico, quiz a Providencia -que o morgado da Palmeira, com a sua propria mão, fosse apontar o -infallivel testemunho do seu crime. É bem certo, segundo a phrase da -Escriptura, que Deus enlouquece aquelles que quer perder!</p> - -<p>«Os operarios, que por ordem de Mesquita desempedravam a porta de um -aqueducto, que estivera aberto quatro annos antes, e se fechára dois -dias depois da morte de Beatriz de Sousa, encontraram a quinze passos -distantes da abertura da mina um esqueleto.</p> - -<p>«Os ossos não tinham já fibra de carne adherente, conforme ouvi aos -facultativos examinadores. As cartilagens e ligamentos, com quanto -articulassem a ossada, principiavam a esphacelar-se, e muitos se -desfibraram ao contacto do ar. O esqueleto estava de bruços; e cingida -á volta do radio e cubito, ossos correspondentes ao ante-braço, tinha -uma especie de pulseira, chamada manilha, com um retrato pendente, -perfeitamente conservado no marfim, encastoada em oiro, com o rosto de -esmalte, no reverso do qual se lê uma data, e as iniciaes enlaçadas de -Raphael Garção e Beatriz de Sousa.</p> - -<p>«Quando os jornaleiros descobriram o esqueleto, estava Nicoláo de -Mesquita em Chaves. Os mineiros fugiram espavoridos, e foram contar -o succedido<span class="pagenum" id="Page_260">[Pg 260]</span> ao regedor. Este mandou guardar por cabos de policia o -aqueducto, e officiou á auctoridade. O aviso chegou simultaneamente ao -morgado, que partiu para Palmeira.</p> - -<p>«A auctoridade, chegada ao mesmo tempo, consentiu que Nicoláo de -Mesquita penetrasse no aqueducto com uma lampada, visto que sem o -exame dos peritos não se podia levantar o esqueleto, em conformidade -com as ordens do morgado.</p> - -<p>«O regedor, que seguiu Nicoláo de Mesquita, observou com grande -assombro, um acto de extraordinaria ferocidade; e foi que o morgado -depois de examinar a manilha pendente do pulso do esqueleto, fez um -gesto de raiva frenetica: e, com um pé assentado em cheio no arcaboiço -das costellas, fez que debaixo rangessem e estalassem os ossos do -peito e costas. O regedor conteve-o de espalhar a ossada a pontapés, -com risco de ser espancado pelo furioso dentro da mina.</p> - -<p>«As auctoridades, depois do exame, tomaram conta da ossada, para -continuação de averiguações.</p> - -<p>«Sr. redactor, como se vê, o indicio de um assassinio está manifesto -a todas as luzes; mas o indigitado homicida, porque é fidalgo e -opulento, está no liberrimo goso dos seus direitos civis. Se fosse um -pobre, já estava preso, e teria sido interrogado em casa de Anaz, e -Caifaz, e Pilatos.</p> - -<p>«Alguem saiu já em defeza de Nicoláo de Mesquita, allegando que elle, -se fosse o assassino, de modo nenhum mandaria bolir no aqueducto. Esta -razão tem uma face acceitavel, e outra incumbe á justiça mostral-a. Em -quanto a mim e á maioria dos pareceres, o matador de Raphael Garção,<span class="pagenum" id="Page_261">[Pg 261]</span> -cujos olhos são indubitavelmente aquelles, foi Nicoláo de Mesquita, -vigesimo segundo senhor da Torre e morgado de Palmeira de Vidago.</p> - -<p>«Conte com a noticia circumstanciada d’este processo, e com a verdade -incorruptivel, do seu constante leitor,</p> - -<p class="right"> -«EPAMINONDAS TEBANO.»<br /> -</p> -</div> - -<p>—O que ahi está é tudo mentira! exclamou uma voz d’entre as pessoas, -que escutavam a leitura da correspondencia.</p> - -<p>Confluiram todas as vistas para a pessoa que bradara, e viram a criada -da casa, Maria Joanna, que deixara cair o fuso, e com a mão levantada -repetia:</p> - -<p>—Juro pela salvação da minha alma, que o senhor morgado da Palmeira -não matou o senhor Raphael.</p> - -<p>—Como sabes tu isso?! perguntou o patrão.</p> - -<p>—Sei-o, porque era criada da senhora D. Beatriz; fui eu quem creou -o menino de que ahi se falla na gazeta. Assisti ao ultimo arranco do -senhor Raphael. E, se até agora me calei, é porque não soube que o meu -amo pagava innocente.</p> - -<p>—Conta o que sabes, Maria, e prepara-te para ir esclarecer a justiça, -voltou o patrão.</p> - -<p>A antiga confidente de Beatriz relatou as desgraças de sua ama e do -assassinado amante d’ella.</p> - -<p>No dia seguinte, partiu para Chaves, com recommendações do cavalheiro -de Villa Real, e foi levada á presença da auctoridade, deante de quem -e de testemunhas, expoz o modo como Raphael Garção<span class="pagenum" id="Page_262">[Pg 262]</span> fôra encontrado, -e a supposição de que elle fôra morto por uns homens que dispararam -as armas para dentro da mina. Era preciso ouvir o depoimento dos -homens. Maria Joanna indicou dois criados de Palmeira para dizerem -quem eram elles, por terem estado, poucos momentos antes, conversando -juntos. Os criados ainda o eram de Nicoláo de Mesquita. Foram citados -a comparecerem na policia; e, interrogados, lembraram-se dos nomes -dos quatro valentões da sanguinaria romaria. Os indicados depuzeram -conformemente ao depoimento da creadora de Martinho, e as suspeitas -declinaram de sobre a cabeça de Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>O cavalheiro de Villa Real, volvidas duas semanas, leu uma segunda -correspondencia do <i>Epaminondas</i>, antipoda involuntario do -Epaminondas de Tebas, na qual as suas conjecturas eram rectificadas, -com grande magua de as haver estampado no primeiro afôgo da sua -indignação. A indignação dos correspondentes da provincia é coisa de -grão pavor quasi sempre!</p> - -<p>A correspondencia rematava assim:</p> - -<div class="blockquot"> - -<p>«Os ossos de Raphael Garção foram religiosa e pomposamente conduzidos -de Chaves para Fayões, e depostos no jazigo de seus avós. O pae de -Raphael, que ainda vive doido, na escuridade do seu quarto, onde -apenas recebe á força quem lhe ministra o sustento de tão horrivel -viver, morrerá sem saber que os ossos do seu filho unico repousam -na mesma sepultura da mãe, que morreu saudosa d’elle. A criada -Maria Joanna salvou o morgado de Palmeira de um injusto ferrete: -não obstante, o marido de Beatriz, com justa ou injusta razão (não -ouso decidir-me) não consente esta mulher deante<span class="pagenum" id="Page_263">[Pg 263]</span> dos seus olhos. -Consta-me que lhe mandara entregar as suas caixas, que ainda estavam -em Palmeira, e uma esmola valiosa por mão do menino que se creou aos -peitos d’ella.</p> - -<p>«Finalmente, senhor redactor, em vista do desenlace d’esta infanda -historia, devemos olhar ao ceu, e baixar os olhos confundidos, deante -da mysteriosa justiça da divina providencia! Raphael Garção morreu. -Beatriz viu-o agonisar. Ambos expiraram no praso de vinte e quatro -horas. Nicoláo de Mesquita geme ha quatro annos sob o peso de uma cruz -de ferro. Estas angustias pode ser que correspondam a antigos crimes. -Em summa, ninguem se transvie do caminho da virtude, que o do crime -está ladeado de infernaes abysmos.</p> - -<p class="right"> -«EPAMINONDAS.»<br /> -</p> -</div> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_265">[Pg 265]</span></p> - -<h2 class="nobreak" id="XXVII">XXVII</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Nicoláo</span> de Mesquita, em 1850, voltou para Inglaterra com o seu filho, -a residir no <i lang="en" xml:lang="en">cottage</i> de seu sogro. O menino, aos sete annos, -entrou em collegio, e passava os dias feriados com seu pae.</p> - -<p>N’uma estação de ferias, o morgado saiu com o filho a passar uns -dias em Pariz, em companhia de uma familia ingleza, proprietaria da -residencia em que fallecera Martinho Xavier, e a quem Nicoláo devia -o obsequioso cuidado de attentar nas necessidades do filho sem mãe e -sem carinhos de mulher, aos quaes se aquece o coração das creanças, e -as virtudes fermentam n’elle. O aspecto macilento e sempre sombrio do -portuguez acareára a discreta piedade da familia ingleza.</p> - -<p>Adivinhavam n’elle um desmarcado infeliz, talvez um delinquente: -mas, o remorso ou pena immerecida,<span class="pagenum" id="Page_266">[Pg 266]</span> o que elle inspirava nas almas -contemplativas era compaixão.</p> - -<p>Estavam, pois, em Pariz, no anno de 1852, quando Nicoláo, ao sair da -egreja de Notre-Dame, onde fôra ouvir prégar Lacordaire, ouviu entre a -multidão uma voz muito proxima do ouvido, que lhe dizia:</p> - -<p>—Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>Olhou de golpe, e viu Margarida Froment. Estremeceu. Aquella mulher -devia ter quarenta annos; a decadencia era justificada; mas a velhice, -quasi repellente, não.</p> - -<p>—Custa-me a reconhecel-a, madame!—disse Nicoláo com os olhos afogados -em lagrimas.</p> - -<p>A franceza deteve-se entalada pela angustia da humilhação, e disse:</p> - -<p>—Não venho pedir-lhe nada: quiz que me visse. Reduziu-me a isto, -senhor Mesquita.</p> - -<p>—Eu!... santo Deus!—atalhou Nicoláo enxugando as lagrimas.</p> - -<p>—Aqui tem a Margarida Froment de 1834—proseguiu ella.—Casualmente -nos achamos á porta do templo em que ambos saltámos da carruagem de -meu marido para visitarmos as antiguidades d’esta egreja. Recorde-se -da mulher de então: sou eu. É esta Margarida que empenhou hontem o seu -melhor vestido para ter hoje um almoço. Já lhe disse que não venho -pedir nada; quero que me veja.</p> - -<p>—Mas a senhora attribula-me horrivelmente!—exclamou Nicoláo entalado -de gemidos.—Não foi Margarida quem abandonou a casa de que era -senhora? Expulsei-a eu?</p> - -<p>—Não lhe respondo, senhor Mesquita. Olhe de cima do despenhadeiro onde -me poz, e pergunte á<span class="pagenum" id="Page_267">[Pg 267]</span> Providencia por que estou aqui, porque sou isto -que vê!</p> - -<p>—Pois que hei de eu fazer-lhe agora, senhora! Que quer de mim? Eu -sou muito desgraçado; mas sou rico ainda. Quer recursos para viver -decentemente? Diga sem repugnancia.</p> - -<p>—Não, senhor; nada lhe pedi: quero que me veja!</p> - -<p>—Mas, infeliz, que vida foi a sua que...?</p> - -<p>—A minha vida é isto!—interrompeu Margarida com -vehemencia.—Perguntei-lhe eu que vida era a sua? Leio-lh’a no rosto. A -minha historia aqui está tambem escripta na cara de Margarida Froment -de 1834. Eu tinha então vinte annos, vinte mil libras para gastar -cada anno, e o respeito do mundo, o amor de meu marido, que reduzi á -libertinagem extrema para me esquecer, e á derradeira indigencia para -com o tinido do oiro ensurdecer-se ao grito da infamia, que lhe deixei -perpetuamente nos ouvidos. Póde ser que Ernesto Froment ainda lhe peça -uma esmola, senhor Mesquita. Dê-lh’a, que o desgraçado não saberá quem -lh’a dá. Dê-lhe a elle a esmola que eu rejeito, porque o hospital -reserva-me duas taboas, e a pedra da mesa anatomica um funeral condigno.</p> - -<p>Nicoláo soluçava; Margarida bateu-lhe no hombro, e exclamou surdamente:</p> - -<p>—Viu-me? Agora... adeus!</p> - -<p>E sumiu-se entre a multidão.</p> - -<p>Como descêra até ali Margarida Froment?</p> - -<p>Uma palavra o diz: envelhecêra.</p> - -<p>Os ultimos quatro annos da sua vida tinham sido o vasquejar, os -relampagos da luz que vae apagar-se. Os amantes não quizeram assistir -ás trevas. Viram-lhe a primeira ruga na fronte, o amortiçar-se o<span class="pagenum" id="Page_268">[Pg 268]</span> raio -coruscante dos olhos, o artificio da pelle, o lustroso sobrenatural das -madeixas.</p> - -<p>Fugiram-lhe, e ella, orgulhosa sempre, não solicitava piedade.</p> - -<p>Desenganou-se, despida dos artificios. O espelho foi-lhe a garganta do -abysmo. Viu-se e despenhou-se á extrema devassidão, cuidando que morria -assim mais depressa.</p> - -<p>Ernesto encontrou-a no portico do <i lang="fr" xml:lang="fr">Mont-de-Piété</i>. Ella saia -de empenhar o chale, elle entrava a empenhar o casaco. Não se -reconheceram. O empregado na recepção de penhores, ao escrever o -appellido de Ernesto, disse-lhe:</p> - -<p>—Sahiu n’este instante uma Froment. É sua parenta Margarida Froment?</p> - -<p>—Saiu agora?</p> - -<p>—Agora mesmo.</p> - -<p>—Desgraçada?</p> - -<p>—Aqui não vem ninguem feliz?</p> - -<p>—Que signaes tem?</p> - -<p>—Uma cara de fome, um mantelete de côr duvidosa. Empenhou um chale por -quatro francos.</p> - -<p>Ernesto desceu rapidamente. Era difficil encontral-a. Fitou em rosto -as mulheres todas que denunciavam fome, e trajavam manteletes de côr -duvidosa. Não viu Margarida em nenhum, e pozera os olhos n’ella, a -ultima que vira comprar um pão.</p> - -<p>Margarida reparou no homem que a fitava. A desfiguração de Ernesto era -menos sensivel. Conheceu-o, e disse-lhe:</p> - -<p>—Queres metade d’este pão, Ernesto?</p> - -<p>—Quem és tu?!—perguntou elle.</p> - -<p>—Uma condemnada por Deus, que te pede a morte.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_269">[Pg 269]</span></p> - -<p>—És Margarida?—perguntou Ernesto serenamente.</p> - -<p>—Sou.</p> - -<p>—Não te matei, quando era honra matar-te. Agora, vive, e segue o teu -caminho. Deus ha-de cumular sobre ti a pena do teu crime, e a pena -egual aos tormentos que soffro, sem ter sido culpado. Vae teu caminho.</p> - -<p>Vivia ainda em Leão a mãe de Margarida. Pela terceira vez a desamparada -se lhe foi lançar aos pés. Foi repulsada sempre pelas criadas de sua -mãe.</p> - -<p>Tinha um irmão rico nas Antilhas. Pediu-lhe tres vezes perdão do seu -infortunio, e uma esmola. A segunda e terceira cartas não foram abertas.</p> - -<p>O francez morreu solteiro e rico, no momento de retirar-se a França.</p> - -<p>A mãe de Margarida herdou muitos milhares de francos. Os jornaes -contaram o successo. Margarida foi quarta vez ajoelhar-se á porta do -quarto de sua mãe.</p> - -<p>—Não tenho filha,—respondeu a descaroada.—Não cuides que terás -quinhão na riqueza de meu filho. Eu gastarei o que tenho em obras -piedosas.</p> - -<p>E, quando scismava em dar brado com as suas obras piedosas, morreu n’um -como deliramento de amor da humanidade.</p> - -<p>Margarida Froment recolheu quatrocentos mil francos. Mandou procurar -o marido a Pariz. Encontraram-n’o secretario de uma companhia de -cavallinhos, a franco por dia.</p> - -<p>Ernesto recebeu lettras de duzentos mil francos, e estas breves linhas:</p> - -<p>«Dava-te metade do meu pão: hoje dou-te metade<span class="pagenum" id="Page_270">[Pg 270]</span> da minha fortuna, e a -outra, se a quizeres.»</p> - -<p>Ernesto acceitou a sua quota parte, e desistiu da outra, muito em -conformidade com a lei, dispensando-se até de administrar a massa do -casal, o que em boa jurisprudencia lhe era permittido.</p> - -<p>Margarida, se fosse solteira, podia escolher bons casamentos. Dizia-se -em Leão que ella era os melhores quarenta annos e as mais bellas ruinas -que ainda tinham visto os olhos dos seus pretensores, offuscados pela -prefulgencia de duzentos mil francos.</p> - -<p>Ernesto foi para Londres. Metteu nos bancos o seu capital, e deu-se a -uma vida de confortos modestos, e reparação da saude. Tonisado pela -regularidade e sadia alimentação ingleza, achou que a inercia lhe -pesava. Como tivera fabrica de estôfos, entrou em negocio de algodões, -não para anumerar aos seus cabedaes, mas para entreter-se.</p> - -<p>A familia ingleza, relacionada com Nicoláo de Mesquita, possuia fabrica -em Manchester, e comprava algodões aos importadores. Ernesto Froment -negociava com os Smitts, necessariamente haviam de ser Smitts, ou Johns.</p> - -<p>Uma vez estava Ernesto no escriptorio dos Smitts, ou Johns, e entrou um -homem de barbas intonsas e alvissimas, com um menino pela mão.</p> - -<p>O fabricante inglez chamou-lhe: «<i>Master Nicoláo de Mesquita.</i>»</p> - -<p>Ernesto, como se lhe dessem com uma bala na face esquerda, voltou a -cabeça á direita, e perguntou em inglez:</p> - -<p>—É de Portugal este <i lang="en" xml:lang="en">a knight</i> (cavalheiro)?</p> - -<p>—Sim, das visinhanças do eden do vinho—respondeu o industrial.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_271">[Pg 271]</span></p> - -<p>Mediu-o de alto a baixo.</p> - -<p>Nicoláo estremeceu involuntariamente, e perguntou:</p> - -<p>—É inglez, o senhor?</p> - -<p>Ernesto não respondeu. O britanico é que disse:</p> - -<p>—É francez. E eu lhe apresento mr. Ernesto Froment, honrado mercador -de algodões.</p> - -<p>Nenhum dos apresentados se moveu. O inglez espantou-se, e disse entre -si: «<i lang="en" xml:lang="en">Inelegancy! improper!...</i>»</p> - -<p>Ernesto Froment saíu, sem inclinar a vista a Nicoláo.</p> - -<p>Smitt ou John perguntou ao portuguez a significação d’aquella frieza.</p> - -<p>Mesquita respondeu com um sorriso, e uma lividez de torvação espavorida.</p> - -<p>Subiu com o filho aos aposentos das ladys, e, convulso de lagrimas, -pediu que lhe não desamparassem o filho, se elle morresse.</p> - -<p>Alvorotaram-se as senhoras, e a um tempo interrogaram a terrivel -presumpção de morte breve. Nicoláo gelava com a sua taciturnidade. -Cuidaram as damas que o secreto desgosto da existencia d’este homem lhe -transtornára o espirito. Relataram ao honrado velho as lagrimas e rogos -do portuguez.</p> - -<p>O commerciante foi procurar Ernesto Froment, e pediu-lhe -encarecidamente o mysterio da sua vida com a de Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>O francez fingiu estranhar a desconchavada pergunta; porém, instado -pelo commovido inglez, contou a sua vida, desde a infamissima perfidia -de Nicoláo, seu commensal durante a emigração, até á escaleira de -opprobrios a que descêra, despedaçando o trabalho de seus paes, para -esquecer a affronta.</p> - -<p><span class="pagenum" id="Page_272">[Pg 272]</span></p> - -<p>O inglez chorava, e odiava Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>—Qual é agora o seu intento a respeito do portuguez? perguntou o velho.</p> - -<p>—Matal-o!</p> - -<p>—Oh!...—exclamou Smith ou John.</p> - -<p>—Matal-o inevitavelmente!—repetiu Ernesto.</p> - -<p>—Oh!...</p> - -<p>Passada uma breve pausa, o inglez saíu, dizendo-lhe:—espere-me duas -horas que eu venho.</p> - -<p>Antes das duas horas, entrou o inglez no escriptorio de Ernesto -Froment, com um menino de dez annos pela mão, e disse enternecido a -prantos:</p> - -<p>—Este menino é filho de Nicoláo de Mesquita, e vem aqui de joelhos -pedir a vida de seu pae.</p> - -<p>Martinho ajoelhou. Ernesto levantou a cabeça, estendeu a mão ao -fabricante, e disse em voz tremente:</p> - -<p>—As nossas negociações estão fechadas.</p> - -<p>—Oh!... porque?</p> - -<p>—Porque me retiro ámanhã de Inglaterra.</p> - -<p>Assim foi. Ernesto saíu para Italia.</p> - -<p>O inglez, porém, procurou Nicoláo, entregou-lhe o menino, e disse-lhe:</p> - -<p>—A sua vida não corre perigo, senhor Nicoláo; tenho, porém, a -observar-lhe que não posso ser seu amigo, nem a minha casa póde -recebel-o.</p> - -<p>Fez uma breve cortezia, e sahiu.</p> - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<p><span class="pagenum" id="Page_273">[Pg 273]</span></p> -<h2 class="nobreak" id="CONCLUSAO">CONCLUSÃO</h2> -</div> - - -<div> - <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/> -</div> - -<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Nicoláo</span> de Mesquita, cortado de desgostos, e inclinado á sepultura com -desejos de fechar-se n’ella, saiu de Londres com o filho. A desgraça -não lhe dava treguas.</p> - -<p>Trouxe de Pariz mestres para Martinho, habeis na sciencia, e prendas de -educação esmerada.</p> - -<p>Voltou á torre solarenga, e chamou a si duas velhas senhoras, parentas -de Martinho Xavier, para lhe regerem a casa e especialmente velarem o -bem-estar do filho.</p> - -<p>Passou dois annos por tal maneira abatido de espirito, que deu -comsigo, quasi aniquilado de raciocinio, nos extremos preconceitos da -religião desfigurada por visualidades. Acercou-se de missionarios de -todo cégos á luz do Espirito Santo, em quanto ao teor de aligeirar o -peso de certas amarguras.<span class="pagenum" id="Page_274">[Pg 274]</span> Dos missionarios resvalou ás superstições -lastimaveis no homem que tivera intelligencia clara, e sciencia -pratica. Prestava ouvidos e coração a coisas de agoiro, e sortilegios. -De enlevos na contemplação do Supremo Senhor do céu e terra, descia a -pactuar com uma boçal velhinha, santa famigerada, o quebramento do seu -fadario. Esta escuridade prenunciava as trevas do sepulcro.</p> - -<p>A piedade não o forrava aos impetos de um odio á sombra de Beatriz. -Nunca mais entrou á capella onde esperavam o ultimo juizo as cinzas da -infeliz. Os missionarios não souberam extirpar-lhe da alma o cancro do -rancor: davam-lhe amulêtos, e orações prófugas do espirito immundo.</p> - -<p>Mandára erigir um santuario na recamara do seu quarto, e ahi se -exercitava em soliloquios mentaes, entoando com fervorosos assomos -de illuminado as amorosas apostrophes ao divino dos padres Chagas e -Bernardes. Se não tivesse descançado no Senhor aquelle Santo parocho, o -penitente iria pela mão do velho á estrada recta da divina misericordia.</p> - -<p>Uma tarde, Nicoláo de Mesquita, após a sobre-excitação febril de -algumas horas, chamou criados com alavancas, e desceu á capella, onde -não havia entrado desde a morte de sua mulher.</p> - -<p>Mandou levantar a pedra do jazigo e extrair a ossada que estivesse -mais á flôr da sepultura. Os criados suando de pavor, curvaram-se -a remexer os ossos; mas superstições, ou abalo sobre-natural, não -ousou tocar-lhes; e, um após outro, fugiram da capella, ao verem -desfigurarem-se medonhamente as feições do fidalgo.</p> - -<p>Nicoláo travou da alavanca, e tentou mettel-a ás<span class="pagenum" id="Page_275">[Pg 275]</span> junturas argamassadas -do jazigo da esquerda, onde estavam as solitarias cinzas da unica -adultera d’aquella familia. N’este esforço e reluctancia com as -difficuldades de abalar a pedra, extenuou-se, perdeu o alento, e caiu -de rosto contra o degrau do altar, exclamando vozes inintelligiveis.</p> - -<p>As velhas senhoras, o filho, os mestres e os criados acudiram á -capella, e tomaram-n’o em braços. Nicoláo revolvia a lingua na abobada -palatina, e tirava uns sons roucos, arripiadores, como gritos de ave -nocturna.</p> - -<p>Chamaram medicos e sacerdotes. A medicina capitulou de paralisia o -incuravel ataque. Os padres ungiram-no, que a lingua não podia accusar -as angustias da alma.</p> - -<p>N’uma lucta de spasmos e ancias se desprendeu, ao fim de vinte e quatro -horas, o atormentado espirito de Nicoláo de Mesquita.</p> - -<p>Ao cair a pedra sepulcral sobre o cadaver, justaposto aos ossos de -Beatriz de Sousa, a piedade impõe-nos silencio. Vimos o que é a justiça -de Deus na terra; n’outros mundos é-nos defeso devassal-a.</p> - -<p>Martinho de Mesquita foi tutellado de Ricardo de Almeida, um dos seus -mais proximos parentes, por parte de sua mãe. É hoje marido da morgada -do Pontido, filha de Ricardo e Laura.</p> - -<p>Ainda vivem os ditosos que o morgado de Fayões invejára nos seus -ultimos dias de vida. N’aquella casa ha um só incentivo a lagrimas: é a -memoria de Raphael Garção.</p> - -<p>Dizem-nos que o filho de Beatriz, desde que ouviu a historia de sua -mãe, tem dias de attribulado recolhimento. Possue o retrato d’ella, -pendente da manilha, tirada do esqueleto de Raphael, e conservado<span class="pagenum" id="Page_276">[Pg 276]</span> -na casa do Pontido. Uma vez sua mulher surprehendeu-o absorvido na -contemplação do retrato. Poz-lhe a mão na espadua, e elle, voltando a -bella imagem de sua mãe aos olhos da esposa, disse, banhado em lagrimas:</p> - -<p>—Como não havia de perdel-a o mundo, se ella era tão formosa!</p> - - -<p class="center p2">FIM</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="OBRAS_COMPLETAS">OBRAS COMPLETAS<br /><span class="small">DE</span><br />J. P. OLIVEIRA MARTINS</h2> -</div> - - -<h3>I. Historia nacional:</h3> - -<div class="blockquot"> - -<p><span class="smcap">Historia da civilisação iberica</span>, 4.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1897), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr> -700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p> - -<p><span class="smcap">Historia de Portugal</span>, 6.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1901), 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$400 <abbr title="reais">rs.</abbr> -Enc. 1$800.</p> - -<p><span class="smcap">O Brazil e as colonias portuguezas</span>, 3.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1888), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, -<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p> - -<p><span class="smcap">Portugal contemporaneo</span>, 3.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1895), 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> -Enc. 2$400.</p> - -<p><span class="smcap">Portugal nos mares</span>, (1889), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p> - -<p><span class="smcap">Camões, os Lusiadas e a renascença em Portugal</span>, (1891). 1 -<abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 800.</p> - -<p><span class="smcap">Navegaciones y descubrimientos de los portugueses</span>, (<i><abbr title="edição">ed.</abbr> do -Ateneo de Madrid</i>, 1892), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> (não entrou no commercio.)</p> - -<p><span class="smcap">A vida de Nun’alvares</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1894), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> -Cart. 2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.</p> - -<p><span class="smcap">Os filhos de d. João i</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$400 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. -1$800 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">O Principe perfeito</span>, (1895) 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> Encad., -folhas doiradas, 3$200 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> -</div> - - -<h3>II. Historia geral:</h3> - -<div class="blockquot"> - -<p><span class="smcap">Elementos de anthropologia</span>, 4.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1895), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 -<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p> - -<p><span class="smcap">As raças humanas e a civilisação primitiva</span>, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$400 -<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 1$800 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">Systema dos mythos religiosos</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1895) 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 800 -<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 1$000.</p> - -<p><span class="smcap">Quadro das instituições primitivas</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1893) 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, -<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p> - -<p><span class="smcap">O regime das riquezas</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1894), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr> -Enc. 800.</p> - -<p><span class="smcap">Historia da republica romana</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 1897, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> -2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 2$400.</p> - -<p><span class="smcap">O hellenismo e a civilisação christã</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 800 -<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 1$000 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">Taboas de chronologia e geographia historica</span>, (1884), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, -<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> Encadernado 1$200.</p> -</div> - - -<h3>III. Varia:</h3> - -<div class="blockquot"> - -<p><span class="smcap">A circulação fiduciaria</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 800 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. -1$000 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">A reorganisação do Banco de Portugal</span>, <i>opusculo</i>, (1877) -<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 150 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">O artigo «Banco»</span> no <i>Diccionario Universal Portuguez</i>, -(1877), 1 vol, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 500 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">Politica e economia nacional</span>, (1885), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">Projecto de lei de fomento rural</span>, <i>apresentado á camara dos -deputados na sessão de 1887</i>, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 300 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">Elogio historico de Anselmo J. Braamcamp</span>, <i><abbr title="edição">ed.</abbr> part.</i> -(1886), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> (esgotado).</p> - -<p><span class="smcap">Theophilo Braga e o Cancioneiro</span>, <i>opusculo</i>, (1869) -esgotado.</p> - -<p><span class="smcap">O Socialismo</span>, (1872-3), 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$200. (Esgotado)</p> - -<p><span class="smcap">As eleições</span>, <i>opusculo</i>, (1878), <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 200 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><span class="smcap">Carteira de um jornalista</span>: I. <i>Portugal em Africa</i>, -(1891), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 400 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<div class="blockquot"> - -<p><span class="smcap">Inglaterra de hoje, cartas de um viajante</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, (1894), 1 -<abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 800.</p> -</div> - -<p><span class="smcap">Cartas peninsulares</span>, (1895), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 800 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> -</div> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="Obras_de_Jose_Quintino_Travassos_Lopes">Obras de José Quintino Travassos Lopes</h2> -</div> - - -<p><b>Nova grammatica elementar da lingua portugueza</b>, redigida segundo -as theorias modernas, e contendo quadros synopticos muito uteis, cart. -160 réis.</p> - -<p><b>Compendio de arithmetica e systema metrico</b>, 28.ᵃ edição, -contendo 29 gravuras e mais de 2.000 exercicios e problemas, reformado -segundo os actuaes programmas, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 200 réis, cart. 280 réis.</p> - -<p><b>Resumo de arithmetica e systema metrico</b>, 5.ᵃ edição, muito -augmentada e contendo 13 gravuras, approvado pelo antigo conselho -superior de instrucção publica, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 100 réis, cart. 180 réis.</p> - -<p><b>Dois mil exercicios e problemas de arithmetica e systema -metrico</b>, abrangendo os programmas do ensino elementar e -complementar, em <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 <abbr title="reais">rs.</abbr>, cart. 240 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><b>Compendio de historia patria</b>, 13.ᵃ edição, reformada, e contendo -no fim uma noticia resumida dos factos principaes de cada reinado, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> -160 réis, cart. 240 réis.</p> - -<p><b>Compendio de historia sagrada</b>, 2.ᵃ edição, illustrada com -muitas gravuras, approvado pelo antigo conselho superior de instrucçâo -publica, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis, cart, 240 <abbr title="reais">rs.</abbr></p> - -<p><b>Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre -objectos.—1.ᵃ parte</b>, 9.ᵃ edição, muito augmentada, ornada com -gravuras e vinhetas, dedicada ás creanças de 7 a 9 annos, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis, -cart. 240 réis; com encad. de luxo para premios e brindes, 300 réis.</p> - -<p><b>Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre -objectos.—2.ᵃ parte</b>, 6.ᵃ edição, ornada com gravuras e vinhetas, -dedicada ás creanças de 10 a 12 annos, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis, cart. 240 réis; -com encad. de luxo, para premios e brindes, 360 réis.</p> - -<p><b>Leituras Correntes e Intuitivas</b>, obra adoptada para o ensino -official primario, 300 réis, cart.</p> - -<p><b>Historias de animaes, sua vida, costumes, anecdotas, fabulas, -etc.—noções amenas de zoologia para creanças—lições sobre -objectos</b>, 3 volumes, obra interessantissima, ornada com 400 -gravuras e vinhetas, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 200 réis cada volume, cart. 280 réis; com -encad. de luxo, para premios e brindes, 400 réis.</p> - -<p><b>Os contos da avózinha</b>, collecção illustrada de historias, -lendas, fabulas e contos, com 300 gravuras, 3 volumes, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis, -cart. 240 réis, com encad. de luxo, para premios e brindes, 360 réis -cada volume.</p> - -<p><b>Noções elementares de geometria intuitiva</b>, contendo 97 gravuras, -<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 100 réis, cart. 180 réis.</p> - -<p><b>Grammatica elementar da lingua portugueza</b>, 22.ᵃ edição, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 -réis, cart. 240 réis.</p> - -<p><b>Chave</b> (A) <b>da Sciencia</b>, por Brewer e Moigno. Nova -traducção, extraordinariamente desenvolvida e ampliada pelos -traductores J. Q. Travassos Lopes e J. T. da Silva Bastos.—Obra -completa, 3 <abbr title="volumes">vols.</abbr>, edição de luxo, grande formato, illustrado com -centenares de gravuras, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 4$500 réis, enc. 6$000 réis.</p> - - -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter"> -<h2 class="nobreak" id="OBRAS_DE_CARLOS_AUGUSTO_PINTO_FERREIRA">OBRAS DE CARLOS AUGUSTO PINTO FERREIRA</h2> -</div> - -<p class="center">Engenheiro machinista, capitão-tenente graduado da Armada</p> - -<p class="center">INDISPENSAVEIS A INDUSTRIAES, OPERARIOS, ENGENHEIROS, ARCHITECTOS, ETC.</p> - - -<div class="blockquot"> - -<p><b>Engenheiro</b> (O) <b>d’algibeira</b>, livro portatil e utilissimo, -especie de <i lang="la" xml:lang="la">vademecum</i> onde se acham compendiadas grande -quantidade de formulas e dados praticos com applicação á engenheria -nos seus differentes ramos; 3.ᵃ edição muito augmentada. Este livro -deve ser o companheiro indispensavel do contra-mestre, do mestre, do -architecto e finalmente do engenheiro; para todos tem materia util. -Livrinho nitidamente impresso, contendo mais de 150 tabellas.—Preço -800 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 1$000 réis enc.</p> - -<p><b>Guia do fogueiro conductor de machinas de vapor</b>, approvado -pela associação dos engenheiros civis portuguezes. Livro escripto -expressamente para servir de ensinamento pratico aos fogueiros, e -em harmonia com a portaria do ministerio da marinha que obriga esta -classe de individuos a serem examinados. Contém 230 paginas em 8.ᵒ -francez, com bastantes gravuras intercaladas no texto e duas bellas -estampas, 2.ᵃ edição.—Preço 800 <abbr title="reais">rs.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 1$100 réis enc.</p> - -<p><b>Guia de mechanica pratica</b>, precedida de noções elementares -de arithmetica, algebra e geometria indispensaveis para facilitar -a resolução dos diversos problemas de mechanica. Volume de 557 -paginas em oitavo francez, nitidamente impresso, contendo mais de cem -gravuras intercaladas no texto e cinco bellas estampas no fim. Livro -indispensavel, não só aos industriaes, mas a todos os individuos que -desejarem pôr em pratica quaesquer trabalhos mechanicos.—6.ᵃ edição. -Preço 1$600 <abbr title="reais">rs.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 1$900 <abbr title="reais">rs.</abbr> enc.</p> - -<p><b>Manual elementar e pratico sobre machinas de vapor maritimas -antigas e modernas, comprehendendo as de dupla, triplice e quadrupla -expansão</b>—Livro utilissimo para quem precisa fazer algum estudo -sobre machinas maritimas, construil-as, mandal-as construir, ou -dirigil-as. Vol. de 420 pag. em 8.ᵒ francez, contendo 40 gravuras -intercaladas no texto e 2 magnificas estampas. Os engenheiros -machinistas encontrarão n’este livro indicações de grande utilidade -para o desempenho da sua difficil missão. Preço 2$000 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 2$400 -réis enc.</p> - -<p><b>Manual de noções elementares de technologia</b>, Livro utilissimo -para todos os que se dedicam á industria, e tratando dos seguintes -assumptos:—Madeiras.—Rochas e pedras.—Carvão.—Metaes.—Materias -textis.—Construcções. Adornado de muitas gravuras explicativas. Preço -500 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 700 réis enc.</p> - -<p><b>Opusculo ácerca das machinas mixtas de alta e baixa pressão</b>, -applicadas aos navios movidos a vapor. 2.ᵃ edição, Preço 600 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, -800 réis enc.</p> -</div> -<hr class="chap x-ebookmaker-drop" /> - -<div class="chapter transnote"> - -<h2>Notas</h2> - - - -<p>Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.</p> -</div> -<div lang='en' xml:lang='en'> -<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O ESQUELETO</span> ***</div> -<div style='text-align:left'> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Updated editions will replace the previous one—the old editions will -be renamed. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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Redistribution is subject to the trademark -license, especially commercial redistribution. -</div> - -<div style='margin-top:1em; font-size:1.1em; text-align:center'>START: FULL LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE</div> -<div style='text-align:center;font-size:0.9em'>PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase “Project -Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg™ License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg™ electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person -or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. 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Information about the Mission of Project Gutenberg™ -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s -goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg™ and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state’s laws. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, -Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up -to date contact information can be found at the Foundation’s website -and official page at www.gutenberg.org/contact -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread -public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine-readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state -visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate/">www.gutenberg.org/donate</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Please check the Project Gutenberg web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate -</div> - -<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'> -Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of -volunteer support. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -Most people start at our website which has the main PG search -facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. -</div> - -<div style='display:block; margin:1em 0'> -This website includes information about Project Gutenberg™, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. -</div> - -</div> -</div> -</body> -</html> diff --git a/old/68932-h/images/cover.jpg b/old/68932-h/images/cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index ca10860..0000000 --- a/old/68932-h/images/cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_a.jpg b/old/68932-h/images/dc_a.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index fc57665..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_a.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_a2.jpg b/old/68932-h/images/dc_a2.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index db466c5..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_a2.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_a3.jpg b/old/68932-h/images/dc_a3.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 3daba92..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_a3.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_c.jpg b/old/68932-h/images/dc_c.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 0770de6..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_c.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_d.jpg b/old/68932-h/images/dc_d.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index f99099d..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_d.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_e.jpg b/old/68932-h/images/dc_e.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 3967c2b..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_e.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_m.jpg b/old/68932-h/images/dc_m.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 39c238c..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_m.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_n.jpg b/old/68932-h/images/dc_n.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 76aa7d0..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_n.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_o.jpg b/old/68932-h/images/dc_o.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 5a6ed07..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_o.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_r.jpg b/old/68932-h/images/dc_r.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 013dfec..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_r.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/68932-h/images/dc_s.jpg b/old/68932-h/images/dc_s.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2a029a4..0000000 --- a/old/68932-h/images/dc_s.jpg +++ /dev/null |
