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-The Project Gutenberg eBook of O esqueleto, by Camillo Castelo Branco
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
-will have to check the laws of the country where you are located before
-using this eBook.
-
-Title: O esqueleto
- Romance
-
-Author: Camillo Castelo Branco
-
-Release Date: September 9, 2022 [eBook #68932]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at
- https://www.pgdp.net (This file was produced from images
- generously made available by The Internet Archive)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ESQUELETO ***
-
-
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-
-Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA
-
-VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS
-
-DAS
-
-LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS
-
-Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.
-
-
-Volumes in-8.ᵒ de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente
-edição, em optimo papel. Preço de cada volume 200 réis brochado, ou
-300 réis elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias
-accresce o porte do correio.
-
-
-Volumes publicados
-
- N.ᵒ 1--_Tristezas á Beira-Mar_, romance de Pinheiro Chagas, 1 vol.
- N.ᵒ 2--_Contos ao Luar_, por Julio Cezar Machado, 1 vol.
- N.ᵒ 3--_Carmen_, romance de Merimée, traducção de Mariano Level,
- 1 vol.
- N.ᵒ 4--_A Feira de Paris_, por Iriel, 1 vol. (2.ᵃ edição).
- N.ᵒ 5--_O direito dos filhos_, George Ohnet, 1 vol.
- N.ᵒ 6--_John Bull e a sua ilha_, traducção de Pinheiro Chagas, 1 vol.
- N.ᵒ 7--_O juramento da duqueza_, romance historico por P. Chagas,
- 1 vol.
- N.ᵒ 8--_A lenda da meia-noite_, romance phantastico, por P. Chagas,
- 1 vol.
- N.ᵒ 9--_A joia do vice-rei_, romance historico, por Pinheiro Chagas,
- 1 vol.
- N.ᵒ 10--_Vinte annos de vida litteraria_, por Alberto Pimentel, 1 vol.
- N.ᵒ 11--_Honra d’artista_, romance de Octavio Feuillet, traducção de
- Pinheiro Chagas, 1 vol.
- N.ᵒ 12--_Os meus amores_, contos e balladas, por Trindade Coelho,
- 1 vol.
- N.ᵒˢ 13 e 14--_A aventura d’um polaco_, por Victor Cherbuliez,
- traducção de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 vol.
- N.ᵒ 15--_Os contos do tio Joaquim_, por R. Paganino, 1 vol.
- N.ᵒ 16--_As batalhas da vida_, contos por Guiomar Torrezão, 1 vol.
- N.ᵒ 17--_Noites de Cintra_, romance por Alberto Pimentel, 1 vol.
- N.ᵒˢ 18 e 19--_Em segredo_, romance, trad. de Margarida de Sequeira,
- 2 vol.
- N.ᵒˢ 20 e 21--_A irmã da Caridade_, por Emilio Castellar, traducção de
- L. Q. Chaves, 2 vol.
- N.ᵒ 22--_Migalhas de historia portugueza_, por Pinheiro Chagas, 1 vol.
- N.ᵒ 23--_A Cruz de Brilhantes_, por A. Campos, 1 vol.
- N.ᵒ 24--_Contos_, de Affonso Botelho, 1 vol.
- N.ᵒ 25--_Contos phantasticos_, por Theophilo Braga, 1 vol.
- N.ᵒ 26--_O mysterio da estrada de Cintra_, por Eça de Queiroz e
- Ramalho Ortigão, 1 vol.
- N.ᵒ 27--_O naufragio de Vicente Sodré_ rom. historico de P. Chagas,
- 1 vol.
- N.ᵒ 28--_Vid’airada_, por Alfredo Mesquita, 1 vol.
- N.ᵒ 29--_O Bacharel Ramires_, por Candido Figueiredo, 1 vol.
- N.ᵒˢ 30 e 31--_Amor á antiga_ romance de Caiel, 2 vol.
- N.ᵒ 32--_As Netas do Padre Eterno_, por Alberto Pimentel.
- N.ᵒ 33--_Contos_, de Pedro Ivo, 1 vol.
- N.ᵒ 34--_O correio de Lyão_, por Pierre Zaccone.
- N.ᵒ 35--_Vida de Lisboa_, por Alberto Pimentel.
- N.ᵒ 36--_Historias de Frades_ por Lino d’Assumpção.
- N.ᵒ 37--_Obras primas_, por Chateaubriand.
- N.ᵒ 38--_O Exilado_, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo.
- N.ᵒ 39--_Poema da Mocidade_, por Pinheiro Chagas.
- N.ᵒˢ 40 e 41--_A Vida em Lisboa_, por Julio Cesar Machado.
- N.ᵒˢ 42 e 43--_Espelho de Portuguezes_, por Alberto Pimentel.
- N.ᵒ 44--_A Fada d’Auteuil_, por Ponson du Terrail, traducção de
- Pinheiro Chagas.
- N.ᵒ 45--_A Volta do Chiado_, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo).
-
-
- Requisições á Parceria Antonio Maria Pereira
- _Rua Augusta, 50, 52, 54--LISBOA_
-
-
-
-
-COLLECÇÃO ECONOMICA
-
-Volumes de in-16.ᵒ, de 240 a 320
-
-
-ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES
-
-A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis)
-
-
- * N.ᵒ 1--Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de
- _Tartarin nos Alpes_; por A. Daudet.
- * N.ᵒ 2--Pedro e João, por Guy de Maupassant.
- * N.ᵒ 3--Sergio Panine, por Jorge Ohnet.
- N.ᵒ 4--O Sonho, por Emilio Zola.
- N.ᵒ 5--Soror Philomena, por Edmond e Jules Goncourt.
- N.ᵒ 6--O medico assassino, por Octavio Féré.
- N.ᵒ 7--Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.
- * N.ᵒ 8--O amigo Fritz, por Erckmann Chatrian.
- N.ᵒ 9--Vogando, por Guy de Maupassant.
- * N.ᵒ 10--Um romance de mulher, por Pierre Mael.
- * N.ᵒ 11--Vontade, por Jorge Ohnet.
- * N.ᵒ 12--O Nababo, por A. Daudet.
- * N.ᵒ 13--Um coração de mulher, por Paul Bourget.
- * N.ᵒ 14--Beatriz, por Rider Haggard.
- * N.ᵒ 15--O crime, por Gabriel d’Annunzio.
- * N.ᵒ 16--Lise Fleuron, por Ohnet.
- N.ᵒ 17--Os dois rivaes, por Armand Lapointe.
- N.ᵒ 18--O ultimo amor, por Jorge Ohnet.
- N.ᵒ 19--Um Bulgaro, por Ivan Tourgueneff.
- N.ᵒ 20--Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp.
- N.ᵒ 21--Forte como a morte, por Guy de Maupassant.
- * N.ᵒ 22--A alma de Pedro, de J. Ohnet.
- N.ᵒ 23--Camilla, de Guérin-Ginisty.
- N.ᵒ 24--Trahida, de Maxime Paz.
- N.ᵒ 25--Sua Magestade o Amor, por A. Belot.
- N.ᵒ 26--Magdalena Férat, por Emilio Zola.
- N.ᵒ 27--Os Reis no exilio, por A. Daudet.
- N.ᵒ 28--Divida de odio, por Jorge Ohnet.
- N.ᵒ 29--Mentiras, por Paul Bourget.
- N.ᵒ 30--Marinheiro, por Pierre Loti.
- N.ᵒ 31--A montanha do Diabo, por Eugenio Sue.
- N.ᵒ 32--A Evangelista, por A. Daudet.
- * N.ᵒ 33--Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest.
- N.ᵒˢ 34 e 35--Odio antigo, por Jorge Ohnet.
- N.ᵒ 36--Parisienses!... romance, por H. Davenel.
- N.ᵒ 37--Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband.
- N.ᵒ 38--A confissão de Carolina, romance.
- N.ᵒ 39--Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland.
- N.ᵒ 40--Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins.
- N.ᵒ 41--O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet.
- N.ᵒ 42--A agonia de uma alma, romance, por Ossip Schubin.
- N.ᵒ 43--Memorias d’um burro, por Madame Ségur.
- N.ᵒ 44--A nihilista, por Catulle Mendés.
- N.ᵒ 45--O grande Industrial, por George Ohnet.
- N.ᵒ 46--Morta d’amor, por Albert Delpit.
- N.ᵒ 47--João Sbogar, por Carlos Nadier.
- N.ᵒ 48--Viagem sentimental, por Sterne.
- N.ᵒ 49--O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.
-
-Todos os vol. com este signal * estão esgotados mas vão ser
-reimpressos.
-
-
-
-
-OBRAS
-
-DE
-
-CAMILLO CASTELLO BRANCO
-
-EDIÇÃO POPULAR
-
-
-
-
-V
-
-O ESQUELETO
-
-
-
-
-VOLUMES PUBLICADOS
-
-
- I--Coisas espantosas.
- II--As tres irmans.
- III--A engeitada.
- IV--Doze casamentos felizes.
- V--O esqueleto.
-
-
-
-
- _CAMILLO CASTELLO BRANCO_
-
- O ESQUELETO
-
- ROMANCE
-
- _TERCEIRA EDIÇÃO_
-
- LISBOA
- PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA--LIVRARIA-EDITORA
- _Rua Augusta, 50, 52, 54_
- 1902
-
-
-
-
- LISBOA
- _Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira_
- =Rua dos Correeiros, 70 72=
-
-
-
-
-PREFACIO
-
-
-Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito
-desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.
-
-Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais
-de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da
-sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao
-despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.
-
-Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e
-concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás
-vezes, da verosimilhança.
-
-Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha.
-O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as.
-Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que
-é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e
-largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito
-poisal-os em alegretes de flores.
-
-São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.
-
-Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia
-social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos
-amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu
-finalmente?
-
-Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este
-paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não
-serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a
-probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.
-
-Ha poucos dias, tivémos esta pratica:
-
---Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que
-lavra nos pantanos da sociedade--observou-me o meu amigo.
-
---Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não
-acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem
-romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de
-dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas,
-sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães
-culpadas.
-
---Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes
-das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios--redarguiu o
-cavalheiro.
-
---Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta
-da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado
-sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas;
-concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as
-requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de
-as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com
-uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance
-ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto
-innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem
-angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.
-
---Acho-lhe rasão--obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus
-livros--mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas
-desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que
-revolvam essas sentinas hediondas?
-
-Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum
-para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume
-que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga
-social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas
-protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em
-todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade,
-e alvorotam a quietação dos pais de familia.
-
-
-
-
-I
-
-
-Era justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos
-portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que,
-poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se
-que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para
-ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835,
-sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho
-aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.
-
-Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se
-da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi
-respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam
-a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico.
-Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com um lacaio;
-apeiava no hotel do Pêxe,[1] saía a provêr-se de objectos de luxo nas
-lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques,
-que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.
-
-O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as
-praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida
-particular.
-
-Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e
-estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a
-surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez.
-
-Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era
-superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico.
-
-Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo:
-
---A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes...
-
---Não é possivel...--disse o francez abstrahido.
-
---Não é possivel?!--replicou o outro.
-
---A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber
-quem a não conhece.
-
---E conhece-a o senhor?
-
---Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia
-que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava
-encontral-a. Onde vive ella?
-
---Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto, com um fidalgo
-transmontano, chamado Nicoláo de Mesquita.
-
-O chanceller escreveu na sua carteira, e disse:
-
---A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes
-de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta
-infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi
-hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este
-calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu
-que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante
-affronta!
-
-O francez retirou-se apressado.
-
-Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos
-seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul
-francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense.
-
-O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado.
-
-O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder
-explicitamente se nomeava testemunhas, disse:
-
---Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz.
-Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me
-contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho.
-
-O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e
-replicou:
-
---Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me
-n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se
-melhor nas estradas.
-
-O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até
-sangrarem.
-
-A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu
-assustada a indagar a causa.
-
-Nicoláo respondeu glacialmente:
-
---Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não
-me bato.
-
---Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é
-temivel!--acudiu ella.
-
-O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:
-
---Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito
-coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.
-
-Pungente grosseria!
-
-A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não
-tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!...
-
-É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e
-devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores
-novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem
-sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis
-annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam
-de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde
-fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz
-pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta
-escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração.
-
-Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára
-os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que
-propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante!
-Amára até ao absoluto despreso de si mesmo. Seguira-a de Lyão á
-Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido
-fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua
-industria.
-
-Depois, ainda um anno se não tinha passado, e já Nicoláo media a
-profundeza de sua ignominia, e espedaçava-se ás garras do opprobrio
-de si proprio. Tardia honra, que nunca pode chamar-se rehabilitação:
-penitencia, que no conceito do mundo terá remido os arrependidos; mas
-que no juizo da Providencia deve de ser apenas começo de expiação,
-começo de expiação muito longa.
-
-Chegado a Portugal, Nicoláo ainda tinha mãe. Repugnou-lhe entrar em
-sua casa com uma mulher, mais perdida aos olhos d’elle que aos da
-sociedade, se a conhecesse. Já lhe parecia que o apresental-a como
-sua esposa era injuriar as virtudes de sua mãe, e injuriar-se a si.
-Não mais se levantará deante do homem, que a estimou, a mulher assim
-desprezada.
-
-Alugou a quinta nos arrabaldes do Porto, e ahi ficou.
-
-A franceza era a mulher coherente com o seu crime. A mudança da
-physionomia do amante, a nudeza da phrase baixa e sêca, a nenhuma
-poesia do gesto e da palavra, os longos silencios interpollados de
-suspiros, os vincos da fronte, os sorrisos contrafeitos, as abstracções
-e respostas incongruentes, que mais carecia ella para cahir em joelhos
-aos pés do algoz da sua felicidade, e pedir-lhe a morte?
-
-Não se lembrou d’isso. Era mulher, e franceza. Ao pungimento da
-deshonra botaram-se os fios no habito de a praticar. Caíra de tão alto,
-que já não media com a vista a altura da queda. As mulheres que chegam
-até aqui, tocam a extrema do pudor.
-
-D’ahi em diante, se choram, não é remorso, é a aspide do orgulho que as
-morde.
-
-Margarida Froment acceitava a liberdade do amante, em proveito do amor
-decadente. Cuidava ella que as pompas no trajar remoçariam o affecto
-envelhecido. Vestia-se e galleava a primor. Achava-se linda. Aos
-vinte e oito annos não invejava o frescor das suas quinze primaveras.
-Offerecia-se assim aos olhos de Nicoláo, e muitas vezes cuidou que
-triumphava quando queria. Esta vaidade era-lhe um esteio. Em quanto um
-demonio amigo lhe desse tal escudo, contava ella com a victoria sobre o
-fastio do amante.
-
-Quando a tristeza a alquebrava mais, era se, no lavor de enfeitar-se,
-lhe vinha á lembrança que seu marido a tinha amado muito, ainda
-desenfeitada.
-
-Tristeza de vaidade dorida, e mais coisa nenhuma que possamos chamar
-_castigo_.
-
-Os castigos, ao chegarem, rasgam por outras fibras mais sensiveis.
-
-O fidalgo, que pendia aos quarenta annos, pensava em sacudir o
-jugo; mas as correias apertavam-n’o tanto e em tantas voltas, que
-era impossivel desdal-as sem despedaçar os restantes liames da sua
-dignidade.
-
-Abandonal-a era coroar a infamia.
-
-Dar-lhe recursos e bons conselhos, muitas vezes lhe quiz propôr este
-accordo; mas receiava a recusa, e a desordem inevitavel d’essa hora em
-deante.
-
-Os obstaculos saturavam-lhe de fel novo o amargôr do enfado.
-
-Até que, no termo de seis annos, appareceu o chanceller, não sei se
-tolo, se sublime, a desaggravar o amigo, do mesmo modo que um inimigo o
-faria, se quizesse ajuntar á desgraça a irrisão. Os francezes usam uns
-processos especiaes de honrar os amigos.
-
-Nicoláo de Mesquita era valoroso; porém, reflexionador. Dissera elle:
-_é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer
-mulher_. Essa sua maxima arrefecia as fervuras da coragem; do pundonor
-não havemos de dizer, que esse tinha claudicado, e ficara tolhido para
-todos os effeitos da dignidade, logo que elle seduziu a mulher do
-homem, incapaz de reputal-o infame.
-
-Não se quiz bater com testemunhas: era natural que evitasse bater-se
-sem ellas.
-
-Absteve-se de ir ao Porto, e reflectiu ponderosamente no escape de
-taes aperturas. Achou que era tempo de espesinhar considerações de
-menor alcance. Propoz á franceza uma separação temporaria, e urgente
-á quietação de ambos. Margarida ouviu-o de boa fé. Acceitou alguns
-mil cruzados; residencia no Porto, se lhe desprazia viver na quinta;
-e a segurança de se reunirem na provincia, assim que a entrevada mãe
-de Nicoláo passasse a melhor vida. Annuiu a franceza, dizendo em tom
-lastimoso que de bom grado, e com o coração cheio de lagrimas, se
-immolava á tranquilidade do amante.
-
-Nicoláo foi para Traz-os-Montes, e Margarida Froment para uma casa
-ricamente alfaiada na Torre da Marca.
-
-O chanceller, perdida a esperança de tirar os olhos do scelerado á
-ponta de florete, escreveu ao amigo, contando-lhe o seu intento, e o
-encontro inesperado.
-
-Ernesto Froment accusou a carta recebida, e não falou da mulher. Parece
-que tinha lá tres, todas mais fieis, e póde ser que mais formosas.
-
-Por este lado, o acaso--não ouso dizer a Providencia--se amerceara
-do esposo trahido. Quem dos dois soffria mais, ou presentia o
-emborrascarem-se as porvindouras tormentas, era Margarida.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[1] Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio, onde se
-hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade. _Habent sua
-fata_... os palacios!
-
-
-
-
-II
-
-
-O morgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos
-tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns
-temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher
-fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de
-que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando
-inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe
-tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja.
-
-Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da
-mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o
-mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros.
-
-Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar,
-nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados.
-Perguntava á desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em
-tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras
-mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se
-de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens
-que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa,
-assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das
-mulheres suas contemporaneas.
-
-Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao
-Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor
-a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas
-instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam
-depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza
-da saudade.
-
-Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos
-ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios
-proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não
-demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do
-chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou,
-recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia
-ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias
-que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas
-supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida.
-Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia,
-Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é
-renuncia. O ciume faz então prodigios que nivellam o mais descaroado
-orgulho com a allucinação de Werther ou Othello.
-
-Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves
-concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia
-celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis
-annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na
-primavera entre as alvissimas flores do espinheiro.
-
-Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que
-Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o
-morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas
-esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis
-louros do seu cabello á espadua de outro homem.
-
-De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:--Parece que tem vinte annos!
-Como está moço, e que airosidade na dança!
-
---Pois tem perto de quarenta!--Atalhava um moço de vinte, com um
-sorriso e abanar de cabeça desdenhoso.
-
-Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment.
-
-Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o
-ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a
-responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o.
-
-Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze
-dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares
-e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o
-leve incommodo de contar anecdotas joviaes, costumes estrangeiros,
-amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir,
-iguarias para todos os paladares.
-
-Beatriz era das que folgava das historietas facetas. Casos de lagrimas
-enterneciam-n’a até lhe molestarem os nervos. Pediu ella a seu primo
-contos engraçados. E Nicoláo, que nunca em sua vida tivera graça,
-transverteu-se por milagre de amor, e fez rir a filha de seu primo. A
-sós comsigo, o morgado da Palmeira, que vira muito e brilhante mundo,
-quasi que de si mesmo ria.
-
-Voltou a casa onde o chamára o aviso de estar a mãe em perigo de vida.
-Assistiu-lhe á morte, fez-lhe enterro pomposo, encerrou-se por oito
-dias, pagou as visitas, e voltou para Chaves.
-
-D’este successo não deu parte a Margarida nem respondeu ás cartas, que
-encontrára, queixosas do seu silencio. A esposa de Ernesto Froment
-tinha morrido para o amante como para o marido. A Providencia ordenára
-á formosa de Chaves que lançasse a prevaricadora no fogo expiatorio,
-não lavareda devorante, mas brazido lento, que lhe fosse queimando
-fibra por fibra os orgãos todos onde a vida humana pode soffrer e
-morrer mil vezes. Nicoláo lembrava-se d’ella com susto, e ás vezes com
-remorso; o susto de a vêr atravessar-se em seus designios; o remorso de
-atiral-a a um caminho, sem saida que não seja garganta de voragem.
-
-Adeante! Nicoláo de Mesquita conhecia milhares de exemplos. Em
-Paris, cada homem dos admirados e invejados no bosque de Bolonha, no
-café Tortoni, nos centros da mocidade insigne, podia contar dezenas
-d’aquellas historias, laudas da biographia dolorosa que as mulheres
-das salas repetiam sem horror.
-
-O horror das mulheres das salas era para as victimas.
-
-Homens sacrificados é que elle não conhecêra. Homens que immolassem
-os melhores annos da sua mocidade a um dever, que o mundo chama um
-escandalo. Homens que, em cada primavera do coração, arrancassem os
-renovos promettedores de muitas alegrias, e os atirassem fenecidos aos
-pés de uma como estatua, incapaz de avaliar a renunciação, ou, peior
-ainda, persuadida do dever do sacrificio.
-
-N’isto cogitára elle em todos os dias dos seis annos de captiveiro.
-
-Agora, na liberdade, era preciso ser homem como todos, ser forte para
-não ser infeliz e ridiculo: porque a desgraça dos penitentes, que
-não podem nobilitar, com alguma sombra de moral commum, o grandioso
-holocausto de sua liberdade, é irrisoria.
-
-E depois, quem sabe?
-
-Margarida voltará para França, onde tem o marido, e a mãe. Se o marido
-a recebe, feliz culpa que a mette ao caminho da rehabilitação! Se a
-rejeita, a mãe lhe abrirá os braços e o sanctuario da familia lhe
-purificará o espirito. Esta moralidade, subitamente formada no animo do
-morgado, é uma zombaria da virtude. Faz-se muita moralidade assim; a
-sociedade ás vezes applaude-a, e sae em auxilio dos moralisadores.
-
-Com estas hypotheses combatia Nicoláo de Mesquita o impertinente
-remorso, quando ia para Chaves. Porém assim que se refugiou sob os
-olhos tutelares de Beatriz, a chimera da consciencia fugiu espavorida.
-
-Martinho Xavier perguntára a sua filha se o primo de Vidago lhe dizia
-particularmente palavras indicativas de algum sentimento mais forte que
-o do parentesco e amisade.
-
-Beatriz córou. O pae ficou satisfeito.
-
-E, n’outro ensejo, perguntou-lhe:
-
---Gostas do primo Nicoláo? Sê sincera, minha filha.
-
---Não desgosto... balbuciou a pomba.
-
---E, se elle quizesse ser teu marido, acceitarias de boa vontade?
-
---Querendo meu pae...
-
---Eu não quero, nem deixo de querer. Consulto a tua vontade.
-
---Eu...
-
---Acceitas?
-
---Pois sim...
-
---Mas--tornou Martinho Xavier--tu, antes da vinda de Nicoláo, parece
-que acceitavas a côrte do primo de Fayoens, que foi creado comtigo.
-
-Beatriz córou e calou-se. O pae achou prudente calar-se tambem, n’este
-artigo melindroso, e volveu ao essencial.
-
---Nicoláo perguntou-me se o teu coração estava livre. Respondi que o
-suppunha desprendido de affeição seria. Quiz elle saber se tu quererias
-ligar a tua mocidade aos annos já adeantados de um homem, que te amaria
-como esposo, e estremeceria como pae. Vou dar-lhe a tua resposta, se é
-que lh’a não déste.
-
-A menina fez um gesto de assentimento.
-
-O morgado da Palmeira, no dia seguinte, disse a Beatriz:
-
---Quer meditar algum tempo antes de ser minha esposa, prima Beatriz?
-
---Já respondi, primo Nicoláo.
-
---Despede-se sem saudades da sua mocidade? Não deixa impressão que a
-possa magoar?
-
---Não...
-
---Nenhum homem que lhe inquietasse o coração?...
-
---Nenhum...
-
---Acredito-a, Beatriz. Pois saiba que ha-de ser venturosa, quanto os
-anjos podem ser n’este mundo. Hei de obrigal-a com extremos de amor a
-ser minha amiga. Vêr-me-ha invelhecer, e então sentirá por mim affecto
-de filha. O homem, na minha edade, sabe como se faz a felicidade de uma
-mulher. Entrego-lhe o coração maculado, mas ainda forte de vida, a vida
-do coração, que é a poesia das almas enthusiastas. Se eu me sentisse
-gasto e insensivel, a prima Beatriz, com o segredo que teve de influir
-um sagrado fogo no gelo da minha vida moral, havia de fazer o menor
-milagre de remoçar-me. Será feliz, minha prima: juro-lh’o, beijando-lhe
-esta mão pura!
-
-Beatriz cedeu facilmente a mão, para não prejudicar o ritual do
-juramento.
-
-Se Deus fosse carne, e tivesse labios susceptiveis de obedecerem ás
-contracções convulsas dos musculos faciaes, ria-se sardonicamente
-d’aquelle juramento.
-
-O lance, digno de ser pintado com as branduras de Bernardin de S.
-Pierre, foi interrompido por um criado, que apresentava a Nicoláo de
-Mesquita uma carta, vinda em mão propria, de Villa Pouca de Aguiar,
-distante de Chaves tres ou quatro leguas.
-
-O morgado viu o sobrescripto, e mudou de côr.
-
-Era a lettra de Margarida Froment, que havia chegado a Villa Pouca na
-tarde do dia anterior.
-
-O contheudo eram duas palavras: ESTOU AQUI.
-
-Beatriz ergueu-se em ponta de pés. Adoravel curiosidade! Viu; mas não
-entendeu. Era em francez. Encarou no primo e disse sobresaltada:
-
---Que é?!
-
---Um amigo que me chama a Villa Pouca, tartamudeou.
-
---E porque não vem cá? replicou a innocente com a cavillosa dialectica
-de uma senhora já esquecida do tempo em que passou pelas varzeas
-floridas da innocencia.
-
---É um francez, meu amigo, que vae de passagem para Hespanha, e precisa
-de recursos.
-
---Não se assignou?! redarguiu candidamente Beatriz.
-
---Não, porque... porque é perseguido em Portugal, e receiou que se
-desencaminhasse a carta.
-
---E vae, primo?
-
---Sem demora. Devo-lhe obsequios.
-
-Estas palavras já foram ditas com toda a quietação de animo. Beatriz
-socegou; mas, depois que Nicoláo saiu, inquietou-se e mandou, a
-occultas do pae, um criado a Villa Pouca, espiar os passos do morgado
-da Palmeira.
-
-Amava-o: estou em crêr que o amava.
-
-Nicoláo de Mesquita ia chammejando de raiva a Margarida. Esporeava o
-cavallo que devorou as leguas em furiosa desfilada. Soffreava a brida
-instantaneamente, para meditar no que faria. Baralhavam-se-lhe os
-planos, todos miseraveis, senão abjectos.
-
-Apeou á porta da estalagem.
-
-A franceza esperou-o no topo da escada, abrindo os braços. Nicoláo
-apertou-lhe a mão, e disse-lhe glacialmente:
-
---Que é isto?
-
-Margarida transfigurou-se. Deixou cair mortalmente os braços, e disse
-então dorida e irritada:
-
---Para que veio aqui?
-
---Pois a tua carta que significa? Diz.
-
---Nada. Respondesse: «Não conheço a desgraçada, a perdida, a infame
-que me escreve. Desgracei-a eu, perdi-a eu, infamei-a eu; mas não a
-conheço.» Respondesse assim, senhor Nicoláo de Mesquita. Antes isto,
-que repellir a mulher que de braços abertos lhe offerece o coração
-traspassado de dôres.
-
---Vem cá, Margarida! tornou o morgado, simulando meiguice. Vem
-conversar commigo. Tu és injusta, ou estás enganada.
-
-A franceza abriu a porta do seu quarto. Nicoláo sentou-se a limpar as
-bagas de suor. E ella ficou em pé defronte d’elle, hirta, sublime,
-formosa, e formidavel de odio, de amor, de desesperação, de ternura, um
-indefinivel conjuncto de demonio da soberba, e anjo da agonia.
-
-E elle estava como se a não visse, fitando-a nos olhos coruscantes.
-Latejavam-lhe as fontes batidas de dentro por clavas de ferro. Seria um
-atroz pezadelo, se não fosse um abafar de vergonha e rancor.
-
-Margarida esperou alguns segundos, e disse:
-
---Conversemos, pois.
-
-Nicoláo ergueu-se de golpe, e exclamou:
-
---Desprézo a ironia!
-
---Isso é uma miseria, senhor Nicoláo, retorquiu serenamente a franceza.
-Conversemos, pois!
-
-
-
-
-III
-
-
-Reprovo a sua vinda aqui! disse Nicoláo empregando o _vous_ do despeito
-ou da cerimonia, que, n’este dialogo em francez, era, de parte a parte,
-odio.
-
---Já sei, respondeu Margarida. Reprova que eu viesse. Reprovada e
-maldita sou eu de toda a gente. Como todas as almas me fugiam, vim
-acoitar-me na sua. Agora vejo que estou sosinha no mundo. Se eu quizer
-amigas, hei de ir procural-as á ultima escaleira da degradação.
-
---Que desatino!--exclamou o morgado.--Faltaram-lhe meios com que viver
-honestamente?
-
---Honestamente vivia eu em casa de meu marido, senhor Nicoláo de
-Mesquita! O senhor prégou-me a desmoralisação, e agora está-me
-doutrinando a honestidade! Que escarneo! O seu dinheiro não pode
-rehabilitar a mulher que a sua perversa indole abysmou! O senhor faz
-mulheres perdidas, não refaz honestas!
-
---Pois bem!
-
---Pois bem o que?
-
---Faça o que quizer.
-
-Margarida fitou-o arquejante de colera, e levou com impetuoso frenesi
-as mãos aos olhos, murmurando estas palavras, que elle não ouviu:
-
---Covarde e infame!
-
-Nicoláo erguera-se, saira á saleta contigua, aspirando haustos de ar, e
-baforando ruidosamente as expirações fumegantes. A franceza atirára-se
-ao leito, afogada de soluços, e clamando:
-
---Estás vingado, Ernesto, estás vingado, meu infeliz marido!
-
-Nicoláo ouvira isto, e estorcia em desespero os dedos de ambas as mãos
-enclavinhadas sobre o peito.
-
-Encostou-se ao batente da porta do quarto, e contemplou-a. Teve
-dó. Lembrou-se do que fôra aquella mulher em casa de seu marido. O
-contentamento, a estima publica, os regalos, o respeito de amigos, a
-consideração das mulheres honestas, o acanhamento com que a tratavam as
-deshonestas, o orgulho e paixão do esposo. Lembrou-lhe tudo, vendo-a
-assim soluçante, a confessar a sua culpa, e a sentir na consciencia
-o travor do calix expiatorio. E, por sobre tudo isto, o lembrar-se
-Nicoláo da sua deshonra d’elle! aquellas lagrimas a cairem-lhe no
-coração! e o terrivel irremediavel da desgraça de tres victimas, que
-elle fizera, contando-se pela mais atormentada das tres!...
-
-Acercou-se de Margarida e disse-lhe com brandura:
-
---Não chores. Tens no mundo um amigo, Margarida!
-
-A franceza levantou a face brilhante de lagrimas e escarlate febril.
-Fixou a vista immovel n’um ponto da parede fronteira, e permaneceu
-silenciosa largo espaço.
-
-O morgado, observando-a assim, fez um tregeito de impaciencia. Era o
-fastio, a luctar com a commiseração, e a dominal-a.
-
-A sombra de Beatriz passou entre ambos. Seguiram-n’a os olhos d’alma
-de Nicoláo. Os da face ficaram postos em Margarida; mas sómente viam
-n’ella o estorvo, a miseria repulsiva, as lagrimas accusadoras. Duas
-idéas se travaram a repellões no animo do morgado: romper violenta e
-definitivamente com a franceza ou enganal-a com blandicias e promessas.
-Venceu o mais vil dos expedientes.
-
-O maximo sacrificio, que Nicoláo podia fazer á sua paixão pela prima,
-era compôr o gesto de carinhos; modelar a voz pelo tom vehemente do
-coração ingrato, mas arrependido; repetir as phrases que seis annos se
-não repetiram aos ouvidos da franceza.
-
-N’este intuito, ajoelhando deante de Margarida, irrompeu n’uma lamuria
-destoada da accentuação da verdade, um declamar de actor pessimo, uma
-coisa que, na consciencia propriamente do declamador, o devia de estar
-envilecendo!
-
-Margarida foi cruel. Riu-se! castigou-o atrozmente envergonhando-o em
-rosto, quanto elle o estava no seu intimo senso.
-
-Nicoláo de Mesquita ergueu-se de salto, e sentiu ao correr dos braços
-um prurido nervoso, umas fervuras de sangue, que lhe recurvavam os
-dedos; era a convulsiva ancia de esganar a mulher que o comprehendera
-e escarnecia.
-
---Que infame riso é esse? exclamou o morgado cavamente, chispando
-áscuas dos olhos e beiços.
-
---É o riso da dignidade! respondeu a franceza, sem se desmentir na
-postura.
-
---A dignidade de madame Froment! redarguiu elle, espirando um frouxo de
-riso sarcastico.
-
---Condemna-se, insultando-me, homem sem alma! replicou Margarida.
-Madame Froment era uma digna esposa até ao dia em que seu marido foi
-deshonrado por quem elle recebêra em sua casa.
-
---Quem a ouvisse cuidaria que eu me servi do punhal de Tarquinio!
-
---Foi mais cynico, e vilão, e covarde, senhor Nicoláo! As suas armas
-foram mais perfidas.
-
---Mas Lucrecia não se matou!...
-
---Não! bramiu ella furiosa, não se mata, porque é necessario que o
-senhor veja como eu me debato e agoniso no lodaçal em que me deixa.
-Havemos de expiar ambos, ouviu, senhor Mesquita? Havemos de nos
-espedaçar um ao outro! Eu acceito a vida com os horrores todos, que me
-esperam... acceito-a com a condição de o vêr castigado.
-
-Nicoláo riu-se e sahiu do quarto, atirando com as melenas lustrosas de
-suor para a nuca.
-
-Seguiu-o, instantes depois, Margarida, e disse-lhe serenamente:
-
---Venho responder ao seu riso.
-
---Deixe-me! bradou o morgado.
-
---Deixo, tornou ella. Está o senhor livre de mim; a Providencia é que
-não o deixará... Ver-nos-hemos!
-
-E saiu da saleta, desceu ao pateo da estalagem, e ordenou ao arrieiro,
-que tirasse o cavallo da estrebaria. Entretanto pagou as despezas da
-hospedagem, e sentou-se n’um banco de pedra, com os braços cruzados
-sobre o seio, e a face pendida sobre elles.
-
-Nicoláo de Mesquita desceu pouco depois e reconheceu um criado de
-Beatriz, que saía apressado do pateo. Sobresaltou-se, cuidando que era
-espionado, e surprehendido em flagrante de mentira e perfidia. Passou
-por deante de Margarida, como se não a visse, e saiu a rua procurando o
-criado, que não viu. Voltou ao pateo, já quando a franceza cavalgava.
-Quedou-se a contemplal-a estupidamente, n’um indescriptivel spasmo de
-brutificação. Margarida passou rente com elle, estalejando o chicote na
-anca da cavalgadura. Tinha elle saido da villa, quando Nicoláo tirou
-fóra o cavallo, e picou á redea solta no seguimento de Margarida. Não
-saberia dizer elle que intento o impulsava. Chegou de par com ella,
-colheu as bridas de impeto, e perguntou:
-
---Onde vaes, desgraçada?
-
---Á sorte! respondeu a franceza.
-
---Pára e reflexiona, Margarida!...
-
-A franceza parou, sorriu sardonicamente e disse:
-
---Bem! Aqui estou. Que quer de mim?
-
-A pergunta conturbou o morgado. Bruxuleava uma luzinha de piedade
-ainda n’aquelle animo afflicto. Era verdadeira afflicção a d’elle! A
-pergunta demandava uma só resposta digna, e consolativa. Essa nem já
-insidiosamente podia elle dal-a. A sobranceria de Margarida rebatia
-algum expediente compassivo. Se ella chorasse, ganharia temporariamente
-uns exteriores de estima, o supremo sacrificio praticavel pelo homem,
-que faz obedecer á delicadeza o fastio; sacrificio de que vivem
-resignadas, senão felizes, muitas mulheres, as virtuosas principalmente.
-
-Não deu tempo ás reflexões d’elle nem ás nossas a repetida pergunta da
-franceza:
-
---Que quer de mim?
-
---Que domine esse feroz orgulho, que a perde!
-
---Bella resposta, senhor Nicoláo! replicou Margarida, sacudindo as
-rédeas com um tremor nervoso da mão. Deixar meu marido foi uma virtude
-do coração, como o cavalheiro lhe chamava; a virtuosa não se perdeu
-então; perde-se agora porque é orgulhosa até á ferocidade... é isso?
-que escarneo, senhor Mesquita!...
-
-Susteve-se, esperando qualquer resposta. As desgraçadas, n’estes
-lances, usam uma logica irrespondivel. Nicoláo tinha a lingua
-preza--consintam a figura--por dois dedos da sua prima Beatriz.
-Expressão compadecida não vingava nenhuma com que applacasse o
-irritamento de Margarida. Assim que no animo lhe pungia a commiseração,
-ahi estavam logo os dois dedos de Beatriz a entalarem-lhe na lingua o
-termo brando, a claridade mesmo da mentira.
-
-A franceza, sobre-excitada pelo silencio significativo do morgado da
-Palmeira, disse com energia e sem lagrimas:
-
---Eu, senhor, não vim queixar-me da sua ingratidão. Bem sabe que o
-deixei apertar-me cinco annos a corda na garganta, sem soltar um
-gemido. A sua consideração por mim morreu, quando a sociedade me
-desconsiderou. O senhor, desde o momento em que deixou de vêr ao meu
-lado o estimulo do seu crime, não soube que fazer aos loiros da
-victoria. Eu, ao lado de meu marido, era uma mulher disputada pelo amor
-d’elle; escondida ás pedradas do mundo, perdi o valor que me davam os
-respeitos sociaes. As pedradas mais certeiras e dolorosas eram as suas,
-senhor Nicoláo. E não me queixei, nem isto é queixar-me. Da vilania é
-que eu me dou por affrontada. Deixou-me no Porto com vil astucia, e nem
-por dignidade propria sustentou a mascara. Era a vida de sua mãe que
-repellia a mulher perdida da honesta casa da Palmeira: morreu sua mãe,
-e o senhor, aturdido pela dôr da orphandade, não poude dispôr da cabeça
-para me dar parte do seu lucto...
-
---Não admitto remoques sobre objectos tão serios! interrompeu iracundo
-o morgado.
-
---O senhor não póde considerar-se um objecto serio! acudiu de prompto a
-franceza. Ridicula é a sua aleivosia, senhor Nicoláo! Ridiculo, se não
-quer que diga infame, é o seu silencio de vinte dias ás minhas cartas!
-Ridiculo, é esse falso pundonor com que vem em defeza da honestidade
-dos seus lares! Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos á candida
-sobrinha de Chaves que...
-
-Nicoláo cresceu sobre os estribos, levou a mão direita á testa
-escaldante, e baforou fumaradas de rancor. Abrasava-o dentro o sarcasmo
-do _amor dos quarenta annos_. Tortura mais lacerante nem a inquisição
-poderia invental-a para uso de mulheres inexoraveis como Margarida!
-Teve-lhe medo ella quando o viu assim roxo e vulcanico a chammejar
-pelos olhos, inteiriçado sobre o sellim, pavoroso, e ainda ridiculo, no
-rigor da palavra, e no entender da franceza.
-
-O desfecho d’este relanço devia ser tambem irrisorio. Nicoláo de
-Mesquita recaiu de golpe sobre o sellim, retorceu de violento empuxão
-o pescoço do cavallo, deu-lhe de esporas com frenesi, e despediu n’uma
-corrida desapoderada por aquella rechan do Valle d’Aguiar fóra, e tão
-cosido ás crinas do fumegante alasão, que dava uns longes de Mazeppa,
-arrebatado pelo corcel creado na vertiginosa phantasia de Byron.
-
-E Margarida Froment ria-se, em quanto o pasmado arrieiro exclamava:
-
---O cavallo endoideceu! Vae-se esbarrar com dez milheiros de diabos!
-
-A franceza sorriu ainda, e disse serenamente:
-
---Vamos para o Porto.
-
-Nicoláo havia transmontado o horisonte, fechado por uma gandra. Nem uma
-só vez voltara o rosto. Espicaçava-o um demonio zombeteiro, cascalhando
-as palavras: _Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos_...
-
-Quem disse a Margarida que Nicoláo amava a sobrinha de Chaves? Os
-romancistas, desconsiderados ou distrahidos, faltam com a cortezia
-devida aos leitores, descuidando-se em responderem a estes reparos
-justos, com que a critica amoravelmente nos dá o seu beliscão.
-
-A franceza, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Villa Real. Ao
-arraiar da manhã, cavalgou, e fóra da villa, n’uma esplanada de monte,
-chamado o «Arcabuzado», parou a examinar um mau retabulo, em que um
-pincel de 1811 contava á posteridade o caso triste do espingardeamento
-de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o
-pae do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto
-successo contou-lh’o, em frente do painel, um mancebo, que desde a
-hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavallo. Não ousaria elle
-intrometter-se a dar explicações, se a franceza, por gesto convidativo,
-o não animasse a sair-se d’aquelle spasmo mudo, que as mulheres
-formosas incutem nos provincianos, gente, pelo commum, contemplativa
-até ao extasis.
-
-Concluida a historia do painel, o moço alinhou o cavallo com o de
-Margarida, quanto a estrada o permittia, e foi dizendo quem era e para
-onde jornadeava. Modestamente omittiu na noticia da sua pessoa que era
-um fidalgo do Valle d’Aguiar, senhor do solar e castello d’aquelle
-nome, descendente por varonia de Duarte de Almeida, o celebrado
-alferes da bandeira, que, a defendel-a com mãos e dentes, perdêra os
-dentes e as mãos na batalha de Tóro, em 1476. Fallou, porém, no seu
-castello, que a franceza traduziu _château_, «casa-campestre», coisa
-de nenhuma importancia archeologica. Ricardo de Almeida ignorava a
-lingua franceza, o que vinha a ser uma falta para dar do seu castello
-solarengo uma cabal idéa.
-
-Margarida perguntou-lhe se conhecia Nicoláo de Mesquita.
-
---É meu proximo parente; respondeu Ricardo de Almeida, e de prompto
-conjecturou acertadamente quem era a sua companheira de jornada,
-por ter ouvido dizer que o do Vidago tinha vivido no Porto com uma
-estrangeira.
-
---Tem-n’o visto? perguntou ella.
-
---Visitei-o quando lhe morreu a mãe...
-
---Pois a mãe de Nicoláo morreu?! acudiu Margarida com alvoroço.
-
---Ha tres semanas.
-
-Margarida mordeu o labio inferior.
-
---Vossa excellencia conhece meu primo? perguntou Ricardo por delicadeza.
-
---Alguma coisa, respondeu ella abstrahidamente, e disse logo com
-vivacidade:
-
---Elle está em Vidago?
-
---Quando eu sai de minha casa, ha quatro dias, tive noticia de que elle
-estava em Chaves.
-
---Chaves é longe?
-
---Nove leguas, minha senhora.
-
---Que faz elle em Chaves?
-
---Namora uma sobrinha, com quem provavelmente vae casar.
-
-Margarida fitou nos olhos o interlocutor, e disse:
-
---O senhor sabe quem sou, e graceja comigo.
-
---Desconfio que vossa excellencia é uma senhora que veiu da emigração
-acompanhando Nicoláo de Mesquita; porém, de nenhum modo ousaria
-gracejar com uma senhora, que me parece infeliz na sua sorte.
-
-Margarida, por espaço de uma legua, não proferiu palavra. Ricardo tinha
-menos espirito que o necessario para divertil-a da sua introversão.
-
-Assomaram ao alto da serra do Mezio, d’onde se avistava a magnifica
-chan do valle de Aguiar, e o castello dos Almeidas, negrejando sobre um
-morro de rochas na quebrada das montanhas do Alvão.
-
---O meu castello é além, disse Ricardo apontando.
-
---É uma fortaleza feudal? perguntou Margarida.
-
-O fidalgo deu a data da fundação do castello, e contou a façanha de
-Duarte de Almeida, modelada pela inventiva com que ella anda cantada em
-verso no _Romanceiro Portuguez_ do senhor Ignacio Pizarro de Moraes
-Sarmento. A franceza parecia escutal-o.
-
-A meio do valle, Ricardo perguntou á dama se queria ser acompanhada.
-
---Separa-se aqui?
-
---A minha estrada é esta da esquerda.
-
---Pois adeus, cavalheiro!
-
---Se vossa excellencia, por distracção, quizer alguma vez honrar
-aquelle castello...
-
---Muito agradecida... As mulheres, fadadas com o meu infortunio, nunca
-podem distrahir os olhos do ponto negro da sua desgraça. Adeus.
-
-Margarida, lá ao longe, olhou terceira vez ao longo do caminho, que
-deixára, e viu immovel o fidalgo castellão no local onde se despediram.
-
---Não envelheci ainda! disse ella entre si.
-
-Foi-lhe immensa consolação este desabafo da vaidade!
-
-
-
-
-IV
-
-
-Margarida, na volta de Villa Pouca, reparou no castello, e pensou no
-descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciencia:
-«Amal-o-hia eu, se podesse... O coração da mulher não se engana...
-Aquelle moço amava-me hontem...»
-
-Custa a crêr o soliloquio!
-
-Ainda não ha meia hora que ella viu, ennovelados em poeira, o
-cavalleiro e o cavallo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se
-preoccupa do affecto inspirado a um estranho, que hontem vira! Que
-coração e juizo tem esta creatura! É um coração e juizo exoticos:
-coisas de França; que em Portugal--terra onde mais sinceramente
-e ajuizadamente se ama e morre d’amor--nenhuma senhora, em caso
-similhante, faria monologos d’aquelles.
-
-Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas,
-contiguas ao castello apontava um oculo á estrada que descia de Villa
-Pouca, e monologava tambem: «É ella... e vem sósinha...»
-
-O cavallo estava sellado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do
-miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se
-despedira. A franceza reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra.
-Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem póde ser
-não fosse, ainda que arrancasse o homem amado ás presas da menina de
-Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada
-de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmurios no coração
-ennoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma
-alegria que a vingava! Na infancia do seu amor de donzella, nenhuma
-hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade!
-
-Ricardo apeou, atirou as rédeas á mão do lacaio, e adeantou-se ao
-encontro da franceza, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior:
-
---É tarde para vossa excellencia ir pernoitar a Villa Real. No espaço
-de tres grandes leguas não encontra pousada. Venho offerecer-lhe a
-minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem.
-
---Acceito muito agradecida--respondeu Margarida, estendendo o braço
-á mão convulsa do fidalgo. Ainda mesmo que sobejassem hospedarias na
-estrada, eu acceitaria a sua hospedagem, senhor Ricardo.
-
-O mancebo cavalgou, e deu o passo a Margarida no estreito caminho que
-levava ao Pontido.
-
-Iam ambos concentrados: ella, no enlevo da consideração que recebia;
-elle, no seu amor. Devemos cuidar assim da franceza; porque não ha
-contentamento comparavel ao da mulher desestimada da sociedade,
-quando se lhe depara prova de respeito, urbanidade sem mescla de amor
-aviltante. Parecia-lhe á dama que estava no tempo em que a respeitavam,
-e talvez a amavam os amigos da sua familia, sem exclusão dos amigos
-de seu marido, facto que nos escandalisa muito a nós, e medianamente
-agastaria a esposa de Ernesto Froment.
-
-Quanto ao enlevo amoroso de Ricardo de Almeida, havemos de inferil-o
-naturalmente de um successo, que prende com esta historia. Fôra o
-caso que elle, por veredas transversaes, no dia anterior, chegara,
-primeiro que Margarida, a Villa Pouca. Alojára-se na unica estalagem da
-terra, e no quarto immediato ao que devia occupar a franceza. Ouvira-a
-fallar de um portador que fosse de noite a Chaves. Desvelára a noite,
-espiando a resposta. Dera tento da chegada de seu primo Nicoláo. Ouvira
-o dialogo na alcôva e na saleta. Até os soluços da franceza ouvira,
-quando o morgado, fóra do quarto, expedia uns sons roucos da colera
-que o afogava. Assim que Margarida desceu ao pateo, Ricardo saira pelo
-quintalejo da estalagem, e fôra montar o cavallo, que tinha acautelado
-de suspeitas em outra casa. Desgarrando da estrada, voltou ao Pontido,
-e subiu á crista das fragas com o oculo, tremendo que a reconciliação
-se fizesse entre Nicoláo e Margarida. Ora isto, se não era amor, e amor
-á antiga, coevo talvez do castello senhorial do rico homem, não sei
-dar-lhe nome, a não querer o leitor que isto fossem ciladas do demonio,
-em conformidade com as interpretações de santos e doutissimos sujeitos.
-Quer anjo, quer demonio que lhe instillasse no peito o nectar ou a
-peçonha, o exacto é que Ricardo de Almeida apresentou a suas venerandas
-tias D. Margarida Froment, sem dizer quem era, d’onde vinha, e para
-onde ia. Caso unico no solar dos Almeidas.
-
-Perguntava D. Simôa ao sobrinho, em quanto D. Sancha entretinha a
-hospeda suspeita:
-
---Mas onde conheceste, menino, esta dama? Como veio ella parar aqui lá
-d’esses mundos de Christo?
-
---Sei que é um anjo: viria do ceu!--respondeu Ricardo.
-
---Do ceu?!... Vê lá bem, menino! Olha que teu tio avô, o senhor bispo
-de Coimbra, dizia que as mulheres assim galantes eram mensageiras do
-inimigo.
-
---Ora minha tia...--volvia o moço afagando-a.--Receba sem escrupulos a
-pobre senhora, que é tão galante como desgraçada.
-
---Então que tem ella, menino?--instava D. Simôa com malicia.
-
---A sua alma pura, minha tia, não póde comprehender o mal que fizeram
-a esta senhora. No entanto, eu responderei ás perguntas de vossa
-excellencia assim que ella sair ao seu destino.
-
---Mas...--redarguiu a velha--o mal que lhe fizeram has de remedial-o
-tu?...
-
-Esta interrogação abona a sagacidade de D. Simôa; a innocencia não
-direi, com medo de errar. As Sanchas e Simôas dos solares provincianos,
-por via de regra, tinham tempo para tudo: tempo para Deus e tempo
-para os primos. Cada uma tinha o seu frade que a absolvia e lhe dava
-noticias de todas as devoções com indulgencia plenaria. A balança de
-S. Miguel estava sempre no oiro fio com estas damas, que mortificavam
-Deus e o demonio ao mesmo tempo. A Deus, sophismavam as velleidades com
-as indulgencias do Espirito Santo; ao demonio faziam figas por sobre
-as espaduas anchas dos frades respectivos. Se as donas do castello de
-Aguiar tinham sido d’esta laia, não sei; asseveraram-me, porém, que
-ellas foram enterradas de palmito e corôas de rosas brancas: isto diz
-muito em credito d’aquellas senhoras. No tocante a cheiro de santidade,
-as opiniões na freguezia divergem.
-
-Como quer que fosse, D. Simôa, n’aquella noite, inventou uma enxaqueca,
-e recolheu-se á sua alcova. D. Sancha saiu da sala para ir ver a mana,
-e voltou á sala com outra cara. O certo é que a franceza achou-se
-sósinha á ceia com Ricardo, que estava odiando as velhas.
-
-Margarida sem presumir de aguda, entendeu tudo e condoeu-se do mal
-abafado soffrimento de Ricardo.
-
---Não se afflija por amor de mim--disse ella. Eu acceito o menos preço
-de suas tias, sem azedume. Com que titulos se apresenta á estima de
-duas senhoras desconhecidas uma mulher que viaja sósinha!?... Muito
-sentida vou, se as delicadas attenções do cavalheiro o fizeram cair no
-desagrado de suas tias!...
-
---Eu sou independente, minha senhora--respondeu Ricardo.--Minhas tias,
-n’esta casa, teem um pequeno patrimonio, e o direito de se retirarem
-com elle. A minha emancipação começa de hoje.
-
---Por Deus!--atalhou Margarida, simulando pesar.--Não dê desgostos
-ás pobres senhoras! Olhe que ellas não fizeram mais do que fariam
-quaesquer outras. Eu conheço um pouco a vida de provincia em França,
-e creio que em Portugal é identico o modo de sentir. Recebem-se
-sempre desconfiadamente as forasteiras, que se não recommendam logo
-com appellidos heraldicos, nem denunciam pela libré de seus criados
-procedencia illustre. Ambos peccamos por leviandade, mr. Ricardo de
-Almeida: vossa excellencia errou em convidar a mulher que não póde
-explicar honestamente a sua vida, e eu pequei em acceitar o convite,
-como se a consciencia de maior dignidade me habilitasse a relacionar-me
-com duas damas da alta nobreza e, a meu ver, das primeiras virtudes.
-
-A essencial feição da indole de Margarida Froment era a ironia; mas, a
-compostura de rosto com que desfechava os remoques, não lh’a deixava
-entre-vêr facilmente. Ricardo, pelos menos, recebeu como ingenua
-a phrase laudatoria das virtudes de suas tias; e, sorrindo com um
-tregeito especial de beiços, deu vislumbres de incerteza em quanto á
-primazia das mesmas virtudes.
-
-O fidalgo ergueu-se de golpe, e tangeu uma campainha.
-
-Entrou á sala um escudeiro.
-
---A criada de sala?--perguntou Ricardo.
-
---Está no quarto das fidalgas.
-
---Que venha aqui.
-
-Entrou a criada.
-
---Conduza esta senhora ao seu aposento--disse Ricardo--e conserve-se no
-quarto proximo, esperando as ordens que a sr.ᵃ D. Margarida lhe der.
-
---Mas as fidalgas...--balbuciou a aia.
-
---Ordenei!--atalhou o moço--e, voltando-se a Margarida, disse:--Quando
-vossa excellencia quizer recolher-se...
-
---Irei já; mas dispenso os serviços da sua criada--observou a franceza.
-
-Ao romper da manhã, Margarida estava preparada, como se recolhêra á
-alcôva. Parecia ter chorado, e velado o restante da noite. Á mesma
-hora, Ricardo mandava preparar os cavallos, e enfardar a sua bagagem.
-Quando sentiu movimento no quarto da franceza, esperou-a na ante-camara
-e disse-lhe:
-
---Resolvi ir ver o Porto. Se vossa excellencia me consente, irei em sua
-companhia.
-
---Que mais posso eu desejar?--disse Margarida--Mas... eu vim trazer a
-desordem a esta casa... Que pesar, meu Deus!
-
---Veio apenas trazer uma noite de amargura a um homem que a présa
-deveras, minha senhora. De resto, eu vejo melhor o mundo depois que
-vossa excellencia aqui entrou.
-
-As velhas tinham sido avisadas dos preparativos do sobrinho.
-Ergueram-se espavoridas e tresnoitadas a procurarem Ricardo.
-
-Pediram-lhe contas da sua inesperada resolução, e elle respondeu-lhes
-com uma mesura de cabeça, e passou. D. Sancha exclamou, e D. Simôa
-quiz ir á sala dos retratos accusar a degeneração do neto. Os retratos
-teriam medo, se as vissem com os josésinhos côr de cidra enfiados pelas
-mangas, e as estrigas do cabello estupentudas. D’ahi a pouco, ouviram
-a estropeada dos cavallos no pateo, e o rugido do alteroso portão
-rodando nos gonzos. Foram á janella e viram a franceza de par com o
-sobrinho, e uma carga de bahus no seguimento da escandalosa cavalgada.
-Desmaiaram-se reciprocamente nos braços uma da outra, e assim estiveram
-até horas de almoço, depois do qual mandaram chamar os parentes
-circumfusos nas proximas seis leguas.
-
-Lembrou D. Sancha que o primo Nicoláo de Mesquita, como homem que tinha
-visto muito mundo, seria o mais habil para convencer Ricardo a fugir
-dos braços da aventureira franceza, com quem se fôra por essas terras
-fóra. Foi chamado o capellão para notar e escrever a carta e assignal-a
-em nome das senhoras que não sabiam escrever. O egresso franciscano
-fez uma exposição pavorosa do escandalo, citando, com referencia á
-franceza, todo o mal que Santo Agostinho e S. João Chrysostomo haviam
-dito das mulheres.
-
-Este periodo é notavel:
-
- .................................................
-
- «Aqui tendes, caro sobrinho, o desdouro que a vontade do Senhor nos
- reservava á nossa velhice. Uma forasteira, vinda de França, por
- instigação de Satanaz, rouba-nos a menina dos olhos, o nosso Ricardo,
- que tão humilde nos tinha sido até agora, e tão bem comportado, que
- não consta em todas estas freguezias que elle botasse a perder filha
- de caseiro. Suppõe a gente que elle arranjou esta tentação lá por
- Villa Real, onde esteve quatro dias. Mas clama justiça do céo vir
- elle com ella para esta casa, onde não ha memoria de entrar mulher
- desconhecida! Chama-se ella Margarida, e pelo donaire e modos bem se
- vê que é mulher affeita a correr mundo. Nunca vimos creatura com tanto
- palavriado! Aqui ninguem nos póde valer como o nosso parente Nicoláo.
- Lembrae-vos que sois do mesmo sangue do nosso Ricardo; pois que vossa
- bisavó era irmã do bisavô do nosso sobrinho. Elle dizia que vós sois
- um homem de grande entendimento e sabedoria, porque tendes experiencia
- do mundo. Se estimaes esta familia, que tambem é a vossa, fazei-nos o
- favor de ir a Villa Real, ou onde elle estiver com a tal aventureira,
- e despersuadi-o do peccado e da loucura. Lembrae-lhe a honra da sua
- linhagem, e trazei-o para sua casa antes que a franceza lhe derranque
- a alma, etc.»
-
-Este é o periodo em que Sancha e Simôa choraram torrencialmente, e o
-egresso tambem.
-
-Partiu um criado com a carta para o Vidago, ou para onde Nicoláo de
-Mesquita estivesse. Do Vidago passou a Chaves, a procural-o em casa de
-Martinho Xavier. Foi entregue a carta ao morgado de Palmeira, a tempo
-que elle estava amollentando os asperrimos ciumes de Beatriz, informada
-do encontro em Villa Pouca, pelo espião que mandára. Nicoláo tinha
-inventado não sabemos que romances á conta da mulher, que o criado de
-Beatriz affirmára ser linda como as estrellas e mocetona de uma vez,
-modo seu de exprimir a maxima perfectibilidade da belleza mulheril.
-A prima repellia desabridamente as humilimas explicações, que reviam
-absurdeza, e deficiencia de estudo previo. Chegou, porém, a carta, com
-a indicação de onde vinha.
-
---Que me quererão estas serêsmas do Pontido? disse Nicoláo.
-
-Leu, e no decurso das duas primeiras paginas fradescas, resadas em voz
-alta, interrompeu-se exclamando:
-
---Que vem a ser isto?!
-
-Relanceou os olhos sobre a terceira pagina, e viu as palavras
-_franceza Margarida_. Mudou de côr, e leu d’ahi em diante mentalmente.
-Beatriz desconfiou, e foi, irreflectidamente, com liberdade de noiva,
-e indelicadeza de menina que não ganhou no collegio premios de
-civilidade, espreitar o dizer da carta. Nicoláo furtou-se á curiosidade
-e augmentou a suspeita. A menina saiu da sala com arrebatamento, e foi
-dizer ao pai:
-
---Já não quero casar com o tio Nicoláo. (Já era tio!)
-
---Porque, menina?!
-
---Porque sim... É um infiel!
-
---Ora, creança!... Saibamos isso por miudos.
-
-Beatriz contou o encontro com uma mulher em Villa Pouca, e o
-recebimento da carta, que elle escondêra, depois de ter lido uma porção
-d’ella a dizer mal das mulheres.
-
-Martinho Xavier riu-se dos amuos da menina, e foi entender-se com o
-primo.
-
-Nicoláo, depois de se ficar pasmado uns tres minutos no periodo que
-transladamos, quiz dispor as suas idéas, em ordem a conjecturar o
-abstruso enlace de Margarida com Ricardo de Almeida, duas pessoas que
-nunca se tinham visto. Este reparo denota que Nicoláo não conseguira
-coordenar as suas idéas. Pois as duas pessoas não se haviam de ter
-visto, ao menos quando uma era roubada pela outra?
-
-Respondia elle a esta pergunta do siso-commum, quando Martinho Xavier
-entrou, dizendo:
-
---Que vem a ser isto, primo Mesquita? A Beatriz está zangada. Que lhe
-fizeste? que mulher é essa com quem estiveste em Villa Pouca? E essa
-carta, em que se diz mal das mulheres que vem a ser? A pequena foi
-dizer-me que não quer casar comtigo!
-
-Nicoláo reflectiu, e achou um miraculoso expediente de justificação.
-Deu a carta a ler ao primo dizendo:
-
---Eu duvidei contar a tua filha uma historia de honestidade muito
-equivoca. Ahi verás que me chamam as tias Almeidas para reduzir o
-sobrinho a deixar uma mulher que o perde. Esta mulher é a mesma que
-veiu a Villa Pouca para captar a minha estima, e mover-me a induzir meu
-primo Ricardo a casar com ella. Aqui tens, primo Xavier, como eu me
-vejo enredado n’uma teia, que me faz malquisto de tua filha. Se queres,
-explica-lhe tu o que é isto. Eu não sei fazel-o sem cuidar que ultrajo
-o seu pudor.
-
-Martinho expediu uma sincera gargalhada, e exclamou:
-
---Dá-me a carta, que eu vou pacificar a pobre menina.
-
-D’ahi a pouco, Beatriz entrou muito agraciada á presença de Nicoláo, e
-disse, toda affagos:
-
---O primo perdoa-me, pois não perdoa?
-
---E, por amor do seu ciume, cada vez a adoro mais, Beatriz!--respondeu
-o morgado ternamente.
-
-
-
-
-V
-
-
-Nicoláo respondeu ás tias Almeidas que as suas occupações o estorvavam
-de ir moralisar o primo Ricardo. Consolava-as, porém, com a certeza de
-que o sobrinho prodigo voltaria cedo curado da sua hydropisia amorosa,
-depois de algumas sangrias copiosas nas algibeiras. O egresso, lendo
-este paragrapho, exclamou:
-
---Isto que elle diz é assim, fidalgas. O senhor Nicoláo bem se vê que
-andou muito mundo!
-
-As velhas sentiram-se alliviadas, e accenderam velas de arratel a Santo
-Antonio, e outros bem aventurados que privam na côrte celestial.
-
-Este acontecimento estupendo, passada a rija impressão do choque, deu
-largas ao espirito do morgado. Mulher que tão facil e estupidamente
-passára ao dominio d’outro homem, estava definida. Espinho de remorso
-de havel-a abandonado seria baixesa e indignidade consentil-o na alma.
-Arrependido estava elle de a não ter abandonado ha muito, por umas
-verduras de pundonor, em que elle victimára seis escuros e dissaboridos
-annos de sua vida. Tudo pelo melhor! Azavam-se-lhes as coisas para um
-viver tranquillo e desapertado de responsabilidades e reminiscencias
-perturbadoras.
-
-Cuidaram logo em tirar dispensa de parentesco para o casamento. Nicoláo
-andava alegremente na faina de renovar as alfaias da casa de Palmeira,
-e lustrar as velhas, que provavam as antigas pompas do solar dos
-Mesquitas. N’este lidar, em que o coração tomava a melhoria do seu
-cargo, o morgado remoçava, puerilisava-se, tinha tolices perdoaveis,
-que Beatriz era digna de enlouquecer qualquer homem amado. As mulheres
-lindas confessavam que ella era formosa: as mulheres são evangelhos,
-quando tal dizem d’outra. E, alem de formosa, rica. Fidalga, está dito
-tudo, se o timbre das armas de Fayões e de Palmeira, e das Olarias,
-é o mesmo timbre dos Sousas Vahias cuja representante é Beatriz. Em
-quanto a puresa, não ousariam os serafins esquadrinhar-lh’a. É o
-elo interposto á flor e á estrella em materia de innocencia. Tivera
-escassamente uma sombra de cortejo de seu primo Raphael Garção
-Cogominho, decimo quarto senhor de Fayões. A bonina da serra não fica
-mais pura, quando um cordeirinho a bafeja, do que ficou Beatriz com uns
-beijos que lhe havia dado o primo nas faces purpurejadas. Afóra isto,
-que é nada, o maná dos israelitas não choveu mais candido e impolluto
-das amphoras do ceu. Assim se desculpa a exultação de Nicoláo nos
-preparativos para os esposorios mais fallados e invejados d’aquella
-redondeza.
-
-As pessoas que tinham visto os requebros de Beatriz por seu primo
-Raphael maravilharam-se da transferencia, e mais ainda da conformidade
-do moço de Fayões.
-
-Era este mancebo filho unico de paes opulentos, e o mais galhardo e
-galan rapaz d’aquellas terras. Tinha peccados grandes, que os invejosos
-das suas proezas desejariam esconder, se podessem. A humanidade, sua
-conhecida, dividira-se em dois bandos: os homens contra, as mulheres
-por elle. Raphael não se queixava; punha peito aos adversarios, excepto
-o coração que esse andava repartido e desfibrado pelas defensoras.
-Era coisa de prodigio a paz em que tantas odiando-se reciprocamente,
-viviam com elle, e saiam a enristar, não lanças, mas linguas--as mais
-perfurantes e contundentes armas conhecidas--em honra de Raphael Garção
-Cogominho, quando algum barbaro desdenhoso lhe desluzia no garbo com
-que esporeava o ginete a galões e trancos, ou na adamada denguice com
-que requestava toda a mulher indistinctamente.
-
-E muitas o amavam, áquem e além Tamega, por essa Gallisa dentro. No
-entender dos sisudos censores de seus maus costumes, faltava-lhe a
-fibra susceptivel do coração que se doe das inconstancias d’uma mulher.
-Em confirmação d’este juizo, depunha o ter ido Raphael para Hespanha em
-seguimento de uma andaluza, que apparecêra na feira de Santo Antonio
-em Villa Real, tocando pandeiro e castanhetas. Alguem conjecturou
-que Beatriz accedêra a casar com o tio por despique do primo; varias
-senhoras, no proposito de desdoural-a, affirmavam que ella optára
-pelo mais rico, sem levar em conta a differença das edades, e os
-dissabores futuros. Tudo isto eram vozes do mundo, que se banqueteava
-em casa de Martinho Xavier e se enfrascava nos melhores vinhos a
-brindar o prospero enlace do extremado cavalleiro de Palmeira com a
-encantadora Beatriz. A verdade, porém, das rompidas intelligencias da
-menina e de Raphael já está dita: fôra um brincar da borboleta com uma
-flôr de madre-silva; mais lyrismo não tem anachreontica nenhuma, se a
-anachreontica fôr das mais honestas.
-
-O morgadinho de Fayões nunca pensára em casar-se. Tinha então vinte
-e quatro annos; muito dinheiro, muita saude, leitura de _Clarisse
-Harlowe_, da _Nova Heloisa_, do _D. João_, e outros modelos de algozes
-de corações. É o que elle tinha lido em dois annos que estivera em
-Coimbra.
-
-Não obstante, a pureza da filha de Martinho Xavier enfreou-lhe a
-indole; póde ser tambem que a desconfiança do pae lhe contraminasse
-algum intento menos honroso. Disputal-a a Nicoláo de Mesquita, sem o
-proposito de desposal-a, era um desaire; soffrer era uma semsaboria
-indigna dos Tenorios e Lovelaces e Saint-Preux das suas leituras.
-Felizmente que a andaluza lhe barateou um sorriso, e encareceu um
-beijo na feira de Villa Real. Este duro osso do officio irritou-lhe a
-vaidade. A hespanhola pareceu-lhe uma Esmeralda, como Victor Hugo a
-encontrára inventada por um escriptor castelhano. Alli por Villa Real
-andavam uns Claudios Froulos a quererem seduzir-lh’a. Esporearam-lhe
-o ciume. Não havia que vêr. Seis mulheres bonitas de Chaves, dezenas
-d’ellas do alto da provincia, duzias de galanteios incipientes e
-decadentes, todas foram sacrificadas á funambula do pandeiro e das
-castanhetas.
-
-Varias pessoas lamentaram a sorte d’este mancebo no banquete nupcial
-de Beatriz e Nicoláo. Os mais penetrativos convivas olhavam de esconso
-a noiva, e o marido tambem; todavia a menina escutava as lastimas como
-se as não comprehendesse. O anjo estava como estrangeiro entre aquelle
-gentio, que fallava a linguagem barbaresca das paixões deshonestas.
-
-No dia seguinte, os esposados foram para o Vidago, com grande comitiva.
-No trajecto de tres leguas estoiraram constantemente bombardas e
-foguetes. As festas continuaram na casa de Palmeira tres dias e tres
-noites. A grandeza de quinze leguas ao sul, e tres ao norte, a entestar
-com a Galliza, confluiu com suas librés a honrar a mais cheia lua
-de ambrosia, que ainda tiveram noivos desde que as luas se ingerem
-ridiculamente nos noivados.
-
-As senhoras do Castello d’Aguiar, tias de Ricardo, saiam da liteira a
-visitarem o seu parente de Vidago, e a senhora D. Beatriz que ainda era
-parente d’ellas, em razão de haver casado Mem de Sousa, em 1410, com D.
-Briolanja de Almeida. Além da etiqueta, moveu-as ao sacrificio poderem
-fallar do sobrinho Ricardo, e pedirem consolações ao homem experiente.
-
-D. Sancha, assim que o ensejo se lhe ageitou, rompeu em pranto desfeito
-n’estes termos:
-
---A felicidade que estaes gosando, sobrinhos, perdemos a esperança de
-que o nosso Ricardo a venha gosar!
-
---Que noticias tem vossa excellencia de Ricardo?--atalhou Nicoláo.
-
---Não nos escreve o ingrato! Ha tres mezes que foi, e não voltou.
-
---Pois não sabem onde elle foi parar com essa mulher?
-
---Sabemos, sabemos... Estão no Porto. Ricardo tem escripto aos feitores
-das quintas, a mandar ir dinheiro. Não fazeis uma idéa, sobrinho, do
-dinheiro que tem ido!... Se assim vae, Deus nos feche os olhos antes de
-o vermos empenhar os vinculos. Agora soubemos que elle mandou vender os
-foros de Barroso por quatro mil cruzados, e a melhor quinta da Terra
-quente! Haverá um mez que o senhor padre Ambrosio, nosso capellão, foi
-de nosso mando ao Porto a ver se o convertia. Quereis vós saber, meus
-sobrinhos, o que elle viu? Elle aqui está que o conte. Diga lá, senhor
-padre Ambrosio.
-
-O egresso sibilou uma pitada, assoou-se, dobrou o lenço de
-quadradinhos, embolçou-o na algibeira da batina, compoz o rosto,
-ageitou as mãos sobre a proeminencia do estomago, e tirou estas
-palavras do peito:
-
---Assim que cheguei ao Porto, fui a casa das senhoras Noronhas, primas
-de suas excellencias, para o fim de me ellas mandarem ensinar as ruas,
-e a morada do fidalgo. Saíu comigo o capelão a indagações, e soubemos
-que elle estava a banhos de mar na Foz, com a maldita estrangeira.
-Aluguei um jumento, com o devido respeito, e puz-me a caminho para
-a Foz. Eis que, á saída do Porto, vejo vir o senhor Ricardo n’uma
-carroça descoberta, com a franceza á sua direita, e dois lacaios, um
-adeante e outro atraz, sentados na dita carroça. Fiquei passado. Quiz
-chamal-o, grudou-se-me a lingua ao ceu da bocca! Elle passou sem dar
-tino de mim; e eu fiquei perplexo, verdadeiramente perplexo! Que hei
-de eu fazer? Deixei ir o jumento, com o devido respeito: fui á Foz,
-resolvido a esperar que elle voltasse. Teria eu andado obra d’um quarto
-de legua, eis que ahi torna a carroça n’uma galopada, que parecia um
-esquadrão de cavallaria. Parei. O senhor Ricardo viu-me, a carroça
-pára, e elle diz: «Por aqui, padre Ambrosio? Isso que é?»--«Venho em
-cata de vossa excellencia»--disse eu.--N’isto, saltou elle á estrada,
-e apropinquou-se de mim, ajudando-me a desmontar, e perguntou-me: «Ha
-novidade em casa? Morreu alguma das tias?»
-
---Vejam que perverso aquelle!--interrompeu D. Sancha.
-
---A perguntar se morremos!--accrescentou D. Simôa, com uma visagem de
-quem promette viver muito.
-
---Se vossas excellencias permittem, disse o padre Ambrosio, continuarei
-a minha exposição.
-
---Póde continuar, disseram unanimemente as velhas.
-
---Não, excellentissimo senhor, não morreu, graças a Deus, nenhuma de
-suas tias. Teem padecido muito, mas vivem para honra da familia dos
-Almeidas. Temos que fallar largamente, senhor Ricardo.
-
-«Pois bem, padre Ambrosio», disse elle, entre na minha
-carruagem.--«Muito obrigado, muito obrigado», disse eu. «Ha de
-entrar»--teimou o fidalgo; e, pegando-me d’este braço, fez-me subir,
-e sentar mesmo ao lado da franceza hombro com hombro. O senhoras e
-senhores! eu suava por todos os orificios!
-
-Beatriz soltou uma convulsão de riso indomavel, Nicoláo de Mesquita
-cravou os dentes nas borlas do chambre. As senhoras Almeidas pasmaram
-do descôco de Beatriz. O narrador abriu a bocca, e ficou-se espantado.
-Esse silencio, e estas visagens eram cócegas a nova casquinada de
-Beatriz. A senhora ergueu-se de salto, e fugiu sala fóra com as mãos
-nas ilhargas.
-
---Ella de que se riu, sobrinho?! perguntou D. Sancha.
-
---É flato, respondeu Nicoláo.
-
---Ah! coitadinha! disse D. Simôa. Mandae-lhe fazer um chá de ortelã e
-tilia.
-
---Aquillo passa-lhe, tornou o morgado. Queira continuar, senhor padre
-Ambrosio.
-
---Vinha eu dizendo que...
-
---Entrou no carro...--lembrou Nicoláo.
-
---Justamente, e alli vamos nós por aquella estrada além, que eu não
-sei para onde me levavam, nem dava tino de mim. Ia afflicto! Aquella
-mensageira de Satanaz ao pé de mim! Nunca volvi o rosto para a ver! Que
-diria o mundo, vendo um homem com estas vestes sacerdotaes, sentado á
-beira d’aquella mulher! Eu levava o meu capote de camellão, puxei-o
-para deante afim de esconder a batina, mas a cara havia de denunciar a
-minha vergonha: eu ia como um pimento em toda a extensão da palavra! O
-fidalgo perguntou se eu gostava de andar em carruagem. Respondi-lhe que
-não e o demonio da franceza disse não sei que, lá na sua amaldiçoada
-linguagem, e o senhor Ricardo riu-se. Eis que chegamos ao portão da
-casa do senhor Ricardo. A mulher do peccado deu um salto para fóra,
-que parecia um passaro a saltar, deixando ver os laços dos sapatos, e
-umas fitas pretas encruzadas nos artelhos! Assim a vestira o inferno
-para perdição das almas. Assim apparecia o demonio entrajado aos santos
-da Thebaida! Porque a verdade ha de dizel-a minha bocca indignada:
-Satanaz nunca fez mulher mais guapa para recrutar almas n’este mundo!
-Eu tinha-a visto de passagem na casa do Pontido, quando ella pernoitou
-lá, e achei que era bem composta de feições; mas agora d’esta vez
-pareceu-me muito mais galharda. Nunca vi outra nem espero que os meus
-olhos tornem a ver mulher assim!... Santa Maria Egypcia, e Santa
-Margarida de Cortona, que eu já vi pintadas, quando eram peccadoras,
-dou-lhes a minha palavra que não tinham tantos adornos infernaes!...
-Vamos adeante. O senhor Ricardo levou-me a uma sala espaçosa, e toda
-adornada de cadeiras de almofada, e ricos escabellos de seda. Fez-me
-sentar n’um, em que cuidei que ia por elle dentro, e o fidalgo riu-se,
-e explicou-me o caso, dizendo que o assento era de molas.--«Tudo
-delicias do peccado!»--exclamei eu, erguendo-me; e elle, o perdido,
-exclamou tambem: «delicias da civilisação, padre Ambrosio!» Então,
-comecei eu o meu discurso, que levava meditado, e que não repito,
-para não enfadar vossas excellencias. O meu discurso foi attinente ao
-proposito de o accordar do seu lethargo. Citei-lhe o divino e o humano.
-Invoquei as sombras illustres dos Almeidas, dos Mesquitas, dos Coelhos,
-dos Pizarros, todos ascendentes d’esta nobilissima familia. Ouviu-me em
-silencio. E quando eu esperava que dos olhos lhe rebentasse o pranto
-da contricção, ouviu-se uma campainha, e elle, cortando-me o final do
-discurso, disse: «padre Ambrosio, vamos jantar, que está na mesa.»
-Escandalisei-me d’esta especie de mangação; e disse: «--Na casa do
-impio não comerás nem beberás!»--São palavras da biblia santa. Peguei
-na bengala e no chapéu para saír. Eis que elle me enrosca o braço no
-pescoço, e diz: «Ha de jantar, que tenho que lhe dizer.» A resistencia
-era impossivel, que o senhor Ricardo, desde menino, foi sempre despota.
-E de mais a mais, eu estava a cair de debilidade, porque não tinha
-comido ao almoço. Deixei-me levar. Eis que vejo a estrangeira sentada
-á mesa! Vieram-me outra vez os suores. Fiquei sentado defronte d’ella.
-Foi ella que me fez o prato, e me perguntou se eu queria mais. Comi
-iguarias que nunca vi na minha vida! A sôpa não a pude levar. Tinha uns
-pedacitos de animalculos, que lá chamam camarões. A maldita comia uns
-bichos crus com sumo de limão!
-
---Credo! exclamou D. Sancha.
-
---Creio que se chamam ôstras!--continuou o padre, e teve logo de se
-interromper, porque D. Simôa, engulhada com a descripção infanda dos
-bichos crus, estava a luctar com o vomito.
-
-Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor
-de amendoa, padre Ambrosio continuou:
-
---Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle
-jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de
-um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo
-levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia.
-
---Por mim! disse Nicoláo.
-
---Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossa excellencia tinha
-casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava
-n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu
-uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado
-pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o
-sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim.
-Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe
-a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas
-tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir.
-
-N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro
-da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre;
-mas o narrador repetiu ainda:
-
---Palavras, que eu não me atrevo a repetir.
-
---Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...--disse D. Sancha.
-
---Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo.
-Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que
-meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia.
-
---Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa
-senhoria é um... não ouso dizer.
-
---Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso
-sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós!
-
---E que havia de pagar dente por dente, e olho por olho...--ajuntou o
-capellão.
-
---Basta! interrompeu o morgado com desabrimento. Eu despreso o que esse
-miseravel disse!
-
---Mas que mal lhe fizeste tu a elle, primo? perguntou Beatriz.
-
---Nenhum, minha querida. Que mal poderia eu fazer-lhe?! Agastaram-n’o
-contra mim as expressões que escrevi a minhas tias com referencia
-ao desatino d’elle. Bem! prohibo que em minha casa se deprima ou
-se louve o homem que me insulta. Préso muito vossas excellencias,
-minhas senhoras, mas não sei que lhes faça, nem ha que fazer contra
-os desvarios de seu sobrinho. Quando elle voltar, eu irei pedir-lhe
-explicações do epitheto com que me brindou. No entanto, peço que me não
-perturbem a felicidade que devo a este anjo.
-
-E, dizendo, aconchegou do seio Beatriz, e ella, encostando o ouvido ao
-seio esquerdo, disse admirada:
-
---Com que força o teu coração palpita, primo!
-
-
-
-
-VI
-
-
-Acabaram-se os festejos no Vidago.
-
-Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára.
-
-Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros
-e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas
-amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada.
-Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios.
-Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe
-adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do
-Porto.
-
-Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do
-resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para
-todas as horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes,
-honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.
-
-Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não
-esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.
-
-Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.
-
-Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao
-inculpavel beijo de um primo.
-
-Para uma _fortuna_ desfalcada por grandes desbarates, um grande
-patrimonio de filha unica.
-
-Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das
-trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma?
-Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas
-se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.
-
-Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado
-restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e
-faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de
-Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da
-insipida existencia dos senhores do Vidago.
-
-Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do
-marido:
-
---Tu és feliz?
-
-E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de
-amarga ironia de si mesma:
-
---Sou...
-
-O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma
-aberta dizia ao genro:
-
---Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens
-estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo?
-
---Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo
-terreal--respondia o morgado.
-
---E receiaes ser desgraçados lá?
-
---Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos
-vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a
-solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se
-á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não
-engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves.
-
---Não sei... murmurou Martinho.
-
---Por que dizes que não sabes?
-
---Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas
-regalias da sociedade culta.
-
---Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado,
-renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um
-conciliabulo de murmurações com as outras mulheres.
-
---Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na
-Inglaterra...
-
---É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier.
-
---Não é isso...
-
---Então que é?
-
---É o estares gasto, primo.
-
---Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua
-filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz?
-
---Não: pelo contrario, diz que tu a adoras.
-
---Pois bem: que outro galardão querias tu como pae?
-
---Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta
-serenidade desfeche em fastio...
-
---Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da
-sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher.
-Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou
-Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e
-accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a
-patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier.
-
---Está bom...--murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os
-hombros, fechando as palpebras.
-
-Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto
-desbotado da filha.
-
---Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente.
-
---Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece
-que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias
-e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a
-agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos
-domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa
-vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o
-reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear,
-e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente
-muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui
-mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá,
-e da nossa casa, e das minhas amigas! A Therezinha Pizarro fala de
-mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa
-da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a
-Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael?
-
---Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella
-cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze
-dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado
-para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade,
-e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido
-desmarcado!
-
---Elle falou-lhe de mim?
-
---Falou; perguntou-me se estavas contente.
-
---E o pae que lhe disse?
-
---Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima.
-
---Fez bem. Não quero que elle se vingue.
-
---Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio?
-
---Não... mas...
-
---Explica-te.
-
---O pae bem sabia que elle me fazia a côrte.
-
---Uma brincadeira...
-
---Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle.
-
---Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com
-quem casar...
-
---Quem sabe!...
-
---Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo
-leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de
-todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrando
-todos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter
-pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma
-tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá
-louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares
-com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo
-casamento.
-
-Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete
-cotovellos.
-
---Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.
-
---É admiravel!
-
---Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras
-francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes
-ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra,
-duzentas e tantas variedades.
-
---Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.
-
---Ora essa!--acudiu Nicoláo.--Se deixavamos a nossa casa para ir ver as
-paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas
-estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais
-para se ver na copia que no original!
-
---Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos--replicou o
-fidalgo flaviense.
-
---Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o _D. José_, da
-memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da memoria.
-Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos
-Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita,
-que me perguntava se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres
-pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha
-bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram
-repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final.
-Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher?
-Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão
-subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia,
-surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.
-
---Está decidido que não saes de Vidago--retorquiu Martinho.
-
---Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se
-Beatriz o exigir.
-
---Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...--disse a
-senhora.
-
-Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse:
-
---Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido...
-
---Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo.
-Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido?
-
---É conforme...--atalhou Nicoláo.--Pois sim, iremos a Chaves.
-
---Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando
-conformidade.
-
---Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e
-contrariado.
-
---O que fôr da tua vontade--respondeu ella affavelmente, sopesando o
-despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir.
-
-De feito, ao outro dia partiram para Chaves.
-
-Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella
-do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe
-a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da
-infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus
-amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz
-escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o
-coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então
-era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do
-seio angustiado.
-
-Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella
-afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que
-tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura
-sorte a havia creado o pae com tanto mimo.
-
-Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e
-contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi
-Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse,
-para no dia seguinte voltar a Palmeira.
-
-Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias
-parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia
-do pae, pretextando impedimento de saude.
-
-Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção
-entrou, vindo de Basto.
-
-Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando:
-
---Como está mudada, prima!
-
-Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr.
-
---E eu que a considerava tão afortunada!--tornou Raphael.
-
---E quem te disse a ti que ella o não é?!--interveiu Martinho Xavier,
-de má sombra.
-
---Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da
-alegria!--respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron.
-
---Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...--contrariou
-Martinho.
-
---Isso não sei--contraveio o morgado de Fayões.
-
---Sei eu.
-
---Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve
-doença, tornou Raphael.
-
-Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou
-tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto.
-
-Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que
-providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não
-edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja
-perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito.
-O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal
-n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto
-me querer ingerir n’um cantinho d’este romance.
-
-Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma
-visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe
-a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em
-caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o
-coração para receber as lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama,
-e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades.
-
-Concentrou-se.
-
-Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse,
-mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A
-precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a
-saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença
-de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia
-empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel
-desgraça.
-
-Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e
-trocavam expressões vãs.
-
---Porque soffres, prima?--perguntava elle.
-
---Eu não soffro.
-
---Mas que tristeza é essa?
-
---Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo?
-
---Nada, Beatriz.
-
---Mas estás tão pensativo!...
-
---Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria
-não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu
-casei tarde para lhes achar prazer.
-
-O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o.
-
-E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva
-suffocada.
-
-Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo
-mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e
-viu intacto o almoço.
-
---Porque não comes?--perguntou elle.
-
---Não posso--respondeu seccamente a senhora.
-
---Queres que chame um cirurgião?
-
---A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a
-morte.
-
-Nicoláo riu-se sarcasticamente.
-
-Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para
-abafar soluços.
-
-O marido contemplou-a com azedume, affastou-se.
-
-Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora.
-
-Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment!
-
-
-
-
-VII
-
-
-Saudades de Margarida Froment?
-
-A pergunta póde abonar a candura, mas não abona a experiencia de quem
-se dignou fazer-m’a.
-
-Saudades de Margarida, porque havia sido amada apaixonadamente.
-
-Porque era ainda bella, quando foi abandonada.
-
-Porque houvera um homem que a tomára despresada nos braços, e a
-mostrava ao mundo com soberba de a possuir.
-
-Porque esse homem era moço, gentil, fidalgo, e requestado das mais
-extremadas formosuras da provincia.
-
-Porque esse homem, em vez de escondel-a nas sombras d’umas arvores,
-galeava pomposamente com ella, offuscando os olhos pavidos da moral
-publica.
-
-Porque Margarida tinha prodigiosas graças, de que Nicoláo se estava
-lembrando agora.
-
-Porque Margarida, sobre ser espirituosa, era um talento que bastava a
-entreter e lisongear o mais cubiçoso espirito.
-
-Porque Margarida lhe havia sido leal até o momento de ser
-grosseiramente repellida.
-
-Porque chorava, quando elle cruamente a odiava.
-
-Porque era bella, digamol-o segunda vez, porque era bella.
-
-E mais que tudo, porque era de outro.
-
-Aqui estão os _porquês_ da miseria do coração de Nicoláo de Mesquita,
-barro commum da humanidade, miseria deploravel, que importa chorarmos
-todos, por ser nossa a miseria, e não sabermos como se póde com lodo e
-lagrimas reconstruir uma coisa melhor do que a fez o Creador.
-
-Peregrina belleza era Beatriz; esposa casta e paciente nenhuma se
-lhe avantajava; mulher para o ideal, e anjo para a sensação, nenhuma
-como ella; virtudes, graças, lagrimas do seio sem macula: tudo que
-mais prende o amor, e a misericordia quando o amor se extingue; tudo
-superabundava na esposa de dezesete annos; mas Beatriz era de Nicoláo
-indissoluvelmente, e Margarida estava sendo de Ricardo.
-
-Que repulsivo confronto entre as duas mulheres!
-
-Que mal premiada a honra, sujeita a comparações tão aviltantes!
-
-Ora, a saudade do morgado da Palmeira excruciava-o. Era um ferro
-candente a fistular-lhe as entranhas. Da quinta do Porto, onde se
-anojára cinco annos, recordava-se como Lucifer do ceu. Parecia-lhe
-que Beatriz era o archanjo do montante de fogo, a repulsal-o
-eternamente das delicias do coração. Fugia de si mesmo como corrido
-de sua ignominia. Punha os olhos supplicantes no oratorio de sua mãe.
-Apertava ao seio a esposa, como se esperasse apagar a flamma infernal
-em contacto da mulher pura. Margarida arrancava-o pelos cabellos
-dos braços da esposa, arrastava-o até se assentar com elle n’alguma
-amenidade das florestas, e ahi lhe dizia as phrases embriagantes dos
-primeiros mezes da sua paixão em Bruxellas, ou, debulhada em lagrimas,
-se queixava da ingratidão com que elle desamparára a mulher, por amor
-d’elle perdida, sem amigos, sem marido e talvez sem pão.
-
-Era um supplicio expiador! Nicoláo conheceu que era preciso Deus para
-a misericordia, logo que lhe reconheceu a mão no peso do castigo. Não
-bastava o amor desesperançado: cumpria que o remorso lhe envenenasse o
-sangue: remorso de infamar um amigo e de lhe atirar ao gozo dos homens
-a mulher infamada!
-
-Tinha momentos de contemplal-o com pavor Beatriz. Falava-lhe, e elle
-estremecia, articulando desatinos. Punha-lhe a mão no rosto abrazeado,
-e elle repellia os afagos, e voltava depois a procural-os, chorando.
-
-Beatriz mandou secretamente chamar o pae.
-
-Assim que Nicoláo presentiu Martinho Xavier no pateo de sua casa, saiu
-enraivecido, e voltou depois envergonhado da sua raiva, sem dar tino da
-razão da fuga nem da vergonha.
-
-A attribulada senhora contára ao pae a incomprehensivel agitação do
-marido. Martinho chorava abraçado á filha, quando Nicoláo entrou. O
-lance foi acerbo! Nicoláo acercou-se de ambos, abraçou-os, e disse com
-voz balbuciante:
-
---Eu fiz a vossa desgraça e a minha. Perdoae-me!
-
-Beatriz condoeu-se. O pae levou-o nos braços á sala immediata,
-gesticulando á filha que os não seguisse, e perguntou:
-
---Isto que é, primo Mesquita? Que mal te fazemos nós?
-
---Queixei-me eu de ti ou de Beatriz?--disse maviosamente o morgado.
-
---É arrependimento de te haveres casado?
-
---É... Arrependimento de infelicitar a tua filha digna de uma alma
-estranha aos vicios e ás villanias atrozes.
-
---Pois bem, Nicoláo... remediemos o remediavel. Se a presença de minha
-filha te atormenta, eu levo-a para minha casa, que tambem é tua e
-d’ella. Se o amor tornar, vae buscal-a; se, sem Beatriz, viveres mais
-tranquillo, ella que fique em Chaves.
-
---Não!... atalhou o morgado.--A minha desgraça não se remedeia assim,
-nem d’outro modo. É um anathema! e um calix intransitivo. Hei de
-bebel-o trago a trago!...
-
---Santo Deus!--acudiu Martinho Xavier--que segredo é esse da tua vida?
-Se eu te visse na sociedade, cuidaria que te apaixonaste, primo! E
-então appellaria do teu coração para a tua honra.
-
---E se eu não tivesse honra!...--exclamou Nicoláo, e saiu
-impetuosamente da sala.
-
-Martinho perguntou á filha:
-
---Teu marido recebe cartas suspeitas?
-
---Não, que eu saiba, meu pae. Recebe jornaes, e raras vezes tem cartas
-de França.
-
---E essas cartas sabes o que ellas conteem?
-
---Sei, porque são de um portuguez, e nada dizem de suspeito. Só, aqui
-ha tempos, li uma, que falava n’uma Margarida, e entendi que era a
-franceza do Ricardo de Almeida. Vim a saber que ella era casada, porque
-diz assim, pouco mais ou menos: «o marido de Margarida está gordo e
-devasso; e desforra-se.» Não percebi isto, nem me importou. Perguntei
-ao primo se a tal franceza era casada, e elle respondeu-me bruscamente
-que não sabia, nem eu me devia importar com as cartas que elle recebia.
-Porque me pergunta o pae se elle recebe cartas suspeitas?
-
---Nada, filha.
-
---Desconfia que elle ame outra mulher!--instou ella alvorotada.
-
---Desconfiei.
-
---É impossivel! exclamou Beatriz--Quem hade ser? Aqui ninguem vem; nós
-não vamos a parte nenhuma.
-
---Então que suppões tu d’esta pasmosa torvação de teu marido?
-
---Que me aborrece.
-
---Não é assim.
-
---É, meu pae. Elle não póde deixar de sentir por mim o que eu sinto por
-elle.
-
---Pois não o amas, Beatriz?
-
---Como hei de eu amal-o n’este martyrio? Sabe lá o que eu soffro ha
-dez mezes! E então, nos ultimos tres, não tenho refrigerio... Uma hora
-abraça-me, outra repelle-me. Já temi que elle endoudecesse... Meu
-pae,--proseguiu ella com vehemente fervor de supplica--tire-me d’aqui,
-leve-me para si, restitua-me uma parte da satisfação que eu tinha de
-viver, antes d’esta fatalidade!
-
---Paciencia por alguns dias, filha!--replicou o pae enternecido
-a pranto.--Isso não póde ser assim. O mundo assacaria aleivosias
-deshonrosas para todos. Já agora tem força por mais algum tempo; é o
-teu bom pae que t’o pede.
-
---Terei--disse resignada Beatriz.
-
-Martinho deteve-se alguns dias no Vidago e saia com frequencia a longos
-passeios de cavallo com o genro. Da mesmeidade dos annos, da amizade
-da infancia e sobre tudo da necessidade da expansão, resultou que o
-morgado da Palmeira, n’um d’aquelles passeios, communicasse ao primo
-os pormenores todos da sua angustia. O assombro de Martinho Xavier foi
-afflictivo. Pôde muito comsigo que não lançasse em rosto ao marido de
-sua filha a protervia, a perfidia, a villania com que tramára o engano,
-do encontro com a franceza em Villa Pouca; e mais ainda o villipendio
-do emparelhar o amor de sua filha com o de uma collareja transmissivel
-de homem para homem. Era santa a indignação do pae!
-
-Ouviu-o silencioso, e apenas lhe disse:
-
---Vence-te, se poderes; se te não poderes vencer, dá-me minha filha,
-e vae disputar essa mulher a teu primo Ricardo, que eu creio que lh’a
-tiras; e elle ou outro, quando estiveres saciado, t’a virão tirar.
-
-Nicoláo pungiu-se e arrependeu-se da revelação.
-
-Exigiu-lhe o juramento de calar o segredo a sua mulher. Martinho Xavier
-respondeu:
-
---Quando se trata de affrontar minha filha, escuso de jurar que não hei
-de affrontal-a. O que te peço é que a deixes ir estar quinze dias em
-minha companhia.
-
---Pois sim, mas dispensa-me de acompanhal-a. Espero que a solidão e
-meditação me curem. Logo que eu me sinta mais tratavel, irei buscal-a,
-e passarei comtigo algumas semanas. Iremos todos a Madrid; eu mudarei
-de vida, entrarei outra vez no mundo; e darei á minha pobre Beatriz o
-contentamento que lhe roubei.
-
---Deus te ouça!--exclamou jubilosamente Martinho Xavier.
-
-Beatriz cuidou de abafar de alegria, quando o pae lhe noticiou a ida.
-Tratou de emmalar os seus adornos com tal prestesa, e de tamanho
-afogadilho, que de sobra denotava a levesa dos dezesete annos, e a
-facil transposição do seu espirito da dôr para o contentamento. Nicoláo
-despediu-se d’ella com os olhos a reverem lagrimas. Os de Beatriz nem
-de leve se marejaram. Partiram.
-
-N’este mesmo dia abriu Nicoláo de Mesquita a _Coalisão_, jornal
-portuense, e, acaso, relanceando a vista ao folhetim, depararam-se-lhe
-as palavras _Margarida Froment_. Leu o folhetim, que se intitulava:
-
-
-Á BEIRA-MAR
-
-Era uma mescla de verso e prosa, consoante o gosto dos litteratos
-amphibios d’aquelle tempo. Começava assim n’este estylo fraldoso e
-apopletico, vulgarmente chamado biblico:
-
- «.........................................
-
- «E o teu cantar é saudoso como o das filhas de Israel ás abras das
- aguas plangitivas do Euphrates.
-
- «E as harpas eolias gemem bafejadas por teus labios, como a cythara de
- Saul.
-
- «Oh Agar, sentada nas areias estuosas do deserto de Berzabé! Canta,
- canta, oh filha das lagrimas!
-
- Ai! quantas vezes, ó triste,
- Esse teu amargo pranto
- Desafogaste no canto!
- Ai! quantas vezes sentiste
- Mais precisão de chorar!...
- Ai! canta, canta, que ha lagrimas
- No teu dorido cantar!
-
- .............................................
-
- Ao cantar te acode a infancia
- Com seus sorrisos e flores;
- Feres notas que te falam
- Como falavam amores,
- Outras são gemidos d’alma;
- Mas todos teem seu gozar!
- Ai! canta, canta, anjo triste,
- Quando quizeres chorar!
-
- .............................................
-
- «E o archanjo d’aquelles hymnos tem sobre a terra um nome. Na
- linguagem de homens chama-se _Margarida Froment_; mas, nos archivos do
- céu, o nome que tem é _Martyr do Coração_.
-
- «Por que o teu seio foi alanceado fibra a fibra pelo primeiro precito,
- que te esculpiu um anathema na fronte, onde os raios fulgidos do sol
- desciam a roubar seu esplendor!
-
- «E esse maldito de Deus feriu-te na aza de anjo, ó pomba dos paramos
- olympicos, e tu caiste ao tremedal da humanidade.
-
- «Ó Margarida! quem sabe ahi dizer sobre a terra a alegria das tuas
- angustias!
-
- «E eu vi-te por uma d’essas noites esplendidas, como as sonha o arabe
- no dulcissimo torpor dos seus magicos narcoticos!
-
- «Illuminava o inferno d’este mundo, oh houri, enviada pelo Deus dos
- ismaelitas.
-
- «A tua belleza era o arrebol matutino.
-
- «E os teus olhos afuzilavam torrentes electricas como os relampagos
- abertos da mão de Jehovah nas cumiadas do Sinay.
-
- «E os teus labios desprenderam um cantar, cuja maviosidade fazia
- chorar os anjos no ceu, e os demonios no inferno.
-
- «E o homem, que te havia roubado aos braços do esposo, esse não
- chorava, porque uma aragem da região glacial das trevas lhe tinha
- congelado as glandulas, e o sangue nos pulmões, e fizera d’aquelle
- coração um cinerario hediondo, como os pomos de Pentapolis!
-
- «Oh Margarida, que dôr será a tua, insondavel e immensissima, quando o
- coração te paira por terras de França, e vês a mãe que te carpe, e o
- marido que aperta ao seio o inutil punhal de sua vingança!...
-
- «Ai! canta, canta, que ha lagrimas
- No teu dorido cantar!
- Ai quantas vezes sentiste
- Mais precisão de chorar...
- Ai! canta, canta, anjo triste!»
-
- .............................................
-
-Seria crueza dar a copia integral do folhetim, que ao deante, era muito
-mais puxado do peito, e menos intelligivel.
-
-O poeta datara-o na Foz em outubro de 1840.
-
-Uma local do mesmo numero da gazeta, dizia:
-
- «_Á beira-mar._ Com este titulo publicamos hoje um folhetim de um
- nosso amigo, que tão brilhantemente se estreia. As letras patrias
- devem esperar d’este mancebo fructos tão sasoados quanto as flores
- são bellas. Á parte o talento senão genio, do mavioso poeta, devemos
- confessar que o motivo de sua inspiração não podia sair com menos
- de uma obra prima. Tambem nós tivemos a honra e o jubilo de escutar
- hontem á noite a voz melodiosissima de mad. Margarida Froment, dama já
- conhecida por sua belleza e intelligencia. Agradecemos cordealmente
- ao cavalheiro Ricardo de Almeida o convite que nos proporcionou
- ajuntarmos o nosso brado de admiração ao de tantos, que se gosaram o
- prazer de ouvir a hospeda de sua excellencia. Do folhetim do nosso
- jovem amigo infere-se que ha profundas e ao mesmo tempo sublimes dôres
- no coração d’esta senhora. Ai da consciencia do refalsado caracter que
- privou a sociedade de uma gloria!
-
- «Que o mundo é inexoravel com as desgraçadas, que, ainda abatidas do
- ceu, roçam as nuvens com a fronte. Silencio! Saudemos o formoso anjo
- da harmonia, e não perguntemos a Deus por que não teve mão d’esta
- filha querida, ao despenhar-se!»
-
-Nicoláo de Mesquita leu a chorar as ultimas linhas d’esta noticia.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Ricardo de Almeida sentiu no seu braço o tremor do braço de Margarida,
-quando, por noite de lua cheia, passeiavam á Beira-Douro, no sitio de
-Sovereiras, em S. João da Foz. N’aquelle relanço perpassára por elles
-um encapotado.
-
-A franceza vira uns olhos faiscantes por sobre a fimbria avelludada
-da capa: eram os olhos de Nicoláo de Mesquita. Voltára o pescoço para
-observar-lhe o andar: reconheceu-o.
-
---É o Mesquita! murmurou ella assustada, amiudando o andar.
-
---Devagar! disse o fidalgo do Pontido. Que importa que seja?!
-
---Dizes bem... Que importa que seja?
-
-Nicoláo voltára no encalço d’elles apertando o pé. Ricardo de Almeida
-deu tino d’isto, e affroixou o passo. Margarida tirava por elle com
-força.
-
---Que significa este medo? perguntou o moço, offendido da inquietação
-da franceza.
-
---Nada, meu amor, disse ella.
-
-Ricardo parou, e Nicoláo foi ávante.
-
---Queria vêr-te indifferente á apparição d’este homem! observou Ricardo
-com intenção, e gesto magoado.
-
---Creança! ciciou ella com encantador sorriso. A indifferença é o
-despreso, e eu odeio.
-
-Entraram silenciosos em casa, e viram ao longe o vulto na esplanada que
-entesta com a fortaleza. Ricardo saiu rebuçado e armado. O do Vidago já
-lá não estava. Deteve-se o indiscreto cioso nas travessas visinhas de
-sua casa.
-
-Eram onze horas.
-
-A franceza abriu as janellas, sentou-se ao piano, e cantou uma romança
-franceza. As vibrações da voz eram desnaturaes. Havia a paixão da
-saudade n’aquelle cantar.
-
-Nicoláo de Mesquita escutava-a da janella do hotel, e Ricardo da
-escuridão de uma viella intransitada.
-
-Calou-se a voz.
-
-O marido de Beatriz sentou-se a escrever a quinta folha de uma carta a
-Margarida. O castellão de Aguiar foi de manso, por sobre tapetes, até
-ao piano de Margarida, e surprehendeu-a com os cotovellos apoiados no
-teclado, e o rosto entre as mãos. Tocou-lhe no hombro: ella expediu um
-grito argentino como a mais alta das notas que acabava de cantar, e
-surriu-se por lhe ser mais prompto o riso que as lagrimas.
-
---Tu amas Nicoláo? perguntou Ricardo com uma precipitação infantil.
-
---Que semsaboria! disse Margarida, e abaixou a fronte carregada.
-
---Porque estás triste? Que recordas?
-
---O tempo em que eu era feliz, meu amigo.
-
---Com Nicoláo?
-
---Não: com minha mãe, com meu marido, com a estimação propria, e com a
-estimação do mundo.
-
---E é Nicoláo quem te desperta essas recordações?
-
---Naturalmente... Foi elle quem tudo me roubou.
-
---Então não o amas? voltou elle com muita ternura, beijando-lhe as mãos.
-
---Nem que elle me restituisse tudo o que perdi.
-
-No dia seguinte, o jockey de Nicoláo apresentou a Margarida, na
-ausencia do amo, uma carta volumosa.
-
---Quem te deu isto? perguntou a franceza.
-
---Um criado do hotel inglez.
-
-Margarida leu as vinte laudas; quando a vista se lhe turvava, depunha
-a carta e enxugava os olhos. Finda a leitura, escreveu na margem da
-ultima folha: _Esta carta é o prefacio da minha vingança_. Lacrou-a e
-devolveu-a pelo jockey, dizendo:
-
---Se trouxeres outra, envio-te com ella a teu amo.
-
-Assim que Ricardo entrou, Margarida foi cariciosamente aos braços
-d’elle, e disse:
-
---Vamos. Tens medo de fraquear, Margarida?
-
---Não. Se eu podesse fraquear, a mudança de terra seria debilitar-me,
-em vez de robustecer-me.
-
-Na tarde d’este dia, Nicoláo de Mesquita viu passar em carro Margarida
-e Ricardo, caminho do Porto. Esperou-os no regresso até noite alta.
-Era uma cabeça perdida, a esta hora, a do miserando homem! Sabia que
-tinha duas pistolas entre mãos, e que sobre sua cabeça ia estalar a
-maior e ultima tempestade. O alvor da manhã bruniu-lhe o rosto livido
-de um verniz embaciado de cadaver. Ao raiar do sol foi para casa, que
-Margarida e Ricardo não voltaram.
-
-Ás dez horas, estava febril no leito. Na sala do hotel, proximo do seu
-quarto, conversavam algumas vozes. Eram cavalheiros da provincia. Dizia
-um:
-
---O Ricardo e a franceza embarcaram para Lisboa ás nove horas.
-
---Gasta como um principe o transmontano!
-
---Que fortuna tem elle?
-
---Dizem que está vendendo.
-
---A mulher vale bem a pena de gastar-se a fortuna, e ficar a gente com
-a doce recordação de a ter tido a ella.
-
---Não pensou assim Nicoláo de Mesquita, o antigo possuidor.
-
---Nunca vi esse leão.
-
---Conheci-o eu. Foi elle quem a tirou ao marido. Teve-a por ahi com
-modesto recato. Depois, foi casar-se na provincia com a mais bonita
-creança que os meus olhos viram em Chaves, e nas primeiras cidades da
-Europa. Aquillo é que é saber viver!
-
---Mas a Margarida Froment é uma grande mulher!... confessem!...
-
---Confessamos, mas quem a faz maior é o patavina do Ricardo! Estas
-_soirées_ que elle dá são de um ridiculo monumental! Apresentou-m’a
-como sua hospeda! Que baboseira! A gente faz-se tola, e vae ser
-apresentado á hospeda...
-
---Assim é que se faz o escandalo por grosso.
-
---Quando elle tiver vendido as ameias de um castello, que tem na
-provincia, a hospeda muda de hospedaria.
-
---Tomáras tu que ella mandasse preparar aposentos em tua casa...
-
---Pagando-m’os.
-
---Maganão! por tua vontade não espera ella que o Ricardo venda os
-torreões do solar dos _Almeidas por quem sempre o Tejo chora_...
-
---Era publica e notoria a tua paixão.
-
---Gostava d’ella: não ha nada mais humano.
-
---Mas parece que não mareaste bem n’aquelle rumo... Foste a pique, eim?
-
---Ha derrotas que são triumphos. Fez-me o favor de me offerecer a sua
-amisade fraternal.
-
---Que irmã! É uma honra ser irmão d’aquella Margarida...
-
---Confessemos que a mulher é leal. Ave rara n’esta terra!
-
---E mais rara nas aves arribadas de França.
-
-O fallarío proseguiu. Nicoláo ouvira tudo encostado aos alisares da
-porta.
-
-Entrou um novo interlocutor, que foi muito festejado. Era Raphael
-Garção que chegava de Chaves.
-
---Aqui está quem conhece Ricardo de Almeida... Sabes que elle foi hoje
-para Lisboa com a franceza?
-
---Foi! ó diabo! eu vinha conquistar a franceza! disse Raphael. Nunca a
-vi! E eu não posso ser mais que Cesar. É preciso vêr para vencer; por
-em quanto, apenas fiz o que pude: cheguei.
-
---Vens mal informado! É de uma fidelidade, que toca o limite do
-escandalo. Vinhas a isso?
-
---Algum de vossês conhece Nicoláo de Mesquita? perguntou Raphael.
-
---O antecessor de Ricardo?...
-
---Como antecessor de Ricardo?! Que tem a franceza com o Mesquita?
-
---Estás em dia!... Pois não sabes que o Mesquita veio de França com
-esta mulher?
-
---Na provincia ignora-se essa coisa... Pois... Vocês teem a certeza...?
-
---Vi-os eu no Porto, em 1834 até 1839. Isto é do dominio universal
-desde a rua da Reboleira até á viella de Fradellos, na cidade invicta!
-
---Sabem se elle está por ahi, o Mesquita?
-
---Não.
-
---Deve estar, e eu vim procural-o. Saí de Chaves a buscal-o em casa.
-Disseram-me que elle tinha saído para Villa Real. Em Villa Real tive
-noticias que elle passára em Amarante. Em Amarante disseram-me que o
-tinham encontrado em Baltar. O homem está aqui e agora me convenço de
-que a franceza não é estranha a esta mysteriosa jornada. Pobre Beatriz!
-Lembras-te d’aquella minha prima que te mostrei em Chaves, Albuquerque?
-
---Ainda ha pouco falei d’ella. Que linda mulher! Já sei que ella casou
-com o Mesquita. Não lhe fazias tu a côrte n’aquelle tempo?
-
---Amei-a com o unico amor nobre e santo que tenho experimentado; mas,
-como tudo que é nobre e santo não apega n’esta lama do mundo, assim que
-a vi despregar o vôo para as serenas regiões do matrimonio, agarrei-me
-ao pandeiro de uma andaluza, e fui terras de Castella dentro, em
-conquista d’aquelle gallego coração, que só me comprehendeu, depois que
-eu lhe mostrei um _porte-monnaie_ maior que o coração. Quando voltei,
-achei minha prima casada com o primo Nicoláo. As melhores flores
-d’aquelle rosto estavam amortecidas; mas ainda assim, não sei de outra
-mais linda. Ha de haver seis dias que cheguei a Chaves, e encontrei
-grande agitação em casa do tio Martinho Xavier. Era Beatriz que estava
-em perigo de vida a lançar golphadas de sangue...
-
-Abriram-se de golpe as portas de um quarto, e appareceu Nicoláo de
-Mesquita, com as faces incendidas e os cabellos descompostos. Volveram
-todos áquelle ponto os olhos, e Raphael Garção vacillou em reconhecel-o.
-
---O sr. Raphael Garção pode entrar no quarto de Nicoláo de
-Mesquita--disse o morgado n’um tom solemne, que pareceria ficção
-theatral, se elle não estivesse febricitante.
-
-O de Fayões entrou como espavorido d’aquelle aspecto esgazeado.
-
---Minha mulher que tem? perguntou Nicoláo com a respiração anciada.
-
---Não a vi. Encarregou-me o tio Martinho de procurar o senhor Mesquita,
-e dizer-lhe que a prima Beatriz estava em perigo. Quiz desempenhar o
-recado, e vim dar-lh’o ao Porto.
-
---Eu parto sem demora. O senhor Raphael Garção vae dar-me sua palavra
-de honra de occultar de minha prima que me encontrou aqui?--disse
-solemnemente Nicoláo.
-
---É escusada a solemnidade do juramento, senhor Mesquita.
-
---Dirá que me foi procurar á quinta da Murça.
-
---O que vossa excellencia quizer que eu diga.
-
---E, se ella tiver morrido, meu Deus! exclamou o morgado. Pois o ceu
-ha de castigar-me assim, por eu não saber esconder n’este perdido
-coração aquelle anjo! Oh!... que infernaes abysmos eu tenho cavado em
-redor de mim!... Hei de afinal despedaçar-me, como aquella maldita
-vaticinou!... Alli fóra, senhor Raphael, contaram-lhe o meu opprobrio!
-Não sabe, não sabe que aviltada alma é a minha!... Eu vim aqui por amor
-de uma mulher perdida, que passeia orgulhosamente a sua devassidão á
-luz do sol. É uma condemnação de que não póde salvar-me a mulher sem
-nodoa, a doce e celestial creatura, que eu amo tanto!... Deus não
-m’a ha de levar! Tão nova e tão linda!... Como eu a adoro, senhor
-Garção!... Creia que eu amo minha mulher com o ardentissimo fogo de um
-remorso, que me está sendo a tortura dos reprobos!...
-
-Raphael ouvia-o espantado. A gesticulação e o cavernoso do clamor
-impressionavam; mas Raphael era futil de mais para ponderar a ingente
-dôr, que se desentranhava em termos de tragedia velha.
-
-O leitor naturalmente faz o que não fez o frivolo morgado de Fayões; é
-capaz de rir-se, e perguntar-me que especie de doidice é a de Nicoláo
-de Mesquita.
-
-É uma especie de doidice, que se chama a razão humana. Á gente de juizo
-pode offendel-a a resposta paradoxal; mas os philosophos, que tambem
-são uma especialidade de doidos, hão de admittir-m’a em sã e escorreita
-dialectica.
-
-Levantemos o véu, onde elle não estiver roto, de sobre o coração do
-morgado da Palmeira.
-
-Chegára elle da Foz com a alma lanhada de remorsos, e a cabeça
-estonteada de uma vertigem de amor. Estas duas paixões exacerbavam-se
-uma á outra. Sem a saudade o remorso seria chimera.
-
-Margarida, era, ou parecia, feliz: despontaram-se logo os espinhos do
-remorso. Ficou o amor. Repelliu-o Margarida devolvendo-lhe a carta com
-um sarcasmo: esvaiu-se o amor. Logo, nem amor, nem remorso.
-
-Outras duas paixões o assaltearam logo: o orgulho e o rancor.
-Estas paixões queria Nicoláo de Mesquita desabafal-as pelas boccas
-das pistollas; porém como as victimas se furtaram á hecatomba,
-sobrevieram as agonias da vingança mallograda, e logo a febre.
-Ora, desde que as doenças moraes se consubstanciam no corpo e se
-submettem ás prescripções da pathologia medica, a individualidade
-da alma anniquila-se, e a paixão, degenerada em desconcerto dos
-systemas sanguineo e nervoso, ou se cura medicinalmente, ou mata,
-com o pseudonymo de congestão cerebral, febre typhoide, ou qualquer
-nomenclatura significativa de que a pessoa sem duvida nenhuma, está
-bem morta. Os convalescentes d’estes ataques--e raros são os que
-succumbem--assim que o sangue lhes funcciona normalmente, sentem-se
-por egual alliviados de alma e corpo. A vertigem, que os quebrantou,
-deixa leves estragos no espirito, remediaveis com a mera acção do
-tempo. Nicoláo de Mesquita, agudissimamente affectado, como se viu,
-fez crise em menos de vinte e quatro horas, porque a seu favor
-conspiraram calmantes muito efficazes. A palestra dos provincianos,
-desdourando Margarida embaciara-lhe o prestigio. Bem sabem que
-thermometro é este do prestigio para graduar a temperatura do coração
-humano. Ao mesmo tempo, os encarecimentos á formosura de Beatriz, sem
-palavra que a desairasse, sobredouravam a aureola na fronte da esposa
-virtuosa. Depois, n’este conflicto, entre o odio a Margarida, e o amor
-escandecente a Beatriz, chega a nova da perigosa enfermidade. Nicoláo,
-se podesse escrever o relatorio das suas sensações e revoluções
-sanguineas e um medico as pozesse em termos de se lerem com um
-embrechado de nomes gregos, a gente não entendia nada; mas acreditava
-que se deram grandes phenomenos no coração do morgado. O capitalissimo
-de todos é que elle, depois da explosão que lhe ouvimos, não fallou
-mais em Margarida Froment, e galopou noite e dia arrebentando cavallos,
-até chegar a Chaves.
-
-Beatriz estava á janella, quando seu marido e Raphael apearam.
-
-Nicolau expediu, ao vel-a, um grito de jubilo. No topo da escada
-tomou-a nos braços, e beijou-a soffregamente. Era um phrenesi de
-ternura assustador!
-
-Estava ella encantadoramente desmaiada. As mulheres assim pallidas, se
-a pallidez é symptoma de irem breve a outros mundos, devemos crer que o
-seu creador começa então a namoral-as para depois as levar para si.
-
-
-
-
-IX
-
-
-O assustadiço amor de pae encarecêra a doença de Beatriz. O perigo
-de vida fôra uma ligeira hemorrhagia nazal, que não deu tempo a
-glorificarem-se as sciencias medicas de mais um triumpho.
-
-Observou o morgado um ar de resentimento assim no rosto da esposa como
-no de Martinho Xavier. Á cordealidade dos abraços responderam-lhe
-glacialmente, e ás perguntas sobre a enfermidade de Beatriz davam umas
-respostas ironicas e enfastiadas.
-
-Raphael Garção, no bom intento de conciliar os animos, contou que fôra
-á quinta de Murça procurar o primo, e o encontrára doente, com o medico
-á cabeceira; e ajuntou que por pouco o não matára com a noticia da
-perigosa enfermidade da prima Beatriz.
-
-O mentiroso radiou uma luz nova nos olhos de Martinho Xavier, e
-entreabriu nos labios de Beatriz um sorriso de indulto. Nicoláo, assim
-que o lanço se lhe ageitou, apertou-lhe a mão e disse:
-
---Graças, meu bom amigo!
-
---Mentir como o diabo, diz Voltaire--respondeu o de Fayões.--A verdade
-póde ser a ventura dos predestinados; porém nós, miseros peccadores,
-carecemos de mentir a torto e a direito, primo Mesquita.
-
---Sem deshonra propria, nem damno alheio--acrescentou o do Vidago.
-
---Ah! vossa excellencia quer moralisar-me? O lobo despe a pelle, e
-enverga a sotaina? Primo Nicoláo, quem tem uma mulher como Beatriz...
-
---Cale-se que podem ouvir-nos...
-
---Deixe estar que eu hei de castigar o Ricardo. Quem lhe ha de empalmar
-a franceza hei de ser eu. Assim que me constar que ella está no Porto,
-vou lá: quero inscrever o nome de Margarida Froment n’uma casa em
-branco, que deixei entre a Aldonza Lourenzo do pandeiro, e uma primeira
-tragica do theatro de Amarante. Orçam na moralidade.
-
-Arrugou-se a fronte de Nicoláo de Mesquita. Pezara-lhe o ultrage: é que
-elle vira n’aquelle momento Margarida Froment, encostada ao braço de
-seu marido, oito annos antes, repartindo recursos e consolações pelos
-operarios da sua fabrica de Leão, enfermos, e de mãos postas a orarem
-pelo anjo da caridade.
-
-Esbordava-lhe o coração de lagrimas, quando se arredou friamente do
-sarcastico mancebo. Foi intermittencia momentanea.
-
-Martinho Xavier abriu as suas salas, n’aquella noite, á sociedade
-flaviense. Beatriz dançou com seu marido, como ha vinte annos se
-fazia na provincia sem irrisão. Raphael distinguiu-se no solo inglez,
-e aprimorou-se n’uma gavota com sua prima. A gentil senhora respirava
-a peito cheio o ar tepido e balsamico das salas. O setim da cutis
-retingiu-se-lhe. O marido parecia-lhe outro homem e as flores das
-jarras figuravam-lhe as primeiras da sua nova primavera. Dava ares de
-creança; e o marido consolava-se de vêl-a assim.
-
-Seguiram-se outros bailes, e Nicoláo de boa vontade em todos. Balbuciou
-Beatriz o desejo de residir em Chaves. Em poucos dias, se passaram
-as preciosas decorações do palacio de Palmeira para outro de Chaves.
-Martinho Xavier estava em permanentes acções de graças ao Senhor dos
-Milagres! Via a filha feliz e o genro transfigurado.
-
-No viver intimo, a mudança da indole de Beatriz fôra menos sensivel
-do que devêra presumir-se. Aquelle temperamento, fóra da quentura dos
-salões esfriava. Recebia os affagos do marido, como se elle meramente
-fosse o tio Nicoláo. Ella mesma não sabia dar-se conta da atonia
-da sua alma. Parecia-lhe que o tinha amado um anno antes, sem dar
-tento de uns cabellos brancos, que lhe listravam o bigode, nem da
-calvicie incipiente que lhe affeiava um tanto a cabeça. Calculava,
-computava os annos, e chegava á exactissima deducção de uma coisa
-que a mortificava: e era que o marido havia de ter cincoenta e dois
-annos, quando ella tivesse trinta. Nicoláo era intuitivamente advertido
-d’estas secretas meditações. Revelava-lhes a razão esclarecida; mas,
-assim mesmo, confiava bastante de si para deixar-se avassallar de uma
-suspeita indecorosa a sua mulher. Erro palmar dos homens, que foram
-muito queridos até aos trinta annos, e se presumem encouraçados e
-invulneraveis ás injurias do tempo e ás desgraças, que não pouparam
-propriamente os deuses olympicos, e outros mais importantes deuses
-terrestres.
-
-Chegado o verão d’aquelle anno de 1841, o morgado da Palmeira foi
-passar a sasão estiva no seu solar, convidando a acompanhal-o algumas
-damas e cavalheiros parentes, sem olvidar-se de Raphael Garção, por
-quem cobrára grande estima. Se alguma hora lhe sombreou o espirito a
-lembrança ingrata de que fôra Raphael o espertador do coração de sua
-mulher, acudiam-lhe á memoria as palavras ouvidas no hotel da Foz com
-referencia ao puro e respeitoso amor que lhe sagrára. As suspeitas
-fugiam logo envergonhadas, e a confiança restabelecia-se, cimentada nas
-virtudes de Beatriz, e nas mil diversões amorosas do morgado de Fayões.
-
-Por outro prisma via as coisas Martinho Xavier, sem embargo do conceito
-que formava da filha. Raphael é que para elle significava o supremo
-patife das duas provincias do norte, juizo, a meu vêr, moderado,
-attentos os adulterios, seducções e barganterias femeaes, que corriam
-por sua conta. Assim, pois, era certo surgir, como por encanto,
-Martinho Xavier á beira da filha, logo que Raphael Garção se avisinhava
-d’ella sem testemunhas de acrisolada probidade. Este resguardo não o
-revelava elle ao genro; porém, visando ao scôpo com a pontaria n’outro
-alvo, desfazia nas qualidades do sobrinho, e contava os adulterios com
-taes visagens, que um marido cioso, na posição de Nicoláo, teria desde
-logo horror do seu proprio infortunio, enforcaria a mulher.
-
-O morgado ouvia as tenebrosas historias, e dizia:
-
---Ha-de ser a quarta parte do que diz o mundo, primo Martinho. Não
-sejamos vulgo. Eu, antes de emigrar, gosei fama de ter um harem na
-minha quinta da Ribeira d’Oura, e de ter obrigado cinco paes de familia
-a enclausurarem as filhas, e de ser a causa funesta de alguns maridos
-aferrolharem as esposas infidas na casa do Ferro[2]. Pois, meu amigo,
-sob minha palavra de cavalheiro te assevero, que antes de emigrar,
-apenas tinha galanteado uma tecedeira, a qual tecedeira galanteava ao
-mesmo tempo o meu padre capellão, e veiu por fim a casar com o meu
-lacaio. Eu era isto, quando tu e os outros hypocritas--disse elle
-sorrindo--me chamaveis o terror das familias. Pois argumenta de mim
-para Raphael Garção. Que sabemos nós positivamente? O que elle nos
-conta, com a fatuidade propria da sua edade. As atoardas que correm,
-quem as verifica? Os maridos infelizes? Que é d’elles?
-
---Calam-se--respondeu Martinho Xavier.
-
---Isso não é nas nossas montanhas, primo. Os maridos ultrajados, quando
-se calam, fazem fallar a bocca das clavinas.
-
-A discrição do pae de Beatriz rematava aqui o dialogo. Nicoláo
-permanecia alguns minutos pensativo, e ia de um relanço insuspeito
-devassar o coração de sua mulher, e espiar os olhos do hospede.
-Encontrava-os sempre distraidos um do outro, ou conversando as mais
-innocentes praticas, na presença de Martinho.
-
-N’um d’aquelles dias, ergueram-se alegres vozes subitamente na casa
-de Palmeira. Foi por que, findo o almoço, Nicoláo de Mesquita,
-tartamudeando de commovido, annunciou que sua esposa sentia os
-primeiros indicios da maternidade. Foram as senhoras beijal-a nos
-braços do pae, e os cavalheiros brindaram clamorosamente o vigesimo
-quinto senhor de Palmeira. Ao terceiro dia, ao setimo, e ao decimo
-quinto, depois da nova, celebraram o jubilo com trez bailes, e trez
-jantares, e trez ceias. Concorreram os poetas de Villa Real, de Chaves,
-de toda a terra em que Deus plantára um poeta, com capacidade de fazer
-um soneto.
-
-Beatriz era infantilmente amimada por seu marido, que chorava
-alvoraçado pela deliciosa expectação da paternidade! Andava elle a
-inventar-lhe incommodos, para ter o goso de a desvelar com branduras
-e melindres, que excediam a seriedade de um marido. Receava que a
-chilreada dos passaros lhe turvasse o somno matutino, e mandava á noite
-espancar a passarinhada das copas dos chorões. Cuidou que o aroma das
-flores damnificasse á geração e mandou cavar os alegretes e taboleiros
-sobpostos ás janellas do seu quarto. Com estas competiam outras
-crendices não menos irrisorias.
-
-Assim que as chuvas de outubro ameaçaram, cuidou-se na mudança para
-Chaves.
-
-Martinho Xavier contrastava a alegria de todos. Definhava-se a olhos
-visto, e respondia com estranho aspeito aos cuidados de Beatriz, e com
-rancoroso gesto ás delicadas attenções de Raphael.
-
-Fôra o caso que elle, n’uma ante-manhã, ouvira abrir subtilmente uma
-porta envidraçada do quarto de Raphael, e o vira passar ao jardim, e
-sumir-se entre uns maciços de murta, e voltar, instantes depois, a
-fechar-se no quarto. Isto preoccupou-o em dolorosas conjecturas.
-
-Assim que foi dia claro, desceu Martinho Xavier ao jardim, fez umas
-voltas na visinhança dos maciços, e emboscou-se n’elles, sem ser
-visto. Examinou os recantos, esquadrinhando algum vestigio. Dois vasos
-de porcellana ladeavam a entrada de uma gruta, comada de maracujás e
-baunilhas. Meditou, e desistiu de atinar com o intento de Raphael.
-Saiu, reflectiu ainda, e retrocedeu. Levantou um dos vasos, e viu que
-a terra secca, rebordando-lhe o fundo, indicava que não fôra bulido.
-Examinou o outro, e descobriu claros indicios de ter sido deslocado e,
-na terra em que elle assentava, o signal de ter alli estado um corpo
-mais liso, pois que o restante da terra estava crespo das saliencias do
-vaso. Inferiu que estivera alli uma carta. Assim se explica a maceração
-do rosto do fidalgo, e a severidade com que tratava a filha, e repulsão
-odienta com que afastava de si o sobrinho. Quinze dias se erguêra de
-noite, esperando a alvorada, e mallogrando-se-lhe as vigilias.
-
-Ao anoitecer, porém, da vespera da mudança para Chaves, viu elle sair a
-filha apressada de entre os maciços, e responder ao marido que chamava
-de uma janella. Ao mesmo tempo descobriu a distancia, mal embrenhado
-n’um bosquete de amoreiras, o morgado de Fayões, olhando na direcção
-das murteiras. Correu Martinho Xavier, encoberto pela ramagem, a
-erguer o vaso suspeito. Encontrou uma carta. O papel caiu-lhe das mãos
-convulsas. Quiz sair; mas o tremor das pernas forçou-o a sentar-se no
-banco de cortiça, que adornava o interior do caramanchel. Cerrára-se a
-noite. Ouviu fremir a folhagem perto. Era Raphael Garção, que saltava
-por entre uns buxos defesos á observação da casa. Acercou-se o moço
-lestamente do vaso, levantou-o, palpou, esteve um instante suspenso,
-deixou-o baixar; mas, ao tempo que o pousava, sentiu uma pressão
-de ferro nas vertebras cervicaes, e bateu em cheio com o rosto no
-gradeamento do caramanchel. Reconheceu a mão que o sopesava, quando
-ouviu a palavra:
-
---Infame!
-
---Meu tio! murmurou elle--por quem é!...
-
---A tua morte, villão!--bradou suffocado o pae de Beatriz--a tua morte,
-villissimo lacaio, seria um escandalo, quando não, havia de arrancar-te
-a collada. Ouve-me bem, canalha! se esta noite não te despedires com
-qualquer pretexto, e o sol de ámanhã te vir n’esta casa, maldito seja
-eu, se te não matar. Entendeste-me bem, biltre?
-
---Cumprirei a sua vontade--respondeu Raphael.
-
---Ámanhã minha filha e meu genro vão para Chaves--tornou Martinho
-Xavier.--Se você não quizer ser azorragado debaixo dos olhos d’ella
-pelos meus criados, não passe mais debaixo das suas janellas. Martinho
-Xavier cumpre o que promette.
-
-Saiu o pae de Beatriz, e encerrou-se no seu quarto. Abriu a carta,
-leu-a, e desafogou-se n’uma profunda expiração de contentamento.
-
-Dizia assim a carta:
-
-«Meu pae desconfia. A tristeza d’elle não póde ser motivada por outra
-coisa. O ar carrancudo com que me falla é mais uma prova. Reparo que
-tambem te encara com maus olhos. Sejamos cuidadosos, meu primo.
-Eu amo-te muito; mas não te posso sacrificar mais do que as minhas
-lagrimas. Deus me livre que o tio N. suspeite que eu te amo. Se tu vês
-que será util conviveres menos em minha casa, poupa-me algum grande
-dissabor. Tem sempre comtigo a certeza de que eu te quero muito, e que,
-se por agora não posso ser para ti mais que irmã, póde ser que um dia
-seja o mais que posso ser, e o que Deus não quiz que fossemos... _tua
-esposa_! Quem sabe, meu R!... Ha acontecimentos tão inesperados!...
-Lembra-te que tenho dezoito annos, e elle... Adeus, adeus, que o tio
-não me deixa uma hora sósinha. Vou ver se ainda posso levar a carta.»
-
-Era rasoavel o contentamento de Martinho Xavier.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[2] O _Ferro_ era por aquelle tempo, no Porto, um recolhimento, ou
-carcere, paradeiro das adulteras.
-
-
-
-
-X
-
-
-Á hora da ceia, faltou Raphael Garção.
-
-Nicoláo soube que elle estava no seu quarto, e pedia desculpa de não
-comparecer á mesa. Foi elle buscal-o: encontrou-o emmalando o fato.
-
---Isso é que é pressa de entroixar, primo Raphael!--disse o
-morgado,--deixe isso, que tem tempo. Nós só vamos ámanhã por tarde.
-
---Mas eu vou partir esta noite, primo Mesquita.
-
---Como assim? Venha contar-nos essa aventura á mesa, que está Beatriz á
-espera. Temos empreza! não póde deixar de ser...
-
-Travou-lhe do braço, e levou-o, exclamando, ao entrar na casa da ceia:
-
---Fui encontral-o a dobrar a roupa, e saberão que se despede á meia
-noite!
-
-Beatriz encarou-o com affectuosa melancolia. Martinho Xavier fitou a
-filha. Raphael não poz olhos em nenhum.
-
-O morgado proseguiu em tom de galhofa:
-
---É negocio de damas! Alguma victima saudosa que, do leito dos
-paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe!
-
-Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um
-partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha á saida do primo, e
-arrependida de lhe ter aconselhado a ausencia.
-
---Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que
-é séria e respeitavel a magua do nosso Raphael! É a primeira vez que
-o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é
-longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João
-de Marana e o amado de Clarisse comiam ás horas, e o Byron ceiou
-optimamente no dia ou na noite em que uma das suas martyres se afogou
-no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo
-Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, á meia noite,
-primo Garção?
-
---É verdade...--respondeu Raphael, affectando com violento artificio, o
-seu natural alegre.
-
---E quando volta a Chaves?
-
---Não sei, primo.
-
---Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e
-estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permitta-me fallar-lhe com
-sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importancia do
-passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o.
-Se o pundonor o não impelle, fique. Distinga entre dever e dever.
-Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa
-deshonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma
-errada consciencia nos aconselha.
-
-Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse:
-
---Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita,
-não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde elle quizer!
-
---Pois eu decerto o deixo ir para onde elle quizer; mas o admoestal-o
-como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo
-Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiencia...
-
---Pois sim, de accordo--replicou o pae de Beatriz amaciando a voz,
-receoso de denunciar a causa da sua colera--farto de admoestal-o
-estou eu, e estão todas as pessoas de bem... É malhar em ferro frio.
-Deixal-o, deixal-o, que o mundo ha de ensinal-o. Quando chegar aos meus
-annos, elle chorará os que desbaratou na libertinagem.
-
-Correu breve e triste a ceia. Ao levantarem-se da mesa, Raphael
-despediu-se de Beatriz, sem atrever-se a olhal-a em rosto, porque o
-pae, á beira da filha, não o desfitava. Beatriz articulou umas palavras
-banaes, sêccas e tão contrafeitas, que por si mesmas, á custa de muita
-arte, a denunciariam a um marido precatado. Do tio Martinho, não
-pôde despedir-se, que, a disfarce, saíra da sala. Nicoláo seguiu-o
-ao quarto, offereceu-lhe dinheiro, se o necessitava, e conseguiu
-arrancar-lhe um imaginoso segredo da sua aventura. Pelos modos, uma
-menina de Basto, não podendo occultar dos pais o testemunho de sua
-desgraçada paixão, fugira de casa, e invocava o pae do filhito que lhe
-estremecia no seio. Mentir como o diabo, tinha dito Raphael pela bocca
-de Voltaire.
-
-Á meia noite saiu o pae do menino, que estremecia no seio da tão
-coitada de Basto, e Nicoláo, em termos patheticos, foi contar a Beatriz
-a revelação do primo. A senhora fingiu compadecer-se das calamidades da
-menina do filhinho, e aproveitou o ensejo para chorar as suas saudades
-na presença do marido, que se desentranhou em consolações distractivas,
-que não fosse ella perigar por demasia de sensibilidade. A sorte de
-tantos maridos espertos! Faz pena vêr a despotica ingerencia que tem
-a comedia nos lances mais graves! A humanidade a chorar e um histrião
-a cobrir a toada do choro com o tilintar do barrete! É triste, mas
-necessario isto ao regimento da sociedade.
-
-Saíram para Chaves no dia seguinte.
-
-Beatriz ia triste, e recolhida. As caricias do esposo enfastiavam-n’a.
-O pae, nada blandicioso, fazia-lhe mal com o seu olhar, e dizia-lhe á
-puridade umas phrases amphibologicas de que ella ficava sentida, sem
-ousar pedir esclarecimentos.
-
-As palavras que mais a pungiram e intimidaram foram estas:
-
---Ai, de ti se teu marido se me queixa da tua frieza! Terás em mim um
-verdugo, e não um pae.
-
-A ameaça logrou menos do que devêra esperar-se. Beatriz desconfiava que
-o pae lhe surprehendesse o coração n’algum descuidoso olhar ou gesto a
-Raphael; porém, quando assim fosse, as provas contra a sua honestidade
-eram nenhumas, e ella facilmente se defenderia das suspeitas
-calumniosas.
-
-Era de vêr que a retirada de Raphael havia de ser descontada na
-affeição ao marido. A esposa criminosa, ou propensa ao crime, costuma
-dar, pelo menos, ao marido um millesimo do amor que prodigalisa ao
-amante. Se, todavia, o amante lhe foge, nem o quinhão diminutissimo do
-marido lhe deixa. Isto tambem é triste, e atroz!
-
-Nicoláo attribuia as securas e enojos de sua mulher aos mysterios
-phenomenicos da geração. Tambem elle tinha accessos biliosos de
-impaciencia, irritados pelos caprichos de Beatriz; mas soffreava-se,
-affastando-se. Queixar-se é que não. No entanto, Martinho Xavier,
-lendo-lhe no rosto alquebrado o desgosto da má vida intima da casa,
-abstinha-se de interrogal-o, e dizia á filha:
-
---Tu não me attendeste; mas afinal será tarde, quando caires em ti.
-Já te disse que, em te faltando a estima do marido, não contes com a
-estima do pae, Beatriz?...
-
---Que quer isso dizer, meu pae? atalhou ella. Tantas ameaças, tantas
-ameaças! Que crimes tenho eu?
-
---As mais criminosas intenções!... Silencio! silencio!... ouviste
-Beatriz! Muito juizo para remediar o mal feito... Se assim não fôr...
-
- * * * * *
-
-Raphael Garção estava na sua casa de Fayões. Quizera distanciar-se de
-Chaves, sair a uma viagem longa, distrahir-se, esquecer-se; mas não
-pudera. Estava alli preso pela corrente de um grande amor a sua prima.
-Era o primeiro, o unico, porque não amára outra, desde que nos labios
-d’ella, ainda solteira, depozera, como n’um altar, as primicias do
-seu coração. Sem os estorvos, póde ser que outra mulher o roubasse ás
-froixas glorias de uma facil proesa; mas depois do aviltante castigo
-do tio, e da vergonha com que saiu da Palmeira, queria elle superar as
-difficuldades para sentir-se remunerado do seu vilipendio. Era isto
-a um tempo galardão ao amor, e galardão á vingança. Eram os vinte e
-dois annos, e a má índole, acerada pela educação que tivera, á lei da
-natureza bruta. Não sei tambem se eram o Lovelace, e o Saint-Preux, e o
-D. João Tenorio. Era tudo, incluindo n’esta mistura o elle ser homem,
-feito á similhança e imagem de... Fóra com a blasfemia!
-
-Empenhou-se Raphael, mediante os serviços de algum amigo de Chaves, em
-fazer entregar a Beatriz uma carta explicativa da sua rapida saída de
-Palmeira, o degredo que se elle impozéra na triste soledade de Fayões.
-Uma dama das mais acreditadas de Chaves foi a portadora da carta.
-
-Então sómente comprehendeu Beatriz o valor das ameaças de seu pae, e o
-gume do perigo em que estava sua honestidade, e talvez sua vida, se á
-mão do marido passasse a carta de Raphael.
-
-Nicoláo ganhou com este descobrimento por um lado, e perdeu pelo outro.
-Os ganhos eram os exteriores affectuosos com que a mulher o indemnisava
-dos desdens passados. As perdas foram restabelecer-se a correspondencia
-epistolar entre Beatriz e o primo.
-
-A illustre alcôfa d’esta correspondencia andava espiada por Martinho
-Xavier, á conta de ser irmã de um particular amigo e contubernal
-parasita de Raphael. D’esta espionagem, confiada á aia de Beatriz,
-velha de rija tempera de virtude, resultou ser a correctora cupidinaria
-avisada para não voltar a casa de Nicoláo de Mesquita, sob pena de
-ser publicada como negociadora de amores adulteros. O aviso foi dado
-face a face por Martinho Xavier, que tinha brutalidades de fidalgo
-montezinho.
-
-O que elle não podia era contraminar a corrupção dos criados. Beatriz
-continuou a receber cartas do primo; e Nicoláo a experimentar as
-caricias de sua senhora. Ó Azaïs!...
-
-Decorreram uns seis mezes de vigilancia assidua do fidalgo. Rondava as
-portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Fayões para lhe
-segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira
-de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a
-fiscalisar o grangeio das quintas.
-
-Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pae.
-Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de
-mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa.
-Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A commissão de parentes,
-encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castello de
-Aguiar. Com muito sacrificio foram de liteira as velhinhas, amolgadas
-por grandes desgostos. Nicoláo, quando as viu, teve arrepios de espinha
-dorsal. Interrogou a commissão, a qual respondeu que os Almeidas do
-Valle de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as familias.
-Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as
-levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz ácerca de
-Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a
-dama, assim que esteve a sós com ellas e o capellão adjunto, lhes desse
-azo á expansão das lastimas.
-
-Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e
-que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de trez
-annos.
-
-Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da
-escravidão do demonio, desfigurado na franceza, e vinha a ser o
-patrocinio de um santo, parente da familia, que tinha sido grande
-peccador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida
-santamente: o qual santo era S. Gil de Santarem.
-
-Que S. Gil de Santarem era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não
-ha duvida nenhuma, e vae demonstrar-se para confusão dos praguentos.
-
-Estamos em tempo do senhor rei D. Affonso Henriques, que santa gloria
-haja.
-
-Depois da milagrosa victoria de Ourique, os barões da comitiva do rei
-conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus
-sabe como. O bravo rico-homem de Galliza, Fernão Martins de Almeida,
-despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço
-Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas
-do Valle de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se
-com a filha de D. Payo Mendo Gil, senhor das terras de Cavallaria,
-termo da cidade de Vizeu junto á villa de Vouzella. Preferiu o
-castellão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a
-cargo de irmãos. D’este consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou
-em 1184 com Ruy Paes de Valladares, do conselho d’el-rei D. Sancho I,
-seu mordomo-mór, e alcaide-mór do castello de Coimbra. Estes são os
-bem-aventurados paes de Gil Rodrigues, conhecido e venerado do leitor
-pio por S. Gil de Santarem, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto
-portuguez.
-
-Nada menos que este santo, inquestionavel parente das senhoras
-Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguineo dos braços
-satanicos da franceza. No entanto, alguns mezes haviam passado, depois
-do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energumeno voltasse,
-cumprido o seu fadario. Sem embargo, ellas esperavam, e razão era que
-esperassem. Alguem faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro,
-antigo pactuario do demonio: que estes milagres, nos tempos correntes,
-bastam a fazel-os algumas lettras a vencer na mão de um usurario. A
-onzena tem convertido mais perdularios do que a vida mirifica de S. Gil.
-
-O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado
-metade dos seus haveres, e perto iria n’aquelle desperdicio. Sustentava
-em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida
-a cada requestador que lhe varava ao coração o stylete do ciume. Os
-galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e
-pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante
-desconfiado, e de são juizo para entender que o facil para elle não
-seria extremamente difficil para o restante da humanidade.
-
-Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas
-o não menor castigo das mulheres na condição da franceza é inspirarem
-suspeitas aviltadoras áquelles mesmos que as estremecem, e authorisarem
-o galanteio de quem quer que meramente as deseja.
-
-Seja como fôr, as senhoras D. Sancha e Simôa choravam lagrimas como
-punhos, quando Martinho Xavier saiu do salão do baile a procurar
-Beatriz que tambem chorava com as velhas.
-
-Uma paixão explora veios de lagrimas desconhecidos. Chorava, porque
-amava, a mal-sorteada senhora!
-
-
-
-
-XI
-
-
-A espionagem, sem intermissão, de Martinho Xavier gerou no animo da
-filha um secreto e mal disfarçado odio. Bem queria ella sacudir o jugo;
-mas a mordaça, a carta fatal, estava em mão de seu pae: ella mesma
-a viu quando se lhe queixou amargamente de a privarem da companhia
-d’aquella amiga interventora na correspondencia. O pae, sem proferir um
-monossyllabo, mostrara-lhe a carta, e voltára as costas.
-
-Planeou a sua emancipação Beatriz com um expediente assim natural que
-insuspeito. Revelou desejos ao marido de voltar a Palmeira, á suave
-quietação da sua casa. Nicoláo abraçou alegremente a proposta, e
-exultou de ouvil-a motivar assim o intento:
-
---Agora, que tenho o meu filho, basta-me este prazer, e o teu amor
-ás necessidades da minha alma. Já me fatigam tantos parabens, tantas
-visitas, tantas etiquetas! Apeteço a solidão comtigo e com elle. Mudei
-inteiramente, primo Nicoláo. Os filhos parece que envelhecem a gente! E
-de mais eu quero que o nosso Martinho seja creado ao ar do campo, e não
-n’estas estufas da cidade. Verás como eu agora me dou bem na aldeia!
-Quero ir comtigo ás quintas, e gosar a doce liberdade de uma aldeã.
-Estás contente da minha reforma?
-
---Se estou, filha!...--clamou o marido, apertando-a contra o
-coração--se estou contente, eu, que por amor de ti, e contra o meu
-genio, tenho andado n’estas balburdias de bailes e jantares! Eu tambem
-espero que o nosso filhinho te aformoseie os quadros aldeãos, que tão
-aborrecidos te pareceram. Um filho é uma estrella que nos alinda o ceu
-da terra em que vivemos. Sempre esperei que desejasses voltar para
-Palmeira com esta creancinha. As mães experimentam um santo egoismo de
-sua felicidade, quando são mães pelo coração, que as ha tão frivolas,
-minha querida prima, que apenas se dizem mães por terem sentido os
-soffrimentos da maternidade.
-
---O peior, atalhou ella, é que meu pae vae zangar-se com a nossa
-partida...
-
---Porquê? zangar-se!...
-
---Que queres? A amizade do meu pae é extremosa até á importunação!
-Eu não devia dizer isto; mas olha, primo, já me impacientam tantos
-cuidados comigo! Em solteira, deixava-me mais liberdade!...
-
---É que teu pae adora-te, Beatriz!
-
---Bem sei; mas os excessos de ternura incommodam. Tenho marido e filho
-para amar e presar: não posso attender ás extremosas pieguices de meu
-pae. Agora ha de elle cuidar que eu vou enfastiar-me na aldeia, e
-começa ahi com os seus discursos a demover-te de irmos.
-
---Seria escusado, que nós iremos, prima.
-
---Pois então, Nicoláosinho, se elle nos contrariar não o contradigas,
-para o pouparmos a maior magua. Vamos preparando a partida de nosso
-vagar, e evitemos questões.
-
---Pensa bem, Beatriz... Teu pae tem singularidades estranhas, que
-destoam do meu genio...
-
---Muitas!...
-
---Este odio entranhado, que elle tem ao primo Raphael, é absurdo!
-
---De certo.
-
---Sei que o pobre moço está em Fayões, e não voltou a nossa casa.
-Precisamente o rapaz foi magoado da rudeza com que teu pae o tratou á
-ceia, na ultima noite.
-
---Parece-me que sim.
-
---Já perguntei ao primo Martinho porque não tornaria Raphael a Chaves,
-desde que lá estamos. Respondeu-me que não valia a pena notar-se a
-falta d’elle. Quiz convidal-o para o baile do baptisado, e teu pae
-respondeu-me formalmente que não!
-
---Caprichos...
-
---Ruins caprichos! Eu transigi para obviar resentimentos; mas... Tu has
-de consentir, filha, que eu te confesse uma culpa... sim?...
-
---Que é, primo?
-
---Não podendo justificar a antipathia de teu pae com Raphael, cheguei
-a conjecturar se elle desconfiaria de alguma infame intenção de teu
-primo...
-
---Infame intenção! a que respeito?
-
---A respeito de ti...
-
---Ora essa!... Tu enlouqueceste?
-
---Não, menina, confesso-me.
-
---Pois não te perdôo, Nicoláo!--exclamou ella irada sobre posse, e
-escarlate por effeito da surpreendente suspeita.
-
---Perdoas, que eu,--tornou caricioso o marido--tanta justiça te fiz
-que nem levemente indaguei... para não dar direito a que alguem te
-suppozesse um instante criminosa. Nem com esta prova de respeito ás
-tuas virtudes me perdoas?
-
-Beatriz deixou-se beijar e sorriu.
-
-Nicoláo continuou:
-
---Em prova da confiança que me mereces, assim que estivermos em
-Palmeira, convidarei Raphael.
-
---Não quero! atalhou Beatriz com vehemencia. Magoas-me cruelmente se o
-fizeres.
-
---Compreendo o teu pundonor, tornou Nicoláo, soberbo do pundonor de sua
-esposa.
-
-N’este dia, disse o morgado ao sogro:
-
---Vamos passar algum tempo á aldeia.
-
---Fazeis bem, respondeu Martinho; Beatriz precisa de bons ares, que
-está com má côr.
-
---E, talvez, lá fiquemos, se ella quizer.
-
---É natural que não.
-
---Pois enganas-te primo: ella mesmo aventou a idéa da mudança.
-
---Sim. Ella?!
-
-Martinho Xavier ficou pensativo largo espaço, e replicou:
-
---Foi subita essa determinação de Beatriz?
-
---Disse-m’a hoje.
-
---Está bom...
-
---O filho operou uma tal mudança no espirito de Beatriz--tornou Nicoláo.
-
---Deve ser isso... disse abstraidamente Martinho Xavier.
-
---Encheu-me de jubilo esta grave transformação aos dezoito annos.
-
---São raras estas transformações, tornou o outro meditativo.
-
---Vaes comnosco?
-
---Vou, respondeu Martinho energicamente. Vou sem duvida.
-
---Estimamol-o deveras.
-
-Relatou Nicoláo a sua mulher a substancia d’este dialogo, e a resolução
-no pae.
-
---Vae comnosco? exclamou ella com irreflectido transporte. Forte
-perseguição?... É de mais?... Para que me casei eu? Ou bem sou filha,
-ou sou esposa!
-
---Podes ser ambas as coisas dignamente; acudiu o marido.
-
---Ora!...--redarguiu ella com arremeço; e, caindo em si, ajuntou
-abatendo a voz: Deixal-o ir... que eu para Chaves não volto... Se meu
-pae não podia viver sem mim, para que me casou?... A minha scisma é
-esta. Sim! para que me casou?
-
---N’isso tens razão, prima.
-
---Pois não tenho? Quer affagos e cuidados, que eu não posso repartir.
-Sou esposa e mãe; e além d’isso preciso olhar pela minha casa.
-
---Pois, meu amor, deixal-o ir; trata-o com amizade de filha, e
-mostra-te feliz, que elle te deixará viver em tua casa.
-
-Grande parte d’esta pratica foi communicada a Martinho Xavier pela
-aia de Beatriz. O fidalgo aguardou occasião de encontral-a a sós, e
-disse-lhe:
-
---Sei que intenções te levam para Palmeira.
-
---Sabe... que intenções?!...
-
---Não admitto interrogatorio... Quero ser ouvido em silencio. Resolvi
-acompanhar-te para te defender do abysmo. Mudei. Não vou. Escuso de ir.
-O abysmo está aberto. Vaes cair, desgraçada! E tão depressa caires,
-irei mostrar-te lá com o dedo a teu marido: «Ella ahi está despenhada.
-Quiz salval-a, e não pude. Agora escarra-lha na cara, que tu não tens
-esposa, nem eu filha!»
-
---Meu pae!--exclamou ella afflicta.--Meu pae, eu não sou criminosa!
-
---Vaes sel-o.
-
---Juro-lhe que não!
-
---Mentes a ti propria. Raphael está recebendo cartas tuas; um dos teus
-criados entrega-te cartas do libertino, do carrasco da tua honra.
-
---É falso...
-
---Falso é o teu juramento, Beatriz! Não me desmintas, que eu
-justifico-me na presença de teu marido.
-
---Por quem é... por alma de minha mãe!... bradou ella soluçando.
-
---Tua mãe foi uma santa. Se está no céo e te vê a consciencia, lá mesmo
-ao ceu lhe mandaste um inferno, coração perdido! Ficas sabendo que eu
-vigio as tuas acções e as de Raphael. Escuso de seguir-te a Palmeira.
-Eu hei de saber pontualmente a hora a que te precipitas. Então me
-verás!...
-
-Voltou o rosto ás lagrimas da filha e saiu.
-
-Dias depois, preparadas as bagagens, e posta a hora da partida, foi
-Nicoláo avisar o sogro. Martinho Xavier estava de cama com febres, e
-differiu a sua ida para mais tarde. Observou o morgado que elle, ao
-apertar-lhe a mão, chorava. Foi despedir-se da filha á cabeceira do
-leito; e, n’um instante que ficaram sósinhos, disse-lhe o pae:
-
---Se Deus me levasse agora d’este mundo, furtava-me á formidavel
-angustia que me preparas.
-
---Juro-lhe que não.
-
---Antes do terceiro juramento, perder-te-has--murmurou Martinho Xavier.
-
-Despediram-se.
-
-Beatriz saiu no proposito de esmagar o coração debaixo do peso da
-honra. Estava aberta uma egreja, e ella entrou a pedir á Virgem que lhe
-désse forças, e orou longo tempo. Ergueu-se consolada e forte.
-
-Escreveu a Raphael supplicando-lhe que lhe não escrevesse mais, que
-a deixasse morrer de saudades, mas sem o stygma de uma vilipendiosa
-desgraça. Prometteu-lhe amal-o no céu; e pela vida de seu filho, jurou
-que se mataria antes de ultrajar seu marido.
-
-Esta carta era uma rehabilitação.
-
-Foi para Palmeira. Ia doente e amargurada. Parece isto contra-senso.
-Devia ir jubilosa de sua valentia. Não é assim. As mulheres, depois
-d’estes triumphos, caem desfallecidas. O que lhes dá forças a ellas são
-as fragilidades.
-
-Passados quinze dias, espantou-se ella do silencio de Raphael, e disse
-entre si: _Não me tinha amor!_ Passado um mez, disse: _Tenho-lhe odio!_
-
-Martinho Xavier convalesceu rapidamente, assim que lhe deram uma alegre
-nova.
-
-Foi a Palmeira, e, na presença da filha, fallou assim a Nicoláo:
-
---Não sabes a façanha de Raphael?
-
---Não sei nada. Aqui não tem vindo ninguem d’esses sitios.
-
---Pois ouve lá...
-
---É o caso da menina de Basto?
-
---Que menina de Basto?! Essa historia não sei eu. O que eu sei é que
-chegou a Chaves um coronel de cavallaria, casado com uma senhora de
-fina educação, e vinte annos, ou coisa assim. A senhora deu-se mal
-com os ares de Chaves, e foi para a quinta de S. Lourenço, proxima
-a Fayões. Em menos de quinze dias, Raphael tomou conta da esposa do
-coronel, e foi para Hespanha. Pergunto eu agora a meu primo Nicoláo, se
-o mundo diz a vigesima parte da verdade?
-
---Aquillo é um lastimavel doido!...--observou o morgado com pena.--E
-ella parece-me mais doida ainda! Se elle bem soubesse que futuro o
-espera com as disciplinas da vingança!...
-
-Beatriz ouvira a historia, com immobilidade de estatua. Á reflexão do
-marido fez um gesto forçado de assentimento. Assim que o filho vagiu no
-berço, correu para junto d’elle, chorou em ancias abafadas nas roupas
-do berço, que embalava para se lhe não ouvirem os soluços.
-
---Mentirá meu pae para me desvanecer? pensava ella comsigo, e, ao mesmo
-tempo, resava á Mãe de Jesus, pedindo-lhe o esquecimento do homem fatal.
-
-Não mentira Martinho Xavier.
-
-Raphael, assim que recebeu a ultima carta de Beatriz, chorou o tempo
-desbaratado n’uma esperança, além da qual se carregaram assentadoras
-borrascas. Doeu-se da força d’alma com que ella o despedia, e tirou a
-injudiciosa illação de que era mediocremente amado, porque as grandes
-paixões querem o estampido, e o sêvo das grandes desgraças. Nenhum dos
-seus romances fazia menção honrosa de heroes que se deixassem morrer da
-peçonha do ideal. Olhou o moço em si; viu-se com vinte e tres annos,
-futuro largo, vinte primaveras ainda a reflorirem-se. Enojou-se da
-inercia de seis mezes, em que deixara anazarem-se as suas ardentes
-faculdades. Saltou para o sellim do melhor cavallo, desfilou por montes
-e valles, visitou primas, que elle denominava o seu medalheiro de
-estudos numismaticos, restaurou galanteios antigos, antigos de seis
-mezes; e, n’esta andadura, foi dar á quinta de S. Lourenço, onde vivia
-um general reformado, com trez sobrinhas.
-
-Apresentaram-lhe a hospeda, esposa do coronel, nem formosa nem
-sympathica, mas interessante pela melodia com que vibrava a escala
-chromatica em cada dezena de palavras que dizia: era lisboeta a dama.
-O galanteio começou alli, sem advertencia do general. Continuou nos
-quatorze dias subsequentes, cuidando o dono da casa que a namorada
-era uma de suas sobrinhas. O coronel, porque era marido, receava
-que o general se enganasse: revelou as suas duvidas, e o bravo do
-Bussaco respondeu que tinha em bom uso a espada com que espostejara um
-esquadrão de francezes. Em bom uso estava de certo a espada; virgem,
-talvez. Descançava o coronel na espada do seu amigo, quando a esposa
-lhe ia arrebatada no arção da sella do mais possante murzello de
-Raphael.
-
-Aqui está a simples historia, que, posta em escriptura por mais aparada
-penna, faria chorar os leitores.
-
-Muita gente ri-se d’isto. Outra levanta os olhos ao ceu: contempla o
-imperturbavel movimento dos astros, interroga o Creador, e diz:
-
---E então?
-
-A Providencia responde, depois que os interrogadores estão esquecidos
-da sua audacia sacrilega.
-
-
-
-
-XII
-
-
-Este enorme escandalo estrondeou tres semanas, e caiu á voragem
-silenciosa dos factos consummados. Corridos tres mezes, a fugidiça
-estava em Lisboa com a mãe; e Raphael Garção, de volta de Hespanha,
-entrára ás escondidas em Fayões, e lia romances no seu gabinete. O
-coronel, corrido do vexame, pedira transferencia para o Alemtejo.
-
-Raphael tinha pae e mãe, que incessantemente offereciam ao Eterno o
-calix de suas dôres em desconto do peccado da má educação, que haviam
-dado ao filho. A mãe, temerosa do juramento que o general fizera
-de matar Garção com a espada do Bussaco, alternava, com o marido,
-sentinella ao filho para elle não sair de casa. O velhaco, assim que
-as atalaias, por noite velha descuravam a sobre-rolda e ressonavam,
-saltava da janella ás espaduas do criado confidente, e ia refrigerar a
-cabeça, exercitar a força musculosa, e beber a sorvos os perfumes da
-manhã.
-
-Assim devia presumir-se até de madrugada de um dia em que elle voltou
-com as costas crivadas de chumbo e uma orelha farpada. Extrairam-lhe
-as balinhas, e cicatrisaram-lhe as orelhas. Passados dias entrou n’um
-recolhimento de Villa Real uma filha de um boticario de Fayões, e então
-se aventou que Raphael Garção topára no pharmaceutico a fôrma do seu
-pé, como lá dizem.
-
-Martinho Xavier foi a Palmeira contar este escandalo supplementar.
-Nicoláo riu-se e disse:
-
---Ha doidos que se fazem perdoar e estimar! As tolices de Raphael têem
-graça.
-
---É preciso ouvir-t’o, para se crer que fallas de Raphael com tão
-absurda sympathia!--censurou Martinho.--E jámais, ajuntou a meia voz,
-na presença de tua mulher: Isso desauthorisa a gravidade de teus annos
-e estado, primo Mesquita!
-
---Valha-te Deus, Martinho! redarguiu o morgado. Tu vens a ser muito
-rabujento, homem! Pareces um ancião com o barbaçudo aprumo de um
-patriarcha! És inexoravel com os moços e principalmente com teu
-sobrinho!... Quantas capas deixaste tu ficar por mãos impudicas, ha
-vinte annos, quando te eu conheci o primeiro casquilho de Chaves e seu
-termo?
-
---Não pratiquei desafôros! Atalhou Martinho.
-
---Graças á tua boa indole, e ao captiveiro do coração em que te teve
-seis annos a minha bella prima com quem casaste. É preciso perdoar
-aos rapazes, que não podem reconstruir o seu temperamento, nem
-remediar aos vinte e tres annos os vicios da educação. Raphael não é
-despresivel, quanto se te figura; é digno de dó. Vem pagar o que eu não
-sei bem se é culpa d’elle. Os doidos da bitóla de Raphael teem sempre
-o mau sestro de encontrarem doidos da mesma natureza. Cumpre ponderar
-esta notavel attenuante, primo Xavier. O mundo não faz d’isto cabedal,
-nem desconta. Se Raphael attentasse em mulheres morigeradas, não
-descobria a esposa do coronel, nem a filha do boticario.
-
---Foram seduzidas! bradou Martinho.
-
---Pois isso é claro! Toda a mulher precisa que a seduzam; e se a não
-seduzem, trata ella de seduzir-se a si mesma.
-
---Regra geral, portanto!
-
---Regra geral para as mulheres desviadas do caminho da honra.
-
---E entendes que Raphael tão somente pode perder as desviadas?
-
---Cuido que sim.
-
---E as honradas são invulneraveis?
-
---Como o calcanhar do heroe de Homero.
-
---Estás gracejando... Chega-me aqui o ouvido.
-
-Nicoláo inclinou-lhe a orelha, e Martinho segredou:
-
---A Margarida Froment estava desviada do caminho da honra quando a
-perdeste?
-
-Nicoláo retraiu de salto a cabeça, e não respondeu.
-
-Beatriz descórou, suspeitando loucamente uma revelação horrivel.
-
-Cessou a polemica.
-
-Estavam no mez de junho.
-
-Beatriz lembrou um passeio á feira annual de Santo Antonio a Villa
-Real. Martinho Xavier acompanhou-os.
-
-Nicoláo e a mulher compravam objectos de oiro n’uma barraca. Raphael
-Garção passava e viu-os, e parou. Casualmente voltou a face Beatriz, e
-expediu um grito. Vira-o, e tremêra no braço do marido. O morgado olhou
-em roda de si, e perguntára:
-
---Que foi?
-
---Pisaram-me...--disse Beatriz.
-
---Canalha! bradou rancorosamente o morgado no rosto das pessoas mais
-chegadas ao balcão do ourives.
-
-Passaram a outras barracas.
-
---Espera! disse com alvoroço Nicoláo.--Queres tu vêr o primo Raphel?!
-
---Onde? perguntou ella serenamente.
-
---Além! aquelle sujeito de jaqueta de alamares, e botas á Frederico.
-
---Parece-me que é.
-
---Vamos ter com elle.
-
---E se o pai está por ahi?
-
---Que importa?
-
---Bem sabes que nos faz um sermão.
-
---Ouviremos o sermão com devota paciencia. Vamos ouvir este sublime
-doido... Elle olha para nós... reconhece-nos...
-
-E chamou-o com um aceno.
-
-Raphael avisinhou-se: faltava-lhe ar, como se o coração, dilatado pelos
-arquejos, lhe tomasse todo o peito.
-
---Venha cá, D. João, venha cá!--disse com alegre sombra Nicoláo--que é
-feito de si, homem perdido?
-
-Raphael cortejou grave e cerimoniosamente a prima; abraçou o morgado, e
-respondeu solemne:
-
---_Homem perdido_... é o nome que justamente me frisa. Perdido como
-todos os homens que atiraram o coração ás sarças de desesperança.
-
---Que estylo!--atalhou Nicoláo, e que merencorio gesto você está
-fazendo! Tire lá essa mascara dos quarenta annos, e seja rapaz emquanto
-seu tio Martinho não apparece por ahi.
-
---Está cá meu tio?
-
---Está... respondeu Beatriz, levantando do chão os olhos em que Raphael
-viu um vidrado de lagrimas.
-
---O primo Raphael que faz aqui? perguntou o morgado.
-
---Nem eu sei, sinceramente lh’o digo.
-
---Sei eu, e bom será... que o boticario de Fayões o não saiba...
-
-O moço não abriu leve sorriso; abaixou os olhos e murmurou:
-
---Seja generoso, primo Nicoláo. Eu não espero da sua mão a esponja do
-fel. Creia que tenho sido muito desgraçado, e perdoe-me não ter podido
-ser feliz.
-
-Apertou a mão da prima, abraçou ligeiramente o morgado, e afastou-se
-velozmente.
-
-Nicoláo quedou-se immovel e silencioso.
-
-D’ahi a segundos disse a Beatriz:
-
---Creio que teu primo é sinceramente desgraçado!...
-
---Parece... Como está magro e pallido!
-
---E talvez não tenha um amigo!... um amigo sincero que o defenda de
-novos pricipicios... Quem me dera poder vellar o destino d’este rapaz!
-
---Pobre moço!... murmurou Beatriz, embebendo as lagrimas no lenço.
-
---Não te afflijas assim, menina. Se eu lhe não fallar, hei de
-escrever-lhe. Está em excellente idade para rehaver os creditos
-perdidos, e depois, é rico; a riqueza é meia rehabilitação, quando não
-é rehabilitação inteira e mais metade.
-
-Caminhando, encontraram Martinho Xavier, que crescia para elles com a
-vista derramada, e amarello.
-
---Que tens? perguntou Nicoláo.
-
---Nada... respondeu Xavier, ferindo a filha com repetidos olhares
-penetrativos.
-
---Que tens, homem? viste o monstro?
-
---Que monstro?
-
---O Raphael, o tigre, a basilisco?--perguntou o morgado, sorrindo.
-
---Vi... e tu tambem?
-
---Esteve ainda agora comnosco. Eu queria que tu o ouvisses...
-
---Para que?
-
---Está revirado. Falla como um S. João, que vem do deserto ao
-povoado prégar o _agite penitentiam_! Confessou os desvarios que o
-infelicitaram, e fugiu de nós sem nos dar tempo a consolal-o.
-
---Faltava-lhe a hypocrisia! atalhou Martinho.--Cerrou a mêda agora, não
-tem duvida. O fecho da abobada é a hypocrisia!
-
---Que inexoravel e cru homem tu és, primo!
-
---Sou, sou flagello inquebrantavel de infames--bradou Martinho com
-espanto dos transeuntes.
-
---Está bom... disse brandamente Beatriz. Não questionem... Meu pae,
-perdoe a quem é infeliz, e despreze-o. Vamos embora d’aqui... As
-minhas compras estão feitas. Vamos para Palmeira, Nicoláo.
-
---Pois não has de ir á noite ao theatro, filha?
-
---Não... se me amas, partamos já.
-
-Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao
-sogro:
-
---Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer
-que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de
-teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra
-que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras
-com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades.
-Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me
-insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que
-eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e
-parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por
-tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não
-receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os,
-quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha.
-
-Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre
-as mãos, soltando estas gementes palavras:
-
---Meu Deus, meu Deus!
-
---Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido.
-
-Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido
-inclinado á face d’elle.
-
---Que é?! disse ella agitada.
-
---Não sei...
-
---Vão, e adeus!--murmurou Martinho, erguendo-se com energia.
-
---Ficas em Villa Real?
-
---Fico: tenho ahi uns cavallos em ajuste. Só poderei ir ámanhã ou
-depois.
-
---Queres que esperemos, Beatriz? perguntou Nicoláo.
-
---Esperemos...--respondeu ella desopprimida da abafação do susto.
-
---Não, que eu vou direito a Chaves--contrariou Martinho Xavier.
-
---E quando voltas a Palmeira?
-
---Quando poder.
-
-Saiu adeante d’elles, apertando convulsivamente a mão da filha, quando
-se ella inclinou a beijar a d’elle.
-
---É mysterioso teu pae!...--ponderou Nicoláo.
-
---Pois que te disse?
-
---Ouviu-me umas observações duras de se ouvirem, e chorou, como
-viste... E não póde deixar de ser o que eu já suppuz... Teu pae é
-ludibrio de alguma intriga a teu respeito.
-
---Intriga?
-
---Sim... Levaram-n’o a uma terrivel suspeita... de ti e de Raphael.
-Faz mal em se não declarar. A injuria reflecte-se em mim... Eu queria
-mostrar-lhe a elle, ainda mais que ao mundo, a tua innocencia.
-
---Pois alguem me considera culpada?!--atalhou extremamente resentida
-Beatriz.
-
---Não digo tanto; mas com capacidade para culpada.
-
---Quem?... Eu mereço isto!... Pois tu podes presumir?...
-
---Se eu podesse presumir, não t’o diria, minha querida prima.
-Esperava... Facilitava-te as occasiões; e, quando t’o dissesse, a tua
-bocca não poderia defender-se. Comprehendeste-me bem?
-
---O ar com que me estás fallando, Nicoláo...
-
---É a primeira vez que reparas n’este ar. Deus permittirá que seja a
-ultima.
-
---Desconfias da minha lealdade, Nicoláo?
-
---Já respondi, Beatriz. Não desconfio. A tua agonia de morte começaria
-desde a desconfiança.
-
-Repostos na bonançosa vida de Palmeira, ataram o fio quebrado das
-serenas alegrias, que irradiavam á volta do berço da creancinha.
-Bonançosa vida, escrevi eu, porque os exteriores condiziam com a
-palavra; todavia, no recondito d’alma de Beatriz, estava o aspide
-roedor, que lhe torvava os sonhos de infernaes alegrias, ou horridas
-visualidades. Abria os olhos molhados de culposas lagrimas, e
-seccava-as ao bafejo do filhinho. Seguiam-se no dia as intermittencias
-da noite. Uma hora, relampagueava-lhe a esperança uma luz vividissima,
-ao clarão da qual divisava a imagem de Raphael. Outra hora sentia
-atravez do seio uma vibração glacial, como se a larga lamina de ferro
-lhe abrisse bulhões de sangue: n’esta visão infanda era a imagem do
-marido que lhe avultava descomposta pela vertigem do odio. Refugiava-se
-ainda sob a egide do anjo, a creancinha, que inclinava o rosto á face
-d’ella, e balbuciava a primeira syllaba das suas reminiscencias do ceu.
-
-Martinho Xavier lá estava em Chaves. Decorreram dois mezes, e elle
-não voltou á Palmeira. Foram visital-o e levar-lhe o neto e afilhado.
-Acharam-n’o quebrantado com o pezo de mais dez annos. Encaneceram-lhe
-os cabellos, arrugaram-se-lhe as faces, amortiçou-se a luz dos
-olhos, arados pela bafagem ardente, que não tinha respiradouro. Para
-elle a perdição da filha era um anathema indeclinavel. Entrou-se
-do convencimento de ser ella o instrumento providencial do castigo
-de Nicoláo de Mesquita. A deshonra de Ernesto Froment havia de ser
-vingada. A sua amada Beatriz, a innocente das perversidades do marido,
-obedecia ao sobre-humano impulso da indefectivel justiça. Minguava-lhe
-illustração para combater o prejuizo. Accusava de injusta a Providencia
-quando lhe genuflectia, e subpunha a cabeça de sua filha a uma absurda
-fulminação.
-
-Á força de apprehender n’isto, desordenou-se-lhe a intelligencia por
-uns paradoxos de fatalismo, que implicavam á religiosidade do seu
-caracter.
-
-Encarava de fito na filha e chorava. Affagava o neto, e perguntava-lhe:
-
---Entendes tu a minha dôr, anjo do ceu?
-
-Descaía um severo olhar sobre Nicoláo, e dizia-lhe:
-
---Não devias casar nunca, sem saldar contas com a Providencia.
-
-O marido de Beatriz suspeitou da inteireza intellectual do sogro. Era
-para isso. Quiz arrancal-o da solidão do seu quarto, e trazel-o para
-Palmeira. Foi invencivel a resistencia muda do precoce velho, que
-apenas contava quarenta e oito annos. Quiz Beatriz ficar em Chaves, e o
-pae rejeitou o alvitre, como desnecessario á sua morte.
-
-Voltaram a Palmeira.
-
-Parece que lhes soavam n’alma de ambos as medonhas alvoradas de um dia
-de infinita calamidade. O ceu era o mesmo, a creancinha brincava entre
-elles com as flôres inverniças; ao passo que os paes, sem se revelarem,
-olhavam sobre o menino com os olhos lagrimosos.
-
---Porque choramos nós?--perguntava Nicoláo.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-Chegou ao Vidago a noticia do apalavrado casamento de Raphael Garção
-com a morgada de Santo Aleixo, bella e rica, de primeira stirpe;
-transmontana, e costumes irreprehensiveis.
-
---Aqui tens, Beatriz, disse Nicoláo, como teu pae se illudiu com o
-descredito de Raphael. Quando as cem trombetas atroam a provincia a
-divulgar escandalos, offerece-se ao generalissimo da desmoralisação um
-casamento de primeira ordem!...
-
---É verdade... admira... ella é bonita...--gaguejou Beatriz,
-humedecendo os labios calcinados do fogo da alma.
-
---Será elle tão desastrado que regeite a proposta? É de esperar que
-não. Aquelles ares de reforma, que lhe vimos, não podem ser hypocrisia,
-como teu pae diz. Hypocrisia comnosco porque e para que?
-
---Sim... para que!...
-
---Vou escrever-lhe a felicital-o, e instigal-o a casar-se...
-
---Não faças isso, atalhou Beatriz. Sabes tu se elles serão felizes?
-Deixa-os lá. Se elle um dia se arrepender, escusa de lembrar-se de que
-o aconselhaste.
-
---Pensas com acerto, mas sempre quero saber d’elle mesmo se é certo o
-projecto.
-
---Isso lá...
-
---Vejo-te inclinada a julgar de teu primo desfavoravelmente, Beatriz!
-
---Não... eu... o que entendo é que... a mulher casada com o primo
-Raphael não ha de ser feliz... porque... é muito cedo para achar prazer
-á vida tranquilla, que tem sido o que tu sabes em tão pouco tempo... E
-pode ser que eu me engane... Oxalá...
-
-Escreveu Nicoláo ao morgado de Fayões. Ao outro dia, mostrou a resposta
-a Beatriz, exclamando:
-
---O rapaz passou de uma demencia vulgar a uma demencia exquisita!
-Ha seis mezes era um libertino. Agora não se sabe o que é. Vê lá a
-resposta de Raphael.
-
-Leu Beatriz:
-
- «Meu presado amigo e excellentissimo primo.
-
- «Agradeço os sinceros emboras que se digna enviar-me; lamento, porém,
- que se baldassem os seus bons desejos emquanto ao meu casamento: As
- raias da minha doudice não vão tão longe. Todo o tolo tem as suas
- demarcações.
-
- «É certo que pessoas da familia de Santo Aleixo propozeram a meu pae
- o enlace a que vossa excellencia allude. Meu pae consultou-me, e eu
- rejeitei. Mas, porque, a rejeição divulgada seria offensiva ao orgulho
- dos visigodos de Santo Aleixo, resolveu a discrição que se deixasse
- correr o boato da minha annuencia, até esquecer a proposta. Esta é que
- é a verdade.
-
- «Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei,
- porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei
- ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que
- ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade,
- saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração,
- sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o
- restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para
- os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?!
-
- «Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas
- curta.
-
- «Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus
- respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma
- inalteravel amizade. Sou, etc.»
-
---Que te parece o espiritualismo do rapaz? perguntou Nicoláo á esposa
-que disfarçava o tremor das mãos.
-
---Que singularidade!... tartamudeou Beatriz.
-
---Estou em crêr que lhe extrairam o sangue máo que elle tinha, com os
-grãos de chumbo das costas! tornou Nicoláo sorrindo. Hei de mandar esta
-carta a teu pae.
-
---Para que?! interrompeu ella com ancia. Tu já sabes que meu pae lhe
-chamou impostor...
-
---Por isso mesmo: quero convencel-o.
-
---Vaes inquietal-o, primo... Que nos importa a nós o juizo que forma
-o pae? Raphael não solicita amizade d’elle... para que has de tu
-solicital-a!
-
---Tens razão, menina. Farto de disputações estou eu.
-
-Facilmente salta ao espirito do leitor a repugnancia de Beatriz. Bem
-lembrada estava ella da carta surpreendida pelo pae. As ultimas linhas
-de Raphael eram a resposta. Martinho Xavier se as lesse, saltaria
-do leito, e correria furioso ao Vidago para esconjurar a procella
-sobranceira.
-
-Nicoláo, como quem se diverte, replicou em longa carta, recheiada de
-jocosidades, ácerca do sonho e da reserva do coração para as nupcias
-celestiaes. Gracejava a respeito do ceu, e de muitas outras figurações,
-que os padres e os amantes inventam, no intuito de irem apanhando o
-melhor que podem as bellas coisas da terra. A escrever, Nicoláo de
-Mesquita remoçava aos espiritos dos vinte annos, com seus laivos de
-facecia um tanto cynica.
-
-Leu esta carta a Beatriz, e viu que lhe desagradava.
-
---Em parte não a entendo--disse ella--bem sabes que eu sei quasi nada,
-e tu empregas ahi palavras que eu não conheço; mas parece-me que tu
-não sentes o que dizes, quando fazes zombaria do ceu e dos padres para
-escarnecer a tal mulher do sonho...
-
---Pois de certo, Beatriz, redarguiu o marido ingenuamente, eu escrevo
-isto como brincadeira de nenhum peso no animo de Raphael. A minha
-ideia é o passatempo de uma correspondencia que deve ser preciosa por
-parte de um rapaz de espirito, perdido nas supremas regiões do bello.
-
---Então sim... compreendo agora que...
-
-Se ella continuasse em voz alta a idéa, diria: _que é este um meio
-honesto de eu ter semanalmente uma carta indirecta de Raphael_. Assim
-foi.
-
-Ao fim de dois mezes, Nicoláo de Mesquita possuia um interessante
-epistolario, que o recreava infinitamente. A remontada poesia de
-Raphael denotava um espirito igualmente apaixonado que opulento dos
-atavios do mais selecto romancista. A erudição tambem não lhe era
-esquiva: marchetava as suas cartas de sentenças, hauridas de prosadores
-e lyricos que melhor trataram os theoremas do espiritualismo.
-
-Beatriz estava contente. A occultas do marido, relia, decifrava, e
-illucidava as phrases obscuras. Sobejava-lhe agudeza de coração para
-adivinhar até as citações francezas.
-
-Isto durou assim n’este remançoso contentamento conjugal, até que
-Martinho Xavier inesperadamente appareceu em Palmeira.
-
-Antes de vêr a filha, e sem consentir que o lacaio recolhesse os
-cavallos, chamou o genro ao bosque do jardim, e disse-lhe:
-
---Tens tido uma correspondencia de dois mezes com Raphael.
-
---Tenho.
-
---Com que fim?
-
---Nenhum fim, um divertimento... coisa de nenhuma significação.
-
---Peço-te que me mostres as cartas de Raphael.
-
---Immediatamente: sobe, que a leitura é demorada.
-
---Não subo: espero aqui.
-
---Os cavallos ficam no pateo?!
-
---Ficam: não me demoro.
-
---E não vens vêr tua filha?
-
---Ainda não; traz-me as cartas.
-
-Beatriz tremeu e descorou, quando viu Nicoláo tirar da papeleira o
-masso das cartas.
-
---Que é?! perguntou ella agitada.
-
---Que ha de ser?... a demencia de teu pae... Quer vêr as cartas.
-
---Disseste-lhe...
-
---Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi elle que m’as pediu...
-Affliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz!
-
-Assim que o marido saiu, tomou o filho nos braços, e correu os salões
-da casa, sem atinar com algum intento.
-
-Martinho Xavier leu vagarosamente as cartas, pedindo a traducção dos
-dizeres em francez.
-
-Acabada a leitura exclamou:
-
---Este homem é um infame!
-
---Porque?
-
---Porque estas cartas são uma cilada á tua honra e á minha, e á honra
-de minha filha.
-
---Explica-te, primo Xavier! acudiu com arrebatamento Nicoláo.
-
---Expliquei-me de mais ao marido de minha filha... Agora... agora,
-Nicoláo de Mesquita, lavei as mãos! Arranquei da consciencia o ultimo
-espinho. Fiz o que pude, disse o que podia dizer. Faz o que a tua
-dignidade te ordenar.
-
-Ia retirar-se; mas o marido de Beatriz susteve-o, exclamando:
-
---Has de repetir-me essas palavras em presença de minha mulher.
-
---Não! não!--exclamou o velho movido a lagrimas--Não! que eu matal-a-ia
-se ella ousasse injuriar esta dignidade de pae que a defende! Tua
-mulher está sem macula na face, Nicoláo, pelos ossos de meu pae t’o
-juro! Mas perante mim, se ella ousar mentir-te, o braço de pae vingará
-a tua honra.
-
-Saiu impetuosamente, e saltou á sélla com o vigor frenetico dos vinte
-annos.
-
-O morgado estacou. Atormentava-o um dilemma cruelissimo: era sua mulher
-criminosa, ou seu sogro mentecapto?
-
-Subiu ao quarto de Beatriz: encontrou-a com o filho no collo, e o rosto
-purpureado da escandecencia das lagrimas mal enxutas. Contemplou-a
-silencioso, e ella não pôde supportar os coriscos dos olhos d’elle.
-
---Que segredo da tua deshonra tem teu pae, Beatriz!?--perguntou elle
-com terrivel placidez.
-
---Da minha deshonra? nenhum! Eu nunca trahi os meus deveres...
-
---Não é sómente a deshonestidade a quebra dos deveres. Pergunto eu que
-ha entre ti e Raphael Garção?
-
---Nada, absolutamente nada existe. Morto veja eu n’este instante o
-filhinho em meus braços, se eu te minto!
-
-Nicoláo recordou mentalmente as palavras de Martinho Xavier: _Tua
-mulher está sem macula na face; pelos ossos de teu pae t’o juro_.
-Refrigerou-se-lhe o sangue. O juramento da esposa, sobre a vida do
-filho, podia muito com elle. Saiu a passo lento do quarto; fechou-se no
-seu gabinete, e repassou detidamente as cartas de Raphael Garção.
-
-Julgal-o-hieis desencavernado do antro de Trophonius, quando saiu do
-quarto. Era uma amargura de semblante em que facil se prevê que nunca
-mais se ha de abrir um riso. Nicoláo vira tudo, adivinhára tudo a um
-clarão do inferno, e tambem vira a essa luz o vulto de Ernesto Froment.
-Porém, o que elle vira e adivinhára era pouco para considerar-se tão
-punido quanto offensor. Via o fundo do abysmo; mas via-o de alto. Sua
-mulher era amada; mas o amador esperava galardoar-se no ceu. Isto, se
-não consola, offende medianamente um marido. Era ainda incerto que ella
-o amasse; era ainda perdoavel que ella o tivesse amado em solteira;
-seria até possivel e quasi desculpavel que ella lhe promettesse
-esposal-o na bem-aventurança. Meditou estas e outras coisas entre as
-arvores, e voltou ao gabinete a relêr as cartas. Recordou os relanços
-em que sua mulher fizera especial reparo, quando elle as lia. Notou,
-combinou, inferiu, e confortou-se com as noventa e nove probabilidades
-da pureza de sua esposa, salvando o espirito d’esta conclusão
-purificante.
-
-Voltou ao quarto de Beatriz, e disse-lhe com brandura, mas torvado o
-aspeito:
-
---Mataste a minha felicidade... e a tua. D’hora ávante seremos dois
-desgraçados que se contemplam. Vives, porque a tua honestidade ainda
-não está morta. Foi a alma que peccou; convém que a alma soffra. Quando
-os corpos estão manchados, então é honra espedaçal-os. É occasião de te
-contar que, ha cento e tantos annos, houve n’esta casa uma adultera.
-Deitou-se uma noite tranquillamente ao lado do marido, e foi ao outro
-dia tirada do leito para ser amortalhada. As cinzas d’ella estão
-alli na capella no jazigo da esquerda. Não se recolheu ainda áquella
-sepultura nenhum cadaver. Eu quizera que não fosses tu a companheira
-dos ossos da unica adultera d’esta familia em quinhentos annos sabidos.
-
---Mas eu estou innocente, meu Deus!--exclamou Beatriz, tirando pelas
-madeixas com tresvariada angustia.
-
---Bem sei--disse soturnamente o marido.
-
---Pois, se sabes, porque me insultas?
-
---Eu conversei comtigo, Beatriz: os lacaios é que insultam. Meu
-terceiro avô não me consta que insultasse a minha terceira avó, que
-está alli no jazigo do lado esquerdo.
-
---Pois bem!... mata-me e mata-me já, que eu do fundo de minha alma te
-abomino, e perdôo. Esta creança te amaldiçoará em meu nome.
-
-Era sublime o exaspero de Beatriz, com o filho nos braços,
-contorcendo-se em altos gritos. Nicoláo tirou-lhe a creança, apertou-a
-ao seio, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e exclamou:
-
---Tu não me amaldiçoarás, meu filho!... Porque tu és meu filho, és,
-sinto-te entranhado em meu coração!...
-
-D’ahi a horas, o morgado ordenava aos seus criados que preparassem as
-liteiras para jornada longa.
-
-Dois dias depois, os fidalgos de Palmeira sairam caminho de Lisboa. E
-Raphael Garção recebia da mão de uma mulher entrajada de mendiga estas
-linhas:
-
-«Vamos para Lisboa. Meu pae denunciou tudo. Sou uma martyr. Não me
-esqueças, anjo da minha vida. Eu perdoei-te, e amo-te mais que nunca.
-Maldito seja este homem, que me ameaça com a morte!... No ceu, no ceu
-nos veremos, meu R. Adeus. Sei que não torno a ver-te.»
-
-Raphael Garção, á terceira leitura, disse entre si:
-
---Verás!
-
-
-
-
-XIV
-
-
-Appareceu em Chaves Raphael Garção despedindo-se de viagem para França.
-Deixou um bilhete a seu tio Martinho Xavier, mostrando-se pesaroso de
-não poder abraçal-o. Notou no seu _remember_ dezenas de encommendas das
-senhoras flavienses, _novidades_ de Pariz, que ellas haviam de estreiar
-nas bodas da morgada de Santo Aleixo. O boato corrente era que o
-morgado de Fayões ia comprar a Pariz o presente de noivado, e encravar
-os brilhantes e adereços de sua mãe em feitios modernos.
-
-Saiu Raphael por Hespanha, e entrou em Portugal pela Extremadura.
-Chegou a Lisboa, e informou-se da residencia de Ricardo de Almeida.
-Margarida Froment é quem dava nome ao transmontano em Lisboa. No
-_hotel de Italia_, na rua de S. Francisco, onde Raphael se alojara
-recatadamente hospedava-se um diplomata francez, conhecido da sua
-compatriota.
-
-Ao outro dia, o morgado de Fayões escreveu a Ricardo de Almeida,
-marginando a carta com a recommendação de _reserva_. Chamava ao _hotel
-de Italia_ o seu primo e amigo. Tudo primos! Pode chamar-se o romance
-dos primos esta novella!
-
---Que fazes em Lisboa?--perguntou o fidalgo de Aguiar.
-
---Vim aqui para esconder-me.
-
---Vens fugido?
-
---Não, homem: venho na piugada de uma mulher que me fugiu com a alma, e
-o marido com ella.
-
---Casada!... Agouro-te desgraça!...--atalhou gravemente Ricardo.
-
---Ah! tu estás assim?!... Onde tens tu vivido, rapaz? e com quem tens
-vivido, velhaco?
-
---Larga resposta me pedes, e mais tarde t’a darei. Vamos ao ponto. É
-conhecida a mulher?
-
---É a prima Beatriz Vahia.
-
---A mulher de Nicoláo!... Então o homem está a contas com a Providencia
-mais cedo do que eu esperava!...
-
---A Providencia não entra n’isto, homem!... Tu sabias que nos amavamos
-eu e ella?
-
---Parecia que sim...
-
---O tio Martinho casou-a...
-
---Porque tu a deixaste casar: logo, não amavas a prima Beatriz.
-
---Olha se podes ouvir-me sem grande dispendio das formulas do
-raciocinio: esse «logo» cheira-me a lente de prima! Bem sabes que perdi
-dois annos de Coimbra, porque não pude fazer exame de logica. Será
-moda em Lisboa fallar-se de mulheres em syllogismo? Quando eu vinha
-por aqui passar ha cinco annos, não havia logica para esta casta de
-gente!... Saberás, pois, primo Almeida, que Beatriz está em Lisboa, e
-eu quero que me saibas onde está Beatriz. És capaz?
-
---Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é
-coisa notoria a chegada do morgado de Palmeira!
-
---Ora não faças a terra maior do que ella é;--replicou Raphael.--Eu
-cheguei hontem á noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia
-onde morava madame Margarida Froment.
-
---É que as francezas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os
-morgados de Traz-os-Montes.
-
---De accordo; mas achas difficil saber-se onde está o Mesquita?
-
-Se não se hospedasse em casa de parentes, é facil pela relação policial
-das hospedarias.
-
---Cuida-me disso, e fallemos agora de ti. És feliz, rapaz?
-
---Sou.
-
---Dois annos! uma mulher dois annos!... Tu achaste a coisa que os
-poetas andam a sonhar ha seis mil annos! Dois annos de felicidade com
-a mesmissima e identica creatura!... Que segredos tem ella? Belleza
-offuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma
-coisa, homem!... Parece-me que te vejo no castello d’Aguiar a fazer a
-côrte por um oculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés
-no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste!
-
---Ainda não; mas fiz coisa peior: desbaratei o melhor da minha casa.
-
---Já sei: isso consta ha muito por lá... As tias Almeidas e o capellão
-choram por toda a parte os teus desperdicios. Então estás pobre? queres
-dinheiro?
-
---Pobre ainda não: tenho trem, e um palacete, e _soirée_ ás terças
-feiras.
-
---Vives sardanapalamente! E, por sobre tudo isso, a franceza, que tu
-amas! Devéras amas? falla a verdade.
-
---Amo, porque me não merece confiança nenhuma.
-
---Esse _porque_ é especie nova para mim! Oh diabo! eu costumo desprezar
-as mulheres pela razão por que tu as amas!... Isso não é amor, dou-te a
-minha palavra de homem que leu Byron, Balzac, Henri Beile, e todos os
-praxistas _ad hoc_.
-
---Então que é?
-
---É uma peçonha composta de uma grande dóse de orgulho, e outra grande
-dóse de tolice. Perdoarás: fallemos rudemente como lá nas nossas
-montanhas. Ella atraiçoou-te?
-
---Não...
-
---Que tu saibas...
-
---Sei que não; mas tem um ideal.
-
---A boas horas! Cuidei que estas creaturas não consumiam d’isso, e
-andavam satisfeitas com vestidos e diamantes e carruagem! De mais a
-mais, a despeza do ideal!
-
---Tu rebaixas muito a mulher, primo Almeida!
-
---Eu!?... tu é que m’a puzeste debaixo dos pés, dizendo-me que ella te
-não merecia confiança.
-
---Mas posso ser injusto.
-
---Ah! então diz-me isso. O certo é que a zelas muito porque a amas
-desmarcadamente, eim!
-
---Suspeito que ella, se Nicoláo de Mesquita a requestasse, me deixaria.
-
---Logo... (cá vem a logica, se permittes uma excepção) logo: a mulher
-não tem vergonha.
-
---É barbara a conclusão! Tu ignoras o passado d’esta senhora...
-
---Sei tudo: contou-me tudo o Mesquita, no mesmo dia em que tu saiste da
-Foz com ella para Lisboa.
-
---E elle ainda a ama?
-
---N’aquelle dia estava cheio de amor! Tocava as raias do delirio e da
-irrisão. Aturei-o duas horas e levei-o a casa.
-
---E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo.
-
---Depois, esqueceu-a, e fez-se amantissimo da mulher. Foi uma desgraça
-para nós ambos a reconsideração.
-
---Porquê?
-
---Porque estavas livre da franceza tu, e eu amaria desassombradamente a
-prima Beatriz.
-
---Virá elle a Lisboa com intenções?
-
---Não sei, mas parece-me que ninguem vem conquistar, ou reconquistar
-uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para
-ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava
-as reliquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus creditos
-para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu genio. A tua
-propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são
-os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher
-porção de sentimento, que na vida honesta, e á sombra das suas arvores
-gigantes, te daria mananciaes de prazeres. Se eu tivesse a tua alma,
-bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis mezes
-a trabalhar na refundição da minha indole, e fiquei mais aleijado.
-Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as á
-natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar
-dois annos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração
-puro de uma esposa!
-
---Sinceramente te digo que já pensei n’isso.
-
---Ah? tu já pensaste n’isso? Então não amas a Margarida.
-
---Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção,
-retorquio sorrindo Ricardo.
-
---Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavallo
-que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde
-a est’outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que
-outra póde dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em
-flagrante absurdo! Isto só o faz quem não póde fazer exame da arte
-de raciocinar. Parabens, primo! Dás-me esperanças de te vêr sair
-d’esta ingloria estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio.
-Sae d’isto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por
-descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros
-sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma cousa importante. Estás
-nos vinte e seis annos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas?
-Nunca pensaste n’isto?
-
---Já.
-
---E que vês no teu futuro, quando hypothecares a ultima geira?
-
---Vejo um par de excellentes pistolas.
-
---Essa visão é judiciosa, e não sei realmente desvanecer-t’a. Aqui é
-que eu queria o egresso que te ensinou o cathecismo. O que eu posso
-dizer-te, desprendido de toda a pretenção philosophica, é que tu és
-um asno pyramidal, se continuas assim; e não haverá pyramides que
-perpetuem a tua asneira, se te matas depois de teres assim vivido.
-Depois do que, tenho a dizer-te que disponhas da minha casa como tua, e
-vás saber onde mora a prima Beatriz.
-
---Pois sim, e fallaremos depois--disse Ricardo de Almeida, e saiu com
-animo agitado pelo impulso das phrases ora graves, ora picarescas, do
-morgado de Fayões.
-
-Poucas horas depois, voltou o castellão de Aguiar noticiando que
-Nicoláo de Mesquita se hospedára n’um hotel francez da rua dos
-Romulares.
-
---Obrigado, primo! Venceste a primeira batalha: agora seguem-se os
-triumphos! exclamou Raphael.
-
---Que tencionas fazer agora?
-
---Vou mandar o meu criado alugar uma casa fronteira. O hotel francez
-necessariamente está defronte de alguma casa.
-
---Sem questão; mas se a casa tem inquilinos?
-
---O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas.
-
---Estás a mangar!...
-
---Ninguem manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no
-quinto, ou quarto andar do predio mora um empregado publico, que vae
-rebater duas cedulas para pagar um semestre da casa, que alugou por
-cincoenta mil réis. O meu criado offerece-lhe quarenta soberanos, e
-diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas!» Antes das doze, o
-empregado publico saí com seis cadeiras e duas panellas, e eu entro com
-esta ponderosa alfaia de um coração em chammas. Impugna lá se podes!
-
---E depois?
-
---Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janellas, e eu tenho
-olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que magicos, que peregrinos
-olhos tem! Deixo as omissões á tua discrição. E agora vai-te embora que
-eu vou dar credenciaes ao criado. Á noite vou a tua casa.
-
-O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves
-do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia
-seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do signal.
-
-Fechou-se Raphael n’uma sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz
-passar a noite com o primo Almeida.
-
-Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e
-disse-lhe pouco depois:
-
---Ricardo passou com vossa excellencia algumas horas do dia...
-
---Não ha duvida, minha senhora.
-
---Facilmente conheci que o senhor Garção exerce uma sinistra influencia
-no animo de seu primo.
-
---Porque, madame? Sinistra influencia!...
-
---Certamente, que elle entrou em casa com uma linguagem nova.
-
-Raphael relanceou os olhos ao primo, e disse entre si: «Este homem será
-mais inepto do que eu presumo?»
-
-E, replicando a Margarida, disse:
-
---Bem vê, minha senhora, que a minha idade não authorisa a dirigir
-o espirito de ninguem, particularmente de uma pessoa, que vossa
-excellencia domina com absoluto imperio.
-
---Agradecida! tornou ella com ironico sorriso.
-
---Eu não previa tão aspero acolhimento d’esta dama! disse Raphael ao
-primo. Que significa este desastre?
-
---Imaginação d’esta senhora! respondeu Ricardo.
-
---Imaginação e dignidade! acudiu em tom grave a franceza.
-
-Raphael lembrou-se do verso de Molière, que já occorreu ao leitor e
-sorriu-se para dentro.
-
-Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a
-aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o marmore da jardineira.
-
-Raphael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando
-com uma camelia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse
-ao hospede com requebro maviosissimo de voz:
-
---Vossa excellencia veiu a Lisboa buscar seu primo?
-
---Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh’o, se elle estivesse
-longe de vossa excellencia.
-
---O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh’a, porque as
-mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se
-vista de palavras usadas nos salões.
-
---Oh! minha senhora! acudiu Raphael, balbuciando.
-
-Entrou um escudeiro annunciando uns sujeitos da primeira plana
-genealogica.
-
-Margarida pôde ainda accrescentar a meia voz, em quanto Ricardo saiu ao
-encontro dos cavalheiros:
-
---Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem.
-
---Isso que prova, minha senhora? respondeu o morgado de Fayões.
-
-
-
-
-XV
-
-
-De relance, disse Raphael a Ricardo que ia sair para esquivar-se a
-apresentações. E ajuntou:
-
---Estrago tudo, se me faço conhecido em Lisboa. Como hoje não é
-terça-feira, cuidei que estarias só. Adeus. Faz os meus cumprimentos á
-tua amiga. E apparece.
-
-No decurso do seguinte dia, o criado de Raphael comprou a mobilia de
-um quarto, e recolheu-a, ao fechar-se a noite, na casa fronteira ao
-hotel. Antemanhã, prevenido com chave de trinco, entrou Raphael, e
-pregou cortinas na janella destinada a observatorio. Instruiu o criado
-sobre cousas do estomago, e fechou-se a continuar a carta que daria um
-opusculo de cincoenta paginas em oitavo francez. Era a historia do seu
-amor desde os quinze annos até áquella hora de ineffavel amargura. Ás
-nove horas levantou mão de sobre a setima pagina do sexto caderno, e
-foi encostar-se á vidraça encortinada. Esperou impacientado uma hora.
-Todas as janellas estavam abertas, e ao maior numero tinham chegado
-mulheres e homens. Nicoláo era madrugador e Beatriz tambem; mas nem a
-sombra lhes vira no interior dos quartos. Ás dez horas assomou a uma
-janella uma criada com trajes da provincia. Suspeitou o moço que fosse
-a ama do filho de Beatriz, e animou-se. D’ahi a momentos chegou Nicoláo
-á beira da ama, e affagou o menino dando-lhe para brincar as borlas do
-chambre.
-
-Saiu a ama e ficou o morgado da Palmeira encaracolando as guias do
-bigode, e baforando fumaças do charuto.
-
-Fitou-lhe Raphael o binoculo por entre o resquicio das cortinas
-justapostas ás vidraças; e viu, no interior da saleta ou ante-camara,
-Beatriz reclinada nas almofadas de um canapé, e a ama sentada no tapete
-com o menino, que brincava com os longos anneis do cabello da mãe.
-
-Nicoláo volveu o rosto para dentro, disse breves palavras, e voltou a
-debruçar-se no peitoril da janella. Depois, retirou-se, ficando Beatriz
-no canapé. Passado um quarto d’hora, saiu o morgado á saleta de chapéu,
-vestindo as luvas; e apertando a mão da mulher, inclinou-se a beijar o
-filho e saiu.
-
-Beatriz levantou-se da postura inclinada, e sentou-se. A ama saiu á
-janella mostrando ao menino um papagaio da casa proxima. A creança dava
-valor aos bracinhos, e festejava com tregeitos e risos as cascalhadas
-do passaro. Beatriz veiu á janella gosar da alegria do filho. Raphael
-estremeceu: era outra mulher sua prima; mas tambem formosa a outra
-mulher figurada.
-
-Tinha sido redonda e purpurina de rosto; agora emaciava-lhe a palidez
-um rosto oval. Alvejavam-lhe agora os labios, que o escarlate do rubi
-enrubescera. A transparencia das cartilagens do nariz era tal que se
-mostrava ao alcance do oculo. Posto que melindrosa de compleição, havia
-sido abundante de carnes, ou os ossos tão delicados que se escondiam
-sob uma subtil epiderme. Raphael descobrira-lhe no despeitorado do
-roupão de velludo azul a magreza do pescoço e as saliencias das
-claviculas. Não podia desfitar as lentes d’aquella encantadora mulher,
-que todavia já não era a sua prima Beatriz.
-
-Saiu da janella a ama, e fitou a senhora, enlevada n’uns sons de piano,
-que lhe davam rebates de saudade de alguma bella e triste memoria do
-seu passado.
-
-Raphael depoz o oculo, reflectiu um instante, e correu a vidraça com
-estrondo. Beatriz relançou a vista á janella que se abrira; ergueu-se
-de salto, do peitoril da sua; admirou anceada o homem que lhe sorria;
-levantou machinalmente as mãos em postura supplicante, e desprendeu um
-ai estridente.
-
-Raphael fez pé atraz, logo que viu a orla do vestido da ama, que vinha
-correndo. Beatriz affastou-se ao interior da saleta, e caiu no canapé.
-Pouco depois, levantou-se, contemplou fixamente a janella fronteira,
-entreviu Raphael que se approximava da primeira luz, e sorriu. A ama
-atravessou a ante-camara, e Beatriz recolheu-se ao interior da casa
-onde devia de estar a alcova.
-
-Posto que a gentil visinha não fosse exactamente a linda Beatriz, o
-morgado de Fayões sentia-se apaixonado d’ella, e radioso de jubilo.
-
-Esperava-o o almoço, foi para a mesa, e lembrou-se das palavras de
-Nicoláo de Mesquita: «coração a um lado; estomago a outro». Almoçou
-como almoça toda a gente que se levanta feliz, e como os infelizes que
-não jantaram no dia anterior.
-
---Não saias, disse elle ao criado.
-
-Ao meio dia, voltou Beatriz á janella: vestira-se a primor de graça
-e simplicidade. Os caracoes ondeavam-lhe nas espaduas estremecidas
-pela viração do mar. As rosas encarnaram-se nas faces. Os labios
-coloriram-se dos reflexos do rosto. A prima Beatriz estava passando por
-mais milagrosa transformação que a primeira.
-
-Assim que viu Raphael, retraiu-se ao meio da saleta, e fez-lhe um gesto
-de espanto e uma pergunta por acenos. O primo respondeu, mostrando-lhe
-uma carta, e chamando ao seu lado o criado conhecido de Beatriz.
-Ella mostrou irresolução temerosa, e o criado, brevemente instruido,
-atravessou a rua e subiu ao terceiro andar do hotel.
-
-A esposa de Nicoláo chamou a ama á janella, e disse-lhe:
-
---Entretém o menino com o papagaio.
-
-Depois foi ao mainel da escada correspondente ao terceiro andar,
-recebeu a carta, e disse ao criado:
-
---Ámanhã á mesma hora, respondo. O primo que tenha muita cautella... Eu
-não volto hoje á janella, senão á tarde.
-
-Raphael desceu as vidraças e cortinas. Mandou comprar os ultimos
-romances francezes, e saboreou as horas na leitura e na meditação, com
-intervallos de espionagem.
-
-Viu de uma vez Nicoláo de Mesquita passeando na saleta, e gesticulando
-com os braços desabridamente.
-
-Era um dialogo violento com sua mulher...
-
-Assim que entrou fez reparo no ataviamento de Beatriz, e disse:
-
---Maravilha! Desde que estás em Lisboa, é a primeira vez que te vestes
-e penteias com esmero!
-
---Não cuidei que se fazia notar uma coisa tão insignificante, primo!
-objectou ella com amavel sombra.
-
---Pois não! Nem pallida, nem quebrantada, um ar de excellente saude!
-
---Parece que folgavas com vêr-me pallida! Estarás chorando a esperança
-perdida de me veres brevemente morta?
-
---Pelo contrario... respondeu ironico, folgo muito de te vêr tão
-vivedoura...
-
-Um exquisito instincto impelliu á janella Nicoláo de Mesquita, e todas
-as janellas lateraes e fronteiras foram mais ou menos examinadas.
-
-Beatriz entendeu a disfarçada analyse, e, olhando por sobre o hombro
-d’elle, viu hermeticamente fechadas todas as janellas de Raphael.
-
---Tive hoje carta de teu pae, disse o marido, com melhor phisionomia e
-brandura de voz.
-
---Como está elle?
-
---Melhor. Diz que vem a Lisboa.
-
---Oxalá...
-
---Dá-me a noticia do proximo casamento de Raphael com a Angela de Santo
-Aleixo.
-
---Sim?...
-
---É verdade.
-
-Nicoláo fixava de perto o semblante da prima, e satisfactoriamente
-observava a quietação e a côr inalteravel da indifferença.
-
---Raphael, continuou elle, foi a Pariz comprar as prendas do casamento.
-
---Deve trazer-lhe coisas lindissimas! observou Beatriz com um sorriso
-frivolo.
-
---Vou jurar que elle não volta cá tão cedo. Pariz é o engodo, e o
-tonico das almas estragadas. Quando elle achar o deleite que tem em
-si aquelle bello inferno de Pariz, esquece a morgada de Santo Aleixo,
-e acha em cada franceza feia uma mulher superior ás mais formosas de
-Portugal.
-
-Beatriz magoou-se; não se magoaria, antes de lêr a carta de Raphael, em
-que elle, indelicadamente, contava as scenas occorridas com Margarida
-Froment, antes e depois do casamento de Nicoláo.
-
-O despeito respirou estas imprudentes expressões:
-
---Bem sei; as francezas são muito amaveis; mas é triste que os amantes
-das francezas sacrifiquem as mulheres que nasceram e viveram felizes e
-amadas em Portugal.
-
---Que quer dizer isso, prima? interrogou elle, avincando a fronte.
-
---A consciencia que te responda.
-
---Como sabes tu que...?
-
-Susteve-se, e murmurou com retrincado sorriso:
-
---Bem sei... bem sei... O infame havia de preparar o terreno... Faremos
-contas mais tarde...
-
---Que contas? atalhou Beatriz, fingindo-se ultrajada pela suspeita.
-
---As contas que se liquidam com os traidores!
-
---E tu já as deste, primo? não deves nada?
-
---Abstenha-se de interrogar-me, senhora! A perfidia... não ousa tanto.
-Abaixa a cabeça, e cala-se! Entendeu?
-
---A perfidia!... teimou ella com azedume. A perfidia!... sempre a
-palavra injuriosa!... As perfidias despresam-se, primo Nicoláo! Eu
-tenho o patrimonio de minha mãe com que posso viver. Quando quizer
-separemo-nos!
-
---Póde ser... concluiu o marido, saindo da sala.
-
-Ao fim da tarde, Raphael escassamente divisou atravez da vidraça
-Beatriz, que lhe fizera signal de não abrir a janella.
-
-O amor subtilisara-lhe a esperteza. Desconfiou que Nicoláo, alvorotado
-pelo esmerado trajar d’aquelle dia, de qualquer angulo da rua a estaria
-espionando. A suspeita era acertada. O criado de Raphael vira o morgado
-da Palmeira, encoberto pelos cunhaes das casas esquinadas, a espreitar
-as janellas do hotel.
-
-Á noite, Raphael Garção foi encerrar-se no seu quarto do _hotel de
-Italia_, onde era conhecido pelo nome do seu criado, que tirára
-passaporte em Hespanha. Raras vezes um espirito leviano prevê tão
-miudamente as superveniencias nocivas ao bom exito de uma empreza! Cada
-Fausto acareia as simpathias de um diabo invisivel, que o aconselha,
-até á hora definitiva em que lhe toma conta da alma, se é que uma alma,
-infernada por mulheres, póde servir de pasto aos griphos das alimarias
-do reino escuro.
-
-Encontrou Raphael o primo Almeida, que o esperava sobremodo attribulado.
-
---Que tens tu? perguntou o de Fayões. Foi a franceza que te deu tratos
-de polé! Aposto!
-
---Coisa peior.
-
---Fugiu-te?!
-
---Não: surprehendi na algibeira d’um criado uma carta para ella
-do Mesquita. Facilmente se conhece que Margarida o auctorisou a
-escrever-lhe, respondendo á primeira que recebeu. Apresentei a carta
-á franceza, e ella, a infame, leu-a placidamente, e disse: «Sem
-contradicção, esta carta é para mim.»
-
---E tu mataste-a?
-
---Zombas com a suprema desgraça, Raphael?
-
---Não: congratulo-me com a suprema felicidade! Despediste-a?
-
---Não... foi ella quem se despediu.
-
---Oiro sobre azul. Então já lá vae!...
-
---Teria ido, se me não dissesse isto: «Sou culpada; mas criminosa, não.
-Respondi a um desventurado, que está pagando as dôres que eu recebo das
-tuas mãos!»
-
---Oh! acudiu Raphael com afflicção, que atrocissima lembrança!
-Disseste-lhe que eu amava Beatriz!
-
---Não.
-
---Por tua honra?
-
---Por minha honra.
-
---Estava perdida a minha pobre prima! A franceza, por vingança ou por
-interesse, accusava a mulher ao Mesquita... Seria uma fatalidade!...
-
---Socega, que eu não lhe fallei em Nicoláo: era de interesse meu
-occultar os dissabores do homem que ella ainda ama. O que Margarida não
-póde perdoar é ser elle feliz.
-
---O caso é que ella ficou...--volveu Raphael.
-
---Pedi-lhe eu que ficasse, emquanto o coração a não impellisse a outro
-homem.
-
---E ella ficou? Não sei qual dos dois é mais admiravel! Vocês devem
-ter um pelo outro a maior desconsideração!... Está claro que te não
-podes arrancar da mulher...
-
---Eu não sei o que está claro.--disse Ricardo de Almeida.--Escura sei
-eu que está a minha alma como as trevas dos condemnados. Eu saí de casa
-allucinado, e procurei-te para te contar a minha deliberação: como te
-não encontrei, nem te quiz procurar na rua dos Romulares, desisti do
-teu parecer, e mandei desafiar Nicoláo de Mesquita. Ámanhã ás onze
-horas é procurado pelos padrinhos.
-
---Então é certo que endoudeceste?--exclamou Raphael Garção.--Em
-primeiro logar, a mulher por quem te bates, se o duello fosse uma coisa
-elevada e seria, baixava-o á infima irrisão. Em segundo logar, Nicoláo
-de Mesquita não se bate, e humilha-te, respondendo que as Margaridas
-Froments tão sómente merecem paladinos, que se desafiem a vêr quem
-gasta mais com ellas. Em terceiro logar, quando te batesses... Que
-armas jogas? Ha dois annos não jogavas nenhuma...
-
---Nem hoje.
-
---Pois então, Deus haja misericordia da tua alma, porque Nicoláo de
-Mesquita é professor em todas as armas, sem excepção de côr ou feitio!
-Ahi vaes tu offerecer o peito ao estoque ou á bala, tu, Ricardo de
-Almeida, um rapaz de futuro, um dos mais estimaveis e nobres moços
-da provincia! E assim te deixas morrer irrisoriamente por amor ou
-desprezo--não sei o que é--de uma mulher despejada, que te abandonou!
-Abre a tua alma a um raio de luz, desgraçado! Crava as proprias
-unhas no coração ou na cabeça, e arranca de lá essa ignominia, que
-te sacrifica a uma coisa que não póde ser amor!... Tu vaes d’aqui
-procurar os padrinhos, e retirar a proposta. Depois, vens residir
-n’este hotel, e desimpedir a porta de tua casa para que a franceza saia
-livremente sem as angustias da despedida. O dever, a dignidade é isto!
-
---Tenho vergonha de retirar a proposta--replicou Almeida.--Em Lisboa um
-caso d’estes é a perda irreparavel da reputação.
-
---Da valentia!
-
---Da honra.
-
---Então é a honra convencional que te move, já não é o ultraje...
-
---É tudo. Não desisto... Emquanto a morrer, sinceramente, com todas as
-veras de minha alma te digo que me não importa. Antecipo um acabar mais
-obscuro... porque eu, em me vendo pobre, já te disse que me suicido...
-Além de pobre, desprezado d’esta mulher, que nem o coração me deixou...
-
---Tens ainda um grande coração, porque podes chorar, meu rico
-Ricardo--atalhou Raphael abraçando-o.--De hoje em deante és meu irmão!
-Hei de disputar-te ao diabo e vencerei!
-
-
-
-
-XVI
-
-
-Ás onze horas do dia immediato, um criado do hotel apresentou a Nicoláo
-de Mesquita dois bilhetes de uns sujeitos que esperavam na sala. Eram
-nomes de tomo na velha fidalguia d’estes reinos.
-
-Desceu o morgado da Palmeira á sala. Um dos cavalheiros com a graça
-amavel e affectuosa de quem vae convidar um amigo para um alegre
-festim, disse que elle e o seu amigo D. Fulano de tal haviam sido
-encarregados pelo primo Ricardo de Almeida de fazerem expressa ao
-excellentissimo Nicoláo de Mesquita, cavalheiro que elles propoentes
-conheciam de nome, e de mui illustre parentella em Lisboa, a sua
-resolução de pleitear com as armas no campo da honra o direito de
-repellir uma affronta.
-
---Affronta, ajuntou Mesquita, que vossas excellencias terão a bondade
-summa de nomear.
-
---Cartas escriptas a uma dama, que vive em companhia do cavalheiro
-offendido, madame Margarida Froment.
-
---A dama de que se trata, disse o morgado, é uma mulher que eu
-sustentava minha amante, estabelecida em residencia minha no Porto, no
-dia 26 de outubro de 1839, ás tres horas da tarde; e ás quatro horas,
-pouco mais ou menos, d’esse dia, e anno, o senhor Ricardo de Almeida
-senhoreou-se d’ella. Qual dos dois entendem vossas excellencias que foi
-o affrontado?
-
---Não viemos munidos de instrucções para responder a vossa excellencia.
-
---Instruidos vossas excellencias, recebo as suas ordens, pedindo
-licença para observar-lhes que tenho em minha companhia minha mulher,
-e o local é inconveniente para o proseguimento d’estas negociações.
-Vossas excellencias consentirão que os cavalheiros, chamados a
-representarem-me n’esta indiscreta pendencia, se encontrem em logar
-designado por vossas excellencias.
-
-Reunidos os quatro agentes, dois nomeados por Nicoláo, em casa de um
-d’elles, saiu D. Fulano a colher instrucções de Ricardo de Almeida, e
-voltou confirmando o declarado por Nicoláo de Mesquita, com pequenas
-variantes, que não alteravam a substancia. Em consequencia do que,
-lavrou-se acta com os seguintes considerandos:
-
-«Os abaixo assignados, incumbidos de accordarem mutuamente na
-deliberação a tomar sobre um conflicto de honra entre o senhor Ricardo
-de Almeida e Noronha Valladares Riba-fria de Aguiar Falcão Athayde,
-morgado do Pontido, e o senhor Nicoláo de Mesquita Sotto-mayor
-Sepulveda Cão e Aboim da Nobrega e Neiva, Morgado da Palmeira do Vidago;
-
-«Considerando que a franceza Margarida, actualmente, e desde 1839,
-contubernal de Ricardo de Almeida, era considerada em dominio de
-Nicoláo de Mesquita, ao tempo em que foi requestada pelo segundo dos
-citados cavalheiros possuidores;
-
-«Considerando que Nicoláo de Mesquita foi o primeiro ferido no seu
-coração, ou no seu amor proprio, termos equivalentes na questão
-subjeita;
-
-«Considerando que o primeiro affrontado entendeu acertadamente que os
-pleitos de honra são objectos sacratissimos em que as leviandades de
-uma mulher desdoirada não devem preponderar;
-
-«Considerando que Margarida, _ipso facto_, se havia constituido materia
-_primi capientis_[3], e desde logo coisa apropriavel sem desaire de
-quem quer que fosse, nem titulo de propriedade valido;
-
-«Considerando que Nicoláo de Mesquita havia dado o exemplo de cordura
-e desprendimento quando lhe foi extorquido um dominio, que elle
-voltava a requestar, sem offensa de Ricardo de Almeida, nem das leis
-consuetudinarias;
-
-«Considerando que a unica pessoa presumivel de offendida seria
-Margarida, offensa que não se deu, por ella mesma affoitamente se
-gloriar de ser a pessoa a quem endereçava a carta, o corpo de delicto
-na questão litigada;
-
-«Considerando, finalmente, que a dignidade de dois cavalheiros não deve
-baixar a contender sobre materia que nunca se pode provar honrosamente
-discutida;
-
-«Os abaixo assignados resolveram que não ha offensa, nem leve desdouro,
-cuja desaffronta nobilite as armas nas mãos dos cavalheiros, de quem
-receberam authoridade para esta ou outra deliberação.--Lisboa, e casa
-de D. João d’Ornellas Themudo, 20 de junho de 1842.»
-
-Seguem as assignaturas.
-
-Ricardo de Almeida recebeu a copia d’esta coisa e gemeu surdamente
-angustiado pela humilhação, que aviltava a mulher dos seus sacrificios.
-Ponderou na crueza e alarvaria de certas palavras escusaveis na
-formalidade da acta: os padrinhos offenderam-se do reparo, sairam
-abespinhados, e consultaram os reinicolas em duellos sobre se deviam
-desafial-o.
-
-Nicoláo de Mesquita riu dos considerandos, como fórma e como
-substancia; achou-os magnificos de ironias e patuscada; agradeceu
-infinitamente os serviços dos seus bons amigos; os quaes, azoados com o
-riso equivoco do Mesquita, por um cabello que o não desafiaram tambem.
-
-Os cavalheiros signatarios por parte de Ricardo, bem que lhe
-desculpassem a defeza de Margarida e o tratassem com deferencia e
-amizade em publico, não voltaram mais a casa d’elle, onde jantavam e
-passavam d’antes as noites com frequencia. Motivaram este procedimento,
-allegando que se achavam mal com Margarida Froment nas salas de um
-amigo. Os sabedores d’este acume de pundonor imitaram os praxistas da
-elegancia e dos brios: ninguem volveu ao palacete de Andaluz.
-
-Queixou-se Ricardo ao primo Raphael dos briosos devassos; e o de Fayões
-invectivou contra os considerandos, lamentando não poder sahir a
-publico e desafiar, um a um, ou todos quatro de pancada, os signatarios
-da indecorosa acta. E d’aqui passou a lastimar Margarida Froment, com
-uns termos tão compungidos, que propriamente Ricardo se espantava do
-reviramento.
-
-A mudança era racional. Raphael era mais meditativo que o commum dos
-homens das suas manhas e costumes. Cogitara elle que se a franceza,
-embora estranha ao seu amor á prima, se reconciliasse com Nicoláo,
-facilmente lhe diria que Raphael Garção lhe fôra apresentado por
-Almeida. Assaltado por tal medo, cuidou em dominar egoistamente o fraco
-espirito de Ricardo, persuadindo-o a sair com ella de Lisboa para o
-Porto, ou para o estrangeiro, em ordem a que Nicoláo de Mesquita não
-lograsse a vingança desde muito planeada.
-
-O morgado do Pontido, obtemperado muito á vaidade, e já pouquissimo
-ao amor, conveio em retirar-se á sua casa da Foz no Porto, e differir
-opportunamente a desligar-se de Margarida, cujo descredito o enojava.
-Deploravel orgulho de homem, que julga purificar com a sua estimação a
-mulher empéstada no conceito dos outros!
-
-Propoz elle á franceza a saída para o Porto.
-
---Não vou--respondeu ella firme e rapida.--O desprezo dos teus amigos
-não me afugenta de Lisboa; o mais que pode é afugentar-me de tua casa.
-
---Desprezo os meus amigos--replicou Ricardo. Vamos... porque...
-
---Porque vamos?--acudiu Margarida ás suspensivas reticencias.
-
---Porque desconfio da tua lealdade.
-
---Aqui?... Porque has de ter mais confiança lá?...
-
---Confessas, pois...
-
---Confesso que te sou pesada, e que me pesa de o ser. Eu surprehendi
-muitas vezes o teu espirito, e resignei-me. Esperei que elle fallasse:
-foi teu primo que te ensinou a eloquencia do tedio. Morri desde logo
-para ti, porque tudo esmaguei na minha queda, mesmo o meu orgulho, esta
-luz do ceu ou do inferno que nunca deixa escurecer a dignidade das
-peccadoras apedrejadas, que não encontram Jesus. Os teus amigos sabiam
-que impunemente podiam offerecer aos teus olhos um libello injurioso
-que tu deixaste mal guardado para que eu me podesse vêr n’aquelle
-espelho, e admirar a continuação da tua generosidade em baixar até
-ao esterquilinio onde me atiraram. Convenci-me de que sou a mulher
-descripta n’este papel em que a minha baixeza corre parelhas com a tua.
-É impraticavel a nossa convivencia. Reciprocamente nos desprezamos,
-Ricardo.
-
---Queres, portanto, dizer...
-
---Que nos desliguemos.
-
---Por que voltas aos amores antigos?
-
---Não te dou contas das minhas tenções: bem sabes que ha dois annos e
-meio as não dei a Nicoláo de Mesquita.
-
---O que me espanta é que vivesses dois annos commigo!...
-
---Por que te espanta?
-
---Precisamente ninguem te inquietou... disse elle afiando o sarcasmo
-com o riso.
-
---Espera!
-
-Margarida abriu uma papeleira, e tirou de um falso alguns massetes de
-cartas, que desatou, e derramou sobre a jardineira.
-
---Lê as cartas recebidas em Lisboa pela mulher, que ninguem inquietava.
-Ahi reconhecerás a lettra dos teus principaes amigos. Ahi estão cartas
-dos signatarios da acta do duello, que se não fez porque Margarida
-_é coisa apropriavel, sem titulo de propriedade valida_. Vae agora
-perguntar a cada um dos teus amigos se possue carta da Margarida.
-São grandes fidalgos, e alguns--especialmente os que não te pediam
-dinheiro--são ricos e prodigos. Vae perguntar-lhes se a mulher, _a
-materia que nunca se póde provar honrosamente discutida_, baixou até
-elles, quando lhe rastejavam os pés, acceitando o desprezo, com a mesma
-abjecção com que traiam o amigo. Vae...
-
---Basta!--Exclamou Ricardo, engriphando os dedos nos punhados de
-cartas, que atirou ao pavimento.--Basta, Margarida, que eu estou
-expiando infernalmente crimes que não pratiquei! Segue-me, segue-me por
-piedade, e fujamos de Lisboa, senão fizeste de mim um assassino!
-
---Por minha causa não o serás, Ricardo. Attende-me bem: estas coisas
-são providenciaes. Eu sou escrava de um impulso sobrenatural. Não sei
-quem me leva nem onde vou. Ha oito dias que eu desprezava Nicoláo de
-Mesquita...
-
---E hoje?...--atalhou com ancias Ricardo.
-
---Hoje... nenhum de nós sabe que fatal magnetismo nos arremessa um
-contra o outro, como dois ebrios que se despedaçam a rir...
-
---Pois tu vaes para Nicoláo?!
-
---Não sei para onde vou.
-
---Sabes que elle é casado...
-
---Sei: que me importa a mim saber o que elle é? Casada era eu, e feliz,
-e rica e abençoada de todas as esposas e de todas as mães!...
-
---Que perdição a tua, que estrella, santo Deus! Exclamou em lagrimas
-Ricardo.
-
---Compadeces-te? Que faria... se visses a minha alma!...--soluçou
-Margarida.
-
---Oh! mas não vás que eu amo-te!
-
---Não mintas... Deus quer que d’aqui a uma hora me desprezes. Tu
-amaste-me sem saber por que: hoje odeias-me, sem poder justificar o
-teu odio. A carta de Nicoláo? Não pode ser! Que viste n’esta carta?
-Um homem que dizia: «A tua compaixão suavisou a minha dôr. Não me
-abomines, não peças a Deus o meu castigo, que eu já sinto na garganta
-a mão vingadora de teu marido!» O restante da carta que era? lagrimas,
-supplicas, reminiscencias do tempo em que me vira presada da sociedade,
-e pura como elle já não vê sua mulher. Podeste abominar-me tu, e
-tolerar que os teus ignobeis amigos me insultem por causa de similhante
-carta? Oh! se elles tiverem irmãs, ou esposas, alguma hora lhes passará
-no espirito a imagem de Margarida Froment, que não pode delir com
-lagrimas o appellido de seu esposo!
-
---Não vês que choro e que te amo, Margarida!--clamava de mãos postas
-Ricardo, inclinado aos joelhos d’ella.
-
---Dignidade, meu amigo! disse ella, erguendo-o.--Dou-te este nome com
-a sinceridade e honestidade de uma santa. Acceita-o que não pódes ser
-mais nada para mim.
-
-E saiu da presença de Ricardo. Elle seguiu-a a brados dilacerantes, e
-ella acolheu-o nos braços, murmurando:
-
---Ouve-me, meu amigo. Eu pensei hontem em suicidar-me. Se hoje não
-visse o papel assignado por quatro miseraveis estaria morta a esta
-hora. Salvou-me aquella ignominia, Deus sabe para quantas mais atrozes.
-Nicoláo de Mesquita, n’este momento, sabe que eu vou pertencer-lhe...
-
---Infame!--exclamou Ricardo arrancando-se-lhe dos braços.--Que infame
-és tu, mulher sem pejo, que te vaes vender ao homem que te abandonou!
-
---Vender não, meu amigo--atalhou ella com a brandura de um sorriso sem
-nome nas expressões variadas da agonia.--Eu não me vendo: compro o
-direito de me espedaçar lentamente.
-
---Não te entendo, miseravel!--rebramiu Ricardo com os punhos cerrados,
-e os braços ameaçadores.
-
---Espero que me não insultes como um homem vil!--disse Margarida,
-retraindo a face aos punhos convulsos do allucinado.
-
-Ricardo caiu na tormentosa consciencia da sua indignidade, e fugiu da
-vista da franceza, que soluçava como na ultima entrevista com Nicoláo,
-na estalagem de Villa Pouca.
-
-No esplendido salão do seu palacete, Ricardo examinava um par de
-pistollas, e substituia por outros os fulminantes oxidados.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[3] Aos redactores da acta, modelo de continencia da linguagem no
-genero, agradecemos o latim, sem o qual a não poderiamos trasladar na
-integra.
-
- O AUTHOR.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Ás dez horas da noite d’esse dia, Ricardo de Almeida fez pavor a
-Raphael Garção, quando lhe entrou no quarto, no _hotel de Italia_,
-tartamudeando offegante umas phrases sem tino, cortadas por soluços.
-
-Atirou-se aos braços do primo com desalento mulheril, e chorou mais
-copiosamente do que a razão critica das senhoras viris concede que
-chore um homem.
-
-Com espaçosas intercadencias de anciado silencio, contou Ricardo o
-violento dialogo com Margarida. O morgado de Fayões escutou-o com o
-desprazer que incutem as debilidades do coração alheio aos homens de
-rija tempera, e disse:
-
---Eu repito as palavras de Margarida: «agora dignidade, Ricardo.» Sae
-de Lisboa. Não te aconselho que busques diversões ao espirito no
-grande mundo, nem aqui nem n’outra parte. Os homens da tua convivencia
-devem ser odiosos em Lisboa: os infames foram elles; mas o ridiculo és
-tu. Fóra de Lisboa tambem te aconselho que desistas de distracções,
-que as não encontrarás. Nas salas ha alegrias, o mais afiado golpe que
-te póde atirar a indifferença. Vae para a tua aldeia, concentra-te,
-padece, esquece á força de ninguem te suscitar reminiscencias d’ella.
-Isto é duro de ouvir-se; mas quem te prometter outras consolações,
-engana-te primo. Dignidade sobretudo. Eu amava Beatriz com a paixão
-de homem de minha indole, que seis mezes se esconde a devorar-se na
-duvida, e a purificar-se para merecel-a. Ao fim de seis mezes, Beatriz
-desenganou-me. Invoquei o meu dever! e antes de trinta dias, estava
-distrahido, não te direi honestamente, mas estava curado da ferida, que
-já não podia sangrar, sem desdouro da minha consciencia... Nota lá,
-primo Ricardo que a nossa provincia está recamada de bonitas mulheres,
-portuguezas de lei, materia excellente com o espirito necessario.
-Lembro-te o que já te disse, respeito ao desfalque de tua casa, ao
-infortunio de não ter nenhuma, e á tua inhabilidade para recuperares o
-grande patrimonio sacrificado. Se resistes ás admoestações, que te faz
-um doido no seu lucido intervallo, maldigo a hora em que me intrometti
-nas coisas da tua vida.
-
-Ricardo parecia attendel-o com uma fixidez de olhar espavorido: é
-provavel que o não ouvisse. N’este comenos, entrou no quarto o criado
-de Raphael, alvoroçadamente.
-
---Que tens?!--perguntou o amo.
-
---Acaba de entrar na hospedaria o senhor Nicoláo.
-
-Raphael ergueu-se, relanceando a vista ás pistolas.
-
---Entrou com elle uma senhora--continuou o criado.
-
-Ergueu-se Ricardo de salto, exclamando:
-
---É ella!... é Margarida!
-
---Eu estava no quarto do porteiro--continuou o criado--quando elles
-saltaram de uma sége. Poucos minutos antes, tinham chegado uns gallegos
-carregados de malas, e disseram que as mandava um senhor, que ás quatro
-horas tinha falado com o dono da hospedaria. Eu escondi-me assim que
-o conheci, e dei tino de que a mulher, que entrou com elle, falava
-estrangeiro.
-
-Ricardo fez um salto arrebatado á porta. Raphael reteve-o, exclamando:
-
---Alto ahi, mentecapto! Que vaes fazer?
-
---Apunhalal-os.
-
---É justo; mas manda saber primeiro o numero do quarto em que os has
-de matar--replicou o de Fayões com agastada ironia.--Se não tivesse
-compaixão de ti, despresava-te, Ricardo!
-
-E, voltando ao criado, mandou-o observar o que podesse.
-
---Vamos sair ambos--tornou elle ao primo, que arquejava prostrado no
-sophá.--D’aqui a pouco, o Mesquita sabe que estou em Lisboa, se o não
-sabe já. Pobre Beatriz! Calcula a minha afflicção, Ricardo! Trata-se
-da honra e talvez da vida d’aquelle anjo... e, todavia, olha se me vês
-mudar de côr! Que miseraveis somos! Attraimos o raio da desgraça, e
-choramos como mulheres, assim que ouvimos o trovão! Ergue-te d’ahi,
-coisa, que pareces homem! Vaes comigo para outro hotel?
-
---Irei.
-
---E brevemente iremos para a provincia, que Beatriz não se demora em
-Lisboa, ou é fechada em algum convento.
-
-Pouco depois, voltou o criado, informando que Nicoláo tomara o segundo
-andar do hotel, e que os criados andavam a mudar a bagagem dos hospedes
-para o primeiro, e a trastejar ricamente os quartos. Accrescentou que a
-estrangeira era franceza, segundo ouvira dizer, e se chamava Margarida,
-porque elle mesmo espreitára e ouvíra o senhor morgado da Palmeira
-chamal-a assim.
-
-Ricardo escutava-o com o ar estupido de um surdo-mudo.
-
---Fecha as minhas malas, ordenou Raphael. Queres tu, Ricardo? Vamos
-para tua casa. Vou ser teu hospede! Tens tu champagne, ou absyntho,
-ou a demencia engarrafada em casa? Vamo-nos embriagar, e depois
-reflectiremos. Se entramos com a razão n’este labyrintho, estamos
-perdidos. Valeu?
-
---Vamos, disse Ricardo.
-
---Conduz as bagagens ao largo de Andaluz, tornou Raphael ao criado.
-Os gallegos que te guiem. Paga a conta no hotel, e voltarás depois a
-saber, com disfarce, se o sr. Mesquita se demorou, ou pernoitou aqui.
-
-Sairam cautelosamente, e mandaram parar a sége perto da casa de
-Ricardo. Informou-se o morgado com os criados. Margarida Froment, ao
-escurecer, fechára os seus bahus, e mandára entregal-os a gallegos. Ás
-nove horas e meia, parára uma carruagem particular com libré defronte
-do palacete, e o guarda portão vira, á claridade das lanternas, que
-estava dentro um homem embuçado fumando. Margarida saiu, sem dar
-palavra aos criados, e saltou ao estribo.
-
-Depois ouviram-n’a dar um ai já dentro, quando se fechava a portinhola
-da carruagem que despediu á desfilada.
-
---Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr
-escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores
-vinhos! ordem ao escanção!
-
-Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os
-licores mais excitantes.
-
-Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e
-cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O
-de Fayões exclamava:
-
---Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não
-seja vinho!
-
-Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia,
-e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados
-transportaram-n’o ao leito.
-
-A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação,
-de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no
-peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A
-cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége estava
-ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta do _hotel de Italia_.
-Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo ainda
-estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para chegar á
-uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo. Apeou.
-Entrou no pateo do _hotel francez_. Subiu ao terceiro andar. Abriu a
-porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu marido. Raphael
-entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era a primeira vez
-que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos braços; e elle
-abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam lume.
-
---Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás
-mãos d’elle!--murmurou abafada Beatriz.
-
---Nicoláo vem á uma hora.
-
---Por que o sabes? onde está elle?
-
---Com Margarida, no hotel em que eu morava.
-
---Com a franceza!...--exclamou ella espavorida.
-
---Sim!... com a franceza, que ha duas horas tirou de casa de Ricardo...
-Abençoado crime, que me restitue a tua alma inteira! Era o destino!...
-Eras minha, anjo da infancia! As penas do infinito inferno para a minha
-alma, se eu deixar de amar-te n’este mundo e no outro... Olha como é
-bella a nossa vida!... Oh! tu não endoudeces de prazer, Beatriz?...
-
---Ó Raphael!... tu atterras-me!...--clamou ella, afogando-lhe no peito
-as altas aspirações, que saiam gementes.--É possivel que eu esteja
-em teus braços, ó meu amor!... Que alegria e que medo eu sinto!...
-Foge, que não vá ser este o primeiro e ultimo instante da minha
-felicidade!... Foge, Raphael!... Oiço chorar o meu filhinho... isto é
-agouro... a creança chama-me... é o anjo que me está accusando...
-
-A eloquencia persuasiva de Raphael contra as appreensões de Beatriz,
-era de todo o ponto nulla em quanto á expressão, mas de seus labios
-mudos resaltavam scintillas, que offuscavam os olhos de Beatriz.
-Fechou-os ella para não vêr o incendio; mas o mixto de lacerante
-peçonha e prazer vertiginoso que lhe escaldou as veias, só havemos de
-comparal-o á infernal deleitação da primeira mulher, que um dia pôde
-dizer: «Caí; mas vinguei-me.»
-
-Decorridos cincoenta e oito minutos, Raphael entrava na sége, a tempo
-que a carruagem de Nicoláo de Mesquita parava á porta do hotel.
-
-O marido de Beatriz entrou com alegre sombra na sala e á esposa que não
-ousava encaral-o, disse:
-
---Estás zangada, filha? tens razão; demorei-me com os primos
-Albuquerques, forçado por etiquetas aborrecidas... Por que te não
-deitaste, priminha?
-
---Não era meu costume...
-
---Pois, sim, mas de hora em deante, quando eu me demorar além das onze
-horas, deita-te, sem susto da minha demora. Alguns amigos conseguiram
-de mim que eu os coadjuvasse n’umas conspirações politicas contra o
-conde de Thomar. É forçoso contribuir para a salvação da patria, quando
-menos tempo nos resta para viver n’ella. Os annos trazem comsigo o amor
-da patria; e por este motivo, póde ser que eu me detenha por fóra,
-extraordinariamente; e desgosta-me muito se me esperares; porque não
-estou por lá descançado. Fazes-me isso, sim, prima?
-
---Pois sim... deitar-me-hei.
-
---Bonita! o menino como tem passado a noite?
-
---Bem.
-
---E tu que fizeste? Lêste?
-
---Li.
-
---Gostas das _Meditações_ de Lamartine?--disse elle, tomando o livro de
-sobre a almofada do canapé.
-
---Muito... São tristes...--respondeu ella.
-
---Qual te fala mais ao coração?
-
---A _Tristeza_.
-
---Bem sei...--acudiu elle, recitando de cór:
-
- De mes jours pâllissans le flambeau se consume,
- Il s’éteint par degrés au souffle du malheur,
- Ou, s’il jette parfois une faible lueur
- C’est quand ton souvenir dans mon sein se rallume.
-
---Mas--proseguiu o morgado--o que ha no teu coração é o _souvenir_ do
-poeta de Elvira.
-
---Ha.
-
---Qual?!...
-
---A recordação do anjo da minha mocidade.
-
---Teu primo?--atalhou irado o marido.
-
---Não... o anjo da minha innocencia.
-
-Nicoláo sorriu-se, compondo o desmancho do rosto, e disse com
-maviosidade:
-
---Queria vêr-te feliz, prima!
-
---Feliz... como tu?
-
-Esta pergunta deu-lhe uma pancada na alma. A reflexão combateu o
-preconceito, e respondeu:
-
---Sim, feliz como eu, que te adoro, e te perdôo as maguas todas com que
-por vezes perturbas a immensa felicidade de te haver merecido...
-
---São quasi duas horas...--observou Beatriz, depois de uma longa
-expansão de termos affectuosos do marido.
-
---Queres dormir, prima?
-
---Se eu podesse... doe-me tanto a cabeça!...
-
---Pois sim, vae, meu amor: eu espertei com o muito café que bebi,
-e aproveito a vigilia para ir escrever aos feitores. Vou alugar um
-palacete onde o encontrar. Aqui estamos incommodados com a pequena
-casa, e a bulha da rua. Gostas de ficar em Lisboa alguns mezes?
-
---É-me indifferente.
-
---Dizem que teremos bello theatro lyrico. Tomarei um camarote de
-assignatura. As primas Camaras e as primas Mesquitas irão comtigo,
-quando os embaraços da politica me não deixarem... Diz-me cá, prima...
-Tu desejarias ser viscondessa do Vidago? Offerece-se-me excellente
-occasião, assim que o ministerio cair. Vê lá, queres?
-
---O que tu quizeres, primo... O que eu agora muito queria era dormir...
-Sinto-me tão desfallecida!...
-
---Pois vae, filha, vae; mas ama-me muito, sim? Vem dar-me um beijo... e
-até ámanhã.
-
-Nicoláo abancou a escrever aos feitores. Eis aqui o specimen de uma das
-cartas aos feitores:
-
- «Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos...
- Abro ao acaso as _Meditações_ de Lamartine, e leio no _Canto d’amor_:
-
- «Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles
- «Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait?
- «..........................................
-
- «Parle-moi!... que ta voix me touche!
- «Chaque parole sur ta bouche
- «Est un écho mélodieux!...
-
- «.......................................................»
-
-Esta carta começa lyrica de mais para um feitor!
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Ricardo de Almeida, quando Raphael entrou, dormitava anciado,
-bracejando, e resmoneando sons desligados. Á cabeceira estava o
-escudeiro, homem de annos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e
-servo dos Almeidas desde a infancia. O velho chorava e dizia a Raphael:
-
---Saberá vossa excellencia que é a primeira vez que vejo assim meu amo
-turvado do juizo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas!
-
---Isto não é desgraça, homem!--contestou Raphael Garção.--As bebedeiras
-são ás vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho?
-
---Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no
-purgatorio; mas a de meu amo, ou eu me engano, ou cae direita no
-inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como
-ao seu santo parente fr. Gil de Santarem. Vossa excellencia sabe a vida
-d’este parente do senhor morgado?
-
---Has de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja
-polvora, e alegra-te, que o fadario de teu amo está a quebrar-se.
-
---Deus o ouça, meu senhor!--disse o velho, e foi á cosinha filtrar
-alegremente o café.
-
-Raphael estirou-se n’uma flacida ottomana, e sentiu-se na mais feliz
-hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho.
-Coordenava as reminiscencias de tres quartos de hora, e convencia-se
-da real existencia da sua fortuna após um arrojo que o coração não
-praticaria sem a escandecencia dos vinhos. Erguia-se de impeto, e
-mirava-se n’um espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o
-invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido
-põe o homem n’estes ridiculos arrôbos de si mesmo.
-
-Chegou a bandeja do café. Raphael fez-se servir reclinado nos coxins, e
-disse:
-
---Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a historia de S. Gil, meu
-maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me
-alguma coisa de Margarida.
-
-Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um
-romperem-se-lhe as fibras da larynge:
-
---Margarida!?
-
---Que é lá?--acudiu Raphael.--Uma chavena de café, primo Ricardo!
-
-O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se, reconheceu-se,
-no aperto da desesperançada angustia, e exclamou:
-
---Que perdição!... que horror me faz a vida!...
-
-O mordomo saiu entalado de suspiros. Raphael deu-lhe a chavena, e
-exortou-o a esperar a boa crise mais rapida que o regular.
-
---A materia bruta de sensibilidade--explicava elle--ha de gastar-se
-mais depressa em ti, que a consomes com maior energia que o vulgar dos
-homens.
-
-Ricardo saltou oscillante do leito, e abriu as janellas do quarto,
-aspirando a tragos a viração da antemanhã.
-
---Estou melhor--disse elle.--Que soubeste de Margarida?
-
---Soube que Nicoláo saiu de lá fixamente á uma hora.
-
---Onde estiveste?... aqui?
-
---Não: estive com a prima Beatriz.
-
---No hotel?
-
---Sim, no hotel.
-
---Como a fortuna te bafeja!--disse com tristeza Ricardo.
-
---A fortuna só desampara os fracos. Devias saber isto do nosso
-Virgilio: os fracos e os tolos, accrescento eu ao illustre poeta. Tu,
-meu amado primo, funestamente acumulas fraqueza...
-
---E tolice--concluiu Ricardo.
-
---Estava eu a procurar um termo com mais euphonia; mas tu o disseste.
-Os dois annos, immolados á franceza, poderás tel-os dourado de faceis e
-doidas alegrias, á mistura com alguns precalsos inevitaveis, dos quaes
-a gente se paga usurariamente com delicias. Olha que n’este mundo ha
-unicamente um estudo sério e digno de vigilias: é salvar a cabeça do
-coração. Na cabeça é que estão os olhos que descortinam o futuro. A
-cabeça é quem vê o primeiro barranco em que é honra saltar, e o segundo
-em que é parvoiçada cair. Certos sujeitos, quando cuidam que o ideal os
-eleva, burrificam-se. Chegada a occasião de se destramarem habilmente
-de uma rede, escouceiam, enredam-se mais, e descambam na lama. Felizes
-aquelles que podem, como tu, dizer á desgraça: «Atraz, maldita, que eu
-tenho vinte e cinco annos!» De que bordo estás, Ricardo, que fazes?
-
---Retirar-me ámanhã de Lisboa, ou matal-a.
-
---Sou de voto que te retires. Vae convalescer e volta ao mundo.
-Regenera os teus haveres, e torna a dissipal-os, se o bom anjo da tua
-indole te não apegar á dôce vida que deixaste. Eu preciso d’esta casa,
-mobilada como está, com as carruagens e cavallos.
-
---Tudo ahi te fica--disse Ricardo.
-
---Depois que me disseres o custo de tudo. Convém que saibas que minha
-tia-avó, fallecida ha dois annos, conservára intactos os cofres de
-meu tio-avô, governador do Brazil. Fui seu herdeiro. Achei cento e
-cincoenta mil cruzados em ouro. Gasto estes cabedaes, com a certeza
-de que sou o forçado herdeiro de uma casa que rende quatorze contos
-de réis. Já sabes que se a tua mobilia e trens podem valer dez mil
-cruzados, ou vinte, este dispendio nem levemente altera os meus planos.
-Se me queres obsequiar, crê que me não obsequeias com o emprestimo
-d’estes objectos: incommodas-me.
-
---Como quizeres--conveiu Ricardo.
-
---Agora presumo que o Mesquita não sae tão cedo de Lisboa, a menos que
-Margarida me não denuncie. A vida em hospedarias arrisca a segurança
-das minhas excursões. Sou, portanto, o dono d’isto, e tu és desde agora
-o meu hospede, e bom é que o sejas por pouco, se é que desistes de dar
-o ultimo pregão da tua miseria.
-
-Repontava a estrella d’alva. Raphael mandou atrellar os cavallos, e
-despediu-se, até á noite, de Ricardo. Saiu e recolheu-se á casa da
-rua dos Romulares. Dormiu bem-aventuradamente cinco horas, ergueu-se
-como as innocentes avesinhas em manhã de abril, festivo, illuminado
-de interiores contentamentos, trauteando cançonetas hespanholas. Foi
-espreitar á janella: viu Nicoláo á beira da esposa: elle bem assombrado
-e risonho; ella esmaiada da côr e melancolica. Beatriz entreviu-o
-de um insuspeito lanço de vista. Córou até ás orelhas; alindou-se,
-purpurejou-se quanto pode o pejo de uma recordação, alanceada pelo
-espinho do crime sem remorso.
-
-Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida
-Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se
-não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que ha menos
-santas; mas tambem ha mais quem incense as peccadoras. O inferno
-lucrou, e o ceu creio eu que perdeu quasi nada.
-
-Á uma hora, saiu Nicoláo, e entrou o criado de Raphael com um bilhete
-que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de
-poder verter-lhe no seio lagrimas que o suffocavam. Seguiram-se
-horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das trez da tarde,
-Beatriz parecia desafogada das lagrimas impertinentes: surria,
-tregeitava, inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o
-marido beijando-a carinhoso. Raphael jantou, dormiu, sonhou phantasias
-deleitosas que eram, ainda assim, pallidos arremêdos das alegrias
-verdadeiras.
-
-Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Fayões á casa de Andaluz.
-Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez
-novas exortações á coragem vacillante do primo, incitou-o a gosar-se
-de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas.
-Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois mezes de distancia, havia de
-afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da
-desgraça.
-
-Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu
-mordomo, e d’alli, fechando os olhos a todos os logares despertadores
-de memorias saudosas, passou á sua casa do Pontido.
-
-As tias não sairam a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada
-abalou-as de modo, que desfalleceram abraçadas uma n’outra. Ricardo
-beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo alli prometteram
-erguer um altar na capella da casa consagrada ao seu parente S. Gil.
-
-Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fôra
-ingrata. A Providencia seria injusta, se prolongasse o supplicio
-do homem, que nenhumas dôres causára com o seu desvario. Se déra
-escandalo, os escandalisados escarneciam-n’o e vingavam agora a moral
-publica. Foi por isso que o ceu se abonançou. A solidão restituiu-lhe,
-a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na
-delapidação dos seus bens. Desempenhou os hypothecados, restaurando
-rendas bastantes a um decente passadio.
-
-Padre Ambrosio, o virtuoso egresso, perdoára-lhe o descredito em que
-tinham andado na Foz as suas vestes, roçadas pelas sedas da pactuada
-do inferno. Havia elle sido chamado para Mirandella, onde tinha um
-irmão, chegado do Brazil, com centenares de contos. Foi visitar o
-irmão, e sobrinhas; mas voltou ao Pontido, cuja casa lhe déra, em 1833,
-hospitalidade de parente, e disvelos de familia muito sua. O brazileiro
-foi visitar o irmão, e levou comsigo uma das tres filhas. Ricardo de
-Almeida quiz honrar o irmão de seu mestre, e saiu a recebel-o no pateo,
-e a receber na portinhola da liteira a mão da brazileira. Depois,
-voltou ás suas graves cogitações, aos longos passeios nas montanhas do
-Alvão, ás fadigas da caça, e aos chumbados somnos das noites infinitas
-do inverno.
-
-A brazileira via sorrir aquelle mancebo pallido com a graça dos
-infelizes que não podem queixar-se. Perguntou a D. Sancha o segredo
-d’aquella serena e affavel melancolia. O egresso fez uma narrativa dos
-infortunios do fidalgo, com tanto engenho que não feriu de leve o pudor
-da sobrinha.
-
-Laura, a brazileira, ficou amando o moço triste. Despediu-se d’elle sem
-poder fital-o, e bem-disse a lagrima que a denunciava.
-
-O irmão do padre Ambrosio saiu encantado da lhaneza e cordealidade
-com que fôra acolhido por familia tão illustre. «Se eu fosse fidalgo,
-escrevia elle ao irmão, daria a minha Laura e cem contos de réis a esse
-bello moço, que me captivou, e fez para sempre triste a minha filha.
-Alguns meus amigos e companheiros de trabalho e fortuna teem comprado
-a fidalguia para hombrearem com as raças nobres; mas eu tenho sido o
-primeiro a rir d’elles, e serei o ultimo a comprar nobreza, quando
-todos formos nobres, o que vem a succeder, se não houver diluvio por
-estes vinte annos. Não digas isto ao teu discipulo, que não vá elle
-afugentar á minha custa a sua tristeza. A tanto não me sacrifico eu,
-nem a nossa Laura quer que a sacrifique.»
-
-Uma carta de Ricardo a Raphael, dois mezes depois, desenvolve e remata
-o episodio, necessario ao contexto d’estas biographias. Dizia assim:
-
- «É constante ainda o boato da tua residencia em Paris. As damas de
- Chaves esperam as encommendas. Teus paes soffrem com a falta das tuas
- noticias. Apenas receberam a carta, que mandaste lançar á caixa em
- Pariz. A Angela de Santo Aleixo, para que ninguem possa duvidar de
- que tu vens casar com ella, casou antes de hontem com o morgado das
- Boticas.
-
- «O tio Martinho Xavier já desconfiou da lealdade do teu passaporte
- para França. Desconfia tambem tu da espionagem d’elle em Lisboa.
-
- «Eu não dou nada pela duração da tua felicidade. Já de cá te imaginei
- enfastiado. A mim dizias-me tu assombrado: «Dois annos a mesma
- mulher!» Eu digo-te sem assombro, por que te conheço: «Dois mezes o
- mesmo anjo!»
-
- «Agora, se queres, fallar-te-hei de mim. Caso. A historia da
- felicidade é uma palavra só. Não caso com prima nenhuma. É a filha de
- um homem que enriqueceu a trabalhar. Saiu de Mirandella com um chapéo
- braguez e uma véstia de cotim. Entrou em Mirandella com quatrocentos
- contos, e trez filhas, e a jaqueta e o chapéo, que ainda mostra aos
- duvidosos da sua origem.
-
- «Laura é brazileira, é galante, faz dezoito annos, escreveu-me com
- pouco esmero de grammatica, e incluia as cartas abertas nas do pae.
- Agora está em nossa casa, e minhas tias amam-n’a. Eu estimo-a, e creio
- que virei a amal-a. Sei que se affligem os nossos parentes com este
- alcance. Se meu avô Duarte de Almeida não morresse mutilado de mãos
- e dentes, a opinião de nossos primos é que elle viria estrangular-me
- e morder-me. Estes primos compraram-me as quintas ao desbarato, e
- promettem revender-m’as pelo duplo. Pedirei a meu avô Duarte de
- Almeida que os sove a ponta-pés, visto que não pode dispôr das mãos,
- assim como tu dispões do teu irmão agradecido, Ricardo.»
-
-Raphael Garção, lida esta carta, ponderou, e disse entre si: «Parece-me
-que Ricardo é mais feliz do que eu!»
-
-E, com intervallo de um soliloquio mental, fallou com o seu demonio, e
-disse-lhe: «É crivel que eu esteja enfastiado de Beatriz?!»
-
---Pois não é?!--respondeu o demonio.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Raphael Garção enfastiado de Beatriz!...--Castigo do ceu!--Dispensemos
-a intervenção do ceu nas baixezas que o não exaltam. Temos cá em
-baixo a comesinha e espalmada explicação de tudo que é feio, triste e
-nauseativo.
-
-Enfastiou-se Raphael Garção por sete razões:
-
-1.ᵃ Ninguem o estorvava de ir vêr sua prima duas horas de cada noite,
-regularmente.
-
-2.ᵃ As horas do dia, passadas na sua residencia clandestina da rua dos
-Romulares, começaram a parecer-lhe longas, e a casa mal arejada, e os
-visinhos do quarto andar insupportaveis com o strupido do rapazio.
-
-3.ᵃ Beatriz exigía-lhe que elle passasse o dia alli, receiando que
-outra mulher o estorvasse instantaneamente de a vêr a ella.
-
-Observação á rasão terceira: Se Beatriz lhe dissesse que a sua
-assiduidade n’aquella janella punha em risco o segredo, Raphael
-cuidaria que o terceiro andar estava perfumado de caçoulas orientaes; e
-que o tropel dos meninos de cima era um soido das harmonias dos astros.
-
-4.ᵃ razão. As substancias alimenticias chegavam sempre frias e
-derrancadas á rua dos Romulares, por virem do largo do Chafariz de
-Andaluz. Esta razão é vergonhosa!
-
-5.ᵃ Dormia Raphael trez a quatro escassas horas em cada noite, para
-entrar com a aurora na casa fétida. Pesava-lhe a cabeça, a miudo; e,
-á decima quarta noite de visita ao hotel, se se descuida, bocejava na
-presença de sua prima.
-
-6.ᵃ Era curiosissimo de touros e côrtes, e não podia ir ao curro nem ao
-parlamento.
-
-7.ᵃ Queria conversar, queria gente, queria dar jantares, e fazer
-brindes mysteriosos a Beatriz; mas o relacionar-se era victimar a sua
-felicidade ás suspeitas de Nicoláo de Mesquita.
-
-Estas razões encadearam-se no fim do primeiro mez, e estavam já na
-forja os élos de outras sete, quando Nicoláo de Mesquita alugou e
-mobilou um palacete no largo de S. Sebastião da Pedreira.
-
-Raphael melhorou de vida. Livrou-se do terceiro andar. Dormia nove
-horas. Comia o seu jantar em bom estado. Além d’isto, morava perto de
-Beatriz, e saia de noite a beber bons ares pela estrada de Palhavã até
-ao Campo Grande.
-
-De mais a mais, Beatriz, perdido o susto, e identificada ao facto
-assustador, em vez de ir passar as noites com suas primas Camaras ou
-Mesquitas, descia pela travessa dos Carros, e volitava da sege de praça
-a uma porta do jardim de seu primo, e ahi se espantava da velocidade
-instantanea das duas horas costumadas.
-
-Isto durou um mez, a beneplacito do coração de Raphael.
-
-Coincide com esta época o conciso dialogo, que elle teve com o seu anjo
-mau no final do anterior capitulo, depois de haver lido a carta de
-Ricardo de Almeida.
-
-O morgado de Fayões ficava em casa, quando sua prima ia ao theatro.
-Não o affligiam ciumes, nem saudades, nem anceios de vel-a sobreluzir
-entre a constellação das estrellas de S. Carlos, as quaes--digamol-o de
-fugida--se não tivessem luz propria, seriam invisiveis á luz da sala.
-
-O que elle queria era ir por si, e não por ella.
-
-Reflexionando comsigo, dizia elle:
-
---O mais aperreado dos tres sou eu. O marido está com Margarida
-Froment, nectarisando a existencia com as delicias da segunda edição do
-seu amor. Beatriz está no theatro a vêr-se formosa na face das outras,
-e a saborear-se nas melodias de Verdi. Eu estou aqui a resolver-me do
-sophá para a poltrona; e, se quizer ao menos vêr o ceu estrellado,
-quando não ha nuvens, hei de bater os dentes de frio por essas ruas,
-onde não conheço viva alma!
-
-O corollario do discurso era algum axioma, dos que elle tinha composto
-para uso do seu primo Ricardo.
-
-Queixou-se uma vez delicadamente d’este sequestro do mundo á prima.
-Beatriz amuou, e doeu-se de não ser bastante a dar-lhe mundos
-encantados de extasis e fontes inexhauriveis de poesia. Desfez-se a
-nevoa, ao calor de um osculo, no breve aguaceiro de mimosas lagrimas.
-Gongorisemos estas lindas coisas do coração.
-
-A despeito, porém, de Beatriz, Raphael deu em ir a S. Carlos, quando
-ella ia, indagando préviamente se o primo Nicoláo passava a noite no
-_hotel de Italia_. Furtava-se ao reconhecimento de rapazes conhecidos
-da universidade, e sumia-se entre a mó de alguns sujeitos gordos, que
-faziam perder a individualidade a todo o homem magro.
-
-Beatriz, guiada pelo coração que lhe fallou aos olhos, apanhou-o, e
-assustou-se; porém, como o visse a contemplal-a, perdoou-lhe.
-
-Assim, pois, melhorou algum tanto mais a vida de Raphael Garção, e
-decorreram dois mezes suavemente, sem variante notavel.
-
-Em março d’aquelle anno de 1843, disse Nicoláo á senhora que precisava
-de ir a Santarem com alguns correligionarios politicos preparar o
-terreno para uma revolução, tendo de demorar-se n’esta diligencia
-forçada trez dias. Beatriz ageitou o rosto a uns ares tristes, e o
-marido licenciou-a, como lenitivo á saudade, a ir passar algum dia a
-casa das primas Camaras, em Bemfica.
-
-Contou ella, exultando, o caso ao primo.
-
---Bella occasião de irmos passar um dia a Cintra!--exclamou Raphael!
-
-Ficaram pactuadas as delicias de Cintra.
-
-Nicoláo despediu-se á tarde da esposa, e foi, senão mentiu, para
-Santarem.
-
-Ao alvorecer toda risos a manhã do outro dia, Beatriz saiu fóra da
-barreira, que lhe ficava á porta, entrou na carruagem de Raphael; e
-elles ahi vão á competencia com o jubilo dos passarinhos, estrada fóra.
-
-Chegaram a Cintra. Parou a carruagem á porta do _Victor_. Raphael
-apeiou-se, foi dentro procurar um quarto alegre e espaçoso com vistas
-sobre os arvoredos das quintas subjacentes.
-
-Dizia um criado que os quartos principaes estavam tomados; e apenas
-dispunha de um sem janella, mas limpo como todos.
-
-Objectou o morgado que vinha com elle uma senhora, e em tal caso iria
-buscar hospedagem n’outra parte.
-
-N’isto, abriu-se uma porta de um quarto proximo, e saiu á sala de
-entrada Nicoláo de Mesquita.
-
---Por aqui, primo Garção?!--disse o de Vidago sem sombra de
-mal-querença.
-
-O choque perturbou o sangue frio de Raphael por momentos. Fez-se logo,
-porém, a reacção dos imperterritos espiritos.
-
---É verdade, primo Mesquita!... Vossa excellencia aqui!... Eu julgava-o
-ha muito em Palmeira. Cinco mezes em Lisboa!
-
---Aqui estou embaraçado por coisas da politica. Afinal caí n’este
-lodaçal commum. E vossê d’onde vem?
-
---De Pariz. Cheguei hontem á tarde. Venho vêr Cintra e vou breve para a
-provincia.
-
---Veio só?... perguntou, Nicoláo, surrindo.
-
---Porque pergunta se vim só?--replicou Raphael atalhando.
-
---É porque ouvi dizer ao criado que trazia uma senhora.
-
---Ah!... sim... eu trago uma senhora...
-
---Não se atrapalhe, homem! Quem vem de Pariz não póde deixar de trazer
-uma mulher...--tornou Mesquita com o rosto aberto e alma lavada.
-
---Mas vossê não vai casar com a Angela de Santo Aleixo?! Que destino ha
-de dar o primo á creatura que leva?
-
---Hei de pensar n’isso, primo...
-
---Afinal--volveu o marido de Beatriz--o visionario desistiu das nupcias
-celestiaes!...
-
---Que remedio!...
-
---Bem lh’o disse eu, seu rapazola!... Fica por cá hoje?
-
---Provavelmente... Vossa excellencia vem com a prima Beatriz?
-
---Não: vim só...--Beatriz--continuou Nicoláo com o semblante menos
-ridente--vive toda entregue aos ministerios caseiros e ao amor do filho.
-
---Queira vossa excellencia fazer-lhe os meus cumprimentos, que eu parto
-ámanhã talvez, e peço me dispense de procural-os. Adeus.
-
---Então já?...
-
---Vou em busca de outra pousada.
-
---Olhe cá! a companheira é parisiense?
-
---Não primo, é de Marselha... Adeus!...
-
---Ah! sim? são bellas mulheres essas...
-
-Raphael já estava no rocio ou patim do hotel, e Nicoláo acompanhava-o,
-dissimulando o intento de vêr a franceza.
-
-O morgado de Fayões transpirava de afflicto, e sentia-se estupido para
-inventar um obstaculo á desastrosa coincidencia!
-
-Beatriz reconhecêra a falla do marido, e tremia na mais natural e
-horrente perplexidade.
-
-Estava tolhida de pavor.
-
-Raphael parou, torcendo o bigode, e friccionando a concha da orelha
-esquerda. Parece que tinha uma idéa salvadora na orelha esquerda.
-
-Chamou o cocheiro e disse-lhe:
-
---Desanda a carruagem, e pára á porta de outra hospedaria, que ahi está
-em cima á direita.
-
---A senhora vae?--perguntou o criado.
-
---Vae.
-
---Maganão!--disse o Mesquita, batendo-lhe no hombro--vossê não quiz que
-eu visse a mulher!
-
---Essa é boa, primo Nicoláo!... Que tem que a veja!... Eu confio
-bastante n’ella e no primo!...--respondeu jovialmente o morgado de
-Fayões.
-
---Póde confiar, que eu puz ponto nos desvarios--concordou o do
-Vidago.--Agora, a minha dama é a politica.
-
---Cuidado com as perfidias d’essa dama, primo! Eu antes me quero com as
-devassidões das outras.
-
---É por que vossê não tem amor patrio, e está na sua época de
-desperdiçar as forças do espirito.
-
---Diz bem, meu amigo, e, se me dá licença, vou dormir um pouco para
-recuperal-as. Apparece?
-
---Não sei se poderei: espero aqui uns politicos que vem de Lisboa.
-
---Pois então divirtam-se: e até á vista, primo Nicoláo.
-
-Beatriz não quizera apeiar, sem entender a estranheza d’aquelle
-encontro. Sentia uns angustiosos apertões de medo, que os criados não
-compreendiam.
-
-Raphael entrou na carruagem, e disse:
-
---Já para Lisboa!
-
-E contou o simples caso da apparição de Nicoláo. Beatriz aquietou-se,
-e riu, quando o primo lhe contava o comico dialogo com o marido. Mas
-o susto sobreveiu, quando Raphael conjecturou que Margarida, áquella
-hora, poderia revelar coisas que os perdessem.
-
-No entanto, Margarida Froment, que despertára no momento em que Nicoláo
-entrava no quarto, perguntou-lhe:
-
---D’onde vens?
-
---De encontrar aqui um parente, que chegou hontem de França.
-
---Está cá?
-
---Vinha procurar quarto; mas não o encontrou digno da franceza, que
-trazia comsigo.
-
---Viste-a? É galante?
-
---Não a vi. O rapaz tem medo que lh’a bebam os ares.
-
---Então elle é velho?!
-
---Tem vinte e quatro annos. Já te fallei n’elle. É o Raphael Garção.
-
---Ah, disse Margarida com um sorriso indefinivel.--Esse teu primo é
-aquelle que amou tua mulher?
-
---Justamente.
-
---E veiu agora de Pariz?
-
---Sim.
-
---Ha quanto tempo estava elle em França?
-
---Ha cinco ou seis mezes.
-
---Cuidei que o vira ha trez em casa do Ricardo... Que figura tem? É
-um rapaz magro, de melenas escuras, bigode, e uma cicatriz na face
-esquerda?
-
---Tal qual... Tu viste um homem assim?! interpellou o morgado,
-atrigando-se.
-
---Vi... ha trez mezes, poucas noites antes de sair da casa do Almeida.
-
---Mas é a primeira vez que me fallas d’elle!...
-
---Não sei para que havia de fallar-te de um homem, que me não importa!
-
---Mas eu disse-te que suspeitava...
-
---Que suspeitavas de um primo de tua mulher que estava em França. Como
-me não disseste o nome d’elle, nem a época em que tinha ido, eu não
-podia suppôr que a visita de Ricardo era o primo de quem me fallavas...
-Que pensativo estás, Nicoláo!...
-
---O que eu penso é uma horrenda coisa!... balbuciou cavamente o
-morgado, e saiu.
-
---Onde vaes?! acudiu Margarida.
-
---Não me sigas... espera-me, que eu tenho a cabeça perdida...
-
-Foi á porta da hospedaria que Raphael indicára ao cocheiro. Perguntou
-se alli não parára uma carruagem. Informaram-n’o que estivera lá um
-trem com uma senhora, obra de dez minutos; e partira de grande batida,
-assim que chegou um sujeito, e disse ao cocheiro: «Já para Lisboa.»
-Pediu os signaes da senhora: Disseram-lhe que era magrinha, branca de
-neve e tinha uma capa de casimira escarlate.
-
---Maldição! rugiu o morgado com os dentes cerrados.
-
-Voltou ao _Victor_, e mandou pôr os cavallos á carruagem. Foi ao quarto
-de Margarida, e exclamou:
-
---É horrivel o que acontece!...
-
---Que é, filho?! perguntou a franceza, mais agitada que o natural.
-
---Vamos para Lisboa!... Já!... Eu tenho sido atraiçoado!...
-
---Por mim, santo Deus? exclamou a franceza.
-
---Não, por minha mulher.
-
---Tens provas?!
-
---Era ella que vinha com o infame! Era ella, e eu vou arrancar-lhe o
-coração!... e apunhalal-o a elle!
-
---Reflexiona, meu anjo!--redarguiu Margarida Froment.--Tu estás
-desvairado! Pois tu viste-a?
-
---Não. Fugiram. Branca, magra, e capa escarlate!... Era ella! Está
-morta, juro-te que morre hoje, se não estiver escondida nos abysmos do
-inferno!
-
---Que pequena alma!--observou a franceza.--Quando assim fosse, não
-terias a coragem de Ernesto Froment?
-
-Nicoláo fitou-a com spasmo de furioso, e bramiu:
-
---Porque me dizes tu isso?
-
---Porque meu marido, como sabes, não me veiu procurar onde me tu
-trouxeste. Sei que vive feliz, e esquecido da deshonra, e de sua mulher.
-
---Eu não sou Ernesto Froment! exclamou irado. Sou Nicoláo de Mesquita.
-
---Egual a Ernesto Froment perante a desgraça, acrescentou Margarida.
-
---Basta!
-
---Falta-me dizer umas breves palavras, tornou ella. Eu não hei de ir
-andar comtigo atraz de tua mulher. Vae, e deixa-me aqui ficar. Se
-quizeres, volta, ou manda-me buscar, depois de teres concluido essa
-empreza.
-
---Vem, que eu, á entrada de Bemfica, mando-te levar ao hotel. Vem,
-Margarida, se não estás apostada a tirar-me o resto da minha razão!
-
---Pois sim, vamos.
-
-Que supplicio no trajecto d’aquellas cinco leguas, tão vagarosas! Que
-confrangimentos de alma, e revolutear de viboras assanhadas no peito!...
-
-Parou a carruagem em Bemfica, onde moravam as primas Camaras.
-
-Nicoláo mandou o cocheiro conduzir Margarida ao hotel, e encaminhou-se
-por uma azinhaga á quinta das primas.
-
-Bateu ao portão. Houve grande demora em abrirem-lhe. Chegou uma criada
-a uma janella gradeada do muro, e perguntou:
-
---É vossa excellencia, senhor Mesquita?
-
---Sou: a senhora D. Beatriz está cá? disse elle offegante.
-
---Está sim, meu senhor.
-
---Está?! reperguntou com espanto.
-
---Já disse que está... Eu vou pedir a chave para abrir o portão.
-
-Ia grande alvoroto nos quartos das senhoras Camaras.
-
-Beatriz estava em convulsões; e uma das primas casada dizia-lhe:
-
---Que mulher esta!... Ó tola, animo, que está tudo prevenido, criadas e
-tudo!... Tira essa capa, e cobre-te com a minha azul, que é a irmã da
-tua. É uma cautella, que tu não sabes se elle te viu...
-
---Sacudam-lhe o pó do chapeu! disse outra senhora Camara, tambem casada.
-
-E o marido d’esta senhora accrescentou:
-
---Porte-se com coragem, prima Beatriz.
-
-O tardio abrir-se do portão deu tempo a tudo isto.
-
-Quando Nicoláo avistou a escadaria do palacete, já sua mulher, entre
-as senhoras Camaras, estavam no patim, vozeando um alarido de alegre
-recepção ao primo Mesquita.
-
-O reparo que elle fez logo foi na capa, que lhe saiu azul. Ainda assim
-a cara denotava o inferno interior.
-
---Não foste a Santarem?! perguntou Beatriz com jovial admiração.
-
---Assim, assim!--applaudiu a meia voz uma das senhoras
-casadas.--Falla-lhe n’esse tom.
-
-Nicoláo subiu a escada, ainda esbofado.
-
---Vieste a pé?! disse Beatriz. Que canceira é essa! Tu d’onde vens? de
-Lisboa? como ficava o menino? Viste-o, filho?
-
---Muito bem! disse á puridade uma senhora Camara, a outra senhora
-Camara, ambas casadas com maridos espertos.
-
-O morgado sentou-se n’um banco de ferro. Era a mais inclassificavel das
-phisionomias benemeritas de um estudo phisiologico.
-
---Que tens tu? volveu Beatriz. Querem vêr que te aconteceu com o
-demonio da politica alguma desgraça!
-
---A que horas saiste hoje de casa? perguntou abruptamente Mesquita.
-
---De manhã cedo, respondeu uma das senhoras Camaras, porque nos veiu
-pôr a pé a travêssa da prima, eram seis horas e meia.
-
---Essa pergunta que significa! inquiriu Beatriz, arrugando a testa.
-
---O primo está afflicto! A sua pergunta quer dizer alguma coisa!
-observou outra senhora.
-
-Beatriz entrou de repelão na sala, encarando-o com uma sobranceria de
-quem esmaga a affronta sob os tacões das botinhas.
-
---Entre, primo Mesquita, pediu o marido de uma das senhoras. Vossa
-excellencia está preoccupado.
-
---Peço perdão! disse Nicoláo. Eu devo confessar, visto que Beatriz se
-retirou offendida, que uma gravissima suspeita me trouxe aqui.
-
---Suspeita injuriosa á pobre senhora? perguntou a prima Carolina.
-
---Eu suppuz que minha mulher esteve em Cintra, ha trez ou quatro horas.
-
---Que horror! exclamou uma; e as outras, com as mãos no rosto,
-conclamaram:
-
---Que horror! Deus de misericordia!
-
---Em Cintra!?
-
---Ha trez horas!?
-
---Haveria olhos infames que tal vissem!
-
---Quem lhe disse isso?
-
---Como se ataca a honra de um anjo!
-
-Fallavam todas a um tempo. O proprio sujeito, que era marido, cruzou os
-braços, abanou a cabeça, e disse:
-
---Que hedionda calumnia!
-
---Venha pedir perdão á prima Beatriz! disse uma dama de cincoenta
-annos, que tinha ao seu lado uma filha de vinte e outra de dezoito. Vá
-pedir perdão á innocente menina! Em Cintra!? Pois ella chega aqui ás
-seis horas e meia, a pé, coitadinha, que não tinha trem, nem o achava
-áquella hora... e esteve em Cintra ha quatro horas!... Que mundo, que
-mundo!...
-
-Nicoláo ergueu-se, e foi pelo braço do cavalheiro a um quarto, onde
-Beatriz se refugiara com uma das senhoras.
-
-Estava ella com a pallida fronte apoiada na palma da mão, e os olhos
-no regaço, sobre a mão da sua amiga, que a confortava.
-
-Nicoláo acercou-se d’ella, tocou-lhe na face, e disse commovido:
-
---Então, filha!... perdoas-me?
-
---Não quero saber o que hei de perdoar-lhe, respondeu Beatriz com
-severidade.
-
---Perdoa, perdoa--disse uma senhora Camara, que não averiguamos se era
-casada--perdoa, porque as desconfianças são a prova do amor.
-
-Eram seis horas da tarde. Ia o jantar para a meza. Nicoláo pediu
-desculpa de não poder assistir. Foi para Lisboa, e ficou de mandar á
-noite a carruagem buscar sua mulher.
-
-Entrou de boa cara no _hotel de Italia_, e disse a Margarida.
-
---Sou um asneirão! Beatriz estava desde as seis horas e meia da manhã
-em casa das primas Camaras! Pobre mulher!
-
---E pobres homens...--ajuntou Margarida com um sorriso perverso--pobres
-homens os ciosos como tu!...
-
-
-
-
-XX
-
-
-O papel, que Beatriz representava com as comediantes Camaras, não
-ajustava ao seu caracter. A senhora, obrigada a valer-se das primas, e
-a promover o escarnecerem-lhe o pae do seu filho, sentia-se humilhada,
-e ridicula, em seu marido, rebaixado á condição dos Sganarellos e
-Dandins de Molière.
-
-As senhoras Camaras, até á hora em que Beatriz lhes appareceu, exorando
-que a defendessem de alguma suspeita de seu marido, consideravam-n’a
-esposa immaculada, e abstinham-se de conversarem licenciosamente deante
-d’ella. Beatriz, ao arrancar de repente a mascara, não sentiu a dôr
-do impuxão; mas depois, quando ouviu as chacotas allusivas ao marido
-enganado, teve vergonha, e condoeu-se d’elle.
-
-Figurava, para desopprimir-se, as perfidias do esposo, a ida para
-Cintra com a franceza, o desapêgo d’alma com que a tratava, e o ar
-ameaçador com que, por mero orgulho, lhe prescrevia os deveres. Isto
-podia muito com ella; mas não a rehabilitava aos olhos das senhoras,
-que, desde aquella hora, na ausencia do marido de uma, a fizera
-confidente de passagens mais ou menos analogas, e algumas peores de
-devassidão e escarneo marital.
-
-Beatriz saiu á noite, anojada d’ellas e de si. O marido não estava em
-casa, nem lá tinha ido averiguar dos criados. Os criados de Mesquita
-vendiam o seu silencio a Raphael Garção, e lastimar-se-iam na hora
-em que se rompessem as ligações da fidalga com o mais generoso dos
-mortaes, que elles haviam conhecido, relacionado com suas amas.
-
-Escreveu no mesmo ponto Beatriz ao primo, relatando o successo de
-Bemfica, salvos os relanços irrisorios. Raphael deu louvores á sua
-estrella, e disse comsigo: «É necessario acabar com isto, antes que
-estalle borrasca! Não desprezemos este aviso!»
-
-Beatriz, porém, afervorava-se mais em ternura desde que presagiára
-algum desastre. Lembrou-se que Nicoláo, com as provas da deslealdade
-d’ella, era homem talvez para matal-a, ou repellil-a com desprezo.
-O pae, o severo Martinho Xavier, aferrolhal-a-ia n’um convento, ou
-vingaria o marido, n’um rapto de furioso odio. Beatriz precisava contar
-com o refugio e amparo do homem amante, corajoso, rico, e affrontador
-de todos os respeitos sociaes por amor d’ella. Faltava-lhe animo e
-impudor, digamol-o assim, para prevenir Raphael no sentido dos seus
-presagios. O bizarro moço acudiu ás balbuciações da prima, anhelando a
-hora em que ella se despenhasse dos respeitos vãos do mundo aos braços
-defensores do esposo de sua alma. Alentou-se o espirito da senhora.
-Achou-se mais destemida, e mais segura na rampa da sua perdição.
-
-Escreveu o morgado da Palmeira ao sogro, e dizia-lhe n’um
-post-scriptum: «Aqui vi Raphael, que chegou de Pariz. Leva uma
-franceza. Doido até á morte!»
-
-Martinho Xavier respondeu:
-
-«No tocante a Raphael Garção ouso pedir á tua bondade que me não falles
-mais. Eu fallei muito a respeito d’este homem. Hoje a ti peço, aos mais
-ordeno que me não fallem n’elle.»
-
-Martinho Xavier, velho amigo do governador civil de Lisboa, sabia,
-mediante as faceis pesquisas policiaes, onde morava Raphael em Lisboa.
-Concluiu muito mais além do que a alçada da policia devassou, e
-calou-se para não ir elle hastear o patibulo da deshonra da filha.
-
-Nicoláo de Mesquita ponderou em nada as palavras do sogro.
-
-Revieram dias serenos, serenos de sobejo para a lethargia de Raphael.
-Sensação nova para elle! até saudades dos paes o inquietavam!
-Parecia-lhe que na provincia havia de amar mais poeta, e mais
-intensamente sua prima.
-
-Este constrangimento adoentou-o sem artificio. Beatriz deu tento de
-sua tristeza, e considerou-se desamada. Chorou e fez-se aborrecida. A
-mulher, nas condições de Beatriz, nada vence com lagrimas, e ás vezes
-dissolve com ellas os filamentos que a prendem á estima que se desfaz.
-Raphael queixou-se amargamente da injustiça e da ingratidão.
-
---Avalias mal, disse elle, um homem dos meus annos, e com o meu
-temperamento, que está, ha sete mezes, privado da liberdade, e até de
-ar, no centro de Lisboa, rodeado de prazeres, attraido pelas diversões
-de que amante nenhum se abstém.
-
---Eu cuidei que eras assim feliz!... atalhou ella seccando as lagrimas
-ao incendio do subito arrependimento.
-
---Feliz... de certo fui e sou; mas custa-me que tu chores, quando eu me
-queixo que não posso com esta vida... Tens tu força de mover teu marido
-a ir para a provincia?
-
---Eu não tenho força nenhuma, primo...
-
---Experimenta, Beatriz: diz-lhe que estás doente: póde ser que elle te
-deixe ir para Palmeira. Se elle quizer ficar com a franceza, que te faz
-isso?
-
---A mim que me ha de fazer?!... Pois sim, eu lhe pedirei que me deixe
-ir para Palmeira... E perdoa-me, disse ella, enternecedora, perdoa-me,
-Raphael, que bem conheço que estás doente, e aborrecido como eu de
-Lisboa. Quem me dera nas minhas arvores, e á margem do meu Tamega!...
-Amei-te com tanto coração n’aquelles sitios!... Tenho saudades da gruta
-em que eu ia buscar as tuas cartas e levar as minhas! Conheço todas as
-plantas d’onde tu colheste uma flôr, que deixavas cair entre as murtas
-para eu a murchar ao calor do meu seio. Tambem te lembras?
-
---De tudo, minha filha!...--disse Raphael commovido.--De tudo me lembro
-em que teus olhos pousaram um instante. Voltaremos nós áquelle ceu?...
-Vêr-nos-ha uma d’aquellas noites estrelladas da nossa terra?
-
-Estavam mais liricos que o seu costume. O morgado de Fayões era
-alma pouco puxada á fieira do idillio. As estrellas distraiam-n’o
-mediocremente, e a lua incommodava-o com demasias de luz, nas suas
-escaramuças nocturnas á pacifica honestidade dos infelizes, como o
-pharmaceutico, e o coronel, e outros de lacrimavel memoria. No tocante
-a Beatriz, até áquella hora, minguára-lhe tempo aos devaneios pelo
-azul dos céus da sua terra e canteiros do seu jardim. Nos romances,
-que lêra, se alguns amantes se detinham em palestras concernentes ás
-estrellas, e sombras de platanos, admirava-se ella da impertinencia dos
-authores, que tão pouco, em certas conjuncções, conheciam o coração
-de duas pessoas apaixonadas, ardentes, novas, doidas, escondidas uma
-n’outra como dois anjos, que não entendem o mundo.
-
-Desde este dia, ou noite, Beatriz ficou pensando sempre em voltar
-á aldeia. Tambem ella esperava que o seu Raphael centuplicasse os
-carinhos, além, n’aquelles convidativos bosques, onde parece que o
-coração se dilata, e enche do amor dos mil amores que a natureza espira.
-
-Pediu ao marido que a levasse a Palmeira, se elle queria passar o verão
-em Lisboa.
-
-Nicoláo respondeu que não podia ir, nem viver sem ella.
-
---E se te eu disser que me sinto deperecer, e brevemente morrerei em
-Lisboa?--replicou ella.
-
---Não morrerás, menina. Pelo contrario, a vida da aldeia ser-te-ia hoje
-um incessante fastio.
-
---Como quizeres, primo...--tornou Beatriz com despeito.--Ainda assim,
-has de consentir que eu, se me sentir peior, escreva a meu pae,
-pedindo-lhe que me venha buscar. Tenho um filho, e quero viver para meu
-filho.
-
---Pois vive em Lisboa, priminha, que estes ares são purissimos, se me
-não engano.
-
---Tu nunca te enganas, meu primo--retorquiu, surrindo amargamente;--mas
-tambem não enganas ninguem.
-
---Explica-te!
-
---Mais tarde...
-
---Porque não ha de ser já?!
-
---Porque ainda se não gastou a paciencia... Não me faças mais
-perguntas, visto que eu tenho a delicadeza de te não responder. Se um
-dia me queixar, não ha de ser de ti.
-
-Nicoláo recolheu a colera e a interrogação imprudente. Compreendeu que
-Beatriz lhe conhecia deslealdade; e, do aprumo glacial com que ella o
-invectivou, tambem inferiu que não era amado.
-
-Resignou-se, e protestou acautelar-se, visto que ainda era tempo. As
-cautelas consistiram em sondar e precatar a fidelidade dos criados. Ia
-bem n’aquelle rumo!
-
-Passados dias, voltou Beatriz a pedir-lhe que a levasse para Palmeira.
-Nicoláo respondeu:
-
---Póde ser na semana que vem.
-
-Escreveu a um amigo de Chaves, perguntando-lhe se Raphael Garção tinha
-casado com a Angela de Santo Aleixo. Disseram-lhe que Angela havia
-casado, quatro mezes antes, com o morgado das Boticas, e que o morgado
-de Fayões ninguem sabia d’elle, porque não escrevia a ninguem.
-
---Então que é isto?--perguntava Nicoláo á sua razão esclarecida.--O
-homem disse-me em Cintra que ia para casa, e ninguem sabe d’elle!...
-Não negou que ia casar com Angela, e Angela estava casada!... Mas, se
-elle estivesse em Lisboa, e Beatriz o soubesse, seria um contra-senso
-querer ella ir para a provincia! Isto não falha aos dictames de uma
-razão escorreita! Já sei o que é: o doido escondeu-se por aqui, ou
-no Porto, ou na provincia com a franceza. É o que é. Martinho Xavier
-sabe-o, e, irado contra esse escandalo, prohibe que lhe fallem n’elle.
-Minha mulher é estranha a tudo isto. Vejo-a doente, e receio que ella
-se queixe ao pae. Sabe a minha vida misteriosa, e, se eu a contrario,
-é capaz de me denunciar. Martinho Xavier vem a Lisboa, e toma conta
-da filha. Remediemos as eventualidades. Vou para Palmeira com minha
-mulher, e preparo residencia á franceza na minha quinta de Ribeira
-d’Oura. No inverno seguinte, deixo Beatriz em Chaves com o pae, e volto
-a Lisboa com Margarida.
-
-Beatriz recebeu a nova da partida. Avisou Raphael, que antecedeu oito
-dias a jornada, entrando outra vez em Hespanha. A mobilia da casa de
-Andaluz foi vendida em globo, em nome do seu criado. O desabafado moço
-cuidou que saia de Lisboa com um pulmão desfeito, e o outro atacado de
-tuberculos.
-
-Entrou Raphael Garção em Chaves, com dois caixotes de encommendas de
-Pariz, mandadas comprar no Chiado. Andou entregando os objectos ás
-primas, com as quaes fallava difficilmente o portuguez. As senhoras
-achavam-n’o assim mais interessante. As donzellas gostavam de ser
-chamadas _mamasélles_ e _chères cousines_, pronuncia que feria os
-ouvidos lusitanissimos das velhas. De Chaves foi para Fayões, onde se
-espantou de não encontrar cincoenta e tantas cartas, que havia escripto
-a seus paes, de differentes cidades do mundo. Os velhos choravam
-abraçados n’elle, como se o filho, por milagre de Jesus, quebrasse
-a campa. Julgavam-n’o como morto, não obstante Ricardo de Almeida,
-compadecido d’elles, lhes haver asseverado, de mez a mez, que Raphael
-Garção vivia. O morgado queixou-se acremente da inconstancia da prima
-de Santo Aleixo, e protestou casar-se por vindicta com a mais rica
-herdeira.
-
-Passados dias, foi visitar Ricardo ao castello de Aguiar. Viu Laura,
-a pomba do ceu, que depuzera o ramo de oliveira no coração do amante
-de Margarida. Inclinou-se com ingenuo respeito deante da mulher, que
-o recebia com um surriso de estima. Sabia ella quanto seu esposo
-devia a Raphael Garção, perdido no conceito publico, e ao mesmo tempo
-bajulado dos paes, querido das mulheres, e invejado dos homens. Ricardo
-pintára-lhe vantajosamente o caracter de Raphael, omittindo o desdouro
-dos seus amores adulteros. Laura uma vez lhe revelára a esperança
-de vêr uma das suas irmãs casadas com o morgado de Fayões. Ricardo
-singelamente lhe disse:
-
---Não penses em tal. Raphael ha de morrer solteiro, porque ha de morrer
-novo.
-
-Regosijou-se a dama brazileira de vêr Raphael com saudavel exterior,
-e uns vislumbres de espirito fatigado de correr mundo á procura
-das aventuras vãs e estragadoras do coração. Julgava ella que as
-leviandades do fidalgo eram amar sem destino, gastar o sentimento em
-affectos inconsequentes, e com mulheres devastadas pelas paixões,
-falsas paixões que desluzem as illusões candidas da alma, como as
-côres postiças corroem a natural purpura do rosto.
-
-Largas horas praticaram os dois amigos em passeios na serra, por onde
-Raphael tragava saude, e renovava o sangue. Fallava de Beatriz com
-saudade, por que a distancia lh’a aureolava com o resplendor de outros
-tempos. Revelava os seus intentos a Ricardo, que, sem fortalecer o
-discurso com axiomas, lhe pedia que rompesse uma alliança, promettedora
-de cortar-se mais tarde com mais doloroso golpe.
-
---E cuidas tu que Beatriz não morre, deixando-a agora eu?--dizia entre
-piedoso e fatuo o de Fayões.
-
---Cuido que não morreria, primo Raphael. Merecia a pena experimentares
-quinze dias.
-
---Fez-te barbaro a felicidade, Ricardo!... Assim, queres tu que eu faça
-uma fria e selvagem experiencia na vida da mulher que me ama, e que tem
-posto a risco a honra e a vida por amor de mim?
-
---Não, primo... O que eu queria era induzir-te a salvar-lhe a honra,
-que a vida não tem marido que lh’a tire.
-
---E, depois,--redarguiu Raphael, que querias tu fazer de mim?
-
---O mesmo que tu indirectamente fizeste do teu primo Ricardo.
-
---Levar-me ao casamento?
-
---Levar-te á honra, e a honra depois que te inspirasse, meu amigo.
-
-
-
-
-XXI
-
-
-Chegaram os fidalgos ao Vidago. Beatriz entrou contente na enorme gruta
-de arvores seculares, que emboscavam a casa de Palmeira.
-
-Quinze dias depois, Margarida Froment, com o seu mordomo e criadas,
-aposentavam-se na quinta da Ribeira d’Oura. Nos arredores corria que
-esta dama, com suas aias, e mordomo, vestidos á bizarra, era uma
-illustre estrangeira, que viajava, e parára alli, embellesada nos
-encantos do sitio.
-
-Martinho Xavier não visitou a filha, e, respondendo ao genro, que
-lhe annunciava a chegada, nem promettia ir vel-o, por estorvo de
-enfermidades, nem o convidava a ir a Chaves. Nicoláo de Mesquita
-azedou-se da indelicadeza, e disse á mulher que o pae era uma creatura
-intractavel.
-
-Informou-se o morgado do viver de Raphael. Colheu que vivia muito
-no Pontido com Ricardo, e com os amores começados de uma cunhada de
-Ricardo, dotada com duzentos e cincoenta mil cruzados. Varreram-se-lhe
-as suspeitas do pensamento. Foi á Ribeira d’Oura; deteve-se oito dias,
-e voltou forçado pelas conveniencias, e já não pelo ciume.
-
-N’este espaço de tempo, Raphael Garção passou trez dias no palacete
-de Palmeira, e revistou com Beatriz, nas cálidas horas das noites de
-julho, os maciços das murtas, os alegretes das flores almejadas em
-Lisboa, os arvoredos cerrados, as margens do Tamega rumoroso. Noites
-lindas, scismadoras como as do tempo ido, mas que differentes ao
-espirito de Raphael! Poesia espontanea, essa fenecêra como as flores de
-então. A poesia de agora, tirada á força da fantasia, era toda arte de
-coração fatigado. Beatriz é que era sinceramente ditosa.
-
-Raphael estava alli e pensava em Amelia, irmã de Laura, trigueira como
-sua irmã, olhos mais ardentes, espiritos mais scintillantes, cheia de
-graça na conversação, e de meigas puerilidades no seu amor.
-
-Acontecia, porém, que o pae de Amelia desconfiava do caracter de
-Raphael. Repugnava-lhe o tom galhofeiro do primo de Ricardo de Almeida.
-Achava-o mundano de mais; bom para as salas; verde de mais para a vida
-intima. Não obstante, ligeiramente contradizia a propensão da filha.
-
-Raphael não podia romper de vez o enlace com Beatriz; promettia, porém,
-ser forte e honrado, assim que o casamento se tratasse.
-
-Aqui o temos, pois, transtornado, e seduzido pelo exemplo da felicidade
-do primo. As differenças de genio, que mezes antes observára elle,
-entre si e Ricardo, tornaram em identidade de aspirações. Dizia-lhe
-o castellão de Aguiar que principiasse a sua reforma, renunciando ás
-abominaveis intelligencias com a esposa de Nicoláo de Mesquita. Raphael
-mentiu, protestou despedir-se d’ella cavalheiramente, recolheu-se a
-Fayões; e assim que houve nova da segunda ida de Nicoláo á quinta da
-Ribeira d’Oura, voltou para Vidago.
-
-Martinho Xavier sabia os passos do genro, e os do sobrinho. Ao genro
-perdoára; ao sobrinho não pudera. Um dia, chamou dois valentes filhos
-de um caseiro das suas terras de Barrozo. Deu a cada um seu bacamarte;
-e, ao cerrar da noite, ordenou-lhes que o esperassem fóra de Chaves,
-com um cavallo á redea. No sellim iam afivelados coldres de pistolas de
-alcance.
-
-Á meia noite, haviam caminhado quatro leguas. A casa acastellada de
-Fayões negrejava como um morro de fragas, a um oitavo de legua distante.
-
-Martinho parou e disse:
-
---Á uma hora devem aqui passar dois homens a cavallo. Se o que vier á
-rectaguarda fizer algum movimento com armas, atirem a matar. Ao que
-vier na frente não lhe ponham mão. Se acontecer matar o criado, fujam,
-e esperem-me além Tamega. Eu lá irei ter.
-
-Antes da hora marcada aos criados, que se embrenharam n’uma bouça,
-ouviu-se perto o strupido de cavallos no declive pedregoso da calçada.
-A estrada achanava-se ao cimo da ladeira.
-
-Raphael Garção viu ante si um cavalleiro, quedo e immovel como estatua.
-
---Quem é?--perguntou engatilhando uma pistola.
-
---Sou Martinho Xavier, pae de Beatriz.
-
---Meu tio!--exclamou Raphael, abaixando o braço da pistola.
-
---Arreda lá com o parentesco, infame villão!--bradou o velho.--Vae
-perguntar a tua mãe que lacaio te deu o sangue plebeu que te gira nas
-veias!
-
---Essa affronta não fere minha mãe, senhor Xavier! respondeu o de
-Fayões erguido nos estribos.
-
-O criado de Raphael, seu companheiro e guarda desde os quinze annos,
-esporeou o cavallo com um bacamarte em punho.
-
---Alto ahi!--ordenou Raphael ao seu valente criado.
-
-O homem susteve o impeto do cavallo, e recebeu no mesmo ponto, duas
-balas em cheio peito. Oscilou sobre a sella, inclinou a cabeça ao
-pescoço do empinado cavallo, e, destribado caiu morto em terra.
-
---É uma espera de assassinos?--exclamou Raphael, abocando a pistola ao
-peito do tio.
-
---Como quizeres, canalha! Vaes agora morrer tu, ás mãos de um velho,
-que deshonraste. Desfecha, corôa a tua vida com o homicidio! Mata quem
-te vae varar esse perverso coração!... O pae de Beatriz deve morrer ás
-tuas mãos!
-
-Raphael abaixou a arma apontada, e disse:
-
---Atire! aqui me tem mais perto!...
-
-E impelliu a trancos o cavallo para a frente, e quasi ao alcance do
-braço de Martinho.
-
-O velho retirou o dedo convulso, que premia o gatilho.
-
---Antes quer que os seus criados me assassinem?--exclamou
-Raphael.--Pois então que atirem elles! Um homem innocente está alli
-morto no chão; matem agora o criminoso; desculpem-se de uma barbaridade
-com um acto de justiça. Salvem a honra de seu amo, que o sangue do meu
-criado não lhe póde lavar as nodoas!
-
-Martinho Xavier fraquejara. Aquelle silencio era uma estrangulação que
-lhe afogava na garganta a voz. Contara comsigo para uma desaffronta,
-que, nas cogitações do seu quarto, lhe parecêra heroica. A presença do
-cadaver, e o animo frio de Raphael conturbaram-n’o.
-
---A deshonra de minha filha!...--balbuciou elle. E as lagrimas
-romperam-lhe em torrentes, e a pistola caiu-lhe da mão.--A minha
-amada filha... prostituida... por um sobrinho de seu pae... pelo
-companheiro da sua infancia, que eu tinha em meus braços, quando
-ambos se beijavam... E pudeste, Raphael, tu, pudeste perdel-a, quando
-devias guardar a dignidade dos teus, respeitar a esposa de um amigo,
-a filha de um velho, que te estremecêra como pae... Tu, filho de uma
-irmã de minha mulher!... Maldito sejas!... Deus não quer que eu possa
-castigar-te... Divina Providencia, eu vos entrego este criminoso!...
-Castigae-o vós!
-
-Martinho Xavier desandou o cavallo, e partiu vagarosamente. Carecia de
-forças, para accelerar a carreira.
-
-Raphael desmontou, ergueu pelos hombros o criado, quiz acostal-o á riba
-da estrada; mas o corpo inerte resvalava com a cabeça pendida, e os
-braços desarticulados. O collete e a camisa fumegavam ainda queimados
-pelas buchas dos bacamartes. O morgado tirou as mãos ensanguentadas; e
-desistiu de esperar signal de vida.
-
-Voltou a Fayões a chamar criados com uma maca de carregar.
-Transportou-o a casa, e não deixou que fosse avisada a justiça.
-Amortalhou-o e depositou-o na capella do palacete. Foi suffragado com a
-decencia das pessoas da sua familia, e distinctamente sepultado ao pé
-do jazigo dos Cogominhos Garções.
-
-Quinze dias depois d’este successo, Martinho Xavier enfermou
-gravemente, e prohibiu que Beatriz fosse avisada. Sem embargo, chegou
-a Palmeira a nova da perigosa doença do fidalgo. Nicoláo de Mesquita,
-sopesando o despeito, foi com a esposa e o filho a Chaves.
-
-Era irrecusavel o accesso ao quarto do enfermo. Sentou-se com
-transporte de ira o velho, quando viu a filha. Contemplou-a com os
-olhos arraiados, e acovados nas orbitas azues. Apontou-a com o braço
-tremente e murmurou:
-
---O crime!... a lividez patibular do crime!... A maceração da
-consciencia no rosto que foi tão bello!... Vae-te, amaldiçoada!... Olha
-que pesa sobre ti uma vida innocente, que eu fiz matar!
-
-Nicoláo, que se detivera consultando os medicos, acudiu aos brados
-roucos de Martinho, e viu sua mulher ajoelhada aos pés do leito, e
-lavada em lagrimas.
-
-Assim que o intreviu no reposteiro, o velho carregou a fronte, e bradou:
-
---Quem te chamou aqui, devasso? Vae para as vergonhosas delicias da
-mulher, que achaste mais digna quando era mais perdida. Vae cumprir
-a tua expiação, e não venhas ser testemunha da minha. Dei-te essa
-desgraçada, que ahi está, cuidando que a guardarias no santuario de um
-amor digno. Não podeste, porque vinhas do crime sordido, havias de
-voltar ao mesmo abysmo, e arrastal-a comtigo! Vão-se ambos da minha
-presença, e... despedacem-se!
-
-Nicoláo estava corrido na presença das pessoas que o acompanharam ao
-quarto. Retrocedeu taciturno, perguntando aos medicos se seu sogro
-estava doudo. Os medicos, suspeitosos da justa supposição do morgado,
-entraram ao quarto a examinar-lhe os olhos e os movimentos. Martinho
-compreendeu-os, e disse placidamente:
-
---Eu não estou doudo, meus amigos. Escusam de examinar-me. Se vêm
-lagrimas, são de desgraça, e não de demencia. Peço-lhes o favor de me
-deixarem repousar... E, se ahi está alguma senhora, queiram pedir-lhe
-que venha transportar d’ahi essa creatura.
-
-E apontou para Beatriz, que desfallecêra.
-
-Levada nos braços de duas damas, a filha de Martinho Xavier cobrou o
-alento, e, expediu, com vibrantes gritos, repetidos golfos de sangue.
-O marido sentou-se ao lado do leito onde a depuzeram, e encarou-a com
-feroz catadura. É que das palavras de Martinho se convencêra que a
-filha fôra accusar a ligação com Margarida Froment. Como os deixassem
-breve tempo sósinhos, o marido acurvou-se ao ouvido da esposa, e
-disse-lhe:
-
---Que esperavas lucrar tu com a denuncia, desgraçada?
-
---Qual denuncia, miseravel?--perguntou ella, erguendo-se de salto.
-
---Falla baixo! e responde: que lucraste?...
-
---Sae dos meus olhos, que te detesto!--exclamou Beatriz voltando-se de
-repellão.
-
-Replicou Nicoláo com uma convulsão de riso sarcastico, e saiu da
-alcôva. Entraram senhoras a rodearem o leito de Beatriz. Encararam
-n’ella com assombro, sem ousarem interrogal-a.
-
---Meu pae?--perguntou ella.
-
---Está socegado.
-
---Morrerá?!--tornou Beatriz muito commovida.
-
---Talvez não: os doutores dizem que a molestia é moral; mas a causa
-toda a gente a ignora. Sabe-se que saiu á noite, ha quinze dias; voltou
-de madrugada; fechou-se no quarto; e adoeceu, como se vê.
-
-Uma das melhores amigas de Beatriz inclinou-se-lhe ao ouvido, e,
-pedindo venia ás outras, perguntou-lhe:
-
---Tu sabes da morte do criado de teu primo Raphael?
-
---Não--respondeu Beatriz agitada.
-
---Pois mataram-n’o na mesma noite em que teu pae saiu; meus irmãos
-dizem que a doença do tio Martinho está ligada a este acontecimento.
-
-A senhora concentrou-se, e não respondeu nem esclareceu a tal respeito
-coisa nenhuma.
-
-Reinou de novo um silencio de pesames mortuarios no quarto; porém, na
-saleta proxima, alguns cavalheiros conversavam com Nicoláo.
-
-Dizia um d’elles.
-
---Este anno tem sido fertil em casamentos. As melhores herdeiras foram
-empalmadas; mas o melhor dote, que veiu para estes sitios, entre Chaves
-e Villa Real, foi o de Ricardo de Almeida. Cem contos em moeda!
-
-Revelava outro:
-
---Cem contos de réis a cada filha, sendo trez as que tem o tal ricaço
-de Mirandella, negreiro segundo dizem. Sabem vossês que uma das filhas
-vae casar... com quem imaginam?
-
---Isso é sabido, acudiu outro. Casa com o Raphael Garção...
-
-Um estridente grito de Beatriz agitou de encontro á porta do quarto os
-cavalheiros. Nicoláo entrou com elles, e viu sua mulher debatendo-se
-freneticamente nos braços de duas senhoras. Erguia-se ella a prumo,
-estorcendo-se e inteiriçando-se em afflictivas ancias. Depois, ao
-recair, quebrada de forças nos braços amparadores, bolçava sangue, e
-recurvava as unhas sobre o peito, como se quizesse arrancar um cauterio
-do coração.
-
-Uma só pessoa compreendia cabalmente aquella agonia. Era o marido.
-
-
-
-
-XXII
-
-
-Chega uma hora, em que a mulher, esfacelada pelas cordas em que
-estrebuxa, quando a mão inexoravel do dever lh’as estira e reaperta,
-sente em si a desesperada ousadia de pregoar á face do proprio marido
-o seu amor maldito. Se o insulto á moral se não desprende então dos
-labios febris da energumena, é porque em todo o coração, congestionado
-de sangue peçonhento, como que se abre uma valvula por onde os pulmões
-ingerem um oxigenio purificante. Esta lufada de bom ar não tem que vêr
-com os orgãos communs das funcções respiratorias. É fluido estranho á
-sciencia de Bichat e Orfilla: chama-se _Esperança_.
-
-Foi a esperança que poz mordaça aos delirios de Beatriz. A presença
-do marido, em cujo rosto revia o escarneo rancoroso, exagitava-a
-em anciadas remettidas contra os braços que sustinham. N’uma
-intermittencia de quebranto, a filha de Martinho Xavier tirou da luz
-do seu inferno um clarão de duvida, e logo o deleite satanico da
-esperança. E surriu, e atirou com aquelle surriso á cara de Nicoláo de
-Mesquita.
-
-Avisaram o velho do estado afflictivo de sua filha, pessoas
-inteiramente alheias ao complicado enredo do infortunio de ambos.
-Martinho mandou dizer a Beatriz que viesse ao seu quarto. A senhora
-cobrou forças, e, descomposta de feições, abeirou-se á cama do pae.
-
---Já não é tempo de evitar o espectaculo da nossa desgraça, Beatriz?
-perguntou elle.
-
---É, meu pae,--disse ella.--Eu vou voluntariamente morrer n’um
-convento: mas deixem-me levar o meu filho.
-
---O convento que significa? Em que se rehabilita a deshonra, fechada
-n’um convento? Responde, Beatriz!
-
---Morre-se... murmurou ella.
-
---Não morre... desespera-se, e redobram as forças que impellem ao
-crime. Não te chamei para te propôr convento. O que eu quero é o
-segredo da tua queda. É preciso que mintas ao mundo. Vai com teu
-marido para Palmeira. Dilacerem-se a occultas da gente, se não podem
-reciprocamente perdoar-se. A tua ignominia é ainda ignorada. Teu marido
-sabe-a?
-
-Beatriz fez um gesto negativo, baixando os olhos e escondendo o rosto.
-
---Nem desconfia? tornou o pae.
-
---Não sei... murmurou ella.
-
---Pois salva-me a mim! Emenda-te, desgraçada! Deixa-me morrer, e
-depois... depois expõe á sociedade o opprobrio de duas familias, e o
-teu filho que receba a herança!
-
-Beatriz ajoelhou, beijando soffregamente a mão do pae.
-
-Nicoláo de Mesquita entrou n’esta conjuncção, e disse tranquillamente:
-
---Estás melhor, primo Martinho?
-
---Creio que sim... Podeis ir para vossa casa, quando vos aprouver. Eu
-vou sahir de Chaves para uma de minhas quintas, logo que possa.
-
---Observo que te impacienta a nossa... ou pelo menos a minha
-presença...--replicou Nicoláo.--A prima Beatriz, se queres, fica, e eu
-irei.
-
---Vão ambos... Beatriz pertence-te.
-
-No dia seguinte, seguiram para Vidago.
-
-No trajecto de algumas leguas não trocaram palavra. Beatriz ia de
-liteira com o filho. O marido cavalgava, e adeantára-se a grande
-distancia. Depois, na encruzilhada de duas estradas, avisinhou-se rente
-com a liteira, e disse:
-
---Eu vou á quinta de Valdez e demoro-me lá alguns dias.
-
-Apertou a mão da esposa, beijou o filho, e seguiu outra estrada.
-
-Beatriz exultou.
-
-Chegada a Palmeira, escreveu, e mandou o criado de confiança a Fayões
-com uma carta. Era a carta um grito de angustia, uma invocação á
-misericordia de Raphael.
-
-O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa
-de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas
-da seguinte noite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas
-desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava
-na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se
-encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida
-Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista.
-
-O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago,
-entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de
-duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao
-encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As
-rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços
-no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau
-tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja
-pancada é mortal.
-
-Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam
-armados a guardarem as raias do seu territorio.
-
-O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra,
-havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa.
-
-As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras
-sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a
-alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos
-até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram
-atalaias até alta noite.
-
-Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões.
-Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da
-partida, sem perceber o intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a
-Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho
-Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus
-perigosos encontros.
-
---Tudo lhe direi em viva voz--continuou Raphael Garção.--Não ir é
-fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve,
-é desgraçadissima.
-
---Melhoras a situação d’ella?--replicou Ricardo.
-
---Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de
-honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua
-cunhada que eu amo deveras.
-
-Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem,
-e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta
-prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que
-Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente
-perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de
-Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data
-d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer
-com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a
-como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a
-Beatriz sem ella.
-
-Depois, com os seus dois valentes a pé, e elle cavalgado no seu garboso
-frisão, foram caminho de Palmeira, por caminhos transversaes.
-
-Raphael ia triste. Nunca os prantos de sua mãe o compungiram assim!
-O pae descêra ao pateo e dera-lhe um abraço, estando já Raphael com
-o pé no estribo. Os criados esperavam-n’o fóra da aldeia, para não
-alvoroçarem os velhos.
-
-Ás dez horas e meia da noite, o morgado de Fayões apeou além Tamega,
-d’onde se enxergavam alvejantes chaminés e claras-boias da casa de
-Palmeira. Raphael esperou o signal convencionado--uma luz na alta
-janella d’um mirante acastellado. Ás onze horas illuminou-se o mirante
-e elle aproximou-se, entregando o cavallo á guarda dos criados com
-ordem de voltarem na noite seguinte. Cingiu-se á fachada do edificio,
-d’onde costumava ver Beatriz n’uma janella para lhe indicar qual das
-portas estava aberta.
-
---Espera!--disse-lhe ella--que ainda não pude mandar abrir a porta.
-Andam fora dois criados, por causa das desordens da romaria.
-
-Raphael tinha ouvido o tiroteio, de distancia de meia legua, e entendeu
-a referencia.
-
-Beatriz continuou:
-
---Os criados estão ali para baixo com outros homens, e não podem
-tardar... A noite está linda... havemos de passear no jardim?
-
---Sim, filha.
-
---Amas-me ainda? tens pena da tua desgraçada Beatriz?
-
---Amo-te, prima; não vejo, porém, motivo de compaixão.
-
---Se tu soubesses o que eu tenho soffrido... o que eu soffri em Chaves.
-Espera!
-
-Ouviram grande fallario.
-
---São elles que vem ahi, proseguiu ella agitada. Olha, Raphael;
-esconde-te alli ao lado da casa... Está lá um aqueducto aberto; entra
-para dentro, e deixa-os passar. Logo que os dois criados, em que não
-tenho confiança, entrarem, vou eu mesma abrir-te a porta do jardim. Tem
-paciencia...
-
---Sim, filha!... eu espero que elles passem, e aproveito a frescura do
-aqueducto, disse surrindo Raphael; e, acostado á parede do jardim, foi
-indo até encontrar a bocca da mina.
-
-Os criados pararam ainda, conversando com os seus companheiros sobre a
-batalha da tarde. Dizia um d’elles:
-
---O que eu tenho pena é de levar esta bala para casa na clavina!
-
---Tambem eu!
-
---Por hoje não ha mais que vêr! disse um terceiro. Vamos embora.
-
---Querem vocês que nós dêmos a ultima descarga?
-
---Valeu! clamaram todos.
-
---Aqui não! disse um dos criados de Beatriz, que a fidalga toma medo.
-Vão descarregar os bacamartes ahi para diante.
-
-Despediram-se dos que ficaram uns quatro que seguiram, aperrando as
-armas, e polvorisando as pederneiras.
-
-Quando chegaram a pouca distancia da mina, em que Raphael se escondêra,
-disse um:
-
---Se vocês querem vêr o que é berrar uma clavina, vamos estoiral-as
-dentro da mina. Isso faz ahi um trovão, que nem peça de artilheria.
-
---Está dito.
-
-Raphael devêra ouvir a proposta, se a este tempo não viesse do outro
-lado uma estropeada de dois cavallos, que perpassavam deante da mina.
-
-Os cavalleiros, cirurgiões das cercanias, estiveram conversando com
-os homens armados, e contando que vinham de examinar os feridos e os
-mortos nos montados da romaria.
-
-A este tempo já Beatriz estava á janella, maldizendo a paragem dos
-homens n’aquelle sitio. Os cavalleiros seguiram o seu caminho, e os das
-clavinas disseram:
-
---Vá! é agora! os tiros todos a um tempo!
-
-E desfecharam os quatro bacamartes contra a bocca da mina.
-
-Raphael Garção, como empurrado pelas duas balas que lhe entraram no
-peito, recuou alguns passos e caiu de bôrco, e os braços cruzados entre
-o peito e a terra.
-
-Os lavradores, depois da descarga, levantaram grande grita e apupada.
-D’além, dos confins da freguezia, irrompeu medonha celeuma de brados, e
-estrondear de tiros.
-
-Observou um dos homens:
-
---Querem vocês vêr que os patifes entraram na freguezia? Carrega e
-avança, rapazes!...
-
-E correram em direitura ao ponto da vozearia.
-
-Beatriz esperou alguns minutos, dizendo entre si:
-
---Elle agora já podia sair da mina, que por aqui não está ninguem!
-
-Esperou ainda alguns segundos... e disse á sua criada confidente, que
-estava com ella:
-
---Isto que será?! Elle não apparece!... Tu que pensas?...
-
---Eu não sei, fidalga! respondeu a criada. Terá medo de ser visto, por
-alguem, que nós d’aqui não enxerguemos, e o fidalgo veja lá de dentro
-da mina...
-
---Ha de ser isso... mas olha... a noite está tão clara... e eu não
-vejo ninguem por alli!... Vamos nós lá?
-
---Pois vamos, senhora... eu não tenho medo nenhum.
-
---Nem eu... Estará elle já no jardim?
-
-Desceram de mansinho ao jardim, olharam os recantos sombrios,
-descerraram a porta, sairam ao caminho, e paráram á bocca da mina.
-
---Raphael!... chamou ella, primo Raphael!... Não falla! Onde está
-elle?... Ó meu filho!...
-
-Ouviu um gemido no interior da mina.
-
---Ouviste? perguntou Beatriz á criada, que tremia--ouviste um gemido?
-
---Ouvi, fidalga!... Santo Deus, misericordia! que será?!
-
---Raphael! Raphael!... clamou a brados Beatriz, e entrou mina dentro,
-chamando sempre, até tropeçar e cair sobre um corpo inerte.
-
---Uma luz, uma luz!--exclamou ella.--Raphael! tu estás morto?!
-
---Morto!...--balbuciou elle--Adeus!...
-
-E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia.
-
---Uma luz!... bradou ainda Beatriz.
-
-A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela.
-
-Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face
-ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que
-saiam das paredes do aqueducto!
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-Saiu a criada á bocca da mina, no desvariado intento de chamar quem
-levasse d’ali a fidalga.
-
-Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou
-com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada
-e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da
-parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, n’estes
-desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se
-affeiçoara, como usam affeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não
-obstante, em conflicto de tanta angustia, a sua idéa, quando se viu no
-escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem.
-N’esta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões n’uma
-toada medonha.
-
-Avisinhou-se ás apalpadelas, e tirou por ella de sobre o cadaver;
-mas os braços de Beatriz estavam empedernidos ás ilhargas do morto.
-Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços.
-Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem
-importar-se da crueldade e desamor do acto. Foi ao seu quarto, embolçou
-os valores que tinha; e, tirante esta ultima prova de bom senso, no
-mais parecia doida a correr por aquella estrada fóra sem destino.
-
-Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da lethargia, e
-sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar
-abraçada no cadaver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o
-corpo glacial de um morto, e ella esfregava as palpebras, e arrefecia
-as mãos na testa.
-
---Que horror de sonho!...--exclamava suffocada--e, apalpando as costas
-de Raphael, continuava a dizer em sua alma:--Parece que o sinto debaixo
-das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!...
-
-Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que
-foi o supplicio indescriptivel do completo despertar. Ergueu-se de
-salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadaver com
-frenetica ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a
-cabeça como hirta; apertou-a convulsamente á face d’ella; correu-lhe a
-mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu,
-levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de
-seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de
-encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se
-viu sósinha, e não soube compreender que profundezas de abysmo eram
-aquellas; e que circo de chammas havia de abranger-lhe o espirito; e
-que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida,
-a torturada por tormentos, não sabidos de nome n’este mundo, caiu, a
-poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um
-raio.
-
-Ás trez horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram
-aquella mulher, envolta n’um manto branco, ferretado de sangue.
-
-Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa.
-Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz.
-
-No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira
-d’Oura a chamar Nicoláo de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens
-a procurarem não sabiam elles quem; viam a fidalga ensanguentada, e
-julgaram-n’a ferida. As criadas examinaram-n’a, e apenas lhe viram o
-rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos
-visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o
-rosto sobre a pedra.
-
-O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ella se
-apalpou.
-
-Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao
-leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de socego. Rasgou
-as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou
-de gritar, e interrogava os espavoridos circumstantes, perguntando
-quem matára Raphael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam.
-Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicoláo de Mesquita atirava-se
-do leito fóra, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do
-rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e
-testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em
-paroxismos.
-
-A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias
-os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto
-parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que
-chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a
-um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava.
-
-Nem um monosillabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!...
-
-Morrêra.
-
-Ao anoitecer, chegou Nicoláo de Mesquita. Já desde o alto da serra
-eminente a Palmeira ouvira o dobrar dos sinos. Tangiam as torres das
-irmandades de todas as freguezias proximas.
-
-Apeiou, correu ao quarto de sua mulher, e viu-a, na ante-camara,
-amortalhada, com Martinho Xavier á cabeceira do esquife.
-
---Que é isto!--exclamou elle--expliquem-me esta horrenda desgraça!...
-
-Martinho Xavier não respondeu. Nicoláo instou pela resposta com
-gesticulação de furioso, guinando os olhos ameaçadores a todos os lados.
-
-Saiu ás salas, cheias de gente. Ergueu um brado, pedindo a historia da
-morte de sua mulher.
-
---Ninguem sabe responder--disse uma voz.
-
-Acercaram-n’o os cirurgiões, e contaram o que sabiam: os criados
-depozeram lealmente o que tinham visto, e accrescentaram que a ama do
-menino desapparecera.
-
---Vão buscal-a! vão prendel-a!--rebramiu Nicoláo.
-
-Martinho Xavier acompanhou o cadaver da filha até ao jazigo da capella,
-depois de ter assistido aos responsorios. Saiu da capella; e, sem
-entrar a despedir-se do pae do seu neto, tomou a creancinha nos braços,
-e accelerou o trote do cavallo, caminho de Chaves.
-
-Nicoláo de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o
-levava ao collo, á saida da capella.
-
-Saltou furioso d’entre os cavalheiros que o rodeavam, e quiz ir na
-pista do sogro. Retiveram-n’o, lembrando-lhe que ainda estava quente o
-cadaver de Beatriz.
-
-No outro dia, por noite, chegaram á vista de Palmeira os criados
-de Raphael Garção com o cavallo, na fórma das ordens de seu amo.
-Esperaram-n’o a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se
-cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam
-parados n’aquelle sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos
-entre ferros, declararam a que fins tinham vindo.
-
-Nicoláo de Mesquita ordenou que os trouxessem á sua presença.
-Atterrados pelo apparato, contaram tudo. O morgado suppoz, um momento,
-que Raphael Garção fôra o motor da morte de sua mulher ou com suas
-proprias mãos a estrangulára, e fugira para Hespanha. O boato
-correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os paes de Raphael,
-surpreendidos por esta nova, sairam caminho de Palmeira. Ricardo de
-Almeida appareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu
-o seu amigo com a eloquencia da verdade e da angustia, na presença de
-numeroso publico, exclamando:
-
---O assassino de um, ou de ambos foi Nicoláo de Mesquita!
-
-Enganavam-se todos.
-
-Os paes de Raphael Garção escutavam as differentes vozes com um spasmo
-e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo;
-procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois mezes.
-Apagada a esperança de tornar a vel-o, foi procural-o n’outros mundos.
-O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o
-jazigo em que lh’a fecharam, e d’alli saiu idiota para a escuridade de
-uma camara, onde agonisou dez annos.
-
-Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Raphael tinha sido
-assassinado por ordem de Nicoláo, não podia soffrer que a voz publica
-infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não
-podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e
-contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Raphael com sua
-prima, e as intenções com que elle saira de casa d’elle para Palmeira.
-O velho achou rasoavel a supposição do morgado do Pontido; mas a sua
-angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e
-morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria elle
-vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!...
-Pediu elle a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse
-a lembrança da horrivel tragedia na sua onda de sangue.
-
-Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mez os processos
-começados estagnaram-se, á mingua de indicios. Martinho Xavier, instado
-para restituir o neto, desappareceu com elle, e com boa parte dos seus
-cabedaes. O menino tinha quatro annos, n’aquella época. Seu avô dizia
-que o queria roubar ás reminiscencias do opprobrio e da morte de sua
-mãe. Refugiára-se com o seu thesouro em Londres.
-
-Nicoláo de Mesquita foi para a Ribeira d’Oura buscar as consolações
-de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral d’esta mulher
-figurou-se-lhe um demonio, que o escarnecia na sua ignominia, a
-ignominia de ser deshonrado, como suppunha dos boatos propalados pelo
-Almeida, no intuito de o condemnar a elle como homicida de Raphael e
-Beatriz.
-
-Era uma figuração meramente este reparo no escarneo de Margarida. A
-franceza ageitou as feições á magua do seu amigo: interiormente é
-que ella se deleitava atrozmente, vendo-se no juizo do mundo e de
-Nicoláo tão deshonrada como a mulher purissima, por amor de quem fôra
-abandonada á generosidade do primeiro homem que quiz acoital-a da
-vergonha de pedir ella um amante em troca de um jantar e de um vestido.
-
-Os exteriores da franceza eram, pois, uma chimera do morgado de
-Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que
-todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A
-publicidade da sua ignominia, aggravada com a hypothese de ter sido
-elle o assassino, afóra o perdimento do filho, ao qual a Providencia
-lhe suscitára no coração um amor incendiario, estas angustias,
-centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida d’este
-homem um espectaculo aborrecido ás raras pessoas que o tratavam, e,
-mais que a todas, a Margarida Froment.
-
-Assim que ella proferia uma palavra de banal consolação, Nicoláo
-enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos
-consummados, com a deshonra de muitos homens.
-
-Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das
-valvulas do seu fel--o fel que o desprezo da sociedade emborca
-violentamente na consciencia das mulheres despreziveis--e rebatia-lhe
-as injurias com aviltamentos.
-
-A repetição d’estes conflictos disparou na ameaça de rompimento por
-parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu:
-
---Pois vae-te, mulher fatal! vae! que a tua expiação ainda não começou!
-Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui n’esta agonia, que tu
-vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas,
-quando devias laval-as com lagrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que
-Beatriz fosse victima da seducção! Tu, que interiormente exultas com
-o meu opprobrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois
-vae-te, vae, maldita, e deixa-me morrer!
-
-Margarida preparava os seus bahus, para ausentar-se; e Nicoláo
-lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando:
-
---Não me deixes n’esta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não
-tenho ninguem! ninguem! até o filho me roubaram!...
-
-A franceza condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos
-braços com ficticia ternura, e desprezava-o tanto quanto elle mais se
-envilecia.
-
-As maviosidades momentaneas de Nicoláo pareciam ridiculas caricias
-de velho idiota: os exasperos, interpollados com as caricias,
-afeiavam-n’o horrivelmente.
-
-Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum accesso de furia
-sanguinaria.
-
-Induziu-o a sair da quinta da Ribeira d’Oura para Lisboa. Nicoláo
-recebeu jovialmente o alvitre; mas d’ahi a nada, rompia em exclamações
-contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade á sua
-deshonra.
-
---Está mentecapto!--dizia entre si a franceza.--O diabo que o ature!...
-
-Nicoláo de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois mezes,
-abrir as janellas e arejar o palacete que nunca mais se abrira.
-Meditava em transferir para alli a franceza, desejo que ella
-manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de
-Vidago eram magnificos.
-
-Deteve-se a revolver as commodas e bahus de Beatriz, onde não encontrou
-papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda
-estavam fechadas no quarto, porque ninguem dava noticia da paragem que
-ella tinha.
-
-Nicoláo fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas,
-e uma medalha de oiro com o retrato de Raphael Garção, e uma manilha
-com cabello identica áquella com que o amante de Beatriz morrêra.
-
-O morgado leu as cartas, sem excepção d’aquella em que Raphael alludia
-galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Camaras em
-Bemfica.
-
-Nicoláo sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadaver de Beatriz ao
-jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas
-fontes. Desistiu da lamentavel inepcia, e fugiu como de si mesmo para
-a Ribeira d’Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment.
-
-Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas:
-
- «Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A
- mulher fatal não quer fazer mais victimas. Adeus.
-
- «MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT».
-
-Nicoláo, corridos trez minutos de estupefacção, exclamou:
-
---Pois ha Deus que castigue assim!?
-
-
-
-
-XXIV
-
-
-A interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providencia
-que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus.
-
-Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providencia que mais
-queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face
-do guzano, que se pascia em sua podridão.
-
-Desde aquella hora, Nicoláo, olhando-se no baço espelho da sua
-consciencia, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se
-gosava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro annos,
-via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condemnado
-nas ultimas setenta horas do oratorio.
-
-«Eu posso ainda levantar-me d’este abatimento!--dizia comsigo
-elle.--Irei longe d’aqui, irei a França, a Italia, a toda a parte onde
-a riqueza inventa delicias, irei gosar, esquecer-me, viver!»
-
-Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso
-da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga,
-assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a.
-
-Duas vezes tivera as malas feitas para sair de Portugal: porém, á hora
-de partir, senhoreava-o a cachexia com desalento anniquilador, que o
-forçava a desistir, exclamando:
-
---Onde vou eu? Em que parte do mundo se acabam os limites ao meu
-inferno?
-
-E então, commovia a lagrimas vel-o chorar a elle com saudades do
-filho; mas nem a consolação amarga d’estes prantos lhe era concedida!
-Sobresaltava-o a duvida de ser elle o pae d’aquella creança. Calculava
-épocas, via attentamente a data gravada na manilha de oiro, que
-encontrára na caixa da ama: agora, inferia d’aquella data provas
-concludentes da legitimidade do filho de Beatriz; logo, convencia-se da
-fallivel significancia das lettras gravadas, podendo ellas meramente
-commemorar o dia em que fôra dada a prenda. Execrava então o filho,
-emquanto a soledade e a insulação de toda a convivencia, lh’o não
-mostrava como esteio unico á vida.
-
-Vagando de quinta em quinta, afinal deixou-se ficar em Palmeira,
-encerrado, em pouquissimo da casa, estranho ao governo d’ella,
-inaccessivel a foreiros, a criados, a raros amigos que o procuravam.
-Um só homem conseguira entrar no quarto de Nicoláo de Mesquita: era
-o octogenario reitor, varão de preclaras virtudes, que adivinhara o
-essencial da angustia do fidalgo, que elle baptisara e beijara nos
-braços de sua mãe, quando assistiu ás estrondosas festas do baptisado.
-Quantos esforços fez o santo homem para o tirar á luz e ás distracções
-do campo todos se mallograram. Chamava-lhe o pensamento a coisas de
-lavoira, obras começadas, melhoramentos que fazer, a reconstrucção da
-torre de menagem meio arruinada.
-
-Nicoláo respondia:
-
---O meu tumulo está edificado ha duzentos annos: não tenho outras obras
-que faça, padre reitor.
-
-Ainda receioso de impaciental-o, o ancião teimava em fallar-lhe de
-obras.
-
-Um dia, trez mezes depois da morte de Beatriz, dizia o clerigo:
-
---Quando vi abrir-se o aqueducto da agua que vae dar ao jardim, e
-andarem lá trabalhadores, cuidei que vossa excellencia resolvera, como
-seus paes haviam tencionado, formar um grande tanque no terreiro para
-beberem os cavallos. Esteve a mina aberta uns dias, e depois, logo
-depois que sua excellencia a senhora D. Beatriz que Deus tem, falleceu,
-fechou-se o aqueducto.
-
---É que eu mandei suspender todas as obras--respondeu Nicoláo--e o
-feitor mandou logo empedrar a bocca da mina.
-
---E por que não hade vossa excellencia entretêr as suas horas n’uma
-obra tão util para a casa e para o povo?
-
---Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo.
-
---O povo creio eu que importa a vossa excellencia, meu bom fidalgo,
-porque paes e avós d’este povo foram sempre como filhos dos ricos
-homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa
-excellencia lhe desse para as suas necessidades a agua que superabunda
-nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores seccam
-as fontes, vae buscar, a grande custo e perda de tempo, a agua á
-freguezia proxima. Aqui tem vossa excellencia que está em sua mão, com
-pequenissimo dispendio, soccorrer este povo, que tão alegre ficou,
-assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excellencia.
-Parece que tem praga de inveja aquella obra! Seu excellentissimo
-avô abriu a mina, o paesinho de vossa excellencia continuou-a, o
-senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por
-pouco encontrar-se com o aqueducto, que desce da serra, vejo eu os
-jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa!
-
-Nicoláo ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como
-sempre, assim que a expressão do tedio assomava no rosto do morgado
-como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sósinho, padre
-reitor.»
-
-D’este dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a
-sepultura de Raphael Garção, e que o apodrecimento do cadaver não
-chegou a ser presentido pelo fetido das exhalações.
-
-
-
-
-XXV
-
-
-O virtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo
-fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem
-d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas
-de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino
-estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em
-collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella
-unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que
-elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo
-sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o
-apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo
-de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a
-residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito,
-e facilmente se deparou ás investigações policiaes o velho fidalgo
-vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel.
-Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole,
-apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho
-passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o
-nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não
-prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo
-batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e
-licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro.
-
-Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem
-de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara
-a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os
-olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse
-affectuosa e tristemente:
-
---Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma?
-
-O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino
-reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz
-tremida e balbuciante falla:
-
---O meu papá não morreu? O avô disse que sim.
-
---Morri, meu filho, morri!--respondeu soluçante o desgraçado.
-
-Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão
-divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe:
-
---Abraça-o, Martinho, que é teu pae.
-
---E a mamã--perguntou o menino, apertado nos braços do pae.--E a mamã
-tambem não morreu? Onde está ella?
-
-O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do
-pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as
-taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas
-descobriam.
-
-Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve
-pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha.
-
-Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe
-compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura:
-
---Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas
-desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas
-culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim?
-
---Que és um desgraçado--respondeu serenamente o pae de Beatriz.
-
---Bem hajas!--volveu Nicoláo.--Escuso perguntar-te se me julgas o
-assassino de Raphael Garção.
-
---Que me importaria isso?... redarguiu Martinho. Seria bem morto, se
-era infame!
-
---Atrozmente infame!... E quem me assevéra que elle não vive?
-
-Martinho Xavier encarou penetrantemente nos olhos de Nicoláo, e disse:
-
---Quem matou, pois Raphael? Morto está elle. Raphael tinha um só amigo;
-era Ricardo de Almeida. Tenho uma carta d’elle. Cartas recebidas todos
-os paquetes. Ricardo nunca mais teve novas de Raphael... Quem o matou
-pois?
-
---Não sei, pela vida de meu filho t’o juro, Martinho Xavier, se a
-minha palavra perdeu a tua confiança! Deus fulmine este anjo que é tudo
-o que me resta, se eu comprehendo que morte foi a de Beatriz e se tenho
-sombra de suspeita do destino que levou o villão, que tantas vezes me
-apontaste como...
-
---Basta! interrompeu o velho, está aqui uma creança, que Deus dotou
-com precoce entendimento. Ha dois nomes que eu exijo que este menino
-esqueça. Vens buscar teu filho?
-
---Não, primo: venho pedir-te que voltes com elle e commigo a Portugal.
-
---Não: leva-o, e deixa-me morrer, onde mais não veja a sombra de minha
-filha.
-
---Ficarei comtigo, Martinho Xavier, e com meu filho, disse Nicoláo.
-Virei eu perturbar o teu socego?
-
---Vens: mas eu acceito de boa vontade o que está determinado por Deus.
-Ficarás comnosco. Assistirás á educação de Martinho; e, quando elle
-tiver a sabedoria, que contrabalança as desventuras, e fortalece o
-animo para subjugal-as, então ireis para a patria, e eu estarei já
-morto e esquecido.
-
-Nicoláo de Mesquita apresentou-se na vivenda do sogro, sem intentar
-melhoral-a. Afóra os contentamentos aspirados nos labios da creança,
-o restante da sua vida era dôr sem intermissão. Nenhuma variedade
-procurava ás suas meditações, não podia sequer conversar com o primo em
-assumptos ligados ao nome de Beatriz. Se o pae, do secreto de alma, lhe
-havia perdoado, envergonhar-se-hia de confessal-o. Como já não podia
-maldizel-a, tambem fugia de suscitar reminiscencias d’ella.
-
-Assim passaram, n’esta angustiosa e contemplativa mudez, um anno.
-
-Martinho, observando com dôr o desperecimento do genro, suggeriu a
-ideia de irem vêr França. Nicoláo approvou-a indifferentemente. Como
-conhecia as miudezas de Paris e outras cidades, disse que a todas iriam
-excepto Leão. Aqui devia viver o marido de Margarida Froment.
-
-Foram, e ao terceiro dia de residencia em Pariz, Nicoláo viu no
-_boulevard dos Italianos_ um homem conhecido, encostado á vidraça de um
-estabelecimento de modas; era o chanceller, que havia sido do consulado
-francez no Porto. D’ahi a segundos, viu sahir uma mulher de bello
-exterior, e dar o braço áquelle homem: era Margarida Froment.
-
-De maneira que o brioso amigo do marido da infame, como elle a
-catalogára, o campeão voluntario da honra de Ernesto, degenerára tanto
-em pundonor de espiritos, que aberta a conjuncção prospera, tomou conta
-da mulher do seu amigo.
-
-Margarida cravou os olhos em Nicoláo e fez pé atraz de espantada. O
-morgado inclinára-se a ouvir uma pergunta do filho. Martinho Xavier
-fôra estranho ao lanço.
-
-Volvidos quinze dias, Nicoláo, passando no bosque de Bolonha, viu um
-homem que guiava um phaetonte, em que iam duas mulheres de imponente
-belleza, e brilhantemente vestidas, inclinadas para o elegante
-conductor de fogosos cavallos. Reconheceu-o.
-
-Ao pé d’elle estava uma roda de francezes, um dos quaes, apontando o
-transeunte do phaetonte, dizia aos outros:
-
---Ahi vae Ernesto Froment espalhando os ultimos dez mil francos da
-fabrica vendida.
-
-Outro ajuntou:
-
---Em dez annos gastou duzentos mil francos.
-
-Ainda um terceiro:
-
---Com seis magnificas mulheres. Diz elle que os ultimos mil francos ha
-de engulil-os como Gilbert enguliu a chave.
-
---A comparação é modesta! observou um.
-
---Gilbert, acudiu outro, estremece de horror sabendo que foi parodiado
-por uma bêsta maior da marca.
-
-Nicoláo passou ávante, e dizia entre si:
-
---Ernesto e Margarida não expiam, porque se não devem nada.
-
-Vista a grande cidade, Martinho Xavier desejou a quietação da sua
-casinha suburbana de Londres. Nicoláo seguiu-o automaticamente,
-discutindo em segredo a ordem das leis providenciaes. A inducção que
-vimos inferir da impunidade de Margarida, e do alegre viver de Ernesto,
-prova que o homem principiava a formar um systema racional em materia
-de expiações.
-
-Tem escapado a muito philosopho e theologo a grande verdade, que elle
-apanhou pela incoercivel guedelha. É effectivamente verdade que uns
-certos maridos de umas certas mulheres não expiam, porque não se devem
-nada.
-
-A respeito d’estes e d’estas parece que a Providencia diz em linguagem
-chã:
-
-«Lá se entendam e lá se avenham.»
-
-Margarida, Nicoláo e Raphael foram exceptuados d’este menospreço da
-Providencia.
-
-
-
-
-XXVI
-
-
-N’uma casa de Villa Real de Traz-os-Montes, em março de 1849, um
-sujeito lia á sua familia a seguinte correspondencia de Chaves
-publicada no jornal portuense _O Nacional_, d’aquelle mez e anno:
-
- _Sr. redactor._
-
- «Remetto ao seu jornal a singela narrativa de um estranho successo,
- que veiu esclarecer os mysterios de uma tragedia de familia, sobre a
- qual ha quatro annos a opinião publica tem aventurado opiniões, aliás
- infamantes, algumas das quaes desgraçadamente se verificam hoje.
-
- «Em agosto de 1844, o morgado de Fayões, Raphael Garção Cogominho,
- rapaz de costumes não louvaveis, mas egual a muitos que o mundo
- respeita, lisonjeia e admira, desappareceu da casa de seus paes, e
- nunca mais voltou.
-
- «Ao mesmo tempo... (muito me custa ter de escrever os nomes de
- pessoas que figuram ou figuraram n’este drama; porém, sacrificando
- á verdade, e desejando que na minha narrativa ninguem veja um
- romance, sou forçado a não esconder nenhuma das luzes que alumiam
- este acontecimento tenebroso). Ao mesmo tempo, D. Beatriz de Sousa,
- mulher do morgado da Palmeira do Vidago, Nicoláo de Mesquita, morria,
- segundo disseram os facultativos, de uma congestão cerebral, ou febre
- thraumatica, consecutiva a ferimentos na face.
-
- «No dia seguinte, os criados de Raphael Garção procuraram seu amo na
- quinta de Palmeira, para onde elle viéra de noite e furtivamente. Os
- criados, interrogados pelo marido da senhora morta, confessaram a
- intenção que os levava alli, e foram despedidos.
-
- «A voz publica francamente disse que o morgado de Fayões morrêra
- ás mãos do marido de sua prima Beatriz, ou por ordem d’elle; e que
- a esposa, suspeita de deslealdade, se não perecêra no mesmo ponto,
- succumbira depois dos flagicios bem claramente denunciados nas
- contusões da face.
-
- «A ausencia do morgado da Palmeira, na noite em que estes factos se
- deram, confirmava desconfianças sobre as probabilidades da astucia
- com que o senhor da casa, praticado ou mandado praticar o crime, se
- fingia distante do local. Como quer que fosse, do cadaver de Raphael
- Garção nenhuns indicios alcançaram as pesquizas da justiça, e sobre o
- cadaver de Beatriz de Souza nenhum exame se fez. O provavel e quasi
- evidenciado é que ambos estavam mortos.
-
- «Passados sete ou oito mezes, o morgado da Palmeira foi para Londres,
- em demanda do filho, que o avô, nobilissimo cavalheiro de Chaves, lhe
- arrebatára. Decorridos dois annos, voltou para Portugal Nicoláo de
- Mesquita, e o filho, a tomar conta dos grandes haveres do sogro, que
- falleceu em Londres.
-
- «No principio do corrente anno, quando a memoria da obscura tragedia
- estava delida no impersistente espirito do publico, quiz a Providencia
- que o morgado da Palmeira, com a sua propria mão, fosse apontar o
- infallivel testemunho do seu crime. É bem certo, segundo a phrase da
- Escriptura, que Deus enlouquece aquelles que quer perder!
-
- «Os operarios, que por ordem de Mesquita desempedravam a porta de um
- aqueducto, que estivera aberto quatro annos antes, e se fechára dois
- dias depois da morte de Beatriz de Sousa, encontraram a quinze passos
- distantes da abertura da mina um esqueleto.
-
- «Os ossos não tinham já fibra de carne adherente, conforme ouvi aos
- facultativos examinadores. As cartilagens e ligamentos, com quanto
- articulassem a ossada, principiavam a esphacelar-se, e muitos se
- desfibraram ao contacto do ar. O esqueleto estava de bruços; e cingida
- á volta do radio e cubito, ossos correspondentes ao ante-braço, tinha
- uma especie de pulseira, chamada manilha, com um retrato pendente,
- perfeitamente conservado no marfim, encastoada em oiro, com o rosto de
- esmalte, no reverso do qual se lê uma data, e as iniciaes enlaçadas de
- Raphael Garção e Beatriz de Sousa.
-
- «Quando os jornaleiros descobriram o esqueleto, estava Nicoláo de
- Mesquita em Chaves. Os mineiros fugiram espavoridos, e foram contar
- o succedido ao regedor. Este mandou guardar por cabos de policia o
- aqueducto, e officiou á auctoridade. O aviso chegou simultaneamente ao
- morgado, que partiu para Palmeira.
-
- «A auctoridade, chegada ao mesmo tempo, consentiu que Nicoláo de
- Mesquita penetrasse no aqueducto com uma lampada, visto que sem o
- exame dos peritos não se podia levantar o esqueleto, em conformidade
- com as ordens do morgado.
-
- «O regedor, que seguiu Nicoláo de Mesquita, observou com grande
- assombro, um acto de extraordinaria ferocidade; e foi que o morgado
- depois de examinar a manilha pendente do pulso do esqueleto, fez um
- gesto de raiva frenetica: e, com um pé assentado em cheio no arcaboiço
- das costellas, fez que debaixo rangessem e estalassem os ossos do
- peito e costas. O regedor conteve-o de espalhar a ossada a pontapés,
- com risco de ser espancado pelo furioso dentro da mina.
-
- «As auctoridades, depois do exame, tomaram conta da ossada, para
- continuação de averiguações.
-
- «Sr. redactor, como se vê, o indicio de um assassinio está manifesto
- a todas as luzes; mas o indigitado homicida, porque é fidalgo e
- opulento, está no liberrimo goso dos seus direitos civis. Se fosse um
- pobre, já estava preso, e teria sido interrogado em casa de Anaz, e
- Caifaz, e Pilatos.
-
- «Alguem saiu já em defeza de Nicoláo de Mesquita, allegando que elle,
- se fosse o assassino, de modo nenhum mandaria bolir no aqueducto. Esta
- razão tem uma face acceitavel, e outra incumbe á justiça mostral-a. Em
- quanto a mim e á maioria dos pareceres, o matador de Raphael Garção,
- cujos olhos são indubitavelmente aquelles, foi Nicoláo de Mesquita,
- vigesimo segundo senhor da Torre e morgado de Palmeira de Vidago.
-
- «Conte com a noticia circumstanciada d’este processo, e com a verdade
- incorruptivel, do seu constante leitor,
-
- «EPAMINONDAS TEBANO.»
-
---O que ahi está é tudo mentira! exclamou uma voz d’entre as pessoas,
-que escutavam a leitura da correspondencia.
-
-Confluiram todas as vistas para a pessoa que bradara, e viram a criada
-da casa, Maria Joanna, que deixara cair o fuso, e com a mão levantada
-repetia:
-
---Juro pela salvação da minha alma, que o senhor morgado da Palmeira
-não matou o senhor Raphael.
-
---Como sabes tu isso?! perguntou o patrão.
-
---Sei-o, porque era criada da senhora D. Beatriz; fui eu quem creou
-o menino de que ahi se falla na gazeta. Assisti ao ultimo arranco do
-senhor Raphael. E, se até agora me calei, é porque não soube que o meu
-amo pagava innocente.
-
---Conta o que sabes, Maria, e prepara-te para ir esclarecer a justiça,
-voltou o patrão.
-
-A antiga confidente de Beatriz relatou as desgraças de sua ama e do
-assassinado amante d’ella.
-
-No dia seguinte, partiu para Chaves, com recommendações do cavalheiro
-de Villa Real, e foi levada á presença da auctoridade, deante de quem
-e de testemunhas, expoz o modo como Raphael Garção fôra encontrado,
-e a supposição de que elle fôra morto por uns homens que dispararam
-as armas para dentro da mina. Era preciso ouvir o depoimento dos
-homens. Maria Joanna indicou dois criados de Palmeira para dizerem
-quem eram elles, por terem estado, poucos momentos antes, conversando
-juntos. Os criados ainda o eram de Nicoláo de Mesquita. Foram citados
-a comparecerem na policia; e, interrogados, lembraram-se dos nomes
-dos quatro valentões da sanguinaria romaria. Os indicados depuzeram
-conformemente ao depoimento da creadora de Martinho, e as suspeitas
-declinaram de sobre a cabeça de Nicoláo de Mesquita.
-
-O cavalheiro de Villa Real, volvidas duas semanas, leu uma segunda
-correspondencia do _Epaminondas_, antipoda involuntario do Epaminondas
-de Tebas, na qual as suas conjecturas eram rectificadas, com grande
-magua de as haver estampado no primeiro afôgo da sua indignação. A
-indignação dos correspondentes da provincia é coisa de grão pavor quasi
-sempre!
-
-A correspondencia rematava assim:
-
- «Os ossos de Raphael Garção foram religiosa e pomposamente conduzidos
- de Chaves para Fayões, e depostos no jazigo de seus avós. O pae de
- Raphael, que ainda vive doido, na escuridade do seu quarto, onde
- apenas recebe á força quem lhe ministra o sustento de tão horrivel
- viver, morrerá sem saber que os ossos do seu filho unico repousam
- na mesma sepultura da mãe, que morreu saudosa d’elle. A criada
- Maria Joanna salvou o morgado de Palmeira de um injusto ferrete:
- não obstante, o marido de Beatriz, com justa ou injusta razão (não
- ouso decidir-me) não consente esta mulher deante dos seus olhos.
- Consta-me que lhe mandara entregar as suas caixas, que ainda estavam
- em Palmeira, e uma esmola valiosa por mão do menino que se creou aos
- peitos d’ella.
-
- «Finalmente, senhor redactor, em vista do desenlace d’esta infanda
- historia, devemos olhar ao ceu, e baixar os olhos confundidos, deante
- da mysteriosa justiça da divina providencia! Raphael Garção morreu.
- Beatriz viu-o agonisar. Ambos expiraram no praso de vinte e quatro
- horas. Nicoláo de Mesquita geme ha quatro annos sob o peso de uma cruz
- de ferro. Estas angustias pode ser que correspondam a antigos crimes.
- Em summa, ninguem se transvie do caminho da virtude, que o do crime
- está ladeado de infernaes abysmos.
-
- «EPAMINONDAS.»
-
-
-
-
-
-
-XXVII
-
-
-Nicoláo de Mesquita, em 1850, voltou para Inglaterra com o seu filho, a
-residir no _cottage_ de seu sogro. O menino, aos sete annos, entrou em
-collegio, e passava os dias feriados com seu pae.
-
-N’uma estação de ferias, o morgado saiu com o filho a passar uns
-dias em Pariz, em companhia de uma familia ingleza, proprietaria da
-residencia em que fallecera Martinho Xavier, e a quem Nicoláo devia
-o obsequioso cuidado de attentar nas necessidades do filho sem mãe e
-sem carinhos de mulher, aos quaes se aquece o coração das creanças, e
-as virtudes fermentam n’elle. O aspecto macilento e sempre sombrio do
-portuguez acareára a discreta piedade da familia ingleza.
-
-Adivinhavam n’elle um desmarcado infeliz, talvez um delinquente:
-mas, o remorso ou pena immerecida, o que elle inspirava nas almas
-contemplativas era compaixão.
-
-Estavam, pois, em Pariz, no anno de 1852, quando Nicoláo, ao sair da
-egreja de Notre-Dame, onde fôra ouvir prégar Lacordaire, ouviu entre a
-multidão uma voz muito proxima do ouvido, que lhe dizia:
-
---Nicoláo de Mesquita.
-
-Olhou de golpe, e viu Margarida Froment. Estremeceu. Aquella mulher
-devia ter quarenta annos; a decadencia era justificada; mas a velhice,
-quasi repellente, não.
-
---Custa-me a reconhecel-a, madame!--disse Nicoláo com os olhos afogados
-em lagrimas.
-
-A franceza deteve-se entalada pela angustia da humilhação, e disse:
-
---Não venho pedir-lhe nada: quiz que me visse. Reduziu-me a isto,
-senhor Mesquita.
-
---Eu!... santo Deus!--atalhou Nicoláo enxugando as lagrimas.
-
---Aqui tem a Margarida Froment de 1834--proseguiu ella.--Casualmente
-nos achamos á porta do templo em que ambos saltámos da carruagem de
-meu marido para visitarmos as antiguidades d’esta egreja. Recorde-se
-da mulher de então: sou eu. É esta Margarida que empenhou hontem o seu
-melhor vestido para ter hoje um almoço. Já lhe disse que não venho
-pedir nada; quero que me veja.
-
---Mas a senhora attribula-me horrivelmente!--exclamou Nicoláo entalado
-de gemidos.--Não foi Margarida quem abandonou a casa de que era
-senhora? Expulsei-a eu?
-
---Não lhe respondo, senhor Mesquita. Olhe de cima do despenhadeiro onde
-me poz, e pergunte á Providencia por que estou aqui, porque sou isto
-que vê!
-
---Pois que hei de eu fazer-lhe agora, senhora! Que quer de mim? Eu
-sou muito desgraçado; mas sou rico ainda. Quer recursos para viver
-decentemente? Diga sem repugnancia.
-
---Não, senhor; nada lhe pedi: quero que me veja!
-
---Mas, infeliz, que vida foi a sua que...?
-
---A minha vida é isto!--interrompeu Margarida com
-vehemencia.--Perguntei-lhe eu que vida era a sua? Leio-lh’a no rosto. A
-minha historia aqui está tambem escripta na cara de Margarida Froment
-de 1834. Eu tinha então vinte annos, vinte mil libras para gastar
-cada anno, e o respeito do mundo, o amor de meu marido, que reduzi á
-libertinagem extrema para me esquecer, e á derradeira indigencia para
-com o tinido do oiro ensurdecer-se ao grito da infamia, que lhe deixei
-perpetuamente nos ouvidos. Póde ser que Ernesto Froment ainda lhe peça
-uma esmola, senhor Mesquita. Dê-lh’a, que o desgraçado não saberá quem
-lh’a dá. Dê-lhe a elle a esmola que eu rejeito, porque o hospital
-reserva-me duas taboas, e a pedra da mesa anatomica um funeral condigno.
-
-Nicoláo soluçava; Margarida bateu-lhe no hombro, e exclamou surdamente:
-
---Viu-me? Agora... adeus!
-
-E sumiu-se entre a multidão.
-
-Como descêra até ali Margarida Froment?
-
-Uma palavra o diz: envelhecêra.
-
-Os ultimos quatro annos da sua vida tinham sido o vasquejar, os
-relampagos da luz que vae apagar-se. Os amantes não quizeram assistir
-ás trevas. Viram-lhe a primeira ruga na fronte, o amortiçar-se o raio
-coruscante dos olhos, o artificio da pelle, o lustroso sobrenatural das
-madeixas.
-
-Fugiram-lhe, e ella, orgulhosa sempre, não solicitava piedade.
-
-Desenganou-se, despida dos artificios. O espelho foi-lhe a garganta do
-abysmo. Viu-se e despenhou-se á extrema devassidão, cuidando que morria
-assim mais depressa.
-
-Ernesto encontrou-a no portico do _Mont-de-Piété_. Ella saia
-de empenhar o chale, elle entrava a empenhar o casaco. Não se
-reconheceram. O empregado na recepção de penhores, ao escrever o
-appellido de Ernesto, disse-lhe:
-
---Sahiu n’este instante uma Froment. É sua parenta Margarida Froment?
-
---Saiu agora?
-
---Agora mesmo.
-
---Desgraçada?
-
---Aqui não vem ninguem feliz?
-
---Que signaes tem?
-
---Uma cara de fome, um mantelete de côr duvidosa. Empenhou um chale por
-quatro francos.
-
-Ernesto desceu rapidamente. Era difficil encontral-a. Fitou em rosto
-as mulheres todas que denunciavam fome, e trajavam manteletes de côr
-duvidosa. Não viu Margarida em nenhum, e pozera os olhos n’ella, a
-ultima que vira comprar um pão.
-
-Margarida reparou no homem que a fitava. A desfiguração de Ernesto era
-menos sensivel. Conheceu-o, e disse-lhe:
-
---Queres metade d’este pão, Ernesto?
-
---Quem és tu?!--perguntou elle.
-
---Uma condemnada por Deus, que te pede a morte.
-
---És Margarida?--perguntou Ernesto serenamente.
-
---Sou.
-
---Não te matei, quando era honra matar-te. Agora, vive, e segue o teu
-caminho. Deus ha-de cumular sobre ti a pena do teu crime, e a pena
-egual aos tormentos que soffro, sem ter sido culpado. Vae teu caminho.
-
-Vivia ainda em Leão a mãe de Margarida. Pela terceira vez a desamparada
-se lhe foi lançar aos pés. Foi repulsada sempre pelas criadas de sua
-mãe.
-
-Tinha um irmão rico nas Antilhas. Pediu-lhe tres vezes perdão do seu
-infortunio, e uma esmola. A segunda e terceira cartas não foram abertas.
-
-O francez morreu solteiro e rico, no momento de retirar-se a França.
-
-A mãe de Margarida herdou muitos milhares de francos. Os jornaes
-contaram o successo. Margarida foi quarta vez ajoelhar-se á porta do
-quarto de sua mãe.
-
---Não tenho filha,--respondeu a descaroada.--Não cuides que terás
-quinhão na riqueza de meu filho. Eu gastarei o que tenho em obras
-piedosas.
-
-E, quando scismava em dar brado com as suas obras piedosas, morreu n’um
-como deliramento de amor da humanidade.
-
-Margarida Froment recolheu quatrocentos mil francos. Mandou procurar
-o marido a Pariz. Encontraram-n’o secretario de uma companhia de
-cavallinhos, a franco por dia.
-
-Ernesto recebeu lettras de duzentos mil francos, e estas breves linhas:
-
-«Dava-te metade do meu pão: hoje dou-te metade da minha fortuna, e a
-outra, se a quizeres.»
-
-Ernesto acceitou a sua quota parte, e desistiu da outra, muito em
-conformidade com a lei, dispensando-se até de administrar a massa do
-casal, o que em boa jurisprudencia lhe era permittido.
-
-Margarida, se fosse solteira, podia escolher bons casamentos. Dizia-se
-em Leão que ella era os melhores quarenta annos e as mais bellas ruinas
-que ainda tinham visto os olhos dos seus pretensores, offuscados pela
-prefulgencia de duzentos mil francos.
-
-Ernesto foi para Londres. Metteu nos bancos o seu capital, e deu-se a
-uma vida de confortos modestos, e reparação da saude. Tonisado pela
-regularidade e sadia alimentação ingleza, achou que a inercia lhe
-pesava. Como tivera fabrica de estôfos, entrou em negocio de algodões,
-não para anumerar aos seus cabedaes, mas para entreter-se.
-
-A familia ingleza, relacionada com Nicoláo de Mesquita, possuia fabrica
-em Manchester, e comprava algodões aos importadores. Ernesto Froment
-negociava com os Smitts, necessariamente haviam de ser Smitts, ou Johns.
-
-Uma vez estava Ernesto no escriptorio dos Smitts, ou Johns, e entrou um
-homem de barbas intonsas e alvissimas, com um menino pela mão.
-
-O fabricante inglez chamou-lhe: «_Master Nicoláo de Mesquita._»
-
-Ernesto, como se lhe dessem com uma bala na face esquerda, voltou a
-cabeça á direita, e perguntou em inglez:
-
---É de Portugal este _a knight_ (cavalheiro)?
-
---Sim, das visinhanças do eden do vinho--respondeu o industrial.
-
-Mediu-o de alto a baixo.
-
-Nicoláo estremeceu involuntariamente, e perguntou:
-
---É inglez, o senhor?
-
-Ernesto não respondeu. O britanico é que disse:
-
---É francez. E eu lhe apresento mr. Ernesto Froment, honrado mercador
-de algodões.
-
-Nenhum dos apresentados se moveu. O inglez espantou-se, e disse entre
-si: «_Inelegancy! improper!..._»
-
-Ernesto Froment saíu, sem inclinar a vista a Nicoláo.
-
-Smitt ou John perguntou ao portuguez a significação d’aquella frieza.
-
-Mesquita respondeu com um sorriso, e uma lividez de torvação espavorida.
-
-Subiu com o filho aos aposentos das ladys, e, convulso de lagrimas,
-pediu que lhe não desamparassem o filho, se elle morresse.
-
-Alvorotaram-se as senhoras, e a um tempo interrogaram a terrivel
-presumpção de morte breve. Nicoláo gelava com a sua taciturnidade.
-Cuidaram as damas que o secreto desgosto da existencia d’este homem lhe
-transtornára o espirito. Relataram ao honrado velho as lagrimas e rogos
-do portuguez.
-
-O commerciante foi procurar Ernesto Froment, e pediu-lhe
-encarecidamente o mysterio da sua vida com a de Nicoláo de Mesquita.
-
-O francez fingiu estranhar a desconchavada pergunta; porém, instado
-pelo commovido inglez, contou a sua vida, desde a infamissima perfidia
-de Nicoláo, seu commensal durante a emigração, até á escaleira de
-opprobrios a que descêra, despedaçando o trabalho de seus paes, para
-esquecer a affronta.
-
-O inglez chorava, e odiava Nicoláo de Mesquita.
-
---Qual é agora o seu intento a respeito do portuguez? perguntou o velho.
-
---Matal-o!
-
---Oh!...--exclamou Smith ou John.
-
---Matal-o inevitavelmente!--repetiu Ernesto.
-
---Oh!...
-
-Passada uma breve pausa, o inglez saíu, dizendo-lhe:--espere-me duas
-horas que eu venho.
-
-Antes das duas horas, entrou o inglez no escriptorio de Ernesto
-Froment, com um menino de dez annos pela mão, e disse enternecido a
-prantos:
-
---Este menino é filho de Nicoláo de Mesquita, e vem aqui de joelhos
-pedir a vida de seu pae.
-
-Martinho ajoelhou. Ernesto levantou a cabeça, estendeu a mão ao
-fabricante, e disse em voz tremente:
-
---As nossas negociações estão fechadas.
-
---Oh!... porque?
-
---Porque me retiro ámanhã de Inglaterra.
-
-Assim foi. Ernesto saíu para Italia.
-
-O inglez, porém, procurou Nicoláo, entregou-lhe o menino, e disse-lhe:
-
---A sua vida não corre perigo, senhor Nicoláo; tenho, porém, a
-observar-lhe que não posso ser seu amigo, nem a minha casa póde
-recebel-o.
-
-Fez uma breve cortezia, e sahiu.
-
-
-
-
-CONCLUSÃO
-
-
-Nicoláo de Mesquita, cortado de desgostos, e inclinado á sepultura com
-desejos de fechar-se n’ella, saiu de Londres com o filho. A desgraça
-não lhe dava treguas.
-
-Trouxe de Pariz mestres para Martinho, habeis na sciencia, e prendas de
-educação esmerada.
-
-Voltou á torre solarenga, e chamou a si duas velhas senhoras, parentas
-de Martinho Xavier, para lhe regerem a casa e especialmente velarem o
-bem-estar do filho.
-
-Passou dois annos por tal maneira abatido de espirito, que deu
-comsigo, quasi aniquilado de raciocinio, nos extremos preconceitos da
-religião desfigurada por visualidades. Acercou-se de missionarios de
-todo cégos á luz do Espirito Santo, em quanto ao teor de aligeirar o
-peso de certas amarguras. Dos missionarios resvalou ás superstições
-lastimaveis no homem que tivera intelligencia clara, e sciencia
-pratica. Prestava ouvidos e coração a coisas de agoiro, e sortilegios.
-De enlevos na contemplação do Supremo Senhor do céu e terra, descia a
-pactuar com uma boçal velhinha, santa famigerada, o quebramento do seu
-fadario. Esta escuridade prenunciava as trevas do sepulcro.
-
-A piedade não o forrava aos impetos de um odio á sombra de Beatriz.
-Nunca mais entrou á capella onde esperavam o ultimo juizo as cinzas da
-infeliz. Os missionarios não souberam extirpar-lhe da alma o cancro do
-rancor: davam-lhe amulêtos, e orações prófugas do espirito immundo.
-
-Mandára erigir um santuario na recamara do seu quarto, e ahi se
-exercitava em soliloquios mentaes, entoando com fervorosos assomos
-de illuminado as amorosas apostrophes ao divino dos padres Chagas e
-Bernardes. Se não tivesse descançado no Senhor aquelle Santo parocho, o
-penitente iria pela mão do velho á estrada recta da divina misericordia.
-
-Uma tarde, Nicoláo de Mesquita, após a sobre-excitação febril de
-algumas horas, chamou criados com alavancas, e desceu á capella, onde
-não havia entrado desde a morte de sua mulher.
-
-Mandou levantar a pedra do jazigo e extrair a ossada que estivesse
-mais á flôr da sepultura. Os criados suando de pavor, curvaram-se
-a remexer os ossos; mas superstições, ou abalo sobre-natural, não
-ousou tocar-lhes; e, um após outro, fugiram da capella, ao verem
-desfigurarem-se medonhamente as feições do fidalgo.
-
-Nicoláo travou da alavanca, e tentou mettel-a ás junturas argamassadas
-do jazigo da esquerda, onde estavam as solitarias cinzas da unica
-adultera d’aquella familia. N’este esforço e reluctancia com as
-difficuldades de abalar a pedra, extenuou-se, perdeu o alento, e caiu
-de rosto contra o degrau do altar, exclamando vozes inintelligiveis.
-
-As velhas senhoras, o filho, os mestres e os criados acudiram á
-capella, e tomaram-n’o em braços. Nicoláo revolvia a lingua na abobada
-palatina, e tirava uns sons roucos, arripiadores, como gritos de ave
-nocturna.
-
-Chamaram medicos e sacerdotes. A medicina capitulou de paralisia o
-incuravel ataque. Os padres ungiram-no, que a lingua não podia accusar
-as angustias da alma.
-
-N’uma lucta de spasmos e ancias se desprendeu, ao fim de vinte e quatro
-horas, o atormentado espirito de Nicoláo de Mesquita.
-
-Ao cair a pedra sepulcral sobre o cadaver, justaposto aos ossos de
-Beatriz de Sousa, a piedade impõe-nos silencio. Vimos o que é a justiça
-de Deus na terra; n’outros mundos é-nos defeso devassal-a.
-
-Martinho de Mesquita foi tutellado de Ricardo de Almeida, um dos seus
-mais proximos parentes, por parte de sua mãe. É hoje marido da morgada
-do Pontido, filha de Ricardo e Laura.
-
-Ainda vivem os ditosos que o morgado de Fayões invejára nos seus
-ultimos dias de vida. N’aquella casa ha um só incentivo a lagrimas: é a
-memoria de Raphael Garção.
-
-Dizem-nos que o filho de Beatriz, desde que ouviu a historia de sua
-mãe, tem dias de attribulado recolhimento. Possue o retrato d’ella,
-pendente da manilha, tirada do esqueleto de Raphael, e conservado
-na casa do Pontido. Uma vez sua mulher surprehendeu-o absorvido na
-contemplação do retrato. Poz-lhe a mão na espadua, e elle, voltando a
-bella imagem de sua mãe aos olhos da esposa, disse, banhado em lagrimas:
-
---Como não havia de perdel-a o mundo, se ella era tão formosa!
-
-
-FIM
-
-
-
-
-OBRAS COMPLETAS
-
-DE
-
-J. P. OLIVEIRA MARTINS
-
-
-I. Historia nacional:
-
- HISTORIA DA CIVILISAÇÃO IBERICA, 4.ᵃ ed. (1897), 1 vol. br. 700 rs.
- Enc. 900.
-
- HISTORIA DE PORTUGAL, 6.ᵃ ed. (1901), 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.
-
- O BRAZIL E AS COLONIAS PORTUGUEZAS, 3.ᵃ ed. (1888), 1 vol., br. 700
- rs. Enc. 900.
-
- PORTUGAL CONTEMPORANEO, 3.ᵃ ed. (1895), 2 vol., br. 2$000 rs. Enc.
- 2$400.
-
- PORTUGAL NOS MARES, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.
-
- CAMÕES, OS LUSIADAS E A RENASCENÇA EM PORTUGAL, (1891). 1 vol., br.
- 600 rs. Enc. 800.
-
- NAVEGACIONES Y DESCUBRIMIENTOS DE LOS PORTUGUESES, (_ed. do Ateneo de
- Madrid_, 1892), 1 vol. (não entrou no commercio.)
-
- A VIDA DE NUN’ALVARES, 2.ᵃ ed. (1894), 1 vol., br. 2$000 rs. Cart.
- 2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.
-
- OS FILHOS DE D. JOÃO I, 2.ᵃ ed., 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800 rs.
-
- O PRINCIPE PERFEITO, (1895) 1 vol., br. 2$000 rs. Encad., folhas
- doiradas, 3$200 rs.
-
-
-II. Historia geral:
-
- ELEMENTOS DE ANTHROPOLOGIA, 4.ᵃ ed. (1895), 1 vol., br. 700 rs. Enc.
- 900.
-
- AS RAÇAS HUMANAS E A CIVILISAÇÃO PRIMITIVA, 2 vol., br. 1$400 rs. Enc.
- 1$800 rs.
-
- SYSTEMA DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 2.ᵃ ed. (1895) 1 vol., br. 800 rs. Enc.
- 1$000.
-
- QUADRO DAS INSTITUIÇÕES PRIMITIVAS, 2.ᵃ ed. (1893) 1 vol., br. 700 rs.
- Enc. 900.
-
- O REGIME DAS RIQUEZAS, 2.ᵃ ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.
-
- HISTORIA DA REPUBLICA ROMANA, 2.ᵃ ed., 1897, 2 vol., br. 2$000 rs.
- Enc. 2$400.
-
- O HELLENISMO E A CIVILISAÇÃO CHRISTÃ, 2.ᵃ ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc.
- 1$000 rs.
-
- TABOAS DE CHRONOLOGIA E GEOGRAPHIA HISTORICA, (1884), 1 vol., br.
- 1$000 rs. Encadernado 1$200.
-
-
-III. Varia:
-
- A CIRCULAÇÃO FIDUCIARIA, 2.ᵃ ed., 1 vol. br. 800 rs. Enc. 1$000 rs.
-
- A REORGANISAÇÃO DO BANCO DE PORTUGAL, _opusculo_, (1877) br. 150 rs.
-
- O ARTIGO «BANCO» no _Diccionario Universal Portuguez_, (1877), 1 vol,
- br. 500 rs.
-
- POLITICA E ECONOMIA NACIONAL, (1885), 1 vol., br. 700 rs.
-
- PROJECTO DE LEI DE FOMENTO RURAL, _apresentado á camara dos deputados
- na sessão de 1887_, 1 vol., br. 300 rs.
-
- ELOGIO HISTORICO DE ANSELMO J. BRAAMCAMP, _ed. part._ (1886), 1 vol.
- (esgotado).
-
- THEOPHILO BRAGA E O CANCIONEIRO, _opusculo_, (1869) esgotado.
-
- O SOCIALISMO, (1872-3), 2 vol., br. 1$200. (Esgotado)
-
- AS ELEIÇÕES, _opusculo_, (1878), br. 200 rs.
-
- CARTEIRA DE UM JORNALISTA: I. _Portugal em Africa_, (1891), 1 vol.,
- br. 400 rs.
-
- INGLATERRA DE HOJE, CARTAS DE UM VIAJANTE, 2.ᵃ ed., (1894), 1 vol.,
- br. 600 rs. Enc. 800.
-
-CARTAS PENINSULARES, (1895), 1 vol. br. 600 rs. Enc. 800 rs.
-
-
-
-
-Obras de José Quintino Travassos Lopes
-
-
-=Nova grammatica elementar da lingua portugueza=, redigida segundo as
-theorias modernas, e contendo quadros synopticos muito uteis, cart. 160
-réis.
-
-=Compendio de arithmetica e systema metrico=, 28.ᵃ edição, contendo 29
-gravuras e mais de 2.000 exercicios e problemas, reformado segundo os
-actuaes programmas, br. 200 réis, cart. 280 réis.
-
-=Resumo de arithmetica e systema metrico=, 5.ᵃ edição, muito augmentada
-e contendo 13 gravuras, approvado pelo antigo conselho superior de
-instrucção publica, br. 100 réis, cart. 180 réis.
-
-=Dois mil exercicios e problemas de arithmetica e systema metrico=,
-abrangendo os programmas do ensino elementar e complementar, em br. 160
-rs., cart. 240 rs.
-
-=Compendio de historia patria=, 13.ᵃ edição, reformada, e contendo no
-fim uma noticia resumida dos factos principaes de cada reinado, br. 160
-réis, cart. 240 réis.
-
-=Compendio de historia sagrada=, 2.ᵃ edição, illustrada com muitas
-gravuras, approvado pelo antigo conselho superior de instrucçâo
-publica, br. 160 réis, cart, 240 rs.
-
-=Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre objectos.--1.ᵃ
-parte=, 9.ᵃ edição, muito augmentada, ornada com gravuras e vinhetas,
-dedicada ás creanças de 7 a 9 annos, br. 160 réis, cart. 240 réis; com
-encad. de luxo para premios e brindes, 300 réis.
-
-=Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre objectos.--2.ᵃ
-parte=, 6.ᵃ edição, ornada com gravuras e vinhetas, dedicada ás
-creanças de 10 a 12 annos, br. 160 réis, cart. 240 réis; com encad. de
-luxo, para premios e brindes, 360 réis.
-
-=Leituras Correntes e Intuitivas=, obra adoptada para o ensino official
-primario, 300 réis, cart.
-
-=Historias de animaes, sua vida, costumes, anecdotas, fabulas,
-etc.--noções amenas de zoologia para creanças--lições sobre objectos=,
-3 volumes, obra interessantissima, ornada com 400 gravuras e vinhetas,
-br. 200 réis cada volume, cart. 280 réis; com encad. de luxo, para
-premios e brindes, 400 réis.
-
-=Os contos da avózinha=, collecção illustrada de historias, lendas,
-fabulas e contos, com 300 gravuras, 3 volumes, br. 160 réis, cart. 240
-réis, com encad. de luxo, para premios e brindes, 360 réis cada volume.
-
-=Noções elementares de geometria intuitiva=, contendo 97 gravuras, br.
-100 réis, cart. 180 réis.
-
-=Grammatica elementar da lingua portugueza=, 22.ᵃ edição, br. 160 réis,
-cart. 240 réis.
-
-=Chave= (A) =da Sciencia=, por Brewer e Moigno. Nova traducção,
-extraordinariamente desenvolvida e ampliada pelos traductores J. Q.
-Travassos Lopes e J. T. da Silva Bastos.--Obra completa, 3 vols.,
-edição de luxo, grande formato, illustrado com centenares de gravuras,
-br. 4$500 réis, enc. 6$000 réis.
-
-
-
-
-OBRAS DE CARLOS AUGUSTO PINTO FERREIRA
-
-Engenheiro machinista, capitão-tenente graduado da Armada
-
-INDISPENSAVEIS A INDUSTRIAES, OPERARIOS, ENGENHEIROS, ARCHITECTOS, ETC.
-
-
- =Engenheiro= (O) =d’algibeira=, livro portatil e utilissimo, especie
- de _vademecum_ onde se acham compendiadas grande quantidade de
- formulas e dados praticos com applicação á engenheria nos seus
- differentes ramos; 3.ᵃ edição muito augmentada. Este livro deve ser o
- companheiro indispensavel do contra-mestre, do mestre, do architecto
- e finalmente do engenheiro; para todos tem materia util. Livrinho
- nitidamente impresso, contendo mais de 150 tabellas.--Preço 800 réis
- br., 1$000 réis enc.
-
- =Guia do fogueiro conductor de machinas de vapor=, approvado pela
- associação dos engenheiros civis portuguezes. Livro escripto
- expressamente para servir de ensinamento pratico aos fogueiros, e
- em harmonia com a portaria do ministerio da marinha que obriga esta
- classe de individuos a serem examinados. Contém 230 paginas em 8.ᵒ
- francez, com bastantes gravuras intercaladas no texto e duas bellas
- estampas, 2.ᵃ edição.--Preço 800 rs. br., 1$100 réis enc.
-
- =Guia de mechanica pratica=, precedida de noções elementares de
- arithmetica, algebra e geometria indispensaveis para facilitar a
- resolução dos diversos problemas de mechanica. Volume de 557 paginas
- em oitavo francez, nitidamente impresso, contendo mais de cem
- gravuras intercaladas no texto e cinco bellas estampas no fim. Livro
- indispensavel, não só aos industriaes, mas a todos os individuos que
- desejarem pôr em pratica quaesquer trabalhos mechanicos.--6.ᵃ edição.
- Preço 1$600 rs. br., 1$900 rs. enc.
-
- =Manual elementar e pratico sobre machinas de vapor maritimas
- antigas e modernas, comprehendendo as de dupla, triplice e quadrupla
- expansão=--Livro utilissimo para quem precisa fazer algum estudo sobre
- machinas maritimas, construil-as, mandal-as construir, ou dirigil-as.
- Vol. de 420 pag. em 8.ᵒ francez, contendo 40 gravuras intercaladas no
- texto e 2 magnificas estampas. Os engenheiros machinistas encontrarão
- n’este livro indicações de grande utilidade para o desempenho da sua
- difficil missão. Preço 2$000 réis br., 2$400 réis enc.
-
- =Manual de noções elementares de technologia=, Livro utilissimo
- para todos os que se dedicam á industria, e tratando dos seguintes
- assumptos:--Madeiras.--Rochas e pedras.--Carvão.--Metaes.--Materias
- textis.--Construcções. Adornado de muitas gravuras explicativas. Preço
- 500 réis br., 700 réis enc.
-
- =Opusculo ácerca das machinas mixtas de alta e baixa pressão=,
- applicadas aos navios movidos a vapor. 2.ᵃ edição, Preço 600 réis br.,
- 800 réis enc.
-
-
-
-
-Notas
-
-Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ESQUELETO ***
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-<p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Camillo Castelo Branco</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Release Date: September 9, 2022 [eBook #68932]</p>
-<p style='display:block; text-indent:0; margin:1em 0'>Language: Portuguese</p>
- <p style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:0; margin-left:2em; text-indent:-2em; text-align:left'>Produced by: The Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive)</p>
-<div style='margin-top:2em; margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O ESQUELETO</span> ***</div>
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-<h2>Collecção ANTONIO MARIA PEREIRA</h2>
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-<hr class="r5" />
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-<p class="center big">VULGARISAÇÃO DOS MELHORES LIVROS</p>
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-<p class="center small">DAS</p>
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-<p class="center big">LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS</p>
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-<hr class="r5" />
-
-<p class="center big">Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.</p>
-<hr class="r5" />
-
-<p class="center">Volumes in-8.ᵒ de 160 a 200 paginas, em corpo 8 ou 10, excellente
-edição, em optimo papel. Preço de cada volume 200 réis brochado, ou
-300 réis elegantemente encadernado em percalina. Para as provincias
-accresce o porte do correio.</p>
-<hr class="r5" />
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-<p class="center big">Volumes publicados</p>
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-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 1—<i>Tristezas á Beira-Mar</i>, romance de Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 2—<i>Contos ao Luar</i>, por Julio Cezar Machado, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 3—<i>Carmen</i>, romance de Merimée, traducção de Mariano Level, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 4—<i>A Feira de Paris</i>, por Iriel, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> (2.ᵃ edição).</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 5—<i>O direito dos filhos</i>, George Ohnet, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 6—<i>John Bull e a sua ilha</i>, traducção de Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 7—<i>O juramento da duqueza</i>, romance historico por P. Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 8—<i>A lenda da meia-noite</i>, romance phantastico, por P. Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 9—<i>A joia do vice-rei</i>, romance historico, por Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 10—<i>Vinte annos de vida litteraria</i>, por Alberto Pimentel, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 11—<i>Honra d’artista</i>, romance de Octavio Feuillet, traducção de Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 12—<i>Os meus amores</i>, contos e balladas, por Trindade Coelho, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 13 e 14—<i>A aventura d’um polaco</i>, por Victor Cherbuliez, traducção de Maria Amalia Vaz de Carvalho, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 15—<i>Os contos do tio Joaquim</i>, por R. Paganino, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 16—<i>As batalhas da vida</i>, contos por Guiomar Torrezão, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 17—<i>Noites de Cintra</i>, romance por Alberto Pimentel, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 18 e 19—<i>Em segredo</i>, romance, trad. de Margarida de Sequeira, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 20 e 21—<i>A irmã da Caridade</i>, por Emilio Castellar, traducção de L. Q. Chaves, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 22—<i>Migalhas de historia portugueza</i>, por Pinheiro Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 23—<i>A Cruz de Brilhantes</i>, por A. Campos, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 24—<i>Contos</i>, de Affonso Botelho, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 25—<i>Contos phantasticos</i>, por Theophilo Braga, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 26—<i>O mysterio da estrada de Cintra</i>, por Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 27—<i>O naufragio de Vicente Sodré</i> rom. historico de P. Chagas, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 28—<i>Vid’airada</i>, por Alfredo Mesquita, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 29—<i>O Bacharel Ramires</i>, por Candido Figueiredo, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 30 e 31—<i>Amor á antiga</i> romance de Caiel, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 32—<i>As Netas do Padre Eterno</i>, por Alberto Pimentel.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 33—<i>Contos</i>, de Pedro Ivo, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 34—<i>O correio de Lyão</i>, por Pierre Zaccone.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 35—<i>Vida de Lisboa</i>, por Alberto Pimentel.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 36—<i>Historias de Frades</i> por Lino d’Assumpção.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 37—<i>Obras primas</i>, por Chateaubriand.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 38—<i>O Exilado</i>, romance historico, por Mauricia C. de Figueiredo.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 39—<i>Poema da Mocidade</i>, por Pinheiro Chagas.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 40 e 41—<i>A Vida em Lisboa</i>, por Julio Cesar Machado.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 42 e 43—<i>Espelho de Portuguezes</i>, por Alberto Pimentel.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 44—<i>A Fada d’Auteuil</i>, por Ponson du Terrail, traducção de Pinheiro Chagas.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 45—<i>A Volta do Chiado</i>, por Beldemonio (Eduardo de Barros Lobo).</span><br />
-</p>
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-<hr class="r5" />
-<p class="center">
-<span class="big">Requisições á Parceria Antonio Maria Pereira</span><br />
-<i>Rua Augusta, 50, 52, 54—LISBOA</i><br />
-</p>
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-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
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-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="COLLECCAO_ECONOMICA">COLLECÇÃO ECONOMICA</h2>
-</div>
-
-<p class="center">Volumes de in-16.ᵒ, de 240 a 320</p>
-<hr class="r5" />
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-<p class="center big">ROMANCES DOS MELHORES AUCTORES</p>
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-<p class="center">A 100 réis o volume (pelo correio 120 réis)</p>
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-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 1—Aventuras prodigiosas de Tartarin de Tarascon, seguidas de <i>Tartarin nos Alpes</i>; por A. Daudet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 2—Pedro e João, por Guy de Maupassant.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 3—Sergio Panine, por Jorge Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 4—O Sonho, por Emilio Zola.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 5—Soror Philomena, por Edmond e Jules Goncourt.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 6—O medico assassino, por Octavio Féré.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 7—Os milhões vergonhosos, por Heitor Malot.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 8—O amigo Fritz, por Erckmann Chatrian.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 9—Vogando, por Guy de Maupassant.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 10—Um romance de mulher, por Pierre Mael.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 11—Vontade, por Jorge Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 12—O Nababo, por A. Daudet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 13—Um coração de mulher, por Paul Bourget.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 14—Beatriz, por Rider Haggard.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 15—O crime, por Gabriel d’Annunzio.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 16—Lise Fleuron, por Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 17—Os dois rivaes, por Armand Lapointe.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 18—O ultimo amor, por Jorge Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 19—Um Bulgaro, por Ivan Tourgueneff.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 20—Memorias d’um suicida, por Maxime du Camp.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 21—Forte como a morte, por Guy de Maupassant.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 22—A alma de Pedro, de J. Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 23—Camilla, de Guérin-Ginisty.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 24—Trahida, de Maxime Paz.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 25—Sua Magestade o Amor, por A. Belot.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 26—Magdalena Férat, por Emilio Zola.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 27—Os Reis no exilio, por A. Daudet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 28—Divida de odio, por Jorge Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 29—Mentiras, por Paul Bourget.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 30—Marinheiro, por Pierre Loti.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 31—A montanha do Diabo, por Eugenio Sue.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 32—A Evangelista, por A. Daudet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">* <abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 33—Aranha Vermelha, por R. de Pont Jest.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numeros">N.ᵒˢ</abbr> 34 e 35—Odio antigo, por Jorge Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 36—Parisienses!... romance, por H. Davenel.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 37—Ao entardecer!... rom., por Iveling Ramband.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 38—A confissão de Carolina, romance.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 39—Um casamento no mosteiro, por Alfredo Assolland.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 40—Os Parias, original de Francisco da Rocha Martins.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 41—O abbade de Favières, romance, por J. Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 42—A agonia de uma alma, romance, por Ossip Schubin.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 43—Memorias d’um burro, por Madame Ségur.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 44—A nihilista, por Catulle Mendés.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 45—O grande Industrial, por George Ohnet.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 46—Morta d’amor, por Albert Delpit.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 47—João Sbogar, por Carlos Nadier.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 48—Viagem sentimental, por Sterne.</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><abbr title="Numero">N.ᵒ</abbr> 49—O milhão do tio Raclot, por Emile Richebourg.</span><br />
-</p>
-
-<p>Todos os <abbr title="volume">vol.</abbr> com este signal * estão esgotados mas vão ser
-reimpressos.</p>
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-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
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-<div class="chapter">
-<p class="center big">OBRAS
-</p>
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-<p class="center small">DE</p>
-
-<p class="center">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
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-<p class="center small">EDIÇÃO POPULAR</p>
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-<hr class="r5" /><p class="center big">V</p>
-<h2 class="nobreak">O ESQUELETO</h2>
-</div>
-
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="VOLUMES_PUBLICADOS">VOLUMES PUBLICADOS</h2>
-</div>
-<hr class="r5" />
-
-<p class="poetry">
-<span style="margin-left: 3em;">I—Coisas espantosas.</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">II—As tres irmans.</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">III—A engeitada.</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">IV—Doze casamentos felizes.</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">V—O esqueleto.</span><br />
-</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
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-<p class="center big">
-<i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p>
-<hr class="r5" />
-<h1>O ESQUELETO</h1>
-<p class="center big p2">
-ROMANCE</p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center"><i>TERCEIRA EDIÇÃO</i></p>
-<hr class="r5" />
-<p class="center p4">
-LISBOA<br />
-<span class="small"><span class="smcap">Parceria Antonio Maria Pereira—Livraria-editora</span><br />
-<i>Rua Augusta, 50, 52, 54</i><br />
-1902</span><br />
-</p>
-
-
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-
-<p class="center p4">
-LISBOA<br />
-<i>Typographia da Parceria Antonio Maria Pereira</i><br />
-<b>Rua dos Correeiros, 70 72</b><br />
-</p></div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_1">[Pg 1]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="PREFACIO">PREFACIO</h2>
-</div>
-
-
-<p>Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito
-desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.</p>
-
-<p>Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais
-de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da
-sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao
-despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.</p>
-
-<p>Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e
-concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás
-vezes, da verosimilhança.</p>
-
-<p>Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha.
-O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as.
-Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que
-é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e
-largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito
-poisal-os em alegretes de flores.</p>
-
-<p>São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_2">[Pg 2]</span></p>
-
-<p>Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia
-social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos
-amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu
-finalmente?</p>
-
-<p>Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este
-paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não
-serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a
-probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.</p>
-
-<p>Ha poucos dias, tivémos esta pratica:</p>
-
-<p>—Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que
-lavra nos pantanos da sociedade—observou-me o meu amigo.</p>
-
-<p>—Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não
-acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem
-romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de
-dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas,
-sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães
-culpadas.</p>
-
-<p>—Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes
-das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios—redarguiu o
-cavalheiro.</p>
-
-<p>—Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta
-da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado
-sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas;
-concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as
-requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de
-as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com
-uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance
-ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto
-innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem
-angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.</p>
-
-<p>—Acho-lhe rasão—obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus
-livros—mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas
-desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que
-revolvam essas sentinas hediondas?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_3">[Pg 3]</span></p>
-
-<p>Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum
-para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume
-que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga
-social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas
-protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em
-todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade,
-e alvorotam a quietação dos pais de familia.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_4">[Pg 4]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_5">[Pg 5]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="I">I</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_e.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Era</span> justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos
-portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que,
-poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se
-que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para
-ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835,
-sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho
-aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se
-da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi
-respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam
-a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico.
-Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com<span class="pagenum" id="Page_6">[Pg 6]</span> um lacaio;
-apeiava no hotel do Pêxe,<a id="FNanchor_1" href="#Footnote_1" class="fnanchor">[1]</a> saía a provêr-se de objectos de luxo nas
-lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques,
-que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.</p>
-
-<p>O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as
-praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida
-particular.</p>
-
-<p>Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e
-estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a
-surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez.</p>
-
-<p>Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era
-superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico.</p>
-
-<p>Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo:</p>
-
-<p>—A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes...</p>
-
-<p>—Não é possivel...—disse o francez abstrahido.</p>
-
-<p>—Não é possivel?!—replicou o outro.</p>
-
-<p>—A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber
-quem a não conhece.</p>
-
-<p>—E conhece-a o senhor?</p>
-
-<p>—Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia
-que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava
-encontral-a. Onde vive ella?</p>
-
-<p>—Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto,<span class="pagenum" id="Page_7">[Pg 7]</span> com um fidalgo transmontano,
-chamado Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>O chanceller escreveu na sua carteira, e disse:</p>
-
-<p>—A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes
-de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta
-infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi
-hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este
-calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu
-que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante
-affronta!</p>
-
-<p>O francez retirou-se apressado.</p>
-
-<p>Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos
-seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul
-francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense.</p>
-
-<p>O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado.</p>
-
-<p>O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder
-explicitamente se nomeava testemunhas, disse:</p>
-
-<p>—Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz.
-Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me
-contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho.</p>
-
-<p>O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e
-replicou:</p>
-
-<p>—Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me
-n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se
-melhor nas estradas.</p>
-
-<p>O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até
-sangrarem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_8">[Pg 8]</span></p>
-
-<p>A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu
-assustada a indagar a causa.</p>
-
-<p>Nicoláo respondeu glacialmente:</p>
-
-<p>—Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não
-me bato.</p>
-
-<p>—Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é
-temivel!—acudiu ella.</p>
-
-<p>O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:</p>
-
-<p>—Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito
-coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.</p>
-
-<p>Pungente grosseria!</p>
-
-<p>A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não
-tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!...</p>
-
-<p>É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e
-devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores
-novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem
-sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis
-annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam
-de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde
-fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz
-pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta
-escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára
-os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que
-propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante!
-Amára até ao absoluto despreso de si mesmo.<span class="pagenum" id="Page_9">[Pg 9]</span> Seguira-a de Lyão á
-Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido
-fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua
-industria.</p>
-
-<p>Depois, ainda um anno se não tinha passado, e já Nicoláo media a
-profundeza de sua ignominia, e espedaçava-se ás garras do opprobrio
-de si proprio. Tardia honra, que nunca pode chamar-se rehabilitação:
-penitencia, que no conceito do mundo terá remido os arrependidos; mas
-que no juizo da Providencia deve de ser apenas começo de expiação,
-começo de expiação muito longa.</p>
-
-<p>Chegado a Portugal, Nicoláo ainda tinha mãe. Repugnou-lhe entrar em
-sua casa com uma mulher, mais perdida aos olhos d’elle que aos da
-sociedade, se a conhecesse. Já lhe parecia que o apresental-a como
-sua esposa era injuriar as virtudes de sua mãe, e injuriar-se a si.
-Não mais se levantará deante do homem, que a estimou, a mulher assim
-desprezada.</p>
-
-<p>Alugou a quinta nos arrabaldes do Porto, e ahi ficou.</p>
-
-<p>A franceza era a mulher coherente com o seu crime. A mudança da
-physionomia do amante, a nudeza da phrase baixa e sêca, a nenhuma
-poesia do gesto e da palavra, os longos silencios interpollados de
-suspiros, os vincos da fronte, os sorrisos contrafeitos, as abstracções
-e respostas incongruentes, que mais carecia ella para cahir em joelhos
-aos pés do algoz da sua felicidade, e pedir-lhe a morte?</p>
-
-<p>Não se lembrou d’isso. Era mulher, e franceza. Ao pungimento da
-deshonra botaram-se os fios no habito de a praticar. Caíra de tão alto,
-que já não media com a vista a altura da queda. As mulheres<span class="pagenum" id="Page_10">[Pg 10]</span> que chegam
-até aqui, tocam a extrema do pudor.</p>
-
-<p>D’ahi em diante, se choram, não é remorso, é a aspide do orgulho que as
-morde.</p>
-
-<p>Margarida Froment acceitava a liberdade do amante, em proveito do amor
-decadente. Cuidava ella que as pompas no trajar remoçariam o affecto
-envelhecido. Vestia-se e galleava a primor. Achava-se linda. Aos
-vinte e oito annos não invejava o frescor das suas quinze primaveras.
-Offerecia-se assim aos olhos de Nicoláo, e muitas vezes cuidou que
-triumphava quando queria. Esta vaidade era-lhe um esteio. Em quanto um
-demonio amigo lhe desse tal escudo, contava ella com a victoria sobre o
-fastio do amante.</p>
-
-<p>Quando a tristeza a alquebrava mais, era se, no lavor de enfeitar-se,
-lhe vinha á lembrança que seu marido a tinha amado muito, ainda
-desenfeitada.</p>
-
-<p>Tristeza de vaidade dorida, e mais coisa nenhuma que possamos chamar
-<i>castigo</i>.</p>
-
-<p>Os castigos, ao chegarem, rasgam por outras fibras mais sensiveis.</p>
-
-<p>O fidalgo, que pendia aos quarenta annos, pensava em sacudir o
-jugo; mas as correias apertavam-n’o tanto e em tantas voltas, que
-era impossivel desdal-as sem despedaçar os restantes liames da sua
-dignidade.</p>
-
-<p>Abandonal-a era coroar a infamia.</p>
-
-<p>Dar-lhe recursos e bons conselhos, muitas vezes lhe quiz propôr este
-accordo; mas receiava a recusa, e a desordem inevitavel d’essa hora em
-deante.</p>
-
-<p>Os obstaculos saturavam-lhe de fel novo o amargôr do enfado.</p>
-
-<p>Até que, no termo de seis annos, appareceu o<span class="pagenum" id="Page_11">[Pg 11]</span> chanceller, não sei se
-tolo, se sublime, a desaggravar o amigo, do mesmo modo que um inimigo o
-faria, se quizesse ajuntar á desgraça a irrisão. Os francezes usam uns
-processos especiaes de honrar os amigos.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita era valoroso; porém, reflexionador. Dissera elle:
-<em>é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de
-qualquer mulher</em>. Essa sua maxima arrefecia as fervuras da coragem;
-do pundonor não havemos de dizer, que esse tinha claudicado, e ficara
-tolhido para todos os effeitos da dignidade, logo que elle seduziu a
-mulher do homem, incapaz de reputal-o infame.</p>
-
-<p>Não se quiz bater com testemunhas: era natural que evitasse bater-se
-sem ellas.</p>
-
-<p>Absteve-se de ir ao Porto, e reflectiu ponderosamente no escape de
-taes aperturas. Achou que era tempo de espesinhar considerações de
-menor alcance. Propoz á franceza uma separação temporaria, e urgente
-á quietação de ambos. Margarida ouviu-o de boa fé. Acceitou alguns
-mil cruzados; residencia no Porto, se lhe desprazia viver na quinta;
-e a segurança de se reunirem na provincia, assim que a entrevada mãe
-de Nicoláo passasse a melhor vida. Annuiu a franceza, dizendo em tom
-lastimoso que de bom grado, e com o coração cheio de lagrimas, se
-immolava á tranquilidade do amante.</p>
-
-<p>Nicoláo foi para Traz-os-Montes, e Margarida Froment para uma casa
-ricamente alfaiada na Torre da Marca.</p>
-
-<p>O chanceller, perdida a esperança de tirar os olhos do scelerado á
-ponta de florete, escreveu ao amigo, contando-lhe o seu intento, e o
-encontro inesperado.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_12">[Pg 12]</span></p>
-
-<p>Ernesto Froment accusou a carta recebida, e não falou da mulher. Parece
-que tinha lá tres, todas mais fieis, e póde ser que mais formosas.</p>
-
-<p>Por este lado, o acaso—não ouso dizer a Providencia—se amerceara
-do esposo trahido. Quem dos dois soffria mais, ou presentia o
-emborrascarem-se as porvindouras tormentas, era Margarida.</p>
-
-
-<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_1" href="#FNanchor_1" class="label">[1]</a> Foi no palacio dos viscondes de Balsemão. Este palacio,
-onde se hospedou Carlos Alberto, é hoje do visconde da Trindade.
-<i lang="la" xml:lang="la">Habent sua fata</i>... os palacios!</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_13">[Pg 13]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="II">II</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> morgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos
-tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns
-temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher
-fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de
-que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando
-inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe
-tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja.</p>
-
-<p>Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da
-mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o
-mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros.</p>
-
-<p>Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar,
-nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados.
-Perguntava<span class="pagenum" id="Page_14">[Pg 14]</span> á desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em
-tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras
-mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se
-de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens
-que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa,
-assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das
-mulheres suas contemporaneas.</p>
-
-<p>Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao
-Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor
-a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas
-instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam
-depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza
-da saudade.</p>
-
-<p>Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos
-ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios
-proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não
-demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do
-chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou,
-recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia
-ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias
-que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas
-supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida.
-Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia,
-Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é
-renuncia. O ciume faz então prodigios<span class="pagenum" id="Page_15">[Pg 15]</span> que nivellam o mais descaroado
-orgulho com a allucinação de Werther ou Othello.</p>
-
-<p>Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves
-concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia
-celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis
-annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na
-primavera entre as alvissimas flores do espinheiro.</p>
-
-<p>Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que
-Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o
-morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas
-esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis
-louros do seu cabello á espadua de outro homem.</p>
-
-<p>De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:—Parece que tem vinte annos!
-Como está moço, e que airosidade na dança!</p>
-
-<p>—Pois tem perto de quarenta!—Atalhava um moço de vinte, com um
-sorriso e abanar de cabeça desdenhoso.</p>
-
-<p>Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment.</p>
-
-<p>Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o
-ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a
-responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o.</p>
-
-<p>Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze
-dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares
-e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o
-leve incommodo de contar<span class="pagenum" id="Page_16">[Pg 16]</span> anecdotas joviaes, costumes estrangeiros,
-amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir,
-iguarias para todos os paladares.</p>
-
-<p>Beatriz era das que folgava das historietas facetas. Casos de lagrimas
-enterneciam-n’a até lhe molestarem os nervos. Pediu ella a seu primo
-contos engraçados. E Nicoláo, que nunca em sua vida tivera graça,
-transverteu-se por milagre de amor, e fez rir a filha de seu primo. A
-sós comsigo, o morgado da Palmeira, que vira muito e brilhante mundo,
-quasi que de si mesmo ria.</p>
-
-<p>Voltou a casa onde o chamára o aviso de estar a mãe em perigo de vida.
-Assistiu-lhe á morte, fez-lhe enterro pomposo, encerrou-se por oito
-dias, pagou as visitas, e voltou para Chaves.</p>
-
-<p>D’este successo não deu parte a Margarida nem respondeu ás cartas, que
-encontrára, queixosas do seu silencio. A esposa de Ernesto Froment
-tinha morrido para o amante como para o marido. A Providencia ordenára
-á formosa de Chaves que lançasse a prevaricadora no fogo expiatorio,
-não lavareda devorante, mas brazido lento, que lhe fosse queimando
-fibra por fibra os orgãos todos onde a vida humana pode soffrer e
-morrer mil vezes. Nicoláo lembrava-se d’ella com susto, e ás vezes com
-remorso; o susto de a vêr atravessar-se em seus designios; o remorso de
-atiral-a a um caminho, sem saida que não seja garganta de voragem.</p>
-
-<p>Adeante! Nicoláo de Mesquita conhecia milhares de exemplos. Em
-Paris, cada homem dos admirados e invejados no bosque de Bolonha, no
-café Tortoni, nos centros da mocidade insigne, podia contar dezenas
-d’aquellas historias, laudas da biographia<span class="pagenum" id="Page_17">[Pg 17]</span> dolorosa que as mulheres
-das salas repetiam sem horror.</p>
-
-<p>O horror das mulheres das salas era para as victimas.</p>
-
-<p>Homens sacrificados é que elle não conhecêra. Homens que immolassem
-os melhores annos da sua mocidade a um dever, que o mundo chama um
-escandalo. Homens que, em cada primavera do coração, arrancassem os
-renovos promettedores de muitas alegrias, e os atirassem fenecidos aos
-pés de uma como estatua, incapaz de avaliar a renunciação, ou, peior
-ainda, persuadida do dever do sacrificio.</p>
-
-<p>N’isto cogitára elle em todos os dias dos seis annos de captiveiro.</p>
-
-<p>Agora, na liberdade, era preciso ser homem como todos, ser forte para
-não ser infeliz e ridiculo: porque a desgraça dos penitentes, que
-não podem nobilitar, com alguma sombra de moral commum, o grandioso
-holocausto de sua liberdade, é irrisoria.</p>
-
-<p>E depois, quem sabe?</p>
-
-<p>Margarida voltará para França, onde tem o marido, e a mãe. Se o marido
-a recebe, feliz culpa que a mette ao caminho da rehabilitação! Se a
-rejeita, a mãe lhe abrirá os braços e o sanctuario da familia lhe
-purificará o espirito. Esta moralidade, subitamente formada no animo do
-morgado, é uma zombaria da virtude. Faz-se muita moralidade assim; a
-sociedade ás vezes applaude-a, e sae em auxilio dos moralisadores.</p>
-
-<p>Com estas hypotheses combatia Nicoláo de Mesquita o impertinente
-remorso, quando ia para Chaves. Porém assim que se refugiou sob os
-olhos tutelares<span class="pagenum" id="Page_18">[Pg 18]</span> de Beatriz, a chimera da consciencia fugiu espavorida.</p>
-
-<p>Martinho Xavier perguntára a sua filha se o primo de Vidago lhe dizia
-particularmente palavras indicativas de algum sentimento mais forte que
-o do parentesco e amisade.</p>
-
-<p>Beatriz córou. O pae ficou satisfeito.</p>
-
-<p>E, n’outro ensejo, perguntou-lhe:</p>
-
-<p>—Gostas do primo Nicoláo? Sê sincera, minha filha.</p>
-
-<p>—Não desgosto... balbuciou a pomba.</p>
-
-<p>—E, se elle quizesse ser teu marido, acceitarias de boa vontade?</p>
-
-<p>—Querendo meu pae...</p>
-
-<p>—Eu não quero, nem deixo de querer. Consulto a tua vontade.</p>
-
-<p>—Eu...</p>
-
-<p>—Acceitas?</p>
-
-<p>—Pois sim...</p>
-
-<p>—Mas—tornou Martinho Xavier—tu, antes da vinda de Nicoláo, parece
-que acceitavas a côrte do primo de Fayoens, que foi creado comtigo.</p>
-
-<p>Beatriz córou e calou-se. O pae achou prudente calar-se tambem, n’este
-artigo melindroso, e volveu ao essencial.</p>
-
-<p>—Nicoláo perguntou-me se o teu coração estava livre. Respondi que o
-suppunha desprendido de affeição seria. Quiz elle saber se tu quererias
-ligar a tua mocidade aos annos já adeantados de um homem, que te amaria
-como esposo, e estremeceria como pae. Vou dar-lhe a tua resposta, se é
-que lh’a não déste.</p>
-
-<p>A menina fez um gesto de assentimento.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_19">[Pg 19]</span></p>
-
-<p>O morgado da Palmeira, no dia seguinte, disse a Beatriz:</p>
-
-<p>—Quer meditar algum tempo antes de ser minha esposa, prima Beatriz?</p>
-
-<p>—Já respondi, primo Nicoláo.</p>
-
-<p>—Despede-se sem saudades da sua mocidade? Não deixa impressão que a
-possa magoar?</p>
-
-<p>—Não...</p>
-
-<p>—Nenhum homem que lhe inquietasse o coração?...</p>
-
-<p>—Nenhum...</p>
-
-<p>—Acredito-a, Beatriz. Pois saiba que ha-de ser venturosa, quanto os
-anjos podem ser n’este mundo. Hei de obrigal-a com extremos de amor a
-ser minha amiga. Vêr-me-ha invelhecer, e então sentirá por mim affecto
-de filha. O homem, na minha edade, sabe como se faz a felicidade de uma
-mulher. Entrego-lhe o coração maculado, mas ainda forte de vida, a vida
-do coração, que é a poesia das almas enthusiastas. Se eu me sentisse
-gasto e insensivel, a prima Beatriz, com o segredo que teve de influir
-um sagrado fogo no gelo da minha vida moral, havia de fazer o menor
-milagre de remoçar-me. Será feliz, minha prima: juro-lh’o, beijando-lhe
-esta mão pura!</p>
-
-<p>Beatriz cedeu facilmente a mão, para não prejudicar o ritual do
-juramento.</p>
-
-<p>Se Deus fosse carne, e tivesse labios susceptiveis de obedecerem ás
-contracções convulsas dos musculos faciaes, ria-se sardonicamente
-d’aquelle juramento.</p>
-
-<p>O lance, digno de ser pintado com as branduras de Bernardin de S.
-Pierre, foi interrompido por um criado, que apresentava a Nicoláo de
-Mesquita uma<span class="pagenum" id="Page_20">[Pg 20]</span> carta, vinda em mão propria, de Villa Pouca de Aguiar,
-distante de Chaves tres ou quatro leguas.</p>
-
-<p>O morgado viu o sobrescripto, e mudou de côr.</p>
-
-<p>Era a lettra de Margarida Froment, que havia chegado a Villa Pouca na
-tarde do dia anterior.</p>
-
-<p>O contheudo eram duas palavras: <span class="allsmcap">ESTOU AQUI</span>.</p>
-
-<p>Beatriz ergueu-se em ponta de pés. Adoravel curiosidade! Viu; mas não
-entendeu. Era em francez. Encarou no primo e disse sobresaltada:</p>
-
-<p>—Que é?!</p>
-
-<p>—Um amigo que me chama a Villa Pouca, tartamudeou.</p>
-
-<p>—E porque não vem cá? replicou a innocente com a cavillosa dialectica
-de uma senhora já esquecida do tempo em que passou pelas varzeas
-floridas da innocencia.</p>
-
-<p>—É um francez, meu amigo, que vae de passagem para Hespanha, e precisa
-de recursos.</p>
-
-<p>—Não se assignou?! redarguiu candidamente Beatriz.</p>
-
-<p>—Não, porque... porque é perseguido em Portugal, e receiou que se
-desencaminhasse a carta.</p>
-
-<p>—E vae, primo?</p>
-
-<p>—Sem demora. Devo-lhe obsequios.</p>
-
-<p>Estas palavras já foram ditas com toda a quietação de animo. Beatriz
-socegou; mas, depois que Nicoláo saiu, inquietou-se e mandou, a
-occultas do pae, um criado a Villa Pouca, espiar os passos do morgado
-da Palmeira.</p>
-
-<p>Amava-o: estou em crêr que o amava.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita ia chammejando de raiva a Margarida. Esporeava o
-cavallo que devorou as leguas em furiosa desfilada. Soffreava a brida
-instantaneamente, para meditar no que faria. Baralhavam-se-lhe<span class="pagenum" id="Page_21">[Pg 21]</span> os
-planos, todos miseraveis, senão abjectos.</p>
-
-<p>Apeou á porta da estalagem.</p>
-
-<p>A franceza esperou-o no topo da escada, abrindo os braços. Nicoláo
-apertou-lhe a mão, e disse-lhe glacialmente:</p>
-
-<p>—Que é isto?</p>
-
-<p>Margarida transfigurou-se. Deixou cair mortalmente os braços, e disse
-então dorida e irritada:</p>
-
-<p>—Para que veio aqui?</p>
-
-<p>—Pois a tua carta que significa? Diz.</p>
-
-<p>—Nada. Respondesse: «Não conheço a desgraçada, a perdida, a infame
-que me escreve. Desgracei-a eu, perdi-a eu, infamei-a eu; mas não a
-conheço.» Respondesse assim, senhor Nicoláo de Mesquita. Antes isto,
-que repellir a mulher que de braços abertos lhe offerece o coração
-traspassado de dôres.</p>
-
-<p>—Vem cá, Margarida! tornou o morgado, simulando meiguice. Vem
-conversar commigo. Tu és injusta, ou estás enganada.</p>
-
-<p>A franceza abriu a porta do seu quarto. Nicoláo sentou-se a limpar as
-bagas de suor. E ella ficou em pé defronte d’elle, hirta, sublime,
-formosa, e formidavel de odio, de amor, de desesperação, de ternura, um
-indefinivel conjuncto de demonio da soberba, e anjo da agonia.</p>
-
-<p>E elle estava como se a não visse, fitando-a nos olhos coruscantes.
-Latejavam-lhe as fontes batidas de dentro por clavas de ferro. Seria um
-atroz pezadelo, se não fosse um abafar de vergonha e rancor.</p>
-
-<p>Margarida esperou alguns segundos, e disse:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_22">[Pg 22]</span></p>
-
-<p>—Conversemos, pois.</p>
-
-<p>Nicoláo ergueu-se de golpe, e exclamou:</p>
-
-<p>—Desprézo a ironia!</p>
-
-<p>—Isso é uma miseria, senhor Nicoláo, retorquiu serenamente a franceza.
-Conversemos, pois!</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_23">[Pg 23]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="III">III</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Reprovo</span> a sua vinda aqui! disse Nicoláo empregando o <i lang="fr" xml:lang="fr">vous</i> do
-despeito ou da cerimonia, que, n’este dialogo em francez, era, de parte
-a parte, odio.</p>
-
-<p>—Já sei, respondeu Margarida. Reprova que eu viesse. Reprovada e
-maldita sou eu de toda a gente. Como todas as almas me fugiam, vim
-acoitar-me na sua. Agora vejo que estou sosinha no mundo. Se eu quizer
-amigas, hei de ir procural-as á ultima escaleira da degradação.</p>
-
-<p>—Que desatino!—exclamou o morgado.—Faltaram-lhe meios com que viver
-honestamente?</p>
-
-<p>—Honestamente vivia eu em casa de meu marido, senhor Nicoláo de
-Mesquita! O senhor prégou-me a desmoralisação, e agora está-me
-doutrinando a honestidade! Que escarneo! O seu dinheiro não pode
-rehabilitar a mulher que a sua perversa indole<span class="pagenum" id="Page_24">[Pg 24]</span> abysmou! O senhor faz
-mulheres perdidas, não refaz honestas!</p>
-
-<p>—Pois bem!</p>
-
-<p>—Pois bem o que?</p>
-
-<p>—Faça o que quizer.</p>
-
-<p>Margarida fitou-o arquejante de colera, e levou com impetuoso frenesi
-as mãos aos olhos, murmurando estas palavras, que elle não ouviu:</p>
-
-<p>—Covarde e infame!</p>
-
-<p>Nicoláo erguera-se, saira á saleta contigua, aspirando haustos de ar, e
-baforando ruidosamente as expirações fumegantes. A franceza atirára-se
-ao leito, afogada de soluços, e clamando:</p>
-
-<p>—Estás vingado, Ernesto, estás vingado, meu infeliz marido!</p>
-
-<p>Nicoláo ouvira isto, e estorcia em desespero os dedos de ambas as mãos
-enclavinhadas sobre o peito.</p>
-
-<p>Encostou-se ao batente da porta do quarto, e contemplou-a. Teve
-dó. Lembrou-se do que fôra aquella mulher em casa de seu marido. O
-contentamento, a estima publica, os regalos, o respeito de amigos, a
-consideração das mulheres honestas, o acanhamento com que a tratavam as
-deshonestas, o orgulho e paixão do esposo. Lembrou-lhe tudo, vendo-a
-assim soluçante, a confessar a sua culpa, e a sentir na consciencia
-o travor do calix expiatorio. E, por sobre tudo isto, o lembrar-se
-Nicoláo da sua deshonra d’elle! aquellas lagrimas a cairem-lhe no
-coração! e o terrivel irremediavel da desgraça de tres victimas, que
-elle fizera, contando-se pela mais atormentada das tres!...</p>
-
-<p>Acercou-se de Margarida e disse-lhe com brandura:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_25">[Pg 25]</span></p>
-
-<p>—Não chores. Tens no mundo um amigo, Margarida!</p>
-
-<p>A franceza levantou a face brilhante de lagrimas e escarlate febril.
-Fixou a vista immovel n’um ponto da parede fronteira, e permaneceu
-silenciosa largo espaço.</p>
-
-<p>O morgado, observando-a assim, fez um tregeito de impaciencia. Era o
-fastio, a luctar com a commiseração, e a dominal-a.</p>
-
-<p>A sombra de Beatriz passou entre ambos. Seguiram-n’a os olhos d’alma
-de Nicoláo. Os da face ficaram postos em Margarida; mas sómente viam
-n’ella o estorvo, a miseria repulsiva, as lagrimas accusadoras. Duas
-idéas se travaram a repellões no animo do morgado: romper violenta e
-definitivamente com a franceza ou enganal-a com blandicias e promessas.
-Venceu o mais vil dos expedientes.</p>
-
-<p>O maximo sacrificio, que Nicoláo podia fazer á sua paixão pela prima,
-era compôr o gesto de carinhos; modelar a voz pelo tom vehemente do
-coração ingrato, mas arrependido; repetir as phrases que seis annos se
-não repetiram aos ouvidos da franceza.</p>
-
-<p>N’este intuito, ajoelhando deante de Margarida, irrompeu n’uma lamuria
-destoada da accentuação da verdade, um declamar de actor pessimo, uma
-coisa que, na consciencia propriamente do declamador, o devia de estar
-envilecendo!</p>
-
-<p>Margarida foi cruel. Riu-se! castigou-o atrozmente envergonhando-o em
-rosto, quanto elle o estava no seu intimo senso.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita ergueu-se de salto, e sentiu ao correr dos braços
-um prurido nervoso, umas fervuras de sangue, que lhe recurvavam os
-dedos; era<span class="pagenum" id="Page_26">[Pg 26]</span> a convulsiva ancia de esganar a mulher que o comprehendera
-e escarnecia.</p>
-
-<p>—Que infame riso é esse? exclamou o morgado cavamente, chispando
-áscuas dos olhos e beiços.</p>
-
-<p>—É o riso da dignidade! respondeu a franceza, sem se desmentir na
-postura.</p>
-
-<p>—A dignidade de madame Froment! redarguiu elle, espirando um frouxo de
-riso sarcastico.</p>
-
-<p>—Condemna-se, insultando-me, homem sem alma! replicou Margarida.
-Madame Froment era uma digna esposa até ao dia em que seu marido foi
-deshonrado por quem elle recebêra em sua casa.</p>
-
-<p>—Quem a ouvisse cuidaria que eu me servi do punhal de Tarquinio!</p>
-
-<p>—Foi mais cynico, e vilão, e covarde, senhor Nicoláo! As suas armas
-foram mais perfidas.</p>
-
-<p>—Mas Lucrecia não se matou!...</p>
-
-<p>—Não! bramiu ella furiosa, não se mata, porque é necessario que o
-senhor veja como eu me debato e agoniso no lodaçal em que me deixa.
-Havemos de expiar ambos, ouviu, senhor Mesquita? Havemos de nos
-espedaçar um ao outro! Eu acceito a vida com os horrores todos, que me
-esperam... acceito-a com a condição de o vêr castigado.</p>
-
-<p>Nicoláo riu-se e sahiu do quarto, atirando com as melenas lustrosas de
-suor para a nuca.</p>
-
-<p>Seguiu-o, instantes depois, Margarida, e disse-lhe serenamente:</p>
-
-<p>—Venho responder ao seu riso.</p>
-
-<p>—Deixe-me! bradou o morgado.</p>
-
-<p>—Deixo, tornou ella. Está o senhor livre de mim; a Providencia é que
-não o deixará... Ver-nos-hemos!</p>
-
-<p>E saiu da saleta, desceu ao pateo da estalagem,<span class="pagenum" id="Page_27">[Pg 27]</span> e ordenou ao arrieiro,
-que tirasse o cavallo da estrebaria. Entretanto pagou as despezas da
-hospedagem, e sentou-se n’um banco de pedra, com os braços cruzados
-sobre o seio, e a face pendida sobre elles.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita desceu pouco depois e reconheceu um criado de
-Beatriz, que saía apressado do pateo. Sobresaltou-se, cuidando que era
-espionado, e surprehendido em flagrante de mentira e perfidia. Passou
-por deante de Margarida, como se não a visse, e saiu a rua procurando o
-criado, que não viu. Voltou ao pateo, já quando a franceza cavalgava.
-Quedou-se a contemplal-a estupidamente, n’um indescriptivel spasmo de
-brutificação. Margarida passou rente com elle, estalejando o chicote na
-anca da cavalgadura. Tinha elle saido da villa, quando Nicoláo tirou
-fóra o cavallo, e picou á redea solta no seguimento de Margarida. Não
-saberia dizer elle que intento o impulsava. Chegou de par com ella,
-colheu as bridas de impeto, e perguntou:</p>
-
-<p>—Onde vaes, desgraçada?</p>
-
-<p>—Á sorte! respondeu a franceza.</p>
-
-<p>—Pára e reflexiona, Margarida!...</p>
-
-<p>A franceza parou, sorriu sardonicamente e disse:</p>
-
-<p>—Bem! Aqui estou. Que quer de mim?</p>
-
-<p>A pergunta conturbou o morgado. Bruxuleava uma luzinha de piedade
-ainda n’aquelle animo afflicto. Era verdadeira afflicção a d’elle! A
-pergunta demandava uma só resposta digna, e consolativa. Essa nem já
-insidiosamente podia elle dal-a. A sobranceria de Margarida rebatia
-algum expediente compassivo. Se ella chorasse, ganharia temporariamente
-uns exteriores de estima, o supremo sacrificio praticavel pelo homem,
-que faz obedecer á delicadeza<span class="pagenum" id="Page_28">[Pg 28]</span> o fastio; sacrificio de que vivem
-resignadas, senão felizes, muitas mulheres, as virtuosas principalmente.</p>
-
-<p>Não deu tempo ás reflexões d’elle nem ás nossas a repetida pergunta da
-franceza:</p>
-
-<p>—Que quer de mim?</p>
-
-<p>—Que domine esse feroz orgulho, que a perde!</p>
-
-<p>—Bella resposta, senhor Nicoláo! replicou Margarida, sacudindo as
-rédeas com um tremor nervoso da mão. Deixar meu marido foi uma virtude
-do coração, como o cavalheiro lhe chamava; a virtuosa não se perdeu
-então; perde-se agora porque é orgulhosa até á ferocidade... é isso?
-que escarneo, senhor Mesquita!...</p>
-
-<p>Susteve-se, esperando qualquer resposta. As desgraçadas, n’estes
-lances, usam uma logica irrespondivel. Nicoláo tinha a lingua
-preza—consintam a figura—por dois dedos da sua prima Beatriz.
-Expressão compadecida não vingava nenhuma com que applacasse o
-irritamento de Margarida. Assim que no animo lhe pungia a commiseração,
-ahi estavam logo os dois dedos de Beatriz a entalarem-lhe na lingua o
-termo brando, a claridade mesmo da mentira.</p>
-
-<p>A franceza, sobre-excitada pelo silencio significativo do morgado da
-Palmeira, disse com energia e sem lagrimas:</p>
-
-<p>—Eu, senhor, não vim queixar-me da sua ingratidão. Bem sabe que o
-deixei apertar-me cinco annos a corda na garganta, sem soltar um
-gemido. A sua consideração por mim morreu, quando a sociedade me
-desconsiderou. O senhor, desde o momento em que deixou de vêr ao meu
-lado o estimulo do seu crime, não soube que fazer aos loiros da<span class="pagenum" id="Page_29">[Pg 29]</span>
-victoria. Eu, ao lado de meu marido, era uma mulher disputada pelo amor
-d’elle; escondida ás pedradas do mundo, perdi o valor que me davam os
-respeitos sociaes. As pedradas mais certeiras e dolorosas eram as suas,
-senhor Nicoláo. E não me queixei, nem isto é queixar-me. Da vilania é
-que eu me dou por affrontada. Deixou-me no Porto com vil astucia, e nem
-por dignidade propria sustentou a mascara. Era a vida de sua mãe que
-repellia a mulher perdida da honesta casa da Palmeira: morreu sua mãe,
-e o senhor, aturdido pela dôr da orphandade, não poude dispôr da cabeça
-para me dar parte do seu lucto...</p>
-
-<p>—Não admitto remoques sobre objectos tão serios! interrompeu iracundo
-o morgado.</p>
-
-<p>—O senhor não póde considerar-se um objecto serio! acudiu de prompto a
-franceza. Ridicula é a sua aleivosia, senhor Nicoláo! Ridiculo, se não
-quer que diga infame, é o seu silencio de vinte dias ás minhas cartas!
-Ridiculo, é esse falso pundonor com que vem em defeza da honestidade
-dos seus lares! Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos á candida
-sobrinha de Chaves que...</p>
-
-<p>Nicoláo cresceu sobre os estribos, levou a mão direita á testa
-escaldante, e baforou fumaradas de rancor. Abrasava-o dentro o sarcasmo
-do <em>amor dos quarenta annos</em>. Tortura mais lacerante nem a
-inquisição poderia invental-a para uso de mulheres inexoraveis como
-Margarida! Teve-lhe medo ella quando o viu assim roxo e vulcanico a
-chammejar pelos olhos, inteiriçado sobre o sellim, pavoroso, e ainda
-ridiculo, no rigor da palavra, e no entender da franceza.</p>
-
-<p>O desfecho d’este relanço devia ser tambem<span class="pagenum" id="Page_30">[Pg 30]</span> irrisorio. Nicoláo de
-Mesquita recaiu de golpe sobre o sellim, retorceu de violento empuxão
-o pescoço do cavallo, deu-lhe de esporas com frenesi, e despediu n’uma
-corrida desapoderada por aquella rechan do Valle d’Aguiar fóra, e tão
-cosido ás crinas do fumegante alasão, que dava uns longes de Mazeppa,
-arrebatado pelo corcel creado na vertiginosa phantasia de Byron.</p>
-
-<p>E Margarida Froment ria-se, em quanto o pasmado arrieiro exclamava:</p>
-
-<p>—O cavallo endoideceu! Vae-se esbarrar com dez milheiros de diabos!</p>
-
-<p>A franceza sorriu ainda, e disse serenamente:</p>
-
-<p>—Vamos para o Porto.</p>
-
-<p>Nicoláo havia transmontado o horisonte, fechado por uma gandra. Nem uma
-só vez voltara o rosto. Espicaçava-o um demonio zombeteiro, cascalhando
-as palavras: <em>Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos</em>...</p>
-
-<p>Quem disse a Margarida que Nicoláo amava a sobrinha de Chaves? Os
-romancistas, desconsiderados ou distrahidos, faltam com a cortezia
-devida aos leitores, descuidando-se em responderem a estes reparos
-justos, com que a critica amoravelmente nos dá o seu beliscão.</p>
-
-<p>A franceza, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Villa Real. Ao
-arraiar da manhã, cavalgou, e fóra da villa, n’uma esplanada de monte,
-chamado o «Arcabuzado», parou a examinar um mau retabulo, em que um
-pincel de 1811 contava á posteridade o caso triste do espingardeamento
-de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o
-pae do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto
-successo contou-lh’o,<span class="pagenum" id="Page_31">[Pg 31]</span> em frente do painel, um mancebo, que desde a
-hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavallo. Não ousaria elle
-intrometter-se a dar explicações, se a franceza, por gesto convidativo,
-o não animasse a sair-se d’aquelle spasmo mudo, que as mulheres
-formosas incutem nos provincianos, gente, pelo commum, contemplativa
-até ao extasis.</p>
-
-<p>Concluida a historia do painel, o moço alinhou o cavallo com o de
-Margarida, quanto a estrada o permittia, e foi dizendo quem era e para
-onde jornadeava. Modestamente omittiu na noticia da sua pessoa que era
-um fidalgo do Valle d’Aguiar, senhor do solar e castello d’aquelle
-nome, descendente por varonia de Duarte de Almeida, o celebrado alferes
-da bandeira, que, a defendel-a com mãos e dentes, perdêra os dentes e
-as mãos na batalha de Tóro, em 1476. Fallou, porém, no seu castello,
-que a franceza traduziu <i lang="fr" xml:lang="fr">château</i>, «casa-campestre», coisa de
-nenhuma importancia archeologica. Ricardo de Almeida ignorava a
-lingua franceza, o que vinha a ser uma falta para dar do seu castello
-solarengo uma cabal idéa.</p>
-
-<p>Margarida perguntou-lhe se conhecia Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>—É meu proximo parente; respondeu Ricardo de Almeida, e de prompto
-conjecturou acertadamente quem era a sua companheira de jornada,
-por ter ouvido dizer que o do Vidago tinha vivido no Porto com uma
-estrangeira.</p>
-
-<p>—Tem-n’o visto? perguntou ella.</p>
-
-<p>—Visitei-o quando lhe morreu a mãe...</p>
-
-<p>—Pois a mãe de Nicoláo morreu?! acudiu Margarida com alvoroço.</p>
-
-<p>—Ha tres semanas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_32">[Pg 32]</span></p>
-
-<p>Margarida mordeu o labio inferior.</p>
-
-<p>—Vossa excellencia conhece meu primo? perguntou Ricardo por delicadeza.</p>
-
-<p>—Alguma coisa, respondeu ella abstrahidamente, e disse logo com
-vivacidade:</p>
-
-<p>—Elle está em Vidago?</p>
-
-<p>—Quando eu sai de minha casa, ha quatro dias, tive noticia de que elle
-estava em Chaves.</p>
-
-<p>—Chaves é longe?</p>
-
-<p>—Nove leguas, minha senhora.</p>
-
-<p>—Que faz elle em Chaves?</p>
-
-<p>—Namora uma sobrinha, com quem provavelmente vae casar.</p>
-
-<p>Margarida fitou nos olhos o interlocutor, e disse:</p>
-
-<p>—O senhor sabe quem sou, e graceja comigo.</p>
-
-<p>—Desconfio que vossa excellencia é uma senhora que veiu da emigração
-acompanhando Nicoláo de Mesquita; porém, de nenhum modo ousaria
-gracejar com uma senhora, que me parece infeliz na sua sorte.</p>
-
-<p>Margarida, por espaço de uma legua, não proferiu palavra. Ricardo tinha
-menos espirito que o necessario para divertil-a da sua introversão.</p>
-
-<p>Assomaram ao alto da serra do Mezio, d’onde se avistava a magnifica
-chan do valle de Aguiar, e o castello dos Almeidas, negrejando sobre um
-morro de rochas na quebrada das montanhas do Alvão.</p>
-
-<p>—O meu castello é além, disse Ricardo apontando.</p>
-
-<p>—É uma fortaleza feudal? perguntou Margarida.</p>
-
-<p>O fidalgo deu a data da fundação do castello, e contou a façanha de
-Duarte de Almeida, modelada pela inventiva com que ella anda cantada
-em verso no <i>Romanceiro Portuguez</i> do senhor Ignacio Pizarro<span class="pagenum" id="Page_33">[Pg 33]</span> de
-Moraes Sarmento. A franceza parecia escutal-o.</p>
-
-<p>A meio do valle, Ricardo perguntou á dama se queria ser acompanhada.</p>
-
-<p>—Separa-se aqui?</p>
-
-<p>—A minha estrada é esta da esquerda.</p>
-
-<p>—Pois adeus, cavalheiro!</p>
-
-<p>—Se vossa excellencia, por distracção, quizer alguma vez honrar
-aquelle castello...</p>
-
-<p>—Muito agradecida... As mulheres, fadadas com o meu infortunio, nunca
-podem distrahir os olhos do ponto negro da sua desgraça. Adeus.</p>
-
-<p>Margarida, lá ao longe, olhou terceira vez ao longo do caminho, que
-deixára, e viu immovel o fidalgo castellão no local onde se despediram.</p>
-
-<p>—Não envelheci ainda! disse ella entre si.</p>
-
-<p>Foi-lhe immensa consolação este desabafo da vaidade!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_34">[Pg 34]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_35">[Pg 35]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="IV">IV</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_m.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Margarida</span>, na volta de Villa Pouca, reparou no castello, e pensou no
-descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciencia:
-«Amal-o-hia eu, se podesse... O coração da mulher não se engana...
-Aquelle moço amava-me hontem...»</p>
-
-<p>Custa a crêr o soliloquio!</p>
-
-<p>Ainda não ha meia hora que ella viu, ennovelados em poeira, o
-cavalleiro e o cavallo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se
-preoccupa do affecto inspirado a um estranho, que hontem vira! Que
-coração e juizo tem esta creatura! É um coração e juizo exoticos:
-coisas de França; que em Portugal—terra onde mais sinceramente
-e ajuizadamente se ama e morre d’amor—nenhuma senhora, em caso
-similhante, faria monologos d’aquelles.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_36">[Pg 36]</span></p>
-
-<p>Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas,
-contiguas ao castello apontava um oculo á estrada que descia de Villa
-Pouca, e monologava tambem: «É ella... e vem sósinha...»</p>
-
-<p>O cavallo estava sellado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do
-miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se
-despedira. A franceza reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra.
-Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem póde ser
-não fosse, ainda que arrancasse o homem amado ás presas da menina de
-Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada
-de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmurios no coração
-ennoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma
-alegria que a vingava! Na infancia do seu amor de donzella, nenhuma
-hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade!</p>
-
-<p>Ricardo apeou, atirou as rédeas á mão do lacaio, e adeantou-se ao
-encontro da franceza, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior:</p>
-
-<p>—É tarde para vossa excellencia ir pernoitar a Villa Real. No espaço
-de tres grandes leguas não encontra pousada. Venho offerecer-lhe a
-minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem.</p>
-
-<p>—Acceito muito agradecida—respondeu Margarida, estendendo o braço
-á mão convulsa do fidalgo. Ainda mesmo que sobejassem hospedarias na
-estrada, eu acceitaria a sua hospedagem, senhor Ricardo.</p>
-
-<p>O mancebo cavalgou, e deu o passo a Margarida no estreito caminho que
-levava ao Pontido.</p>
-
-<p>Iam ambos concentrados: ella, no enlevo da consideração<span class="pagenum" id="Page_37">[Pg 37]</span> que recebia;
-elle, no seu amor. Devemos cuidar assim da franceza; porque não ha
-contentamento comparavel ao da mulher desestimada da sociedade,
-quando se lhe depara prova de respeito, urbanidade sem mescla de amor
-aviltante. Parecia-lhe á dama que estava no tempo em que a respeitavam,
-e talvez a amavam os amigos da sua familia, sem exclusão dos amigos
-de seu marido, facto que nos escandalisa muito a nós, e medianamente
-agastaria a esposa de Ernesto Froment.</p>
-
-<p>Quanto ao enlevo amoroso de Ricardo de Almeida, havemos de inferil-o
-naturalmente de um successo, que prende com esta historia. Fôra o
-caso que elle, por veredas transversaes, no dia anterior, chegara,
-primeiro que Margarida, a Villa Pouca. Alojára-se na unica estalagem da
-terra, e no quarto immediato ao que devia occupar a franceza. Ouvira-a
-fallar de um portador que fosse de noite a Chaves. Desvelára a noite,
-espiando a resposta. Dera tento da chegada de seu primo Nicoláo. Ouvira
-o dialogo na alcôva e na saleta. Até os soluços da franceza ouvira,
-quando o morgado, fóra do quarto, expedia uns sons roucos da colera
-que o afogava. Assim que Margarida desceu ao pateo, Ricardo saira pelo
-quintalejo da estalagem, e fôra montar o cavallo, que tinha acautelado
-de suspeitas em outra casa. Desgarrando da estrada, voltou ao Pontido,
-e subiu á crista das fragas com o oculo, tremendo que a reconciliação
-se fizesse entre Nicoláo e Margarida. Ora isto, se não era amor, e amor
-á antiga, coevo talvez do castello senhorial do rico homem, não sei
-dar-lhe nome, a não querer o leitor que isto fossem ciladas do demonio,
-em conformidade com as interpretações de santos e doutissimos sujeitos.
-Quer<span class="pagenum" id="Page_38">[Pg 38]</span> anjo, quer demonio que lhe instillasse no peito o nectar ou a
-peçonha, o exacto é que Ricardo de Almeida apresentou a suas venerandas
-tias D. Margarida Froment, sem dizer quem era, d’onde vinha, e para
-onde ia. Caso unico no solar dos Almeidas.</p>
-
-<p>Perguntava D. Simôa ao sobrinho, em quanto D. Sancha entretinha a
-hospeda suspeita:</p>
-
-<p>—Mas onde conheceste, menino, esta dama? Como veio ella parar aqui lá
-d’esses mundos de Christo?</p>
-
-<p>—Sei que é um anjo: viria do ceu!—respondeu Ricardo.</p>
-
-<p>—Do ceu?!... Vê lá bem, menino! Olha que teu tio avô, o senhor bispo
-de Coimbra, dizia que as mulheres assim galantes eram mensageiras do
-inimigo.</p>
-
-<p>—Ora minha tia...—volvia o moço afagando-a.—Receba sem escrupulos a
-pobre senhora, que é tão galante como desgraçada.</p>
-
-<p>—Então que tem ella, menino?—instava D. Simôa com malicia.</p>
-
-<p>—A sua alma pura, minha tia, não póde comprehender o mal que fizeram
-a esta senhora. No entanto, eu responderei ás perguntas de vossa
-excellencia assim que ella sair ao seu destino.</p>
-
-<p>—Mas...—redarguiu a velha—o mal que lhe fizeram has de remedial-o
-tu?...</p>
-
-<p>Esta interrogação abona a sagacidade de D. Simôa; a innocencia não
-direi, com medo de errar. As Sanchas e Simôas dos solares provincianos,
-por via de regra, tinham tempo para tudo: tempo para Deus e tempo
-para os primos. Cada uma tinha o seu frade que a absolvia e lhe dava
-noticias de<span class="pagenum" id="Page_39">[Pg 39]</span> todas as devoções com indulgencia plenaria. A balança de
-S. Miguel estava sempre no oiro fio com estas damas, que mortificavam
-Deus e o demonio ao mesmo tempo. A Deus, sophismavam as velleidades com
-as indulgencias do Espirito Santo; ao demonio faziam figas por sobre
-as espaduas anchas dos frades respectivos. Se as donas do castello de
-Aguiar tinham sido d’esta laia, não sei; asseveraram-me, porém, que
-ellas foram enterradas de palmito e corôas de rosas brancas: isto diz
-muito em credito d’aquellas senhoras. No tocante a cheiro de santidade,
-as opiniões na freguezia divergem.</p>
-
-<p>Como quer que fosse, D. Simôa, n’aquella noite, inventou uma enxaqueca,
-e recolheu-se á sua alcova. D. Sancha saiu da sala para ir ver a mana,
-e voltou á sala com outra cara. O certo é que a franceza achou-se
-sósinha á ceia com Ricardo, que estava odiando as velhas.</p>
-
-<p>Margarida sem presumir de aguda, entendeu tudo e condoeu-se do mal
-abafado soffrimento de Ricardo.</p>
-
-<p>—Não se afflija por amor de mim—disse ella. Eu acceito o menos preço
-de suas tias, sem azedume. Com que titulos se apresenta á estima de
-duas senhoras desconhecidas uma mulher que viaja sósinha!?... Muito
-sentida vou, se as delicadas attenções do cavalheiro o fizeram cair no
-desagrado de suas tias!...</p>
-
-<p>—Eu sou independente, minha senhora—respondeu Ricardo.—Minhas tias,
-n’esta casa, teem um pequeno patrimonio, e o direito de se retirarem
-com elle. A minha emancipação começa de hoje.</p>
-
-<p>—Por Deus!—atalhou Margarida, simulando pesar.—Não dê desgostos
-ás pobres senhoras!<span class="pagenum" id="Page_40">[Pg 40]</span> Olhe que ellas não fizeram mais do que fariam
-quaesquer outras. Eu conheço um pouco a vida de provincia em França,
-e creio que em Portugal é identico o modo de sentir. Recebem-se
-sempre desconfiadamente as forasteiras, que se não recommendam logo
-com appellidos heraldicos, nem denunciam pela libré de seus criados
-procedencia illustre. Ambos peccamos por leviandade, mr. Ricardo de
-Almeida: vossa excellencia errou em convidar a mulher que não póde
-explicar honestamente a sua vida, e eu pequei em acceitar o convite,
-como se a consciencia de maior dignidade me habilitasse a relacionar-me
-com duas damas da alta nobreza e, a meu ver, das primeiras virtudes.</p>
-
-<p>A essencial feição da indole de Margarida Froment era a ironia; mas, a
-compostura de rosto com que desfechava os remoques, não lh’a deixava
-entre-vêr facilmente. Ricardo, pelos menos, recebeu como ingenua
-a phrase laudatoria das virtudes de suas tias; e, sorrindo com um
-tregeito especial de beiços, deu vislumbres de incerteza em quanto á
-primazia das mesmas virtudes.</p>
-
-<p>O fidalgo ergueu-se de golpe, e tangeu uma campainha.</p>
-
-<p>Entrou á sala um escudeiro.</p>
-
-<p>—A criada de sala?—perguntou Ricardo.</p>
-
-<p>—Está no quarto das fidalgas.</p>
-
-<p>—Que venha aqui.</p>
-
-<p>Entrou a criada.</p>
-
-<p>—Conduza esta senhora ao seu aposento—disse Ricardo—e conserve-se no
-quarto proximo, esperando as ordens que a sr.ᵃ D. Margarida lhe der.</p>
-
-<p>—Mas as fidalgas...—balbuciou a aia.</p>
-
-<p>—Ordenei!—atalhou o moço—e, voltando-se a<span class="pagenum" id="Page_41">[Pg 41]</span> Margarida, disse:—Quando
-vossa excellencia quizer recolher-se...</p>
-
-<p>—Irei já; mas dispenso os serviços da sua criada—observou a franceza.</p>
-
-<p>Ao romper da manhã, Margarida estava preparada, como se recolhêra á
-alcôva. Parecia ter chorado, e velado o restante da noite. Á mesma
-hora, Ricardo mandava preparar os cavallos, e enfardar a sua bagagem.
-Quando sentiu movimento no quarto da franceza, esperou-a na ante-camara
-e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Resolvi ir ver o Porto. Se vossa excellencia me consente, irei em sua
-companhia.</p>
-
-<p>—Que mais posso eu desejar?—disse Margarida—Mas... eu vim trazer a
-desordem a esta casa... Que pesar, meu Deus!</p>
-
-<p>—Veio apenas trazer uma noite de amargura a um homem que a présa
-deveras, minha senhora. De resto, eu vejo melhor o mundo depois que
-vossa excellencia aqui entrou.</p>
-
-<p>As velhas tinham sido avisadas dos preparativos do sobrinho.
-Ergueram-se espavoridas e tresnoitadas a procurarem Ricardo.</p>
-
-<p>Pediram-lhe contas da sua inesperada resolução, e elle respondeu-lhes
-com uma mesura de cabeça, e passou. D. Sancha exclamou, e D. Simôa
-quiz ir á sala dos retratos accusar a degeneração do neto. Os retratos
-teriam medo, se as vissem com os josésinhos côr de cidra enfiados pelas
-mangas, e as estrigas do cabello estupentudas. D’ahi a pouco, ouviram
-a estropeada dos cavallos no pateo, e o rugido do alteroso portão
-rodando nos gonzos. Foram á janella e viram a franceza de par com o
-sobrinho, e uma carga de bahus no seguimento da<span class="pagenum" id="Page_42">[Pg 42]</span> escandalosa cavalgada.
-Desmaiaram-se reciprocamente nos braços uma da outra, e assim estiveram
-até horas de almoço, depois do qual mandaram chamar os parentes
-circumfusos nas proximas seis leguas.</p>
-
-<p>Lembrou D. Sancha que o primo Nicoláo de Mesquita, como homem que tinha
-visto muito mundo, seria o mais habil para convencer Ricardo a fugir
-dos braços da aventureira franceza, com quem se fôra por essas terras
-fóra. Foi chamado o capellão para notar e escrever a carta e assignal-a
-em nome das senhoras que não sabiam escrever. O egresso franciscano
-fez uma exposição pavorosa do escandalo, citando, com referencia á
-franceza, todo o mal que Santo Agostinho e S. João Chrysostomo haviam
-dito das mulheres.</p>
-
-<p>Este periodo é notavel:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p class="center">.................................................</p>
-
-<p>«Aqui tendes, caro sobrinho, o desdouro que a vontade do Senhor nos
-reservava á nossa velhice. Uma forasteira, vinda de França, por
-instigação de Satanaz, rouba-nos a menina dos olhos, o nosso Ricardo,
-que tão humilde nos tinha sido até agora, e tão bem comportado, que
-não consta em todas estas freguezias que elle botasse a perder filha
-de caseiro. Suppõe a gente que elle arranjou esta tentação lá por
-Villa Real, onde esteve quatro dias. Mas clama justiça do céo vir
-elle com ella para esta casa, onde não ha memoria de entrar mulher
-desconhecida! Chama-se ella Margarida, e pelo donaire e modos bem se
-vê que é mulher affeita a correr mundo. Nunca vimos creatura com tanto
-palavriado! Aqui ninguem nos póde valer como o nosso parente Nicoláo.
-Lembrae-vos que<span class="pagenum" id="Page_43">[Pg 43]</span> sois do mesmo sangue do nosso Ricardo; pois que vossa
-bisavó era irmã do bisavô do nosso sobrinho. Elle dizia que vós sois
-um homem de grande entendimento e sabedoria, porque tendes experiencia
-do mundo. Se estimaes esta familia, que tambem é a vossa, fazei-nos o
-favor de ir a Villa Real, ou onde elle estiver com a tal aventureira,
-e despersuadi-o do peccado e da loucura. Lembrae-lhe a honra da sua
-linhagem, e trazei-o para sua casa antes que a franceza lhe derranque
-a alma, etc.»</p>
-</div>
-
-<p>Este é o periodo em que Sancha e Simôa choraram torrencialmente, e o
-egresso tambem.</p>
-
-<p>Partiu um criado com a carta para o Vidago, ou para onde Nicoláo de
-Mesquita estivesse. Do Vidago passou a Chaves, a procural-o em casa de
-Martinho Xavier. Foi entregue a carta ao morgado de Palmeira, a tempo
-que elle estava amollentando os asperrimos ciumes de Beatriz, informada
-do encontro em Villa Pouca, pelo espião que mandára. Nicoláo tinha
-inventado não sabemos que romances á conta da mulher, que o criado de
-Beatriz affirmára ser linda como as estrellas e mocetona de uma vez,
-modo seu de exprimir a maxima perfectibilidade da belleza mulheril.
-A prima repellia desabridamente as humilimas explicações, que reviam
-absurdeza, e deficiencia de estudo previo. Chegou, porém, a carta, com
-a indicação de onde vinha.</p>
-
-<p>—Que me quererão estas serêsmas do Pontido? disse Nicoláo.</p>
-
-<p>Leu, e no decurso das duas primeiras paginas fradescas, resadas em voz
-alta, interrompeu-se exclamando:</p>
-
-<p>—Que vem a ser isto?!</p>
-
-<p>Relanceou os olhos sobre a terceira pagina, e<span class="pagenum" id="Page_44">[Pg 44]</span> viu as palavras
-<i>franceza Margarida</i>. Mudou de côr, e leu d’ahi em diante
-mentalmente. Beatriz desconfiou, e foi, irreflectidamente, com
-liberdade de noiva, e indelicadeza de menina que não ganhou no collegio
-premios de civilidade, espreitar o dizer da carta. Nicoláo furtou-se
-á curiosidade e augmentou a suspeita. A menina saiu da sala com
-arrebatamento, e foi dizer ao pai:</p>
-
-<p>—Já não quero casar com o tio Nicoláo. (Já era tio!)</p>
-
-<p>—Porque, menina?!</p>
-
-<p>—Porque sim... É um infiel!</p>
-
-<p>—Ora, creança!... Saibamos isso por miudos.</p>
-
-<p>Beatriz contou o encontro com uma mulher em Villa Pouca, e o
-recebimento da carta, que elle escondêra, depois de ter lido uma porção
-d’ella a dizer mal das mulheres.</p>
-
-<p>Martinho Xavier riu-se dos amuos da menina, e foi entender-se com o
-primo.</p>
-
-<p>Nicoláo, depois de se ficar pasmado uns tres minutos no periodo que
-transladamos, quiz dispor as suas idéas, em ordem a conjecturar o
-abstruso enlace de Margarida com Ricardo de Almeida, duas pessoas que
-nunca se tinham visto. Este reparo denota que Nicoláo não conseguira
-coordenar as suas idéas. Pois as duas pessoas não se haviam de ter
-visto, ao menos quando uma era roubada pela outra?</p>
-
-<p>Respondia elle a esta pergunta do siso-commum, quando Martinho Xavier
-entrou, dizendo:</p>
-
-<p>—Que vem a ser isto, primo Mesquita? A Beatriz está zangada. Que lhe
-fizeste? que mulher é essa com quem estiveste em Villa Pouca? E essa
-carta, em que se diz mal das mulheres que vem a<span class="pagenum" id="Page_45">[Pg 45]</span> ser? A pequena foi
-dizer-me que não quer casar comtigo!</p>
-
-<p>Nicoláo reflectiu, e achou um miraculoso expediente de justificação.
-Deu a carta a ler ao primo dizendo:</p>
-
-<p>—Eu duvidei contar a tua filha uma historia de honestidade muito
-equivoca. Ahi verás que me chamam as tias Almeidas para reduzir o
-sobrinho a deixar uma mulher que o perde. Esta mulher é a mesma que
-veiu a Villa Pouca para captar a minha estima, e mover-me a induzir meu
-primo Ricardo a casar com ella. Aqui tens, primo Xavier, como eu me
-vejo enredado n’uma teia, que me faz malquisto de tua filha. Se queres,
-explica-lhe tu o que é isto. Eu não sei fazel-o sem cuidar que ultrajo
-o seu pudor.</p>
-
-<p>Martinho expediu uma sincera gargalhada, e exclamou:</p>
-
-<p>—Dá-me a carta, que eu vou pacificar a pobre menina.</p>
-
-<p>D’ahi a pouco, Beatriz entrou muito agraciada á presença de Nicoláo, e
-disse, toda affagos:</p>
-
-<p>—O primo perdoa-me, pois não perdoa?</p>
-
-<p>—E, por amor do seu ciume, cada vez a adoro mais, Beatriz!—respondeu
-o morgado ternamente.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_46">[Pg 46]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_47">[Pg 47]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="V">V</h2>
-</div>
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Nicoláo</span> respondeu ás tias Almeidas que as suas occupações o estorvavam
-de ir moralisar o primo Ricardo. Consolava-as, porém, com a certeza de
-que o sobrinho prodigo voltaria cedo curado da sua hydropisia amorosa,
-depois de algumas sangrias copiosas nas algibeiras. O egresso, lendo
-este paragrapho, exclamou:</p>
-
-<p>—Isto que elle diz é assim, fidalgas. O senhor Nicoláo bem se vê que
-andou muito mundo!</p>
-
-<p>As velhas sentiram-se alliviadas, e accenderam velas de arratel a Santo
-Antonio, e outros bem aventurados que privam na côrte celestial.</p>
-
-<p>Este acontecimento estupendo, passada a rija impressão do choque, deu
-largas ao espirito do morgado. Mulher que tão facil e estupidamente
-passára ao dominio d’outro homem, estava definida.<span class="pagenum" id="Page_48">[Pg 48]</span> Espinho de remorso
-de havel-a abandonado seria baixesa e indignidade consentil-o na alma.
-Arrependido estava elle de a não ter abandonado ha muito, por umas
-verduras de pundonor, em que elle victimára seis escuros e dissaboridos
-annos de sua vida. Tudo pelo melhor! Azavam-se-lhes as coisas para um
-viver tranquillo e desapertado de responsabilidades e reminiscencias
-perturbadoras.</p>
-
-<p>Cuidaram logo em tirar dispensa de parentesco para o casamento. Nicoláo
-andava alegremente na faina de renovar as alfaias da casa de Palmeira,
-e lustrar as velhas, que provavam as antigas pompas do solar dos
-Mesquitas. N’este lidar, em que o coração tomava a melhoria do seu
-cargo, o morgado remoçava, puerilisava-se, tinha tolices perdoaveis,
-que Beatriz era digna de enlouquecer qualquer homem amado. As mulheres
-lindas confessavam que ella era formosa: as mulheres são evangelhos,
-quando tal dizem d’outra. E, alem de formosa, rica. Fidalga, está dito
-tudo, se o timbre das armas de Fayões e de Palmeira, e das Olarias,
-é o mesmo timbre dos Sousas Vahias cuja representante é Beatriz. Em
-quanto a puresa, não ousariam os serafins esquadrinhar-lh’a. É o
-elo interposto á flor e á estrella em materia de innocencia. Tivera
-escassamente uma sombra de cortejo de seu primo Raphael Garção
-Cogominho, decimo quarto senhor de Fayões. A bonina da serra não fica
-mais pura, quando um cordeirinho a bafeja, do que ficou Beatriz com uns
-beijos que lhe havia dado o primo nas faces purpurejadas. Afóra isto,
-que é nada, o maná dos israelitas não choveu mais candido e impolluto
-das amphoras do ceu. Assim se desculpa a exultação de Nicoláo nos
-preparativos para os esposorios<span class="pagenum" id="Page_49">[Pg 49]</span> mais fallados e invejados d’aquella
-redondeza.</p>
-
-<p>As pessoas que tinham visto os requebros de Beatriz por seu primo
-Raphael maravilharam-se da transferencia, e mais ainda da conformidade
-do moço de Fayões.</p>
-
-<p>Era este mancebo filho unico de paes opulentos, e o mais galhardo e
-galan rapaz d’aquellas terras. Tinha peccados grandes, que os invejosos
-das suas proezas desejariam esconder, se podessem. A humanidade, sua
-conhecida, dividira-se em dois bandos: os homens contra, as mulheres
-por elle. Raphael não se queixava; punha peito aos adversarios, excepto
-o coração que esse andava repartido e desfibrado pelas defensoras.
-Era coisa de prodigio a paz em que tantas odiando-se reciprocamente,
-viviam com elle, e saiam a enristar, não lanças, mas linguas—as mais
-perfurantes e contundentes armas conhecidas—em honra de Raphael Garção
-Cogominho, quando algum barbaro desdenhoso lhe desluzia no garbo com
-que esporeava o ginete a galões e trancos, ou na adamada denguice com
-que requestava toda a mulher indistinctamente.</p>
-
-<p>E muitas o amavam, áquem e além Tamega, por essa Gallisa dentro. No
-entender dos sisudos censores de seus maus costumes, faltava-lhe a
-fibra susceptivel do coração que se doe das inconstancias d’uma mulher.
-Em confirmação d’este juizo, depunha o ter ido Raphael para Hespanha em
-seguimento de uma andaluza, que apparecêra na feira de Santo Antonio
-em Villa Real, tocando pandeiro e castanhetas. Alguem conjecturou
-que Beatriz accedêra a casar com o tio por despique do primo; varias
-senhoras, no proposito de desdoural-a, affirmavam<span class="pagenum" id="Page_50">[Pg 50]</span> que ella optára
-pelo mais rico, sem levar em conta a differença das edades, e os
-dissabores futuros. Tudo isto eram vozes do mundo, que se banqueteava
-em casa de Martinho Xavier e se enfrascava nos melhores vinhos a
-brindar o prospero enlace do extremado cavalleiro de Palmeira com a
-encantadora Beatriz. A verdade, porém, das rompidas intelligencias da
-menina e de Raphael já está dita: fôra um brincar da borboleta com uma
-flôr de madre-silva; mais lyrismo não tem anachreontica nenhuma, se a
-anachreontica fôr das mais honestas.</p>
-
-<p>O morgadinho de Fayões nunca pensára em casar-se. Tinha então vinte
-e quatro annos; muito dinheiro, muita saude, leitura de <i>Clarisse
-Harlowe</i>, da <i>Nova Heloisa</i>, do <i>D. João</i>, e outros
-modelos de algozes de corações. É o que elle tinha lido em dois annos
-que estivera em Coimbra.</p>
-
-<p>Não obstante, a pureza da filha de Martinho Xavier enfreou-lhe a
-indole; póde ser tambem que a desconfiança do pae lhe contraminasse
-algum intento menos honroso. Disputal-a a Nicoláo de Mesquita, sem o
-proposito de desposal-a, era um desaire; soffrer era uma semsaboria
-indigna dos Tenorios e Lovelaces e Saint-Preux das suas leituras.
-Felizmente que a andaluza lhe barateou um sorriso, e encareceu um
-beijo na feira de Villa Real. Este duro osso do officio irritou-lhe a
-vaidade. A hespanhola pareceu-lhe uma Esmeralda, como Victor Hugo a
-encontrára inventada por um escriptor castelhano. Alli por Villa Real
-andavam uns Claudios Froulos a quererem seduzir-lh’a. Esporearam-lhe
-o ciume. Não havia que vêr. Seis mulheres bonitas de Chaves, dezenas
-d’ellas do alto da provincia, duzias de<span class="pagenum" id="Page_51">[Pg 51]</span> galanteios incipientes e
-decadentes, todas foram sacrificadas á funambula do pandeiro e das
-castanhetas.</p>
-
-<p>Varias pessoas lamentaram a sorte d’este mancebo no banquete nupcial
-de Beatriz e Nicoláo. Os mais penetrativos convivas olhavam de esconso
-a noiva, e o marido tambem; todavia a menina escutava as lastimas como
-se as não comprehendesse. O anjo estava como estrangeiro entre aquelle
-gentio, que fallava a linguagem barbaresca das paixões deshonestas.</p>
-
-<p>No dia seguinte, os esposados foram para o Vidago, com grande comitiva.
-No trajecto de tres leguas estoiraram constantemente bombardas e
-foguetes. As festas continuaram na casa de Palmeira tres dias e tres
-noites. A grandeza de quinze leguas ao sul, e tres ao norte, a entestar
-com a Galliza, confluiu com suas librés a honrar a mais cheia lua
-de ambrosia, que ainda tiveram noivos desde que as luas se ingerem
-ridiculamente nos noivados.</p>
-
-<p>As senhoras do Castello d’Aguiar, tias de Ricardo, saiam da liteira a
-visitarem o seu parente de Vidago, e a senhora D. Beatriz que ainda era
-parente d’ellas, em razão de haver casado Mem de Sousa, em 1410, com D.
-Briolanja de Almeida. Além da etiqueta, moveu-as ao sacrificio poderem
-fallar do sobrinho Ricardo, e pedirem consolações ao homem experiente.</p>
-
-<p>D. Sancha, assim que o ensejo se lhe ageitou, rompeu em pranto desfeito
-n’estes termos:</p>
-
-<p>—A felicidade que estaes gosando, sobrinhos, perdemos a esperança de
-que o nosso Ricardo a venha gosar!</p>
-
-<p>—Que noticias tem vossa excellencia de Ricardo?—atalhou Nicoláo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_52">[Pg 52]</span></p>
-
-<p>—Não nos escreve o ingrato! Ha tres mezes que foi, e não voltou.</p>
-
-<p>—Pois não sabem onde elle foi parar com essa mulher?</p>
-
-<p>—Sabemos, sabemos... Estão no Porto. Ricardo tem escripto aos feitores
-das quintas, a mandar ir dinheiro. Não fazeis uma idéa, sobrinho, do
-dinheiro que tem ido!... Se assim vae, Deus nos feche os olhos antes de
-o vermos empenhar os vinculos. Agora soubemos que elle mandou vender os
-foros de Barroso por quatro mil cruzados, e a melhor quinta da Terra
-quente! Haverá um mez que o senhor padre Ambrosio, nosso capellão, foi
-de nosso mando ao Porto a ver se o convertia. Quereis vós saber, meus
-sobrinhos, o que elle viu? Elle aqui está que o conte. Diga lá, senhor
-padre Ambrosio.</p>
-
-<p>O egresso sibilou uma pitada, assoou-se, dobrou o lenço de
-quadradinhos, embolçou-o na algibeira da batina, compoz o rosto,
-ageitou as mãos sobre a proeminencia do estomago, e tirou estas
-palavras do peito:</p>
-
-<p>—Assim que cheguei ao Porto, fui a casa das senhoras Noronhas, primas
-de suas excellencias, para o fim de me ellas mandarem ensinar as ruas,
-e a morada do fidalgo. Saíu comigo o capelão a indagações, e soubemos
-que elle estava a banhos de mar na Foz, com a maldita estrangeira.
-Aluguei um jumento, com o devido respeito, e puz-me a caminho para
-a Foz. Eis que, á saída do Porto, vejo vir o senhor Ricardo n’uma
-carroça descoberta, com a franceza á sua direita, e dois lacaios, um
-adeante e outro atraz, sentados na dita carroça. Fiquei passado. Quiz
-chamal-o, grudou-se-me a lingua<span class="pagenum" id="Page_53">[Pg 53]</span> ao ceu da bocca! Elle passou sem dar
-tino de mim; e eu fiquei perplexo, verdadeiramente perplexo! Que hei
-de eu fazer? Deixei ir o jumento, com o devido respeito: fui á Foz,
-resolvido a esperar que elle voltasse. Teria eu andado obra d’um quarto
-de legua, eis que ahi torna a carroça n’uma galopada, que parecia um
-esquadrão de cavallaria. Parei. O senhor Ricardo viu-me, a carroça
-pára, e elle diz: «Por aqui, padre Ambrosio? Isso que é?»—«Venho em
-cata de vossa excellencia»—disse eu.—N’isto, saltou elle á estrada,
-e apropinquou-se de mim, ajudando-me a desmontar, e perguntou-me: «Ha
-novidade em casa? Morreu alguma das tias?»</p>
-
-<p>—Vejam que perverso aquelle!—interrompeu D. Sancha.</p>
-
-<p>—A perguntar se morremos!—accrescentou D. Simôa, com uma visagem de
-quem promette viver muito.</p>
-
-<p>—Se vossas excellencias permittem, disse o padre Ambrosio, continuarei
-a minha exposição.</p>
-
-<p>—Póde continuar, disseram unanimemente as velhas.</p>
-
-<p>—Não, excellentissimo senhor, não morreu, graças a Deus, nenhuma de
-suas tias. Teem padecido muito, mas vivem para honra da familia dos
-Almeidas. Temos que fallar largamente, senhor Ricardo.</p>
-
-<p>«Pois bem, padre Ambrosio», disse elle, entre na minha
-carruagem.—«Muito obrigado, muito obrigado», disse eu. «Ha de
-entrar»—teimou o fidalgo; e, pegando-me d’este braço, fez-me subir,
-e sentar mesmo ao lado da franceza hombro com hombro. O senhoras e
-senhores! eu suava por todos os orificios!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_54">[Pg 54]</span></p>
-
-<p>Beatriz soltou uma convulsão de riso indomavel, Nicoláo de Mesquita
-cravou os dentes nas borlas do chambre. As senhoras Almeidas pasmaram
-do descôco de Beatriz. O narrador abriu a bocca, e ficou-se espantado.
-Esse silencio, e estas visagens eram cócegas a nova casquinada de
-Beatriz. A senhora ergueu-se de salto, e fugiu sala fóra com as mãos
-nas ilhargas.</p>
-
-<p>—Ella de que se riu, sobrinho?! perguntou D. Sancha.</p>
-
-<p>—É flato, respondeu Nicoláo.</p>
-
-<p>—Ah! coitadinha! disse D. Simôa. Mandae-lhe fazer um chá de ortelã e
-tilia.</p>
-
-<p>—Aquillo passa-lhe, tornou o morgado. Queira continuar, senhor padre
-Ambrosio.</p>
-
-<p>—Vinha eu dizendo que...</p>
-
-<p>—Entrou no carro...—lembrou Nicoláo.</p>
-
-<p>—Justamente, e alli vamos nós por aquella estrada além, que eu não
-sei para onde me levavam, nem dava tino de mim. Ia afflicto! Aquella
-mensageira de Satanaz ao pé de mim! Nunca volvi o rosto para a ver! Que
-diria o mundo, vendo um homem com estas vestes sacerdotaes, sentado á
-beira d’aquella mulher! Eu levava o meu capote de camellão, puxei-o
-para deante afim de esconder a batina, mas a cara havia de denunciar a
-minha vergonha: eu ia como um pimento em toda a extensão da palavra! O
-fidalgo perguntou se eu gostava de andar em carruagem. Respondi-lhe que
-não e o demonio da franceza disse não sei que, lá na sua amaldiçoada
-linguagem, e o senhor Ricardo riu-se. Eis que chegamos ao portão da
-casa do senhor Ricardo. A mulher do peccado deu um salto para fóra,
-que parecia um passaro a saltar, deixando<span class="pagenum" id="Page_55">[Pg 55]</span> ver os laços dos sapatos, e
-umas fitas pretas encruzadas nos artelhos! Assim a vestira o inferno
-para perdição das almas. Assim apparecia o demonio entrajado aos santos
-da Thebaida! Porque a verdade ha de dizel-a minha bocca indignada:
-Satanaz nunca fez mulher mais guapa para recrutar almas n’este mundo!
-Eu tinha-a visto de passagem na casa do Pontido, quando ella pernoitou
-lá, e achei que era bem composta de feições; mas agora d’esta vez
-pareceu-me muito mais galharda. Nunca vi outra nem espero que os meus
-olhos tornem a ver mulher assim!... Santa Maria Egypcia, e Santa
-Margarida de Cortona, que eu já vi pintadas, quando eram peccadoras,
-dou-lhes a minha palavra que não tinham tantos adornos infernaes!...
-Vamos adeante. O senhor Ricardo levou-me a uma sala espaçosa, e toda
-adornada de cadeiras de almofada, e ricos escabellos de seda. Fez-me
-sentar n’um, em que cuidei que ia por elle dentro, e o fidalgo riu-se,
-e explicou-me o caso, dizendo que o assento era de molas.—«Tudo
-delicias do peccado!»—exclamei eu, erguendo-me; e elle, o perdido,
-exclamou tambem: «delicias da civilisação, padre Ambrosio!» Então,
-comecei eu o meu discurso, que levava meditado, e que não repito,
-para não enfadar vossas excellencias. O meu discurso foi attinente ao
-proposito de o accordar do seu lethargo. Citei-lhe o divino e o humano.
-Invoquei as sombras illustres dos Almeidas, dos Mesquitas, dos Coelhos,
-dos Pizarros, todos ascendentes d’esta nobilissima familia. Ouviu-me em
-silencio. E quando eu esperava que dos olhos lhe rebentasse o pranto
-da contricção, ouviu-se uma campainha, e elle, cortando-me o final do
-discurso, disse: «padre<span class="pagenum" id="Page_56">[Pg 56]</span> Ambrosio, vamos jantar, que está na mesa.»
-Escandalisei-me d’esta especie de mangação; e disse: «—Na casa do
-impio não comerás nem beberás!»—São palavras da biblia santa. Peguei
-na bengala e no chapéu para saír. Eis que elle me enrosca o braço no
-pescoço, e diz: «Ha de jantar, que tenho que lhe dizer.» A resistencia
-era impossivel, que o senhor Ricardo, desde menino, foi sempre despota.
-E de mais a mais, eu estava a cair de debilidade, porque não tinha
-comido ao almoço. Deixei-me levar. Eis que vejo a estrangeira sentada
-á mesa! Vieram-me outra vez os suores. Fiquei sentado defronte d’ella.
-Foi ella que me fez o prato, e me perguntou se eu queria mais. Comi
-iguarias que nunca vi na minha vida! A sôpa não a pude levar. Tinha uns
-pedacitos de animalculos, que lá chamam camarões. A maldita comia uns
-bichos crus com sumo de limão!</p>
-
-<p>—Credo! exclamou D. Sancha.</p>
-
-<p>—Creio que se chamam ôstras!—continuou o padre, e teve logo de se
-interromper, porque D. Simôa, engulhada com a descripção infanda dos
-bichos crus, estava a luctar com o vomito.</p>
-
-<p>Passado o incidente enjoativo da senhora, mediante um copinho de licor
-de amendoa, padre Ambrosio continuou:</p>
-
-<p>—Omitto a descripção dos outros horrores, que presenciei n’aquelle
-jantar de canibaes. Eu apenas comi d’uma peça de carne assada, e de
-um pato, ou coisa que o parecia. No fim do jantar, o senhor Ricardo
-levou-me para o seu quarto, e perguntou-me por vossa excellencia.</p>
-
-<p>—Por mim! disse Nicoláo.</p>
-
-<p>—Sim, senhor. Quiz que eu lhe dissesse se vossa<span class="pagenum" id="Page_57">[Pg 57]</span> excellencia tinha
-casado, ou estava para casar. Respondi-lhe que vossa excellencia andava
-n’esses preparativos. Ora agora, o que eu não sei é porque elle deu
-uma grande risada, quando lhe eu disse que as fidalgas tinham mandado
-pedir ao senhor morgado que empregasse todos os meios para salvarem o
-sobrinho das garras da franceza! Isso foi um rir, que não tinha fim.
-Depois, quiz saber o que vossa excellencia tinha feito. Eu contei-lhe
-a resposta que o senhor morgado dera ás excellentissimas senhoras suas
-tias, e elle então disse umas palavras, que eu não me atrevo a repetir.</p>
-
-<p>N’este momento entrou Beatriz á sala, e Nicoláo ergueu-se ao encontro
-da senhora. Visivelmente queria elle rematar alli a exposição do padre;
-mas o narrador repetiu ainda:</p>
-
-<p>—Palavras, que eu não me atrevo a repetir.</p>
-
-<p>—Vinde cá, sobrinho, ouvide isto...—disse D. Sancha.</p>
-
-<p>—Dispenso saber o que Ricardo disse, atalhou precipitadamente Nicoláo.
-Em summa, o que eu infiro da narrativa do senhor padre Ambrosio é que
-meu primo Ricardo resistiu á sua eloquencia.</p>
-
-<p>—Mas que rasão, tornou o clerigo, teria elle para dizer que vossa
-senhoria é um... não ouso dizer.</p>
-
-<p>—Pois digo eu, ajuntou D. Simôa. O que elle disse foi que o nosso
-sobrinho Nicoláo era um infame... Vêde vós!</p>
-
-<p>—E que havia de pagar dente por dente, e olho por olho...—ajuntou o
-capellão.</p>
-
-<p>—Basta! interrompeu o morgado com desabrimento. Eu despreso o que esse
-miseravel disse!</p>
-
-<p>—Mas que mal lhe fizeste tu a elle, primo? perguntou Beatriz.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_58">[Pg 58]</span></p>
-
-<p>—Nenhum, minha querida. Que mal poderia eu fazer-lhe?! Agastaram-n’o
-contra mim as expressões que escrevi a minhas tias com referencia
-ao desatino d’elle. Bem! prohibo que em minha casa se deprima ou
-se louve o homem que me insulta. Préso muito vossas excellencias,
-minhas senhoras, mas não sei que lhes faça, nem ha que fazer contra
-os desvarios de seu sobrinho. Quando elle voltar, eu irei pedir-lhe
-explicações do epitheto com que me brindou. No entanto, peço que me não
-perturbem a felicidade que devo a este anjo.</p>
-
-<p>E, dizendo, aconchegou do seio Beatriz, e ella, encostando o ouvido ao
-seio esquerdo, disse admirada:</p>
-
-<p>—Com que força o teu coração palpita, primo!</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_59">[Pg 59]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="VI">VI</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_a.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Acabaram-se</span> os festejos no Vidago.</p>
-
-<p>Principia a vida serena, que Nicoláo de Mesquita anhelára.</p>
-
-<p>Está a casa de Palmeira sósinha, em meio da sua muralha de cedros
-e alamos. Rodeiam-n’a por mais longe extensos almargeaes, relvas
-amenissimas, montados crespos de sovereiros. A estrada passa arredada.
-Nenhuns rumores do mundo alli vão quebrar os scismadores silencios.
-Este é o éden, qual preluzira ao morgado nos entresonhos, que lhe
-adoçavam os aborrimentos do seu viver com a franceza nos arrabaldes do
-Porto.</p>
-
-<p>Anciára elle então um enlace honesto, uma virgem transferida do
-resguardo da pureza á adoração da vida conjugal, uma companheira para
-todas as<span class="pagenum" id="Page_60">[Pg 60]</span> horas da vida pacifica, doirada de alegrias innocentes,
-honrada na consciencia propria e no conceito do mundo.</p>
-
-<p>Parece que a Providencia déra tudo, e mais ainda, ao homem que não
-esperava o minimo das suas modestas, mas tardias ambições.</p>
-
-<p>Para os quarenta annos, uma menina com dezeseis.</p>
-
-<p>Para o coração escalavrado, um coração em flôr apenas desabrochado ao
-inculpavel beijo de um primo.</p>
-
-<p>Para uma <em>fortuna</em> desfalcada por grandes desbarates, um grande
-patrimonio de filha unica.</p>
-
-<p>Nicoláo subjugára a mais liberal das fadas, ou pactuára com o anjo das
-trevas a felicidade d’este mundo a troco da eterna perdição da alma?
-Nada d’isto. Era a natural absurdeza das coisas sub-lunares, como ellas
-se nos figuram quando as encaramos superficialmente e pela rama.</p>
-
-<p>Em harmonia com o seu ideal de felicidade domestica, o morgado
-restringiu ao minimo a sua convivencia, não pagando as visitas, e
-faltando aos convites. Apenas Martinho Xavier ás temporadas vinha de
-Chaves ver a filha, ou algum velho parente, que se retirava anojado da
-insipida existencia dos senhores do Vidago.</p>
-
-<p>Martinho Xavier encarava na filha, e perguntava-lhe, a occultas do
-marido:</p>
-
-<p>—Tu és feliz?</p>
-
-<p>E ella, com os olhos assaltados de lagrimas, respondia, n’um tom de
-amarga ironia de si mesma:</p>
-
-<p>—Sou...</p>
-
-<p>O pae contristava-se; mas dissimulava. Se a occasião lhe dava uma
-aberta dizia ao genro:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_61">[Pg 61]</span></p>
-
-<p>—Vocês vem a enfastiar-se d’este modo de viver!... Por que não vens
-estar com tua mulher em Chaves alguns dias, primo Nicoláo?</p>
-
-<p>—Porque nos sentimos completamente felizes no nosso paraizo
-terreal—respondia o morgado.</p>
-
-<p>—E receiaes ser desgraçados lá?</p>
-
-<p>—Não, primo Xavier; porém, a nossa casa é aqui; e o entrarmos nos
-vãos prazeres da sociedade corre perigo de acharmos depois monótona a
-solidão. Deixa-nos assim estar, que Beatriz sente como eu; affeiçoou-se
-á quietação d’este viver, que te parece melancolico, e, se me não
-engano, prefere-o aos bailes da tua Chaves.</p>
-
-<p>—Não sei... murmurou Martinho.</p>
-
-<p>—Por que dizes que não sabes?</p>
-
-<p>—Porque ella tem dezesete annos, e foi creada com as inoffensivas
-regalias da sociedade culta.</p>
-
-<p>—Bem sei; mas uma senhora, que toma este sério e melindroso estado,
-renuncía ás regalias frivolas e chimericas de um baile, e de um
-conciliabulo de murmurações com as outras mulheres.</p>
-
-<p>—Não me pareces o homem que viveu em França, na Belgica, na
-Inglaterra...</p>
-
-<p>—É por lá ter vivido que penso assim, primo Xavier.</p>
-
-<p>—Não é isso...</p>
-
-<p>—Então que é?</p>
-
-<p>—É o estares gasto, primo.</p>
-
-<p>—Estarei para as impressões stultas e prejudiciaes, mas para amar tua
-filha tenho a energia d’alma dos vinte annos. Desmente-me Beatriz?</p>
-
-<p>—Não: pelo contrario, diz que tu a adoras.</p>
-
-<p>—Pois bem: que outro galardão querias tu como pae?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_62">[Pg 62]</span></p>
-
-<p>—Nenhum outro, primo Mesquita. O que eu receio, repito, é que esta
-serenidade desfeche em fastio...</p>
-
-<p>—Não receies, meu amigo. Eu sinto-me ditoso n’este sequestro da
-sociedade, e encho do meu contentamento o coração de minha mulher.
-Temos horas de passeio, de conversação e de leitura. E depois, ajuntou
-Nicoláo sorrindo, possuimos bons estomagos, e dormimos muitas horas, e
-accordamos alegres. Esta é que é a verdadeira, a legitima, a sadia, a
-patriarchal existencia de nossos avós, primo Martinho Xavier.</p>
-
-<p>—Está bom...—murmurou o pae de Beatriz, concluindo com erguer os
-hombros, fechando as palpebras.</p>
-
-<p>Passaram seis mezes. Voltou Martinho Xavier, e attentou no rosto
-desbotado da filha.</p>
-
-<p>—Tu padeces, Beatriz? perguntou o pae fagueiramente.</p>
-
-<p>—Não, senhor: vivo triste. Que oito mezes tão vagarosos! Parece
-que estou ha oito annos a olhar para estas arvores. Passam-se dias
-e semanas que eu não saio de casa! Onde hei de eu ir? Ver correr a
-agua do Tamega? Estou farta de ver o Tamega. D’antes ia á missa aos
-domingos, mas o primo Nicoláo está a dormir até tarde, e nem á missa
-vae. Eu deito-me ao escurecer, e elle fica a jogar o voltarete com o
-reitor e com o administrador do concelho até ás onze. Depois vae cear,
-e obriga-me a cear tambem. Que vida, meu pae!... Eu sou realmente
-muito amiga de meu primo, mas não sei de que nos serve a riqueza aqui
-mettidos n’este ermo, sem ver ninguem! Tenho tantas saudades do papá,
-e da nossa casa, e das minhas amigas! A Therezinha<span class="pagenum" id="Page_63">[Pg 63]</span> Pizarro fala de
-mim! Que mais feliz foi a Laura Canavarro, que me escreveu de Lessa
-da Palmeira, onde está a banhos, e já foi a dois bailes no Porto! E a
-Francisquinha de Villalva casa com o primo Raphael?</p>
-
-<p>—Ora, menina! o primo Raphael está cada vez mais azougado d’aquella
-cabeça! Chegou de Hespanha ha dois mezes, esteve em casa uns quinze
-dias a recompôr a saude, pediu a Francisca de Villalva, e lá foi levado
-para Basto porque viu nas aguas de Verim uma menina da casa de Viade,
-e de Basto irá atraz de outra menina de qualquer casa. É um doido
-desmarcado!</p>
-
-<p>—Elle falou-lhe de mim?</p>
-
-<p>—Falou; perguntou-me se estavas contente.</p>
-
-<p>—E o pae que lhe disse?</p>
-
-<p>—Que havia de eu dizer-lhe?! que estavas contentissima.</p>
-
-<p>—Fez bem. Não quero que elle se vingue.</p>
-
-<p>—Vingar-se de quê? Pois tu deste-lhe motivo de odio?</p>
-
-<p>—Não... mas...</p>
-
-<p>—Explica-te.</p>
-
-<p>—O pae bem sabia que elle me fazia a côrte.</p>
-
-<p>—Uma brincadeira...</p>
-
-<p>—Pois sim, mas, se eu fosse constante... vinha a casar com elle.</p>
-
-<p>—Deus te livre, filha! Aquelle homem hade ser o flagello da mulher com
-quem casar...</p>
-
-<p>—Quem sabe!...</p>
-
-<p>—Sei-o eu. Antes infeliz com teu primo. Este, ao menos, é um esposo
-leal, inseparavel de ti, bom administrador de casa, e respeitado de
-todos. O outro vem a dar cabo do que tem, e está-se deshonrando<span class="pagenum" id="Page_64">[Pg 64]</span>
-todos os dias com toda a casta de extravagancia. O que lhe vale é ter
-pae, que vae tendo mão na manta, e a grande herança que teve de uma
-tia; senão a grande casa de Fayões estava espatifada. Minha filha, dá
-louvores a Deus por teres casado com um homem, que te livra de casares
-com Raphael. Quando mais não seja, só por isto fizeste um optimo
-casamento.</p>
-
-<p>Beatriz calou-se. Vinha entrando o marido com uma enorme pêra de sete
-cotovellos.</p>
-
-<p>—Veja que prodigiosa pêra, primo Xavier! disse elle.</p>
-
-<p>—É admiravel!</p>
-
-<p>—Tenho magnificas fructas! Mandei fazer enxertos de pereiras
-francezas. D’aqui a dois annos o pomar mais rico de Traz-os-Montes
-ha de ser o nosso. Tu verás, Beatriz! Em França ha, no genero pêra,
-duzentas e tantas variedades.</p>
-
-<p>—Porque não vaes mostrar Paris a tua prima? atalhou Martinho.</p>
-
-<p>—Ora essa!—acudiu Nicoláo.—Se deixavamos a nossa casa para ir ver as
-paredes das casas dos outros!... Beatriz está farta de ver Paris nas
-estampas, que eu lhe explico perfeitamente. Pois toda a terra é mais
-para se ver na copia que no original!</p>
-
-<p>—Ao menos vae até Lisboa ver a parentella que lá temos—replicou o
-fidalgo flaviense.</p>
-
-<p>—Peior! redarguiu o genro. Minha mulher dispensa ver o <i>D. José</i>,
-da memoria do Terreiro do Paço, e as parentas contemporaneas da
-memoria. Quando cheguei de Bruxellas em 1834, fui procurar os numerosos
-Mesquitas que por lá estão em Lisboa, e achei uma gente exquisita,
-que me perguntava<span class="pagenum" id="Page_65">[Pg 65]</span> se nós cá na provincia tomamos chá. As mulheres
-pareciam girafas empalhadas. Pelos modos e edade, creio que desde minha
-bisavó as nossas parentas de Lisboa embalsamaram-se em vida, e ficaram
-repimpadas nas suas poltronas, á espera da trombeta do juizo final.
-Querias tu que eu fôsse mostrar essa parentella gothica a minha mulher?
-Deus a livre, que a pobresinha havia de cuidar que a mettiam n’um salão
-subterraneo de Pompeia a conversar com as mumias de alguma familia,
-surprehendida, em oração mental aos deuses, pela onda do betume.</p>
-
-<p>—Está decidido que não saes de Vidago—retorquiu Martinho.</p>
-
-<p>—Isso não sei; mas por emquanto a necessidade não obriga, salvo se
-Beatriz o exigir.</p>
-
-<p>—Eu queria, ao menos, ir estar em casa do pae algum tempo...—disse a
-senhora.</p>
-
-<p>Nicoláo involuntariamente franziu o sobr’olho, e disse:</p>
-
-<p>—Já se vê que não estás o melhor possivel com teu marido...</p>
-
-<p>—Falsa interpretação, acudiu o pae. A menina não dizia isso, primo.
-Saudades da casa paterna implicam o bem-estar com o marido?</p>
-
-<p>—É conforme...—atalhou Nicoláo.—Pois sim, iremos a Chaves.</p>
-
-<p>—Não vamos, não, primo, atalhou Beatriz despeitada, simulando
-conformidade.</p>
-
-<p>—Então vamos ou não vamos? perguntou o marido, entre risonho e
-contrariado.</p>
-
-<p>—O que fôr da tua vontade—respondeu ella affavelmente, sopesando o
-despeito, como quem, apezar do melindre maguado, queria ir.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_66">[Pg 66]</span></p>
-
-<p>De feito, ao outro dia partiram para Chaves.</p>
-
-<p>Beatriz cobrou as côres e a alegria dos olhos, assim que viu a janella
-do seu quarto, e os craveiros em flor, que ella cultivára. Parecia-lhe
-a ella que amava mais seu marido alli. Appareceram-lhe as amigas da
-infancia, alegres, buliçosas, esplendidas de vida, contando-lhe os seus
-amores, as suas esperanças, as venturas de outras amigas. E Beatriz
-escutava a chilreada d’estas avesinhas com os olhos aguados, e o
-coração cerrado. Por supremo esforço, desprendia um sorriso, e então
-era peior, que as lagrimas rebentavam para afogar a falsa expressão do
-seio angustiado.</p>
-
-<p>Correu logo a noticia da vida desventurosa de Beatriz. Os tios d’ella
-afoitamente invectivaram Nicoláo pela reclusão e estiolamento em que
-tinha os dezoito annos da pobre menina; accrescentando que para escura
-sorte a havia creado o pae com tanto mimo.</p>
-
-<p>Isto agastou grandemente o morgado. A resposta foi asperrima, e
-contraditada com assomos de ira e excessos de palavras. O resultado foi
-Nicoláo, ao fim de quatro dias, ordenar a sua mulher que se despedisse,
-para no dia seguinte voltar a Palmeira.</p>
-
-<p>Beatriz obedeceu silenciosamente. Desde este momento, a casa dos Vahias
-parecia de lucto. Nicoláo deixou ir sua esposa despedir-se em companhia
-do pae, pretextando impedimento de saude.</p>
-
-<p>Estava Beatriz em casa de suas primas Canavarros, quando Raphael Garção
-entrou, vindo de Basto.</p>
-
-<p>Viu Beatriz, fez pé atraz, e não teve mão de si, exclamando:</p>
-
-<p>—Como está mudada, prima!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_67">[Pg 67]</span></p>
-
-<p>Beatriz abaixou os olhos com immensa dôr.</p>
-
-<p>—E eu que a considerava tão afortunada!—tornou Raphael.</p>
-
-<p>—E quem te disse a ti que ella o não é?!—interveiu Martinho Xavier,
-de má sombra.</p>
-
-<p>—Diz-m’o aquelle rosto, que era formoso e ridente como o do anjo da
-alegria!—respondeu impavidamente o leitor de Richardson e Byron.</p>
-
-<p>—Pode-se padecer do corpo, e ser-se feliz da alma...—contrariou
-Martinho.</p>
-
-<p>—Isso não sei—contraveio o morgado de Fayões.</p>
-
-<p>—Sei eu.</p>
-
-<p>—Pois muito estimo que a mudança de rosto de minha prima seja uma leve
-doença, tornou Raphael.</p>
-
-<p>Martinho Xavier levantou-se, dando signal de saida á filha, que abraçou
-tristemente as primas, e estendeu a mão a Raphael, sem o fitar no rosto.</p>
-
-<p>Ao outro dia, partiram para o Vidago aquellas duas almas que
-providencialmente se tinham unido por occultos designios, que me não
-edificam, nem provam o bom regimento e ordenação d’este globo. Seja
-perdoada esta mingua de admiração ao mal afiado acume do meu espirito.
-O ver successivamente a desgraça propria e as alheias dispara afinal
-n’uma cegueira de entendimento. É o que eu penso de mim, sem com isto
-me querer ingerir n’um cantinho d’este romance.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita sentia-se mudado. Via-se interiormente. Ha uma
-visão interior, intuspecção dolorosa em que a gente vê estar-se-lhe
-a alma enrugando, apanhando e envelhecendo. Queria desabafal-a em
-caricias á mulher; mas faltava-lhe o ar expansivo, aquelle dilatar-se o
-coração para receber<span class="pagenum" id="Page_68">[Pg 68]</span> as lagrimas refrigerantes da mulher que nos ama,
-e perdôa as faltas, o desamor e as iniquidades.</p>
-
-<p>Concentrou-se.</p>
-
-<p>Póde ser que ella o divertisse da sua introversão, se o acariciasse,
-mas Beatriz soffria mais que o marido, e começava a detestal-o. A
-precisada de caricias era ella, que duas angustias apertavam: a
-saudade, e o terror do porvir: o passado amor, renascido com a presença
-de Raphael: e o supplicio adveniente com o rancor, que ella sentia
-empeçonhar-lhe o intimo d’alma e a consciencia de sua irremediavel
-desgraça.</p>
-
-<p>Sem embargo d’isto, os dois esposos viam-se a todas as horas, e
-trocavam expressões vãs.</p>
-
-<p>—Porque soffres, prima?—perguntava elle.</p>
-
-<p>—Eu não soffro.</p>
-
-<p>—Mas que tristeza é essa?</p>
-
-<p>—Sinto-me adoentada. E tu que tens, Nicoláo?</p>
-
-<p>—Nada, Beatriz.</p>
-
-<p>—Mas estás tão pensativo!...</p>
-
-<p>—Medito na nossa sorte, e vejo que nos enganámos. Esta vida solitaria
-não quadra ao teu genio. Tu querias os brinquedos de solteira; e eu
-casei tarde para lhes achar prazer.</p>
-
-<p>O silencio de Beatriz irritava-o; mas a delicadeza continha-o.</p>
-
-<p>E, por este theor, travavam curtos dialogos, que rematavam em raiva
-suffocada.</p>
-
-<p>Um dia, Beatriz não saiu do leito para a mesa do almoço. Nicoláo
-mandou-lhe a bandeja ao quarto pela criada. D’ahi a pouco foi elle, e
-viu intacto o almoço.</p>
-
-<p>—Porque não comes?—perguntou elle.</p>
-
-<p>—Não posso—respondeu seccamente a senhora.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_69">[Pg 69]</span></p>
-
-<p>—Queres que chame um cirurgião?</p>
-
-<p>—A minha doença não a curam cirurgiões: ha de curar-m’a... bem cedo a
-morte.</p>
-
-<p>Nicoláo riu-se sarcasticamente.</p>
-
-<p>Sentou-se Beatriz no leito, e escondeu entre as mãos o rosto, para
-abafar soluços.</p>
-
-<p>O marido contemplou-a com azedume, affastou-se.</p>
-
-<p>Saiu; foi emboscar-se no arvoredo da quinta; e meditou meia hora.</p>
-
-<p>Quando cessou de meditar, sentia saudades de Margarida Froment!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_71">[Pg 71]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_70">[Pg 70]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="VII">VII</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_s.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Saudades</span> de Margarida Froment?</p>
-
-<p>A pergunta póde abonar a candura, mas não abona a experiencia de quem
-se dignou fazer-m’a.</p>
-
-<p>Saudades de Margarida, porque havia sido amada apaixonadamente.</p>
-
-<p>Porque era ainda bella, quando foi abandonada.</p>
-
-<p>Porque houvera um homem que a tomára despresada nos braços, e a
-mostrava ao mundo com soberba de a possuir.</p>
-
-<p>Porque esse homem era moço, gentil, fidalgo, e requestado das mais
-extremadas formosuras da provincia.</p>
-
-<p>Porque esse homem, em vez de escondel-a nas sombras d’umas arvores,
-galeava pomposamente com ella, offuscando os olhos pavidos da moral
-publica.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_72">[Pg 72]</span></p>
-
-<p>Porque Margarida tinha prodigiosas graças, de que Nicoláo se estava
-lembrando agora.</p>
-
-<p>Porque Margarida, sobre ser espirituosa, era um talento que bastava a
-entreter e lisongear o mais cubiçoso espirito.</p>
-
-<p>Porque Margarida lhe havia sido leal até o momento de ser
-grosseiramente repellida.</p>
-
-<p>Porque chorava, quando elle cruamente a odiava.</p>
-
-<p>Porque era bella, digamol-o segunda vez, porque era bella.</p>
-
-<p>E mais que tudo, porque era de outro.</p>
-
-<p>Aqui estão os <em>porquês</em> da miseria do coração de Nicoláo de
-Mesquita, barro commum da humanidade, miseria deploravel, que importa
-chorarmos todos, por ser nossa a miseria, e não sabermos como se póde
-com lodo e lagrimas reconstruir uma coisa melhor do que a fez o Creador.</p>
-
-<p>Peregrina belleza era Beatriz; esposa casta e paciente nenhuma se
-lhe avantajava; mulher para o ideal, e anjo para a sensação, nenhuma
-como ella; virtudes, graças, lagrimas do seio sem macula: tudo que
-mais prende o amor, e a misericordia quando o amor se extingue; tudo
-superabundava na esposa de dezesete annos; mas Beatriz era de Nicoláo
-indissoluvelmente, e Margarida estava sendo de Ricardo.</p>
-
-<p>Que repulsivo confronto entre as duas mulheres!</p>
-
-<p>Que mal premiada a honra, sujeita a comparações tão aviltantes!</p>
-
-<p>Ora, a saudade do morgado da Palmeira excruciava-o. Era um ferro
-candente a fistular-lhe as entranhas. Da quinta do Porto, onde se
-anojára cinco annos, recordava-se como Lucifer do ceu. Parecia-lhe
-que Beatriz era o archanjo do montante de fogo,<span class="pagenum" id="Page_73">[Pg 73]</span> a repulsal-o
-eternamente das delicias do coração. Fugia de si mesmo como corrido
-de sua ignominia. Punha os olhos supplicantes no oratorio de sua mãe.
-Apertava ao seio a esposa, como se esperasse apagar a flamma infernal
-em contacto da mulher pura. Margarida arrancava-o pelos cabellos
-dos braços da esposa, arrastava-o até se assentar com elle n’alguma
-amenidade das florestas, e ahi lhe dizia as phrases embriagantes dos
-primeiros mezes da sua paixão em Bruxellas, ou, debulhada em lagrimas,
-se queixava da ingratidão com que elle desamparára a mulher, por amor
-d’elle perdida, sem amigos, sem marido e talvez sem pão.</p>
-
-<p>Era um supplicio expiador! Nicoláo conheceu que era preciso Deus para
-a misericordia, logo que lhe reconheceu a mão no peso do castigo. Não
-bastava o amor desesperançado: cumpria que o remorso lhe envenenasse o
-sangue: remorso de infamar um amigo e de lhe atirar ao gozo dos homens
-a mulher infamada!</p>
-
-<p>Tinha momentos de contemplal-o com pavor Beatriz. Falava-lhe, e elle
-estremecia, articulando desatinos. Punha-lhe a mão no rosto abrazeado,
-e elle repellia os afagos, e voltava depois a procural-os, chorando.</p>
-
-<p>Beatriz mandou secretamente chamar o pae.</p>
-
-<p>Assim que Nicoláo presentiu Martinho Xavier no pateo de sua casa, saiu
-enraivecido, e voltou depois envergonhado da sua raiva, sem dar tino da
-razão da fuga nem da vergonha.</p>
-
-<p>A attribulada senhora contára ao pae a incomprehensivel agitação do
-marido. Martinho chorava abraçado á filha, quando Nicoláo entrou. O
-lance foi<span class="pagenum" id="Page_74">[Pg 74]</span> acerbo! Nicoláo acercou-se de ambos, abraçou-os, e disse com
-voz balbuciante:</p>
-
-<p>—Eu fiz a vossa desgraça e a minha. Perdoae-me!</p>
-
-<p>Beatriz condoeu-se. O pae levou-o nos braços á sala immediata,
-gesticulando á filha que os não seguisse, e perguntou:</p>
-
-<p>—Isto que é, primo Mesquita? Que mal te fazemos nós?</p>
-
-<p>—Queixei-me eu de ti ou de Beatriz?—disse maviosamente o morgado.</p>
-
-<p>—É arrependimento de te haveres casado?</p>
-
-<p>—É... Arrependimento de infelicitar a tua filha digna de uma alma
-estranha aos vicios e ás villanias atrozes.</p>
-
-<p>—Pois bem, Nicoláo... remediemos o remediavel. Se a presença de minha
-filha te atormenta, eu levo-a para minha casa, que tambem é tua e
-d’ella. Se o amor tornar, vae buscal-a; se, sem Beatriz, viveres mais
-tranquillo, ella que fique em Chaves.</p>
-
-<p>—Não!... atalhou o morgado.—A minha desgraça não se remedeia assim,
-nem d’outro modo. É um anathema! e um calix intransitivo. Hei de
-bebel-o trago a trago!...</p>
-
-<p>—Santo Deus!—acudiu Martinho Xavier—que segredo é esse da tua vida?
-Se eu te visse na sociedade, cuidaria que te apaixonaste, primo! E
-então appellaria do teu coração para a tua honra.</p>
-
-<p>—E se eu não tivesse honra!...—exclamou Nicoláo, e saiu
-impetuosamente da sala.</p>
-
-<p>Martinho perguntou á filha:</p>
-
-<p>—Teu marido recebe cartas suspeitas?</p>
-
-<p>—Não, que eu saiba, meu pae. Recebe jornaes, e raras vezes tem cartas
-de França.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_75">[Pg 75]</span></p>
-
-<p>—E essas cartas sabes o que ellas conteem?</p>
-
-<p>—Sei, porque são de um portuguez, e nada dizem de suspeito. Só, aqui
-ha tempos, li uma, que falava n’uma Margarida, e entendi que era a
-franceza do Ricardo de Almeida. Vim a saber que ella era casada, porque
-diz assim, pouco mais ou menos: «o marido de Margarida está gordo e
-devasso; e desforra-se.» Não percebi isto, nem me importou. Perguntei
-ao primo se a tal franceza era casada, e elle respondeu-me bruscamente
-que não sabia, nem eu me devia importar com as cartas que elle recebia.
-Porque me pergunta o pae se elle recebe cartas suspeitas?</p>
-
-<p>—Nada, filha.</p>
-
-<p>—Desconfia que elle ame outra mulher!—instou ella alvorotada.</p>
-
-<p>—Desconfiei.</p>
-
-<p>—É impossivel! exclamou Beatriz—Quem hade ser? Aqui ninguem vem; nós
-não vamos a parte nenhuma.</p>
-
-<p>—Então que suppões tu d’esta pasmosa torvação de teu marido?</p>
-
-<p>—Que me aborrece.</p>
-
-<p>—Não é assim.</p>
-
-<p>—É, meu pae. Elle não póde deixar de sentir por mim o que eu sinto por
-elle.</p>
-
-<p>—Pois não o amas, Beatriz?</p>
-
-<p>—Como hei de eu amal-o n’este martyrio? Sabe lá o que eu soffro ha
-dez mezes! E então, nos ultimos tres, não tenho refrigerio... Uma hora
-abraça-me, outra repelle-me. Já temi que elle endoudecesse... Meu
-pae,—proseguiu ella com vehemente fervor de supplica—tire-me d’aqui,
-leve-me para si,<span class="pagenum" id="Page_76">[Pg 76]</span> restitua-me uma parte da satisfação que eu tinha de
-viver, antes d’esta fatalidade!</p>
-
-<p>—Paciencia por alguns dias, filha!—replicou o pae enternecido
-a pranto.—Isso não póde ser assim. O mundo assacaria aleivosias
-deshonrosas para todos. Já agora tem força por mais algum tempo; é o
-teu bom pae que t’o pede.</p>
-
-<p>—Terei—disse resignada Beatriz.</p>
-
-<p>Martinho deteve-se alguns dias no Vidago e saia com frequencia a longos
-passeios de cavallo com o genro. Da mesmeidade dos annos, da amizade
-da infancia e sobre tudo da necessidade da expansão, resultou que o
-morgado da Palmeira, n’um d’aquelles passeios, communicasse ao primo
-os pormenores todos da sua angustia. O assombro de Martinho Xavier foi
-afflictivo. Pôde muito comsigo que não lançasse em rosto ao marido de
-sua filha a protervia, a perfidia, a villania com que tramára o engano,
-do encontro com a franceza em Villa Pouca; e mais ainda o villipendio
-do emparelhar o amor de sua filha com o de uma collareja transmissivel
-de homem para homem. Era santa a indignação do pae!</p>
-
-<p>Ouviu-o silencioso, e apenas lhe disse:</p>
-
-<p>—Vence-te, se poderes; se te não poderes vencer, dá-me minha filha,
-e vae disputar essa mulher a teu primo Ricardo, que eu creio que lh’a
-tiras; e elle ou outro, quando estiveres saciado, t’a virão tirar.</p>
-
-<p>Nicoláo pungiu-se e arrependeu-se da revelação.</p>
-
-<p>Exigiu-lhe o juramento de calar o segredo a sua mulher. Martinho Xavier
-respondeu:</p>
-
-<p>—Quando se trata de affrontar minha filha, escuso de jurar que não hei
-de affrontal-a. O que te<span class="pagenum" id="Page_77">[Pg 77]</span> peço é que a deixes ir estar quinze dias em
-minha companhia.</p>
-
-<p>—Pois sim, mas dispensa-me de acompanhal-a. Espero que a solidão e
-meditação me curem. Logo que eu me sinta mais tratavel, irei buscal-a,
-e passarei comtigo algumas semanas. Iremos todos a Madrid; eu mudarei
-de vida, entrarei outra vez no mundo; e darei á minha pobre Beatriz o
-contentamento que lhe roubei.</p>
-
-<p>—Deus te ouça!—exclamou jubilosamente Martinho Xavier.</p>
-
-<p>Beatriz cuidou de abafar de alegria, quando o pae lhe noticiou a ida.
-Tratou de emmalar os seus adornos com tal prestesa, e de tamanho
-afogadilho, que de sobra denotava a levesa dos dezesete annos, e a
-facil transposição do seu espirito da dôr para o contentamento. Nicoláo
-despediu-se d’ella com os olhos a reverem lagrimas. Os de Beatriz nem
-de leve se marejaram. Partiram.</p>
-
-<p>N’este mesmo dia abriu Nicoláo de Mesquita a <i>Coalisão</i>, jornal
-portuense, e, acaso, relanceando a vista ao folhetim, depararam-se-lhe
-as palavras <i>Margarida Froment</i>. Leu o folhetim, que se intitulava:</p>
-
-
-<p>Á BEIRA-MAR</p>
-
-<p>Era uma mescla de verso e prosa, consoante o gosto dos litteratos
-amphibios d’aquelle tempo. Começava assim n’este estylo fraldoso e
-apopletico, vulgarmente chamado biblico:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«.........................................</p>
-
-<p>«E o teu cantar é saudoso como o das filhas de Israel ás abras das
-aguas plangitivas do Euphrates.</p>
-
-<p>«E as harpas eolias gemem bafejadas por teus labios, como a cythara de
-Saul.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_78">[Pg 78]</span></p>
-
-<p>«Oh Agar, sentada nas areias estuosas do deserto de Berzabé! Canta,
-canta, oh filha das lagrimas!</p>
-
-<p class="poetry">
-Ai! quantas vezes, ó triste,<br />
-Esse teu amargo pranto<br />
-Desafogaste no canto!<br />
-Ai! quantas vezes sentiste<br />
-Mais precisão de chorar!...<br />
-Ai! canta, canta, que ha lagrimas<br />
-No teu dorido cantar!</p>
-<p class="poetry">.............................................</p>
-<p class="poetry">
-Ao cantar te acode a infancia<br />
-Com seus sorrisos e flores;<br />
-Feres notas que te falam<br />
-Como falavam amores,<br />
-Outras são gemidos d’alma;<br />
-Mas todos teem seu gozar!<br />
-Ai! canta, canta, anjo triste,<br />
-Quando quizeres chorar!<br />
-</p>
-
-<p class="poetry">.............................................</p>
-
-<p>«E o archanjo d’aquelles hymnos tem sobre a terra um nome. Na
-linguagem de homens chama-se <i>Margarida Froment</i>; mas, nos
-archivos do céu, o nome que tem é <i>Martyr do Coração</i>.</p>
-
-<p>«Por que o teu seio foi alanceado fibra a fibra pelo primeiro precito,
-que te esculpiu um anathema na fronte, onde os raios fulgidos do sol
-desciam a roubar seu esplendor!</p>
-
-<p>«E esse maldito de Deus feriu-te na aza de anjo, ó pomba dos paramos
-olympicos, e tu caiste ao tremedal da humanidade.</p>
-
-<p>«Ó Margarida! quem sabe ahi dizer sobre a terra a alegria das tuas
-angustias!</p>
-
-<p>«E eu vi-te por uma d’essas noites esplendidas, como as sonha o arabe
-no dulcissimo torpor dos seus magicos narcoticos!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_79">[Pg 79]</span></p>
-
-<p>«Illuminava o inferno d’este mundo, oh houri, enviada pelo Deus dos
-ismaelitas.</p>
-
-<p>«A tua belleza era o arrebol matutino.</p>
-
-<p>«E os teus olhos afuzilavam torrentes electricas como os relampagos
-abertos da mão de Jehovah nas cumiadas do Sinay.</p>
-
-<p>«E os teus labios desprenderam um cantar, cuja maviosidade fazia
-chorar os anjos no ceu, e os demonios no inferno.</p>
-
-<p>«E o homem, que te havia roubado aos braços do esposo, esse não
-chorava, porque uma aragem da região glacial das trevas lhe tinha
-congelado as glandulas, e o sangue nos pulmões, e fizera d’aquelle
-coração um cinerario hediondo, como os pomos de Pentapolis!</p>
-
-<p>«Oh Margarida, que dôr será a tua, insondavel e immensissima, quando o
-coração te paira por terras de França, e vês a mãe que te carpe, e o
-marido que aperta ao seio o inutil punhal de sua vingança!...</p>
-
-<p class="poetry">
-«Ai! canta, canta, que ha lagrimas<br />
-No teu dorido cantar!<br />
-Ai quantas vezes sentiste<br />
-Mais precisão de chorar...<br />
-Ai! canta, canta, anjo triste!»<br />
-</p>
-
-<p class="poetry">.............................................</p>
-</div>
-
-<p>Seria crueza dar a copia integral do folhetim, que ao deante, era muito
-mais puxado do peito, e menos intelligivel.</p>
-
-<p>O poeta datara-o na Foz em outubro de 1840.</p>
-
-<p>Uma local do mesmo numero da gazeta, dizia:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«<i>Á beira-mar.</i> Com este titulo publicamos hoje um folhetim de
-um nosso amigo, que tão brilhantemente<span class="pagenum" id="Page_80">[Pg 80]</span> se estreia. As letras patrias
-devem esperar d’este mancebo fructos tão sasoados quanto as flores
-são bellas. Á parte o talento senão genio, do mavioso poeta, devemos
-confessar que o motivo de sua inspiração não podia sair com menos
-de uma obra prima. Tambem nós tivemos a honra e o jubilo de escutar
-hontem á noite a voz melodiosissima de mad. Margarida Froment, dama já
-conhecida por sua belleza e intelligencia. Agradecemos cordealmente
-ao cavalheiro Ricardo de Almeida o convite que nos proporcionou
-ajuntarmos o nosso brado de admiração ao de tantos, que se gosaram o
-prazer de ouvir a hospeda de sua excellencia. Do folhetim do nosso
-jovem amigo infere-se que ha profundas e ao mesmo tempo sublimes dôres
-no coração d’esta senhora. Ai da consciencia do refalsado caracter que
-privou a sociedade de uma gloria!</p>
-
-<p>«Que o mundo é inexoravel com as desgraçadas, que, ainda abatidas do
-ceu, roçam as nuvens com a fronte. Silencio! Saudemos o formoso anjo
-da harmonia, e não perguntemos a Deus por que não teve mão d’esta
-filha querida, ao despenhar-se!»</p>
-</div>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita leu a chorar as ultimas linhas d’esta noticia.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_81">[Pg 81]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="VIII">VIII</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ricardo</span> de Almeida sentiu no seu braço o tremor do braço de Margarida,
-quando, por noite de lua cheia, passeiavam á Beira-Douro, no sitio de
-Sovereiras, em S. João da Foz. N’aquelle relanço perpassára por elles
-um encapotado.</p>
-
-<p>A franceza vira uns olhos faiscantes por sobre a fimbria avelludada
-da capa: eram os olhos de Nicoláo de Mesquita. Voltára o pescoço para
-observar-lhe o andar: reconheceu-o.</p>
-
-<p>—É o Mesquita! murmurou ella assustada, amiudando o andar.</p>
-
-<p>—Devagar! disse o fidalgo do Pontido. Que importa que seja?!</p>
-
-<p>—Dizes bem... Que importa que seja?</p>
-
-<p>Nicoláo voltára no encalço d’elles apertando o pé. Ricardo de Almeida
-deu tino d’isto, e affroixou o passo. Margarida tirava por elle com
-força.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_82">[Pg 82]</span></p>
-
-<p>—Que significa este medo? perguntou o moço, offendido da inquietação
-da franceza.</p>
-
-<p>—Nada, meu amor, disse ella.</p>
-
-<p>Ricardo parou, e Nicoláo foi ávante.</p>
-
-<p>—Queria vêr-te indifferente á apparição d’este homem! observou Ricardo
-com intenção, e gesto magoado.</p>
-
-<p>—Creança! ciciou ella com encantador sorriso. A indifferença é o
-despreso, e eu odeio.</p>
-
-<p>Entraram silenciosos em casa, e viram ao longe o vulto na esplanada que
-entesta com a fortaleza. Ricardo saiu rebuçado e armado. O do Vidago já
-lá não estava. Deteve-se o indiscreto cioso nas travessas visinhas de
-sua casa.</p>
-
-<p>Eram onze horas.</p>
-
-<p>A franceza abriu as janellas, sentou-se ao piano, e cantou uma romança
-franceza. As vibrações da voz eram desnaturaes. Havia a paixão da
-saudade n’aquelle cantar.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita escutava-a da janella do hotel, e Ricardo da
-escuridão de uma viella intransitada.</p>
-
-<p>Calou-se a voz.</p>
-
-<p>O marido de Beatriz sentou-se a escrever a quinta folha de uma carta a
-Margarida. O castellão de Aguiar foi de manso, por sobre tapetes, até
-ao piano de Margarida, e surprehendeu-a com os cotovellos apoiados no
-teclado, e o rosto entre as mãos. Tocou-lhe no hombro: ella expediu um
-grito argentino como a mais alta das notas que acabava de cantar, e
-surriu-se por lhe ser mais prompto o riso que as lagrimas.</p>
-
-<p>—Tu amas Nicoláo? perguntou Ricardo com uma precipitação infantil.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_83">[Pg 83]</span></p>
-
-<p>—Que semsaboria! disse Margarida, e abaixou a fronte carregada.</p>
-
-<p>—Porque estás triste? Que recordas?</p>
-
-<p>—O tempo em que eu era feliz, meu amigo.</p>
-
-<p>—Com Nicoláo?</p>
-
-<p>—Não: com minha mãe, com meu marido, com a estimação propria, e com a
-estimação do mundo.</p>
-
-<p>—E é Nicoláo quem te desperta essas recordações?</p>
-
-<p>—Naturalmente... Foi elle quem tudo me roubou.</p>
-
-<p>—Então não o amas? voltou elle com muita ternura, beijando-lhe as mãos.</p>
-
-<p>—Nem que elle me restituisse tudo o que perdi.</p>
-
-<p>No dia seguinte, o jockey de Nicoláo apresentou a Margarida, na
-ausencia do amo, uma carta volumosa.</p>
-
-<p>—Quem te deu isto? perguntou a franceza.</p>
-
-<p>—Um criado do hotel inglez.</p>
-
-<p>Margarida leu as vinte laudas; quando a vista se lhe turvava, depunha
-a carta e enxugava os olhos. Finda a leitura, escreveu na margem
-da ultima folha: <em>Esta carta é o prefacio da minha vingança</em>.
-Lacrou-a e devolveu-a pelo jockey, dizendo:</p>
-
-<p>—Se trouxeres outra, envio-te com ella a teu amo.</p>
-
-<p>Assim que Ricardo entrou, Margarida foi cariciosamente aos braços
-d’elle, e disse:</p>
-
-<p>—Vamos. Tens medo de fraquear, Margarida?</p>
-
-<p>—Não. Se eu podesse fraquear, a mudança de terra seria debilitar-me,
-em vez de robustecer-me.</p>
-
-<p>Na tarde d’este dia, Nicoláo de Mesquita viu passar em carro Margarida
-e Ricardo, caminho do Porto. Esperou-os no regresso até noite alta.
-Era uma<span class="pagenum" id="Page_84">[Pg 84]</span> cabeça perdida, a esta hora, a do miserando homem! Sabia que
-tinha duas pistolas entre mãos, e que sobre sua cabeça ia estalar a
-maior e ultima tempestade. O alvor da manhã bruniu-lhe o rosto livido
-de um verniz embaciado de cadaver. Ao raiar do sol foi para casa, que
-Margarida e Ricardo não voltaram.</p>
-
-<p>Ás dez horas, estava febril no leito. Na sala do hotel, proximo do seu
-quarto, conversavam algumas vozes. Eram cavalheiros da provincia. Dizia
-um:</p>
-
-<p>—O Ricardo e a franceza embarcaram para Lisboa ás nove horas.</p>
-
-<p>—Gasta como um principe o transmontano!</p>
-
-<p>—Que fortuna tem elle?</p>
-
-<p>—Dizem que está vendendo.</p>
-
-<p>—A mulher vale bem a pena de gastar-se a fortuna, e ficar a gente com
-a doce recordação de a ter tido a ella.</p>
-
-<p>—Não pensou assim Nicoláo de Mesquita, o antigo possuidor.</p>
-
-<p>—Nunca vi esse leão.</p>
-
-<p>—Conheci-o eu. Foi elle quem a tirou ao marido. Teve-a por ahi com
-modesto recato. Depois, foi casar-se na provincia com a mais bonita
-creança que os meus olhos viram em Chaves, e nas primeiras cidades da
-Europa. Aquillo é que é saber viver!</p>
-
-<p>—Mas a Margarida Froment é uma grande mulher!... confessem!...</p>
-
-<p>—Confessamos, mas quem a faz maior é o patavina do Ricardo!
-Estas <i lang="fr" xml:lang="fr">soirées</i> que elle dá são de um ridiculo monumental!
-Apresentou-m’a como sua hospeda! Que baboseira! A gente faz-se tola, e
-vae ser apresentado á hospeda...</p>
-
-<p>—Assim é que se faz o escandalo por grosso.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_85">[Pg 85]</span></p>
-
-<p>—Quando elle tiver vendido as ameias de um castello, que tem na
-provincia, a hospeda muda de hospedaria.</p>
-
-<p>—Tomáras tu que ella mandasse preparar aposentos em tua casa...</p>
-
-<p>—Pagando-m’os.</p>
-
-<p>—Maganão! por tua vontade não espera ella que o Ricardo venda os
-torreões do solar dos <i>Almeidas por quem sempre o Tejo chora</i>...</p>
-
-<p>—Era publica e notoria a tua paixão.</p>
-
-<p>—Gostava d’ella: não ha nada mais humano.</p>
-
-<p>—Mas parece que não mareaste bem n’aquelle rumo... Foste a pique, eim?</p>
-
-<p>—Ha derrotas que são triumphos. Fez-me o favor de me offerecer a sua
-amisade fraternal.</p>
-
-<p>—Que irmã! É uma honra ser irmão d’aquella Margarida...</p>
-
-<p>—Confessemos que a mulher é leal. Ave rara n’esta terra!</p>
-
-<p>—E mais rara nas aves arribadas de França.</p>
-
-<p>O fallarío proseguiu. Nicoláo ouvira tudo encostado aos alisares da
-porta.</p>
-
-<p>Entrou um novo interlocutor, que foi muito festejado. Era Raphael
-Garção que chegava de Chaves.</p>
-
-<p>—Aqui está quem conhece Ricardo de Almeida... Sabes que elle foi hoje
-para Lisboa com a franceza?</p>
-
-<p>—Foi! ó diabo! eu vinha conquistar a franceza! disse Raphael. Nunca a
-vi! E eu não posso ser mais que Cesar. É preciso vêr para vencer; por
-em quanto, apenas fiz o que pude: cheguei.</p>
-
-<p>—Vens mal informado! É de uma fidelidade, que toca o limite do
-escandalo. Vinhas a isso?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_86">[Pg 86]</span></p>
-
-<p>—Algum de vossês conhece Nicoláo de Mesquita? perguntou Raphael.</p>
-
-<p>—O antecessor de Ricardo?...</p>
-
-<p>—Como antecessor de Ricardo?! Que tem a franceza com o Mesquita?</p>
-
-<p>—Estás em dia!... Pois não sabes que o Mesquita veio de França com
-esta mulher?</p>
-
-<p>—Na provincia ignora-se essa coisa... Pois... Vocês teem a certeza...?</p>
-
-<p>—Vi-os eu no Porto, em 1834 até 1839. Isto é do dominio universal
-desde a rua da Reboleira até á viella de Fradellos, na cidade invicta!</p>
-
-<p>—Sabem se elle está por ahi, o Mesquita?</p>
-
-<p>—Não.</p>
-
-<p>—Deve estar, e eu vim procural-o. Saí de Chaves a buscal-o em casa.
-Disseram-me que elle tinha saído para Villa Real. Em Villa Real tive
-noticias que elle passára em Amarante. Em Amarante disseram-me que o
-tinham encontrado em Baltar. O homem está aqui e agora me convenço de
-que a franceza não é estranha a esta mysteriosa jornada. Pobre Beatriz!
-Lembras-te d’aquella minha prima que te mostrei em Chaves, Albuquerque?</p>
-
-<p>—Ainda ha pouco falei d’ella. Que linda mulher! Já sei que ella casou
-com o Mesquita. Não lhe fazias tu a côrte n’aquelle tempo?</p>
-
-<p>—Amei-a com o unico amor nobre e santo que tenho experimentado; mas,
-como tudo que é nobre e santo não apega n’esta lama do mundo, assim que
-a vi despregar o vôo para as serenas regiões do matrimonio, agarrei-me
-ao pandeiro de uma andaluza, e fui terras de Castella dentro, em
-conquista d’aquelle gallego coração, que só me comprehendeu, depois que
-eu lhe mostrei um <i lang="fr" xml:lang="fr">porte-monnaie</i><span class="pagenum" id="Page_87">[Pg 87]</span> maior que o coração. Quando
-voltei, achei minha prima casada com o primo Nicoláo. As melhores
-flores d’aquelle rosto estavam amortecidas; mas ainda assim, não sei
-de outra mais linda. Ha de haver seis dias que cheguei a Chaves, e
-encontrei grande agitação em casa do tio Martinho Xavier. Era Beatriz
-que estava em perigo de vida a lançar golphadas de sangue...</p>
-
-<p>Abriram-se de golpe as portas de um quarto, e appareceu Nicoláo de
-Mesquita, com as faces incendidas e os cabellos descompostos. Volveram
-todos áquelle ponto os olhos, e Raphael Garção vacillou em reconhecel-o.</p>
-
-<p>—O sr. Raphael Garção pode entrar no quarto de Nicoláo de
-Mesquita—disse o morgado n’um tom solemne, que pareceria ficção
-theatral, se elle não estivesse febricitante.</p>
-
-<p>O de Fayões entrou como espavorido d’aquelle aspecto esgazeado.</p>
-
-<p>—Minha mulher que tem? perguntou Nicoláo com a respiração anciada.</p>
-
-<p>—Não a vi. Encarregou-me o tio Martinho de procurar o senhor Mesquita,
-e dizer-lhe que a prima Beatriz estava em perigo. Quiz desempenhar o
-recado, e vim dar-lh’o ao Porto.</p>
-
-<p>—Eu parto sem demora. O senhor Raphael Garção vae dar-me sua palavra
-de honra de occultar de minha prima que me encontrou aqui?—disse
-solemnemente Nicoláo.</p>
-
-<p>—É escusada a solemnidade do juramento, senhor Mesquita.</p>
-
-<p>—Dirá que me foi procurar á quinta da Murça.</p>
-
-<p>—O que vossa excellencia quizer que eu diga.</p>
-
-<p>—E, se ella tiver morrido, meu Deus! exclamou<span class="pagenum" id="Page_88">[Pg 88]</span> o morgado. Pois o ceu
-ha de castigar-me assim, por eu não saber esconder n’este perdido
-coração aquelle anjo! Oh!... que infernaes abysmos eu tenho cavado em
-redor de mim!... Hei de afinal despedaçar-me, como aquella maldita
-vaticinou!... Alli fóra, senhor Raphael, contaram-lhe o meu opprobrio!
-Não sabe, não sabe que aviltada alma é a minha!... Eu vim aqui por amor
-de uma mulher perdida, que passeia orgulhosamente a sua devassidão á
-luz do sol. É uma condemnação de que não póde salvar-me a mulher sem
-nodoa, a doce e celestial creatura, que eu amo tanto!... Deus não
-m’a ha de levar! Tão nova e tão linda!... Como eu a adoro, senhor
-Garção!... Creia que eu amo minha mulher com o ardentissimo fogo de um
-remorso, que me está sendo a tortura dos reprobos!...</p>
-
-<p>Raphael ouvia-o espantado. A gesticulação e o cavernoso do clamor
-impressionavam; mas Raphael era futil de mais para ponderar a ingente
-dôr, que se desentranhava em termos de tragedia velha.</p>
-
-<p>O leitor naturalmente faz o que não fez o frivolo morgado de Fayões; é
-capaz de rir-se, e perguntar-me que especie de doidice é a de Nicoláo
-de Mesquita.</p>
-
-<p>É uma especie de doidice, que se chama a razão humana. Á gente de juizo
-pode offendel-a a resposta paradoxal; mas os philosophos, que tambem
-são uma especialidade de doidos, hão de admittir-m’a em sã e escorreita
-dialectica.</p>
-
-<p>Levantemos o véu, onde elle não estiver roto, de sobre o coração do
-morgado da Palmeira.</p>
-
-<p>Chegára elle da Foz com a alma lanhada de remorsos, e a cabeça
-estonteada de uma vertigem de<span class="pagenum" id="Page_89">[Pg 89]</span> amor. Estas duas paixões exacerbavam-se
-uma á outra. Sem a saudade o remorso seria chimera.</p>
-
-<p>Margarida, era, ou parecia, feliz: despontaram-se logo os espinhos do
-remorso. Ficou o amor. Repelliu-o Margarida devolvendo-lhe a carta com
-um sarcasmo: esvaiu-se o amor. Logo, nem amor, nem remorso.</p>
-
-<p>Outras duas paixões o assaltearam logo: o orgulho e o rancor.
-Estas paixões queria Nicoláo de Mesquita desabafal-as pelas boccas
-das pistollas; porém como as victimas se furtaram á hecatomba,
-sobrevieram as agonias da vingança mallograda, e logo a febre.
-Ora, desde que as doenças moraes se consubstanciam no corpo e se
-submettem ás prescripções da pathologia medica, a individualidade
-da alma anniquila-se, e a paixão, degenerada em desconcerto dos
-systemas sanguineo e nervoso, ou se cura medicinalmente, ou mata,
-com o pseudonymo de congestão cerebral, febre typhoide, ou qualquer
-nomenclatura significativa de que a pessoa sem duvida nenhuma, está
-bem morta. Os convalescentes d’estes ataques—e raros são os que
-succumbem—assim que o sangue lhes funcciona normalmente, sentem-se
-por egual alliviados de alma e corpo. A vertigem, que os quebrantou,
-deixa leves estragos no espirito, remediaveis com a mera acção do
-tempo. Nicoláo de Mesquita, agudissimamente affectado, como se viu,
-fez crise em menos de vinte e quatro horas, porque a seu favor
-conspiraram calmantes muito efficazes. A palestra dos provincianos,
-desdourando Margarida embaciara-lhe o prestigio. Bem sabem que
-thermometro é este do prestigio para graduar a temperatura do coração
-humano. Ao mesmo tempo, os encarecimentos á formosura de<span class="pagenum" id="Page_90">[Pg 90]</span> Beatriz, sem
-palavra que a desairasse, sobredouravam a aureola na fronte da esposa
-virtuosa. Depois, n’este conflicto, entre o odio a Margarida, e o amor
-escandecente a Beatriz, chega a nova da perigosa enfermidade. Nicoláo,
-se podesse escrever o relatorio das suas sensações e revoluções
-sanguineas e um medico as pozesse em termos de se lerem com um
-embrechado de nomes gregos, a gente não entendia nada; mas acreditava
-que se deram grandes phenomenos no coração do morgado. O capitalissimo
-de todos é que elle, depois da explosão que lhe ouvimos, não fallou
-mais em Margarida Froment, e galopou noite e dia arrebentando cavallos,
-até chegar a Chaves.</p>
-
-<p>Beatriz estava á janella, quando seu marido e Raphael apearam.</p>
-
-<p>Nicolau expediu, ao vel-a, um grito de jubilo. No topo da escada
-tomou-a nos braços, e beijou-a soffregamente. Era um phrenesi de
-ternura assustador!</p>
-
-<p>Estava ella encantadoramente desmaiada. As mulheres assim pallidas, se
-a pallidez é symptoma de irem breve a outros mundos, devemos crer que o
-seu creador começa então a namoral-as para depois as levar para si.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_91">[Pg 91]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="IX">IX</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> assustadiço amor de pae encarecêra a doença de Beatriz. O perigo
-de vida fôra uma ligeira hemorrhagia nazal, que não deu tempo a
-glorificarem-se as sciencias medicas de mais um triumpho.</p>
-
-<p>Observou o morgado um ar de resentimento assim no rosto da esposa como
-no de Martinho Xavier. Á cordealidade dos abraços responderam-lhe
-glacialmente, e ás perguntas sobre a enfermidade de Beatriz davam umas
-respostas ironicas e enfastiadas.</p>
-
-<p>Raphael Garção, no bom intento de conciliar os animos, contou que fôra
-á quinta de Murça procurar o primo, e o encontrára doente, com o medico
-á cabeceira; e ajuntou que por pouco o não matára com a noticia da
-perigosa enfermidade da prima Beatriz.</p>
-
-<p>O mentiroso radiou uma luz nova nos olhos de Martinho Xavier, e
-entreabriu nos labios de Beatriz<span class="pagenum" id="Page_92">[Pg 92]</span> um sorriso de indulto. Nicoláo, assim
-que o lanço se lhe ageitou, apertou-lhe a mão e disse:</p>
-
-<p>—Graças, meu bom amigo!</p>
-
-<p>—Mentir como o diabo, diz Voltaire—respondeu o de Fayões.—A verdade
-póde ser a ventura dos predestinados; porém nós, miseros peccadores,
-carecemos de mentir a torto e a direito, primo Mesquita.</p>
-
-<p>—Sem deshonra propria, nem damno alheio—acrescentou o do Vidago.</p>
-
-<p>—Ah! vossa excellencia quer moralisar-me? O lobo despe a pelle, e
-enverga a sotaina? Primo Nicoláo, quem tem uma mulher como Beatriz...</p>
-
-<p>—Cale-se que podem ouvir-nos...</p>
-
-<p>—Deixe estar que eu hei de castigar o Ricardo. Quem lhe ha de empalmar
-a franceza hei de ser eu. Assim que me constar que ella está no Porto,
-vou lá: quero inscrever o nome de Margarida Froment n’uma casa em
-branco, que deixei entre a Aldonza Lourenzo do pandeiro, e uma primeira
-tragica do theatro de Amarante. Orçam na moralidade.</p>
-
-<p>Arrugou-se a fronte de Nicoláo de Mesquita. Pezara-lhe o ultrage: é que
-elle vira n’aquelle momento Margarida Froment, encostada ao braço de
-seu marido, oito annos antes, repartindo recursos e consolações pelos
-operarios da sua fabrica de Leão, enfermos, e de mãos postas a orarem
-pelo anjo da caridade.</p>
-
-<p>Esbordava-lhe o coração de lagrimas, quando se arredou friamente do
-sarcastico mancebo. Foi intermittencia momentanea.</p>
-
-<p>Martinho Xavier abriu as suas salas, n’aquella noite, á sociedade
-flaviense. Beatriz dançou com<span class="pagenum" id="Page_93">[Pg 93]</span> seu marido, como ha vinte annos se
-fazia na provincia sem irrisão. Raphael distinguiu-se no solo inglez,
-e aprimorou-se n’uma gavota com sua prima. A gentil senhora respirava
-a peito cheio o ar tepido e balsamico das salas. O setim da cutis
-retingiu-se-lhe. O marido parecia-lhe outro homem e as flores das
-jarras figuravam-lhe as primeiras da sua nova primavera. Dava ares de
-creança; e o marido consolava-se de vêl-a assim.</p>
-
-<p>Seguiram-se outros bailes, e Nicoláo de boa vontade em todos. Balbuciou
-Beatriz o desejo de residir em Chaves. Em poucos dias, se passaram
-as preciosas decorações do palacio de Palmeira para outro de Chaves.
-Martinho Xavier estava em permanentes acções de graças ao Senhor dos
-Milagres! Via a filha feliz e o genro transfigurado.</p>
-
-<p>No viver intimo, a mudança da indole de Beatriz fôra menos sensivel
-do que devêra presumir-se. Aquelle temperamento, fóra da quentura dos
-salões esfriava. Recebia os affagos do marido, como se elle meramente
-fosse o tio Nicoláo. Ella mesma não sabia dar-se conta da atonia
-da sua alma. Parecia-lhe que o tinha amado um anno antes, sem dar
-tento de uns cabellos brancos, que lhe listravam o bigode, nem da
-calvicie incipiente que lhe affeiava um tanto a cabeça. Calculava,
-computava os annos, e chegava á exactissima deducção de uma coisa
-que a mortificava: e era que o marido havia de ter cincoenta e dois
-annos, quando ella tivesse trinta. Nicoláo era intuitivamente advertido
-d’estas secretas meditações. Revelava-lhes a razão esclarecida; mas,
-assim mesmo, confiava bastante de si para deixar-se avassallar de uma
-suspeita indecorosa a sua mulher. Erro palmar dos homens, que foram<span class="pagenum" id="Page_94">[Pg 94]</span>
-muito queridos até aos trinta annos, e se presumem encouraçados e
-invulneraveis ás injurias do tempo e ás desgraças, que não pouparam
-propriamente os deuses olympicos, e outros mais importantes deuses
-terrestres.</p>
-
-<p>Chegado o verão d’aquelle anno de 1841, o morgado da Palmeira foi
-passar a sasão estiva no seu solar, convidando a acompanhal-o algumas
-damas e cavalheiros parentes, sem olvidar-se de Raphael Garção, por
-quem cobrára grande estima. Se alguma hora lhe sombreou o espirito a
-lembrança ingrata de que fôra Raphael o espertador do coração de sua
-mulher, acudiam-lhe á memoria as palavras ouvidas no hotel da Foz com
-referencia ao puro e respeitoso amor que lhe sagrára. As suspeitas
-fugiam logo envergonhadas, e a confiança restabelecia-se, cimentada nas
-virtudes de Beatriz, e nas mil diversões amorosas do morgado de Fayões.</p>
-
-<p>Por outro prisma via as coisas Martinho Xavier, sem embargo do conceito
-que formava da filha. Raphael é que para elle significava o supremo
-patife das duas provincias do norte, juizo, a meu vêr, moderado,
-attentos os adulterios, seducções e barganterias femeaes, que corriam
-por sua conta. Assim, pois, era certo surgir, como por encanto,
-Martinho Xavier á beira da filha, logo que Raphael Garção se avisinhava
-d’ella sem testemunhas de acrisolada probidade. Este resguardo não o
-revelava elle ao genro; porém, visando ao scôpo com a pontaria n’outro
-alvo, desfazia nas qualidades do sobrinho, e contava os adulterios com
-taes visagens, que um marido cioso, na posição de Nicoláo, teria desde
-logo horror do seu proprio infortunio, enforcaria a mulher.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_95">[Pg 95]</span></p>
-
-<p>O morgado ouvia as tenebrosas historias, e dizia:</p>
-
-<p>—Ha-de ser a quarta parte do que diz o mundo, primo Martinho. Não
-sejamos vulgo. Eu, antes de emigrar, gosei fama de ter um harem na
-minha quinta da Ribeira d’Oura, e de ter obrigado cinco paes de familia
-a enclausurarem as filhas, e de ser a causa funesta de alguns maridos
-aferrolharem as esposas infidas na casa do Ferro<a id="FNanchor_2" href="#Footnote_2" class="fnanchor">[2]</a>. Pois, meu amigo,
-sob minha palavra de cavalheiro te assevero, que antes de emigrar,
-apenas tinha galanteado uma tecedeira, a qual tecedeira galanteava ao
-mesmo tempo o meu padre capellão, e veiu por fim a casar com o meu
-lacaio. Eu era isto, quando tu e os outros hypocritas—disse elle
-sorrindo—me chamaveis o terror das familias. Pois argumenta de mim
-para Raphael Garção. Que sabemos nós positivamente? O que elle nos
-conta, com a fatuidade propria da sua edade. As atoardas que correm,
-quem as verifica? Os maridos infelizes? Que é d’elles?</p>
-
-<p>—Calam-se—respondeu Martinho Xavier.</p>
-
-<p>—Isso não é nas nossas montanhas, primo. Os maridos ultrajados, quando
-se calam, fazem fallar a bocca das clavinas.</p>
-
-<p>A discrição do pae de Beatriz rematava aqui o dialogo. Nicoláo
-permanecia alguns minutos pensativo, e ia de um relanço insuspeito
-devassar o coração de sua mulher, e espiar os olhos do hospede.
-Encontrava-os sempre distraidos um do outro, ou conversando as mais
-innocentes praticas, na presença de Martinho.</p>
-<p><span class="pagenum" id="Page_96">[Pg 96]</span></p>
-<p>N’um d’aquelles dias, ergueram-se alegres vozes subitamente na casa
-de Palmeira. Foi por que, findo o almoço, Nicoláo de Mesquita,
-tartamudeando de commovido, annunciou que sua esposa sentia os
-primeiros indicios da maternidade. Foram as senhoras beijal-a nos
-braços do pae, e os cavalheiros brindaram clamorosamente o vigesimo
-quinto senhor de Palmeira. Ao terceiro dia, ao setimo, e ao decimo
-quinto, depois da nova, celebraram o jubilo com trez bailes, e trez
-jantares, e trez ceias. Concorreram os poetas de Villa Real, de Chaves,
-de toda a terra em que Deus plantára um poeta, com capacidade de fazer
-um soneto.</p>
-
-<p>Beatriz era infantilmente amimada por seu marido, que chorava
-alvoraçado pela deliciosa expectação da paternidade! Andava elle a
-inventar-lhe incommodos, para ter o goso de a desvelar com branduras
-e melindres, que excediam a seriedade de um marido. Receava que a
-chilreada dos passaros lhe turvasse o somno matutino, e mandava á noite
-espancar a passarinhada das copas dos chorões. Cuidou que o aroma das
-flores damnificasse á geração e mandou cavar os alegretes e taboleiros
-sobpostos ás janellas do seu quarto. Com estas competiam outras
-crendices não menos irrisorias.</p>
-
-<p>Assim que as chuvas de outubro ameaçaram, cuidou-se na mudança para
-Chaves.</p>
-
-<p>Martinho Xavier contrastava a alegria de todos. Definhava-se a olhos
-visto, e respondia com estranho aspeito aos cuidados de Beatriz, e com
-rancoroso gesto ás delicadas attenções de Raphael.</p>
-
-<p>Fôra o caso que elle, n’uma ante-manhã, ouvira abrir subtilmente uma
-porta envidraçada do quarto de Raphael, e o vira passar ao jardim, e
-sumir-se<span class="pagenum" id="Page_97">[Pg 97]</span> entre uns maciços de murta, e voltar, instantes depois, a
-fechar-se no quarto. Isto preoccupou-o em dolorosas conjecturas.</p>
-
-<p>Assim que foi dia claro, desceu Martinho Xavier ao jardim, fez umas
-voltas na visinhança dos maciços, e emboscou-se n’elles, sem ser
-visto. Examinou os recantos, esquadrinhando algum vestigio. Dois vasos
-de porcellana ladeavam a entrada de uma gruta, comada de maracujás e
-baunilhas. Meditou, e desistiu de atinar com o intento de Raphael.
-Saiu, reflectiu ainda, e retrocedeu. Levantou um dos vasos, e viu que
-a terra secca, rebordando-lhe o fundo, indicava que não fôra bulido.
-Examinou o outro, e descobriu claros indicios de ter sido deslocado e,
-na terra em que elle assentava, o signal de ter alli estado um corpo
-mais liso, pois que o restante da terra estava crespo das saliencias do
-vaso. Inferiu que estivera alli uma carta. Assim se explica a maceração
-do rosto do fidalgo, e a severidade com que tratava a filha, e repulsão
-odienta com que afastava de si o sobrinho. Quinze dias se erguêra de
-noite, esperando a alvorada, e mallogrando-se-lhe as vigilias.</p>
-
-<p>Ao anoitecer, porém, da vespera da mudança para Chaves, viu elle sair a
-filha apressada de entre os maciços, e responder ao marido que chamava
-de uma janella. Ao mesmo tempo descobriu a distancia, mal embrenhado
-n’um bosquete de amoreiras, o morgado de Fayões, olhando na direcção
-das murteiras. Correu Martinho Xavier, encoberto pela ramagem, a
-erguer o vaso suspeito. Encontrou uma carta. O papel caiu-lhe das mãos
-convulsas. Quiz sair; mas o tremor das pernas forçou-o a sentar-se no
-banco de cortiça, que adornava o interior<span class="pagenum" id="Page_98">[Pg 98]</span> do caramanchel. Cerrára-se a
-noite. Ouviu fremir a folhagem perto. Era Raphael Garção, que saltava
-por entre uns buxos defesos á observação da casa. Acercou-se o moço
-lestamente do vaso, levantou-o, palpou, esteve um instante suspenso,
-deixou-o baixar; mas, ao tempo que o pousava, sentiu uma pressão
-de ferro nas vertebras cervicaes, e bateu em cheio com o rosto no
-gradeamento do caramanchel. Reconheceu a mão que o sopesava, quando
-ouviu a palavra:</p>
-
-<p>—Infame!</p>
-
-<p>—Meu tio! murmurou elle—por quem é!...</p>
-
-<p>—A tua morte, villão!—bradou suffocado o pae de Beatriz—a tua morte,
-villissimo lacaio, seria um escandalo, quando não, havia de arrancar-te
-a collada. Ouve-me bem, canalha! se esta noite não te despedires com
-qualquer pretexto, e o sol de ámanhã te vir n’esta casa, maldito seja
-eu, se te não matar. Entendeste-me bem, biltre?</p>
-
-<p>—Cumprirei a sua vontade—respondeu Raphael.</p>
-
-<p>—Ámanhã minha filha e meu genro vão para Chaves—tornou Martinho
-Xavier.—Se você não quizer ser azorragado debaixo dos olhos d’ella
-pelos meus criados, não passe mais debaixo das suas janellas. Martinho
-Xavier cumpre o que promette.</p>
-
-<p>Saiu o pae de Beatriz, e encerrou-se no seu quarto. Abriu a carta,
-leu-a, e desafogou-se n’uma profunda expiração de contentamento.</p>
-
-<p>Dizia assim a carta:</p>
-
-<p>«Meu pae desconfia. A tristeza d’elle não póde ser motivada por outra
-coisa. O ar carrancudo com que me falla é mais uma prova. Reparo que
-tambem te encara com maus olhos. Sejamos cuidadosos,<span class="pagenum" id="Page_99">[Pg 99]</span> meu primo.
-Eu amo-te muito; mas não te posso sacrificar mais do que as minhas
-lagrimas. Deus me livre que o tio N. suspeite que eu te amo. Se tu vês
-que será util conviveres menos em minha casa, poupa-me algum grande
-dissabor. Tem sempre comtigo a certeza de que eu te quero muito, e que,
-se por agora não posso ser para ti mais que irmã, póde ser que um dia
-seja o mais que posso ser, e o que Deus não quiz que fossemos... <em>tua
-esposa</em>! Quem sabe, meu R!... Ha acontecimentos tão inesperados!...
-Lembra-te que tenho dezoito annos, e elle... Adeus, adeus, que o tio
-não me deixa uma hora sósinha. Vou ver se ainda posso levar a carta.»</p>
-
-<p>Era rasoavel o contentamento de Martinho Xavier.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_100">[Pg 100]</span></p>
-
-
-<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_2" href="#FNanchor_2" class="label">[2]</a> O <i>Ferro</i> era por aquelle tempo, no Porto, um
-recolhimento, ou carcere, paradeiro das adulteras.</p>
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_101">[Pg 101]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="X">X</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_a.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Á</span> hora da ceia, faltou Raphael Garção.</p>
-
-<p>Nicoláo soube que elle estava no seu quarto, e pedia desculpa de não
-comparecer á mesa. Foi elle buscal-o: encontrou-o emmalando o fato.</p>
-
-<p>—Isso é que é pressa de entroixar, primo Raphael!—disse o
-morgado,—deixe isso, que tem tempo. Nós só vamos ámanhã por tarde.</p>
-
-<p>—Mas eu vou partir esta noite, primo Mesquita.</p>
-
-<p>—Como assim? Venha contar-nos essa aventura á mesa, que está Beatriz á
-espera. Temos empreza! não póde deixar de ser...</p>
-
-<p>Travou-lhe do braço, e levou-o, exclamando, ao entrar na casa da ceia:</p>
-
-<p>—Fui encontral-o a dobrar a roupa, e saberão que se despede á meia
-noite!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_102">[Pg 102]</span></p>
-
-<p>Beatriz encarou-o com affectuosa melancolia. Martinho Xavier fitou a
-filha. Raphael não poz olhos em nenhum.</p>
-
-<p>O morgado proseguiu em tom de galhofa:</p>
-
-<p>—É negocio de damas! Alguma victima saudosa que, do leito dos
-paroxismos, chama o seu algoz querido para perdoar-lhe!</p>
-
-<p>Confrangia-se o animo de Martinho. O sorriso de Beatriz era um
-partir-se-lhe a alma, forçada a fingir-se estranha á saida do primo, e
-arrependida de lhe ter aconselhado a ausencia.</p>
-
-<p>—Agora acredito, minhas senhoras e senhores, tornou o morgado, que
-é séria e respeitavel a magua do nosso Raphael! É a primeira vez que
-o vejo quebrado de cores e cabisbaixo! Então, primo, se a jornada é
-longa, cumpre comer. Coração a um lado e estomago a outro. D. João
-de Marana e o amado de Clarisse comiam ás horas, e o Byron ceiou
-optimamente no dia ou na noite em que uma das suas martyres se afogou
-no canal de Veneza!... Então, Beatriz, não te serves de nada? Primo
-Xavier, ordena a tua filha que coma... Com que então, á meia noite,
-primo Garção?</p>
-
-<p>—É verdade...—respondeu Raphael, affectando com violento artificio, o
-seu natural alegre.</p>
-
-<p>—E quando volta a Chaves?</p>
-
-<p>—Não sei, primo.</p>
-
-<p>—Não sabe?! Agora vejo que a façanha é complicada de incidentes e
-estranhos casos!... Pois bem, meu amigo, permitta-me fallar-lhe com
-sisudesa... A melancolia do seu ar faz-me desconfiar da importancia do
-passo. Reflexione, primo. Se é um presagio que o quebranta, escute-o.
-Se o pundonor o não impelle, fique. Distinga entre dever e<span class="pagenum" id="Page_103">[Pg 103]</span> dever.
-Olhe que nós pomos na balança das obrigações, muitas vezes, a nossa
-deshonra. Nem sempre as mulheres devem obrigar-nos a tudo, que uma
-errada consciencia nos aconselha.</p>
-
-<p>Martinho Xavier morria de abafos, se não exclamasse:</p>
-
-<p>—Que discurso tamanho para tão pequeno assumpto! Ora, primo Mesquita,
-não pregues aos peixes. Deixa-o ir para onde elle quizer!</p>
-
-<p>—Pois eu decerto o deixo ir para onde elle quizer; mas o admoestal-o
-como amigo e parente entendo eu que é um dever tão meu como teu, primo
-Xavier. As nossas idades e sobretudo a minha experiencia...</p>
-
-<p>—Pois sim, de accordo—replicou o pae de Beatriz amaciando a voz,
-receoso de denunciar a causa da sua colera—farto de admoestal-o
-estou eu, e estão todas as pessoas de bem... É malhar em ferro frio.
-Deixal-o, deixal-o, que o mundo ha de ensinal-o. Quando chegar aos meus
-annos, elle chorará os que desbaratou na libertinagem.</p>
-
-<p>Correu breve e triste a ceia. Ao levantarem-se da mesa, Raphael
-despediu-se de Beatriz, sem atrever-se a olhal-a em rosto, porque o
-pae, á beira da filha, não o desfitava. Beatriz articulou umas palavras
-banaes, sêccas e tão contrafeitas, que por si mesmas, á custa de muita
-arte, a denunciariam a um marido precatado. Do tio Martinho, não
-pôde despedir-se, que, a disfarce, saíra da sala. Nicoláo seguiu-o
-ao quarto, offereceu-lhe dinheiro, se o necessitava, e conseguiu
-arrancar-lhe um imaginoso segredo da sua aventura. Pelos modos, uma
-menina de Basto, não podendo occultar dos pais o testemunho de sua
-desgraçada paixão, fugira de casa,<span class="pagenum" id="Page_104">[Pg 104]</span> e invocava o pae do filhito que lhe
-estremecia no seio. Mentir como o diabo, tinha dito Raphael pela bocca
-de Voltaire.</p>
-
-<p>Á meia noite saiu o pae do menino, que estremecia no seio da tão
-coitada de Basto, e Nicoláo, em termos patheticos, foi contar a Beatriz
-a revelação do primo. A senhora fingiu compadecer-se das calamidades da
-menina do filhinho, e aproveitou o ensejo para chorar as suas saudades
-na presença do marido, que se desentranhou em consolações distractivas,
-que não fosse ella perigar por demasia de sensibilidade. A sorte de
-tantos maridos espertos! Faz pena vêr a despotica ingerencia que tem
-a comedia nos lances mais graves! A humanidade a chorar e um histrião
-a cobrir a toada do choro com o tilintar do barrete! É triste, mas
-necessario isto ao regimento da sociedade.</p>
-
-<p>Saíram para Chaves no dia seguinte.</p>
-
-<p>Beatriz ia triste, e recolhida. As caricias do esposo enfastiavam-n’a.
-O pae, nada blandicioso, fazia-lhe mal com o seu olhar, e dizia-lhe á
-puridade umas phrases amphibologicas de que ella ficava sentida, sem
-ousar pedir esclarecimentos.</p>
-
-<p>As palavras que mais a pungiram e intimidaram foram estas:</p>
-
-<p>—Ai, de ti se teu marido se me queixa da tua frieza! Terás em mim um
-verdugo, e não um pae.</p>
-
-<p>A ameaça logrou menos do que devêra esperar-se. Beatriz desconfiava que
-o pae lhe surprehendesse o coração n’algum descuidoso olhar ou gesto a
-Raphael; porém, quando assim fosse, as provas contra a sua honestidade
-eram nenhumas, e ella facilmente se defenderia das suspeitas
-calumniosas.</p>
-
-<p>Era de vêr que a retirada de Raphael havia de<span class="pagenum" id="Page_105">[Pg 105]</span> ser descontada na
-affeição ao marido. A esposa criminosa, ou propensa ao crime, costuma
-dar, pelo menos, ao marido um millesimo do amor que prodigalisa ao
-amante. Se, todavia, o amante lhe foge, nem o quinhão diminutissimo do
-marido lhe deixa. Isto tambem é triste, e atroz!</p>
-
-<p>Nicoláo attribuia as securas e enojos de sua mulher aos mysterios
-phenomenicos da geração. Tambem elle tinha accessos biliosos de
-impaciencia, irritados pelos caprichos de Beatriz; mas soffreava-se,
-affastando-se. Queixar-se é que não. No entanto, Martinho Xavier,
-lendo-lhe no rosto alquebrado o desgosto da má vida intima da casa,
-abstinha-se de interrogal-o, e dizia á filha:</p>
-
-<p>—Tu não me attendeste; mas afinal será tarde, quando caires em ti.
-Já te disse que, em te faltando a estima do marido, não contes com a
-estima do pae, Beatriz?...</p>
-
-<p>—Que quer isso dizer, meu pae? atalhou ella. Tantas ameaças, tantas
-ameaças! Que crimes tenho eu?</p>
-
-<p>—As mais criminosas intenções!... Silencio! silencio!... ouviste
-Beatriz! Muito juizo para remediar o mal feito... Se assim não fôr...</p>
-
-<hr class="tb" />
-
-<p>Raphael Garção estava na sua casa de Fayões. Quizera distanciar-se de
-Chaves, sair a uma viagem longa, distrahir-se, esquecer-se; mas não
-pudera. Estava alli preso pela corrente de um grande amor a sua prima.
-Era o primeiro, o unico, porque não amára outra, desde que nos labios
-d’ella, ainda solteira, depozera, como n’um altar, as primicias do
-seu coração. Sem os estorvos, póde ser que outra mulher o roubasse ás
-froixas glorias de uma<span class="pagenum" id="Page_106">[Pg 106]</span> facil proesa; mas depois do aviltante castigo
-do tio, e da vergonha com que saiu da Palmeira, queria elle superar as
-difficuldades para sentir-se remunerado do seu vilipendio. Era isto
-a um tempo galardão ao amor, e galardão á vingança. Eram os vinte e
-dois annos, e a má índole, acerada pela educação que tivera, á lei da
-natureza bruta. Não sei tambem se eram o Lovelace, e o Saint-Preux, e o
-D. João Tenorio. Era tudo, incluindo n’esta mistura o elle ser homem,
-feito á similhança e imagem de... Fóra com a blasfemia!</p>
-
-<p>Empenhou-se Raphael, mediante os serviços de algum amigo de Chaves, em
-fazer entregar a Beatriz uma carta explicativa da sua rapida saída de
-Palmeira, o degredo que se elle impozéra na triste soledade de Fayões.
-Uma dama das mais acreditadas de Chaves foi a portadora da carta.</p>
-
-<p>Então sómente comprehendeu Beatriz o valor das ameaças de seu pae, e o
-gume do perigo em que estava sua honestidade, e talvez sua vida, se á
-mão do marido passasse a carta de Raphael.</p>
-
-<p>Nicoláo ganhou com este descobrimento por um lado, e perdeu pelo outro.
-Os ganhos eram os exteriores affectuosos com que a mulher o indemnisava
-dos desdens passados. As perdas foram restabelecer-se a correspondencia
-epistolar entre Beatriz e o primo.</p>
-
-<p>A illustre alcôfa d’esta correspondencia andava espiada por Martinho
-Xavier, á conta de ser irmã de um particular amigo e contubernal
-parasita de Raphael. D’esta espionagem, confiada á aia de Beatriz,
-velha de rija tempera de virtude, resultou ser a correctora cupidinaria
-avisada para não voltar a casa de Nicoláo de Mesquita, sob pena de
-ser publicada<span class="pagenum" id="Page_107">[Pg 107]</span> como negociadora de amores adulteros. O aviso foi dado
-face a face por Martinho Xavier, que tinha brutalidades de fidalgo
-montezinho.</p>
-
-<p>O que elle não podia era contraminar a corrupção dos criados. Beatriz
-continuou a receber cartas do primo; e Nicoláo a experimentar as
-caricias de sua senhora. Ó Azaïs!...</p>
-
-<p>Decorreram uns seis mezes de vigilancia assidua do fidalgo. Rondava as
-portas do genro até alta noite. Assalariára olheiros em Fayões para lhe
-segredarem os passos do morgado. Espicaçava o zelo da velha covilheira
-de Beatriz para a não largar de vista; quando o marido saísse a
-fiscalisar o grangeio das quintas.</p>
-
-<p>Por este tempo deu Beatriz um menino aos carinhos doidos de seu pae.
-Em honra do menino, volvidos quinze dias, encheram-se as salas de
-mulheres, de musica, de poetas, de flores, e de alegria cerimoniosa.
-Esta segunda era coadjuvada pela garrafeira. A commissão de parentes,
-encarregados dos convites, incluira as senhoras Almeidas do Castello de
-Aguiar. Com muito sacrificio foram de liteira as velhinhas, amolgadas
-por grandes desgostos. Nicoláo, quando as viu, teve arrepios de espinha
-dorsal. Interrogou a commissão, a qual respondeu que os Almeidas do
-Valle de Aguiar eram os mais preclaros parentes de ambas as familias.
-Hospedaram-se estas senhoras em casa de Martinho Xavier, que acinte as
-levou para obstar a que palavreassem na presença de Beatriz ácerca de
-Margarida Froment e Ricardo de Almeida. Isto, porém, não tirou que a
-dama, assim que esteve a sós com ellas e o capellão adjunto, lhes desse
-azo á expansão das lastimas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_108">[Pg 108]</span></p>
-
-<p>Disse D. Sancha que o sobrinho estava em Lisboa, desbaratando os bens e
-que os livros todos tinha vendido, e já havia antecipado rendas de trez
-annos.</p>
-
-<p>Ajunctou D. Simôa que uma só esperança tinham de o resgatarem da
-escravidão do demonio, desfigurado na franceza, e vinha a ser o
-patrocinio de um santo, parente da familia, que tinha sido grande
-peccador como Ricardo, e depois, tornára sobre si, e acabára a vida
-santamente: o qual santo era S. Gil de Santarem.</p>
-
-<p>Que S. Gil de Santarem era parente das senhoras D. Sancha e Simôa não
-ha duvida nenhuma, e vae demonstrar-se para confusão dos praguentos.</p>
-
-<p>Estamos em tempo do senhor rei D. Affonso Henriques, que santa gloria
-haja.</p>
-
-<p>Depois da milagrosa victoria de Ourique, os barões da comitiva do rei
-conquistador recolheram a suas terras, ganhadas a montante, e Deus
-sabe como. O bravo rico-homem de Galliza, Fernão Martins de Almeida,
-despediu-se com um aperto de guante dos seus primos e amigos Lourenço
-Viegas e Martim Moniz, e foi-se a matar corças e ursos nas suas tapadas
-do Valle de Aguiar. Fatigado de matar e comer ursos, cuidou em casar-se
-com a filha de D. Payo Mendo Gil, senhor das terras de Cavallaria,
-termo da cidade de Vizeu junto á villa de Vouzella. Preferiu o
-castellão residir no solar de sua mulher, e deixou as suas terras a
-cargo de irmãos. D’este consorcio nasceu D. Tareja Gil, a qual casou
-em 1184 com Ruy Paes de Valladares, do conselho d’el-rei D. Sancho I,
-seu mordomo-mór, e alcaide-mór do castello de Coimbra. Estes são os
-bem-aventurados paes de Gil Rodrigues,<span class="pagenum" id="Page_109">[Pg 109]</span> conhecido e venerado do leitor
-pio por S. Gil de Santarem, ao qual o divino Garrett denominou o Fausto
-portuguez.</p>
-
-<p>Nada menos que este santo, inquestionavel parente das senhoras
-Almeidas, estava empenhado em arrancar o seu consanguineo dos braços
-satanicos da franceza. No entanto, alguns mezes haviam passado, depois
-do voto das senhoras a seu tio frei Gil, sem que o energumeno voltasse,
-cumprido o seu fadario. Sem embargo, ellas esperavam, e razão era que
-esperassem. Alguem faria o milagre, se não fosse o santo feiticeiro,
-antigo pactuario do demonio: que estes milagres, nos tempos correntes,
-bastam a fazel-os algumas lettras a vencer na mão de um usurario. A
-onzena tem convertido mais perdularios do que a vida mirifica de S. Gil.</p>
-
-<p>O certo e naturalissimo era que Ricardo de Almeida tinha esbanjado
-metade dos seus haveres, e perto iria n’aquelle desperdicio. Sustentava
-em Lisboa a lauta vida do Porto, e redobrava de extremos com Margarida
-a cada requestador que lhe varava ao coração o stylete do ciume. Os
-galãs lisboetas eram mais arrojados e tentadores, mais ociosos e
-pertinazes que os do Porto. Ricardo via isto pelos seus olhos de amante
-desconfiado, e de são juizo para entender que o facil para elle não
-seria extremamente difficil para o restante da humanidade.</p>
-
-<p>Este receio era injurioso a Margarida Froment: era sinceramente; mas
-o não menor castigo das mulheres na condição da franceza é inspirarem
-suspeitas aviltadoras áquelles mesmos que as estremecem, e authorisarem
-o galanteio de quem quer que meramente as deseja.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_110">[Pg 110]</span></p>
-
-<p>Seja como fôr, as senhoras D. Sancha e Simôa choravam lagrimas como
-punhos, quando Martinho Xavier saiu do salão do baile a procurar
-Beatriz que tambem chorava com as velhas.</p>
-
-<p>Uma paixão explora veios de lagrimas desconhecidos. Chorava, porque
-amava, a mal-sorteada senhora!</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_111">[Pg 111]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XI">XI</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_a2.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">A</span> espionagem, sem intermissão, de Martinho Xavier gerou no animo da
-filha um secreto e mal disfarçado odio. Bem queria ella sacudir o jugo;
-mas a mordaça, a carta fatal, estava em mão de seu pae: ella mesma
-a viu quando se lhe queixou amargamente de a privarem da companhia
-d’aquella amiga interventora na correspondencia. O pae, sem proferir um
-monossyllabo, mostrara-lhe a carta, e voltára as costas.</p>
-
-<p>Planeou a sua emancipação Beatriz com um expediente assim natural que
-insuspeito. Revelou desejos ao marido de voltar a Palmeira, á suave
-quietação da sua casa. Nicoláo abraçou alegremente a proposta, e
-exultou de ouvil-a motivar assim o intento:</p>
-
-<p>—Agora, que tenho o meu filho, basta-me este<span class="pagenum" id="Page_112">[Pg 112]</span> prazer, e o teu amor
-ás necessidades da minha alma. Já me fatigam tantos parabens, tantas
-visitas, tantas etiquetas! Apeteço a solidão comtigo e com elle. Mudei
-inteiramente, primo Nicoláo. Os filhos parece que envelhecem a gente! E
-de mais eu quero que o nosso Martinho seja creado ao ar do campo, e não
-n’estas estufas da cidade. Verás como eu agora me dou bem na aldeia!
-Quero ir comtigo ás quintas, e gosar a doce liberdade de uma aldeã.
-Estás contente da minha reforma?</p>
-
-<p>—Se estou, filha!...—clamou o marido, apertando-a contra o
-coração—se estou contente, eu, que por amor de ti, e contra o meu
-genio, tenho andado n’estas balburdias de bailes e jantares! Eu tambem
-espero que o nosso filhinho te aformoseie os quadros aldeãos, que tão
-aborrecidos te pareceram. Um filho é uma estrella que nos alinda o ceu
-da terra em que vivemos. Sempre esperei que desejasses voltar para
-Palmeira com esta creancinha. As mães experimentam um santo egoismo de
-sua felicidade, quando são mães pelo coração, que as ha tão frivolas,
-minha querida prima, que apenas se dizem mães por terem sentido os
-soffrimentos da maternidade.</p>
-
-<p>—O peior, atalhou ella, é que meu pae vae zangar-se com a nossa
-partida...</p>
-
-<p>—Porquê? zangar-se!...</p>
-
-<p>—Que queres? A amizade do meu pae é extremosa até á importunação!
-Eu não devia dizer isto; mas olha, primo, já me impacientam tantos
-cuidados comigo! Em solteira, deixava-me mais liberdade!...</p>
-
-<p>—É que teu pae adora-te, Beatriz!</p>
-
-<p>—Bem sei; mas os excessos de ternura incommodam.<span class="pagenum" id="Page_113">[Pg 113]</span> Tenho marido e filho
-para amar e presar: não posso attender ás extremosas pieguices de meu
-pae. Agora ha de elle cuidar que eu vou enfastiar-me na aldeia, e
-começa ahi com os seus discursos a demover-te de irmos.</p>
-
-<p>—Seria escusado, que nós iremos, prima.</p>
-
-<p>—Pois então, Nicoláosinho, se elle nos contrariar não o contradigas,
-para o pouparmos a maior magua. Vamos preparando a partida de nosso
-vagar, e evitemos questões.</p>
-
-<p>—Pensa bem, Beatriz... Teu pae tem singularidades estranhas, que
-destoam do meu genio...</p>
-
-<p>—Muitas!...</p>
-
-<p>—Este odio entranhado, que elle tem ao primo Raphael, é absurdo!</p>
-
-<p>—De certo.</p>
-
-<p>—Sei que o pobre moço está em Fayões, e não voltou a nossa casa.
-Precisamente o rapaz foi magoado da rudeza com que teu pae o tratou á
-ceia, na ultima noite.</p>
-
-<p>—Parece-me que sim.</p>
-
-<p>—Já perguntei ao primo Martinho porque não tornaria Raphael a Chaves,
-desde que lá estamos. Respondeu-me que não valia a pena notar-se a
-falta d’elle. Quiz convidal-o para o baile do baptisado, e teu pae
-respondeu-me formalmente que não!</p>
-
-<p>—Caprichos...</p>
-
-<p>—Ruins caprichos! Eu transigi para obviar resentimentos; mas... Tu has
-de consentir, filha, que eu te confesse uma culpa... sim?...</p>
-
-<p>—Que é, primo?</p>
-
-<p>—Não podendo justificar a antipathia de teu pae com Raphael, cheguei
-a conjecturar se elle desconfiaria de alguma infame intenção de teu
-primo...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_114">[Pg 114]</span></p>
-
-<p>—Infame intenção! a que respeito?</p>
-
-<p>—A respeito de ti...</p>
-
-<p>—Ora essa!... Tu enlouqueceste?</p>
-
-<p>—Não, menina, confesso-me.</p>
-
-<p>—Pois não te perdôo, Nicoláo!—exclamou ella irada sobre posse, e
-escarlate por effeito da surpreendente suspeita.</p>
-
-<p>—Perdoas, que eu,—tornou caricioso o marido—tanta justiça te fiz
-que nem levemente indaguei... para não dar direito a que alguem te
-suppozesse um instante criminosa. Nem com esta prova de respeito ás
-tuas virtudes me perdoas?</p>
-
-<p>Beatriz deixou-se beijar e sorriu.</p>
-
-<p>Nicoláo continuou:</p>
-
-<p>—Em prova da confiança que me mereces, assim que estivermos em
-Palmeira, convidarei Raphael.</p>
-
-<p>—Não quero! atalhou Beatriz com vehemencia. Magoas-me cruelmente se o
-fizeres.</p>
-
-<p>—Compreendo o teu pundonor, tornou Nicoláo, soberbo do pundonor de sua
-esposa.</p>
-
-<p>N’este dia, disse o morgado ao sogro:</p>
-
-<p>—Vamos passar algum tempo á aldeia.</p>
-
-<p>—Fazeis bem, respondeu Martinho; Beatriz precisa de bons ares, que
-está com má côr.</p>
-
-<p>—E, talvez, lá fiquemos, se ella quizer.</p>
-
-<p>—É natural que não.</p>
-
-<p>—Pois enganas-te primo: ella mesmo aventou a idéa da mudança.</p>
-
-<p>—Sim. Ella?!</p>
-
-<p>Martinho Xavier ficou pensativo largo espaço, e replicou:</p>
-
-<p>—Foi subita essa determinação de Beatriz?</p>
-
-<p>—Disse-m’a hoje.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_115">[Pg 115]</span></p>
-
-<p>—Está bom...</p>
-
-<p>—O filho operou uma tal mudança no espirito de Beatriz—tornou Nicoláo.</p>
-
-<p>—Deve ser isso... disse abstraidamente Martinho Xavier.</p>
-
-<p>—Encheu-me de jubilo esta grave transformação aos dezoito annos.</p>
-
-<p>—São raras estas transformações, tornou o outro meditativo.</p>
-
-<p>—Vaes comnosco?</p>
-
-<p>—Vou, respondeu Martinho energicamente. Vou sem duvida.</p>
-
-<p>—Estimamol-o deveras.</p>
-
-<p>Relatou Nicoláo a sua mulher a substancia d’este dialogo, e a resolução
-no pae.</p>
-
-<p>—Vae comnosco? exclamou ella com irreflectido transporte. Forte
-perseguição?... É de mais?... Para que me casei eu? Ou bem sou filha,
-ou sou esposa!</p>
-
-<p>—Podes ser ambas as coisas dignamente; acudiu o marido.</p>
-
-<p>—Ora!...—redarguiu ella com arremeço; e, caindo em si, ajuntou
-abatendo a voz: Deixal-o ir... que eu para Chaves não volto... Se meu
-pae não podia viver sem mim, para que me casou?... A minha scisma é
-esta. Sim! para que me casou?</p>
-
-<p>—N’isso tens razão, prima.</p>
-
-<p>—Pois não tenho? Quer affagos e cuidados, que eu não posso repartir.
-Sou esposa e mãe; e além d’isso preciso olhar pela minha casa.</p>
-
-<p>—Pois, meu amor, deixal-o ir; trata-o com amizade de filha, e
-mostra-te feliz, que elle te deixará viver em tua casa.</p>
-
-<p>Grande parte d’esta pratica foi communicada a<span class="pagenum" id="Page_116">[Pg 116]</span> Martinho Xavier pela
-aia de Beatriz. O fidalgo aguardou occasião de encontral-a a sós, e
-disse-lhe:</p>
-
-<p>—Sei que intenções te levam para Palmeira.</p>
-
-<p>—Sabe... que intenções?!...</p>
-
-<p>—Não admitto interrogatorio... Quero ser ouvido em silencio. Resolvi
-acompanhar-te para te defender do abysmo. Mudei. Não vou. Escuso de ir.
-O abysmo está aberto. Vaes cair, desgraçada! E tão depressa caires,
-irei mostrar-te lá com o dedo a teu marido: «Ella ahi está despenhada.
-Quiz salval-a, e não pude. Agora escarra-lha na cara, que tu não tens
-esposa, nem eu filha!»</p>
-
-<p>—Meu pae!—exclamou ella afflicta.—Meu pae, eu não sou criminosa!</p>
-
-<p>—Vaes sel-o.</p>
-
-<p>—Juro-lhe que não!</p>
-
-<p>—Mentes a ti propria. Raphael está recebendo cartas tuas; um dos teus
-criados entrega-te cartas do libertino, do carrasco da tua honra.</p>
-
-<p>—É falso...</p>
-
-<p>—Falso é o teu juramento, Beatriz! Não me desmintas, que eu
-justifico-me na presença de teu marido.</p>
-
-<p>—Por quem é... por alma de minha mãe!... bradou ella soluçando.</p>
-
-<p>—Tua mãe foi uma santa. Se está no céo e te vê a consciencia, lá mesmo
-ao ceu lhe mandaste um inferno, coração perdido! Ficas sabendo que eu
-vigio as tuas acções e as de Raphael. Escuso de seguir-te a Palmeira.
-Eu hei de saber pontualmente a hora a que te precipitas. Então me
-verás!...</p>
-
-<p>Voltou o rosto ás lagrimas da filha e saiu.</p>
-
-<p>Dias depois, preparadas as bagagens, e posta a<span class="pagenum" id="Page_117">[Pg 117]</span> hora da partida, foi
-Nicoláo avisar o sogro. Martinho Xavier estava de cama com febres, e
-differiu a sua ida para mais tarde. Observou o morgado que elle, ao
-apertar-lhe a mão, chorava. Foi despedir-se da filha á cabeceira do
-leito; e, n’um instante que ficaram sósinhos, disse-lhe o pae:</p>
-
-<p>—Se Deus me levasse agora d’este mundo, furtava-me á formidavel
-angustia que me preparas.</p>
-
-<p>—Juro-lhe que não.</p>
-
-<p>—Antes do terceiro juramento, perder-te-has—murmurou Martinho Xavier.</p>
-
-<p>Despediram-se.</p>
-
-<p>Beatriz saiu no proposito de esmagar o coração debaixo do peso da
-honra. Estava aberta uma egreja, e ella entrou a pedir á Virgem que lhe
-désse forças, e orou longo tempo. Ergueu-se consolada e forte.</p>
-
-<p>Escreveu a Raphael supplicando-lhe que lhe não escrevesse mais, que
-a deixasse morrer de saudades, mas sem o stygma de uma vilipendiosa
-desgraça. Prometteu-lhe amal-o no céu; e pela vida de seu filho, jurou
-que se mataria antes de ultrajar seu marido.</p>
-
-<p>Esta carta era uma rehabilitação.</p>
-
-<p>Foi para Palmeira. Ia doente e amargurada. Parece isto contra-senso.
-Devia ir jubilosa de sua valentia. Não é assim. As mulheres, depois
-d’estes triumphos, caem desfallecidas. O que lhes dá forças a ellas são
-as fragilidades.</p>
-
-<p>Passados quinze dias, espantou-se ella do silencio de Raphael, e disse
-entre si: <em>Não me tinha amor!</em> Passado um mez, disse: <em>Tenho-lhe
-odio!</em></p>
-
-<p>Martinho Xavier convalesceu rapidamente, assim que lhe deram uma alegre
-nova.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_118">[Pg 118]</span></p>
-
-<p>Foi a Palmeira, e, na presença da filha, fallou assim a Nicoláo:</p>
-
-<p>—Não sabes a façanha de Raphael?</p>
-
-<p>—Não sei nada. Aqui não tem vindo ninguem d’esses sitios.</p>
-
-<p>—Pois ouve lá...</p>
-
-<p>—É o caso da menina de Basto?</p>
-
-<p>—Que menina de Basto?! Essa historia não sei eu. O que eu sei é que
-chegou a Chaves um coronel de cavallaria, casado com uma senhora de
-fina educação, e vinte annos, ou coisa assim. A senhora deu-se mal
-com os ares de Chaves, e foi para a quinta de S. Lourenço, proxima
-a Fayões. Em menos de quinze dias, Raphael tomou conta da esposa do
-coronel, e foi para Hespanha. Pergunto eu agora a meu primo Nicoláo, se
-o mundo diz a vigesima parte da verdade?</p>
-
-<p>—Aquillo é um lastimavel doido!...—observou o morgado com pena.—E
-ella parece-me mais doida ainda! Se elle bem soubesse que futuro o
-espera com as disciplinas da vingança!...</p>
-
-<p>Beatriz ouvira a historia, com immobilidade de estatua. Á reflexão do
-marido fez um gesto forçado de assentimento. Assim que o filho vagiu no
-berço, correu para junto d’elle, chorou em ancias abafadas nas roupas
-do berço, que embalava para se lhe não ouvirem os soluços.</p>
-
-<p>—Mentirá meu pae para me desvanecer? pensava ella comsigo, e, ao mesmo
-tempo, resava á Mãe de Jesus, pedindo-lhe o esquecimento do homem fatal.</p>
-
-<p>Não mentira Martinho Xavier.</p>
-
-<p>Raphael, assim que recebeu a ultima carta de Beatriz, chorou o tempo
-desbaratado n’uma esperança,<span class="pagenum" id="Page_119">[Pg 119]</span> além da qual se carregaram assentadoras
-borrascas. Doeu-se da força d’alma com que ella o despedia, e tirou a
-injudiciosa illação de que era mediocremente amado, porque as grandes
-paixões querem o estampido, e o sêvo das grandes desgraças. Nenhum dos
-seus romances fazia menção honrosa de heroes que se deixassem morrer da
-peçonha do ideal. Olhou o moço em si; viu-se com vinte e tres annos,
-futuro largo, vinte primaveras ainda a reflorirem-se. Enojou-se da
-inercia de seis mezes, em que deixara anazarem-se as suas ardentes
-faculdades. Saltou para o sellim do melhor cavallo, desfilou por montes
-e valles, visitou primas, que elle denominava o seu medalheiro de
-estudos numismaticos, restaurou galanteios antigos, antigos de seis
-mezes; e, n’esta andadura, foi dar á quinta de S. Lourenço, onde vivia
-um general reformado, com trez sobrinhas.</p>
-
-<p>Apresentaram-lhe a hospeda, esposa do coronel, nem formosa nem
-sympathica, mas interessante pela melodia com que vibrava a escala
-chromatica em cada dezena de palavras que dizia: era lisboeta a dama.
-O galanteio começou alli, sem advertencia do general. Continuou nos
-quatorze dias subsequentes, cuidando o dono da casa que a namorada
-era uma de suas sobrinhas. O coronel, porque era marido, receava
-que o general se enganasse: revelou as suas duvidas, e o bravo do
-Bussaco respondeu que tinha em bom uso a espada com que espostejara um
-esquadrão de francezes. Em bom uso estava de certo a espada; virgem,
-talvez. Descançava o coronel na espada do seu amigo, quando a esposa
-lhe ia arrebatada no arção da sella do mais possante murzello de
-Raphael.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_120">[Pg 120]</span></p>
-
-<p>Aqui está a simples historia, que, posta em escriptura por mais aparada
-penna, faria chorar os leitores.</p>
-
-<p>Muita gente ri-se d’isto. Outra levanta os olhos ao ceu: contempla o
-imperturbavel movimento dos astros, interroga o Creador, e diz:</p>
-
-<p>—E então?</p>
-
-<p>A Providencia responde, depois que os interrogadores estão esquecidos
-da sua audacia sacrilega.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_121">[Pg 121]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XII">XII</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_e.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Este</span> enorme escandalo estrondeou tres semanas, e caiu á voragem
-silenciosa dos factos consummados. Corridos tres mezes, a fugidiça
-estava em Lisboa com a mãe; e Raphael Garção, de volta de Hespanha,
-entrára ás escondidas em Fayões, e lia romances no seu gabinete. O
-coronel, corrido do vexame, pedira transferencia para o Alemtejo.</p>
-
-<p>Raphael tinha pae e mãe, que incessantemente offereciam ao Eterno o
-calix de suas dôres em desconto do peccado da má educação, que haviam
-dado ao filho. A mãe, temerosa do juramento que o general fizera
-de matar Garção com a espada do Bussaco, alternava, com o marido,
-sentinella ao filho para elle não sair de casa. O velhaco, assim que
-as atalaias, por noite velha descuravam a sobre-rolda<span class="pagenum" id="Page_122">[Pg 122]</span> e ressonavam,
-saltava da janella ás espaduas do criado confidente, e ia refrigerar a
-cabeça, exercitar a força musculosa, e beber a sorvos os perfumes da
-manhã.</p>
-
-<p>Assim devia presumir-se até de madrugada de um dia em que elle voltou
-com as costas crivadas de chumbo e uma orelha farpada. Extrairam-lhe
-as balinhas, e cicatrisaram-lhe as orelhas. Passados dias entrou n’um
-recolhimento de Villa Real uma filha de um boticario de Fayões, e então
-se aventou que Raphael Garção topára no pharmaceutico a fôrma do seu
-pé, como lá dizem.</p>
-
-<p>Martinho Xavier foi a Palmeira contar este escandalo supplementar.
-Nicoláo riu-se e disse:</p>
-
-<p>—Ha doidos que se fazem perdoar e estimar! As tolices de Raphael têem
-graça.</p>
-
-<p>—É preciso ouvir-t’o, para se crer que fallas de Raphael com tão
-absurda sympathia!—censurou Martinho.—E jámais, ajuntou a meia voz,
-na presença de tua mulher: Isso desauthorisa a gravidade de teus annos
-e estado, primo Mesquita!</p>
-
-<p>—Valha-te Deus, Martinho! redarguiu o morgado. Tu vens a ser muito
-rabujento, homem! Pareces um ancião com o barbaçudo aprumo de um
-patriarcha! És inexoravel com os moços e principalmente com teu
-sobrinho!... Quantas capas deixaste tu ficar por mãos impudicas, ha
-vinte annos, quando te eu conheci o primeiro casquilho de Chaves e seu
-termo?</p>
-
-<p>—Não pratiquei desafôros! Atalhou Martinho.</p>
-
-<p>—Graças á tua boa indole, e ao captiveiro do coração em que te teve
-seis annos a minha bella prima com quem casaste. É preciso perdoar
-aos rapazes, que não podem reconstruir o seu temperamento,<span class="pagenum" id="Page_123">[Pg 123]</span> nem
-remediar aos vinte e tres annos os vicios da educação. Raphael não é
-despresivel, quanto se te figura; é digno de dó. Vem pagar o que eu não
-sei bem se é culpa d’elle. Os doidos da bitóla de Raphael teem sempre
-o mau sestro de encontrarem doidos da mesma natureza. Cumpre ponderar
-esta notavel attenuante, primo Xavier. O mundo não faz d’isto cabedal,
-nem desconta. Se Raphael attentasse em mulheres morigeradas, não
-descobria a esposa do coronel, nem a filha do boticario.</p>
-
-<p>—Foram seduzidas! bradou Martinho.</p>
-
-<p>—Pois isso é claro! Toda a mulher precisa que a seduzam; e se a não
-seduzem, trata ella de seduzir-se a si mesma.</p>
-
-<p>—Regra geral, portanto!</p>
-
-<p>—Regra geral para as mulheres desviadas do caminho da honra.</p>
-
-<p>—E entendes que Raphael tão somente pode perder as desviadas?</p>
-
-<p>—Cuido que sim.</p>
-
-<p>—E as honradas são invulneraveis?</p>
-
-<p>—Como o calcanhar do heroe de Homero.</p>
-
-<p>—Estás gracejando... Chega-me aqui o ouvido.</p>
-
-<p>Nicoláo inclinou-lhe a orelha, e Martinho segredou:</p>
-
-<p>—A Margarida Froment estava desviada do caminho da honra quando a
-perdeste?</p>
-
-<p>Nicoláo retraiu de salto a cabeça, e não respondeu.</p>
-
-<p>Beatriz descórou, suspeitando loucamente uma revelação horrivel.</p>
-
-<p>Cessou a polemica.</p>
-
-<p>Estavam no mez de junho.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_124">[Pg 124]</span></p>
-
-<p>Beatriz lembrou um passeio á feira annual de Santo Antonio a Villa
-Real. Martinho Xavier acompanhou-os.</p>
-
-<p>Nicoláo e a mulher compravam objectos de oiro n’uma barraca. Raphael
-Garção passava e viu-os, e parou. Casualmente voltou a face Beatriz, e
-expediu um grito. Vira-o, e tremêra no braço do marido. O morgado olhou
-em roda de si, e perguntára:</p>
-
-<p>—Que foi?</p>
-
-<p>—Pisaram-me...—disse Beatriz.</p>
-
-<p>—Canalha! bradou rancorosamente o morgado no rosto das pessoas mais
-chegadas ao balcão do ourives.</p>
-
-<p>Passaram a outras barracas.</p>
-
-<p>—Espera! disse com alvoroço Nicoláo.—Queres tu vêr o primo Raphel?!</p>
-
-<p>—Onde? perguntou ella serenamente.</p>
-
-<p>—Além! aquelle sujeito de jaqueta de alamares, e botas á Frederico.</p>
-
-<p>—Parece-me que é.</p>
-
-<p>—Vamos ter com elle.</p>
-
-<p>—E se o pai está por ahi?</p>
-
-<p>—Que importa?</p>
-
-<p>—Bem sabes que nos faz um sermão.</p>
-
-<p>—Ouviremos o sermão com devota paciencia. Vamos ouvir este sublime
-doido... Elle olha para nós... reconhece-nos...</p>
-
-<p>E chamou-o com um aceno.</p>
-
-<p>Raphael avisinhou-se: faltava-lhe ar, como se o coração, dilatado pelos
-arquejos, lhe tomasse todo o peito.</p>
-
-<p>—Venha cá, D. João, venha cá!—disse com alegre sombra Nicoláo—que é
-feito de si, homem perdido?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_125">[Pg 125]</span></p>
-
-<p>Raphael cortejou grave e cerimoniosamente a prima; abraçou o morgado, e
-respondeu solemne:</p>
-
-<p>—<em>Homem perdido</em>... é o nome que justamente me frisa. Perdido
-como todos os homens que atiraram o coração ás sarças de desesperança.</p>
-
-<p>—Que estylo!—atalhou Nicoláo, e que merencorio gesto você está
-fazendo! Tire lá essa mascara dos quarenta annos, e seja rapaz emquanto
-seu tio Martinho não apparece por ahi.</p>
-
-<p>—Está cá meu tio?</p>
-
-<p>—Está... respondeu Beatriz, levantando do chão os olhos em que Raphael
-viu um vidrado de lagrimas.</p>
-
-<p>—O primo Raphael que faz aqui? perguntou o morgado.</p>
-
-<p>—Nem eu sei, sinceramente lh’o digo.</p>
-
-<p>—Sei eu, e bom será... que o boticario de Fayões o não saiba...</p>
-
-<p>O moço não abriu leve sorriso; abaixou os olhos e murmurou:</p>
-
-<p>—Seja generoso, primo Nicoláo. Eu não espero da sua mão a esponja do
-fel. Creia que tenho sido muito desgraçado, e perdoe-me não ter podido
-ser feliz.</p>
-
-<p>Apertou a mão da prima, abraçou ligeiramente o morgado, e afastou-se
-velozmente.</p>
-
-<p>Nicoláo quedou-se immovel e silencioso.</p>
-
-<p>D’ahi a segundos disse a Beatriz:</p>
-
-<p>—Creio que teu primo é sinceramente desgraçado!...</p>
-
-<p>—Parece... Como está magro e pallido!</p>
-
-<p>—E talvez não tenha um amigo!... um amigo sincero que o defenda de
-novos pricipicios... Quem me dera poder vellar o destino d’este rapaz!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_126">[Pg 126]</span></p>
-
-<p>—Pobre moço!... murmurou Beatriz, embebendo as lagrimas no lenço.</p>
-
-<p>—Não te afflijas assim, menina. Se eu lhe não fallar, hei de
-escrever-lhe. Está em excellente idade para rehaver os creditos
-perdidos, e depois, é rico; a riqueza é meia rehabilitação, quando não
-é rehabilitação inteira e mais metade.</p>
-
-<p>Caminhando, encontraram Martinho Xavier, que crescia para elles com a
-vista derramada, e amarello.</p>
-
-<p>—Que tens? perguntou Nicoláo.</p>
-
-<p>—Nada... respondeu Xavier, ferindo a filha com repetidos olhares
-penetrativos.</p>
-
-<p>—Que tens, homem? viste o monstro?</p>
-
-<p>—Que monstro?</p>
-
-<p>—O Raphael, o tigre, a basilisco?—perguntou o morgado, sorrindo.</p>
-
-<p>—Vi... e tu tambem?</p>
-
-<p>—Esteve ainda agora comnosco. Eu queria que tu o ouvisses...</p>
-
-<p>—Para que?</p>
-
-<p>—Está revirado. Falla como um S. João, que vem do deserto ao povoado
-prégar o <em>agite penitentiam</em>! Confessou os desvarios que o
-infelicitaram, e fugiu de nós sem nos dar tempo a consolal-o.</p>
-
-<p>—Faltava-lhe a hypocrisia! atalhou Martinho.—Cerrou a mêda agora, não
-tem duvida. O fecho da abobada é a hypocrisia!</p>
-
-<p>—Que inexoravel e cru homem tu és, primo!</p>
-
-<p>—Sou, sou flagello inquebrantavel de infames—bradou Martinho com
-espanto dos transeuntes.</p>
-
-<p>—Está bom... disse brandamente Beatriz. Não questionem... Meu pae,
-perdoe a quem é infeliz,<span class="pagenum" id="Page_127">[Pg 127]</span> e despreze-o. Vamos embora d’aqui... As
-minhas compras estão feitas. Vamos para Palmeira, Nicoláo.</p>
-
-<p>—Pois não has de ir á noite ao theatro, filha?</p>
-
-<p>—Não... se me amas, partamos já.</p>
-
-<p>Emquanto Beatriz se vestia de amazona para cavalgar, Nicoláo disse ao
-sogro:</p>
-
-<p>—Sinto, meu primo e amigo, sinto amargamente a necessidade de te dizer
-que me fazes soffrer mais do que pode a minha paciencia por causa de
-teu sobrinho. Para mim e para tua filha é extrema a satisfação e honra
-que nos dás com a tua convivencia; mas tambem é certo que nos amarguras
-com a excessiva intervenção de tua vontade em nossas acções e amisades.
-Eu comprehendo bem que aborreças teu sobrinho; porém, confesso-me
-insufficiente para avaliar o direito com que tens embaraçado que
-eu o receba em minha casa, e lhe prove que o estimo por gratidão e
-parentesco. Peço-te encarecidamente que absolvas estas reflexões, e por
-tua parte modifiques esse irreflectido zelo de minha casa, onde eu não
-receio que entrem homens de costumes soltos, porque sei eu castigal-os,
-quando elles se esquecerem do que devem á sua dignidade e á minha.</p>
-
-<p>Martinho Xavier lançara-se sobre uma cadeira, e escondera o rosto entre
-as mãos, soltando estas gementes palavras:</p>
-
-<p>—Meu Deus, meu Deus!</p>
-
-<p>—Que tens tu? perguntou Nicoláo commovido.</p>
-
-<p>Beatriz entrou na sala, e viu o pae enxugando as lagrimas, e o marido
-inclinado á face d’elle.</p>
-
-<p>—Que é?! disse ella agitada.</p>
-
-<p>—Não sei...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_128">[Pg 128]</span></p>
-
-<p>—Vão, e adeus!—murmurou Martinho, erguendo-se com energia.</p>
-
-<p>—Ficas em Villa Real?</p>
-
-<p>—Fico: tenho ahi uns cavallos em ajuste. Só poderei ir ámanhã ou
-depois.</p>
-
-<p>—Queres que esperemos, Beatriz? perguntou Nicoláo.</p>
-
-<p>—Esperemos...—respondeu ella desopprimida da abafação do susto.</p>
-
-<p>—Não, que eu vou direito a Chaves—contrariou Martinho Xavier.</p>
-
-<p>—E quando voltas a Palmeira?</p>
-
-<p>—Quando poder.</p>
-
-<p>Saiu adeante d’elles, apertando convulsivamente a mão da filha, quando
-se ella inclinou a beijar a d’elle.</p>
-
-<p>—É mysterioso teu pae!...—ponderou Nicoláo.</p>
-
-<p>—Pois que te disse?</p>
-
-<p>—Ouviu-me umas observações duras de se ouvirem, e chorou, como
-viste... E não póde deixar de ser o que eu já suppuz... Teu pae é
-ludibrio de alguma intriga a teu respeito.</p>
-
-<p>—Intriga?</p>
-
-<p>—Sim... Levaram-n’o a uma terrivel suspeita... de ti e de Raphael.
-Faz mal em se não declarar. A injuria reflecte-se em mim... Eu queria
-mostrar-lhe a elle, ainda mais que ao mundo, a tua innocencia.</p>
-
-<p>—Pois alguem me considera culpada?!—atalhou extremamente resentida
-Beatriz.</p>
-
-<p>—Não digo tanto; mas com capacidade para culpada.</p>
-
-<p>—Quem?... Eu mereço isto!... Pois tu podes presumir?...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_129">[Pg 129]</span></p>
-
-<p>—Se eu podesse presumir, não t’o diria, minha querida prima.
-Esperava... Facilitava-te as occasiões; e, quando t’o dissesse, a tua
-bocca não poderia defender-se. Comprehendeste-me bem?</p>
-
-<p>—O ar com que me estás fallando, Nicoláo...</p>
-
-<p>—É a primeira vez que reparas n’este ar. Deus permittirá que seja a
-ultima.</p>
-
-<p>—Desconfias da minha lealdade, Nicoláo?</p>
-
-<p>—Já respondi, Beatriz. Não desconfio. A tua agonia de morte começaria
-desde a desconfiança.</p>
-
-<p>Repostos na bonançosa vida de Palmeira, ataram o fio quebrado das
-serenas alegrias, que irradiavam á volta do berço da creancinha.
-Bonançosa vida, escrevi eu, porque os exteriores condiziam com a
-palavra; todavia, no recondito d’alma de Beatriz, estava o aspide
-roedor, que lhe torvava os sonhos de infernaes alegrias, ou horridas
-visualidades. Abria os olhos molhados de culposas lagrimas, e
-seccava-as ao bafejo do filhinho. Seguiam-se no dia as intermittencias
-da noite. Uma hora, relampagueava-lhe a esperança uma luz vividissima,
-ao clarão da qual divisava a imagem de Raphael. Outra hora sentia
-atravez do seio uma vibração glacial, como se a larga lamina de ferro
-lhe abrisse bulhões de sangue: n’esta visão infanda era a imagem do
-marido que lhe avultava descomposta pela vertigem do odio. Refugiava-se
-ainda sob a egide do anjo, a creancinha, que inclinava o rosto á face
-d’ella, e balbuciava a primeira syllaba das suas reminiscencias do ceu.</p>
-
-<p>Martinho Xavier lá estava em Chaves. Decorreram dois mezes, e elle
-não voltou á Palmeira. Foram visital-o e levar-lhe o neto e afilhado.
-Acharam-n’o quebrantado com o pezo de mais dez annos.<span class="pagenum" id="Page_130">[Pg 130]</span> Encaneceram-lhe
-os cabellos, arrugaram-se-lhe as faces, amortiçou-se a luz dos
-olhos, arados pela bafagem ardente, que não tinha respiradouro. Para
-elle a perdição da filha era um anathema indeclinavel. Entrou-se
-do convencimento de ser ella o instrumento providencial do castigo
-de Nicoláo de Mesquita. A deshonra de Ernesto Froment havia de ser
-vingada. A sua amada Beatriz, a innocente das perversidades do marido,
-obedecia ao sobre-humano impulso da indefectivel justiça. Minguava-lhe
-illustração para combater o prejuizo. Accusava de injusta a Providencia
-quando lhe genuflectia, e subpunha a cabeça de sua filha a uma absurda
-fulminação.</p>
-
-<p>Á força de apprehender n’isto, desordenou-se-lhe a intelligencia por
-uns paradoxos de fatalismo, que implicavam á religiosidade do seu
-caracter.</p>
-
-<p>Encarava de fito na filha e chorava. Affagava o neto, e perguntava-lhe:</p>
-
-<p>—Entendes tu a minha dôr, anjo do ceu?</p>
-
-<p>Descaía um severo olhar sobre Nicoláo, e dizia-lhe:</p>
-
-<p>—Não devias casar nunca, sem saldar contas com a Providencia.</p>
-
-<p>O marido de Beatriz suspeitou da inteireza intellectual do sogro. Era
-para isso. Quiz arrancal-o da solidão do seu quarto, e trazel-o para
-Palmeira. Foi invencivel a resistencia muda do precoce velho, que
-apenas contava quarenta e oito annos. Quiz Beatriz ficar em Chaves, e o
-pae rejeitou o alvitre, como desnecessario á sua morte.</p>
-
-<p>Voltaram a Palmeira.</p>
-
-<p>Parece que lhes soavam n’alma de ambos as medonhas alvoradas de um dia
-de infinita calamidade.<span class="pagenum" id="Page_131">[Pg 131]</span> O ceu era o mesmo, a creancinha brincava entre
-elles com as flôres inverniças; ao passo que os paes, sem se revelarem,
-olhavam sobre o menino com os olhos lagrimosos.</p>
-
-<p>—Porque choramos nós?—perguntava Nicoláo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_132">[Pg 132]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_133">[Pg 133]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XIII">XIII</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Chegou</span> ao Vidago a noticia do apalavrado casamento de Raphael Garção
-com a morgada de Santo Aleixo, bella e rica, de primeira stirpe;
-transmontana, e costumes irreprehensiveis.</p>
-
-<p>—Aqui tens, Beatriz, disse Nicoláo, como teu pae se illudiu com o
-descredito de Raphael. Quando as cem trombetas atroam a provincia a
-divulgar escandalos, offerece-se ao generalissimo da desmoralisação um
-casamento de primeira ordem!...</p>
-
-<p>—É verdade... admira... ella é bonita...—gaguejou Beatriz,
-humedecendo os labios calcinados do fogo da alma.</p>
-
-<p>—Será elle tão desastrado que regeite a proposta? É de esperar que
-não. Aquelles ares de reforma, que lhe vimos, não podem ser hypocrisia,
-como<span class="pagenum" id="Page_134">[Pg 134]</span> teu pae diz. Hypocrisia comnosco porque e para que?</p>
-
-<p>—Sim... para que!...</p>
-
-<p>—Vou escrever-lhe a felicital-o, e instigal-o a casar-se...</p>
-
-<p>—Não faças isso, atalhou Beatriz. Sabes tu se elles serão felizes?
-Deixa-os lá. Se elle um dia se arrepender, escusa de lembrar-se de que
-o aconselhaste.</p>
-
-<p>—Pensas com acerto, mas sempre quero saber d’elle mesmo se é certo o
-projecto.</p>
-
-<p>—Isso lá...</p>
-
-<p>—Vejo-te inclinada a julgar de teu primo desfavoravelmente, Beatriz!</p>
-
-<p>—Não... eu... o que entendo é que... a mulher casada com o primo
-Raphael não ha de ser feliz... porque... é muito cedo para achar prazer
-á vida tranquilla, que tem sido o que tu sabes em tão pouco tempo... E
-pode ser que eu me engane... Oxalá...</p>
-
-<p>Escreveu Nicoláo ao morgado de Fayões. Ao outro dia, mostrou a resposta
-a Beatriz, exclamando:</p>
-
-<p>—O rapaz passou de uma demencia vulgar a uma demencia exquisita!
-Ha seis mezes era um libertino. Agora não se sabe o que é. Vê lá a
-resposta de Raphael.</p>
-
-<p>Leu Beatriz:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«Meu presado amigo e excellentissimo primo.</p>
-
-<p>«Agradeço os sinceros emboras que se digna enviar-me; lamento, porém,
-que se baldassem os seus bons desejos emquanto ao meu casamento: As
-raias da minha doudice não vão tão longe. Todo o tolo tem as suas
-demarcações.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_135">[Pg 135]</span></p>
-
-<p>«É certo que pessoas da familia de Santo Aleixo propozeram a meu pae
-o enlace a que vossa excellencia allude. Meu pae consultou-me, e eu
-rejeitei. Mas, porque, a rejeição divulgada seria offensiva ao orgulho
-dos visigodos de Santo Aleixo, resolveu a discrição que se deixasse
-correr o boato da minha annuencia, até esquecer a proposta. Esta é que
-é a verdade.</p>
-
-<p>«Dir-lhe-hei agora porque não caso: é porque não amo; nem casarei,
-porque não hei de amar nunca. Se me pergunta em que lamaçaes deixei
-ficar o coração, abaixo a cabeça, e peço licença para lhe dizer que
-ainda não prostitui o amor. Entrei nos lamaçaes, é isso verdade,
-saí sujo, como era forçoso sair, e mais nada. Quanto ao coração,
-sonhei uma vez que ouvira uma mulher dizer-me: guarda-m’o para m’o
-restituires no ceu. Foi isto um sonho; porem eu guardo o meu amor para
-os amores do ceu. O que é a felicidade senão sonho?!</p>
-
-<p>«Meu presado primo, a minha mocidade acabou; foi tempestuosa, mas
-curta.</p>
-
-<p>«Adeus. Peço á minha excellentissima prima a graça de receber os meus
-respeitos, e a vossa excellencia a sincera e profunda convicção de uma
-inalteravel amizade. Sou, etc.»</p>
-</div>
-
-<p>—Que te parece o espiritualismo do rapaz? perguntou Nicoláo á esposa
-que disfarçava o tremor das mãos.</p>
-
-<p>—Que singularidade!... tartamudeou Beatriz.</p>
-
-<p>—Estou em crêr que lhe extrairam o sangue máo que elle tinha, com os
-grãos de chumbo das costas! tornou Nicoláo sorrindo. Hei de mandar esta
-carta a teu pae.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_136">[Pg 136]</span></p>
-
-<p>—Para que?! interrompeu ella com ancia. Tu já sabes que meu pae lhe
-chamou impostor...</p>
-
-<p>—Por isso mesmo: quero convencel-o.</p>
-
-<p>—Vaes inquietal-o, primo... Que nos importa a nós o juizo que forma
-o pae? Raphael não solicita amizade d’elle... para que has de tu
-solicital-a!</p>
-
-<p>—Tens razão, menina. Farto de disputações estou eu.</p>
-
-<p>Facilmente salta ao espirito do leitor a repugnancia de Beatriz. Bem
-lembrada estava ella da carta surpreendida pelo pae. As ultimas linhas
-de Raphael eram a resposta. Martinho Xavier se as lesse, saltaria
-do leito, e correria furioso ao Vidago para esconjurar a procella
-sobranceira.</p>
-
-<p>Nicoláo, como quem se diverte, replicou em longa carta, recheiada de
-jocosidades, ácerca do sonho e da reserva do coração para as nupcias
-celestiaes. Gracejava a respeito do ceu, e de muitas outras figurações,
-que os padres e os amantes inventam, no intuito de irem apanhando o
-melhor que podem as bellas coisas da terra. A escrever, Nicoláo de
-Mesquita remoçava aos espiritos dos vinte annos, com seus laivos de
-facecia um tanto cynica.</p>
-
-<p>Leu esta carta a Beatriz, e viu que lhe desagradava.</p>
-
-<p>—Em parte não a entendo—disse ella—bem sabes que eu sei quasi nada,
-e tu empregas ahi palavras que eu não conheço; mas parece-me que tu
-não sentes o que dizes, quando fazes zombaria do ceu e dos padres para
-escarnecer a tal mulher do sonho...</p>
-
-<p>—Pois de certo, Beatriz, redarguiu o marido ingenuamente, eu escrevo
-isto como brincadeira de nenhum peso no animo de Raphael. A minha
-ideia<span class="pagenum" id="Page_137">[Pg 137]</span> é o passatempo de uma correspondencia que deve ser preciosa por
-parte de um rapaz de espirito, perdido nas supremas regiões do bello.</p>
-
-<p>—Então sim... compreendo agora que...</p>
-
-<p>Se ella continuasse em voz alta a idéa, diria: <em>que é este um meio
-honesto de eu ter semanalmente uma carta indirecta de Raphael</em>.
-Assim foi.</p>
-
-<p>Ao fim de dois mezes, Nicoláo de Mesquita possuia um interessante
-epistolario, que o recreava infinitamente. A remontada poesia de
-Raphael denotava um espirito igualmente apaixonado que opulento dos
-atavios do mais selecto romancista. A erudição tambem não lhe era
-esquiva: marchetava as suas cartas de sentenças, hauridas de prosadores
-e lyricos que melhor trataram os theoremas do espiritualismo.</p>
-
-<p>Beatriz estava contente. A occultas do marido, relia, decifrava, e
-illucidava as phrases obscuras. Sobejava-lhe agudeza de coração para
-adivinhar até as citações francezas.</p>
-
-<p>Isto durou assim n’este remançoso contentamento conjugal, até que
-Martinho Xavier inesperadamente appareceu em Palmeira.</p>
-
-<p>Antes de vêr a filha, e sem consentir que o lacaio recolhesse os
-cavallos, chamou o genro ao bosque do jardim, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Tens tido uma correspondencia de dois mezes com Raphael.</p>
-
-<p>—Tenho.</p>
-
-<p>—Com que fim?</p>
-
-<p>—Nenhum fim, um divertimento... coisa de nenhuma significação.</p>
-
-<p>—Peço-te que me mostres as cartas de Raphael.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_138">[Pg 138]</span></p>
-
-<p>—Immediatamente: sobe, que a leitura é demorada.</p>
-
-<p>—Não subo: espero aqui.</p>
-
-<p>—Os cavallos ficam no pateo?!</p>
-
-<p>—Ficam: não me demoro.</p>
-
-<p>—E não vens vêr tua filha?</p>
-
-<p>—Ainda não; traz-me as cartas.</p>
-
-<p>Beatriz tremeu e descorou, quando viu Nicoláo tirar da papeleira o
-masso das cartas.</p>
-
-<p>—Que é?! perguntou ella agitada.</p>
-
-<p>—Que ha de ser?... a demencia de teu pae... Quer vêr as cartas.</p>
-
-<p>—Disseste-lhe...</p>
-
-<p>—Não, não lhe disse coisa nenhuma; foi elle que m’as pediu...
-Affliges-te, filha?... Isto dispara em nada, Beatriz!</p>
-
-<p>Assim que o marido saiu, tomou o filho nos braços, e correu os salões
-da casa, sem atinar com algum intento.</p>
-
-<p>Martinho Xavier leu vagarosamente as cartas, pedindo a traducção dos
-dizeres em francez.</p>
-
-<p>Acabada a leitura exclamou:</p>
-
-<p>—Este homem é um infame!</p>
-
-<p>—Porque?</p>
-
-<p>—Porque estas cartas são uma cilada á tua honra e á minha, e á honra
-de minha filha.</p>
-
-<p>—Explica-te, primo Xavier! acudiu com arrebatamento Nicoláo.</p>
-
-<p>—Expliquei-me de mais ao marido de minha filha... Agora... agora,
-Nicoláo de Mesquita, lavei as mãos! Arranquei da consciencia o ultimo
-espinho. Fiz o que pude, disse o que podia dizer. Faz o que a tua
-dignidade te ordenar.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_139">[Pg 139]</span></p>
-
-<p>Ia retirar-se; mas o marido de Beatriz susteve-o, exclamando:</p>
-
-<p>—Has de repetir-me essas palavras em presença de minha mulher.</p>
-
-<p>—Não! não!—exclamou o velho movido a lagrimas—Não! que eu matal-a-ia
-se ella ousasse injuriar esta dignidade de pae que a defende! Tua
-mulher está sem macula na face, Nicoláo, pelos ossos de meu pae t’o
-juro! Mas perante mim, se ella ousar mentir-te, o braço de pae vingará
-a tua honra.</p>
-
-<p>Saiu impetuosamente, e saltou á sélla com o vigor frenetico dos vinte
-annos.</p>
-
-<p>O morgado estacou. Atormentava-o um dilemma cruelissimo: era sua mulher
-criminosa, ou seu sogro mentecapto?</p>
-
-<p>Subiu ao quarto de Beatriz: encontrou-a com o filho no collo, e o rosto
-purpureado da escandecencia das lagrimas mal enxutas. Contemplou-a
-silencioso, e ella não pôde supportar os coriscos dos olhos d’elle.</p>
-
-<p>—Que segredo da tua deshonra tem teu pae, Beatriz!?—perguntou elle
-com terrivel placidez.</p>
-
-<p>—Da minha deshonra? nenhum! Eu nunca trahi os meus deveres...</p>
-
-<p>—Não é sómente a deshonestidade a quebra dos deveres. Pergunto eu que
-ha entre ti e Raphael Garção?</p>
-
-<p>—Nada, absolutamente nada existe. Morto veja eu n’este instante o
-filhinho em meus braços, se eu te minto!</p>
-
-<p>Nicoláo recordou mentalmente as palavras de Martinho Xavier: <em>Tua
-mulher está sem macula na face; pelos ossos de teu pae t’o juro</em>.
-Refrigerou-se-lhe o sangue. O juramento da esposa, sobre a vida do<span class="pagenum" id="Page_140">[Pg 140]</span>
-filho, podia muito com elle. Saiu a passo lento do quarto; fechou-se no
-seu gabinete, e repassou detidamente as cartas de Raphael Garção.</p>
-
-<p>Julgal-o-hieis desencavernado do antro de Trophonius, quando saiu do
-quarto. Era uma amargura de semblante em que facil se prevê que nunca
-mais se ha de abrir um riso. Nicoláo vira tudo, adivinhára tudo a um
-clarão do inferno, e tambem vira a essa luz o vulto de Ernesto Froment.
-Porém, o que elle vira e adivinhára era pouco para considerar-se tão
-punido quanto offensor. Via o fundo do abysmo; mas via-o de alto. Sua
-mulher era amada; mas o amador esperava galardoar-se no ceu. Isto, se
-não consola, offende medianamente um marido. Era ainda incerto que ella
-o amasse; era ainda perdoavel que ella o tivesse amado em solteira;
-seria até possivel e quasi desculpavel que ella lhe promettesse
-esposal-o na bem-aventurança. Meditou estas e outras coisas entre as
-arvores, e voltou ao gabinete a relêr as cartas. Recordou os relanços
-em que sua mulher fizera especial reparo, quando elle as lia. Notou,
-combinou, inferiu, e confortou-se com as noventa e nove probabilidades
-da pureza de sua esposa, salvando o espirito d’esta conclusão
-purificante.</p>
-
-<p>Voltou ao quarto de Beatriz, e disse-lhe com brandura, mas torvado o
-aspeito:</p>
-
-<p>—Mataste a minha felicidade... e a tua. D’hora ávante seremos dois
-desgraçados que se contemplam. Vives, porque a tua honestidade ainda
-não está morta. Foi a alma que peccou; convém que a alma soffra. Quando
-os corpos estão manchados, então é honra espedaçal-os. É occasião de te
-contar que, ha cento e tantos annos, houve n’esta casa<span class="pagenum" id="Page_141">[Pg 141]</span> uma adultera.
-Deitou-se uma noite tranquillamente ao lado do marido, e foi ao outro
-dia tirada do leito para ser amortalhada. As cinzas d’ella estão
-alli na capella no jazigo da esquerda. Não se recolheu ainda áquella
-sepultura nenhum cadaver. Eu quizera que não fosses tu a companheira
-dos ossos da unica adultera d’esta familia em quinhentos annos sabidos.</p>
-
-<p>—Mas eu estou innocente, meu Deus!—exclamou Beatriz, tirando pelas
-madeixas com tresvariada angustia.</p>
-
-<p>—Bem sei—disse soturnamente o marido.</p>
-
-<p>—Pois, se sabes, porque me insultas?</p>
-
-<p>—Eu conversei comtigo, Beatriz: os lacaios é que insultam. Meu
-terceiro avô não me consta que insultasse a minha terceira avó, que
-está alli no jazigo do lado esquerdo.</p>
-
-<p>—Pois bem!... mata-me e mata-me já, que eu do fundo de minha alma te
-abomino, e perdôo. Esta creança te amaldiçoará em meu nome.</p>
-
-<p>Era sublime o exaspero de Beatriz, com o filho nos braços,
-contorcendo-se em altos gritos. Nicoláo tirou-lhe a creança, apertou-a
-ao seio, beijou-a, lavou-a de lagrimas, e exclamou:</p>
-
-<p>—Tu não me amaldiçoarás, meu filho!... Porque tu és meu filho, és,
-sinto-te entranhado em meu coração!...</p>
-
-<p>D’ahi a horas, o morgado ordenava aos seus criados que preparassem as
-liteiras para jornada longa.</p>
-
-<p>Dois dias depois, os fidalgos de Palmeira sairam caminho de Lisboa. E
-Raphael Garção recebia da mão de uma mulher entrajada de mendiga estas
-linhas:</p>
-
-<p>«Vamos para Lisboa. Meu pae denunciou tudo.<span class="pagenum" id="Page_142">[Pg 142]</span> Sou uma martyr. Não me
-esqueças, anjo da minha vida. Eu perdoei-te, e amo-te mais que nunca.
-Maldito seja este homem, que me ameaça com a morte!... No ceu, no ceu
-nos veremos, meu R. Adeus. Sei que não torno a ver-te.»</p>
-
-<p>Raphael Garção, á terceira leitura, disse entre si:</p>
-
-<p>—Verás!</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_143">[Pg 143]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XIV">XIV</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_a3.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Appareceu</span> em Chaves Raphael Garção despedindo-se de viagem para França.
-Deixou um bilhete a seu tio Martinho Xavier, mostrando-se pesaroso
-de não poder abraçal-o. Notou no seu <i lang="en" xml:lang="en">remember</i> dezenas de
-encommendas das senhoras flavienses, <em>novidades</em> de Pariz, que
-ellas haviam de estreiar nas bodas da morgada de Santo Aleixo. O boato
-corrente era que o morgado de Fayões ia comprar a Pariz o presente de
-noivado, e encravar os brilhantes e adereços de sua mãe em feitios
-modernos.</p>
-
-<p>Saiu Raphael por Hespanha, e entrou em Portugal pela Extremadura.
-Chegou a Lisboa, e informou-se da residencia de Ricardo de Almeida.
-Margarida Froment é quem dava nome ao transmontano em Lisboa. No
-<i>hotel de Italia</i>, na rua de S.<span class="pagenum" id="Page_144">[Pg 144]</span> Francisco, onde Raphael se
-alojara recatadamente hospedava-se um diplomata francez, conhecido da
-sua compatriota.</p>
-
-<p>Ao outro dia, o morgado de Fayões escreveu a Ricardo de Almeida,
-marginando a carta com a recommendação de <em>reserva</em>. Chamava ao
-<i>hotel de Italia</i> o seu primo e amigo. Tudo primos! Pode chamar-se
-o romance dos primos esta novella!</p>
-
-<p>—Que fazes em Lisboa?—perguntou o fidalgo de Aguiar.</p>
-
-<p>—Vim aqui para esconder-me.</p>
-
-<p>—Vens fugido?</p>
-
-<p>—Não, homem: venho na piugada de uma mulher que me fugiu com a alma, e
-o marido com ella.</p>
-
-<p>—Casada!... Agouro-te desgraça!...—atalhou gravemente Ricardo.</p>
-
-<p>—Ah! tu estás assim?!... Onde tens tu vivido, rapaz? e com quem tens
-vivido, velhaco?</p>
-
-<p>—Larga resposta me pedes, e mais tarde t’a darei. Vamos ao ponto. É
-conhecida a mulher?</p>
-
-<p>—É a prima Beatriz Vahia.</p>
-
-<p>—A mulher de Nicoláo!... Então o homem está a contas com a Providencia
-mais cedo do que eu esperava!...</p>
-
-<p>—A Providencia não entra n’isto, homem!... Tu sabias que nos amavamos
-eu e ella?</p>
-
-<p>—Parecia que sim...</p>
-
-<p>—O tio Martinho casou-a...</p>
-
-<p>—Porque tu a deixaste casar: logo, não amavas a prima Beatriz.</p>
-
-<p>—Olha se podes ouvir-me sem grande dispendio das formulas do
-raciocinio: esse «logo» cheira-me a lente de prima! Bem sabes que perdi
-dois annos de Coimbra, porque não pude fazer exame de logica.<span class="pagenum" id="Page_145">[Pg 145]</span> Será
-moda em Lisboa fallar-se de mulheres em syllogismo? Quando eu vinha
-por aqui passar ha cinco annos, não havia logica para esta casta de
-gente!... Saberás, pois, primo Almeida, que Beatriz está em Lisboa, e
-eu quero que me saibas onde está Beatriz. És capaz?</p>
-
-<p>—Sou, se me tu disseres onde está o marido. Tu cuidas que em Lisboa é
-coisa notoria a chegada do morgado de Palmeira!</p>
-
-<p>—Ora não faças a terra maior do que ella é;—replicou Raphael.—Eu
-cheguei hontem á noite, e, meia hora depois, sem sair do quarto, sabia
-onde morava madame Margarida Froment.</p>
-
-<p>—É que as francezas bonitas dão mais nos olhos dos lisboetas, que os
-morgados de Traz-os-Montes.</p>
-
-<p>—De accordo; mas achas difficil saber-se onde está o Mesquita?</p>
-
-<p>Se não se hospedasse em casa de parentes, é facil pela relação policial
-das hospedarias.</p>
-
-<p>—Cuida-me disso, e fallemos agora de ti. És feliz, rapaz?</p>
-
-<p>—Sou.</p>
-
-<p>—Dois annos! uma mulher dois annos!... Tu achaste a coisa que os
-poetas andam a sonhar ha seis mil annos! Dois annos de felicidade com
-a mesmissima e identica creatura!... Que segredos tem ella? Belleza
-offuscante, e espirito de endoidecer a gente, não é? Responde alguma
-coisa, homem!... Parece-me que te vejo no castello d’Aguiar a fazer a
-côrte por um oculo de vista larga a uma pastorinha, que lavava os pés
-no regato!... Aposto que ainda te não desbarataste!</p>
-
-<p>—Ainda não; mas fiz coisa peior: desbaratei o melhor da minha casa.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_146">[Pg 146]</span></p>
-
-<p>—Já sei: isso consta ha muito por lá... As tias Almeidas e o capellão
-choram por toda a parte os teus desperdicios. Então estás pobre? queres
-dinheiro?</p>
-
-<p>—Pobre ainda não: tenho trem, e um palacete, e <i lang="fr" xml:lang="fr">soirée</i> ás terças
-feiras.</p>
-
-<p>—Vives sardanapalamente! E, por sobre tudo isso, a franceza, que tu
-amas! Devéras amas? falla a verdade.</p>
-
-<p>—Amo, porque me não merece confiança nenhuma.</p>
-
-<p>—Esse <em>porque</em> é especie nova para mim! Oh diabo! eu costumo
-desprezar as mulheres pela razão por que tu as amas!... Isso não é
-amor, dou-te a minha palavra de homem que leu Byron, Balzac, Henri
-Beile, e todos os praxistas <i lang="la" xml:lang="la">ad hoc</i>.</p>
-
-<p>—Então que é?</p>
-
-<p>—É uma peçonha composta de uma grande dóse de orgulho, e outra grande
-dóse de tolice. Perdoarás: fallemos rudemente como lá nas nossas
-montanhas. Ella atraiçoou-te?</p>
-
-<p>—Não...</p>
-
-<p>—Que tu saibas...</p>
-
-<p>—Sei que não; mas tem um ideal.</p>
-
-<p>—A boas horas! Cuidei que estas creaturas não consumiam d’isso, e
-andavam satisfeitas com vestidos e diamantes e carruagem! De mais a
-mais, a despeza do ideal!</p>
-
-<p>—Tu rebaixas muito a mulher, primo Almeida!</p>
-
-<p>—Eu!?... tu é que m’a puzeste debaixo dos pés, dizendo-me que ella te
-não merecia confiança.</p>
-
-<p>—Mas posso ser injusto.</p>
-
-<p>—Ah! então diz-me isso. O certo é que a zelas muito porque a amas
-desmarcadamente, eim!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_147">[Pg 147]</span></p>
-
-<p>—Suspeito que ella, se Nicoláo de Mesquita a requestasse, me deixaria.</p>
-
-<p>—Logo... (cá vem a logica, se permittes uma excepção) logo: a mulher
-não tem vergonha.</p>
-
-<p>—É barbara a conclusão! Tu ignoras o passado d’esta senhora...</p>
-
-<p>—Sei tudo: contou-me tudo o Mesquita, no mesmo dia em que tu saiste da
-Foz com ella para Lisboa.</p>
-
-<p>—E elle ainda a ama?</p>
-
-<p>—N’aquelle dia estava cheio de amor! Tocava as raias do delirio e da
-irrisão. Aturei-o duas horas e levei-o a casa.</p>
-
-<p>—E depois?... atalhou com arrebatamento Ricardo.</p>
-
-<p>—Depois, esqueceu-a, e fez-se amantissimo da mulher. Foi uma desgraça
-para nós ambos a reconsideração.</p>
-
-<p>—Porquê?</p>
-
-<p>—Porque estavas livre da franceza tu, e eu amaria desassombradamente a
-prima Beatriz.</p>
-
-<p>—Virá elle a Lisboa com intenções?</p>
-
-<p>—Não sei, mas parece-me que ninguem vem conquistar, ou reconquistar
-uma mulher com outra ao lado. Esta conjectura é uma calamidade para
-ti: francamente, Ricardo! Quem te levasse hoje esta mulher, salvava
-as reliquias da casa dos Almeidas, e rehabilitava os teus creditos
-para entrares no molde de vida que melhor enquadra ao teu genio. A tua
-propensão é o casamento, primo Almeida; os homens pegadiços como tu são
-os eleitos da bem-aventurança matrimonial. Tu consomes com esta mulher
-porção de sentimento, que na vida honesta, e á sombra das suas arvores
-gigantes, te daria<span class="pagenum" id="Page_148">[Pg 148]</span> mananciaes de prazeres. Se eu tivesse a tua alma,
-bem sei onde a felicidade me esperava. Já estive recolhido seis mezes
-a trabalhar na refundição da minha indole, e fiquei mais aleijado.
-Se Deus me pedir contas a mim do que eu sou, hei de eu pedil-as á
-natureza, e veremos quem fica a dever. Mas tu, homem que podes amar
-dois annos a mulher de que desconfias, que amor não darias ao coração
-puro de uma esposa!</p>
-
-<p>—Sinceramente te digo que já pensei n’isso.</p>
-
-<p>—Ah? tu já pensaste n’isso? Então não amas a Margarida.</p>
-
-<p>—Bem se vê que não podeste fazer exame de logica, primo Garção,
-retorquio sorrindo Ricardo.</p>
-
-<p>—Meu amigo, conheces a regra geral de alveitaria que diz: cavallo
-que não vê é cego? Pois este axioma em força de verdade corresponde
-a est’outro: Homem, que, ligado a uma mulher pensa na felicidade que
-outra póde dar-lhe, não ama a mulher com quem vive. Pilhei-te em
-flagrante absurdo! Isto só o faz quem não póde fazer exame da arte
-de raciocinar. Parabens, primo! Dás-me esperanças de te vêr sair
-d’esta ingloria estagnação em que te apodrece a alma e o patrimonio.
-Sae d’isto, que é improprio da tua idade. Fecha os olhos. Deixa por
-descuido aberta a porta da gaiola, e o rouxinol que vá cantar a outros
-sinseiraes. Homem! olha que o dinheiro é uma cousa importante. Estás
-nos vinte e seis annos. Que farás aos trinta? Que heranças esperas?
-Nunca pensaste n’isto?</p>
-
-<p>—Já.</p>
-
-<p>—E que vês no teu futuro, quando hypothecares a ultima geira?</p>
-
-<p>—Vejo um par de excellentes pistolas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_149">[Pg 149]</span></p>
-
-<p>—Essa visão é judiciosa, e não sei realmente desvanecer-t’a. Aqui é
-que eu queria o egresso que te ensinou o cathecismo. O que eu posso
-dizer-te, desprendido de toda a pretenção philosophica, é que tu és
-um asno pyramidal, se continuas assim; e não haverá pyramides que
-perpetuem a tua asneira, se te matas depois de teres assim vivido.
-Depois do que, tenho a dizer-te que disponhas da minha casa como tua, e
-vás saber onde mora a prima Beatriz.</p>
-
-<p>—Pois sim, e fallaremos depois—disse Ricardo de Almeida, e saiu com
-animo agitado pelo impulso das phrases ora graves, ora picarescas, do
-morgado de Fayões.</p>
-
-<p>Poucas horas depois, voltou o castellão de Aguiar noticiando que
-Nicoláo de Mesquita se hospedára n’um hotel francez da rua dos
-Romulares.</p>
-
-<p>—Obrigado, primo! Venceste a primeira batalha: agora seguem-se os
-triumphos! exclamou Raphael.</p>
-
-<p>—Que tencionas fazer agora?</p>
-
-<p>—Vou mandar o meu criado alugar uma casa fronteira. O hotel francez
-necessariamente está defronte de alguma casa.</p>
-
-<p>—Sem questão; mas se a casa tem inquilinos?</p>
-
-<p>—O meu criado leva um mandado de despejo em vinte e quatro horas.</p>
-
-<p>—Estás a mangar!...</p>
-
-<p>—Ninguem manga com o dinheiro, primo Almeida. Imagina tu que no
-quinto, ou quarto andar do predio mora um empregado publico, que vae
-rebater duas cedulas para pagar um semestre da casa, que alugou por
-cincoenta mil réis. O meu criado offerece-lhe quarenta soberanos, e
-diz-lhe: «rua, dentro de vinte e quatro horas!» Antes das doze,<span class="pagenum" id="Page_150">[Pg 150]</span> o
-empregado publico saí com seis cadeiras e duas panellas, e eu entro com
-esta ponderosa alfaia de um coração em chammas. Impugna lá se podes!</p>
-
-<p>—E depois?</p>
-
-<p>—Essa pergunta é um disfructe! Depois a casa tem janellas, e eu tenho
-olhos, e Beatriz, essa então bem sabes que magicos, que peregrinos
-olhos tem! Deixo as omissões á tua discrição. E agora vai-te embora que
-eu vou dar credenciaes ao criado. Á noite vou a tua casa.</p>
-
-<p>O ladino agente voltou antes da noite, com a certeza de ter as chaves
-do terceiro andar na casa defrontante com o hotel, ao escurecer do dia
-seguinte. Apresentou o titulo de sublocação, e o recibo do signal.</p>
-
-<p>Fechou-se Raphael n’uma sege, e foi ao largo do chafariz de Andaluz
-passar a noite com o primo Almeida.</p>
-
-<p>Estava Margarida Froment ao piano. Recebeu o apresentado friamente, e
-disse-lhe pouco depois:</p>
-
-<p>—Ricardo passou com vossa excellencia algumas horas do dia...</p>
-
-<p>—Não ha duvida, minha senhora.</p>
-
-<p>—Facilmente conheci que o senhor Garção exerce uma sinistra influencia
-no animo de seu primo.</p>
-
-<p>—Porque, madame? Sinistra influencia!...</p>
-
-<p>—Certamente, que elle entrou em casa com uma linguagem nova.</p>
-
-<p>Raphael relanceou os olhos ao primo, e disse entre si: «Este homem será
-mais inepto do que eu presumo?»</p>
-
-<p>E, replicando a Margarida, disse:</p>
-
-<p>—Bem vê, minha senhora, que a minha idade<span class="pagenum" id="Page_151">[Pg 151]</span> não authorisa a dirigir
-o espirito de ninguem, particularmente de uma pessoa, que vossa
-excellencia domina com absoluto imperio.</p>
-
-<p>—Agradecida! tornou ella com ironico sorriso.</p>
-
-<p>—Eu não previa tão aspero acolhimento d’esta dama! disse Raphael ao
-primo. Que significa este desastre?</p>
-
-<p>—Imaginação d’esta senhora! respondeu Ricardo.</p>
-
-<p>—Imaginação e dignidade! acudiu em tom grave a franceza.</p>
-
-<p>Raphael lembrou-se do verso de Molière, que já occorreu ao leitor e
-sorriu-se para dentro.</p>
-
-<p>Margarida vibrou vertiginosamente o teclado do piano e levantou-se a
-aspirar o aroma de umas flores, que adornavam o marmore da jardineira.</p>
-
-<p>Raphael ia-se aborrecendo da sua posição, quando Margarida, brincando
-com uma camelia, deu dois passos com um meneio de muito garbo, e disse
-ao hospede com requebro maviosissimo de voz:</p>
-
-<p>—Vossa excellencia veiu a Lisboa buscar seu primo?</p>
-
-<p>—Não, minha senhora: o meu prazer seria trazer-lh’o, se elle estivesse
-longe de vossa excellencia.</p>
-
-<p>—O tom da lisonja esconde uma desconsideração. Perdoo-lh’a, porque as
-mulheres na minha posição nem sequer merecem que a desconsideração se
-vista de palavras usadas nos salões.</p>
-
-<p>—Oh! minha senhora! acudiu Raphael, balbuciando.</p>
-
-<p>Entrou um escudeiro annunciando uns sujeitos da primeira plana
-genealogica.</p>
-
-<p>Margarida pôde ainda accrescentar a meia voz, em quanto Ricardo saiu ao
-encontro dos cavalheiros:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_152">[Pg 152]</span></p>
-
-<p>—Está enganado, senhor Garção! eu não espero que me abandonem.</p>
-
-<p>—Isso que prova, minha senhora? respondeu o morgado de Fayões.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_153">[Pg 153]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XV">XV</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_d.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">De</span> relance, disse Raphael a Ricardo que ia sair para esquivar-se a
-apresentações. E ajuntou:</p>
-
-<p>—Estrago tudo, se me faço conhecido em Lisboa. Como hoje não é
-terça-feira, cuidei que estarias só. Adeus. Faz os meus cumprimentos á
-tua amiga. E apparece.</p>
-
-<p>No decurso do seguinte dia, o criado de Raphael comprou a mobilia de
-um quarto, e recolheu-a, ao fechar-se a noite, na casa fronteira ao
-hotel. Antemanhã, prevenido com chave de trinco, entrou Raphael, e
-pregou cortinas na janella destinada a observatorio. Instruiu o criado
-sobre cousas do estomago, e fechou-se a continuar a carta que daria um
-opusculo de cincoenta paginas em oitavo francez. Era a historia do seu
-amor desde os quinze<span class="pagenum" id="Page_154">[Pg 154]</span> annos até áquella hora de ineffavel amargura. Ás
-nove horas levantou mão de sobre a setima pagina do sexto caderno, e
-foi encostar-se á vidraça encortinada. Esperou impacientado uma hora.
-Todas as janellas estavam abertas, e ao maior numero tinham chegado
-mulheres e homens. Nicoláo era madrugador e Beatriz tambem; mas nem a
-sombra lhes vira no interior dos quartos. Ás dez horas assomou a uma
-janella uma criada com trajes da provincia. Suspeitou o moço que fosse
-a ama do filho de Beatriz, e animou-se. D’ahi a momentos chegou Nicoláo
-á beira da ama, e affagou o menino dando-lhe para brincar as borlas do
-chambre.</p>
-
-<p>Saiu a ama e ficou o morgado da Palmeira encaracolando as guias do
-bigode, e baforando fumaças do charuto.</p>
-
-<p>Fitou-lhe Raphael o binoculo por entre o resquicio das cortinas
-justapostas ás vidraças; e viu, no interior da saleta ou ante-camara,
-Beatriz reclinada nas almofadas de um canapé, e a ama sentada no tapete
-com o menino, que brincava com os longos anneis do cabello da mãe.</p>
-
-<p>Nicoláo volveu o rosto para dentro, disse breves palavras, e voltou a
-debruçar-se no peitoril da janella. Depois, retirou-se, ficando Beatriz
-no canapé. Passado um quarto d’hora, saiu o morgado á saleta de chapéu,
-vestindo as luvas; e apertando a mão da mulher, inclinou-se a beijar o
-filho e saiu.</p>
-
-<p>Beatriz levantou-se da postura inclinada, e sentou-se. A ama saiu á
-janella mostrando ao menino um papagaio da casa proxima. A creança dava
-valor aos bracinhos, e festejava com tregeitos e risos as cascalhadas
-do passaro. Beatriz veiu á janella gosar da alegria do filho. Raphael
-estremeceu: era outra<span class="pagenum" id="Page_155">[Pg 155]</span> mulher sua prima; mas tambem formosa a outra
-mulher figurada.</p>
-
-<p>Tinha sido redonda e purpurina de rosto; agora emaciava-lhe a palidez
-um rosto oval. Alvejavam-lhe agora os labios, que o escarlate do rubi
-enrubescera. A transparencia das cartilagens do nariz era tal que se
-mostrava ao alcance do oculo. Posto que melindrosa de compleição, havia
-sido abundante de carnes, ou os ossos tão delicados que se escondiam
-sob uma subtil epiderme. Raphael descobrira-lhe no despeitorado do
-roupão de velludo azul a magreza do pescoço e as saliencias das
-claviculas. Não podia desfitar as lentes d’aquella encantadora mulher,
-que todavia já não era a sua prima Beatriz.</p>
-
-<p>Saiu da janella a ama, e fitou a senhora, enlevada n’uns sons de piano,
-que lhe davam rebates de saudade de alguma bella e triste memoria do
-seu passado.</p>
-
-<p>Raphael depoz o oculo, reflectiu um instante, e correu a vidraça com
-estrondo. Beatriz relançou a vista á janella que se abrira; ergueu-se
-de salto, do peitoril da sua; admirou anceada o homem que lhe sorria;
-levantou machinalmente as mãos em postura supplicante, e desprendeu um
-ai estridente.</p>
-
-<p>Raphael fez pé atraz, logo que viu a orla do vestido da ama, que vinha
-correndo. Beatriz affastou-se ao interior da saleta, e caiu no canapé.
-Pouco depois, levantou-se, contemplou fixamente a janella fronteira,
-entreviu Raphael que se approximava da primeira luz, e sorriu. A ama
-atravessou a ante-camara, e Beatriz recolheu-se ao interior da casa
-onde devia de estar a alcova.</p>
-
-<p>Posto que a gentil visinha não fosse exactamente<span class="pagenum" id="Page_156">[Pg 156]</span> a linda Beatriz, o
-morgado de Fayões sentia-se apaixonado d’ella, e radioso de jubilo.</p>
-
-<p>Esperava-o o almoço, foi para a mesa, e lembrou-se das palavras de
-Nicoláo de Mesquita: «coração a um lado; estomago a outro». Almoçou
-como almoça toda a gente que se levanta feliz, e como os infelizes que
-não jantaram no dia anterior.</p>
-
-<p>—Não saias, disse elle ao criado.</p>
-
-<p>Ao meio dia, voltou Beatriz á janella: vestira-se a primor de graça
-e simplicidade. Os caracoes ondeavam-lhe nas espaduas estremecidas
-pela viração do mar. As rosas encarnaram-se nas faces. Os labios
-coloriram-se dos reflexos do rosto. A prima Beatriz estava passando por
-mais milagrosa transformação que a primeira.</p>
-
-<p>Assim que viu Raphael, retraiu-se ao meio da saleta, e fez-lhe um gesto
-de espanto e uma pergunta por acenos. O primo respondeu, mostrando-lhe
-uma carta, e chamando ao seu lado o criado conhecido de Beatriz.
-Ella mostrou irresolução temerosa, e o criado, brevemente instruido,
-atravessou a rua e subiu ao terceiro andar do hotel.</p>
-
-<p>A esposa de Nicoláo chamou a ama á janella, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Entretém o menino com o papagaio.</p>
-
-<p>Depois foi ao mainel da escada correspondente ao terceiro andar,
-recebeu a carta, e disse ao criado:</p>
-
-<p>—Ámanhã á mesma hora, respondo. O primo que tenha muita cautella... Eu
-não volto hoje á janella, senão á tarde.</p>
-
-<p>Raphael desceu as vidraças e cortinas. Mandou comprar os ultimos
-romances francezes, e saboreou as horas na leitura e na meditação, com
-intervallos de espionagem.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_157">[Pg 157]</span></p>
-
-<p>Viu de uma vez Nicoláo de Mesquita passeando na saleta, e gesticulando
-com os braços desabridamente.</p>
-
-<p>Era um dialogo violento com sua mulher...</p>
-
-<p>Assim que entrou fez reparo no ataviamento de Beatriz, e disse:</p>
-
-<p>—Maravilha! Desde que estás em Lisboa, é a primeira vez que te vestes
-e penteias com esmero!</p>
-
-<p>—Não cuidei que se fazia notar uma coisa tão insignificante, primo!
-objectou ella com amavel sombra.</p>
-
-<p>—Pois não! Nem pallida, nem quebrantada, um ar de excellente saude!</p>
-
-<p>—Parece que folgavas com vêr-me pallida! Estarás chorando a esperança
-perdida de me veres brevemente morta?</p>
-
-<p>—Pelo contrario... respondeu ironico, folgo muito de te vêr tão
-vivedoura...</p>
-
-<p>Um exquisito instincto impelliu á janella Nicoláo de Mesquita, e todas
-as janellas lateraes e fronteiras foram mais ou menos examinadas.</p>
-
-<p>Beatriz entendeu a disfarçada analyse, e, olhando por sobre o hombro
-d’elle, viu hermeticamente fechadas todas as janellas de Raphael.</p>
-
-<p>—Tive hoje carta de teu pae, disse o marido, com melhor phisionomia e
-brandura de voz.</p>
-
-<p>—Como está elle?</p>
-
-<p>—Melhor. Diz que vem a Lisboa.</p>
-
-<p>—Oxalá...</p>
-
-<p>—Dá-me a noticia do proximo casamento de Raphael com a Angela de Santo
-Aleixo.</p>
-
-<p>—Sim?...</p>
-
-<p>—É verdade.</p>
-
-<p>Nicoláo fixava de perto o semblante da prima, e<span class="pagenum" id="Page_158">[Pg 158]</span> satisfactoriamente
-observava a quietação e a côr inalteravel da indifferença.</p>
-
-<p>—Raphael, continuou elle, foi a Pariz comprar as prendas do casamento.</p>
-
-<p>—Deve trazer-lhe coisas lindissimas! observou Beatriz com um sorriso
-frivolo.</p>
-
-<p>—Vou jurar que elle não volta cá tão cedo. Pariz é o engodo, e o
-tonico das almas estragadas. Quando elle achar o deleite que tem em
-si aquelle bello inferno de Pariz, esquece a morgada de Santo Aleixo,
-e acha em cada franceza feia uma mulher superior ás mais formosas de
-Portugal.</p>
-
-<p>Beatriz magoou-se; não se magoaria, antes de lêr a carta de Raphael, em
-que elle, indelicadamente, contava as scenas occorridas com Margarida
-Froment, antes e depois do casamento de Nicoláo.</p>
-
-<p>O despeito respirou estas imprudentes expressões:</p>
-
-<p>—Bem sei; as francezas são muito amaveis; mas é triste que os amantes
-das francezas sacrifiquem as mulheres que nasceram e viveram felizes e
-amadas em Portugal.</p>
-
-<p>—Que quer dizer isso, prima? interrogou elle, avincando a fronte.</p>
-
-<p>—A consciencia que te responda.</p>
-
-<p>—Como sabes tu que...?</p>
-
-<p>Susteve-se, e murmurou com retrincado sorriso:</p>
-
-<p>—Bem sei... bem sei... O infame havia de preparar o terreno... Faremos
-contas mais tarde...</p>
-
-<p>—Que contas? atalhou Beatriz, fingindo-se ultrajada pela suspeita.</p>
-
-<p>—As contas que se liquidam com os traidores!</p>
-
-<p>—E tu já as deste, primo? não deves nada?</p>
-
-<p>—Abstenha-se de interrogar-me, senhora! A perfidia...<span class="pagenum" id="Page_159">[Pg 159]</span> não ousa tanto.
-Abaixa a cabeça, e cala-se! Entendeu?</p>
-
-<p>—A perfidia!... teimou ella com azedume. A perfidia!... sempre a
-palavra injuriosa!... As perfidias despresam-se, primo Nicoláo! Eu
-tenho o patrimonio de minha mãe com que posso viver. Quando quizer
-separemo-nos!</p>
-
-<p>—Póde ser... concluiu o marido, saindo da sala.</p>
-
-<p>Ao fim da tarde, Raphael escassamente divisou atravez da vidraça
-Beatriz, que lhe fizera signal de não abrir a janella.</p>
-
-<p>O amor subtilisara-lhe a esperteza. Desconfiou que Nicoláo, alvorotado
-pelo esmerado trajar d’aquelle dia, de qualquer angulo da rua a estaria
-espionando. A suspeita era acertada. O criado de Raphael vira o morgado
-da Palmeira, encoberto pelos cunhaes das casas esquinadas, a espreitar
-as janellas do hotel.</p>
-
-<p>Á noite, Raphael Garção foi encerrar-se no seu quarto do <i>hotel de
-Italia</i>, onde era conhecido pelo nome do seu criado, que tirára
-passaporte em Hespanha. Raras vezes um espirito leviano prevê tão
-miudamente as superveniencias nocivas ao bom exito de uma empreza! Cada
-Fausto acareia as simpathias de um diabo invisivel, que o aconselha,
-até á hora definitiva em que lhe toma conta da alma, se é que uma alma,
-infernada por mulheres, póde servir de pasto aos griphos das alimarias
-do reino escuro.</p>
-
-<p>Encontrou Raphael o primo Almeida, que o esperava sobremodo attribulado.</p>
-
-<p>—Que tens tu? perguntou o de Fayões. Foi a franceza que te deu tratos
-de polé! Aposto!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_160">[Pg 160]</span></p>
-
-<p>—Coisa peior.</p>
-
-<p>—Fugiu-te?!</p>
-
-<p>—Não: surprehendi na algibeira d’um criado uma carta para ella
-do Mesquita. Facilmente se conhece que Margarida o auctorisou a
-escrever-lhe, respondendo á primeira que recebeu. Apresentei a carta
-á franceza, e ella, a infame, leu-a placidamente, e disse: «Sem
-contradicção, esta carta é para mim.»</p>
-
-<p>—E tu mataste-a?</p>
-
-<p>—Zombas com a suprema desgraça, Raphael?</p>
-
-<p>—Não: congratulo-me com a suprema felicidade! Despediste-a?</p>
-
-<p>—Não... foi ella quem se despediu.</p>
-
-<p>—Oiro sobre azul. Então já lá vae!...</p>
-
-<p>—Teria ido, se me não dissesse isto: «Sou culpada; mas criminosa, não.
-Respondi a um desventurado, que está pagando as dôres que eu recebo das
-tuas mãos!»</p>
-
-<p>—Oh! acudiu Raphael com afflicção, que atrocissima lembrança!
-Disseste-lhe que eu amava Beatriz!</p>
-
-<p>—Não.</p>
-
-<p>—Por tua honra?</p>
-
-<p>—Por minha honra.</p>
-
-<p>—Estava perdida a minha pobre prima! A franceza, por vingança ou por
-interesse, accusava a mulher ao Mesquita... Seria uma fatalidade!...</p>
-
-<p>—Socega, que eu não lhe fallei em Nicoláo: era de interesse meu
-occultar os dissabores do homem que ella ainda ama. O que Margarida não
-póde perdoar é ser elle feliz.</p>
-
-<p>—O caso é que ella ficou...—volveu Raphael.</p>
-
-<p>—Pedi-lhe eu que ficasse, emquanto o coração a não impellisse a outro
-homem.</p>
-
-<p>—E ella ficou? Não sei qual dos dois é mais admiravel!<span class="pagenum" id="Page_161">[Pg 161]</span> Vocês devem
-ter um pelo outro a maior desconsideração!... Está claro que te não
-podes arrancar da mulher...</p>
-
-<p>—Eu não sei o que está claro.—disse Ricardo de Almeida.—Escura sei
-eu que está a minha alma como as trevas dos condemnados. Eu saí de casa
-allucinado, e procurei-te para te contar a minha deliberação: como te
-não encontrei, nem te quiz procurar na rua dos Romulares, desisti do
-teu parecer, e mandei desafiar Nicoláo de Mesquita. Ámanhã ás onze
-horas é procurado pelos padrinhos.</p>
-
-<p>—Então é certo que endoudeceste?—exclamou Raphael Garção.—Em
-primeiro logar, a mulher por quem te bates, se o duello fosse uma coisa
-elevada e seria, baixava-o á infima irrisão. Em segundo logar, Nicoláo
-de Mesquita não se bate, e humilha-te, respondendo que as Margaridas
-Froments tão sómente merecem paladinos, que se desafiem a vêr quem
-gasta mais com ellas. Em terceiro logar, quando te batesses... Que
-armas jogas? Ha dois annos não jogavas nenhuma...</p>
-
-<p>—Nem hoje.</p>
-
-<p>—Pois então, Deus haja misericordia da tua alma, porque Nicoláo de
-Mesquita é professor em todas as armas, sem excepção de côr ou feitio!
-Ahi vaes tu offerecer o peito ao estoque ou á bala, tu, Ricardo de
-Almeida, um rapaz de futuro, um dos mais estimaveis e nobres moços
-da provincia! E assim te deixas morrer irrisoriamente por amor ou
-desprezo—não sei o que é—de uma mulher despejada, que te abandonou!
-Abre a tua alma a um raio de luz, desgraçado! Crava as proprias
-unhas no coração ou na cabeça, e arranca de lá essa ignominia, que
-te sacrifica a uma coisa que não póde ser amor!...<span class="pagenum" id="Page_162">[Pg 162]</span> Tu vaes d’aqui
-procurar os padrinhos, e retirar a proposta. Depois, vens residir
-n’este hotel, e desimpedir a porta de tua casa para que a franceza saia
-livremente sem as angustias da despedida. O dever, a dignidade é isto!</p>
-
-<p>—Tenho vergonha de retirar a proposta—replicou Almeida.—Em Lisboa um
-caso d’estes é a perda irreparavel da reputação.</p>
-
-<p>—Da valentia!</p>
-
-<p>—Da honra.</p>
-
-<p>—Então é a honra convencional que te move, já não é o ultraje...</p>
-
-<p>—É tudo. Não desisto... Emquanto a morrer, sinceramente, com todas as
-veras de minha alma te digo que me não importa. Antecipo um acabar mais
-obscuro... porque eu, em me vendo pobre, já te disse que me suicido...
-Além de pobre, desprezado d’esta mulher, que nem o coração me deixou...</p>
-
-<p>—Tens ainda um grande coração, porque podes chorar, meu rico
-Ricardo—atalhou Raphael abraçando-o.—De hoje em deante és meu irmão!
-Hei de disputar-te ao diabo e vencerei!</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_163">[Pg 163]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XVI">XVI</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_a3.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ás</span> onze horas do dia immediato, um criado do hotel apresentou a Nicoláo
-de Mesquita dois bilhetes de uns sujeitos que esperavam na sala. Eram
-nomes de tomo na velha fidalguia d’estes reinos.</p>
-
-<p>Desceu o morgado da Palmeira á sala. Um dos cavalheiros com a graça
-amavel e affectuosa de quem vae convidar um amigo para um alegre
-festim, disse que elle e o seu amigo D. Fulano de tal haviam sido
-encarregados pelo primo Ricardo de Almeida de fazerem expressa ao
-excellentissimo Nicoláo de Mesquita, cavalheiro que elles propoentes
-conheciam de nome, e de mui illustre parentella em Lisboa, a sua
-resolução de pleitear com as armas no campo da honra o direito de
-repellir uma affronta.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_164">[Pg 164]</span></p>
-
-<p>—Affronta, ajuntou Mesquita, que vossas excellencias terão a bondade
-summa de nomear.</p>
-
-<p>—Cartas escriptas a uma dama, que vive em companhia do cavalheiro
-offendido, madame Margarida Froment.</p>
-
-<p>—A dama de que se trata, disse o morgado, é uma mulher que eu
-sustentava minha amante, estabelecida em residencia minha no Porto, no
-dia 26 de outubro de 1839, ás tres horas da tarde; e ás quatro horas,
-pouco mais ou menos, d’esse dia, e anno, o senhor Ricardo de Almeida
-senhoreou-se d’ella. Qual dos dois entendem vossas excellencias que foi
-o affrontado?</p>
-
-<p>—Não viemos munidos de instrucções para responder a vossa excellencia.</p>
-
-<p>—Instruidos vossas excellencias, recebo as suas ordens, pedindo
-licença para observar-lhes que tenho em minha companhia minha mulher,
-e o local é inconveniente para o proseguimento d’estas negociações.
-Vossas excellencias consentirão que os cavalheiros, chamados a
-representarem-me n’esta indiscreta pendencia, se encontrem em logar
-designado por vossas excellencias.</p>
-
-<p>Reunidos os quatro agentes, dois nomeados por Nicoláo, em casa de um
-d’elles, saiu D. Fulano a colher instrucções de Ricardo de Almeida, e
-voltou confirmando o declarado por Nicoláo de Mesquita, com pequenas
-variantes, que não alteravam a substancia. Em consequencia do que,
-lavrou-se acta com os seguintes considerandos:</p>
-
-<p>«Os abaixo assignados, incumbidos de accordarem mutuamente na
-deliberação a tomar sobre um conflicto de honra entre o senhor Ricardo
-de Almeida e Noronha Valladares Riba-fria de Aguiar Falcão<span class="pagenum" id="Page_165">[Pg 165]</span> Athayde,
-morgado do Pontido, e o senhor Nicoláo de Mesquita Sotto-mayor
-Sepulveda Cão e Aboim da Nobrega e Neiva, Morgado da Palmeira do Vidago;</p>
-
-<p>«Considerando que a franceza Margarida, actualmente, e desde 1839,
-contubernal de Ricardo de Almeida, era considerada em dominio de
-Nicoláo de Mesquita, ao tempo em que foi requestada pelo segundo dos
-citados cavalheiros possuidores;</p>
-
-<p>«Considerando que Nicoláo de Mesquita foi o primeiro ferido no seu
-coração, ou no seu amor proprio, termos equivalentes na questão
-subjeita;</p>
-
-<p>«Considerando que o primeiro affrontado entendeu acertadamente que os
-pleitos de honra são objectos sacratissimos em que as leviandades de
-uma mulher desdoirada não devem preponderar;</p>
-
-<p>«Considerando que Margarida, <i lang="la" xml:lang="la">ipso facto</i>, se havia constituido
-materia <i lang="la" xml:lang="la">primi capientis</i><a id="FNanchor_3" href="#Footnote_3" class="fnanchor">[3]</a>, e desde logo coisa apropriavel sem
-desaire de quem quer que fosse, nem titulo de propriedade valido;</p>
-
-<p>«Considerando que Nicoláo de Mesquita havia dado o exemplo de cordura
-e desprendimento quando lhe foi extorquido um dominio, que elle
-voltava a requestar, sem offensa de Ricardo de Almeida, nem das leis
-consuetudinarias;</p>
-
-<p>«Considerando que a unica pessoa presumivel de offendida seria
-Margarida, offensa que não se deu, por ella mesma affoitamente se
-gloriar de ser a pessoa<span class="pagenum" id="Page_166">[Pg 166]</span> a quem endereçava a carta, o corpo de delicto
-na questão litigada;</p>
-
-<p>«Considerando, finalmente, que a dignidade de dois cavalheiros não deve
-baixar a contender sobre materia que nunca se pode provar honrosamente
-discutida;</p>
-
-<p>«Os abaixo assignados resolveram que não ha offensa, nem leve desdouro,
-cuja desaffronta nobilite as armas nas mãos dos cavalheiros, de quem
-receberam authoridade para esta ou outra deliberação.—Lisboa, e casa
-de D. João d’Ornellas Themudo, 20 de junho de 1842.»</p>
-
-<p>Seguem as assignaturas.</p>
-
-<p>Ricardo de Almeida recebeu a copia d’esta coisa e gemeu surdamente
-angustiado pela humilhação, que aviltava a mulher dos seus sacrificios.
-Ponderou na crueza e alarvaria de certas palavras escusaveis na
-formalidade da acta: os padrinhos offenderam-se do reparo, sairam
-abespinhados, e consultaram os reinicolas em duellos sobre se deviam
-desafial-o.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita riu dos considerandos, como fórma e como
-substancia; achou-os magnificos de ironias e patuscada; agradeceu
-infinitamente os serviços dos seus bons amigos; os quaes, azoados com o
-riso equivoco do Mesquita, por um cabello que o não desafiaram tambem.</p>
-
-<p>Os cavalheiros signatarios por parte de Ricardo, bem que lhe
-desculpassem a defeza de Margarida e o tratassem com deferencia e
-amizade em publico, não voltaram mais a casa d’elle, onde jantavam e
-passavam d’antes as noites com frequencia. Motivaram este procedimento,
-allegando que se achavam mal com Margarida Froment nas salas de um
-amigo. Os sabedores d’este acume de pundonor imitaram<span class="pagenum" id="Page_167">[Pg 167]</span> os praxistas da
-elegancia e dos brios: ninguem volveu ao palacete de Andaluz.</p>
-
-<p>Queixou-se Ricardo ao primo Raphael dos briosos devassos; e o de Fayões
-invectivou contra os considerandos, lamentando não poder sahir a
-publico e desafiar, um a um, ou todos quatro de pancada, os signatarios
-da indecorosa acta. E d’aqui passou a lastimar Margarida Froment, com
-uns termos tão compungidos, que propriamente Ricardo se espantava do
-reviramento.</p>
-
-<p>A mudança era racional. Raphael era mais meditativo que o commum dos
-homens das suas manhas e costumes. Cogitara elle que se a franceza,
-embora estranha ao seu amor á prima, se reconciliasse com Nicoláo,
-facilmente lhe diria que Raphael Garção lhe fôra apresentado por
-Almeida. Assaltado por tal medo, cuidou em dominar egoistamente o fraco
-espirito de Ricardo, persuadindo-o a sair com ella de Lisboa para o
-Porto, ou para o estrangeiro, em ordem a que Nicoláo de Mesquita não
-lograsse a vingança desde muito planeada.</p>
-
-<p>O morgado do Pontido, obtemperado muito á vaidade, e já pouquissimo
-ao amor, conveio em retirar-se á sua casa da Foz no Porto, e differir
-opportunamente a desligar-se de Margarida, cujo descredito o enojava.
-Deploravel orgulho de homem, que julga purificar com a sua estimação a
-mulher empéstada no conceito dos outros!</p>
-
-<p>Propoz elle á franceza a saída para o Porto.</p>
-
-<p>—Não vou—respondeu ella firme e rapida.—O desprezo dos teus amigos
-não me afugenta de Lisboa; o mais que pode é afugentar-me de tua casa.</p>
-
-<p>—Desprezo os meus amigos—replicou Ricardo. Vamos... porque...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_168">[Pg 168]</span></p>
-
-<p>—Porque vamos?—acudiu Margarida ás suspensivas reticencias.</p>
-
-<p>—Porque desconfio da tua lealdade.</p>
-
-<p>—Aqui?... Porque has de ter mais confiança lá?...</p>
-
-<p>—Confessas, pois...</p>
-
-<p>—Confesso que te sou pesada, e que me pesa de o ser. Eu surprehendi
-muitas vezes o teu espirito, e resignei-me. Esperei que elle fallasse:
-foi teu primo que te ensinou a eloquencia do tedio. Morri desde logo
-para ti, porque tudo esmaguei na minha queda, mesmo o meu orgulho, esta
-luz do ceu ou do inferno que nunca deixa escurecer a dignidade das
-peccadoras apedrejadas, que não encontram Jesus. Os teus amigos sabiam
-que impunemente podiam offerecer aos teus olhos um libello injurioso
-que tu deixaste mal guardado para que eu me podesse vêr n’aquelle
-espelho, e admirar a continuação da tua generosidade em baixar até
-ao esterquilinio onde me atiraram. Convenci-me de que sou a mulher
-descripta n’este papel em que a minha baixeza corre parelhas com a tua.
-É impraticavel a nossa convivencia. Reciprocamente nos desprezamos,
-Ricardo.</p>
-
-<p>—Queres, portanto, dizer...</p>
-
-<p>—Que nos desliguemos.</p>
-
-<p>—Por que voltas aos amores antigos?</p>
-
-<p>—Não te dou contas das minhas tenções: bem sabes que ha dois annos e
-meio as não dei a Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>—O que me espanta é que vivesses dois annos commigo!...</p>
-
-<p>—Por que te espanta?</p>
-
-<p>—Precisamente ninguem te inquietou... disse elle afiando o sarcasmo
-com o riso.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_169">[Pg 169]</span></p>
-
-<p>—Espera!</p>
-
-<p>Margarida abriu uma papeleira, e tirou de um falso alguns massetes de
-cartas, que desatou, e derramou sobre a jardineira.</p>
-
-<p>—Lê as cartas recebidas em Lisboa pela mulher, que ninguem inquietava.
-Ahi reconhecerás a lettra dos teus principaes amigos. Ahi estão cartas
-dos signatarios da acta do duello, que se não fez porque Margarida <em>é
-coisa apropriavel, sem titulo de propriedade valida</em>. Vae agora
-perguntar a cada um dos teus amigos se possue carta da Margarida.
-São grandes fidalgos, e alguns—especialmente os que não te pediam
-dinheiro—são ricos e prodigos. Vae perguntar-lhes se a mulher, <em>a
-materia que nunca se póde provar honrosamente discutida</em>, baixou até
-elles, quando lhe rastejavam os pés, acceitando o desprezo, com a mesma
-abjecção com que traiam o amigo. Vae...</p>
-
-<p>—Basta!—Exclamou Ricardo, engriphando os dedos nos punhados de
-cartas, que atirou ao pavimento.—Basta, Margarida, que eu estou
-expiando infernalmente crimes que não pratiquei! Segue-me, segue-me por
-piedade, e fujamos de Lisboa, senão fizeste de mim um assassino!</p>
-
-<p>—Por minha causa não o serás, Ricardo. Attende-me bem: estas coisas
-são providenciaes. Eu sou escrava de um impulso sobrenatural. Não sei
-quem me leva nem onde vou. Ha oito dias que eu desprezava Nicoláo de
-Mesquita...</p>
-
-<p>—E hoje?...—atalhou com ancias Ricardo.</p>
-
-<p>—Hoje... nenhum de nós sabe que fatal magnetismo nos arremessa um
-contra o outro, como dois ebrios que se despedaçam a rir...</p>
-
-<p>—Pois tu vaes para Nicoláo?!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_170">[Pg 170]</span></p>
-
-<p>—Não sei para onde vou.</p>
-
-<p>—Sabes que elle é casado...</p>
-
-<p>—Sei: que me importa a mim saber o que elle é? Casada era eu, e feliz,
-e rica e abençoada de todas as esposas e de todas as mães!...</p>
-
-<p>—Que perdição a tua, que estrella, santo Deus! Exclamou em lagrimas
-Ricardo.</p>
-
-<p>—Compadeces-te? Que faria... se visses a minha alma!...—soluçou
-Margarida.</p>
-
-<p>—Oh! mas não vás que eu amo-te!</p>
-
-<p>—Não mintas... Deus quer que d’aqui a uma hora me desprezes. Tu
-amaste-me sem saber por que: hoje odeias-me, sem poder justificar o
-teu odio. A carta de Nicoláo? Não pode ser! Que viste n’esta carta?
-Um homem que dizia: «A tua compaixão suavisou a minha dôr. Não me
-abomines, não peças a Deus o meu castigo, que eu já sinto na garganta
-a mão vingadora de teu marido!» O restante da carta que era? lagrimas,
-supplicas, reminiscencias do tempo em que me vira presada da sociedade,
-e pura como elle já não vê sua mulher. Podeste abominar-me tu, e
-tolerar que os teus ignobeis amigos me insultem por causa de similhante
-carta? Oh! se elles tiverem irmãs, ou esposas, alguma hora lhes passará
-no espirito a imagem de Margarida Froment, que não pode delir com
-lagrimas o appellido de seu esposo!</p>
-
-<p>—Não vês que choro e que te amo, Margarida!—clamava de mãos postas
-Ricardo, inclinado aos joelhos d’ella.</p>
-
-<p>—Dignidade, meu amigo! disse ella, erguendo-o.—Dou-te este nome com
-a sinceridade e honestidade de uma santa. Acceita-o que não pódes ser
-mais nada para mim.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_171">[Pg 171]</span></p>
-
-<p>E saiu da presença de Ricardo. Elle seguiu-a a brados dilacerantes, e
-ella acolheu-o nos braços, murmurando:</p>
-
-<p>—Ouve-me, meu amigo. Eu pensei hontem em suicidar-me. Se hoje não
-visse o papel assignado por quatro miseraveis estaria morta a esta
-hora. Salvou-me aquella ignominia, Deus sabe para quantas mais atrozes.
-Nicoláo de Mesquita, n’este momento, sabe que eu vou pertencer-lhe...</p>
-
-<p>—Infame!—exclamou Ricardo arrancando-se-lhe dos braços.—Que infame
-és tu, mulher sem pejo, que te vaes vender ao homem que te abandonou!</p>
-
-<p>—Vender não, meu amigo—atalhou ella com a brandura de um sorriso sem
-nome nas expressões variadas da agonia.—Eu não me vendo: compro o
-direito de me espedaçar lentamente.</p>
-
-<p>—Não te entendo, miseravel!—rebramiu Ricardo com os punhos cerrados,
-e os braços ameaçadores.</p>
-
-<p>—Espero que me não insultes como um homem vil!—disse Margarida,
-retraindo a face aos punhos convulsos do allucinado.</p>
-
-<p>Ricardo caiu na tormentosa consciencia da sua indignidade, e fugiu da
-vista da franceza, que soluçava como na ultima entrevista com Nicoláo,
-na estalagem de Villa Pouca.</p>
-
-<p>No esplendido salão do seu palacete, Ricardo examinava um par de
-pistollas, e substituia por outros os fulminantes oxidados.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_173">[Pg 173]</span></p>
-
-
-<div class="footnotes"><h3>NOTAS DE RODAPÉ:</h3>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a id="Footnote_3" href="#FNanchor_3" class="label">[3]</a> Aos redactores da acta, modelo de continencia da linguagem
-no genero, agradecemos o latim, sem o qual a não poderiamos trasladar
-na integra.</p>
-
-<p>
-<span style="margin-left: 1em;">O AUTHOR.</span><br />
-</p>
-
-
-</div>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_172">[Pg 172]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XVII">XVII</h2>
-</div>
-
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_a2.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ás</span> dez horas da noite d’esse dia, Ricardo de Almeida fez pavor a
-Raphael Garção, quando lhe entrou no quarto, no <i>hotel de Italia</i>,
-tartamudeando offegante umas phrases sem tino, cortadas por soluços.</p>
-
-<p>Atirou-se aos braços do primo com desalento mulheril, e chorou mais
-copiosamente do que a razão critica das senhoras viris concede que
-chore um homem.</p>
-
-<p>Com espaçosas intercadencias de anciado silencio, contou Ricardo o
-violento dialogo com Margarida. O morgado de Fayões escutou-o com o
-desprazer que incutem as debilidades do coração alheio aos homens de
-rija tempera, e disse:</p>
-
-<p>—Eu repito as palavras de Margarida: «agora dignidade, Ricardo.» Sae
-de Lisboa. Não te aconselho<span class="pagenum" id="Page_174">[Pg 174]</span> que busques diversões ao espirito no
-grande mundo, nem aqui nem n’outra parte. Os homens da tua convivencia
-devem ser odiosos em Lisboa: os infames foram elles; mas o ridiculo és
-tu. Fóra de Lisboa tambem te aconselho que desistas de distracções,
-que as não encontrarás. Nas salas ha alegrias, o mais afiado golpe que
-te póde atirar a indifferença. Vae para a tua aldeia, concentra-te,
-padece, esquece á força de ninguem te suscitar reminiscencias d’ella.
-Isto é duro de ouvir-se; mas quem te prometter outras consolações,
-engana-te primo. Dignidade sobretudo. Eu amava Beatriz com a paixão
-de homem de minha indole, que seis mezes se esconde a devorar-se na
-duvida, e a purificar-se para merecel-a. Ao fim de seis mezes, Beatriz
-desenganou-me. Invoquei o meu dever! e antes de trinta dias, estava
-distrahido, não te direi honestamente, mas estava curado da ferida, que
-já não podia sangrar, sem desdouro da minha consciencia... Nota lá,
-primo Ricardo que a nossa provincia está recamada de bonitas mulheres,
-portuguezas de lei, materia excellente com o espirito necessario.
-Lembro-te o que já te disse, respeito ao desfalque de tua casa, ao
-infortunio de não ter nenhuma, e á tua inhabilidade para recuperares o
-grande patrimonio sacrificado. Se resistes ás admoestações, que te faz
-um doido no seu lucido intervallo, maldigo a hora em que me intrometti
-nas coisas da tua vida.</p>
-
-<p>Ricardo parecia attendel-o com uma fixidez de olhar espavorido: é
-provavel que o não ouvisse. N’este comenos, entrou no quarto o criado
-de Raphael, alvoroçadamente.</p>
-
-<p>—Que tens?!—perguntou o amo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_175">[Pg 175]</span></p>
-
-<p>—Acaba de entrar na hospedaria o senhor Nicoláo.</p>
-
-<p>Raphael ergueu-se, relanceando a vista ás pistolas.</p>
-
-<p>—Entrou com elle uma senhora—continuou o criado.</p>
-
-<p>Ergueu-se Ricardo de salto, exclamando:</p>
-
-<p>—É ella!... é Margarida!</p>
-
-<p>—Eu estava no quarto do porteiro—continuou o criado—quando elles
-saltaram de uma sége. Poucos minutos antes, tinham chegado uns gallegos
-carregados de malas, e disseram que as mandava um senhor, que ás quatro
-horas tinha falado com o dono da hospedaria. Eu escondi-me assim que
-o conheci, e dei tino de que a mulher, que entrou com elle, falava
-estrangeiro.</p>
-
-<p>Ricardo fez um salto arrebatado á porta. Raphael reteve-o, exclamando:</p>
-
-<p>—Alto ahi, mentecapto! Que vaes fazer?</p>
-
-<p>—Apunhalal-os.</p>
-
-<p>—É justo; mas manda saber primeiro o numero do quarto em que os has
-de matar—replicou o de Fayões com agastada ironia.—Se não tivesse
-compaixão de ti, despresava-te, Ricardo!</p>
-
-<p>E, voltando ao criado, mandou-o observar o que podesse.</p>
-
-<p>—Vamos sair ambos—tornou elle ao primo, que arquejava prostrado no
-sophá.—D’aqui a pouco, o Mesquita sabe que estou em Lisboa, se o não
-sabe já. Pobre Beatriz! Calcula a minha afflicção, Ricardo! Trata-se
-da honra e talvez da vida d’aquelle anjo... e, todavia, olha se me vês
-mudar de côr! Que miseraveis somos! Attraimos o raio da desgraça, e
-choramos como mulheres, assim que ouvimos<span class="pagenum" id="Page_176">[Pg 176]</span> o trovão! Ergue-te d’ahi,
-coisa, que pareces homem! Vaes comigo para outro hotel?</p>
-
-<p>—Irei.</p>
-
-<p>—E brevemente iremos para a provincia, que Beatriz não se demora em
-Lisboa, ou é fechada em algum convento.</p>
-
-<p>Pouco depois, voltou o criado, informando que Nicoláo tomara o segundo
-andar do hotel, e que os criados andavam a mudar a bagagem dos hospedes
-para o primeiro, e a trastejar ricamente os quartos. Accrescentou que a
-estrangeira era franceza, segundo ouvira dizer, e se chamava Margarida,
-porque elle mesmo espreitára e ouvíra o senhor morgado da Palmeira
-chamal-a assim.</p>
-
-<p>Ricardo escutava-o com o ar estupido de um surdo-mudo.</p>
-
-<p>—Fecha as minhas malas, ordenou Raphael. Queres tu, Ricardo? Vamos
-para tua casa. Vou ser teu hospede! Tens tu champagne, ou absyntho,
-ou a demencia engarrafada em casa? Vamo-nos embriagar, e depois
-reflectiremos. Se entramos com a razão n’este labyrintho, estamos
-perdidos. Valeu?</p>
-
-<p>—Vamos, disse Ricardo.</p>
-
-<p>—Conduz as bagagens ao largo de Andaluz, tornou Raphael ao criado.
-Os gallegos que te guiem. Paga a conta no hotel, e voltarás depois a
-saber, com disfarce, se o sr. Mesquita se demorou, ou pernoitou aqui.</p>
-
-<p>Sairam cautelosamente, e mandaram parar a sége perto da casa de
-Ricardo. Informou-se o morgado com os criados. Margarida Froment, ao
-escurecer, fechára os seus bahus, e mandára entregal-os a gallegos. Ás
-nove horas e meia, parára uma carruagem particular com libré defronte
-do palacete, e o<span class="pagenum" id="Page_177">[Pg 177]</span> guarda portão vira, á claridade das lanternas, que
-estava dentro um homem embuçado fumando. Margarida saiu, sem dar
-palavra aos criados, e saltou ao estribo.</p>
-
-<p>Depois ouviram-n’a dar um ai já dentro, quando se fechava a portinhola
-da carruagem que despediu á desfilada.</p>
-
-<p>—Quem dá aqui ordens, sou eu! disse jovialmente Raphael. Sôr
-escudeiro, mande pôr a ceia, se ha ceia n’esta casa. Os melhores
-vinhos! ordem ao escanção!</p>
-
-<p>Sentaram-se á mesa. Ricardo emborcava á competencia com o hospede os
-licores mais excitantes.</p>
-
-<p>Raphael comeu á proporção do liquido. Ricardo difficilmente deglutia, e
-cada bocado lhe anceava entalado. A revezes, aguavam-se-lhe os olhos. O
-de Fayões exclamava:</p>
-
-<p>—Execração e bebedeira estupida áquelle que puder chorar coisa que não
-seja vinho!</p>
-
-<p>Antes de finda a ceia, Ricardo perdêra as côres rubras da vinolencia,
-e desfallecêra prostrado em serena embriaguez. Garção e dois criados
-transportaram-n’o ao leito.</p>
-
-<p>A embriaguez do hospede era de outra especie: carecia de ar e agitação,
-de algum enorme desatino ou façanha de estrondo. Crepitaram-lhe no
-peito fumegante umas lavaredas de amor incendiario a sua prima. A
-cabeça alcoolisada chammejou. Sobresaltou-o uma vertigem. A sége
-estava ás ordens. Mandou que a levasse um raio á porta do <i>hotel de
-Italia</i>. Chamou o criado. Era meia noite. Perguntou-lhe se Nicoláo
-ainda estava. Disse o criado que elle dera ordem ao bolieiro para
-chegar á uma hora. Raphael mandou picar para o largo do Corpo Santo.<span class="pagenum" id="Page_178">[Pg 178]</span>
-Apeou. Entrou no pateo do <i>hotel francez</i>. Subiu ao terceiro
-andar. Abriu a porta da sala: era Beatriz que esperava e suppunha seu
-marido. Raphael entrou, sem dar tempo a que o vissem os criados. Era
-a primeira vez que ali entrava. Beatriz caia-lhe convulsa de medo nos
-braços; e elle abrazava-lhe a cutis livida com os labios, que reviam
-lume.</p>
-
-<p>—Nicoláo não póde demorar-se, ó primo!... tu perdes-me; eu morro ás
-mãos d’elle!—murmurou abafada Beatriz.</p>
-
-<p>—Nicoláo vem á uma hora.</p>
-
-<p>—Por que o sabes? onde está elle?</p>
-
-<p>—Com Margarida, no hotel em que eu morava.</p>
-
-<p>—Com a franceza!...—exclamou ella espavorida.</p>
-
-<p>—Sim!... com a franceza, que ha duas horas tirou de casa de Ricardo...
-Abençoado crime, que me restitue a tua alma inteira! Era o destino!...
-Eras minha, anjo da infancia! As penas do infinito inferno para a minha
-alma, se eu deixar de amar-te n’este mundo e no outro... Olha como é
-bella a nossa vida!... Oh! tu não endoudeces de prazer, Beatriz?...</p>
-
-<p>—Ó Raphael!... tu atterras-me!...—clamou ella, afogando-lhe no peito
-as altas aspirações, que saiam gementes.—É possivel que eu esteja
-em teus braços, ó meu amor!... Que alegria e que medo eu sinto!...
-Foge, que não vá ser este o primeiro e ultimo instante da minha
-felicidade!... Foge, Raphael!... Oiço chorar o meu filhinho... isto é
-agouro... a creança chama-me... é o anjo que me está accusando...</p>
-
-<p>A eloquencia persuasiva de Raphael contra as<span class="pagenum" id="Page_179">[Pg 179]</span> appreensões de Beatriz,
-era de todo o ponto nulla em quanto á expressão, mas de seus labios
-mudos resaltavam scintillas, que offuscavam os olhos de Beatriz.
-Fechou-os ella para não vêr o incendio; mas o mixto de lacerante
-peçonha e prazer vertiginoso que lhe escaldou as veias, só havemos de
-comparal-o á infernal deleitação da primeira mulher, que um dia pôde
-dizer: «Caí; mas vinguei-me.»</p>
-
-<p>Decorridos cincoenta e oito minutos, Raphael entrava na sége, a tempo
-que a carruagem de Nicoláo de Mesquita parava á porta do hotel.</p>
-
-<p>O marido de Beatriz entrou com alegre sombra na sala e á esposa que não
-ousava encaral-o, disse:</p>
-
-<p>—Estás zangada, filha? tens razão; demorei-me com os primos
-Albuquerques, forçado por etiquetas aborrecidas... Por que te não
-deitaste, priminha?</p>
-
-<p>—Não era meu costume...</p>
-
-<p>—Pois, sim, mas de hora em deante, quando eu me demorar além das onze
-horas, deita-te, sem susto da minha demora. Alguns amigos conseguiram
-de mim que eu os coadjuvasse n’umas conspirações politicas contra o
-conde de Thomar. É forçoso contribuir para a salvação da patria, quando
-menos tempo nos resta para viver n’ella. Os annos trazem comsigo o amor
-da patria; e por este motivo, póde ser que eu me detenha por fóra,
-extraordinariamente; e desgosta-me muito se me esperares; porque não
-estou por lá descançado. Fazes-me isso, sim, prima?</p>
-
-<p>—Pois sim... deitar-me-hei.</p>
-
-<p>—Bonita! o menino como tem passado a noite?</p>
-
-<p>—Bem.</p>
-
-<p>—E tu que fizeste? Lêste?</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_180">[Pg 180]</span></p>
-
-<p>—Li.</p>
-
-<p>—Gostas das <i>Meditações</i> de Lamartine?—disse elle, tomando o
-livro de sobre a almofada do canapé.</p>
-
-<p>—Muito... São tristes...—respondeu ella.</p>
-
-<p>—Qual te fala mais ao coração?</p>
-
-<p>—A <i>Tristeza</i>.</p>
-
-<p>—Bem sei...—acudiu elle, recitando de cór:</p>
-
-<p>
-<span style="margin-left: 1em;">De mes jours pâllissans le flambeau se consume,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Il s’éteint par degrés au souffle du malheur,</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">Ou, s’il jette parfois une faible lueur</span><br />
-<span style="margin-left: 1em;">C’est quand ton souvenir dans mon sein se rallume.</span><br />
-</p>
-
-<p>—Mas—proseguiu o morgado—o que ha no teu coração é o <i lang="en" xml:lang="en">souvenir</i>
-do poeta de Elvira.</p>
-
-<p>—Ha.</p>
-
-<p>—Qual?!...</p>
-
-<p>—A recordação do anjo da minha mocidade.</p>
-
-<p>—Teu primo?—atalhou irado o marido.</p>
-
-<p>—Não... o anjo da minha innocencia.</p>
-
-<p>Nicoláo sorriu-se, compondo o desmancho do rosto, e disse com
-maviosidade:</p>
-
-<p>—Queria vêr-te feliz, prima!</p>
-
-<p>—Feliz... como tu?</p>
-
-<p>Esta pergunta deu-lhe uma pancada na alma. A reflexão combateu o
-preconceito, e respondeu:</p>
-
-<p>—Sim, feliz como eu, que te adoro, e te perdôo as maguas todas com que
-por vezes perturbas a immensa felicidade de te haver merecido...</p>
-
-<p>—São quasi duas horas...—observou Beatriz, depois de uma longa
-expansão de termos affectuosos do marido.</p>
-
-<p>—Queres dormir, prima?</p>
-
-<p>—Se eu podesse... doe-me tanto a cabeça!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_181">[Pg 181]</span></p>
-
-<p>—Pois sim, vae, meu amor: eu espertei com o muito café que bebi,
-e aproveito a vigilia para ir escrever aos feitores. Vou alugar um
-palacete onde o encontrar. Aqui estamos incommodados com a pequena
-casa, e a bulha da rua. Gostas de ficar em Lisboa alguns mezes?</p>
-
-<p>—É-me indifferente.</p>
-
-<p>—Dizem que teremos bello theatro lyrico. Tomarei um camarote de
-assignatura. As primas Camaras e as primas Mesquitas irão comtigo,
-quando os embaraços da politica me não deixarem... Diz-me cá, prima...
-Tu desejarias ser viscondessa do Vidago? Offerece-se-me excellente
-occasião, assim que o ministerio cair. Vê lá, queres?</p>
-
-<p>—O que tu quizeres, primo... O que eu agora muito queria era dormir...
-Sinto-me tão desfallecida!...</p>
-
-<p>—Pois vae, filha, vae; mas ama-me muito, sim? Vem dar-me um beijo... e
-até ámanhã.</p>
-
-<p>Nicoláo abancou a escrever aos feitores. Eis aqui o specimen de uma das
-cartas aos feitores:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«Ainda me sinto estremecer debaixo da electricidade dos teus olhos...
-Abro ao acaso as <i>Meditações</i> de Lamartine, e leio no <i>Canto
-d’amor</i>:</p>
-
-<p class="poetry" xml:lang="fr" lang="fr">
-«Laissez-moi respirer sur ces lèvres vermeilles<br />
-«Ce souffle parfumé!... Qu’ai je fait?<br />
-«..........................................<br />
-<br />
-«Parle-moi!... que ta voix me touche!<br />
-«Chaque parole sur ta bouche<br />
-«Est un écho mélodieux!...<br />
-</p>
-
-<p class="poetry">«.......................................................»</p>
-</div>
-
-<p>Esta carta começa lyrica de mais para um feitor!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_182">[Pg 182]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_183">[Pg 183]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XVIII">XVIII</h2>
-</div>
-
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Ricardo</span> de Almeida, quando Raphael entrou, dormitava anciado,
-bracejando, e resmoneando sons desligados. Á cabeceira estava o
-escudeiro, homem de annos, marido da alma que aleitára o fidalgo, e
-servo dos Almeidas desde a infancia. O velho chorava e dizia a Raphael:</p>
-
-<p>—Saberá vossa excellencia que é a primeira vez que vejo assim meu amo
-turvado do juizo. Mal hajam as desgraças que vem todas juntas!</p>
-
-<p>—Isto não é desgraça, homem!—contestou Raphael Garção.—As bebedeiras
-são ás vezes os purgantes da alma. Tu nunca purgaste a alma, meu velho?</p>
-
-<p>—Sempre cuidei, respondeu o mordomo, que as almas se purgavam no
-purgatorio; mas a de meu<span class="pagenum" id="Page_184">[Pg 184]</span> amo, ou eu me engano, ou cae direita no
-inferno. Estou a ver que lhe não chega a hora do arrependimento, como
-ao seu santo parente fr. Gil de Santarem. Vossa excellencia sabe a vida
-d’este parente do senhor morgado?</p>
-
-<p>—Has de contar-me isso depois do café. Manda-me fazer café, que seja
-polvora, e alegra-te, que o fadario de teu amo está a quebrar-se.</p>
-
-<p>—Deus o ouça, meu senhor!—disse o velho, e foi á cosinha filtrar
-alegremente o café.</p>
-
-<p>Raphael estirou-se n’uma flacida ottomana, e sentiu-se na mais feliz
-hora da sua vida. O excedente da felicidade vulgar parecia-lhe sonho.
-Coordenava as reminiscencias de tres quartos de hora, e convencia-se
-da real existencia da sua fortuna após um arrojo que o coração não
-praticaria sem a escandecencia dos vinhos. Erguia-se de impeto, e
-mirava-se n’um espelho, como quem admira o dilecto da melhor fada, e o
-invejado dos mais bemfadados galans. A felicidade do coração corrompido
-põe o homem n’estes ridiculos arrôbos de si mesmo.</p>
-
-<p>Chegou a bandeja do café. Raphael fez-se servir reclinado nos coxins, e
-disse:</p>
-
-<p>—Se me dispensas, velho amigo, de ouvir a historia de S. Gil, meu
-maior e de teu amo, pede-lhe por nós nas tuas orações, e conta-me
-alguma coisa de Margarida.</p>
-
-<p>Ricardo sentou-se espavorido, e rouquejou um brado que parecia um
-romperem-se-lhe as fibras da larynge:</p>
-
-<p>—Margarida!?</p>
-
-<p>—Que é lá?—acudiu Raphael.—Uma chavena de café, primo Ricardo!</p>
-
-<p>O moço circumvagou os olhos esbugalhados, lembrou-se,<span class="pagenum" id="Page_185">[Pg 185]</span> reconheceu-se,
-no aperto da desesperançada angustia, e exclamou:</p>
-
-<p>—Que perdição!... que horror me faz a vida!...</p>
-
-<p>O mordomo saiu entalado de suspiros. Raphael deu-lhe a chavena, e
-exortou-o a esperar a boa crise mais rapida que o regular.</p>
-
-<p>—A materia bruta de sensibilidade—explicava elle—ha de gastar-se
-mais depressa em ti, que a consomes com maior energia que o vulgar dos
-homens.</p>
-
-<p>Ricardo saltou oscillante do leito, e abriu as janellas do quarto,
-aspirando a tragos a viração da antemanhã.</p>
-
-<p>—Estou melhor—disse elle.—Que soubeste de Margarida?</p>
-
-<p>—Soube que Nicoláo saiu de lá fixamente á uma hora.</p>
-
-<p>—Onde estiveste?... aqui?</p>
-
-<p>—Não: estive com a prima Beatriz.</p>
-
-<p>—No hotel?</p>
-
-<p>—Sim, no hotel.</p>
-
-<p>—Como a fortuna te bafeja!—disse com tristeza Ricardo.</p>
-
-<p>—A fortuna só desampara os fracos. Devias saber isto do nosso
-Virgilio: os fracos e os tolos, accrescento eu ao illustre poeta. Tu,
-meu amado primo, funestamente acumulas fraqueza...</p>
-
-<p>—E tolice—concluiu Ricardo.</p>
-
-<p>—Estava eu a procurar um termo com mais euphonia; mas tu o disseste.
-Os dois annos, immolados á franceza, poderás tel-os dourado de faceis e
-doidas alegrias, á mistura com alguns precalsos inevitaveis, dos quaes
-a gente se paga usurariamente com delicias. Olha que n’este mundo ha
-unicamente<span class="pagenum" id="Page_186">[Pg 186]</span> um estudo sério e digno de vigilias: é salvar a cabeça do
-coração. Na cabeça é que estão os olhos que descortinam o futuro. A
-cabeça é quem vê o primeiro barranco em que é honra saltar, e o segundo
-em que é parvoiçada cair. Certos sujeitos, quando cuidam que o ideal os
-eleva, burrificam-se. Chegada a occasião de se destramarem habilmente
-de uma rede, escouceiam, enredam-se mais, e descambam na lama. Felizes
-aquelles que podem, como tu, dizer á desgraça: «Atraz, maldita, que eu
-tenho vinte e cinco annos!» De que bordo estás, Ricardo, que fazes?</p>
-
-<p>—Retirar-me ámanhã de Lisboa, ou matal-a.</p>
-
-<p>—Sou de voto que te retires. Vae convalescer e volta ao mundo.
-Regenera os teus haveres, e torna a dissipal-os, se o bom anjo da tua
-indole te não apegar á dôce vida que deixaste. Eu preciso d’esta casa,
-mobilada como está, com as carruagens e cavallos.</p>
-
-<p>—Tudo ahi te fica—disse Ricardo.</p>
-
-<p>—Depois que me disseres o custo de tudo. Convém que saibas que minha
-tia-avó, fallecida ha dois annos, conservára intactos os cofres de
-meu tio-avô, governador do Brazil. Fui seu herdeiro. Achei cento e
-cincoenta mil cruzados em ouro. Gasto estes cabedaes, com a certeza
-de que sou o forçado herdeiro de uma casa que rende quatorze contos
-de réis. Já sabes que se a tua mobilia e trens podem valer dez mil
-cruzados, ou vinte, este dispendio nem levemente altera os meus planos.
-Se me queres obsequiar, crê que me não obsequeias com o emprestimo
-d’estes objectos: incommodas-me.</p>
-
-<p>—Como quizeres—conveiu Ricardo.</p>
-
-<p>—Agora presumo que o Mesquita não sae tão<span class="pagenum" id="Page_187">[Pg 187]</span> cedo de Lisboa, a menos que
-Margarida me não denuncie. A vida em hospedarias arrisca a segurança
-das minhas excursões. Sou, portanto, o dono d’isto, e tu és desde agora
-o meu hospede, e bom é que o sejas por pouco, se é que desistes de dar
-o ultimo pregão da tua miseria.</p>
-
-<p>Repontava a estrella d’alva. Raphael mandou atrellar os cavallos, e
-despediu-se, até á noite, de Ricardo. Saiu e recolheu-se á casa da
-rua dos Romulares. Dormiu bem-aventuradamente cinco horas, ergueu-se
-como as innocentes avesinhas em manhã de abril, festivo, illuminado
-de interiores contentamentos, trauteando cançonetas hespanholas. Foi
-espreitar á janella: viu Nicoláo á beira da esposa: elle bem assombrado
-e risonho; ella esmaiada da côr e melancolica. Beatriz entreviu-o
-de um insuspeito lanço de vista. Córou até ás orelhas; alindou-se,
-purpurejou-se quanto pode o pejo de uma recordação, alanceada pelo
-espinho do crime sem remorso.</p>
-
-<p>Os espinhos do remorso quebrára-os o marido por mão de Margarida
-Froment. A natureza moderna tem as coisas assim concertadas, para se
-não renovarem as penitentes da idade media. É verdade que ha menos
-santas; mas tambem ha mais quem incense as peccadoras. O inferno
-lucrou, e o ceu creio eu que perdeu quasi nada.</p>
-
-<p>Á uma hora, saiu Nicoláo, e entrou o criado de Raphael com um bilhete
-que era uma lamentação, aprasando para as dez da noite o ensejo de
-poder verter-lhe no seio lagrimas que o suffocavam. Seguiram-se
-horas de enlevo em mutua contemplação. Por volta das trez da tarde,
-Beatriz parecia desafogada das lagrimas impertinentes: surria,
-tregeitava,<span class="pagenum" id="Page_188">[Pg 188]</span> inventava mimicas eloquentissimas do coração. Entrou o
-marido beijando-a carinhoso. Raphael jantou, dormiu, sonhou phantasias
-deleitosas que eram, ainda assim, pallidos arremêdos das alegrias
-verdadeiras.</p>
-
-<p>Ao fechar-se a noite, foi o morgado de Fayões á casa de Andaluz.
-Pagou a Ricardo de Almeida a conta que o mordomo lhe apresentou. Fez
-novas exortações á coragem vacillante do primo, incitou-o a gosar-se
-de sua mocidade, recobrando-se das duas primaveras desfloridas.
-Affirmou-lhe que o desastre, visto a dois mezes de distancia, havia de
-afigurar-se-lhe um manancial de venturas subitamente aberto no seio da
-desgraça.</p>
-
-<p>Ao outro dia, Ricardo de Almeida embarcou para o Porto com o seu
-mordomo, e d’alli, fechando os olhos a todos os logares despertadores
-de memorias saudosas, passou á sua casa do Pontido.</p>
-
-<p>As tias não sairam a recebel-o nos braços porque a noticia inesperada
-abalou-as de modo, que desfalleceram abraçadas uma n’outra. Ricardo
-beijou as mãos das transportadas senhoras, que logo alli prometteram
-erguer um altar na capella da casa consagrada ao seu parente S. Gil.</p>
-
-<p>Encerrou-se o morgado. A sua culpa estava expiada. Margarida fôra
-ingrata. A Providencia seria injusta, se prolongasse o supplicio
-do homem, que nenhumas dôres causára com o seu desvario. Se déra
-escandalo, os escandalisados escarneciam-n’o e vingavam agora a moral
-publica. Foi por isso que o ceu se abonançou. A solidão restituiu-lhe,
-a pouco e pouco, a memoria dos seus prazeres simples. Attentou na
-delapidação dos seus bens. Desempenhou<span class="pagenum" id="Page_189">[Pg 189]</span> os hypothecados, restaurando
-rendas bastantes a um decente passadio.</p>
-
-<p>Padre Ambrosio, o virtuoso egresso, perdoára-lhe o descredito em que
-tinham andado na Foz as suas vestes, roçadas pelas sedas da pactuada
-do inferno. Havia elle sido chamado para Mirandella, onde tinha um
-irmão, chegado do Brazil, com centenares de contos. Foi visitar o
-irmão, e sobrinhas; mas voltou ao Pontido, cuja casa lhe déra, em 1833,
-hospitalidade de parente, e disvelos de familia muito sua. O brazileiro
-foi visitar o irmão, e levou comsigo uma das tres filhas. Ricardo de
-Almeida quiz honrar o irmão de seu mestre, e saiu a recebel-o no pateo,
-e a receber na portinhola da liteira a mão da brazileira. Depois,
-voltou ás suas graves cogitações, aos longos passeios nas montanhas do
-Alvão, ás fadigas da caça, e aos chumbados somnos das noites infinitas
-do inverno.</p>
-
-<p>A brazileira via sorrir aquelle mancebo pallido com a graça dos
-infelizes que não podem queixar-se. Perguntou a D. Sancha o segredo
-d’aquella serena e affavel melancolia. O egresso fez uma narrativa dos
-infortunios do fidalgo, com tanto engenho que não feriu de leve o pudor
-da sobrinha.</p>
-
-<p>Laura, a brazileira, ficou amando o moço triste. Despediu-se d’elle sem
-poder fital-o, e bem-disse a lagrima que a denunciava.</p>
-
-<p>O irmão do padre Ambrosio saiu encantado da lhaneza e cordealidade
-com que fôra acolhido por familia tão illustre. «Se eu fosse fidalgo,
-escrevia elle ao irmão, daria a minha Laura e cem contos de réis a esse
-bello moço, que me captivou, e fez para sempre triste a minha filha.
-Alguns meus amigos e companheiros de trabalho e fortuna teem<span class="pagenum" id="Page_190">[Pg 190]</span> comprado
-a fidalguia para hombrearem com as raças nobres; mas eu tenho sido o
-primeiro a rir d’elles, e serei o ultimo a comprar nobreza, quando
-todos formos nobres, o que vem a succeder, se não houver diluvio por
-estes vinte annos. Não digas isto ao teu discipulo, que não vá elle
-afugentar á minha custa a sua tristeza. A tanto não me sacrifico eu,
-nem a nossa Laura quer que a sacrifique.»</p>
-
-<p>Uma carta de Ricardo a Raphael, dois mezes depois, desenvolve e remata
-o episodio, necessario ao contexto d’estas biographias. Dizia assim:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«É constante ainda o boato da tua residencia em Paris. As damas de
-Chaves esperam as encommendas. Teus paes soffrem com a falta das tuas
-noticias. Apenas receberam a carta, que mandaste lançar á caixa em
-Pariz. A Angela de Santo Aleixo, para que ninguem possa duvidar de
-que tu vens casar com ella, casou antes de hontem com o morgado das
-Boticas.</p>
-
-<p>«O tio Martinho Xavier já desconfiou da lealdade do teu passaporte
-para França. Desconfia tambem tu da espionagem d’elle em Lisboa.</p>
-
-<p>«Eu não dou nada pela duração da tua felicidade. Já de cá te imaginei
-enfastiado. A mim dizias-me tu assombrado: «Dois annos a mesma
-mulher!» Eu digo-te sem assombro, por que te conheço: «Dois mezes o
-mesmo anjo!»</p>
-
-<p>«Agora, se queres, fallar-te-hei de mim. Caso. A historia da
-felicidade é uma palavra só. Não caso com prima nenhuma. É a filha de
-um homem que enriqueceu a trabalhar. Saiu de Mirandella com um chapéo
-braguez e uma véstia de cotim. Entrou em Mirandella com quatrocentos
-contos, e trez filhas,<span class="pagenum" id="Page_191">[Pg 191]</span> e a jaqueta e o chapéo, que ainda mostra aos
-duvidosos da sua origem.</p>
-
-<p>«Laura é brazileira, é galante, faz dezoito annos, escreveu-me com
-pouco esmero de grammatica, e incluia as cartas abertas nas do pae.
-Agora está em nossa casa, e minhas tias amam-n’a. Eu estimo-a, e creio
-que virei a amal-a. Sei que se affligem os nossos parentes com este
-alcance. Se meu avô Duarte de Almeida não morresse mutilado de mãos
-e dentes, a opinião de nossos primos é que elle viria estrangular-me
-e morder-me. Estes primos compraram-me as quintas ao desbarato, e
-promettem revender-m’as pelo duplo. Pedirei a meu avô Duarte de
-Almeida que os sove a ponta-pés, visto que não pode dispôr das mãos,
-assim como tu dispões do teu irmão agradecido, Ricardo.»</p>
-</div>
-
-<p>Raphael Garção, lida esta carta, ponderou, e disse entre si: «Parece-me
-que Ricardo é mais feliz do que eu!»</p>
-
-<p>E, com intervallo de um soliloquio mental, fallou com o seu demonio, e
-disse-lhe: «É crivel que eu esteja enfastiado de Beatriz?!»</p>
-
-<p>—Pois não é?!—respondeu o demonio.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_192">[Pg 192]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_193">[Pg 193]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XIX">XIX</h2>
-</div>
-
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_r.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Raphael</span> Garção enfastiado de Beatriz!...—Castigo do ceu!—Dispensemos
-a intervenção do ceu nas baixezas que o não exaltam. Temos cá em
-baixo a comesinha e espalmada explicação de tudo que é feio, triste e
-nauseativo.</p>
-
-<p>Enfastiou-se Raphael Garção por sete razões:</p>
-
-<p>1.ᵃ Ninguem o estorvava de ir vêr sua prima duas horas de cada noite,
-regularmente.</p>
-
-<p>2.ᵃ As horas do dia, passadas na sua residencia clandestina da rua dos
-Romulares, começaram a parecer-lhe longas, e a casa mal arejada, e os
-visinhos do quarto andar insupportaveis com o strupido do rapazio.</p>
-
-<p>3.ᵃ Beatriz exigía-lhe que elle passasse o dia alli, receiando que
-outra mulher o estorvasse instantaneamente de a vêr a ella.</p>
-
-<p>Observação á rasão terceira: Se Beatriz lhe dissesse<span class="pagenum" id="Page_194">[Pg 194]</span> que a sua
-assiduidade n’aquella janella punha em risco o segredo, Raphael
-cuidaria que o terceiro andar estava perfumado de caçoulas orientaes; e
-que o tropel dos meninos de cima era um soido das harmonias dos astros.</p>
-
-<p>4.ᵃ razão. As substancias alimenticias chegavam sempre frias e
-derrancadas á rua dos Romulares, por virem do largo do Chafariz de
-Andaluz. Esta razão é vergonhosa!</p>
-
-<p>5.ᵃ Dormia Raphael trez a quatro escassas horas em cada noite, para
-entrar com a aurora na casa fétida. Pesava-lhe a cabeça, a miudo; e,
-á decima quarta noite de visita ao hotel, se se descuida, bocejava na
-presença de sua prima.</p>
-
-<p>6.ᵃ Era curiosissimo de touros e côrtes, e não podia ir ao curro nem ao
-parlamento.</p>
-
-<p>7.ᵃ Queria conversar, queria gente, queria dar jantares, e fazer
-brindes mysteriosos a Beatriz; mas o relacionar-se era victimar a sua
-felicidade ás suspeitas de Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>Estas razões encadearam-se no fim do primeiro mez, e estavam já na
-forja os élos de outras sete, quando Nicoláo de Mesquita alugou e
-mobilou um palacete no largo de S. Sebastião da Pedreira.</p>
-
-<p>Raphael melhorou de vida. Livrou-se do terceiro andar. Dormia nove
-horas. Comia o seu jantar em bom estado. Além d’isto, morava perto de
-Beatriz, e saia de noite a beber bons ares pela estrada de Palhavã até
-ao Campo Grande.</p>
-
-<p>De mais a mais, Beatriz, perdido o susto, e identificada ao facto
-assustador, em vez de ir passar as noites com suas primas Camaras ou
-Mesquitas, descia pela travessa dos Carros, e volitava da sege de praça
-a uma porta do jardim de seu primo, e ahi se<span class="pagenum" id="Page_195">[Pg 195]</span> espantava da velocidade
-instantanea das duas horas costumadas.</p>
-
-<p>Isto durou um mez, a beneplacito do coração de Raphael.</p>
-
-<p>Coincide com esta época o conciso dialogo, que elle teve com o seu anjo
-mau no final do anterior capitulo, depois de haver lido a carta de
-Ricardo de Almeida.</p>
-
-<p>O morgado de Fayões ficava em casa, quando sua prima ia ao theatro.
-Não o affligiam ciumes, nem saudades, nem anceios de vel-a sobreluzir
-entre a constellação das estrellas de S. Carlos, as quaes—digamol-o de
-fugida—se não tivessem luz propria, seriam invisiveis á luz da sala.</p>
-
-<p>O que elle queria era ir por si, e não por ella.</p>
-
-<p>Reflexionando comsigo, dizia elle:</p>
-
-<p>—O mais aperreado dos tres sou eu. O marido está com Margarida
-Froment, nectarisando a existencia com as delicias da segunda edição do
-seu amor. Beatriz está no theatro a vêr-se formosa na face das outras,
-e a saborear-se nas melodias de Verdi. Eu estou aqui a resolver-me do
-sophá para a poltrona; e, se quizer ao menos vêr o ceu estrellado,
-quando não ha nuvens, hei de bater os dentes de frio por essas ruas,
-onde não conheço viva alma!</p>
-
-<p>O corollario do discurso era algum axioma, dos que elle tinha composto
-para uso do seu primo Ricardo.</p>
-
-<p>Queixou-se uma vez delicadamente d’este sequestro do mundo á prima.
-Beatriz amuou, e doeu-se de não ser bastante a dar-lhe mundos
-encantados de extasis e fontes inexhauriveis de poesia. Desfez-se a
-nevoa, ao calor de um osculo, no breve aguaceiro<span class="pagenum" id="Page_196">[Pg 196]</span> de mimosas lagrimas.
-Gongorisemos estas lindas coisas do coração.</p>
-
-<p>A despeito, porém, de Beatriz, Raphael deu em ir a S. Carlos, quando
-ella ia, indagando préviamente se o primo Nicoláo passava a noite
-no <i>hotel de Italia</i>. Furtava-se ao reconhecimento de rapazes
-conhecidos da universidade, e sumia-se entre a mó de alguns sujeitos
-gordos, que faziam perder a individualidade a todo o homem magro.</p>
-
-<p>Beatriz, guiada pelo coração que lhe fallou aos olhos, apanhou-o, e
-assustou-se; porém, como o visse a contemplal-a, perdoou-lhe.</p>
-
-<p>Assim, pois, melhorou algum tanto mais a vida de Raphael Garção, e
-decorreram dois mezes suavemente, sem variante notavel.</p>
-
-<p>Em março d’aquelle anno de 1843, disse Nicoláo á senhora que precisava
-de ir a Santarem com alguns correligionarios politicos preparar o
-terreno para uma revolução, tendo de demorar-se n’esta diligencia
-forçada trez dias. Beatriz ageitou o rosto a uns ares tristes, e o
-marido licenciou-a, como lenitivo á saudade, a ir passar algum dia a
-casa das primas Camaras, em Bemfica.</p>
-
-<p>Contou ella, exultando, o caso ao primo.</p>
-
-<p>—Bella occasião de irmos passar um dia a Cintra!—exclamou Raphael!</p>
-
-<p>Ficaram pactuadas as delicias de Cintra.</p>
-
-<p>Nicoláo despediu-se á tarde da esposa, e foi, senão mentiu, para
-Santarem.</p>
-
-<p>Ao alvorecer toda risos a manhã do outro dia, Beatriz saiu fóra da
-barreira, que lhe ficava á porta, entrou na carruagem de Raphael; e
-elles ahi vão á competencia com o jubilo dos passarinhos, estrada fóra.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_197">[Pg 197]</span></p>
-
-<p>Chegaram a Cintra. Parou a carruagem á porta do <i>Victor</i>. Raphael
-apeiou-se, foi dentro procurar um quarto alegre e espaçoso com vistas
-sobre os arvoredos das quintas subjacentes.</p>
-
-<p>Dizia um criado que os quartos principaes estavam tomados; e apenas
-dispunha de um sem janella, mas limpo como todos.</p>
-
-<p>Objectou o morgado que vinha com elle uma senhora, e em tal caso iria
-buscar hospedagem n’outra parte.</p>
-
-<p>N’isto, abriu-se uma porta de um quarto proximo, e saiu á sala de
-entrada Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>—Por aqui, primo Garção?!—disse o de Vidago sem sombra de
-mal-querença.</p>
-
-<p>O choque perturbou o sangue frio de Raphael por momentos. Fez-se logo,
-porém, a reacção dos imperterritos espiritos.</p>
-
-<p>—É verdade, primo Mesquita!... Vossa excellencia aqui!... Eu julgava-o
-ha muito em Palmeira. Cinco mezes em Lisboa!</p>
-
-<p>—Aqui estou embaraçado por coisas da politica. Afinal caí n’este
-lodaçal commum. E vossê d’onde vem?</p>
-
-<p>—De Pariz. Cheguei hontem á tarde. Venho vêr Cintra e vou breve para a
-provincia.</p>
-
-<p>—Veio só?... perguntou, Nicoláo, surrindo.</p>
-
-<p>—Porque pergunta se vim só?—replicou Raphael atalhando.</p>
-
-<p>—É porque ouvi dizer ao criado que trazia uma senhora.</p>
-
-<p>—Ah!... sim... eu trago uma senhora...</p>
-
-<p>—Não se atrapalhe, homem! Quem vem de Pariz não póde deixar de trazer
-uma mulher...—tornou Mesquita com o rosto aberto e alma lavada.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_198">[Pg 198]</span></p>
-
-<p>—Mas vossê não vai casar com a Angela de Santo Aleixo?! Que destino ha
-de dar o primo á creatura que leva?</p>
-
-<p>—Hei de pensar n’isso, primo...</p>
-
-<p>—Afinal—volveu o marido de Beatriz—o visionario desistiu das nupcias
-celestiaes!...</p>
-
-<p>—Que remedio!...</p>
-
-<p>—Bem lh’o disse eu, seu rapazola!... Fica por cá hoje?</p>
-
-<p>—Provavelmente... Vossa excellencia vem com a prima Beatriz?</p>
-
-<p>—Não: vim só...—Beatriz—continuou Nicoláo com o semblante menos
-ridente—vive toda entregue aos ministerios caseiros e ao amor do filho.</p>
-
-<p>—Queira vossa excellencia fazer-lhe os meus cumprimentos, que eu parto
-ámanhã talvez, e peço me dispense de procural-os. Adeus.</p>
-
-<p>—Então já?...</p>
-
-<p>—Vou em busca de outra pousada.</p>
-
-<p>—Olhe cá! a companheira é parisiense?</p>
-
-<p>—Não primo, é de Marselha... Adeus!...</p>
-
-<p>—Ah! sim? são bellas mulheres essas...</p>
-
-<p>Raphael já estava no rocio ou patim do hotel, e Nicoláo acompanhava-o,
-dissimulando o intento de vêr a franceza.</p>
-
-<p>O morgado de Fayões transpirava de afflicto, e sentia-se estupido para
-inventar um obstaculo á desastrosa coincidencia!</p>
-
-<p>Beatriz reconhecêra a falla do marido, e tremia na mais natural e
-horrente perplexidade.</p>
-
-<p>Estava tolhida de pavor.</p>
-
-<p>Raphael parou, torcendo o bigode, e friccionando a concha da orelha
-esquerda. Parece que tinha uma idéa salvadora na orelha esquerda.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_199">[Pg 199]</span></p>
-
-<p>Chamou o cocheiro e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Desanda a carruagem, e pára á porta de outra hospedaria, que ahi está
-em cima á direita.</p>
-
-<p>—A senhora vae?—perguntou o criado.</p>
-
-<p>—Vae.</p>
-
-<p>—Maganão!—disse o Mesquita, batendo-lhe no hombro—vossê não quiz que
-eu visse a mulher!</p>
-
-<p>—Essa é boa, primo Nicoláo!... Que tem que a veja!... Eu confio
-bastante n’ella e no primo!...—respondeu jovialmente o morgado de
-Fayões.</p>
-
-<p>—Póde confiar, que eu puz ponto nos desvarios—concordou o do
-Vidago.—Agora, a minha dama é a politica.</p>
-
-<p>—Cuidado com as perfidias d’essa dama, primo! Eu antes me quero com as
-devassidões das outras.</p>
-
-<p>—É por que vossê não tem amor patrio, e está na sua época de
-desperdiçar as forças do espirito.</p>
-
-<p>—Diz bem, meu amigo, e, se me dá licença, vou dormir um pouco para
-recuperal-as. Apparece?</p>
-
-<p>—Não sei se poderei: espero aqui uns politicos que vem de Lisboa.</p>
-
-<p>—Pois então divirtam-se: e até á vista, primo Nicoláo.</p>
-
-<p>Beatriz não quizera apeiar, sem entender a estranheza d’aquelle
-encontro. Sentia uns angustiosos apertões de medo, que os criados não
-compreendiam.</p>
-
-<p>Raphael entrou na carruagem, e disse:</p>
-
-<p>—Já para Lisboa!</p>
-
-<p>E contou o simples caso da apparição de Nicoláo. Beatriz aquietou-se,
-e riu, quando o primo lhe contava o comico dialogo com o marido. Mas
-o susto sobreveiu, quando Raphael conjecturou que<span class="pagenum" id="Page_200">[Pg 200]</span> Margarida, áquella
-hora, poderia revelar coisas que os perdessem.</p>
-
-<p>No entanto, Margarida Froment, que despertára no momento em que Nicoláo
-entrava no quarto, perguntou-lhe:</p>
-
-<p>—D’onde vens?</p>
-
-<p>—De encontrar aqui um parente, que chegou hontem de França.</p>
-
-<p>—Está cá?</p>
-
-<p>—Vinha procurar quarto; mas não o encontrou digno da franceza, que
-trazia comsigo.</p>
-
-<p>—Viste-a? É galante?</p>
-
-<p>—Não a vi. O rapaz tem medo que lh’a bebam os ares.</p>
-
-<p>—Então elle é velho?!</p>
-
-<p>—Tem vinte e quatro annos. Já te fallei n’elle. É o Raphael Garção.</p>
-
-<p>—Ah, disse Margarida com um sorriso indefinivel.—Esse teu primo é
-aquelle que amou tua mulher?</p>
-
-<p>—Justamente.</p>
-
-<p>—E veiu agora de Pariz?</p>
-
-<p>—Sim.</p>
-
-<p>—Ha quanto tempo estava elle em França?</p>
-
-<p>—Ha cinco ou seis mezes.</p>
-
-<p>—Cuidei que o vira ha trez em casa do Ricardo... Que figura tem? É
-um rapaz magro, de melenas escuras, bigode, e uma cicatriz na face
-esquerda?</p>
-
-<p>—Tal qual... Tu viste um homem assim?! interpellou o morgado,
-atrigando-se.</p>
-
-<p>—Vi... ha trez mezes, poucas noites antes de sair da casa do Almeida.</p>
-
-<p>—Mas é a primeira vez que me fallas d’elle!...</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_201">[Pg 201]</span></p>
-
-<p>—Não sei para que havia de fallar-te de um homem, que me não importa!</p>
-
-<p>—Mas eu disse-te que suspeitava...</p>
-
-<p>—Que suspeitavas de um primo de tua mulher que estava em França. Como
-me não disseste o nome d’elle, nem a época em que tinha ido, eu não
-podia suppôr que a visita de Ricardo era o primo de quem me fallavas...
-Que pensativo estás, Nicoláo!...</p>
-
-<p>—O que eu penso é uma horrenda coisa!... balbuciou cavamente o
-morgado, e saiu.</p>
-
-<p>—Onde vaes?! acudiu Margarida.</p>
-
-<p>—Não me sigas... espera-me, que eu tenho a cabeça perdida...</p>
-
-<p>Foi á porta da hospedaria que Raphael indicára ao cocheiro. Perguntou
-se alli não parára uma carruagem. Informaram-n’o que estivera lá um
-trem com uma senhora, obra de dez minutos; e partira de grande batida,
-assim que chegou um sujeito, e disse ao cocheiro: «Já para Lisboa.»
-Pediu os signaes da senhora: Disseram-lhe que era magrinha, branca de
-neve e tinha uma capa de casimira escarlate.</p>
-
-<p>—Maldição! rugiu o morgado com os dentes cerrados.</p>
-
-<p>Voltou ao <i>Victor</i>, e mandou pôr os cavallos á carruagem. Foi ao
-quarto de Margarida, e exclamou:</p>
-
-<p>—É horrivel o que acontece!...</p>
-
-<p>—Que é, filho?! perguntou a franceza, mais agitada que o natural.</p>
-
-<p>—Vamos para Lisboa!... Já!... Eu tenho sido atraiçoado!...</p>
-
-<p>—Por mim, santo Deus? exclamou a franceza.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_202">[Pg 202]</span></p>
-
-<p>—Não, por minha mulher.</p>
-
-<p>—Tens provas?!</p>
-
-<p>—Era ella que vinha com o infame! Era ella, e eu vou arrancar-lhe o
-coração!... e apunhalal-o a elle!</p>
-
-<p>—Reflexiona, meu anjo!—redarguiu Margarida Froment.—Tu estás
-desvairado! Pois tu viste-a?</p>
-
-<p>—Não. Fugiram. Branca, magra, e capa escarlate!... Era ella! Está
-morta, juro-te que morre hoje, se não estiver escondida nos abysmos do
-inferno!</p>
-
-<p>—Que pequena alma!—observou a franceza.—Quando assim fosse, não
-terias a coragem de Ernesto Froment?</p>
-
-<p>Nicoláo fitou-a com spasmo de furioso, e bramiu:</p>
-
-<p>—Porque me dizes tu isso?</p>
-
-<p>—Porque meu marido, como sabes, não me veiu procurar onde me tu
-trouxeste. Sei que vive feliz, e esquecido da deshonra, e de sua mulher.</p>
-
-<p>—Eu não sou Ernesto Froment! exclamou irado. Sou Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>—Egual a Ernesto Froment perante a desgraça, acrescentou Margarida.</p>
-
-<p>—Basta!</p>
-
-<p>—Falta-me dizer umas breves palavras, tornou ella. Eu não hei de ir
-andar comtigo atraz de tua mulher. Vae, e deixa-me aqui ficar. Se
-quizeres, volta, ou manda-me buscar, depois de teres concluido essa
-empreza.</p>
-
-<p>—Vem, que eu, á entrada de Bemfica, mando-te levar ao hotel. Vem,
-Margarida, se não estás apostada a tirar-me o resto da minha razão!</p>
-
-<p>—Pois sim, vamos.</p>
-
-<p>Que supplicio no trajecto d’aquellas cinco leguas,<span class="pagenum" id="Page_203">[Pg 203]</span> tão vagarosas! Que
-confrangimentos de alma, e revolutear de viboras assanhadas no peito!...</p>
-
-<p>Parou a carruagem em Bemfica, onde moravam as primas Camaras.</p>
-
-<p>Nicoláo mandou o cocheiro conduzir Margarida ao hotel, e encaminhou-se
-por uma azinhaga á quinta das primas.</p>
-
-<p>Bateu ao portão. Houve grande demora em abrirem-lhe. Chegou uma criada
-a uma janella gradeada do muro, e perguntou:</p>
-
-<p>—É vossa excellencia, senhor Mesquita?</p>
-
-<p>—Sou: a senhora D. Beatriz está cá? disse elle offegante.</p>
-
-<p>—Está sim, meu senhor.</p>
-
-<p>—Está?! reperguntou com espanto.</p>
-
-<p>—Já disse que está... Eu vou pedir a chave para abrir o portão.</p>
-
-<p>Ia grande alvoroto nos quartos das senhoras Camaras.</p>
-
-<p>Beatriz estava em convulsões; e uma das primas casada dizia-lhe:</p>
-
-<p>—Que mulher esta!... Ó tola, animo, que está tudo prevenido, criadas e
-tudo!... Tira essa capa, e cobre-te com a minha azul, que é a irmã da
-tua. É uma cautella, que tu não sabes se elle te viu...</p>
-
-<p>—Sacudam-lhe o pó do chapeu! disse outra senhora Camara, tambem casada.</p>
-
-<p>E o marido d’esta senhora accrescentou:</p>
-
-<p>—Porte-se com coragem, prima Beatriz.</p>
-
-<p>O tardio abrir-se do portão deu tempo a tudo isto.</p>
-
-<p>Quando Nicoláo avistou a escadaria do palacete, já sua mulher, entre
-as senhoras Camaras, estavam<span class="pagenum" id="Page_204">[Pg 204]</span> no patim, vozeando um alarido de alegre
-recepção ao primo Mesquita.</p>
-
-<p>O reparo que elle fez logo foi na capa, que lhe saiu azul. Ainda assim
-a cara denotava o inferno interior.</p>
-
-<p>—Não foste a Santarem?! perguntou Beatriz com jovial admiração.</p>
-
-<p>—Assim, assim!—applaudiu a meia voz uma das senhoras
-casadas.—Falla-lhe n’esse tom.</p>
-
-<p>Nicoláo subiu a escada, ainda esbofado.</p>
-
-<p>—Vieste a pé?! disse Beatriz. Que canceira é essa! Tu d’onde vens? de
-Lisboa? como ficava o menino? Viste-o, filho?</p>
-
-<p>—Muito bem! disse á puridade uma senhora Camara, a outra senhora
-Camara, ambas casadas com maridos espertos.</p>
-
-<p>O morgado sentou-se n’um banco de ferro. Era a mais inclassificavel das
-phisionomias benemeritas de um estudo phisiologico.</p>
-
-<p>—Que tens tu? volveu Beatriz. Querem vêr que te aconteceu com o
-demonio da politica alguma desgraça!</p>
-
-<p>—A que horas saiste hoje de casa? perguntou abruptamente Mesquita.</p>
-
-<p>—De manhã cedo, respondeu uma das senhoras Camaras, porque nos veiu
-pôr a pé a travêssa da prima, eram seis horas e meia.</p>
-
-<p>—Essa pergunta que significa! inquiriu Beatriz, arrugando a testa.</p>
-
-<p>—O primo está afflicto! A sua pergunta quer dizer alguma coisa!
-observou outra senhora.</p>
-
-<p>Beatriz entrou de repelão na sala, encarando-o com uma sobranceria de
-quem esmaga a affronta sob os tacões das botinhas.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_205">[Pg 205]</span></p>
-
-<p>—Entre, primo Mesquita, pediu o marido de uma das senhoras. Vossa
-excellencia está preoccupado.</p>
-
-<p>—Peço perdão! disse Nicoláo. Eu devo confessar, visto que Beatriz se
-retirou offendida, que uma gravissima suspeita me trouxe aqui.</p>
-
-<p>—Suspeita injuriosa á pobre senhora? perguntou a prima Carolina.</p>
-
-<p>—Eu suppuz que minha mulher esteve em Cintra, ha trez ou quatro horas.</p>
-
-<p>—Que horror! exclamou uma; e as outras, com as mãos no rosto,
-conclamaram:</p>
-
-<p>—Que horror! Deus de misericordia!</p>
-
-<p>—Em Cintra!?</p>
-
-<p>—Ha trez horas!?</p>
-
-<p>—Haveria olhos infames que tal vissem!</p>
-
-<p>—Quem lhe disse isso?</p>
-
-<p>—Como se ataca a honra de um anjo!</p>
-
-<p>Fallavam todas a um tempo. O proprio sujeito, que era marido, cruzou os
-braços, abanou a cabeça, e disse:</p>
-
-<p>—Que hedionda calumnia!</p>
-
-<p>—Venha pedir perdão á prima Beatriz! disse uma dama de cincoenta
-annos, que tinha ao seu lado uma filha de vinte e outra de dezoito. Vá
-pedir perdão á innocente menina! Em Cintra!? Pois ella chega aqui ás
-seis horas e meia, a pé, coitadinha, que não tinha trem, nem o achava
-áquella hora... e esteve em Cintra ha quatro horas!... Que mundo, que
-mundo!...</p>
-
-<p>Nicoláo ergueu-se, e foi pelo braço do cavalheiro a um quarto, onde
-Beatriz se refugiara com uma das senhoras.</p>
-
-<p>Estava ella com a pallida fronte apoiada na palma<span class="pagenum" id="Page_206">[Pg 206]</span> da mão, e os olhos
-no regaço, sobre a mão da sua amiga, que a confortava.</p>
-
-<p>Nicoláo acercou-se d’ella, tocou-lhe na face, e disse commovido:</p>
-
-<p>—Então, filha!... perdoas-me?</p>
-
-<p>—Não quero saber o que hei de perdoar-lhe, respondeu Beatriz com
-severidade.</p>
-
-<p>—Perdoa, perdoa—disse uma senhora Camara, que não averiguamos se era
-casada—perdoa, porque as desconfianças são a prova do amor.</p>
-
-<p>Eram seis horas da tarde. Ia o jantar para a meza. Nicoláo pediu
-desculpa de não poder assistir. Foi para Lisboa, e ficou de mandar á
-noite a carruagem buscar sua mulher.</p>
-
-<p>Entrou de boa cara no <i>hotel de Italia</i>, e disse a Margarida.</p>
-
-<p>—Sou um asneirão! Beatriz estava desde as seis horas e meia da manhã
-em casa das primas Camaras! Pobre mulher!</p>
-
-<p>—E pobres homens...—ajuntou Margarida com um sorriso perverso—pobres
-homens os ciosos como tu!...</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_207">[Pg 207]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XX">XX</h2>
-</div>
-
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> papel, que Beatriz representava com as comediantes Camaras, não
-ajustava ao seu caracter. A senhora, obrigada a valer-se das primas, e
-a promover o escarnecerem-lhe o pae do seu filho, sentia-se humilhada,
-e ridicula, em seu marido, rebaixado á condição dos Sganarellos e
-Dandins de Molière.</p>
-
-<p>As senhoras Camaras, até á hora em que Beatriz lhes appareceu, exorando
-que a defendessem de alguma suspeita de seu marido, consideravam-n’a
-esposa immaculada, e abstinham-se de conversarem licenciosamente deante
-d’ella. Beatriz, ao arrancar de repente a mascara, não sentiu a dôr
-do impuxão; mas depois, quando ouviu as chacotas allusivas ao marido
-enganado, teve vergonha, e condoeu-se d’elle.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_208">[Pg 208]</span></p>
-
-<p>Figurava, para desopprimir-se, as perfidias do esposo, a ida para
-Cintra com a franceza, o desapêgo d’alma com que a tratava, e o ar
-ameaçador com que, por mero orgulho, lhe prescrevia os deveres. Isto
-podia muito com ella; mas não a rehabilitava aos olhos das senhoras,
-que, desde aquella hora, na ausencia do marido de uma, a fizera
-confidente de passagens mais ou menos analogas, e algumas peores de
-devassidão e escarneo marital.</p>
-
-<p>Beatriz saiu á noite, anojada d’ellas e de si. O marido não estava em
-casa, nem lá tinha ido averiguar dos criados. Os criados de Mesquita
-vendiam o seu silencio a Raphael Garção, e lastimar-se-iam na hora
-em que se rompessem as ligações da fidalga com o mais generoso dos
-mortaes, que elles haviam conhecido, relacionado com suas amas.</p>
-
-<p>Escreveu no mesmo ponto Beatriz ao primo, relatando o successo de
-Bemfica, salvos os relanços irrisorios. Raphael deu louvores á sua
-estrella, e disse comsigo: «É necessario acabar com isto, antes que
-estalle borrasca! Não desprezemos este aviso!»</p>
-
-<p>Beatriz, porém, afervorava-se mais em ternura desde que presagiára
-algum desastre. Lembrou-se que Nicoláo, com as provas da deslealdade
-d’ella, era homem talvez para matal-a, ou repellil-a com desprezo.
-O pae, o severo Martinho Xavier, aferrolhal-a-ia n’um convento, ou
-vingaria o marido, n’um rapto de furioso odio. Beatriz precisava contar
-com o refugio e amparo do homem amante, corajoso, rico, e affrontador
-de todos os respeitos sociaes por amor d’ella. Faltava-lhe animo e
-impudor, digamol-o assim, para prevenir Raphael no sentido<span class="pagenum" id="Page_209">[Pg 209]</span> dos seus
-presagios. O bizarro moço acudiu ás balbuciações da prima, anhelando a
-hora em que ella se despenhasse dos respeitos vãos do mundo aos braços
-defensores do esposo de sua alma. Alentou-se o espirito da senhora.
-Achou-se mais destemida, e mais segura na rampa da sua perdição.</p>
-
-<p>Escreveu o morgado da Palmeira ao sogro, e dizia-lhe n’um
-post-scriptum: «Aqui vi Raphael, que chegou de Pariz. Leva uma
-franceza. Doido até á morte!»</p>
-
-<p>Martinho Xavier respondeu:</p>
-
-<p>«No tocante a Raphael Garção ouso pedir á tua bondade que me não falles
-mais. Eu fallei muito a respeito d’este homem. Hoje a ti peço, aos mais
-ordeno que me não fallem n’elle.»</p>
-
-<p>Martinho Xavier, velho amigo do governador civil de Lisboa, sabia,
-mediante as faceis pesquisas policiaes, onde morava Raphael em Lisboa.
-Concluiu muito mais além do que a alçada da policia devassou, e
-calou-se para não ir elle hastear o patibulo da deshonra da filha.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita ponderou em nada as palavras do sogro.</p>
-
-<p>Revieram dias serenos, serenos de sobejo para a lethargia de Raphael.
-Sensação nova para elle! até saudades dos paes o inquietavam!
-Parecia-lhe que na provincia havia de amar mais poeta, e mais
-intensamente sua prima.</p>
-
-<p>Este constrangimento adoentou-o sem artificio. Beatriz deu tento de
-sua tristeza, e considerou-se desamada. Chorou e fez-se aborrecida. A
-mulher, nas condições de Beatriz, nada vence com lagrimas, e ás vezes
-dissolve com ellas os filamentos que a prendem á estima que se desfaz.
-Raphael<span class="pagenum" id="Page_210">[Pg 210]</span> queixou-se amargamente da injustiça e da ingratidão.</p>
-
-<p>—Avalias mal, disse elle, um homem dos meus annos, e com o meu
-temperamento, que está, ha sete mezes, privado da liberdade, e até de
-ar, no centro de Lisboa, rodeado de prazeres, attraido pelas diversões
-de que amante nenhum se abstém.</p>
-
-<p>—Eu cuidei que eras assim feliz!... atalhou ella seccando as lagrimas
-ao incendio do subito arrependimento.</p>
-
-<p>—Feliz... de certo fui e sou; mas custa-me que tu chores, quando eu me
-queixo que não posso com esta vida... Tens tu força de mover teu marido
-a ir para a provincia?</p>
-
-<p>—Eu não tenho força nenhuma, primo...</p>
-
-<p>—Experimenta, Beatriz: diz-lhe que estás doente: póde ser que elle te
-deixe ir para Palmeira. Se elle quizer ficar com a franceza, que te faz
-isso?</p>
-
-<p>—A mim que me ha de fazer?!... Pois sim, eu lhe pedirei que me deixe
-ir para Palmeira... E perdoa-me, disse ella, enternecedora, perdoa-me,
-Raphael, que bem conheço que estás doente, e aborrecido como eu de
-Lisboa. Quem me dera nas minhas arvores, e á margem do meu Tamega!...
-Amei-te com tanto coração n’aquelles sitios!... Tenho saudades da gruta
-em que eu ia buscar as tuas cartas e levar as minhas! Conheço todas as
-plantas d’onde tu colheste uma flôr, que deixavas cair entre as murtas
-para eu a murchar ao calor do meu seio. Tambem te lembras?</p>
-
-<p>—De tudo, minha filha!...—disse Raphael commovido.—De tudo me lembro
-em que teus olhos pousaram um instante. Voltaremos nós áquelle<span class="pagenum" id="Page_211">[Pg 211]</span> ceu?...
-Vêr-nos-ha uma d’aquellas noites estrelladas da nossa terra?</p>
-
-<p>Estavam mais liricos que o seu costume. O morgado de Fayões era
-alma pouco puxada á fieira do idillio. As estrellas distraiam-n’o
-mediocremente, e a lua incommodava-o com demasias de luz, nas suas
-escaramuças nocturnas á pacifica honestidade dos infelizes, como o
-pharmaceutico, e o coronel, e outros de lacrimavel memoria. No tocante
-a Beatriz, até áquella hora, minguára-lhe tempo aos devaneios pelo
-azul dos céus da sua terra e canteiros do seu jardim. Nos romances,
-que lêra, se alguns amantes se detinham em palestras concernentes ás
-estrellas, e sombras de platanos, admirava-se ella da impertinencia dos
-authores, que tão pouco, em certas conjuncções, conheciam o coração
-de duas pessoas apaixonadas, ardentes, novas, doidas, escondidas uma
-n’outra como dois anjos, que não entendem o mundo.</p>
-
-<p>Desde este dia, ou noite, Beatriz ficou pensando sempre em voltar
-á aldeia. Tambem ella esperava que o seu Raphael centuplicasse os
-carinhos, além, n’aquelles convidativos bosques, onde parece que o
-coração se dilata, e enche do amor dos mil amores que a natureza espira.</p>
-
-<p>Pediu ao marido que a levasse a Palmeira, se elle queria passar o verão
-em Lisboa.</p>
-
-<p>Nicoláo respondeu que não podia ir, nem viver sem ella.</p>
-
-<p>—E se te eu disser que me sinto deperecer, e brevemente morrerei em
-Lisboa?—replicou ella.</p>
-
-<p>—Não morrerás, menina. Pelo contrario, a vida da aldeia ser-te-ia hoje
-um incessante fastio.</p>
-
-<p>—Como quizeres, primo...—tornou Beatriz<span class="pagenum" id="Page_212">[Pg 212]</span> com despeito.—Ainda assim,
-has de consentir que eu, se me sentir peior, escreva a meu pae,
-pedindo-lhe que me venha buscar. Tenho um filho, e quero viver para meu
-filho.</p>
-
-<p>—Pois vive em Lisboa, priminha, que estes ares são purissimos, se me
-não engano.</p>
-
-<p>—Tu nunca te enganas, meu primo—retorquiu, surrindo amargamente;—mas
-tambem não enganas ninguem.</p>
-
-<p>—Explica-te!</p>
-
-<p>—Mais tarde...</p>
-
-<p>—Porque não ha de ser já?!</p>
-
-<p>—Porque ainda se não gastou a paciencia... Não me faças mais
-perguntas, visto que eu tenho a delicadeza de te não responder. Se um
-dia me queixar, não ha de ser de ti.</p>
-
-<p>Nicoláo recolheu a colera e a interrogação imprudente. Compreendeu que
-Beatriz lhe conhecia deslealdade; e, do aprumo glacial com que ella o
-invectivou, tambem inferiu que não era amado.</p>
-
-<p>Resignou-se, e protestou acautelar-se, visto que ainda era tempo. As
-cautelas consistiram em sondar e precatar a fidelidade dos criados. Ia
-bem n’aquelle rumo!</p>
-
-<p>Passados dias, voltou Beatriz a pedir-lhe que a levasse para Palmeira.
-Nicoláo respondeu:</p>
-
-<p>—Póde ser na semana que vem.</p>
-
-<p>Escreveu a um amigo de Chaves, perguntando-lhe se Raphael Garção tinha
-casado com a Angela de Santo Aleixo. Disseram-lhe que Angela havia
-casado, quatro mezes antes, com o morgado das Boticas, e que o morgado
-de Fayões ninguem sabia d’elle, porque não escrevia a ninguem.</p>
-
-<p>—Então que é isto?—perguntava Nicoláo á sua<span class="pagenum" id="Page_213">[Pg 213]</span> razão esclarecida.—O
-homem disse-me em Cintra que ia para casa, e ninguem sabe d’elle!...
-Não negou que ia casar com Angela, e Angela estava casada!... Mas, se
-elle estivesse em Lisboa, e Beatriz o soubesse, seria um contra-senso
-querer ella ir para a provincia! Isto não falha aos dictames de uma
-razão escorreita! Já sei o que é: o doido escondeu-se por aqui, ou
-no Porto, ou na provincia com a franceza. É o que é. Martinho Xavier
-sabe-o, e, irado contra esse escandalo, prohibe que lhe fallem n’elle.
-Minha mulher é estranha a tudo isto. Vejo-a doente, e receio que ella
-se queixe ao pae. Sabe a minha vida misteriosa, e, se eu a contrario,
-é capaz de me denunciar. Martinho Xavier vem a Lisboa, e toma conta
-da filha. Remediemos as eventualidades. Vou para Palmeira com minha
-mulher, e preparo residencia á franceza na minha quinta de Ribeira
-d’Oura. No inverno seguinte, deixo Beatriz em Chaves com o pae, e volto
-a Lisboa com Margarida.</p>
-
-<p>Beatriz recebeu a nova da partida. Avisou Raphael, que antecedeu oito
-dias a jornada, entrando outra vez em Hespanha. A mobilia da casa de
-Andaluz foi vendida em globo, em nome do seu criado. O desabafado moço
-cuidou que saia de Lisboa com um pulmão desfeito, e o outro atacado de
-tuberculos.</p>
-
-<p>Entrou Raphael Garção em Chaves, com dois caixotes de encommendas de
-Pariz, mandadas comprar no Chiado. Andou entregando os objectos ás
-primas, com as quaes fallava difficilmente o portuguez. As senhoras
-achavam-n’o assim mais interessante. As donzellas gostavam de ser
-chamadas <i lang="fr" xml:lang="fr">mamasélles</i> e <i lang="fr" xml:lang="fr">chères cousines</i>, pronuncia que
-feria os<span class="pagenum" id="Page_214">[Pg 214]</span> ouvidos lusitanissimos das velhas. De Chaves foi para Fayões,
-onde se espantou de não encontrar cincoenta e tantas cartas, que havia
-escripto a seus paes, de differentes cidades do mundo. Os velhos
-choravam abraçados n’elle, como se o filho, por milagre de Jesus,
-quebrasse a campa. Julgavam-n’o como morto, não obstante Ricardo de
-Almeida, compadecido d’elles, lhes haver asseverado, de mez a mez, que
-Raphael Garção vivia. O morgado queixou-se acremente da inconstancia
-da prima de Santo Aleixo, e protestou casar-se por vindicta com a mais
-rica herdeira.</p>
-
-<p>Passados dias, foi visitar Ricardo ao castello de Aguiar. Viu Laura,
-a pomba do ceu, que depuzera o ramo de oliveira no coração do amante
-de Margarida. Inclinou-se com ingenuo respeito deante da mulher, que
-o recebia com um surriso de estima. Sabia ella quanto seu esposo
-devia a Raphael Garção, perdido no conceito publico, e ao mesmo tempo
-bajulado dos paes, querido das mulheres, e invejado dos homens. Ricardo
-pintára-lhe vantajosamente o caracter de Raphael, omittindo o desdouro
-dos seus amores adulteros. Laura uma vez lhe revelára a esperança
-de vêr uma das suas irmãs casadas com o morgado de Fayões. Ricardo
-singelamente lhe disse:</p>
-
-<p>—Não penses em tal. Raphael ha de morrer solteiro, porque ha de morrer
-novo.</p>
-
-<p>Regosijou-se a dama brazileira de vêr Raphael com saudavel exterior,
-e uns vislumbres de espirito fatigado de correr mundo á procura
-das aventuras vãs e estragadoras do coração. Julgava ella que as
-leviandades do fidalgo eram amar sem destino, gastar o sentimento em
-affectos inconsequentes, e com mulheres devastadas pelas paixões,
-falsas paixões<span class="pagenum" id="Page_215">[Pg 215]</span> que desluzem as illusões candidas da alma, como as
-côres postiças corroem a natural purpura do rosto.</p>
-
-<p>Largas horas praticaram os dois amigos em passeios na serra, por onde
-Raphael tragava saude, e renovava o sangue. Fallava de Beatriz com
-saudade, por que a distancia lh’a aureolava com o resplendor de outros
-tempos. Revelava os seus intentos a Ricardo, que, sem fortalecer o
-discurso com axiomas, lhe pedia que rompesse uma alliança, promettedora
-de cortar-se mais tarde com mais doloroso golpe.</p>
-
-<p>—E cuidas tu que Beatriz não morre, deixando-a agora eu?—dizia entre
-piedoso e fatuo o de Fayões.</p>
-
-<p>—Cuido que não morreria, primo Raphael. Merecia a pena experimentares
-quinze dias.</p>
-
-<p>—Fez-te barbaro a felicidade, Ricardo!... Assim, queres tu que eu faça
-uma fria e selvagem experiencia na vida da mulher que me ama, e que tem
-posto a risco a honra e a vida por amor de mim?</p>
-
-<p>—Não, primo... O que eu queria era induzir-te a salvar-lhe a honra,
-que a vida não tem marido que lh’a tire.</p>
-
-<p>—E, depois,—redarguiu Raphael, que querias tu fazer de mim?</p>
-
-<p>—O mesmo que tu indirectamente fizeste do teu primo Ricardo.</p>
-
-<p>—Levar-me ao casamento?</p>
-
-<p>—Levar-te á honra, e a honra depois que te inspirasse, meu amigo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_216">[Pg 216]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_217">[Pg 217]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XXI">XXI</h2>
-</div>
-
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Chegaram</span> os fidalgos ao Vidago. Beatriz entrou contente na enorme gruta
-de arvores seculares, que emboscavam a casa de Palmeira.</p>
-
-<p>Quinze dias depois, Margarida Froment, com o seu mordomo e criadas,
-aposentavam-se na quinta da Ribeira d’Oura. Nos arredores corria que
-esta dama, com suas aias, e mordomo, vestidos á bizarra, era uma
-illustre estrangeira, que viajava, e parára alli, embellesada nos
-encantos do sitio.</p>
-
-<p>Martinho Xavier não visitou a filha, e, respondendo ao genro, que
-lhe annunciava a chegada, nem promettia ir vel-o, por estorvo de
-enfermidades, nem o convidava a ir a Chaves. Nicoláo de Mesquita
-azedou-se da indelicadeza, e disse á mulher que o pae era uma creatura
-intractavel.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_218">[Pg 218]</span></p>
-
-<p>Informou-se o morgado do viver de Raphael. Colheu que vivia muito
-no Pontido com Ricardo, e com os amores começados de uma cunhada de
-Ricardo, dotada com duzentos e cincoenta mil cruzados. Varreram-se-lhe
-as suspeitas do pensamento. Foi á Ribeira d’Oura; deteve-se oito dias,
-e voltou forçado pelas conveniencias, e já não pelo ciume.</p>
-
-<p>N’este espaço de tempo, Raphael Garção passou trez dias no palacete
-de Palmeira, e revistou com Beatriz, nas cálidas horas das noites de
-julho, os maciços das murtas, os alegretes das flores almejadas em
-Lisboa, os arvoredos cerrados, as margens do Tamega rumoroso. Noites
-lindas, scismadoras como as do tempo ido, mas que differentes ao
-espirito de Raphael! Poesia espontanea, essa fenecêra como as flores de
-então. A poesia de agora, tirada á força da fantasia, era toda arte de
-coração fatigado. Beatriz é que era sinceramente ditosa.</p>
-
-<p>Raphael estava alli e pensava em Amelia, irmã de Laura, trigueira como
-sua irmã, olhos mais ardentes, espiritos mais scintillantes, cheia de
-graça na conversação, e de meigas puerilidades no seu amor.</p>
-
-<p>Acontecia, porém, que o pae de Amelia desconfiava do caracter de
-Raphael. Repugnava-lhe o tom galhofeiro do primo de Ricardo de Almeida.
-Achava-o mundano de mais; bom para as salas; verde de mais para a vida
-intima. Não obstante, ligeiramente contradizia a propensão da filha.</p>
-
-<p>Raphael não podia romper de vez o enlace com Beatriz; promettia, porém,
-ser forte e honrado, assim que o casamento se tratasse.</p>
-
-<p>Aqui o temos, pois, transtornado, e seduzido pelo exemplo da felicidade
-do primo. As differenças de<span class="pagenum" id="Page_219">[Pg 219]</span> genio, que mezes antes observára elle,
-entre si e Ricardo, tornaram em identidade de aspirações. Dizia-lhe
-o castellão de Aguiar que principiasse a sua reforma, renunciando ás
-abominaveis intelligencias com a esposa de Nicoláo de Mesquita. Raphael
-mentiu, protestou despedir-se d’ella cavalheiramente, recolheu-se a
-Fayões; e assim que houve nova da segunda ida de Nicoláo á quinta da
-Ribeira d’Oura, voltou para Vidago.</p>
-
-<p>Martinho Xavier sabia os passos do genro, e os do sobrinho. Ao genro
-perdoára; ao sobrinho não pudera. Um dia, chamou dois valentes filhos
-de um caseiro das suas terras de Barrozo. Deu a cada um seu bacamarte;
-e, ao cerrar da noite, ordenou-lhes que o esperassem fóra de Chaves,
-com um cavallo á redea. No sellim iam afivelados coldres de pistolas de
-alcance.</p>
-
-<p>Á meia noite, haviam caminhado quatro leguas. A casa acastellada de
-Fayões negrejava como um morro de fragas, a um oitavo de legua distante.</p>
-
-<p>Martinho parou e disse:</p>
-
-<p>—Á uma hora devem aqui passar dois homens a cavallo. Se o que vier á
-rectaguarda fizer algum movimento com armas, atirem a matar. Ao que
-vier na frente não lhe ponham mão. Se acontecer matar o criado, fujam,
-e esperem-me além Tamega. Eu lá irei ter.</p>
-
-<p>Antes da hora marcada aos criados, que se embrenharam n’uma bouça,
-ouviu-se perto o strupido de cavallos no declive pedregoso da calçada.
-A estrada achanava-se ao cimo da ladeira.</p>
-
-<p>Raphael Garção viu ante si um cavalleiro, quedo e immovel como estatua.</p>
-
-<p>—Quem é?—perguntou engatilhando uma pistola.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_220">[Pg 220]</span></p>
-
-<p>—Sou Martinho Xavier, pae de Beatriz.</p>
-
-<p>—Meu tio!—exclamou Raphael, abaixando o braço da pistola.</p>
-
-<p>—Arreda lá com o parentesco, infame villão!—bradou o velho.—Vae
-perguntar a tua mãe que lacaio te deu o sangue plebeu que te gira nas
-veias!</p>
-
-<p>—Essa affronta não fere minha mãe, senhor Xavier! respondeu o de
-Fayões erguido nos estribos.</p>
-
-<p>O criado de Raphael, seu companheiro e guarda desde os quinze annos,
-esporeou o cavallo com um bacamarte em punho.</p>
-
-<p>—Alto ahi!—ordenou Raphael ao seu valente criado.</p>
-
-<p>O homem susteve o impeto do cavallo, e recebeu no mesmo ponto, duas
-balas em cheio peito. Oscilou sobre a sella, inclinou a cabeça ao
-pescoço do empinado cavallo, e, destribado caiu morto em terra.</p>
-
-<p>—É uma espera de assassinos?—exclamou Raphael, abocando a pistola ao
-peito do tio.</p>
-
-<p>—Como quizeres, canalha! Vaes agora morrer tu, ás mãos de um velho,
-que deshonraste. Desfecha, corôa a tua vida com o homicidio! Mata quem
-te vae varar esse perverso coração!... O pae de Beatriz deve morrer ás
-tuas mãos!</p>
-
-<p>Raphael abaixou a arma apontada, e disse:</p>
-
-<p>—Atire! aqui me tem mais perto!...</p>
-
-<p>E impelliu a trancos o cavallo para a frente, e quasi ao alcance do
-braço de Martinho.</p>
-
-<p>O velho retirou o dedo convulso, que premia o gatilho.</p>
-
-<p>—Antes quer que os seus criados me assassinem?—exclamou
-Raphael.—Pois então que atirem elles!<span class="pagenum" id="Page_221">[Pg 221]</span> Um homem innocente está alli
-morto no chão; matem agora o criminoso; desculpem-se de uma barbaridade
-com um acto de justiça. Salvem a honra de seu amo, que o sangue do meu
-criado não lhe póde lavar as nodoas!</p>
-
-<p>Martinho Xavier fraquejara. Aquelle silencio era uma estrangulação que
-lhe afogava na garganta a voz. Contara comsigo para uma desaffronta,
-que, nas cogitações do seu quarto, lhe parecêra heroica. A presença do
-cadaver, e o animo frio de Raphael conturbaram-n’o.</p>
-
-<p>—A deshonra de minha filha!...—balbuciou elle. E as lagrimas
-romperam-lhe em torrentes, e a pistola caiu-lhe da mão.—A minha
-amada filha... prostituida... por um sobrinho de seu pae... pelo
-companheiro da sua infancia, que eu tinha em meus braços, quando
-ambos se beijavam... E pudeste, Raphael, tu, pudeste perdel-a, quando
-devias guardar a dignidade dos teus, respeitar a esposa de um amigo,
-a filha de um velho, que te estremecêra como pae... Tu, filho de uma
-irmã de minha mulher!... Maldito sejas!... Deus não quer que eu possa
-castigar-te... Divina Providencia, eu vos entrego este criminoso!...
-Castigae-o vós!</p>
-
-<p>Martinho Xavier desandou o cavallo, e partiu vagarosamente. Carecia de
-forças, para accelerar a carreira.</p>
-
-<p>Raphael desmontou, ergueu pelos hombros o criado, quiz acostal-o á riba
-da estrada; mas o corpo inerte resvalava com a cabeça pendida, e os
-braços desarticulados. O collete e a camisa fumegavam ainda queimados
-pelas buchas dos bacamartes. O morgado tirou as mãos ensanguentadas; e
-desistiu de esperar signal de vida.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_222">[Pg 222]</span></p>
-
-<p>Voltou a Fayões a chamar criados com uma maca de carregar.
-Transportou-o a casa, e não deixou que fosse avisada a justiça.
-Amortalhou-o e depositou-o na capella do palacete. Foi suffragado com a
-decencia das pessoas da sua familia, e distinctamente sepultado ao pé
-do jazigo dos Cogominhos Garções.</p>
-
-<p>Quinze dias depois d’este successo, Martinho Xavier enfermou
-gravemente, e prohibiu que Beatriz fosse avisada. Sem embargo, chegou
-a Palmeira a nova da perigosa doença do fidalgo. Nicoláo de Mesquita,
-sopesando o despeito, foi com a esposa e o filho a Chaves.</p>
-
-<p>Era irrecusavel o accesso ao quarto do enfermo. Sentou-se com
-transporte de ira o velho, quando viu a filha. Contemplou-a com os
-olhos arraiados, e acovados nas orbitas azues. Apontou-a com o braço
-tremente e murmurou:</p>
-
-<p>—O crime!... a lividez patibular do crime!... A maceração da
-consciencia no rosto que foi tão bello!... Vae-te, amaldiçoada!... Olha
-que pesa sobre ti uma vida innocente, que eu fiz matar!</p>
-
-<p>Nicoláo, que se detivera consultando os medicos, acudiu aos brados
-roucos de Martinho, e viu sua mulher ajoelhada aos pés do leito, e
-lavada em lagrimas.</p>
-
-<p>Assim que o intreviu no reposteiro, o velho carregou a fronte, e bradou:</p>
-
-<p>—Quem te chamou aqui, devasso? Vae para as vergonhosas delicias da
-mulher, que achaste mais digna quando era mais perdida. Vae cumprir
-a tua expiação, e não venhas ser testemunha da minha. Dei-te essa
-desgraçada, que ahi está, cuidando que a guardarias no santuario de um
-amor digno. Não<span class="pagenum" id="Page_223">[Pg 223]</span> podeste, porque vinhas do crime sordido, havias de
-voltar ao mesmo abysmo, e arrastal-a comtigo! Vão-se ambos da minha
-presença, e... despedacem-se!</p>
-
-<p>Nicoláo estava corrido na presença das pessoas que o acompanharam ao
-quarto. Retrocedeu taciturno, perguntando aos medicos se seu sogro
-estava doudo. Os medicos, suspeitosos da justa supposição do morgado,
-entraram ao quarto a examinar-lhe os olhos e os movimentos. Martinho
-compreendeu-os, e disse placidamente:</p>
-
-<p>—Eu não estou doudo, meus amigos. Escusam de examinar-me. Se vêm
-lagrimas, são de desgraça, e não de demencia. Peço-lhes o favor de me
-deixarem repousar... E, se ahi está alguma senhora, queiram pedir-lhe
-que venha transportar d’ahi essa creatura.</p>
-
-<p>E apontou para Beatriz, que desfallecêra.</p>
-
-<p>Levada nos braços de duas damas, a filha de Martinho Xavier cobrou o
-alento, e, expediu, com vibrantes gritos, repetidos golfos de sangue.
-O marido sentou-se ao lado do leito onde a depuzeram, e encarou-a com
-feroz catadura. É que das palavras de Martinho se convencêra que a
-filha fôra accusar a ligação com Margarida Froment. Como os deixassem
-breve tempo sósinhos, o marido acurvou-se ao ouvido da esposa, e
-disse-lhe:</p>
-
-<p>—Que esperavas lucrar tu com a denuncia, desgraçada?</p>
-
-<p>—Qual denuncia, miseravel?—perguntou ella, erguendo-se de salto.</p>
-
-<p>—Falla baixo! e responde: que lucraste?...</p>
-
-<p>—Sae dos meus olhos, que te detesto!—exclamou Beatriz voltando-se de
-repellão.</p>
-
-<p>Replicou Nicoláo com uma convulsão de riso sarcastico,<span class="pagenum" id="Page_224">[Pg 224]</span> e saiu da
-alcôva. Entraram senhoras a rodearem o leito de Beatriz. Encararam
-n’ella com assombro, sem ousarem interrogal-a.</p>
-
-<p>—Meu pae?—perguntou ella.</p>
-
-<p>—Está socegado.</p>
-
-<p>—Morrerá?!—tornou Beatriz muito commovida.</p>
-
-<p>—Talvez não: os doutores dizem que a molestia é moral; mas a causa
-toda a gente a ignora. Sabe-se que saiu á noite, ha quinze dias; voltou
-de madrugada; fechou-se no quarto; e adoeceu, como se vê.</p>
-
-<p>Uma das melhores amigas de Beatriz inclinou-se-lhe ao ouvido, e,
-pedindo venia ás outras, perguntou-lhe:</p>
-
-<p>—Tu sabes da morte do criado de teu primo Raphael?</p>
-
-<p>—Não—respondeu Beatriz agitada.</p>
-
-<p>—Pois mataram-n’o na mesma noite em que teu pae saiu; meus irmãos
-dizem que a doença do tio Martinho está ligada a este acontecimento.</p>
-
-<p>A senhora concentrou-se, e não respondeu nem esclareceu a tal respeito
-coisa nenhuma.</p>
-
-<p>Reinou de novo um silencio de pesames mortuarios no quarto; porém, na
-saleta proxima, alguns cavalheiros conversavam com Nicoláo.</p>
-
-<p>Dizia um d’elles.</p>
-
-<p>—Este anno tem sido fertil em casamentos. As melhores herdeiras foram
-empalmadas; mas o melhor dote, que veiu para estes sitios, entre Chaves
-e Villa Real, foi o de Ricardo de Almeida. Cem contos em moeda!</p>
-
-<p>Revelava outro:</p>
-
-<p>—Cem contos de réis a cada filha, sendo trez as que tem o tal ricaço
-de Mirandella, negreiro segundo<span class="pagenum" id="Page_225">[Pg 225]</span> dizem. Sabem vossês que uma das filhas
-vae casar... com quem imaginam?</p>
-
-<p>—Isso é sabido, acudiu outro. Casa com o Raphael Garção...</p>
-
-<p>Um estridente grito de Beatriz agitou de encontro á porta do quarto os
-cavalheiros. Nicoláo entrou com elles, e viu sua mulher debatendo-se
-freneticamente nos braços de duas senhoras. Erguia-se ella a prumo,
-estorcendo-se e inteiriçando-se em afflictivas ancias. Depois, ao
-recair, quebrada de forças nos braços amparadores, bolçava sangue, e
-recurvava as unhas sobre o peito, como se quizesse arrancar um cauterio
-do coração.</p>
-
-<p>Uma só pessoa compreendia cabalmente aquella agonia. Era o marido.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_226">[Pg 226]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_227">[Pg 227]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XXII">XXII</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_c.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Chega</span> uma hora, em que a mulher, esfacelada pelas cordas em que
-estrebuxa, quando a mão inexoravel do dever lh’as estira e reaperta,
-sente em si a desesperada ousadia de pregoar á face do proprio marido
-o seu amor maldito. Se o insulto á moral se não desprende então dos
-labios febris da energumena, é porque em todo o coração, congestionado
-de sangue peçonhento, como que se abre uma valvula por onde os pulmões
-ingerem um oxigenio purificante. Esta lufada de bom ar não tem que vêr
-com os orgãos communs das funcções respiratorias. É fluido estranho á
-sciencia de Bichat e Orfilla: chama-se <i>Esperança</i>.</p>
-
-<p>Foi a esperança que poz mordaça aos delirios de Beatriz. A presença
-do marido, em cujo rosto revia<span class="pagenum" id="Page_228">[Pg 228]</span> o escarneo rancoroso, exagitava-a
-em anciadas remettidas contra os braços que sustinham. N’uma
-intermittencia de quebranto, a filha de Martinho Xavier tirou da luz
-do seu inferno um clarão de duvida, e logo o deleite satanico da
-esperança. E surriu, e atirou com aquelle surriso á cara de Nicoláo de
-Mesquita.</p>
-
-<p>Avisaram o velho do estado afflictivo de sua filha, pessoas
-inteiramente alheias ao complicado enredo do infortunio de ambos.
-Martinho mandou dizer a Beatriz que viesse ao seu quarto. A senhora
-cobrou forças, e, descomposta de feições, abeirou-se á cama do pae.</p>
-
-<p>—Já não é tempo de evitar o espectaculo da nossa desgraça, Beatriz?
-perguntou elle.</p>
-
-<p>—É, meu pae,—disse ella.—Eu vou voluntariamente morrer n’um
-convento: mas deixem-me levar o meu filho.</p>
-
-<p>—O convento que significa? Em que se rehabilita a deshonra, fechada
-n’um convento? Responde, Beatriz!</p>
-
-<p>—Morre-se... murmurou ella.</p>
-
-<p>—Não morre... desespera-se, e redobram as forças que impellem ao
-crime. Não te chamei para te propôr convento. O que eu quero é o
-segredo da tua queda. É preciso que mintas ao mundo. Vai com teu
-marido para Palmeira. Dilacerem-se a occultas da gente, se não podem
-reciprocamente perdoar-se. A tua ignominia é ainda ignorada. Teu marido
-sabe-a?</p>
-
-<p>Beatriz fez um gesto negativo, baixando os olhos e escondendo o rosto.</p>
-
-<p>—Nem desconfia? tornou o pae.</p>
-
-<p>—Não sei... murmurou ella.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_229">[Pg 229]</span></p>
-
-<p>—Pois salva-me a mim! Emenda-te, desgraçada! Deixa-me morrer, e
-depois... depois expõe á sociedade o opprobrio de duas familias, e o
-teu filho que receba a herança!</p>
-
-<p>Beatriz ajoelhou, beijando soffregamente a mão do pae.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita entrou n’esta conjuncção, e disse tranquillamente:</p>
-
-<p>—Estás melhor, primo Martinho?</p>
-
-<p>—Creio que sim... Podeis ir para vossa casa, quando vos aprouver. Eu
-vou sahir de Chaves para uma de minhas quintas, logo que possa.</p>
-
-<p>—Observo que te impacienta a nossa... ou pelo menos a minha
-presença...—replicou Nicoláo.—A prima Beatriz, se queres, fica, e eu
-irei.</p>
-
-<p>—Vão ambos... Beatriz pertence-te.</p>
-
-<p>No dia seguinte, seguiram para Vidago.</p>
-
-<p>No trajecto de algumas leguas não trocaram palavra. Beatriz ia de
-liteira com o filho. O marido cavalgava, e adeantára-se a grande
-distancia. Depois, na encruzilhada de duas estradas, avisinhou-se rente
-com a liteira, e disse:</p>
-
-<p>—Eu vou á quinta de Valdez e demoro-me lá alguns dias.</p>
-
-<p>Apertou a mão da esposa, beijou o filho, e seguiu outra estrada.</p>
-
-<p>Beatriz exultou.</p>
-
-<p>Chegada a Palmeira, escreveu, e mandou o criado de confiança a Fayões
-com uma carta. Era a carta um grito de angustia, uma invocação á
-misericordia de Raphael.</p>
-
-<p>O criado foi de Fayões ao Valle d’Aguiar. O morgado estava em casa
-de Ricardo. Aqui recebeu a carta, e respondeu que ás onze horas
-da seguinte<span class="pagenum" id="Page_230">[Pg 230]</span> noite estaria em Palmeira. Beatriz, precavida pelas
-desconfianças do marido, mandou secretamente indagar, se elle estava
-na quinta de Valdez. Soube que d’ali, onde descançára uma hora, se
-encaminhára de noite á Ribeira d’Oura. Beatriz exultou ainda. Margarida
-Froment abonava-lhe a segurança de uma longa entrevista.</p>
-
-<p>O dia seguinte fôra tumultuoso em duas aldeias proximas do Vidago,
-entre as quaes estava situada a casa de Palmeira. Os malhadores de
-duas casas, enrixadas desde muito, haviam-se travado na vespera, ao
-encontrarem-se as respectivas esturdias ou festas de cada malhada. As
-rebecas, violas, clarinetes e bombos, de parte a parte, ficaram pedaços
-no campo da sanguinolenta briga. Os dois mais valentes jogadores de pau
-tinham mordido a poeira, deslombados pelos formidaveis manguaes, cuja
-pancada é mortal.</p>
-
-<p>Os sinos das duas freguezias tangeram a rebate, e os moradores sairam
-armados a guardarem as raias do seu territorio.</p>
-
-<p>O dia immediato era santificado, e, na capelinha do cume da serra,
-havia romagem. Esperava-se alli desordem que se avantajou á espectativa.</p>
-
-<p>As espingardas retroaram toda a tarde, na quebrada das duas serras
-sotopostas á chã da romaria. Alguns bravos tinham por lá expedido a
-alma entre as urzes dos matagaes. Os vencedores perseguiram os vencidos
-até ás raias da sua freguezia, e ahi, desde o lusco fusco, ficaram
-atalaias até alta noite.</p>
-
-<p>Raphael saira ao fim da tarde do dia anterior, caminho de Fayões.
-Amelia chorara ao despedir-se d’elle. Laura quizera demovel-o da
-partida, sem perceber<span class="pagenum" id="Page_231">[Pg 231]</span> o intento. Ricardo pedira-lhe que escrevesse a
-Beatriz, contando-lhe a morte do seu criado, o dialogo com Martinho
-Xavier e a absoluta necessidade de acabarem ou espaçarem-se os seus
-perigosos encontros.</p>
-
-<p>—Tudo lhe direi em viva voz—continuou Raphael Garção.—Não ir é
-fraqueza e desdouro, sobre ser crueza. Esta mulher, que assim escreve,
-é desgraçadissima.</p>
-
-<p>—Melhoras a situação d’ella?—replicou Ricardo.</p>
-
-<p>—Convencel-a-hei a conformar-se. E aqui te dou a minha palavra de
-honra que ámanhã terminam as nossas relações. Falla muito em mim a tua
-cunhada que eu amo deveras.</p>
-
-<p>Foi Raphael a casa no intuito de armar dois criados de provada coragem,
-e cingir ao pulso uma manilha de ouro com um retrato de Beatriz. Esta
-prenda lhe déra a prima em Lisboa. O retrato, copiado de outro, que
-Nicoláo de Mesquita lhe mandára tirar, era em marfim, admiravelmente
-perfeito. Na manilha, em cuja rosca interior estava o cabello de
-Beatriz, mandára Raphael abrir as iniciaes de ambos, e gravar a data
-d’aquella noite de embriaguez de cabeça e coração. Jurára elle morrer
-com a manilha no braço; e, bem que violasse o juramento, depondo-a
-como incommoda, e reparavel á cunhada de Ricardo, não quiz apparecer a
-Beatriz sem ella.</p>
-
-<p>Depois, com os seus dois valentes a pé, e elle cavalgado no seu garboso
-frisão, foram caminho de Palmeira, por caminhos transversaes.</p>
-
-<p>Raphael ia triste. Nunca os prantos de sua mãe o compungiram assim!
-O pae descêra ao pateo e<span class="pagenum" id="Page_232">[Pg 232]</span> dera-lhe um abraço, estando já Raphael com
-o pé no estribo. Os criados esperavam-n’o fóra da aldeia, para não
-alvoroçarem os velhos.</p>
-
-<p>Ás dez horas e meia da noite, o morgado de Fayões apeou além Tamega,
-d’onde se enxergavam alvejantes chaminés e claras-boias da casa de
-Palmeira. Raphael esperou o signal convencionado—uma luz na alta
-janella d’um mirante acastellado. Ás onze horas illuminou-se o mirante
-e elle aproximou-se, entregando o cavallo á guarda dos criados com
-ordem de voltarem na noite seguinte. Cingiu-se á fachada do edificio,
-d’onde costumava ver Beatriz n’uma janella para lhe indicar qual das
-portas estava aberta.</p>
-
-<p>—Espera!—disse-lhe ella—que ainda não pude mandar abrir a porta.
-Andam fora dois criados, por causa das desordens da romaria.</p>
-
-<p>Raphael tinha ouvido o tiroteio, de distancia de meia legua, e entendeu
-a referencia.</p>
-
-<p>Beatriz continuou:</p>
-
-<p>—Os criados estão ali para baixo com outros homens, e não podem
-tardar... A noite está linda... havemos de passear no jardim?</p>
-
-<p>—Sim, filha.</p>
-
-<p>—Amas-me ainda? tens pena da tua desgraçada Beatriz?</p>
-
-<p>—Amo-te, prima; não vejo, porém, motivo de compaixão.</p>
-
-<p>—Se tu soubesses o que eu tenho soffrido... o que eu soffri em Chaves.
-Espera!</p>
-
-<p>Ouviram grande fallario.</p>
-
-<p>—São elles que vem ahi, proseguiu ella agitada. Olha, Raphael;
-esconde-te alli ao lado da casa... Está lá um aqueducto aberto; entra
-para dentro, e<span class="pagenum" id="Page_233">[Pg 233]</span> deixa-os passar. Logo que os dois criados, em que não
-tenho confiança, entrarem, vou eu mesma abrir-te a porta do jardim. Tem
-paciencia...</p>
-
-<p>—Sim, filha!... eu espero que elles passem, e aproveito a frescura do
-aqueducto, disse surrindo Raphael; e, acostado á parede do jardim, foi
-indo até encontrar a bocca da mina.</p>
-
-<p>Os criados pararam ainda, conversando com os seus companheiros sobre a
-batalha da tarde. Dizia um d’elles:</p>
-
-<p>—O que eu tenho pena é de levar esta bala para casa na clavina!</p>
-
-<p>—Tambem eu!</p>
-
-<p>—Por hoje não ha mais que vêr! disse um terceiro. Vamos embora.</p>
-
-<p>—Querem vocês que nós dêmos a ultima descarga?</p>
-
-<p>—Valeu! clamaram todos.</p>
-
-<p>—Aqui não! disse um dos criados de Beatriz, que a fidalga toma medo.
-Vão descarregar os bacamartes ahi para diante.</p>
-
-<p>Despediram-se dos que ficaram uns quatro que seguiram, aperrando as
-armas, e polvorisando as pederneiras.</p>
-
-<p>Quando chegaram a pouca distancia da mina, em que Raphael se escondêra,
-disse um:</p>
-
-<p>—Se vocês querem vêr o que é berrar uma clavina, vamos estoiral-as
-dentro da mina. Isso faz ahi um trovão, que nem peça de artilheria.</p>
-
-<p>—Está dito.</p>
-
-<p>Raphael devêra ouvir a proposta, se a este tempo não viesse do outro
-lado uma estropeada de dois cavallos, que perpassavam deante da mina.</p>
-
-<p>Os cavalleiros, cirurgiões das cercanias, estiveram<span class="pagenum" id="Page_234">[Pg 234]</span> conversando com
-os homens armados, e contando que vinham de examinar os feridos e os
-mortos nos montados da romaria.</p>
-
-<p>A este tempo já Beatriz estava á janella, maldizendo a paragem dos
-homens n’aquelle sitio. Os cavalleiros seguiram o seu caminho, e os das
-clavinas disseram:</p>
-
-<p>—Vá! é agora! os tiros todos a um tempo!</p>
-
-<p>E desfecharam os quatro bacamartes contra a bocca da mina.</p>
-
-<p>Raphael Garção, como empurrado pelas duas balas que lhe entraram no
-peito, recuou alguns passos e caiu de bôrco, e os braços cruzados entre
-o peito e a terra.</p>
-
-<p>Os lavradores, depois da descarga, levantaram grande grita e apupada.
-D’além, dos confins da freguezia, irrompeu medonha celeuma de brados, e
-estrondear de tiros.</p>
-
-<p>Observou um dos homens:</p>
-
-<p>—Querem vocês vêr que os patifes entraram na freguezia? Carrega e
-avança, rapazes!...</p>
-
-<p>E correram em direitura ao ponto da vozearia.</p>
-
-<p>Beatriz esperou alguns minutos, dizendo entre si:</p>
-
-<p>—Elle agora já podia sair da mina, que por aqui não está ninguem!</p>
-
-<p>Esperou ainda alguns segundos... e disse á sua criada confidente, que
-estava com ella:</p>
-
-<p>—Isto que será?! Elle não apparece!... Tu que pensas?...</p>
-
-<p>—Eu não sei, fidalga! respondeu a criada. Terá medo de ser visto, por
-alguem, que nós d’aqui não enxerguemos, e o fidalgo veja lá de dentro
-da mina...</p>
-
-<p>—Ha de ser isso... mas olha... a noite está<span class="pagenum" id="Page_235">[Pg 235]</span> tão clara... e eu não
-vejo ninguem por alli!... Vamos nós lá?</p>
-
-<p>—Pois vamos, senhora... eu não tenho medo nenhum.</p>
-
-<p>—Nem eu... Estará elle já no jardim?</p>
-
-<p>Desceram de mansinho ao jardim, olharam os recantos sombrios,
-descerraram a porta, sairam ao caminho, e paráram á bocca da mina.</p>
-
-<p>—Raphael!... chamou ella, primo Raphael!... Não falla! Onde está
-elle?... Ó meu filho!...</p>
-
-<p>Ouviu um gemido no interior da mina.</p>
-
-<p>—Ouviste? perguntou Beatriz á criada, que tremia—ouviste um gemido?</p>
-
-<p>—Ouvi, fidalga!... Santo Deus, misericordia! que será?!</p>
-
-<p>—Raphael! Raphael!... clamou a brados Beatriz, e entrou mina dentro,
-chamando sempre, até tropeçar e cair sobre um corpo inerte.</p>
-
-<p>—Uma luz, uma luz!—exclamou ella.—Raphael! tu estás morto?!</p>
-
-<p>—Morto!...—balbuciou elle—Adeus!...</p>
-
-<p>E remexeu-se no vasquejar da suprema agonia.</p>
-
-<p>—Uma luz!... bradou ainda Beatriz.</p>
-
-<p>A criada corrêra a casa, e saira logo com uma vela.</p>
-
-<p>Quando entrou na mina, viu sua ama prostrada sobre o cadaver, e a face
-ensanguentada, por havel-a roçado ao cair, nas pedras esquinadas que
-saiam das paredes do aqueducto!</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_236">[Pg 236]</span></p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_237">[Pg 237]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XXIII">XXIII</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_s.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Saiu</span> a criada á bocca da mina, no desvariado intento de chamar quem
-levasse d’ali a fidalga.</p>
-
-<p>Suspendeu-a a lembrança de fazer publica a desgraça de sua ama. Voltou
-com a vela, que lhe caiu das mãos convulsas, e se apagou. Aterrada
-e cega nas trevas, invocou a Santa Virgem, e pediu logo perdão da
-parte intermediaria que lhe fizeram tomar, desde Lisboa, n’estes
-desventurados amores; tinha sido ama do menino esta criada, que se
-affeiçoara, como usam affeiçoar-se estas mulheres a suas senhoras. Não
-obstante, em conflicto de tanta angustia, a sua idéa, quando se viu no
-escuro, foi fugir da terra, e mudar para outra onde a não conhecessem.
-N’esta perplexidade, ouvia gemer sua ama, e proferir expressões n’uma
-toada medonha.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_238">[Pg 238]</span></p>
-
-<p>Avisinhou-se ás apalpadelas, e tirou por ella de sobre o cadaver;
-mas os braços de Beatriz estavam empedernidos ás ilhargas do morto.
-Chamou-a, agitou-a, sacudiu-lhe a face: baldaram-se vozes e esforços.
-Cresceu o terror da mulher: decidiu-se pela fuga, sem já dar tento, nem
-importar-se da crueldade e desamor do acto. Foi ao seu quarto, embolçou
-os valores que tinha; e, tirante esta ultima prova de bom senso, no
-mais parecia doida a correr por aquella estrada fóra sem destino.</p>
-
-<p>Por volta de uma hora da manhã, Beatriz espertou da lethargia, e
-sacudiu os membros para espancar a visão horrenda, o sonho de se estar
-abraçada no cadaver do amante. A visão teimava em atirar-lhe ao seio o
-corpo glacial de um morto, e ella esfregava as palpebras, e arrefecia
-as mãos na testa.</p>
-
-<p>—Que horror de sonho!...—exclamava suffocada—e, apalpando as costas
-de Raphael, continuava a dizer em sua alma:—Parece que o sinto debaixo
-das mãos!... Que horror, Virgem Santissima!...</p>
-
-<p>Bracejou, e deu com os braços nas paredes humidas da mina. Então é que
-foi o supplicio indescriptivel do completo despertar. Ergueu-se de
-salto. Vibrou um agudissimo grito. Rojou-se ao longo do cadaver com
-frenetica ternura. Beijou-lhe o perfil do rosto: levantou para si a
-cabeça como hirta; apertou-a convulsamente á face d’ella; correu-lhe a
-mão pelo seio, e ensopou-a em bulhões de sangue, ainda quente. Refugiu,
-levantou-se, bateu com a face nas asperezas da saibrada angulosa de
-seixos, gritou por luz, chamou a criada, e correu ao longo da mina de
-encontro ao clarão da abertura. Quando saiu de rosto ao ar livre, e se
-viu sósinha, e não<span class="pagenum" id="Page_239">[Pg 239]</span> soube compreender que profundezas de abysmo eram
-aquellas; e que circo de chammas havia de abranger-lhe o espirito; e
-que infanda agonia se passava debaixo dos olhos do Senhor... a perdida,
-a torturada por tormentos, não sabidos de nome n’este mundo, caiu, a
-poucos passos da mina, caiu como pregada em terra pela flecha de um
-raio.</p>
-
-<p>Ás trez horas, rompia a manhã. Uns carreteiros, que passavam, ergueram
-aquella mulher, envolta n’um manto branco, ferretado de sangue.</p>
-
-<p>Reconheceram a fidalga, e chamaram a grandes brados os servos da casa.
-Acudiram todos, e levaram em braços Beatriz.</p>
-
-<p>No mesmo ponto, saiu um criado para Valdez, e outro para a Ribeira
-d’Oura a chamar Nicoláo de Mesquita. Estendeu-se uma rede de homens
-a procurarem não sabiam elles quem; viam a fidalga ensanguentada, e
-julgaram-n’a ferida. As criadas examinaram-n’a, e apenas lhe viram o
-rosto escalavrado. Vieram cirurgiões, e decidiram que os ferimentos
-visiveis, a não existirem outros, eram resultantes de uma queda com o
-rosto sobre a pedra.</p>
-
-<p>O sangue das mãos entenderam que rebentára da face, quando ella se
-apalpou.</p>
-
-<p>Beatriz abriu os olhos, na presença de muitas pessoas circumpostas ao
-leito. Despediu gritos consecutivos, sem intermissão de socego. Rasgou
-as vestes interiores, e as faces de quem lhe retinha os braços. Cessou
-de gritar, e interrogava os espavoridos circumstantes, perguntando
-quem matára Raphael Garção. Os ouvintes encaravam-se e não respondiam.
-Embravecida pelo silencio, a esposa de Nicoláo de Mesquita atirava-se
-do leito fóra, arrepelando-se, e lacerando as macerações e feridas do<span class="pagenum" id="Page_240">[Pg 240]</span>
-rosto com as unhas. Tingiu-se-lhe de um escarlate de fogo a cara e
-testa. Relumbravam-lhe os olhos. O arquejar do peito resoava como em
-paroxismos.</p>
-
-<p>A congestão cerebral declarou-se. Soccorreram-se das copiosas sangrias
-os facultativos; porém, no momento em que o intenso afogo do rosto
-parecia esfriar, Beatriz abriu os olhos, encontrou os do filho que
-chorava, sacudiu os braços com vibrações de metal electrisado, e caiu a
-um lado sobre o seio do cirurgião, que a relancetava.</p>
-
-<p>Nem um monosillabo! Nem o nome do filho! Nem o nome do amante!...</p>
-
-<p>Morrêra.</p>
-
-<p>Ao anoitecer, chegou Nicoláo de Mesquita. Já desde o alto da serra
-eminente a Palmeira ouvira o dobrar dos sinos. Tangiam as torres das
-irmandades de todas as freguezias proximas.</p>
-
-<p>Apeiou, correu ao quarto de sua mulher, e viu-a, na ante-camara,
-amortalhada, com Martinho Xavier á cabeceira do esquife.</p>
-
-<p>—Que é isto!—exclamou elle—expliquem-me esta horrenda desgraça!...</p>
-
-<p>Martinho Xavier não respondeu. Nicoláo instou pela resposta com
-gesticulação de furioso, guinando os olhos ameaçadores a todos os lados.</p>
-
-<p>Saiu ás salas, cheias de gente. Ergueu um brado, pedindo a historia da
-morte de sua mulher.</p>
-
-<p>—Ninguem sabe responder—disse uma voz.</p>
-
-<p>Acercaram-n’o os cirurgiões, e contaram o que sabiam: os criados
-depozeram lealmente o que tinham visto, e accrescentaram que a ama do
-menino desapparecera.</p>
-
-<p>—Vão buscal-a! vão prendel-a!—rebramiu Nicoláo.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_241">[Pg 241]</span></p>
-
-<p>Martinho Xavier acompanhou o cadaver da filha até ao jazigo da capella,
-depois de ter assistido aos responsorios. Saiu da capella; e, sem
-entrar a despedir-se do pae do seu neto, tomou a creancinha nos braços,
-e accelerou o trote do cavallo, caminho de Chaves.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita perguntou pelo filho. Responderam-lhe que o avô o
-levava ao collo, á saida da capella.</p>
-
-<p>Saltou furioso d’entre os cavalheiros que o rodeavam, e quiz ir na
-pista do sogro. Retiveram-n’o, lembrando-lhe que ainda estava quente o
-cadaver de Beatriz.</p>
-
-<p>No outro dia, por noite, chegaram á vista de Palmeira os criados
-de Raphael Garção com o cavallo, na fórma das ordens de seu amo.
-Esperaram-n’o a noite inteira. De manhã, repentinamente, viram-se
-cercados de regedor e cabos que os interrogavam sobre o que faziam
-parados n’aquelle sitio. Como gaguejassem, foram presos; e, timoratos
-entre ferros, declararam a que fins tinham vindo.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita ordenou que os trouxessem á sua presença.
-Atterrados pelo apparato, contaram tudo. O morgado suppoz, um momento,
-que Raphael Garção fôra o motor da morte de sua mulher ou com suas
-proprias mãos a estrangulára, e fugira para Hespanha. O boato
-correu assim, e a opinião publica deu-lhe peso. Os paes de Raphael,
-surpreendidos por esta nova, sairam caminho de Palmeira. Ricardo de
-Almeida appareceu ao mesmo tempo nos arredores de Palmeira, e defendeu
-o seu amigo com a eloquencia da verdade e da angustia, na presença de
-numeroso publico, exclamando:</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_242">[Pg 242]</span></p>
-
-<p>—O assassino de um, ou de ambos foi Nicoláo de Mesquita!</p>
-
-<p>Enganavam-se todos.</p>
-
-<p>Os paes de Raphael Garção escutavam as differentes vozes com um spasmo
-e silencio, que fazia chorar. Não sabiam dizer ao que tinham vindo;
-procuravam o seu filho! Voltaram para casa. A mãe esperou dois mezes.
-Apagada a esperança de tornar a vel-o, foi procural-o n’outros mundos.
-O velho, menos feliz que a esposa, ficou-se espantado a olhar contra o
-jazigo em que lh’a fecharam, e d’alli saiu idiota para a escuridade de
-uma camara, onde agonisou dez annos.</p>
-
-<p>Ricardo de Almeida, convicto de que seu primo Raphael tinha sido
-assassinado por ordem de Nicoláo, não podia soffrer que a voz publica
-infamasse a memoria do desgraçado, poupando o assassino. Como já não
-podia com o silencio desinfamar a honra de Beatriz, foi a Chaves, e
-contou a Martinho Xavier os pormenores dos amores de Raphael com sua
-prima, e as intenções com que elle saira de casa d’elle para Palmeira.
-O velho achou rasoavel a supposição do morgado do Pontido; mas a sua
-angustia já não tinha respiradouro. A indignidade da filha culpada e
-morta enleava-lhe os braços para a vingança. Com que direito iria elle
-vasar uma bala no peito do homem, que barbaramente se desultrajára!...
-Pediu elle a Ricardo de Almeida que se calasse para que o tempo levasse
-a lembrança da horrivel tragedia na sua onda de sangue.</p>
-
-<p>Cançaram-se os pregoeiros da desgraça. Ao fim de um mez os processos
-começados estagnaram-se, á mingua de indicios. Martinho Xavier, instado
-para restituir o neto, desappareceu com elle, e com boa<span class="pagenum" id="Page_243">[Pg 243]</span> parte dos seus
-cabedaes. O menino tinha quatro annos, n’aquella época. Seu avô dizia
-que o queria roubar ás reminiscencias do opprobrio e da morte de sua
-mãe. Refugiára-se com o seu thesouro em Londres.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita foi para a Ribeira d’Oura buscar as consolações
-de Margarida Froment. Enganara-se. O aspecto moral d’esta mulher
-figurou-se-lhe um demonio, que o escarnecia na sua ignominia, a
-ignominia de ser deshonrado, como suppunha dos boatos propalados pelo
-Almeida, no intuito de o condemnar a elle como homicida de Raphael e
-Beatriz.</p>
-
-<p>Era uma figuração meramente este reparo no escarneo de Margarida. A
-franceza ageitou as feições á magua do seu amigo: interiormente é
-que ella se deleitava atrozmente, vendo-se no juizo do mundo e de
-Nicoláo tão deshonrada como a mulher purissima, por amor de quem fôra
-abandonada á generosidade do primeiro homem que quiz acoital-a da
-vergonha de pedir ella um amante em troca de um jantar e de um vestido.</p>
-
-<p>Os exteriores da franceza eram, pois, uma chimera do morgado de
-Palmeira. O que lhe dava estas visões era a interna dilaceração, que
-todo o repouso e esperança lhe convertia em raiva e desalento. A
-publicidade da sua ignominia, aggravada com a hypothese de ter sido
-elle o assassino, afóra o perdimento do filho, ao qual a Providencia
-lhe suscitára no coração um amor incendiario, estas angustias,
-centuplicadas pela dolorosa travação de todas, fizeram da vida d’este
-homem um espectaculo aborrecido ás raras pessoas que o tratavam, e,
-mais que a todas, a Margarida Froment.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_244">[Pg 244]</span></p>
-
-<p>Assim que ella proferia uma palavra de banal consolação, Nicoláo
-enfuriava-se, e dizia que o seu vilipendio não transigia com os factos
-consummados, com a deshonra de muitos homens.</p>
-
-<p>Margarida, injuriada assim na pessoa de seu marido, abria uma das
-valvulas do seu fel—o fel que o desprezo da sociedade emborca
-violentamente na consciencia das mulheres despreziveis—e rebatia-lhe
-as injurias com aviltamentos.</p>
-
-<p>A repetição d’estes conflictos disparou na ameaça de rompimento por
-parte de Margarida. O atormentado homem, irado pela ameaça, bramiu:</p>
-
-<p>—Pois vae-te, mulher fatal! vae! que a tua expiação ainda não começou!
-Uma adultera lá está na sepultura! Eu estou aqui n’esta agonia, que tu
-vês!... Tu, maldita, ousas ainda espremer a peçonha nas minhas chagas,
-quando devias laval-as com lagrimas! Tu, por amor de quem eu deixei que
-Beatriz fosse victima da seducção! Tu, que interiormente exultas com
-o meu opprobrio, e com a queda de uma perdida na tua voragem!... Pois
-vae-te, vae, maldita, e deixa-me morrer!</p>
-
-<p>Margarida preparava os seus bahus, para ausentar-se; e Nicoláo
-lançava-se-lhe de joelhos aos pés, exclamando:</p>
-
-<p>—Não me deixes n’esta solidão! bem vês que todos fogem de mim! Não
-tenho ninguem! ninguem! até o filho me roubaram!...</p>
-
-<p>A franceza condoia-se; estendia-lhe compadecidas mãos; acolhia-o nos
-braços com ficticia ternura, e desprezava-o tanto quanto elle mais se
-envilecia.</p>
-
-<p>As maviosidades momentaneas de Nicoláo pareciam ridiculas caricias
-de velho idiota: os exasperos,<span class="pagenum" id="Page_245">[Pg 245]</span> interpollados com as caricias,
-afeiavam-n’o horrivelmente.</p>
-
-<p>Margarida pensou em fugir-lhe, receiosa de algum accesso de furia
-sanguinaria.</p>
-
-<p>Induziu-o a sair da quinta da Ribeira d’Oura para Lisboa. Nicoláo
-recebeu jovialmente o alvitre; mas d’ahi a nada, rompia em exclamações
-contra a mulher, que lhe aconselhava dar maior publicidade á sua
-deshonra.</p>
-
-<p>—Está mentecapto!—dizia entre si a franceza.—O diabo que o ature!...</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita foi ao solar de Palmeira, passados dois mezes,
-abrir as janellas e arejar o palacete que nunca mais se abrira.
-Meditava em transferir para alli a franceza, desejo que ella
-manifestára por lhe haverem dito que a casa e bosques e jardins de
-Vidago eram magnificos.</p>
-
-<p>Deteve-se a revolver as commodas e bahus de Beatriz, onde não encontrou
-papel suspeito. O mordomo fez-lhe saber que as caixas da ama ainda
-estavam fechadas no quarto, porque ninguem dava noticia da paragem que
-ella tinha.</p>
-
-<p>Nicoláo fez arrombar as caixas, e encontrou alguns massetes de cartas,
-e uma medalha de oiro com o retrato de Raphael Garção, e uma manilha
-com cabello identica áquella com que o amante de Beatriz morrêra.</p>
-
-<p>O morgado leu as cartas, sem excepção d’aquella em que Raphael alludia
-galhofeiramente ao episodio burlesco da casa das primas Camaras em
-Bemfica.</p>
-
-<p>Nicoláo sentiu o feroz impulso de ir insultar o cadaver de Beatriz ao
-jazigo, como a inquisição fazia aos monarchas. Tinha exemplo de boas
-fontes. Desistiu<span class="pagenum" id="Page_246">[Pg 246]</span> da lamentavel inepcia, e fugiu como de si mesmo para
-a Ribeira d’Oura. Quando chegou, não encontrou Margarida Froment.</p>
-
-<p>Sobre um piano viu um papel fechado, com estas breves linhas:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«Já não podemos ser senão muito desgraçados um em presença do outro. A
-mulher fatal não quer fazer mais victimas. Adeus.</p>
-
-<p class="right">
-«MARGARIDA ESPOSA DE E. FROMENT».<br />
-</p>
-</div>
-
-<p>Nicoláo, corridos trez minutos de estupefacção, exclamou:</p>
-
-<p>—Pois ha Deus que castigue assim!?</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_247">[Pg 247]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XXIV">XXIV</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_a3.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">A</span> interrogação do morgado não fez mais abalo no tribunal da Providencia
-que os insultos de Julião e as provocações de Luthero ao Homem-Deus.</p>
-
-<p>Confessou-se castigado, conheceu que expiava: a Providencia que mais
-queria do verme? Deixou-o a revolver-se nos espinhos, e voltou a face
-do guzano, que se pascia em sua podridão.</p>
-
-<p>Desde aquella hora, Nicoláo, olhando-se no baço espelho da sua
-consciencia, viu-se hediondo; e aos vidros, em que poucos dias antes se
-gosava e narcisava nos seus frescos e garbosos quarenta e quatro annos,
-via-se agora encanecendo, da noite ao dia, com rapidez de condemnado
-nas ultimas setenta horas do oratorio.</p>
-
-<p>«Eu posso ainda levantar-me d’este abatimento!—dizia<span class="pagenum" id="Page_248">[Pg 248]</span> comsigo
-elle.—Irei longe d’aqui, irei a França, a Italia, a toda a parte onde
-a riqueza inventa delicias, irei gosar, esquecer-me, viver!»</p>
-
-<p>Este desafogo acalentava-lhe o exaspero breves instantes. Lá no recesso
-da sua alma havia uma elaboração de veneno, que se lhe coava na chaga,
-assim que o linimento da esperança começava a cicatrizal-a.</p>
-
-<p>Duas vezes tivera as malas feitas para sair de Portugal: porém, á hora
-de partir, senhoreava-o a cachexia com desalento anniquilador, que o
-forçava a desistir, exclamando:</p>
-
-<p>—Onde vou eu? Em que parte do mundo se acabam os limites ao meu
-inferno?</p>
-
-<p>E então, commovia a lagrimas vel-o chorar a elle com saudades do
-filho; mas nem a consolação amarga d’estes prantos lhe era concedida!
-Sobresaltava-o a duvida de ser elle o pae d’aquella creança. Calculava
-épocas, via attentamente a data gravada na manilha de oiro, que
-encontrára na caixa da ama: agora, inferia d’aquella data provas
-concludentes da legitimidade do filho de Beatriz; logo, convencia-se da
-fallivel significancia das lettras gravadas, podendo ellas meramente
-commemorar o dia em que fôra dada a prenda. Execrava então o filho,
-emquanto a soledade e a insulação de toda a convivencia, lh’o não
-mostrava como esteio unico á vida.</p>
-
-<p>Vagando de quinta em quinta, afinal deixou-se ficar em Palmeira,
-encerrado, em pouquissimo da casa, estranho ao governo d’ella,
-inaccessivel a foreiros, a criados, a raros amigos que o procuravam.
-Um só homem conseguira entrar no quarto de Nicoláo de Mesquita: era
-o octogenario reitor, varão de<span class="pagenum" id="Page_249">[Pg 249]</span> preclaras virtudes, que adivinhara o
-essencial da angustia do fidalgo, que elle baptisara e beijara nos
-braços de sua mãe, quando assistiu ás estrondosas festas do baptisado.
-Quantos esforços fez o santo homem para o tirar á luz e ás distracções
-do campo todos se mallograram. Chamava-lhe o pensamento a coisas de
-lavoira, obras começadas, melhoramentos que fazer, a reconstrucção da
-torre de menagem meio arruinada.</p>
-
-<p>Nicoláo respondia:</p>
-
-<p>—O meu tumulo está edificado ha duzentos annos: não tenho outras obras
-que faça, padre reitor.</p>
-
-<p>Ainda receioso de impaciental-o, o ancião teimava em fallar-lhe de
-obras.</p>
-
-<p>Um dia, trez mezes depois da morte de Beatriz, dizia o clerigo:</p>
-
-<p>—Quando vi abrir-se o aqueducto da agua que vae dar ao jardim, e
-andarem lá trabalhadores, cuidei que vossa excellencia resolvera, como
-seus paes haviam tencionado, formar um grande tanque no terreiro para
-beberem os cavallos. Esteve a mina aberta uns dias, e depois, logo
-depois que sua excellencia a senhora D. Beatriz que Deus tem, falleceu,
-fechou-se o aqueducto.</p>
-
-<p>—É que eu mandei suspender todas as obras—respondeu Nicoláo—e o
-feitor mandou logo empedrar a bocca da mina.</p>
-
-<p>—E por que não hade vossa excellencia entretêr as suas horas n’uma
-obra tão util para a casa e para o povo?</p>
-
-<p>—Que me importa o povo e a casa? replicou o fidalgo.</p>
-
-<p>—O povo creio eu que importa a vossa excellencia, meu bom fidalgo,
-porque paes e avós d’este<span class="pagenum" id="Page_250">[Pg 250]</span> povo foram sempre como filhos dos ricos
-homens da Palmeira do Vidago. O povo lucraria muito se vossa
-excellencia lhe desse para as suas necessidades a agua que superabunda
-nos hortos e quinta. Esta pobre gente, quando os calores seccam
-as fontes, vae buscar, a grande custo e perda de tempo, a agua á
-freguezia proxima. Aqui tem vossa excellencia que está em sua mão, com
-pequenissimo dispendio, soccorrer este povo, que tão alegre ficou,
-assim que eu lhes disse a intenção abençoada de vossa excellencia.
-Parece que tem praga de inveja aquella obra! Seu excellentissimo
-avô abriu a mina, o paesinho de vossa excellencia continuou-a, o
-senhor morgado fez lavrar quinze braças; e, quando esta mina ia por
-pouco encontrar-se com o aqueducto, que desce da serra, vejo eu os
-jornaleiros a tapal-a de cantaria grossa!</p>
-
-<p>Nicoláo ergueu-se com semblante enfastiado, e o reitor calou-se, como
-sempre, assim que a expressão do tedio assomava no rosto do morgado
-como preparação para um grosseiro: «Queira deixar-me sósinho, padre
-reitor.»</p>
-
-<p>D’este dialogo fica inteirado o leitor de que a mina ficou sendo a
-sepultura de Raphael Garção, e que o apodrecimento do cadaver não
-chegou a ser presentido pelo fetido das exhalações.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_251">[Pg 251]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XXV">XXV</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_o.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">O</span> virtuoso reitor de Vidago, presenciando as lagrimas com que Nicoláo
-fallava de seu filho, e da impossibilidade de descobrir a paragem
-d’elle, foi a Chaves, e insuspeitamente averiguou de pessoas intimas
-de Martinho Xavier, e inimigas do viuvo de Beatriz, que o menino
-estava em Londres com seu avô, esperando o tempo proprio de entrar em
-collegio. Este descobrimento arrancou o pae ao seu marasmo. Aquella
-unica estrella, a espaços, lhe preluzia no futuro, na velhice que
-elle esperava receber da vontade divina como castigo. Animado pelo
-sacerdote, Nicoláo foi a Londres, onde esperou inutilmente seis mezes o
-apparecimento do filho ou do sogro. O imprevisto encontro de um amigo
-de Lisboa, ligado á diplomacia portugueza, esperançou-o em descobrir a
-residencia de Martinho Xavier, se elle existia em Londres. De feito,
-e facilmente se deparou ás investigações<span class="pagenum" id="Page_252">[Pg 252]</span> policiaes o velho fidalgo
-vivendo nos arrabaldes, com modesta decencia, e quasi incommunicavel.
-Nicoláo, commovido de jubilo, que lhe amaciava as asperezas da indole,
-apresentou-se de subito ao pae de Beatriz, no momento em que o velho
-passeiava o menino sobre o chão arrelvado do jardim, ensinando-lhe o
-nome das flôres e arbustos. Foi uma visita, que Martinho Xavier não
-prevenira, deixando abertas as portas gradeadas do jardim. Se Nicoláo
-batesse á porta, não lh’a teriam aberto, sem previas consultações e
-licença do velho cioso Pygmalião d’aquelle thesouro.</p>
-
-<p>Nicoláo correu arrebatado ao filho. A creança apavorada d’aquelle homem
-de longas barbas brancas, aconchegou-se do seio do avô, que se acurvara
-a defendel-o, sem ter ainda reconhecido o genro. O morgado, com os
-olhos marejados de lagrimas, parou a curta distancia do grupo, e disse
-affectuosa e tristemente:</p>
-
-<p>—Pois tambem tu me foges e desprezas, filho da minha alma?</p>
-
-<p>O pae de Beatriz fez espanto da desfiguração do genro. O menino
-reconheceu-o pela voz, e oscillava entre o avô e o pae, dizendo com voz
-tremida e balbuciante falla:</p>
-
-<p>—O meu papá não morreu? O avô disse que sim.</p>
-
-<p>—Morri, meu filho, morri!—respondeu soluçante o desgraçado.</p>
-
-<p>Martinho Xavier encheu-se de compaixão d’aquelle homem, ferido pela mão
-divina. Baixou olhos á creança, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Abraça-o, Martinho, que é teu pae.</p>
-
-<p>—E a mamã—perguntou o menino, apertado<span class="pagenum" id="Page_253">[Pg 253]</span> nos braços do pae.—E a mamã
-tambem não morreu? Onde está ella?</p>
-
-<p>O rubor da alegria e do alvoroço coou-se instantaneamente no rosto do
-pae, e um como pedaço de mortalha, amarellecida pelo tempo entre as
-taboas sepultadas do caixão, lhe cobriu a parte do rosto que as barbas
-descobriam.</p>
-
-<p>Martinho Xavier comprehendeu a amargura d’aquelle silencio, e houve
-pejo de não poder levantar a voz em defeza da filha.</p>
-
-<p>Nicoláo, com o menino nos braços, avisinhou-se do sogro, e disse-lhe
-compungente, e com os olhos quebrados de supplicante amargura:</p>
-
-<p>—Não sei porque me has de odiar, primo Martinho! As minhas
-desventuras, se fossem sabidas, commoveriam toda a gente, e as minhas
-culpas seriam perdoadas. Que julgas tu de mim?</p>
-
-<p>—Que és um desgraçado—respondeu serenamente o pae de Beatriz.</p>
-
-<p>—Bem hajas!—volveu Nicoláo.—Escuso perguntar-te se me julgas o
-assassino de Raphael Garção.</p>
-
-<p>—Que me importaria isso?... redarguiu Martinho. Seria bem morto, se
-era infame!</p>
-
-<p>—Atrozmente infame!... E quem me assevéra que elle não vive?</p>
-
-<p>Martinho Xavier encarou penetrantemente nos olhos de Nicoláo, e disse:</p>
-
-<p>—Quem matou, pois Raphael? Morto está elle. Raphael tinha um só amigo;
-era Ricardo de Almeida. Tenho uma carta d’elle. Cartas recebidas todos
-os paquetes. Ricardo nunca mais teve novas de Raphael... Quem o matou
-pois?</p>
-
-<p>—Não sei, pela vida de meu filho t’o juro, Martinho<span class="pagenum" id="Page_254">[Pg 254]</span> Xavier, se a
-minha palavra perdeu a tua confiança! Deus fulmine este anjo que é tudo
-o que me resta, se eu comprehendo que morte foi a de Beatriz e se tenho
-sombra de suspeita do destino que levou o villão, que tantas vezes me
-apontaste como...</p>
-
-<p>—Basta! interrompeu o velho, está aqui uma creança, que Deus dotou
-com precoce entendimento. Ha dois nomes que eu exijo que este menino
-esqueça. Vens buscar teu filho?</p>
-
-<p>—Não, primo: venho pedir-te que voltes com elle e commigo a Portugal.</p>
-
-<p>—Não: leva-o, e deixa-me morrer, onde mais não veja a sombra de minha
-filha.</p>
-
-<p>—Ficarei comtigo, Martinho Xavier, e com meu filho, disse Nicoláo.
-Virei eu perturbar o teu socego?</p>
-
-<p>—Vens: mas eu acceito de boa vontade o que está determinado por Deus.
-Ficarás comnosco. Assistirás á educação de Martinho; e, quando elle
-tiver a sabedoria, que contrabalança as desventuras, e fortalece o
-animo para subjugal-as, então ireis para a patria, e eu estarei já
-morto e esquecido.</p>
-
-<p>Nicoláo de Mesquita apresentou-se na vivenda do sogro, sem intentar
-melhoral-a. Afóra os contentamentos aspirados nos labios da creança,
-o restante da sua vida era dôr sem intermissão. Nenhuma variedade
-procurava ás suas meditações, não podia sequer conversar com o primo em
-assumptos ligados ao nome de Beatriz. Se o pae, do secreto de alma, lhe
-havia perdoado, envergonhar-se-hia de confessal-o. Como já não podia
-maldizel-a, tambem fugia de suscitar reminiscencias d’ella.</p>
-
-<p>Assim passaram, n’esta angustiosa e contemplativa mudez, um anno.</p>
-
-<p>Martinho, observando com dôr o desperecimento<span class="pagenum" id="Page_255">[Pg 255]</span> do genro, suggeriu a
-ideia de irem vêr França. Nicoláo approvou-a indifferentemente. Como
-conhecia as miudezas de Paris e outras cidades, disse que a todas iriam
-excepto Leão. Aqui devia viver o marido de Margarida Froment.</p>
-
-<p>Foram, e ao terceiro dia de residencia em Pariz, Nicoláo viu no
-<i>boulevard dos Italianos</i> um homem conhecido, encostado á vidraça
-de um estabelecimento de modas; era o chanceller, que havia sido do
-consulado francez no Porto. D’ahi a segundos, viu sahir uma mulher de
-bello exterior, e dar o braço áquelle homem: era Margarida Froment.</p>
-
-<p>De maneira que o brioso amigo do marido da infame, como elle a
-catalogára, o campeão voluntario da honra de Ernesto, degenerára tanto
-em pundonor de espiritos, que aberta a conjuncção prospera, tomou conta
-da mulher do seu amigo.</p>
-
-<p>Margarida cravou os olhos em Nicoláo e fez pé atraz de espantada. O
-morgado inclinára-se a ouvir uma pergunta do filho. Martinho Xavier
-fôra estranho ao lanço.</p>
-
-<p>Volvidos quinze dias, Nicoláo, passando no bosque de Bolonha, viu um
-homem que guiava um phaetonte, em que iam duas mulheres de imponente
-belleza, e brilhantemente vestidas, inclinadas para o elegante
-conductor de fogosos cavallos. Reconheceu-o.</p>
-
-<p>Ao pé d’elle estava uma roda de francezes, um dos quaes, apontando o
-transeunte do phaetonte, dizia aos outros:</p>
-
-<p>—Ahi vae Ernesto Froment espalhando os ultimos dez mil francos da
-fabrica vendida.</p>
-
-<p>Outro ajuntou:</p>
-
-<p>—Em dez annos gastou duzentos mil francos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_256">[Pg 256]</span></p>
-
-<p>Ainda um terceiro:</p>
-
-<p>—Com seis magnificas mulheres. Diz elle que os ultimos mil francos ha
-de engulil-os como Gilbert enguliu a chave.</p>
-
-<p>—A comparação é modesta! observou um.</p>
-
-<p>—Gilbert, acudiu outro, estremece de horror sabendo que foi parodiado
-por uma bêsta maior da marca.</p>
-
-<p>Nicoláo passou ávante, e dizia entre si:</p>
-
-<p>—Ernesto e Margarida não expiam, porque se não devem nada.</p>
-
-<p>Vista a grande cidade, Martinho Xavier desejou a quietação da sua
-casinha suburbana de Londres. Nicoláo seguiu-o automaticamente,
-discutindo em segredo a ordem das leis providenciaes. A inducção que
-vimos inferir da impunidade de Margarida, e do alegre viver de Ernesto,
-prova que o homem principiava a formar um systema racional em materia
-de expiações.</p>
-
-<p>Tem escapado a muito philosopho e theologo a grande verdade, que elle
-apanhou pela incoercivel guedelha. É effectivamente verdade que uns
-certos maridos de umas certas mulheres não expiam, porque não se devem
-nada.</p>
-
-<p>A respeito d’estes e d’estas parece que a Providencia diz em linguagem
-chã:</p>
-
-<p>«Lá se entendam e lá se avenham.»</p>
-
-<p>Margarida, Nicoláo e Raphael foram exceptuados d’este menospreço da
-Providencia.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_257">[Pg 257]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="XXVI">XXVI</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">N’uma</span> casa de Villa Real de Traz-os-Montes, em março de 1849, um
-sujeito lia á sua familia a seguinte correspondencia de Chaves
-publicada no jornal portuense <i>O Nacional</i>, d’aquelle mez e anno:</p>
-
-<div class="blockquot">
-<p>
-<i>Sr. redactor.</i><br />
-</p>
-
-<p>«Remetto ao seu jornal a singela narrativa de um estranho successo,
-que veiu esclarecer os mysterios de uma tragedia de familia, sobre a
-qual ha quatro annos a opinião publica tem aventurado opiniões, aliás
-infamantes, algumas das quaes desgraçadamente se verificam hoje.</p>
-
-<p>«Em agosto de 1844, o morgado de Fayões, Raphael Garção Cogominho,
-rapaz de costumes não louvaveis, mas egual a muitos que o mundo
-respeita,<span class="pagenum" id="Page_258">[Pg 258]</span> lisonjeia e admira, desappareceu da casa de seus paes, e
-nunca mais voltou.</p>
-
-<p>«Ao mesmo tempo... (muito me custa ter de escrever os nomes de
-pessoas que figuram ou figuraram n’este drama; porém, sacrificando
-á verdade, e desejando que na minha narrativa ninguem veja um
-romance, sou forçado a não esconder nenhuma das luzes que alumiam
-este acontecimento tenebroso). Ao mesmo tempo, D. Beatriz de Sousa,
-mulher do morgado da Palmeira do Vidago, Nicoláo de Mesquita, morria,
-segundo disseram os facultativos, de uma congestão cerebral, ou febre
-thraumatica, consecutiva a ferimentos na face.</p>
-
-<p>«No dia seguinte, os criados de Raphael Garção procuraram seu amo na
-quinta de Palmeira, para onde elle viéra de noite e furtivamente. Os
-criados, interrogados pelo marido da senhora morta, confessaram a
-intenção que os levava alli, e foram despedidos.</p>
-
-<p>«A voz publica francamente disse que o morgado de Fayões morrêra
-ás mãos do marido de sua prima Beatriz, ou por ordem d’elle; e que
-a esposa, suspeita de deslealdade, se não perecêra no mesmo ponto,
-succumbira depois dos flagicios bem claramente denunciados nas
-contusões da face.</p>
-
-<p>«A ausencia do morgado da Palmeira, na noite em que estes factos se
-deram, confirmava desconfianças sobre as probabilidades da astucia
-com que o senhor da casa, praticado ou mandado praticar o crime, se
-fingia distante do local. Como quer que fosse, do cadaver de Raphael
-Garção nenhuns indicios alcançaram as pesquizas da justiça, e sobre o
-cadaver de Beatriz de Souza nenhum exame se fez. O provavel e quasi
-evidenciado é que ambos estavam mortos.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_259">[Pg 259]</span></p>
-
-<p>«Passados sete ou oito mezes, o morgado da Palmeira foi para Londres,
-em demanda do filho, que o avô, nobilissimo cavalheiro de Chaves, lhe
-arrebatára. Decorridos dois annos, voltou para Portugal Nicoláo de
-Mesquita, e o filho, a tomar conta dos grandes haveres do sogro, que
-falleceu em Londres.</p>
-
-<p>«No principio do corrente anno, quando a memoria da obscura tragedia
-estava delida no impersistente espirito do publico, quiz a Providencia
-que o morgado da Palmeira, com a sua propria mão, fosse apontar o
-infallivel testemunho do seu crime. É bem certo, segundo a phrase da
-Escriptura, que Deus enlouquece aquelles que quer perder!</p>
-
-<p>«Os operarios, que por ordem de Mesquita desempedravam a porta de um
-aqueducto, que estivera aberto quatro annos antes, e se fechára dois
-dias depois da morte de Beatriz de Sousa, encontraram a quinze passos
-distantes da abertura da mina um esqueleto.</p>
-
-<p>«Os ossos não tinham já fibra de carne adherente, conforme ouvi aos
-facultativos examinadores. As cartilagens e ligamentos, com quanto
-articulassem a ossada, principiavam a esphacelar-se, e muitos se
-desfibraram ao contacto do ar. O esqueleto estava de bruços; e cingida
-á volta do radio e cubito, ossos correspondentes ao ante-braço, tinha
-uma especie de pulseira, chamada manilha, com um retrato pendente,
-perfeitamente conservado no marfim, encastoada em oiro, com o rosto de
-esmalte, no reverso do qual se lê uma data, e as iniciaes enlaçadas de
-Raphael Garção e Beatriz de Sousa.</p>
-
-<p>«Quando os jornaleiros descobriram o esqueleto, estava Nicoláo de
-Mesquita em Chaves. Os mineiros fugiram espavoridos, e foram contar
-o succedido<span class="pagenum" id="Page_260">[Pg 260]</span> ao regedor. Este mandou guardar por cabos de policia o
-aqueducto, e officiou á auctoridade. O aviso chegou simultaneamente ao
-morgado, que partiu para Palmeira.</p>
-
-<p>«A auctoridade, chegada ao mesmo tempo, consentiu que Nicoláo de
-Mesquita penetrasse no aqueducto com uma lampada, visto que sem o
-exame dos peritos não se podia levantar o esqueleto, em conformidade
-com as ordens do morgado.</p>
-
-<p>«O regedor, que seguiu Nicoláo de Mesquita, observou com grande
-assombro, um acto de extraordinaria ferocidade; e foi que o morgado
-depois de examinar a manilha pendente do pulso do esqueleto, fez um
-gesto de raiva frenetica: e, com um pé assentado em cheio no arcaboiço
-das costellas, fez que debaixo rangessem e estalassem os ossos do
-peito e costas. O regedor conteve-o de espalhar a ossada a pontapés,
-com risco de ser espancado pelo furioso dentro da mina.</p>
-
-<p>«As auctoridades, depois do exame, tomaram conta da ossada, para
-continuação de averiguações.</p>
-
-<p>«Sr. redactor, como se vê, o indicio de um assassinio está manifesto
-a todas as luzes; mas o indigitado homicida, porque é fidalgo e
-opulento, está no liberrimo goso dos seus direitos civis. Se fosse um
-pobre, já estava preso, e teria sido interrogado em casa de Anaz, e
-Caifaz, e Pilatos.</p>
-
-<p>«Alguem saiu já em defeza de Nicoláo de Mesquita, allegando que elle,
-se fosse o assassino, de modo nenhum mandaria bolir no aqueducto. Esta
-razão tem uma face acceitavel, e outra incumbe á justiça mostral-a. Em
-quanto a mim e á maioria dos pareceres, o matador de Raphael Garção,<span class="pagenum" id="Page_261">[Pg 261]</span>
-cujos olhos são indubitavelmente aquelles, foi Nicoláo de Mesquita,
-vigesimo segundo senhor da Torre e morgado de Palmeira de Vidago.</p>
-
-<p>«Conte com a noticia circumstanciada d’este processo, e com a verdade
-incorruptivel, do seu constante leitor,</p>
-
-<p class="right">
-«EPAMINONDAS TEBANO.»<br />
-</p>
-</div>
-
-<p>—O que ahi está é tudo mentira! exclamou uma voz d’entre as pessoas,
-que escutavam a leitura da correspondencia.</p>
-
-<p>Confluiram todas as vistas para a pessoa que bradara, e viram a criada
-da casa, Maria Joanna, que deixara cair o fuso, e com a mão levantada
-repetia:</p>
-
-<p>—Juro pela salvação da minha alma, que o senhor morgado da Palmeira
-não matou o senhor Raphael.</p>
-
-<p>—Como sabes tu isso?! perguntou o patrão.</p>
-
-<p>—Sei-o, porque era criada da senhora D. Beatriz; fui eu quem creou
-o menino de que ahi se falla na gazeta. Assisti ao ultimo arranco do
-senhor Raphael. E, se até agora me calei, é porque não soube que o meu
-amo pagava innocente.</p>
-
-<p>—Conta o que sabes, Maria, e prepara-te para ir esclarecer a justiça,
-voltou o patrão.</p>
-
-<p>A antiga confidente de Beatriz relatou as desgraças de sua ama e do
-assassinado amante d’ella.</p>
-
-<p>No dia seguinte, partiu para Chaves, com recommendações do cavalheiro
-de Villa Real, e foi levada á presença da auctoridade, deante de quem
-e de testemunhas, expoz o modo como Raphael Garção<span class="pagenum" id="Page_262">[Pg 262]</span> fôra encontrado,
-e a supposição de que elle fôra morto por uns homens que dispararam
-as armas para dentro da mina. Era preciso ouvir o depoimento dos
-homens. Maria Joanna indicou dois criados de Palmeira para dizerem
-quem eram elles, por terem estado, poucos momentos antes, conversando
-juntos. Os criados ainda o eram de Nicoláo de Mesquita. Foram citados
-a comparecerem na policia; e, interrogados, lembraram-se dos nomes
-dos quatro valentões da sanguinaria romaria. Os indicados depuzeram
-conformemente ao depoimento da creadora de Martinho, e as suspeitas
-declinaram de sobre a cabeça de Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>O cavalheiro de Villa Real, volvidas duas semanas, leu uma segunda
-correspondencia do <i>Epaminondas</i>, antipoda involuntario do
-Epaminondas de Tebas, na qual as suas conjecturas eram rectificadas,
-com grande magua de as haver estampado no primeiro afôgo da sua
-indignação. A indignação dos correspondentes da provincia é coisa de
-grão pavor quasi sempre!</p>
-
-<p>A correspondencia rematava assim:</p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p>«Os ossos de Raphael Garção foram religiosa e pomposamente conduzidos
-de Chaves para Fayões, e depostos no jazigo de seus avós. O pae de
-Raphael, que ainda vive doido, na escuridade do seu quarto, onde
-apenas recebe á força quem lhe ministra o sustento de tão horrivel
-viver, morrerá sem saber que os ossos do seu filho unico repousam
-na mesma sepultura da mãe, que morreu saudosa d’elle. A criada
-Maria Joanna salvou o morgado de Palmeira de um injusto ferrete:
-não obstante, o marido de Beatriz, com justa ou injusta razão (não
-ouso decidir-me) não consente esta mulher deante<span class="pagenum" id="Page_263">[Pg 263]</span> dos seus olhos.
-Consta-me que lhe mandara entregar as suas caixas, que ainda estavam
-em Palmeira, e uma esmola valiosa por mão do menino que se creou aos
-peitos d’ella.</p>
-
-<p>«Finalmente, senhor redactor, em vista do desenlace d’esta infanda
-historia, devemos olhar ao ceu, e baixar os olhos confundidos, deante
-da mysteriosa justiça da divina providencia! Raphael Garção morreu.
-Beatriz viu-o agonisar. Ambos expiraram no praso de vinte e quatro
-horas. Nicoláo de Mesquita geme ha quatro annos sob o peso de uma cruz
-de ferro. Estas angustias pode ser que correspondam a antigos crimes.
-Em summa, ninguem se transvie do caminho da virtude, que o do crime
-está ladeado de infernaes abysmos.</p>
-
-<p class="right">
-«EPAMINONDAS.»<br />
-</p>
-</div>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_265">[Pg 265]</span></p>
-
-<h2 class="nobreak" id="XXVII">XXVII</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Nicoláo</span> de Mesquita, em 1850, voltou para Inglaterra com o seu filho,
-a residir no <i lang="en" xml:lang="en">cottage</i> de seu sogro. O menino, aos sete annos,
-entrou em collegio, e passava os dias feriados com seu pae.</p>
-
-<p>N’uma estação de ferias, o morgado saiu com o filho a passar uns
-dias em Pariz, em companhia de uma familia ingleza, proprietaria da
-residencia em que fallecera Martinho Xavier, e a quem Nicoláo devia
-o obsequioso cuidado de attentar nas necessidades do filho sem mãe e
-sem carinhos de mulher, aos quaes se aquece o coração das creanças, e
-as virtudes fermentam n’elle. O aspecto macilento e sempre sombrio do
-portuguez acareára a discreta piedade da familia ingleza.</p>
-
-<p>Adivinhavam n’elle um desmarcado infeliz, talvez um delinquente:
-mas, o remorso ou pena immerecida,<span class="pagenum" id="Page_266">[Pg 266]</span> o que elle inspirava nas almas
-contemplativas era compaixão.</p>
-
-<p>Estavam, pois, em Pariz, no anno de 1852, quando Nicoláo, ao sair da
-egreja de Notre-Dame, onde fôra ouvir prégar Lacordaire, ouviu entre a
-multidão uma voz muito proxima do ouvido, que lhe dizia:</p>
-
-<p>—Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>Olhou de golpe, e viu Margarida Froment. Estremeceu. Aquella mulher
-devia ter quarenta annos; a decadencia era justificada; mas a velhice,
-quasi repellente, não.</p>
-
-<p>—Custa-me a reconhecel-a, madame!—disse Nicoláo com os olhos afogados
-em lagrimas.</p>
-
-<p>A franceza deteve-se entalada pela angustia da humilhação, e disse:</p>
-
-<p>—Não venho pedir-lhe nada: quiz que me visse. Reduziu-me a isto,
-senhor Mesquita.</p>
-
-<p>—Eu!... santo Deus!—atalhou Nicoláo enxugando as lagrimas.</p>
-
-<p>—Aqui tem a Margarida Froment de 1834—proseguiu ella.—Casualmente
-nos achamos á porta do templo em que ambos saltámos da carruagem de
-meu marido para visitarmos as antiguidades d’esta egreja. Recorde-se
-da mulher de então: sou eu. É esta Margarida que empenhou hontem o seu
-melhor vestido para ter hoje um almoço. Já lhe disse que não venho
-pedir nada; quero que me veja.</p>
-
-<p>—Mas a senhora attribula-me horrivelmente!—exclamou Nicoláo entalado
-de gemidos.—Não foi Margarida quem abandonou a casa de que era
-senhora? Expulsei-a eu?</p>
-
-<p>—Não lhe respondo, senhor Mesquita. Olhe de cima do despenhadeiro onde
-me poz, e pergunte á<span class="pagenum" id="Page_267">[Pg 267]</span> Providencia por que estou aqui, porque sou isto
-que vê!</p>
-
-<p>—Pois que hei de eu fazer-lhe agora, senhora! Que quer de mim? Eu
-sou muito desgraçado; mas sou rico ainda. Quer recursos para viver
-decentemente? Diga sem repugnancia.</p>
-
-<p>—Não, senhor; nada lhe pedi: quero que me veja!</p>
-
-<p>—Mas, infeliz, que vida foi a sua que...?</p>
-
-<p>—A minha vida é isto!—interrompeu Margarida com
-vehemencia.—Perguntei-lhe eu que vida era a sua? Leio-lh’a no rosto. A
-minha historia aqui está tambem escripta na cara de Margarida Froment
-de 1834. Eu tinha então vinte annos, vinte mil libras para gastar
-cada anno, e o respeito do mundo, o amor de meu marido, que reduzi á
-libertinagem extrema para me esquecer, e á derradeira indigencia para
-com o tinido do oiro ensurdecer-se ao grito da infamia, que lhe deixei
-perpetuamente nos ouvidos. Póde ser que Ernesto Froment ainda lhe peça
-uma esmola, senhor Mesquita. Dê-lh’a, que o desgraçado não saberá quem
-lh’a dá. Dê-lhe a elle a esmola que eu rejeito, porque o hospital
-reserva-me duas taboas, e a pedra da mesa anatomica um funeral condigno.</p>
-
-<p>Nicoláo soluçava; Margarida bateu-lhe no hombro, e exclamou surdamente:</p>
-
-<p>—Viu-me? Agora... adeus!</p>
-
-<p>E sumiu-se entre a multidão.</p>
-
-<p>Como descêra até ali Margarida Froment?</p>
-
-<p>Uma palavra o diz: envelhecêra.</p>
-
-<p>Os ultimos quatro annos da sua vida tinham sido o vasquejar, os
-relampagos da luz que vae apagar-se. Os amantes não quizeram assistir
-ás trevas. Viram-lhe a primeira ruga na fronte, o amortiçar-se o<span class="pagenum" id="Page_268">[Pg 268]</span> raio
-coruscante dos olhos, o artificio da pelle, o lustroso sobrenatural das
-madeixas.</p>
-
-<p>Fugiram-lhe, e ella, orgulhosa sempre, não solicitava piedade.</p>
-
-<p>Desenganou-se, despida dos artificios. O espelho foi-lhe a garganta do
-abysmo. Viu-se e despenhou-se á extrema devassidão, cuidando que morria
-assim mais depressa.</p>
-
-<p>Ernesto encontrou-a no portico do <i lang="fr" xml:lang="fr">Mont-de-Piété</i>. Ella saia
-de empenhar o chale, elle entrava a empenhar o casaco. Não se
-reconheceram. O empregado na recepção de penhores, ao escrever o
-appellido de Ernesto, disse-lhe:</p>
-
-<p>—Sahiu n’este instante uma Froment. É sua parenta Margarida Froment?</p>
-
-<p>—Saiu agora?</p>
-
-<p>—Agora mesmo.</p>
-
-<p>—Desgraçada?</p>
-
-<p>—Aqui não vem ninguem feliz?</p>
-
-<p>—Que signaes tem?</p>
-
-<p>—Uma cara de fome, um mantelete de côr duvidosa. Empenhou um chale por
-quatro francos.</p>
-
-<p>Ernesto desceu rapidamente. Era difficil encontral-a. Fitou em rosto
-as mulheres todas que denunciavam fome, e trajavam manteletes de côr
-duvidosa. Não viu Margarida em nenhum, e pozera os olhos n’ella, a
-ultima que vira comprar um pão.</p>
-
-<p>Margarida reparou no homem que a fitava. A desfiguração de Ernesto era
-menos sensivel. Conheceu-o, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—Queres metade d’este pão, Ernesto?</p>
-
-<p>—Quem és tu?!—perguntou elle.</p>
-
-<p>—Uma condemnada por Deus, que te pede a morte.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_269">[Pg 269]</span></p>
-
-<p>—És Margarida?—perguntou Ernesto serenamente.</p>
-
-<p>—Sou.</p>
-
-<p>—Não te matei, quando era honra matar-te. Agora, vive, e segue o teu
-caminho. Deus ha-de cumular sobre ti a pena do teu crime, e a pena
-egual aos tormentos que soffro, sem ter sido culpado. Vae teu caminho.</p>
-
-<p>Vivia ainda em Leão a mãe de Margarida. Pela terceira vez a desamparada
-se lhe foi lançar aos pés. Foi repulsada sempre pelas criadas de sua
-mãe.</p>
-
-<p>Tinha um irmão rico nas Antilhas. Pediu-lhe tres vezes perdão do seu
-infortunio, e uma esmola. A segunda e terceira cartas não foram abertas.</p>
-
-<p>O francez morreu solteiro e rico, no momento de retirar-se a França.</p>
-
-<p>A mãe de Margarida herdou muitos milhares de francos. Os jornaes
-contaram o successo. Margarida foi quarta vez ajoelhar-se á porta do
-quarto de sua mãe.</p>
-
-<p>—Não tenho filha,—respondeu a descaroada.—Não cuides que terás
-quinhão na riqueza de meu filho. Eu gastarei o que tenho em obras
-piedosas.</p>
-
-<p>E, quando scismava em dar brado com as suas obras piedosas, morreu n’um
-como deliramento de amor da humanidade.</p>
-
-<p>Margarida Froment recolheu quatrocentos mil francos. Mandou procurar
-o marido a Pariz. Encontraram-n’o secretario de uma companhia de
-cavallinhos, a franco por dia.</p>
-
-<p>Ernesto recebeu lettras de duzentos mil francos, e estas breves linhas:</p>
-
-<p>«Dava-te metade do meu pão: hoje dou-te metade<span class="pagenum" id="Page_270">[Pg 270]</span> da minha fortuna, e a
-outra, se a quizeres.»</p>
-
-<p>Ernesto acceitou a sua quota parte, e desistiu da outra, muito em
-conformidade com a lei, dispensando-se até de administrar a massa do
-casal, o que em boa jurisprudencia lhe era permittido.</p>
-
-<p>Margarida, se fosse solteira, podia escolher bons casamentos. Dizia-se
-em Leão que ella era os melhores quarenta annos e as mais bellas ruinas
-que ainda tinham visto os olhos dos seus pretensores, offuscados pela
-prefulgencia de duzentos mil francos.</p>
-
-<p>Ernesto foi para Londres. Metteu nos bancos o seu capital, e deu-se a
-uma vida de confortos modestos, e reparação da saude. Tonisado pela
-regularidade e sadia alimentação ingleza, achou que a inercia lhe
-pesava. Como tivera fabrica de estôfos, entrou em negocio de algodões,
-não para anumerar aos seus cabedaes, mas para entreter-se.</p>
-
-<p>A familia ingleza, relacionada com Nicoláo de Mesquita, possuia fabrica
-em Manchester, e comprava algodões aos importadores. Ernesto Froment
-negociava com os Smitts, necessariamente haviam de ser Smitts, ou Johns.</p>
-
-<p>Uma vez estava Ernesto no escriptorio dos Smitts, ou Johns, e entrou um
-homem de barbas intonsas e alvissimas, com um menino pela mão.</p>
-
-<p>O fabricante inglez chamou-lhe: «<i>Master Nicoláo de Mesquita.</i>»</p>
-
-<p>Ernesto, como se lhe dessem com uma bala na face esquerda, voltou a
-cabeça á direita, e perguntou em inglez:</p>
-
-<p>—É de Portugal este <i lang="en" xml:lang="en">a knight</i> (cavalheiro)?</p>
-
-<p>—Sim, das visinhanças do eden do vinho—respondeu o industrial.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_271">[Pg 271]</span></p>
-
-<p>Mediu-o de alto a baixo.</p>
-
-<p>Nicoláo estremeceu involuntariamente, e perguntou:</p>
-
-<p>—É inglez, o senhor?</p>
-
-<p>Ernesto não respondeu. O britanico é que disse:</p>
-
-<p>—É francez. E eu lhe apresento mr. Ernesto Froment, honrado mercador
-de algodões.</p>
-
-<p>Nenhum dos apresentados se moveu. O inglez espantou-se, e disse entre
-si: «<i lang="en" xml:lang="en">Inelegancy! improper!...</i>»</p>
-
-<p>Ernesto Froment saíu, sem inclinar a vista a Nicoláo.</p>
-
-<p>Smitt ou John perguntou ao portuguez a significação d’aquella frieza.</p>
-
-<p>Mesquita respondeu com um sorriso, e uma lividez de torvação espavorida.</p>
-
-<p>Subiu com o filho aos aposentos das ladys, e, convulso de lagrimas,
-pediu que lhe não desamparassem o filho, se elle morresse.</p>
-
-<p>Alvorotaram-se as senhoras, e a um tempo interrogaram a terrivel
-presumpção de morte breve. Nicoláo gelava com a sua taciturnidade.
-Cuidaram as damas que o secreto desgosto da existencia d’este homem lhe
-transtornára o espirito. Relataram ao honrado velho as lagrimas e rogos
-do portuguez.</p>
-
-<p>O commerciante foi procurar Ernesto Froment, e pediu-lhe
-encarecidamente o mysterio da sua vida com a de Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>O francez fingiu estranhar a desconchavada pergunta; porém, instado
-pelo commovido inglez, contou a sua vida, desde a infamissima perfidia
-de Nicoláo, seu commensal durante a emigração, até á escaleira de
-opprobrios a que descêra, despedaçando o trabalho de seus paes, para
-esquecer a affronta.</p>
-
-<p><span class="pagenum" id="Page_272">[Pg 272]</span></p>
-
-<p>O inglez chorava, e odiava Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>—Qual é agora o seu intento a respeito do portuguez? perguntou o velho.</p>
-
-<p>—Matal-o!</p>
-
-<p>—Oh!...—exclamou Smith ou John.</p>
-
-<p>—Matal-o inevitavelmente!—repetiu Ernesto.</p>
-
-<p>—Oh!...</p>
-
-<p>Passada uma breve pausa, o inglez saíu, dizendo-lhe:—espere-me duas
-horas que eu venho.</p>
-
-<p>Antes das duas horas, entrou o inglez no escriptorio de Ernesto
-Froment, com um menino de dez annos pela mão, e disse enternecido a
-prantos:</p>
-
-<p>—Este menino é filho de Nicoláo de Mesquita, e vem aqui de joelhos
-pedir a vida de seu pae.</p>
-
-<p>Martinho ajoelhou. Ernesto levantou a cabeça, estendeu a mão ao
-fabricante, e disse em voz tremente:</p>
-
-<p>—As nossas negociações estão fechadas.</p>
-
-<p>—Oh!... porque?</p>
-
-<p>—Porque me retiro ámanhã de Inglaterra.</p>
-
-<p>Assim foi. Ernesto saíu para Italia.</p>
-
-<p>O inglez, porém, procurou Nicoláo, entregou-lhe o menino, e disse-lhe:</p>
-
-<p>—A sua vida não corre perigo, senhor Nicoláo; tenho, porém, a
-observar-lhe que não posso ser seu amigo, nem a minha casa póde
-recebel-o.</p>
-
-<p>Fez uma breve cortezia, e sahiu.</p>
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<p><span class="pagenum" id="Page_273">[Pg 273]</span></p>
-<h2 class="nobreak" id="CONCLUSAO">CONCLUSÃO</h2>
-</div>
-
-
-<div>
- <img class="drop-cap" src="images/dc_n.jpg" width="100" height="113" alt=""/>
-</div>
-
-<p class="drop-cap"><span class="upper-case">Nicoláo</span> de Mesquita, cortado de desgostos, e inclinado á sepultura com
-desejos de fechar-se n’ella, saiu de Londres com o filho. A desgraça
-não lhe dava treguas.</p>
-
-<p>Trouxe de Pariz mestres para Martinho, habeis na sciencia, e prendas de
-educação esmerada.</p>
-
-<p>Voltou á torre solarenga, e chamou a si duas velhas senhoras, parentas
-de Martinho Xavier, para lhe regerem a casa e especialmente velarem o
-bem-estar do filho.</p>
-
-<p>Passou dois annos por tal maneira abatido de espirito, que deu
-comsigo, quasi aniquilado de raciocinio, nos extremos preconceitos da
-religião desfigurada por visualidades. Acercou-se de missionarios de
-todo cégos á luz do Espirito Santo, em quanto ao teor de aligeirar o
-peso de certas amarguras.<span class="pagenum" id="Page_274">[Pg 274]</span> Dos missionarios resvalou ás superstições
-lastimaveis no homem que tivera intelligencia clara, e sciencia
-pratica. Prestava ouvidos e coração a coisas de agoiro, e sortilegios.
-De enlevos na contemplação do Supremo Senhor do céu e terra, descia a
-pactuar com uma boçal velhinha, santa famigerada, o quebramento do seu
-fadario. Esta escuridade prenunciava as trevas do sepulcro.</p>
-
-<p>A piedade não o forrava aos impetos de um odio á sombra de Beatriz.
-Nunca mais entrou á capella onde esperavam o ultimo juizo as cinzas da
-infeliz. Os missionarios não souberam extirpar-lhe da alma o cancro do
-rancor: davam-lhe amulêtos, e orações prófugas do espirito immundo.</p>
-
-<p>Mandára erigir um santuario na recamara do seu quarto, e ahi se
-exercitava em soliloquios mentaes, entoando com fervorosos assomos
-de illuminado as amorosas apostrophes ao divino dos padres Chagas e
-Bernardes. Se não tivesse descançado no Senhor aquelle Santo parocho, o
-penitente iria pela mão do velho á estrada recta da divina misericordia.</p>
-
-<p>Uma tarde, Nicoláo de Mesquita, após a sobre-excitação febril de
-algumas horas, chamou criados com alavancas, e desceu á capella, onde
-não havia entrado desde a morte de sua mulher.</p>
-
-<p>Mandou levantar a pedra do jazigo e extrair a ossada que estivesse
-mais á flôr da sepultura. Os criados suando de pavor, curvaram-se
-a remexer os ossos; mas superstições, ou abalo sobre-natural, não
-ousou tocar-lhes; e, um após outro, fugiram da capella, ao verem
-desfigurarem-se medonhamente as feições do fidalgo.</p>
-
-<p>Nicoláo travou da alavanca, e tentou mettel-a ás<span class="pagenum" id="Page_275">[Pg 275]</span> junturas argamassadas
-do jazigo da esquerda, onde estavam as solitarias cinzas da unica
-adultera d’aquella familia. N’este esforço e reluctancia com as
-difficuldades de abalar a pedra, extenuou-se, perdeu o alento, e caiu
-de rosto contra o degrau do altar, exclamando vozes inintelligiveis.</p>
-
-<p>As velhas senhoras, o filho, os mestres e os criados acudiram á
-capella, e tomaram-n’o em braços. Nicoláo revolvia a lingua na abobada
-palatina, e tirava uns sons roucos, arripiadores, como gritos de ave
-nocturna.</p>
-
-<p>Chamaram medicos e sacerdotes. A medicina capitulou de paralisia o
-incuravel ataque. Os padres ungiram-no, que a lingua não podia accusar
-as angustias da alma.</p>
-
-<p>N’uma lucta de spasmos e ancias se desprendeu, ao fim de vinte e quatro
-horas, o atormentado espirito de Nicoláo de Mesquita.</p>
-
-<p>Ao cair a pedra sepulcral sobre o cadaver, justaposto aos ossos de
-Beatriz de Sousa, a piedade impõe-nos silencio. Vimos o que é a justiça
-de Deus na terra; n’outros mundos é-nos defeso devassal-a.</p>
-
-<p>Martinho de Mesquita foi tutellado de Ricardo de Almeida, um dos seus
-mais proximos parentes, por parte de sua mãe. É hoje marido da morgada
-do Pontido, filha de Ricardo e Laura.</p>
-
-<p>Ainda vivem os ditosos que o morgado de Fayões invejára nos seus
-ultimos dias de vida. N’aquella casa ha um só incentivo a lagrimas: é a
-memoria de Raphael Garção.</p>
-
-<p>Dizem-nos que o filho de Beatriz, desde que ouviu a historia de sua
-mãe, tem dias de attribulado recolhimento. Possue o retrato d’ella,
-pendente da manilha, tirada do esqueleto de Raphael, e conservado<span class="pagenum" id="Page_276">[Pg 276]</span>
-na casa do Pontido. Uma vez sua mulher surprehendeu-o absorvido na
-contemplação do retrato. Poz-lhe a mão na espadua, e elle, voltando a
-bella imagem de sua mãe aos olhos da esposa, disse, banhado em lagrimas:</p>
-
-<p>—Como não havia de perdel-a o mundo, se ella era tão formosa!</p>
-
-
-<p class="center p2">FIM</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="OBRAS_COMPLETAS">OBRAS COMPLETAS<br /><span class="small">DE</span><br />J. P. OLIVEIRA MARTINS</h2>
-</div>
-
-
-<h3>I. Historia nacional:</h3>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><span class="smcap">Historia da civilisação iberica</span>, 4.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1897), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr>
-700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p>
-
-<p><span class="smcap">Historia de Portugal</span>, 6.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1901), 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$400 <abbr title="reais">rs.</abbr>
-Enc. 1$800.</p>
-
-<p><span class="smcap">O Brazil e as colonias portuguezas</span>, 3.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1888), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>,
-<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p>
-
-<p><span class="smcap">Portugal contemporaneo</span>, 3.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1895), 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr>
-Enc. 2$400.</p>
-
-<p><span class="smcap">Portugal nos mares</span>, (1889), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p>
-
-<p><span class="smcap">Camões, os Lusiadas e a renascença em Portugal</span>, (1891). 1
-<abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 800.</p>
-
-<p><span class="smcap">Navegaciones y descubrimientos de los portugueses</span>, (<i><abbr title="edição">ed.</abbr> do
-Ateneo de Madrid</i>, 1892), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> (não entrou no commercio.)</p>
-
-<p><span class="smcap">A vida de Nun’alvares</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1894), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr>
-Cart. 2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.</p>
-
-<p><span class="smcap">Os filhos de d. João i</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$400 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc.
-1$800 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">O Principe perfeito</span>, (1895) 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> Encad.,
-folhas doiradas, 3$200 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-</div>
-
-
-<h3>II. Historia geral:</h3>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><span class="smcap">Elementos de anthropologia</span>, 4.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1895), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700
-<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p>
-
-<p><span class="smcap">As raças humanas e a civilisação primitiva</span>, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$400
-<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 1$800 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">Systema dos mythos religiosos</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1895) 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 800
-<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 1$000.</p>
-
-<p><span class="smcap">Quadro das instituições primitivas</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1893) 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>,
-<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 900.</p>
-
-<p><span class="smcap">O regime das riquezas</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr> (1894), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr>
-Enc. 800.</p>
-
-<p><span class="smcap">Historia da republica romana</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 1897, 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr>
-2$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 2$400.</p>
-
-<p><span class="smcap">O hellenismo e a civilisação christã</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 800
-<abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 1$000 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">Taboas de chronologia e geographia historica</span>, (1884), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>,
-<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$000 <abbr title="reais">rs.</abbr> Encadernado 1$200.</p>
-</div>
-
-
-<h3>III. Varia:</h3>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><span class="smcap">A circulação fiduciaria</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 800 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc.
-1$000 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">A reorganisação do Banco de Portugal</span>, <i>opusculo</i>, (1877)
-<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 150 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">O artigo «Banco»</span> no <i>Diccionario Universal Portuguez</i>,
-(1877), 1 vol, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 500 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">Politica e economia nacional</span>, (1885), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 700 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">Projecto de lei de fomento rural</span>, <i>apresentado á camara dos
-deputados na sessão de 1887</i>, 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 300 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">Elogio historico de Anselmo J. Braamcamp</span>, <i><abbr title="edição">ed.</abbr> part.</i>
-(1886), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> (esgotado).</p>
-
-<p><span class="smcap">Theophilo Braga e o Cancioneiro</span>, <i>opusculo</i>, (1869)
-esgotado.</p>
-
-<p><span class="smcap">O Socialismo</span>, (1872-3), 2 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 1$200. (Esgotado)</p>
-
-<p><span class="smcap">As eleições</span>, <i>opusculo</i>, (1878), <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 200 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><span class="smcap">Carteira de um jornalista</span>: I. <i>Portugal em Africa</i>,
-(1891), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 400 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><span class="smcap">Inglaterra de hoje, cartas de um viajante</span>, 2.ᵃ <abbr title="edição">ed.</abbr>, (1894), 1
-<abbr title="volume">vol.</abbr>, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 800.</p>
-</div>
-
-<p><span class="smcap">Cartas peninsulares</span>, (1895), 1 <abbr title="volume">vol.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 600 <abbr title="reais">rs.</abbr> Enc. 800 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-</div>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="Obras_de_Jose_Quintino_Travassos_Lopes">Obras de José Quintino Travassos Lopes</h2>
-</div>
-
-
-<p><b>Nova grammatica elementar da lingua portugueza</b>, redigida segundo
-as theorias modernas, e contendo quadros synopticos muito uteis, cart.
-160 réis.</p>
-
-<p><b>Compendio de arithmetica e systema metrico</b>, 28.ᵃ edição,
-contendo 29 gravuras e mais de 2.000 exercicios e problemas, reformado
-segundo os actuaes programmas, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 200 réis, cart. 280 réis.</p>
-
-<p><b>Resumo de arithmetica e systema metrico</b>, 5.ᵃ edição, muito
-augmentada e contendo 13 gravuras, approvado pelo antigo conselho
-superior de instrucção publica, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 100 réis, cart. 180 réis.</p>
-
-<p><b>Dois mil exercicios e problemas de arithmetica e systema
-metrico</b>, abrangendo os programmas do ensino elementar e
-complementar, em <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 <abbr title="reais">rs.</abbr>, cart. 240 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><b>Compendio de historia patria</b>, 13.ᵃ edição, reformada, e contendo
-no fim uma noticia resumida dos factos principaes de cada reinado, <abbr title="brasileiras">br.</abbr>
-160 réis, cart. 240 réis.</p>
-
-<p><b>Compendio de historia sagrada</b>, 2.ᵃ edição, illustrada com
-muitas gravuras, approvado pelo antigo conselho superior de instrucçâo
-publica, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis, cart, 240 <abbr title="reais">rs.</abbr></p>
-
-<p><b>Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre
-objectos.—1.ᵃ parte</b>, 9.ᵃ edição, muito augmentada, ornada com
-gravuras e vinhetas, dedicada ás creanças de 7 a 9 annos, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis,
-cart. 240 réis; com encad. de luxo para premios e brindes, 300 réis.</p>
-
-<p><b>Leituras Correntes e Intuitivas: primeiras lições sobre
-objectos.—2.ᵃ parte</b>, 6.ᵃ edição, ornada com gravuras e vinhetas,
-dedicada ás creanças de 10 a 12 annos, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis, cart. 240 réis;
-com encad. de luxo, para premios e brindes, 360 réis.</p>
-
-<p><b>Leituras Correntes e Intuitivas</b>, obra adoptada para o ensino
-official primario, 300 réis, cart.</p>
-
-<p><b>Historias de animaes, sua vida, costumes, anecdotas, fabulas,
-etc.—noções amenas de zoologia para creanças—lições sobre
-objectos</b>, 3 volumes, obra interessantissima, ornada com 400
-gravuras e vinhetas, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 200 réis cada volume, cart. 280 réis; com
-encad. de luxo, para premios e brindes, 400 réis.</p>
-
-<p><b>Os contos da avózinha</b>, collecção illustrada de historias,
-lendas, fabulas e contos, com 300 gravuras, 3 volumes, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160 réis,
-cart. 240 réis, com encad. de luxo, para premios e brindes, 360 réis
-cada volume.</p>
-
-<p><b>Noções elementares de geometria intuitiva</b>, contendo 97 gravuras,
-<abbr title="brasileiras">br.</abbr> 100 réis, cart. 180 réis.</p>
-
-<p><b>Grammatica elementar da lingua portugueza</b>, 22.ᵃ edição, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 160
-réis, cart. 240 réis.</p>
-
-<p><b>Chave</b> (A) <b>da Sciencia</b>, por Brewer e Moigno. Nova
-traducção, extraordinariamente desenvolvida e ampliada pelos
-traductores J. Q. Travassos Lopes e J. T. da Silva Bastos.—Obra
-completa, 3 <abbr title="volumes">vols.</abbr>, edição de luxo, grande formato, illustrado com
-centenares de gravuras, <abbr title="brasileiras">br.</abbr> 4$500 réis, enc. 6$000 réis.</p>
-
-
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter">
-<h2 class="nobreak" id="OBRAS_DE_CARLOS_AUGUSTO_PINTO_FERREIRA">OBRAS DE CARLOS AUGUSTO PINTO FERREIRA</h2>
-</div>
-
-<p class="center">Engenheiro machinista, capitão-tenente graduado da Armada</p>
-
-<p class="center">INDISPENSAVEIS A INDUSTRIAES, OPERARIOS, ENGENHEIROS, ARCHITECTOS, ETC.</p>
-
-
-<div class="blockquot">
-
-<p><b>Engenheiro</b> (O) <b>d’algibeira</b>, livro portatil e utilissimo,
-especie de <i lang="la" xml:lang="la">vademecum</i> onde se acham compendiadas grande
-quantidade de formulas e dados praticos com applicação á engenheria
-nos seus differentes ramos; 3.ᵃ edição muito augmentada. Este livro
-deve ser o companheiro indispensavel do contra-mestre, do mestre, do
-architecto e finalmente do engenheiro; para todos tem materia util.
-Livrinho nitidamente impresso, contendo mais de 150 tabellas.—Preço
-800 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 1$000 réis enc.</p>
-
-<p><b>Guia do fogueiro conductor de machinas de vapor</b>, approvado
-pela associação dos engenheiros civis portuguezes. Livro escripto
-expressamente para servir de ensinamento pratico aos fogueiros, e
-em harmonia com a portaria do ministerio da marinha que obriga esta
-classe de individuos a serem examinados. Contém 230 paginas em 8.ᵒ
-francez, com bastantes gravuras intercaladas no texto e duas bellas
-estampas, 2.ᵃ edição.—Preço 800 <abbr title="reais">rs.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 1$100 réis enc.</p>
-
-<p><b>Guia de mechanica pratica</b>, precedida de noções elementares
-de arithmetica, algebra e geometria indispensaveis para facilitar
-a resolução dos diversos problemas de mechanica. Volume de 557
-paginas em oitavo francez, nitidamente impresso, contendo mais de cem
-gravuras intercaladas no texto e cinco bellas estampas no fim. Livro
-indispensavel, não só aos industriaes, mas a todos os individuos que
-desejarem pôr em pratica quaesquer trabalhos mechanicos.—6.ᵃ edição.
-Preço 1$600 <abbr title="reais">rs.</abbr> <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 1$900 <abbr title="reais">rs.</abbr> enc.</p>
-
-<p><b>Manual elementar e pratico sobre machinas de vapor maritimas
-antigas e modernas, comprehendendo as de dupla, triplice e quadrupla
-expansão</b>—Livro utilissimo para quem precisa fazer algum estudo
-sobre machinas maritimas, construil-as, mandal-as construir, ou
-dirigil-as. Vol. de 420 pag. em 8.ᵒ francez, contendo 40 gravuras
-intercaladas no texto e 2 magnificas estampas. Os engenheiros
-machinistas encontrarão n’este livro indicações de grande utilidade
-para o desempenho da sua difficil missão. Preço 2$000 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 2$400
-réis enc.</p>
-
-<p><b>Manual de noções elementares de technologia</b>, Livro utilissimo
-para todos os que se dedicam á industria, e tratando dos seguintes
-assumptos:—Madeiras.—Rochas e pedras.—Carvão.—Metaes.—Materias
-textis.—Construcções. Adornado de muitas gravuras explicativas. Preço
-500 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>, 700 réis enc.</p>
-
-<p><b>Opusculo ácerca das machinas mixtas de alta e baixa pressão</b>,
-applicadas aos navios movidos a vapor. 2.ᵃ edição, Preço 600 réis <abbr title="brasileiras">br.</abbr>,
-800 réis enc.</p>
-</div>
-<hr class="chap x-ebookmaker-drop" />
-
-<div class="chapter transnote">
-
-<h2>Notas</h2>
-
-
-
-<p>Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.</p>
-</div>
-<div lang='en' xml:lang='en'>
-<div style='display:block; margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK <span lang='pt' xml:lang='pt'>O ESQUELETO</span> ***</div>
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-
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- </div>
-</blockquote>
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- within 60 days following each date on which you prepare (or are
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- </div>
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- </div>
-
- <div style='text-indent:-0.7em'>
- &#8226; You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
- any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
- electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
- receipt of the work.
- </div>
-
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- &#8226; You comply with all other terms of this agreement for free
- distribution of Project Gutenberg&#8482; works.
- </div>
-</div>
-
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-</div>
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-1.F.
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-DAMAGE.
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&#8482;
-</div>
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-Project Gutenberg&#8482; is synonymous with the free distribution of
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-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation&#8217;s EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state&#8217;s laws.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation&#8217;s business office is located at 809 North 1500 West,
-Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up
-to date contact information can be found at the Foundation&#8217;s website
-and official page at www.gutenberg.org/contact
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; depends upon and cannot survive without widespread
-public support and donations to carry out its mission of
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-freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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-with these requirements. We do not solicit donations in locations
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-</div>
-
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-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-</div>
-
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-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-</div>
-
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-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-</div>
-
-<div style='display:block; font-size:1.1em; margin:1em 0; font-weight:bold'>
-Section 5. General Information About Project Gutenberg&#8482; electronic works
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg&#8482; concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg&#8482; eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Project Gutenberg&#8482; eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-Most people start at our website which has the main PG search
-facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
-</div>
-
-<div style='display:block; margin:1em 0'>
-This website includes information about Project Gutenberg&#8482;,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-</div>
-
-</div>
-</div>
-</body>
-</html>
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