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If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: O Romance de um Homem Rico - -Author: Camilo Castelo Branco - -Contributor: Thomaz Ribeiro - -Release Date: October 14, 2020 [EBook #63461] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by The Internet Archive.) - - - - - -BIBLIOTHECA ELYSIO - -CAMILLO CASTELLO BRANCO - -(Visconde de Corrêa Botelho) - -O ROMANCE DE UM HOMEM RICO - -TERCEIRA EDIÇÃO -COM UM PROLOGO DE - -THOMAZ RIBEIRO - - -.... Connaitre la valeur de l'argent -et le sacrifier toujours, soit au devoir, -soit même à la délicatesse, c'est une -vertu réelle. - -SENANCOURT (Rêveries). - - -PORTO -LIVRARIA ELYSIO -DE JOAQUIM ELYSIO GONÇALVES--EDITOR -282, Rua Formosa--R. Sta. Catharina, 198 - -1890 - - - -INDICE -PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO -PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO -INTRODUCÇÃO -CONCLUSÃO - - - - -PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO - - -«--Este foi o mais querido dos meus romances» -C. Castello Branco, Prefacio da -2a. edição do _Romance d'um homem -rico._ - - -Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu livro dilecto esta -sentença:--«O homem não acha em si os alivios da razão quando os -vicios lh'a degeneram», estava julgando a sua propria alma no tribunal -austero da consciencia. - -Não vejam n'isto censura, os melindrosos por conta alheia. - -O romancista, se não é um armador de encommendas, um preparador de -effeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se -sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus -personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que -lhes attribuiu, se com elles ama, odeia, chora ou blasphema, faz como o -sabio, o martyr da medicina, que, para se convencer e para não falsear -a sciencia que professa, muita vez se envenena ou se dilacera. - -Camillo era aqui o pensador, o philosopho, o analysador frio do seu -excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não vêr distinctamente -o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe -lucida a verdade, fôsse onde fôsse o esconderijo d'ella, fôsse qual -fôsse a distancia em que demorasse. - -Se o romancismo é mester, o escriptor é artifice; se é arte, se é -acto impulsivo, o romancista é poeta. - -Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu romance mais -querido:--«Não sei que haja ahi outros incentivos que me chamem aos -olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer vêr chorar e vibrar de -não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me cazos da -natureza d'aquelles: faça-me acreditar na existencia d'umas almas que -vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina», -declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o genero da sua -poesia. - -E como quem diz:--o symptoma da sua doença. - - -Pois não têem sido apodados de--loucos--os poetas? Se loucura é a -desconformidade de actos ou de sentimentos com as _regras da fria, -pautadas e articuladas no codigo do senso-commum_, vamos, que não têem -os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos -seus contemporaneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum -rasto de fatua phosphorescencia na travessia longa ou curta da sua -derrota. - -Loucura _lucida_, mas loucura incontestavel; loucura impulsiva e -incuravel, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os applaude e os -escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão. - -A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora, -a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata, -a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a -de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora, -loucuras foram; por mais que os poetas d'hoje queiram malsinar aquelles -homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde. - -Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso; -não cabe nas leis da normalidade. - -Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os -vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e -Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas -cezareos,--os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias -realengas: - -«_Mecenas atavis œdite regibus_» - -outro, cantando apotheoses divinas: - -«_Deus nobis hœc otia fecit._» - -Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando -lhe estrophes accommodaticias. - -Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio. -Raras vezes pegou a enxertia; é certo. - -O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante -ao exorcismo; torna-se n'elles mais patente, porque, sob aquella forma, -estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao -menos--apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os -perigos;--Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução -d'um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue -apagar a fogueira d'um _auto de fé_ por um _acto de fé_, ou de -prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente -onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira -porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o _virus-rabico_ -expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue -da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da -experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,--heroe sem -hymnos!--á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d'uma cratéra -para devassar os segredos da erupção vulcanica. - -Quantos insensatos! - -Se depois da loucura da sciencia quizer alguem percorrer a da -religião,--S. Macario, S. Simeão Stylita, Santo Antonio, as -allucinações dos extasis em que se vê Deus e os ceos, o genio das -prophecias, a inspiração dos apostolos, a coragem alegre dos martyres, -que exuberancias de loucura, que degenerescencias pathologicas, -provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a sciencia nos -estudos da sua extensissima symptomatologia? - -E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!... - -A gloria! a honra..., mas que são honra e gloria? São tambem uns -sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas -desconformidades _com as regras da fria razão, pautadas e articuladas -no codigo do senso-commum._ Produzem as monstruosidades de Alexandre no -Oriente, dos trezentos nas Thermopylas, dos Gracchos em Roma, de Antonio -em Philippes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em -França; de Bonaparte na Italia, do Infante-Sancto em Fez, de Saldanha -no Porto e em Montevideu, de Bartholomeu Dias, de Vasco da Gama e de -Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas -suas conquistas, de Xavier no apostolado.--Deus, familia e patria!--O -que estes motes produziram de loucuras! - -E o amor... e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações, quantos -desvios da razão e do senso-commum não produziram e não produzem! -d'esses que espantam o mundo e se julgou,--ingenua simplicidade!--que -honravam e ennobreciam a especie humana? - -Tudo o que foi épico e se chamou grande e bello e mereceu canticos e -triumphos e apotheoses e historia e monumentos e centenarios e culto, -atravez de seculos e millenios, tudo hoje é condemnado pela sentença -fulminante d'este bom-senso burguêz, comesinho, utilitario, pratico, -omnipotente e inexoravel. A transformação parece completa; Sancho -depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu -desenterrou o bezerro d'ouro, não para o adorar mas para o negociar; o -codigo depôz a historia; a pirataria depôz o codigo; as notas e as -acções bancarias collaram-se nas folhas da epopêa. - -Christo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e -abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição: -esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a -grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento,--foi um -rebaixamento; inutil por improficuo. E será inefficaz em quanto a -sciencia, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que -geram as grandezas, e com ellas o desnivelamento successivo da -humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociaes. - -Ahi estão ellas--nas sciencias, nas artes, nos descobrimentos de toda a -especie; mais humanos, mais proficuos talvez que os antigos, mas -careceram d'elles; que não póde haver continuação sem principio. Das -pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de -Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em -rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlantico, o Pacifico, e -rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram -os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a -inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os -isthmos nascêram os abridores de canaes; as assoladoras naus, que até -escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos -sequestrados ao convivio dos outros povos do mundo, andaram, com graves -perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quaes hoje passa -livremente o commercio, por baixo dos quaes hoje se assenta o -telegrapho. - - -Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do genio se -não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido -Camillo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciencia que tenho -estado a fugir de collocar na classe dos loucos o nosso presado -romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por -conjectura eu tenho de o metter n'esta companhia, que me vi forçado a -provar-me que a companhia póde ser de gente desafortunada, mas é -provadamente illustre. - -Nunca a fria razão, nunca o senso-commum fizeram couza que não fosse -fria e commum. Excellentes caixeiros e guarda-livros do commercio, -excellentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na -guerra, excellentes officiaes da fazenda, na marinha, professores, -sacerdotes (para conegos, não para missionarios), juizes, magnificos -ecónomos e descobridores de pechinchas--o espirito conservador--os -Wychnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantissimo, -imprescindivel serviço faz á humanidade esta gente de são juizo e -razão fria, mas, por conselho d'ella, nem a mãe defenderia o filho -contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra -as chammas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o naufrago contra as -ondas. Temperatura egual e morna;--a selvageria tropical, primitiva, -tendo Sancho na presidencia e o velho de Camões no conselho de estado. - -O senso-commum até, por concessão transitoria,--sagaz bom-velho!--já -creou, para illudir e desnortear poetas e romancistas, uma litteratura; -em odio ás artes, uma arte; em odio ao genio, engenhos. Louvavel -empenho na verdade. Vê doenças graves e pretende cural-as; vê -enxamear a loucura, a mais grave das molestias, e com ella exgota a sua -therapeutica. Benemerito desejo! Mau será se a cura fôr peior que a -doença. - -De muito dizer-se ao theorico:--sê pratico!--faz-se d'elle ás vezes um -ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas -variadissimas. - -De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de -Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;--um grande poeta e um grande -romancista... contrafeitos; e com elles--o satanismo e o naturalismo; -porém--naturalismo--de meza de autopsia ou de laboratorio chimico. - ---«Faz-me tristeza pensar,--escreveu Camillo n'um dos prefacios do seu -_Amor de perdição_,--faz-me tristeza pensar eu que floreei n'esta -futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser descriptas sem -grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a rhetorica -de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de -Quintiliano á do _Collette-encarnado._ A gente imaginava que os -alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem -me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para -espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N'aquelle tempo, -inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na -escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se -narcizar n'um espelho fiel.............................. Já não verei -onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como -a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que -atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo -tempo por effeito d'uma grande revolução rigolboche.»-- - - -Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque -é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom -e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama -era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar -accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o -melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar -mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de -Maudsley. - -Não se modificou--transfigurou-se; o que, longe de provar juizo prova -só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença. - -Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial. Na -_Phedra_ pôz Platão na bôcca de Socrates:--«Os maiores bens são -produzidos por um delirio inspirado pelos deuzes.»--O--_Est Deus in -nobis_,--que traduz, senão a loucura do genio? De Christo escrevia S. -João--«Elle é possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para -que o escutaes?» - -Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou -em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos, -aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e -electrizar a atmosphera social, varrendo d'ella os miasmas putridos -d'esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os -povos como as nevoas densas da palude. - -Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela -sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas, -toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima. - -Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos -arvoredos.--A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do -ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados, -sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo, -patrimonio de todos. - -N'um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir -para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma -rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:--«De mim digo -que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de -crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos. -Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido -heroes. Além d'isso _apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu -caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que -passam._ Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza -menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do -pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a -singularidade de nos não lastimarmos.»-- - - -Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola -novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes -honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir, -que nunca lhes quiz mal. - -Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as -_flôres do mal_; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados -em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e -não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não -applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha -a ingenuidade de julgar sagrados. - -Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e -d'ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir, -indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que -o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os _espiritos fortes_ -sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor. - -Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida. - -Desesperança formal nunca eu lh'a conheci. - -Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre -Alvaro Teixeira:--«A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os -luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de -novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por -perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que -apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, -entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a -pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.» - ---Deus--era o astro que procurava na noite das tribulações; e se não -era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente desejo -a mais constrictora ancia da sua alma. - -Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça -paternal,--a da caridade?--«A solidão sem Deus não serve para -infelizes maus»--nos diz elle no seu livro de consolações--_O romance -d'um homem rico_--onde pretendeu exaltar, acima de todas, a virtude da -resignação: - ---«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado... -Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a -bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e -encontram os de Deus.» - -E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna -inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do -seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma -cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes: - ---«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como additamento á -«Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota.»-- - -E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto espirito -como elle é, não podia desconhecer que a verdade da representação -das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas obras da -arte:--«Rien n'est beau que le vrai».--Por isso elle nos diz:--... -«Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações de que me -sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da -verdade.»-- - -Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a -indole do artista que o reproduz. - -O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta, -existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou -obra d'arte que se funda n'estes affectos, sentimentos ou mostras -externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo -existe na natureza. - -Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a -devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga. - -Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar -revelações e inspirações por todos esses theatros em que a -humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se -vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o -hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe -fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a -verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto -e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não -é educadora, não é nada e para nada serve. - -Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo -que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os -eremitas do passado, os que foram formados n'outra escola com outros -princípios e outras aspirações. - -E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes -impuridades espremem dos bicos das suas pennas! - -Vêrem a cutis fina e transparente d'uma mulher formoza e em vez de -sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com -enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas, -com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se -sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da -sepultura!--chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal -insomnia,--signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha virtudes, -achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na -heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar -só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal, -falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias. - - -Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A -proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não -acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em -quando Camillo escreve a _Corja_ ou o _Euzebio Macario_ e Zola escreve o -_Sonho._ Passos dados para a concordia senão para a unificação das -escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n'um proximo -futuro. - - -Ha na _Brazileira de Prazins_ uma ultima, talvez definitiva, feição -litteraria de Camillo Castello Branco. Alli encontram-se primorosos -quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo d'um -assassinato encommendado e ajustado, o carregar da clavina, a sahida -furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas -ante o crucifixo, até que elle volta do seu mallogrado intento, dando -logar ao jubilo, em acção de graças, da mizeranda espoza, que julga -ter obtido o milagre pela intercessão das suas lagrimas e das orações -de suas filhas, são primores d'arte dos mais subidos quilates. - -O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de sanctos e livrinhos de -orações, á porta do templo onde funccionam os missionarios, e a -murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrilego -bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asphyxiante dos -exorcismos applicados á pobre hystérica, sobre sêrem paineis de -genuina e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos -procedimentos inquisitoriaes e do abastardamento e falsificação dos -textos sagrados, postos á disposição d'um fanatismo intransigente ou -d'uma hypocrisia revoltante. - -Alli, sim, póde estudar-se o verdadeiro, o possivel realismo, n'um -romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte. - -* * * - -Camillo Castello Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os seus -duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente anciedade e vão -sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas, já em -edições populares. É certo que os contemporaneos do grande escriptor -se acham empenhados na sua glorificação em vida. Acclamado em -plebiscitos--primeiro escriptor portuguez da actualidade,--honrado pelos -poderes publicos, á porfia, procurado por todos aquelles que os -combates da imprensa traziam d'elle distanciados, a unanimidade -congrega-se em tôrno d'elle, no unisono d'uma apotheose sem exemplo. - -Portugal do seculo XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas -ingratidões. - -Elle o reconhece agradecido, aguardando n'uma anciedade dolorosissima -vêr-se restituido ao estudo e ao trabalho--sua religião e seu -confôrto. - -Teve de abandonar a lida, o heroico triumphador. Aguia que desafiava os -deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas -caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no -insondável abysmo d'uma escuridão a cada instante mais densa. - -Como elle espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um -relampago, tenue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança! - -Eu tenho assistido a essa lucta que mais parece uma agonia. - -A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios -d'acção, mas pede-lhe paciencia! e o homem que escreveu este livro, -que soube dar tantos conselhos e offerecer tantos exemplos de -resignação, não póde resignar-se. - -Como todas as cazas lhe dão trevas, foge de todas as cazas, de todas as -terras, e até de todo o convivio,--porque ouvir, somente,--aquelles que -o procuram, é ter multiplicados testemunhos da cegueira, que mais, dia -a dia, vae julgando incuravel. - -Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose -póde mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo. - -Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe -fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas _Chronicas duas -rainhas_ que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina -promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle -escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança -fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença -volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do _sempiterno -horror._ - -Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como -seu ultimo recurso. - - -Tristissimo. - - -Assim vive,--se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior -que a morte,--o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas -linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte -lhe venha n'um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe -pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem -dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os -braços a procurar mão valedora.... - -Meu pobre amigo! - -Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a -amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n'esta -esperança. - - -Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n'uma caza cheia de confortos -e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus -mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe -faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos. - -Quantas vezes tem elle repetido: - ---«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel para -poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi -_O romance d'um homem rico!_» - - -Carnaxide, 1 de julho de 1889. - - -_Thomaz Ribeiro._ - - - - -PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO - - -Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que -aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance -prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á -força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal -me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que -me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica, -lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava -em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver, -soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem -modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar -obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não -sabia gastar melhor e mais aproveitados. - -Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel -amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte -esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que -principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades -inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou -não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da -intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão -glacial da desfortuna. - -Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861. - -Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites -solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios, -quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me -esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça: -deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de -lá, este arido pragal, que vou trilhando agora. - -Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande -esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos -balsamos dôces. - -Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor -do meu espirito, é uma quietação de sepulturas. - -Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o -padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de -Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro -chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares -que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze -casamentos felizes.» - -E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em -volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro. - - -Bellas, 19 de Maio de 1863. - - -CAMILLO CASTELLO BRANCO. - - - - -INTRODUCÇÃO - - -_As tribulações dos santos são enigma: -uma cousa parecem, e outra são e significam: -parecem miserias da fortuna, -e são concelhos da Providencia Divina, -e signaes da felicidade eterna._ - -P. M. BERNARDES. (Silva de varios -dictames espirituaes.) - - -Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um -bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo, -ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima -d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha -memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara -com as flores d'outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a -saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me. - -Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi. - -Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma -padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas! -A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que -recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo -para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não -infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia: - - -_Héritiers des douleurs, victimes de la vie, -Non, non, n'espérez pas que rage assouvie -Endorme le Malheur, -Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense -Engloutisse à jamais dans l'éternel silence -L'éternelle douleur!_ - - -E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um -doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella -feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica! - -E todos os outros mestres de bardos melancolicos? - -Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes! - -Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de -carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a -veneranda calva com seu barrete de troçal preto. - -Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não -correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas -disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S. -Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se -confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo -chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»--ao corpo -entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as -cousas, e muitas outras. - -Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que -eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio, -e este primeiro capitulo deve lêr-se. - -Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu -companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico -semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela -de aço reluzente. - -Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o -chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro -vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga, -marchetada de madre-pérola. - ---Póde fumar á sua vontade, se fuma--disse-me elle. - -Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira, -que elle não aceitou. - -Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta -palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem -que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas -uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma -do heroico inimigo dos tyrannos. - ---A moral!--dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto se -vaporou--a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem -poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e -intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma. - -Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos -inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo -recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura, -a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos -maus e dos males da vida. - -Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso -convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento -interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza, -contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor! -Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o -feliz? - -Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me: - ---Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir? - ---A Santarem. - ---É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de -saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de -felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só -d'este mundo, não dura mais que uma hora. - ---Ha quantos annos eu lá não fui!...--continuou o padre no tom magoado -de entranhada saudade--E já agora é tarde... é o anoitecer da vida... - ---Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!--interrompi eu. - ---É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas lagrimas; -e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a -distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a -saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e -não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio. - ---Creio que tem--disse eu--é vêr e amar essas vidas em Deus, chamal-as -em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das -lagrimas... - ---E da oração...--disse o padre, e proseguiu, depois de breve -silencio--Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições -perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo... - -E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos -longas e ossudas sobre o peito. - -Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação, -cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua -linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles -parecem intelligentes e desgraçados. - ---Fica no «Poço do Bispo?»--perguntei. - ---Não senhor; vou para os «Olivaes.» - ---A passeio, ou é de lá? - ---Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas pittorescas, -em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes -abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos -nós comtigo? - -Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou: - ---Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se na -humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o -_riso e vacca_ de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta do -Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou -fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo -se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar -n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de -pedir a Deus o descanço da minha alma. - -Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras -doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo -que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria, -que de si deixou, com a justiça humana. - ---Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro Teixeira, e -não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa; -mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem -communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a -palavra «amigo.» - ---Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão--Que -o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem consultar o -raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem, -que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipathia de um -primeiro encontro. - ---Como se chama? - -Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba -por syllaba, e depois exclamou de repente: - ---Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos. -Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria. -Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe -cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO. - ---É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: vinte -paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas... - ---Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer -ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por -onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, _feliz -culpa_, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda -todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da -porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua -ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a -causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não -podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e -castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre -apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos -padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas -sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar -vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto -que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades -santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da -razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados -defensores da exclusiva razão do catholicismo... - -N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita -critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do -levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque -me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da -eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os -«Olivaes.» - -Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção. - ---E portanto...--disse elle--Adeus, meu amigo, não ha tempo para mais. - ---E portanto--disse eu--não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu -é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas pittorescas -ruinas dos «Olivaes.» - ---Fica!--exclamou elle com alegria--Pois bem haja! - -Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor. - -Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o -conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da -Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de -ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao -funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais -oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O -homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre -encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava -os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de -mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou, -segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um -mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o -intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez -estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e -ainda assim a boa escolha. - ---Ora vamos lá--disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se ao meu -braço--Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão -que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e -vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a -mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença -que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não -renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando -alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e, -depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a -flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes, -outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não -se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se -apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?... - ---Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar -alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e -dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho. - ---Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a -maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo -e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos -annos me faz? - ---Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito. - ---Não, senhor: tenho quarenta e seis. - -Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle -homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que -lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os -vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda -rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As -cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso -recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos -joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração -d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra! -Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar -diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus -gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando -eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião -insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem -do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada -lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não -cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas -magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se -adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte -paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio -caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da -sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins -com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das -lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a -tua essencia de anjo. - - - - -_Este era o seu refugio, o seu descanço._ - -Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.) - - -A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as -almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante -das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as -alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello. - -No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas -abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades -comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que -escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se -avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo -pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente -silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do -sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler. -Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro -beijo do sol, e disse: - -«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu, -comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia -desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu -Sardanapalo!» - -Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava. - -Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás -masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da -terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem -do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da -historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle -baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me -estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um -bastião, resmoneou: - -«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de -carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia -de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses. - -Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu -gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e -fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello -iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza. - -Outro caso: - -Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de -uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco -de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes -enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua -estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos -cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o -coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que -descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus -cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do -myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das -papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu -scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar -a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção: - ---Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a couve -lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras annuaes. - -Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao _Matta_, ou á _Taverna -ingleza._ - -Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular -tristeza, da qual nem todas as almas se magoam. - -Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir -onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que -deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais -esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias -que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é -salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas. - -As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do -padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.» - -A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé, -amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes. -Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do -céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas -pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras -hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta -marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das -janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão -agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de -vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte. - -Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso, -alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes -circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando -passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este -ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter -sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos -senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim -imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões -rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas. - -Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e -muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com -artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no -centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario, -através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu -clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de -castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das -armas do tecto. - -Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á -imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não -tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava -uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se -então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um -atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas -camandulas, e estas no fuso, e este no fiado. - ---Não se impaciente, senhora Eufemia,--disse o padre.--Ande lá de seu -vagar, que nós não temos pressa. - ---Valha-me Deus!--disse a velha afreimada--este berzabum do negalho -parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosario se -foi imbelinhar! - -A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a -tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a -miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se -d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda -inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando -o padre pacientemente desenredava a cambulhada. - -D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e -residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um -d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para -hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século -passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com -espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados -a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com -reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de -florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e -D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do -ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos -Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no -desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala, -cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia. - -Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella -examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande -jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante -estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de -pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro -de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa -copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme -sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos -entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago. -Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs -como á competencia com as cigarras. - -Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de -amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de -armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do -edificio. - ---Quem vive n'aquella bonita casa?--perguntei eu. - ---Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa--respondeu o padre--Foi -dos que foram donos d'esta em que vivo... - -Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no -olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia -com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto -aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida, -se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia -responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação, -era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente. - -Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho -para mim, disse: - ---Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que -lhe dou. Venha d'ahi. - -Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada -a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau -preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara -duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a -fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em -ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com -referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos -infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto -era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a -metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce -melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que -mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas -dos «Olivaes.» - ---Já sabe--disse o padre--que tem de fazer aqui penitencia da -irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade. - ---Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!--disse eu sem simular o -enthusiasmo--A poesia está aqui! - ---A poesia dos prophetas de Jerusalem;--atalhou o levita--a poesia das -lagrimas... - ---E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos -desventurados n'este mundo!--acrescentei eu, enlevado no meu rapto de -cinco minutos--Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna -ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os -alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que--é a fé, -a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra -brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida, -e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da -sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se -refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão -que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O -homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a -fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as -suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de -si é que está a salvação. Em Deus é que... - ---_Em Deus_--interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava -esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a felicidade, -o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, não -acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas -contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que -o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as -consequencias. Se a felicidade--a da consciencia, entendo--é obra do -acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta! -Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu -respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de -acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do -bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo, -protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os -allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada -dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus -não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que -os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos -d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados -á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa -fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de -desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do -justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto -ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta -d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar. -O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as -paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola -d'outra luz, se não a Deus? - -Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em -si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar -alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os -penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela -salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes -esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o -Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos -imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A -solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os -absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no -ermo; bom é, porém, que não venham aqui _ungir os braços para sairem -de novo á arena._ O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os -_luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem -com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos -vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe -eu se tem horas de jantar acostumadas._ - -Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu -respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era -proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da -casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas -soleiras de duas portas. - - - - -......................... -_No has visto mas?... Vuelve á la -pradera, hijo mio, por que hay en -ella cosas mas dignas de tu -atención_......................... -_Dios estaba en medio de los campos. -No le has visto? A él debe la -pradera su belleza; las miradas -de Dios animabam la claridad del -sol_.......................... -_No has oido mas que él murmullo -de los arroyos, et gorgéo de las -aves, y el viento que mecía las ramas -de los árboles? Vuelvebe al -bosque, hijo mio, porque tus oidos -percibiran cosas mucho mas grandes_... - -ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de -la primera edad.) - - -Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever, -despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle -remançoso descanço do corpo e socego de espirito. - -A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda -instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se -nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois -edulçora os azedumes de largos annos. - -Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava -delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira -tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por -entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o -rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos -immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa. -Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a -casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive -n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então -ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella, -já com as mãos erguidas. - -Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu: - ---Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas -ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar. -Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem -comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não -me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem -que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro... - ---Onde vai dar comsigo n'esse arrazoado?--atalhou. - ---Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava fazendo. - ---Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso, -reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir -espairecer nos «cafés» de Lisboa. - ---Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal de -mim. - ---Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á -caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos, -tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e -volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me -agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado. - -O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi -beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação d'estas lagrimas. -Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete -annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu -pai m'as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi -está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com -um abraço. - -No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de -olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de -grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.a Eufemia com o almoço, -e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar. - -D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia -que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de -gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada, -os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto -das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de -vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do -nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas -convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello -com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me: - ---Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até este -ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos -meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro, -plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos. - -Reparei n'outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: _L. A._, quasi -illegiveis pela sobreposição da casca. - ---E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro? - ---Tambem. - -Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o -recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões -do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o -chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos -cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos -silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá -hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio -Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o -leitor não acha sal n'estes ditos, o padre tambem lh'o não achou. De -instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora -antes claro e aberto ao contentamento interior. - ---Que tristeza é essa?!--perguntei. - ---A tristeza do homem, que não póde ser anjo--respondeu elle, -trabalhando por reprimir as lagrimas. - -De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia -replicar, nem consolar. - -Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram, -tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua -reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance -denominado VOLUPTÉ, _Voluptuosidade!_ isto oferecido pelo homem de -Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com -fervor d'um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração -do justo me trouxera do céo! A _voluptuosidade_ de Sainte-Beuve, aqui, -n'este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do -Espirito Santo!... - -Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas: - . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . -«Entende o editor d'esta obra que as pessoas -nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella -tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja -moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações -menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás -pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas, -não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.» - -Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais -brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em -trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha -de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e -pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o -espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os -futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores. - -Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr. - ---Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um amigo--disse -o padre--Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com -profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quizera ter-lhe -escripto este romance que o «Manual d'Epicteto» ou a «Imitação de -Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o mundano, o penitente, o -christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser tudo isto, é ainda mais, -é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não -ser o de Job: _Homo natus de muliere..., repletus multis miseriis_ -«homem, nascido da mulher, acervo de miserias sem conto.» - ---Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a -desculpem?--atalhei eu. - ---Porque não? faça. - ---Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os -rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não ha? - ---Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,--perdôe-me a profanidade--mas -as veredas muito differentes. - -Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com -alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a -luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito: - ---Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. Não -é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem -«Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados -á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis. - ---Mereço eu tanto?!--disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e -lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade. - ---A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja, -nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos -fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde. - -Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das -letras, e continuou depois d'este theor: - ---Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão -d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus -silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não -já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É -natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. -Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca -fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a -ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de -ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei -quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que -os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que -monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada -passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis, -perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco -cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo -vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim -encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das -injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que -eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face -agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de -melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só -commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns -e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se -acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que -se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz -e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem, -porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem -que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem -sombras de defeza propria, não tem, meu amigo? - ---De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!--respondi--Quem é que -o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo -das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que -se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama. - ---Não tanto--replicou sem embiocar a caridade--Sejamos generosos e até -piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das -posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da -perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua -descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como -o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O -sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de -agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que -retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de -dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado, -que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de -voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer -escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos? - ---Deve dizer--respondi commovido--que homem, que tal fez, é um dos -escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana. - ---A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu -tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois -saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie -humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco -da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes -no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na -lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes» -vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as -«Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um -sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão -pêcas glorias da especie humana. - -A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar. - -Jantamos. - -Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem -os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com -vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os -santos, como o padre Alvaro. - - - - -_Ibit homo in domam œternitatis suœ_ -Irá o homem para a casa da sua eternidade. - -ECCLES.--12. 5. - - -Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da -mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e -tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem -alguma outra cobertura. - ---Ahi tem--disse entregando-me o livro--Leia, como quem lê um romance -de historia authentica, escripto por pulso não vezado a escrever -novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de vinte -primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada -uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas. - -Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do -acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na -minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa -devoção. - -Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o -livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias: - - -_Ingredere in petram, et abscondere fosso humo_ - - -Quer dizer: - -ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA -COVA. - - -E mais abaixo o verso do psalmo 117: - - -_Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini._ - - -Póde assim trasladar-se em vulgar: - - -NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR. - - -A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns -capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em -conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas -correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou -entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras -palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento. - -Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e -relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando -a do sol me dispensava da outra. - -Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus -vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á -modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se -entendera por idolatria. - -O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação, -nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de -hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a -consciencia em Deus. - -Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não -cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas -o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle -justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio, -balbuciando commovido do meu embaraço: - ---Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse. -Diga-me agora: que aproveitou? - ---Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, sei -agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que -Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.» - ---E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça... - ---E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo... - ---Pouco aprendeu...--replicou o padre--Eu queria mais que tudo isso... -Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso -dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, -se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho. -Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a -bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e -encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e -commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se -a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, -outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude -dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem -amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na -ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira, -ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus. -Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha -consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se -de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas -que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer, -porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus -que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a -fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado -ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus -primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões -inofensivos, o _post tenebras spero lucem_ de Job.[1] - -Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios -espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe -ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade -pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e -até para passear desassombradamente. - -Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta -chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez -habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe -havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue. - ---Vou hoje de tarde a Lisboa--me disse elle, placido e triste--Se quer -ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si. -Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as -ruinas, mais contente voltarei. - -Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes» -ser-me-ia dolorosa. - -Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de -Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha -hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir -para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o -leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa -Martha. - -Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao -pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante -do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza -cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo -tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços -da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de -veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que -esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos -na grade. - -Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas -ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus -trabalhos.» - -Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me -disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu -braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o -achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi -durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos -encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse -esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á -semelhança das que regelam na face d'um cadaver. - -E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão -absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma -palavra só de lenitivo, que lhe dissesse! - -Parou a sege. - -Saltei para amparar o padre na descida. - ---Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro -andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui -fallar-me. - -Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte: - ---Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os -«Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite. -Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos -as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou -avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da -conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a -sua mão de amigo, e adeus. - -Voltou-se para mim, e disse-me: - ---Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o -poder fazer sem custo. - ---Pois não me quer comsigo agora?!--atalhei. - ---Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem -consolados por ninguem. - -Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado. - ---Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivaes»--ajuntou elle. -Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido. - -Fiquei conversando com o amigo do padre. - ---Não o tornaremos a ver--disse-me elle consternado--Padre Alvaro não -vive muitos dias; o senhor verá. Eu d'antes, quando o via desconfortado -e com signaes de pouca vida, dizia-lhe:--«lembre-se d'aquella infeliz, -que não tem mais ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma -nova! Agora, não ha nada que o prenda á vida, senão o sofrimento... - ---Mas eu cuido--interrompi--que o padre Alvaro ha-de achar sempre na sua -vida occasiões de ser util a muitos outros desgraçados, embora se -ofereçam com titulos menos valiosos á sua beneficencia. Em quanto -houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com -Deus, o padre, qual elle é, não póde julgar terminada a sua missão -n'este mundo. - ---Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juizo--redarguiu o -sujeito--mas os negocios do coração alheio correm de modo muito -diferente das nossas razões, pensadas, a espirito socegado, embora nos -doam os infortúnios do nosso amigo. - -E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso -amigo. - -O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.a Eufemia hesitara -em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas -voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse. - -Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me -procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe -que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto -para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes». - -Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava -para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que -cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um -sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas: - ---O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua -santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. -Francisco de Sales ou Vicente de Paula... - ---Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor -padre Alvaro--disse-lhe eu. - ---E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a -luz, que illumina e abraza... _Ardere et lucere_...[2] Padeci muito, e -esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa -vida aqui se acabam: _Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad -finem_[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil -machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo -dia: _Ridebit in die novissimo_[4]. - -Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu -companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam -refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas -consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á -perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro. - -Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no -amigo, que propozera a consulta. - ---Medicos!...--murmurou elle--O caixão... Mortalha cá está esta... - -Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da -tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os -olhos no céo: - ---D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era -muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com -os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o -néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero -tudo da misericordia Divina. - -Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que -fechassemos a janella. - -Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. -Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei -esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia. - -Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom -compadecido: - ---Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou -melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho. - -Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o -prior. - -Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por -desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto -a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto -o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella -respondeu-me: - ---O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que -está a morrer!...--E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. -Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher -através dos ultimos vinte annos. - -Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força -passal-o á cama: não o conseguimos. - ---A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. _Dulcis est somnus -soperanti_[6]--disse elle. - -E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou: - ---O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e tão -puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o -homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do -universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o -reptil, nem quando despega da arvore a folha secca. - -Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que -não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos, -murmurando vozes imperceptiveis. - -As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os -braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém, -á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus -joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:--_Beati qui lugent_[7]. - -Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as, -por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e -elle disse: - ---_Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit_[8]. - -Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da -cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe -lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira. - -Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do -ultimo juizo. - -Ajoelhei de novo, e disse: - ---Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes. - - -[Nota 1: Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.] - -[Nota 2: S. João--5. 35.] - -[Nota 3: Psal. 37--7.] - -[Nota 4: L. dos Prov. Cap. 31. 25.] - -[Nota 5: S. Lucas--12. 19.] - -[Nota 6: É suave o dormir a quem trabalhou.] - -[Nota 7: Felizes os que choram.] - -[Nota 8: Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado -o esposo. S. Matheus. 25. 6.] - - - - -FIM DA INTRODUCÇÃO. - - - - -I - - -_Grande, très-grande révélation. Ce -n'est pas ici un vain spectacle d'art et -de sensibilité, simple volupté du cœur -et des yeux. Non, c'est un acte de foi, -un mystère_... - -MICHELET (La Femme.) - - -Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813. -Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d'um fidalgo da côrte. - -Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha -o coração memoria d'ella. Entrou n'um collegio. Ahi, ouviu de seus -companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo -das saudades d'elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude -muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo -confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que -m'as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse -buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe. - -Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o -dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe. - -Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a -Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua -mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas -palavras, que exprimiam o em baraço d'ella, suspeitoso á precoce -esperteza de Alvaro. - ---Vou perguntar a meu pae--disse elle. - ---Ora!--acudiu a ama--para que ha-de ir o menino fazer essa pergunta a -seu pae?! Não queira saber d'essas cousas. - ---Então que tem?!--tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e curioso como -creança--Eu havia de ter mãe por força, não é assim? - ---Isso é; mas... - ---Mas quê? - ---E se ella morresse!?... - ---Se morreu, é outra cousa... Então diga-me que morreu. Morreu ou -não? - ---Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe -importa--disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas -perguntas. - -Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico. -Amimava-o n'aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á -proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das -suas. - -N'esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino -sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava -as unhas. - ---Ó papá--disse Alvaro com um gesto carinhoso--a minha mãe já -morreu? - -Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a -aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas -concernentes ao collegio. - -Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de -providencial impulso, retrocedeu, e disse: - ---O papá não me disse se a minha mãe morreu... - ---Morreu--disse seccamente o pae. - -Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de -riso e meiguice. - -Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada, -disse-lhe em ar de reprehensão: - ---Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas? - -Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres, -que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o -mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro -era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a -quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem -communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre. -O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por -esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse: - ---Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessario. - -O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia. -Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em -aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos -mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro; -mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus -condiscipulos. - -Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu -medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O -negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se -gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um -verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua, -morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo. -Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da -riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e -acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles -viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos -casamentos e natalicios da côrte. - -Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo, -por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de -fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro -resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio, -onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns -condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso. - -Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos -livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre -os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em -conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima -pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a -resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas -recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se -de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o -mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!? - ---O senhor Alvaro está homem no espirito;--disse-lhe um dia o seu -affeiçoado mestre de inglez--vou dizer-lhe o que não quiz explicar á -sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos -ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma -forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era -sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de -seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco -de ser manchada. Creio que me comprehende... - ---Manchada... por que?--disse Alvaro. - ---Por ser sua mãe. - ---Por ser minha mãe!... Não entendo!... - ---Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se de -serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um -sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu. - -Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse: - ---E minha mãe não estava assim ligada a meu pae? - ---Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua curiosidade, -pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh'as revelado, -se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora -contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é -ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer -Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar. - -Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e -rica, filha d'um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o -nome de sua mãe. - -Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á -medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe -velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um -destino imprevisto. - -Continuou o mestre: - ---Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na -época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu -da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um -convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça -esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu -pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro -annos. Fique sabendo que sua mãe é viva. - -Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal -respeito. - -Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A -educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia -das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios -reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o -ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um -convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que -seu filho assim a julgasse. - -Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em -Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a -mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo -de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava -preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos. - -Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia, -e encaminhada ao ponto de lhe dizer: - ---Quem me dera vêr um retrato de minha mãe! - -Eufemia fitou os olhos n'elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha -ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou: - ---Se a visse!... - ---Ella de certo morreu, minha Eufemia?--tornou elle, -acariciando-a--Falle a verdade... Não minta ao seu Alvaro!... - ---Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos -Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer. - ---Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus. - -Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou: - ---Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque -está minha mãe n'um convento? - ---Santo nome de Jesus!--exclamou Eufemia, levantando as mãos á -cabeça--Quem lhe disse isso, menino? - ---Que lhe importa a vossemecê saber quem m'o disse? É isto verdade? -É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe -não está n'esta casa. - ---Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me -embora d'esta casa--replicou a ama com resolução feita de sahir. - ---Está bom--redarguiu Alvaro--não se afflija, que eu não fallo mais -n'isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada. - ---Eu, menino! Eu cahia lá n'essa! Tomára eu que elle nem por sonhos se -lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!... - -N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido -apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe -esquecera. - -Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si: - -Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe? - -E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira -uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha. - -A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera -a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu -a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim. - ---Será?--disse elle--«Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e -esta é tão formosa!... - -Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse -Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para -junto d'elle, dizendo: - ---Que está a vêr o menino? - ---E de minha mãe este retrato?--respondeu elle sem turbação. - -Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou: - ---É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na -gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino! - ---Não vou,--disse elle com firmeza--n'esta gaveta é que está o -segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes -papeis alguma carta de minha mãe. - -Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella -resposta. - ---Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo--disse ella--Venha -depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem... - -Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher. - -Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela, -que não podia denunciar mão estranha. - ---Conte-me agora o que souber--instou elle com a ama. - -Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade -com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte: - ---A razão por que sua mãesinha foi para o convento... ainda que eu -lh'a diga, o menino não a entende. - ---Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender. - ---Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era -de lá... - ---Já sei. - ---Sabe?! quem lh'o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria! - ---E depois? - ---Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um -convento... - ---Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe -pergunto: o que eu quero é saber porque foi. - ---Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já sabe... -Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe. - ---Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu, -Eufemia? - ---Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que lhe -diga o resto... - -Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda, -refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o -patrão para casa. - -Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e -tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava -a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da -campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que -metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do -gabinete. - -Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no -gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não -suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo -Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara. - -Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos, -deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como -se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de -santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos -vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos. - -A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do -convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e -cinco anteriores áquella data. - -Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de -piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que -se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor -maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam -crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de -Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella -que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da -Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a -desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua -innocencia, diante de Deus. - -Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não -viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um -livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á -sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se, -obteve licença de estar no collegio um mez. - -D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo: - ---Vou ver minha mãe, Eufemia. - ---Que diz, menino!? Está doudo!? - ---Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada, -porque pensa que estou no collegio. - -Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro, -sendo a mais forte de todas esta: - ---E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe que -são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá. -Quem lhe dá o dinheiro? - ---Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se m'o -não emprestar, vou a pedir esmola. - -A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d'aquelle -lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de -realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d'esse dia, ajudada por um -seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o -menino a Vairão, guardando n'estes passos tal recato que não ficasse -alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os -descobrisse. - -Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a -Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que -nem sequer lh'o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente -admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e -prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de -encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar -um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas. - -Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da -Gloria. - - - - -II - - -_Começa o céo a dilucidar-se._ - -GOLDSMITH (o vigario de Wakefield.) - - -Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do -correio de Villa do Conde, correu transportada á cella da sua amiga -Cecilia, e lançou-se aos braços d'ella, chorando de alegria. - ---Que é, filha?--exclamou a religiosa alvoroçada. - ---É a primeira alegria que Deus me dá em onze annos de martyrio. Olha, -vê esta carta da Eufemia... deixa que eu leio... - -E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as -conversações, que tivera com o menino, até áquella hora em que o foi -achar a contemplar o retrato de sua mãe. - ---Oh meu Deus, meu Deus!--clamou a enlevada senhora, ajoelhando ante o -oratorio de Cecilia--Bem haja a vossa mão que até hoje me opprimiu -para que eu sentisse o immenso prazer d'esta noticia! Fallai, meu divino -Jesus, fallai ao coração de meu filho, e dizei-lhe que sua mãe, se -foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue as nodoas do coração, -para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho! - -Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é -que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar -longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e -reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham -resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae. - -Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram, -porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais -escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o -seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas -senhoras preluzisse o vaticinio de começar d'alli a desenredar-se a -trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores -annos de sua vida. - -Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á -criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um -hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e -tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da -religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a -imaginação apaixonada do poeta os achou assim. - -Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto, -Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em -que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão. - -O ambicioso coração d'aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava -tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias -nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel -Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno. -Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as -timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das -flagellações de onze annos de saudade. - -Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta, -mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o -receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil -successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa, -a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a -portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao -pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as -monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e -mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o -solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram. - -Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas -creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n'esse tempo, florejava em dons -do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos -maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de -Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas -balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios -d'aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do -leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão -em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre -juvenil poeta! - -E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta -de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de -Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do -mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir -delicado o tiraria a limpo. - -Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro. - -Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a -esbofar de cançadas. - -Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente, -quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, -menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria -sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia -lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando -destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como -pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona -abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o -mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem -alli vinha ter por seu pé. - -A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como -ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos -dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e -com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os -facultativos ás cellas das suas doentes. - -O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os -seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais -encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do -carcere de sua mãe. O interior d'um mosteiro era-lhe novidade; e posto -quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda -das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas -que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas. - -As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria, -agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede -e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a -mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da -cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio -de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e -contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da -loucura. - ---É o meu filho!--exclamou ella circumvagando os olhos mais soberbos -que maviosos pelas religiosas que choravam--É o meu filho! é a minha -riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante... -Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me... - -E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas. - -Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, -como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que -alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos -rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas -conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque -morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o -viço dos vinte annos. - ---Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?--disse ella, -correndo as mãos no rosto de Alvaro. - ---Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o papá--disse o -menino a custo, de apertado que estava nos braços da mãe. - ---Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha -dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos -meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido -filho!... Onze annos!... E Deus sabe se tornarei a vêr-te! - -Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as -freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança. -Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar -do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e -gotejante de suor. - -A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado. -Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do -filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa -transpiração. - -A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta. - ---Sinto-me vigorosa...--disse Maria--Olha, meu filho, entra n'aquella -cella, e espera-me lá. - -Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com -serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe -sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento. - -Viu Alvaro n'este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com -aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns -retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de -devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os -olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a -ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou -a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta, -e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do -mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o -accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe -solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia -velára d'elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a -mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para -escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser -repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica -de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe -temperassem as desesperadas saudades. - -Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro -estava. - -Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que -parecia tomado de melancolico espasmo. - ---Estás tão triste, Alvaro?... É a vista de tua velha mãe que te -entristece? - ---Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa -casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe? - -Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que -desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta: - ---Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d'esta minha -desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para -comprehenderes a calumnia de que sou victima. - ---Mas--atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que denunciavam -mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da vida--o pae não -póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa a minha mãe... -Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez -tambem me disse que eu nascera na época da felicidade. - ---Cala-te, cala-te, meu filho--exclamou Maria, afogada em soluços. - ---Não chore assim, minha mãe--acudiu o menino, a chorar com -ella--Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d'aqui; talvez que elle -tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro -annos? - ---Quem te disse que eu lhe escrevia, filho? - ---Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque -não tornei a encontrar aberta a gaveta d'onde as tirei. São todas de -1820. A mãe não escreveu mais algumas? - ---Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas. - ---Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em Lisboa... - ---Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a teu -pae? - ---Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe... - -O dialogo durou assim até á hora em que Maria da Gloria e seu filho -foram chamados a jantar em casa da abbadessa. - -Todas as religiosas e noviças foram commensaes no banquete dado pela -prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado -entre sua mãe e a abbadessa. Defronte estava uma religiosa de annos -dilatados, a qual, desde muitos mezes, só na sua cella e no coro se -encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera -soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi -ella mesmo que se offereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar -áquella honra feita a um anjo de dor e de paciencia. Isto, dito por -soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o -animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era -uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era -tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com -Alvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já -queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser -brevemente furtada ás suas amigas do convento. - -A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma -felicidade, que ella devia ás orações de soror Joanna, e d'outras -virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céo; -accrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e á -sua dignidade de esposa. - -Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como -quem impõe silencio ás palavras de duvida, e contradictorias com as do -espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que -nem as respirações se ouviam. - -Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor: - -«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu -marido, e aos respeitos do mundo». - -Por que é que os cabellos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos -de quantas pessoas ouviram o tom prophetico da virtuosa anciã? De -feito, havia instincto do céo n'aquellas palavras, o som d'ellas tinha -a um tempo a força electrica de que o ouvido se estremece, e a uncção -suavissima que banha a alma de luz da fé. - -Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi, -tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que -lhe tomou de joelhos a mão. - -Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o -da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces -descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos -labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia: - ---O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á hora -em que Deus o mandou chegar. - -Os animos ficaram tão absorvidos n'esta affectuosa scena, que só -volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se -retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de -noviciado, e contavam para mais de setenta annos. - -Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar -soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella -fez signal de ficarem. - ---Que pena tenho eu--disse a freira com muito alegre semblante--de não -ter n'esta minha pobre cella um mimo que dê a este menino, para se -lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão! - -As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha -senhora--disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario. - ---Ora, deixe estar--tornou a religiosa--hei-de ver se o não deixo ir -sem uma lembrança minha... Quando vae embora o menino?... não deve -demorar-se muito... - ---Eu desejava estar mais tempo--disse Alvaro--mas não tenho remedio -senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta. - ---Ámanhã!--exclamou Maria--pois já me deixas ámanhã!? - ---E deve ir ámanhã--respondeu soror Joanna com impressiva firmeza, -como se désse ordens. - ---Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?--tornou debulhada -em pranto a mãe de Alvaro. - ---Mulher de pouca fé...--murmurou a santa, com brando sorriso, e um -meneio triste de cabeça--O menino--ajuntou voltando-se para elle, e -tomando-lhe as mãos entre as suas--sahe de madrugada, sim? - ---Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar. - ---Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas, venha -dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras -senhoras, que hão-de estar saudosas d'ella. - -E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração. -Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as -freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo -dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não -duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse -directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía -tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta -entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os -perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o -aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de -lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira -a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d'ella, com -as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e -sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de -Nazareth o annuncio da sua maternidade! - -Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu, -passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de -fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e -acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com -que o velara no seu primeiro anno. - -Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura -arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia -acordar o filho. - ---Acordal-o para o vêr ir de mim!...--dizia ella, chorosa. - -Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando -o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa -deram-lhe alma para o trance. - -Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle. - ---Entrem, meus filhos--disse soror Joanna--Venha aqui o menino: não ha -tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva d'esta sua velha -amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá -entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde -mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me -dará novas da pessoa a quem escrevo. Emquanto a vós, minha -penitente--continuou acariciando Maria--notae bem o que vos digo. -Prohibo-vos de vêr o subscripto da carta que vosso filho leva. -Entendeis, Maria? - ---Oh minha senhora!--disse a conturbada mãe, beijando-lhe a mão.--Sou -incapaz de desobedecer-lhe. - ---Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com -Deus, meus filhos. - -Do ultimo abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os -braços de Cecilia. - -Alvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem. -Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não -viu senão o alvacento véo das suas lagrimas. - - - - -III - - -_Quem não vê por isto que o mundo -é um juiz iniquo?_ - -S. FRANCISCO DE SALES (Introd. -á vida devota). - - -Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como additamento á -«Flôr dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou -demonstrar que soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor não fazia -milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as -consequencias do que já sabia. Saiba tambem o leitor que este romance, -por ter o merito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o -faz. - -É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macáo, em 1815, -liquidar a herança paterna de sua mulher. - -Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não -direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que -ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae, -commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do -titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e -dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a -caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de -cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero -dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura: -sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os -casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma. - -Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de -encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes -saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d'outras -sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle. - -Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta -teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a -figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e -chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães. - -Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se -chama _Alfredo, Ernesto, Arthur_, ou _Julio._ Acceite-o assim, que era -aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da -policia, e ministro d'estado, e holocausto de suas idéas liberaes no -desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem -honradamente servira. - -João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de -bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que -farte d'este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o -pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos -religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O -caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como -o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto--á -virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma. - -João de Mattos amou Maria da Gloria. - -Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as -qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes -sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado. - -Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d'um -professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus -concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá -preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem -d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz. - -Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se -d'est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são? -Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal -sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos -captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É -notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus -azares: não empreguei outra magia...» - -N'outro relanço diz: - -«D'onde vem o amarmos as cousas bellas? porque são bellas; e as boas? -porque são boas.» Vão tomando nota. - -Outra passagem: - -«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o -porquê. Sahimos a negocios, e depara-se-nos ao dobrar d'uma esquina a -mulher, que vae transfigurar-nos o coração.» - -Ultima citação: - -«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de -demasias? Absurda cousa! Para a paixão ha um freio sómente: é o -desgosto ou o fastio.» - -Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem -implicancia das suas excellentes qualidades: - -Não sabia elle como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de -matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua -alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa. -Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a -graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quiz enfrear os impetos do -sentimento; mas, antes do fastio, não ha hora alguma em que o amor, -coma o leão sezonatico, se deixe acorrentar. - -Ahi está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro--O -DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericordia. - -Quaes foram, porém, ás demasias do visinho de Maria da Gloria? -Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia -dictal-as o coração e o genio. A esposa de Manoel Teixeira peccou -lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma. - -João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe, -quando ella sahia da sua antecamara para ir beijar o filho no berço. -Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da sahida, e disse ao -homem corrido e allucinado: - ---Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor! - -Não respondeu, e sahiu. - -A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por -intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e -despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria -da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no -rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada. -N'esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te -por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e -não de immoralidade.» - -Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos, -e dissera comsigo:--«Isto entretem.» - -Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa, -acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de -morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel -Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um -menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo -comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros; -cheio de saude e promessas de longa vida... que mais póde dar este -mundo? - -O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n'um momento tudo isto. - -Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe, -com rosto sêcco e pesado: - ---Por que despediste o criado Gregorio? - ---Porque me não convinha respondeu Maria, descórando. - ---Porque descóras? - ---Pois eu descórei?!--balbuciou ella--Impressionou-me a mudança do teu -rosto. - -Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o menino. - -Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala. - ---Por que me fazes semelhante pergunta?!--disse-lhe ella, resolvida a -contar-lhe o acontecimento. - -O marido fitou os olhos n'ella e nas janellas de João de Mattos. Maria -ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu. - ---Deus sabe a minha innocencia: nada temo--disse ella. - -É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente, -porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que -os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem -citados ao seu tribunal supremo, e--n'isto vai muito a dizer--parece que -vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos que delinquiram. Os -theologos é que sabem dizer como isto é, e convencem a gente de que os -romancistas são os menos azados para deslindarem esta meada. -Consultem-se, pois, os theologos. - -Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado -de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d'este. O logista -procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de -Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector -estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as -razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu -segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse -n'este sentido, e com tamanha dôr, que chorou! - -Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas. -Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo. -Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já -preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel -Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não -digamos maldade. - -Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e -dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou. - ---Apeie-se,--disse elle depois que saltou rapidamente da sege. - -Maria sahiu machinalmente. - ---Entre n'aquella liteira. - ---Para onde vou?!--exclamou ella. - ---Sabel-o-ha onde a pozerem. Não ha tempo para explicações. Aquella -mulher é sua criada. - ---E meu filho? - ---Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a -deixarem. Adeus. - ---Mas o meu filho!--exclamou, estendendo os braços ao marido--Dá-me ao -menos aquelle menino, se me lanças barbaramente de ti!... - ---Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de tardias, -são indecentes. - -A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem -sentidos á liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso -conflicto. - -Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus. - -O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram -conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em -casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os -esperava Manoel Teixeira. N'esta nova casa, medianamente adornada, não -havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças. - -Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação. -Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um -convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso -marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as -noites á beira d'elle, receiosos d'um suicidio. Isto é o que se dizia -no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção -de evangelhos. - -No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria, -estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do -coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á -capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel -Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria -culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido -viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta -nos arrabaldes de Napoles. - -Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria. -João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da -chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados -successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava -Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o -local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto. - -E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d'outro -estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous -filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola, -porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que -elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos, -trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos -de todos os seus amigos. - -Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando -blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes -durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de -Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido -no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. - -N'este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram -cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de -Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido. -Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu -filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus. - - - - -IV - - -_Dico vobis: Omnia quœcumque orantes -petitis, credite quia accipietis, et -evenient vobis._ - -Eu vos affirmo que todas as cousas, -que na oração pedirdes, as recebereis, -e succeder-vos-hão. - -S. MARC. 11. 24. - - -Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da -policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais -importantes segredos d'aquella magistratura. - -Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em -Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota -Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior. - -Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia -ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro -de Hespanha. - -O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de -Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle, -pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de -Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a -conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora -liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da -Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de -conduzirem-na ao convento hespanhol. - -João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença -escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui -reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu -mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de -João de Mattos. - -A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga, -contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da -pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já -ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria. - -Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella -tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos, -que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que -punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella -intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e -posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe -de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem -gerir o património do filho legitimo. - -Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que -o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e -gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua -justiça. - -João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana -era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que -o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria -traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido. - -A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a -Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro. -Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras -horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e -tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no -rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do -coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam -commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço -n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com -ellas, rezavam ferventemente. - -Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da -vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em -altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas, -que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu -não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é -esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos -as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não -sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza -d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão -entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina. - -Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos -com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a -sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não -ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu, -naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e -o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas -que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os -cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se -veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas -para nós... _Para mim_, devia ter dito; porque, em verdade, não posso -nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores. - -É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em -quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo -ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste -resultado promettem á temeridade do bom filho. - -Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos -Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a -Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como -se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem. - -Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace -pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua -ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se -Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus -haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se -lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de -vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes, -cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente. - -Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira -disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão -para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das -canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria -philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse -ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que -era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o -pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para -aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na -familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella. -Se outrem o dissesse, era epigramma de certo. - -No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella -sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria -da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar -alguns primos e primas. - -Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de -surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é -que foi o surprehendido. - ---Não mande parte a meu filho,--disse o negociante,--que eu quero -apparecer-lhe de repente com a prima. - ---O senhor Alvaro não está cá--disse o director do collegio. - ---Como?!--meu filho sahiu? - ---Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus parentes -dos Olivaes--tornou o director. - ---Isto que significa?!--replicou, entre colerico e espantado, Manoel -Teixeira, interrogando o mestre de inglez. - ---O senhor director disse a verdade...--respondeu aquelle, denotando -enleio e turbação. - ---Então foi o meu filho que me mentiu?--tornou já muito alterado o -commerciante--Não creio! Aqui ha embrulhada! - ---Que embrulhada póde haver aqui?--disse com azedume o proprietario do -estabelecimento. - ---Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho. - ---Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o -suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria, -e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino, -que nos merecia toda a confiança. - -Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o -ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual -foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos? -Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa. - -Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir -com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz -clamorosa de seu amo chamando o filho. - -Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia, -e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que -deixava a pobre ama. - -N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de -inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel -Teixeira reanimou-se. - ---Vem dar-me alguma boa noticia?--exclamou o negociante com alegre -rosto. - ---Creio que sim. - ---Appareceu o meu filho? diga, diga. - ---Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo. - ---Onde está, pois? - ---Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem -presado. - ---Sei, e merece-o. - ---A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não -soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia -estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua -mãe ao convento de Vairão. - -Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou: - ---Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?! - ---Fui eu, snr. Macedo. - ---E como sabe o snr. que ella está em Vairão?! - ---Sei-o da voz publica. - ---E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o communicar -a meu filho? - ---Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me -muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria. - ---Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!--disse -ironicamente o negociante--Quer-me mais alguma cousa? - ---Quasi nada,--disse o professor--restituir a vossa senhoria seis mezes -da prestação que o director do collegio recebeu adiantados. - -E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a -banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito. - -Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia. - -O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço. - -A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não -respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço, -sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente. -Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra, -demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a -mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens -para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo, -entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não -fosse elle evadir-se ao castigo premeditado. - -Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá -ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e -ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de -seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta, -porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não -foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das -criadas de Maria da Gloria. - -Agora é que temos Alvaro em Lisboa. - -Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos -Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava -o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas, -quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de -Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes -interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No -fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita -meiguice: - ---Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino lhe -levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere -aqui um pouco, que eu volto já. - -Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o -aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão. - ---Onde mora o menino?--disse João de Mattos. - ---Na rua de S. Bento, numero 12--respondeu o esbirro. - ---Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do -Limoeiro--disse o intendente--Agora vamos, menino. - -Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão. - ---Quem será o _homem do Limoeiro?!_--ia dizendo entre si o filho de -Maria da Gloria. - - - - -V - - -_Os insensatos não comprehendem -como se enlaçam o merecimento e a -felicidade._ - -GOETHE (Fausto). - - -N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que -estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma -carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle -ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o -guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos -fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos -de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada -de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da -Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher! - -Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em -sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa -se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio -ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se -demorava. - -Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos -do menino, e dizia-lhe: - ---Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal... -Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme? - ---Nem eu sei dizer... Não é medo... - -Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, -vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o -separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez -mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto, -tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira -do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade. - -João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade: - ---Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu -nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado -seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim. - ---E vem a minha casa?!--disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no -pavimento que se interpunha aos dous. - ---Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á -sua justa vingança... - ---E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?--interrompeu o -commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro. - ---Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe -sósinhos por alguns segundos. - -Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira -encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que -seria dramatica, se não fosse incivil. - -João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita, -segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim: - ---Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para -conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa, -significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem -extraordinario. - ---Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a minha -casa. - ---Venho... - -Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um -preso entre soldados queria fallar a sua excellencia. - ---A mim?!--disse o negociante. - ---É a mim--acudiu sorrindo João de Mattos.--Queira vossa senhoria -consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de espera. - -Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas -occorrencias: - ---Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?! - ---É o facto importante da nossa pratica--respondeu João de Mattos, e -accrescentou com tristeza:--é o fecho d'esta abobada, debaixo da qual -vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... Queira attender-me. -Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço -de paixões violentas; mas... era homem. Amei a snr.a D. Maria da Gloria -porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem -sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O -coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n'essa época á -India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na -ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as -minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama. -Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi -mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca -me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar -furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu -quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que -praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi -de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui -expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era -despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus -abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma -testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço -licença para ser trazido á nossa presença o preso. - -Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou -o feixo da porta, e disse ao meirinho: - ---Entrem... Conhece este homem?--disse elle ao negociante, indigitando o -preso. - ---Tenho idéas...--respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se. - ---Diz a este senhor quem és--tornou o intendente com terrivel sombra ao -preso. - ---Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos -em casa de vossa senhoria. - -Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel -Teixeira. - ---Mande erguer esse homem--disse o intendente.--O juiz aqui sou eu. -Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama, -esposa d'este senhor? - -Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico -accento: - ---Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com -dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D. -Maria da Gloria? - ---Sim, senhor--disse o preso. - ---Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria? - ---Não, senhor. - ---Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao -lugar onde ella havia de passar? - ---Fui eu, senhor. - ---Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus -pés? - ---Mandou-o sahir de casa... - ---E a ti que te disse? - ---Mandou-me embora. - ---Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo? - -O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando: - ---Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama; -mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa -senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com -ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz! - -João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola -da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que -Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava -a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito -do preso. - -João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo: - ---Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe -uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este miseravel não -vale onze annos de lagrimas. - -O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada -pelos soluços, lançou-se a um canapé. - -Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a -mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe: - ---Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o -perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu. - -Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que -escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos. - -João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as -almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da -algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu -tremor nervoso: - - -«Meu sobrinho. - -«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede -a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com -que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa. -Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua -posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para -Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa -da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores -testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por -esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do -infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que -as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime -e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta -martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito -das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas -creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu -coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo -estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu -perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua -felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos -seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais -nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor -Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, -sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. -Tua tia muito amiga. - -_Joanna das Cinco Chagas do Senhor._» - - ---Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?--disse -João de Mattos. - -O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João -de Mattos, e disse: - ---Eu vou levar a resposta a sua tia. - -O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia -aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia -merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não -era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia. - -E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a -commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era -isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a -outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma -familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a -desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem -embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de -grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como -rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a -vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o -alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia -d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente -parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com -lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser -é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, -perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção -os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza -invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo -a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso -de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e -coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não -poder, sem desaire, recusar-lhe a sua. - -Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso -semblante do intendente. - -Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o -retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes: - ---Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma -conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus -paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha -velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções -más.» - -Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel -Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do -intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se -talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia -expansiva de amigo. - - - - -VI - - -_Apollon prend les armes._ - -VOLTAIRE (Sat.) - - -N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as -janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde -o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam -ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de -janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas -com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente -rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a -correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a -prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca. -Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes -de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um -pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as -estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada. - -Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela -duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas, -que a submissão de subditas. - -Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns -sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes -radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos -destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por -convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns -tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e -encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os. -Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o -celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades -circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos -conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da -Universidade. - - -Quanto pode de Athenas desejar-se, -Tudo o soberbo Apollo aqui reserva; -Aqui as capellas dá tecidas de ouro, -Do bacharo, e do sempre verde louro. - - -Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas -hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e -carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira, -isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a -Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados -pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade) -trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar -direitos, violando-os. - -A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das -torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade -da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis -d'aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de -gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação -de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a -freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito -versista, e entre a propria criada, ou _tacho_, e o bardo menos -aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e -dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho -furtado á ama por amor de Apollo. - -Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um -magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos -bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia serem -_ôdres_ e não _ódes._ Os de Guimarães chamavam á octogenaria -prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por -libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do -peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S. -Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que -desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua -santidade e bom siso. - -Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de -certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do -coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae -dizel-o um dos proprios inspirados. - -Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio -Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem -mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo. -Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de -cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo -não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de -uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de -Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do -abbade. - -O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu -patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este: - - -Já cede Pégaso o passo, -Escoucinha, espirra, e rincha, -Ouvindo ornear o pechincha, -O abbade sujo e devasso, etc. - - -A isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a -mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr -aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:--«A melhor de entre -as preladas.» - -O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia -sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote. - ---Lá vai!--disse elle--_A melhor de entre as preladas._ - - -Boas noites! vou-me embora; -Já não posso estar com somno, -Nem me apraz soffrer o mono, -Borrachão a toda a hora. -Oh! quanto melhor lhe fora -Ter as facas amoladas, -E ir cortar as colladas -No outeiro sanguinoso, -Em quanto eu louvo ditoso -_A melhor de entre as preladas!_ - - -Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu -muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos -glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o -victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não -podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o -defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os -amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto -de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais -debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem -com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas -fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas -ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo -estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em -turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se -apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os -poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria -conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os -dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas -com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como -estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem -voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé -sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de -clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que -começava assim: - - -Altissimo Senhor, que tudo pódes! -Transfigura em cajadas os cajados -Que pozeram em fuga os desalmados -Estomagos, que tem só vinho e odes -. . . . . . . . . . . . . . . . . - - -Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á -conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas -religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo -doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro. -Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte -concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem -excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as -diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles. - -Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora -deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos -vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror -Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha -mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro. -A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e -temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos -expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de -supplica: - ---Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé. -Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz, -pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que -o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje. -O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos -encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada -como tenho sido. - -Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que -estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem -convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas -palavras: - ---A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não se -queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da -flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o -tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom -arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria. -Afervore-sa e rese commigo. - -Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou -um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e -disse: - ---Será outra vez bulha lá fóra? - -A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor -crucificado. - -Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando -«milagre!» - ---Gritam _milagre!_--exclamou Maria da Gloria, erguendo-se, com os olhos -na freira. - -Soror Joanna sorriu e disse: - ---Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana -comprehende. - -Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura: - ---Ahi está o menino! - ---E acho que vem tambem o pae! - ---E muita gente a cavallo! - ---E duas liteiras com senhoras! - ---E traziam archotes! - -Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas -tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar. - ---Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre -cabeça!--disse a santa--Falla tu, Cecilia, diz o que viste. - ---Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi mais -pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e -já lá ficou a senhora abbadessa á portaria. - -Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os -joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a -consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no -seio misericordioso do Senhor. - -Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras -de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos, -que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes, -sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a -quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da -prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido -de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados -com as tres damas. Entrara depois d'estas uma mulher, que não ousava -mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua -humildade: era a criada Eufemia. - -As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando -cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha. -Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia. -Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que -sua ama a chamasse. - ---Onde está Eufemia?!--disse Alvaro admirado.--Ella vinha comnosco! - ---Estou aqui, senhor Alvaro--disse a criada, a quem as freiras abriram -passagem. - ---Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia... - -Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos -até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia. -Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos -com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais -chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com -amor, e disse-lhe: - ---Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos! - -As tres senhoras offereceram-se aos olhos d'ella, perguntando se as não -conhecia. - ---Conheço--disse Maria com a voz extenuada,--conheço as minhas amigas -de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A felicidade não -deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam? - -Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao -seu proprio assombro. - ---Senhora D. Maria--disse a abbadessa--á portaria está seu marido. -Vossa senhoria poderá descer até lá? - ---Póde, pois não póde?!--disse soror Joanna das Cinco Chagas--Se eu -lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, por que não ha-de ir -ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o senhor Alvaro dá-me -o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no meio; e acho que não -é mal posta a comparação: a boa eternidade começa pela innocencia da -vida, que é o menino, e continua-se na bemaventurança do soffrimento, -que é a minha Maria, e esta, de mais a mais, chama-se _Gloria!_ - -No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos -dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de -archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia -áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as -esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da -poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de -clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir -perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem -de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a -complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se -afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe -de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo -que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma -peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes -correlativas. - -Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado, -apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas -attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da -curiosidade. - -Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse -intervallo pelo doutor Ferro: - - -Vão freiras, vá noviça, e vá a moça -Gosar d'um coração que desabafa; -Mas deixem na janella quem nos ouça; -Seja um vulto qualquer... uma garrafa! - - - - -VII - - -_Na oração que ha senão aquella -duplicada força, capaz de amparar-nos -na queda, ou solicitar-nos o perdão, -se nos despenhamos?_ - -SCHAKSPEARE (Hamlet). - - -Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos -cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que -receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria -devia fazer-lhe. - -Dizia Sebastião de Brito: - ---Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito -differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos. -No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente; -mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do -convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante. - -A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o -negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte. - -Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d'uma procissão de monjas, -noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de -soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro -esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao -clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua -mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o -limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com -affectuoso sorriso: - ---Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a entrada -nem mesmo aos maridos penitentes. - -Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da -portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a -Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a -todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns -labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que -dobrara o joelho diante d'ella. - ---És tu?--disse ella--E podeste conhecer-me? - ---Quando te não conheceria eu, infeliz?--respondeu elle afogado de -lagrimas e gemidos. - ---Tambem tu tens cabellos brancos!...--tornou Maria da Gloria, -sorrindo--Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas -assim, Manoel... Aos pés de uma amiga não se ajoelha... Ou ella -perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te... - ---Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel Teixeira--disse -soror Joanna--e dê-lhe muitas lagrimas de louvor e gratidão por este -anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ella; por ora é nossa; ámanhã lh'a -daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus amigos para a hospedaria do -mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda o chá. Vão repousar, ou -façam versos, se são poetas, que esta noite todos somos poetas, todos -temos no coração hymno em acção de graças ao Senhor da misericordia -e da justiça. - -Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras, -e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e -enamorado de todas as palacianas: - ---Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora -vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua -formosura--(Sebastião de Brito havia dito isto, mezes antes, a uma -marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de -enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metaphora fosse -applaudida, como de feito era). A graça do mundo--continuou elle, -offerecendo simonte em caixa de ouro á abbadessa--desbota as flôres, -e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse -a sympathica pallidez que lhe realça o mimo, seria menos bella, ou tão -bella como foi. - -Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas -delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de -riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente -bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em -desordem, e nunca podiam dar grande sahida pelos caminhos do céo. - -A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o -refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e -perguntou-lhe se o menino ficava. - ---O menino fica--disse soror Joanna com ar alegre--porque tem de me -levar á cella. Estas senhoras, se quizerem, e a senhora dona abbadessa -consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera hoje, -por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora -vamos com Deus. - -Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito -rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho -acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua -mãe. - -Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito, -pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivaes, tão amante das -musas, quanto o ellas tratavam esquivamente, foi até ás quatro da -manhã o primeiro enthusiasta do auditorio, batendo palmas delirantes, e -bradando os _bis_ com todas as potencias da sua admiração pulmonar. - -Agora, abro mão do seguimento da historia, para acudir a uns reparos -d'algum leitor. - -Diz elle: - -«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes, -occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei -logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente -commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui -era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um -aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido -quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o -discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco -em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era -dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do -coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna -discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que, -nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor -para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos -declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos -amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da -novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as -cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi! -Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é -que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou -peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e -dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o -mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu, -ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a -photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros, -e verão que nem os musicos da orchestra lh'os aturara. O romance é tal -e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa -assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do -convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito -da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois -o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em -bolina n'aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a -desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher! -Nem um _ah!_ nem um _oh!_ lhe ouvimos!... É de mais! Póde ser que -assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no -manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista, -que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d'ella uma Nióbe ou -um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as, -corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente -não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu -lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance, -entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram -nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos, -precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que -nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o -levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta -amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer -que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas -lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde -bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.» - -Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e -de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho -aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia -dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de -molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto -dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica -pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina -hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem -nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido -rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas -aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de -ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto -muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da -verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das -visualidades. Já n'outros livros me tenho cançado a responder a -reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito. -Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a -historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não -fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia. -Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome -d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora, -pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a -obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que -Napoleão lhe dava em Santa Helena? - -N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza. -O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas, -grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar -que eu estou já d'aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em -que me hão-de encolher os vindouros--encolher, digo, porque não -podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter -o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr -outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se -alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo -que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as -rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica, -porque os eu não faço chorar nem rir. - -Respondi, e volto ao outeiro. - -Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as -musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da -novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em -grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que -particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto -sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao -poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr -e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava, -proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava, -como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e -como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e -insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde -em esperanças, sentiu-se namorado d'aquella voz, e d'amor tão -engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa -convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu -poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era. -Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do -Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a -seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol -nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o -de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos -amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia -igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi -passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar -aos quatorze annos. - - - - -VIII - - -_Oh!.............................. -Nec te aleator ullus est sapientior_... -Nunca velhaco algum mais destro fora. - -PLAUTO. - - -Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte, -sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do -mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira, -que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar -a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu -a seu marido estas linhas: - -«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação -de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me -trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha -innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido, -portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se -precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina -Providencia escuta os innocentes e os criminosos. - -«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha -parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te -has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho, -que as ignora.» - -Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos -depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e -disse-lhe: - ---É assim que te vingas, Maria? - ---Que me vingo!... - ---Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas allivial-as, -e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua boca a -palavra «perdão»!... - ---Perdoei...--balbuciou ella. - ---E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me -poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei? - ---Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma -desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes -imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração -em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e -mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel? - ---Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não me -queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies, -filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante... - ---Basta!...--disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro os olhos -sem lagrimas--Esqueces o meu pedido? - -Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a -tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta -contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma -agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa -abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma -grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas -sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o -symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze -annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de -ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou -dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da -alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em -suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes -de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha -unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu -patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade, -se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do -luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão -depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da -italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo, -grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe -parecia necessario á futura magnificencia de sua filha! - -Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas -dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando: - ---Tu não podes perdoar-me! - -Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe: - ---Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te. -Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas -forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores, -que eu vejo, ha onze annos, da minha cella. - -Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher. -Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o -pae rejeitou a lembrança. - ---Vamos sós--disse elle--sejamos egoistas d'esta felicidade... embora -minha sómente... - -Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica: - ---_Felicidade!_...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?... Creio-a, se -me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha -Deus!... - -Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou: - ---Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos... Que -Deus!... - ---Não offendas a mão Divina que me amparou...--tornou Maria. - -As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do -pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe: - ---Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita -lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da -sua felicidade. - -Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes: - ---Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta... Não falla -senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta. - -Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre -os dous primos. - ---Então gostas muito de versos, Leonor?--disse Maria. - ---Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor. - ---Quem é o senhor Sotto-Mayor?!--tornou Maria da Gloria com espanto. - ---Já conhece os poetas pelo nome--respondeu o pae com alegria--O -Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa a pequena -perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma -eternidade de sonetos. - ---Já é paixão de versos!--tornou a mãe de Alvaro--Sabes tu fazer -versos, meu filho? - ---Não, minha senhora: sou ainda muito nova--respondeu Alvaro--A prima -Leonor é que tem lido muitos versos. - ---Já li o Bocage;--acudiu a menina, acompanhando a expressão de -tregeitos exquisitos--li tambem o _Belmiro_, e as poesias do Garção, e -do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o papá lá tem. E a senhora D. -Catharina de Balsemão, e a senhora marqueza de Alorna gostam muito de -me ouvir recitar sonetos, e ensinam-me quando eu não declamo bem. - ---Bem está--disse Maria--estás uma doutora, minha sobrinha!... Queres -tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres -annos? - ---Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um -convento! Antes morte que tal sorte! - -O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com -ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se -do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o -calumniavam. - -Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria -defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no -coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde, -e Leonor, estremecendo, exclamou: - ---Elle lá vem! é elle! - ---Quem?--disseram algumas vozes. - ---O meu poeta! - ---O teu poeta!--disse, com molesta accentuação, Maria da Gloria: e -chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:--Não deixe assim -fallar sua filha, que não é bonito aquillo!... - ---Por que, mana?--disse em voz alta o morgado--Ahi está o effeito dos -conventos! Temos bioquice! Que tem que ella diga _o seu poeta?_ Palavras -n'aquella bôca não significam nada, mana Maria! É uma criança: -deixal-a fallar. - -Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com -desembaraço e elegancia. - ---Viva o poeta!--disse Sebastião de Brito,--Eu amo os poetas, e gosto -das suas relações. A sua bella musa está accesa para a noite? - ---A minha musa--disse o moço--está sempre fria; e, se alguma fortuna -tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa excellencia lhe dá, -posto que os não mereça. - ---Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já -sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores -poetas portuguezes!... - ---Razão de mais--redarguiu o de Villa do Conde--para não gostar das -minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza. - -O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do -palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão -penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras -d'elle. - -Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A -dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu -amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem -com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os -poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem -não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas. -Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as -do tempo d'el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções -lhes comiam[9]. - -Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do -pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro. -Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a -felicitava, e não sabia entender a tristeza d'ella. Fallavam-lhe da -sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A -melancolica senhora respondia: - ---Que tenho eu que vêr com a sociedade!... O braço, que fere com a -infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu -não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho, -que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu -dormiria na claustra d'esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até -mais tarde, nunca sahiria d'aqui. - -Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita -amargura: - ---Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria? - ---És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre. Que -mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo -irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão... -Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das -servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor -um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi -a conformidade, e o amor d'este menino. - -Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os -termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo -aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos -em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e -perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz -desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas -cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as -ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher. - -Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da -Gloria. - -Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa -foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas -encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e -galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a -poesia era inimiga do somno! - -Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde -excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus -sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no -soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades. -O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um -soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo: - - -Que dôces rullos rulla aquelle pombo -A pomba enamorada e toda secia! -Cuidado! que a virtude soffre um tombo, -E vamos ter alguma peripecia! - - -Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se -contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as -senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas, -dizendo em voz de quem manda e não pede: - ---Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga. - -Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam, -apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua -impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria: - -. . . . . . . . . . . . . . . . . . -Tão negro quadro meu pincel não toque! -Calcarem do perdão as santas leis, -Matarem-me por causa d'um remoque!... - -Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis! -Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque, -Que diluvio de vinho e de pasteis! - - -Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da -roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa -com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos. -Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou -tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira -estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de -Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta: - ---D'aqui a uma hora vamos para Lisboa--disse ella. - ---Para nunca mais nos vermos?!--respondeu elle--Este outeiro foi-me -fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem antes de eu vos -ter visto, Leonor! - ---Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me -não virdes! - ---Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de -saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta, -que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia. - ---Juro amar-vos eternamente... - ---Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso -primo? - ---O meu coração é livre--replicou ella...--Adeus, que me procuram; -adeus, amai-me, e tende esperança! - -Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria -da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em -muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna -das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços -da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a -partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé -d'ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o -menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o -semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos -acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com -phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica -d'aquellas senhoras. - -Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a -matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já -encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos, -a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e -disse: - ---Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da innocente -Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d'esta familia, se -os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam. - -Quaes seriam as tuas visões, ó santa!? - - -[Nota 9: Aos leitores da _Introducção_ ao _Diccionario dos nonymos_, -de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro -Ribeiro: _Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu -Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer -que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro -veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e -con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras -Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito -moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que -não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos -me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos, -etc._ Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no -mosteiro para comerem as naturas (quer dizer--os rendimentos) das -monjas!] - - - - -IX - - -_Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla, -Nè spero aver_... - -PETRARCA (Rime). - - -Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel -Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia -minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para -reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma -supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um -engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha, -nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho -para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal -chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra. - -Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem -testemunhas: - ---Recebes em tua casa uma tua _irmã_, meu amigo. D'esta casa dá-me um -quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o -meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais -do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de -continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o -ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho -commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á -sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso -contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus -habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua -companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas: -basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que, -ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto -bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua -bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me -assim a vida, que te peço, de portas a dentro? - ---Vive como quizeres, Maria--respondeu Teixeira com semblante -magoado--Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas -depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente -minha irmã. - ---Tua irmã. - ---Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim. - ---Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de -conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa -com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre. - ---Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o -castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas, -que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo. - -E cumpriu religiosamente. - -Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em -riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario -dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous -filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se -até alli a perfidia fôra clandestina, d'alli em diante até por -soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e -ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel -Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as -velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e -não lhe deu os filhos. - -Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre -e amigo as lagrimas de alegria. - ---Minha mãe--dizia-lhe elle--é agora a minha mestra. Tudo o que eu -sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me -que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao estudo. -É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de -historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida. - ---Seu pae--disse o professor--deve sentir-se feliz, ouvindo-a... - ---Meu pae raras vezes entra n'estas nossas conversações. Ha dous annos -que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar -o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella; -mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe -os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu. -Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não -souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe -involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a -obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes -me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d'este mundo sem te -vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba -aos effeitos dos padecimentos passados... - -Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do -conde de Basto, na carruagem d'este. João de Mattos viu-o, e fez parar -a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro. - ---Nunca mais se lembrou de mim?--disse-lhe elle. - ---Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa excellencia. - ---Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras. - -Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da -policia a Manoel Teixeira. - -Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial. -Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu -estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido -reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos -Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle, -era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram -ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais -se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As -bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de -Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as -religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao -cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, -e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia -da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. -Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se -tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam -expirado nos meus braços.» - -Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os -ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a -sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta, -sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente -vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou -a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O -morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem -sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que -não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse -desculpas que dispensassem a filha. - -Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim: - ---Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos: -posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima? - -Alvaro corou, e balbuciou. - -Maria proseguiu: - ---Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças -tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a. - ---Por que, minha mãe?! - ---Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a -educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se -diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as -a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e -dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se -ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais -primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora -enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás -seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás -então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a -prophecia, que te faço hoje. - -Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste -sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de -confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais: - -«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia. -Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata -ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de -nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.» - -No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa. - ---Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!--disse Sebastião de -Brito a Maria da Gloria--A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado -Miguel de Sotto-Mayor? - ---Perfeitamente... Está nos Olivaes?! - ---O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle -respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso -é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous -bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos. - ---Isso que admira?!--acudiu com azedume Leonor--O pae não ouviu dizer -que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do Conde! É -boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões, -Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao -mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que -mais notavel vejo no poeta é o seu talento! - ---E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha sobrinha!--disse -Maria da Gloria. - ---A pequena é maniaca por versos--replicou o pae--E o mais é que já -os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor? - ---Meu primo não gosta de versos...--respondeu ella com fastio. - ---Eu não desgosto;--disse Alvaro--e, se fossem teus, gostaria muito, -prima... - ---Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te o _Oriente_, e tu -disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e -atoucinhados como o author. - ---Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do _Oriente_, -poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia. - -O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz -súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo -poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes. -Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A -paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de -estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto: - ---Tu de certo não vens comnosco para Italia? - ---Que pergunta! Eu já disse que não ia. - ---E por que não vaes, Leonor? - ---Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver mundo -pelos afagos d'elle. - ---Mas teu pae tem vontade que venhas... - ---Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a -d'elle. - ---Ha outro motivo, minha prima--redarguiu Alvaro com muita tristeza -corada por um suave sorriso de artificio. - ---Qual? - ---Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes. - -Leonor descompôz-se n'uma risada toda da garganta, e disse a final: - ---Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador -debaixo do balcão do castello a chorar amores!... Valha-te Deus, -Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde! - ---Mas elle de certo alli foi por tua causa... - ---E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e eu -não posso ser responsavel das tolices alheias... - -Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro, -quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou -por estas palavras no seio d'ella: - ---Tem razão... devo esquecer minha prima. - ---Menos, quando ella fôr desgraçada...--disse Maria da -Gloria--Lembre-te isto sempre, meu filho. - -Sahiram para Veneza. - -Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para -elles debaixo d'outros céos as lagrimas do coração! - - - - -X - - -_Se alguem provou já o golpe d'um -desprezo aconselhe á minha dôr os -remedios da sua._ - -D. F. MANOEL (Epanaphoras). - - -Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos -enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o -braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro. - -Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de -volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de -Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual -digo com respeito ao morgado. - -Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em -Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos -dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na -esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa. - -Havemos de esboçar a indole d'este moço, se trinta e dous annos podem -adornar-se com as graças da mocidade. - -As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo -devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não -escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes -riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este -vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e -injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia -carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos -do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa -impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as -musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse -ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d'um -soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold». - -Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para -excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escandalos na -terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam -os escandalos de fóra. - -Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de -grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá -aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger -o infinito dos juizos divinos. - -Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de -despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e -sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os -arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae. - -Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de -Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes -passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o -patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e -sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no -vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a -reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. -N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e -em menos de dous annos--eram-lhe escassos para viver limpamente os -rendimentos d'ella. - -No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se -assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza, -reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o -coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não -asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava -d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella, -quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae. - -Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o -cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e -consequencias d'ella. - -Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que -se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro, -desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis -godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica -de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e -lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da -pintura. - -No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da -nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos -herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala -cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança. - -Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de -lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão -bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto, -perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal -consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do -casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de -braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum -tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como -ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a -idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel -pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito -disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter -conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote. - -Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da -sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão -mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao -hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não -traziam planos de completarem sua ruina. - -Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo -que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito: - ---Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem, -por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro. - -Isto entendeu elle que era puro _byronianismo_; o dono da casa, porém, -é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e -lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em -lençoes de vinho. - -Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor -para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas -acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento -das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para -se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por -fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos. - -Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou -ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover -judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio -morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o -pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha -rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer -do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae -e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á -dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal. - -A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por -Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira -tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de -Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A -inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros -lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, -delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa. - -Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes, -sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de -sobejar-te tempo de seres feliz--dizia-lhe o pae--Teu primo não póde -demorar-se... Que te diz elle nas cartas?» - ---Diz que o tio está cada vez peor. - ---Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem, -e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro. - ---E que dirá meu primo--replicava ella--vendo-me reclusa n'um -convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos que -eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer; -e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle. - ---A tua fama não está manchada--volveu o pae--Teu primo de certo -perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem -matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não tenham -succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua -reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o -poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito -noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a -gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?! - -Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e -mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais -digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado -dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade, -resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar -desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que -do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e -byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando -Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos -a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas -depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao -castello de S. Julião da Barra. - -João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos -Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter; -chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe -dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, -e chamal-o á sua presença. - -Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de -Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica -sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos -tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, -sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal -fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de -Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia -honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a -deportação para Abrantes. - -Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro: - -«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir -escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu -pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o -amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe -nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de -vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em -cada dia:--Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta -agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os -melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, -quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que -espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco -annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da -tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como -expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, -Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho, -d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, -minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de -tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes -que eu perca a fé na misericordia Divina.» «--Minha mãe debulhava-se -em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação -que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de -esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e -confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste -em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima. -Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de -minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, -porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de -consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre -Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria -accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe -não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te -accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu -coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica -por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae... -Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para -Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a -merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos. - -«Napoles--Maio 15 de 1831. - -«Do teu - _Alvaro._» - - -Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio -da vingança. - -Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro -violento de Miguel de Sotto-Mayor. - -As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares -phreneticos da morgada. - - - - -XI - - -_C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti -qu'elle remerciait tous les -soirs, de son esprit, et qu'elle le -priait, tons les matins, de la préserver -des erreurs de son cœur._ - -MIRABEAU (Lettres à la marquise -de Monnier). - - -Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio -depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a -exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os -Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e -distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da -lembrança a imagem do expatriado. - -Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de -João de Mattos, para ir fallar-lhe. - ---Chamei-o--disse-lhe elle--para lhe dar o que o senhor Macedo me não -pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista casal-o com -sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração -sobre este designio de seu pae? - ---Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos. - ---Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de -sua prima? Crê que ella o estima? - ---Devo suppôr que sim. - ---Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua -prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que -inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não -póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em -virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de -passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos -quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz -milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã -deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de -desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia -que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir, -e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas -lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu -nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim -que lhe matei a felicidade de toda a vida. - -João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe: - ---Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me -perdoou. - -Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca -d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria -ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus, -que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se -rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso, -as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E -accrescentou em voz alta: - ---Vai dizer a esse nosso _amigo_ que tua mãe lhe deu este nome. -Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle quizer -emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com -encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu -sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua -probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a -felicidade; mas restituiu-t'a para o amor. - -João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua -mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e -apontando para um grande painel, disse: - ---Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um -constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no -infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo. - -Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar -comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes. - -D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser -propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua -ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida -dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em -que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle. -Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de -perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender -dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia -d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal -ainda mais á honra. - -Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que -pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e -conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas, -scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas -núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras -paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e -veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a -saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no -espirito de Maria da Gloria. - -Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu -dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e -offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a -soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel -n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor, -cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo -industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por -entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida -lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se -no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de -Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava -o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e -phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores -sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas -almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial, -ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o -igualar em merecimentos. - -Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da -Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora -industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre, -professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de -ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os -despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio. - -Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão -bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias, -nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que -tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de -sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de -tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava -a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz -conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença -da tia. - -Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a -escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na -mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle -hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr -as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e -terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda -mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a -lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias. - -Leonor depoz o manuscripto, e disse triste: - ---Estes pontinhos que significam? - ---Nada, minha prima. - ---Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me -escrevêl-o sobre as reticencias? - ---Escreve--disse Alvaro risonho. - -Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta: - -«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos, -n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor -dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a, -porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as -crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a -vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla -nos sonhos, me disser: _Sou eu._ A tua Leonor era o amor da innocencia; -e eu sou a mulher da paixão.» - ---Aqui tens--disse ella--Agora, sim; está completa a pagina. - -Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse: - ---Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes, Leonor?! - ---É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim...--E -dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se. - -Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo -d'aquelle beijo?! - -João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a -modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no -espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas -promessas do espirito! - -Venceste, Leonor, venceste!... Uma victoria só te falta: olha se -rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames, -que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os -mais sagrados deveres do coração. - - - - -XII - - -_Como se é criança!... como se é -criança!_ - -GOETHE (Werther). - - -Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente -a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia -admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes -meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a. - ---O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro. - ---Eu não posso mentir a minha mãe... - ---São?--interrompeu Maria. - ---Saudades, e duvidas que me atormentam. - ---Que duvidas? se te ama? - ---Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe... - ---Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro. - -Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e -mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu, -e disse: - ---Tanta palavra! tanta palavra!... Crês isto, filho? - ---Diga-me a minha mãe se não devo acreditar. - ---Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que fez -alli tua prima, durante oito mezes. - ---Minha prima esteve no convento das commendadeiras!? - -Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta, -recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a -predispunha contra o enlace de seu filho e uma _douda furiosa_, dizia a -carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor, -desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa -que a fizeram suppôr demente. - -Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua -mãe as lagrimas. - ---Crês no arrependimento de Leonor?--continuou a mãe serena e -affavel--É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o -ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual -provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se, -confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa -menina é... - -Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a assim: - ---É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu. - -Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou -com vehemencia e magestade: - ---Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de -coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por -vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com -o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as -minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor. -Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha -vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a -Deus que te dê forças para ella. - -Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em -lagrimas. - ---Não me falle assim, minha mãe!--exclamou elle--Perdeu a confiança -no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, nem -mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que -minha mãe uma vez me disse que eu fosse:--amigo d'ella, quando a visse -desgraçada... - ---Seja assim, filho!--disse Maria com desafogo e alegria--seja assim, -converte em sentimentos de bom irmão esse amor, cuja profundeza tu não -sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a tua boa mãe... Escuta, meu -querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o -caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter -n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda -absorvida na esperança de ser tua, e tão amante como virtuosa, dá-m'a -como filha, e eu do amor que te tenho farei um segundo coração para -lhe dar a ella. - -Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá -estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a -banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo -não podia prevalecer. - -Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar -seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram -palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou -differença. - -Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem -ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas. -Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto -das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de -certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar -atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de -poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver, -nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si -mesmo com as presas da sua propria paixão. - -Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco -d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira? -Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento -e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla -carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da -commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue -congelasse subito. - -Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na -mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e -ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas. - ---Por que me não amas tu?!--disse Leonor encarando repentinamente no -primo. - ---Que fizeste tu no convento das commendadeiras, Leonor?--respondeu -serenamente Alvaro. - ---Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte -alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci. -Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta -educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe -aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras, -Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta, -responde-lhe pela minha bôca. - -Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura: - ---Tu não amavas aquelle homem, Leonor? - ---Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á -fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na -queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus -annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada, -tão envelhecida, chorarias, e dirias ás _virtuosas_ do convento que o -seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem -chora... Vamos para a sala, que é tempo. - -Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma -estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois, -áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era -alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão -de compadecer-se nas dores alheias! - -«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da -tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando -Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que -dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar -de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se -junto á prima, e disse-lhe: - ---Amas minha mãe, Leonor? - ---Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que devia -chamar-lhe mãe. - ---Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não -contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa -ausencia?! - ---Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a minha -confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e, -se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter -vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo. - ---A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!--redarguiu mansamente -Alvaro--Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o -conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com -ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume, -não? - ---Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar -extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos -meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não -perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de -mais...--continuou ella passando da brandura á irritação--Que crime -foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva -envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra? - -Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de -sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do -artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina -estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os -espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella -que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro, -procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle -incommodada. - -Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores -de peito causadas pela compressão do collete. - -Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe, -sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete. - -Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos: - ---Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. Tens -dous annos, e vagar para estudal-a. - -Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis -desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava -conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na -incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo -as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço -desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á -cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de -seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém, -infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores -como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e -obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a -Leonor. - -Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão -visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre -a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á -prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por -tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria. - -Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de -poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira, -d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para -desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os -olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia. -Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada -de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por -satisfeito. - -De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á -collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de -pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um -álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da -alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é! -N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: _L. A._ e dos -sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as -deixou pendentes dos braços tenros da arvore. - -Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e -coração. Chorou, e disse: - ---Quem me déra ser feliz, meu Deus! - -Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se -ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia -tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo -sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa -de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança. - ---Pois não és tu feliz, Leonor!?--exclamou o apaixonado moço, -apertando ao seio a incomprehensivel mulher. - ---Sou feliz, sou, primo... Tenho momentos de louca, de perdida... Nem -sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse -desejar a morte... - ---A morte!...--atalhou com espanto Alvaro--E eu a amar-te tanto, e a -não pensar senão na vida, na felicidade d'este mundo, em que eu creio -como nas palavras de minha mãe... - -Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde -os esperavam Maria da Gloria e Cecilia. - -Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena -do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse: - ---Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes -ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os -olhos... Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na -efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro. - - - - -XIII - - -«_Adeus!»... palavra fatal!_ - -BYRON (O Corsario). - - -Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna -alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a -annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era -um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e -linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação -distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois -dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a. - -Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca -chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em -Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um -caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso -ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar -em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente -pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira -desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de -sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e -agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala -gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de -Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra _Sotto-Mayor._ - -A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada -alegria e convulsões de louca. - -Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua -esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus -talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario. -Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram -realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém; -elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e -que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse -infiel aos juramentos. - -Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu -coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia, -attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás -debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos -últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se -a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor, -e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o -vira. - -O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias -depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor -alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na -sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da -estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta, -e planeara o momento da fuga. - -Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832. - -Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma, -e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem -Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um -casal, que não via desde que fora enclausurada. - -A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o -morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se -os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro -dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica, -Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella -hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor -intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma -sombra de desistencia. - -Ás onze horas, disse-lhe Alvaro: - ---Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d'aqui tão lindo e prateado pela -lua!... - ---Vamos--respondeu ella após curta hesitação. - -E Alvaro replicou: - ---Parece que não vaes de vontade! - ---Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente constipada. - ---Então não vamos, não, minha prima... Eu não sabia... - ---Havemos de ir...--tornou ella--Espera um pouco... - -Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era -franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida. -Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua -saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A -espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em -cada circulo uma zona de prata. - ---É dizem que não ha felicidade n'este mundo?...--murmurou Alvaro, -tomando nas suas as mãos de Leonor--Que é isto que eu sinto, e tu -deves sentir agora!... - -Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu: - ---Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão! -Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem... - ---Isto é bello!...--disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou não ouviu -o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca -eloquente; e amante. - -Soaram os tres quartos depois das onze. - ---Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de -capuz? - ---Vou; mas tens frio? - ---Receio têl-o e não quero sahir d'aqui... - ---É melhor irmos, vamos, prima... - ---Não vamos: vai buscar a minha capa, sim? - -Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor -correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema -d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da -abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo -emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena -janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um -homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A -poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada -fugida. - -Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores -cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha -Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram -depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria. - -Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor. - ---Onde está ella!?--perguntou o pae--Falla, Leonor, não andes a fazer -fosquinhas!... - ---O local é proprio para jogar as escondidas...--acrescentou Maria da -Gloria. - ---Eu vou dar com ella--tornou o morgado, batendo os caramanchões, e -dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina. - -N'isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse: - ---Leonor já não está aqui. - ---Pois onde ha-de estar? essa é boa?--replicou o tio. Vamos dar com -ella no laranjal. - -E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e -viram aberta uma janella. - ---Aquella janella aberta!--disse Sebastião de Brito. - ---Foi por alli que ella sahiu--ajuntou Alvaro; mas a ultima palavra -proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida. - -O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco. -Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna -esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados -os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto -Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não -lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e -acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno. -Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por -elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça, -impulsada pelos braços de Maria da Gloria. - ---A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho--exclamou a mãe. - -Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e -sentou-se, escondendo nas mãos a face. - ---Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?--tornou Maria da -Gloria--Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar? - ---Não me falle, minha mãe--disse Alvaro com energia--A que vem Deus -aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo. - -Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de -Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos, -quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de -passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para -a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a -Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta -ordem, ergueu-se, e disse chorando: - ---Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!... - -Maria, abraçando-o com transporte, exclamou: - ---E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não -morrerás, não, Alvaro? - ---Morrer!... Não se morre assim, minha amiga... Os seus onze annos de -martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha -mãe... - -Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns -instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e -articulou: - ---Adeus!... - -Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou: - ---Ora veja que mocidade a minha!... Estou no principio da vida!... - -Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A -carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á -portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção: -Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o. - -O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou -almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas -leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite, -ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho, -quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor -tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por -povoações menos praticadas até Coimbra. D'ahi passou a Aveiro onde -tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a -esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius, -defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso. - -Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do -entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus -camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara -foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua -consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno. -Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que -pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio. - -Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás -trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das -batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas -vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta -seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco -de Sant'Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos -especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle -grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do -espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande -fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella, -achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos -aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça -de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem -damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram -difficeis n'aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada -dos valentes era sua filha. - -Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel -de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi -um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou -noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do -Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella -a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha. -Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e -recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos -odios politicos. - -Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si -mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do -coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que -tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros -invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas, -pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi. - -Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que -invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua -gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e -rematou pedindo-lhe novas de seu primo. - ---Nunca mais o vi--disse elle--consta-me, porém, que vive muito triste, -e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de Santarem. -Pobre rapaz!... - ---Mas não morreu!--acudiu Leonor.--Todas as paixões assim são, meu -pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para -se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á -vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua -indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo, -não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da -martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é -perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher -muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa -que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para -comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no -coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á -outra. Ora aqui tem, meu pae! - ---Parece-me que tens razão, filha...--disse Sebastião de Brito, -tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao -escarlate. - - - - -XIV - - -... _Que direz vous de l'indigence?_ - -MONTAIGNE (Essais.) - - -Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as -herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens -livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com -os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a -juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens -nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh'o não -quizerem dar por caridade.» - -Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu: - ---Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas. - -O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era -aquella. - -Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde -tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de -emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos -Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da -terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos, -descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do -vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados. - -Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao -seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra, -se os credores t'o não quizerem dar por caridade.» - -Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e -ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no -Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia, -habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa, -requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no -livro da secretaria. - -N'este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de -Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens -livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um -palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos, -e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o -bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão -por um enlace matrimonial dos filhos ambos. - -Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando -ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito -podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a -senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho, -respondeu: - ---Quem castiga é Deus. - -O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob -condição de ficarem n'elle como inquilinos por tempo de tres annos os -devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de -Brito depositario d'ella. - -N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da -inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e -enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a -familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes. - -Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo -anjo do castigo os está contemplando com formidavel silencio. Miguel -tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e -desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a -escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso -d'aquelles caramanchões estão os bancos rusticos em que Alvaro se -assentava. Alli á beira do lago está o escabello de cortiça em que -ella ficara sentada, quando Alvaro foi buscar a capa. Por que não -creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor -está chorando!? - -Ahi estava sósinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pateo. - -Leonor admirou-se: já ninguem a visitava de carruagem. A nova criada -não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma -mulher, que não tinha geito de senhora. - ---Isso me quiz parecer...--disse Leonor entre si--mas de carruagem!... -Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem... - ---O boleeiro traz libré--disse a criada. - ---Libré!--murmurou Leonor--Então enganei-me... - -Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro. - -Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a -abraçar! - ---Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho -mais ninguem!--disse a soluçar Leonor. - ---Está muito infeliz, minha senhora?!--perguntou Eufemia. - ---Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive -feliz? - ---Feliz, não! Com aquelle filho sempre triste, como ha-de ella ser -feliz!... Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!... - ---E achas-me feia, Eufemia?!--perguntou Leonor com um triste sorriso, -expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em que -a mulher, que foi bella, ainda affronta a desgraça. - ---Feia, não, minha querida senhora... Acho-a mais magrinha, e sem -aquellas côres de roman, que pareciam dar saude á gente... Em fim, é -conformar-se com a vontade de Deus, e pedir á Virgem Maria que dê -saude a sua tia, que é uma santa. De mando d'ella é que eu vim aqui -trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos -mezes, cá venho trazer-lhe outra assim. - -Eufemia depositou sobre uma mesa um rôlo de dinheiro. - ---Dirás a minha boa tia--disse Leonor com as lagrimas estancadas nas -palpebras--que a pobre Leonor acceita a sua esmola, e lh'a agradece com -este pranto que vês. - -Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por ultimo: - ---D'hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia -padeceu onze annos... - ---Minha tia era um anjo de innocencia, e eu estou expiando culpas -enormes: ella consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço -o castigo. - -Eufemia deu conta da sua commissão a Maria da Gloria, e retirou-se -quando Alvaro entrava. - ---Olha que está muito infeliz a pobre Leonor!--disse a mãe. - ---Não lh'o tinha eu dito?! Acceitou? - ---Acceitou, e agradeceu com lagrimas. - ---Deve de estar muito quebrado aquelle genio pela desgraça!--tornou -Alvaro--Acceitou a esmola!... Pobre mulher!... Deve estar mudada tambem -de rosto... - ---Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco aceio. - ---Perguntaria por mim? - ---Não sei, filho... Eu presumo que não teria força para tanto!... -Fiz-te a vontade, Alvaro? - ---E a sua vontade, minha mãe, não era soccorrer tambem a infeliz? - ---Era, era, meu filho... - ---Pois não se esqueça de lhe mandar todos os mezes o que a mãe julgar -necessario á decencia d'ella. - ---Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido ha-de tomar n'este -soccorro? - ---Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de minha -prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos. - ---Esperava essa resposta: a tua generosidade, Alvaro, é desinteressada, -e nobre. Vejo que não pode nada comtigo o ciume... - ---Não, minha mãe--disse Alvaro n'um falso tom de verdade, movimento de -feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados. - ---Assim é que eu entendo a virtude--continuou Maria da Gloria--são -estas as joias de puro ouro que trazem do céo o signal da sua valia. Se -te deixasses levar d'um calculo, o mesmo seria lançares á balança das -culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da antiga Leonor o que resta para -ti é a mulher desgraçada, não é assim? - ---De certo... Que mais pode restar?!... - ---Mais nada... O Senhor te abençoe o coração, e t'o encha de alegria -e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho -das boas acções. - -Alvaro, logo que pôde estar sósinho com Eufemia, perguntou: - ---Minha prima não lhe perguntou por mim? - ---Não, meu senhor. - ---E Eufemia proferiu o meu nome? - ---Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste... e ella... -ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa. - ---Mas ficou pensativa? e viu-lhe lagrimas? - ---Ora, se vi!... quando lhe dei o dinheiro, as lagrimas rebentavam-lhe -dos olhos como punhos. - ---Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia d'estas cousas de minha -mãe?... - ---Nada, não disse, porque o menino e a mãesinha assim m'o ordenaram. - ---Fez bem, e nunca lh'o diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe fiz -estas perguntas. - ---Não digo, esteja o meu filho descançado. - ---Olhe, Eufemia... Leonor está muito acabada? - ---Se está! nem parece ella! lembra-se d'aquellas rosas que ella tinha -no rosto? Nem signal d'ellas! Está muito magrinha, e tem á volta dos -olhos umas pisaduras que parecem de tisica... - -Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma -saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho -amava Leonor. - -Aqui vai trasladado um fragmento: - -«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha -imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua -belleza, e o que serás ámanhã aos olhos d'esse homem que te encravou -na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias -dôres, te arrancaria, se podesse!? Ó Leonor, que supplicio tu mesma -escolheste! Por que não foges d'ahi onde estão as flôres da nossa -infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e -aquellas arvores da collina!? Foi o teu demonio que te acorrentou á -sepultura onde enterraste o meu pobre coração!? - -«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tedio da existencia é a -maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e -gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do -passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos.» - -Quer-me parecer que ha ahi expressões indicativas d'um sentimento que -não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, affirmo que só -a amisade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se -assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a -amisade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei -sempre em cousa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre -do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amisade» e nada se me -dá que a lingua humana por ahi traga a palavra envilecida nos -enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia -infamam aquelle divino dom da alma humana. - -Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivaes. - -Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou -Leonor a pé. - ---Esperei-te--disse ella--para te contar que minha tia me remetteu este -dinheiro, e a promessa de me dar uma mezada. A nossa posição melhora, -e o teu espirito, se me não engano, está livre das afflicções da -desfortuna domestica. - ---Sendo assim, de certo!...--disse Sotto-Mayor com alegria--Bem sabes -que felicidade e pobreza não se compadecem. Quem teve muito e aspirou a -mais, por grande que tenha o coração, esmorece ante o aspecto da -miseria. Eu espero a independencia, quando entrarem no ministerio outros -homens; e não me pejo de acceitar de tua tia este dinheiro como -emprestimo. - ---Agora, outra cousa--proseguiu Leonor--Que fazes tu fóra de casa até -estas horas, Miguel? - ---Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são -exigências do soffrimento, minha Leonor. - ---Pois bem--replicou ella entre ironica e meiga--agora que o soffrimento -deve ser menos exigente, vive mais commigo. - ---Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei -involuntarios. - -Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os -criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o -que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de -quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas -parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o -proprio Sebastião de Brito voltou á casa de seus avós, com os -cabellos cada vez mais variegados de côr do barro e azeviche. Trezentos -mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte -para satisfazer as necessidades do luxo. - -Maria da Gloria disse uma vez ao filho: - ---Tua prima não aprendeu nada no infortunio. - ---Por que, minha mãe? - ---Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares? - ---E será ella feliz? - ---Parece que é. - ---Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos. -Desgraçada era ella antes dos seus soccorros. - ---Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o que -recebe de esmola. - ---Não digamos _esmola_, minha mãe: a palavra é humilhante... Leonor -é sua sobrinha; e meu pae daria tudo para não vêr em miseria aquella -familia. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos -roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor. - ---Que alma a tua, Alvaro!--exclamou Maria da Gloria, abraçando o -filho--E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres annos, e -vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que não -vaes aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a -maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho? - ---Não, minha mãe--respondeu Alvaro--Tenho tudo, que mais quero, n'este -estreito recinto: aqui, minha mãe; alli, os meus livros. As viagens -instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso -aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha -vida, são ellas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a -renovar o coração. Esta obra ha-de fazel-a o tempo. Não se é feliz -em parte alguma, quando se não póde ser entre as reliquias da -infancia, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a -vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que -nós. - - - - -XV - - -_Lata porta ... quœ ducit ad perditionem._ -A larga porta que dá passagem para a perdição. - -S. MATT.--7. 13. - - -A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o -morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma -nobre casa de Alemquer. - -Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de -virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Mayor frequentou a -familia, muito aparentada com sua mulher. - -Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas -seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme; -porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama -corria desluzida e mareada á conta d'elle. Aquelles passeios nocturnos, -nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor -dizia serem a sua mulher: _exigencias do soffrimento_; exigencias de -intenção ruim é que elles eram. - -Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou -da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou -a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo. -Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e -despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas. -Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta -anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio -de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial. - -O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe -incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso -como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado. - -Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de -cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as -janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora, -apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois -d'alguns segundos. - -Eu de mim não tiro conclusões algumas d'esta luz; mas o morgado -tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram -a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem -descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua -mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um -signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de -golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um -corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d'onde -fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um -castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e -entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d'um -punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito. - ---Morres, se gritas!--disse o morgado com a postura e phrase -de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era -solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para -Lucrecia--Morres--continuou elle com voz soturna--se me não dizes o que -significa o signal que tens ido dar á janella com a luz! - -A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo -como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes -theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente. - -Decorreram tres noites depois d'esta. - -Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe. -Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o -orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia -uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder -enfrear o seu ciume. - -Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia: - ---Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo. - ---E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?!--respondeu carregando o -sobr'olho. - ---Diz-m'o o coração... - ---O coração!...--redarguiu sorrindo o marido--O que é o coração!... -O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o sangue. O -coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não vou -a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para -conjurarmos na derrota do ministerio, e na morte de Agostinho José -Freire. - ---Mentes, Miguel!--exclamou Leonor. - ---Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir. - ---Miguel!--tornou ella com vehemencia e excitada a lagrimas--não -vás... Olha que o tio morgado teve aviso, e elle é mau, e tu ficas um -dia morto. - ---Quem o avisou?!--replicou, risonho, o marido--Serias tu? Capaz serias -da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?! - ---Sei-o... Não vás, peço-t'o com as mãos erguidas!...--e chegou a -dobrar os joelhos diante d'elle. - ---Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra, Leonor? O -meu destino é o Poço do Bispo, já t'o disse. - ---Juras-me que não vais a Porto-Alvo? - ---_Juro_, dizia Molière. - ---Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando disse -_juro._ - -Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de -Leonor, beijando-a na testa. - -Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande -distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de -Porto-Alvo. - -Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado -tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor -alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde -significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem -significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha -mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao -cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos. - -Antes d'elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador -dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do -punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou -a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu -ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal -novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por -um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma. -Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de -Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se -avistava o signal. - -Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que -descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes -a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para -examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe -vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira -abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos -do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo -espaço, suspenso n'um dos estribos. - -Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o -estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a -amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo, -cuidou que elle havia já subido, como d'outras vezes, deixando o -cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos -sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias, -bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça. -Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do -estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com -os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras: - ---Fui eu que o matei! - -D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e -blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos. - -Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na -estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu -amo. - -Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um -atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A -maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh'o -reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros -tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe -pegaram ao sangue empastado do peito. - -Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para -casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu -marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de -Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de -Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a -justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto, -e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e -indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral, -estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso. -Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou: - ---Foi este o assassino de meu marido. - -O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a -vista por todos, e perguntou: - ---A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!... - -Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a -tambem. - ---Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a -devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue? - -Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia. - ---Agora diz que foi uma mulher que o matou!...--dizia o morgado--Não ha -duvida! está louca a infeliz senhora! - ---Não estou louca, não, scelerado!--bradou Leonor, contorcendo-se nos -braços das amigas--Mataste-o tu, cobardemente, feroz villão! Mataste-o -e cuidas que a boca do morto não ha-de revelar a infamia de tua... - -N'este ponto, os labios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão, -que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando. -Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da -Gloria. - -O mesmo foi vêl-a, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando: - ---Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!... Abra-me por piedade o seu -coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso... - -Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse ás senhoras e -cavalheiros: - ---Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes -accessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com -ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de -cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor. - - - - -XVI - - -_Suadeo tibi emere à me aurum ignitum -probatum, ut locuples fias._ - -Admoesto-te a que me compres o -meu ouro de fino quilate para te locupletares. - -APOC. 3. 18. - - -Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria -da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias -de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que -a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria. -E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os -aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas -nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam -espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos -imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido -assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A -sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados -de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores -reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de -capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, -repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da -criada com um sorriso, e estas palavras: - ---Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que -não mata a honra de ninguem. - -Ficou Leonor com seu pae. - -Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do -defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a -purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto -se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se -viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a -lançava de si:--a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa -na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto -a seiva que as alindava. - -Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia -não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa, -menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos -theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os -conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas -ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para -acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar -que hoje. - -Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella -mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, -que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde -que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra -do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, -Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave -tristeza da musica. - -Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser -convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu: - ---A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não -encontrarmos. - ---E, todavia, meu filho--replicou a mãe--estás sempre perguntando-me -se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!... - ---Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de -dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser -feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, -signal é de que não representa algum affecto de coração a minha -prima. - ---E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem -que a expozesse a novas miserias? - ---Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar -contra a estrella fatal d'aquella infeliz. - ---E crês tu na fatalidade, filho?... - ---Creio, minha mãe. - ---E a virtude que fica sendo? - ---A fatalidade do bem. - ---Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á -deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?! - ---Eu--disse Alvaro com profunda amargura--não sei o que é melhor, nem -mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o -melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é -a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que -bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento? - ---Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?... - ---Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de -amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus -me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe... - -Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava -fallar a Alvaro. - ---A mim!?...--disse elle, admirado--e foi á sala onde o esperava a -senhora. - -Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos -amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza. - ---Não a conheço, minha senhora--disse Alvaro. - ---De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae--respondeu -ella em italiano--sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de -Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao -peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das -virtudes de sua nobre mãe. - -A italiana enxugava as lagrimas. - ---Queira continuar--disse Alvaro. - ---Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous -filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, -era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em -quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos -delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos -meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que -eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao -charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um -demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi -fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como -instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho -pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu -não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle -reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, -roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não -ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que -elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para -as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao -dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um -homem, que me conhecera em tempos felizes... _felizes!_... que falsa -apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e -alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante -responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa -d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o -pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na -alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, -valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze -dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta -por toda a vida. - -A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou: - ---Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o -salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de -mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento -dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem -o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado. - -Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe: - ---O nome de seu filho? - ---É Julio de Macedo. - ---Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos -meus esforços. - -A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza -d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da -escada. - -Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, -tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e -disse-lhe risonha: - ---Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te -em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!... - -Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a -sua mãe. - ---Em que pensas, filho!?--tornou ella rindo em gargalhada--Estás ainda -arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!... Diz o -que sentes, Alvaro! - ---Logo, minha mãe, logo...--respondeu Alvaro, cada vez mais enleado. - ---E por que não ha-de ser já?!--redarguiu Maria da Gloria com -gravidade--Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa -arvore produziu fructos tão maus!? - -Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns -monossyllabos. - ---São aberrações--proseguiu ella--Não lhe ouviste dizer á pobre -mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que -dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua -vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação -minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo -vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a -fortuna te dá. - -Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o -perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. -O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. -Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. -Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e -appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas -de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu -filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; -a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo -como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a -italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão. - -O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava -palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma -virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da -antiga locataria do palacio de Belem: - ---Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde -contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a -senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu -conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço -doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e -levem as lições da desgraça para a conservarem. - -D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com -exclamações e lagrimas. - ---As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos--disse -Alvaro--Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe -vejo no rosto. - -D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, -partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo -dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de -Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito -da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração -d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me -respondeu: - ---A fortuna de duas familias independentes. - - - - -XVII - - -_Un groupe de Dalila et de Sanson -avec celui de la farouche Judith serait -toute la femme expliquée._ - -BALZAC. - - -Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza -d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito, -legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus -desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha -acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu -a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do -hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns -desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o -fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que -sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia -ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada, -confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de -Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com -claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo -atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da -peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo, -não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados. - -Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia -licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder -lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de -sua prima. - -Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um -palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal -de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás -vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da -viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em -disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas, -tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam. - -Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha, -e communicou-as a Alvaro. - ---Pois a mãe que esperava!?--disse este--Leonor teve treguas de dous -annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta. - ---E qual achas tu que é o nosso dever? - ---Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não -podér nada com ella, ampare-a como até aqui. - ---E se eu lhe retirasse os meios--replicou Maria da Gloria--crês tu que -o segundo calculista a não deixaria em paz? - ---Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente -como ella. - ---Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!? - ---Julgo, mãe. - -Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar -concorrencia, e poz logo o dedo na chaga. - ---O teu mau anjo não te deixa, Leonor? - ---Porque falla assim, minha tia? - ---Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as -tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de -felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha? -Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como -pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa -miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das -lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre -coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos -ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege! - -Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua -tia, soltando estas palavras: - ---Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora -fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia -que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera -antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a -vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar. - ---Explica-te, Leonor...--atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto. - ---Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista -para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, -teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o -parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso -de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o -mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me -via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns -punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a -sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus -parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me -era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás -mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do -espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me -culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a -mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um -nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco -illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma -educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, -humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus -proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades -que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem -merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade -santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, -eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para -beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous -annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que -meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, -e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar -a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este -acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam -«cynismo»; é aquillo que eu já disse--o despreso de mim propria. -Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um -homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das -suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. -É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a -sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por -duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas -da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á -mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as -privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e -sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato -de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na -minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, -beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem -pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que -os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a -meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. -Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha -criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, -que os credores de certo não querem; irei lá viver. - -Calou-se Leonor. - -Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e -disse: - ---Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma -injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de -Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o -remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», -foge para mim que eu te abrirei os braços. - -Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de -abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia. - -Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por -elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a -necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso -do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava -casar-se. - -Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam -sobre o mesmo motivo, disse: - ---Esse homem julgará rica a prima Leonor? - ---Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos -seus parentes. - ---Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o -beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um -nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem... - ---Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem? - ---Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no -collegio, nos meus ultimos tempos. - -Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, -professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim -ao encargo, que recebera: - ---Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de -amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as -pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na -poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida -que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é -romantica, terceiro porque é romantica.» - ---E porque é rica--atalhei eu. - ---Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por -tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões... - ---Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma -sem-razão. D. Leonor é pobre. - ---Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo! - -Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que -os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos -inconvenientes das suas parentas necessitadas. - ---Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr--redarguiu -elle--e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas -que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a -isto? - ---Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que -meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. -Mas--conclui eu--as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, -prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres -vezes romantica. - ---Diz muito bem--acudiu elle:--o casamento ha-de fazer-se, quando eu for -tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e -amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo. - ---Quer dizer... - ---Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se -ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita -philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me -agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui -estou ás ordens. - ---Aqui tem o senhor Alvaro--continuou o professor de inglez--o que -passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade -com que expuz fielmente o texto da nossa conversação. - -Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do -mestre de inglez, disse: - ---Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas -encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor. - -Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa -e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. -Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella: - ---Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O -cavalheiro de certo não falta. - ---Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!? - ---E por que não diz «ao seu proprio coração...»?--retorquiu ella -com despeitado sorriso. - ---O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se -atreve a entrar nos juizos do espirito... - -Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou -anciosa o dia seguinte. - ---Vou responder--disse ella--cathegoricamente ás suas cartas. O -pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça -respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas -cartas, não é assim? - ---Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?! - ---Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause -estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso. - ---Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa -excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da -amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem -distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes -preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu -acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á -minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a -trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com -grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em -confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das -considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia? - ---Elucide-me...--atalhou Leonor--A sua linguagem é escura! - ---Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu -sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem -da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem. - ---Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava -com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da -felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre -trabalho da intelligencia. - ---Tambem é certo--redarguiu algum tanto confuso o jornalista--era, -porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação -áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa -excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade -real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho. -Todavia... - ---Queira dizer-me--interrompeu a viuva--a quem pediu informações dos -meus recursos? - ---Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as; -não as averiguei; deram-m'as. - ---Quem? - ---Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!? - ---Conheço. - ---Como conhece, minha senhora? - ---Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo? - ---Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não -tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se -contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes. - -Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o -litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira -sahir. - -Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro: - ---Sua excellencia manda sahir. - -Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se -tivesse espirito muito susceptivel ás injurias. - -Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de -Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era -esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor. - -Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato -avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo. - ---A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!--disse a criada--Que tem, -senhora D. Leonor?! a menina tem febre! - ---Trazes-me a esmola?--disse Leonor com desabrimento--Leva-a a tua ama, -e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa -encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é -honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre -desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo -do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que -o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu -ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude -não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são -virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica. - -Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por -julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso -de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o -coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege -de praça, e deu ordens ao boleeiro. - -Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que -não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu -serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia -gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração. - ---Esperemos...--disse elle a sua mãe. - - - - -XVIII - - -_N'aurez-vous point pitié, jeune homme?... -Non, non, j'en ai le pressentiment, -une ère nouvelle commence_... - -R. de LORGUES. (L. das Communas.) - - -Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e -pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que -Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo -firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos -envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que -morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre, -mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns -velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a -seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira -vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a -porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se -estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de -Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem -quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á -herdeira. - -Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema, -encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é -verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza -resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em -rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar -um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou: - ---Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o deixou -a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe, -economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da -sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes. - -O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de -douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria. - -Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por -um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de -vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de -Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e -nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas. - -De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava -abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a -cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da -casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite -velando a casinha onde dormia a filha de seus amos. - -A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e -sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados, -arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante. -Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa, -Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a -mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da -contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando -aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos -empuxões de fóra. - -Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e -experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta -d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no -verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta -criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete: - - -«A minha tia Maria da Gloria. - -«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a -independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não -morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava -d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação -deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo -tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus -parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido -uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu -perfeito juizo. - -_Leonor de Brito._» - - -Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou -a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço -esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o -braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o -ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama. - -Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára -sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das -vidraças, por onde saltou dentro. - -Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que -salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem -sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o -cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com -pannos adhesivados e compressas. - -De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara -a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro -Teixeira. - -Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de -mortal espasmo. - ---Leonor! minha prima!--exclamou elle--passando-lhe a mão na -fronte--Que sangue é este?!--bradou, vendo as compressas tingidas. - ---É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma -tesoura...--disse o feitor. - ---A minha carruagem depressa aqui!--bradou Alvaro--Ajudem-me a -transportal-a. - -Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor -na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao -respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do -corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o -quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para -Lisboa, a passo. - -A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os -olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se -tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse: - ---Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre, -quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo -necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei -sempre... - -Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se -um sorriso, e murmurou: - ---Um cadaver... - -Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, -e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no -coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças. - -E contemplou-a. - -Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço -esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida -que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, -restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o -pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E -parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus -olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora -de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não -guardou lembrança. - -A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas, -chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar -Leonor, e leval-a a um leito. - ---Creio que vem morta...--disse Alvaro--e sahiu para logo voltar com -dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por -esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram -elles. - ---A vida da alma--dizia Alvaro com assombro dos medicos--deem-lhe a vida -da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um -corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da -razão! - -E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes -dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia: - ---Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle. - -E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega -que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo. - -Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o -filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha, -que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam -vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em -Deus o salvamento da prima. - -Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e -comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro, -e balbuciou: - ---Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que tu -tens penado!... - -Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas -jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as -articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade, -excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe -estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes -intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o -coração. O ancear d'estas horas era angustissimo. - -Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, -conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma -esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da -Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor -com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer -era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas -não para ella. - -É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em -encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com -ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E -Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o -coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias. - -Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu -quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima -tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua -mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de -feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as -bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza -das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de -hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão -vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida -formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em -que mais fervorosa adoração lhe da vamos!... - -O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com -bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por -Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a -denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos -de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava -Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão -soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, -estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos -rancorosos do velho odio civil. - -Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e -sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e -visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou -ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. -Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito -valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e -retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua -residencia para a quinta do valle de Santarem. - -Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas -de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era -o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas -juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres -esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe -seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns -parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se -vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as -amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo -que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas -estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia -d'elle e de sua mãe. - ---Se não podes dar-me vida, Alvaro--dizia ella--que vem aqui fazer esta -gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a -piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido, -meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu -vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia -Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria -contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido -de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, -estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a -razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o -natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, -Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á -curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora -feliz!... - ---Feliz!...--atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a -formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava. - ---Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a -visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, -passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me -a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella -mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, -ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de -louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em -particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita -gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a -que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre -coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha -a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha -servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de -muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias -indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois -sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no -rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude -ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo -tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos? - -Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. -Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe: - ---Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade -que mereces? - ---Dá, minha Leonor...--balbuciou o internecido moço--Dá... é a tua -amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho -eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via -continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera -do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria -celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade -me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus -dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao -amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu, -Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento -que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão... -N'aquelle tempo... - ---Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...--atalhou Leonor, afogada de -soluços...--Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de -compaixão... - - - - -XIX - - -.... _Já dava no rosto a friagem -da noite da eternidade; só faltava regelar -de todo... e cahir._ - -A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de -Monte-Alverne). - - -Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do -leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a -paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, -transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia -a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas -bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então -occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se -acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia: - ---O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do -corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro. - -A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que -ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus -vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle -amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e -contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto -ella, sorrindo, dizia: - ---Queres por força que a morte se namore de mim! - -Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e -extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles -extasis! - ---Vejo os teus dezoito annos, Leonor!--disse-lhe elle um dia. - ---Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o -coração!--respondeu ella--A primeira paralysia era a peor... - -Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe: - ---Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje -escondido de ti o unico segredo, que devia esconder--a sensivel -aproximação do meu fim. - ---Que é, minha mãe?!--exclamou o filho, correndo a abraçal-a. - ---Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê -até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te -revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que -ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa -doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido -um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu -chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, -Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te -dizer o fim para que te chamei!... - ---Diga, minha mãe... — atalhou Alvaro com simulada quietação. - ---Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha -morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, -ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer -que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma -esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora -final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te -amortalhará, meu pobre Alvaro!? - ---Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe--respondeu elle tranquillamente -após alguns instantes de concentração--Agora, rogo-lhe, por quanto -amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas. - -No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. -Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em -pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, -e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como -quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a -confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, -já em seu periodo final. - -Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que -lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no -collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de -Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o -XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que -vem assim intitulado: _Demonstração da equidade da Providencia para -com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da -dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação -dos seus soffrimentos._ - -Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a -ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada -que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde -mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações -horriveis, que poucos sabem supportar.» - ---Não leias mais, filha...--disse Maria da Gloria--conta-nos o que -fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres -annos que lá não tinhas ido!... Com quem fallaste, filho? - ---Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar -algum tempo para negocios nossos. - ---Algum tempo!--disse Leonor--e com que placidez de espirito dizes isso, -primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro? - ---São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha -demora o mais que possa... - ---Soubeste--atalhou Maria--se teem sido cumpridas as nossas -determinações? - ---As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me -que a vejo reanimada!... - ---Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que -o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é -tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora? - -Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou -placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres -abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a -quem as tivesse vivas e anciosas no espirito. - -Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local, -senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e -foi para Lisboa. - -Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada -pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não -morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que -parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao -filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão -morro sem te dar o ultimo suspiro.» - -A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a -Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de -sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da -Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do -filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras -exclamações: - ---Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo! - ---O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho. -Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos! - -Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça -encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao -vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso -instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras: - ---Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e, -se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este -mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem... -Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar -d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua -irmã querida... Deixo-t'a como filha. - ---Eu vou comtigo, Alvaro?--disse com muita doçura Leonor--Ajuda-me? -levas comtigo este meu esquife? - ---A mãe quer estar sósinha?--disse Alvaro. - ---Quero, filho: está ahi o meu confessor... - -Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo -pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes, -e disse ao padre: - ---Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças; -vinha espantar-me da serenidade da moribunda. - -Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado -Viatico. - -Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto, -beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para -vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso -assentimento. - -Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que -acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na -ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um -recanto escuro, com as mãos erguidas. - -Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas -dos santos-oleos. - -Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor -reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou: - ---Não está aqui meu filho!? - -E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do -leito, e disse: - ---Aqui estou, minha mãe. - -Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na -voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração -convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua, -e pôde exclamar: - ---Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus! - ---Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...--disse o padre -Alvaro. - -Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou: - ---Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome, -Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do -meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva! - -Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia, -e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de -joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido -aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam -ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no -coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!» - -Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou -em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta. - - - - -XX - - -CONCLUSÃO - - -_Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!_ - -J. SIMON (Le devoir.) - - -E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos -estes desafortunados dos prazeres reaes da vida! - -De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da -virtude, para entender que a virtude é boa? - -Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro? - -Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria? - -Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas -com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas -atribulações. - -Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella -mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não -será o d'aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia -voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o -orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um -cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos -senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa -idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações; -será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica -incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito -viciado nos leva. - -Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm -n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus -olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela -cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome -tem, se não é a felicidade suprema? - -Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a -sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a -mudança do homem, ou o esforço d'elle sobre o coração do homem -amortalhado. - ---Leonor--disse elle--bem me vês: vesti-me assim para a mim me vêr e -convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as -voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das -alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe, -até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo -dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se -levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha -prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua -paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu -agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o -morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de -te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por -esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás -cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma -casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha -vida. - ---A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu... - ---Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que sinto -prazer em pedir-t'as. - ---E poderemos alli viver, Alvaro?--atalhou Leonor. - ---Eu viverei. - ---Tu! e eu não, meu primo?! - ---Não, Leonor--respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava -a ser contrariado--Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora -d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu -lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos -levou a Deus a conta das nossas lagrimas. - ---E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me -deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do -coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda? - ---Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa -que lá temos? - ---Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que me -sirva. - ---E a chorar me pedes um convento, Leonor? - ---Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!... - ---Eu, bem vês. - ---Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas lagrimas!... - ---Não são, não devem ser...--Alvaro concentrou-se, levantou ao céo -os olhos, e continuou: - ---Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de -regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos -Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã -iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu -proposito, dir-m'ohas, Leonor. - -No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre -Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de -Santa Joanna, e d'alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas -para a reclusão de sua prima. - -N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e -depós ella uma sumptuosa mobilia. - -O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe: - ---A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te sentires -alumiada da graça que fortalece e santifica. - -Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a -mão de leve no rosto, e murmurou: - ---Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe... Nossa, -de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer a -Deus. - -Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada -de Leonor, e sahiu. - -No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o -estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio -alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. -Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e -decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em -casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara -apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos. - -Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes. -Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de -algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma -pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia -elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia -d'ella.» - -Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos! - -N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle -exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de -plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a -tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a -razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e -os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe -obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos -romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira -amortalhado no seu habito. - -É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e -que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a -decrepidez. - -Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á -grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço -novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro. - -Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum -tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era -encontrarem-se na presença de Deus. - -Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle -homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo. -Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o -officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição -entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a -gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do -amigo digno de Alvaro Teixeira. - -Não sei que mais lhes possa dizer da vida d'aquelle padre dos Olivaes. -Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos -dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto -venerando. - -Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das -suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e -nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a -garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra. -Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao -annunciarem-lhe a agonia de Leonor. - -Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos -instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas, -que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de -Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este -vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de -Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era -natural; e, ao sahir d'aquelles extasis, dizia ás suas amigas que -estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N'um d'estes arrobamentos é -que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu -seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti, -que as minhas lagrimas purificaram-me.» - -Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos -inconciliaveis. - ---Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de que -ella estava em agonia da morte? - ---Não se lhe deu tal aviso;--respondeu a prioreza--Leonor, na vespera -do seu trespasse, tinha dito que, se o seu primo não viesse vêl-a até -ás quatro horas do dia seguinte, só na presença de Deus a veria, Ora, -nós tanta confiança tinhamos nas previsões da virtuosa senhora, que -nos apressamos a chamal-o. - ---Deu-se, por tanto um milagre!--atalhei eu. - ---Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a sua serva -para nos edificar--respondeu a prelada--O padre Alvaro chegou minutos -depois da hora que ella dissera. - ---Serei importuno fazendo mais uma pergunta? - ---Queira dizer. - ---Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um passado, -anterior a trinta annos? - ---Não sabemos--respondeu promptamente a prioreza--o que podemos -dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n'esta casa, quiz que as suas -criadas lhe chamassem Magdalena. - -Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade. - -Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte -annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o -fogo da indole e do instincto inextinguivel n'elle. Não me entendia com -o mysterio de semelhante conversão. - -Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de -orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na -igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um -dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e, -á orla inferior, li estas palavras: _Flevit amàre_: CHOROU -AMARGAMENTE. - -Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a -primeira da santificação. - - - - -FIM. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of O Romance de um Homem Rico, by -Camilo Castelo Branco - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO *** - -***** This file should be named 63461-0.txt or 63461-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/4/6/63461/ - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by The Internet Archive.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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You may copy it, give it away or re-use it under the terms of -the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have -to check the laws of the country where you are located before using this ebook. - -Title: O Romance de um Homem Rico - -Author: Camilo Castelo Branco - -Contributor: Thomaz Ribeiro - -Release Date: October 14, 2020 [EBook #63461] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by The Internet Archive.) - - - - - - -</pre> - - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/homem_cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - - -<h4>BIBLIOTHECA ELYSIO</h4> - -<h3>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h3> - -<h5>(Visconde de Corrêa Botelho)</h5> - -<h2>O ROMANCE DE UM HOMEM RICO</h2> - -<h4>TERCEIRA EDIÇÃO</h4> -<h5>COM UM PROLOGO DE</h5> - -<h4>THOMAZ RIBEIRO</h4> - - -<p style="margin-left: 50%;">.... Connaitre la valeur de l'argent<br /> -et le sacrifier toujours, soit au devoir,<br /> -soit même à la délicatesse, c'est une<br /> -vertu réelle.</p> - -<p style="margin-left: 55%;">SENANCOURT (Rêveries).</p> - - -<h4>PORTO</h4> -<h4>LIVRARIA ELYSIO</h4> -<h4>DE JOAQUIM ELYSIO GONÇALVES—EDITOR</h4> -<h5>282, Rua Formosa—R. Sta. Catharina, 198</h5> - -<h5>1890</h5> - -<hr class="r5" /> - -<h4>INDICE</h4> -<p><a href="#PROLOGO_DA_TERCEIRA_EDICAO">PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO</a><br /> -<a href="#PREFACIO_DA_SEGUNDA_EDICAO">PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO</a><br /> -<a href="#INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a><br /> -<a href="#CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a></p> - - - - -<hr class="r5" /> - - -<h4><a id="PROLOGO_DA_TERCEIRA_EDICAO">PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO</a></h4> - - -<p style="margin-left: 45%;">«—Este foi o mais querido dos meus romances»</p> -<p style="margin-left: 55%;">C. Castello Branco, Prefacio da<br /> -2<sup>a.</sup> edição do <i>Romance d'um homem<br /> -rico.</i></p> - - -<p>Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu livro dilecto esta -sentença:—«O homem não acha em si os alivios da razão quando os -vicios lh'a degeneram», estava julgando a sua propria alma no tribunal -austero da consciencia.</p> - -<p>Não vejam n'isto censura, os melindrosos por conta alheia.</p> - -<p>O romancista, se não é um armador de encommendas, um preparador de -effeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se -sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus -personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que -lhes attribuiu, se com elles ama, odeia, chora ou blasphema, faz como o -sabio, o martyr da medicina, que, para se convencer e para não falsear -a sciencia que professa, muita vez se envenena ou se dilacera.</p> - -<p>Camillo era aqui o pensador, o philosopho, o analysador frio do seu -excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não vêr distinctamente -o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe -lucida a verdade, fôsse onde fôsse o esconderijo d'ella, fôsse qual -fôsse a distancia em que demorasse.</p> - -<p>Se o romancismo é mester, o escriptor é artifice; se é arte, se é -acto impulsivo, o romancista é poeta.</p> - -<p>Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu romance mais -querido:—«Não sei que haja ahi outros incentivos que me chamem aos -olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer vêr chorar e vibrar de -não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me cazos da -natureza d'aquelles: faça-me acreditar na existencia d'umas almas que -vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina», -declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o genero da sua -poesia.</p> - -<p>E como quem diz:—o symptoma da sua doença.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Pois não têem sido apodados de—loucos—os poetas? Se loucura -é a desconformidade de actos ou de sentimentos com as <i>regras da fria, -pautadas e articuladas no codigo do senso-commum</i>, vamos, que não têem -os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos -seus contemporaneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum -rasto de fatua phosphorescencia na travessia longa ou curta da sua -derrota.</p> - -<p>Loucura <i>lucida</i>, mas loucura incontestavel; loucura impulsiva e -incuravel, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os applaude e os -escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão.</p> - -<p>A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora, -a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata, -a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a -de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora, -loucuras foram; por mais que os poetas d'hoje queiram malsinar aquelles -homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde.</p> - -<p>Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso; -não cabe nas leis da normalidade.</p> - -<p>Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os -vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e -Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas -cezareos,—os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias -realengas:</p> - -<p><span style="margin-left: 1em;">«<i>Mecenas atavis œdite regibus</i>»</span></p> - -<p>outro, cantando apotheoses divinas:</p> - -<p><span style="margin-left: 1em;">«<i>Deus nobis hœc otia fecit.</i>»</span></p> - -<p>Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando -lhe estrophes accommodaticias.</p> - -<p>Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio. -Raras vezes pegou a enxertia; é certo.</p> - -<p>O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante -ao exorcismo; torna-se n'elles mais patente, porque, sob aquella forma, -estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao -menos—apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os -perigos;—Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução -d'um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue -apagar a fogueira d'um <i>auto de fé</i> por um <i>acto de fé</i>, ou de -prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente -onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira -porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o <i>virus-rabico</i> -expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue -da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da -experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,—heroe sem -hymnos!—á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d'uma cratéra -para devassar os segredos da erupção vulcanica.</p> - -<p>Quantos insensatos!</p> - -<p>Se depois da loucura da sciencia quizer alguem percorrer a da -religião,—S. Macario, S. Simeão Stylita, Santo Antonio, as -allucinações dos extasis em que se vê Deus e os ceos, o genio das -prophecias, a inspiração dos apostolos, a coragem alegre dos martyres, -que exuberancias de loucura, que degenerescencias pathologicas, -provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a sciencia nos -estudos da sua extensissima symptomatologia?</p> - -<p>E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!...</p> - -<p>A gloria! a honra..., mas que são honra e gloria? São tambem uns -sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas -desconformidades <i>com as regras da fria razão, pautadas e articuladas -no codigo do senso-commum.</i> Produzem as monstruosidades de Alexandre no -Oriente, dos trezentos nas Thermopylas, dos Gracchos em Roma, de Antonio -em Philippes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em -França; de Bonaparte na Italia, do Infante-Sancto em Fez, de Saldanha -no Porto e em Montevideu, de Bartholomeu Dias, de Vasco da Gama e de -Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas -suas conquistas, de Xavier no apostolado.—Deus, familia e -patria!—O que estes motes produziram de loucuras!</p> - -<p>E o amor... e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações, -quantos desvios da razão e do senso-commum não produziram e não -produzem! d'esses que espantam o mundo e se julgou,—ingenua -simplicidade!—que honravam e ennobreciam a especie humana?</p> - -<p>Tudo o que foi épico e se chamou grande e bello e mereceu canticos e -triumphos e apotheoses e historia e monumentos e centenarios e culto, -atravez de seculos e millenios, tudo hoje é condemnado pela sentença -fulminante d'este bom-senso burguêz, comesinho, utilitario, pratico, -omnipotente e inexoravel. A transformação parece completa; Sancho -depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu -desenterrou o bezerro d'ouro, não para o adorar mas para o negociar; o -codigo depôz a historia; a pirataria depôz o codigo; as notas e as -acções bancarias collaram-se nas folhas da epopêa.</p> - -<p>Christo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e -abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição: -esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a -grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento,—foi um -rebaixamento; inutil por improficuo. E será inefficaz em quanto a -sciencia, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que -geram as grandezas, e com ellas o desnivelamento successivo da -humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociaes.</p> - -<p>Ahi estão ellas—nas sciencias, nas artes, nos descobrimentos de -toda a especie; mais humanos, mais proficuos talvez que os antigos, mas -careceram d'elles; que não póde haver continuação sem principio. Das -pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de -Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em -rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlantico, o Pacifico, e -rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram -os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a -inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os -isthmos nascêram os abridores de canaes; as assoladoras naus, que até -escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos -sequestrados ao convivio dos outros povos do mundo, andaram, com graves -perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quaes hoje passa -livremente o commercio, por baixo dos quaes hoje se assenta o -telegrapho.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do genio se -não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido -Camillo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciencia que tenho -estado a fugir de collocar na classe dos loucos o nosso presado -romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por -conjectura eu tenho de o metter n'esta companhia, que me vi forçado a -provar-me que a companhia póde ser de gente desafortunada, mas é -provadamente illustre.</p> - -<p>Nunca a fria razão, nunca o senso-commum fizeram couza que não fosse -fria e commum. Excellentes caixeiros e guarda-livros do commercio, -excellentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na -guerra, excellentes officiaes da fazenda, na marinha, professores, -sacerdotes (para conegos, não para missionarios), juizes, magnificos -ecónomos e descobridores de pechinchas—o espirito conservador—os -Wychnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantissimo, -imprescindivel serviço faz á humanidade esta gente de são juizo e -razão fria, mas, por conselho d'ella, nem a mãe defenderia o filho -contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra -as chammas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o naufrago contra as -ondas. Temperatura egual e morna;—a selvageria tropical, primitiva, -tendo Sancho na presidencia e o velho de Camões no conselho de estado.</p> - -<p>O senso-commum até, por concessão transitoria,—sagaz -bom-velho!—já creou, para illudir e desnortear poetas e -romancistas, uma litteratura; em odio ás artes, uma arte; em odio ao -genio, engenhos. Louvavel empenho na verdade. Vê doenças graves e -pretende cural-as; vê enxamear a loucura, a mais grave das molestias, e -com ella exgota a sua therapeutica. Benemerito desejo! Mau será se a -cura fôr peior que a doença.</p> - -<p>De muito dizer-se ao theorico:—sê pratico!—faz-se d'elle ás -vezes um ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas -variadissimas.</p> - -<p>De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de -Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;—um grande poeta e um -grande romancista... contrafeitos; e com elles—o satanismo e o -naturalismo; porém—naturalismo—de meza de autopsia ou de -laboratorio chimico.</p> - -<p>—«Faz-me tristeza pensar,—escreveu Camillo n'um dos -prefacios do seu <i>Amor de perdição</i>,—faz-me tristeza pensar eu -que floreei n'esta futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser -descriptas sem grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a -rhetorica de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de -Quintiliano á do <i>Collette-encarnado.</i> A gente imaginava que os -alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem -me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para -espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N'aquelle tempo, -inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na -escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se -narcizar n'um espelho fiel.............................. Já não verei -onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como -a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que -atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo -tempo por effeito d'uma grande revolução rigolboche.»—</p> - -<p><br /></p> - -<p>Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque -é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom -e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama -era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar -accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o -melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar -mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de -Maudsley.</p> - -<p>Não se modificou—transfigurou-se; o que, longe de provar juizo -prova só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença.</p> - -<p>Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial. -Na <i>Phedra</i> pôz Platão na bôcca de Socrates:—«Os -maiores bens são produzidos por um delirio inspirado pelos -deuzes.»—O—<i>Est Deus in nobis</i>,—que traduz, -senão a loucura do genio? De Christo escrevia S. João—«Elle é -possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para que o -escutaes?»</p> - -<p>Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou -em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos, -aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e -electrizar a atmosphera social, varrendo d'ella os miasmas putridos -d'esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os -povos como as nevoas densas da palude.</p> - -<p>Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela -sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas, -toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima.</p> - -<p>Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos -arvoredos.—A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do -ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados, -sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo, -patrimonio de todos.</p> - -<p>N'um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir -para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma -rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:—«De mim digo -que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de -crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos. -Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido -heroes. Além d'isso <i>apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu -caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que -passam.</i> Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza -menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do -pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a -singularidade de nos não lastimarmos.»—</p> - -<p><br /></p> - -<p>Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola -novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes -honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir, -que nunca lhes quiz mal.</p> - -<p>Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as -<i>flôres do mal</i>; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados -em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e -não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não -applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha -a ingenuidade de julgar sagrados.</p> - -<p>Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e -d'ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir, -indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que -o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os <i>espiritos fortes</i> -sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor.</p> - -<p>Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida.</p> - -<p>Desesperança formal nunca eu lh'a conheci.</p> - -<p>Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre -Alvaro Teixeira:—«A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os -luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de -novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por -perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que -apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, -entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a -pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.»</p> - -<p>—Deus—era o astro que procurava na noite das tribulações; e -se não era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente -desejo a mais constrictora ancia da sua alma.</p> - -<p>Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça -paternal,—a da caridade?—«A solidão sem Deus não serve para -infelizes maus»—nos diz elle no seu livro de consolações—<i>O -romance d'um homem rico</i>—onde pretendeu exaltar, acima de todas, a -virtude da resignação:</p> - -<p>—«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado... -Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a -bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e -encontram os de Deus.»</p> - -<p>E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna -inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do -seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma -cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes:</p> - -<p>—«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como -additamento á «Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero -semelhante nota.»—</p> - -<p>E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto -espirito como elle é, não podia desconhecer que a verdade da -representação das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas -obras da arte:—«Rien n'est beau que le vrai».—Por isso -elle nos diz:—... «Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em -imaginações de que me sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e -pinceis na copia da verdade.»—</p> - -<p>Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a -indole do artista que o reproduz.</p> - -<p>O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta, -existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou -obra d'arte que se funda n'estes affectos, sentimentos ou mostras -externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo -existe na natureza.</p> - -<p>Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a -devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga.</p> - -<p>Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar -revelações e inspirações por todos esses theatros em que a -humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se -vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o -hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe -fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a -verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto -e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não -é educadora, não é nada e para nada serve.</p> - -<p>Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo -que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os -eremitas do passado, os que foram formados n'outra escola com outros -princípios e outras aspirações.</p> - -<p>E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes -impuridades espremem dos bicos das suas pennas!</p> - -<p>Vêrem a cutis fina e transparente d'uma mulher formoza e em vez de -sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com -enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas, -com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se -sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da -sepultura!—chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal -insomnia,—signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha -virtudes, achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na -heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar -só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal, -falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A -proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não -acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em quando -Camillo escreve a <i>Corja</i> ou o <i>Euzebio Macario</i> e Zola escreve o -<i>Sonho.</i> Passos dados para a concordia senão para a unificação das -escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n'um proximo -futuro.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Ha na <i>Brazileira de Prazins</i> uma ultima, talvez definitiva, feição -litteraria de Camillo Castello Branco. Alli encontram-se primorosos -quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo d'um -assassinato encommendado e ajustado, o carregar da clavina, a sahida -furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas -ante o crucifixo, até que elle volta do seu mallogrado intento, dando -logar ao jubilo, em acção de graças, da mizeranda espoza, que julga -ter obtido o milagre pela intercessão das suas lagrimas e das orações -de suas filhas, são primores d'arte dos mais subidos quilates.</p> - -<p>O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de sanctos e livrinhos de -orações, á porta do templo onde funccionam os missionarios, e a -murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrilego -bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asphyxiante dos -exorcismos applicados á pobre hystérica, sobre sêrem paineis de -genuina e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos -procedimentos inquisitoriaes e do abastardamento e falsificação dos -textos sagrados, postos á disposição d'um fanatismo intransigente ou -d'uma hypocrisia revoltante.</p> - -<p>Alli, sim, póde estudar-se o verdadeiro, o possivel realismo, n'um -romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte.</p> - -<hr class="r5" /> - -<p>Camillo Castello Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os -seus duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente anciedade e -vão sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas, -já em edições populares. É certo que os contemporaneos do grande -escriptor se acham empenhados na sua glorificação em vida. -Acclamado em plebiscitos—primeiro escriptor portuguez da -actualidade,—honrado pelos poderes publicos, á porfia, procurado -por todos aquelles que os combates da imprensa traziam d'elle -distanciados, a unanimidade congrega-se em tôrno d'elle, no unisono -d'uma apotheose sem exemplo.</p> - -<p>Portugal do seculo XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas -ingratidões.</p> - -<p>Elle o reconhece agradecido, aguardando n'uma anciedade dolorosissima -vêr-se restituido ao estudo e ao trabalho—sua religião e seu -confôrto.</p> - -<p>Teve de abandonar a lida, o heroico triumphador. Aguia que desafiava os -deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas -caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no -insondável abysmo d'uma escuridão a cada instante mais densa.</p> - -<p>Como elle espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um -relampago, tenue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança!</p> - -<p>Eu tenho assistido a essa lucta que mais parece uma agonia.</p> - -<p>A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios -d'acção, mas pede-lhe paciencia! e o homem que escreveu este livro, -que soube dar tantos conselhos e offerecer tantos exemplos de -resignação, não póde resignar-se.</p> - -<p>Como todas as cazas lhe dão trevas, foge de todas as cazas, -de todas as terras, e até de todo o convivio,—porque ouvir, -somente,—aquelles que o procuram, é ter multiplicados testemunhos -da cegueira, que mais, dia a dia, vae julgando incuravel.</p> - -<p>Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose -póde mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo.</p> - -<p>Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe -fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas <i>Chronicas duas -rainhas</i> que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina -promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle -escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança -fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença -volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do <i>sempiterno -horror.</i></p> - -<p>Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como -seu ultimo recurso.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Tristissimo.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Assim vive,—se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior -que a morte,—o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas -linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte -lhe venha n'um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe -pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem -dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os -braços a procurar mão valedora....</p> - -<p>Meu pobre amigo!</p> - -<p>Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a -amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n'esta -esperança.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n'uma caza cheia de confortos -e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus -mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe -faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.</p> - -<p>Quantas vezes tem elle repetido:</p> - -<p>—«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel -para poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde -escrevi <i>O romance d'um homem rico!</i>»</p> - - -<p style="margin-left: 10%;">Carnaxide, 1 de julho de 1889.</p> - - -<p style="margin-left: 60%;"><i>Thomaz Ribeiro.</i></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="PREFACIO_DA_SEGUNDA_EDICAO">PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO</a></h4> - - -<p>Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que -aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance -prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á -força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal -me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que -me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica, -lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava -em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver, -soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem -modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar -obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não -sabia gastar melhor e mais aproveitados.</p> - -<p>Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel -amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte -esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que -principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades -inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou -não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da -intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão -glacial da desfortuna.</p> - -<p>Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.</p> - -<p>Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites -solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios, -quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me -esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça: -deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de -lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.</p> - -<p>Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande -esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos -balsamos dôces.</p> - -<p>Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor -do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.</p> - -<p>Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o -padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de -Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro -chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares -que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze -casamentos felizes.»</p> - -<p>E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em -volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro.</p> - - -<p style="margin-left: 10%;">Bellas, 19 de Maio de 1863.</p> - - -<p style="margin-left: 60%;">CAMILLO CASTELLO BRANCO.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4><a id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a></h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>As tribulações dos santos são enigma:<br /> -uma cousa parecem, e outra são e significam:<br /> -parecem miserias da fortuna,<br /> -e são concelhos da Providencia Divina,<br /> -e signaes da felicidade eterna.</i></p> - -<p style="margin-left: 45%;">P. M. BERNARDES. (Silva de varios<br /> -dictames espirituaes.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um -bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo, -ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima -d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha -memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara -com as flores d'outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a -saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me.</p> - -<p>Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.</p> - -<p>Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma -padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas! -A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que -recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo -para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não -infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:</p> - -<p><br /></p> - -<p><span style="margin-left: 1em;"><i>Héritiers des douleurs, victimes de la vie,</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Non, non, n'espérez pas que rage assouvie</i></span><br /> -<span style="margin-left: 4em;"><i>Endorme le Malheur,</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense</i></span><br /> -<span style="margin-left: 1em;"><i>Engloutisse à jamais dans l'éternel silence</i></span><br /> -<span style="margin-left: 4em;"><i>L'éternelle douleur!</i></span></p> - -<p><br /></p> - -<p>E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um -doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella -feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!</p> - -<p>E todos os outros mestres de bardos melancolicos?</p> - -<p>Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!</p> - -<p>Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de -carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a -veneranda calva com seu barrete de troçal preto.</p> - -<p>Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não -correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas -disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S. -Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se -confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo -chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»—ao corpo -entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as -cousas, e muitas outras.</p> - -<p>Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que -eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio, -e este primeiro capitulo deve lêr-se.</p> - -<p>Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu -companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico -semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela -de aço reluzente.</p> - -<p>Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o -chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro -vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga, -marchetada de madre-pérola.</p> - -<p>—Póde fumar á sua vontade, se fuma—disse-me elle.</p> - -<p>Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira, -que elle não aceitou.</p> - -<p>Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta -palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem -que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas -uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma -do heroico inimigo dos tyrannos.</p> - -<p>—A moral!—dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto -se vaporou—a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem -poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e -intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.</p> - -<p>Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos -inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo -recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura, -a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos -maus e dos males da vida.</p> - -<p>Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso -convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento -interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza, -contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor! -Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o -feliz?</p> - -<p>Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:</p> - -<p>—Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?</p> - -<p>—A Santarem.</p> - -<p>—É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de -saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de -felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só -d'este mundo, não dura mais que uma hora.</p> - -<p>—Ha quantos annos eu lá não fui!...—continuou o padre -no tom magoado de entranhada saudade—E já agora é tarde... é o -anoitecer da vida...</p> - -<p>—Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!—interrompi -eu.</p> - -<p>—É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas -lagrimas; e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente -a distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a -saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e -não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.</p> - -<p>—Creio que tem—disse eu—é vêr e amar essas vidas em -Deus, chamal-as em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na -linguagem das lagrimas...</p> - -<p>—E da oração...—disse o padre, e proseguiu, depois de breve -silencio—Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições -perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo...</p> - -<p>E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos -longas e ossudas sobre o peito.</p> - -<p>Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação, -cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua -linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles -parecem intelligentes e desgraçados.</p> - -<p>—Fica no «Poço do Bispo?»—perguntei.</p> - -<p>—Não senhor; vou para os «Olivaes.»</p> - -<p>—A passeio, ou é de lá?</p> - -<p>—Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas -pittorescas, em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas -paredes abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando -cahiremos nós comtigo?</p> - -<p>Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:</p> - -<p>—Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se -na humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o -<i>riso e vacca</i> de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta -do Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou -fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo -se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar -n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de -pedir a Deus o descanço da minha alma.</p> - -<p>Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras -doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo -que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria, -que de si deixou, com a justiça humana.</p> - -<p>—Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro -Teixeira, e não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa; -mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem -communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a -palavra «amigo.»</p> - -<p>—Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua -mão—Que o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem -consultar o raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores -qualidades do homem, que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa -antipathia de um primeiro encontro.</p> - -<p>—Como se chama?</p> - -<p>Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba -por syllaba, e depois exclamou de repente:</p> - -<p>—Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos. -Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria. -Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe -cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.</p> - -<p>—É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: -vinte paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...</p> - -<p>—Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer -ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por -onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, <i>feliz -culpa</i>, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda -todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da -porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua -ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a -causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não -podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e -castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre -apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos -padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas -sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar -vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto -que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades -santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da -razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados -defensores da exclusiva razão do catholicismo...</p> - -<p>N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita -critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do -levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque -me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da -eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os -«Olivaes.»</p> - -<p>Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção.</p> - -<p>—E portanto...—disse elle—Adeus, meu amigo, não ha -tempo para mais.</p> - -<p>—E portanto—disse eu—não o dispenso de concluir o -seu discurso. Eu é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas -pittorescas ruinas dos «Olivaes.»</p> - -<p>—Fica!—exclamou elle com alegria—Pois bem haja!</p> - -<p>Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.</p> - -<p>Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o -conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da -Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de -ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao -funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais -oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O -homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre -encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava -os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de -mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou, -segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um -mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o -intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez -estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e -ainda assim a boa escolha.</p> - -<p>—Ora vamos lá—disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se -ao meu braço—Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este -chão que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e -vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a -mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença -que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não -renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando -alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e, -depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a -flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes, -outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não -se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se -apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?...</p> - -<p>—Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar -alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e -dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.</p> - -<p>—Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras -a maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo -e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos -annos me faz?</p> - -<p>—Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.</p> - -<p>—Não, senhor: tenho quarenta e seis.</p> - -<p>Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle -homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que -lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os -vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda -rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As -cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso -recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos -joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração -d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra! -Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar -diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus -gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando -eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião -insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem -do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada -lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não -cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas -magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se -adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte -paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio -caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da -sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins -com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das -lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a -tua essencia de anjo.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Este era o seu refugio, o seu descanço.</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as -almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante -das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as -alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.</p> - -<p>No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas -abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades -comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que -escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se -avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo -pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente -silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do -sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler. -Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro -beijo do sol, e disse:</p> - -<p>«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu, -comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia -desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu -Sardanapalo!»</p> - -<p>Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.</p> - -<p>Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás -masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da -terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem -do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da -historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle -baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me -estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um -bastião, resmoneou:</p> - -<p>«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de -carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia -de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.</p> - -<p>Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu -gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e -fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello -iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.</p> - -<p>Outro caso:</p> - -<p>Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de -uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco -de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes -enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua -estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos -cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o -coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que -descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus -cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do -myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das -papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu -scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar -a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção:</p> - -<p>—Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a -couve lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras -annuaes.</p> - -<p>Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao <i>Matta</i>, ou á <i>Taverna -ingleza.</i></p> - -<p>Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular -tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.</p> - -<p>Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir -onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que -deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais -esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias -que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é -salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.</p> - -<p>As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do -padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»</p> - -<p>A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé, -amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes. -Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do -céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas -pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras -hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta -marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das -janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão -agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de -vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.</p> - -<p>Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso, -alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes -circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando -passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este -ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter -sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos -senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim -imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões -rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.</p> - -<p>Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e -muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com -artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no -centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario, -através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu -clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de -castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das -armas do tecto.</p> - -<p>Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á -imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não -tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava -uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se -então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um -atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas -camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.</p> - -<p>—Não se impaciente, senhora Eufemia,—disse o -padre.—Ande lá de seu vagar, que nós não temos pressa.</p> - -<p>—Valha-me Deus!—disse a velha afreimada—este -berzabum do negalho parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe -onde o rosario se foi imbelinhar!</p> - -<p>A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a -tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a -miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se -d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda -inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando -o padre pacientemente desenredava a cambulhada.</p> - -<p>D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e -residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um -d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para -hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século -passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com -espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados -a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com -reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de -florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e -D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do -ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos -Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no -desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala, -cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.</p> - -<p>Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella -examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande -jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante -estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de -pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro -de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa -copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme -sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos -entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago. -Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs -como á competencia com as cigarras.</p> - -<p>Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de -amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de -armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do -edificio.</p> - -<p>—Quem vive n'aquella bonita casa?—perguntei eu.</p> - -<p>—Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa—respondeu -o padre—Foi dos que foram donos d'esta em que vivo...</p> - -<p>Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no -olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia -com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto -aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida, -se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia -responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação, -era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.</p> - -<p>Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho -para mim, disse:</p> - -<p>—Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem -que lhe dou. Venha d'ahi.</p> - -<p>Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada -a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau -preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara -duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a -fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em -ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com -referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos -infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto -era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a -metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce -melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que -mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas -dos «Olivaes.»</p> - -<p>—Já sabe—disse o padre—que tem de fazer aqui -penitencia da irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.</p> - -<p>—Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!—disse eu sem -simular o enthusiasmo—A poesia está aqui!</p> - -<p>—A poesia dos prophetas de Jerusalem;—atalhou o -levita—a poesia das lagrimas...</p> - -<p>—E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos -desventurados n'este mundo!—acrescentei eu, enlevado no meu rapto de -cinco minutos—Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna -ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os -alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que—é a fé, -a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra -brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida, -e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da -sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se -refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão -que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O -homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a -fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as -suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de -si é que está a salvação. Em Deus é que...</p> - -<p>—<i>Em Deus</i>—interrompeu o padre. É essa a palavra, onde -eu o estava esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a -felicidade, o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, -não acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas -contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que -o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as -consequencias. Se a felicidade—a da consciencia, entendo—é obra -do acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta! -Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu -respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de -acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do -bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo, -protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os -allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada -dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus -não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que -os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos -d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados -á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa -fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de -desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do -justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto -ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta -d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar. -O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as -paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola -d'outra luz, se não a Deus?</p> - -<p>Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em -si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar -alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os -penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela -salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes -esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o -Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos -imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A -solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os -absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no -ermo; bom é, porém, que não venham aqui <i>ungir os braços para sairem -de novo á arena.</i> O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os -<i>luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem -com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos -vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe -eu se tem horas de jantar acostumadas.</i></p> - -<p>Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu -respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era -proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da -casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas -soleiras de duas portas.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<p style="margin-left: 45%;">.........................<br /> -<i>No has visto mas?... Vuelve á la</i><br /> -<i>pradera, hijo mio, por que hay en</i><br /> -<i>ella cosas mas dignas de tu<br /> -atención.........................</i><br /> -<i>Dios estaba en medio de los campos.</i><br /> -<i>No le has visto? A él debe la</i><br /> -<i>pradera su belleza; las miradas</i><br /> -<i>de Dios animabam la claridad del</i><br /> -<i>sol</i>..........................<br /> -<i>No has oido mas que él murmullo</i><br /> -<i>de los arroyos, et gorgéo de las</i><br /> -<i>aves, y el viento que mecía las ramas</i><br /> -<i>de los árboles? Vuelvebe al</i><br /> -<i>bosque, hijo mio, porque tus oidos</i><br /> -<i>percibiran cosas mucho mas grandes</i>...</p> - -<p style="margin-left: 48%;">ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de<br /> -la primera edad.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever, -despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle -remançoso descanço do corpo e socego de espirito.</p> - -<p>A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda -instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se -nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois -edulçora os azedumes de largos annos.</p> - -<p>Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava -delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira -tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por -entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o -rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos -immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa. -Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a -casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive -n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então -ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella, -já com as mãos erguidas.</p> - -<p>Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:</p> - -<p>—Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas -ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar. -Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem -comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não -me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem -que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro...</p> - -<p>—Onde vai dar comsigo n'esse arrazoado?—atalhou.</p> - -<p>—Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava -fazendo.</p> - -<p>—Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso, -reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir -espairecer nos «cafés» de Lisboa.</p> - -<p>—Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal -de mim.</p> - -<p>—Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á -caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos, -tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e -volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me -agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.</p> - -<p>O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi -beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação d'estas lagrimas. -Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete -annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu -pai m'as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi -está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com -um abraço.</p> - -<p>No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de -olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de -grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.<sup>a</sup> Eufemia com o -almoço, e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.</p> - -<p>D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia -que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de -gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada, -os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto -das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de -vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do -nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas -convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello -com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:</p> - -<p>—Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até -este ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos -meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro, -plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.</p> - -<p>Reparei n'outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: <i>L. A.</i>, quasi -illegiveis pela sobreposição da casca.</p> - -<p>—E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro?</p> - -<p>—Tambem.</p> - -<p>Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o -recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões -do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o -chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos -cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos -silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá -hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio -Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o -leitor não acha sal n'estes ditos, o padre tambem lh'o não achou. De -instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora -antes claro e aberto ao contentamento interior.</p> - -<p>—Que tristeza é essa?!—perguntei.</p> - -<p>—A tristeza do homem, que não póde ser anjo—respondeu elle, -trabalhando por reprimir as lagrimas.</p> - -<p>De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia -replicar, nem consolar.</p> - -<p>Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram, -tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua -reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance -denominado VOLUPTÉ, <i>Voluptuosidade!</i> isto oferecido pelo homem de -Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com -fervor d'um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração -do justo me trouxera do céo! A <i>voluptuosidade</i> de Sainte-Beuve, aqui, -n'este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do -Espirito Santo!...</p> - -<p>Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:</p> - <p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . </p> -<p>«Entende o editor d'esta obra que as pessoas -nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella -tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja -moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações -menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás -pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas, -não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.»</p> - -<p>Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais -brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em -trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha -de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e -pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o -espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os -futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.</p> - -<p>Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.</p> - -<p>—Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um -amigo—disse o padre—Se o senhor tivesse em mim um amigo, -capaz de escrever com profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu -mais quizera ter-lhe escripto este romance que o «Manual d'Epicteto» -ou a «Imitação de Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o -mundano, o penitente, o christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser -tudo isto, é ainda mais, é o homem. Quão raros são os livros que bem -definem o homem, a não ser o de Job: <i>Homo natus de muliere..., -repletus multis miseriis</i> «homem, nascido da mulher, acervo de -miserias sem conto.»</p> - -<p>—Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a -desculpem?—atalhei eu.</p> - -<p>—Porque não? faça.</p> - -<p>—Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio -cingir os rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não -ha?</p> - -<p>—Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,—perdôe-me a -profanidade—mas as veredas muito differentes.</p> - -<p>Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com -alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a -luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:</p> - -<p>—Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. -Não é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem -«Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados -á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.</p> - -<p>—Mereço eu tanto?!—disse, sentindo-me vaidoso da confiança, -e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.</p> - -<p>—A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que -seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos -fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.</p> - -<p>Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das -letras, e continuou depois d'este theor:</p> - -<p>—Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha -precisão d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus -silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não -já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É -natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. -Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca -fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a -ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de -ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei -quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que -os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que -monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada -passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis, -perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco -cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo -vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim -encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das -injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que -eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face -agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de -melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só -commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns -e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se -acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que -se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz -e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem, -porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem -que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem -sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?</p> - -<p>—De defeza, não me parece, senhor padre -Alvaro!—respondi—Quem é que o accusa? Escarnecer ou -lastimar não é accusação. O que eu entendo das palavras de vossa -senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que se querem levantar para -avalial-o, e resvalam á lama.</p> - -<p>—Não tanto—replicou sem embiocar a -caridade—Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e -afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens -da fortuna, da immortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza -e gloria herdada á sua descendencia. Entre estes, que muito é ser eu -olhado como inutil, como o menos previdente dos tres a quem o Senhor -distribuiu os talentos? O sacerdocio é havido como officio, e o -sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia -rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo -escuro da religião. Que ha-de dizer a gente illuminada, segundo o -tempo, d'um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser -pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes -infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma -palavra de queixume contra os ingratos?</p> - -<p>—Deve dizer—respondi commovido—que homem, que tal -fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie -humana.</p> - -<p>—A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu -tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois -saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie -humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco -da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes -no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na -lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes» -vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as -«Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um -sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão -pêcas glorias da especie humana.</p> - -<p>A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.</p> - -<p>Jantamos.</p> - -<p>Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem -os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com -vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os -santos, como o padre Alvaro.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Ibit homo in domam œternitatis suœ</i><br /> -Irá o homem para a casa da sua eternidade.</p> - -<p style="margin-left: 50%;">ECCLES.—12. 5.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da -mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e -tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem -alguma outra cobertura.</p> - -<p>—Ahi tem—disse entregando-me o livro—Leia, como quem -lê um romance de historia authentica, escripto por pulso não vezado a -escrever novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de -vinte primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada -uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.</p> - -<p>Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do -acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na -minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa -devoção.</p> - -<p>Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o -livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:</p> - - -<p><span style="margin-left: 1em;"><i>Ingredere in petram, et abscondere fosso humo</i></span></p> - - -<p>Quer dizer:</p> - -<p class="center">ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA<br /> -COVA.</p> - - -<p>E mais abaixo o verso do psalmo 117:</p> - - -<p><span style="margin-left: 1em;"><i>Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini.</i></span></p> - - -<p>Póde assim trasladar-se em vulgar:</p> - - -<p class="center">NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.</p> - -<p><br /></p> - -<p>A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns -capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em -conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas -correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou -entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras -palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.</p> - -<p>Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e -relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando -a do sol me dispensava da outra.</p> - -<p>Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus -vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á -modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se -entendera por idolatria.</p> - -<p>O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação, -nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de -hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a -consciencia em Deus.</p> - -<p>Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não -cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas -o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle -justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio, -balbuciando commovido do meu embaraço:</p> - -<p>—Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse. -Diga-me agora: que aproveitou?</p> - -<p>—Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, -sei agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que -Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»</p> - -<p>—E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...</p> - -<p>—E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o -anjo...</p> - -<p>—Pouco aprendeu...—replicou o padre—Eu queria mais que -tudo isso... Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não -lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, -se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho. -Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a -bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e -encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e -commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se -a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, -outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude -dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem -amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na -ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira, -ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus. -Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha -consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se -de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas -que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer, -porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus -que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a -fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado -ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus -primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões -inofensivos, o <i>post tenebras spero lucem</i> de Job.<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a></p> - -<p>Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios -espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe -ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade -pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e -até para passear desassombradamente.</p> - -<p>Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta -chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez -habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe -havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.</p> - -<p>—Vou hoje de tarde a Lisboa—me disse elle, placido e -triste—Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia -para cuidar de si. Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se -prefere tornar para as ruinas, mais contente voltarei.</p> - -<p>Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes» -ser-me-ia dolorosa.</p> - -<p>Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de -Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha -hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir -para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o -leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa -Martha.</p> - -<p>Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao -pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante -do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza -cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo -tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços -da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de -veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que -esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos -na grade.</p> - -<p>Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas -ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus -trabalhos.»</p> - -<p>Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me -disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu -braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o -achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi -durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos -encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse -esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á -semelhança das que regelam na face d'um cadaver.</p> - -<p>E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão -absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma -palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!</p> - -<p>Parou a sege.</p> - -<p>Saltei para amparar o padre na descida.</p> - -<p>—Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao -terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui -fallar-me.</p> - -<p>Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o -seguinte:</p> - -<p>—Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os -«Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite. -Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos -as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou -avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da -conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a -sua mão de amigo, e adeus.</p> - -<p>Voltou-se para mim, e disse-me:</p> - -<p>—Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, -se o poder fazer sem custo.</p> - -<p>—Pois não me quer comsigo agora?!—atalhei.</p> - -<p>—Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos -nem consolados por ninguem.</p> - -<p>Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.</p> - -<p>—Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos -«Olivaes»—ajuntou elle. Levei-lhe a resposta affirmativa, e a -sege partiu, a passo rapido.</p> - -<p>Fiquei conversando com o amigo do padre.</p> - -<p>—Não o tornaremos a ver—disse-me elle -consternado—Padre Alvaro não vive muitos dias; o senhor verá. Eu -d'antes, quando o via desconfortado e com signaes de pouca vida, -dizia-lhe:—«lembre-se d'aquella infeliz, que não tem mais -ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma nova! Agora, não ha -nada que o prenda á vida, senão o sofrimento...</p> - -<p>—Mas eu cuido—interrompi—que o padre Alvaro ha-de -achar sempre na sua vida occasiões de ser util a muitos outros -desgraçados, embora se ofereçam com titulos menos valiosos á sua -beneficencia. Em quanto houver um homem que lhe peça conselhos, -esmolas, ou intercessão com Deus, o padre, qual elle é, não póde -julgar terminada a sua missão n'este mundo.</p> - -<p>—Essas conjecturas são conceituosas, e de bom -juizo—redarguiu o sujeito—mas os negocios do coração -alheio correm de modo muito diferente das nossas razões, pensadas, a -espirito socegado, embora nos doam os infortúnios do nosso amigo.</p> - -<p>E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso -amigo.</p> - -<p>O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.<sup>a</sup>Eufemia -hesitara em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas -voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.</p> - -<p>Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me -procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe -que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto -para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».</p> - -<p>Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava -para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que -cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um -sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:</p> - -<p>—O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a -sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. -Francisco de Sales ou Vicente de Paula...</p> - -<p>—Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, -senhor padre Alvaro—disse-lhe eu.</p> - -<p>—E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo -a luz, que illumina e abraza... <i>Ardere et lucere</i>...<a name="FNanchor_2_1" id="FNanchor_2_1"></a><a href="#Footnote_2_1" class="fnanchor">[2]</a> Padeci muito, e -esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa -vida aqui se acabam: <i>Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad -finem</i><a name="FNanchor_3_1" id="FNanchor_3_1"></a><a href="#Footnote_3_1" class="fnanchor">[3]</a>. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil -machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo -dia: <i>Ridebit in die novissimo</i><a name="FNanchor_4_1" id="FNanchor_4_1"></a><a href="#Footnote_4_1" class="fnanchor">[4]</a>.</p> - -<p>Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu -companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam -refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas -consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á -perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.</p> - -<p>Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no -amigo, que propozera a consulta.</p> - -<p>—Medicos!...—murmurou elle—O caixão... Mortalha cá -está esta...</p> - -<p>Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da -tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os -olhos no céo:</p> - -<p>—D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era -muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com -os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o -néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»<a name="FNanchor_5_1" id="FNanchor_5_1"></a><a href="#Footnote_5_1" class="fnanchor">[5]</a>. Eu espero -tudo da misericordia Divina.</p> - -<p>Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que -fechassemos a janella.</p> - -<p>Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. -Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei -esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.</p> - -<p>Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom -compadecido:</p> - -<p>—Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou -melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.</p> - -<p>Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o -prior.</p> - -<p>Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por -desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto -a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto -o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella -respondeu-me:</p> - -<p>—O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo -que está a morrer!...—E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. -Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher -através dos ultimos vinte annos.</p> - -<p>Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força -passal-o á cama: não o conseguimos.</p> - -<p>—A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. <i>Dulcis est -somnus soperanti</i><a name="FNanchor_6_1" id="FNanchor_6_1"></a><a href="#Footnote_6_1" class="fnanchor">[6]</a>—disse elle.</p> - -<p>E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:</p> - -<p>—O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e -tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o -homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do -universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o -reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.</p> - -<p>Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que -não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos, -murmurando vozes imperceptiveis.</p> - -<p>As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os -braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém, -á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus -joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:—<i>Beati qui lugent</i><a name="FNanchor_7_1" id="FNanchor_7_1"></a><a href="#Footnote_7_1" class="fnanchor">[7]</a>.</p> - -<p>Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as, -por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e -elle disse:</p> - -<p>—<i>Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus -venit</i><a name="FNanchor_8_1" id="FNanchor_8_1"></a><a href="#Footnote_8_1" class="fnanchor">[8]</a>.</p> - -<p>Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da -cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe -lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.</p> - -<p>Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do -ultimo juizo.</p> - -<p>Ajoelhei de novo, e disse:</p> - -<p>—Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a>Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_2_1" id="Footnote_2_1"></a><a href="#FNanchor_2_1"><span class="label">[2]</span></a>S. João—5. 35.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_3_1" id="Footnote_3_1"></a><a href="#FNanchor_3_1"><span class="label">[3]</span></a>Psal. 37—7.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_4_1" id="Footnote_4_1"></a><a href="#FNanchor_4_1"><span class="label">[4]</span></a>L. dos Prov. Cap. 31. 25.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_5_1" id="Footnote_5_1"></a><a href="#FNanchor_5_1"><span class="label">[5]</span></a>S. Lucas—12. 19.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_6_1" id="Footnote_6_1"></a><a href="#FNanchor_6_1"><span class="label">[6]</span></a>É suave o dormir a quem trabalhou.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_7_1" id="Footnote_7_1"></a><a href="#FNanchor_7_1"><span class="label">[7]</span></a>Felizes os que choram.</p></div> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_8_1" id="Footnote_8_1"></a><a href="#FNanchor_8_1"><span class="label">[8]</span></a>Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado -o esposo. S. Matheus. 25. 6.</p></div> - -<p><br /></p> - -<h4>FIM DA INTRODUCÇÃO.</h4> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>I</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Grande, très-grande révélation. Ce<br /> -n'est pas ici un vain spectacle d'art et<br /> -de sensibilité, simple volupté du cœur<br /> -et des yeux. Non, c'est un acte de foi,<br /> -un mystère</i>...</p> - -<p style="margin-left: 52%;">MICHELET (La Femme.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813. -Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d'um fidalgo da côrte.</p> - -<p>Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha -o coração memoria d'ella. Entrou n'um collegio. Ahi, ouviu de seus -companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo -das saudades d'elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude -muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo -confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que -m'as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse -buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe.</p> - -<p>Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o -dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe.</p> - -<p>Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a -Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua -mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas -palavras, que exprimiam o em baraço d'ella, suspeitoso á precoce -esperteza de Alvaro.</p> - -<p>—Vou perguntar a meu pae—disse elle.</p> - -<p>—Ora!—acudiu a ama—para que ha-de ir o menino fazer -essa pergunta a seu pae?! Não queira saber d'essas cousas.</p> - -<p>—Então que tem?!—tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e -curioso como creança—Eu havia de ter mãe por força, não é assim?</p> - -<p>—Isso é; mas...</p> - -<p>—Mas quê?</p> - -<p>—E se ella morresse!?...</p> - -<p>—Se morreu, é outra cousa... Então diga-me que morreu. Morreu ou -não?</p> - -<p>—Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe -importa—disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas -perguntas.</p> - -<p>Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico. -Amimava-o n'aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á -proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das -suas.</p> - -<p>N'esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino -sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava -as unhas.</p> - -<p>—Ó papá—disse Alvaro com um gesto carinhoso—a minha -mãe já morreu?</p> - -<p>Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a -aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas -concernentes ao collegio.</p> - -<p>Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de -providencial impulso, retrocedeu, e disse:</p> - -<p>—O papá não me disse se a minha mãe morreu...</p> - -<p>—Morreu—disse seccamente o pae.</p> - -<p>Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de -riso e meiguice.</p> - -<p>Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada, -disse-lhe em ar de reprehensão:</p> - -<p>—Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?</p> - -<p>Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres, -que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o -mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro -era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a -quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem -communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre. -O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por -esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:</p> - -<p>—Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é -necessario.</p> - -<p>O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia. -Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em -aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos -mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro; -mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus -condiscipulos.</p> - -<p>Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu -medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O -negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se -gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um -verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua, -morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo. -Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da -riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e -acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles -viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos -casamentos e natalicios da côrte.</p> - -<p>Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo, -por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de -fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro -resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio, -onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns -condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.</p> - -<p>Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos -livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre -os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em -conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima -pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a -resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas -recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se -de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o -mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?</p> - -<p>—O senhor Alvaro está homem no espirito;—disse-lhe um dia o -seu affeiçoado mestre de inglez—vou dizer-lhe o que não quiz explicar -á sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos -ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma -forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era -sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de -seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco -de ser manchada. Creio que me comprehende...</p> - -<p>—Manchada... por que?—disse Alvaro.</p> - -<p>—Por ser sua mãe.</p> - -<p>—Por ser minha mãe!... Não entendo!...</p> - -<p>—Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se -de serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um -sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.</p> - -<p>Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:</p> - -<p>—E minha mãe não estava assim ligada a meu pae?</p> - -<p>—Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua -curiosidade, pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh'as -revelado, se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou -agora contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é -ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer -Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.</p> - -<p>Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e -rica, filha d'um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o -nome de sua mãe.</p> - -<p>Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á -medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe -velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um -destino imprevisto.</p> - -<p>Continuou o mestre:</p> - -<p>—Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na -época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu -da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um -convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça -esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu -pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro -annos. Fique sabendo que sua mãe é viva.</p> - -<p>Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal -respeito.</p> - -<p>Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A -educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia -das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios -reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o -ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um -convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que -seu filho assim a julgasse.</p> - -<p>Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em -Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a -mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo -de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava -preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos.</p> - -<p>Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia, -e encaminhada ao ponto de lhe dizer:</p> - -<p>—Quem me dera vêr um retrato de minha mãe!</p> - -<p>Eufemia fitou os olhos n'elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha -ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou:</p> - -<p>—Se a visse!...</p> - -<p>—Ella de certo morreu, minha Eufemia?—tornou elle, -acariciando-a—Falle a verdade... Não minta ao seu Alvaro!...</p> - -<p>—Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos -Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer.</p> - -<p>—Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus.</p> - -<p>Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:</p> - -<p>—Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque -está minha mãe n'um convento?</p> - -<p>—Santo nome de Jesus!—exclamou Eufemia, levantando as mãos á -cabeça—Quem lhe disse isso, menino?</p> - -<p>—Que lhe importa a vossemecê saber quem m'o disse? É isto verdade? -É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe -não está n'esta casa.</p> - -<p>—Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me -embora d'esta casa—replicou a ama com resolução feita de sahir.</p> - -<p>—Está bom—redarguiu Alvaro—não se afflija, que eu não -fallo mais n'isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada.</p> - -<p>—Eu, menino! Eu cahia lá n'essa! Tomára eu que elle nem por sonhos -se lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...</p> - -<p>N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido -apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe -esquecera.</p> - -<p>Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:</p> - -<p>Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe?</p> - -<p>E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira -uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.</p> - -<p>A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera -a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu -a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.</p> - -<p>—Será?—disse elle—«Senhora de rara formosura» me disse -o mestre; e esta é tão formosa!...</p> - -<p>Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse -Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para -junto d'elle, dizendo:</p> - -<p>—Que está a vêr o menino?</p> - -<p>—E de minha mãe este retrato?—respondeu elle sem turbação.</p> - -<p>Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:</p> - -<p>—É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na -gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!</p> - -<p>—Não vou,—disse elle com firmeza—n'esta gaveta é que -está o segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes -papeis alguma carta de minha mãe.</p> - -<p>Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella -resposta.</p> - -<p>—Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo—disse -ella—Venha depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem...</p> - -<p>Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher.</p> - -<p>Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela, -que não podia denunciar mão estranha.</p> - -<p>—Conte-me agora o que souber—instou elle com a ama.</p> - -<p>Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade -com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:</p> - -<p>—A razão por que sua mãesinha foi para o convento... ainda que eu -lh'a diga, o menino não a entende.</p> - -<p>—Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.</p> - -<p>—Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era -de lá...</p> - -<p>—Já sei.</p> - -<p>—Sabe?! quem lh'o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!</p> - -<p>—E depois?</p> - -<p>—Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um -convento...</p> - -<p>—Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe -pergunto: o que eu quero é saber porque foi.</p> - -<p>—Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já -sabe... Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.</p> - -<p>—Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu, -Eufemia?</p> - -<p>—Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que -lhe diga o resto...</p> - -<p>Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda, -refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o -patrão para casa.</p> - -<p>Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e -tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava -a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da -campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que -metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do -gabinete.</p> - -<p>Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no -gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não -suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo -Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.</p> - -<p>Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos, -deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como -se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de -santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos -vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.</p> - -<p>A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do -convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e -cinco anteriores áquella data.</p> - -<p>Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de -piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que -se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor -maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam -crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de -Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella -que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da -Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a -desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua -innocencia, diante de Deus.</p> - -<p>Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não -viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um -livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á -sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se, -obteve licença de estar no collegio um mez.</p> - -<p>D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:</p> - -<p>—Vou ver minha mãe, Eufemia.</p> - -<p>—Que diz, menino!? Está doudo!?</p> - -<p>—Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada, -porque pensa que estou no collegio.</p> - -<p>Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro, -sendo a mais forte de todas esta:</p> - -<p>—E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe -que são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá. -Quem lhe dá o dinheiro?</p> - -<p>—Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se -m'o não emprestar, vou a pedir esmola.</p> - -<p>A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d'aquelle -lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de -realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d'esse dia, ajudada por um -seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o -menino a Vairão, guardando n'estes passos tal recato que não ficasse -alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os -descobrisse.</p> - -<p>Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a -Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que -nem sequer lh'o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente -admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e -prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de -encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar -um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas.</p> - -<p>Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da -Gloria.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>II</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Começa o céo a dilucidar-se.</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">GOLDSMITH (o vigario de Wakefield.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do -correio de Villa do Conde, correu transportada á cella da sua amiga -Cecilia, e lançou-se aos braços d'ella, chorando de alegria.</p> - -<p>—Que é, filha?—exclamou a religiosa alvoroçada.</p> - -<p>—É a primeira alegria que Deus me dá em onze annos de martyrio. -Olha, vê esta carta da Eufemia... deixa que eu leio...</p> - -<p>E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as -conversações, que tivera com o menino, até áquella hora em que o foi -achar a contemplar o retrato de sua mãe.</p> - -<p>—Oh meu Deus, meu Deus!—clamou a enlevada senhora, -ajoelhando ante o oratorio de Cecilia—Bem haja a vossa mão que -até hoje me opprimiu para que eu sentisse o immenso prazer d'esta -noticia! Fallai, meu divino Jesus, fallai ao coração de meu filho, e -dizei-lhe que sua mãe, se foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue -as nodoas do coração, para receber dignamente a vossa misericordia, e -o amor de seu filho!</p> - -<p>Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é -que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar -longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e -reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham -resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.</p> - -<p>Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram, -porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais -escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o -seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas -senhoras preluzisse o vaticinio de começar d'alli a desenredar-se a -trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores -annos de sua vida.</p> - -<p>Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á -criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um -hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e -tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da -religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a -imaginação apaixonada do poeta os achou assim.</p> - -<p>Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto, -Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em -que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.</p> - -<p>O ambicioso coração d'aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava -tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias -nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel -Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno. -Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as -timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das -flagellações de onze annos de saudade.</p> - -<p>Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta, -mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o -receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil -successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa, -a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a -portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao -pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as -monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e -mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o -solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.</p> - -<p>Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas -creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n'esse tempo, florejava em dons -do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos -maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de -Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas -balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios -d'aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do -leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão -em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre -juvenil poeta!</p> - -<p>E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta -de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de -Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do -mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir -delicado o tiraria a limpo.</p> - -<p>Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.</p> - -<p>Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a -esbofar de cançadas.</p> - -<p>Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente, -quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, -menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria -sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia -lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando -destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como -pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona -abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o -mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem -alli vinha ter por seu pé.</p> - -<p>A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como -ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos -dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e -com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os -facultativos ás cellas das suas doentes.</p> - -<p>O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os -seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais -encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do -carcere de sua mãe. O interior d'um mosteiro era-lhe novidade; e posto -quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda -das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas -que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.</p> - -<p>As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria, -agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede -e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a -mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da -cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio -de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e -contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da -loucura.</p> - -<p>—É o meu filho!—exclamou ella circumvagando os olhos mais -soberbos que maviosos pelas religiosas que choravam—É o meu filho! é -a minha riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este -instante... Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...</p> - -<p>E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas.</p> - -<p>Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, -como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que -alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos -rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas -conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque -morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o -viço dos vinte annos.</p> - -<p>—Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?—disse -ella, correndo as mãos no rosto de Alvaro.</p> - -<p>—Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o -papá—disse o menino a custo, de apertado que estava nos braços -da mãe.</p> - -<p>—Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha -dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos -meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido -filho!... Onze annos!... E Deus sabe se tornarei a vêr-te!</p> - -<p>Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as -freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança. -Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar -do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e -gotejante de suor.</p> - -<p>A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado. -Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do -filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa -transpiração.</p> - -<p>A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.</p> - -<p>—Sinto-me vigorosa...—disse Maria—Olha, meu filho, -entra n'aquella cella, e espera-me lá.</p> - -<p>Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com -serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe -sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.</p> - -<p>Viu Alvaro n'este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com -aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns -retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de -devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os -olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a -ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou -a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta, -e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do -mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o -accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe -solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia -velára d'elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a -mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para -escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser -repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica -de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe -temperassem as desesperadas saudades.</p> - -<p>Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro -estava.</p> - -<p>Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que -parecia tomado de melancolico espasmo.</p> - -<p>—Estás tão triste, Alvaro?... É a vista de tua velha mãe que te -entristece?</p> - -<p>—Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa -casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe?</p> - -<p>Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que -desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta:</p> - -<p>—Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d'esta minha -desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para -comprehenderes a calumnia de que sou victima.</p> - -<p>—Mas—atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que -denunciavam mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da -vida—o pae não póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa -a minha mãe... Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre -de inglez tambem me disse que eu nascera na época da felicidade.</p> - -<p>—Cala-te, cala-te, meu filho—exclamou Maria, afogada em -soluços.</p> - -<p>—Não chore assim, minha mãe—acudiu o menino, a chorar com -ella—Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d'aqui; talvez que elle -tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro -annos?</p> - -<p>—Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?</p> - -<p>—Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque -não tornei a encontrar aberta a gaveta d'onde as tirei. São todas de -1820. A mãe não escreveu mais algumas?</p> - -<p>—Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas.</p> - -<p>—Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em -Lisboa...</p> - -<p>—Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a -teu pae?</p> - -<p>—Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe...</p> - -<p>O dialogo durou assim até á hora em que Maria da Gloria e seu filho -foram chamados a jantar em casa da abbadessa.</p> - -<p>Todas as religiosas e noviças foram commensaes no banquete dado pela -prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado -entre sua mãe e a abbadessa. Defronte estava uma religiosa de annos -dilatados, a qual, desde muitos mezes, só na sua cella e no coro se -encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera -soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi -ella mesmo que se offereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar -áquella honra feita a um anjo de dor e de paciencia. Isto, dito por -soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o -animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era -uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era -tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com -Alvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já -queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser -brevemente furtada ás suas amigas do convento.</p> - -<p>A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma -felicidade, que ella devia ás orações de soror Joanna, e d'outras -virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céo; -accrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e á -sua dignidade de esposa.</p> - -<p>Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como -quem impõe silencio ás palavras de duvida, e contradictorias com as do -espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que -nem as respirações se ouviam.</p> - -<p>Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:</p> - -<p>«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu -marido, e aos respeitos do mundo».</p> - -<p>Por que é que os cabellos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos -de quantas pessoas ouviram o tom prophetico da virtuosa anciã? De -feito, havia instincto do céo n'aquellas palavras, o som d'ellas tinha -a um tempo a força electrica de que o ouvido se estremece, e a uncção -suavissima que banha a alma de luz da fé.</p> - -<p>Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi, -tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que -lhe tomou de joelhos a mão.</p> - -<p>Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o -da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces -descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos -labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:</p> - -<p>—O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á -hora em que Deus o mandou chegar.</p> - -<p>Os animos ficaram tão absorvidos n'esta affectuosa scena, que só -volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se -retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de -noviciado, e contavam para mais de setenta annos.</p> - -<p>Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar -soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella -fez signal de ficarem.</p> - -<p>—Que pena tenho eu—disse a freira com muito alegre -semblante—de não ter n'esta minha pobre cella um mimo que dê a este -menino, para se lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!</p> - -<p>As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha -senhora—disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.</p> - -<p>—Ora, deixe estar—tornou a religiosa—hei-de ver se o -não deixo ir sem uma lembrança minha... Quando vae embora o menino?... não -deve demorar-se muito...</p> - -<p>—Eu desejava estar mais tempo—disse Alvaro—mas não -tenho remedio senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.</p> - -<p>—Ámanhã!—exclamou Maria—pois já me deixas ámanhã!?</p> - -<p>—E deve ir ámanhã—respondeu soror Joanna com impressiva -firmeza, como se désse ordens.</p> - -<p>—Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?—tornou -debulhada em pranto a mãe de Alvaro.</p> - -<p>—Mulher de pouca fé...—murmurou a santa, com brando sorriso, -e um meneio triste de cabeça—O menino—ajuntou voltando-se para -elle, e tomando-lhe as mãos entre as suas—sahe de madrugada, sim?</p> - -<p>—Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.</p> - -<p>—Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas, -venha dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras -senhoras, que hão-de estar saudosas d'ella.</p> - -<p>E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração. -Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as -freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo -dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não -duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse -directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía -tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta -entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os -perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o -aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de -lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira -a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d'ella, com -as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e -sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de -Nazareth o annuncio da sua maternidade!</p> - -<p>Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu, -passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de -fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e -acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com -que o velara no seu primeiro anno.</p> - -<p>Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura -arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia -acordar o filho.</p> - -<p>—Acordal-o para o vêr ir de mim!...—dizia ella, chorosa.</p> - -<p>Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando -o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa -deram-lhe alma para o trance.</p> - -<p>Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle.</p> - -<p>—Entrem, meus filhos—disse soror Joanna—Venha aqui o -menino: não ha tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva d'esta sua -velha amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá -entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde -mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me -dará novas da pessoa a quem escrevo. Emquanto a vós, minha -penitente—continuou acariciando Maria—notae bem o que vos digo. -Prohibo-vos de vêr o subscripto da carta que vosso filho leva. -Entendeis, Maria?</p> - -<p>—Oh minha senhora!—disse a conturbada mãe, beijando-lhe a -mão.—Sou incapaz de desobedecer-lhe.</p> - -<p>—Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com -Deus, meus filhos.</p> - -<p>Do ultimo abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os -braços de Cecilia.</p> - -<p>Alvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem. -Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não -viu senão o alvacento véo das suas lagrimas.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>III</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Quem não vê por isto que o mundo<br /> -é um juiz iniquo?</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">S. FRANCISCO DE SALES (Introd.<br /> -á vida devota).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como additamento á -«Flôr dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou -demonstrar que soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor não fazia -milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as -consequencias do que já sabia. Saiba tambem o leitor que este romance, -por ter o merito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o -faz.</p> - -<p>É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macáo, em 1815, -liquidar a herança paterna de sua mulher.</p> - -<p>Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não -direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que -ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae, -commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do -titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e -dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a -caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de -cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero -dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura: -sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os -casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.</p> - -<p>Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de -encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes -saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d'outras -sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle.</p> - -<p>Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta -teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a -figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e -chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.</p> - -<p>Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se -chama <i>Alfredo, Ernesto, Arthur</i>, ou <i>Julio.</i> Acceite-o assim, -que era aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da -policia, e ministro d'estado, e holocausto de suas idéas liberaes no -desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem -honradamente servira.</p> - -<p>João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de -bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que -farte d'este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o -pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos -religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O -caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como -o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto—á -virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.</p> - -<p>João de Mattos amou Maria da Gloria.</p> - -<p>Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as -qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes -sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado.</p> - -<p>Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d'um -professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus -concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá -preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem -d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.</p> - -<p>Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se -d'est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são? -Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal -sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos -captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É -notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus -azares: não empreguei outra magia...»</p> - -<p>N'outro relanço diz:</p> - -<p>«D'onde vem o amarmos as cousas bellas? porque são bellas; e as boas? -porque são boas.» Vão tomando nota.</p> - -<p>Outra passagem:</p> - -<p>«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o -porquê. Sahimos a negocios, e depara-se-nos ao dobrar d'uma esquina a -mulher, que vae transfigurar-nos o coração.»</p> - -<p>Ultima citação:</p> - -<p>«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de -demasias? Absurda cousa! Para a paixão ha um freio sómente: é o -desgosto ou o fastio.»</p> - -<p>Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem -implicancia das suas excellentes qualidades:</p> - -<p>Não sabia elle como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de -matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua -alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa. -Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a -graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quiz enfrear os impetos do -sentimento; mas, antes do fastio, não ha hora alguma em que o amor, -coma o leão sezonatico, se deixe acorrentar.</p> - -<p>Ahi está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro—O -DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericordia.</p> - -<p>Quaes foram, porém, ás demasias do visinho de Maria da Gloria? -Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia -dictal-as o coração e o genio. A esposa de Manoel Teixeira peccou -lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma.</p> - -<p>João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe, -quando ella sahia da sua antecamara para ir beijar o filho no berço. -Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da sahida, e disse ao -homem corrido e allucinado:</p> - -<p>—Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor!</p> - -<p>Não respondeu, e sahiu.</p> - -<p>A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por -intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e -despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria -da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no -rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada. -N'esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te -por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e -não de immoralidade.»</p> - -<p>Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos, -e dissera comsigo:—«Isto entretem.»</p> - -<p>Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa, -acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de -morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel -Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um -menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo -comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros; -cheio de saude e promessas de longa vida... que mais póde dar este -mundo?</p> - -<p>O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n'um momento tudo isto.</p> - -<p>Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe, -com rosto sêcco e pesado:</p> - -<p>—Por que despediste o criado Gregorio?</p> - -<p>—Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.</p> - -<p>—Porque descóras?</p> - -<p>—Pois eu descórei?!—balbuciou ella—Impressionou-me -a mudança do teu rosto.</p> - -<p>Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o -menino.</p> - -<p>Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.</p> - -<p>—Por que me fazes semelhante pergunta?!—disse-lhe ella, -resolvida a contar-lhe o acontecimento.</p> - -<p>O marido fitou os olhos n'ella e nas janellas de João de Mattos. Maria -ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.</p> - -<p>—Deus sabe a minha innocencia: nada temo—disse ella.</p> - -<p>É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente, -porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que -os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem -citados ao seu tribunal supremo, e—n'isto vai muito a -dizer—parece que vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos -que delinquiram. Os theologos é que sabem dizer como isto é, e -convencem a gente de que os romancistas são os menos azados para -deslindarem esta meada. Consultem-se, pois, os theologos.</p> - -<p>Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado -de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d'este. O logista -procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de -Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector -estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as -razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu -segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse -n'este sentido, e com tamanha dôr, que chorou!</p> - -<p>Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas. -Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo. -Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já -preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel -Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não -digamos maldade.</p> - -<p>Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e -dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.</p> - -<p>—Apeie-se,—disse elle depois que saltou rapidamente da -sege.</p> - -<p>Maria sahiu machinalmente.</p> - -<p>—Entre n'aquella liteira.</p> - -<p>—Para onde vou?!—exclamou ella.</p> - -<p>—Sabel-o-ha onde a pozerem. Não ha tempo para explicações. Aquella -mulher é sua criada.</p> - -<p>—E meu filho?</p> - -<p>—Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a -deixarem. Adeus.</p> - -<p>—Mas o meu filho!—exclamou, estendendo os braços ao -marido—Dá-me ao menos aquelle menino, se me lanças barbaramente -de ti!...</p> - -<p>—Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de -tardias, são indecentes.</p> - -<p>A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem -sentidos á liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso -conflicto.</p> - -<p>Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.</p> - -<p>O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram -conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em -casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os -esperava Manoel Teixeira. N'esta nova casa, medianamente adornada, não -havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.</p> - -<p>Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação. -Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um -convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso -marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as -noites á beira d'elle, receiosos d'um suicidio. Isto é o que se dizia -no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção -de evangelhos.</p> - -<p>No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria, -estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do -coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á -capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel -Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria -culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido -viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta -nos arrabaldes de Napoles.</p> - -<p>Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria. -João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da -chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados -successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava -Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o -local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto.</p> - -<p>E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d'outro -estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous -filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola, -porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que -elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos, -trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos -de todos os seus amigos.</p> - -<p>Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando -blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes -durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de -Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido -no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.</p> - -<p>N'este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram -cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de -Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido. -Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu -filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>IV</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Dico vobis: Omnia quœcumque orantes<br /> -petitis, credite quia accipietis, et<br /> -evenient vobis.</i></p> - -<p style="margin-left: 45%;">Eu vos affirmo que todas as cousas,<br /> -que na oração pedirdes, as recebereis,<br /> -e succeder-vos-hão.</p> - -<p style="margin-left: 55%;">S. MARC. 11. 24.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da -policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais -importantes segredos d'aquella magistratura.</p> - -<p>Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em -Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota -Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.</p> - -<p>Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia -ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro -de Hespanha.</p> - -<p>O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de -Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle, -pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de -Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a -conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora -liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da -Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de -conduzirem-na ao convento hespanhol.</p> - -<p>João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença -escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui -reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu -mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de -João de Mattos.</p> - -<p>A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga, -contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da -pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já -ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.</p> - -<p>Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella -tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos, -que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que -punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella -intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e -posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe -de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem -gerir o património do filho legitimo.</p> - -<p>Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que -o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e -gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua -justiça.</p> - -<p>João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana -era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que -o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria -traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.</p> - -<p>A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a -Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro. -Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras -horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e -tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no -rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do -coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam -commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço -n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com -ellas, rezavam ferventemente.</p> - -<p>Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da -vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em -altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas, -que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu -não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é -esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos -as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não -sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza -d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão -entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.</p> - -<p>Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos -com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a -sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não -ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu, -naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e -o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas -que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os -cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se -veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas -para nós... <i>Para mim</i>, devia ter dito; porque, em verdade, não posso -nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.</p> - -<p>É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em -quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo -ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste -resultado promettem á temeridade do bom filho.</p> - -<p>Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos -Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a -Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como -se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.</p> - -<p>Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace -pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua -ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se -Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus -haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se -lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de -vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes, -cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.</p> - -<p>Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira -disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão -para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das -canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria -philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse -ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que -era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o -pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para -aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na -familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella. -Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.</p> - -<p>No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella -sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria -da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar -alguns primos e primas.</p> - -<p>Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de -surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é -que foi o surprehendido.</p> - -<p>—Não mande parte a meu filho,—disse o negociante,—que -eu quero apparecer-lhe de repente com a prima.</p> - -<p>—O senhor Alvaro não está cá—disse o director do -collegio.</p> - -<p>—Como?!—meu filho sahiu?</p> - -<p>—Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus -parentes dos Olivaes—tornou o director.</p> - -<p>—Isto que significa?!—replicou, entre colerico e espantado, -Manoel Teixeira, interrogando o mestre de inglez.</p> - -<p>—O senhor director disse a verdade...—respondeu aquelle, -denotando enleio e turbação.</p> - -<p>—Então foi o meu filho que me mentiu?—tornou já muito -alterado o commerciante—Não creio! Aqui ha embrulhada!</p> - -<p>—Que embrulhada póde haver aqui?—disse com azedume o -proprietario do estabelecimento.</p> - -<p>—Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.</p> - -<p>—Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o -suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria, -e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino, -que nos merecia toda a confiança.</p> - -<p>Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o -ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual -foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos? -Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.</p> - -<p>Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir -com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz -clamorosa de seu amo chamando o filho.</p> - -<p>Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia, -e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que -deixava a pobre ama.</p> - -<p>N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de -inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel -Teixeira reanimou-se.</p> - -<p>—Vem dar-me alguma boa noticia?—exclamou o negociante com -alegre rosto.</p> - -<p>—Creio que sim.</p> - -<p>—Appareceu o meu filho? diga, diga.</p> - -<p>—Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.</p> - -<p>—Onde está, pois?</p> - -<p>—Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem -presado.</p> - -<p>—Sei, e merece-o.</p> - -<p>—A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não -soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia -estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua -mãe ao convento de Vairão.</p> - -<p>Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:</p> - -<p>—Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!</p> - -<p>—Fui eu, snr. Macedo.</p> - -<p>—E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!</p> - -<p>—Sei-o da voz publica.</p> - -<p>—E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o -communicar a meu filho?</p> - -<p>—Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me -muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.</p> - -<p>—Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!—disse -ironicamente o negociante—Quer-me mais alguma cousa?</p> - -<p>—Quasi nada,—disse o professor—restituir a vossa -senhoria seis mezes da prestação que o director do collegio recebeu -adiantados.</p> - -<p>E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a -banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.</p> - -<p>Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.</p> - -<p>O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.</p> - -<p>A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não -respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço, -sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente. -Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra, -demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a -mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens -para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo, -entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não -fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.</p> - -<p>Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá -ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e -ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de -seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta, -porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não -foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das -criadas de Maria da Gloria.</p> - -<p>Agora é que temos Alvaro em Lisboa.</p> - -<p>Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos -Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava -o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas, -quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de -Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes -interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No -fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita -meiguice:</p> - -<p>—Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino -lhe levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere -aqui um pouco, que eu volto já.</p> - -<p>Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o -aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.</p> - -<p>—Onde mora o menino?—disse João de Mattos.</p> - -<p>—Na rua de S. Bento, numero 12—respondeu o esbirro.</p> - -<p>—Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do -Limoeiro—disse o intendente—Agora vamos, menino.</p> - -<p>Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.</p> - -<p>—Quem será o <i>homem do Limoeiro?!</i>—ia dizendo entre si -o filho de Maria da Gloria.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>V</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Os insensatos não comprehendem<br /> -como se enlaçam o merecimento e a<br /> -felicidade.</i></p> - -<p style="margin-left: 55%;">GOETHE (Fausto).</p> - -<p><br /></p> - -<p>N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que -estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma -carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle -ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o -guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos -fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos -de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada -de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da -Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!</p> - -<p>Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em -sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa -se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio -ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se -demorava.</p> - -<p>Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos -do menino, e dizia-lhe:</p> - -<p>—Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal... -Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?</p> - -<p>—Nem eu sei dizer... Não é medo...</p> - -<p>Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança, -vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o -separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez -mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto, -tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira -do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.</p> - -<p>João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:</p> - -<p>—Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o -meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado -seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.</p> - -<p>—E vem a minha casa?!—disse Manoel Teixeira com os olhos -fitos no pavimento que se interpunha aos dous.</p> - -<p>—Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho -á sua justa vingança...</p> - -<p>—E como se acha meu filho ao lado do senhor -intendente?—interrompeu o commerciante, relanceando os olhos -fuzilantes sobre Alvaro.</p> - -<p>—Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe -sósinhos por alguns segundos.</p> - -<p>Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira -encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que -seria dramatica, se não fosse incivil.</p> - -<p>João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita, -segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:</p> - -<p>—Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para -conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa, -significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem -extraordinario.</p> - -<p>—Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a -minha casa.</p> - -<p>—Venho...</p> - -<p>Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um -preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.</p> - -<p>—A mim?!—disse o negociante.</p> - -<p>—É a mim—acudiu sorrindo João de Mattos.—Queira vossa -senhoria consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de -espera.</p> - -<p>Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas -occorrencias:</p> - -<p>—Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!</p> - -<p>—É o facto importante da nossa pratica—respondeu João -de Mattos, e accrescentou com tristeza:—é o fecho d'esta abobada, -debaixo da qual vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... -Queira attender-me. Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. -Não era já moço de paixões violentas; mas... era homem. Amei a -snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria porque a vi, e porque ella me não -dava o mais leve signal de estima nem sequer de preoccupação das -minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo. -Vossa senhoria foi n'essa época á India, e eu cuidei miseravelmente -que a esposa fiel deixaria de o ser na ausencia de seu marido. Havia na -sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me -offereceu para entregar uma carta a sua ama. Acceitei e paguei -liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas -instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um -dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de -sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da -minha paixão, não comprehendi que praticava uma deshonra; mas sua -mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi de sua casa, cuidando que me era -sobejo castigo o despreso com que fui expulso por um ligeiro aceno de -mulher. Momentos depois, o criado era despedido tambem, e a esposa sem -macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o -mundo lhe seria sempre uma testemunha e um applauso da sua dignidade. -Terminei. Agora peço licença para ser trazido á nossa presença o -preso.</p> - -<p>Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos -levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:</p> - -<p>—Entrem... Conhece este homem?—disse elle ao negociante, -indigitando o preso.</p> - -<p>—Tenho idéas...—respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.</p> - -<p>—Diz a este senhor quem és—tornou o intendente com terrivel -sombra ao preso.</p> - -<p>—Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze -annos em casa de vossa senhoria.</p> - -<p>Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel -Teixeira.</p> - -<p>—Mande erguer esse homem—disse o intendente.—O juiz -aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a -tua ama, esposa d'este senhor?</p> - -<p>Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico -accento:</p> - -<p>—Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos -com dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D. -Maria da Gloria?</p> - -<p>—Sim, senhor—disse o preso.</p> - -<p>—Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?</p> - -<p>—Não, senhor.</p> - -<p>—Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou -até ao lugar onde ella havia de passar?</p> - -<p>—Fui eu, senhor.</p> - -<p>—Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a -seus pés?</p> - -<p>—Mandou-o sahir de casa...</p> - -<p>—E a ti que te disse?</p> - -<p>—Mandou-me embora.</p> - -<p>—Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?</p> - -<p>O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:</p> - -<p>—Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha -ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de -vossa senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com -ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!</p> - -<p>João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola -da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que -Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava -a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito -do preso.</p> - -<p>João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:</p> - -<p>—Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso -matar-lhe uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este -miseravel não vale onze annos de lagrimas.</p> - -<p>O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada -pelos soluços, lançou-se a um canapé.</p> - -<p>Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a -mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:</p> - -<p>—Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o -perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.</p> - -<p>Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que -escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.</p> - -<p>João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as -almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da -algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu -tremor nervoso:</p> - - -<blockquote> -<p>«Meu sobrinho.</p> - -<p>«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede -a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com -que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa. -Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua -posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para -Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa -da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores -testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por -esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do -infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que -as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime -e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta -martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito -das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas -creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu -coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo -estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu -perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua -felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos -seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais -nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor -Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção, -sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde. -Tua tia muito amiga.</p> - -<p style="margin-left: 15%;"><i>Joanna das Cinco Chagas do Senhor.</i>»</p></blockquote> - - -<p>—Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel -Teixeira?—disse João de Mattos.</p> - -<p>O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João -de Mattos, e disse:</p> - -<p>—Eu vou levar a resposta a sua tia.</p> - -<p>O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia -aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia -merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não -era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.</p> - -<p>E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a -commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era -isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a -outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma -familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a -desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem -embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de -grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como -rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a -vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o -alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia -d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente -parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com -lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser -é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter, -perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção -os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza -invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo -a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso -de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e -coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não -poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.</p> - -<p>Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso -semblante do intendente.</p> - -<p>Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o -retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:</p> - -<p>—Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma -conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus -paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha -velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções -más.»</p> - -<p>Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel -Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do -intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se -talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia -expansiva de amigo.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>VI</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Apollon prend les armes.</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">VOLTAIRE (Sat.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as -janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde -o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam -ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de -janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas -com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente -rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a -correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a -prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca. -Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes -de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um -pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as -estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada.</p> - -<p>Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela -duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas, -que a submissão de subditas.</p> - -<p>Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns -sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes -radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos -destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por -convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns -tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e -encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os. -Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o -celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades -circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos -conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da -Universidade.</p> - - -<p><span style="margin-left: 3em;">Quanto pode de Athenas desejar-se,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Aqui as capellas dá tecidas de ouro,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Do bacharo, e do sempre verde louro.</span></p> - - -<p>Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas -hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e -carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira, -isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a -Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados -pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade) -trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar -direitos, violando-os.</p> - -<p>A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das -torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade -da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis -d'aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de -gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação -de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a -freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito -versista, e entre a propria criada, ou <i>tacho</i>, e o bardo menos -aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e -dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho -furtado á ama por amor de Apollo.</p> - -<p>Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um -magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos -bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia serem -<i>ôdres</i> e não <i>ódes.</i> Os de Guimarães chamavam á octogenaria -prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por -libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do -peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S. -Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que -desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua -santidade e bom siso.</p> - -<p>Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de -certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do -coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae -dizel-o um dos proprios inspirados.</p> - -<p>Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio -Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem -mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo. -Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de -cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo -não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de -uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de -Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do -abbade.</p> - -<p>O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu -patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:</p> - - -<p><span style="margin-left: 3em;">Já cede Pégaso o passo,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Escoucinha, espirra, e rincha,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Ouvindo ornear o pechincha,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">O abbade sujo e devasso, etc.</span></p> - - -<p> isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a -mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr -aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:—«A melhor de entre -as preladas.»</p> - -<p>O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia -sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.</p> - -<p>—Lá vai!—disse elle—<i>A melhor de entre as -preladas.</i></p> - - -<p><span style="margin-left: 3em;">Boas noites! vou-me embora;</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Já não posso estar com somno,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Nem me apraz soffrer o mono,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Borrachão a toda a hora.</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Oh! quanto melhor lhe fora</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Ter as facas amoladas,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">E ir cortar as colladas</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">No outeiro sanguinoso,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Em quanto eu louvo ditoso</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;"><i>A melhor de entre as preladas!</i></span></p> - - -<p>Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu -muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos -glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o -victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não -podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o -defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os -amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto -de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais -debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem -com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas -fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas -ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo -estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em -turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se -apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os -poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria -conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os -dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas -com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como -estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem -voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé -sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de -clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que -começava assim:</p> - - -<p><span style="margin-left: 3em;">Altissimo Senhor, que tudo pódes!</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Transfigura em cajadas os cajados</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Que pozeram em fuga os desalmados</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Estomagos, que tem só vinho e odes</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">. . . . . . . . . . . . . . . . .</span></p> - - -<p>Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á -conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas -religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo -doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro. -Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte -concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem -excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as -diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.</p> - -<p>Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora -deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos -vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror -Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha -mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro. -A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e -temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos -expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de -supplica:</p> - -<p>—Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé. -Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz, -pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que -o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje. -O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos -encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada -como tenho sido.</p> - -<p>Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que -estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem -convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas -palavras:</p> - -<p>—A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não -se queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da -flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o -tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom -arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria. -Afervore-sa e rese commigo.</p> - -<p>Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou -um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e -disse:</p> - -<p>—Será outra vez bulha lá fóra?</p> - -<p>A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor -crucificado.</p> - -<p>Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando -«milagre!»</p> - -<p>—Gritam <i>milagre!</i>—exclamou Maria da Gloria, -erguendo-se, com os olhos na freira.</p> - -<p>Soror Joanna sorriu e disse:</p> - -<p>—Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana -comprehende.</p> - -<p>Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura:</p> - -<p>—Ahi está o menino!</p> - -<p>—E acho que vem tambem o pae!</p> - -<p>—E muita gente a cavallo!</p> - -<p>—E duas liteiras com senhoras!</p> - -<p>—E traziam archotes!</p> - -<p>Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas -tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.</p> - -<p>—Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre -cabeça!—disse a santa—Falla tu, Cecilia, diz o que viste.</p> - -<p>—Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi -mais pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e -já lá ficou a senhora abbadessa á portaria.</p> - -<p>Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os -joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a -consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no -seio misericordioso do Senhor.</p> - -<p>Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras -de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos, -que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes, -sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a -quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da -prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido -de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados -com as tres damas. Entrara depois d'estas uma mulher, que não ousava -mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua -humildade: era a criada Eufemia.</p> - -<p>As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando -cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha. -Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia. -Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que -sua ama a chamasse.</p> - -<p>—Onde está Eufemia?!—disse Alvaro admirado.—Ella vinha -comnosco!</p> - -<p>—Estou aqui, senhor Alvaro—disse a criada, a quem as freiras -abriram passagem.</p> - -<p>—Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia...</p> - -<p>Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos -até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia. -Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos -com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais -chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com -amor, e disse-lhe:</p> - -<p>—Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos!</p> - -<p>As tres senhoras offereceram-se aos olhos d'ella, perguntando se as não -conhecia.</p> - -<p>—Conheço—disse Maria com a voz extenuada,—conheço as -minhas amigas de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A -felicidade não deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?</p> - -<p>Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao -seu proprio assombro.</p> - -<p>—Senhora D. Maria—disse a abbadessa—á portaria está -seu marido. Vossa senhoria poderá descer até lá?</p> - -<p>—Póde, pois não póde?!—disse soror Joanna das Cinco -Chagas—Se eu lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, -por que não ha-de ir ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o -senhor Alvaro dá-me o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no -meio; e acho que não é mal posta a comparação: a boa eternidade -começa pela innocencia da vida, que é o menino, e continua-se na -bemaventurança do soffrimento, que é a minha Maria, e esta, de mais a -mais, chama-se <i>Gloria!</i></p> - -<p>No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos -dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de -archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia -áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as -esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da -poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de -clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir -perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem -de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a -complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se -afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe -de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo -que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma -peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes -correlativas.</p> - -<p>Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado, -apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas -attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da -curiosidade.</p> - -<p>Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse -intervallo pelo doutor Ferro:</p> - - -<p><span style="margin-left: 3em;">Vão freiras, vá noviça, e vá a moça</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Gosar d'um coração que desabafa;</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Mas deixem na janella quem nos ouça;</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Seja um vulto qualquer... uma garrafa!</span></p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>VII</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Na oração que ha senão aquella<br /> -duplicada força, capaz de amparar-nos<br /> -na queda, ou solicitar-nos o perdão,<br /> -se nos despenhamos?</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">SCHAKSPEARE (Hamlet).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos -cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que -receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria -devia fazer-lhe.</p> - -<p>Dizia Sebastião de Brito:</p> - -<p>—Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito -differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos. -No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente; -mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do -convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.</p> - -<p>A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o -negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.</p> - -<p>Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d'uma procissão de monjas, -noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de -soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro -esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao -clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua -mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o -limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com -affectuoso sorriso:</p> - -<p>—Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a -entrada nem mesmo aos maridos penitentes.</p> - -<p>Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da -portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a -Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a -todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns -labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que -dobrara o joelho diante d'ella.</p> - -<p>—És tu?—disse ella—E podeste conhecer-me?</p> - -<p>—Quando te não conheceria eu, infeliz?—respondeu elle -afogado de lagrimas e gemidos.</p> - -<p>—Tambem tu tens cabellos brancos!...—tornou Maria da Gloria, -sorrindo—Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas -assim, Manoel... Aos pés de uma amiga não se ajoelha... Ou ella -perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te...</p> - -<p>—Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel -Teixeira—disse soror Joanna—e dê-lhe muitas lagrimas de -louvor e gratidão por este anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ella; por -ora é nossa; ámanhã lh'a daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus -amigos para a hospedaria do mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda -o chá. Vão repousar, ou façam versos, se são poetas, que esta noite -todos somos poetas, todos temos no coração hymno em acção de graças -ao Senhor da misericordia e da justiça.</p> - -<p>Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras, -e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e -enamorado de todas as palacianas:</p> - -<p>—Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora -vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua -formosura—(Sebastião de Brito havia dito isto, mezes antes, a uma -marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de -enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metaphora fosse -applaudida, como de feito era). A graça do mundo—continuou elle, -offerecendo simonte em caixa de ouro á abbadessa—desbota as flôres, -e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse -a sympathica pallidez que lhe realça o mimo, seria menos bella, ou tão -bella como foi.</p> - -<p>Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas -delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de -riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente -bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em -desordem, e nunca podiam dar grande sahida pelos caminhos do céo.</p> - -<p>A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o -refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e -perguntou-lhe se o menino ficava.</p> - -<p>—O menino fica—disse soror Joanna com ar alegre—porque -tem de me levar á cella. Estas senhoras, se quizerem, e a senhora dona -abbadessa consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera -hoje, por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora -vamos com Deus.</p> - -<p>Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito -rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho -acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua -mãe.</p> - -<p>Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito, -pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivaes, tão amante das -musas, quanto o ellas tratavam esquivamente, foi até ás quatro da -manhã o primeiro enthusiasta do auditorio, batendo palmas delirantes, e -bradando os <i>bis</i> com todas as potencias da sua admiração pulmonar.</p> - -<p>Agora, abro mão do seguimento da historia, para acudir a uns reparos -d'algum leitor.</p> - -<p>Diz elle:</p> - -<p>«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes, -occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei -logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente -commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui -era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um -aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido -quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o -discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco -em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era -dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do -coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna -discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que, -nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor -para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos -declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos -amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da -novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as -cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi! -Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é -que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou -peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e -dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o -mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu, -ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a -photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros, -e verão que nem os musicos da orchestra lh'os aturara. O romance é tal -e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa -assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do -convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito -da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois -o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em -bolina n'aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a -desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher! -Nem um <i>ah!</i> nem um <i>oh!</i> lhe ouvimos!... É de mais! Póde ser que -assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no -manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista, -que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d'ella uma Nióbe ou -um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as, -corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente -não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu -lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance, -entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram -nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos, -precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que -nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o -levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta -amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer -que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas -lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde -bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.»</p> - -<p>Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e -de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho -aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia -dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de -molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto -dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica -pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina -hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem -nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido -rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas -aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de -ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto -muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da -verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das -visualidades. Já n'outros livros me tenho cançado a responder a -reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito. -Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a -historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não -fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia. -Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome -d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora, -pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a -obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que -Napoleão lhe dava em Santa Helena?</p> - -<p>N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza. -O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas, -grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar -que eu estou já d'aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em -que me hão-de encolher os vindouros—encolher, digo, porque não -podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter -o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr -outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se -alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo -que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as -rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica, -porque os eu não faço chorar nem rir.</p> - -<p>Respondi, e volto ao outeiro.</p> - -<p>Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as -musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da -novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em -grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que -particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto -sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao -poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr -e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava, -proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava, -como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e -como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e -insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde -em esperanças, sentiu-se namorado d'aquella voz, e d'amor tão -engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa -convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu -poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era. -Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do -Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a -seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol -nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o -de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos -amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia -igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi -passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar -aos quatorze annos.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>VIII</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Oh!..............................<br /> -Nec te aleator ullus est sapientior</i>...<br /> -Nunca velhaco algum mais destro fora.</p> - -<p style="margin-left: 55%;">PLAUTO.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte, -sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do -mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira, -que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar -a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu -a seu marido estas linhas:</p> - -<p>«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação -de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me -trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha -innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido, -portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se -precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina -Providencia escuta os innocentes e os criminosos.</p> - -<p>«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha -parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te -has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho, -que as ignora.»</p> - -<p>Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos -depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e -disse-lhe:</p> - -<p>—É assim que te vingas, Maria?</p> - -<p>—Que me vingo!...</p> - -<p>—Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas -allivial-as, e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua -boca a palavra «perdão»!...</p> - -<p>—Perdoei...—balbuciou ella.</p> - -<p>—E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me -poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?</p> - -<p>—Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma -desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes -imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração -em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e -mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?</p> - -<p>—Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não -me queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies, -filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante...</p> - -<p>—Basta!...—disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro -os olhos sem lagrimas—Esqueces o meu pedido?</p> - -<p>Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a -tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta -contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma -agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa -abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma -grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas -sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o -symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze -annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de -ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou -dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da -alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em -suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes -de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha -unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu -patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade, -se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do -luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão -depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da -italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo, -grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe -parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!</p> - -<p>Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas -dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:</p> - -<p>—Tu não podes perdoar-me!</p> - -<p>Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:</p> - -<p>—Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te. -Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas -forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores, -que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.</p> - -<p>Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher. -Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o -pae rejeitou a lembrança.</p> - -<p>—Vamos sós—disse elle—sejamos egoistas d'esta -felicidade... embora minha sómente...</p> - -<p>Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:</p> - -<p>—<i>Felicidade!</i>...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?... -Creio-a, se me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, -se ha Deus!...</p> - -<p>Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:</p> - -<p>—Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos... Que -Deus!...</p> - -<p>—Não offendas a mão Divina que me amparou...—tornou -Maria.</p> - -<p>As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do -pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe:</p> - -<p>—Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita -lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da -sua felicidade.</p> - -<p>Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:</p> - -<p>—Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta... Não -falla senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta.</p> - -<p>Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre -os dous primos.</p> - -<p>—Então gostas muito de versos, Leonor?—disse Maria.</p> - -<p>—Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor.</p> - -<p>—Quem é o senhor Sotto-Mayor?!—tornou Maria da Gloria -com espanto.</p> - -<p>—Já conhece os poetas pelo nome—respondeu o pae com -alegria—O Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa -a pequena perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma -eternidade de sonetos.</p> - -<p>—Já é paixão de versos!—tornou a mãe de Alvaro—Sabes -tu fazer versos, meu filho?</p> - -<p>—Não, minha senhora: sou ainda muito nova—respondeu -Alvaro—A prima Leonor é que tem lido muitos versos.</p> - -<p>—Já li o Bocage;—acudiu a menina, acompanhando a -expressão de tregeitos exquisitos—li tambem o <i>Belmiro</i>, e -as poesias do Garção, e do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o -papá lá tem. E a senhora D. Catharina de Balsemão, e a senhora -marqueza de Alorna gostam muito de me ouvir recitar sonetos, e -ensinam-me quando eu não declamo bem.</p> - -<p>—Bem está—disse Maria—estás uma doutora, minha -sobrinha!... Queres tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro -de tres em tres annos?</p> - -<p>—Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um -convento! Antes morte que tal sorte!</p> - -<p>O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com -ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se -do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o -calumniavam.</p> - -<p>Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria -defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no -coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde, -e Leonor, estremecendo, exclamou:</p> - -<p>—Elle lá vem! é elle!</p> - -<p>—Quem?—disseram algumas vozes.</p> - -<p>—O meu poeta!</p> - -<p>—O teu poeta!—disse, com molesta accentuação, Maria da -Gloria: e chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:—Não -deixe assim fallar sua filha, que não é bonito aquillo!...</p> - -<p>—Por que, mana?—disse em voz alta o morgado—Ahi -está o effeito dos conventos! Temos bioquice! Que tem que ella diga -<i>o seu poeta?</i> Palavras n'aquella bôca não significam nada, mana -Maria! É uma criança: deixal-a fallar.</p> - -<p>Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com -desembaraço e elegancia.</p> - -<p>—Viva o poeta!—disse Sebastião de Brito,—Eu amo os -poetas, e gosto das suas relações. A sua bella musa está accesa para a -noite?</p> - -<p>—A minha musa—disse o moço—está sempre fria; e, se -alguma fortuna tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa -excellencia lhe dá, posto que os não mereça.</p> - -<p>—Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já -sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores -poetas portuguezes!...</p> - -<p>—Razão de mais—redarguiu o de Villa do Conde—para não -gostar das minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.</p> - -<p>O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do -palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão -penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras -d'elle.</p> - -<p>Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A -dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu -amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem -com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os -poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem -não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas. -Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as -do tempo d'el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções -lhes comiam<a name="FNanchor_9_1" id="FNanchor_9_1"></a><a href="#Footnote_9_1" class="fnanchor">[9]</a>.</p> - -<p>Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do -pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro. -Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a -felicitava, e não sabia entender a tristeza d'ella. Fallavam-lhe da -sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A -melancolica senhora respondia:</p> - -<p>—Que tenho eu que vêr com a sociedade!... O braço, que fere com a -infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu -não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho, -que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu -dormiria na claustra d'esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até -mais tarde, nunca sahiria d'aqui.</p> - -<p>Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita -amargura:</p> - -<p>—Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria?</p> - -<p>—És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre. -Que mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo -irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão... -Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das -servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor -um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi -a conformidade, e o amor d'este menino.</p> - -<p>Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os -termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo -aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos -em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e -perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz -desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas -cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as -ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher.</p> - -<p>Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da -Gloria.</p> - -<p>Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa -foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas -encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e -galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a -poesia era inimiga do somno!</p> - -<p>Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde -excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus -sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no -soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades. -O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um -soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo:</p> - - -<p><span style="margin-left: 3em;">Que dôces rullos rulla aquelle pombo</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">A pomba enamorada e toda secia!</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Cuidado! que a virtude soffre um tombo,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">E vamos ter alguma peripecia!</span></p> - - -<p>Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se -contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as -senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas, -dizendo em voz de quem manda e não pede:</p> - -<p>—Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.</p> - -<p>Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam, -apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua -impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:</p> - -<p><span style="margin-left: 3em;">. . . . . . . . . . . . . . . . . .</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Tão negro quadro meu pincel não toque!</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Calcarem do perdão as santas leis,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Matarem-me por causa d'um remoque!...</span><br /> -<br /> -<span style="margin-left: 3em;">Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis!</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Que diluvio de vinho e de pasteis!</span></p> - - -<p>Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da -roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa -com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos. -Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou -tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira -estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de -Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:</p> - -<p>—D'aqui a uma hora vamos para Lisboa—disse ella.</p> - -<p>—Para nunca mais nos vermos?!—respondeu elle—Este -outeiro foi-me fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem -antes de eu vos ter visto, Leonor!</p> - -<p>—Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me -não virdes!</p> - -<p>—Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de -saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta, -que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.</p> - -<p>—Juro amar-vos eternamente...</p> - -<p>—Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso -primo?</p> - -<p>—O meu coração é livre—replicou ella...—Adeus, que me -procuram; adeus, amai-me, e tende esperança!</p> - -<p>Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria -da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em -muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna -das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços -da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a -partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé -d'ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o -menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o -semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos -acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com -phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica -d'aquellas senhoras.</p> - -<p>Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a -matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já -encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos, -a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e -disse:</p> - -<p>—Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da -innocente Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d'esta -familia, se os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.</p> - -<p>Quaes seriam as tuas visões, ó santa!?</p> - -<p><br /></p> - -<div class="footnote"> - -<p><a name="Footnote_9_1" id="Footnote_9_1"></a><a href="#FNanchor_9_1"><span class="label">[9]</span></a>Aos leitores da <i>Introducção</i> ao <i>Diccionario dos nonymos</i>, -de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro -Ribeiro: <i>Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu -Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer -que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro -veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e -con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras -Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito -moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que -não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos -me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos, -etc.</i> Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no -mosteiro para comerem as naturas (quer dizer—os rendimentos) das -monjas!</p></div> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>IX</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla,<br /> -Nè spero aver</i>...</p> - -<p style="margin-left: 48%;">PETRARCA (Rime).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel -Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia -minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para -reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma -supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um -engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha, -nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho -para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal -chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.</p> - -<p>Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem -testemunhas:</p> - -<p>—Recebes em tua casa uma tua <i>irmã</i>, meu amigo. D'esta casa -dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches -o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais -do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de -continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o -ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho -commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á -sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso -contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus -habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua -companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas: -basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que, -ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto -bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua -bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me -assim a vida, que te peço, de portas a dentro?</p> - -<p>—Vive como quizeres, Maria—respondeu Teixeira com semblante -magoado—Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas -depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente -minha irmã.</p> - -<p>—Tua irmã.</p> - -<p>—Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para -mim.</p> - -<p>—Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de -conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa -com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.</p> - -<p>—Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o -castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas, -que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.</p> - -<p>E cumpriu religiosamente.</p> - -<p>Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em -riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario -dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous -filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se -até alli a perfidia fôra clandestina, d'alli em diante até por -soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e -ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel -Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as -velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e -não lhe deu os filhos.</p> - -<p>Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre -e amigo as lagrimas de alegria.</p> - -<p>—Minha mãe—dizia-lhe elle—é agora a minha mestra. Tudo -o que eu sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. -Disse-me que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao -estudo. É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de -historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida.</p> - -<p>—Seu pae—disse o professor—deve sentir-se feliz, -ouvindo-a...</p> - -<p>—Meu pae raras vezes entra n'estas nossas conversações. Ha dous -annos que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar -o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella; -mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe -os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu. -Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não -souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe -involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a -obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes -me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d'este mundo sem te -vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba -aos effeitos dos padecimentos passados...</p> - -<p>Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do -conde de Basto, na carruagem d'este. João de Mattos viu-o, e fez parar -a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro.</p> - -<p>—Nunca mais se lembrou de mim?—disse-lhe elle.</p> - -<p>—Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa -excellencia.</p> - -<p>—Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras.</p> - -<p>Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da -policia a Manoel Teixeira.</p> - -<p>Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial. -Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu -estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido -reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos -Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle, -era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram -ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais -se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As -bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de -Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as -religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao -cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos, -e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia -da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno. -Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se -tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam -expirado nos meus braços.»</p> - -<p>Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os -ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a -sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta, -sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente -vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou -a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O -morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem -sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que -não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse -desculpas que dispensassem a filha.</p> - -<p>Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe -assim:</p> - -<p>—Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos: -posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?</p> - -<p>Alvaro corou, e balbuciou.</p> - -<p>Maria proseguiu:</p> - -<p>—Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças -tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.</p> - -<p>—Por que, minha mãe?!</p> - -<p>—Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a -educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se -diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as -a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e -dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se -ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais -primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora -enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás -seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás -então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a -prophecia, que te faço hoje.</p> - -<p>Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste -sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de -confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:</p> - -<p>«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia. -Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata -ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de -nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»</p> - -<p>No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.</p> - -<p>—Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!—disse -Sebastião de Brito a Maria da Gloria—A mana lembra-se d'aquelle -poeta, chamado Miguel de Sotto-Mayor?</p> - -<p>—Perfeitamente... Está nos Olivaes?!</p> - -<p>—O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle -respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso -é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous -bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.</p> - -<p>—Isso que admira?!—acudiu com azedume Leonor—O pae não -ouviu dizer que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do -Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque -Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao -mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que -mais notavel vejo no poeta é o seu talento!</p> - -<p>—E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha -sobrinha!—disse Maria da Gloria.</p> - -<p>—A pequena é maniaca por versos—replicou o pae—E o -mais é que já os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, -Leonor?</p> - -<p>—Meu primo não gosta de versos...—respondeu ella com fastio.</p> - -<p>—Eu não desgosto;—disse Alvaro—e, se fossem teus, -gostaria muito, prima...</p> - -<p>—Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te o <i>Oriente</i>, -e tu disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e -atoucinhados como o author.</p> - -<p>—Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do -<i>Oriente</i>, poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.</p> - -<p>O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz -súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo -poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes. -Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A -paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de -estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:</p> - -<p>—Tu de certo não vens comnosco para Italia?</p> - -<p>—Que pergunta! Eu já disse que não ia.</p> - -<p>—E por que não vaes, Leonor?</p> - -<p>—Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver -mundo pelos afagos d'elle.</p> - -<p>—Mas teu pae tem vontade que venhas...</p> - -<p>—Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a -d'elle.</p> - -<p>—Ha outro motivo, minha prima—redarguiu Alvaro com muita -tristeza corada por um suave sorriso de artificio.</p> - -<p>—Qual?</p> - -<p>—Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes.</p> - -<p>Leonor descompôz-se n'uma risada toda da garganta, e disse a final:</p> - -<p>—Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador -debaixo do balcão do castello a chorar amores!... Valha-te Deus, -Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde!</p> - -<p>—Mas elle de certo alli foi por tua causa...</p> - -<p>—E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e -eu não posso ser responsavel das tolices alheias...</p> - -<p>Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro, -quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou -por estas palavras no seio d'ella:</p> - -<p>—Tem razão... devo esquecer minha prima.</p> - -<p>—Menos, quando ella fôr desgraçada...—disse Maria da -Gloria—Lembre-te isto sempre, meu filho.</p> - -<p>Sahiram para Veneza.</p> - -<p>Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para -elles debaixo d'outros céos as lagrimas do coração!</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>X</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Se alguem provou já o golpe d'um<br /> -desprezo aconselhe á minha dôr os<br /> -remedios da sua.</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">D. F. MANOEL (Epanaphoras).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos -enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o -braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro.</p> - -<p>Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de -volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de -Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual -digo com respeito ao morgado.</p> - -<p>Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em -Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos -dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na -esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.</p> - -<p>Havemos de esboçar a indole d'este moço, se trinta e dous annos podem -adornar-se com as graças da mocidade.</p> - -<p>As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo -devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não -escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes -riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este -vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e -injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia -carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos -do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa -impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as -musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse -ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d'um -soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold».</p> - -<p>Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para -excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escandalos na -terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam -os escandalos de fóra.</p> - -<p>Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de -grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá -aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger -o infinito dos juizos divinos.</p> - -<p>Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de -despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e -sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os -arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.</p> - -<p>Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de -Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes -passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o -patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e -sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no -vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a -reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna. -N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e -em menos de dous annos—eram-lhe escassos para viver limpamente os -rendimentos d'ella.</p> - -<p>No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se -assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza, -reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o -coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não -asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava -d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella, -quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.</p> - -<p>Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o -cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e -consequencias d'ella.</p> - -<p>Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que -se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro, -desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis -godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica -de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e -lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da -pintura.</p> - -<p>No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da -nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos -herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala -cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.</p> - -<p>Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de -lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão -bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto, -perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal -consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do -casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de -braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum -tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como -ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a -idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel -pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito -disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter -conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.</p> - -<p>Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da -sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão -mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao -hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não -traziam planos de completarem sua ruina.</p> - -<p>Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo -que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito:</p> - -<p>—Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de -hospedagem, por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.</p> - -<p>Isto entendeu elle que era puro <i>byronianismo</i>; o dono da casa, -porém, é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e -lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em -lençoes de vinho.</p> - -<p>Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor -para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas -acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento -das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para -se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por -fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.</p> - -<p>Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou -ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover -judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio -morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o -pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha -rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer -do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae -e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á -dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.</p> - -<p>A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por -Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira -tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de -Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A -inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros -lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e, -delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.</p> - -<p>Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes, -sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de -sobejar-te tempo de seres feliz—dizia-lhe o pae—Teu primo não -póde demorar-se... Que te diz elle nas cartas?»</p> - -<p>—Diz que o tio está cada vez peor.</p> - -<p>—Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa -vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.</p> - -<p>—E que dirá meu primo—replicava ella—vendo-me reclusa -n'um convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos -que eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer; -e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.</p> - -<p>—A tua fama não está manchada—volveu o pae—Teu primo -de certo perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um -homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não -tenham succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a -sua reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o -poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito -noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a -gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!</p> - -<p>Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e -mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais -digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado -dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade, -resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar -desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que -do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e -byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando -Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos -a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas -depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao -castello de S. Julião da Barra.</p> - -<p>João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos -Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter; -chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe -dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso, -e chamal-o á sua presença.</p> - -<p>Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de -Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica -sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos -tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois, -sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal -fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de -Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia -honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a -deportação para Abrantes.</p> - -<p>Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:</p> - -<blockquote> -<p>«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir -escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu -pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o -amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe -nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de -vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em -cada dia:—Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta -agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os -melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim, -quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que -espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco -annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da -tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como -expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe, -Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho, -d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe, -minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de -tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes -que eu perca a fé na misericordia Divina.» «—Minha mãe debulhava-se -em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação -que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de -esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e -confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste -em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima. -Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de -minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor, -porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de -consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre -Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria -accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe -não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te -accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu -coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica -por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae... -Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para -Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a -merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.</p> - -<p style="margin-left: 10%;">«Napoles—Maio 15 de 1831.</p> - -<p style="margin-left: 60%;">«Do teu</p> - <p style="margin-left: 60%;"><i>Alvaro.</i>»</p></blockquote> - - -<p>Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio -da vingança.</p> - -<p>Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro -violento de Miguel de Sotto-Mayor.</p> - -<p>As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares -phreneticos da morgada.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XI</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti<br /> -qu'elle remerciait tous les<br /> -soirs, de son esprit, et qu'elle le<br /> -priait, tons les matins, de la préserver<br /> -des erreurs de son cœur.</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">MIRABEAU (Lettres à la marquise<br /> -de Monnier).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio -depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a -exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os -Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e -distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da -lembrança a imagem do expatriado.</p> - -<p>Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de -João de Mattos, para ir fallar-lhe.</p> - -<p>—Chamei-o—disse-lhe elle—para lhe dar o que o senhor -Macedo me não pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista -casal-o com sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu -coração sobre este designio de seu pae?</p> - -<p>—Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.</p> - -<p>—Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos -de sua prima? Crê que ella o estima?</p> - -<p>—Devo suppôr que sim.</p> - -<p>—Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua -prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que -inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não -póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em -virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de -passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos -quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz -milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã -deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de -desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia -que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir, -e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas -lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu -nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim -que lhe matei a felicidade de toda a vida.</p> - -<p>João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e -disse-lhe:</p> - -<p>—Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me -perdoou.</p> - -<p>Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca -d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria -ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus, -que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se -rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso, -as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E -accrescentou em voz alta:</p> - -<p>—Vai dizer a esse nosso <i>amigo</i> que tua mãe lhe deu este -nome. Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle -quizer emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com -encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu -sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua -probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a -felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.</p> - -<p>João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua -mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e -apontando para um grande painel, disse:</p> - -<p>—Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um -constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no -infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.</p> - -<p>Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar -comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.</p> - -<p>D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser -propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua -ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida -dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em -que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle. -Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de -perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender -dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia -d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal -ainda mais á honra.</p> - -<p>Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que -pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e -conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas, -scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas -núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras -paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e -veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a -saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no -espirito de Maria da Gloria.</p> - -<p>Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu -dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e -offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a -soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel -n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor, -cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo -industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por -entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida -lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se -no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de -Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava -o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e -phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores -sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas -almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial, -ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o -igualar em merecimentos.</p> - -<p>Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da -Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora -industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre, -professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de -ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os -despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio.</p> - -<p>Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão -bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias, -nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que -tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de -sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de -tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava -a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz -conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença -da tia.</p> - -<p>Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a -escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na -mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle -hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr -as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e -terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda -mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a -lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.</p> - -<p>Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:</p> - -<p>—Estes pontinhos que significam?</p> - -<p>—Nada, minha prima.</p> - -<p>—Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me -escrevêl-o sobre as reticencias?</p> - -<p>—Escreve—disse Alvaro risonho.</p> - -<p>Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:</p> - -<p>«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos, -n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor -dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a, -porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as -crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a -vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla -nos sonhos, me disser: <i>Sou eu.</i> A tua Leonor era o amor da -innocencia; e eu sou a mulher da paixão.»</p> - -<p>—Aqui tens—disse ella—Agora, sim; está completa a -pagina.</p> - -<p>Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:</p> - -<p>—Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes, -Leonor?!</p> - -<p>—É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim...—E -dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.</p> - -<p>Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo -d'aquelle beijo?!</p> - -<p>João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a -modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no -espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas -promessas do espirito!</p> - -<p>Venceste, Leonor, venceste!... Uma victoria só te falta: olha se -rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames, -que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os -mais sagrados deveres do coração.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XII</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Como se é criança!... como se é<br /> -criança!</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">GOETHE (Werther).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente -a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia -admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes -meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a.</p> - -<p>—O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro.</p> - -<p>—Eu não posso mentir a minha mãe...</p> - -<p>—São?—interrompeu Maria.</p> - -<p>—Saudades, e duvidas que me atormentam.</p> - -<p>—Que duvidas? se te ama?</p> - -<p>—Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe...</p> - -<p>—Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro.</p> - -<p>Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e -mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu, -e disse:</p> - -<p>—Tanta palavra! tanta palavra!... Crês isto, filho?</p> - -<p>—Diga-me a minha mãe se não devo acreditar.</p> - -<p>—Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que -fez alli tua prima, durante oito mezes.</p> - -<p>—Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?</p> - -<p>Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta, -recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a -predispunha contra o enlace de seu filho e uma <i>douda furiosa</i>, dizia -a carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor, -desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa -que a fizeram suppôr demente.</p> - -<p>Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua -mãe as lagrimas.</p> - -<p>—Crês no arrependimento de Leonor?—continuou a mãe serena e -affavel—É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o -ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual -provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se, -confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa -menina é...</p> - -<p>Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a -assim:</p> - -<p>—É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.</p> - -<p>Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou -com vehemencia e magestade:</p> - -<p>—Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de -coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por -vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com -o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as -minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor. -Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha -vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a -Deus que te dê forças para ella.</p> - -<p>Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em -lagrimas.</p> - -<p>—Não me falle assim, minha mãe!—exclamou elle—Perdeu a -confiança no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, -nem mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que -minha mãe uma vez me disse que eu fosse:—amigo d'ella, quando a visse -desgraçada...</p> - -<p>—Seja assim, filho!—disse Maria com desafogo e -alegria—seja assim, converte em sentimentos de bom irmão esse -amor, cuja profundeza tu não sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a -tua boa mãe... Escuta, meu querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... -Olha... estuda dous annos o caracter de Leonor, espera-lhe o -desenvolvimento que ella ha-de ter n'este praso; e, se, decorridos dous -annos, a vires igual, toda absorvida na esperança de ser tua, e tão -amante como virtuosa, dá-m'a como filha, e eu do amor que te tenho -farei um segundo coração para lhe dar a ella.</p> - -<p>Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá -estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a -banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo -não podia prevalecer.</p> - -<p>Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar -seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram -palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou -differença.</p> - -<p>Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem -ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas. -Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto -das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de -certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar -atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de -poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver, -nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si -mesmo com as presas da sua propria paixão.</p> - -<p>Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco -d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira? -Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento -e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla -carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da -commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue -congelasse subito.</p> - -<p>Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na -mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e -ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.</p> - -<p>—Por que me não amas tu?!—disse Leonor encarando -repentinamente no primo.</p> - -<p>—Que fizeste tu no convento das commendadeiras, -Leonor?—respondeu serenamente Alvaro.</p> - -<p>—Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte -alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci. -Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta -educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe -aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras, -Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta, -responde-lhe pela minha bôca.</p> - -<p>Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:</p> - -<p>—Tu não amavas aquelle homem, Leonor?</p> - -<p>—Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á -fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na -queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus -annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada, -tão envelhecida, chorarias, e dirias ás <i>virtuosas</i> do convento que o -seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem -chora... Vamos para a sala, que é tempo.</p> - -<p>Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma -estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois, -áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era -alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão -de compadecer-se nas dores alheias!</p> - -<p>«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da -tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando -Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que -dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar -de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se -junto á prima, e disse-lhe:</p> - -<p>—Amas minha mãe, Leonor?</p> - -<p>—Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que -devia chamar-lhe mãe.</p> - -<p>—Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não -contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa -ausencia?!</p> - -<p>—Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a -minha confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e, -se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter -vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.</p> - -<p>—A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!—redarguiu -mansamente Alvaro—Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que -tu o conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com -ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume, -não?</p> - -<p>—Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar -extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos -meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não -perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de -mais...—continuou ella passando da brandura á irritação—Que -crime foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva -envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?</p> - -<p>Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de -sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do -artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina -estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os -espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella -que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro, -procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle -incommodada.</p> - -<p>Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores -de peito causadas pela compressão do collete.</p> - -<p>Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe, -sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.</p> - -<p>Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos:</p> - -<p>—Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. -Tens dous annos, e vagar para estudal-a.</p> - -<p>Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis -desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava -conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na -incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo -as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço -desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á -cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de -seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém, -infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores -como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e -obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a -Leonor.</p> - -<p>Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão -visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre -a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á -prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por -tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.</p> - -<p>Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de -poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira, -d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para -desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os -olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia. -Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada -de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por -satisfeito.</p> - -<p>De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á -collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de -pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um -álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da -alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é! -N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: <i>L. A.</i> e dos -sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as -deixou pendentes dos braços tenros da arvore.</p> - -<p>Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e -coração. Chorou, e disse:</p> - -<p>—Quem me déra ser feliz, meu Deus!</p> - -<p>Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se -ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia -tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo -sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa -de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança.</p> - -<p>—Pois não és tu feliz, Leonor!?—exclamou o apaixonado moço, -apertando ao seio a incomprehensivel mulher.</p> - -<p>—Sou feliz, sou, primo... Tenho momentos de louca, de perdida... -Nem sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse -desejar a morte...</p> - -<p>—A morte!...—atalhou com espanto Alvaro—E eu a amar-te -tanto, e a não pensar senão na vida, na felicidade d'este mundo, em que eu -creio como nas palavras de minha mãe...</p> - -<p>Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde -os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.</p> - -<p>Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena -do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:</p> - -<p>—Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes -ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os -olhos... Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na -efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XIII</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;">«<i>Adeus!»... palavra fatal!</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">BYRON (O Corsario).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna -alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a -annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era -um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e -linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação -distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois -dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.</p> - -<p>Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca -chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em -Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um -caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso -ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar -em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente -pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira -desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de -sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e -agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala -gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de -Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra <i>Sotto-Mayor.</i></p> - -<p>A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada -alegria e convulsões de louca.</p> - -<p>Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua -esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus -talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario. -Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram -realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém; -elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e -que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse -infiel aos juramentos.</p> - -<p>Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu -coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia, -attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás -debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos -últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se -a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor, -e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o -vira.</p> - -<p>O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias -depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor -alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na -sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da -estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta, -e planeara o momento da fuga.</p> - -<p>Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.</p> - -<p>Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma, -e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem -Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um -casal, que não via desde que fora enclausurada.</p> - -<p>A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o -morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se -os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro -dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica, -Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella -hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor -intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma -sombra de desistencia.</p> - -<p>Ás onze horas, disse-lhe Alvaro:</p> - -<p>—Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d'aqui tão lindo e prateado pela -lua!...</p> - -<p>—Vamos—respondeu ella após curta hesitação.</p> - -<p>E Alvaro replicou:</p> - -<p>—Parece que não vaes de vontade!</p> - -<p>—Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente -constipada.</p> - -<p>—Então não vamos, não, minha prima... Eu não sabia...</p> - -<p>—Havemos de ir...—tornou ella—Espera um pouco...</p> - -<p>Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era -franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida. -Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua -saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A -espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em -cada circulo uma zona de prata.</p> - -<p>—É dizem que não ha felicidade n'este mundo?...—murmurou -Alvaro, tomando nas suas as mãos de Leonor—Que é isto que eu sinto, e -tu deves sentir agora!...</p> - -<p>Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:</p> - -<p>—Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão! -Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...</p> - -<p>—Isto é bello!...—disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou -não ouviu o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que -nunca eloquente; e amante.</p> - -<p>Soaram os tres quartos depois das onze.</p> - -<p>—Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de -capuz?</p> - -<p>—Vou; mas tens frio?</p> - -<p>—Receio têl-o e não quero sahir d'aqui...</p> - -<p>—É melhor irmos, vamos, prima...</p> - -<p>—Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?</p> - -<p>Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor -correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema -d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da -abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo -emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena -janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um -homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A -poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada -fugida.</p> - -<p>Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores -cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha -Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram -depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria.</p> - -<p>Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.</p> - -<p>—Onde está ella!?—perguntou o pae—Falla, Leonor, não -andes a fazer fosquinhas!...</p> - -<p>—O local é proprio para jogar as escondidas...—acrescentou -Maria da Gloria.</p> - -<p>—Eu vou dar com ella—tornou o morgado, batendo os -caramanchões, e dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.</p> - -<p>N'isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse:</p> - -<p>—Leonor já não está aqui.</p> - -<p>—Pois onde ha-de estar? essa é boa?—replicou o tio. Vamos -dar com ella no laranjal.</p> - -<p>E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e -viram aberta uma janella.</p> - -<p>—Aquella janella aberta!—disse Sebastião de Brito.</p> - -<p>—Foi por alli que ella sahiu—ajuntou Alvaro; mas a ultima -palavra proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.</p> - -<p>O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco. -Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna -esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados -os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto -Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não -lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e -acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno. -Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por -elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça, -impulsada pelos braços de Maria da Gloria.</p> - -<p>—A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho—exclamou -a mãe.</p> - -<p>Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e -sentou-se, escondendo nas mãos a face.</p> - -<p>—Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?—tornou Maria da -Gloria—Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?</p> - -<p>—Não me falle, minha mãe—disse Alvaro com energia—A -que vem Deus aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.</p> - -<p>Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de -Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos, -quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de -passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para -a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a -Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta -ordem, ergueu-se, e disse chorando:</p> - -<p>—Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!...</p> - -<p>Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:</p> - -<p>—E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não -morrerás, não, Alvaro?</p> - -<p>—Morrer!... Não se morre assim, minha amiga... Os seus onze annos -de martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha -mãe...</p> - -<p>Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns -instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e -articulou:</p> - -<p>—Adeus!...</p> - -<p>Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou:</p> - -<p>—Ora veja que mocidade a minha!... Estou no principio da vida!...</p> - -<p>Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A -carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á -portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção: -Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o.</p> - -<p>O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou -almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas -leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite, -ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho, -quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor -tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por -povoações menos praticadas até Coimbra. D'ahi passou a Aveiro onde -tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a -esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius, -defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.</p> - -<p>Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do -entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus -camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara -foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua -consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno. -Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que -pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.</p> - -<p>Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás -trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das -batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas -vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta -seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco -de Sant'Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos -especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle -grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do -espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande -fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella, -achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos -aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça -de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem -damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram -difficeis n'aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada -dos valentes era sua filha.</p> - -<p>Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel -de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi -um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou -noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do -Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella -a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha. -Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e -recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos -odios politicos.</p> - -<p>Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si -mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do -coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que -tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros -invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas, -pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.</p> - -<p>Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que -invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua -gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e -rematou pedindo-lhe novas de seu primo.</p> - -<p>—Nunca mais o vi—disse elle—consta-me, porém, que vive -muito triste, e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de -Santarem. Pobre rapaz!...</p> - -<p>—Mas não morreu!—acudiu Leonor.—Todas as paixões assim -são, meu pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino -para se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á -vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua -indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo, -não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da -martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é -perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher -muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa -que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para -comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no -coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á -outra. Ora aqui tem, meu pae!</p> - -<p>—Parece-me que tens razão, filha...—disse Sebastião de -Brito, tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao -escarlate.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XIV</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;">... <i>Que direz vous de l'indigence?</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">MONTAIGNE (Essais.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as -herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens -livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com -os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a -juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens -nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh'o não -quizerem dar por caridade.»</p> - -<p>Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu:</p> - -<p>—Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas.</p> - -<p>O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era -aquella.</p> - -<p>Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde -tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de -emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos -Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da -terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos, -descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do -vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.</p> - -<p>Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao -seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra, -se os credores t'o não quizerem dar por caridade.»</p> - -<p>Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e -ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no -Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia, -habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa, -requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no -livro da secretaria.</p> - -<p>N'este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de -Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens -livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um -palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos, -e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o -bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão -por um enlace matrimonial dos filhos ambos.</p> - -<p>Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando -ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito -podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a -senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho, -respondeu:</p> - -<p>—Quem castiga é Deus.</p> - -<p>O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob -condição de ficarem n'elle como inquilinos por tempo de tres annos os -devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de -Brito depositario d'ella.</p> - -<p>N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da -inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e -enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a -familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.</p> - -<p>Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo -anjo do castigo os está contemplando com formidavel silencio. Miguel -tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e -desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a -escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso -d'aquelles caramanchões estão os bancos rusticos em que Alvaro se -assentava. Alli á beira do lago está o escabello de cortiça em que -ella ficara sentada, quando Alvaro foi buscar a capa. Por que não -creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor -está chorando!?</p> - -<p>Ahi estava sósinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pateo.</p> - -<p>Leonor admirou-se: já ninguem a visitava de carruagem. A nova criada -não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma -mulher, que não tinha geito de senhora.</p> - -<p>—Isso me quiz parecer...—disse Leonor entre si—mas de -carruagem!... Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem...</p> - -<p>—O boleeiro traz libré—disse a criada.</p> - -<p>—Libré!—murmurou Leonor—Então enganei-me...</p> - -<p>Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.</p> - -<p>Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a -abraçar!</p> - -<p>—Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho -mais ninguem!—disse a soluçar Leonor.</p> - -<p>—Está muito infeliz, minha senhora?!—perguntou Eufemia.</p> - -<p>—Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive -feliz?</p> - -<p>—Feliz, não! Com aquelle filho sempre triste, como ha-de ella ser -feliz!... Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!...</p> - -<p>—E achas-me feia, Eufemia?!—perguntou Leonor com um triste -sorriso, expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em -que a mulher, que foi bella, ainda affronta a desgraça.</p> - -<p>—Feia, não, minha querida senhora... Acho-a mais magrinha, e sem -aquellas côres de roman, que pareciam dar saude á gente... Em fim, é -conformar-se com a vontade de Deus, e pedir á Virgem Maria que dê -saude a sua tia, que é uma santa. De mando d'ella é que eu vim aqui -trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos -mezes, cá venho trazer-lhe outra assim.</p> - -<p>Eufemia depositou sobre uma mesa um rôlo de dinheiro.</p> - -<p>—Dirás a minha boa tia—disse Leonor com as lagrimas -estancadas nas palpebras—que a pobre Leonor acceita a sua esmola, -e lh'a agradece com este pranto que vês.</p> - -<p>Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por ultimo:</p> - -<p>—D'hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia -padeceu onze annos...</p> - -<p>—Minha tia era um anjo de innocencia, e eu estou expiando culpas -enormes: ella consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço -o castigo.</p> - -<p>Eufemia deu conta da sua commissão a Maria da Gloria, e retirou-se -quando Alvaro entrava.</p> - -<p>—Olha que está muito infeliz a pobre Leonor!—disse a -mãe.</p> - -<p>—Não lh'o tinha eu dito?! Acceitou?</p> - -<p>—Acceitou, e agradeceu com lagrimas.</p> - -<p>—Deve de estar muito quebrado aquelle genio pela -desgraça!—tornou Alvaro—Acceitou a esmola!... Pobre mulher!... -Deve estar mudada tambem de rosto...</p> - -<p>—Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco aceio.</p> - -<p>—Perguntaria por mim?</p> - -<p>—Não sei, filho... Eu presumo que não teria força para tanto!... -Fiz-te a vontade, Alvaro?</p> - -<p>—E a sua vontade, minha mãe, não era soccorrer tambem a -infeliz?</p> - -<p>—Era, era, meu filho...</p> - -<p>—Pois não se esqueça de lhe mandar todos os mezes o que a mãe -julgar necessario á decencia d'ella.</p> - -<p>—Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido ha-de tomar -n'este soccorro?</p> - -<p>—Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de -minha prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos.</p> - -<p>—Esperava essa resposta: a tua generosidade, Alvaro, é -desinteressada, e nobre. Vejo que não pode nada comtigo o ciume...</p> - -<p>—Não, minha mãe—disse Alvaro n'um falso tom de verdade, -movimento de feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados.</p> - -<p>—Assim é que eu entendo a virtude—continuou Maria da -Gloria—são estas as joias de puro ouro que trazem do céo o -signal da sua valia. Se te deixasses levar d'um calculo, o mesmo seria -lançares á balança das culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da -antiga Leonor o que resta para ti é a mulher desgraçada, não é -assim?</p> - -<p>—De certo... Que mais pode restar?!...</p> - -<p>—Mais nada... O Senhor te abençoe o coração, e t'o encha de -alegria e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem -orgulho das boas acções.</p> - -<p>Alvaro, logo que pôde estar sósinho com Eufemia, perguntou:</p> - -<p>—Minha prima não lhe perguntou por mim?</p> - -<p>—Não, meu senhor.</p> - -<p>—E Eufemia proferiu o meu nome?</p> - -<p>—Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste... e -ella... ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa.</p> - -<p>—Mas ficou pensativa? e viu-lhe lagrimas?</p> - -<p>—Ora, se vi!... quando lhe dei o dinheiro, as lagrimas -rebentavam-lhe dos olhos como punhos.</p> - -<p>—Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia d'estas cousas de minha -mãe?...</p> - -<p>—Nada, não disse, porque o menino e a mãesinha assim m'o -ordenaram.</p> - -<p>—Fez bem, e nunca lh'o diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe -fiz estas perguntas.</p> - -<p>—Não digo, esteja o meu filho descançado.</p> - -<p>—Olhe, Eufemia... Leonor está muito acabada?</p> - -<p>—Se está! nem parece ella! lembra-se d'aquellas rosas que ella -tinha no rosto? Nem signal d'ellas! Está muito magrinha, e tem á volta dos -olhos umas pisaduras que parecem de tisica...</p> - -<p>Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma -saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho -amava Leonor.</p> - -<p>Aqui vai trasladado um fragmento:</p> - -<p>«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha -imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua -belleza, e o que serás ámanhã aos olhos d'esse homem que te encravou -na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias -dôres, te arrancaria, se podesse!? Ó Leonor, que supplicio tu mesma -escolheste! Por que não foges d'ahi onde estão as flôres da nossa -infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e -aquellas arvores da collina!? Foi o teu demonio que te acorrentou á -sepultura onde enterraste o meu pobre coração!?</p> - -<p>«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tedio da existencia é a -maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e -gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do -passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos.»</p> - -<p>Quer-me parecer que ha ahi expressões indicativas d'um sentimento que -não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, affirmo que só -a amisade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se -assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a -amisade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei -sempre em cousa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre -do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amisade» e nada se me -dá que a lingua humana por ahi traga a palavra envilecida nos -enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia -infamam aquelle divino dom da alma humana.</p> - -<p>Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivaes.</p> - -<p>Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou -Leonor a pé.</p> - -<p>—Esperei-te—disse ella—para te contar que minha tia me -remetteu este dinheiro, e a promessa de me dar uma mezada. A nossa posição -melhora, e o teu espirito, se me não engano, está livre das afflicções da -desfortuna domestica.</p> - -<p>—Sendo assim, de certo!...—disse Sotto-Mayor com -alegria—Bem sabes que felicidade e pobreza não se compadecem. -Quem teve muito e aspirou a mais, por grande que tenha o coração, -esmorece ante o aspecto da miseria. Eu espero a independencia, quando -entrarem no ministerio outros homens; e não me pejo de acceitar de tua -tia este dinheiro como emprestimo.</p> - -<p>—Agora, outra cousa—proseguiu Leonor—Que fazes tu fóra -de casa até estas horas, Miguel?</p> - -<p>—Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são -exigências do soffrimento, minha Leonor.</p> - -<p>—Pois bem—replicou ella entre ironica e meiga—agora -que o soffrimento deve ser menos exigente, vive mais commigo.</p> - -<p>—Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei -involuntarios.</p> - -<p>Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os -criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o -que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de -quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas -parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o -proprio Sebastião de Brito voltou á casa de seus avós, com os -cabellos cada vez mais variegados de côr do barro e azeviche. Trezentos -mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte -para satisfazer as necessidades do luxo.</p> - -<p>Maria da Gloria disse uma vez ao filho:</p> - -<p>—Tua prima não aprendeu nada no infortunio.</p> - -<p>—Por que, minha mãe?</p> - -<p>—Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares?</p> - -<p>—E será ella feliz?</p> - -<p>—Parece que é.</p> - -<p>—Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos. -Desgraçada era ella antes dos seus soccorros.</p> - -<p>—Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o -que recebe de esmola.</p> - -<p>—Não digamos <i>esmola</i>, minha mãe: a palavra é humilhante... -Leonor é sua sobrinha; e meu pae daria tudo para não vêr em miseria aquella -familia. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos -roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor.</p> - -<p>—Que alma a tua, Alvaro!—exclamou Maria da Gloria, abraçando -o filho—E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres -annos, e vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que -não vaes aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a -maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?</p> - -<p>—Não, minha mãe—respondeu Alvaro—Tenho tudo, que mais -quero, n'este estreito recinto: aqui, minha mãe; alli, os meus livros. As -viagens instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso -aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha -vida, são ellas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a -renovar o coração. Esta obra ha-de fazel-a o tempo. Não se é feliz -em parte alguma, quando se não póde ser entre as reliquias da -infancia, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a -vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que -nós.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XV</h4> - - -<p style="margin-left: 40%;"><i>Lata porta ... quœ ducit ad perditionem.</i><br /> -A larga porta que dá passagem para a perdição.</p> - -<p style="margin-left: 50%;">S. MATT.—7. 13.</p> - -<p><br /></p> - -<p>A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o -morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma -nobre casa de Alemquer.</p> - -<p>Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de -virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Mayor frequentou a -familia, muito aparentada com sua mulher.</p> - -<p>Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas -seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme; -porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama -corria desluzida e mareada á conta d'elle. Aquelles passeios nocturnos, -nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor -dizia serem a sua mulher: <i>exigencias do soffrimento</i>; exigencias de -intenção ruim é que elles eram.</p> - -<p>Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou -da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou -a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo. -Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e -despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas. -Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta -anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio -de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.</p> - -<p>O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe -incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso -como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.</p> - -<p>Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de -cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as -janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora, -apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois -d'alguns segundos.</p> - -<p>Eu de mim não tiro conclusões algumas d'esta luz; mas o morgado -tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram -a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem -descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua -mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um -signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de -golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um -corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d'onde -fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um -castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e -entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d'um -punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito.</p> - -<p>—Morres, se gritas!—disse o morgado com a postura e phrase -de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era -solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para -Lucrecia—Morres—continuou elle com voz soturna—se me não -dizes o que significa o signal que tens ido dar á janella com a luz!</p> - -<p>A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo -como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes -theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.</p> - -<p>Decorreram tres noites depois d'esta.</p> - -<p>Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe. -Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o -orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia -uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder -enfrear o seu ciume.</p> - -<p>Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:</p> - -<p>—Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo.</p> - -<p>—E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?!—respondeu -carregando o sobr'olho.</p> - -<p>—Diz-m'o o coração...</p> - -<p>—O coração!...—redarguiu sorrindo o marido—O que é o -coração!... O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o -sangue. O coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não -vou a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para -conjurarmos na derrota do ministerio, e na morte de Agostinho José -Freire.</p> - -<p>—Mentes, Miguel!—exclamou Leonor.</p> - -<p>—Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir.</p> - -<p>—Miguel!—tornou ella com vehemencia e excitada a -lagrimas—não vás... Olha que o tio morgado teve aviso, e elle é mau, -e tu ficas um dia morto.</p> - -<p>—Quem o avisou?!—replicou, risonho, o marido—Serias -tu? Capaz serias da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?!</p> - -<p>—Sei-o... Não vás, peço-t'o com as mãos erguidas!...—e -chegou a dobrar os joelhos diante d'elle.</p> - -<p>—Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra, -Leonor? O meu destino é o Poço do Bispo, já t'o disse.</p> - -<p>—Juras-me que não vais a Porto-Alvo?</p> - -<p>—<i>Juro</i>, dizia Molière.</p> - -<p>—Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando disse -<i>juro.</i></p> - -<p>Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de -Leonor, beijando-a na testa.</p> - -<p>Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande -distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de -Porto-Alvo.</p> - -<p>Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado -tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor -alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde -significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem -significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha -mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao -cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos.</p> - -<p>Antes d'elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador -dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do -punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou -a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu -ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal -novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por -um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma. -Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de -Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se -avistava o signal.</p> - -<p>Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que -descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes -a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para -examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe -vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira -abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos -do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo -espaço, suspenso n'um dos estribos.</p> - -<p>Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o -estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a -amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo, -cuidou que elle havia já subido, como d'outras vezes, deixando o -cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos -sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias, -bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça. -Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do -estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com -os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:</p> - -<p>—Fui eu que o matei!</p> - -<p>D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e -blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.</p> - -<p>Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na -estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu -amo.</p> - -<p>Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um -atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A -maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh'o -reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros -tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe -pegaram ao sangue empastado do peito.</p> - -<p>Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para -casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu -marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de -Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de -Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a -justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto, -e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e -indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral, -estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso. -Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:</p> - -<p>—Foi este o assassino de meu marido.</p> - -<p>O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a -vista por todos, e perguntou:</p> - -<p>—A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!...</p> - -<p>Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a -tambem.</p> - -<p>—Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a -devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?</p> - -<p>Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia.</p> - -<p>—Agora diz que foi uma mulher que o matou!...—dizia o -morgado—Não ha duvida! está louca a infeliz senhora!</p> - -<p>—Não estou louca, não, scelerado!—bradou Leonor, -contorcendo-se nos braços das amigas—Mataste-o tu, cobardemente, -feroz villão! Mataste-o e cuidas que a boca do morto não ha-de revelar -a infamia de tua...</p> - -<p>N'este ponto, os labios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão, -que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando. -Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da -Gloria.</p> - -<p>O mesmo foi vêl-a, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando:</p> - -<p>—Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!... Abra-me por piedade o -seu coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso...</p> - -<p>Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse ás senhoras e -cavalheiros:</p> - -<p>—Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes -accessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com -ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de -cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XVI</h4> - - -<p style="margin-left: 40%;"><i>Suadeo tibi emere à me aurum ignitum<br /> -probatum, ut locuples fias.</i></p> - -<p style="margin-left: 40%;">Admoesto-te a que me compres o<br /> -meu ouro de fino quilate para te locupletares.</p> - -<p style="margin-left: 45%;">APOC. 3. 18.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria -da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias -de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que -a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria. -E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os -aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas -nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam -espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos -imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido -assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A -sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados -de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores -reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de -capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama, -repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da -criada com um sorriso, e estas palavras:</p> - -<p>—Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que -não mata a honra de ninguem.</p> - -<p>Ficou Leonor com seu pae.</p> - -<p>Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do -defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a -purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto -se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se -viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a -lançava de si:—a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa -na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto -a seiva que as alindava.</p> - -<p>Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia -não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa, -menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos -theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os -conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas -ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para -acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar -que hoje.</p> - -<p>Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella -mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher, -que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde -que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra -do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos, -Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave -tristeza da musica.</p> - -<p>Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser -convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:</p> - -<p>—A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não -encontrarmos.</p> - -<p>—E, todavia, meu filho—replicou a mãe—estás sempre -perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de -Leonor!...</p> - -<p>—Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de -dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser -feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas, -signal é de que não representa algum affecto de coração a minha -prima.</p> - -<p>—E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um -homem que a expozesse a novas miserias?</p> - -<p>—Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar -contra a estrella fatal d'aquella infeliz.</p> - -<p>—E crês tu na fatalidade, filho?...</p> - -<p>—Creio, minha mãe.</p> - -<p>—E a virtude que fica sendo?</p> - -<p>—A fatalidade do bem.</p> - -<p>—Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á -deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!</p> - -<p>—Eu—disse Alvaro com profunda amargura—não sei o que é -melhor, nem mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que -sinto... o melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que -é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que -bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?</p> - -<p>—Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem -religião?...</p> - -<p>—Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de -amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus -me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...</p> - -<p>Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava -fallar a Alvaro.</p> - -<p>—A mim!?...—disse elle, admirado—e foi á sala onde o -esperava a senhora.</p> - -<p>Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos -amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.</p> - -<p>—Não a conheço, minha senhora—disse Alvaro.</p> - -<p>—De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu -pae—respondeu ella em italiano—sou a desgraçada que -acompanhou seu pae do theatro de Milão para Lisboa ha dezeseis annos. -Vi o snr. Alvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vêl-o homem -com a reputação igual á das virtudes de sua nobre mãe.</p> - -<p>A italiana enxugava as lagrimas.</p> - -<p>—Queira continuar—disse Alvaro.</p> - -<p>—Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous -filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz, -era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em -quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos -delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos -meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que -eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao -charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um -demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi -fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como -instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho -pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu -não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle -reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa, -roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não -ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que -elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para -as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao -dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um -homem, que me conhecera em tempos felizes... <i>felizes!</i>... que falsa -apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e -alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante -responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa -d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o -pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na -alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores, -valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze -dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta -por toda a vida.</p> - -<p>A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:</p> - -<p>—Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o -salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de -mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento -dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem -o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.</p> - -<p>Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:</p> - -<p>—O nome de seu filho?</p> - -<p>—É Julio de Macedo.</p> - -<p>—Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa -dos meus esforços.</p> - -<p>A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza -d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da -escada.</p> - -<p>Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher, -tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e -disse-lhe risonha:</p> - -<p>—Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia -procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...</p> - -<p>Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a -sua mãe.</p> - -<p>—Em que pensas, filho!?—tornou ella rindo em -gargalhada—Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio -roubar o socego?!... Diz o que sentes, Alvaro!</p> - -<p>—Logo, minha mãe, logo...—respondeu Alvaro, cada vez mais -enleado.</p> - -<p>—E por que não ha-de ser já?!—redarguiu Maria da Gloria com -gravidade—Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa -arvore produziu fructos tão maus!?</p> - -<p>Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns -monossyllabos.</p> - -<p>—São aberrações—proseguiu ella—Não lhe ouviste dizer á -pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores -que dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua -vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação -minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo -vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a -fortuna te dá.</p> - -<p>Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o -perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo. -O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia. -Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço. -Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e -appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas -de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu -filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre; -a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo -como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a -italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.</p> - -<p>O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava -palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma -virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da -antiga locataria do palacio de Belem:</p> - -<p>—Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde -contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a -senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu -conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço -doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e -levem as lições da desgraça para a conservarem.</p> - -<p>D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com -exclamações e lagrimas.</p> - -<p>—As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos—disse -Alvaro—Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que -lhe vejo no rosto.</p> - -<p>D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho, -partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo -dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de -Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito -da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração -d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me -respondeu:</p> - -<p>—A fortuna de duas familias independentes.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XVII</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Un groupe de Dalila et de Sanson<br /> -avec celui de la farouche Judith serait<br /> -toute la femme expliquée.</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">BALZAC.</p> - -<p><br /></p> - -<p>Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza -d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito, -legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus -desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha -acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu -a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do -hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns -desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o -fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que -sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia -ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada, -confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de -Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com -claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo -atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da -peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo, -não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.</p> - -<p>Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia -licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder -lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de -sua prima.</p> - -<p>Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um -palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal -de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás -vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da -viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em -disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas, -tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.</p> - -<p>Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha, -e communicou-as a Alvaro.</p> - -<p>—Pois a mãe que esperava!?—disse este—Leonor teve -treguas de dous annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.</p> - -<p>—E qual achas tu que é o nosso dever?</p> - -<p>—Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não -podér nada com ella, ampare-a como até aqui.</p> - -<p>—E se eu lhe retirasse os meios—replicou Maria da -Gloria—crês tu que o segundo calculista a não deixaria em paz?</p> - -<p>—Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um -indigente como ella.</p> - -<p>—Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?</p> - -<p>—Julgo, mãe.</p> - -<p>Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar -concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.</p> - -<p>—O teu mau anjo não te deixa, Leonor?</p> - -<p>—Porque falla assim, minha tia?</p> - -<p>—Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as -tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de -felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha? -Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como -pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa -miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das -lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre -coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos -ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!</p> - -<p>Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua -tia, soltando estas palavras:</p> - -<p>—Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. -Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem -sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera -antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a -vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.</p> - -<p>—Explica-te, Leonor...—atalhou Maria da Gloria estarrecida -de espanto.</p> - -<p>—Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa -vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração, -teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o -parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso -de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o -mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me -via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns -punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a -sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus -parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me -era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás -mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do -espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me -culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a -mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um -nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco -illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma -educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente, -humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus -proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades -que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem -merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade -santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido, -eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para -beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous -annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que -meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade, -e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar -a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este -acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam -«cynismo»; é aquillo que eu já disse—o despreso de mim propria. -Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um -homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das -suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós. -É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a -sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por -duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas -da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á -mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as -privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e -sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato -de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na -minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola, -beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem -pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que -os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a -meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus. -Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha -criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha, -que os credores de certo não querem; irei lá viver.</p> - -<p>Calou-se Leonor.</p> - -<p>Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e -disse:</p> - -<p>—Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma -injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de -Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o -remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo», -foge para mim que eu te abrirei os braços.</p> - -<p>Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de -abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.</p> - -<p>Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por -elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a -necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso -do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava -casar-se.</p> - -<p>Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam -sobre o mesmo motivo, disse:</p> - -<p>—Esse homem julgará rica a prima Leonor?</p> - -<p>—Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia -dos seus parentes.</p> - -<p>—Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta -com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um -nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...</p> - -<p>—Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?</p> - -<p>—Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto -no collegio, nos meus ultimos tempos.</p> - -<p>Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo, -professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim -ao encargo, que recebera:</p> - -<p>—Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de -amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as -pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na -poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida -que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é -romantica, terceiro porque é romantica.»</p> - -<p>—E porque é rica—atalhei eu.</p> - -<p>—Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por -tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...</p> - -<p>—Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma -sem-razão. D. Leonor é pobre.</p> - -<p>—Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!</p> - -<p>Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que -os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos -inconvenientes das suas parentas necessitadas.</p> - -<p>—Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui -vêr—redarguiu elle—e aquell'outro de ruinas tão poeticas; -e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero -Tejo... que me diz o senhor a isto?</p> - -<p>—Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que -meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c. -Mas—conclui eu—as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu, -prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres -vezes romantica.</p> - -<p>—Diz muito bem—acudiu elle:—o casamento ha-de -fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o -meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.</p> - -<p>—Quer dizer...</p> - -<p>—Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se -ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita -philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me -agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui -estou ás ordens.</p> - -<p>—Aqui tem o senhor Alvaro—continuou o professor de -inglez—o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão -da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.</p> - -<p>Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do -mestre de inglez, disse:</p> - -<p>—Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas -encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.</p> - -<p>Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa -e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados. -Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:</p> - -<p>—Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O -cavalheiro de certo não falta.</p> - -<p>—Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria -dignidade!?</p> - -<p>—E por que não diz «ao seu proprio coração...»?—retorquiu -ella com despeitado sorriso.</p> - -<p>—O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se -atreve a entrar nos juizos do espirito...</p> - -<p>Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou -anciosa o dia seguinte.</p> - -<p>—Vou responder—disse ella—cathegoricamente ás suas -cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça -respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas -cartas, não é assim?</p> - -<p>—Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!</p> - -<p>—Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause -estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.</p> - -<p>—Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa -excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da -amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem -distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes -preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu -acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á -minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a -trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com -grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em -confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das -considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?</p> - -<p>—Elucide-me...—atalhou Leonor—A sua linguagem é -escura!</p> - -<p>—Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha -senhora. Eu sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos -recursos procedem da amisade d'uma tia millionaria, que vossa -excellencia tem.</p> - -<p>—Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que -me dotava com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, -falla-me da felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o -nobre trabalho da intelligencia.</p> - -<p>—Tambem é certo—redarguiu algum tanto confuso o -jornalista—era, porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade -em relação áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não -está vossa excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a -felicidade real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de -philosopho. Todavia...</p> - -<p>—Queira dizer-me—interrompeu a viuva—a quem pediu -informações dos meus recursos?</p> - -<p>—Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as; -não as averiguei; deram-m'as.</p> - -<p>—Quem?</p> - -<p>—Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?</p> - -<p>—Conheço.</p> - -<p>—Como conhece, minha senhora?</p> - -<p>—Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?</p> - -<p>—Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia -não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se -contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.</p> - -<p>Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o -litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira -sahir.</p> - -<p>Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:</p> - -<p>—Sua excellencia manda sahir.</p> - -<p>Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se -tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.</p> - -<p>Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de -Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era -esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.</p> - -<p>Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato -avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.</p> - -<p>—A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!—disse a -criada—Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!</p> - -<p>—Trazes-me a esmola?—disse Leonor com -desabrimento—Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que -venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um -terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem -nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão -bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a -dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é -um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o -balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos -temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora, -vai, ou fica.</p> - -<p>Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por -julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso -de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o -coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege -de praça, e deu ordens ao boleeiro.</p> - -<p>Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que -não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu -serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia -gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.</p> - -<p>—Esperemos...—disse elle a sua mãe.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XVIII</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>N'aurez-vous point pitié, jeune homme?...<br /> -Non, non, j'en ai le pressentiment,<br /> -une ère nouvelle commence</i>...</p> - -<p style="margin-left: 47%;">R. de LORGUES. (L. das Communas.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e -pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que -Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo -firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos -envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que -morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre, -mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns -velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a -seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira -vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a -porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se -estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de -Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem -quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á -herdeira.</p> - -<p>Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema, -encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é -verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza -resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em -rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar -um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:</p> - -<p>—Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o -deixou a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe, -economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da -sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.</p> - -<p>O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de -douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.</p> - -<p>Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por -um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de -vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de -Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e -nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.</p> - -<p>De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava -abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a -cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da -casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite -velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.</p> - -<p>A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e -sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados, -arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante. -Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa, -Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a -mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da -contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando -aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos -empuxões de fóra.</p> - -<p>Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e -experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta -d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no -verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta -criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:</p> - - -<blockquote> -<p>«A minha tia Maria da Gloria.</p> - -<p>«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a -independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não -morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava -d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação -deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo -tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus -parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido -uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu -perfeito juizo.</p> - -<p style="margin-left: 60%;"><i>Leonor de Brito.</i>»</p></blockquote> - - -<p>Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou -a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço -esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o -braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o -ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.</p> - -<p>Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára -sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das -vidraças, por onde saltou dentro.</p> - -<p>Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que -salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem -sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o -cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com -pannos adhesivados e compressas.</p> - -<p>De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara -a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro -Teixeira.</p> - -<p>Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de -mortal espasmo.</p> - -<p>—Leonor! minha prima!—exclamou elle—passando-lhe a mão -na fronte—Que sangue é este?!—bradou, vendo as compressas -tingidas.</p> - -<p>—É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma -tesoura...—disse o feitor.</p> - -<p>—A minha carruagem depressa aqui!—bradou -Alvaro—Ajudem-me a transportal-a.</p> - -<p>Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor -na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao -respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do -corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o -quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para -Lisboa, a passo.</p> - -<p>A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os -olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se -tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:</p> - -<p>—Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre, -quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo -necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei -sempre...</p> - -<p>Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se -um sorriso, e murmurou:</p> - -<p>—Um cadaver...</p> - -<p>Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, -e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no -coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.</p> - -<p>E contemplou-a.</p> - -<p>Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço -esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida -que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, -restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o -pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E -parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus -olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora -de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não -guardou lembrança.</p> - -<p>A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas, -chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar -Leonor, e leval-a a um leito.</p> - -<p>—Creio que vem morta...—disse Alvaro—e sahiu para logo -voltar com dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por -esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram -elles.</p> - -<p>—A vida da alma—dizia Alvaro com assombro dos -medicos—deem-lhe a vida da alma, que eu quero que ella me veja, e -me julgue antes de morrer! Um corpo varado de dores, não importa; mas -um espirito com a luz da razão!</p> - -<p>E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes -dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:</p> - -<p>—Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.</p> - -<p>E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega -que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.</p> - -<p>Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o -filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha, -que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam -vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em -Deus o salvamento da prima.</p> - -<p>Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e -comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro, -e balbuciou:</p> - -<p>—Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que -tu tens penado!...</p> - -<p>Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas -jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as -articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade, -excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe -estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes -intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o -coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.</p> - -<p>Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, -conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma -esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da -Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor -com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer -era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas -não para ella.</p> - -<p>É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em -encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com -ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E -Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o -coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.</p> - -<p>Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu -quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima -tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua -mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de -feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as -bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza -das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de -hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão -vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida -formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em -que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...</p> - -<p>O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com -bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por -Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a -denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos -de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava -Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão -soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, -estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos -rancorosos do velho odio civil.</p> - -<p>Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e -sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e -visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou -ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. -Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito -valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e -retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua -residencia para a quinta do valle de Santarem.</p> - -<p>Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas -de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era -o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas -juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres -esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe -seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns -parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se -vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as -amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo -que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas -estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia -d'elle e de sua mãe.</p> - -<p>—Se não podes dar-me vida, Alvaro—dizia ella—que vem -aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que -os move a piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens -sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu -vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia -Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria -contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido -de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, -estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a -razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o -natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, -Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á -curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora -feliz!...</p> - -<p>—Feliz!...—atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando -vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.</p> - -<p>—Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a -visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, -passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me -a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella -mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, -ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de -louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em -particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita -gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a -que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre -coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha -a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha -servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de -muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias -indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois -sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no -rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude -ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo -tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?</p> - -<p>Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. -Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:</p> - -<p>—Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade -que mereces?</p> - -<p>—Dá, minha Leonor...—balbuciou o internecido -moço—Dá... é a tua amisade... são as melhores lagrimas do teu -coração... Que lhe tenho eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava -para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que -minha santa mãe me trouxera do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, -gozei horas de alegria celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, -e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se -alumie á luz dos meus dias alegres... pallida luz, como a da lampada do -sacrario ao amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram -feliz... E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era -o sentimento que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da -paixão... N'aquelle tempo...</p> - -<p>—Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...—atalhou Leonor, -afogada de soluços...—Não me castigues tu, meu anjo de desgraça -e de compaixão...</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XIX</h4> - - -<p style="margin-left: 45%;">.... <i>Já dava no rosto a friagem<br /> -da noite da eternidade; só faltava regelar<br /> -de todo... e cahir.</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de<br /> -Monte-Alverne).</p> - -<p><br /></p> - -<p>Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do -leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a -paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito, -transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia -a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas -bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então -occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se -acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:</p> - -<p>—O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade -do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.</p> - -<p>A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que -ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus -vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle -amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e -contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto -ella, sorrindo, dizia:</p> - -<p>—Queres por força que a morte se namore de mim!</p> - -<p>Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e -extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles -extasis!</p> - -<p>—Vejo os teus dezoito annos, Leonor!—disse-lhe elle um -dia.</p> - -<p>—Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o -coração!—respondeu ella—A primeira paralysia era a peor...</p> - -<p>Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:</p> - -<p>—Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje -escondido de ti o unico segredo, que devia esconder—a sensivel -aproximação do meu fim.</p> - -<p>—Que é, minha mãe?!—exclamou o filho, correndo a -abraçal-a.</p> - -<p>—Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê -até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te -revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que -ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa -doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido -um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu -chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez, -Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te -dizer o fim para que te chamei!...</p> - -<p>—Diga, minha mãe...—atalhou Alvaro com simulada -quietação.</p> - -<p>—Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da -minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor, -ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer -que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma -esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora -final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te -amortalhará, meu pobre Alvaro!?</p> - -<p>—Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe—respondeu elle -tranquillamente após alguns instantes de concentração—Agora, -rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.</p> - -<p>No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa. -Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em -pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa, -e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como -quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a -confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração, -já em seu periodo final.</p> - -<p>Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que -lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no -collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de -Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o -XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que -vem assim intitulado: <i>Demonstração da equidade da Providencia para -com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da -dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação -dos seus soffrimentos.</i></p> - -<p>Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a -ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada -que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde -mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações -horriveis, que poucos sabem supportar.»</p> - -<p>—Não leias mais, filha...—disse Maria da -Gloria—conta-nos o que fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de -parecer-te nova a cidade! Ha tres annos que lá não tinhas ido!... Com -quem fallaste, filho?</p> - -<p>—Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá -demorar algum tempo para negocios nossos.</p> - -<p>—Algum tempo!—disse Leonor—e com que placidez de -espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E -podes, Alvaro?</p> - -<p>—São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar -a minha demora o mais que possa...</p> - -<p>—Soubeste—atalhou Maria—se teem sido cumpridas as -nossas determinações?</p> - -<p>—As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... -Parece-me que a vejo reanimada!...</p> - -<p>—Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas -parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A -esperança é tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste -ainda agora?</p> - -<p>Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou -placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres -abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a -quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.</p> - -<p>Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local, -senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e -foi para Lisboa.</p> - -<p>Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada -pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não -morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que -parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao -filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão -morro sem te dar o ultimo suspiro.»</p> - -<p>A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a -Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de -sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da -Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do -filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras -exclamações:</p> - -<p>—Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!</p> - -<p>—O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho. -Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!</p> - -<p>Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça -encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao -vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso -instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras:</p> - -<p>—Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; -e, se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este -mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem... -Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar -d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua -irmã querida... Deixo-t'a como filha.</p> - -<p>—Eu vou comtigo, Alvaro?—disse com muita doçura -Leonor—Ajuda-me? levas comtigo este meu esquife?</p> - -<p>—A mãe quer estar sósinha?—disse Alvaro.</p> - -<p>—Quero, filho: está ahi o meu confessor...</p> - -<p>Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo -pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes, -e disse ao padre:</p> - -<p>—Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças; -vinha espantar-me da serenidade da moribunda.</p> - -<p>Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado -Viatico.</p> - -<p>Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto, -beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para -vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso -assentimento.</p> - -<p>Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que -acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na -ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um -recanto escuro, com as mãos erguidas.</p> - -<p>Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas -dos santos-oleos.</p> - -<p>Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor -reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:</p> - -<p>—Não está aqui meu filho!?</p> - -<p>E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do -leito, e disse:</p> - -<p>—Aqui estou, minha mãe.</p> - -<p>Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na -voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração -convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua, -e pôde exclamar:</p> - -<p>—Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus!</p> - -<p>—Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...—disse o -padre Alvaro.</p> - -<p>Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:</p> - -<p>—Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome, -Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do -meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!</p> - -<p>Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia, -e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de -joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido -aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam -ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no -coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»</p> - -<p>Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou -em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>XX</h4> - - -<h4><a id="CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a></h4> - - -<p style="margin-left: 45%;"><i>Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!</i></p> - -<p style="margin-left: 48%;">J. SIMON (Le devoir.)</p> - -<p><br /></p> - -<p>E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos -estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!</p> - -<p>De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da -virtude, para entender que a virtude é boa?</p> - -<p>Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro?</p> - -<p>Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?</p> - -<p>Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas -com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas -atribulações.</p> - -<p>Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella -mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não -será o d'aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia -voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o -orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um -cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos -senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa -idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações; -será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica -incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito -viciado nos leva.</p> - -<p>Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm -n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus -olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela -cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome -tem, se não é a felicidade suprema?</p> - -<p>Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a -sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a -mudança do homem, ou o esforço d'elle sobre o coração do homem -amortalhado.</p> - -<p>—Leonor—disse elle—bem me vês: vesti-me assim para a -mim me vêr e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma -e as voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das -alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe, -até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo -dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se -levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha -prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua -paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu -agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o -morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de -te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por -esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás -cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma -casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha -vida.</p> - -<p>—A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...</p> - -<p>—Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que -sinto prazer em pedir-t'as.</p> - -<p>—E poderemos alli viver, Alvaro?—atalhou Leonor.</p> - -<p>—Eu viverei.</p> - -<p>—Tu! e eu não, meu primo?!</p> - -<p>—Não, Leonor—respondeu o padre com um ar de firmeza, que não -animava a ser contrariado—Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, -senhora d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu -lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos -levou a Deus a conta das nossas lagrimas.</p> - -<p>—E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me -deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do -coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda?</p> - -<p>—Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na -casa que lá temos?</p> - -<p>—Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que -me sirva.</p> - -<p>—E a chorar me pedes um convento, Leonor?</p> - -<p>—Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!...</p> - -<p>—Eu, bem vês.</p> - -<p>—Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas -lagrimas!...</p> - -<p>—Não são, não devem ser...—Alvaro concentrou-se, levantou ao -céo os olhos, e continuou:</p> - -<p>—Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de -regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos -Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã -iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu -proposito, dir-m'ohas, Leonor.</p> - -<p>No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre -Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de -Santa Joanna, e d'alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas -para a reclusão de sua prima.</p> - -<p>N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e -depós ella uma sumptuosa mobilia.</p> - -<p>O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe:</p> - -<p>—A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te -sentires alumiada da graça que fortalece e santifica.</p> - -<p>Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a -mão de leve no rosto, e murmurou:</p> - -<p>—Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe... -Nossa, de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer -a Deus.</p> - -<p>Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada -de Leonor, e sahiu.</p> - -<p>No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o -estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio -alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue. -Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e -decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em -casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara -apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.</p> - -<p>Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes. -Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de -algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma -pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia -elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia -d'ella.»</p> - -<p>Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!</p> - -<p>N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle -exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de -plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a -tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a -razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e -os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe -obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos -romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira -amortalhado no seu habito.</p> - -<p>É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e -que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a -decrepidez.</p> - -<p>Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á -grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço -novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.</p> - -<p>Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum -tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era -encontrarem-se na presença de Deus.</p> - -<p>Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle -homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo. -Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o -officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição -entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a -gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do -amigo digno de Alvaro Teixeira.</p> - -<p>Não sei que mais lhes possa dizer da vida d'aquelle padre dos Olivaes. -Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos -dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto -venerando.</p> - -<p>Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das -suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e -nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a -garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra. -Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao -annunciarem-lhe a agonia de Leonor.</p> - -<p>Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos -instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas, -que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de -Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este -vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de -Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era -natural; e, ao sahir d'aquelles extasis, dizia ás suas amigas que -estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N'um d'estes arrobamentos é -que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu -seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti, -que as minhas lagrimas purificaram-me.»</p> - -<p>Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos -inconciliaveis.</p> - -<p>—Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de -que ella estava em agonia da morte?</p> - -<p>—Não se lhe deu tal aviso;—respondeu a -prioreza—Leonor, na vespera do seu trespasse, tinha dito que, se o -seu primo não viesse vêl-a até ás quatro horas do dia seguinte, só -na presença de Deus a veria, Ora, nós tanta confiança tinhamos nas -previsões da virtuosa senhora, que nos apressamos a chamal-o.</p> - -<p>—Deu-se, por tanto um milagre!—atalhei eu.</p> - -<p>—Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a -sua serva para nos edificar—respondeu a prelada—O padre -Alvaro chegou minutos depois da hora que ella dissera.</p> - -<p>—Serei importuno fazendo mais uma pergunta?</p> - -<p>—Queira dizer.</p> - -<p>—Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um -passado, anterior a trinta annos?</p> - -<p>—Não sabemos—respondeu promptamente a prioreza—o que -podemos dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n'esta casa, quiz que as -suas criadas lhe chamassem Magdalena.</p> - -<p>Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.</p> - -<p>Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte -annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o -fogo da indole e do instincto inextinguivel n'elle. Não me entendia com -o mysterio de semelhante conversão.</p> - -<p>Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de -orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na -igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um -dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e, -á orla inferior, li estas palavras: <i>Flevit amàre</i>: CHOROU -AMARGAMENTE.</p> - -<p>Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a -primeira da santificação.</p> - -<p><br /><br /><br /></p> - -<h4>FIM.</h4> - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of O Romance de um Homem Rico, by -Camilo Castelo Branco - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO *** - -***** This file should be named 63461-h.htm or 63461-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/3/4/6/63461/ - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by The Internet Archive.) - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. 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