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-Project Gutenberg's O Romance de um Homem Rico, by Camilo Castelo Branco
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: O Romance de um Homem Rico
-
-Author: Camilo Castelo Branco
-
-Contributor: Thomaz Ribeiro
-
-Release Date: October 14, 2020 [EBook #63461]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images
-generously made available by The Internet Archive.)
-
-
-
-
-
-BIBLIOTHECA ELYSIO
-
-CAMILLO CASTELLO BRANCO
-
-(Visconde de Corrêa Botelho)
-
-O ROMANCE DE UM HOMEM RICO
-
-TERCEIRA EDIÇÃO
-COM UM PROLOGO DE
-
-THOMAZ RIBEIRO
-
-
-.... Connaitre la valeur de l'argent
-et le sacrifier toujours, soit au devoir,
-soit même à la délicatesse, c'est une
-vertu réelle.
-
-SENANCOURT (Rêveries).
-
-
-PORTO
-LIVRARIA ELYSIO
-DE JOAQUIM ELYSIO GONÇALVES--EDITOR
-282, Rua Formosa--R. Sta. Catharina, 198
-
-1890
-
-
-
-INDICE
-PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO
-PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
-INTRODUCÇÃO
-CONCLUSÃO
-
-
-
-
-PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO
-
-
-«--Este foi o mais querido dos meus romances»
-C. Castello Branco, Prefacio da
-2a. edição do _Romance d'um homem
-rico._
-
-
-Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu livro dilecto esta
-sentença:--«O homem não acha em si os alivios da razão quando os
-vicios lh'a degeneram», estava julgando a sua propria alma no tribunal
-austero da consciencia.
-
-Não vejam n'isto censura, os melindrosos por conta alheia.
-
-O romancista, se não é um armador de encommendas, um preparador de
-effeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se
-sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus
-personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que
-lhes attribuiu, se com elles ama, odeia, chora ou blasphema, faz como o
-sabio, o martyr da medicina, que, para se convencer e para não falsear
-a sciencia que professa, muita vez se envenena ou se dilacera.
-
-Camillo era aqui o pensador, o philosopho, o analysador frio do seu
-excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não vêr distinctamente
-o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe
-lucida a verdade, fôsse onde fôsse o esconderijo d'ella, fôsse qual
-fôsse a distancia em que demorasse.
-
-Se o romancismo é mester, o escriptor é artifice; se é arte, se é
-acto impulsivo, o romancista é poeta.
-
-Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu romance mais
-querido:--«Não sei que haja ahi outros incentivos que me chamem aos
-olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer vêr chorar e vibrar de
-não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me cazos da
-natureza d'aquelles: faça-me acreditar na existencia d'umas almas que
-vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina»,
-declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o genero da sua
-poesia.
-
-E como quem diz:--o symptoma da sua doença.
-
-
-Pois não têem sido apodados de--loucos--os poetas? Se loucura é a
-desconformidade de actos ou de sentimentos com as _regras da fria,
-pautadas e articuladas no codigo do senso-commum_, vamos, que não têem
-os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos
-seus contemporaneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum
-rasto de fatua phosphorescencia na travessia longa ou curta da sua
-derrota.
-
-Loucura _lucida_, mas loucura incontestavel; loucura impulsiva e
-incuravel, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os applaude e os
-escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão.
-
-A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora,
-a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata,
-a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a
-de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora,
-loucuras foram; por mais que os poetas d'hoje queiram malsinar aquelles
-homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde.
-
-Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso;
-não cabe nas leis da normalidade.
-
-Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os
-vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e
-Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas
-cezareos,--os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias
-realengas:
-
-«_Mecenas atavis œdite regibus_»
-
-outro, cantando apotheoses divinas:
-
-«_Deus nobis hœc otia fecit._»
-
-Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando
-lhe estrophes accommodaticias.
-
-Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio.
-Raras vezes pegou a enxertia; é certo.
-
-O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante
-ao exorcismo; torna-se n'elles mais patente, porque, sob aquella forma,
-estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao
-menos--apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os
-perigos;--Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução
-d'um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue
-apagar a fogueira d'um _auto de fé_ por um _acto de fé_, ou de
-prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente
-onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira
-porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o _virus-rabico_
-expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue
-da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da
-experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,--heroe sem
-hymnos!--á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d'uma cratéra
-para devassar os segredos da erupção vulcanica.
-
-Quantos insensatos!
-
-Se depois da loucura da sciencia quizer alguem percorrer a da
-religião,--S. Macario, S. Simeão Stylita, Santo Antonio, as
-allucinações dos extasis em que se vê Deus e os ceos, o genio das
-prophecias, a inspiração dos apostolos, a coragem alegre dos martyres,
-que exuberancias de loucura, que degenerescencias pathologicas,
-provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a sciencia nos
-estudos da sua extensissima symptomatologia?
-
-E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!...
-
-A gloria! a honra..., mas que são honra e gloria? São tambem uns
-sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas
-desconformidades _com as regras da fria razão, pautadas e articuladas
-no codigo do senso-commum._ Produzem as monstruosidades de Alexandre no
-Oriente, dos trezentos nas Thermopylas, dos Gracchos em Roma, de Antonio
-em Philippes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em
-França; de Bonaparte na Italia, do Infante-Sancto em Fez, de Saldanha
-no Porto e em Montevideu, de Bartholomeu Dias, de Vasco da Gama e de
-Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas
-suas conquistas, de Xavier no apostolado.--Deus, familia e patria!--O
-que estes motes produziram de loucuras!
-
-E o amor... e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações, quantos
-desvios da razão e do senso-commum não produziram e não produzem!
-d'esses que espantam o mundo e se julgou,--ingenua simplicidade!--que
-honravam e ennobreciam a especie humana?
-
-Tudo o que foi épico e se chamou grande e bello e mereceu canticos e
-triumphos e apotheoses e historia e monumentos e centenarios e culto,
-atravez de seculos e millenios, tudo hoje é condemnado pela sentença
-fulminante d'este bom-senso burguêz, comesinho, utilitario, pratico,
-omnipotente e inexoravel. A transformação parece completa; Sancho
-depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu
-desenterrou o bezerro d'ouro, não para o adorar mas para o negociar; o
-codigo depôz a historia; a pirataria depôz o codigo; as notas e as
-acções bancarias collaram-se nas folhas da epopêa.
-
-Christo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e
-abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição:
-esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a
-grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento,--foi um
-rebaixamento; inutil por improficuo. E será inefficaz em quanto a
-sciencia, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que
-geram as grandezas, e com ellas o desnivelamento successivo da
-humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociaes.
-
-Ahi estão ellas--nas sciencias, nas artes, nos descobrimentos de toda a
-especie; mais humanos, mais proficuos talvez que os antigos, mas
-careceram d'elles; que não póde haver continuação sem principio. Das
-pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de
-Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em
-rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlantico, o Pacifico, e
-rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram
-os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a
-inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os
-isthmos nascêram os abridores de canaes; as assoladoras naus, que até
-escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos
-sequestrados ao convivio dos outros povos do mundo, andaram, com graves
-perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quaes hoje passa
-livremente o commercio, por baixo dos quaes hoje se assenta o
-telegrapho.
-
-
-Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do genio se
-não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido
-Camillo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciencia que tenho
-estado a fugir de collocar na classe dos loucos o nosso presado
-romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por
-conjectura eu tenho de o metter n'esta companhia, que me vi forçado a
-provar-me que a companhia póde ser de gente desafortunada, mas é
-provadamente illustre.
-
-Nunca a fria razão, nunca o senso-commum fizeram couza que não fosse
-fria e commum. Excellentes caixeiros e guarda-livros do commercio,
-excellentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na
-guerra, excellentes officiaes da fazenda, na marinha, professores,
-sacerdotes (para conegos, não para missionarios), juizes, magnificos
-ecónomos e descobridores de pechinchas--o espirito conservador--os
-Wychnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantissimo,
-imprescindivel serviço faz á humanidade esta gente de são juizo e
-razão fria, mas, por conselho d'ella, nem a mãe defenderia o filho
-contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra
-as chammas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o naufrago contra as
-ondas. Temperatura egual e morna;--a selvageria tropical, primitiva,
-tendo Sancho na presidencia e o velho de Camões no conselho de estado.
-
-O senso-commum até, por concessão transitoria,--sagaz bom-velho!--já
-creou, para illudir e desnortear poetas e romancistas, uma litteratura;
-em odio ás artes, uma arte; em odio ao genio, engenhos. Louvavel
-empenho na verdade. Vê doenças graves e pretende cural-as; vê
-enxamear a loucura, a mais grave das molestias, e com ella exgota a sua
-therapeutica. Benemerito desejo! Mau será se a cura fôr peior que a
-doença.
-
-De muito dizer-se ao theorico:--sê pratico!--faz-se d'elle ás vezes um
-ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas
-variadissimas.
-
-De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de
-Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;--um grande poeta e um grande
-romancista... contrafeitos; e com elles--o satanismo e o naturalismo;
-porém--naturalismo--de meza de autopsia ou de laboratorio chimico.
-
---«Faz-me tristeza pensar,--escreveu Camillo n'um dos prefacios do seu
-_Amor de perdição_,--faz-me tristeza pensar eu que floreei n'esta
-futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser descriptas sem
-grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a rhetorica
-de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de
-Quintiliano á do _Collette-encarnado._ A gente imaginava que os
-alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem
-me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para
-espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N'aquelle tempo,
-inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na
-escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se
-narcizar n'um espelho fiel.............................. Já não verei
-onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como
-a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que
-atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo
-tempo por effeito d'uma grande revolução rigolboche.»--
-
-
-Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque
-é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom
-e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama
-era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar
-accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o
-melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar
-mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de
-Maudsley.
-
-Não se modificou--transfigurou-se; o que, longe de provar juizo prova
-só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença.
-
-Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial. Na
-_Phedra_ pôz Platão na bôcca de Socrates:--«Os maiores bens são
-produzidos por um delirio inspirado pelos deuzes.»--O--_Est Deus in
-nobis_,--que traduz, senão a loucura do genio? De Christo escrevia S.
-João--«Elle é possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para
-que o escutaes?»
-
-Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou
-em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos,
-aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e
-electrizar a atmosphera social, varrendo d'ella os miasmas putridos
-d'esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os
-povos como as nevoas densas da palude.
-
-Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela
-sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas,
-toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima.
-
-Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos
-arvoredos.--A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do
-ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados,
-sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo,
-patrimonio de todos.
-
-N'um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir
-para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma
-rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:--«De mim digo
-que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de
-crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos.
-Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido
-heroes. Além d'isso _apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu
-caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que
-passam._ Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza
-menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do
-pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a
-singularidade de nos não lastimarmos.»--
-
-
-Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola
-novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes
-honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir,
-que nunca lhes quiz mal.
-
-Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as
-_flôres do mal_; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados
-em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e
-não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não
-applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha
-a ingenuidade de julgar sagrados.
-
-Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e
-d'ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir,
-indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que
-o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os _espiritos fortes_
-sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor.
-
-Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida.
-
-Desesperança formal nunca eu lh'a conheci.
-
-Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre
-Alvaro Teixeira:--«A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os
-luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de
-novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por
-perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que
-apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco,
-entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a
-pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.»
-
---Deus--era o astro que procurava na noite das tribulações; e se não
-era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente desejo
-a mais constrictora ancia da sua alma.
-
-Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça
-paternal,--a da caridade?--«A solidão sem Deus não serve para
-infelizes maus»--nos diz elle no seu livro de consolações--_O romance
-d'um homem rico_--onde pretendeu exaltar, acima de todas, a virtude da
-resignação:
-
---«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado...
-Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a
-bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e
-encontram os de Deus.»
-
-E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna
-inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do
-seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma
-cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes:
-
---«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como additamento á
-«Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota.»--
-
-E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto espirito
-como elle é, não podia desconhecer que a verdade da representação
-das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas obras da
-arte:--«Rien n'est beau que le vrai».--Por isso elle nos diz:--...
-«Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações de que me
-sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da
-verdade.»--
-
-Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a
-indole do artista que o reproduz.
-
-O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta,
-existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou
-obra d'arte que se funda n'estes affectos, sentimentos ou mostras
-externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo
-existe na natureza.
-
-Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a
-devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga.
-
-Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar
-revelações e inspirações por todos esses theatros em que a
-humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se
-vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o
-hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe
-fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a
-verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto
-e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não
-é educadora, não é nada e para nada serve.
-
-Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo
-que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os
-eremitas do passado, os que foram formados n'outra escola com outros
-princípios e outras aspirações.
-
-E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes
-impuridades espremem dos bicos das suas pennas!
-
-Vêrem a cutis fina e transparente d'uma mulher formoza e em vez de
-sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com
-enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas,
-com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se
-sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da
-sepultura!--chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal
-insomnia,--signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha virtudes,
-achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na
-heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar
-só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal,
-falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias.
-
-
-Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A
-proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não
-acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em
-quando Camillo escreve a _Corja_ ou o _Euzebio Macario_ e Zola escreve o
-_Sonho._ Passos dados para a concordia senão para a unificação das
-escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n'um proximo
-futuro.
-
-
-Ha na _Brazileira de Prazins_ uma ultima, talvez definitiva, feição
-litteraria de Camillo Castello Branco. Alli encontram-se primorosos
-quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo d'um
-assassinato encommendado e ajustado, o carregar da clavina, a sahida
-furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas
-ante o crucifixo, até que elle volta do seu mallogrado intento, dando
-logar ao jubilo, em acção de graças, da mizeranda espoza, que julga
-ter obtido o milagre pela intercessão das suas lagrimas e das orações
-de suas filhas, são primores d'arte dos mais subidos quilates.
-
-O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de sanctos e livrinhos de
-orações, á porta do templo onde funccionam os missionarios, e a
-murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrilego
-bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asphyxiante dos
-exorcismos applicados á pobre hystérica, sobre sêrem paineis de
-genuina e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos
-procedimentos inquisitoriaes e do abastardamento e falsificação dos
-textos sagrados, postos á disposição d'um fanatismo intransigente ou
-d'uma hypocrisia revoltante.
-
-Alli, sim, póde estudar-se o verdadeiro, o possivel realismo, n'um
-romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte.
-
-* * *
-
-Camillo Castello Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os seus
-duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente anciedade e vão
-sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas, já em
-edições populares. É certo que os contemporaneos do grande escriptor
-se acham empenhados na sua glorificação em vida. Acclamado em
-plebiscitos--primeiro escriptor portuguez da actualidade,--honrado pelos
-poderes publicos, á porfia, procurado por todos aquelles que os
-combates da imprensa traziam d'elle distanciados, a unanimidade
-congrega-se em tôrno d'elle, no unisono d'uma apotheose sem exemplo.
-
-Portugal do seculo XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas
-ingratidões.
-
-Elle o reconhece agradecido, aguardando n'uma anciedade dolorosissima
-vêr-se restituido ao estudo e ao trabalho--sua religião e seu
-confôrto.
-
-Teve de abandonar a lida, o heroico triumphador. Aguia que desafiava os
-deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas
-caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no
-insondável abysmo d'uma escuridão a cada instante mais densa.
-
-Como elle espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um
-relampago, tenue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança!
-
-Eu tenho assistido a essa lucta que mais parece uma agonia.
-
-A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios
-d'acção, mas pede-lhe paciencia! e o homem que escreveu este livro,
-que soube dar tantos conselhos e offerecer tantos exemplos de
-resignação, não póde resignar-se.
-
-Como todas as cazas lhe dão trevas, foge de todas as cazas, de todas as
-terras, e até de todo o convivio,--porque ouvir, somente,--aquelles que
-o procuram, é ter multiplicados testemunhos da cegueira, que mais, dia
-a dia, vae julgando incuravel.
-
-Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose
-póde mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo.
-
-Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe
-fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas _Chronicas duas
-rainhas_ que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina
-promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle
-escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança
-fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença
-volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do _sempiterno
-horror._
-
-Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como
-seu ultimo recurso.
-
-
-Tristissimo.
-
-
-Assim vive,--se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior
-que a morte,--o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas
-linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte
-lhe venha n'um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe
-pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem
-dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os
-braços a procurar mão valedora....
-
-Meu pobre amigo!
-
-Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a
-amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n'esta
-esperança.
-
-
-Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n'uma caza cheia de confortos
-e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus
-mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe
-faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.
-
-Quantas vezes tem elle repetido:
-
---«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel para
-poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi
-_O romance d'um homem rico!_»
-
-
-Carnaxide, 1 de julho de 1889.
-
-
-_Thomaz Ribeiro._
-
-
-
-
-PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
-
-
-Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que
-aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance
-prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á
-força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal
-me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que
-me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica,
-lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava
-em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver,
-soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem
-modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar
-obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não
-sabia gastar melhor e mais aproveitados.
-
-Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel
-amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte
-esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que
-principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades
-inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou
-não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da
-intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão
-glacial da desfortuna.
-
-Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.
-
-Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites
-solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios,
-quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me
-esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça:
-deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de
-lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.
-
-Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande
-esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos
-balsamos dôces.
-
-Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor
-do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.
-
-Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o
-padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de
-Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro
-chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares
-que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze
-casamentos felizes.»
-
-E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em
-volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro.
-
-
-Bellas, 19 de Maio de 1863.
-
-
-CAMILLO CASTELLO BRANCO.
-
-
-
-
-INTRODUCÇÃO
-
-
-_As tribulações dos santos são enigma:
-uma cousa parecem, e outra são e significam:
-parecem miserias da fortuna,
-e são concelhos da Providencia Divina,
-e signaes da felicidade eterna._
-
-P. M. BERNARDES. (Silva de varios
-dictames espirituaes.)
-
-
-Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um
-bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo,
-ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima
-d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha
-memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara
-com as flores d'outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a
-saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me.
-
-Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.
-
-Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma
-padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas!
-A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que
-recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo
-para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não
-infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:
-
-
-_Héritiers des douleurs, victimes de la vie,
-Non, non, n'espérez pas que rage assouvie
-Endorme le Malheur,
-Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense
-Engloutisse à jamais dans l'éternel silence
-L'éternelle douleur!_
-
-
-E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um
-doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella
-feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!
-
-E todos os outros mestres de bardos melancolicos?
-
-Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!
-
-Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de
-carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a
-veneranda calva com seu barrete de troçal preto.
-
-Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não
-correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas
-disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S.
-Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se
-confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo
-chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»--ao corpo
-entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as
-cousas, e muitas outras.
-
-Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que
-eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio,
-e este primeiro capitulo deve lêr-se.
-
-Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu
-companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico
-semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela
-de aço reluzente.
-
-Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o
-chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro
-vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga,
-marchetada de madre-pérola.
-
---Póde fumar á sua vontade, se fuma--disse-me elle.
-
-Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira,
-que elle não aceitou.
-
-Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta
-palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem
-que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas
-uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma
-do heroico inimigo dos tyrannos.
-
---A moral!--dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto se
-vaporou--a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem
-poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e
-intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.
-
-Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos
-inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo
-recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura,
-a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos
-maus e dos males da vida.
-
-Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso
-convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento
-interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza,
-contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor!
-Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o
-feliz?
-
-Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:
-
---Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?
-
---A Santarem.
-
---É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de
-saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de
-felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só
-d'este mundo, não dura mais que uma hora.
-
---Ha quantos annos eu lá não fui!...--continuou o padre no tom magoado
-de entranhada saudade--E já agora é tarde... é o anoitecer da vida...
-
---Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!--interrompi eu.
-
---É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas lagrimas;
-e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a
-distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a
-saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e
-não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.
-
---Creio que tem--disse eu--é vêr e amar essas vidas em Deus, chamal-as
-em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das
-lagrimas...
-
---E da oração...--disse o padre, e proseguiu, depois de breve
-silencio--Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições
-perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo...
-
-E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos
-longas e ossudas sobre o peito.
-
-Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação,
-cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua
-linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles
-parecem intelligentes e desgraçados.
-
---Fica no «Poço do Bispo?»--perguntei.
-
---Não senhor; vou para os «Olivaes.»
-
---A passeio, ou é de lá?
-
---Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas pittorescas,
-em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes
-abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos
-nós comtigo?
-
-Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:
-
---Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se na
-humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o
-_riso e vacca_ de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta do
-Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou
-fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo
-se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar
-n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de
-pedir a Deus o descanço da minha alma.
-
-Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras
-doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo
-que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria,
-que de si deixou, com a justiça humana.
-
---Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro Teixeira, e
-não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa;
-mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem
-communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a
-palavra «amigo.»
-
---Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão--Que
-o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem consultar o
-raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem,
-que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipathia de um
-primeiro encontro.
-
---Como se chama?
-
-Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba
-por syllaba, e depois exclamou de repente:
-
---Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos.
-Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria.
-Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe
-cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.
-
---É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: vinte
-paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...
-
---Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer
-ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por
-onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, _feliz
-culpa_, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda
-todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da
-porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua
-ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a
-causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não
-podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e
-castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre
-apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos
-padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas
-sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar
-vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto
-que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades
-santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da
-razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados
-defensores da exclusiva razão do catholicismo...
-
-N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita
-critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do
-levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque
-me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da
-eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os
-«Olivaes.»
-
-Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção.
-
---E portanto...--disse elle--Adeus, meu amigo, não ha tempo para mais.
-
---E portanto--disse eu--não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu
-é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas pittorescas
-ruinas dos «Olivaes.»
-
---Fica!--exclamou elle com alegria--Pois bem haja!
-
-Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.
-
-Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o
-conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da
-Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de
-ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao
-funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais
-oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O
-homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre
-encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava
-os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de
-mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou,
-segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um
-mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o
-intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez
-estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e
-ainda assim a boa escolha.
-
---Ora vamos lá--disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se ao meu
-braço--Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão
-que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e
-vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a
-mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença
-que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não
-renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando
-alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e,
-depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a
-flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes,
-outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não
-se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se
-apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?...
-
---Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar
-alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e
-dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.
-
---Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a
-maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo
-e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos
-annos me faz?
-
---Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.
-
---Não, senhor: tenho quarenta e seis.
-
-Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle
-homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que
-lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os
-vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda
-rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As
-cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso
-recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos
-joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração
-d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra!
-Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar
-diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus
-gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando
-eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião
-insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem
-do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada
-lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não
-cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas
-magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se
-adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte
-paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio
-caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da
-sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins
-com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das
-lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a
-tua essencia de anjo.
-
-
-
-
-_Este era o seu refugio, o seu descanço._
-
-Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)
-
-
-A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as
-almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante
-das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as
-alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.
-
-No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas
-abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades
-comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que
-escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se
-avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo
-pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente
-silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do
-sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler.
-Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro
-beijo do sol, e disse:
-
-«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu,
-comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia
-desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu
-Sardanapalo!»
-
-Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.
-
-Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás
-masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da
-terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem
-do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da
-historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle
-baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me
-estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um
-bastião, resmoneou:
-
-«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de
-carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia
-de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.
-
-Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu
-gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e
-fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello
-iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.
-
-Outro caso:
-
-Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de
-uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco
-de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes
-enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua
-estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos
-cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o
-coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que
-descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus
-cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do
-myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das
-papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu
-scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar
-a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção:
-
---Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a couve
-lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras annuaes.
-
-Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao _Matta_, ou á _Taverna
-ingleza._
-
-Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular
-tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.
-
-Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir
-onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que
-deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais
-esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias
-que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é
-salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.
-
-As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do
-padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»
-
-A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé,
-amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes.
-Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do
-céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas
-pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras
-hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta
-marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das
-janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão
-agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de
-vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.
-
-Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso,
-alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes
-circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando
-passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este
-ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter
-sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos
-senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim
-imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões
-rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.
-
-Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e
-muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com
-artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no
-centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario,
-através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu
-clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de
-castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das
-armas do tecto.
-
-Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á
-imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não
-tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava
-uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se
-então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um
-atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas
-camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.
-
---Não se impaciente, senhora Eufemia,--disse o padre.--Ande lá de seu
-vagar, que nós não temos pressa.
-
---Valha-me Deus!--disse a velha afreimada--este berzabum do negalho
-parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosario se
-foi imbelinhar!
-
-A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a
-tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a
-miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se
-d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda
-inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando
-o padre pacientemente desenredava a cambulhada.
-
-D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e
-residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um
-d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para
-hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século
-passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com
-espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados
-a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com
-reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de
-florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e
-D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do
-ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos
-Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no
-desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala,
-cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.
-
-Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella
-examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande
-jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante
-estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de
-pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro
-de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa
-copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme
-sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos
-entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago.
-Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs
-como á competencia com as cigarras.
-
-Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de
-amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de
-armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do
-edificio.
-
---Quem vive n'aquella bonita casa?--perguntei eu.
-
---Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa--respondeu o padre--Foi
-dos que foram donos d'esta em que vivo...
-
-Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no
-olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia
-com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto
-aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida,
-se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia
-responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação,
-era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.
-
-Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho
-para mim, disse:
-
---Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que
-lhe dou. Venha d'ahi.
-
-Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada
-a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau
-preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara
-duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a
-fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em
-ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com
-referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos
-infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto
-era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a
-metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce
-melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que
-mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas
-dos «Olivaes.»
-
---Já sabe--disse o padre--que tem de fazer aqui penitencia da
-irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.
-
---Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!--disse eu sem simular o
-enthusiasmo--A poesia está aqui!
-
---A poesia dos prophetas de Jerusalem;--atalhou o levita--a poesia das
-lagrimas...
-
---E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos
-desventurados n'este mundo!--acrescentei eu, enlevado no meu rapto de
-cinco minutos--Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna
-ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os
-alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que--é a fé,
-a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra
-brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida,
-e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da
-sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se
-refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão
-que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O
-homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a
-fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as
-suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de
-si é que está a salvação. Em Deus é que...
-
---_Em Deus_--interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava
-esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a felicidade,
-o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, não
-acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas
-contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que
-o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as
-consequencias. Se a felicidade--a da consciencia, entendo--é obra do
-acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta!
-Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu
-respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de
-acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do
-bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo,
-protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os
-allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada
-dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus
-não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que
-os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos
-d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados
-á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa
-fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de
-desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do
-justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto
-ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta
-d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar.
-O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as
-paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola
-d'outra luz, se não a Deus?
-
-Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em
-si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar
-alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os
-penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela
-salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes
-esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o
-Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos
-imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A
-solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os
-absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no
-ermo; bom é, porém, que não venham aqui _ungir os braços para sairem
-de novo á arena._ O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os
-_luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem
-com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos
-vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe
-eu se tem horas de jantar acostumadas._
-
-Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu
-respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era
-proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da
-casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas
-soleiras de duas portas.
-
-
-
-
-.........................
-_No has visto mas?... Vuelve á la
-pradera, hijo mio, por que hay en
-ella cosas mas dignas de tu
-atención_.........................
-_Dios estaba en medio de los campos.
-No le has visto? A él debe la
-pradera su belleza; las miradas
-de Dios animabam la claridad del
-sol_..........................
-_No has oido mas que él murmullo
-de los arroyos, et gorgéo de las
-aves, y el viento que mecía las ramas
-de los árboles? Vuelvebe al
-bosque, hijo mio, porque tus oidos
-percibiran cosas mucho mas grandes_...
-
-ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de
-la primera edad.)
-
-
-Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever,
-despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle
-remançoso descanço do corpo e socego de espirito.
-
-A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda
-instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se
-nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois
-edulçora os azedumes de largos annos.
-
-Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava
-delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira
-tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por
-entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o
-rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos
-immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa.
-Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a
-casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive
-n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então
-ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella,
-já com as mãos erguidas.
-
-Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:
-
---Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas
-ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar.
-Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem
-comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não
-me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem
-que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro...
-
---Onde vai dar comsigo n'esse arrazoado?--atalhou.
-
---Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava fazendo.
-
---Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso,
-reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir
-espairecer nos «cafés» de Lisboa.
-
---Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal de
-mim.
-
---Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á
-caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos,
-tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e
-volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me
-agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.
-
-O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi
-beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação d'estas lagrimas.
-Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete
-annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu
-pai m'as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi
-está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com
-um abraço.
-
-No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de
-olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de
-grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.a Eufemia com o almoço,
-e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.
-
-D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia
-que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de
-gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada,
-os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto
-das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de
-vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do
-nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas
-convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello
-com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:
-
---Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até este
-ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos
-meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro,
-plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.
-
-Reparei n'outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: _L. A._, quasi
-illegiveis pela sobreposição da casca.
-
---E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro?
-
---Tambem.
-
-Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o
-recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões
-do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o
-chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos
-cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos
-silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá
-hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio
-Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o
-leitor não acha sal n'estes ditos, o padre tambem lh'o não achou. De
-instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora
-antes claro e aberto ao contentamento interior.
-
---Que tristeza é essa?!--perguntei.
-
---A tristeza do homem, que não póde ser anjo--respondeu elle,
-trabalhando por reprimir as lagrimas.
-
-De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia
-replicar, nem consolar.
-
-Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram,
-tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua
-reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance
-denominado VOLUPTÉ, _Voluptuosidade!_ isto oferecido pelo homem de
-Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com
-fervor d'um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração
-do justo me trouxera do céo! A _voluptuosidade_ de Sainte-Beuve, aqui,
-n'este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do
-Espirito Santo!...
-
-Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:
- . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
-«Entende o editor d'esta obra que as pessoas
-nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella
-tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja
-moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações
-menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás
-pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas,
-não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.»
-
-Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais
-brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em
-trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha
-de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e
-pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o
-espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os
-futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.
-
-Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.
-
---Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um amigo--disse
-o padre--Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com
-profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quizera ter-lhe
-escripto este romance que o «Manual d'Epicteto» ou a «Imitação de
-Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o mundano, o penitente, o
-christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser tudo isto, é ainda mais,
-é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não
-ser o de Job: _Homo natus de muliere..., repletus multis miseriis_
-«homem, nascido da mulher, acervo de miserias sem conto.»
-
---Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a
-desculpem?--atalhei eu.
-
---Porque não? faça.
-
---Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os
-rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não ha?
-
---Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,--perdôe-me a profanidade--mas
-as veredas muito differentes.
-
-Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com
-alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a
-luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:
-
---Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. Não
-é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem
-«Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados
-á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.
-
---Mereço eu tanto?!--disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e
-lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.
-
---A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja,
-nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos
-fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.
-
-Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das
-letras, e continuou depois d'este theor:
-
---Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão
-d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus
-silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não
-já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É
-natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor.
-Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca
-fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a
-ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de
-ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei
-quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que
-os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que
-monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada
-passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis,
-perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco
-cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo
-vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim
-encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das
-injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que
-eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face
-agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de
-melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só
-commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns
-e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se
-acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que
-se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz
-e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem,
-porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem
-que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem
-sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?
-
---De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!--respondi--Quem é que
-o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo
-das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que
-se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama.
-
---Não tanto--replicou sem embiocar a caridade--Sejamos generosos e até
-piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das
-posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da
-perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua
-descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como
-o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O
-sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de
-agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que
-retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de
-dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado,
-que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de
-voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer
-escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?
-
---Deve dizer--respondi commovido--que homem, que tal fez, é um dos
-escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.
-
---A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu
-tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois
-saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie
-humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco
-da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes
-no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na
-lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes»
-vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as
-«Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um
-sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão
-pêcas glorias da especie humana.
-
-A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.
-
-Jantamos.
-
-Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem
-os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com
-vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os
-santos, como o padre Alvaro.
-
-
-
-
-_Ibit homo in domam œternitatis suœ_
-Irá o homem para a casa da sua eternidade.
-
-ECCLES.--12. 5.
-
-
-Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da
-mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e
-tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem
-alguma outra cobertura.
-
---Ahi tem--disse entregando-me o livro--Leia, como quem lê um romance
-de historia authentica, escripto por pulso não vezado a escrever
-novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de vinte
-primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada
-uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.
-
-Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do
-acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na
-minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa
-devoção.
-
-Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o
-livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:
-
-
-_Ingredere in petram, et abscondere fosso humo_
-
-
-Quer dizer:
-
-ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA
-COVA.
-
-
-E mais abaixo o verso do psalmo 117:
-
-
-_Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini._
-
-
-Póde assim trasladar-se em vulgar:
-
-
-NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.
-
-
-A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns
-capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em
-conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas
-correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou
-entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras
-palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.
-
-Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e
-relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando
-a do sol me dispensava da outra.
-
-Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus
-vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á
-modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se
-entendera por idolatria.
-
-O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação,
-nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de
-hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a
-consciencia em Deus.
-
-Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não
-cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas
-o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle
-justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio,
-balbuciando commovido do meu embaraço:
-
---Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse.
-Diga-me agora: que aproveitou?
-
---Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, sei
-agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que
-Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»
-
---E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...
-
---E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo...
-
---Pouco aprendeu...--replicou o padre--Eu queria mais que tudo isso...
-Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso
-dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei,
-se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho.
-Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a
-bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e
-encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e
-commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se
-a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro,
-outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude
-dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem
-amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na
-ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira,
-ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus.
-Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha
-consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se
-de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas
-que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer,
-porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus
-que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a
-fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado
-ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus
-primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões
-inofensivos, o _post tenebras spero lucem_ de Job.[1]
-
-Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios
-espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe
-ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade
-pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e
-até para passear desassombradamente.
-
-Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta
-chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez
-habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe
-havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.
-
---Vou hoje de tarde a Lisboa--me disse elle, placido e triste--Se quer
-ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si.
-Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as
-ruinas, mais contente voltarei.
-
-Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes»
-ser-me-ia dolorosa.
-
-Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de
-Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha
-hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir
-para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o
-leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa
-Martha.
-
-Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao
-pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante
-do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza
-cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo
-tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços
-da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de
-veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que
-esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos
-na grade.
-
-Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas
-ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus
-trabalhos.»
-
-Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me
-disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu
-braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o
-achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi
-durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos
-encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse
-esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á
-semelhança das que regelam na face d'um cadaver.
-
-E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão
-absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma
-palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!
-
-Parou a sege.
-
-Saltei para amparar o padre na descida.
-
---Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro
-andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui
-fallar-me.
-
-Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:
-
---Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os
-«Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite.
-Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos
-as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou
-avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da
-conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a
-sua mão de amigo, e adeus.
-
-Voltou-se para mim, e disse-me:
-
---Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o
-poder fazer sem custo.
-
---Pois não me quer comsigo agora?!--atalhei.
-
---Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem
-consolados por ninguem.
-
-Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.
-
---Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivaes»--ajuntou elle.
-Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.
-
-Fiquei conversando com o amigo do padre.
-
---Não o tornaremos a ver--disse-me elle consternado--Padre Alvaro não
-vive muitos dias; o senhor verá. Eu d'antes, quando o via desconfortado
-e com signaes de pouca vida, dizia-lhe:--«lembre-se d'aquella infeliz,
-que não tem mais ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma
-nova! Agora, não ha nada que o prenda á vida, senão o sofrimento...
-
---Mas eu cuido--interrompi--que o padre Alvaro ha-de achar sempre na sua
-vida occasiões de ser util a muitos outros desgraçados, embora se
-ofereçam com titulos menos valiosos á sua beneficencia. Em quanto
-houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com
-Deus, o padre, qual elle é, não póde julgar terminada a sua missão
-n'este mundo.
-
---Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juizo--redarguiu o
-sujeito--mas os negocios do coração alheio correm de modo muito
-diferente das nossas razões, pensadas, a espirito socegado, embora nos
-doam os infortúnios do nosso amigo.
-
-E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso
-amigo.
-
-O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.a Eufemia hesitara
-em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas
-voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.
-
-Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me
-procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe
-que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto
-para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».
-
-Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava
-para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que
-cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um
-sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:
-
---O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua
-santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S.
-Francisco de Sales ou Vicente de Paula...
-
---Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor
-padre Alvaro--disse-lhe eu.
-
---E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a
-luz, que illumina e abraza... _Ardere et lucere_...[2] Padeci muito, e
-esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa
-vida aqui se acabam: _Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad
-finem_[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil
-machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo
-dia: _Ridebit in die novissimo_[4].
-
-Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu
-companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam
-refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas
-consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á
-perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.
-
-Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no
-amigo, que propozera a consulta.
-
---Medicos!...--murmurou elle--O caixão... Mortalha cá está esta...
-
-Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da
-tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os
-olhos no céo:
-
---D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era
-muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com
-os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o
-néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero
-tudo da misericordia Divina.
-
-Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que
-fechassemos a janella.
-
-Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente.
-Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei
-esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.
-
-Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom
-compadecido:
-
---Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou
-melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.
-
-Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o
-prior.
-
-Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por
-desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto
-a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto
-o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella
-respondeu-me:
-
---O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que
-está a morrer!...--E lançou-se de joelhos a orar em voz alta.
-Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher
-através dos ultimos vinte annos.
-
-Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força
-passal-o á cama: não o conseguimos.
-
---A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. _Dulcis est somnus
-soperanti_[6]--disse elle.
-
-E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:
-
---O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e tão
-puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o
-homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do
-universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o
-reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.
-
-Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que
-não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos,
-murmurando vozes imperceptiveis.
-
-As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os
-braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém,
-á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus
-joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:--_Beati qui lugent_[7].
-
-Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as,
-por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e
-elle disse:
-
---_Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit_[8].
-
-Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da
-cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe
-lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.
-
-Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do
-ultimo juizo.
-
-Ajoelhei de novo, e disse:
-
---Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.
-
-
-[Nota 1: Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.]
-
-[Nota 2: S. João--5. 35.]
-
-[Nota 3: Psal. 37--7.]
-
-[Nota 4: L. dos Prov. Cap. 31. 25.]
-
-[Nota 5: S. Lucas--12. 19.]
-
-[Nota 6: É suave o dormir a quem trabalhou.]
-
-[Nota 7: Felizes os que choram.]
-
-[Nota 8: Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado
-o esposo. S. Matheus. 25. 6.]
-
-
-
-
-FIM DA INTRODUCÇÃO.
-
-
-
-
-I
-
-
-_Grande, très-grande révélation. Ce
-n'est pas ici un vain spectacle d'art et
-de sensibilité, simple volupté du cœur
-et des yeux. Non, c'est un acte de foi,
-un mystère_...
-
-MICHELET (La Femme.)
-
-
-Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813.
-Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d'um fidalgo da côrte.
-
-Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha
-o coração memoria d'ella. Entrou n'um collegio. Ahi, ouviu de seus
-companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo
-das saudades d'elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude
-muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo
-confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que
-m'as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse
-buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe.
-
-Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o
-dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe.
-
-Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a
-Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua
-mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas
-palavras, que exprimiam o em baraço d'ella, suspeitoso á precoce
-esperteza de Alvaro.
-
---Vou perguntar a meu pae--disse elle.
-
---Ora!--acudiu a ama--para que ha-de ir o menino fazer essa pergunta a
-seu pae?! Não queira saber d'essas cousas.
-
---Então que tem?!--tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e curioso como
-creança--Eu havia de ter mãe por força, não é assim?
-
---Isso é; mas...
-
---Mas quê?
-
---E se ella morresse!?...
-
---Se morreu, é outra cousa... Então diga-me que morreu. Morreu ou
-não?
-
---Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe
-importa--disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas
-perguntas.
-
-Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico.
-Amimava-o n'aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á
-proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das
-suas.
-
-N'esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino
-sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava
-as unhas.
-
---Ó papá--disse Alvaro com um gesto carinhoso--a minha mãe já
-morreu?
-
-Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a
-aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas
-concernentes ao collegio.
-
-Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de
-providencial impulso, retrocedeu, e disse:
-
---O papá não me disse se a minha mãe morreu...
-
---Morreu--disse seccamente o pae.
-
-Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de
-riso e meiguice.
-
-Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada,
-disse-lhe em ar de reprehensão:
-
---Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?
-
-Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres,
-que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o
-mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro
-era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a
-quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem
-communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre.
-O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por
-esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:
-
---Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é necessario.
-
-O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia.
-Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em
-aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos
-mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro;
-mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus
-condiscipulos.
-
-Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu
-medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O
-negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se
-gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um
-verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua,
-morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo.
-Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da
-riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e
-acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles
-viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos
-casamentos e natalicios da côrte.
-
-Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo,
-por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de
-fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro
-resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio,
-onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns
-condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.
-
-Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos
-livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre
-os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em
-conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima
-pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a
-resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas
-recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se
-de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o
-mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?
-
---O senhor Alvaro está homem no espirito;--disse-lhe um dia o seu
-affeiçoado mestre de inglez--vou dizer-lhe o que não quiz explicar á
-sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos
-ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma
-forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era
-sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de
-seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco
-de ser manchada. Creio que me comprehende...
-
---Manchada... por que?--disse Alvaro.
-
---Por ser sua mãe.
-
---Por ser minha mãe!... Não entendo!...
-
---Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se de
-serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um
-sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.
-
-Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:
-
---E minha mãe não estava assim ligada a meu pae?
-
---Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua curiosidade,
-pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh'as revelado,
-se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora
-contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é
-ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer
-Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.
-
-Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e
-rica, filha d'um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o
-nome de sua mãe.
-
-Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á
-medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe
-velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um
-destino imprevisto.
-
-Continuou o mestre:
-
---Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na
-época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu
-da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um
-convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça
-esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu
-pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro
-annos. Fique sabendo que sua mãe é viva.
-
-Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal
-respeito.
-
-Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A
-educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia
-das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios
-reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o
-ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um
-convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que
-seu filho assim a julgasse.
-
-Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em
-Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a
-mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo
-de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava
-preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos.
-
-Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia,
-e encaminhada ao ponto de lhe dizer:
-
---Quem me dera vêr um retrato de minha mãe!
-
-Eufemia fitou os olhos n'elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha
-ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou:
-
---Se a visse!...
-
---Ella de certo morreu, minha Eufemia?--tornou elle,
-acariciando-a--Falle a verdade... Não minta ao seu Alvaro!...
-
---Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos
-Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer.
-
---Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus.
-
-Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:
-
---Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque
-está minha mãe n'um convento?
-
---Santo nome de Jesus!--exclamou Eufemia, levantando as mãos á
-cabeça--Quem lhe disse isso, menino?
-
---Que lhe importa a vossemecê saber quem m'o disse? É isto verdade?
-É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe
-não está n'esta casa.
-
---Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me
-embora d'esta casa--replicou a ama com resolução feita de sahir.
-
---Está bom--redarguiu Alvaro--não se afflija, que eu não fallo mais
-n'isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada.
-
---Eu, menino! Eu cahia lá n'essa! Tomára eu que elle nem por sonhos se
-lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...
-
-N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido
-apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe
-esquecera.
-
-Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:
-
-Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe?
-
-E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira
-uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.
-
-A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera
-a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu
-a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.
-
---Será?--disse elle--«Senhora de rara formosura» me disse o mestre; e
-esta é tão formosa!...
-
-Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse
-Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para
-junto d'elle, dizendo:
-
---Que está a vêr o menino?
-
---E de minha mãe este retrato?--respondeu elle sem turbação.
-
-Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:
-
---É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na
-gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!
-
---Não vou,--disse elle com firmeza--n'esta gaveta é que está o
-segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes
-papeis alguma carta de minha mãe.
-
-Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella
-resposta.
-
---Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo--disse ella--Venha
-depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem...
-
-Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher.
-
-Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela,
-que não podia denunciar mão estranha.
-
---Conte-me agora o que souber--instou elle com a ama.
-
-Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade
-com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:
-
---A razão por que sua mãesinha foi para o convento... ainda que eu
-lh'a diga, o menino não a entende.
-
---Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.
-
---Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era
-de lá...
-
---Já sei.
-
---Sabe?! quem lh'o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!
-
---E depois?
-
---Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um
-convento...
-
---Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe
-pergunto: o que eu quero é saber porque foi.
-
---Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já sabe...
-Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.
-
---Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu,
-Eufemia?
-
---Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que lhe
-diga o resto...
-
-Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda,
-refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o
-patrão para casa.
-
-Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e
-tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava
-a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da
-campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que
-metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do
-gabinete.
-
-Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no
-gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não
-suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo
-Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.
-
-Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos,
-deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como
-se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de
-santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos
-vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.
-
-A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do
-convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e
-cinco anteriores áquella data.
-
-Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de
-piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que
-se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor
-maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam
-crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de
-Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella
-que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da
-Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a
-desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua
-innocencia, diante de Deus.
-
-Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não
-viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um
-livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á
-sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se,
-obteve licença de estar no collegio um mez.
-
-D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:
-
---Vou ver minha mãe, Eufemia.
-
---Que diz, menino!? Está doudo!?
-
---Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada,
-porque pensa que estou no collegio.
-
-Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro,
-sendo a mais forte de todas esta:
-
---E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe que
-são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá.
-Quem lhe dá o dinheiro?
-
---Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se m'o
-não emprestar, vou a pedir esmola.
-
-A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d'aquelle
-lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de
-realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d'esse dia, ajudada por um
-seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o
-menino a Vairão, guardando n'estes passos tal recato que não ficasse
-alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os
-descobrisse.
-
-Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a
-Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que
-nem sequer lh'o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente
-admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e
-prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de
-encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar
-um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas.
-
-Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da
-Gloria.
-
-
-
-
-II
-
-
-_Começa o céo a dilucidar-se._
-
-GOLDSMITH (o vigario de Wakefield.)
-
-
-Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do
-correio de Villa do Conde, correu transportada á cella da sua amiga
-Cecilia, e lançou-se aos braços d'ella, chorando de alegria.
-
---Que é, filha?--exclamou a religiosa alvoroçada.
-
---É a primeira alegria que Deus me dá em onze annos de martyrio. Olha,
-vê esta carta da Eufemia... deixa que eu leio...
-
-E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as
-conversações, que tivera com o menino, até áquella hora em que o foi
-achar a contemplar o retrato de sua mãe.
-
---Oh meu Deus, meu Deus!--clamou a enlevada senhora, ajoelhando ante o
-oratorio de Cecilia--Bem haja a vossa mão que até hoje me opprimiu
-para que eu sentisse o immenso prazer d'esta noticia! Fallai, meu divino
-Jesus, fallai ao coração de meu filho, e dizei-lhe que sua mãe, se
-foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue as nodoas do coração,
-para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho!
-
-Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é
-que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar
-longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e
-reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham
-resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.
-
-Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram,
-porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais
-escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o
-seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas
-senhoras preluzisse o vaticinio de começar d'alli a desenredar-se a
-trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores
-annos de sua vida.
-
-Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á
-criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um
-hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e
-tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da
-religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a
-imaginação apaixonada do poeta os achou assim.
-
-Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto,
-Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em
-que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.
-
-O ambicioso coração d'aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava
-tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias
-nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel
-Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno.
-Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as
-timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das
-flagellações de onze annos de saudade.
-
-Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta,
-mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o
-receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil
-successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa,
-a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a
-portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao
-pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as
-monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e
-mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o
-solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.
-
-Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas
-creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n'esse tempo, florejava em dons
-do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos
-maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de
-Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas
-balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios
-d'aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do
-leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão
-em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre
-juvenil poeta!
-
-E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta
-de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de
-Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do
-mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir
-delicado o tiraria a limpo.
-
-Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.
-
-Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a
-esbofar de cançadas.
-
-Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente,
-quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada,
-menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria
-sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia
-lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando
-destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como
-pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona
-abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o
-mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem
-alli vinha ter por seu pé.
-
-A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como
-ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos
-dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e
-com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os
-facultativos ás cellas das suas doentes.
-
-O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os
-seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais
-encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do
-carcere de sua mãe. O interior d'um mosteiro era-lhe novidade; e posto
-quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda
-das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas
-que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.
-
-As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria,
-agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede
-e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a
-mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da
-cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio
-de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e
-contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da
-loucura.
-
---É o meu filho!--exclamou ella circumvagando os olhos mais soberbos
-que maviosos pelas religiosas que choravam--É o meu filho! é a minha
-riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante...
-Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...
-
-E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas.
-
-Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato,
-como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que
-alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos
-rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas
-conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque
-morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o
-viço dos vinte annos.
-
---Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?--disse ella,
-correndo as mãos no rosto de Alvaro.
-
---Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o papá--disse o
-menino a custo, de apertado que estava nos braços da mãe.
-
---Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha
-dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos
-meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido
-filho!... Onze annos!... E Deus sabe se tornarei a vêr-te!
-
-Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as
-freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança.
-Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar
-do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e
-gotejante de suor.
-
-A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado.
-Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do
-filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa
-transpiração.
-
-A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.
-
---Sinto-me vigorosa...--disse Maria--Olha, meu filho, entra n'aquella
-cella, e espera-me lá.
-
-Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com
-serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe
-sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.
-
-Viu Alvaro n'este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com
-aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns
-retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de
-devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os
-olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a
-ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou
-a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta,
-e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do
-mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o
-accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe
-solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia
-velára d'elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a
-mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para
-escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser
-repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica
-de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe
-temperassem as desesperadas saudades.
-
-Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro
-estava.
-
-Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que
-parecia tomado de melancolico espasmo.
-
---Estás tão triste, Alvaro?... É a vista de tua velha mãe que te
-entristece?
-
---Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa
-casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe?
-
-Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que
-desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta:
-
---Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d'esta minha
-desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para
-comprehenderes a calumnia de que sou victima.
-
---Mas--atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que denunciavam
-mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da vida--o pae não
-póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa a minha mãe...
-Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez
-tambem me disse que eu nascera na época da felicidade.
-
---Cala-te, cala-te, meu filho--exclamou Maria, afogada em soluços.
-
---Não chore assim, minha mãe--acudiu o menino, a chorar com
-ella--Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d'aqui; talvez que elle
-tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro
-annos?
-
---Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?
-
---Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque
-não tornei a encontrar aberta a gaveta d'onde as tirei. São todas de
-1820. A mãe não escreveu mais algumas?
-
---Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas.
-
---Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em Lisboa...
-
---Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a teu
-pae?
-
---Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe...
-
-O dialogo durou assim até á hora em que Maria da Gloria e seu filho
-foram chamados a jantar em casa da abbadessa.
-
-Todas as religiosas e noviças foram commensaes no banquete dado pela
-prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado
-entre sua mãe e a abbadessa. Defronte estava uma religiosa de annos
-dilatados, a qual, desde muitos mezes, só na sua cella e no coro se
-encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera
-soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi
-ella mesmo que se offereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar
-áquella honra feita a um anjo de dor e de paciencia. Isto, dito por
-soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o
-animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era
-uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era
-tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com
-Alvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já
-queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser
-brevemente furtada ás suas amigas do convento.
-
-A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma
-felicidade, que ella devia ás orações de soror Joanna, e d'outras
-virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céo;
-accrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e á
-sua dignidade de esposa.
-
-Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como
-quem impõe silencio ás palavras de duvida, e contradictorias com as do
-espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que
-nem as respirações se ouviam.
-
-Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:
-
-«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu
-marido, e aos respeitos do mundo».
-
-Por que é que os cabellos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos
-de quantas pessoas ouviram o tom prophetico da virtuosa anciã? De
-feito, havia instincto do céo n'aquellas palavras, o som d'ellas tinha
-a um tempo a força electrica de que o ouvido se estremece, e a uncção
-suavissima que banha a alma de luz da fé.
-
-Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi,
-tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que
-lhe tomou de joelhos a mão.
-
-Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o
-da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces
-descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos
-labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:
-
---O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á hora
-em que Deus o mandou chegar.
-
-Os animos ficaram tão absorvidos n'esta affectuosa scena, que só
-volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se
-retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de
-noviciado, e contavam para mais de setenta annos.
-
-Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar
-soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella
-fez signal de ficarem.
-
---Que pena tenho eu--disse a freira com muito alegre semblante--de não
-ter n'esta minha pobre cella um mimo que dê a este menino, para se
-lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!
-
-As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha
-senhora--disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.
-
---Ora, deixe estar--tornou a religiosa--hei-de ver se o não deixo ir
-sem uma lembrança minha... Quando vae embora o menino?... não deve
-demorar-se muito...
-
---Eu desejava estar mais tempo--disse Alvaro--mas não tenho remedio
-senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.
-
---Ámanhã!--exclamou Maria--pois já me deixas ámanhã!?
-
---E deve ir ámanhã--respondeu soror Joanna com impressiva firmeza,
-como se désse ordens.
-
---Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?--tornou debulhada
-em pranto a mãe de Alvaro.
-
---Mulher de pouca fé...--murmurou a santa, com brando sorriso, e um
-meneio triste de cabeça--O menino--ajuntou voltando-se para elle, e
-tomando-lhe as mãos entre as suas--sahe de madrugada, sim?
-
---Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.
-
---Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas, venha
-dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras
-senhoras, que hão-de estar saudosas d'ella.
-
-E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração.
-Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as
-freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo
-dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não
-duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse
-directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía
-tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta
-entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os
-perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o
-aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de
-lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira
-a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d'ella, com
-as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e
-sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de
-Nazareth o annuncio da sua maternidade!
-
-Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu,
-passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de
-fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e
-acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com
-que o velara no seu primeiro anno.
-
-Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura
-arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia
-acordar o filho.
-
---Acordal-o para o vêr ir de mim!...--dizia ella, chorosa.
-
-Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando
-o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa
-deram-lhe alma para o trance.
-
-Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle.
-
---Entrem, meus filhos--disse soror Joanna--Venha aqui o menino: não ha
-tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva d'esta sua velha
-amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá
-entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde
-mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me
-dará novas da pessoa a quem escrevo. Emquanto a vós, minha
-penitente--continuou acariciando Maria--notae bem o que vos digo.
-Prohibo-vos de vêr o subscripto da carta que vosso filho leva.
-Entendeis, Maria?
-
---Oh minha senhora!--disse a conturbada mãe, beijando-lhe a mão.--Sou
-incapaz de desobedecer-lhe.
-
---Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com
-Deus, meus filhos.
-
-Do ultimo abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os
-braços de Cecilia.
-
-Alvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem.
-Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não
-viu senão o alvacento véo das suas lagrimas.
-
-
-
-
-III
-
-
-_Quem não vê por isto que o mundo
-é um juiz iniquo?_
-
-S. FRANCISCO DE SALES (Introd.
-á vida devota).
-
-
-Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como additamento á
-«Flôr dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou
-demonstrar que soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor não fazia
-milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as
-consequencias do que já sabia. Saiba tambem o leitor que este romance,
-por ter o merito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o
-faz.
-
-É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macáo, em 1815,
-liquidar a herança paterna de sua mulher.
-
-Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não
-direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que
-ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae,
-commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do
-titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e
-dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a
-caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de
-cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero
-dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura:
-sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os
-casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.
-
-Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de
-encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes
-saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d'outras
-sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle.
-
-Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta
-teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a
-figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e
-chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.
-
-Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se
-chama _Alfredo, Ernesto, Arthur_, ou _Julio._ Acceite-o assim, que era
-aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da
-policia, e ministro d'estado, e holocausto de suas idéas liberaes no
-desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem
-honradamente servira.
-
-João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de
-bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que
-farte d'este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o
-pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos
-religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O
-caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como
-o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto--á
-virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.
-
-João de Mattos amou Maria da Gloria.
-
-Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as
-qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes
-sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado.
-
-Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d'um
-professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus
-concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá
-preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem
-d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.
-
-Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se
-d'est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são?
-Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal
-sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos
-captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É
-notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus
-azares: não empreguei outra magia...»
-
-N'outro relanço diz:
-
-«D'onde vem o amarmos as cousas bellas? porque são bellas; e as boas?
-porque são boas.» Vão tomando nota.
-
-Outra passagem:
-
-«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o
-porquê. Sahimos a negocios, e depara-se-nos ao dobrar d'uma esquina a
-mulher, que vae transfigurar-nos o coração.»
-
-Ultima citação:
-
-«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de
-demasias? Absurda cousa! Para a paixão ha um freio sómente: é o
-desgosto ou o fastio.»
-
-Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem
-implicancia das suas excellentes qualidades:
-
-Não sabia elle como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de
-matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua
-alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa.
-Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a
-graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quiz enfrear os impetos do
-sentimento; mas, antes do fastio, não ha hora alguma em que o amor,
-coma o leão sezonatico, se deixe acorrentar.
-
-Ahi está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro--O
-DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericordia.
-
-Quaes foram, porém, ás demasias do visinho de Maria da Gloria?
-Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia
-dictal-as o coração e o genio. A esposa de Manoel Teixeira peccou
-lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma.
-
-João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe,
-quando ella sahia da sua antecamara para ir beijar o filho no berço.
-Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da sahida, e disse ao
-homem corrido e allucinado:
-
---Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor!
-
-Não respondeu, e sahiu.
-
-A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por
-intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e
-despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria
-da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no
-rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada.
-N'esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te
-por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e
-não de immoralidade.»
-
-Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos,
-e dissera comsigo:--«Isto entretem.»
-
-Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa,
-acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de
-morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel
-Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um
-menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo
-comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros;
-cheio de saude e promessas de longa vida... que mais póde dar este
-mundo?
-
-O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n'um momento tudo isto.
-
-Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe,
-com rosto sêcco e pesado:
-
---Por que despediste o criado Gregorio?
-
---Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.
-
---Porque descóras?
-
---Pois eu descórei?!--balbuciou ella--Impressionou-me a mudança do teu
-rosto.
-
-Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o menino.
-
-Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.
-
---Por que me fazes semelhante pergunta?!--disse-lhe ella, resolvida a
-contar-lhe o acontecimento.
-
-O marido fitou os olhos n'ella e nas janellas de João de Mattos. Maria
-ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.
-
---Deus sabe a minha innocencia: nada temo--disse ella.
-
-É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente,
-porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que
-os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem
-citados ao seu tribunal supremo, e--n'isto vai muito a dizer--parece que
-vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos que delinquiram. Os
-theologos é que sabem dizer como isto é, e convencem a gente de que os
-romancistas são os menos azados para deslindarem esta meada.
-Consultem-se, pois, os theologos.
-
-Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado
-de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d'este. O logista
-procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de
-Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector
-estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as
-razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu
-segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse
-n'este sentido, e com tamanha dôr, que chorou!
-
-Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas.
-Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo.
-Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já
-preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel
-Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não
-digamos maldade.
-
-Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e
-dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.
-
---Apeie-se,--disse elle depois que saltou rapidamente da sege.
-
-Maria sahiu machinalmente.
-
---Entre n'aquella liteira.
-
---Para onde vou?!--exclamou ella.
-
---Sabel-o-ha onde a pozerem. Não ha tempo para explicações. Aquella
-mulher é sua criada.
-
---E meu filho?
-
---Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a
-deixarem. Adeus.
-
---Mas o meu filho!--exclamou, estendendo os braços ao marido--Dá-me ao
-menos aquelle menino, se me lanças barbaramente de ti!...
-
---Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de tardias,
-são indecentes.
-
-A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem
-sentidos á liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso
-conflicto.
-
-Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.
-
-O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram
-conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em
-casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os
-esperava Manoel Teixeira. N'esta nova casa, medianamente adornada, não
-havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.
-
-Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação.
-Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um
-convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso
-marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as
-noites á beira d'elle, receiosos d'um suicidio. Isto é o que se dizia
-no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção
-de evangelhos.
-
-No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria,
-estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do
-coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á
-capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel
-Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria
-culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido
-viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta
-nos arrabaldes de Napoles.
-
-Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria.
-João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da
-chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados
-successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava
-Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o
-local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto.
-
-E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d'outro
-estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous
-filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola,
-porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que
-elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos,
-trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos
-de todos os seus amigos.
-
-Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando
-blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes
-durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de
-Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido
-no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.
-
-N'este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram
-cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de
-Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido.
-Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu
-filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.
-
-
-
-
-IV
-
-
-_Dico vobis: Omnia quœcumque orantes
-petitis, credite quia accipietis, et
-evenient vobis._
-
-Eu vos affirmo que todas as cousas,
-que na oração pedirdes, as recebereis,
-e succeder-vos-hão.
-
-S. MARC. 11. 24.
-
-
-Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da
-policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais
-importantes segredos d'aquella magistratura.
-
-Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em
-Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota
-Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.
-
-Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia
-ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro
-de Hespanha.
-
-O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de
-Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle,
-pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de
-Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a
-conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora
-liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da
-Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de
-conduzirem-na ao convento hespanhol.
-
-João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença
-escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui
-reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu
-mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de
-João de Mattos.
-
-A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga,
-contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da
-pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já
-ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.
-
-Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella
-tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos,
-que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que
-punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella
-intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e
-posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe
-de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem
-gerir o património do filho legitimo.
-
-Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que
-o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e
-gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua
-justiça.
-
-João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana
-era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que
-o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria
-traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.
-
-A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a
-Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro.
-Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras
-horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e
-tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no
-rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do
-coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam
-commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço
-n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com
-ellas, rezavam ferventemente.
-
-Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da
-vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em
-altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas,
-que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu
-não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é
-esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos
-as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não
-sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza
-d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão
-entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.
-
-Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos
-com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a
-sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não
-ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu,
-naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e
-o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas
-que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os
-cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se
-veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas
-para nós... _Para mim_, devia ter dito; porque, em verdade, não posso
-nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.
-
-É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em
-quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo
-ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste
-resultado promettem á temeridade do bom filho.
-
-Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos
-Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a
-Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como
-se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.
-
-Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace
-pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua
-ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se
-Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus
-haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se
-lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de
-vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes,
-cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.
-
-Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira
-disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão
-para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das
-canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria
-philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse
-ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que
-era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o
-pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para
-aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na
-familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella.
-Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.
-
-No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella
-sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria
-da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar
-alguns primos e primas.
-
-Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de
-surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é
-que foi o surprehendido.
-
---Não mande parte a meu filho,--disse o negociante,--que eu quero
-apparecer-lhe de repente com a prima.
-
---O senhor Alvaro não está cá--disse o director do collegio.
-
---Como?!--meu filho sahiu?
-
---Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus parentes
-dos Olivaes--tornou o director.
-
---Isto que significa?!--replicou, entre colerico e espantado, Manoel
-Teixeira, interrogando o mestre de inglez.
-
---O senhor director disse a verdade...--respondeu aquelle, denotando
-enleio e turbação.
-
---Então foi o meu filho que me mentiu?--tornou já muito alterado o
-commerciante--Não creio! Aqui ha embrulhada!
-
---Que embrulhada póde haver aqui?--disse com azedume o proprietario do
-estabelecimento.
-
---Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.
-
---Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o
-suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria,
-e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino,
-que nos merecia toda a confiança.
-
-Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o
-ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual
-foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos?
-Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.
-
-Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir
-com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz
-clamorosa de seu amo chamando o filho.
-
-Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia,
-e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que
-deixava a pobre ama.
-
-N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de
-inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel
-Teixeira reanimou-se.
-
---Vem dar-me alguma boa noticia?--exclamou o negociante com alegre
-rosto.
-
---Creio que sim.
-
---Appareceu o meu filho? diga, diga.
-
---Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.
-
---Onde está, pois?
-
---Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem
-presado.
-
---Sei, e merece-o.
-
---A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não
-soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia
-estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua
-mãe ao convento de Vairão.
-
-Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:
-
---Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!
-
---Fui eu, snr. Macedo.
-
---E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!
-
---Sei-o da voz publica.
-
---E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o communicar
-a meu filho?
-
---Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me
-muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.
-
---Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!--disse
-ironicamente o negociante--Quer-me mais alguma cousa?
-
---Quasi nada,--disse o professor--restituir a vossa senhoria seis mezes
-da prestação que o director do collegio recebeu adiantados.
-
-E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a
-banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.
-
-Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.
-
-O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.
-
-A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não
-respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço,
-sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente.
-Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra,
-demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a
-mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens
-para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo,
-entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não
-fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.
-
-Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá
-ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e
-ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de
-seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta,
-porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não
-foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das
-criadas de Maria da Gloria.
-
-Agora é que temos Alvaro em Lisboa.
-
-Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos
-Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava
-o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas,
-quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de
-Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes
-interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No
-fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita
-meiguice:
-
---Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino lhe
-levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere
-aqui um pouco, que eu volto já.
-
-Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o
-aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.
-
---Onde mora o menino?--disse João de Mattos.
-
---Na rua de S. Bento, numero 12--respondeu o esbirro.
-
---Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do
-Limoeiro--disse o intendente--Agora vamos, menino.
-
-Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.
-
---Quem será o _homem do Limoeiro?!_--ia dizendo entre si o filho de
-Maria da Gloria.
-
-
-
-
-V
-
-
-_Os insensatos não comprehendem
-como se enlaçam o merecimento e a
-felicidade._
-
-GOETHE (Fausto).
-
-
-N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que
-estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma
-carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle
-ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o
-guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos
-fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos
-de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada
-de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da
-Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!
-
-Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em
-sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa
-se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio
-ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se
-demorava.
-
-Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos
-do menino, e dizia-lhe:
-
---Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal...
-Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?
-
---Nem eu sei dizer... Não é medo...
-
-Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança,
-vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o
-separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez
-mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto,
-tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira
-do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.
-
-João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:
-
---Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o meu
-nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado
-seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.
-
---E vem a minha casa?!--disse Manoel Teixeira com os olhos fitos no
-pavimento que se interpunha aos dous.
-
---Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho á
-sua justa vingança...
-
---E como se acha meu filho ao lado do senhor intendente?--interrompeu o
-commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.
-
---Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe
-sósinhos por alguns segundos.
-
-Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira
-encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que
-seria dramatica, se não fosse incivil.
-
-João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita,
-segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:
-
---Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para
-conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa,
-significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem
-extraordinario.
-
---Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a minha
-casa.
-
---Venho...
-
-Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um
-preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.
-
---A mim?!--disse o negociante.
-
---É a mim--acudiu sorrindo João de Mattos.--Queira vossa senhoria
-consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de espera.
-
-Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas
-occorrencias:
-
---Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!
-
---É o facto importante da nossa pratica--respondeu João de Mattos, e
-accrescentou com tristeza:--é o fecho d'esta abobada, debaixo da qual
-vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração... Queira attender-me.
-Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete. Não era já moço
-de paixões violentas; mas... era homem. Amei a snr.a D. Maria da Gloria
-porque a vi, e porque ella me não dava o mais leve signal de estima nem
-sequer de preoccupação das minhas constantes solicitações. O
-coração humano é assim absurdo. Vossa senhoria foi n'essa época á
-India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na
-ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as
-minhas intenções, e se me offereceu para entregar uma carta a sua ama.
-Acceitei e paguei liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi
-mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca
-me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar
-furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu
-quarto para uma sala. Cego da minha paixão, não comprehendi que
-praticava uma deshonra; mas sua mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi
-de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui
-expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era
-despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus
-abençoara a sua resolução, e que o mundo lhe seria sempre uma
-testemunha e um applauso da sua dignidade. Terminei. Agora peço
-licença para ser trazido á nossa presença o preso.
-
-Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos levantou
-o feixo da porta, e disse ao meirinho:
-
---Entrem... Conhece este homem?--disse elle ao negociante, indigitando o
-preso.
-
---Tenho idéas...--respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.
-
---Diz a este senhor quem és--tornou o intendente com terrivel sombra ao
-preso.
-
---Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze annos
-em casa de vossa senhoria.
-
-Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel
-Teixeira.
-
---Mande erguer esse homem--disse o intendente.--O juiz aqui sou eu.
-Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama,
-esposa d'este senhor?
-
-Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico
-accento:
-
---Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos com
-dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D.
-Maria da Gloria?
-
---Sim, senhor--disse o preso.
-
---Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?
-
---Não, senhor.
-
---Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou até ao
-lugar onde ella havia de passar?
-
---Fui eu, senhor.
-
---Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a seus
-pés?
-
---Mandou-o sahir de casa...
-
---E a ti que te disse?
-
---Mandou-me embora.
-
---Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?
-
-O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:
-
---Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha ama;
-mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa
-senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com
-ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!
-
-João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola
-da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que
-Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava
-a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito
-do preso.
-
-João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:
-
---Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso matar-lhe
-uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este miseravel não
-vale onze annos de lagrimas.
-
-O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada
-pelos soluços, lançou-se a um canapé.
-
-Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a
-mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:
-
---Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o
-perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.
-
-Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que
-escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.
-
-João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as
-almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da
-algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu
-tremor nervoso:
-
-
-«Meu sobrinho.
-
-«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede
-a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com
-que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa.
-Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua
-posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para
-Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa
-da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores
-testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por
-esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do
-infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que
-as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime
-e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta
-martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito
-das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas
-creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu
-coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo
-estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu
-perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua
-felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos
-seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais
-nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor
-Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção,
-sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde.
-Tua tia muito amiga.
-
-_Joanna das Cinco Chagas do Senhor._»
-
-
---Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel Teixeira?--disse
-João de Mattos.
-
-O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João
-de Mattos, e disse:
-
---Eu vou levar a resposta a sua tia.
-
-O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia
-aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia
-merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não
-era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.
-
-E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a
-commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era
-isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a
-outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma
-familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a
-desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem
-embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de
-grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como
-rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a
-vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o
-alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia
-d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente
-parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com
-lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser
-é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter,
-perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção
-os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza
-invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo
-a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso
-de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e
-coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não
-poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.
-
-Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso
-semblante do intendente.
-
-Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o
-retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:
-
---Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma
-conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus
-paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha
-velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções
-más.»
-
-Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel
-Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do
-intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se
-talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia
-expansiva de amigo.
-
-
-
-
-VI
-
-
-_Apollon prend les armes._
-
-VOLTAIRE (Sat.)
-
-
-N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as
-janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde
-o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam
-ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de
-janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas
-com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente
-rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a
-correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a
-prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca.
-Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes
-de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um
-pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as
-estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada.
-
-Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela
-duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas,
-que a submissão de subditas.
-
-Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns
-sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes
-radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos
-destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por
-convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns
-tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e
-encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os.
-Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o
-celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades
-circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos
-conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da
-Universidade.
-
-
-Quanto pode de Athenas desejar-se,
-Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;
-Aqui as capellas dá tecidas de ouro,
-Do bacharo, e do sempre verde louro.
-
-
-Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas
-hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e
-carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira,
-isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a
-Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados
-pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade)
-trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar
-direitos, violando-os.
-
-A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das
-torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade
-da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis
-d'aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de
-gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação
-de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a
-freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito
-versista, e entre a propria criada, ou _tacho_, e o bardo menos
-aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e
-dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho
-furtado á ama por amor de Apollo.
-
-Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um
-magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos
-bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia serem
-_ôdres_ e não _ódes._ Os de Guimarães chamavam á octogenaria
-prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por
-libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do
-peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S.
-Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que
-desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua
-santidade e bom siso.
-
-Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de
-certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do
-coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae
-dizel-o um dos proprios inspirados.
-
-Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio
-Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem
-mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo.
-Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de
-cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo
-não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de
-uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de
-Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do
-abbade.
-
-O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu
-patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:
-
-
-Já cede Pégaso o passo,
-Escoucinha, espirra, e rincha,
-Ouvindo ornear o pechincha,
-O abbade sujo e devasso, etc.
-
-
-A isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a
-mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr
-aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:--«A melhor de entre
-as preladas.»
-
-O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia
-sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.
-
---Lá vai!--disse elle--_A melhor de entre as preladas._
-
-
-Boas noites! vou-me embora;
-Já não posso estar com somno,
-Nem me apraz soffrer o mono,
-Borrachão a toda a hora.
-Oh! quanto melhor lhe fora
-Ter as facas amoladas,
-E ir cortar as colladas
-No outeiro sanguinoso,
-Em quanto eu louvo ditoso
-_A melhor de entre as preladas!_
-
-
-Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu
-muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos
-glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o
-victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não
-podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o
-defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os
-amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto
-de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais
-debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem
-com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas
-fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas
-ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo
-estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em
-turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se
-apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os
-poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria
-conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os
-dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas
-com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como
-estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem
-voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé
-sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de
-clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que
-começava assim:
-
-
-Altissimo Senhor, que tudo pódes!
-Transfigura em cajadas os cajados
-Que pozeram em fuga os desalmados
-Estomagos, que tem só vinho e odes
-. . . . . . . . . . . . . . . . .
-
-
-Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á
-conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas
-religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo
-doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro.
-Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte
-concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem
-excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as
-diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.
-
-Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora
-deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos
-vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror
-Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha
-mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro.
-A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e
-temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos
-expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de
-supplica:
-
---Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé.
-Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz,
-pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que
-o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje.
-O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos
-encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada
-como tenho sido.
-
-Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que
-estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem
-convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas
-palavras:
-
---A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não se
-queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da
-flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o
-tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom
-arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria.
-Afervore-sa e rese commigo.
-
-Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou
-um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e
-disse:
-
---Será outra vez bulha lá fóra?
-
-A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor
-crucificado.
-
-Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando
-«milagre!»
-
---Gritam _milagre!_--exclamou Maria da Gloria, erguendo-se, com os olhos
-na freira.
-
-Soror Joanna sorriu e disse:
-
---Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana
-comprehende.
-
-Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura:
-
---Ahi está o menino!
-
---E acho que vem tambem o pae!
-
---E muita gente a cavallo!
-
---E duas liteiras com senhoras!
-
---E traziam archotes!
-
-Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas
-tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.
-
---Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre
-cabeça!--disse a santa--Falla tu, Cecilia, diz o que viste.
-
---Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi mais
-pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e
-já lá ficou a senhora abbadessa á portaria.
-
-Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os
-joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a
-consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no
-seio misericordioso do Senhor.
-
-Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras
-de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos,
-que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes,
-sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a
-quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da
-prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido
-de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados
-com as tres damas. Entrara depois d'estas uma mulher, que não ousava
-mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua
-humildade: era a criada Eufemia.
-
-As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando
-cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha.
-Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia.
-Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que
-sua ama a chamasse.
-
---Onde está Eufemia?!--disse Alvaro admirado.--Ella vinha comnosco!
-
---Estou aqui, senhor Alvaro--disse a criada, a quem as freiras abriram
-passagem.
-
---Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia...
-
-Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos
-até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia.
-Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos
-com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais
-chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com
-amor, e disse-lhe:
-
---Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos!
-
-As tres senhoras offereceram-se aos olhos d'ella, perguntando se as não
-conhecia.
-
---Conheço--disse Maria com a voz extenuada,--conheço as minhas amigas
-de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A felicidade não
-deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?
-
-Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao
-seu proprio assombro.
-
---Senhora D. Maria--disse a abbadessa--á portaria está seu marido.
-Vossa senhoria poderá descer até lá?
-
---Póde, pois não póde?!--disse soror Joanna das Cinco Chagas--Se eu
-lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota, por que não ha-de ir
-ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o senhor Alvaro dá-me
-o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no meio; e acho que não
-é mal posta a comparação: a boa eternidade começa pela innocencia da
-vida, que é o menino, e continua-se na bemaventurança do soffrimento,
-que é a minha Maria, e esta, de mais a mais, chama-se _Gloria!_
-
-No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos
-dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de
-archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia
-áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as
-esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da
-poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de
-clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir
-perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem
-de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a
-complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se
-afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe
-de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo
-que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma
-peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes
-correlativas.
-
-Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado,
-apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas
-attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da
-curiosidade.
-
-Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse
-intervallo pelo doutor Ferro:
-
-
-Vão freiras, vá noviça, e vá a moça
-Gosar d'um coração que desabafa;
-Mas deixem na janella quem nos ouça;
-Seja um vulto qualquer... uma garrafa!
-
-
-
-
-VII
-
-
-_Na oração que ha senão aquella
-duplicada força, capaz de amparar-nos
-na queda, ou solicitar-nos o perdão,
-se nos despenhamos?_
-
-SCHAKSPEARE (Hamlet).
-
-
-Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos
-cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que
-receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria
-devia fazer-lhe.
-
-Dizia Sebastião de Brito:
-
---Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito
-differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos.
-No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente;
-mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do
-convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.
-
-A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o
-negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.
-
-Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d'uma procissão de monjas,
-noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de
-soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro
-esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao
-clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua
-mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o
-limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com
-affectuoso sorriso:
-
---Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a entrada
-nem mesmo aos maridos penitentes.
-
-Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da
-portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a
-Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a
-todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns
-labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que
-dobrara o joelho diante d'ella.
-
---És tu?--disse ella--E podeste conhecer-me?
-
---Quando te não conheceria eu, infeliz?--respondeu elle afogado de
-lagrimas e gemidos.
-
---Tambem tu tens cabellos brancos!...--tornou Maria da Gloria,
-sorrindo--Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas
-assim, Manoel... Aos pés de uma amiga não se ajoelha... Ou ella
-perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te...
-
---Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel Teixeira--disse
-soror Joanna--e dê-lhe muitas lagrimas de louvor e gratidão por este
-anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ella; por ora é nossa; ámanhã lh'a
-daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus amigos para a hospedaria do
-mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda o chá. Vão repousar, ou
-façam versos, se são poetas, que esta noite todos somos poetas, todos
-temos no coração hymno em acção de graças ao Senhor da misericordia
-e da justiça.
-
-Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras,
-e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e
-enamorado de todas as palacianas:
-
---Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora
-vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua
-formosura--(Sebastião de Brito havia dito isto, mezes antes, a uma
-marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de
-enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metaphora fosse
-applaudida, como de feito era). A graça do mundo--continuou elle,
-offerecendo simonte em caixa de ouro á abbadessa--desbota as flôres,
-e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse
-a sympathica pallidez que lhe realça o mimo, seria menos bella, ou tão
-bella como foi.
-
-Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas
-delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de
-riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente
-bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em
-desordem, e nunca podiam dar grande sahida pelos caminhos do céo.
-
-A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o
-refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e
-perguntou-lhe se o menino ficava.
-
---O menino fica--disse soror Joanna com ar alegre--porque tem de me
-levar á cella. Estas senhoras, se quizerem, e a senhora dona abbadessa
-consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera hoje,
-por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora
-vamos com Deus.
-
-Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito
-rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho
-acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua
-mãe.
-
-Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito,
-pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivaes, tão amante das
-musas, quanto o ellas tratavam esquivamente, foi até ás quatro da
-manhã o primeiro enthusiasta do auditorio, batendo palmas delirantes, e
-bradando os _bis_ com todas as potencias da sua admiração pulmonar.
-
-Agora, abro mão do seguimento da historia, para acudir a uns reparos
-d'algum leitor.
-
-Diz elle:
-
-«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes,
-occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei
-logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente
-commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui
-era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um
-aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido
-quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o
-discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco
-em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era
-dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do
-coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna
-discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que,
-nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor
-para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos
-declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos
-amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da
-novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as
-cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi!
-Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é
-que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou
-peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e
-dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o
-mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu,
-ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a
-photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros,
-e verão que nem os musicos da orchestra lh'os aturara. O romance é tal
-e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa
-assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do
-convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito
-da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois
-o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em
-bolina n'aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a
-desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher!
-Nem um _ah!_ nem um _oh!_ lhe ouvimos!... É de mais! Póde ser que
-assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no
-manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista,
-que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d'ella uma Nióbe ou
-um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as,
-corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente
-não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu
-lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance,
-entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram
-nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos,
-precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que
-nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o
-levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta
-amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer
-que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas
-lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde
-bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.»
-
-Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e
-de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho
-aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia
-dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de
-molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto
-dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica
-pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina
-hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem
-nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido
-rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas
-aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de
-ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto
-muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da
-verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das
-visualidades. Já n'outros livros me tenho cançado a responder a
-reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito.
-Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a
-historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não
-fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia.
-Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome
-d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora,
-pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a
-obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que
-Napoleão lhe dava em Santa Helena?
-
-N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza.
-O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas,
-grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar
-que eu estou já d'aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em
-que me hão-de encolher os vindouros--encolher, digo, porque não
-podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter
-o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr
-outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se
-alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo
-que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as
-rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica,
-porque os eu não faço chorar nem rir.
-
-Respondi, e volto ao outeiro.
-
-Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as
-musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da
-novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em
-grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que
-particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto
-sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao
-poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr
-e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava,
-proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava,
-como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e
-como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e
-insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde
-em esperanças, sentiu-se namorado d'aquella voz, e d'amor tão
-engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa
-convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu
-poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era.
-Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do
-Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a
-seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol
-nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o
-de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos
-amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia
-igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi
-passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar
-aos quatorze annos.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-_Oh!..............................
-Nec te aleator ullus est sapientior_...
-Nunca velhaco algum mais destro fora.
-
-PLAUTO.
-
-
-Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte,
-sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do
-mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira,
-que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar
-a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu
-a seu marido estas linhas:
-
-«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação
-de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me
-trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha
-innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido,
-portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se
-precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina
-Providencia escuta os innocentes e os criminosos.
-
-«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha
-parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te
-has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho,
-que as ignora.»
-
-Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos
-depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e
-disse-lhe:
-
---É assim que te vingas, Maria?
-
---Que me vingo!...
-
---Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas allivial-as,
-e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua boca a
-palavra «perdão»!...
-
---Perdoei...--balbuciou ella.
-
---E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me
-poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?
-
---Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma
-desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes
-imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração
-em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e
-mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?
-
---Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não me
-queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies,
-filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante...
-
---Basta!...--disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro os olhos
-sem lagrimas--Esqueces o meu pedido?
-
-Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a
-tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta
-contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma
-agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa
-abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma
-grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas
-sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o
-symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze
-annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de
-ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou
-dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da
-alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em
-suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes
-de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha
-unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu
-patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade,
-se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do
-luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão
-depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da
-italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo,
-grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe
-parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!
-
-Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas
-dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:
-
---Tu não podes perdoar-me!
-
-Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:
-
---Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te.
-Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas
-forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores,
-que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.
-
-Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher.
-Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o
-pae rejeitou a lembrança.
-
---Vamos sós--disse elle--sejamos egoistas d'esta felicidade... embora
-minha sómente...
-
-Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:
-
---_Felicidade!_...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?... Creio-a, se
-me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha
-Deus!...
-
-Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:
-
---Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos... Que
-Deus!...
-
---Não offendas a mão Divina que me amparou...--tornou Maria.
-
-As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do
-pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe:
-
---Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita
-lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da
-sua felicidade.
-
-Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:
-
---Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta... Não falla
-senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta.
-
-Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre
-os dous primos.
-
---Então gostas muito de versos, Leonor?--disse Maria.
-
---Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor.
-
---Quem é o senhor Sotto-Mayor?!--tornou Maria da Gloria com espanto.
-
---Já conhece os poetas pelo nome--respondeu o pae com alegria--O
-Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa a pequena
-perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma
-eternidade de sonetos.
-
---Já é paixão de versos!--tornou a mãe de Alvaro--Sabes tu fazer
-versos, meu filho?
-
---Não, minha senhora: sou ainda muito nova--respondeu Alvaro--A prima
-Leonor é que tem lido muitos versos.
-
---Já li o Bocage;--acudiu a menina, acompanhando a expressão de
-tregeitos exquisitos--li tambem o _Belmiro_, e as poesias do Garção, e
-do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o papá lá tem. E a senhora D.
-Catharina de Balsemão, e a senhora marqueza de Alorna gostam muito de
-me ouvir recitar sonetos, e ensinam-me quando eu não declamo bem.
-
---Bem está--disse Maria--estás uma doutora, minha sobrinha!... Queres
-tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres
-annos?
-
---Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um
-convento! Antes morte que tal sorte!
-
-O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com
-ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se
-do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o
-calumniavam.
-
-Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria
-defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no
-coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde,
-e Leonor, estremecendo, exclamou:
-
---Elle lá vem! é elle!
-
---Quem?--disseram algumas vozes.
-
---O meu poeta!
-
---O teu poeta!--disse, com molesta accentuação, Maria da Gloria: e
-chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:--Não deixe assim
-fallar sua filha, que não é bonito aquillo!...
-
---Por que, mana?--disse em voz alta o morgado--Ahi está o effeito dos
-conventos! Temos bioquice! Que tem que ella diga _o seu poeta?_ Palavras
-n'aquella bôca não significam nada, mana Maria! É uma criança:
-deixal-a fallar.
-
-Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com
-desembaraço e elegancia.
-
---Viva o poeta!--disse Sebastião de Brito,--Eu amo os poetas, e gosto
-das suas relações. A sua bella musa está accesa para a noite?
-
---A minha musa--disse o moço--está sempre fria; e, se alguma fortuna
-tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa excellencia lhe dá,
-posto que os não mereça.
-
---Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já
-sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores
-poetas portuguezes!...
-
---Razão de mais--redarguiu o de Villa do Conde--para não gostar das
-minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.
-
-O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do
-palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão
-penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras
-d'elle.
-
-Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A
-dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu
-amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem
-com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os
-poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem
-não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas.
-Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as
-do tempo d'el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções
-lhes comiam[9].
-
-Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do
-pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro.
-Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a
-felicitava, e não sabia entender a tristeza d'ella. Fallavam-lhe da
-sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A
-melancolica senhora respondia:
-
---Que tenho eu que vêr com a sociedade!... O braço, que fere com a
-infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu
-não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho,
-que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu
-dormiria na claustra d'esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até
-mais tarde, nunca sahiria d'aqui.
-
-Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita
-amargura:
-
---Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria?
-
---És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre. Que
-mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo
-irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão...
-Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das
-servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor
-um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi
-a conformidade, e o amor d'este menino.
-
-Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os
-termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo
-aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos
-em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e
-perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz
-desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas
-cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as
-ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher.
-
-Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da
-Gloria.
-
-Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa
-foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas
-encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e
-galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a
-poesia era inimiga do somno!
-
-Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde
-excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus
-sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no
-soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades.
-O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um
-soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo:
-
-
-Que dôces rullos rulla aquelle pombo
-A pomba enamorada e toda secia!
-Cuidado! que a virtude soffre um tombo,
-E vamos ter alguma peripecia!
-
-
-Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se
-contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as
-senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas,
-dizendo em voz de quem manda e não pede:
-
---Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.
-
-Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam,
-apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua
-impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:
-
-. . . . . . . . . . . . . . . . . .
-Tão negro quadro meu pincel não toque!
-Calcarem do perdão as santas leis,
-Matarem-me por causa d'um remoque!...
-
-Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis!
-Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,
-Que diluvio de vinho e de pasteis!
-
-
-Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da
-roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa
-com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos.
-Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou
-tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira
-estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de
-Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:
-
---D'aqui a uma hora vamos para Lisboa--disse ella.
-
---Para nunca mais nos vermos?!--respondeu elle--Este outeiro foi-me
-fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem antes de eu vos
-ter visto, Leonor!
-
---Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me
-não virdes!
-
---Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de
-saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta,
-que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.
-
---Juro amar-vos eternamente...
-
---Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso
-primo?
-
---O meu coração é livre--replicou ella...--Adeus, que me procuram;
-adeus, amai-me, e tende esperança!
-
-Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria
-da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em
-muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna
-das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços
-da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a
-partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé
-d'ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o
-menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o
-semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos
-acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com
-phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica
-d'aquellas senhoras.
-
-Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a
-matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já
-encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos,
-a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e
-disse:
-
---Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da innocente
-Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d'esta familia, se
-os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.
-
-Quaes seriam as tuas visões, ó santa!?
-
-
-[Nota 9: Aos leitores da _Introducção_ ao _Diccionario dos nonymos_,
-de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro
-Ribeiro: _Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu
-Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer
-que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro
-veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e
-con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras
-Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito
-moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que
-não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos
-me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos,
-etc._ Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no
-mosteiro para comerem as naturas (quer dizer--os rendimentos) das
-monjas!]
-
-
-
-
-IX
-
-
-_Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla,
-Nè spero aver_...
-
-PETRARCA (Rime).
-
-
-Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel
-Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia
-minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para
-reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma
-supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um
-engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha,
-nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho
-para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal
-chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.
-
-Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem
-testemunhas:
-
---Recebes em tua casa uma tua _irmã_, meu amigo. D'esta casa dá-me um
-quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o
-meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais
-do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de
-continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o
-ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho
-commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á
-sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso
-contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus
-habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua
-companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas:
-basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que,
-ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto
-bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua
-bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me
-assim a vida, que te peço, de portas a dentro?
-
---Vive como quizeres, Maria--respondeu Teixeira com semblante
-magoado--Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas
-depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente
-minha irmã.
-
---Tua irmã.
-
---Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim.
-
---Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de
-conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa
-com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.
-
---Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o
-castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas,
-que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.
-
-E cumpriu religiosamente.
-
-Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em
-riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario
-dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous
-filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se
-até alli a perfidia fôra clandestina, d'alli em diante até por
-soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e
-ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel
-Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as
-velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e
-não lhe deu os filhos.
-
-Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre
-e amigo as lagrimas de alegria.
-
---Minha mãe--dizia-lhe elle--é agora a minha mestra. Tudo o que eu
-sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me
-que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao estudo.
-É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de
-historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida.
-
---Seu pae--disse o professor--deve sentir-se feliz, ouvindo-a...
-
---Meu pae raras vezes entra n'estas nossas conversações. Ha dous annos
-que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar
-o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella;
-mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe
-os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu.
-Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não
-souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe
-involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a
-obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes
-me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d'este mundo sem te
-vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba
-aos effeitos dos padecimentos passados...
-
-Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do
-conde de Basto, na carruagem d'este. João de Mattos viu-o, e fez parar
-a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro.
-
---Nunca mais se lembrou de mim?--disse-lhe elle.
-
---Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa excellencia.
-
---Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras.
-
-Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da
-policia a Manoel Teixeira.
-
-Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial.
-Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu
-estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido
-reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos
-Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle,
-era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram
-ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais
-se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As
-bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de
-Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as
-religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao
-cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos,
-e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia
-da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno.
-Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se
-tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam
-expirado nos meus braços.»
-
-Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os
-ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a
-sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta,
-sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente
-vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou
-a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O
-morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem
-sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que
-não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse
-desculpas que dispensassem a filha.
-
-Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:
-
---Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos:
-posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?
-
-Alvaro corou, e balbuciou.
-
-Maria proseguiu:
-
---Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças
-tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.
-
---Por que, minha mãe?!
-
---Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a
-educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se
-diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as
-a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e
-dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se
-ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais
-primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora
-enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás
-seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás
-então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a
-prophecia, que te faço hoje.
-
-Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste
-sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de
-confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:
-
-«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia.
-Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata
-ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de
-nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»
-
-No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.
-
---Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!--disse Sebastião de
-Brito a Maria da Gloria--A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado
-Miguel de Sotto-Mayor?
-
---Perfeitamente... Está nos Olivaes?!
-
---O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle
-respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso
-é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous
-bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.
-
---Isso que admira?!--acudiu com azedume Leonor--O pae não ouviu dizer
-que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do Conde! É
-boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque Camões,
-Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao
-mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que
-mais notavel vejo no poeta é o seu talento!
-
---E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha sobrinha!--disse
-Maria da Gloria.
-
---A pequena é maniaca por versos--replicou o pae--E o mais é que já
-os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo, Leonor?
-
---Meu primo não gosta de versos...--respondeu ella com fastio.
-
---Eu não desgosto;--disse Alvaro--e, se fossem teus, gostaria muito,
-prima...
-
---Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te o _Oriente_, e tu
-disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e
-atoucinhados como o author.
-
---Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do _Oriente_,
-poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.
-
-O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz
-súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo
-poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes.
-Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A
-paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de
-estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:
-
---Tu de certo não vens comnosco para Italia?
-
---Que pergunta! Eu já disse que não ia.
-
---E por que não vaes, Leonor?
-
---Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver mundo
-pelos afagos d'elle.
-
---Mas teu pae tem vontade que venhas...
-
---Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a
-d'elle.
-
---Ha outro motivo, minha prima--redarguiu Alvaro com muita tristeza
-corada por um suave sorriso de artificio.
-
---Qual?
-
---Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes.
-
-Leonor descompôz-se n'uma risada toda da garganta, e disse a final:
-
---Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador
-debaixo do balcão do castello a chorar amores!... Valha-te Deus,
-Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde!
-
---Mas elle de certo alli foi por tua causa...
-
---E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e eu
-não posso ser responsavel das tolices alheias...
-
-Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro,
-quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou
-por estas palavras no seio d'ella:
-
---Tem razão... devo esquecer minha prima.
-
---Menos, quando ella fôr desgraçada...--disse Maria da
-Gloria--Lembre-te isto sempre, meu filho.
-
-Sahiram para Veneza.
-
-Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para
-elles debaixo d'outros céos as lagrimas do coração!
-
-
-
-
-X
-
-
-_Se alguem provou já o golpe d'um
-desprezo aconselhe á minha dôr os
-remedios da sua._
-
-D. F. MANOEL (Epanaphoras).
-
-
-Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos
-enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o
-braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro.
-
-Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de
-volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de
-Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual
-digo com respeito ao morgado.
-
-Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em
-Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos
-dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na
-esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.
-
-Havemos de esboçar a indole d'este moço, se trinta e dous annos podem
-adornar-se com as graças da mocidade.
-
-As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo
-devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não
-escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes
-riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este
-vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e
-injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia
-carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos
-do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa
-impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as
-musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse
-ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d'um
-soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold».
-
-Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para
-excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escandalos na
-terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam
-os escandalos de fóra.
-
-Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de
-grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá
-aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger
-o infinito dos juizos divinos.
-
-Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de
-despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e
-sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os
-arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.
-
-Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de
-Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes
-passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o
-patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e
-sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no
-vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a
-reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna.
-N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e
-em menos de dous annos--eram-lhe escassos para viver limpamente os
-rendimentos d'ella.
-
-No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se
-assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza,
-reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o
-coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não
-asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava
-d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella,
-quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.
-
-Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o
-cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e
-consequencias d'ella.
-
-Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que
-se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro,
-desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis
-godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica
-de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e
-lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da
-pintura.
-
-No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da
-nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos
-herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala
-cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.
-
-Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de
-lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão
-bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto,
-perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal
-consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do
-casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de
-braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum
-tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como
-ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a
-idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel
-pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito
-disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter
-conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.
-
-Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da
-sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão
-mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao
-hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não
-traziam planos de completarem sua ruina.
-
-Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo
-que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito:
-
---Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de hospedagem,
-por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.
-
-Isto entendeu elle que era puro _byronianismo_; o dono da casa, porém,
-é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e
-lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em
-lençoes de vinho.
-
-Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor
-para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas
-acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento
-das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para
-se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por
-fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.
-
-Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou
-ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover
-judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio
-morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o
-pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha
-rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer
-do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae
-e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á
-dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.
-
-A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por
-Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira
-tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de
-Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A
-inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros
-lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e,
-delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.
-
-Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes,
-sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de
-sobejar-te tempo de seres feliz--dizia-lhe o pae--Teu primo não póde
-demorar-se... Que te diz elle nas cartas?»
-
---Diz que o tio está cada vez peor.
-
---Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa vem,
-e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.
-
---E que dirá meu primo--replicava ella--vendo-me reclusa n'um
-convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos que
-eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer;
-e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.
-
---A tua fama não está manchada--volveu o pae--Teu primo de certo
-perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem
-matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não tenham
-succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua
-reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o
-poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito
-noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a
-gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!
-
-Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e
-mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais
-digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado
-dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade,
-resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar
-desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que
-do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e
-byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando
-Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos
-a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas
-depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao
-castello de S. Julião da Barra.
-
-João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos
-Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter;
-chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe
-dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso,
-e chamal-o á sua presença.
-
-Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de
-Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica
-sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos
-tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois,
-sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal
-fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de
-Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia
-honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a
-deportação para Abrantes.
-
-Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:
-
-«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir
-escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu
-pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o
-amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe
-nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de
-vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em
-cada dia:--Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta
-agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os
-melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim,
-quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que
-espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco
-annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da
-tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como
-expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe,
-Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho,
-d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe,
-minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de
-tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes
-que eu perca a fé na misericordia Divina.» «--Minha mãe debulhava-se
-em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação
-que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de
-esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e
-confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste
-em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima.
-Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de
-minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor,
-porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de
-consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre
-Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria
-accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe
-não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te
-accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu
-coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica
-por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae...
-Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para
-Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a
-merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.
-
-«Napoles--Maio 15 de 1831.
-
-«Do teu
- _Alvaro._»
-
-
-Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio
-da vingança.
-
-Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro
-violento de Miguel de Sotto-Mayor.
-
-As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares
-phreneticos da morgada.
-
-
-
-
-XI
-
-
-_C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti
-qu'elle remerciait tous les
-soirs, de son esprit, et qu'elle le
-priait, tons les matins, de la préserver
-des erreurs de son cœur._
-
-MIRABEAU (Lettres à la marquise
-de Monnier).
-
-
-Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio
-depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a
-exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os
-Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e
-distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da
-lembrança a imagem do expatriado.
-
-Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de
-João de Mattos, para ir fallar-lhe.
-
---Chamei-o--disse-lhe elle--para lhe dar o que o senhor Macedo me não
-pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista casal-o com
-sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu coração
-sobre este designio de seu pae?
-
---Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.
-
---Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos de
-sua prima? Crê que ella o estima?
-
---Devo suppôr que sim.
-
---Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua
-prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que
-inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não
-póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em
-virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de
-passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos
-quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz
-milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã
-deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de
-desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia
-que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir,
-e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas
-lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu
-nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim
-que lhe matei a felicidade de toda a vida.
-
-João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e disse-lhe:
-
---Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me
-perdoou.
-
-Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca
-d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria
-ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus,
-que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se
-rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso,
-as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E
-accrescentou em voz alta:
-
---Vai dizer a esse nosso _amigo_ que tua mãe lhe deu este nome.
-Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle quizer
-emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com
-encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu
-sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua
-probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a
-felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.
-
-João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua
-mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e
-apontando para um grande painel, disse:
-
---Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um
-constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no
-infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.
-
-Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar
-comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.
-
-D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser
-propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua
-ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida
-dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em
-que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle.
-Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de
-perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender
-dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia
-d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal
-ainda mais á honra.
-
-Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que
-pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e
-conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas,
-scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas
-núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras
-paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e
-veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a
-saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no
-espirito de Maria da Gloria.
-
-Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu
-dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e
-offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a
-soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel
-n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor,
-cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo
-industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por
-entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida
-lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se
-no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de
-Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava
-o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e
-phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores
-sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas
-almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial,
-ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o
-igualar em merecimentos.
-
-Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da
-Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora
-industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre,
-professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de
-ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os
-despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio.
-
-Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão
-bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias,
-nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que
-tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de
-sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de
-tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava
-a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz
-conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença
-da tia.
-
-Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a
-escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na
-mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle
-hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr
-as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e
-terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda
-mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a
-lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.
-
-Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:
-
---Estes pontinhos que significam?
-
---Nada, minha prima.
-
---Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me
-escrevêl-o sobre as reticencias?
-
---Escreve--disse Alvaro risonho.
-
-Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:
-
-«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos,
-n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor
-dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a,
-porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as
-crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a
-vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla
-nos sonhos, me disser: _Sou eu._ A tua Leonor era o amor da innocencia;
-e eu sou a mulher da paixão.»
-
---Aqui tens--disse ella--Agora, sim; está completa a pagina.
-
-Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:
-
---Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes, Leonor?!
-
---É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim...--E
-dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.
-
-Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo
-d'aquelle beijo?!
-
-João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a
-modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no
-espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas
-promessas do espirito!
-
-Venceste, Leonor, venceste!... Uma victoria só te falta: olha se
-rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames,
-que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os
-mais sagrados deveres do coração.
-
-
-
-
-XII
-
-
-_Como se é criança!... como se é
-criança!_
-
-GOETHE (Werther).
-
-
-Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente
-a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia
-admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes
-meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a.
-
---O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro.
-
---Eu não posso mentir a minha mãe...
-
---São?--interrompeu Maria.
-
---Saudades, e duvidas que me atormentam.
-
---Que duvidas? se te ama?
-
---Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe...
-
---Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro.
-
-Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e
-mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu,
-e disse:
-
---Tanta palavra! tanta palavra!... Crês isto, filho?
-
---Diga-me a minha mãe se não devo acreditar.
-
---Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que fez
-alli tua prima, durante oito mezes.
-
---Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?
-
-Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta,
-recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a
-predispunha contra o enlace de seu filho e uma _douda furiosa_, dizia a
-carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor,
-desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa
-que a fizeram suppôr demente.
-
-Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua
-mãe as lagrimas.
-
---Crês no arrependimento de Leonor?--continuou a mãe serena e
-affavel--É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o
-ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual
-provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se,
-confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa
-menina é...
-
-Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a assim:
-
---É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.
-
-Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou
-com vehemencia e magestade:
-
---Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de
-coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por
-vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com
-o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as
-minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor.
-Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha
-vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a
-Deus que te dê forças para ella.
-
-Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em
-lagrimas.
-
---Não me falle assim, minha mãe!--exclamou elle--Perdeu a confiança
-no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor, nem
-mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que
-minha mãe uma vez me disse que eu fosse:--amigo d'ella, quando a visse
-desgraçada...
-
---Seja assim, filho!--disse Maria com desafogo e alegria--seja assim,
-converte em sentimentos de bom irmão esse amor, cuja profundeza tu não
-sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a tua boa mãe... Escuta, meu
-querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o
-caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter
-n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda
-absorvida na esperança de ser tua, e tão amante como virtuosa, dá-m'a
-como filha, e eu do amor que te tenho farei um segundo coração para
-lhe dar a ella.
-
-Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá
-estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a
-banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo
-não podia prevalecer.
-
-Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar
-seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram
-palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou
-differença.
-
-Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem
-ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas.
-Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto
-das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de
-certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar
-atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de
-poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver,
-nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si
-mesmo com as presas da sua propria paixão.
-
-Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco
-d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira?
-Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento
-e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla
-carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da
-commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue
-congelasse subito.
-
-Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na
-mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e
-ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.
-
---Por que me não amas tu?!--disse Leonor encarando repentinamente no
-primo.
-
---Que fizeste tu no convento das commendadeiras, Leonor?--respondeu
-serenamente Alvaro.
-
---Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte
-alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci.
-Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta
-educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe
-aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras,
-Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta,
-responde-lhe pela minha bôca.
-
-Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:
-
---Tu não amavas aquelle homem, Leonor?
-
---Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á
-fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na
-queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus
-annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada,
-tão envelhecida, chorarias, e dirias ás _virtuosas_ do convento que o
-seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem
-chora... Vamos para a sala, que é tempo.
-
-Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma
-estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois,
-áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era
-alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão
-de compadecer-se nas dores alheias!
-
-«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da
-tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando
-Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que
-dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar
-de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se
-junto á prima, e disse-lhe:
-
---Amas minha mãe, Leonor?
-
---Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que devia
-chamar-lhe mãe.
-
---Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não
-contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa
-ausencia?!
-
---Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a minha
-confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e,
-se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter
-vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.
-
---A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!--redarguiu mansamente
-Alvaro--Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o
-conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com
-ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume,
-não?
-
---Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar
-extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos
-meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não
-perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de
-mais...--continuou ella passando da brandura á irritação--Que crime
-foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva
-envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?
-
-Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de
-sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do
-artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina
-estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os
-espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella
-que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro,
-procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle
-incommodada.
-
-Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores
-de peito causadas pela compressão do collete.
-
-Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe,
-sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.
-
-Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos:
-
---Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os. Tens
-dous annos, e vagar para estudal-a.
-
-Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis
-desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava
-conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na
-incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo
-as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço
-desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á
-cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de
-seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém,
-infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores
-como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e
-obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a
-Leonor.
-
-Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão
-visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre
-a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á
-prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por
-tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.
-
-Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de
-poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira,
-d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para
-desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os
-olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia.
-Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada
-de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por
-satisfeito.
-
-De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á
-collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de
-pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um
-álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da
-alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é!
-N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: _L. A._ e dos
-sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as
-deixou pendentes dos braços tenros da arvore.
-
-Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e
-coração. Chorou, e disse:
-
---Quem me déra ser feliz, meu Deus!
-
-Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se
-ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia
-tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo
-sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa
-de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança.
-
---Pois não és tu feliz, Leonor!?--exclamou o apaixonado moço,
-apertando ao seio a incomprehensivel mulher.
-
---Sou feliz, sou, primo... Tenho momentos de louca, de perdida... Nem
-sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse
-desejar a morte...
-
---A morte!...--atalhou com espanto Alvaro--E eu a amar-te tanto, e a
-não pensar senão na vida, na felicidade d'este mundo, em que eu creio
-como nas palavras de minha mãe...
-
-Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde
-os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.
-
-Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena
-do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:
-
---Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes
-ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os
-olhos... Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na
-efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-«_Adeus!»... palavra fatal!_
-
-BYRON (O Corsario).
-
-
-Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna
-alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a
-annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era
-um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e
-linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação
-distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois
-dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.
-
-Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca
-chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em
-Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um
-caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso
-ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar
-em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente
-pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira
-desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de
-sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e
-agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala
-gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de
-Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra _Sotto-Mayor._
-
-A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada
-alegria e convulsões de louca.
-
-Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua
-esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus
-talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario.
-Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram
-realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém;
-elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e
-que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse
-infiel aos juramentos.
-
-Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu
-coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia,
-attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás
-debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos
-últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se
-a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor,
-e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o
-vira.
-
-O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias
-depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor
-alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na
-sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da
-estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta,
-e planeara o momento da fuga.
-
-Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.
-
-Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma,
-e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem
-Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um
-casal, que não via desde que fora enclausurada.
-
-A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o
-morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se
-os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro
-dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica,
-Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella
-hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor
-intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma
-sombra de desistencia.
-
-Ás onze horas, disse-lhe Alvaro:
-
---Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d'aqui tão lindo e prateado pela
-lua!...
-
---Vamos--respondeu ella após curta hesitação.
-
-E Alvaro replicou:
-
---Parece que não vaes de vontade!
-
---Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente constipada.
-
---Então não vamos, não, minha prima... Eu não sabia...
-
---Havemos de ir...--tornou ella--Espera um pouco...
-
-Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era
-franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida.
-Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua
-saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A
-espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em
-cada circulo uma zona de prata.
-
---É dizem que não ha felicidade n'este mundo?...--murmurou Alvaro,
-tomando nas suas as mãos de Leonor--Que é isto que eu sinto, e tu
-deves sentir agora!...
-
-Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:
-
---Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão!
-Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...
-
---Isto é bello!...--disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou não ouviu
-o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca
-eloquente; e amante.
-
-Soaram os tres quartos depois das onze.
-
---Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de
-capuz?
-
---Vou; mas tens frio?
-
---Receio têl-o e não quero sahir d'aqui...
-
---É melhor irmos, vamos, prima...
-
---Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?
-
-Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor
-correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema
-d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da
-abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo
-emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena
-janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um
-homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A
-poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada
-fugida.
-
-Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores
-cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha
-Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram
-depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria.
-
-Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.
-
---Onde está ella!?--perguntou o pae--Falla, Leonor, não andes a fazer
-fosquinhas!...
-
---O local é proprio para jogar as escondidas...--acrescentou Maria da
-Gloria.
-
---Eu vou dar com ella--tornou o morgado, batendo os caramanchões, e
-dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.
-
-N'isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse:
-
---Leonor já não está aqui.
-
---Pois onde ha-de estar? essa é boa?--replicou o tio. Vamos dar com
-ella no laranjal.
-
-E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e
-viram aberta uma janella.
-
---Aquella janella aberta!--disse Sebastião de Brito.
-
---Foi por alli que ella sahiu--ajuntou Alvaro; mas a ultima palavra
-proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.
-
-O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco.
-Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna
-esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados
-os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto
-Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não
-lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e
-acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno.
-Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por
-elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça,
-impulsada pelos braços de Maria da Gloria.
-
---A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho--exclamou a mãe.
-
-Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e
-sentou-se, escondendo nas mãos a face.
-
---Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?--tornou Maria da
-Gloria--Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?
-
---Não me falle, minha mãe--disse Alvaro com energia--A que vem Deus
-aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.
-
-Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de
-Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos,
-quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de
-passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para
-a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a
-Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta
-ordem, ergueu-se, e disse chorando:
-
---Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!...
-
-Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:
-
---E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não
-morrerás, não, Alvaro?
-
---Morrer!... Não se morre assim, minha amiga... Os seus onze annos de
-martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha
-mãe...
-
-Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns
-instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e
-articulou:
-
---Adeus!...
-
-Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou:
-
---Ora veja que mocidade a minha!... Estou no principio da vida!...
-
-Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A
-carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á
-portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção:
-Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o.
-
-O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou
-almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas
-leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite,
-ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho,
-quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor
-tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por
-povoações menos praticadas até Coimbra. D'ahi passou a Aveiro onde
-tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a
-esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius,
-defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.
-
-Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do
-entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus
-camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara
-foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua
-consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno.
-Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que
-pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.
-
-Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás
-trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das
-batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas
-vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta
-seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco
-de Sant'Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos
-especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle
-grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do
-espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande
-fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella,
-achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos
-aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça
-de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem
-damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram
-difficeis n'aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada
-dos valentes era sua filha.
-
-Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel
-de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi
-um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou
-noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do
-Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella
-a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha.
-Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e
-recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos
-odios politicos.
-
-Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si
-mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do
-coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que
-tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros
-invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas,
-pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.
-
-Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que
-invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua
-gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e
-rematou pedindo-lhe novas de seu primo.
-
---Nunca mais o vi--disse elle--consta-me, porém, que vive muito triste,
-e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de Santarem.
-Pobre rapaz!...
-
---Mas não morreu!--acudiu Leonor.--Todas as paixões assim são, meu
-pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para
-se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á
-vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua
-indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo,
-não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da
-martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é
-perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher
-muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa
-que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para
-comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no
-coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á
-outra. Ora aqui tem, meu pae!
-
---Parece-me que tens razão, filha...--disse Sebastião de Brito,
-tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao
-escarlate.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-... _Que direz vous de l'indigence?_
-
-MONTAIGNE (Essais.)
-
-
-Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as
-herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens
-livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com
-os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a
-juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens
-nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh'o não
-quizerem dar por caridade.»
-
-Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu:
-
---Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas.
-
-O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era
-aquella.
-
-Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde
-tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de
-emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos
-Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da
-terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos,
-descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do
-vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.
-
-Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao
-seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra,
-se os credores t'o não quizerem dar por caridade.»
-
-Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e
-ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no
-Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia,
-habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa,
-requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no
-livro da secretaria.
-
-N'este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de
-Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens
-livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um
-palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos,
-e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o
-bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão
-por um enlace matrimonial dos filhos ambos.
-
-Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando
-ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito
-podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a
-senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho,
-respondeu:
-
---Quem castiga é Deus.
-
-O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob
-condição de ficarem n'elle como inquilinos por tempo de tres annos os
-devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de
-Brito depositario d'ella.
-
-N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da
-inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e
-enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a
-familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.
-
-Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo
-anjo do castigo os está contemplando com formidavel silencio. Miguel
-tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e
-desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a
-escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso
-d'aquelles caramanchões estão os bancos rusticos em que Alvaro se
-assentava. Alli á beira do lago está o escabello de cortiça em que
-ella ficara sentada, quando Alvaro foi buscar a capa. Por que não
-creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor
-está chorando!?
-
-Ahi estava sósinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pateo.
-
-Leonor admirou-se: já ninguem a visitava de carruagem. A nova criada
-não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma
-mulher, que não tinha geito de senhora.
-
---Isso me quiz parecer...--disse Leonor entre si--mas de carruagem!...
-Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem...
-
---O boleeiro traz libré--disse a criada.
-
---Libré!--murmurou Leonor--Então enganei-me...
-
-Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.
-
-Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a
-abraçar!
-
---Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho
-mais ninguem!--disse a soluçar Leonor.
-
---Está muito infeliz, minha senhora?!--perguntou Eufemia.
-
---Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive
-feliz?
-
---Feliz, não! Com aquelle filho sempre triste, como ha-de ella ser
-feliz!... Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!...
-
---E achas-me feia, Eufemia?!--perguntou Leonor com um triste sorriso,
-expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em que
-a mulher, que foi bella, ainda affronta a desgraça.
-
---Feia, não, minha querida senhora... Acho-a mais magrinha, e sem
-aquellas côres de roman, que pareciam dar saude á gente... Em fim, é
-conformar-se com a vontade de Deus, e pedir á Virgem Maria que dê
-saude a sua tia, que é uma santa. De mando d'ella é que eu vim aqui
-trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos
-mezes, cá venho trazer-lhe outra assim.
-
-Eufemia depositou sobre uma mesa um rôlo de dinheiro.
-
---Dirás a minha boa tia--disse Leonor com as lagrimas estancadas nas
-palpebras--que a pobre Leonor acceita a sua esmola, e lh'a agradece com
-este pranto que vês.
-
-Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por ultimo:
-
---D'hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia
-padeceu onze annos...
-
---Minha tia era um anjo de innocencia, e eu estou expiando culpas
-enormes: ella consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço
-o castigo.
-
-Eufemia deu conta da sua commissão a Maria da Gloria, e retirou-se
-quando Alvaro entrava.
-
---Olha que está muito infeliz a pobre Leonor!--disse a mãe.
-
---Não lh'o tinha eu dito?! Acceitou?
-
---Acceitou, e agradeceu com lagrimas.
-
---Deve de estar muito quebrado aquelle genio pela desgraça!--tornou
-Alvaro--Acceitou a esmola!... Pobre mulher!... Deve estar mudada tambem
-de rosto...
-
---Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco aceio.
-
---Perguntaria por mim?
-
---Não sei, filho... Eu presumo que não teria força para tanto!...
-Fiz-te a vontade, Alvaro?
-
---E a sua vontade, minha mãe, não era soccorrer tambem a infeliz?
-
---Era, era, meu filho...
-
---Pois não se esqueça de lhe mandar todos os mezes o que a mãe julgar
-necessario á decencia d'ella.
-
---Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido ha-de tomar n'este
-soccorro?
-
---Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de minha
-prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos.
-
---Esperava essa resposta: a tua generosidade, Alvaro, é desinteressada,
-e nobre. Vejo que não pode nada comtigo o ciume...
-
---Não, minha mãe--disse Alvaro n'um falso tom de verdade, movimento de
-feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados.
-
---Assim é que eu entendo a virtude--continuou Maria da Gloria--são
-estas as joias de puro ouro que trazem do céo o signal da sua valia. Se
-te deixasses levar d'um calculo, o mesmo seria lançares á balança das
-culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da antiga Leonor o que resta para
-ti é a mulher desgraçada, não é assim?
-
---De certo... Que mais pode restar?!...
-
---Mais nada... O Senhor te abençoe o coração, e t'o encha de alegria
-e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho
-das boas acções.
-
-Alvaro, logo que pôde estar sósinho com Eufemia, perguntou:
-
---Minha prima não lhe perguntou por mim?
-
---Não, meu senhor.
-
---E Eufemia proferiu o meu nome?
-
---Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste... e ella...
-ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa.
-
---Mas ficou pensativa? e viu-lhe lagrimas?
-
---Ora, se vi!... quando lhe dei o dinheiro, as lagrimas rebentavam-lhe
-dos olhos como punhos.
-
---Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia d'estas cousas de minha
-mãe?...
-
---Nada, não disse, porque o menino e a mãesinha assim m'o ordenaram.
-
---Fez bem, e nunca lh'o diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe fiz
-estas perguntas.
-
---Não digo, esteja o meu filho descançado.
-
---Olhe, Eufemia... Leonor está muito acabada?
-
---Se está! nem parece ella! lembra-se d'aquellas rosas que ella tinha
-no rosto? Nem signal d'ellas! Está muito magrinha, e tem á volta dos
-olhos umas pisaduras que parecem de tisica...
-
-Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma
-saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho
-amava Leonor.
-
-Aqui vai trasladado um fragmento:
-
-«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha
-imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua
-belleza, e o que serás ámanhã aos olhos d'esse homem que te encravou
-na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias
-dôres, te arrancaria, se podesse!? Ó Leonor, que supplicio tu mesma
-escolheste! Por que não foges d'ahi onde estão as flôres da nossa
-infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e
-aquellas arvores da collina!? Foi o teu demonio que te acorrentou á
-sepultura onde enterraste o meu pobre coração!?
-
-«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tedio da existencia é a
-maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e
-gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do
-passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos.»
-
-Quer-me parecer que ha ahi expressões indicativas d'um sentimento que
-não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, affirmo que só
-a amisade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se
-assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a
-amisade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei
-sempre em cousa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre
-do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amisade» e nada se me
-dá que a lingua humana por ahi traga a palavra envilecida nos
-enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia
-infamam aquelle divino dom da alma humana.
-
-Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivaes.
-
-Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou
-Leonor a pé.
-
---Esperei-te--disse ella--para te contar que minha tia me remetteu este
-dinheiro, e a promessa de me dar uma mezada. A nossa posição melhora,
-e o teu espirito, se me não engano, está livre das afflicções da
-desfortuna domestica.
-
---Sendo assim, de certo!...--disse Sotto-Mayor com alegria--Bem sabes
-que felicidade e pobreza não se compadecem. Quem teve muito e aspirou a
-mais, por grande que tenha o coração, esmorece ante o aspecto da
-miseria. Eu espero a independencia, quando entrarem no ministerio outros
-homens; e não me pejo de acceitar de tua tia este dinheiro como
-emprestimo.
-
---Agora, outra cousa--proseguiu Leonor--Que fazes tu fóra de casa até
-estas horas, Miguel?
-
---Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são
-exigências do soffrimento, minha Leonor.
-
---Pois bem--replicou ella entre ironica e meiga--agora que o soffrimento
-deve ser menos exigente, vive mais commigo.
-
---Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei
-involuntarios.
-
-Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os
-criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o
-que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de
-quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas
-parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o
-proprio Sebastião de Brito voltou á casa de seus avós, com os
-cabellos cada vez mais variegados de côr do barro e azeviche. Trezentos
-mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte
-para satisfazer as necessidades do luxo.
-
-Maria da Gloria disse uma vez ao filho:
-
---Tua prima não aprendeu nada no infortunio.
-
---Por que, minha mãe?
-
---Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares?
-
---E será ella feliz?
-
---Parece que é.
-
---Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos.
-Desgraçada era ella antes dos seus soccorros.
-
---Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o que
-recebe de esmola.
-
---Não digamos _esmola_, minha mãe: a palavra é humilhante... Leonor
-é sua sobrinha; e meu pae daria tudo para não vêr em miseria aquella
-familia. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos
-roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor.
-
---Que alma a tua, Alvaro!--exclamou Maria da Gloria, abraçando o
-filho--E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres annos, e
-vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que não
-vaes aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a
-maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?
-
---Não, minha mãe--respondeu Alvaro--Tenho tudo, que mais quero, n'este
-estreito recinto: aqui, minha mãe; alli, os meus livros. As viagens
-instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso
-aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha
-vida, são ellas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a
-renovar o coração. Esta obra ha-de fazel-a o tempo. Não se é feliz
-em parte alguma, quando se não póde ser entre as reliquias da
-infancia, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a
-vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que
-nós.
-
-
-
-
-XV
-
-
-_Lata porta ... quœ ducit ad perditionem._
-A larga porta que dá passagem para a perdição.
-
-S. MATT.--7. 13.
-
-
-A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o
-morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma
-nobre casa de Alemquer.
-
-Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de
-virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Mayor frequentou a
-familia, muito aparentada com sua mulher.
-
-Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas
-seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme;
-porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama
-corria desluzida e mareada á conta d'elle. Aquelles passeios nocturnos,
-nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor
-dizia serem a sua mulher: _exigencias do soffrimento_; exigencias de
-intenção ruim é que elles eram.
-
-Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou
-da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou
-a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo.
-Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e
-despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas.
-Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta
-anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio
-de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.
-
-O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe
-incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso
-como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.
-
-Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de
-cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as
-janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora,
-apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois
-d'alguns segundos.
-
-Eu de mim não tiro conclusões algumas d'esta luz; mas o morgado
-tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram
-a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem
-descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua
-mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um
-signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de
-golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um
-corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d'onde
-fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um
-castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e
-entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d'um
-punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito.
-
---Morres, se gritas!--disse o morgado com a postura e phrase
-de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era
-solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para
-Lucrecia--Morres--continuou elle com voz soturna--se me não dizes o que
-significa o signal que tens ido dar á janella com a luz!
-
-A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo
-como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes
-theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.
-
-Decorreram tres noites depois d'esta.
-
-Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe.
-Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o
-orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia
-uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder
-enfrear o seu ciume.
-
-Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:
-
---Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo.
-
---E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?!--respondeu carregando o
-sobr'olho.
-
---Diz-m'o o coração...
-
---O coração!...--redarguiu sorrindo o marido--O que é o coração!...
-O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o sangue. O
-coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não vou
-a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para
-conjurarmos na derrota do ministerio, e na morte de Agostinho José
-Freire.
-
---Mentes, Miguel!--exclamou Leonor.
-
---Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir.
-
---Miguel!--tornou ella com vehemencia e excitada a lagrimas--não
-vás... Olha que o tio morgado teve aviso, e elle é mau, e tu ficas um
-dia morto.
-
---Quem o avisou?!--replicou, risonho, o marido--Serias tu? Capaz serias
-da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?!
-
---Sei-o... Não vás, peço-t'o com as mãos erguidas!...--e chegou a
-dobrar os joelhos diante d'elle.
-
---Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra, Leonor? O
-meu destino é o Poço do Bispo, já t'o disse.
-
---Juras-me que não vais a Porto-Alvo?
-
---_Juro_, dizia Molière.
-
---Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando disse
-_juro._
-
-Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de
-Leonor, beijando-a na testa.
-
-Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande
-distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de
-Porto-Alvo.
-
-Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado
-tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor
-alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde
-significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem
-significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha
-mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao
-cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos.
-
-Antes d'elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador
-dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do
-punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou
-a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu
-ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal
-novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por
-um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma.
-Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de
-Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se
-avistava o signal.
-
-Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que
-descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes
-a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para
-examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe
-vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira
-abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos
-do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo
-espaço, suspenso n'um dos estribos.
-
-Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o
-estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a
-amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo,
-cuidou que elle havia já subido, como d'outras vezes, deixando o
-cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos
-sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias,
-bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça.
-Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do
-estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com
-os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:
-
---Fui eu que o matei!
-
-D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e
-blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.
-
-Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na
-estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu
-amo.
-
-Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um
-atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A
-maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh'o
-reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros
-tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe
-pegaram ao sangue empastado do peito.
-
-Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para
-casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu
-marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de
-Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de
-Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a
-justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto,
-e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e
-indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral,
-estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso.
-Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:
-
---Foi este o assassino de meu marido.
-
-O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a
-vista por todos, e perguntou:
-
---A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!...
-
-Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a
-tambem.
-
---Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a
-devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?
-
-Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia.
-
---Agora diz que foi uma mulher que o matou!...--dizia o morgado--Não ha
-duvida! está louca a infeliz senhora!
-
---Não estou louca, não, scelerado!--bradou Leonor, contorcendo-se nos
-braços das amigas--Mataste-o tu, cobardemente, feroz villão! Mataste-o
-e cuidas que a boca do morto não ha-de revelar a infamia de tua...
-
-N'este ponto, os labios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão,
-que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando.
-Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da
-Gloria.
-
-O mesmo foi vêl-a, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando:
-
---Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!... Abra-me por piedade o seu
-coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso...
-
-Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse ás senhoras e
-cavalheiros:
-
---Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes
-accessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com
-ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de
-cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-_Suadeo tibi emere à me aurum ignitum
-probatum, ut locuples fias._
-
-Admoesto-te a que me compres o
-meu ouro de fino quilate para te locupletares.
-
-APOC. 3. 18.
-
-
-Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria
-da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias
-de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que
-a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria.
-E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os
-aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas
-nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam
-espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos
-imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido
-assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A
-sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados
-de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores
-reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de
-capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama,
-repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da
-criada com um sorriso, e estas palavras:
-
---Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que
-não mata a honra de ninguem.
-
-Ficou Leonor com seu pae.
-
-Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do
-defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a
-purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto
-se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se
-viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a
-lançava de si:--a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa
-na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto
-a seiva que as alindava.
-
-Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia
-não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa,
-menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos
-theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os
-conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas
-ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para
-acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar
-que hoje.
-
-Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella
-mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher,
-que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde
-que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra
-do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos,
-Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave
-tristeza da musica.
-
-Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser
-convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:
-
---A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não
-encontrarmos.
-
---E, todavia, meu filho--replicou a mãe--estás sempre perguntando-me
-se a mezada será sufficiente para o bem-estar de Leonor!...
-
---Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de
-dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser
-feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas,
-signal é de que não representa algum affecto de coração a minha
-prima.
-
---E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um homem
-que a expozesse a novas miserias?
-
---Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar
-contra a estrella fatal d'aquella infeliz.
-
---E crês tu na fatalidade, filho?...
-
---Creio, minha mãe.
-
---E a virtude que fica sendo?
-
---A fatalidade do bem.
-
---Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á
-deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!
-
---Eu--disse Alvaro com profunda amargura--não sei o que é melhor, nem
-mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que sinto... o
-melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que é
-a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que
-bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?
-
---Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem religião?...
-
---Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de
-amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus
-me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...
-
-Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava
-fallar a Alvaro.
-
---A mim!?...--disse elle, admirado--e foi á sala onde o esperava a
-senhora.
-
-Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos
-amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.
-
---Não a conheço, minha senhora--disse Alvaro.
-
---De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu pae--respondeu
-ella em italiano--sou a desgraçada que acompanhou seu pae do theatro de
-Milão para Lisboa ha dezeseis annos. Vi o snr. Alvaro criancinha ao
-peito de sua ama, e torno a vêl-o homem com a reputação igual á das
-virtudes de sua nobre mãe.
-
-A italiana enxugava as lagrimas.
-
---Queira continuar--disse Alvaro.
-
---Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous
-filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz,
-era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em
-quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos
-delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos
-meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que
-eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao
-charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um
-demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi
-fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como
-instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho
-pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu
-não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle
-reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa,
-roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não
-ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que
-elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para
-as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao
-dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um
-homem, que me conhecera em tempos felizes... _felizes!_... que falsa
-apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e
-alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante
-responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa
-d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o
-pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na
-alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores,
-valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze
-dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta
-por toda a vida.
-
-A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:
-
---Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o
-salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de
-mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento
-dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem
-o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.
-
-Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:
-
---O nome de seu filho?
-
---É Julio de Macedo.
-
---Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa dos
-meus esforços.
-
-A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza
-d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da
-escada.
-
-Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher,
-tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e
-disse-lhe risonha:
-
---Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia procurar-te
-em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...
-
-Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a
-sua mãe.
-
---Em que pensas, filho!?--tornou ella rindo em gargalhada--Estás ainda
-arrobado na visão da deidade, que te veio roubar o socego?!... Diz o
-que sentes, Alvaro!
-
---Logo, minha mãe, logo...--respondeu Alvaro, cada vez mais enleado.
-
---E por que não ha-de ser já?!--redarguiu Maria da Gloria com
-gravidade--Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa
-arvore produziu fructos tão maus!?
-
-Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns
-monossyllabos.
-
---São aberrações--proseguiu ella--Não lhe ouviste dizer á pobre
-mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que
-dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua
-vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação
-minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo
-vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a
-fortuna te dá.
-
-Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o
-perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo.
-O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia.
-Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço.
-Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e
-appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas
-de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu
-filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre;
-a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo
-como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a
-italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.
-
-O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava
-palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma
-virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da
-antiga locataria do palacio de Belem:
-
---Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde
-contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a
-senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu
-conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço
-doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e
-levem as lições da desgraça para a conservarem.
-
-D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com
-exclamações e lagrimas.
-
---As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos--disse
-Alvaro--Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe
-vejo no rosto.
-
-D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho,
-partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo
-dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de
-Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito
-da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração
-d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me
-respondeu:
-
---A fortuna de duas familias independentes.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-_Un groupe de Dalila et de Sanson
-avec celui de la farouche Judith serait
-toute la femme expliquée._
-
-BALZAC.
-
-
-Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza
-d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito,
-legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus
-desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha
-acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu
-a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do
-hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns
-desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o
-fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que
-sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia
-ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada,
-confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de
-Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com
-claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo
-atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da
-peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo,
-não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.
-
-Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia
-licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder
-lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de
-sua prima.
-
-Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um
-palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal
-de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás
-vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da
-viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em
-disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas,
-tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.
-
-Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha,
-e communicou-as a Alvaro.
-
---Pois a mãe que esperava!?--disse este--Leonor teve treguas de dous
-annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.
-
---E qual achas tu que é o nosso dever?
-
---Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não
-podér nada com ella, ampare-a como até aqui.
-
---E se eu lhe retirasse os meios--replicou Maria da Gloria--crês tu que
-o segundo calculista a não deixaria em paz?
-
---Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um indigente
-como ella.
-
---Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?
-
---Julgo, mãe.
-
-Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar
-concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.
-
---O teu mau anjo não te deixa, Leonor?
-
---Porque falla assim, minha tia?
-
---Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as
-tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de
-felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha?
-Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como
-pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa
-miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das
-lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre
-coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos
-ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!
-
-Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua
-tia, soltando estas palavras:
-
---Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia. Agora
-fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem sabia
-que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera
-antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a
-vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.
-
---Explica-te, Leonor...--atalhou Maria da Gloria estarrecida de espanto.
-
---Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa vista
-para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração,
-teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o
-parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso
-de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o
-mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me
-via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns
-punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a
-sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus
-parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me
-era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás
-mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do
-espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me
-culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a
-mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um
-nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco
-illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma
-educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente,
-humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus
-proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades
-que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem
-merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade
-santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido,
-eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para
-beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous
-annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que
-meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade,
-e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar
-a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este
-acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam
-«cynismo»; é aquillo que eu já disse--o despreso de mim propria.
-Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um
-homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das
-suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós.
-É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a
-sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por
-duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas
-da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á
-mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as
-privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e
-sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato
-de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na
-minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola,
-beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem
-pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que
-os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a
-meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus.
-Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha
-criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha,
-que os credores de certo não querem; irei lá viver.
-
-Calou-se Leonor.
-
-Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e
-disse:
-
---Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma
-injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de
-Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o
-remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo»,
-foge para mim que eu te abrirei os braços.
-
-Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de
-abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.
-
-Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por
-elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a
-necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso
-do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava
-casar-se.
-
-Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam
-sobre o mesmo motivo, disse:
-
---Esse homem julgará rica a prima Leonor?
-
---Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia dos
-seus parentes.
-
---Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta com o
-beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um
-nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...
-
---Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?
-
---Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto no
-collegio, nos meus ultimos tempos.
-
-Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo,
-professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim
-ao encargo, que recebera:
-
---Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de
-amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as
-pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na
-poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida
-que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é
-romantica, terceiro porque é romantica.»
-
---E porque é rica--atalhei eu.
-
---Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por
-tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...
-
---Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma
-sem-razão. D. Leonor é pobre.
-
---Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!
-
-Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que
-os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos
-inconvenientes das suas parentas necessitadas.
-
---Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui vêr--redarguiu
-elle--e aquell'outro de ruinas tão poeticas; e aquellas duas quintas
-que se espreguiçam na margem do aurifero Tejo... que me diz o senhor a
-isto?
-
---Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que
-meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &c., &c.
-Mas--conclui eu--as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu,
-prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres
-vezes romantica.
-
---Diz muito bem--acudiu elle:--o casamento ha-de fazer-se, quando eu for
-tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o meu caro mestre e
-amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.
-
---Quer dizer...
-
---Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se
-ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita
-philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me
-agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui
-estou ás ordens.
-
---Aqui tem o senhor Alvaro--continuou o professor de inglez--o que
-passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão da liberdade
-com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.
-
-Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do
-mestre de inglez, disse:
-
---Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas
-encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.
-
-Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa
-e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados.
-Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:
-
---Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O
-cavalheiro de certo não falta.
-
---Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria dignidade!?
-
---E por que não diz «ao seu proprio coração...»?--retorquiu ella
-com despeitado sorriso.
-
---O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se
-atreve a entrar nos juizos do espirito...
-
-Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou
-anciosa o dia seguinte.
-
---Vou responder--disse ella--cathegoricamente ás suas cartas. O
-pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça
-respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas
-cartas, não é assim?
-
---Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!
-
---Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause
-estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.
-
---Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa
-excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da
-amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem
-distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes
-preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu
-acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á
-minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a
-trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com
-grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em
-confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das
-considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?
-
---Elucide-me...--atalhou Leonor--A sua linguagem é escura!
-
---Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha senhora. Eu
-sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem
-da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.
-
---Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que me dotava
-com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da
-felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o nobre
-trabalho da intelligencia.
-
---Tambem é certo--redarguiu algum tanto confuso o jornalista--era,
-porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade em relação
-áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não está vossa
-excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a felicidade
-real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de philosopho.
-Todavia...
-
---Queira dizer-me--interrompeu a viuva--a quem pediu informações dos
-meus recursos?
-
---Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as;
-não as averiguei; deram-m'as.
-
---Quem?
-
---Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?
-
---Conheço.
-
---Como conhece, minha senhora?
-
---Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?
-
---Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia não
-tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se
-contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.
-
-Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o
-litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira
-sahir.
-
-Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:
-
---Sua excellencia manda sahir.
-
-Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se
-tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.
-
-Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de
-Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era
-esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.
-
-Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato
-avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.
-
---A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!--disse a criada--Que tem,
-senhora D. Leonor?! a menina tem febre!
-
---Trazes-me a esmola?--disse Leonor com desabrimento--Leva-a a tua ama,
-e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa
-encerra. Tudo isto não vale um terço do dinheiro, que recebi; mas é
-honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre
-desgraçada repelle a mão bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo
-do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que
-o rotulo da sua caridade é um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu
-ouro, ganhado sobre o balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude
-não está sómente nos temperamentos de gelo, que facilmente são
-virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.
-
-Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por
-julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso
-de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o
-coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege
-de praça, e deu ordens ao boleeiro.
-
-Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que
-não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu
-serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia
-gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.
-
---Esperemos...--disse elle a sua mãe.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-_N'aurez-vous point pitié, jeune homme?...
-Non, non, j'en ai le pressentiment,
-une ère nouvelle commence_...
-
-R. de LORGUES. (L. das Communas.)
-
-
-Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e
-pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que
-Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo
-firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos
-envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que
-morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre,
-mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns
-velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a
-seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira
-vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a
-porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se
-estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de
-Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem
-quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á
-herdeira.
-
-Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema,
-encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é
-verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza
-resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em
-rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar
-um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:
-
---Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o deixou
-a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe,
-economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da
-sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.
-
-O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de
-douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.
-
-Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por
-um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de
-vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de
-Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e
-nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.
-
-De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava
-abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a
-cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da
-casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite
-velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.
-
-A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e
-sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados,
-arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante.
-Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa,
-Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a
-mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da
-contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando
-aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos
-empuxões de fóra.
-
-Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e
-experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta
-d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no
-verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta
-criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:
-
-
-«A minha tia Maria da Gloria.
-
-«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a
-independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não
-morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava
-d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação
-deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo
-tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus
-parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido
-uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu
-perfeito juizo.
-
-_Leonor de Brito._»
-
-
-Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou
-a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço
-esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o
-braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o
-ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.
-
-Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára
-sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das
-vidraças, por onde saltou dentro.
-
-Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que
-salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem
-sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o
-cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com
-pannos adhesivados e compressas.
-
-De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara
-a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro
-Teixeira.
-
-Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de
-mortal espasmo.
-
---Leonor! minha prima!--exclamou elle--passando-lhe a mão na
-fronte--Que sangue é este?!--bradou, vendo as compressas tingidas.
-
---É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma
-tesoura...--disse o feitor.
-
---A minha carruagem depressa aqui!--bradou Alvaro--Ajudem-me a
-transportal-a.
-
-Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor
-na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao
-respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do
-corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o
-quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para
-Lisboa, a passo.
-
-A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os
-olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se
-tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:
-
---Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre,
-quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo
-necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei
-sempre...
-
-Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se
-um sorriso, e murmurou:
-
---Um cadaver...
-
-Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor,
-e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no
-coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.
-
-E contemplou-a.
-
-Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço
-esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida
-que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios,
-restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o
-pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E
-parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus
-olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora
-de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não
-guardou lembrança.
-
-A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas,
-chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar
-Leonor, e leval-a a um leito.
-
---Creio que vem morta...--disse Alvaro--e sahiu para logo voltar com
-dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por
-esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram
-elles.
-
---A vida da alma--dizia Alvaro com assombro dos medicos--deem-lhe a vida
-da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um
-corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da
-razão!
-
-E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes
-dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:
-
---Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.
-
-E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega
-que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.
-
-Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o
-filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha,
-que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam
-vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em
-Deus o salvamento da prima.
-
-Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e
-comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro,
-e balbuciou:
-
---Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que tu
-tens penado!...
-
-Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas
-jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as
-articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade,
-excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe
-estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes
-intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o
-coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.
-
-Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro,
-conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma
-esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da
-Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor
-com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer
-era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas
-não para ella.
-
-É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em
-encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com
-ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E
-Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o
-coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.
-
-Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu
-quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima
-tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua
-mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de
-feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as
-bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza
-das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de
-hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão
-vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida
-formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em
-que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...
-
-O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com
-bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por
-Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a
-denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos
-de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava
-Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão
-soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa,
-estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos
-rancorosos do velho odio civil.
-
-Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e
-sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e
-visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou
-ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar.
-Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito
-valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e
-retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua
-residencia para a quinta do valle de Santarem.
-
-Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas
-de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era
-o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas
-juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres
-esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe
-seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns
-parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se
-vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as
-amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo
-que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas
-estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia
-d'elle e de sua mãe.
-
---Se não podes dar-me vida, Alvaro--dizia ella--que vem aqui fazer esta
-gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a
-piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido,
-meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu
-vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia
-Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria
-contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido
-de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou,
-estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a
-razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o
-natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo,
-Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á
-curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora
-feliz!...
-
---Feliz!...--atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a
-formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.
-
---Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a
-visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade,
-passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me
-a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella
-mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra,
-ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de
-louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em
-particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita
-gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a
-que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre
-coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha
-a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha
-servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de
-muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias
-indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois
-sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no
-rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude
-ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo
-tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?
-
-Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas.
-Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:
-
---Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade
-que mereces?
-
---Dá, minha Leonor...--balbuciou o internecido moço--Dá... é a tua
-amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho
-eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via
-continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera
-do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria
-celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade
-me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus
-dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao
-amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu,
-Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento
-que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão...
-N'aquelle tempo...
-
---Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...--atalhou Leonor, afogada de
-soluços...--Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de
-compaixão...
-
-
-
-
-XIX
-
-
-.... _Já dava no rosto a friagem
-da noite da eternidade; só faltava regelar
-de todo... e cahir._
-
-A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de
-Monte-Alverne).
-
-
-Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do
-leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a
-paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito,
-transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia
-a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas
-bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então
-occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se
-acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:
-
---O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do
-corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.
-
-A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que
-ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus
-vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle
-amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e
-contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto
-ella, sorrindo, dizia:
-
---Queres por força que a morte se namore de mim!
-
-Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e
-extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles
-extasis!
-
---Vejo os teus dezoito annos, Leonor!--disse-lhe elle um dia.
-
---Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o
-coração!--respondeu ella--A primeira paralysia era a peor...
-
-Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:
-
---Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje
-escondido de ti o unico segredo, que devia esconder--a sensivel
-aproximação do meu fim.
-
---Que é, minha mãe?!--exclamou o filho, correndo a abraçal-a.
-
---Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê
-até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te
-revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que
-ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa
-doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido
-um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu
-chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez,
-Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te
-dizer o fim para que te chamei!...
-
---Diga, minha mãe... — atalhou Alvaro com simulada quietação.
-
---Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha
-morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor,
-ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer
-que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma
-esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora
-final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te
-amortalhará, meu pobre Alvaro!?
-
---Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe--respondeu elle tranquillamente
-após alguns instantes de concentração--Agora, rogo-lhe, por quanto
-amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.
-
-No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa.
-Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em
-pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa,
-e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como
-quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a
-confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração,
-já em seu periodo final.
-
-Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que
-lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no
-collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de
-Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o
-XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que
-vem assim intitulado: _Demonstração da equidade da Providencia para
-com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da
-dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação
-dos seus soffrimentos._
-
-Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a
-ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada
-que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde
-mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações
-horriveis, que poucos sabem supportar.»
-
---Não leias mais, filha...--disse Maria da Gloria--conta-nos o que
-fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres
-annos que lá não tinhas ido!... Com quem fallaste, filho?
-
---Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar
-algum tempo para negocios nossos.
-
---Algum tempo!--disse Leonor--e com que placidez de espirito dizes isso,
-primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?
-
---São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha
-demora o mais que possa...
-
---Soubeste--atalhou Maria--se teem sido cumpridas as nossas
-determinações?
-
---As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me
-que a vejo reanimada!...
-
---Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que
-o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é
-tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora?
-
-Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou
-placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres
-abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a
-quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.
-
-Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local,
-senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e
-foi para Lisboa.
-
-Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada
-pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não
-morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que
-parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao
-filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão
-morro sem te dar o ultimo suspiro.»
-
-A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a
-Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de
-sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da
-Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do
-filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras
-exclamações:
-
---Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!
-
---O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho.
-Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!
-
-Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça
-encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao
-vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso
-instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras:
-
---Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e,
-se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este
-mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem...
-Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar
-d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua
-irmã querida... Deixo-t'a como filha.
-
---Eu vou comtigo, Alvaro?--disse com muita doçura Leonor--Ajuda-me?
-levas comtigo este meu esquife?
-
---A mãe quer estar sósinha?--disse Alvaro.
-
---Quero, filho: está ahi o meu confessor...
-
-Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo
-pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes,
-e disse ao padre:
-
---Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças;
-vinha espantar-me da serenidade da moribunda.
-
-Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado
-Viatico.
-
-Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto,
-beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para
-vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso
-assentimento.
-
-Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que
-acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na
-ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um
-recanto escuro, com as mãos erguidas.
-
-Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas
-dos santos-oleos.
-
-Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor
-reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:
-
---Não está aqui meu filho!?
-
-E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do
-leito, e disse:
-
---Aqui estou, minha mãe.
-
-Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na
-voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração
-convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua,
-e pôde exclamar:
-
---Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus!
-
---Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...--disse o padre
-Alvaro.
-
-Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:
-
---Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome,
-Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do
-meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!
-
-Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia,
-e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de
-joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido
-aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam
-ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no
-coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»
-
-Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou
-em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.
-
-
-
-
-XX
-
-
-CONCLUSÃO
-
-
-_Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!_
-
-J. SIMON (Le devoir.)
-
-
-E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos
-estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!
-
-De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da
-virtude, para entender que a virtude é boa?
-
-Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro?
-
-Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?
-
-Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas
-com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas
-atribulações.
-
-Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella
-mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não
-será o d'aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia
-voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o
-orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um
-cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos
-senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa
-idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações;
-será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica
-incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito
-viciado nos leva.
-
-Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm
-n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus
-olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela
-cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome
-tem, se não é a felicidade suprema?
-
-Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a
-sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a
-mudança do homem, ou o esforço d'elle sobre o coração do homem
-amortalhado.
-
---Leonor--disse elle--bem me vês: vesti-me assim para a mim me vêr e
-convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as
-voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das
-alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe,
-até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo
-dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se
-levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha
-prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua
-paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu
-agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o
-morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de
-te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por
-esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás
-cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma
-casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha
-vida.
-
---A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...
-
---Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que sinto
-prazer em pedir-t'as.
-
---E poderemos alli viver, Alvaro?--atalhou Leonor.
-
---Eu viverei.
-
---Tu! e eu não, meu primo?!
-
---Não, Leonor--respondeu o padre com um ar de firmeza, que não animava
-a ser contrariado--Ficas aqui, com as criadas de minha mãe, senhora
-d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu
-lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos
-levou a Deus a conta das nossas lagrimas.
-
---E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me
-deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do
-coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda?
-
---Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na casa
-que lá temos?
-
---Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que me
-sirva.
-
---E a chorar me pedes um convento, Leonor?
-
---Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!...
-
---Eu, bem vês.
-
---Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas lagrimas!...
-
---Não são, não devem ser...--Alvaro concentrou-se, levantou ao céo
-os olhos, e continuou:
-
---Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de
-regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos
-Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã
-iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu
-proposito, dir-m'ohas, Leonor.
-
-No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre
-Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de
-Santa Joanna, e d'alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas
-para a reclusão de sua prima.
-
-N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e
-depós ella uma sumptuosa mobilia.
-
-O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe:
-
---A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te sentires
-alumiada da graça que fortalece e santifica.
-
-Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a
-mão de leve no rosto, e murmurou:
-
---Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe... Nossa,
-de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer a
-Deus.
-
-Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada
-de Leonor, e sahiu.
-
-No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o
-estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio
-alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue.
-Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e
-decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em
-casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara
-apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.
-
-Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes.
-Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de
-algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma
-pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia
-elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia
-d'ella.»
-
-Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!
-
-N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle
-exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de
-plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a
-tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a
-razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e
-os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe
-obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos
-romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira
-amortalhado no seu habito.
-
-É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e
-que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a
-decrepidez.
-
-Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á
-grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço
-novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.
-
-Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum
-tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era
-encontrarem-se na presença de Deus.
-
-Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle
-homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo.
-Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o
-officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição
-entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a
-gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do
-amigo digno de Alvaro Teixeira.
-
-Não sei que mais lhes possa dizer da vida d'aquelle padre dos Olivaes.
-Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos
-dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto
-venerando.
-
-Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das
-suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e
-nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a
-garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra.
-Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao
-annunciarem-lhe a agonia de Leonor.
-
-Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos
-instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas,
-que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de
-Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este
-vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de
-Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era
-natural; e, ao sahir d'aquelles extasis, dizia ás suas amigas que
-estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N'um d'estes arrobamentos é
-que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu
-seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti,
-que as minhas lagrimas purificaram-me.»
-
-Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos
-inconciliaveis.
-
---Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de que
-ella estava em agonia da morte?
-
---Não se lhe deu tal aviso;--respondeu a prioreza--Leonor, na vespera
-do seu trespasse, tinha dito que, se o seu primo não viesse vêl-a até
-ás quatro horas do dia seguinte, só na presença de Deus a veria, Ora,
-nós tanta confiança tinhamos nas previsões da virtuosa senhora, que
-nos apressamos a chamal-o.
-
---Deu-se, por tanto um milagre!--atalhei eu.
-
---Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a sua serva
-para nos edificar--respondeu a prelada--O padre Alvaro chegou minutos
-depois da hora que ella dissera.
-
---Serei importuno fazendo mais uma pergunta?
-
---Queira dizer.
-
---Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um passado,
-anterior a trinta annos?
-
---Não sabemos--respondeu promptamente a prioreza--o que podemos
-dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n'esta casa, quiz que as suas
-criadas lhe chamassem Magdalena.
-
-Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.
-
-Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte
-annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o
-fogo da indole e do instincto inextinguivel n'elle. Não me entendia com
-o mysterio de semelhante conversão.
-
-Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de
-orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na
-igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um
-dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e,
-á orla inferior, li estas palavras: _Flevit amàre_: CHOROU
-AMARGAMENTE.
-
-Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a
-primeira da santificação.
-
-
-
-
-FIM.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of O Romance de um Homem Rico, by
-Camilo Castelo Branco
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO ***
-
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- The Project Gutenberg eBook of O Romance de um Homem Rico, by Camilo Castelo Branco.
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-
-<pre>
-
-Project Gutenberg's O Romance de um Homem Rico, by Camilo Castelo Branco
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll have
-to check the laws of the country where you are located before using this ebook.
-
-Title: O Romance de um Homem Rico
-
-Author: Camilo Castelo Branco
-
-Contributor: Thomaz Ribeiro
-
-Release Date: October 14, 2020 [EBook #63461]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images
-generously made available by The Internet Archive.)
-
-
-
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-</pre>
-
-
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-
-
-<h4>BIBLIOTHECA ELYSIO</h4>
-
-<h3>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h3>
-
-<h5>(Visconde de Corrêa Botelho)</h5>
-
-<h2>O ROMANCE DE UM HOMEM RICO</h2>
-
-<h4>TERCEIRA EDIÇÃO</h4>
-<h5>COM UM PROLOGO DE</h5>
-
-<h4>THOMAZ RIBEIRO</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 50%;">.... Connaitre la valeur de l'argent<br />
-et le sacrifier toujours, soit au devoir,<br />
-soit même à la délicatesse, c'est une<br />
-vertu réelle.</p>
-
-<p style="margin-left: 55%;">SENANCOURT (Rêveries).</p>
-
-
-<h4>PORTO</h4>
-<h4>LIVRARIA ELYSIO</h4>
-<h4>DE JOAQUIM ELYSIO GONÇALVES&mdash;EDITOR</h4>
-<h5>282, Rua Formosa&mdash;R. Sta. Catharina, 198</h5>
-
-<h5>1890</h5>
-
-<hr class="r5" />
-
-<h4>INDICE</h4>
-<p><a href="#PROLOGO_DA_TERCEIRA_EDICAO">PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO</a><br />
-<a href="#PREFACIO_DA_SEGUNDA_EDICAO">PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO</a><br />
-<a href="#INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a><br />
-<a href="#CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a></p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-<h4><a id="PROLOGO_DA_TERCEIRA_EDICAO">PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO</a></h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;">«&mdash;Este foi o mais querido dos meus romances»</p>
-<p style="margin-left: 55%;">C. Castello Branco, Prefacio da<br />
-2<sup>a.</sup> edição do <i>Romance d'um homem<br />
-rico.</i></p>
-
-
-<p>Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu livro dilecto esta
-sentença:&mdash;«O homem não acha em si os alivios da razão quando os
-vicios lh'a degeneram», estava julgando a sua propria alma no tribunal
-austero da consciencia.</p>
-
-<p>Não vejam n'isto censura, os melindrosos por conta alheia.</p>
-
-<p>O romancista, se não é um armador de encommendas, um preparador de
-effeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se
-sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus
-personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que
-lhes attribuiu, se com elles ama, odeia, chora ou blasphema, faz como o
-sabio, o martyr da medicina, que, para se convencer e para não falsear
-a sciencia que professa, muita vez se envenena ou se dilacera.</p>
-
-<p>Camillo era aqui o pensador, o philosopho, o analysador frio do seu
-excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não vêr distinctamente
-o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe
-lucida a verdade, fôsse onde fôsse o esconderijo d'ella, fôsse qual
-fôsse a distancia em que demorasse.</p>
-
-<p>Se o romancismo é mester, o escriptor é artifice; se é arte, se é
-acto impulsivo, o romancista é poeta.</p>
-
-<p>Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu romance mais
-querido:&mdash;«Não sei que haja ahi outros incentivos que me chamem aos
-olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer vêr chorar e vibrar de
-não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me cazos da
-natureza d'aquelles: faça-me acreditar na existencia d'umas almas que
-vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina»,
-declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o genero da sua
-poesia.</p>
-
-<p>E como quem diz:&mdash;o symptoma da sua doença.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Pois não têem sido apodados de&mdash;loucos&mdash;os poetas? Se loucura
-é a desconformidade de actos ou de sentimentos com as <i>regras da fria,
-pautadas e articuladas no codigo do senso-commum</i>, vamos, que não têem
-os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos
-seus contemporaneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum
-rasto de fatua phosphorescencia na travessia longa ou curta da sua
-derrota.</p>
-
-<p>Loucura <i>lucida</i>, mas loucura incontestavel; loucura impulsiva e
-incuravel, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os applaude e os
-escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão.</p>
-
-<p>A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora,
-a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata,
-a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a
-de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora,
-loucuras foram; por mais que os poetas d'hoje queiram malsinar aquelles
-homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde.</p>
-
-<p>Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso;
-não cabe nas leis da normalidade.</p>
-
-<p>Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os
-vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e
-Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas
-cezareos,&mdash;os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias
-realengas:</p>
-
-<p><span style="margin-left: 1em;">«<i>Mecenas atavis œdite regibus</i>»</span></p>
-
-<p>outro, cantando apotheoses divinas:</p>
-
-<p><span style="margin-left: 1em;">«<i>Deus nobis hœc otia fecit.</i>»</span></p>
-
-<p>Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando
-lhe estrophes accommodaticias.</p>
-
-<p>Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio.
-Raras vezes pegou a enxertia; é certo.</p>
-
-<p>O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante
-ao exorcismo; torna-se n'elles mais patente, porque, sob aquella forma,
-estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao
-menos&mdash;apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os
-perigos;&mdash;Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução
-d'um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue
-apagar a fogueira d'um <i>auto de fé</i> por um <i>acto de fé</i>, ou de
-prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente
-onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira
-porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o <i>virus-rabico</i>
-expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue
-da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da
-experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,&mdash;heroe sem
-hymnos!&mdash;á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d'uma cratéra
-para devassar os segredos da erupção vulcanica.</p>
-
-<p>Quantos insensatos!</p>
-
-<p>Se depois da loucura da sciencia quizer alguem percorrer a da
-religião,&mdash;S. Macario, S. Simeão Stylita, Santo Antonio, as
-allucinações dos extasis em que se vê Deus e os ceos, o genio das
-prophecias, a inspiração dos apostolos, a coragem alegre dos martyres,
-que exuberancias de loucura, que degenerescencias pathologicas,
-provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a sciencia nos
-estudos da sua extensissima symptomatologia?</p>
-
-<p>E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!...</p>
-
-<p>A gloria! a honra..., mas que são honra e gloria? São tambem uns
-sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas
-desconformidades <i>com as regras da fria razão, pautadas e articuladas
-no codigo do senso-commum.</i> Produzem as monstruosidades de Alexandre no
-Oriente, dos trezentos nas Thermopylas, dos Gracchos em Roma, de Antonio
-em Philippes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em
-França; de Bonaparte na Italia, do Infante-Sancto em Fez, de Saldanha
-no Porto e em Montevideu, de Bartholomeu Dias, de Vasco da Gama e de
-Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas
-suas conquistas, de Xavier no apostolado.&mdash;Deus, familia e
-patria!&mdash;O que estes motes produziram de loucuras!</p>
-
-<p>E o amor... e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações,
-quantos desvios da razão e do senso-commum não produziram e não
-produzem! d'esses que espantam o mundo e se julgou,&mdash;ingenua
-simplicidade!&mdash;que honravam e ennobreciam a especie humana?</p>
-
-<p>Tudo o que foi épico e se chamou grande e bello e mereceu canticos e
-triumphos e apotheoses e historia e monumentos e centenarios e culto,
-atravez de seculos e millenios, tudo hoje é condemnado pela sentença
-fulminante d'este bom-senso burguêz, comesinho, utilitario, pratico,
-omnipotente e inexoravel. A transformação parece completa; Sancho
-depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu
-desenterrou o bezerro d'ouro, não para o adorar mas para o negociar; o
-codigo depôz a historia; a pirataria depôz o codigo; as notas e as
-acções bancarias collaram-se nas folhas da epopêa.</p>
-
-<p>Christo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e
-abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição:
-esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a
-grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento,&mdash;foi um
-rebaixamento; inutil por improficuo. E será inefficaz em quanto a
-sciencia, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que
-geram as grandezas, e com ellas o desnivelamento successivo da
-humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociaes.</p>
-
-<p>Ahi estão ellas&mdash;nas sciencias, nas artes, nos descobrimentos de
-toda a especie; mais humanos, mais proficuos talvez que os antigos, mas
-careceram d'elles; que não póde haver continuação sem principio. Das
-pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de
-Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em
-rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlantico, o Pacifico, e
-rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram
-os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a
-inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os
-isthmos nascêram os abridores de canaes; as assoladoras naus, que até
-escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos
-sequestrados ao convivio dos outros povos do mundo, andaram, com graves
-perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quaes hoje passa
-livremente o commercio, por baixo dos quaes hoje se assenta o
-telegrapho.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do genio se
-não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido
-Camillo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciencia que tenho
-estado a fugir de collocar na classe dos loucos o nosso presado
-romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por
-conjectura eu tenho de o metter n'esta companhia, que me vi forçado a
-provar-me que a companhia póde ser de gente desafortunada, mas é
-provadamente illustre.</p>
-
-<p>Nunca a fria razão, nunca o senso-commum fizeram couza que não fosse
-fria e commum. Excellentes caixeiros e guarda-livros do commercio,
-excellentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na
-guerra, excellentes officiaes da fazenda, na marinha, professores,
-sacerdotes (para conegos, não para missionarios), juizes, magnificos
-ecónomos e descobridores de pechinchas&mdash;o espirito conservador&mdash;os
-Wychnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantissimo,
-imprescindivel serviço faz á humanidade esta gente de são juizo e
-razão fria, mas, por conselho d'ella, nem a mãe defenderia o filho
-contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra
-as chammas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o naufrago contra as
-ondas. Temperatura egual e morna;&mdash;a selvageria tropical, primitiva,
-tendo Sancho na presidencia e o velho de Camões no conselho de estado.</p>
-
-<p>O senso-commum até, por concessão transitoria,&mdash;sagaz
-bom-velho!&mdash;já creou, para illudir e desnortear poetas e
-romancistas, uma litteratura; em odio ás artes, uma arte; em odio ao
-genio, engenhos. Louvavel empenho na verdade. Vê doenças graves e
-pretende cural-as; vê enxamear a loucura, a mais grave das molestias, e
-com ella exgota a sua therapeutica. Benemerito desejo! Mau será se a
-cura fôr peior que a doença.</p>
-
-<p>De muito dizer-se ao theorico:&mdash;sê pratico!&mdash;faz-se d'elle ás
-vezes um ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas
-variadissimas.</p>
-
-<p>De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de
-Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;&mdash;um grande poeta e um
-grande romancista... contrafeitos; e com elles&mdash;o satanismo e o
-naturalismo; porém&mdash;naturalismo&mdash;de meza de autopsia ou de
-laboratorio chimico.</p>
-
-<p>&mdash;«Faz-me tristeza pensar,&mdash;escreveu Camillo n'um dos
-prefacios do seu <i>Amor de perdição</i>,&mdash;faz-me tristeza pensar eu
-que floreei n'esta futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser
-descriptas sem grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a
-rhetorica de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de
-Quintiliano á do <i>Collette-encarnado.</i> A gente imaginava que os
-alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem
-me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para
-espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N'aquelle tempo,
-inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na
-escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se
-narcizar n'um espelho fiel.............................. Já não verei
-onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como
-a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que
-atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo
-tempo por effeito d'uma grande revolução rigolboche.»&mdash;</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque
-é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom
-e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama
-era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar
-accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o
-melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar
-mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de
-Maudsley.</p>
-
-<p>Não se modificou&mdash;transfigurou-se; o que, longe de provar juizo
-prova só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença.</p>
-
-<p>Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial.
-Na <i>Phedra</i> pôz Platão na bôcca de Socrates:&mdash;«Os
-maiores bens são produzidos por um delirio inspirado pelos
-deuzes.»&mdash;O&mdash;<i>Est Deus in nobis</i>,&mdash;que traduz,
-senão a loucura do genio? De Christo escrevia S. João&mdash;«Elle é
-possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para que o
-escutaes?»</p>
-
-<p>Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou
-em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos,
-aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e
-electrizar a atmosphera social, varrendo d'ella os miasmas putridos
-d'esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os
-povos como as nevoas densas da palude.</p>
-
-<p>Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela
-sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas,
-toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima.</p>
-
-<p>Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos
-arvoredos.&mdash;A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do
-ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados,
-sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo,
-patrimonio de todos.</p>
-
-<p>N'um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir
-para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma
-rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:&mdash;«De mim digo
-que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de
-crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos.
-Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido
-heroes. Além d'isso <i>apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu
-caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que
-passam.</i> Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza
-menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do
-pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a
-singularidade de nos não lastimarmos.»&mdash;</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola
-novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes
-honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir,
-que nunca lhes quiz mal.</p>
-
-<p>Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as
-<i>flôres do mal</i>; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados
-em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e
-não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não
-applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha
-a ingenuidade de julgar sagrados.</p>
-
-<p>Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e
-d'ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir,
-indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que
-o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os <i>espiritos fortes</i>
-sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor.</p>
-
-<p>Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida.</p>
-
-<p>Desesperança formal nunca eu lh'a conheci.</p>
-
-<p>Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre
-Alvaro Teixeira:&mdash;«A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os
-luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de
-novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por
-perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que
-apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco,
-entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a
-pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.»</p>
-
-<p>&mdash;Deus&mdash;era o astro que procurava na noite das tribulações; e
-se não era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente
-desejo a mais constrictora ancia da sua alma.</p>
-
-<p>Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça
-paternal,&mdash;a da caridade?&mdash;«A solidão sem Deus não serve para
-infelizes maus»&mdash;nos diz elle no seu livro de consolações&mdash;<i>O
-romance d'um homem rico</i>&mdash;onde pretendeu exaltar, acima de todas, a
-virtude da resignação:</p>
-
-<p>&mdash;«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado...
-Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a
-bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e
-encontram os de Deus.»</p>
-
-<p>E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna
-inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do
-seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma
-cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes:</p>
-
-<p>&mdash;«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como
-additamento á «Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero
-semelhante nota.»&mdash;</p>
-
-<p>E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto
-espirito como elle é, não podia desconhecer que a verdade da
-representação das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas
-obras da arte:&mdash;«Rien n'est beau que le vrai».&mdash;Por isso
-elle nos diz:&mdash;... «Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em
-imaginações de que me sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e
-pinceis na copia da verdade.»&mdash;</p>
-
-<p>Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a
-indole do artista que o reproduz.</p>
-
-<p>O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta,
-existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou
-obra d'arte que se funda n'estes affectos, sentimentos ou mostras
-externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo
-existe na natureza.</p>
-
-<p>Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a
-devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga.</p>
-
-<p>Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar
-revelações e inspirações por todos esses theatros em que a
-humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se
-vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o
-hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe
-fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a
-verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto
-e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não
-é educadora, não é nada e para nada serve.</p>
-
-<p>Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo
-que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os
-eremitas do passado, os que foram formados n'outra escola com outros
-princípios e outras aspirações.</p>
-
-<p>E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes
-impuridades espremem dos bicos das suas pennas!</p>
-
-<p>Vêrem a cutis fina e transparente d'uma mulher formoza e em vez de
-sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com
-enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas,
-com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se
-sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da
-sepultura!&mdash;chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal
-insomnia,&mdash;signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha
-virtudes, achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na
-heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar
-só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal,
-falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A
-proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não
-acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em quando
-Camillo escreve a <i>Corja</i> ou o <i>Euzebio Macario</i> e Zola escreve o
-<i>Sonho.</i> Passos dados para a concordia senão para a unificação das
-escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n'um proximo
-futuro.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Ha na <i>Brazileira de Prazins</i> uma ultima, talvez definitiva, feição
-litteraria de Camillo Castello Branco. Alli encontram-se primorosos
-quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo d'um
-assassinato encommendado e ajustado, o carregar da clavina, a sahida
-furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas
-ante o crucifixo, até que elle volta do seu mallogrado intento, dando
-logar ao jubilo, em acção de graças, da mizeranda espoza, que julga
-ter obtido o milagre pela intercessão das suas lagrimas e das orações
-de suas filhas, são primores d'arte dos mais subidos quilates.</p>
-
-<p>O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de sanctos e livrinhos de
-orações, á porta do templo onde funccionam os missionarios, e a
-murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrilego
-bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asphyxiante dos
-exorcismos applicados á pobre hystérica, sobre sêrem paineis de
-genuina e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos
-procedimentos inquisitoriaes e do abastardamento e falsificação dos
-textos sagrados, postos á disposição d'um fanatismo intransigente ou
-d'uma hypocrisia revoltante.</p>
-
-<p>Alli, sim, póde estudar-se o verdadeiro, o possivel realismo, n'um
-romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte.</p>
-
-<hr class="r5" />
-
-<p>Camillo Castello Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os
-seus duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente anciedade e
-vão sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas,
-já em edições populares. É certo que os contemporaneos do grande
-escriptor se acham empenhados na sua glorificação em vida.
-Acclamado em plebiscitos&mdash;primeiro escriptor portuguez da
-actualidade,&mdash;honrado pelos poderes publicos, á porfia, procurado
-por todos aquelles que os combates da imprensa traziam d'elle
-distanciados, a unanimidade congrega-se em tôrno d'elle, no unisono
-d'uma apotheose sem exemplo.</p>
-
-<p>Portugal do seculo XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas
-ingratidões.</p>
-
-<p>Elle o reconhece agradecido, aguardando n'uma anciedade dolorosissima
-vêr-se restituido ao estudo e ao trabalho&mdash;sua religião e seu
-confôrto.</p>
-
-<p>Teve de abandonar a lida, o heroico triumphador. Aguia que desafiava os
-deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas
-caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no
-insondável abysmo d'uma escuridão a cada instante mais densa.</p>
-
-<p>Como elle espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um
-relampago, tenue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança!</p>
-
-<p>Eu tenho assistido a essa lucta que mais parece uma agonia.</p>
-
-<p>A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios
-d'acção, mas pede-lhe paciencia! e o homem que escreveu este livro,
-que soube dar tantos conselhos e offerecer tantos exemplos de
-resignação, não póde resignar-se.</p>
-
-<p>Como todas as cazas lhe dão trevas, foge de todas as cazas,
-de todas as terras, e até de todo o convivio,&mdash;porque ouvir,
-somente,&mdash;aquelles que o procuram, é ter multiplicados testemunhos
-da cegueira, que mais, dia a dia, vae julgando incuravel.</p>
-
-<p>Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose
-póde mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo.</p>
-
-<p>Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe
-fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas <i>Chronicas duas
-rainhas</i> que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina
-promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle
-escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança
-fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença
-volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do <i>sempiterno
-horror.</i></p>
-
-<p>Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como
-seu ultimo recurso.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Tristissimo.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Assim vive,&mdash;se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior
-que a morte,&mdash;o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas
-linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte
-lhe venha n'um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe
-pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem
-dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os
-braços a procurar mão valedora....</p>
-
-<p>Meu pobre amigo!</p>
-
-<p>Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a
-amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n'esta
-esperança.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n'uma caza cheia de confortos
-e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus
-mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe
-faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.</p>
-
-<p>Quantas vezes tem elle repetido:</p>
-
-<p>&mdash;«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel
-para poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde
-escrevi <i>O romance d'um homem rico!</i>»</p>
-
-
-<p style="margin-left: 10%;">Carnaxide, 1 de julho de 1889.</p>
-
-
-<p style="margin-left: 60%;"><i>Thomaz Ribeiro.</i></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="PREFACIO_DA_SEGUNDA_EDICAO">PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO</a></h4>
-
-
-<p>Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que
-aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance
-prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á
-força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal
-me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que
-me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica,
-lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava
-em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver,
-soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem
-modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar
-obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não
-sabia gastar melhor e mais aproveitados.</p>
-
-<p>Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel
-amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte
-esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que
-principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades
-inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou
-não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da
-intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão
-glacial da desfortuna.</p>
-
-<p>Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.</p>
-
-<p>Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites
-solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios,
-quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me
-esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça:
-deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de
-lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.</p>
-
-<p>Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande
-esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos
-balsamos dôces.</p>
-
-<p>Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor
-do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.</p>
-
-<p>Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o
-padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de
-Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro
-chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares
-que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze
-casamentos felizes.»</p>
-
-<p>E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em
-volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro.</p>
-
-
-<p style="margin-left: 10%;">Bellas, 19 de Maio de 1863.</p>
-
-
-<p style="margin-left: 60%;">CAMILLO CASTELLO BRANCO.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4><a id="INTRODUCCAO">INTRODUCÇÃO</a></h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>As tribulações dos santos são enigma:<br />
-uma cousa parecem, e outra são e significam:<br />
-parecem miserias da fortuna,<br />
-e são concelhos da Providencia Divina,<br />
-e signaes da felicidade eterna.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 45%;">P. M. BERNARDES. (Silva de varios<br />
-dictames espirituaes.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um
-bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo,
-ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima
-d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha
-memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara
-com as flores d'outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a
-saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me.</p>
-
-<p>Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.</p>
-
-<p>Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma
-padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas!
-A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que
-recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo
-para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não
-infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p><span style="margin-left: 1em;"><i>Héritiers des douleurs, victimes de la vie,</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Non, non, n'espérez pas que rage assouvie</i></span><br />
-<span style="margin-left: 4em;"><i>Endorme le Malheur,</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense</i></span><br />
-<span style="margin-left: 1em;"><i>Engloutisse à jamais dans l'éternel silence</i></span><br />
-<span style="margin-left: 4em;"><i>L'éternelle douleur!</i></span></p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um
-doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella
-feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!</p>
-
-<p>E todos os outros mestres de bardos melancolicos?</p>
-
-<p>Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!</p>
-
-<p>Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de
-carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a
-veneranda calva com seu barrete de troçal preto.</p>
-
-<p>Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não
-correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas
-disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S.
-Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se
-confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo
-chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»&mdash;ao corpo
-entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as
-cousas, e muitas outras.</p>
-
-<p>Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que
-eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio,
-e este primeiro capitulo deve lêr-se.</p>
-
-<p>Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu
-companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico
-semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela
-de aço reluzente.</p>
-
-<p>Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o
-chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro
-vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga,
-marchetada de madre-pérola.</p>
-
-<p>&mdash;Póde fumar á sua vontade, se fuma&mdash;disse-me elle.</p>
-
-<p>Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira,
-que elle não aceitou.</p>
-
-<p>Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta
-palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem
-que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas
-uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma
-do heroico inimigo dos tyrannos.</p>
-
-<p>&mdash;A moral!&mdash;dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto
-se vaporou&mdash;a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem
-poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e
-intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.</p>
-
-<p>Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos
-inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo
-recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura,
-a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos
-maus e dos males da vida.</p>
-
-<p>Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso
-convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento
-interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza,
-contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor!
-Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o
-feliz?</p>
-
-<p>Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:</p>
-
-<p>&mdash;Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?</p>
-
-<p>&mdash;A Santarem.</p>
-
-<p>&mdash;É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de
-saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de
-felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só
-d'este mundo, não dura mais que uma hora.</p>
-
-<p>&mdash;Ha quantos annos eu lá não fui!...&mdash;continuou o padre
-no tom magoado de entranhada saudade&mdash;E já agora é tarde... é o
-anoitecer da vida...</p>
-
-<p>&mdash;Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!&mdash;interrompi
-eu.</p>
-
-<p>&mdash;É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas
-lagrimas; e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente
-a distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a
-saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e
-não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que tem&mdash;disse eu&mdash;é vêr e amar essas vidas em
-Deus, chamal-as em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na
-linguagem das lagrimas...</p>
-
-<p>&mdash;E da oração...&mdash;disse o padre, e proseguiu, depois de breve
-silencio&mdash;Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições
-perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo...</p>
-
-<p>E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos
-longas e ossudas sobre o peito.</p>
-
-<p>Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação,
-cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua
-linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles
-parecem intelligentes e desgraçados.</p>
-
-<p>&mdash;Fica no «Poço do Bispo?»&mdash;perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;Não senhor; vou para os «Olivaes.»</p>
-
-<p>&mdash;A passeio, ou é de lá?</p>
-
-<p>&mdash;Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas
-pittorescas, em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas
-paredes abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando
-cahiremos nós comtigo?</p>
-
-<p>Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:</p>
-
-<p>&mdash;Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se
-na humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o
-<i>riso e vacca</i> de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta
-do Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou
-fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo
-se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar
-n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de
-pedir a Deus o descanço da minha alma.</p>
-
-<p>Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras
-doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo
-que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria,
-que de si deixou, com a justiça humana.</p>
-
-<p>&mdash;Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro
-Teixeira, e não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa;
-mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem
-communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a
-palavra «amigo.»</p>
-
-<p>&mdash;Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua
-mão&mdash;Que o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem
-consultar o raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores
-qualidades do homem, que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa
-antipathia de um primeiro encontro.</p>
-
-<p>&mdash;Como se chama?</p>
-
-<p>Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba
-por syllaba, e depois exclamou de repente:</p>
-
-<p>&mdash;Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos.
-Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria.
-Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe
-cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.</p>
-
-<p>&mdash;É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa:
-vinte paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...</p>
-
-<p>&mdash;Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer
-ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por
-onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, <i>feliz
-culpa</i>, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda
-todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da
-porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua
-ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a
-causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não
-podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e
-castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre
-apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos
-padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas
-sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar
-vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto
-que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades
-santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da
-razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados
-defensores da exclusiva razão do catholicismo...</p>
-
-<p>N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita
-critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do
-levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque
-me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da
-eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os
-«Olivaes.»</p>
-
-<p>Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção.</p>
-
-<p>&mdash;E portanto...&mdash;disse elle&mdash;Adeus, meu amigo, não ha
-tempo para mais.</p>
-
-<p>&mdash;E portanto&mdash;disse eu&mdash;não o dispenso de concluir o
-seu discurso. Eu é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas
-pittorescas ruinas dos «Olivaes.»</p>
-
-<p>&mdash;Fica!&mdash;exclamou elle com alegria&mdash;Pois bem haja!</p>
-
-<p>Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.</p>
-
-<p>Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o
-conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da
-Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de
-ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao
-funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais
-oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O
-homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre
-encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava
-os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de
-mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou,
-segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um
-mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o
-intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez
-estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e
-ainda assim a boa escolha.</p>
-
-<p>&mdash;Ora vamos lá&mdash;disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se
-ao meu braço&mdash;Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este
-chão que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e
-vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a
-mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença
-que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não
-renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando
-alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e,
-depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a
-flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes,
-outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não
-se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se
-apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?...</p>
-
-<p>&mdash;Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar
-alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e
-dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.</p>
-
-<p>&mdash;Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras
-a maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo
-e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos
-annos me faz?</p>
-
-<p>&mdash;Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor: tenho quarenta e seis.</p>
-
-<p>Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle
-homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que
-lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os
-vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda
-rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As
-cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso
-recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos
-joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração
-d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra!
-Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar
-diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus
-gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando
-eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião
-insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem
-do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada
-lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não
-cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas
-magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se
-adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte
-paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio
-caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da
-sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins
-com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das
-lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a
-tua essencia de anjo.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Este era o seu refugio, o seu descanço.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as
-almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante
-das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as
-alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.</p>
-
-<p>No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas
-abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades
-comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que
-escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se
-avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo
-pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente
-silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do
-sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler.
-Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro
-beijo do sol, e disse:</p>
-
-<p>«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu,
-comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia
-desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu
-Sardanapalo!»</p>
-
-<p>Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.</p>
-
-<p>Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás
-masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da
-terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem
-do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da
-historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle
-baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me
-estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um
-bastião, resmoneou:</p>
-
-<p>«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de
-carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia
-de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.</p>
-
-<p>Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu
-gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e
-fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello
-iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.</p>
-
-<p>Outro caso:</p>
-
-<p>Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de
-uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco
-de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes
-enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua
-estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos
-cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o
-coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que
-descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus
-cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do
-myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das
-papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu
-scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar
-a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção:</p>
-
-<p>&mdash;Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a
-couve lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras
-annuaes.</p>
-
-<p>Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao <i>Matta</i>, ou á <i>Taverna
-ingleza.</i></p>
-
-<p>Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular
-tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.</p>
-
-<p>Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir
-onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que
-deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais
-esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias
-que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é
-salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.</p>
-
-<p>As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do
-padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»</p>
-
-<p>A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé,
-amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes.
-Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do
-céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas
-pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras
-hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta
-marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das
-janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão
-agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de
-vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.</p>
-
-<p>Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso,
-alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes
-circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando
-passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este
-ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter
-sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos
-senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim
-imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões
-rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.</p>
-
-<p>Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e
-muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com
-artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no
-centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario,
-através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu
-clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de
-castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das
-armas do tecto.</p>
-
-<p>Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á
-imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não
-tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava
-uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se
-então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um
-atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas
-camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.</p>
-
-<p>&mdash;Não se impaciente, senhora Eufemia,&mdash;disse o
-padre.&mdash;Ande lá de seu vagar, que nós não temos pressa.</p>
-
-<p>&mdash;Valha-me Deus!&mdash;disse a velha afreimada&mdash;este
-berzabum do negalho parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe
-onde o rosario se foi imbelinhar!</p>
-
-<p>A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a
-tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a
-miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se
-d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda
-inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando
-o padre pacientemente desenredava a cambulhada.</p>
-
-<p>D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e
-residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um
-d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para
-hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século
-passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com
-espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados
-a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com
-reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de
-florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e
-D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do
-ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos
-Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no
-desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala,
-cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.</p>
-
-<p>Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella
-examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande
-jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante
-estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de
-pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro
-de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa
-copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme
-sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos
-entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago.
-Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs
-como á competencia com as cigarras.</p>
-
-<p>Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de
-amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de
-armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do
-edificio.</p>
-
-<p>&mdash;Quem vive n'aquella bonita casa?&mdash;perguntei eu.</p>
-
-<p>&mdash;Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa&mdash;respondeu
-o padre&mdash;Foi dos que foram donos d'esta em que vivo...</p>
-
-<p>Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no
-olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia
-com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto
-aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida,
-se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia
-responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação,
-era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.</p>
-
-<p>Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho
-para mim, disse:</p>
-
-<p>&mdash;Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem
-que lhe dou. Venha d'ahi.</p>
-
-<p>Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada
-a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau
-preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara
-duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a
-fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em
-ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com
-referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos
-infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto
-era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a
-metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce
-melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que
-mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas
-dos «Olivaes.»</p>
-
-<p>&mdash;Já sabe&mdash;disse o padre&mdash;que tem de fazer aqui
-penitencia da irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.</p>
-
-<p>&mdash;Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!&mdash;disse eu sem
-simular o enthusiasmo&mdash;A poesia está aqui!</p>
-
-<p>&mdash;A poesia dos prophetas de Jerusalem;&mdash;atalhou o
-levita&mdash;a poesia das lagrimas...</p>
-
-<p>&mdash;E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos
-desventurados n'este mundo!&mdash;acrescentei eu, enlevado no meu rapto de
-cinco minutos&mdash;Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna
-ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os
-alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que&mdash;é a fé,
-a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra
-brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida,
-e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da
-sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se
-refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão
-que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O
-homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a
-fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as
-suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de
-si é que está a salvação. Em Deus é que...</p>
-
-<p>&mdash;<i>Em Deus</i>&mdash;interrompeu o padre. É essa a palavra, onde
-eu o estava esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a
-felicidade, o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente,
-não acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas
-contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que
-o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as
-consequencias. Se a felicidade&mdash;a da consciencia, entendo&mdash;é obra
-do acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta!
-Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu
-respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de
-acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do
-bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo,
-protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os
-allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada
-dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus
-não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que
-os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos
-d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados
-á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa
-fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de
-desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do
-justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto
-ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta
-d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar.
-O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as
-paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola
-d'outra luz, se não a Deus?</p>
-
-<p>Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em
-si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar
-alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os
-penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela
-salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes
-esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o
-Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos
-imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A
-solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os
-absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no
-ermo; bom é, porém, que não venham aqui <i>ungir os braços para sairem
-de novo á arena.</i> O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os
-<i>luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem
-com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos
-vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe
-eu se tem horas de jantar acostumadas.</i></p>
-
-<p>Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu
-respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era
-proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da
-casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas
-soleiras de duas portas.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<p style="margin-left: 45%;">.........................<br />
-<i>No has visto mas?... Vuelve á la</i><br />
-<i>pradera, hijo mio, por que hay en</i><br />
-<i>ella cosas mas dignas de tu<br />
-atención.........................</i><br />
-<i>Dios estaba en medio de los campos.</i><br />
-<i>No le has visto? A él debe la</i><br />
-<i>pradera su belleza; las miradas</i><br />
-<i>de Dios animabam la claridad del</i><br />
-<i>sol</i>..........................<br />
-<i>No has oido mas que él murmullo</i><br />
-<i>de los arroyos, et gorgéo de las</i><br />
-<i>aves, y el viento que mecía las ramas</i><br />
-<i>de los árboles? Vuelvebe al</i><br />
-<i>bosque, hijo mio, porque tus oidos</i><br />
-<i>percibiran cosas mucho mas grandes</i>...</p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de<br />
-la primera edad.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever,
-despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle
-remançoso descanço do corpo e socego de espirito.</p>
-
-<p>A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda
-instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se
-nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois
-edulçora os azedumes de largos annos.</p>
-
-<p>Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava
-delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira
-tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por
-entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o
-rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos
-immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa.
-Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a
-casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive
-n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então
-ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella,
-já com as mãos erguidas.</p>
-
-<p>Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:</p>
-
-<p>&mdash;Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas
-ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar.
-Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem
-comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não
-me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem
-que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro...</p>
-
-<p>&mdash;Onde vai dar comsigo n'esse arrazoado?&mdash;atalhou.</p>
-
-<p>&mdash;Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava
-fazendo.</p>
-
-<p>&mdash;Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso,
-reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir
-espairecer nos «cafés» de Lisboa.</p>
-
-<p>&mdash;Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal
-de mim.</p>
-
-<p>&mdash;Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á
-caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos,
-tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e
-volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me
-agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.</p>
-
-<p>O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi
-beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação d'estas lagrimas.
-Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete
-annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu
-pai m'as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi
-está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com
-um abraço.</p>
-
-<p>No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de
-olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de
-grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.<sup>a</sup> Eufemia com o
-almoço, e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.</p>
-
-<p>D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia
-que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de
-gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada,
-os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto
-das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de
-vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do
-nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas
-convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello
-com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:</p>
-
-<p>&mdash;Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até
-este ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos
-meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro,
-plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.</p>
-
-<p>Reparei n'outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: <i>L. A.</i>, quasi
-illegiveis pela sobreposição da casca.</p>
-
-<p>&mdash;E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro?</p>
-
-<p>&mdash;Tambem.</p>
-
-<p>Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o
-recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões
-do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o
-chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos
-cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos
-silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá
-hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio
-Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o
-leitor não acha sal n'estes ditos, o padre tambem lh'o não achou. De
-instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora
-antes claro e aberto ao contentamento interior.</p>
-
-<p>&mdash;Que tristeza é essa?!&mdash;perguntei.</p>
-
-<p>&mdash;A tristeza do homem, que não póde ser anjo&mdash;respondeu elle,
-trabalhando por reprimir as lagrimas.</p>
-
-<p>De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia
-replicar, nem consolar.</p>
-
-<p>Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram,
-tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua
-reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance
-denominado VOLUPTÉ, <i>Voluptuosidade!</i> isto oferecido pelo homem de
-Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com
-fervor d'um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração
-do justo me trouxera do céo! A <i>voluptuosidade</i> de Sainte-Beuve, aqui,
-n'este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do
-Espirito Santo!...</p>
-
-<p>Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:</p>
- <p>. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . </p>
-<p>«Entende o editor d'esta obra que as pessoas
-nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella
-tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja
-moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações
-menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás
-pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas,
-não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.»</p>
-
-<p>Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais
-brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em
-trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha
-de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e
-pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o
-espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os
-futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.</p>
-
-<p>Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.</p>
-
-<p>&mdash;Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um
-amigo&mdash;disse o padre&mdash;Se o senhor tivesse em mim um amigo,
-capaz de escrever com profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu
-mais quizera ter-lhe escripto este romance que o «Manual d'Epicteto»
-ou a «Imitação de Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o
-mundano, o penitente, o christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser
-tudo isto, é ainda mais, é o homem. Quão raros são os livros que bem
-definem o homem, a não ser o de Job: <i>Homo natus de muliere...,
-repletus multis miseriis</i> «homem, nascido da mulher, acervo de
-miserias sem conto.»</p>
-
-<p>&mdash;Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a
-desculpem?&mdash;atalhei eu.</p>
-
-<p>&mdash;Porque não? faça.</p>
-
-<p>&mdash;Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio
-cingir os rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não
-ha?</p>
-
-<p>&mdash;Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,&mdash;perdôe-me a
-profanidade&mdash;mas as veredas muito differentes.</p>
-
-<p>Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com
-alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a
-luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:</p>
-
-<p>&mdash;Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro.
-Não é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem
-«Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados
-á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.</p>
-
-<p>&mdash;Mereço eu tanto?!&mdash;disse, sentindo-me vaidoso da confiança,
-e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.</p>
-
-<p>&mdash;A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que
-seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos
-fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.</p>
-
-<p>Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das
-letras, e continuou depois d'este theor:</p>
-
-<p>&mdash;Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha
-precisão d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus
-silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não
-já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É
-natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor.
-Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca
-fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a
-ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de
-ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei
-quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que
-os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que
-monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada
-passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis,
-perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco
-cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo
-vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim
-encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das
-injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que
-eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face
-agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de
-melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só
-commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns
-e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se
-acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que
-se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz
-e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem,
-porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem
-que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem
-sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?</p>
-
-<p>&mdash;De defeza, não me parece, senhor padre
-Alvaro!&mdash;respondi&mdash;Quem é que o accusa? Escarnecer ou
-lastimar não é accusação. O que eu entendo das palavras de vossa
-senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que se querem levantar para
-avalial-o, e resvalam á lama.</p>
-
-<p>&mdash;Não tanto&mdash;replicou sem embiocar a
-caridade&mdash;Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e
-afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens
-da fortuna, da immortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza
-e gloria herdada á sua descendencia. Entre estes, que muito é ser eu
-olhado como inutil, como o menos previdente dos tres a quem o Senhor
-distribuiu os talentos? O sacerdocio é havido como officio, e o
-sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia
-rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo
-escuro da religião. Que ha-de dizer a gente illuminada, segundo o
-tempo, d'um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser
-pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes
-infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma
-palavra de queixume contra os ingratos?</p>
-
-<p>&mdash;Deve dizer&mdash;respondi commovido&mdash;que homem, que tal
-fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie
-humana.</p>
-
-<p>&mdash;A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu
-tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois
-saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie
-humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco
-da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes
-no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na
-lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes»
-vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as
-«Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um
-sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão
-pêcas glorias da especie humana.</p>
-
-<p>A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.</p>
-
-<p>Jantamos.</p>
-
-<p>Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem
-os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com
-vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os
-santos, como o padre Alvaro.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Ibit homo in domam œternitatis suœ</i><br />
-Irá o homem para a casa da sua eternidade.</p>
-
-<p style="margin-left: 50%;">ECCLES.&mdash;12. 5.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da
-mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e
-tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem
-alguma outra cobertura.</p>
-
-<p>&mdash;Ahi tem&mdash;disse entregando-me o livro&mdash;Leia, como quem
-lê um romance de historia authentica, escripto por pulso não vezado a
-escrever novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de
-vinte primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada
-uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.</p>
-
-<p>Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do
-acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na
-minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa
-devoção.</p>
-
-<p>Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o
-livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 1em;"><i>Ingredere in petram, et abscondere fosso humo</i></span></p>
-
-
-<p>Quer dizer:</p>
-
-<p class="center">ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA<br />
-COVA.</p>
-
-
-<p>E mais abaixo o verso do psalmo 117:</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 1em;"><i>Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini.</i></span></p>
-
-
-<p>Póde assim trasladar-se em vulgar:</p>
-
-
-<p class="center">NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns
-capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em
-conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas
-correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou
-entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras
-palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.</p>
-
-<p>Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e
-relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando
-a do sol me dispensava da outra.</p>
-
-<p>Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus
-vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á
-modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se
-entendera por idolatria.</p>
-
-<p>O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação,
-nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de
-hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a
-consciencia em Deus.</p>
-
-<p>Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não
-cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas
-o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle
-justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio,
-balbuciando commovido do meu embaraço:</p>
-
-<p>&mdash;Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse.
-Diga-me agora: que aproveitou?</p>
-
-<p>&mdash;Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim,
-sei agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que
-Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»</p>
-
-<p>&mdash;E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...</p>
-
-<p>&mdash;E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o
-anjo...</p>
-
-<p>&mdash;Pouco aprendeu...&mdash;replicou o padre&mdash;Eu queria mais que
-tudo isso... Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não
-lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei,
-se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho.
-Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a
-bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e
-encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e
-commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se
-a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro,
-outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude
-dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem
-amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na
-ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira,
-ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus.
-Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha
-consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se
-de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas
-que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer,
-porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus
-que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a
-fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado
-ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus
-primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões
-inofensivos, o <i>post tenebras spero lucem</i> de Job.<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a></p>
-
-<p>Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios
-espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe
-ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade
-pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e
-até para passear desassombradamente.</p>
-
-<p>Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta
-chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez
-habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe
-havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.</p>
-
-<p>&mdash;Vou hoje de tarde a Lisboa&mdash;me disse elle, placido e
-triste&mdash;Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia
-para cuidar de si. Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se
-prefere tornar para as ruinas, mais contente voltarei.</p>
-
-<p>Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes»
-ser-me-ia dolorosa.</p>
-
-<p>Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de
-Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha
-hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir
-para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o
-leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa
-Martha.</p>
-
-<p>Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao
-pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante
-do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza
-cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo
-tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços
-da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de
-veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que
-esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos
-na grade.</p>
-
-<p>Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas
-ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus
-trabalhos.»</p>
-
-<p>Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me
-disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu
-braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o
-achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi
-durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos
-encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse
-esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á
-semelhança das que regelam na face d'um cadaver.</p>
-
-<p>E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão
-absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma
-palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!</p>
-
-<p>Parou a sege.</p>
-
-<p>Saltei para amparar o padre na descida.</p>
-
-<p>&mdash;Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao
-terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui
-fallar-me.</p>
-
-<p>Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o
-seguinte:</p>
-
-<p>&mdash;Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os
-«Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite.
-Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos
-as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou
-avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da
-conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a
-sua mão de amigo, e adeus.</p>
-
-<p>Voltou-se para mim, e disse-me:</p>
-
-<p>&mdash;Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo,
-se o poder fazer sem custo.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não me quer comsigo agora?!&mdash;atalhei.</p>
-
-<p>&mdash;Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos
-nem consolados por ninguem.</p>
-
-<p>Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.</p>
-
-<p>&mdash;Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos
-«Olivaes»&mdash;ajuntou elle. Levei-lhe a resposta affirmativa, e a
-sege partiu, a passo rapido.</p>
-
-<p>Fiquei conversando com o amigo do padre.</p>
-
-<p>&mdash;Não o tornaremos a ver&mdash;disse-me elle
-consternado&mdash;Padre Alvaro não vive muitos dias; o senhor verá. Eu
-d'antes, quando o via desconfortado e com signaes de pouca vida,
-dizia-lhe:&mdash;«lembre-se d'aquella infeliz, que não tem mais
-ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma nova! Agora, não ha
-nada que o prenda á vida, senão o sofrimento...</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu cuido&mdash;interrompi&mdash;que o padre Alvaro ha-de
-achar sempre na sua vida occasiões de ser util a muitos outros
-desgraçados, embora se ofereçam com titulos menos valiosos á sua
-beneficencia. Em quanto houver um homem que lhe peça conselhos,
-esmolas, ou intercessão com Deus, o padre, qual elle é, não póde
-julgar terminada a sua missão n'este mundo.</p>
-
-<p>&mdash;Essas conjecturas são conceituosas, e de bom
-juizo&mdash;redarguiu o sujeito&mdash;mas os negocios do coração
-alheio correm de modo muito diferente das nossas razões, pensadas, a
-espirito socegado, embora nos doam os infortúnios do nosso amigo.</p>
-
-<p>E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso
-amigo.</p>
-
-<p>O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.<sup>a</sup>Eufemia
-hesitara em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas
-voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.</p>
-
-<p>Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me
-procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe
-que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto
-para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».</p>
-
-<p>Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava
-para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que
-cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um
-sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:</p>
-
-<p>&mdash;O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a
-sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S.
-Francisco de Sales ou Vicente de Paula...</p>
-
-<p>&mdash;Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos,
-senhor padre Alvaro&mdash;disse-lhe eu.</p>
-
-<p>&mdash;E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo
-a luz, que illumina e abraza... <i>Ardere et lucere</i>...<a name="FNanchor_2_1" id="FNanchor_2_1"></a><a href="#Footnote_2_1" class="fnanchor">[2]</a> Padeci muito, e
-esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa
-vida aqui se acabam: <i>Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad
-finem</i><a name="FNanchor_3_1" id="FNanchor_3_1"></a><a href="#Footnote_3_1" class="fnanchor">[3]</a>. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil
-machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo
-dia: <i>Ridebit in die novissimo</i><a name="FNanchor_4_1" id="FNanchor_4_1"></a><a href="#Footnote_4_1" class="fnanchor">[4]</a>.</p>
-
-<p>Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu
-companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam
-refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas
-consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á
-perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.</p>
-
-<p>Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no
-amigo, que propozera a consulta.</p>
-
-<p>&mdash;Medicos!...&mdash;murmurou elle&mdash;O caixão... Mortalha cá
-está esta...</p>
-
-<p>Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da
-tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os
-olhos no céo:</p>
-
-<p>&mdash;D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era
-muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com
-os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o
-néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»<a name="FNanchor_5_1" id="FNanchor_5_1"></a><a href="#Footnote_5_1" class="fnanchor">[5]</a>. Eu espero
-tudo da misericordia Divina.</p>
-
-<p>Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que
-fechassemos a janella.</p>
-
-<p>Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente.
-Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei
-esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.</p>
-
-<p>Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom
-compadecido:</p>
-
-<p>&mdash;Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou
-melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.</p>
-
-<p>Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o
-prior.</p>
-
-<p>Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por
-desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto
-a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto
-o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella
-respondeu-me:</p>
-
-<p>&mdash;O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo
-que está a morrer!...&mdash;E lançou-se de joelhos a orar em voz alta.
-Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher
-através dos ultimos vinte annos.</p>
-
-<p>Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força
-passal-o á cama: não o conseguimos.</p>
-
-<p>&mdash;A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. <i>Dulcis est
-somnus soperanti</i><a name="FNanchor_6_1" id="FNanchor_6_1"></a><a href="#Footnote_6_1" class="fnanchor">[6]</a>&mdash;disse elle.</p>
-
-<p>E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:</p>
-
-<p>&mdash;O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e
-tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o
-homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do
-universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o
-reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.</p>
-
-<p>Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que
-não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos,
-murmurando vozes imperceptiveis.</p>
-
-<p>As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os
-braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém,
-á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus
-joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:&mdash;<i>Beati qui lugent</i><a name="FNanchor_7_1" id="FNanchor_7_1"></a><a href="#Footnote_7_1" class="fnanchor">[7]</a>.</p>
-
-<p>Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as,
-por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e
-elle disse:</p>
-
-<p>&mdash;<i>Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus
-venit</i><a name="FNanchor_8_1" id="FNanchor_8_1"></a><a href="#Footnote_8_1" class="fnanchor">[8]</a>.</p>
-
-<p>Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da
-cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe
-lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.</p>
-
-<p>Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do
-ultimo juizo.</p>
-
-<p>Ajoelhei de novo, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a>Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_2_1" id="Footnote_2_1"></a><a href="#FNanchor_2_1"><span class="label">[2]</span></a>S. João&mdash;5. 35.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_3_1" id="Footnote_3_1"></a><a href="#FNanchor_3_1"><span class="label">[3]</span></a>Psal. 37&mdash;7.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_4_1" id="Footnote_4_1"></a><a href="#FNanchor_4_1"><span class="label">[4]</span></a>L. dos Prov. Cap. 31. 25.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_5_1" id="Footnote_5_1"></a><a href="#FNanchor_5_1"><span class="label">[5]</span></a>S. Lucas&mdash;12. 19.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_6_1" id="Footnote_6_1"></a><a href="#FNanchor_6_1"><span class="label">[6]</span></a>É suave o dormir a quem trabalhou.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_7_1" id="Footnote_7_1"></a><a href="#FNanchor_7_1"><span class="label">[7]</span></a>Felizes os que choram.</p></div>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_8_1" id="Footnote_8_1"></a><a href="#FNanchor_8_1"><span class="label">[8]</span></a>Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado
-o esposo. S. Matheus. 25. 6.</p></div>
-
-<p><br /></p>
-
-<h4>FIM DA INTRODUCÇÃO.</h4>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>I</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Grande, très-grande révélation. Ce<br />
-n'est pas ici un vain spectacle d'art et<br />
-de sensibilité, simple volupté du cœur<br />
-et des yeux. Non, c'est un acte de foi,<br />
-un mystère</i>...</p>
-
-<p style="margin-left: 52%;">MICHELET (La Femme.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813.
-Foi seu pae um commerciante rico, bastardo d'um fidalgo da côrte.</p>
-
-<p>Cresceu Alvaro, e nunca seus labios proferiram a palavra mãe, nem tinha
-o coração memoria d'ella. Entrou n'um collegio. Ahi, ouviu de seus
-companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo
-das saudades d'elles. Dizia um «minha mãe recommenda-me, que estude
-muito, que me ha-de levar á feira do Campo Grande», outro, repartindo
-confeitos ou amendoas pelos condiscipulos, dizia: «foi minha mãe que
-m'as mandou»; este escrevia a sua mãe, pedindo-lhe que o mandasse
-buscar no sabbado; aquelle chorava e adoecia de saudades de sua mãe.</p>
-
-<p>Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o
-dissera; nunca seu pae, nem sequer sua ama lhe fallaram em mãe.</p>
-
-<p>Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a
-Eufemia, sua ama de leite, porque não lhe tinha fallado nunca de sua
-mãe. Eufemia, atalhada pelo repente da pergunta, tartamudeou algumas
-palavras, que exprimiam o em baraço d'ella, suspeitoso á precoce
-esperteza de Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Vou perguntar a meu pae&mdash;disse elle.</p>
-
-<p>&mdash;Ora!&mdash;acudiu a ama&mdash;para que ha-de ir o menino fazer
-essa pergunta a seu pae?! Não queira saber d'essas cousas.</p>
-
-<p>&mdash;Então que tem?!&mdash;tornou Alvaro, cada vez mais enleado, e
-curioso como creança&mdash;Eu havia de ter mãe por força, não é assim?</p>
-
-<p>&mdash;Isso é; mas...</p>
-
-<p>&mdash;Mas quê?</p>
-
-<p>&mdash;E se ella morresse!?...</p>
-
-<p>&mdash;Se morreu, é outra cousa... Então diga-me que morreu. Morreu ou
-não?</p>
-
-<p>&mdash;Está bom, menino; deixe-se de querer saber o que não lhe
-importa&mdash;disse, em conclusão, a perturbada ama, fugindo a novas
-perguntas.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira, pae de Alvaro, queria do coração ao seu filho unico.
-Amimava-o n'aquella idade como no berço. Parecia crescer o amor á
-proporção que as feições do menino se iam compondo, retrato fiel das
-suas.</p>
-
-<p>N'esse mesmo dia de inquietação para a boa Eufemia, estava o menino
-sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava
-as unhas.</p>
-
-<p>&mdash;Ó papá&mdash;disse Alvaro com um gesto carinhoso&mdash;a minha
-mãe já morreu?</p>
-
-<p>Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a
-aparar as unhas do menino, e disfarçou a resposta com algumas perguntas
-concernentes ao collegio.</p>
-
-<p>Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de
-providencial impulso, retrocedeu, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;O papá não me disse se a minha mãe morreu...</p>
-
-<p>&mdash;Morreu&mdash;disse seccamente o pae.</p>
-
-<p>Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de
-riso e meiguice.</p>
-
-<p>Contou o menino este caso á ama, e esta, profundamente magoada,
-disse-lhe em ar de reprehensão:</p>
-
-<p>&mdash;Não lhe disse eu que não fizesse taes perguntas?</p>
-
-<p>Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres,
-que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o
-mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro
-era filho natural do capitalista, e póde ser que da propria criada, a
-quem elle chamava ama. Estas desconfianças não eram boas para serem
-communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre.
-O menino, porém, não fallava n'outra cousa, e instava por
-esclarecimentos, até que uma vez o mestre, mal assombrado, lhe disse:</p>
-
-<p>&mdash;Estude, Alvaro; não lhe importe saber o que não lhe é
-necessario.</p>
-
-<p>O alumno mais estudioso do collegio fora Alvaro até áquelle dia.
-Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em
-aproveitar o natural engenho. De repente, com igual admiração dos
-mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro;
-mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus
-condiscipulos.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu
-medíocre apreço ao desgosto dos mestres, no tocante a estudo. O
-negociante não; queria que seu filho seguisse as letras, nem se
-gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um
-verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua,
-morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo.
-Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da
-riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e
-acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles
-viam apertados, no dia immediato á noite do jogo, ou do baile, ou dos
-casamentos e natalicios da côrte.</p>
-
-<p>Decorreram tres annos. Quiz Manoel Teixeira, n'este espaço de tempo,
-por muitas vezes tirar o filho do collegio, á conta de magreza, de
-fastio, de doença, e de mil causas que inventa um pae extremoso. Alvaro
-resistia á ternura paternal, pedindo que o deixasse estar no collegio,
-onde se affeiçoára ao seu quarto, aos seus mestres, e a alguns
-condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.</p>
-
-<p>Tinha Alvaro já doze annos. Os tres ultimos, mal aproveitados nos
-livros, fructearam temporãos em discernimento e porte varonil. D'entre
-os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em
-conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima
-pratica, relembravam aquella instancia de um, acerca de sua mãe, e a
-resposta enfadosa do outro. Notou, porém, o mestre que estas
-recordações traziam tristeza mais sombria para o alumno, e abstinha-se
-de revivel-as. Que montava isso, se Alvaro não podia esquecel-as, nem o
-mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?</p>
-
-<p>&mdash;O senhor Alvaro está homem no espirito;&mdash;disse-lhe um dia o
-seu affeiçoado mestre de inglez&mdash;vou dizer-lhe o que não quiz explicar
-á sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos
-ácerca de sua mãe. Presumi eu n'aquelle tempo que seu pae tinha alguma
-forte, ou pelo menos desculpavel, razão para não lhe dizer quem era
-sua mãe. Bem podia ser que o menino fosse filho de uma das criadas de
-seu pae, ou mesmo ainda de uma senhora, cuja reputação corresse risco
-de ser manchada. Creio que me comprehende...</p>
-
-<p>&mdash;Manchada... por que?&mdash;disse Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Por ser sua mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Por ser minha mãe!... Não entendo!...</p>
-
-<p>&mdash;Assim me quer parecer; mas eu lhe aclaro a escuridade. Honram-se
-de serem mães, e o mundo honra aquellas mães, que estão ligadas por um
-sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.</p>
-
-<p>Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;E minha mãe não estava assim ligada a meu pae?</p>
-
-<p>&mdash;Era isso que eu cuidava; mas, estimulado tambem da sua
-curiosidade, pedi informações, que obtive logo, e já podéra ter-lh'as
-revelado, se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou
-agora contar-lhe o que sei de sua mãe. Conheço a causa da sua tristeza: é
-ella. Esse seu amor vago de filho tem influxo do céo. Alguma cousa quer
-Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.</p>
-
-<p>Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e
-rica, filha d'um negociante portuguez em Macáo. Maria da Gloria é o
-nome de sua mãe.</p>
-
-<p>Os olhos de Alvaro reluziam, e a purpura do rosto inflammava-se á
-medida que o professor ia rompendo o véo que, para assim dizer, lhe
-velava um novo mundo de affectos, de sentimento, de esperanças, e um
-destino imprevisto.</p>
-
-<p>Continuou o mestre:</p>
-
-<p>&mdash;Seus paes viviam extremamente felizes, e o menino nasceu ainda na
-época da felicidade. Tinha Alvaro alguns mezes, quando sua mãe sahiu
-da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um
-convento da provincia do Minho, onde vive agora. Não me peça
-esclarecimentos que não posso dar á sua idade, nem os daria ao seu
-pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro
-annos. Fique sabendo que sua mãe é viva.</p>
-
-<p>Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal
-respeito.</p>
-
-<p>Alvaro não respondeu, de confuso que devia naturalmente ficar. A
-educação, a convivencia de moços como elle innocentes, a ignorancia
-das novellas que ensinam o espirito a tirar, por comparação, os vicios
-reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o
-ponto mysteriosas para Alvaro as razões que haviam levado sua mãe a um
-convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que
-seu filho assim a julgasse.</p>
-
-<p>Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em
-Manoel Teixeira a extraordinaria vivacidade do moço. Folgou com a
-mudança, e foi agradecer aos professores, e especialmente ao mais amigo
-de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava
-preoccupado de uma idéa que lhe dava novos espiritos.</p>
-
-<p>Estava elle, um dia, em conversação acintemente promovida com Eufemia,
-e encaminhada ao ponto de lhe dizer:</p>
-
-<p>&mdash;Quem me dera vêr um retrato de minha mãe!</p>
-
-<p>Eufemia fitou os olhos n'elle, abraçou-o, beijou-o, como quando o tinha
-ao peito, e, entre lagrimas e soluços, balbuciou:</p>
-
-<p>&mdash;Se a visse!...</p>
-
-<p>&mdash;Ella de certo morreu, minha Eufemia?&mdash;tornou elle,
-acariciando-a&mdash;Falle a verdade... Não minta ao seu Alvaro!...</p>
-
-<p>&mdash;Para que me faz essa pergunta, menino Valha-me nossa Senhora dos
-Remedios! Deus me não salve, se eu sei o que lhe hei-de dizer.</p>
-
-<p>&mdash;Diga a verdade, que é o mais agradavel a Deus.</p>
-
-<p>Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:</p>
-
-<p>&mdash;Venha cá, sente-se aqui, e responda-me, se é minha amiga: Porque
-está minha mãe n'um convento?</p>
-
-<p>&mdash;Santo nome de Jesus!&mdash;exclamou Eufemia, levantando as mãos á
-cabeça&mdash;Quem lhe disse isso, menino?</p>
-
-<p>&mdash;Que lhe importa a vossemecê saber quem m'o disse? É isto verdade?
-É, sei que é; o que eu lhe pergunto é a razão por que minha mãe
-não está n'esta casa.</p>
-
-<p>&mdash;Senhor Alvaro, se continua a perguntar-me cousas assim, eu vou-me
-embora d'esta casa&mdash;replicou a ama com resolução feita de sahir.</p>
-
-<p>&mdash;Está bom&mdash;redarguiu Alvaro&mdash;não se afflija, que eu não
-fallo mais n'isto; mas prometta de não dizer a meu pae nada.</p>
-
-<p>&mdash;Eu, menino! Eu cahia lá n'essa! Tomára eu que elle nem por sonhos
-se lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...</p>
-
-<p>N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido
-apressadamente, e deixára aberta uma gaveta cuja chave nunca lhe
-esquecera.</p>
-
-<p>Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:</p>
-
-<p>Não haverá aqui alguma cousa que me falle de minha mãe?</p>
-
-<p>E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira
-uma como voz do céo que o mandava abrir a gaveta da escrivaninha.</p>
-
-<p>A tremerem-lhe as mãos, abalançou-se o moço ao que nunca se atrevera
-a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu
-a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.</p>
-
-<p>&mdash;Será?&mdash;disse elle&mdash;«Senhora de rara formosura» me disse
-o mestre; e esta é tão formosa!...</p>
-
-<p>Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse
-Alvaro ao pé da mysteriosa gaveta, com um retrato na mão, correu para
-junto d'elle, dizendo:</p>
-
-<p>&mdash;Que está a vêr o menino?</p>
-
-<p>&mdash;E de minha mãe este retrato?&mdash;respondeu elle sem turbação.</p>
-
-<p>Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;É, é; mas, pelo amor de Deus, não esteja aqui, metta o retrato na
-gaveta, de modo que seu pae não dê fé. Venha, venha commigo, menino!</p>
-
-<p>&mdash;Não vou,&mdash;disse elle com firmeza&mdash;n'esta gaveta é que
-está o segredo que a Eufemia não quer contar-me. Hei-de procurar entre estes
-papeis alguma carta de minha mãe.</p>
-
-<p>Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella
-resposta.</p>
-
-<p>&mdash;Feche a gaveta, que eu prometto contar-lhe tudo&mdash;disse
-ella&mdash;Venha depressa, que eu ouço passos... E o paesinho que vem...</p>
-
-<p>Não era; mas o medo figurava horrores na cabeça da pavida mulher.</p>
-
-<p>Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela,
-que não podia denunciar mão estranha.</p>
-
-<p>&mdash;Conte-me agora o que souber&mdash;instou elle com a ama.</p>
-
-<p>Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade
-com que Alvaro censurava a hesitação, disse o seguinte:</p>
-
-<p>&mdash;A razão por que sua mãesinha foi para o convento... ainda que eu
-lh'a diga, o menino não a entende.</p>
-
-<p>&mdash;Mas diga, e depois me explicará, se eu não entender.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, o seu pae foi a Macáo receber a herança de sua mãe, que era
-de lá...</p>
-
-<p>&mdash;Já sei.</p>
-
-<p>&mdash;Sabe?! quem lh'o disse? Credo! Aqui parece que anda bruxaria!</p>
-
-<p>&mdash;E depois?</p>
-
-<p>&mdash;Seu pae, quando voltou, passados dias mandou sua mãe para um
-convento...</p>
-
-<p>&mdash;Na provincia do Minho, já sei tambem; mas isso não é o que lhe
-pergunto: o que eu quero é saber porque foi.</p>
-
-<p>&mdash;Foi porque assacaram uma calumnia á sua mãesinha. Agora já
-sabe... Deixe-me, menino, por piedade lhe peço que me deixe.</p>
-
-<p>&mdash;Calumnia! que calumnia!?... Então é isso o que me prometteu,
-Eufemia?</p>
-
-<p>&mdash;Sabe que mais, senhor Alvaro?... quem lhe disse o que sabe, que
-lhe diga o resto...</p>
-
-<p>Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda,
-refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o
-patrão para casa.</p>
-
-<p>Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e
-tirou ao acaso um massête de cartas d'entre muitos sobre que assentava
-a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da
-campainha: era Manoel Teixeira. Alvaro, tão senhor estava seu, que
-metteu na algibeira o massête de cartas, fechou a gaveta, e sahiu do
-gabinete.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no
-gabinete, correu á gaveta, e examinou-a; tornou a fechal-a, e não
-suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo
-Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.</p>
-
-<p>Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos,
-deslacrou o massête das cartas, e leu-as e releu-as sofregamente como
-se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de
-santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos
-vem fadado do céo, e as cartas mesmo as cuidamos dictadas pelos anjos.</p>
-
-<p>A primeira, conheceu logo que eram de sua, mãe as cartas, escriptas do
-convento de Vairão, em 1820, quatro annos depois da sua reclusão, e
-cinco anteriores áquella data.</p>
-
-<p>Todas ellas expressavam a mesma supplica, não de perdão, nem de
-piedade; mas a esmola de um beijo de seu filho, esperança unica de que
-se alimentava e vivia a mãe infeliz. Os termos carinhosos do amor
-maternal, e commoventes rogos ao pae inflexivel da creança, iam
-crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de
-Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella
-que já não tinha forças para rebellar-se contra a vontade da
-Providencia, e receiava muito que a confiança na divina justiça a
-desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua
-innocencia, diante de Deus.</p>
-
-<p>Na seguinte manhã, Alvaro disse ao pae que ia para o collegio, e não
-viria um mez a casa, porque se ia entregar todo a uma traducção de um
-livro inglez. Quiz o negociante dissuadil-o do trabalho como nocivo á
-sua saude; mas o moço, com afagos, e promessas de não fatigar-se,
-obteve licença de estar no collegio um mez.</p>
-
-<p>D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:</p>
-
-<p>&mdash;Vou ver minha mãe, Eufemia.</p>
-
-<p>&mdash;Que diz, menino!? Está doudo!?</p>
-
-<p>&mdash;Já lhe disse que vou vêr minha mãe: o pae não vem a saber nada,
-porque pensa que estou no collegio.</p>
-
-<p>Eufemia replicou amontoando razões que não poderam nada com Alvaro,
-sendo a mais forte de todas esta:</p>
-
-<p>&mdash;E o menino cuida que se póde ir ao convento sem dinheiro? Olhe
-que são sete ou oito dias de jornada para lá, e outros, tantos para cá.
-Quem lhe dá o dinheiro?</p>
-
-<p>&mdash;Ha-de emprestar-m'o a Eufemia, para eu ir vêr minha mãe; e, se
-m'o não emprestar, vou a pedir esmola.</p>
-
-<p>A ama abraçou a chorar o seu filho, como ella lhe chamava, e d'aquelle
-lance em diante não lhe negou dinheiro nem conselhos a fim de
-realisar-se o intento. Ella mesma, á tarde d'esse dia, ajudada por um
-seu irmão, foi alugar cavalgadura, e ajustar criado que acompanhasse o
-menino a Vairão, guardando n'estes passos tal recato que não ficasse
-alguem sujeito ás iras de Manoel Teixeira, se a desfortuna os
-descobrisse.</p>
-
-<p>Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a
-Vairão. Tão digno e respeitavel achou o mestre o arrojo do moço, que
-nem sequer lh'o tentou impedir com reflexões. Abraçou-o com vehemente
-admiração de tão energica e nobre alma em tal verdura de annos, e
-prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de
-encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar
-um mez nos «Olivaes» com seus tios, onde costumava ir ás temporadas.</p>
-
-<p>Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da
-Gloria.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>II</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Começa o céo a dilucidar-se.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">GOLDSMITH (o vigario de Wakefield.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do
-correio de Villa do Conde, correu transportada á cella da sua amiga
-Cecilia, e lançou-se aos braços d'ella, chorando de alegria.</p>
-
-<p>&mdash;Que é, filha?&mdash;exclamou a religiosa alvoroçada.</p>
-
-<p>&mdash;É a primeira alegria que Deus me dá em onze annos de martyrio.
-Olha, vê esta carta da Eufemia... deixa que eu leio...</p>
-
-<p>E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as
-conversações, que tivera com o menino, até áquella hora em que o foi
-achar a contemplar o retrato de sua mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Oh meu Deus, meu Deus!&mdash;clamou a enlevada senhora,
-ajoelhando ante o oratorio de Cecilia&mdash;Bem haja a vossa mão que
-até hoje me opprimiu para que eu sentisse o immenso prazer d'esta
-noticia! Fallai, meu divino Jesus, fallai ao coração de meu filho, e
-dizei-lhe que sua mãe, se foi culpada, já deliu com lagrimas de sangue
-as nodoas do coração, para receber dignamente a vossa misericordia, e
-o amor de seu filho!</p>
-
-<p>Esta curta e arrobada prece foi seguida do desfallecimento. De crêr é
-que o espirito quebrantado da penitente não tivesse força para vibrar
-longo tempo abalado pela felicidade. Cecilia tomou-a nos braços, e
-reanimou-a, communicando-lhe as visões de futuros gozos que a vinham
-resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.</p>
-
-<p>Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram,
-porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais
-escrupulosas por sua resignação e conformidade. Encheu-se de gente o
-seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas
-senhoras preluzisse o vaticinio de começar d'alli a desenredar-se a
-trama que a desgraça urdira á innocencia da reclusa, nos melhores
-annos de sua vida.</p>
-
-<p>Passou a febril mãe algumas horas da noite escrevendo ao filho e á
-criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um
-hymno de acção de graças, a carta que ella escreveu a Alvaro. Todo e
-tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da
-religião, dilatou-se alli em termos de sorte amoraveis, que nunca a
-imaginação apaixonada do poeta os achou assim.</p>
-
-<p>Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto,
-Maria da Gloria recebia nova carta de Eufemia, escripta na occasião em
-que andava alugando cavalgadura para a jornada do menino a Vairão.</p>
-
-<p>O ambicioso coração d'aquella mãe não esperava, nem sequer sonhava
-tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias
-nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel
-Cecilia, modificar os sobresaltos da esperança em contentamento sereno.
-Não poderam. A vehemencia das pulsações denotava febre, e já as
-timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das
-flagellações de onze annos de saudade.</p>
-
-<p>Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta,
-mallogrou se-lhe o desejo de levantar-se. Agora já a enfermava tambem o
-receio de que as tenções do filho fossem estorvadas por algum dos mil
-successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa,
-a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a
-portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao
-pé do de sua mãe. Dissereis que Alvaro era o bem-vindo de todas as
-monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e
-mimos, e um ar commum de festa, como se estivesse á porta o
-solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.</p>
-
-<p>Que folgazãs, e não sei se, ao mesmo tempo, santas, eram aquellas
-creaturas do mosteiro de Vairão, onde, n'esse tempo, florejava em dons
-do espirito e primores de coração a secular que depois esposou um dos
-maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de
-Castilho! Com que amor e enlevo se liam então alli as riquezas
-balbuciantes do bardo de «Ecco e Narciso» e os maviosos regorgeios
-d'aquella «Primavera» em que ainda hoje o espirito inverniço do
-leitor se póde sentir verdejar aos balsamos das flôres, que lá estão
-em perpetuo viçor e aroma na grinalda do então, e hoje, e sempre
-juvenil poeta!</p>
-
-<p>E vinda a hora da acção, e frouxo ha-de ser o traslado, não á conta
-de o termos escassamente debuxado na idéa, mas é que o desenho de
-Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do
-mosteiro, não o faz a linguagem, e só o pincel de artista de sentir
-delicado o tiraria a limpo.</p>
-
-<p>Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.</p>
-
-<p>Foi Cecília a da nova, e depós ella vinham todas, alviçareiras, a
-esbofar de cançadas.</p>
-
-<p>Maria sentou-se de impeto no leito, e abraçava, vertiginosamente,
-quantas entravam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada,
-menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel á propria
-sineta de matinas! A mãe de Alvaro pedia os vestidos, e todas á porfia
-lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando
-destoadamente uma inglezia de que as proprias noviças estavam como
-pasmadas. Já Maria saltava do leito meio-vestida, quando entrou a dona
-abbadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se á cama, que assim o
-mandára o medico, e não se fazia mistér ir buscar nos braços quem
-alli vinha ter por seu pé.</p>
-
-<p>A este tempo, correu a chusma das noviças á porta da cella, como
-ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos
-dormitorios. Vinha Alvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e
-com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os
-facultativos ás cellas das suas doentes.</p>
-
-<p>O filho de Maria da Gloria quando viu um grupo de treze noviças, com os
-seus véos brancos e as toucas graciosas, onde enquadravam rostos mais
-encarnados que seraphicos, não formou idéa de todo horrorosa do
-carcere de sua mãe. O interior d'um mosteiro era-lhe novidade; e posto
-quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda
-das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas
-que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.</p>
-
-<p>As noviças, como já não coubessem no quarto de Maria da Gloria,
-agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede
-e ás tres senhoras. No limiar da cella estava a prelada, que tomou a
-mão do menino, e o guiou ao pé do leito. Maria, quasi a resvalar da
-cama, recebeu o filho nos braços, e apertou-o contra o seio em silencio
-de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e
-contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da
-loucura.</p>
-
-<p>&mdash;É o meu filho!&mdash;exclamou ella circumvagando os olhos mais
-soberbos que maviosos pelas religiosas que choravam&mdash;É o meu filho! é
-a minha riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este
-instante... Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...</p>
-
-<p>E bracejava, atirando a repellões as tranças soltas para as costas.</p>
-
-<p>Alvaro contemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato,
-como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que
-alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos
-rebordos macerados dos olhos. Raros vestigios das feições antigas
-conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque
-morbido e desmaiado da belleza é muitas vezes mais de captivar que o
-viço dos vinte annos.</p>
-
-<p>&mdash;Não me esperavas assim ver tão velha, meu filho?&mdash;disse
-ella, correndo as mãos no rosto de Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Faz muita differença do seu retrato, que lá tem o
-papá&mdash;disse o menino a custo, de apertado que estava nos braços
-da mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Quando eu tirei aquelle retrato, meu filho, era feliz, e tinha
-dezeseis annos. Não sabes que me foste arrancado, ha onze annos, dos
-meus braços, Alvaro? Onze annos a pedir a Deus este dia, meu querido
-filho!... Onze annos!... E Deus sabe se tornarei a vêr-te!</p>
-
-<p>Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as
-freiras a um tempo lhe disseram palavras consolativas e de esperança.
-Alvaro, vendo que sua mãe ia cahir exhaurida de forças para o espaldar
-do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e
-gotejante de suor.</p>
-
-<p>A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado.
-Abriu-se a pequena janella, e Maria tornou a si, sentindo a mão do
-filho afastar-lhe da face os cabellos já passados da copiosa
-transpiração.</p>
-
-<p>A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.</p>
-
-<p>&mdash;Sinto-me vigorosa...&mdash;disse Maria&mdash;Olha, meu filho,
-entra n'aquella cella, e espera-me lá.</p>
-
-<p>Alvaro passou á especie de ante-camara que sua mãe tinha, com
-serventia interior, por graça especial da prelada, e porque lhe
-sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.</p>
-
-<p>Viu Alvaro n'este recinto, pequeno, mas bem assombrado e até bonito com
-aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns
-retratos, que eram os de seus avós maternos, e outros paineis de
-devoção. Sentou-se á banca onde sua mãe escrevia, e relanceou os
-olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a
-ultima carta, que Eufemia escrevera a sua ama. O pequeno não adivinhou
-a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta,
-e entendeu a promptidão com que lhe foram abertas as portas do
-mosteiro, onde a sua ama lhe havia dito que não era permittido o
-accesso, salvo ás grades, e um momento na portaria, se sua mãe
-solicitasse o prazer de abraçal-o. Maravilhou-se do segredo que Eufemia
-velára d'elle, occultando-lhe as suas relações epistolares com a
-mãe. Sentiu-se mais obrigado a estimar a virtuosa mulher, que para
-escrever á encarcerada, de todo o mundo se escondia, temendo ser
-repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica
-de quem podia a mãe fiar as suas queixas, e receber palavras que lhe
-temperassem as desesperadas saudades.</p>
-
-<p>Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro
-estava.</p>
-
-<p>Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que
-parecia tomado de melancolico espasmo.</p>
-
-<p>&mdash;Estás tão triste, Alvaro?... É a vista de tua velha mãe que te
-entristece?</p>
-
-<p>&mdash;Não, minha senhora; é o pesar que eu tenho de a não vêr em nossa
-casa. Porque está aqui ha tantos annos, minha mãe?</p>
-
-<p>Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que
-desabafava a vehemente oppressão da innocente pergunta:</p>
-
-<p>&mdash;Tu não me entenderias, se te eu dissesse a causa d'esta minha
-desgraça, filho do meu coração. Es muito menino ainda para
-comprehenderes a calumnia de que sou victima.</p>
-
-<p>&mdash;Mas&mdash;atalhou Alvaro com intervallos de suspensão, que
-denunciavam mais a innocencia de sua ignorancia das calamidades da
-vida&mdash;o pae não póde ser tão mau que tenha aqui presa sem alguma culpa
-a minha mãe... Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre
-de inglez tambem me disse que eu nascera na época da felicidade.</p>
-
-<p>&mdash;Cala-te, cala-te, meu filho&mdash;exclamou Maria, afogada em
-soluços.</p>
-
-<p>&mdash;Não chore assim, minha mãe&mdash;acudiu o menino, a chorar com
-ella&mdash;Escreva ao papá, peça-lhe que a tire d'aqui; talvez que elle
-tenha pena de si agora. A mãe já não lhe escreve como ha quatro
-annos?</p>
-
-<p>&mdash;Quem te disse que eu lhe escrevia, filho?</p>
-
-<p>&mdash;Eu li as cartas, ás escondidas do pae, e trago-as commigo, porque
-não tornei a encontrar aberta a gaveta d'onde as tirei. São todas de
-1820. A mãe não escreveu mais algumas?</p>
-
-<p>&mdash;Não, porque teu pae nunca me respondeu a ellas.</p>
-
-<p>&mdash;Escreva-lhe agora, sim? Escreva-lhe quando eu já estiver em
-Lisboa...</p>
-
-<p>&mdash;Que farias tu, meu querido filho, que importaria escrever eu a
-teu pae?</p>
-
-<p>&mdash;Eu pedia-lhe que tivesse compaixão da minha mãe...</p>
-
-<p>O dialogo durou assim até á hora em que Maria da Gloria e seu filho
-foram chamados a jantar em casa da abbadessa.</p>
-
-<p>Todas as religiosas e noviças foram commensaes no banquete dado pela
-prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado
-entre sua mãe e a abbadessa. Defronte estava uma religiosa de annos
-dilatados, a qual, desde muitos mezes, só na sua cella e no coro se
-encontrava. Não tinha sido convidada, em respeito â sua austera
-soledade e continuada oração mental em que praticava com Deus. Foi
-ella mesmo que se offereceu para o jantar, dizendo que não podia faltar
-áquella honra feita a um anjo de dor e de paciencia. Isto, dito por
-soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o
-animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era
-uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era
-tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com
-Alvaro, já perguntando-lhe se desejava ficar com sua mãe, já
-queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser
-brevemente furtada ás suas amigas do convento.</p>
-
-<p>A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma
-felicidade, que ella devia ás orações de soror Joanna, e d'outras
-virtuosas senhoras, suas dignas companheiras na terra e no céo;
-accrescentava, porém, que não esperava ser restituida a seu filho e á
-sua dignidade de esposa.</p>
-
-<p>Viram todas erguer a religiosa o braço descarnado, e abrir a mão como
-quem impõe silencio ás palavras de duvida, e contradictorias com as do
-espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que
-nem as respirações se ouviam.</p>
-
-<p>Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:</p>
-
-<p>«A mãe será restituida ao filho, e a esposa ao coração de seu
-marido, e aos respeitos do mundo».</p>
-
-<p>Por que é que os cabellos estremeceram, e o calefrio vibrou os nervos
-de quantas pessoas ouviram o tom prophetico da virtuosa anciã? De
-feito, havia instincto do céo n'aquellas palavras, o som d'ellas tinha
-a um tempo a força electrica de que o ouvido se estremece, e a uncção
-suavissima que banha a alma de luz da fé.</p>
-
-<p>Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi,
-tão passado de devoção e como alheado na santa poesia do lance, que
-lhe tomou de joelhos a mão.</p>
-
-<p>Soror Joanna deu-lhe a beijar a mão tremula, fez um geito de levantal-o
-da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces
-descoradas do menino, disse com um ar de graça maviosa como se nos
-labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:</p>
-
-<p>&mdash;O anjo do resgate veio emfim; e não veio tarde, porque chegou á
-hora em que Deus o mandou chegar.</p>
-
-<p>Os animos ficaram tão absorvidos n'esta affectuosa scena, que só
-volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se
-retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de
-noviciado, e contavam para mais de setenta annos.</p>
-
-<p>Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar
-soror Joanna. Encontraram-a em oração, e iam retroceder, quando ella
-fez signal de ficarem.</p>
-
-<p>&mdash;Que pena tenho eu&mdash;disse a freira com muito alegre
-semblante&mdash;de não ter n'esta minha pobre cella um mimo que dê a este
-menino, para se lembrar da velha que viu no mosteiro de Vairão!</p>
-
-<p>As suas palavras gravam-se para sempre no coração, minha
-senhora&mdash;disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.</p>
-
-<p>&mdash;Ora, deixe estar&mdash;tornou a religiosa&mdash;hei-de ver se o
-não deixo ir sem uma lembrança minha... Quando vae embora o menino?... não
-deve demorar-se muito...</p>
-
-<p>&mdash;Eu desejava estar mais tempo&mdash;disse Alvaro&mdash;mas não
-tenho remedio senão ir ámanhã, que não vá o papá dar fé da minha falta.</p>
-
-<p>&mdash;Ámanhã!&mdash;exclamou Maria&mdash;pois já me deixas ámanhã!?</p>
-
-<p>&mdash;E deve ir ámanhã&mdash;respondeu soror Joanna com impressiva
-firmeza, como se désse ordens.</p>
-
-<p>&mdash;Quando tornarei a vêr-te, ó filho da minha alma?&mdash;tornou
-debulhada em pranto a mãe de Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Mulher de pouca fé...&mdash;murmurou a santa, com brando sorriso,
-e um meneio triste de cabeça&mdash;O menino&mdash;ajuntou voltando-se para
-elle, e tomando-lhe as mãos entre as suas&mdash;sahe de madrugada, sim?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, minha senhora, se a minha mãe deixar.</p>
-
-<p>&mdash;Sua mãe deixa. Pois ás quatro horas, antes do toque a matinas,
-venha dizer-me adeus. Vá agora, menino, vá com a mãesinha para as outras
-senhoras, que hão-de estar saudosas d'ella.</p>
-
-<p>E sahiram ambos com sobrenatural alegria de esperanças no coração.
-Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as
-freiras, as noviças, e as criadas a felicitarem-se com ella do termo
-dos seus males, jurando todas no vaticinio da santa. Maria já não
-duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse
-directamente do céo. Já o apartar-se de seu filho não lhe doía
-tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta
-entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os
-perfumes das flôres da sua mocidade. O azul do céo já não tinha o
-aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de
-lagrimas. Riam-lhe as aves, e o céo, e as flôres. A natureza inteira
-a dar-lhe as boas vindas do seu filho! E elle, sempre ao pé d'ella, com
-as faces anuviadas de tão doce melancolia, que fazia lembrar o grave e
-sereno rosto do cherubim, que no retabulo do templo, traz á Virgem de
-Nazareth o annuncio da sua maternidade!</p>
-
-<p>Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu,
-passou-as desveladas a ditosa mãe ao pé do filho que adormecera de
-fatigado. De hora a hora despertava-o com a pressão dos beijos, e
-acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com
-que o velara no seu primeiro anno.</p>
-
-<p>Soaram tres horas. O criado estava já no pateo com a cavalgadura
-arreada. Maria, forçada pelas instancias, tentava, mas não podia
-acordar o filho.</p>
-
-<p>&mdash;Acordal-o para o vêr ir de mim!...&mdash;dizia ella, chorosa.</p>
-
-<p>Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando
-o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa
-deram-lhe alma para o trance.</p>
-
-<p>Foi Alvaro ao cubiculo da religiosa, e sua mãe com elle.</p>
-
-<p>&mdash;Entrem, meus filhos&mdash;disse soror Joanna&mdash;Venha aqui o
-menino: não ha tempo para demoras. Aqui tem a lembrança que leva d'esta sua
-velha amiga. Logo que chegue a Lisboa, antes de entrar na sua casa, vá
-entregar esta carta. A pessoa é bem conhecida. Quem quer lhe dirá onde
-mora esta pessoa. Agora vá com a Virgem Santissima. Quando voltar, me
-dará novas da pessoa a quem escrevo. Emquanto a vós, minha
-penitente&mdash;continuou acariciando Maria&mdash;notae bem o que vos digo.
-Prohibo-vos de vêr o subscripto da carta que vosso filho leva.
-Entendeis, Maria?</p>
-
-<p>&mdash;Oh minha senhora!&mdash;disse a conturbada mãe, beijando-lhe a
-mão.&mdash;Sou incapaz de desobedecer-lhe.</p>
-
-<p>&mdash;Bem o sei: conheço o vosso coração melhor que vós mesma. Ide com
-Deus, meus filhos.</p>
-
-<p>Do ultimo abraço que Maria deu em seu filho passou sem sentidos para os
-braços de Cecilia.</p>
-
-<p>Alvaro escassamente chorava. Sentia em si o coração forte do homem.
-Quando, porém, relançou os olhos para a portaria, que se fechava, não
-viu senão o alvacento véo das suas lagrimas.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>III</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Quem não vê por isto que o mundo<br />
-é um juiz iniquo?</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">S. FRANCISCO DE SALES (Introd.<br />
-á vida devota).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Temo que me chamem milagreiro, e tomem este livro como additamento á
-«Flôr dos Santos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota. Vou
-demonstrar que soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor não fazia
-milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as
-consequencias do que já sabia. Saiba tambem o leitor que este romance,
-por ter o merito da verdade, pouco tem que fazer: é a natureza que o
-faz.</p>
-
-<p>É já sabido que Manoel Teixeira de Macedo foi a Macáo, em 1815,
-liquidar a herança paterna de sua mulher.</p>
-
-<p>Maria da Gloria tinha então vinte e tres annos, e muita formosura. Não
-direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que
-ella doze annos. Não casara apaixonada, nem sequer voluntaria. Seu pae,
-commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do
-titular; tomou-lhe o pulso dos haveres, e achou-o já rico aos trinta e
-dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a
-caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de
-cuidados, que lhe inquietavam os ocios de ricaço aposentado. Não quero
-dizer que os esposorios de paixão assegurem felicidade duradoura:
-sobejam ahi exemplos do contrario; estou, porém, em affirmar que os
-casamentos involuntarios é que não asseguram felicidade nenhuma.</p>
-
-<p>Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de
-encanto á criancinha de tres mezes. Não a mortificavam grandes
-saudades, e menos ainda ciumes. Toda no filho, não curava d'outras
-sensações, como quem já não era sua, e só vivia para elle.</p>
-
-<p>Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta
-teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a
-figura, outras a posição e os creditos. Era um magistrado, e
-chamava-se João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães.</p>
-
-<p>Está o leitor como attonito de vêr em romance um galan que não se
-chama <i>Alfredo, Ernesto, Arthur</i>, ou <i>Julio.</i> Acceite-o assim,
-que era aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da
-policia, e ministro d'estado, e holocausto de suas idéas liberaes no
-desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem
-honradamente servira.</p>
-
-<p>João de Mattos reverenciava a sã moral, nunca violara os deveres de
-bom cidadão, respeitava os direitos alheios por amor de si, tinha que
-farte d'este util egoismo que equilibra os actos humanos, e fórma o
-pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos
-religiosos. Pensava com Benthan, e não tinha ido mal com tal guia. O
-caminho do philosopho inglez não é tão abrolhado de dificuldades como
-o dos moralistas ascéticos, e tem de bom que conduz ao mesmo ponto&mdash;á
-virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.</p>
-
-<p>João de Mattos amou Maria da Gloria.</p>
-
-<p>Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as
-qualidades do magistrado. Não consentem que se compadeçam as virtudes
-sociaes com aquelle amor. Isso é juizo de vulgo errado.</p>
-
-<p>Aqui tenho eu aberto um livro de grande nomeada. É o DEVER, d'um
-professor de moral em França. A academia premiou-lh'o, e os seus
-concidadãos consomem as edições, e moralisam-se. Este livro dá
-preceitos para regrar todas as propensões da alma. Explora a origem
-d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.</p>
-
-<p>Quando, porém, entende no sublime verbo do «amor», exprime-se
-d'est'arte: «A origem do amor, e os alimentos que o nutrem, quaes são?
-Como cresce? Como acaba? Não lia dizel-o: tão variavel é tal
-sentimento. No maximo dos casos, é pelos olhos que nos sentimos
-captivos; mas o amor acha mil avenidas por onde insinuar-se na alma. É
-notorio o modo como o poeta fazia fallar Othello: «Contava-lhe os meus
-azares: não empreguei outra magia...»</p>
-
-<p>N'outro relanço diz:</p>
-
-<p>«D'onde vem o amarmos as cousas bellas? porque são bellas; e as boas?
-porque são boas.» Vão tomando nota.</p>
-
-<p>Outra passagem:</p>
-
-<p>«Uma paixão nos senhoreia e nos abandona, sem podermos atinar com o
-porquê. Sahimos a negocios, e depara-se-nos ao dobrar d'uma esquina a
-mulher, que vae transfigurar-nos o coração.»</p>
-
-<p>Ultima citação:</p>
-
-<p>«Como havemos de conjecturar uma paixão que a si mesma se defenda de
-demasias? Absurda cousa! Para a paixão ha um freio sómente: é o
-desgosto ou o fastio.»</p>
-
-<p>Conclusões a tirar em favor da paixão de João de Mattos, sem
-implicancia das suas excellentes qualidades:</p>
-
-<p>Não sabia elle como nascera o seu amor; menos sabia ainda como havia de
-matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua
-alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa.
-Achou-se transfigurado no coração, quando o cria esmagado sob a
-graveza dos cálculos ambiciosos de gloria. Quiz enfrear os impetos do
-sentimento; mas, antes do fastio, não ha hora alguma em que o amor,
-coma o leão sezonatico, se deixe acorrentar.</p>
-
-<p>Ahi está. Se eu não consegui desculpar o magistrado com o livro&mdash;O
-DEVER, perdôem-lhe os leitores por misericordia.</p>
-
-<p>Quaes foram, porém, ás demasias do visinho de Maria da Gloria?
-Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia
-dictal-as o coração e o genio. A esposa de Manoel Teixeira peccou
-lendo a primeira, e lendo todas; mas não respondeu a alguma.</p>
-
-<p>João de Mattos subiu um dia as escadas da esposa leal, e ajoelhou-lhe,
-quando ella sahia da sua antecamara para ir beijar o filho no berço.
-Maria da Gloria estendeu o braço para a porta da sahida, e disse ao
-homem corrido e allucinado:</p>
-
-<p>&mdash;Quem lhe abriu as portas para esta infamia? Sáia, senhor!</p>
-
-<p>Não respondeu, e sahiu.</p>
-
-<p>A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por
-intervenção da ama. Não lhe viu os olhos. Atirou-lhe com a soldada, e
-despediu-o. O criado quiz explicar a entrada de João de Mattos. Maria
-da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no
-rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada.
-N'esta oscillação olhou para o menino, e disse á ama: «perdôo-te
-por amor do meu filho, e porque sei que a tua culpa é de estupidez e
-não de immoralidade.»</p>
-
-<p>Maria da Gloria tinha este crime: lêra seis cartas de João de Mattos,
-e dissera comsigo:&mdash;«Isto entretem.»</p>
-
-<p>Voltou de Macáo Manoel Teixeira de Macedo. Depois de abraçar a esposa,
-acordou o filho, e tanto o acarinhou que pôz a criança a pique de
-morrer abafada. A bemaventurança estava alli no viver de Manoel
-Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um
-menino lindo como os amores; rico sem ambições que não podesse logo
-comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros;
-cheio de saude e promessas de longa vida... que mais póde dar este
-mundo?</p>
-
-<p>O mundo não póde dar mais; mas póde tirar n'um momento tudo isto.</p>
-
-<p>Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe,
-com rosto sêcco e pesado:</p>
-
-<p>&mdash;Por que despediste o criado Gregorio?</p>
-
-<p>&mdash;Porque me não convinha respondeu Maria, descórando.</p>
-
-<p>&mdash;Porque descóras?</p>
-
-<p>&mdash;Pois eu descórei?!&mdash;balbuciou ella&mdash;Impressionou-me
-a mudança do teu rosto.</p>
-
-<p>Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o
-menino.</p>
-
-<p>Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.</p>
-
-<p>&mdash;Por que me fazes semelhante pergunta?!&mdash;disse-lhe ella,
-resolvida a contar-lhe o acontecimento.</p>
-
-<p>O marido fitou os olhos n'ella e nas janellas de João de Mattos. Maria
-ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.</p>
-
-<p>&mdash;Deus sabe a minha innocencia: nada temo&mdash;disse ella.</p>
-
-<p>É certo que Deus vê o crime e a innocencia de nós todos; consente,
-porém (e louvados sejam por isso os altissimos juizos do Senhor!) que
-os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem
-citados ao seu tribunal supremo, e&mdash;n'isto vai muito a
-dizer&mdash;parece que vê sem offensa de sua justiça a impunidade dos
-que delinquiram. Os theologos é que sabem dizer como isto é, e
-convencem a gente de que os romancistas são os menos azados para
-deslindarem esta meada. Consultem-se, pois, os theologos.</p>
-
-<p>Na porta visinha de João de Mattos morava um especieiro que fora criado
-de Manoel Teixeira, e se estabelecêra com o credito d'este. O logista
-procurou o seu antigo amo, e contou-lhe que vira entrar e sahir João de
-Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector
-estivera em Macáo. Antes e depois da revelação, o mercieiro deu as
-razões da denuncia: achava-se obrigado a não consentir que o seu
-segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse
-n'este sentido, e com tamanha dôr, que chorou!</p>
-
-<p>Manoel Teixeira não viu sua mulher durante vinte e quatro horas.
-Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo.
-Maria da Gloria tremia de vago terror, quando se vestia para sahir. Já
-preparada, foi ao berço do menino, e ajoelhou para beijal-o. Manoel
-Teixeira contemplava inalteravel este lance. Que esforço de homem! não
-digamos maldade.</p>
-
-<p>Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e
-dous cavalleiros, que D. Maria não conheceu. A carruagem parou.</p>
-
-<p>&mdash;Apeie-se,&mdash;disse elle depois que saltou rapidamente da
-sege.</p>
-
-<p>Maria sahiu machinalmente.</p>
-
-<p>&mdash;Entre n'aquella liteira.</p>
-
-<p>&mdash;Para onde vou?!&mdash;exclamou ella.</p>
-
-<p>&mdash;Sabel-o-ha onde a pozerem. Não ha tempo para explicações. Aquella
-mulher é sua criada.</p>
-
-<p>&mdash;E meu filho?</p>
-
-<p>&mdash;Lá irá. Estes homens são seus criados até ao ponto onde a
-deixarem. Adeus.</p>
-
-<p>&mdash;Mas o meu filho!&mdash;exclamou, estendendo os braços ao
-marido&mdash;Dá-me ao menos aquelle menino, se me lanças barbaramente
-de ti!...</p>
-
-<p>&mdash;Olhe que nos ouvem, senhora! As altercações aqui, além de
-tardias, são indecentes.</p>
-
-<p>A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem
-sentidos á liteira. Manoel Teixeira já não viu este doloroso
-conflicto.</p>
-
-<p>Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.</p>
-
-<p>O capitalista não entrou mais em sua casa. Pessoas estranhas tomaram
-conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em
-casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os
-esperava Manoel Teixeira. N'esta nova casa, medianamente adornada, não
-havia um só movel da antiga, que suggerisse execraveis lembranças.</p>
-
-<p>Correu a fama a contar os successos pelas mil bocas da diffamação.
-Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um
-convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso
-marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as
-noites á beira d'elle, receiosos d'um suicidio. Isto é o que se dizia
-no gremio das familias, onde as atoardas da fama iam buscar a sancção
-de evangelhos.</p>
-
-<p>No entanto, João de Mattos, indigitado amante de Maria da Gloria,
-estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do
-coração, medicada a tempo pelas offensas do amor proprio. De volta á
-capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel
-Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria
-culpa. Era honrada; mas extemporanea a tenção. O ricaço tinha ido
-viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta
-nos arrabaldes de Napoles.</p>
-
-<p>Decorreram tres annos primeiro que Manoel Teixeira voltasse á patria.
-João de Mattos, já no topo das grandezas sociaes, nem deu conta da
-chegada do negociante, nem é de crer que a lembrança dos passados
-successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava
-Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o
-local, nem lhe parecia facil averigual-o. O homem é isto.</p>
-
-<p>E o homem era tambem Manoel Teixeira de Macedo. Não ha julgal-o d'outro
-estôfo, vendo-o trazer comsigo de Napoles uma gentil italiana, e dous
-filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola,
-porém, dizer que o filho de Maria da Gloria era o mais querido, o que
-elle apertava ao coração com lagrimas, o que desde os quatro annos,
-trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos
-de todos os seus amigos.</p>
-
-<p>Entretanto, a martyr de Vairão, ajoelhando supplicante ou recuando
-blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes
-durante os milhões de instantes de quatro annos. Estava da mão de
-Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido
-no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.</p>
-
-<p>N'este largo espaço, teve noticias de seu filho a longos prasos: eram
-cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de
-Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido.
-Não alcançou resposta de alguma. Já sabem o que ella pedia: vêr seu
-filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>IV</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Dico vobis: Omnia quœcumque orantes<br />
-petitis, credite quia accipietis, et<br />
-evenient vobis.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 45%;">Eu vos affirmo que todas as cousas,<br />
-que na oração pedirdes, as recebereis,<br />
-e succeder-vos-hão.</p>
-
-<p style="margin-left: 55%;">S. MARC. 11. 24.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da
-policia, um homem que merecera a confiança de João de Mattos nos mais
-importantes segredos d'aquella magistratura.</p>
-
-<p>Na presença do intendente e d'este homem, alguem fallou um dia em
-Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota
-Joaquina, e dos assassinos do marquez de Loulé, no anno anterior.</p>
-
-<p>Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia
-ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro
-de Hespanha.</p>
-
-<p>O quadrilheiro, que assistira mudo a esta conversação em que João de
-Mattos denotava ainda vestigios do antigo sofrimento, a sós com elle,
-pediu-lhe, muito em secreto, licença para lhe dizer que a mulher de
-Manoel Teixeira não estava em Hespanha; mas sim em Vairão, onde elle a
-conduzira com outro homem da sua confiança, diligencia de que fora
-liberalissimamente pago, sob condição de divulgar que D. Maria da
-Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de
-conduzirem-na ao convento hespanhol.</p>
-
-<p>João de Mattos recebeu de bom rosto semelhante nova, e sem detença
-escreveu a uma sua tia professa no convento de Vairão, pedindo-lhe mui
-reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu
-mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de
-João de Mattos.</p>
-
-<p>A discreta religiosa, sem dar a saber tal carta á sua infeliz amiga,
-contou ao sobrinho, com piedosas expressões, o atormentado viver da
-pobre mãe, que, a ser de todo innocente como a ella julgava, devia já
-ter nas mãos dos anjos a sua corôa de gloria.</p>
-
-<p>Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella
-tinha a enclausurada, por uma confissão exacta dos simples successos,
-que precederam a desgraça da infeliz senhora. Accrescentava elle que
-punha á disposição de Maria da Gloria todo o seu valimento para ella
-intentar contra o marido acção de divorcio, separação do casal, e
-posse do filho, visto que o pae escandalosamente amancebado com a mãe
-de filhos bastardos, não podia curar dignamente da educação nem bem
-gerir o património do filho legitimo.</p>
-
-<p>Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que
-o Senhor não faltava em tempo opportuno aos padecentes humildes, e
-gostava que os desgraçados fiassem d'Elle a inteira execução da sua
-justiça.</p>
-
-<p>João de Mattos recalcitrou ainda na opinião de que a justiça humana
-era a expressão da vontade divina; mas a freira redarguiu de força que
-o sobrinho não teve animo de contradizel-a, e meditou mais summaria
-traça a libertar Maria da Gloria, sem dependencia da vontade do marido.</p>
-
-<p>A ponto estavam estas intenções de serem executadas, quando chegou a
-Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro.
-Soror Joanna, n'aquelles ultimos dias anteriores á fausta nova, raras
-horas sahira do coro. Ahi a viam como arrobada em oração mental, e
-tão fervoroso devia de ser o seu orar, que as lagrimas, nunca vistas no
-rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do
-coro. Ás vezes, em communidade, erguia a voz, clamando: «Peçam
-commigo a nosso Senhor Jesus Christo que manifeste o poder do seu braço
-n'uma obra de muita necessidade.» E as freiras, e Maria da Gloria com
-ellas, rezavam ferventemente.</p>
-
-<p>Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da
-vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em
-altas vozes de acção de graças, na presença de muitas testemunhas,
-que não souberam atinar com a causa d'aquella subitanea exaltação. Eu
-não affirmo isto; mas quero acredital-o para mim. A poesia do céo é
-esta. Não sei que hajam ahi outros incentivos que me chamem aos olhos
-as lagrimas do coração. Quem me quizer ver chorar, e vibrar de não
-sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza
-d'aquelles: faça-me acreditar, na existencia d'umas almas que vão
-entender-se com Deus por um raio resplendoroso de graça divina.</p>
-
-<p>Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos
-com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a
-sua mãe. Agora sabe que, no tom prophetico das palavras da santa, não
-ha que vêr com milagres. Aquelles acontecimentos vieram de seu,
-naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e
-o sobrinho. Per si mesma tem a virtude umas sahidas tão maravilhosas
-que não ha que dizer se as lançamos á conta de milagres, nós, os
-cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se
-veem, e se vão alumiando nas escuridades da vida, sempre tenebrosas
-para nós... <i>Para mim</i>, devia ter dito; porque, em verdade, não posso
-nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.</p>
-
-<p>É tempo de voltarmos a Lisboa com Alvaro. Iremos; porém, vejamos, em
-quanto elle caminha chorando d'alma com saudades de sua mãe, e sorrindo
-ás esperanças que lhe dera a freira, os successos que tão triste
-resultado promettem á temeridade do bom filho.</p>
-
-<p>Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos
-Olivaes Sebastião de Brito e Macedo, e sua filha Leonor, foram a
-Lisboa, e hospedaram-se em casa de Manoel Teixeira, irmão natural, como
-se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.</p>
-
-<p>Leonor era a destinada esposa de Alvaro, desde o berço. N'este enlace
-pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua
-ambição. A passo igual, enriquecia Manoel Teixeira, e alcançava-se
-Sebastião de Brito. Este encostava-se ao plano restaurador dos seus
-haveres; o outro gozava-se a cada nova hypotheca que o irmão fazia. Se
-lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de
-vingança com que um dia, infringida a palavra do morgado dos Olivaes,
-cortaria as esperanças cubiçosas de outro pretendente.</p>
-
-<p>Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira
-disse que Alvaro estava no collegio, e que pedira um mez de solidão
-para se dar todo a traduzir uma obra. Sebastião de Brito mofou das
-canceiras litterarias de seu sobrinho, e disse que não queria
-philosophos nem poetas para genros. Censurou que Alvaro não tivesse
-ainda recebido lições de equitação, indispensaveis n'um mancebo que
-era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o
-pequeno apenas tinha doze annos, e era de compleição franzina para
-aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na
-familia dos Britos e Macedos passarem os varões do berço para a sella.
-Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.</p>
-
-<p>No entanto, Leonor dizia que, a não vir o primo vêl-a, iria ella
-sósinha ao collegio, na carruagem do tio. Foi applaudida a galanteria
-da menina; e Sebastião de Brito, deixando-a ao irmão, foi visitar
-alguns primos e primas.</p>
-
-<p>Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de
-surprehenderem Alvaro e trazerem-no comsigo. O professor de inglez é
-que foi o surprehendido.</p>
-
-<p>&mdash;Não mande parte a meu filho,&mdash;disse o negociante,&mdash;que
-eu quero apparecer-lhe de repente com a prima.</p>
-
-<p>&mdash;O senhor Alvaro não está cá&mdash;disse o director do
-collegio.</p>
-
-<p>&mdash;Como?!&mdash;meu filho sahiu?</p>
-
-<p>&mdash;Ha quatro dias que nos disse que ia passar um mez com os seus
-parentes dos Olivaes&mdash;tornou o director.</p>
-
-<p>&mdash;Isto que significa?!&mdash;replicou, entre colerico e espantado,
-Manoel Teixeira, interrogando o mestre de inglez.</p>
-
-<p>&mdash;O senhor director disse a verdade...&mdash;respondeu aquelle,
-denotando enleio e turbação.</p>
-
-<p>&mdash;Então foi o meu filho que me mentiu?&mdash;tornou já muito
-alterado o commerciante&mdash;Não creio! Aqui ha embrulhada!</p>
-
-<p>&mdash;Que embrulhada póde haver aqui?&mdash;disse com azedume o
-proprietario do estabelecimento.</p>
-
-<p>&mdash;Não sei; é preciso que me digam onde está meu filho.</p>
-
-<p>&mdash;Não sabemos, senhor Macedo; já dissemos a vossa senhoria que o
-suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria,
-e não nos culpe a nós por nos havermos fiado na palavra d'um menino,
-que nos merecia toda a confiança.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o
-ella não seguisse. A sua primeira idéa foi... quem póde dizer qual
-foi a primeira idéa do negociante, cujo amor paternal era de extremos?
-Levar a casa Leonor foi de certo a primeira idéa.</p>
-
-<p>Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir
-com o tio, ficou em sezões, e esmoreceu de todo quando ouviu a voz
-clamorosa de seu amo chamando o filho.</p>
-
-<p>Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia,
-e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que
-deixava a pobre ama.</p>
-
-<p>N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de
-inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel
-Teixeira reanimou-se.</p>
-
-<p>&mdash;Vem dar-me alguma boa noticia?&mdash;exclamou o negociante com
-alegre rosto.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que sim.</p>
-
-<p>&mdash;Appareceu o meu filho? diga, diga.</p>
-
-<p>&mdash;Seu filho nunca esteve perdido, snr. Macedo.</p>
-
-<p>&mdash;Onde está, pois?</p>
-
-<p>&mdash;Vossa senhoria sabe que eu sou o mestre que seu filho mais tem
-presado.</p>
-
-<p>&mdash;Sei, e merece-o.</p>
-
-<p>&mdash;A nobre alma de seu filho não podia ter um segredo que eu não
-soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia
-estar nos Olivaes algum tempo; a mim, porém, disse-me que ia vêr sua
-mãe ao convento de Vairão.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira deu tres upas na cadeira, e, á quarta, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Quem disse a Alvaro que a sua mãe está em Vairão?!</p>
-
-<p>&mdash;Fui eu, snr. Macedo.</p>
-
-<p>&mdash;E como sabe o snr. que ella está em Vairão?!</p>
-
-<p>&mdash;Sei-o da voz publica.</p>
-
-<p>&mdash;E que lhe importa ao senhor'o que diz a voz publica para o
-communicar a meu filho?</p>
-
-<p>&mdash;Não me importa muito o que a voz publica diz; mas interessava-me
-muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.</p>
-
-<p>&mdash;Fez-lhe um grande serviço, não tem duvida nenhuma!&mdash;disse
-ironicamente o negociante&mdash;Quer-me mais alguma cousa?</p>
-
-<p>&mdash;Quasi nada,&mdash;disse o professor&mdash;restituir a vossa
-senhoria seis mezes da prestação que o director do collegio recebeu
-adiantados.</p>
-
-<p>E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a
-banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.</p>
-
-<p>Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.</p>
-
-<p>O brioso mestre tinha sahido voltando as costas ao ricaço.</p>
-
-<p>A inquieta Leonor entrou logo perguntando as novidades. O tio não
-respondeu, e mandou-a sahir com insolito enfadamento. A breve espaço,
-sahiu de carruagem, a dar execução a uma traça concebida rapidamente.
-Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra,
-demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a
-mãe, e removêl-a a ella para convento estrangeiro. Chegou a dar ordens
-para ser procurado Alvaro em Vairão, ou no caminho; mas, reflectindo,
-entendeu que era mais prudente deixal-o chegar inadvertido, que não
-fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.</p>
-
-<p>Eufemia foi severamente interrogada, acerca das revelações que poderá
-ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e
-ameaçada de cadêa, se elle viesse a descobril-a cumplice na fuga de
-seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta,
-porém, chegou a Vairão dous dias depois da sahida de Alvaro, e não
-foi subtrahida no correio de Lisboa, porque ia endereçada a uma das
-criadas de Maria da Gloria.</p>
-
-<p>Agora é que temos Alvaro em Lisboa.</p>
-
-<p>Mal apeou, informou-se da residencia de João de Mattos Vasconcellos
-Barbosa de Magalhães, e foi apresenta-lhe a carta da religiosa. Estava
-o magistrado com altos dignatarios d'estado em occupações gravissimas,
-quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de
-Vairão. Afastou-se á parte com Alvaro, leu a carta, muitas vezes
-interrompida pelo relance de olhos embaciados que lançou ao menino. No
-fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita
-meiguice:</p>
-
-<p>&mdash;Sua mãe fez-lhe muitos carinhos? Que horas de felicidade o menino
-lhe levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere
-aqui um pouco, que eu volto já.</p>
-
-<p>Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o
-aguazil, que escoltára Maria da Gloria a Vairão.</p>
-
-<p>&mdash;Onde mora o menino?&mdash;disse João de Mattos.</p>
-
-<p>&mdash;Na rua de S. Bento, numero 12&mdash;respondeu o esbirro.</p>
-
-<p>&mdash;Vá já ter á rua de S. Bento n.° 12 com aquelle homem do
-Limoeiro&mdash;disse o intendente&mdash;Agora vamos, menino.</p>
-
-<p>Esperava-os a carruagem blasonada do sobrinho da santa de Vairão.</p>
-
-<p>&mdash;Quem será o <i>homem do Limoeiro?!</i>&mdash;ia dizendo entre si
-o filho de Maria da Gloria.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>V</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Os insensatos não comprehendem<br />
-como se enlaçam o merecimento e a<br />
-felicidade.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 55%;">GOETHE (Fausto).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>N'uma das suas muitas horas de desgraça impaciente e raivosa, é que
-estava Manoel Teixeira, ao annunciarem-lhe que parára á sua porta uma
-carruagem com a libré do intendente geral da policia. Não tinha elle
-ainda despregado a lingua do céo da boca meio-aberta de pasmo, quando o
-guarda-portão fez annunciar João de Mattos, e Alvaro. Aqui nos
-fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos
-de loucura rapidamente figurados no aspecto do negociante. E da alçada
-de todos imaginar a turbação que devia sentir o marido de Maria da
-Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!</p>
-
-<p>Estava já na sala de espera João de Mattos, algum tanto embaraçado em
-sua especial posição; mas tranquillo na apparencia. Já o dono da casa
-se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio
-ahi dizer a sua excellencia que o snr. Teixeira de Macedo não se
-demorava.</p>
-
-<p>Alvaro tremia, e enfiava. João de Mattos tomava entre as suas as mãos
-do menino, e dizia-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Que medo é esse, menino?! Seu pae não lhe faz mal...
-Tranquillise-se, que isto não é nada. Por que treme?</p>
-
-<p>&mdash;Nem eu sei dizer... Não é medo...</p>
-
-<p>Durante um curto dialogo assim travado entre o homem e a criança,
-vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o
-separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez
-mais descomposto. N'esta afflictiva oscillação, tornou ao seu quarto,
-tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira
-do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.</p>
-
-<p>João de Mattos ergueu-se, e disse com pausada gravidade:</p>
-
-<p>&mdash;Não me é difficil lêr no rosto de vossa senhoria o abalo que o
-meu nome lhe fez. E tão natural esse sentimento de odio, que deshonrado
-seria vossa senhoria se o não sentisse contra mim.</p>
-
-<p>&mdash;E vem a minha casa?!&mdash;disse Manoel Teixeira com os olhos
-fitos no pavimento que se interpunha aos dous.</p>
-
-<p>&mdash;Venho a sua casa, senhor Macedo, offerecer-me desarmado e sósinho
-á sua justa vingança...</p>
-
-<p>&mdash;E como se acha meu filho ao lado do senhor
-intendente?&mdash;interrompeu o commerciante, relanceando os olhos
-fuzilantes sobre Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Vai vossa senhoria sabel-o; mas eu peço que o menino nos deixe
-sósinhos por alguns segundos.</p>
-
-<p>Alvaro sahiu da sala; João de Mattos fechou a porta; e Manoel Teixeira
-encostou-se ao bordo de um tremo, e cruzou os braços em postura, que
-seria dramatica, se não fosse incivil.</p>
-
-<p>João de Mattos, com a mão esquerda na lapella da casaca, e a direita,
-segurando o chapéo, sobre a cintura, fallou assim:</p>
-
-<p>&mdash;Creio que o snr. Manoel Teixeira tem sobeja intelligencia para
-conhecer que um homem, como eu, na sua presença e em sua casa,
-significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem
-extraordinario.</p>
-
-<p>&mdash;Eu desejo realmente saber o que vem vossa excellencia fazer a
-minha casa.</p>
-
-<p>&mdash;Venho...</p>
-
-<p>Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um
-preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.</p>
-
-<p>&mdash;A mim?!&mdash;disse o negociante.</p>
-
-<p>&mdash;É a mim&mdash;acudiu sorrindo João de Mattos.&mdash;Queira vossa
-senhoria consentir que o preso esteja ás minhas ordens na sua sala de
-espera.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas
-occorrencias:</p>
-
-<p>&mdash;Mas esse preso é cousa que tenha relação commigo?!</p>
-
-<p>&mdash;É o facto importante da nossa pratica&mdash;respondeu João
-de Mattos, e accrescentou com tristeza:&mdash;é o fecho d'esta abobada,
-debaixo da qual vossa senhoria ha-de sentir esmagado o coração...
-Queira attender-me. Eu morei, ha onze annos, em frente do seu palacete.
-Não era já moço de paixões violentas; mas... era homem. Amei a
-snr.<sup>a</sup> D. Maria da Gloria porque a vi, e porque ella me não
-dava o mais leve signal de estima nem sequer de preoccupação das
-minhas constantes solicitações. O coração humano é assim absurdo.
-Vossa senhoria foi n'essa época á India, e eu cuidei miseravelmente
-que a esposa fiel deixaria de o ser na ausencia de seu marido. Havia na
-sua casa um criado, que adivinhara as minhas intenções, e se me
-offereceu para entregar uma carta a sua ama. Acceitei e paguei
-liberalmente o serviço do seu criado; porém, escrevi mais cinco cartas
-instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca me respondeu. Um
-dia, fui animado pelo meu confidente a entrar furtivamente em casa de
-sua esposa, e esperal-a na passagem do seu quarto para uma sala. Cego da
-minha paixão, não comprehendi que praticava uma deshonra; mas sua
-mulher lançou-m'a em rosto, e eu sahi de sua casa, cuidando que me era
-sobejo castigo o despreso com que fui expulso por um ligeiro aceno de
-mulher. Momentos depois, o criado era despedido tambem, e a esposa sem
-macula ficou pensando que Deus abençoara a sua resolução, e que o
-mundo lhe seria sempre uma testemunha e um applauso da sua dignidade.
-Terminei. Agora peço licença para ser trazido á nossa presença o
-preso.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira fez um gesto como de automato. João de Mattos
-levantou o feixo da porta, e disse ao meirinho:</p>
-
-<p>&mdash;Entrem... Conhece este homem?&mdash;disse elle ao negociante,
-indigitando o preso.</p>
-
-<p>&mdash;Tenho idéas...&mdash;respondeu Manoel Teixeira, affirmando-se.</p>
-
-<p>&mdash;Diz a este senhor quem és&mdash;tornou o intendente com terrivel
-sombra ao preso.</p>
-
-<p>&mdash;Eu sou aquelle criado, chamado Gregorio, que cá estive ha onze
-annos em casa de vossa senhoria.</p>
-
-<p>Mal o preso proferiu estas palavras, cahiu de joelhos aos pés de Manoel
-Teixeira.</p>
-
-<p>&mdash;Mande erguer esse homem&mdash;disse o intendente.&mdash;O juiz
-aqui sou eu. Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a
-tua ama, esposa d'este senhor?</p>
-
-<p>Gregorio balbuciava, e João de Mattos atalhou com formidavel e colerico
-accento:</p>
-
-<p>&mdash;Se faltas n'um só ponto á verdade, mando-te espedaçar os pulsos
-com dous anneis de ferro. Responde. Entregaste cartas minhas á senhora D.
-Maria da Gloria?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor&mdash;disse o preso.</p>
-
-<p>&mdash;Entregaste-me algumas cartas da senhora D. Maria da Gloria?</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Quem me disse que entrasse na casa de tua ama, e me encaminhou
-até ao lugar onde ella havia de passar?</p>
-
-<p>&mdash;Fui eu, senhor.</p>
-
-<p>&mdash;Qual foi o procedimento de tua ama, quando me viu ajoelhado a
-seus pés?</p>
-
-<p>&mdash;Mandou-o sahir de casa...</p>
-
-<p>&mdash;E a ti que te disse?</p>
-
-<p>&mdash;Mandou-me embora.</p>
-
-<p>&mdash;Que disseste tu a teu amo, quando elle voltou de Macáo?</p>
-
-<p>O preso ajoelhou outra vez aos pés de Manoel Teixeira, exclamando:</p>
-
-<p>&mdash;Eu menti a vossa senhoria, e fui a causa da desgraça de minha
-ama; mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de
-vossa senhoria. Perdôe-me pelo amor de Deus, que estou ha tres mezes com
-ferros aos pés n'uma enxovia sem ar nem luz!</p>
-
-<p>João de Mattos fez um signal ao quadrilheiro. Este, puxando pela gola
-da vestia de Gregorio, quasi o arrastou para fóra da sala, a tempo que
-Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava
-a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito
-do preso.</p>
-
-<p>João de Mattos collocou-se entre o negociante e o preso, dizendo:</p>
-
-<p>&mdash;Este homem não se castiga assim, senhor Macedo. E preciso
-matar-lhe uma existencia em cada fibra. A morte instantanea d'este
-miseravel não vale onze annos de lagrimas.</p>
-
-<p>O negociante, offegando, já com as lagrimas no rosto, e a voz embargada
-pelos soluços, lançou-se a um canapé.</p>
-
-<p>Alvaro, alvoroçado pelo ruido, correu á sala. João de Mattos tomou a
-mão do menino, e approximou-o do pae, dizendo-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Diga a seu pae que sua mãe lhe perdoa; e peça-lhe de joelhos o
-perdão para quem unicamente precisa d'elle, que sou eu.</p>
-
-<p>Alvaro ajoelhou, e sentiu-se apertado nos braços do pae, que
-escassamente balbuciava exclamações cortadas de gemidos.</p>
-
-<p>João de Mattos, abrasado d'aquella flamma electrica que experimentam as
-almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da
-algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu
-tremor nervoso:</p>
-
-
-<blockquote>
-<p>«Meu sobrinho.</p>
-
-<p>«Quando esta carta receberes da mão do filho de Maria da Gloria, pede
-a Deus, no fervor de tua alma, que te dite ao coração as palavras com
-que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa.
-Não seja contra ti e contra a vontade Divina, a soberba da tua
-posição. Vai, filho de meu irmão, vai, e não peças perdão para
-Maria da Gloria, que não tem culpas; pede-o para ti, que foste a causa
-da sua desgraça, e d'outra que te ha-de castigar ainda, se fores
-testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por
-esse anjo, e Deus te ajudará n'essa hora a alumiares o coração do
-infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que
-as horas de agonia d'esse homem podem bem comparar-se ás d'esta sublime
-e nobre desgraçada. Vai já, meu João, não demores o resgate d'esta
-martyr que é pura aos olhos do Senhor, mas está perdida no conceito
-das pessoas a quem Deus não conta os segredos do coração das suas
-creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu
-coração espera. Se a minha fé tem luz do céo, Maria da Gloria cedo
-estará com seu marido e com o filhinho que lhe leva o coração. Eu
-perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua
-felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos
-seus sorrisos, e a mais amarga das suas lagrimas. Não te digo mais
-nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor
-Jesus Christo, não me deixam escrever. Eu te deito a minha benção,
-sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde.
-Tua tia muito amiga.</p>
-
-<p style="margin-left: 15%;"><i>Joanna das Cinco Chagas do Senhor.</i>»</p></blockquote>
-
-
-<p>&mdash;Que hei-de eu responder a esta carta, senhor Manoel
-Teixeira?&mdash;disse João de Mattos.</p>
-
-<p>O negociante ergueu-se, enxugando as lagrimas; estendeu a mão a João
-de Mattos, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Eu vou levar a resposta a sua tia.</p>
-
-<p>O magistrado pôde suster-se contra o impeto do coração que o impellia
-aos braços do negociante. Conteve-o a lembrança de que nunca podia
-merecer a amisade do marido de Maria da Gloria, porque a paixão não
-era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.</p>
-
-<p>E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a
-commoção sentida, ouvindo o sobrinho da religiosa de Vairão, não era
-isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a
-outro que entrára em sua casa supplicando de joelhos a deshonra de uma
-familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a
-desgraça de onze annos, e a certeza da causa vilipendiosa d'ella. Sem
-embargo, não era tudo dor no animo de Manoel Teixeira. Era-lhe de
-grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como
-rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a
-vaidade, quando não seja tudo para o coração do homem. Se remorsos o
-alanceavam, o muito amor ás victimas da injustiça é a penitencia
-d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente
-parece vingar-se, perdoando, e sorrindo ao algoz, que exora perdão com
-lagrimas. Assim é, assim quer Deus que seja; mas o que não póde ser
-é um marido, que amou sua mulher e se amou a si por orgulho de a ter,
-perdoar ao homem, quer elle seja primeiro ou infimo, que pôz em acção
-os meios de empeçonhar uma legitima felicidade, embora a pureza
-invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo
-a vaidade do marido. A toda a luz se vê que Manoel Teixeira, no recesso
-de sua alma, odiava João de Mattos; e este, homem de altos espiritos e
-coração, conhecia o odio, e apertara a mão do negociante por não
-poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.</p>
-
-<p>Alvaro não desfitava os olhos lagrimosos do affavel e magestoso
-semblante do intendente.</p>
-
-<p>Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o
-retrato de João de Mattos, me dizia n'aquella casa dos Olivaes:</p>
-
-<p>&mdash;Contemplava-me assim com aquelle rosto de graça! Nem a minha alma
-conserva tão fiel a cópia do momento em que me elle disse: «Se seus
-paes lhe derem licença, menino, seja meu amigo; aproveite a minha
-velhice; eu lhe direi o que é o mundo, e o amargo castigo das acções
-más.»</p>
-
-<p>Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel
-Teixeira. Este escassamente curvou a cabeça respondendo á cortezia do
-intendente. É que, esfriado o momento do abalo, o negociante pejava-se
-talvez já de ter offerecido a mão a João de Mattos com a vehemencia
-expansiva de amigo.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>VI</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Apollon prend les armes.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">VOLTAIRE (Sat.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as
-janellas, e as torres do mosteiro de Vairão. Os sinos repicavam desde
-o abrir da manhã. Feixes de murta, e as flores da estação entravam
-ás cargas e em taboleiros para o convento. As criadas chilreavam de
-janella em janella, e em magotes, á portaria. As religiosas, misturadas
-com as moças, e as velhas com as noviças, tinham provisoriamente
-rasoirado as jerarchias da posição e dos annos. A criada passava a
-correr por diante da ama; a noviça não beijava a mão á prelada; a
-prelada consentia que as moças lhe desfolhassem rosas sobre a touca.
-Das noviças algumas vestiam trajes masculinos: esta remedava um alferes
-de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um
-pescador. E á volta de cada qual eram tantos os grupos, quantas as
-estridulas risadas, que applaudiam o chiste da noviça mascarada.</p>
-
-<p>Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela
-duodécima vez a prelada, a quem todas davam mais o coração de filhas,
-que a submissão de subditas.</p>
-
-<p>Do meio dia em diante, começaram a confluir de diversas estradas uns
-sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes
-radiosos, que de si mesmos estavam dizendo cujos eram, e que altíssimos
-destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por
-convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns
-tinham alli os seus idealissimos amores; outros já os tinham tido e
-encanecido com elles; e alguns iriam com esperanças de merecêl-os.
-Poetas de Guimarães eram tres; do Porto um, que valia por muitos, o
-celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades
-circumvisinhos; de Villa Real o famigerado Mormo, e o não menos
-conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da
-Universidade.</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">Quanto pode de Athenas desejar-se,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Aqui as capellas dá tecidas de ouro,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Do bacharo, e do sempre verde louro.</span></p>
-
-
-<p>Pelas capellas tecidas de ouro não fico eu; mas que as monjas
-hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e
-carissimos licores com que já de mezes antes enriqueciam a frasqueira,
-isso juro eu, e ainda estão vivos alguns, que deram como esgotada a
-Castallia, no dia em que os garrafões monasticos seccaram requeimados
-pelo sol ardente da civilisação, a qual (digamol-o muito á puridade)
-trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar
-direitos, violando-os.</p>
-
-<p>A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das
-torres, e as cornijas da igreja. O chá foi servido na espaçosa grade
-da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis
-d'aquellas cercanias. O terreiro do espaçoso pateo estava colmeado de
-gente, anciosa de versos. As freiras, mais expeditas em improvisação
-de motes, estavam a postos. As senhas tinham já sido pactuadas entre a
-freira e o seu poeta, entre a noviça delambida e o seu incognito
-versista, e entre a propria criada, ou <i>tacho</i>, e o bardo menos
-aristocrata, que não se dedignava incensar a mocinha conhecida, e
-dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho
-furtado á ama por amor de Apollo.</p>
-
-<p>Rompeu o outeiro auspiciosamente. O doutor Ferro improvisára um
-magnifico soneto, sem resaibos da sua costumada licença. Os conegos
-bracarenses traziam odes de grande fôlego, que o Ferro dizia serem
-<i>ôdres</i> e não <i>ódes.</i> Os de Guimarães chamavam á octogenaria
-prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por
-libações amiudadas, que accendiam a furia sonorosa, e trasbordavam do
-peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S.
-Bento, se alli estivera, e tomara quinhão dos enfeitados cestinhos, que
-desciam das rêxas, pediria mote para uma decima, sem damno da sua
-santidade e bom siso.</p>
-
-<p>Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de
-certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do
-coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae
-dizel-o um dos proprios inspirados.</p>
-
-<p>Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio
-Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem
-mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo.
-Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de
-cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo
-não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de
-uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de
-Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do
-abbade.</p>
-
-<p>O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu
-patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">Já cede Pégaso o passo,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Escoucinha, espirra, e rincha,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Ouvindo ornear o pechincha,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">O abbade sujo e devasso, etc.</span></p>
-
-
-<p> isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a
-mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr
-aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:&mdash;«A melhor de entre
-as preladas.»</p>
-
-<p>O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia
-sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.</p>
-
-<p>&mdash;Lá vai!&mdash;disse elle&mdash;<i>A melhor de entre as
-preladas.</i></p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">Boas noites! vou-me embora;</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Já não posso estar com somno,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Nem me apraz soffrer o mono,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Borrachão a toda a hora.</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Oh! quanto melhor lhe fora</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Ter as facas amoladas,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">E ir cortar as colladas</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">No outeiro sanguinoso,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Em quanto eu louvo ditoso</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;"><i>A melhor de entre as preladas!</i></span></p>
-
-
-<p>Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu
-muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos
-glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o
-victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não
-podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o
-defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os
-amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto
-de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais
-debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem
-com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas
-fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas
-ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo
-estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em
-turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se
-apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os
-poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria
-conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os
-dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas
-com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como
-estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem
-voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé
-sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de
-clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que
-começava assim:</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">Altissimo Senhor, que tudo pódes!</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Transfigura em cajadas os cajados</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Que pozeram em fuga os desalmados</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Estomagos, que tem só vinho e odes</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">. . . . . . . . . . . . . . . . .</span></p>
-
-
-<p>Queria a abbadessa dar por concluida a festividade da eleição, á
-conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas
-religiosas em demovêl-a da tenção, e os poetas, acaudilhados pelo
-doutor Ferro, foram incorporados solicitar a continuação do outeiro.
-Os requerimentos em verso foram a final deferidos, e á noite seguinte
-concorreram, afóra os conegos bracarenses, os mesmos poetas, sem
-excepção de Mesquita e Mormo, que vieram ás boas, mediante as
-diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.</p>
-
-<p>Correu a noitada muito à prazer de freiras e poetas. Nenhuma senhora
-deixou de contribuir com os seus applausos para a glorificação dos
-vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror
-Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha
-mocidade. O pendor de todas as conversações de ambas era para Alvaro.
-A religiosa consolava com a esperança; Maria chorava de saudades, e
-temores do futuro incerto. Se, porém, a santa lhe punha os olhos
-expressivos de reprehensão, a turbada senhora, dizia em tom de
-supplica:</p>
-
-<p>&mdash;Perdoe, minha amiga, perdoe á minha desgraça a sua tibieza de fé.
-Eu sei que Deus a escuta; mas, se me olho inculpada, e tão infeliz,
-pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que
-o Senhor esqueça as minhas culpas passadas! Eu pensei sempre como hoje.
-O crime nunca teve para mim outra cor nem o meu coração se abriu aos
-encantos do vicio. Sou a que era; penso que serei sempre desgraçada
-como tenho sido.</p>
-
-<p>Soror Joanna fez um esforço para ajoelhar á beira da poltrona em que
-estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem
-convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas
-palavras:</p>
-
-<p>&mdash;A nosso Senhor falla-se com humildade. Supplique, filha; mas não
-se queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da
-flagellação das suas chagas. Esse ousou perguntar a Deus, porque o
-tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom
-arrogante da sua afflicção. Não duvide de ser tambem perdoada, Maria.
-Afervore-sa e rese commigo.</p>
-
-<p>Durava a oração mental alguns minutos, quando subitamente se levantou
-um grande reboliço nos dormitorios. Maria da Gloria alvoroçou-se, e
-disse:</p>
-
-<p>&mdash;Será outra vez bulha lá fóra?</p>
-
-<p>A freira não respondeu, nem sequer desfitou os olhos do Senhor
-crucificado.</p>
-
-<p>Cresceu o rumor já perto do quarto, e vozes distinctas, clamando
-«milagre!»</p>
-
-<p>&mdash;Gritam <i>milagre!</i>&mdash;exclamou Maria da Gloria,
-erguendo-se, com os olhos na freira.</p>
-
-<p>Soror Joanna sorriu e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Não é milagre, filha: é a justiça de Deus, que a razão humana
-comprehende.</p>
-
-<p>Entrou uma chusma de fieiras e noviças, conclamando á mistura:</p>
-
-<p>&mdash;Ahi está o menino!</p>
-
-<p>&mdash;E acho que vem tambem o pae!</p>
-
-<p>&mdash;E muita gente a cavallo!</p>
-
-<p>&mdash;E duas liteiras com senhoras!</p>
-
-<p>&mdash;E traziam archotes!</p>
-
-<p>Soror Joanna estava em pé, encostada a Maria da Gloria, cujas pernas
-tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.</p>
-
-<p>&mdash;Ó filhas! vós fallaes todas juntas, e quebraes a minha pobre
-cabeça!&mdash;disse a santa&mdash;Falla tu, Cecilia, diz o que viste.</p>
-
-<p>&mdash;Vi o snr. Alvaro, e um senhor com elle, que deve ser o pae. Vi
-mais pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e
-já lá ficou a senhora abbadessa á portaria.</p>
-
-<p>Maria da Gloria, posto que sustentada nos braços de Cecilia, dobrou os
-joelhos para orar; mas a perturbação era tanta que perdeu a
-consciencia de si, se não é antes que a sua alma se entranhou toda no
-seio misericordioso do Senhor.</p>
-
-<p>Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras
-de mui gentil presença e entre estas uma ainda menina de treze annos,
-que o leitor já viu e reconhece agora por aquella Leonor dos Olivaes,
-sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a
-quem os seus poucos annos consentiram, por segunda especial graça da
-prelada, ingresso no convento. Fóra da portaria tinham ficado o marido
-de Maria, Sebastião de Brito, pae de Leonor, e tres cavalleiros casados
-com as tres damas. Entrara depois d'estas uma mulher, que não ousava
-mostrar-se ao pé das outras, receiosa de que o amor fizesse mal á sua
-humildade: era a criada Eufemia.</p>
-
-<p>As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando
-cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha.
-Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia.
-Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que
-sua ama a chamasse.</p>
-
-<p>&mdash;Onde está Eufemia?!&mdash;disse Alvaro admirado.&mdash;Ella vinha
-comnosco!</p>
-
-<p>&mdash;Estou aqui, senhor Alvaro&mdash;disse a criada, a quem as freiras
-abriram passagem.</p>
-
-<p>&mdash;Venha cá ao pé de minha mãe, Eufemia...</p>
-
-<p>Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos
-até encontrar os de Alvaro, que fora ao encontro de Eufemia.
-Reconheceu-os ambos, ergueu-se, expediu um grito, e abraçou-os juntos
-com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais
-chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com
-amor, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Bem vinda sejas! isto é uma festa de anjos!</p>
-
-<p>As tres senhoras offereceram-se aos olhos d'ella, perguntando se as não
-conhecia.</p>
-
-<p>&mdash;Conheço&mdash;disse Maria com a voz extenuada,&mdash;conheço as
-minhas amigas de ha quatorze annos. São as mesmas formosas meninas. A
-felicidade não deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?</p>
-
-<p>Não responderam: tão absurda seria a lisonja, se quizessem mentir ao
-seu proprio assombro.</p>
-
-<p>&mdash;Senhora D. Maria&mdash;disse a abbadessa&mdash;á portaria está
-seu marido. Vossa senhoria poderá descer até lá?</p>
-
-<p>&mdash;Póde, pois não póde?!&mdash;disse soror Joanna das Cinco
-Chagas&mdash;Se eu lá vou com os meus oitenta e oito e a minha gota,
-por que não ha-de ir ella? Ora vamos. Quem lhe dá o braço sou eu, e o
-senhor Alvaro dá-me o braço a mim. Imaginem que levam a eternidade no
-meio; e acho que não é mal posta a comparação: a boa eternidade
-começa pela innocencia da vida, que é o menino, e continua-se na
-bemaventurança do soffrimento, que é a minha Maria, e esta, de mais a
-mais, chama-se <i>Gloria!</i></p>
-
-<p>No emtanto, a poesia do pateo estava estagnada nos corações repletos
-dos vates espantadiços. Tinham elles visto chegar a caravana ladeada de
-archotes, e por pouco que o doutor Ferro não improvisa uma elegia
-áquelle simulacro de sahimento. Dos poetas noveis, alguns rodearam as
-esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da
-poesia ao profano. O Mormo queria vêr n'aquillo tudo uma violencia de
-clausura feita áquellas senhoras, e teve o zeloso desafogo de ir
-perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem
-de quem eram inclausuradas á meia noite. Os maridos tiveram a
-complacencia de desvelar o mysterio; com a qual explicação se
-afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe
-de enthusiastica ode á redempção de Maria da Gloria. O Ferro, sabendo
-que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma
-peça a quem fosse buscar n'um carro os dous conegos de Braga e as odes
-correlativas.</p>
-
-<p>Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado,
-apesar de sahirem das janellas todas as freiras, noviças, e criadas
-attrahidas pelo espectaculo novo, e mais levadas do coração que da
-curiosidade.</p>
-
-<p>Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse
-intervallo pelo doutor Ferro:</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">Vão freiras, vá noviça, e vá a moça</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Gosar d'um coração que desabafa;</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Mas deixem na janella quem nos ouça;</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Seja um vulto qualquer... uma garrafa!</span></p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>VII</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Na oração que ha senão aquella<br />
-duplicada força, capaz de amparar-nos<br />
-na queda, ou solicitar-nos o perdão,<br />
-se nos despenhamos?</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">SCHAKSPEARE (Hamlet).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos
-cuidavam em preparal-o para a impressão. Tão agitado o viam que
-receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria
-devia fazer-lhe.</p>
-
-<p>Dizia Sebastião de Brito:</p>
-
-<p>&mdash;Deves estar prevenido, mano Manoel, para veres uma mulher muito
-differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos.
-No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente;
-mas eu, que não sou medico, nem sequer santo, defendo que o ar do
-convento deve ser como peste para os pulmões de uma menina galante.</p>
-
-<p>A comitiva fez o favor de rir á graça do morgado dos Olivaes; o
-negociante, porém, fez um gesto de enfado, e limpou o suor da fronte.</p>
-
-<p>Abriu-se a porta: era a prelada, á frente d'uma procissão de monjas,
-noviças, e criadas. Entre todas, vinha Maria da Gloria pelo braço de
-soror Joanna das Cinco Chagas, e esta com a mão apoiada no hombro
-esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao
-clarão das quaes procurava Manoel Teixeira, com espavorido olhar, sua
-mulher. Viu-a e reconheceu-a. Levado da sua ancia, chegou a transpôr o
-limiar da porta; mas a prelada, estendendo para elle a mão, disse com
-affectuoso sorriso:</p>
-
-<p>&mdash;Queira ter a paciencia de esperal-a aqui: não é permittida a
-entrada nem mesmo aos maridos penitentes.</p>
-
-<p>Maria da Gloria não podia ver claramente os vultos que divisava fora da
-portaria. Quasi suspensa do fragil braço da decrepita freira, pediu a
-Cecilia que a amparasse pelo outro braço. Porfiavam em sustental-a
-todas, e quasi no collo a trouxeram á porta. Ahi sentiu ella que uns
-labios lhe osculavam a mão com afogo e tremor. Era Manoel Teixeira, que
-dobrara o joelho diante d'ella.</p>
-
-<p>&mdash;És tu?&mdash;disse ella&mdash;E podeste conhecer-me?</p>
-
-<p>&mdash;Quando te não conheceria eu, infeliz?&mdash;respondeu elle
-afogado de lagrimas e gemidos.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem tu tens cabellos brancos!...&mdash;tornou Maria da Gloria,
-sorrindo&mdash;Os felizes envelhecem tanto como os desgraçados! Não estejas
-assim, Manoel... Aos pés de uma amiga não se ajoelha... Ou ella
-perdoou antes da posição humilhada; ou não perdoa nunca. Ergue-te...</p>
-
-<p>&mdash;Ajoelhe diante de Deus, diante de Deus, senhor Manoel
-Teixeira&mdash;disse soror Joanna&mdash;e dê-lhe muitas lagrimas de
-louvor e gratidão por este anjo. Agora, torno a fugir-lhe com ella; por
-ora é nossa; ámanhã lh'a daremos. Vá vossa senhoria e mais os seus
-amigos para a hospedaria do mosteiro. A nossa boa prelada lá lhes manda
-o chá. Vão repousar, ou façam versos, se são poetas, que esta noite
-todos somos poetas, todos temos no coração hymno em acção de graças
-ao Senhor da misericordia e da justiça.</p>
-
-<p>Maria da Gloria apertou a mão do marido, balbuciando algumas palavras,
-e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e
-enamorado de todas as palacianas:</p>
-
-<p>&mdash;Olhe que eu não a esperava ver tão encantadora, mana Maria! Agora
-vejo que o condão das perpetuas se mudou para as rosas da sua
-formosura&mdash;(Sebastião de Brito havia dito isto, mezes antes, a uma
-marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de
-enfado a toda a gente a fineza; porém, gostosa de que a metaphora fosse
-applaudida, como de feito era). A graça do mundo&mdash;continuou elle,
-offerecendo simonte em caixa de ouro á abbadessa&mdash;desbota as flôres,
-e a de Deus reflorece-as. A mana Maria está como era; e, se não fosse
-a sympathica pallidez que lhe realça o mimo, seria menos bella, ou tão
-bella como foi.</p>
-
-<p>Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas
-delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de
-riso, que estalaram em gargalhada mais longe: eram as noviças, gente
-bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em
-desordem, e nunca podiam dar grande sahida pelos caminhos do céo.</p>
-
-<p>A madre porteira fez menção de fechar a porta, quando Brito calou o
-refolhudo comprimento. Manoel Teixeira beijou a mão de Maria, e
-perguntou-lhe se o menino ficava.</p>
-
-<p>&mdash;O menino fica&mdash;disse soror Joanna com ar alegre&mdash;porque
-tem de me levar á cella. Estas senhoras, se quizerem, e a senhora dona
-abbadessa consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera
-hoje, por amor do nosso anjo, que não pediu a felicidade só para si. Ora
-vamos com Deus.</p>
-
-<p>Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito
-rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho
-acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua
-mãe.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira e os seus companheiros, excepto Sebastião de Brito,
-pernoitaram na hospedaria do mosteiro. O dos Olivaes, tão amante das
-musas, quanto o ellas tratavam esquivamente, foi até ás quatro da
-manhã o primeiro enthusiasta do auditorio, batendo palmas delirantes, e
-bradando os <i>bis</i> com todas as potencias da sua admiração pulmonar.</p>
-
-<p>Agora, abro mão do seguimento da historia, para acudir a uns reparos
-d'algum leitor.</p>
-
-<p>Diz elle:</p>
-
-<p>«Eu estava preparado para lêr algumas paginas bonitas e sentimentaes,
-occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei
-logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente
-commover a gente. O author deixa perder as marés cheias de poesia. Aqui
-era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um
-aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido
-quatro apostrophes, com grande chuveiro de lagrimas. Era bello fazêl-o
-discorrer uma hora de joelhos aos pés da esposa, desfallecida de cinco
-em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era
-dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do
-coração, depois que as freiras todas chorassem em coro, e soror Joanna
-discorresse dilatadamente acerca do perdão das injurias. Além de que,
-nenhum desmaiou! O tocante era ir ella nos braços das esposas do Senhor
-para cima, e elle ficar cá fóra, senão sem sentidos, ao menos
-declamando um quarto de hora, e cahir a final extenuado nos braços dos
-amigos. Isso sim, era uma passagem que bastava á reputação da
-novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as
-cousas como ellas se passam no mundo, como nós as vêmos por ahi!
-Então é melhor não dar cópias da realidade. O que a gente quer é
-que o romancista nos pinte a sociedade, a vida e as paixões melhores ou
-peores do que são. Regala estar lendo uma scena sem naturalidade, e
-dizer «isto não é assim; mas, se assim fosse, era mais agradavel o
-mundo.» Onde está a imaginação do novellista, que repete o que viu,
-ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a
-photographia da vida! Vão para lá com os seus dramasinhos verdadeiros,
-e verão que nem os musicos da orchestra lh'os aturara. O romance é tal
-e qual a mesma cousa. Se nos não maravilha, enfada-nos. Viram cousa
-assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do
-convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito
-da calumnia que custou onze annos de martyrio á esposa sem nodoa! Pois
-o remorso não era aguilhão sufficiente para fazer andar o marido em
-bolina n'aquelle local tão poetico, e obrigal-o a raivar contra si, e a
-desentranhar-se em eloquencia de phrases e lagrimas aos pés da mulher!
-Nem um <i>ah!</i> nem um <i>oh!</i> lhe ouvimos!... É de mais! Póde ser que
-assim acontecesse, e que o facto assim descripto o lêsse o author no
-manuscripto do padre Alvaro Teixeira; mas isso não indulta o artista,
-que recebe das mãos da natureza uma pedra, e faz d'ella uma Nióbe ou
-um Laocoonte. O romancista é o esculptor das paixões: enfeital-as,
-corrigil-as, dar-lhes com palavras a expressão que ellas estheticamente
-não podem exprimir, é seu officio. E, se o author me não entende, eu
-lhe aclaro a idéa: É de crêr que as pessoas testemunhas do lance,
-entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram
-nos semblantes os movimentos da alma; nós, porém, que os não vimos,
-precisávamos de receber da phantasia do escriptor uma descripção, que
-nos sacudisse os nervos, e levantasse o espirito á altura em que o
-levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta
-amigavel censura; e, para outra vez, belisque a imaginação, se quer
-que o seu nome de romancista reverdeça, orvalhado com as nossas
-lagrimas, ou festejado com as nossas gargalhadas. Chorar ou rir, é onde
-bate o ponto. Quem não conseguir uma das cousas, não nos importune.»</p>
-
-<p>Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e
-de experiencia tenho que a verosimilhança, qualidade em que tenho
-aperfeiçoado esta minha arte, me tem grandemente desmerecido a valia
-dos meus romances. Ha muito tempo que não mato ninguem senão de
-molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto
-dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica
-pulmonar, ou congestão cerebral, o que em boa pathologia se denomina
-hydropesia ou inflammação intestinal. Não se tem suicidado ninguem
-nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido
-rehabilitada ao amor virginal. Isto é nocivo ás minhas curtas
-aspirações, bem o sei; mas já agora não arripio a carreira; liei-de
-ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações, de que me sinto
-muito alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da
-verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das
-visualidades. Já n'outros livros me tenho cançado a responder a
-reparos que a critica, não impressa mas em familia, me tem feito.
-Paciencia. A França, de Bernardin de Saint-Pierre menosprezava a
-historia singela de Paulo. Arguiam de infecundidade o author que o não
-fez carpir-se em desesperado monologo ao pé do cadaver de Virginia.
-Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome
-d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora,
-pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a
-obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que
-Napoleão lhe dava em Santa Helena?</p>
-
-<p>N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza.
-O templo dos livros immortaes é servido de poucos sacerdotes; mas,
-grande gloria lhes é esse culto sem estrondo! Não vão agora cuidar
-que eu estou já d'aqui espreitando o nicho do templo da eternidade em
-que me hão-de encolher os vindouros&mdash;encolher, digo, porque não
-podemos lá caber todos! Não, senhores! eu no que penso é em converter
-o meu leitor á religião da verdade, e levo em vista movel-o a lêr
-outra vez aquella fria e frouxa scena da portaria de Vairão. E, se
-alguém disser que eu estou dando satisfações impertinentes, respondo
-que é isto respeitar os meus leitores, e proposito de adelgaçar as
-rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica,
-porque os eu não faço chorar nem rir.</p>
-
-<p>Respondi, e volto ao outeiro.</p>
-
-<p>Alvorecia a manhã, quando a maior parte dos poetas se retirou com as
-musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da
-novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em
-grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que
-particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto
-sagrado, não ficava contente, nem se enthusiasmava a repetil-o ao
-poeta. Se, porém, no mote vislumbrava idéa amorosa, era muito de vêr
-e admirar o desembaraço com que a azougada menina se espevitava,
-proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava,
-como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e
-como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e
-insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde
-em esperanças, sentiu-se namorado d'aquella voz, e d'amor tão
-engenhoso que, até dos motes ao divino, profanava a idéa
-convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu
-poeta, e já perguntava com anciosa curiosidade quem elle era.
-Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do
-Conde, tão bom poeta como mau filho, que tinha dado grandes desgostos a
-seus paes. Esta ultima parte da informação não a desviou de já, sol
-nado, sustentar com algumas noviças o outeiro, cujo unico poeta era o
-de Villa do Conde. Não queria ella retirar sem vêr o rosto do vate dos
-amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia
-igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi
-passear na cêrca, e scismar, como podem os corações fatidicos scismar
-aos quatorze annos.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>VIII</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Oh!..............................<br />
-Nec te aleator ullus est sapientior</i>...<br />
-Nunca velhaco algum mais destro fora.</p>
-
-<p style="margin-left: 55%;">PLAUTO.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Maria da Gloria, Leonor, e as damas, depois do almoço do dia seguinte,
-sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do
-mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira,
-que fizera pedir á prelada uma grade especial em que elle podesse estar
-a sós com sua mulher. Maria da Gloria, sabedora da petição, escreveu
-a seu marido estas linhas:</p>
-
-<p>«A tua dignidade e a minha impõe a nós ambos a delicada obrigação
-de não proferirmos uma palavra com relação aos acontecimentos que me
-trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha
-innocencia: emenda tu agora a culpa de me não teres attendido,
-portando-te aos meus olhos como se a consciencia te não doesse. Se
-precisas desafogo, procura-o em Deus, e sentirás allivio. A Divina
-Providencia escuta os innocentes e os criminosos.</p>
-
-<p>«O pedido, que fizeste á senhora abbadessa, não póde ser por minha
-parte satisfeito. Irei á grade; mas Alvaro estará comnosco. Sei que te
-has-de cohibir de confessar as tuas culpas, na presença de teu filho,
-que as ignora.»</p>
-
-<p>Estava já Manoel Teixeira na grade, quando recebeu o bilhete, e minutos
-depois chegou Maria e Alvaro. O marido apertou-a ao coração, e
-disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;É assim que te vingas, Maria?</p>
-
-<p>&mdash;Que me vingo!...</p>
-
-<p>&mdash;Sabias que estas dôres do remorso só podiam as lagrimas
-allivial-as, e prohibes-me de fallar, e chorar, para que eu não ouça da tua
-boca a palavra «perdão»!...</p>
-
-<p>&mdash;Perdoei...&mdash;balbuciou ella.</p>
-
-<p>&mdash;E o teu perdão, minha amiga, devo tomal-o como esperança de me
-poderes, um dia, restituir o amor que tão mal paguei?</p>
-
-<p>&mdash;Cala-te... Não me falles em amor... Que vens tu pedir a uma
-desgraçada mulher, que envelheceu e morreu aqui?! Parece que não sabes
-imaginar os dias e as noites de onze annos! Quem espera achar coração
-em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e
-mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?</p>
-
-<p>&mdash;Queria ter com meu filho quinhão do teu amor. E impossivel? não
-me queixarei. Acceito a tua indifferença como castigo; mas não me odeies,
-filha, não. Fui teu algoz porque era teu verdadeiro amante...</p>
-
-<p>&mdash;Basta!...&mdash;disse com esforço Maria, relanceando sobre Alvaro
-os olhos sem lagrimas&mdash;Esqueces o meu pedido?</p>
-
-<p>Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a
-tempo que Maria encostava ao coração a face do filho. N'esta
-contemplação de minutos o que seria o espirito d'aquelle homem? Uma
-agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa
-abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma
-grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas
-sobre os ossos aridos, a decomposição de um rosto que fora a imagem, o
-symbolo vivente da graça e da harmonia. Que fizera elle durante os onze
-annos que devoraram a belleza e o coração d'aquella martyr? Devia de
-ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou
-dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da
-alegria e da opulência. Tivera palacios em Napoles, e alteára-se em
-suas pompas a tão elevado ponto, que deram d'elle fé os indifferentes
-de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha
-unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu
-patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade,
-se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do
-luxo dos seus palacios de Napoles e de Belem? Como pôde elle tão
-depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da
-italiana, a cujos pés elle rolava o ouro, que trouxera de Macáo,
-grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe
-parecia necessario á futura magnificencia de sua filha!</p>
-
-<p>Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas
-dores, quando elle de impeto se lançou aos pés de Maria, exclamando:</p>
-
-<p>&mdash;Tu não podes perdoar-me!</p>
-
-<p>Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Se te mereço compaixão pelo passado, não me afflijas. Ergue-te.
-Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas
-forças. Dá-me o teu braço, Manoel. Iremos vêr de perto as arvores,
-que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher.
-Sahiram, e sósinhos, e silenciosos. Queria Alvaro chamar Leonor, mas o
-pae rejeitou a lembrança.</p>
-
-<p>&mdash;Vamos sós&mdash;disse elle&mdash;sejamos egoistas d'esta
-felicidade... embora minha sómente...</p>
-
-<p>Maria sorriu-se, e disse com accentuação melancolica:</p>
-
-<p>&mdash;<i>Felicidade!</i>...Tem-l'a conhecido no amor d'este anjo?...
-Creio-a, se me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz,
-se ha Deus!...</p>
-
-<p>Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:</p>
-
-<p>&mdash;Deus, que deixou a tua innocencia nas trevas de onze annos... Que
-Deus!...</p>
-
-<p>&mdash;Não offendas a mão Divina que me amparou...&mdash;tornou
-Maria.</p>
-
-<p>As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do
-pateo, desceram a seguil-os. Sebastião de Brito bradou de longe:</p>
-
-<p>&mdash;Olé! Esperem lá, que nós vamos tambem. Duas luas de mel é muita
-lua! Conversem sósinhos em Lisboa, e dêem á gente uma particula da
-sua felicidade.</p>
-
-<p>Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:</p>
-
-<p>&mdash;Queres saber, Manoel? A tua sobrinha Leonor está poeta... Não
-falla senão em versos. E preciso que Alvaro seja poeta.</p>
-
-<p>Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre
-os dous primos.</p>
-
-<p>&mdash;Então gostas muito de versos, Leonor?&mdash;disse Maria.</p>
-
-<p>&mdash;Muito, principalmente dos que faz o senhor Sotto-Mayor.</p>
-
-<p>&mdash;Quem é o senhor Sotto-Mayor?!&mdash;tornou Maria da Gloria
-com espanto.</p>
-
-<p>&mdash;Já conhece os poetas pelo nome&mdash;respondeu o pae com
-alegria&mdash;O Sotto-Mayor é um rapaz de Villa do Conde, por cuja musa
-a pequena perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma
-eternidade de sonetos.</p>
-
-<p>&mdash;Já é paixão de versos!&mdash;tornou a mãe de Alvaro&mdash;Sabes
-tu fazer versos, meu filho?</p>
-
-<p>&mdash;Não, minha senhora: sou ainda muito nova&mdash;respondeu
-Alvaro&mdash;A prima Leonor é que tem lido muitos versos.</p>
-
-<p>&mdash;Já li o Bocage;&mdash;acudiu a menina, acompanhando a
-expressão de tregeitos exquisitos&mdash;li tambem o <i>Belmiro</i>, e
-as poesias do Garção, e do Quita, e do Lobo, e muitas outras que o
-papá lá tem. E a senhora D. Catharina de Balsemão, e a senhora
-marqueza de Alorna gostam muito de me ouvir recitar sonetos, e
-ensinam-me quando eu não declamo bem.</p>
-
-<p>&mdash;Bem está&mdash;disse Maria&mdash;estás uma doutora, minha
-sobrinha!... Queres tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro
-de tres em tres annos?</p>
-
-<p>&mdash;Freira! Deus me livre! Eu não sei como ha quem possa viver n'um
-convento! Antes morte que tal sorte!</p>
-
-<p>O morgado achou muita graça á esperteza da menina, e concordou com
-ella em não saber tambem como houvesse gente que quizesse sequestrar-se
-do mundo, que, segundo elle, não era tão mau como os misanthropos o
-calumniavam.</p>
-
-<p>Todos os passeantes se empenharam n'esta questão, que Maria da Gloria
-defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no
-coração e na consciencia. N'isto appareceu o poeta de Villa do Conde,
-e Leonor, estremecendo, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Elle lá vem! é elle!</p>
-
-<p>&mdash;Quem?&mdash;disseram algumas vozes.</p>
-
-<p>&mdash;O meu poeta!</p>
-
-<p>&mdash;O teu poeta!&mdash;disse, com molesta accentuação, Maria da
-Gloria: e chamando a segredo o cunhado, disse-lhe ao ouvido:&mdash;Não
-deixe assim fallar sua filha, que não é bonito aquillo!...</p>
-
-<p>&mdash;Por que, mana?&mdash;disse em voz alta o morgado&mdash;Ahi
-está o effeito dos conventos! Temos bioquice! Que tem que ella diga
-<i>o seu poeta?</i> Palavras n'aquella bôca não significam nada, mana
-Maria! É uma criança: deixal-a fallar.</p>
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com
-desembaraço e elegancia.</p>
-
-<p>&mdash;Viva o poeta!&mdash;disse Sebastião de Brito,&mdash;Eu amo os
-poetas, e gosto das suas relações. A sua bella musa está accesa para a
-noite?</p>
-
-<p>&mdash;A minha musa&mdash;disse o moço&mdash;está sempre fria; e, se
-alguma fortuna tiver, devel-a-ha aos calorosos louvores que vossa
-excellencia lhe dá, posto que os não mereça.</p>
-
-<p>&mdash;Pelo contrario: minha filha está encantada dos seus versos, e já
-sabe quem o senhor é. Alli tem uma criança que já leu os melhores
-poetas portuguezes!...</p>
-
-<p>&mdash;Razão de mais&mdash;redarguiu o de Villa do Conde&mdash;para não
-gostar das minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.</p>
-
-<p>O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do
-palavroso morgado, e agradecendo com delicados olhares á expressão
-penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras
-d'elle.</p>
-
-<p>Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A
-dona abbadessa, que tambem era capitão-mór de Vairão, infringiu
-amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem
-com ella e outras religiosas de mais graduação. Ao mesmo tempo, os
-poetas, que o não eram senão de noite, comeram durante o dia como quem
-não fora alli senão para versejar, e honrar o refeitorio das monjas.
-Estas, porém, de ricas e generosas que eram, não se queixaram, como as
-do tempo d'el-rei D. Diniz, do muito que os ricos homens e infanções
-lhes comiam<a name="FNanchor_9_1" id="FNanchor_9_1"></a><a href="#Footnote_9_1" class="fnanchor">[9]</a>.</p>
-
-<p>Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do
-pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro.
-Maria da Gloria não respondia ás alegrias de tanta gente que a
-felicitava, e não sabia entender a tristeza d'ella. Fallavam-lhe da
-sociedade de Lisboa as suas amigas desejosas de lá se verem. A
-melancolica senhora respondia:</p>
-
-<p>&mdash;Que tenho eu que vêr com a sociedade!... O braço, que fere com a
-infamação jamais recua arrependido sem deixar ferida incuravel. Eu
-não detesto, mas desprezo o mundo. Dêem-me uma casinha e o meu filho,
-que eu não quero mais. Se este menino tivesse morrido, ha muito que eu
-dormiria na claustra d'esta casa; ou, se Deus me quizesse provar até
-mais tarde, nunca sahiria d'aqui.</p>
-
-<p>Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita
-amargura:</p>
-
-<p>&mdash;Tens-me em conta de nada na tua vida, Maria?</p>
-
-<p>&mdash;És o pae de Alvaro: estimo-te e respeito-te, hoje como sempre.
-Que mais queres de mim? A felicidade da mulher é muito fragil, e de certo
-irreparavel, depois que a matam com a peçonha da ingratidão...
-Desculpa-me, meu amigo. Não queiras milagres, que as orações das
-servas de Deus não conseguiram. Houve ahi muito quem pedisse ao Senhor
-um raio de conforto e de alegria para mim: o que o céo me concedeu foi
-a conformidade, e o amor d'este menino.</p>
-
-<p>Maria já evitava o praticar a sós com seu marido. Magoavam-na os
-termos amorosos com que elle enfeitava a sua paixão para dar lenitivo
-aos pungimentos do seu remorso. Não o amava ella: afoutamente o digamos
-em nome da verdade e da natureza: não podia amal-o. Deveria perdoar e
-perdoou á paixão do ciume, enfurecido pelo orgulho; mas ao pertinaz
-desprezo de onze annos, ao silencio affrontoso áquellas apaixonadas
-cartas de mãe, que implorara em vão deixar no rosto de seu filho as
-ultimas lagrimas, não, não podia perdoar a virtuosa mulher.</p>
-
-<p>Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da
-Gloria.</p>
-
-<p>Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa
-foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas
-encarregaram-se de espancar o somno dos viandantes até essa hora, e
-galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a
-poesia era inimiga do somno!</p>
-
-<p>Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde
-excedeu-se a si proprio no mimo, na doçura, no amoravel dos seus
-sonetos e decimas. A paixão palpitava em todas as metrificações: no
-soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades.
-O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um
-soneto, que, a meu pesar, me não repetiram completo:</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">Que dôces rullos rulla aquelle pombo</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">A pomba enamorada e toda secia!</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Cuidado! que a virtude soffre um tombo,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">E vamos ter alguma peripecia!</span></p>
-
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se
-contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as
-senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas,
-dizendo em voz de quem manda e não pede:</p>
-
-<p>&mdash;Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.</p>
-
-<p>Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam,
-apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua
-impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:</p>
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">. . . . . . . . . . . . . . . . . .</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Tão negro quadro meu pincel não toque!</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Calcarem do perdão as santas leis,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Matarem-me por causa d'um remoque!...</span><br />
-<br />
-<span style="margin-left: 3em;">Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis!</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Que diluvio de vinho e de pasteis!</span></p>
-
-
-<p>Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da
-roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa
-com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos.
-Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou
-tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira
-estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de
-Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:</p>
-
-<p>&mdash;D'aqui a uma hora vamos para Lisboa&mdash;disse ella.</p>
-
-<p>&mdash;Para nunca mais nos vermos?!&mdash;respondeu elle&mdash;Este
-outeiro foi-me fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem
-antes de eu vos ter visto, Leonor!</p>
-
-<p>&mdash;Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me
-não virdes!</p>
-
-<p>&mdash;Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de
-saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta,
-que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.</p>
-
-<p>&mdash;Juro amar-vos eternamente...</p>
-
-<p>&mdash;Juraes?! mas esqueceis que já sois a esposa promettida de vosso
-primo?</p>
-
-<p>&mdash;O meu coração é livre&mdash;replicou ella...&mdash;Adeus, que me
-procuram; adeus, amai-me, e tende esperança!</p>
-
-<p>Estavam as senhoras já na portaria, quando Leonor desceu. Faltava Maria
-da Gloria, e havia no convento, além do reboliço, afflicção em
-muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna
-das Cinco Chagas, a dar-lhe o ultimo beijo, e desfallecera nos braços
-da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a
-partida fosse um arrancarem-na á felicidade. Alvaro chorava ao pé
-d'ella. Eufemia já pedia que a deixassem alli ficar com sua ama e com o
-menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o
-semblante para alegre, e feliz do bem-estar de seu marido. A força dos
-acontecimentos venceu a final; e Maria da Gloria, abraçando com
-phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica
-d'aquellas senhoras.</p>
-
-<p>Rompia a luz da manhã, quando partiram, caminho do Porto. Tocou a
-matinas o sino de Vairão. As religiosas entraram no côro, e já
-encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos,
-a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e
-disse:</p>
-
-<p>&mdash;Suppliquemos á Misericordia Divina que aceite o calix da
-innocente Maria da Gloria, como desconto ás futuras amarguras d'esta
-familia, se os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.</p>
-
-<p>Quaes seriam as tuas visões, ó santa!?</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<div class="footnote">
-
-<p><a name="Footnote_9_1" id="Footnote_9_1"></a><a href="#FNanchor_9_1"><span class="label">[9]</span></a>Aos leitores da <i>Introducção</i> ao <i>Diccionario dos nonymos</i>,
-de Fonseca, é bem conhecida esta antigualha, divulgada por João Pedro
-Ribeiro: <i>Dom Danys, pela graça de Deus, Rey de Portugal... A vos meu
-Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer
-que Ricos homens e Infançoens, etc. que son naturaes do dito moesteyro
-veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e
-con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras
-Donas, que iam a servir a Deus, não podem i viver, nem manter o dito
-moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que
-não sofrades aos desusuditos, etc. Unde al non ffaçades se não a vos
-me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos,
-etc.</i> Que fidalgos aquelles que iam de caso pensado albergar-se no
-mosteiro para comerem as naturas (quer dizer&mdash;os rendimentos) das
-monjas!</p></div>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>IX</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Proichè suo fui, non ebbi ora tranquilla,<br />
-Nè spero aver</i>...</p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">PETRARCA (Rime).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel
-Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia
-minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para
-reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma
-supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um
-engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha,
-nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho
-para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal
-chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.</p>
-
-<p>Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem
-testemunhas:</p>
-
-<p>&mdash;Recebes em tua casa uma tua <i>irmã</i>, meu amigo. D'esta casa
-dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches
-o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais
-do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de
-continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o
-ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho
-commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á
-sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso
-contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus
-habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua
-companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas:
-basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que,
-ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto
-bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua
-bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me
-assim a vida, que te peço, de portas a dentro?</p>
-
-<p>&mdash;Vive como quizeres, Maria&mdash;respondeu Teixeira com semblante
-magoado&mdash;Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas
-depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente
-minha irmã.</p>
-
-<p>&mdash;Tua irmã.</p>
-
-<p>&mdash;Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para
-mim.</p>
-
-<p>&mdash;Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de
-conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa
-com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.</p>
-
-<p>&mdash;Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o
-castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas,
-que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.</p>
-
-<p>E cumpriu religiosamente.</p>
-
-<p>Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em
-riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario
-dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous
-filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se
-até alli a perfidia fôra clandestina, d'alli em diante até por
-soberba se patenteava. O novo amante orgulhou-se da substituição, e
-ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel
-Teixeira tomar conta dos filhos; ella, porém, respondeu que as
-velleidades da mulher não tinham nada commum com o coração de mãe; e
-não lhe deu os filhos.</p>
-
-<p>Alvaro não voltou ao collegio, a não ser para ir mostrar ao seu mestre
-e amigo as lagrimas de alegria.</p>
-
-<p>&mdash;Minha mãe&mdash;dizia-lhe elle&mdash;é agora a minha mestra. Tudo
-o que eu sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina.
-Disse-me que as horas de resignação, que teve em onze annos, as dera ao
-estudo. É um prazer ouvil-a discorrer a proposito de qualquer passagem de
-historia; mas o que mais me prende é o que ella diz da vida.</p>
-
-<p>&mdash;Seu pae&mdash;disse o professor&mdash;deve sentir-se feliz,
-ouvindo-a...</p>
-
-<p>&mdash;Meu pae raras vezes entra n'estas nossas conversações. Ha dous
-annos que minha mãe veio do convento, e desde então não sei como explicar
-o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella;
-mas, se o encontro sósinho no seu gabinete, parece que vejo estarem-lhe
-os cabellos a embranquecer, e não tem ainda quarenta annos, penso eu.
-Começo a entender tudo, e o meu amigo ha-de dizer-me o que eu não
-souber. Lembro-me que meu pae é desgraçado porque minha mãe
-involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a
-obrigou. Ella é que envelheceu, e está para pouca vida. Muitas vezes
-me diz a chorar: «Quererá Deus que eu não vá d'este mundo sem te
-vêr homem, e no caminho da felicidade?» Receio muito que ella succumba
-aos effeitos dos padecimentos passados...</p>
-
-<p>Um dia, Alvaro Teixeira encontrou João de Mattos, sentado ao lado do
-conde de Basto, na carruagem d'este. João de Mattos viu-o, e fez parar
-a carruagem. O ministro da justiça apeou, e abraçou Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca mais se lembrou de mim?&mdash;disse-lhe elle.</p>
-
-<p>&mdash;Lembro sempre; mas não me atrevi a procurar vossa
-excellencia.</p>
-
-<p>&mdash;Pois procure-me, e nunca esqueça as minhas ultimas palavras.</p>
-
-<p>Este encontro é posterior cinco annos á visita do intendente geral da
-policia a Manoel Teixeira.</p>
-
-<p>Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial.
-Falleciam-lhe forças para o trabalho, e sobravam-lhe os haveres. O seu
-estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido
-reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos
-Olivaes, a horas em que não podesse ser observada. Alvaro, e só elle,
-era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram
-ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais
-se irritaram contra uma feroz virtude que não pagava visitas. As
-bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de
-Vairão, umas da santa, outras de Cecilia, e muitas de todas as
-religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao
-cabo de cinco annos; dizia, porém, Maria da Gloria que a via em sonhos,
-e a ouvia do céo. Depós ella, como se a santa fosse eleita para guia
-da bemaventurança, algumas outras levaram a sua luz ao altar do Eterno.
-Os dias d'estas novas eram celebrados com muitas lagrimas de Maria. «Se
-tu não existisses, dizia ella ao filho, estas santas creaturas teriam
-expirado nos meus braços.»</p>
-
-<p>Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os
-ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a
-sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta,
-sendo esse não só o dever d'ella, que tambem a sua mais ardente
-vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou
-a lembrança e Alvaro não soube esconder a alegria que lhe ella dava. O
-morgado dos Olivaes folgou tambem com o convite; Leonor, porém, nem
-sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que
-não tinha inclinação a viajar, e fez com que o pae inventasse
-desculpas que dispensassem a filha.</p>
-
-<p>Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe
-assim:</p>
-
-<p>&mdash;Alvaro, o coração não se esconde a tua mãe. Tens dezoito annos:
-posso fallar-te sem rebuçar as palavras. Tu amas tua prima?</p>
-
-<p>Alvaro corou, e balbuciou.</p>
-
-<p>Maria proseguiu:</p>
-
-<p>&mdash;Já respondeste, meu filho. Amas tua prima; e eu te digo que faças
-tudo quanto podem forças humanas para esquecel-a.</p>
-
-<p>&mdash;Por que, minha mãe?!</p>
-
-<p>&mdash;Aquella menina tem condão fatal. Os instinctos seriam bons; mas a
-educação degenerou-lh'os. Pódes tu imaginar que espaço vai abrir-se
-diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as
-a riqueza. Não quero dizer que o teu ouro descubra corações nobres e
-dignos de ti; mas é certo que em volta do homem que tu has-de ser, se
-ajuntam os thesouros mais raros, e tu escolherás então o mais
-primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora
-enroscada entre as flores, que amavas desde a infancia. Um dia verás
-seccas as flôres, e a vibora em toda a sua peçonha. Perguntarás
-então á imagem de tua mãe que voz do céo lhe disse á alma a
-prophecia, que te faço hoje.</p>
-
-<p>Alvaro não respondeu, senão com um sorriso de complacencia, triste
-sorriso, e dolorosa significação de uma angustia, que se peja de
-confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:</p>
-
-<p>«Eu cuidava, minha prima, que eras feliz acompanhando a nossa familia.
-Meus paes amam-te muito, e eu... bem sabes quanto te amo. Não és grata
-ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de
-nós, e de mim; e vem dar-me um abraço antes da nossa partida.»</p>
-
-<p>No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.</p>
-
-<p>&mdash;Não sabe quem eu hoje encontrei nos Olivaes?!&mdash;disse
-Sebastião de Brito a Maria da Gloria&mdash;A mana lembra-se d'aquelle
-poeta, chamado Miguel de Sotto-Mayor?</p>
-
-<p>&mdash;Perfeitamente... Está nos Olivaes?!</p>
-
-<p>&mdash;O mesmo em pessoa. Perguntei-lhe o que fazia por alli, e elle
-respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso
-é que o rapaz viaja como grão-senhor! Traz criado de libré, e dous
-bonitos cavallos. Pelos modos, ha poetas que tem libré e cavallos.</p>
-
-<p>&mdash;Isso que admira?!&mdash;acudiu com azedume Leonor&mdash;O pae não
-ouviu dizer que elle era filho segundo da casa mais antiga de Villa do
-Conde! É boa! querem que os poetas sejam todos uns maltrapilhos, porque
-Camões, Bocage, Tolentino e outros não tiveram senão versos que mostrar ao
-mundo! Eu cá de mim, não lhe admirei os cavallos nem a libré; o que
-mais notavel vejo no poeta é o seu talento!</p>
-
-<p>&mdash;E o fogo que tu tomas n'estas cousas da poesia, minha
-sobrinha!&mdash;disse Maria da Gloria.</p>
-
-<p>&mdash;A pequena é maniaca por versos&mdash;replicou o pae&mdash;E o
-mais é que já os faz tambem. Tu ainda não fizeste versos a teu primo,
-Leonor?</p>
-
-<p>&mdash;Meu primo não gosta de versos...&mdash;respondeu ella com fastio.</p>
-
-<p>&mdash;Eu não desgosto;&mdash;disse Alvaro&mdash;e, se fossem teus,
-gostaria muito, prima...</p>
-
-<p>&mdash;Ora! não ha muitos dias que eu estava a lêr-te o <i>Oriente</i>,
-e tu disseste que os versos do padre José Agostinho eram gordos e
-atoucinhados como o author.</p>
-
-<p>&mdash;Pois sim, eu disse isso a brincar; mas, se não gosto do
-<i>Oriente</i>, poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.</p>
-
-<p>O coração de Alvaro estava cheio de lagrimas. Fizera-se-lhe uma luz
-súbita no espirito. Recordou-se do enthusiasmo pueril de Leonor pelo
-poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes.
-Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A
-paixão deu-lhe o desembaraço, e a dor a eloquencia. Buscou ensejo de
-estar só com Leonor, e disse-lhe com os olhos marejados de pranto:</p>
-
-<p>&mdash;Tu de certo não vens comnosco para Italia?</p>
-
-<p>&mdash;Que pergunta! Eu já disse que não ia.</p>
-
-<p>&mdash;E por que não vaes, Leonor?</p>
-
-<p>&mdash;Porque não quero deixar meu pae, nem troco os regalos de ver
-mundo pelos afagos d'elle.</p>
-
-<p>&mdash;Mas teu pae tem vontade que venhas...</p>
-
-<p>&mdash;Deixal-o ter; se elle não présa a minha companhia, préso eu a
-d'elle.</p>
-
-<p>&mdash;Ha outro motivo, minha prima&mdash;redarguiu Alvaro com muita
-tristeza corada por um suave sorriso de artificio.</p>
-
-<p>&mdash;Qual?</p>
-
-<p>&mdash;Tu amas o poeta, que hoje viste nos Olivaes.</p>
-
-<p>Leonor descompôz-se n'uma risada toda da garganta, e disse a final:</p>
-
-<p>&mdash;Tens graça, primo! Estou eu agora feita castellan, com trovador
-debaixo do balcão do castello a chorar amores!... Valha-te Deus,
-Alvaro! A mim importa-me cá o homem de Villa do Conde!</p>
-
-<p>&mdash;Mas elle de certo alli foi por tua causa...</p>
-
-<p>&mdash;E, se foi, que culpa tenho eu! Os poetas tem aquellas cousas, e
-eu não posso ser responsavel das tolices alheias...</p>
-
-<p>Leonor lançou mão do primeiro pretexto para rematar o dialogo. Alvaro,
-quasi repellido quando ia a fallar, foi ter com sua mãe, e desabafou
-por estas palavras no seio d'ella:</p>
-
-<p>&mdash;Tem razão... devo esquecer minha prima.</p>
-
-<p>&mdash;Menos, quando ella fôr desgraçada...&mdash;disse Maria da
-Gloria&mdash;Lembre-te isto sempre, meu filho.</p>
-
-<p>Sahiram para Veneza.</p>
-
-<p>Auras bonançosas lhes assopre brandamente as vélas, e renasçam para
-elles debaixo d'outros céos as lagrimas do coração!</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>X</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Se alguem provou já o golpe d'um<br />
-desprezo aconselhe á minha dôr os<br />
-remedios da sua.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">D. F. MANOEL (Epanaphoras).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Não estava em si Leonor em quanto se não viu nos Olivaes. A olhos
-enxutos vira ella sumir-se o navio, e já dizia ao pae que lhe doía o
-braço de agitar o lenço para responder ao adeus de Alvaro.</p>
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de
-volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de
-Sebastião de Brito, offerecida no primeiro e casual encontro, casual
-digo com respeito ao morgado.</p>
-
-<p>Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em
-Vairão aos quatorze annos, não tinha sido ainda quebrantado aos
-dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na
-esperança de ser um dia, embora tarde, sua esposa.</p>
-
-<p>Havemos de esboçar a indole d'este moço, se trinta e dous annos podem
-adornar-se com as graças da mocidade.</p>
-
-<p>As freiras tinham dito que Miguel de Sotto-Mayor era mau filho; péssimo
-devia elle de ser, quando as virtuosas linguas do mosteiro não
-escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes
-riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este
-vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e
-injurias aos paes e irmãos. Entendêra elle que o éstro da poesia
-carecia a confirmação da extravagancia. Lêra de Byron os atrevimentos
-do genio conformados com os desvarios da vida, e não achou cousa
-impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as
-musas não lhe eram avêssas; mas, posto que na desordem se avantajasse
-ao lord inglez, o genio ficava-lhe áquem, na distancia que vai d'um
-soneto de abbadessado ás «Peregrinações de Childe-Harold».</p>
-
-<p>Por vezes alcançára a casa de seus paes, exigindo dinheiro para
-excursões ao Porto: davam-lh'o para se livrarem dos escandalos na
-terra, e tinham muitas vezes de ir resgatal-o á cadêa onde o levavam
-os escandalos de fóra.</p>
-
-<p>Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de
-grandes dividas. Muita gente espantou-se do favor que a Providencia dá
-aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger
-o infinito dos juizos divinos.</p>
-
-<p>Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de
-despezas necessarias á sustentação da dignidade de seus maiores e
-sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os
-arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.</p>
-
-<p>Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de
-Brito, o coração era estranho áquella constancia, umas vezes
-passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o
-patrimonio de Leonor, se bem que desfalcado pelo pae. Informára-se, e
-sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no
-vinculo, curou de agenciar mulher mais rica, e têl-a-ia, se a
-reputação lhe não deslustrasse o nascimento e os bens da fortuna.
-N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e
-em menos de dous annos&mdash;eram-lhe escassos para viver limpamente os
-rendimentos d'ella.</p>
-
-<p>No entanto como quer que nunca deixasse de escrever a Leonor, ao vêr-se
-assim repellido das ricas herdeiras, e ameaçado d'uma fidalga pobreza,
-reaccendeu a poesia das cartas, e afogueou á mais alta temperatura o
-coração da donzella. Animou-o ella a pedil-a ao pae, ainda que não
-asseverava o bom exito da petição; todavia, tão da alma era escrava
-d'elle, e tão livre se sentia n'essa escravidão que, no dizer d'ella,
-quando o pae a negasse, o coração se obrigava a emendar o erro do pae.</p>
-
-<p>Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o
-cançado veio das dividas, levantou o dinheiro para a jornada e
-consequencias d'ella.</p>
-
-<p>Agora o temos nós em casa de Sebastião de Brito, como passageiro que
-se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro,
-desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis
-godos lhe giram no sangue. Sebastião de Brito, regalado com uma pratica
-de sua maior predilecção, mostra os retratos de alguns avós, e
-lastima que os não retratados fossem mais antigos que a arte da
-pintura.</p>
-
-<p>No dia immediato, fallaram em casamentos desiguaes, e prostituição da
-nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos
-herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala
-cios, á custa de dotes ganhados ao balcão e na balança.</p>
-
-<p>Brito foi remisso nos gabos á soberba de Sotto-Mayor, por que tinha de
-lhe dizer que sua filha ia casar com o filho d'um negociante seu irmão
-bastardo, e d'uma filha d'outro negociante de Macáo. Dito isto,
-perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal
-consorcio. O morgado dos Olivaes deu a sincera explicação do
-casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de
-braço forte que a subtrahisse aos vexames da usura. Desanimou algum
-tanto o poeta-fidalgo; mas a subita apparição de Leonor, linda como
-ouro aos olhos d'um aváro, fulminou com um relance de amoroso olhar a
-idéa sordida que surgira da baixa alma do seu poeta. Ousou Miguel
-pedir a filha ao pae, na propria presença d'ella. Sebastião de Brito
-disse a Leonor que respondes-se: tamanha segurança tinha de a ter
-conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.</p>
-
-<p>Leonor respondeu que não podia ser esposa de outro, com approvação da
-sua alma. Gelou-se o sangue nas veias do pae, e nunca o ella vira tão
-mal assombrado e iroso. Mandou-a sahir da sua presença, e disse ao
-hospede que, em sua casa, só eram bemquistos os amigos, que lhe não
-traziam planos de completarem sua ruina.</p>
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo
-que o lacaio lhe apresentasse o seu, e disse ao capellão de Brito:</p>
-
-<p>&mdash;Diga ao cavalheiro que lhe não pergunto quanto devo de
-hospedagem, por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.</p>
-
-<p>Isto entendeu elle que era puro <i>byronianismo</i>; o dono da casa,
-porém, é que deu á cousa o seu verdadeiro nome, chamando-lhe «patifaria»; e
-lamentou que os seus criados lhe não pozessem o espirito e a carne em
-lençoes de vinho.</p>
-
-<p>Ao romper da manhã do dia proximo, Sebastião de Brito foi com Leonor
-para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas
-acções. D'ahi a dias, foi ella intimada para recolher-se ao convento
-das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para
-se realisar o casamento. Leonor ostentou brava reacção; mas cedeu, por
-fim, á força, dizendo que o tempo era a arma e a victoria dos fracos.</p>
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou
-ao ministro da justiça, vindas de Barcellos, tentou remover
-judicialmente do convento Leonor. João de Mattos, ouvindo do proprio
-morgado dos Olivaes as razões da sua negativa, afastou de si o
-pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha
-rebelde, e concital-a a reservar o coração para Alvaro, que, no dizer
-do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae
-e do angelico espirito de sua mãe. Leonor passou da contumacia á
-dissimulação, e prometteu submetter se á vontade paternal.</p>
-
-<p>A traça ardilosa d'esta condescendencia fôra-lhe suggerida por
-Sotto-Mayor. João de Mattos era barreira mais insuperavel á primeira
-tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de
-Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A
-inimisade do ministro da justiça equivalia a um cerco de esbirros
-lançado no seu encalço. Soccorreu-se, por isso, da velhacaria, e,
-delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.</p>
-
-<p>Sebastião de Brito duvidou da reforma da filha. Decorreram seis mezes,
-sem que os rogos de Leonor o movessem a tiral-a do convento. «Ha-de
-sobejar-te tempo de seres feliz&mdash;dizia-lhe o pae&mdash;Teu primo não
-póde demorar-se... Que te diz elle nas cartas?»</p>
-
-<p>&mdash;Diz que o tio está cada vez peor.</p>
-
-<p>&mdash;Pois ahi tens, Leonor. Se peora, vem; e, se morre, mais depressa
-vem, e mais depressa és senhora da enorme riqueza de teu sogro.</p>
-
-<p>&mdash;E que dirá meu primo&mdash;replicava ella&mdash;vendo-me reclusa
-n'um convento?! O pae não receia que elle me rejeite, sabendo os motivos
-que eu dei para ser aqui encarcerada? Se elle tiver dignidade, não me quer;
-e, se a não tiver, não o devo eu querer a elle.</p>
-
-<p>&mdash;A tua fama não está manchada&mdash;volveu o pae&mdash;Teu primo
-de certo perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um
-homem matreiro, ou apaixonado por ti. Não ha dama da corte a quem não
-tenham succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a
-sua reputação illesa como tu. Que culpa tens tu, se por ti enlouqueceu o
-poeta minhoto? E quem pede contas da sua fascinação a um espirito
-noviço, incauto, e impersistente d'uma menina da tua idade? Se toda a
-gente te desculpa, que fará Alvaro que te ama desde criança?!</p>
-
-<p>Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e
-mostrar-se com o arrependimento, e quietação na casa do pae, mais
-digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado
-dilatava a época da sahida. Leonor, levada da sua irritabilidade,
-resolveu fugir, e preveniu Sotto-Mayor. Não era sujeito de emendar
-desatinos alheios o poeta: quando muito, mais por medo da justiça que
-do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e
-byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando
-Leonor por intercessão de terceira pessoa, que os trazia vendidos ambos
-a Sebastião de Brito. E o caso foi que Miguel de Sotto-Mayor, horas
-depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao
-castello de S. Julião da Barra.</p>
-
-<p>João de Mattos fôra estranho áquella vil arteirice do morgado dos
-Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter;
-chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe
-dos quadrilheiros, mandou o ministro da justiça dar liberdade ao preso,
-e chamal-o á sua presença.</p>
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor teve uma hora de lucidez, na presença de João de
-Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica
-sahida por onde podia salvar-se da perseguição politica, e dos
-tormentos que elle testemunhára nas cavernas da Torre. Partiu, pois,
-sem demora para França, onde então o nucleo do partido liberal
-fomentava a restauração dos legitimos poderes. No entanto, João de
-Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia
-honrada, attrahia sobre si accusações, que mais tarde lhe sortiram a
-deportação para Abrantes.</p>
-
-<p>Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:</p>
-
-<blockquote>
-<p>«Estou sem pae, minha prima. Deixei minha mãe n'um lethargo para vir
-escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu
-pae morreu, nos braços d'esta santa. Como ella o amava, ou como é o
-amor das martyres n'este mundo! Em quatro mezes de agonia, minha mãe
-nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de
-vida nas dores do coração. Foi uma aneurisma que o matou. Dizia em
-cada dia:&mdash;Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta
-agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os
-melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim,
-quando já via esta morte! Que fiz eu da tua felicidade e da minha! Que
-espectaculo eu te dou para levar a tua desgraça á perfeição! Cinco
-annos de doença, de desgosto, e de pedir a Deus, por intercessão da
-tua santa alma, que me abrevie estas penas! Se as padeço como
-expiação, diz tu ao Senhor que me perdoas-te as culpas. Pede-lhe,
-Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho,
-d'este anjo da reconciliação que nos veio das mãos de Deus. Pede-lhe,
-minha virtuosa amiga, que me dê horas de descanço e horas de
-tribulação. E, se Deus quer que eu acabe, roga-lhe que seja já, antes
-que eu perca a fé na misericordia Divina.» «&mdash;Minha mãe debulhava-se
-em lagrimas; sentia-se extremosa amante pelas palavras de consolação
-que lhe dava; ia invocar a alma da santa de Vairão; e voltava cheia de
-esperança ao leito de meu afflicto pae a pedir-lhe paciencia e
-confiança. Aqui tens a nossa vida dos ultimos quatro mezes. Bem fizeste
-em não vir comnosco: terias um quinhão d'estas amarguras, minha prima.
-Mas, ao mesmo tempo, que allivio para mim, se eu te visse ao pé de
-minha mãe! Eu não sei como hei-de consolal-a! Tu saberias, Leonor,
-porque no coração da mulher é que Deus depositou as suas palavras de
-consolação para os desgraçados sem culpa... Chama-me a minha pobre
-Eufemia... Minha mãe está delirando; faz contra si propria
-accusações que me traspassam a alma. Pede perdão a meu pae por lhe
-não ter podido dar a felicidade, que ella em si não tinha!... Não te
-accuses, minha santa mãe! Tu foste o anjo que se fez nas cinzas do teu
-coração, anjo de ternura e de piedade, anjo de perdão e de supplica
-por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae...
-Não posso mais... Logo que minha mãe tenha forças vamos para
-Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a
-merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.</p>
-
-<p style="margin-left: 10%;">«Napoles&mdash;Maio 15 de 1831.</p>
-
-<p style="margin-left: 60%;">«Do teu</p>
- <p style="margin-left: 60%;"><i>Alvaro.</i>»</p></blockquote>
-
-
-<p>Leonor não tinha lagrimas. Requeimára-lh'as o odio ao pae, e o anceio
-da vingança.</p>
-
-<p>Pouco antes de lêr aquella carta, recebera ella a noticia do desterro
-violento de Miguel de Sotto-Mayor.</p>
-
-<p>As commendadeiras do convento houveram horror e não piedade dos esgares
-phreneticos da morgada.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XI</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>C'était Ninon de Lenclos qui disa-ti<br />
-qu'elle remerciait tous les<br />
-soirs, de son esprit, et qu'elle le<br />
-priait, tons les matins, de la préserver<br />
-des erreurs de son cœur.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">MIRABEAU (Lettres à la marquise<br />
-de Monnier).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Já Leonor não estava no mosteiro, quando Maria da Gloria, mez e meio
-depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a
-exasperação a allucinasse até o extremo do suicidio, levou-a para os
-Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e
-distracção de amigos e parentes, devotados todos a delir-lhe da
-lembrança a imagem do expatriado.</p>
-
-<p>Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de
-João de Mattos, para ir fallar-lhe.</p>
-
-<p>&mdash;Chamei-o&mdash;disse-lhe elle&mdash;para lhe dar o que o senhor
-Macedo me não pede: é um conselho. Seu pae, que Deus haja, tinha em vista
-casal-o com sua prima Leonor de Brito. O senhor consultou alguma vez o seu
-coração sobre este designio de seu pae?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor, e achei-o conforme aos meus mais ardentes desejos.</p>
-
-<p>&mdash;Tem o senhor Alvaro alguma especie de confiança nos merecimentos
-de sua prima? Crê que ella o estima?</p>
-
-<p>&mdash;Devo suppôr que sim.</p>
-
-<p>&mdash;Está n'um erro. Agora o conselho sem preambulos: não case com sua
-prima, nem exponha o seu bom coração ao escarneo e á deshonra que
-inevitavelmente lhe ha-de vir com o arrependimento extemporaneo. Se não
-póde esquecêl-a, converta essa lembrança em estima, e a estima em
-virtude: quando a vir desgraçada, ampare-a. Imagine que sua prima ha-de
-passar pelos élos d'uma cadêa fatal. Não está nas suas mãos
-quebrar-lhe a cadêa; mas a misericordia póde muito, e a caridade faz
-milagres. Ainda o chamei para outro fim. Eu vou depois de ámanhã
-deportado para Abrantes, á ordem do senhor D. Miguel. Vou ralado de
-desgostos, e vaticino que toda a força de minha alma, e a muita energia
-que me dá a consciência pura, me não sustenham na queda. Se eu cahir,
-e o não tornar a vêr, lembre-se, no longo curso da sua vida, d'estas
-lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu
-nome, ajoelhe aos pés de sua santa mãe, e lhe peça perdão para mim
-que lhe matei a felicidade de toda a vida.</p>
-
-<p>João de Mattos apertou ao seio o filho de Maria da Gloria, e
-disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Vá!... Eu não o verei mais... Na eternidade saberei se sua mãe me
-perdoou.</p>
-
-<p>Alvaro appareceu a sua mãe ainda com lagrimas. Interrogado acerca
-d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria
-ergueu as mãos, e disse em seu coração: «Vós bem sabeis, meu Deus,
-que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se
-rehabilitou pela contrição da honra, dai vós, Senhor misericordioso,
-as consolações que a mim me daes por intervenção de meu filho.» E
-accrescentou em voz alta:</p>
-
-<p>&mdash;Vai dizer a esse nosso <i>amigo</i> que tua mãe lhe deu este
-nome. Pede-lhe licença para saber as intimidades da sua vida. Se elle
-quizer emigrar, e não tiver recursos, diz-lhe que és rico: pede-lhe com
-encarecimento que t'os acceite. Ouvi dizer á santa de Vairão que seu
-sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua
-probidade. Vai, meu filho, que esse homem perdeu tua mãe para a
-felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.</p>
-
-<p>João de Mattos ouviu da bôca de Alvaro as textuaes palavras de sua
-mãe. Balbuciou muito commovido expressões de reconhecimento, e
-apontando para um grande painel, disse:</p>
-
-<p>&mdash;Guarde de mim aquella lembrança: o retrato de um pae honrado é um
-constante pregão de honra; o do amigo verdadeiro, e inflexivel no
-infortunio, é um consolador, quando não póde ser um conselheiro mudo.</p>
-
-<p>Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar
-comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.</p>
-
-<p>D'este probo e desditoso estadista não fallaremos mais. Logrou ser
-propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua
-ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida
-dos dias em que a paixão o ensandecera a ponto de não vêr o abysmo em
-que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle.
-Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de
-perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender
-dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia
-d'aquelles que empeçavam na virtude do homem, leal ao throno; mas leal
-ainda mais á honra.</p>
-
-<p>Choraram-no Alvaro e sua mãe. Tão afeiçoado lhe era o moço, que
-pedira licença a Maria da Gloria para o ir visitar em Abrantes, e
-conduzil-o para sua casa, indultada a sentença. Algumas horas,
-scismando n'elle, pensava Alvaro em vêr sua mãe ligada em segundas
-núpcias a um homem de quem elle já tinha no coração palavras
-paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e
-veneração de filho. Deu mate a estas doces cogitações a morte; mas a
-saudade ficou imperecivel no coração de Alvaro, e a gratidão no
-espirito de Maria da Gloria.</p>
-
-<p>Se não cahisse a proposito este incidente, logo de começo teria eu
-dito que Sebastião de Brito foi logo visitar sua cunhada, e
-offerecer-lhe a sua casa dos Olivaes. A viuva não acceitou, porque a
-soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel
-n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor,
-cujo silencio de alguns mezes a desmemoriára, e ao mesmo tempo
-industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por
-entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida
-lhe modificara em muito o genio, e que ainda agora começava a sentir-se
-no coração. Recebia carinhosa, ou antes desafiava, os agrados de
-Alvaro, já commovendo-se com arte ás saudades com que elle relembrava
-o pae, já seguindo-o ás inspirações da vindoura felicidade, e
-phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores
-sociaes, e na permutação intima e obscura dos sentimentos de duas
-almas apaixonadas. Com Maria da Gloria não era ella menos artificial,
-ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o
-igualar em merecimentos.</p>
-
-<p>Escutava Alvaro sua prima com assombro e desconfiança; e Maria da
-Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora
-industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre,
-professas no logro e nas fraudes do coração. E d'ahi, o silencio de
-ambos no tocante a casamento; e os sustos de Sebastião de Brito, e os
-despeitos da filha orgulhosa, á conta d'aquelle silencio.</p>
-
-<p>Seccára a fonte perennal dos recursos do morgado com a morte do irmão
-bastardo. A cunhada não se afoutava elle a pedir as grandes quantias,
-nas occasiões apertadas; e ainda menos ao sobrinho, o qual, se bem que
-tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de
-sua mãe. Lastimava-se o morgado á filha, arguindo-a de ser causa de
-tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava
-a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz
-conhecer, duplicava as ciladas ao coração do primo e á bemquerença
-da tia.</p>
-
-<p>Uma vez estava ella a sós com Alvaro. Este entretinha-se n'esse tempo a
-escrever as memorias da sua infancia, e deixára o manuscripto aberto na
-mesa de estudo. Pediu Leonor licença para lêr algumas paginas, e elle
-hesitou; mas insistiu Leonor tão meigamente que o primo deixou-a lêr
-as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e
-terminavam assim: «Não esqueceria nunca os dias dos Olivaes, ainda
-mesma que da affeição, então nascida, mais odiosa me fosse a
-lembrança.» Seguiam-se algumas reticencias.</p>
-
-<p>Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:</p>
-
-<p>&mdash;Estes pontinhos que significam?</p>
-
-<p>&mdash;Nada, minha prima.</p>
-
-<p>&mdash;Dás-me licença que eu complete o teu pensamento? Deixas-me
-escrevêl-o sobre as reticencias?</p>
-
-<p>&mdash;Escreve&mdash;disse Alvaro risonho.</p>
-
-<p>Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:</p>
-
-<p>«Aquella criança, innocente e formosa como um anjo aos meus olhos,
-n'aquella idade, amava-me, e não sei que amor era o seu, porque o amor
-dos anjos deve ser mysterioso, e é. Mais tarde, eu não podia amal-a,
-porque não poderá entendel-a. Senti-me enfastiado d'ella, como as
-crianças das flôres com que brincam uma hora. Não a esqueci porque a
-vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla
-nos sonhos, me disser: <i>Sou eu.</i> A tua Leonor era o amor da
-innocencia; e eu sou a mulher da paixão.»</p>
-
-<p>&mdash;Aqui tens&mdash;disse ella&mdash;Agora, sim; está completa a
-pagina.</p>
-
-<p>Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Por que te enganas a ti propria, ou por que me mentes,
-Leonor?!</p>
-
-<p>&mdash;É uma nova injuria que o meu coração te agradece assim...&mdash;E
-dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.</p>
-
-<p>Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo
-d'aquelle beijo?!</p>
-
-<p>João de Mattos, varão justo, que tinhas no tom e no gesto a
-modulação e a postura do propheta, as tuas palavras esculpiram-se no
-espirito de Alvaro; mas o coração não fora chamado a jurar nas
-promessas do espirito!</p>
-
-<p>Venceste, Leonor, venceste!... Uma victoria só te falta: olha se
-rebellas o filho submisso contra a vontade da mãe; espedaça os liames,
-que prendem essas duas almas; e então levarás a rojo da tua astucia os
-mais sagrados deveres do coração.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XII</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Como se é criança!... como se é<br />
-criança!</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">GOETHE (Werther).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente
-a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia
-admirada, a vêr se surprehendia o coração do filho. Mallogrados estes
-meios, foi em direitura à chaga suspeita, e descobriu-a.</p>
-
-<p>&mdash;O teu sofrimento são saudades de tua prima, Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Eu não posso mentir a minha mãe...</p>
-
-<p>&mdash;São?&mdash;interrompeu Maria.</p>
-
-<p>&mdash;Saudades, e duvidas que me atormentam.</p>
-
-<p>&mdash;Que duvidas? se te ama?</p>
-
-<p>&mdash;Penso que temos sido injustos com ella, minha mãe...</p>
-
-<p>&mdash;Diz-me o que te faz assim pensar, Alvaro.</p>
-
-<p>Não se fez rogar o moço: contou a scena das «memorias da infancia» e
-mostrou o acrescentamento escripto da mão de Leonor. Maria leu, sorriu,
-e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Tanta palavra! tanta palavra!... Crês isto, filho?</p>
-
-<p>&mdash;Diga-me a minha mãe se não devo acreditar.</p>
-
-<p>&mdash;Não deves. Vai ao convento das commendadeiras e pergunta o que
-fez alli tua prima, durante oito mezes.</p>
-
-<p>&mdash;Minha prima esteve no convento das commendadeiras!?</p>
-
-<p>Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta,
-recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a
-predispunha contra o enlace de seu filho e uma <i>douda furiosa</i>, dizia
-a carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor,
-desde a entrada e tentativa de fuga, até ás contorsões de possessa
-que a fizeram suppôr demente.</p>
-
-<p>Alvaro dobrou a carta, e encostou a fronte á mão para esconder de sua
-mãe as lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;Crês no arrependimento de Leonor?&mdash;continuou a mãe serena e
-affavel&mdash;É possível; mas o segredo que teu tio escondeu de nós, e o
-ar de candura com que ella se tem offerecido á nossa estima, qual
-provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se,
-confessando-se. Estas palavras são uma hypocrisia, e o beijo d'essa
-menina é...</p>
-
-<p>Maria da Gloria susteve a palavra que era a própria, e córou-a
-assim:</p>
-
-<p>&mdash;É uma liberdade que deve magoar um coração delicado como o teu.</p>
-
-<p>Seguiram-se alguns segundos de silencio, e, após elles, Maria continuou
-com vehemencia e magestade:</p>
-
-<p>&mdash;Alvaro! tu és um homem. A tua dor é questão mais de honra que de
-coração. Eu tenho ciumes dos bons sentimentos da tua alma, e, por
-vontade minha, hei-de cedel-a unicamente a quem te chamar «esposo» com
-o extremoso amor com que te eu chamo «filho». Se Deus não quer que as
-minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor.
-Não te lanço da minha alma; mas não contarei mais com a tua. A minha
-vida não alcançará a tua desgraça. Morrerei a tempo de ir pedir a
-Deus que te dê forças para ella.</p>
-
-<p>Alvaro ergueu-se de golpe, e apertou nos braços a mãe lavada em
-lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;Não me falle assim, minha mãe!&mdash;exclamou elle&mdash;Perdeu a
-confiança no poder da sua vontade?! Eu não lhe disse que casava com Leonor,
-nem mesmo lhe disse que a amava com paixão... Deixe-me ser para ella o que
-minha mãe uma vez me disse que eu fosse:&mdash;amigo d'ella, quando a visse
-desgraçada...</p>
-
-<p>&mdash;Seja assim, filho!&mdash;disse Maria com desafogo e
-alegria&mdash;seja assim, converte em sentimentos de bom irmão esse
-amor, cuja profundeza tu não sabes sondar ainda... Ainda mais te cede a
-tua boa mãe... Escuta, meu querido Alvaro... Fazes-me a vontade?...
-Olha... estuda dous annos o caracter de Leonor, espera-lhe o
-desenvolvimento que ella ha-de ter n'este praso; e, se, decorridos dous
-annos, a vires igual, toda absorvida na esperança de ser tua, e tão
-amante como virtuosa, dá-m'a como filha, e eu do amor que te tenho
-farei um segundo coração para lhe dar a ella.</p>
-
-<p>Desanuviou-se por momentos a fronte do moço; mas a tempestade lá
-estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a
-banca, e contra a exactidão d'aquella historia é que o praso do estudo
-não podia prevalecer.</p>
-
-<p>Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar
-seu sobrinho para festejar os vinte annos de Leonor. Não trocaram
-palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou
-differença.</p>
-
-<p>Alvaro é que notou magreza e pallidez no rosto da prima. A natureza tem
-ás vezes a caprichosa benevolencia de entrar n'estas comedias humanas.
-Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto
-das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de
-certo é, não ter parte o espirito nas contingencias do ar
-atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de
-poetas, e amantes, mesmo sem poesia, é tão phantasiosa, que quer ver,
-nas desfigurações do rosto macerado, o desfibrar-se o coração a si
-mesmo com as presas da sua propria paixão.</p>
-
-<p>Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco
-d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira?
-Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento
-e as do amor sem esperança. Se, porém, ia no exordio d'uma falla
-carinhosa, assalteavam-lhe a lembrança as palavras d'aquella carta da
-commendadeira, e o coração retrahia-se-lhe sobre si, como se o sangue
-congelasse subito.</p>
-
-<p>Estavam sósinhos na janella de uma saleta. Leonor apoiara a testa na
-mão e o braço no peitoril. Alvaro tinha os olhos no céo estrellado, e
-ouvidos e coração banhados das ondas de harmonia que vinham das salas.</p>
-
-<p>&mdash;Por que me não amas tu?!&mdash;disse Leonor encarando
-repentinamente no primo.</p>
-
-<p>&mdash;Que fizeste tu no convento das commendadeiras,
-Leonor?&mdash;respondeu serenamente Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Expiei um desvario do espirito em que o coração não tinha parte
-alguma; obedeci á fatalidade, e abrandei-a com as agonias que padeci.
-Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta
-educação que me deram. Paguei amargamente a culpa de perder minha mãe
-aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras,
-Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta,
-responde-lhe pela minha bôca.</p>
-
-<p>Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:</p>
-
-<p>&mdash;Tu não amavas aquelle homem, Leonor?</p>
-
-<p>&mdash;Não o amava; via n'elle a minha desgraça; obedecia-lhe á
-fascinação; sentia de antemão o prazer de me sentir despedaçar na
-queda ao meu abysmo. Poupa-me, Alvaro; não festejes assim os meus
-annos. Tenho vinte; e, se podesses vêr a minha alma, tão extenuada,
-tão envelhecida, chorarias, e dirias ás <i>virtuosas</i> do convento que o
-seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem
-chora... Vamos para a sala, que é tempo.</p>
-
-<p>Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma
-estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois,
-áquella janella, quando o eu contemplava na outra das ruinas. Era
-alli!... que tristeza para quem tiver de Deus ou da desgraça o condão
-de compadecer-se nas dores alheias!</p>
-
-<p>«Não serão precisos dous annos para te estudar o lento supplicio da
-tua purificação, minha pobre Leonor!» Isto dizia Alvaro em si, quando
-Sebastião de Brito o chamou para pedir á inflexivel Leonor que
-dançasse um minuete da corte. Alvaro pediu, e foi obedecido com um ar
-de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se
-junto á prima, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Amas minha mãe, Leonor?</p>
-
-<p>&mdash;Affiz-me a julgai-a tambem minha: queria poder... e cuidei que
-devia chamar-lhe mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Has-de chamar, Leonor... Por que não vaes vêl-a?! por que lhe não
-contas esses desgraçados desvarios, que se deram durante a nossa
-ausencia?!</p>
-
-<p>&mdash;Quiz contar-lh'os, antes que a sociedade lh'os dissesse; mas a
-minha confissão devia ser do coração, e esse não tinha que confessar, e,
-se tivesse, só a ti se confessaria. Além de que, tua mãe deve ter
-vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.</p>
-
-<p>&mdash;A mãe não tem vaidade da sua virtude, prima!&mdash;redarguiu
-mansamente Alvaro&mdash;Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que
-tu o conseguirás, se quizeres. Vai ámanhã vêr-nos, conversa muito com
-ella, e não te molestes, se a vires menos risonha que de seu costume,
-não?</p>
-
-<p>&mdash;Irei lá ámanhã; mas não me peças o supplicio de relatar
-extravagancias, que me envergonham. Sei que tua mãe m'as perdoaria aos
-meus annos; sei-o porque ella é boa, e padeceu. Os felizes é que não
-perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de
-mais...&mdash;continuou ella passando da brandura á irritação&mdash;Que
-crime foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva
-envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?</p>
-
-<p>Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de
-sua prima. Era o natural colerico de Leonor superando os empeços do
-artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina
-estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os
-espartilhos. Este accesso durou minutos, e tamanha força teve com ella
-que a obrigou a ir raivar sósinha no seu quarto, em quanto Alvaro,
-procurando o tio lhe dizia que a prima Leonor sahira de ao pé d'elle
-incommodada.</p>
-
-<p>Voltou já outra, depois de meia hora, e explicou o accidente com dores
-de peito causadas pela compressão do collete.</p>
-
-<p>Alvaro contou na manhã do dia seguinte estes acontecimentos a sua mãe,
-sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.</p>
-
-<p>Maria da Gloria respondeu a tudo n'estes termos breves e sêccos:</p>
-
-<p>&mdash;Muito bem, meu filho. Principiaste os teus estudos: continua-os.
-Tens dous annos, e vagar para estudal-a.</p>
-
-<p>Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis
-desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava
-conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na
-incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo
-as sabidas inconvenientes da natureza; e os reparos do moço
-desvaneciam-se. N'este longo intervallo, Sebastião de Brito fallou á
-cunhada na realisação do casamento, e esta decidiu-se pela vontade de
-seu filho: tão segura estava da palavra d'elle. O morgado, porém,
-infatigavel em desbaratar a casa, e forçado não tanto pelos credores
-como pela vocação do desperdicio, pediu dinheiro avultado á viuva, e
-obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a
-Leonor.</p>
-
-<p>Em Março de 1832, foi Maria da Gloria com seu filho e Leonor a Vairão
-visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre
-a sepultura de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, e apresentar á
-prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por
-tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.</p>
-
-<p>Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de
-poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira,
-d'onde o duque de Bragança brevemente sahiria com uma expedição para
-desembarcar em Portugal. Alvaro, durante a narrativa, não desfitou os
-olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia.
-Interrogou-a particularmente, e recebeu como explicação uma casquinada
-de riso, com que o seu coração, absurdo como todos, se deu por
-satisfeito.</p>
-
-<p>De volta de Vairão, dous mezes depois, Leonor e Alvaro subiram á
-collina dos arvoredos dos Olivaes, onde estão aquelles escabellos de
-pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um
-álamo para plantar, e, segundo elle, essa arvore era o symbolo da
-alliança eterna. Mal escolhida arvore, cuja folhagem tão movediça é!
-N'outro já mais entroncado talhou elle as duas letras: <i>L. A.</i> e dos
-sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as
-deixou pendentes dos braços tenros da arvore.</p>
-
-<p>Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e
-coração. Chorou, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Quem me déra ser feliz, meu Deus!</p>
-
-<p>Nunca da consciencia e coração de mulher sahiu tão sincero grito! Se
-ha fatalidade, era aquelle presentimento da desgraça que lhe fazia
-tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo
-sacratissima poesia, pacto do coração confirmado por Deus, e uma festa
-de anjos celebrada com a innocencia da mais santa fé e esperança.</p>
-
-<p>&mdash;Pois não és tu feliz, Leonor!?&mdash;exclamou o apaixonado moço,
-apertando ao seio a incomprehensivel mulher.</p>
-
-<p>&mdash;Sou feliz, sou, primo... Tenho momentos de louca, de perdida...
-Nem sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse
-desejar a morte...</p>
-
-<p>&mdash;A morte!...&mdash;atalhou com espanto Alvaro&mdash;E eu a amar-te
-tanto, e a não pensar senão na vida, na felicidade d'este mundo, em que eu
-creio como nas palavras de minha mãe...</p>
-
-<p>Leonor não replicou: tomou-lhe o braço, e desceu para o palacete, onde
-os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.</p>
-
-<p>Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena
-do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Já lá vão dezenove mezes de estudo, e parece que não estudastes
-ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os
-olhos... Foi o que eu pedi á alma da santa de Vairão, e descancei na
-efficacia da supplica. Has-de vêr Leonor como eu te vejo a ti Alvaro.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XIII</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;">«<i>Adeus!»... palavra fatal!</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">BYRON (O Corsario).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Um mez ao certo, depois da plantação do alamo symbolico de eterna
-alliança, e do entalhe das iniciaes, desembarcou no Mindelo a
-annunciada expedição do duque de Bragança. Miguel de Sotto-Mayor era
-um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e
-linhagem para occupar entre os homens de porte uma apreciação
-distincta, sendo que o facto do exilio por amor á legitimidade, depois
-dos carceres de S. Julião, lhe bastaria a merecel-a.</p>
-
-<p>Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca
-chegariam ás mãos de Leonor, se as escrevesse. Apenas saltou em
-Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um
-caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso
-ella estivesse fóra do convento. O enviado devia aventurar-se a entrar
-em Lisboa, e levar-lhe a nova ás commendadeiras. O habil confidente
-pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira
-desembarcar o exercito, e conseguiu entrar á presença do morgado e de
-sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e
-agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala
-gesticulando, o hospede, que o applaudia, deixou cahir no regaço de
-Leonor a carta, e pronunciou subtilmente a palavra <i>Sotto-Mayor.</i></p>
-
-<p>A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada
-alegria e convulsões de louca.</p>
-
-<p>Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua
-esperançosa posição e dos grandes destinos a que o chamavam os seus
-talentos. Se não era modesto, seria injusto acoimal-o de visionario.
-Capacidades somenos o igualavam no immoderado das ambições, e lograram
-realisal-as muito além do escopo em que punham o fito. Dizia, porém;
-elle que renunciava á gloria, se Leonor a não quinhoasse com elle, e
-que poria o peito ás primeiras balas dos inimigos, se a encontrasse
-infiel aos juramentos.</p>
-
-<p>Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu
-coração tinha gemido até aquella hora. Louvava-se da sua constancia,
-attribuindo-a mais á dôce fatalidade que os aproximava, do que ás
-debeis forças de mulher. Pedia-lhe que a salvasse sem demora dos
-últimos assaltos do amor do primo e da ambição do pae. Sujeitava-se
-a fugir para o Porto, com qualquer pessoa da confiança de Sotto-Mayor,
-e ser sua esposa lá, como da alma o era desde a primeira vez que o
-vira.</p>
-
-<p>O portador da nova, sem o menor empeço, entrou no Porto, e sahiu dias
-depois a nova commissão para os Olivaes, onde a anciedade de Leonor
-alongava as horas interminaveis. A resposta correspondeu á ancia. Na
-sahida da aldêa estavam as cavalgaduras, tomadas em povoação fóra da
-estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta,
-e planeara o momento da fuga.</p>
-
-<p>Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.</p>
-
-<p>Alvaro Teixeira e sua mãe sahiram de Lisboa n'uma tarde de muita calma,
-e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem
-Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um
-casal, que não via desde que fora enclausurada.</p>
-
-<p>A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o
-morgado, se a cunhada não viesse, iria para Lisboa, curioso de saber se
-os rebeldes tinham sido espingardeados no Porto. Como, porém, Alvaro
-dissesse que se movia o exercito em direcção á cidade heroica,
-Sebastião de Brito esfregou as mãos, e disse que os malhados áquella
-hora de certo já tinham embarcado para salvarem as orelhas. Leonor
-intimidou-se, mas o seu brilhante futuro não lh'o empanou sequer uma
-sombra de desistencia.</p>
-
-<p>Ás onze horas, disse-lhe Alvaro:</p>
-
-<p>&mdash;Vamos ao lago, Leonor? Vejo-o d'aqui tão lindo e prateado pela
-lua!...</p>
-
-<p>&mdash;Vamos&mdash;respondeu ella após curta hesitação.</p>
-
-<p>E Alvaro replicou:</p>
-
-<p>&mdash;Parece que não vaes de vontade!</p>
-
-<p>&mdash;Vou; mas deixa-me ir buscar um chale, que estou levemente
-constipada.</p>
-
-<p>&mdash;Então não vamos, não, minha prima... Eu não sabia...</p>
-
-<p>&mdash;Havemos de ir...&mdash;tornou ella&mdash;Espera um pouco...</p>
-
-<p>Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era
-franjada de festões curvados e espelhados na agua morta e limpida.
-Entre os arbustos relampejavam os vaga-lumes, e á flôr da agua
-saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A
-espaços, resaltavam os escallos á tona, e abriam muitos circulos e em
-cada circulo uma zona de prata.</p>
-
-<p>&mdash;É dizem que não ha felicidade n'este mundo?...&mdash;murmurou
-Alvaro, tomando nas suas as mãos de Leonor&mdash;Que é isto que eu sinto, e
-tu deves sentir agora!...</p>
-
-<p>Leonor não respondeu, e Alvaro proseguiu:</p>
-
-<p>&mdash;Estás em extasis diante d'este formoso quadro, prima? Tens razão!
-Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...</p>
-
-<p>&mdash;Isto é bello!...&mdash;disse Leonor machinalmente, e ouviu, ou
-não ouviu o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que
-nunca eloquente; e amante.</p>
-
-<p>Soaram os tres quartos depois das onze.</p>
-
-<p>&mdash;Ó primo, disse Leonor inquieta, vaes tu buscar-me a minha capa de
-capuz?</p>
-
-<p>&mdash;Vou; mas tens frio?</p>
-
-<p>&mdash;Receio têl-o e não quero sahir d'aqui...</p>
-
-<p>&mdash;É melhor irmos, vamos, prima...</p>
-
-<p>&mdash;Não vamos: vai buscar a minha capa, sim?</p>
-
-<p>Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor
-correu ao longo d'uma alea de acacias em direcção opposta. Da extrema
-d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da
-abertura d'um aqueducto uma pequena caixa, e um chapéu de velludo
-emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena
-janella de umas poucas eminentes á estrada, e saltou, auxiliada por um
-homem que a esperava, e a quem entregou o cofre das joias de sua mãe. A
-poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada
-fugida.</p>
-
-<p>Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores
-cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha
-Leonor; e, como o primo não respondesse para ganhar tempo, vieram
-depós elle Sebastião de Brito, Cecilia, e Maria da Gloria.</p>
-
-<p>Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.</p>
-
-<p>&mdash;Onde está ella!?&mdash;perguntou o pae&mdash;Falla, Leonor, não
-andes a fazer fosquinhas!...</p>
-
-<p>&mdash;O local é proprio para jogar as escondidas...&mdash;acrescentou
-Maria da Gloria.</p>
-
-<p>&mdash;Eu vou dar com ella&mdash;tornou o morgado, batendo os
-caramanchões, e dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.</p>
-
-<p>N'isto demoraram alguns minutos, até que Alvaro disse:</p>
-
-<p>&mdash;Leonor já não está aqui.</p>
-
-<p>&mdash;Pois onde ha-de estar? essa é boa?&mdash;replicou o tio. Vamos
-dar com ella no laranjal.</p>
-
-<p>E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e
-viram aberta uma janella.</p>
-
-<p>&mdash;Aquella janella aberta!&mdash;disse Sebastião de Brito.</p>
-
-<p>&mdash;Foi por alli que ella sahiu&mdash;ajuntou Alvaro; mas a ultima
-palavra proferiu-a tão afogada, como se fosse a ultima da sua vida.</p>
-
-<p>O morgado debruçou-se no peitoril da janella, e viu um lenço branco.
-Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna
-esquerda conteve-o em contemplação arquejante. Chamou a altos brados
-os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto
-Maria da Gloria e Cecilia perguntando ambas por Alvaro. O morgado não
-lhes respondeu, de açodado que ia, caminho de casa. Correram o pomar, e
-acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno.
-Pôz-lhe a mão na testa a mãe, e sentiu-a fria de marmore, tirou por
-elle para o seio, e dissereis que a estatua cahia hirta e inteiriça,
-impulsada pelos braços de Maria da Gloria.</p>
-
-<p>&mdash;A maldita de Deus matar-te-ia, meu caro filho&mdash;exclamou
-a mãe.</p>
-
-<p>Alvaro desligou-se dos braços de ambas, pediu que o deixassem, e
-sentou-se, escondendo nas mãos a face.</p>
-
-<p>&mdash;Por que não ergues as mãos a Deus, Alvaro?&mdash;tornou Maria da
-Gloria&mdash;Vês agora o abysmo de que tua mãe te queria salvar?</p>
-
-<p>&mdash;Não me falle, minha mãe&mdash;disse Alvaro com energia&mdash;A
-que vem Deus aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.</p>
-
-<p>Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de
-Vairão, e pediu a Cecilia que orasse com ella. Eram passados minutos,
-quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de
-passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para
-a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a
-Cecilia que mandasse pôr a parelha á carruagem. Alvaro ouvindo esta
-ordem, ergueu-se, e disse chorando:</p>
-
-<p>&mdash;Tenho ainda minha mãe... Bemdito seja Deus!...</p>
-
-<p>Maria, abraçando-o com transporte, exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;E que coração de mãe tu tens aqui, meu querido filho!... Não
-morrerás, não, Alvaro?</p>
-
-<p>&mdash;Morrer!... Não se morre assim, minha amiga... Os seus onze annos
-de martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha
-mãe...</p>
-
-<p>Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns
-instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e
-articulou:</p>
-
-<p>&mdash;Adeus!...</p>
-
-<p>Depois, fitou os olhos em sua mãe, e acrescentou:</p>
-
-<p>&mdash;Ora veja que mocidade a minha!... Estou no principio da vida!...</p>
-
-<p>Não lhe respondeu a mãe: os soluços cortavam-lhe a palavra. A
-carruagem veio tomal-os no pateo. Sebastião de Brito acudiu á
-portinhola perguntando se o deixavam sósinho com a sua afflicção:
-Maria disse lhe que não havia alli ninguem que podesse consolal-o.</p>
-
-<p>O cavalleiro, que seguiu estrada do Porto, só de madrugada encontrou
-almocreves que não tinham visto senhora alguma. No decurso de algumas
-leguas nenhum viandante lhe deu melhores noticias. Retrocedeu á noite,
-ignorando que as pessoas, que fogem, só aproveitam o melhor caminho,
-quando não tem o peor atalho. Ora o confidente de Miguel de Sotto-Mayor
-tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por
-povoações menos praticadas até Coimbra. D'ahi passou a Aveiro onde
-tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a
-esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius,
-defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.</p>
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do
-entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus
-camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara
-foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua
-consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno.
-Miguel não daria grande valor sacramental ao acto mas entendeu que
-pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.</p>
-
-<p>Não direi que a apaixonada e viril senhora seguisse o esposo ás
-trincheiras, ou fizesse ondear as plumas do seu chapéo ao sopro das
-batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas
-vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta
-seriedade de espirito como escreviam a «Harpa do Crente» ou «O Arco
-de Sant'Anna.» O fidalgo de Villa do Conde, oferecendo os seus talentos
-especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle
-grande apparelho de guerra; e, tão acrisolado foi nas funcções do
-espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande
-fama de prudente. Os bravos, que o viam com mulher tão bella,
-achavam-lhe racional o medo, e diziam que por tal preço todos
-aceitariam o estigma de cobardes. Os assustadiços cogitavam na traça
-de salvarem as immunidades pessoaes, á sombra de tão bella egide, sem
-damno da sua reputação patriotica. Os casamentos, porém, eram
-difficeis n'aquella época, e o imperador costumava dizer que a namorada
-dos valentes era sua filha.</p>
-
-<p>Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel
-de Sotto-Mayor, com quanto não assistisse á victoria de Cacilhas, foi
-um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou
-noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do
-Além-Tejo, logo que a tropa liberal estanceou em Leiria. Escreveu ella
-a seu pae, em termos que os não diria mais amaveis uma boa filha.
-Convidava-o a aceitar a validissima protecção de seu marido, e
-recolher-se a Lisboa, sem temor de desfeita, ou desforço de antigos
-odios politicos.</p>
-
-<p>Sebastião de Brito era um tolo com uma boa alma, amigo extremoso de si
-mesmo, apegado á vida por muitos, posto que apodrentados liames do
-coração, e namorado ainda de algumas velhas matronas da corte, que
-tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros
-invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas,
-pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.</p>
-
-<p>Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que
-invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua
-gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e
-rematou pedindo-lhe novas de seu primo.</p>
-
-<p>&mdash;Nunca mais o vi&mdash;disse elle&mdash;consta-me, porém, que vive
-muito triste, e que passa a maior parte do tempo com a mãe no valle de
-Santarem. Pobre rapaz!...</p>
-
-<p>&mdash;Mas não morreu!&mdash;acudiu Leonor.&mdash;Todas as paixões assim
-são, meu pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino
-para se inundar a um homem, cuidando que o matará, se não renunciar á
-vida, ao coração, á gloria, e ás imperiosas exigencias da sua
-indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo,
-não reconhece o sacrificio, nem se julga devedor da abnegação da
-martyr. E o que me estava reservado com meu primo, cujo genio é
-perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher
-muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa
-que não tem tempo de calcular quantos contos de reis necessita para
-comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no
-coração; mas estas duas dores, quando se juntam, lá se curam uma á
-outra. Ora aqui tem, meu pae!</p>
-
-<p>&mdash;Parece-me que tens razão, filha...&mdash;disse Sebastião de
-Brito, tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao
-escarlate.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XIV</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;">... <i>Que direz vous de l'indigence?</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">MONTAIGNE (Essais.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as
-herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens
-livres não valiam as hypothecas, e os vinculados não se remiriam com
-os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a
-juizo. Miguel de Sotto-Mayor disse a sua mulher: «olha que não tens
-nada; teu pae não tem um tecto que o cubra se os credores lh'o não
-quizerem dar por caridade.»</p>
-
-<p>Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Meu pae não acceita esmolas de ninguem, nem tuas.</p>
-
-<p>O marido achou bonita a reflexão; mas accrescentou que a verdade era
-aquella.</p>
-
-<p>Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde
-tinham sido grandemente rebatidos no espaço de dous annos de
-emigração. Feridos de morte já elles estavam quando o fidalgo foi aos
-Olivaes procurar o balsamo que tão escasso lá era. Os arrendatarios da
-terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos,
-descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do
-vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.</p>
-
-<p>Isto, vertido á lettra, quer dizer que Leonor podia replicar assim ao
-seu marido: «Olha que não tens nada. Não tens um tecto, que te cubra,
-se os credores t'o não quizerem dar por caridade.»</p>
-
-<p>Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e
-ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no
-Além-Tejo. Breve tempo exerceu o lugar: minguavam-lhe paciencia,
-habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa,
-requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no
-livro da secretaria.</p>
-
-<p>N'este tempo conjuravam os credores na total ruina de Sebastião de
-Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens
-livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um
-palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos,
-e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o
-bastardo, solteiro ainda, não cuidava em saldar contas com seu irmão
-por um enlace matrimonial dos filhos ambos.</p>
-
-<p>Os homens, que parece gozarem-se em coadjuvar a má fortuna empurrando
-ao abysmo os que para lá pedem, não queriam que Sebastião de Brito
-podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a
-senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho,
-respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;Quem castiga é Deus.</p>
-
-<p>O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob
-condição de ficarem n'elle como inquilinos por tempo de tres annos os
-devedores. A mobilia contheuda foi tambem penhorada, e Sebastião de
-Brito depositario d'ella.</p>
-
-<p>N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da
-inquietação ao desespero. Leonor tragava as impaciencias do marido, e
-enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a
-familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.</p>
-
-<p>Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo
-anjo do castigo os está contemplando com formidavel silencio. Miguel
-tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e
-desbotado de sua mulher. Leonor tem no jardim uns caramanchões, que a
-escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso
-d'aquelles caramanchões estão os bancos rusticos em que Alvaro se
-assentava. Alli á beira do lago está o escabello de cortiça em que
-ella ficara sentada, quando Alvaro foi buscar a capa. Por que não
-creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor
-está chorando!?</p>
-
-<p>Ahi estava sósinha ao entardecer, quando uma sege entrou no pateo.</p>
-
-<p>Leonor admirou-se: já ninguem a visitava de carruagem. A nova criada
-não conhecia as relações antigas. Disse-lhe que a procurava uma
-mulher, que não tinha geito de senhora.</p>
-
-<p>&mdash;Isso me quiz parecer...&mdash;disse Leonor entre si&mdash;mas de
-carruagem!... Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem...</p>
-
-<p>&mdash;O boleeiro traz libré&mdash;disse a criada.</p>
-
-<p>&mdash;Libré!&mdash;murmurou Leonor&mdash;Então enganei-me...</p>
-
-<p>Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.</p>
-
-<p>Fitou com espanto a sobrinha de sua ama, e pediu-lhe licença para a
-abraçar!</p>
-
-<p>&mdash;Abraça-me, Eufemia! e deixa-me chorar no teu seio, que não tenho
-mais ninguem!&mdash;disse a soluçar Leonor.</p>
-
-<p>&mdash;Está muito infeliz, minha senhora?!&mdash;perguntou Eufemia.</p>
-
-<p>&mdash;Estou pobre: escusas de perguntar-me mais nada. E minha tia vive
-feliz?</p>
-
-<p>&mdash;Feliz, não! Com aquelle filho sempre triste, como ha-de ella ser
-feliz!... Pobre menina! Quem a viu e quem a vê! Era tão linda!...</p>
-
-<p>&mdash;E achas-me feia, Eufemia?!&mdash;perguntou Leonor com um triste
-sorriso, expressão talvez da vaidade ferida, da vaidade, extremo reducto em
-que a mulher, que foi bella, ainda affronta a desgraça.</p>
-
-<p>&mdash;Feia, não, minha querida senhora... Acho-a mais magrinha, e sem
-aquellas côres de roman, que pareciam dar saude á gente... Em fim, é
-conformar-se com a vontade de Deus, e pedir á Virgem Maria que dê
-saude a sua tia, que é uma santa. De mando d'ella é que eu vim aqui
-trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos
-mezes, cá venho trazer-lhe outra assim.</p>
-
-<p>Eufemia depositou sobre uma mesa um rôlo de dinheiro.</p>
-
-<p>&mdash;Dirás a minha boa tia&mdash;disse Leonor com as lagrimas
-estancadas nas palpebras&mdash;que a pobre Leonor acceita a sua esmola,
-e lh'a agradece com este pranto que vês.</p>
-
-<p>Eufemia pediu nova licença para abraçal-a, e disse-lhe por ultimo:</p>
-
-<p>&mdash;D'hora a hora Deus melhora, minha menina. Lembre-se que sua tia
-padeceu onze annos...</p>
-
-<p>&mdash;Minha tia era um anjo de innocencia, e eu estou expiando culpas
-enormes: ella consolava-se com a mesma injustiça, eu sinto que mereço
-o castigo.</p>
-
-<p>Eufemia deu conta da sua commissão a Maria da Gloria, e retirou-se
-quando Alvaro entrava.</p>
-
-<p>&mdash;Olha que está muito infeliz a pobre Leonor!&mdash;disse a
-mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Não lh'o tinha eu dito?! Acceitou?</p>
-
-<p>&mdash;Acceitou, e agradeceu com lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;Deve de estar muito quebrado aquelle genio pela
-desgraça!&mdash;tornou Alvaro&mdash;Acceitou a esmola!... Pobre mulher!...
-Deve estar mudada tambem de rosto...</p>
-
-<p>&mdash;Diz a Eufemia que muito, e até trajada com pouco aceio.</p>
-
-<p>&mdash;Perguntaria por mim?</p>
-
-<p>&mdash;Não sei, filho... Eu presumo que não teria força para tanto!...
-Fiz-te a vontade, Alvaro?</p>
-
-<p>&mdash;E a sua vontade, minha mãe, não era soccorrer tambem a
-infeliz?</p>
-
-<p>&mdash;Era, era, meu filho...</p>
-
-<p>&mdash;Pois não se esqueça de lhe mandar todos os mezes o que a mãe
-julgar necessario á decencia d'ella.</p>
-
-<p>&mdash;Mas tu não pensaste ainda na parte que o marido ha-de tomar
-n'este soccorro?</p>
-
-<p>&mdash;Que importa, minha mãe? O nosso fim é melhorar a situação de
-minha prima, e só o podemos conseguir melhorando a situação de ambos.</p>
-
-<p>&mdash;Esperava essa resposta: a tua generosidade, Alvaro, é
-desinteressada, e nobre. Vejo que não pode nada comtigo o ciume...</p>
-
-<p>&mdash;Não, minha mãe&mdash;disse Alvaro n'um falso tom de verdade,
-movimento de feições que não enganaria olhos e ouvidos mais amestrados.</p>
-
-<p>&mdash;Assim é que eu entendo a virtude&mdash;continuou Maria da
-Gloria&mdash;são estas as joias de puro ouro que trazem do céo o
-signal da sua valia. Se te deixasses levar d'um calculo, o mesmo seria
-lançares á balança das culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da
-antiga Leonor o que resta para ti é a mulher desgraçada, não é
-assim?</p>
-
-<p>&mdash;De certo... Que mais pode restar?!...</p>
-
-<p>&mdash;Mais nada... O Senhor te abençoe o coração, e t'o encha de
-alegria e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem
-orgulho das boas acções.</p>
-
-<p>Alvaro, logo que pôde estar sósinho com Eufemia, perguntou:</p>
-
-<p>&mdash;Minha prima não lhe perguntou por mim?</p>
-
-<p>&mdash;Não, meu senhor.</p>
-
-<p>&mdash;E Eufemia proferiu o meu nome?</p>
-
-<p>&mdash;Sim, senhor, disse-lhe que o menino andava sempre triste... e
-ella... ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa.</p>
-
-<p>&mdash;Mas ficou pensativa? e viu-lhe lagrimas?</p>
-
-<p>&mdash;Ora, se vi!... quando lhe dei o dinheiro, as lagrimas
-rebentavam-lhe dos olhos como punhos.</p>
-
-<p>&mdash;Mas a Eufemia não lhe disse que eu sabia d'estas cousas de minha
-mãe?...</p>
-
-<p>&mdash;Nada, não disse, porque o menino e a mãesinha assim m'o
-ordenaram.</p>
-
-<p>&mdash;Fez bem, e nunca lh'o diga, e escusa de dizer a minha mãe que lhe
-fiz estas perguntas.</p>
-
-<p>&mdash;Não digo, esteja o meu filho descançado.</p>
-
-<p>&mdash;Olhe, Eufemia... Leonor está muito acabada?</p>
-
-<p>&mdash;Se está! nem parece ella! lembra-se d'aquellas rosas que ella
-tinha no rosto? Nem signal d'ellas! Está muito magrinha, e tem á volta dos
-olhos umas pisaduras que parecem de tisica...</p>
-
-<p>Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma
-saudade tão triste que, se a mãe as visse, cuidaria que seu filho
-amava Leonor.</p>
-
-<p>Aqui vai trasladado um fragmento:</p>
-
-<p>«Que sentes, que recordas tu hoje, ó desventurada, quando a minha
-imagem te contempla? Perguntarás a ti mesma o que fizeste de tua
-belleza, e o que serás ámanhã aos olhos d'esse homem que te encravou
-na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias
-dôres, te arrancaria, se podesse!? Ó Leonor, que supplicio tu mesma
-escolheste! Por que não foges d'ahi onde estão as flôres da nossa
-infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e
-aquellas arvores da collina!? Foi o teu demonio que te acorrentou á
-sepultura onde enterraste o meu pobre coração!?</p>
-
-<p>«Eu não sou mais feliz que tu, Leonor! O tedio da existencia é a
-maior das tribulações. Tu desejas, talvez, a antiga felicidade, e
-gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do
-passado, é um novo trago de peçonha, que bebo das tuas mãos.»</p>
-
-<p>Quer-me parecer que ha ahi expressões indicativas d'um sentimento que
-não é desprezo, nem sequer desamor. Sem medo de errar, affirmo que só
-a amisade, paixão muito mais entranhada que o amor, poderia exprimir-se
-assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a
-amisade: que monta isso? quero-me até ao fim com o paradoxo; e terei
-sempre em cousa de pouco o amor, que não enraizou na fibra mais nobre
-do coração: esta, a meu ver, é a que se diz «amisade» e nada se me
-dá que a lingua humana por ahi traga a palavra envilecida nos
-enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia
-infamam aquelle divino dom da alma humana.</p>
-
-<p>Por me não distrahir em dilações impertinentes, irei aos Olivaes.</p>
-
-<p>Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou
-Leonor a pé.</p>
-
-<p>&mdash;Esperei-te&mdash;disse ella&mdash;para te contar que minha tia me
-remetteu este dinheiro, e a promessa de me dar uma mezada. A nossa posição
-melhora, e o teu espirito, se me não engano, está livre das afflicções da
-desfortuna domestica.</p>
-
-<p>&mdash;Sendo assim, de certo!...&mdash;disse Sotto-Mayor com
-alegria&mdash;Bem sabes que felicidade e pobreza não se compadecem.
-Quem teve muito e aspirou a mais, por grande que tenha o coração,
-esmorece ante o aspecto da miseria. Eu espero a independencia, quando
-entrarem no ministerio outros homens; e não me pejo de acceitar de tua
-tia este dinheiro como emprestimo.</p>
-
-<p>&mdash;Agora, outra cousa&mdash;proseguiu Leonor&mdash;Que fazes tu fóra
-de casa até estas horas, Miguel?</p>
-
-<p>&mdash;Que faço!? divago sem destino, fatigo o corpo e alma: são
-exigências do soffrimento, minha Leonor.</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem&mdash;replicou ella entre ironica e meiga&mdash;agora
-que o soffrimento deve ser menos exigente, vive mais commigo.</p>
-
-<p>&mdash;Viverei, filha, e compensar-te-hei dos dissabores que te dei
-involuntarios.</p>
-
-<p>Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os
-criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o
-que existia, para uso da carruagem; sacudiam-se as librés do pó de
-quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas
-parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o
-proprio Sebastião de Brito voltou á casa de seus avós, com os
-cabellos cada vez mais variegados de côr do barro e azeviche. Trezentos
-mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte
-para satisfazer as necessidades do luxo.</p>
-
-<p>Maria da Gloria disse uma vez ao filho:</p>
-
-<p>&mdash;Tua prima não aprendeu nada no infortunio.</p>
-
-<p>&mdash;Por que, minha mãe?</p>
-
-<p>&mdash;Não a vês toda embebida em pompas, e visitas, e jantares?</p>
-
-<p>&mdash;E será ella feliz?</p>
-
-<p>&mdash;Parece que é.</p>
-
-<p>&mdash;Pois é esse o fim para que minha mãe lhe dá dos seus sobejos.
-Desgraçada era ella antes dos seus soccorros.</p>
-
-<p>&mdash;Mas eu achava acertado que Leonor não gastasse em frivolidades o
-que recebe de esmola.</p>
-
-<p>&mdash;Não digamos <i>esmola</i>, minha mãe: a palavra é humilhante...
-Leonor é sua sobrinha; e meu pae daria tudo para não vêr em miseria aquella
-familia. Deixai-os ser felizes, que, por mais que o sejam, não nos
-roubam o nosso quinhão de felicidade que é o melhor.</p>
-
-<p>&mdash;Que alma a tua, Alvaro!&mdash;exclamou Maria da Gloria, abraçando
-o filho&mdash;E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres
-annos, e vives como aos dezoito! Por que não compras um trem novo? Por que
-não vaes aos salões, onde um coração perfeito como o teu faria a
-maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?</p>
-
-<p>&mdash;Não, minha mãe&mdash;respondeu Alvaro&mdash;Tenho tudo, que mais
-quero, n'este estreito recinto: aqui, minha mãe; alli, os meus livros. As
-viagens instruem; mas a minha ambição de saber está limitada no que posso
-aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha
-vida, são ellas de tal natureza, que o remedial-as seria igual a
-renovar o coração. Esta obra ha-de fazel-a o tempo. Não se é feliz
-em parte alguma, quando se não póde ser entre as reliquias da
-infancia, e os braços de uma mãe como a minha. Continuemos assim a
-vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que
-nós.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XV</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 40%;"><i>Lata porta ... quœ ducit ad perditionem.</i><br />
-A larga porta que dá passagem para a perdição.</p>
-
-<p style="margin-left: 50%;">S. MATT.&mdash;7. 13.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o
-morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma
-nobre casa de Alemquer.</p>
-
-<p>Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de
-virtudes, até ao momento em que Miguel de Sotto-Mayor frequentou a
-familia, muito aparentada com sua mulher.</p>
-
-<p>Se a isenção da morgada do Porto-Alvo degenerou, empeçonhada pelas
-seducções do poeta de Villa do Conde, não serei eu quem o affirme;
-porém, não terei de que dar contas a Deus, se disser que a sua fama
-corria desluzida e mareada á conta d'elle. Aquelles passeios nocturnos,
-nos arrabaldes de Porto-Alvo, não eram certamente o que Sotto-Mayor
-dizia serem a sua mulher: <i>exigencias do soffrimento</i>; exigencias de
-intenção ruim é que elles eram.</p>
-
-<p>Leonor, avisada das suspeitas publicas, não teve mão do seu ciume ou
-da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou
-a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo.
-Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e
-despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas.
-Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta
-anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio
-de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.</p>
-
-<p>O velho fidalgo espantou-se da infamação. Nunca sua mulher lhe
-incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso
-como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.</p>
-
-<p>Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de
-cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as
-janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora,
-apparecera atraz da vidraça uma luz, que subitamente se sumira depois
-d'alguns segundos.</p>
-
-<p>Eu de mim não tiro conclusões algumas d'esta luz; mas o morgado
-tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram
-a luz, e pôz ponto nas suas indagações. Duas noites passaram sem
-descobrimento. Á terceira, por volta de uma hora, ouviu o velho sua
-mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um
-signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de
-golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um
-corredor, e passou, pé ante pé, á sala, cuja era a janella d'onde
-fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um
-castiçal, junta á vidraça. Não fez o mais leve rumor, retrocedeu, e
-entrou no quarto da criada, quando ella entrava. Em presença d'um
-punhal, estrangulou-se na garganta da moça um pavido grito.</p>
-
-<p>&mdash;Morres, se gritas!&mdash;disse o morgado com a postura e phrase
-de Tarquinio, que não quadra bem aqui, já porque a moça era
-solteira, já porque, sendo casada, não tinha geito algum para
-Lucrecia&mdash;Morres&mdash;continuou elle com voz soturna&mdash;se me não
-dizes o que significa o signal que tens ido dar á janella com a luz!</p>
-
-<p>A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo
-como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes
-theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.</p>
-
-<p>Decorreram tres noites depois d'esta.</p>
-
-<p>Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe.
-Aquella carta anonyma podia ser causa á morte de seu marido. Mas o
-orgulho, e o coração, talvez, diziam-lhe tambem que ella não merecia
-uma infidelidade, e os desprezos que estava soffrendo, por não poder
-enfrear o seu ciume.</p>
-
-<p>Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:</p>
-
-<p>&mdash;Não vás, meu amigo, não tornes a Porto-Alvo.</p>
-
-<p>&mdash;E quem te disse que eu vou a Porto-Alvo?!&mdash;respondeu
-carregando o sobr'olho.</p>
-
-<p>&mdash;Diz-m'o o coração...</p>
-
-<p>&mdash;O coração!...&mdash;redarguiu sorrindo o marido&mdash;O que é o
-coração!... O coração não diz nada. O coração é um vaso onde passa o
-sangue. O coração, que não é isto e simplesmente isto, é um tolo. Eu não
-vou a Porto-Alvo. Vou ao Poço do Bispo onde me esperam alguns amigos para
-conjurarmos na derrota do ministerio, e na morte de Agostinho José
-Freire.</p>
-
-<p>&mdash;Mentes, Miguel!&mdash;exclamou Leonor.</p>
-
-<p>&mdash;Agradeço a amabilidade, e vou, porque não posso deixar de ir.</p>
-
-<p>&mdash;Miguel!&mdash;tornou ella com vehemencia e excitada a
-lagrimas&mdash;não vás... Olha que o tio morgado teve aviso, e elle é mau,
-e tu ficas um dia morto.</p>
-
-<p>&mdash;Quem o avisou?!&mdash;replicou, risonho, o marido&mdash;Serias
-tu? Capaz serias da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?!</p>
-
-<p>&mdash;Sei-o... Não vás, peço-t'o com as mãos erguidas!...&mdash;e
-chegou a dobrar os joelhos diante d'elle.</p>
-
-<p>&mdash;Como queres tu que eu deixe de ir a um compromisso de honra,
-Leonor? O meu destino é o Poço do Bispo, já t'o disse.</p>
-
-<p>&mdash;Juras-me que não vais a Porto-Alvo?</p>
-
-<p>&mdash;<i>Juro</i>, dizia Molière.</p>
-
-<p>&mdash;Mas lembra-te que Molière cahiu na scena moribundo, quando disse
-<i>juro.</i></p>
-
-<p>Achou Miguel de Sotto-Mayor engraçada a observação, e despediu-se de
-Leonor, beijando-a na testa.</p>
-
-<p>Cavalgou, guiou o cavallo na direcção do Poço do Bispo, e, a grande
-distancia, retrocedeu por um atalho conhecido até sahir á estrada de
-Porto-Alvo.</p>
-
-<p>Parou Miguel a distancia de meia legua, e reflectiu. «Se o morgado
-tivesse sido avisado, já eu teria a esta hora noticia da menor
-alteração. É verdade que o signal em duas noites alguma cousa póde
-significar; mas tambem é certo que o mesmo caso já se deu, sem
-significação alguma. Quem inventou o aviso foi o ciume de minha
-mulher.» Depois de tão seguro remate, Sotto-Mayor deu de esporas ao
-cavallo, e venceu o espaço em poucos minutos.</p>
-
-<p>Antes d'elle avistar o palacio de Porto-Alvo, é de bom historiador
-dizer que o morgado, na madrugada do dia seguinte áquella noite do
-punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou
-a chave. Voltando, fechou tambem a porta de sua mulher, e não respondeu
-ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal
-novidade. As comidas eram ministradas a uma e outra, ás suas horas, por
-um homem estranho de má catadura, que não respondia a pergunta alguma.
-Esta situação durou dous dias, e durava ainda quando Miguel de
-Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se
-avistava o signal.</p>
-
-<p>Estacára o cavallo na chã, onde o brioso animal já sabia que
-descançava. Miguel afagava-lhe o pescoço, e dobrava-se sobre os ilhaes
-a examinar-lhe os violentos arquejos, quando, ao erguer a cabeça para
-examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe
-vararam o peito. O cavallo atirou-se em galões impetuosos ribanceira
-abaixo, com o cavalleiro agarrado ás crinas. A poucos passos, as mãos
-do cadaver abriram-se, o corpo resvalou ao chão, mas foi de rojo, largo
-espaço, suspenso n'um dos estribos.</p>
-
-<p>Ás tres horas da madrugada, os criados da casa dos Olivaes sentiram o
-estrepito das ferraduras nas lages do pateo, e sahiu o cavallariço a
-amantar e recolher, como de costume, o cavallo. Como não visse o amo,
-cuidou que elle havia já subido, como d'outras vezes, deixando o
-cavallo com as redeas ao pescoço; mas, relanceando casualmente os olhos
-sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias,
-bateu á porta, e disse para dentro que acontecera uma grande desgraça.
-Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do
-estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com
-os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Fui eu que o matei!</p>
-
-<p>D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e
-blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.</p>
-
-<p>Sahiram os criados, uns na direcção do Poço do Bispo, outros na
-estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu
-amo.</p>
-
-<p>Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um
-atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A
-maceração e retalhado do rosto era tal, que escassamente lh'o
-reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros
-tão á queima-roupa tinham sido apontados, que as mesmas buchas se lhe
-pegaram ao sangue empastado do peito.</p>
-
-<p>Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para
-casa. Leonor não atinava a dar ordem alguma para o enterro de seu
-marido. A noticia levada a Lisboa, onde então estava Sebastião de
-Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de
-Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a
-justiça dos seus deveres. Foi a justiça ao local onde estava o morto,
-e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e
-indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral,
-estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso.
-Leonor, ao vêl-o, ergueu-se de golpe, apontou-o de perto, e exclamou:</p>
-
-<p>&mdash;Foi este o assassino de meu marido.</p>
-
-<p>O morgado abriu a bôca e os olhos, cruzou os braços, circumvagou a
-vista por todos, e perguntou:</p>
-
-<p>&mdash;A infeliz acho que endoudeceu?... Pobre senhora!...</p>
-
-<p>Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a
-tambem.</p>
-
-<p>&mdash;Por que não está aqui a mulher que matou meu marido? Onde está a
-devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?</p>
-
-<p>Estas vociferações augmentavam as probabilidades da demencia.</p>
-
-<p>&mdash;Agora diz que foi uma mulher que o matou!...&mdash;dizia o
-morgado&mdash;Não ha duvida! está louca a infeliz senhora!</p>
-
-<p>&mdash;Não estou louca, não, scelerado!&mdash;bradou Leonor,
-contorcendo-se nos braços das amigas&mdash;Mataste-o tu, cobardemente,
-feroz villão! Mataste-o e cuidas que a boca do morto não ha-de revelar
-a infamia de tua...</p>
-
-<p>N'este ponto, os labios de Leonor foram cerrados pelos dedos de mão,
-que não era de alguma das senhoras, que a estavam a custo segurando.
-Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da
-Gloria.</p>
-
-<p>O mesmo foi vêl-a, e lançar-se-lhe aos braços, exclamando:</p>
-
-<p>&mdash;Ó minha tia, eu sou muito desgraçada!... Abra-me por piedade o
-seu coração, e esconda-me ao espectro do meu remorso...</p>
-
-<p>Maria da Gloria abraçou-a com transporte, e disse ás senhoras e
-cavalheiros:</p>
-
-<p>&mdash;Eu entendo que não devemos ter minha sobrinha exposta a estes
-accessos da sua doente imaginação. Consintam que eu me recolha com
-ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de
-cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XVI</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 40%;"><i>Suadeo tibi emere à me aurum ignitum<br />
-probatum, ut locuples fias.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 40%;">Admoesto-te a que me compres o<br />
-meu ouro de fino quilate para te locupletares.</p>
-
-<p style="margin-left: 45%;">APOC. 3. 18.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria
-da Gloria com ella. Era de vêr os assiduos desvelos com que as familias
-de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que
-a souberam restituida á graça da supposta millionaria Maria da Gloria.
-E, como fosse notorio e vulgar o amor de Alvaro a Leonor, já diziam os
-aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas
-nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam
-espectaculo de pouca delonga e muita graça. Houveram sujeitos
-imaginadores de tragedias que aventaram a verosimilhança de ter sido
-assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A
-sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados
-de mostrarem do cadafalso á canalha, sedenta de escandalos, as melhores
-reputações a escorrerem sangue. Eufemia ouviu, uma vez, n'uma, loja de
-capellista esta calumnia. Chegou a chorar e espavorida ao pé da ama,
-repetindo o que ouvira. Maria da Gloria respondeu ás afflicções da
-criada com um sorriso, e estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Deus sabe quem matou o marido de minha sobrinha: a calumnia é que
-não mata a honra de ninguem.</p>
-
-<p>Ficou Leonor com seu pae.</p>
-
-<p>Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do
-defuncto marido, seria inventar. Não seria mais exacto o dizer que a
-purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto
-se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se
-viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a
-lançava de si:&mdash;a pobreza. Devorou-lhe a vaidade, insoffrida e furiosa
-na dôr, a alegria da alma, e o mesmo foi tirar-lhe ás flôres do rosto
-a seiva que as alindava.</p>
-
-<p>Em que pensava Leonor, n'aquella sua rapida mudança de vida? Parecia
-não pensar. Decorridos seis mezes, sahiu a pagar visitas em Lisboa,
-menos a de Maria da Gloria, que lhe não dera a isso azo. Viram-na nos
-theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os
-conquistadores da época; e, com quanto a denominassem «bellas
-ruinas», fosse ella menos esquiva, e teria sobeja belleza, para
-acorrentar os leões de S. Carlos, jaula então muito mais de aterrar
-que hoje.</p>
-
-<p>Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella
-mulher, que vira cinco annos antes. Não formava idéa alguma da mulher,
-que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde
-que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra
-do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos,
-Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave
-tristeza da musica.</p>
-
-<p>Dizia-lhe sua mãe, um dia, que Leonor se queixava a Eufemia de não ser
-convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;A mãe póde recebel-a; mas avise-me com antecipação para nos não
-encontrarmos.</p>
-
-<p>&mdash;E, todavia, meu filho&mdash;replicou a mãe&mdash;estás sempre
-perguntando-me se a mezada será sufficiente para o bem-estar de
-Leonor!...</p>
-
-<p>&mdash;Que tem que ver uma cousa com outra, minha mãe!? É um pouco de
-dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser
-feliz com Leonor. Se o dinheiro não entrava por nada nas minhas contas,
-signal é de que não representa algum affecto de coração a minha
-prima.</p>
-
-<p>&mdash;E se ella se despenhasse em novo precipicio? Se casasse com um
-homem que a expozesse a novas miserias?</p>
-
-<p>&mdash;Dando-me minha mãe licença, continuaria a soccorrel-a, e a luctar
-contra a estrella fatal d'aquella infeliz.</p>
-
-<p>&mdash;E crês tu na fatalidade, filho?...</p>
-
-<p>&mdash;Creio, minha mãe.</p>
-
-<p>&mdash;E a virtude que fica sendo?</p>
-
-<p>&mdash;A fatalidade do bem.</p>
-
-<p>&mdash;Não achas mais racional submetter á Providencia Divina, e á
-deducção dos actos humanos o que tu chamas fatalidade?!</p>
-
-<p>&mdash;Eu&mdash;disse Alvaro com profunda amargura&mdash;não sei o que é
-melhor, nem mais racional, minha mãe... Se quer que eu lhe diga o que
-sinto... o melhor é... não viver; o bem supremo da vida é esquecêl-a. O que
-é a embriaguez no homem de espirito que conhece o travo da peçonha que
-bebe? O que é o suicidio, senão a passagem para o esquecimento?</p>
-
-<p>&mdash;Deves ter soffrido muito, meu filho, porque te vejo sem
-religião?...</p>
-
-<p>&mdash;Não tenho a religião que ora, tenho a que perdôa, e se amisera de
-amigos e inimigos. Minha virtuosa mãe tem esta, e a da oração. Deus
-me será bom e piedoso pelos merecimentos de minha mãe...</p>
-
-<p>Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava
-fallar a Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;A mim!?...&mdash;disse elle, admirado&mdash;e foi á sala onde o
-esperava a senhora.</p>
-
-<p>Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos
-amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.</p>
-
-<p>&mdash;Não a conheço, minha senhora&mdash;disse Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;De certo, não. Eu sou a mãe de dous filhos de seu
-pae&mdash;respondeu ella em italiano&mdash;sou a desgraçada que
-acompanhou seu pae do theatro de Milão para Lisboa ha dezeseis annos.
-Vi o snr. Alvaro criancinha ao peito de sua ama, e torno a vêl-o homem
-com a reputação igual á das virtudes de sua nobre mãe.</p>
-
-<p>A italiana enxugava as lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;Queira continuar&mdash;disse Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Quando seu pae me abandonou ao meu funesto destino, tinha eu dous
-filhos, dos quaes elle quiz senhorear-se; eu, porém, sobre ser infeliz,
-era caprichosa, e não sei mesmo se boa mãe: não lhe dei os filhos. Em
-quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos
-delirios d'uma brilhante ignominia; mas não olvidei a educação dos
-meus pobres filhos: sustentei-os n'um collegio, até 1832, época em que
-eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao
-charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um
-demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi
-fulminado pela colera-morbus; o outro ficou ao pé de mim como
-instrumento nas mãos da Providencia para minha expiação. Meu filho
-pedia-me contas do luxo, que vira em minha casa, quando criança: eu
-não podia responder-lhe. Quiz eu forçal-o a respeitar-me, e elle
-reagiu com ameaças á minha severidade. Um dia desamparou a minha casa,
-roubando-me as poucas alfaias de algum valor, que eu guardava para não
-ir tratar-me na ultima doença a um hospital. Passados dias, soube que
-elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para
-as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao
-dono, e a liberdade a meu filho. Fui, depois, lançar-me aos pés d'um
-homem, que me conhecera em tempos felizes... <i>felizes!</i>... que falsa
-apreciação!... Pedi uma qualquer occupação para meu filho, e
-alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante
-responsabilidade. O desgraçado parecia regenerar-se; não houve queixa
-d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o
-pão da velhice. Ha oito mezes que um grande roubo se descobriu na
-alfandega, e meu filho é convencido de ladrão de grandes valores,
-valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze
-dias que o filho de seu pae, senhor Alvaro, foi condemnado á grilheta
-por toda a vida.</p>
-
-<p>A italiana esperou que os soluços a desafogassem, e continuou:</p>
-
-<p>&mdash;Eu não venho pedir ao generoso filho do pae do condemnado que o
-salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de
-mãos erguidas supplicar é que vossa excellencia empregue o valimento
-dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem
-o ferro aos pés, que assim o pede o desgraçado.</p>
-
-<p>Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;O nome de seu filho?</p>
-
-<p>&mdash;É Julio de Macedo.</p>
-
-<p>&mdash;Farei o que poder. Vá a senhora dizer-lhe que espera alguma cousa
-dos meus esforços.</p>
-
-<p>A italiana fez menção de ajoelhar outra vez, desconfiada da frieza
-d'aquellas palavras: impediu-a Alvaro, e seguiu-a até ao topo da
-escada.</p>
-
-<p>Maria da Gloria, mais por amor de mãe que por curiosidade de mulher,
-tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e
-disse-lhe risonha:</p>
-
-<p>&mdash;Com que então as damas de Lisboa vem assim á hora do dia
-procurar-te em casa!? Queira Deus que me não raptem o meu Alvaro!...</p>
-
-<p>Sorriu-se o moço, e ficou pensativo, cogitando no modo como fallaria a
-sua mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Em que pensas, filho!?&mdash;tornou ella rindo em
-gargalhada&mdash;Estás ainda arrobado na visão da deidade, que te veio
-roubar o socego?!... Diz o que sentes, Alvaro!</p>
-
-<p>&mdash;Logo, minha mãe, logo...&mdash;respondeu Alvaro, cada vez mais
-enleado.</p>
-
-<p>&mdash;E por que não ha-de ser já?!&mdash;redarguiu Maria da Gloria com
-gravidade&mdash;Estarás tu espantado, ou envergonhado de saber que uma boa
-arvore produziu fructos tão maus!?</p>
-
-<p>Alvaro encarou com assombro em sia mãe, e tartamudeou alguns
-monossyllabos.</p>
-
-<p>&mdash;São aberrações&mdash;proseguiu ella&mdash;Não lhe ouviste dizer á
-pobre mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores
-que dão aromas e veneno... Não tens porque scismar, meu Alvaro. Faz a tua
-vontade completa e generosa como eu a adivinho. Tens authorisação
-minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo
-vejo, é a caridade obscura: pois bem, goza plenamente as regalias que a
-fortuna te dá.</p>
-
-<p>Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o
-perdão do condemnado a preço da quantia em que fôra avaliado o roubo.
-O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia.
-Alvaro, porém, authorisou-o a advogar o livramento, por todo o preço.
-Julio de Macedo foi um dia chamado para receber o alvará de soltura, e
-appareceu em casa de sua mãe, quando esta, esperançada nas promessas
-de Alvaro, desfazia os ultimos lençoes para fazer camisas, que seu
-filho levasse para Africa. O perdoado não sabia dizer como fora livre;
-a mãe, desvariada de alegria, não atinava a contar ao filho o modo
-como o salvara. N'este lance, appareceu Alvaro, e recebeu nos braços a
-italiana, e o filho de seu pae, a quem chamou irmão.</p>
-
-<p>O filho da italiana não conhecia o filho de seu pae. Balbuciava
-palavras de gratidão, tão envergonhado do crime, como assombrado d'uma
-virtude em que não acreditava. Alvaro atalhou assim as exclamações da
-antiga locataria do palacio de Belem:</p>
-
-<p>&mdash;Seu filho inutilmente pediria hoje um emprego. A senhora não póde
-contar com os meios d'elle para a sua sustentação. Meu pae, como a
-senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu
-conservo ainda, da qual, com o consentimento de minha mãe, lhe faço
-doação. Acho acertado que a senhora e seu filho vão lá viver, e
-levem as lições da desgraça para a conservarem.</p>
-
-<p>D'um mesmo impulso, mãe e filho se lançaram aos pés de Alvaro, com
-exclamações e lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;As lagrimas são um segundo baptismo em alguns olhos&mdash;disse
-Alvaro&mdash;Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que
-lhe vejo no rosto.</p>
-
-<p>D. Maria da Gloria firmou a doação, e a milaneza com seu filho,
-partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo
-dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de
-Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito
-da Sardenha. Perguntando-lhe eu quanto lhe custou a regeneração
-d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me
-respondeu:</p>
-
-<p>&mdash;A fortuna de duas familias independentes.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XVII</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Un groupe de Dalila et de Sanson<br />
-avec celui de la farouche Judith serait<br />
-toute la femme expliquée.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">BALZAC.</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza
-d'este espaço e quasi no termo d'elle, falleceu Sebastião de Brito,
-legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus
-desvarios senis. De paixão d'alma diziam os facetos que elle tinha
-acabado; mais serias averiguações, porém, dão que o homem succumbiu
-a uma febre gastrica, procedente de uma cêa no Farrobo, em casa do
-hospedeiro e luxuoso conde d'aquelle titulo. Não devem esquecer alguns
-desastrados successos pertinentes a esta época, e vem a ser que o
-fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que
-sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia
-ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada,
-confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de
-Sotto-Mayor viera á margem direita do Tejo, cuspida por uma onda, e com
-claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo
-atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da
-peçonha é exacto, não será peccado dizer que a casa do Porto-Alvo,
-não desfazendo no seu brazão, encerrava uma tribu de scelerados.</p>
-
-<p>Leonor, não podendo com a soledade dos Olivaes, pediu a sua tia
-licença para viver em Lisboa. Maria da Gloria hesitava em conceder
-lh'a; mas Alvaro achou rasoavel o pedido, e desculpou a solicitação de
-sua prima.</p>
-
-<p>Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um
-palacete em Buenos-Ayres, e abriu os seus salões a uma partida semanal
-de parentes e amigos intimos. Estes chapados «amigos intimos» são ás
-vezes os inimigos de fóra. Taes foram os que vulgaram o cortejo da
-viuva a um moço sem nascimento nem posição, homem de letras em
-disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas,
-tambem de genio tão benevolo e tolerante que o recebiam.</p>
-
-<p>Soube Maria da Gloria as atoardas que corriam á conta de sua sobrinha,
-e communicou-as a Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Pois a mãe que esperava!?&mdash;disse este&mdash;Leonor teve
-treguas de dous annos. A fatalidade refez-se de vigor, e volta á lucta.</p>
-
-<p>&mdash;E qual achas tu que é o nosso dever?</p>
-
-<p>&mdash;Luctar a favor da mais fraca. Aconselhe-a, minha mãe; e, se não
-podér nada com ella, ampare-a como até aqui.</p>
-
-<p>&mdash;E se eu lhe retirasse os meios&mdash;replicou Maria da
-Gloria&mdash;crês tu que o segundo calculista a não deixaria em paz?</p>
-
-<p>&mdash;Deixaria: mas Leonor desceria na escala social até achar um
-indigente como ella.</p>
-
-<p>&mdash;Á vista d'isso, filho, julgas incurável tua prima!?</p>
-
-<p>&mdash;Julgo, mãe.</p>
-
-<p>Foi Maria da Gloria a Buenos-Ayres, em hora de não receiar
-concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.</p>
-
-<p>&mdash;O teu mau anjo não te deixa, Leonor?</p>
-
-<p>&mdash;Porque falla assim, minha tia?</p>
-
-<p>&mdash;Dizem-me que estás á beira d'um segundo abysmo. São falladas as
-tuas intelligencias com um homem, que offerece menos condições de
-felicidade que o primeiro. Como tens tu coração para o amor, filha?
-Por que não quer Deus que chegue para ti a hora da reflexão? Como
-pagas tu o que deves a ti, á sociedade, e a mim? Levanta-te d'essa
-miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das
-lagrimas, que choraste nos braços de Eufemia! Medita um pouco no nobre
-coração de meu filho, cuja alegria mataste, e envergonha-te dos novos
-ultrajes que preparas áquelle anjo, que te protege!</p>
-
-<p>Leonor sahiu d'uma reconcentração de minutos para beijar a mão de sua
-tia, soltando estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Agradeço a esmola a minha tia, e a meu primo a philantropia.
-Agora fallarei, se me dá licença. Meu primo tem-me beneficiado: eu bem
-sabia que elle não era estranho á esmola que tenho recebido; mas quizera
-antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a
-vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.</p>
-
-<p>&mdash;Explica-te, Leonor...&mdash;atalhou Maria da Gloria estarrecida
-de espanto.</p>
-
-<p>&mdash;Eu vou explicar-me, minha tia. Se Alvaro olhasse com piedosa
-vista para os meus infortunios, aliás respeitaveis por serem do coração,
-teria apparecido a meu lado, não como o amante despeitado, mas como o
-parente, que sacrifica os caprichos do coração ao dever misericordioso
-de rehabilitar moralmente uma mulher. Fui muito desgraçada, e era-o
-mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me
-via descer para a miseria, na esperança d'elle ahi descer com alguns
-punhados de ouro a fartar-se de vingança. Quando minha tia me enviou a
-sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus
-parentes proximos a esmola de consideração, que mais necessaria me
-era. Passaram mezes, e o vilipendio do ouro vinha regularmente ás
-mesmas horas, e no mesmo dia; mas uma palavra de amor, o pão do
-espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me
-culpava da minha pobreza; porque tinha um pae que me regalára a
-mocidade com magnificencias superiores ás suas posses; porque tinha um
-nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco
-illustre se atascasse no lodaçal da pobreza; porque tivera uma
-educação com que a penuria se não conformava; porque, finalmente,
-humilhada por parentes, começava a sentir-me despresivel aos meus
-proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades
-que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem
-merecer a estima de Alvaro; esperei que elle fosse á minha soledade
-santificar a esmola com uma palavra de irmão. Se elle ahi tivesse ido,
-eu curvaria a cabeça diante do heroe, e pedir-lhe-ia licença para
-beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous
-annos de humilhação; e pedi licença a minha tia, porque receei que
-meu primo, não saciado ainda da desforra, contrariasse a minha vontade,
-e me reduzisse a voltar ao ermo dos Olivaes por não ter com que comprar
-a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este
-acto de desesperação? É uma cousa que modernamente chamam
-«cynismo»; é aquillo que eu já disse&mdash;o despreso de mim propria.
-Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um
-homem, que nasceu não sei de que mulher, e tem tanto a dizer-me das
-suas qualidades pessoaes que nunca fallou das qualidades dos seus avós.
-É pobre como eu. Não pede a ninguem o pão de cada dia; lavra-o com a
-sua intelligencia. E creia, minha tia, que elle acha quem lhe dê por
-duas horas de trabalho o que me não dariam a mim pelas pedras de armas
-da quinta que meu pae desbaratou. Este homem pobre é quem convém á
-mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as
-privações com um amigo do que as pompas na solidão. Tenho vinte e
-sete annos. E cedo para o claustro, e é tarde para esperar, no recato
-de donzella, que algum singular amante da Thebaida me vá procurar na
-minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola,
-beijo-lhe as mãos pelo que lhe devo, e beijaria as de meu primo tambem
-pela sua philantropia. Ámanhã voltarei para os Olivaes. É verdade que
-os bens que possuo estão hypothecados a uma antiga divida de meu pae a
-meu tio Manoel, e vossa excellencia póde mandal-os tomar como seus.
-Não importa. Está lá uma casinha, que eu mandei fazer para uma velha
-criada de minha avó. A velha morreu ha pouco, e testou-me a casinha,
-que os credores de certo não querem; irei lá viver.</p>
-
-<p>Calou-se Leonor.</p>
-
-<p>Maria da Gloria, já em pé, olhou com muita amargura a sobrinha, e
-disse:</p>
-
-<p>&mdash;Foste injusta, Leonor. Devem até os anjos compadecer-se da alma
-injuriada de meu filho. Não te castigue Deus, que eu, em nome de
-Alvaro, te perdôo. Cumpre o teu destino, desgraçada; e, quando o
-remorso te perseguir no extremo refugio do que tu chamas «cynismo»,
-foge para mim que eu te abrirei os braços.</p>
-
-<p>Leonor não ergueu os olhos das alcatifas: era de soberba, e não de
-abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.</p>
-
-<p>Sahiu Maria da Gloria, e não teve que dizer ao filho. Interrogada por
-elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a
-necessidade d'um amigo, a negação para a vida solitaria, o cançasso
-do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava
-casar-se.</p>
-
-<p>Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam
-sobre o mesmo motivo, disse:</p>
-
-<p>&mdash;Esse homem julgará rica a prima Leonor?</p>
-
-<p>&mdash;Cuido que não: elle deve saber que Leonor vive da beneficencia
-dos seus parentes.</p>
-
-<p>&mdash;Hei-de sabel-o com certeza. Se o homem a ama pobre, e não conta
-com o beneplacito nem com os recursos dos parentes para o casamento, é um
-nobre caracter. Estou que a belleza de Leonor não fascina alguem...</p>
-
-<p>&mdash;Como has-de tu sabel-o, filho. Conheces por ventura o homem?</p>
-
-<p>&mdash;Conheço-lhe os escriptos, e recordo-me vagamente de o ter visto
-no collegio, nos meus ultimos tempos.</p>
-
-<p>Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo,
-professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim
-ao encargo, que recebera:</p>
-
-<p>&mdash;Fallei com o jornalista. Aquillo é uma alma lavada como pedras de
-amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as
-pernas com as abas do chambre de sêda desbotada, e refestelou-se na
-poltrona velha como um turco, para me dizer o seguinte: «Não ha duvida
-que eu namoro a viuva, primeiro porque é romantica, segundo porque é
-romantica, terceiro porque é romantica.»</p>
-
-<p>&mdash;E porque é rica&mdash;atalhei eu.</p>
-
-<p>&mdash;Ah! sim! e porque é rica: então é por quatro razões, e não por
-tres. Acho eu que vem a ser quatro as razões...</p>
-
-<p>&mdash;Não, senhor, são simplesmente tres, porque a quarta é uma
-sem-razão. D. Leonor é pobre.</p>
-
-<p>&mdash;Pobre! ora essa! conte-me isso, meu bom amigo!</p>
-
-<p>Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que
-os parentes da viuva não estendiam a sua caridade até aos maridos
-inconvenientes das suas parentas necessitadas.</p>
-
-<p>&mdash;Mas aquelle palacete dos Olivaes, que eu hontem fui
-vêr&mdash;redarguiu elle&mdash;e aquell'outro de ruinas tão poeticas;
-e aquellas duas quintas que se espreguiçam na margem do aurifero
-Tejo... que me diz o senhor a isto?</p>
-
-<p>&mdash;Digo-lhe que os palacetes e as quintas não são mais da viuva que
-meus. Tudo aquillo está hypothecado, penhorado, consumido, &amp;c., &amp;c.
-Mas&mdash;conclui eu&mdash;as tres razões, que o meu nobre amigo expendeu,
-prevalecem, apesar de tudo. A viuva Sotto-Mayor é sem questão tres
-vezes romantica.</p>
-
-<p>&mdash;Diz muito bem&mdash;acudiu elle:&mdash;o casamento ha-de
-fazer-se, quando eu for tres vezes romantico; mas, por em quanto, bem vê o
-meu caro mestre e amigo que eu laboro na prosa villôa do artigo de fundo.</p>
-
-<p>&mdash;Quer dizer...</p>
-
-<p>&mdash;Que hei-de abrir o meu coração á viuva, e a minha bolsa mesmo, se
-ella quizer. Se me não engano, a viuva é litterata, e sabe da seita
-philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me
-agradecer-lhe as tão espontaneas como miudas informações, e aqui
-estou ás ordens.</p>
-
-<p>&mdash;Aqui tem o senhor Alvaro&mdash;continuou o professor de
-inglez&mdash;o que passei com o litterato Mascarenhas. Agora, peço perdão
-da liberdade com que expuz fielmente o texto da nossa conversação.</p>
-
-<p>Alvaro, tendo contado a sua mãe o picaresco dialogo do litterato e do
-mestre de inglez, disse:</p>
-
-<p>&mdash;Agora, minha mãe, esperemos. Não estão muito no meu genio estas
-encobertas operações; mas a intenção é salvar Leonor.</p>
-
-<p>Mascarenhas foi á partida da viuva, como costumava. Nunca tão amorosa
-e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados.
-Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:</p>
-
-<p>&mdash;Extremamente desejo fallar-lhe ámanhã depois do meio dia. O
-cavalheiro de certo não falta.</p>
-
-<p>&mdash;Oh! minha senhora!... quem quer faltar á sua propria
-dignidade!?</p>
-
-<p>&mdash;E por que não diz «ao seu proprio coração...»?&mdash;retorquiu
-ella com despeitado sorriso.</p>
-
-<p>&mdash;O coração, minha senhora, é tão de vossa excellencia, que não se
-atreve a entrar nos juizos do espirito...</p>
-
-<p>Leonor achou conceituosa a razão alambicada do litterato, e esperou
-anciosa o dia seguinte.</p>
-
-<p>&mdash;Vou responder&mdash;disse ella&mdash;cathegoricamente ás suas
-cartas. O pensamento reservado de todas ellas é uma ligação, que faça
-respeitavel e sagrada a paixão que o meu amigo encarece nas suas
-cartas, não é assim?</p>
-
-<p>&mdash;Com que outro intento podia eu dirigir-me a vossa excellencia?!</p>
-
-<p>&mdash;Bem! Resolvido está por tanto a ser meu marido?... Não lhe cause
-estranheza o estilo secco e desornado da pergunta... assim é preciso.</p>
-
-<p>&mdash;Respondo, minha senhora. Primeiro que tudo, eu amo tanto vossa
-excellencia quanto a respeito. Acima d'estes dous sentimentos está o da
-amisade, que lhe dedico, e o da gratidão à benevolencia com que me tem
-distinguido em sua casa. Vossa excellencia não ama os grandes
-preambulos, e por isso vou já direito á materia sujeita. Se eu
-acceitasse a honra, que vossa excellencia me dá de querer alliar-se á
-minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a
-trocar por um coração dedicado as regalias de que se está gozando com
-grande inveja das suas amigas. Que vale um coração dedicado em
-confronto do bem-estar, da segurança do dia seguinte, das
-considerações desveladas, que rodêam vossa excellencia?</p>
-
-<p>&mdash;Elucide-me...&mdash;atalhou Leonor&mdash;A sua linguagem é
-escura!</p>
-
-<p>&mdash;Escura é a existencia sem meios de a fazer brilhar, minha
-senhora. Eu sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos
-recursos procedem da amisade d'uma tia millionaria, que vossa
-excellencia tem.</p>
-
-<p>&mdash;Não ha duvida; mas eu não disse ainda a vossa senhoria que
-me dotava com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas,
-falla-me da felicidade da solidão, e da doçura do pão ganhado com o
-nobre trabalho da intelligencia.</p>
-
-<p>&mdash;Tambem é certo&mdash;redarguiu algum tanto confuso o
-jornalista&mdash;era, porém, intento meu fazer o elogio da mediocridade
-em relação áquelles que não conheceram a opulencia. Neste caso não
-está vossa excellencia: estou eu; mas eu é que não devo sacrificar a
-felicidade real da senhora D. Leonor ás minhas phantasias de
-philosopho. Todavia...</p>
-
-<p>&mdash;Queira dizer-me&mdash;interrompeu a viuva&mdash;a quem pediu
-informações dos meus recursos?</p>
-
-<p>&mdash;Não as pedi, minha senhora: seria grandemente ignobil o pedil-as;
-não as averiguei; deram-m'as.</p>
-
-<p>&mdash;Quem?</p>
-
-<p>&mdash;Conhece vossa excellencia por ventura um mestre de inglez!?</p>
-
-<p>&mdash;Conheço.</p>
-
-<p>&mdash;Como conhece, minha senhora?</p>
-
-<p>&mdash;Fallou-lhe esse homem em meu primo Alvaro Teixeira de Macedo?</p>
-
-<p>&mdash;Não, minha senhora; limitou-se a dizer-me que vossa excellencia
-não tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se
-contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.</p>
-
-<p>Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o
-litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira
-sahir.</p>
-
-<p>Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:</p>
-
-<p>&mdash;Sua excellencia manda sahir.</p>
-
-<p>Mascarenhas tomou o chapéo, e retirou-se tão affrontado como se
-tivesse espirito muito susceptivel ás injurias.</p>
-
-<p>Leonor não recebeu alguém n'aquelle dia. O seguinte era o ultimo de
-Setembro de 1838. Eufemia era esperada com a mezada n'esse dia. Não era
-esperar, era ancear em phrenesis a agitação de Leonor.</p>
-
-<p>Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato
-avelhentado do lucto de ha quatro annos e já de chapéo.</p>
-
-<p>&mdash;A senhora vai sahir, e de lucto carregado?!&mdash;disse a
-criada&mdash;Que tem, senhora D. Leonor?! a menina tem febre!</p>
-
-<p>&mdash;Trazes-me a esmola?&mdash;disse Leonor com
-desabrimento&mdash;Leva-a a tua ama, e ao teu amo. Diz-lhes mais que
-venham tomar conta do que esta casa encerra. Tudo isto não vale um
-terço do dinheiro, que recebi; mas é honra pagar pouco, e ficar sem
-nada. Diz a meu primo que esta nobre desgraçada repelle a mão
-bemfeitora que larga o ouro, e aperta o cabo do punhal com que se mata a
-dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que o rotulo da sua caridade é
-um insulto a mim, que não lhe esmolei o seu ouro, ganhado sobre o
-balcão. Diz a minha virtuosa tia que a virtude não está sómente nos
-temperamentos de gelo, que facilmente são virtuosos. Diz isto. Agora,
-vai, ou fica.</p>
-
-<p>Leonor ia a sahir, e Eufemia abraçou-se a ella, chamando soccorro, por
-julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso
-de sua ama. Leonor sahiu a pé, só, com os olhos raiados de sangue, e o
-coração em convulsões. A longa distancia de casa, entrou n'uma sege
-de praça, e deu ordens ao boleeiro.</p>
-
-<p>Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que
-não desamparasse da sua vista a perdida mulher. Alvaro ouviu
-serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia
-gozar-se dos novos espinhos, que lhe sangravam o coração.</p>
-
-<p>&mdash;Esperemos...&mdash;disse elle a sua mãe.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XVIII</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>N'aurez-vous point pitié, jeune homme?...<br />
-Non, non, j'en ai le pressentiment,<br />
-une ère nouvelle commence</i>...</p>
-
-<p style="margin-left: 47%;">R. de LORGUES. (L. das Communas.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e
-pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que
-Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo
-firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos
-envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que
-morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre,
-mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns
-velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a
-seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira
-vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a
-porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se
-estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de
-Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem
-quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á
-herdeira.</p>
-
-<p>Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema,
-encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é
-verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza
-resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em
-rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar
-um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:</p>
-
-<p>&mdash;Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o
-deixou a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe,
-economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da
-sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.</p>
-
-<p>O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de
-douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.</p>
-
-<p>Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por
-um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de
-vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de
-Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e
-nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.</p>
-
-<p>De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava
-abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a
-cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da
-casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite
-velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.</p>
-
-<p>A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e
-sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados,
-arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante.
-Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa,
-Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a
-mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da
-contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando
-aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos
-empuxões de fóra.</p>
-
-<p>Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e
-experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta
-d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no
-verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta
-criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:</p>
-
-
-<blockquote>
-<p>«A minha tia Maria da Gloria.</p>
-
-<p>«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a
-independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não
-morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava
-d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação
-deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo
-tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus
-parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido
-uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu
-perfeito juizo.</p>
-
-<p style="margin-left: 60%;"><i>Leonor de Brito.</i>»</p></blockquote>
-
-
-<p>Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou
-a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço
-esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o
-braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o
-ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.</p>
-
-<p>Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára
-sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das
-vidraças, por onde saltou dentro.</p>
-
-<p>Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que
-salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem
-sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o
-cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com
-pannos adhesivados e compressas.</p>
-
-<p>De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara
-a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro
-Teixeira.</p>
-
-<p>Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de
-mortal espasmo.</p>
-
-<p>&mdash;Leonor! minha prima!&mdash;exclamou elle&mdash;passando-lhe a mão
-na fronte&mdash;Que sangue é este?!&mdash;bradou, vendo as compressas
-tingidas.</p>
-
-<p>&mdash;É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma
-tesoura...&mdash;disse o feitor.</p>
-
-<p>&mdash;A minha carruagem depressa aqui!&mdash;bradou
-Alvaro&mdash;Ajudem-me a transportal-a.</p>
-
-<p>Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor
-na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao
-respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do
-corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o
-quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para
-Lisboa, a passo.</p>
-
-<p>A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os
-olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se
-tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre,
-quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo
-necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei
-sempre...</p>
-
-<p>Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se
-um sorriso, e murmurou:</p>
-
-<p>&mdash;Um cadaver...</p>
-
-<p>Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor,
-e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no
-coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.</p>
-
-<p>E contemplou-a.</p>
-
-<p>Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço
-esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida
-que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios,
-restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o
-pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E
-parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus
-olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora
-de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não
-guardou lembrança.</p>
-
-<p>A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas,
-chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar
-Leonor, e leval-a a um leito.</p>
-
-<p>&mdash;Creio que vem morta...&mdash;disse Alvaro&mdash;e sahiu para logo
-voltar com dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por
-esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram
-elles.</p>
-
-<p>&mdash;A vida da alma&mdash;dizia Alvaro com assombro dos
-medicos&mdash;deem-lhe a vida da alma, que eu quero que ella me veja, e
-me julgue antes de morrer! Um corpo varado de dores, não importa; mas
-um espirito com a luz da razão!</p>
-
-<p>E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes
-dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:</p>
-
-<p>&mdash;Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.</p>
-
-<p>E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega
-que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.</p>
-
-<p>Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o
-filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha,
-que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam
-vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em
-Deus o salvamento da prima.</p>
-
-<p>Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e
-comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro,
-e balbuciou:</p>
-
-<p>&mdash;Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que
-tu tens penado!...</p>
-
-<p>Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas
-jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as
-articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade,
-excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe
-estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes
-intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o
-coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.</p>
-
-<p>Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro,
-conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma
-esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da
-Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor
-com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer
-era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas
-não para ella.</p>
-
-<p>É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em
-encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com
-ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E
-Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o
-coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.</p>
-
-<p>Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu
-quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima
-tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua
-mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de
-feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as
-bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza
-das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de
-hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão
-vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida
-formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em
-que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...</p>
-
-<p>O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com
-bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por
-Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a
-denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos
-de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava
-Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão
-soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa,
-estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos
-rancorosos do velho odio civil.</p>
-
-<p>Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e
-sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e
-visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou
-ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar.
-Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito
-valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e
-retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua
-residencia para a quinta do valle de Santarem.</p>
-
-<p>Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas
-de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era
-o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas
-juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres
-esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe
-seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns
-parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se
-vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as
-amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo
-que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas
-estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia
-d'elle e de sua mãe.</p>
-
-<p>&mdash;Se não podes dar-me vida, Alvaro&mdash;dizia ella&mdash;que vem
-aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que
-os move a piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens
-sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu
-vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia
-Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria
-contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido
-de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou,
-estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a
-razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o
-natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo,
-Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á
-curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora
-feliz!...</p>
-
-<p>&mdash;Feliz!...&mdash;atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando
-vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.</p>
-
-<p>&mdash;Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a
-visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade,
-passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me
-a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella
-mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra,
-ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de
-louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em
-particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita
-gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a
-que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre
-coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha
-a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha
-servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de
-muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias
-indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois
-sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no
-rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude
-ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo
-tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?</p>
-
-<p>Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas.
-Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade
-que mereces?</p>
-
-<p>&mdash;Dá, minha Leonor...&mdash;balbuciou o internecido
-moço&mdash;Dá... é a tua amisade... são as melhores lagrimas do teu
-coração... Que lhe tenho eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava
-para esta época, e te via continuando a estação de felicidade que
-minha santa mãe me trouxera do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor,
-gozei horas de alegria celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as,
-e nem o bem da saudade me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se
-alumie á luz dos meus dias alegres... pallida luz, como a da lampada do
-sacrario ao amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram
-feliz... E tu, Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era
-o sentimento que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da
-paixão... N'aquelle tempo...</p>
-
-<p>&mdash;Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...&mdash;atalhou Leonor,
-afogada de soluços...&mdash;Não me castigues tu, meu anjo de desgraça
-e de compaixão...</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XIX</h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;">.... <i>Já dava no rosto a friagem<br />
-da noite da eternidade; só faltava regelar<br />
-de todo... e cahir.</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de<br />
-Monte-Alverne).</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do
-leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a
-paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito,
-transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia
-a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas
-bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então
-occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se
-acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:</p>
-
-<p>&mdash;O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade
-do corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.</p>
-
-<p>A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que
-ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus
-vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle
-amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e
-contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto
-ella, sorrindo, dizia:</p>
-
-<p>&mdash;Queres por força que a morte se namore de mim!</p>
-
-<p>Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e
-extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles
-extasis!</p>
-
-<p>&mdash;Vejo os teus dezoito annos, Leonor!&mdash;disse-lhe elle um
-dia.</p>
-
-<p>&mdash;Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o
-coração!&mdash;respondeu ella&mdash;A primeira paralysia era a peor...</p>
-
-<p>Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje
-escondido de ti o unico segredo, que devia esconder&mdash;a sensivel
-aproximação do meu fim.</p>
-
-<p>&mdash;Que é, minha mãe?!&mdash;exclamou o filho, correndo a
-abraçal-a.</p>
-
-<p>&mdash;Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê
-até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te
-revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que
-ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa
-doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido
-um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu
-chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez,
-Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te
-dizer o fim para que te chamei!...</p>
-
-<p>&mdash;Diga, minha mãe...&mdash;atalhou Alvaro com simulada
-quietação.</p>
-
-<p>&mdash;Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da
-minha morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor,
-ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer
-que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma
-esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora
-final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te
-amortalhará, meu pobre Alvaro!?</p>
-
-<p>&mdash;Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe&mdash;respondeu elle
-tranquillamente após alguns instantes de concentração&mdash;Agora,
-rogo-lhe, por quanto amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.</p>
-
-<p>No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa.
-Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em
-pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa,
-e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como
-quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a
-confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração,
-já em seu periodo final.</p>
-
-<p>Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que
-lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no
-collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de
-Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o
-XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que
-vem assim intitulado: <i>Demonstração da equidade da Providencia para
-com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da
-dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação
-dos seus soffrimentos.</i></p>
-
-<p>Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a
-ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada
-que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde
-mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações
-horriveis, que poucos sabem supportar.»</p>
-
-<p>&mdash;Não leias mais, filha...&mdash;disse Maria da
-Gloria&mdash;conta-nos o que fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de
-parecer-te nova a cidade! Ha tres annos que lá não tinhas ido!... Com
-quem fallaste, filho?</p>
-
-<p>&mdash;Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá
-demorar algum tempo para negocios nossos.</p>
-
-<p>&mdash;Algum tempo!&mdash;disse Leonor&mdash;e com que placidez de
-espirito dizes isso, primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E
-podes, Alvaro?</p>
-
-<p>&mdash;São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar
-a minha demora o mais que possa...</p>
-
-<p>&mdash;Soubeste&mdash;atalhou Maria&mdash;se teem sido cumpridas as
-nossas determinações?</p>
-
-<p>&mdash;As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe...
-Parece-me que a vejo reanimada!...</p>
-
-<p>&mdash;Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas
-parece que o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A
-esperança é tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste
-ainda agora?</p>
-
-<p>Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou
-placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres
-abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a
-quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.</p>
-
-<p>Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local,
-senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e
-foi para Lisboa.</p>
-
-<p>Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada
-pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não
-morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que
-parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao
-filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão
-morro sem te dar o ultimo suspiro.»</p>
-
-<p>A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a
-Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de
-sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da
-Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do
-filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras
-exclamações:</p>
-
-<p>&mdash;Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!</p>
-
-<p>&mdash;O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho.
-Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!</p>
-
-<p>Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça
-encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao
-vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso
-instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras:</p>
-
-<p>&mdash;Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada;
-e, se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este
-mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem...
-Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar
-d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua
-irmã querida... Deixo-t'a como filha.</p>
-
-<p>&mdash;Eu vou comtigo, Alvaro?&mdash;disse com muita doçura
-Leonor&mdash;Ajuda-me? levas comtigo este meu esquife?</p>
-
-<p>&mdash;A mãe quer estar sósinha?&mdash;disse Alvaro.</p>
-
-<p>&mdash;Quero, filho: está ahi o meu confessor...</p>
-
-<p>Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo
-pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes,
-e disse ao padre:</p>
-
-<p>&mdash;Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças;
-vinha espantar-me da serenidade da moribunda.</p>
-
-<p>Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado
-Viatico.</p>
-
-<p>Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto,
-beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para
-vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso
-assentimento.</p>
-
-<p>Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que
-acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na
-ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um
-recanto escuro, com as mãos erguidas.</p>
-
-<p>Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas
-dos santos-oleos.</p>
-
-<p>Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor
-reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:</p>
-
-<p>&mdash;Não está aqui meu filho!?</p>
-
-<p>E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do
-leito, e disse:</p>
-
-<p>&mdash;Aqui estou, minha mãe.</p>
-
-<p>Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na
-voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração
-convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua,
-e pôde exclamar:</p>
-
-<p>&mdash;Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus!</p>
-
-<p>&mdash;Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...&mdash;disse o
-padre Alvaro.</p>
-
-<p>Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:</p>
-
-<p>&mdash;Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome,
-Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do
-meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!</p>
-
-<p>Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia,
-e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de
-joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido
-aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam
-ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no
-coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»</p>
-
-<p>Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou
-em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>XX</h4>
-
-
-<h4><a id="CONCLUSAO">CONCLUSÃO</a></h4>
-
-
-<p style="margin-left: 45%;"><i>Oublie-toi! dévoue-toi! sacrifie-toi!</i></p>
-
-<p style="margin-left: 48%;">J. SIMON (Le devoir.)</p>
-
-<p><br /></p>
-
-<p>E não ha um remançoso abrigo onde saiam a repousar-se e a deleitar-nos
-estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!</p>
-
-<p>De força ha-de o animo do leitor compenetrar-se dos regalos intimos da
-virtude, para entender que a virtude é boa?</p>
-
-<p>Quando raiará o dia de felicidade para Alvaro?</p>
-
-<p>Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?</p>
-
-<p>Peccaminosa pergunta, se o leitor duvida das consolações mysteriosas
-com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas
-atribulações.</p>
-
-<p>Que ante gosto da bemaventurança não provou Maria, abraçando aquella
-mortalha de seu filho! Que suave doer, e dulcissimo anhelar a Deus não
-será o d'aquelle levita na correnteza dos annos, de penitencia
-voluntaria, e de evangelica abnegação? Não duvidemos: abaste-nos o
-orgulho da nossa miseria, e não façamos do nosso scepticismo um
-cadafalso injurioso á dor e á fé. Se em volta de nós não vemos
-senão imagens nossas, e almas aferidas no padrão vulgar; se a nossa
-idéa do prazer a aceitamos do vulgo, remodelada nas suas apreciações;
-será justo que não desdenhemos a felicidade que nos fica
-incomprehensivel áquem da baliza onde o curto alcance do espirito
-viciado nos leva.</p>
-
-<p>Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm
-n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus
-olhos os não guie ao horisonte da bemaventurança, assignalado pela
-cruz! E o caminhar sem desvio nem tropeços á patria infinita que nome
-tem, se não é a felicidade suprema?</p>
-
-<p>Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a
-sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a
-mudança do homem, ou o esforço d'elle sobre o coração do homem
-amortalhado.</p>
-
-<p>&mdash;Leonor&mdash;disse elle&mdash;bem me vês: vesti-me assim para a
-mim me vêr e convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma
-e as voluntarias mortificações do meu sacrificio. Este caminho é o das
-alegrias da virtude, por elle irei indo ao lado da sombra de minha mãe,
-até me identificar com a luz da sua gloria. Se errar o passo
-dificultoso, a santa pedirá por mim ao Pae compassivo dos que se
-levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha
-prima: os teus infortunios ganharam para sempre a dedicação, que a tua
-paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu
-agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o
-morrer do coração. Tu é que me não desculparias a inutil crueza de
-te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por
-esconder. Lá vai tudo. Agora, perdão e paz. Nem lagrimas me dês ás
-cinzas da paixão desgraçada! Escuta, Leonor, tu tens nos Olivaes uma
-casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha
-vida.</p>
-
-<p>&mdash;A casa é tua, Alvaro; é teu tudo quanto o mundo chamava meu...</p>
-
-<p>&mdash;Não sei se eram minhas as ruinas dos Olivaes, Leonor; sei que
-sinto prazer em pedir-t'as.</p>
-
-<p>&mdash;E poderemos alli viver, Alvaro?&mdash;atalhou Leonor.</p>
-
-<p>&mdash;Eu viverei.</p>
-
-<p>&mdash;Tu! e eu não, meu primo?!</p>
-
-<p>&mdash;Não, Leonor&mdash;respondeu o padre com um ar de firmeza, que não
-animava a ser contrariado&mdash;Ficas aqui, com as criadas de minha mãe,
-senhora d'estes nadas que pouco importam á tua triste existencia; mas o teu
-lugar é este onde recende ainda o perfume da mulher virtuosa, que nos
-levou a Deus a conta das nossas lagrimas.</p>
-
-<p>&mdash;E queres que eu aqui fique, Alvaro? não poderei pedir-te que me
-deixes escolher outra residencia? Respeitarás, ou terás piedade do
-coração que t'a pede, do coração que não morreu ainda?</p>
-
-<p>&mdash;Escolhe, Leonor; quererás voltar a Lisboa? queres antes viver na
-casa que lá temos?</p>
-
-<p>&mdash;Não, meu primo. Dá-me uma cella n'um convento, e uma criada, que
-me sirva.</p>
-
-<p>&mdash;E a chorar me pedes um convento, Leonor?</p>
-
-<p>&mdash;Quem deixaria de chorar a esta hora, Alvaro!...</p>
-
-<p>&mdash;Eu, bem vês.</p>
-
-<p>&mdash;Tu, sim, primo... Só podiam ser do coração as tuas
-lagrimas!...</p>
-
-<p>&mdash;Não são, não devem ser...&mdash;Alvaro concentrou-se, levantou ao
-céo os olhos, e continuou:</p>
-
-<p>&mdash;Irás para um convento, deixando-me sem condições a licença de
-regular a tua casa. As criadas de minha mãe irão comtigo, menos
-Eufemia, que me embalou o berço, e me ha-de fechar o caixão. Ámanhã
-iremos para Lisboa. Se, durante a noite a reflexão alterar o teu
-proposito, dir-m'ohas, Leonor.</p>
-
-<p>No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre
-Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de
-Santa Joanna, e d'alli ao conseguimento das licenças ecclesiasticas
-para a reclusão de sua prima.</p>
-
-<p>N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e
-depós ella uma sumptuosa mobilia.</p>
-
-<p>O padre abraçou-a no portico do convento, e disse-lhe:</p>
-
-<p>&mdash;A paciencia faz os anjos: pedirás a Deus por mim, quando te
-sentires alumiada da graça que fortalece e santifica.</p>
-
-<p>Leonor soluçava em gemidos, que lhe tomavam a voz. Alvaro pôz-lhe a
-mão de leve no rosto, e murmurou:</p>
-
-<p>&mdash;Não sejam as ultimas que chores por saudade de nossa mãe...
-Nossa, de certo, minha irmã!... Juntos seremos em cada prece que ella fizer
-a Deus.</p>
-
-<p>Alvaro cortejou a prioreza e outras religiosas que assistiam á entrada
-de Leonor, e sahiu.</p>
-
-<p>No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o
-estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio
-alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue.
-Reconstruída uma pequena porção do palacio, transferiu-se para lá, e
-decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em
-casa de Sebastião de Brito. Entre estes objectos, de sua casa levara
-apenas o leito em que morrera sua mãe, e o retrato de João de Mattos.</p>
-
-<p>Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes.
-Adjudicou a maior parte d'elles ao tratamento de Leonor, e a pensões de
-algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma
-pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia
-elle muitas vezes á velha criada «que estava vivendo da beneficencia
-d'ella.»</p>
-
-<p>Este viver assim durou desde 1839 até 1859. Vinte annos!</p>
-
-<p>N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle
-exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de
-plangente hypocrisia que o pobre moço endoudecera. Lembrem-se do que a
-tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a
-razão d'aquella virtude, os mais cordatos chamavam-lhe misanthropia, e
-os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe
-obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos
-romanticos d'aquella época. Esqueceu, por tanto, Alvaro Teixeira
-amortalhado no seu habito.</p>
-
-<p>É de crêr que lêsse muito, porque a sua instrucção era admiravel, e
-que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a
-decrepidez.</p>
-
-<p>Visitava Leonor ás temporadas, e a secular de Santa Joanna vinha á
-grade, transportada na sua poltrona de rodas, e chorava a cada traço
-novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.</p>
-
-<p>Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum
-tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era
-encontrarem-se na presença de Deus.</p>
-
-<p>Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle
-homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo.
-Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o
-officio, e chegara a merecer por suas virtudes uma distincta posição
-entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a
-gloria da virtude não fosse a modestia, eu escreveria aqui o nome do
-amigo digno de Alvaro Teixeira.</p>
-
-<p>Não sei que mais lhes possa dizer da vida d'aquelle padre dos Olivaes.
-Recordem os primeiros capitulos, e suave lhes será relembrar os santos
-dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto
-venerando.</p>
-
-<p>Já sabem porque elle se esquecia contemplando a janella fronteira das
-suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e
-nove annos antes, as palavras de Leonor com que o seu amor inflorára a
-garganta do abysmo onde cahira entre os braços da piedade e da honra.
-Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao
-annunciarem-lhe a agonia de Leonor.</p>
-
-<p>Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos
-instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas,
-que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de
-Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este
-vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de
-Leonor, nos seus ultimos mezes, brilhava de um resplendor, que não era
-natural; e, ao sahir d'aquelles extasis, dizia ás suas amigas que
-estivera vendo no céo a imagem de sua tia. N'um d'estes arrobamentos é
-que Leonor expediu o espirito, dizendo estas palavras: «Abre-nos o teu
-seio, santa! leva para ti os teus dous filhos, e não me lances de ti,
-que as minhas lagrimas purificaram-me.»</p>
-
-<p>Eu quiz, não por duvidar, mas por escrupulo, combinar dous factos
-inconciliaveis.</p>
-
-<p>&mdash;Se Leonor morreu de repente, como foi avisado o padre Alvaro de
-que ella estava em agonia da morte?</p>
-
-<p>&mdash;Não se lhe deu tal aviso;&mdash;respondeu a
-prioreza&mdash;Leonor, na vespera do seu trespasse, tinha dito que, se o
-seu primo não viesse vêl-a até ás quatro horas do dia seguinte, só
-na presença de Deus a veria, Ora, nós tanta confiança tinhamos nas
-previsões da virtuosa senhora, que nos apressamos a chamal-o.</p>
-
-<p>&mdash;Deu-se, por tanto um milagre!&mdash;atalhei eu.</p>
-
-<p>&mdash;Milagre foi, louvado seja por isso o Senhor, que escolheu a
-sua serva para nos edificar&mdash;respondeu a prelada&mdash;O padre
-Alvaro chegou minutos depois da hora que ella dissera.</p>
-
-<p>&mdash;Serei importuno fazendo mais uma pergunta?</p>
-
-<p>&mdash;Queira dizer.</p>
-
-<p>&mdash;Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um
-passado, anterior a trinta annos?</p>
-
-<p>&mdash;Não sabemos&mdash;respondeu promptamente a prioreza&mdash;o que
-podemos dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n'esta casa, quiz que as
-suas criadas lhe chamassem Magdalena.</p>
-
-<p>Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.</p>
-
-<p>Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte
-annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o
-fogo da indole e do instincto inextinguivel n'elle. Não me entendia com
-o mysterio de semelhante conversão.</p>
-
-<p>Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de
-orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na
-igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um
-dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e,
-á orla inferior, li estas palavras: <i>Flevit amàre</i>: CHOROU
-AMARGAMENTE.</p>
-
-<p>Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a
-primeira da santificação.</p>
-
-<p><br /><br /><br /></p>
-
-<h4>FIM.</h4>
-
-
-
-
-
-
-
-
-<pre>
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of O Romance de um Homem Rico, by
-Camilo Castelo Branco
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE DE UM HOMEM RICO ***
-
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-Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
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-Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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-computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
-exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
-from people in all walks of life.
-
-Volunteers and financial support to provide volunteers with the
-assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org
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-
-
-Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
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-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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-ways including checks, online payments and credit card donations. To
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-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
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-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
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-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
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