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-The Project Gutenberg EBook of Novos contos, by
-Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
-other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of
-the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
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-
-Title: Novos contos
- 4º volume da Comedia do Campo
-
-Author: Francisco Teixeira de Queirós
- Bento Moreno
-
-Release Date: August 17, 2020 [EBook #62954]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
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-
-Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
-Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was
-produced from scanned images of public domain material
-from the Google Books project.)
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-COMEDIA DO CAMPO
-
- LISBOA
- TYPOGRAPHIA DE ADOLPHO, MODESTO & C.ª
- _Rua Nova do Loureiro, 25 a 43_
- 1887
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-
- _4.º vol. da_ COMEDIA DO CAMPO
-
- NOVOS CONTOS
-
- DE
-
- BENTO MORENO
-
- La plupart des drames sont dans
- les idées que nous formons
- des choses. Les événements qui
- nous paraissent dramatiques ne
- sont que les sujets que notre
- âme convertit en tragédie ou en
- comédie, au gré de notre caractère.
-
- H. DE BALZAC—_Modeste Mignon_.
-
- [Illustration]
-
- EDITORES
- TAVARES CARDOSO & IRMÃO
- _5, Largo do Camões, 6_
- 1887
-
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-
-OBRAS DO MESMO AUCTOR
-
-PUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI E TAVARES CARDOSO & IRMÃO
-
-
-COLLECÇÃO DA COMEDIA DO CAMPO:
-
- Contos—1 vol. 500
-
- Amor divino—1 vol. 500
-
- Antonio Fogueira—1 vol. 500
-
- Novos contos—1 vol 600
-
-COLLECÇÃO DA COMEDIA BURGUEZA:
-
- Noivos (quasi esgotada)—1 vol. de 500 pag. 1$000
-
- O Sallustio Nogueira—1 vol. de 500 pag. 1$000
-
- O Grande Homem (Comedia)—1 vol. 700
-
-[Illustration]
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-
-[Illustration]
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-A MINHA MORTE
-
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-Estava na convalescença d’um typho. Não teria doze annos, mas na minha
-imaginação representa-se ainda nitidamente esse longo periodo de
-febre e de terriveis visões. Apesar de debil e quasi enfesado resisti
-heroicamente ao soffrimento e á molestia. Sempre de costas na cama,
-passava o tempo a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de
-cachos dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me embebido em
-estupidez; as perguntas que me faziam, ácerca do meu estado, do sabor
-dos remedios e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos sem
-comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem ter os meios de exprimir
-tudo quanto de violento e de extraordinario se passava em todo o meu
-corpo. Era como um empastamento geral da minha carne, uma liquifação
-do meu cerebro, a ausencia de mim mesmo para sentir. Até as dores que
-soffria, tendo um resto de consciencia para saber que se passavam em
-mim, attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior era o de
-uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me de labaredas brancas,
-formadas de ar incandescente. As minhas sensações reduziam-se a uma sede
-permanente, que se não podia mitigar. Por mais que me humedecessem a
-lingua, nem por um instante m’a podiam tornar molle e flexivel: era uma
-lingua de papagaio, que seria facil quebrar como se fôra um caco. Ainda
-me recordo de quanto me custava a supportal-a na bocca e de ter, por
-vezes, desejos de a arrancar.
-
-Mas depois fui melhorando. A volta das sensações ordinarias fazia-se
-uma a uma, como pombos escorraçados d’um pombal. Era um renascimento
-gradual, e noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares,
-aquellas em que o homem tem menos imperio. Todos os dias a febre
-decrescia, reconquistava um pouco do viver antigo, como se eu tivesse
-feito uma viagem ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por um
-comprido corredor de muitas legoas, approximando-me instante a instante
-da benefica luz do sol, que se visse brilhar ao fundo, cá n’este
-mundo vulgar que todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. O
-facultativo consentiu que me levantasse todos os dias um nadita. Já podia
-ir fazendo tentativas de chupar a minha aza de frango. O enjôo da comida
-ainda era grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me
-melhorado não estava nas condicções das outras pessoas...
-
-No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram com o franco apetite.
-Tudo era pouco para mim, não havia coisa que me satisfizesse e era
-preciso que me ralhassem para não ser tão guloso, que me podia fazer mal.
-Até não queria que os outros comessem ao pé de mim; porque isso me dava
-inveja, e até raiva, ficando a reparar com olhos avaros e insaciaveis.
-O medico argumentava que o meu estomago devia estar fraco, que não
-supportaria sem damno grandes quantidades; mas eu sentia-me como uma
-grande planta, que lançasse por toda a parte as suas ambiciosas raizes,
-para se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e roubar-lh’a
-com o poder absorvente de uma enorme bomba. A comida de predilecção
-n’essa minha convalescença eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e
-grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á distancia de 26
-annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor d’essa incomparavel comida.
-
-A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima, o vento
-assobiava pelas frinchas das portas. Como já podia andar por toda a
-casa ia de vez em quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao
-norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como se fossem pyramides
-collossaes, formadas d’assucar.
-
-Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado obrigavam-me a descer;
-pois que a janella não era guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões
-até, a saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir,
-fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, abrangendo
-grandiosamente em labaredas, os potes de ferro que estavam ao redor.
-
-A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. A lareira, grande,
-coberta pelo enorme e phantastico chapeu da chaminé, muito farta de
-lenha—podia aquecer uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do
-sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava o aspecto
-glorioso d’um templo em festa. Havia maior numero de potes; as labaredas
-melhor sustentadas enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma altura,
-como parafusos sem fim. Era manifesta e patente a alegria, a satisfação,
-o contentamento que este bom fogo produzia em todos, principalmente
-quando as castanhas estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que estava
-perto a enfusa de vinho.
-
-Mas quando desci apressadamente do mirante, batido no rosto pela saraiva
-e com o tetrico medo de recahir, a cosinha estava solitaria e lugubre.
-Era dia ordinario, o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava com a
-fervura, os gatos e os cães, fraternalmente misturados, enroscavam-se
-do lado do forno. Fui-me sentar ao meu canto, contando estar ali até á
-reza. Lá fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento passavam
-ruidosamente sobre o telhado, produzindo ressonancia dentro da chaminé.
-Todo este barulho exterior e material tornava mais sensivel a minha
-solidão. Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação de
-rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos traziam sardinhas da
-praça, que era para tambem as mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos,
-o arfar do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam
-um ambiente caracteristico de solidão ao qual se veio juntar a nota
-sentimental e lugubre do toque das trindades. A torre da egreja era
-sobranceira á cosinha e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente no
-cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. Apezar da viva
-chamma do lume ser propria para desfazer tristezas, sentia sobre mim o
-lendario pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. E a enorme
-chaminé, negra de ferrugem, abria sobre mim um espaço indefinido, d’uma
-amplitude amedrontadora. Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam
-pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente até á minha
-chouricinha e á de meu irmão, que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco
-a pouco cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, a
-ponto de quasi se extinguir o meu ser.
-
- * * * * *
-
-Provavelmente o calor benefico do lume concorria para o entorpecimento.
-Já quando o sino acabou de tocar as «ave marias» eu voejava n’uma
-atmosphera de sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. A
-cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio que me atirou por
-desconhecidas regiões, fóra de toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia
-a compasso da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com o gemer
-d’ave, feria-me levemente o ouvido como se fôra o desfallecer d’uma
-d’essas musicas ideaes, que só existem na região do azul. O estrepito do
-vento tambem se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, com a
-doçura e encanto do som d’um pinheiral. Estava envolvido, tapetado d’uma
-substancia isoladora que me fazia perceber attenuadas todas as sensações.
-O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie de anniquilamento das
-minhas forças physicas e a perda das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me
-consubstanciado n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me n’uma
-amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, eu já não pertencia
-ao numero dos vivos apesar da memoria me reproduzir claramente toda
-a realidade material que eu gosára e soffrera, durante os annos da
-convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do que fôra. Gostava da
-vida, mesmo simples e humilde como sempre a passára. Viver por viver e
-para viver, é que me enthusiasmava e não as altas posições da fortuna e
-da gloria. Todo o homem tem dentro em si tantos meios de ser feliz, que
-não saber aproveital-os é signal de desequilibrio e doença. Por isso, a
-idéa de ser um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, principiei a
-apavorar-me á maneira que percebia que isto era sério. Deixar assim de
-repente, sem uma despedida, a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente
-gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E sem enterro, sem chôro
-de parentes, sem nenhuma pompa funebre... como é que eu tinha morrido?
-Depois, independente da questão do céu e do inferno, aquillo lá pelo
-outro mundo não é satisfatorio. Antes de entrar nas regiões da perpetua
-ventura ou do infinito castigo eu não via senão caras tremendas, que nada
-tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. Os que riam era
-com esgares terrificantes, boccas arrepanhadas e olhos de fogo que me
-faziam medo; os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me tão
-pavorosas as suas cabelleiras formadas de florestas, que me senti gelado,
-não podendo sequer encaral-os.
-
-Não me faziam mal, não se approximavam de mim; mas eram desagradáveis
-companheiros na sua impavidez sinistra. Tambem, lá por esses espaços,
-que levianamente se chamam sideraes, eu não encontrava senão
-precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros a minha vista
-não podia alcançar. Por cima da cabeça tudo eram nuvens encastelladas
-e carrancudas, que deviam conter fogo e tempestades para myriades de
-seculos. Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento esta espessura;
-mas isso, maiores saudades me fez, por me lembrar com entranhado amor
-tudo quanto tinha perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse
-instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, attrahia-me
-muito pouco, não seduzia, com as suas magnificencias, a imaginação
-simples da creança. Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu
-progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla convivencia do
-rio, dos montes, das campinas e dos penhascos?!... O canto dos passaros,
-as paizagens floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia da
-primavera, os gosos familiares, as festas, as vindimas, as amizades...
-tudo teria acabado para mim?!
-
-Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! As lagrimas
-cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, a minha admiração pelos sublimes
-coros celestiaes, diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era esta
-saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do fogo da querida lareira,
-dos potes a ferver, dos salpicões pendurados diante dos meus olhos, me
-dava a precisa tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo se cheguei
-a considerar estas visões enganosas, como perfidos meios de transacção,
-para eu me habituar á outra vida. O meu desespero só fazia augmentar,
-sentia pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, que estava
-ali em frente de mim, já eu não a poderia saborear, em quanto que meu
-irmão, que era um vivo, havia de comer as duas e talvez muito regalado.
-
-Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de forças e ambicionava um
-momento de repouso. Visto estar morto, a tormentosa viagem atravez dos
-espaços infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso caminho da
-eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. Bem sei que logo para
-começo podia ser o purgatorio, como logar de purificação; mas declaro
-francamente que esta transigencia nos soffrimentos não me foi muito
-consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida cheia de peccados, julguei
-mais provavel não vir a ser um dos eternos habitantes do paraizo!...
-Estaria mais satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera
-ideal, mais pura que o diamante, de cor mais serena que a perola, logar
-onde não ha noite, nem sombra, onde os cantos são perpetuos, como é
-perpetua e renovada de instante a instante a floração d’aquella primavera
-sem fim. No entretanto, se me fora licito ter uma opinião, haveria
-declarado preferir a todas as sublimidades ideaes, o continuar na terra
-contingente, com todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem já
-que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo do que o inferno,
-ou mesmo o purgatorio. Infelizmente este horrendo caminho que seguia, com
-a velocidade d’um cyclone, não me dava esperanças de me levar á patria
-eternamente luminosa e bella. O ultimo precipicio em que estava era d’um
-horrendo incomparavel. Por todos os lados a treva sem limites, e para o
-fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!
-
-Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual todos os destroços
-eram engulidos pelo redemoinho infernal do Maelstrom, assim o meu corpo,
-o meu cerebro, o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento
-concentrico. Sentia que de instante a instante me apertavam mais e
-mais as paredes d’esta nova prisão. Descendo sempre estava cruelmente
-atormentado e os meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor restea
-de luz. A minha existencia conhecia-a sómente pela dor d’uma perna onde
-cravára com desespero as proprias unhas. A superficie interna do funil
-era lisa a ponto de lhe não perceber o contacto.
-
-Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, a ponto de para o
-fim redemoinhar em volta de mim mesmo, como se houvera um eixo material,
-servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar ao meu pavoroso e
-tetrico fim! Uma sensação de frio penetrava-me até á medula dos ossos,
-apesar de que, por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu
-corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava concentrar-me,
-aconchegar-me, metter-me por assim dizer, para dentro de mim mesmo.
-
-Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... Talvez o desmoronamento
-da pilha d’achas que formavam a fogueira. Esta sensação, de certo
-agradavel em outras circumstancias, poz-me em grande terror; pois que
-mais me confirmou na ideia da proximidade do inferno. Lá ia eu cahir
-n’esse fogo perpetuo, que tão horrendo antevira nas descripções dos
-missionarios! E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça
-d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido os meus doze
-annos, para merecerem tão severa punição? Já não tinha lagrimas,
-sentia-me anniquillado e sem força para me oppor. O meu incomparavel
-infortunio, não se limitava a perder o gozo da vida terrena, que tanto
-amava. E transigia covardemente: Se, ao menos, fosse trocar o mundo,
-a familia, os brinquedos, a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a
-minha chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria ganho, mas vá
-lá. Porem abandonar todas estas coisas sympathicas e ter para todo o
-sempre de gritar entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros
-horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas chumbo derretido, breu
-e azeite a ferver!... era o que eu não podia levar á paciencia. A grande
-afflicção em que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que resultou
-d’uma onda de sangue novo que se me espalhou no cerebro. Por mais que
-esquadrinhasse na consciencia, por mais que posesse aberto e claro o
-meu passado insignificante, não me sentia merecedor de tão formidavel
-pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente misericordioso e de
-certo me ouvirá—pensei. Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim
-proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro como correra o meu
-processo. Não me lembrava de ter apparecido na sua divina presença; não
-vira aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como espuma do mar;
-não me recordava dos coros dos anjos e das virgens, nem das incomparaveis
-bellezas da celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno
-por engano! Quem me dizia não ser eu victima de manobras d’algum
-verdadeiro condemnado que tivesse tido artes de se trocar por mim?! A
-minha perturbada intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por
-tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma supplica formidavel, que
-alargando-se por este funil em que me acho, suba aos ouvidos justiceiros
-do bom Deus, grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia,
-dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme folego, enchi o peito
-d’ar, concentrei em mim todas as energias da terra. Da minha garganta
-sahiu um estridente brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo tempo
-fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha avó, que resava as suas
-contas encostada á janella. Contei-lhe toda a minha afflicção e os
-tormentos mentaes em que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois o
-confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto devia ser tomado como
-um aviso do ceu. Apesar da minha pouca edade, este toque divino, mostrava
-claramente que eu andava em peccado mortal. Uma confissão geral de todo
-o meu negro passado era urgente. Os esconjuros deviam completar esta
-obra de limpeza espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos
-foram resados por um padre gallego, que era homem eminente em escorraçar
-demonios.
-
- Janeiro de 86.
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-[Illustration]
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-[Illustration]
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-
-NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO
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- (_A Valentina de Lucena_)
-
-Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera, uma illuminação egual
-ameigava a paisagem. Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos,
-pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes. A escuridade cahia
-lentamente sobre os povoados, como um tenue orvalho. A physionomia das
-terras, em especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia mais
-d’uma hora que a carruagem rodava por uma estrada em declive. Disse-me
-o cocheiro, que algumas casas e uma egreja agglomeradas n’um valle,
-na margem direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira de Pena.
-Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam este bocadinho de campo,
-no qual eu principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus primeiros
-annos.
-
-Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado e monotono barulho
-da carruagem, o assobio dolente e vago do cocheiro, a amortecedora luz
-do crepusculo infiltrando-se por entre as penedias das encostas, os
-renques d’arvores do valle tinham-me lançado n’um estado de inconsciente
-melancolia. Já cançado da jornada, ainda me faltavam muitas horas para
-chegar ao Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio
-ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me no cerebro, umas vezes,
-como nuvens transparentes e macias recordando momentos d’agradavel
-convivencia; outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias
-proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar da mocidade!...
-Oh! minha encantadora e modesta infancia, eu que sou um dos homens que
-mais tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente
-alegre!...
-
- * * * * *
-
-Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa, os objectos tem
-adquirido um esfumado que os avoluma, a carruagem parou á porta d’uma
-taberna para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foram chamados
-á realidade com energia. N’um banco de pedra, d’esses toscos e muito
-usuaes que se encontram juncto das habitações dos camponeses minhotos,
-estava sentado um velhinho magro, tendo ao lado um saquito enfiado n’um
-páu e uma pequena almotolia d’azeite presa á cintura por uma correia. O
-seu rosto sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o sorriso
-natural, que lhe resaltava da expressão, parecia sahir d’um berço.
-
-Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo, de amoravel e bondoso,
-no rosto d’esse pobresinho. Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para
-todos com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido roçava-se-lhe
-pelas calças, roncava-lhe junto á cara e elle afastava-o com humildade
-e carinho, dizendo-lhe até palavras de conselho. De certo os seus
-nervos delicados se encommodavam com aquelle grunhir insolente; mas
-nem por isso se mostrava menos attencioso, para com o bruto. Fallava a
-todos tão suave e brandamente que a sua voz semelhava um murmurio e uma
-consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar, d’uma tranquillidade de
-justo, prolongava-se pelo espaço infinito, quando olhava para o ceu. Os
-cabellos brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos, finos
-e fluctuantes como floccos de neve, tinham a transparencia do nimbo
-dos sanctos. Tocou-me aquella bondade, aquelle ar compadecido e altivo.
-Pareceu-me um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar. Elle
-sorria-se para mim, com a expressão d’uma pessoa que conversa junto d’uma
-lareira aldeã, quando a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente
-sobre o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe
-mesmo de dentro da carruagem:
-
-—Vocemecê vem de longe?
-
-Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez d’uma longa
-caminhada. Estava alli a descançar. A dona da taberna disse que o não
-conhecia e que não era das redondezas. O velhito, como eu lhe fallei,
-levantou-se sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, para que
-mais ninguem o ouvisse, segredou-me:
-
-—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu mesmo o sei.
-
-Tomei estas palavras como de soffrimento resignado e tive piedade.
-
-Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo cansaço e não encarecia
-as suas dores para me pedir esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida
-do semblante, quando pôz os pés no chão para me vir fallar, que andára
-muitas leguas a pé. Talvez para ir ver uma filha enferma! talvez para
-exprimir outro grande affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras
-percorrera, que até a sua memoria enfraquecida pela edade não retivera os
-nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...
-
-Insisti com modos de incredulo:
-
-—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?
-
-Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha dicto uma coisa
-perfeitamente exacta.
-
-—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me com extrema reserva.
-
-E acrescentou sorrindo intelligentemente:
-
-—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço todo o mundo. Bem sei quem o
-senhor é... É o senhor conde. Ah! cuidava que não sabia?...
-
-No rosto do pobresito appareceu uma aurora de triumpho. Para lh’a
-sustentar perguntei muito baixo:
-
-—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?
-
-A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem superior com que me
-olhou. Continha lá dentro infinitos thesouros de sabedoria e perspicacia,
-á qual não resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem era eu,
-um misero conde, diante d’aquella omnipotencia que considerava o globo
-terraqueo como uma insignificante bolinha de pão?! Na minha tristesa e
-confusão devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que o velhinho, para
-me consolar acrescentou:
-
-—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde venho é porque ando por
-todo o mundo. Agora ahi vou eu para Hespanha ver se componho _aquillo_
-e se acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo aqui—designou
-o saquito—os papeis e livros necessarios para dar luz e felicidade _a
-todos_—sublinhou.
-
- * * * * *
-
-Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim
-fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar
-os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco
-d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro
-de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se
-ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar
-altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram
-para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos
-retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e
-bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em
-lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella
-e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas
-flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa
-attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos
-os meus gestos e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso.
-Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle
-concluiu:
-
-—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim.
-
-—Oh! de certo!...
-
-E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis
-perguntei-lhe:
-
-—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma
-coisa?
-
-Sem altivez respondeu:
-
-—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um
-rôr de seculos e nunca senti fome.
-
-E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação:
-
-—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá.
-
-—Ah! vocemecê não é de cá?
-
-—Eu sim!...
-
-E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão,
-abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu!
-Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na
-serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A
-expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão
-que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de
-tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma
-entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei
-a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas,
-algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade
-e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e
-superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir
-protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer
-podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da
-sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não
-comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido
-ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram
-a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera
-fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um
-pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!...
-
-Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto
-sumido, alegre, bondoso, expressão de soberba e de compadecido, julgava
-representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava
-nas suas palavras:
-
-—Então quem é vocemecê?
-
-—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim creatura!... Nosso Senhor
-Jesus Christo!
-
-E fixando-me com tremenda piedade concluiu:
-
-—Ando aqui para os salvar a todos.
-
-Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, depois de me
-recommendar:
-
-—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, não acreditam.
-
- Janeiro de 85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-O CEGO DE GUARDIAM
-
-
-Logo que expirou o cunhado, José Domingues cahiu n’um scismar
-atormentado. Só elle comprehendia a grande desgraça que n’esse dia
-entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, que tinha para os
-sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se de os trazer todos para onde
-a si; mas como poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho e
-um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o pobre José Domingues, e
-aquelles olhos cegos desde tenra infancia, estavam grossos como punhos
-de tanto que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, prenda que
-seu tio frade lhe deixára, juntamente com as territas de que vivia. A
-comida entrava-lhe na bocca só á força, depois de muito o apoquentarem.
-Como toda a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas
-conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, coisas de pouca
-valia, pois não produsiam alimento para os sobrinhos. O seu amigo Miguel
-Tinta, trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; porem o
-cego é que não estava para tocar.
-
-—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de seiscentas arrobas—rematou
-arrepanhando o coração.
-
-Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de o tirarem d’aquelle
-malucar, lhe pediram insistentemente, José Domingues tocou umas musicas
-tristes, muito populares e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião,
-que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma ideia, disse com
-enthusiasmo:
-
-—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! Não se ganharia alguma
-coisa?
-
-Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e applaudiram com
-estrepito a lembrança. Só o rabequista não tinha grande fé, pois disse:
-
-—O que, a tocar? Uh!...
-
-—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar fortuna é sempre bom
-prophetisou emphaticamente Zé Maximo, o barbeiro.
-
-Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados planearam a coisa
-detalhadamente, mencionando as terras que percorreriam e as musicas que
-haviam de escolher. Uma manhã de primavera, partiram com o sol rubro
-no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e quando voltaram vinham
-satisfeitos, porque traziam um bom par de moedas na algibeira. Foi uma
-alegria para aquella gente, mormente para José Domingues, que ao entregar
-o dinheiro á irmã pulava de contente, com os sobrinhos todos em volta a
-agarrarem-se-lhe ás pernas. No forte das suas expansões, o cego, planeava
-uma vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco para matar n’esse
-anno e mais um bácoro, para o seguinte.
-
-—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar a haver salgadeira e
-fumeiro, como antigamente—affirmou.
-
-Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, que tão popular fez o
-cego de Guardiam, em toda a provincia do Minho.
-
- * * * * *
-
-O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem fallasse no _ceguinho_
-designava logo José Domingues. A expressão persuasiva e bondosa do seu
-rosto tornava-o attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, ou
-a cantar modas alegres, ou a gracejar com as raparigas, era sempre
-comedido e delicado; por forma a ser cubiçada a sua presença. De todos
-os cegos pedintes e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia.
-Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, alem da paga, offereciam-lhe
-vinho e marmelada. Tambem elle não se parecia com nenhum d’esses
-tocadores de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido de
-briche; camisa lavada; botas de cano, toscas e fortes; a mão apoiada
-no hombro do companheiro; o extincto olhar voltado para o sol; assim
-percorria a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de pequeno
-proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias e necessidades para
-provocar compaixão. Acceitava o que lhe dessem, fosse muito fosse pouco,
-agradecendo tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente era
-que o escutassem com religião e amor. Se havia pelas janellas senhoras
-formosas, em quem presumisse melhor comprehensão da musica, o Miguel
-advertia-o; pois que n’essas circumstancias, o arco de José Domingues,
-tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, e coração de poeta.
-
- * * * * *
-
-Que ideia faria elle da formosura!...
-
-Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera a vista!... As
-suas recordações não podiam deixar de ser pedaços de mundo dispersos, mal
-definidos, impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. Comtudo
-na viva e larga imaginação, era certo que lhe esvoaçavam encantadoras
-imagens. A meiguice do sorriso, a bravura da expressão em certos
-momentos, fazem-no presumir. Quando acreditava que a sua alma, a sua
-rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de mulher, o rosto bexigoso
-e feio, animava-se-lhe triumphantemente, como uma aurora. Parecia que
-tinha um resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.
-
-É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de
-sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros
-efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe
-a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente
-dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e
-dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem,
-que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por
-conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta
-annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a
-aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava!
-
-Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si,
-conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe
-a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom
-velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade.
-Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra
-o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se
-oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle
-acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por
-mais que ella fosse contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim
-tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter
-impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam,
-em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e
-sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir
-da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa
-conventual, até o abbade parava a ouvil-o. _A donzella abandonada_,
-o _Marinheiro_ e o _Cão fiel_ eram algumas das poucas cantigas que
-n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que
-era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada
-e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança
-pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia:
-
-—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina
-que elles não te entendem!...
-
-E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a
-como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava
-os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos
-bailassem, o cego, tocava-lhes a _Canninha verde_, a _Maria Cachucha_,
-o _Afasta janota, arreda_, e os rapazes acercavam-se das raparigas,
-formando logo a roda.
-
-Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de
-consentimento e um dedo no ar:
-
-—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.
-
- * * * * *
-
-Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do
-José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a
-magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre
-voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a
-inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se
-fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é
-que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam
-a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que
-tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia.
-Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se
-com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse
-morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras
-na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era
-recebido com verdadeira satisfação este portador de novas canções e,
-principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e
-sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre
-lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua
-palavra.
-
-Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as
-no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de
-satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do
-lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos
-paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante,
-colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco
-e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia
-os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo
-valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar
-a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua
-modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham
-medo do trovão:
-
-—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.
-
-—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não
-presta—observou um de oito annos.
-
-—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade.
-
- * * * * *
-
-A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um
-jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante
-as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia
-do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons
-olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No
-fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem
-florida. As canções d’esta epoca, o _Regadinho_, o _Pintalhão_ eram
-vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas
-e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o
-sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes.
-Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas
-vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um
-caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava
-escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo
-de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam
-com a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente
-celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com
-effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava,
-pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!
-
-É que se sentia entre corações d’amigos.
-
- * * * * *
-
-N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto dos seus, ouviu ler na
-gazeta que o padre Carvalhosa emprestava ao mestre-eschola de Guardiam,
-que estava em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista
-celebre a quem chamavam pomposamente o «primeiro violinista do mundo».
-
-—Olhem que não tocará melhor que o nosso José Domingues—affirmou
-enthusiasta e patrioticamente o professor.
-
-—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu, um pobre estupido, posso
-lá!...—respondeu com modo agradecido.
-
-—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os sessenta e cinco que já
-conto, nunca ouvi como Frei Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o
-fidalgo de Refuinho, quando elle era vivo.
-
-—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja. Devo-lhe a alma que
-tenho—confessou commovido.
-
-José Fortunato ainda acrescentou:
-
-—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram no Porto com o tio
-general. Presencearam por lá grandes coisas e disseram-me que antes
-queriam ouvir o José Domingues.
-
-—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego, não sei nada, senhor José
-Fortunato.
-
-—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou o mestre-eschola,
-batendo uma punhada sobre o coração.
-
-O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo tudo pelo instincto,
-atirou a carapuça ao telhado, gritando:
-
-—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!
-
-—Viva! viva!—acompanharam os outros.
-
-Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa maravilha tão
-apregoada pela gazeta. Que poder, que attracção teria no seu arco, esse
-homem que era superior a todos os que havia no mundo! Na sua mente
-ingenua, apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, dominando a
-multidão dos admiradores que o applaudiam. Um publico de fidalgos e
-mulheres ricas é bem differente do seu, que era rude e casual. Haveria
-fragor de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro em que as luzes
-faziam sobresahir a opulencia. A apotheose alargava-se até aos confins
-da terra e o artista victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma
-calorosa do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com esse imaginado
-triumpho, a commoção manifestava-se nas lagrimas que lhe apontavam. E
-batendo uma palmada no joelho disse com resolução:
-
-—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa d’estas!
-
-N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem perguntou:
-
-—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! Talvez se lhe possa tirar
-alguma coisa.
-
- * * * * *
-
-Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. Musica que
-ouvisse logo lhe ficava. Tinha no Porto e em Braga, quem lhe arranjasse
-versos apropriados. Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e lettra,
-o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as egrejas onde ouvisse
-tocar o orgão e era assiduo perto das bandas militares, quando soubesse
-que tocavam em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o Miguel
-tractavam logo de lhe applicar versos dos que sabiam e assim chegaram a
-popularisar canções, como aconteceu áquella que principiava:
-
- Veja lá menina
- Se levanta a saia
- .................
-
-a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu
-aristocratisarem-se as suas modas até chegarem ás salas de provincia, e
-então José Domingues ouvindo-as celebradas em piano dizia com orgulho:
-
-—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.
-
-A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, sobresaltou-lhe
-o coração, cheio de enthusiasmo pela musica. Era rigoroso dezembro; o
-frio enregelava as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado de
-nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. Os caminhos estavam
-intransitaveis, muita gente lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas
-elle, logo que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, resolveu
-o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação religiosa. De tempos
-a tempos, José Domingues soltava seus ais admirativos e dizia para o
-companheiro:
-
-—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista do mundo?
-
-Miguel observou scepticamente:
-
-—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que lhe põem.
-
-—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou absorvido na sua ideia.
-
-Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, procuraram um
-estudante de Guardiam, com o fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam
-que tudo quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, tendo
-escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso artista para tocar n’essa
-noite no Paço. O estrangeiro accedera, para conquistar as sympathias do
-prelado e do publico.
-
-—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu queria ouvil-o. Não me
-poderá arranjar um buraco no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me em
-qualquer parte. Um buraco que seja, menino.
-
- * * * * *
-
-Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante era amigo d’um
-famulo de sua excellencia, o qual pôde esconder o cego n’um vão de
-escada, proximo do logar onde se realisaria o concerto. José Domingues
-levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre o peito para melhor
-comprehender a musica. Tiveram de o introduzir de dia, n’um momento
-conveniente para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou que
-chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando brandamente para não
-dar rumor de si, alli se conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede
-furiosa, que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.
-
-O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela perguntar-lhe se
-estava bem e o cego respondeu agradecido:
-
-—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...
-
-Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos depois entrava
-tudo quanto havia de selecto na sociedade bracarense. A alta clerezia
-appresentou as suas familias respeitaveis. O general, o governador
-civil, o commandante do 8, o juiz de direito, administrador do concelho,
-delegado, professores do lyceu, trouxeram suas esposas e filhas. Ondulava
-um murmurio de vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar nomes
-consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. Isto augmentou
-no seu espirito o valor d’aquella festa, tornando-a imponente. Era
-um deslumbramento e um ceu aberto o que principiava a despontar na
-sua imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra o seio,
-estremecendo-a como se fora um ente animado, estava commovido. Ia-se
-verificar a apotheose d’um seu irmão, e elle identificava-se com a gloria
-do artista que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta d’esse
-facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. Pouco depois chega o
-rabequista e a curiosidade da parte dos assistentes produziu um sussurro
-maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se um silencio de mar que
-se esbate sobre a areia.
-
- * * * * *
-
-Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a sala, a alma de José
-Domingues sentiu-se arrebatada para um horisonte largo. Dos seus olhos
-sem vista, irradiaram fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se no
-amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua imaginação livre, vagueou
-na larguesa sem fim, n’um redemoinho d’harmonias, que o impelliam como
-ligeiro farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera para elle.
-Não estava n’um buraco, como cão despresivel, socio e companheiro de
-ratos: aos seus olhos apparecia um amplo salão, ornamentado de riquezas
-e de mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento sobre a
-telha vãa da sua pobre casa, os caminhos enlameados e cheios de poças, os
-encontros por vezes desagradaveis da sua vida de tocador.
-
-Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, buliçosos, José
-Domingues ia indo n’aquella toada e vinham-lhe á mente coisas loucas
-e pueris: dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas
-que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, e ao longe, a
-multidão festival passava para a romaria. Se era a dolencia das musicas
-hespanholas, entranhadas de sentimento arabe, expraiando-se brandamente,
-como as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam uma paz
-infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca d’uma primavera só formada
-de cantos de passaros e de perfumes d’hervas e de flores, como elle
-a contemplava n’esses momentos, era mais intensamente bella do que a
-paisagem das amendoeiras e dos campos cheios de trevo e de malmequeres
-brancos.
-
-Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para todos os trechos
-lacrimosos, d’uma plangencia terna que se abrissem largamente em
-espaços constellados. Não valiam tanto os rouxinoes e os melros no
-meio silencioso das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos.
-Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos dos ouvintes, José
-Domingues sentia que elles não comprehendiam bem aquella musica. Se
-elle podesse, entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do grande
-artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um chôro copioso e enthusiasta!
-Rastejar pela terra como humilde verme, era o modo que a sua rudeza
-achava bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão. Porque não
-procediam assim esses homens que o ouviam? Vinham-lhe suffucações de
-colera contra os que se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril
-e ardente como o seu. É que não tinham alma para sentir. Elle humilde,
-obscuro, rude, apertado entre as paredes d’aquelle buraco, era-lhes
-superior, comprehendia o que elles não podiam comprehender, tinha em
-si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra podiam egualar.
-Vibravam-lhe no cerebro os echos d’aquella musica, a sua commoção era
-grande, os soluços que não podia evitar apanhava-os nas mãos para não
-serem percebidos, com medo de perturbar aquella musica celestial!
-
- * * * * *
-
-Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade, e no coração
-repercutiram-lhe os fremitos magestosos d’uma epopeia, quando os
-primeiros accordes da «Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua
-imperfeita comprehensão, não se destrinçavam claramente as bellezas
-accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo em globo, tumultuariamente,
-como se a lendaria figura da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o
-por ermos desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra. N’aquella
-ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer, vencia espaços
-incommensuraveis, passava gloriosamente sobre altos montes, ia em
-rapido vôo sobre o mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas
-formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando a realidade
-na manifestação da dôr; mordia os punhos a ponto de fazer sangue; queria
-gritar e não podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca, n’uma
-effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava nunca! O canto
-angelico e suave crescia em profundeza, augmentava em area—era como uma
-palpitação infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de carinho,
-o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as forças. E lá era levado
-de novo, subindo até ficar sobranceiro ás nuvens, conhecendo instantes
-de paz e de tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como uma
-cobra ferida.
-
- * * * * *
-
-Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos. Prolongaram-se
-porque era o agradecimento final. Porem, todo esse ruido não pôde dominar
-um doloroso grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo n’um arranque
-de ciume, meigo como se fora o ultimo queixume da rola Ophelia.
-
-Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores. Um soluçar
-ancioso continuou e para o logar d’onde elle vinha se dirigiram as
-pessoas interessadas em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços
-sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de Guardiam, que não
-poderam mais chamar á vida!
-
- Janeiro de 86.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
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-
-A VELHICE D’UM REI
-
-
-Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha conversava em voz
-pausada e lenta. Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em marfim, por
-desconhecido artista da Renascença, dava-lhe ensejo de explicar a velhos
-amigos, como conjecturava, que teriam trabalhado aquelles talentos
-singulares, creadores de tantas maravilhas. Tenuissima nuvem de paz,
-de conforto, de luxo estudado, pairava sobre este ambiente, tornando-o
-em região intermedia á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um
-sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho do nascimento
-e a tristeza propria dos annos. A sua longa barba branca, objecto de
-veneração em todo o paiz, era até commentada entre a gente rude dos
-campos. Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional, pois com
-jactancia affirmavam não haver outro rei com barba tão longa, tão linda e
-tão branca.
-
-A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos paços doirados,
-sentimento peculiar dos que soltam os primeiros vagidos sentados n’um
-throno—diziam que a não tinha. A abnegação e o desprendimento de
-todas essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia entre as
-classes populares, que são as que melhor comprehendem as inclinações
-democraticas. Elle abdicára em seu herdeiro o poder de que disposera
-durante muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação e
-logo que o principe chegára á maioridade. Adquiriu a liberdade de homem,
-entregando-se ás suas collecções artisticas, aos prazeres da caça e á
-conversação intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura das mattas
-reaes, sempre poeta, contemplando a luz e vivendo intimamente na absoluta
-natureza silenciosa. Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos
-o diziam generoso e esmoler.
-
-Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião benevolente. Alguns
-revelavam que fazia sentir as suas dadivas, fallando d’ellas. Censurava
-os gastos de muitos que os não podiam fazer, tinha a opinião de que
-a sua bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe.
-Desfazia com palavras, alguma generosidade que praticava. Apontavam como
-impropria, a ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano
-amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares. Era o que faltava que
-procedesse d’outra fórma. Não fazia o povo muito mais pelo rei, do que
-o rei pelo povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as extensas
-coutadas que a nação lhe dispensava para os seus divertimentos?!...
-
- * * * * *
-
-Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas para lhe entreterem
-as insomnias, tinham de colher ou inventar episodios escandalosos. Era
-fatigante a sua exigencia nos detalhes e torturava-os com repetições. A
-surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica para lhe fallarem.
-Havia perguntas e respostas disparatadas, situações grotescas que depois
-se desfaziam em motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos
-entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso, um ar de
-approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe com a velhice e só historias
-picantes, difficeis de inventar, conseguiam distrahil-o.
-
-A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro do palacio) esposa
-morganatica do rei, senhora ainda forte, saudavel, com vida para gastar,
-abandonára-o n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle estava
-mais satisfeito entre os seus amigos. A falta d’um contacto feminino,
-que lhe enternecesse a organisação, fizera variar aquella sensibilidade
-que fôra delicada e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem
-mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, creadas servindo
-intrigas amorosas, homens escapando-se de gatas por telhados... é que lhe
-enchiam o vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas eram
-rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida ociosa e delicada. Passavam
-um aborrecimento n’aquelle palacio de grossas muralhas. O que lhes valia
-era a conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, muitas
-gentis, todas de uma educação esmerada. Desanuviavam-se reciprocamente
-d’aquella vida pautada e monotona, fazendo má lingua, fallando da
-sociedade com a liberdade de parentes e camaradas. Um ou outro de
-apetites mais grosseiros, preferia abraçar nos corredores sombrios as
-simples creadas, mulheres de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto,
-que enchem a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes
-delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade, nos vultos a fugir
-cautelosos, nas palavras de carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar
-rapido.
-
- * * * * *
-
-Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei para lhe tomar o pulso.
-A um contrahir facial de suspeita do facultativo acrescentou o monarcha:
-
-—Não passei muito bem a noite, não.
-
-Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. O doutor
-applicou-lhe demoradamente o ouvido á região cardiaca, concentrou-se n’um
-raciocinio e quietou o doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez
-a maldita dyspepsia—esclareceu.
-
-Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a da gravidade
-e adiantado da molestia. Poucos minutos levou, para o mais humilde
-serventuario do palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era
-coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. Congestões
-abdominaes e no figado haviam obrigado aquelle velho coração a empregar,
-nos ultimos tempos, um grande esforço para impellir o sangue até aos
-confins do corpo. Um coração delicado de rei, batendo sempre moderamente
-debaixo de lendarios arminhos, logo que sentiu resistencia ao seu poder,
-entristeceu; principiou a condescender, a sobrecarregar-se; dilatou-se;
-adelgaçou... e a terrivel aneurisma estava proxima a romper-se.
-
-—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder providencial a revolta
-dos seus vassalos—comparou o medico, com delicadeza de phrase.
-
-Tal acontecimento impressionou diversamente. Não havia unanimidade de
-sentir, nem de crença. Todos viam que o rei continuava a conversar na sua
-voz pausada e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, mas podia
-enganar-se.
-
-—A sciencia humana—disse um velho de sorriso sceptico—é fallivel. «A mais
-aguda, segundo o poeta, é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de
-sua magestade não é para sobresaltos.
-
-—E a edade?—argumentou outro.
-
-—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou o primeiro.
-
-Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, outr’ora tão expansivo,
-se callava frequentemente, levando a mão ao peito quando desejava
-respirar mais fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado,
-o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza da maldita surdez, que
-parecia não ter cura. Que se levantasse algumas vezes, que fosse até á
-larga varanda admirar a primavera que principiava a romper nos campos e
-veriam, como logo adquiriria vigor, como os olhos se lhe alegrariam.
-
- * * * * *
-
-Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros viviam da
-munificencia regia, preoccupavam-se, para o caso da morte, com o theor do
-testamento. Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa
-da propria fortuna; outros, mais reservados e scepticos, temiam não ser
-contemplados e perderem aquelle bom agasalho e santa ociosidade.
-
-—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos obter d’esta fórma o
-equivalente do que gosamos?—resumiam.
-
-—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha se o não fizesse!...
-
-Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, diziam estar dentro
-d’um cofre de malachite, guardado n’um armario de ferro. Ninguem o tinha
-lido, a não ser talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um
-motivo de palavras humildes e risos captivantes, em face do doente.
-Este homem, fabulosamente rico, podia deixar a independencia social aos
-que eram pobres e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha de
-o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua memoria. Isto de reis
-são orgulhosos, mesmo quando o não parecem; teem a vaidade de que os
-lamentem depois da morte, para se conservar a velha ideia biblica de que
-o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de Deus!
-
-—N’esse caso que o pague—concluiam.
-
- * * * * *
-
-Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da saude do rei, houve um
-acontecimento que impressionou. O doente não tivera, durante a noite, uma
-hora de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, sentira o
-sangue tumultuar-lhe nas arterias.
-
-—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar torneios e golpes de
-lança!—criticou elle mesmo.
-
-O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal a visita d’um
-antiquario estrangeiro. A surdez obrigava o monarcha a grandes esforços
-na conversa. Durante perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca
-de tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, artistica e
-batalhadora, despreoccupada e cheia d’aventuras—bons tempos em que houve
-homens que foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como
-Cellini.
-
-—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me esses sabios na
-rua—recommendou o medico.
-
-A mulher do rei foi claramente informada da extrema gravidade da
-molestia de seu marido. Senhora de ascendentes fidalgos, muito temente
-a Deus, conseguira enfileirar na familia do rei, por um abuso da força
-poderosa da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação já caduca do
-soberano. Tambem se fallava de influencias clericaes, que miravam a obter
-para certo instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos
-entendiam que ella se prestára a aquecer os membros frios d’um velho, por
-simples vaidade de ser chamada rainha.
-
-Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto da corte e a supremacia
-entre as mulheres. A importancia da doença do marido, cuja morte
-para ella significava a perda de todas estas garantias e vantagens,
-assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão composto e triste,
-que abrandou, no começo, a malevolencia de muitos que na corte lhe
-eram hostis. Ella que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas,
-os passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas paisagens
-illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo que o mal tomou o caracter
-assignaladamente grave, e installou-se ao lado da poltrona onde o marido
-dormitava, ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.
-
-Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem só com o rei.
-Condescendiam os camaristas, formando conjecturas, que nem sempre eram
-benevolas. Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam no rosto
-uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam que no semblante
-do rei, apesar da compostura calculada, apesar da respeitavel barba
-branca que lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona
-com as palpebras docemente cahidas... descobriam restos de fadiga e o
-aspecto d’um homem contrariado. Parece que se percebera n’um dia barulho
-d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar de mulher. A
-creadagem affirmava ter sentido beijos de esposos, palavras de colera,
-expressões de reconhecimento. Tudo isto não podia deixar de ser obra de
-testamento—entendiam. Os velhos amigos do soberano, sempre lhe tinham
-tractado respeitosamente a mulher, indicando, ainda assim, na friesa e
-polidez dos cumprimentos, que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe
-intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os dias do doente com
-mortificações, e até a sua notoria religiosidade, tomavam como impostura.
-
- * * * * *
-
-A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem era licito
-desconhecer o proximo termo d’aquella vida d’opulencia. O proprio
-doente disso estava convencido e quando lhe diziam palavras d’esperança
-sorria com amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes
-e incommodas eram um desmentido claro. A oppressão no peito dava-lhe
-um sentimento de homem replecto. Os beiços engrossavam todos os dias,
-as olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras pesadas e
-adormecia facilmente como um bebedo. Este homem nascido em berço d’oiro,
-esta imaginação educada e aberta sempre n’uma atmosphera de delicadezas,
-repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma doença prolongada, começou a
-ter pelo corpo de que fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas
-pernas estavam grossas como rudes troncos de carvalho, o ventre volumoso
-chocalhava como um barril mal cheio, e, segundo lhe segredava a memoria,
-devia conter um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes. Preferia
-ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver molestias para reis,
-molestias limpas, que fossem o logico terminar da vida das grandezas.
-A cabeça recostada no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a
-arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os olhos para fugir á
-vil realidade e entrar n’um mundo ideal de lembranças dignas. E parecia
-conseguil-o, pois havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e duma
-tranquillidade de stoico.
-
- * * * * *
-
-Viveria em imaginação no seu passado?
-
-Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa a perceber viu-se
-rodeado da consideração, que pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe
-submissamente confiar as suas barbas, para que o principe as tomasse
-como brinquedo. Tinha sido entregue depois a professores, que sobre
-elle exerciam uma auctoridade parecida antes com a obediencia. Quando
-cavalleiro, gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára
-amores defezos, que tanto o divertiam pela posição do homem enganado.
-Subiu ao throno, e viu curvadas diante de si, as illustrações do sangue
-e da sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional poder,
-deviam receber a consagração. Aborrecido do mando, com o egoismo proprio
-da velhice, abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára ainda
-uma formosura que o amára, sentira-se remoçado e contente durante certo
-periodo...
-
-Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações faciaes
-significativas de desgosto. É que sentia o desabar de todo esse mundo,
-como desabam as montanhas n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a
-sensação de que um largo alçapão se abria na terra e o engulia para uma
-escuridade absoluta e eterna! Era homem como os outros. Diante da miseria
-da carne estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o sceptro, a
-auctoridade real, os gosos da intelligencia, nada faziam para que tivesse
-um fim grandioso.
-
-Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas batalhas medievaes,
-atravessando inimigos com lanças relusentes e acabando entre maldições e
-hymnos de gloria! A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda mais
-repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras entumescidas e
-cyanoticas, beiços grossos e olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho
-e ficara horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.
-
- * * * * *
-
-Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade dos vivos
-cubiçando-lhe os haveres. A mulher queria um testamento que lhe fosse
-absolutamente favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua
-fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. Ao calor emprestado
-pelo sangue da donzella, devia o rei o prolongamento d’uma vida
-arruinada. Os filhos questionavam os seus direitos, com razões de casta,
-ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições de familia; da
-abundante riqueza que era preciso ostentar, para se imporem pelo fausto,
-como já se impunham pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis,
-companheiros dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados serviços
-mereciam uma recompensa, uma lembrança no supremo instante da despedida.
-A exigente consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses deveres
-como entendesse. Só assim poderia sustentar o respeito e consideração
-publica, continuando na sua mão as dependencias que até alli tinham sido
-do rei. Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com ameaças
-sobre a sua memoria.
-
-Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha lembrou-se do suicidio.
-A razão aconselhava-lhe a findar o mais depressa uma existencia
-assim despresivel. Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e
-o gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde luctar desapparece
-d’arena—pensou resolutamente. Ia furtar-se a muito desgosto, a sentir o
-difinitivo escorrer do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se
-pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar o peso
-d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir por mais tempo o chocalhar
-dos liquidos no ventre, o que lhe dava a ideia de que elle era um
-despresivel odre, caminhando no dorso d’um macho.
-
- * * * * *
-
-Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de Sèvres, espalhava no
-amplo quarto uma bruxuleante claridade. A rainha recolhera-se aos seus
-aposentos. Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os restos
-d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno tranquillo se espalhou
-no rosto do doente, todos se retiraram para as salas proximas. O rei
-sentiu-se bem, só. Calculou que todos estariam despreoccupados da sua
-pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! Logo tentou
-erguer-se, fincando as mãos nos braços da cadeira. Mal se pôde mover!
-Estava entorpecido, o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel e
-severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições de semelhança com
-um sapo hydropico! Reagiu corajosamente contra a inercia dos musculos
-e, n’este esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. Mas logo
-se sentou, para não cahir. A colera do seu espirito tomou proporções
-formidaveis, como o vento que arrasa florestas. Concentrou no combalido
-coração o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. Queria
-supplantar este phantasma da impotencia, que se levantava deante dos seus
-olhos. Passando da cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois
-na hombreira da janella, apanhou a bengala de castão d’oiro e pedras
-preciosas, que lhe mandára de presente um papa, e conseguiu firmar-se em
-pé. Deu alguns passos cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor,
-parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu corpo projectada pela
-tenue luz estendia-se no pavimento, tremula de susto.
-
-Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este senhor poderoso, esse
-phantasma movendo-se tropego e cauto no silencio da noite, é o proprio
-Luiz XI aterrado diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando,
-timido e com passo incerto, d’uma pequena estante entre duas janellas.
-Lançou mão d’um objecto que metteu no bolso do _robe-de-chambre_,
-furtivamente, como homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante
-oscilou, o barulho attrahiu um creado.
-
-—Não preciso... não chamei...
-
-Tremia de medo, como creança encontrada n’uma travessura. Veio o
-medico e o camarista. Approximaram-se, ampararam-no até á cadeira, e
-reprehenderam-no amoravelmente.
-
-Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.
-
-Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, sem o auxilio de
-ninguem. Querendo inferir, por si mesmo, da força e vigor de que
-dispunha, era necessario mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem.
-Ainda estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida para muito
-tempo.
-
-Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que fôra temeridade o que
-acabava de fazer. Podia ter cahido, dar com a fronte na esquina de uma
-cadeira e isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda estava.
-Assim se interromperia uma boa convalescença, assim adquiriria novos
-padecimentos que podiam ser mais graves, muito mais graves do que os
-actuaes.
-
-Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, visto não ter dado
-mal nenhum, estava contente por têl-a feito. Atravessára o quarto sem
-auxilio, e era isso que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia
-seguinte fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e finalmente ao
-jardim.
-
-—Poderei experimentar doutor?
-
-—Com precauções, meu senhor, com precauções.
-
-Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. Estava evidentemente
-melhor, mais desafogado. Aquella experiencia tornára-o communicativo e
-alegre. Conseguira ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um
-somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia para se fecharem.
-Que o deixassem só é que desejava.
-
-—Mas vossa magestade...
-
-—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.
-
- * * * * *
-
-Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei conservou-se largo
-periodo immovel, os olhos fitos n’uma armadura que estava de sentinella
-a uma porta. Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer que
-o não vigiavam. A manhã surgia do infinito dos tempos. Os passaros
-começaram a chilrear nas acacias do parque. Ouviu-se o cantar lento e
-monotono do velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias
-do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se como um nevoeiro que
-emerge d’um rio, o sussurro que fórma o dia—mistura de muitos sons. A
-creação universal ia engrandecer-se com um novo impulso do sol, n’este
-formoso dia de primavera.
-
-O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. Tacteava com
-perspicacia, para encontrar no braço esquerdo o signal d’uma sangria, que
-em moço lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe
-uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado artista, com multiplicadas
-linhas d’oiro encrustadas em ferro. Abandonava riqueza e fausto,
-sentia-se podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos e dos
-desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. E emquanto esse sangue
-de rei escorria, gottejando no chão, o moribundo encostou a cabeça no
-espaldar alto da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:
-
-—Acabou-se.
-
-Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um lado, todo o seu corpo foi
-entregue ao supremo desleixo da morte!
-
-O segredo d’este acontecimento conservou-se nos intimos do palacio. O
-medico, ao contemplar o cadaver inerme, com a ideia nos soffrimentos que
-ainda estavam reservados ao monarcha se continuasse a padecer, concluiu:
-
-—Foi melhor assim!
-
- Lisboa, janeiro 85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A MULHER DE LUCAS
-
-
-Diga-nos, então, como foi essa historia do seu casamento; como é que a
-sua mulher fugiu de casa.
-
-—Ora... não fallemos de coisas tristes. Eu já lh’o contei e o senhor bem
-o sabe. Compram-me uma cautella?
-
-—Mas desejo—insisti—que este meu amigo oiça tudo da sua propria bocca...
-
-Sorriu, olhou interrogativo para nós ambos e perguntou:
-
-—Porque? Este senhor conhece-a?—E mudando para um tom energico e quasi
-enfurecido:—Sabe onde ella mora?
-
-Fizemos-lhe signal negativo, e Lucas retomando a sua expressão habitual
-de paciencia e doçura disse:
-
-—São coisas de que me não quero lembrar. Lá vae, acabou, leve o diabo
-paixões e mais quem com ellas engorda. Aquella mulher andou muito
-mal comigo... Eu fazia-lhe tudo quanto ella queria, dava-lhe muita
-libardade... Foi talvez por isso que recebi o pago que tive...
-
-—Alguem que a desencaminhou... alguma companheira...—insinuou o meu amigo.
-
-—Ná... ná... sempre teve aquella queda. Era muito chibante e espirituosa,
-não era senhora para mim. Foi uma asneira... Passou—resumiu tristemente.
-
-—Tambem não é tanto como diz. O Lucas estimava-a, e não se póde dizer um
-velho—consolei-o.
-
-—Ainda assim tenho mais vinte annos do que ella. Mas não fallo n’esse
-particular. Não era senhora para mim, que sou um bruto. Uma raparigona
-alta, bonita, bem feita, creada n’um collegio aqui de Lisboa, sabendo
-francez e grammatica, toda perluxa e bem fallante... não era casamento
-para o Lucas. A minha primeira, que Deus tem, é que estava na conta.
-
-—Você tambem foi cahir em se casar duas vezes!—disse o meu amigo. Lá
-n’uma, tenho ouvido dizer, quem quer cae.
-
-—Nem sei como isso aconteceu, meu senhor—confessou melancolico. Uma
-bebedeira que me passou na cabeça. Ha dias que melhor fora a gente
-apparecer morto na cama. Luisa, a minha outra, era uma dona de casa.
-Quando morreu fez-me falta para o negociosito, que eu tinha lá na terra.
-O contracto dos gados trazia-me sempre por fora; chegava a ir á Galiza
-comprar bois. Uma pessoa para me ficar no estabelecimento, era-me bem
-necessaria. Depois o achar-me só, em casa, principiou a dar-me para
-o figuedo, e sem uma companheira vivia triste como uma lesma. Até me
-lembrei de me afogar. Teria sido melhor—rematou olhando para o chão, a
-cofiar a barba reles.
-
- * * * * *
-
-—Pelo que vejo gostava muito da sua primeira mulher...
-
-—Assim... Era muito doente, mas boa creatura. Quando morreu fiz-lhe um
-enterro de truz. Nunca lhe pude arrancar um filho, por mais dinheiro
-que com ella gastei em medicinas e promessas. Aquillo era molestia das
-entranhas. Morreu esmaleitada como a cera e magra como um guiço. Passei
-uma ralação, sempre a por-lhe cataplasmas e a dar-lhe chás de noite,
-por causa dos ataques. Dava gritos que acordavam a visinhança. Arrotos
-que pareciam tiros de espingarda. O ultimo mez, não preguei olho e
-já não podia... Veio então a Joanna, a irmã d’ella, que me ajudou a
-levar aquillo até ao fim. Essa é que era boa mulher para mim: geitosa,
-perfeitaça, trabalhadeira e rija como o ferro. Mas tinha tido uma falta,
-com um rapaz que depois embarcou para o Brazil, e eu n’essas coisas
-sempre fui muito dos diabos.
-
-—Pois, attendendo ao futuro, tinha sido melhor ter-se casado com essa sua
-cunhada—disse o meu amigo, presumindo já, que ao bom do Lucas, lhe haviam
-succedido coisas da breca.
-
-—Oh! que se a gente advinhasse, quantas vezes melhor!...—exclamou como
-quem se sentia applaudido n’um pensamento secreto. E a coisa vinha a
-fazer-se, mais tarde ou mais cedo; porque eu bebia os ares pela moça.
-Mas logo a má sorte, me levou lá para a casa fronteira, o major com a
-sobrinha...
-
-—Talvez filha—insinuei.
-
-—Não—respondeu vivamente offendido—era de gente casada. Até creio que
-de familia muito nobre, cá de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e
-acreditem os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae, a mãe e
-não lhe deixaram uma de X. Foi então que o major de quem eram parentes e
-quando ainda era capitão metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio.
-Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja outra que se lhe
-ponha adeante. O major depois adoptou-a como filha e trazia-a sempre
-comsigo.
-
-—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu o meu amigo.
-
-—Não era—certificou com rosto circumspecto—não era, sério. Eu vi-lhe a
-certidão d’edade, quando se tirou a licença. Era de gente casada e até
-fidalga, diziam-no todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major para a
-educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes. Mas deu-lhe um saber de
-truz. Eu nunca vi senhora mais distincta!—repetiu com ostentação.
-
-—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha o seu pataco,
-impingiu-lha.
-
- * * * * *
-
-Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. Em seguida
-esclareceu:
-
-—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha casa. As filhas d’um
-visconde que havia na terra, iam pra lá aprender o francez, o piano e
-a grammatica. Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu com
-vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! Aquelles janotas iam conversal-a
-da rua para a janella e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O
-delegado que lá estava ao tempo, disse deante de mim que em philosophias,
-não encontrára senhora como aquella. Vi muitos homens embasbacados a
-ouvil-a. E que homens! O desembargador João Xavier que era conhecido em
-toda a parte. Caramba! que mulher tão esperta!—pronunciou batendo uma
-palmada na coixa. Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.
-
-—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da lisboeta...—presumi.
-
-—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava pela lembrança, se não fosse
-ella. Eu bem via que não era homem para aquillo. Ella é que principiou
-comigo de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da janella,
-a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo isto queria dizer, palavra
-d’honra! Olhava para mim e via que não podia ser. Principiei a andar
-assim a modo de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me ella,
-sem _tirte_ nem _guarte_, que eu era um viuvo ainda muito geitoso. Fazem
-lá ideia! Logo que ouvi tal, d’aquella bocca linda como a maçan camoesa,
-e com a graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti cá por
-dentro taes esfregações, que não fazem uma ideia! Caramba! até perdi o
-comer! Andava assim a modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja,
-que era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. De noite
-principalmente passava o tempo a beber agua e em vez de dormir vinha-me
-prantar á janella, com os olhos pregados na casa onde morava aquelle
-demonio tentador, que foi a minha desgraça.
-
-—Era uma paixão—conclui.
-
-—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.
-
-—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. Parece que me tinham
-dado alguma bruxaria a comer. D’ahi por diante nunca mais dei conta de
-mim. Não era Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a sempre
-diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As santas da egreja,
-inclusiva Nossa Senhora—Deus me perdoe!—pareciam-me feias em comparação
-d’ella. Um dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na janella
-disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como um campo de milho sem
-sacho!»
-
- * * * * *
-
-—E ella entendeu-o?
-
-—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella. Fiquei assim a modo de
-parvo. Se se tivesse rido de mim, se andasse a fazer chacota, é porque
-me ia deitar na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas voltou
-logo depois e com um sério muito sério, pôz o dedo no nariz a dizer-me
-que lhe não fallasse assim da rua, que lhe podia arranjar alguma fama.
-Eu então tive um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!»
-Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: «Deseja a menina ser
-a dona d’esta casa?» Mas quando estas palavras me sahiram da bocca, vi
-abrirem-se-me debaixo dos pés as chammas do inferno.
-
-—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu amigo.
-
-—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente tentadora, com uns
-olhos d’uma maganice que os senhores não fazem ideia, responde assim,
-para só eu ouvir: «Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar no
-piano uma modinha de que eu gostava tanto que até me fazia arrepios.
-Caramba! Aquillo fez-me cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma
-e coração, que desejava ter de meu o mundo inteiro, só para lh’o dar e
-fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, um estupido, que só sabia pesar
-arroz e bacalhau e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão
-bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores conversassem
-com ella! Desembaraçada e litterata como aquillo não ha. Vá lá o mais
-poeta dar-lhe mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella eram
-gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe seja, deu-lhe educação
-de espavento. Ainda hoje lhe quero bem só por isso! A tal viscondessa
-de quem a D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá na terra)
-ensinava as filhas, era uma creada ao pé d’ella. Uma senhora de mão
-cheia, lá isso valha a verdade.
-
- * * * * *
-
-—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva e a da maçan que Adão
-comeu?—perguntei.
-
-—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade. Pois a gente não é de pau,
-é de carne e osso, caramba! Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a
-comprar charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre a retorcer os
-bigodes e a dar com o chicote nas calças. Ainda bem conservado, talvez
-uns dez annos mais velho do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas
-d’assucar, que lhe queria dar duas palavras, em particular. A minha loja
-era grande como um armazem! Fazia muito negocio e todos os mezes tinha
-pagamentos de duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos
-caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes havia mais que um
-pagamento. Bah! nem me quero lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella
-má mulher, que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver, não sei
-onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro, ainda perco a cabeça e
-chacino-a, como se faz aos porcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa
-d’Africa, de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá da primeira
-camisa que vesti—terminou com desespero.
-
-—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou interessado o meu
-amigo.
-
-—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio, a retorcer os bigodes...
-Eu que nunca fui medroso, nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os
-guardas de alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia como
-varas verdes. Se elle me diz que não, espetava uma faca na minha propria
-barriga. Porém, não disse. Mastigou em secco... mastigou... que era o
-diabo; grande differença de edades; ella sempre tinha vivido com muita
-decencia, mas não tinha nada de seu; que eu precisava de outra mulher...
-E dava com o chicote pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e
-passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar. Este aranzel
-puchou por mim e disse: «Ó senhor major, eu bem sei que a não mereço; mas
-se ella, assim mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios com que
-lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor não diz que não?»
-
-—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o meu companheiro.
-
-—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso. Tinha-a creado; mas
-não era sua filha. Demais já tinha passado a edade, podia fazer o que
-quizesse. O que lhe custava era separar-se d’ella.
-
- * * * * *
-
-—Ainda é vivo o major? perguntei.
-
-—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande borrachão. Só o vinho do
-Porto que elle me bebeu lá da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil
-réis! Adiante. Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a chorar que
-a tractasse bem, que elle sempre a educára muito mimosa.
-
-—Estava tudo resolvido.
-
-—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde as tem armadas.
-Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga e gastei mais de vinte moedas em tudo
-isso. Foi ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira que
-chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias voltamos para a terra n’um
-carro fretado ao Franqueira. Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo
-que a perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com tristeza. Porque
-ella não era má, os senhores podem acreditar; mas o janotismo deu-lhe
-volta ao miolo, como acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos
-maridos—concluiu philosophicamente.
-
-—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse, amigo Lucas. O outro
-era ahi algum rapaz novo e janota...
-
-—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um gebo como eu! Não me
-troco! Assim um gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não me
-troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa fosse para onde algum
-rapaz novo e bem parecido... vá. Sou velho e não me tenho por home que
-a mereça. Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda que eu viva cem
-annos, não me posso consolar! Que posição tem elle?... (interrogou-se).
-Uma logita alli para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho mulher
-não ha ninguem que o entenda!
-
-—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua mulher—reflectiu o meu
-amigo. O senhor tractava-a mal, batia-lhe?
-
-—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo! Só o que queria saber
-é onde ella desejaria passar, para ir beijar o chão onde pozesse os seus
-pés. Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher, era uma santa.
-
-E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou:
-
-—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella ingrata! Não está mais na
-minha mão.
-
- * * * * *
-
-—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como depois de o querer para
-marido, o regeitou.
-
-—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença. A questão é que ella
-casou comigo, para vir para Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos
-quatro mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me, que
-não podia viver alli, que o negocio não prestava e como o tal tio já
-tinha morrido, metteu-me na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar
-mais dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma asneira.
-Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por aquella sereia, não tive
-remedio. Viemos e os primeiros quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se
-um conto de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo arranjei
-no hotel da rua da Prata, onde estavamos. Muitos d’esses, hoje, nem
-me compram uma cautela, só para me não fallarem. No fim d’isto eu que
-via sumir-se o dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é
-preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de pôrmos uma loja de
-capellista, onde ella estivesse a vender, para chamar freguesia. Para
-chamar freguesia!—exclamou indignado e ironico.—O que eu merecia era com
-uma moca no toutiço! A freguesia de que ella precisava sei eu! Era com um
-marmeleiro!
-
- * * * * *
-
-—Então foi ahi que ella...
-
-—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do hotel e no theatro da rua
-dos Condes. Á mesa estava o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer
-genebra ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou a loja,
-que foi alli para a Sé, o janota lampana, não me sahia de lá e era dos
-melhores freguezes de charutos que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e
-eu que sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei que o
-negocio não dava para os gastos. No fim d’um anno pouco havia dos cinco
-contos que trouxera da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha,
-sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos, carros, bailes de
-mascaras!... E querem os senhores saber?... Foi a desavergonhada (eu a
-este tempo, sou capaz de jurar sobre umas _Horas_, como ella ainda não
-era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves (era o tal!) para
-elle me aconselhar alguma coisa, em que se ganhasse dinheiro. Fallei
-n’isso ao cara de demonio e logo muito prompto me disse que mettesse o
-que me restava em negocio de vinhos de Torres, que dava muito. Foi até
-elle que me arranjou conhecimentos. Por este motivo principiei a andar
-dias e dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre n’uma fona.
-
-—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o para longe.
-
-—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso que toda a gente é de boa
-fé, como eu!... N’esta coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido
-muito. Hoje nem o mais pintado.
-
-—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou o meu
-amigo.
-
-—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma, vim a desconfiar
-d’aquella ingrata peguei de vigial-a e para melhor o fazer vendi todo
-o vinho de repente e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher, tem
-juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro que a pague!»
-Respondeu-me que não fosse tolo e voltou-me as costas. Com o fim de
-estar perto d’ella, arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos
-afiançaram-me em algumas casas de commercio, para eu andar a receber
-dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse que havia de ser grande o meu
-ganho. Eu respondi: «Para o que tu precisares nunca te hade faltar.
-Ainda que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para os teus
-alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu quero continuar a ir aos
-theatros e dar os meus passeios. Não hei de estar toda a minha vida
-mettida n’um buraco.»
-
-—Tinha aspirações, vê-se.
-
-—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu não lhe merecia o pago
-que me deu. Trabalhava como um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não
-havia chuva, não havia vento, não havia calor para mim. Sempre a correr
-por essas ruas e então que estáfas! Ás duas por tres, cahia-lhe na loja
-como quem vinha de passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira
-de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade. Os senhores
-riem-se? É porque não sabem o que isto é. Chegava todo esbaforido, o
-coração aos pulos no peito, e sempre com aquella mulher deante dos olhos
-a enganar-me. Não comia, não dormia descançado, um verdadeiro inferno!
-
- * * * * *
-
-—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei.
-
-Respondeu com vivacidade:
-
-—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força dado alguma bruxaria. E
-que mal me pagou! Já não lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não
-podia ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia fazer o que fez.
-Na noite em que, morto de fome e de frio, entrei em casa depois de ter
-andado todo o dia n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como
-uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal estava gasta. A casa
-em desordem, os bahus e gavetas abertas, como se tivessem andado ladrões!
-Aquella mulher perdida não se contentou em me deixar, levou tudo quanto
-havia de bom, e fiquei com a triste camisa do corpo. Chorei mais do que
-quando morreu minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem beber,
-corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas de pasto e restaurantes,
-pelos theatros com um revolve carregado a ver se os encontrava. Haviamos
-de morrer todos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue por uma
-tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um bolo. Se os encontro havia de
-me vingar até ao fundo d’alma!
-
-—E ainda gosta d’ella?
-
-—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer que não? É o meu peccado.
-
-Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder de nós, voltando-se
-para a parede.
-
-—Se ella o tornasse a procurar?
-
-—Não me falle n’isso! Ferve-me o sangue! Se um dia a vejo...
-
-—Ah! nunca mais a encontrou?—pergunta o meu amigo.
-
-—Já disse que não senhor. Sei onde mora, porque conheço a casa d’esse
-excommungado que m’a furtou; mas a ella nunca mais lhe puz os olhos
-em cima. Pois é admiração! Com este meu modo de vida das cautelas e
-dos jornaes, corro toda a cidade. Nem nos theatros, nem nos dias de
-procissão, nem no Passeio. Aquillo é que só vae á missa cedo e não torna
-a sahir—considerou melancolico.
-
-—E se um dia a encontra?
-
-—Mato-a! mato-a, com toda a certeza!—disse exaltado.
-
-Depois mudando rapidamente de tom concluiu:
-
-—Não mato, não mato... Adeus meus senhores, não me apoquentem.
-
-E distanciou-se quasi suffocado pela dôr.
-
- Março de 85.
-
-[Illustration]
-
-
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-
-[Illustration]
-
-
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-
-DOIS CATURRAS
-
-
-Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta regulamentar, o dr. Leandro
-e frei Antonio, costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre methodicos e
-taciturnos sahiam de casa á hora conveniente, para se encontrarem junto
-da igreja, sem esperarem um pelo outro. A menor falta n’este ponto, um
-simples minuto de tardança, era caso para recriminações da parte do que
-chegasse primeiro, recriminações manifestadas em monosyllabos de desgosto
-e n’uma ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio com
-pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca», «Ficou abarrotado com o
-jantar», «Isto foi pinga de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela
-encosta acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas pendentes,
-e paravam de vez em quando, para tomar um pouco d’ar. Junto da ermida
-da Senhora do Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e
-pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra, á distancia
-d’alguns metros, como se fossem desconhecidos. E o frei Antonio, homem
-d’um fundo de bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira
-pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma collina fronteira:
-
-—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o por ser unico!...
-
-Leandro, fingindo que não ouvira, monologava:
-
-—Pena é não haver outro monte igual, do lado d’acolá, por causa da
-symetria!... Seria incomparavelmente mais bello!
-
-Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação. Eram
-ironias mansas ao fim de muitos annos de argumentos, em viva polemica,
-esmorraçando mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes juntas
-com apostrophes. Porém nunca cederam, nem uma pollegada, n’este valioso
-ponto de esthetica que os separava. Frei Antonio sempre partidario da
-_unidade_, da simplicidade absoluta, e por extensão de principio do
-pernão, detestava o _par_. Tinha orgulho em ser padre, só por causa do
-celibato. No seu casaco sacerdotal e na ampla batina usava um unico
-bolso, para n’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as
-chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario...
-
-E justificava-se:
-
-—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que queria. Agora é só metter
-a mão e prompto. A caixa?... Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o.
-As chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai.
-
-Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um prestimano. Era
-agressivo e até insolente para todos que lhe não acceitavam a invenção.
-Mostrava-se propagandista, loquaz, capcioso, argumentado pelo seu lado.
-
- * * * * *
-
-O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente opposta. Pela
-unidade e por tudo quanto era impar tinha mais do que desdem, tinha
-desprezo. Dizia, como phrase de sentença, que a natureza nunca podia ser
-manca. Para irritar o seu amigo, na presença de muita gente, extasiou-se
-diante da insignificante igreja de S. Francisco, só porque tinha duas
-torres iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo acintoso e
-offensivo, e exclamou com os braços abertos:
-
-—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes! Como é sublime a
-symetria!
-
-Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros, e respondeu com
-mal desvanecido azedume:
-
-—Deus, a suprema perfeição, é _Um! Um só!_
-
-E espetando o dedo no ar demorou-se com elle, vingadoramente, diante do
-nariz do doutor, que objectou:
-
-—Mas Jesus Christo, a encarnação do pae, tinha duas naturezas, divina e
-humana.
-
-O sacerdote enchendo-se de cordura disse-lhe:
-
-—Não gosto de metter n’isto o divino; mas podia responder que sendo
-tres,—_tres!_—sublinhou com emphase—as pessoas da Santissima Trindade,
-essas mesmas se reduzem a _uma_.
-
-—É tolo—ainda acrescentou o outro.—Não sabe que pela conta do marinheiro,
-as pessoas da Santissima Trindade são dez.
-
-—Que diz você seu hereje!—cresceu o sacerdote indignado.
-
-O doutor explicou tranquillamente:
-
-—Pois não sabe? Olhe. As pessoas da Santissima Trindade são tres; Padre,
-Filho, Espirito santo—seis; tres pessoas distinctas—nove; um só Deus
-verdadeiro —dez.
-
-Os circumstantes riram-se; o frade afastou-se trombudo; e, por agora, o
-advogado ficou victorioso, mostrando-o d’um modo saliente.
-
-Como andavam sempre juntos, de momento a momento se levantavam novas
-birras. O dr. Leandro, que era magro, pertinaz e acintoso estava
-sempre a espicaçar o egresso. Nunca o convidava para jantar, sem que o
-numero de convivas fosse par. Levava-os ao jardim para verem as flores
-e notava-lhes, sempre com insistencia, que as disposera pelo systema
-de parelhas (_de coices_—acrescentava o frade). Se tinha de abrir uma
-janella procurava logo estabelecer uma corrente d’ar, escancarando outra,
-o que endiabrava o clerigo, que vivia no terror das constipações. Em
-tudo se mostrava o rancor d’estes dois irreconciliaveis amigos. Indo
-no seu habitual passeio, se encontravam alguem a cavallo, o sacerdote
-aproveitava logo o momento para dizer:
-
-—Bonita egua! Não haverá outra como ella, para a emparelhar?
-
-O dono, se era vaidoso, respondia indubitavelmente:
-
-—Nunca a encontrei. Pois tenho corrido um rôr de feiras!
-
-O sacerdote insuflava n’um sarcasmo mordente:
-
-—É porque não procurou bem. Aqui este senhor era capaz de lh’a arranjar.
-
-—Pois não arranjaste!—duvidava o dono da egua.
-
- * * * * *
-
-O doutor procurou immediatamente a sua desforra. Logo que viu _O das
-perdizes_, na sua carruagem puchada pela ostentosa parelha de baios,
-disse-lhe:
-
-—Ó Pessanha! Se esses teus cavallos fossem differentes era muito melhor,
-diz aqui o frei Antonio.
-
-—Pelo amor de Deus! não valiam dois patacos! Uma parelha assim, é muito
-mais cára.
-
-O frade resmungou.
-
-—_Variatio deletact_, meu fidalgo. D’essa maneira até fazem mal á vista.
-
-E quando se distanciou a carruagem, disse o sacerdote avulsamente:
-
-—O universo é um.
-
-—Os mandamentos da lei de Deus são dez e reduzem-se a dois.
-
-—Já lhe fiz saber que não gosto de metter n’isto o divino, e lembro-lhe
-que a gente faz cada coisa por sua vez.
-
-O doutor apostrophou-o:
-
-—Quantos olhos tem o senhor na sua cara?!...
-
-—E não via as coisas muito melhor se tivesse um só, na testa por exemplo,
-como os Cyclopes? Até não havia o perigo de se entortarem.
-
-Leandro insistiu:
-
-—Quantas pernas tem o senhor? quantos braços?
-
-—E por quantas boccas come e diz asneiras o meu amigo! Por quantas
-gargantas engole?—arremetteu o frade. O que o senhor tem decerto, é dois
-juizos e nenhum d’elles vale tanto, como o casco d’uma cebola podre.
-
- * * * * *
-
-Estava-se nas vindimas. O advogado ía todos os annos para a Feitosa e
-acompanhava-o alli durante algum tempo frei Antonio. Era um costume já
-antigo. Leandro quiz d’esta vez apertar com _argumentos materiaes_ a
-paciencia do sacerdote. «É preciso provar ao latinista—pensou—que vale
-mais do que um simples casco de cebola podre, o meu juizo.» Logo que
-frei Antonio chegou á Feitosa, onde o doutor já o esperava, feriu-o
-uma novidade nos antigos e sustentados habitos d’aquella casa:—era a
-existencia de duas mezas de jantar, uma para cada um. O doutor só deu
-esta explicação:
-
-—O senhor tem o seu systema, eu cá tenho o meu.
-
-E na meza de Leandro havia dois talheres, dois pedaços de pão e duas
-canecas de vinho. Em frente d’um dos pratos estava uma cadeira, com um
-travesseiro a fingir de pessoa e esse travesseiro tinha um chapeu na
-cabeça, um bigode de sedas de cavallo e conservava-se impertigado, n’um
-sentido de troça.
-
-O sacerdote, teve um riso amarello, fingiu que chasqueava e observou com
-grandeza de animo:
-
-—Tambem é a unica companhia que merece.
-
-E foi-se sentar á sua meza, que tinha tudo estrictamente para um; mas
-em quantidade muito resumida, tanto de vinho, como de pão. Depois de se
-ter sugeitado heroicamente a esta prova durante alguns dias, tomou a
-resolução de assentar junto de si dois bonecos de palha, pedindo que lhe
-servissem os seus companheiros.
-
- * * * * *
-
-O doutor, que se não quiz mostrar vencido, levou ainda mais longe a
-premeditada vingança, ordenando que no quarto onde sempre ambos dormiam,
-houvesse uma só cama. Frei Antonio, um tanto perturbado, quando á noite
-viu isto, perguntou á velha Joanna:
-
-—Quem diabo vem a ficar aqui?
-
-—Os senhores ambos. Ora o demo da brincadeira dos homes!
-
-E o advogado accrescentou:
-
-—Em coisa de cama sou pela unidade. As ultimas chuvas tem arrefecido o
-tempo.
-
-Ora, se havia coisa no mundo á qual o sacerdote preferisse a morte, era
-a dormir com outro. Homem gordo, d’um suar facil, impaciente no sonho,
-gostava de roncar á vontade, de alargar as pernas e deitar os braços
-de fóra, quando lhe approuvesse. Antes passar a noite no chão, n’uma
-mangedoura, ou sobre tôjo!... Desde que outro padre, n’uma estalagem de
-Tras-os-Montes, o atirára da cama ao chão, estando elle a dormir e tendo
-por essa occasião ferido a testa e o nariz nos cacos d’um objecto que se
-quebrou, nunca mais acceitou companheiro de dormida.
-
-Leandro sabia que o atacava no ponto mais fraco. O frade disse
-simplesmente, em tom resoluto:
-
-—P’ra graçola é de mais! Bem sabe que não durmo com outro. Então monto a
-cavallo e vou-me _já, mesmo de noite_, embora.
-
-—Pelo que vejo, a respeito de cama... para dois... duas?!—disse com
-ironia o doutor, mostrando-lhe a outra que estava n’um quarto proximo.
-
-E como não concluira ainda a sua argumentação pelos _materiaes_, quando
-no dia seguinte, frei Antonio procurava os butes, para ir dizer a missa
-conventual, a que se compromettera, encontrou sómente um. Sem ainda
-calcular a significação do acontecimento, veio á porta em palmilhas de
-meias, e gritou pela frincha que abriu:
-
-—Ó Joanna! O outro bute?
-
-—Pergunte por elle ao senhor doutor.
-
-O ecclesiastico comprehendeu e disse zangado:
-
-—Mau! mau! mau que m’arrenego!
-
-Então Leandro, com ingenuidade fingida, respondeu-lhe do quarto:
-
-—Passou ahi hontem um pobre, descalço d’um pé e dei-lho. O amigo tem na
-realidade dois pés?
-
-Frei Antonio, com ar apopletico, em mangas de camisa e em palmilhas,
-o grosso tronco batido pela luz da janella do corredor, retorquiu
-energicamente:
-
-—Tenho sim senhor e você tem quatro. Ponha cá o bute e deixemo-nos de
-chalaças. Já tocou ha um pedaço. Se essa gente fica sem missa por causa
-das suas brincadeiras... quero ver.
-
- * * * * *
-
-Isto passava das marcas. O sacerdote procurou um meio de tirar a
-desforra. Havia de ir ter-lhe ao bolso, que era aonde doia mais ao
-sovina do Leandro. No _Bracarense_ da vespera annunciava-se a proxima
-chegada, á cidade dos Arcebispos, da actriz Emilia das Neves, tão
-celebre e tão gabada, que alli ia representar no theatro de S. Geraldo.
-O padre, encobrindo ruins intentos, convidou o doutor para irem a Braga.
-O advogado chasqueou-o por esta manifestação de mundanidade, porém o
-ecclesiastico explicou-se com modo circumspecto:
-
-—Não que ella só representa dramas sacros. Nem o senhor Arcebispo,
-consentia outra coisa, na sua cidade.
-
-Combinaram-se n’uma apparente harmonia, acceitando ambos este periodo
-de tregua. O frei Antonio fazia de bolsa. Como era expedito, sagaz e
-conhecia Braga, o seu amigo facilmente lhe entregou a administração das
-finanças communs. Porém, mal conhecia o advogado o que podia dar o
-rancor d’um frade, que é espicaçado no que elle tem de mais precioso,
-o appetite. As humilhações, as zangas, a quasi fome d’alguns dias na
-Feitosa, haviam dado ao rotundo ecclesiastico um faro agudissimo de
-vingança. Logo na diligencia principiou por comprar tres bilhetes,
-entregando dois a Leandro que observou seccamente:
-
-—Na verdade eram bem precisos tres logares, attendendo a que o senhor não
-é um homem, é uma pipa.
-
-Em Braga, no Transmontano, o doutor notou que o dono da hospedaria, um
-velho coxo e rabugento, que estava sempre a praguejar deante do forno, se
-ria descompostamente a tudo quanto lhe segredava o seu velho amigo frei
-Antonio e que dissera depois d’um d’esses colloquios:
-
-—Então afinfa-lhe? Trinca-lhe bem e entorna-lhe melhor? Vae valido.
-
-E tambem percebeu que o sacerdote accrescentára:
-
-—Tudo á farta e contas separadas.
-
-Porém Leandro não se deu por achado. Alongou os beiços, sorriu com
-esforço e á mesa onde estavam tres talheres, mostrou uma apparencia calma
-e de coragem.
-
-Por certo que identicas advertencias haviam sido feitas ao Miguel, um
-creado bebedo e feio, que jogava a batota com os hospedes, pois que esse
-Miguel, ao segredo do frade retroquiu olhando de soslaio para Leandro:
-
-—S’tá dito! Que pandigos!
-
-E apesar da resolução em que o doutor estava de se mostrar digno e
-conveniente até ao fim, não pôde deixar de se sentir estrangulado pela
-indignação, quando viu que o seu amigo lhe comprára dois bilhetes para o
-theatro. Isto não tinha geito nenhum, era atirar dinheiro pela janella
-sem necessidade! Na hospedaria, fechado dentro do seu quarto, que estava
-preparado para duas pessoas, quando elle era só um, exclamou voltado para
-o tecto:
-
-—Este padre é o demonio! Mau raio, se lhe não espeto uma faca n’aquelle
-bandulho!
-
-Minutos depois veio pelo corredor frei Antonio que disse, fallando pelo
-buraco da fechadura:
-
-—Adeus Leandros, boas noites.
-
-E logo em seguida, o Miguel acrescentou com a sua voz avinhada:
-
-—Com bem passem, senhores _doutores_.
-
-O advogado que já estava na cama e com a luz apagada, ressonou forte,
-para não responder. No dia seguinte levantou-se cedo, com o fim de ir
-sósinho almoçar debaixo da Arcada. Mas frei Antonio, que o espiava,
-seguiu-o de perto, entrando logo depois d’elle e mandando vir para tres.
-Leandro ao sair a porta do botequim, pronunciou de si para si:
-
-—Isto acaba hoje! Deixa estar que hoje acaba!
-
- * * * * *
-
-Tinha, porém, urgente necessidade de mandar fazer uma roupa de panno
-preto—sobrecasaca, calça direita, collete de ceremonia com uma só ordem
-de botões; fazenda boa que lhe durasse o resto de vida, que servisse
-para visitas e festas. Frei Antonio conhecia na rua do Souto um mercador
-de confiança; o doutor era menos pratico na cidade e por isso não teve
-remedio senão entregar-se-lhe. Pareceu-lhe que n’este particular não
-podia haver novidade. Foram ambos, ao lado um do outro, silenciosos e
-escandalisados.
-
-Em quanto um mestre de _atraz da Sé_ tomava as medidas, fallou-se de
-politica... em deputados... e o negociante, homem discreto, de barba em
-serrilha opinou:
-
-—Boa asneira! Esfalfa-se a gente para os mandar p’ra essa Lisboa e lá não
-fazem mais do que andar na pandiga, com moçoilas e em treatos. Tributos
-são de cada vez maiores! No tempo do senhor D. Miguel...
-
-O alfaiate, absolutista sanguineo, parou subitamente e disse n’uma
-arremetida, olhando por cima dos oculos, com a medida suspensa da mão:
-
-—E acraditam, que o rei legitimo, não ha de vir pôr fóra do seu reino
-esta cambada?!
-
-Todos concordaram em que havia de vir, menos o doutor que já lhe tinha
-perdido as esperanças e se fizera liberal.
-
-Quando voltaram á terra, Leandro teve uma viva polemica com frei
-Antonio, por causa d’aquellas asneiras fóra de casa. Não era por gastar
-mais ou menos uma moeda, porém embirrava com tanta tolice deante de
-desconhecidos. O frade respondeu-lhe que bom gado era porcos, levou-o de
-troça e continuaram nos seus passeios e nas suas caturrices habituaes.
-
- * * * * *
-
-Quinze dias depois, o advogado recebeu pela diligencia de Braga duas
-encommendas. Abriu a primeira e n’ella encontrou a roupa que mandára
-fazer. Vinha tudo nos termos e a seu contento. Vestiu-a para ver se lhe
-estava bem e a velha Joanna que elle chamou para dar parecer, disse que
-estava mesmo um cravo, e recordou-lhe os seus tempos de rapaz, quando
-elle vinha de Coimbra e era de todos o mais janota. Fôra n’esse tempo
-que... Ella era creada da mãe de Leandro, uma boa senhora, temente a
-Deus, confessando-se a miudo e reprehendendo sempre os atrevimentos e
-brincadeiras do filho com as moças!... Havia 40 annos que Joanna alli
-estava e ainda na memoria se lhe avivavam facilmente todos os quadros
-ridentes da mocidade!...
-
-—Mas a outra encommenda?—lembrou.
-
-—É verdade—disse o doutor—isto não é para mim. Ha de haver engano.
-
-Mas pegou n’ella, remirou-a por todos os lados, apalpou-a, cheirou-a
-para advinhar o que seria... e nada! Pela terceira ou quarta vez releu
-o subscripto, que era do mesmo talho de lettra da do negociante que lhe
-remettia a sua roupa e com os mesmos dizeres.
-
-—Só se frei Antonio tambem encommendou alguma coisa e que m’a mandassem
-para eu lhe entregar—considerou com o embrulho suspenso nas duas mãos.
-
-Para satisfazer a curiosidade de Joanna, sempre foi desatando os
-barbantes, com precauções e cautelas, na convicção de que era coisa que
-lhe não pertencia. Encontrou outra roupa, perfeitamente egual á sua. Não
-podia presumir brincadeira tão pesada do seu amigo, e, como elle morava
-perto, mandou-o chamar.
-
-—Sabe para quem é esta coisa?—perguntou serenamente.
-
-—Eu! Como posso advinhar?!
-
-—Nada de brincadeiras—avisou. Será para si?
-
-—Não gasto d’esses luxos. Nem eu cabia dentro d’este pé de meia—retorquiu
-ironicamente o frade, suspendendo as calças no ar.
-
-—Mas com mil demonios!—interroga colericamente o doutor. Sabe ou não
-sabe?! Responda.
-
-O frade respondeu com todo o socego:
-
-—É provavel que seja para si. Em Braga, ninguem ignora que o senhor é
-dois!
-
-O doutor adiantando-se, poz-lhe diante dos olhos um punho cerrado.
-
-—Sabe o que eu ignorava?—gritou. É que o senhor fosse um pedaço d’asno
-como é!... Que o arrebento, seu odre!
-
-O frade escandalisado, escachou as pernas e apresentando-lhe de frente o
-seu valente tronco, oppoz-se-lhe com vehemencia:
-
-—Ameaçar-me! olhe que o leva um milhão de demonios, seu cabrito esfolado!
-
-E saiu nobremente da sala. Durante boa meia duzia d’annos, conservaram-se
-inimigos e sem se fallarem. Porém depois reconciliaram-se n’um jantar de
-boda, onde ambos se emborracharam até á ternura das recordações, e d’alli
-ao fim da vida, continuaram a sustentar as suas theorias e a dar os seus
-passeios habituaes.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A POSTURA DOS OVOS
-
-
-As de Refuinho foram as ultimas a chegar. Por causa do ar da noite,
-traziam as cabeças envolvidas em muitos chailes e só deixavam um
-buraquinho para espreitar o creado, que ia adeante com o lampião. D.
-Michaela, ao recebel-as no cimo da escada, logo ralhou com as meninas
-por causa do agasalho excessivo. Nem pareciam raparigas novas, tantas
-eram as cautelas que tomavam. D. Maria justificou as sobrinhas. Fora ella
-quem aconselhara taes cuidados, por causa das possiveis dôres de dentes.
-Só quem nunca soffreu d’ellas é que pode fallar! Quanto a si, explicou,
-tossindo muito, com o seu modo resignado e soffredor:
-
-—Oh! filha! Sempre te ando com uma gosma!...
-
-Logo que entraram na sala, todos vieram comprimental-as. As da Torre
-Velha conduziram as primas junto do candieiro, para lhes mostrarem o
-retrato do irmão, que era militar e estudava em Lisboa. Tinham recebido
-pelo ultimo correio, essa bella photographia d’um rapagão em pé, apoiado
-negligentemente na espada e a barretina sobre uma _console_. Assentára
-praça em cavallaria por inclinação: todos os presentes se lembravam,
-de como era um demonio em pequeno, percorrendo o quinteiro em todos
-os sentidos, montado n’uma canna! A carta escripta ás irmãs, era-o
-n’um luxuoso papel cor de tremoço cosido e perfumada d’almiscar. Dizia
-maravilhas das opulencias da capital, dos seus palacios, dos theatros e
-das formosas mulheres que passeavam em carruagens descobertas, para serem
-admiradas.
-
-—Isso já por lá tem uma duzia de namoros—disse frei Ignacio, espreitando
-por entre as cabeças das meninas.
-
-Mas uma das da Torre Velha, confidente do militar nos seus primeiros
-amôres, defendeu-o:
-
-—Quem, o Zésinho?! Não é d’esses!
-
-E encarou Clotilde de Refuinho, que baixou timidamente os olhos,
-conservando-se muito tempo triste, encostada á mesa.
-
-Os parceiros do rancoroso voltarete, enremissados da semana precedente,
-estavam soffregos sobre o jogo. O desembargador João Xavier, para os
-desculpar por se não levantarem, disse de longe, com a auctoridade d’um
-marido, que esteve para ser de D. Maria, quarenta annos antes:
-
-—Ó minha prima. Deus lh’as dê muito boas. Dispenso cumprimentos. Esta
-remissa de quinze entradas tenho-a atravessada aqui.
-
- * * * * *
-
-Mas quem se aproveitou do reboliço foi o dr. Leandro, que a esse tempo
-levava uma reverendissima tunda, ás damas, do seu amigo frei Antonio,
-que as jogava na perfeição. O advogado aproveitou o ensejo de atirar
-com o taboleiro para o inferno, e fez na sala tal barulho, que parecia
-a derrocada d’uma torre. Até ia trilhando o medico Pestana, homem de
-grande saber e azedume, que lá estava com o seu esqueleto arrumado a
-um canto, a chupar cigarros, todo concentrado no odio ao recebedor da
-comarca, por causa da morgada, D. Michaela—mulher soberba, que os dois
-ambicionavam furiosamente. O recebedor, o famoso Silveira, n’essa noite
-em maré de fortuna amorosa, parecia um redemoinho pela sala, sempre com o
-chaile-manta cinzento pendurado dos hombros. Foi elle que ao vêr muita
-gente, propôz logo um quino, fallando com o seu ar estarola. Era quem
-costumava tirar as bolas e salpicava o jogo de larachas muito apreciadas,
-que por vezes lhe deram assignaladas victorias, quando a morgada ria até
-ao engasgamento nervoso. Porém, n’essa noite, D. Michaela preferiu antes
-ouvir a musica «Ao Luar», tocada no piano, com muito coração e esmero
-pela Clotildinha. Ella que era romantica e sentimental, adorava esse
-famoso trecho, que já uma vez a fizera suspirar em Barcellos. Era um
-idyllio cheio de meiguices dolentes e das suaves fragancias das campinas.
-Remurejavam brandamente arvoredos, um regato serpeava pela encosta e o
-poetico rouxinol queixava-se no interior d’um loureiro. Frei Ignacio é
-quem fazia de rouxinol, munido d’uma gaitinha; mas o famoso Silveira,
-que tambem conhecia a musica, aproveitou cruelmente mais esta occasião
-de triumphar sobre o medico. Propôz-se a tomar para si a parte do
-rouxinol, sem nenhum auxilio de gaita. Os applausos á magnifica lembrança
-foram calorosos. Todos sabiam, quanto o recebedor da comarca era eximio
-imitador de vozes d’animaes e especialmente das aves. Em certos casos
-o engano era completo. Um dia mugiu tão admiravelmente de vacca no
-quinteiro de Refuinho, que a velha fidalga veio á janella toda afflicta,
-ralhar com o moço, julgando que andava o gado solto. Ao dar com os olhos
-no Silveira, que n’esse instante estava mugindo com desolação para o céu,
-suppondo uma cria distante, reprehendeu-o:
-
-—Fazer de vacca! Isso é peccado. Não teme um castigo do céu? As vaccas
-não tem alma—concluiu agastada.
-
-O medico Pestana, concordando em que o recebedor não tinha alma,
-chasqueou o caso dizendo que o _homem_, fazendo de vacca ou de boi que
-era o mesmo, mostrava grande geito para marido.
-
- * * * * *
-
-Porém a novidade de imitar um rouxinol, foi muito celebrada; porque
-ninguem lhe conhecia a prenda. O medico emmagrecia a olhos vistos, quando
-a morgada dava palmas ao Silveira. Este para melhor o aguilhoar exhibiu
-outras habilidades já conhecidas: fingiu o trote d’um cavallo que se
-approxima e relinchou com as ventas altas no momento da chegada; o canto
-do gallo ao amanhecer, batendo fortemente as azas, foi produzido com
-rara perfeição; o coachar das rans em noites primaveraes, a chegada do
-cuco em maio, os patos arrebanhados, o pardal, o melro, o perú... tudo
-foi representado. Já não havia, nem volturete, nem bisca, nem ideias
-de quino. Tinham para duas horas. O medico passeava ao fundo da sala,
-sorumbatico e abatido. Frei Ignacio, sempre brincalhão, disse-lhe de
-longe:
-
-—Deixe-se d’isso, doutor. Quel-o vêr fazer de porco?
-
-Todos o desejaram e elle não se fez rogado.
-
-Sahiu da sala, para logo voltar silencioso e embrutecido. Vinha
-sorumbatico e sorna, como um porco ao recolher. Uma creada chamou para
-a comida: «_coxi, coxi, coxi_» e logo o Silveira principiou a correr,
-como cevado cheio de fome, dando fortes grunhidos, gritos atroadores,
-até que foi para um canto sugar a sua lavagem, com um _xou-xou_
-embrulhado e caracteristico. Por fim suppondo-se um porco perseguido
-por um cão, correu veloz, ladrando e grunhindo ao mesmo tempo, e sahiu
-precipitadamente pela porta, dando um encontrão no medico.
-
-Todos riram com boccas escancaradas. Frei Ignacio agachado a um canto,
-já não podia mais, e por fim encostou a barriga á parede, com medo d’uma
-colica. As meninas de Refuinho e da Torre Velha gargalhavam no regaço
-umas das outras. O desembargador Xavier sorria de longe com dignidade,
-olhando firme, com os seus occulos d’oiro.
-
-Um joven poeta, estudante em Coimbra, foi da opinião e disse-o
-claramente, que se aquelle phenomeno se exhibisse no _Palacio de
-Cristal_, haveria grande concorrencia, porque era, em verdade, admiravel!
-D. Michaela, que applaudira até as lagrimas, perguntou ao academico:
-
-—O senhor Penaguião nunca o viu fazer de gallinha e pôr ovos?!...
-
-—Nunca vi, senhora morgada...
-
-—Então!...—concluiu com um entono que significava preço—nunca viu nada!
-
-Todos se levantaram a pedir ao Silveira que exhibisse esta habilidade;
-porém elle sentado n’uma cadeira, a limpar o suor do cachaço, não estava
-para isso. Sentia-se cançado, ficaria para outro dia, não podia ser tudo
-d’uma vez. A morgada, conhecendo o empenho dos seus convivas, disse mesmo
-sem se levantar:
-
-—Ande, vá pôr. Quero que o sr. Penaguião veja.
-
-Não hesitou um momento. Um raio de vingança triumphante despediu-se do
-seu fulvo olhar contra o medico, que ao vel-o prestar-se, sahiu da sala.
-Porém isto, que todos julgaram um signal de covardia não o era de certo;
-porque momentos depois o doutor tornou a entrar, com semblante conformado.
-
-Como era uma exhibição mais complexa, tomou cada pessoa o seu logar.
-As senhoras em cadeiras, em volta da sala, deixaram o canto livre para
-a postura, que devia ser junto do piano. Os homens que se não puderam
-sentar, encostaram-se ás entradas e nos vãos das janellas. O medico,
-talvez para se mostrar generoso e soffrer deante de todos a propria
-humilhação, occupou a cadeira mais perto do logar da postura.
-
-Pareceu um acto publico de conformidade. O proprio Silveira assim o
-entendeu. No meio d’um silencio valioso, depois de apenados dois
-banquinhos para servirem de poleiros casuaes, o recebedor da comarca com
-o chaile-manta pendente dos hombros, collocou-se no meio da sala, olhando
-solemnemente em redor.
-
-Mostrava-se grave, simples e ao mesmo tempo imponente!
-
- * * * * *
-
-A principio houve um cacarejar avulso e sem grande significação. Andava
-em volta dando pulinhos, erguendo a cabeça para ouvir facilmente, e
-espanejava-se ao sol. Depois continuou em passo solemne, entoando um
-_cá... cá... cá..._ reflectido e de concentração. Passados momentos, a
-voz levantou-se gradualmente mais sonora, tinha gritos estridentes e
-estendia o pescoço. Andava com vivacidade, os pulinhos eram sacudidos e o
-corpo avolumava-se-lhe debaixo do chaile, quando afastava os cotovellos.
-Subiu a um dos poleiros e lá do alto produziu um _ca-ca-ra-có_, rapido
-e vibrante, como se fora uma sentinella gritando ás armas, para afastar
-um inimigo possivel. Mas logo desceu para continuar n’um tom manso e
-natural, andando em passo grave, seguro de que ninguem o viria perturbar.
-De repente deu-lhe uma especie de furia, uma raiva e começou a correr
-e a gritar desesperadamente, muito arrastado pelo chão, significando a
-gallinha apertada por uma dôr e com a necessidade urgente de expellir de
-si qualquer coisa. Os gritos eram fortes e expressivos, as arremetidas
-para o lado do ninho insistentes, sempre com as azas de rasto,
-afastando-se um momento para voltar depois mais precisado.
-
-A situação ia-se tornando claramente dramatica.
-
-O interesse dos circumstantes era cada vez maior. Exprimiam o sentimento
-de admiração que os possuia, em frouxos de riso apanhados na mão e
-muitos, boquiabertos, pronunciavam: «Ora!... Ora!...»
-
-A morgada, que estava mais á vontade e não temia perturbar a
-representação observou:
-
-—É tal e qual a minha amarella. Uma coisa assim!...
-
- * * * * *
-
-Vendo-se applaudido pela mulher a quem amava o Silveira foi sublime!
-Aproximou-se sornamente do canto da postura. Reconhecia-se-lhe na
-lentidão dos movimentos de parturiente, que se approximava o momento
-supremo. Já ia arrastando o corpo, d’aza cahida, e um _có-có_...
-guttural. Foi enfraquecendo a voz e os movimentos, andando em volta de
-si mesmo a procurar o geito. Depois acamou-se acocorado, todo mettido
-debaixo do chaile cinzento, n’uma attitude de objecto bruto e informe
-que para alli estivesse arrumado. Houve um gemer soturno, como o regougar
-d’um gato.
-
-Foi n’este momento que o medico se abaixou fingindo que apanhava alguma
-cousa. O Silveira não o percebeu, tão compenetrado estava das suas
-altas funções de maternidade. Os assistentes, interessados no final
-da comedia, tambem não repararam. Durante o minuto que o recebedor se
-conservou agachado, trocaram-se apenas algumas observações em voz baixa.
-Mas por fim, mestre Silveira, sahiu do ninho mostrando-se patentemente e
-engulindo em secco, como se viesse d’um sonho. Começou a cacarejar com
-alegria e orgulho em voz sonora e espantada. Saracoteava-se vistosamente,
-espanejando-se, refrescando o corpo, na satisfação de quem cumprira um
-dever e se livrára d’uma difficuldade. Esperto, vivaz, altivo, tudo
-era _Ca-cá-rá-cá, ca-cá-rá-ki_... para um lado e para outro. E n’uma
-reviravolta, quando fazia a ultima visita saudosa ao ninho, o soberbo
-Silveira estacou de repente, empallideceu deixando de cantar, os braços
-cahiram-lhe n’um assombro!
-
-—Mas eu não fui!—pronunciou inconsciente.
-
-O apparecimento imprevisto de dois ovos authenticos no logar da postura,
-produziu uma gargalhada atterradora! Frei Ignacio, sempre larachista,
-agarrou no recebedor pelos hombros, perguntando-lhe:
-
-—Então hoje isto foi a sério, caro amigo?!
-
-Porém o medico, cheio da sua vingança, disia ao mesmo tempo a D.
-Michaela, em voz alta, de modo que todos ouvissem:
-
-—Compre esta gallinha, senhora morgada, que lhe põe aos dois. Olhe que
-sempre é melhor que a sua amarella!
-
-[Illustration]
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-
-[Illustration]
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-
-
-
-RENDE-TE CENTURIÃO
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-Esperava-se que d’essa vez os _Passos_ fossem grandiosos. Tinha chegado
-no verão um brazileiro, que para engrandecer a terra, concorria com
-cincoenta libras. O abbade, depois da offerta, affirmou cathegoricamente,
-que ía fazer reviver a memoria dos _Passos_ do fidalgo do Outeiro, que
-sessenta annos antes, fizera _uns_ de que fallavam ainda com espanto,
-os velhos das redondezas! Não havia de faltar nada: teriam muitos
-anjos, musica da melhor e pregador de fama. Se viessem ainda esmolas,
-mandar-se-hia armar a egreja, podiam-se reformar os andores que estavam
-velhos; pois seria bonito que apparecessem differentes imagens do
-Redemptor, significando as diversas partes da notabilissima _Paixão_.
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-—Quando foram os do fidalgo do Outeiro—acrescentou o abbade—houve a
-guarda romana com o Centurião á frente, levando o seu distinctivo de
-videira como emblema do direito de punição corporea, sobre os soldados.
-Não sou d’esse tempo, mas ha ahi muitos homens que se lembram—concluiu,
-dando grande preço ás suas palavras.
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-Era n’um domingo, depois da missa conventual. O abbade fallava na
-sachristia, deante d’alguns freguezes, que o escutavam respeitosamente.
-O benemerito senhor Guimarães, que abrira a subscripção com cincoenta
-libras, era dos ouvintes. Reconhecendo, como todos, que a somma já
-apontada era diminuta para se arranjar uma procissão a valer, poz
-serenamente a luneta, pegou no papel onde estavam lançadas as differentes
-verbas e leu:
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-—Tresentos e cinco mil e sete centos e cincoenta reis. É pouco!—disse.
-Quanto entende o senhor abbade, que será preciso para se fazer coisa de
-truz?!
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-O sacerdote olhou fixamente o tecto da sachristia, suspendendo-se do
-labio inferior por dois dedos. Pronunciou, para si algumas palavras de
-calculo, resumindo em voz alta:
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-—Quinhentos mil reis. Com quinhentos mil reis faz-se tudo.
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-—Pois feche lá essa conta e trate do negocio, meu reverendo—concluiu o
-Guimarães, atirando generosamente com a meia folha d’almaço, sobre o
-gavetão.
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-O abbade agarrou-o entre os seus rudes braços de camponez, affirmando-lhe:
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-—Com isso, temos tudo! Bom sermão; boa musica; bom côro; anjos; egreja
-rica; um centurião com a sua guarda, que se lhe mandam ahi na villa fazer
-vestimentas; e andores de espavento, que eu arranjo a virem de Braga, com
-imagens e mais pertences. Creia o meu amigo, ponho-lhe ahi uns _Passos_,
-que nem na cidade do Porto. Uma riqueza, verá.
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-—Então é dar ordens, está arrumado—acrescentou o Guimarães, fazendo um
-gesto largo com a ponteira da bengala. Dinheiro não faltará, ainda que
-seja preciso mais. Na minha vida de trabalho levei muito chimbalau, e
-bastas vezes perdi contos e contos. Dê ordens, meu abbade, e ponha a
-coisa na rua. Percebeu?
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-Esta grandeza do Guimarães foi muito gabada em toda a parte, bem como a
-sua devoção. Felizmente não era como o traste do Cerqueira, um herege
-que embirrava com missionarios. Esse era raro verem-no pela egreja, e
-até quiz bater no afamado padre Antonio, porque lhe fez uma santa da
-sobrinha, a Rosaria do Thomaz do Monte, pobre homem, agora maluco, por
-causa das heresias que lhe mettera na cabeça o cunhado. Ainda bem que
-o senhor Guimarães não era assim e gastava dinheiro em fazer coisas
-boas, como ajudar uns _Passos_ de que todos se orgulhavam. Por isso
-Deus o tinha protegido; por isso, sendo filho d’um pobre artista, era
-hoje um fidalgo, tinha palacio e suas filhas usavam sedas. Não tardariam
-em ver-lhe um titulo e era muito bem applicado, a um cavalheiro de tão
-larga generosidade e que tão amigo se mostrava da terra. Podia ser como
-outros, despresar do nascimento obscuro, viver n’esse Porto ou Lisboa, e
-não fazer caso nem da sua aldeia, nem dos parentes pobres. «Viva o senhor
-Guimarães, que ainda hade ser o nosso deputado»—affirmavam com emphase
-pessoas de consideração.
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- * * * * *
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-Desde aquelle momento o abbade não pensou n’outra coisa. Logo no dia
-seguinte montou na sua egua e foi encontrar-se com a diligencia, que o
-levaria a Braga. Como era homem de imaginação e muita fé, logo que alli
-chegou entendeu-se com as pessoas que melhores conselhos lhe podiam dar.
-Depois de varias conferencias resolveu encommendar tudo a um homem da
-rua do Souto, o que era melhor arranjo. Combinou a armação da egreja;
-os fardamentos do centurião, guardas, figuras e vestidos d’anjos; os
-cantores para o coro, os andores e até as imagens. Quanto a imagens
-foi mais difficil; pois que as confrarias entenderam que as não deviam
-emprestar, sem o parecer favoravel do senhor Arcebispo.
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-Depois de trabalho insano só pôde conseguir, um _S. João_ e um _Senhor
-prezo á columna_. Porém não ficou contente; porque as estatuas, antigas e
-feias, não eram de causar grande devoção.
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-—Paciencia—disse resignado. Levam-se os seis andores. Tenho lá _Cruz ás
-costas_ e _Senhora do encontro_. Levo d’aqui _Preso á columna_ e _S.
-João_. _Canna verde_ e _Pretorio_ arranjo de Valença. Quem tem amigos...
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-Procurou, depois, saber onde morava actualmente o padre Silvestre,
-capellão de infanteria 8 e seu antigo condiscipulo. Era um dos pregadores
-mais afamados do alto Minho e o abbade, pela terceira vez, o escolhia
-para lhe abrilhantar uma festa da sua egreja.
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- * * * * *
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-Tendo conhecimento de que mudára para a Conega, cahiu-lhe em casa
-d’um pulo. Havia annos que se não encontravam. Por isso houve effusão
-d’alegria, muitos abraços e expansões n’este momento.
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-O pregador, escarranchado n’uma cadeira, disse para o seu amigo que se
-lhe sentára na cama:
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-—Tu, magnifico, gordo, sempre abbade! Que diabo te trouxe n’este tempo de
-trabalhos quaresmaes cá por Braga?
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-—O diabo não, creatura, foi Deus! Deus, o Senhor dos Passos é que me
-trouxe hoje por cá. Mas deixa-me perguntar-te, antes que me esqueça.
-Estás de mal c’o as...
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-—Estou sim—atalhou—não as podia aturar. Eram umas porcas. Nem roupa,
-nem comida... uma immundicie. Depois tinha por companheiro o Antunes da
-Cuspinheira, lembras-te? Um cevado com quem se não pode estar á mesa.
-Deixei-as...
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-O abbade conformou-se, accrescentando:
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-—Pois custou-me a dar co’esta casa. Perguntei ao Sampaio, o famulo. E
-venho cá por um motivo muito grave.
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-—Oh! com seis centos!—exclamou o capellão. Talvez algum caso de
-consciencia. O homem é fraco, bem sei. Eu absolvo-te, diz da tua vida,
-bezerro.
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-—Não, não é isso. Tenho uma festa de Passos, coisa rica. Paga lá um meu
-parochiano, um brazileiro. Quero que tu pregues.
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-—Quando é? Na quarta dominga? Tenho que fazer, vou aos de Bouro.
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-—Não principies já com lonas. É na terceira dominga, homem.
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-—Então posso.
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-—Mas Souséca! eu quero um sermão novo em folha. Posso-te dar quinze
-moedas.
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-O padre Silvestre reflectiu e disse:
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-—Valeu. Escrevo hoje mesmo ao Germano, o Germano das bochechas grandes.
-Conhecel-o? Quero que elle me empreste um que lhe enviaram do Porto e
-que fez grande barulho em Guimarães quando lá o pregou, ha dois annos.
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-—Mas, porque é que tu não o escreves? Com o teu talento...
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-—Escrevo sim; mas é para me inspirar. Tu bem sabes que estas coisas são
-sempre as mesmas. Está tudo sabido, já se não póde inventar. A questão é
-de _modo_. Percebes abbade?
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- * * * * *
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-No sabbado, vespera da terceira dominga chegou a Refuinho o pregador.
-Foi-se hospedar na _Residencia_. A sua entrada na aldeia foi celebrada
-com alegria pelo ajuntamento de povo, que estava no adro da egreja e até
-haveria repiques e foguetorio, se não fôra tempo santo de quaresma.
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-O Agrella, que ajudava o armador de Braga, veio dar ao padre Silvestre,
-um aperto de mão, affectuoso e familiar.
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-—Cá andas tu como o peixe n’agua—disse-lhe o pregador.
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-—Não ha remedio senão dar um gaudio á raparigada—respondeu o alfaiate.
-Muito estimei vel-o por cá, meu senhor. Ha que tempos!... Temos ahi uns
-_Passos_ d’arromba. Não haverá outros, cinco leguas em redor.
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-O padre Silvestre saudava a todos de cima da burra. Os semblantes dos
-camponezes eram risonhos, como se tractassem d’um noivado. Este rumor
-attrahiu o abbade que se chegou á janella. Ao avistar o seu antigo
-condiscipulo, gritou-lhe:
-
-—Eh! Souséca! Sobe para cá diabo.
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-Mas foi elle que veio abaixo, de tamancos e meias de lã, envolvido no
-amplo capote. Tomou o hospede entre os braços, apertou-o com amisade.
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-—Já me tardavas, maroto!—disse. Vou-te mandar pôr a ceia. Ó
-rapariga!—gritou para cima—Elle cá está.
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-No alto da escada, appareceu a Joanna, de lenço vermelho cruzado sobre os
-seios magnificos, e expondo, á vista de todos, a optima carne dos seus
-braços.
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-—Então uma fornada, ein?—perguntou o pregador.
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-—Não ha remedio senhor reverendo capellão. A gente hade comer. Estou a
-mettel-a no forno. Desculpe recebel-o assim.
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-Mas o padre Silvestre não era de ceremonias. Estava acostumado. Em casa
-de sua mãe, nos tempos felizes em que vivera na aldeia, era a mesma
-coisa. O trabalho primeiro que tudo. Faz a gente forte. Deu-lhe um
-abraço de satisfação, fazendo muito gosto em sujar o capote, sobre o
-lenço enfarinhado e os braços roliços, cheios de massa. A rapariga riu
-estrondosamente, entregando-se-lhe com facilidade. O abbade, fingindo-se
-suspeitoso, observou:
-
-—Cautelinha, cautelinha, sôr Souséca!...
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-Tudo era levado á boa parte e sem malicia. O padre Silvestre pediu
-tamancos e meias de lã, que tinha os pés gelados. Oito horas de
-diligencia e a cavallo era de morrer. Se viesse alguma chuva não faria
-mal nenhum, pois amaciava.
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-—Não imaginas abbade, como elle corta lá em cima, ao dobrar o monte.
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-—Imagino, imagino. Bastas vezes o tenho levado pela fucinheira. Mas toma
-lá uns soccos e as meias e vem pr’o lume. Ceia-se alli mesmo.
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- * * * * *
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-Pouco depois, pozeram diante do pregador a sua gallinha, salpicão e
-a tigella de bom caldo, fumegante e appetitoso. Nos tempos em que ha
-muito serviço divino, não se usam jejuns para quem prega ou canta. Tem
-dispensa, bem merecida; pois que alguns, como o padre Silvestre, andam de
-terra em terra, levando a palavra sancta, para converter peccadores. É
-uma lida de seis centos demonios. Ganha-se dinheiro; mas não vale muito
-a pena. Se os obrigassem a comer sardinhas, morriam no fim da quaresma.
-Era Christo a subir ao ceu e elles a descerem á cova. Jejuns são para os
-brutos, para os fortes, que não tem de puchar pela cachimonia.
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-—Cá na minha—affirmou Joanna atiçando o lume—se nós somos tão tapados é
-por causa da brôa e do bacalhau.
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-O abbade, que estava estorcegando a sua posta sobre o prato, levantou a
-cabeça para dizer:
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-—Olá, princeza. Vou-te mandar vir carne da villa, para tu comeres.
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-—E olhe que me havia de fazer bem, ao meu rico peitinho—confessou pondo a
-mão sobre os proeminentes seios. Ao trabalho que lhe tenho.
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-O abbade continuou troçando:
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-—Ora sempre a gente vé coisas! Não te me faças lesma. Dá p’ra cá a infusa
-e deixemo-nos de contos.
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-Mas o padre capellão fallou sério, explicando. O seu trabalho n’essa
-quaresma era extraordinario. Em seguida a esse sermão, tinha outros.
-_Passos_ em Bouro e toda a semana sancta em Amares, onde tinha de pregar
-o do _lava-pés_, o do _enterro_, o de _lagrimas_ e o da _ressurreição_,
-que é sempre uma predica demorada e cheia de conceitos.
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-—Pois sim—considerou o abbade—mas este d’amanhã é que mais te custa.
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-—Podéra! Tambem é o de mais pucho. Levou-me oito dias a compôr e oito a
-decorar. É todo novo, acredita.
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-Tinham-no prevenido que, para o ouvir, viria gente de longe. Só em casa
-do Guimarães, uns trinta hospedes—pessoas do Porto, de Braga... o diabo.
-Mostrava-se preoccupado com o exito. Tinha medo que lhe esquecesse algum
-d’esses trechos flamejantes, em que firmava orgulho litterario. Peça
-meditada, feita com reflexão e calculo. Havia a bem conhecida passagem do
-centurião, convertido por um toque de divina graça. O padre Silvestre não
-julgava isto muito moderno; mas foi o abbade que lh’a exigiu, por saber
-que era do gosto dos ouvintes e principalmente do bemfeitor. No emtanto,
-entendia o pregador, que essa passagem produziria bom effeito, se fosse
-convenientemente ensaiada.
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-—Quem tens tu ahi para centurião?—perguntou ao abbade.
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-—Um rapazote da freguezia. Boa figura, alto!...
-
-—Pois hei-de-lhe querer fallar. Que venha cá amanhã de manha. Bem sabes
-que isto tem o seu boccado de theatro.
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- * * * * *
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-No dia seguinte o pregador estava a repetir o sermão na horta da
-_Residencia_, passeando n’um carreiro, por cima do muro. O sol aquecia-o
-agradavelmente por um lado, a sombra do seu corpo estendia-se na relva,
-sobre a qual os gestos se lhe reproduziam mais amplos e magestosos!
-Uma pobre cerdeira, despida de folhas, é que lhe servia de referencia.
-D’aquelle lado era o Calvario, com a dolorosa imagem de Christo, vergado
-sob a cruz. O povo estava em baixo, oppresso e contricto. A Virgem mãe, á
-direita, banhada no pranto redemptor. Os verdugos, os da guarda romana,
-os discipulos e todos os amigos de Jesus, lá os significava na vertente
-do monte ignominioso, que no caso presente era um alcouve de cor alegre.
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-No meio d’uma apostrophe clamorosa, quando de braços abertos e solemne
-chamava o divino soccorro, foi interrompido por uma voz:
-
-—Senhor reverendo pregador?—chamaram.
-
-O sacerdote, voltou a cabeça, conservando suspenso o gesto e perguntou
-impaciente:
-
-—Que diabo queres?
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-—Vossa Senhoria não me mandou chamar?
-
-—Eu!
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-—Cá o nosso abbade é que disse.
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-—Ah!—exclamou, deixando cahir os braços. És o centurião?
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-—Entendo que sim—confessou o filho do Cancella.
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- * * * * *
-
-Disse-lhe que se approximasse. Explicou-lhe o caso. Em certa altura do
-sermão, tinha de quebrar a lança, e prostrar-se de bruços, soluçando,
-como peccador arrependido. Jesus Christo alli estava, coberto
-d’opprobrio. Todos o tinham insultado no caminho do Calvario; porque
-estava nas escripturas que assim devia ser. Elle, centurião, tambem
-maltractára o sublime prisioneiro, dando-lhe com a lança e chasqueando-o.
-Depois é que lhe veio um toque de luz divina e arrependeu-se.
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-—Tu entendes—explicava. Toque de luz divina é assim como uma pontuada
-sobre o coração. Entendes? Diz lá.
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-—Entendo muito bellamente, senhor reverendo pregador. Eu já figurei
-n’outros _Passos_, lá p’ra Monção—acrescentou com sorriso experimentado.
-Mas senhor reverendo pregador, Vossa Senhoria, quer que eu me arrependa,
-logo á primeira que mandar?
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-—Porque?
-
-—Eu á primeira... á primeira... não queria—explicou, coçando a nuca. É cá
-por causa da rapaziada, que depois chama podrico á gente.
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-—Ah! isso não tem nada. Lembra-te que estás deante do rei dos reis e
-do senhor dos senhores. Mas não te rendas logo... logo... Olha bem
-para mim—detalhou com bondade. Ao primeiro _rende-te_ eu pego no
-lenço que está do lado da porta, levo-o á bocca, e torno a collocal-o
-no mesmo sitio. Tu reparas em mim, dás uma sacudidella aos hombros,
-assim, e continuas lá no teu posto. Eu fallo muito ainda. Ao segundo
-_rende-te_, repito o caso do lenço _mudando-o então_—sublinhou—para o
-meio do pulpito, d’esta maneira (Pegou no seu lenço de paninho vermelho,
-conservou-o segundos pendente da mão e depois collocou-o sobre um triste
-ramo de vide). Tornas a atinar comigo, um pouco mais sério do que da
-primeira vez; nova sacudidella de hombros, e continuas lá na tua vida.
-Sim, porque tu és um grande peccador e a divina graça não te póde tocar
-assim do pé p’ra mão. Entendes isto?
-
-—Muito bem, senhor reverendo pregador—affirmou o filho do Cancella, com o
-queixo agarrado na mão direita.
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-—Mas ao terceiro _rende-te_—accentuou significativamente o padre
-Silvestre, espaçando as syllabas—quando eu mudar o lenço para o lado do
-altar mór, tu reparas em mim, com olhos muito arregalados, como quem
-sentiu que lhe entrou alguma coisa no corpo; se quizeres dás um grande
-berro, quebras a lança no joelho, atiras-te ao chão de bruços, finges
-que choras (se te dér p’ra isso, choras realmente) e dizes alto: «Perdão
-Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!»
-
-O rapaz pronunciou:
-
-—Perdão Senhor! Perdão! Perdão! Perdão!
-
-—Isso mesmo. É para o povo repetir: «Perdão senhor, perdão, perdão» e
-chorar muito, como é costume.
-
-—Entendi muito bellamente. O peior é se depois me chamam, cagarola e
-podrico, que me levo de mil demonios.
-
-—E que chamem?—observou o pregador. Então queriam que tu te não
-arrependesses, depois de tocado pela divina graça? São uns brutos.
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- * * * * *
-
-Logo de manhã principiára a affluir gente que vinha de longe. A egreja,
-os andores e o que se dizia dos anjos era um pasmo! A musica, logo que
-chegou, foi tocar um hymno e duas polkas á porta do senhor Guimarães,
-que veio á janella, com toda a sua respeitavel familia e hospedes,
-palitando-se soberbamente. Zé Maximo, o homem das occasiões, levantou um
-viva ao seu compadre e amigo, que foi correspondido atirando-se chapeus
-ao ar. De tarde, antes de sahir a procissão, a musica voltou para o
-beberete, que lhe foi servido no quinteiro. Houve vinho do Porto em
-calices, quatro broas de pão de ló partidas á mão. Para os figurantes,
-que estavam todos vestidos na vasta salla da tulha, á espera do momento,
-foram enviados dois cabaços de vinho, meia duzia de brôas de pão de ló,
-outra de garrafas de Porto e um cesto de cavacas. Houve por este motivo
-grande barulho e algazarra dentro do casarão da tulha.
-
-Foi a propria esposa do senhor Guimarães, que teve a delicadeza de
-lhes ir encher os primeiros copos, como signal de apreço e um rasgo
-democratico na sua vida faustosa. Os rapazes d’aldeia sentiam-se
-engrandecidos dentro dos seus fatos galileus e romanos. As tres Marias e
-a Veronica, apenas levaram aos beiços os copos de vinho, com medo de se
-descomporem nos vestuarios. Os anjos, sentados em duas bancadas, comiam
-gulosamente rebuçados, babando-se pelos cantos da bocca. Os irmãos do
-Santissimo, encarregados de os acompanhar, vieram buscal-os para os
-conduzir á presença do senhor Guimarães e dos seus hospedes, antes da
-procissão. O destroço nas cavacas, no pão de ló e no vinho era feito,
-pelo Velho Simeão, por José d’Arimathéa, por Caiphás e Pilatos, que se
-mostravam altivos; pelo Evangelista e especialmente pelo Centurião e os
-seus doze romanos, que promettiam não sahir d’alli, em quanto houvesse
-uma gotta nos cantaros e nas garrafas. O filho do Cancella, estava
-arrogante, animando os seus com manifesto prejuizo dos superiores,
-Caiphás e Pilatos, não obedecendo ás palavras judiciosas do piedoso
-Simeão, que bebia menos por causa da barba, e recommendava aos outros
-compostura:
-
-—Olhem que tomam por ahi alguma carraspana! É melhor voltarmos cá, outra
-vez, no fim de tudo.
-
-—Isso é o que tu querias—retorquiu o Centurião. É dar-lhe, rapazes, até
-lhe chegar com o dedo.
-
-E de tal modo comprehenderam estas palavras, que ao sahirem da tulha,
-Cancella e os seus homens, levavam todo o seu animo e arrogancia natural,
-fortalecida pelo vinho.
-
-—Grandissimo odre—disse-lhe com inveja o Simeão da barba, perdendo a
-suavidade, que era da indole do seu papel.
-
- * * * * *
-
-Os _Passos_ começaram pelas duas horas. O itinerario foi combinado de
-modo que primeiro que tudo passassem á porta do senhor Guimarães, que
-seguia o andôr principal, como festeiro. A todas as senhoras que estavam
-á janella da sua casa d’azulejo, em especial a sua esposa, fez uma larga
-reverencia, passando ao mesmo tempo a mão na barba. Uma das coisas que
-mais impressionou a gente postada nos valados, foi o terem os anjos
-azas! Isso que concordava perfeitamente com o painel do altar mór, que
-representava a Annunciação, nunca elles tinham visto! E iam todos muito
-ricos, de setim branco e lentejoilas. Os melhores eram evidentemente os
-vestidos em casa de D. Maria de Refuinho, apezar de que os da mulher
-do sachristão e os da Lindoria, tambem não havia que lhes dizer:—ambas
-tinham sido creadas de conventos em Vianna. Cada anjo distinguia-se pela
-sua especialidade nas insignias de martyrio, em recordações da celebre
-_paixão_; era a coroa de espinhos, o martello, as tenazes e os pregos
-para crucificarem o Christo.
-
-Havia dois que conduziam simulacros das escadas pelas quaes os verdugos
-tinham subido aos braços da cruz. Um rapasote, com altivez para que
-todos reparassem, sustentava na ponta d’uma canna a esponja que servira
-ao fel e ao vinagre; outro era portador da lança com que se abrira o
-sacratissimo lado. As chagas, em lacre vermelho, iam em salva de prata. A
-Veronica, rapariga esbelta, mostrava com ar piedoso, no santo sudario, a
-face penitente e ensanguentada do divino mestre. Quasi no fim iam as tres
-Marias, todas a par, cobertas de gaze preto e logo a seguil-as, S. João,
-o discipulo amado, com o queixo apoiado na mão esquerda. A Magdalena,
-uma rapariga casadoira, de longas madeixas encaracolladas cahindo-lhe
-nas espaduas nuas, caminhava em passo theatral, adeante do apostolo, e
-significava limpar abundantes lagrimas, deitando de vez em quando um riso
-de soslaio, ás pessoas conhecidas.
-
-Entre os dois andores, o de Jesus vergando ao peso do madeiro, e o da
-Virgem lacrimosa que implorava do ceu piedade, ia o Cyreneu resignado e
-humilde logo em frente do Centurião, que commandava com arrogancia os
-seus doze companheiros. Eram rapazes escolhidos entre os mais espadaudos
-da visinhança. Orgulhosos dos capacetes prateados, das botas de montar,
-dos mantos vermelhos e das terriveis barbas, sustentavam intemeratamente
-as suas lanças, olhando em redor com provocação. O José Cancella
-levando a insignia da videira, atiçava-os com olhares tremebundos e
-modos arrogantes de capitão. O povo manifestava-lhes a sua antipathia,
-principalmente ao José. Chamava-lhe ladrão, carrasco, ameaçava-o com o
-inferno. A Lindoria, não se teve que lhe não dissesse, quando elle passou:
-
-—Barbas de chibo! Um tição por esses olhos é que tu querias!
-
-Porém o Cancella, apesar de carrancudo, não respondia. Pelos modos,
-parecia ter cabellos no coração, aquelle diabo—diziam todos. Os seus
-olhares furibundos sobre o Christo, não podiam constituir um peccado?
-Era realmente de mais. O Centurião do tempo dos judeus tinha a sua
-desculpa, porque não conhecia Jesus; mas este já ouvira muitas vezes os
-missionarios. Era fingido, bem se sabia, mas escusava de estar a fazer
-arremessos de lança, sobre a imagem que ia no andor; porque a isso é que
-ninguem o obrigava.
-
-O atrevimento provocou da parte d’um visinho, um sarcasmo reprehensivo:
-
-—Vaes-te ahi a fazer de chibante e logo rendes-te como um sendeiro!
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-—Não me puches—retorquiu o Cancella—porque se vamos a isso, arraso tudo a
-pau.
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-N’este momento o _trombeteiro_ deu signal para continuarem. Ao longe
-ouvia-se o alarido dos rapazes, que admiravam os prodigios de força,
-tanto do que levava o guião como do que sustentava o estandarte, pois
-eram bandeiras que pesavam muitas arrobas. A procissão seguia por uma
-encosta, no cimo da qual haveria o sermão do encontro.
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- * * * * *
-
-Um limpido ceu de março cobria os campos, que principiavam a reviver
-para a alegria primaveral das cores e da luz. O sol glorioso batia de
-frente nos anjos, obrigando-os a piscar os olhos. As lentejoilas, os
-galões e os adereços faiscavam com ostentação. Todas essas innocentes
-crianças iam pomposamente levadas para o Calvario, pelos seus parentes,
-que lhes forneciam rebuçados em abundancia. A multidão commentava com
-amor a riqueza dos vestidos e as lembranças do martyrio. O som plangente
-e dolorido da musica, alastrava-se pelas campinas. O sermão do encontro,
-só commoveu algumas antigas beatas, que lagrimejaram encostadas aos
-carvalhos do largo. O pregador era um velho de voz pigarrada e bochecha
-cahida. Todos o conheciam e não lhe davam valor. N’esse dia memoravel,
-quem absorvia as attenções, era o padre Silvestre, que viera de Braga.
-Para o ouvir corriam os mais ageis pelo monte abaixo e atulharam a egreja
-com enthusiasmo. Para os andores entrarem pediram auxilio ao Cancella
-e aos da guarda romana. Á força de muito encontrão é que puderam abrir
-caminho. Houve gritos, exclamações injuriosas; mas as confrarias, os
-anjos e mais figuras, tiveram os seus logares. Tambem, o Centurião e os
-seus, foram logo, alli mesmo, pagos d’esse esforço, bebendo um cantaro
-de vinho que veio para a sachristia. Depois que tudo se acommodou como
-pôde, a egreja ficou silenciosa. A imagem do Redemptor e da Virgem
-destacavam-se com energia, no horisonte do calvario, formado de nuvens
-caliginosas. Havia anciedade pelo apparecimento do pregador.
-
- * * * * *
-
-A figura grave do padre Silvestre mostrou-se no pulpito. Circumvagou
-a vista, desde o guarda-vento até a repousar na imagem do Christo,
-ajoelhado debaixo da cruz. O exordio foi longo, mas habilmente preparado
-n’um crescendo de dôr. Seguiu a vida simples do filho do carpinteiro
-de Nazareth, levando-o desde a malvadez de Herodes até ao baptismo no
-Jordão. Mostrou-o predestinado pelas prophecias, para a sua divina
-missão de soffrer o martyrio degradante que soffreu, por amor dos
-homens. Anteriormente á vinda de Jesus, a humanidade vivia numa escura
-masmorra, com porta, só para o inferno! As palavras da escriptura haviam
-de cumprir-se e era preciso o sacrificio d’um Deus, para salvar o mundo.
-_Elle_ encarnou, soffreu, demorou-se trinta annos distante da patria
-celestial, para nos remir e dar exemplo. Nem que todos os homens vivessem
-eternamente em penas afflictivas, poderiam pagar tão infinita bondade!
-Por isso, na apaixonada peroração, o pregador, começou por considerar que
-estando dentro d’aquella egreja, só miseros peccadores condemnados aos
-rigores do inferno, convidava-os a que se prostrassem de bruços, para
-pedirem perdão a Deus dos enormes peccados, que todos haviam de ter, no
-logar mais intimo da alma.
-
-Os gritos e soluços do povo sommavam-se, como elementos d’uma calamitosa
-tempestade. A gritaria das mulheres, que davam bofetadas nos seus filhos
-para os obrigar a carpir e conservarem memoria d’este sermão, esfusiavam
-no ar como uivos de vento. O pregador, para tomar mais pathetico o
-discurso, quil-o ornamentar com a conversão _d’um infiel_. O infiel
-era o Centurião, o filho do Cancella, no qual ia experimentar o poder
-extraordinario da divina palavra.
-
- * * * * *
-
-Desde o principio se reconhecera, que o José estava casmurro; pois que, a
-despeito de todo o povo chorar, elle sempre se mostrára atrevido, olhando
-o pregador com altivez. Os seus soldados tambem o acompanhavam no ar
-insolente. Algumas pessoas que estavam no segredo do que se passava,
-attribuiam aquella chibancia ao ultimo cantaro de vinho. O pregador,
-ignorante do facto, antes o julgou muito bem compenetrado do papel. Por
-isso começou por pedir aos fieis, que o acompanhassem na exhortação que
-ia fazer. Como as toupeiras que não tem olhos para a luz do sol, aquelle
-desgraçado não tinha meio de presenciar o encanto da luz da divina graça.
-Vivia em trevas infinitas, d’onde só podia sahir pelo enorme poder do
-Senhor. E estendendo-lhe os braços paternaes, pediu suavemente:
-
-—Rende-te Centurião!
-
-—Rende-te Centurião!—acompanharam os circumstantes, n’uma voz chorosa e
-precatoria.
-
-O filho do Cancella, que passeava soberbamente no calvario, parou
-cofiando a barba com magestade e affirmou resolucto:
-
-—Não me rendo!
-
-O Agrella, que estava alli perto, disse-lhe de modo que elle ouvisse:
-
-—Não te rendes! Isso logo se verá meu pedaço d’asno.
-
-Evidentemente, esta ameaça do alfaiate perturbou a vista do esforçado
-Centurião. Por entre a longa barba, sahiu-lhe um bafo enfurecido de
-colera, e se não fora a especial situação, era capaz de lhe quebrar a
-cabeça com a lança.
-
-O pregador, tendo limpo os beiços ao lenço, segundo a convenção,
-continuou exhortando o infiel e pediu-lhe com mais instancia. Pintou,
-deante do povo absorvido na sua palavra santa, o triste estado d’aquella
-alma obcecada, recusando receber em si a divina luz! Empregou maior
-energia de phrase, foi mais caloroso e persuasivo. O povo seguia-o,
-supplicando com elle, levantando clamor cheio de lagrimas. Ao segundo
-_rende-te_, quando o pregador mudou o lenço para o meio do pulpito, o
-Centurião respondeu cathegorico:
-
-—Não quero, não rendo!
-
-—Á terceira nós veremos—afirmou de novo o Agrella, que estava certo do
-que se passara entre o José Cancella e o pregador.
-
- * * * * *
-
-O padre Silvestre investiu no ultimo pedido, dando-lhe a forma de
-objurgatoria. Para ser mais solemne, começou em tom simples, subindo
-gradualmente até ao intimativo.
-
-Já via na fronte do Centurião um principio d’arrependimento. O grande
-Deus ia feril-o com um d’esses raios de divina omnipotencia, como ferira
-Paulo na estrada de Damasco, como ferira o impio Agostinho, e o proprio
-Moisés na montanha. Não podia consentir-se que vivesse entre christãos,
-uma alma peccadora e impenitente. A conversão havia de dar-se a preço da
-propria morte, porque o Senhor usa de todos os meios, para chamar a si as
-almas!
-
-O filho do Cancella, perseguido d’ameaças, não se commoveu. Porém, quando
-o pregador o equiparou aos grandes santos, já parecia amollecido no seu
-espirito de resistencia. O povo chorava e clamava em altos gritos, o
-peito enchia-se-lhe de ternura e arrependimento. Talvez fosse melhor
-acabar com aquillo, prostrar-se por terra, como tinha promettido. O
-pregador mudou o lenço para a direita e concluiu com voz energica e grave:
-
-—Abre esses olhos peccador! Rende-te Centurião!
-
-—Agora!—intimou o Agrella.
-
-O chefe da guarda romana fixou no pulpito um olhar atrevido. Julgou-se
-indigno da fama que tinha de valente se obedecesse á voz do Agrella. O
-vinho dava-lhe coragem e audacia. Tomando a lança ás duas mãos, bateu
-uma forte pancada no pavimento e respondeu ao pregador:
-
-—Tenho-os bem abertos. Não me rendo! Não e não! Obrigue-me!
-
- * * * * *
-
-Depois d’isto a situação ficou inteiramente perturbada. O padre Silvestre
-teve uma paragem de surpreza. Não sabia o que aquillo queria dizer. Teria
-havido algum esquecimento ou engano?! Para que o rapaz percebesse melhor,
-tornou a pegar no lenço, suspendeu-o no ar e collocou-o á direita. Á voz
-imprecativa do sacerdote, juntava-se o clamor plangente e formidavel do
-povo. Pois que! O filho do Cancella tinha duvida em reconhecer o enorme
-poder da Omnipotencia! em se rojar diante do Senhor dos Senhores, do Rei
-dos Reis! em reconhecer que o Immaculado Cordeiro veio morrer fragilmente
-na forma humana, só para nos remir e salvar! Estranha e incomprehensivel
-cegueira! Empedernido no peccado, devia estar aquelle coração. E
-pediu-lhe de novo que se rendesse, que attendesse á commovente voz de
-todas aquellas mulheres que o exhortavam e no meio das quaes estaria sua
-propria mãe.
-
-As pessoas gradas pareciam irritadissimas. O brazileiro Guimarães
-lembrou-se de o mandar prender; mas o desembargador João Xavier,
-achou isso improprio do logar. Enviaram o Zé Maximo, que lhe disse com
-moderação:
-
-—Rende-te, diabo! Olha que o homem já está rouco.
-
-—Deixe-o estar!—respondeu succintamente o Centurião.
-
-Todos se mostravam inquietos. Semelhante cabeçudo, merecia boa doze de
-páu—opinavam.
-
-O pregador estava esfalfado. A sua voz, já pouco distincta, era coberta
-pelo alarido que enchia a egreja! Ouviam-se supplicas, ameaças, palavras
-soltas, gritos, creanças a chorar...
-
-O filho do Cancella, de cada vez se inculcava mais firme, no proposito de
-se não render. Foram pedir ao pae que lhe impozesse a obediencia; porém
-o velho, que sempre tivera prosapias, mostrou má vontade de interferir.
-Opinou que o rapaz se renderia quando entendesse, que o deixassem lá,
-elle sabia bem do seu papel. Não era a primeira vez.
-
-Tudo parecia perdido. O padre Silvestre, exhausto de forças, furioso
-contra aquelle maroto, arrancou do peito um grito sublime. Com a colera
-estampada no rosto, dirigiu-se ao povo, e apontou vivamente para o
-Centurião clamando:
-
-—Aqui d’El-rei! contra aquelle maroto! Prendam-no que foi elle que matou
-Nosso Senhor Jesus Christo! Povo! Faz justiça por tuas mãos.
-
-Os das confrarias largaram as tochas e correram em tropel. O chefe dos
-soldados romanos preparava-se, juncto com os seus homens, para levarem
-tudo á bordoada. Só então é que o velho Cancella se adeantou, agarrando o
-filho pelo tronco:
-
-—Eh! Zé. Que diabo é isso! Rende-te que já fizestes a tua figura, home!
-
-Elle então, arrumando a lança para um canto, submetteu-se:
-
-—Como vocemecê pede, vá lá! Se não ia tudo razo!
-
- * * * * *
-
-Depois na sachristia, o Guimarães, furioso, disse-lhe:
-
-—Precisavas que te mettessem um páu, entendes? Culpa tive-a eu em mandar
-o cantaro de vinho. Não eras tu que fallavas, não.
-
-O abbade, esse, mesmo d’estola, quiz-lhe esmurrar as ventas. O pregador é
-que lhe agarrou n’um braço, socegando-o:
-
-—Deixa-o. Quem lhe hade pôr uma farda ás costas, sou eu. Lá é que ellas
-se pagam. Moinante!
-
-O filho do Cancella, ouviu-os com ar sizudo, sem responder. A vista
-toldou-se-lhe quando o ameaçaram. N’um impeto de colera, arrancou as
-barbas postiças e arrumando com ellas ao chão, disse sahindo para fóra:
-
-—Ainda um raio me parta se eu tornar a fazer de Centurião! Macacos me
-mordam, se pozer outra vez isto na cabeça!
-
-E atirou ao meio da herva do adro, o bello capacete prateado, que foi ter
-a distancia.
-
-O abbade, ainda se chegou á porta dizendo-lhe deante dos homens que alli
-estavam:
-
-—Ah! bom marmelleiro! Levem d’ahi esse odre de vinho, antes que eu lhe
-ponha os ossos num feixe.
-
-Em casa do pae, custou muito a socegal-o. Foi preciso deitarem-lhe uma
-chapoeirada d’agua fria para o acalmar. O somno que dormiu, foi de mais
-de doze horas!
-
- Fevereiro de 86.
-
-[Illustration]
-
-
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-
-[Illustration]
-
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-
-A TRUTA GRANDE
-
-
-Lá está o padre João, a dormir na sua cadeira de braços, debaixo da
-fresca lata! Peito ao léo, as abas do amplo casaco de lustrina pendentes,
-breviario para um lado, lenço para outro, caixa do rapé na mão, o ventre
-arfando pausadamente... É todos os dias assim, depois de jantar, no tempo
-dos calores. Para avaliar a tranquilidade de certas almas, é melhor
-sentir-lhe a respiração suave, do que ler, tudo quanto pensadores e
-casuistas, tem escripto acerca de moral. E julga-se um homem accordado,
-o sereno eclesiastico, pois regouga palavras incomprehensiveis! Em
-que bello paiz de sonhos trabalhará a sua ideia?! Sorri-se, o labio
-papeja-lhe de contentamento... É que está á borda do rio, a canna de
-pesca firme, o olho interessado, a respiração silenciosa. Rabea-lhe
-em volta da isca e em breve a morderá, o peixe guloso e estupido. A
-superficie da agua é serena. A transparencia deixa ver o fundo limoso e,
-talvez, a truta grande, com a magestade do seu nadar, passe altiva, a
-distancia.
-
-Ah! magnifico padre João, como estaes evidentemente enganado! Os tremulos
-e repetidos puxões que vos agitam o corpo, ebrio de goso, não são do
-peixe a depennicar na isca, são as gallinhas em cata de moscas. Ellas é
-que vos tiram pelas abas sebentas do casaco de lustrina, querido e obeso,
-padre João!...
-
- * * * * *
-
-O dia era d’agosto e bem quente. Atmosphera tremula e translucida, como
-se fora de crystal fundido. No rio, as lavadeiras entoavam canticos
-religiosos aprendidos com os missionarios e modas profanas colhidas
-dos cegos que passavam. Nos campos em redor, áquella hora, não havia
-murmurios do trabalho, pois já tinham acabado as sachas e as mondas.
-As regas, essas faziam-se de noite. Eram duas da tarde e entram no
-quinteiro os discipulos do latim. Ao verem o respeitado mestre, tão
-docemente adormecido, deixam-no em paz e vão gazear para os lados do
-rio. O porco foi menos condescendente. Tardava-lhe a lavagem e principiou
-a grunhir em volta do quinteiro, parando com o focinho erguido para a
-cosinha. Este barulho espertou o excelente ecclesiastico. Primeiro abriu
-um olho, depois outro, conservando-se alguns minutos em contemplação,
-mãos crusadas sobre o ventre. Parecia contar detalhadamente os doirados
-cachos que formavam um docel sobre a sua cabeça! Por fim ergueu o tronco
-considerando:
-
-—Então não me ia deixando dormir?! Pois não é o meu costume. Ó
-Luiza!—chamou repetindo tres vezes.
-
-Uma voz de dentro da casa respondeu:
-
-—Não posso lá ir. Estou a arranjar a lavagem. Não ouve o pórco?
-
-—Tem piedade de mim, moça—exhorou o padre João. Tenho esta bocca como um
-pau velho.
-
-—Tambem, está sempre com seccuras!
-
- * * * * *
-
-Mas a rapariga compadeceu-se. Primeiro que tractasse do porco foi á
-adega, trouxe uma infusa de vinho, collocou-a desceremoniosamente no
-chão, juncto do amo que disse:
-
-—Deus t’o pague mulher! Deus t’o pague! Se não fosse isto, nem hoje podia
-dar lições.
-
-Com sorriso beatifico, pegou na infusa, repimpou-se na cadeira e começou
-_glou, glou, glou_... até um final de saciedade, que consistiu n’um
-prolongado ahhh!...
-
-A creada, voltando com a lavagem, disse:
-
-—Já ahi vieram os estudantes, mas como vocemecê estava de papo p’r’o ar,
-lá se foram derriçar co’as raparigas p’r’o rio. Não lhe tem respeito
-nenhum—censurou.
-
-—Que respeito queres tu que me tenham?! Deixa-os lá, esta vida são dois
-dias. Gostam das moças? Tambem eu já gostei... e ainda gosto—concluiu
-arregalando olhos bregeiros.
-
-—Um padre velho, sempre falla d’um modo...
-
-—Historias! Velhos são os farrapos. Vae-me chamar esses estudantes. Se
-não aprendem latim, não serão nada. Latim é a base. Vae-os chamar, anda.
-
-E acabou de emborcar o resto da infusa, com um beber sereno de
-satisfação. A creada reprehendeu-o:
-
-—Todo elle é vinho. Quando não está, p’ra lá caminha.
-
-—O que, bebedo? grandissima cachorra. É coisa que nunca me viste,
-mentirosa. Gosto da pinga e de ti; mas não me embebedo com estas coisas.
-
-—De mim! Arreda, que me quero casar.
-
-—Com esse garotaço que te namorisca? Has-de casar sem banhos, nem benção,
-eu t’o affianço. Vae-me alli chamar os estudantes, anda.
-
-—Vá você, que tenho a massa a aziumar. Se hade tornar a adormecer...
-
- * * * * *
-
-Luiza subiu a escada de pedra para a cosinha. O padre João levantou-se
-sem resistencia, sahiu o portal e foi pelo carreiro abaixo, com o lenço
-vermelho a resguardar-lhe a cabeça, do sol. Chegado á margem do rio, lá
-viu os discipulos brincando com as lavadeiras. Muitas d’ellas levavam a
-coisa de galhofa; outras enxotavam-nos com pragas. O professor não se
-encolerisou, apesar de alguns estarem a fumar—o maior de todos os vicios,
-e que elle odiava do fundo d’alma. Toda aquella alegria e mocidade lhe
-arejou os sessenta annos. Enamorado da juventude, quedou-se a contemplar
-o quadro cheio d’animação. Benevolo e risonho, fatiava comsigo mesmo.
-
-—Não querem ver como se arreitam? Ora, ora, já a formiga tem catarrho!...
-
-Levava o lenço ao nariz para enxugar o pingo da distracção. Escondido
-por detraz d’um choupo, interessava-se na contemplação d’este quadro
-virgiliano. Absorvia a fundos haustos o ar impregnado de terriveis
-prazeres, que lhe revolviam os nervos. Recuava quarenta annos, ao tempo
-das rapasiadas, dos bons acasos, quando apalpava contornos e sentia na
-approximaçâo da carne, coisas de mil demonios. Talvez que ainda recuasse
-mais, á famosa edade em que a imaginação trabalha inquieta, creando
-gozos, adivinhando extasis e vive de imperiosos desejos, que entumescem.
-A physionomia graciosa do padre João, expandia-se á vista do quadro
-simples e primitivo—o beiço tremulo revelava o seu interior. A paisagem
-era encantadora, a corrente da agua arrepiava-se nos seixos; na mente do
-mestre de latim só podia haver quadros pittorescos de antigos faunos, a
-rirem juncto de fontes, em florestas edylicas.
-
-—Olha o Esteves—commentava—como repara nas pernas da Clementina!
-Grandissimo tratante! Talvez não saibas o _Sum, és, fui_ e estás ahi
-com esses olhos. Como já tem malicia! Mas que maliciasinha! mas que
-maliciasona!
-
-Limpou precipitadamente outro pingo. Humedecia os beiços com a lingua,
-como o guloso de bellos manjares. Tudo aquillo o interessava. Sentou-se
-na relva por traz da arvore. Tomou uma abundante pitada, fungada em tres
-tempos, com todas as precauções para que o não presentissem.
-
-—Ahh!!!...—respirou.
-
-Queria ver onde aquillo chegava. Não podia ser grande coisa, estava
-muita gente, as mulheres velhas são experientes. Alguma apalpadella,
-um empurrão, talvez cocegas para fazer cahir as raparigas. Lá adeante,
-no meio do salgueiral andava a Victoria a estender a roupa e cantava o
-_Afasta_, _janota_, _arreda_. O padre João via-a pelas costas, o tronco
-inclinado sobre a relva, as ancas largas, as rijas barrigas das pernas, á
-mostra. Rapariga saudavel, muito alegre, amplo seio destinado a fecunda
-maternidade. Disiam que namoriscava o filho do sachristão; mas de quem
-ella parecia gostar verdadeiramente, era do praticante da botica, que
-lhe dava fartura de banha de cheiro, para o cabello. Trabalhava distante
-das outras lavadeiras, no coradouro, e para molhar as teias que lhe
-estavam confiadas, mettia-se no rio até aos joelhos, atirando agua ás
-manadas. O sol faiscando sobre a areia do seixal enlanguescia os corpos,
-estonteava as cabeças. A Victoria desappareceu entre os salgueiros, para
-os lados onde não havia gente. E pouco depois, o discipulo mais graúdo
-do Padre João, o Thomaz do mercador, para lá se dirigiu, assobiando
-disfarçadamente.
-
-—Olhem o moinante! Não querem ver?—rugiu o mestre do latim.
-
-Porem, mais longe, n’uma clareira, a moça, reappareceu. O padre d’alli
-mesmo se pôz a vigiar, que não houvesse qualquer coisa. O estudante
-encontrou-se com a lavadeira, quiz effectivamente agarral-a, mas a
-rapariga esquivou-se-lhe, correndo adeante d’elle, furtando-se por
-entre troncos d’arvores. O ecclesiastico para ver melhor, levantou-se,
-seguia-os com prazer, inclinava-se para um lado e para o outro, punha-se
-nos bicos dos pés.
-
-A Victoria a dar gargalhadas condescendentes, gritava pelas companheiras,
-ameaçava com um gougo o preseguidor. «E pilha-a.» «E agarra-a...»
-«Agora... fugiu...» «Lá cahiram ambos...»—ia elle commentando, comforme
-os cambiantes da lucta.
-
-—O diabo é o Thomaz! Não escolheu mal o patifão—considerou, quando os
-dois, junto um do outro, conversavam sensatamente.
-
- * * * * *
-
-Mas o aspecto de conciliação perturbou-se. O estudante perseguiu de novo
-a rapariga que lhe fugia, gritando. A Lindoria ouvindo, correu para o
-sitio, cheia de fervor beato.
-
-Ralhou, esbracejando descompostamente. A sua gritaria era para denunciar
-o rapaz, ao longe: «Maroto, metta-se com quem lhe der trela, não
-ande a desinquietar as almas». Ameaçou o estudante com o pae, com os
-missionarios, com uma queixa ao professor, com o inferno.
-
-—Ah! tambem não é coisa para tanto—disculpava o sacerdote comsigo. Elle
-não fez mal nenhum.
-
-Mas Lindoria não era d’este modo de pensar. Como Thomaz e outros
-companheiros lhe retorquiram com palavras feias, ella enfurecida e
-descomposta, subiu pelo carreiro, mesmo direita á casa do padre João. E
-berrava pelo caminho:
-
-—Seus tratantes. Hão de dar grandes padres ou doutores. Padres!
-Abrenuncio! Eram capazes de dar cabo do reino dos céus. Ah! Vossa
-Senhoria já ahi vem? É que ouviu esta pouca vergonha!
-
-Tinha dado de frente com o ecclesiastico, que retrocedera no caminho,
-para fingir que vinha de casa. A Lindoria, presumindo-lhe a ideia da
-procura dos discipulos, indicou-lhos:
-
-—Estão alli senhor. Tire-lhes a pelle das mãos pelo amor de Deus, pelas
-cinco chagas, senhor padre João. Olhe que não sabe os marotos que tem!
-
-A figura do mestre de latim, quedou-se respeitavel no alto da ladeira.
-Com um gesto largo de commando, appontou aos discipulos o caminho da
-aula.
-
-Vieram todos junctos, como um cardume de peixes. O sacerdote caminhou
-adeante, sem os esperar, com o lenço vermelho pela cabeça, as abas do
-casaco afastadas como dois remos. E susteve-se um momento voltando-se
-para traz, com o fim de os increpar:
-
-—São estas as horas d’aula? Eu ha um rôr de tempo á espera!...
-
-A beata ainda lhe quiz contar tudo, mas o padre João nem a quiz ouvir:
-
-—Não me dás novidade. Conheço-os. Deixa-os por minha conta.
-
-Os estudantes seguiram-no, com semblantes de pouco temor. Já tinham
-experimentado mais vezes aquella farronca. Eram, quasi sempre, os dias
-mais serenos e benevolos.
-
- * * * * *
-
-Debaixo da varanda alpendrada, onde o ecclesiastico dava lições de verão,
-que se iria passar?
-
-O padre João fazia um barulho da breca. Movendo-se com uma presteza
-desusada, foi ao quarto buscar a palmatoria, para amedrontar. Não se
-queria ver entre os dentes de Lindoria, que era capaz de lhe inventar
-a peior fama. Aquellas paredes e aquella figueira, habituadas ás
-objurgatorias tytanicas de Tito-Livio, aos versos amplos do melodico
-Virgilio, ás palavras conceituosas do velho Horacio e de Esopo, deviam
-estar atemorizadas, pela subita colera do professor.
-
-Chegou a parecer iracundo—o sobr’olho carregado, os beiços estendidos, o
-rosto afogueado. Os rapazes curvados sobre os livros, já se não riam. O
-padre, abrindo o Virgilio, disse desabridamente:
-
-—Tradusa as Eclogas, senhor Magalhães. O senhor Thomaz emenda. Por cada
-erro uma palmatoada no primeiro e duas no segundo. Vamos a ver se são tão
-fortes em analyse, como na bregeirice.
-
-Os mais pequenos, com as grammaticas abertas sobre os joelhos, estavam
-pallidos! Nunca o tinham visto assim! Respirava-se alli uma atmosphera de
-terror. O mestre tinha baforadas de colera, batia com a palmatoria sobre
-a meza, arrumava os livros com impeto. O seu fim era crear em volta de
-si, um ambiente de respeito.
-
-A consciencia gritava-lhe que não seria bastante punidor; mas estava
-resolvido a amedrontar a propria consciencia.
-
-Para estabelecer uma intransigencia material entre si e aquelles que ia
-julgar; para se recolher absolutamente no grave papel de juiz, cobriu
-o rosto com o Virgilio. Não desejava ver os reus. Nenhum aspecto de
-humildade ou compuncção o tocaria!
-
- * * * * *
-
-O Thomaz era o melhor dos seus estudantes. Traduzia Virgilio com
-elegancia, penetrando-lhe as subtilidades litterarias. Foi elle quem
-principiou a licção e não o Magalhães, como ordenára o professor. O
-padre João conheceu a manha. Deixou-se enganar, até lhe achou graça. Um
-ligeiro sorriso (o primeiro na tempestade do seu rosto), abriu-se como
-uma flor de cacto. As paisagens tepidas e enganosas, d’uma suavidade
-extensa, principiaram a desenhar-se-lhe deante dos olhos. Tityro e
-Melibeu philosophavam na sua linguagem culta e suave, como o murmurio dos
-regatos. A pastora das florestas, idyllicamente á sombra das arvores,
-dizia do seu peito coisas ternas ao pegureiro amado, que tangia frauta
-rude, juncto d’um ribeiro. O verso sahia claro, levantando-se n’uma
-cadencia adormecedora. Havia as messes côr de manteiga, enchendo de
-riqueza o valle; na encosta estendiam-se rebanhos de cordeiros, que
-balavam por suas mães. Esta completa abstracção de materialidade, foi
-gradualmente enternecendo o mestre encolerisado.
-
-Ao fim de poucos minutos, já respirava uma atmosphera de bondade
-natural; havia descoberto o rosto incauto. Não déra pela transição.
-Foi acompanhando em voz alta o discipulo que em breve o deixou só,
-limitando-se a ouvil-o. Pouco depois, o professor estava de pé, no
-meio da varanda, lendo com enthusiasmo, elevando-se nas maravilhas da
-comtemplação egoista do poeta! Desapparecera o mestre iracundo, não havia
-palmatoria. Boquiaberto, deante dos discipulos, exclamava:
-
-—Como isto é bello! Como isto é bello!
-
-Foi-se á caixa do rapé, tomou farta pitada, fungou-a sem rebuço, de
-pernas escachadas. Cahiu extenuado de prazer, na sua cadeira magistral.
-O Thomaz, que era velhaco, aproveitou o momento para dizer:
-
-—Não sabe o senhor padre João, o que nós vimos ha boccado?
-
-—Que foi?—perguntou.
-
-—A truta grande, a serenar, encostada á pedra branca!
-
-Tornou-se pallido e extatico! Endireitou-se na cadeira e disse,
-esforçando-se por se mostrar tranquillo:
-
-—A truta grande, que anda ahi no rio!?
-
-—Vi-a com estes.—insistiu o discipulo. É assim!— designou o comprimento
-d’um braço.
-
- * * * * *
-
-Estes maliciosos conheciam-lhe o fraco, como toda a gente. Muito mais do
-que apaixonado amante dos classicos latinos, era um pescador de canna.
-Esta paixão soturna é que lhe enchia a existencia. Por ella esquecia
-deveres sacerdotaes, obrigações escholares e a propria comida. Borracha
-á cinta, um naco de brôa, azeitonas... e lá andava um dia inteiro, pela
-margem do rio, para baixo e para cima, a cocar. Principalmente se o peixe
-picava, se enchia o cacifre, o seu gozo era infinito. Só para algum
-_Senhor fóra_ é que tinham ordem de o chamar, com tres badaladas no sino
-da torre. Esta ideia d’um moribundo se preparar para ir á presença de
-Deus, era mais forte. E resmungava ao enrolar a sedela:
-
-—Como é para coisa d’estas, não ha remedio.
-
-N’estes termos, habil foi o estratagema dos discipulos, para se lhe
-apoderarem do espirito benevolente, e conseguirem o sueto que desejavam.
-
-O caso, apontado pelo Thomaz, era grave. Havia annos que elle, ao
-desafio com o morgado da Torre Velha, procuravam a gloria de pescar a
-famosa truta grande! Era um animal matreiro, raramente se mostrava fóra
-d’um fundo poço, onde as redes se não arriscavam.
-
-Juncto da pedra branca, só a tinham visto, duas ou tres vezes.
-A revelação do discipulo fez com que o padre João desconhecesse
-immediatamente os encantos bucolicos de Virgilio, as pompas litterarias
-de Tito-Livio. Deante de si, não tinha o criminoso que minutos antes
-lhe arrancára berros de colera; só via o individuo, que possuia um
-conhecimento para elle inestimavel.
-
-—Então era a truta grande! Tu vistel-a bem?! Tu conhecel-a?!
-
-—Se vi! Se conheço! Estava a serenar muito junctinha á pedra. Quando
-vinha á tona algum bichinho a rabear, ella nadava depressa e, zaz,
-abocava-o, dando um pulo fóra d’agua.
-
-—Oh! com mil demonios!—exclamou.—Oh! minha Virgem Santissima, que lhe vou
-metter o anzol, mesmo na guela!
-
-E depois um pouco mais sereno, no abatimento produzido por uma onda de
-gozo considerou:
-
-—Ha quantos annos ando eu atraz d’essa ladra! O dia hoje está quente...
-Sol de trovoada, é bom p’ra coisa! Que dirá o D. Luiz, quando souber?...
-
-Mostrava nas palavras verdadeira energia de luctador; o seu campo de
-batalha era aquelle.
-
- * * * * *
-
-De entre muitas cannas, suspensas ao longo da parede da varanda, escolheu
-a que tinha ponteira mais flexivel e resistente. Da gaveta da sua banca
-de professor, tirou uma sedela de côr verde-agua.
-
-Calculava tudo para ficar victorioso, n’esta peleja que durava annos.
-Alli não havia mestre, nem discipulos. Os rapazes davam-lhe conselhos,
-offereciam-se para ir ás minhocas, e o Thomaz achou muito grossa a sedela:
-
-—És tolo—retorquiu o mestre. Não ves que é uma truta do tamanho d’um
-savel! Se a apanho, vocês tem feriado tres dias! Como ficará o D. Luiz?
-Ai! que regalo.
-
-O morgado da Torre Velha era o seu competidor na pesca á linha.
-
-Encontravam-se frequentemente n’este desafio tacito. A cada peixe que um
-encacifrasse, o outro fazia um cumprimento espalhafatoso, mas odiento.
-Ambos se julgavam com eguaes direitos, á creação de todo o rio. A truta
-grande, porém, como um e outro tinham jurado apanhal-a, era motivo de
-mais grave conflicto. Por causa d’ella tinham feito pesquizas especiaes.
-Iam de noite, de dia, nas occasiões das cheias para juncto da azenha;
-porque, de vez emquando, o formoso animal vinha-se alli refrescar, nas
-aguas correntes.
-
- * * * * *
-
-Estudavam em separado, os estados climatericos, para calcularem o
-momento proprio de conseguirem o seu fim. Quando a qualquer d’elles
-parecia opportuno, tomava a canna precipitadamente, e ainda que o jantar
-estivesse na mesa, abalava para o rio. Muitas foram as desillusões,
-fadigas e contrariedades; mas tudo venciam com tenacidade heroica. A
-dormir e acordados tinham momentos de subito terror: cada um via o
-outro, apparecendo victorioso, com a truta presa do anzol, usando de mil
-habilidades para a trazer á margem, sem partir a sedela. Porém n’esta
-occasião o mestre de latim (talvez ainda resto do espirito de rigorismo
-com que entrára na varanda) entendeu que devia continuar as licções e
-disse encostando a canna ao canto:
-
-—Vamos primeiro acabar as licções.
-
-Os discipulos entreolharam-se aterrados! Por esta é que elles não
-esperavam. A lembrança feliz não sortira effeito. Uma risonha invenção,
-reduzida a nada. O plano de irem roubar n’essa tarde certas uvas
-doiradas, completamente gorado! Todos os rostos se voltaram para o
-Thomaz, que estava cabisbaixo e confuso. Porém, neste apuro, foi o sonso
-do Esteves, que fallou:
-
-—A estas horas, já está por lá o senhor D. Luiz, com a sua canna...
-
-O padre João, deu um pulo na cadeira e perguntou rapidamente:
-
-—O senhor viu-o passar!?
-
-—Não senhor; mas no outro dia pediu ao moleiro que, quando ella por alli
-apparecesse, o mandasse chamar.
-
-Era quasi tão terminante como se o tivessem lá visto. Seria mais acertado
-partir immediatamente, antes que o da Torre Velha tivesse denuncia.
-Tornava-se indispensavel tomar-lhe a deanteira.
-
-—Bem, bem... Essas licções na ponta da lingua para amanhã. E não me
-vão para o rio, por causa das lavadeiras. Não gosto da lingua da tal
-Lindoria, que vae por ahi badalar... badalar...
-
- * * * * *
-
-Partiu de canna ao hombro e n’um passo diligente. _Deus nobis heac otia
-fecit_—segredava comsigo. Os discipulos fugiam para o outro lado, com
-medo que ainda lhe desse a tineta, de voltar para traz. Corriam pelos
-caminhos, davam saltos, guinchos... O Thomaz relembrou-lhes o que disse
-o padre João, porém elles, não se importaram, continuando a correr e a
-gritar sem fazerem caso.
-
-Na margem do rio, o sacerdote, armou-se de todos os cuidados para não ser
-presentido do esperto animal. Ao dirigir-se á pedra branca, os passos
-eram miudos, evitando as folhas seccas, que gemem debaixo dos pés.
-
-Que enorme prazer de vingança! Iria passar á porta do morgado, com
-a truta pendente da mão. «Olha lá! rala-te p’ra’hi!»—havia de dizer
-mentalmente. Nunca houve bandido que espreitasse com mais sagacidade a
-sua victima.
-
-Já de longe levava a canna prestes, a sedela colhida na mão para a lançar
-imprevistamente. Estava a pouca distancia, quando estacou, pallido de
-colera! O D. Luiz, surgíra n’esse momento da porta da azenha, seguindo
-rio acima com o anzol tambem prompto!
-
-—Olhem o excommungado do barbaças que teve denuncia!—exclamou o
-ecclesiastico. Bem disseram os rapazes!
-
-O fidalgo, homem edoso, corpulento, tez morena das soalheiras, olhar
-emprehendedor, tambem o viu e, provavelmente, faria identicas reflexões.
-
-Comprimentaram-se com sorriso desdenhoso e n’esse instante abriu-se entre
-elles uma lucta colossal.
-
-Estavam quasi a mesma distancia. Approximarem-se atabalhoados era
-inconveniente. Tanto um, como outro comprehenderam a gravidade do
-momento. O peixe era um só e decerto não teria a condescendencia de
-pegar nos dois anzoes ao mesmo tempo. O padre João humildou-se. Fez ao
-inimigo um signal em que pedia uma tregua, com o fim de parlamentarem.
-As circumstancias exigíam prudencia e ambos se afastaram da margem, para
-virem á falla.
-
-O padre disse primeiro:
-
-—Assim não póde ser, morgado. Nem p’ra mim, nem p’ra Vossa Senhoria!
-
-—Que quer você que lh’eu faça? O rio não é grande?
-
-—Mas a truta é uma, e se vamos á porfia escapule-se. Vossa Senhoria sabe
-que ella está alli.
-
-—Palavra que não! Porque diabo não está você a dar aula aos seus rapazes?!
-
-O sacerdote, zangado comsigo por lhe ter denunciado a truta, não pôde
-supportar-lhe a censura:
-
-—E porque diabo não está o senhor a dormir a sua sesta! Ora é muito fina!
-
-Estavam furiosos um contra o outro; mas a occasião era inopportuna para
-se descomporem. N’esse momento, juncto da pedra branca, a superficie do
-rio enrugou-se, a agua espadanou e um peixe enguliu um insecto que vinha
-nadando.
-
-—Seria ella?—rugiu o D. Luiz, com vontade de matar o padre.
-
-—Ná...—opinou este fazendo-se forte—Ella ha de fazer mais mossa.
-
-No fundo ambos acreditaram que podia ser. «Maldito sotaina!» «Maldito
-barbaças!»—insultaram-se mentalmente.
-
-—Bem—disse o padre. Dois ao mesmo tempo é que não póde ser. Quer Vossa
-Senhoria que se tire á sorte quem ha-de ir?
-
-—Valeu—concordou o fidalgo.
-
-D. Luiz tirou um pataco do bolso e perguntou:
-
-—Cruzes ou cunhos?
-
-—Cruzes que eu sou padre. Agora trapaceie, se lhe parece.
-
-—Não tenho os seus costumes, seu bebedo!—respondeu o fidalgo, mostrando
-na palma da mão as cruzes da moeda.
-
-E atirando ao ar o pataco com força, viram-no cahir a distancia. Os dois
-pescadores correram cheios de commoção.
-
-—Cunhos!—gritou o morgado ao ver a papuda efigie do rei D. João VI.
-
- * * * * *
-
-O padre João acceitou resignado a sentença. Encostou a um valado a canna,
-tirou prodiga pitada da caixa de prata e foi-se sentar n’uma pedra
-trauteando cantochão, talvez pela mesma razão que tem os condemnados á
-morte, para pedirem que rufem os tambores, junto do cadafalso. D. Luiz
-augmentava-lhe o supplicio, caminhando vagarosamente para a margem. Dois
-annos de pesquizas e cuidados iriam terminar n’aquelle instante, pela
-victoria do seu adversario? Desappareceria aquelle tropheu de gloria, que
-lhe dera tantos sonhos enthusiastas? Principiou a cantar alto, desvairado
-por um sentimento de malevolencia. O da Torre Velha advertiu-o:
-
-—Isso é para espantar, padre João?
-
-Callou-se ficando n’um abatimento triste.
-
-Ia presenciar a sua vergonha. O dia estava magnifico. Com ar de trovoada
-o peixe pica, que nem mil diabos! E figurava-se-lhe na imaginação a truta
-grande de guela aberta, aboccando a minhoca do barbaças. Era horrivel e
-desoladora esta possibilidade!
-
-Mas porque é que o cubiçado peixe não havia de fugir? A maior parte das
-vezes é o que succede—consolou-se. A elle mesmo não lhe tinha acontecido?
-Ella a serenar, a serenar, muito quietinha, deante dos seus olhos,
-nem parecia coisa viva... Procurava o lado de cima, lançava o anzol a
-distancia para vir nadando pela agua a baixo como um bicho inexperto, e
-afinal, a truta que para elle era o animal mais intelligente da creação,
-escapulia-se por entre os penedos, que era um regalo! Quantas vezes isto
-lhe succedera? Uma infinidade.
-
- * * * * *
-
-Ainda outra consideração:
-
-O morgado não era grande pescador de linha. Ignorava muitos segredos
-da arte sublime e não possuia todos os petrechos. Teria elle escolhido
-uma sedela bastante verde-agua para não ser percebida, e bastante forte
-para resistir aos repellões do valentissimo animal?! A truta é o peixe
-mais valente do rio, tem uma força que poucos apreciam. Talvez o seu
-antagonista não soubesse calcular essa rijeza—considerou.
-
-Porém a gravidade do caso parecia ter dado ao D. Luiz uma intelligencia
-agudissima. Atirou calculadamente o seu anzol e seguia pela margem, com
-o olho álerta e prompto a dar a pancada, logo que chegasse o momento.
-O padre João teve vontade de fingir uma dôr, só para o perturbar. A
-anciedade do seu peito, crescia tumultuariamente, como oceano em furia.
-Aquella alma bondosa, teve a ideia repugnante de desejar uma apoplexia
-ao fidalgo! Mas reconhecendo-se criminoso, por este mau pensamento,
-poz o coração á larga, tornou-se magnanimo e até, mentalmente, pediu a
-Deus, que deixasse o morgado pescar a truta grande. Mas o da Torre Velha
-relanceou-lhe um olhar triumphante e o padre João, logo mudou de parecer,
-rosnando:
-
-—Ah! ladrão! que se ella te foge muito me hei de rir.
-
-O instante verdadeiramente supremo ia chegar. O anzol já se podia
-calcular perto da pedra branca.
-
-Que infernal chamma abrazava o peito do ecclesiastico!? Poz-se de pé,
-só para seguir nas minudencias toda a peripecia. O fidalgo, attento e
-subtil, empregava o maximo da sua intelligencia.
-
-Afinal, sente a pancada! Curva-se a ponteira! O peixe estava preso!
-
-—Ah! grande maroto, que m’a roubaste—exclamou o ecclesiastico.
-
-O instincto obrigou-o a ser generoso. Gritou ao D. Luiz:
-
-—Agora é não a deixar fugir.
-
-—Elle é o deixa—respondeu com orgulho, o da Torre Velha.
-
- * * * * *
-
-Começou a lucta heroica entre o fidalgo e o peixe. O animal era valente,
-podia quebrar a sedela, se o quizesse tirar sofregamente do rio. Tambem
-podia acontecer rasgar-se-lhe o beiço ou metter-se debaixo d’alguma
-lapa, se não tomasse precauções. Para obstar aos inconvenientes era
-indispensavel cançal-o, com paciencia e perspicacia. Por isso D. Luiz
-attrahiu-o a um logar conhecido, e alli o deixou rabear, defendendo-lhe o
-mysterioso poço, onde a truta se podia enredar n’alguma raiz. Puchava-a
-vagaroso e com delicadesa, consentia-lhe prudentes guinadas para o largo,
-dava-lhe linha calculadamente.
-
-Ao fim de cinco minutos, tanto o fidalgo como o padre João, reconheceram
-que o peixe estava prompto. Condescendia, deixava-se ir para onde o
-levassem, mostrava-se fatigado e manso.
-
-O sacerdote, já resignado, seguia todas as manobras sem rancor.
-
-—Ande que apanhou—disse. Puche-a para perto e deite-lhe a mão debaixo
-d’agua, se não, ainda a vê por um oculo.
-
- * * * * *
-
-O D. Luiz aproveitou o conselho.
-
-Attrahiu manhosamente o peixe ao sopé do muro, para que lhe ficasse
-debaixo d’um terrouço. Depois desceu; deitou-se de barriga, tão baixo
-que as barbas lhe tocavam na agua; introduziu um braço, guiando-se
-pela sedela; e, quando conheceu que lhe tinha um dedo na guelra, disse
-victorioso:
-
-—Esta já não foge, padre! Que bruta que ella é!
-
-Retirou o braço da agua, ergueu-se, ficando com o peixe pendente.
-
-—Olhem o que é! Um barbo!... um peixe reles!—exclamou o sacerdote.
-
-D. Luiz da Torre Velha, assim ludibriado pelo acaso, teve a ideia de
-atirar com o barbo á cara do padre! Porem era uma injustiça—considerou.
-Que culpa tinha de tudo isto o mestre de latim?! O seu abatimento, gerado
-na fatal desillusão era patente. Pegou na canna, na sedela, no cacifre,
-no peixe e... zaz!... atirou tudo ao meio do rio.
-
-—Nunca mais! Póde ter a certeza de que nunca mais volto a isto—affirmou
-retirando-se.
-
- Abril—85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-UM CORVO E UM PAPAGAIO
-
-(CONTO PARA CREANÇAS, OFFERECIDO AOS MEUS FILHOS)
-
-
-Isto passou-se no tempo dos animaes fallantes:
-
-Um velho corvo, tendo de edade perto d’um seculo, n’um dia de muita
-chuva e vento, veiu, já sem forças, poisar na beira d’um telhado. Este
-valente da amplidão dos ares, tinha perdido toda a arrogancia do seu
-porte; encolhido e a tremer não se podia já ter nas pernas. A extremidade
-amarellada das suas pennas, outr’ora tão negras, mostrava que padecia
-de velhice e de fome. Ao habitante eterno dos penhascos sombrios, ao
-motejador das tempestades que assustam os homens, coube-lhe o vir dar
-o ultimo suspiro da sua longa vida, perto do comedoiro farto e luxuoso
-d’um vulgarissimo papagaio real. Este, de papo cheio, e aquecido pelo ar
-tepido da cosinha, ao sentir a queda do corpo enfraquecido do corvo,
-perguntou d’um modo gracejador:
-
-—Que é lá!? Quem passa?
-
-Uma voz quasi soluçante, conservando a meiguice dum peito corajoso, e o
-vigor do suspiro d’um general moribundo nos campos de batalha, respondeu:
-
-—Gente de paz, amigo. Descanço um momento.
-
-—Olha um corvo!—gritou o papagaio cheio de medo. Aqui d’el-rei que me
-come! Antonio, acode!
-
-Mas o corvo, com uma voz tranquilla e cheia de bondade, serenou-o:
-
-—Não te assustes... Não tenhas a meu respeito a opinião do povo, que
-é errada. Sou meigo e infeliz. Tive filhos, casa, uma companheira de
-muitos annos e tudo isto me roubaram os homens. Durante a minha vida d’um
-seculo, tenho visto mais barbaridades praticadas pelos corações piedosos,
-do que todas as que attribuem á minha raça maldita.
-
-O papagaio, ainda receioso, mas cheio de curiosidade perguntou:
-
-—Então não és feroz e cruel como dizem?
-
-—Não. Tenho affectos; no alto dos meus queridos rochedos, muita vez
-escutei com prazer o canto dos passaros nossos irmãos e a alguns quiz
-imitar. Amigos meus e meus irmãos viveram entre homens, tornaram-se
-familiares, chegando a comprehender a linguagem que se falla. Eu sempre
-gostei do ar forte e da liberdade das montanhas. Hoje enfraquecido e
-cheio de fome fui arrumado para este telhado, pelo vento que toda a vida
-escarneci. Ha muitos dias que não como, dás-me alguma coisa d’isso que
-ahi tens?
-
-—Não posso—respondeu o egoista.—O meu arroz mal chega para mim... Tu
-tambem o não comias. Do que mais gostas, segundo dizem, é de carne podre.
-
-—Que remedio tenho eu, á falta de melhor? É o unico alimento dos
-infelizes que vivem nas solidões. Comemos tudo... a fome é negra. O teu
-arroz cheira tão bem... Dá-me um bocadinho? Poucos minutos me restam de
-vida. Deixa-me ao menos aproveitar da tua comida, isso que tu deitas fóra
-e desprezas.
-
- * * * * *
-
-Fez um esforço para voar; mas não podia. No entretanto esse mesmo
-movimento d’azas atemorisou o papagaio que bradou:
-
-—Não te chegues, não te chegues! Tu o que desejas é comer o meu arroz e
-talvez engulir-me a mim mesmo. Nada de brincadeiras. Essa tua fraqueza
-póde muito bem ser fingida, para me enganares. Não te chegues, senão
-chamo o Antonio, o meu amigo cosinheiro, que arranja coisinhas boas para
-o meu papinho, e se elle vem, olha que dá cabo de ti.
-
-O corvo, quasi agonisante, soluçava tremendo de frio e de fome:
-
-—Não me odeies, lá por eu ter má opinião em toda a gente. No tempo em que
-era forte, quantas vezes não cobri com o meu corpo, muitos passarinhos
-que não podiam resistir á tempestade?! Fiz o bem que pude. Soccorre-me
-hoje, que estou para morrer.
-
-O papagaio, desconfiado e vaidoso, temendo que o rustico habitante dos
-pincaros lhe sujasse a plumagem vistosa, ordenou:
-
-—Então deixa-te estar ahi. Vou pedir ao Antonio que te deite um pedaço
-de carne, da que não presta. Talvez a não mereças; mas devemos ser
-caridosos—concluiu espanejando-se.
-
-O velho corvo, já sem altivez, agradeceu com ternura na voz:
-
-—Obrigado. Nosso Senhor t’o pague.
-
-No telhado porém, não podia resistir aos impulsos do vento. Confiado, ou
-talvez contra vontade, deu um vôo, do beiral onde estava, para o poleiro,
-desculpando-se:
-
-—Tem paciencia. Não posso estar alli. Comerei n’este cantinho a esmola
-que me fazes.
-
-Mas a proximidade d’aquelle corpo sujo, volumoso, d’aspecto selvagem,
-assustou o timido papagaio real, que logo gritou fóra de si:
-
-—Ó Antonio. Traz o pau!...
-
-E esvoaçava sem querer poisar. Agarrava-se á corrente que o prendia ao
-comedoiro. Tremia de verdadeiro medo, elle saudavel e nedio, diante
-d’este habitante dos rochedos, que estava a dar o ultimo suspiro.
-
-O cosinheiro, ao ver o corpo immundo e repellente, perto do seu estimado
-papagaio, exclamou irado:
-
-—Olha o ladrão de um corvo!...
-
-E dando uma pancada no animal desfallecido, atirou-o sobre o lagedo da
-rua, onde o desgraçado morreu logo. Em seguida, o Antonio com o fim de
-socegar o seu querido, passava-lhe com brandura a mão na cabeça dizendo:
-
-—Calla-te loiro, não tenhas medo. Queria-te fazer mal? Levou a sua conta.
-Coitadinho do loiro, coitadinho do loiro.
-
-Assim se cumpre, muitas vezes, a justiça na terra. Meus filhos, não
-se deve acreditar facilmente nas culpas d’aquelles que são infelizes,
-principalmente quando precisam de que se lhes faça bem.
-
- Lisboa, Março, 85.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-A VISTA DO SALGUEIRO
-
-(CONTO PARA CREANÇAS)
-
-
-Ambrosio era velho e vivia n’uma casa muito pobre, toda esburacada e
-de telha vãa. Lá dentro, os ratos eram tantos como as formigas n’um
-carreiro; e elle, sentado ao lume, via-os ir e vir, sem mesmo ter medo
-d’elles. Por traz da casa havia um pequeno quintal, ao fundo corria o
-rio, e pegado estava o moinho, habitado pelo moleiro, homem que elle
-odiava mais do que a morte.
-
-Na tarde serena d’um dia d’agosto, Ambrosio, foi visto na margem,
-sentado n’uma pedra, o queixo pousado nos joelhos, a olhar fixamente e
-pasmado para uma arvore do outro lado. O ceu era dum azul pallido; as
-aguas passavam silenciosamente, até entrarem na guela d’azenha, onde
-produziam um sussurro; a roda movia-se de vagar; porque a força do rio
-era pouca... O pensamento d’Ambrosio voava, n’um mundo de independencia
-e maldade, planeando vinganças contra o moleiro seu inimigo. Era um odio
-velho, nascido de conflictos diarios, aggravado por muitos nadas de que,
-o do moinho, nem tinha consciencia. No corpo d’Ambrosio, magro como de
-feiticeira, passava-se no momento em que o viram a olhar para o triste
-salgueiro, uma lucta violenta e feroz.
-
-N’esse dia, apparecera-lhe em casa, um bacoro de perna quebrada. Sem mais
-reflectir attribuiu logo o maleficio ao damnado visinho e foi para alli
-ruminar uma vingança, que o deixasse consolado. Tinha um coração de pedra
-este demonio de velho! Se não fora assim, como poderia gozar, inventando
-martyrios, n’uma tarde serena de verão, toda silencio e bondade!
-
-Mas não se desprendia do terrivel desejo de matar o moleiro, com os
-maiores soffrimentos e castigos, que no mundo tivesse havido! Seria capaz
-de se vender ao diabo, só para conseguir o seu fim.
-
- * * * * *
-
-Veio-lhe esta ideia audaciosa e encarou-a resolutamente. Tão firme foi
-o seu pensar, que logo o diabo em pessoa alli lhe appareceu deante dos
-olhos, offerecendo-se-lhe para tudo, em troca da alma se elle realmente
-lh’a queria vender. Era figura bem conhecida, a que estava deante de
-Ambrosio:—meio homem, meio cabra; um comprido pello cobrindo-lhe o corpo;
-um rabo a dar para um lado e para o outro, como o d’um lobo; os cornos
-arrebitados na cabeça; e os olhos a coriscarem como dois carvões accesos.
-O velho não se atemorisou, e como desejava vingar-se do moleiro, sentiu o
-peito cheio de goso, quando o diabo lhe disse:
-
-—Ouvi a tua voz. Aqui me tens. Acceito o teu contracto. Pede o que
-quizeres.
-
-—Então tu é que és o diabo?—perguntou.
-
-—Eu mesmo. Sou o que tudo posso depois lá do _Outro_ (apontou
-desdenhosamente para o ceu). No meu reino posso mesmo mais do que _Elle_.
-
-—Fazes-me tudo quanto eu quizer para matar o moleiro?
-
-—Tudo, com tanto que me entregues a tua alma.
-
-—E para que queres tu a minha alma?
-
-—Para a guardar juncta com outras.
-
-Ambrosio observou escarnecendo:
-
-—Não acredito que faças bom negocio. Pelo que dizem os padres, a minha
-alma não presta. Dou-ta, mas has-de trazer-me aqui o moleiro pelo
-cachaço, e depois de bem amarrado e preso, deixares-me fazer o que eu
-quizer. Mas quero-o bem amarrado e preso, porque tenho medo, entendes?
-
-—Se entendo!... E só queres isso?
-
-—Se perguntas é porque estás em maré de franquesa. Então vá lá: Quero
-ser rei; ter muito dinheiro, muitos palacios, muitas cidades, muitos
-cavallos, coisas ricas para comer.
-
-—Só isso?
-
-—Co’a breca! Muito boa deve ser a minha alma para ti. Olha, já que
-offereces, quero uma sanfona, para tocar aos ouvidos de minha mulher,
-quando ella estiver a resmungar... Tu sabes; ás vezes leva noites
-inteiras ... ron-ron-ron... ron-ron-ron...
-
-—E por quanto tempo desejas tudo isso?
-
-—Essa agora é que nem parece sua, seu diabo! Isso por muito tempo.
-
-—Não posso dar-te tudo por mais de cinco minutos.
-
-—Cá me parece sovinice. Cinco minutos não é nada.
-
-—É tempo bastante de gosares todas as coisas que pedes e de te
-aborreceres de todas ellas.
-
-Ambrosio deu uma estrondosa gargalhada, que encheu todo o valle,
-repercutindo-se nos reconcavos visinhos. O diabo acrescentou:
-
-—É como te digo. N’esse ponto te mostrarei o meu grande poder. Um
-minuto basta para eu fazer passar na tua vida, todas as grandesas da
-terra. Outro minuto para percorreres todas as grandes cidades do mundo.
-O terceiro minuto para tocares sanfona a tua mulher e ella morrerá de
-desespero. O quarto para matares com toda a pachorra o moleiro.
-
-—E o quinto?—perguntou Ambrosio.
-
-—Esse é para te aborreceres.
-
-—Como tu és grande, diabo!—disse o velho enthusiasmado. Acceito.
-
-—Deixa tirar uma gotta de sangue das tuas veias. Com esta penna de mocho,
-molhada no teu sangue, has-de pôr o teu nome n’este livro.
-
-O inimigo do moleiro sentiu uma picada no sangradouro e logo o seu nome
-appareceu brilhante como o fogo, na pagina onde o escrevera, obrigado por
-uma força irresistivel.
-
- * * * * *
-
-Depois um vento infernal levou-o pelo espaço. Tudo quanto via e gosava
-eram deslumbramentos e delicias. Corria-lhe o corpo um calor de mocidade.
-Ricos manjares eram servidos em pratos d’oiro; as festas mais divertidas
-e luxuosas, passavam-se em palacios de marfim e cristal. Camas formadas
-de fofas nuvens, appareciam dispostas para um momento de cansaço. Levado
-milagrosamente, passou sobre os mares onde ruem tempestades, viu a seus
-pés cidades cheias de bulicio e riquesa, os reis da terra offereciam-lhe
-homenagem! Os montes de perolas, oiro e diamantes já eram para Ambrosio
-coisas sem valor. Por causa d’um mosquito que lhe passou no nariz, teve
-uma rajada de colera, que fez tremer toda a terra!
-
-Logo em seguida viu humilde e supplicante o moleiro, que já estava
-preparado para o sacrificio.
-
-—Quero matal-o cá á minha moda—disse para o diabo. Hade ser n’um banco,
-escochinado, como um porco.
-
-No momento seguinte estava junto de sua mulher tocando-lhe sanfona aos
-ouvidos. A pobre velha, entrevada na cama, havia muitos annos, supplicava
-com olhares, que lhe não atormentassem as ultimas horas de vida. Porém o
-marido, homem de coração duro, foi implacavel até ao fim e viu-a morrer
-no meio de soffrimentos horriveis. Depois é que deu começo á tarefa mais
-importante, que era dar morte afflictiva ao moleiro.
-
- * * * * *
-
-Espatifal-o como um porco fôra sempre a sua ideia fixa. Ia realisal-a.
-A scena passa-se no quintalito junto do rio. A victima, com a sua
-grande estatura sae do moinho. Vem manietado e humilde, ao pé do algoz,
-apresentar-se para o sacrificio. Ainda que não ousava levantar os olhos,
-o seu porte era digno.
-
-—Ah!—disse Ambrosio com grande satisfação. Vamos lá a isto?
-
-O proprio carrasco, é que foi buscar um banco. Apontando para elle,
-mostrou-o á victima, com riso de mau:
-
-—Hade ser aqui.
-
-O pobre moleiro conservava-se calado e triste. Não ousava ter olhares
-colericos, talvez, para o suplicio lhe ser menos barbaro. Não pedia;
-pois era um homem valente, digno, bondoso e reconhecia a crueldade do
-inimigo.
-
-Ambrosio continuou:
-
-—Só para chegar a isto dei a minha alma ao diabo. Se mil almas tivéra,
-todas daria, só para te cravar mil vezes uma faca no coração e tirar-te
-mil vidas que tu possuisses. Quem foi que me quebrou a perna do bacoro?
-quem me fez secar a larangeira? quem me roubou a panella velha, com que
-eu tirava agua do rio? quem me estragou o mangericão?
-
-E como a victima dos seus odios, continuava a olhar para a terra, sem
-responder, escarneceu:
-
-—Ah! não foi ninguem!... Estas coisas fazem-se por si. Alem de seres o
-grande ladrão, que me roubou os feijões, és mentiroso. Pois vaes pagal-as
-todas juntas, meu rico amiguinho. Ora deite-se n’esta cama.
-
-E com uma força que não era a do seu braço enfesado e velho, pegou no
-moleiro que era um gigante, e estendeu-o como uma arveola sobre o banco,
-atando-o fortemente com cordas.
-
-—Agora espere que vou aqui buscar uma coisa.
-
-Logo appareceu com um alguidar e uma comprida faca de matador. Mostrando
-estes objectos, acrescentou:
-
-—Isto é um alguidar para receber o teu sangue vermelho e quente. Isto,
-uma coisa a que se chama faca para te fazer cocegas no coração. Talvez
-ainda tenha tempo para arranjar um serrabulho d’esse sangue e coração.
-Vamos á obra que se faz tarde.
-
-Com placidez, gosando á vontade o martyrio do paciente, principiou a
-arregaçar os punhos da camisa de estopa. Mostrou a faca reluzente á
-victima que estava deitada. E voltando-se para o diabo disse:
-
-—Você muito póde, seu amigo. Como eu tenho aqui este fanfarrão, sem se
-mecher? Tenho pena que meu pae me não tivesse feito duas almas, para lhe
-dar a você!
-
-O demonio austero e grave não respondeu á lisonja. Ambrosio entrou de
-novo no seu pardieiro e trouxe um pucaro d’agua quente. Tinha de molhar
-a pelle da victima, para a ponta da faca entrar mais firmemente. E
-chapinhando na garganta com a mão molhada, tinha uma respiração d’homem
-feroz.
-
-Apontou a faca ao logar apropriado, principiou a enterral-a lentamente,
-para a dôr ser mais prolongada, o sangue já sahia em borbotões do peito
-arquejante do moleiro.
-
-—Não berra como os pórcos, este maldito!—considerou Ambrosio.
-
-Ia-lhe remexendo cruelmente com o ferro nas entranhas! Gosava a sua
-victoria, fazendo soffrer a victima.
-
-Foi prolongando este goso até aos ultimos momentos do moleiro. E quando
-reconheceu que alli estava definitivamente um morto respirou:
-
-—Ahhh!... Isto valia bem uma duzia d’almas! Quanto falta senhor diabo?
-
-—Vae acabar o tempo. Já lá te esperam. Olha!
-
-Apontou para a bocca d’um enorme forno, onde entre as labaredas
-infernaes, estavam homens e mulheres dando gritos. Todas as velhas ideias
-de Ambrosio sobre penas eternas, se condensaram n’aquella realidade.
-Affrontou heroicamente um tal espectaculo, deante do qual o seu coração
-deshumano, ainda teve coragem para beber do sangue do inimigo! Porém o
-mundo infernal das chammas e gritos, crescia rapida e formidavelmente.
-O diabo sereno e magestoso estendia-lhe a mão para o agarrar, com as
-suas unhas de macaco! O aspecto do demonio era tão medonho e terrivel,
-que o velho Ambrosio teve subitamente um grande medo, todo o seu corpo
-estremeceu como se oscillasse o mundo, amedrontado e covarde ia a dar um
-passo para fugir...
-
-N’esse instante escorregou e cahiu ao rio. Começou a berrar por soccorro
-como um possesso. O seu choro era mais infeliz do que o de uma creança
-sem mãe.
-
-A agua escaldava-o e sentia-se abrazado como no meio de labaredas
-infernaes! Quem lhe havia de acudir n’aquelle instante de afflicção? Foi
-o visinho, o moleiro, a sua victima que sahindo fóra do seu moinho o viu
-debater-se covardemente, como se estivesse assoberbado, por ondas d’um
-mar tormentoso!
-
-—Eh!... diabo de gato!—disse o collosso mettendo-se ao rio e agarrando-o
-pela gola da vestia. Como diabo te aconteceu isto?
-
-Levou-o para sua propria casa, metteu-o na cama agasalhado, deu-lhe um
-caldo quente para o revigorar. O velho Ambrosio, olhando-o receioso,
-batia o queixo de medo e dizia com a cabeça debaixo da roupa:
-
-—Nada, não quero; elle póde deitar resalgar no caldo!
-
- Arcos, agosto, 86.
-
-[Illustration]
-
-
-
-
-INDICE
-
-
- PAG.
-
- A minha morte 1
-
- Nosso Senhor Jesus Christo 17
-
- O cego de Guardiam 27
-
- A velhice d’um rei 51
-
- A mulher de Lucas 73
-
- Dois caturras 95
-
- A postura dos ovos 115
-
- Rende-te Centurião 129
-
- A truta grande 163
-
- Um corvo e um papagaio 197
-
- A vista do salgueiro 203
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Novos contos, by
-Francisco Teixeira de Queirós and Bento Moreno
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVOS CONTOS ***
-
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-even without complying with the full terms of this agreement. See
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-Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this
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-electronic works. See paragraph 1.E below.
-
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-Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
-of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual
-works in the collection are in the public domain in the United
-States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
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