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-The Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll
-have to check the laws of the country where you are located before using
-this ebook.
-
-
-
-Title: Echos de Pariz
-
-Author: Eça de Queiroz
-
-Release Date: August 29, 2019 [EBook #60194]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images
-generously made available by Hathi Trust.)
-
-
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-
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-
-
-EÇA DE QUEIROZ
-
-ECHOS DE PARIZ
-
-QUARTA EDIÇÃO
-
-PORTO
-
-Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, Limda, Editores
-
-Rua das Carmelitas, 144
-
-AILLAUD E BERTRAND-LISBOA-PARIS
-
-1920
-
-
-
-
-[Illustration 01: Eça de Queiroz]
-
-
-
-
-
-INDICE
-
-I. PARIZ E LONDRES--O ANNIVERSARIO DA COMMUNA--FLAUBERT.
-
-II. OS DUELLOS--AMNISTIA--GAMBETTA-ROCHEFORT--OS JESUITAS.
-
-II. O IMPERADOR GUILHERME.
-
-IV. O GRAND-PRIX--A ESTATUOMANIA--OS COCHEIROS--VICTOR HUGO--O CAMPO
-EM PARIZ.
-
-V. O 14 DE JULHO--FESTAS OFFICIAES--O SIÃO.
-
-VI. A FRANÇA E O SIÃO.
-
-VII. A QUESTÃO BULOZ--A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»--PARIZ NO VERÃO.
-
-VIII. AS ELEIÇÕES--A ITALIA E A FRANÇA.
-
-IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.
-
-X. AS FESTAS RUSSAS--A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA--NOTICIAS
-DO BRASIL.
-
-XI. A HESPANHA--O HEROISMO HESPANHOL--A QUESTÃO DAS CAROLINAS--OS
-ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.
-
-XII. O SNR. BARTHOU--A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES--«LES ROIS» DE
-JULES LEMAITRE.
-
-XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.
-
-XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA--O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.
-
-XV. AS «INTERVIEWS»--O REI HUMBERTO E O «FIGARO»--A MONARCHIA ITALIANA--O
-QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA--A SINCERIDADE E O OPTIMISMO
-OFFICIAL.
-
-XVI. O «SALON».
-
-XVII. CARNOT.
-
-XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.
-
-
-
-
-I
-
-
-PARIZ E LONDRES--O ANNIVERSARIO DA COMMUNA--FLAUBERT.
-
-
-Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de
-verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem».
-É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo
-de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco
-regato que vae cantando por entre as relvas altas.
-
-Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta
-opinião do romanesco auctor de _Tancredo_ e da _Guerra do Afganistan_:
-nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a
-sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as
-creações da Arte até aos _menus_ dos restaurantes, desde o espirito das
-gazetas até ao luxo das librés--e, muito racionalmente, corre a observar a
-sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é mais original, mais complexa,
-mais rica, mais pittoresca, mais episodica,--em Pariz e em Londres: ao
-resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos
-e architecturas...
-
-...Em Roma contempla os ornamentos do passado--o Colyseu e o Papa; em
-Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa
-para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para
-embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais
-impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em
-torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um
-momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que
-palpita ao centro.
-
-Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma
-paizagem accessoria--a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias
-privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na
-verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua
-paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo
-por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um
-prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma grandeza
-exuberante;—-mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente
-menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n'um quinto
-andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto
-que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como
-a consciencia visivel das minhas proprias sensações.
-
-O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se
-a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de
-dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou
-dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o
-melhor espectaculo para o homem--será sempre o proprio homem.
-
-Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões
-flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda
-que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes
-que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o
-valle--a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado
-de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d'um peito,
-d'um coração vivo.
-
-Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S.
-Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não
-é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa
-mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo
-persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S.
-Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho
-diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra,
-ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros
-do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.
-
-O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza--é-lhe
-indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella
-habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento,
-algum panorama--a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o
-estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia
-de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de
-Lisboa é a presença do lisboeta--como a mim o que me estraga a Allemanha é
-a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma
-sociedade--a de Pariz e de Londres.
-
-Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de
-viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua
-originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os
-regulamentos de policia até á _vitrine_ dos joalheiros, dar-se a linha
-parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os
-Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os
-ditos do _Figaro_; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas de
-Jerusalem foi o _can-can_ de _Bella Helena_, e sahiu da habitação de um
-rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia
-dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos de
-papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao
-Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba
-sagrada.
-
-O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da
-Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais
-uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais
-se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do
-_Times._ O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao
-chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê
-Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas
-de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens
-do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.
-
-Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a
-originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má
-imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para
-lá--dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem para o
-fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam linhas
-de um portico.
-
-É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional
-prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em
-Londres, desde as revoluções até ás _toilettes_, desde os poemas até aos
-escandalos.
-
-O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em
-Pariz.
-
-Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou
-na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez
-hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.
-
-E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e
-Londres ensinam tudo.
-
-Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o
-escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto
-sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico--creio que
-devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e
-patria genuina de Mr. Prudhomme...
-
-
-O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a
-manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data,
-na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de
-Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma
-exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos
-quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo
-o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr
-de batalha na face.
-
-_Trinta e cinco mil pessoas_ fôram aniquiladas n'esta S. Barthelemy
-conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em sacrificio á ordem
-com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus inteiras em honra
-do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma mocidade, toda uma
-primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos Baals, o negro e
-flammejante Moloch.
-
-Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe que
-parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.
-
-Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis,
-armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto,
-e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas
-nas eleições.
-
-No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus,
-preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta
-procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre
-valla onde apodrecem os seus mortos.
-
-O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou
-promettendo concessões ao velho mundo _communard_ a troco da desistencia
-d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração triumphal) ou
-ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e fazer assim
-recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de um conflicto
-sangrento--conseguiu que n'esse dia a massa communista ficasse chorando os
-seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns exaltados,
-desattendendo a disciplina do partido, persistiram na demonstração
-luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um diluvio, só vêm a
-cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda aquella população
-que devia descer dos _faubourgs_ apenas se viram pelas ruas grupos de dez,
-quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise com a sua blusa nova, e a
-corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do symbolo, as coroas eram
-vermelhas.
-
-Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á
-prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o
-coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam
-batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a
-sua corôa sobre a herva verde, um _sergent de ville_ precipitava-se,
-verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava
-o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um
-crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com
-vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um
-governo forte e contundente...
-
-Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas
-symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam
-a religião e os seus ceremoniaes?
-
-O mais illustre jornal do partido, o _Mot d'Ordre_, descrevia ha dias
-uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no
-Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias
-barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente
-designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que
-individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um
-anniversario de morte--da morte que não deve ser para elles mais que uma
-banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do
-catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se
-acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres
-agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma
-paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta
-de symbolos saudosos...
-
-Mas, mais estranho que tudo é a influencia do _vermelho_ no animo da
-policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.
-
-Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo
-o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a
-bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre
-corôa de perpetuas tingidas de vermelho?
-
-Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito
-de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia
-d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria
-generosamente permittido a manifestação saudosa...
-
-Logicamente, pois, uma rapariga que passe no _boulevard_ com duas rosas
-vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de guerra. A
-papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é offensa á
-constituição.
-
-Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu
-canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue
-vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha
-humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que
-prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se
-nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o
-bom Deus!
-
-Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!
-
-Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em
-_meeting_ com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, todas as
-côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria inventou;
-declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha hortaliça á
-face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a formidavel policia
-ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia civica. É que
-todas estas vociferações e todas essas côres deixam as instituições tão
-intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park; e, finda a hora
-do _meeting_, a grande massa dispersa com um socego de fim de missa. Em
-França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre uma campa, flôres
-de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte republica do snr.
-Gambetta cambaleie ferida no coração!
-
-Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...
-
-
-Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á
-Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga
-novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de
-ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama
-Gustavo Flaubert e é o auctor da _Madame Bovary_ e da _Educação
-Sentimental_--quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa perda
-sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso
-artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no
-espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera
-de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor
-do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.
-
-Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua
-alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte
-contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções
-idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade
-social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais
-penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da
-acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no
-meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma
-mais viva, mais pura e mais forte.
-
-As suas creações--Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, Frederico,
-Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, participam de
-uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. Quando o seu
-enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das lindas ilhas
-que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento a olhar, a
-mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava com Leão,
-como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua figura
-nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos
-_rendez-vous._
-
-_Madame Bovary_ é hoje uma obra classica--e de certo o seu melhor livro.
-Quem a não conhece e a não relê--essa historia profunda e dolorosa d'uma
-pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a educação moderna
-desmoralisada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade morbida,
-agitada de appetites de luxo e d'aspirações de prazer, debatendo-se na
-estreiteza da sua classe como n'um carcere social, correndo a esgotar d'um
-sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais triste como dos funeraes
-da sua illusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na
-voluptuosidade, anciando sempre por _alguma cousa de melhor_, e arrastando
-uma existencia minada d'esta enfermidade incuravel--o desiquilibrio do seu
-sentimento e da razão, o conflicto do ideal e do real: até que uma mão
-cheia de arsenico a liberta de si mesma!
-
-Na _Educação Sentimental_, concebe esta ideia de genio: pintar n'uma
-larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos pelo
-romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela falta
-d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, dirija
-as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as
-instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a
-indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a
-difficuldade de governar a democracia...
-
-_Salammbô_ é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma religião
-extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na _Tentação de
-Santo Antão_, de uma forte intuição, de uma erudição tão larga, pinta-nos
-tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e attinge ahi talvez
-a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão elastica, que só a
-poderia comparar a uma carnação humana.
-
-Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa faculdade
-de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma figura
-elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença pelo
-pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo
-burguez.
-
-Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o
-melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era
-verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim,
-o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos
-rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma
-estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu
-á luz dos ceus.
-
-
-
-
-II
-
-
-OS DUELLOS--A AMNISTIA--GAMBETTA-ROCHEFORT--OS JESUITAS.
-
-
-Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos
-succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo
-que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do
-Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de
-um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras
-essenciaes de outro francez.
-
-Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar
-dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho
-Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da
-republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam
-sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo--um
-considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem
-importancia--corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de
-Bolonha.
-
-Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões
-da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde
-emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões
-debaixo do paletot.
-
-Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e
-_dandies_ é abundantemente deteriorada.
-
-Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do _Voltaire_, com
-o conde de Dion; duello de Fronsac, do _Gil Blas_, com o principe de Santa
-Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do _Mot d'Ordre_;
-duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem contar os
-duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido quatro vezes,
-ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, entre o pulso e
-o cotovello!
-
-Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».
-
-Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro
-Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo,
-o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de
-Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da
-rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado,
-as phrases celebres do mestre:--_Deus é o mal! A propriedade é o roubo!
-Queremos a liquidação social!_
-
-A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste,
-olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa,
-revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo
-installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho
-perfido, contendo esta abominavel sextilha:
-
-
-A loira e dôce Maria
-Que a ninguem d'amores maltrata,
-Foi avisada outro dia
-Que Paulo a vem visitar,
-E eil-a que rompe a gritar:
---Depressa! fechem a prata!
-
-
-Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr.
-Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto
-que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um
-cheiro adocicado de sachristia--que saboreava tambem os seus grogs no café
-e dirigia um jornal jesuita, _A Palavra._ A sextilha tomava, assim, as
-proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra a
-revolução. Era a graça calumniando a consciencia.
-
-D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de
-pistola alta. Fogo! A bala do homem da _Palavra_ vae cravar-se na anca de
-um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do snr. Paulo,
-essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto. Este sujeito
-franziu consideravelmente o sobr'olho.
-
-Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre a
-porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:
-
---Então, o duello? Houve morte de homem?
-
---Não,--respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.--Houve morte de jumento.
-
---O que! Morreu Paulo?
-
-E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de
-juba eriçada e a injuria no labio... E d'ahi outro duello á pistola
-tambem.
-
-Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala
-reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr.
-Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho--do mesmo, precisamente o
-mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu
-atravessado e franzira tanto o sobr'olho.
-
---Comprehendo!--rosnou este individuo, livido. E á noite, no café,
-dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o
-seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um
-modo desleal e infame»!
-
---Pois atreve-se?...--ruge o snr. Paulo.
-
---Sei o que digo; infame e desleal!
-
---Insolente!
-
---Garoto!
-
-Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre
-as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se
-recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela
-amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da
-outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo
-bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se
-alojar.
-
-Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon.
-
-Os conflictos de honra que têm este final de _vaudeville_ são, por fim,
-os mais acceitaveis.
-
-Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes
-publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto
-os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala
-pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode;
-emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da
-familia: _Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu!_ nem o codigo, nem o bom
-senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o homem,
-publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre a sua
-espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra!»
-
-Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue--tendo em redor as
-acclamações d'um circo.
-
-No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião.
-
-O que convém, pois, á sociedade e que, n'estes conflictos impostos pela
-exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se
-limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca.
-
-No fim, a moralidade dos duellos está toda n'um dito de Rochefort.
-
---Tem sido feliz em seus desafios?--perguntava-lhe alguem.
-
---Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre com
-a consciencia serena e uma ferida séria...
-
-Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se
-deixou um homem a agonisar n'uma pôça de sangue; mas é triste tambem que
-para se poder gosar, com a alma tranquilla, a _omellette_ do almoço, se
-deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços.
-
-De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra _a serio_ por
-estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a permanente
-tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando se é muito
-feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera despedaçada.
-
-Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo,
-atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos!
-Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião,
-as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e
-extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A
-sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de
-consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são
-egualmente heroes nas gazetas!
-
-
-Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado.
-Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas
-ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue
-nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os
-fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta;
-os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a _questão da
-amnistia_, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um farrapo
-sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella pavorosa
-loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva a
-França!
-
-Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não
-houvesse o direito de perdoar.
-
-O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por
-compaixão--não podia deixar outros centenares no degredo, por legalidade.
-Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem fumar o seu
-cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa condemnou á morte,
-soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, rehabilitado
-publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios da Nova
-Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o ministro
-Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a França não
-estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez bastante forte,
-para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo snr. Freycinet,
-aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a unidade da
-republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se podia addiar
-por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de 1871.
-
-Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade!
-Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente
-a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se
-dizia nas operas comicas da minha infancia, _ha um mysterio._ Qual é,
-pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo
-poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto
-dono de França--que assim o decidiu. Elle via que a recusa da amnistia o
-despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que ia sendo
-ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o
-continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros
-proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a
-confiança para os darem a Clemenceau.
-
-Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno
-sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na
-força do proletariado que se quer apoiar--e, portanto, resolveu, como um
-Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os
-prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de
-reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser
-perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica,
-se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio
-Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe
-fallar.
-
-No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a
-sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila,
-com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e
-não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um
-homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis,
-reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.
-
-Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um Deus.
-
-Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando:
-_Gambetta fallou!_ Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz pelas
-tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça
-ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal,
-affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da
-emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire
-escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos
-pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de _França_ e
-_Patria_ e _Republica_, os seus gestos de apostolo possuido do espirito; a
-maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da Convenção; a
-direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi vibrante--tudo isto
-formou um quadro grandioso, quasi heroico.
-
-Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o
-popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta
-arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta;
-dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias
-que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego
-triumphante do pronome pessoal _eu._
-
-«_Eu_ consultei o paiz! _Eu_ disse á Europa! _Eu_ quero!» E assim se
-desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que governa, possue a
-França: o snr. Grevy está alli como uma figura ornamental; o snr. de
-Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; a camara, um mero
-serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções, como a mesma alma
-da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com respeito o digo, um
-italiano é o senhor das Gallias.
-
-Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo
-snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica
-conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de
-experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros
-enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que,
-eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só
-França!
-
-Rhetorica! _A questão da amnistia_ era, decerto, nas mãos da esquerda
-intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de conservadores que
-deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» Este grito ia
-direito á indignação dos homens e á sensibilidade das mulheres.
-
-Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em
-desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a
-turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma
-contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do _Rappel_ e
-do _Mot d'Ordre_, restam innumeraveis machinas de guerra no vasto arsenal
-da questão social. Basta, por exemplo, pôr em posição a famosa catapulta
-da separação da egreja e do estado, para abalar a fragil muralha do
-Gambettismo.
-
-Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de
-concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir
-na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes
-ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas
-e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo
-do _Rappel_, da _Justice_ e do _Mot d'Ordre_.
-
-E outras reclamações virão--todas necessariamente satisfeitas--e cada
-uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da sua força á Republica...
-A questão está collocada entre o _proletario_ e o _burgues._ É Clemenceau
-contra Gambetta. E _isto_, que é o socialista Clemenceau, matará
-fatalmente _aquillo_, que é o jacobino Gambetta: e isto, que é o sapateiro
-Trinquet, eliminará mais tarde _aquillo_, que é o philosopho Clemenceau.
-
-Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem
-por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das
-Gallias--que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras e as
-espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se na
-oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.
-
-Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade,
-porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario,
-o _gaiato sublime_ como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não
-perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado,
-as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio--vae ser curioso vêl-o
-erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da _Lanterna_, com a
-face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e agil diante do pesado
-presidente Gambetta.
-
-O jornal que vae fundar chama-se o _Intransigente._ Já é bom! E vem
-azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi a
-_Lanterna_ e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova Caledonia
-por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos generaes de
-Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu
-implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu
-querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a
-temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e
-de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos
-humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da
-França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e
-foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no
-exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente,
-vamos rir.
-
-
-Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato
-que esta expulsão.
-
-Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n'elles me é antipathico--a
-sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre, a sua moral, a sua
-abominavel _summa theologica_, a sua sciencia secca e hieratica, o seu
-frio estylo d'architectura, a sua maneira de enriquecer, com contabilidade
-escripta em grego, a sua grosseira e equivoca idolatria pela Virgem Maria,
-a sua organisação tenebrosa e conspiradora, que faz assemelhar a companhia
-a um carbonarismo theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente
-impolitico, illogico e pueril; se se pretende destruir a sua funesta
-influencia na sociedade franceza--então é necessario expulsar o clero
-inteiro, pois ninguem ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada
-do espirito jesuitico. O catholismo é o jesuitismo.
-
-Quem governa a egreja não é Leão XIII, o _Papa Branco_, é o _Papa
-Negro_, o padre Beckx. E esta solidariedade com a companhia--o clero
-regular acceita-a, reveste-se d'ella como d'uma insignia, e considera-se
-ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de Santo Ignacio. Se se
-quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das gerações novas,
-recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo o ensino clerical,
-semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De que serve fechar
-tres ou quatro estabelecimentos da companhia--se fica todo um clero
-compacto para os substituir como pedagogos, como conspiradores e como
-inimigos da democracia?
-
-Além d'isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão
-ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em
-logar da roupeta, vestirão a quinzena--e nem por isso o seu ensino será
-mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da escola--lá
-ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os franciscanos, os
-irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o mesmo com a
-exaltação de quem espalha uma ideia perseguida.
-
-É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio
-imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no
-mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres
-conventos de jesuitas!
-
-Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir
-que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem
-para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento
-terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino
-scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma
-roupeta que se reprime um ideal.
-
-E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo
-todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações
-ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os
-seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se
-approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão
-arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia,
-pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção.
-
-Ha n'isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á
-expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza.
-
-Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico,
-comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o
-pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro
-d'exilio--que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio Ferry e
-o seu nacionalismo prouddhomesco.
-
-Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se
-assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos;
-as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta
-victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação
-mesma do crucificado.
-
-Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm
-as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de
-cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e
-considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias
-forte--mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um vergonhoso
-abuso da força.
-
-Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos agora
-n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que
-consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz
-XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;--que a amnistia
-dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!
-
-Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella.
-Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz
-um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma
-religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse
-brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho.
-Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe
-faz a suprema liberdade na suprema força.
-
-
-
-
-III
-
-
-O IMPERADOR GUILHERME.
-
-
-«_Lui, toujours lui!..._--Elle, sempre elle!...»--Assim, no tempo das
-_Vozes interiores_, clamava Victor Hugo, cançado, quasi estafado de que
-ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e humanos
-solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, monopolisando
-os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem atravancadora
-de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com impaciencia:
-«_Lui, toujours lui!..._ Elle, sempre elle!»--perante esse outro
-imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de Austerlitz,
-e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, religiosos,
-politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa expansão dá
-á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez dos nossos
-destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu--e occupa tanto o
-nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou a crise
-capitalista! Talvez mais--porque até o proprio snr. Renan, cuja alma, pelo
-exercicio constante do scepticismo, ganhou a impermeabilidade e a dôce
-indifferença de uma cortiça, para quem toda a vaga é embaladora e bôa,
-declara, na sua derradeira epistola aos incredulos, que só lhe pesa morrer
-(e pelas suas confissões bem sabemos quanto a vida lhe corre deliciosa e
-perfeita!) por não poder assistir ao desenvolvimento final da
-personalidade do imperador da Allemanha!
-
-Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei,
-ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma
-curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e
-lances--como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco
-vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra
-pittoresca de Guilherme II--o ter convertido--o throno dos Hohenzollerns
-n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se exhibe, com
-caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental heresiarcha da
-_Vida de Jesus_ lamentar que a morte lhe não consinta assistir, no quinto
-acto, á solução d'este imperador problematico! Pois que, por ora, n'este
-primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o seu palco imperial,
-Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das suas manifestações, só
-tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em Hamlet, os germens de
-homens varios, sem que possamos preconceber qual d'elles prevalecerá, e se
-esse, quando definitivamente desabrochado, nos espantará pela sua grandeza
-ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este rei, quantas encarnações da
-realeza!
-
-Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça,
-occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda
-acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor
-como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a
-toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na
-mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a
-farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do
-capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando
-a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na
-historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a
-seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á
-Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o
-dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o _sic
-volo, sic jubeo_, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da sua
-infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras todos
-os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,--e, de repente, elle é
-o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao brilho e ordem
-sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, decretando a
-fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da Corôa os
-officiaes que melhor valsam nos _cotillons_, e querendo volver Berlim n'um
-Versailles d'onde emane o preceito supremo do cerimonial e do gosto. O
-mundo sorri--e repentinamente é o Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove,
-tratando de _caturra_ o Passado, expulsando da educação as humanidades e
-as lettras classicas, determinando crear pelo parlamentarismo a maior
-somma de civilisação material e industrial, considerando a fabrica como o
-mais alto dos templos, e sonhando uma Allemanha movida toda pela
-electricidade...
-
-Depois, por vezes, desce do seu palco--quero dizer, do seu throno--e
-viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. E ahi,
-desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas as suas
-figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas mais
-interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. A
-caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o
-artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna
-_Imperator Rex_) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o
-azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte,
-nos mares scandinavos, entre os austeros _fjords_ da Noruega, ao rumor das
-aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o Mystico, e
-prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das cousas
-humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a communhão
-com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos bons
-tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao marechal do
-Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a agradecer o kaviar e
-os sandwichs de _foie-gras_, collocados no seu wagon como provido farnel
-de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso centro de sociabilidade, e é
-o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, um cravo enorme na sobrecasaca
-clara, borboleteando e flirtando com a veia soberba de um D'Orsay!...--E
-subitamente, em Berlim, por alta noite, as cornetas soltam asperos toques
-de alarme, todos os fios da Agencia Havas estremecem, a Europa assustada
-corre ás gazetas, e um rumor passa, temeroso, de que «haverá guerra na
-primavra»! Que foi? _No es nada_, como se canta, no _Pan e Toros._ É
-apenas Guilherme II que resubiu ao seu palco--quero dizer, ao seu throno.
-
-O mundo perplexo murmura:--«Quem é este homem tão vario e multiplo? O
-que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça regulamentar de
-official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer talvez antes de
-assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo d'esta ondeante
-personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema contemporaneo,--e
-ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a influenza ou o planeta
-Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço desesperadamente sedento
-da fama que dão as gazetas (como Alexandre o Grande que, em risco de se
-afogar, já suffocado, pensava no _que diriam os Athenienses_) e que,
-mirando á publicidade, prepara as suas originalidades com o methodo, a
-paciencia e a arte espectacular com que Sarah Bernhardt compõe as suas
-_toilettes._ Outros sustentam que ha n'elle apenas um fantasista em
-desequilibrio, arrebatado estonteadamente por todos os impulsos de uma
-imaginação morbida, e que, por isso mesmo que é imperador quasi
-omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma resistencia vigilante lh'os
-cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos da fantasia. Outros, por
-fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern em que se sommaram e
-conjunctamente affloraram com immenso apparato todas as qualidades de
-cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo e voluntarismo, que
-alternadamente caracterisavam os reis successivos d'esta felicissima raça
-de fidalgotes do Brandeburgo...
-
-Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as
-theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o
-imperador Guilherme é simplesmente um _dilettante da acção_--quero dizer,
-um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com superior
-intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja portanto
-experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa civilisação.
-Os _dillettante_ são-n'o geralmente de ideias ou de emoções--porque para
-comprehender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o
-pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortaes, podemos, sem que
-nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos illimitados
-campos do raciocinio ou da sensibilidade. Eu posso ser um perfeito
-_dillettante_ de ideias, modestamente fechado, com os meus livros, na
-minha bibliotheca:--mas se tentasse ser um _dillettante_ da Acção, nas
-suas expressões mais altas, commandar um exercito, reformar uma sociedade,
-edificar cidades, teria de possuir, não uma livraria, mas um imperio
-submisso. Guilherme II possue esse imperio; e hoje que se libertou da dura
-superintendencia do velho Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel
-_dilettantismo_ da Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz
-a Biblia), galopa no deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas
-massas de soldados, ou de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de
-lançar um telegramma, fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de
-transformar, nas suas mãos potentes, todo um organismo social? Tem só de
-annunciar: «Esta é a minha ideia»--e lentamente a seus pés começará a
-surgir um mundo novo.
-
-Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só
-zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese,
-e que quando o seu imperador lhe ordena que marche--emmudece e marcha.
-
-E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com
-elle, o inspira e sancciona o seu poder.
-
-
-E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador
-da Allemanha:--é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico seculo,
-entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro iniciado, ou
-propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado de Deus! O
-mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal intimidade
-e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado de
-Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do
-mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que
-conferencia com Deus na sarça ardente do _Schloss_ de Berlim, e que por
-instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. É
-verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de
-affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por
-ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus,
-que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em
-cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis
-contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento,
-esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel
-na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o
-servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos
-espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito
-d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez
-allude a Deus em termos de maior igualdade--como alludiria a Francisco
-d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com
-reverencia, o _Amo que está nos céus_, o _Muito alto que tudo manda._
-Ultimamente porém, arengando com _champagne_ aos seus vassalos da Marca
-Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus--o _meu velho alliado!_ E aqui
-temos Guilherme e Deus, como uma nova firma social, para administrar o
-Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus desappareça da firma e da
-taboleta, como socio subalterno que entrou apenas com o capital da luz, da
-terra e dos homens, e que não trabalha, ocioso no seu infinito, deixando a
-Guilherme a gerencia do vasto negocio terrestre:--e teremos então apenas
-Guilherme e Cia. Guilherme, com supremos poderes, fará todas as operações
-humanas. E «companhia» será a fórmula condescendente e vaga com que a
-Alemanha de Guilherme II designará Aquelle para quem todavia, segundo
-crêmos,--Guilherme II e a Allemanha toda são tanto, ou tão pouco, como o
-pardal que n'este instante chalra no meu telhado!
-
-Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas
-da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito
-triumphal de cada emprehendimento--eis o que me parece explicar a conducta
-d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio situado nos
-confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um thesouro de guerra
-para manter e armar dous milhões de soldados, ou se estivesse cercado por
-uma opinião publica tão activa e coercitiva como a da Inglaterra,
-Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na historia, curioso
-pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu messianismo. Mas,
-infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, com centenares de
-legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados tambem e
-submissos como soldados--Guilherme II é o mais perigoso dos reis, porque
-falta ainda ao seu _dilettantismo_ experimentar a fórma da Acção mais
-seductora para um rei--a guerra e as suas glorias. E bem póde succeder que
-a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se entrechocam--só
-porque na alma do grande _dilettante_ o fogoso appetite de «conhecer a
-guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os conselhos e a piedade da
-patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o promettia aos seus fieis
-solarengos do Brandeburgo:--«Levar-vos-hei a bellos e gloriosos destinos».
-Quaes? A varias batalhas de certo, onde triumpharão as Aguias germanicas...
-Guilherme II não o duvida--pois que tem por alliado, além de alguns reis
-menores, o Rei Supremo do Céu e da Terra, combatendo entre a _Landwehr_
-allemã, como outr'ora Minerva Athenea, armada da sua lança, combatia
-contra os barbaros em meio da phalange grega.
-
-Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem,
-na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que
-riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um
-homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que
-essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então
-verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo
-que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus--mas apenas se provou que Deus
-não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava
-desdenhosamente--foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e
-apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde
-os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que
-se estampa sobre a moeda falsa.
-
-Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume
-hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão
-repartidas pelos corpos de Estado--e só elle julga, só elle executa porque
-é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu parlamento, que
-Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração transcendente.
-
-Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro
-desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas
-ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie
-da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada
-alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.
-
-E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para
-lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra
-o destino esses terriveis _dados de ferro_, a que alludia outr'ora o
-esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter
-altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o
-exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse
-exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua
-infallibilidade.
-
-E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande
-imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes
-desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e
-os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os
-formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a
-amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do
-liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a
-consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que
-Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante
-da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de
-Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos
-entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia
-politica na Prussia era--_Deus salve o Rei?_ Onde estão esses louvores ao
-direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por Mommsen, por
-Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das duas grossas
-pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o soldado,
-Guilherme II hoje só tem o soldado:--e o throno, sobrecarregado com o
-imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que é talvez o do
-abysmo...
-
-Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno,
-o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as
-accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr.
-E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em
-Sadowa e em Sedan--é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua nova
-ferula, que vencerá em Berlim.
-
-O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo,
-n'este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II.
-Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este
-moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez
-heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu _Schloss_ de
-Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente, no
-Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla
-corôa amolgada da Allemanha e da Prussia.
-
-
-
-
-IV
-
-
-O GRAND-PRIX--A ESTATUOMANIA--OS COCHEIROS--VICTOR HUGO--O CAMPO
-EM PARIZ.
-
-
-Na semana passada o _Grand Prix_--que é a solemnidade official do sport,
-do jogo e das _toilettes._ Todos estes elementos estiveram magnificamente
-representados na planicie de Longchamps, sob um sol mais severo que o de
-Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor, um cavallo francez com o
-nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma _quarta parte do
-focinho._ As apostas elevaram-se a mais de seis milhões. E havia
-_toilettes_ portentosas, entre as quaes unn vestido negro, todo ornado de
-crysanthemos brancos.
-
-A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a
-rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d'Aosta, cunhada do rei de
-Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida
-dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia
-se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um
-principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e
-sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes
-avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?)
-
-O calor era horrifico. Á noite, no _Jardim de Paris_, houve, sob as
-arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava
-brilhantemente borracha, _sicut licet._ A unica innovação foi a troca
-geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas,
-com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces
-creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve
-fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade.
-
-Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana).
-Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de _Grand Prix_, os
-cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de
-toga arregaçada:--e o austero Catão apparecia no senado com um grande
-nariz postiço.
-
-
-N'esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas
-provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito
-engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era
-ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os
-ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada
-semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava--uma
-estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes
-homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus
-benemeritos.
-
-Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada
-mez,--que digo eu? cada semana!--se desvenda algures uma estatua d'alguem,
-entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte annos d'este
-fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm estatua. Em
-compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de quem fallava
-recentemente Julio Simon. Digo um _certo_ Guerin, porque eu não lhe
-conhecia a existencia antes d'essa allusão de Julio Simon, que foi o
-inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De resto,
-talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas praças,
-sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é Guerin?
-Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial,
-sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na
-sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes,
-menos por causa de D'Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac,
-como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem
-Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin.
-
-
-Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais
-duro de atravessar é a _grève_ dos cocheiros. Pariz está sem tipoias--o
-que é, sobretudo n'este momento, como o deserto sem camelos. Se n'esta
-super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos bonds fôsse facil,
-exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria desgostos--e seria
-mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o omnibus e o bond, em Pariz,
-são instituições rudimentares. É mais facil para um pariziense entrar no
-céu do que n'um omnibus. Para obter o logar na bemaventurança basta,
-segundo affirmam todos os santos padres, ter caridade e humildade. Para
-obter o logar do omnibus estas duas grandes virtudes são inuteis e, mesmo,
-contraproducentes. Antes o egoismo e a violencia. Depois de conquistar o
-logar, a outra difficuldade insuperavel é sahir d'elle--por aquelle meio
-natural e logico que consiste em chegar e apear. Nunca se chega--senão
-quando já é desnecessario. Eu e um amigo partimos um dia da gare
-d'Orleans, á mesma hora; eu no comboio para Portugal, elle no omnibus para
-o _Arc de L'Étoile._ Quando eu cheguei a Madrid soube, por um telegramma,
-que o meu amigo ia ainda na Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em
-Pariz é o grande refugio e o local do namoro. Quanto mais comprida a
-jornada, mais demorado portanto o encanto. O meu amigo encontrára no seu
-omnibus a creatura dos seus sonhos. Era uma loura com sardas
-promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da Estrella estavam
-noivos--ou peior. São estas pequenas commodidades da vida sentimental que
-conservam a freguesia aos omnibus.
-
-Uma das causas, ou antes a causa da _grève_ é que os cocheiros querem
-ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é que a
-municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e que
-elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e
-aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de
-que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que
-o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do
-Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O
-cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer
-parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza
-envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades
-innumeraveis. É peior que a administração chineza--e menos pittoresca.
-Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar
-licenças successivas a vinte auctoridades successivas--entre as quaes o
-ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos trens
-de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um d'esses
-trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel
-sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de
-deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n'um dia de dezembro, uma
-familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a
-um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia--e o digno funccionario,
-com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o documento,
-respondendo com superioridade: _Indeferido, por causa da distancia e do
-mau tempo!_
-
-
-Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo
-porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e
-compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos.
-
-Victor Hugo publicou este mez mais um volume--_Toute la Lyre._ Como o
-Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de
-dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito
-d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos, que
-elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de
-Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua gloria. Essa já está
-estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com as _Contemplations_, a
-_Légende des Siècles_ e os _Châtiments._ Mas augmentam o nosso
-conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emoções ou
-fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram
-habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em
-verso. Cada verso novo, que nos é desvendado, constitue pois um documento
-novo sobre o poeta--sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo
-lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre um homem de genio como
-Hugo, mais completo se torna o trabalho critico sobre a sua
-individualidade e sobre a sua obra. Para alargar e completar o
-conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as cartas, todos os
-papeis intimos--até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para
-Lamartine, para Balzac, etc.
-
-Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de
-pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se
-queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para
-proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d'um grande homem
-de guerra, que tem iguaes--é bem justificado que se publiquem os versos,
-todos os versos, ainda os menos interessantes, d'um poeta que, sem
-contestação, é o maior de todos, em todos os seculos.
-
-
-A moda, ou antes aquelles que a fazem, acaba de tomar uma resolução
-sapientissima. Pariz, d'ora em deante, fica sendo considerado, durante
-os mezes de verão, para todos os effeitos sociaes, como campo e não como
-cidade. É permittido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao theatro,
-etc., de chapéo de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo.
-Era com effeito absurdo que Pariz nos servisse 30 graus á sombra--e que
-os parizienses continuassem a soffrer a tyrannia da sobrecasaca apertada e
-do duro chapéo alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e permittir a
-tanga. O vestuario foi inventado por causa da temperatura, e deve,
-portanto, variar com ella harmonicamente. A neve pede pelles, pelles
-supplementares, arrancadas a animaes. O sol do Senegal ou de Pariz em
-julho, só pede a propria pelle--sem mais nada, além de uma folha de vinha.
-Esta seria a logica das cousas. A moda não ousou ser tão radical--e foi só
-até á palha e á alpaca.
-
-Mas é um primeiro passo no bom senso. Para o anno, talvez nos seja
-permittido o ir á Opera, como deveriamos, em mangas de camisa. Ahi no Rio,
-segundo me affirmam, mesmo no verão, se anda de sobrecasaca de panno. É um
-lamentavel excesso de decoro social. Ainda se comprehendia no tempo do
-imperio, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas
-instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a republica devia
-apagar esse verdadeiro vestigio do velho regimen, e derrubar a tyrannia do
-panno e do chapéo alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma
-influiria vantajosamente no estado dos espiritos. Um povo que, com 40
-graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com
-um chapéo alto de ceremonia, é necessariamente um povo constrangido, cheio
-de vago mal-estar, propenso á melancolia e ao descontentamento politico.
-Que a esse povo seja permittido pôr na cabeça um fresco chapéo de palha e
-refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves--e elle respirará
-consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazivel na vida e no Estado.
-
-
-
-
-V
-
-
-O 14 DE JULHO--FESTAS OFFICIAES--O SIÃO.
-
-
-Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente
-o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não
-berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito,
-um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais
-descontente:--accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo
-appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas,
-com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor
-pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela
-enthusiasmada rouquejava a _Marselheza._ As filas de _fiacres_ dormiam
-pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de Longchamps
-pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a lentidão e
-a gravidade enfastiada de um enterro civico.
-
-Nem um _Vive Carnot!_ Nem uma palma ao velho Saussier, governador
-militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz
-não applaude os pennachos--é que Pariz está realmente macambuzio.
-
-Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses
-estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano
-os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma
-commissão para _desorganisar_ a festa e promover uma melancolia de
-protesto:--mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam
-decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que
-realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a
-França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca
-foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe
-estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:--e onde
-quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura,
-immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas
-espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde
-os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo
-dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada
-da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o
-symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo,
-na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra
-de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma
-classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A
-essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez
-d'isso, a aristocracia, n'essa data illustre, volta a face com tedio,
-cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta
-portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro
-grossas torres onde pudesse ser sepultada _pro vita_ ao bel-prazer
-d'El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com
-o dia que a libertou--porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?
-
-
-Além d'isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam
-populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede
-com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda
-vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas
-alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de
-lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a
-illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o
-facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as
-lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando
-os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta
-Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito
-tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe
-mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta
-Constitucional.
-
-Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico,
-nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo
-não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza
-_simplista_, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim
-como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra
-de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo,
-são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos
-populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são
-individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem
-convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem
-recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d'esses santos, as
-suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus
-attributos, tudo lhe é familiar--e elles são como verdadeiras pessoas de
-familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente
-amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino
-fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e
-se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram
-alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a
-cidade;--e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com
-carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella do alto das
-nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas
-se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o dever de
-celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de
-Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma
-luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão:--«S. João é um amigo
-meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e
-que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e
-esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o
-preço de uma lamparina.»
-
-É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos.
-Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para
-que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de
-enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa,
-devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a
-difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.
-
-Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos
-protestariam com furor e haveria sangue.
-
-Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios
-desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve
-a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.
-
-Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.
-
-A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo
-terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e fallando com azedume de
-_casus belli._ Este latim, que significava outr'ora _caso de guerra_, quer
-apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dous amigos
-se zangam, se tratam de _pulhas_ e _malcreados_, se mostram mutuamente o
-punho, e mutuamente se voltam as costas.
-
-Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por
-motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e
-portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se
-deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á
-chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem,
-participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma
-architectura phantasista de magica--e estão armadas de canhões Krupp. Além
-do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em plantações
-e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu
-tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu
-exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade.
-Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra
-tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos n'esses confins
-do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as
-censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e frotas, teria já
-empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir
-o animal pensante--e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientaes
-são feitas para enriquecer os paizes occidentaes--e por isso com os
-Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se
-fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou
-civilisado, tu és barbaro--logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois
-trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser
-civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior
-uma arte, uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm
-uma religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos
-occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado
-é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens
-canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu
-vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita
-internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e
-Abel.
-
-Em virtude, porém, d'um respeito innato pelas exterioridades (que data
-da folha de vinha) os homens crearam ao lado d'este descarado direito
-internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de
-mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se
-d'outra com a simplicidade com que n'uma estrada uma creança colhe um
-fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o
-forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande
-progresso adquirido.
-
-Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir
-sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de
-fronteira n'uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo
-um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou
-que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram _hu! hu!_ Tudo isto é
-gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em
-tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns
-officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da
-França. Se não foram elles--foram seus paes, como disse o lobo ao
-cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua
-honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que
-os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei
-de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á
-Luiz XV!
-
-
-Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se
-installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle
-bello bocado do Oriente--e é a França, a nação entre todas rival, que
-apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes
-berraram _hu! hu!_ É sobre a bandeira da França, não sobre a d'ella, que
-os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a
-França emfim que está na deliciosa posse d'estas affrontas, que saboreia a
-preciosa felicidade de ser insultada--e que portanto tem o rendoso direito
-de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada--e a Inglaterra não a
-tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, através do seu
-parlamento:--«Uma vez que n'esta occasião Sião não pôde ser para mim,
-tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar necessario á sua
-honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A
-autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para permanecer em equilibrio,
-precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser
-para a Inglaterra). E se a França attentar contra a independencia de Sião,
-ás armas!» Eis o que diz, n'um dizer mais diplomatico e solemne, aquelle
-excellente John Bull.
-
-E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um
-pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação
-e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios
-deante de um velho osso.
-
-O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações,
-homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e,
-deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.
-
-
-
-
-VI
-
-
-A FRANÇA E O SIÃO.
-
-
-A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido
-povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um _ultimatum_ em que era intimado
-a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu territorio e
-uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente maneira dos
-orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella mansidão e
-humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas, replicou que
-não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia a paz, e que
-por amor d'ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não tanto, e a
-abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr'ora, quando os
-costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos
-orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d'uma feliz reputação de
-lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações,
-novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores.
-
-Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do
-Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem
-se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e
-fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da
-Cochinchina.
-
-Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido
-medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de
-commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do
-povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não
-acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não
-percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a
-França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe
-tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia,
-quando o povo se desinteressa d'uma questão, os politicos e os jornalistas
-têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente
-correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem
-se apoiar n'um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de
-Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d'uma manhã.
-
-Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por
-causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou
-sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.
-
-Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de
-arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a
-cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a
-França e Inglaterra se batessem por causa de _bichos tão feios como os
-siameses_--estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do seculo.
-Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do Egypto,
-que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se têm
-dilacerado todos os povos desde o diluvio--não ha receio que jámais duas
-nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientaes.
-
-De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero
-desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles
-perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel,
-n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido,
-e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma
-tinta--sem medo que se venha a gastar sangue.
-
-
-Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a
-Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos.
-Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a
-Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua
-conquista.
-
-Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e
-emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir
-povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar
-a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos
-fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem
-uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um
-commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra
-para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada d'isto--nem
-frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo homens, porque a
-população da França não chega mesmo para a França. Quando ella se apossa
-violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial que depois
-pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e muitos
-empregados publicos. A França faz conquistas para exportar amanuenses.
-No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas
-maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial
-da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral.
-Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses
-aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra
-occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.
-
-A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando
-um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda
-rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem
-condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação,
-um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse
-enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos,
-ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando,
-porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que
-penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um
-escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo
-ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E
-só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para
-que quer aquelle velho aquella moça?»
-
-E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer
-esta França este Sião?»
-
-
-Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no
-palacio, e conta detalhes bem pittorescos.
-
-Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma
-fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos
-edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo,
-doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das
-fronteiras.
-
-É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só como
-seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se dissessemos
-o artigo da Constituição) que define as relações e deveres entre povo e
-rei é esta: «_Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o sêr_».
-
-O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir,
-etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez
-que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta
-invocal-o com o nome todo.
-
-Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por
-causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da
-corte é pronunciar o nome d'el-rei.
-
-Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel,
-gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.
-
-E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado
-poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação
-que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez
-que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas
-officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei,
-apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta
-e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que
-offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas!
-Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo
-immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas,
-está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio
-procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo
-estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem
-mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras
-poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!
-
-O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua
-capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande
-festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as
-casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam
-uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de
-joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei
-recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e
-porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.
-
-
-Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão
-d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava.
-Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que
-Goethe descreveu--«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe
-geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o
-seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça
-uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia.
-
-Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as
-acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe
-perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não
-podia) responder com um saber exacto e forte:
-
---Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!
-
-
-
-
-VII
-
-
-A QUESTÃO BULOZ--A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»--PARIZ NO VERÃO.
-
-
-Por fim o Sião cedeu:--e, muito avisadamente, para evitar a immensa
-maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um
-oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel
-séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á
-França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que
-ella reclamava para «vingar a sua honra.»
-
-Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a
-educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma
-tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião
-desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se
-desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a
-humanidade, como o caso do snr. Buloz.
-
-Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda.
-Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus
-escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem
-depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que
-não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses
-_dous mundos_ que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem,
-por meio da sua illustre e famosa _Revista._ Porque é d'elle que se trata,
-de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da _Revista dos Dous
-Mundos!_
-
-Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia
-então que nós pronunciassemos com mais alegre horror--porque elle
-representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das fórmas
-novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais conservador e
-burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa _Revista dos Dous Mundos_
-nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a lettras mortas.
-
-E escrever na _Revista_, pertencer á _Revista_ era para nós uma maneira
-especial de ser fossil.
-
-Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa _Revista!_ Quantas
-phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer!
-Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido n'um amor
-sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de laudano,
-um numero da _Revista dos Dous Mundos_:--e ao chegar ás ultimas paginas, á
-«Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com effeito no somno
-eterno. Ainda me lembro d'uma definição da _Revista_, dada por um de
-nós:--«Uma publicação côr de tijolo, que tem dous leitores no Havre!»
-
-Tudo isto era excessivo e injusto. A _Revista_, de facto, tinha leitores
-por todo o mundo:--e, como se sabe, e já tem sido dito, _Todo-o-Mundo_
-é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. Com os seus trinta
-annos de valente existencia, ella era já então uma larga e fecunda
-remexedora de ideias e de factos:--e não houvera de resto nenhum grande
-francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido esse acto,
-para nós tão vergonhoso: «escrever na _Revista_». Todos tinham
-escripto--mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a desarmar do
-nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes idolos d'essa
-geração--Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que os versos de
-Beaudelaire, tirados das _Flores do Mal_, apresentou-os ao publico, por
-assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas precauções sanitarias.
-Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, toda enojada, em que ella
-repellia qualquer solidariedade com semelhante infecção, e jurava que só a
-exhibia como uma lição moral, para mostrar a que excessos e a que
-desordens póde rolar a litteratura, quando sacode audazmente a salutar
-disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, publicava Beaudelaire
-(mesmo alguns dos versos mais temerarios)--e esta concessão, este começo
-de homenagem prestada ao Satanismo (o Satanismo era então uma escola, e
-todos nós nos consideravamos Satanicos) adoçou um pouco as nossas relações
-intellectuaes com a _Revista._ Modificámos mesmo a definição irrespeitosa.
-Era então uma «publicação côr de salmão, que tinha já dous leitores no
-inferno!»
-
-Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não
-vejo a _Revista dos Dous Mundos_ sem um sentimento vago e inexplicavel
-de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber
-especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura
-academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte
-originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave
-matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados,
-faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está
-absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia
-com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens
-sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do _Quarter Latin._ É
-talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço.
-
-
-Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o
-snr. Buloz e, com elle, a pudibunda _Revista dos Dous Mundos_ se achavam
-envolvidos n'um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a
-_Revista_, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos
-Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n'uma
-aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão
-severa policia dentro da sua _Revista_, que esquadrinhava todos os
-romances com terror de que lá estalasse n'algum canto algum beijo mais
-voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em
-nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e
-livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e
-illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que
-frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido.
-
-Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz e a
-excellente _Revista._ Porque não havia aqui realmente um romance d'esses
-que o proprio Buloz condemnava sombriamente como «infectos»--mas um roubo,
-um longo e abjecto roubo, organisado contra Buloz, e portanto contra a
-_Revista_ de que elle é a encarnação viva--por dous d'esses horriveis
-personagens a que Balzac chamava impropriamente os _tubarões de Pariz._
-Tubarões, sim, no sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á
-cata da presa. Mas isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz.
-
-Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem
-indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma
-gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla
-Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella,
-quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz.
-
-O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de
-tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua
-vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de
-contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma
-fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando
-se tem vivido, durante vinte annos, dentro da _Revista dos Dous Mundos_,
-toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma visão de alto
-esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e sensivel.
-Teve n'uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de Mazade!)
-uma d'aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, nenhuma
-alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie e dos
-Remusat, evita ou vence.
-
-Buloz cedeu--ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora
-pretende, em confidencias que fez a um reporter do _Gaulois_, que «foi
-uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle
-passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda
-a mourama. Pagou, naturalissimamente, as _toilettes_ da menina e da
-familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade;
-e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade,
-deu um dote e um marido á menina.
-
-Educado no idealismo incorrigivel dos romances da _Revista_, imaginava
-Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para sempre
-o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, e
-sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o
-marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem
-de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á _Revista dos
-Dous Mundos_, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia
-uma cidade conquistada.
-
-Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez,
-os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio--e Buloz pagava
-pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais
-urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria
-reunir rapidamente uma fortuna--e cada dia, agora, ás vezes mesmo duas
-vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E
-pagava--para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a sua
-situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi
-arruinado--e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario,
-fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa somma--e,
-com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a assignar uma lettra
-promissoria de perto de _setecentos mil francos._
-
-Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!
-
-Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece,
-os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido
-respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam
-contra as queixas de Buloz--influencias pagas talvez com o dinheiro
-sacado a Buloz. Alliança de «tubarões»--como diria Balzac. O facto é que
-a policia se conservou n'uma magistral indifferença. Então, estonteado,
-desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á sua
-_Revista._ Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou do seu
-marido, e a _Revista dos Dous Mundos_ se separou do seu director. E o
-grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre Pariz.
-
-Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a
-_Revista dos Dous Mundos?_ Era esta, durante semanas, a interrogação
-anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe
-de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou--e cruel.
-
-Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio
-entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da _Revista_
-pronunciou egualmente divorcio entre a casta _Revista dos Dous Mundos_
-e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, perde a sua
-mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente roubado,
-durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não perderam nada,
-os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque durante todo
-o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á maneira de
-nomes sagrados. Tal é Pariz.
-
-Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios.
-Mas a resolução dos accionistas da _Revista_ parece-me excessivamente
-austera e illogica.
-
-Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções
-exactas sobre as realidades da vida--e o seu peculio de conhecimentos
-sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois,
-mais que nunca, nas condições experimentaes de dirigir uma revista,
-sobretudo aquella secção de revista de que elle com mais particular amor
-se occupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre
-enredos, caracteres tortuosos de heroinas e miserias finaes de todo o
-sentimento teria valor e auctoridade. E agora justamente é que o afastam
-d'essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas
-desventuras o tinham, emfim, tornado idoneo! Ha aqui evidentemente um erro
-de criterio, além de uma falta de misericordia.
-
-Em todo o caso, assim acaba na _Revista dos Dous Mundos_ a grande
-dynastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz
-I, o fundador, se soubesse que a sua raça fôra desthronada da _Revista_
-por um escandalo de coração? Tal é a ironia das cousas! A mais austera,
-solemne, pudica, de todas as publicações européas, tendo chegado aos
-sessenta annos, sem que nunca uma realidade ardente das cousas d'amor
-houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do seu
-director, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em alcovas
-illegitimas! _Habent sua fata Revistœ._
-
-Pariz fugiu de Pariz. Com este calor de phenomeno, (40 graus á sombra)
-em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o
-simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, n'um verdadeiro
-exodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil
-hebreus, e d'aqui, segundo affirmam os jornaes, abalaram hontem, em
-centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.
-
-Só ficaram os empregados publicos. E ainda assim, havia ha dias uma
-administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao
-contínuo, se achavam no campo ou no mar.
-
-Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por
-dedicação civica.
-
-Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem
-arquejante. Toda a folhagem das arvores seccou.
-
-Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um
-guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se
-attestou de cerveja para outro café onde se vae innundar de limonada. Os
-cavallos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornaes já se pensa
-em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas
-defumadas.
-
-Todavia Londres está mais ardente. Ahi o calor produz quasi uma crise
-nos costumes. Hontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na
-Camara dos Communs, em mangas de camisa.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-AS ELEIÇÕES--A ITALIA E A FRANÇA.
-
-
-As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o mais
-solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n'estes vinte
-annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa
-affirmação.
-
-N'essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal
-consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos
-remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido,
-condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do
-imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação
-Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido
-como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças
-de Augias:--e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na
-tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como
-Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os circulos,
-com um enthusiasmo esmagador e jovial.
-
-Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar
-cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e
-militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa,
-só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte
-subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios.
-
-E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com
-unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos
-humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella
-occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em
-cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.
-
-Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar
-da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram
-fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas
-ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro
-andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria
-espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos
-eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito
-comesinhamente, uma reforma do imposto rural.
-
-Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir
-das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres
-inspiradores da oratoria. _Basta de lyra!_ gritavam em 1848 os operarios
-famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel de Ville,
-estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agricola
-repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a eloquencia!
-Fóra a rethorica e a sua rijada ardente!
-
-E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza
-ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na
-historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor
-do seu progresso.
-
-Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe,
-para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos
-e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor
-uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda
-experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes,
-capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para
-o util serviço d'esta França nova, que é simultaneamente um banco, um
-armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou--e viu que a
-sua obra era boa.
-
-Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as
-superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual
-da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia)
-foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio
-outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das
-papoulas mais altas.
-
-Na camara não haverá senão espiritos medios e planos--e toda ella será
-realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma eminencia,
-uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre
-airosa d'onde vôem aves.
-
-Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta,
-foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os
-costumes financeiros d'uma democracia industrial, com o regular e fecundo
-funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para
-bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d'estes homens,
-desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de
-um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os
-santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.
-
-Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas
-sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus,
-a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são
-inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como
-perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas
-disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta,
-se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem.
-
-E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este
-suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão,
-ignominiosamente expulsos da Republica.
-
-Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de
-democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim,
-e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar
-n'um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. _Amen._
-
-Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um
-conflicto entre operarios francezes e italianos, n'um departamento do sul
-(em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica
-que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França.
-
-Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França,
-como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na
-Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da
-Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d'uma raça mais sobria, ou
-d'uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores
-aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e
-muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,--porque o capital
-é cosmopolita. D'aqui despeito, rancor do operario francez, ameaçado no
-seu pão--e constantes rixas, em que o italiano, naturalmente, puxa a faca,
-essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do norte.
-
-Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que
-um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham
-refugiado n'uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados
-como lobos, e dizimados a tiro, um a um.
-
-Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova,
-em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da
-França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de _Morra o
-francez!_ acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de _Viva
-a Allemanha!_
-
-Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles
-consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu
-sangue, berre: _Abaixo a França!_ Ha ahi apenas, para elles, esquecimento
-e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite: _Viva a
-Allemanha!_ Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á dignidade da
-nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a
-Italia--a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e quasi ironica de
-enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais profundamente a França. E
-as duas nações estavam já assim, ha duas semanas, em face uma da outra,
-quietas, mas penetradas de mutua hostilidade, tanto maior da parte da
-França quanto tem de ser, por prudencia, silenciosa. Mas eis que agora,
-n'estes ultimos dias, a Italia praticou, para com o sentimento francez, um
-outro e supremo ultraje.
-
-O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras
-militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem
-acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe
-real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano
-na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma offensa?
-
-Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar. Em
-boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e
-administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo:
-e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja
-maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d'isso, a sua presença
-não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte
-annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da
-Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio:
-e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n'uma
-provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás
-manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se
-o _acceitar_ um convite para essa região é offender a França, o _recusar_
-o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Allemanha. Tudo isto é
-indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando
-ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são duas terras francezas
-que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de Italia vir caracolar
-sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do oppressor, é, para os
-francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que uma reconciliação entre
-a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto mais que ás questões de
-politica se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes) e a estas
-ainda uma outra questão sentimental de gratidão, mais irritante que a de
-pecunia.
-
-Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n'um
-perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França
-tem o condão de enervar a Italia--de a enervar até ao desespero. É um
-facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n'uma
-das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio
-pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente
-cita, lembra e celebra o beneficio da libertação--não é tedio então, é
-intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o
-libertou. É bem natural--porque o fraco não póde esquecer que o apoio
-trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua
-fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr'ora veiu salvar, com grande
-alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.
-
-Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde
-Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram
-horrendamente caras, além de algumas d'ellas lhe serem desoladoramente
-inuteis.
-
-A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III,
-que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá
-bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d'isso a França
-tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou
-o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando
-realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu
-grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas
-armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado.
-N'estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando
-os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a
-Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua
-magnanimidade.
-
-
-Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a
-Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de
-semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem
-sido ajudada:--mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós
-todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua
-imagem. Ella é e permanecerá a _Italia-mater_, a mãe veneravel das
-nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e
-intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica
-findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella
-espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente,
-ella nos deu a musica.
-
-
-
-
-IX
-
-
-ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.
-
-
-N'este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo
-Brazil:--e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção
-apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa
-ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a
-elle tão tumultuosamente o perturba.
-
-Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o
-seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove
-com o que se passa dentro da linha dos boulevards--quando muito, dentro do
-recinto das fortificações.
-
-Além d'isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão
-discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se
-verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate,
-se não impede totalmente a emoção.
-
-Depois ainda, as nações, á maneira que aperfeiçoam as suas formas de
-civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema
-polidez das nações. De sorte que, n'esta duvida e n'esta reserva, tudo
-quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o
-patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz.
-
-
-De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo
-contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua
-febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas
-theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como
-a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo
-os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza,
-que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da
-sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da
-guerra. Por toda a parte _gréves_, e sangrentas; por toda a parte ruinas
-causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em
-Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a
-Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite,
-envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a
-unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por
-ser uma republica (não parece haver salubridade segura n'esse regimen)
-mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os
-ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas
-pacata e hygienica de dona de hospedaria.
-
-Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte:--e aqui
-temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi convulsamente,
-uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar (porque o Czar é
-que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de Pariz, mesmo os mais
-revolucionarios e os que mais zelam a soberania popular, aconselham que
-se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!) manda este mez a sua
-esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella respeitosa visita que ha
-um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero dizer ao Czar. E a França
-toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que quasi não têm nome,
-procura realisar uma demonstração de amizade pela Russia, tão ardente e
-estridente que fique historica e que marque mesmo o começo d'uma nova éra
-historica.
-
-Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar no
-porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa.
-Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n'uma d'essas
-situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão
-particularmente penosas a uma nação altiva.
-
-Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza
-(outr'ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito,
-encarregava d'elle os francos--_gesta Dei per Francos_), a França estava,
-na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o ar embaraçado
-de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas, poderosamente
-armada, com tres milhões de soldados facilmente mobilisaveis, a França
-estava entre as grandes potencias militares com o ar inquieto e timorato
-de um fraco entre valentões! Situação absurda mas logica, porque era
-republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes viam o seu
-republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua derrota, e o
-isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de guerra a terem
-por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força, ares
-fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava sempre
-na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os seus
-pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de soldados,
-politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se desforrava
-d'esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é inobscurecivel
-e invencivel, a da litteratura e da arte.
-
-Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga,
-uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse
-pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de
-republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão
-politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas.
-E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz,
-como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente,
-mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou
-doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia,
-vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental
-de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a
-França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe
-faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr.
-Carnot fôsse um Rei de Direito Divino--mas ao mesmo tempo a França, como
-França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma força
-irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante Avelane
-abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia.
-
-Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as
-proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild.
-Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de
-Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um
-começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que
-o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu
-milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e,
-ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes
-de Hamburgo. D'ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este
-corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho
-Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de
-maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro
-venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das
-casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil
-accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma
-consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas
-civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild!
-E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo
-uma parte do poder.
-
-A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava
-nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente
-a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer,
-como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os
-negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma
-manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas.
-
-A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar
-triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente
-grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a
-vehemencia do abraço:--e por isso o quer bem demorado, alumiado por todos
-os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n'um fulgor de
-apotheose!
-
-Mas a França é uma franceza--com todas as suas graças de sensibilidade
-e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater perante uma
-homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O acolhimento solene e
-carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande surpreza da Europa, á
-esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de todo a conquistou, e a
-França, que é uma franceza, está hoje namorada de Alexandre III.
-
-Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo,
-escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção.
-Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á
-França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não
-ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo,
-o Theseu salvador? Tudo n'elle parece bello, a sua estatura, a formidavel
-rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação
-grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia
-conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a
-França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas
-festas vão ter não sei que de nupcial.
-
-O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja.
-E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos
-compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar _Te-Deums_ louvando o
-Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas.
-
-Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os
-politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da
-Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario:
-liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra
-parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos
-estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma
-antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de
-influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi
-sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a
-Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para
-arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á
-Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande
-«despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d'elle,
-mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que
-quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a
-tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno
-mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi
-brutalmente demittido!
-
-Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em
-França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa)
-e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão
-com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás
-mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica
-sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas
-até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a
-Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do
-renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela
-manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não
-lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por
-onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular.
-E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as
-_gares_ estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e timidos
-clamores de _Viva o Czar!_
-
-Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera
-particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram
-a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu
-neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no
-centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam
-para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas
-positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo,
-acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e
-bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não
-comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A
-natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous
-estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas
-fórmas de sentir, o francez e o russo divergem;--e quasi se póde dizer que
-um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na sua
-essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a
-civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado,
-as duas nações discordam--porque uma é ainda primitiva, governada por
-crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a
-outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a
-sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo
-de revoluções.
-
-Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a
-confraternisação. A França, repito, é uma franceza--e, como tal,
-extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura.
-
-Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo
-estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta
-que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta
-_élite._
-
-Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que marcará
-talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella realmente
-existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha tradição)--e vão
-buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII (antes d'isso tambem
-quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande, que foi
-esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente, onde a
-sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam _les
-petites dames._ Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na guerra da
-Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos confraternisavam nas
-trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne. Boa novidade! Já
-outr'ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os cavalleiros inglezes
-e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso dos assedios, se
-juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar d'armas e
-d'amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão. Em todos
-os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os officiaes
-fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as circumstancias, zurrapa
-ou _champagne._
-
-Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo lado
-da França, d'esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte da
-Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não
-tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi
-o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que
-gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!»
-
-É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes
-das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente
-com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e
-sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco.
-
-
-
-
-X
-
-
-AS FESTAS RUSSAS--A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA--NOTICIAS
-DO BRAZIL.
-
-
-Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O almirante
-Avelane e os officiaes da fróta russa desceram sobre Pariz. Digo
-_desceram_, como se se tratasse de sêres chegados das brancas espheras
-celestes, porque o proprio almirante classificou esta visita de
-_sobrenatural_, e o snr. Hervé, director do _Soleil_, um academico,
-um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe attribuir um caracter
-_miraculoso._ Deve haver aqui, pois, o quer que seja de transcendente.
-E Pariz está em delirio;--mas um delirio cheio de bonhomia, e mesmo cheio
-de diplomacia.
-
-Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus
-amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Pariz, na
-alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova
-força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem
-escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das acclamações aos
-seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injuria aos seus velhos
-inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Pariz está mostrando
-a prudencia de um diplomata encanecido na carreira--e os proprios garotos
-se comportam como Metternichs.
-
-Nunca de certo, como hoje, Pariz pensou tanto na Allemanha; e no fundo,
-todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminarias se accendem,
-e todo este _champagne_ estala, tanto pela Russia como contra a
-Allemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais
-fundos recantos d'alma--e o que transborda é apenas o clamor do
-enthusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Allemanha, nem a
-ingrata Italia, nem Triplices Allianças. Ha só dous povos, o francez e o
-russo--e, como elles se abraçam, o mundo todo se converte n'um amavel
-santuario de paz.
-
-Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Pariz. A cidade
-toda está na rua. O tempo vae quente e abafadiço. Por toda a parte
-a cerveja e o vinho transbordam, como n'umas colossaes bodas de Gamacho.
-E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve
-ainda um grito, uma pilheria n'um café, uma allusão, que desmanchasse a
-harmonia pacifica do soberbo festival.
-
-Isto prova, uma vez mais, que Pariz não é como se pensa a cidade que
-entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra ha
-em que a intelligencia geral seja tão aberta, accessivel e prompta--isto
-é, em que uma ideia, considerada justa ou necessaria, penetre tão
-claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é facil,
-extremamente facil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena
-burguezia, a belleza ou a vantagem de tomar e conservar, n'um grande
-momento publico, uma certa attitude, mesmo contraria a sentimentos
-legitimos;--mas como fazel-a sentir áquella turba obtusa e rude, que os
-inglezes chamam os _roughs_, os «asperos»? Para esses não ha interesse
-publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E não
-seriam elles, se Londres tivesse sido durante seis mezes cercado e
-brutalisado pelos allemães, que se privariam, n'uma festa egual, de
-desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de
-_viva a Russia!_ brados ainda mais altos de _morra a Allemanha!_ Ainda
-ha pouco o provaram (por occasião do curto resentimento entre a França e a
-Inglaterra, a proposito do Sião) quando uma platéa de rapazes de
-commercio, no theatro da Alhambra, ao apparecer, não sei em que bailado, a
-bandeira franceza, rompeu em urros de furor, e se arremessou sobre o palco
-para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um momento, uma brusca
-ebulição do forte sangue saxonio. O bailado continuou--e cada um recomeçou
-serenamente a rir e a emborcar _bocks._
-
-No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew Arnold,
-o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre que estas
-duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era de certo
-uma generalisação excessiva, que provinha d'esse delicado espirito se ter
-nutrido e enlevado demasiadamente na litteratura franceza do seculo XVIII.
-Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em Inglaterra, faltam á
-populaça. Em França, nem a essa faltam.
-
-
-N'estas festas russas, com effeito, a cousa para mim mais interessante
-e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dous milhões de parizienses
-vivem em permanencia apinhados em tres ruas: o boulevard dos Italianos, a
-Avenida da Opera e a rua da Paz. A classica sardinha na sua classica lata,
-um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do sacco
-pançudo que quasi estoura--são frouxas imagens materiaes para exprimir
-esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a espessura e
-lentidão d'um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do tempo de
-Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a
-vivacidade, a vibração petulante e batalhadora d'esses dias de cesarismo.
-Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma
-brutalidade, uma impaciencia, um empurrão. As mulheres vieram
-confiadamente trazendo filhinhos ao collo. Tanto é o decoro e o
-recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros d'um templo.
-
-Toda esta parte de Pariz, com effeito, em redor do Club Militar onde se
-hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de
-paz.
-
-Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se
-communica aos animaes.
-
-Na Avenida da Opera um grande _mail-coach_, tirado por quatro puros
-cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de
-Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e
-bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou
-risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não
-se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles,
-terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas
-fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os
-focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas
-estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por
-entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se enfeita--e
-toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d'ouro e apotheose.
-
-Por vezes, entre couraceiros que cercam um _landeau_, alvejam ao longe
-os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo de
-_viva o Czar, viva a Russia!_ Toda a massiça multidão arremette n'uma
-anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o esvoaçar
-dos lenços. É uma curta explosão d'amor. De novo o decoro, a compostura
-risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um pó
-importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de
-colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos
-predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos
-charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave,
-polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado
-precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d'estes, no meio de
-dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas
-estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que
-através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda
-uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me
-empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse--não cessei de
-louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a
-conquista das Gallias.
-
-Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres--sobretudo
-as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio
-decorativo--nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom
-pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um salão--ainda
-que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua intelligencia,
-o tenha immobilisado em dous generos que repete monotonamente,
-infinitamente: o _Luis XV_ e _Henrique II._ Em todo o caso, possue
-grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas
-realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um
-salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo
-não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado
-do pavilhão amarello com a aguia negra de duas cabeças.
-
-A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas,
-o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca
-de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de
-lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção
-buddhista.
-
-As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições,
-corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os
-russos;--e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus
-officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro _lunchs_,
-dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café,
-tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além
-recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes tiveram de
-comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E
-como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os _toasts_, as
-saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave
-considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes, coube, durante o seu
-dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne.
-
-Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz _valia_ uma missa, não ha
-duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma
-dyspepsia.
-
-Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas
-pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem
-uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca
-e gravata branca como os escudeiros que servem o _punch._ Este
-inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao
-esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou
-tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em
-meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros,
-das amas ricas--alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob
-o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros,
-o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda branca
-recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços floridos, e
-os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos
-Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal feita, como a de
-um creado de copa ou de um servente de enterro!
-
-Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E
-jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se
-estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres
-poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê
-prestigio--esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da
-arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. Isto é
-extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o summo
-respeito. Ora, entre dous chefes de Estado--um revestido de uma couraça
-rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro de um paletot
-negro, com um chapéo côco--o respeito instinctivo da multidão
-impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para o sujeito
-do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das mulheres--e logo
-portanto atraz, por uma lei natural, a consideraçãodos homens. Os
-philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas
-exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar
-Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos--e para ella
-perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do poder.
-
-Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente
-não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de
-tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia--e de que elle
-proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa
-lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de
-que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.
-
-
-E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como
-não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em
-França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações
-das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda
-assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos
-do mundo.
-
-Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o
-Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem
-sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil
-tivesse desapparecido--ou antes tivesse entrado n'aquella era de
-felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter
-historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se
-encontra n'algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café
-vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão
-agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso...
-
-_Un silence parfait régne dans cette histoire_--como diz Musset. É de
-bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo caso, é unico
-na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera, tumulto. De
-repente tudo se cala, tudo se some--e aqui ficamos na Europa boquiabertos,
-deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como uma visão de magica.
-Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde estão os regimentos?
-Não ha nada--não se entrevê um vulto, não se escuta um rumor.
-
-De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em
-Pariz d'essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma
-longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que
-troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na
-sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o
-Brazil--tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa
-pacificamente a vender café.
-
-
-
-
-XI
-
-
-A HESPANHA--O HEROISMO HESPANHOL--A QUESTÃO DAS CAROLINAS--OS
-ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.
-
-
-O «Theatro clos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo
-um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus--e é agora de Hespanha que
-nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo garante
-que elles devem ser interessantes--porque de Hespanha nada póde vir que
-seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e discursos.
-
-A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica;--pelo menos é a
-ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se comportam
-com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica imprudencia, e
-soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos os interesses,
-e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem constituir, o
-typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias estão bem
-d'accordo sobre o que é um heroe).
-
-Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que
-se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal
-Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n'uma praça de
-Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se
-misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola
-de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente,
-e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o
-marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó
-e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas
-uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É
-Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no
-ar:--_No és nada, no és nada!!_ O seu cavallo jazia despedaçado n'uma poça
-de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos uns poucos
-de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e gemendo.
-O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, todavia,
-indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, continua a
-encolher os hombros, a gritar:--_Pero si no és nada, hombre, si no
-és nada!_
-
-Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do
-anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho:--_Fui eu! Fui eu!_
-Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca, e está
-ancioso por que todos saibam que _foi elle, só elle!_ Não vá outro ser
-preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas mulheres,
-a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da confusão, podia
-fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela sua façanha?
-Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: _Fui eu! Fui
-eu!_ E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos amarradas, clamando
-ainda com orgulho para as janellas cheias de gente que _fôra elle,
-só elle!_
-
-Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio
-desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que _no és nada, que no
-és nada!_
-
-O quadro é admiravelmente hespanhol--e só póde ser hespanhol.
-
-
-O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo,
-o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um
-grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o
-hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os
-interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa
-momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece
-o sublime D. Quixote.
-
-E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a
-prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens
-accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento--como superiormente o
-prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae perder--marcha
-jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se trata da sua patria.
-
-Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria.
-Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de
-descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos
-copos d'agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está
-perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de
-Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra--e todo esse povaréo se
-ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só a pedrada,
-mas o gesto.
-
-O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins,
-tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente
-e ovante como elle pronuncia _mi terra!_ Para elle a Hespanha é a maior
-das nações--pela força e pelo genio.
-
-Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos
-seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol
-vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se
-compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são
-os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol
-ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista
-continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além
-d'este habito de se sentir grande, natural de resto n'uma raça que chegou
-a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais
-fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor
-prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam
-pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se
-erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez,
-outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que
-creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:--mas não
-tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com
-facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro
-clima doce, a sua cosinha, os seus _sports_, os seus jornaes, as suas
-distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d'um ar
-luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e
-vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de
-pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e
-moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos
-abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e
-carnal. Esse amor cria n'elle naturalmente a illusão:--e o manchego e o
-navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não
-as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e
-radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito
-intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo),
-declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e
-interesse, e brilho, _no valia Merida!_ De resto, quem não tem ouvido
-hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer
-Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua
-provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim
-publicado n'um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo?
-A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a
-candida illusão de um patriotismo transcendente.
-
-Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte, tão
-genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade,
-como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a
-suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e
-tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n'um
-crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo
-todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida.
-
-Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã,
-Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão
-plantára n'umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas,
-a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas,
-nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha
-fôra offendida:--e Madrid inteiro, todas as classes e todas as edades,
-fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, creanças
-de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto mais
-immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o embaixador
-allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois a guerra!
-Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a
-Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas?
-cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as
-mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d'este delirio,
-ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira
-Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa
-feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era
-Jerusalem...
-
-Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito
-e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas,
-appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão
-magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu
-da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada
-das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação
-heroica de um sentimento justo.
-
-
-Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi ferida
-no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de europeus, mas
-de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o sacrilego seja
-forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio, isto é, houve
-um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e guerra
-implacavel!
-
-A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de
-outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma
-cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras
-possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E
-para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome
-generico de mouros do Riff, ou Riffenhos.
-
-Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos hereditarios,
-com o odio de raça e com o odio de religião:--e os hespanhoes estão alli
-portanto n'um permanente estado de defeza. Ultimamente, depois de vagas
-questões que tinham surgido entre hespanhoes e mouros na feira visinha de
-Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma agitação tão visivelmente
-hostil, que o governador de Melilla, general Margallo, mandou reforçar as
-obras de defeza em torno da zona cultivada, e construir, n'um certo ponto
-mais aberto, um forte.
-
-Ora, justamente n'esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco.
-Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só
-ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar
-assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo
-mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia.
-
-Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle
-forte, n'aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio--e
-constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi
-por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava
-e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se
-sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como
-costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle
-tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse
-necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite
-desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima
-hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis,
-porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a
-reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e
-redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena
-mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O
-general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um
-destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o
-alarme atravez dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram
-o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.
-
-O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo,
-sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para
-castigar as tribus, uma sortida temeraria--que resultou numa tremenda
-derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram)
-e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção,
-por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de
-Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira--que os
-hespanhoes retomaram.
-
-Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas».
-Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança
-e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que
-não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha
-offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos
-donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha
-toda rompeu n'uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O
-reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa
-multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou
-a gritar: _Vamos todos a matar los moros!_ Foi um delirio. E a Hespanha,
-enthusiasmada, lá vae para a guerra!
-
-E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com
-um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia,
-migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a ruina--porque
-as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil homens aguerridos, de
-incomparavel bravura, com espingardas Remington, e tendo por couto as suas
-serranias inaccessiveis. Para vencer esta formidavel guerrilha--é
-necessario uma expedição pelo menos de trinta mil homens, que têm de ser
-alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha areaes. São as finanças
-hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É ainda o perigo de
-complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a penetrar no
-territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do sultão de
-Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França, da Italia,
-que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras coloniaes, ou
-por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse vasto e rico
-sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, pelos seus
-perigos, a antiga e classica questão do Oriente.
-
-Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a
-ser quebrada, seria de certo por causa d'esse terrivel Marrocos. E a
-Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela,
-uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas
-finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa?
-Foram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de Hespanha--e
-ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha sublimemente.
-
-Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre
-arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do
-Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser
-interessantes...
-
-E assim, em pleno seculo XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz
-contra o Crescente, e a Hespanha na sua antiga e laboriosa occupação
-de _matar los moros._
-
-
-
-
-XII
-
-
-O SNR. BARTHOU--A «ANTIGONE» DE
-SOPHOCLES—-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE.
-
-
-Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de
-ministerio. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de
-substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras
-discussões, na camara nova, descollou estes pedaços heterogeneos de poder
-executivo. Immediatamente porém se manufacturou outro governo. E a unica
-feição d'esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter apparecido de
-repente, e por motivo d'ella, um homem de Plutarcho.
-
-Este homem é o snr. Barthou.
-
-É necessario reter este nome--Barthou--porque elle representa um justo.
-A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e dá logar a
-equivocos lamentaveis, quando se trata de homens e de cousas
-parlamentares.
-
-Quem é o snr. Barthou?
-
-Um politico, e portanto um ambicioso. Além d'isso um intelligente e um
-ardente.
-
-E que fez o snr. Barthou?
-
-O snr. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia
-constitucional:--convidado, n'esta nova organisação de ministerio, para
-secretario de Estado das colonias, recusou.
-
-E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes
-em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque
-(segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores,
-nem pela experiencia, a tomar conta d'essas funcções». Conhecem alguma
-resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um
-ambicioso que se nega a entrar n'um ministerio por não se considerar
-competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo
-da administração--é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que
-nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente
-suppôr que existisse algures, n'esta Europa politica e parlamentar, um
-bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do
-seu gabinete, fumando a _cigarette_ do poder, as colonias do seu paiz!
-
-No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado
-um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n'esses tempos
-deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o
-cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua
-incompetencia. El-Rei porém mandava--e o cabelleireiro, com as mãos ainda
-gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando Filippe II
-de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da _Grande
-Armada_, que partia a conquistar a Inglaterra--o pobre duque escreveu ao
-seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e
-cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia
-commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr'olho e ordenou ao duque
-que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado--e todos sabem a boa
-conta que elle deu da _Grande Armada._ Para evitar esta deploravel
-confusão das profissões--se fez a revolução de 89. E d'ella surgiu então
-essa classe de politicos, possuidores de aptidões universaes e de sciencia
-universal. Todo aquelle que, por gosto ou necessidade, se incorporava
-n'essa classe, parecia receber logo do Espirito Santo o dom de tudo
-conhecer e de tudo poder. O medico largava as suas lancetas e ia,
-absolutamente seguro da propria capacidade, confeccionar codigos. O
-folhetinista arrojava a penna, empolgava a espada, e lá partia, com uma
-soberba confiança, para o ministério da guerra a reorganisar os exercitos.
-Nenhum jámais hesitára. E tal que duvidaria, por causa da sua
-inexperiencia, acceitar a administração de uma horta de couves--estava
-prompto, soberbamente prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e
-commercio.
-
-Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar
-ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos
-certos de que, tocado de uma luz divina, da _lingua de fogo_, como os
-apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir,
-sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e
-indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou
-commandar frotas.
-
-A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel
-confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos
-anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo!
-como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que
-tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao
-contrario d'este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?
-
-Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente
-honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga
-suspeita entre nós outros, os governados.
-
-Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do
-universal saber--é bem possivel que outros muitos tenham encontrado da
-parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom divino.
-E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante
-os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós mesmos, olhando
-de revez o galhardo moço na sua ascenção:--«Diabo! será este maganão um
-Barthou--que se calou?»
-
-
-Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece,
-interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no
-Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d'este
-Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o
-seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os
-Persas nas margens do Eurymedon:--e ahi o temos ainda, depois d'estes
-vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que
-fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo
-a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças,
-quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu
-pae, que era um simples fabricante d'armas, desenrolava verso a verso,
-nas taboinhas enceradas, á sombra d'alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo,
-Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os
-lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d'essa vetusta matta, convertida
-ella, por seu turno, n'uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as
-noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: _Bravo,
-Sophocles!_ e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de
-Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber
-onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia--e que quando já
-não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores
-notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames
-dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella
-collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles.
-
-Esta _Antigone_, que agora se representa no Theatro Francez, foi para
-Sophocles a peça mais rendosa--porque valeu ao poeta ser nomeado general
-ou _stratege_, como os gregos diziam, n'uma expedição a Samos. Singulares
-_direitos d'auctor!_ E singular povo que recompensava a belleza de uma
-tragedia com o commando de uma esquadra! Mas servir a cidade, ganhar a
-Athenas uma batalha, era, n'esses tempos de civismo heroico, a mais
-esplendida, a mais nobre das tarefas humanas;--e não se podia dar melhor
-recompensa a um grande porta do que fornecer-lhe a possibilidade de se
-tornar um grande cidadão. De resto Sophocles era soldado: já se batera em
-Salamina, onde tambem combatera o velho Eschylo.
-
-Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a
-assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação
-occidental.
-
-E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em Salamina--mas
-como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio lyrico foi escolhido
-para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos e danças, celebraram
-durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos salvou a todos nós,
-homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes, e talvez persas!
-
-Pois a _Antigone_ continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os seus
-herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança todas
-as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para a sua
-gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este dramaturgo de
-Athenas continue a enriquecer os outros.
-
-Deixemos porém a _Antigone_ e Sophocles--porque, das peças representadas
-em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é _Os Reis_ (Les
-Rois) de Jules Lamaitre.
-
-Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma
-historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma
-historia da revolução do Brazil--da outra, da antiga, da que derrubou o
-Imperio.
-
-Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do
-palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia
-absoluta, com 38 milhões de vassalos:--mas esta sala não apresenta mais
-luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica. A
-primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias
-estão em deploravel decadencia:--mas dentro em breve se descobre que as
-colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram
-arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as _toilettes_ de Mme
-Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.
-
-Pela porta nobre d'esta sala desguarnecida entram dous senhores, de
-casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem
-da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania,
-Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados
-Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do Brazil,--que
-aqui na peça e na Alfania tem o nome de _Republica das Cordilheiras. O
-ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e hespanholesco de Alvarez!
-Muito jovialmente e não sem malicia, este ministro Alvarez começa a contar
-ao bibliothecario (de quem foi condiscipulo no collegio Stanislas em
-Pariz) as suas attribulações diplomaticas.
-
-Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes
-que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei
-Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de
-resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um
-autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e
-de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da _Cordilheira_
-expulsasse um velho imperador tão magnanimo e tão paternal.
-
-E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte
-para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana
-mais repassada de bons sentimentos monarchicos!
-
-O povo da _Cordilheira_ não detestava, antes amava o seu imperador. Mas
-quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio--e constantemente
-percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua sciencia das
-linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias. Ora um povo que
-não se occupa de philologia não gosta de ser governado por um philologo.
-Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu throno o seu banco
-do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a cobrir-se de pó--e
-o imperador sempre em França, no Instituto a esmiuçar raizes hebraicas.
-Além d'isso, aquelle imperio da _Cordilheira_ desmanchava a harmonia
-republicana da America do Sul. O quê! todos os paizes em redor usufruindo
-as venturas da republica--e só a _Cordilheira_ sobrecarregada com
-uma monarchia e uma côrte! Era discordante.
-
-De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de
-bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito,
-toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e
-naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor
-(um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu
-velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a
-Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera
-n'esta separação.
-
-Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas--o
-imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez
-do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios
-de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que
-o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez,
-tão amavel--e no fundo tão monarchica!
-
-Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos _Reis_, esta
-risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou
-muito pela felicidade d'este funccionario. Mas apenas elle terminara a
-historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz--entra
-toda a côrte de Alfania.
-
-É que estamos n'um consideravel momento historico. O velho rei d'Alfania
-vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga d'aquella
-corôa secular. É que já não comprehende o seu povo--e receia que o seu
-povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra simplesmente
-o pastor muito solicito d'um rebanho muito manso. Agora, porém, sob o
-seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova sciencia de
-governar homens, e não carneiros, elle, rei d'outras eras, não a possuia.
-Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse não só é
-novo pelos annos--mas é novo pelas ideias. Principe de direito divino,
-foi todavia educado n'outros tempos, por outros livros--e conhece os
-direitos humanos. Todas essas liberdades estranhas que o povo da Alfania
-reclama (liberdade de voto, de imprensa, de associação, de reunião, etc.)
-e que ao velho Christiano parecem horrendos attentados contra a sua
-auctoridade real, são para este bom principe Hermann aspirações legitimas,
-que deverão ser satisfeitas com uma generosidade prudente. De sorte que,
-com este novo povo da Alfania, tão differente do velho rebanho gothico,
-e já hoje cheio de theorias, e meio revolucionado, melhor se entenderá o
-principe novo do que o rei velho. E Christiano XVI abdica.
-
-Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua
-branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes--emquanto o
-chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da
-Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem
-não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem
-resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco
-e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann
-regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios.
-E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da
-Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do
-Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe
-Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação
-democratica:
-
---Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes!
-
-Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei
-d'Alfania. O pobre Christiano suspira--e Alvarez parece bem contente.
-
-Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do
-theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar
-para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um
-pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos
-conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual.
-
-O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já
-deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento
-e uma carta constitucional.
-
-O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna,
-no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino
-que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas
-contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel.
-Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda
-a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da
-capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos
-politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação
-nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte
-alegremente a manifestação--porque (como elle diz) se o suffragio
-universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de
-consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e
-está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser
-consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom
-Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o
-superfluo dos ricos:--mas como essa liquidação social não é possivel
-immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle
-necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a
-manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e clamorosa.
-
-No palacio reina o terror.
-
-Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros
-e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos, duvidam--tanto
-mais quanto a manifestação é capitaneada por anarchistas que estavam
-presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo amnistiou com enthusiasmo.
-E com effeito não tardam as más noticias. Os manifestantes arvoraram a
-bandeira negra. Já aqui e além houve conflictos--e as tropas foram
-apedrejadas. E eis que agora a enorme massa popular avança sobre o
-palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente. Que póde receiar, elle, que
-ama tão ardentemente os pobres, e que é na verdade o rei dos pobres? O
-povo avança sobre o palacio? Pois que se escancarem, bem largas, todas as
-grades dos jardins, que o povo entre, porque o seu rei alli está que lhe
-estende com amor os braços. E elle mesmo abre as janellas--por onde
-penetra um longo, sombrio e suspeito tumulto de brados.
-
-Mas eis um ajudante de campo annunciando que a turba está em plena
-revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que
-espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que elle
-o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vae elle proprio,
-socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social?
-
-Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a
-apedrejar as janellas do palacio. Já uma pedra ia matando o principesinho
-real, uma pobre creança doente, nos braços da sua governante. Hermann
-afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae
-sobre elle uma saraivada de calhaus. E não são já sómente calhaus--são
-tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está
-sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah
-Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann,
-supplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As
-tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para
-carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, n'uma agonia,
-gritando sómente:--«Oh! os brutos, os brutos, que não comprehendem!»
-
-Outro ajudante. A revolução triumpha! Vae acabar o reino secular da
-Alfania! Já o povo quebra as portas do palacio. Em pouco aquella rica
-cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda
-intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general!
-Hermann, n'uma voz de moribundo, murmura:
-
---O seu dever de soldado!
-
-E cae n'uma cadeira, aniquilado. Fóra ha um lento rufar de tambores. É o
-primeiro e lugubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre
-ella rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janella, grita:--«Não!
-Não!»--É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o horrendo
-clamor dos gritos. São os que morrem!
-
-Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ella a corôa. Um official
-apparece, todo pallido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que
-cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta
-por entre lagrimas:
-
---Mulheres mortas?
-
-O official murmura:
-
---Muitas.
-
-Creancinhas?
-
---Tambem...
-
-Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos
-cravados no tapete. É que está vendo n'elle, cobertos de sangue, os
-pedaços do seu bello sonho humanitsrio, que se despedaçou. Elle é o
-primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e
-o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas
-as satisfações sociaes, se vê forçado pela logica terrivel das cousas a
-erguer-se deante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o
-seu povo--o que nunca succedera na velha Alfania, quando o povo era um
-rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus
-velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue.
-
-A scena é verdadeiramente bella--e pela apparição da Fatalidade, esse
-grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das
-leis sociaes, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou
-Sophocles. Depois o drama acaba mediocremente n'um desastre d'amor, que
-é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a
-ver Alvarez.
-
-Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que elle se dedicasse
-a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de compor e
-mandar ao seu governo um relatorio instructivo mostrando, pelo exemplo
-Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das theorias, um
-regimen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito, para lançar
-a nação n'um caminho incerto e escuro onde ella vae cambaleando atravez do
-descredito, da desordem, da ruina e da guerra.
-
-Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia.
-
-
-
-
-XIII
-
-OS ANARCHISTAS VAILLANT.
-
-
-Desde que nos não vimos, caros collegas e amigos, este velho mundo foi
-de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant.
-
-Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já classica
-e quasi symbolica de Ravachol; nem fez tambem a devastação mortal da bomba
-hespanhola do theatro de Barcelona.
-
-A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns velludos de poltronas e
-pedaços de estuque dourado; e o unico ferimento perigoso que causou (e
-hoje curado) foi o de um primo intellectual do anarchismo, d'um socialista
-neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso
-que as de Ravachol ou a dos hespanhoes, porque, pela primeira vez, a
-sociedade sentiu a temerosa dynamite arremessada contra um dos seus
-grandes orgãos vitaes, contra o centro regulador das suas funcções, contra
-o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir predios ricos, como
-sendo as fórmas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então
-burguezes abastados, no acto de gosarem um luxo que offende especialmente
-a miseria--o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com imprevista
-audacia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». N'uma republica
-parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant verdadeiramente
-commetteu um regicidio. E não ha crime que impressione mais do que o
-regicidio, porque n'uma sociedade onde se não eliminou inteiramente a
-ideia de que o chefe é pae, elle participa da natureza do parricidio.
-
-De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito.
-No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna,
-Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de
-uma caixa de lata, que bale n'uma columna, estala no ar antes de cahir.
-Densa fumarada, gritos, terror, tumulto--e immediamente, tambem, entre os
-deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco affectada, que
-é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser
-invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta.
-Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham--e as salas das commissões
-são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á pressa de
-um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses feridos ha
-um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu
-endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. É conduzido
-ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da cama, e
-começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre anarchistas e
-fabricação de bombas. O ferido, por um d'esses impulsos de vaidade bem
-franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) alardeia logo
-o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com os processos
-empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os hombros, negam
-a sua competencia. E o homem irritado com a contradição termina por
-gritar:
-
---Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E agora
-não me massem mais, que quero dormir.
-
-Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á morte--por
-um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e sobretudo no seu
-bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem francez e bem
-humano.
-
-
-A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo
-dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um
-principio pela violencia--são tambem dous actos absolutamente inuteis.
-
-N'um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou
-motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo
-pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia.
-Ha depois o appetite morbido da celebridade--como o prova o facto de
-Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n'uma
-attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de
-applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e
-capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos
-proletarios, decretou a destruição d'essa sociedade. Só este lado sectario
-do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque,
-pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant
-realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).
-
-Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão,
-preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da
-sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes,
-e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba--e supponhamos
-que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata os seis
-ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio do
-parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao
-proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade
-escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror,
-uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e
-a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa
-sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa
-em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido,
-nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse
-novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma
-data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara
-desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos.
-Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão
-prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.
-
-O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio
-enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias,
-como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições
-mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo
-a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande
-apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres
-soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões,
-e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter
-perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo,
-só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas
-viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio
-insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria
-ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da
-classe já desagradavel dos _martyres da liberdade_, a classe, ainda mais
-desagradavel, dos _martyres da auctoridade._ De sorte que estas bombas
-arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destructivos
-que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada sciencia, nunca
-passariam, relativamente á força e estabilidade d'essa sociedade, de actos
-impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão lançadas contra uma
-muralha.
-
-A isto replicam os anarchistas:--«Assim é, mas nós não pretendemos
-destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n'este
-caso, _aterrar?_ Significa provar, pela experiencia d'uma pequena
-destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar
-á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor
-de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil
-dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam
-essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d'ellas
-pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo,
-os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu
-exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar
-de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes
-de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna
-inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema.
-
-O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era
-assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre
-o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por
-isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres,
-prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias
-tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e
-auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas,
-por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão
-lamentavel desperdicio de energia heroica.
-
-Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é
-impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade
-burgueza--a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente para
-supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, inspiradas
-por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo cumprido porque o
-criminoso fica castigado; mas a esperança não se realisa, porque nem os
-anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou mais timidos os seus
-assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está demonstrado, e pela
-propria policia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde as
-primeiras repressões, o numero dos anarchistas tem crescido na proporção
-formidavel de _um_ para _mil_; e emquanto que a primeira bomba foi lançada
-contra um simples predio, a ultima é já arremessada contra o proprio
-parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está
-organisado em seita.
-
-E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n'uma
-religião (ou, se quizerem, n'uma heresia) em que o odio de certo é ainda
-um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e
-dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de
-propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que
-bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de
-morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente
-material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a
-cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não
-attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força
-de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita
-fica desorganisada, desconjuntada:--mas para immediatamente se reorganisar
-além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de padecer uma
-perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso de crear
-martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue de
-martyr, sobretudo quando cahe n'um solo tão preparado para que ella
-fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á
-exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades
-dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o
-que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de
-anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d'esses milhares de operarios de
-coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira
-redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa
-ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz
-matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N'uma tal reunião, onde
-cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma
-mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d'alli a
-fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir
-o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos
-soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas
-presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um
-jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os
-mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas
-imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem
-já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam
-escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão
-anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o
-caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol--a _Ravachole._
-E cada coração anarchista lhe é um altar.
-
-As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe
-communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando
-a sociedade mata os anarchistas--é a sociedade que fabrica as bombas.
-
-A violencia não cura--e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é uma
-exacerbação morbida do socialismo.
-
-O germen e os desenvolvimentos d'esta doença não são difficeis de
-precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro
-de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de
-felicidade, não já n'esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena,
-mas a outra vida, para além da campa, como lh'o recommendava a Egreja, sua
-mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que
-reservava para os pobres o reino do céo.
-
-N'este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media
-que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora,
-começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos
-do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n'este mundo, e
-sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media,
-bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as
-instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade
-das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos
-covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas
-innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios--e
-expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades
-politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar
-essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de
-setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da
-monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e
-invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de
-associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado
-e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de
-viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A
-felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos
-politicos (liberdade d'isto, liberdade d'aquillo) continuava, como no
-antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o
-direito de voto não o aquecia--e á hora de jantar, a liberdade de imprensa
-não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu que,
-apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade
-a ser servo--e que o seu novo amo, o burguez capitalista, era muito mais
-exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o fidalgo
-perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções
-tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera as armas
-na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento esforço
-só servira para entregar o poder á classe média, que se aproveitava d'esse
-poder, não para dar ao proletario dentro do novo regimen a sua legitima
-parte de bem estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a
-colera, e fazel-o esfalfar para o seu enriquecimento material, como o
-fizera combater para o seu engrandecimento politico!
-
-A decepção foi tremenda--e tremendos o odio e desejo de vingança contra
-o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou mais
-legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e
-derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade nova,
-mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por causa do
-regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do regimen
-economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas chimicas, dos
-excessos de producção, da concorrencia de todos os progressos do seculo,
-realisadas só em beneficio da classe media, e cada vez mais tendentes a
-separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os pobres e os ricos,
-attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra todas as fadigas.
-Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado na Republica, o
-socialismo.
-
-Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais
-violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e
-estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e
-concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi
-pueril, porque não attinge o mal! Associações, _trade unions_,
-barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio
-social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc.,
-etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são
-tigellas d'agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios
-traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario
-extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de
-Estado.
-
-O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e todavia
-por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas
-quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias,
-de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é
-fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um
-radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos
-são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito,
-ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser
-destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a
-absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente
-impregnada d'esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu
-principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou
-melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella
-conterá sempre em si o virus horrivel:--o principio do direito, do Estado,
-da auctoridade!
-
-A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando
-e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes
-que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde
-Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se
-empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado
-os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma
-classe mais especial e odiosamente criminosa--a classe dos ricos, que foi
-quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos moraes
-e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a causa
-de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e responsavel
-do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da protecção das leis
-é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se
-priva de apanhar uma flôr n'um jardim publico é já uma cumplice da
-sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella concorre para que
-se perpetue o despotismo do regulamento. É pois necessario destruir
-tudo,--e atirar indiscriminadamente a bomba redemptora contra as classes
-exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra
-a cidade onde se realisa a exploração, contra as proprias creanças que
-nascem, porque ellas já trazem em si o virus da submissão exploravel.
-
-Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo.
-
-Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos
-os symptomas d'uma allucinação morbida. Não ha n'ella proposição que não
-seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende
-ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação
-social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as
-miserias, é iniqua.
-
-Partindo do facto d'esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa,
-logo que d'elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar.
-Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do
-direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê
-ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O
-anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por
-um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a
-organisação da sociedade--mas que depois, ou impaciente d'esse lento
-caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d'uma natureza desequilibrada,
-deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e
-cabriolando através d'uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente
-em praticas d'uma ferocidade selvagem.
-
-Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação
-morbida do socialismo.
-
-Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e
-tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia
-de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil?
-O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter
-achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é
-que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos
-anarchistas.
-
-Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem
-dous motivos:--um extremamente nobre e honroso, que é a nossa
-philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro,
-extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por
-tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e
-do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem
-secretamente e sinceramente sympathisamos:--um é o desgraçado, que
-padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a
-sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias
-e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem
-nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d'estes
-dous homens nos interessamos mais--se por aquelle que sensibilisa o nosso
-coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente, qual
-nos emociona mais--o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro.
-
-Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação,
-em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando
-a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a
-quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as
-classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando
-com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito
-contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de
-diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes
-truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a
-destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe
-cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para
-que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes
-estados d'espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação,
-do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma
-cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na
-camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era
-em extase:
-
---Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é bello!
-
-«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração,
-esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime
-anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar
-voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do
-gesto de Vaillant--a belleza d'aquelle braço magro que se ergue
-lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado.
-Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N'uma
-sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d'arte, uma revolta
-social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica,
-a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os
-poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que
-elle é tambem estheticamente bello.
-
-Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo
-estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam
-ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal
-disfarçada benevolencia, são unanimes n'um ponto:--em os cercar da
-mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande
-homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram
-na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz
-de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida.
-
-Se é anarchista, se lançou a bomba--é d'elle a fama universal, que nem
-sempre conseguem os santos e os genios.
-
-Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz
-a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de
-astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o
-que disse, o sobr'olho que franziu--tudo foi miudamente e clamorosamente
-contado ao mundo com um calor em que a propria indignação tinha não sei
-que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma verdadeira
-celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado, do que
-escrever a _Lenda dos Seculos._
-
-Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tomado
-mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que
-contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios;
-declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade
-picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela
-imprensa--como não ha-de o anarchismo alastrar n'essa proporção temerosa
-de um para mil?
-
-Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se
-estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da
-falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o
-Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis
-ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua
-indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os
-artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo
-se desinteressasse d'elle como de um banal partido politico; e que a
-imprensa o envolvesse em um silencio regelador.
-
-Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre
-que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude
-intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que
-elle se separa em um momento de delirio.
-
-Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil)
-nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos
-de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba
-anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação
-definitiva do trabalhador. Além d'isso os anarchistas que até agora têm
-lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um
-crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é
-n'elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de
-perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social,
-seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que
-surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer
-d'elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo
-pavor--é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual.
-
-Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a,
-isolal-a--não crear em torno d'ella, por curiosidade depravada d'um mal
-original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d'admiração litteraria,
-de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a novidade do
-seu arrepio.
-
-Toda esta larga aragem de favor é um crime--porque animando
-indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a
-obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada
-pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.
-
-Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos,
-as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem)
-sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d'aquellas que aqui
-estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são
-bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres
-que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com
-convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos
-affirmar sinceramente é que--cá e lá más bombas ha.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-OUTRA BOMBA ANARCHISTA--O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.
-
-
-As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada
-no café _Terminus_ e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente
-na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo
-depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que
-alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na
-primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais
-desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a
-colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada,
-dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas
-formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade
-sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram
-então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que
-estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as
-estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam
-as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de
-pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se
-manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á
-casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem
-se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para
-conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber
-technico da administração urbana e rural.
-
-Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas
-e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se
-commova ou trema pela sua estabilidade.
-
-É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras
-bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca
-demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo
-para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse
-temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos
-formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos
-espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um
-Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu
-cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas
-do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o
-medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o
-habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a
-ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro
-d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de
-vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do _grisou_ no fundo das
-minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais
-repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião
-tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas
-que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres,
-e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de policia.
-
-É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão
-systematica de todos os anarchistas.
-
-Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios.
-Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios,
-a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a
-quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de
-sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste,
-livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de
-glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o
-anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e
-methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na
-vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta
-encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os,
-estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um
-registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.
-
-Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam
-as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados.
-Indubitavelmente é uma dura lei;--mas vem de uma dura necessidade. Era
-realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico homem
-não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o filho, sem
-correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de pontas de
-pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o anarchista é
-com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso anarchismo
-está para o socialismo, como estavam para o christianismo nascente os
-montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que prégavam o amor
-livre, e os circoncellios que prégavam a destruição universal, e tantos
-outros, extravagantes e terriveis. Todos esses hereticos, tortulhos
-venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão deturpar e desacreditar
-a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra regeneradora, e attrahir-lhe
-perseguições sangrentas. Eram por isso ainda mais odiados pelos bispos
-christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando sobre elles cahia a lei
-do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do genero humano, havia
-tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de Jupiter.
-
-Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja
-o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que
-lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças
-abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada,
-ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada
-simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo
-lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia
-publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario
-perdido.
-
-Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado,
-não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.
-
-
-Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas
-lettras francezas um grande personagem--quasi devia dizer, dada a
-qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando
-o velho Buloz foi exilado da _Revista dos Dous Mundos_, por ter amado
-fóra da _Revista_, e com uma especie de amor que a _Revista_ não
-permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou
-para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr.
-Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual,
-das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa
-missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve
-acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons
-espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director
-da _Revista_ e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr.
-Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a
-_Revista_) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para
-consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o
-snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o
-throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se
-omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde
-elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e
-explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu
-conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua
-gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes
-recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das
-Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um
-professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo,
-forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou
-enthusiasmos.
-
-Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima,
-tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto
-significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e
-núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está
-creando um proverbio parallelo--«Só a grande professor, grande berreiro».
-Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu ensino ha
-indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um mestre.
-
-Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière,
-todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no
-seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e
-os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas
-grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e
-outros males.
-
-Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de
-profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só
-a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os
-auctores--quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina agora na
-Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar ditoso de
-lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua educação
-classica? Eu, na minha mocidade, folheei os _Sermões_ e as _Orações
-Funebres_; mas não cheguei a penetrar, como devia, no _Discurso sobre a
-Historia Universal._ E desde então, desgraçadamente, não logrei ainda um
-momento para absorver a theoria do grande bispo sobre a serie dos tempos,
-das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a pagina classica, tão
-magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de Augusto e a belleza
-e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer Jesus. É pouco. Mas
-se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser censurado o ignorar quasi
-inteiramente o seu apologista.
-
-Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para
-as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros
-de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o
-numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em
-que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu
-desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo
-do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não
-sinta--e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas dobras
-das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil particularidades
-indefinidas, n'esse _não sei que_ que lhe habita as fórmas e que faz com
-que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a appeteçamos, e a
-colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico entre flôres. Que lhe
-dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, lhe collocará um
-rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, desfiará as qualidades
-que revelou n'esse genero, exporá as influencias de raça, e de meio, e de
-momento historico que concorreram para o desenvolvimento d'essas
-qualidades, etc., etc. Será superiormente erudito--e só lhe faltará o
-sentir, pelo gosto, esse _não sei que_ de intimo que constitue a belleza
-ou a grandeza do poeta. O snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de
-resto esta comparação não lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que
-recentemente, ao que parece, mais se têm applicado a introduzir nas
-sciencias moraes o methodo das sciencias naturaes, e a considerar as obras
-humanas, e sobretudo as obras de litteratura e de arte, como productos de
-que a critica e a esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar
-as causas. Isto desde logo o torna para mim um critico extremamente
-respeitavel e pouco sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico
-que me possa explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que
-sinta palpitar o coração quando lê as _Noites_ e a _Carta a Lamartine_,
-ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se
-enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o
-gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e
-arrumadores de generos, que Carlisle chamava os _resequidos._
-
-Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um inflexivel,
-todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o amollecer
-e lubrificar, d'aquelle _leite da humana bondade_ de que falla outro
-inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do snr.
-Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com este
-homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado suspeito, ao
-approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu discurso de
-recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, contra os
-jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e d'um modo
-bem imperfeito, uma especie de jornalista.
-
-
-O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua
-bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser
-superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel
-somma de defeitos.
-
-Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos
-juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos,
-está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o
-mundo--e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente
-monstruosidade!
-
-A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado,
-nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe
-attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções
-diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições
-funccionaes. O _Times_ e outros jornaes inglezes, riquissimos e possuindo
-toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as materias,
-desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as questões
-occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber e muita
-experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, e que
-só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde todos
-herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi sacrosanto da
-vida intima,--os jornaes não são bisbilhoteiros, nem abusam
-indiscretamente da reportagem miuda.
-
-Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na
-America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes
-defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como
-pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os
-tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo
-mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes
-defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico,
-com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se
-tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.
-
-Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e
-leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso
-tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os
-seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como
-no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e
-natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais
-methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos
-deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho
-de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para
-louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem
-factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos
-contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em
-litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além
-uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho
-Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica
-inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras.
-Principalmente para condemnar--a nossa ligeireza é fulminante. Com que
-esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se trate
-d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um genio!» ou:
-«É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas ainda assim,
-quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á benevolencia
-risonha, tambem concedemos promptamente, e só com lançar um olhar
-distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola de luz.
-
-N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em
-Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu
-momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar
-sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou
-collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos
-promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto
-uma opinião cathedratica.
-
-E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do
-facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os
-nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por
-um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez
-funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um
-coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por
-homens côxos»--illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas
-opiniões.
-
-E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece
-cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de
-juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre
-o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que
-entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo
-o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma
-crise do Estado, ou sobre o merito de um _vaudeville._ Como exemplo
-picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem
-commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos
-bocados de telegrammas truncados--senão receiasse entrar em um caminho
-escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos
-collegas do _Paiz_ e do _Tempo_, armados da sua ferula.
-
-Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista encarregado
-no _Figaro_ de criticar cada dia os acontecimentos politicos da Europa,
-e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a situação economica
-de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que «em Lisboa os
-filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregavam como
-carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam receber as
-soldadas _pelos seus lacaios!_» Estes herdeiros das grandes casas de
-Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no caes da
-alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir receber
-o salario--fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois quem o traça
-é o _Figaro_, um dos mais considerados jornaes de Pariz, e um dos que têm
-um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia está a dois
-dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e meia de
-Pariz--e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre a Inglaterra,
-e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o _Figaro_
-descrevia as occupações da nobreza de Portugal.
-
-Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê
-constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E
-quando se tem como usual alimento do espirito o _Figaro_ e consortes (e
-é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados)
-facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os
-homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por
-humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum,
-comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière--um juizo ligeiro, nascido
-de impressões fugidias.
-
-
-A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da
-bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.
-
-Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica,
-sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande
-abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos
-reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu
-regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos
-terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a
-personalidade do auctor de _Germinal_, e, através d'ella, explicar a obra.
-Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois que do
-feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito bem diz
-Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se exerce,
-não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções do
-pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde as
-_cocottes_ até aos _jockeys_, e desde os _dandies_ até aos assassinos,
-succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em nada para a
-documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o
-desenvolvimento da vaidade.
-
-O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana.
-Em todos os tempos houve vaidosos--e não querem de certo que eu
-estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado
-cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo
-muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a
-folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano.
-Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso,
-o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de
-alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo
-se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.
-
-E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque
-foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém
-através do jornal.
-
-«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal--eis hoje,
-para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a aspiração
-e recompensa supremas.
-
-Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o
-favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar
-o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas,
-os homens praticam todas as acções--mesmo as boas. Não é mesmo necessario
-que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o nome, a
-personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um brilho
-mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não esteja
-devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no mundano,
-no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que parecem
-preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, n'estas
-semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, pregar
-nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e
-creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin,
-e _interviews_ nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, com
-o habito do grande S. Domingos, exposto entre _jockeys_ illustres e as
-cancanistas do _Moulin-Rouge._ É esta esperança do «artigo do jornal»,
-que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as ideias--e
-para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as mulheres se
-deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e os artistas
-se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam theorias
-mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda
-sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a frente,
-quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, para que o
-jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure boquiaberta:--_Ah!_
-
-Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de
-moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo
-aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo--e estou mesmo
-prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito,
-tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres,
-para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!
-
-Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos
-costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière
-contra a imprensa--a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por pura
-humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista,
-confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro
-impenitentemente.
-
-Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu
-_mea culpa_ e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso,
-queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente
-apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua
-superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os
-tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae
-copiosamente larga--e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os meus
-jornaes com delicia.
-
-
-
-
-XV
-
-
-AS «INTERVIEWS»—-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»--A MONARCHIA ITALIANA--O
-QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA--A SINCERIDADE E O OPTIMISMO
-OFFICIAL.
-
-
-Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos
-prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue
-_interviewar_ um rei.
-
-(Este vocabulo _interviewar_ é horrendo, e tem uma physionomia tão
-grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que
-exprime. O verbo _entrevistar_, forjado com o nosso substantivo
-_entrevista_, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido.
-_Entrevista_, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico
-de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso,
-ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos
-velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente,
-portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para
-fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e
-berrantes. Mas _entrevistar_ tem um não sei que de surrateiro que
-desagrada--e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o poderia
-impôr. _Interviewar_, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar
-resignadamente este feio americanismo--já que os nossos idiomas
-neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas
-as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi no Brazil, amigos,
-possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por vezes geniaes.
-Fabricae um que substitua o _interviewar_ e sereis bemditos).
-
-E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação
-democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não
-parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito
-divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de
-Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o
-imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente,
-apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo
-são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar
-ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis,
-porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos,
-só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por
-todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a
-Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o
-ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os
-_reporters_, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam sobre
-as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.
-
-O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um rei
-constitucional que diz sempre--«o _meu_ povo... o _meu_ exercito... a
-_minha_ armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação,
-sanccionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde
-empregar legitimamente. Por toda a parte, fóra da Russia, da Turquia, (e
-d'algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si proprios,
-ou pelo menos conservam essa illusão, que lhes é preciosa; e os exercitos
-pertencem ao Estado, que deixou de ser identico com o rei desde que Luiz
-XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «_meu_ povo», de «_meu_
-exercito», que considerariamos singularmente improprias na bocca
-constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da
-Italia. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que
-de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em
-quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez
-elle seja apenas o primeiro magistrado da Italia:--para nós elle
-apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua
-qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da
-unidade italiana.
-
-Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados.
-Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde
-que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou
-a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca
-póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia
-ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão
-para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco
-da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a
-unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso
-que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse
-principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou
-Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades
-continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma
-litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens,
-mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo
-historico.
-
-Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na
-historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação,
-tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo
-construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual--a Italia todavia
-nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade permanece
-fragmentada em municipios e republicas, cuja existência, tempestuosamente
-agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie lacrimosa de
-martyrologios.
-
-O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima
-molecula social. As cidades vivem isoladas, n'um violento ciume mutuo,
-travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou
-proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como
-ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a
-cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda
-sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma
-sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal
-escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma
-lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas
-civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito
-da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára
-no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava
-indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos
-pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que
-estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente
-pelos papas, que se serviam d'elles para esmagar em qualquer dos Estados
-a menor tendencia á hegemonia, e através d'ella á formação de uma Italia
-unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um
-soberano temporal;--e para manter a sua independencia fomentava a
-desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas
-anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas
-qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da
-Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A
-consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada,
-retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em
-decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra
-fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão
-como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que
-não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas,
-jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e
-bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e
-patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do
-municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á
-Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as
-condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a
-soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos
-ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como _ré galantuomo._ Victor
-Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua voz
-é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico,
-ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente
-na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão
-que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a
-garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição
-impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das
-formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu
-filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d'esta prerogativa
-de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo
-constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga,
-não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia
-(se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario
-irresponsavel. Humberto não--e, para elle, _reinar_ ainda ha-de ser
-_governar._ E quando elle falle do _seu_ povo, do _seu_ exercito, a
-Europa não lhe contestará a legitimidade d'essas expressões autocraticas.
-
-Além d'isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente
-cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a
-governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no
-espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d'entre as sete
-collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se
-impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o
-senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d'esta supremacia que lhe é
-inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que
-politico.
-
-Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis
-interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante
-de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como
-ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos
-ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas
-intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas
-affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente
-constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os
-hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...»
-
-Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem,
-em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A
-difficuldade unica estaria na operação da sondagem--porque, apesar de se
-ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, os
-reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se
-apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o
-_Figaro_, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar
-subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos,
-realisou esta bella façanha--e interviewou o rei Humberto. E quando elle
-annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as
-declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as
-suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer
-emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos
-alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo
-mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de
-Italia, porém, é apenas o mandatario d'um povo, e d'um povo illustre nos
-fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O _Figaro_,
-barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E desde então
-ainda não cessaram, em tomo d'ellas, controversias que me espantam, e
-devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.
-
-Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com
-inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas,
-officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem
-conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de
-ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um
-governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus esforços
-tenderão energicamente a manter a _ordem_, favorecer a _moralidade_, e
-promover a _economia?_ Não ha possibilidade de que um governo se apresente
-gravemente ante o paiz, e pondo a mão leal sobre o coração sincero declare
-que vae fomentar a _desordem_, animar o _desperdicio_, e proteger a
-_immoralidade!_ Os cidadãos não acreditariam:--e esse governo, talvez
-veridico, seria escandalosamente expulso como farçante.
-
-Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente
-consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que
-corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto,
-de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito
-social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem
-de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos
-porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes
-ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas
-a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras
-phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os
-experientes sorriem, mas murmuram--«muito bem, muito bem!» E não
-tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que
-se preparava a fazer escandalos e prepotencias--como não permittiriam que
-elle n'essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se apresentasse
-nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta necessidade
-de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me pareceu
-incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com delicias
-cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do Sinai, e vae
-exclamando, radiante:--«Emfim, temos um governo, temos um homem que quer
-implantar a _moralidade_, garantir a _ordem_, promover a _economia_,
-etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos talvez os que se lançam sobre
-o programma e o analysam, o dissecam, tiram d'elle, por entre as linhas,
-esperanças ou receios, e discutem apaixonadamente cada uma das suas
-palavras sacramentaes como se fossem realidades vivas.
-
-Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga
-sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que
-elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem,
-só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era
-humanamente verosimil que elle franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em
-vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra...
-Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser
-inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir,
-mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito
-teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez,
-vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a
-guerra,--como que apparecesse em mangas de camisa.
-
-E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais
-significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo
-escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos,
-com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do
-Destino. Uns, d'aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê
-provas!...» Outros, d'além Rheno, clamam: «Haverá n'estas palavras
-de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o _Times_,
-ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos olhos leaes do
-monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um rei!...
-
-A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas,
-ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que
-póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela
-probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde
-responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela paz--ou
-se pende para a guerra e mortandade dos povos?
-
-
-De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão
-inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas
-necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia
-a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao
-mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e
-queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não
-presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade
-intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como
-de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em
-Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a
-almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve,
-percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com
-tradicional e humana ingenuidade:
-
---É bom este Chablis?
-
-O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um
-embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu seccamente:
-
---É uma peste.
-
-O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle
-homem veridico. Depois repercorreu a lista.
-
---Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc?
-
-O criado, muito serio, replicou:
-
---É horrivel.
-
-Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga
-e escura que o invadia:
-
---Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?
-
-O criado volveu, convencido e digno:
-
---Droga muito mediocre... Extremamente mediocre!
-
-O meu amigo tremia já, n'um positivo terror. Mas ainda balbuciou:
-
---Que hei-de eu então beber?
-
---Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é realmente
-detestsvel.
-
-Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as
-escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para
-uma tipoia e fugiu.
-
-Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante
-tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de
-si, n'aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de
-perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira,
-da ficção, da convenção--é bem humano.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-O «SALON».
-
-
-O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica.
-
-Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe
-do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o
-_Salão_, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade da
-sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só se
-apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo menos
-social, n'esta abertura do _Salão_, mesmo aquellas que no resto do anno
-vivem tão indifferentes e separadas das cousas d'arte como das cousas da
-theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia tradicionalmente
-consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, que tem o dom de
-reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma disposição festiva,
-todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que nunca pegaram n'um
-remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire de remar com pericia,
-mostram, e realmente experimentam, a mais excitada sympathia pela regata
-classica entre as universidades de Oxford e de Cambridge. E em Lisboa,
-mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, concorrem, no devoto 13 de
-junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos homens, andando hoje tão
-dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma vez por anno, n'um
-sentimento commum.
-
-Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous
-grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N'esse dia os
-artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:--e contemplar
-um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é um precioso
-regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha da
-Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para
-vêr Platão. No _Salão_, tal que apenas lança um olhar indolente ás telas
-de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio Bonnat,
-repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi
-indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão
-truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional,
-vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas
-festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita
-uma insaciavel curiosidade--como tudo o que, no bem ou no mal, pelo brilho
-ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano. E mal
-sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo proprio
-Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e estreito.
-
-Mas no _Salão_ ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa
-attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes--a das
-_toilettes._ Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as
-mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão,
-e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza,
-da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera,
-as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras
-d'arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas
-salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que
-os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao
-lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente
-como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela
-composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.
-
-D'estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e
-audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar
-um relêvo picante e divertido á _toilette_ e aos accessorios da
-ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade
-serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa,
-recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro
-do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como
-uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais
-illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas
-que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes,
-com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por
-uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão,
-calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o
-hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta
-que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam
-e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do
-bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama,
-tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia
-entre a multidão--e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e deixae-a
-passar.
-
-A outra senhora, ainda mais pittoresca, era enorme, transbordante,
-construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o
-pó d'arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas
-tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n'uma
-tunica diaphana, d'um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do
-campo de Portugal chamadas _botões de ouro_, e feita certamente d'aquelle
-antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua
-transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz
-e vento.
-
-Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem
-amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda,
-de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh'a
-enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente
-a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello.
-Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que
-mais me impressionaram n'estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz
-continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo
-perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia
-positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas
-costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos
-inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis.
-
-
-Emquanto ás outras obras expostas no _Salão_, os quadros e as estatuas,
-a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por via
-d'ellas (_mirabile dicta!_) mais uma vez reconheci quanto é facil
-governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de
-temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos
-democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre
-exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da
-estructura publica.
-
-Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica,
-que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por
-ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos
-theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles
-possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse
-ou por convicção, a que só ella prevaleça.
-
-A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas,
-apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.
-
-Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem justamente
-por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos
-entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto
-tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá
-a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso
-para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que,
-apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem
-desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma
-d'essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d'uma
-orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva,
-tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um
-erro--e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao _Salão_,
-no dia da sua abertura, quando em materia d'Arte cada cabeça, depois de
-ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua sentença. Se
-tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam que o
-servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por mais
-que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe
-ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto,
-por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o
-direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio,
-a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se
-erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a
-humanidade é gado--e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender
-para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.
-
-Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de
-tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da
-indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita
-alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam,
-no _Salão_, a curiosidade e a admiração do publico.
-
-Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de
-seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam
-arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico,
-ou antes o Guia Critico, do _Salão_, publicado pelo Jornal, lhes
-indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes
-deviam parar, e fazer _ah!_ e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só
-o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a
-emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatoria
-que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o
-jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela,
-recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um
-adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus
-teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina
-mental.
-
-Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas
-para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista,
-symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão
-um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se
-entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos
-Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade
-de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia
-philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses,
-e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de
-Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura,
-divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.
-
-Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas
-faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias
-innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a
-abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo
-uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando
-a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando
-tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias
-innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje
-amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem
-valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do
-pensamento.
-
-É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua
-melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan,
-a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que
-raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres
-revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra
-e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver
-conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião,
-espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe
-indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve
-exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do
-_Figaro_, ou se trate d'um _vaudeville_ e o Ulema seja Sarcey,
-do _Temps._
-
-D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem
-verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não
-chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra
-redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle
-está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em
-factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais
-rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero,
-intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome
-de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que
-determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades
-parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio
-de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois
-livres!»--e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes,
-obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem
-pensar mais e sem mais querer, porque a _palavra_ essencial foi dita,
-elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer
-e para pensar por elles.
-
-
-De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem
-iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar.
-Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser
-louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços
-são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no
-famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se
-sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões
-estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia
-outr'ora a Voltaire:--«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me
-sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:--e que, se já
-era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo XIX! Para
-ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas d'arte, é
-necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de
-trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige
-viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento
-particular do espirito? Os proprios ociosos não têm tempo--porque, como se
-sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses,
-os negocios, a loja, a repartição, a familia, a profissão liberal, os
-prazeres não deixam um momento para as exigencias de uma iniciação
-artistica:--e n'uma cidade de dous milhões de almas, como Pariz, ha por
-fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e
-profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante d'um
-quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á
-Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e
-Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais
-desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da
-multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra
-tempo para ter bom gosto!»
-
-Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive
-n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que
-se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa
-manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um
-selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte,
-já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em
-que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em
-todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão
-indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar,
-pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e
-respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no
-bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se
-ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as
-lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem
-gravata. Tudo n'este nosso seculo é _toilette_, dizia o velho Carlyle.
-
-O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se
-quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?
-
-N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como
-é todos os annos a abertura do _Salão_, cada bom burguez (para usar
-o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres
-ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas
-relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um
-trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa
-o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar
-ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma
-sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer
-áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas
-d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de
-retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar
-ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões,
-como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou
-claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica
-apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr
-culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica
-e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de
-corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento,
-dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao
-armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e
-dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um
-senhor.
-
-Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando
-n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua
-admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da
-auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo
-de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire
-escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e
-ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava
-realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma
-tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um
-amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous
-ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter
-alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com
-senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como
-um cartucho--e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat,
-dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este
-anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.
-
-E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um
-portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo,
-á entrada do _Salão_, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre um
-bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do _Cavalleiro das
-Flores_, de Rochegrosse, ou do _Papa e o Imperador_, de Laurens, ou da
-_Brunehilde_, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de
-prosa desbotada e fugaz.
-
-Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha
-tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte
-a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é,
-segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto
-eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas
-como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil,
-pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia
-fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E
-como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado
-sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava
-a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da
-Natureza. O que seria petulante.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-CARNOT.
-
-
-O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo
-caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente
-Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.
-
-Com effeito! Que rara inverosimilhança!
-
-O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal
-dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como
-Henrique IV ou como Marat!
-
-Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a
-municipalidade de Lyão para assistir, no _Grand-Theâtre_, a uma
-representação de gala.
-
-O seu _landeau_, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por entre
-uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um homem,
-trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel enrolado á
-maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o
-rebordo do _landeau_, tocou no peito do presidente com as flôres ou com
-o papel. O _maire_ de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com
-o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba
-immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o _maire_ de
-Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n'um relance o
-salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o
-presidente _para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião
-de Honra!_ E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos
-acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d'esses
-homens que se não suppõe que possam ser accommettidos--senão para serem
-roubados.
-
-Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios--porque não
-representava um partido e muito menos um principio. A Constituição
-reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma
-parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a
-muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua
-presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos pungentes
-da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas preferencias--mas
-eram preferencias de homens por homens, e nunca por ideias. Estas mesmas
-preferencias por estadistas do seu typo, discreto e neutro, como Mr.
-Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram censuradas pelas
-opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro em si esta
-derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então que ganhou
-a reputação phantasista _de ser de pau._ A sua vontade immovel ou
-immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude. Quasi não
-ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da Constituição.
-Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam os
-caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia fôsse
-mais tarde estudada n'estas obras ligeiras do humorismo pariziense, ellas
-dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos fôram
-saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e symbolica
-da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que protegia o
-Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico assassinasse
-este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta que, querendo
-apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo, decepasse expressamente
-e furiosamente a figura de pau esculpida na prôa.
-
-Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao
-anarchismo;--porque só os anarchistas, hoje, n'esta nossa civilisação
-raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade
-pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o
-capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para
-demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns
-empregados do commercio sentados n'um café a beber _bocks._ Os seus
-crimes nem sómente são inuteis--são ainda contraproducentes, porque vão
-formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e
-indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com
-ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de
-toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do
-abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser
-secretamente assalariado pelo despotismo.
-
-O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda
-não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de
-naturalidade e residencia, n'uma rude algaravia incomprehensivel, que não
-é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se fingida.
-Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um anarchista--porque
-só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que dementa a seita,
-poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de Estado, tão legal e
-irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção de colera e dôr,
-pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da França e do seu
-governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os outros chefes
-de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a perseguição, não só
-contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados e de ideias justas
-de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que nunca, d'este vez o
-anarchismo trabalhava furiosamente contra essa liberdade de que pretende
-ser a expressão suprema e perfeita;--e a sua arma não era mais do que uma
-nova e ensanguentada ferramenta posta, por elle, de noite, nas mãos da
-burguezia capitalista.
-
-Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo
-n'um carcere de Lyão, fez, senão uma d'aquellas «victimas de eleição»
-de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem
-lamentar com magoa pura e sem mescla d'outro sentimento. Carnot foi por
-excellencia o magistrado integro.
-
-Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados
-imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos
-leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o
-mais popular talvez de todos os chefes d'Estado n'stes ultimos cincoenta
-annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os
-outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da
-prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela
-Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente
-na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas
-provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas
-provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus
-meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade
-concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que
-soube presidir com perfeita dignidade e tacto:--a suppressão do
-boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal
-de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes
-acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações
-que n'elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu
-predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de
-legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao
-contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus
-episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação
-e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao
-menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda
-legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque,
-se não teve em politica externa d'essas ideias seguidas, novas ou fortes,
-que outr'ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado»,
-mostrou na sua conducta de chefe d'Estado, exposto á observação das
-chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento
-da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n'uma França tão digna,
-tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza,
-como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi
-um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda
-a Europa.
-
-Particularmente, era o mais excellente dos homens--affavel, caritativo,
-leal, clemente, cultivado.
-
-A multidão que o via sempre tão teso, mettido n'uma casaca que parecia
-de ferro, com a barba muito negra e dura, a barra vermelha da Legião de
-Honra destacando sem um vinco no peitilho rigido, tendia a pensar que
-tudo, no homem interior, era tambem secco, rigido, duro.
-
-A multidão enganava-se redondamente. Carnot era um brando, quasi um
-sentimental.
-
-Ha assim d'estas figuras de madeira, que vivem por dentro de uma vida
-ignorada, que é cheia de sensibilidade e de calor affectivo.
-
-Um jornal que sempre incondicionalmente o honrou, e que costuma pôr
-nas suas palavras uma sisudez ponderosa, e mesmo solemne, o _Temps_,
-resume o elogio funebre de Carnot affirmando que elle era _un brave
-homme._ A expressão assim, isolada, póde parecer familiar, talvez
-rasteira, mesmo laivada de vago desdem. Mas, quando junta a todas as
-outras que definem o seu caracter publico, logo se sente que esta as
-completa, as embelleza, e espalha sobre ellas como um indefinido
-perfume de bondade e doçura, sem as quaes nunca ha verdadeira
-superioridade moral. E Carnot, elle proprio, na lista extensa das suas
-virtudes intimas e civicas, apreciaria, mais que todas, esta, que
-tem um feitio tão simples, de _brave homme._ Na sua vida, na sua alta
-magistratura, foi sempre um _brave homme._
-
-E isto, no chefe eleito de uma democracia, é talvez a melhor
-condição--porque dos grandes genios vêm por vezes grandes males, e nunca
-vem senão bem de uma bondade honesta e grave.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.
-
-
-Pariz, sentado nos terraços dos cafés, bebendo aos goles, devagar,
-limonada ou xarope de grozelha e soda, enxuga a testa e repousa das
-emoções por que passou n'esta semana, sob 35 graus calor (á sombra). Que
-emoções, com effeito, tão atropelladas, tão desencontradas, desde essa
-manhã de segunda-feira em que cada um de nós foi accordado quasi
-violentamente pelo seu criado, que, sem abrir as vidraças, espalhando logo
-na penumbra da alcova um pouco do assombro e do horror que invadira a
-cidade, exclamava ou balbuciava:--«O snr. Carnot foi assassinado em
-Lyão!» Depois d'isto não era possivel, nem readormecer, nem preguiçar.
-Pariz inteiro, sem banho, quasi sem almoço, desceu á rua, como Athenas
-nos grandes dias civicos, e ficou na rua durante uma semana, fallando
-alto e comprando vorazmente jornaes. Tantos jornaes arrebatava e logo
-arremessava, que á noute macadam e asphalto desappareciam sob uma camada
-de lixo impresso, o mais triste de todos os lixos.
-
-Esta multidão tão sobreexcitada interiormente, conservava todavia uma
-compostura calma, semelhante á de um publico n'um theatro, que, enquanto
-os heroes agonisam no tablado, se sente perfeitamente seguro, e seguras,
-em torno d'elle a vida e a ordem da cidade. É que a morte Carnot só
-affectou realmente a imaginação de Pariz. Era como uma tragedia,
-improvisada um forte genio tragico, representada inesperadamente uma noite
-em Lyão, e de que os jornaes viessem contando os lances de sangue e
-luto.
-
-O punhal do italiano, escandido entre flôres, á boa maneira italiana
-da Renascença, não ferira, ferindo Carnot, nenhum d'esses interesses que
-são para o homem, individualmente, como pedaços da sua propria carne, ou
-para a sociedade como o cimento de onde depende a sua estabilidade. O
-bem estar mais intimo do cidadão, hoje, não se altera com as catastrophes
-soffridas por aquelles que os governam: e o Estado não soffre uma
-arranhadura, quando o seu chefe morre d'uma punhalada. Outr'ora, a
-suppressão violenta do chefe causava um abalo universal, uma tumultuosa
-deslocação de interesses, quasi uma transformação de costumes. Quando
-Henrique IV é assassinado na rua _de la Ferronnerie_, como Carnot, toda
-a França, horas depois, segundo a viva expressão de Michelet, ficou
-revirada de dentro para fóra como uma luva. A laboriosa obra do reinado
-desaba bruscamente: o thesouro amontoado por Sully é esbanjado ao vento;
-todas as construcções, por falta de dinheiro, se interrompem; todas as
-grandes manufacturas se fecham, e os operarios vagueiam famintos; a trama
-das allianças, tao habilmente urdida, n'um instante está desfeita--e ahi
-temos em breve a guerra dos Trinta Annos! Aquelle rei morto levava comsigo
-para o tumulo o pão, a paz, a posição, as vaidades de milhares de
-vasallos. Por isso em Pariz foi terrivel a desolação. Como diz ainda
-Michelet, cada cidadão se considerou pessoalmente perdido: e nas casas,
-como uma desgraça domestica, as mulheres gritavam arrepellando os
-cabellos!
-
-Com a perda do snr. Carnot, assassinado como Henrique IV, nenhum cidadão
-(superfluo é lembrar) se considera perdido: e as mulheres, em vez de
-arrepellar o cabello, põem mais cuidado em o pentear, para assistirem,
-com uma curiosidade ligeira, á festa dos funeraes.
-
-Não ha obras interrompidas, nem operarios despedidos. Pelo contrario!
-O trabalho cresce. Os jardineiros, os floristas, os fabricantes de corôas,
-embolsam mais de tres milhões de francos. O assassinato do chefe do Estado
-anima o commercio. De facto, não ha nada mudado em França--apenas um bom
-francez de menos.
-
-Isto não prova a fraqueza das instituições monarchicas, porque depois
-de Henrique IV morto houve logo Luiz XIII posto, e o throno de França,
-com as mesmas flôres de liz, ainda durou triumphalmente dous seculos.
-Mostra apenas que hoje Estado já não está todo contido dentro do chefe--e
-que o chefe é apenas o remate decorativo do Estado, podendo ser
-bruscamente derrubado por uma rajada de crime, sem que o edificio que elle
-rematava, se abale, e nem por um momento diminua, ou se modifique, ou
-sequer se interrompa, a vida intensa que circula dentro do edificio e que
-o torna vivo. O regicidio deixou assim de ser uma tragedia politica--para
-se tornar simplesmente uma tragedia domestica, que no povo não póde
-interessar mais que a imaginação.
-
-O que Pariz durante esta semana sentiu (além de uma compaixão natural
-pelo bom homem morto e pela admiravel viuva), foi uma curiosidade
-feroz do detalhe tragico. Os jornaes concorreram para exaltar esta
-curiosidade, menos pelas cousas dolorosas que vinham contando, como pela
-maneira terrifica com que as annunciaram, em typo disforme, lettras de
-tres pollegadas, de um negrume sinistro, enchendo toda uma folha, e na sua
-mudez mais estridentes que gritos! São estas letras de descomedido
-espalhafato, imitadas da America e exageradas como toda a imitação
-interesseira, que exacerbam a sensibilidade moderna. As pestes, as
-guerras, as quedas de imperios, eram outr'ora narradas pelos jornaes no
-seu typo miudo e ordinario e a noticia das catastrophes entrava no nosso
-espirito de um modo manso e discreto, sem produzir n'elle alvorotos
-violentos. Agora, estas lettras espaventosas invadem com pavor o nosso
-pobre cerebro; e á maneira de touros que se precipitam dentro d'um templo,
-põem a quieta assembléa das nossas ideias em confusão e terror. Uma tarde
-d'esta semana, nos boulevards, um jornal astuto e videiro, a _Cocarde_,
-appareceu ostentando na sua primeira pagina, larga como uma pagina da
-_Gazeta_, estas duas linhas unicas, n'um typo despropositado, sem
-precedentes, que se avistava a uma milha:--«O embaixador de França foi
-assassinado em Roma!»--Vi mulheres, ao receberem nos olhos desprevenidos
-este tremendo berro typographico, quasi desmaiarem: e por onde passavam
-os vendedores, agitando o cartaz pavoroso, a multidão redemoinhava, como
-sob um grande vento de medo e colera!
-
-Assim, durante a longa semana, andou vehementemente sacudida a nossa
-imaginação.
-
-De resto a tragedia de Lyão era bem propria a agitar as imaginações
-mais ronceiras e dormentes. Raramente o destino ou o acaso (se é que o
-destino se conservou indifferente) envolveu um regicidio em scenario mais
-commovente, de contrastes mais patheticos, accumulando n'elle uma tal
-profusão de detalhes horriveis na sua trivialidade, e quasi medonhamente
-grotescos através do seu horror. Essa noite parece composta por
-Shakespeare e retocada aqui e além, depois, por Hoffmann. Quem jámais a
-saberá e a contará em toda a sua miuda realidade? E que contraste intenso
-já, em que o mais doce e ordeiro dos homens assim findasse na mais cruenta
-e atabalhoada das tragedias! Carnot morre com um requinte dramatico que
-faltou a Cesar! Vêde logo o scenario! Não é a sala grave do senado, onde
-os punhaes se erguem com a serenidade raciocinada de uma votação--mas a
-rua illuminada de uma cidade em festas, n'uma noite de gala. Todas essas
-flammulas, e bandeiras, e rutilantes arcos de gaz, e festões multicores de
-lanternas chinezas, e fogos esparsos de Bengala, e escudos de luz, e
-palanques, e orchestras são para celebrar o homem que passa no seu
-_landeau_, e saúda, e sorri. Uma multidão sincera, de uma boa sinceridade
-provinciana, para quem esse homem, com a placa e gran-cruz da Legião de
-Honra, cercado de couraceiros, encarna realmente a magestade da França,
-grita--«Viva Carnot! Viva Carnot!» E de repente a magestade da França cáe
-para cima das almofadas do coche, com a face descomposta, livida! Foi um
-qualquer, surdindo das profundidades da plebe, com os sapatos rotos, uma
-velha jaqueta de panno côr de mel, que, n'um relance, lhe enterrou um
-punhal no ventre. Punhalada quasi impessoal, em que o braço não é mais do
-que a prolongação inconsciente da lamina de ferro, e que vem debaixo, de
-longe, de muito longe, das camadas escuras do proletariado esfaimado... E
-o _landeau_ lá vae, lá foge a galope, entre o ancioso tropear da escolta,
-levando o chefe de Estado que se escoa em sangue. O Estado, recentemente
-para o proteger, gastára mais um milhão de francos em reforçar a
-policia!
-
-Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do _landeau_ da
-côrte tornado bruscamente carro d'hospital! Já para dentro saltára um
-cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do
-presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados
-pelos lacaios. E assim galopa um quarto d'hora furiosamente, sob as
-bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão
-seria logo transportado, e em braços, ao pateo d'uma casa, ao balcão d'uma
-botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia
-em sangue, porque, mesmo n'uma Republica, é severa a regra do Protocollo!
-Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os
-couraceiros o _landeau_ d'Estado, onde vagamente se agitam e brilham
-plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot!
-Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha,
-terrivel, quasi burlesca--o chefe do Estado estendido, com a gran-cruz,
-a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda da camisa
-fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa entre
-ovações--ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos foguetes.
-Passa, desapparece, n'um galope de cavalleiros, deixando apenas o sulco
-arrepiador d'aquella fralda branca e sangrenta!
-
-Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous
-_reporters_, sofregos de se envolverem n'um acontecimento historico, se
-apoderam do corpo do presidente e o arrancam do _landeau_, um agarrando
-uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte através
-das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal conhecida
-ainda, estreiado n'esses dias de gala.
-
-Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só
-devia recolher tarde, depois da representação de gala no _Grand
-Theâtre_; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as
-festas, para os fogos da Exposição:--e as luzes estavam apagadas, todos
-os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido,
-desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um
-phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do
-presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia.
-
-Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma
-immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava
-os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa
-para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma
-curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se
-debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em
-que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto
-lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a
-curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está
-passando alguma cousa de irreparavel.
-
-Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com
-bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam,
-se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de
-casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas...
-
-Assim morria, n'esta desordem, o mais decoroso dos chefes de Estado.
-
-Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo,
-n'uma suprema decencia:--e em torno d'elle não havia senão os brancos
-marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito
-velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e
-continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo
-gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo.
-
-Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as
-suas insignias--e apertando na mão já hirta um par novo de luvas brancas.
-Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra o seu
-cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como chefe de
-Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na mão as
-suas luvas novas. Estas luvas d'além da campa, muita gente as acha
-estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os
-reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao
-morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de
-escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava
-para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta
-feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do
-seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um
-pagem.
-
-Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do
-céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e
-gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste.
-
-Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o cavalleiro
-perfeito e lhe chamou, sorrindo, _seu filho._ Assim, através das edades,
-a tradição liga Carnot a Roldão.
-
-Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que
-regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade,
-um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que
-trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor,
-deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e
-coberto de crepes. D'uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot,
-vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado
-de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n'um carro sem solemnidade
-civil e religiosa; e á pressa, n'um trote fugidio, através das ruas mais
-desertas, onde clareava a madrugada, levam-n'o para o Elyseu. O morto como
-que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar
-methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma
-colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que
-lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d'elle, pelas
-ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um _fiacre_, com vadios
-e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida. Estranho
-remate de uma noitada estroina--seguir n'um _fiacre_ o cadaver d'um
-chefe de Estado!
-
-Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas
-então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna
-regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com
-curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no
-devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz,
-n'uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas
-ao presidente que passa para o Pantheon.
-
-Funeraes magnificos, de certo--mas de uma magnificencia muito cerceada
-pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da
-democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto:--e o
-severo gosto, em França, não permitte n'estas pompas outro luxo, além do
-luxo das flôres. Tudo o que outr'ora na antiguidade, e depois na
-Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres--a sumptuosidade dos
-trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os incensadores fumegando, os
-coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados, as insignias symbolicas,
-os trophéos, os andores, os estandartes, os carros de deslumbrante
-architectura, a riqueza patricia, as criadagens agaloadas, e o
-incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas mitras, as suas
-purpuras, as suas casulas de ouro--toda essa magnificencia esthetica aqui
-falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou Roma, da Florença dos Medicis
-ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria, contemplando esta procissão
-funeral, que uma opulenta e artistica nação estava fazendo a apotheose do
-seu chefe assassinado. Todavia a França, dentro das restricções impostas
-pela sobriedade do seu gosto e pela simplicidade da sua democracia,
-prestou a Carnot, largamente, todas as homenagens e preitos symbolicos.
-As flores que lhe offertou, foram incontsveis, custaram mais de tres
-milhões de francos, e durante todo um dia perfumaram o vasto ar de Pariz.
-E toda a França organisada, desde os corpos d'estado até aos clubs
-gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao Pantheon, que a patria
-reconhecida reserva aos Grandes Homens.
-
-Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas sobre
-carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de dous
-metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas, não
-podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só
-impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos,
-e em breve murchos.
-
-E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de casacas
-pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho as
-casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as fardas
-d'um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates destacavam,
-n'uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se prolongavam, se
-eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando em cadencia.
-Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava por fim senão
-á impressão dormente d'um mudo e lutuoso perpassar de fato preto.
-
-E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar
-mais a emoção artistica d'esta pompa, a memoria de outras pompas, a de
-Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em
-longas milhas, calças pretas, casacas pretas.
-
-Uma novidade, porém, e singular, impressionava n'estes funeraes de
-Carnot:--e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira tricolor,
-se entreviam n'um carro batinas e sobrepellizes de padres. Depois, á
-frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas grandes
-vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos uniformes,
-appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade consideravel! E então
-se attentava mais em que esta tragedia do presidente assassinado fôra
-realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e ministrada pela
-Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das mãos do arcebispo de
-Lyão.
-
-Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e
-freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope,
-n'uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira
-que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda
-orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu
-clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o
-velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario.
-Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o
-arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos
-de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes,
-livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia,
-abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E
-depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para
-rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire!
-
-Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de
-Pariz o radicalismo compungido--e é para os altares que o vae levando.
-
-Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d'um
-cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de
-bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas
-pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n'uma evidente mostra de
-humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n'este cortejo derradeiro de
-Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o
-jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as
-unhas, horrendamente humilhado.
-
-Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o
-desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado
-ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte,
-espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos
-caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um
-objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n'este fim do
-seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua
-morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o
-produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n'este mesmo dia dos
-funeraes, e pela voz d'um dos seus melhores espiritos, o declarou, com
-aviltante desdem--um producto de exportação!
-
-Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em
-Pariz--producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. _Sic
-transit gloria diaboli._
-
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-End of the Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ ***
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-additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
-will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works
-posted with the permission of the copyright holder found at the
-beginning of this work.
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-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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-date contact information can be found at the Foundation's web site and
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-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
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-
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-
-The Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
-of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
-www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll
-have to check the laws of the country where you are located before using
-this ebook.
-
-
-
-Title: Echos de Pariz
-
-Author: Eça de Queiroz
-
-Release Date: August 29, 2019 [EBook #60194]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: UTF-8
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ ***
-
-
-
-
-Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images
-generously made available by Hathi Trust.)
-
-
-
-
-
-
-</pre>
-
-
-<h2>EÇA DE QUEIROZ</h2>
-
-<h2>ECHOS DE PARIZ</h2>
-
-<h4>QUARTA EDIÇÃO</h4>
-
-<h4>PORTO</h4>
-
-<h4>Livraria Chardron, de Lélo&amp;Irmão, Lim<sup>da</sup>, Editores</h4>
-
-<h5>Rua das Carmelitas, 144</h5>
-
-<h4>AILLAUD E BERTRAND&mdash;LISBOA&mdash;PARIS</h4>
-
-<h4>1920</h4>
-
-
-
-
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-
-
-
-<p style="margin-left: 10%; font-weight: bold;">
-<a id="INDICE"></a>INDICE</p>
-
-
-<p style="margin-left: 10%; font-size: 0.8em;">
-<br />
-<a href="#I_PARIZ_E_LONDRES-O_ANNIVERSARIO_DA_COMMUNA-FLAUBERT">I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.</a><br />
-<a href="#II_OS_DUELLOS-AMNISTIA_GAMBETTA_ROCHEFORT_OS_JESUITAS">II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.</a><br />
-<a href="#III_O_IMPERADOR_GUILHERME">III. O IMPERADOR GUILHERME.</a><br />
-<a href="#IV_O_GRAND_PRIX-A_ESTATUOMANIA-OS_COCHEIROS-VICTOR_HUGO-O_CAMPO_EM_PARIZ">IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.</a><br />
-<a href="#V_O_14_DE_JULHO-FESTAS_OFFICIAES-O_SIAO">V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.</a><br />
-<a href="#VI_A_FRANCA_E_O_SIAO">VI. A FRANÇA E O SIÃO.</a><br />
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-OFFICIAL.</a><br />
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-<hr class="r5" />
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-<h4><a id="I_PARIZ_E_LONDRES-O_ANNIVERSARIO_DA_COMMUNA-FLAUBERT"></a>I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.</h4>
-
-
-<p>Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de
-verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem».
-É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo
-de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco
-regato que vae cantando por entre as relvas altas.</p>
-
-<p>Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para
-esta opinião do romanesco auctor de <i>Tancredo</i> e da <i>Guerra do
-Afganistan</i>: nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do
-que a sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender
-desde as creações da Arte até aos <i>menus</i> dos restaurantes, desde o
-espirito das gazetas até ao luxo das librés&mdash;e, muito racionalmente,
-corre a observar a sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é
-mais original, mais complexa, mais rica, mais pittoresca, mais
-episodica,&mdash;em Pariz e em Londres: ao resto da terra pede apenas
-scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos e architecturas...</p>
-
-<p>...Em Roma contempla os ornamentos do passado&mdash;o Colyseu e o Papa;
-em Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na
-Suissa para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas
-para embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais
-impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em
-torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um
-momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que
-palpita ao centro.</p>
-
-<p>Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma
-paizagem accessoria&mdash;a devoção burgueza por Pariz e Londres,
-residencias privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel:
-porque, na verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua
-lucta, na sua paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O
-sol, nascendo por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia,
-fórma um prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma
-grandeza exuberante;&mdash;mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre
-infinitamente menos interessantes que uma simples comedia de ciumes,
-passada n'um quinto andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o
-Monte Branco? Emquanto que as alegrias amorosas do meu visinho ou os
-prantos do seu luto são como a consciencia visivel das minhas proprias
-sensações.</p>
-
-<p>O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se
-a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de
-dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou
-dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o
-melhor espectaculo para o homem&mdash;será sempre o proprio homem.</p>
-
-<p>Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões
-flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda
-que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes
-que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o
-valle&mdash;a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo
-delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença
-d'um peito, d'um coração vivo.</p>
-
-<p>Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S.
-Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não
-é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa
-mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo
-persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S.
-Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho
-diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra,
-ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros
-do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.</p>
-
-<p>O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza&mdash;é-lhe
-indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella
-habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento,
-algum panorama&mdash;a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o
-estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia
-de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de
-Lisboa é a presença do lisboeta&mdash;como a mim o que me estraga a
-Allemanha é a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece
-uma sociedade&mdash;a de Pariz e de Londres.</p>
-
-<p>Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de
-viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua
-originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os
-regulamentos de policia até á <i>vitrine</i> dos joalheiros, dar-se a linha
-parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os
-Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os
-ditos do <i>Figaro</i>; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas
-de Jerusalem foi o <i>can-can</i> de <i>Bella Helena</i>, e sahiu da habitação
-de um rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a
-areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos
-de papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao
-Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba
-sagrada.</p>
-
-<p>O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da
-Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais
-uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais
-se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do
-<i>Times.</i> O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao
-chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê
-Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas
-de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens
-do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.</p>
-
-<p>Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a
-originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má
-imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para
-lá&mdash;dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem
-para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam
-linhas de um portico.</p>
-
-<p>É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional
-prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em
-Londres, desde as revoluções até ás <i>toilettes</i>, desde os poemas até
-aos escandalos.</p>
-
-<p>O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em
-Pariz.</p>
-
-<p>Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou
-na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez
-hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.</p>
-
-<p>E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e
-Londres ensinam tudo.</p>
-
-<p>Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o
-escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto
-sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico&mdash;creio
-que devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e
-patria genuina de Mr. Prudhomme...</p>
-
-
-<p>O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a
-manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data,
-na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de
-Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma
-exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos
-quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo
-o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr
-de batalha na face.</p>
-
-<p><i>Trinta e cinco mil pessoas</i> fôram aniquiladas n'esta S.
-Barthelemy conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em
-sacrificio á ordem com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus
-inteiras em honra do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma
-mocidade, toda uma primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos
-Baals, o negro e flammejante Moloch.</p>
-
-<p>Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe
-que parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.</p>
-
-<p>Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis,
-armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto,
-e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas
-nas eleições.</p>
-
-<p>No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus,
-preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta
-procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre
-valla onde apodrecem os seus mortos.</p>
-
-<p>O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou
-promettendo concessões ao velho mundo <i>communard</i> a troco da
-desistencia d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração
-triumphal) ou ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e
-fazer assim recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de
-um conflicto sangrento&mdash;conseguiu que n'esse dia a massa communista
-ficasse chorando os seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns
-exaltados, desattendendo a disciplina do partido, persistiram na
-demonstração luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um
-diluvio, só vêm a cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda
-aquella população que devia descer dos <i>faubourgs</i> apenas se viram
-pelas ruas grupos de dez, quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise
-com a sua blusa nova, e a corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do
-symbolo, as coroas eram vermelhas.</p>
-
-<p>Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á
-prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o
-coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam
-batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a
-sua corôa sobre a herva verde, um <i>sergent de ville</i> precipitava-se,
-verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava
-o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um
-crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com
-vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um
-governo forte e contundente...</p>
-
-<p>Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas
-symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam
-a religião e os seus ceremoniaes?</p>
-
-<p>O mais illustre jornal do partido, o <i>Mot d'Ordre</i>, descrevia ha
-dias uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no
-Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias
-barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente
-designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que
-individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um
-anniversario de morte&mdash;da morte que não deve ser para elles mais que
-uma banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do
-catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se
-acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres
-agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma
-paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta
-de symbolos saudosos...</p>
-
-<p>Mas, mais estranho que tudo é a influencia do <i>vermelho</i> no animo
-da policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.</p>
-
-<p>Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo
-o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a
-bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre
-corôa de perpetuas tingidas de vermelho?</p>
-
-<p>Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito
-de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia
-d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria
-generosamente permittido a manifestação saudosa...</p>
-
-<p>Logicamente, pois, uma rapariga que passe no <i>boulevard</i> com duas
-rosas vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de
-guerra. A papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é
-offensa á constituição.</p>
-
-<p>Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu
-canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue
-vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha
-humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que
-prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se
-nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o
-bom Deus!</p>
-
-<p>Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!</p>
-
-<p>Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em
-<i>meeting</i> com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas,
-todas as côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria
-inventou; declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha
-hortaliça á face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a
-formidavel policia ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia
-civica. É que todas estas vociferações e todas essas côres deixam as
-instituições tão intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park;
-e, finda a hora do <i>meeting</i>, a grande massa dispersa com um socego
-de fim de missa. Em França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre
-uma campa, flôres de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte
-republica do snr. Gambetta cambaleie ferida no coração!</p>
-
-<p>Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...</p>
-
-
-<p>Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á
-Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga
-novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de
-ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama
-Gustavo Flaubert e é o auctor da <i>Madame Bovary</i> e da <i>Educação
-Sentimental</i>&mdash;quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa
-perda sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso
-artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no
-espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera
-de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor
-do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.</p>
-
-<p>Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua
-alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte
-contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções
-idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade
-social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais
-penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da
-acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no
-meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma
-mais viva, mais pura e mais forte.</p>
-
-<p>As suas creações&mdash;Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão,
-Frederico, Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu,
-participam de uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa.
-Quando o seu enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das
-lindas ilhas que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento
-a olhar, a mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava
-com Leão, como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua
-figura nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos
-<i>rendez-vous.</i></p>
-
-<p><i>Madame Bovary</i> é hoje uma obra classica&mdash;e de certo o seu
-melhor livro. Quem a não conhece e a não relê&mdash;essa historia profunda
-e dolorosa d'uma pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a
-educação moderna desmoralisada pelos falsos idealismos e pela
-sentimentalidade morbida, agitada de appetites de luxo e d'aspirações de
-prazer, debatendo-se na estreiteza da sua classe como n'um carcere social,
-correndo a esgotar d'um sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais
-triste como dos funeraes da sua illusão, procurando alternadamente a
-felicidade na devoção e na voluptuosidade, anciando sempre por <i>alguma
-cousa de melhor</i>, e arrastando uma existencia minada d'esta enfermidade
-incuravel&mdash;o desiquilibrio do seu sentimento e da razão, o conflicto
-do ideal e do real: até que uma mão cheia de arsenico a liberta de si
-mesma!</p>
-
-<p>Na <i>Educação Sentimental</i>, concebe esta ideia de genio: pintar
-n'uma larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos
-pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela
-falta d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias,
-dirija as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as
-instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a
-indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a
-difficuldade de governar a democracia...</p>
-
-<p><i>Salammbô</i> é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma
-religião extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na
-<i>Tentação de Santo Antão</i>, de uma forte intuição, de uma erudição tão
-larga, pinta-nos tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e
-attinge ahi talvez a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão
-elastica, que só a poderia comparar a uma carnação humana.</p>
-
-<p>Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa
-faculdade de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma
-figura elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença
-pelo pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo
-burguez.</p>
-
-<p>Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o
-melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era
-verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim,
-o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos
-rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma
-estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu
-á luz dos ceus.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="II_OS_DUELLOS-AMNISTIA_GAMBETTA_ROCHEFORT_OS_JESUITAS"></a>II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.</h4>
-
-
-<p>Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos
-succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo
-que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do
-Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de
-um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras
-essenciaes de outro francez.</p>
-
-<p>Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar
-dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho
-Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da
-republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam
-sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo&mdash;um
-considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem
-importancia&mdash;corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de
-Bolonha.</p>
-
-<p>Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões
-da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde
-emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões
-debaixo do paletot.</p>
-
-<p>Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e
-<i>dandies</i> é abundantemente deteriorada.</p>
-
-<p>Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do <i>Voltaire</i>,
-com o conde de Dion; duello de Fronsac, do <i>Gil Blas</i>, com o principe
-de Santa Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do <i>Mot
-d'Ordre</i>; duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem
-contar os duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido
-quatro vezes, ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete,
-entre o pulso e o cotovello!</p>
-
-<p>Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».</p>
-
-<p>Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro
-Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo,
-o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de
-Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da
-rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado,
-as phrases celebres do mestre:&mdash;<i>Deus é o mal! A propriedade é o
-roubo! Queremos a liquidação social!</i></p>
-
-<p>A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste,
-olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa,
-revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo
-installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho
-perfido, contendo esta abominavel sextilha:</p>
-
-
-<p><span style="margin-left: 3em;">A loira e dôce Maria</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Que a ninguem d'amores maltrata,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Foi avisada outro dia</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">Que Paulo a vem visitar,</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">E eil-a que rompe a gritar:</span><br />
-<span style="margin-left: 3em;">&mdash;Depressa! fechem a prata!</span></p>
-
-
-<p>Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr.
-Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto
-que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um
-cheiro adocicado de sachristia&mdash;que saboreava tambem os seus grogs no
-café e dirigia um jornal jesuita, <i>A Palavra.</i> A sextilha tomava,
-assim, as proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra
-a revolução. Era a graça calumniando a consciencia.</p>
-
-<p>D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de
-pistola alta. Fogo! A bala do homem da <i>Palavra</i> vae cravar-se na
-anca de um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do
-snr. Paulo, essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto.
-Este sujeito franziu consideravelmente o sobr'olho.</p>
-
-<p>Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre
-a porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:</p>
-
-<p>&mdash;Então, o duello? Houve morte de homem?</p>
-
-<p>&mdash;Não,&mdash;respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.&mdash;Houve
-morte de jumento.</p>
-
-<p>&mdash;O que! Morreu Paulo?</p>
-
-<p>E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de
-juba eriçada e a injuria no labio... E d'ahi outro duello á pistola
-tambem.</p>
-
-<p>Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala
-reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr.
-Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho&mdash;do mesmo, precisamente
-o mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu
-atravessado e franzira tanto o sobr'olho.</p>
-
-<p>&mdash;Comprehendo!&mdash;rosnou este individuo, livido. E á noite, no
-café, dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o
-seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um
-modo desleal e infame»!</p>
-
-<p>&mdash;Pois atreve-se?...&mdash;ruge o snr. Paulo.</p>
-
-<p>&mdash;Sei o que digo; infame e desleal!</p>
-
-<p>&mdash;Insolente!</p>
-
-<p>&mdash;Garoto!</p>
-
-<p>Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre
-as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se
-recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela
-amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da
-outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo
-bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se
-alojar.</p>
-
-<p>Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon.</p>
-
-<p>Os conflictos de honra que têm este final de <i>vaudeville</i> são, por
-fim, os mais acceitaveis.</p>
-
-<p>Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes
-publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto
-os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala
-pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode;
-emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da
-familia: <i>Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu!</i> nem o codigo, nem o
-bom senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o
-homem, publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre
-a sua espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra!»</p>
-
-<p>Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue&mdash;tendo em redor
-as acclamações d'um circo.</p>
-
-<p>No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião.</p>
-
-<p>O que convém, pois, á sociedade e que, n'estes conflictos impostos pela
-exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se
-limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca.</p>
-
-<p>No fim, a moralidade dos duellos está toda n'um dito de Rochefort.</p>
-
-<p>&mdash;Tem sido feliz em seus desafios?&mdash;perguntava-lhe alguem.</p>
-
-
-<p>&mdash;Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre
-com a consciencia serena e uma ferida séria...</p>
-
-<p>Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se
-deixou um homem a agonisar n'uma pôça de sangue; mas é triste tambem que
-para se poder gosar, com a alma tranquilla, a <i>omellette</i> do almoço,
-se deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços.</p>
-
-<p>De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra <i>a serio</i>
-por estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a
-permanente tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando
-se é muito feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera
-despedaçada.</p>
-
-<p>Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo,
-atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos!
-Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião,
-as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e
-extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A
-sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de
-consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são
-egualmente heroes nas gazetas!</p>
-
-
-<p>Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado.
-Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas
-ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue
-nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os
-fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta;
-os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a <i>questão da
-amnistia</i>, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um
-farrapo sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella
-pavorosa loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva
-a França!</p>
-
-<p>Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não
-houvesse o direito de perdoar.</p>
-
-<p>O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por
-compaixão&mdash;não podia deixar outros centenares no degredo, por
-legalidade. Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem
-fumar o seu cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa
-condemnou á morte, soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet,
-rehabilitado publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios
-da Nova Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o
-ministro Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a
-França não estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez
-bastante forte, para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo
-snr. Freycinet, aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a
-unidade da republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se
-podia addiar por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de
-1871.</p>
-
-<p>Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade!
-Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente
-a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se
-dizia nas operas comicas da minha infancia, <i>ha um mysterio.</i> Qual é,
-pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo
-poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto
-dono de França&mdash;que assim o decidiu. Elle via que a recusa da
-amnistia o despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que
-ia sendo ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o
-continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros
-proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a
-confiança para os darem a Clemenceau.</p>
-
-<p>Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno
-sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na
-força do proletariado que se quer apoiar&mdash;e, portanto, resolveu, como
-um Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os
-prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de
-reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser
-perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica,
-se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio
-Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe
-fallar.</p>
-
-<p>No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a
-sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila,
-com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e
-não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um
-homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis,
-reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.</p>
-
-<p>Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um
-Deus.</p>
-
-<p>Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando:
-<i>Gambetta fallou!</i> Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz
-pelas tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça
-ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal,
-affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da
-emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire
-escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos
-pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de <i>França</i>
-e <i>Patria</i> e <i>Republica</i>, os seus gestos de apostolo possuido do
-espirito; a maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da
-Convenção; a direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi
-vibrante&mdash;tudo isto formou um quadro grandioso, quasi heroico.</p>
-
-<p>Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o
-popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta
-arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta;
-dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias
-que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego
-triumphante do pronome pessoal <i>eu.</i></p>
-
-<p>«<i>Eu</i> consultei o paiz! <i>Eu</i> disse á Europa! <i>Eu</i>
-quero!» E assim se desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que
-governa, possue a França: o snr. Grevy está alli como uma figura
-ornamental; o snr. de Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo;
-a camara, um mero serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções,
-como a mesma alma da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com
-respeito o digo, um italiano é o senhor das Gallias.</p>
-
-<p>Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo
-snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica
-conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de
-experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros
-enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que,
-eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só
-França!</p>
-
-<p>Rhetorica! <i>A questão da amnistia</i> era, decerto, nas mãos da
-esquerda intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de
-conservadores que deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!»
-Este grito ia direito á indignação dos homens e á sensibilidade das
-mulheres.</p>
-
-<p>Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em
-desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a
-turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma
-contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do
-<i>Rappel</i> e do <i>Mot d'Ordre</i>, restam innumeraveis machinas de
-guerra no vasto arsenal da questão social. Basta, por exemplo, pôr em
-posição a famosa catapulta da separação da egreja e do estado, para abalar
-a fragil muralha do Gambettismo.</p>
-
-<p>Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de
-concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir
-na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes
-ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas
-e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo
-do <i>Rappel</i>, da <i>Justice</i> e do <i>Mot d'Ordre</i>.</p>
-
-<p>E outras reclamações virão&mdash;todas necessariamente
-satisfeitas&mdash;e cada uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da
-sua força á Republica... A questão está collocada entre o <i>proletario</i>
-e o <i>burgues.</i> É Clemenceau contra Gambetta. E <i>isto</i>, que é o
-socialista Clemenceau, matará fatalmente <i>aquillo</i>, que é o jacobino
-Gambetta: e isto, que é o sapateiro Trinquet, eliminará mais tarde
-<i>aquillo</i>, que é o philosopho Clemenceau.</p>
-
-<p>Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem
-por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das
-Gallias&mdash;que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras
-e as espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se
-na oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.</p>
-
-<p>Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade,
-porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario,
-o <i>gaiato sublime</i> como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não
-perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado,
-as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio&mdash;vae ser curioso
-vêl-o erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da
-<i>Lanterna</i>, com a face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e
-agil diante do pesado presidente Gambetta.</p>
-
-<p>O jornal que vae fundar chama-se o <i>Intransigente.</i> Já é bom! E
-vem azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi
-a <i>Lanterna</i> e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova
-Caledonia por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos
-generaes de Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu
-implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu
-querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a
-temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e
-de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos
-humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da
-França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e
-foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no
-exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente,
-vamos rir.</p>
-
-
-<p>Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato
-que esta expulsão.</p>
-
-<p>Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n'elles me é
-antipathico&mdash;a sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre,
-a sua moral, a sua abominavel <i>summa theologica</i>, a sua sciencia
-secca e hieratica, o seu frio estylo d'architectura, a sua maneira de
-enriquecer, com contabilidade escripta em grego, a sua grosseira e
-equivoca idolatria pela Virgem Maria, a sua organisação tenebrosa e
-conspiradora, que faz assemelhar a companhia a um carbonarismo
-theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente impolitico, illogico
-e pueril; se se pretende destruir a sua funesta influencia na sociedade
-franceza&mdash;então é necessario expulsar o clero inteiro, pois ninguem
-ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada do espirito jesuitico.
-O catholismo é o jesuitismo.</p>
-
-<p>Quem governa a egreja não é Leão XIII, o <i>Papa Branco</i>, é
-o <i>Papa Negro</i>, o padre Beckx. E esta solidariedade com a
-companhia&mdash;o clero regular acceita-a, reveste-se d'ella como d'uma
-insignia, e considera-se ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de
-Santo Ignacio. Se se quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das
-gerações novas, recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo
-o ensino clerical, semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De
-que serve fechar tres ou quatro estabelecimentos da companhia&mdash;se
-fica todo um clero compacto para os substituir como pedagogos, como
-conspiradores e como inimigos da democracia?</p>
-
-<p>Além d'isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão
-ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em
-logar da roupeta, vestirão a quinzena&mdash;e nem por isso o seu ensino
-será mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da
-escola&mdash;lá ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os
-franciscanos, os irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o
-mesmo com a exaltação de quem espalha uma ideia perseguida.</p>
-
-<p>É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio
-imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no
-mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres
-conventos de jesuitas!</p>
-
-<p>Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir
-que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem
-para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento
-terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino
-scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma
-roupeta que se reprime um ideal.</p>
-
-<p>E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo
-todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações
-ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os
-seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se
-approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão
-arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia,
-pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção.</p>
-
-<p>Ha n'isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á
-expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza.</p>
-
-<p>Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico,
-comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o
-pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro
-d'exilio&mdash;que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio
-Ferry e o seu nacionalismo prouddhomesco.</p>
-
-<p>Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se
-assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos;
-as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta
-victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação
-mesma do crucificado.</p>
-
-<p>Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm
-as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de
-cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e
-considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias
-forte&mdash;mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um
-vergonhoso abuso da força.</p>
-
-<p>Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos
-agora n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que
-consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz
-XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;&mdash;que a
-amnistia dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!</p>
-
-<p>Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella.
-Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz
-um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma
-religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse
-brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho.
-Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe
-faz a suprema liberdade na suprema força.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="III_O_IMPERADOR_GUILHERME"></a>III. O IMPERADOR GUILHERME.</h4>
-
-
-<p>«<i>Lui, toujours lui!...</i>&mdash;Elle, sempre elle!...»&mdash;Assim,
-no tempo das <i>Vozes interiores</i>, clamava Victor Hugo, cançado, quasi
-estafado de que ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e
-humanos solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia,
-monopolisando os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem
-atravancadora de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com
-impaciencia: «<i>Lui, toujours lui!...</i> Elle, sempre elle!»&mdash;perante
-esse outro imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de
-Austerlitz, e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes,
-religiosos, politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa
-expansão dá á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez
-dos nossos destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu&mdash;e
-occupa tanto o nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou
-a crise capitalista! Talvez mais&mdash;porque até o proprio snr. Renan,
-cuja alma, pelo exercicio constante do scepticismo, ganhou a
-impermeabilidade e a dôce indifferença de uma cortiça, para quem toda a
-vaga é embaladora e bôa, declara, na sua derradeira epistola aos
-incredulos, que só lhe pesa morrer (e pelas suas confissões bem sabemos
-quanto a vida lhe corre deliciosa e perfeita!) por não poder assistir ao
-desenvolvimento final da personalidade do imperador da Allemanha!</p>
-
-<p>Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei,
-ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma
-curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e
-lances&mdash;como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco
-vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra
-pittoresca de Guilherme II&mdash;o ter convertido&mdash;o throno dos
-Hohenzollerns n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se
-exhibe, com caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental
-heresiarcha da <i>Vida de Jesus</i> lamentar que a morte lhe não consinta
-assistir, no quinto acto, á solução d'este imperador problematico! Pois
-que, por ora, n'este primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o
-seu palco imperial, Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das
-suas manifestações, só tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em
-Hamlet, os germens de homens varios, sem que possamos preconceber qual
-d'elles prevalecerá, e se esse, quando definitivamente desabrochado, nos
-espantará pela sua grandeza ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este
-rei, quantas encarnações da realeza!</p>
-
-<p>Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça,
-occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda
-acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor
-como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a
-toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na
-mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a
-farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do
-capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando
-a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na
-historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a
-seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á
-Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o
-dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o <i>sic
-volo, sic jubeo</i>, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da
-sua infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras
-todos os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,&mdash;e, de
-repente, elle é o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao
-brilho e ordem sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas,
-decretando a fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da
-Corôa os officiaes que melhor valsam nos <i>cotillons</i>, e querendo
-volver Berlim n'um Versailles d'onde emane o preceito supremo do
-cerimonial e do gosto. O mundo sorri&mdash;e repentinamente é o
-Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove, tratando de <i>caturra</i> o Passado,
-expulsando da educação as humanidades e as lettras classicas, determinando
-crear pelo parlamentarismo a maior somma de civilisação material e
-industrial, considerando a fabrica como o mais alto dos templos, e
-sonhando uma Allemanha movida toda pela electricidade...</p>
-
-<p>Depois, por vezes, desce do seu palco&mdash;quero dizer, do seu
-throno&mdash;e viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras.
-E ahi, desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas
-as suas figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas
-mais interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação.
-A caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o
-artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna
-<i>Imperator Rex</i>) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o
-azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte,
-nos mares scandinavos, entre os austeros <i>fjords</i> da Noruega, ao
-rumor das aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o
-Mystico, e prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das
-cousas humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a
-communhão com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos
-bons tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao
-marechal do Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a
-agradecer o kaviar e os sandwichs de <i>foie-gras</i>, collocados no seu
-wagon como provido farnel de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso
-centro de sociabilidade, e é o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis,
-um cravo enorme na sobrecasaca clara, borboleteando e flirtando com a veia
-soberba de um D'Orsay!...&mdash;E subitamente, em Berlim, por alta noite,
-as cornetas soltam asperos toques de alarme, todos os fios da Agencia
-Havas estremecem, a Europa assustada corre ás gazetas, e um rumor passa,
-temeroso, de que «haverá guerra na primavra»! Que foi? <i>No es nada</i>,
-como se canta, no <i>Pan e Toros.</i> É apenas Guilherme II que resubiu ao
-seu palco&mdash;quero dizer, ao seu throno.</p>
-
-<p>O mundo perplexo murmura:&mdash;«Quem é este homem tão vario e
-multiplo? O que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça
-regulamentar de official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer
-talvez antes de assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo
-d'esta ondeante personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema
-contemporaneo,&mdash;e ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a
-influenza ou o planeta Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço
-desesperadamente sedento da fama que dão as gazetas (como Alexandre o
-Grande que, em risco de se afogar, já suffocado, pensava no <i>que diriam
-os Athenienses</i>) e que, mirando á publicidade, prepara as suas
-originalidades com o methodo, a paciencia e a arte espectacular com que
-Sarah Bernhardt compõe as suas <i>toilettes.</i> Outros sustentam que ha
-n'elle apenas um fantasista em desequilibrio, arrebatado estonteadamente
-por todos os impulsos de uma imaginação morbida, e que, por isso mesmo
-que é imperador quasi omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma
-resistencia vigilante lh'os cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos
-da fantasia. Outros, por fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern
-em que se sommaram e conjunctamente affloraram com immenso apparato
-todas as qualidades de cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo
-e voluntarismo, que alternadamente caracterisavam os reis successivos
-d'esta felicissima raça de fidalgotes do Brandeburgo...</p>
-
-<p>Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as
-theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o
-imperador Guilherme é simplesmente um <i>dilettante da acção</i>&mdash;quero
-dizer, um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com
-superior intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja
-portanto experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa
-civilisação. Os <i>dillettante</i> são-n'o geralmente de ideias ou de
-emoções&mdash;porque para comprehender todas as ideias ou sentir todas as
-emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós,
-mortaes, podemos, sem que nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos
-liberrimamente nos illimitados campos do raciocinio ou da sensibilidade.
-Eu posso ser um perfeito <i>dillettante</i> de ideias, modestamente
-fechado, com os meus livros, na minha bibliotheca:&mdash;mas se tentasse
-ser um <i>dillettante</i> da Acção, nas suas expressões mais altas,
-commandar um exercito, reformar uma sociedade, edificar cidades, teria de
-possuir, não uma livraria, mas um imperio submisso. Guilherme II possue
-esse imperio; e hoje que se libertou da dura superintendencia do velho
-Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel <i>dilettantismo</i> da
-Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz a Biblia), galopa no
-deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas massas de soldados, ou
-de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de lançar um telegramma,
-fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de transformar, nas suas mãos
-potentes, todo um organismo social? Tem só de annunciar: «Esta é a minha
-ideia»&mdash;e lentamente a seus pés começará a surgir um mundo novo.</p>
-
-<p>Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só
-zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese,
-e que quando o seu imperador lhe ordena que marche&mdash;emmudece e
-marcha.</p>
-
-<p>E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com
-elle, o inspira e sancciona o seu poder.</p>
-
-
-<p>E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador
-da Allemanha:&mdash;é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico
-seculo, entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro
-iniciado, ou propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado
-de Deus! O mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal
-intimidade e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado
-de Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do
-mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que
-conferencia com Deus na sarça ardente do <i>Schloss</i> de Berlim, e que
-por instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan.
-É verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de
-affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por
-ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus,
-que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em
-cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis
-contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento,
-esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel
-na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o
-servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos
-espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito
-d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez
-allude a Deus em termos de maior igualdade&mdash;como alludiria a Francisco
-d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com
-reverencia, o <i>Amo que está nos céus</i>, o <i>Muito alto que tudo
-manda.</i> Ultimamente porém, arengando com <i>champagne</i> aos seus
-vassalos da Marca Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus&mdash;o <i>meu
-velho alliado!</i> E aqui temos Guilherme e Deus, como uma nova firma
-social, para administrar o Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus
-desappareça da firma e da taboleta, como socio subalterno que entrou
-apenas com o capital da luz, da terra e dos homens, e que não trabalha,
-ocioso no seu infinito, deixando a Guilherme a gerencia do vasto negocio
-terrestre:&mdash;e teremos então apenas Guilherme e Cia. Guilherme, com
-supremos poderes, fará todas as operações humanas. E «companhia» será a
-fórmula condescendente e vaga com que a Alemanha de Guilherme II designará
-Aquelle para quem todavia, segundo crêmos,&mdash;Guilherme II e a Allemanha
-toda são tanto, ou tão pouco, como o pardal que n'este instante chalra no
-meu telhado!</p>
-
-<p>Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas
-da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito
-triumphal de cada emprehendimento&mdash;eis o que me parece explicar a
-conducta d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio
-situado nos confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um
-thesouro de guerra para manter e armar dous milhões de soldados, ou se
-estivesse cercado por uma opinião publica tão activa e coercitiva como a
-da Inglaterra, Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na
-historia, curioso pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu
-messianismo. Mas, infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora,
-com centenares de legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados
-tambem e submissos como soldados&mdash;Guilherme II é o mais perigoso dos
-reis, porque falta ainda ao seu <i>dilettantismo</i> experimentar a fórma
-da Acção mais seductora para um rei&mdash;a guerra e as suas glorias. E
-bem póde succeder que a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se
-entrechocam&mdash;só porque na alma do grande <i>dilettante</i> o fogoso
-appetite de «conhecer a guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os
-conselhos e a piedade da patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o
-promettia aos seus fieis solarengos do Brandeburgo:&mdash;«Levar-vos-hei a
-bellos e gloriosos destinos». Quaes? A varias batalhas de certo, onde
-triumpharão as Aguias germanicas... Guilherme II não o duvida&mdash;pois
-que tem por alliado, além de alguns reis menores, o Rei Supremo do Céu e
-da Terra, combatendo entre a <i>Landwehr</i> allemã, como outr'ora Minerva
-Athenea, armada da sua lança, combatia contra os barbaros em meio da
-phalange grega.</p>
-
-<p>Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem,
-na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que
-riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um
-homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que
-essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então
-verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo
-que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus&mdash;mas apenas se provou que
-Deus não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava
-desdenhosamente&mdash;foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e
-apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde
-os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que
-se estampa sobre a moeda falsa.</p>
-
-<p>Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume
-hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão
-repartidas pelos corpos de Estado&mdash;e só elle julga, só elle executa
-porque é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu
-parlamento, que Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração
-transcendente.</p>
-
-<p>Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro
-desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas
-ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie
-da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada
-alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.</p>
-
-<p>E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para
-lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra
-o destino esses terriveis <i>dados de ferro</i>, a que alludia outr'ora o
-esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter
-altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o
-exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse
-exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua
-infallibilidade.</p>
-
-<p>E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande
-imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes
-desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e
-os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os
-formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a
-amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do
-liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a
-consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que
-Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante
-da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de
-Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos
-entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia
-politica na Prussia era&mdash;<i>Deus salve o Rei?</i> Onde estão esses
-louvores ao direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por
-Mommsen, por Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das
-duas grossas pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o
-soldado, Guilherme II hoje só tem o soldado:&mdash;e o throno,
-sobrecarregado com o imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que
-é talvez o do abysmo...</p>
-
-<p>Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno,
-o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as
-accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr.
-E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em
-Sadowa e em Sedan&mdash;é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua
-nova ferula, que vencerá em Berlim.</p>
-
-<p>O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo,
-n'este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II.
-Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este
-moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez
-heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu <i>Schloss</i>
-de Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente,
-no Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla
-corôa amolgada da Allemanha e da Prussia.</p>
-
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-
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-<hr class="r5" />
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-<h4><a id="IV_O_GRAND_PRIX-A_ESTATUOMANIA-OS_COCHEIROS-VICTOR_HUGO-O_CAMPO_EM_PARIZ"></a>IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.</h4>
-
-
-<p>Na semana passada o <i>Grand Prix</i>&mdash;que é a solemnidade
-official do sport, do jogo e das <i>toilettes.</i> Todos estes elementos
-estiveram magnificamente representados na planicie de Longchamps, sob um
-sol mais severo que o de Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor,
-um cavallo francez com o nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma
-<i>quarta parte do focinho.</i> As apostas elevaram-se a mais de seis
-milhões. E havia <i>toilettes</i> portentosas, entre as quaes unn vestido
-negro, todo ornado de crysanthemos brancos.</p>
-
-<p>A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a
-rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d'Aosta, cunhada do rei de
-Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida
-dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia
-se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um
-principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e
-sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes
-avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?)</p>
-
-<p>O calor era horrifico. Á noite, no <i>Jardim de Paris</i>, houve, sob as
-arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava
-brilhantemente borracha, <i>sicut licet.</i> A unica innovação foi a troca
-geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas,
-com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces
-creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve
-fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade.</p>
-
-<p>Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana).
-Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de <i>Grand Prix</i>, os
-cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de
-toga arregaçada:&mdash;e o austero Catão apparecia no senado com um grande
-nariz postiço.</p>
-
-
-<p>N'esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas
-provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito
-engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era
-ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os
-ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada
-semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava&mdash;uma
-estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes
-homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus
-benemeritos.</p>
-
-<p>Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada
-mez,&mdash;que digo eu? cada semana!&mdash;se desvenda algures uma estatua
-d'alguem, entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte
-annos d'este fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm
-estatua. Em compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de
-quem fallava recentemente Julio Simon. Digo um <i>certo</i> Guerin, porque
-eu não lhe conhecia a existencia antes d'essa allusão de Julio Simon, que
-foi o inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De
-resto, talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas
-praças, sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é
-Guerin? Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial,
-sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na
-sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes,
-menos por causa de D'Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac,
-como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem
-Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin.</p>
-
-
-<p>Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais
-duro de atravessar é a <i>grève</i> dos cocheiros. Pariz está sem
-tipoias&mdash;o que é, sobretudo n'este momento, como o deserto sem
-camelos. Se n'esta super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos
-bonds fôsse facil, exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria
-desgostos&mdash;e seria mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o
-omnibus e o bond, em Pariz, são instituições rudimentares. É mais facil
-para um pariziense entrar no céu do que n'um omnibus. Para obter o logar
-na bemaventurança basta, segundo affirmam todos os santos padres, ter
-caridade e humildade. Para obter o logar do omnibus estas duas grandes
-virtudes são inuteis e, mesmo, contraproducentes. Antes o egoismo e a
-violencia. Depois de conquistar o logar, a outra difficuldade insuperavel
-é sahir d'elle&mdash;por aquelle meio natural e logico que consiste em
-chegar e apear. Nunca se chega&mdash;senão quando já é desnecessario. Eu
-e um amigo partimos um dia da gare d'Orleans, á mesma hora; eu no comboio
-para Portugal, elle no omnibus para o <i>Arc de L'Étoile.</i> Quando eu
-cheguei a Madrid soube, por um telegramma, que o meu amigo ia ainda na
-Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em Pariz é o grande refugio e o
-local do namoro. Quanto mais comprida a jornada, mais demorado portanto o
-encanto. O meu amigo encontrára no seu omnibus a creatura dos seus sonhos.
-Era uma loura com sardas promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da
-Estrella estavam noivos&mdash;ou peior. São estas pequenas commodidades da
-vida sentimental que conservam a freguesia aos omnibus.</p>
-
-<p>Uma das causas, ou antes a causa da <i>grève</i> é que os cocheiros
-querem ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é
-que a municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e
-que elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e
-aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de
-que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que
-o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do
-Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O
-cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer
-parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza
-envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades
-innumeraveis. É peior que a administração chineza&mdash;e menos pittoresca.
-Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar
-licenças successivas a vinte auctoridades successivas&mdash;entre as quaes
-o ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos
-trens de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um
-d'esses trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel
-sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de
-deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n'um dia de dezembro, uma
-familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a
-um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia&mdash;e o digno
-funccionario, com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o
-documento, respondendo com superioridade: <i>Indeferido, por causa da
-distancia e do mau tempo!</i></p>
-
-
-<p>Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo
-porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e
-compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos.</p>
-
-<p>Victor Hugo publicou este mez mais um volume&mdash;<i>Toute la Lyre.</i>
-Como o Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno
-atira de dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A
-proposito d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de
-versos, que elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a
-gloria poetica de Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua
-gloria. Essa já está estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com
-as <i>Contemplations</i>, a <i>Légende des Siècles</i> e os <i>Châtiments.</i>
-Mas augmentam o nosso conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos,
-novas emoções ou fórmas differentes no exprimir as emoções e os
-pensamentos que lhe eram habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que
-sentia e pensava em verso. Cada verso novo, que nos é desvendado,
-constitue pois um documento novo sobre o poeta&mdash;sobre a sua visão
-espiritual ou sobre o seu verbo lyrico. Ora quantos mais documentos se
-reunem sobre um homem de genio como Hugo, mais completo se torna o
-trabalho critico sobre a sua individualidade e sobre a sua obra. Para
-alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as
-cartas, todos os papeis intimos&mdash;até as contas do alfaiate. Assim se
-tem feito para Lamartine, para Balzac, etc.</p>
-
-<p>Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de
-pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se
-queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para
-proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d'um grande homem
-de guerra, que tem iguaes&mdash;é bem justificado que se publiquem os
-versos, todos os versos, ainda os menos interessantes, d'um poeta que, sem
-contestação, é o maior de todos, em todos os seculos.</p>
-
-
-<p>A moda, ou antes aquelles que a fazem, acaba de tomar uma resolução
-sapientissima. Pariz, d'ora em deante, fica sendo considerado, durante
-os mezes de verão, para todos os effeitos sociaes, como campo e não como
-cidade. É permittido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao theatro,
-etc., de chapéo de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo.
-Era com effeito absurdo que Pariz nos servisse 30 graus á sombra&mdash;e
-que os parizienses continuassem a soffrer a tyrannia da sobrecasaca
-apertada e do duro chapéo alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e
-permittir a tanga. O vestuario foi inventado por causa da temperatura, e
-deve, portanto, variar com ella harmonicamente. A neve pede pelles, pelles
-supplementares, arrancadas a animaes. O sol do Senegal ou de Pariz em
-julho, só pede a propria pelle&mdash;sem mais nada, além de uma folha de
-vinha. Esta seria a logica das cousas. A moda não ousou ser tão
-radical&mdash;e foi só até á palha e á alpaca.</p>
-
-<p>Mas é um primeiro passo no bom senso. Para o anno, talvez nos seja
-permittido o ir á Opera, como deveriamos, em mangas de camisa. Ahi no Rio,
-segundo me affirmam, mesmo no verão, se anda de sobrecasaca de panno. É um
-lamentavel excesso de decoro social. Ainda se comprehendia no tempo do
-imperio, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas
-instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a republica devia
-apagar esse verdadeiro vestigio do velho regimen, e derrubar a tyrannia do
-panno e do chapéo alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma
-influiria vantajosamente no estado dos espiritos. Um povo que, com 40
-graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com
-um chapéo alto de ceremonia, é necessariamente um povo constrangido, cheio
-de vago mal-estar, propenso á melancolia e ao descontentamento politico.
-Que a esse povo seja permittido pôr na cabeça um fresco chapéo de palha e
-refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves&mdash;e elle
-respirará consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazivel na vida e no
-Estado.</p>
-
-
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-<hr class="r5" />
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-<h4><a id="V_O_14_DE_JULHO-FESTAS_OFFICIAES-O_SIAO"></a>V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.</h4>
-
-
-<p>Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente
-o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não
-berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito,
-um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais
-descontente:&mdash;accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo
-appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas,
-com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor
-pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela
-enthusiasmada rouquejava a <i>Marselheza.</i> As filas de <i>fiacres</i>
-dormiam pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de
-Longchamps pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a
-lentidão e a gravidade enfastiada de um enterro civico.</p>
-
-<p>Nem um <i>Vive Carnot!</i> Nem uma palma ao velho Saussier, governador
-militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz
-não applaude os pennachos&mdash;é que Pariz está realmente macambuzio.</p>
-
-<p>Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses
-estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano
-os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma
-commissão para <i>desorganisar</i> a festa e promover uma melancolia de
-protesto:&mdash;mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam
-decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que
-realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a
-França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca
-foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe
-estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:&mdash;e
-onde quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura,
-immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas
-espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde
-os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo
-dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada
-da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o
-symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo,
-na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra
-de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma
-classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A
-essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez
-d'isso, a aristocracia, n'essa data illustre, volta a face com tedio,
-cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta
-portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro
-grossas torres onde pudesse ser sepultada <i>pro vita</i> ao bel-prazer
-d'El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com
-o dia que a libertou&mdash;porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?</p>
-
-
-<p>Além d'isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam
-populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede
-com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda
-vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas
-alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de
-lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a
-illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o
-facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as
-lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando
-os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta
-Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito
-tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe
-mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta
-Constitucional.</p>
-
-<p>Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico,
-nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo
-não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza
-<i>simplista</i>, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim
-como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra
-de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo,
-são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos
-populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são
-individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem
-convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem
-recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d'esses santos, as
-suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus
-attributos, tudo lhe é familiar&mdash;e elles são como verdadeiras pessoas
-de familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente
-amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino
-fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e
-se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram
-alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a
-cidade;&mdash;e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se
-celebra com carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella
-do alto das nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da
-terra. Mas se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o
-dever de celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de
-Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma
-luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão:&mdash;«S. João é um
-amigo meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo
-favores e que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei
-onde é, e esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para
-mim o preço de uma lamparina.»</p>
-
-<p>É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos.
-Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para
-que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de
-enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa,
-devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a
-difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.</p>
-
-<p>Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos
-protestariam com furor e haveria sangue.</p>
-
-<p>Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios
-desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve
-a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.</p>
-
-<p>Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.</p>
-
-<p>A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo
-terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e fallando com azedume de
-<i>casus belli.</i> Este latim, que significava outr'ora <i>caso de
-guerra</i>, quer apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional,
-que dous amigos se zangam, se tratam de <i>pulhas</i> e <i>malcreados</i>,
-se mostram mutuamente o punho, e mutuamente se voltam as costas.</p>
-
-<p>Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por
-motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e
-portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se
-deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á
-chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem,
-participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma
-architectura phantasista de magica&mdash;e estão armadas de canhões Krupp.
-Além do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em
-plantações e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para
-possuir. Se eu tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria
-meu, e eu exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e
-magnanimidade. Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A
-Inglaterra tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos
-n'esses confins do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre
-Sião. E não as censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e
-frotas, teria já empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a
-terra para nutrir o animal pensante&mdash;e por isso com bois se fazem
-bifes. Os paizes orientaes são feitas para enriquecer os paizes
-occidentaes&mdash;e por isso com os Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as
-Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para
-a França boas e pingues colonias. Eu sou civilisado, tu és
-barbaro&mdash;logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois trabalha para
-mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilisado.
-Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte,
-uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm uma
-religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos
-occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado
-é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens
-canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu
-vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita
-internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e
-Abel.</p>
-
-<p>Em virtude, porém, d'um respeito innato pelas exterioridades (que data
-da folha de vinha) os homens crearam ao lado d'este descarado direito
-internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de
-mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se
-d'outra com a simplicidade com que n'uma estrada uma creança colhe um
-fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o
-forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande
-progresso adquirido.</p>
-
-<p>Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir
-sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de
-fronteira n'uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo
-um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou
-que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram <i>hu! hu!</i> Tudo isto
-é gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em
-tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns
-officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da
-França. Se não foram elles&mdash;foram seus paes, como disse o lobo ao
-cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua
-honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que
-os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei
-de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á
-Luiz XV!</p>
-
-
-<p>Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se
-installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle
-bello bocado do Oriente&mdash;e é a França, a nação entre todas rival, que
-apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes
-berraram <i>hu! hu!</i> É sobre a bandeira da França, não sobre a d'ella,
-que os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É
-a França emfim que está na deliciosa posse d'estas affrontas, que saboreia
-a preciosa felicidade de ser insultada&mdash;e que portanto tem o rendoso
-direito de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada&mdash;e a
-Inglaterra não a tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes,
-através do seu parlamento:&mdash;«Uma vez que n'esta occasião Sião não
-pôde ser para mim, tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar
-necessario á sua honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na
-independencia de Sião! A autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para
-permanecer em equilibrio, precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião
-(desde que não póde ser para a Inglaterra). E se a França attentar contra
-a independencia de Sião, ás armas!» Eis o que diz, n'um dizer mais
-diplomatico e solemne, aquelle excellente John Bull.</p>
-
-<p>E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um
-pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação
-e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios
-deante de um velho osso.</p>
-
-<p>O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações,
-homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e,
-deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="VI_A_FRANCA_E_O_SIAO"></a>VI. A FRANÇA E O SIÃO.</h4>
-
-
-<p>A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido
-povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um <i>ultimatum</i> em que era
-intimado a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu
-territorio e uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente
-maneira dos orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella
-mansidão e humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas,
-replicou que não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia
-a paz, e que por amor d'ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não
-tanto, e a abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr'ora, quando
-os costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos
-orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d'uma feliz reputação de
-lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações,
-novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores.</p>
-
-<p>Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do
-Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem
-se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e
-fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da
-Cochinchina.</p>
-
-<p>Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido
-medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de
-commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do
-povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não
-acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não
-percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a
-França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe
-tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia,
-quando o povo se desinteressa d'uma questão, os politicos e os jornalistas
-têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente
-correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem
-se apoiar n'um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de
-Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d'uma manhã.</p>
-
-<p>Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por
-causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou
-sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.</p>
-
-<p>Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de
-arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a
-cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a
-França e Inglaterra se batessem por causa de <i>bichos tão feios como os
-siameses</i>&mdash;estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do
-seculo. Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do
-Egypto, que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se
-têm dilacerado todos os povos desde o diluvio&mdash;não ha receio que
-jámais duas nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses
-orientaes.</p>
-
-<p>De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero
-desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles
-perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel,
-n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido,
-e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma
-tinta&mdash;sem medo que se venha a gastar sangue.</p>
-
-
-<p>Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a
-Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos.
-Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a
-Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua
-conquista.</p>
-
-<p>Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e
-emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir
-povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar
-a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos
-fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem
-uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um
-commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra
-para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada
-d'isto&mdash;nem frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo
-homens, porque a população da França não chega mesmo para a França. Quando
-ella se apossa violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial
-que depois pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e
-muitos empregados publicos. A França faz conquistas para exportar
-amanuenses. No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas
-maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial
-da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral.
-Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses
-aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra
-occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.</p>
-
-<p>A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando
-um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda
-rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem
-condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação,
-um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse
-enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos,
-ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando,
-porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que
-penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um
-escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo
-ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E
-só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para
-que quer aquelle velho aquella moça?»</p>
-
-<p>E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer
-esta França este Sião?»</p>
-
-
-<p>Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no
-palacio, e conta detalhes bem pittorescos.</p>
-
-<p>Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma
-fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos
-edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo,
-doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das
-fronteiras.</p>
-
-<p>É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só
-como seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se
-dissessemos o artigo da Constituição) que define as relações e deveres
-entre povo e rei é esta: «<i>Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o
-sêr</i>».</p>
-
-<p>O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir,
-etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez
-que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta
-invocal-o com o nome todo.</p>
-
-<p>Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por
-causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da
-corte é pronunciar o nome d'el-rei.</p>
-
-<p>Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel,
-gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.</p>
-
-<p>E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado
-poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação
-que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez
-que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas
-officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei,
-apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta
-e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que
-offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas!
-Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo
-immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas,
-está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio
-procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo
-estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem
-mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras
-poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!</p>
-
-<p>O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua
-capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande
-festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as
-casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam
-uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de
-joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei
-recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e
-porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.</p>
-
-
-<p>Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão
-d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava.
-Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que
-Goethe descreveu&mdash;«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe
-geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o
-seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça
-uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia.</p>
-
-<p>Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as
-acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe
-perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não
-podia) responder com um saber exacto e forte:</p>
-
-<p>&mdash;Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="VII_A_QUESTAO_BULOZ-A_REVISTA_DOS_DOUS_MUNDOS-PARIZ_NO_VERAO"></a>VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.</h4>
-
-
-<p>Por fim o Sião cedeu:&mdash;e, muito avisadamente, para evitar a
-immensa maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para
-um oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel
-séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á
-França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que
-ella reclamava para «vingar a sua honra.»</p>
-
-<p>Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a
-educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma
-tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião
-desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se
-desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a
-humanidade, como o caso do snr. Buloz.</p>
-
-<p>Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda.
-Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus
-escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem
-depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que
-não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses
-<i>dous mundos</i> que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e
-entretem, por meio da sua illustre e famosa <i>Revista.</i> Porque é
-d'elle que se trata, de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da
-<i>Revista dos Dous Mundos!</i></p>
-
-<p>Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum
-havia então que nós pronunciassemos com mais alegre horror&mdash;porque
-elle representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das
-fórmas novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais
-conservador e burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa <i>Revista dos
-Dous Mundos</i> nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a
-lettras mortas.</p>
-
-<p>E escrever na <i>Revista</i>, pertencer á <i>Revista</i> era para nós
-uma maneira especial de ser fossil.</p>
-
-<p>Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa <i>Revista!</i>
-Quantas phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de
-embrutecer! Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido
-n'um amor sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de
-laudano, um numero da <i>Revista dos Dous Mundos</i>:&mdash;e ao chegar
-ás ultimas paginas, á «Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com
-effeito no somno eterno. Ainda me lembro d'uma definição da
-<i>Revista</i>, dada por um de nós:&mdash;«Uma publicação côr de tijolo,
-que tem dous leitores no Havre!»</p>
-
-<p>Tudo isto era excessivo e injusto. A <i>Revista</i>, de facto, tinha
-leitores por todo o mundo:&mdash;e, como se sabe, e já tem sido dito,
-<i>Todo-o-Mundo</i> é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire.
-Com os seus trinta annos de valente existencia, ella era já então uma larga
-e fecunda remexedora de ideias e de factos:&mdash;e não houvera de resto
-nenhum grande francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido
-esse acto, para nós tão vergonhoso: «escrever na <i>Revista</i>». Todos
-tinham escripto&mdash;mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a
-desarmar do nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes
-idolos d'essa geração&mdash;Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que
-os versos de Beaudelaire, tirados das <i>Flores do Mal</i>, apresentou-os
-ao publico, por assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas
-precauções sanitarias. Havia por baixo dos versos uma nota da direcção,
-toda enojada, em que ella repellia qualquer solidariedade com semelhante
-infecção, e jurava que só a exhibia como uma lição moral, para mostrar a
-que excessos e a que desordens póde rolar a litteratura, quando sacode
-audazmente a salutar disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim,
-publicava Beaudelaire (mesmo alguns dos versos mais temerarios)&mdash;e
-esta concessão, este começo de homenagem prestada ao Satanismo (o
-Satanismo era então uma escola, e todos nós nos consideravamos Satanicos)
-adoçou um pouco as nossas relações intellectuaes com a <i>Revista.</i>
-Modificámos mesmo a definição irrespeitosa. Era então uma «publicação côr
-de salmão, que tinha já dous leitores no inferno!»</p>
-
-<p>Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não
-vejo a <i>Revista dos Dous Mundos</i> sem um sentimento vago e inexplicavel
-de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber
-especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura
-academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte
-originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave
-matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados,
-faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está
-absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia
-com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens
-sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do <i>Quarter Latin.</i>
-É talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço.</p>
-
-
-<p>Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o
-snr. Buloz e, com elle, a pudibunda <i>Revista dos Dous Mundos</i> se
-achavam envolvidos n'um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a
-<i>Revista</i>, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos
-Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n'uma
-aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão
-severa policia dentro da sua <i>Revista</i>, que esquadrinhava todos os
-romances com terror de que lá estalasse n'algum canto algum beijo mais
-voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em
-nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e
-livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e
-illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que
-frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido.</p>
-
-<p>Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz
-e a excellente <i>Revista.</i> Porque não havia aqui realmente um
-romance d'esses que o proprio Buloz condemnava sombriamente como
-«infectos»&mdash;mas um roubo, um longo e abjecto roubo, organisado
-contra Buloz, e portanto contra a <i>Revista</i> de que elle é a
-encarnação viva&mdash;por dous d'esses horriveis personagens a que Balzac
-chamava impropriamente os <i>tubarões de Pariz.</i> Tubarões, sim, no
-sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á cata da presa. Mas
-isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz.</p>
-
-<p>Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem
-indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma
-gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla
-Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella,
-quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz.</p>
-
-<p>O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de
-tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua
-vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de
-contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma
-fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando
-se tem vivido, durante vinte annos, dentro da <i>Revista dos Dous
-Mundos</i>, toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma
-visão de alto esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e
-sensivel. Teve n'uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de
-Mazade!) uma d'aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho,
-nenhuma alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie
-e dos Remusat, evita ou vence.</p>
-
-<p>Buloz cedeu&mdash;ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora
-pretende, em confidencias que fez a um reporter do <i>Gaulois</i>, que «foi
-uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle
-passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda
-a mourama. Pagou, naturalissimamente, as <i>toilettes</i> da menina e da
-familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade;
-e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade,
-deu um dote e um marido á menina.</p>
-
-<p>Educado no idealismo incorrigivel dos romances da <i>Revista</i>,
-imaginava Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para
-sempre o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana,
-e sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o
-marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem
-de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á <i>Revista dos
-Dous Mundos</i>, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia
-uma cidade conquistada.</p>
-
-<p>Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez,
-os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio&mdash;e Buloz pagava
-pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais
-urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria
-reunir rapidamente uma fortuna&mdash;e cada dia, agora, ás vezes mesmo
-duas vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E
-pagava&mdash;para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a
-sua situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi
-arruinado&mdash;e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario,
-fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa
-somma&mdash;e, com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a
-assignar uma lettra promissoria de perto de <i>setecentos mil
-francos.</i></p>
-
-<p>Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!</p>
-
-<p>Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece,
-os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido
-respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam
-contra as queixas de Buloz&mdash;influencias pagas talvez com o dinheiro
-sacado a Buloz. Alliança de «tubarões»&mdash;como diria Balzac. O facto é
-que a policia se conservou n'uma magistral indifferença. Então,
-estonteado, desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á
-sua <i>Revista.</i> Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou
-do seu marido, e a <i>Revista dos Dous Mundos</i> se separou do seu
-director. E o grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre
-Pariz.</p>
-
-<p>Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a
-<i>Revista dos Dous Mundos?</i> Era esta, durante semanas, a interrogação
-anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe
-de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou&mdash;e cruel.</p>
-
-<p>Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio
-entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da <i>Revista</i>
-pronunciou egualmente divorcio entre a casta <i>Revista dos Dous
-Mundos</i> e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida,
-perde a sua mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente
-roubado, durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não
-perderam nada, os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque
-durante todo o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á
-maneira de nomes sagrados. Tal é Pariz.</p>
-
-<p>Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios.
-Mas a resolução dos accionistas da <i>Revista</i> parece-me excessivamente
-austera e illogica.</p>
-
-<p>Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções
-exactas sobre as realidades da vida&mdash;e o seu peculio de conhecimentos
-sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois,
-mais que nunca, nas condições experimentaes de dirigir uma revista,
-sobretudo aquella secção de revista de que elle com mais particular amor
-se occupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre
-enredos, caracteres tortuosos de heroinas e miserias finaes de todo o
-sentimento teria valor e auctoridade. E agora justamente é que o afastam
-d'essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas
-desventuras o tinham, emfim, tornado idoneo! Ha aqui evidentemente um erro
-de criterio, além de uma falta de misericordia.</p>
-
-<p>Em todo o caso, assim acaba na <i>Revista dos Dous Mundos</i> a grande
-dynastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz
-I, o fundador, se soubesse que a sua raça fôra desthronada da
-<i>Revista</i> por um escandalo de coração? Tal é a ironia das cousas! A
-mais austera, solemne, pudica, de todas as publicações européas, tendo
-chegado aos sessenta annos, sem que nunca uma realidade ardente das cousas
-d'amor houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do
-seu director, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em
-alcovas illegitimas! <i>Habent sua fata Revistœ.</i></p>
-
-<p>Pariz fugiu de Pariz. Com este calor de phenomeno, (40 graus á sombra)
-em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o
-simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, n'um verdadeiro
-exodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil
-hebreus, e d'aqui, segundo affirmam os jornaes, abalaram hontem, em
-centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.</p>
-
-<p>Só ficaram os empregados publicos. E ainda assim, havia ha dias uma
-administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao
-contínuo, se achavam no campo ou no mar.</p>
-
-<p>Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por
-dedicação civica.</p>
-
-<p>Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem
-arquejante. Toda a folhagem das arvores seccou.</p>
-
-<p>Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um
-guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se
-attestou de cerveja para outro café onde se vae innundar de limonada. Os
-cavallos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornaes já se pensa
-em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas
-defumadas.</p>
-
-<p>Todavia Londres está mais ardente. Ahi o calor produz quasi uma crise
-nos costumes. Hontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na
-Camara dos Communs, em mangas de camisa.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="VIII_AS_ELEICOES-A_ITALIA_E_A_FRANCA"></a>VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.</h4>
-
-
-<p>As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o
-mais solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n'estes vinte
-annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa
-affirmação.</p>
-
-<p>N'essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal
-consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos
-remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido,
-condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do
-imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação
-Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido
-como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças
-de Augias:&mdash;e assim os que, durante a legislatura passada, se
-ergueram, na tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e
-financeira, como Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em
-todos os circulos, com um enthusiasmo esmagador e jovial.</p>
-
-<p>Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar
-cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e
-militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa,
-só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte
-subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios.</p>
-
-<p>E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com
-unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos
-humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella
-occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em
-cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.</p>
-
-<p>Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar
-da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram
-fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas
-ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro
-andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria
-espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos
-eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito
-comesinhamente, uma reforma do imposto rural.</p>
-
-<p>Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir
-das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres
-inspiradores da oratoria. <i>Basta de lyra!</i> gritavam em 1848 os
-operarios famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel
-de Ville, estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e
-agricola repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a
-eloquencia! Fóra a rethorica e a sua rijada ardente!</p>
-
-<p>E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza
-ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na
-historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor
-do seu progresso.</p>
-
-<p>Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe,
-para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos
-e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor
-uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda
-experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes,
-capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para
-o util serviço d'esta França nova, que é simultaneamente um banco, um
-armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou&mdash;e viu
-que a sua obra era boa.</p>
-
-<p>Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as
-superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual
-da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia)
-foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio
-outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das
-papoulas mais altas.</p>
-
-<p>Na camara não haverá senão espiritos medios e planos&mdash;e toda ella
-será realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma
-eminencia, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao
-vento ou torre airosa d'onde vôem aves.</p>
-
-<p>Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta,
-foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os
-costumes financeiros d'uma democracia industrial, com o regular e fecundo
-funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para
-bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d'estes homens,
-desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de
-um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os
-santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.</p>
-
-<p>Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas
-sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus,
-a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são
-inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como
-perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas
-disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta,
-se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem.</p>
-
-<p>E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este
-suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão,
-ignominiosamente expulsos da Republica.</p>
-
-<p>Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de
-democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim,
-e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar
-n'um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. <i>Amen.</i></p>
-
-<p>Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um
-conflicto entre operarios francezes e italianos, n'um departamento do sul
-(em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica
-que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França.</p>
-
-<p>Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França,
-como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na
-Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da
-Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d'uma raça mais sobria, ou
-d'uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores
-aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e
-muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,&mdash;porque o
-capital é cosmopolita. D'aqui despeito, rancor do operario francez,
-ameaçado no seu pão&mdash;e constantes rixas, em que o italiano,
-naturalmente, puxa a faca, essa faca meridional que enche de horror e de
-asco os povos do norte.</p>
-
-<p>Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que
-um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham
-refugiado n'uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados
-como lobos, e dizimados a tiro, um a um.</p>
-
-<p>Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova,
-em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da
-França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de <i>Morra o
-francez!</i> acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de
-<i>Viva a Allemanha!</i></p>
-
-<p>Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles
-consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu
-sangue, berre: <i>Abaixo a França!</i> Ha ahi apenas, para elles,
-esquecimento e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite:
-<i>Viva a Allemanha!</i> Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á
-dignidade da nação. De sorte que se os italianos assassinados em França
-indignaram a Italia&mdash;a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e
-quasi ironica de enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais
-profundamente a França. E as duas nações estavam já assim, ha duas
-semanas, em face uma da outra, quietas, mas penetradas de mutua
-hostilidade, tanto maior da parte da França quanto tem de ser, por
-prudencia, silenciosa. Mas eis que agora, n'estes ultimos dias, a Italia
-praticou, para com o sentimento francez, um outro e supremo ultraje.</p>
-
-<p>O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras
-militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem
-acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe
-real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano
-na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma
-offensa?</p>
-
-<p>Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar.
-Em boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e
-administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo:
-e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja
-maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d'isso, a sua presença
-não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte
-annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da
-Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio:
-e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n'uma
-provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás
-manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se
-o <i>acceitar</i> um convite para essa região é offender a França, o
-<i>recusar</i> o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a
-Allemanha. Tudo isto é indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não
-se raciocina, quando ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são
-duas terras francezas que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de
-Italia vir caracolar sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do
-oppressor, é, para os francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que
-uma reconciliação entre a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto
-mais que ás questões de politica se juntam questões de dinheiro (sempre
-irritantes) e a estas ainda uma outra questão sentimental de gratidão,
-mais irritante que a de pecunia.</p>
-
-<p>Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n'um
-perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França
-tem o condão de enervar a Italia&mdash;de a enervar até ao desespero. É um
-facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n'uma
-das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio
-pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente
-cita, lembra e celebra o beneficio da libertação&mdash;não é tedio então,
-é intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o
-libertou. É bem natural&mdash;porque o fraco não póde esquecer que o apoio
-trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua
-fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr'ora veiu salvar, com grande
-alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.</p>
-
-<p>Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde
-Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram
-horrendamente caras, além de algumas d'ellas lhe serem desoladoramente
-inuteis.</p>
-
-<p>A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III,
-que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá
-bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d'isso a França
-tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou
-o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando
-realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu
-grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas
-armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado.
-N'estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando
-os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a
-Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua
-magnanimidade.</p>
-
-
-<p>Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a
-Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de
-semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem
-sido ajudada:&mdash;mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a
-nós todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua
-imagem. Ella é e permanecerá a <i>Italia-mater</i>, a mãe veneravel das
-nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e
-intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica
-findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella
-espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente,
-ella nos deu a musica.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="IX_ALLIANÇA_FRANCO_RUSSA"></a>IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.</h4>
-
-
-<p>N'este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo
-Brazil:&mdash;e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção
-apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa
-ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a
-elle tão tumultuosamente o perturba.</p>
-
-<p>Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o
-seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove
-com o que se passa dentro da linha dos boulevards&mdash;quando muito,
-dentro do recinto das fortificações.</p>
-
-<p>Além d'isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão
-discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se
-verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate,
-se não impede totalmente a emoção.</p>
-
-<p>Depois ainda, as nações, á maneira que aperfeiçoam as suas formas de
-civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema
-polidez das nações. De sorte que, n'esta duvida e n'esta reserva, tudo
-quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o
-patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz.</p>
-
-
-<p>De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo
-contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua
-febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas
-theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como
-a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo
-os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza,
-que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da
-sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da
-guerra. Por toda a parte <i>grèves</i>, e sangrentas; por toda a parte ruinas
-causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em
-Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a
-Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite,
-envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a
-unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por
-ser uma republica (não parece haver salubridade segura n'esse regimen)
-mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os
-ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas
-pacata e hygienica de dona de hospedaria.</p>
-
-<p>Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte:&mdash;e
-aqui temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi
-convulsamente, uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar
-(porque o Czar é que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de
-Pariz, mesmo os mais revolucionarios e os que mais zelam a soberania
-popular, aconselham que se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!)
-manda este mez a sua esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella
-respeitosa visita que ha um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero
-dizer ao Czar. E a França toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que
-quasi não têm nome, procura realisar uma demonstração de amizade pela
-Russia, tão ardente e estridente que fique historica e que marque mesmo o
-começo d'uma nova éra historica.</p>
-
-<p>Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar
-no porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa.
-Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n'uma d'essas
-situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão
-particularmente penosas a uma nação altiva.</p>
-
-<p>Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza
-(outr'ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito,
-encarregava d'elle os francos&mdash;<i>gesta Dei per Francos</i>), a
-França estava, na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o
-ar embaraçado de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas,
-poderosamente armada, com tres milhões de soldados facilmente
-mobilisaveis, a França estava entre as grandes potencias militares com o
-ar inquieto e timorato de um fraco entre valentões! Situação absurda mas
-logica, porque era republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes
-viam o seu republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua
-derrota, e o isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de
-guerra a terem por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força,
-ares fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava
-sempre na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os
-seus pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de
-soldados, politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se
-desforrava d'esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é
-inobscurecivel e invencivel, a da litteratura e da arte.</p>
-
-<p>Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga,
-uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse
-pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de
-republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão
-politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas.
-E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz,
-como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente,
-mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou
-doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia,
-vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental
-de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a
-França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe
-faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr.
-Carnot fôsse um Rei de Direito Divino&mdash;mas ao mesmo tempo a França,
-como França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma
-força irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante
-Avelane abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia.</p>
-
-<p>Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as
-proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild.
-Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de
-Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um
-começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que
-o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu
-milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e,
-ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes
-de Hamburgo. D'ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este
-corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho
-Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de
-maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro
-venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das
-casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil
-accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma
-consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas
-civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild!
-E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo
-uma parte do poder.</p>
-
-<p>A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava
-nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente
-a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer,
-como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os
-negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma
-manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas.</p>
-
-<p>A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar
-triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente
-grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a
-vehemencia do abraço:&mdash;e por isso o quer bem demorado, alumiado por
-todos os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n'um fulgor de
-apotheose!</p>
-
-<p>Mas a França é uma franceza&mdash;com todas as suas graças de
-sensibilidade e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater
-perante uma homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O
-acolhimento solene e carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande
-surpreza da Europa, á esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de
-todo a conquistou, e a França, que é uma franceza, está hoje namorada de
-Alexandre III.</p>
-
-<p>Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo,
-escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção.
-Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á
-França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não
-ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo,
-o Theseu salvador? Tudo n'elle parece bello, a sua estatura, a formidavel
-rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação
-grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia
-conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a
-França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas
-festas vão ter não sei que de nupcial.</p>
-
-<p>O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja.
-E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos
-compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar <i>Te-Deums</i> louvando o
-Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas.</p>
-
-<p>Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os
-politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da
-Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario:
-liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra
-parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos
-estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma
-antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de
-influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi
-sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a
-Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para
-arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á
-Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande
-«despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d'elle,
-mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que
-quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a
-tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno
-mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi
-brutalmente demittido!</p>
-
-<p>Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em
-França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa)
-e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão
-com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás
-mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica
-sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas
-até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a
-Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do
-renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela
-manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não
-lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por
-onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular.
-E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as
-<i>gares</i> estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e
-timidos clamores de <i>Viva o Czar!</i></p>
-
-<p>Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera
-particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram
-a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu
-neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no
-centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam
-para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas
-positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo,
-acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e
-bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não
-comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A
-natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous
-estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas
-fórmas de sentir, o francez e o russo divergem;&mdash;e quasi se póde
-dizer que um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na
-sua essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a
-civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado,
-as duas nações discordam&mdash;porque uma é ainda primitiva, governada por
-crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a
-outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a
-sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo
-de revoluções.</p>
-
-<p>Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a
-confraternisação. A França, repito, é uma franceza&mdash;e, como tal,
-extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura.</p>
-
-<p>Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo
-estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta
-que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta
-<i>élite.</i></p>
-
-<p>Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que
-marcará talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella
-realmente existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha
-tradição)&mdash;e vão buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII
-(antes d'isso tambem quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande,
-que foi esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente,
-onde a sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam
-<i>les petites dames.</i> Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na
-guerra da Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos
-confraternisavam nas trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne.
-Boa novidade! Já outr'ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os
-cavalleiros inglezes e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso
-dos assedios, se juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar
-d'armas e d'amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão.
-Em todos os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os
-officiaes fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as
-circumstancias, zurrapa ou <i>champagne.</i></p>
-
-<p>Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo
-lado da França, d'esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte
-da Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não
-tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi
-o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que
-gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!»</p>
-
-<p>É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes
-das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente
-com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e
-sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="X_AS_FESTAS_RUSSAS-A_TOILETTE_DUM_PRESIDENTE_DE_REPUBLICA-NOTICIAS_DO_BRASIL"></a>X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS
-DO BRASIL.</h4>
-
-
-<p>Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O
-almirante Avelane e os officiaes da fróta russa desceram sobre Pariz. Digo
-<i>desceram</i>, como se se tratasse de sêres chegados das brancas
-espheras celestes, porque o proprio almirante classificou esta visita
-de <i>sobrenatural</i>, e o snr. Hervé, director do <i>Soleil</i>, um
-academico, um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe attribuir um
-caracter <i>miraculoso.</i> Deve haver aqui, pois, o quer que seja de
-transcendente. E Pariz está em delirio;&mdash;mas um delirio cheio de
-bonhomia, e mesmo cheio de diplomacia.</p>
-
-<p>Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus
-amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Pariz, na
-alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova
-força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem
-escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das acclamações aos
-seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injuria aos seus velhos
-inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Pariz está mostrando
-a prudencia de um diplomata encanecido na carreira&mdash;e os proprios
-garotos se comportam como Metternichs.</p>
-
-<p>Nunca de certo, como hoje, Pariz pensou tanto na Allemanha; e no fundo,
-todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminarias se accendem,
-e todo este <i>champagne</i> estala, tanto pela Russia como contra a
-Allemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais
-fundos recantos d'alma&mdash;e o que transborda é apenas o clamor do
-enthusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Allemanha, nem a
-ingrata Italia, nem Triplices Allianças. Ha só dous povos, o francez e o
-russo&mdash;e, como elles se abraçam, o mundo todo se converte n'um amavel
-santuario de paz.</p>
-
-<p>Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Pariz. A cidade
-toda está na rua. O tempo vae quente e abafadiço. Por toda a parte
-a cerveja e o vinho transbordam, como n'umas colossaes bodas de Gamacho.
-E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve
-ainda um grito, uma pilheria n'um café, uma allusão, que desmanchasse a
-harmonia pacifica do soberbo festival.</p>
-
-<p>Isto prova, uma vez mais, que Pariz não é como se pensa a cidade que
-entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra
-ha em que a intelligencia geral seja tão aberta, accessivel e
-prompta&mdash;isto é, em que uma ideia, considerada justa ou necessaria,
-penetre tão claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é
-facil, extremamente facil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena
-burguezia, a belleza ou a vantagem de tomar e conservar, n'um grande
-momento publico, uma certa attitude, mesmo contraria a sentimentos
-legitimos;&mdash;mas como fazel-a sentir áquella turba obtusa e rude, que
-os inglezes chamam os <i>roughs</i>, os «asperos»? Para esses não ha
-interesse publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E
-não seriam elles, se Londres tivesse sido durante seis mezes cercado e
-brutalisado pelos allemães, que se privariam, n'uma festa egual, de
-desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de
-<i>viva a Russia!</i> brados ainda mais altos de <i>morra a Allemanha!</i>
-Ainda ha pouco o provaram (por occasião do curto resentimento entre a
-França e a Inglaterra, a proposito do Sião) quando uma platéa de rapazes
-de commercio, no theatro da Alhambra, ao apparecer, não sei em que
-bailado, a bandeira franceza, rompeu em urros de furor, e se arremessou
-sobre o palco para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um
-momento, uma brusca ebulição do forte sangue saxonio. O bailado
-continuou&mdash;e cada um recomeçou serenamente a rir e a emborcar
-<i>bocks.</i></p>
-
-<p>No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew
-Arnold, o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre
-que estas duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era
-de certo uma generalisação excessiva, que provinha d'esse delicado
-espirito se ter nutrido e enlevado demasiadamente na litteratura franceza
-do seculo XVIII. Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em
-Inglaterra, faltam á populaça. Em França, nem a essa faltam.</p>
-
-
-<p>N'estas festas russas, com effeito, a cousa para mim mais interessante
-e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dous milhões de parizienses
-vivem em permanencia apinhados em tres ruas: o boulevard dos Italianos, a
-Avenida da Opera e a rua da Paz. A classica sardinha na sua classica lata,
-um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do sacco
-pançudo que quasi estoura&mdash;são frouxas imagens materiaes para
-exprimir esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a
-espessura e lentidão d'um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do
-tempo de Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a
-vivacidade, a vibração petulante e batalhadora d'esses dias de cesarismo.
-Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma
-brutalidade, uma impaciencia, um empurrão. As mulheres vieram
-confiadamente trazendo filhinhos ao collo. Tanto é o decoro e o
-recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros d'um
-templo.</p>
-
-<p>Toda esta parte de Pariz, com effeito, em redor do Club Militar onde se
-hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de
-paz.</p>
-
-<p>Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se
-communica aos animaes.</p>
-
-<p>Na Avenida da Opera um grande <i>mail-coach</i>, tirado por quatro
-puros cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de
-Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e
-bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou
-risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não
-se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles,
-terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas
-fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os
-focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas
-estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por
-entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se
-enfeita&mdash;e toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d'ouro e
-apotheose.</p>
-
-<p>Por vezes, entre couraceiros que cercam um <i>landeau</i>, alvejam ao
-longe os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo
-de <i>viva o Czar, viva a Russia!</i> Toda a massiça multidão arremette
-n'uma anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o
-esvoaçar dos lenços. É uma curta explosão d'amor. De novo o decoro, a
-compostura risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um
-pó importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de
-colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos
-predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos
-charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave,
-polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado
-precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d'estes, no meio de
-dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas
-estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que
-através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda
-uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me
-empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse&mdash;não cessei de
-louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a
-conquista das Gallias.</p>
-
-<p>Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres&mdash;sobretudo
-as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio
-decorativo&mdash;nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse
-dom pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um
-salão&mdash;ainda que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da
-sua intelligencia, o tenha immobilisado em dous generos que repete
-monotonamente, infinitamente: o <i>Luis XV</i> e <i>Henrique II.</i> Em
-todo o caso, possue grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas
-estas festas realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera
-(que é um salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço
-inventivo não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas
-varandas, ao lado do pavilhão amarello com a aguia negra de duas
-cabeças.</p>
-
-<p>A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas,
-o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca
-de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de
-lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção
-buddhista.</p>
-
-<p>As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições,
-corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os
-russos;&mdash;e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os
-seus officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro
-<i>lunchs</i>, dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de
-engulir o café, tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para
-ir além recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes
-tiveram de comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz
-trufada. E como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os
-<i>toasts</i>, as saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar,
-não é menos grave considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes,
-coube, durante o seu dia, esgotar de setenta a oitenta copos de
-champagne.</p>
-
-<p>Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz <i>valia</i> uma missa, não
-ha duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma
-dyspepsia.</p>
-
-<p>Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas
-pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem
-uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca
-e gravata branca como os escudeiros que servem o <i>punch.</i> Este
-inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao
-esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou
-tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em
-meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros,
-das amas ricas&mdash;alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia,
-sob o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os
-ministros, o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda
-branca recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços
-floridos, e os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas
-faiscantes dos Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal
-feita, como a de um creado de copa ou de um servente de enterro!</p>
-
-<p>Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E
-jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se
-estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres
-poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê
-prestigio&mdash;esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo
-da arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel.
-Isto é extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o
-summo respeito. Ora, entre dous chefes de Estado&mdash;um revestido de
-uma couraça rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro
-de um paletot negro, com um chapéo côco&mdash;o respeito instinctivo da
-multidão impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para
-o sujeito do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das
-mulheres&mdash;e logo portanto atraz, por uma lei natural, a consideração
-dos homens. Os philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor
-por estas exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu
-impressionar Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos&mdash;e
-para ella perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do
-poder.</p>
-
-<p>Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente
-não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de
-tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia&mdash;e de que elle
-proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa
-lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de
-que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.</p>
-
-
-<p>E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como
-não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em
-França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações
-das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda
-assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos
-do mundo.</p>
-
-<p>Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o
-Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem
-sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil
-tivesse desapparecido&mdash;ou antes tivesse entrado n'aquella era de
-felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter
-historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se
-encontra n'algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café
-vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão
-agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso...</p>
-
-<p><i>Un silence parfait régne dans cette histoire</i>&mdash;como diz
-Musset. É de bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo
-caso, é unico na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera,
-tumulto. De repente tudo se cala, tudo se some&mdash;e aqui ficamos na
-Europa boquiabertos, deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como
-uma visão de magica. Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde
-estão os regimentos? Não ha nada&mdash;não se entrevê um vulto, não se
-escuta um rumor.</p>
-
-<p>De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em
-Pariz d'essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma
-longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que
-troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na
-sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o
-Brazil&mdash;tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa
-pacificamente a vender café.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XI_A_HESPANHA-O_HEROISMO_HESPANHOL-A_QUESTAO_DAS_CAROLINAS-OS_ACONTECIMENTOS_DE_MARROCOS"></a>XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS
-ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.</h4>
-
-
-<p>O «Theatro dos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo
-um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus&mdash;e é agora de Hespanha
-que nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo
-garante que elles devem ser interessantes&mdash;porque de Hespanha nada
-póde vir que seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e
-discursos.</p>
-
-<p>A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica;&mdash;pelo menos
-é a ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se
-comportam com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica
-imprudencia, e soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos
-os interesses, e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem
-constituir, o typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias
-estão bem d'accordo sobre o que é um heroe).</p>
-
-<p>Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que
-se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal
-Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n'uma praça de
-Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se
-misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola
-de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente,
-e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o
-marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó
-e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas
-uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É
-Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no
-ar:&mdash;<i>No és nada, no és nada!!</i> O seu cavallo jazia despedaçado
-n'uma poça de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos
-uns poucos de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e
-gemendo. O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E,
-todavia, indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba,
-continua a encolher os hombros, a gritar:&mdash;<i>Pero si no és nada,
-hombre, si no és nada!</i></p>
-
-<p>Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do
-anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho:&mdash;<i>Fui eu! Fui
-eu!</i> Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca,
-e está ancioso por que todos saibam que <i>foi elle, só elle!</i> Não vá
-outro ser preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas
-mulheres, a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da
-confusão, podia fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela
-sua façanha? Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada:
-<i>Fui eu! Fui eu!</i> E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos
-amarradas, clamando ainda com orgulho para as janellas cheias de gente
-que <i>fôra elle, só elle!</i></p>
-
-<p>Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio
-desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que <i>no és nada, que no
-és nada!</i></p>
-
-<p>O quadro é admiravelmente hespanhol&mdash;e só póde ser hespanhol.</p>
-
-
-<p>O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo,
-o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um
-grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o
-hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os
-interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa
-momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece
-o sublime D. Quixote.</p>
-
-<p>E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a
-prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens
-accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento&mdash;como
-superiormente o prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae
-perder&mdash;marcha jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se
-trata da sua patria.</p>
-
-<p>Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria.
-Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de
-descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos
-copos d'agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está
-perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de
-Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra&mdash;e todo esse
-povaréo se ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só
-a pedrada, mas o gesto.</p>
-
-<p>O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins,
-tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente
-e ovante como elle pronuncia <i>mi terra!</i> Para elle a Hespanha é a
-maior das nações&mdash;pela força e pelo genio.</p>
-
-<p>Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos
-seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol
-vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se
-compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são
-os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol
-ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista
-continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além
-d'este habito de se sentir grande, natural de resto n'uma raça que chegou
-a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais
-fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor
-prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam
-pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se
-erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez,
-outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que
-creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:&mdash;mas
-não tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com
-facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro
-clima doce, a sua cosinha, os seus <i>sports</i>, os seus jornaes, as suas
-distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d'um ar
-luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e
-vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de
-pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e
-moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos
-abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e
-carnal. Esse amor cria n'elle naturalmente a illusão:&mdash;e o manchego e
-o navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não
-as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e
-radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito
-intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo),
-declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e
-interesse, e brilho, <i>no valia Merida!</i> De resto, quem não tem ouvido
-hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer
-Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua
-provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim
-publicado n'um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo?
-A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a
-candida illusão de um patriotismo transcendente.</p>
-
-<p>Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte,
-tão genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade,
-como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a
-suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e
-tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n'um
-crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo
-todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida.</p>
-
-<p>Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã,
-Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão
-plantára n'umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas,
-a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas,
-nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha
-fôra offendida:&mdash;e Madrid inteiro, todas as classes e todas as
-edades, fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos,
-creanças de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto
-mais immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o
-embaixador allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois
-a guerra! Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a
-Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas?
-cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as
-mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d'este delirio,
-ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira
-Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa
-feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era
-Jerusalem...</p>
-
-<p>Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito
-e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas,
-appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão
-magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu
-da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada
-das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação
-heroica de um sentimento justo.</p>
-
-
-<p>Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi
-ferida no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de
-europeus, mas de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o
-sacrilego seja forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio,
-isto é, houve um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e
-guerra implacavel!</p>
-
-<p>A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de
-outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma
-cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras
-possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E
-para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome
-generico de mouros do Riff, ou Riffenhos.</p>
-
-<p>Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos
-hereditarios, com o odio de raça e com o odio de religião:&mdash;e os
-hespanhoes estão alli portanto n'um permanente estado de defeza.
-Ultimamente, depois de vagas questões que tinham surgido entre hespanhoes
-e mouros na feira visinha de Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma
-agitação tão visivelmente hostil, que o governador de Melilla, general
-Margallo, mandou reforçar as obras de defeza em torno da zona cultivada,
-e construir, n'um certo ponto mais aberto, um forte.</p>
-
-<p>Ora, justamente n'esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco.
-Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só
-ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar
-assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo
-mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia.</p>
-
-<p>Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle
-forte, n'aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio&mdash;e
-constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi
-por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava
-e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se
-sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como
-costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle
-tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse
-necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite
-desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima
-hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis,
-porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a
-reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e
-redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena
-mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O
-general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um
-destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o
-alarme atravez dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram
-o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.</p>
-
-<p>O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo,
-sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para
-castigar as tribus, uma sortida temeraria&mdash;que resultou numa tremenda
-derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram)
-e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção,
-por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de
-Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira&mdash;que
-os hespanhoes retomaram.</p>
-
-<p>Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas».
-Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança
-e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que
-não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha
-offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos
-donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha
-toda rompeu n'uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O
-reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa
-multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou
-a gritar: <i>Vamos todos a matar los moros!</i> Foi um delirio. E a
-Hespanha, enthusiasmada, lá vae para a guerra!</p>
-
-<p>E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com
-um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia,
-migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a
-ruina&mdash;porque as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil
-homens aguerridos, de incomparavel bravura, com espingardas Remington, e
-tendo por couto as suas serranias inaccessiveis. Para vencer esta
-formidavel guerrilha&mdash;é necessario uma expedição pelo menos de trinta
-mil homens, que têm de ser alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha
-areaes. São as finanças hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É
-ainda o perigo de complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a
-penetrar no territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do
-sultão de Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França,
-da Italia, que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras
-coloniaes, ou por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse
-vasto e rico sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa,
-pelos seus perigos, a antiga e classica questão do Oriente.</p>
-
-<p>Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a
-ser quebrada, seria de certo por causa d'esse terrivel Marrocos. E a
-Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela,
-uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas
-finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa?
-Foram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de
-Hespanha&mdash;e ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha
-sublimemente.</p>
-
-<p>Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre
-arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do
-Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser
-interessantes...</p>
-
-<p>E assim, em pleno seculo XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz
-contra o Crescente, e a Hespanha na sua antiga e laboriosa occupação
-de <i>matar los moros.</i></p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XII_O_SNR_BARTHOU-A_ANTIGONE_DE_SOPHOCLES-_LES_ROIS_DE_JULES_LEMAITRE"></a>XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE
-JULES LEMAITRE.</h4>
-
-
-<p>Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de
-ministerio. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de
-substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras
-discussões, na camara nova, descollou estes pedaços heterogeneos de poder
-executivo. Immediatamente porém se manufacturou outro governo. E a unica
-feição d'esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter apparecido de
-repente, e por motivo d'ella, um homem de Plutarcho.</p>
-
-<p>Este homem é o snr. Barthou.</p>
-
-<p>É necessario reter este nome&mdash;Barthou&mdash;porque elle representa
-um justo. A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e
-dá logar a equivocos lamentaveis, quando se trata de homens e de cousas
-parlamentares.</p>
-
-<p>Quem é o snr. Barthou?</p>
-
-<p>Um politico, e portanto um ambicioso. Além d'isso um intelligente e um
-ardente.</p>
-
-<p>E que fez o snr. Barthou?</p>
-
-<p>O snr. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia
-constitucional:&mdash;convidado, n'esta nova organisação de ministerio,
-para secretario de Estado das colonias, recusou.</p>
-
-<p>E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes
-em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque
-(segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores,
-nem pela experiencia, a tomar conta d'essas funcções». Conhecem alguma
-resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um
-ambicioso que se nega a entrar n'um ministerio por não se considerar
-competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo
-da administração&mdash;é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que
-nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente
-suppôr que existisse algures, n'esta Europa politica e parlamentar, um
-bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do
-seu gabinete, fumando a <i>cigarette</i> do poder, as colonias do seu
-paiz!</p>
-
-<p>No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado
-um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n'esses tempos
-deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o
-cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua
-incompetencia. El-Rei porém mandava&mdash;e o cabelleireiro, com as mãos
-ainda gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando
-Filippe II de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da
-<i>Grande Armada</i>, que partia a conquistar a Inglaterra&mdash;o pobre
-duque escreveu ao seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia
-que estava velho e cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e
-que não sabia commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr'olho e
-ordenou ao duque que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já
-enjoado&mdash;e todos sabem a boa conta que elle deu da <i>Grande
-Armada.</i> Para evitar esta deploravel confusão das profissões&mdash;se
-fez a revolução de 89. E d'ella surgiu então essa classe de politicos,
-possuidores de aptidões universaes e de sciencia universal. Todo aquelle
-que, por gosto ou necessidade, se incorporava n'essa classe, parecia
-receber logo do Espirito Santo o dom de tudo conhecer e de tudo poder.
-O medico largava as suas lancetas e ia, absolutamente seguro da propria
-capacidade, confeccionar codigos. O folhetinista arrojava a penna,
-empolgava a espada, e lá partia, com uma soberba confiança, para o
-ministerio da guerra a reorganisar os exercitos. Nenhum jámais hesitára.
-E tal que duvidaria, por causa da sua inexperiencia, acceitar a
-administração de uma horta de couves&mdash;estava prompto, soberbamente
-prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e commercio.</p>
-
-<p>Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar
-ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos
-certos de que, tocado de uma luz divina, da <i>lingua de fogo</i>, como os
-apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir,
-sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e
-indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou
-commandar frotas.</p>
-
-<p>A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel
-confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos
-anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo!
-como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que
-tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao
-contrario d'este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?</p>
-
-<p>Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente
-honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga
-suspeita entre nós outros, os governados.</p>
-
-<p>Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do
-universal saber&mdash;é bem possivel que outros muitos tenham encontrado
-da parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom
-divino. E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta
-faiscante os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós
-mesmos, olhando de revez o galhardo moço na sua ascenção:&mdash;«Diabo!
-será este maganão um Barthou&mdash;que se calou?»</p>
-
-
-<p>Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece,
-interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no
-Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d'este
-Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o
-seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os
-Persas nas margens do Eurymedon:&mdash;e ahi o temos ainda, depois d'estes
-vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que
-fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo
-a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças,
-quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu
-pae, que era um simples fabricante d'armas, desenrolava verso a verso,
-nas taboinhas enceradas, á sombra d'alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo,
-Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os
-lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d'essa vetusta matta, convertida
-ella, por seu turno, n'uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as
-noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: <i>Bravo,
-Sophocles!</i> e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de
-Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber
-onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia&mdash;e que quando
-já não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores
-notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames
-dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella
-collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles.</p>
-
-<p>Esta <i>Antigone</i>, que agora se representa no Theatro Francez, foi
-para Sophocles a peça mais rendosa&mdash;porque valeu ao poeta ser nomeado
-general ou <i>stratege</i>, como os gregos diziam, n'uma expedição a
-Samos. Singulares <i>direitos d'auctor!</i> E singular povo que
-recompensava a belleza de uma tragedia com o commando de uma esquadra!
-Mas servir a cidade, ganhar a Athenas uma batalha, era, n'esses tempos de
-civismo heroico, a mais esplendida, a mais nobre das tarefas
-humanas;&mdash;e não se podia dar melhor recompensa a um grande porta
-do que fornecer-lhe a possibilidade de se tornar um grande cidadão. De
-resto Sophocles era soldado: já se batera em Salamina, onde tambem
-combatera o velho Eschylo.</p>
-
-<p>Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a
-assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação
-occidental.</p>
-
-<p>E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em
-Salamina&mdash;mas como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio
-lyrico foi escolhido para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos
-e danças, celebraram durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos
-salvou a todos nós, homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes,
-e talvez persas!</p>
-
-<p>Pois a <i>Antigone</i> continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os
-seus herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança
-todas as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para
-a sua gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este
-dramaturgo de Athenas continue a enriquecer os outros.</p>
-
-<p>Deixemos porém a <i>Antigone</i> e Sophocles&mdash;porque, das peças
-representadas em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é <i>Os
-Reis</i> (Les Rois) de Jules Lamaitre.</p>
-
-<p>Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma
-historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma
-historia da revolução do Brazil&mdash;da outra, da antiga, da que derrubou
-o Imperio.</p>
-
-<p>Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do
-palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia
-absoluta, com 38 milhões de vassalos:&mdash;mas esta sala não apresenta
-mais luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica.
-A primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias
-estão em deploravel decadencia:&mdash;mas dentro em breve se descobre que
-as colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram
-arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as <i>toilettes</i> de
-Mme Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.</p>
-
-<p>Pela porta nobre d'esta sala desguarnecida entram dous senhores, de
-casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem
-da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania,
-Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados
-Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do
-Brazil,&mdash;que aqui na peça e na Alfania tem o nome de <i>Republica das
-Cordilheiras.</i> O ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e
-hespanholesco de Alvarez! Muito jovialmente e não sem malicia, este
-ministro Alvarez começa a contar ao bibliothecario (de quem foi
-condiscipulo no collegio Stanislas em Pariz) as suas attribulações
-diplomaticas.</p>
-
-<p>Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes
-que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei
-Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de
-resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um
-autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e
-de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da
-<i>Cordilheira</i> expulsasse um velho imperador tão magnanimo e
-tão paternal.</p>
-
-<p>E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte
-para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana
-mais repassada de bons sentimentos monarchicos!</p>
-
-<p>O povo da <i>Cordilheira</i> não detestava, antes amava o seu
-imperador. Mas quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio&mdash;e
-constantemente percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua
-sciencia das linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias.
-Ora um povo que não se occupa de philologia não gosta de ser governado
-por um philologo. Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu
-throno o seu banco do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a
-cobrir-se de pó&mdash;e o imperador sempre em França, no Instituto
-a esmiuçar raizes hebraicas. Além d'isso, aquelle imperio da
-<i>Cordilheira</i> desmanchava a harmonia republicana da America do Sul.
-O quê! todos os paizes em redor usufruindo as venturas da republica&mdash;e
-só a <i>Cordilheira</i> sobrecarregada com uma monarchia e uma côrte!
-Era discordante.</p>
-
-<p>De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de
-bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito,
-toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e
-naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor
-(um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu
-velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a
-Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera
-n'esta separação.</p>
-
-<p>Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas&mdash;o
-imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez
-do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios
-de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que
-o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez,
-tão amavel&mdash;e no fundo tão monarchica!</p>
-
-<p>Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos <i>Reis</i>, esta
-risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou
-muito pela felicidade d'este funccionario. Mas apenas elle terminara a
-historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz&mdash;entra
-toda a côrte de Alfania.</p>
-
-<p>É que estamos n'um consideravel momento historico. O velho rei
-d'Alfania vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga
-d'aquella corôa secular. É que já não comprehende o seu povo&mdash;e
-receia que o seu povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra
-simplesmente o pastor muito solicito d'um rebanho muito manso. Agora,
-porém, sob o seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova
-sciencia de governar homens, e não carneiros, elle, rei d'outras eras, não
-a possuia. Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse
-não só é novo pelos annos&mdash;mas é novo pelas ideias. Principe de
-direito divino, foi todavia educado n'outros tempos, por outros
-livros&mdash;e conhece os direitos humanos. Todas essas liberdades
-estranhas que o povo da Alfania reclama (liberdade de voto, de
-imprensa, de associação, de reunião, etc.) e que ao velho Christiano
-parecem horrendos attentados contra a sua auctoridade real, são para este
-bom principe Hermann aspirações legitimas, que deverão ser satisfeitas com
-uma generosidade prudente. De sorte que, com este novo povo da Alfania,
-tão differente do velho rebanho gothico, e já hoje cheio de theorias, e
-meio revolucionado, melhor se entenderá o principe novo do que o rei
-velho. E Christiano XVI abdica.</p>
-
-<p>Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua
-branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes&mdash;emquanto o
-chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da
-Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem
-não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem
-resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco
-e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann
-regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios.
-E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da
-Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do
-Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe
-Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação
-democratica:</p>
-
-<p>&mdash;Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes!</p>
-
-<p>Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei
-d'Alfania. O pobre Christiano suspira&mdash;e Alvarez parece bem
-contente.</p>
-
-<p>Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do
-theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar
-para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um
-pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos
-conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual.</p>
-
-<p>O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já
-deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento
-e uma carta constitucional.</p>
-
-<p>O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna,
-no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino
-que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas
-contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel.
-Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda
-a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da
-capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos
-politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação
-nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte
-alegremente a manifestação&mdash;porque (como elle diz) se o suffragio
-universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de
-consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e
-está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser
-consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom
-Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o
-superfluo dos ricos:&mdash;mas como essa liquidação social não é possivel
-immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle
-necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a
-manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e
-clamorosa.</p>
-
-<p>No palacio reina o terror.</p>
-
-<p>Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros
-e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos,
-duvidam&mdash;tanto mais quanto a manifestação é capitaneada por
-anarchistas que estavam presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo
-amnistiou com enthusiasmo. E com effeito não tardam as más noticias. Os
-manifestantes arvoraram a bandeira negra. Já aqui e além houve
-conflictos&mdash;e as tropas foram apedrejadas. E eis que agora a enorme
-massa popular avança sobre o palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente.
-Que póde receiar, elle, que ama tão ardentemente os pobres, e que é na
-verdade o rei dos pobres? O povo avança sobre o palacio? Pois que se
-escancarem, bem largas, todas as grades dos jardins, que o povo entre,
-porque o seu rei alli está que lhe estende com amor os braços. E elle
-mesmo abre as janellas&mdash;por onde penetra um longo, sombrio e
-suspeito tumulto de brados.</p>
-
-<p>Mas eis um ajudante de campo annunciando que a turba está em plena
-revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que
-espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que elle
-o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vae elle proprio,
-socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social?</p>
-
-<p>Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a
-apedrejar as janellas do palacio. Já uma pedra ia matando o principesinho
-real, uma pobre creança doente, nos braços da sua governante. Hermann
-afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae
-sobre elle uma saraivada de calhaus. E não são já sómente calhaus&mdash;são
-tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está
-sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah
-Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann,
-supplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As
-tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para
-carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, n'uma
-agonia, gritando sómente:&mdash;«Oh! os brutos, os brutos, que não
-comprehendem!»</p>
-
-<p>Outro ajudante. A revolução triumpha! Vae acabar o reino secular da
-Alfania! Já o povo quebra as portas do palacio. Em pouco aquella rica
-cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda
-intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general!
-Hermann, n'uma voz de moribundo, murmura:</p>
-
-<p>&mdash;O seu dever de soldado!</p>
-
-<p>E cae n'uma cadeira, aniquilado. Fóra ha um lento rufar de tambores. É
-o primeiro e lugubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre
-ella rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janella, grita:&mdash;«Não!
-Não!»&mdash;É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o
-horrendo clamor dos gritos. São os que morrem!</p>
-
-<p>Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ella a corôa. Um official
-apparece, todo pallido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que
-cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta
-por entre lagrimas:</p>
-
-<p>&mdash;Mulheres mortas?</p>
-
-<p>O official murmura:</p>
-
-<p>&mdash;Muitas.</p>
-
-<p>Creancinhas?</p>
-
-<p>&mdash;Tambem...</p>
-
-<p>Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos
-cravados no tapete. É que está vendo n'elle, cobertos de sangue, os
-pedaços do seu bello sonho humanitsrio, que se despedaçou. Elle é o
-primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e
-o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas
-as satisfações sociaes, se vê forçado pela logica terrivel das cousas a
-erguer-se deante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o
-seu povo&mdash;o que nunca succedera na velha Alfania, quando o povo era
-um rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus
-velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue.</p>
-
-<p>A scena é verdadeiramente bella&mdash;e pela apparição da Fatalidade,
-esse grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das
-leis sociaes, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou
-Sophocles. Depois o drama acaba mediocremente n'um desastre d'amor, que
-é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a
-ver Alvarez.</p>
-
-<p>Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que elle se
-dedicasse a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de
-compor e mandar ao seu governo um relatorio instructivo mostrando, pelo
-exemplo Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das
-theorias, um regimen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito,
-para lançar a nação n'um caminho incerto e escuro onde ella vae
-cambaleando atravez do descredito, da desordem, da ruina e da guerra.</p>
-
-<p>Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XIII_OS_ANARCHISTAS_VAILLANT"></a>XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.</h4>
-
-
-<p>Desde que nos não vimos, caros collegas e amigos, este velho mundo foi
-de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant.</p>
-
-<p>Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já
-classica e quasi symbolica de Ravachol; nem fez tambem a devastação mortal
-da bomba hespanhola do theatro de Barcelona.</p>
-
-<p>A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns velludos de poltronas e
-pedaços de estuque dourado; e o unico ferimento perigoso que causou (e
-hoje curado) foi o de um primo intellectual do anarchismo, d'um socialista
-neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso
-que as de Ravachol ou a dos hespanhoes, porque, pela primeira vez, a
-sociedade sentiu a temerosa dynamite arremessada contra um dos seus
-grandes orgãos vitaes, contra o centro regulador das suas funcções, contra
-o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir predios ricos, como
-sendo as fórmas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então
-burguezes abastados, no acto de gosarem um luxo que offende especialmente
-a miseria&mdash;o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com
-imprevista audacia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». N'uma
-republica parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant
-verdadeiramente commetteu um regicidio. E não ha crime que impressione
-mais do que o regicidio, porque n'uma sociedade onde se não eliminou
-inteiramente a ideia de que o chefe é pae, elle participa da natureza do
-parricidio.</p>
-
-<p>De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito.
-No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna,
-Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de
-uma caixa de lata, que bale n'uma columna, estala no ar antes de cahir.
-Densa fumarada, gritos, terror, tumulto&mdash;e immediamente, tambem,
-entre os deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco
-affectada, que é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde
-1789 a ser invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em
-revolta. Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham&mdash;e as salas das
-commissões são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á
-pressa de um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses
-feridos ha um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu
-nome e o seu endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia.
-É conduzido ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da
-cama, e começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre
-anarchistas e fabricação de bombas. O ferido, por um d'esses impulsos de
-vaidade bem franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar)
-alardeia logo o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com
-os processos empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os
-hombros, negam a sua competencia. E o homem irritado com a contradição
-termina por gritar:</p>
-
-<p>&mdash;Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E
-agora não me massem mais, que quero dormir.</p>
-
-<p>Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á
-morte&mdash;por um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e
-sobretudo no seu bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem
-francez e bem humano.</p>
-
-
-<p>A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo
-dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um
-principio pela violencia&mdash;são tambem dous actos absolutamente
-inuteis.</p>
-
-<p>N'um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou
-motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo
-pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia.
-Ha depois o appetite morbido da celebridade&mdash;como o prova o facto de
-Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n'uma
-attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de
-applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e
-capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos
-proletarios, decretou a destruição d'essa sociedade. Só este lado sectario
-do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque,
-pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant
-realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).</p>
-
-<p>Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão,
-preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da
-sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes,
-e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba&mdash;e
-supponhamos que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata
-os seis ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio
-do parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo
-ao proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade
-escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror,
-uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e
-a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa
-sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa
-em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido,
-nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse
-novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma
-data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara
-desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos.
-Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão
-prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.</p>
-
-<p>O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio
-enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias,
-como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições
-mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo
-a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande
-apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres
-soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões,
-e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter
-perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo,
-só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas
-viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio
-insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria
-ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da
-classe já desagradavel dos <i>martyres da liberdade</i>, a classe, ainda
-mais desagradavel, dos <i>martyres da auctoridade.</i> De sorte que estas
-bombas arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios
-destructivos que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada
-sciencia, nunca passariam, relativamente á força e estabilidade d'essa
-sociedade, de actos impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão
-lançadas contra uma muralha.</p>
-
-<p>A isto replicam os anarchistas:&mdash;«Assim é, mas nós não pretendemos
-destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n'este
-caso, <i>aterrar?</i> Significa provar, pela experiencia d'uma pequena
-destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar
-á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor
-de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil
-dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam
-essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d'ellas
-pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo,
-os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu
-exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar
-de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes
-de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna
-inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema.</p>
-
-<p>O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era
-assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre
-o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por
-isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres,
-prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias
-tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e
-auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas,
-por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão
-lamentavel desperdicio de energia heroica.</p>
-
-<p>Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é
-impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade
-burgueza&mdash;a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente
-para supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças,
-inspiradas por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo
-cumprido porque o criminoso fica castigado; mas a esperança não se
-realisa, porque nem os anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou
-mais timidos os seus assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está
-demonstrado, e pela propria policia, que, desde as primeiras bombas e
-portanto desde as primeiras repressões, o numero dos anarchistas
-tem crescido na proporção formidavel de <i>um</i> para <i>mil</i>; e emquanto
-que a primeira bomba foi lançada contra um simples predio, a ultima é já
-arremessada contra o proprio parlamento em sessão, exercendo soberania. O
-que era um bando está organisado em seita.</p>
-
-<p>E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n'uma
-religião (ou, se quizerem, n'uma heresia) em que o odio de certo é ainda
-um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e
-dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de
-propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que
-bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de
-morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente
-material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a
-cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não
-attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força
-de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita
-fica desorganisada, desconjuntada:&mdash;mas para immediatamente se
-reorganisar além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de
-padecer uma perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso
-de crear martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue
-de martyr, sobretudo quando cahe n'um solo tão preparado para que ella
-fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á
-exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades
-dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o
-que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de
-anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d'esses milhares de operarios de
-coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira
-redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa
-ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz
-matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N'uma tal reunião, onde
-cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma
-mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d'alli a
-fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir
-o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos
-soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas
-presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um
-jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os
-mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas
-imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem
-já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam
-escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão
-anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o
-caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol&mdash;a
-<i>Ravachole.</i> E cada coração anarchista lhe é um altar.</p>
-
-<p>As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe
-communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando
-a sociedade mata os anarchistas&mdash;é a sociedade que fabrica as
-bombas.</p>
-
-<p>A violencia não cura&mdash;e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é
-uma exacerbação morbida do socialismo.</p>
-
-<p>O germen e os desenvolvimentos d'esta doença não são difficeis de
-precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro
-de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de
-felicidade, não já n'esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena,
-mas a outra vida, para além da campa, como lh'o recommendava a Egreja, sua
-mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que
-reservava para os pobres o reino do céo.</p>
-
-<p>N'este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media
-que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora,
-começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos
-do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n'este mundo, e
-sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media,
-bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as
-instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade
-das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos
-covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas
-innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios&mdash;e
-expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades
-politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar
-essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de
-setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da
-monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e
-invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de
-associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado
-e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de
-viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A
-felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos
-politicos (liberdade d'isto, liberdade d'aquillo) continuava, como no
-antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o
-direito de voto não o aquecia&mdash;e á hora de jantar, a liberdade de
-imprensa não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu
-que, apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na
-realidade a ser servo&mdash;e que o seu novo amo, o burguez capitalista,
-era muito mais exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o
-fidalgo perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas
-revoluções tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera
-as armas na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento
-esforço só servira para entregar o poder á classe média, que se
-aproveitava d'esse poder, não para dar ao proletario dentro do novo
-regimen a sua legitima parte de bem estar, mas para lhe explorar o
-trabalho como lhe explorava a colera, e fazel-o esfalfar para o
-seu enriquecimento material, como o fizera combater para o seu
-engrandecimento politico!</p>
-
-<p>A decepção foi tremenda&mdash;e tremendos o odio e desejo de vingança
-contra o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou
-mais legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra
-e derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade
-nova, mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por
-causa do regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do
-regimen economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas
-chimicas, dos excessos de producção, da concorrencia de todos os
-progressos do seculo, realisadas só em beneficio da classe media, e cada
-vez mais tendentes a separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os
-pobres e os ricos, attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra
-todas as fadigas. Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado
-na Republica, o socialismo.</p>
-
-<p>Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais
-violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e
-estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e
-concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi
-pueril, porque não attinge o mal! Associações, <i>trade unions</i>,
-barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio
-social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc.,
-etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são
-tigellas d'agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios
-traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario
-extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de
-Estado.</p>
-
-<p>O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e
-todavia por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas
-quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias,
-de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é
-fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um
-radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos
-são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito,
-ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser
-destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a
-absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente
-impregnada d'esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu
-principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou
-melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella
-conterá sempre em si o virus horrivel:&mdash;o principio do direito, do
-Estado, da auctoridade!</p>
-
-<p>A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando
-e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes
-que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde
-Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se
-empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado
-os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma
-classe mais especial e odiosamente criminosa&mdash;a classe dos ricos, que
-foi quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos
-moraes e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a
-causa de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e
-responsavel do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da
-protecção das leis é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E
-uma costureira que se priva de apanhar uma flôr n'um jardim publico é já
-uma cumplice da sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella
-concorre para que se perpetue o despotismo do regulamento. É pois
-necessario destruir tudo,&mdash;e atirar indiscriminadamente a bomba
-redemptora contra as classes exploradoras, contra as classes
-voluntariamente exploradas, contra a cidade onde se realisa a exploração,
-contra as proprias creanças que nascem, porque ellas já trazem em si
-o virus da submissão exploravel.</p>
-
-<p>Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo.</p>
-
-<p>Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos
-os symptomas d'uma allucinação morbida. Não ha n'ella proposição que não
-seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende
-ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação
-social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as
-miserias, é iniqua.</p>
-
-<p>Partindo do facto d'esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa,
-logo que d'elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar.
-Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do
-direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê
-ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O
-anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por
-um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a
-organisação da sociedade&mdash;mas que depois, ou impaciente d'esse lento
-caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d'uma natureza desequilibrada,
-deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e
-cabriolando através d'uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente
-em praticas d'uma ferocidade selvagem.</p>
-
-<p>Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação
-morbida do socialismo.</p>
-
-<p>Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e
-tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia
-de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil?
-O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter
-achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é
-que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos
-anarchistas.</p>
-
-<p>Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem
-dous motivos:&mdash;um extremamente nobre e honroso, que é a nossa
-philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro,
-extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por
-tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e
-do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem
-secretamente e sinceramente sympathisamos:&mdash;um é o desgraçado, que
-padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a
-sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias
-e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem
-nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d'estes
-dous homens nos interessamos mais&mdash;se por aquelle que sensibilisa o
-nosso coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente,
-qual nos emociona mais&mdash;o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o
-monstro.</p>
-
-<p>Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação,
-em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando
-a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a
-quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as
-classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando
-com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito
-contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de
-diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes
-truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a
-destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe
-cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para
-que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes
-estados d'espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação,
-do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma
-cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na
-camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era
-em extase:</p>
-
-<p>&mdash;Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é
-bello!</p>
-
-<p>«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração,
-esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime
-anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar
-voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do
-gesto de Vaillant&mdash;a belleza d'aquelle braço magro que se ergue
-lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado.
-Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N'uma
-sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d'arte, uma revolta
-social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica,
-a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os
-poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que
-elle é tambem estheticamente bello.</p>
-
-<p>Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo
-estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam
-ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal
-disfarçada benevolencia, são unanimes n'um ponto:&mdash;em os cercar da
-mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande
-homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram
-na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz
-de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida.</p>
-
-<p>Se é anarchista, se lançou a bomba&mdash;é d'elle a fama universal, que
-nem sempre conseguem os santos e os genios.</p>
-
-<p>Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz
-a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de
-astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o
-que disse, o sobr'olho que franziu&mdash;tudo foi miudamente e
-clamorosamente contado ao mundo com um calor em que a propria indignação
-tinha não sei que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma
-verdadeira celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do
-Estado, do que escrever a <i>Lenda dos Seculos.</i></p>
-
-<p>Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e
-tomado mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que
-contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios;
-declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade
-picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela
-imprensa&mdash;como não ha-de o anarchismo alastrar n'essa proporção
-temerosa de um para mil?</p>
-
-<p>Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se
-estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da
-falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o
-Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis
-ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua
-indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os
-artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo
-se desinteressasse d'elle como de um banal partido politico; e que a
-imprensa o envolvesse em um silencio regelador.</p>
-
-<p>Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre
-que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude
-intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que
-elle se separa em um momento de delirio.</p>
-
-<p>Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil)
-nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos
-de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba
-anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação
-definitiva do trabalhador. Além d'isso os anarchistas que até agora têm
-lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um
-crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é
-n'elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de
-perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social,
-seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que
-surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer
-d'elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo
-pavor&mdash;é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual.</p>
-
-<p>Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a,
-isolal-a&mdash;não crear em torno d'ella, por curiosidade depravada d'um
-mal original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d'admiração
-litteraria, de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a
-novidade do seu arrepio.</p>
-
-<p>Toda esta larga aragem de favor é um crime&mdash;porque animando
-indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a
-obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada
-pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.</p>
-
-<p>Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos,
-as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem)
-sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d'aquellas que aqui
-estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são
-bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres
-que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com
-convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos
-affirmar sinceramente é que&mdash;cá e lá más bombas ha.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XIV_OUTRA_BOMBA_ANARCHISTA-O_SNR_BRUNETIERE_E_A_IMPRENSA"></a>XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.</h4>
-
-
-<p>As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada
-no café <i>Terminus</i> e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente
-na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo
-depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que
-alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na
-primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais
-desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a
-colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada,
-dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas
-formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade
-sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram
-então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que
-estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as
-estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam
-as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de
-pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se
-manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á
-casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem
-se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para
-conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber
-technico da administração urbana e rural.</p>
-
-<p>Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas
-e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se
-commova ou trema pela sua estabilidade.</p>
-
-<p>É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras
-bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca
-demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo
-para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse
-temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos
-formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos
-espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um
-Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu
-cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas
-do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o
-medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o
-habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a
-ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro
-d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de
-vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do <i>grisou</i> no fundo das
-minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais
-repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião
-tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas
-que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres,
-e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de
-policia.</p>
-
-<p>É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão
-systematica de todos os anarchistas.</p>
-
-<p>Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios.
-Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios,
-a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a
-quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de
-sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste,
-livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de
-glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o
-anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e
-methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na
-vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta
-encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os,
-estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um
-registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.</p>
-
-<p>Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam
-as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados.
-Indubitavelmente é uma dura lei;&mdash;mas vem de uma dura necessidade.
-Era realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico
-homem não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o
-filho, sem correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de
-pontas de pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o
-anarchista é com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso
-anarchismo está para o socialismo, como estavam para o christianismo
-nascente os montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que
-prégavam o amor livre, e os circoncellios que prégavam a destruição
-universal, e tantos outros, extravagantes e terriveis. Todos esses
-hereticos, tortulhos venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão
-deturpar e desacreditar a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra
-regeneradora, e attrahir-lhe perseguições sangrentas. Eram por isso ainda
-mais odiados pelos bispos christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando
-sobre elles cahia a lei do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do
-genero humano, havia tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de
-Jupiter.</p>
-
-<p>Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja
-o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que
-lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças
-abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada,
-ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada
-simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo
-lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia
-publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario
-perdido.</p>
-
-<p>Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado,
-não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.</p>
-
-
-<p>Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas
-lettras francezas um grande personagem&mdash;quasi devia dizer, dada a
-qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando
-o velho Buloz foi exilado da <i>Revista dos Dous Mundos</i>, por ter amado
-fóra da <i>Revista</i>, e com uma especie de amor que a <i>Revista</i> não
-permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou
-para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr.
-Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual,
-das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa
-missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve
-acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons
-espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director
-da <i>Revista</i> e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr.
-Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a
-<i>Revista</i>) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para
-consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o
-snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o
-throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se
-omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde
-elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e
-explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu
-conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua
-gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes
-recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das
-Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um
-professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo,
-forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou
-enthusiasmos.</p>
-
-<p>Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima,
-tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto
-significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e
-núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está
-creando um proverbio parallelo&mdash;«Só a grande professor, grande
-berreiro». Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu
-ensino ha indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um
-mestre.</p>
-
-<p>Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière,
-todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no
-seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e
-os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas
-grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e
-outros males.</p>
-
-<p>Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de
-profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só
-a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os
-auctores&mdash;quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina
-agora na Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar
-ditoso de lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua
-educação classica? Eu, na minha mocidade, folheei os <i>Sermões</i> e as
-<i>Orações Funebres</i>; mas não cheguei a penetrar, como devia, no
-<i>Discurso sobre a Historia Universal.</i> E desde então, desgraçadamente,
-não logrei ainda um momento para absorver a theoria do grande bispo sobre
-a serie dos tempos, das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a
-pagina classica, tão magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de
-Augusto e a belleza e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer
-Jesus. É pouco. Mas se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser
-censurado o ignorar quasi inteiramente o seu apologista.</p>
-
-<p>Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para
-as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros
-de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o
-numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em
-que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu
-desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo
-do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não
-sinta&mdash;e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas
-dobras das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil
-particularidades indefinidas, n'esse <i>não sei que</i> que lhe habita as
-fórmas e que faz com que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a
-appeteçamos, e a colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico
-entre flôres. Que lhe dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará,
-lhe collocará um rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou,
-desfiará as qualidades que revelou n'esse genero, exporá as influencias de
-raça, e de meio, e de momento historico que concorreram para o
-desenvolvimento d'essas qualidades, etc., etc. Será superiormente
-erudito&mdash;e só lhe faltará o sentir, pelo gosto, esse <i>não sei
-que</i> de intimo que constitue a belleza ou a grandeza do poeta. O
-snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de resto esta comparação não
-lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que recentemente, ao que
-parece, mais se têm applicado a introduzir nas sciencias moraes o methodo
-das sciencias naturaes, e a considerar as obras humanas, e sobretudo as
-obras de litteratura e de arte, como productos de que a critica e a
-esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar as causas. Isto
-desde logo o torna para mim um critico extremamente respeitavel e pouco
-sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico que me possa
-explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que sinta
-palpitar o coração quando lê as <i>Noites</i> e a <i>Carta a Lamartine</i>,
-ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se
-enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o
-gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e
-arrumadores de generos, que Carlisle chamava os <i>resequidos.</i></p>
-
-<p>Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um
-inflexivel, todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o
-amollecer e lubrificar, d'aquelle <i>leite da humana bondade</i> de que
-falla outro inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do
-snr. Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com
-este homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado
-suspeito, ao approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu
-discurso de recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes,
-contra os jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e
-d'um modo bem imperfeito, uma especie de jornalista.</p>
-
-
-<p>O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua
-bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser
-superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel
-somma de defeitos.</p>
-
-<p>Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos
-juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos,
-está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o
-mundo&mdash;e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente
-monstruosidade!</p>
-
-<p>A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado,
-nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe
-attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções
-diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições
-funccionaes. O <i>Times</i> e outros jornaes inglezes, riquissimos e
-possuindo toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as
-materias, desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as
-questões occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber
-e muita experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes,
-e que só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde
-todos herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi
-sacrosanto da vida intima,&mdash;os jornaes não são bisbilhoteiros,
-nem abusam indiscretamente da reportagem miuda.</p>
-
-<p>Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na
-America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes
-defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como
-pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os
-tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo
-mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes
-defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico,
-com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se
-tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.</p>
-
-<p>Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e
-leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso
-tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os
-seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como
-no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e
-natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais
-methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos
-deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho
-de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para
-louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem
-factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos
-contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em
-litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além
-uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho
-Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica
-inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras.
-Principalmente para condemnar&mdash;a nossa ligeireza é fulminante. Com
-que esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se
-trate d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um
-genio!» ou: «É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas
-ainda assim, quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á
-benevolencia risonha, tambem concedemos promptamente, e só com
-lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola
-de luz.</p>
-
-<p>N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em
-Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu
-momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar
-sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou
-collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos
-promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto
-uma opinião cathedratica.</p>
-
-<p>E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do
-facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os
-nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por
-um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez
-funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um
-coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por
-homens côxos»&mdash;illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas
-opiniões.</p>
-
-<p>E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece
-cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de
-juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre
-o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que
-entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo
-o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma
-crise do Estado, ou sobre o merito de um <i>vaudeville.</i> Como exemplo
-picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem
-commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos
-bocados de telegrammas truncados&mdash;senão receiasse entrar em um
-caminho escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos
-collegas do <i>Paiz</i> e do <i>Tempo</i>, armados da sua ferula.</p>
-
-<p>Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista
-encarregado no <i>Figaro</i> de criticar cada dia os acontecimentos
-politicos da Europa, e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a
-situação economica de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que
-«em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se
-empregavam como carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam
-receber as soldadas <i>pelos seus lacaios!</i>» Estes herdeiros das
-grandes casas de Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no
-caes da alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir
-receber o salario&mdash;fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois
-quem o traça é o <i>Figaro</i>, um dos mais considerados jornaes de Pariz,
-e um dos que têm um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia
-está a dois dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e
-meia de Pariz&mdash;e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre
-a Inglaterra, e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o
-<i>Figaro</i> descrevia as occupações da nobreza de Portugal.</p>
-
-<p>Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê
-constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E
-quando se tem como usual alimento do espirito o <i>Figaro</i> e consortes
-(e é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados)
-facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os
-homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por
-humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum,
-comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière&mdash;um juizo ligeiro,
-nascido de impressões fugidias.</p>
-
-
-<p>A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da
-bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.</p>
-
-<p>Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica,
-sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande
-abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos
-reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu
-regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos
-terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a
-personalidade do auctor de <i>Germinal</i>, e, através d'ella, explicar a
-obra. Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois
-que do feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito
-bem diz Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se
-exerce, não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções
-do pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde
-as <i>cocottes</i> até aos <i>jockeys</i>, e desde os <i>dandies</i> até aos
-assassinos, succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em
-nada para a documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o
-desenvolvimento da vaidade.</p>
-
-<p>O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana.
-Em todos os tempos houve vaidosos&mdash;e não querem de certo que eu
-estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado
-cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo
-muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a
-folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano.
-Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso,
-o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de
-alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo
-se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.</p>
-
-<p>E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque
-foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém
-através do jornal.</p>
-
-<p>«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal&mdash;eis
-hoje, para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a
-aspiração e recompensa supremas.</p>
-
-<p>Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o
-favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar
-o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas,
-os homens praticam todas as acções&mdash;mesmo as boas. Não é mesmo
-necessario que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o
-nome, a personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um
-brilho mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não
-esteja devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no
-mundano, no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que
-parecem preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora,
-n'estas semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros,
-pregar nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e
-creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin,
-e <i>interviews</i> nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato,
-com o habito do grande S. Domingos, exposto entre <i>jockeys</i> illustres
-e as cancanistas do <i>Moulin-Rouge.</i> É esta esperança do «artigo do
-jornal», que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as
-ideias&mdash;e para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as
-mulheres se deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e
-os artistas se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam
-theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a
-horda sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a
-frente, quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio,
-para que o jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure
-boquiaberta:&mdash;<i>Ah!</i></p>
-
-<p>Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de
-moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo
-aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo&mdash;e estou mesmo
-prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito,
-tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres,
-para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!</p>
-
-<p>Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos
-costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière
-contra a imprensa&mdash;a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por
-pura humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista,
-confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro
-impenitentemente.</p>
-
-<p>Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu
-<i>mea culpa</i> e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso,
-queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente
-apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua
-superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os
-tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae
-copiosamente larga&mdash;e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os
-meus jornaes com delicia.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XV_AS_INTERVIEWS-O_REI_HUMBERTO_E_O_FIGARO-A_MONARCHIA_ITALIANA-O_QUE_PODE_DIZER_UM_SOBERANO_A_UM_JORNALISTA-A_SINCERIDADE_E_O_OPTIMISMO_OFFICIAL"></a>XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O
-QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO
-OFFICIAL.</h4>
-
-
-<p>Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes
-(sejamos prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista
-consegue <i>interviewar</i> um rei.</p>
-
-<p>(Este vocabulo <i>interviewar</i> é horrendo, e tem uma physionomia tão
-grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que
-exprime. O verbo <i>entrevistar</i>, forjado com o nosso substantivo
-<i>entrevista</i>, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido.
-<i>Entrevista</i>, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo
-technico de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso,
-ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos
-velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente,
-portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para
-fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e
-berrantes. Mas <i>entrevistar</i> tem um não sei que de surrateiro que
-desagrada&mdash;e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o
-poderia impôr. <i>Interviewar</i>, ao menos, é bruto mas franco. Temos
-pois de empregar resignadamente este feio americanismo&mdash;já que os
-nossos idiomas neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a
-acompanhar todas as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi
-no Brazil, amigos, possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por
-vezes geniaes. Fabricae um que substitua o <i>interviewar</i> e sereis
-bemditos).</p>
-
-<p>E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação
-democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não
-parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito
-divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de
-Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o
-imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente,
-apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo
-são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar
-ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis,
-porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos,
-só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por
-todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a
-Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o
-ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os
-<i>reporters</i>, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam
-sobre as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.</p>
-
-<p>O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um
-rei constitucional que diz sempre&mdash;«o <i>meu</i> povo... o <i>meu</i>
-exercito... a <i>minha</i> armada». Estas expressões, indicando um
-senhorio directo da nação, sanccionado pelo direito divino, só o Czar,
-hoje, (além do Sultão) as póde empregar legitimamente. Por toda a parte,
-fóra da Russia, da Turquia, (e d'algumas republicas da America Central) os
-povos pertencem a si proprios, ou pelo menos conservam essa illusão, que
-lhes é preciosa; e os exercitos pertencem ao Estado, que deixou de ser
-identico com o rei desde que Luiz XIV teve a fistula. Estas
-expressões, porém, de «<i>meu</i> povo», de «<i>meu</i> exercito», que
-considerariamos singularmente improprias na bocca constitucional do rei
-dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da Italia. Na realeza de
-Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que de pessoal e
-absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em quem possa
-sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez elle
-seja apenas o primeiro magistrado da Italia:&mdash;para nós elle
-apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua
-qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da
-unidade italiana.</p>
-
-<p>Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados.
-Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde
-que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou
-a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca
-póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia
-ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão
-para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco
-da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a
-unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso
-que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse
-principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou
-Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades
-continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma
-litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens,
-mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo
-historico.</p>
-
-<p>Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na
-historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação,
-tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo
-construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual&mdash;a Italia
-todavia nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade
-permanece fragmentada em municipios e republicas, cuja existência,
-tempestuosamente agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie
-lacrimosa de martyrologios.</p>
-
-<p>O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima
-molecula social. As cidades vivem isoladas, n'um violento ciume mutuo,
-travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou
-proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como
-ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a
-cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda
-sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma
-sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal
-escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma
-lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas
-civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito
-da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára
-no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava
-indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos
-pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que
-estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente
-pelos papas, que se serviam d'elles para esmagar em qualquer dos Estados
-a menor tendencia á hegemonia, e através d'ella á formação de uma Italia
-unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um
-soberano temporal;&mdash;e para manter a sua independencia fomentava a
-desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas
-anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas
-qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da
-Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A
-consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada,
-retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em
-decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra
-fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão
-como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que
-não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas,
-jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e
-bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e
-patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do
-municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á
-Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as
-condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a
-soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos
-ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como <i>ré galantuomo.</i>
-Victor Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua
-voz é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico,
-ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente
-na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão
-que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a
-garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição
-impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das
-formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu
-filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d'esta prerogativa
-de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo
-constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga,
-não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia
-(se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario
-irresponsavel. Humberto não&mdash;e, para elle, <i>reinar</i> ainda
-ha-de ser <i>governar.</i> E quando elle falle do <i>seu</i> povo, do <i>seu</i>
-exercito, a Europa não lhe contestará a legitimidade d'essas expressões
-autocraticas.</p>
-
-<p>Além d'isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente
-cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a
-governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no
-espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d'entre as sete
-collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se
-impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o
-senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d'esta supremacia que lhe é
-inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que
-politico.</p>
-
-<p>Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis
-interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante
-de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como
-ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos
-ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas
-intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas
-affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente
-constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os
-hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...»</p>
-
-<p>Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem,
-em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A
-difficuldade unica estaria na operação da sondagem&mdash;porque, apesar de
-se ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V,
-os reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se
-apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o
-<i>Figaro</i>, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar
-subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos,
-realisou esta bella façanha&mdash;e interviewou o rei Humberto. E quando
-elle annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as
-declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as
-suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer
-emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos
-alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo
-mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de
-Italia, porém, é apenas o mandatario d'um povo, e d'um povo illustre nos
-fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O
-<i>Figaro</i>, barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E
-desde então ainda não cessaram, em tomo d'ellas, controversias que me
-espantam, e devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.</p>
-
-<p>Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com
-inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas,
-officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem
-conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de
-ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um
-governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus
-esforços tenderão energicamente a manter a <i>ordem</i>, favorecer a
-<i>moralidade</i>, e promover a <i>economia?</i> Não ha possibilidade
-de que um governo se apresente gravemente ante o paiz, e pondo a mão
-leal sobre o coração sincero declare que vae fomentar a <i>desordem</i>,
-animar o <i>desperdicio</i>, e proteger a <i>immoralidade!</i> Os cidadãos
-não acreditariam:&mdash;e esse governo, talvez veridico, seria
-escandalosamente expulso como farçante.</p>
-
-<p>Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente
-consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que
-corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto,
-de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito
-social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem
-de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos
-porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes
-ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas
-a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras
-phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os
-experientes sorriem, mas murmuram&mdash;«muito bem, muito bem!» E não
-tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que
-se preparava a fazer escandalos e prepotencias&mdash;como não permittiriam
-que elle n'essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se
-apresentasse nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta
-necessidade de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me
-pareceu incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com
-delicias cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do
-Sinai, e vae exclamando, radiante:&mdash;«Emfim, temos um governo, temos
-um homem que quer implantar a <i>moralidade</i>, garantir a <i>ordem</i>,
-promover a <i>economia</i>, etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos
-talvez os que se lançam sobre o programma e o analysam, o dissecam, tiram
-d'elle, por entre as linhas, esperanças ou receios, e discutem
-apaixonadamente cada uma das suas palavras sacramentaes como se
-fossem realidades vivas.</p>
-
-<p>Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga
-sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que
-elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem,
-só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era
-humanamente verosimil que elle franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em
-vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra...
-Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser
-inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir,
-mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito
-teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez,
-vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a
-guerra,&mdash;como que apparecesse em mangas de camisa.</p>
-
-<p>E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais
-significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo
-escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos,
-com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do
-Destino. Uns, d'aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê
-provas!...» Outros, d'além Rheno, clamam: «Haverá n'estas palavras
-de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o
-<i>Times</i>, ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos
-olhos leaes do monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um
-rei!...</p>
-
-<p>A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas,
-ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que
-póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela
-probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde
-responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela
-paz&mdash;ou se pende para a guerra e mortandade dos povos?</p>
-
-
-<p>De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão
-inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas
-necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia
-a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao
-mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e
-queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não
-presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade
-intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como
-de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em
-Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a
-almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve,
-percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com
-tradicional e humana ingenuidade:</p>
-
-<p>&mdash;É bom este Chablis?</p>
-
-<p>O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um
-embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu
-seccamente:</p>
-
-<p>&mdash;É uma peste.</p>
-
-<p>O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle
-homem veridico. Depois repercorreu a lista.</p>
-
-<p>&mdash;Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc?</p>
-
-<p>O criado, muito serio, replicou:</p>
-
-<p>&mdash;É horrivel.</p>
-
-<p>Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga
-e escura que o invadia:</p>
-
-<p>&mdash;Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?</p>
-
-<p>O criado volveu, convencido e digno:</p>
-
-<p>&mdash;Droga muito mediocre... Extremamente mediocre!</p>
-
-<p>O meu amigo tremia já, n'um positivo terror. Mas ainda balbuciou:</p>
-
-<p>&mdash;Que hei-de eu então beber?</p>
-
-<p>&mdash;Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é
-realmente detestavel.</p>
-
-<p>Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as
-escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para
-uma tipoia e fugiu.</p>
-
-<p>Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante
-tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de
-si, n'aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de
-perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira,
-da ficção, da convenção&mdash;é bem humano.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XVI_O_SALON"></a>XVI. O «SALON».</h4>
-
-
-<p>O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica.</p>
-
-<p>Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe
-do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o
-<i>Salão</i>, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade
-da sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só
-se apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo
-menos social, n'esta abertura do <i>Salão</i>, mesmo aquellas que no resto
-do anno vivem tão indifferentes e separadas das cousas d'arte como das
-cousas da theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia
-tradicionalmente consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção,
-que tem o dom de reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma
-disposição festiva, todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que
-nunca pegaram n'um remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire
-de remar com pericia, mostram, e realmente experimentam, a mais excitada
-sympathia pela regata classica entre as universidades de Oxford e de
-Cambridge. E em Lisboa, mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam,
-concorrem, no devoto 13 de junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos
-homens, andando hoje tão dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma
-vez por anno, n'um sentimento commum.</p>
-
-<p>Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous
-grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N'esse dia os
-artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:&mdash;e
-contemplar um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é
-um precioso regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha
-da Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para
-vêr Platão. No <i>Salão</i>, tal que apenas lança um olhar indolente ás
-telas de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio
-Bonnat, repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi
-indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão
-truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional,
-vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas
-festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita
-uma insaciavel curiosidade&mdash;como tudo o que, no bem ou no mal, pelo
-brilho ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano.
-E mal sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo
-proprio Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e
-estreito.</p>
-
-<p>Mas no <i>Salão</i> ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa
-attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes&mdash;a das
-<i>toilettes.</i> Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as
-mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão,
-e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza,
-da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera,
-as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras
-d'arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas
-salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que
-os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao
-lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente
-como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela
-composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.</p>
-
-<p>D'estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e
-audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar
-um relêvo picante e divertido á <i>toilette</i> e aos accessorios da
-ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade
-serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa,
-recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro
-do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como
-uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais
-illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas
-que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes,
-com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por
-uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão,
-calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o
-hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta
-que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam
-e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do
-bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama,
-tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia
-entre a multidão&mdash;e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e
-deixae-a passar.</p>
-
-<p>A outra senhora, ainda mais pittoresca, era enorme, transbordante,
-construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o
-pó d'arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas
-tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n'uma
-tunica diaphana, d'um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do
-campo de Portugal chamadas <i>botões de ouro</i>, e feita certamente
-d'aquelle antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua
-transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz
-e vento.</p>
-
-<p>Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem
-amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda,
-de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh'a
-enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente
-a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello.
-Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que
-mais me impressionaram n'estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz
-continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo
-perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia
-positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas
-costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos
-inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis.</p>
-
-
-<p>Emquanto ás outras obras expostas no <i>Salão</i>, os quadros e as
-estatuas, a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por
-via d'ellas (<i>mirabile dicta!</i>) mais uma vez reconheci quanto é facil
-governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de
-temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos
-democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre
-exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da
-estructura publica.</p>
-
-<p>Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica,
-que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por
-ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos
-theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles
-possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse
-ou por convicção, a que só ella prevaleça.</p>
-
-<p>A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas,
-apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.</p>
-
-<p>Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem
-justamente por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos
-entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto
-tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá
-a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso
-para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que,
-apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem
-desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma
-d'essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d'uma
-orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva,
-tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um
-erro&mdash;e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao
-<i>Salão</i>, no dia da sua abertura, quando em materia d'Arte cada
-cabeça, depois de ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua
-sentença. Se tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam
-que o servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por
-mais que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe
-ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto,
-por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o
-direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio,
-a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se
-erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a
-humanidade é gado&mdash;e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é
-pender para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.</p>
-
-<p>Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de
-tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da
-indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita
-alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam,
-no <i>Salão</i>, a curiosidade e a admiração do publico.</p>
-
-<p>Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de
-seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam
-arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico,
-ou antes o Guia Critico, do <i>Salão</i>, publicado pelo Jornal, lhes
-indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes
-deviam parar, e fazer <i>ah!</i> e sentir uma emoção e depôr um louvor.
-Não só o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara
-mesmo a emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula
-laudatoria que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos
-com o jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela,
-recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um
-adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus
-teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina
-mental.</p>
-
-<p>Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas
-para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista,
-symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão
-um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se
-entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos
-Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade
-de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia
-philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses,
-e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de
-Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura,
-divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.</p>
-
-<p>Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas
-faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias
-innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a
-abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo
-uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando
-a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando
-tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias
-innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje
-amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem
-valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do
-pensamento.</p>
-
-<p>É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua
-melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan,
-a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que
-raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres
-revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra
-e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver
-conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião,
-espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe
-indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve
-exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do
-<i>Figaro</i>, ou se trate d'um <i>vaudeville</i> e o Ulema seja Sarcey,
-do <i>Temps.</i></p>
-
-<p>D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem
-verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não
-chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra
-redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle
-está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em
-factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais
-rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero,
-intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome
-de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que
-determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades
-parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio
-de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois
-livres!»&mdash;e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes,
-obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem
-pensar mais e sem mais querer, porque a <i>palavra</i> essencial foi dita,
-elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer
-e para pensar por elles.</p>
-
-
-<p>De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem
-iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar.
-Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser
-louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços
-são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no
-famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se
-sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões
-estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia
-outr'ora a Voltaire:&mdash;«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca
-me sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:&mdash;e
-que, se já era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo
-XIX! Para ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas
-d'arte, é necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o
-homem de trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação,
-que exige viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um
-afinamento particular do espirito? Os proprios ociosos não têm
-tempo&mdash;porque, como se sabe, não ha profissão mais absorvente do que
-a vadiagem. Os interesses, os negocios, a loja, a repartição, a familia, a
-profissão liberal, os prazeres não deixam um momento para as exigencias de
-uma iniciação artistica:&mdash;e n'uma cidade de dous milhões de almas,
-como Pariz, ha por fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com
-verdade e profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante
-d'um quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence
-á Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e
-Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais
-desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da
-multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra
-tempo para ter bom gosto!»</p>
-
-<p>Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive
-n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que
-se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa
-manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um
-selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte,
-já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em
-que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em
-todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão
-indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar,
-pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e
-respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no
-bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se
-ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as
-lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem
-gravata. Tudo n'este nosso seculo é <i>toilette</i>, dizia o velho
-Carlyle.</p>
-
-<p>O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se
-quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?</p>
-
-<p>N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como
-é todos os annos a abertura do <i>Salão</i>, cada bom burguez (para usar
-o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres
-ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas
-relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um
-trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa
-o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar
-ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma
-sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer
-áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas
-d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de
-retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar
-ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões,
-como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou
-claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica
-apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr
-culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica
-e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de
-corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento,
-dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao
-armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e
-dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um
-senhor.</p>
-
-<p>Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando
-n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua
-admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da
-auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo
-de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire
-escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e
-ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava
-realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma
-tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um
-amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous
-ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter
-alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com
-senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como
-um cartucho&mdash;e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat,
-dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este
-anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.</p>
-
-<p>E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um
-portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo,
-á entrada do <i>Salão</i>, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre
-um bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do <i>Cavalleiro das
-Flores</i>, de Rochegrosse, ou do <i>Papa e o Imperador</i>, de Laurens,
-ou da <i>Brunehilde</i>, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas
-de prosa desbotada e fugaz.</p>
-
-<p>Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha
-tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte
-a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é,
-segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto
-eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas
-como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil,
-pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia
-fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E
-como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado
-sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava
-a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da
-Natureza. O que seria petulante.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XVII_CARNOT"></a>XVII. CARNOT.</h4>
-
-
-<p>O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo
-caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente
-Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.</p>
-
-<p>Com effeito! Que rara inverosimilhança!</p>
-
-<p>O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal
-dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como
-Henrique IV ou como Marat!</p>
-
-<p>Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a
-municipalidade de Lyão para assistir, no <i>Grand-Theâtre</i>, a uma
-representação de gala.</p>
-
-<p>O seu <i>landeau</i>, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por
-entre uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um
-homem, trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel
-enrolado á maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato,
-sobre o rebordo do <i>landeau</i>, tocou no peito do presidente com as
-flôres ou com o papel. O <i>maire</i> de Lyão, sentado em frente de
-Carnot, ainda atirou, com o punho, uma pancada á cabeça do homem, que
-fugira, e que alguem na turba immediatamente filara, por instincto, como
-um ladrão. Tanto o <i>maire</i> de Lyão como aquelles mais proximos, que
-tinham entrevisto n'um relance o salto mudo e felino, pensaram que o homem
-se arremessava sobre o presidente <i>para lhe arrancar e lhe roubar a
-placa de diamantes da Legião de Honra!</i> E esta ideia, a primeira, como
-a mais natural, que a todos acudiu, perfeitamente define o presidente da
-Republica. Carnot era d'esses homens que se não suppõe que possam ser
-accommettidos&mdash;senão para serem roubados.</p>
-
-<p>Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios&mdash;porque não
-representava um partido e muito menos um principio. A Constituição
-reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma
-parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a
-muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua
-presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos
-pungentes da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas
-preferencias&mdash;mas eram preferencias de homens por homens, e nunca por
-ideias. Estas mesmas preferencias por estadistas do seu typo, discreto e
-neutro, como Mr. Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram
-censuradas pelas opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro
-em si esta derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então
-que ganhou a reputação phantasista <i>de ser de pau.</i> A sua vontade
-immovel ou immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude.
-Quasi não ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da
-Constituição. Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam
-os caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia
-fôsse mais tarde estudada n'estas obras ligeiras do humorismo pariziense,
-ellas dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos
-fôram saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e
-symbolica da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que
-protegia o Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico
-assassinasse este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta
-que, querendo apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo,
-decepasse expressamente e furiosamente a figura de pau esculpida na
-prôa.</p>
-
-<p>Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao
-anarchismo;&mdash;porque só os anarchistas, hoje, n'esta nossa civilisação
-raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade
-pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o
-capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para
-demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns
-empregados do commercio sentados n'um café a beber <i>bocks.</i> Os seus
-crimes nem sómente são inuteis&mdash;são ainda contraproducentes, porque
-vão formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e
-indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com
-ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de
-toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do
-abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser
-secretamente assalariado pelo despotismo.</p>
-
-<p>O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda
-não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de
-naturalidade e residencia, n'uma rude algaravia incomprehensivel, que não
-é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se
-fingida. Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um
-anarchista&mdash;porque só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que
-dementa a seita, poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de
-Estado, tão legal e irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção
-de colera e dôr, pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da
-França e do seu governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os
-outros chefes de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a
-perseguição, não só contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados
-e de ideias justas de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que
-nunca, d'este vez o anarchismo trabalhava furiosamente contra essa
-liberdade de que pretende ser a expressão suprema e perfeita;&mdash;e a
-sua arma não era mais do que uma nova e ensanguentada ferramenta posta,
-por elle, de noite, nas mãos da burguezia capitalista.</p>
-
-<p>Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo
-n'um carcere de Lyão, fez, senão uma d'aquellas «victimas de eleição»
-de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem
-lamentar com magoa pura e sem mescla d'outro sentimento. Carnot foi por
-excellencia o magistrado integro.</p>
-
-<p>Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados
-imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos
-leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o
-mais popular talvez de todos os chefes d'Estado n'stes ultimos cincoenta
-annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os
-outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da
-prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela
-Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente
-na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas
-provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas
-provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus
-meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade
-concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que
-soube presidir com perfeita dignidade e tacto:&mdash;a suppressão do
-boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal
-de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes
-acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações
-que n'elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu
-predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de
-legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao
-contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus
-episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação
-e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao
-menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda
-legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque,
-se não teve em politica externa d'essas ideias seguidas, novas ou fortes,
-que outr'ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado»,
-mostrou na sua conducta de chefe d'Estado, exposto á observação das
-chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento
-da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n'uma França tão digna,
-tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza,
-como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi
-um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda
-a Europa.</p>
-
-<p>Particularmente, era o mais excellente dos homens&mdash;affavel,
-caritativo, leal, clemente, cultivado.</p>
-
-<p>A multidão que o via sempre tão teso, mettido n'uma casaca que parecia
-de ferro, com a barba muito negra e dura, a barra vermelha da Legião de
-Honra destacando sem um vinco no peitilho rigido, tendia a pensar que
-tudo, no homem interior, era tambem secco, rigido, duro.</p>
-
-<p>A multidão enganava-se redondamente. Carnot era um brando, quasi um
-sentimental.</p>
-
-<p>Ha assim d'estas figuras de madeira, que vivem por dentro de uma vida
-ignorada, que é cheia de sensibilidade e de calor affectivo.</p>
-
-<p>Um jornal que sempre incondicionalmente o honrou, e que costuma pôr
-nas suas palavras uma sisudez ponderosa, e mesmo solemne, o <i>Temps</i>,
-resume o elogio funebre de Carnot affirmando que elle era <i>un brave
-homme.</i> A expressão assim, isolada, póde parecer familiar, talvez
-rasteira, mesmo laivada de vago desdem. Mas, quando junta a todas as
-outras que definem o seu caracter publico, logo se sente que esta as
-completa, as embelleza, e espalha sobre ellas como um indefinido
-perfume de bondade e doçura, sem as quaes nunca ha verdadeira
-superioridade moral. E Carnot, elle proprio, na lista extensa das suas
-virtudes intimas e civicas, apreciaria, mais que todas, esta, que
-tem um feitio tão simples, de <i>brave homme.</i> Na sua vida, na sua alta
-magistratura, foi sempre um <i>brave homme.</i></p>
-
-<p>E isto, no chefe eleito de uma democracia, é talvez a melhor
-condição&mdash;porque dos grandes genios vêm por vezes grandes males, e
-nunca vem senão bem de uma bondade honesta e grave.</p>
-
-
-
-
-<hr class="r5" />
-
-
-
-
-<h4><a id="XVIII_A_MORTE_E_O_FUNERAL_DE_CARNOT"></a>XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.</h4>
-
-
-<p>Pariz, sentado nos terraços dos cafés, bebendo aos goles, devagar,
-limonada ou xarope de grozelha e soda, enxuga a testa e repousa das
-emoções por que passou n'esta semana, sob 35 graus calor (á sombra). Que
-emoções, com effeito, tão atropelladas, tão desencontradas, desde essa
-manhã de segunda-feira em que cada um de nós foi accordado quasi
-violentamente pelo seu criado, que, sem abrir as vidraças, espalhando logo
-na penumbra da alcova um pouco do assombro e do horror que invadira a
-cidade, exclamava ou balbuciava:&mdash;«O snr. Carnot foi assassinado em
-Lyão!» Depois d'isto não era possivel, nem readormecer, nem preguiçar.
-Pariz inteiro, sem banho, quasi sem almoço, desceu á rua, como Athenas
-nos grandes dias civicos, e ficou na rua durante uma semana, fallando
-alto e comprando vorazmente jornaes. Tantos jornaes arrebatava e logo
-arremessava, que á noute macadam e asphalto desappareciam sob uma camada
-de lixo impresso, o mais triste de todos os lixos.</p>
-
-<p>Esta multidão tão sobreexcitada interiormente, conservava todavia uma
-compostura calma, semelhante á de um publico n'um theatro, que, enquanto
-os heroes agonisam no tablado, se sente perfeitamente seguro, e seguras,
-em torno d'elle a vida e a ordem da cidade. É que a morte Carnot só
-affectou realmente a imaginação de Pariz. Era como uma tragedia,
-improvisada um forte genio tragico, representada inesperadamente uma noite
-em Lyão, e de que os jornaes viessem contando os lances de sangue e
-luto.</p>
-
-<p>O punhal do italiano, escandido entre flôres, á boa maneira italiana
-da Renascença, não ferira, ferindo Carnot, nenhum d'esses interesses que
-são para o homem, individualmente, como pedaços da sua propria carne, ou
-para a sociedade como o cimento de onde depende a sua estabilidade. O
-bem estar mais intimo do cidadão, hoje, não se altera com as catastrophes
-soffridas por aquelles que os governam: e o Estado não soffre uma
-arranhadura, quando o seu chefe morre d'uma punhalada. Outr'ora, a
-suppressão violenta do chefe causava um abalo universal, uma tumultuosa
-deslocação de interesses, quasi uma transformação de costumes. Quando
-Henrique IV é assassinado na rua <i>de la Ferronnerie</i>, como Carnot,
-toda a França, horas depois, segundo a viva expressão de Michelet, ficou
-revirada de dentro para fóra como uma luva. A laboriosa obra do reinado
-desaba bruscamente: o thesouro amontoado por Sully é esbanjado ao vento;
-todas as construcções, por falta de dinheiro, se interrompem; todas as
-grandes manufacturas se fecham, e os operarios vagueiam famintos; a trama
-das allianças, tao habilmente urdida, n'um instante está desfeita&mdash;e
-ahi temos em breve a guerra dos Trinta Annos! Aquelle rei morto levava
-comsigo para o tumulo o pão, a paz, a posição, as vaidades de milhares de
-vasallos. Por isso em Pariz foi terrivel a desolação. Como diz ainda
-Michelet, cada cidadão se considerou pessoalmente perdido: e nas casas,
-como uma desgraça domestica, as mulheres gritavam arrepellando os
-cabellos!</p>
-
-<p>Com a perda do snr. Carnot, assassinado como Henrique IV, nenhum
-cidadão (superfluo é lembrar) se considera perdido: e as mulheres, em vez
-de arrepellar o cabello, põem mais cuidado em o pentear, para assistirem,
-com uma curiosidade ligeira, á festa dos funeraes.</p>
-
-<p>Não ha obras interrompidas, nem operarios despedidos. Pelo contrario!
-O trabalho cresce. Os jardineiros, os floristas, os fabricantes de corôas,
-embolsam mais de tres milhões de francos. O assassinato do chefe do Estado
-anima o commercio. De facto, não ha nada mudado em França&mdash;apenas
-um bom francez de menos.</p>
-
-<p>Isto não prova a fraqueza das instituições monarchicas, porque depois
-de Henrique IV morto houve logo Luiz XIII posto, e o throno de França,
-com as mesmas flôres de liz, ainda durou triumphalmente dous seculos.
-Mostra apenas que hoje Estado já não está todo contido dentro do
-chefe&mdash;e que o chefe é apenas o remate decorativo do Estado, podendo
-ser bruscamente derrubado por uma rajada de crime, sem que o edificio que
-elle rematava, se abale, e nem por um momento diminua, ou se modifique, ou
-sequer se interrompa, a vida intensa que circula dentro do edificio e
-que o torna vivo. O regicidio deixou assim de ser uma tragedia
-politica&mdash;para se tornar simplesmente uma tragedia domestica, que no
-povo não póde interessar mais que a imaginação.</p>
-
-<p>O que Pariz durante esta semana sentiu (além de uma compaixão natural
-pelo bom homem morto e pela admiravel viuva), foi uma curiosidade
-feroz do detalhe tragico. Os jornaes concorreram para exaltar esta
-curiosidade, menos pelas cousas dolorosas que vinham contando, como pela
-maneira terrifica com que as annunciaram, em typo disforme, lettras de
-tres pollegadas, de um negrume sinistro, enchendo toda uma folha, e na sua
-mudez mais estridentes que gritos! São estas letras de descomedido
-espalhafato, imitadas da America e exageradas como toda a imitação
-interesseira, que exacerbam a sensibilidade moderna. As pestes, as
-guerras, as quedas de imperios, eram outr'ora narradas pelos jornaes no
-seu typo miudo e ordinario e a noticia das catastrophes entrava no nosso
-espirito de um modo manso e discreto, sem produzir n'elle alvorotos
-violentos. Agora, estas lettras espaventosas invadem com pavor o nosso
-pobre cerebro; e á maneira de touros que se precipitam dentro d'um templo,
-põem a quieta assembléa das nossas ideias em confusão e terror. Uma tarde
-d'esta semana, nos boulevards, um jornal astuto e videiro, a
-<i>Cocarde</i>, appareceu ostentando na sua primeira pagina, larga
-como uma pagina da <i>Gazeta</i>, estas duas linhas unicas, n'um
-typo despropositado, sem precedentes, que se avistava a uma
-milha:&mdash;«O embaixador de França foi assassinado em Roma!»&mdash;Vi
-mulheres, ao receberem nos olhos desprevenidos este tremendo berro
-typographico, quasi desmaiarem: e por onde passavam os vendedores,
-agitando o cartaz pavoroso, a multidão redemoinhava, como sob um
-grande vento de medo e colera!</p>
-
-<p>Assim, durante a longa semana, andou vehementemente sacudida a nossa
-imaginação.</p>
-
-<p>De resto a tragedia de Lyão era bem propria a agitar as imaginações
-mais ronceiras e dormentes. Raramente o destino ou o acaso (se é que o
-destino se conservou indifferente) envolveu um regicidio em scenario mais
-commovente, de contrastes mais patheticos, accumulando n'elle uma tal
-profusão de detalhes horriveis na sua trivialidade, e quasi medonhamente
-grotescos através do seu horror. Essa noite parece composta por
-Shakespeare e retocada aqui e além, depois, por Hoffmann. Quem jámais a
-saberá e a contará em toda a sua miuda realidade? E que contraste intenso
-já, em que o mais doce e ordeiro dos homens assim findasse na mais cruenta
-e atabalhoada das tragedias! Carnot morre com um requinte dramatico que
-faltou a Cesar! Vêde logo o scenario! Não é a sala grave do senado, onde
-os punhaes se erguem com a serenidade raciocinada de uma votação&mdash;mas
-a rua illuminada de uma cidade em festas, n'uma noite de gala. Todas essas
-flammulas, e bandeiras, e rutilantes arcos de gaz, e festões multicores de
-lanternas chinezas, e fogos esparsos de Bengala, e escudos de luz, e
-palanques, e orchestras são para celebrar o homem que passa no seu
-<i>landeau</i>, e saúda, e sorri. Uma multidão sincera, de uma boa
-sinceridade provinciana, para quem esse homem, com a placa e gran-cruz da
-Legião de Honra, cercado de couraceiros, encarna realmente a magestade da
-França, grita&mdash;«Viva Carnot! Viva Carnot!» E de repente a magestade
-da França cáe para cima das almofadas do coche, com a face descomposta,
-livida! Foi um qualquer, surdindo das profundidades da plebe, com os
-sapatos rotos, uma velha jaqueta de panno côr de mel, que, n'um relance,
-lhe enterrou um punhal no ventre. Punhalada quasi impessoal, em que o
-braço não é mais do que a prolongação inconsciente da lamina de ferro, e
-que vem debaixo, de longe, de muito longe, das camadas escuras do
-proletariado esfaimado... E o <i>landeau</i> lá vae, lá foge a galope,
-entre o ancioso tropear da escolta, levando o chefe de Estado que se escoa
-em sangue. O Estado, recentemente para o proteger, gastára mais um
-milhão de francos em reforçar a policia!</p>
-
-<p>Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do <i>landeau</i>
-da côrte tornado bruscamente carro d'hospital! Já para dentro saltára um
-cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do
-presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados
-pelos lacaios. E assim galopa um quarto d'hora furiosamente, sob as
-bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão
-seria logo transportado, e em braços, ao pateo d'uma casa, ao balcão d'uma
-botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia
-em sangue, porque, mesmo n'uma Republica, é severa a regra do Protocollo!
-Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os
-couraceiros o <i>landeau</i> d'Estado, onde vagamente se agitam e brilham
-plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot!
-Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha,
-terrivel, quasi burlesca&mdash;o chefe do Estado estendido, com a
-gran-cruz, a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda
-da camisa fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa
-entre ovações&mdash;ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos
-foguetes. Passa, desapparece, n'um galope de cavalleiros, deixando apenas
-o sulco arrepiador d'aquella fralda branca e sangrenta!</p>
-
-<p>Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous
-<i>reporters</i>, sofregos de se envolverem n'um acontecimento historico,
-se apoderam do corpo do presidente e o arrancam do <i>landeau</i>, um
-agarrando uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte
-através das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal
-conhecida ainda, estreiado n'esses dias de gala.</p>
-
-<p>Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só
-devia recolher tarde, depois da representação de gala no <i>Grand
-Theâtre</i>; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as
-festas, para os fogos da Exposição:&mdash;e as luzes estavam apagadas,
-todos os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido,
-desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um
-phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do
-presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia.</p>
-
-<p>Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma
-immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava
-os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa
-para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma
-curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se
-debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em
-que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto
-lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a
-curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está
-passando alguma cousa de irreparavel.</p>
-
-<p>Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com
-bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam,
-se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de
-casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas...</p>
-
-<p>Assim morria, n'esta desordem, o mais decoroso dos chefes de
-Estado.</p>
-
-<p>Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo,
-n'uma suprema decencia:&mdash;e em torno d'elle não havia senão os brancos
-marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito
-velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e
-continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo
-gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo.</p>
-
-<p>Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as
-suas insignias&mdash;e apertando na mão já hirta um par novo de luvas
-brancas. Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra
-o seu cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como
-chefe de Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na
-mão as suas luvas novas. Estas luvas d'além da campa, muita gente as acha
-estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os
-reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao
-morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de
-escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava
-para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta
-feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do
-seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um
-pagem.</p>
-
-<p>Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do
-céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e
-gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste.</p>
-
-<p>Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o
-cavalleiro perfeito e lhe chamou, sorrindo, <i>seu filho.</i> Assim,
-através das edades, a tradição liga Carnot a Roldão.</p>
-
-<p>Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que
-regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade,
-um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que
-trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor,
-deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e
-coberto de crepes. D'uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot,
-vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado
-de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n'um carro sem solemnidade
-civil e religiosa; e á pressa, n'um trote fugidio, através das ruas mais
-desertas, onde clareava a madrugada, levam-n'o para o Elyseu. O morto como
-que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar
-methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma
-colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que
-lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d'elle, pelas
-ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um <i>fiacre</i>, com
-vadios e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida.
-Estranho remate de uma noitada estroina&mdash;seguir n'um <i>fiacre</i> o
-cadaver d'um chefe de Estado!</p>
-
-<p>Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas
-então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna
-regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com
-curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no
-devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz,
-n'uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas
-ao presidente que passa para o Pantheon.</p>
-
-<p>Funeraes magnificos, de certo&mdash;mas de uma magnificencia muito
-cerceada pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da
-democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto:&mdash;e
-o severo gosto, em França, não permitte n'estas pompas outro luxo, além do
-luxo das flôres. Tudo o que outr'ora na antiguidade, e depois na
-Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres&mdash;a
-sumptuosidade dos trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os
-incensadores fumegando, os coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados,
-as insignias symbolicas, os trophéos, os andores, os estandartes, os
-carros de deslumbrante architectura, a riqueza patricia, as criadagens
-agaloadas, e o incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas
-mitras, as suas purpuras, as suas casulas de ouro&mdash;toda essa
-magnificencia esthetica aqui falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou
-Roma, da Florença dos Medicis ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria,
-contemplando esta procissão funeral, que uma opulenta e artistica nação
-estava fazendo a apotheose do seu chefe assassinado. Todavia a França,
-dentro das restricções impostas pela sobriedade do seu gosto e pela
-simplicidade da sua democracia, prestou a Carnot, largamente, todas as
-homenagens e preitos symbolicos. As flores que lhe offertou, foram
-incontaveis, custaram mais de tres milhões de francos, e durante todo um
-dia perfumaram o vasto ar de Pariz. E toda a França organisada, desde os
-corpos d'estado até aos clubs gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao
-Pantheon, que a patria reconhecida reserva aos Grandes Homens.</p>
-
-<p>Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas
-sobre carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de
-dous metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas,
-não podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só
-impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos,
-e em breve murchos.</p>
-
-<p>E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de
-casacas pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho
-as casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as
-fardas d'um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates
-destacavam, n'uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se
-prolongavam, se eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando
-em cadencia. Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava
-por fim senão á impressão dormente d'um mudo e lutuoso perpassar de fato
-preto.</p>
-
-<p>E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar
-mais a emoção artistica d'esta pompa, a memoria de outras pompas, a de
-Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em
-longas milhas, calças pretas, casacas pretas.</p>
-
-<p>Uma novidade, porém, e singular, impressionava n'estes funeraes de
-Carnot:&mdash;e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira
-tricolor, se entreviam n'um carro batinas e sobrepellizes de padres.
-Depois, á frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas
-grandes vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos
-uniformes, appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade
-consideravel! E então se attentava mais em que esta tragedia do presidente
-assassinado fôra realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e
-ministrada pela Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das
-mãos do arcebispo de Lyão.</p>
-
-<p>Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e
-freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope,
-n'uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira
-que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda
-orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu
-clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o
-velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario.
-Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o
-arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos
-de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes,
-livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia,
-abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E
-depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para
-rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire!</p>
-
-<p>Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de
-Pariz o radicalismo compungido&mdash;e é para os altares que o vae
-levando.</p>
-
-<p>Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d'um
-cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de
-bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas
-pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n'uma evidente mostra de
-humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n'este cortejo derradeiro de
-Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o
-jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as
-unhas, horrendamente humilhado.</p>
-
-<p>Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o
-desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado
-ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte,
-espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos
-caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um
-objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n'este fim do
-seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua
-morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o
-produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n'este mesmo dia dos
-funeraes, e pela voz d'um dos seus melhores espiritos, o declarou, com
-aviltante desdem&mdash;um producto de exportação!</p>
-
-<p>Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em
-Pariz&mdash;producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. <i>Sic
-transit gloria diaboli.</i></p>
-
-
-
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-<pre>
-
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-End of the Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz
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-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ ***
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-goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
-remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
-Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
-and permanent future for Project Gutenberg-tm and future
-generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
-Sections 3 and 4 and the Foundation information page at
-www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
-501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
-state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
-Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
-number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
-U.S. federal laws and your state's laws.
-
-The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
-mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
-volunteers and employees are scattered throughout numerous
-locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
-Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
-date contact information can be found at the Foundation's web site and
-official page at www.gutenberg.org/contact
-
-For additional contact information:
-
- Dr. Gregory B. Newby
- Chief Executive and Director
- gbnewby@pglaf.org
-
-Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
-Literary Archive Foundation
-
-Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
-spread public support and donations to carry out its mission of
-increasing the number of public domain and licensed works that can be
-freely distributed in machine readable form accessible by the widest
-array of equipment including outdated equipment. Many small donations
-($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
-status with the IRS.
-
-The Foundation is committed to complying with the laws regulating
-charities and charitable donations in all 50 states of the United
-States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
-considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
-with these requirements. We do not solicit donations in locations
-where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
-DONATIONS or determine the status of compliance for any particular
-state visit www.gutenberg.org/donate
-
-While we cannot and do not solicit contributions from states where we
-have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
-against accepting unsolicited donations from donors in such states who
-approach us with offers to donate.
-
-International donations are gratefully accepted, but we cannot make
-any statements concerning tax treatment of donations received from
-outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
-
-Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
-methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
-ways including checks, online payments and credit card donations. To
-donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
-
-Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works.
-
-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
-Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be
-freely shared with anyone. For forty years, he produced and
-distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of
-volunteer support.
-
-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
-the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
-necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
-edition.
-
-Most people start at our Web site which has the main PG search
-facility: www.gutenberg.org
-
-This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
-including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
-Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
-subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
-
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