diff options
| author | nfenwick <nfenwick@pglaf.org> | 2025-01-27 09:38:40 -0800 |
|---|---|---|
| committer | nfenwick <nfenwick@pglaf.org> | 2025-01-27 09:38:40 -0800 |
| commit | 8618a19299f6316596545312deaf54c4b85d843c (patch) | |
| tree | 045960083765f21bc7822f5dae901df1360a24c7 | |
| parent | 472d1e7efe73faa17b05ca5ff10c2cca09352e10 (diff) | |
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 4 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 | ||||
| -rw-r--r-- | old/60194-0.txt | 5767 | ||||
| -rw-r--r-- | old/60194-0.zip | bin | 137425 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/60194-h.zip | bin | 285955 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/60194-h/60194-h.htm | 6100 | ||||
| -rw-r--r-- | old/60194-h/images/echos_cover.jpg | bin | 57003 -> 0 bytes | |||
| -rw-r--r-- | old/60194-h/images/queiros01.jpg | bin | 103270 -> 0 bytes |
9 files changed, 17 insertions, 11867 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..d7b82bc --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,4 @@ +*.txt text eol=lf +*.htm text eol=lf +*.html text eol=lf +*.md text eol=lf diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..82115ff --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #60194 (https://www.gutenberg.org/ebooks/60194) diff --git a/old/60194-0.txt b/old/60194-0.txt deleted file mode 100644 index 22ee19c..0000000 --- a/old/60194-0.txt +++ /dev/null @@ -1,5767 +0,0 @@ -The Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll -have to check the laws of the country where you are located before using -this ebook. - - - -Title: Echos de Pariz - -Author: Eça de Queiroz - -Release Date: August 29, 2019 [EBook #60194] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by Hathi Trust.) - - - - - - - -EÇA DE QUEIROZ - -ECHOS DE PARIZ - -QUARTA EDIÇÃO - -PORTO - -Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, Limda, Editores - -Rua das Carmelitas, 144 - -AILLAUD E BERTRAND-LISBOA-PARIS - -1920 - - - - -[Illustration 01: Eça de Queiroz] - - - - - -INDICE - -I. PARIZ E LONDRES--O ANNIVERSARIO DA COMMUNA--FLAUBERT. - -II. OS DUELLOS--AMNISTIA--GAMBETTA-ROCHEFORT--OS JESUITAS. - -II. O IMPERADOR GUILHERME. - -IV. O GRAND-PRIX--A ESTATUOMANIA--OS COCHEIROS--VICTOR HUGO--O CAMPO -EM PARIZ. - -V. O 14 DE JULHO--FESTAS OFFICIAES--O SIÃO. - -VI. A FRANÇA E O SIÃO. - -VII. A QUESTÃO BULOZ--A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»--PARIZ NO VERÃO. - -VIII. AS ELEIÇÕES--A ITALIA E A FRANÇA. - -IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA. - -X. AS FESTAS RUSSAS--A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA--NOTICIAS -DO BRASIL. - -XI. A HESPANHA--O HEROISMO HESPANHOL--A QUESTÃO DAS CAROLINAS--OS -ACONTECIMENTOS DE MARROCOS. - -XII. O SNR. BARTHOU--A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES--«LES ROIS» DE -JULES LEMAITRE. - -XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT. - -XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA--O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA. - -XV. AS «INTERVIEWS»--O REI HUMBERTO E O «FIGARO»--A MONARCHIA ITALIANA--O -QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA--A SINCERIDADE E O OPTIMISMO -OFFICIAL. - -XVI. O «SALON». - -XVII. CARNOT. - -XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT. - - - - -I - - -PARIZ E LONDRES--O ANNIVERSARIO DA COMMUNA--FLAUBERT. - - -Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de -verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem». -É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo -de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco -regato que vae cantando por entre as relvas altas. - -Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para esta -opinião do romanesco auctor de _Tancredo_ e da _Guerra do Afganistan_: -nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do que a -sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender desde as -creações da Arte até aos _menus_ dos restaurantes, desde o espirito das -gazetas até ao luxo das librés--e, muito racionalmente, corre a observar a -sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é mais original, mais complexa, -mais rica, mais pittoresca, mais episodica,--em Pariz e em Londres: ao -resto da terra pede apenas scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos -e architecturas... - -...Em Roma contempla os ornamentos do passado--o Colyseu e o Papa; em -Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na Suissa -para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para -embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais -impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em -torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um -momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que -palpita ao centro. - -Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma -paizagem accessoria--a devoção burgueza por Pariz e Londres, residencias -privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: porque, na -verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua lucta, na sua -paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O sol, nascendo -por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, fórma um -prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma grandeza -exuberante;—-mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre infinitamente -menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, passada n'um quinto -andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o Monte Branco? Emquanto -que as alegrias amorosas do meu visinho ou os prantos do seu luto são como -a consciencia visivel das minhas proprias sensações. - -O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se -a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de -dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou -dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o -melhor espectaculo para o homem--será sempre o proprio homem. - -Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões -flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda -que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes -que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o -valle--a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo delgado -de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença d'um peito, -d'um coração vivo. - -Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S. -Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não -é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa -mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo -persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S. -Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho -diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra, -ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros -do seculo XVII ornam as paizagens ideaes. - -O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza--é-lhe -indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella -habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento, -algum panorama--a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o -estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia -de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de -Lisboa é a presença do lisboeta--como a mim o que me estraga a Allemanha é -a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece uma -sociedade--a de Pariz e de Londres. - -Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de -viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua -originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os -regulamentos de policia até á _vitrine_ dos joalheiros, dar-se a linha -parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os -Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os -ditos do _Figaro_; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas de -Jerusalem foi o _can-can_ de _Bella Helena_, e sahiu da habitação de um -rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a areia -dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos de -papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao -Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba -sagrada. - -O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da -Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais -uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais -se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do -_Times._ O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao -chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê -Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas -de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens -do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester. - -Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a -originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má -imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para -lá--dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem para o -fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam linhas -de um portico. - -É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional -prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em -Londres, desde as revoluções até ás _toilettes_, desde os poemas até aos -escandalos. - -O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em -Pariz. - -Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou -na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez -hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall. - -E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e -Londres ensinam tudo. - -Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o -escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto -sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico--creio que -devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e -patria genuina de Mr. Prudhomme... - - -O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a -manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data, -na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de -Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma -exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos -quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo -o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr -de batalha na face. - -_Trinta e cinco mil pessoas_ fôram aniquiladas n'esta S. Barthelemy -conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em sacrificio á ordem -com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus inteiras em honra -do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma mocidade, toda uma -primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos Baals, o negro e -flammejante Moloch. - -Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe que -parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise. - -Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis, -armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto, -e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas -nas eleições. - -No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus, -preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta -procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre -valla onde apodrecem os seus mortos. - -O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou -promettendo concessões ao velho mundo _communard_ a troco da desistencia -d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração triumphal) ou -ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e fazer assim -recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de um conflicto -sangrento--conseguiu que n'esse dia a massa communista ficasse chorando os -seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns exaltados, -desattendendo a disciplina do partido, persistiram na demonstração -luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um diluvio, só vêm a -cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda aquella população -que devia descer dos _faubourgs_ apenas se viram pelas ruas grupos de dez, -quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise com a sua blusa nova, e a -corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do symbolo, as coroas eram -vermelhas. - -Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á -prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o -coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam -batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a -sua corôa sobre a herva verde, um _sergent de ville_ precipitava-se, -verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava -o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um -crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com -vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um -governo forte e contundente... - -Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas -symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam -a religião e os seus ceremoniaes? - -O mais illustre jornal do partido, o _Mot d'Ordre_, descrevia ha dias -uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no -Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias -barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente -designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que -individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um -anniversario de morte--da morte que não deve ser para elles mais que uma -banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do -catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se -acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres -agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma -paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta -de symbolos saudosos... - -Mas, mais estranho que tudo é a influencia do _vermelho_ no animo da -policia, como entre nós nos temperamentos dos touros. - -Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo -o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a -bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre -corôa de perpetuas tingidas de vermelho? - -Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito -de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia -d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria -generosamente permittido a manifestação saudosa... - -Logicamente, pois, uma rapariga que passe no _boulevard_ com duas rosas -vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de guerra. A -papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é offensa á -constituição. - -Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu -canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue -vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha -humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que -prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se -nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o -bom Deus! - -Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica! - -Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em -_meeting_ com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, todas as -côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria inventou; -declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha hortaliça á -face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a formidavel policia -ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia civica. É que -todas estas vociferações e todas essas côres deixam as instituições tão -intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park; e, finda a hora -do _meeting_, a grande massa dispersa com um socego de fim de missa. Em -França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre uma campa, flôres -de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte republica do snr. -Gambetta cambaleie ferida no coração! - -Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades... - - -Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á -Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga -novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de -ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama -Gustavo Flaubert e é o auctor da _Madame Bovary_ e da _Educação -Sentimental_--quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa perda -sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso -artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no -espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera -de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor -do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira. - -Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua -alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte -contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções -idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade -social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais -penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da -acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no -meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma -mais viva, mais pura e mais forte. - -As suas creações--Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, Frederico, -Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, participam de -uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. Quando o seu -enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das lindas ilhas -que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento a olhar, a -mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava com Leão, -como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua figura -nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos -_rendez-vous._ - -_Madame Bovary_ é hoje uma obra classica--e de certo o seu melhor livro. -Quem a não conhece e a não relê--essa historia profunda e dolorosa d'uma -pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a educação moderna -desmoralisada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade morbida, -agitada de appetites de luxo e d'aspirações de prazer, debatendo-se na -estreiteza da sua classe como n'um carcere social, correndo a esgotar d'um -sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais triste como dos funeraes -da sua illusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na -voluptuosidade, anciando sempre por _alguma cousa de melhor_, e arrastando -uma existencia minada d'esta enfermidade incuravel--o desiquilibrio do seu -sentimento e da razão, o conflicto do ideal e do real: até que uma mão -cheia de arsenico a liberta de si mesma! - -Na _Educação Sentimental_, concebe esta ideia de genio: pintar n'uma -larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos pelo -romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela falta -d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, dirija -as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as -instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a -indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a -difficuldade de governar a democracia... - -_Salammbô_ é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma religião -extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na _Tentação de -Santo Antão_, de uma forte intuição, de uma erudição tão larga, pinta-nos -tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e attinge ahi talvez -a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão elastica, que só a -poderia comparar a uma carnação humana. - -Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa faculdade -de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma figura -elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença pelo -pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo -burguez. - -Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o -melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era -verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim, -o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos -rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma -estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu -á luz dos ceus. - - - - -II - - -OS DUELLOS--A AMNISTIA--GAMBETTA-ROCHEFORT--OS JESUITAS. - - -Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos -succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo -que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do -Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de -um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras -essenciaes de outro francez. - -Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar -dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho -Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da -republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam -sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo--um -considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem -importancia--corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de -Bolonha. - -Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões -da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde -emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões -debaixo do paletot. - -Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e -_dandies_ é abundantemente deteriorada. - -Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do _Voltaire_, com -o conde de Dion; duello de Fronsac, do _Gil Blas_, com o principe de Santa -Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do _Mot d'Ordre_; -duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem contar os -duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido quatro vezes, -ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, entre o pulso e -o cotovello! - -Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo». - -Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro -Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo, -o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de -Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da -rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado, -as phrases celebres do mestre:--_Deus é o mal! A propriedade é o roubo! -Queremos a liquidação social!_ - -A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste, -olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa, -revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo -installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho -perfido, contendo esta abominavel sextilha: - - -A loira e dôce Maria -Que a ninguem d'amores maltrata, -Foi avisada outro dia -Que Paulo a vem visitar, -E eil-a que rompe a gritar: ---Depressa! fechem a prata! - - -Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr. -Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto -que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um -cheiro adocicado de sachristia--que saboreava tambem os seus grogs no café -e dirigia um jornal jesuita, _A Palavra._ A sextilha tomava, assim, as -proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra a -revolução. Era a graça calumniando a consciencia. - -D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de -pistola alta. Fogo! A bala do homem da _Palavra_ vae cravar-se na anca de -um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do snr. Paulo, -essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto. Este sujeito -franziu consideravelmente o sobr'olho. - -Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre a -porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente: - ---Então, o duello? Houve morte de homem? - ---Não,--respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.--Houve morte de jumento. - ---O que! Morreu Paulo? - -E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de -juba eriçada e a injuria no labio... E d'ahi outro duello á pistola -tambem. - -Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala -reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr. -Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho--do mesmo, precisamente o -mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu -atravessado e franzira tanto o sobr'olho. - ---Comprehendo!--rosnou este individuo, livido. E á noite, no café, -dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o -seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um -modo desleal e infame»! - ---Pois atreve-se?...--ruge o snr. Paulo. - ---Sei o que digo; infame e desleal! - ---Insolente! - ---Garoto! - -Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre -as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se -recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela -amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da -outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo -bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se -alojar. - -Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon. - -Os conflictos de honra que têm este final de _vaudeville_ são, por fim, -os mais acceitaveis. - -Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes -publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto -os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala -pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode; -emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da -familia: _Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu!_ nem o codigo, nem o bom -senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o homem, -publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre a sua -espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra!» - -Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue--tendo em redor as -acclamações d'um circo. - -No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião. - -O que convém, pois, á sociedade e que, n'estes conflictos impostos pela -exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se -limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca. - -No fim, a moralidade dos duellos está toda n'um dito de Rochefort. - ---Tem sido feliz em seus desafios?--perguntava-lhe alguem. - ---Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre com -a consciencia serena e uma ferida séria... - -Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se -deixou um homem a agonisar n'uma pôça de sangue; mas é triste tambem que -para se poder gosar, com a alma tranquilla, a _omellette_ do almoço, se -deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços. - -De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra _a serio_ por -estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a permanente -tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando se é muito -feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera despedaçada. - -Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo, -atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos! -Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião, -as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e -extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A -sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de -consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são -egualmente heroes nas gazetas! - - -Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado. -Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas -ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue -nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os -fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta; -os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a _questão da -amnistia_, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um farrapo -sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella pavorosa -loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva a -França! - -Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não -houvesse o direito de perdoar. - -O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por -compaixão--não podia deixar outros centenares no degredo, por legalidade. -Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem fumar o seu -cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa condemnou á morte, -soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, rehabilitado -publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios da Nova -Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o ministro -Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a França não -estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez bastante forte, -para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo snr. Freycinet, -aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a unidade da -republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se podia addiar -por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de 1871. - -Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade! -Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente -a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se -dizia nas operas comicas da minha infancia, _ha um mysterio._ Qual é, -pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo -poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto -dono de França--que assim o decidiu. Elle via que a recusa da amnistia o -despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que ia sendo -ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o -continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros -proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a -confiança para os darem a Clemenceau. - -Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno -sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na -força do proletariado que se quer apoiar--e, portanto, resolveu, como um -Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os -prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de -reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser -perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica, -se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio -Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe -fallar. - -No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a -sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila, -com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e -não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um -homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis, -reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso. - -Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um Deus. - -Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando: -_Gambetta fallou!_ Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz pelas -tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça -ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal, -affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da -emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire -escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos -pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de _França_ e -_Patria_ e _Republica_, os seus gestos de apostolo possuido do espirito; a -maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da Convenção; a -direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi vibrante--tudo isto -formou um quadro grandioso, quasi heroico. - -Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o -popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta -arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta; -dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias -que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego -triumphante do pronome pessoal _eu._ - -«_Eu_ consultei o paiz! _Eu_ disse á Europa! _Eu_ quero!» E assim se -desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que governa, possue a -França: o snr. Grevy está alli como uma figura ornamental; o snr. de -Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; a camara, um mero -serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções, como a mesma alma -da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com respeito o digo, um -italiano é o senhor das Gallias. - -Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo -snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica -conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de -experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros -enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que, -eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só -França! - -Rhetorica! _A questão da amnistia_ era, decerto, nas mãos da esquerda -intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de conservadores que -deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» Este grito ia -direito á indignação dos homens e á sensibilidade das mulheres. - -Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em -desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a -turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma -contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do _Rappel_ e -do _Mot d'Ordre_, restam innumeraveis machinas de guerra no vasto arsenal -da questão social. Basta, por exemplo, pôr em posição a famosa catapulta -da separação da egreja e do estado, para abalar a fragil muralha do -Gambettismo. - -Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de -concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir -na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes -ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas -e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo -do _Rappel_, da _Justice_ e do _Mot d'Ordre_. - -E outras reclamações virão--todas necessariamente satisfeitas--e cada -uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da sua força á Republica... -A questão está collocada entre o _proletario_ e o _burgues._ É Clemenceau -contra Gambetta. E _isto_, que é o socialista Clemenceau, matará -fatalmente _aquillo_, que é o jacobino Gambetta: e isto, que é o sapateiro -Trinquet, eliminará mais tarde _aquillo_, que é o philosopho Clemenceau. - -Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem -por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das -Gallias--que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras e as -espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se na -oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet. - -Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade, -porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario, -o _gaiato sublime_ como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não -perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado, -as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio--vae ser curioso vêl-o -erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da _Lanterna_, com a -face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e agil diante do pesado -presidente Gambetta. - -O jornal que vae fundar chama-se o _Intransigente._ Já é bom! E vem -azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi a -_Lanterna_ e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova Caledonia -por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos generaes de -Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu -implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu -querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a -temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e -de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos -humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da -França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e -foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no -exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente, -vamos rir. - - -Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato -que esta expulsão. - -Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n'elles me é antipathico--a -sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre, a sua moral, a sua -abominavel _summa theologica_, a sua sciencia secca e hieratica, o seu -frio estylo d'architectura, a sua maneira de enriquecer, com contabilidade -escripta em grego, a sua grosseira e equivoca idolatria pela Virgem Maria, -a sua organisação tenebrosa e conspiradora, que faz assemelhar a companhia -a um carbonarismo theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente -impolitico, illogico e pueril; se se pretende destruir a sua funesta -influencia na sociedade franceza--então é necessario expulsar o clero -inteiro, pois ninguem ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada -do espirito jesuitico. O catholismo é o jesuitismo. - -Quem governa a egreja não é Leão XIII, o _Papa Branco_, é o _Papa -Negro_, o padre Beckx. E esta solidariedade com a companhia--o clero -regular acceita-a, reveste-se d'ella como d'uma insignia, e considera-se -ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de Santo Ignacio. Se se -quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das gerações novas, -recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo o ensino clerical, -semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De que serve fechar -tres ou quatro estabelecimentos da companhia--se fica todo um clero -compacto para os substituir como pedagogos, como conspiradores e como -inimigos da democracia? - -Além d'isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão -ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em -logar da roupeta, vestirão a quinzena--e nem por isso o seu ensino será -mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da escola--lá -ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os franciscanos, os -irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o mesmo com a -exaltação de quem espalha uma ideia perseguida. - -É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio -imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no -mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres -conventos de jesuitas! - -Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir -que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem -para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento -terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino -scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma -roupeta que se reprime um ideal. - -E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo -todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações -ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os -seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se -approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão -arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia, -pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção. - -Ha n'isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á -expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza. - -Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico, -comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o -pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro -d'exilio--que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio Ferry e -o seu nacionalismo prouddhomesco. - -Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se -assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos; -as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta -victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação -mesma do crucificado. - -Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm -as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de -cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e -considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias -forte--mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um vergonhoso -abuso da força. - -Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos agora -n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que -consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz -XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;--que a amnistia -dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas! - -Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella. -Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz -um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma -religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse -brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho. -Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe -faz a suprema liberdade na suprema força. - - - - -III - - -O IMPERADOR GUILHERME. - - -«_Lui, toujours lui!..._--Elle, sempre elle!...»--Assim, no tempo das -_Vozes interiores_, clamava Victor Hugo, cançado, quasi estafado de que -ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e humanos -solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, monopolisando -os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem atravancadora -de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com impaciencia: -«_Lui, toujours lui!..._ Elle, sempre elle!»--perante esse outro -imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de Austerlitz, -e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, religiosos, -politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa expansão dá -á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez dos nossos -destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu--e occupa tanto o -nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou a crise -capitalista! Talvez mais--porque até o proprio snr. Renan, cuja alma, pelo -exercicio constante do scepticismo, ganhou a impermeabilidade e a dôce -indifferença de uma cortiça, para quem toda a vaga é embaladora e bôa, -declara, na sua derradeira epistola aos incredulos, que só lhe pesa morrer -(e pelas suas confissões bem sabemos quanto a vida lhe corre deliciosa e -perfeita!) por não poder assistir ao desenvolvimento final da -personalidade do imperador da Allemanha! - -Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei, -ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma -curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e -lances--como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco -vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra -pittoresca de Guilherme II--o ter convertido--o throno dos Hohenzollerns -n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se exhibe, com -caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental heresiarcha da -_Vida de Jesus_ lamentar que a morte lhe não consinta assistir, no quinto -acto, á solução d'este imperador problematico! Pois que, por ora, n'este -primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o seu palco imperial, -Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das suas manifestações, só -tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em Hamlet, os germens de -homens varios, sem que possamos preconceber qual d'elles prevalecerá, e se -esse, quando definitivamente desabrochado, nos espantará pela sua grandeza -ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este rei, quantas encarnações da -realeza! - -Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça, -occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda -acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor -como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a -toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na -mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a -farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do -capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando -a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na -historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a -seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á -Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o -dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o _sic -volo, sic jubeo_, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da sua -infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras todos -os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,--e, de repente, elle é -o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao brilho e ordem -sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, decretando a -fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da Corôa os -officiaes que melhor valsam nos _cotillons_, e querendo volver Berlim n'um -Versailles d'onde emane o preceito supremo do cerimonial e do gosto. O -mundo sorri--e repentinamente é o Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove, -tratando de _caturra_ o Passado, expulsando da educação as humanidades e -as lettras classicas, determinando crear pelo parlamentarismo a maior -somma de civilisação material e industrial, considerando a fabrica como o -mais alto dos templos, e sonhando uma Allemanha movida toda pela -electricidade... - -Depois, por vezes, desce do seu palco--quero dizer, do seu throno--e -viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. E ahi, -desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas as suas -figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas mais -interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. A -caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o -artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna -_Imperator Rex_) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o -azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte, -nos mares scandinavos, entre os austeros _fjords_ da Noruega, ao rumor das -aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o Mystico, e -prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das cousas -humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a communhão -com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos bons -tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao marechal do -Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a agradecer o kaviar e -os sandwichs de _foie-gras_, collocados no seu wagon como provido farnel -de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso centro de sociabilidade, e é -o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, um cravo enorme na sobrecasaca -clara, borboleteando e flirtando com a veia soberba de um D'Orsay!...--E -subitamente, em Berlim, por alta noite, as cornetas soltam asperos toques -de alarme, todos os fios da Agencia Havas estremecem, a Europa assustada -corre ás gazetas, e um rumor passa, temeroso, de que «haverá guerra na -primavra»! Que foi? _No es nada_, como se canta, no _Pan e Toros._ É -apenas Guilherme II que resubiu ao seu palco--quero dizer, ao seu throno. - -O mundo perplexo murmura:--«Quem é este homem tão vario e multiplo? O -que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça regulamentar de -official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer talvez antes de -assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo d'esta ondeante -personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema contemporaneo,--e -ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a influenza ou o planeta -Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço desesperadamente sedento -da fama que dão as gazetas (como Alexandre o Grande que, em risco de se -afogar, já suffocado, pensava no _que diriam os Athenienses_) e que, -mirando á publicidade, prepara as suas originalidades com o methodo, a -paciencia e a arte espectacular com que Sarah Bernhardt compõe as suas -_toilettes._ Outros sustentam que ha n'elle apenas um fantasista em -desequilibrio, arrebatado estonteadamente por todos os impulsos de uma -imaginação morbida, e que, por isso mesmo que é imperador quasi -omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma resistencia vigilante lh'os -cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos da fantasia. Outros, por -fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern em que se sommaram e -conjunctamente affloraram com immenso apparato todas as qualidades de -cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo e voluntarismo, que -alternadamente caracterisavam os reis successivos d'esta felicissima raça -de fidalgotes do Brandeburgo... - -Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as -theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o -imperador Guilherme é simplesmente um _dilettante da acção_--quero dizer, -um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com superior -intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja portanto -experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa civilisação. -Os _dillettante_ são-n'o geralmente de ideias ou de emoções--porque para -comprehender todas as ideias ou sentir todas as emoções basta exercer o -pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, mortaes, podemos, sem que -nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos liberrimamente nos illimitados -campos do raciocinio ou da sensibilidade. Eu posso ser um perfeito -_dillettante_ de ideias, modestamente fechado, com os meus livros, na -minha bibliotheca:--mas se tentasse ser um _dillettante_ da Acção, nas -suas expressões mais altas, commandar um exercito, reformar uma sociedade, -edificar cidades, teria de possuir, não uma livraria, mas um imperio -submisso. Guilherme II possue esse imperio; e hoje que se libertou da dura -superintendencia do velho Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel -_dilettantismo_ da Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz -a Biblia), galopa no deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas -massas de soldados, ou de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de -lançar um telegramma, fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de -transformar, nas suas mãos potentes, todo um organismo social? Tem só de -annunciar: «Esta é a minha ideia»--e lentamente a seus pés começará a -surgir um mundo novo. - -Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só -zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese, -e que quando o seu imperador lhe ordena que marche--emmudece e marcha. - -E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com -elle, o inspira e sancciona o seu poder. - - -E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador -da Allemanha:--é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico seculo, -entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro iniciado, ou -propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado de Deus! O -mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal intimidade -e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado de -Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do -mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que -conferencia com Deus na sarça ardente do _Schloss_ de Berlim, e que por -instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. É -verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de -affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por -ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus, -que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em -cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis -contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento, -esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel -na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o -servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos -espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito -d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez -allude a Deus em termos de maior igualdade--como alludiria a Francisco -d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com -reverencia, o _Amo que está nos céus_, o _Muito alto que tudo manda._ -Ultimamente porém, arengando com _champagne_ aos seus vassalos da Marca -Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus--o _meu velho alliado!_ E aqui -temos Guilherme e Deus, como uma nova firma social, para administrar o -Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus desappareça da firma e da -taboleta, como socio subalterno que entrou apenas com o capital da luz, da -terra e dos homens, e que não trabalha, ocioso no seu infinito, deixando a -Guilherme a gerencia do vasto negocio terrestre:--e teremos então apenas -Guilherme e Cia. Guilherme, com supremos poderes, fará todas as operações -humanas. E «companhia» será a fórmula condescendente e vaga com que a -Alemanha de Guilherme II designará Aquelle para quem todavia, segundo -crêmos,--Guilherme II e a Allemanha toda são tanto, ou tão pouco, como o -pardal que n'este instante chalra no meu telhado! - -Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas -da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito -triumphal de cada emprehendimento--eis o que me parece explicar a conducta -d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio situado nos -confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um thesouro de guerra -para manter e armar dous milhões de soldados, ou se estivesse cercado por -uma opinião publica tão activa e coercitiva como a da Inglaterra, -Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na historia, curioso -pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu messianismo. Mas, -infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, com centenares de -legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados tambem e -submissos como soldados--Guilherme II é o mais perigoso dos reis, porque -falta ainda ao seu _dilettantismo_ experimentar a fórma da Acção mais -seductora para um rei--a guerra e as suas glorias. E bem póde succeder que -a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se entrechocam--só -porque na alma do grande _dilettante_ o fogoso appetite de «conhecer a -guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os conselhos e a piedade da -patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o promettia aos seus fieis -solarengos do Brandeburgo:--«Levar-vos-hei a bellos e gloriosos destinos». -Quaes? A varias batalhas de certo, onde triumpharão as Aguias germanicas... -Guilherme II não o duvida--pois que tem por alliado, além de alguns reis -menores, o Rei Supremo do Céu e da Terra, combatendo entre a _Landwehr_ -allemã, como outr'ora Minerva Athenea, armada da sua lança, combatia -contra os barbaros em meio da phalange grega. - -Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem, -na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que -riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um -homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que -essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então -verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo -que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus--mas apenas se provou que Deus -não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava -desdenhosamente--foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e -apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde -os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que -se estampa sobre a moeda falsa. - -Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume -hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão -repartidas pelos corpos de Estado--e só elle julga, só elle executa porque -é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu parlamento, que -Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração transcendente. - -Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro -desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas -ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie -da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada -alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso. - -E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para -lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra -o destino esses terriveis _dados de ferro_, a que alludia outr'ora o -esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter -altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o -exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse -exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua -infallibilidade. - -E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande -imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes -desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e -os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os -formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a -amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do -liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a -consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que -Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante -da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de -Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos -entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia -politica na Prussia era--_Deus salve o Rei?_ Onde estão esses louvores ao -direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por Mommsen, por -Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das duas grossas -pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o soldado, -Guilherme II hoje só tem o soldado:--e o throno, sobrecarregado com o -imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que é talvez o do -abysmo... - -Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno, -o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as -accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr. -E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em -Sadowa e em Sedan--é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua nova -ferula, que vencerá em Berlim. - -O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo, -n'este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II. -Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este -moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez -heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu _Schloss_ de -Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente, no -Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla -corôa amolgada da Allemanha e da Prussia. - - - - -IV - - -O GRAND-PRIX--A ESTATUOMANIA--OS COCHEIROS--VICTOR HUGO--O CAMPO -EM PARIZ. - - -Na semana passada o _Grand Prix_--que é a solemnidade official do sport, -do jogo e das _toilettes._ Todos estes elementos estiveram magnificamente -representados na planicie de Longchamps, sob um sol mais severo que o de -Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor, um cavallo francez com o -nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma _quarta parte do -focinho._ As apostas elevaram-se a mais de seis milhões. E havia -_toilettes_ portentosas, entre as quaes unn vestido negro, todo ornado de -crysanthemos brancos. - -A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a -rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d'Aosta, cunhada do rei de -Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida -dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia -se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um -principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e -sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes -avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?) - -O calor era horrifico. Á noite, no _Jardim de Paris_, houve, sob as -arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava -brilhantemente borracha, _sicut licet._ A unica innovação foi a troca -geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas, -com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces -creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve -fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade. - -Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana). -Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de _Grand Prix_, os -cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de -toga arregaçada:--e o austero Catão apparecia no senado com um grande -nariz postiço. - - -N'esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas -provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito -engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era -ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os -ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada -semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava--uma -estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes -homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus -benemeritos. - -Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada -mez,--que digo eu? cada semana!--se desvenda algures uma estatua d'alguem, -entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte annos d'este -fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm estatua. Em -compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de quem fallava -recentemente Julio Simon. Digo um _certo_ Guerin, porque eu não lhe -conhecia a existencia antes d'essa allusão de Julio Simon, que foi o -inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De resto, -talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas praças, -sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é Guerin? -Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial, -sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na -sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes, -menos por causa de D'Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac, -como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem -Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin. - - -Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais -duro de atravessar é a _grève_ dos cocheiros. Pariz está sem tipoias--o -que é, sobretudo n'este momento, como o deserto sem camelos. Se n'esta -super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos bonds fôsse facil, -exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria desgostos--e seria -mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o omnibus e o bond, em Pariz, -são instituições rudimentares. É mais facil para um pariziense entrar no -céu do que n'um omnibus. Para obter o logar na bemaventurança basta, -segundo affirmam todos os santos padres, ter caridade e humildade. Para -obter o logar do omnibus estas duas grandes virtudes são inuteis e, mesmo, -contraproducentes. Antes o egoismo e a violencia. Depois de conquistar o -logar, a outra difficuldade insuperavel é sahir d'elle--por aquelle meio -natural e logico que consiste em chegar e apear. Nunca se chega--senão -quando já é desnecessario. Eu e um amigo partimos um dia da gare -d'Orleans, á mesma hora; eu no comboio para Portugal, elle no omnibus para -o _Arc de L'Étoile._ Quando eu cheguei a Madrid soube, por um telegramma, -que o meu amigo ia ainda na Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em -Pariz é o grande refugio e o local do namoro. Quanto mais comprida a -jornada, mais demorado portanto o encanto. O meu amigo encontrára no seu -omnibus a creatura dos seus sonhos. Era uma loura com sardas -promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da Estrella estavam -noivos--ou peior. São estas pequenas commodidades da vida sentimental que -conservam a freguesia aos omnibus. - -Uma das causas, ou antes a causa da _grève_ é que os cocheiros querem -ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é que a -municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e que -elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e -aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de -que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que -o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do -Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O -cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer -parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza -envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades -innumeraveis. É peior que a administração chineza--e menos pittoresca. -Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar -licenças successivas a vinte auctoridades successivas--entre as quaes o -ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos trens -de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um d'esses -trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel -sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de -deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n'um dia de dezembro, uma -familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a -um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia--e o digno funccionario, -com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o documento, -respondendo com superioridade: _Indeferido, por causa da distancia e do -mau tempo!_ - - -Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo -porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e -compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos. - -Victor Hugo publicou este mez mais um volume--_Toute la Lyre._ Como o -Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de -dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito -d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos, que -elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de -Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua gloria. Essa já está -estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com as _Contemplations_, a -_Légende des Siècles_ e os _Châtiments._ Mas augmentam o nosso -conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emoções ou -fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram -habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em -verso. Cada verso novo, que nos é desvendado, constitue pois um documento -novo sobre o poeta--sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo -lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre um homem de genio como -Hugo, mais completo se torna o trabalho critico sobre a sua -individualidade e sobre a sua obra. Para alargar e completar o -conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as cartas, todos os -papeis intimos--até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para -Lamartine, para Balzac, etc. - -Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de -pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se -queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para -proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d'um grande homem -de guerra, que tem iguaes--é bem justificado que se publiquem os versos, -todos os versos, ainda os menos interessantes, d'um poeta que, sem -contestação, é o maior de todos, em todos os seculos. - - -A moda, ou antes aquelles que a fazem, acaba de tomar uma resolução -sapientissima. Pariz, d'ora em deante, fica sendo considerado, durante -os mezes de verão, para todos os effeitos sociaes, como campo e não como -cidade. É permittido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao theatro, -etc., de chapéo de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo. -Era com effeito absurdo que Pariz nos servisse 30 graus á sombra--e que -os parizienses continuassem a soffrer a tyrannia da sobrecasaca apertada e -do duro chapéo alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e permittir a -tanga. O vestuario foi inventado por causa da temperatura, e deve, -portanto, variar com ella harmonicamente. A neve pede pelles, pelles -supplementares, arrancadas a animaes. O sol do Senegal ou de Pariz em -julho, só pede a propria pelle--sem mais nada, além de uma folha de vinha. -Esta seria a logica das cousas. A moda não ousou ser tão radical--e foi só -até á palha e á alpaca. - -Mas é um primeiro passo no bom senso. Para o anno, talvez nos seja -permittido o ir á Opera, como deveriamos, em mangas de camisa. Ahi no Rio, -segundo me affirmam, mesmo no verão, se anda de sobrecasaca de panno. É um -lamentavel excesso de decoro social. Ainda se comprehendia no tempo do -imperio, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas -instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a republica devia -apagar esse verdadeiro vestigio do velho regimen, e derrubar a tyrannia do -panno e do chapéo alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma -influiria vantajosamente no estado dos espiritos. Um povo que, com 40 -graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com -um chapéo alto de ceremonia, é necessariamente um povo constrangido, cheio -de vago mal-estar, propenso á melancolia e ao descontentamento politico. -Que a esse povo seja permittido pôr na cabeça um fresco chapéo de palha e -refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves--e elle respirará -consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazivel na vida e no Estado. - - - - -V - - -O 14 DE JULHO--FESTAS OFFICIAES--O SIÃO. - - -Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente -o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não -berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito, -um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais -descontente:--accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo -appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas, -com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor -pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela -enthusiasmada rouquejava a _Marselheza._ As filas de _fiacres_ dormiam -pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de Longchamps -pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a lentidão e -a gravidade enfastiada de um enterro civico. - -Nem um _Vive Carnot!_ Nem uma palma ao velho Saussier, governador -militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz -não applaude os pennachos--é que Pariz está realmente macambuzio. - -Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses -estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano -os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma -commissão para _desorganisar_ a festa e promover uma melancolia de -protesto:--mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam -decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que -realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a -França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca -foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe -estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:--e onde -quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura, -immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas -espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde -os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo -dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada -da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o -symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo, -na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra -de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma -classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A -essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez -d'isso, a aristocracia, n'essa data illustre, volta a face com tedio, -cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta -portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro -grossas torres onde pudesse ser sepultada _pro vita_ ao bel-prazer -d'El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com -o dia que a libertou--porque se ha-de regosijar o povo de Pariz? - - -Além d'isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam -populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede -com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda -vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas -alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de -lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a -illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o -facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as -lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando -os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta -Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito -tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe -mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta -Constitucional. - -Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico, -nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo -não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza -_simplista_, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim -como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra -de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo, -são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos -populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são -individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem -convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem -recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d'esses santos, as -suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus -attributos, tudo lhe é familiar--e elles são como verdadeiras pessoas de -familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente -amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino -fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e -se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram -alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a -cidade;--e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com -carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella do alto das -nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas -se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o dever de -celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de -Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma -luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão:--«S. João é um amigo -meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e -que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e -esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o -preço de uma lamparina.» - -É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos. -Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para -que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de -enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa, -devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a -difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime. - -Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos -protestariam com furor e haveria sangue. - -Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios -desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve -a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem. - -Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional. - -A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo -terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e fallando com azedume de -_casus belli._ Este latim, que significava outr'ora _caso de guerra_, quer -apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dous amigos -se zangam, se tratam de _pulhas_ e _malcreados_, se mostram mutuamente o -punho, e mutuamente se voltam as costas. - -Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por -motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e -portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se -deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á -chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem, -participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma -architectura phantasista de magica--e estão armadas de canhões Krupp. Além -do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em plantações -e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu -tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu -exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade. -Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra -tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos n'esses confins -do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as -censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e frotas, teria já -empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir -o animal pensante--e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientaes -são feitas para enriquecer os paizes occidentaes--e por isso com os -Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se -fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou -civilisado, tu és barbaro--logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois -trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser -civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior -uma arte, uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm -uma religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos -occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado -é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens -canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu -vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita -internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e -Abel. - -Em virtude, porém, d'um respeito innato pelas exterioridades (que data -da folha de vinha) os homens crearam ao lado d'este descarado direito -internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de -mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se -d'outra com a simplicidade com que n'uma estrada uma creança colhe um -fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o -forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande -progresso adquirido. - -Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir -sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de -fronteira n'uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo -um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou -que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram _hu! hu!_ Tudo isto é -gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em -tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns -officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da -França. Se não foram elles--foram seus paes, como disse o lobo ao -cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua -honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que -os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei -de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á -Luiz XV! - - -Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se -installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle -bello bocado do Oriente--e é a França, a nação entre todas rival, que -apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes -berraram _hu! hu!_ É sobre a bandeira da França, não sobre a d'ella, que -os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a -França emfim que está na deliciosa posse d'estas affrontas, que saboreia a -preciosa felicidade de ser insultada--e que portanto tem o rendoso direito -de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada--e a Inglaterra não a -tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, através do seu -parlamento:--«Uma vez que n'esta occasião Sião não pôde ser para mim, -tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar necessario á sua -honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A -autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para permanecer em equilibrio, -precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser -para a Inglaterra). E se a França attentar contra a independencia de Sião, -ás armas!» Eis o que diz, n'um dizer mais diplomatico e solemne, aquelle -excellente John Bull. - -E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um -pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação -e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios -deante de um velho osso. - -O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações, -homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e, -deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça. - - - - -VI - - -A FRANÇA E O SIÃO. - - -A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido -povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um _ultimatum_ em que era intimado -a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu territorio e -uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente maneira dos -orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella mansidão e -humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas, replicou que -não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia a paz, e que -por amor d'ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não tanto, e a -abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr'ora, quando os -costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos -orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d'uma feliz reputação de -lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações, -novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores. - -Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do -Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem -se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e -fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da -Cochinchina. - -Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido -medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de -commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do -povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não -acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não -percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a -França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe -tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia, -quando o povo se desinteressa d'uma questão, os politicos e os jornalistas -têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente -correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem -se apoiar n'um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de -Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d'uma manhã. - -Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por -causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou -sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada. - -Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de -arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a -cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a -França e Inglaterra se batessem por causa de _bichos tão feios como os -siameses_--estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do seculo. -Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do Egypto, -que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se têm -dilacerado todos os povos desde o diluvio--não ha receio que jámais duas -nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses orientaes. - -De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero -desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles -perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel, -n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido, -e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma -tinta--sem medo que se venha a gastar sangue. - - -Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a -Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos. -Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a -Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua -conquista. - -Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e -emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir -povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar -a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos -fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem -uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um -commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra -para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada d'isto--nem -frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo homens, porque a -população da França não chega mesmo para a França. Quando ella se apossa -violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial que depois -pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e muitos -empregados publicos. A França faz conquistas para exportar amanuenses. -No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas -maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial -da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral. -Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses -aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra -occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio. - -A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando -um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda -rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem -condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação, -um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse -enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos, -ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando, -porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que -penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um -escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo -ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E -só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para -que quer aquelle velho aquella moça?» - -E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer -esta França este Sião?» - - -Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no -palacio, e conta detalhes bem pittorescos. - -Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma -fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos -edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo, -doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das -fronteiras. - -É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só como -seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se dissessemos -o artigo da Constituição) que define as relações e deveres entre povo e -rei é esta: «_Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o sêr_». - -O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir, -etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez -que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta -invocal-o com o nome todo. - -Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por -causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da -corte é pronunciar o nome d'el-rei. - -Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel, -gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez. - -E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado -poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação -que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez -que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas -officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei, -apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta -e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que -offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas! -Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo -immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas, -está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio -procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo -estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem -mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras -poupadas. Eis aqui um traço bem siamez! - -O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua -capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande -festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as -casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam -uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de -joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei -recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e -porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação. - - -Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão -d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava. -Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que -Goethe descreveu--«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe -geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o -seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça -uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia. - -Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as -acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe -perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não -podia) responder com um saber exacto e forte: - ---Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião! - - - - -VII - - -A QUESTÃO BULOZ--A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»--PARIZ NO VERÃO. - - -Por fim o Sião cedeu:--e, muito avisadamente, para evitar a immensa -maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um -oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel -séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á -França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que -ella reclamava para «vingar a sua honra.» - -Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a -educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma -tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião -desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se -desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a -humanidade, como o caso do snr. Buloz. - -Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda. -Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus -escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem -depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que -não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses -_dous mundos_ que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem, -por meio da sua illustre e famosa _Revista._ Porque é d'elle que se trata, -de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da _Revista dos Dous -Mundos!_ - -Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia -então que nós pronunciassemos com mais alegre horror--porque elle -representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das fórmas -novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais conservador e -burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa _Revista dos Dous Mundos_ -nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a lettras mortas. - -E escrever na _Revista_, pertencer á _Revista_ era para nós uma maneira -especial de ser fossil. - -Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa _Revista!_ Quantas -phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer! -Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido n'um amor -sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de laudano, -um numero da _Revista dos Dous Mundos_:--e ao chegar ás ultimas paginas, á -«Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com effeito no somno -eterno. Ainda me lembro d'uma definição da _Revista_, dada por um de -nós:--«Uma publicação côr de tijolo, que tem dous leitores no Havre!» - -Tudo isto era excessivo e injusto. A _Revista_, de facto, tinha leitores -por todo o mundo:--e, como se sabe, e já tem sido dito, _Todo-o-Mundo_ -é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. Com os seus trinta -annos de valente existencia, ella era já então uma larga e fecunda -remexedora de ideias e de factos:--e não houvera de resto nenhum grande -francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido esse acto, -para nós tão vergonhoso: «escrever na _Revista_». Todos tinham -escripto--mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a desarmar do -nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes idolos d'essa -geração--Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que os versos de -Beaudelaire, tirados das _Flores do Mal_, apresentou-os ao publico, por -assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas precauções sanitarias. -Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, toda enojada, em que ella -repellia qualquer solidariedade com semelhante infecção, e jurava que só a -exhibia como uma lição moral, para mostrar a que excessos e a que -desordens póde rolar a litteratura, quando sacode audazmente a salutar -disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, publicava Beaudelaire -(mesmo alguns dos versos mais temerarios)--e esta concessão, este começo -de homenagem prestada ao Satanismo (o Satanismo era então uma escola, e -todos nós nos consideravamos Satanicos) adoçou um pouco as nossas relações -intellectuaes com a _Revista._ Modificámos mesmo a definição irrespeitosa. -Era então uma «publicação côr de salmão, que tinha já dous leitores no -inferno!» - -Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não -vejo a _Revista dos Dous Mundos_ sem um sentimento vago e inexplicavel -de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber -especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura -academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte -originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave -matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados, -faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está -absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia -com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens -sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do _Quarter Latin._ É -talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço. - - -Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o -snr. Buloz e, com elle, a pudibunda _Revista dos Dous Mundos_ se achavam -envolvidos n'um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a -_Revista_, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos -Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n'uma -aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão -severa policia dentro da sua _Revista_, que esquadrinhava todos os -romances com terror de que lá estalasse n'algum canto algum beijo mais -voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em -nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e -livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e -illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que -frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido. - -Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz e a -excellente _Revista._ Porque não havia aqui realmente um romance d'esses -que o proprio Buloz condemnava sombriamente como «infectos»--mas um roubo, -um longo e abjecto roubo, organisado contra Buloz, e portanto contra a -_Revista_ de que elle é a encarnação viva--por dous d'esses horriveis -personagens a que Balzac chamava impropriamente os _tubarões de Pariz._ -Tubarões, sim, no sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á -cata da presa. Mas isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz. - -Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem -indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma -gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla -Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella, -quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz. - -O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de -tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua -vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de -contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma -fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando -se tem vivido, durante vinte annos, dentro da _Revista dos Dous Mundos_, -toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma visão de alto -esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e sensivel. -Teve n'uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de Mazade!) -uma d'aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, nenhuma -alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie e dos -Remusat, evita ou vence. - -Buloz cedeu--ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora -pretende, em confidencias que fez a um reporter do _Gaulois_, que «foi -uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle -passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda -a mourama. Pagou, naturalissimamente, as _toilettes_ da menina e da -familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade; -e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade, -deu um dote e um marido á menina. - -Educado no idealismo incorrigivel dos romances da _Revista_, imaginava -Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para sempre -o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, e -sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o -marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem -de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á _Revista dos -Dous Mundos_, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia -uma cidade conquistada. - -Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez, -os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio--e Buloz pagava -pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais -urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria -reunir rapidamente uma fortuna--e cada dia, agora, ás vezes mesmo duas -vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E -pagava--para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a sua -situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi -arruinado--e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario, -fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa somma--e, -com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a assignar uma lettra -promissoria de perto de _setecentos mil francos._ - -Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão! - -Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece, -os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido -respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam -contra as queixas de Buloz--influencias pagas talvez com o dinheiro -sacado a Buloz. Alliança de «tubarões»--como diria Balzac. O facto é que -a policia se conservou n'uma magistral indifferença. Então, estonteado, -desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á sua -_Revista._ Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou do seu -marido, e a _Revista dos Dous Mundos_ se separou do seu director. E o -grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre Pariz. - -Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a -_Revista dos Dous Mundos?_ Era esta, durante semanas, a interrogação -anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe -de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou--e cruel. - -Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio -entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da _Revista_ -pronunciou egualmente divorcio entre a casta _Revista dos Dous Mundos_ -e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, perde a sua -mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente roubado, -durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não perderam nada, -os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque durante todo -o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á maneira de -nomes sagrados. Tal é Pariz. - -Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios. -Mas a resolução dos accionistas da _Revista_ parece-me excessivamente -austera e illogica. - -Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções -exactas sobre as realidades da vida--e o seu peculio de conhecimentos -sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois, -mais que nunca, nas condições experimentaes de dirigir uma revista, -sobretudo aquella secção de revista de que elle com mais particular amor -se occupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre -enredos, caracteres tortuosos de heroinas e miserias finaes de todo o -sentimento teria valor e auctoridade. E agora justamente é que o afastam -d'essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas -desventuras o tinham, emfim, tornado idoneo! Ha aqui evidentemente um erro -de criterio, além de uma falta de misericordia. - -Em todo o caso, assim acaba na _Revista dos Dous Mundos_ a grande -dynastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz -I, o fundador, se soubesse que a sua raça fôra desthronada da _Revista_ -por um escandalo de coração? Tal é a ironia das cousas! A mais austera, -solemne, pudica, de todas as publicações européas, tendo chegado aos -sessenta annos, sem que nunca uma realidade ardente das cousas d'amor -houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do seu -director, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em alcovas -illegitimas! _Habent sua fata Revistœ._ - -Pariz fugiu de Pariz. Com este calor de phenomeno, (40 graus á sombra) -em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o -simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, n'um verdadeiro -exodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil -hebreus, e d'aqui, segundo affirmam os jornaes, abalaram hontem, em -centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas. - -Só ficaram os empregados publicos. E ainda assim, havia ha dias uma -administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao -contínuo, se achavam no campo ou no mar. - -Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por -dedicação civica. - -Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem -arquejante. Toda a folhagem das arvores seccou. - -Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um -guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se -attestou de cerveja para outro café onde se vae innundar de limonada. Os -cavallos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornaes já se pensa -em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas -defumadas. - -Todavia Londres está mais ardente. Ahi o calor produz quasi uma crise -nos costumes. Hontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na -Camara dos Communs, em mangas de camisa. - - - - -VIII - - -AS ELEIÇÕES--A ITALIA E A FRANÇA. - - -As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o mais -solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n'estes vinte -annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa -affirmação. - -N'essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal -consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos -remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido, -condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do -imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação -Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido -como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças -de Augias:--e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na -tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como -Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os circulos, -com um enthusiasmo esmagador e jovial. - -Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar -cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e -militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa, -só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte -subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios. - -E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com -unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos -humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella -occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em -cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal. - -Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar -da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram -fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas -ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro -andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria -espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos -eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito -comesinhamente, uma reforma do imposto rural. - -Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir -das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres -inspiradores da oratoria. _Basta de lyra!_ gritavam em 1848 os operarios -famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel de Ville, -estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agricola -repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a eloquencia! -Fóra a rethorica e a sua rijada ardente! - -E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza -ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na -historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor -do seu progresso. - -Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe, -para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos -e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor -uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda -experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes, -capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para -o util serviço d'esta França nova, que é simultaneamente um banco, um -armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou--e viu que a -sua obra era boa. - -Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as -superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual -da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia) -foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio -outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das -papoulas mais altas. - -Na camara não haverá senão espiritos medios e planos--e toda ella será -realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma eminencia, -uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre -airosa d'onde vôem aves. - -Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta, -foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os -costumes financeiros d'uma democracia industrial, com o regular e fecundo -funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para -bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d'estes homens, -desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de -um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os -santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão. - -Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas -sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus, -a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são -inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como -perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas -disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta, -se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem. - -E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este -suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão, -ignominiosamente expulsos da Republica. - -Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de -democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim, -e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar -n'um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. _Amen._ - -Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um -conflicto entre operarios francezes e italianos, n'um departamento do sul -(em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica -que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França. - -Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França, -como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na -Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da -Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d'uma raça mais sobria, ou -d'uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores -aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e -muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,--porque o capital -é cosmopolita. D'aqui despeito, rancor do operario francez, ameaçado no -seu pão--e constantes rixas, em que o italiano, naturalmente, puxa a faca, -essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do norte. - -Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que -um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham -refugiado n'uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados -como lobos, e dizimados a tiro, um a um. - -Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova, -em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da -França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de _Morra o -francez!_ acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de _Viva -a Allemanha!_ - -Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles -consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu -sangue, berre: _Abaixo a França!_ Ha ahi apenas, para elles, esquecimento -e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite: _Viva a -Allemanha!_ Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á dignidade da -nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a -Italia--a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e quasi ironica de -enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais profundamente a França. E -as duas nações estavam já assim, ha duas semanas, em face uma da outra, -quietas, mas penetradas de mutua hostilidade, tanto maior da parte da -França quanto tem de ser, por prudencia, silenciosa. Mas eis que agora, -n'estes ultimos dias, a Italia praticou, para com o sentimento francez, um -outro e supremo ultraje. - -O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras -militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem -acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe -real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano -na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma offensa? - -Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar. Em -boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e -administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo: -e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja -maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d'isso, a sua presença -não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte -annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da -Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio: -e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n'uma -provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás -manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se -o _acceitar_ um convite para essa região é offender a França, o _recusar_ -o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Allemanha. Tudo isto é -indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando -ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são duas terras francezas -que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de Italia vir caracolar -sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do oppressor, é, para os -francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que uma reconciliação entre -a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto mais que ás questões de -politica se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes) e a estas -ainda uma outra questão sentimental de gratidão, mais irritante que a de -pecunia. - -Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n'um -perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França -tem o condão de enervar a Italia--de a enervar até ao desespero. É um -facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n'uma -das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio -pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente -cita, lembra e celebra o beneficio da libertação--não é tedio então, é -intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o -libertou. É bem natural--porque o fraco não póde esquecer que o apoio -trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua -fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr'ora veiu salvar, com grande -alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules. - -Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde -Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram -horrendamente caras, além de algumas d'ellas lhe serem desoladoramente -inuteis. - -A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III, -que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá -bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d'isso a França -tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou -o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando -realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu -grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas -armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado. -N'estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando -os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a -Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua -magnanimidade. - - -Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a -Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de -semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem -sido ajudada:--mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós -todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua -imagem. Ella é e permanecerá a _Italia-mater_, a mãe veneravel das -nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e -intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica -findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella -espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente, -ella nos deu a musica. - - - - -IX - - -ALLIANÇA FRANCO-RUSSA. - - -N'este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo -Brazil:--e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção -apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa -ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a -elle tão tumultuosamente o perturba. - -Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o -seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove -com o que se passa dentro da linha dos boulevards--quando muito, dentro do -recinto das fortificações. - -Além d'isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão -discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se -verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate, -se não impede totalmente a emoção. - -Depois ainda, as nações, á maneira que aperfeiçoam as suas formas de -civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema -polidez das nações. De sorte que, n'esta duvida e n'esta reserva, tudo -quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o -patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz. - - -De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo -contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua -febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas -theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como -a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo -os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza, -que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da -sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da -guerra. Por toda a parte _gréves_, e sangrentas; por toda a parte ruinas -causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em -Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a -Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite, -envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a -unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por -ser uma republica (não parece haver salubridade segura n'esse regimen) -mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os -ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas -pacata e hygienica de dona de hospedaria. - -Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte:--e aqui -temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi convulsamente, -uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar (porque o Czar é -que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de Pariz, mesmo os mais -revolucionarios e os que mais zelam a soberania popular, aconselham que -se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!) manda este mez a sua -esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella respeitosa visita que ha -um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero dizer ao Czar. E a França -toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que quasi não têm nome, -procura realisar uma demonstração de amizade pela Russia, tão ardente e -estridente que fique historica e que marque mesmo o começo d'uma nova éra -historica. - -Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar no -porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa. -Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n'uma d'essas -situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão -particularmente penosas a uma nação altiva. - -Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza -(outr'ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito, -encarregava d'elle os francos--_gesta Dei per Francos_), a França estava, -na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o ar embaraçado -de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas, poderosamente -armada, com tres milhões de soldados facilmente mobilisaveis, a França -estava entre as grandes potencias militares com o ar inquieto e timorato -de um fraco entre valentões! Situação absurda mas logica, porque era -republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes viam o seu -republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua derrota, e o -isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de guerra a terem -por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força, ares -fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava sempre -na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os seus -pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de soldados, -politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se desforrava -d'esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é inobscurecivel -e invencivel, a da litteratura e da arte. - -Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga, -uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse -pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de -republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão -politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas. -E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz, -como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente, -mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou -doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia, -vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental -de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a -França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe -faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr. -Carnot fôsse um Rei de Direito Divino--mas ao mesmo tempo a França, como -França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma força -irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante Avelane -abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia. - -Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as -proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild. -Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de -Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um -começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que -o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu -milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e, -ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes -de Hamburgo. D'ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este -corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho -Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de -maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro -venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das -casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil -accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma -consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas -civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild! -E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo -uma parte do poder. - -A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava -nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente -a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer, -como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os -negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma -manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas. - -A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar -triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente -grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a -vehemencia do abraço:--e por isso o quer bem demorado, alumiado por todos -os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n'um fulgor de -apotheose! - -Mas a França é uma franceza--com todas as suas graças de sensibilidade -e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater perante uma -homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O acolhimento solene e -carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande surpreza da Europa, á -esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de todo a conquistou, e a -França, que é uma franceza, está hoje namorada de Alexandre III. - -Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo, -escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção. -Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á -França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não -ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo, -o Theseu salvador? Tudo n'elle parece bello, a sua estatura, a formidavel -rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação -grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia -conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a -França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas -festas vão ter não sei que de nupcial. - -O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja. -E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos -compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar _Te-Deums_ louvando o -Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas. - -Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os -politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da -Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario: -liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra -parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos -estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma -antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de -influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi -sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a -Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para -arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á -Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande -«despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d'elle, -mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que -quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a -tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno -mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi -brutalmente demittido! - -Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em -França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa) -e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão -com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás -mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica -sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas -até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a -Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do -renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela -manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não -lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por -onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular. -E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as -_gares_ estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e timidos -clamores de _Viva o Czar!_ - -Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera -particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram -a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu -neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no -centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam -para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas -positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo, -acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e -bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não -comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A -natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous -estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas -fórmas de sentir, o francez e o russo divergem;--e quasi se póde dizer que -um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na sua -essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a -civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado, -as duas nações discordam--porque uma é ainda primitiva, governada por -crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a -outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a -sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo -de revoluções. - -Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a -confraternisação. A França, repito, é uma franceza--e, como tal, -extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura. - -Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo -estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta -que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta -_élite._ - -Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que marcará -talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella realmente -existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha tradição)--e vão -buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII (antes d'isso tambem -quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande, que foi -esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente, onde a -sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam _les -petites dames._ Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na guerra da -Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos confraternisavam nas -trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne. Boa novidade! Já -outr'ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os cavalleiros inglezes -e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso dos assedios, se -juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar d'armas e -d'amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão. Em todos -os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os officiaes -fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as circumstancias, zurrapa -ou _champagne._ - -Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo lado -da França, d'esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte da -Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não -tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi -o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que -gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!» - -É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes -das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente -com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e -sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco. - - - - -X - - -AS FESTAS RUSSAS--A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA--NOTICIAS -DO BRAZIL. - - -Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O almirante -Avelane e os officiaes da fróta russa desceram sobre Pariz. Digo -_desceram_, como se se tratasse de sêres chegados das brancas espheras -celestes, porque o proprio almirante classificou esta visita de -_sobrenatural_, e o snr. Hervé, director do _Soleil_, um academico, -um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe attribuir um caracter -_miraculoso._ Deve haver aqui, pois, o quer que seja de transcendente. -E Pariz está em delirio;--mas um delirio cheio de bonhomia, e mesmo cheio -de diplomacia. - -Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus -amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Pariz, na -alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova -força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem -escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das acclamações aos -seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injuria aos seus velhos -inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Pariz está mostrando -a prudencia de um diplomata encanecido na carreira--e os proprios garotos -se comportam como Metternichs. - -Nunca de certo, como hoje, Pariz pensou tanto na Allemanha; e no fundo, -todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminarias se accendem, -e todo este _champagne_ estala, tanto pela Russia como contra a -Allemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais -fundos recantos d'alma--e o que transborda é apenas o clamor do -enthusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Allemanha, nem a -ingrata Italia, nem Triplices Allianças. Ha só dous povos, o francez e o -russo--e, como elles se abraçam, o mundo todo se converte n'um amavel -santuario de paz. - -Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Pariz. A cidade -toda está na rua. O tempo vae quente e abafadiço. Por toda a parte -a cerveja e o vinho transbordam, como n'umas colossaes bodas de Gamacho. -E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve -ainda um grito, uma pilheria n'um café, uma allusão, que desmanchasse a -harmonia pacifica do soberbo festival. - -Isto prova, uma vez mais, que Pariz não é como se pensa a cidade que -entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra ha -em que a intelligencia geral seja tão aberta, accessivel e prompta--isto -é, em que uma ideia, considerada justa ou necessaria, penetre tão -claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é facil, -extremamente facil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena -burguezia, a belleza ou a vantagem de tomar e conservar, n'um grande -momento publico, uma certa attitude, mesmo contraria a sentimentos -legitimos;--mas como fazel-a sentir áquella turba obtusa e rude, que os -inglezes chamam os _roughs_, os «asperos»? Para esses não ha interesse -publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E não -seriam elles, se Londres tivesse sido durante seis mezes cercado e -brutalisado pelos allemães, que se privariam, n'uma festa egual, de -desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de -_viva a Russia!_ brados ainda mais altos de _morra a Allemanha!_ Ainda -ha pouco o provaram (por occasião do curto resentimento entre a França e a -Inglaterra, a proposito do Sião) quando uma platéa de rapazes de -commercio, no theatro da Alhambra, ao apparecer, não sei em que bailado, a -bandeira franceza, rompeu em urros de furor, e se arremessou sobre o palco -para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um momento, uma brusca -ebulição do forte sangue saxonio. O bailado continuou--e cada um recomeçou -serenamente a rir e a emborcar _bocks._ - -No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew Arnold, -o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre que estas -duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era de certo -uma generalisação excessiva, que provinha d'esse delicado espirito se ter -nutrido e enlevado demasiadamente na litteratura franceza do seculo XVIII. -Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em Inglaterra, faltam á -populaça. Em França, nem a essa faltam. - - -N'estas festas russas, com effeito, a cousa para mim mais interessante -e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dous milhões de parizienses -vivem em permanencia apinhados em tres ruas: o boulevard dos Italianos, a -Avenida da Opera e a rua da Paz. A classica sardinha na sua classica lata, -um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do sacco -pançudo que quasi estoura--são frouxas imagens materiaes para exprimir -esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a espessura e -lentidão d'um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do tempo de -Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a -vivacidade, a vibração petulante e batalhadora d'esses dias de cesarismo. -Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma -brutalidade, uma impaciencia, um empurrão. As mulheres vieram -confiadamente trazendo filhinhos ao collo. Tanto é o decoro e o -recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros d'um templo. - -Toda esta parte de Pariz, com effeito, em redor do Club Militar onde se -hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de -paz. - -Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se -communica aos animaes. - -Na Avenida da Opera um grande _mail-coach_, tirado por quatro puros -cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de -Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e -bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou -risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não -se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles, -terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas -fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os -focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas -estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por -entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se enfeita--e -toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d'ouro e apotheose. - -Por vezes, entre couraceiros que cercam um _landeau_, alvejam ao longe -os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo de -_viva o Czar, viva a Russia!_ Toda a massiça multidão arremette n'uma -anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o esvoaçar -dos lenços. É uma curta explosão d'amor. De novo o decoro, a compostura -risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um pó -importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de -colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos -predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos -charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave, -polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado -precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d'estes, no meio de -dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas -estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que -através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda -uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me -empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse--não cessei de -louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a -conquista das Gallias. - -Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres--sobretudo -as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio -decorativo--nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom -pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um salão--ainda -que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua intelligencia, -o tenha immobilisado em dous generos que repete monotonamente, -infinitamente: o _Luis XV_ e _Henrique II._ Em todo o caso, possue -grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas -realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um -salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo -não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado -do pavilhão amarello com a aguia negra de duas cabeças. - -A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas, -o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca -de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de -lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção -buddhista. - -As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições, -corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os -russos;--e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus -officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro _lunchs_, -dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café, -tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além -recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes tiveram de -comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E -como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os _toasts_, as -saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave -considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes, coube, durante o seu -dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne. - -Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz _valia_ uma missa, não ha -duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma -dyspepsia. - -Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas -pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem -uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca -e gravata branca como os escudeiros que servem o _punch._ Este -inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao -esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou -tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em -meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros, -das amas ricas--alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob -o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros, -o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda branca -recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços floridos, e -os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos -Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal feita, como a de -um creado de copa ou de um servente de enterro! - -Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E -jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se -estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres -poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê -prestigio--esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da -arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. Isto é -extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o summo -respeito. Ora, entre dous chefes de Estado--um revestido de uma couraça -rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro de um paletot -negro, com um chapéo côco--o respeito instinctivo da multidão -impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para o sujeito -do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das mulheres--e logo -portanto atraz, por uma lei natural, a consideraçãodos homens. Os -philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas -exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar -Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos--e para ella -perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do poder. - -Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente -não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de -tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia--e de que elle -proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa -lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de -que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou. - - -E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como -não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em -França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações -das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda -assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos -do mundo. - -Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o -Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem -sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil -tivesse desapparecido--ou antes tivesse entrado n'aquella era de -felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter -historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se -encontra n'algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café -vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão -agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso... - -_Un silence parfait régne dans cette histoire_--como diz Musset. É de -bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo caso, é unico -na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera, tumulto. De -repente tudo se cala, tudo se some--e aqui ficamos na Europa boquiabertos, -deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como uma visão de magica. -Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde estão os regimentos? -Não ha nada--não se entrevê um vulto, não se escuta um rumor. - -De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em -Pariz d'essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma -longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que -troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na -sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o -Brazil--tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa -pacificamente a vender café. - - - - -XI - - -A HESPANHA--O HEROISMO HESPANHOL--A QUESTÃO DAS CAROLINAS--OS -ACONTECIMENTOS DE MARROCOS. - - -O «Theatro clos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo -um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus--e é agora de Hespanha que -nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo garante -que elles devem ser interessantes--porque de Hespanha nada póde vir que -seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e discursos. - -A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica;--pelo menos é a -ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se comportam -com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica imprudencia, e -soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos os interesses, -e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem constituir, o -typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias estão bem -d'accordo sobre o que é um heroe). - -Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que -se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal -Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n'uma praça de -Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se -misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola -de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente, -e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o -marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó -e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas -uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É -Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no -ar:--_No és nada, no és nada!!_ O seu cavallo jazia despedaçado n'uma poça -de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos uns poucos -de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e gemendo. -O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, todavia, -indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, continua a -encolher os hombros, a gritar:--_Pero si no és nada, hombre, si no -és nada!_ - -Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do -anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho:--_Fui eu! Fui eu!_ -Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca, e está -ancioso por que todos saibam que _foi elle, só elle!_ Não vá outro ser -preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas mulheres, -a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da confusão, podia -fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela sua façanha? -Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: _Fui eu! Fui -eu!_ E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos amarradas, clamando -ainda com orgulho para as janellas cheias de gente que _fôra elle, -só elle!_ - -Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio -desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que _no és nada, que no -és nada!_ - -O quadro é admiravelmente hespanhol--e só póde ser hespanhol. - - -O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo, -o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um -grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o -hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os -interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa -momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece -o sublime D. Quixote. - -E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a -prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens -accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento--como superiormente o -prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae perder--marcha -jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se trata da sua patria. - -Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria. -Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de -descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos -copos d'agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está -perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de -Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra--e todo esse povaréo se -ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só a pedrada, -mas o gesto. - -O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins, -tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente -e ovante como elle pronuncia _mi terra!_ Para elle a Hespanha é a maior -das nações--pela força e pelo genio. - -Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos -seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol -vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se -compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são -os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol -ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista -continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além -d'este habito de se sentir grande, natural de resto n'uma raça que chegou -a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais -fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor -prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam -pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se -erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez, -outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que -creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:--mas não -tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com -facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro -clima doce, a sua cosinha, os seus _sports_, os seus jornaes, as suas -distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d'um ar -luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e -vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de -pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e -moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos -abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e -carnal. Esse amor cria n'elle naturalmente a illusão:--e o manchego e o -navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não -as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e -radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito -intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo), -declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e -interesse, e brilho, _no valia Merida!_ De resto, quem não tem ouvido -hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer -Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua -provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim -publicado n'um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo? -A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a -candida illusão de um patriotismo transcendente. - -Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte, tão -genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade, -como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a -suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e -tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n'um -crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo -todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida. - -Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã, -Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão -plantára n'umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas, -a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas, -nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha -fôra offendida:--e Madrid inteiro, todas as classes e todas as edades, -fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, creanças -de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto mais -immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o embaixador -allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois a guerra! -Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a -Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas? -cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as -mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d'este delirio, -ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira -Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa -feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era -Jerusalem... - -Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito -e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas, -appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão -magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu -da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada -das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação -heroica de um sentimento justo. - - -Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi ferida -no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de europeus, mas -de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o sacrilego seja -forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio, isto é, houve -um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e guerra -implacavel! - -A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de -outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma -cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras -possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E -para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome -generico de mouros do Riff, ou Riffenhos. - -Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos hereditarios, -com o odio de raça e com o odio de religião:--e os hespanhoes estão alli -portanto n'um permanente estado de defeza. Ultimamente, depois de vagas -questões que tinham surgido entre hespanhoes e mouros na feira visinha de -Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma agitação tão visivelmente -hostil, que o governador de Melilla, general Margallo, mandou reforçar as -obras de defeza em torno da zona cultivada, e construir, n'um certo ponto -mais aberto, um forte. - -Ora, justamente n'esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco. -Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só -ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar -assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo -mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia. - -Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle -forte, n'aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio--e -constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi -por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava -e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se -sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como -costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle -tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse -necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite -desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima -hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis, -porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a -reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e -redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena -mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O -general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um -destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o -alarme atravez dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram -o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra. - -O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo, -sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para -castigar as tribus, uma sortida temeraria--que resultou numa tremenda -derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram) -e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção, -por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de -Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira--que os -hespanhoes retomaram. - -Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas». -Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança -e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que -não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha -offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos -donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha -toda rompeu n'uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O -reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa -multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou -a gritar: _Vamos todos a matar los moros!_ Foi um delirio. E a Hespanha, -enthusiasmada, lá vae para a guerra! - -E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com -um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia, -migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a ruina--porque -as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil homens aguerridos, de -incomparavel bravura, com espingardas Remington, e tendo por couto as suas -serranias inaccessiveis. Para vencer esta formidavel guerrilha--é -necessario uma expedição pelo menos de trinta mil homens, que têm de ser -alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha areaes. São as finanças -hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É ainda o perigo de -complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a penetrar no -territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do sultão de -Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França, da Italia, -que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras coloniaes, ou -por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse vasto e rico -sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, pelos seus -perigos, a antiga e classica questão do Oriente. - -Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a -ser quebrada, seria de certo por causa d'esse terrivel Marrocos. E a -Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela, -uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas -finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa? -Foram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de Hespanha--e -ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha sublimemente. - -Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre -arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do -Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser -interessantes... - -E assim, em pleno seculo XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz -contra o Crescente, e a Hespanha na sua antiga e laboriosa occupação -de _matar los moros._ - - - - -XII - - -O SNR. BARTHOU--A «ANTIGONE» DE -SOPHOCLES—-«LES ROIS» DE JULES LEMAITRE. - - -Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de -ministerio. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de -substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras -discussões, na camara nova, descollou estes pedaços heterogeneos de poder -executivo. Immediatamente porém se manufacturou outro governo. E a unica -feição d'esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter apparecido de -repente, e por motivo d'ella, um homem de Plutarcho. - -Este homem é o snr. Barthou. - -É necessario reter este nome--Barthou--porque elle representa um justo. -A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e dá logar a -equivocos lamentaveis, quando se trata de homens e de cousas -parlamentares. - -Quem é o snr. Barthou? - -Um politico, e portanto um ambicioso. Além d'isso um intelligente e um -ardente. - -E que fez o snr. Barthou? - -O snr. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia -constitucional:--convidado, n'esta nova organisação de ministerio, para -secretario de Estado das colonias, recusou. - -E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes -em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque -(segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores, -nem pela experiencia, a tomar conta d'essas funcções». Conhecem alguma -resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um -ambicioso que se nega a entrar n'um ministerio por não se considerar -competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo -da administração--é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que -nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente -suppôr que existisse algures, n'esta Europa politica e parlamentar, um -bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do -seu gabinete, fumando a _cigarette_ do poder, as colonias do seu paiz! - -No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado -um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n'esses tempos -deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o -cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua -incompetencia. El-Rei porém mandava--e o cabelleireiro, com as mãos ainda -gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando Filippe II -de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da _Grande -Armada_, que partia a conquistar a Inglaterra--o pobre duque escreveu ao -seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e -cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia -commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr'olho e ordenou ao duque -que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado--e todos sabem a boa -conta que elle deu da _Grande Armada._ Para evitar esta deploravel -confusão das profissões--se fez a revolução de 89. E d'ella surgiu então -essa classe de politicos, possuidores de aptidões universaes e de sciencia -universal. Todo aquelle que, por gosto ou necessidade, se incorporava -n'essa classe, parecia receber logo do Espirito Santo o dom de tudo -conhecer e de tudo poder. O medico largava as suas lancetas e ia, -absolutamente seguro da propria capacidade, confeccionar codigos. O -folhetinista arrojava a penna, empolgava a espada, e lá partia, com uma -soberba confiança, para o ministério da guerra a reorganisar os exercitos. -Nenhum jámais hesitára. E tal que duvidaria, por causa da sua -inexperiencia, acceitar a administração de uma horta de couves--estava -prompto, soberbamente prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e -commercio. - -Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar -ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos -certos de que, tocado de uma luz divina, da _lingua de fogo_, como os -apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir, -sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e -indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou -commandar frotas. - -A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel -confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos -anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo! -como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que -tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao -contrario d'este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia? - -Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente -honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga -suspeita entre nós outros, os governados. - -Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do -universal saber--é bem possivel que outros muitos tenham encontrado da -parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom divino. -E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante -os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós mesmos, olhando -de revez o galhardo moço na sua ascenção:--«Diabo! será este maganão um -Barthou--que se calou?» - - -Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece, -interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no -Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d'este -Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o -seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os -Persas nas margens do Eurymedon:--e ahi o temos ainda, depois d'estes -vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que -fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo -a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças, -quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu -pae, que era um simples fabricante d'armas, desenrolava verso a verso, -nas taboinhas enceradas, á sombra d'alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo, -Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os -lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d'essa vetusta matta, convertida -ella, por seu turno, n'uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as -noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: _Bravo, -Sophocles!_ e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de -Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber -onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia--e que quando já -não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores -notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames -dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella -collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles. - -Esta _Antigone_, que agora se representa no Theatro Francez, foi para -Sophocles a peça mais rendosa--porque valeu ao poeta ser nomeado general -ou _stratege_, como os gregos diziam, n'uma expedição a Samos. Singulares -_direitos d'auctor!_ E singular povo que recompensava a belleza de uma -tragedia com o commando de uma esquadra! Mas servir a cidade, ganhar a -Athenas uma batalha, era, n'esses tempos de civismo heroico, a mais -esplendida, a mais nobre das tarefas humanas;--e não se podia dar melhor -recompensa a um grande porta do que fornecer-lhe a possibilidade de se -tornar um grande cidadão. De resto Sophocles era soldado: já se batera em -Salamina, onde tambem combatera o velho Eschylo. - -Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a -assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação -occidental. - -E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em Salamina--mas -como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio lyrico foi escolhido -para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos e danças, celebraram -durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos salvou a todos nós, -homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes, e talvez persas! - -Pois a _Antigone_ continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os seus -herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança todas -as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para a sua -gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este dramaturgo de -Athenas continue a enriquecer os outros. - -Deixemos porém a _Antigone_ e Sophocles--porque, das peças representadas -em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é _Os Reis_ (Les -Rois) de Jules Lamaitre. - -Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma -historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma -historia da revolução do Brazil--da outra, da antiga, da que derrubou o -Imperio. - -Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do -palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia -absoluta, com 38 milhões de vassalos:--mas esta sala não apresenta mais -luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica. A -primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias -estão em deploravel decadencia:--mas dentro em breve se descobre que as -colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram -arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as _toilettes_ de Mme -Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania. - -Pela porta nobre d'esta sala desguarnecida entram dous senhores, de -casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem -da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania, -Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados -Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do Brazil,--que -aqui na peça e na Alfania tem o nome de _Republica das Cordilheiras. O -ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e hespanholesco de Alvarez! -Muito jovialmente e não sem malicia, este ministro Alvarez começa a contar -ao bibliothecario (de quem foi condiscipulo no collegio Stanislas em -Pariz) as suas attribulações diplomaticas. - -Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes -que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei -Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de -resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um -autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e -de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da _Cordilheira_ -expulsasse um velho imperador tão magnanimo e tão paternal. - -E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte -para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana -mais repassada de bons sentimentos monarchicos! - -O povo da _Cordilheira_ não detestava, antes amava o seu imperador. Mas -quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio--e constantemente -percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua sciencia das -linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias. Ora um povo que -não se occupa de philologia não gosta de ser governado por um philologo. -Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu throno o seu banco -do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a cobrir-se de pó--e -o imperador sempre em França, no Instituto a esmiuçar raizes hebraicas. -Além d'isso, aquelle imperio da _Cordilheira_ desmanchava a harmonia -republicana da America do Sul. O quê! todos os paizes em redor usufruindo -as venturas da republica--e só a _Cordilheira_ sobrecarregada com -uma monarchia e uma côrte! Era discordante. - -De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de -bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito, -toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e -naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor -(um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu -velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a -Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera -n'esta separação. - -Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas--o -imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez -do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios -de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que -o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez, -tão amavel--e no fundo tão monarchica! - -Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos _Reis_, esta -risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou -muito pela felicidade d'este funccionario. Mas apenas elle terminara a -historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz--entra -toda a côrte de Alfania. - -É que estamos n'um consideravel momento historico. O velho rei d'Alfania -vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga d'aquella -corôa secular. É que já não comprehende o seu povo--e receia que o seu -povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra simplesmente -o pastor muito solicito d'um rebanho muito manso. Agora, porém, sob o -seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova sciencia de -governar homens, e não carneiros, elle, rei d'outras eras, não a possuia. -Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse não só é -novo pelos annos--mas é novo pelas ideias. Principe de direito divino, -foi todavia educado n'outros tempos, por outros livros--e conhece os -direitos humanos. Todas essas liberdades estranhas que o povo da Alfania -reclama (liberdade de voto, de imprensa, de associação, de reunião, etc.) -e que ao velho Christiano parecem horrendos attentados contra a sua -auctoridade real, são para este bom principe Hermann aspirações legitimas, -que deverão ser satisfeitas com uma generosidade prudente. De sorte que, -com este novo povo da Alfania, tão differente do velho rebanho gothico, -e já hoje cheio de theorias, e meio revolucionado, melhor se entenderá o -principe novo do que o rei velho. E Christiano XVI abdica. - -Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua -branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes--emquanto o -chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da -Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem -não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem -resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco -e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann -regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios. -E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da -Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do -Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe -Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação -democratica: - ---Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes! - -Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei -d'Alfania. O pobre Christiano suspira--e Alvarez parece bem contente. - -Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do -theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar -para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um -pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos -conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual. - -O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já -deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento -e uma carta constitucional. - -O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna, -no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino -que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas -contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel. -Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda -a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da -capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos -politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação -nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte -alegremente a manifestação--porque (como elle diz) se o suffragio -universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de -consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e -está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser -consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom -Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o -superfluo dos ricos:--mas como essa liquidação social não é possivel -immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle -necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a -manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e clamorosa. - -No palacio reina o terror. - -Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros -e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos, duvidam--tanto -mais quanto a manifestação é capitaneada por anarchistas que estavam -presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo amnistiou com enthusiasmo. -E com effeito não tardam as más noticias. Os manifestantes arvoraram a -bandeira negra. Já aqui e além houve conflictos--e as tropas foram -apedrejadas. E eis que agora a enorme massa popular avança sobre o -palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente. Que póde receiar, elle, que -ama tão ardentemente os pobres, e que é na verdade o rei dos pobres? O -povo avança sobre o palacio? Pois que se escancarem, bem largas, todas as -grades dos jardins, que o povo entre, porque o seu rei alli está que lhe -estende com amor os braços. E elle mesmo abre as janellas--por onde -penetra um longo, sombrio e suspeito tumulto de brados. - -Mas eis um ajudante de campo annunciando que a turba está em plena -revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que -espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que elle -o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vae elle proprio, -socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social? - -Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a -apedrejar as janellas do palacio. Já uma pedra ia matando o principesinho -real, uma pobre creança doente, nos braços da sua governante. Hermann -afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae -sobre elle uma saraivada de calhaus. E não são já sómente calhaus--são -tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está -sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah -Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann, -supplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As -tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para -carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, n'uma agonia, -gritando sómente:--«Oh! os brutos, os brutos, que não comprehendem!» - -Outro ajudante. A revolução triumpha! Vae acabar o reino secular da -Alfania! Já o povo quebra as portas do palacio. Em pouco aquella rica -cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda -intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general! -Hermann, n'uma voz de moribundo, murmura: - ---O seu dever de soldado! - -E cae n'uma cadeira, aniquilado. Fóra ha um lento rufar de tambores. É o -primeiro e lugubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre -ella rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janella, grita:--«Não! -Não!»--É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o horrendo -clamor dos gritos. São os que morrem! - -Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ella a corôa. Um official -apparece, todo pallido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que -cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta -por entre lagrimas: - ---Mulheres mortas? - -O official murmura: - ---Muitas. - -Creancinhas? - ---Tambem... - -Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos -cravados no tapete. É que está vendo n'elle, cobertos de sangue, os -pedaços do seu bello sonho humanitsrio, que se despedaçou. Elle é o -primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e -o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas -as satisfações sociaes, se vê forçado pela logica terrivel das cousas a -erguer-se deante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o -seu povo--o que nunca succedera na velha Alfania, quando o povo era um -rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus -velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue. - -A scena é verdadeiramente bella--e pela apparição da Fatalidade, esse -grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das -leis sociaes, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou -Sophocles. Depois o drama acaba mediocremente n'um desastre d'amor, que -é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a -ver Alvarez. - -Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que elle se dedicasse -a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de compor e -mandar ao seu governo um relatorio instructivo mostrando, pelo exemplo -Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das theorias, um -regimen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito, para lançar -a nação n'um caminho incerto e escuro onde ella vae cambaleando atravez do -descredito, da desordem, da ruina e da guerra. - -Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia. - - - - -XIII - -OS ANARCHISTAS VAILLANT. - - -Desde que nos não vimos, caros collegas e amigos, este velho mundo foi -de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant. - -Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já classica -e quasi symbolica de Ravachol; nem fez tambem a devastação mortal da bomba -hespanhola do theatro de Barcelona. - -A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns velludos de poltronas e -pedaços de estuque dourado; e o unico ferimento perigoso que causou (e -hoje curado) foi o de um primo intellectual do anarchismo, d'um socialista -neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso -que as de Ravachol ou a dos hespanhoes, porque, pela primeira vez, a -sociedade sentiu a temerosa dynamite arremessada contra um dos seus -grandes orgãos vitaes, contra o centro regulador das suas funcções, contra -o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir predios ricos, como -sendo as fórmas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então -burguezes abastados, no acto de gosarem um luxo que offende especialmente -a miseria--o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com imprevista -audacia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». N'uma republica -parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant verdadeiramente -commetteu um regicidio. E não ha crime que impressione mais do que o -regicidio, porque n'uma sociedade onde se não eliminou inteiramente a -ideia de que o chefe é pae, elle participa da natureza do parricidio. - -De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito. -No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna, -Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de -uma caixa de lata, que bale n'uma columna, estala no ar antes de cahir. -Densa fumarada, gritos, terror, tumulto--e immediamente, tambem, entre os -deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco affectada, que -é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser -invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta. -Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham--e as salas das commissões -são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á pressa de -um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses feridos ha -um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu -endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. É conduzido -ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da cama, e -começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre anarchistas e -fabricação de bombas. O ferido, por um d'esses impulsos de vaidade bem -franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) alardeia logo -o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com os processos -empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os hombros, negam -a sua competencia. E o homem irritado com a contradição termina por -gritar: - ---Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E agora -não me massem mais, que quero dormir. - -Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á morte--por -um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e sobretudo no seu -bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem francez e bem -humano. - - -A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo -dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um -principio pela violencia--são tambem dous actos absolutamente inuteis. - -N'um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou -motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo -pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia. -Ha depois o appetite morbido da celebridade--como o prova o facto de -Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n'uma -attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de -applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e -capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos -proletarios, decretou a destruição d'essa sociedade. Só este lado sectario -do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque, -pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant -realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade). - -Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão, -preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da -sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes, -e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba--e supponhamos -que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata os seis -ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio do -parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao -proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade -escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror, -uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e -a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa -sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa -em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido, -nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse -novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma -data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara -desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos. -Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão -prodigioso, pena mais completa que a guilhotina. - -O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio -enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias, -como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições -mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo -a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande -apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres -soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões, -e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter -perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo, -só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas -viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio -insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria -ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da -classe já desagradavel dos _martyres da liberdade_, a classe, ainda mais -desagradavel, dos _martyres da auctoridade._ De sorte que estas bombas -arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destructivos -que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada sciencia, nunca -passariam, relativamente á força e estabilidade d'essa sociedade, de actos -impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão lançadas contra uma -muralha. - -A isto replicam os anarchistas:--«Assim é, mas nós não pretendemos -destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n'este -caso, _aterrar?_ Significa provar, pela experiencia d'uma pequena -destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar -á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor -de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil -dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam -essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d'ellas -pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo, -os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu -exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar -de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes -de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna -inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema. - -O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era -assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre -o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por -isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres, -prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias -tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e -auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas, -por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão -lamentavel desperdicio de energia heroica. - -Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é -impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade -burgueza--a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente para -supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, inspiradas -por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo cumprido porque o -criminoso fica castigado; mas a esperança não se realisa, porque nem os -anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou mais timidos os seus -assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está demonstrado, e pela -propria policia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde as -primeiras repressões, o numero dos anarchistas tem crescido na proporção -formidavel de _um_ para _mil_; e emquanto que a primeira bomba foi lançada -contra um simples predio, a ultima é já arremessada contra o proprio -parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está -organisado em seita. - -E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n'uma -religião (ou, se quizerem, n'uma heresia) em que o odio de certo é ainda -um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e -dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de -propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que -bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de -morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente -material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a -cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não -attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força -de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita -fica desorganisada, desconjuntada:--mas para immediatamente se reorganisar -além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de padecer uma -perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso de crear -martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue de -martyr, sobretudo quando cahe n'um solo tão preparado para que ella -fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á -exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades -dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o -que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de -anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d'esses milhares de operarios de -coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira -redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa -ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz -matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N'uma tal reunião, onde -cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma -mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d'alli a -fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir -o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos -soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas -presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um -jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os -mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas -imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem -já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam -escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão -anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o -caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol--a _Ravachole._ -E cada coração anarchista lhe é um altar. - -As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe -communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando -a sociedade mata os anarchistas--é a sociedade que fabrica as bombas. - -A violencia não cura--e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é uma -exacerbação morbida do socialismo. - -O germen e os desenvolvimentos d'esta doença não são difficeis de -precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro -de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de -felicidade, não já n'esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena, -mas a outra vida, para além da campa, como lh'o recommendava a Egreja, sua -mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que -reservava para os pobres o reino do céo. - -N'este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media -que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora, -começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos -do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n'este mundo, e -sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media, -bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as -instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade -das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos -covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas -innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios--e -expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades -politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar -essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de -setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da -monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e -invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de -associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado -e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de -viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A -felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos -politicos (liberdade d'isto, liberdade d'aquillo) continuava, como no -antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o -direito de voto não o aquecia--e á hora de jantar, a liberdade de imprensa -não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu que, -apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade -a ser servo--e que o seu novo amo, o burguez capitalista, era muito mais -exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o fidalgo -perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções -tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera as armas -na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento esforço -só servira para entregar o poder á classe média, que se aproveitava d'esse -poder, não para dar ao proletario dentro do novo regimen a sua legitima -parte de bem estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a -colera, e fazel-o esfalfar para o seu enriquecimento material, como o -fizera combater para o seu engrandecimento politico! - -A decepção foi tremenda--e tremendos o odio e desejo de vingança contra -o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou mais -legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e -derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade nova, -mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por causa do -regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do regimen -economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas chimicas, dos -excessos de producção, da concorrencia de todos os progressos do seculo, -realisadas só em beneficio da classe media, e cada vez mais tendentes a -separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os pobres e os ricos, -attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra todas as fadigas. -Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado na Republica, o -socialismo. - -Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais -violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e -estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e -concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi -pueril, porque não attinge o mal! Associações, _trade unions_, -barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio -social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc., -etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são -tigellas d'agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios -traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario -extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de -Estado. - -O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e todavia -por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas -quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias, -de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é -fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um -radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos -são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito, -ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser -destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a -absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente -impregnada d'esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu -principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou -melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella -conterá sempre em si o virus horrivel:--o principio do direito, do Estado, -da auctoridade! - -A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando -e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes -que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde -Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se -empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado -os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma -classe mais especial e odiosamente criminosa--a classe dos ricos, que foi -quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos moraes -e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a causa -de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e responsavel -do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da protecção das leis -é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se -priva de apanhar uma flôr n'um jardim publico é já uma cumplice da -sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella concorre para que -se perpetue o despotismo do regulamento. É pois necessario destruir -tudo,--e atirar indiscriminadamente a bomba redemptora contra as classes -exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra -a cidade onde se realisa a exploração, contra as proprias creanças que -nascem, porque ellas já trazem em si o virus da submissão exploravel. - -Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo. - -Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos -os symptomas d'uma allucinação morbida. Não ha n'ella proposição que não -seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende -ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação -social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as -miserias, é iniqua. - -Partindo do facto d'esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa, -logo que d'elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. -Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do -direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê -ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O -anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por -um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a -organisação da sociedade--mas que depois, ou impaciente d'esse lento -caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d'uma natureza desequilibrada, -deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e -cabriolando através d'uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente -em praticas d'uma ferocidade selvagem. - -Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação -morbida do socialismo. - -Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e -tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia -de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil? -O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter -achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é -que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos -anarchistas. - -Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem -dous motivos:--um extremamente nobre e honroso, que é a nossa -philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro, -extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por -tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e -do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem -secretamente e sinceramente sympathisamos:--um é o desgraçado, que -padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a -sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias -e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem -nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d'estes -dous homens nos interessamos mais--se por aquelle que sensibilisa o nosso -coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente, qual -nos emociona mais--o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro. - -Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação, -em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando -a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a -quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as -classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando -com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito -contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de -diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes -truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a -destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe -cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para -que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes -estados d'espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação, -do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma -cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na -camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era -em extase: - ---Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é bello! - -«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração, -esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime -anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar -voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do -gesto de Vaillant--a belleza d'aquelle braço magro que se ergue -lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado. -Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N'uma -sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d'arte, uma revolta -social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica, -a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os -poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que -elle é tambem estheticamente bello. - -Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo -estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam -ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal -disfarçada benevolencia, são unanimes n'um ponto:--em os cercar da -mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande -homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram -na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz -de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida. - -Se é anarchista, se lançou a bomba--é d'elle a fama universal, que nem -sempre conseguem os santos e os genios. - -Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz -a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de -astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o -que disse, o sobr'olho que franziu--tudo foi miudamente e clamorosamente -contado ao mundo com um calor em que a propria indignação tinha não sei -que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma verdadeira -celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado, do que -escrever a _Lenda dos Seculos._ - -Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tomado -mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que -contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios; -declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade -picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela -imprensa--como não ha-de o anarchismo alastrar n'essa proporção temerosa -de um para mil? - -Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se -estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da -falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o -Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis -ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua -indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os -artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo -se desinteressasse d'elle como de um banal partido politico; e que a -imprensa o envolvesse em um silencio regelador. - -Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre -que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude -intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que -elle se separa em um momento de delirio. - -Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil) -nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos -de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba -anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação -definitiva do trabalhador. Além d'isso os anarchistas que até agora têm -lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um -crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é -n'elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de -perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social, -seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que -surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer -d'elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo -pavor--é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual. - -Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a, -isolal-a--não crear em torno d'ella, por curiosidade depravada d'um mal -original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d'admiração litteraria, -de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a novidade do -seu arrepio. - -Toda esta larga aragem de favor é um crime--porque animando -indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a -obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada -pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem. - -Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos, -as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem) -sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d'aquellas que aqui -estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são -bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres -que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com -convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos -affirmar sinceramente é que--cá e lá más bombas ha. - - - - -XIV - - -OUTRA BOMBA ANARCHISTA--O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA. - - -As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada -no café _Terminus_ e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente -na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo -depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que -alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na -primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais -desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a -colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada, -dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas -formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade -sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram -então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que -estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as -estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam -as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de -pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se -manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á -casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem -se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para -conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber -technico da administração urbana e rural. - -Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas -e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se -commova ou trema pela sua estabilidade. - -É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras -bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca -demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo -para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse -temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos -formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos -espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um -Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu -cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas -do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o -medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o -habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a -ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro -d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de -vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do _grisou_ no fundo das -minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais -repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião -tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas -que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres, -e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de policia. - -É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão -systematica de todos os anarchistas. - -Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios. -Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios, -a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a -quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de -sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste, -livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de -glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o -anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e -methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na -vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta -encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os, -estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um -registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita. - -Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam -as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados. -Indubitavelmente é uma dura lei;--mas vem de uma dura necessidade. Era -realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico homem -não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o filho, sem -correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de pontas de -pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o anarchista é -com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso anarchismo -está para o socialismo, como estavam para o christianismo nascente os -montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que prégavam o amor -livre, e os circoncellios que prégavam a destruição universal, e tantos -outros, extravagantes e terriveis. Todos esses hereticos, tortulhos -venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão deturpar e desacreditar -a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra regeneradora, e attrahir-lhe -perseguições sangrentas. Eram por isso ainda mais odiados pelos bispos -christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando sobre elles cahia a lei -do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do genero humano, havia -tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de Jupiter. - -Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja -o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que -lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças -abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada, -ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada -simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo -lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia -publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario -perdido. - -Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado, -não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano. - - -Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas -lettras francezas um grande personagem--quasi devia dizer, dada a -qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando -o velho Buloz foi exilado da _Revista dos Dous Mundos_, por ter amado -fóra da _Revista_, e com uma especie de amor que a _Revista_ não -permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou -para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr. -Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual, -das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa -missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve -acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons -espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director -da _Revista_ e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr. -Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a -_Revista_) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para -consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o -snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o -throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se -omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde -elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e -explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu -conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua -gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes -recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das -Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um -professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo, -forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou -enthusiasmos. - -Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima, -tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto -significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e -núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está -creando um proverbio parallelo--«Só a grande professor, grande berreiro». -Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu ensino ha -indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um mestre. - -Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière, -todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no -seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e -os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas -grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e -outros males. - -Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de -profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só -a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os -auctores--quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina agora na -Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar ditoso de -lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua educação -classica? Eu, na minha mocidade, folheei os _Sermões_ e as _Orações -Funebres_; mas não cheguei a penetrar, como devia, no _Discurso sobre a -Historia Universal._ E desde então, desgraçadamente, não logrei ainda um -momento para absorver a theoria do grande bispo sobre a serie dos tempos, -das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a pagina classica, tão -magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de Augusto e a belleza -e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer Jesus. É pouco. Mas -se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser censurado o ignorar quasi -inteiramente o seu apologista. - -Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para -as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros -de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o -numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em -que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu -desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo -do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não -sinta--e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas dobras -das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil particularidades -indefinidas, n'esse _não sei que_ que lhe habita as fórmas e que faz com -que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a appeteçamos, e a -colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico entre flôres. Que lhe -dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, lhe collocará um -rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, desfiará as qualidades -que revelou n'esse genero, exporá as influencias de raça, e de meio, e de -momento historico que concorreram para o desenvolvimento d'essas -qualidades, etc., etc. Será superiormente erudito--e só lhe faltará o -sentir, pelo gosto, esse _não sei que_ de intimo que constitue a belleza -ou a grandeza do poeta. O snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de -resto esta comparação não lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que -recentemente, ao que parece, mais se têm applicado a introduzir nas -sciencias moraes o methodo das sciencias naturaes, e a considerar as obras -humanas, e sobretudo as obras de litteratura e de arte, como productos de -que a critica e a esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar -as causas. Isto desde logo o torna para mim um critico extremamente -respeitavel e pouco sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico -que me possa explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que -sinta palpitar o coração quando lê as _Noites_ e a _Carta a Lamartine_, -ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se -enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o -gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e -arrumadores de generos, que Carlisle chamava os _resequidos._ - -Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um inflexivel, -todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o amollecer -e lubrificar, d'aquelle _leite da humana bondade_ de que falla outro -inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do snr. -Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com este -homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado suspeito, ao -approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu discurso de -recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, contra os -jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e d'um modo -bem imperfeito, uma especie de jornalista. - - -O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua -bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser -superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel -somma de defeitos. - -Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos -juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos, -está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o -mundo--e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente -monstruosidade! - -A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado, -nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe -attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções -diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições -funccionaes. O _Times_ e outros jornaes inglezes, riquissimos e possuindo -toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as materias, -desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as questões -occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber e muita -experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, e que -só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde todos -herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi sacrosanto da -vida intima,--os jornaes não são bisbilhoteiros, nem abusam -indiscretamente da reportagem miuda. - -Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na -America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes -defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como -pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os -tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo -mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes -defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico, -com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se -tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes. - -Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e -leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso -tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os -seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como -no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e -natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais -methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos -deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho -de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para -louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem -factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos -contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em -litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além -uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho -Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica -inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. -Principalmente para condemnar--a nossa ligeireza é fulminante. Com que -esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se trate -d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um genio!» ou: -«É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas ainda assim, -quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á benevolencia -risonha, tambem concedemos promptamente, e só com lançar um olhar -distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola de luz. - -N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em -Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu -momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar -sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou -collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos -promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto -uma opinião cathedratica. - -E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do -facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os -nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por -um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez -funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um -coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por -homens côxos»--illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas -opiniões. - -E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece -cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de -juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre -o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que -entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo -o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma -crise do Estado, ou sobre o merito de um _vaudeville._ Como exemplo -picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem -commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos -bocados de telegrammas truncados--senão receiasse entrar em um caminho -escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos -collegas do _Paiz_ e do _Tempo_, armados da sua ferula. - -Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista encarregado -no _Figaro_ de criticar cada dia os acontecimentos politicos da Europa, -e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a situação economica -de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que «em Lisboa os -filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregavam como -carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam receber as -soldadas _pelos seus lacaios!_» Estes herdeiros das grandes casas de -Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no caes da -alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir receber -o salario--fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois quem o traça -é o _Figaro_, um dos mais considerados jornaes de Pariz, e um dos que têm -um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia está a dois -dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e meia de -Pariz--e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre a Inglaterra, -e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o _Figaro_ -descrevia as occupações da nobreza de Portugal. - -Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê -constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E -quando se tem como usual alimento do espirito o _Figaro_ e consortes (e -é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados) -facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os -homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por -humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum, -comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière--um juizo ligeiro, nascido -de impressões fugidias. - - -A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da -bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem. - -Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica, -sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande -abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos -reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu -regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos -terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a -personalidade do auctor de _Germinal_, e, através d'ella, explicar a obra. -Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois que do -feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito bem diz -Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se exerce, -não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções do -pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde as -_cocottes_ até aos _jockeys_, e desde os _dandies_ até aos assassinos, -succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em nada para a -documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o -desenvolvimento da vaidade. - -O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana. -Em todos os tempos houve vaidosos--e não querem de certo que eu -estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado -cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo -muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a -folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano. -Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso, -o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de -alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo -se faz por vaidade, e com um fim de vaidade. - -E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque -foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém -através do jornal. - -«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal--eis hoje, -para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a aspiração -e recompensa supremas. - -Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o -favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar -o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas, -os homens praticam todas as acções--mesmo as boas. Não é mesmo necessario -que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o nome, a -personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um brilho -mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não esteja -devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no mundano, -no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que parecem -preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, n'estas -semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, pregar -nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e -creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin, -e _interviews_ nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, com -o habito do grande S. Domingos, exposto entre _jockeys_ illustres e as -cancanistas do _Moulin-Rouge._ É esta esperança do «artigo do jornal», -que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as ideias--e -para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as mulheres se -deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e os artistas -se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam theorias -mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda -sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a frente, -quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, para que o -jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure boquiaberta:--_Ah!_ - -Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de -moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo -aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo--e estou mesmo -prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito, -tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres, -para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal! - -Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos -costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière -contra a imprensa--a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por pura -humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista, -confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro -impenitentemente. - -Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu -_mea culpa_ e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso, -queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente -apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua -superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os -tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae -copiosamente larga--e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os meus -jornaes com delicia. - - - - -XV - - -AS «INTERVIEWS»—-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»--A MONARCHIA ITALIANA--O -QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA--A SINCERIDADE E O OPTIMISMO -OFFICIAL. - - -Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos -prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue -_interviewar_ um rei. - -(Este vocabulo _interviewar_ é horrendo, e tem uma physionomia tão -grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que -exprime. O verbo _entrevistar_, forjado com o nosso substantivo -_entrevista_, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido. -_Entrevista_, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico -de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso, -ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos -velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente, -portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para -fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e -berrantes. Mas _entrevistar_ tem um não sei que de surrateiro que -desagrada--e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o poderia -impôr. _Interviewar_, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar -resignadamente este feio americanismo--já que os nossos idiomas -neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas -as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi no Brazil, amigos, -possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por vezes geniaes. -Fabricae um que substitua o _interviewar_ e sereis bemditos). - -E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação -democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não -parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito -divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de -Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o -imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente, -apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo -são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar -ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis, -porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos, -só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por -todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a -Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o -ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os -_reporters_, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam sobre -as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos. - -O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um rei -constitucional que diz sempre--«o _meu_ povo... o _meu_ exercito... a -_minha_ armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação, -sanccionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde -empregar legitimamente. Por toda a parte, fóra da Russia, da Turquia, (e -d'algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si proprios, -ou pelo menos conservam essa illusão, que lhes é preciosa; e os exercitos -pertencem ao Estado, que deixou de ser identico com o rei desde que Luiz -XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «_meu_ povo», de «_meu_ -exercito», que considerariamos singularmente improprias na bocca -constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da -Italia. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que -de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em -quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez -elle seja apenas o primeiro magistrado da Italia:--para nós elle -apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua -qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da -unidade italiana. - -Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados. -Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde -que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou -a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca -póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia -ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão -para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco -da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a -unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso -que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse -principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou -Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades -continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma -litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens, -mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo -historico. - -Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na -historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação, -tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo -construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual--a Italia todavia -nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade permanece -fragmentada em municipios e republicas, cuja existência, tempestuosamente -agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie lacrimosa de -martyrologios. - -O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima -molecula social. As cidades vivem isoladas, n'um violento ciume mutuo, -travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou -proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como -ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a -cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda -sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma -sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal -escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma -lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas -civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito -da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára -no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava -indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos -pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que -estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente -pelos papas, que se serviam d'elles para esmagar em qualquer dos Estados -a menor tendencia á hegemonia, e através d'ella á formação de uma Italia -unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um -soberano temporal;--e para manter a sua independencia fomentava a -desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas -anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas -qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da -Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A -consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada, -retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em -decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra -fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão -como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que -não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas, -jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e -bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e -patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do -municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á -Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as -condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a -soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos -ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como _ré galantuomo._ Victor -Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua voz -é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico, -ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente -na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão -que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a -garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição -impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das -formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu -filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d'esta prerogativa -de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo -constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga, -não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia -(se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario -irresponsavel. Humberto não--e, para elle, _reinar_ ainda ha-de ser -_governar._ E quando elle falle do _seu_ povo, do _seu_ exercito, a -Europa não lhe contestará a legitimidade d'essas expressões autocraticas. - -Além d'isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente -cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a -governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no -espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d'entre as sete -collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se -impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o -senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d'esta supremacia que lhe é -inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que -politico. - -Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis -interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante -de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como -ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos -ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas -intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas -affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente -constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os -hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...» - -Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem, -em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A -difficuldade unica estaria na operação da sondagem--porque, apesar de se -ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, os -reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se -apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o -_Figaro_, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar -subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos, -realisou esta bella façanha--e interviewou o rei Humberto. E quando elle -annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as -declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as -suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer -emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos -alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo -mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de -Italia, porém, é apenas o mandatario d'um povo, e d'um povo illustre nos -fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O _Figaro_, -barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E desde então -ainda não cessaram, em tomo d'ellas, controversias que me espantam, e -devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade. - -Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com -inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas, -officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem -conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de -ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um -governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus esforços -tenderão energicamente a manter a _ordem_, favorecer a _moralidade_, e -promover a _economia?_ Não ha possibilidade de que um governo se apresente -gravemente ante o paiz, e pondo a mão leal sobre o coração sincero declare -que vae fomentar a _desordem_, animar o _desperdicio_, e proteger a -_immoralidade!_ Os cidadãos não acreditariam:--e esse governo, talvez -veridico, seria escandalosamente expulso como farçante. - -Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente -consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que -corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto, -de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito -social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem -de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos -porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes -ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas -a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras -phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os -experientes sorriem, mas murmuram--«muito bem, muito bem!» E não -tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que -se preparava a fazer escandalos e prepotencias--como não permittiriam que -elle n'essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se apresentasse -nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta necessidade -de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me pareceu -incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com delicias -cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do Sinai, e vae -exclamando, radiante:--«Emfim, temos um governo, temos um homem que quer -implantar a _moralidade_, garantir a _ordem_, promover a _economia_, -etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos talvez os que se lançam sobre -o programma e o analysam, o dissecam, tiram d'elle, por entre as linhas, -esperanças ou receios, e discutem apaixonadamente cada uma das suas -palavras sacramentaes como se fossem realidades vivas. - -Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga -sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que -elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem, -só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era -humanamente verosimil que elle franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em -vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra... -Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser -inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir, -mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito -teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez, -vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a -guerra,--como que apparecesse em mangas de camisa. - -E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais -significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo -escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos, -com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do -Destino. Uns, d'aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê -provas!...» Outros, d'além Rheno, clamam: «Haverá n'estas palavras -de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o _Times_, -ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos olhos leaes do -monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um rei!... - -A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas, -ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que -póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela -probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde -responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela paz--ou -se pende para a guerra e mortandade dos povos? - - -De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão -inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas -necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia -a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao -mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e -queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não -presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade -intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como -de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em -Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a -almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve, -percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com -tradicional e humana ingenuidade: - ---É bom este Chablis? - -O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um -embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu seccamente: - ---É uma peste. - -O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle -homem veridico. Depois repercorreu a lista. - ---Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc? - -O criado, muito serio, replicou: - ---É horrivel. - -Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga -e escura que o invadia: - ---Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja? - -O criado volveu, convencido e digno: - ---Droga muito mediocre... Extremamente mediocre! - -O meu amigo tremia já, n'um positivo terror. Mas ainda balbuciou: - ---Que hei-de eu então beber? - ---Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é realmente -detestsvel. - -Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as -escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para -uma tipoia e fugiu. - -Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante -tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de -si, n'aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de -perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira, -da ficção, da convenção--é bem humano. - - - - -XVI - - -O «SALON». - - -O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica. - -Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe -do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o -_Salão_, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade da -sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só se -apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo menos -social, n'esta abertura do _Salão_, mesmo aquellas que no resto do anno -vivem tão indifferentes e separadas das cousas d'arte como das cousas da -theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia tradicionalmente -consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, que tem o dom de -reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma disposição festiva, -todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que nunca pegaram n'um -remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire de remar com pericia, -mostram, e realmente experimentam, a mais excitada sympathia pela regata -classica entre as universidades de Oxford e de Cambridge. E em Lisboa, -mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, concorrem, no devoto 13 de -junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos homens, andando hoje tão -dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma vez por anno, n'um -sentimento commum. - -Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous -grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N'esse dia os -artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:--e contemplar -um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é um precioso -regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha da -Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para -vêr Platão. No _Salão_, tal que apenas lança um olhar indolente ás telas -de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio Bonnat, -repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi -indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão -truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional, -vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas -festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita -uma insaciavel curiosidade--como tudo o que, no bem ou no mal, pelo brilho -ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano. E mal -sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo proprio -Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e estreito. - -Mas no _Salão_ ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa -attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes--a das -_toilettes._ Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as -mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão, -e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza, -da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera, -as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras -d'arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas -salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que -os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao -lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente -como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela -composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras. - -D'estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e -audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar -um relêvo picante e divertido á _toilette_ e aos accessorios da -ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade -serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa, -recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro -do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como -uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais -illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas -que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes, -com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por -uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão, -calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o -hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta -que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam -e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do -bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama, -tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia -entre a multidão--e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e deixae-a -passar. - -A outra senhora, ainda mais pittoresca, era enorme, transbordante, -construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o -pó d'arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas -tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n'uma -tunica diaphana, d'um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do -campo de Portugal chamadas _botões de ouro_, e feita certamente d'aquelle -antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua -transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz -e vento. - -Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem -amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda, -de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh'a -enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente -a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello. -Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que -mais me impressionaram n'estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz -continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo -perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia -positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas -costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos -inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis. - - -Emquanto ás outras obras expostas no _Salão_, os quadros e as estatuas, -a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por via -d'ellas (_mirabile dicta!_) mais uma vez reconheci quanto é facil -governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de -temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos -democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre -exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da -estructura publica. - -Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica, -que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por -ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos -theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles -possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse -ou por convicção, a que só ella prevaleça. - -A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas, -apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social. - -Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem justamente -por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos -entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto -tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá -a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso -para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que, -apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem -desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma -d'essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d'uma -orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva, -tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um -erro--e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao _Salão_, -no dia da sua abertura, quando em materia d'Arte cada cabeça, depois de -ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua sentença. Se -tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam que o -servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por mais -que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe -ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto, -por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o -direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio, -a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se -erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a -humanidade é gado--e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender -para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga. - -Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de -tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da -indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita -alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam, -no _Salão_, a curiosidade e a admiração do publico. - -Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de -seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam -arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico, -ou antes o Guia Critico, do _Salão_, publicado pelo Jornal, lhes -indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes -deviam parar, e fazer _ah!_ e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só -o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a -emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatoria -que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o -jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela, -recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um -adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus -teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina -mental. - -Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas -para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista, -symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão -um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se -entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos -Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade -de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia -philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses, -e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de -Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura, -divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores. - -Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas -faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias -innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a -abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo -uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando -a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando -tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias -innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje -amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem -valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do -pensamento. - -É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua -melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan, -a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que -raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres -revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra -e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver -conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião, -espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe -indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve -exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do -_Figaro_, ou se trate d'um _vaudeville_ e o Ulema seja Sarcey, -do _Temps._ - -D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem -verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não -chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra -redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle -está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em -factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais -rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero, -intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome -de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que -determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades -parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio -de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois -livres!»--e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes, -obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem -pensar mais e sem mais querer, porque a _palavra_ essencial foi dita, -elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer -e para pensar por elles. - - -De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem -iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar. -Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser -louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços -são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no -famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se -sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões -estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia -outr'ora a Voltaire:--«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me -sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:--e que, se já -era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo XIX! Para -ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas d'arte, é -necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de -trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige -viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento -particular do espirito? Os proprios ociosos não têm tempo--porque, como se -sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses, -os negocios, a loja, a repartição, a familia, a profissão liberal, os -prazeres não deixam um momento para as exigencias de uma iniciação -artistica:--e n'uma cidade de dous milhões de almas, como Pariz, ha por -fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e -profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante d'um -quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á -Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e -Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais -desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da -multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra -tempo para ter bom gosto!» - -Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive -n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que -se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa -manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um -selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte, -já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em -que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em -todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão -indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar, -pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e -respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no -bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se -ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as -lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem -gravata. Tudo n'este nosso seculo é _toilette_, dizia o velho Carlyle. - -O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se -quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa? - -N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como -é todos os annos a abertura do _Salão_, cada bom burguez (para usar -o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres -ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas -relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um -trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa -o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar -ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma -sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer -áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas -d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de -retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar -ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões, -como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou -claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica -apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr -culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica -e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de -corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento, -dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao -armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e -dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um -senhor. - -Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando -n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua -admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da -auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo -de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire -escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e -ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava -realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma -tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um -amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous -ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter -alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com -senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como -um cartucho--e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat, -dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este -anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois. - -E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um -portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo, -á entrada do _Salão_, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre um -bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do _Cavalleiro das -Flores_, de Rochegrosse, ou do _Papa e o Imperador_, de Laurens, ou da -_Brunehilde_, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de -prosa desbotada e fugaz. - -Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha -tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte -a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é, -segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto -eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas -como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil, -pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia -fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E -como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado -sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava -a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da -Natureza. O que seria petulante. - - - - -XVII - - -CARNOT. - - -O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo -caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente -Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão. - -Com effeito! Que rara inverosimilhança! - -O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal -dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como -Henrique IV ou como Marat! - -Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a -municipalidade de Lyão para assistir, no _Grand-Theâtre_, a uma -representação de gala. - -O seu _landeau_, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por entre -uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um homem, -trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel enrolado á -maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, sobre o -rebordo do _landeau_, tocou no peito do presidente com as flôres ou com -o papel. O _maire_ de Lyão, sentado em frente de Carnot, ainda atirou, com -o punho, uma pancada á cabeça do homem, que fugira, e que alguem na turba -immediatamente filara, por instincto, como um ladrão. Tanto o _maire_ de -Lyão como aquelles mais proximos, que tinham entrevisto n'um relance o -salto mudo e felino, pensaram que o homem se arremessava sobre o -presidente _para lhe arrancar e lhe roubar a placa de diamantes da Legião -de Honra!_ E esta ideia, a primeira, como a mais natural, que a todos -acudiu, perfeitamente define o presidente da Republica. Carnot era d'esses -homens que se não suppõe que possam ser accommettidos--senão para serem -roubados. - -Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios--porque não -representava um partido e muito menos um principio. A Constituição -reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma -parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a -muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua -presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos pungentes -da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas preferencias--mas -eram preferencias de homens por homens, e nunca por ideias. Estas mesmas -preferencias por estadistas do seu typo, discreto e neutro, como Mr. -Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram censuradas pelas -opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro em si esta -derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então que ganhou -a reputação phantasista _de ser de pau._ A sua vontade immovel ou -immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude. Quasi não -ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da Constituição. -Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam os -caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia fôsse -mais tarde estudada n'estas obras ligeiras do humorismo pariziense, ellas -dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos fôram -saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e symbolica -da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que protegia o -Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico assassinasse -este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta que, querendo -apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo, decepasse expressamente -e furiosamente a figura de pau esculpida na prôa. - -Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao -anarchismo;--porque só os anarchistas, hoje, n'esta nossa civilisação -raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade -pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o -capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para -demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns -empregados do commercio sentados n'um café a beber _bocks._ Os seus -crimes nem sómente são inuteis--são ainda contraproducentes, porque vão -formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e -indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com -ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de -toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do -abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser -secretamente assalariado pelo despotismo. - -O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda -não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de -naturalidade e residencia, n'uma rude algaravia incomprehensivel, que não -é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se fingida. -Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um anarchista--porque -só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que dementa a seita, -poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de Estado, tão legal e -irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção de colera e dôr, -pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da França e do seu -governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os outros chefes -de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a perseguição, não só -contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados e de ideias justas -de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que nunca, d'este vez o -anarchismo trabalhava furiosamente contra essa liberdade de que pretende -ser a expressão suprema e perfeita;--e a sua arma não era mais do que uma -nova e ensanguentada ferramenta posta, por elle, de noite, nas mãos da -burguezia capitalista. - -Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo -n'um carcere de Lyão, fez, senão uma d'aquellas «victimas de eleição» -de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem -lamentar com magoa pura e sem mescla d'outro sentimento. Carnot foi por -excellencia o magistrado integro. - -Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados -imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos -leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o -mais popular talvez de todos os chefes d'Estado n'stes ultimos cincoenta -annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os -outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da -prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela -Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente -na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas -provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas -provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus -meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade -concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que -soube presidir com perfeita dignidade e tacto:--a suppressão do -boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal -de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes -acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações -que n'elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu -predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de -legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao -contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus -episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação -e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao -menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda -legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque, -se não teve em politica externa d'essas ideias seguidas, novas ou fortes, -que outr'ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado», -mostrou na sua conducta de chefe d'Estado, exposto á observação das -chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento -da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n'uma França tão digna, -tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza, -como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi -um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda -a Europa. - -Particularmente, era o mais excellente dos homens--affavel, caritativo, -leal, clemente, cultivado. - -A multidão que o via sempre tão teso, mettido n'uma casaca que parecia -de ferro, com a barba muito negra e dura, a barra vermelha da Legião de -Honra destacando sem um vinco no peitilho rigido, tendia a pensar que -tudo, no homem interior, era tambem secco, rigido, duro. - -A multidão enganava-se redondamente. Carnot era um brando, quasi um -sentimental. - -Ha assim d'estas figuras de madeira, que vivem por dentro de uma vida -ignorada, que é cheia de sensibilidade e de calor affectivo. - -Um jornal que sempre incondicionalmente o honrou, e que costuma pôr -nas suas palavras uma sisudez ponderosa, e mesmo solemne, o _Temps_, -resume o elogio funebre de Carnot affirmando que elle era _un brave -homme._ A expressão assim, isolada, póde parecer familiar, talvez -rasteira, mesmo laivada de vago desdem. Mas, quando junta a todas as -outras que definem o seu caracter publico, logo se sente que esta as -completa, as embelleza, e espalha sobre ellas como um indefinido -perfume de bondade e doçura, sem as quaes nunca ha verdadeira -superioridade moral. E Carnot, elle proprio, na lista extensa das suas -virtudes intimas e civicas, apreciaria, mais que todas, esta, que -tem um feitio tão simples, de _brave homme._ Na sua vida, na sua alta -magistratura, foi sempre um _brave homme._ - -E isto, no chefe eleito de uma democracia, é talvez a melhor -condição--porque dos grandes genios vêm por vezes grandes males, e nunca -vem senão bem de uma bondade honesta e grave. - - - - -XVIII - - -A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT. - - -Pariz, sentado nos terraços dos cafés, bebendo aos goles, devagar, -limonada ou xarope de grozelha e soda, enxuga a testa e repousa das -emoções por que passou n'esta semana, sob 35 graus calor (á sombra). Que -emoções, com effeito, tão atropelladas, tão desencontradas, desde essa -manhã de segunda-feira em que cada um de nós foi accordado quasi -violentamente pelo seu criado, que, sem abrir as vidraças, espalhando logo -na penumbra da alcova um pouco do assombro e do horror que invadira a -cidade, exclamava ou balbuciava:--«O snr. Carnot foi assassinado em -Lyão!» Depois d'isto não era possivel, nem readormecer, nem preguiçar. -Pariz inteiro, sem banho, quasi sem almoço, desceu á rua, como Athenas -nos grandes dias civicos, e ficou na rua durante uma semana, fallando -alto e comprando vorazmente jornaes. Tantos jornaes arrebatava e logo -arremessava, que á noute macadam e asphalto desappareciam sob uma camada -de lixo impresso, o mais triste de todos os lixos. - -Esta multidão tão sobreexcitada interiormente, conservava todavia uma -compostura calma, semelhante á de um publico n'um theatro, que, enquanto -os heroes agonisam no tablado, se sente perfeitamente seguro, e seguras, -em torno d'elle a vida e a ordem da cidade. É que a morte Carnot só -affectou realmente a imaginação de Pariz. Era como uma tragedia, -improvisada um forte genio tragico, representada inesperadamente uma noite -em Lyão, e de que os jornaes viessem contando os lances de sangue e -luto. - -O punhal do italiano, escandido entre flôres, á boa maneira italiana -da Renascença, não ferira, ferindo Carnot, nenhum d'esses interesses que -são para o homem, individualmente, como pedaços da sua propria carne, ou -para a sociedade como o cimento de onde depende a sua estabilidade. O -bem estar mais intimo do cidadão, hoje, não se altera com as catastrophes -soffridas por aquelles que os governam: e o Estado não soffre uma -arranhadura, quando o seu chefe morre d'uma punhalada. Outr'ora, a -suppressão violenta do chefe causava um abalo universal, uma tumultuosa -deslocação de interesses, quasi uma transformação de costumes. Quando -Henrique IV é assassinado na rua _de la Ferronnerie_, como Carnot, toda -a França, horas depois, segundo a viva expressão de Michelet, ficou -revirada de dentro para fóra como uma luva. A laboriosa obra do reinado -desaba bruscamente: o thesouro amontoado por Sully é esbanjado ao vento; -todas as construcções, por falta de dinheiro, se interrompem; todas as -grandes manufacturas se fecham, e os operarios vagueiam famintos; a trama -das allianças, tao habilmente urdida, n'um instante está desfeita--e ahi -temos em breve a guerra dos Trinta Annos! Aquelle rei morto levava comsigo -para o tumulo o pão, a paz, a posição, as vaidades de milhares de -vasallos. Por isso em Pariz foi terrivel a desolação. Como diz ainda -Michelet, cada cidadão se considerou pessoalmente perdido: e nas casas, -como uma desgraça domestica, as mulheres gritavam arrepellando os -cabellos! - -Com a perda do snr. Carnot, assassinado como Henrique IV, nenhum cidadão -(superfluo é lembrar) se considera perdido: e as mulheres, em vez de -arrepellar o cabello, põem mais cuidado em o pentear, para assistirem, -com uma curiosidade ligeira, á festa dos funeraes. - -Não ha obras interrompidas, nem operarios despedidos. Pelo contrario! -O trabalho cresce. Os jardineiros, os floristas, os fabricantes de corôas, -embolsam mais de tres milhões de francos. O assassinato do chefe do Estado -anima o commercio. De facto, não ha nada mudado em França--apenas um bom -francez de menos. - -Isto não prova a fraqueza das instituições monarchicas, porque depois -de Henrique IV morto houve logo Luiz XIII posto, e o throno de França, -com as mesmas flôres de liz, ainda durou triumphalmente dous seculos. -Mostra apenas que hoje Estado já não está todo contido dentro do chefe--e -que o chefe é apenas o remate decorativo do Estado, podendo ser -bruscamente derrubado por uma rajada de crime, sem que o edificio que elle -rematava, se abale, e nem por um momento diminua, ou se modifique, ou -sequer se interrompa, a vida intensa que circula dentro do edificio e que -o torna vivo. O regicidio deixou assim de ser uma tragedia politica--para -se tornar simplesmente uma tragedia domestica, que no povo não póde -interessar mais que a imaginação. - -O que Pariz durante esta semana sentiu (além de uma compaixão natural -pelo bom homem morto e pela admiravel viuva), foi uma curiosidade -feroz do detalhe tragico. Os jornaes concorreram para exaltar esta -curiosidade, menos pelas cousas dolorosas que vinham contando, como pela -maneira terrifica com que as annunciaram, em typo disforme, lettras de -tres pollegadas, de um negrume sinistro, enchendo toda uma folha, e na sua -mudez mais estridentes que gritos! São estas letras de descomedido -espalhafato, imitadas da America e exageradas como toda a imitação -interesseira, que exacerbam a sensibilidade moderna. As pestes, as -guerras, as quedas de imperios, eram outr'ora narradas pelos jornaes no -seu typo miudo e ordinario e a noticia das catastrophes entrava no nosso -espirito de um modo manso e discreto, sem produzir n'elle alvorotos -violentos. Agora, estas lettras espaventosas invadem com pavor o nosso -pobre cerebro; e á maneira de touros que se precipitam dentro d'um templo, -põem a quieta assembléa das nossas ideias em confusão e terror. Uma tarde -d'esta semana, nos boulevards, um jornal astuto e videiro, a _Cocarde_, -appareceu ostentando na sua primeira pagina, larga como uma pagina da -_Gazeta_, estas duas linhas unicas, n'um typo despropositado, sem -precedentes, que se avistava a uma milha:--«O embaixador de França foi -assassinado em Roma!»--Vi mulheres, ao receberem nos olhos desprevenidos -este tremendo berro typographico, quasi desmaiarem: e por onde passavam -os vendedores, agitando o cartaz pavoroso, a multidão redemoinhava, como -sob um grande vento de medo e colera! - -Assim, durante a longa semana, andou vehementemente sacudida a nossa -imaginação. - -De resto a tragedia de Lyão era bem propria a agitar as imaginações -mais ronceiras e dormentes. Raramente o destino ou o acaso (se é que o -destino se conservou indifferente) envolveu um regicidio em scenario mais -commovente, de contrastes mais patheticos, accumulando n'elle uma tal -profusão de detalhes horriveis na sua trivialidade, e quasi medonhamente -grotescos através do seu horror. Essa noite parece composta por -Shakespeare e retocada aqui e além, depois, por Hoffmann. Quem jámais a -saberá e a contará em toda a sua miuda realidade? E que contraste intenso -já, em que o mais doce e ordeiro dos homens assim findasse na mais cruenta -e atabalhoada das tragedias! Carnot morre com um requinte dramatico que -faltou a Cesar! Vêde logo o scenario! Não é a sala grave do senado, onde -os punhaes se erguem com a serenidade raciocinada de uma votação--mas a -rua illuminada de uma cidade em festas, n'uma noite de gala. Todas essas -flammulas, e bandeiras, e rutilantes arcos de gaz, e festões multicores de -lanternas chinezas, e fogos esparsos de Bengala, e escudos de luz, e -palanques, e orchestras são para celebrar o homem que passa no seu -_landeau_, e saúda, e sorri. Uma multidão sincera, de uma boa sinceridade -provinciana, para quem esse homem, com a placa e gran-cruz da Legião de -Honra, cercado de couraceiros, encarna realmente a magestade da França, -grita--«Viva Carnot! Viva Carnot!» E de repente a magestade da França cáe -para cima das almofadas do coche, com a face descomposta, livida! Foi um -qualquer, surdindo das profundidades da plebe, com os sapatos rotos, uma -velha jaqueta de panno côr de mel, que, n'um relance, lhe enterrou um -punhal no ventre. Punhalada quasi impessoal, em que o braço não é mais do -que a prolongação inconsciente da lamina de ferro, e que vem debaixo, de -longe, de muito longe, das camadas escuras do proletariado esfaimado... E -o _landeau_ lá vae, lá foge a galope, entre o ancioso tropear da escolta, -levando o chefe de Estado que se escoa em sangue. O Estado, recentemente -para o proteger, gastára mais um milhão de francos em reforçar a -policia! - -Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do _landeau_ da -côrte tornado bruscamente carro d'hospital! Já para dentro saltára um -cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do -presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados -pelos lacaios. E assim galopa um quarto d'hora furiosamente, sob as -bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão -seria logo transportado, e em braços, ao pateo d'uma casa, ao balcão d'uma -botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia -em sangue, porque, mesmo n'uma Republica, é severa a regra do Protocollo! -Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os -couraceiros o _landeau_ d'Estado, onde vagamente se agitam e brilham -plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot! -Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha, -terrivel, quasi burlesca--o chefe do Estado estendido, com a gran-cruz, -a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda da camisa -fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa entre -ovações--ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos foguetes. -Passa, desapparece, n'um galope de cavalleiros, deixando apenas o sulco -arrepiador d'aquella fralda branca e sangrenta! - -Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous -_reporters_, sofregos de se envolverem n'um acontecimento historico, se -apoderam do corpo do presidente e o arrancam do _landeau_, um agarrando -uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte através -das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal conhecida -ainda, estreiado n'esses dias de gala. - -Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só -devia recolher tarde, depois da representação de gala no _Grand -Theâtre_; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as -festas, para os fogos da Exposição:--e as luzes estavam apagadas, todos -os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido, -desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um -phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do -presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia. - -Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma -immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava -os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa -para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma -curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se -debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em -que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto -lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a -curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está -passando alguma cousa de irreparavel. - -Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com -bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam, -se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de -casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas... - -Assim morria, n'esta desordem, o mais decoroso dos chefes de Estado. - -Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo, -n'uma suprema decencia:--e em torno d'elle não havia senão os brancos -marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito -velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e -continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo -gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo. - -Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as -suas insignias--e apertando na mão já hirta um par novo de luvas brancas. -Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra o seu -cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como chefe de -Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na mão as -suas luvas novas. Estas luvas d'além da campa, muita gente as acha -estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os -reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao -morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de -escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava -para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta -feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do -seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um -pagem. - -Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do -céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e -gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste. - -Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o cavalleiro -perfeito e lhe chamou, sorrindo, _seu filho._ Assim, através das edades, -a tradição liga Carnot a Roldão. - -Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que -regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade, -um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que -trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor, -deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e -coberto de crepes. D'uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot, -vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado -de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n'um carro sem solemnidade -civil e religiosa; e á pressa, n'um trote fugidio, através das ruas mais -desertas, onde clareava a madrugada, levam-n'o para o Elyseu. O morto como -que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar -methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma -colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que -lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d'elle, pelas -ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um _fiacre_, com vadios -e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida. Estranho -remate de uma noitada estroina--seguir n'um _fiacre_ o cadaver d'um -chefe de Estado! - -Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas -então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna -regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com -curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no -devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz, -n'uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas -ao presidente que passa para o Pantheon. - -Funeraes magnificos, de certo--mas de uma magnificencia muito cerceada -pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da -democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto:--e o -severo gosto, em França, não permitte n'estas pompas outro luxo, além do -luxo das flôres. Tudo o que outr'ora na antiguidade, e depois na -Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres--a sumptuosidade dos -trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os incensadores fumegando, os -coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados, as insignias symbolicas, -os trophéos, os andores, os estandartes, os carros de deslumbrante -architectura, a riqueza patricia, as criadagens agaloadas, e o -incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas mitras, as suas -purpuras, as suas casulas de ouro--toda essa magnificencia esthetica aqui -falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou Roma, da Florença dos Medicis -ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria, contemplando esta procissão -funeral, que uma opulenta e artistica nação estava fazendo a apotheose do -seu chefe assassinado. Todavia a França, dentro das restricções impostas -pela sobriedade do seu gosto e pela simplicidade da sua democracia, -prestou a Carnot, largamente, todas as homenagens e preitos symbolicos. -As flores que lhe offertou, foram incontsveis, custaram mais de tres -milhões de francos, e durante todo um dia perfumaram o vasto ar de Pariz. -E toda a França organisada, desde os corpos d'estado até aos clubs -gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao Pantheon, que a patria -reconhecida reserva aos Grandes Homens. - -Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas sobre -carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de dous -metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas, não -podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só -impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos, -e em breve murchos. - -E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de casacas -pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho as -casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as fardas -d'um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates destacavam, -n'uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se prolongavam, se -eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando em cadencia. -Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava por fim senão -á impressão dormente d'um mudo e lutuoso perpassar de fato preto. - -E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar -mais a emoção artistica d'esta pompa, a memoria de outras pompas, a de -Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em -longas milhas, calças pretas, casacas pretas. - -Uma novidade, porém, e singular, impressionava n'estes funeraes de -Carnot:--e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira tricolor, -se entreviam n'um carro batinas e sobrepellizes de padres. Depois, á -frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas grandes -vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos uniformes, -appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade consideravel! E então -se attentava mais em que esta tragedia do presidente assassinado fôra -realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e ministrada pela -Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das mãos do arcebispo de -Lyão. - -Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e -freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope, -n'uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira -que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda -orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu -clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o -velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario. -Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o -arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos -de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes, -livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia, -abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E -depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para -rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire! - -Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de -Pariz o radicalismo compungido--e é para os altares que o vae levando. - -Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d'um -cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de -bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas -pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n'uma evidente mostra de -humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n'este cortejo derradeiro de -Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o -jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as -unhas, horrendamente humilhado. - -Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o -desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado -ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte, -espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos -caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um -objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n'este fim do -seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua -morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o -produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n'este mesmo dia dos -funeraes, e pela voz d'um dos seus melhores espiritos, o declarou, com -aviltante desdem--um producto de exportação! - -Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em -Pariz--producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. _Sic -transit gloria diaboli._ - - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ *** - -***** This file should be named 60194-0.txt or 60194-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/0/1/9/60194/ - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by Hathi Trust.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - diff --git a/old/60194-0.zip b/old/60194-0.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index a1cd9cb..0000000 --- a/old/60194-0.zip +++ /dev/null diff --git a/old/60194-h.zip b/old/60194-h.zip Binary files differdeleted file mode 100644 index 6897388..0000000 --- a/old/60194-h.zip +++ /dev/null diff --git a/old/60194-h/60194-h.htm b/old/60194-h/60194-h.htm deleted file mode 100644 index e5f9068..0000000 --- a/old/60194-h/60194-h.htm +++ /dev/null @@ -1,6100 +0,0 @@ -<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" - "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> -<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" xml:lang="pt" lang="pt"> - <head> - <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=utf-8" /> - <meta http-equiv="Content-Style-Type" content="text/css" /> - <title> - The Project Gutenberg eBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiros. - </title> - <style type="text/css"> - -body { - margin-left: 10%; - margin-right: 10%; - - -} - - h1,h2,h3,h4,h5,h6 { - text-align: center; /* all headings centered */ - clear: both; -} - -p { - margin-top: .51em; - text-align: justify; - margin-bottom: .49em; -} - -.p2 {margin-top: 2em;} -.p4 {margin-top: 4em;} -.p6 {margin-top: 6em;} - -hr { - width: 33%; - margin-top: 2em; - margin-bottom: 2em; - margin-left: auto; - margin-right: auto; - clear: both; -} - -hr.tb {width: 45%;} -hr.chap {width: 65%} -hr.full {width: 95%;} - -hr.r5 {width: 5%; margin-top: 1em; margin-bottom: 1em;} -hr.r65 {width: 65%; margin-top: 3em; margin-bottom: 3em;} - -ul.index { list-style-type: none; } -li.ifrst { margin-top: 1em; } -li.indx { margin-top: .5em; } -li.isub1 {text-indent: 1em;} -li.isub2 {text-indent: 2em;} -li.isub3 {text-indent: 3em;} - -table { - margin-left: auto; - margin-right: auto; -} - - .tdl {text-align: left;} - .tdr {text-align: right;} - .tdc {text-align: center;} - -.pagenum { /* uncomment the next line for invisible page numbers */ - /* visibility: hidden; */ - position: absolute; - left: 92%; - font-size: smaller; - text-align: right; - color: #A9A9A9; -} /* page numbers */ - -.linenum { - position: absolute; - top: auto; - left: 4%; -} /* poetry number */ - -.blockquot { - margin-left: 5%; - margin-right: 10%; -} - -.sidenote { - width: 20%; - padding-bottom: .5em; - padding-top: .5em; - padding-left: .5em; - padding-right: .5em; - margin-left: 1em; - float: right; - clear: right; - margin-top: 1em; - font-size: smaller; - color: black; - background: #eeeeee; - border: dashed 1px; -} - -.bb {border-bottom: solid 2px;} - -.bl {border-left: solid 2px;} - -.bt {border-top: solid 2px;} - -.br {border-right: solid 2px;} - -.bbox {border: solid 2px;} - -.center {text-align: center;} - -.right {text-align: right;} - -.smcap {font-variant: small-caps;} - -.u {text-decoration: underline;} - -.gesperrt -{ - letter-spacing: 0.2em; - margin-right: -0.2em; -} - -em.gesperrt -{ - font-style: normal; -} - -.caption {font-weight: bold;} - -/* Images */ -.figcenter { - margin: auto; - text-align: center; -} - -.figleft { - float: left; - clear: left; - margin-left: 0; - margin-bottom: 1em; - margin-top: 1em; - margin-right: 1em; - padding: 0; - text-align: center; -} - -.figright { - float: right; - clear: right; - margin-left: 1em; - margin-bottom: - 1em; - margin-top: 1em; - margin-right: 0; - padding: 0; - text-align: center; -} - -/* Footnotes */ -.footnotes {border: dashed 1px;} - -.footnote {margin-left: 10%; margin-right: 10%; font-size: 0.9em;} - -.footnote .label {position: absolute; right: 84%; text-align: right;} - -.fnanchor { - vertical-align: super; - font-size: .8em; - text-decoration: - none; -} - -/* Poetry */ -.poem { - margin-left:10%; - margin-right:10%; - text-align: left; -} - -.poem br {display: none;} - -.poem .stanza {margin: 1em 0em 1em 0em;} - -/* Transcriber's notes */ -.transnote {background-color: #E6E6FA; - color: black; - font-size:smaller; - padding:0.5em; - margin-bottom:5em; - font-family:sans-serif, serif; } - </style> - </head> -<body> - - -<pre> - -The Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz - -This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and -most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions -whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms -of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at -www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you'll -have to check the laws of the country where you are located before using -this ebook. - - - -Title: Echos de Pariz - -Author: Eça de Queiroz - -Release Date: August 29, 2019 [EBook #60194] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: UTF-8 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ *** - - - - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by Hathi Trust.) - - - - - - -</pre> - - -<h2>EÇA DE QUEIROZ</h2> - -<h2>ECHOS DE PARIZ</h2> - -<h4>QUARTA EDIÇÃO</h4> - -<h4>PORTO</h4> - -<h4>Livraria Chardron, de Lélo&Irmão, Lim<sup>da</sup>, Editores</h4> - -<h5>Rua das Carmelitas, 144</h5> - -<h4>AILLAUD E BERTRAND—LISBOA—PARIS</h4> - -<h4>1920</h4> - - - - - -<div class="figcenter" style="width: 500px;"> -<img src="images/echos_cover.jpg" width="500" alt="" /> -</div> - - - - -<hr class="chap" /> - - - - -<div class="figcenter" style="width: 400px;"> -<img src="images/queiros01.jpg" width="400" alt="" /> -</div> - - - - - -<p style="margin-left: 10%; font-weight: bold;"> -<a id="INDICE"></a>INDICE</p> - - -<p style="margin-left: 10%; font-size: 0.8em;"> -<br /> -<a href="#I_PARIZ_E_LONDRES-O_ANNIVERSARIO_DA_COMMUNA-FLAUBERT">I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.</a><br /> -<a href="#II_OS_DUELLOS-AMNISTIA_GAMBETTA_ROCHEFORT_OS_JESUITAS">II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.</a><br /> -<a href="#III_O_IMPERADOR_GUILHERME">III. O IMPERADOR GUILHERME.</a><br /> -<a href="#IV_O_GRAND_PRIX-A_ESTATUOMANIA-OS_COCHEIROS-VICTOR_HUGO-O_CAMPO_EM_PARIZ">IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.</a><br /> -<a href="#V_O_14_DE_JULHO-FESTAS_OFFICIAES-O_SIAO">V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.</a><br /> -<a href="#VI_A_FRANCA_E_O_SIAO">VI. A FRANÇA E O SIÃO.</a><br /> -<a href="#VII_A_QUESTAO_BULOZ-A_REVISTA_DOS_DOUS_MUNDOS-PARIZ_NO_VERAO">VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.</a><br /> -<a href="#VIII_AS_ELEICOES-A_ITALIA_E_A_FRANCA">VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.</a><br /> -<a href="#IX_ALLIANÇA_FRANCO_RUSSA">IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.</a><br /> -<a href="#X_AS_FESTAS_RUSSAS-A_TOILETTE_DUM_PRESIDENTE_DE_REPUBLICA-NOTICIAS_DO_BRASIL">X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS -DO BRASIL.</a><br /> -<a href="#XI_A_HESPANHA-O_HEROISMO_HESPANHOL-A_QUESTAO_DAS_CAROLINAS-OS_ACONTECIMENTOS_DE_MARROCOS">XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS -ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.</a><br /> -<a href="#XII_O_SNR_BARTHOU-A_ANTIGONE_DE_SOPHOCLES-_LES_ROIS_DE_JULES_LEMAITRE">XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE -JULES LEMAITRE.</a><br /> -<a href="#XIII_OS_ANARCHISTAS_VAILLANT">XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.</a><br /> -<a href="#XIV_OUTRA_BOMBA_ANARCHISTA-O_SNR_BRUNETIERE_E_A_IMPRENSA">XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.</a><br /> -<a href="#XV_AS_INTERVIEWS-O_REI_HUMBERTO_E_O_FIGARO-A_MONARCHIA_ITALIANA-O_QUE_PODE_DIZER_UM_SOBERANO_A_UM_JORNALISTA-A_SINCERIDADE_E_O_OPTIMISMO_OFFICIAL">XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O -QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO -OFFICIAL.</a><br /> -<a href="#XVI_O_SALON">XVI. O «SALON».</a><br /> -<a href="#XVII_CARNOT">XVII. CARNOT.</a><br /> -<a href="#XVIII_A_MORTE_E_O_FUNERAL_DE_CARNOT">XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.</a><br /></p> - - - - - -<hr class="r5" /> - - - - - -<h4><a id="I_PARIZ_E_LONDRES-O_ANNIVERSARIO_DA_COMMUNA-FLAUBERT"></a>I. PARIZ E LONDRES-O ANNIVERSARIO DA COMMUNA-FLAUBERT.</h4> - - -<p>Eu não direi como Lord Beaconsfield que «no mundo só ha de -verdadeiramente interessante Pariz e Londres, e todo o resto é paizagem». -É realmente difficil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo -de um ulmeiro, ou vêr apenas no movimento social da Allemanha um fresco -regato que vae cantando por entre as relvas altas.</p> - -<p>Não se póde negar, porém, que a multidão contemporanea tende para -esta opinião do romanesco auctor de <i>Tancredo</i> e da <i>Guerra do -Afganistan</i>: nada vê no Universo mais digno de ser estudado e gozado do -que a sociedade, essa cousa scintillante e vaga que póde comprehender -desde as creações da Arte até aos <i>menus</i> dos restaurantes, desde o -espirito das gazetas até ao luxo das librés—e, muito racionalmente, -corre a observar a sociedade, a penetrar-se d'ella, onde ella é -mais original, mais complexa, mais rica, mais pittoresca, mais -episodica,—em Pariz e em Londres: ao resto da terra pede apenas -scenarios de natureza, reliquias d'arte, trajos e architecturas...</p> - -<p>...Em Roma contempla os ornamentos do passado—o Colyseu e o Papa; -em Madrid interessam-n'o só os Velasquez e os touros; ninguem viaja na -Suissa para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas -para embasbacar deante dos Alpes. E assim para a turba humana, mais -impressionavel que critica, o mundo apparece como uma decoração armada em -torno de Pariz e Londres, uma curiosidade scenographica que se olha um -momento, fixando-se logo toda a attenção na tragi-comedia social que -palpita ao centro.</p> - -<p>Isto é uma superstição. Mas se, realmente, o mundo fôsse apenas uma -paizagem accessoria—a devoção burgueza por Pariz e Londres, -residencias privilegiadas da humanidade creadora, seria justificavel: -porque, na verdade, o interesse do Universo está todo na vida e na sua -lucta, na sua paixão e no seu ceremonial, no seu ideal e no seu real. O -sol, nascendo por traz das Pyramides, sobre o fulvo deserto da Lybia, -fórma um prodigioso scenario; o Valle do Chaos, nos Pyreneos, é d'uma -grandeza exuberante;—mas todos estes espectaculos hão-de ser sempre -infinitamente menos interessantes que uma simples comedia de ciumes, -passada n'um quinto andar. Que ha com effeito de commum entre mim e o -Monte Branco? Emquanto que as alegrias amorosas do meu visinho ou os -prantos do seu luto são como a consciencia visivel das minhas proprias -sensações.</p> - -<p>O grande Dickens, deante dos Alpes ou dos palacios de Veneza, punha-se -a pensar com saudade nas tristes ruas de Londres, n'um rumor de fim de -dia, e no prazer de surprehender as expressões de anciedade, triumpho ou -dôr, nas faces dos que passam, alumiados pelo gaz vivo das lojas. É que o -melhor espectaculo para o homem—será sempre o proprio homem.</p> - -<p>Se sobre a terra só houvesse fachadas de cathedraes ou vulcões -flammejantes, a terra parecernos-ia tão insípida como a lua, ou (ainda -que isto seja talvez exagerado) como a propria Lisboa. Por mais cantantes -que sejam as aguas correndo, por mais fresco e umbroso que se alargue o -valle—a paizagem é intoleravel, se lhe falta a nota humana, fumo -delgado de chaminé ou parede rebrilhando ao sol, que revele a presença -d'um peito, d'um coração vivo.</p> - -<p>Mas a verdade é que, fóra de Pariz e Londres, ha tambem humanidade. S. -Petersburgo não fórma só sobre a neve outra ondulação de neve; Berlim não -é uma floresta com uma população de seiscentos mil castanheiros; em Lisboa -mesmo se encontra, de vez em quando, um homem. Que importa! O mundo -persiste, em considerar essa humanidade de Berlim, de Lisboa ou S. -Petersburgo como um méro accessorio da decoração, como aquelle arabesinho -diminuto que os photographos collocam sempre á base das ruinas de Palmyra, -ou como esses pastores vestidos de um farrapo de purpura, que nos quadros -do seculo XVII ornam as paizagens ideaes.</p> - -<p>O que essa humanidade de provincia faz, diz, soffre ou goza—é-lhe -indifferente. Não é a ella que vae vêr, se visita os logares que ella -habita: o que lá lhe move a curiosidade apressada, é algum monumento, -algum panorama—a paizagem, como diz Lord Beaconsfield. Para o -estrangeiro, Portugal é Cintra, a Allemanha é o Rheno: até mesmo na ideia -de Lord Byron, e de outros depois d'elle, o que estraga a belleza de -Lisboa é a presença do lisboeta—como a mim o que me estraga a -Allemanha é a presença do prussiano. Positivamente a multidão só reconhece -uma sociedade—a de Pariz e de Londres.</p> - -<p>Mas, dentro em pouco, nem ruinas, nem monumentos haverá dignos de -viagem; cada cidade, cada nação, se está esforçando por aniquilar a sua -originalidade tradicional, e nas maneiras e nos edificios, desde os -regulamentos de policia até á <i>vitrine</i> dos joalheiros, dar-se a linha -parisiense. No Cairo, cidade dos califas, ha copias do Mabille, e os -Ulemas esquecem as metaphoras gentis dos poetas persas, para repetir os -ditos do <i>Figaro</i>; o primeiro som que ouvi ao penetrar as muralhas -de Jerusalem foi o <i>can-can</i> de <i>Bella Helena</i>, e sahiu da habitação -de um rabbi, de um doutor da lei santa; nas margens do Jordão, sobre a -areia dourada, que os pés de Jesus pisaram, achei dous velhos collarinhos -de papel, modelo Smith: bem sei que não pertenciam nem ao Salvador, nem ao -Precursor, mas lá estavam, e despoetisam sufficientemente aquella riba -sagrada.</p> - -<p>O mundo vae-se tornando uma contrafacção universal do Boulevard e da -Regen-street. E o modelo das duas cidades é tão invasor que, quanto mais -uma raça se desoriginalisa, e se curva á moda francesa ou britannica, mais -se considera a si mesma civilisada e merecedora dos applausos do -<i>Times.</i> O japonez julga-se, na escala dos sêres, muito superior ao -chinez, porque em Yedo já o indigena se penteia como o tenor Capoul, e lê -Edmond About no original, emquanto que a China, obsoleta nas vetustas ruas -de Pekin, ainda vae no rabicho e em Confucio. E, ainda assim, nas margens -do Amor já ha fabricas de tecidos de algodão como em Manchester.</p> - -<p>Positivamente, inclino tambem para a ideia de Lord Beaconsfield: a -originalidade viva do Universo está em Pariz e em Londres: tudo mais é má -imitação da provincia. Por isso a curiosidade publica é impellida para -lá—dando ao resto do mundo apenas aquelle olhar rapido que se tem -para o fundo dos retratos, onde verdejam vagos de paizagem ou se perfilam -linhas de um portico.</p> - -<p>É por isso que ninguem que tenha o orgulho de se considerar sêr racional -prescinde de se informar diariamente de tudo que se passa em Pariz ou em -Londres, desde as revoluções até ás <i>toilettes</i>, desde os poemas até -aos escandalos.</p> - -<p>O desejo mais natural do homem é saber o que vae no seu bairro e em -Pariz.</p> - -<p>Que importa o que succede na Asia Central, onde os russos se batem, ou -na Australia onde ha crise ministerial? O que se quer saber é o que fez -hontem Gambetta, ou o que dirá amanhã o professor Tyndall.</p> - -<p>E com razão: a Asia Central e a Australia não ensinam nada, e Pariz e -Londres ensinam tudo.</p> - -<p>Tendo assim sacrificado sufficientemente á regra, que quer que todo o -escriptor da raça latina nunca enuncie a sua ideia ou conte o seu facto -sem se fazer preceder de phrases genéricas armadas em portico—creio -que devo começar esta chronica fallando hoje de Pariz, capital dos povos e -patria genuina de Mr. Prudhomme...</p> - - -<p>O acontecimento saliente e commentado d'estes ultimos dias é a -manifestação do dia 23 de maio. Lembram-se que ha nove annos, n'essa data, -na semana sanguinolenta da derrota da Communa, os regimentos de -Versailles, invadindo Pariz, n'uma demencia de represalias, fizeram uma -exterminação á antiga, fuzilando sem discernimento pelos pateos dos -quarteis, entre os tumulos dos cemiterios, sob o portico das egrejas, todo -o sêr vivo que era surprehendido com as mãos negras de polvora, e um calôr -de batalha na face.</p> - -<p><i>Trinta e cinco mil pessoas</i> fôram aniquiladas n'esta S. -Barthelemy conservadora, n'esta hecatombe da plebe, offerecida em -sacrificio á ordem com o delirio com que o rei de Dahomey decapita tribus -inteiras em honra do idolo Gri-gri, ou os carthaginezes immolavam uma -mocidade, toda uma primavera sagrada, para applacar o mais cruel dos -Baals, o negro e flammejante Moloch.</p> - -<p>Onde fôram sepultados tantos montões de cadaveres?... Apenas se sabe -que parte foi arremessada á valla commum de Père-Lachaise.</p> - -<p>Os annos passaram, e os vencidos d'então são hoje cidadãos formidaveis, -armados não da espingarda revolucionaria, mas de um legal boletim de voto, -e que, em logar de erguer barricadas nas ruas, fazem deputados socialistas -nas eleições.</p> - -<p>No dia 23 de maio, pois, anniversario do exterminio dos seus, -preparavam-se elles para ir atravez das ruas de Pariz, n'uma vasta -procissão funeraria, com coroas de perpetuas na mão, visitar essa lugubre -valla onde apodrecem os seus mortos.</p> - -<p>O governo do snr. Grevy, porém, inquietou-se com este ceremonial, e, ou -promettendo concessões ao velho mundo <i>communard</i> a troco da -desistencia d'esta pompa funebre (tão parecida com uma commemoração -triumphal) ou ameaçando mandar carregar 20.000 homens contra o prestito e -fazer assim recahir sobre os chefes da manifestação a responsabilidade de -um conflicto sangrento—conseguiu que n'esse dia a massa communista -ficasse chorando os seus mortos, no silencio das suas alcovas. Mas alguns -exaltados, desattendendo a disciplina do partido, persistiram na -demonstração luctuosa; e assim como de uma nuvem negra, que ameaça um -diluvio, só vêm a cahir aqui e além algumas gottas d'agua, assim de toda -aquella população que devia descer dos <i>faubourgs</i> apenas se viram -pelas ruas grupos de dez, quinze pessoas, dirigindo-se ao Père-Lachaise -com a sua blusa nova, e a corôa de perpetuas na mão: sómente por amor do -symbolo, as coroas eram vermelhas.</p> - -<p>Estes mesmos fragmentos de manifestação desagradaram ao governo e á -prefeitura, e viu-se então um espectaculo bem proprio a regosijar o -coração do homem livre: quando, ao Père-Lachaise, onde se apinhavam -batalhões de policias, um homem se approximava da valia a depôr a -sua corôa sobre a herva verde, um <i>sergent de ville</i> precipitava-se, -verificava de sobr'olho duro que as perpetuas eram escarlates, e arrastava -o individuo ao carcere; e se o cidadão, ignorando que sob a republica é um -crime chorar os mortos e ornar-lhes a sepultura, protestava com -vehemencia, a policia demonstrava-lhe a pranchadas que a republica é um -governo forte e contundente...</p> - -<p>Mas, o que iam elles fazer ao Père-Lachaise com as suas perpetuas -symbolicas, estes revoltados, estes exaltados, que em principio abominam -a religião e os seus ceremoniaes?</p> - -<p>O mais illustre jornal do partido, o <i>Mot d'Ordre</i>, descrevia ha -dias uma festa no Sacré Cœur n'estes termos phantasticos: «Hontem havia no -Sacré Cœur uma reunião de individuos celebrando algumas ceremonias -barbaras em honra de um personagem exquisito e obscuro, vulgarmente -designado pelo nome extravagante de Deus». Ora, parece extraordinario que -individuos que possuem phrases tão avançadas, vão commemorar um -anniversario de morte—da morte que não deve ser para elles mais que -uma banal transformação da substancia, com as tradicionaes etiquetas do -catholicismo; e que procedam deante de um tumulo amigo, como se -acreditassem que o corpo jaz alli intacto e paciente, sob as flôres -agrestes, esperando o toque do clarim do juizo final, emquanto a alma -paira no ether mystico, misturando-se á vida terrestre e gosando a offerta -de symbolos saudosos...</p> - -<p>Mas, mais estranho que tudo é a influencia do <i>vermelho</i> no animo -da policia, como entre nós nos temperamentos dos touros.</p> - -<p>Póde até certo ponto comprehender-se que uma bandeira vermelha, batendo -o ar desfraldada, lembrando arrogantemente a insurreição, possa irritar a -bilis de uma policia bem organisada; mas onde está o crime de uma pobre -corôa de perpetuas tingidas de vermelho?</p> - -<p>Porque, como muito nitidamente o explicou o snr. Andrieus, prefeito -de policia, o que offendeu a Republica e a Ordem foi a imprudencia -d'aquelle escarlate! Se as perpetuas fôssem amarellas, a Republica teria -generosamente permittido a manifestação saudosa...</p> - -<p>Logicamente, pois, uma rapariga que passe no <i>boulevard</i> com duas -rosas vermelhas ao peito, deve ser arrastada deante de um conselho de -guerra. A papoila torna-se um delicto; e o rubor de uma face casta é -offensa á constituição.</p> - -<p>Quando o snr. prefeito da policia corta o seu dedo augusto com o seu -canivete official, que deve fazer em presença do escandalo do seu sangue -vermelho? Algemar-se a si mesmo, e a si proprio arremessar-se á palha -humida das masmorras. Mas o verdadeiro culpado é o bom Deus que -prodigalisa o escarlate e as suas gradações nas flôres, nas nuvens, e, se -nos não mente a Biblia, até nas tunicas dos seus seraphins! Ao carcere o -bom Deus!</p> - -<p>Esta extravagancia do chefe da policia é melancolica!</p> - -<p>Na Inglaterra reunem-se em Hyde-Park, quinze, vinte mil pessoas em -<i>meeting</i> com toda a sorte de emblemas, estandartes e charangas, -todas as côres que a Providencia fez e ainda todas as que a industria -inventou; declama-se, uivam-se cantos sagrados e impios, atira-se velha -hortaliça á face dos oradores, absorvem-se pipas de cerveja, e a -formidavel policia ingleza, de braços cruzados, sorri com bonhomia á orgia -civica. É que todas estas vociferações e todas essas côres deixam as -instituições tão intactas e tão firmes como os velhos robles d'Hyde-Park; -e, finda a hora do <i>meeting</i>, a grande massa dispersa com um socego -de fim de missa. Em França um grupo de homens vae em silencio depôr, sobre -uma campa, flôres de melancolia, e tudo treme, n'um receio que a forte -republica do snr. Gambetta cambaleie ferida no coração!</p> - -<p>Realmente, Caligula e Carlos IX fazem ás vezes saudades...</p> - - -<p>Era Alfredo de Musset que dizia nas suas patheticas estancias á -Malibran que, em França, quinze dias fazem de uma morte recente uma antiga -novidade. Talvez, quando é a Malibran que morre: quer dizer, um gorgeio de -ave que se perde na noite. Mas, se o que desapparece se chama -Gustavo Flaubert e é o auctor da <i>Madame Bovary</i> e da <i>Educação -Sentimental</i>—quinze dias ou quinze annos pódem passar sobre essa -perda sem que a dôr envelheça: sobretudo quando se pensa que esse poderoso -artista, um dos maiores d'este seculo, nos é estupidamente arrebatado no -espaço de uma hora, por uma apoplexia, em plena força creadora, na vespera -de terminar um livro supremo em que puzera dez annos de trabalho, o melhor -do seu genio, e a sabia experiencia de uma vida inteira.</p> - -<p>Não é para esta chronica o estudar Gustavo Flaubert. Só direi que a sua -alta gloria consistira em ter sido um dos primeiros a dar á arte -contemporanea a sua verdadeira base, desprendendo-a das concepções -idealistas do romantismo, apoiando-a toda sobre a observação, a realidade -social e os conhecimentos humanos que a vida offerece. Ninguem jámais -penetrou com tanta sagacidade e precisão os motivos complexos e intimos da -acção humana, o subtil mechanismo das paixões, o jogo dos temperamentos no -meio social; e ninguem marcou tão vasta e penetrante analyse n'uma forma -mais viva, mais pura e mais forte.</p> - -<p>As suas creações—Mme Bovary, Homais o pharmaceutico, Leão, -Frederico, Mme Arnoux, pelo poder de vitalidade que elle lhés imprimiu, -participam de uma existencia tão real, quasi tão tangivel como a nossa. -Quando o seu enterro em Rouen, passava junto ao Sena, defronte de uma das -lindas ilhas que alli verdejam, os que o acompanhavam paravam um momento -a olhar, a mostrar-se o sitio na fresca ilha em que Mme Bovary passeava -com Leão, como se estivessem vendo por entre a folhagem dos choupos a sua -figura nervosa e ligeira, e o vestido de merino claro que ella levava aos -<i>rendez-vous.</i></p> - -<p><i>Madame Bovary</i> é hoje uma obra classica—e de certo o seu -melhor livro. Quem a não conhece e a não relê—essa historia profunda -e dolorosa d'uma pequena burgueza de provincia, tal qual as cria a -educação moderna desmoralisada pelos falsos idealismos e pela -sentimentalidade morbida, agitada de appetites de luxo e d'aspirações de -prazer, debatendo-se na estreiteza da sua classe como n'um carcere social, -correndo a esgotar d'um sorvo todas as sensações e voltando d'ellas mais -triste como dos funeraes da sua illusão, procurando alternadamente a -felicidade na devoção e na voluptuosidade, anciando sempre por <i>alguma -cousa de melhor</i>, e arrastando uma existencia minada d'esta enfermidade -incuravel—o desiquilibrio do seu sentimento e da razão, o conflicto -do ideal e do real: até que uma mão cheia de arsenico a liberta de si -mesma!</p> - -<p>Na <i>Educação Sentimental</i>, concebe esta ideia de genio: pintar -n'uma larga acção a fraqueza dos caracteres contemporaneos amollecidos -pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções philosophicas, pela -falta d'um princípio seguro que penetrando a totalidade das consciencias, -dirija as acções; e explicar por esta effeminação das almas todas as -instabilidades da nossa vida social, a desorganisação do mundo moral, a -indifferença e o egoismo das naturezas, a decadencia das classes medias, a -difficuldade de governar a democracia...</p> - -<p><i>Salammbô</i> é a prodigiosa reconstrucção de um povo, de uma -religião extincta, do violento e complicado mundo carthaginez: na -<i>Tentação de Santo Antão</i>, de uma forte intuição, de uma erudição tão -larga, pinta-nos tumultuosa a confusão mystica de um cerebro d'asceta, e -attinge ahi talvez a perfeição de uma fórma tão viva, tão quente, tão -elastica, que só a poderia comparar a uma carnação humana.</p> - -<p>Particularmente era o melhor dos homens. Tinha a nobre e santa -faculdade de admirar sinceramente; era d'estes a quem um bello verso, uma -figura elevada fazem humedecer os olhos de ternura: só sentia indifferença -pelo pedantismo triumphante e a indignação só lhe vinha deante do egoismo -burguez.</p> - -<p>Viajou longos annos, foi amado, foi illustre. Mas, como disse Zola, o -melhor das suas alegrias e das suas mágoas teve-as dentro da sua arte. Era -verdadeiramente um monge das lettras. Ellas permaneceram sempre o seu fim, -o seu centro, a sua regra. Vivia n'ellas como n'uma cella, alheio aos -rumores triviaes da vida. Foi um forte. A sua provincia vae erguer-lhe uma -estatua: e de certo nunca fronte mais digna, modelada em marmore, reluziu -á luz dos ceus.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="II_OS_DUELLOS-AMNISTIA_GAMBETTA_ROCHEFORT_OS_JESUITAS"></a>II. OS DUELLOS-AMNISTIA-GAMBETTA-ROCHEFORT-OS JESUITAS.</h4> - - -<p>Estas ultimas semanas, em França, têm sido sanguinolentas. Os duellos -succedem-se tão regularmente como as madrugadas; e o primeiro espectaculo -que o sol, o velho e dourado Phebo, avista, ao assomar a rósea varanda do -Oriente, é um francez em mangas de camisa e de florete na mão, á beira de -um arroio ou nas hervas de um prado, procurando varar com arte as visceras -essenciaes de outro francez.</p> - -<p>Parece que estamos sob o reinado do melancolico Luiz XIII, quando apezar -dos editos, mal tocava ás Avè-Marias, não havia recanto sombrio do velho -Pariz, onde não lampejassem duas espadas cruzadas, ou em tempos da -republica romantica de 1848, em que dois sujeitos que não concordavam -sobre a questão da Polonia, ou divergiam ácerca de Jesus Christo—um -considerando-o um immortal philosopho, outro apenas um pequeno Deus sem -importancia—corriam a retalhar-se ao sabre, nas sombras do bosque de -Bolonha.</p> - -<p>Não póde agora um honesto melro gorgear pacificamente as suas reflexões -da alvorada, sem que o venha interromper uma velha caleche a trote d'onde -emergem, soturnos e de negro vestidos, sujeitos com um molho de espadões -debaixo do paletot.</p> - -<p>Não ficam cadaveres pelos campos; mas a epiderme dos jornalistas e -<i>dandies</i> é abundantemente deteriorada.</p> - -<p>Duello de Rochefort com Kœchlin; duello de Laffite, do <i>Voltaire</i>, -com o conde de Dion; duello de Fronsac, do <i>Gil Blas</i>, com o principe -de Santa Severina; duello de Lajeune-Villars com Lepelletier, do <i>Mot -d'Ordre</i>; duello em Avignon, em Montpellier, em Rennes, em Lyon. Sem -contar os duellos do conde de Hauterive, que esta semana se tem batido -quatro vezes, ferindo todas as manhãs o seu homem, com o mesmo florete, -entre o pulso e o cotovello!</p> - -<p>Este caso pitoresco faz-me lembrar os «combates do snr. Paulo».</p> - -<p>Não conhecem os combates do snr. Paulo? É uma curiosa historia do Bairro -Latino, dos tempos em que ainda alvejava, entre as verduras do Luxemburgo, -o vestido de cassa de Mimi. O snr. Paulo era um discipulo ardente de -Proudhon, que costumava ir todas as noites tomar o seu grog a um café da -rua Jean Jacques Rousseau, e soltar, com voz rouca de propheta irritado, -as phrases celebres do mestre:—<i>Deus é o mal! A propriedade é o -roubo! Queremos a liquidação social!</i></p> - -<p>A sua apparencia era hoffmanica; duas longas pernas de cegonha triste, -olhos rutilantes n'uma face ascetica e uma gaforinha descommunal, crespa, -revolta e côr d'estopa. De resto, bravo e honesto. Uma noite, o snr. Paulo -installava-se deante do seu grog, quando avista sobre a meza um papelinho -perfido, contendo esta abominavel sextilha:</p> - - -<p><span style="margin-left: 3em;">A loira e dôce Maria</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Que a ninguem d'amores maltrata,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Foi avisada outro dia</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">Que Paulo a vem visitar,</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">E eil-a que rompe a gritar:</span><br /> -<span style="margin-left: 3em;">—Depressa! fechem a prata!</span></p> - - -<p>Só Homero que disse os furores d'Ajax, poderia pintar a cólera do snr. -Paulo e os seus repellões á guedelha... Logo ao outro dia tinha descoberto -que o deploravel poeta era um sujeito obeso, d'olho obliquo, exhalando um -cheiro adocicado de sachristia—que saboreava tambem os seus grogs no -café e dirigia um jornal jesuita, <i>A Palavra.</i> A sextilha tomava, -assim, as proporções sociaes de uma injuria arremessada pela egreja contra -a revolução. Era a graça calumniando a consciencia.</p> - -<p>D'aqui um duello no bosque de Vincennes... Caminham um sobre o outro de -pistola alta. Fogo! A bala do homem da <i>Palavra</i> vae cravar-se na -anca de um jumento que a distancia tosava pensativamente a herva; a do -snr. Paulo, essa vae varar o chapéu alto d'um dos padrinhos do devoto. -Este sujeito franziu consideravelmente o sobr'olho.</p> - -<p>Á noite, um excellente rapaz, Jacques Morot, reaccionario tambem, abre -a porta do café da rua Rousseau e pergunta para dentro ávidamente:</p> - -<p>—Então, o duello? Houve morte de homem?</p> - -<p>—Não,—respondeu alguem d'uma mesa ao fundo.—Houve -morte de jumento.</p> - -<p>—O que! Morreu Paulo?</p> - -<p>E o Paulo que, ao lado, sorvia galhardamente o seu grog, ergue-se, de -juba eriçada e a injuria no labio... E d'ahi outro duello á pistola -tambem.</p> - -<p>Foi no bosque de Bolonha, esse, ao primeiro cantar da cotovia. A bala -reaccionaria de Jacques, perdeu-se por entre as folhagens, mas a do snr. -Paulo lá foi varar o chapéu alto do padrinho—do mesmo, precisamente -o mesmo que na vespera, ao lado do beato pançudo, tivera já o seu chapéu -atravessado e franzira tanto o sobr'olho.</p> - -<p>—Comprehendo!—rosnou este individuo, livido. E á noite, no -café, dirige-se á mesa onde o snr. Paulo absorvia o seu grog, exhalando o -seu socialismo, e accusa-o, friamente, «de lhe querer tirar a vida de um -modo desleal e infame»!</p> - -<p>—Pois atreve-se?...—ruge o snr. Paulo.</p> - -<p>—Sei o que digo; infame e desleal!</p> - -<p>—Insolente!</p> - -<p>—Garoto!</p> - -<p>Novo duello. Mas então os padrinhos assistiam de longe, estirados entre -as hervas altas, como lagartos assustados. Por precaução tinham-se -recoberto de colchões... E as duas balas, com effeito, perderam-se pela -amplidão dos ceus. De uma dizia-se no café que fôra parar a Pekin; da -outra corria que, por um funesto habito adquirido, andava ainda pelo -bosque de Bolonha, procurando entre os arvoredos o chapéu alto para se -alojar.</p> - -<p>Taes fôram os combates do snr. Paulo, discipulo de Proudhon.</p> - -<p>Os conflictos de honra que têm este final de <i>vaudeville</i> são, por -fim, os mais acceitaveis.</p> - -<p>Ha-de haver sempre duellos. É evidente que, emquanto os jornaes -publicarem em lettra gorda e glorificadora as actas do desafio: emquanto -os olhos das mulheres sorrirem ao ferido interessante que atravessa a sala -pallido e de braço ao peito, ou ao espadachim feliz que retorce o bigode; -emquanto na rua burguezes pararem pasmados, murmurando ao ouvido da -familia: <i>Lá vae elle! Foi aquelle que se bateu!</i> nem o codigo, nem o -bom senso, nem melifluas maximas humanitarias impedirão jámais que o -homem, publicamente ridicularisado ou publicamente injuriado, salte sobre -a sua espada gritando á turba: «Cá vou defender a minha honra!»</p> - -<p>Haverá sempre quem consinta em esvaír-se em sangue—tendo em redor -as acclamações d'um circo.</p> - -<p>No mais grave dos homens ha uma fibra de histrião.</p> - -<p>O que convém, pois, á sociedade e que, n'estes conflictos impostos pela -exigencia da vaidade e pelo despotismo do prejuizo, o sangue derramado se -limite ás tres ou quatro gottas que um lenço de cambraia estanca.</p> - -<p>No fim, a moralidade dos duellos está toda n'um dito de Rochefort.</p> - -<p>—Tem sido feliz em seus desafios?—perguntava-lhe alguem.</p> - - -<p>—Felicissimo. Tenho-me batido vinte e tantas vezes e volto sempre -com a consciencia serena e uma ferida séria...</p> - -<p>Não se póde realmente vir almoçar com a «consciencia serena», quando se -deixou um homem a agonisar n'uma pôça de sangue; mas é triste tambem que -para se poder gosar, com a alma tranquilla, a <i>omellette</i> do almoço, -se deva voltar do campo de ventre rasgado ou com a clavicula em pedaços.</p> - -<p>De sorte que o sujeito, que quer defender a sua honra <i>a serio</i> -por estes meios, tem deante de si duas perspectivas amaveis: ou a -permanente tortura de um remorso, ou a eterna paz de uma campa; e quando -se é muito feliz, como Rochefort, dois mezes de cama com uma viscera -despedaçada.</p> - -<p>Bem hajam, pois, os que nos seus duellos, como no caso do snr. Paulo, -atiram as balas para Pekin ou se arranham ligeiramente nos cotovelos! -Comprehendem a sabedoria: a sociedade, a vaidade, os jornaes, a opinião, -as mulheres pedem-lhes sangue? Bem! vão a um recanto do Bosque, e -extráem-se um ao outro, da ponta do dedo, a gotta reclamada pela honra. A -sociedade, a vaidade, etc., sorriem satisfeitas; e elles, serenos de -consciencia, curam-se, pondo uma dedeira. Salutar prudencia! E são -egualmente heroes nas gazetas!</p> - - -<p>Foi votada na camara a amnistia, e sel-o-ha certamente no senado. -Nenhum vestigio, pois, restará da insurreição da Communa em 1871. As casas -ardidas fôram reedificadas; ha longo tempo que seccaram as pôças de sangue -nas ruas; a hera disfarça poeticamente as ruinas das Tulherias; os -fuzilados d'então são hoje terra fertil onde a herva cresce, alta e vasta; -os degredados, os fugitivos reentram na vida legal; a <i>questão da -amnistia</i>, que se arrastava nas controversias dos jornaes como um -farrapo sinistro de guerra civil, é varrida para o lixo; e sobre aquella -pavorosa loucura cahe, emfim, solemnemente uma lapide d'esquecimento. Viva -a França!</p> - -<p>Tudo isto é excellente: não haveria mesmo o direito de vencer, se não -houvesse o direito de perdoar.</p> - -<p>O snr. Grevy, que restituirá a patria a centenares de communistas por -compaixão—não podia deixar outros centenares no degredo, por -legalidade. Não era logico que os que fuzilavam os dominicanos pudessem -fumar o seu cigarro no boulevard, emquanto Rochefort, que a Communa -condemnou á morte, soffria o melancolico exilio de Genebra, e Trinquet, -rehabilitado publicamente por Gambetta, fabricava tamancos nos presidios -da Nova Caledonia. Mas dá-se uma circumstancia singular: ha tres mezes o -ministro Freycinet declarava, entre as acclamações da maioria, que a -França não estava sufficientemente pacificada, nem a republica talvez -bastante forte, para deixar voltar a legião da Communa, e hontem, o mesmo -snr. Freycinet, aos applausos da maioria, affirmava que era tão solida a -unidade da republica, tão completa a quietação dos espiritos, que não se -podia addiar por mais um dia esta larga absolvição das barricadas de -1871.</p> - -<p>Em março a amnistia era uma imprudencia, em junho é uma necessidade! -Noventa dias não são sufficientes para que mudassem assim tão radicalmente -a opinião da França e o interesse da Republica. Portanto, aqui, como se -dizia nas operas comicas da minha infancia, <i>ha um mysterio.</i> Qual é, -pois, esse mysterio? É a vontade do snr. Gambetta. Foi elle, esse todo -poderoso, esse Deus d'Israel, esse Luiz XIV da Republica, esse augusto -dono de França—que assim o decidiu. Elle via que a recusa da -amnistia o despopularisava já na forte maioria da democracia: percebia que -ia sendo ahi considerado como a encarnação mesma da Republica burgueza e o -continuador do doutrinarismo do sr. Thiers; sentia que os seus bairros -proletarios, Montmartre e Belleville, já lhe retiravam os votos e a -confiança para os darem a Clemenceau.</p> - -<p>Gambetta conhece bem que, hoje, a burguesia já não é um terreno -sufficientemente solido para edificar nelle uma fortuna politica; é na -força do proletariado que se quer apoiar—e, portanto, resolveu, como -um Jehovah prudente, readquirir a devoção do seu povo, restituindo-lhe os -prophetas exilados. E ahi está como a amnistia não é um grande acto de -reconciliação publica, mas uma astuta manha do dictador, para não ser -perturbado na lenta jornada que o vae levando á presidencia da Republica, -se não a um Cesarismo jacobino. Para mudar a opinião do ministerio -Freycinet bastou-lhe ordenar; e para convencer a camara bastou-lhe -fallar.</p> - -<p>No dia da discussão do projecto da amnistia deixa melodramaticamente a -sua cadeira de presidente, e de gravata branca, rubro como uma papoila, -com a sua cabelleira solta á maneira de uma juba, apparece na tribuna; e -não creio que desde os Gracchos, ou desde Mirabeau, jámais a palavra d'um -homem revolvesse tanto um paiz! Todos os jornaes, os mais hostis, -reconhecem que nunca Elle fôra tão poderoso.</p> - -<p>Vae o E maisculo, porque parece que se trata verdadeiramente de um -Deus.</p> - -<p>Na rua vê-se gente de olho esgazeado, e arripiada de emoção murmurando: -<i>Gambetta fallou!</i> Assim se devia dizer em Israel, quando corria voz -pelas tendas dispersas das tribus que Jehovah perorava d'entre a sua sarça -ardente. Eu não o ouvi. O seu discurso, lido aqui no jornal, -affigura-se-me uma prosa resoante e oca como um tambor, mais propria da -emphase castelhana que da lingua lúcida e disciplinada em que Voltaire -escreveu. Parece, porém, que a sua formidavel figura, os accentos -pungentes da sua voz captivante, soltando os grandes nomes de <i>França</i> -e <i>Patria</i> e <i>Republica</i>, os seus gestos de apostolo possuido do -espirito; a maioria de pé, n'uma acclamação, como nos dias patheticos da -Convenção; a direita muda e aterrada, as galerias n'um extasi -vibrante—tudo isto formou um quadro grandioso, quasi heroico.</p> - -<p>Eu espero, para o admirar, que um mestre o immortalise na téla e o -popularise pela lythographia. Até lá, por Jupiter, sustento que esta -arenga não me parece do meu Gambetta, do antigo e forte Gambetta; -dir-se-ia antes ser do copioso Odilon Barrot. Não vejo aqui as ideias -que fundam, nem as palavras que ficam. O que abunda, sim, é o emprego -triumphante do pronome pessoal <i>eu.</i></p> - -<p>«<i>Eu</i> consultei o paiz! <i>Eu</i> disse á Europa! <i>Eu</i> -quero!» E assim se desfaz, emfim, o equivoco enorme; é elle realmente que -governa, possue a França: o snr. Grevy está alli como uma figura -ornamental; o snr. de Freycinet e o seu ministerio são o côro explicativo; -a camara, um mero serviço de votação. Só elle fica acima d'estas fracções, -como a mesma alma da Republica. E pela segunda vez, desde Mazzarino, com -respeito o digo, um italiano é o senhor das Gallias.</p> - -<p>Não creio, porém, que esta amnistia, tão generosamente concedida pelo -snr. Gambetta, desarmará o socialismo, e o reconciliará com a Republica -conservadora. Espanto-me mesmo que haja velhos jornaes, cobertos de -experiencia e de cans, que o acreditem, com a ingenuidade de tenros -enthusiastas. E o mesmo Gambetta parece crêl-o quando exclama que, -eliminada esta questão irritante, haverá só uma Republica e uma só -França!</p> - -<p>Rhetorica! <i>A questão da amnistia</i> era, decerto, nas mãos da -esquerda intransigente uma arma util: «Vêde essa Republica de -conservadores que deixa nas galés os vossos irmãos, os vossos maridos!» -Este grito ia direito á indignação dos homens e á sensibilidade das -mulheres.</p> - -<p>Para resolver o operario era, sem duvida, um optimo grito: mantinha-o em -desconfiança e em hostilidade; e nas eleições proximas levaria de certo a -turba proletaria para os candidatos do socialismo. Mas, perdida esta arma -contra a republica do Justo-meio, esta Durindana brilhante do -<i>Rappel</i> e do <i>Mot d'Ordre</i>, restam innumeraveis machinas de -guerra no vasto arsenal da questão social. Basta, por exemplo, pôr em -posição a famosa catapulta da separação da egreja e do estado, para abalar -a fragil muralha do Gambettismo.</p> - -<p>Os conservadores, para se conservarem a si mesmos, terão de ceder: e de -concessão em concessão, como um sapo aos saltinhos successives, irão cahir -na guela escarlate da serpente socialista. Todas as medidas d'estes -ultimos dois annos, depuramento do funccionalismo, expulsão dos jesuitas -e volta dos communistas, têm sido exigencias da extrema esquerda, do mundo -do <i>Rappel</i>, da <i>Justice</i> e do <i>Mot d'Ordre</i>.</p> - -<p>E outras reclamações virão—todas necessariamente -satisfeitas—e cada uma tirando um cabello a Samsão e uma parcella da -sua força á Republica... A questão está collocada entre o <i>proletario</i> -e o <i>burgues.</i> É Clemenceau contra Gambetta. E <i>isto</i>, que é o -socialista Clemenceau, matará fatalmente <i>aquillo</i>, que é o jacobino -Gambetta: e isto, que é o sapateiro Trinquet, eliminará mais tarde -<i>aquillo</i>, que é o philosopho Clemenceau.</p> - -<p>Mas, por estes dias ao menos, esta Republica moderada está solida. Tem -por si a burguezia: os burguezes de hoje são a antiga população das -Gallias—que já no tempo de Cesar amava sobretudo as palavras sonoras -e as espadas atrevidas. Por isso a burguezia se sente segura, apoiando-se -na oratoria de Gambetta e no sabre de Gallifet.</p> - -<p>Para nós que não somos francezes, preparam-se-nos horas de jovialidade, -porque vêm ahi os exilados e á frente Rochefort. Se o grande pamphletario, -o <i>gaiato sublime</i> como lhe chamou Michelet, o ardente sagitario, não -perdeu nas amarguras do desterro a sua verve prodigiosa, o ardor acerado, -as luminosas flechas que feriram de morte o Imperio—vae ser curioso -vêl-o erguer-se no boulevard, como nos dias inolvidaveis da -<i>Lanterna</i>, com a face pallida e a sua gaforina de Satanaz, heroico e -agil diante do pesado presidente Gambetta.</p> - -<p>O jornal que vae fundar chama-se o <i>Intransigente.</i> Já é bom! E -vem azedado por dez annos de exilio injusto, porque (ninguem o ignora) foi -a <i>Lanterna</i> e a sua lucta contra o Imperio que o levaram á Nova -Caledonia por sentença de um conselho de guerra, composto dos velhos -generaes de Cesar, e não a sua participação na Communa, que elle combateu -implacavelmente e que o condemnou á morte. Por isso elle permaneceu -querido de toda a França, esse homem que tem o espirito de Voltaire, a -temeridade heroica, a honradez de um Bayard; este marquez de Rochefort e -de Luçay, que as duquezas chamam o primo Rochefort, generoso paladino dos -humildes, que foi durante os ultimos annos de Napoleão a alegria viva da -França e uma das honras da liberdade. Os seus mesmos inimigos o admiram: e -foi por terror ao seu espirito que a republica conservadora o manteve no -exilio perpetuo, excluido de todos os perdões. E vem ahi! Positivamente, -vamos rir.</p> - - -<p>Os communistas entram e os jesuitas sáem. Nada me parece mais insensato -que esta expulsão.</p> - -<p>Deus sabe que eu não amo os jesuitas: tudo n'elles me é -antipathico—a sua face descahida e olho obliquo, a roupeta lugubre, -a sua moral, a sua abominavel <i>summa theologica</i>, a sua sciencia -secca e hieratica, o seu frio estylo d'architectura, a sua maneira de -enriquecer, com contabilidade escripta em grego, a sua grosseira e -equivoca idolatria pela Virgem Maria, a sua organisação tenebrosa e -conspiradora, que faz assemelhar a companhia a um carbonarismo -theocratico. Mas dispersal-os parece-me singularmente impolitico, illogico -e pueril; se se pretende destruir a sua funesta influencia na sociedade -franceza—então é necessario expulsar o clero inteiro, pois ninguem -ignora que a egreja hoje está totalmente penetrada do espirito jesuitico. -O catholismo é o jesuitismo.</p> - -<p>Quem governa a egreja não é Leão XIII, o <i>Papa Branco</i>, é -o <i>Papa Negro</i>, o padre Beckx. E esta solidariedade com a -companhia—o clero regular acceita-a, reveste-se d'ella como d'uma -insignia, e considera-se ferido pelas leis dirigidas contra o instituto de -Santo Ignacio. Se se quer eliminar o ensino dos jesuitas fatal á alma das -gerações novas, recahimos na mesma necessidade logica de supprimir todo -o ensino clerical, semelhante, parallelo, ao que dimana dos jesuitas. De -que serve fechar tres ou quatro estabelecimentos da companhia—se -fica todo um clero compacto para os substituir como pedagogos, como -conspiradores e como inimigos da democracia?</p> - -<p>Além d'isso, os jesuitas expulsos das suas grandes residencias irão -ensinar particularmente, dispersos pelas cidades e pelos campos; em -logar da roupeta, vestirão a quinzena—e nem por isso o seu ensino -será mais democratico. E se ainda lhe fôrem arrancados os livros da -escola—lá ficam os dominicanos, os maristas, os lazaristas, os -franciscanos, os irmãos christãos, e outros innumeraveis, para ensinarem o -mesmo com a exaltação de quem espalha uma ideia perseguida.</p> - -<p>É pueril. Os republicanos que hoje governam, riam, quando o imperio -imaginava extinguir o socialismo dispersando a internacional; e recahem no -mesmo erro, pensando aniquilar o clericalismo com o encerramento de tres -conventos de jesuitas!</p> - -<p>Será necessario eliminar as mães devotas e os paes catholicos, prohibir -que haja almas que, por debilidade ou religiosidade terra, se precipitem -para as lições da Mystica de S. Thomaz, como para o melhor alimento -terrestre. Se o ensino theologico é perigoso, opponha-se-lhe o ensino -scientifico. Esmaguem o padre com o philosopho. Mas não é rasgando uma -roupeta que se reprime um ideal.</p> - -<p>E depois, para quem ama realmente a liberdade, é repugnante estar lendo -todos os dias nos jornaes que já os jesuitas e as outras congregações -ameaçadas começam a encaixotar os seus livros, a enfardelar tristemente os -seus trapos, a despregar um ou outro painel da sua cella, porque se -approxima o dia 29, em que dois gendarmes, de espadão á cinta, virão -arrancal-os aos conventos que são seus, edificados pela sua diligencia, -pagos com o seu metal e tantos annos habitados pela sua devoção.</p> - -<p>Ha n'isto um sabor desagradavel á revogação do edito de Nantes, á -expulsão dos judeus, a missionarios apupados pela população chineza.</p> - -<p>Ha dias vi um velho frade franciscano, assustado e melancolico, -comprando timidamente uma maleta; havia tanta amargura no olhar, que o -pobre mendicante dava áquelle sacco de couro que ia ser seu companheiro -d'exilio—que me veio uma colera, uma revolta contra o snr. Julio -Ferry e o seu nacionalismo prouddhomesco.</p> - -<p>Ora nada mais impolitico que provocar este sentimento: o frade torna-se -assim mais interessante; e os fracos, os sentimentaes, os religiosos; -as mulheres são attrahidas para este exilado, este martyr errante, esta -victima dos Dioclecianos de chapéu alto, que se lhes afigura a encarnação -mesma do crucificado.</p> - -<p>Eu não sou um devoto, mas parece-me impio exilar aquelles que não têm -as nossas opiniões. E uma republica que expulsa uma classe inteira de -cidadãos por acreditarem na graça, accenderem luzes á Virgem Maria e -considerarem o conde Chambord como um sêr providencial e um Messias -forte—mostra uma grande falta de senso politico, e pratica um -vergonhoso abuso da força.</p> - -<p>Mas supponhamos que elles são grandes criminosos. Pois bem! estamos -agora n'um momento de clemencia publica, perdoou-se hontem áquelles que -consideram Deus um tyranno; perdõe-se hoje áquelles que consideram Luiz -XVI um santo. E aqui está o que eu humildemente proporia;—que a -amnistia dada aos communistas se estenda ás congregações religiosas!</p> - -<p>Ainda n'esta carta, lhes não fallo da Inglaterra. A culpa é toda d'ella. -Caso extraordinario! ha já semanas que este grande e amado paiz não produz -um acontecimento, um escandalo, um livro, um systema philosophico, uma -religião, uma machina, um quadro, uma guerra ou um dito! Está n'esse -brando repouso a que se abandona sempre aos primeiros calores de junho. -Deixemol-a descançar sob a sombra da frondosa faia, n'estes ocios que lhe -faz a suprema liberdade na suprema força.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="III_O_IMPERADOR_GUILHERME"></a>III. O IMPERADOR GUILHERME.</h4> - - -<p>«<i>Lui, toujours lui!...</i>—Elle, sempre elle!...»—Assim, -no tempo das <i>Vozes interiores</i>, clamava Victor Hugo, cançado, quasi -estafado de que ao seu espirito de poeta, que tantos problemas divinos e -humanos solicitavam, se impuzesse ainda com imperiosa insistencia, -monopolisando os pensamentos melhores e os melhores alexandrinos, a imagem -atravancadora de Napoleão, o Grande. Nós hoje tambem podemos murmurar com -impaciencia: «<i>Lui, toujours lui!...</i> Elle, sempre elle!»—perante -esse outro imperador que ainda não venceu a batalha de Marengo, nem a de -Austerlitz, e que todavia, em meio de todos os problemas sociaes, moraes, -religiosos, politicos e economicos que nos devoram, tão estranha e ruidosa -expansão dá á sua individualidade e tão confiadamente a arremessa atravez -dos nossos destinos, que elle proprio se tornou um Problema Europeu—e -occupa tanto o nosso pensamento como o socialismo, a evolução religiosa ou -a crise capitalista! Talvez mais—porque até o proprio snr. Renan, -cuja alma, pelo exercicio constante do scepticismo, ganhou a -impermeabilidade e a dôce indifferença de uma cortiça, para quem toda a -vaga é embaladora e bôa, declara, na sua derradeira epistola aos -incredulos, que só lhe pesa morrer (e pelas suas confissões bem sabemos -quanto a vida lhe corre deliciosa e perfeita!) por não poder assistir ao -desenvolvimento final da personalidade do imperador da Allemanha!</p> - -<p>Com effeito, desde que subiu ao throno, Guilherme II, imperador e rei, -ainda não deixou de attrahir e reter sobre si a curiosidade do mundo, uma -curiosidade divertida e arregalada de publico que espera surpresas e -lances—como se esse throno da Allemanha fôsse na realidade um palco -vistosamente ornado, no centro da Europa. E esta é até agora a obra -pittoresca de Guilherme II—o ter convertido—o throno dos -Hohenzollerns n'um palco onde elle constantemente e soberbamente se -exhibe, com caracterisações inesperadas. Bem póde, pois, o sentimental -heresiarcha da <i>Vida de Jesus</i> lamentar que a morte lhe não consinta -assistir, no quinto acto, á solução d'este imperador problematico! Pois -que, por ora, n'este primeiro acto de tres annos, desde que elle trilha o -seu palco imperial, Guilherme II, pela diversidade e multiplicidade das -suas manifestações, só tem revelado que existem n'elle, como outr'ora em -Hamlet, os germens de homens varios, sem que possamos preconceber qual -d'elles prevalecerá, e se esse, quando definitivamente desabrochado, nos -espantará pela sua grandeza ou pela sua vulgaridade. Realmente, n'este -rei, quantas encarnações da realeza!</p> - -<p>Um dia é o Rei-Militar, rigidamente hirto sob o casco e a couraça, -occupado sómente de revistas e manobras, collocando um render-da-guarda -acima de todos os negocios de estado, considerando o sargento-instructor -como a unidade fundamental da nação, antepondo a disciplina do quartel a -toda a lei Moral ou da Natureza, e concentrando a gloria da Allemanha na -mechanica precisão com que marcham os seus galuchos. E subitamente despe a -farda, enverga a blusa, e é o Rei-Reformador, só attento ás questões do -capital e do salario, convocando com fervor congressos sociaes, reclamando -a direcção de todos os melhoramentos humanos, e decidindo penetrar na -historia abraçado a um operario como a um irmão que libertou. E logo a -seguir, bruscamente, é o Rei-de-Direito-Divino, á Carlos V ou á -Phillippe-Augusto, apoiando altivamente o seu sceptro gothico sobre o -dorso do seu povo, estabelecendo como norma de todo o governo o <i>sic -volo, sic jubeo</i>, reduzindo a Summa Lei á vontade do Rei e, certo da -sua infallibilidade, sacudindo desdenhosamente para além das fronteiras -todos os que n'ella não creem com devoção. O mundo pasma,—e, de -repente, elle é o Rei de Côrte, mundano e faustoso, attento meramente ao -brilho e ordem sumptuosa da Etiqueta, regulando as galas e as mascaradas, -decretando a fórma do penteado das damas, condecorando com a Ordem da -Corôa os officiaes que melhor valsam nos <i>cotillons</i>, e querendo -volver Berlim n'um Versailles d'onde emane o preceito supremo do -cerimonial e do gosto. O mundo sorri—e repentinamente é o -Rei-Moderno, o Rei-Seculo-Dezenove, tratando de <i>caturra</i> o Passado, -expulsando da educação as humanidades e as lettras classicas, determinando -crear pelo parlamentarismo a maior somma de civilisação material e -industrial, considerando a fabrica como o mais alto dos templos, e -sonhando uma Allemanha movida toda pela electricidade...</p> - -<p>Depois, por vezes, desce do seu palco—quero dizer, do seu -throno—e viaja, dá representações atravez das cortes estrangeiras. -E ahi, desembaraçado da magestade imperial, que em Berlim imprime a todas -as suas figurações um caracter imperial, apparece livremente sob as fórmas -mais interessantes que póde revestir nas sociedades o homem de imaginação. -A caminho de Constantinopla, singrando os Dardanellos, na sua frota, é o -artista que em telegramma ao chancelier do império (em que assigna -<i>Imperator Rex</i>) pinta, n'uma fórma carregada de romantismo e côr, o -azul dos céus orientaes, a doçura languida das costas da Asia. No Norte, -nos mares scandinavos, entre os austeros <i>fjords</i> da Noruega, ao -rumor das aguas degeladas que rolam por entre a penumbra dos abetos, é o -Mystico, e prega sermões sobre o seu tombadilho, provando a inanidade das -cousas humanas, aconselhando ás almas, como unica realidade fecunda, a -communhão com o Eterno! Voltando da Russia é o alegre Estudante, como nos -bons tempos de Bonn, e da fronteira escreve para S. Petersburgo ao -marechal do Palacio uma carta em verso, fantasistamente rimada, a -agradecer o kaviar e os sandwichs de <i>foie-gras</i>, collocados no seu -wagon como provido farnel de jornada. Em Inglaterra está em um luxuoso -centro de sociabilidade, e é o Dandy, com os dedos faiscantes de anneis, -um cravo enorme na sobrecasaca clara, borboleteando e flirtando com a veia -soberba de um D'Orsay!...—E subitamente, em Berlim, por alta noite, -as cornetas soltam asperos toques de alarme, todos os fios da Agencia -Havas estremecem, a Europa assustada corre ás gazetas, e um rumor passa, -temeroso, de que «haverá guerra na primavra»! Que foi? <i>No es nada</i>, -como se canta, no <i>Pan e Toros.</i> É apenas Guilherme II que resubiu ao -seu palco—quero dizer, ao seu throno.</p> - -<p>O mundo perplexo murmura:—«Quem é este homem tão vario e -multiplo? O que haverá, o que germinará dentro d'aquella cabeça -regulamentar de official bem penteado?» E o snr. Renan geme por morrer -talvez antes de assistir, como philosopho, ao desenvolvimento completo -d'esta ondeante personalidade! Assim Guilherme II se tomou um problema -contemporaneo,—e ha sobre elle theorias, como sobre o magnetismo, a -influenza ou o planeta Marte. Uns dizem que elle é simplesmente um moço -desesperadamente sedento da fama que dão as gazetas (como Alexandre o -Grande que, em risco de se afogar, já suffocado, pensava no <i>que diriam -os Athenienses</i>) e que, mirando á publicidade, prepara as suas -originalidades com o methodo, a paciencia e a arte espectacular com que -Sarah Bernhardt compõe as suas <i>toilettes.</i> Outros sustentam que ha -n'elle apenas um fantasista em desequilibrio, arrebatado estonteadamente -por todos os impulsos de uma imaginação morbida, e que, por isso mesmo -que é imperador quasi omnipotente, exhibe soltamente, sem que uma -resistencia vigilante lh'os cohiba e lh'os limite, todos os desregramentos -da fantasia. Outros, por fim, pretendem que elle é apenas um Hohenzollern -em que se sommaram e conjunctamente affloraram com immenso apparato -todas as qualidades de cesarismo, mysticismo, sargentismo, bureaucratismo -e voluntarismo, que alternadamente caracterisavam os reis successivos -d'esta felicissima raça de fidalgotes do Brandeburgo...</p> - -<p>Talvez cada uma d'estas theorias, como succede felizmente com todas as -theorias, contenha uma parcella de verdade. Mas eu antes penso que o -imperador Guilherme é simplesmente um <i>dilettante da acção</i>—quero -dizer, um homem que ama fortemente a acção, comprehende e sente com -superior intensidade os prazeres infinitos que ella offerece, e a deseja -portanto experimentar e gosar em todas as fórmas permissiveis da nossa -civilisação. Os <i>dillettante</i> são-n'o geralmente de ideias ou de -emoções—porque para comprehender todas as ideias ou sentir todas as -emoções basta exercer o pensamento ou exercer o sentimento, e todos nós, -mortaes, podemos, sem que nenhum obstaculo nos coarcte, mover-nos -liberrimamente nos illimitados campos do raciocinio ou da sensibilidade. -Eu posso ser um perfeito <i>dillettante</i> de ideias, modestamente -fechado, com os meus livros, na minha bibliotheca:—mas se tentasse -ser um <i>dillettante</i> da Acção, nas suas expressões mais altas, -commandar um exercito, reformar uma sociedade, edificar cidades, teria de -possuir, não uma livraria, mas um imperio submisso. Guilherme II possue -esse imperio; e hoje que se libertou da dura superintendencia do velho -Bismarck, póde abandonar-se ao seu insaciavel <i>dilettantismo</i> da -Acção, com a licença «com que o corsel novo (como diz a Biblia), galopa no -deserto mudo». Quer elle o goso de commandar vastas massas de soldados, ou -de sulcar os mares n'uma frota de ferro? Tem só de lançar um telegramma, -fazer resoar um clarim. Quer elle a delicia de transformar, nas suas mãos -potentes, todo um organismo social? Tem só de annunciar: «Esta é a minha -ideia»—e lentamente a seus pés começará a surgir um mundo novo.</p> - -<p>Tudo póde, porque governa dous milhões de soldados, e um povo que só -zela a sua liberdade nos dominios da philosophia, da éthica ou da exegese, -e que quando o seu imperador lhe ordena que marche—emmudece e -marcha.</p> - -<p>E tudo póde ainda porque inabalavelmente acredita que Deus está com -elle, o inspira e sancciona o seu poder.</p> - - -<p>E é isto o que torna, para nós, prodigiosamente interessante o imperador -da Allemanha:—é que, com elle, nós temos hoje n'este philosophico -seculo, entre nós, um homem, um mortal, que mais que nenhum outro -iniciado, ou propheta, ou santo, se diz, e parece ser, o intimo e o alliado -de Deus! O mundo não tornára a presencear, desde Moysés no Sinai, uma tal -intimidade e uma tal alliança entre a Creatura e o Creador. Todo o reinado -de Guilherme II nos apparece, assim, como uma resurreição inesperada do -mosaïsmo do Pentatheuco. Elle é o dilecto de Deus, o eleito que -conferencia com Deus na sarça ardente do <i>Schloss</i> de Berlim, e que -por instigação de Deus vae conduzindo o seu povo ás felicidades de Canaan. -É verdadeiramente Moysés II! Como Moysés, de resto, elle não se cança de -affirmar estridentemente, e cada dia, para que ninguem a ignore, e por -ignorancia a contrarie, esta sua ligação espiritual e temporal com Deus, -que o torna infallivel, e portanto irresistivel. Em cada assembleia, em -cada banquete em que discursa (e Guilherme é de todos os reis -contemporaneos o mais verboso) lá vem logo, á maneira de um mandamento, -esta affirmação pontificial de que Deus está junto d'elle, quasi visivel -na sua longa tunica azul dos tempos de Abrahão, para em tudo o ajudar e o -servir com a força d'esse tremendo braço que póde sacudir, atravez dos -espaços, os astros e os sóes, como um pó importuno. E a certeza, o habito -d'esta sobrenatural alliança vae n'elle crescendo tanto que de cada vez -allude a Deus em termos de maior igualdade—como alludiria a Francisco -d'Austria, ou a Humberto, rei de Italia. Outr'ora ainda o denominava, com -reverencia, o <i>Amo que está nos céus</i>, o <i>Muito alto que tudo -manda.</i> Ultimamente porém, arengando com <i>champagne</i> aos seus -vassalos da Marca Brandeburgo, já chama familiarmente a Deus—o <i>meu -velho alliado!</i> E aqui temos Guilherme e Deus, como uma nova firma -social, para administrar o Universo. Pouco a pouco mesmo, talvez Deus -desappareça da firma e da taboleta, como socio subalterno que entrou -apenas com o capital da luz, da terra e dos homens, e que não trabalha, -ocioso no seu infinito, deixando a Guilherme a gerencia do vasto negocio -terrestre:—e teremos então apenas Guilherme e Cia. Guilherme, com -supremos poderes, fará todas as operações humanas. E «companhia» será a -fórmula condescendente e vaga com que a Alemanha de Guilherme II designará -Aquelle para quem todavia, segundo crêmos,—Guilherme II e a Allemanha -toda são tanto, ou tão pouco, como o pardal que n'este instante chalra no -meu telhado!</p> - -<p>Um magnifico e insaciavel desejo de gosar e experimentar todas as fórmas -da Acção, com a soberana segurança que Deus lhe garante e promove o exito -triumphal de cada emprehendimento—eis o que me parece explicar a -conducta d'este imperador mysterioso. Ora, se elle dirigisse um imperio -situado nos confins da Asia, ou se não possuisse na Torre Julia um -thesouro de guerra para manter e armar dous milhões de soldados, ou se -estivesse cercado por uma opinião publica tão activa e coercitiva como a -da Inglaterra, Guilherme II seria apenas um imperador, como tantos, na -historia, curioso pela mobilidade da sua fantasia, e pela illusão do seu -messianismo. Mas, infelizmente, plantado no centro da Europa trabalhadora, -com centenares de legiões disciplinadas, um povo de cidadãos disciplinados -tambem e submissos como soldados—Guilherme II é o mais perigoso dos -reis, porque falta ainda ao seu <i>dilettantismo</i> experimentar a fórma -da Acção mais seductora para um rei—a guerra e as suas glorias. E -bem póde succeder que a Europa um dia acorde ao fragor de exercitos que se -entrechocam—só porque na alma do grande <i>dilettante</i> o fogoso -appetite de «conhecer a guerra», de gosar a guerra sobrepujou a razão, os -conselhos e a piedade da patria. Ainda ha pouco, de resto, elle assim o -promettia aos seus fieis solarengos do Brandeburgo:—«Levar-vos-hei a -bellos e gloriosos destinos». Quaes? A varias batalhas de certo, onde -triumpharão as Aguias germanicas... Guilherme II não o duvida—pois -que tem por alliado, além de alguns reis menores, o Rei Supremo do Céu e -da Terra, combatendo entre a <i>Landwehr</i> allemã, como outr'ora Minerva -Athenea, armada da sua lança, combatia contra os barbaros em meio da -phalange grega.</p> - -<p>Esta certeza da alliança divina!... Nada póde dar mais força a um homem, -na verdade, que uma tal certeza, que quasi o divinisa. Mas, tambem, a que -riscos ella arrasta! Porque nada póde fazer tombar mais fundamente um -homem do que a evidencia, perante a crua contradição dos factos, de que -essa certeza era apenas a chimera d'uma desordenada fatuidade. Então -verdadeiramente se realisa a quéda biblica do alto dos céus. Houve um povo -que se proclamava ortr'ora o Eleito de Deus—mas apenas se provou que -Deus não o elegera, nem o preferia a outro, por isso que o abandonava -desdenhosamente—foi desmantelado com incomparavel furor, disperso e -apedrejado por todos os caminhos do mundo, e encurralado em Ghettos, onde -os reis lhe estampavam sobre a casa e sobre a campa uma marca como a que -se estampa sobre a moeda falsa.</p> - -<p>Guilherme II corre este lugubre perigo de cahir nas Gemonias. Elle assume -hoje, temerariamente, responsabilidades que, em todas as nações, estão -repartidas pelos corpos de Estado—e só elle julga, só elle executa -porque é a elle, e não ao seu ministerio, ao seu conselho, ao seu -parlamento, que Deus, o Deus de Hohenzollern, communica a inspiração -transcendente.</p> - -<p>Tem, portanto, de ser infallivel e de ser invencivel. No primeiro -desastre, ou lhe seja infligido pela sua burguezia ou pela sua plebe nas -ruas de Berlim, ou lhe seja trazido por exercitos alheios n'uma planicie -da Europa, a Allemanha immediatamente concluirá que a sua tão annunciada -alliança com Deus era uma impostura de despota manhoso.</p> - -<p>E não haverá, então, da Lorena á Pomerania, pedras bastantes para -lapidar o Moysés fraudulento! Guilherme II está na verdade jogando contra -o destino esses terriveis <i>dados de ferro</i>, a que alludia outr'ora o -esquecido Bismarck. Se ganha dentro e fóra da fronteira, poderá ter -altares como teve Augusto (e de facto tambem Tiberio). Se perde, é o -exilio, o tradicional exilio em Inglaterra, o cabisbaixo exilio, esse -exilio que elle hoje tão duramente intima áquelles que discrepam da sua -infallibilidade.</p> - -<p>E não se mostraram já os prenuncios vagos do desastre? O grande -imperador, ha dias, recebeu apupos nas ruas de Berlim. As plebes -desconfiam de Guilherme e do seu Deus. E (signal temeroso) os pensadores e -os philosophos que foram sempre, na muito intellectual Allemanha, os -formidaveis esteios do despotismo militar dos Hohenzollerns, começam a -amuar com o throno, e a retroceder, pelos caminhos vagarosos do -liberalismo, para o povo e para a justiça social de que elle tem a -consciencia ainda tumultuosa, mas exacta. Onde estão os tempos em que -Hegel considerava a autocracia prussiana quasi como uma parte integrante -da sua philosophia e da ordem do Universo? Onde estão as admirações de -Herbat pelo «Estado concentrado no Soberano?» Onde estão esses altos -entendimentos ensinando nas universidades que a summa da sapiencia -politica na Prussia era—<i>Deus salve o Rei?</i> Onde estão esses -louvores ao direito divino dos Hohenzollerns, cantados por Strauss, por -Mommsen, por Von Sypel? Tudo passou! A metaphysica rosna descontente. Das -duas grossas pedras angulares da monarchia prussiana, o philosopho e o -soldado, Guilherme II hoje só tem o soldado:—e o throno, -sobrecarregado com o imperador e o seu Deus, pende todo para um lado, que -é talvez o do abysmo...</p> - -<p>Conseguirá o philosopho persuadir o soldado a sacudir, por seu turno, -o peso sob que geme, é mesmo sob que sangra, se são veridicas as -accusações do principe Jorge de Saxe? O soldado sáe do povo, e sabe lêr. -E se, como a Allemanha toda affirmou, foi o mestre-escola quem venceu em -Sadowa e em Sedan—é talvez elle ainda, com o seu novo livro e a sua -nova ferula, que vencerá em Berlim.</p> - -<p>O snr. Renan tem, pois, razão, grandemente: e, nada mais attractivo, -n'este momento do seculo, do que assistir á solução final de Guilherme II. -Dentro em annos, com effeito (que Deus faça bem lentos e bem longos) este -moço ardente, imaginativo, sympathico, de coração sincero, e talvez -heroico, póde bem estar, com tranquilla magestade, no seu <i>Schloss</i> -de Berlim gerindo os destinos da Europa, ou póde estar, melancolicamente, -no Hotel Metropole em Londres, desempacotando da maleta do exilio a dupla -corôa amolgada da Allemanha e da Prussia.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="IV_O_GRAND_PRIX-A_ESTATUOMANIA-OS_COCHEIROS-VICTOR_HUGO-O_CAMPO_EM_PARIZ"></a>IV. O GRAND-PRIX-A ESTATUOMANIA-OS COCHEIROS-VICTOR HUGO-O CAMPO EM PARIZ.</h4> - - -<p>Na semana passada o <i>Grand Prix</i>—que é a solemnidade -official do sport, do jogo e das <i>toilettes.</i> Todos estes elementos -estiveram magnificamente representados na planicie de Longchamps, sob um -sol mais severo que o de Java. Os cavallos eram tão bons que o vencedor, -um cavallo francez com o nome de um heroe hungaro, venceu apenas por uma -<i>quarta parte do focinho.</i> As apostas elevaram-se a mais de seis -milhões. E havia <i>toilettes</i> portentosas, entre as quaes unn vestido -negro, todo ornado de crysanthemos brancos.</p> - -<p>A tribuna republicana do presidente estava salpicada de sangue real: a -rainha-mãe de Portugal, D. Maria Pia; a duqueza d'Aosta, cunhada do rei de -Italia, uma mulher esplendida, que parece uma Venus de Millo mettida -dentro de um vestido da Laferriere, e que seria realmente digna da Grecia -se não fosse um não sei que de japonez nos olhos obliquos; e depois um -principe indio, o Mararajah de Lhaore, infelizmente de sobrecasaca preta e -sem diamantes. (Que diriam a esta sobria sobrecasaca os seus rutilantes -avós, que já reinavam muitos seculos antes de Christo?)</p> - -<p>O calor era horrifico. Á noite, no <i>Jardim de Paris</i>, houve, sob as -arvores e os bicos de gaz, a orgia tradicional. Toda a mocidade estava -brilhantemente borracha, <i>sicut licet.</i> A unica innovação foi a troca -geral de chapéos: os homens tinham coroada as cabeças, frisadas ou calvas, -com os floridos e emplumados chapéos das mulheres; e ellas, as dôces -creaturas, arvoraram todas chapéos altos. Este modesto delirio não deve -fazer suppôr que Pariz perdesse a seriedade.</p> - -<p>Nunca existiu cidade mais grave do que Roma (a verdadeira, a romana). -Pois no dia das Saturnaes, que era uma especie de <i>Grand Prix</i>, os -cidadãos mais circumspectos, mesmo magistrados, bailavam nas praças, de -toga arregaçada:—e o austero Catão apparecia no senado com um grande -nariz postiço.</p> - - -<p>N'esta semana festiva não ha politica. Os ministros andam todos pelas -provindas, fazendo inaugurações e discursos. Um americano, muito -engenhoso, já affirmou que o que caracterisava a civilisação franceza era -ser uma civilisação completa, acabada, com todos os pontos sobre todos os -ii. O conceito é agudo e brilhante. Mas não parece verdadeiro; porque cada -semana, atravez da França, se inaugura alguma cousa que faltava—uma -estrada, um aqueducto, um porto, um pharol. Sobretudo, estatuas de grandes -homens. A França não acaba realmente de fundir em bronze todos os seus -benemeritos.</p> - -<p>Desde 1875, o anno em que começou a estabilidade republicana, cada -mez,—que digo eu? cada semana!—se desvenda algures uma estatua -d'alguem, entre discursos, tambores e champagne. Já lá vão quasi vinte -annos d'este fervente trabalho, e ainda ha todavia genios que não têm -estatua. Em compensação, ha outros que têm duas, como um certo Guerin de -quem fallava recentemente Julio Simon. Digo um <i>certo</i> Guerin, porque -eu não lhe conhecia a existencia antes d'essa allusão de Julio Simon, que -foi o inaugurador dos dois monumentos, um em Pontivy, outro em Nantes. De -resto, talvez Guerin seja amplamente merecedor de campear assim em duas -praças, sobre dois pedestaes de granito. Ha ahi alguem que saiba quem é -Guerin? Em França, para que um grande homem consiga estatua é essencial, -sobretudo, que tivesse deixado um filho com influencia na politica ou na -sociedade. Dumas, pae, arranjou o seu monumento da praça Malesherbes, -menos por causa de D'Artagnan que por causa de Dumas, filho. E Balzac, -como não deixou filho, ainda não tem estatua. Nem Chateaubriand. Nem -Victor Hugo. Quem tem já duas é Guerin.</p> - - -<p>Não sei se fallei já do calor. Está asphyxiante. E o que o torna mais -duro de atravessar é a <i>grève</i> dos cocheiros. Pariz está sem -tipoias—o que é, sobretudo n'este momento, como o deserto sem -camelos. Se n'esta super-civilisada cidade o serviço dos omnibus ou dos -bonds fôsse facil, exacto e rapido, a falta de carruagens não causaria -desgostos—e seria mesmo uma salutar instigação á economia. Mas o -omnibus e o bond, em Pariz, são instituições rudimentares. É mais facil -para um pariziense entrar no céu do que n'um omnibus. Para obter o logar -na bemaventurança basta, segundo affirmam todos os santos padres, ter -caridade e humildade. Para obter o logar do omnibus estas duas grandes -virtudes são inuteis e, mesmo, contraproducentes. Antes o egoismo e a -violencia. Depois de conquistar o logar, a outra difficuldade insuperavel -é sahir d'elle—por aquelle meio natural e logico que consiste em -chegar e apear. Nunca se chega—senão quando já é desnecessario. Eu -e um amigo partimos um dia da gare d'Orleans, á mesma hora; eu no comboio -para Portugal, elle no omnibus para o <i>Arc de L'Étoile.</i> Quando eu -cheguei a Madrid soube, por um telegramma, que o meu amigo ia ainda na -Praça da Concordia. Mas ia bem. O omnibus em Pariz é o grande refugio e o -local do namoro. Quanto mais comprida a jornada, mais demorado portanto o -encanto. O meu amigo encontrára no seu omnibus a creatura dos seus sonhos. -Era uma loura com sardas promettedoras. Quando, emfim, chegaram ao Arco da -Estrella estavam noivos—ou peior. São estas pequenas commodidades da -vida sentimental que conservam a freguesia aos omnibus.</p> - -<p>Uma das causas, ou antes a causa da <i>grève</i> é que os cocheiros -querem ser funccionarios publicos. Nem mais, nem menos. A sua pretenção é -que a municipalidade de Pariz se torne proprietaria das tipoias de praça e -que elles passem, portanto, a ser empregados municipaes, com ordenado e -aposentação. Cada carruagem constituirá assim uma verdadeira repartição de -que o cocheiro será, a todos os respeitos, o director geral. Não sei o que -o publico lucraria em se ligarem todos os carros ao carro central do -Estado. O funccionario francez é um sujeito tremendamente impertigado. O -cocheiro de Pariz já é horrivelmente impertinente. O que será quando fizer -parte da administração? Accresce que a famosa administração franceza -envolve e embaraça todos os actos da vida do cidadão com formalidades -innumeraveis. É peior que a administração chineza—e menos pittoresca. -Basta lembrar que quem queira canalisar gaz para sua casa tem de implorar -licenças successivas a vinte auctoridades successivas—entre as quaes -o ministro do interior! É pois quasi certo que, quando os serviços dos -trens de praça passarem para o Estado, o cidadão que aspire a occupar um -d'esses trens publicos terá de metter préviamente requerimento, e em papel -sellado! O cocheiro, por outro lado, ha-de querer manter o seu direito de -deferir ou indeferir. Estou pois já vendo, n'um dia de dezembro, uma -familia á hora do theatro, com os pés na lama, apresentando humildemente a -um cocheiro a sua petição para occupar a tipoia—e o digno -funccionario, com as rédeas embrulhadas no braço, depois de percorrer o -documento, respondendo com superioridade: <i>Indeferido, por causa da -distancia e do mau tempo!</i></p> - - -<p>Não sei porque, fallando de omnibus, me lembro de Victor Hugo. De certo -porque o divino poeta gostava de percorrer a seu Pariz, meditando e -compondo versos, no alto desses pachorrentos vehiculos.</p> - -<p>Victor Hugo publicou este mez mais um volume—<i>Toute la Lyre.</i> -Como o Cid, que ainda vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno -atira de dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A -proposito d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de -versos, que elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a -gloria poetica de Hugo. Discussão ociosa. De certo não augmentam a sua -gloria. Essa já está estabelecida e fixa, no seu maximo esplendor, com -as <i>Contemplations</i>, a <i>Légende des Siècles</i> e os <i>Châtiments.</i> -Mas augmentam o nosso conhecimento do poeta, revelando novos pensamentos, -novas emoções ou fórmas differentes no exprimir as emoções e os -pensamentos que lhe eram habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que -sentia e pensava em verso. Cada verso novo, que nos é desvendado, -constitue pois um documento novo sobre o poeta—sobre a sua visão -espiritual ou sobre o seu verbo lyrico. Ora quantos mais documentos se -reunem sobre um homem de genio como Hugo, mais completo se torna o -trabalho critico sobre a sua individualidade e sobre a sua obra. Para -alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhe as -cartas, todos os papeis intimos—até as contas do alfaiate. Assim se -tem feito para Lamartine, para Balzac, etc.</p> - -<p>Ainda ha pouco foi estabelecido, e provado com documentos, o numero, de -pares de meias de sêda que Napoleão usava cada anno. Eram 365. Ninguem se -queixou. Foi um detalhe historico, geralmente apreciado. Ora se, para -proveito da historia, se põem assim á mostra as piugas d'um grande homem -de guerra, que tem iguaes—é bem justificado que se publiquem os -versos, todos os versos, ainda os menos interessantes, d'um poeta que, sem -contestação, é o maior de todos, em todos os seculos.</p> - - -<p>A moda, ou antes aquelles que a fazem, acaba de tomar uma resolução -sapientissima. Pariz, d'ora em deante, fica sendo considerado, durante -os mezes de verão, para todos os effeitos sociaes, como campo e não como -cidade. É permittido, portanto, passear, fazer visitas, ir ao theatro, -etc., de chapéo de palha, jaquetão claro e botas brancas. Nada mais justo. -Era com effeito absurdo que Pariz nos servisse 30 graus á sombra—e -que os parizienses continuassem a soffrer a tyrannia da sobrecasaca -apertada e do duro chapéo alto. A moda, mesmo, deveria ir mais longe e -permittir a tanga. O vestuario foi inventado por causa da temperatura, e -deve, portanto, variar com ella harmonicamente. A neve pede pelles, pelles -supplementares, arrancadas a animaes. O sol do Senegal ou de Pariz em -julho, só pede a propria pelle—sem mais nada, além de uma folha de -vinha. Esta seria a logica das cousas. A moda não ousou ser tão -radical—e foi só até á palha e á alpaca.</p> - -<p>Mas é um primeiro passo no bom senso. Para o anno, talvez nos seja -permittido o ir á Opera, como deveriamos, em mangas de camisa. Ahi no Rio, -segundo me affirmam, mesmo no verão, se anda de sobrecasaca de panno. É um -lamentavel excesso de decoro social. Ainda se comprehendia no tempo do -imperio, quando a constante sobrecasaca preta do imperador dominava nas -instituições, e portanto determinava os costumes. Hoje a republica devia -apagar esse verdadeiro vestigio do velho regimen, e derrubar a tyrannia do -panno e do chapéo alto. Estou convencido mesmo que essa grande reforma -influiria vantajosamente no estado dos espiritos. Um povo que, com 40 -graus de calor, anda entalado em casimiras sombrias e sobrecarregado com -um chapéo alto de ceremonia, é necessariamente um povo constrangido, cheio -de vago mal-estar, propenso á melancolia e ao descontentamento politico. -Que a esse povo seja permittido pôr na cabeça um fresco chapéo de palha e -refrigerar o corpo com cheviotes claros, alegres e leves—e elle -respirará consolado, e tudo desde logo lhe parecerá aprazivel na vida e no -Estado.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="V_O_14_DE_JULHO-FESTAS_OFFICIAES-O_SIAO"></a>V. O 14 DE JULHO-FESTAS OFFICIAES-O SIÃO.</h4> - - -<p>Pariz está amuado com a Republica. E, para mostrar bem visivelmente -o seu despeito, não embandeirou, não illuminou, não dançou e não -berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com effeito, -um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais -descontente:—accrescendo que o sol tambem amuou e o horisonte todo -appareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas, -com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor -pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela -enthusiasmada rouquejava a <i>Marselheza.</i> As filas de <i>fiacres</i> -dormiam pelas esquinas. E o prestito do snr. Carnot e da revista de -Longchamps pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a -lentidão e a gravidade enfastiada de um enterro civico.</p> - -<p>Nem um <i>Vive Carnot!</i> Nem uma palma ao velho Saussier, governador -militar de Pariz, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Pariz -não applaude os pennachos—é que Pariz está realmente macambuzio.</p> - -<p>Uma tal taciturnidade, uma tal apathia não provém só dos parizienses -estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano -os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma -commissão para <i>desorganisar</i> a festa e promover uma melancolia de -protesto:—mas essas commissões só impediram luminarias que já estavam -decididas a não illuminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que -realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Pariz e a -França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ella nunca -foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe -estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:—e -onde quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura, -immediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas -espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como succede desde -os ultimos annos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo -dia, ha cem annos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada -da Bastilha enthusiasmar o povo? Querem dizer que ella era a summa e o -symbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo, -na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gosava a honra -de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma -classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A -essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez -d'isso, a aristocracia, n'essa data illustre, volta a face com tedio, -cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta -portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Pariz, as quatro -grossas torres onde pudesse ser sepultada <i>pro vita</i> ao bel-prazer -d'El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com -o dia que a libertou—porque se ha-de regosijar o povo de Pariz?</p> - - -<p>Além d'isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam -populares, nem duram, porque são horrivelmente ficticias. É o que succede -com os anniversarios de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda -vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janellas -alguns molhos de bandeiras, e lá se accendem algumas centenas de -lanternas, que fazem sahir á noite para a rua as famílias, a «gosar a -illuminação». Depois os annos passam, pouco a pouco se vae esquecendo o -facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as -lamparinas, já ninguem sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando -os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta -Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito -tristes, que se penduram no alto do Castello de S. Jorge. Já ninguem sabe -mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguem sabe que ha uma Carta -Constitucional.</p> - -<p>Festas nacionaes, festas para celebrar uma ideia ou um facto historico, -nunca causarão no povo enthusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo -não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza -<i>simplista</i>, só se move por sentimentos simples e individuaes, e assim -como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra -de individuos. Por isso, as unicas festas que profundamente animam o povo, -são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos -populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antonio, são -individuos que elle conhece, com quem conversa nas orações, com quem -convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem -recebe constantemente serviços e patrocinio. A vida d'esses santos, as -suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus -attributos, tudo lhe é familiar—e elles são como verdadeiras pessoas -de familia, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente -amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus annos», é com genuino -fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e -se accendem á noite luminarias, e se dança no terreiro, e se atiram -alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a -cidade;—e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se -celebra com carinho, na certeza que elle vê a festa, e se mistura a ella -do alto das nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da -terra. Mas se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fôsse imposto ao povo o -dever de celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de -Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma -luminaria, nem um foguete. E o povo diria com razão:—«S. João é um -amigo meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo -favores e que festejo com immenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei -onde é, e esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para -mim o preço de uma lamparina.»</p> - -<p>É o que succede com as festas nacionaes por acontecimentos publicos. -Pertencem muito ao dominio dos principios e aos movimentos sociaes para -que o povo, que é todo individualista, sinta por elles a menor migalha de -enthusiasmo ou carinho. Para que a Republica pudesse ter uma grande festa, -devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas ahi é que está a -difficuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.</p> - -<p>Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberaes-girondinos -protestariam com furor e haveria sangue.</p> - -<p>Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios -desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve -a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguem.</p> - -<p>Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.</p> - -<p>A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo -terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e fallando com azedume de -<i>casus belli.</i> Este latim, que significava outr'ora <i>caso de -guerra</i>, quer apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, -que dous amigos se zangam, se tratam de <i>pulhas</i> e <i>malcreados</i>, -se mostram mutuamente o punho, e mutuamente se voltam as costas.</p> - -<p>Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por -motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e -portanto muito appetecivel. Tem um rei bastante curioso, segundo se -deprehende da sua photographia, porque da cinta para cima anda vestido á -chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem, -participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas offerecem uma -architectura phantasista de magica—e estão armadas de canhões Krupp. -Além do seu rei, Sião possue toda a sorte de riquezas naturaes, em -plantações e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para -possuir. Se eu tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria -meu, e eu exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e -magnanimidade. Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A -Inglaterra tambem. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha annos -n'esses confins do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre -Sião. E não as censuro. Eu proprio, como disse, se possuisse exercitos e -frotas, teria já empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a -terra para nutrir o animal pensante—e por isso com bois se fazem -bifes. Os paizes orientaes são feitas para enriquecer os paizes -occidentaes—e por isso com os Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as -Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para -a França boas e pingues colonias. Eu sou civilisado, tu és -barbaro—logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois trabalha para -mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilisado. -Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, -uma philosophia e uma religião. Mas, como os povos orientaes têm uma -religião, uma philosophia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos -occidentaes, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado -é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens -canhões, nem couraçados, logo és barbaro, estás maduro para vassalo e eu -vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita -internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e -Abel.</p> - -<p>Em virtude, porém, d'um respeito innato pelas exterioridades (que data -da folha de vinha) os homens crearam ao lado d'este descarado direito -internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de -mesuras, e segundo o qual não é permittido a qualquer nação apoderar-se -d'outra com a simplicidade com que n'uma estrada uma creança colhe um -fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o -forte ataque e roube o fraco, é necessario ter um pretexto. Tal é o grande -progresso adquirido.</p> - -<p>Ora a França acaba de achar, com jubilo immenso, o pretexto para cahir -sobre Sião. O pretexto é multiplo e complicado: ha uma vaga questão de -fronteira n'uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo -um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou -que cahiu á agua; e ha uns siamezes que berraram <i>hu! hu!</i> Tudo isto -é gravissimo. Parece tambem (e isso infelizmente é doloroso) que houve em -tempos um negociante francez assassinado. E sobretudo succedeu que uns -officiaes siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da -França. Se não foram elles—foram seus paes, como disse o lobo ao -cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francez necessita, para sua -honra, vingar a affronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha duvida que -os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei -de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á -Luiz XV!</p> - - -<p>Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ella se -installára ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquelle -bello bocado do Oriente—e é a França, a nação entre todas rival, que -apanha o pretexto! É contra a França, não contra ella, que os siamezes -berraram <i>hu! hu!</i> É sobre a bandeira da França, não sobre a d'ella, -que os officiaes siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É -a França emfim que está na deliciosa posse d'estas affrontas, que saboreia -a preciosa felicidade de ser insultada—e que portanto tem o rendoso -direito de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada—e a -Inglaterra não a tolera. E já o declarou, através dos seus jornaes, -através do seu parlamento:—«Uma vez que n'esta occasião Sião não -pôde ser para mim, tambem não será para ti! Que a França faça o que julgar -necessario á sua honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na -independencia de Sião! A autonomia de Sião é cousa sagrada. O mundo, para -permanecer em equilibrio, precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião -(desde que não póde ser para a Inglaterra). E se a França attentar contra -a independencia de Sião, ás armas!» Eis o que diz, n'um dizer mais -diplomatico e solemne, aquelle excellente John Bull.</p> - -<p>E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um -pouco de minerio, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação -e da paz, se assanham, ladram, investem, como dous simples cães vadios -deante de um velho osso.</p> - -<p>O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações, -homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo peccado de gula, e, -deante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="VI_A_FRANCA_E_O_SIAO"></a>VI. A FRANÇA E O SIÃO.</h4> - - -<p>A França começou emfim a devorar Sião. Este ingenuo, amavel e polido -povo recebeu, ha quatro ou cinco dias, um <i>ultimatum</i> em que era -intimado a entregar, sem demora, á França uma immensa porção do seu -territorio e uma não pequena porção do seu dinheiro. Segundo a prudente -maneira dos orientaes, o Sião nem consentiu, nem recusou. Com aquella -mansidão e humildade, que tão propria é de buddhistas e de fatalistas, -replicou que não comprehendia bem as exigencias da França, que appetecia -a paz, e que por amor d'ella estava disposto a dar algum dinheiro, mas não -tanto, e a abandonar algum territorio, mas não tão vasto. Outr'ora, quando -os costumes internacionaes eram mais dôces e complacentes, e os povos -orientaes gosavam ainda (por menos conhecidos) d'uma feliz reputação de -lealdade, esta discreta resposta teria dado motivo a novas negociações, -novos telegrammas, infindaveis cavaqueiras de embaixadores.</p> - -<p>Hoje, as maneiras internacionaes são mais bruscas e rudes; os paizes do -Oriente têm uma deploravel fama de duplicidade e falsidade; e a França sem -se deter em mais explicações com o infeliz Sião, bloqueou-lhe as costas, e -fez marchar sobre as provincias do interior as suas tropas coloniaes da -Cochinchina.</p> - -<p>Perante estes actos, tão decididos, o furor dos inglezes tem sido -medonho. Mas é um furor unicamente de politicos, de jornalistas e de -commerciantes que tinham grandes negocios com o Sião. O povo, a massa do -povo, permanece indifferente. Não tem sentimento nenhum pelo Sião, não -acredita que elle seja indispensavel á felicidade da Inglaterra, não -percebe porque a Inglaterra cubice ainda mais terras no Oriente, e vê a -França cahir sobre o Sião sem que isso lhe irrite o patriotismo ou lhe -tome amarga a cerveja. Ora, em Inglaterra, que é uma verdadeira democracia, -quando o povo se desinteressa d'uma questão, os politicos e os jornalistas -têm tambem de a abandonar, porque ahi não se criam artificialmente -correntes de opinião; e o governo que provocasse um conflicto europeu, sem -se apoiar n'um forte enthusiasmo popular, não duraria mais que as rosas de -Malherbe, que, como todos sabem, duram apenas o espaço d'uma manhã.</p> - -<p>Não! não ha hoje já possibilidade que duas nações européas se batam por -causa de terras coloniaes. Os europeus só se movem por interesses ou -sentimentos europeus, e só por elles arrancam da espada.</p> - -<p>Para as questões de colonias lá estão os congressos e os tribunaes de -arbitragem. E uma senhora que ultimamente, n'um salão, considerava como a -cousa mais pueril e mais grotesca que duas nações tão elegantes como a -França e Inglaterra se batessem por causa de <i>bichos tão feios como os -siameses</i>—estabelecia, sem o saber, a verdadeira doutrina do -seculo. Quando a França, e a Inglaterra não vieram ás mãos por causa do -Egypto, que é a joia do mundo, a terra entre todas preciosa, pela qual se -têm dilacerado todos os povos desde o diluvio—não ha receio que -jámais duas nações da Europa quebrem a doce paz por causa de interesses -orientaes.</p> - -<p>De sorte que todas as declamações dos jornaes sobre guerra são um mero -desabafo de rhetorica heroica. E como não ha o menor perigo (e elles -perfeitamente o sabem) de se chegar á boa cutilada, não é desagradavel, -n'estes ociosos dias de verão, roncar d'alto, com o sobr'olho franzido, -e a mão nos copos do sabre. Assim se vae gastando, com arreganho, alguma -tinta—sem medo que se venha a gastar sangue.</p> - - -<p>Em todo o caso, n'estas rivalidades coloniaes entre a França e a -Inglaterra, eu penso que a Inglaterra tem, em principio, mais direitos. -Quando ella se apodera d'um d'esses desgraçados reinos d'Oriente (como a -Birmania, ha pouco) sabe ao menos como ha-de utilisar e valorisar a sua -conquista.</p> - -<p>Em primeiro logar, tem logo um numero illimitado de homens, energicos e -emprehendedores, que, ou sós, ou com as familias, embarcarão para ir -povoar, colonisar, cultivar, industrialisar, e por todos os modos explorar -a nova terra ingleza. Depois tem uma prodigiosa quantidade de productos -fabris para exportar para lá, e lá vender, sem concorrencia. Depois tem -uma collossal frota mercantil, para fazer com a nova possessão um -commercio activo e contínuo. E emfim tem uma formidavel frota de guerra -para defender a sua acquisição. A França, essa, não tem nada -d'isto—nem frota, nem productos, nem homens. Não tem sobretudo -homens, porque a população da França não chega mesmo para a França. Quando -ella se apossa violentamente de Tunis ou do Tonkin, o unico acto colonial -que depois pratica é remetter para a recente colonia alguns soldados e -muitos empregados publicos. A França faz conquistas para exportar -amanuenses. No Tonkin, por exemplo, ella possue, no solo, occultas riquezas -maravilhosas; mas não tem colonos que as vão explorar. A expansão colonial -da França não dá assim lucro nenhum, ou alargamento á civilisação geral. -Apenas promove, através dos mares, uma deslocação de amanuenses -aborrecidos e enjoados. Ao contrario, cada palmo de chão, que a Inglaterra -occupa, entra no movimento universal da industria e do commercio.</p> - -<p>A Inglaterra tem virilidade colonial e a França só impotencia. Quando -um homem novo, robusto, activo, penetra numa aldeia e rouba uma linda -rapariga, commette de certo um acto escandaloso, e que todos devem -condemnar com severidade. Mas esse valente homem tem uma justificação, -um motivo que se comprehende (e com que mesmo se sympathisa): e se, d'esse -enlace, lamentavelmente illegitimo, nascerem filhos sãos, fortes, activos, -ha alli um positivo lucro para a humanidade e para a civilisação. Quando, -porém, é um velho de oitenta annos, regelado, cachetico e a babar-se, que -penetra na aldeia e rouba a linda moça, estamos então deante de um -escandalo que não tem justificação possivel. É um escandalo -ignominiosamente esteril. Nada lucra com elle a humanidade, nem o velho. E -só podemos cruzar os braços com espanto e indignação, e exclamar: «Para -que quer aquelle velho aquella moça?»</p> - -<p>E é o que exclamamos agora, tambem, cruzando os braços: «Para que quer -esta França este Sião?»</p> - - -<p>Eu tenho um amigo que esteve n'esse pobre Sião, hospedado pelo rei, no -palacio, e conta detalhes bem pittorescos.</p> - -<p>Todo o reino de Sião pertence ao rei, tão completamente como ahi uma -fazenda de café pertence ao fazendeiro. O rei é o dono do solo, dos -edificios, dos habitantes e da riqueza dos habitantes. Póde, querendo, -doar, hypothecar, trocar ou vender o reino com tudo o que está dentro das -fronteiras.</p> - -<p>É uma posse agradavel. O povo, por seu lado, considera o rei não só -como seu dono, mas como seu deus. E a formula religiosa (como se -dissessemos o artigo da Constituição) que define as relações e deveres -entre povo e rei é esta: «<i>Do rei o povo recebe a vida, o movimento e o -sêr</i>».</p> - -<p>O rei tem um nome immenso, chama-se Prabat-Tomedetch-Pra-Parammdir, -etc., etc., etc. Todo elle não caberia em cincoenta linhas. E de cada vez -que se falla ao rei (só os nobres gosam esse privilegio) é da etiqueta -invocal-o com o nome todo.</p> - -<p>Uma conversa com Sua Magestade dura, assim, longas e longas horas, por -causa do nome. De facto a mais laboriosa e pesada occupação da -corte é pronunciar o nome d'el-rei.</p> - -<p>Pessoalmente, o rei é um homem excellente, cultivado, affavel, -gracejador, bondoso. É mesmo bonito, para siamez.</p> - -<p>E as suas maneiras têm nobreza. O que a estraga é o seu illimitado -poder, a sua posição de divindade, e a prodigiosa, inverosimil adulação -que o cerca. Assim é uma regra (e cumprida com fervor) que todo o siamez -que tem uma filha bonita a dê de presente ao rei. As suas concubinas -officiaes excedem em numero as de Salomão. São aos milhares. E o rei, -apesar de novo, de não contar ainda quarenta annos, já tem cento e oitenta -e tantos filhos! Tudo isto, esposas e filhos, vive no palacio, que -offerece as proporções de uma vasta cidade. Ha ruas inteiras de esposas! -Ha bairros inteiros de filhos! Toda esta immensa familia vive com um luxo -immenso, e o rei, apesar de dispôr de todas as riquezas do Sião como suas, -está horrivelmente endividado em Londres. Ás vezes, porém, elle proprio -procura fazer economias: e foi assim que, no momento em que o meu amigo -estava no Sião, el-rei deu ordens para que, por economia, se não ferrassem -mais os cavallos da cavallaria. Havia cem cavalleiros, eram cem ferraduras -poupadas. Eis aqui um traço bem siamez!</p> - -<p>O rei nunca sáe do palacio, não conhece o seu reino, mal conhece a sua -capital, que é Bangkok. Quando por acaso dá um passeio, é uma grande -festa, uma grande gala. As ruas são aplainadas e areadas; pintam-se as -casas de fresco; os canaes (porque Bangkok assemelha-se a Veneza) levam -uma rapida limpeza; toda a população se lava, se alinda, se cobre de -joias; e para que não chova celebram-se preces nos templos. Depois o rei -recolhe, e por muitos e muitos mezes, Bangkok recahe no usual desleixo e -porcaria. Só no palacio ha aceio. De resto, o palacio é que é a nação.</p> - - -<p>Mas basta de Sião! A culpa é de Pariz que não se quer occupar senão -d'este remoto reino, cuja existencia elle, ainda ha oito dias, ignorava. -Porque o francez, e sobretudo o pariziense, continua a ser aquelle que -Goethe descreveu—«um individuo de muitos cumprimentos, que não sabe -geographia.» É talvez mesmo para ensinar geographia ao povo francez que o -seu governo emprehende conquistas. Para que, fóra da Europa, elle conheça -uma nação, o governo préviamente faz d'ella uma colonia.</p> - -<p>Assim se irá alargando a instrucção geographica em França. E, com as -acquisições coloniaes feitas n'este seculo, já o francez, quando se lhe -perguntar quantas são as partes do mundo, poderá (o que outr'ora não -podia) responder com um saber exacto e forte:</p> - -<p>—Cinco: A Europa, a Algeria, Tunis, o Tonkin, o Sião!</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="VII_A_QUESTAO_BULOZ-A_REVISTA_DOS_DOUS_MUNDOS-PARIZ_NO_VERAO"></a>VII. A QUESTÃO BULOZ-A «REVISTA DOS DOUS MUNDOS»-PARIZ NO VERÃO.</h4> - - -<p>Por fim o Sião cedeu:—e, muito avisadamente, para evitar a -immensa maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para -um oriental d'habitos dôces e languidos), para evitar tambem a horrivel -séca de ser vencido, e talvez desthronado, o rei de Sião entregou á -França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as provincias que -ella reclamava para «vingar a sua honra.»</p> - -<p>Póde pois esse excellente e ameno monarcha continuar placidamente a -educar nas ideias da civilisação occidental (de que elle acaba de ter uma -tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião -desapparece das preoccupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se -desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a -humanidade, como o caso do snr. Buloz.</p> - -<p>Não sei se conhecem ahi a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda. -Basta ver como diariamente os jornaes a retomam, a sondam em todos os seus -escaninhos, lhe annunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem -depender d'ella os destinos das boas lettras francezas. Não ha ninguem que -não conheça Buloz. Pelo menos ninguem deve ignorar o seu nome n'esses -<i>dous mundos</i> que elle, todos os quinze dias, esclarece, educa e -entretem, por meio da sua illustre e famosa <i>Revista.</i> Porque é -d'elle que se trata, de Buloz, do unico Buloz, de Buloz director da -<i>Revista dos Dous Mundos!</i></p> - -<p>Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum -havia então que nós pronunciassemos com mais alegre horror—porque -elle representava, para o nosso grupo revolucionario e enthusiasta das -fórmas novas e audazes, tudo quanto na litteratura havia de mais -conservador e burguez. Toda aquella sua séria e ponderosa <i>Revista dos -Dous Mundos</i> nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a -lettras mortas.</p> - -<p>E escrever na <i>Revista</i>, pertencer á <i>Revista</i> era para nós -uma maneira especial de ser fossil.</p> - -<p>Quantas alcunhas pittorescas postas a essa magestosa <i>Revista!</i> -Quantas phantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de -embrutecer! Um amigo nosso compuzera um conto em que o heroe, trahido -n'um amor sincero, e appetecendo a morte, escolhia, em vez d'um frasco de -laudano, um numero da <i>Revista dos Dous Mundos</i>:—e ao chegar -ás ultimas paginas, á «Chronica da Politica Estrangeira», mergulhava com -effeito no somno eterno. Ainda me lembro d'uma definição da -<i>Revista</i>, dada por um de nós:—«Uma publicação côr de tijolo, -que tem dous leitores no Havre!»</p> - -<p>Tudo isto era excessivo e injusto. A <i>Revista</i>, de facto, tinha -leitores por todo o mundo:—e, como se sabe, e já tem sido dito, -<i>Todo-o-Mundo</i> é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. -Com os seus trinta annos de valente existencia, ella era já então uma larga -e fecunda remexedora de ideias e de factos:—e não houvera de resto -nenhum grande francez, desde Alfred de Musset, que não tivesse commettido -esse acto, para nós tão vergonhoso: «escrever na <i>Revista</i>». Todos -tinham escripto—mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a -desarmar do nosso rancor, quando ella publicou versos dos dous grandes -idolos d'essa geração—Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que -os versos de Beaudelaire, tirados das <i>Flores do Mal</i>, apresentou-os -ao publico, por assim dizer, na ponta de tenazes, e com immensas -precauções sanitarias. Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, -toda enojada, em que ella repellia qualquer solidariedade com semelhante -infecção, e jurava que só a exhibia como uma lição moral, para mostrar a -que excessos e a que desordens póde rolar a litteratura, quando sacode -audazmente a salutar disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, -publicava Beaudelaire (mesmo alguns dos versos mais temerarios)—e -esta concessão, este começo de homenagem prestada ao Satanismo (o -Satanismo era então uma escola, e todos nós nos consideravamos Satanicos) -adoçou um pouco as nossas relações intellectuaes com a <i>Revista.</i> -Modificámos mesmo a definição irrespeitosa. Era então uma «publicação côr -de salmão, que tinha já dous leitores no inferno!»</p> - -<p>Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não -vejo a <i>Revista dos Dous Mundos</i> sem um sentimento vago e inexplicavel -de tédio. Sei perfeitamente que ella é cheia de bom senso e de saber -especial, possue uma lingua sobria e pura, tem muita elegancia e finura -academica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte -originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave -matrona, pesada, rica, bem collocada no mundo, cujos labios descorados, -faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está -absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivencia -com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens -sociaes; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do <i>Quarter Latin.</i> -É talvez para fingir a mim proprio que ainda sou moço.</p> - - -<p>Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o -snr. Buloz e, com elle, a pudibunda <i>Revista dos Dous Mundos</i> se -achavam envolvidos n'um escandalo de amores e de intrigas. O quê! Ella, a -<i>Revista</i>, que com tão austera altivez denunciara durante tantos annos -Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, n'uma -aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o proprio Buloz, que fazia uma tão -severa policia dentro da sua <i>Revista</i>, que esquadrinhava todos os -romances com terror de que lá estalasse n'algum canto algum beijo mais -voraz, que perseguia rancorosamente, com a ferula da honestidade, e em -nome do «pudor domestico», toda a litteratura de observação, sincera e -livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e -illegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que -frei Thomaz prega e o que frei Thomaz faz, me parecia divertido.</p> - -<p>Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excellente Buloz -e a excellente <i>Revista.</i> Porque não havia aqui realmente um -romance d'esses que o proprio Buloz condemnava sombriamente como -«infectos»—mas um roubo, um longo e abjecto roubo, organisado -contra Buloz, e portanto contra a <i>Revista</i> de que elle é a -encarnação viva—por dous d'esses horriveis personagens a que Balzac -chamava impropriamente os <i>tubarões de Pariz.</i> Tubarões, sim, no -sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á cata da presa. Mas -isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Pariz.</p> - -<p>Os tubarões, porém, e é essa a sua feição caracteristica, engolem -indifferentemente e com egual appetite uma velha garrafa vazia, ou uma -gorda e succulenta pescada; e estes tubarões de Pariz, de que falla -Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremettem contra ella, -quando ella é tão succulenta e gorda como Buloz.</p> - -<p>O caso, tal como transparece, atravez de tantas versões e mesmo de -tantas ficções, é lamentavel. Buloz ha annos, no meio do caminho da sua -vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de -contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma -fulana qualquer, que nem ao menos tinha belleza justificativa. Mas, quando -se tem vivido, durante vinte annos, dentro da <i>Revista dos Dous -Mundos</i>, toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma -visão de alto esplendor. Buloz, apesar de director de revista, era homem e -sensivel. Teve n'uma hora nefasta (talvez entre dous artigos de Charles de -Mazade!) uma d'aquellas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, -nenhuma alma, nem mesmo robustecida na constante convivencia dos Broglie -e dos Remusat, evita ou vence.</p> - -<p>Buloz cedeu—ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora -pretende, em confidencias que fez a um reporter do <i>Gaulois</i>, que «foi -uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo elle -passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda -a mourama. Pagou, naturalissimamente, as <i>toilettes</i> da menina e da -familia da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade; -e para a tornar mais respeitavel, e robustecer a sua posição na sociedade, -deu um dote e um marido á menina.</p> - -<p>Educado no idealismo incorrigivel dos romances da <i>Revista</i>, -imaginava Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para -sempre o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, -e sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o -marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem -de revelarem a sua «infamia de seductor» a Mme Buloz e á <i>Revista dos -Dous Mundos</i>, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia -uma cidade conquistada.</p> - -<p>Ao principio com methodo, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez, -os dous bandidos apresentavam a conta do seu silencio—e Buloz pagava -pontualmente o silencio dos dous bandidos. Depois as exigencias foram mais -urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominavel par queria -reunir rapidamente uma fortuna—e cada dia, agora, ás vezes mesmo -duas vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas sommas a pagar. E -pagava—para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a -sua situação social de director grave de uma revista grave. Estava quasi -arruinado—e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario, -fartos das pequenas sommas «que não luzem», queriam a grossa -somma—e, com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a -assignar uma lettra promissoria de perto de <i>setecentos mil -francos.</i></p> - -<p>Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!</p> - -<p>Segundo elle affirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece, -os dous bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido -respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam -contra as queixas de Buloz—influencias pagas talvez com o dinheiro -sacado a Buloz. Alliança de «tubarões»—como diria Balzac. O facto é -que a policia se conservou n'uma magistral indifferença. Então, -estonteado, desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á -sua <i>Revista.</i> Immediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou -do seu marido, e a <i>Revista dos Dous Mundos</i> se separou do seu -director. E o grosso escandalo domestico e litterario estalou sobre -Pariz.</p> - -<p>Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a -<i>Revista dos Dous Mundos?</i> Era esta, durante semanas, a interrogação -anciosa de Pariz, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe -de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou—e cruel.</p> - -<p>Uma sentença do tribunal dos divorcios pronunciou seccamente o divorcio -entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos accionistas da <i>Revista</i> -pronunciou egualmente divorcio entre a casta <i>Revista dos Dous -Mundos</i> e o seu galante director Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, -perde a sua mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente -roubado, durante annos, por dous odiosos bandidos. Esses é que não -perderam nada, os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque -durante todo o escandalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á -maneira de nomes sagrados. Tal é Pariz.</p> - -<p>Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissivel fazer commentarios. -Mas a resolução dos accionistas da <i>Revista</i> parece-me excessivamente -austera e illogica.</p> - -<p>Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções -exactas sobre as realidades da vida—e o seu peculio de conhecimentos -sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois, -mais que nunca, nas condições experimentaes de dirigir uma revista, -sobretudo aquella secção de revista de que elle com mais particular amor -se occupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre -enredos, caracteres tortuosos de heroinas e miserias finaes de todo o -sentimento teria valor e auctoridade. E agora justamente é que o afastam -d'essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas -desventuras o tinham, emfim, tornado idoneo! Ha aqui evidentemente um erro -de criterio, além de uma falta de misericordia.</p> - -<p>Em todo o caso, assim acaba na <i>Revista dos Dous Mundos</i> a grande -dynastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz -I, o fundador, se soubesse que a sua raça fôra desthronada da -<i>Revista</i> por um escandalo de coração? Tal é a ironia das cousas! A -mais austera, solemne, pudica, de todas as publicações européas, tendo -chegado aos sessenta annos, sem que nunca uma realidade ardente das cousas -d'amor houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do -seu director, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em -alcovas illegitimas! <i>Habent sua fata Revistœ.</i></p> - -<p>Pariz fugiu de Pariz. Com este calor de phenomeno, (40 graus á sombra) -em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o -simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, n'um verdadeiro -exodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil -hebreus, e d'aqui, segundo affirmam os jornaes, abalaram hontem, em -centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.</p> - -<p>Só ficaram os empregados publicos. E ainda assim, havia ha dias uma -administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao -contínuo, se achavam no campo ou no mar.</p> - -<p>Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por -dedicação civica.</p> - -<p>Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem -arquejante. Toda a folhagem das arvores seccou.</p> - -<p>Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um -guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se -attestou de cerveja para outro café onde se vae innundar de limonada. Os -cavallos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornaes já se pensa -em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas -defumadas.</p> - -<p>Todavia Londres está mais ardente. Ahi o calor produz quasi uma crise -nos costumes. Hontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na -Camara dos Communs, em mangas de camisa.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="VIII_AS_ELEICOES-A_ITALIA_E_A_FRANCA"></a>VIII. AS ELEIÇÕES-A ITALIA E A FRANÇA.</h4> - - -<p>As eleições em França, celebradas no ultimo domingo, foram talvez o -mais solido e completo triumpho que a democracia tem obtido n'estes vinte -annos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa -affirmação.</p> - -<p>N'essa abrazada manhã de missa, com effeito, o suffragio universal -consultado (esse suffragio universal que ainda ha pouco, em departamentos -remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido, -condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do -imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação -Nacional todos aquelles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido -como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavallariças -de Augias:—e assim os que, durante a legislatura passada, se -ergueram, na tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e -financeira, como Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em -todos os circulos, com um enthusiasmo esmagador e jovial.</p> - -<p>Feita esta primeira eliminação, o suffragio universal passou a riscar -cuidadosamente do parlamento todos os politicos profissionaes e -militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa, -só diluidora e desmanchadora, occupada apaixonadamente, e com uma arte -subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministerios.</p> - -<p>E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com -unanimidades triumphaes, estão, senão já derrotados, pelo menos -humilhantemente empatados, e prestes no proximo domingo a voltar áquella -occupação tão justamente louvada pela sapiencia antiga, e que consiste em -cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.</p> - -<p>Terminada esta segunda limpeza, o suffragio universal passou a expulsar -da representação nacional todos os ideologos, todos aquelles que procuram -fazer a remodelação das fórmas sociaes por meio de uma revolução nas -ideias moraes. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavalleiro -andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua patria -espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de annunciar aos -eleitores o proximo advento do céu sobre a terra, lhes promette, muito -comesinhamente, uma reforma do imposto rural.</p> - -<p>Realisada esta terceira expurgação, o suffragio universal passou a banir -das camaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres -inspiradores da oratoria. <i>Basta de lyra!</i> gritavam em 1848 os -operarios famintos a Lamartine, uma tarde em que elle, na cadeira do Hotel -de Ville, estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e -agricola repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lyra! Abaixo a -eloquencia! Fóra a rethorica e a sua rijada ardente!</p> - -<p>E assim todos os grandes oradores contemporaneos da tribuna franceza -ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso unico na -historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquencia como factor -do seu progresso.</p> - -<p>Tendo realisado estas successivas depurações, e repellido para longe, -para os seus elementos naturaes, os Catões, os obstructores, os ideologos -e os artistas, o suffragio universal passou a eleger com cuidado e amor -uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda -experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionaes, -capaz de trabalhar quatorze horas nas commissões, e feita á imagem e para -o util serviço d'esta França nova, que é simultaneamente um banco, um -armazem e uma fazenda. Depois o suffragio universal descançou—e viu -que a sua obra era boa.</p> - -<p>Com effeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as -superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intellectual -da camara (e a egualdade deve ser o cuidado summo de toda a democracia) -foram eliminadas com aquella decidida franqueza com que o bom Tarquinio -outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpureas e brilhantes das -papoulas mais altas.</p> - -<p>Na camara não haverá senão espiritos medios e planos—e toda ella -será realmente como uma longa planicie, productiva e chata, sem uma -eminencia, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao -vento ou torre airosa d'onde vôem aves.</p> - -<p>Depois todos os moralistas de moralidade rigida, e quasi abstracta, -foram supprimidos como incompativeis com a realidade social, com os -costumes financeiros d'uma democracia industrial, com o regular e fecundo -funccionamento dos negocios. O suffragio universal entendeu que, para -bem da democracia, de que elle é o motor inicial, o logar d'estes homens, -desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de -um parlamento, mas nas cellas de um mosteiro, ou no deserto entre os -santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.</p> - -<p>Depois todos os ideologos, os philosophos, os homens de altos systemas -sociaes, que constantemente tentam introduzir nas cousas publicas Deus, -a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são -inteiramente estranhas e prejudiciaes, foram escorraçados como -perturbadores impertinentes da boa ordem democratica, onde as massas -disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta, -se devem occupar unicamente de produzir bem e de vender bem.</p> - -<p>E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este -suffragio universal e segundo o prudente preceito de Platão, -ignominiosamente expulsos da Republica.</p> - -<p>Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de -democracia. E por isso os jornaes affirmam que a França purificada emfim, -e livre dos elementos morbidos que a agitavam e debilitavam, vae entrar -n'um periodo ditoso de estabilidade e de força fecunda. <i>Amen.</i></p> - -<p>Emquanto o suffragio universal estava assim tonificando a Republica, um -conflicto entre operarios francezes e italianos, n'um departamento do sul -(em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica -que nacional, que ha annos vem crescendo entre a Italia e a França.</p> - -<p>Foi a antiga historia dos salarios. O italiano emigra para a França, -como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difficil na -Italia que, aparte um bocado succulento da Sicilia, e um pingue bocado da -Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser d'uma raça mais sobria, ou -d'uma raça mais indigente, o italiano acceita salarios muito inferiores -aos do operario francez. Como ao mesmo tempo tem muita intelligencia e -muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,—porque o -capital é cosmopolita. D'aqui despeito, rancor do operario francez, -ameaçado no seu pão—e constantes rixas, em que o italiano, -naturalmente, puxa a faca, essa faca meridional que enche de horror e de -asco os povos do norte.</p> - -<p>Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentavel de que -um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham -refugiado n'uma malta, foram ahi perseguidos pelos francezes, monteados -como lobos, e dizimados a tiro, um a um.</p> - -<p>Indignação immensa em toda a Italia. Manifestações em Roma, em Genova, -em Napoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da -França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de <i>Morra o -francez!</i> acompanhado agora, para maior offensa, do grito novo de -<i>Viva a Allemanha!</i></p> - -<p>Os francezes ainda podem tolerar magnanimamente que a Italia, que elles -consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu -sangue, berre: <i>Abaixo a França!</i> Ha ahi apenas, para elles, -esquecimento e ingratidão. Mas não podem supportar que a Italia grite: -<i>Viva a Allemanha!</i> Ahi já ha um desafio, e como que uma affronta á -dignidade da nação. De sorte que se os italianos assassinados em França -indignaram a Italia—a indignação da Italia, sob esta fórma obliqua e -quasi ironica de enthusiasmo pela Allemanha, indignou muito mais -profundamente a França. E as duas nações estavam já assim, ha duas -semanas, em face uma da outra, quietas, mas penetradas de mutua -hostilidade, tanto maior da parte da França quanto tem de ser, por -prudencia, silenciosa. Mas eis que agora, n'estes ultimos dias, a Italia -praticou, para com o sentimento francez, um outro e supremo ultraje.</p> - -<p>O imperador da Allemanha vem este anno dirigir as grandes manobras -militares nas provincias francezas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem -acompanha o imperador da Allemanha, como seu hospede e alliado? O principe -real de Italia. Ora, para os francezes, esta presença do principe italiano -na terra alsaciana é uma offensa monstruosa. E é realmente uma -offensa?</p> - -<p>Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difficil criticar. -Em boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geographicamente e -administrativamente, provincias allemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo: -e não parece que, no facto do principe da Italia ir a Strasburgo, haja -maior injuria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além d'isso, a sua presença -não vae consagrar a conquista que é um facto consummado ha mais de vinte -annos, e não precisa consagração. Accresce ainda que o imperador da -Allemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio: -e o principe de Italia não está, portanto, collaborando tacitamente n'uma -provocação allemã. Depois elle foi solemnemente convidado a assistir ás -manobras allemãs, que se realisam por acaso nas provincias annexadas: e se -o <i>acceitar</i> um convite para essa região é offender a França, o -<i>recusar</i> o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a -Allemanha. Tudo isto é indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não -se raciocina, quando ferido. Para os francezes, a Alsacia e a Lorena são -duas terras francezas que gemem sob a oppressão. E o facto do principe de -Italia vir caracolar sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do -oppressor, é, para os francezes, uma affronta incomparavel. De sorte que -uma reconciliação entre a França e a Italia é hoje quasi impossivel, tanto -mais que ás questões de politica se juntam questões de dinheiro (sempre -irritantes) e a estas ainda uma outra questão sentimental de gratidão, -mais irritante que a de pecunia.</p> - -<p>Com effeito, a França pretende que a Italia esteja para com ella n'um -perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigencia da França -tem o condão de enervar a Italia—de a enervar até ao desespero. É um -facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou n'uma -das suas comedias geniaes) que o libertado sente sempre um secreto tedio -pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente -cita, lembra e celebra o beneficio da libertação—não é tedio então, -é intenso e vivo odio que o libertado começa a nutrir pelo heroe que o -libertou. É bem natural—porque o fraco não póde esquecer que o apoio -trazido pelo forte foi uma demonstração publica e apparatosa da sua -fraqueza. Todos aquelles que Hercules outr'ora veiu salvar, com grande -alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.</p> - -<p>Ora a Italia realmente tem sido libertada de mais pela França, desde -Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram -horrendamente caras, além de algumas d'ellas lhe serem desoladoramente -inuteis.</p> - -<p>A de Nápoles I quasi a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III, -que concorreu effectivamente para fazer o reino de Italia, voltou de lá -bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além d'isso a França -tomou o habito arrogante e humilhador de affirmar que ella e só ella creou -o reino da Italia, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando -realmente a Italia pretende, e com razão, que ella sobretudo concorreu -grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas -armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado. -N'estas condições, é facil comprehender a irritação dos italianos quando -os francezes os accusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a -Italia hoje é uma nação é porque assim o quiz a França na sua -magnanimidade.</p> - - -<p>Tudo isto vae levando a uma guerra. E é uma dôr que duas nações como a -Italia e a França se venham a dilacerar. Ha ahi o que quer que seja de -semelhante a um parricidio. A Italia, é certo, nos seus velhos dias, tem -sido ajudada:—mas foi ella, na sua soberba mocidade, que nos fez a -nós todos, povos da Europa Occidental, e nos civilisou e nos modelou á sua -imagem. Ella é e permanecerá a <i>Italia-mater</i>, a mãe veneravel das -nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e -intellectualmente, provincias de Roma. Quando a sua tutella politica -findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutella -espiritual. Ainda não ha duzentos annos que, como derradeiro presente, -ella nos deu a musica.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="IX_ALLIANÇA_FRANCO_RUSSA"></a>IX. ALLIANÇA FRANCO-RUSSA.</h4> - - -<p>N'este momento o Brazil só muito justamente se interessa pelo -Brazil:—e, se pudesse dar ainda aos echos da Europa uma attenção -apressada, seria de certo áquelles que lhe levassem a impressão da Europa -ou pelo menos de Pariz, que é um resumo da Europa, sobre a lucta que a -elle tão tumultuosamente o perturba.</p> - -<p>Mas Pariz, apesar de alardear sempre a sua generosidade messianica e o -seu amor dos povos, é uma cidade burguezmente egoista, que só se commove -com o que se passa dentro da linha dos boulevards—quando muito, -dentro do recinto das fortificações.</p> - -<p>Além d'isso, as noticias do Brazil chegam tão truncadas, tão vagas, tão -discordantes, que nem sabemos ainda se são simplesmente pessoas, se -verdadeiramente principios que ahi se combatem: e esta incerteza esbate, -se não impede totalmente a emoção.</p> - -<p>Depois ainda, as nações, á maneira que aperfeiçoam as suas formas de -civilisação, requintam no sentimento de neutralidade, que é a suprema -polidez das nações. De sorte que, n'esta duvida e n'esta reserva, tudo -quanto a Europa agora póde sentir pelo Brazil é o desejo forte de que o -patriotismo ahi alumie as almas e que Deus torne bem viva essa luz.</p> - - -<p>De resto, a Europa não está tambem estendida sobre rosas festivas. Pelo -contrario: cada pobre nação soffre dolorosamente da sua chaga ou da sua -febre. O velho mundo é um verdadeiro hospicio, onde o ar viciado pelas -theorias se tornou mortifero. Paizes que ainda não têm trinta annos, como -a Italia, que todos nós vimos nascer e baptisar, estão invalidos. Mesmo -os mais ricos e os mais fortes padecem por motivo da sua propria riqueza, -que é uma origem constante de revoluções sociaes, e por motivo ainda da -sua força, que faz pesar sobre elles a perenne e arruinadora ameaça da -guerra. Por toda a parte <i>grèves</i>, e sangrentas; por toda a parte ruinas -causadas pelos appetites materiaes ou pelos idealismos politicos. Em -Hespanha não se passa um dia sem uma revolta regional ou municipal. Até a -Hollanda, tão tradicionalmente pachorrenta, alimentada a queijo e leite, -envolta em nevoas emollientes, se tornou uma fornalha de anarchismo. E a -unica nação que realmente mostra equilibrio e saude é a Suissa, não por -ser uma republica (não parece haver salubridade segura n'esse regimen) -mas talvez por se ter desinteressado de todas as theorias e de todos os -ideaes, e ter adaptado, no alto dos seus montes, a occupação entre todas -pacata e hygienica de dona de hospedaria.</p> - -<p>Apesar desde estado morbido, a Europa todavia ainda se diverte:—e -aqui temos a França ha um mez, organisando ardentemente, quasi -convulsamente, uma festa suprema e sumptuosa. A Russia, ou antes o Czar -(porque o Czar é que é verdadeiramente a Russia, e todos os jornaes de -Pariz, mesmo os mais revolucionarios e os que mais zelam a soberania -popular, aconselham que se grite, não Viva a Russia! mas Viva o Czar!) -manda este mez a sua esquadra do Mediterraneo a Toulon a pagar aquella -respeitosa visita que ha um anno a esquadra franceza fez á Russia, quero -dizer ao Czar. E a França toda, desde Pariz até ás minusculas aldeias que -quasi não têm nome, procura realisar uma demonstração de amizade pela -Russia, tão ardente e estridente que fique historica e que marque mesmo o -começo d'uma nova éra historica.</p> - -<p>Com effeito, esses quatro ou cinco couraçados russos, que vêm ancorar -no porto de Toulon, criam quasi uma transformação na politica da Europa. -Desde 1870, e ainda até ha um ou dous annos, a França estava n'uma d'essas -situações que, pelo contraste violento do merito e da sorte, são tão -particularmente penosas a uma nação altiva.</p> - -<p>Fidalga entre todas, com pergaminhos historicos de incomparavel nobreza -(outr'ora Deus, quando queria realisar no mundo um grande feito, -encarregava d'elle os francos—<i>gesta Dei per Francos</i>), a -França estava, na Europa, entre as velhas monarchias aristocraticas, com o -ar embaraçado de uma mercieira entre duquezas! Guerreira entre todas, -poderosamente armada, com tres milhões de soldados facilmente -mobilisaveis, a França estava entre as grandes potencias militares com o -ar inquieto e timorato de um fraco entre valentões! Situação absurda mas -logica, porque era republicana e fôra vencida. As antigas casas reinantes -viam o seu republicanismo com desconfiança, senão com desdem. E a sua -derrota, e o isolamento que ella lhe trouxera, auctorisavam os chefes de -guerra a terem por vezes para com esta nação forte, e apesar da sua força, -ares fanfarrões e provocantes que a enervavam. A França realmente estava -sempre na possibilidade de ser desdenhada ou brutalisada. Com todos os -seus pergaminhos, que datam de Clovis, com os seus tres milhões de -soldados, politicamente, na Europa, ella estava de fóra, á porta. E só se -desforrava d'esta humilhação por aquella sua outra influencia, que é -inobscurecivel e invencivel, a da litteratura e da arte.</p> - -<p>Para que tal situação mudasse era necessario que uma grande nação amiga, -uma potencia militar e aristocratica a viesse buscar á porta, a levasse -pela mão para dentro do concilio das nações, a proclamasse, apesar de -republicana, como sua semelhante e sua irmã, e, pondo fim á sua solidão -politica, a salvaguardasse para sempre de ameaças e provocações bruscas. -E esta nação fraternal foi a Russia. O Czar não veiu pessoalmente a Pariz, -como viria, talvez, se a França tivesse um rei. Mas vem moralmente, -mandando uma frota, que é como uma embaixada de alliança. Durante dez ou -doze dias, a França e a Russia, a grande Republica e a grande Autocracia, -vão juntar deante da Europa as suas bandeiras, e, pelo impulso sentimental -de todas as multidões, as suas almas. E desde esse momento não só a -França, como Republica, recebe o reconhecimento supremo, o ultimo que lhe -faltava, o de uma alliança monarchica tão real e natural como se Mr. -Carnot fôsse um Rei de Direito Divino—mas ao mesmo tempo a França, -como França, recebe ao lado da sua propria força o addicionamento de uma -força irmã que a torna invencivel. De sorte que a visita do almirante -Avelane abre realmente um novo e interessante capitulo de Historia.</p> - -<p>Ha aqui, em resumo, o quer que seja de parecido (salvas, meu Deus, as -proporções!) com o caso do corretor de Hamburgo e do velho Rothschild. -Não sei se conhecem a anecdota, que é classica. Um certo corretor de -Hamburgo, apesar da sua honestidade, da sua intelligencia e mesmo de um -começo de fortuna, não conseguia vencer na Bolsa uma vaga hostilidade que -o envolvia, misturada de desdem; e não lograva portanto arredondar o seu -milhão. Parece que o homem casára deploravelmente com uma lavadeira e, -ainda em relação com esse erro sentimental, recebera bengaladas em um caes -de Hamburgo. D'ahi a sua situação de pestifero. Um dia, porém, este -corretor, feliz ou habil, appareceu na Bolsa de braço dado com o velho -Rothschild, o primitivo chefe da casa immensa. E durante uma hora, a de -maior affluencia e publicidade, o corretor desprezado e o banqueiro -venerado passearam por entre os grupos, conversando, com as mangas das -casacas bem colladas e bem intimas. Para quem conhece os homens é inutil -accrescentar que, desde essa manhã, o corretor foi cercado de uma -consideração ardente, viu a sua dôce lavadeira convidada para as festas -civicas e arredondou obesamente o seu milhão. Era o amigo de Rothschild! -E quem é visto na intimidade de um poderoso, possue desde logo no mundo -uma parte do poder.</p> - -<p>A differença aqui está em que o corretor de Hamburgo não experimentava -nenhum prazer real e material era sentir a sua manga roçar carinhosamente -a manga (de certo gasta e sebacea) do velho Rothschild. Todo o seu prazer, -como todo o seu interesse, estava em que os outros corretores e os -negociantes espalhados pelo peristylo da Bolsa vissem, durante toda uma -manhã, as duas mangas bem juntas e bem casadas.</p> - -<p>A França pelo contrario sente um prazer intrinseco e genuino em abraçar -triumphalmente o honesto, e bom, e forte Czar. De certo lhe é grandemente -grato que toda a Europa, e sobretudo a Allemanha, veja a estreiteza e a -vehemencia do abraço:—e por isso o quer bem demorado, alumiado por -todos os lados a fogos de Bengala, e destacando ricamente n'um fulgor de -apotheose!</p> - -<p>Mas a França é uma franceza—com todas as suas graças de -sensibilidade e de sociabilidade, e com o coração sempre prompto a bater -perante uma homenagem que seja simultaneamente fina e natural. O -acolhimento solene e carinhoso que o Czar fez no anno passado, com grande -surpreza da Europa, á esquadra franceza do Norte, enterneceu a França, de -todo a conquistou, e a França, que é uma franceza, está hoje namorada de -Alexandre III.</p> - -<p>Quando os jornaes de Pariz o proclamam agora um justo, quasi um santo, -escrevem, não com o seu interesse, mas candidamente e com a sua emoção. -Elle é o guerreiro forte que inesperadamente abriu os braços fortes á -França abandonada, e lhe disse a dôce palavra que ella ha muito não -ouvira: «Sê minha irmã e minha egual». Como não amar o homem magnanimo, -o Theseu salvador? Tudo n'elle parece bello, a sua estatura, a formidavel -rijeza dos seus musculos, a sua larga e tocante paternidade, a quietação -grave da sua vida familiar. E estou certo que, na alta burguezia -conservadora, já muito bom francez pensou secretamente quanto ganharia a -França em ter um rei do typo moral e physico do Czar. Por isso estas -festas vão ter não sei que de nupcial.</p> - -<p>O Czar esposa a França. Não faltarão talvez mesmo as bênçãos da igreja. -E ou me engano, ou esta França racionalista e radical, que riscou Deus dos -compendios e exilou os crucifixos, vae celebrar <i>Te-Deums</i> louvando o -Senhor por esta alliança cheia de incomparaveis promessas.</p> - -<p>Alliança feita particularmente pelo povo francez e pelo Czar. Os -politicos profissionaes, os homens de estado, os governos successivos da -Republica desde 70, não a promoveram nem a previram. Pelo contrario: -liberaes e parlamentares, as suas sympathias foram sempre pela Inglaterra -parlamentar e liberal. O Czar, autocrata e absoluto, só inspirava aos -estadistas radicaes do typo de Ferry, Spuller, Goblet, etc., uma -antipathia que nenhum interesse politico podia dominar. E aquella parte de -influencia que ainda pertencia á França, mesmo vencida e isolada, foi -sempre posta por elles ao serviço da Inglaterra, e portanto contra a -Russia. No Congresso famoso de Berlim foi a França que mais concorreu para -arrancar á Russia as vantagens e os territorios que ella conquistára á -Turquia, depois de um longa e penosa guerra. E a desconfiança do grande -«despota do Norte», o horror dos democratas a qualquer immisção d'elle, -mesmo remota, nos negocios republicanos da França, subiu a tal ponto que -quando o general Appert, embaixador de França na Russia, se começou a -tornar muito intimo e familiar do Czar e a tomar chá no Palacio de Inverno -mais vezes do que as exigidas pelo protocollo, o general Appert foi -brutalmente demittido!</p> - -<p>Por baixo, porém, dos politicos estava a multidão, (que não tem em -França grande compatibilidade de espirito com o pessoal que a governa) -e estavam patriotas como Deroulède e outros, mais intimamente em communhão -com os desejos e as esperanças da multidão. Foram estes que semearam, ás -mãos cheias, a boa semente. Na Russia, porém, nenhuma semente fructifica -sem o consentimento do Czar. Ora o Czar não só admittiu esta semente, mas -até a regou. Começaram então essas repetidas visitas dos gran-duques a -Pariz, que eram como as andorinhas do Norte annunciando a esperança do -renascimento. Pouco mais faziam estes gran-duques do que almoçar pela -manhã no Woisin, e jantar á noite no Paillard. Pelo menos os jornaes não -lhes narravam outros fastos. Mas já, de restaurante a restaurante, ou por -onde quer que fossem, os acompanhava um sulco largo de sympathia popular. -E nenhum gran-duque chegava, ou nenhum gran-duque partia, sem que as -<i>gares</i> estivessem todas floridas e resoassem já os primeiros e -timidos clamores de <i>Viva o Czar!</i></p> - -<p>Depois, alguns homens de lettras, sobretudo Mr. de Vogüé, (que já fizera -particularmente a «alliança», casando com uma senhora russa) começaram -a popularisar a litteratura russa. Tolstoï foi revelado á França. O seu -neo-evangelismo, nascido do pavoroso espectaculo da miseria rural no -centro da Russia, enthusiasmou aquelles que an Pariz tambem se voltavam -para o idealismo, por fadiga e fartura das velhas e seccas formulas -positivistas. Mas Tosltoï e os outros romancistas russos foram, sobretudo, -acclamados pelos mesmos motivos porque o eram os gran-duques. A clara e -bem equilibrada intelligencia critica do francez, no fundo, não -comprehende nem póde amar a dolorosa e tenebrosa litteratura russa. A -natureza do espirito dos dous povos é tão differente como os seus dous -estados sociaes. Não só já nas suas fórmas de pensar, mas mesmo nas suas -fórmas de sentir, o francez e o russo divergem;—e quasi se póde -dizer que um e outro amam e odeiam de modos que são totalmente diversos na -sua essencia e na sua expressão. Em tudo o que mais fundamente constitue a -civilisação, em materia de religião, de familia, de trabalho, de estado, -as duas nações discordam—porque uma é ainda primitiva, governada por -crenças primitivas, organisada por instituições primitivas, emquanto que a -outra é uma nação trabalhada violentamente, no fundo da alma e em toda a -sua ordem social, por quatro seculos de philosophia e um temeroso seculo -de revoluções.</p> - -<p>Mas esta mesma popularisação da litteratura russa concorreu para a -confraternisação. A França, repito, é uma franceza—e, como tal, -extremamente sensivel ao brilho das lettras e da cultura.</p> - -<p>Não creio que fôsse jámais popular em França a alliança com um povo -estupido e sem livros. Todo o sêr de alta civilisação espiritual gosta -que os amigos, com quem se mostra perante o mundo, pertençam á mesma alta -<i>élite.</i></p> - -<p>Assim, lentamente, se fez esta fraternidade das duas nações, que -marcará talvez na historia. Os francezes agora pretendem que ella -realmente existiu sempre (é agradavel prender tudo a uma velha -tradição)—e vão buscar mesmo a sua origem ao fundo do seculo XVIII -(antes d'isso tambem quasi não existia a Russia) ao Czar Pedro, o Grande, -que foi esplendidamente festejado em Pariz, na côrte jovial do Regente, -onde a sua força colossal, os seus bigodões, a sua brutalidade encantavam -<i>les petites dames.</i> Mas vão sobretudo filiar esta fraternidade na -guerra da Criméa em 1855, onde officiaes francezes e russos -confraternisavam nas trincheiras, entre dous combates, bebendo champagne. -Boa novidade! Já outr'ora, durante as velhas guerras dos Cem Annos, os -cavalleiros inglezes e francezes, depois das duras brigas, ou no repouso -dos assedios, se juntavam, deslaçavam os morriões de ferro, para basofiar -d'armas e d'amores, tragando por grossos picheis a zurrapa do Rossilhão. -Em todos os tempos, nos exercitos aristocraticamente organisados, os -officiaes fidalgos, quando se não batiam, bebiam, segundo as -circumstancias, zurrapa ou <i>champagne.</i></p> - -<p>Não! A alliança franco-russa, se se realisar, é obra especial, pelo -lado da França, d'esta nova geração que succedeu á guerra, e, pela parte -da Russia, do Czar. Na Russia não foi o povo que ja fez, porque o povo não -tem opinião e, portanto, politicamente não existe. E em França não foi -o governo que a fez, porque os homens que o constituem são ainda dos que -gritavam, ha vinte annos: «Viva a Polonia! Abaixo o Czar!»</p> - -<p>É esta a sua originalidade, de resto consequente com os estados sociaes -das duas nações. Uma grande democracia trata directamente e particularmente -com um grande autocrata. E um homem e uma multidão assignam, sem papel e -sem tinta, um tratado formidavel e pittoresco.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="X_AS_FESTAS_RUSSAS-A_TOILETTE_DUM_PRESIDENTE_DE_REPUBLICA-NOTICIAS_DO_BRASIL"></a>X. AS FESTAS RUSSAS-A «TOILETTE» D'UM PRESIDENTE DE REPUBLICA-NOTICIAS -DO BRASIL.</h4> - - -<p>Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O -almirante Avelane e os officiaes da fróta russa desceram sobre Pariz. Digo -<i>desceram</i>, como se se tratasse de sêres chegados das brancas -espheras celestes, porque o proprio almirante classificou esta visita -de <i>sobrenatural</i>, e o snr. Hervé, director do <i>Soleil</i>, um -academico, um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe attribuir um -caracter <i>miraculoso.</i> Deve haver aqui, pois, o quer que seja de -transcendente. E Pariz está em delirio;—mas um delirio cheio de -bonhomia, e mesmo cheio de diplomacia.</p> - -<p>Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus -amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Pariz, na -alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova -força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem -escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das acclamações aos -seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injuria aos seus velhos -inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Pariz está mostrando -a prudencia de um diplomata encanecido na carreira—e os proprios -garotos se comportam como Metternichs.</p> - -<p>Nunca de certo, como hoje, Pariz pensou tanto na Allemanha; e no fundo, -todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminarias se accendem, -e todo este <i>champagne</i> estala, tanto pela Russia como contra a -Allemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais -fundos recantos d'alma—e o que transborda é apenas o clamor do -enthusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Allemanha, nem a -ingrata Italia, nem Triplices Allianças. Ha só dous povos, o francez e o -russo—e, como elles se abraçam, o mundo todo se converte n'um amavel -santuario de paz.</p> - -<p>Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Pariz. A cidade -toda está na rua. O tempo vae quente e abafadiço. Por toda a parte -a cerveja e o vinho transbordam, como n'umas colossaes bodas de Gamacho. -E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve -ainda um grito, uma pilheria n'um café, uma allusão, que desmanchasse a -harmonia pacifica do soberbo festival.</p> - -<p>Isto prova, uma vez mais, que Pariz não é como se pensa a cidade que -entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra -ha em que a intelligencia geral seja tão aberta, accessivel e -prompta—isto é, em que uma ideia, considerada justa ou necessaria, -penetre tão claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é -facil, extremamente facil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena -burguezia, a belleza ou a vantagem de tomar e conservar, n'um grande -momento publico, uma certa attitude, mesmo contraria a sentimentos -legitimos;—mas como fazel-a sentir áquella turba obtusa e rude, que -os inglezes chamam os <i>roughs</i>, os «asperos»? Para esses não ha -interesse publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E -não seriam elles, se Londres tivesse sido durante seis mezes cercado e -brutalisado pelos allemães, que se privariam, n'uma festa egual, de -desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de -<i>viva a Russia!</i> brados ainda mais altos de <i>morra a Allemanha!</i> -Ainda ha pouco o provaram (por occasião do curto resentimento entre a -França e a Inglaterra, a proposito do Sião) quando uma platéa de rapazes -de commercio, no theatro da Alhambra, ao apparecer, não sei em que -bailado, a bandeira franceza, rompeu em urros de furor, e se arremessou -sobre o palco para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um -momento, uma brusca ebulição do forte sangue saxonio. O bailado -continuou—e cada um recomeçou serenamente a rir e a emborcar -<i>bocks.</i></p> - -<p>No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew -Arnold, o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre -que estas duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era -de certo uma generalisação excessiva, que provinha d'esse delicado -espirito se ter nutrido e enlevado demasiadamente na litteratura franceza -do seculo XVIII. Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em -Inglaterra, faltam á populaça. Em França, nem a essa faltam.</p> - - -<p>N'estas festas russas, com effeito, a cousa para mim mais interessante -e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dous milhões de parizienses -vivem em permanencia apinhados em tres ruas: o boulevard dos Italianos, a -Avenida da Opera e a rua da Paz. A classica sardinha na sua classica lata, -um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do sacco -pançudo que quasi estoura—são frouxas imagens materiaes para -exprimir esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a -espessura e lentidão d'um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do -tempo de Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a -vivacidade, a vibração petulante e batalhadora d'esses dias de cesarismo. -Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma -brutalidade, uma impaciencia, um empurrão. As mulheres vieram -confiadamente trazendo filhinhos ao collo. Tanto é o decoro e o -recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros d'um -templo.</p> - -<p>Toda esta parte de Pariz, com effeito, em redor do Club Militar onde se -hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de -paz.</p> - -<p>Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se -communica aos animaes.</p> - -<p>Na Avenida da Opera um grande <i>mail-coach</i>, tirado por quatro -puros cavallos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de -Boulanger seria um escandalo de berros e couces, porque, para homens e -bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou -risonhamente a charuteira e accendeu um paciente charuto. Os cavallos não -se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava collada a elles, -terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas -fumegantes. Os animaes, por seu turno, tambem derreados, descançavam os -focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janellas embandeiradas -estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por -entre as pregas amarellas do pavilhão do Czar. O proprio céu se -enfeita—e toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom d'ouro e -apotheose.</p> - -<p>Por vezes, entre couraceiros que cercam um <i>landeau</i>, alvejam ao -longe os bonnets brancos dos officiaes russos. Uma acclamação rompe logo -de <i>viva o Czar, viva a Russia!</i> Toda a massiça multidão arremette -n'uma anciosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o -esvoaçar dos lenços. É uma curta explosão d'amor. De novo o decoro, a -compostura risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um -pó importuno. Ninguem sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a agua de -colonia e a violetas do outomno. Até o ar se avelludou. As vidraças dos -predios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos -charutos com um sorriso de gratidão e concordia. Tudo é harmonico, suave, -polido, amavel e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado -precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias d'estes, no meio de -dous milhões de populares apinhados pelo enthusiasmo em tres ruas -estreitas, que se apreciam os beneficios de uma antiga cultura, que -através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda -uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguem me -empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse—não cessei de -louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a -conquista das Gallias.</p> - -<p>Emquanto ás festas propriamente, creio que foram mediocres—sobretudo -as festas exteriores e de rua. O francez nunca teve o genio -decorativo—nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse -dom pertence ao italiano. O francez só é habil em ornamentar um -salão—ainda que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da -sua intelligencia, o tenha immobilisado em dous generos que repete -monotonamente, infinitamente: o <i>Luis XV</i> e <i>Henrique II.</i> Em -todo o caso, possue grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas -estas festas realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera -(que é um salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço -inventivo não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas -varandas, ao lado do pavilhão amarello com a aguia negra de duas -cabeças.</p> - -<p>A rua da Paz offerecia uma decoração de mastros de navios, com vergas, -o velame apanhido, e flammulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca -de opera comica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de -lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção -buddhista.</p> - -<p>As festas, além d'isso, foram muito accumuladas. Todas as instituições, -corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os -russos;—e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os -seus officiaes foram forçados a partilhar de tres almoços, quatro -<i>lunchs</i>, dous jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de -engulir o café, tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para -ir além recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens innocentes -tiveram de comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz -trufada. E como n'estas agapes de alliança o acto importante eram os -<i>toasts</i>, as saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, -não é menos grave considerar que a cada um d'esses marinheiros fortes, -coube, durante o seu dia, esgotar de setenta a oitenta copos de -champagne.</p> - -<p>Emfim, se já no tempo de Henrique IV Pariz <i>valia</i> uma missa, não -ha duvida que agora, com todos os progressos de tres seculos, vale bem uma -dyspepsia.</p> - -<p>Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas -pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem -uniforme, e nas grandes festas officiaes é obrigado a apparecer de casaca -e gravata branca como os escudeiros que servem o <i>punch.</i> Este -inconveniente, tão consideravel n'um paiz habituado ha oito seculos ao -esplendor sumptuario da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou -tão patente, como agora n'estas festas, que eram sobretudo militares. Em -meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros, -das amas ricas—alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, -sob o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os -ministros, o governo, o Estado, a França. Ahi está a que chegára a sêda -branca recamada a pérolas dos Valois, o velludo bordado, e os laços -floridos, e os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas -faiscantes dos Napoleões: a uma casaca de panno preto, quasi sempre mal -feita, como a de um creado de copa ou de um servente de enterro!</p> - -<p>Todo Pariz sentiu e soffreu a humilhação d'esta pelintrice official. E -jornaes serios, em artigos serios, lembram a necessidade de que se -estabeleça para os presidentes das camaras, para os ministros (os tres -poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê -prestigio—esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo -da arte e da belleza das fórmas, é talvez o mais persuasivo e duravel. -Isto é extremamente sensato. É necessario que o poder inspire sempre o -summo respeito. Ora, entre dous chefes de Estado—um revestido de -uma couraça rutilante, com um capacete emplumado, o outro mettido dentro -de um paletot negro, com um chapéo côco—o respeito instinctivo da -multidão impressionavel vae para o guerreiro da bella couraça, e não para -o sujeito do côco triste. Pelo menos para elle vão os olhares das -mulheres—e logo portanto atraz, por uma lei natural, a consideração -dos homens. Os philosophos, está claro não regulam a força moral e o valor -por estas exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu -impressionar Diogenes. Mas a turba não se compõe de philosophos—e -para ella perpetuamente a magnificencia solemne será a prova real do -poder.</p> - -<p>Mas que uniforme se deverá impôr ao snr. Carnot? Não sei. Evidentemente -não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de -tucano, que o imperador do Brazil por vezes revestia—e de que elle -proprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa -lamentavel casaca civil, envergada logo de manhã á luz ironica do sol, de -que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.</p> - - -<p>E já que, atravez de fardas e casacas, vim a recordar o Brazil, como -não alludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em -França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações -das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornaes de Pariz ainda -assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos -do mundo.</p> - -<p>Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o -Brazil. Nada! É como se o almirante Mello e os seus couraçados se tivessem -sumido para sempre nas brumas atlanticas. Que digo? É como se o Brazil -tivesse desapparecido—ou antes tivesse entrado n'aquella era de -felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter -historia. E assim parece ser, pois que o unico rastro do Brazil se -encontra n'algum boletim financeiro, onde se dizem os saccos de café -vendido, e a indicação dos cambios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão -agitado, nos apparece agora cheio de quietação e repouso...</p> - -<p><i>Un silence parfait régne dans cette histoire</i>—como diz -Musset. É de bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo -caso, é unico na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, colera, -tumulto. De repente tudo se cala, tudo se some—e aqui ficamos na -Europa boquiabertos, deante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como -uma visão de magica. Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde -estão os regimentos? Não ha nada—não se entrevê um vulto, não se -escuta um rumor.</p> - -<p>De certo ahi, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em -Pariz d'essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma -longa, vagarosa semana. O pasmo deante de uma cousa real e terrivel, que -troava e flammejava, e que de repente desapparece, se funde na mudez e na -sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o -Brazil—tendo apenas a vaga consciencia de que lá se continúa -pacificamente a vender café.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XI_A_HESPANHA-O_HEROISMO_HESPANHOL-A_QUESTAO_DAS_CAROLINAS-OS_ACONTECIMENTOS_DE_MARROCOS"></a>XI. A HESPANHA-O HEROISMO HESPANHOL-A QUESTÃO DAS CAROLINAS-OS -ACONTECIMENTOS DE MARROCOS.</h4> - - -<p>O «Theatro dos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo -um theatro ambulante, atravessou os Pyreneus—e é agora de Hespanha -que nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo -garante que elles devem ser interessantes—porque de Hespanha nada -póde vir que seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e -discursos.</p> - -<p>A Hespanha é hoje, na Europa, a ultima nação heroica;—pelo menos -é a ultima onde os homens, publicamente, e nas cousas publicas, se -comportam com aquella arrogancia, e bravura estridente, e magnifica -imprudencia, e soberba indifferença pela vida, e desdem idealista de todos -os interesses, e promptidão no sacrificio, que constituem, ou nos parecem -constituir, o typo heroico (porque nem os diccionarios nem as psychologias -estão bem d'accordo sobre o que é um heroe).</p> - -<p>Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais hespanhol, e que -se nos afigure mais heroico, do que o attentado contra o marechal -Martinez Campos. O velho general está passando uma revista n'uma praça de -Barcelona, cercado de officiaes e de populares, que em Hespanha se -misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola -de vinte annos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquillamente, -e de cigarro na bocca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o -marechal uma bomba de dynamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó -e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catastrophe. Mas -uma grande voz resôa, uma voz de commando, serena e quasi risonha. É -Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no -ar:—<i>No és nada, no és nada!!</i> O seu cavallo jazia despedaçado -n'uma poça de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos -uns poucos de officiaes e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e -gemendo. O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, -todavia, indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, -continua a encolher os hombros, a gritar:—<i>Pero si no és nada, -hombre, si no és nada!</i></p> - -<p>Mais adeante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do -anarchista, que agita o bonnet, berra em triumpho:—<i>Fui eu! Fui -eu!</i> Tem vinte annos, acaba de commetter um crime que o levará á forca, -e está ancioso por que todos saibam que <i>foi elle, só elle!</i> Não vá -outro ser preso, roubar-lhe alli deante do povo, deante de todas aquellas -mulheres, a gloria do seu feito anarchista! Atravez do terror, da -confusão, podia fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela -sua façanha? Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: -<i>Fui eu! Fui eu!</i> E quando o prendem, vae pelas ruas, já de mãos -amarradas, clamando ainda com orgulho para as janellas cheias de gente -que <i>fôra elle, só elle!</i></p> - -<p>Ao mesmo tempo, por outra rua, vae o velho marechal, em braços, meio -desmaiado, continuando a sorrir e a affirmar que <i>no és nada, que no -és nada!</i></p> - -<p>O quadro é admiravelmente hespanhol—e só póde ser hespanhol.</p> - - -<p>O hespanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo, -o francez, possuem esse heroismo especial que consiste em soltar um -grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o -hespanhol se mostra unico, é no desprendimento com que sacrifica todos os -interesses, desde que se trate da honra da Hespanha, ou do que elle pensa -momentaneamente ser a honra da Hespanha. Ahi invariavelmente reapparece -o sublime D. Quixote.</p> - -<p>E tanto mais heroicamente que ao hespanhol não faltam o raciocinio, e a -prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens -accumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento—como -superiormente o prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vae -perder—marcha jovialmente e tudo perde com enthusiasmo, porque se -trata da sua patria.</p> - -<p>Não ha na alma hespanhola sentimento mais poderoso que este de patria. -Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de -descontentes, que maldizem da cousa publica, e berram, emborcando largos -copos d'agua e aniz, que em Hespanha tudo vae mal e que a Hespanha está -perdida! Mas que alguem de fóra passe e atire uma pedra á terra de -Hespanha, ou finja simplesmente que atira a pedra—e todo esse -povaréo se ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só -a pedrada, mas o gesto.</p> - -<p>O hespanhol, com effeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins, -tem uma ideia immensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente -e ovante como elle pronuncia <i>mi terra!</i> Para elle a Hespanha é a -maior das nações—pela força e pelo genio.</p> - -<p>Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditario, vindo dos -seculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom hespanhol -vive ainda, por uma illusão magnifica, na Hespanha do passado, e não se -compenetrou da decadencia, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são -os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol -ou de Carthagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista -continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além -d'este habito de se sentir grande, natural de resto n'uma raça que chegou -a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais -fortes e dos seus genios mais profundos, ha ainda no hespanhol um amor -prodigioso pela terra de Hespanha, pelo torrão que os seus pés calcam -pelo monte e pela planicie, pelas cidades ou pelas aldeias que ahi se -erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez, -outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que -creou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:—mas -não tem nenhum enthusiasmo pela ilha, ella propria, que abandona mesmo com -facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Italia, ou para outro -clima doce, a sua cosinha, os seus <i>sports</i>, os seus jornaes, as suas -distincções sociaes e o seu club, prefere sempre a suavidade d'um ar -luminoso aos asperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e -vae fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de -pequenas Inglaterras. Para o inglez a patria é uma entidade social e -moral. Para o hespanhol a patria é o bocado de terra que os seus olhos -abrangem, e que elle ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e -carnal. Esse amor cria n'elle naturalmente a illusão:—e o manchego e -o navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não -as trocariam pelo Paraizo, porque nada lhes parece realmente tão formoso e -radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito -intelligente, que era de Merida (um dos mais lugubres buracos do mundo), -declarar, muito sériamente e convicto, que Pariz, como monumentos, e -interesse, e brilho, <i>no valia Merida!</i> De resto, quem não tem ouvido -hespanhoes, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer -Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua -provincia maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim -publicado n'um jornal de Andaluzia mais genio que em toda a obra de Hugo? -A isto se chama ordinariamente a exageração hespanhola. Não! É apenas a -candida illusão de um patriotismo transcendente.</p> - -<p>Considerando assim a sua patria, tão formosa, tão grande, tão forte, -tão genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e unica divindade, -como não ha-de o hespanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a -suppõe ultrajada? Para elle uma offensa á Hespanha é um sacrilegio, e -tem então o santo furor de um devoto que visse alguem cuspir n'um -crucifixo. Para castigar a profanação abominavel, fará com enthusiasmo -todos os sacrificios, e logo immediatamente o da vida.</p> - -<p>Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã, -Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um official allemão -plantára n'umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas, -a bandeira allemã. Ninguem em Madrid conhecia a existencia das Carolinas, -nem a geographia das Carolinas. Mas os jornaes contavam que a Hespanha -fôra offendida:—e Madrid inteiro, todas as classes e todas as -edades, fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, -creanças de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o acto -mais immediato e mais urgente: ultrajar a bandeira allemã, matar o -embaixador allemão, arrasar o edificio da embaixada da Allemanha. E depois -a guerra! Uma guerra implacavel, toda a Hespanha em armas, cahindo sobre a -Allemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas? -cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as -mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E atravez d'este delirio, -ninguem ainda percebia onde eram as Carolinas. Tambem, na primeira -Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a offensa -feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguem sabia onde era -Jerusalem...</p> - -<p>Foram dous dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, attonito -e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira allemã das Carolinas, -appellou para o papa... A Allemanha realmente, perante aquella explosão -magnifica da velha alma castelhana, empallidecera. E a Hespanha sahiu -da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada -das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a affirmação -heroica de um sentimento justo.</p> - - -<p>Pois agora vae talvez succeder uma egual aventura. A Hespanha foi -ferida no seu patriotismo e no seu orgulho. A offensa não veiu de -europeus, mas de africanos. É, porém, indifferente para a Hespanha que o -sacrilego seja forte ou fraco, civilisado ou barbaro. Houve o sacrilegio, -isto é, houve um ultraje á bandeira da Hespanha, e, portanto, ás armas e -guerra implacavel!</p> - -<p>A Hespanha possue no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de -outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma -cidadella, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras -possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E -para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome -generico de mouros do Riff, ou Riffenhos.</p> - -<p>Os mouros naturalmente odeiam os hespanhoes, seus inimigos -hereditarios, com o odio de raça e com o odio de religião:—e os -hespanhoes estão alli portanto n'um permanente estado de defeza. -Ultimamente, depois de vagas questões que tinham surgido entre hespanhoes -e mouros na feira visinha de Frejana, as tribus riffenhas mostraram uma -agitação tão visivelmente hostil, que o governador de Melilla, general -Margallo, mandou reforçar as obras de defeza em torno da zona cultivada, -e construir, n'um certo ponto mais aberto, um forte.</p> - -<p>Ora, justamente n'esse sitio, existia um antigo cemiterio mourisco. -Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemiterio, porque não só -ahi repousam os mortos, mas ahi vêm orar e meditar, estudar e celebrar -assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemiterio, no mundo -mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivencia.</p> - -<p>Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquelle -forte, n'aquelle sitio, vinha dominar e devassar o seu cemiterio—e -constituia portanto uma invasão material e moral do seu territorio. Foi -por um motivo identico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava -e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se -sublevaram sob a dominação romana. O general hespanhol respondeu, (como -costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, elle -tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse -necessarios á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite -desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima -hespanhola, em logar de conciliar, de escutar razoes que eram attendiveis, -porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a -reconstrucção do forte. Os riffenhos desceram mais numerosos e -redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena -mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O -general Margallo recomeçou as obras e collocou-as sob a protecção de um -destacamento de sessenta soldados. Os mouros immediatamente soaram o -alarme atravez dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram -o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.</p> - -<p>O que depois occorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo, -sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para -castigar as tribus, uma sortida temeraria—que resultou numa tremenda -derrota dos hespanhoes (apesar da bravura esplendida com que se bateram) -e na morte do proprio general Margallo, varado, logo no começo da acção, -por tres balas. Entre os officiaes gravemente feridos havia um infante de -Bourbon. Os mouros tinham capturado dous canhões e uma bandeira—que -os hespanhoes retomaram.</p> - -<p>Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas». -Madrid inteiro correu ao palacio, aos ministerios, gritando por vingança -e guerra. Todo o homem valido se quiz alistar como voluntario. Para que -não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Hespanha -offereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometteram largos -donativos, as proprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Hespanha -toda rompeu n'uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O -reisinho, que tem sete annos, cercado no passeio do Prado por uma immensa -multidão que o acclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou -a gritar: <i>Vamos todos a matar los moros!</i> Foi um delirio. E a -Hespanha, enthusiasmada, lá vae para a guerra!</p> - -<p>E em que momento ella vem! Quando a Hespanha, muito pacientemente, com -um esforço em que tambem havia heroismo, estava reconstruindo, dia a dia, -migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a -ruina—porque as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil -homens aguerridos, de incomparavel bravura, com espingardas Remington, e -tendo por couto as suas serranias inaccessiveis. Para vencer esta -formidavel guerrilha—é necessario uma expedição pelo menos de trinta -mil homens, que têm de ser alimentados de Hespanha, porque no Riff só ha -areaes. São as finanças hespanholas desorganisadas por infinitos annos. É -ainda o perigo de complicações europêas, porque a Hespanha será forçada a -penetrar no territorio de Marrocos (os mouros do Riff são subditos do -sultão de Marrocos), e ahi encontra a opposição da Inglaterra, da França, -da Italia, que têm todas tres pretensões, por motivos de fronteiras -coloniaes, ou por motivos de dominação estrategica no Mediterraneo, a esse -vasto e rico sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, -pelos seus perigos, a antiga e classica questão do Oriente.</p> - -<p>Lord Salisbury affirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a -ser quebrada, seria de certo por causa d'esse terrivel Marrocos. E a -Inglaterra já tem em Gibraltar, deante das costas da Africa, á cautela, -uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Hespanha arrasa as suas -finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa? -Foram mortos officiaes hespanhoes, foi ultrajada a bandeira de -Hespanha—e ella vende as alfaias dos seus templos, e marcha -sublimemente.</p> - -<p>Eu pelo menos acho sublime este patriotismo vehemente, todo este nobre -arranque. Heroica Hespanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do -Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemiterio, não deixam de ser -interessantes...</p> - -<p>E assim, em pleno seculo XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz -contra o Crescente, e a Hespanha na sua antiga e laboriosa occupação -de <i>matar los moros.</i></p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XII_O_SNR_BARTHOU-A_ANTIGONE_DE_SOPHOCLES-_LES_ROIS_DE_JULES_LEMAITRE"></a>XII. O SNR. BARTHOU-A «ANTIGONE» DE SOPHOCLES-«LES ROIS» DE -JULES LEMAITRE.</h4> - - -<p>Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de -ministerio. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de -substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras -discussões, na camara nova, descollou estes pedaços heterogeneos de poder -executivo. Immediatamente porém se manufacturou outro governo. E a unica -feição d'esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter apparecido de -repente, e por motivo d'ella, um homem de Plutarcho.</p> - -<p>Este homem é o snr. Barthou.</p> - -<p>É necessario reter este nome—Barthou—porque elle representa -um justo. A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e -dá logar a equivocos lamentaveis, quando se trata de homens e de cousas -parlamentares.</p> - -<p>Quem é o snr. Barthou?</p> - -<p>Um politico, e portanto um ambicioso. Além d'isso um intelligente e um -ardente.</p> - -<p>E que fez o snr. Barthou?</p> - -<p>O snr. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia -constitucional:—convidado, n'esta nova organisação de ministerio, -para secretario de Estado das colonias, recusou.</p> - -<p>E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas moraes -em que Plutarcho se começa a enthusiasmar. O snr. Barthou recusou, porque -(segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores, -nem pela experiencia, a tomar conta d'essas funcções». Conhecem alguma -resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um -ambicioso que se nega a entrar n'um ministerio por não se considerar -competente, nem theorica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo -da administração—é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que -nascemos sob o regimen das cartas constitucionaes, não podiamos realmente -suppôr que existisse algures, n'esta Europa politica e parlamentar, um -bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do -seu gabinete, fumando a <i>cigarette</i> do poder, as colonias do seu -paiz!</p> - -<p>No antigo regimen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado -um cabelleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, n'esses tempos -deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o -cabelleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua -incompetencia. El-Rei porém mandava—e o cabelleireiro, com as mãos -ainda gordurentas das pomadas, tomava conta do thesouro real. Quando -Filippe II de Hespanha deu ao duque de Medina-Sidonia o commando da -<i>Grande Armada</i>, que partia a conquistar a Inglaterra—o pobre -duque escreveu ao seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia -que estava velho e cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e -que não sabia commandar uma frota!... Filippe II franziu o sobr'olho e -ordenou ao duque que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já -enjoado—e todos sabem a boa conta que elle deu da <i>Grande -Armada.</i> Para evitar esta deploravel confusão das profissões—se -fez a revolução de 89. E d'ella surgiu então essa classe de politicos, -possuidores de aptidões universaes e de sciencia universal. Todo aquelle -que, por gosto ou necessidade, se incorporava n'essa classe, parecia -receber logo do Espirito Santo o dom de tudo conhecer e de tudo poder. -O medico largava as suas lancetas e ia, absolutamente seguro da propria -capacidade, confeccionar codigos. O folhetinista arrojava a penna, -empolgava a espada, e lá partia, com uma soberba confiança, para o -ministerio da guerra a reorganisar os exercitos. Nenhum jámais hesitára. -E tal que duvidaria, por causa da sua inexperiencia, acceitar a -administração de uma horta de couves—estava prompto, soberbamente -prompto, a dirigir um ministerio da agricultura e commercio.</p> - -<p>Esta confiança dos politicos em si proprios terminava por se communicar -ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos -certos de que, tocado de uma luz divina, da <i>lingua de fogo</i>, como os -apostolos, elle poderia, senão fallar todos os idiomas, pelo menos dirigir, -sob todas as fórmas, os grandes serviços publicos da sua terra, e -indifferentemente, segundo as circumstancias, salvar as finanças ou -commandar frotas.</p> - -<p>A estranha confissão do snr. Barthou vem desmanchar esta confortavel -confiança. O quê! Ha pois politicos que não conhecem, nem por estudos -anteriores, nem por experiencia adquirida, os negocios coloniaes? Diabo! -como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possivel que -tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao -contrario d'este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?</p> - -<p>Não sei. Mas certamente a declaração do snr. Barthou, singularmente -honrosa para elle, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga -suspeita entre nós outros, os governados.</p> - -<p>Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do -universal saber—é bem possivel que outros muitos tenham encontrado -da parte do Espirito Santo a mesma resistencia em lhes outorgar o dom -divino. E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta -faiscante os classicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós -mesmos, olhando de revez o galhardo moço na sua ascenção:—«Diabo! -será este maganão um Barthou—que se calou?»</p> - - -<p>Desinteressante pelo lado da politica, Pariz está, ao que párece, -interessante pelo lado dos theatros. Para começar, temos Sophocles no -Theatro Francez, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o d'este -Sophocles! Ha já mais de dous mil e trezentos annos que elle gosou o -seu primeiro «successo», em Athenas, no dia em que Cimon derrotava os -Persas nas margens do Eurymedon:—e ahi o temos ainda, depois d'estes -vinte e tres seculos, fazendo derramar em Pariz as mesmas lagrimas que -fazia correr pelos bellos olhos das athenienses, quando Antigone, cobrindo -a face com o véo, marchava para a morte. Quantos imperios, quantas raças, -quantas civilisações têm passado? Ouando elle em Colona, em casa de seu -pae, que era um simples fabricante d'armas, desenrolava verso a verso, -nas taboinhas enceradas, á sombra d'alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo, -Pariz não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os -lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio d'essa vetusta matta, convertida -ella, por seu turno, n'uma Athenas infinitamente mais complicada, todas as -noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: <i>Bravo, -Sophocles!</i> e de certo devotos do seu genio iriam, como os soldados de -Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fôsse possivel saber -onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia—e que quando -já não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores -notavam que constantemente alli zumbiam abelhas em grandes enxames -dourados. E que as abelhas, desde seculos, eram attrahidas para aquella -collina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sophocles.</p> - -<p>Esta <i>Antigone</i>, que agora se representa no Theatro Francez, foi -para Sophocles a peça mais rendosa—porque valeu ao poeta ser nomeado -general ou <i>stratege</i>, como os gregos diziam, n'uma expedição a -Samos. Singulares <i>direitos d'auctor!</i> E singular povo que -recompensava a belleza de uma tragedia com o commando de uma esquadra! -Mas servir a cidade, ganhar a Athenas uma batalha, era, n'esses tempos de -civismo heroico, a mais esplendida, a mais nobre das tarefas -humanas;—e não se podia dar melhor recompensa a um grande porta -do que fornecer-lhe a possibilidade de se tornar um grande cidadão. De -resto Sophocles era soldado: já se batera em Salamina, onde tambem -combatera o velho Eschylo.</p> - -<p>Assim os dous tragicos concorreram pela «penna e pela espada» a -assegurar o predominio da civilisação hellenica, e da civilisação -occidental.</p> - -<p>E não foi só como combatente que Sophocles cooperou em -Salamina—mas como poeta: porque, pela sua belleza e pelo seu genio -lyrico foi escolhido para corypheu dos coros de mancebos, que, com cantos -e danças, celebraram durante tres dias essa magnifica Victoria, que nos -salvou a todos nós, homens de raça aryana, de sermos ainda hoje orientaes, -e talvez persas!</p> - -<p>Pois a <i>Antigone</i> continua a ser rendosa. Nem Sophocles, nem os -seus herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ella lança -todas as noites ao cofre do Theatro Francez. Mas não é menos rendoso para -a sua gloria immortal, que, ao fim de vinte e tres seculos, este -dramaturgo de Athenas continue a enriquecer os outros.</p> - -<p>Deixemos porém a <i>Antigone</i> e Sophocles—porque, das peças -representadas em Pariz, a que mais interessará de certo no Brazil é <i>Os -Reis</i> (Les Rois) de Jules Lamaitre.</p> - -<p>Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com effeito por uma -historia da revolução do Brazil. Exactamente como lhes conto! Por uma -historia da revolução do Brazil—da outra, da antiga, da que derrubou -o Imperio.</p> - -<p>Quando o panno se levanta, vêmos deante de nós a sala do throno do -palacio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia -absoluta, com 38 milhões de vassalos:—mas esta sala não apresenta -mais luxo ou magestade que a da camara municipal de uma villa democratica. -A primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuarias -estão em deploravel decadencia:—mas dentro em breve se descobre que -as colgaduras de sêda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram -arrancadas das paredes para se fazerem com ellas as <i>toilettes</i> de -Mme Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.</p> - -<p>Pela porta nobre d'esta sala desguarnecida entram dous senhores, de -casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem -da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliothecario do rei de Alfania, -Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados -Unidos do Brazil. Exactamente como lhes conto! ministro do -Brazil,—que aqui na peça e na Alfania tem o nome de <i>Republica das -Cordilheiras.</i> O ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e -hespanholesco de Alvarez! Muito jovialmente e não sem malicia, este -ministro Alvarez começa a contar ao bibliothecario (de quem foi -condiscipulo no collegio Stanislas em Pariz) as suas attribulações -diplomaticas.</p> - -<p>Ha dous mezes que elle foi nomeado ministro para Alfania, ha dous mezes -que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei -Christiano reconhecesse a Republica do Brazil! Bem comprehensivel, de -resto, esta resistencia de Christiano XVI, que tem oitenta annos, é um -autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e -de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da -<i>Cordilheira</i> expulsasse um velho imperador tão magnanimo e -tão paternal.</p> - -<p>E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliothecario e parte -para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana -mais repassada de bons sentimentos monarchicos!</p> - -<p>O povo da <i>Cordilheira</i> não detestava, antes amava o seu -imperador. Mas quê! Esse imperador nunca residia no seu imperio—e -constantemente percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua -sciencia das linguas mortas e lendo manuscriptos no seio das academias. -Ora um povo que não se occupa de philologia não gosta de ser governado -por um philologo. Sobretudo por um philologo, que parece preferir ao seu -throno o seu banco do Instituto de França O throno estava sempre vazio, a -cobrir-se de pó—e o imperador sempre em França, no Instituto -a esmiuçar raizes hebraicas. Além d'isso, aquelle imperio da -<i>Cordilheira</i> desmanchava a harmonia republicana da America do Sul. -O quê! todos os paizes em redor usufruindo as venturas da republica—e -só a <i>Cordilheira</i> sobrecarregada com uma monarchia e uma côrte! -Era discordante.</p> - -<p>De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este acto de -bom senso politico fôra feito com toda a delicadeza, todo o respeito, -toda a bonhomia. A Republica surgiu uma madrugada serenamente, e -naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor -(um vapor muito confortavel, accrescenta Alvarez), metteu dentro o seu -velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a -Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou colera -n'esta separação.</p> - -<p>Pelo contrario! O povo tinha os olhos ennevoados de lagrimas—o -imperador tambem. E durante muito tempo um na praia, outro no convez -do vapor confortavel se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios -de sympathia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que -o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma republica tão cortez, -tão amavel—e no fundo tão monarchica!</p> - -<p>Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro acto dos <i>Reis</i>, esta -risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou -muito pela felicidade d'este funccionario. Mas apenas elle terminara a -historia da tão bella aventura em que se lançara o seu paiz—entra -toda a côrte de Alfania.</p> - -<p>É que estamos n'um consideravel momento historico. O velho rei -d'Alfania vae abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga -d'aquella corôa secular. É que já não comprehende o seu povo—e -receia que o seu povo já não comprehenda o seu rei. Até ahi elle fôra -simplesmente o pastor muito solicito d'um rebanho muito manso. Agora, -porém, sob o seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova -sciencia de governar homens, e não carneiros, elle, rei d'outras eras, não -a possuia. Por isso passa o cajado a seu filho, o principe Hermann. Esse -não só é novo pelos annos—mas é novo pelas ideias. Principe de -direito divino, foi todavia educado n'outros tempos, por outros -livros—e conhece os direitos humanos. Todas essas liberdades -estranhas que o povo da Alfania reclama (liberdade de voto, de -imprensa, de associação, de reunião, etc.) e que ao velho Christiano -parecem horrendos attentados contra a sua auctoridade real, são para este -bom principe Hermann aspirações legitimas, que deverão ser satisfeitas com -uma generosidade prudente. De sorte que, com este novo povo da Alfania, -tão differente do velho rebanho gothico, e já hoje cheio de theorias, e -meio revolucionado, melhor se entenderá o principe novo do que o rei -velho. E Christiano XVI abdica.</p> - -<p>Lá está elle na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua -branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes—emquanto o -chanceller do reino lê o rescripto que entrega a regencia do reino da -Alfania ao democratico e humanitario Hermann. Este pobre principe tambem -não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem -resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do secco -e puro typo feudal, sôfrega de magestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann -regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitarios. -E sabem qual é o seu primeira acto de regente? O reconhecimento da -Republica do Brazil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do -Brazil, por seu turno, o vae saudar e render-lhe preito, o principe -Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira affirmação -democratica:</p> - -<p>—Snr. Alvarez, apresente-me ámanhã as suas credenciaes!</p> - -<p>Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brazil pelo novo rei -d'Alfania. O pobre Christiano suspira—e Alvarez parece bem -contente.</p> - -<p>Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sahir do -theatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar -para vêr no segundo acto uma situação verdadeiramente bella, de um -pathetico novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos -conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intellectual.</p> - -<p>O pobre principe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já -deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento -e uma carta constitucional.</p> - -<p>O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna, -no melhor estylo Luiz Filippe. O primeiro ministro é um jacobino -que como elle mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas -contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliavel. -Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda -a Alfania, uma intensa miseria trazida pelas gréves, e os operarios da -capital, obedecendo á velha illusão de que o exercicio de mais direitos -politicos lhes trará mais salarios, preparam uma tremenda manifestação -nas ruas para reclamar o suffragio universal. O principe Hermann permitte -alegremente a manifestação—porque (como elle diz) se o suffragio -universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de -consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletario soffre tanto, e -está sob o peso de tão fataes injustiças, que por todos os modos deve ser -consolado e attendido nas suas exigencias reaes ou ficticias. O que o bom -Hermann quereria (como elle tambem declara) era distribuir pelos pobres o -superfluo dos ricos:—mas como essa liquidação social não é possivel -immediatamente, e como se não póde dar ao proletario todo o pão que elle -necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que elle reclame. E a -manifestação aos vinte mil operarios já vem na rua, immensa e -clamorosa.</p> - -<p>No palacio reina o terror.</p> - -<p>Esses milhares de operarios, soltos na capital, permanecerão ordeiros -e disciplinados? Os proprios ministros, antigos jacobinos, -duvidam—tanto mais quanto a manifestação é capitaneada por -anarchistas que estavam presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo -amnistiou com enthusiasmo. E com effeito não tardam as más noticias. Os -manifestantes arvoraram a bandeira negra. Já aqui e além houve -conflictos—e as tropas foram apedrejadas. E eis que agora a enorme -massa popular avança sobre o palacio! Mas Hermann sorri tranquillamente. -Que póde receiar, elle, que ama tão ardentemente os pobres, e que é na -verdade o rei dos pobres? O povo avança sobre o palacio? Pois que se -escancarem, bem largas, todas as grades dos jardins, que o povo entre, -porque o seu rei alli está que lhe estende com amor os braços. E elle -mesmo abre as janellas—por onde penetra um longo, sombrio e -suspeito tumulto de brados.</p> - -<p>Mas eis um ajudante de campo annunciando que a turba está em plena -revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que -espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que elle -o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vae elle proprio, -socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social?</p> - -<p>Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a -apedrejar as janellas do palacio. Já uma pedra ia matando o principesinho -real, uma pobre creança doente, nos braços da sua governante. Hermann -afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae -sobre elle uma saraivada de calhaus. E não são já sómente calhaus—são -tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está -sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah -Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann, -supplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As -tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para -carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, n'uma -agonia, gritando sómente:—«Oh! os brutos, os brutos, que não -comprehendem!»</p> - -<p>Outro ajudante. A revolução triumpha! Vae acabar o reino secular da -Alfania! Já o povo quebra as portas do palacio. Em pouco aquella rica -cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda -intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general! -Hermann, n'uma voz de moribundo, murmura:</p> - -<p>—O seu dever de soldado!</p> - -<p>E cae n'uma cadeira, aniquilado. Fóra ha um lento rufar de tambores. É -o primeiro e lugubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre -ella rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janella, grita:—«Não! -Não!»—É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o -horrendo clamor dos gritos. São os que morrem!</p> - -<p>Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ella a corôa. Um official -apparece, todo pallido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que -cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta -por entre lagrimas:</p> - -<p>—Mulheres mortas?</p> - -<p>O official murmura:</p> - -<p>—Muitas.</p> - -<p>Creancinhas?</p> - -<p>—Tambem...</p> - -<p>Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos -cravados no tapete. É que está vendo n'elle, cobertos de sangue, os -pedaços do seu bello sonho humanitsrio, que se despedaçou. Elle é o -primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e -o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas -as satisfações sociaes, se vê forçado pela logica terrivel das cousas a -erguer-se deante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o -seu povo—o que nunca succedera na velha Alfania, quando o povo era -um rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus -velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue.</p> - -<p>A scena é verdadeiramente bella—e pela apparição da Fatalidade, -esse grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das -leis sociaes, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou -Sophocles. Depois o drama acaba mediocremente n'um desastre d'amor, que -é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a -ver Alvarez.</p> - -<p>Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que elle se -dedicasse a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de -compor e mandar ao seu governo um relatorio instructivo mostrando, pelo -exemplo Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das -theorias, um regimen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito, -para lançar a nação n'um caminho incerto e escuro onde ella vae -cambaleando atravez do descredito, da desordem, da ruina e da guerra.</p> - -<p>Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XIII_OS_ANARCHISTAS_VAILLANT"></a>XIII. OS ANARCHISTAS VAILLANT.</h4> - - -<p>Desde que nos não vimos, caros collegas e amigos, este velho mundo foi -de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant.</p> - -<p>Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já -classica e quasi symbolica de Ravachol; nem fez tambem a devastação mortal -da bomba hespanhola do theatro de Barcelona.</p> - -<p>A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns velludos de poltronas e -pedaços de estuque dourado; e o unico ferimento perigoso que causou (e -hoje curado) foi o de um primo intellectual do anarchismo, d'um socialista -neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso -que as de Ravachol ou a dos hespanhoes, porque, pela primeira vez, a -sociedade sentiu a temerosa dynamite arremessada contra um dos seus -grandes orgãos vitaes, contra o centro regulador das suas funcções, contra -o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir predios ricos, como -sendo as fórmas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então -burguezes abastados, no acto de gosarem um luxo que offende especialmente -a miseria—o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com -imprevista audacia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». N'uma -republica parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant -verdadeiramente commetteu um regicidio. E não ha crime que impressione -mais do que o regicidio, porque n'uma sociedade onde se não eliminou -inteiramente a ideia de que o chefe é pae, elle participa da natureza do -parricidio.</p> - -<p>De certo sabem, pelo telegrapho, pelos jornaes, a historia do feito. -No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna, -Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de -uma caixa de lata, que bale n'uma columna, estala no ar antes de cahir. -Densa fumarada, gritos, terror, tumulto—e immediamente, tambem, -entre os deputados, aquella serenidade corajosa, ainda que um pouco -affectada, que é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde -1789 a ser invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em -revolta. Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham—e as salas das -commissões são convertidas em ambulancias, onde, sobre colchões trazidos á -pressa de um quartel, os feridos recebem curativos summarios. Entre esses -feridos ha um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu -nome e o seu endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. -É conduzido ao hospital por dous agentes que se estabelecem ao lado da -cama, e começam com elle, amigavelmente, uma conversa habil sobre -anarchistas e fabricação de bombas. O ferido, por um d'esses impulsos de -vaidade bem franceza, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) -alardeia logo o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com -os processos empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os -hombros, negam a sua competencia. E o homem irritado com a contradição -termina por gritar:</p> - -<p>—Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E -agora não me massem mais, que quero dormir.</p> - -<p>Era Vaillant. E sabem, de certo, tambem que foi condemnado á -morte—por um jury que se mostrou feroz, para que em Pariz, e -sobretudo no seu bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem -francez e bem humano.</p> - - -<p>A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo -dous actos no fundo identicos, porque ambos procuram aniquilar um -principio pela violencia—são tambem dous actos absolutamente -inuteis.</p> - -<p>N'um crime como o de Vaillant entram, em resumo, tres impulsos ou -motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo -pessoal, por miserias longamente padecidas na obscuridade e na indigencia. -Ha depois o appetite morbido da celebridade—como o prova o facto de -Vaillant, nas vesperas de lançar a bomba, se ter photographado, n'uma -attitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o proposito de -applicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e -capitalista, como unico impedimento á definitiva felicidade dos -proletarios, decretou a destruição d'essa sociedade. Só este lado sectario -do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque, -pelos outros dous lados, o acto não foi inutil, visto ter Vaillant -realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).</p> - -<p>Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão, -preparado a demolir, para vantagem do proletariado opprimido, um bocado da -sociedade que o opprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes, -e portanto, para elle, mais oppressores. Lança a sua bomba—e -supponhamos que, causando um maximo inverosimil de destruição, ella mata -os seis ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edificio -do parlamento! Que succederia? Que vantagens traria este feito estupendo -ao proletariado escravisado, e que prejuizos causaria á sociedade -escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror, -uma commoção maiores (porque hoje somos mais sensiveis, e o telegrapho e -a reportagem dão um alimento mais prompto e mais abundante a essa -sensibilidade) que a commoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa -em 1755. Depois, immediatamente, o poder executivo, que não fôra demolido, -nomearia um ministerio em substituição do ministerio assassinado; e esse -novo ministerio, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma -data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara -desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funeraes magnificos. -Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão -prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.</p> - -<p>O governo decretaria terriveis leis de repressão e, com o apoio -enthusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias, -como lobos. O Estado reedificaria o edificio do parlamento em condições -mais seguras, e com linhas de certo mais bellas. E finalmente de novo -a camara se reuniria no seu novo edificio, e o tempo, que é um grande -apagador, iria apagando a impressão pungente da catastrophe, e os pobres -soffreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões, -e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter -perdido um atomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo, -só restariam, pelos cemiterios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas -viuvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O odio -insaciavel dos egoistas, a desconfiança dos proprios humanitarios. E teria -ainda logrado crear, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da -classe já desagradavel dos <i>martyres da liberdade</i>, a classe, ainda -mais desagradavel, dos <i>martyres da auctoridade.</i> De sorte que estas -bombas arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios -destructivos que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada -sciencia, nunca passariam, relativamente á força e estabilidade d'essa -sociedade, de actos impotentes e tão inuteis como bolhas de sabão -lançadas contra uma muralha.</p> - -<p>A isto replicam os anarchistas:—«Assim é, mas nós não pretendemos -destruir, desejamos só aterrar!» Raciocinio vão. O que significa, n'este -caso, <i>aterrar?</i> Significa provar, pela experiencia d'uma pequena -destruição, a possibilidade de uma destruição immensa? Significa inspirar -á burguezia, demolindo-lhe um predio e matando-lhe tres membros, o temor -de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas tres mil -dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam -essas devastações pela dynamite, mesmo quando subitamente por uma d'ellas -pudesse desapparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo, -os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu -exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar -de direitos que elles consideram como quasi divinos e os unicos capazes -de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna -inutilidade do regicidio, que, matando o homem, não mata o systema.</p> - -<p>O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violencia: um czar era -assassinado, logo outro era coroado, que do proprio crime commettido sobre -o pae parecia tirar um accrescimo de força e como uma nova sancção. Por -isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres, -prégou constantemente contra o tyrannicidio, contra as tendencias -tyrannicidas dos jacobinos do segundo imperio (hoje homens de poder e -auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas, -por constituir uma outra fórma de tyrannia, e ser sobretudo um tão -lamentavel desperdicio de energia heroica.</p> - -<p>Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é -impotente para arrasar, ou mesmo aterrar efficazmente a sociedade -burgueza—a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente -para supprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, -inspiradas por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo -cumprido porque o criminoso fica castigado; mas a esperança não se -realisa, porque nem os anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou -mais timidos os seus assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está -demonstrado, e pela propria policia, que, desde as primeiras bombas e -portanto desde as primeiras repressões, o numero dos anarchistas -tem crescido na proporção formidavel de <i>um</i> para <i>mil</i>; e emquanto -que a primeira bomba foi lançada contra um simples predio, a ultima é já -arremessada contra o proprio parlamento em sessão, exercendo soberania. O -que era um bando está organisado em seita.</p> - -<p>E odios dispersos, operando sem methodo e sem dogma, fundiram-se n'uma -religião (ou, se quizerem, n'uma heresia) em que o odio de certo é ainda -um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseraveis e -dos opprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de -propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que -bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, heretica) as sentenças de -morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente -material sobre o que é immaterial, a crença, e assemelham-se portanto a -cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não -attinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força -de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita -fica desorganisada, desconjuntada:—mas para immediatamente se -reorganisar além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de -padecer uma perseguição. Taes sentenças não têm senão o effeito desastroso -de crear martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gotta de sangue -de martyr, sobretudo quando cahe n'um solo tão preparado para que ella -fructifique, como é a alma especial dos humanitarios que chegaram á -exacerbação do humanitarismo, não por theoria, mas atravez de realidades -dolorosas e de uma experiencia constante das miserias servis. Pense-se o -que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de -anarchistas, dos verdadeiros, os puros, d'esses milhares de operarios de -coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira -redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa -ideia santa um martyr do amor dos homens! O jury só viu o bruto que quiz -matar: elles só veem o justo que quiz libertar. N'uma tal reunião, onde -cada um traz a sua colera e a sua maldição, é inevitavel que alguma alma -mais violenta se inflamme, appeteça tambem o martyrio, e corra d'alli a -fabricar a nova bomba, que na sua illusão quasi mystica concorrerá a remir -o proletariado. Aquelles que não podem morrer pela causa querem ao menos -soffrer de algum modo por ella, e pela sua justiça. Entre os anarchistas -presos recentemente havia um que se fizera gerente responsavel de um -jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de soffrer os -mezes de prisão em que os redactores incorressem pela violencia das suas -imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem -já os seus «Actos dos Martyres». A vida e supplicio de Ravachol andam -escriptos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão -anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o -caracter augusto de reliquias. Ha um cantico a Ravachol—a -<i>Ravachole.</i> E cada coração anarchista lhe é um altar.</p> - -<p>As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe -communicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando -a sociedade mata os anarchistas—é a sociedade que fabrica as -bombas.</p> - -<p>A violencia não cura—e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é -uma exacerbação morbida do socialismo.</p> - -<p>O germen e os desenvolvimentos d'esta doença não são difficeis de -precisar. No antigo regimen, o proletariado, mantido em servidão dentro -de uma organisação social muito forte, collocara sua esperança de -felicidade, não já n'esta vida e elle via irremediavelmente votada á pena, -mas a outra vida, para além da campa, como lh'o recommendava a Egreja, sua -mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que -reservava para os pobres o reino do céo.</p> - -<p>N'este nosso seculo porém o proletario, doutrinado pela classe media -que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora, -começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos -do homem, poderia realisar a sua felicidade ainda em vida, n'este mundo, e -sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe affirmava a classe media, -bastava que ele demolisse o velho edificio social, a monarchia e as -instituições monarchicas, que constituiam o unico obstaculo á «felicidade -das massas». O proletario, convencido, sahiu em tamancos dos seus vehos -covis, e começou a destruir. Fez tres revoluções, ergueu barricadas -innumeraveis, exilou reis, incendiou castellos, aboliu privilegios—e -expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades -politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realisar -essa felicidade terrestre tão largamente annunciada. Emfim, ao cabo de -setenta annos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edificio da -monarchia, construiu o novo edificio da republica, cheio dos confortos e -invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de -associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quaes, bem agasalhado -e bem provido, senhor seu, elle começaria emfim a conhecer a ventura de -viver. Assim soberbamente installado, esperou. Os annos passaram. A -felicidade annunciada não veio. Apesar de todos aquelles confortos -politicos (liberdade d'isto, liberdade d'aquillo) continuava, como no -antigo edificio feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o -direito de voto não o aquecia—e á hora de jantar, a liberdade de -imprensa não lhe punha carne na panella vazia. Pelo contrario, reconheceu -que, apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na -realidade a ser servo—e que o seu novo amo, o burguez capitalista, -era muito mais exigente e duro que o antigo amo que elle guilhotinara, o -fidalgo perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas -revoluções tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe mettera -as armas na mão, o impellira ao assalto do velho regimen! O seu sangrento -esforço só servira para entregar o poder á classe média, que se -aproveitava d'esse poder, não para dar ao proletario dentro do novo -regimen a sua legitima parte de bem estar, mas para lhe explorar o -trabalho como lhe explorava a colera, e fazel-o esfalfar para o -seu enriquecimento material, como o fizera combater para o seu -engrandecimento politico!</p> - -<p>A decepção foi tremenda—e tremendos o odio e desejo de vingança -contra o traiçoeiro burguez. A parte mais intelligente, mais pacifica, ou -mais legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra -e derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade -nova, mas contra a sua organisação economica, porque não era agora, por -causa do regimen politico que o proletariado soffria, mas por causa do -regimen economico, nascido das invenções mecanicas, das descobertas -chimicas, dos excessos de producção, da concorrencia de todos os -progressos do seculo, realisadas só em beneficio da classe media, e cada -vez mais tendentes a separar as duas velhas «nações» de Aristoteles, os -pobres e os ricos, attribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra -todas as fadigas. Desde esse momento nascera, ou apparecera, organisado -na Republica, o socialismo.</p> - -<p>Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais -violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e -estranha. Para essa, a revolução economica prégada pelo socialismo e -concebida ainda dentro de um funesto espirito juridico é inefficaz, quasi -pueril, porque não attinge o mal! Associações, <i>trade unions</i>, -barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o dominio -social dos serviços collectivos, regularisação da concorrencia, etc., -etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são -tigellas d'agua morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfugios -traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessario -extirpar, é a propria ideia de direito, de lei, de auctoridade, de -Estado.</p> - -<p>O homem nasceu livre como nasceu bom e proprio para ser feliz: e -todavia por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas -quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias, -de estorvos, que se oppõem á livre expansão da natureza humana, que é -fundamentalmente e innatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um -radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos -são as leis, a auctoridade, o Estado. A propria moral é, como o direito, -ficticia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser -destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a -absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremmediavelmente -impregnada d'esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu -principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou -melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ella -conterá sempre em si o virus horrivel:—o principio do direito, do -Estado, da auctoridade!</p> - -<p>A unica solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando -e sepultando para sempre sob os seus destroços esses principios fataes -que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde -Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ella, sem se -empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado -os innocentes. No mundo actual não ha innocentes. De certo existe uma -classe mais especial e odiosamente criminosa—a classe dos ricos, que -foi quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos -moraes e sociaes, que se chamam direito, auctoridade, Estado, e que são a -causa de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e -responsavel do mal. Todo aquelle que pacificamente se aproveita da -protecção das leis é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E -uma costureira que se priva de apanhar uma flôr n'um jardim publico é já -uma cumplice da sociedade, porque, pelo seu consentimento tacito, ella -concorre para que se perpetue o despotismo do regulamento. É pois -necessario destruir tudo,—e atirar indiscriminadamente a bomba -redemptora contra as classes exploradoras, contra as classes -voluntariamente exploradas, contra a cidade onde se realisa a exploração, -contra as proprias creanças que nascem, porque ellas já trazem em si -o virus da submissão exploravel.</p> - -<p>Tal é em resumo, muito em resumo, a theoria do anarchismo.</p> - -<p>Basta que ella seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos -os symptomas d'uma allucinação morbida. Não ha n'ella proposição que não -seja chimerica. Uma só é exacta: aquella pela qual o anarchismo se prende -ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação -social, em que uma classe possue todos os gozos e outra soffre todas as -miserias, é iniqua.</p> - -<p>Partindo do facto d'esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa, -logo que d'elle se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. -Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do -direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê -ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dynamite. O -anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por -um caminho racional, emquanto foi, como socialista, accusando a -organisação da sociedade—mas que depois, ou impaciente d'esse lento -caminho juridico, ou cedendo aos impulsos d'uma natureza desequilibrada, -deu um grande salto para fóra da realidade, rolou no absurdo, e -cabriolando através d'uma metaphysica insensata, veiu cahir miseravelmente -em praticas d'uma ferocidade selvagem.</p> - -<p>Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação -morbida do socialismo.</p> - -<p>Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e -tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á efficacia -de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil? -O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter -achado em torno uma atmosphera propicia e mesmo sympathica. A verdade é -que toda a sociedade que elles desejam arrasar, é tacitamente cumplice dos -anarchistas.</p> - -<p>Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem -dous motivos:—um extremamente nobre e honroso, que é a nossa -philantropia, a nossa crescente piedade pelos que soffrem, e outro, -extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio enthusiasmo por -tudo quanto é extravagante, monstruoso, hysterico, fóra da calma razão e -do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dous homens, com quem -secretamente e sinceramente sympathisamos:—um é o desgraçado, que -padeceu frio e fome; outro é o allucinado que se ergue da sombra, com a -sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias -e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem -nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual d'estes -dous homens nos interessamos mais—se por aquelle que sensibilisa o -nosso coração, se por aquelle que excita a nossa imaginação. Francamente, -qual nos emociona mais—o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o -monstro.</p> - -<p>Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação, -em sympathia com o archista. E quasi se póde dizer que, exceptuando -a porção mais egoista e espessa da burguezia, alguns homens de estado a -quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a phantasia, todas as -classes mundanas, intellectuaes, artisticas, ociosas, se estão abandonando -com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito -contagioso, o dillettantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de -diamantes, condemnam a má organisação da sociedade, comendo codornizes -truffadas em pratos de Sèvres. Nos cenaculos decadistas e symbolistas, a -destruição das instituições pela dynamite apparece como uma catastrophe -cheia de grandeza, de uma poesia aspera e rara, e quasi necessaria para -que o seculo finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes -estados d'espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação, -do que a phrase já historica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma -cervejaria litteraria, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na -camara dos deputados, este symbolista exclama languidamente e quasi era -em extase:</p> - -<p>—Já vae pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é -bello!</p> - -<p>«O gesto é bello!». Todo Pariz repetiu, com mal escondida admiração, -esta phrase que revelava aos profanos a belleza esthetica do crime -anarchista. «O gesto é bello!». E muito honesto moço, incapaz de pisar -voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a belleza do -gesto de Vaillant—a belleza d'aquelle braço magro que se ergue -lentamente, solemnemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado. -Os anarchistas, elles proprios, já fallam na belleza do seu gesto. N'uma -sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada d'arte, uma revolta -social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegancia plastica, -a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os -poetas mais entendidos em harmonia e rythmo acabam de lhe assegurar que -elle é tambem estheticamente bello.</p> - -<p>Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo -estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornaes de Pariz, quer sejam -ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por elles uma mal -disfarçada benevolencia, são unanimes n'um ponto:—em os cercar da -mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande -homem de estado, um poeta como Hugo, um sabio como Pasteur, nunca tiveram -na imprensa de Pariz um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz -de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha timida.</p> - -<p>Se é anarchista, se lançou a bomba—é d'elle a fama universal, que -nem sempre conseguem os santos e os genios.</p> - -<p>Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Pariz -a respeito de Vaillant. Os menores actos da sua vida, a góla de -astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o -que disse, o sobr'olho que franziu—tudo foi miudamente e -clamorosamente contado ao mundo com um calor em que a propria indignação -tinha não sei que de laudativa. De sorte que hoje em Pariz para se ter uma -verdadeira celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do -Estado, do que escrever a <i>Lenda dos Seculos.</i></p> - -<p>Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e -tomado mais fanaticamente desesperado pelas brutaes leis de excepção que -contra elle decreta o Estado; cercado das sympathias dos humanitarios; -declarado estheticamente bello pelos poetas; apreciado como uma novidade -picante pelo dilettantismo mundano e magnificamente popularisado pela -imprensa—como não ha-de o anarchismo alastrar n'essa proporção -temerosa de um para mil?</p> - -<p>Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se -estiolasse, seria necessario que elle proprio se persuadisse, se não já da -falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o -Estado não suscitasse contra elle leis de excepção, odiosas e intoleraveis -ao espirito de equidade; que os humanitarios o reprovassem pela sua -indiscriminada condemnação de innocentes e culpados; que os poetas e os -artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o dilettantismo -se desinteressasse d'elle como de um banal partido politico; e que a -imprensa o envolvesse em um silencio regelador.</p> - -<p>Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre -que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saude -intellectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que -elle se separa em um momento de delirio.</p> - -<p>Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil) -nunca conseguiram senão desenvolver nas classes oppressoras os instinctos -de tyrannia, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba -anarchista, com effeito, só addia, e por muitos annos, a emancipação -definitiva do trabalhador. Além d'isso os anarchistas que até agora têm -lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um -crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é -n'elles um primeiro acto de justiça, se um derradeiro acto de -perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social, -seria necessario que fôsse lançada por um justo, ou por um santo. Até que -surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer -d'elle, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo -pavor—é que o anarchismo é uma epidemia moral e intellectual.</p> - -<p>Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a, -isolal-a—não crear em torno d'ella, por curiosidade depravada d'um -mal original e raro, uma vaga atmosphera de sympathia, d'admiração -litteraria, de piedades estheticas, e de delicioso terror que goza a -novidade do seu arrepio.</p> - -<p>Toda esta larga aragem de favor é um crime—porque animando -indirectamente a obra abominavel do anarchismo, retarda directamente a -obra util do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada -pela reacção, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.</p> - -<p>Mas demais fallámos de bombas! Bem vos basta, caros collegas e amigos, -as que ahi vos cahem em casa (e que de certo tambem não comprehendeis bem) -sem terdes ainda de vos preoccupar, por dever critico, d'aquellas que aqui -estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com effeito, são -bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres -que choram, e a desordem social cresce. Todavia ellas são arremessadas com -convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos -affirmar sinceramente é que—cá e lá más bombas ha.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XIV_OUTRA_BOMBA_ANARCHISTA-O_SNR_BRUNETIERE_E_A_IMPRENSA"></a>XIV. OUTRA BOMBA ANARCHISTA-O SNR. BRUNETIÈRE E A IMPRENSA.</h4> - - -<p>As bombas anarchistas (porque tivemos outra, a bomba de Henry, lançada -no café <i>Terminus</i> e que feriu trinta pessoas) vão entrando lentamente -na classe dos accidentes naturaes, onde tomam um modesto logar, logo -depois das inundações e dos incendios. Evidentemente o primeiro rio que -alagou os primeiros campos cultivados, ou o primeiro fogo que rebentou na -primeira cidade edificada, encheu os homens de um terror tanto mais -desordenado quanto por traz d'essa rebellião de elementos elles viam a -colera de um Deus offendido. Cada varzea inundada, cada cabana queimada, -dava assim motivo a longas ceremonias expiatorias, á invenção de novas -formulas liturgicas, a um desenvolvimento excessivo da auctoridade -sacerdotal, e mesmo a especulações lyrico-metaphysicas dos vates, que eram -então os philosophos que tudo explicavam. Depois, quando se observou que -estas violencias da agua e do lume occorriam tão regularmente como as -estações, e que cada inverno os valles se submergiam, e cada verão ardiam -as choças de madeira e colmo, não houve mais coração que palpitasse de -pavor mystico. Mesmo acreditando sempre que, através de taes desastres, se -manifestava o descontentamento, divino, foi á auctoridade civil e não já á -casta sacerdotal que se pediram medidas preventivas ou salvadoras. E nem -se lhe conferiram poderes novos e excepcionaes, na certeza que, para -conter a agua e apagar o fogo, bastaria apenas alguma vigilancia e saber -technico da administração urbana e rural.</p> - -<p>Com effeito ha já alguns milhares de annos que os rios devastam searas -e o lume devora predios, sem que por isso a Egreja ou o Estado se -commova ou trema pela sua estabilidade.</p> - -<p>É exactamente o que vae succedendo com os anarchistas. Ás primeiras -bombas houve um tumultuoso terror, como perante uma estranha e demoniaca -demencia que ameaçava a velha estructura social. Cada explosão foi motivo -para que se promulgassem leis de excepção, para que se reforçasse -temerosamente o braço penal dos governos, para que os philosophos -formulassem complicadas receitas sociologicas, e mesmo para que certos -espiritos mais impressionaveis suspirassem pela intervenção divina de um -Messias como unico capaz de pacificar os homens. Depois, quando se ouviu -cada semana estalar uma bomba, e sem destruir mais propriedades ou vidas -do que certos desabamentos de terrenos ou descarrilamentos de comboios, o -medo phantasmagorico d'uma catastrophe social immediatamente findou: o -habito embotara a emoção, e estas explosões revolucionarias começaram a -ser equiparadas ás que fatalmente e inevitavelmente se produzem dentro -d'uma civilisação industrial e mecanica: as do gaz, das caldeiras de -vapor, das peças a bordo dos couraçados, e do <i>grisou</i> no fundo das -minas. Contra ellas já não parece necessario improvisar codigos mais -repressivos, nem invocar a interferencia messiânica. E a opinião -tranquillisada só reclama, para domar a bomba, essas medidas preventivas -que na industria se esperam da prudencia technica dos contra-mestres, -e na ordem civil da vigilancia profissional dos commissarios de -policia.</p> - -<p>É n'este espirito que a policia em Pariz está procedendo á prisão -systematica de todos os anarchistas.</p> - -<p>Cada madrugada se faz através da cidade uma colheita de sectarios. -Hontem quinze, hoje vinte... Os jornaes apenas publicam, sem commentarios, -a lista secca dos nomes. Alguns d'estes homens têm mulher, têm filhos, a -quem o pão vae faltar. Mas d'esses detalhes minimos, n'este momento de -sensação publica, não cura o pretor. A cousa essencial é que não reste, -livre nas ruas de Pariz, um proletario capaz de misturar um pouco de -glycerina a um pouco de acido nitrico. Nem é mesmo necessario que o -anarchista seja militante. Os simples theoricos, que professam e -methodisam o anarchismo no livro ou no jornal, são egualmente levados na -vasta montaria policial. De resto, o que o governo pretende, com esta -encarceração geral de anarchistas, é conhecel-os, photographal-os, -estudal-os, surprehender as suas ligações e afiliações, e formar assim um -registro muito minucioso e muito documentado de toda a seita.</p> - -<p>Findo este vasto inquerito pratico, todos serão soltos, como se soltam -as manadas dos bois nas lezirias, depois de bem numerados e bem marcados. -Indubitavelmente é uma dura lei;—mas vem de uma dura necessidade. -Era realmente intoleravel que, n'uma cidade do seculo XIX, um pacifico -homem não pudesse entrar n'um café, ou n'um theatro, com a mulher e o -filho, sem correr o risco de voltarem de lá, elle e os seus, crivados de -pontas de pregos, em nome de uma heresia digna do seculo III. Porque o -anarchista é com effeito um socialista que se tornou heretico. Este nosso -anarchismo está para o socialismo, como estavam para o christianismo -nascente os montanistas, e os valentinistas, e os carpocratios que -prégavam o amor livre, e os circoncellios que prégavam a destruição -universal, e tantos outros, extravagantes e terriveis. Todos esses -hereticos, tortulhos venenosos da arvore evangelica, não fizeram senão -deturpar e desacreditar a pureza da doutrina, retardar-lhe a obra -regeneradora, e attrahir-lhe perseguições sangrentas. Eram por isso ainda -mais odiados pelos bispos christãos, que pelos pontifices pagãos. E quando -sobre elles cahia a lei do imperio, com ferocidade, como sobre inimigos do -genero humano, havia tanto regosijo do lado de Jesus, como do lado de -Jupiter.</p> - -<p>Egual regosijo acompanha esta perseguição, que nada tem, louvado seja -o nosso tempo, da crueldade da de Decio ou de Diocleciano. Mesmo os que -lamentam que ella espalhe tanta miseria entre mulheres e creanças -abandonadas, desejam vehementemente que a seita seja, senão esmagada, -ao menos inutilisada. A obra do Estado seria pois perfeita se, inspirada -simultaneamente pelo sentimento de ordem e de humanidade, elle, pelo -lado da policia, prendesse os anarchistas, e pelo lado da assistencia -publica lhes soccorresse as familias que ficam sem o pão do salario -perdido.</p> - -<p>Mas infelizmente, entre tantos orgãos de que está provido o Estado, -não ha nenhum que tenha a fórma, mesmo vaga, de um coração humano.</p> - - -<p>Não sei se conhecem o snr. Brunetière. O snr. Brunetière é hoje nas -lettras francezas um grande personagem—quasi devia dizer, dada a -qualidade do seu espirito e das suas funcções, um grande mandarim. Quando -o velho Buloz foi exilado da <i>Revista dos Dous Mundos</i>, por ter amado -fóra da <i>Revista</i>, e com uma especie de amor que a <i>Revista</i> não -permitte, a assembléa de accionistas d'essa veneravel publicação nomeou -para o cargo de director o snr. Brunetière. Além d'isso, o snr. -Brunetière era já o director, senão espiritual, ao menos intellectual, -das damas lettradas do Faubourg St. Germain, tendo portanto a gloriosa -missão de ensinar o que, em materia de litteratura, uma duqueza deve -acceitar ou deve rejeitar para conseguir um logar no reino dos bons -espiritos. Como consequencia d'estes dous nobres empregos, o de director -da <i>Revista</i> e confessor litterario das almas aristocraticas, o snr. -Brunetière foi por influencia das senhoras (e entre as senhoras incluo a -<i>Revista</i>) eleito membro da Academia Franceza. E finalmente, para -consagrar a sua reputação, a mocidade das escolas apupou furiosamente o -snr. Brunetière, e, assim como a democracia revoltada outr'ora queimava o -throno dos tyrannos (não sei se ahi no Rio, na revolução de novembro, se -omittiu esta formalidade classica), quebrou a poltrona professoral, onde -elle, na Sorbonne, pregava a boa doutrina, desmantelava o naturalismo, e -explicava ás suas devotas a maneira mais delicada de saborear Bossuet. Eu -conto estes guinchos e furores da mocidade como um dos elementos da sua -gloria, senão já do seu valor, porque desde que as ideias geraes -recomeçaram a apaixonar os espiritos moços e que nos pateos das -Universidades se trocam outra vez bengaladas por causa de theorias, um -professor só poderá ser considerado sufficientemente original, vivo, -forte, fecundo, quando o seu ensino tenha provocado rancores ou -enthusiasmos.</p> - -<p>Os antigos portuguezes tinham, da nossa historia tragico-maritima, -tirado este proverbio: «Só a grande náo, grande tormenta». E por isto -significavam implicitamente um certo desdem por toda a barcaça chata e -núa, que passava desapercebida do vento e da vaga. O Bairro Latino está -creando um proverbio parallelo—«Só a grande professor, grande -berreiro». Quando o professor é chato ou oco, em torno d'elle ou do seu -ensino ha indifferença e calmaria. O escandalo, ao contrario, prova um -mestre.</p> - -<p>Ora, d'um homem por tantos motivos importante como o snr. Brunetière, -todas as palavras são importantes. Por isso, a feroz verrina que elle, no -seu discurso de recepção na Academia Franceza, lançou contra os jornaes e -os jornalistas, mereceu mais attenção do que geralmente merecem estas -grandes e usuaes imprecações contra a imprensa, as mulheres, o vinho e -outros males.</p> - -<p>Eu conheço imperfeitamente o snr. Brunetière, que é um critico de -profissão. Se n'esta nossa edade de colossal e quasi abusiva producção (só -a França publica por anno 12.000 volumes!) já não ha tempo para lêr os -auctores—quanto menos os commentadores! O snr. Brunetière ensina -agora na Sorbonne a comprehender e amar Bossuet. Mas quem teve o vagar -ditoso de lêr primeiramente Bossuet, se é que o não leu no começo da sua -educação classica? Eu, na minha mocidade, folheei os <i>Sermões</i> e as -<i>Orações Funebres</i>; mas não cheguei a penetrar, como devia, no -<i>Discurso sobre a Historia Universal.</i> E desde então, desgraçadamente, -não logrei ainda um momento para absorver a theoria do grande bispo sobre -a serie dos tempos, das religiões e dos imperios. Quando muito conheço a -pagina classica, tão magestosa e rica, em que elle pinta a omnipotencia de -Augusto e a belleza e recolhimento da paz romana, nas vesperas de nascer -Jesus. É pouco. Mas se tão pouco conheço Bossuet, não me deve ser -censurado o ignorar quasi inteiramente o seu apologista.</p> - -<p>Pelo que tenho ouvido, porém, parece-me que o snr. Brunetière está para -as lettras como um botanico está para as flôres. Percorrendo os canteiros -de um jardim, o botanico conhece cada flôr, e o seu nome latino, e o -numero das suas petalas, e todas as suas variedades, e o largo genero em -que se filia, e a zona e o terreno que melhor convém ao seu -desenvolvimento, etc., etc... Ha só na flôr uma cousa sobre que o juizo -do velho botanico sempre claudica, ou porque a desdenhe ou porque a não -sinta—e é a belleza especial da flôr, que está talvez na côr, nas -dobras das folhas, na maneira porque se mantém na haste, em mil -particularidades indefinidas, n'esse <i>não sei que</i> que lhe habita as -fórmas e que faz com que deante d'ella paremos, e a contemplemos, e a -appeteçamos, e a colhamos. O snr. Brunetière é este sapiente botanico -entre flôres. Que lhe dêem um poeta, e elle immediatamente o classificará, -lhe collocará um rotulo nas costas, mostrará o genero que cultivou, -desfiará as qualidades que revelou n'esse genero, exporá as influencias de -raça, e de meio, e de momento historico que concorreram para o -desenvolvimento d'essas qualidades, etc., etc. Será superiormente -erudito—e só lhe faltará o sentir, pelo gosto, esse <i>não sei -que</i> de intimo que constitue a belleza ou a grandeza do poeta. O -snr. Brunetière é um botanico das lettras. E de resto esta comparação não -lhe poderia desagradar, porque elle é um dos que recentemente, ao que -parece, mais se têm applicado a introduzir nas sciencias moraes o methodo -das sciencias naturaes, e a considerar as obras humanas, e sobretudo as -obras de litteratura e de arte, como productos de que a critica e a -esthetica só têm a verificar os caracteres e a esmiuçar as causas. Isto -desde logo o torna para mim um critico extremamente respeitavel e pouco -sympathico. Ignorante como sou, eu gosto de um critico que me possa -explicar as causas e os caracteres da obra de Musset, mas que sinta -palpitar o coração quando lê as <i>Noites</i> e a <i>Carta a Lamartine</i>, -ou porque se lhe communicou a emoção do ardente lyrico, ou porque se -enlevou na contemplação da belleza realisada. Sem a faculdade emotiva e o -gosto, o critico pertence áquella especie de esmiuçadores de causas e -arrumadores de generos, que Carlisle chamava os <i>resequidos.</i></p> - -<p>Além d'isso, segundo ouço, o snr. Brunetière é um rispido, um -inflexivel, todo elle dogmatismo e intolerancia, sem uma gotta, para o -amollecer e lubrificar, d'aquelle <i>leite da humana bondade</i> de que -falla outro inglez, o muito adoravel Dickens. E esta outra qualidade do -snr. Brunetière augmenta a minha antipathia, toda de instincto, para com -este homem de talento e de bem. Não posso por isso ser considerado -suspeito, ao approvar, como approvo, todas as accusações que, no seu -discurso de recepção na Academia, elle desenrolou contra os jornaes, -contra os jornalistas, e, portanto, contra mim, que sou, a meu modo, e -d'um modo bem imperfeito, uma especie de jornalista.</p> - - -<p>O snr. Brunetière censura á imprensa a sua superficialidade, a sua -bisbilhotice e escandaloso abuso de reportagem, e o seu sectarismo. Ser -superficial, bisbilhoteiro e sectario, é ter realmente uma respeitavel -somma de defeitos.</p> - -<p>Um só basta para desacreditar em materia intellectual ou social. Todos -juntos pedem as gemonias. E todavia a imprensa, que os possue todos, -está n'um throno e resplandece. Mas Nero e Vitellio governaram o -mundo—e a sua triumphal auctoridade não lhes tira a indecente -monstruosidade!</p> - -<p>A imprensa, que tambem ho je governa o mundo, não é, Deus louvado, -nem indecente, nem monstruosa. Todos esses vicios, porém, que lhe -attribue o snr. Brunetière, é certo que ella os pratica, em proporções -diversas, segundo o seu temperamento de raça e as suas condições -funccionaes. O <i>Times</i> e outros jornaes inglezes, riquissimos e -possuindo toda uma cohorte de especialistas, prompta a tratar todas as -materias, desde as de metaphysica, apresentam geralmente, sobre as -questões occorrentes, estudos solidos em que está resumido muito saber -e muita experiencia. Por outro lado, na Allemanha, paiz das ideias geraes, -e que só se interessa por ideias geraes, e em Portugal e na Hespanha, onde -todos herdamos dos nossos avós, godos e arabes, o respeito quasi -sacrosanto da vida intima,—os jornaes não são bisbilhoteiros, -nem abusam indiscretamente da reportagem miuda.</p> - -<p>Em média, porém, affoutamente se póde affirmar que na Europa e na -America a imprensa é superficial, linguareira e sectaria. Ora, estes -defeitos não são, a meu vêr, sómente perniciosos por enfraquecerem, como -pretende o snr. Brunetière, a auctoridade da imprensa e fazer lamentar os -tempos solidos d'Armand Carrel, em que se punha na composição de um artigo -mais cuidado do que hoje se põe na preparação de uma Encyclopedia. Taes -defeitos são sobretudo nocivos, porque a imprensa os communica ao publico, -com quem está em permanente communhão, e assim, em logar de educadora, se -tem lentamente tornado uma viciadora do espirito e dos costumes.</p> - -<p>Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e -leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso -tempo o funesto e já radicado habito dos juizos ligeiros. Em todos os -seculos se improvisaram estouvadamente opiniões: em nenhum, porém, como -no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e -natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos mais -methodicos, ou d'alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos -deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho -de reflectir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para -louvar ou condemnar em politica o facto mais complexo, e onde entrem -factores multiplos que mais necessitem analyse, nós largamente nos -contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em -litteratura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além -uma pagina, através do fumo ondeante do charuto. O methodo do velho -Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adaptamos, com magnifica -inconsciencia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. -Principalmente para condemnar—a nossa ligeireza é fulminante. Com -que esplendida facilidade declaramos, ou se trate d'um estadista, ou se -trate d'um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um -genio!» ou: «É um santo!» offerecemos naturalmente mais resistencia. Mas -ainda assim, quando uma boa digestão e um figado livre nos inclinam á -benevolencia risonha, tambem concedemos promptamente, e só com -lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a coroa de louros ou a aureola -de luz.</p> - -<p>N'estes tempos de borbulhante publicidade, em que não ladra um cão em -Constantinopla sem que nós o sintamos, e em que todo o homem tem o seu -momento de evidencia, nós passamos o nosso bemdito dia a promulgar -sentenças e a lavrar diplomas. Não ha facto, acção individual ou -collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos -promptos, apenas ellas nos sejam apresentadas, a formular muito d'alto -uma opinião cathedratica.</p> - -<p>E a opinião tem sempre e apenas por base aquelle pequenino lado do -facto, da acção, do homem, da obra, que apparece, n'um relance, ante os -nossos olhos fugidios e apressados. Por um gesto julgamos um caracter, por -um caracter avaliamos um povo. A antiga anecdota d'aquelle inglez -funambulesco que, desembarcando em Calais de madrugada, e avistando um -coxo no caes, escreve no seu livro de notas: «A França é habitada por -homens côxos»—illustra e symbolisa ainda hoje a formação das nossas -opiniões.</p> - -<p>E quem nos tem enraizado estes habitos levianos? O jornal, que offerece -cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de -juizos ligeiros, improvisados na vespera, das onze á meia noite, entre -o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que -entram á pressa na redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo -o chapéo, decidem com dous rabiscos de penna, indifferentemente sobre uma -crise do Estado, ou sobre o merito de um <i>vaudeville.</i> Como exemplo -picante, eu poderia citar o modo por que a imprensa de Pariz tem -commentado a revolta do Brazil e julgado o povo do Brazil, sobre vagos -bocados de telegrammas truncados—senão receiasse entrar em um -caminho escorregadio, onde me arriscaria a esbarrar com os nossos queridos -collegas do <i>Paiz</i> e do <i>Tempo</i>, armados da sua ferula.</p> - -<p>Lembrarei apenas que, ainda não ha uma semana, o articulista -encarregado no <i>Figaro</i> de criticar cada dia os acontecimentos -politicos da Europa, e que, portanto, deve conhecer a Europa, estudando a -situação economica de Portugal, affirmava, e com uma soberba certeza, que -«em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se -empregavam como carregadores de alfandega, e ao fim de cada mez mandavam -receber as soldadas <i>pelos seus lacaios!</i>» Estes herdeiros das -grandes casas de Portugal, carregando pipas de azeite e fardos de café no -caes da alfandega, e conservando todavia creados de farda para lhes ir -receber o salario—fórmam um quadro simplesmente portentoso. Pois -quem o traça é o <i>Figaro</i>, um dos mais considerados jornaes de Pariz, -e um dos que têm um pessoal mais largo e mais remunerado. E Lisboa todavia -está a dois dias e meio de Pariz! Mas Londres dista apenas sete horas e -meia de Pariz—e constantemente os jornaes francezes escrevem sobre -a Inglaterra, e as cousas inglezas, com a mesma segura sciencia com que o -<i>Figaro</i> descrevia as occupações da nobreza de Portugal.</p> - -<p>Ora, dizia não sei que sentencioso critico hespanhol que, quando se lê -constantemente Seneca, ganham-se os habitos de espirito de Seneca. E -quando se tem como usual alimento do espirito o <i>Figaro</i> e consortes -(e é d'estas magras viandas que hoje se nutre a maioria dos civilisados) -facilmente se toma o habito de ir espalhando estouvadamente, sobre os -homens e sobre os factos, juizos ephemeros e ocos. E eu proprio, por -humildade, para não estender uma orgulhosa abstenção do peccado commum, -comecei por dar aqui, sobre o snr. Brunetière—um juizo ligeiro, -nascido de impressões fugidias.</p> - - -<p>A outra accusação feita á imprensa pelo douto académico é a da -bisbilhotice, de indiscreta e desordenada reportagem.</p> - -<p>Ha aqui alguma ingratidão da parte do snr. Brunetière. Para a critica, -sobretudo como elle a comprehende e exerce, a reportagem é a grande -abastecedora de documentos. Quanto mais detalhes a indiscrição dos -reporters revelar sobre a pessoa do snr. Zola, e os seus habitos, e o seu -regimen culinario, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos -terão os Brunetière do futuro para reconstruir com segurança a -personalidade do auctor de <i>Germinal</i>, e, através d'ella, explicar a -obra. Não é indifferente saber como era feito o nariz de Cleopatra, pois -que do feitio d'esse nariz dependeram, durante um momento, como muito -bem diz Pascal, os destinos do Universo. Mas, como a reportagem ainda se -exerce, não só sobre os que influem nos negocios do mundo ou nas direcções -do pensamento, mas sobre toda a «sorte e condições de gente», desde -as <i>cocottes</i> até aos <i>jockeys</i>, e desde os <i>dandies</i> até aos -assassinos, succede que esta indiscriminada publicidade, sem concorrer em -nada para a documentação da historia, concorre, e prodigiosamente, para o -desenvolvimento da vaidade.</p> - -<p>O jornal é hoje, com effeito, o grande assoprador da vaidade humana. -Em todos os tempos houve vaidosos—e não querem de certo que eu -estafadamente cite o estafado Alcibiades cortando o rabo do seu estafado -cão, para que se falle d'elle nas praças de Athenas. A vaidade é mesmo -muito anterior a Alcibiades: já apparece a paginas 3 da Biblia, e a -folha de vinha, bem collocada, é o seu primeiro acto mundano. -Incontestavelmente, porém, em nenhum tempo a vaidade foi, como no nosso, -o grande, o principal motor das acções e da conducta. N'estes estados de -alta civilisação, que produzem cidades do typo de Pariz e de Londres, tudo -se faz por vaidade, e com um fim de vaidade.</p> - -<p>E d'essa fórma nova e especial da vaidade só o jornal é culpado, porque -foi elle que a creou. Essa forma consiste na notoriedade que se obtém -através do jornal.</p> - -<p>«Vir no jornal», ter o seu nome impresso, citado no jornal—eis -hoje, para uma forte maioria dos mortaes que vivem em sociedade, a -aspiração e recompensa supremas.</p> - -<p>Nos regimens aristocraticos, o grande esforço era obter, senão já o -favor, ao menos o sorriso do principe. Nas nossas democracias é alcançar -o louvor do jornal. Para conquistarem essas dez ou doze linhas bemditas, -os homens praticam todas as acções—mesmo as boas. Não é mesmo -necessario que essas linhas contenham um panegyrico: basta que ponham o -nome, a personalidade em evidencia, n'uma tinta bem negra, que hoje tem um -brilho mais desejado que o antigo nimbo d'ouro. E não ha classe que não -esteja devorada por esse appetite morbido do reclamo. Elle é tão vivo no -mundano, no homem de prazer, na mulher de luxo, como n'aquelles que -parecem preferir na vida a obscuridade e o silencio. Parque vêm agora, -n'estas semanas, esses frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, -pregar nos pulpitos de Pariz sermões de Quaresma grandemente theatraes e -creadores de escandalo? Para terem uma celebridade no genero Coquelin, -e <i>interviews</i> nos jornaes de litteratura elegante, e o seu retrato, -com o habito do grande S. Domingos, exposto entre <i>jockeys</i> illustres -e as cancanistas do <i>Moulin-Rouge.</i> É esta esperança do «artigo do -jornal», que, como outr'ora a esperança do céu, governa a conducta e as -ideias—e para «vir no jornal» é que os homens se arruinam, e as -mulheres se deshonram, e os politicos desmancham a boa ordem do Estado, e -os artistas se lançam na extravagancia esthetica, e os sabios alardeiam -theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a -horda sofrega dos charlatães. Cada um se empurra, se arremessa para a -frente, quer fazer estalar, bem alto no ar, o seu fogo de artificio, -para que o jornal o commente, e a multidão se apinhe e murmure -boquiaberta:—<i>Ah!</i></p> - -<p>Mas, por Deus! agora reparo que estou aqui compondo uma pagina de -moralista amargo, o que é faltar ao bom gosto do nosso tempo, e sobretudo -aos santos preceitos da ironia. Immediatamente me calo—e estou mesmo -prompto a concordar que o jornal tambem incita á virtude... Com effeito, -tal magnifico banqueiro judeu dá, pelo Natal, cem mil francos aos pobres, -para que a sua caridade venha no jornal! Bemdito seja o jornal!</p> - -<p>Nem mesmo, com receio de tomar o desagradavel tom de um censor dos -costumes, quero insistir na outra accusação formulada pelo snr. Brunetière -contra a imprensa—a de partidarismo e de sectarismo. De resto, é por -pura humildade christã que eu, que me considero a meu modo um jornalista, -confessei, fallando do jornalismo, estes peccados em que collaboro -impenitentemente.</p> - -<p>Estamos na Semana Santa, e é de bom exemplo que cada um rosne o seu -<i>mea culpa</i> e cubra a cabeça de uma pouca de cinza. Além d'isso, -queridos amigos e confrades no peccado, esta carta, em que contrictamente -apontei alguns dos vicios mais dissolventes dos jornaes, a sua -superficialidade, a sua bisbilhotice, o seu partidarismo, vicios que os -tornam tão pouco proprios para serem lidos pelo homem justo, já vae -copiosamente larga—e eu tenho pressa de a findar, para ir lêr os -meus jornaes com delicia.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XV_AS_INTERVIEWS-O_REI_HUMBERTO_E_O_FIGARO-A_MONARCHIA_ITALIANA-O_QUE_PODE_DIZER_UM_SOBERANO_A_UM_JORNALISTA-A_SINCERIDADE_E_O_OPTIMISMO_OFFICIAL"></a>XV. AS «INTERVIEWS»-O REI HUMBERTO E O «FIGARO»-A MONARCHIA ITALIANA-O -QUE PÓDE DIZER UM SOBERANO A UM JORNALISTA-A SINCERIDADE E O OPTIMISMO -OFFICIAL.</h4> - - -<p>Apesar d'esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes -(sejamos prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista -consegue <i>interviewar</i> um rei.</p> - -<p>(Este vocabulo <i>interviewar</i> é horrendo, e tem uma physionomia tão -grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que -exprime. O verbo <i>entrevistar</i>, forjado com o nosso substantivo -<i>entrevista</i>, seria mais toleravel, d'um tom mais suave e polido. -<i>Entrevista</i>, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo -technico de alfaiate, que significa aquelle bocado de estofo mais vistoso, -ordinariamente escarlate ou amarello, que surdia por entre os abertos nos -velhos gibões golpeados dos seculos XVI e XVII. Termo excellente, -portanto, para designar um acto em que as opiniões tufam, rebentam para -fóra, por entre as fendas da natural reserva, em cores effusivas e -berrantes. Mas <i>entrevistar</i> tem um não sei que de surrateiro que -desagrada—e só alguem com muita auctoridade e muita audacia o -poderia impôr. <i>Interviewar</i>, ao menos, é bruto mas franco. Temos -pois de empregar resignadamente este feio americanismo—já que os -nossos idiomas neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a -acompanhar todas as ruidosas invenções do engenho anglo-saxonio. Vós ahi -no Brazil, amigos, possuis a arte subtil de cunhar vocabulos que são por -vezes geniaes. Fabricae um que substitua o <i>interviewar</i> e sereis -bemditos).</p> - -<p>E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação -democratica, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não -parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito -divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de -Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o -imperador da Russia sobre os seus planos, elle, muito logicamente, -apontaria silenciosamente para o céu. Os reis d'esse transcendente typo -são agentes submissos, quasi inconscientes, da Providencia. Antes trepar -ás nuvens e formular um interrogatorio directo á Providencia. Se os reis, -porém, são constitucionaes, então os seus desejos, como os seus actos, -só têm valor quando confirmados pelo ministerio, pelo parlamento, por -todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a -Constituição. Mais util, rapido, e de melhor cortezia será interviewar o -ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os -<i>reporters</i>, que, com a imprudencia dos pardaes, se abatera e piam -sobre as cousas mais veneraveis, nunca assaltam os thronos.</p> - -<p>O caso, porém, é differente com o rei de Italia. Humberto é um -rei constitucional que diz sempre—«o <i>meu</i> povo... o <i>meu</i> -exercito... a <i>minha</i> armada». Estas expressões, indicando um -senhorio directo da nação, sanccionado pelo direito divino, só o Czar, -hoje, (além do Sultão) as póde empregar legitimamente. Por toda a parte, -fóra da Russia, da Turquia, (e d'algumas republicas da America Central) os -povos pertencem a si proprios, ou pelo menos conservam essa illusão, que -lhes é preciosa; e os exercitos pertencem ao Estado, que deixou de ser -identico com o rei desde que Luiz XIV teve a fistula. Estas -expressões, porém, de «<i>meu</i> povo», de «<i>meu</i> exercito», que -considerariamos singularmente improprias na bocca constitucional do rei -dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da Italia. Na realeza de -Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que de pessoal e -absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em quem possa -sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez elle -seja apenas o primeiro magistrado da Italia:—para nós elle -apparece, até certo ponto, como o senhor da Italia, porque na sua -qualidade de segundo rei de Italia elle é ainda a razão e a força da -unidade italiana.</p> - -<p>Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados. -Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde -que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou -a sua belleza historica. A concepção abstracta de uma patria una nunca -póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia -ou a sua cidade, e não pensa na cidade proxima e na aldeia visinha senão -para as desdenhar ou para as invejar. De certo a lingua, o parentesco -da raça, a identidade do caracter constituem fortes tendencias para a -unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso -que as aproveite para sobre ellas construir a união nacional. Sem esse -principe ambicioso, ladeado por um ministro do genero de Bismarck ou -Cavour, e instigado por tres ou quatro patriotas idealistas, as cidades -continuavam a fallar a mesma lingua, a nutrir-se intellectualmente n'uma -litteratura commum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens, -mas não sahiriam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo -historico.</p> - -<p>Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na -historia da Italia. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação, -tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo -construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual—a Italia -todavia nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade -permanece fragmentada em municipios e republicas, cuja existência, -tempestuosamente agitada entre a anarchia e a tyrannia, é uma serie -lacrimosa de martyrologios.</p> - -<p>O caracter social da Italia é então a divisão levada até á ultima -molecula social. As cidades vivem isoladas, n'um violento ciume mutuo, -travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfidia que ficou -proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como -ellas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a -cidadella de uma facção. E dentro das casas as familias estão ainda -sombriamente divididas, e paes, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma -sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal -escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injuria na mesma -lingua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas -civicas, e sente o orgulho commum da grandeza passada. Mas o longo habito -da vida local, do governo communal, lançara raizes profundissimas, creára -no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava -indefeso ás violencias da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos -pequenos tyrannetes, á ferocidade de todos os invasores. Accrescia que -estes velhos instinctos municipaes eram explorados machiavellicamente -pelos papas, que se serviam d'elles para esmagar em qualquer dos Estados -a menor tendencia á hegemonia, e através d'ella á formação de uma Italia -unida. Soberano espiritual, o papa não podia soffrer ao seu lado um -soberano temporal;—e para manter a sua independencia fomentava a -desunião. A pobre Italia ia assim ficando repartida em republicasinhas -anemicas e despotismosinhos sangrentos, amollecendo-se em todas as suas -qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocinio da -Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A -consequencia é que a Italia foi assaltada, saqueada, espesinhada, -retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em -decadencia, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridiculo! E a terra -fecunda dos Genios e dos Santos não appareceu mais na Historia senão -como um povo piolhento e somnolento, governado por côrtes minusculas, que -não passavam de uma collecção buffa de caturras, cortezãos, parasitas, -jograes, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e -bailarinas. E porque? Porque lhe faltára até ahi o rei ambicioso e -patriota, que, para ser rei da Italia, quebrasse as velhas tradições do -municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares désse á -Italia um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as -condições todas que a ella lhe consolidariam a unidade, e a elle a -soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos -ainda seus contemporaneos, e o celebrámos como <i>ré galantuomo.</i> -Victor Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Italia. Á sua -voz é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico, -ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente -na grande obra; mas foi elle que a assignou; e, para os olhos da multidão -que nunca aprofunda, só elle ficou com a sua força representativa e a -garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição -impuzesse á sua auctoridade, ella não podia deixar de ser, através das -formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu -filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda d'esta prerogativa -de chefe paternal. Nunca elle poderá ser um rei do puro typo -constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga, -não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Italia -(se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funccionario -irresponsavel. Humberto não—e, para elle, <i>reinar</i> ainda -ha-de ser <i>governar.</i> E quando elle falle do <i>seu</i> povo, do <i>seu</i> -exercito, a Europa não lhe contestará a legitimidade d'essas expressões -autocraticas.</p> - -<p>Além d'isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente -cesariana, e communica, imprime caracter cesariano áquelles que a -governam. Ella mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no -espiritual. Só ha cem annos é que deixou de vir de lá d'entre as sete -collinas, ou sob a forma de encyclica papal, a ordem suprema que se -impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o -senhor da cidade de Romulo sempre partilhará d'esta supremacia que lhe é -inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais esthetico do que -politico.</p> - -<p>Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis -interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante -de direito divino, para se considerar um emissario da Providencia, e, como -ella, esconder os seus designios, que só por ella pódem ser comprehendidos -ou julgados. Ao rei Humberto é permittido dizer: «Eu farei isto, as minhas -intenções são estas...» A sua auctoridade na nação comporta estas -affirmações pessoaes e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente -constitucional, quando atacado por um reporter, só poderá encolher os -hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministerio...»</p> - -<p>Ha, pois, apparentemente, utilidade para um reporter de alta reportagem, -em sondar e puxar para fóra o pensamento intimo do rei Humberto. A -difficuldade unica estaria na operação da sondagem—porque, apesar de -se ter supprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, -os reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se -apresente com uma carteira e um lapis, a «fazer perguntas». Mas o -<i>Figaro</i>, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar -subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos, -realisou esta bella façanha—e interviewou o rei Humberto. E quando -elle annunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as -declarações do rei de Italia, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as -suas longas orelhas. Com effeito, que maravilhosa occasião de conhecer -emfim o segredo da Triplice Alliança! E occasião unica! Porque dous dos -alliados, o imperador da Allemanha e o imperador da Áustria, sendo -mandatarios da Providencia, têm de permanecer impenetraveis. O rei de -Italia, porém, é apenas o mandatario d'um povo, e d'um povo illustre nos -fastos da loquacidade. E o rei da Italia ia fallar... Fallou. O -<i>Figaro</i>, barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E -desde então ainda não cessaram, em tomo d'ellas, controversias que me -espantam, e devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.</p> - -<p>Parece haver, com effeito, immensa ingenuidade em esperar com -inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas, -officiaes, de governos ou de governantes. Por pouco que ellas annunciem -conducta, e constituam programma, taes declarações têm necessariamente de -ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um -governo novo prometter aos cidadãos, senão que todos os seus -esforços tenderão energicamente a manter a <i>ordem</i>, favorecer a -<i>moralidade</i>, e promover a <i>economia?</i> Não ha possibilidade -de que um governo se apresente gravemente ante o paiz, e pondo a mão -leal sobre o coração sincero declare que vae fomentar a <i>desordem</i>, -animar o <i>desperdicio</i>, e proteger a <i>immoralidade!</i> Os cidadãos -não acreditariam:—e esse governo, talvez veridico, seria -escandalosamente expulso como farçante.</p> - -<p>Ha nos programmas politicos uma convencionalidade, mutuamente -consentida, que é commum a todas as manifestações publicas, e que -corresponde á necessidade climaterica e moral, hoje tornada instincto, -de cobrirmos a nossa nudez. É uma méra questão de decencia, de respeito -social, quasi de etiqueta. O chefe de Estado, quando falla á nação, tem -de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos -porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu sequito, nos grandes -ceremoniaes. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas -a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrioticas, integras -phrases devem ondular em tons claros, como os pennachos de gala. Os -experientes sorriem, mas murmuram—«muito bem, muito bem!» E não -tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que -se preparava a fazer escandalos e prepotencias—como não permittiriam -que elle n'essa ceremonia, onde viera lançar o seu programma, se -apresentasse nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta -necessidade de pudor publico, perfeitamente a comprehendo. O que sempre me -pareceu incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com -delicias cada promessa do programma, como se ellas cahissem do alto do -Sinai, e vae exclamando, radiante:—«Emfim, temos um governo, temos -um homem que quer implantar a <i>moralidade</i>, garantir a <i>ordem</i>, -promover a <i>economia</i>, etc., etc., etc,» E ainda comprehendo menos -talvez os que se lançam sobre o programma e o analysam, o dissecam, tiram -d'elle, por entre as linhas, esperanças ou receios, e discutem -apaixonadamente cada uma das suas palavras sacramentaes como se -fossem realidades vivas.</p> - -<p>Que poderia dizer jámais o rei da Italia a um reporter que o interroga -sobre as intenções da Italia? Que poderia dizer, justos céus! senão que -elle e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem, -só appetecem a paz? E foi justamente o que affirmou Humberto. Nem era -humanamente verosimil que elle franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em -vocabularios troantes, o seu odio á França, a sua sêde de guerra... -Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser -inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir, -mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Italia com effeito -teve a attitude que pedia a decencia. Recebendo um jornalista francez, -vinha vestido, e affiançou a paz. Tão estranho seria que annunciasse a -guerra,—como que apparecesse em mangas de camisa.</p> - -<p>E todavia estas declarações previstas, obrigatorias e que não tem mais -significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo -escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analystas politicos, -com ardor, como se contivessem no fundo das suas syllabas os segredos do -Destino. Uns, d'aquem Rheno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê -provas!...» Outros, d'além Rheno, clamam: «Haverá n'estas palavras -de Humberto intenções de desdenhar as allianças juradas?...» E o -<i>Times</i>, ha tres dias, em pesadas columnas está perguntando aos -olhos leaes do monarchismo, se é licito duvidar da affirmação de um -rei!...</p> - -<p>A um innocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas, -ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Italia? Que -póde responder o director de um banco a quem lhe pergunte se elle é pela -probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos accionistas? Que póde -responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se elle é pela -paz—ou se pende para a guerra e mortandade dos povos?</p> - - -<p>De resto é innata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão -inuteis quão nescias, e a que elle sabe de antemão as respostas -necessarias e coherentes. Não ha ninguem que, entrando n'uma mercearia -a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao -mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jámais, desde que ha homens e -queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não -presta!» E se elle désse esta resposta, por espirito sublime de veracidade -intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como -de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em -Inglaterra, parou n'um hotel, e depois de installado e barbeado, desceu a -almoçar. O dia era de junho, elle appeteceu um vinho fresco e leve, -percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com -tradicional e humana ingenuidade:</p> - -<p>—É bom este Chablis?</p> - -<p>O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um -embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu -seccamente:</p> - -<p>—É uma peste.</p> - -<p>O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradavel, aquelle -homem veridico. Depois repercorreu a lista.</p> - -<p>—Bem, traga-me então d'este Medoc... É bom, o Medoc?</p> - -<p>O criado, muito serio, replicou:</p> - -<p>—É horrivel.</p> - -<p>Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, n'uma desconfiança vaga -e escura que o invadia:</p> - -<p>—Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?</p> - -<p>O criado volveu, convencido e digno:</p> - -<p>—Droga muito mediocre... Extremamente mediocre!</p> - -<p>O meu amigo tremia já, n'um positivo terror. Mas ainda balbuciou:</p> - -<p>—Que hei-de eu então beber?</p> - -<p>—Beba agua, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é -realmente detestavel.</p> - -<p>Então o meu amigo repelliu violentamente guardanapo e talher, galgou as -escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para -uma tipoia e fugiu.</p> - -<p>Porque? Nem elle sabia. Tudo quanto me poude explicar é que, perante -tanta sinceridade, perante tanta veracidade, elle sentiu em torno de -si, n'aquelle hotel, alguma cousa de anormal, de extravagante, de -perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira, -da ficção, da convenção—é bem humano.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XVI_O_SALON"></a>XVI. O «SALON».</h4> - - -<p>O mez de maio, em Pariz, é dedicado á Esthetica.</p> - -<p>Então se abre com uma certa solemnidade, em que collabora mesmo o chefe -do Estado, a exposição de Bellas-Artes, a que os francezes chamam o -<i>Salão</i>, sem duvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade -da sua arte. Todas as classes de Pariz (com excepção dos operarios, que só -se apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intellectual pelo -menos social, n'esta abertura do <i>Salão</i>, mesmo aquellas que no resto -do anno vivem tão indifferentes e separadas das cousas d'arte como das -cousas da theologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia -tradicionalmente consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, -que tem o dom de reunir no mesmo enthusiasmo, ou pelo menos na mesma -disposição festiva, todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que -nunca pegaram n'um remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire -de remar com pericia, mostram, e realmente experimentam, a mais excitada -sympathia pela regata classica entre as universidades de Oxford e de -Cambridge. E em Lisboa, mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, -concorrem, no devoto 13 de junho, a festejar Santo Antonio. As almas dos -homens, andando hoje tão dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma -vez por anno, n'um sentimento commum.</p> - -<p>Accresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, offerece dous -grandes attractivos além dos quadros e das estatuas. N'esse dia os -artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:—e -contemplar um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é -um precioso regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha -da Grande-Grecia e das Ilhas a Athenas, não para escutar Platão, mas para -vêr Platão. No <i>Salão</i>, tal que apenas lança um olhar indolente ás -telas de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o proprio -Bonnat, repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi -indifferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão -truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional, -vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas -festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita -uma insaciavel curiosidade—como tudo o que, no bem ou no mal, pelo -brilho ou pela força, se ergue acima do cinzento e mediocre nivel humano. -E mal sabem os «burguezes» que o artista quasi sempre (a começar pelo -proprio Flaubert) é tambem um burguez pacifico, sobrio, cordato e -estreito.</p> - -<p>Mas no <i>Salão</i> ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa -attracção que por certos lados se prende ás Bellas-Artes—a das -<i>toilettes.</i> Com effeito, está na antiga tradição pariziense que as -mulheres de luxo, aquellas para quem o luxo é um instrumento de profissão, -e aquellas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza, -da posição, ou do gosto innato, arvorem então as modas novas de primavera, -as creações mais delicadas e mais artisticas das grandes costureiras -d'arte. São outros tantos quadros que circulam apparatosamente pelas -salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que -os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao -lado das elegantes enxameam as proprias costureiras, que vêm, exactamente -como os artistas, observar com anciedade o «effeito» produzido pela -composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.</p> - -<p>D'estas obras especiaes apenas entrevi duas com alguma fantasia e -audacia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plastica» concorria a dar -um relêvo picante e divertido á <i>toilette</i> e aos accessorios da -ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade -serpentina, trazia uma saia curta, de sêda murmurosa e lustrosa, -recoberta de falbalás Pompadour: os cabellos fulvos, pintados com o louro -do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre collo e hombros, como -uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais -illustre cabelleireiro do seculo); as abas do seu chapéo eram tão vastas -que sob ellas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes, -com os seus cavallos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por -uma triumphal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão, -calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o -hombro, apoiava-se no castão de onyx de uma bengala de marfim, mais alta -que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sêdas crepitavam -e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do -bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos labios da dama, -tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia -entre a multidão—e eu não a commento. Arredae-vos, amigos, e -deixae-a passar.</p> - -<p>A outra senhora, ainda mais pittoresca, era enorme, transbordante, -construida de rôlos e bolas, com uma pelle escabrosa, a que, mesmo sob o -pó d'arroz applicado sem economia, se sentia a côr de açafrão. As suas -tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas n'uma -tunica diaphana, d'um amarello ardente e brilhante, como as florinhas do -campo de Portugal chamadas <i>botões de ouro</i>, e feita certamente -d'aquelle antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua -transparencia e leveza aerea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz -e vento.</p> - -<p>Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, tambem -amarellos. Era uma nympha, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda, -de venta larga, com um saracoteio que lhe collava a tunica e lh'a -enrodilhava nos vastos membros de elephante ameno, fendia soberbamente -a turba, meneando um immenso leque, ainda amarello, furiosamente amarello. -Taes eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que -mais me impressionaram n'estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Pariz -continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo -perdido todo o predominio em materia de philosophia e de sciencia -positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas -costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos -inventivas, estes dous figurinos que se me affiguram consideraveis.</p> - - -<p>Emquanto ás outras obras expostas no <i>Salão</i>, os quadros e as -estatuas, a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por -via d'ellas (<i>mirabile dicta!</i>) mais uma vez reconheci quanto é facil -governar as Democracias. O grande obstaculo, que os theoricos de -temperamento timido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos -democraticos, é a independencia da razão individual e o seu livre -exercicio, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiaes da -estructura publica.</p> - -<p>Desde que não exista uma regra, como a velha regra catholico-monarchica, -que obrigue todos os espiritos a ter a mesma opinião e a regularem por -ella a sua conducta, não parece possivel (affirmam esses pallidos -theoricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos elles -possuidores de uma ideia original e propria, e determinados, por interesse -ou por convicção, a que só ella prevaleça.</p> - -<p>A servidão intellectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas, -apparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.</p> - -<p>Mas como a Democracia, de collaboração com a philosophia, tem -justamente por fim abolir esta servidão, dar uma illimitada alforria aos -entendimentos, ella cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto -tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá -a sua sentença». E (concluem emfim os theoricos) como não ha melhor goso -para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que, -apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem -desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma -d'essas horripilantes desafinações sociaes só comparaveis ás d'uma -orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva, -tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um -erro—e os theoricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao -<i>Salão</i>, no dia da sua abertura, quando em materia d'Arte cada -cabeça, depois de ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua -sentença. Se tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam -que o servilismo intellectual é no homem um vicio irreductivel, e que por -mais que se lhe facilite o largo e livre exercicio da razão, e que se lhe -ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre elle por instincto, -por covardia, por indolencia, por desconfiança de si proprio, abdicará o -direito de pensar originalmente e se submetterá com prazer, com allivio, -a toda a Auctoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se -erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a -humanidade é gado—e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é -pender para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.</p> - -<p>Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de -tantos seculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da -indole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita -alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam, -no <i>Salão</i>, a curiosidade e a admiração do publico.</p> - -<p>Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de -seres pensantes, e unicos donos do seu pensamento, marchavam -arrebanhadamente para aquellas obras que, na vespera, o Estudo Critico, -ou antes o Guia Critico, do <i>Salão</i>, publicado pelo Jornal, lhes -indicava, ou melhor lhes impuzera, como as unicas deante das quaes -deviam parar, e fazer <i>ah!</i> e sentir uma emoção e depôr um louvor. -Não só o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara -mesmo a emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula -laudatoria que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos -com o jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, deante da tela, -recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omittir um -adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus -teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina -mental.</p> - -<p>Todavia este povo fez, com intensa paixão, tres revoluções sangrentas -para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juizo. Essa conquista, -symbolisada sempre na classica tomada da classica Bastilha, é com razão -um dos seus altos orgulhos e foi ella que o auctorisou a revestir-se -entre as nações do caracter messianico, e a intitular-se «redemptor dos -Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com effeito, a liberdade -de ter uma opinião, não só em materia politica, mas mesmo em materia -philosophica e esthetica, nem sempre foi garantida aos parizienses, -e houve tempos (talvez ditosos) em que elle, tal qual como o habitante de -Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura, -divergir das opiniões dogmaticas dos seus doutores.</p> - -<p>Quando a Faculdade de Pariz (que, segundo diz Voltaire, tão poucas -faculdades possuia) lançou um decreto negando a existencia das «ideias -innatas», todos os espiritos foram obrigados a repellir com nojo a -abominavel noção das «ideias innatas»; e quando, annos depois, fazendo -uma pirueta metaphysica, a mesma Faculdade atirou outro decreto affirmando -a existencia das «ideias innatas», todos os mesmos espiritos, piruetando -tambem, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias -innatas». A memoria d'essa affrontosa escravidão intellectual ainda hoje -amargura o francez que em principio, theoricamente, considera a vida sem -valor, logo que ella não seja acompanhada e ennobrecida pela liberdade do -pensamento.</p> - -<p>É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua -melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan, -a quem ainda não é permittido raciocinar d'um modo differente do que -raciocina o Cadi ou o Ulema. Elle, francez, graças ás suas tres -revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as cousas da terra -e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver -conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião, -espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe -indique a opinião que elle deve adoptar e a maneira porque a deve -exprimir, ou se trate de um ministerio e o Cadi seja Magnard, do -<i>Figaro</i>, ou se trate d'um <i>vaudeville</i> e o Ulema seja Sarcey, -do <i>Temps.</i></p> - -<p>D'onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem -verdadeiramente não appetece ser livre e apenas deseja que lhe não -chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em lettra -redonda, algures, n'uma Constituição ou nas paredes dos edificios, elle -está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em -factos. O distico lhe basta. Qualquer Republica se póde converter no mais -rigido despotismo, comtanto que se continue a denominar «Republica». Nero, -intoleravel sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome -de presidente. Em materia social é o rotulo impresso na garrafa que -determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades -parece, portanto, ser essencialmente uma questão de lexico. O melhor meio -de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com enthusiasmo: «Vós sois -livres!»—e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes, -obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem -pensar mais e sem mais querer, porque a <i>palavra</i> essencial foi dita, -elles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer -e para pensar por elles.</p> - - -<p>De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem -iniciativa propria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar. -Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser -louvavel. N'esta nossa atulhada civilisação, em que tão continuos esforços -são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no -famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que elle se -sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões -estheticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia -outr'ora a Voltaire:—«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca -me sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:—e -que, se já era verdadeira no seculo XVIII, quanto mais exacta é no seculo -XIX! Para ter um gosto proprio e julgar com alguma finura das cousas -d'arte, é necessaria uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o -homem de trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, -que exige viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um -afinamento particular do espirito? Os proprios ociosos não têm -tempo—porque, como se sabe, não ha profissão mais absorvente do que -a vadiagem. Os interesses, os negocios, a loja, a repartição, a familia, a -profissão liberal, os prazeres não deixam um momento para as exigencias de -uma iniciação artistica:—e n'uma cidade de dous milhões de almas, -como Pariz, ha por fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com -verdade e profundidade a belleza ou a grandeza de uma obra, e que, deante -d'um quadro de Velasquez e d'um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence -á Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleographia triumpha, e -Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais -desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da -multidão. Ella póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra -tempo para ter bom gosto!»</p> - -<p>Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive -n'um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que -se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa -manifestação de cultura, elle é considerado pelos seus visinhos como um -selvagem. O desdem, ou simples indifferença pela litteratura ou pela arte, -já não é permittido ao habitante d'uma capital: e os tempos vão longe em -que os senhores feudaes se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em -todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão -indispensavel mostrar um certo gosto pelas cousas do espirito, como usar, -pelo menos ao domingo, camisa engommada. É um preceito de decencia e -respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no -bacalhau, e indifferente a tudo, fóra o arratel e o meio arratel, não se -ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as -lettras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem -gravata. Tudo n'este nosso seculo é <i>toilette</i>, dizia o velho -Carlyle.</p> - -<p>O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da intelligencia. Quem se -quererá apresentar deante dos seus amigos com uma intelligencia núa?</p> - -<p>N'uma cidade como Pariz, e perante um acontecimento tão artistico como -é todos os annos a abertura do <i>Salão</i>, cada bom burguez (para usar -o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre tres -ou quatro quadros uma opinião, uma phrase, para trocar com as suas -relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa phrase é um -trabalho que pede reflexão, tempo, um diccionario. E para quem passa -o seu cançado dia no escriptorio, no armazem, na repartição, no bilhar -ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma -sobrecarga impraticavel. O expediente natural, portanto, é recorrer -áquelles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre cousas -d'arte, opiniões e phrases. Estes são os criticos e têm a sua loja de -retalho no jornal. Nada mais commodo, mais rapido, pois, do que comprar -ao critico, pela toleravel somma de dez réis, tres ou quatro opiniões, -como se compram no luveiro tres ou quatro pares de luvas, escuras ou -claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica -apto a apparecer na sociedade com o ar e a elegancia moral de um sêr -culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica -e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de -corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. D'ahi a um momento, -dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazem de fato feito, e ao -armazem de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e -dignamente vestido, por dentro e por fóra, e sahir á rua, e ser um -senhor.</p> - -<p>Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando -n'elle as obras que ha-de admirar e as phrases em que ha-de moldar a sua -admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a ferula da -auctoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo -de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire -escreveu, não havia quasi jornaes, o unico critico d'arte era Diderot e -ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquelle amanuense estava -realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornaes e uma -tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um -amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dous -ou tres kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter -alguma esthetica e alguma poetica, quando se vae á noite tomar chá com -senhoras. Ahi os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como -um cartucho—e, deante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat, -dizendo com segurança, depois de metter a mão no cartucho, o que este -anno se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.</p> - -<p>E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através d'um -portico de considerações geraes, eu vos retive, amigos, todo este tempo, -á entrada do <i>Salão</i>, sem vos mostrar sequer um bocado de côr sobre -um bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do <i>Cavalleiro das -Flores</i>, de Rochegrosse, ou do <i>Papa e o Imperador</i>, de Laurens, -ou da <i>Brunehilde</i>, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas -de prosa desbotada e fugaz.</p> - -<p>Estes quadros estão em França, vós estaes no Brazil, e de permeio ha -tres mil leguas de longo e sonoro mar. É difficil sentir uma obra d'arte -a tres mil leguas, através d'um mero fio de rhetorica. A pintura é, -segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto -eu só vos poderia offerecer a descripção d'uma imitação da Natureza. Mas -como eu proprio só conheço quasi todos estes quadros, que são tres mil, -pelo que d'elles li n'uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia -fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E -como desconfio, além d'isso, que o estudo d'esta revista era já compilado -sobre as notas de jornaes, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava -a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da -Natureza. O que seria petulante.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XVII_CARNOT"></a>XVII. CARNOT.</h4> - - -<p>O presidente Carnot foi assassinado em Lyão. Para desde logo -caracterisar este contrasenso sangrento, eu deveria dizer que o presidente -Carnot foi inverosimilmente assassinado em Lyão.</p> - -<p>Com effeito! Que rara inverosimilhança!</p> - -<p>O mais innocente, o mais legal, o mais irresponsavel, o mais impessoal -dos chefes de Estado, morrendo de uma punhalada, como Cesar, como -Henrique IV ou como Marat!</p> - -<p>Carnot sahia, ás 9 horas da noite, do banquete que lhe offerecera a -municipalidade de Lyão para assistir, no <i>Grand-Theâtre</i>, a uma -representação de gala.</p> - -<p>O seu <i>landeau</i>, aberto e desprotegido, rolava vagarosamente por -entre uma multidão que o acclamava no fulgor das ruas illuminadas. Um -homem, trazendo n'uma das mãos um ramo de flôres e na outra um papel -enrolado á maneira d'um requerimento, saltou bruscamente, e como um gato, -sobre o rebordo do <i>landeau</i>, tocou no peito do presidente com as -flôres ou com o papel. O <i>maire</i> de Lyão, sentado em frente de -Carnot, ainda atirou, com o punho, uma pancada á cabeça do homem, que -fugira, e que alguem na turba immediatamente filara, por instincto, como -um ladrão. Tanto o <i>maire</i> de Lyão como aquelles mais proximos, que -tinham entrevisto n'um relance o salto mudo e felino, pensaram que o homem -se arremessava sobre o presidente <i>para lhe arrancar e lhe roubar a -placa de diamantes da Legião de Honra!</i> E esta ideia, a primeira, como -a mais natural, que a todos acudiu, perfeitamente define o presidente da -Republica. Carnot era d'esses homens que se não suppõe que possam ser -accommettidos—senão para serem roubados.</p> - -<p>Elle não tinha inimigos. Não tinha mesmo adversarios—porque não -representava um partido e muito menos um principio. A Constituição -reduzira a sua auctoridade a uma sombra incerta e tenue; e essa mesma -parcella de auctoridade elle a exerceu sempre com uma reserva, que a -muitos parecia indifferença, e a outros nullidade. Carnot passou a sua -presidencia constantemente torturado e peiado pelos escrupulos -pungentes da Legalidade. De certo tinha os seus gostos e as suas -preferencias—mas eram preferencias de homens por homens, e nunca por -ideias. Estas mesmas preferencias por estadistas do seu typo, discreto e -neutro, como Mr. Loubet, Tirard e outros, tantas vezes lhe foram -censuradas pelas opposições extremas, que elle terminou por immolar dentro -em si esta derradeira e modesta expressão da sua força pensante. Foi então -que ganhou a reputação phantasista <i>de ser de pau.</i> A sua vontade -immovel ou immobilisada traduzia-se na rigidez hirta da sua attitude. -Quasi não ousava mover um braço com receio de magoar um artigo da -Constituição. Quando muito saudava e sorria. Assim pelo menos o pintavam -os caricaturistas e os cancionistas. E se a historia da sua presidencia -fôsse mais tarde estudada n'estas obras ligeiras do humorismo pariziense, -ellas dariam ideia de um chefe de Estado cujos unicos actos historicos -fôram saudar e sorrir. Carnot não era mais que a imagem ornamental e -symbolica da Republica, como essa estatua de ouro da Victoria, que -protegia o Imperio Romano. E o partido politico, que com um fim politico -assassinasse este chefe, seria tão insensato como uma tripulação revolta -que, querendo apoderar-se de um navio para lhe dar um rumo novo, -decepasse expressamente e furiosamente a figura de pau esculpida na -prôa.</p> - -<p>Por isso o crime de Lyão foi logo, e sem outro exame, attribuido ao -anarchismo;—porque só os anarchistas, hoje, n'esta nossa civilisação -raciocinadora, utilitaria, conservam, como os selvagens, a ferocidade -pueril de commetter crimes inuteis. São elles que, para destruir todo o -capital oppressor, arrasam um predio qualquer de tres andares, e para -demolir a burguezia auctoritaria matam a estilhas de bomba alguns -empregados do commercio sentados n'um café a beber <i>bocks.</i> Os seus -crimes nem sómente são inuteis—são ainda contraproducentes, porque -vão formidavelmente fortalecer tudo quanto elles querem destruir, e -indefinidamente retardam todos os progressos que elles pretendem com -ancia precipitar. Esta seita, que tem por principio a suppressão de -toda a auctoridade, tornou-se assim uma estupida e inconsciente fautora do -abuso da auctoridade. E chegou a um ponto, que o anarchismo parece ser -secretamente assalariado pelo despotismo.</p> - -<p>O assassino de Carnot ainda se não confessou anarchista; de facto ainda -não descerrou os labios senão para rosnar algumas indicações de -naturalidade e residencia, n'uma rude algaravia incomprehensivel, que não -é francez, nem italiano, e que se não sabe mesmo se é natural, se -fingida. Mas desde logo a conclusão geral foi que havia alli um -anarchista—porque só um anarchista, com aquelle obtuso fanatismo que -dementa a seita, poderia esquecer quanto o assassinato de um chefe de -Estado, tão legal e irresponsavel como Carnot, iria, pela natural irrupção -de colera e dôr, pela unanimidade de sympathias accumuladas em torno da -França e do seu governo, pelo sentimento do perigo despertado em todos os -outros chefes de Estado, exacerbar por toda a parte a reacção e a -perseguição, não só contra o anarchismo, mas contra os partidos avançados -e de ideias justas de que elle é o filho bastardo e scelerado. Mais que -nunca, d'este vez o anarchismo trabalhava furiosamente contra essa -liberdade de que pretende ser a expressão suprema e perfeita;—e a -sua arma não era mais do que uma nova e ensanguentada ferramenta posta, -por elle, de noite, nas mãos da burguezia capitalista.</p> - -<p>Anarchista ou não, porém, esse rapaz mysterioso, que permanece mudo -n'um carcere de Lyão, fez, senão uma d'aquellas «victimas de eleição» -de que fallam os Evangelhos, uma victima que todos os homens de bem podem -lamentar com magoa pura e sem mescla d'outro sentimento. Carnot foi por -excellencia o magistrado integro.</p> - -<p>Sem nenhuma das qualidades brilhantes de espirito que captivam os lados -imaginativos da raça franceza, elle foi todavia popular, e, apesar dos -leves sorrisos que provocava o seu feitio exageradamente empertigado, o -mais popular talvez de todos os chefes d'Estado n'stes ultimos cincoenta -annos em França. E a razão é que elle encarnava admiravelmente todos os -outros lados do temperamento francez, os do bom senso positivo, da -prudente moderação, do trabalho zeloso, da probidade e da veneração pela -Lei. Todos estes traços de caracter se encontram em França, principalmente -na burguezia provincial; por isso Carnot era sobretudo querido nas -provincias, e se podia considerar como um presidente não pariziense, mas -provinciano, o que constitue, para quem conhece Pariz, um dos seus -meritos, senão o seu merito maior. De certo para a sua popularidade -concorreram tres grandes factos que elle pessoalmente não creou, mas a que -soube presidir com perfeita dignidade e tacto:—a suppressão do -boulangismo, ultimo fermento do espirito cesarista; a exposição universal -de 1889; e a alliança ou festas alliadas da Russia e França. Todos estes -acontecimentos, de resto, se prendiam com aquella ordem de preoccupações -que n'elle eram mais vivas, da grandeza material da França e do seu -predominio social na Europa. Peiado, travado pelos seus escrupulos de -legalidade, em tudo o que se relacionava com a politica interna (ao -contrario de Grévy que só se interessava pelo parlamentarismo pelos seus -episodios) era para as relações exteriores da França, para a sua situação -e gloria na Europa, que Carnot dirigia, senão uma franca iniciativa, ao -menos aquella porção de iniciativa secreta de que se considerava ainda -legalmente senhor. E ahi os seus serviços fôram reaes e eminentes, porque, -se não teve em politica externa d'essas ideias seguidas, novas ou fortes, -que outr'ora quando havia reis se chamavam «as grandes ideias do reinado», -mostrou na sua conducta de chefe d'Estado, exposto á observação das -chancellarias européas, tanta correcção e prudencia pacifica, e sentimento -da grandeza nacional, que fez acreditar á Europa n'uma França tão digna, -tão prudente, tão pacifica e tão forte na consciencia da sua grandeza, -como se mostrava o chefe que ella escolhera. Por esse lado, Carnot foi -um valioso cooperador da confiança da França em si mesma e da paz em toda -a Europa.</p> - -<p>Particularmente, era o mais excellente dos homens—affavel, -caritativo, leal, clemente, cultivado.</p> - -<p>A multidão que o via sempre tão teso, mettido n'uma casaca que parecia -de ferro, com a barba muito negra e dura, a barra vermelha da Legião de -Honra destacando sem um vinco no peitilho rigido, tendia a pensar que -tudo, no homem interior, era tambem secco, rigido, duro.</p> - -<p>A multidão enganava-se redondamente. Carnot era um brando, quasi um -sentimental.</p> - -<p>Ha assim d'estas figuras de madeira, que vivem por dentro de uma vida -ignorada, que é cheia de sensibilidade e de calor affectivo.</p> - -<p>Um jornal que sempre incondicionalmente o honrou, e que costuma pôr -nas suas palavras uma sisudez ponderosa, e mesmo solemne, o <i>Temps</i>, -resume o elogio funebre de Carnot affirmando que elle era <i>un brave -homme.</i> A expressão assim, isolada, póde parecer familiar, talvez -rasteira, mesmo laivada de vago desdem. Mas, quando junta a todas as -outras que definem o seu caracter publico, logo se sente que esta as -completa, as embelleza, e espalha sobre ellas como um indefinido -perfume de bondade e doçura, sem as quaes nunca ha verdadeira -superioridade moral. E Carnot, elle proprio, na lista extensa das suas -virtudes intimas e civicas, apreciaria, mais que todas, esta, que -tem um feitio tão simples, de <i>brave homme.</i> Na sua vida, na sua alta -magistratura, foi sempre um <i>brave homme.</i></p> - -<p>E isto, no chefe eleito de uma democracia, é talvez a melhor -condição—porque dos grandes genios vêm por vezes grandes males, e -nunca vem senão bem de uma bondade honesta e grave.</p> - - - - -<hr class="r5" /> - - - - -<h4><a id="XVIII_A_MORTE_E_O_FUNERAL_DE_CARNOT"></a>XVIII. A MORTE E O FUNERAL DE CARNOT.</h4> - - -<p>Pariz, sentado nos terraços dos cafés, bebendo aos goles, devagar, -limonada ou xarope de grozelha e soda, enxuga a testa e repousa das -emoções por que passou n'esta semana, sob 35 graus calor (á sombra). Que -emoções, com effeito, tão atropelladas, tão desencontradas, desde essa -manhã de segunda-feira em que cada um de nós foi accordado quasi -violentamente pelo seu criado, que, sem abrir as vidraças, espalhando logo -na penumbra da alcova um pouco do assombro e do horror que invadira a -cidade, exclamava ou balbuciava:—«O snr. Carnot foi assassinado em -Lyão!» Depois d'isto não era possivel, nem readormecer, nem preguiçar. -Pariz inteiro, sem banho, quasi sem almoço, desceu á rua, como Athenas -nos grandes dias civicos, e ficou na rua durante uma semana, fallando -alto e comprando vorazmente jornaes. Tantos jornaes arrebatava e logo -arremessava, que á noute macadam e asphalto desappareciam sob uma camada -de lixo impresso, o mais triste de todos os lixos.</p> - -<p>Esta multidão tão sobreexcitada interiormente, conservava todavia uma -compostura calma, semelhante á de um publico n'um theatro, que, enquanto -os heroes agonisam no tablado, se sente perfeitamente seguro, e seguras, -em torno d'elle a vida e a ordem da cidade. É que a morte Carnot só -affectou realmente a imaginação de Pariz. Era como uma tragedia, -improvisada um forte genio tragico, representada inesperadamente uma noite -em Lyão, e de que os jornaes viessem contando os lances de sangue e -luto.</p> - -<p>O punhal do italiano, escandido entre flôres, á boa maneira italiana -da Renascença, não ferira, ferindo Carnot, nenhum d'esses interesses que -são para o homem, individualmente, como pedaços da sua propria carne, ou -para a sociedade como o cimento de onde depende a sua estabilidade. O -bem estar mais intimo do cidadão, hoje, não se altera com as catastrophes -soffridas por aquelles que os governam: e o Estado não soffre uma -arranhadura, quando o seu chefe morre d'uma punhalada. Outr'ora, a -suppressão violenta do chefe causava um abalo universal, uma tumultuosa -deslocação de interesses, quasi uma transformação de costumes. Quando -Henrique IV é assassinado na rua <i>de la Ferronnerie</i>, como Carnot, -toda a França, horas depois, segundo a viva expressão de Michelet, ficou -revirada de dentro para fóra como uma luva. A laboriosa obra do reinado -desaba bruscamente: o thesouro amontoado por Sully é esbanjado ao vento; -todas as construcções, por falta de dinheiro, se interrompem; todas as -grandes manufacturas se fecham, e os operarios vagueiam famintos; a trama -das allianças, tao habilmente urdida, n'um instante está desfeita—e -ahi temos em breve a guerra dos Trinta Annos! Aquelle rei morto levava -comsigo para o tumulo o pão, a paz, a posição, as vaidades de milhares de -vasallos. Por isso em Pariz foi terrivel a desolação. Como diz ainda -Michelet, cada cidadão se considerou pessoalmente perdido: e nas casas, -como uma desgraça domestica, as mulheres gritavam arrepellando os -cabellos!</p> - -<p>Com a perda do snr. Carnot, assassinado como Henrique IV, nenhum -cidadão (superfluo é lembrar) se considera perdido: e as mulheres, em vez -de arrepellar o cabello, põem mais cuidado em o pentear, para assistirem, -com uma curiosidade ligeira, á festa dos funeraes.</p> - -<p>Não ha obras interrompidas, nem operarios despedidos. Pelo contrario! -O trabalho cresce. Os jardineiros, os floristas, os fabricantes de corôas, -embolsam mais de tres milhões de francos. O assassinato do chefe do Estado -anima o commercio. De facto, não ha nada mudado em França—apenas -um bom francez de menos.</p> - -<p>Isto não prova a fraqueza das instituições monarchicas, porque depois -de Henrique IV morto houve logo Luiz XIII posto, e o throno de França, -com as mesmas flôres de liz, ainda durou triumphalmente dous seculos. -Mostra apenas que hoje Estado já não está todo contido dentro do -chefe—e que o chefe é apenas o remate decorativo do Estado, podendo -ser bruscamente derrubado por uma rajada de crime, sem que o edificio que -elle rematava, se abale, e nem por um momento diminua, ou se modifique, ou -sequer se interrompa, a vida intensa que circula dentro do edificio e -que o torna vivo. O regicidio deixou assim de ser uma tragedia -politica—para se tornar simplesmente uma tragedia domestica, que no -povo não póde interessar mais que a imaginação.</p> - -<p>O que Pariz durante esta semana sentiu (além de uma compaixão natural -pelo bom homem morto e pela admiravel viuva), foi uma curiosidade -feroz do detalhe tragico. Os jornaes concorreram para exaltar esta -curiosidade, menos pelas cousas dolorosas que vinham contando, como pela -maneira terrifica com que as annunciaram, em typo disforme, lettras de -tres pollegadas, de um negrume sinistro, enchendo toda uma folha, e na sua -mudez mais estridentes que gritos! São estas letras de descomedido -espalhafato, imitadas da America e exageradas como toda a imitação -interesseira, que exacerbam a sensibilidade moderna. As pestes, as -guerras, as quedas de imperios, eram outr'ora narradas pelos jornaes no -seu typo miudo e ordinario e a noticia das catastrophes entrava no nosso -espirito de um modo manso e discreto, sem produzir n'elle alvorotos -violentos. Agora, estas lettras espaventosas invadem com pavor o nosso -pobre cerebro; e á maneira de touros que se precipitam dentro d'um templo, -põem a quieta assembléa das nossas ideias em confusão e terror. Uma tarde -d'esta semana, nos boulevards, um jornal astuto e videiro, a -<i>Cocarde</i>, appareceu ostentando na sua primeira pagina, larga -como uma pagina da <i>Gazeta</i>, estas duas linhas unicas, n'um -typo despropositado, sem precedentes, que se avistava a uma -milha:—«O embaixador de França foi assassinado em Roma!»—Vi -mulheres, ao receberem nos olhos desprevenidos este tremendo berro -typographico, quasi desmaiarem: e por onde passavam os vendedores, -agitando o cartaz pavoroso, a multidão redemoinhava, como sob um -grande vento de medo e colera!</p> - -<p>Assim, durante a longa semana, andou vehementemente sacudida a nossa -imaginação.</p> - -<p>De resto a tragedia de Lyão era bem propria a agitar as imaginações -mais ronceiras e dormentes. Raramente o destino ou o acaso (se é que o -destino se conservou indifferente) envolveu um regicidio em scenario mais -commovente, de contrastes mais patheticos, accumulando n'elle uma tal -profusão de detalhes horriveis na sua trivialidade, e quasi medonhamente -grotescos através do seu horror. Essa noite parece composta por -Shakespeare e retocada aqui e além, depois, por Hoffmann. Quem jámais a -saberá e a contará em toda a sua miuda realidade? E que contraste intenso -já, em que o mais doce e ordeiro dos homens assim findasse na mais cruenta -e atabalhoada das tragedias! Carnot morre com um requinte dramatico que -faltou a Cesar! Vêde logo o scenario! Não é a sala grave do senado, onde -os punhaes se erguem com a serenidade raciocinada de uma votação—mas -a rua illuminada de uma cidade em festas, n'uma noite de gala. Todas essas -flammulas, e bandeiras, e rutilantes arcos de gaz, e festões multicores de -lanternas chinezas, e fogos esparsos de Bengala, e escudos de luz, e -palanques, e orchestras são para celebrar o homem que passa no seu -<i>landeau</i>, e saúda, e sorri. Uma multidão sincera, de uma boa -sinceridade provinciana, para quem esse homem, com a placa e gran-cruz da -Legião de Honra, cercado de couraceiros, encarna realmente a magestade da -França, grita—«Viva Carnot! Viva Carnot!» E de repente a magestade -da França cáe para cima das almofadas do coche, com a face descomposta, -livida! Foi um qualquer, surdindo das profundidades da plebe, com os -sapatos rotos, uma velha jaqueta de panno côr de mel, que, n'um relance, -lhe enterrou um punhal no ventre. Punhalada quasi impessoal, em que o -braço não é mais do que a prolongação inconsciente da lamina de ferro, e -que vem debaixo, de longe, de muito longe, das camadas escuras do -proletariado esfaimado... E o <i>landeau</i> lá vae, lá foge a galope, -entre o ancioso tropear da escolta, levando o chefe de Estado que se escoa -em sangue. O Estado, recentemente para o proteger, gastára mais um -milhão de francos em reforçar a policia!</p> - -<p>Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do <i>landeau</i> -da côrte tornado bruscamente carro d'hospital! Já para dentro saltára um -cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do -presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados -pelos lacaios. E assim galopa um quarto d'hora furiosamente, sob as -bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão -seria logo transportado, e em braços, ao pateo d'uma casa, ao balcão d'uma -botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia -em sangue, porque, mesmo n'uma Republica, é severa a regra do Protocollo! -Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os -couraceiros o <i>landeau</i> d'Estado, onde vagamente se agitam e brilham -plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot! -Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha, -terrivel, quasi burlesca—o chefe do Estado estendido, com a -gran-cruz, a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda -da camisa fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa -entre ovações—ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos -foguetes. Passa, desapparece, n'um galope de cavalleiros, deixando apenas -o sulco arrepiador d'aquella fralda branca e sangrenta!</p> - -<p>Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous -<i>reporters</i>, sofregos de se envolverem n'um acontecimento historico, -se apoderam do corpo do presidente e o arrancam do <i>landeau</i>, um -agarrando uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte -através das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal -conhecida ainda, estreiado n'esses dias de gala.</p> - -<p>Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só -devia recolher tarde, depois da representação de gala no <i>Grand -Theâtre</i>; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as -festas, para os fogos da Exposição:—e as luzes estavam apagadas, -todos os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido, -desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um -phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do -presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia.</p> - -<p>Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma -immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava -os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa -para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma -curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se -debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em -que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto -lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a -curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está -passando alguma cousa de irreparavel.</p> - -<p>Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com -bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam, -se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de -casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas...</p> - -<p>Assim morria, n'esta desordem, o mais decoroso dos chefes de -Estado.</p> - -<p>Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo, -n'uma suprema decencia:—e em torno d'elle não havia senão os brancos -marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito -velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e -continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo -gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo.</p> - -<p>Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as -suas insignias—e apertando na mão já hirta um par novo de luvas -brancas. Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra -o seu cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como -chefe de Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na -mão as suas luvas novas. Estas luvas d'além da campa, muita gente as acha -estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os -reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao -morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de -escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava -para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta -feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do -seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um -pagem.</p> - -<p>Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do -céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e -gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste.</p> - -<p>Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o -cavalleiro perfeito e lhe chamou, sorrindo, <i>seu filho.</i> Assim, -através das edades, a tradição liga Carnot a Roldão.</p> - -<p>Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que -regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade, -um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que -trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor, -deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e -coberto de crepes. D'uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot, -vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado -de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n'um carro sem solemnidade -civil e religiosa; e á pressa, n'um trote fugidio, através das ruas mais -desertas, onde clareava a madrugada, levam-n'o para o Elyseu. O morto como -que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar -methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma -colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que -lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d'elle, pelas -ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um <i>fiacre</i>, com -vadios e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida. -Estranho remate de uma noitada estroina—seguir n'um <i>fiacre</i> o -cadaver d'um chefe de Estado!</p> - -<p>Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas -então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna -regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com -curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no -devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz, -n'uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas -ao presidente que passa para o Pantheon.</p> - -<p>Funeraes magnificos, de certo—mas de uma magnificencia muito -cerceada pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da -democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto:—e -o severo gosto, em França, não permitte n'estas pompas outro luxo, além do -luxo das flôres. Tudo o que outr'ora na antiguidade, e depois na -Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres—a -sumptuosidade dos trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os -incensadores fumegando, os coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados, -as insignias symbolicas, os trophéos, os andores, os estandartes, os -carros de deslumbrante architectura, a riqueza patricia, as criadagens -agaloadas, e o incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas -mitras, as suas purpuras, as suas casulas de ouro—toda essa -magnificencia esthetica aqui falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou -Roma, da Florença dos Medicis ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria, -contemplando esta procissão funeral, que uma opulenta e artistica nação -estava fazendo a apotheose do seu chefe assassinado. Todavia a França, -dentro das restricções impostas pela sobriedade do seu gosto e pela -simplicidade da sua democracia, prestou a Carnot, largamente, todas as -homenagens e preitos symbolicos. As flores que lhe offertou, foram -incontaveis, custaram mais de tres milhões de francos, e durante todo um -dia perfumaram o vasto ar de Pariz. E toda a França organisada, desde os -corpos d'estado até aos clubs gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao -Pantheon, que a patria reconhecida reserva aos Grandes Homens.</p> - -<p>Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas -sobre carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de -dous metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas, -não podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só -impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos, -e em breve murchos.</p> - -<p>E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de -casacas pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho -as casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as -fardas d'um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates -destacavam, n'uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se -prolongavam, se eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando -em cadencia. Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava -por fim senão á impressão dormente d'um mudo e lutuoso perpassar de fato -preto.</p> - -<p>E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar -mais a emoção artistica d'esta pompa, a memoria de outras pompas, a de -Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em -longas milhas, calças pretas, casacas pretas.</p> - -<p>Uma novidade, porém, e singular, impressionava n'estes funeraes de -Carnot:—e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira -tricolor, se entreviam n'um carro batinas e sobrepellizes de padres. -Depois, á frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas -grandes vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos -uniformes, appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade -consideravel! E então se attentava mais em que esta tragedia do presidente -assassinado fôra realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e -ministrada pela Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das -mãos do arcebispo de Lyão.</p> - -<p>Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e -freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope, -n'uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira -que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda -orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu -clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o -velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario. -Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o -arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos -de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes, -livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia, -abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E -depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para -rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire!</p> - -<p>Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de -Pariz o radicalismo compungido—e é para os altares que o vae -levando.</p> - -<p>Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d'um -cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de -bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas -pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n'uma evidente mostra de -humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n'este cortejo derradeiro de -Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o -jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as -unhas, horrendamente humilhado.</p> - -<p>Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o -desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado -ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte, -espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos -caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um -objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n'este fim do -seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua -morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o -produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n'este mesmo dia dos -funeraes, e pela voz d'um dos seus melhores espiritos, o declarou, com -aviltante desdem—um producto de exportação!</p> - -<p>Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em -Pariz—producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. <i>Sic -transit gloria diaboli.</i></p> - - - - - - - - - -<pre> - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Echos de Pariz, by Eça de Queiroz - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ECHOS DE PARIZ *** - -***** This file should be named 60194-h.htm or 60194-h.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/6/0/1/9/60194/ - -Produced by Laura Natal Rodrigues at Free Literature (Images -generously made available by Hathi Trust.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United -States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for the eBooks, unless you receive -specific permission. If you do not charge anything for copies of this -eBook, complying with the rules is very easy. You may use this eBook -for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, -performances and research. They may be modified and printed and given -away--you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks -not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the -trademark license, especially commercial redistribution. - -START: FULL LICENSE - -THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE -PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK - -To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free -distribution of electronic works, by using or distributing this work -(or any other work associated in any way with the phrase "Project -Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full -Project Gutenberg-tm License available with this file or online at -www.gutenberg.org/license. - -Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project -Gutenberg-tm electronic works - -1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm -electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to -and accept all the terms of this license and intellectual property -(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all -the terms of this agreement, you must cease using and return or -destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your -possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a -Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound -by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the -person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph -1.E.8. - -1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be -used on or associated in any way with an electronic work by people who -agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few -things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works -even without complying with the full terms of this agreement. See -paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project -Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this -agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm -electronic works. See paragraph 1.E below. - -1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the -Foundation" or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection -of Project Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual -works in the collection are in the public domain in the United -States. If an individual work is unprotected by copyright law in the -United States and you are located in the United States, we do not -claim a right to prevent you from copying, distributing, performing, -displaying or creating derivative works based on the work as long as -all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope -that you will support the Project Gutenberg-tm mission of promoting -free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg-tm -works in compliance with the terms of this agreement for keeping the -Project Gutenberg-tm name associated with the work. You can easily -comply with the terms of this agreement by keeping this work in the -same format with its attached full Project Gutenberg-tm License when -you share it without charge with others. - -1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern -what you can do with this work. Copyright laws in most countries are -in a constant state of change. If you are outside the United States, -check the laws of your country in addition to the terms of this -agreement before downloading, copying, displaying, performing, -distributing or creating derivative works based on this work or any -other Project Gutenberg-tm work. The Foundation makes no -representations concerning the copyright status of any work in any -country outside the United States. - -1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: - -1.E.1. The following sentence, with active links to, or other -immediate access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear -prominently whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work -on which the phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the -phrase "Project Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, -performed, viewed, copied or distributed: - - This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and - most other parts of the world at no cost and with almost no - restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it - under the terms of the Project Gutenberg License included with this - eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the - United States, you'll have to check the laws of the country where you - are located before using this ebook. - -1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is -derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not -contain a notice indicating that it is posted with permission of the -copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in -the United States without paying any fees or charges. If you are -redistributing or providing access to a work with the phrase "Project -Gutenberg" associated with or appearing on the work, you must comply -either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or -obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg-tm -trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted -with the permission of the copyright holder, your use and distribution -must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any -additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms -will be linked to the Project Gutenberg-tm License for all works -posted with the permission of the copyright holder found at the -beginning of this work. - -1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm -License terms from this work, or any files containing a part of this -work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. - -1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this -electronic work, or any part of this electronic work, without -prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with -active links or immediate access to the full terms of the Project -Gutenberg-tm License. - -1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, -compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including -any word processing or hypertext form. However, if you provide access -to or distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format -other than "Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official -version posted on the official Project Gutenberg-tm web site -(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense -to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means -of obtaining a copy upon request, of the work in its original "Plain -Vanilla ASCII" or other form. Any alternate format must include the -full Project Gutenberg-tm License as specified in paragraph 1.E.1. - -1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, -performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works -unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. - -1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing -access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works -provided that - -* You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from - the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method - you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed - to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he has - agreed to donate royalties under this paragraph to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid - within 60 days following each date on which you prepare (or are - legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty - payments should be clearly marked as such and sent to the Project - Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in - Section 4, "Information about donations to the Project Gutenberg - Literary Archive Foundation." - -* You provide a full refund of any money paid by a user who notifies - you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he - does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm - License. You must require such a user to return or destroy all - copies of the works possessed in a physical medium and discontinue - all use of and all access to other copies of Project Gutenberg-tm - works. - -* You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of - any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the - electronic work is discovered and reported to you within 90 days of - receipt of the work. - -* You comply with all other terms of this agreement for free - distribution of Project Gutenberg-tm works. - -1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project -Gutenberg-tm electronic work or group of works on different terms than -are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing -from both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and The -Project Gutenberg Trademark LLC, the owner of the Project Gutenberg-tm -trademark. Contact the Foundation as set forth in Section 3 below. - -1.F. - -1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable -effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread -works not protected by U.S. copyright law in creating the Project -Gutenberg-tm collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm -electronic works, and the medium on which they may be stored, may -contain "Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate -or corrupt data, transcription errors, a copyright or other -intellectual property infringement, a defective or damaged disk or -other medium, a computer virus, or computer codes that damage or -cannot be read by your equipment. - -1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right -of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project -Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project -Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all -liability to you for damages, costs and expenses, including legal -fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT -LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE -PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE -TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE -LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR -INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH -DAMAGE. - -1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a -defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can -receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a -written explanation to the person you received the work from. If you -received the work on a physical medium, you must return the medium -with your written explanation. The person or entity that provided you -with the defective work may elect to provide a replacement copy in -lieu of a refund. If you received the work electronically, the person -or entity providing it to you may choose to give you a second -opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If -the second copy is also defective, you may demand a refund in writing -without further opportunities to fix the problem. - -1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth -in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO -OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT -LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. - -1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied -warranties or the exclusion or limitation of certain types of -damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement -violates the law of the state applicable to this agreement, the -agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or -limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or -unenforceability of any provision of this agreement shall not void the -remaining provisions. - -1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the -trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone -providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in -accordance with this agreement, and any volunteers associated with the -production, promotion and distribution of Project Gutenberg-tm -electronic works, harmless from all liability, costs and expenses, -including legal fees, that arise directly or indirectly from any of -the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this -or any Project Gutenberg-tm work, (b) alteration, modification, or -additions or deletions to any Project Gutenberg-tm work, and (c) any -Defect you cause. - -Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm - -Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of -electronic works in formats readable by the widest variety of -computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It -exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations -from people in all walks of life. - -Volunteers and financial support to provide volunteers with the -assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's -goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will -remain freely available for generations to come. In 2001, the Project -Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure -and permanent future for Project Gutenberg-tm and future -generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see -Sections 3 and 4 and the Foundation information page at -www.gutenberg.org Section 3. Information about the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit -501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the -state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal -Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification -number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by -U.S. federal laws and your state's laws. - -The Foundation's principal office is in Fairbanks, Alaska, with the -mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its -volunteers and employees are scattered throughout numerous -locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt -Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to -date contact information can be found at the Foundation's web site and -official page at www.gutenberg.org/contact - -For additional contact information: - - Dr. Gregory B. Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. To SEND -DONATIONS or determine the status of compliance for any particular -state visit www.gutenberg.org/donate - -While we cannot and do not solicit contributions from states where we -have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition -against accepting unsolicited donations from donors in such states who -approach us with offers to donate. - -International donations are gratefully accepted, but we cannot make -any statements concerning tax treatment of donations received from -outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. - -Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation -methods and addresses. Donations are accepted in a number of other -ways including checks, online payments and credit card donations. To -donate, please visit: www.gutenberg.org/donate - -Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic works. - -Professor Michael S. Hart was the originator of the Project -Gutenberg-tm concept of a library of electronic works that could be -freely shared with anyone. For forty years, he produced and -distributed Project Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of -volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in -the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not -necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper -edition. - -Most people start at our Web site which has the main PG search -facility: www.gutenberg.org - -This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, -including how to make donations to the Project Gutenberg Literary -Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to -subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. - - - -</pre> - -</body> - - -</html> diff --git a/old/60194-h/images/echos_cover.jpg b/old/60194-h/images/echos_cover.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 4c79d66..0000000 --- a/old/60194-h/images/echos_cover.jpg +++ /dev/null diff --git a/old/60194-h/images/queiros01.jpg b/old/60194-h/images/queiros01.jpg Binary files differdeleted file mode 100644 index 2ba6a1e..0000000 --- a/old/60194-h/images/queiros01.jpg +++ /dev/null |
