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+The Project Gutenberg EBook of Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume
+I), by Francisco Rodrigues Lobo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
+
+Author: Francisco Rodrigues Lobo
+
+Release Date: October 14, 2011 [EBook #37757]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE ***
+
+
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
+ texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
+ de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
+ deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Outubro 2011)
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA UNIVERSAL
+
+ANTIGA E MODERNA
+
+
+
+CORTE NA ALDEIA
+
+E
+
+NOITES DE INVERNO
+
+POR
+
+FRANCISCO RODRIGUES LOBO
+
+VOLUME I
+
+16.^a SERIE--NUMERO 62
+
+[Illustration]
+
+LISBOA
+COMPANHIA NACIONAL EDITORA
+
+Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES
+40--Rua da Atalaya--52
+
+FILIAES: Praça de D. Pedro, 127, 1.^o andar, PORTO
+38, rua da Quitanda. Rio de Janeiro
+
+1890
+
+
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
+
+309, Rua da Rosa, 309
+
+1890
+
+
+
+
+ Em quanto está o avaro em seu thesouro
+ Cevando os olhos, dando ao pensamento
+ Materia a vã cobiça de mais ouro.
+
+ _Primavera_, Floresta, 5.
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+A _Noticia biographica_ de Francisco Rodrigues Lobo encontram-a os
+leitores á frente do volume 23.^o da _Bibliotheca Universal Antiga e
+Moderna_.
+
+
+
+
+CÔRTE NA ALDEIA
+
+E
+
+NOITES DE INVERNO
+
+
+DIALOGO I
+
+ARGUMENTO DE TODA A OBRA
+
+
+Perto da cidade principal da Luzitania está uma graciosa aldeia, que com
+egual distancia fica situada á vista do mar oceano, fresca no verão, com
+muitos favores da natureza, e rica no estio e inverno com os fructos e
+commodidades, que ajudam a passar a vida saborosamente; porque com a
+vizinhança dos portos do mar por uma parte, e da outra com a
+communicação de uma ribeira, que enche os seus valles e outeiros de
+arvoredos e verdura, tem em todos os tempos do anno o que em differentes
+logares costuma buscar a necessidade dos homens: e por este respeito foi
+sempre o sitio escolhido para desvio da côrte, e voluntario desterro do
+trafego d'ella: dos cortezãos, que alli tinham quintas, amigos ou
+heranças, que costumam ser valhacouto dos excessivos gastos da cidade.
+
+Um inverno em que a aldeia estava feita côrte com homens de tanto preço,
+que a podiam fazer em qualquer parte, se juntava a maior d'elles em casa
+d'um antigo morador d'aquelle logar, que tambem o fôra em outra edade da
+casa dos reis, d'onde com a mudança e experiencia dos annos, fez eleição
+dos montes para passar n'elles os que lhe ficavam da vida, grande acerto
+de quem colhe este fructo maduro entre desenganos. Alli ora em
+conversação aprazivel, ora em moderado e quieto jogo se passava o tempo,
+se gosavam as noites, se sentiam menos as importunas chuvas e ventos de
+novembro, e se amparavam contra os frios rigorosos de janeiro.
+
+Entre outros homens, que n'aquella companhia se achavam, eram n'ella
+mais costumados, em anoitecendo, um letrado que alli tinha um casal, e
+que já tivera honrados cargos do governo da justiça na cidade, homem
+prudente, concertado na vida, douto na sua profissão, e lido nas
+historias da humanidade: um fidalgo mancebo, inclinado ao exercicio da
+caça, e muito affeiçoado ás cousas da patria, em cujas historias estava
+bem visto: um estudante de bom engenho, que entre os seus estudos se
+empregava algumas vezes nos da poesia: um velho não muito rico, que
+tinha servido a um dos grandes da côrte, com cujo galardão se reparara
+n'aquelle logar, homem de boa creação, e, além de bem entendido,
+notavelmente engraçado no que dizia, e muito natural de uma murmuração
+que ficasse entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante. Ao
+senhor da casa chamavam Leonardo, e ao doutor Livio, ao fidalgo D.
+Julio, ao estudante Pindaro, ao velho Solino. Fóra estes havia outros de
+quem em seus logares se fará menção, que assim como os mais, não eram
+para engeitar em uma conversação de poucas porfias.
+
+Uma noite do novembro, em a qual já o frio não dava logar a que a
+frescura do tempo convidasse ao sereno, estando ainda Leonardo á mesa,
+porém no fim das iguarias, bateram á porta Pindaro e Solino, aos quaes o
+velho mandou abrir com grande alvoroço e festa; porque a de o buscarem
+era a que mais estimava por sua. Subiram, agasalhou-os com contentamento
+e cortezia. Sentaram-se perto da mesa, e disse o senhor da
+casa:--Peza-me que não viesseis mais cedo, que me poderieis acompanhar
+n'este trabalho tão necessario da velhice. Mas se ainda virdes na mesa
+alguma cousa de vosso gosto, lançae mão d'ella, que de mistura achareis
+a minha boa vontade.--Eu sei (disse Pindaro) a que tendes de me fazer
+mercê; mas venho ceiado e tambem Solino, a quem tive por hospede, e já a
+conversação me dobrou o gosto das iguarias.--Eram ellas tão boas
+(respondeu Solino) que a mim me davam graça. Porém o serdes vós tào
+miudo nas cortezias, me deu muita pena: e já que sois tão discreto, e
+tanto meu amigo, d'aqui adeante emendae-vos nas ceremonias da mesa; e
+adverti ao vosso moço que não acompanhe com os olhos os bôccados dos
+hospedes, até o estomago: porque apostarei que me contou todos os da
+ceia, e anda tão destro no apartar das brigas, que ainda bem não desvio
+um prato do outro, quando me dá xaque em ambos, e me deixa em casa
+branca. E não vos pareça que é isto dizer que venho faminto; que, se
+assim fôra, póde ser que o cumprimento do sr. Leonardo não ficára solto
+e livre; antes é fazer-vos lembrança que, pois daes tambem de comer, não
+tenhaes um moço Harpya, que descomponha o sabor dos manjares.--Bem sei
+(respondeu Pindaro) que ainda farto não haveis de deixar de roer. O meu
+moço é de uma d'estas aldeias vizinhas, ha pouco que me serve; por isso,
+e por ser creado de estudante, lhe devieis perdoar o erro, e a mim o
+remoque; porém a vossa condição não se sujeita a respeito nem a
+desculpas.--É tão saborosa a murmuração de Solino (disse Leonardo) que
+tambem na mesa se póde estimar como boa iguaria: e se a eu tivera muitas
+vezes, déra vida ao appetite que para as outras me falta.--Se o ella
+fôra (tornou Solino) em mais occasiões me valêra das em que a vós podeis
+desejar. Mas, não tratando de vol-a offerecer, nem de a desculpar com
+meu amigo; como ceiastes hoje tão tarde, e não vieram mais cedo o doutor
+e D. Julio?--Antes (disse o velho) me mandaram já recado, e não devem
+tardar. Eu o fiz com a ceia, porque os homens de serviço me não deram
+logar senão a esta hora: mas ouço que batem á porta e devem ser elles.
+
+A este tempo mandou juntamente alçar a mesa, e levar a luz á escada.
+Subiram o doutor e D. Julio; saudaram-se com muita alegria; e sentados
+perto do fogo, disse o velho: Muito deveis ambos a Solino; porque vindo
+a esta casa com Pindaro, de quem foi convidado na ceia, e tendo a minha
+em estado de que se podia aproveitar de alguma cousa d'ella, vos achou
+menos, e perguntou a causa da tardança; signal é este de amor e da pouca
+razão com que o temos por desobrigado de toda a affeição dos
+amigos.--Não é Solino tão descuidado do que lhe eu mereço (tornou D.
+Julio) que se esqueça de mim, e de quanto sentirei perder horas suas: e
+pelo interesse das da conversação do doutor o tivera em menos conta se
+as não desejára: e além d'isto posso affirmar que está pago da lembrança
+que teve, com a diligencia que fizemos pol-o trazer comnosco, que
+voltamos pela sua porta, e eu tirei uma pedra á janella, d'onde me
+disseram que ceiava com Pindaro; e cada um dos dois me fez inveja.--Ah!
+sr. D. Julio (respondeu elle) tão grande trovoada de cumprimentos seccos
+não podia deixar de lançar pedra. Eu tenho feita a conta, e sei que não
+posso pagar o que vos devo além d'essa honra e mercê, senão com a
+humildade com que a todas reconheço por vossas. Dae-vos por satisfeito
+de meus desejos, e de pôr aqui ponto nos cumprimentos; porque não tenho
+polvora mais que para a primeira salva.--Já eu me quizera metter em meio
+(disse o doutor) porque se vós a terdes em cortezias, não haverá quem as
+pague, se não fôr Pindaro, que tem uma corrente tão arrebatada, que não
+dá vau a nenhuma rethorica do mundo.--Agora (arguiu Leonardo) levastes
+tres de um tiro; não me dou por seguro n'este logar, inda que é de minha
+casa: porém não tendes razão contra Pindaro, que, cada vez que o ouço,
+me parece um livro de cavallarias. Se elle tivera encantamentos escuros,
+castellos roqueiros, cavalleiros namoradores, gigantes suberbos,
+escudeiros discretos, e donzellas vagabundas, como tem palavras sonoras,
+razões concertadas, trocados galantes, e periodos que levam todo o
+fôlego, pudéra pôr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo, e ainda o
+mais pintado de todos os que n'esta materia escrevêram: e já estive em o
+persuadir que se mettesse em uma empreza semelhante: porém receio que se
+me ensoberbeça com a altiveza de seu estylo, e despreze aos amigos.--Não
+merecia eu, sr. Leonardo, a vós, nem ao doutor (disse Pindaro) que
+tomasseis meus defeitos por materia de vossa galantaria: falo como sei,
+e cada um se extende conforme a roupa com que se cobre. Não sou tão
+philosopho como o doutor, tão cortezão como vós, nem tão engraçado como
+Solino, nem tenho maiores penas que a gaiola; porém se abrisse as azas
+para compôr livros, não houveram de ser de patranhas. Por isso fiae mais
+de meus pensamentos.--Nunca o tive de vos offender (respondeu o velho)
+nem me parece com razão a vossa desconfiança; nem podeis fazer tão pouca
+conta dos livros de cavallarias, e dos famosos auctores que os
+escreveram, e que mostraram n'elles a sua boa linguagem com toda a
+perfeição: a graça de tecer e historiar as aventuras, o decoro de tratar
+as pessoas, a agudeza, a galantaria das tenções, o pintar as armas, o
+betar as côres, o encaminhar e desencontrar os successos, o encarecer a
+pureza de uns amores, a pena de uns ciumes, a firmeza em uma ausencia, e
+outras muitas cousas que recreiam o animo, affeiçoam e apuram o
+entendimento. Se vós tendes por despreso compôr livros de cavallarias,
+eu vos desengano que pertencem mais cousas ao bom auctor d'elles, que a
+um dos lettrados philosophos ou juristas, com que desejaes do vos
+parecer; porque lhe importa saber a geographia dos reinos e provincias
+do mundo, para encaminhar por ellas a sua historia; ter noticia dos
+nomes e cousas que usam n'aquellas partes, d'onde faz naturaes os
+cavalleiros, saber estylo de côrte para as mesuras, gasalhados e
+cortezias, conforme as pessoas introduzidas, conhecer da justiça, do
+torneio e do sarau. a ordem, as leis e as gentilezas, entender da
+bastarda e da gineta, o que convém para pintar o encontro, a quéda, o
+acerto, o dezar, o brio ou descuido de um cavalleiro, debuxar o cavallo
+nas côres, concertal-o nas redeas, no pizar, no arremesso, na furia, na
+destreza, nas carreiras, chaças e rodeios, e sobre o conhecimento de
+todas as sciencias e disciplinas, tambem ha de ter alguma noticia dos
+nigromantes antigos para os encantamentos que servem de bordão e
+valhacouto aos historiadores.--Tenho por mal empregado (disse então o
+doutor) tanto cabedal em cousa de tão pouco interesse, e não sou de voto
+qee o auctor, que tiver as partes que vós dizeis que são necessarias
+para essa composição se occupe n'ella. De que servem livros de
+cavallarias fingidas? E se ha ociosos que os leiam, porque ha de haver
+algum que os escreva? Ou que espere algum fructo de trabalho tão
+vão?--Mas que certeza tão grande (tornou Leonardo) que cada um approva o
+que segue, sendo assim que ninguem se contenta do que tem. Desejaveis
+agora que todos os livros, e todos os homens tratassem sómente da vossa
+profissão e fossem juristas e philosophos. Pois ainda que eu sou
+bacharel em linguagem, me atrevo a contradizer essa opinião adquirida em
+latim: porque para recreação, politica e bom estylo se não deve menor
+logar a estes, que aos vossos de trapaças e opiniões, e outros a que
+chamaes conselhos, que o dão ás vezes bem ruim a quem se fia de sua
+leitura.
+
+--Eu era de parecer (disse D. Julio) que poupassemos esta materia para
+gastar a noite, pondo-a em maneira de disputa. E se a todos parece
+assim, cada um diga sua opinião nos livros que mais lhe contentam, e das
+razões que tem para os approvar; e d'este modo, ou affeiçoados, ou
+convencidos, saberemos os que são de maior gosto, e utilidade.--A isto
+(respondeu Solino) até agora estive calado contra minha natureza; porque
+me houve por incapaz de fazer terço ao doutor e Leonardo: mas pois o
+voto é que se jogue com toda a baralha, digo que é esta a melhor materia
+que se podia escolher para passar o tempo. E já pode ser que algum dos
+que aqui estão, que deseja deixar no mundo memoria de seu engenho, saiba
+n'esta occasião o em que o pode empregar melhor.--Pelo que a mim toca
+(disse o doutor) comecemos logo; e a vós, sr. D. Julio, é bem que demos
+a mão a troco do alvitre: e não tratando dos livros divinos, nem dos
+necessarios, dos de recreação nos podeis dizer quaes, e por que razões
+vos contentam.--A minha inclinação em materia de livros (disse elle), de
+todos os que estão presentes é bem conhecida: sómente poderei dar agora
+de novo a razão d'ella. Sou particularmente affeiçoado a livros de
+historia verdadeira, e mais, que ás outras, ás do Reino em que vivo, e
+da terra onde nasci: dos reis, e principes que teve, das mudanças que
+n'elle fez o tempo e a fortuna, das guerras, batalhas, e occasiões, que
+n'elle houve, dos homens insignes, que pelo discurso dos annos
+florecerão: das nobrezas e brazões que por armas, lettras, ou privança
+se adquiriram. O que me inclinou á escolha d'esta lição, foi que tive
+alguma de um homem muito douto, em o que o deve desejar de ser, e
+parecer o que é bem nascido; ao qual elle dizia, que o que mais convinha
+que soubesse era, o appellido, que tinha, d'onde lhe veio; quem fôram
+seus passados, que armas lhe deixaram, a significação, e fundamento da
+figura d'ellas, como se adquiriram, ou accrescentaram. Logo os reis que
+reinaram na sua patria, as chronicas d'elles, os principios, as
+conquistas, as emprezas, e o esforço de seus naturaes; porque falando
+d'elles nas terras extranhas, ou na sua com extrangeiros, saiba dar
+verdadeira informação de suas cousas. E alcançadas estas, lhe estará bem
+tudo o que mais puder saber das alheias. E na verdade, nenhuma lição
+pode haver que mais recreie, e aproveite, que a que sei que é
+verdadeira, e por natural ao desejo dos homens deleitosa.--Não é essa a
+minha opinião (disse Solino) porque contra o gosto me assombram muito
+cousas passadas, e andar abrindo sepulturas de gente morta. E no que
+toca á verdade, certo que á conta dos enterrados se escrevem algumas
+vezes tão grandes mentiras, que lhes não levam vantagem os fingimentos
+de historias imaginadas. E havendo um homem de ler o que não é, ou o que
+sabe, é tão caldeado, e tão batido da forja dos auctores, que mudado
+traz o metal, a côr, e a natureza: estou melhor com os livros de
+cavallarias, e historias fingidas, que, se não são verdadeiros, não os
+vendem por esses: e são tão bem inventados, que levam após si os olhos,
+e os desejos dos que os lêem. E não estima um auctor matar mais dois mil
+homens com a penna, para fazer valente o seu cavalleiro, com a espada,
+sem estar receando os ditos das testemunhas que ficaram da batalha; que
+por eguaes respeitos pende cada uma para seu cabo. Pois se é caso, em
+que um historiador queira passar adeante como Ariosto, não matou mais
+gente a peste grande em Lisboa, que Rodamonte nos muros de Paris.--Essa
+é uma das razões, porque eu os reprovo (tornou o doutor) porque a fabula
+é uma cousa falsa, que podia comtudo ser verdadeira, e acontecer assim
+como se fingio. Porém a isto não dão logar os livros de cavallarias, com
+esses excessos, e outros encantamentos, fazendo casas, e torres de
+crystal, edificios, lagos, e columnas impossiveis, pyramides de
+alabastro, e casas de pedraria, cuja riqueza podia empobrecer a fortuna.
+E em nossos tempos, na India Oriental, sabemos que o rei Mogor andou
+muitos annos fabricando uma casa de esmeraldas, por cujo respeito se
+passavam d'este Reino á nossa India as da Occidental. E emfim morreu sem
+a acabar; e não ha livro de cavallarias em que qualquer cavalleiro de um
+castello não acabe cousas maiores. E deixando isto, é graça, e
+galantaria, comparar historias verdadeiras com patranhas
+desproporcionadas, que gastam o tempo mal a quem n'ellas se occupa,
+quando as outras servem de exemplo para imitar, de lembrança para
+engrandecer, e de recreação para divertir. A quem não anima ler as
+historias de seus passados? A quem não move o desejo de egualar a fama
+que lê de suas obras? O governo da paz? A ordem da guerra? O trato dos
+homens? O commercio das provincias? D'onde se conserva, alcança, e sabe
+senão pelas historias verdadeiras? Porque n'ellas sabe cada um
+felizmente pelos successos alheios o que deve seguir. D'onde Marco
+Tullio chamou á historia mestra da vida.--Vós, sr. doutor (disse Solino)
+achareis isso nos vossos cartapacios: mas eu ainda estou contumaz.
+Primeiramente, nas historias, a que chamam verdadeiras, cada um mente
+segundo lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu para mentir;
+porque se não fôrem estas tintas, é tudo tão misturado, que não ha panno
+sem nodoa, nem légua sem máu caminho. No livro fingido contam-se as
+cousas como era bem que fôssem, e não como succederam, e assim são mais
+aperfeiçoadas. Descreve o cavalleiro como era bem que os houvesse, as
+damas quão castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros, os
+extremos quão grandes, as leis, as cortezias, o trato tão conforme com a
+razão. E assim não lereis livro, em o qual se não destruam soberbos,
+favoreçam humildes, amparem fracos, sirvam donzellas, se cumpram
+palavras, guardem juramentos, e satisfaçam boas obras. Vereis que as
+damas andam pelas estradas, sem haver quem as offenda, seguras na sua
+virtude propria, e há cortezia dos cavalleiros andantes. E quanto ao
+retrato e exemplo da vida, melhor se colhe no que um bom entendimento
+traçou, e seguiu com muito tempo de estudo, que no successo, que ás
+vezes se alcançou por mão da ventura, sem a diligencia e engenho
+metterem nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham excessos
+desatinados, que não sejam semelhantes á verdade, nem os encantamentos
+tão escuros e desconformes, que não tenham alguma maneira de enganar o
+juizo; porém os livros bem fingidos, como verdadeiros obrigam. Um
+curioso em Italia (segundo um auctor de credito conta) estando com sua
+mulher ao fogo lendo o Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto
+sentimento, que lhe accudiu a visinhança a saber o que era. E no que
+toca ao exemplo; um capitão valoroso houve em Portugal, que o não teve
+melhor o Imperio Romano, que com a imitação do um cavalleiro fingido,
+foi o maior de seus tempos, imitando as virtudes que d'elle se
+escreveram. Muitas donzellas guardaram extremos de firmeza, e
+fidelidade, costumadas a lêr outros semelhantes nos livros de
+cavallarias. Na malicia da India tendo um capitão nosso cercado uma
+cidade de inimigos, certos soldados camaradas, que albergavam juntos,
+traziam entre as armas um livro de cavallarias, com que passavam o
+tempo. Um d'elles, que sabia menos que os mais d'aquella leitura, tinha
+tudo o que ouvia lêr por verdadeiro (e assim ha alguns innocentes, que
+cuidam que se não pode mentir em lettra redonda) os outros ajudando a
+sua simpleza lhe diziam que assim era. Veio occasião de um assalto, em
+que o bom soldado invejoso, e animado do que ouvia lêr, lhe pareceu
+ensaio de mostrar seu valor, e fazer uma cavallaria, de que ficasse
+memoria; e assim se metteu entre os contrarios com tanta furia, e os
+começou a ferir tão rijamente com a espada, que em pouco espaço se
+empenhou de sorte, que com muito trabalho, e perigo dos companheiros, e
+de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida recolhendo-o com muita
+honra, e não poucas feridas. E reprehendendo-o os amigos d'aquella
+temeridade, respondeu: Ah! deixae-me, que não fiz a metade do que cada
+noite lêdes de qualquer cavalleiro do nosso livro. E elle d'alli adeante
+o foi muito valoroso.--Muito festejaram todos o conto, e logo proseguiu
+o doutor: Tão bem fingidas podem ser as historias, que mereçam mais
+louvor, que as verdadeiras; mas ha poucas que o sejam; que a fabula bem
+escripta (como diz Santo Ambrozio) ainda que não tenha força de verdade,
+tem uma ordem de razão, em que se podem manifestar as cousas
+verdadeiras. Xenofonte querendo pintar uma republica perfeita, e
+regimento politico, por modo de historia, fingiu o governo de Cyro, rei
+dos Persas. D. Antonio de Guevara, em nome de um imperador romano
+escreveu o que elle queria dizer em Hespanha; e outros que ainda em modo
+mais extranho ensinaram aos homens, como Esopo nas suas fabulas, e Lucio
+Apuleio no seu Asno d'ouro; e todos os livros que em seu genero são
+bons, se podem chamar perfeitos. Resta agora que o que escreve historia
+seja verdadeiro; e não terá Solino de que o reprehender n'ella. O que
+compõe fabulas seja verosimil, e não terei eu razão de o reprovar. O que
+trata de sciencia, alegue razões. O que fala de artes, experiencia. E o
+que quer ensinar principios, mostre auctoridade. E posto que eu tenha
+muitas que allegar em favor da vossa opinião, sr. D. Julio, vós estaes
+no caso, e todos os mais, que a historia verdadeira apascenta os doutos,
+adelgaça os grosseiros, encaminha os moços, ensina os mancebos, recreia
+os velhos, anima aos baixos, sustenta aos bons, castiga aos maus,
+resuscita aos mortos, e a todos dá fructo a sua lição. E porque esta não
+seja mais comprida, diga Pindaro agora a sua opinião.
+
+--Apostarei eu (disse Solino) que, se a Pindaro lhe armarem com poesia
+levantada sobre os bons conceitos, e versos, que com serem amorosos,
+sejam arrogantes, que o tomaram como passaro em visco.--Para isso (disse
+o doutor) arredar-lhe as occasiões, e vá com declaração, que não
+tratamos de poesia.--Essa condição (accudiu Pindaro) logo ao principio
+ficou declarada; que como exceptuastes livros divinos, n'esse numero
+devem estar os dos poetas, que mereceram este nome; e o que elles
+antigamente tiveram, e ainda agora lhe dão os Latinos, assim o deixa
+entender. E Platão quando d'elles escreve, lhes chama divinos
+interpretes dos deuzes, possuidos de espiritos celestes: d'onde Marco
+Tullio tirou os louvores, com que os trata. Origenes affirma que a
+poesia é uma virtude espiritual, que inspira em os poetas, e lhes enche
+o animo e o entendimento de uma divina força. Santo Agostinho lhes chama
+theologos para cantarem os louvores divinos. Diziam os philosophos
+antigos que, se os deuses falassem, seria em verso: trazendo exemplo do
+oraculo de Apollo, e das Sibyllas. Cassiodoro diz que a poesia tomou
+principio da divina escriptura. De maneira que por auctoridade de tão
+grandes varões, nunca os livros de poesia podem vir em competencia com
+os de que até agora tratastes; que d'outro modo já estivera concluida a
+differença.--O que eu vejo (tornou D. Julio) que, ainda que o doutor vos
+cerrara a porta, que mettido de ilharga dissestes tudo o que cumpria a
+vosso intento por junto, o quanto para mim estaes declarado; o com o
+desejo de ouvir a opinião do doutor, não digo o mais que me,
+parece.--Ora (respondeu elle) não quero que a essa conta fique o meu
+voto ás escuras; e digo, não falando em poesia, que não escolho lição de
+historiadores verdadeiros, nem tenho por melhor a dos fingidos; porque
+uns servem de conservar a memoria, os outros de enganar o entendimento:
+e serão melhores os livros que deleitem a memoria, e a vontade, e
+apurem, e levantem o entendimento, como os de recreação, que com alguma
+enganosa novidade tratam de materias politicas, e engraçadas: de côrte,
+de aldeia, e de qualquer sujeito aprazivel: e ha d'estes muito bem
+recebidos, approvados, e proveitosos na republica, cuja variedade, e
+doutrina é para mim lição muito saborosa.--Não estou mal com essa
+opinião (disse o doutor) o quasi que vós, e eu estamos em um mesmo
+pensamento; senão que deixastes de declarar o que agora me fica para
+dizer; porque até aqui falámos do modo de compor, e escrever livros; e
+não das materias, que escriptas serão agradaveis. E deixando em duvida o
+vosso parecer para se conferir com a tenção; o meu é, que o melhor modo
+de escrever são os dialogos escriptos em prosa, com figuras
+introduzidas, que disputem, e tratem materias proveitosas, politicas,
+engraçadas, e cheias de galanteria: sendo a primeira figura da obra o
+autor d'ella; e isso que vá guiando, e introduzindo as mais, que sejam
+apropriadas áquellas materias, de que hão de tratar entre si. E além de
+ser este estilo mais claro, mais vulgar, mais excellente, inclue em si a
+lição de todos os outros modos de escrever, como o são os da historia
+verdadeira, e fingida, das artes liberaes, e mecanicas; das sciencias, e
+disciplinas necessarias; das profissões particulares; da razão do
+governo; da vida politica ou privada. E quando este modo de escrever não
+tivera por si mais que a auctoridade dos que n'elle escreveram, como foi
+Platão, Xenofonte, Tullio, e outros infinitos: essa bastara para
+acreditar os dialogos. Além d'isto, eu tenho para mim que aquella é
+melhor escriptura, que com mais perfeição, e viveza imita a pratica, e
+conversação dos homens; porque assim como a melhor pintura é a que mais
+se parece com a obra da natureza, a que quer contrafazer; assim a melhor
+escriptura é a que retrata com mais semelhança o falar, e conversação
+d'entre os amigos. Nos poemas tinham os poetas antigos que o mais
+levantado era a tragedia pela imitação natural da pratica, com
+introducção de figuras, junto com a gravidade, peso, e tristeza dos
+successos tragicos. E porque tambem a variedade é a que mais costuma
+enterter, e deleitar o animo dos homens, e esta é mais certa, e mais
+propria nos dialogos, me parece que no gosto d'elles serão melhor
+recebidos.
+
+--Pois assim é (disse D. Julio) que a principal razão porque approvaes
+os dialogos, é porque mais familiarmente se parecem com a pratica.
+Desejo saber qual é mais nobre cousa, se a pratica, se a escriptura:
+porque a mim me parece que á escriptura se deve o melhor logar, e que
+antes merecia a pratica por se parecer com ella; o que agora encontra a
+vossa opinião.--Nenhuma duvida ha (respondeu o doutor) que a pratica
+seja mais nobre, mais antiga o mais excellente; porque, além de o falar
+ser operação natural dos homens, e acto em que elles fazem vantagem, e
+differença a todos os animaes, a escriptura não é mais que uma escrava e
+servente das palavras, e o escrever não é outra cousa mais que supprir
+com um instrumento por meio da arte, e das mãos o que com a voz se não
+póde exprimir e alcançar com os ouvidos, ou por distancia de logar, como
+quem escreve aos ausentes, ou por discurso de tempo, como quem escreve
+para os vindouros. E porque nunca a escrava é tão nobre como a senhora a
+quem serve, em quanto escrava, nem o que substitue em logar d'outrem se
+lhe póde preferir no mesmo logar; assim nunca a escriptura póde egualar
+a nobreza e perfeição da pratica.--O contrario me parece a mim (replicou
+o fidalgo) porque nem por a pratica ser mais antiga, e primeira que a
+escriptura é mais perfeita; antes ella foi a perfeição da pratica: e
+posto que seja própria operação do homem o falar, não é n'elle menos
+nobre accidente o de escrever; antes me parece mais digno o que elle
+alcançou por arte, que o que adquiriu por uso: e quasi que ousaria a
+dizer que é operação sua o falar, dada a respeito de haver de escrever,
+pois esse é o meio de se perpetuar, sustentando no entendimento dos
+presentes, e na lembrança dos futuros a memoria das cousas passadas.
+Assim que nem por a primeira razão merece a pratica melhor logar, nem a
+escriptura, por servente e ministra sua, é menos nobre. Porque o sol
+serve de mostrar as cousas creadas, que lhe são muito inferiores, e de
+dar luz e nutrimento a outras de menor qualidade, e nem por isso ellas
+se lhe podem antepôr. E quanto a substituir a escriptura em logar da
+voz, ella o faz por tão excellente maneira, que lhe tem muita vantagem;
+pois o que a voz não póde exprimir juntamente em differentes logares, e
+a diversas pessoas em um mesmo tempo, o faz a escriptura com grande
+perfeição, podendo muitas pessoas, em differentes logares, lêr em um
+mesmo tempo a propria cousa: pelo que me parece que, ainda que a vossa
+escolha fosse boa, não fundastes bem a razão d'ella.--Certo (disse
+Leonardo) que de ambas as partes déstes tão boas razões, que fica
+duvidosa a melhoria. Porém concedendo á pratica a excellencia, a acção,
+o modo e a graça de falar, que é uma viveza a que se não eguala outra
+nenhuma lembrança; a escriptura tem tantas grandezas que parece
+egualmente necessaria para a vida, pois ficava o mundo ás escuras sem a
+luz da dilação escripta; e só na tradicção dos homens se salvaria a
+memoria das cousas; e nas principaes dominaria a ignorancia com mero
+imperio. Porém, deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria e
+agudeza está tocado o que baste, quero que passemos adeante, e, por me
+fazerdes mercê, que me ensineis se na pratica, em voz, e na escriptura
+considerada tem bom logar a nossa lingua portugueza; porque ouço de má
+vontade a alguns naturaes que tratam mal d'ella e a condemnam por
+grosseira e limitada.
+
+--Uma cousa vos confessarei eu, sr. Leonardo (disse a isto D. Julio) que
+os portuguezes são homens de ruim lingua, e que tambem o mostram em
+dizerem mal da sua, que assim na suavidade da pronunciação, como na
+gravidade e composição das palavras é lingua excellente. Mas ha alguns
+nescios, que não basta que a falem mal, senão que se querem mostrar
+discretos, dizendo mal d'ella: e o que me vinga de sua ignorancia, é que
+elles acreditam a sua opinião; e os que falam bem desacreditam a ella e
+elles.--Bravamente é apaixonado o sr. D. Julio (acudiu o doutor) pelas
+cousas da nossa patria: e tem razão, que é divida que os nobres devem
+pagar com maior pontualidade á terra que os creou. E verdadeiramente que
+não tenho a nossa lingua por grosseira, nem por bons os argumentos com
+que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave
+para engrandecer, efficaz para mover, dôce para pronunciar, breve para
+resolver, e accommodada ás materias mais importantes da pratica e
+escriptura. Para falar é engraçada com um modo senhoril: para cantar é
+suave com um certo sentimento que favorece a musica: para prégar é
+substanciosa, com uma gravidade que auctorisa as razões, e as sentenças:
+para escrever cartas nem tem infinita copia que damne, nem brevidade
+esteril que a limite: para historias nem é tão florida que se derrame,
+nem tão secca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga
+a ferir o céo da bôcca com aspereza, nem arrancar as palavras com
+vehemencia do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala.
+Tem de todas as linguas o melhor: a pronunciação da latina; a origem da
+grega; a familiaridade da castelhana; a brandura da franceza; a
+elegancia da italiana. Tem mais adagios e sentenças que todas as
+vulgares, em fé de sua antiguidade. E se á lingua hebrea pela
+honestidade das palavras chamaram santa, certo que não sei eu outra que
+tanto fuja de palavras claras em materia descomposta quanto a nossa. E
+para que diga tudo, só um mal tem, e é que pelo pouco que lhe querem
+seus naturaes, a trazem mais remendada, que capa de pedinte.--Folguei
+extranhamente de vos ouvir (disse Solino) por não ficar tão covarde,
+como até agora estava, em ouvindo murmurar da lingua portugueza; e não
+ousava, ou não sabia dizer a minha opinião, a qual cuidava que me nascia
+do amor que lhe tenho, e que cada um tem ás suas cousas como o corvo aos
+filhos, e Pindaro ás suas trovas. Porém quando um homem tão bem fundado
+na razão como o doutor, e tão auctorisado em seu parecer sustenta esta
+parte, nenhuma haverá já tão rija, que me tire o atrevimento.--Nem a
+lingua (disse Pindaro) pois não ha amizade que vos faça perder o
+costume.--Perdoae-me (tornou elle) que vos feri por não perder o golpe.
+E tornando ao que aqui se tratou para recordar o que começamos,
+averiguou o doutor que a melhor maneira de escrever eram os dialogos
+(ficando meu direito reservado nos livros de cavallarias), tocaram-se
+louvores da pratica e escriptura com muito engenho; declarou-se como a
+lingua portugueza não desmerece logar entre as melhores, para n'ella se
+escreverem materias levantadas, apraziveis, proveitosas e necessarias.
+Que falta entre vós para que d'estas noites bem gastadas, d'estas
+duvidas bem movidas, e d'estas razões melhor praticadas se faça um ou
+muitos dialogos, que sem vergonha do mundo possam apparecer nas praças
+d'elle á vista dos curiosos, e ainda dos murmuradores?--Tem Solino muita
+razão (disse D. Julio) e se assim forem os dialogos como se podem formar
+com a pratica de alguns que estão presentes, bem se auctorisará a
+opinião do doutor, posto que a minha fique de vencida com a vantagem que
+aqui tem a pratica das escripturas alheias. E pois se aproveitam tão bem
+as noites n'este logar, razão é que por meio d'elles se communiquem a
+quem se aproveite da doutrina e interesse d'ellas.--Se eu não dormira
+tão poucas horas da passada (disse o doutor) ainda houvera de proseguir
+adeante e responder a isso; mas com vossa licença me vou recolher e
+amanhã accudirei mais cedo.--Acompanhemos o doutor (disse o fidalgo), e
+levantando-se elle, se despediram todos com muita cortezia, deixando ao
+senhor da casa magoado de se acabar tão depressa a conversação; que quem
+sabe estimar a que é tão boa, tem sentimento das horas que d'ella perde.
+
+
+
+
+DIALOGO II
+
+DA POLICIA E ESTYLO DAS CARTAS MISSIVAS
+
+
+Ficaram os amigos tão affeiçoados á conversação d'aquella noite, que,
+por fazerem a do outro dia mais comprida, acudiram a ajuntar-se logo
+depois de se pôr o sol; porém cada um com pejo de ser o primeiro,
+passeavam em dois postos, o doutor com D. Julio, e Pindaro com Solino á
+vista da casa de Leonardo, até que elle chegou á janella; e mostrando o
+mesmo desejo que os quatro traziam, facilitou o receio e approvou as
+horas. Subiram todos, e disse o doutor:--Pareceu-me este dia tão
+comprido, na esperança da noite, como aos trabalhadores que devem o
+jornal.--E a mim (tornou Leonardo) a noite, depois que me deixastes, tão
+importuna como quem espera a manhã para cousa de seu gosto: e assim não
+é muito que vós viesseis tão cedo, e que a mim me pareça que já era
+tarde.--Todas as cousas que se desejam muito (tornou D. Julio) por pouco
+que se dilatem, tardam mais.--E as que se temem (proseguiu Solino) por
+muito que tardem, parece que se anticipam. D'onde um disse
+maravilhosamente que o que queria que a quaresma lhe parecesse breve,
+devesse pagamentos para a Paschoa. Emfim chegou mais cedo este prazo que
+todos desejamos: e se o senhor da casa dormiu pouco, eu apostarei que ha
+algum na companhia que se desvelou mais.--Não era occasião para
+descuidos, (disse o doutor) e nos mancebos era demasiada desconfiança
+entrar n'esta batalha desapercebidos.--Os apercebimentos (tornou o
+fidalgo) podem fundir muito pouco: porque como até agora é incerta a
+materia de que se deve tratar, serão sem fructo as diligencias.--É
+engano (replicou Solino) que nunca falta uma carta em que prender; como
+um homem tem as suas apuradas e ha cousas que se levam a rasto como
+corpo morto, e quando sejam bem cuidadas, nunca são mal ouvidas. E se
+não, digam-n'a as olheiras com que esta manhã vi a meu amigo
+Pindaro.--Já sei (disse Pindaro) que vêdes mal: mas contra mim ainda é
+peior a vossa tenção que a vista; não me pagaes bem o que vos mereço,
+mas é na moeda que tendes.--E na que corre (tornou elle) que o rifão de
+agora diz que fazer e dizer mal, nunca se perde. Não vos escandaliseis;
+que tudo ha nos homens e nas cartas. Essa (disse então D. Julio) hei eu
+de partir: porque desejava muito alçar por ellas; e pois o doutor falou
+hontem em cartas missivas, e approvou para ellas a lingua portugueza,
+nos ha de declarar o que ha de ter uma carta para ser cortezã e bem
+escripta.--Esse cargo (tornou o doutor) convem mais ao senhor da casa:
+porque ainda que a carta consta de lettras, não é profissão de lettrado
+fazel-as cortezãs: e quem sabe tanto do estylo da côrte como Leonardo,
+póde dar lei para ellas.--Vós (respondeu elle) sois doutor em tudo, e
+meu superior em todas as materias, e como tal me podeis dar o grau de
+cortezão. Eu o quizera parecer na confiança, e em obedecer ao gosto
+d'estes amigos. Mas para eu proseguir com auctoridade é bem que vós
+comeceis a principiar a materia: dizendo, que nome é _carta_, e o seu
+principio, pois me daes o cargo antes de estar apercebido para
+elle.--Bem sei (lhe respondeu o doutor) que por me honrardes a mim
+tomaes tudo á vossa conta; folgarei de a dar boa do que me encommendaes.
+
+Este nome _carta_ é generico, e teve origem de uma cidade do mesmo nome,
+d'onde foi natural a rainha Dido, que, por o amor que tinha á sua
+patria, pôz á que edificou por nome _Cartago_. E porque em carta se
+inventou primeiramente a maneira em que se escrevia (ou fosse papel, ou
+outra cousa semelhante a elle) tomou d'ella o nome como de _Pergamo_ o
+_pergaminho_. É para saber que nos primeiros tempos, quando se
+inventaram as lettras, escreviam os homens nas folhas das arvores: como
+ainda hoje nas da palmeira escrevem os gentios de algumas partes do
+oriente: as Sybillas n'ellas escreveram suas prophecias; e assim se
+chamaram a seus escriptos _folhas sybillinas_; e ainda na linguagem
+portugueza se conserva alguma cousa d'esta antiguidade, pois dizemos
+_folhas de papel_ sem o papel ter folhas, mas é em lembrança das
+primeiras que se usaram na escriptura. Depois se escreveu em uma casca
+tenra de arvores, que é o entreforro da cortiça. E porque a esta
+chamavam _livro_, conservam ainda agora elles o nome, e a divisão que
+agora fazem os escriptores de _livro primeiro_, _segundo_, e d'ahi
+adeante é o numero, porque então deviam contar aquellas cascas. Tambem
+se escreveu em o miolo de uma maneira de juncos, a que chamaram
+_papiros_: d'onde aos latinos ficou o nome para o papel. Depois se
+escreveu em taboas nas quaes sobre cêra, com um instrumento de ferro ou
+de latão, a que chamavam _estylo_, se assignavam as lettras; e do ferro
+com que se escreveram, se veiu a derivar o que agora dizemos _bom_ ou
+_máu_, _humilde_ ou _altivo estylo_ de escrever, passando-se por
+translação a perfeição do instrumento ao concerto e policia das
+palavras. D'este proprio modo se usa no nome de carta, que alcança em
+genero a todo genero de papel escripto e ainda pintado. Os portuguezes
+fazemos este nome particular tomando _carta missiva_ por a principal de
+todas; e assim basta dizermos _carta_, sem mais declaração, para se
+entender que é esta; porém nas especiaes d'ellas usam o nome com seus
+attributos. E nos instrumentos judiciaes, que testemunham antiguidade,
+se diz _carta precatoria, dimissoria, citatoria, de liberdade e de
+venda_, e outras muitas: e ainda as de jogar, sem terem lettras, se
+chamam commummente cartas. E a gente aldeã, conservando alguma cousa da
+antiguidade, a qualquer estampa ou pintura em papel chamam _carta_. Os
+latinos puzeram nome ás cartas missivas _Epistola_, do verbo grego, que
+quer dizer _mandar_: e _letras_, porque a carta consta d'ellas. Os
+italianos deram singular e plural a este nome segundo. E na nossa lingua
+a que chamam limitada, não faltou nenhuma d'estas differenças, antes
+houve maior perfeição: porque a umas chamaram _cartas mandadeiras_; ás
+que tinham menos de papel, _escriptos_; e ás cartas de Italia _lettras_,
+que são as de Roma, e as de cambio; porque deviam ter o mesmo principio;
+porque logo nos de Portugal mandavam os reis d'elle por lettras copiosas
+doações á sé apostolica, do que conquistavam. De maneira que o nome de
+carta, quanto á sua origem, é geral e commum; e entre nós particular das
+cartas missivas; e pois lhe descobri o nome, é necessario, sr. Leonardo,
+que lhe deis agora o ser.
+
+--Parece-me (respondeu elle) que estou já no meio da minha obrigação
+(conforme ao dito do poeta) que quem começou, tambem tem feita a maior
+parte. E passando do nome da carta aos exteriores d'ella, digo que ha de
+ter: Cortezia commum, regras direitas, lettras juntas, razões apartadas,
+papel limpo, dobras eguaes, chancella sutil, e sêllo claro; e com estas
+condições será carta de homem da côrte. E falando da cortezia (disse
+Solino) que entendeis n'ella?--A cortezia (lhe respondeu elle) não
+falando na leitura da carta, é o sobrescripto, o apartado da cruz, até á
+primeira regra; e do principio do papel até o começo de todas: e o
+final, o nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E porque n'isto
+ha differentes costumes, e erros, me parece bem fazer de tudo
+lembrança.--Nos sobrescriptos temos pouco que tratar (tornou Solino) que
+depois que com a pragmatica os cercearam, não ha já _prezados_,
+_magnificos_, _honrados_, e _illustrissimos_, nem os _senhores_. Ainda
+(tornou Solino) ficaram alguns de rodeio que são muito para vêr, e assim
+o dizem elles: a cujo proposito vos hei de contar uma historia. Eu (como
+todos sabeis) vejo com oculos, e (conforme a opinião de alguns) com
+elles muito menos. Os dias atraz, sendo eu ainda innocente d'este
+costume, me deram uma carta de um amigo, que dizia: _Para vêr o senhor
+Solino_: aberta ella, a lettra tal, tão miuda, e embaraçada, que
+desmentia o sobrescripto, e por nenhuma via pude vêr o que dizia. Mas
+respondi n'outra lettra muito peior, e puz no sobrescripto: _Para cegar
+o senhor Fuão_; ao que elle depois me respondeu, que estava pelo costume
+dos presentes.--Nem todos se hão de seguir (disse o doutor) que, como
+escreve o philosopho Favorino, cada um deve usar de palavras presentes,
+e costumes antigos; e mais quando é uso é abuzão, que no primeiro, por
+ser tal, offenderam as leis; e no segundo o reprehendem os mesmos que o
+usam. Comtudo Leonardo dirá o que lhe parece.--A mim respondeu elle que
+a lei é boa, e a cautella escusada. Porém o sobrescripto tem mais partes
+de cortezia, que essa que dissestes, ainda que á primeira vista pareça
+cousa tão limitada. E para que comecemos em ordem; _sobrescripto é_ uma
+noticia vulgar da pessoa a quem se escreve, e do logar aonde lhe mandam
+a carta, exprimindo-se n'elle o nome, e a dignidade, por onde é mais
+conhecida, e o do logar onde n'aquelle tempo assiste. N'esta regra geral
+ha uma limitação, e é: Que ás pessoas do grande titulo, e cargo se pode
+calar, ou usar de outro modo differente esta segunda noticia; porque,
+além dos cargos declararem muitas vezes a assistencia das pessoas,
+parece cortezia que as que são mui conhecidas por seu titulo, e
+dignidade, basta essa, e o nome para serem buscadas. O primeiro modo é,
+como se escrevessemos a N. Vice-Rei da India, A. N. General de Portugal.
+O segundo como a N. Embaixador d'el-rei de Hespanha em a Côrte de Roma.
+E posto que estes assistam a tal tempo em villas, ou cidades
+particulares, não é necessaria outra leitura no sobrescripto. Não trato
+aqui das cartas enviadas aos reis, de seus vassalos, porque não entram
+n'esta regra as que vem dirigidas a seus conselhos particulares.--Bem
+podereis (disse o doutor) metter n'esse logar a historia de um letrado
+da minha profissão, que mandando uma informação á Meza do Paço, poz no
+sobrescripto: _A El-Rei nosso Senhor nos seus Paços da Ribeira, junto de
+Luiz Cesar_.--D'outro soldado ouvi eu contar (disse Solino) que escreveu
+á India: _A. N. Vice-Rei da India, nos Paços de Goa, defronte de um
+Lanceiro torto_.--Para gente tão nescia (disse Leonardo) não servem
+preceitos: mas em outra vejo muitas vezes sobrescriptos tão miudos, e
+sobejos, que pessoas muito particulares se podiam dar por afrontadas
+d'elles, como é: A fuão, em tal terra, em tal rua, detraz de tal parte,
+defronte de tal casa, e junto a N. E ás vezes é a pessoa tal, que deve
+ser mais conhecida por si, que pelas confrontações.--Dos sobejos
+(atalhou Solino) não posso eu calar um, que vi ha poucos dias, de um
+frade que escreveu ao seu provincial, que tinha cinco padres nossos,
+como conta benta, e dizia: _Ao muito Reverendo Padre nosso, o nosso
+Padre N. nosso Padre Provincial, no Convento de nosso Padre S. N. Padre
+nosso_.--Por isso digo (proseguiu Leonardo) que a noticia deve ser
+vulgar que nem afronte, nem lisongeie, nem sobeje, nem falte.--Mais
+provavel é (disse D. Julio) que se peque nos sobrescriptos por demazia,
+que por falta; porque todos dizem o nome da pessoa, e a terra para que
+escrevem.--Não já um (respondeu Pindaro) que escreveu: _A meu filho o
+Licenciado em Salamanca, que Deus guarde_, parecendo-lhe que bastava o
+grau em logar do nome. Mas que logar dareis vós aos titulos dos
+sobrescriptos? Que ha alguns mais compridos que as cartas que resam o
+nome, o titulo, o senhorio, o cargo, a commenda, e ainda as pretenções
+da pessoa a quem se escreve.--A mim me parece (tornou Leonardo) que os
+titulos é cousa conveniente, e necessaria; usados porém com moderação
+conforme ao que tenho dito: que noticia vulgar é ser um homem conhecido
+por o senhorio, e cargo que tem; e assim se ha de escrever de cada um o
+cargo que tem. e por onde é mais conhecido. Do senhorio como: _A. N.
+senhor de tal Villa_. E estando em ella: _A. N. na sua Villa N_. O que
+tambem se usa nos logares, e quintas, em que cada um assiste. Do cargo:
+_A fuão, do Conselho d'el-Rei, e seu Presidente da Fazenda, da
+Consciencia_, etc. _A fuão Desembargador d'el-Rei nosso senhor, e seu
+Ouvidor dos Aggravos_, etc. Tudo isto com a brevidade necessaria: por
+que o sobrescripto, como disse, serve de noticia, e não já de adulação.
+E na carta, não se permitte no sobrescripto o que se não consente no
+interior; como se algum escrevesse a este Fidalgo, e lhe quizesse pôr os
+títulos, que elle merece, no sobrescripto; convém a saber: _A D. Julio,
+Columna da nobreza de seus passados, e gloria das esperanças de sua
+patria_. Ou: _Ao Doutor Livio, honra e luz do Direito Civil, exemplo da
+philosophia, e thesouro da humildade_: cousas eram estas, que d'elles se
+podiam dizer: porém não são no logar do sobrescripto. E passando d'elles
+adeante.
+
+A segunda cortezia é no papel, da cruz até á primeira regra; que ha
+alguns, que lhe põem os olhos muito junto com as sobrancelhas: outros,
+que lhe deixam pelo meio uma estrada de coches; e pela desconformidade,
+que ha entre uns, e outros, veio a ser a regra entre os eguaes, que
+fique em branco a quarta parte do papel, que vem a ser no alto a
+primeira dobra; e na ilharga um espaço razoado, que dá logar á mão para
+ter a carta sem cobrir as lettras, e para se cortar, ou passar chancella
+sem as offender.--E de que nasce (perguntou Pindaro) que muitos deixam
+mais de meio papel em branco da ilharga, e vão a cerzir a lettra com a
+cortadura da tesoura?--Esse erro, e outros muitos (respondeu elle)
+nascem de mudarem alguns os serviços ás cousas: porque a invenção não
+estava mal no seu logar, se a não fizeram servir nos alheios. Em cartas
+de negocio, feitas a pessoas occupadas, que se fazem por capitulos, e
+apartadas, ou perguntas sobre materias dos mesmos negocios, se deixa
+egual parte do papel para responder á margem em ordem a cada uma das
+cousas; e assim fica servindo para duas, uma mesma carta; mas estas não
+guardam a regra, nem a cortezia das missivas. O mesmo erro ha no que
+Solino primeiro apontou dos sobrescriptos: _Para vêr o senhor Fuão_, que
+nasceu de alguns papeis emmaçados, que se passavam de ministro a
+ministro com sómente aquelle sobrescripto sem outra carta, e sem terem
+mais de carta, que o irem cerrados, e sellados, deram occasião aos que
+usam o mesmo termo nos sobrescriptos d'ellas.
+
+--Muitos erros ha (disse D. Julio), nascidos da mesma occasião. E posto
+que seja sahir um pouco fora do proposito, é tão grande bugia da virtude
+e da honra a vaidade, que, sómente por a seguir em as apparencias,
+tropeça a cada passo em desatinos. Este escreveu, _Para vêr_; porque N.
+Ministro, ou privado escreveu assim; e veste de tal panno, porque N. de
+maior qualidade o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar o seu
+frio) faz outro á imitação, e se abraza de quentura. A Hespanha se
+passou o uso de vestir dos soldados de Flandres, por bizarria; e razão
+tinham de imitar em outras cousas aos praticos que militam em uma praça
+tão ennobrecida das nações da Europa; mas o que elles faziam obrigados
+do clima, e o sitio da terra, usavam os cortezãos por gala, levados do
+engano da verdade, os chapéos de aba grande contra a neve, os
+ferragoulos abotoados, e com descanços para o frio, as meias de
+escarlata debaixo de botas altas contra a humidade, as solas levantadas
+por detraz, para não resvalarem nos caramelos, as roupetas abertas sobre
+as armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas pela
+necessidade, se passaram á galanteria. Deixo as côres de Rei, e da
+Infante, e a historia do Mercador com el-rei D. João o III, que lhe
+pediu que se quizesse vestir de um panno que tinha muito rico, o qual
+lhe daria de graça; que com este ardil, em el-rei o vestindo, vendeu
+elle a mór valia uma quantidade de peças d'aquella côr que lhe haviam
+entrado n'uma partida.--Não é isso sómente nas cartas, e nos arrojos,
+disse o doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a côrte do
+imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe mandaram os medicos
+comer borragens, por ser herva medicinal para a sua enfermidade; e
+porque os fidalgos e titulares a viam de ordinario na meza imperial sem
+advertirem a occasião porque se fazia, veio a valer entre elles muito, e
+a fazerem mil iguarias d'aquella herva, de sorte que se semeavam tantas
+nas terras onde a côrte assistia, que não havia agros d'outro fructo.
+Vão-se emfim as cousas mal, e ás vezes são nascidas de bom
+costume.--Assim é (disse Solino) que até oculos, que se inventaram para
+remediar defeitos da natureza, vi eu já trazer a alguns por
+galantaria.--D'essa maneira seguiu D. Julio se devia mudar para as
+cartas o estillo dos papeis, que o não estão por imitarem aos validos. E
+tornando á cortezia, que cousas tem mais de que tratar?
+
+--A terceira, tornou elle, é o nome, e signal do que escreveu a carta,
+que nem ha de estar tão junto das lettras, que pareça soffrego d'ellas,
+nem no meio do papel como quem escolheu melhor logar, nem tão apertado,
+que fique ausente das regras, nem tanto na ponta do fim, que pareça que
+se amuou áquelle canto; mas com um meio ordinario, como é assignar-se um
+pouco abaixo das regras, mais inclinado á parte direita que á esquerda,
+que é uma certa modestia, e humildade de quem escreve.--E que dizeis,
+(perguntou o doutor) do acompanhamento do signal? Porque ha uns que se
+nomeiam _servidor de vossa mercê_ N., outros _vassallo_; outros
+_captivo_, outros _seu_ N. e ha n'isto muita variedade, e
+ignorancia.--Primeiramente (continuou Leonardo) _servidor_ já se passou
+das cartas para os retretes: _servo_ para os matos, e _captivo_ para os
+comprimentos refinados em a pratica; _creado_, era termo bem creado, e
+_seu_ é descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos, o mais
+seguro é escrever cada um o seu nome sem mais leitura.--Não sejaes tão
+estreito nas licenças(disse Solino) que deitaes a perder cartas que só
+pelos comprimentos do signal merecem fama. Um homem escrevendo a sua
+propria mulher, se assignou _vosso servo N._, e ella o fazia tal na
+mesma ausencia. O outro, de que contam vulgarmente, porque corria nos
+signaes o _menor creado de vossa mercê N._, escrevendo a sua mulher se
+assignou _o menor marido vosso N._, e a senhora devia de ter mais varões
+que a Samaritana. De uma gentil dama sei eu (disse Pindaro) que
+escrevendo a um seu galante se assignou _sua N._, e elle lendo a carta,
+voltou para um amigo com que estava, e disse _sempre temi esta nova_; e
+perguntando-lhe o outro que era? Respondeu _sua N., e é principio de
+verão_: Outro em Coimbra, querendo-se humilhar muito aos pés de um
+amigo, a que escrevia, se assignou _Antipoda de vossa mercê N._--Quanto
+mais galantes são essas historias (tornou Leonardo) tanto mais de
+estimar é a moderação, e bom termo de não se sahir d'aquelle limite da
+cortezia commum; e passando d'ella ha de ter a carta regras direitas,
+que ha alguns que escrevem em escadas como figuras de solfa: lettras
+juntas, e razões apartadas, com a distincção dos pontos, virgulas, e
+accentos necessarios, para fazerem perfeito sentido das razões; porque
+ha cortezãos, que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor os
+rasgos da penna, vão encadeando as lettras pelas cabeças, como sardinhas
+de Galliza; e de maneira confundem a escriptura, que não ha tirar d'ella
+o sentido verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas, que por mal
+escriptas perdem reputação; o papel seja limpo para n'elle empregar sem
+fastio a vista o que ha de lêr, e porque pareçam melhor as lettras bem
+ordenadas; a chancella sutil, porque ao abrir da carta a não offenda,
+que alguns a fazem parecer carta rota antes de lida: dobras eguaes,
+porque o concerto auctorisa as cousas, e as faz parecer melhor: o sêllo
+claro, assim para lustro da carta, como para guarda d'ella, pois é o
+cadeado que a defende dos curiosos de saber segredos alheios.--Não
+corrais com tanta pressa (disse D. Julio) por essas particularidades, e
+miudezas, que em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas
+contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo sobre a materia
+das armas, e tenções com que se costumam sellar as cartas; e assim
+estimarei que nos digaes d'isto alguma cousa.
+
+--As armas (respondeu elle) é a insignia que cada um tem de sua nobreza,
+conforme ao appellido com que se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as
+cartas de importancia, ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do
+escudo, ou com elle em tarja, como tenção; que estas como são
+pensamento, e desenho particular, se abrem ás vezes em redondo, ovado,
+ou quadrangulo, e outras figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal
+é cousa muito antiga aos principes trazerem tenções, e emprezas com
+lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas Reaes, que posto que
+n'aquelle tempo não estavam tão apuradas como agora, nem eram sujeitas á
+arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, não lhes faltava
+entendimento, e galanteria. El-rei D. João o I trazia na orla das Armas
+uma lettra, que dizia: _Por bem_. E a rainha D. Filippa de Alancastre
+sua mulher, outra que respondia a esta em Inglez que dizia: _Me
+contenta_. O infante D. Fernando seu filho, o Santo, trazia uma capella
+de hera com seus cachinhos, e no meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja
+cavallaria era Mestre. O infante D. Pedro uma capella do carvalho com
+suas bolotas, e no meio umas balanças, e nas Armas Reaes, no banco de
+pinchar, em cada pé d'alto abaixo mãos, e por cima umas lettras
+escriptas muitas vezes, que diziam: _Dizer_, e entre cada palavra
+d'estas um ramo de carvalho com bolotas. O infante D. João, que foi
+mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel D. Nuno Alvares
+Pereira, trazia uma capella de ramos de silva com cachos de amoras, com
+as bolsas de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma com uma
+lettra em Inglez, que dizia: _Com muita razão_. O infante D. Henrique,
+Mestre na Ordem de Christo, trazia as armas do Mestrado, e de antigas de
+Portugal, e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava no cabo de
+baixo, e uma fivella que fazia volta com a correia, e em Inglez a lettra
+dos cavalleiros de Garrotea, que elle tambem era, e dizia: _Contra si
+faz quem mal cuida_. E uma capella de carrasco, e no banco de pinchar
+tres flôres de lirio em cada pé. El-rei D. Affonso o V trazia pintado um
+mundo com esta lettra: _Conheço que não te conheci_. El-rei D. João II
+seu filho, trazia um rodizio, com esta lettra: _Setere_: e na outra
+trazia um Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra: _Pela lei e pela
+grei_. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede de pescar, a que
+chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma esphera com uma Cruz. A excellente
+senhora, uns alforges, e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella
+com esta lettra: _Memoria de mi derecho_. O marquez de Valença, neto do
+conde D. Nuno Alvares, trazia dois guindastes, que levantavam um titulo
+de pedra, com quatro lettras, cada uma por parte. E além d'estas ha
+memoria d'outras muitas, que dão testemunho do uso que d'ellas havia
+n'este reino.--Por certo, disse D. Julio, que estou assás contente do
+fructo que colhi da minha pergunta, por saber curiosidade tão notavel
+dos nossos principes antigos, que para a minha natural inclinação é a
+cousa de maior gosto, e interesse: e não fôra menor; pois falamos de
+Armas, e Tenções, e vós sois visto n'ella fazer que saibamos mais alguma
+cousa atraz d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve
+principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenções.
+
+--Quanto á minha opinião (respondeu Leonardo) é que armas, e emprezas,
+ou tenções não tiveram no seu principio a differença, que agora lhes
+assignam os que d'ellas escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com
+limitações, e regras mui apertadas. Antes me parece, que as armas eram
+as insignias que os reis, e imperadores davam aos seus para ser
+conhecida sua nobreza, conformando-se na figura d'ellas com a qualidade
+dos successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade do sangue
+d'onde descendiam a quem as davam, e as que os mesmos reis tomavam para
+si em memoria de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores.
+Emprezas, ou tenções são as que os mesmos reis, principes, ou
+particulares tomam, conformando as figuras, e lettras com o desenho, e
+pensamento que cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui
+adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram; que, por ser um
+discurso mui comprido, não tem logar em noite tão breve. Além d'estas
+ha, outras armas dos reinos, provincias, republicas, e cidades, que se
+devem chamar _diviza_, que tiveram principio ou das cousas de que são
+mais abundantes, ou da maneira em que fôram povoadas, ou adquiridas. E
+no que toca ao principio das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe
+por armas a pelle do leão que matou na relva Nemea, depois da victoria
+que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia a mesma ínsignia do
+porco de Erimanto, que matou em Arcadia. Jazon trouxe por armas o
+Velocino de ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o
+Paladion, e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra de Troia:
+estas eram verdadeiras armas, em memoria de valorosos feitos. E quanto
+ao principio das emprezas, escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no
+escudo a cabeça de um leão de ouro, com uma lettra que dizia: _Este é
+terror dos homens, e o que o traz é Agamemnon_. Antioco trazia por armas
+outro leão. Heitor, dois leões de ouro em campo vermelho. Seleuco um
+touro. Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo azul. Alcibiades
+um Cupido. Lucio Papirio o Pégazo. Cezar uma aguia preta. Pompeio um
+leão com uma espada empunhada. Judas Macabeu um dragão vermelho em campo
+de prata. Attila um açor coroado. E cada um d'estes, posto que poderam
+tomar a figura das armas em significação de feitos celebrados, e
+victorias adquiridas, só quizeram dar-lhe as figuras conforme ao seu
+pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve. E descendo ás armas
+particulares dos reis, que sabemos: As do imperador é uma aguia preta de
+duas cabeças em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar, e da união
+do Imperio Oriental, e Occidental. Armas d'el-rei de França são tres
+flôres de lirio de ouro em campo azul, que fôram milagrosamente dadas a
+el-rei Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos de azul em
+cruz, em signal do vencimento que o primeiro rei D. Affonso teve dos
+cinco reis mouros no campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta
+dinheiros de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em memoria da sua
+Paixão, e do apparecimento que o mesmo rei vio antes da batalha: por
+orla das armas sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre,
+um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra, tres Leopardos de ouro
+em campo vermelho: posto que d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres
+corôas de ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os castellos,
+e leões, tão conhecidos no mundo. Armas d'el-rei de Frizia, um escudo de
+prata, riscado de linhas vermelhas, e atravessado com uma banda azul.
+Armas d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos, com cruzetas
+do mesmo metal, e outras pelos vãos dos angulos. Armas d'el-rei de
+Polonia, duas aguias de prata e um homem em cima de um cavallo, do mesmo
+metal. Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mão que a está
+tocando. Armas do Preste João da India, um crucifixo negro, com dois
+azorragues, em campo de ouro. Deixo outros muitos, como os bastões de
+Aragão, as cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de ouro, e
+vermelho de Malhorca, e outras que querer contar fôra infinito. Tem do
+mesmo modo as provincias suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em
+que o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um elephante:
+Europa, um cavallo: A America, um crocodilo: Italia tinha por armas
+antigamente o cavallo: Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um
+raio: Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma cabeça
+armada: Albania, um cágado: Frizia, uma porca: Hespanha, um castello:
+Luzitania, uma cidade. As Republicas tem tambem suas armas particulares:
+A de Veneza, um leão com um livro nas unhas: A de Sena, uma loba: A de
+Genova, um S. Jorge: A de Florença, um leão com um livro de ouro. As
+Cidades, da mesma maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa, uma
+nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso Martyr S. Vicente,
+seu padroeiro: Coimbra, o drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeças
+das vigias: O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas torres:
+Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles dois corvos. E assim
+todas as outras. Porém isto é já muito tarde, e gastámos n'esta materia
+mais tempo do que convinha á das cartas, em que começamos; e porque nas
+armas, e tenções nos não fique por saber algumas significações, e
+figuras de armas dos particulares senhores, e fidalgos de Portugal, que
+todas fôram merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando os
+animaes, significadores de fôrça, braveza, e velocidade: e os planetas
+de poder, antiguidade, e clareza, e outras figuras semelhantes: Banda
+significa postura de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu
+alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco da vida: faxa,
+ou barra, representa victoria da batalha singular de cavalleiro a
+cavalleiro, e quantas fôrem, tantos diremos que são os vencimentos com
+que se ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello, significa
+ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforço, e perigo da vida.
+Escadas, asteas, ou pedaços de lanças, denotam subida trabalhosa, ou
+defensão arriscada na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos, ou
+forma que vêdes nas armas, todas nasceram de illustres façanhas, e
+valorosos feitos. E todas as das empresas, e tenções, dão signal claro
+do animo, e pensamento de seus donos: e com umas, e outras se devem
+sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras, e lettras
+d'ellas, como tenho dito.--Vejo (disse Solino) que temos a carta
+cerrada, sellada, e com sobrescripto, sem ainda sabermos nada do
+principal d'ella. Não vos enfadeis (respondeu elle) que na noite de
+ámanhã a abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores, se não
+ficarem de agora cansados do sobrescripto.--Antes (disseram elles) que
+só o dia seguinte lhes parecia comprido, e vagaroso. E dando fim á
+conversação d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso, que
+com a moderada recreação de horas bem gastadas é mais aprazivel.
+
+
+
+
+DIALOGO III
+
+DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENÇA DAS CARTAS MISSIVAS
+
+
+Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo aquella noite na
+materia das armas; e quasi a escolhera antes, que a das cartas. Por
+alguns particulares, que desejava saber, quiz com mão alheia, por não
+parecer importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que achou junto á
+sua porta; e depois de o saudar, lhe disse: Como estaes depois da noite
+de hontem.?--Como o dado (respondeu elle) que está de qualquer
+ilharga.--Deveis de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes tão
+poucos pontos, que faltaes aos da cortezia:--Fiquei (tornou elle) tão
+cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei aborrecimento, e nem
+estou para vos servir, nem para o dizer, e perdoae-me.--Logo (disse o
+fidalgo) não quereis continuar na conversação d'esta noite.--Se a carta
+(lhe tornou Solino) ha de ser tão comprida como o sobrescripto, assim o
+imagino.--Pois a minha tenção (proseguiu elle) era pedir-vos que na
+materia das armas, que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas á
+minha conta sobre alguns particulares das familias d'este reino.--Vós
+deveis buscar armas para me matar (disse Solino) porque das de hontem
+sahi eu tão escalavrado, que determinava fugir d'ella; e sei que tem
+Leonardo tantos livros de armas, e gerações, que, se o tirar a terreiro,
+havemos mister todo o inverno para o ouvir.--Eu me contento (respondeu
+D. Julio) com saber que elle tem os livros, e assim o escuso do
+trabalho:
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes
+merecedores dos brazões que seus successores possuem.--Bom seria (disse
+Solino) acabar as cartas antes de entrar por esses feitos, e para isso
+vos irei acompanhando até a casa de Leonardo, posto que tinha outra
+determinação.--Porque vós não falteis (respondeu D. Julio) quero ir mais
+cedo. E com esta pratica, e outras que occorriam, foram passeando, e
+entertendo o que ficava do dia, até que a sombra da noite, e uma chuva
+miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde os amigos esperavam já
+que elles chegassem; e com Pindaro outro estudante seu companheiro, por
+nome Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasião em sua
+companhia. Festejaram todos a Solino; e elle vendo o hospede, de novo se
+lhe inclinou com mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja
+á dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta, que cerrámos sem
+elle, e com não pequeno trabalho.--Não tivera eu por tal (respondeu o
+estudante) antes por grande ventura, se do passado me coubera alguma
+parte; e esta, que alcanço agora com o consentimento d'estes senhores
+por meio de meu companheiro, tenho por muito grande favor, e mercê de
+todos.--Essa humildade (disse Solino) está acreditando mil esperanças de
+vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro sabe fazer esta
+eleição dos amigos tambem, como em tudo o mais é discreto, e acertado: e
+para que entendaes o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais
+certo creado que elle tem entre os senhores presentes.
+
+A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com as suas, até que o
+doutor os despartiu, e disse a Leonardo:--Bem gastado era o tempo em
+comprimentos tão cortezãos, e tão devidos, se o desejo, que temos de
+continuar a materia da noite passada, o não quizera poupar todo para
+ella: e assim vos peço que me façaes mercê, e a todos, de ir por
+deante.--Tendes razão (tornou elle) de me aliviardes mais depressa do
+cuidado, em que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar dos
+vossos principios, dissestes que cousa era carta na origem do seu nome,
+os primeiros modos de escrever, e o como entre nós se conservou; tratei
+do sobrescripto, da cortezia, das lettras, do signal, das dobras, e
+sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais enfadados, que
+saudosos.
+
+Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos que cousa é
+carta missiva, ou mandadeira, e o para que foi inventada; que pela
+definição de Marco Tullio, a quem todos seguem, é uma messageira fiel,
+que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que lhes manifesta o que
+queremos que elles saibam de nossas cousas, ou das que a elles lhes
+relevam. Tres generos de _cartas missivas_ assigna o mesmo Tullio, aos
+quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas. O primeiro é das
+_cartas de negocio e de cousas que tocam á vida, fazenda e estado de
+cada um_, que é o para que as cartas primeiro foram inventadas; que, por
+tratarem de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, de cartas
+d'entre amigos uns aos outros, de novas e comprimentos de galantarias,
+que servem de recreação para o entendimento, e de allivio e consolação
+para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de peso, como são de
+governo da republica e de matérias divinas, de advertencias a principes
+e senhores e outras semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas
+domesticas, civis e mercantís. O segundo em cartas de novas, de
+recommendação, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graça. O
+terceiro, que é mais grave e levantado, contém cartas reaes em materias
+de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias, laudativas,
+persuasorias e outras, que se pagam a cada uma das que nomeei em todos
+os tres generos.--E onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias ou
+namoradas? que se na vossa edade não teem logar, parece que o mereciam
+n'este díscurso.--Bem sei eu (tornou Solino) quem as tomára no primeiro;
+mas o sr. Leonardo já não joga com essas cartas.--Não me esquecia de
+todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para que no fim das mais sejam
+melhor recebidas, e para proseguir a materia quem agora as puder apurar.
+
+--As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem cartas muito seccas,
+que é materia esteril para que empregueis n'ella sem fructo o vosso
+entendimento.--Antes (disse Leonardo) como essas foram as primeiras, e
+d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, será razão que debaixo
+d'este genero tratemos das mais, repartindo o pouco que eu soube dizer,
+por os logares de cada um. E assim me parece, que como a carta que
+escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre as cousas da
+casa; e o mercador ao outro sobre seus tratos e mercancia; um aviso e
+uma relação que lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por meio de
+uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica costumamos que é
+brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, e propriedade sem
+metaphoras, nem translações.--E quando (disse o doutor) faremos breves
+em uma carta?--Quando (respondeu elle de tal maneira, e com tal
+artificio a escrevermos, que se entendam d'ella mais cousas do que tem
+de palavras.--E como póde ser? (tornou elle).--Por meio dos relativos e
+subsequentes (disse Leonardo) que, sem nomear as palavras, as repetem; e
+por ordem das sentenças e adagios que sem entender as cousas as
+declaram; e n'isto se adeantam muito as cartas da pratica familiar, que,
+se escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem palavras para se
+subentenderem razões.--E que cousa é enfeite ou affectação? (perguntou
+Solino).--É, disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com
+elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de logar para as
+syllabas fazerem melhor som aos ouvidos. E em favor d'esta opinião,
+dizia um homem insigne d'este reino, e que teve n'elle os melhores
+logares da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a mulher
+muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas: e eu antes seguira este
+voto, que o de alguns rhetoricos, que deram á carta missiva cinco partes
+de oração, convém a saber: _saudação, exordio, narração, petição e
+conclusão_: e se houvessemos de seguir o seu estylo, mudariamos de todo
+o das cartas.--Nunca rhetoricos (disse o estudante) souberam escrever
+cartas, se as sugeitaram ás leis da oração. Mas parece que o sr.
+Leonardo dá a entender que na carta se não devem usar epithetos ou
+adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja elegancia d'ella: e eu tenho
+que sem elles se não póde escrever.
+
+--Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para discripção e
+declaração das cousas ou para propriedade, ou para ornamento e enfeite
+d'ellas. Os primeiros são necessarios nas cartas como em tudo; os
+segundos menos, os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, _um
+homem douto_, _uma mulher formosa_, _um cavallo ligeiro_, _uma arvore
+alta_, _um caminho comprido_, _um peito forte_, sào attributos
+necessarios para declarar o que queremos dizer; porque ha homem que não
+é douto, mulher que é feia, e os mais. Os de propriedade como _ferro
+frio_, _relva verde_, _sol claro_, _calma ardente_, _areia sêcca_,
+_pedra dura_, estes são pouco necessarios nas cartas: e sómente por
+comparação ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo, _é duro
+como pedra_, ou _é dar em pedra dura_, ou _é malhar em ferro frio_. Os
+de elegancia e ornamento, tenho eu que se hão de degradar das cartas
+missivas para fóra do termo d'ellas, como agora _firme soffrimento_,
+_incansavel diligencia_, _solicito desejo_, _cuidadoso receio_,
+_importuna lembrança_, _desusada brandura_, e outros que tem juiz de seu
+fôro. Assim que não digo que faltem nas cartas epithetos necessarios,
+mas que se escusem os sobejos; nem se andem grangeando as palavras para
+fazerem assento em o cabo da sentença, que será ir contra a brevidade
+sem enfeite ou affectação.
+
+--Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve seria a de menos
+regras; e que não estava a cousa nos epithetos serem proprios ou
+necessarios. Uma carta (proseguiu elle) póde ser breve, e levar
+escriptas muitas
+
+paginas de papel; porque póde tratar de tantos negocios ou cousas que as
+occupem, mas estarão relatadas de modo que seja a leitura comprida, e a
+carta breve.
+
+--O segundo ponto (perguntou Pindaro) que é clareza sem rodeio, me
+parece a mim que fica declarado n'essa primeira parte; pois sendo breve
+a carta, e não tendo enfeite nas palavras, será clara e sem
+rodeios.--Não estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza é
+parte da brevidade, a clareza é das razões, e a brevidade das palavras:
+e assim póde a carta ser breve, mas confusa; e clara sendo comprida: que
+muitos para dizerem cousas querem estrada coimbrã, e caminho direito;
+buscam rodeios e atalhos em que se perdem, confundindo o que querem
+dizer. Em uma minha doença escreveu um amigo, e dizia: _Disseram-me que
+a saude de vossa mercê corria perigo na inconveniencia de medicos
+discrepantes no remedio dos males d'essa doença_. E fez estas trocas
+onde podia dizer: _Soube que os medicos não se conformavam na cura dos
+vossos males, que na duvida d'elles corria risco a vossa saude_. Outro
+me escreveu ha muitos dias: _Se vossa mercê não está ausente das
+lembranças que suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas
+d'este seu captivo_. Havendo de dizer: _Se vos não esquece que me
+promettestes de ter lembranças de mim_. E porque ainda temos logar de
+tornar aos particulares das disposições das razões:
+
+Passando ao terceiro ponto, que é _propriedade sem metaforas_, ou
+_translações_.--A propriedade (disse o doutor) era materia da noite
+passada, quando falastes das letras e razões em seu logar, sem barbaria,
+nem impropriedade no escrever: e como isto é parte do exterior da carta,
+já hoje não tem dia.--A propriedade que vós dizeis (accudio Leonardo) é
+exterior, mas muito differente a de que eu trato, e não pouco importante
+ao falar, e escrever, que é a propriedade das palavras na sua propria
+significação, sem serem emprestadas por via de translações para outros
+logares, que é termo que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais
+declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando propriamente dos
+nomes: _Bando de aves_, _cardume de peixes_, _rebanho de ovelhas_, _fato
+de cabras_, _vara de porcos_, _alcatéa de lobos_, _tropel de cavallos_,
+_cafila de camellos_, _récua de cavalgaduras_, _manga de arcabuzeiros_,
+_mó_, ou _roda de homens_; e se, trocando isto, disséramos: _Um cardume
+de aves_, ou _uma alcatéa de ovelhas_, ou _um fato de porcos_, seria
+impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem nos verbos: _Chiar_ de
+aves, _balar_ de gado, _grunhir_ de porcos, _ladrar_ de cães, _rinchar_
+de cavallos, _bramir_ de leões, _empolar_ de mares, _encapelar_ de
+ondas, _assoprar_ de ventos, etc. E se dissessemos _chiar_ de porcos,
+_rinchar_ de leões, e _grunhir_ de cavallos, seria o mesmo erro. E
+porque ha metaforas e translações tão uzadas e proprias, que parecem
+nascidas com a mesma lingua, que como adagios andam pegadas a ella, se
+devem trazer (quando forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que
+na pratica se costumam. Dizemos dos nomes: _folha de espada_, _lume de
+espelho_, _veia de agua_, _braços de mar_, _lingua de fogo_, _lanço de
+muro_, _faxa de ferro_, e outras semelhantes: e nos verbos: _lançar o
+cavallo_, _fazer á capa_, _quebrar a palavra_, _cuspir o pelouro_,
+_arripiar a carreira_, e outras muitas: e além d'estas tão usadas, e
+naturaes, que servem de propriedade á lingua portugueza, ha outras
+nascidas de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e
+antiguidade, como são _furtar o corpo_, _ir vento em pôpa_, _nadar
+contra a agua_, _ficar em secco_, _repicar em salvo_, _tirar barro á
+parede_, _etc_. E quanto a carta tiver mais d'estas, será mais breve, e
+cortezã; pois, como primeiro disse, por este modo se entendem da carta
+mais coisas, do que tem escripto de palavras.
+
+Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes, populares, ou
+innovadas, será vicio na propriedade da carta; como se nos nomes
+dissessemos: _um feixe de cuidados_, _um mar de encommendas_, _um moio
+de queixumes_, _um golpe de razões_; e nos verbos, como: _enfeitar o
+desejo_, _tropeçar em cuidados_, _navegar em desconfiança_, e outras
+muitas. Esta é a propriedade, de que trato, e a que me parece que se
+deve usar no escrever das cartas missivas; porque não soffre o estilo
+d'ellas o que em a pratica, ou em outro genero de escriptura não sómente
+se permitte, mas muitas vezes se deseja.
+
+--Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitação, ou declareis a
+linguagem, que se deve usar n'este estilo das cartas; porque encontro
+muitas muito mal escriptas, cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se
+cançarem muito em quererem parecer singulares.--Posto que isso pertence
+primeiro ao fallar, que ao escrever (respondeu Leonardo) pois, como já
+disse, devemos escrever como praticamos; as palavras da carta hão de ser
+vulgares, e não já populares, nem exquisitas: vulgares de modo que todos
+as entendam; e ao menos, que a quem se escrevem, não sejam peregrinas: e
+não já populares, que sejam termos humildes, palavras baixas, que a
+cortezia não recebe: e que tão pouco, em logar dos adagios, e sentenças,
+tenham anexins. Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras
+alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas, que sempre tem o
+sabor da sua origem.--Assim na linguagem, como em tudo (accudio
+Feliciano) ficavamos satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o
+senhor Leonardo dividio as cartas, déra alguns exemplos que nos
+allumiaram; porque nem as regras sem elles ensinam de todo, nem se póde
+perder a lição de tão bom estilo. O que eu não pedira, se foram dos
+vinte generos de cartas, em que um rhetorico as dividio; que, por querer
+dar leis, e partes a cada uma, as confundio todas.--Em tudo (tornou
+elle) vos quizera satisfazer: porém cartas mais se hão de escrever em
+occasião, do que trazerem-se por exemplo; que é o porque eu lhe nào déra
+regra certa, nem das muitas, que ha bem escritas, se póde tirar; que
+esse auctor, que vós dizeis que lhe assignou vinte generos, achará fóra
+d'elles infinitas cartas, bem melhor escriptas, que as com que os elle
+quer auctorisar. Porém, com o presupposto de não dar preceitos:
+
+As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas, civis, e
+mercantis, respeitam tanto a brevidade, que não podem os rhetoricos
+dividil-as em partes, se não forem nas da oração; e bastava para exemplo
+aquella de Cicero a Cornelio, que dizia sómente:
+
+
+CARTA DE CICERO A CORNELIO
+
+"Alegrai-vos de eu não estar mal; pois terei o mesmo contentamento de
+saber que estais bem."
+
+
+E muito é mais para notar uma carta de Octavio Imperador para Caio Druzo
+seu sobrinho, que contém bem mais coisas, e avizos que palavras, e
+dizia:
+
+
+CARTA DE OCTAVIO A DRUZO
+
+"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares; que vos
+mandou o Senado; que sois moço; meu sobrinho; e cidadão Romano."
+
+
+E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem deixam de ser cartas.
+Mas porque não só nos ajudemos das antigas, mas tambem com as nossas
+façamos pestoleta; esta é breve, e domestica, que um cortezão escreveu a
+seu amigo, a quem em uma ausencia deixára sua casa; e dizia:
+
+
+CARTA MODERNA A UM AMIGO
+
+"Estou tão confiado no que vos mereço, e tão seguro no que de vosso
+animo tenho conhecido, que me não dá cuidado a familia que deixei á
+vossa conta; senào o trabalho, que vos dará o sustentalla: não procuro
+saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em quanto a tiverdes,
+estará sem sobresalto a minha vida."
+
+
+Á qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia d'esta maneira:
+
+
+RESPOSTA
+
+"N'esta casa só vós fazeis falta; mas como sois o tudo d'ella, ainda que
+sobeja a minha diligencia, lhe falta tudo. No que é servir-vos, a todos
+satisfaço, senão o meu desejo, que é igual ás obrigações que vos tenho.
+Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver, porei por vossas
+coisas a vida."
+
+
+--Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e para me assegurar
+se a vossa memoria é archivo d'ellas, ou se as ides fingindo de repente
+(ainda que isto é
+
+menos curiosidade, que tenção) hei de pedir por parte d'estes senhores
+que de alguma nos deis semelhantes exemplos.--Não quero (disse elle) que
+acrediteis tanto o meu entendimento com mostrardes desconfiança da
+memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer nas que me lembrarem:
+e proseguindo nas da segunda especie d'este genero, me parece carta
+civil, e breve esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua casa
+para a terra, onde elle vivia; e dizia:
+
+
+CARTA DE UM AMIGO
+
+"Espero com grande alvoroço que venhais para esta cidade, para que com
+vossa companhia viva n'ella contente, e vós desenganado de quam pouco em
+si tem que me possa alegrar, senão depois que vos possuir."
+
+
+A quem o amigo brevemente respondeu em outra que dizia:
+
+
+RESPOSTA
+
+"Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso, nenhum pode haver tão
+esteril, que, tendo a tal amigo, não seja desejado. Vós sois a quem
+busco, é força que me contente a parte onde vos achar; que as pedras não
+fazem a cidade, senão os homens: nem as commodidades da vida a
+sustentam, senão os amigos."
+
+
+As mercantis posto que são segundo os tratos, e negocios, e acodem mais
+a elles, que ao bom termo dos comprimentos; não deixa de haver muitas
+tão bem escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e ainda que
+não é d'ellas uma, que eu vi há poucos dias, a darei por ser tão breve,
+e era esta:
+
+
+CARTA MERCANTIL
+
+"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito grande risco nas
+fazendas d'essa terra: porém a valia d'ellas será muito avantajada, se
+chegarem a este porto a salvamento; se a cubiça do interesse vence o
+perigo das encommendas, ponde-as em ventura; que eu a terei para mim por
+muito boa o vosso bom successo."
+
+
+E assim não me desagradou outra, que dizia d'esta maneira:
+
+
+CARTA MERCANTIL
+
+"Com os tempos contrarios á navegação foram as occasiões ao nosso trato:
+que, como as mercadorias não foram requestadas de extrangeiros, estão ao
+presente abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando, mais as
+procurem os mercadores da terra; e n'essa vos não descuideis de fazer
+emprego, mandando-me o de muito boas novas vossas."
+
+
+--Não me pareceu (disse o doutor) que tirasseis tão boa doutrina de
+materia tão limitada; porque esse primeiro genero de cartas tinha eu que
+não sahia de uns termos e principios, que andam escriptos no panno da
+serpe, como são: _Á feitura d'esta_. _Esta não é para mais_. _Uma de v.
+m. me deram_. _Pela de v. m. de tantos do passado_: _Depois de me
+encommendar em v. m._ E d'aqui correndo por seus capitulos _de quanto a
+isto_, e _quanto a est'outro_ até topar no _a quem Deus guarde_.--Esses
+principios (disse Solino) estão já muito bolorentos; mas ainda para
+cartas de mais ponto tenho outros grangeados de algumas secretarias
+velhas, como impressão de Torres, de que me valho nas pressas de uma boa
+nota, que não são tão corriqueiros.--Não me atreverei eu sem esses
+(disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por notificado.--Pois
+assim é (disse Solino) quero obedecer, ainda que perco grande valhacouto
+em os descobrir; porque sabei que é comer feito para os ronceiros d'esta
+mecanica; e o mór trabalho d'ella é desencalhar a penna com a primeira
+palavra: e são quatro: _Como quer que_, _Tanto que_, _Depois que_, e
+_Antes que_. E sabei que não ha proposito, que saia das unhas d'estes
+bilhafres; e nos capitulos de _quanto isto_ etc., se mette em logar do
+_quanto_, _no que toca a tal_, e _no que toca a qual_; que, a meu vêr,
+era melhor o _item_, que tinhamos tomado aos latinos. Mas os notadores
+de espada solta esgrimem já agora sem estes bordões
+maravilhosamente.--Bons estão os principios (disse D. Julio) porém
+haveis de metter a lettra em todos elles, para que nos não passem por
+alto.--Antes por muito rasteiros (respondeu elle) vos ficarão entre os
+pés. Porém tende tento, e vereis que são principios de parafuso e que se
+encaixam, e viram para todas as partes como grimpa.
+
+
+"Como quer que os meus serviços montem ante vós tão pouco, e a vontade
+por minha seja de menos preço, etc.
+
+"Como quer que o animo, com que sou vosso, me não deixa perder
+occasiões, em que vos sirva, etc.
+
+"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar esta empreza, etc.
+
+"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças, lancei mão do meu
+atrevimento, etc.
+
+"Depois que me apartei de vós, não soube mais de mim, que para sentir
+saudades vossas, etc.
+
+"Depois que meus males me deram logar para tomar esta penna na mão, a
+empreguei em procurar novas vossas, etc.
+
+"Antes que me desculpe de meus descuídos, etc.
+
+"Antes que vos dê larga conta dos meus successos, etc."
+
+
+De modo, que são como materia prima, em que moldareis tudo o que
+quizerdes: porém não quero ir adeante, e tomar o tempo ao sr. Leonardo;
+que o vejo entrar já por outras cartas missivas.--Antes (lhe disse elle)
+tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas. E tratando das do
+segundo genero, que são cartas de novas, a que chamam narrativas de
+cumprimentos, que se dividem em cartas de agradecimento, recommendação,
+desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria ou jocosas,
+como chamam os latinos: Para as narrativas nos podia servir de exemplo
+aquella em que o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu
+irmão Germanico, que dizia:
+
+
+CARTA DE TIBERIO CEZAR A GERMANICO
+
+"Os templos se guardam; os deuses se servem; o senado está pacifico: a
+republica prospera; Roma sã; a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que
+ha aqui em Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia."
+
+
+Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de Persia, que continha só
+tres palavras: _Cheguei: vi: venci._ E a de Gneu Sylvio, escrevendo as
+novas da Farsalia, que dizia:
+
+
+CARTA DE GNEU SYLVIO
+
+"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Catão se matou: acabou a
+dictadura; e perdeu-se a liberdade."
+
+
+E chegando a alguma, que com menos aperto faça sua relação, me não
+pareceu engeitar a que Marcello escreveu ao senado romano, dando-lhe
+novas da rota de Fulvio, que dizia:
+
+
+CARTA DE MARCELLO AO SENADO
+
+"Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento. Fulvio Proconsul
+com treze mil homens foi desbaratado e ferido. Porém não vos cause temor
+este successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha de Canas,
+mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor d'ella: contra elle caminho
+brevemente com o meu exercito para lhe fazer mais breve a alegria d'este
+triumpho; e em vós desejo muito o mesmo animo que levo."
+
+
+--Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias atraz um amigo, de
+novas de Lisboa, que certo, pela brevidade, me pareceu digna d'esta
+lembrança, e dizia:
+
+
+CARTA MODERNA
+
+"Esta cidade está abastada, mas descontente: o mar cheio de corsarios:
+os portos de receios: o paço de requerentes; e elles de queixumes: para
+os validos tudo é pouco: aos desamparados não cabe nada: do remedio de
+tantos males não ha boas novas; e as minhas são que entre todos elles me
+falta a vossa companhia."
+
+
+--Essa (disse Leonardo) se póde ajuntar por exemplo ás antigas que
+relatei: e por não me empregar em outras, que seria demasiado trabalho a
+todos ouvil-as, e a mim recital-as, peço-as de recommendação de alguma
+pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar a disposição e
+offerecimento dos rhetoricos, encarecendo os merecimentos da pessoa ou a
+importancia da causa que encommendaes, facilitando-a na condição e
+vontade a quem a pedia; concluindo com a petição e offerecimento de
+vossa parte: e todas estas, e ainda um exordio de sentença, que hei por
+escusado, se vêem em uma carta que ha pouco que li, que um rei de
+Portugal antigo, escreveu ao de França, encommendando-lhe um fidalgo que
+ia estudar a Pariz; e dizia tirada de latim, em que estava em um livro
+extrangeiro:
+
+
+CARTA DE EL-REI DE PORTUGAL AO DE FRANÇA
+
+"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me pareceu muito digna
+de louvor a de terem particular cuidado e lembrança dos vassallos
+benemeritos em seu serviço, para com favores e mercês os ajudarem: e por
+esta razão me pareceu que devia encommendar a vossa magestade D. Pedro
+de Almeida, que por occasião de seus estudos vae a essa côrte de Paris,
+posto que claramente conheço que, sem recommendação minha, vae assás
+encommendado pela liberalidade e brandura com que vossa magestade honra
+e recebe os homens tão illustres como elle é. Além do que, tem elle
+tantas partes e entendimento, que não achará melhor terceiro, que a si
+mesmo. Deixo seu pae D. João de Almeida conde de Abrantes, que com suas
+singulares virtudes e claros feitos, adquiriu e conservou até á morte
+muito estreita privança e amizade com meus antecessores e commigo; de
+sorte que ponho em duvida se importe mais a seu filho a minha carta, se
+a fama e lembrança de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a
+vossa magestade. E de minhas cousas não offereço de novo nada; pois pela
+irmandade de meus antepassados e minha, em toda a occasião deve vossa
+magestade usar d'ellas, como se foram communs a ambos."
+
+
+Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel, mais breve que a
+passada, que era de seu antecessor, a qual elle escreveu ao mestre de
+Rhodes, encommendando-lhe um noviço portuguez, que ia servir a religião
+que será para exemplo das menos enfeitadas. O grão, mestre era o cardeal
+Pedro de Buzon, e dizia:
+
+
+CARTA DE EL-REI D. MANUEL AO GRÃ MESTRE DE RHODES
+
+"Ayres Gonçalves, filho de Henrique de Figueiredo, vae a tomar o habito
+d'essa religião: não pareceu fóra de proposito nem de humanidade,
+encommendal-o a V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha casa,
+como pelos serviços e merecimentos de seus passados com os reis meus
+antecessores; e finalmente por seu bom esforço e virtude. Rogo a V. P.
+que com sua costumada brandura o favoreça de sorte que n'elle se
+accrescente o valor e a devoção que leva: e não porei esta obrigação no
+menor logar das muitas que tenho a V. P."
+
+
+As cartas de agradecimento tem o campo mais largo para n'ellas se
+espalhar a penna, e o entendimento; pois quem mais se obriga e encarece
+o que recebe, escreverá com melhor termo, não sahindo dos da carta
+missiva: e já os antigos não desconheciam esta galanteria; pois Lybanio
+respondendo a Demetrio, que o obrigava a que lhe pedisse, escreveu
+assim:
+
+
+CARTA DE LYBANIO A DEMETRIO
+
+"Não daes logar a que eu vos peça, porque me mandaes tudo. Ainda bem as
+arvores não dão seu fructo, quando vossos creados m'o trazem: e do que
+até nos agros se sente a falta, eu a não tenho. Como me haverei n'isto?
+que o lavrador, quando o tempo lhe nega a agua, então a pede: porém, se
+chove, contenta-se de vêr que favoreceu o céo suas esperanças."
+
+
+O queixume por carta se deve fazer com toda a moderação que a urbanidade
+requere: e póde n'estas servir para exemplo e lembrança a que Olympias,
+mãe de Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle se assignava
+por filho de Jupiter, que dizia:
+
+
+CARTA DE OLYMPIAS A ALEXANDRE
+
+"Muito me alegro com a victoria que alcançastes da cidade de Tyro; e com
+todas vossas venturas e façanhas: porém tive por grande affronta minha
+vêr que vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta nova me
+escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que aquieteis n'isso o
+pensamento, e me não leveis a juizo ante a deusa Juno; que algum grande
+mal me ha de ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes manceba de
+seu marido."
+
+
+E se me não parecêra um pouco enfeitada uma carta que Angelo Policiano
+escreveu ao grande Lourenço de Medicis, a podéra pôr em exemplo da
+moderação de queixume, porque dizia:
+
+
+CARTA DE ANGELO POLICIANO AO DUQUE DE FLORENÇA
+
+"O poeta é semelhante ao cysne na brancura e suavidade, em ser
+affeiçoado a correntes de agua e amado de Apollo. Comtudo, dizem que o
+cysne não canta senão quando o vento zephiro respira. Não é logo muito
+que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se vós, que sois meu
+zephiro, n'elles me faltaes."
+
+
+As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo, e liberdade para se
+poderem usar n'ellas alguns termos fóra das limitações das nossas
+regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos,
+ficam desobrigados das primeiras leis. que são _brevidade sem enfeite_:
+_clareza sem rodeios_: _propriedade sem metaphoras_; pois o termo da
+graça e galantaria, n'isso se differença do sizudo e pontual; não
+negando que ha algumas que não perdem a graça nem o sizo, como é uma que
+Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia:
+
+
+CARTA DE LYBANIO A ARISTONETO
+
+"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrario
+não perco occasião de dizer louvores vossos; porém quem a ambos nos
+conhecer, a nenhum de nós ha de dar credito."
+
+
+Das mais ha tantos e tão differentes exemplos, que seria aggravo a cada
+uma das outras trazer aqui algumas bem escriptas. Só direi que uma
+especie d'ellas é narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou das
+novas que dão; que não são por esse respeito pouco engraçadas. Ha outra
+das de disbarates, que, parecendo que se desviam nas palavras do
+proposito que tomam, dão a entender, como em enygma, o pensamento de
+quem as escreve; e são estas graciosas com subtileza. Outra ha das de
+murmuração em materias leves, como satyras menores: e umas e outras tem
+a galanteria no pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos
+graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas, phrase humilde,
+accommodada sempre ao sujeito. É certo que n'isto tiveram mão particular
+os portuguezes, que escreveram ao gracioso, que nem os italianos na
+phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco os egualaram.
+
+--Não vos houvera eu de consentir esse salto (disse Solino) deixando
+tantos exemplos em aberto, se não tivera pensamento de cobrar a demasia
+n'outra occasião; e assim por isso, como por ser já passada tanta parte
+da noite, vos peço que façaes a vontade ao sr. D. Julio com essas cartas
+Reaes, de Estado e Governo, que as está desejando com a vida; pois a sua
+é nadar na altura de cousas semelhantes.--Eu vos mereço (respondeu o
+fidalgo) a boa opinião em que me tendes: porém egualmente me contentam
+todas as cousas em que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas
+me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso desejar esse terceiro
+genero de cartas; e se d'elle tornar ao primeiro, farão o mesmo effeito
+na minha satisfação.--Para responder a esse favor (tornou Leonardo)
+havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas que me ficam: e assim
+ou uma ou outra cousa me havei por perdoada.
+
+Não deixou o doutor ir os cumprimentos por deante, dizendo que eram em
+prejuizo de terceiro; e proseguindo Leonardo, disse:
+
+--As cartas do terceiro genero, que, pelas materias importantes, e
+differença das pessoas, são mais graves e humildes; posto que se incluem
+algumas d'ellas á oratoria, aproveitando-se da elegancia e razões para
+persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e posto que d'estas
+estão cheias as chronicas e annaes de todos os reinos, recitarei algumas
+que pareçam menos vulgares e mais breves para exemplo, como é uma que os
+consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram a el-rei Pyrrho sobre uma
+consideração em materia de Estado, que dizia:
+
+
+CARTA DE FABRICIO EMILIO A EL-REI PYRRHO
+
+"Pelos aggravos que de vós temos recebido, o maior cuidado nosso é
+fazer-vos guerra com animo inimigo e braço esforçado: porém, para
+exemplo commum de fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque
+com a perda d'ella nos não faltasse um contrario valoroso a quem vencer.
+Nicias, vosso particular, veiu ter comnosco, pedindo-nos preço certo por
+vos dar morte occulta; em que nós não consentimos, fazendo-lhe perder a
+esperança de tirar fructo da sua maldade. Juntamente assentámos dar-vos
+este aviso; porque, se alguma cousa acontecer, se não presuma que sahiu
+do nosso conselho; e não sendo o intento d'elle pelejar por preço,
+premio ou engano, vós, á falta de cautella, percaes a vida."
+
+
+Tambem me não parece indigna de lembrança uma,
+
+com que Rhodoge, mãe d'el-rei Dario, o reprehendia, e aconselhava na
+segunda expedição contra Alexandre; que foi a que se segue:
+
+
+CARTA DE RHODOGE PARA ELREI DARIO, SEU FILHO
+
+"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos de todas vossas
+gentes e das alheias, para de novo offerecerdes batalha a Alexandre. Não
+sei a que effeito; pois o poder de toda a redondeza não basta para
+pelejar com os deuses immortaes que a elle o favorecem. Deixae esses
+pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria d'elles, concedendo á
+grandeza de Alexandre alguma cousa; que melhor é deixar o que não podeis
+ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo dominar tudo,
+ficar sem nada."
+
+
+Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto extremo, que não
+deixaram que com ellas acabasse Leonardo sua obrigação; porque (disse D.
+Julio) já pelo voto de Solino, estas são as cartas, que entram na
+jurisdicção de minha curiosidade, não consinto que nos exemplos seja
+este genero mais limitado; mórmente que d'este se tira outra doutrina
+mais que a das cartas, que é a variedade das historias e occasiões
+d'ellas.--Eu (respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir adeante,
+se as horas tornaram atrás; mas partirei (como dizem) a contenda pelo
+meio, recitando uma carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos
+amazonios; e a valorosa resposta que elles lhe mandaram: e dizia a
+primeira:
+
+
+CARTA DO TURCO AOS AMAZONIOS
+
+"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis guerra contra meu
+poder, não vos tivera tanto por inimigos, como por valorosos cidadãos,
+que pela patria, filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém com
+nenhuma razão me persuado que os que deixaram tantos annos governar o
+reino a mulheres (como tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo
+de homens valorosos."
+
+
+E a esta carta responderam elles outra, que dizia:
+
+
+RESPOSTA DOS AMAZONIOS
+
+"Este reino das amazonas, que, como por affronta nossa nomeaes, com o
+seu mesmo exemplo nos aconselha não obedecer a outrem: porque temos por
+infamia e torpeza que o exforço varonil seja vencido do espirito e braço
+feminino. Pelo que deveis julgar por invenciveis em armas, e dignos do
+governo e principado do mundo homens, entre os quaes até as mulheres
+apprenderam a reinar."
+
+
+E porque com exemplos gentilicos e barbaros não dê fim á conversação
+d'esta noite, direi por remate uma carta que o veneravel sacerdote Beda
+escreveu a Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados
+d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha, que dizia:
+
+
+CARTA DO VENERAVEL BEDA A CARLOS MARTELO REI DE FRANÇA
+
+"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na christandade, se apparelha
+notavel ruina de toda a Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa
+e Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a terra de Hespanha,
+tirando a das Asturias e Cantabria. Africa, que o capitão Belizario
+cobrou aos romanos, e que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio,
+juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os mouros, fazendo-a
+obedecer a seus falsos ritos, com grande ignominia e affronta do nome
+christão. Que cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que
+contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram os suevos, os
+allemães e os mais varões do nome christão, que com tão grandes
+destruições tendes perseguidos? Perto estào, e sobre vossas cabeças os
+sarracenos, que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza da terra.
+N'elles tendes formosissimos reinos, grossas cidades, ricos despojos; e
+vos esperam grandes triumphos da victoria: e principalmente incomparavel
+premio de gloria com Christo nosso Salvador, que para tão santa empreza
+com continuos brados vos está chamando."
+
+
+Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite pelo interesse de
+tão proveitosa doutrina; mas porque n'esta se não ha de dar fim ao nosso
+exercicio, fiquem algumas perguntas, que agora escuso, para outra
+occasião, pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem as de
+desafios.--As primeiras (replicou Leonardo) deixei por ser improprio da
+minha edade tratar d'ellas; as segundas, por me não embaraçar com o
+duello que está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos.
+Com isto se despediram dando-se boas noites: e o estudante foi
+encarecendo ao companheiro o muito que o espantára vêr tanta côrte em
+uma aldeia; que as cousas achadas onde não se esperam, são de maior
+admiração, e de mais estima.
+
+
+
+
+DIALOGO IV
+
+DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS
+
+
+Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns dos amigos por se
+lograrem d'elle com a occasião da caça se espalharam pelos montes; mas
+depois de horas de vespera visitou o estudante em companhia de Pindaro
+ao doutor Livio, com quem passaram a tarde n'um seu jardim em boa
+conversação, esperando a da noite, a que elles foram os primeiros que
+acudiram, e se acharam em casa de Leonardo; que commummente nos
+lettrados se accende melhor o desejo de saber, e não n'aquelles aos
+quaes lhes custou menos. Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos
+hospedes estava melhor ordenado; e depois de gastarem algumas palavras
+de cumprimento, chegaram D. Julio e Solino a quem todos fizeram muita
+festa; e, reprehendidos da pequena tardança, disse Solino:--Grande
+espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me não detivera em
+esperar resposta de um recado, que mandei ao sr. D. Julio.--E eu
+(respondeu elle) se vos não encontrára, ainda não tinha entendido o
+vosso moço; porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer, que
+nem por discrição pude tirar o recado: nem vos desfaçaes d'elle para os
+que forem de importancia, que val a peso de ouro.
+
+A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:--O meu moço, sr. D.
+Julio, tem desculpa em ser nescio, porque é meu moço; que, se soubera
+mais, eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como vós, esses
+hão de ser discretos, pois são tão bons como eu: e comtudo eu vos sei
+dizer que ha aqui moço que no dar um recado o pudera fazer como ao que
+lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e já entermette de lêr
+carta mandadeira: mas nos recados ainda agora lê por nomes, e não acerta
+a nenhuma cousa.--Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um creado que
+esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes um recado concertado,
+discreto e cortezão: e o madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e
+desentôa com uma parvoice que vos desacredita, como com os meus me tem
+acontecido mil vezes.--Nos vossos não é muito (disse Solino) que daes os
+recados guarnecidos de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais
+perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino: mas os meus, que
+não passam de quatro palavras em linguagem corrente, e que assim os
+virem do carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça? Ora prometto
+que os de importancia eu mesmo os leve como aconteceu ao cortezão
+ausente, que levou elle proprio a carta a sua mulher: e os que houver de
+dar o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando o burel da sua
+natureza com o trabalho da minha disciplina. D'aqui por deante bôcca faz
+jogo: digo, que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha de
+chamar por auctor das suas impertinencias.--Certo (disse Leonardo)
+deixando de tratar dos meus, e vossos recados, que importam menos, e de
+outros em que vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração
+aos reis, principes, republicas, e aos grandes mandarem suas embaixadas,
+visitas e recados por homens de auctoridade, discretos e bem
+disciplinados, em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes o
+bom successo do que pretendem. E assim os reis, principes e republicas
+nas materias de estado; as cidades e povos nas occasiões das côrtes; os
+senhores particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, que no
+entendimento se avantajem dos outros, porque não sómente conseguem o fim
+da pretenção de quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes por
+respeitos, privança e valia se antepõem os menos sufficientes para estes
+cargos, se deitam a perder negocios de uma republica, em que consiste a
+quietação e honra d'ella.--Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o sr.
+Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra de seu logar, depois
+de o terem as cartas missivas; e bem se póde fazer a noite bem
+assombrada com tão bom sujeito.--Desculpado estou (respondeu elle) com o
+trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em fugir d'elle; mas não
+de approvar a vossa advertencia.
+
+A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem a materia de mais
+longe; e pediram ao doutor que, tomando-a á sua conta começasse.--Bem
+pudera usar (disse elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para
+minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer dos presentes mais
+sufficiencia para este encargo por lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou
+por obrigado. Digo que _recado_ é nome que entre nós tem a etymologia. A
+significação é muito duvidosa, pelo modo em que usamos d'elle: porque,
+se houveramos de derivar este nome do verbo italiano _recare_, que é
+_trazer_; ou do verbo _recapacitare_ que é _recapacitar_ (d'onde elles
+chamam _recapacitar_ ao _recado_) nunca disseramos d'elle tanto, como na
+nossa lingua portugueza significamos; mas se lhe buscarmos a origem do
+latim, virá mais ao nosso modo pela differença do messageiro ao que leva
+recado: que o primeiro _missa gerit_, faz as cousas que lhe mandam; e o
+segundo _recautus_, este é homem acautelado, que sabe o que ha de fazer
+no que está á sua conta; que assim convém mais com o nosso modo de
+falar, quando dizemos _homem de recado_, que quer dizer _de importancia,
+posto a bom recado, que é seguro_, e _com cautella: tardar e arrecadar_,
+que é levar ao fim o que começou: porém seja uma cousa ou outra, ou
+ambas, o principal recado de todos é o do embaixador; e estes são de
+duas maneiras, ou o que o principe manda a outro por occasião
+successiva; ou o que de ordinario assiste em sua côrte, para conservação
+da benevolencia e amisade que entre elles ha: estes segundos tinham os
+romanos nas provincias junto á pessoa do consul, que as governava com
+titulo de legados, e com elles despachava os negocios de importancia.
+Mas aos primeiros chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes no
+officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em nossos tempos se
+aproveitaram muitos d'essa arte, sendo escolhidos para o cargo de
+embaixadores.--Eu (disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de
+falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a grandes principes,
+e não pouco doutas e elegantes, como foi uma que fez o bispo D. Garcia
+do Menezes ao papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei D.
+Affonso V, e por capitão de uma armada que elle mandava contra os turcos
+em favor da egreja no anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e
+outra, que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo com o
+arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar obediencia por el-rei D.
+Manuel no anno de mil e quinhentos e cinco: e outra, que fez o mesmo
+doutor ao papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a lhe dar
+obediencia com aquelle famoso ornamento, que ainda agora é dignamente
+celebrado na egreja romana assim pela grande devoção d'aquelle pio e
+catholico rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o papa
+respondeu em publico com uma doutissima oração de louvores do mesmo rei.
+E não é este costume só dos nossos embaixadores, mas de todos os
+extrangeiros, assim quando eram enviados a este reino, como a outros.
+Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco de França a el rei D.
+Manuel, que estava em Almeirim, no anno de mil e quinhentos e seis,
+Monsieur de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta oração em
+sua chegada: fóra outras muitas com que pudera allegar.--D'esses
+exemplos ha muitos (disse o doutor), e continuando com o que convém mais
+ao fim do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo de
+embaixador os homens das familias mais illustres do reino, dos illustres
+os mais discretos e cortezãos, d'estes os mais animosos e liberaes, dos
+animosos os mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; e são
+todas estas partes tão necessarias ao embaixador, que com a falta de
+qualquer d'ellas ou arriscará o credito do principe, que o manda, ou o
+negocio de que vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser
+illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e dos illustres
+d'elle, e por honra tambem do principe a que é mandado, pois ha de fazer
+as partes de um, e assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e
+nos vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores muito chegados
+em sangue ás casas dos reis que os enviaram, e sahirem outros da mesma
+qualidade; o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da Persia,
+Japão e outras remotas partes do oriente. Depois de illustre ha de ser
+discreto e cortezão, porque parece que mais que todas as outras partes,
+lhe está requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição e
+cortezia para tratar as cousas convenientes á sua embaixada, encobrindo,
+desculpando e persuadindo o que a seu rei convém; que esta é a
+differença do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o que lhe
+mandam que diga: o outro dispõe, ordena e conclue o que lhe encommendam
+que faça: um leva o recado na lingua, outro no peito, como disse um
+embaixador dos romanos aos carthaginezes na guerra de Sagunto, que
+levava a paz, e a guerra dentro no peito; e assim não vindo elles no que
+os romanos pediam, declarou a guerra. Além d'isto como o embaixador é um
+terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, nenhuma cousa lhe
+é mais importante, que o entendimento, e tambem o ser cortezão lhe
+importa muito, pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á
+pessoa do principe, com communicação dos principaes senhores do reino; e
+ás vezes por esta parte sendo engraçado, e acceito áquelle a quem é
+mandado, acaba mais facilmente os negocios e pretenções de quem o manda.
+Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque nas materias que tocarem
+á guerra, tregua e liga, ou confederação com seu principe, se não mostre
+por sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue com seu
+exemplo a que o respeitem e temam; e tambem porque na occasião em que se
+offerecer ao senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com as
+obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E o segundo, porque com a
+magnificencia se conquistam mais vontades e animos extrangeiros, que com
+qualquer outra valia, por grande que seja; e posto que esta parte a
+todas as pessoas illustres é necessaria, e em todos os cargos de guerra
+e officios da paz é tão estimada, no de embaixador é muito mais
+proveitosa para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella que
+convém ao de sua embaixada, e para mover os ministros e validos, em cuja
+mão ou conselho está seu negocio. Convém além d'isto que seja o
+embaixador homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e
+veneração; que em outro modo o corpo pequeno em pessoas de grande logar
+lhes tira muita parte do que se lhes deve. E um doutor nosso de muito
+grande nome, e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato seu uma
+lettra que dizia: _A presença diminue a fama_.
+
+E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo d'este reino com uma
+embaixada a um rei assás poderoso, vendo-o elle tão pequeno, lhe
+perguntou motejando d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino
+outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante cargo?" Ao que
+elle respondeu valendo-se do entendimento, e animo que tinha: "Que na
+corte d'el-rei seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, e
+partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que para sua magestade lhe
+pareceu que elle bastava, e por isso o mandára." Finalmente é de muita
+importancia ser bem acostumado, para com sua temperança, continencia, e
+bom termo conservar, e acreditar o bom nome, e fama de seu rei, a honra
+de sua patria, e da propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus
+costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito, liberdades, e
+exempções que tem os embaixadores, como aconteceu aos da Persia, que
+vieram a el-rei Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça de
+Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo soffrer sua estranha
+dissolução, mandou alguns moços de bellissima figura, que em habito de
+damas os servissem á meza, levando escondidos punhaes com que se
+vingassem de qualquer deshonesto acometimento dos embaixadores; que
+usando de sua demasiada luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da
+Persia offendido de se não guardarem com os seus as leis dos
+embaixadores, mandou um poderoso exercito contra el-rei Amyntas; porém o
+general d'elle sabendo como o caso passára, se retirou sem querer dar
+batalha aos Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores sejam
+escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, de que hão de tratar; que
+tal occasião se offerece, em que convém serem humildes; e outra, em que
+é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam de ser animosos, e
+arriscados; e outras brandos, e dissimulados. Francisco Dandalo,
+embaixador dos Venezianos ao Papa Clemente V para levantar o interdicto
+ao Senado, contra quem estava iroso por razão das coisas de Ferrara,
+esteve lançado de bruços grande espaço á meza do Summo Pontifice, com
+uma cadeia de ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o
+obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua grande humildade
+foi chamado _cão_, e por seu valor succedeu no Ducado de Veneza. Pelo
+contrario Orfato Justiniano, homem de letras, e animo generoso,
+embaixador do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, que pelo mau
+animo, que contra os Venezianos tinha, não fazia d'elle a conta, e
+estima que seu valor merecia. Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação,
+e humildade, que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta, por
+onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse dobrar o pescoço:
+porém elle entendendo a tenção de Fernando, entrou com as costas para
+diante, e voltando-se direito na casa fez a mesma cortezia, que
+costumava. Outro dia achando-se em um banquete, que o rei mandou fazer,
+dando-lhe de proposito os convidados tão estreito lugar que achava sua
+auctoridade, deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, que
+trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar como os outros
+assentos.--A mim me parece (disse Leonardo) que os attributos mais
+importantes ao embaixador, e que sempre n'elle devem andar annexos, são
+esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em que se revolve o
+maior peso, e substancia, das coisas do Estado; o que se colhe dos
+exemplos que dissestes, e de outros muitos; porque o esforçado e
+entendido em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda, nem ao que
+a si mesmo deve, nem á occasião de que se póde aproveitar, como
+aconteceu a Pompilio, embaixador a el-rei Seleuco, sobre conservar
+amisade com os Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo o
+Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava melhor; e entendendo o
+Romano que aquella dilação se fundava em fraqueza, e cautela, com o
+bordão que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou mettido,
+dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse se havia de determinar na
+resposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz
+que lhe requeria. E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador aos
+Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre as roupas muitas immundicias
+com grande rizada, e escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente:
+Vingai-vos agora do riso á vontade, porque tendes muito que chorar
+quando com vosso sangue se lavarem as nodoas d'este meu vestido.--Esses
+casos (accudiu D. Julio) são da mera jurisdicção do esforço, e
+cavallaria; ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque o valor
+do animo a tudo acode, e em nada perde ponto. E se não, vede a estimação
+que fizeram os reis catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo
+Fernandes de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o prior
+sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou a combater valorosamente
+tirando com muitos louvores d'aquella batalha feridas; e querendo-o
+el-rei desviar antes, porque não convinha ao cargo que trazia, lhe
+respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, e o animo o
+obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe I a Frederico Badoaro, que
+os Venezianos lhe mandaram por embaixador a Genova, sendo elle principe
+de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos no segundo
+logar, succedeu chamar o principe a si ao duque de Saboia; e acenando ao
+veneziano que lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe
+com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes tirar; mas
+respondeu que antes havia de deixar a vida, que aquelle lugar, porque
+com a morte de um particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se
+lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era devido, a pessoa
+inferior em merecimentos. E quanto á dissimulação, e soffrimento só nos
+esforços costuma a achar confiança para metterem em cortezania o que
+puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a Giuberto Dandalo,
+embaixador dos Venezianos ao Papa Nicolau III, que já mais foi ouvido,
+nem pôde alcançar entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha
+contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até que, vendo elle o
+pouco que importavam suas muitas diligencias, fingio um dia, sahindo com
+alegre semblante, haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a que
+vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para Veneza; onde
+perguntando-lhe o Senado o que passara, respondeu: "Não achei o Papa em
+Roma, nem quem me soubesse dizer onde o acharia."
+
+--Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço, e
+entendimento no embaixador; porém tem igual necessidade de todas as
+outras para representar com a nobreza a pessoa do seu rei: para com a
+magnificencia adquirir as vontades dos ministros, e criados: para com a
+gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: para com o conhecimento
+das coisas do Estado, e experiencia d'ellas acertar nas que se lhe
+offerecessem: e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar uma
+approvação na vista, de tudo o que se conhecer de suas obras. Mas porque
+não pareça que vou fora do em que comecei: A que os embaixadores não
+levam recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior confiança)
+que levam por escripto muito do que hão de dizer, e do que hão de pedir,
+ou conceder; porém a eleição do tempo, occasiões, e palavras fica
+subordinada ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus
+conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e ordens de como se
+hão de haver nas coisas os embaixadores; que são mais largas, quanto são
+mais remotas as provincias, a que são enviados.--O officio (disse
+Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro demanda maior cabedal
+de partes da natureza, e das adquiridas por experiencia: e sei-vos eu
+dizer que houve n'este reino famosos homens d'esta profissão, e taes,
+que, querendo nomear alguns, faria manifesto aggravo a outros muitos.
+Mas se o gran-duque de Florença, vencido da eloquencia, e partes de
+Hermolau Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos Venezianos)
+com tantas mercês, e favores o persuadia a que ficasse em seu serviço;
+não faltaram outros, que sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram
+maior inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum teve lugar
+nos tribunaes supremos da corte de Hespanha, que para negocios
+particulares de um principe d'este reino foi mandado a ella, que pela
+grande satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido para os
+de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de espantar que de um
+embaixador e messageiro particular se fizesse um conselheiro de estado,
+sendo criado da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro
+cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões insignes em todas as
+profissões: d'onde sahiram vice-reis, e capitães maiores para o Oriente,
+e soldados para capitães, e mestres de campo, que defenderam, e honraram
+o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram Malta; fronteiros
+valorosos, que se assignalaram em Africa, todos criados da mesma casa,
+onde se acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem a Marte, e
+engrandeçam a Minerva, fazendo inveja aos mais avantajados nos
+exercitos, e presidios hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e
+academias mais nomeadas da Europa.
+
+--Tendes levantado este discurso de maneira (disse Solino) e está a
+materia d'elle tão altiva, que me parece que eu e Pindaro ficamos esta
+noite camarço, sem nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo me
+fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis a coisas tão
+differentes: folgara de saber se haveis de ficar n'esse tom, porque vos
+deixarei em termo com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar
+minha vida.--Ainda não tendes razão de vos queixar (respondeu elle) que
+antes por me chegar pouco, e pouco aos criados, deixei muito dos
+embaixadores, após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores,
+que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, e outras vezes a
+visitas, e occasiões dos principes, que não menos devem ser escolhidos
+para estes cargos, buscando n'elles as partes mais necessarias que são
+discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam concorrer todas as
+mais; porque a cidade, ou villa, que manda ao principe seu procurador,
+ou agente, n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.--De um
+cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado por procurador a
+cortes, lhe esqueceu no caminho o que a cidade lhe encommendára, e
+tornou a dormir a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que ía: e
+fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois lhe não esqueceu.--De
+outro ouvi eu (respondeu Solino) que jurou por vida da sua a el-rei
+Filippe I que se havia de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome
+de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias que na pratica
+disse, mais dignas de riso, que de credito. E um conheci eu, a que
+cahiram as luvas, e o chapéo da mão, começando a dar o recado de uma
+cidade a um principe; e levantando-as, perdeu o que queria dizer, de
+maneira que nunca atinou palavra.--Estes maus successos (proseguiu o
+doutor) testemunham o muito cuidado, com que se hão de eleger os homens
+para taes cargos; o que não importa menos aos titulares e fidalgos, que
+mandam vizitar a outros em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas,
+que saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso requer, para
+credito, e boa opinão de quem os manda.--Certo (accudiu Leonardo) que
+não julgará bem quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de
+ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um fidalgo que eu
+tratei particularmente, ao qual, estando enojado por morte de um seu
+filho, visitou da parte de um personagem um capellão bem apessoado, e
+disse que o senhor N. estimára muito aquella occasião para mandar
+visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço. A este conto fizeram
+todos muita festa. E Solino, que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não
+sei se virá muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a minha
+historia, em rasão da advertencia, e cuidado que deve ter quem visita em
+nome alheio; pois se vê que mais desattentos, que ignorancias, os erros
+d'estas materias. Uma senhora enojada por a morte de um seu irmão tomava
+as visitas em uma camilha, como as mais costumam. A esta mandou visitar
+outra parenta sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando na
+primeira casa achou tão escura que, pegando-se ás paredes, esperou uma
+dona que lhe servisse de moço de cego; a qual o levou por a mão até uma
+porta estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou para passar
+deante; a qual não alcançou tão bem o degrau, que não désse primeiro com
+as queixadas na humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a guiar
+a dona da mesma maneira até junto da camilha, onde o tornou a soltar:
+esta pessoa, cuidando que tinha alli outra porta, por não errar o degrau
+por baixo, levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada, que
+dando um grande grito a fez cahir de focinhos. Muitos, que estavam na
+casa, e tinham furtada a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram
+tão grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo o sentimento
+do nojo, e cahia cada um para sua parte sem se poder valer." Como Solino
+tinha graça natural no que dizia, deu muita a este conto, que foi
+celebrado com riso de todos.--Se assim é (disse Solino) que nesses ha
+tantos desatinos, e inadvertencias, não ha que espantar de criados
+menores, que uns são por natureza tão rusticos, que em nada acertam;
+outros por malicia tão depravados, que não querem saber senão o que é em
+favor de sua maldade.--Uma questão se offerecia agora (acudiu Pindaro)
+que, ainda que rasteira, é em materia proveitosa. Convem a saber se é
+melhor servir-se um homem de um moço simples, e nescio; ou de um
+malicioso ainda que seja esperto.--Eu estou melhor (tornou D. Julio) com
+o que me engana, que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer
+do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho para me poder
+enganar em pouco: e do nescio nem posso confiar em um recado as minhas
+razões, nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora o que ha de
+dizer, menos sabe o que lhe convém calar: além de que é grande desgosto
+andar um homem de continuo ensinando um rustico, sem proveito, que não
+tomará em sua vida tinta de discrição, por mais que o cozam n'ella.--A
+mim me parece outra coisa (disse Solino) em razão d'aquelle proverbio:
+_Antes asno que me leve, que cavallo que me derrube_.--Pelo rifão
+(respondeu Leonardo) entendo que quereis defender o vosso moço.--Se o
+não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou elle). Porém o moço nescio
+não pode desacreditar com sua parvoice o entendimento de seu amo, que
+não está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, e
+esperto, nem por o ser deixa de errar peior que os outros; porque não
+aprende o que convém a seu amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás
+vezes por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; e quando
+não, troca as palavras ou o sentido d'ellas; muda o tempo, e a acezão do
+recado; vai quando quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o
+credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque dizem que _qual o
+amo tal o moço_; mais vos desacredita com a murmuração, do que vos
+acredita com o recado; e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O
+simples, se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se com
+o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o que pretendeis; e muitas
+vezes seus erros cahem em graça como as subtilezas dos outros em
+damno.--Boas são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa que
+pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois é regra de direito que
+_faz por si o que manda fazer por outrem_: e se a victoria dos soldados
+se attribue ao capitão, os ensinos, e palavras dos moços porque se não
+hão de julgar por de quem os governa, e manda? e menor damno é qualquer
+dos outros, que o de um homem parecer nescio á conta do seu moço. E
+sobre tudo não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que faça mal,
+diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; que os mais d'elles cantam
+de quem roubam; que d'esse outro modo não é pintar criado, mas
+inimigo.--E não sabeis vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a
+maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim diz a sentença
+de Euripides, que não ha maior, nem peior inimigo que o criado: e
+Democrito diz que o criado é coisa tão necessaria, como amargosa:
+Luciano diz que os criados sempre tem malicia, e traições armadas contra
+seus amos.--A muitos tenho eu por inimigos (disse Feliciano) porém peior
+o será o nescio, que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo
+em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, não ha maior servidão
+que mandar a um nescio.--Eu tenho procuração em causa propria (disse
+Solino) para acudir pelos criados, como testemunha de muitos fieis, e
+verdadeiros a seus senhores: e Euripides, e os mais devem de entender, o
+que disseram, dos escravos, que, como lhe temos tomada a coisa mais
+principal, e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem odio, e nos
+desejam, e procuram mal; porque a vilesa do seu animo não soffre
+mostrarem valor na sujeição.--Não me parece a mim essa boa razão
+(accudiu o doutor) porque por dito de Seneca _nenhum escravo ha mais
+vil, que o livre, que serve por sua vontade_. (Não entendo n'este conto
+os nobres, e honrados, que servem aos grandes por respeitos razoaveis).
+E dos escravos, a que fez taes ou a ventura de guerra, ou outra
+desgraça, temos os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em
+que deixaram muito atraz os proprios filhos. E se não, vêde se fez algum
+o que o escravo de Publio Catieno. que, deixando-o o senhor por
+universal herdeiro de seus bens, pela fidelidade com que o servira;
+elle, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em
+que queimavam o corpo de seu senhor, e morreu com elle, mostrando que
+estimava mais tal servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava.
+Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de ver a seu senhor
+vencido de Augusto. Euporo, escravo de Lucio Graco, que se matou sobre o
+seu corpo. E um escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam
+uma quinta, em que o senhor estava, para o matarem, trocou com elle o
+vestido, e metteu no dedo um seu annel de preço: e deitando-o fóra por
+uma porta, sahiu pela outra a receber a morte, que haviam de dar a seu
+senhor. E Frederico de Eveshim, escravo de Conrado Imperador, que,
+sabendo que vinham para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na sua
+cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, o mataram: o outros
+muitos escravos sem nome, que mereciam que o seu ficasse eterno por
+memoria de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande animo de
+Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano, que vendo seu senhor cativo
+de turcos, e depois morto, desejando vingar-lhe a morte por preço de sua
+vida, fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no campo Turquesco,
+e dizendo que queria fallar a Amurates, primeiro imperador d'aquelle
+imperio, o matou a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a vida
+valorosamente.--D'esses escravos (replicou Solino) não trato eu, que
+mereciam ser senhores de seus senhores; como tambem houve criados que
+mereciam ser servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes foi
+escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, em que sabia
+servir, respondeu: que _em mandar homens livres_; por o que Xeniades o
+libertou dizendo: _aqui te entrego meus filhos para que os mandes_. E
+Epicteto, que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo de
+Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro da immortalidade. Porém
+a nós não nos cahiram em sorte estes escravos, senão a gente mais
+barbara do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria da
+Asia, que é da gente mais vil das provincias d'ella; que uns, e outros
+tratam os portuguezes com rigoroso cativeiro n'aquellas partes,
+vendendo-os para serviço das minas das Indias de Hespanha como
+condemnados á morte: e assim se podem estes chamar com razão inimigos
+mortaes de seus senhores.--Tambem (disse o doutor) houve já n'este reino
+escravos illustres de muito valor, entendimento, e sangue, conhecidos
+por taes, e tratados como se estiveram em liberdade, que cativaram nas
+nossas fronteiras de Africa, em cujas historias me eu não quero deter
+por me não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, que
+uns e outros representam a pessoa de quem os manda, no que toca ao
+recado que dão: o que a mim me parece que está bem provado com o
+costume, que os antigos tinham em mandar os seus, que não fallavam por
+terceira pessoa, como é o nosso uso, que dizemos _diz fuão que vos beija
+as mãos_; _que vos pede isto_; _vos encommenda este outro_; _vos lembra
+tal coisa_: antes costumavam: _N. vos diz_, _beijo-vos as mãos_,
+_rogo-vos isto_, _encommendo-vos este outro_, _lembro-vos tal coisa_,
+representando nas palavras a mesma pessoa que as mandava dizer; e d'esta
+maneira ficava arriscado nosso amigo Solino, representando pelo seu
+moço: pelo que a mim me parece que o melhor do recado é ser tão breve,
+que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro, que o entenda sem
+trabalho a quem se manda. E com isto, e com vossa licença me hei por
+desobrigado do que n'esta materia podia dizer.--Não pela minha parte
+(disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de mais habilidade
+que todos os de que falastes, em cuja profissão entra a de embaixador,
+agente, procurador e recadista; e ainda outros muitos, que é o do
+terceiro, ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse
+Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais vil, e reprovado,
+que os de mais, e se empregar em materia tão odiosa á Republica: porém
+sem entrar no fundo d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da
+superficie.--Bem sei (respondeu o doutor) que para me metter em
+desconfiança levantais essa lebre; e não vos enganeis, que tanto se deve
+tratar de officios viciosos para fugirem d'elles, como dos de virtude
+para os seguirem, e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os romanos
+deram leis á sua profissão, segundo escreve Pedro Crinito; as quaes
+estavam escriptas no templo de Venus; e Licurgo, aquelle grande
+legislador dos Lacedemonios, tambem lhes deu regras, e liberdades, posto
+que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos os agasalham;
+mas se ha officio de muito cabedal, e pouca honra, é o do alcoviteiro,
+porque ha alguns que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular,
+Sallustio no persuadir, Terencio no representar, Ovidio no fingir,
+Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, Ulysses no tecer, Momo no
+desdenhar; e todas as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em
+afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para lhe assignarmos as
+partes necessarias, fôra acertado pintar o avesso do embaixador, com que
+só convém em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser baixo, vil,
+desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, ingrato e soffredor de
+todos os escarneos e zombarias, porque não só é de sua profissão
+enganar, mas tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que seu
+exercicio merece.--Muito cruel estais contra elles (tornou D. Julio) e
+não tendes razão; quando vitupereis o seu officio, não vos esqueçais da
+grandeza das partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e
+encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, e convence como
+um rhetorico: finge, disfarça, e representa com figuras, espantos,
+meneios, e hypocrisias nos gestos, e palavras como um commediante:
+pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia toucados, e
+vestidos, e trata os rostos, e feições melhor que um pintor; sabe mais
+da natureza das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o falso
+por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, e achaques dos que
+lisongeia, como medico; obriga, e engana no interesse, como legista;
+adivinha os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo. Não
+ha finalmente arte liberal, nem mecanica, de que se não valha, e em que
+não vença a seus professores.--Ainda me parece (disse Solino) que haveis
+de chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero commum de
+dois, accommoda-se melhor ao feminino. E pois de embaixadores descemos a
+criados, não é de espantar que tropecemos em tão ruim gente.--Parece-me
+(disse o doutor) que de aposta quereis profanar a minha auctoridade; não
+vos quero dar esse gosto á minha custa: e não passemos d'aqui n'esta
+materia: e tambem porque é mais tarde do que parece, demos lugar a que o
+senhor Leonardo se recolha.
+
+Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando e agradecendo
+cada um ao outro o que dissera; que tanto se contenta o discreto da boa
+razão alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.
+
+
+
+
+DIALOGO V
+
+DOS ENCARECIMENTOS
+
+
+Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem aos interesses
+d'ella: e era em todos tão egual o desejo, que nem a occupação de cada
+um os desencontrava; porque o gosto, em que se enleva o entendimento,
+faz menores todos os respeitos ordinarios da fazenda, e familia.
+Entraram á noite juntos em casa do hospede com grande alvoroço, dando
+cada um no caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam de gastar
+aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem ainda no que seria,
+disse D. Julio: Por certo, senhores, que estou tão enleado com uma coisa
+que vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar ao decoro que
+convém ao sujeito d'ellas; porque nos mancebos as palavras de mero
+louvor de uma mulher, ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e
+mais facil é de presumir um engano de affeição nos meus olhos, que de
+persuadir um espanto a entendimentos tão levantados como os vossos.
+Porém seja o que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; que
+com todos, os que houver, me aventuro.--Que novidade é esta, senhor D.
+Julio (disse Solino), que sermão quereis fazer, que tomaes a graça, e
+nos tendes pendurados a todos no desejo de vos ouvir?--Esta manhã,
+(proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar n'ella o dia,
+com menos cuidado do desejo da noite, me fui pôr detraz da nossa serra
+alongando-me para a parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando
+sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de penedos, coberta da
+sombra de uns altos hervados, e atoeiras, cheios de verde rama como no
+melhor tempo da primavera, embaraçados com umas vides silvestres que os
+atavam, e que ainda de todo não estavam despidas de sua folha, vi junto
+a ella, e coberto com elles o mais formoso rosto, que eu imagino que
+pode haver no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era de uma
+mulher em habito de peregrina, que fiada na solidão d'aquelle deserto, e
+por gosar dos raios do sol, que n'aquelle logar se espalhavam, com os
+toucados lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava os
+cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam perder ao sol a
+formosura, mas cobrindo outro mais formoso, que era o seu rosto,
+contentavam de maneira o desejo, que não fazia muito por passar d'elles
+adiante. Eu sem atinar no silencio, com que era razão que me escondesse
+por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido, que, afrouxando as redeas
+ao cavallo, o deixei tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa
+peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia os cabellos se
+apartaram, qual sôa ferir o relampago d'entre as nuvens, me saltearam a
+vista com uma luz estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de
+ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos eram duas
+estrellas de diamantes, em cujo fundo um verde escuro de esmeraldas
+apparecia, que communicando áquella formosa côr a claridade dos raios,
+que despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; e descendo d'elles
+abaixo, era tudo tão cheio de perfeições, que o menor logar, em que se
+empregava a vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca era um
+laço de todos os pensamentos amorosos; e nunca vi coisa tão pequena, em
+que coubessem tantas grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio,
+que com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam como por
+vidraça as perolas, que até então me não descobrira o pejo, com que
+ficou de haver visto. A columna, que sustentava este edificio, era um
+pescoço de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues muito delgadas,
+que me representaram n'aquella hora a côr do céo sereno, que pela rotura
+de duas nuvens brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o
+circulo da sombra, com que se engastava no aspero burel da esclavina que
+a romeira vestia: apeei-me eu; e n'este mesmo tempo lançou ella o
+toucado sobre os cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; mas
+como as suas madeixas eram mais compridas, que a toalha branca, com que
+as quiz encobrir, se mexericavam pelos extremos das pontas, que vinham a
+guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe com a
+cortezia, a que a modestia, e gravidade do seu rosto me obrigava; e ella
+sem mostrar outro alvoroço de minha presença mais, que vestir de
+escarlata a branca neve de que parecia formado, me respondeu,
+perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle o caminho. Eu, que
+não perdia com os olhos um só movimento dos que os seus faziam, me
+pareceu tudo o que tinha visto, sombra da graça e brandura com que falou
+com uma voz tão fina, que penetrava o interior do coração, e tão suave,
+que o desfazia, e com uma modestia tão grave, que não dava logar a se
+pôrem n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito armado de
+receios. Perguntei-lhe d'onde era, para onde ía, encarecendo-lhe o
+perigo em que punha sua belleza de ser offendida, fiando-a de desvios
+tão solitarios. Mas ella despresando todos os temores, e fazendo mais
+difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe pendia, que pelos trances
+que á sua conta se me representavam, deu a entender muitas cousas, com
+que eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, e lhe
+offerecer algumas das que costumam haver mistér os que fóra da sua
+patria vem experimentar os males das alheias. E além de eu estar
+atalhado com sua vista, o estava ella tanto com minha presença, que
+perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não molestar: despedi-me
+magoado: estou arrependido; e cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que
+não aparto o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. E porque
+ainda me parece que deve ser mais estranho o successo, que a traz
+n'aquelles vestidos, que a novidade de sua gentileza, a que se deve todo
+o cortezão tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor Leonardo que
+por a melhor via, que lhe parecer, saiba d'esta estrangeira, que por
+esta noite deve de estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia,
+e eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.--Bem
+andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) em tomar primeiro carta de
+seguro para o que havieis de dizer; porque os encarecimentos d'essa
+peregrina são mais pinturas vossas, que gentilesas suas; porque não ha
+mulher nas obras da natureza tão perfeita cá na terra como a soube
+fingir o vosso entendimento, ou affeição: e á conta d'ella me parecia
+bem que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural, que em
+materias de amor tudo o que reluz é ouro, e tudo o que assombra é sol; e
+só com esta desculpa salvareis louvores tão desacostumados.--A affeição
+do que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da peregrina
+dizei o que quizerdes contra minhas razões, que nas suas partes hei de
+achar armas com que defenda o que disse. Leonardo se offereceu então a
+mandar fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando para Solino, que
+tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós, callaes, quereis allegar
+serviços ao senhor D. Julio, porque a vossa natureza não é deixar passar
+esta mercadoria sem registo.--Estava agora (respondeu elle) cuidando nos
+livros de cavallarias, que ha poucas noites que defendi; e desejava dar
+um cavalleiro andante áquella peregrina; que se uma cousa d'estas
+apparecêra a meu amigo Pindaro, que encantamentos não rompera, e que
+poesias, e obras heroicas appareceram de novo no mundo, que alabastros,
+marfins, marmores, crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por
+esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este encontro mais
+elegante do que se esperava; Pindaro, com sua licença, tem n'esta
+materia mais direito adquirido; e não se houvera de contentar de descer
+do céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas os archanjos,
+cherubins, dominações e potestades haviam de ter logar n'elles.
+
+--Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos agora com
+esta materia em desconto, e recompensa das passadas; e gastar esta noite
+em saber a causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é
+pensamento que já me desvelou em outra edade.--Obrigo-me eu (disse
+Leonardo) que a nenhum dos presentes descontente a vossa escolha; e eu
+particularmente estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do
+Licenciado, que por hospede, estudioso e cortezão se lhe deve o
+logar.--O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca importancia, e o logar
+devido a outrem; mas com toda a humildade acceitarei o que me derem: e
+se com a minha razão ficar corrido, barato é o saber que se compra com
+primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos nascidos de amor não
+devem parecer estranhos (por deseguaes que sejam) a nenhum juizo
+affeiçoado; porque o amante para pintar a formosura de uma dama, que
+satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente achará nas cousas
+creadas a que a compare, que lhe fique parecendo que a encarece; porque,
+ainda que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto como os
+seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra menos com a claridade de
+sua luz, que com vêr o rosto de quem ama; e são de menos valia para seu
+gosto e desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, que o
+riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e de não imaginar na terra um
+amante cousa que se eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario
+de a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento, subindo
+com elle pelas gerarchias mais levantadas: a causa é, porque o amor faz
+as cousas tão formosas a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza
+que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que engrandeceu a muitas
+d'ellas: que até do gosto, como diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor
+é saboroso; nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave: que
+não sómente com seus poderes dá perfeição ás cousas, mas tambem as
+converte em outra substancia.--Não estou contra a vossa razão (acudiu
+Leonardo) mas parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, que
+todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos limites; porque, em
+descendo da pedraria, os que são menos lapidarios empeçam em coral,
+marfim, porfido, alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, a
+paixão de amor não havia de guardar regra certa nas palavras, e
+louvores, antes encarecer sua dama com as cousas que a seu gosto e
+opinião sejam mais formosas; e como as affeições são tão differentes,
+assim o seriam os gabos, e encarecimentos.--Para louvar (replicou
+Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter affeição; porque logo
+daes com uma estrada Coimbrã, que é _tão bella como o Sol_, _tão clara
+como a Lua_, _tão alva como a neve_, _tão loura como o ouro_; e d'aqui
+adeante.--A mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado, que o
+doutor tinha geito de metter os louvores de uma dama em exemplos
+caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim,
+clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e como os amantes
+para encarecer se não contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser:
+todo o branco é crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde
+esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; e até as mães
+dos meninos, a que naturalmente tem excessivo amor, não lhes sabem
+chamar pouco: quando os tomam nos braços, logo os intitulam de _meu
+duque_, _meu marquez_, _meu conde_; nas pedras _meu diamante_, e nas
+flôres _meu cravo_, e _minha rosa_: quanto mais louvando mulheres, a
+quem todo o encarecimento fica curto, e envergonhado pela fôrça, com que
+tem captivos os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas. E
+para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente n'este particular.--Os
+encarecimentos, de que usam os amantes (disse Pindaro) menos são seus,
+que adquiridos dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os
+escriptos em suas obras: porque, como retratadores das obras excellentes
+da natureza, buscaram tão altivos materiaes para darem vivas côres á
+formosura. E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra, lhe
+accommodassem côres, e attributos celestes, quando para pintarem cousas
+do mesmo céo usam tantas vezes de semelhanças, e encarecimentos da
+riqueza da terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos de
+lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de topazios, jacintos,
+e esmeraldas; e o mesmo fez pintando os pavões, que no céo levavam o
+carro da Deusa Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano
+Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente, e levantada, e por
+tal escolhida das Sibyllas, e Oraculos para usarem d'ella, tambem
+fizeram os amantes a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda
+consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e settas de Cupido,
+com todas as mais allegorias, e transformações que os poetas usaram.--A
+verdade é (disse o doutor) que a perfeição da formosura animada se não
+pode devidamente encarecer com alguma semelhança, que o não seja, porque
+todas lhe ficam muito inferiores: o que declarou bem uma dama
+Florentina, que perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de
+mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor d'aquelle tempo;
+ella, sem responder com palavras, fez que uma creada sua formosa e bem
+proporcionada, despisse em si as partes, que a figura mostrava núas; e
+logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, e valor que
+d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico da formosura, que declara
+engenhosamente este pensamento: a figura do qual era uma mulher com a
+cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas rodeado de um
+resplendor, que o não deixava vêr distinctamente; na mão direita um
+lirio, e na outra um compasso; significando com a cabeça mettida no céo,
+e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia encarecer, fazendo
+impedimento á vista humana como raios derivados da belleza Divina; o
+lirio denotando a graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza foi
+sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, proporção, e
+correspondencia dos membros, em que consiste toda a perfeição d'ella.
+Mas Pindaro tudo quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem
+pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem entrar os
+desvarios dos namorados, por serem muito eguaes o furor poetico, e o
+amoroso. Porém, já que os encarecimentos estão approvados com tão boas
+razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que vivem, morrem, e
+ressuscitam a cada passo, e que andam sem almas como cantaros, e sem
+coração como furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de amor
+vive exceptuada das leis da natureza.--A razão (respondeu Feliciano) é a
+mesma; porque quem encarece a causa egualmente exagera os effeitos: a
+pena de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança é o maior
+tormento da morte ao que ama; e um favor e brandura, que recebe em sua
+affeição, é na sua estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de
+viver sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente um poeta
+moderno, dizendo em um soneto á sua dama, da qual estava ausente, que
+uma parte da alma, com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava,
+entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra cousa os
+desvarios, e desattentos dos que amam, senão viver em certo modo fora de
+si, como pareceu a Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde
+o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da cousa amada ficam com
+elle.--Tambem S. Jeronymo (accrescentou o doutor) escreve que o amor da
+formosura é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas ao amor,
+inimigo d'ella. E que maior exemplo se pode imaginar d'esta verdade e
+mudança dos que amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de Lidia
+acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe os anneis dos dedos,
+ella com a corôa real na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu
+d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o de Dionisio
+Syracuzano, que por mão, e parecer de Mirta sua amiga despachava os
+negocios importantes do seu reino? que mais extranho, que o de
+Themistocles Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado de uma
+dama, que captivou na guerra de Epyro, usava em uma doença, que sua
+amada teve, dos mesmos remedios que lhe a ella faziam, tomando as
+purgas, e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto por regalo, e
+gentileza com o seu sangue d'ella? que menos crivel, que o de Lucio
+Vitelio Imperador, que namorado de uma filha de um escravo seu, a quem
+libertara, de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma esquinencia,
+não usava outro remedio mais que um unguento que fazia de mel com o
+cuspo de sua dama, imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar
+saúde untando com elle a garganta?--De maneira (disse Leonardo) que amor
+tira os sentidos, e o juizo a quem se emprega todo em seus cuidados: e
+eu tinha para mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser bom
+namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa opinião, pois os que
+amam não tem entendimento.--Só o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser
+amante, e por isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal
+poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais ao ponto da vossa
+duvida, o amante pelo ser não fica nescio, mas parece-o em muitas acções
+dos sentidos, e entendimento; porque, transportado na imaginação do que
+ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.--Extranhamente (accudiu
+Solino) me contenta ouvir esta razão para desculpar commigo os maus
+successos de namorados, a que não sabia tão boa desculpa; que assás
+grande é para esquecer cousas menores quem está fora de si: porque,
+deixados esses exemplos de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e
+mais notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram o
+entendimento; de outros de menos estofa, e mais modernos sei eu
+descuidos, que podiam entrar em historia n'esta occasião, e por me
+aproveitar d'ella: Eu conheci um cortezão mui empenhado em finezas de
+amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama em um quartão, que
+já aturava aquelle fadario todos os dias como em atafona; acertou
+n'aquelle a ser mais favorecido da senhora, que de quando em quando lhe
+apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado mancebo, que por
+seguir a caça se esqueceu do tempo, e das horas de comer, mettendo-se
+pelo certão da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não devia
+de estar tão affeiçoado a aquella estancia como á sua costumada,
+estancava muitas vezes do passeio, sem haver accordo nem espora que o
+despertasse; até que uma vez, estando o amante parado com o ponto no
+alvo da janella, acertou a passar um macho que levava uma rede de palha,
+a que o rocim se arremessou com tanta furia, que, prendendo os copos da
+brida nos laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao quartão
+enamorado por todo o terreiro, onde se resentio do rapto, sem se poder
+valer contra os couces do macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito
+padecer d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia sua
+liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor não era armado
+cavalleiro, passeava a pé á vista de seu cuidado, ora com os olhos na
+janella, ora com o tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a
+dama, que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas,
+porque não notassem os que passavam os meneios, e esgares que o mancebo
+fazia, acenando-lhe se tirou do posto passando-se a uma janella mais
+pequena que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: o galante mais com
+o tento na mudança, que no caminho, com os olhos no alto, deu com a
+testa um grande encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em um
+monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado á parede, ficando
+até os sendaes mais caiado, que cantareira d'Alfama.--A todos pareceram
+os contos de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre sahe o
+amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho por grande desar todo o que
+succede á sua conta, que por isso o pintam cego, e são conhecidos por
+taes os que o servem: porém a mim me parecia que quando o amante perde o
+tento, e o sentido de tudo o mais, devia ficar só discreto, e avisado
+para sua dama, que é o objecto em que todo se emprega; que para lhe
+falar lhe sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos de
+subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia acho o contrario, que dos
+noivos, e dos amantes se contam as primeiras parvoices.--Não sei (disse
+Solino) se dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados dos poetas,
+como os encarecimentos.--Os poetas (respondeu elle) não são havidos por
+parvos; e quem lhes quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que
+poderia ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os amantes com
+affeição, como os poetas com o furor divino que os excita, aprenderiam
+d'elles. Pelo que o vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses
+primeiros erros são de outra geração; e nenhum parentesco tem com a
+parvoice. Antes é um modo de se atalhar, e suspender um homem o seu
+entendimento com muita razão; porque não pode dizer cousa, que pareça
+bem aos outros a primeira vez que fala com aquella a quem ama; que é
+passo, onde os mais discretos o perdem.--Parece-me que está no certo meu
+companheiro (disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre os outros
+podiam falar sem medo, terem-no muito grande a estes primeiros
+encontros; que certo me parece mais respeito que se deve á formosura,
+que falta que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o verdadeiro é
+que amor o apura, e engrandece; e por este respeito os Athenienses lhe
+levantaram uma estatua na Academia de Palas como a sabio, e lhe
+dedicaram uma escola os Samios, significando que só na de amor se
+alcança com perfeição tudo, o que pelas do mundo variamente se aprende,
+e com muito discurso de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição
+no escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, a graça no
+parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade no dispender, o esforço
+no pelejar, a largueza no jogar, a humildade no servir, e a pontualidade
+no merecer. Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao mundo as
+emprezas discretas; as chimeras escuras, as idéas levantadas, os motes
+avizados, os versos excellentes, os enredos subtis, as cartas galantes,
+as fabulas bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas tudo é
+doutrina tirada das escolas de amor. E pois n'ellas se alcança tudo, não
+é muito que se ache tambem um termo de falar encarecido, e levantado
+sobre todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o juizo d'este
+acerto se não deve fazer por homens livres d'esta paixão amorosa, se
+pode haver algum, a quem não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem
+outros exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em todas as
+partes de côrte e gentileza pode servir de espelho aos mais
+apurados.--Vós me obrigaes por tantas vias (respondeu o fidalgo) que
+fico desconfiado de poder pagar nem com encarecimento do que mereceis,
+nem com a restituição dos louvores injustos que me daes, que só são
+devidos ao vosso entendimento. E pois a victoria d'esta batalha ficou
+por elle em meu favor, quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me
+deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido o repouso da
+noite.--Essa resolução (disse Leonardo) é em damno de todos: e muito
+mais de sentir, porque á força nos obrigaes a que consintamos n'elle:
+mas como em logar de preza trouxestes da caça empreza tão difficultosa,
+poupaes horas para cuidar n'ella á nossa custa.--Antes (respondeu elle)
+para reformar no somno as que me desvelei na madrugada.
+
+A isto se levantou; e os mais dando boas noites o iam seguindo, e disse
+para todos Solino: O senhor D. Julio vae a sonhar com aquelle thesouro
+encantado que lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer
+companhia; que se a communicação dos bens de amor faz muito maior a
+gloria d'elles nos contentes; aos que só o estão de seu pensamento
+nenhuma cousa é mais agradavel, que saudosa lembrança.
+
+
+
+
+DIALOGO VI
+
+DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA
+
+
+Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia por saber algumas
+novas da peregrina, que D. Julio tanto encarecera a noite passada; e não
+achando d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento.
+Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de Leonardo, a tempo que tambem
+o fidalgo apparecia, e que o velho os vinha a esperar ao peitoril da
+escada com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de edade,
+pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi logo conhecido por ser
+prior de uma egreja que perto d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o
+entre si com a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de sua
+saude; como estavam com o desejo de tirarem a terreiro a D. Julio,
+fizeram signal a Solino que começasse; porém Leonardo não deu logar á
+boa vontade que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.--Bem cuidava
+eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella formosa peregrina era
+encantada, e que foi traça do vosso entendimento fazer a todos
+cavalleiros d'essa aventura; porém a mim só a encommendastes; que pela
+edade pudéra já estar aposentado para tal empreza; eu a tomei por vos
+obedecer, e andei bem cuidadoso no seguimento d'ella, sem até agora
+atinar no caminho, em que vos perdestes.--Minha foi só a desgraça
+(respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os mais o credito do que
+disse, e para meu desejo a gloria do que pudéra tornar a vêr em sua
+formosura.--Essa levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino)
+que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar a pouzada d'esta
+aldeia.--Parece-me (accudiu o prior) segundo o que vos ouço, que nós
+podiamos mostrar o jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar,
+e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem appareceu na nossa
+aldeia, de cujos successos, e formosura se podiam contar grandes
+extremos; que já pode ser que seja a de que falaes.
+
+Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados, e D. Julio
+contente; e Leonardo respondeu ao prior:--Não imaginei que tinha tanto
+bem junto com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella não
+fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada, que com tão boas
+novas: pelo que vos peço que as não dilateis, contando-nos mui
+particularmente d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos
+que aqui estamos, como agora pendurados os olhos, e ouvidos do que nos
+haveis de dizer.--Hontem á tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o
+sol se ía encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando com a
+obrigação da reza à vista da egreja; veiu fazer oração á porta d'ella, e
+d'alli ter commigo uma mulher em habito de romeira; que se a minha vida
+merecera a Deus que mandasse a algum anjo falar comigo, podera imaginar
+que ella o seria; porque a sua belleza passava os limites do
+encarecimento humano, e com uma voz, que respondia bem á honestidade do
+seu rosto, e á humildade do seu trajo, me falou (posto que em lingua
+estrangeira) de modo que se deixava entender mui sem trabalho:
+perguntou-me se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa de caridade
+d'aquella terra, em que passasse a noite, e pela manhã guia de confiança
+para ir ter á cidade, offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a
+encaminhasse. Eu, que no merecimento de sua vista achei que era pouco
+tudo o que lhe podia offerecer, fiquei enleado; porém lhe disse:
+Senhora, esta terra é muito pequena; e para o que vós representaes,
+outra maior me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta
+edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas, que vos saberão
+servir melhor que as naturaes da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a
+pousada, qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis,
+supprirá a vontade que é muito grande. Ella me deu as graças do
+offerecimento com poucas palavras, mostrando que o acceitava: vim com
+ella a minha casa, onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo
+que as moças tinham de se estarem revendo nas graças da sua belleza.
+Depois da cêa, em que a peregrina fez pouco damno, lhe pedimos nos
+contasse a causa de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter ao
+nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro, entre algumas lagrimas,
+e com tão discretas razões, que as não saberei eu agora referir com a
+perfeição propria (posto que algumas palavras eram de linguagem alheia)
+contou o seguinte:
+
+Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal de seus estados, no
+maior enleio, e dissensão dos principes d'ella, que com a differença, e
+variedade das erradas seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham
+em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci de generosos
+paes, tão mimosa dos afagos, e enganos da fortuna em meu principio,
+quanto depois a senti esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não
+tiveram meus progenitores outro fructo, em que empregassem o amor
+paternal, (que faziam notavel excesso á qualidade de seu sangue) mais
+que a mim, que com esta boa sorte era invejada de todas as de minha
+edade, e pertendida dos mais illustres mancebos de toda Irlanda. No
+melhor de meus tenros annos, que a estes costuma morder sempre por
+varios modos a inveja venenosa da dura parca, de uma arrebatada
+enfermidade perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha não
+provara outros males, senti este primeiro com grande pena: mas como a
+sorte m'o ordenara para ensaio de novas desgraças, depois de me ter
+encetado o soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae, e senhor,
+a quem muito amava, e fiquei mettida entre parentes cubiçosos de minha
+herança, e amantes fingidos, que obrigados das riquezas d'ella me
+procuravam por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam, pouca
+vontade; e grande obrigação de tomar estado conveniente aos respeitos de
+minha nobreza. E como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser
+altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a prosperidade) puz o
+pensamento em quem com despreso, e ingratidão castigou minha arrogancia:
+havia n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por descendencia
+ao sangue real de Bretanha, cheio de muitas graças da natureza; que,
+ainda que me era muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens da
+fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o pretender. Alcançou
+elle d'isto alguns signaes, que teve em pouco; não advertindo que a
+vontade de uma dama sempre põe em divida a um espirito generoso, que
+conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu já de minha
+pretenção poucas esperanças, o elegeram os da ilha de Lister, Ragrim, e
+das mais da parte oriental de Irlanda, por capitão de uma armada de
+corsarios, afim de fazerem uma preza muito importante no mar Oceano: e
+como ás vezes o castigo dos maus intentos é a mesma fortuna, (posto que
+outras como cega os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta, na
+qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou do miseravel
+naufragio se salvou em uma enseada, onde foi captiva de um turco
+corsario, que a levou a Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou
+o seu general conhecido por quem era; e como o sangue, d'onde descendia,
+junto ao cargo que levava, o faziam de mór preço para os que o
+captivaram, ficou impossibilitado o seu resgate, e elle sem remedio
+n'aquella prisão alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella me
+aconselharam que de novo emprehendesse o de que com seus despresos
+desconfiara, mandando-lhe offerecer liberalmente meu dote para resgate
+de sua liberdade. E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta
+lembrança, tendo por menores grilhões os que de novo lhe punha, que os
+que elle trazia, aceitou a offerta, e me mandou em satisfação um
+escripto, em que me jurava por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em
+execução o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas, que
+tinha, pela honra e contentamento, que d'aquelles desposorios esperava.
+Tornou livre á sua patria, e mudou de improviso a tenção que fingira
+para alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe o mundo
+esta crueldade: e os meus vendo-me sem dote, e sem marido, e, o que o
+havia de ser, tão ingrato, e na opinião de todos tão culpado, me levaram
+a o demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde, depois de
+convencido, me foi julgado por devedor, e por esposo. Mas como a minha
+vontade não era que elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais
+conveniente para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e, depois
+d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes que o tratavam; o
+dia, em que se havia de desposar comigo, cumprindo por sentença a
+palavra que me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua um papel
+em logar da minha, que era quitação plenaria de tudo o que por elle
+déra, e juntamente do que elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo
+para castigo de minha altiveza a humildade da religião mais apertada.
+Fez isto em toda a ilha grande espanto; e eu com o resto, que do meu
+dote ficára, aborrecendo a patria como a madrasta, determinei logo
+buscar em reino alheio segura morada. E porque a fama da religião
+portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde muitas religiosas do
+illustre sangue de Bretanha vivem santamente em clausura, me trazia mais
+affeiçoado o desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o maior
+cabedal do que possuia a quem até á minha chegada o detivesse; e eu como
+tive a certeza de este dote mais necessario estar seguro, fugindo ás
+affrontas, e odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que me
+ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza, e visitei a casa, e
+sepultura do glorioso apostolo Santiago; d'onde caminhando por terra,
+livre já dos enredos de minha ventura, não pude escapar á cobiça dos
+criados que me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam, e pouco
+affeiçoados da catholica que professava á sua vista com tanta firmeza,
+me roubaram as joias, o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios
+desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça, por ser a que me tomou
+com a paciencia quasi rendida aos trabalhos da viagem, que venceram o
+descostume e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só na confusão
+d'estes caminhos: porém se pelos que parecem tão errados me quer Deus
+guiar ao mais seguro, eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle,
+senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis, que, ainda
+que vos dê cuidado, me mandeis d'aqui em companhia de confiança, até
+onde d'aquellas bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á sua
+vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós pagará o céo este
+trabalho, e a estas senhoras o amor com que favorecem o meu desamparo;
+que a maior consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é saber
+que a todo o tempo, que se acolherem a Deus, acham n'elle brandura; e
+que tem á sua conta pagar largamente as boas obras, que no decurso de
+seus trabalhos receberam.
+
+Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios de agua, com que
+orvalhava de quando em quando as rosas do seu rosto; e a nenhum dos que
+alli estavam faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado que
+buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o que vos roubou a
+ventura, muito era para sentir a que vos offende. Porém como o caminho
+dos que Deus escolhe é tão differente do que seguem aquelles que lhe vão
+fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que saber que vos acompanha
+nos trabalhos presentes, e vos ha de dar o galardão e premio de todos: e
+para que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me offereço ao
+remedio dos que ficam até tomardes logar n'essa clausura. Lisboa é terra
+grande; e a muita confusão da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e
+vós é razão que com a decencia e commodidade, que vossa pessoa e
+qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo que, se quizerdes descançar
+com estas minhas parentas, e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á
+cidade, e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me agradeceu a
+estrangeira com muito boas palavras, mostrando tambem nas côres do rosto
+signaes de obrigação. E hoje, antes da minha partida, me fez uma
+lembrança do que por sua parte havia de perguntar. No caminho me atalhou
+a jornada uma occasião forçosa, que me fez passar a noite tão perto de
+casa como vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar: pois, além
+das mercês do senhor Leonardo, goso a conversação de tantos amigos e
+senhores, que é fim, a que se podiam dirigir outras jornadas
+maiores.--Já agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus
+extremos; pois nos que disse o senhor prior da peregrina ficam
+acreditados; e passam as suas obras tanto adiante das minhas palavras,
+que deixa a sua egreja e familia para por a servir no que eu nem ainda
+me soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara, andando á caça,
+a mesma estrangeira, e o que n'aquella conversação tinha passado sobre
+os louvores, com que elle quizera pintar sua formosura.--Nenhuns lhe
+podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores encarecimentos
+devendo muito á verdade: e o maior espanto, que eu achei nos de sua
+gentileza, foi que, sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que
+sobre obrigações tão forçosas a despresasse.--Isso (tornou D. Julio) não
+tenho eu por espanto; que d'esse modo se costuma vingar a sorte da
+naturesa, quando na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais se
+me representa a mim que seria o homem nobre, e sem entendimento, como ha
+muitos, pois fugiu de tantos e tão poderosos attributos, como eram
+formosura, riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos
+empregados em seu favor.--E a mim (acodiu Solino) me pareceu ingrato,
+mas discreto, fugindo o jugo de uma mulher que lhe ficava sendo duas
+vezes senhora, uma pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a
+divida, e preço de seu resgate.--O meu voto é (disse Pindaro) mui
+differente; antes julgo que o que o homem aceitou por necessitado, veiu
+a enjeitar por cubiçoso, vendo que se dispendera com sua liberdade o
+dote que dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara de o
+ser, se fôra tão rica como no principio, em que o libertou; porque a
+cobiça e o amor são grandes competidores.--Não me descontentam as
+opiniões (disse Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois
+inimigos do socego humano, seja a questão e a materia da conversação da
+noite á conta d'elles. E perguntou ao doutor, qual dos dois é mais
+poderoso, e obriga os homens a maiores extremos?
+
+--Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor) á experiencia, e
+tomar os successos do mundo por argumento, com poucas porfias se
+manifestará a verdade da vossa pergunta: mas tratando primeiro das
+razões, vejamos em que se parecem, e os poderes em que os antigos
+igualaram o amor, e a cubiça; que de ambos deixaram jeroglificos, e
+figuras. Pintaram pois ao amor menino, formoso, com os olhos tapados,
+despido, com azas nos hombros, e armado de arco e settas: menino, por
+facil e fagueiro; formoso, porque a belleza é o objecto dos amantes;
+despido, porque se não póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a
+razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel; armado, por forte,
+poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a mulher, despida, com os olhos
+tapados, e azas nos hombros. Despida, pela facilidade com que por seus
+effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum respeito humano em
+rasão do que deseja: com azas pela velocidade com que segue aquelle
+objecto, que debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim que
+só nas armas, e no sexo feminino achamos na pintura differença: porém se
+considerarmos os effeitos da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as
+quizeram cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas armas;
+porque se amor é forte e poderoso, e vence a tudo, como disse o poeta; o
+mesmo confessa que a todos os extremos fórça, e obriga a sede do ouro
+aos humanos; se a amor como a poderoso o fingiram Deus cruel, como diz o
+poeta Seneca; não só a cubiça é Deus do avarento e cubiçoso, mas o mesmo
+ouro que deseja, como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam cruel
+pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes, mais reinos assolados,
+cidades destruidas, e damnos immortaes se fizeram no mundo por cubiça,
+que por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que se póde provar
+esta verdade, vejamos em seu nascimento que coisa seja amor humano; e o
+que é cubiça. A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio
+maravilhosamente um doutor grego, que disse que amor era um desejo
+irracional, que facilmente se emprega, e com grande difficuldade se
+perde. E da cubiça escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra da
+medida certa, que ensina a razão; que não tem modo, nem fim. É certo que
+cada um d'elles podia trocar com o outro esta definição, sem ficar
+enganado; porque o mesmo é excesso de um desejo irracional, que appetite
+fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve em se empregar, e
+deixar-se com difficuldade, que não ter modo, nem fim. Mas posto que na
+pintura, e nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça são com
+mais força, e vehemencia, que os do amor; porque, se faz cego o amante
+para perder o lume da razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece:
+e o cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para se abaixar a
+todas as infamias, a que se sujeita o interesse: se o pintam despido
+para se não poder encobrir, com mais vergonhosas mostras se pinta a
+cubiça: o que na mesma pintura de mulher está declarado. Se é ligeiro o
+amor para se empregar, com tudo busca sempre a formosura como objecto
+seu, e obra a que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega nas
+mais humildes e indignas coisas da terra, como d'ellas possa tirar
+fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava bem o dinheiro que cobrava das
+immundicias de Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito atraz
+ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as entranhas da terra, e chegar
+á vista do inferno por tirar ouro: descer ao fundo do mar por buscar
+perolas, descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e barbaras
+gentes para adquirir commercios, obras foram de cubiça, e não de amor,
+como tambem o foi a navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro
+começou: e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras que a cubiça,
+pois elle ao amante offende com suavidade amorosa, e aos estranhos com
+animo compassivo tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça,
+que mata no mundo mais homens em um só dia, que o amor em muitos annos.
+Assim que a meu ver em competencia, ella tem mais poderes, e na
+semelhança se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas com tal
+differença, que elle ama a formosura humana, e a cubiça a riqueza.
+
+--Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento faça tão grande
+aggravo ao amor, como é igualar com elle a cubiça: porque quando em
+poderes tenham grande semelhança, na nobresa e nascimento tem muito
+maior desegualdade; que posto que o amor considerado como appetite
+carnal seja excesso de um desejo fóra da razão; significado como
+affeição humana, é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas em
+uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor tão natural a todos,
+que é defeito e torpeza não saber amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo
+contrario Aristoteles chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O amor
+nasce tão nobremente, que tem por objecto a belleza humana, e os dotes
+naturaes mais excellentes como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e
+assim diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com amor mal
+intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento, e appetite
+preternatural, sempre é mal nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim
+que sejam os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes; são as
+naturezas de ambos mui differentes.--Parece-me, senhor doutor (disse
+Feliciano) que aquella razão ha de achar muitos votos contra o vosso,
+porém eu por me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle, nem
+hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado da doutrina de ambos
+accrescentarei o meu pouco, mettendo-me entre tão boas partes pela de
+amor; e digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes no poder,
+no que é amar são em tudo deseguaes, porque não se ama a coisa que pelo
+que é, e por amor de si propria se não ama; e menos se póde amar a que
+se não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do cubiçoso, que se
+emprega em coisas que por si não merecem amor, e em outras, de que não
+tem nenhum conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita a nossa
+vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e por essa a desejamos unir
+comnosco, por natural appetite: mas empregar a affeição no dinheiro, e
+no ouro, que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle se alcança,
+não póde ser amor. E menos o será amar o que ainda não conhecemos, como
+faz o cubiçoso a muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas
+espera. E não tratando ainda de que o amor não se considera só no que
+ama, senão tambem na coisa amada; e que falta correspondencia, sendo
+essa insensivel: o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e
+este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua temerosa côr o
+cativara, nem d'essa o deixa usar o seu cativeiro. D'onde veio dizer o
+poeta Horacio que o ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram
+segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe podem chamar
+desenterrado: nem com a voz deleita os ouvidos, nem com a suavidade do
+cheiro recrea, nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz. Diga-o
+Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como lhe ficou por mantimento,
+perecia na abundancia do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a
+el-rei Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que achou na ceia que
+sua mulher lhe ordenára: o qual com sua demasiada cubiça não dava lugar
+aos seus cidadãos de se empregarem em outro trabalho mais, que em
+beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina muitos d'elles miseravelmente
+pereciam: pelo que, vendo as matronas da cidade tanto damno, foram
+juntas pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de tão grande mal,
+rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe que désse aos seus melhor
+tratamento: e ella, a quem não faltava entendimento, nem piedade,
+conhecendo que era vão vencer com rogos a sua cobiça, ordenou a Pithio
+uma ceia esplendida em um dia de festa; na qual todas as eguarias, que
+lhe deu, eram formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira
+vista, e com a magnificencia do apparato, com que lhas apresentavam:
+porém quando pelo discurso do banquete não viu nenhuma de que podesse
+comer, perguntou pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas que
+eram fingidas. Como (respondeu então a sabia matrona) queres que te
+apresente outra comida, se só no cuidado da que tens deante occupas a
+todos teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem se cultivam as
+arvores, nem se pescam os rios, nem se caçam as aves, nem se criam os
+animaes, pelo exercicio continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com o
+fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou em alguma parte
+sua demasia.
+
+Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador da Tartaria, que
+vencendo, em Baldaco, o Califa mestre da seita Mahometica, que era o
+mais poderoso rico, que então havia no mundo, vendo que, por se não
+ajudar de suas riquezas, e as não despender em soldo, não tivera
+resistencia contra o exercito dos Tartaros; depois de captivo o mandou
+metter em uma camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha,
+sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo que d'aquelle comesse á sua
+vontade: e assim entre a grande abundancia de suas riquezas o miseravel
+Califa morreu de fome.
+
+Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto, nem deleitar sentido
+senão com o engano do que com elle alcança, como póde ser capaz de amor?
+
+--Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não o seguistes: e eu
+ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade, me hei de valer da
+primeira opinião que propoz, e é que o amante e o cubiçoso não differem
+mais no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo em uma opinião
+moderna, que tem por si muitas auctoridades antigas; e é que nenhuma
+pessoa ama mais a outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se
+primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce o desejar e amar
+as coisas a que se affeiçoa, e inclina mais a sua natureza: amo isto,
+porque me parece bem, e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo
+tudo o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por isso chamaram ao
+amigo uma alma em dois corpos, e, como diz o proverbio, _o amigo é outro
+eu_; quero-lhe tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha alma
+unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo se hade egualar no amor
+com o que cada um tem a si: logo tanto quer e deseja o amante o objecto
+da belleza, em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que quer para si.
+E quanto á objecção de que o ouro senão ama pelo que é, senão pelo que
+vale, e por o que com elle se compra e alcança, os vossos mesmos
+exemplos dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro antes
+perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a que quer mais que a ella; e
+antes perece á fome, que satisfazel-a com dispender o que tem em mais
+estima que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que todos os
+outros; como Lucilo conta de um avarento chamado Hermones, que, sonhando
+uma noite que gastara certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua
+paixão e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou. E assim diz S.
+Jeronymo que tanta necessidade tem o cubiçoso do que possue, como do que
+lhe falta, pois lhe falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar
+que só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás o é mais,
+que todos, o que tudo deseja; e possuindo mendiga, e padece como se lhe
+faltára. Logo certo é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle
+se compra; pois o não quer para comprar, senão para o possuir. E
+respondendo á deleitação dos sentidos, que o amor humano offerece, e na
+cubiça falta, ousarei a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor
+ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece; e que é mais suave
+a seus ouvidos o rumor, e tinido do dinheiro, que a brandura de todos os
+requebros, e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para elle é egual
+com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se entre o mesmo dinheiro: o
+que se póde ver com grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o
+Imperador Caligula, que, depois que a muitos obrigou que o instituissem
+por herdeiro, aos quaes, depois de testarem, fez matar com peçonha
+(rindo-se de haver homem que quizesse viver mais depois de haver
+testado) atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos os
+vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava despido entre o
+dinheiro, que d'estas infames obras procedia; e, dando sobre elle mil
+voltas, tinha em menos conta todas as outras delicias, que os homens a
+preço do dinheiro procuravam. Certo é logo que o ouro ama, e a elle
+quer, e com elle se deleita o avaro e cubiçoso; que, se o desejára para
+o empregar em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome, e
+podera merecer o de rico, prudente, e liberal: porque o ouro, e as
+riquezas, como diz S. Leão Papa, não são boas de si, nem más; mas o bom
+ou mau uso d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue: e assim
+não é rico o que muito tem, senão o que com o que tem se contenta: e não
+ha maior pobreza, que, por empregar o desejo em um baixo metal, que sem
+bom uso não presta, deixarem os homens o muito que com sua valia poderam
+adquirir.
+
+--Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre; Leonardo, que a
+levantou, deixou-se ficar no covil; e eu fiquei atrás dos galgos sem dar
+um brado; farei muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos.
+Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito na grandeza e poderes
+da cubiça é errado, e que se haviam de attribuir ao ouro, e não a ella.
+E tratando da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar com
+o amor, tenho por mui errada a declaração d'ella: e posto que seja
+contradizer a tão grandes entendimentos, a hei de explicar ao meu modo,
+que me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua fraqueza; pois é
+tal, que se rende a qualquer pequeno, e vil interesse; despida como
+desavergonhada, por quão sem respeito, nem moderação se atreve a
+commetter qualquer infamia; com azas por a ligeireza, com que se
+arremessa a qualquer preza como ave de rapina; cega por pedinte,
+mendiga, e importuna: e se isto não é, venho a presumir que a fingiram
+com o rosto de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na
+etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e condição do cubiçoso:
+e assim como a harpia damna, e descompõe todos os manjares a que chega,
+assim a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo que me parece
+que nenhum parentesco tem com amor, que na nobreza é tão desegual, e
+pelos louvores de sua excellencia tão conhecido. O a que se podera
+voltar a nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a tratar dos
+poderes do ouro, e da valia do interesse, que já nos tempos antigos, e
+no prezente de agora póde tanto, que obrigou a dizer a um auctor que
+esta é a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia os animos
+dos homens. E viera isto mais ao proposito da vossa peregrina, que com
+elle e sua formosura não pôde vencer a um coração ingrato.--A mim me
+parece (respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão se a não
+guardareis para tão tarde: porém em a noite d'amanhã se lhe fará
+justiça; que n'esta é rasão que se dê ao hospede lugar conveniente para
+o repouso, pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.--Por não mandar
+em casa alheia (disse o prior) não defendo a minha parte; mas prometto,
+se voltar a horas que possa passar a noite tão bem como esta, de a não
+perder.
+
+Então se levantaram os mais e se despediram; e o prior gastou muitas
+palavras em manifestar a Leonardo a inveja que tivera d'aquella
+companhia: ao que elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da
+peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a boa conversação é
+manjar da alma, a vista de uma estranha formosura, que rouba as de
+todos, tem muito maior poder sobre o desejo.
+
+
+
+
+DIALOGO VII
+
+DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE
+
+
+No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram para o seu costumado
+exercicio, se apeava o prior no pateo de Leonardo; que o desejo que lhe
+causara a noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade. Foi
+recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do bom successo de sua
+jornada, lhe disse Solino:--Agora vejo que roubou a ventura a empreza
+d'aquella peregrina ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr
+por nos ouvir.--Antes vereis (respondeu o prior) quão poderoso é o ouro,
+que até para ouvir falar n'elle deixo a propria casa, e n'ella a vista
+de tão extremada formosura.--Não sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro
+que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião como avarento, pois
+que vindes com esse titulo de cobiça enriquecer a todos, e a esta
+casa.--Vós (respondeu elle) me individaes para me empobrecer com a mercê
+e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o meu erro é dourado
+para contentar os cobiçosos, quando pareça a Solino culpa deixar a vista
+da minha hospeda pelo interesse da vossa conversação.--Não é só elle o
+que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós deixardes me queixo,
+ainda que de a acompanhardes tinha ciumes.--Só esses faltavam (tornou
+Solino) para a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este se
+batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre, porque a dos
+comprimentos é a mais corrente de todas. Porque o maior mal que o avaro
+faz ao ouro, é impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra,
+podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas, que para
+isso imagino que se inventaram as cadeias e grilhões de ouro, que d'elle
+servem para ornato, e dos outros metaes para castigo.--Não me
+descontenta essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro quando sahe
+da mina, antes de o pôrem em seus quilates, chamam os artifices _ouro
+bruto_, quanto com mais razão merece este nome o que o avarento tem
+escondido e fechado? E a este proposito me cabe contar uma historia que
+li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo que callei a noite passada, se póde
+descontar o que agora disser.
+
+Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares d'ella, um honrado
+pae de familia, nobilissimo por geração, rico de bens procedidos da
+herança e nobreza antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes,
+e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que mais parecia
+dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua
+mocidade um filho tão industrioso e experto nos negocios de mercancia,
+que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle
+guardava com tão solicito cuidado, como costumam os que com cobiça e
+trabalhos o adquiriram: e era notavel espanto aos naturaes verem em um
+velho a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a avareza e
+tenacidade de velho. O pae, que o via responder tão mal a suas
+inclinações, e que já com a edade e continuação de gastar largo, estava
+menos rico, muitas vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que
+conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados; e
+não degenerasse d'elles, por seguir a villeza do interesse: que usasse
+das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o creára, e
+honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos
+e parentes; benigno aos pobres e se não captivasse ao trabalho de
+enthesourar riquezas sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar
+a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam os paternos rogos em
+sua má natureza. Succedeu que o senado d'aquella republica por a
+nobreza, e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que
+mostrava, o elegeram em companhia de outros para ir com uma embaixada a
+Roma ao Summo Pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasião ao
+que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas,
+com que entrou na camara do filho; e abriu os cofres em que aquelle
+inutil thesouro estava depositado; e com a brevidade que o desejo lhe
+pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré a seus
+creados; comprou ricas armações e baixellas; encheu a estrebaria de
+cavallos formosos; fez esmolas a muitos pobres; acudiu em occasiões a
+parentes e amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata e ouro que
+o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira em que elle, quando
+florescia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos
+em que antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo na mesma
+ordem em que o filho o deixára, tornou a fechar os cofres e as casas
+como d'antes. Tornou depois o filho da sua embaixada: e os pequenos
+irmãos o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, e com
+o magnifico apparato de que então usavam. Vendo-se o irmão rodeado
+d'elles ficou confuso; e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão
+ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles com uma
+simplicidade innocente responderam que seu pae e senhor vivia com
+differente largueza da que d'antes tinha; e que outros trajos e cavallos
+de maior preço lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a
+ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixára: e
+como n'esta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita
+pressa aonde o tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e
+vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que elle os deixára, se
+aquietou, porque não dava logar a mais vagarosa experiencia a pressa com
+que os companheiros o chamavam, e o senado o esperava. Depois que deu
+fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu que fosse tão custosa)
+fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os saccos, em que
+lhe parecia que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano da areia e
+seixos que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e
+brados. A que primeiro, que todos, acudiu o generoso velho,
+perguntando-lhe que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? Ai de
+mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, que com tantos trabalhos,
+e em tão largo discurso de annos tinha grangeadas. Como é possivel que
+te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres e saccos cheios,
+que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? Ai
+triste de mim (tornou o filho) que o de que elles estão cheios, não é do
+ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora mais que pedras e
+areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer
+mudança: Ah! enganado filho! que importava para ti que estes saccos
+estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te
+não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas
+não já o sentimento do filho com esta resposta; que a mim me pareceu
+digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.
+
+--Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por maravilhosa para
+o nosso intento; e andou muito bem o pae de cumprir em vida o testamento
+do filho; porque, como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro faz boa,
+senão quando morre, porque deixa o que tem a quem possa usar d'elle.--E
+o mesmo (disse Feliciano) escreveu que para ninguem o avarento é bom: e
+para si peior que para todos; pois nem dispende, nem se aproveita: e
+n'este sentido me parece maravilhosa a allegoria d'aquella engenhosa
+fabula de Midas, que, pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que
+tocasse se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na grande abundancia
+do que pedira. E quando a necessidade o fez mudar a petição forçado do
+mal, que como bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao rio
+Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer estanque, pondo em
+suas douradas areias, para communicar a todos, o que Midas só para si
+queria ter usurpado.--Bem se representou em Midas (accrescentou Pindaro)
+um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar: que por isso disse Seneca
+que mais facilmente se atreveria a alcançar da fortuna que désse, que de
+um cobiçoso que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com seu engano, e
+falemos nos poderes do ouro, que é o para que Solino nos convidou a
+noite passada.--Como é certo (disse elle) que para o ouro todos se
+convidam de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal, parece que
+estivestes de ponto sobre a materia.--Não a apontei (respondeu Pindaro)
+por esse respeito, mas por me contentar da que escolhestes; e é desgraça
+minha que para os outros levantaes d'ouros, e para mim de espadas.--Eu
+me quero metter entre ellas (acudiu D. Julio) e se assim parecer aos
+mais, diga Solino todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer
+mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos disserem ficará logar
+aos mais de darem suas razões.--Errastes, sr. D. Julio (disse o doutor),
+que para Solino dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do
+ouro, e Pindaro os males.--Dou-me por vencido, respondeu elle:--E eu por
+obrigado (disse Pindaro) a obedecer. Todos festejaram a eleição; e
+ordenando que fosse o primeiro, começou d'esta maneira!
+
+Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles testemunham a
+excellencia ou maldade d'ellas, qual o foi de maiores males e damnos na
+redondeza, e metteu aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, a
+quem com muita razão podiam todos chamar _peste do mundo_? E posto que
+os notaveis exemplos das destruições e ruinas que n'elle fez, podiam
+tomar mais tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero começar
+primeiro de seu nascimento, para que mostrem os seus arriscados
+principios os desastrados successos para que a malicia humana o
+descobriu. E não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que não
+contentes os homens com o que a superficie da terra produzia para sua
+recreação e mantimento, a formosura das arvores, a diversidade dos
+fructos, a belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte
+das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram desentranhar do centro
+d'ella os segredos que a benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas
+entranhas dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; e subindo
+como arvore da profunda raiz, d'onde começa, vae espalhando os ramos em
+desegual medida, convertendo o sol com seus poderes aquella materia
+disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se demonstra por
+duvidosos signaes na face da terra; que logo d'aquella emprenhidão se
+mostra triste, dando por indicios da riqueza que encerra, herva
+descórada, delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, secco e sem
+proveito; e até as aguas, que por entre as veias descem, sahem cruas e
+com sabor pesado. Espreitando estes signaes a industria humana, entra
+fazendo guerra ao profundo, caminhando por debaixo dos montes
+sustentados em columnas da mesma terra, deixando a vista do sol e das
+estrellas, pondo as vidas ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes
+o opprimem, que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra, que parece
+menor temeridade tirar do fundo do mar perolas e aljofar, que do seu
+seio o inimigo ouro, que ainda então o não é mais que nas esperanças.
+Depois de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como parto de
+venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, com o fogo se aparta,
+apura o aperfeiçoa. ficando menos apto para o serviço dos homens, na
+cultivação dos campos e arvoredos, e mais apparelhado para sua
+destruição e ruina: porque ou se lavra para ostentações e demasias da
+vaidade, ou se bate e cunha em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e
+graças da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez em si
+estanque de todos os commercios do mundo, no qual, antes que elle
+apparecesse, se trocavam as cousas umas por outras, com uma composição e
+trato mais conforme e obrigado á necessidade e commodos da vida que aos
+roubos da cobiça, maldades da avareza e sobejidões da vaidade; e
+apoderou-se tanto de tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até
+da liberdade dos homens contra o direito natural, em que viviam. Foram
+crescendo seus atrevimentos: e se antes de sahir do centro da terra
+começou a matar homens, sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo
+guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo a vara das mãos
+á justiça: e deitado em sua balança perverteu o fiel de sua egualdade.
+Diga-o Commodo imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos
+deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por elle publicamente não só
+a pena dos delictos, mas os proprios logares dos julgadores. Cerrou os
+olhos á misericordia, para não se compadecer dos affligidos: como se viu
+no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada Jerusalem, os
+moradores, que opprimidos da fome se sahiam da cidade com licença sua,
+enguliam primeiro uma pequena moeda de ouro, para que na passagem o
+pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo esta astucia, a dois mil,
+que em dois dias sahiram da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem
+do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo commum da natureza
+d'ahi a pouco espaço a lançassem fóra: assim que aquella pequena
+quantidade de ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida.
+Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza, atados com as
+prisões de seu interesse: diga-o Ulysses que por elle vendeu a Priamo o
+corpo de Heitor Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou a
+empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. Desterrou do mundo a
+fidelidade; pois por elle vendia Nicias aos romanos a vida de el-rei
+Pyrrho seu senhor: Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão francez,
+que de industria a afogou com peso de ouro: Tarpeia Romana, a entrada do
+Capitolio aos Sabinos, que do mesmo modo com o peso de ouro e dos
+escudos a acabaram. Depravou a piedade, e veneração que os antigos
+tinham aos mortos, não perdoando a suas sepulturas, como el-rei Dario,
+enganado com o letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei seu
+successor se visse em necessidade, abrisse aquella sepultura, e acharia
+um thesouro: elle confiado creu o letreiro, revolveu a pedra; e achou
+outro que dizia: _Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os
+mortos._ Os romanos desenterraram os mortos de Corintho para lhes
+tirarem a moeda que tinham por costume metter comsigo na sepultura; para
+o que é mais notavel aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, de
+Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae se mandára enterrar
+com as insignias reaes de ouro, abriu uma noite secretamente a
+sepultura, e, depois de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe
+appareceu S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava
+enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe mandou em castigo do
+atrevimento que commettera, que mais não entrasse n'aquella sua egreja:
+e assim querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi pelo mesmo
+santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece a todos os peccados
+capitaes, a soberba com suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas
+de Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, o theatro de
+Nero, as casas de Clodio, e todos os mais excessos da vangloria d'elle
+nasceram. A avareza n'elle como em materia propria se conserva e
+accrescenta; por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir
+de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres que o sahiam a
+receber como era costume d'aquelle reino, como conta Plutarcho. Nero
+despojava por este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos
+mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que era tão avaro, que
+se levantava de noite a furtar a ração a seus proprios cavallos; e sendo
+achado pelo estribeiro ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era
+dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro se cria, pois a
+força d'elle corrompe a pudicicia, como os antigos engenhosamente
+significáram na fabula de Danae, a quem Jupiter enganou convertido em
+chuva de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os incestos de
+Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os adulterios de Julio Cesar; pois
+só a perola com que conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou
+seiscentos sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis estragos e
+homicidos no mundo. Pygmalion matou a seu cunhado Sichueu por lhe roubar
+o thesouro que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de quem era
+tutor, por lhe roubar a herança das riquezas que esperava. As demazias e
+sordidezas da gula, a delicia e sobejidão dos manjares com elle se
+compram.--Das mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes de Lucúlo, dos
+manjares e convites de Heliogábalo elle tem a culpa. A venenosa inveja
+n'elle, como em seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa
+das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte Amfiarau seu marido; e
+Julio Cesar invejoso das riquezas da Luzitania, se fez salteador das
+cidades d'ella. A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se
+aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes com o preço
+que lhe deram por não orar: e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o
+kagado, por o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais
+difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a diligencia cahiu
+em sorte á pobreza, pois a necessidade foi inventora das artes e
+subtilezas; o peso do ouro entorpece os sentidos empregados todos
+n'aquella materia: e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o afogou
+no mar para apprender a philosophia. Pitaco e Anacarso não acceitaram a
+Cresso o que lhes mandava: Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o
+que lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso d'elle que lhe
+traziam.
+
+Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que mereciam este nome;
+e um veneno mortifero para a vida humana: e se muitos a perderam indo em
+seus alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, em
+que elle se cria, por remotos climas entre irracionaes Ethiopes
+feneceram; não estão seguros do mesmo damno os que dentro em suas casas,
+e fechado em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus males (que
+para os contar todos fôra infinito) só um bem tem o ouro, que eu não
+quero deixar á conta dos louvores de Solino, que é o que os Gregos
+declararam n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: _O de que serve
+ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem_; pois no toque d'elle,
+como em um espelho de desenganos, é conhecido: e se elle d'esta minha
+invectiva se houver por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura até
+ao que de seus males me fica por dizer.
+
+Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a pratica de Pindaro; e o
+prior a gabou de bem ordenada, e elegante; e gastaram n'isto algumas
+razões, tendo os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas
+mostras os obrigou a silencio, e disse:
+
+--Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa de Ezopo das uvas, a
+que nào chegava; nem quero tomar tão humilde vingança de quem me foge,
+nem (como alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo: a empreza é
+facil, e só no muito, que ha para dizer d'ella, difficultosa: porém se a
+copia aos discretos empobrece, (como um d'elles disse) nào pode ser que
+a do ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste toda a
+riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e desejar ao menos uma bôcca
+de ouro, de que sahiram dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo
+do que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles. E
+começando do nascimento d'este desejado metal, que quanto mais queremos
+culpar engrandecemos: Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos
+montes, porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer d'elle thesouro,
+pondo tantos muros da terra, para o defender, para que tambem a
+difficuldade e rareza lhe dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se
+cria, e provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia com
+sua formosa côr ás mais bellas obras da natureza. O mais nobre dos
+planetas, que é o sol, dourado nos apparece, e o seu luzente carro com
+raios de ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso dos
+elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que nas tempestades da
+terra nos assegura, perfilado de ouro se descobre; as nuvens ao pôr do
+sol, da sua côr guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas,
+os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os bem-me-queres, e as
+boninas com uma roza dourada no meio se guarnecem, e enfeitam para os
+olhos dos homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua desejada
+perfeição, e as searas na fertilidade de suas espigas se tornam de ouro:
+e as mais formosas creaturas humanas, com as cabeças douradas, mostram
+sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e monarchas do mundo
+o ouro sobre a cabeça; os reis e imperadores nas corôas, os papas nas
+thiaras, os bispos nas mitras, e as matronas illustres nos toucados, ao
+pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas, nos dedos, e nos
+braços, fazendo voluntarias prisões de sua formosura. No culto divino
+elle orna e aformosea os templos sagrados, as cruzes, imagens,
+retabulos, calices, patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam
+os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os ornamentos, e
+vestiduras da egreja. Batido em moeda é preço, e resgate das cousas de
+maior valia, sem que n'elle se começasse o trato, e commercio do
+dinheiro: pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata, cobre, e
+latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores o mal que usam d'elle
+os avarentos, lhe podiamos com razão chamar formosura do mundo; ornato,
+e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada de ouro se
+inclina mais, e é mais formosa, como foi a de Primislau primeiro rei de
+Bohemia; que no maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer
+ante si as alparcas de pastor com que se creara, mandando que andassem
+em morgado a seus descendentes para antidoto contra a soberba da
+dignidade real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha Santa
+Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante D. Sancha, D.
+Branca, e D. Joanna, e o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, bem
+douraram com sua grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro se
+exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem elle parecera virtude
+sem mãos; que mal as tivera Marco Antonio triumviro para aquelle excesso
+de magnificencia, que usou com um amigo, se o não tivera: porque,
+mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco mil escudos, parecendo
+ao avarento creado que aquella largueza nascia da ignorancia de seu
+senhor, lhe mostrou aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza,
+dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o romano por
+desmentir a malicia do thesoureiro (que entendeu logo) lhe disse:
+Fizeste bem de me avisar; que não cuidei que dava tão pouco: pelo que
+sobre estes accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta. O
+mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que acontecera a um principe de
+Hespanha com seu pae, mandando dar a uma moça humilde trinta mil
+cruzados. E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu a
+liberalidade com seus poderes o nosso primeiro rei D. Affonso Henriques,
+que nas terras, que conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços
+Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus descendentes em
+differente modo. D. Pedro o justiçoso com os pobres, que até a manga do
+braço direito mandava fazer mais larga, e comprida, para alcançar a
+todos no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho el-rei D. João
+o I, foi tão liberal com os vassallos que o serviram, que deixara sem
+patrimonio a corôa, se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei
+mental, com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os poderes de
+sua riqueza, e a magnificencia de sua condição assombrou as nações
+extranhas, e ao nome portuguez fez mais honrado. A castidade mais
+excellente, e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes trajos
+da pobreza; e por isso foi tão louvada em Scipião, que poderoso, rico, e
+vencedor, quando entrando Carthago lhe offereceram captiva uma formosa
+dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou honradamente
+acompanhada a seu marido com o resgate, que por sua liberdade lhe
+offereciam. Não faltou esta excellencia em muitas donzellas do sangue
+real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da ventura,
+offereceram a Deus este da natureza. E se é celebrado el-rei D. Affonso
+o Casto em Hespanha, não desmerecia este nome o rei portuguez, que
+persuadido de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida nos
+campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel e excedente no
+poderoso rico, que no miseravel, em quem não tem execução a ira, nem a
+vingança. Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia, que
+perguntando aos embaixadores athenienses o que lhe queriam, respondeu
+com inconsideravel liberdade um d'elles, que _vêl-o sem vida_; e elle
+voltando aos outros com muita brandura disse: _Dizei aos Athenienses que
+mais modesto é quem soffre essas palavras, que os sabios de Athenas, de
+quem elles se prezam_. E se contam d'el-rei D. Affonso I, rei de
+Napoles, que, sabendo que um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas
+mercês, com que elle obrigado disse depois de suas obras mil louvores; e
+o rei avisado d'isto disse: _Folgo que esteja em minha mão dizerem bem
+de mim_: tambem houve rei em Portugal que em muitas occasiões usou o
+mesmo termo, como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de muitas
+memorias do III, não esquecendo a paciencia d'el-rei D. Diniz com seu
+filho, e a d'el-rei D. Pedro, sendo principe, com seu pae. A temperança
+medida por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada: como
+a de Curio, que com o ouro dos Samnitas deante não deixou a panella de
+couves, e nabos que cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que
+não era necessario a quem com tão humildes viandas se sustentava. A
+sobriedade, e temperança nos nossos reis naturaes é tão louvada, que de
+mui poucos sabemos que bebessem vinho, e de nenhum que comesse
+demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras, que a
+imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte de Portugal, e mulher de
+Frederico III, Imperador de Allemanha, não tendo geração, e averiguando
+os medicos que por a frialdade d'aquella provincia não concebia, porém
+que, se bebesse vinho, teriam filhos; ella não consentio no remedio: e
+Frederico disse que antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada.
+A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta sobre as
+estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a conheceram, com o poder do
+ouro a sustentaram: como Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava
+abrir as portas aos jardins e pomares, que tinha para que entrassem
+livremente os necessitados a colher seus fructos: mandava aos seus que,
+achando algum velho mal vestido trocassem com elle os seus para o
+melhorarem; dava todos os dias banquete publico aos que mendigavam pela
+cidade: e aos pobres de qualidade sustentava com esmolas secretas. Não
+fôram n'isto os nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o
+testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de caridade, e santos
+costumes, que deixaram n'este reino, para agasalhar peregrinos,
+sustentar, e vestir pobres, e curar enfermos e feridos: no que fôram,
+entre os outros, insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e
+o insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia com muita razão
+lhe calçáram os antigos esporas douradas, pois o duro estorvo da
+pobreza, como pintou Alciato, impede as azas e limita os passos á
+diligencia. Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre, e
+Cesar em mui limitados annos a redondeza: o nosso rei D. Diniz com os
+poderes d'elle accrescentou em seu reino quarenta e quatro villas com
+castellos, e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal; e
+instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos de Coimbra. E os reis
+D. João, e D. Manuel descobriram, e ganharam para a Fe as terras do
+Oriente com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras. De
+maneira que, se os avarentos, que usam mal do ouro e das riquezas,
+guerream com elle contra as virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como
+elle as engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista perdem
+tantas vidas, muitas mais se compram, e resgatam a preço d'elle. E
+deixando o balsamo de ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel,
+tão celebrado dos distilladores nas enfermidades; qual risco da vida,
+qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão ou captiveiro não
+remio o ouro? Elle faz a formosura das cidades, a belleza dos edificios,
+a fortaleza dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das
+côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades, titulos, e
+privanças, e até os louvores e as mesmas graças da natureza: todos o
+buscam, o desejam, e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem
+converter n'elle por meio de alquime; os animaes se rendem á sua
+formosura; pois não ha caça mais certa que a que se toca com laço de
+ouro, nem melhor pescaria que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão
+grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer um auctor, que na
+maior furia de um leão, de um tigre, e de outra qualquer féra, se lhe
+lançarem moedas de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E
+passando por todas as cousas da terra sua valia, podem os ricos subir ao
+céo por escadas de ouro, e dar-lhe com elle assalto e bataria, pondo as
+balas e settas d'este metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em
+tanta altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser digno de
+seus louvores meu humilde talento, que, se fôra de tão illustre metal,
+tudo alcançara.
+
+A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto que alguns a
+esperavam menos grave, e mais engraçada: e assim lhe disse
+Leonardo:--Parecestes-me esta noite mais orador insigne, que murmurador
+galante. Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem os
+louvores.--Não vos agradeço (respondeu elle) os que me daes; por quanto
+d'antemão vos vingastes d'elles. Porém se quereis vêr em outrem com
+gravidade o que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois os bens e
+males do ouro estão encetados; diga o senhor prior agora os poderes do
+interesse, que no successo da sua peregrina achará largo campo para esta
+materia.--Essa é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas horas
+da noite; e eu me não escusara com ellas, se não imaginara que todas as
+verdades, que cahem sobre este sujeito, hão de parecer murmuração.
+Porque dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é sentença
+antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar os modos e
+termos, com que batalha, será ir com os dedos aos olhos de muitos. Se
+disser que o interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá
+d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas da justiça, quantas se
+virarão para castigar-me? Se ousar a dizer que profana as leis, e
+offende a immunidade das egrejas, temo que até na minha me neguem a
+entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores, couto de
+homicidas, torre do facinorosos, e merecimento de descuidados, quantos
+se levantarão contra minha verdade? Só direi em um conto breve o que de
+sua valia se pode presumir na necessidade; e será julgar pelas unhas o
+leão, e pela pisada de Hercules a medida de sua grandeza.
+
+Um homem curioso, bem intencionado, e não mal entendido, andou alguns
+annos na milicia do Oriente: e vindo d'elle a este reino para se
+despachar, trouxe entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade,
+umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente obrados. E
+depois de entrar em seu requerimento, deu conta a um amigo, pratico nas
+cousas da côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle como
+convinha e buscando entre o movel, que trouxera, peça que podesse
+offerecer a um ministro, com quem tinha intelligencia, lhe inculcava
+aquelles santos de marfim, que o tinham muito affeiçoado.--Como (disse
+elle) não trouxestes da India algum pagode, ou idolo de ouro d'esses
+gentios?--Para que? lhe perguntou o pouco esperto requerente.--Ah,
+respondeu o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma, _Mais
+podem diabos de ouro, que anjos de marfim_. E assim não me parece que
+está mal o dito vulgar do povo, _que o interesse é diabo_. E pois o
+tempo é tão curto, seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus
+poderes; que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade de falar,
+contra o desejo que tenho de vos obedecer. E sendo elles taes, e o ouro
+o principal interesse de todos, mui bem lhe cabem com os males, que
+Pindaro d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou fazendo a
+differença sómente no uso d'elle. Que se Santo Agostinho lhe chamou
+enfermidade da soberba, fraqueza das virtudes, materia de trabalhos,
+perigo do possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado; Santo
+Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola dos vicios, e doença
+da alma; e se d'elle nasceu a Cresso a soberba, a Heliogábalo e
+Sardanápalo a luxuria, a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula:
+se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira, Crasso
+degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros ricos tiveram fins
+semelhantes; não teve a culpa o ouro, senão a má avareza de quem o
+possuia, ou a cubiçosa sede do que o desejava; pois elle nos animos
+livres não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças, lustre e
+grandeza: como em um Constantino Magno, que enriqueceu a egreja Romana;
+um Carlos IV, que comprou com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o
+nome Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um Lourenço de
+Medicis, que honrou Florença: um Leonardo Lauredano, que libertou
+Veneza; um Carlos Brugi, que soccorreu a esterilidade de Flandres; e
+outros muitos, que o souberam dispender valorosamente. De maneira que
+n'elle está a condemnação ou justificação, a morte ou a vida de quem o
+possue ou deseja. Para o que eu acho extremada aquella historia, que
+toca Auzonio poeta em um seu epigramma. E é que um homem desesperado com
+uma paixão, que teve, se hia enforcar em um logar secreto, levando
+comsigo o baraço, em que havia de deixar a vida. Succedeu que com a
+força que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se lhe
+descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o pensamento: e, levando
+o que achara, deixou em seu logar o baraço que trazia. Vindo depois o
+que alli o escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação de
+sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, o que o outro deixou de
+fazer porque o achara: de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou
+a avareza d'elle.--Com tão boa historia (accudiu D. Julio levantando-se)
+é razão que vamos satisfeitos, e deixemos ao senhor prior bem
+agazalhado, posto que pelo interesse de sua conversação deixara eu
+muitos dos que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos deu
+preço ao ouro e pedraria, á conversação dos sabios o não pode tirar a
+mesma ventura.
+
+
+
+
+DIALOGO VIII
+
+DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR
+
+
+Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo o dia: e n'ella em
+vindo a noite se ajuntaram os amigos, sentindo grandemente a falta
+d'aquelle que os deixara. Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e
+entre outras disse Feliciano:--Por todas as razões se devia desejar a
+conversação de tão discreto, e douto cortezão, como é o prior, em todo o
+tempo, mas n'este das noites do inverno muito mais: e n'ellas encherá
+elle muito bem o seu logar; porque, além de saber e auctorisar o que diz
+com o fundamento das lettras e curiosidade que tem, é muito composto e
+engraçado no que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo de
+encarecer negando na materia do interesse, e o descrever com brevidade
+nas historias.--Quanto mais ouvirdes d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos
+parecerá melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos parecia
+muito bem nos de côrte; e que debaixo dos compridos pode ainda dar
+lições d'ella a muitos de capa e espada.--Parte é o falar bem (accudiu
+D. Julio) que leva tudo após si: e não consiste este bem só nas razões
+discretas e palavras escolhidas, senão no bom modo e graça de as dizer:
+o que eu comparo a uma cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa
+aformosea, e dá ser, côr, e graça ao que lêdes; e a ruim desconcerta,
+empeça, e afeia as razões, sendo todas umas: e não faltarão mui perto
+exemplos d'esta verdade.--Fujamos das comparações para a doutrina (disse
+Pindaro) e melhor fôra ser essa a materia, em que se gastára este
+serão.--Ainda vos ficaram sobejos do passado (tornou Solino) pois vos
+adeantaes da companhia: porém eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de
+ir aos mais.--Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se o doutor nos
+abrir o caminho.--Sempre (respondeu elle) me mandaes deante como os
+frades menores nas procissões; quero-os tambem imitar na obediencia:
+porém lembro-vos que são duas materias as que tocou o sr. D. Julio,
+convém a saber, a graça, e composição do rosto e corpo no falar, e o
+concerto das palavras, e discrição das razões.--Essa divisão parece
+escusada (disse Leonardo) porque a graça não se aprende, nem se pode
+alcançar por arte, pois é mero dom da natureza--Todas as cousas d'ella
+(tornou o doutor) se aperfeiçoam e melhoram com a arte: e, para saberdes
+logo esta verdade, tomarei á minha conta o em que vos parece que ha
+menos que dizer; e fique á vossa a demazia.
+
+Primeiramente no movimento, e graça do falar, chamou Marco Tullio
+_eloquencia do corpo_: e Quintiliano disse que com todas as partes
+d'elle se ha de ajudar a pratica. E posto que esta doutrina parece que
+convinha então aos oradores, como agora aos prégadores, uns e outros
+praticam, e em todo o tempo é necessaria: e assim pintaram alguns o
+jeroglifico da rhetorica com uma mão aberta, outra cerrada.--Muito
+contraria me parece essa lição (disse D. Julio) á policia da côrte, onde
+é regra que o homem ha de falar com a lingua, e ter quieto o corpo e as
+mãos.--Eu concertarei essa regra com as minhas (replicou o doutor), que
+o homem no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e logo vereis
+que o que quero dizer é o mesmo, em que vos quereis anticipar. O
+primeiro instrumento da pratica é a voz: e, para essa ser engraçada no
+falar, ha de ter estas propriedades, _Ser clara, branda, cheia, e
+compassada_: porque a voz escura confunde as palavras, a aspera e secca
+tira-lhes a suavidade; a muito delgada e feminina faz impropria a acção
+do que fala; a muito apressada empeça e revolve as razões, que por si
+podem ser muito boas: não trato das que a natureza inhabilitou para esta
+perfeição, como é a voz do gago, do cicioso, e do rustico grosseiro: mas
+na do cortezão tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam
+com a voz tão mettida por dentro, que deixam as palavras para si, e os
+ouvintes ás escuras, que lhes é necessario estar espreitando o que lhes
+querem dizer: e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham
+as orelhas dos que escutam; e outros, que falam tão apressadamente, que
+parece que levam esporas na lingua.--Entre vozes (disse Solino) tambem
+eu hei de soltar a minha: e no que é a voz cheia, que dizeis, quizera
+saber a differença; porque eu tenho que ainda é peor a muito grossa que
+a feminina: porque ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo,
+que espirito de voz. E egualmente aborrece vêr um homem com um rosto
+como uma peneira, muito versudo da barba e sobrancelhas, sahir com voz
+de frauta muito exprimida.--O meio (respondeu o doutor) em todas as
+cousas é a perfeição d'ellas: e se estaes bem lembrado, tambem deixei de
+fora a voz grosseira, como a quem a natureza privou da graça no falar.
+Depois da voz, os olhos dão muito espirito ás razões: porque, como elles
+são as janellas d'alma, por elles se communica vida ás palavras: e assim
+hão de ser claros, alegres e moviveis: porque os muito intensos, e
+extendidos entristecem; os muito apertados e franzidos movem a desprezo;
+os muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem temor; e posto
+que os olhos, por risonhos, nunca perdem a graça, parece que nas
+praticas graves, e de importancia, não hão de ser muito
+chocalheiros.--N'isso tendes vós muita razão (disse D. Julio) que ha
+homens. que dão olhado ao que falam: porém não vos esqueçaes das
+sobrancelhas.--Tambem a acção do falar toma muito d'ellas (tornou o
+doutor) porque franzidas fazem carranca, e mostram que fala um homem com
+melancholia; baixas representam tristeza, ou vergonha; muito arqueadas
+significam espanto; e levantadas alegria. E não menos convém a
+composição da barba, que fincada nos peitos mostra desconfiança ou
+porfia; e posta no ar vangloria: e o pescoço, que nem se ha de ter tão
+levantado que faça soberba nas palavras, nem tão baixo, que pareça que
+não pode com a cabeça; a qual não ha de estar tão firme, que pareça que
+a espetaram n'elle; nem se hade quebrar para todas as partes como
+grimpa. Da mesma maneira a bôcca ha de ser quieta quando fala, sem estar
+mordendo beiços, nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem com
+o riso se ha do mostrar tão descuidada, que as entorne pelos cantos; nem
+tão apertada, que offenda a boa pronunciação e graça d'ellas; no que vae
+mais á lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos que todas
+as nações orientaes naturalmente opprimem a voz na garganta quando
+falam, como os Indianos, Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os
+Mediterraneos referem as palavras aos padares da lingua, como fazem os
+Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os occidentaes, como os Francezes,
+Italianos, e Hespanhoes, mastigam as palavras entre os dentes, e as
+pronunciam na ponta da lingua: posto que em alguns logares, conquistados
+outro tempo dos Africanos, ficaram usos e palavras, que ainda obrigam a
+sua pronunciação; mas os que estão mais izentos d'ella são os
+Portuguezes, como aqui na primeira noite da nossa conversação se tocou.
+Além d'estas partes do rosto tem o movimento do corpo o seu logar: que
+pode parecer airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que fala
+nos contos, historias, graças ou galanterias, não representando o que
+diz com meneios de comediante, nem com modestia e compostura sobeja, mas
+com uma boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no relatar mais
+ligeiro, no arguir esperto, no desculpar ou defender-se mui brando; nem
+fazer badallos dos pés quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar
+com os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais gestos ou
+acções, que tenho tocado, se ajuda a pratica do movimento das mãos, que
+ha de ser com um leve ar e compostura, com que o discreto favorece as
+palavras que diz, não falando com ambas ellas, nem chegando com alguma
+perto da vista dos ouvintes; e guardando estas e outras advertencias
+semelhantes, pode fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar,
+emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo com o cuidado as
+graças, que ella lhe dotou: não tratando dos incuraveis, a que já não
+possam valer estes remedios; mas dos que á falta d'elles, e com o largo
+discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.--Parece que daes
+a entender, senhor doutor, (disse Pindaro) que ha mais algumas
+advertencias, que podem ser de importancia n'esta materia: e, para a
+tratar de fundamento, não é razão que fiquem de fora.--Para essas e para
+o mais, que tenho dito (respondeu elle), nomearei alguns vicios, que são
+contra o bom termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditarão as
+minhas opiniões, a que eu não posso nem quero dar nome de preceitos,
+posto que são fundadas em os melhores dos que d'esta materia escreveram.
+
+
+O primeiro é _escutar-se um homem a si proprio quando fala, por se
+contentar do que diz_.
+
+O segundo _repetir outra vez o que tem dito, com os olhos nos ouvintes,
+para que lh'o gabem_.
+
+O terceiro _deter-se tanto nas palavras como que as vae pezando, e
+compondo para as dizer_.
+
+O quarto _ir-se arrimando a bordões para que lhe accudam em tanto as
+palavras_.
+
+O quinto _ir á mão ao que quer responder, por querer falar tudo_.
+
+O sexto _bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios ditos_.
+
+O setimo _borrifar as palavras com o humidade da bôcca, por falar com
+vehemencia_.
+
+
+--Vós (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados mortaes contra a
+discrição, e cortezania, que não merecerá n'ella ter graça quem n'elles
+estiver culpado. Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque
+receio que falaes de proposito contra alguem.--É tão má a vossa natureza
+(lhe tornou o doutor) que quer perverter a minha boa tenção, e d'estes
+peccados contra a policia tirar outros que offendam a amisade: vale-me
+porém ser a vossa conhecida. E proseguindo a materia dos vicios, os tres
+primeiros nascem do amor proprio que cada um tem a suas cousas, a que os
+gregos chamaram _Filaucia_: os quatro seguintes, ou da ignorancia, ou do
+descostume e falta de doutrina cortezã. Escutar-se um homem, quando
+fala, é de quem bem lhe parece o que diz: e posto que o vicio é natural,
+tem ruim patria; que o homem, que se escuta, é lisongeiro de si mesmo, e
+elle se paga por si de suas palavras, vendo-se e enfeitando-se n'ellas
+como em espelho, conforme os proverbios antigos, que _a cada um parece o
+seu formoso_; e outro, que _não ha melhor musico que cada um a si
+mesmo_; e que _a cada um contenta o seu rosto, a sua arte, e cheira bem
+o seu suor_.--Outro (disse Solino) me parece a mim melhor que todos
+esses, porque os declara; e é que _quem se contenta a si contenta a um
+grande nescio_; que não pode deixar de o ser o que do seu engano se
+satisfaz. E não achareis discreto d'esse feitio, que não caia nos tres
+primeiros laços: porque são encadeados uns com outros: e em se escutando
+um homem a si, o vereìs ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas,
+enchendo com ellas a bôcca, e pronunciando-as com muito
+cuidado.--D'esses disse Horacio (accudiu Pindaro) que _falavam empolas_;
+é está muito bem o nome á inchação das suas palavras. Mas o segundo
+vicio, que é da repetição, parece menor erro; porque o que é bem dito se
+pode repetir, conforme ao que disse o poeta; e só será a culpa quando o
+dito não fôr acertado.--Essa estimação não ha de ser feita por seu dono
+(respondeu Solino), nem elle pode pôr o preço a suas palavras, cuidando
+que fala ouro; em obras alheias, referidas por outrem, tem logar essa
+desculpa; e não se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a
+repetição do que disseram, estão puxando por vós a que lh'as gabeis, e
+vos contenteis á força da sua razão; e mettem de quando em quando um
+_entendeis-me? estaes commigo? digo bem? que vos parece? não sei se me
+declaro_. De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem dos outros
+nescios. E com este cahem logo no terceiro, que é deter-se muito em cada
+palavra, soltando-as por compasso, dilatando uma da outra, porque se não
+peguem: e é vicio, que fará ser aborrecivel a todo o mundo a quem o tem;
+e até á mesma discrição fará importuna este mau uso d'ella. E mais é mui
+certo andar annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle; que
+tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria, que não ha quem o leve. O
+quarto não entendo bem, porque não sei ao que chama _bordão_ o
+doutor.--Sabei (disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o
+que fala, quando as palavras lhe cançam, se chamam _bordões_, e são de
+duas maneiras: uns que pertencem, ou para melhor dizer, que são
+impertinencias nas acções do falar; e outros nas palavras: os primeiros
+são mais culpaveis que os segundos, porque ha um que não sabe praticar
+comvosco sem vos estar desabotoando, ou alimpando o cotão, e arrancando
+a frisa do vestido: outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou
+travando-vos do braço vos molesta: e ainda ha alguns tão desatinados,
+que vos dão com a mão nos peitos a cada cousa que dizem: e outros que,
+se deixam de entender com quem praticam, o hão comsigo, não estando
+quietos com as mãos; esgravatando os dentes, ou bolindo nos narizes e
+falando, tirando cabellos da barba, e mordendo as unhas; e outros vicios
+semelhantes, que servem como uns espaços e reclamos, a que lhe acodem as
+palavras. Os segundos são mettidos na mesma pratica com alguns, que em
+cada palavra d'ella mettem um _diz_, _assim que digo_, _tal e qual_,
+_sim senhor_, _vae vem_, _então_, _senão quando_, _espere vossa mercê_,
+_assim que senhor_, _estaes commigo_; e outros muitos, fora os que vós
+apontastes no vicio da repetição, que são bordões da primeira
+classe.--Certo (disse Feliciano) que tem muita razão o doutor em dizer
+que este vicio e os dois, que se seguem, nascem do descostume, e falta
+da doutrina cortezã: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um
+estudante, que na opinião dos mais não era tido por o que falava peior,
+que, por o grande odio, que tinha aos bordões, inventou um modo
+excellente para os desterrar da conversação dos amigos, com que tratava
+de ordinario; e foi um jogo de não menor engenho, que utilidade; e pelo
+exercicio d'elle se perdeu até a semente dos bordões entre aquelles
+amigos.--Não vos esqueçam (disse Leonardo) os termos de tão bom jogo,
+que já pode ser que occupemos com elle uma noite, mais bem empregada, do
+que o remedio será necessario para os presentes, porque não são dos
+homens limitados, que se apegam a estes encostos: e se quereis
+conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-hão n'ella mais
+bordões, do que tem de palavras.--O quinto vicio (proseguiu o doutor) é
+incomportavel; porque ha homens tão sôfregos de falarem tudo; que
+atalham as palavras ao que lhes começa a responder, querendo anticipar
+com o seu entendimento a tenção alheia.--Esses taes (disse Solino) falam
+a duas mãos, porque querem que vá tudo por elles. E como me acho entre
+esses, por não pedir por mercê que me ouçam uma palavra, deixo o feito
+sem parte; e como ficam falando á reveria, desfaço as suas sentenças com
+uma bochecha de agua.--Esses faladores são como cigarras, que atrôam, e
+não deleitam (disse D. Julio) e é sentença mui approvada entre cortezãos
+que tres cousas não ha de haver entre elles demasiadas, _sobeja parola,
+comprida porfia, e grande rizada_; porque _quem muito fala d'elle damna_
+(como diz o rifão) _e com quem aporfia não disputes; e onde ha muito
+riso ha pouco siso_; que todos estes pertencem á conversação.--Essa
+terceira parte (proseguiu o doutor) é do sexto vicio, que é bracejar
+quando fala, e festejar com risadas seus proprios ditos o que se quer
+vender por discreto. E assim vereis alguns, que falam ás pancadas; e se
+acharem um pulpito deante, o farão em pedaços, como se a policia podéra
+soffrer o desassocego e inquietação da sua esgrima. As risadas, além de
+arguirem falta de entendimento, são mais impertinentes quando um homem
+festeja seus proprios ditos; que, para terem galanteria, elle, que os
+diz, ha de ficar sisudo; e os que o ouvem, risonhos. E assim os
+engraçados de nossos tempos que conhecemos, e outros, que deixaram esse
+nome, sabiam festejar moderadamente as graças alheias, e dissimular o
+riso nas suas, fazendo menos caso d'ellas.--Duas cousas (disse D. Julio)
+se me offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a primeira,
+que moderação se ha de usar no riso, com que um homem festeja o conto ou
+graça do que falla deante d'elle?--Os homens (respondeu o doutor) não
+hão de ser tão sevéros que nunca riam como Catão Censorino, Anaxagoras,
+e Sócrates: nem como Marco Crasso, que rio uma só vez na vida; pois é
+definição e differença do homem _ser animal racional_, e a sua propria
+paixão é _ser rizivel_: porém não menos se ha de guardar de ser
+desentoado nas risadas; que, para n'isto haver uma moderação politica,
+lhe buscaram os antigos muitas differenças: e deixando o riso Jonio,
+Megarico, Sardonio, e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores gregos,
+e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, não ha de rir o homem com
+a bôcca aberta que dá grande tom ao riso, nem com os beiços apertados,
+como costumam os que tem cieiro n'elles; nem sómente mostrando os
+dentes, que a estes chamaram os latinos _riso de cavalgaduras_; nem com
+um riso molle e affeminado, como era o Jonio; mas com uma boa sombra e
+graça na bôcca e no ar do rosto, com que se mostre, agradecido do que
+escuta. E se esta resposta vos satisfaz, bem podeis continuar com a
+segunda pergunta.--Ainda que as minhas (tornou elle) não fôssem muito a
+proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam desculpadas, como
+será esta: Se na graça, que outrem conta, em que eu a não acho, sou
+obrigado em primor cortezão a me mostrar risonho? Obrigado é o cortezão
+(respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com quem se pratica: e
+não o poderia ser quando seccasse o riso na occasião, em que outrem
+mette cabedal para o provocar a elle; que seria mettel-o em
+desconfiança.--Eu me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e já agora
+podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que discorrer segundo me
+parece; que nao é mais que um descuido e desattento dos que, mostrando o
+fervor do animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem, e ás
+vezes a quem os escuta.--Não cuido eu (disse Feliciano) que são esses os
+de que trata o proverbio, que _falam fontes de prata_.--Antes (tornou
+Solino) lhes chamara eu _homens que falam frescos_ que nem uma manhã de
+abril deixa tao orvalhado um campo do boninas, como elles a roda dos que
+os estão ouvindo; e para estas immundicias houvera de ter a discrição um
+Almotacé da limpeza.--Desterrados pois (continuou o doutor) da
+conversação estes sete inimigos d'ella, parecerá um homem cortezão aos
+que o escutarem, falando agradavelmente nas palavras as leis que agora
+lhe der o senhor Leonardo: que posto que a verdadeira discrição seja
+natural, nenhum dos dons da natureza deixa de receber beneficio da arte,
+da continuação e dos costumes.--Muito depressa vos quereis desobrigar
+(respondeu Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha porta,
+dando algum toque na murmuração, como déstes no riso: que tambem estes
+preceitos são fóra das palavras.--O riso sim (lhe tornou elle), mas não
+o murmurar; que é culpa que não se attribue á pratica, posto que alguns
+digam que sem esse sal a mais discreta é pouco saborosa: e é porque ha
+muitas cousas, que não queremos dizer, e folgamos em extremo de as
+ouvir. Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos alheios de
+gente ociosa, com risco proprio. Porém, por fazer as pazes comvosco,
+entrarei em contendas, de que estou desobrigado, tocando na murmuração
+engraçada; e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma sentença
+excellente, que diz que _dos animaes bravos a peior mordedura é a do
+praguento_; e _dos mansos a do lisongeiro_. O praguejar é maldade, o
+lisongear traição, o motejar levemente galantaria: o discreto nem ha de
+morder, nem lamber; porém picar levemente, e com arte, é graça da
+conversação. Para o que, deixando auctoridades, exemplos, preceitos, e
+cousas infinitas, que poderão levar grande tempo: o cortezão, quando
+arguir para graça, ha de considerar tres cousas: o que fala, com quem, e
+deante de quem. O primeiro por fugir de materia em que o presente
+desconfie: o segundo por não motejar com quem não saiba pesar e conhecer
+as galantarias: o terceiro por não falar graças, de que, algum dos
+ouvintes se envergonhe: porque de outro modo, sendo a graça pesada,
+perderia o nome. Não falo do murmurar de ausentes, que em todo o modo me
+parece culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias as
+vossas, que a todos agradam, e que, se aos ouvintes não fazem fastio,
+tão pouco aos offendidos causam queixume.--Lembra-me (disse Pindaro) que
+no quinto vicio condemnastes o querer um homem falar tudo: e não déstes
+regra aos que falam pouco.--Seria (respondeu o doutor) por me conformar
+com uma sentença, que diz: _Aos que pouco falam, poucas leis lhes
+bastam_. Além d'isto até agora não tratei dos louvores do silencio, nem
+da verdade d'aquelle dito: _Assás sabe o que não sabe; se calar sabe_. E
+o outro, que: _O nescio calando, parece-se com o discreto_. Falo sómente
+da maneira de praticar entre os amigos, onde as palavras não tem mais
+que estas duas medidas, que são _falar a tempo_, e _a proposito_: a
+tempo, porque nem em todos se pode dizer tudo o que é bem dito.
+
+Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o estomago, e
+offendam ao gôsto, ainda que em outros logares podem dar muito. Entre
+enojados não dizer graças, ou contos, que desautorisem a tristeza, e
+provoquem a riso. Entre enfermos não contar historias, que causem temor
+ou desconfiança em seus males. Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas
+que saibam a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha muitos, que
+se desviam do principio da pratica, de maneira que do primeiro salto vão
+parar a Flandres; outros, que em tudo querem metter uma historia que
+sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que ouviram, um sonho que
+sonharam; e pela deleitação, que tomam de contar coisas proprias, perdem
+o decóro, com que hão de escutar as alheias, e o tento do que elles
+mesmos respondem: e tambem me a mim parece que me vou mettendo nas que
+não são minhas; que me fizeram passar os termos de maneira, que nem a
+meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda parte d'este
+discurso.--Vós dizeis tudo tão bem (tornou Leonardo) que se perde pouco
+no que eu havia de accrescentar, quanto mais, que o que se dilata não se
+tira; e já ámanhã terei cuidado, ou espaço de cuidar no que hei de
+dizer, por não cahir no terceiro peccado de ir compondo as palavras com
+o vagar que enfastia.--Em casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a
+cêa; e em entendimento tão rico, como o vosso, nem de cousas, nem de
+palavras pode haver pobreza: guarde-vos Deus de uns meus senhores, que
+as pedem fiadas aos livros de cavallarias, com suas sentenças de cabo de
+capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um dos ouvintes,
+varreu-lhes toda a prégação da memoria, e vão com a pratica em muletas
+até tomarem assento com muito trabalho seu, e de quem os escuta.--Hora,
+não o dêmos tão grande ao senhor Leonardo (disse D. Julio) que hoje o
+não deixemos dormir, pois ámanhã o havemos de despertar; que as duas
+noites passadas foram de hospede, e a conversação dos que são de mais
+gôsto, roubam melhor o tempo; e comtudo. a parte que se tira ao repouso,
+sempre faz falta,
+
+Começaram-se os outros a levantar, e o velho ainda os deteve em pé
+dizendo:--O senhor D. Julio em tudo tem tenção de me fazer mercês; porém
+esta não é das em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar o
+tempo do somno para viver, que o da vida para dormir. E se é verdade que
+na conversação de tão bons amigos só se vive, qual posso eu ter melhor,
+que, fazendo estas noites mais compridas, alargar a minha edade? que
+sentença é antiga, que _o tempo, em que dormimos, perdemos da vida_:
+pelo que chamaram ao somno _imagem da morte_.
+
+
+
+
+DIALOGO IX
+
+DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS
+
+
+Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio de tão proveitosa
+conversação, de tal maneira, que nenhum perdia o sentido das materias,
+que ficavam tocadas, para se armarem de razões, contos, e exemplos, com
+que cada um mostrasse aos outros sua sufficiencia. N'aquella porém da
+pratica vulgar ficou Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que
+tudo pende de opiniões incertas; como porque o doutor lhe cortara a
+urdidura, com que havia de ir tecendo o seu discurso, desejava mudar o
+proposito a outra cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era o
+de todos, não via caminho de o desviar. Veiu pois a noite do outro dia,
+e com ella os companheiros mui alvoroçados; aos quaes elle festejou com
+a mesma alegria; e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se hei de
+falar verdade, eu estou tão carregado com o officio que de novo me
+déstes, que me não atrevo a dar boa conta d'elle; porque todas as que
+fiz para me dispôr a isso, me sahiram erradas: e me parece tão
+difficultoso falar de cuidado, e ordenadamente na materia em que se ha
+de praticar na lingua portugueza, que me hei de chamar ao engano, e o
+maior de todos foi darem-me espaço para temer, quando eu cuidei que o
+tomava para me prevenir.--Em vós (disse D. Julio) é gentileza esse
+receio; e ainda que fôsse fingido, eu o tenho por a primeira regra de
+falar bem, pois ensinaes aos discretos a não falarem com sobeja
+confiança; e pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa
+achara difficuldade, que é pôrdes em regras, e preceitos, o que tendes
+por natural, e por costume; que servieis mais para exemplo de quem vos
+ouve, que para mestre dos que não podem comprehender a vossa
+doutrina.--Se com titulo de me fazerdes mercê (respondeu elle) quereis
+que desconfie, mais facil vos será isso, que a mim o acertar: mas, para
+que não erre no principal, digo que não posso fazer escola de falar bem,
+mormente entre cortezãos tão discretos, que cada um me poderá dar
+preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas a minha opinião,
+faço-o para com as razões dos que a contradisserem aprender a
+acertar.--Parece-me (disse Solino) que as melhores duas lições para os
+discretos são essas primeiras, _receio_, e _humildade_. E passando
+adiante, começae já a descobrir essa rhetorica, nova á lingua
+portugueza.--Por escusar (tornou elle) uma muito comprida; e dilatada em
+preceitos, e limites, que á força se hão-de misturar com os da latina; e
+por evitar a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes para
+outras noites, accudirei brevemente a alguns vicios da lingua
+portugueza, não fugindo dos termos da latina, nem levando-os a elles por
+fundamento, mas fazendo-o n'estas cinco advertencias:
+
+
+_Falar vulgarmente, com propriedade._
+_Fugir da prolixidade._
+_Não confundir as razões com a brevidade._
+_Não enfeitar com curiosidade as palavras._
+_Não descuidar com a confiança._
+
+
+--Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica abreviada, que
+podia servir a todas as linguas: porque a confusão dos muitos preceitos
+e figuras, que lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem
+comprehender debaixo d'esses cinco muito bem achados. E pois Solino
+chamou aos meus vicios sete peccados contra a discrição, podia chamar a
+estes preceitos os cinco sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como
+entendeis _falar vulgarmente com propriedade_, que em parte me parece
+que o vulgar não guarda muitas vezes o respeito ao proprio? --Falar
+vulgarmente (respondeu Leonardo é qual os melhores falem, e todos
+entendam sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados, nem
+antigos, e desusados: senão communs, e correntes, sem respeitar origens,
+derivações, nem etymologias; que a linguagem mais pende do uso, que da
+razão: e por isso se chama lingua materna, porque nas mulheres, que
+menos sahem da patria, se corrompe menos o uso do falar commum, posto
+que ellas saibam pouco da razão de seus principios. E d'isto, e do falar
+com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos sobre as cartas
+missivas; o que não será necessario repetir agora de novo, mas sómente
+dar mostra de que estes dois termos se não encontram: que se o falar
+proprio, é com palavras naturaes, e menos figuras da rhetorica, para
+ornamento d'ellas; e não usar dos tropos de allegorias, metaforas,
+translações, antonomazias, antifrazes, ironias, enigmas, e outras
+muitas; isso se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente as
+palavras proprias, pois sómente algumas translações, antonomazias, e
+ironias se acham n'ella; e mui raramente outras figuras: e posto que
+n'isto me detenha mais do que determinava, me hei de embaraçar com estas
+três figuras. _Translação_ é figura quando passamos as palavras de uma
+cousa a outra, porém com uma semelhança conveniente, como quando dizemos
+_uma fonte de sabedoria_, _um pôço de lettras_, _um rio de ouro_, _um
+thesouro de partes_, ou _de graças_. Esta figura se costuma usar para um
+de quatro effeitos, ou para evitar palavras deshonestas, ou para
+abreviar razões compridas, ou por accudir á pobresa da linguagem, ou por
+aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz officio mui
+necessario, que é dar a entender, por palavras alheias, cousas que sôam
+mal por o seu nome proprio, como dizer: _uma mulher que usa mal de sua
+formosura_; _que se vende a preço_; _que se entrega a Venus_; _que serve
+o seu gôsto_. _Um homem affeiçoado a ramos_; _perdido por Bacco_;
+_esquecido de si_. Tambem, para abreviar razões, é de muita utilidade na
+pratica, como quando dizemos, _ficou em secco_, _deitou azar_, _torceu a
+orelha_, _deu cinco_. Os outros dois modos me parecem na pratica
+sobejos, e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de fugir n'ella o
+enfeite, e ornamento das palavras: e o outro, porque não faltam na
+lingua portugueza as necessarias para cada um declarar o que lhe convém
+dizer. A figura da _Antonomazia_ se usa algumas vezes na conversação:
+posto que só nas pessoas, ou partes do mesmo reino será mais aceite.
+Entre nós, quando nomeamos _o Poeta_, se entenderá Luiz de Camões, _o
+Historiador_, João de Barros: _o Duque_, o de Bragança: _o Marquez_, o
+de Villa Real: _a Cidade_, a de Lisboa: _a Coutada_, a de Almeirim; e
+outras semelhantes cousas, ás quaes a grandeza deu superioridade das
+outras do mesmo nome. A _Ironia_, mais que todas, é propria na
+conversação, pois consiste mais na graça, riso, ou dissimulação do que
+fala, que nas palavras: esta se considera em duas maneiras, a primeira
+tirando a propriedade ás cousas; a segunda, furtando o sentido ás
+razões; uma é mero escarneo; a outra dissimulada subtileza. A primeira,
+quando do fraco dizemos que é um Hercules: do louco, que é um Catão: do
+miseravel, que é um Alexandre: e da mulher pouco casta, que é uma
+Helena. A segunda, como se disseramos: _Nunca lhe cahiu a lança da mão_
+ao que a não tomou n'ella: _não lhe chegou ninguem com a espada_,
+falando do que fugiu: _nunca pediu nada_, falando do que furta: _paga
+mais do que deve_, entendendo o que paga por justiça. No que pertence ás
+figuras me parece que basta esta lembrança. E as palavras, que se devem
+escusar para falar vulgarmente, não hão de ser estrangeiras, nem
+esquisitas, nem innovadas, nem tão antigas, que se perdesse já o uso
+d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes, e lettrados, que
+introduziram as latinas na conversação, fazendo a linguagem de
+misturas.--Essa culpa (respondeu o doutor) é dos mancebos que como no
+praticar não teem a madureza, que só costuma a ensinar a experiencia,
+cuidam que se melhoram em falar escuro, e elegante, fazendo na prosa
+accentos de musica, ou medidas de poesia.--Muitos lettrados sei eu
+(disse Solino) que não são moços, e n'isso o querem parecer, que falam
+uma linguagem como sereia, mulher até aos peitos, e ametade peixe; e são
+homens, a que não escapa por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a
+nossa lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga, que perde
+muito de seus quilates.--Não tenho por grande erro (acudiu Pindaro)
+quando a conversação é entre doutos, usar de algumas palavras tiradas do
+latim, quando forem melhores que as com que nos podiamos declarar em
+portuguez: antes creio que, se isto se fôra introduzindo, viera a nossa
+lingua pouco a pouco a se apparentar com ella, e ficar tão polida, e
+apurada como a toscana.--E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou do
+parentesco, se não foi chamarem-lhe alguns auctores _bôrra da lingua
+latina_?--O caso é (disse Solino) que vós devieis ser affeiçoado á
+phrase de um cirurgião de Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez
+famoso, que disse á moça de um ferido, a quem curava: _Traga-me um panno
+corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice._ E a um rustico, que
+vinha esmechado, respondeu que não tinha mais lesa que a superficie da
+fronte; e tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria, se
+dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade. E certo que tenho
+raiva, sabendo que a lingua portugueza não é manca, nem aleijada, vêr
+que a façam andar em muletas latinas os que a haviam de tratar
+melhor.--Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem com isso se contentam; e
+andam buscando palavras muito esquisitas, que por termos mui escuros
+significam o que querem dizer. Como um que se queixava de sua dama, que
+de ciosa andava inquirindo os escrutinios do seu pensamento. E outro a
+um barbeiro disse, que lhe rubricára a parede com a sangria.--Alguns
+(disse o doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente de falar,
+que por taes eram reprovados: porém o uso das palavras innovadas não
+achei ainda entre os portuguezes, como os hespanhoes e italianos. Nem
+tenho por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito bem usadas
+em outro tempo, e desterradas, sem razão, na nossa edade.--Não faltam
+(respondeu Leonardo) curiosos, que por acharem pobre a lingua, ou por
+elles o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo: como um
+lettrado, que querendo auctorisar umas casas para certa occasião, disso:
+_É necessario que as paredes d'este domicilio sejam alreadas, e que o
+fato uzivel fique retendo nas ultimas d'elle_. E outro disse de um
+navegante, _que fôra felice, se não fortuneara tanto no exito da
+viagem_. E ao que dizeis das palavras antigas, posto que em algum tempo
+fôssem boas, não o ficam sendo na parte em que se perdeu o uso d'ellas;
+pois, como já disse, esse só é o fundamento e razão das palavras: e
+assim, não diremos _leixou_, _trouve_, _dixe_, _ca_, _sicais_, _acram_,
+_leidisse_, e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos de
+cujos escriptos podemos aprender a perfeição da lingua portugueza. E
+bastou o contrario uso para n'esta parte poderem seguir os que agora
+escrevem, e falam bem.--Com uma só razão (accudiu Solino) condemnára eu
+a toda essa turba dos que no falar querem parecer singulares, e é que
+não falam para que os entendam melhor, senão para que pasmem d'aquella
+sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber que é lanço
+muito certo, que os que se contentáram com saber pouco do latim, falam
+mais alatinado, para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim como
+virdes cirurgião, ou boticario, que acabou a grammatica na quinta
+classe, ponde-lhe abrolho, que o não tirareis com vinte galgos á estrada
+do falar commum e se me esperardes estudante de philosophia em grade de
+freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que vos não entendereis
+com o sentido d'ella. E dos que falam pela tempera velha, eu o não
+consentira, senão em homens de barba larga, penteada sobre os peitos,
+com carapuça redonda, e pelote de abas pregadas, que vos conte historias
+d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em Almeirim, e de quando D. Rodrigo
+de Almeida tomou por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe
+nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos justos de agora,
+e barbinhas turquescas tiradas pela fieira, e tintas sobre branco,
+palavras d'aquelle tempo parecem remendo de outra côr.
+
+
+FIM DO 1.^o VOLUME
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Advertencia 5
+
+Dialogo I--Argumento de toda a obra 7
+
+Dialogo II--Da policia e estylo das cartas missivas 22
+
+Dialogo III--Da maneira de escrever, e da differença
+das cartas missivas 35
+
+Dialogo IV--Dos recados, embaixadas e visitas 54
+
+Dialogo V--Dos encarecimentos 70
+
+Dialogo VI--Da differença do amor e da cobiça 81
+
+Dialogo VII--Dos poderes do ouro e do interesse 95
+
+Dialogo VIII--Dos movimentos e decoro no praticar 110
+
+Dialogo IX--Da pratica e disposição das palavras 121
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+-----------------------+---------------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+-----------------------+---------------------------+
+ |#pág. 67 | os proprio filhos | os proprios filhos |
+ |#pág. 91 | totos | todos |
+ |#pág. 118 | descuido) | descuido |
+ +----------+-----------------------+---------------------------+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Côrte na aldeia e noites de inverno
+(Volume I), by Francisco Rodrigues Lobo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE ***
+
+***** This file should be named 37757-8.txt or 37757-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/3/7/7/5/37757/
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+works. See paragraph 1.E below.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+ <title>Côrte na aldeia e noites de inverno (Vol. I)</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume
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+Title: Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
+
+Author: Francisco Rodrigues Lobo
+
+Release Date: October 14, 2011 [EBook #37757]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE ***
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+</pre>
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+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido à
+quantidade de erros tipográficos existentes neste texto,
+foram tomadas várias decisões quanto à
+versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrará a lista de erros corrigidos.<br />
+<br />
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Outubro 2011)
+</div>
+</div>
+<br />
+<br />
+<div class="bbox"><br />
+<h3>BIBLIOTHECA UNIVERSAL</h3>
+<h4>ANTIGA E MODERNA</h4>
+<br /><div class="sbreak"><hr /></div>
+<h2>CORTE NA ALDEIA <br />
+<br />
+E <br />
+<br />
+NOITES DE INVERNO </h2>
+
+<h4>POR <br />
+<br />
+FRANCISCO RODRIGUES LOBO </h4>
+<br /><div class="sbreak"><hr /></div>
+<h4>VOLUME I</h4>
+<div class="sbreak"><hr /></div><br />
+
+<h4>16.ª SERIE&mdash;NUMERO 62</h4><br />
+
+<div style="text-align: center">
+<img src="images/fig01.png" width="150" height="156" alt="" /></div>
+<br />
+<h4>LISBOA <br />
+COMPANHIA NACIONAL EDITORA <br />
+<br />
+Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES <br />
+40&mdash;Rua da Atalaya&mdash;52 <br />
+<br />
+FILIAES: Praça de D. Pedro, 127, 1.º andar, PORTO <br />
+38, rua da Quitanda. Rio de Janeiro <br />
+<br />
+1890</h4>
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br /><div style="text-align: center"><img src="images/fig02.png" width="100" height="53" alt="" />
+<br />
+LISBOA <br />
+<br />
+<span class="smallcaps">typographia da companhia nacional editora</span><br />
+<img src="images/fig03.png" width="380" height="56" alt="" />
+<br />
+<b><em>309, Rua da Rosa, 309</em></b><br />
+<br />
+1890<br />
+<img src="images/fig04.png" width="120" height="77" alt="" />
+</div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<div class="quote">
+Em quanto está o avaro em seu thesouro<br />
+Cevando os olhos, dando ao pensamento<br />
+Materia a vã cobiça de mais ouro.
+<br />
+<br />
+<div class="signature"><em>Primavera</em>, <span class="smallcaps">Floresta</span>, 5.</div></div>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<a name="c1" id="c1"></a><h2>ADVERTENCIA</h2>
+<br />
+<div class="breaks"><hr /></div>
+<br />
+<br />
+A <em>Noticia biographica</em> de Francisco Rodrigues
+Lobo encontram-a os leitores á frente
+do volume 23.º da <em>Bibliotheca Universal Antiga
+e Moderna</em>.
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<h2>CÔRTE NA ALDEIA <br />
+<br />
+E <br />
+<br />
+NOITES DE INVERNO</h2>
+<br />
+<br />
+<div class="breaks"><hr /></div>
+<br />
+<br />
+<a name="c2" id="c2"></a><h2>DIALOGO I</h2>
+<br />
+<h3>ARGUMENTO DE TODA A OBRA</h3>
+<br />
+<br />
+Perto da cidade principal da Luzitania está uma graciosa
+aldeia, que com egual distancia fica situada á
+vista do mar oceano, fresca no verão, com muitos favores
+da natureza, e rica no estio e inverno com os
+fructos e commodidades, que ajudam a passar a vida
+saborosamente; porque com a vizinhança dos portos
+do mar por uma parte, e da outra com a communicação
+de uma ribeira, que enche os seus valles e outeiros
+de arvoredos e verdura, tem em todos os tempos
+do anno o que em differentes logares costuma buscar
+a necessidade dos homens: e por este respeito foi sempre
+o sitio escolhido para desvio da côrte, e voluntario
+desterro do trafego d'ella: dos cortezãos, que alli tinham
+quintas, amigos ou heranças, que costumam ser
+valhacouto dos excessivos gastos da cidade. <br />
+<br />
+Um inverno em que a aldeia estava feita côrte com
+homens de tanto preço, que a podiam fazer em qualquer
+parte, se juntava a maior d'elles em casa d'um antigo
+morador d'aquelle logar, que tambem o fôra em outra
+edade da casa dos reis, d'onde com a mudança e experiencia
+dos annos, fez eleição dos montes para passar
+<span class="pagenum">[8]</span>
+n'elles os que lhe ficavam da vida, grande acerto de
+quem colhe este fructo maduro entre desenganos. Alli
+ora em conversação aprazivel, ora em moderado e quieto
+jogo se passava o tempo, se gosavam as noites, se
+sentiam menos as importunas chuvas e ventos de novembro,
+e se amparavam contra os frios rigorosos de
+janeiro. <br />
+<br />
+Entre outros homens, que n'aquella companhia se
+achavam, eram n'ella mais costumados, em anoitecendo,
+um letrado que alli tinha um casal, e que já
+tivera honrados cargos do governo da justiça na cidade,
+homem prudente, concertado na vida, douto na sua
+profissão, e lido nas historias da humanidade: um fidalgo
+mancebo, inclinado ao exercicio da caça, e muito
+affeiçoado ás cousas da patria, em cujas historias estava
+bem visto: um estudante de bom engenho, que
+entre os seus estudos se empregava algumas vezes nos
+da poesia: um velho não muito rico, que tinha servido
+a um dos grandes da côrte, com cujo galardão se reparara
+n'aquelle logar, homem de boa creação, e, além
+de bem entendido, notavelmente engraçado no que dizia,
+e muito natural de uma murmuração que ficasse
+entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante. Ao
+senhor da casa chamavam Leonardo, e ao doutor Livio,
+ao fidalgo D. Julio, ao estudante Pindaro, ao velho
+Solino. Fóra estes havia outros de quem em seus logares
+se fará menção, que assim como os mais, não eram
+para engeitar em uma conversação de poucas porfias. <br />
+<br />
+Uma noite do novembro, em a qual já o frio não dava
+logar a que a frescura do tempo convidasse ao sereno,
+estando ainda Leonardo á mesa, porém no fim das
+iguarias, bateram á porta Pindaro e Solino, aos quaes
+o velho mandou abrir com grande alvoroço e festa;
+porque a de o buscarem era a que mais estimava por
+sua. Subiram, agasalhou-os com contentamento e cortezia.
+Sentaram-se perto da mesa, e disse o senhor da
+casa:&mdash;Peza-me que não viesseis mais cedo, que me poderieis
+acompanhar n'este trabalho tão necessario da
+velhice. Mas se ainda virdes na mesa alguma cousa de
+vosso gosto, lançae mão d'ella, que de mistura achareis
+a minha boa vontade.&mdash;Eu sei (disse Pindaro) a
+que tendes de me fazer mercê; mas venho ceiado e tambem
+Solino, a quem tive por hospede, e já a conversação
+<span class="pagenum">[9]</span>
+me dobrou o gosto das iguarias.&mdash;Eram ellas tão
+boas (respondeu Solino) que a mim me davam graça.
+Porém o serdes vós tào miudo nas cortezias, me deu
+muita pena: e já que sois tão discreto, e tanto meu
+amigo, d'aqui adeante emendae-vos nas ceremonias da
+mesa; e adverti ao vosso moço que não acompanhe
+com os olhos os bôccados dos hospedes, até o estomago:
+porque apostarei que me contou todos os da ceia,
+e anda tão destro no apartar das brigas, que ainda
+bem não desvio um prato do outro, quando me dá xaque
+em ambos, e me deixa em casa branca. E não vos
+pareça que é isto dizer que venho faminto; que, se assim
+fôra, póde ser que o cumprimento do sr. Leonardo
+não ficára solto e livre; antes é fazer-vos lembrança
+que, pois daes tambem de comer, não tenhaes um moço
+Harpya, que descomponha o sabor dos manjares.&mdash;Bem
+sei (respondeu Pindaro) que ainda farto não haveis
+de deixar de roer. O meu moço é de uma d'estas aldeias
+vizinhas, ha pouco que me serve; por isso, e por ser
+creado de estudante, lhe devieis perdoar o erro, e a
+mim o remoque; porém a vossa condição não se sujeita
+a respeito nem a desculpas.&mdash;É tão saborosa a murmuração
+de Solino (disse Leonardo) que tambem na mesa
+se póde estimar como boa iguaria: e se a eu tivera
+muitas vezes, déra vida ao appetite que para as outras
+me falta.&mdash;Se o ella fôra (tornou Solino) em mais
+occasiões me valêra das em que a vós podeis desejar.
+Mas, não tratando de vol-a offerecer, nem de a desculpar
+com meu amigo; como ceiastes hoje tão tarde, e não
+vieram mais cedo o doutor e D. Julio?&mdash;Antes (disse o
+velho) me mandaram já recado, e não devem tardar.
+Eu o fiz com a ceia, porque os homens de serviço me
+não deram logar senão a esta hora: mas ouço que batem
+á porta e devem ser elles. <br />
+<br />
+A este tempo mandou juntamente alçar a mesa, e
+levar a luz á escada. Subiram o doutor e D. Julio;
+saudaram-se com muita alegria; e sentados perto do
+fogo, disse o velho: Muito deveis ambos a Solino;
+porque vindo a esta casa com Pindaro, de quem foi
+convidado na ceia, e tendo a minha em estado de que
+se podia aproveitar de alguma cousa d'ella, vos
+achou menos, e perguntou a causa da tardança; signal
+é este de amor e da pouca razão com que o temos
+<span class="pagenum">[10]</span>
+por desobrigado de toda a affeição dos amigos.&mdash;Não
+é Solino tão descuidado do que lhe eu mereço
+(tornou D. Julio) que se esqueça de mim, e de
+quanto sentirei perder horas suas: e pelo interesse
+das da conversação do doutor o tivera em menos conta
+se as não desejára: e além d'isto posso affirmar que
+está pago da lembrança que teve, com a diligencia que
+fizemos pol-o trazer comnosco, que voltamos pela sua
+porta, e eu tirei uma pedra á janella, d'onde me disseram
+que ceiava com Pindaro; e cada um dos dois me
+fez inveja.&mdash;Ah! sr. D. Julio (respondeu elle) tão grande
+trovoada de cumprimentos seccos não podia deixar de
+lançar pedra. Eu tenho feita a conta, e sei que não
+posso pagar o que vos devo além d'essa honra e mercê,
+senão com a humildade com que a todas reconheço
+por vossas. Dae-vos por satisfeito de meus desejos, e
+de pôr aqui ponto nos cumprimentos; porque não tenho
+polvora mais que para a primeira salva.&mdash;Já eu me
+quizera metter em meio (disse o doutor) porque se vós
+a terdes em cortezias, não haverá quem as pague, se
+não fôr Pindaro, que tem uma corrente tão arrebatada,
+que não dá vau a nenhuma rethorica do mundo.&mdash;Agora
+(arguiu Leonardo) levastes tres de um tiro; não
+me dou por seguro n'este logar, inda que é de minha
+casa: porém não tendes razão contra Pindaro, que,
+cada vez que o ouço, me parece um livro de cavallarias.
+Se elle tivera encantamentos escuros, castellos
+roqueiros, cavalleiros namoradores, gigantes suberbos,
+escudeiros discretos, e donzellas vagabundas, como
+tem palavras sonoras, razões concertadas, trocados
+galantes, e periodos que levam todo o fôlego, pudéra
+pôr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo, e
+ainda o mais pintado de todos os que n'esta materia
+escrevêram: e já estive em o persuadir que se mettesse
+em uma empreza semelhante: porém receio que se me
+ensoberbeça com a altiveza de seu estylo, e despreze
+aos amigos.&mdash;Não merecia eu, sr. Leonardo, a vós, nem
+ao doutor (disse Pindaro) que tomasseis meus defeitos
+por materia de vossa galantaria: falo como sei, e cada
+um se extende conforme a roupa com que se cobre.
+Não sou tão philosopho como o doutor, tão cortezão
+como vós, nem tão engraçado como Solino, nem tenho
+maiores penas que a gaiola; porém se abrisse as azas
+<span class="pagenum">[11]</span>
+para compôr livros, não houveram de ser de patranhas.
+Por isso fiae mais de meus pensamentos.&mdash;Nunca o
+tive de vos offender (respondeu o velho) nem me parece
+com razão a vossa desconfiança; nem podeis fazer
+tão pouca conta dos livros de cavallarias, e dos
+famosos auctores que os escreveram, e que mostraram
+n'elles a sua boa linguagem com toda a perfeição: a
+graça de tecer e historiar as aventuras, o decoro de
+tratar as pessoas, a agudeza, a galantaria das tenções,
+o pintar as armas, o betar as côres, o encaminhar e
+desencontrar os successos, o encarecer a pureza de
+uns amores, a pena de uns ciumes, a firmeza em uma
+ausencia, e outras muitas cousas que recreiam o animo,
+affeiçoam e apuram o entendimento. Se vós tendes
+por despreso compôr livros de cavallarias, eu vos desengano
+que pertencem mais cousas ao bom auctor
+d'elles, que a um dos lettrados philosophos ou juristas,
+com que desejaes do vos parecer; porque lhe importa
+saber a geographia dos reinos e provincias do mundo,
+para encaminhar por ellas a sua historia; ter noticia
+dos nomes e cousas que usam n'aquellas partes, d'onde
+faz naturaes os cavalleiros, saber estylo de côrte para as
+mesuras, gasalhados e cortezias, conforme as pessoas
+introduzidas, conhecer da justiça, do torneio e do sarau.
+a ordem, as leis e as gentilezas, entender da bastarda e
+da gineta, o que convém para pintar o encontro, a quéda,
+o acerto, o dezar, o brio ou descuido de um cavalleiro,
+debuxar o cavallo nas côres, concertal-o nas redeas,
+no pizar, no arremesso, na furia, na destreza,
+nas carreiras, chaças e rodeios, e sobre o conhecimento
+de todas as sciencias e disciplinas, tambem ha de ter
+alguma noticia dos nigromantes antigos para os encantamentos
+que servem de bordão e valhacouto aos historiadores.&mdash;Tenho
+por mal empregado (disse então o
+doutor) tanto cabedal em cousa de tão pouco interesse,
+e não sou de voto qee o auctor, que tiver
+as partes
+que vós dizeis que são necessarias para essa composição
+se occupe n'ella. De que servem livros de cavallarias
+fingidas? E se ha ociosos que os leiam, porque
+ha de haver algum que os escreva? Ou que espere algum
+fructo de trabalho tão vão?&mdash;Mas que certeza tão
+grande (tornou Leonardo) que cada um approva o que
+segue, sendo assim que ninguem se contenta do que
+<span class="pagenum">[12]</span>
+tem. Desejaveis agora que todos os livros, e todos os
+homens tratassem sómente da vossa profissão e fossem
+juristas e philosophos. Pois ainda que eu sou bacharel
+em linguagem, me atrevo a contradizer essa
+opinião adquirida em latim: porque para recreação,
+politica e bom estylo se não deve menor logar a estes,
+que aos vossos de trapaças e opiniões, e outros a que
+chamaes conselhos, que o dão ás vezes bem ruim a quem
+se fia de sua leitura. <br />
+<br />
+&mdash;Eu era de parecer (disse D. Julio) que poupassemos
+esta materia para gastar a noite, pondo-a em maneira
+de disputa. E se a todos parece assim, cada um diga
+sua opinião nos livros que mais lhe contentam, e das
+razões que tem para os approvar; e d'este modo, ou
+affeiçoados, ou convencidos, saberemos os que são de
+maior gosto, e utilidade.&mdash;A isto (respondeu Solino) até
+agora estive calado contra minha natureza; porque
+me houve por incapaz de fazer terço ao doutor e Leonardo:
+mas pois o voto é que se jogue com toda a baralha,
+digo que é esta a melhor materia que se podia
+escolher para passar o tempo. E já pode ser que algum
+dos que aqui estão, que deseja deixar no mundo
+memoria de seu engenho, saiba n'esta occasião o em
+que o pode empregar melhor.&mdash;Pelo que a mim toca
+(disse o doutor) comecemos logo; e a vós, sr. D. Julio,
+é bem que demos a mão a troco do alvitre: e não tratando
+dos livros divinos, nem dos necessarios, dos de
+recreação nos podeis dizer quaes, e por que razões vos
+contentam.&mdash;A minha inclinação em materia de livros
+(disse elle), de todos os que estão presentes é bem conhecida:
+sómente poderei dar agora de novo a razão
+d'ella. Sou particularmente affeiçoado a livros de historia
+verdadeira, e mais, que ás outras, ás do Reino
+em que vivo, e da terra onde nasci: dos reis, e principes
+que teve, das mudanças que n'elle fez o tempo e
+a fortuna, das guerras, batalhas, e occasiões, que n'elle
+houve, dos homens insignes, que pelo discurso dos annos
+florecerão: das nobrezas e brazões que por armas,
+lettras, ou privança se adquiriram. O que me inclinou
+á escolha d'esta lição, foi que tive alguma de um homem
+muito douto, em o que o deve desejar de ser, e
+parecer o que é bem nascido; ao qual elle dizia, que o
+que mais convinha que soubesse era, o appellido, que
+<span class="pagenum">[13]</span>
+tinha, d'onde lhe veio; quem fôram seus passados, que
+armas lhe deixaram, a significação, e fundamento da
+figura d'ellas, como se adquiriram, ou accrescentaram.
+Logo os reis que reinaram na sua patria, as chronicas
+d'elles, os principios, as conquistas, as emprezas, e o
+esforço de seus naturaes; porque falando d'elles nas
+terras extranhas, ou na sua com extrangeiros, saiba
+dar verdadeira informação de suas cousas. E alcançadas
+estas, lhe estará bem tudo o que mais puder saber
+das alheias. E na verdade, nenhuma lição pode haver
+que mais recreie, e aproveite, que a que sei que é verdadeira,
+e por natural ao desejo dos homens deleitosa.&mdash;Não
+é essa a minha opinião (disse Solino) porque contra
+o gosto me assombram muito cousas passadas, e
+andar abrindo sepulturas de gente morta. E no que
+toca á verdade, certo que á conta dos enterrados se
+escrevem algumas vezes tão grandes mentiras, que lhes
+não levam vantagem os fingimentos de historias imaginadas.
+E havendo um homem de ler o que não é, ou
+o que sabe, é tão caldeado, e tão batido da forja dos
+auctores, que mudado traz o metal, a côr, e a natureza:
+estou melhor com os livros de cavallarias, e historias
+fingidas, que, se não são verdadeiros, não os
+vendem por esses: e são tão bem inventados, que levam
+após si os olhos, e os desejos dos que os lêem. E
+não estima um auctor matar mais dois mil homens
+com a penna, para fazer valente o seu cavalleiro, com
+a espada, sem estar receando os ditos das testemunhas
+que ficaram da batalha; que por eguaes respeitos pende
+cada uma para seu cabo. Pois se é caso, em que um
+historiador queira passar adeante como Ariosto, não
+matou mais gente a peste grande em Lisboa, que Rodamonte
+nos muros de Paris.&mdash;Essa é uma das razões,
+porque eu os reprovo (tornou o doutor) porque a fabula
+é uma cousa falsa, que podia comtudo ser verdadeira,
+e acontecer assim como se fingio. Porém a isto
+não dão logar os livros de cavallarias, com esses excessos,
+e outros encantamentos, fazendo casas, e torres
+de crystal, edificios, lagos, e columnas impossiveis,
+pyramides de alabastro, e casas de pedraria, cuja riqueza
+podia empobrecer a fortuna. E em nossos tempos,
+na India Oriental, sabemos que o rei Mogor andou
+muitos annos fabricando uma casa de esmeraldas, por
+<span class="pagenum">[14]</span>
+cujo respeito se passavam d'este Reino á nossa India
+as da Occidental. E emfim morreu sem a acabar; e não
+ha livro de cavallarias em que qualquer cavalleiro de
+um castello não acabe cousas maiores. E deixando isto,
+é graça, e galantaria, comparar historias verdadeiras
+com patranhas desproporcionadas, que gastam o tempo
+mal a quem n'ellas se occupa, quando as outras servem
+de exemplo para imitar, de lembrança para engrandecer,
+e de recreação para divertir. A quem não anima
+ler as historias de seus passados? A quem não move
+o desejo de egualar a fama que lê de suas obras? O governo
+da paz? A ordem da guerra? O trato dos homens?
+O commercio das provincias? D'onde se conserva,
+alcança, e sabe senão pelas historias verdadeiras?
+Porque n'ellas sabe cada um felizmente pelos
+successos alheios o que deve seguir. D'onde Marco Tullio
+chamou á historia mestra da vida.&mdash;Vós, sr. doutor
+(disse Solino) achareis isso nos vossos cartapacios:
+mas eu ainda estou contumaz. Primeiramente, nas historias,
+a que chamam verdadeiras, cada um mente segundo
+lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu
+para mentir; porque se não fôrem estas tintas, é
+tudo tão misturado, que não ha panno sem nodoa, nem
+légua sem máu caminho. No livro fingido contam-se as
+cousas como era bem que fôssem, e não como succederam,
+e assim são mais aperfeiçoadas. Descreve o cavalleiro
+como era bem que os houvesse, as damas quão
+castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros,
+os extremos quão grandes, as leis, as cortezias, o
+trato tão conforme com a razão. E assim não lereis livro,
+em o qual se não destruam soberbos, favoreçam
+humildes, amparem fracos, sirvam donzellas, se cumpram
+palavras, guardem juramentos, e satisfaçam boas
+obras. Vereis que as damas andam pelas estradas, sem
+haver quem as offenda, seguras na sua virtude propria,
+e há cortezia dos cavalleiros andantes. E quanto ao retrato
+e exemplo da vida, melhor se colhe no que um
+bom entendimento traçou, e seguiu com muito tempo
+de estudo, que no successo, que ás vezes se alcançou
+por mão da ventura, sem a diligencia e engenho metterem
+nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham
+excessos desatinados, que não sejam semelhantes á
+verdade, nem os encantamentos tão escuros e desconformes,
+<span class="pagenum">[15]</span>
+que não tenham alguma maneira de enganar o
+juizo; porém os livros bem fingidos, como verdadeiros
+obrigam. Um curioso em Italia (segundo um auctor de
+credito conta) estando com sua mulher ao fogo lendo
+o Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto
+sentimento, que lhe accudiu a visinhança a saber o
+que era. E no que toca ao exemplo; um capitão valoroso
+houve em Portugal, que o não teve melhor o Imperio
+Romano, que com a imitação do um cavalleiro
+fingido, foi o maior de seus tempos, imitando as virtudes
+que d'elle se escreveram. Muitas donzellas guardaram
+extremos de firmeza, e fidelidade, costumadas
+a lêr outros semelhantes nos livros de cavallarias. Na
+malicia da India tendo um capitão nosso cercado uma
+cidade de inimigos, certos soldados camaradas, que
+albergavam juntos, traziam entre as armas um livro
+de cavallarias, com que passavam o tempo. Um d'elles,
+que sabia menos que os mais d'aquella leitura, tinha
+tudo o que ouvia lêr por verdadeiro (e assim ha alguns
+innocentes, que cuidam que se não pode mentir em
+lettra redonda) os outros ajudando a sua simpleza lhe
+diziam que assim era. Veio occasião de um assalto, em
+que o bom soldado invejoso, e animado do que ouvia
+lêr, lhe pareceu ensaio de mostrar seu valor, e fazer
+uma cavallaria, de que ficasse memoria; e assim se
+metteu entre os contrarios com tanta furia, e os começou
+a ferir tão rijamente com a espada, que em
+pouco espaço se empenhou de sorte, que com muito
+trabalho, e perigo dos companheiros, e de outros muitos
+soldados, lhe ampararam a vida recolhendo-o com
+muita honra, e não poucas feridas. E reprehendendo-o
+os amigos d'aquella temeridade, respondeu: Ah! deixae-me,
+que não fiz a metade do que cada noite lêdes
+de qualquer cavalleiro do nosso livro. E elle d'alli
+adeante o foi muito valoroso.&mdash;Muito festejaram todos
+o conto, e logo proseguiu o doutor: Tão bem fingidas
+podem ser as historias, que mereçam mais louvor, que
+as verdadeiras; mas ha poucas que o sejam; que a fabula
+bem escripta (como diz Santo Ambrozio) ainda
+que não tenha força de verdade, tem uma ordem de
+razão, em que se podem manifestar as cousas verdadeiras.
+Xenofonte querendo pintar uma republica perfeita,
+e regimento politico, por modo de historia, fingiu
+<span class="pagenum">[16]</span>
+o governo de Cyro, rei dos Persas. D. Antonio de
+Guevara, em nome de um imperador romano escreveu
+o que elle queria dizer em Hespanha; e outros que
+ainda em modo mais extranho ensinaram aos homens,
+como Esopo nas suas fabulas, e Lucio Apuleio no seu
+Asno d'ouro; e todos os livros que em seu genero são
+bons, se podem chamar perfeitos. Resta agora que
+o que escreve historia seja verdadeiro; e não terá
+Solino de que o reprehender n'ella. O que compõe
+fabulas seja verosimil, e não terei eu razão de o reprovar.
+O que trata de sciencia, alegue razões. O que fala
+de artes, experiencia. E o que quer ensinar principios,
+mostre auctoridade. E posto que eu tenha muitas que
+allegar em favor da vossa opinião, sr. D. Julio, vós estaes
+no caso, e todos os mais, que a historia verdadeira
+apascenta os doutos, adelgaça os grosseiros, encaminha
+os moços, ensina os mancebos, recreia os velhos,
+anima aos baixos, sustenta aos bons, castiga aos maus,
+resuscita aos mortos, e a todos dá fructo a sua lição.
+E porque esta não seja mais comprida, diga Pindaro
+agora a sua opinião. <br />
+<br />
+&mdash;Apostarei eu (disse Solino) que, se a Pindaro lhe armarem
+com poesia levantada sobre os bons conceitos,
+e versos, que com serem amorosos, sejam arrogantes,
+que o tomaram como passaro em visco.&mdash;Para isso (disse
+o doutor) arredar-lhe as occasiões, e vá com declaração,
+que não tratamos de poesia.&mdash;Essa condição (accudiu
+Pindaro) logo ao principio ficou declarada; que como
+exceptuastes livros divinos, n'esse numero devem estar
+os dos poetas, que mereceram este nome; e o que
+elles antigamente tiveram, e ainda agora lhe dão os
+Latinos, assim o deixa entender. E Platão quando d'elles
+escreve, lhes chama divinos interpretes dos deuzes,
+possuidos de espiritos celestes: d'onde Marco Tullio
+tirou os louvores, com que os trata. Origenes affirma
+que a poesia é uma virtude espiritual, que inspira
+em os poetas, e lhes enche o animo e o entendimento
+de uma divina força. Santo Agostinho lhes chama theologos
+para cantarem os louvores divinos. Diziam os
+philosophos antigos que, se os deuses falassem, seria
+em verso: trazendo exemplo do oraculo de Apollo, e
+das Sibyllas. Cassiodoro diz que a poesia tomou principio
+da divina escriptura. De maneira que por auctoridade
+<span class="pagenum">[17]</span>
+de tão grandes varões, nunca os livros de poesia
+podem vir em competencia com os de que até agora
+tratastes; que d'outro modo já estivera concluida a differença.&mdash;O
+que eu vejo (tornou D. Julio) que, ainda que
+o doutor vos cerrara a porta, que mettido de ilharga
+dissestes tudo o que cumpria a vosso intento por junto,
+o quanto para mim estaes declarado; o com o desejo
+de ouvir a opinião do doutor, não digo o mais que me,
+parece.&mdash;Ora (respondeu elle) não quero que a essa conta
+fique o meu voto ás escuras; e digo, não falando em
+poesia, que não escolho lição de historiadores verdadeiros,
+nem tenho por melhor a dos fingidos; porque
+uns servem de conservar a memoria, os outros de enganar
+o entendimento: e serão melhores os livros que
+deleitem a memoria, e a vontade, e apurem, e levantem
+o entendimento, como os de recreação, que com
+alguma enganosa novidade tratam de materias politicas,
+e engraçadas: de côrte, de aldeia, e de qualquer
+sujeito aprazivel: e ha d'estes muito bem recebidos,
+approvados, e proveitosos na republica, cuja variedade,
+e doutrina é para mim lição muito saborosa.&mdash;Não estou
+mal com essa opinião (disse o doutor) o quasi que vós,
+e eu estamos em um mesmo pensamento; senão que
+deixastes de declarar o que agora me fica para dizer;
+porque até aqui falámos do modo de compor, e escrever
+livros; e não das materias, que escriptas serão
+agradaveis. E deixando em duvida o vosso parecer para
+se conferir com a tenção; o meu é, que o melhor modo
+de escrever são os dialogos escriptos em prosa, com
+figuras introduzidas, que disputem, e tratem materias
+proveitosas, politicas, engraçadas, e cheias de galanteria:
+sendo a primeira figura da obra o autor d'ella; e
+isso que vá guiando, e introduzindo as mais, que sejam
+apropriadas áquellas materias, de que hão de tratar
+entre si. E além de ser este estilo mais claro, mais
+vulgar, mais excellente, inclue em si a lição de todos
+os outros modos de escrever, como o são os da historia
+verdadeira, e fingida, das artes liberaes, e mecanicas;
+das sciencias, e disciplinas necessarias; das profissões
+particulares; da razão do governo; da vida politica
+ou privada. E quando este modo de escrever não
+tivera por si mais que a auctoridade dos que n'elle escreveram,
+como foi Platão, Xenofonte, Tullio, e outros
+<span class="pagenum">[18]</span>
+infinitos: essa bastara para acreditar os dialogos. Além
+d'isto, eu tenho para mim que aquella é melhor escriptura,
+que com mais perfeição, e viveza imita a pratica,
+e conversação dos homens; porque assim como a
+melhor pintura é a que mais se parece com a obra da
+natureza, a que quer contrafazer; assim a melhor escriptura
+é a que retrata com mais semelhança o falar,
+e conversação d'entre os amigos. Nos poemas tinham
+os poetas antigos que o mais levantado era a tragedia
+pela imitação natural da pratica, com introducção de
+figuras, junto com a gravidade, peso, e tristeza dos
+successos tragicos. E porque tambem a variedade é a
+que mais costuma enterter, e deleitar o animo dos homens,
+e esta é mais certa, e mais propria nos dialogos,
+me parece que no gosto d'elles serão melhor recebidos. <br />
+<br />
+&mdash;Pois assim é (disse D. Julio) que a principal razão
+porque approvaes os dialogos, é porque mais familiarmente
+se parecem com a pratica. Desejo saber qual é
+mais nobre cousa, se a pratica, se a escriptura: porque
+a mim me parece que á escriptura se deve o melhor
+logar, e que antes merecia a pratica por se parecer
+com ella; o que agora encontra a vossa opinião.&mdash;Nenhuma
+duvida ha (respondeu o doutor) que a pratica
+seja mais nobre, mais antiga o mais excellente; porque,
+além de o falar ser operação natural dos homens,
+e acto em que elles fazem vantagem, e differença a todos
+os animaes, a escriptura não é mais que uma escrava
+e servente das palavras, e o escrever não é outra
+cousa mais que supprir com um instrumento por meio
+da arte, e das mãos o que com a voz se não póde exprimir
+e alcançar com os ouvidos, ou por distancia de logar,
+como quem escreve aos ausentes, ou por discurso
+de tempo, como quem escreve para os vindouros. E
+porque nunca a escrava é tão nobre como a senhora
+a quem serve, em quanto escrava, nem o que substitue
+em logar d'outrem se lhe póde preferir no mesmo
+logar; assim nunca a escriptura póde egualar a nobreza
+e perfeição da pratica.&mdash;O contrario me parece a
+mim (replicou o fidalgo) porque nem por a pratica ser
+mais antiga, e primeira que a escriptura é mais perfeita;
+antes ella foi a perfeição da pratica: e posto que
+seja própria operação do homem o falar, não é n'elle
+menos nobre accidente o de escrever; antes me parece
+<span class="pagenum">[19]</span>
+mais digno o que elle alcançou por arte, que o que adquiriu
+por uso: e quasi que ousaria a dizer que é operação
+sua o falar, dada a respeito de haver de escrever,
+pois esse é o meio de se perpetuar, sustentando
+no entendimento dos presentes, e na lembrança dos
+futuros a memoria das cousas passadas. Assim que nem
+por a primeira razão merece a pratica melhor logar,
+nem a escriptura, por servente e ministra sua, é menos
+nobre. Porque o sol serve de mostrar as cousas creadas,
+que lhe são muito inferiores, e de dar luz e nutrimento
+a outras de menor qualidade, e nem por isso
+ellas se lhe podem antepôr. E quanto a substituir a
+escriptura em logar da voz, ella o faz por tão excellente
+maneira, que lhe tem muita vantagem; pois o
+que a voz não póde exprimir juntamente em differentes
+logares, e a diversas pessoas em um mesmo tempo,
+o faz a escriptura com grande perfeição, podendo muitas
+pessoas, em differentes logares, lêr em um mesmo
+tempo a propria cousa: pelo que me parece que, ainda
+que a vossa escolha fosse boa, não fundastes bem a
+razão d'ella.&mdash;Certo (disse Leonardo) que de ambas as
+partes déstes tão boas razões, que fica duvidosa a melhoria.
+Porém concedendo á pratica a excellencia, a
+acção, o modo e a graça de falar, que é uma viveza a
+que se não eguala outra nenhuma lembrança; a escriptura
+tem tantas grandezas que parece egualmente necessaria
+para a vida, pois ficava o mundo ás escuras
+sem a luz da dilação escripta; e só na tradicção dos
+homens se salvaria a memoria das cousas; e nas principaes
+dominaria a ignorancia com mero imperio. Porém,
+deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria
+e agudeza está tocado o que baste, quero que
+passemos adeante, e, por me fazerdes mercê, que me
+ensineis se na pratica, em voz, e na escriptura considerada
+tem bom logar a nossa lingua portugueza; porque
+ouço de má vontade a alguns naturaes que tratam
+mal d'ella e a condemnam por grosseira e limitada. <br />
+<br />
+&mdash;Uma cousa vos confessarei eu, sr. Leonardo (disse a
+isto D. Julio) que os portuguezes são homens de ruim
+lingua, e que tambem o mostram em dizerem mal da
+sua, que assim na suavidade da pronunciação, como
+na gravidade e composição das palavras é lingua excellente.
+Mas ha alguns nescios, que não basta que a
+<span class="pagenum">[20]</span>
+falem mal, senão que se querem mostrar discretos, dizendo
+mal d'ella: e o que me vinga de sua ignorancia,
+é que elles acreditam a sua opinião; e os que falam
+bem desacreditam a ella e elles.&mdash;Bravamente é apaixonado
+o sr. D. Julio (acudiu o doutor) pelas cousas da
+nossa patria: e tem razão, que é divida que os nobres
+devem pagar com maior pontualidade á terra que os
+creou. E verdadeiramente que não tenho a nossa lingua
+por grosseira, nem por bons os argumentos com
+que alguns querem provar que é essa; antes é branda
+para deleitar, grave para engrandecer, efficaz para mover,
+dôce para pronunciar, breve para resolver, e accommodada
+ás materias mais importantes da pratica
+e escriptura. Para falar é engraçada com um modo senhoril:
+para cantar é suave com um certo sentimento
+que favorece a musica: para prégar é substanciosa,
+com uma gravidade que auctorisa as razões, e as sentenças:
+para escrever cartas nem tem infinita copia
+que damne, nem brevidade esteril que a limite: para
+historias nem é tão florida que se derrame, nem tão
+secca que busque o favor das alheias. A pronunciação
+não obriga a ferir o céo da bôcca com aspereza, nem
+arrancar as palavras com vehemencia do gargalo. Escreve-se
+da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de
+todas as linguas o melhor: a pronunciação da latina;
+a origem da grega; a familiaridade da castelhana; a
+brandura da franceza; a elegancia da italiana. Tem
+mais adagios e sentenças que todas as vulgares, em fé
+de sua antiguidade. E se á lingua hebrea pela honestidade
+das palavras chamaram santa, certo que não
+sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em materia
+descomposta quanto a nossa. E para que diga
+tudo, só um mal tem, e é que pelo pouco que lhe querem
+seus naturaes, a trazem mais remendada, que capa
+de pedinte.&mdash;Folguei extranhamente de vos ouvir
+(disse Solino) por não ficar tão covarde, como até agora
+estava, em ouvindo murmurar da lingua portugueza;
+e não ousava, ou não sabia dizer a minha opinião, a
+qual cuidava que me nascia do amor que lhe tenho, e
+que cada um tem ás suas cousas como o corvo aos filhos,
+e Pindaro ás suas trovas. Porém quando um
+homem tão bem fundado na razão como o doutor, e tão
+auctorisado em seu parecer sustenta esta parte, nenhuma
+<span class="pagenum">[21]</span>
+haverá já tão rija, que me tire o atrevimento.&mdash;Nem
+a lingua (disse Pindaro) pois não ha amizade que vos
+faça perder o costume.&mdash;Perdoae-me (tornou elle) que
+vos feri por não perder o golpe. E tornando ao que aqui
+se tratou para recordar o que começamos, averiguou
+o doutor que a melhor maneira de escrever eram os
+dialogos (ficando meu direito reservado nos livros de
+cavallarias), tocaram-se louvores da pratica e escriptura
+com muito engenho; declarou-se como a lingua
+portugueza não desmerece logar entre as melhores,
+para n'ella se escreverem materias levantadas, apraziveis,
+proveitosas e necessarias. Que falta entre vós
+para que d'estas noites bem gastadas, d'estas duvidas
+bem movidas, e d'estas razões melhor praticadas se
+faça um ou muitos dialogos, que sem vergonha do mundo
+possam apparecer nas praças d'elle á vista dos curiosos,
+e ainda dos murmuradores?&mdash;Tem Solino muita
+razão (disse D. Julio) e se assim forem os dialogos como
+se podem formar com a pratica de alguns que estão
+presentes, bem se auctorisará a opinião do doutor,
+posto que a minha fique de vencida com a vantagem
+que aqui tem a pratica das escripturas alheias. E pois
+se aproveitam tão bem as noites n'este logar, razão é
+que por meio d'elles se communiquem a quem se aproveite
+da doutrina e interesse d'ellas.&mdash;Se eu não dormira
+tão poucas horas da passada (disse o doutor)
+ainda houvera de proseguir adeante e responder a
+isso; mas com vossa licença me vou recolher e amanhã
+accudirei mais cedo.&mdash;Acompanhemos o doutor
+(disse o fidalgo), e levantando-se elle, se despediram
+todos com muita cortezia, deixando ao senhor da casa
+magoado de se acabar tão depressa a conversação;
+que quem sabe estimar a que é tão boa, tem sentimento
+das horas que d'ella perde.
+<br />
+<br />
+<br /><span class="pagenum">[22]</span>
+<a name="c3" id="c3"></a><h2>DIALOGO II</h2>
+<br />
+<h3>DA POLICIA E ESTYLO DAS CARTAS MISSIVAS</h3>
+<br />
+<br />
+Ficaram os amigos tão affeiçoados á conversação
+d'aquella noite, que, por fazerem a do outro dia mais
+comprida, acudiram a ajuntar-se logo depois de se pôr
+o sol; porém cada um com pejo de ser o primeiro, passeavam
+em dois postos, o doutor com D. Julio, e Pindaro
+com Solino á vista da casa de Leonardo, até que
+elle chegou á janella; e mostrando o mesmo desejo que
+os quatro traziam, facilitou o receio e approvou as horas.
+Subiram todos, e disse o doutor:&mdash;Pareceu-me este
+dia tão comprido, na esperança da noite, como aos trabalhadores
+que devem o jornal.&mdash;E a mim (tornou Leonardo)
+a noite, depois que me deixastes, tão importuna
+como quem espera a manhã para cousa de seu gosto:
+e assim não é muito que vós viesseis tão cedo, e que
+a mim me pareça que já era tarde.&mdash;Todas as cousas
+que se desejam muito (tornou D. Julio) por pouco que
+se dilatem, tardam mais.&mdash;E as que se temem (proseguiu
+Solino) por muito que tardem, parece que se anticipam.
+D'onde um disse maravilhosamente que o que
+queria que a quaresma lhe parecesse breve, devesse
+pagamentos para a Paschoa. Emfim chegou mais cedo
+este prazo que todos desejamos: e se o senhor da casa
+dormiu pouco, eu apostarei que ha algum na companhia
+que se desvelou mais.&mdash;Não era occasião para descuidos,
+(disse o doutor) e nos mancebos era demasiada
+desconfiança entrar n'esta batalha desapercebidos.&mdash;Os
+apercebimentos (tornou o fidalgo) podem fundir muito
+pouco: porque como até agora é incerta a materia de
+que se deve tratar, serão sem fructo as diligencias.&mdash;É
+engano (replicou Solino) que nunca falta uma carta em
+que prender; como um homem tem as suas apuradas
+e ha cousas que se levam a rasto como corpo morto, e
+quando sejam bem cuidadas, nunca são mal ouvidas. E
+se não, digam-n'a as olheiras com que esta manhã vi a
+meu amigo Pindaro.&mdash;Já sei (disse Pindaro) que vêdes
+mal: mas contra mim ainda é peior a vossa tenção que
+a vista; não me pagaes bem o que vos mereço, mas é
+<span class="pagenum">[23]</span>
+na moeda que tendes.&mdash;E na que corre (tornou elle) que
+o rifão de agora diz que fazer e dizer mal, nunca se
+perde. Não vos escandaliseis; que tudo ha nos homens
+e nas cartas. Essa (disse então D. Julio) hei eu de partir:
+porque desejava muito alçar por ellas; e pois o
+doutor falou hontem em cartas missivas, e approvou
+para ellas a lingua portugueza, nos ha de declarar o
+que ha de ter uma carta para ser cortezã e bem escripta.&mdash;Esse
+cargo (tornou o doutor) convem mais ao
+senhor da casa: porque ainda que a carta consta de
+lettras, não é profissão de lettrado fazel-as cortezãs:
+e quem sabe tanto do estylo da côrte como Leonardo,
+póde dar lei para ellas.&mdash;Vós (respondeu elle) sois doutor
+em tudo, e meu superior em todas as materias, e
+como tal me podeis dar o grau de cortezão. Eu o quizera
+parecer na confiança, e em obedecer ao gosto d'estes
+amigos. Mas para eu proseguir com auctoridade é
+bem que vós comeceis a principiar a materia: dizendo,
+que nome é <em>carta</em>, e o seu principio, pois me daes
+o cargo antes de estar apercebido para elle.&mdash;Bem sei
+(lhe respondeu o doutor) que por me honrardes a mim
+tomaes tudo á vossa conta; folgarei de a dar boa do
+que me encommendaes. <br />
+<br />
+Este nome <em>carta</em> é generico, e teve origem de uma
+cidade
+do mesmo nome, d'onde foi natural a rainha Dido,
+que, por o amor que tinha á sua patria, pôz á que edificou
+por nome <em>Cartago</em>. E porque em carta se inventou
+primeiramente a maneira em que se escrevia (ou
+fosse papel, ou outra cousa semelhante a elle) tomou
+d'ella o nome como de <em>Pergamo</em> o
+<em>pergaminho</em>. É para saber
+que nos primeiros tempos, quando se inventaram
+as lettras, escreviam os homens nas folhas das arvores:
+como ainda hoje nas da palmeira escrevem os gentios
+de algumas partes do oriente: as Sybillas n'ellas
+escreveram suas prophecias; e assim se chamaram a
+seus escriptos <em>folhas sybillinas</em>; e ainda na
+linguagem
+portugueza se conserva alguma cousa d'esta antiguidade,
+pois dizemos <em>folhas de papel</em> sem o papel ter folhas,
+mas é em lembrança das primeiras que se usaram
+na escriptura. Depois se escreveu em uma casca
+tenra de arvores, que é o entreforro da cortiça. E porque
+a esta chamavam <em>livro</em>, conservam ainda agora elles
+o nome, e a divisão que agora fazem os escriptores
+<span class="pagenum">[24]</span>
+de <em>livro primeiro</em>, <em>segundo</em>, e
+d'ahi adeante é o numero,
+porque então deviam contar aquellas cascas. Tambem
+se escreveu em o miolo de uma maneira de juncos, a
+que chamaram <em>papiros</em>: d'onde aos latinos ficou o
+nome
+para o papel. Depois se escreveu em taboas nas quaes
+sobre cêra, com um instrumento de ferro ou de latão,
+a que chamavam <em>estylo</em>, se assignavam as lettras; e
+do
+ferro com que se escreveram, se veiu a derivar o que
+agora dizemos <em>bom</em> ou <em>máu</em>,
+<em>humilde</em> ou <em>altivo estylo</em> de
+escrever, passando-se por translação a perfeição do
+instrumento ao concerto e policia das palavras. D'este
+proprio modo se usa no nome de carta, que alcança
+em genero a todo genero de papel escripto e ainda
+pintado. Os portuguezes fazemos este nome particular
+tomando <em>carta missiva</em> por a principal de todas; e
+assim
+basta dizermos <em>carta</em>, sem mais declaração, para
+se entender que é esta; porém nas especiaes d'ellas usam
+o nome com seus attributos. E nos instrumentos
+judiciaes, que testemunham antiguidade, se diz <em>carta
+precatoria, dimissoria, citatoria, de liberdade e de venda</em>, e
+outras muitas: e ainda as de jogar, sem terem lettras,
+se chamam commummente cartas. E a gente aldeã,
+conservando alguma cousa da antiguidade, a qualquer
+estampa ou pintura em papel chamam <em>carta</em>. Os latinos
+puzeram nome ás cartas missivas <em>Epistola</em>, do
+verbo grego, que quer dizer <em>mandar</em>: e
+<em>letras</em>, porque a
+carta consta d'ellas. Os italianos deram singular e
+plural a este nome segundo. E na nossa lingua a que
+chamam limitada, não faltou nenhuma d'estas differenças,
+antes houve maior perfeição: porque a umas
+chamaram <em>cartas mandadeiras</em>; ás que tinham menos
+de papel, <em>escriptos</em>; e ás cartas de Italia
+<em>lettras</em>, que
+são as de Roma, e as de cambio; porque deviam ter
+o mesmo principio; porque logo nos de Portugal mandavam
+os reis d'elle por lettras copiosas doações á
+sé apostolica, do que conquistavam. De maneira que
+o nome de carta, quanto á sua origem, é geral e commum;
+e entre nós particular das cartas missivas; e
+pois lhe descobri o nome, é necessario, sr. Leonardo,
+que lhe deis agora o ser. <br />
+<br />
+&mdash;Parece-me (respondeu elle) que estou já no meio da
+minha obrigação (conforme ao dito do poeta) que quem
+começou, tambem tem feita a maior parte. E passando
+<span class="pagenum">[25]</span>
+do nome da carta aos exteriores d'ella, digo que ha de
+ter: Cortezia commum, regras direitas, lettras juntas,
+razões apartadas, papel limpo, dobras eguaes, chancella
+sutil, e sêllo claro; e com estas condições será
+carta de homem da côrte. E falando da cortezia (disse
+Solino) que entendeis n'ella?&mdash;A cortezia (lhe respondeu
+elle) não falando na leitura da carta, é o sobrescripto,
+o apartado da cruz, até á primeira regra; e do
+principio do papel até o começo de todas: e o final, o
+nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E
+porque n'isto ha differentes costumes, e erros, me parece
+bem fazer de tudo lembrança.&mdash;Nos sobrescriptos
+temos pouco que tratar (tornou Solino) que depois que
+com a pragmatica os cercearam, não ha já <em>prezados</em>,
+<em>magnificos</em>,
+<em>honrados</em>, e <em>illustrissimos</em>, nem
+os <em>senhores</em>. Ainda
+(tornou Solino) ficaram alguns de rodeio que são muito
+para vêr, e assim o dizem elles: a cujo proposito vos
+hei de contar uma historia. Eu (como todos sabeis) vejo
+com oculos, e (conforme a opinião de alguns) com elles
+muito menos. Os dias atraz, sendo eu ainda innocente
+d'este costume, me deram uma carta de um amigo,
+que dizia: <em>Para vêr o senhor Solino</em>: aberta ella, a
+lettra tal, tão miuda, e embaraçada, que desmentia o
+sobrescripto, e por nenhuma via pude vêr o que dizia.
+Mas respondi n'outra lettra muito peior, e puz no sobrescripto:
+<em>Para cegar o senhor Fuão</em>; ao que elle depois
+me respondeu, que estava pelo costume dos presentes.&mdash;Nem
+todos se hão de seguir (disse o doutor) que, como
+escreve o philosopho Favorino, cada um deve usar de
+palavras presentes, e costumes antigos; e mais quando
+é uso é abuzão, que no primeiro, por ser tal, offenderam
+as leis; e no segundo o reprehendem os mesmos
+que o usam. Comtudo Leonardo dirá o que lhe parece.&mdash;A
+mim respondeu elle que a lei é boa, e a cautella
+escusada. Porém o sobrescripto tem mais partes de
+cortezia, que essa que dissestes, ainda que á primeira
+vista pareça cousa tão limitada. E para que comecemos
+em ordem; <em>sobrescripto é</em> uma noticia vulgar da
+pessoa a quem se escreve, e do logar aonde lhe mandam
+a carta, exprimindo-se n'elle o nome, e a dignidade,
+por onde é mais conhecida, e o do logar onde
+n'aquelle tempo assiste. N'esta regra geral ha uma limitação,
+e é: Que ás pessoas do grande titulo, e cargo
+<span class="pagenum">[26]</span>
+se pode calar, ou usar de outro modo differente esta
+segunda noticia; porque, além dos cargos declararem
+muitas vezes a assistencia das pessoas, parece cortezia
+que as que são mui conhecidas por seu titulo, e dignidade,
+basta essa, e o nome para serem buscadas. O
+primeiro modo é, como se escrevessemos a N. Vice-Rei
+da India, A. N. General de Portugal. O segundo como
+a N. Embaixador d'el-rei de Hespanha em a Côrte de
+Roma. E posto que estes assistam a tal tempo em villas,
+ou cidades particulares, não é necessaria outra
+leitura no sobrescripto. Não trato aqui das cartas enviadas
+aos reis, de seus vassalos, porque não entram
+n'esta regra as que vem dirigidas a seus conselhos
+particulares.&mdash;Bem podereis (disse o doutor) metter
+n'esse logar a historia de um letrado da minha profissão,
+que mandando uma informação á Meza do Paço,
+poz no sobrescripto: <em>A El-Rei nosso Senhor nos seus Paços da
+Ribeira, junto de Luiz Cesar</em>.&mdash;D'outro soldado ouvi
+eu contar (disse Solino) que escreveu á India: <em>A. N.
+Vice-Rei da India, nos Paços de Goa, defronte de um Lanceiro
+torto</em>.&mdash;Para gente tão nescia (disse Leonardo) não
+servem preceitos: mas em outra vejo muitas vezes sobrescriptos
+tão miudos, e sobejos, que pessoas muito
+particulares se podiam dar por afrontadas d'elles, como
+é: A fuão, em tal terra, em tal rua, detraz de tal parte,
+defronte de tal casa, e junto a N. E ás vezes é a pessoa
+tal, que deve ser mais conhecida por si, que pelas
+confrontações.&mdash;Dos sobejos (atalhou Solino) não posso
+eu calar um, que vi ha poucos dias, de um frade que
+escreveu ao seu provincial, que tinha cinco padres
+nossos, como conta benta, e dizia: <em>Ao muito Reverendo
+Padre nosso, o nosso Padre N. nosso Padre Provincial, no
+Convento de nosso Padre S. N. Padre nosso</em>.&mdash;Por isso digo
+(proseguiu Leonardo) que a noticia deve ser vulgar
+que nem afronte, nem lisongeie, nem sobeje, nem falte.&mdash;Mais
+provavel é (disse D. Julio) que se peque nos sobrescriptos
+por demazia, que por falta; porque todos
+dizem o nome da pessoa, e a terra para que escrevem.&mdash;Não
+já um (respondeu Pindaro) que escreveu: <em>A meu
+filho o Licenciado em Salamanca, que Deus guarde</em>,
+parecendo-lhe
+que bastava o grau em logar do nome. Mas que
+logar dareis vós aos titulos dos sobrescriptos? Que ha
+alguns mais compridos que as cartas que resam o nome,
+<span class="pagenum">[27]</span>
+o titulo, o senhorio, o cargo, a commenda, e ainda as
+pretenções da pessoa a quem se escreve.&mdash;A mim me
+parece (tornou Leonardo) que os titulos é cousa conveniente,
+e necessaria; usados porém com moderação
+conforme ao que tenho dito: que noticia vulgar é ser
+um homem conhecido por o senhorio, e cargo que tem;
+e assim se ha de escrever de cada um o cargo que tem.
+e por onde é mais conhecido. Do senhorio como: <em>A. N.
+senhor de tal Villa</em>. E estando em ella: <em>A. N. na sua
+Villa N</em>. O que tambem se usa nos logares, e quintas, em
+que cada um assiste. Do cargo: <em>A fuão, do Conselho d'el-Rei,
+e seu Presidente da Fazenda, da Consciencia</em>, etc. <em>A
+fuão Desembargador d'el-Rei nosso senhor, e seu Ouvidor dos Aggravos</em>,
+etc. Tudo isto com a brevidade necessaria: por
+que o sobrescripto, como disse, serve de noticia, e não
+já de adulação. E na carta, não se permitte no sobrescripto
+o que se não consente no interior; como se algum
+escrevesse a este Fidalgo, e lhe quizesse pôr os
+títulos, que elle merece, no sobrescripto; convém a saber:
+<em>A D. Julio, Columna da nobreza de seus passados, e gloria
+das esperanças de sua patria</em>. Ou: <em>Ao Doutor Livio,
+honra e luz do Direito Civil, exemplo da philosophia, e thesouro
+da humildade</em>: cousas eram estas, que d'elles se podiam
+dizer: porém não são no logar do sobrescripto. E passando
+d'elles adeante. <br />
+<br />
+A segunda cortezia é no papel, da cruz até á primeira
+regra; que ha alguns, que lhe põem os olhos
+muito junto com as sobrancelhas: outros, que lhe deixam
+pelo meio uma estrada de coches; e pela desconformidade,
+que ha entre uns, e outros, veio a ser a regra
+entre os eguaes, que fique em branco a quarta
+parte do papel, que vem a ser no alto a primeira dobra;
+e na ilharga um espaço razoado, que dá logar á
+mão para ter a carta sem cobrir as lettras, e para se
+cortar, ou passar chancella sem as offender.&mdash;E de que
+nasce (perguntou Pindaro) que muitos deixam mais
+de meio papel em branco da ilharga, e vão a cerzir a
+lettra com a cortadura da tesoura?&mdash;Esse erro, e outros
+muitos (respondeu elle) nascem de mudarem alguns
+os serviços ás cousas: porque a invenção não estava
+mal no seu logar, se a não fizeram servir nos
+alheios. Em cartas de negocio, feitas a pessoas occupadas,
+que se fazem por capitulos, e apartadas, ou perguntas
+<span class="pagenum">[28]</span>
+sobre materias dos mesmos negocios, se deixa
+egual parte do papel para responder á margem em ordem
+a cada uma das cousas; e assim fica servindo para
+duas, uma mesma carta; mas estas não guardam a regra,
+nem a cortezia das missivas. O mesmo erro ha no
+que Solino primeiro apontou dos sobrescriptos: <em>Para
+vêr o senhor Fuão</em>, que nasceu de alguns papeis emmaçados,
+que se passavam de ministro a ministro com
+sómente aquelle sobrescripto sem outra carta, e sem
+terem mais de carta, que o irem cerrados, e sellados,
+deram occasião aos que usam o mesmo termo nos sobrescriptos
+d'ellas. <br />
+<br />
+&mdash;Muitos erros ha (disse D. Julio), nascidos da mesma
+occasião. E posto que seja sahir um pouco fora do proposito,
+é tão grande bugia da virtude e da honra a vaidade,
+que, sómente por a seguir em as apparencias,
+tropeça a cada passo em desatinos. Este escreveu,
+<em>Para vêr</em>; porque N. Ministro, ou privado escreveu
+assim; e veste de tal panno, porque N. de maior qualidade
+o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar
+o seu frio) faz outro á imitação, e se abraza de quentura.
+A Hespanha se passou o uso de vestir dos soldados
+de Flandres, por bizarria; e razão tinham de imitar
+em outras cousas aos praticos que militam em uma
+praça tão ennobrecida das nações da Europa; mas o
+que elles faziam obrigados do clima, e o sitio da terra,
+usavam os cortezãos por gala, levados do engano da
+verdade, os chapéos de aba grande contra a neve, os
+ferragoulos abotoados, e com descanços para o frio, as
+meias de escarlata debaixo de botas altas contra a humidade,
+as solas levantadas por detraz, para não resvalarem
+nos caramelos, as roupetas abertas sobre as
+armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas
+pela necessidade, se passaram á galanteria. Deixo
+as côres de Rei, e da Infante, e a historia do Mercador
+com el-rei D. João o III, que lhe pediu que se quizesse
+vestir de um panno que tinha muito rico, o qual lhe
+daria de graça; que com este ardil, em el-rei o vestindo,
+vendeu elle a mór valia uma quantidade de peças
+d'aquella côr que lhe haviam entrado n'uma partida.&mdash;Não
+é isso sómente nas cartas, e nos arrojos, disse o
+doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a côrte
+do imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe
+<span class="pagenum">[29]</span>
+mandaram os medicos comer borragens, por ser herva
+medicinal para a sua enfermidade; e porque os fidalgos
+e titulares a viam de ordinario na meza imperial
+sem advertirem a occasião porque se fazia, veio a valer
+entre elles muito, e a fazerem mil iguarias d'aquella
+herva, de sorte que se semeavam tantas nas terras
+onde a côrte assistia, que não havia agros d'outro fructo.
+Vão-se emfim as cousas mal, e ás vezes são nascidas
+de bom costume.&mdash;Assim é (disse Solino) que até oculos,
+que se inventaram para remediar defeitos da natureza,
+vi eu já trazer a alguns por galantaria.&mdash;D'essa maneira
+seguiu D. Julio se devia mudar para as cartas o estillo
+dos papeis, que o não estão por imitarem aos validos.
+E tornando á cortezia, que cousas tem mais de
+que tratar? <br />
+<br />
+&mdash;A terceira, tornou elle, é o nome, e signal do que escreveu
+a carta, que nem ha de estar tão junto das lettras,
+que pareça soffrego d'ellas, nem no meio do papel
+como quem escolheu melhor logar, nem tão apertado,
+que fique ausente das regras, nem tanto na ponta
+do fim, que pareça que se amuou áquelle canto; mas
+com um meio ordinario, como é assignar-se um pouco
+abaixo das regras, mais inclinado á parte direita que
+á esquerda, que é uma certa modestia, e humildade de
+quem escreve.&mdash;E que dizeis, (perguntou o doutor) do
+acompanhamento do signal? Porque ha uns que se nomeiam
+<em>servidor de vossa mercê</em> N., outros
+<em>vassallo</em>; outros
+<em>captivo</em>, outros <em>seu</em> N. e ha
+n'isto muita variedade, e
+ignorancia.&mdash;Primeiramente (continuou Leonardo)
+<em>servidor</em>
+já se passou das cartas para os retretes: <em>servo</em>
+para os matos, e <em>captivo</em> para os comprimentos
+refinados
+em a pratica; <em>creado</em>, era termo bem creado, e
+<em>seu</em>
+é descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos,
+o mais seguro é escrever cada um o seu nome sem
+mais leitura.&mdash;Não sejaes tão estreito nas licenças(disse
+Solino) que deitaes a perder cartas que só pelos comprimentos
+do signal merecem fama. Um homem escrevendo
+a sua propria mulher, se assignou <em>vosso servo N.</em>,
+e ella o fazia tal na mesma ausencia. O outro, de que
+contam vulgarmente, porque corria nos signaes o <em>menor
+creado de vossa mercê N.</em>, escrevendo a sua mulher se
+assignou <em>o menor marido vosso N.</em>, e a senhora devia
+de
+ter mais varões que a Samaritana. De uma gentil dama
+<span class="pagenum">[30]</span>
+sei eu (disse Pindaro) que escrevendo a um seu galante
+se assignou <em>sua N.</em>, e elle lendo a carta, voltou
+para um amigo com que estava, e disse <em>sempre temi esta
+nova</em>; e perguntando-lhe o outro que era? Respondeu
+<em>sua N., e é principio de verão</em>: Outro em Coimbra,
+querendo-se
+humilhar muito aos pés de um amigo, a que
+escrevia, se assignou <em>Antipoda de vossa mercê
+N.</em>&mdash;Quanto
+mais galantes são essas historias (tornou Leonardo)
+tanto mais de estimar é a moderação, e bom termo de
+não se sahir d'aquelle limite da cortezia commum; e
+passando d'ella ha de ter a carta regras direitas, que
+ha alguns que escrevem em escadas como figuras de
+solfa: lettras juntas, e razões apartadas, com a distincção
+dos pontos, virgulas, e accentos necessarios, para
+fazerem perfeito sentido das razões; porque ha cortezãos,
+que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor
+os rasgos da penna, vão encadeando as lettras
+pelas cabeças, como sardinhas de Galliza; e de maneira
+confundem a escriptura, que não ha tirar d'ella o sentido
+verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas,
+que por mal escriptas perdem reputação; o papel seja
+limpo para n'elle empregar sem fastio a vista o que
+ha de lêr, e porque pareçam melhor as lettras bem ordenadas;
+a chancella sutil, porque ao abrir da carta a
+não offenda, que alguns a fazem parecer carta rota
+antes de lida: dobras eguaes, porque o concerto auctorisa
+as cousas, e as faz parecer melhor: o sêllo claro,
+assim para lustro da carta, como para guarda d'ella,
+pois é o cadeado que a defende dos curiosos de saber
+segredos alheios.&mdash;Não corrais com tanta pressa (disse
+D. Julio) por essas particularidades, e miudezas, que
+em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas
+contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo
+sobre a materia das armas, e tenções com que se costumam
+sellar as cartas; e assim estimarei que nos digaes
+d'isto alguma cousa. <br />
+<br />
+&mdash;As armas (respondeu elle) é a insignia que cada um
+tem de sua nobreza, conforme ao appellido com que
+se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as cartas de importancia,
+ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do
+escudo, ou com elle em tarja, como tenção; que estas
+como são pensamento, e desenho particular, se abrem
+ás vezes em redondo, ovado, ou quadrangulo, e outras
+<span class="pagenum">[31]</span>
+figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal é cousa
+muito antiga aos principes trazerem tenções, e emprezas
+com lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas
+Reaes, que posto que n'aquelle tempo não estavam
+tão apuradas como agora, nem eram sujeitas á
+arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, não
+lhes faltava entendimento, e galanteria. El-rei D. João
+o I trazia na orla das Armas uma lettra, que dizia:
+<em>Por bem</em>. E a rainha D. Filippa de Alancastre sua
+mulher,
+outra que respondia a esta em Inglez que dizia:
+<em>Me contenta</em>. O infante D. Fernando seu filho, o
+Santo,
+trazia uma capella de hera com seus cachinhos, e no
+meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja cavallaria era Mestre.
+O infante D. Pedro uma capella do carvalho com
+suas bolotas, e no meio umas balanças, e nas Armas
+Reaes, no banco de pinchar, em cada pé d'alto abaixo
+mãos, e por cima umas lettras escriptas muitas vezes,
+que diziam: <em>Dizer</em>, e entre cada palavra d'estas um
+ramo de carvalho com bolotas. O infante D. João, que
+foi mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel
+D. Nuno Alvares Pereira, trazia uma capella de
+ramos de silva com cachos de amoras, com as bolsas
+de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma
+com uma lettra em Inglez, que dizia: <em>Com muita
+razão</em>.
+O infante D. Henrique, Mestre na Ordem de Christo,
+trazia as armas do Mestrado, e de antigas de Portugal,
+e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava
+no cabo de baixo, e uma fivella que fazia volta com a
+correia, e em Inglez a lettra dos cavalleiros de Garrotea,
+que elle tambem era, e dizia: <em>Contra si faz quem
+mal cuida</em>. E uma capella de carrasco, e no banco de
+pinchar tres flôres de lirio em cada pé. El-rei D. Affonso
+o V trazia pintado um mundo com esta lettra: <em>Conheço
+que não te conheci</em>. El-rei D. João II seu filho, trazia um
+rodizio, com esta lettra: <em>Setere</em>: e na outra trazia
+um
+Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra: <em>Pela lei e pela
+grei</em>. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede
+de pescar, a que chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma
+esphera com uma Cruz. A excellente senhora, uns alforges,
+e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella
+com esta lettra: <em>Memoria de mi derecho</em>. O marquez de
+Valença, neto do conde D. Nuno Alvares, trazia dois
+guindastes, que levantavam um titulo de pedra, com
+<span class="pagenum">[32]</span>
+quatro lettras, cada uma por parte. E além d'estas ha
+memoria d'outras muitas, que dão testemunho do uso
+que d'ellas havia n'este reino.&mdash;Por certo, disse D. Julio,
+que estou assás contente do fructo que colhi da minha
+pergunta, por saber curiosidade tão notavel dos nossos
+principes antigos, que para a minha natural inclinação
+é a cousa de maior gosto, e interesse: e não fôra menor;
+pois falamos de Armas, e Tenções, e vós sois visto
+n'ella fazer que saibamos mais alguma cousa atraz
+d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve
+principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenções. <br />
+<br />
+&mdash;Quanto á minha opinião (respondeu Leonardo) é que
+armas, e emprezas, ou tenções não tiveram no seu principio
+a differença, que agora lhes assignam os que d'ellas
+escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com limitações,
+e regras mui apertadas. Antes me parece,
+que as armas eram as insignias que os reis, e imperadores
+davam aos seus para ser conhecida sua nobreza,
+conformando-se na figura d'ellas com a qualidade dos
+successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade
+do sangue d'onde descendiam a quem as davam,
+e as que os mesmos reis tomavam para si em memoria
+de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores.
+Emprezas, ou tenções são as que os mesmos
+reis, principes, ou particulares tomam, conformando
+as figuras, e lettras com o desenho, e pensamento que
+cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui
+adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram;
+que, por ser um discurso mui comprido, não tem logar
+em noite tão breve. Além d'estas ha, outras armas dos
+reinos, provincias, republicas, e cidades, que se devem
+chamar <em>diviza</em>, que tiveram principio ou das cousas
+de que são mais abundantes, ou da maneira em que fôram
+povoadas, ou adquiridas. E no que toca ao principio
+das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe por armas
+a pelle do leão que matou na relva Nemea, depois
+da victoria que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia
+a mesma ínsignia do porco de Erimanto, que matou
+em Arcadia. Jazon trouxe por armas o Velocino de
+ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o Paladion,
+e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra
+de Troia: estas eram verdadeiras armas, em memoria
+de valorosos feitos. E quanto ao principio das emprezas,
+<span class="pagenum">[33]</span>
+escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no escudo
+a cabeça de um leão de ouro, com uma lettra que
+dizia: <em>Este é terror dos homens, e o que o traz é
+Agamemnon</em>.
+Antioco trazia por armas outro leão. Heitor, dois
+leões de ouro em campo vermelho. Seleuco um touro.
+Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo
+azul. Alcibiades um Cupido. Lucio Papirio o Pégazo.
+Cezar uma aguia preta. Pompeio um leão com uma espada
+empunhada. Judas Macabeu um dragão vermelho
+em campo de prata. Attila um açor coroado. E cada
+um d'estes, posto que poderam tomar a figura das armas
+em significação de feitos celebrados, e victorias
+adquiridas, só quizeram dar-lhe as figuras conforme ao
+seu pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve.
+E descendo ás armas particulares dos reis, que sabemos:
+As do imperador é uma aguia preta de duas cabeças
+em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar,
+e da união do Imperio Oriental, e Occidental. Armas
+d'el-rei de França são tres flôres de lirio de ouro
+em campo azul, que fôram milagrosamente dadas a el-rei
+Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos
+de azul em cruz, em signal do vencimento que o
+primeiro rei D. Affonso teve dos cinco reis mouros no
+campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta dinheiros
+de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em
+memoria da sua Paixão, e do apparecimento que o
+mesmo rei vio antes da batalha: por orla das armas
+sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre,
+um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra,
+tres Leopardos de ouro em campo vermelho: posto que
+d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres corôas de
+ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os
+castellos, e leões, tão conhecidos no mundo. Armas d'el-rei
+de Frizia, um escudo de prata, riscado de linhas
+vermelhas, e atravessado com uma banda azul. Armas
+d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos,
+com cruzetas do mesmo metal, e outras pelos vãos dos
+angulos. Armas d'el-rei de Polonia, duas aguias de prata
+e um homem em cima de um cavallo, do mesmo metal.
+Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mão
+que a está tocando. Armas do Preste João da India, um
+crucifixo negro, com dois azorragues, em campo de ouro.
+Deixo outros muitos, como os bastões de Aragão, as
+<span class="pagenum">[34]</span>
+cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de
+ouro, e vermelho de Malhorca, e outras que querer contar
+fôra infinito. Tem do mesmo modo as provincias
+suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em que
+o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um
+elephante: Europa, um cavallo: A America, um crocodilo:
+Italia tinha por armas antigamente o cavallo:
+Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um raio:
+Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma
+cabeça armada: Albania, um cágado: Frizia, uma porca:
+Hespanha, um castello: Luzitania, uma cidade. As Republicas
+tem tambem suas armas particulares: A de
+Veneza, um leão com um livro nas unhas: A de Sena,
+uma loba: A de Genova, um S. Jorge: A de Florença,
+um leão com um livro de ouro. As Cidades, da mesma
+maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa,
+uma nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso
+Martyr S. Vicente, seu padroeiro: Coimbra, o
+drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeças das vigias:
+O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas
+torres: Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles
+dois corvos. E assim todas as outras. Porém isto é já
+muito tarde, e gastámos n'esta materia mais tempo do
+que convinha á das cartas, em que começamos; e porque
+nas armas, e tenções nos não fique por saber algumas
+significações, e figuras de armas dos particulares
+senhores, e fidalgos de Portugal, que todas fôram
+merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando
+os animaes, significadores de fôrça, braveza, e velocidade:
+e os planetas de poder, antiguidade, e clareza,
+e outras figuras semelhantes: Banda significa postura
+de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu
+alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco
+da vida: faxa, ou barra, representa victoria da batalha
+singular de cavalleiro a cavalleiro, e quantas fôrem,
+tantos diremos que são os vencimentos com que se
+ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello,
+significa ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforço,
+e perigo da vida. Escadas, asteas, ou pedaços de
+lanças, denotam subida trabalhosa, ou defensão arriscada
+na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos,
+ou forma que vêdes nas armas, todas nasceram de
+illustres façanhas, e valorosos feitos. E todas as das
+<span class="pagenum">[35]</span>
+empresas, e tenções, dão signal claro do animo, e pensamento
+de seus donos: e com umas, e outras se devem
+sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras,
+e lettras d'ellas, como tenho dito.&mdash;Vejo (disse Solino)
+que temos a carta cerrada, sellada, e com sobrescripto,
+sem ainda sabermos nada do principal d'ella. Não vos
+enfadeis (respondeu elle) que na noite de ámanhã a
+abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores,
+se não ficarem de agora cansados do sobrescripto.&mdash;Antes
+(disseram elles) que só o dia seguinte lhes parecia
+comprido, e vagaroso. E dando fim á conversação
+d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso,
+que com a moderada recreação de horas bem gastadas
+é mais aprazivel.
+<br />
+<br />
+<br />
+<a name="c4" id="c4"></a><h2>DIALOGO III</h2>
+<br />
+<h3>DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENÇA<br />
+DAS CARTAS MISSIVAS</h3>
+<br />
+<br />
+Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo
+aquella noite na materia das armas; e quasi a escolhera
+antes, que a das cartas. Por alguns particulares,
+que desejava saber, quiz com mão alheia, por não parecer
+importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que
+achou junto á sua porta; e depois de o saudar, lhe disse:
+Como estaes depois da noite de hontem.?&mdash;Como o dado
+(respondeu elle) que está de qualquer ilharga.&mdash;Deveis
+de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes tão poucos
+pontos, que faltaes aos da cortezia:&mdash;Fiquei (tornou
+elle) tão cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei
+aborrecimento, e nem estou para vos servir, nem
+para o dizer, e perdoae-me.&mdash;Logo (disse o fidalgo) não
+quereis continuar na conversação d'esta noite.&mdash;Se a
+carta (lhe tornou Solino) ha de ser tão comprida como
+o sobrescripto, assim o imagino.&mdash;Pois a minha tenção
+(proseguiu elle) era pedir-vos que na materia das armas,
+que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas
+á minha conta sobre alguns particulares das familias
+d'este reino.&mdash;Vós deveis buscar armas para me matar
+(disse Solino) porque das de hontem sahi eu tão escalavrado,
+que determinava fugir d'ella; e sei que tem
+<span class="pagenum">[36]</span>
+Leonardo tantos livros de armas, e gerações, que, se o
+tirar a terreiro, havemos mister todo o inverno para o
+ouvir.&mdash;Eu me contento (respondeu D. Julio) com saber
+que elle tem os livros, e assim o escuso do trabalho:
+porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes
+merecedores dos brazões que seus successores
+possuem.&mdash;Bom seria (disse Solino) acabar as cartas
+antes de entrar por esses feitos, e para isso vos irei
+acompanhando até a casa de Leonardo, posto que tinha
+outra determinação.&mdash;Porque vós não falteis (respondeu
+D. Julio) quero ir mais cedo. E com esta pratica, e
+outras que occorriam, foram passeando, e entertendo o
+que ficava do dia, até que a sombra da noite, e uma
+chuva miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde
+os amigos esperavam já que elles chegassem; e com
+Pindaro outro estudante seu companheiro, por nome
+Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasião
+em sua companhia. Festejaram todos a Solino;
+e elle vendo o hospede, de novo se lhe inclinou com
+mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja
+á dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta,
+que cerrámos sem elle, e com não pequeno trabalho.&mdash;Não
+tivera eu por tal (respondeu o estudante) antes
+por grande ventura, se do passado me coubera alguma
+parte; e esta, que alcanço agora com o consentimento
+d'estes senhores por meio de meu companheiro, tenho
+por muito grande favor, e mercê de todos.&mdash;Essa humildade
+(disse Solino) está acreditando mil esperanças de
+vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro
+sabe fazer esta eleição dos amigos tambem, como em
+tudo o mais é discreto, e acertado: e para que entendaes
+o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais
+certo creado que elle tem entre os senhores presentes. <br />
+<br />
+A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com
+as suas, até que o doutor os despartiu, e disse a Leonardo:&mdash;Bem
+gastado era o tempo em comprimentos
+tão cortezãos, e tão devidos, se o desejo, que temos de
+continuar a materia da noite passada, o não quizera
+poupar todo para ella: e assim vos peço que me façaes
+mercê, e a todos, de ir por deante.&mdash;Tendes razão (tornou
+elle) de me aliviardes mais depressa do cuidado, em
+que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar
+dos vossos principios, dissestes que cousa era carta
+<span class="pagenum">[37]</span>
+na origem do seu nome, os primeiros modos de escrever,
+e o como entre nós se conservou; tratei do sobrescripto,
+da cortezia, das lettras, do signal, das dobras,
+e sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais
+enfadados, que saudosos. <br />
+<br />
+Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos
+que cousa é carta missiva, ou mandadeira, e o
+para que foi inventada; que pela definição de Marco
+Tullio, a quem todos seguem, é uma messageira fiel,
+que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que
+lhes manifesta o que queremos que elles saibam de
+nossas cousas, ou das que a elles lhes relevam. Tres
+generos de <em>cartas missivas</em> assigna o mesmo Tullio,
+aos
+quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas.
+O primeiro é das <em>cartas de negocio e de cousas que tocam
+á vida, fazenda e estado de cada um</em>, que é o para que
+as cartas primeiro foram inventadas; que, por tratarem
+de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo,
+de cartas d'entre amigos uns aos outros, de novas
+e comprimentos de galantarias, que servem de recreação
+para o entendimento, e de allivio e consolação
+para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de
+peso, como são de governo da republica e de matérias
+divinas, de advertencias a principes e senhores e outras
+semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas
+domesticas, civis e mercantís. O segundo em cartas
+de novas, de recommendação, de agradecimento,
+de queixumes, de desculpa e de graça. O terceiro, que é
+mais grave e levantado, contém cartas reaes em materias
+de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias,
+laudativas, persuasorias e outras, que se pagam
+a cada uma das que nomeei em todos os tres generos.&mdash;E
+onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias
+ou namoradas? que se na vossa edade não teem logar,
+parece que o mereciam n'este díscurso.&mdash;Bem sei eu
+(tornou Solino) quem as tomára no primeiro; mas o
+sr. Leonardo já não joga com essas cartas.&mdash;Não me
+esquecia de todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para
+que no fim das mais sejam melhor recebidas, e para
+proseguir a materia quem agora as puder apurar. <br />
+<br />
+&mdash;As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem
+cartas muito seccas, que é materia esteril para que
+empregueis n'ella sem fructo o vosso entendimento.&mdash;Antes
+<span class="pagenum">[38]</span>
+(disse Leonardo) como essas foram as primeiras,
+e d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, será
+razão que debaixo d'este genero tratemos das mais,
+repartindo o pouco que eu soube dizer, por os logares
+de cada um. E assim me parece, que como a carta que
+escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre
+as cousas da casa; e o mercador ao outro sobre
+seus tratos e mercancia; um aviso e uma relação que
+lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por
+meio de uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica
+costumamos que é brevidade sem enfeite, clareza
+sem rodeios, e propriedade sem metaphoras, nem translações.&mdash;E
+quando (disse o doutor) faremos breves em
+uma carta?&mdash;Quando (respondeu elle de tal maneira, e
+com tal artificio a escrevermos, que se entendam
+d'ella mais cousas do que tem de palavras.&mdash;E como
+póde ser? (tornou elle).&mdash;Por meio dos relativos e subsequentes
+(disse Leonardo) que, sem nomear as palavras,
+as repetem; e por ordem das sentenças e adagios
+que sem entender as cousas as declaram; e n'isto se
+adeantam muito as cartas da pratica familiar, que, se
+escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem
+palavras para se subentenderem razões.&mdash;E que
+cousa é enfeite ou affectação? (perguntou Solino).&mdash;É,
+disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com
+elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de
+logar para as syllabas fazerem melhor som aos ouvidos.
+E em favor d'esta opinião, dizia um homem insigne
+d'este reino, e que teve n'elle os melhores logares
+da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a
+mulher muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas:
+e eu antes seguira este voto, que o de alguns
+rhetoricos, que deram á carta missiva cinco partes de
+oração, convém a saber: <em>saudação, exordio, narração, petição
+e conclusão</em>: e se houvessemos de seguir o seu estylo,
+mudariamos de todo o das cartas.&mdash;Nunca rhetoricos
+(disse o estudante) souberam escrever cartas, se
+as sugeitaram ás leis da oração. Mas parece que o sr.
+Leonardo dá a entender que na carta se não devem usar
+epithetos ou adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja
+elegancia d'ella: e eu tenho que sem elles se não póde
+escrever. <br />
+<br />
+&mdash;Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para
+<span class="pagenum">[39]</span>
+discripção e declaração das cousas ou para propriedade,
+ou para ornamento e enfeite d'ellas. Os primeiros são
+necessarios nas cartas como em tudo; os segundos menos,
+os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, <em>um
+homem douto</em>, <em>uma mulher formosa</em>,
+<em>um cavallo ligeiro</em>, <em>uma arvore
+alta</em>, <em>um caminho comprido</em>, <em>um
+peito forte</em>, sào attributos
+necessarios para declarar o que queremos dizer;
+porque ha homem que não é douto, mulher que é feia, e
+os mais. Os de propriedade como <em>ferro frio</em>,
+<em>relva verde</em>,
+<em>sol claro</em>, <em>calma ardente</em>,
+<em>areia sêcca</em>, <em>pedra dura</em>, estes são
+pouco necessarios nas cartas: e sómente por comparação
+ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo,
+<em>é duro como pedra</em>, ou <em>é dar em pedra dura</em>, ou <em>é
+malhar em ferro frio</em>. Os de elegancia e ornamento, tenho
+eu que se hão de degradar das cartas missivas
+para fóra do termo d'ellas, como agora <em>firme soffrimento</em>,
+<em>incansavel diligencia</em>, <em>solicito desejo</em>,
+<em>cuidadoso receio</em>, <em>importuna lembrança</em>,
+<em>desusada brandura</em>, e outros que tem juiz
+de seu fôro. Assim que não digo que faltem nas cartas
+epithetos necessarios, mas que se escusem os sobejos;
+nem se andem grangeando as palavras para fazerem
+assento em o cabo da sentença, que será ir contra a
+brevidade sem enfeite ou affectação. <br />
+<br />
+&mdash;Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve
+seria a de menos regras; e que não estava a cousa nos
+epithetos serem proprios ou necessarios. Uma carta
+(proseguiu elle) póde ser breve, e levar escriptas muitas
+paginas de papel; porque póde tratar de tantos
+negocios ou cousas que as occupem, mas estarão relatadas
+de modo que seja a leitura comprida, e a carta
+breve. <br />
+<br />
+&mdash;O segundo ponto (perguntou Pindaro) que é clareza
+sem rodeio, me parece a mim que fica declarado n'essa
+primeira parte; pois sendo breve a carta, e não tendo
+enfeite nas palavras, será clara e sem rodeios.&mdash;Não
+estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza é
+parte da brevidade, a clareza é das razões, e a brevidade
+das palavras: e assim póde a carta ser breve, mas
+confusa; e clara sendo comprida: que muitos para dizerem
+cousas querem estrada coimbrã, e caminho direito;
+buscam rodeios e atalhos em que se perdem,
+confundindo o que querem dizer. Em uma minha doença
+escreveu um amigo, e dizia: <em>Disseram-me que a saude</em>
+<span class="pagenum">[40]</span>
+<em>de vossa mercê corria perigo na inconveniencia de medicos
+discrepantes no remedio dos males d'essa doença</em>. E fez estas
+trocas onde podia dizer: <em>Soube que os medicos não se
+conformavam na cura dos vossos males, que na duvida d'elles
+corria risco a vossa saude</em>. Outro me escreveu ha muitos
+dias: <em>Se vossa mercê não está ausente das lembranças que
+suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas d'este
+seu captivo</em>. Havendo de dizer: <em>Se vos não esquece que me
+promettestes de ter lembranças de mim</em>. E porque ainda temos
+logar de tornar aos particulares das disposições
+das razões: <br />
+<br />
+Passando ao terceiro ponto, que é <em>propriedade sem metaforas</em>,
+ou <em>translações</em>.&mdash;A propriedade (disse o doutor)
+era materia da noite passada, quando falastes das letras
+e razões em seu logar, sem barbaria, nem impropriedade
+no escrever: e como isto é parte do exterior
+da carta, já hoje não tem dia.&mdash;A propriedade que vós
+dizeis (accudio Leonardo) é exterior, mas muito differente
+a de que eu trato, e não pouco importante ao
+falar, e escrever, que é a propriedade das palavras na
+sua propria significação, sem serem emprestadas por
+via de translações para outros logares, que é termo
+que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais
+declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando
+propriamente dos nomes: <em>Bando de aves</em>,
+<em>cardume de peixes</em>,
+<em>rebanho de ovelhas</em>, <em>fato de
+cabras</em>, <em>vara de porcos</em>, <em>alcatéa
+de lobos</em>, <em>tropel de cavallos</em>,
+<em>cafila de camellos</em>, <em>récua de
+cavalgaduras</em>, <em>manga de arcabuzeiros</em>,
+<em>mó</em>, ou <em>roda de homens</em>;
+e se, trocando isto, disséramos: <em>Um cardume de
+aves</em>, ou <em>uma alcatéa de ovelhas</em>, ou
+<em>um fato de porcos</em>, seria
+impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem
+nos verbos: <em>Chiar</em> de aves, <em>balar</em>
+de gado, <em>grunhir</em> de porcos,
+<em>ladrar</em> de cães, <em>rinchar</em> de
+cavallos, <em>bramir</em> de leões,
+<em>empolar</em> de mares, <em>encapelar</em> de
+ondas, <em>assoprar</em> de ventos,
+etc. E se dissessemos <em>chiar</em> de porcos,
+<em>rinchar</em> de leões,
+e <em>grunhir</em> de cavallos, seria o mesmo erro. E porque
+ha metaforas e translações tão uzadas e proprias, que
+parecem nascidas com a mesma lingua, que como adagios
+andam pegadas a ella, se devem trazer (quando
+forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que na
+pratica se costumam. Dizemos dos nomes: <em>folha de espada</em>,
+<em>lume de espelho</em>, <em>veia de agua</em>,
+<em>braços de mar</em>, <em>lingua de fogo</em>,
+<em>lanço de muro</em>, <em>faxa de ferro</em>, e
+outras semelhantes: e
+<span class="pagenum">[41]</span>
+nos verbos: <em>lançar o cavallo</em>, <em>fazer á
+capa</em>, <em>quebrar a palavra</em>,
+<em>cuspir o pelouro</em>, <em>arripiar a
+carreira</em>, e outras muitas:
+e além d'estas tão usadas, e naturaes, que servem de
+propriedade á lingua portugueza, ha outras nascidas
+de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e
+antiguidade, como são <em>furtar o corpo</em>, <em>ir
+vento em pôpa</em>,
+<em>nadar contra a agua</em>, <em>ficar em
+secco</em>, <em>repicar em salvo</em>, <em>tirar
+barro á parede</em>, <em>etc</em>. E quanto a carta
+tiver mais d'estas,
+será mais breve, e cortezã; pois, como primeiro disse,
+por este modo se entendem da carta mais coisas, do
+que tem escripto de palavras. <br />
+<br />
+Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes,
+populares, ou innovadas, será vicio na propriedade
+da carta; como se nos nomes dissessemos: <em>um
+feixe de cuidados</em>, <em>um mar de encommendas</em>,
+<em>um moio de
+queixumes</em>, <em>um golpe de razões</em>; e nos
+verbos, como: <em>enfeitar
+o desejo</em>, <em>tropeçar em cuidados</em>,
+<em>navegar em desconfiança</em>,
+e outras muitas. Esta é a propriedade, de que trato, e
+a que me parece que se deve usar no escrever das cartas
+missivas; porque não soffre o estilo d'ellas o que
+em a pratica, ou em outro genero de escriptura não
+sómente se permitte, mas muitas vezes se deseja. <br />
+<br />
+&mdash;Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitação,
+ou declareis a linguagem, que se deve usar n'este estilo
+das cartas; porque encontro muitas muito mal escriptas,
+cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se
+cançarem muito em quererem parecer singulares.&mdash;Posto
+que isso pertence primeiro ao fallar, que ao escrever
+(respondeu Leonardo) pois, como já disse, devemos
+escrever como praticamos; as palavras da carta hão
+de ser vulgares, e não já populares, nem exquisitas:
+vulgares de modo que todos as entendam; e ao menos,
+que a quem se escrevem, não sejam peregrinas: e
+não já populares, que sejam termos humildes, palavras
+baixas, que a cortezia não recebe: e que tão pouco,
+em logar dos adagios, e sentenças, tenham anexins.
+Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras
+alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas,
+que sempre tem o sabor da sua origem.&mdash;Assim na linguagem,
+como em tudo (accudio Feliciano) ficavamos
+satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o senhor
+Leonardo dividio as cartas, déra alguns exemplos
+que nos allumiaram; porque nem as regras sem elles
+<span class="pagenum">[42]</span>
+ensinam de todo, nem se póde perder a lição de tão
+bom estilo. O que eu não pedira, se foram dos vinte generos
+de cartas, em que um rhetorico as dividio; que,
+por querer dar leis, e partes a cada uma, as confundio
+todas.&mdash;Em tudo (tornou elle) vos quizera satisfazer:
+porém cartas mais se hão de escrever em occasião, do
+que trazerem-se por exemplo; que é o porque eu
+lhe nào déra regra certa, nem das muitas, que ha bem
+escritas, se póde tirar; que esse auctor, que vós dizeis
+que lhe assignou vinte generos, achará fóra d'elles infinitas
+cartas, bem melhor escriptas, que as com que
+os elle quer auctorisar. Porém, com o presupposto de
+não dar preceitos: <br />
+<br />
+As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas,
+civis, e mercantis, respeitam tanto a brevidade,
+que não podem os rhetoricos dividil-as em partes, se
+não forem nas da oração; e bastava para exemplo
+aquella de Cicero a Cornelio, que dizia sómente: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">carta de cicero a cornelio</div>
+<br />
+<br />
+"Alegrai-vos de eu não estar mal; pois terei o mesmo
+contentamento de saber que estais bem." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+E muito é mais para notar uma carta de Octavio
+Imperador para Caio Druzo seu sobrinho, que contém
+bem mais coisas, e avizos que palavras, e dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de octavio a druzo</div>
+<br />
+<br />
+"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares;
+que vos mandou o Senado; que sois moço; meu
+sobrinho; e cidadão Romano." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem
+deixam de ser cartas. Mas porque não só nos ajudemos
+das antigas, mas tambem com as nossas façamos pestoleta;
+esta é breve, e domestica, que um cortezão escreveu
+a seu amigo, a quem em uma ausencia deixára
+sua casa; e dizia:
+<br />
+<br /><span class="pagenum">[43]</span>
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta moderna a um amigo</div>
+<br />
+<br />
+"Estou tão confiado no que vos mereço, e tão seguro
+no que de vosso animo tenho conhecido, que me não
+dá cuidado a familia que deixei á vossa conta; senào
+o trabalho, que vos dará o sustentalla: não procuro
+saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em
+quanto a tiverdes, estará sem sobresalto a minha
+vida."
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+Á qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia
+d'esta maneira: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+resposta</div>
+<br />
+<br />
+"N'esta casa só vós fazeis falta; mas como sois o tudo
+d'ella, ainda que sobeja a minha diligencia, lhe falta
+tudo. No que é servir-vos, a todos satisfaço, senão
+o meu desejo, que é igual ás obrigações que vos tenho.
+Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver,
+porei por vossas coisas a vida." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+&mdash;Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e
+para me assegurar se a vossa memoria é archivo d'ellas,
+ou se as ides fingindo de repente (ainda que isto é
+menos curiosidade, que tenção) hei de pedir por parte
+d'estes senhores que de alguma nos deis semelhantes
+exemplos.&mdash;Não quero (disse elle) que acrediteis tanto
+o meu entendimento com mostrardes desconfiança da
+memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer
+nas que me lembrarem: e proseguindo nas da segunda
+especie d'este genero, me parece carta civil, e breve
+esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua
+casa para a terra, onde elle vivia; e dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de um amigo</div>
+<br />
+<br />
+"Espero com grande alvoroço que venhais para esta
+cidade, para que com vossa companhia viva n'ella contente,
+e vós desenganado de quam pouco em si tem
+que me possa alegrar, senão depois que vos possuir." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+A quem o amigo brevemente respondeu em outra
+que dizia: <br />
+<br />
+<br /><span class="pagenum">[44]</span>
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+resposta</div>
+<br />
+<br />
+"Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso,
+nenhum pode haver tão esteril, que, tendo a tal amigo,
+não seja desejado. Vós sois a quem busco, é força que
+me contente a parte onde vos achar; que as pedras
+não fazem a cidade, senão os homens: nem as commodidades
+da vida a sustentam, senão os amigos." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+As mercantis posto que são segundo os tratos, e negocios,
+e acodem mais a elles, que ao bom termo dos
+comprimentos; não deixa de haver muitas tão bem
+escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e
+ainda que não é d'ellas uma, que eu vi há poucos dias,
+a darei por ser tão breve, e era esta: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta mercantil</div>
+<br />
+<br />
+"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito
+grande risco nas fazendas d'essa terra: porém a valia
+d'ellas será muito avantajada, se chegarem a este porto
+a salvamento; se a cubiça do interesse vence o perigo
+das encommendas, ponde-as em ventura; que eu
+a terei para mim por muito boa o vosso bom successo." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+E assim não me desagradou outra, que dizia d'esta
+maneira: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta mercantil</div>
+<br />
+<br />
+"Com os tempos contrarios á navegação foram as
+occasiões ao nosso trato: que, como as mercadorias
+não foram requestadas de extrangeiros, estão ao presente
+abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando,
+mais as procurem os mercadores da terra; e
+n'essa vos não descuideis de fazer emprego, mandando-me
+o de muito boas novas vossas." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+&mdash;Não me pareceu (disse o doutor) que tirasseis tão
+boa doutrina de materia tão limitada; porque esse primeiro
+genero de cartas tinha eu que não sahia de uns
+termos e principios, que andam escriptos no panno da
+serpe, como são: <em>Á feitura d'esta</em>. <em>Esta não
+é para mais</em>.
+<span class="pagenum">[45]</span>
+<em>Uma de v. m. me deram</em>. <em>Pela de v. m. de
+tantos do passado</em>:
+<em>Depois de me encommendar em v. m.</em> E d'aqui correndo
+por
+seus capitulos <em>de quanto a isto</em>, e <em>quanto a
+est'outro</em> até
+topar no <em>a quem Deus guarde</em>.&mdash;Esses principios
+(disse
+Solino) estão já muito bolorentos; mas ainda para cartas
+de mais ponto tenho outros grangeados de algumas
+secretarias velhas, como impressão de Torres, de
+que me valho nas pressas de uma boa nota, que não
+são tão corriqueiros.&mdash;Não me atreverei eu sem esses
+(disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por
+notificado.&mdash;Pois assim é (disse Solino) quero obedecer,
+ainda que perco grande valhacouto em os descobrir;
+porque sabei que é comer feito para os ronceiros d'esta
+mecanica; e o mór trabalho d'ella é desencalhar a penna
+com a primeira palavra: e são quatro: <em>Como quer
+que</em>, <em>Tanto que</em>,
+<em>Depois que</em>, e <em>Antes que</em>. E sabei
+que não
+ha proposito, que saia das unhas d'estes bilhafres; e
+nos capitulos de <em>quanto isto</em> etc., se mette em logar
+do
+<em>quanto</em>, <em>no que toca a tal</em>, e
+<em>no que toca a qual</em>; que, a meu
+vêr, era melhor o <em>item</em>, que tinhamos tomado aos
+latinos.
+Mas os notadores de espada solta esgrimem já
+agora sem estes bordões maravilhosamente.&mdash;Bons estão
+os principios (disse D. Julio) porém haveis de metter
+a lettra em todos elles, para que nos não passem
+por alto.&mdash;Antes por muito rasteiros (respondeu elle)
+vos ficarão entre os pés. Porém tende tento, e vereis
+que são principios de parafuso e que se encaixam, e
+viram para todas as partes como grimpa. <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+"Como quer que os meus serviços montem ante vós
+tão pouco, e a vontade por minha seja de menos preço,
+etc. <br />
+<br />
+"Como quer que o animo, com que sou vosso, me não
+deixa perder occasiões, em que vos sirva, etc. <br />
+<br />
+"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar
+esta empreza, etc. <br />
+<br />
+"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças,
+lancei mão do meu atrevimento, etc. <br />
+<br />
+"Depois que me apartei de vós, não soube mais de
+mim, que para sentir saudades vossas, etc. <br />
+<br />
+"Depois que meus males me deram logar para tomar
+esta penna na mão, a empreguei em procurar novas
+vossas, etc.
+<br />
+<br /><span class="pagenum">[46]</span>
+"Antes que me desculpe de meus descuídos, etc. <br />
+<br />
+"Antes que vos dê larga conta dos meus successos,
+etc." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+De modo, que são como materia prima, em que moldareis
+tudo o que quizerdes: porém não quero ir adeante,
+e tomar o tempo ao sr. Leonardo; que o vejo entrar
+já por outras cartas missivas.&mdash;Antes (lhe disse
+elle) tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas.
+E tratando das do segundo genero, que são cartas de
+novas, a que chamam narrativas de cumprimentos, que
+se dividem em cartas de agradecimento, recommendação,
+desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria
+ou jocosas, como chamam os latinos: Para as
+narrativas nos podia servir de exemplo aquella em que
+o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu
+irmão Germanico, que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de tiberio cezar a germanico</div>
+<br />
+<br />
+"Os templos se guardam; os deuses se servem; o
+senado está pacifico: a republica prospera; Roma sã;
+a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que ha aqui em
+Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de
+Persia, que continha só tres palavras: <em>Cheguei: vi:
+venci.</em>
+E a de Gneu Sylvio, escrevendo as novas da Farsalia,
+que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de gneu sylvio</div>
+<br />
+<br />
+"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Catão
+se matou: acabou a dictadura; e perdeu-se a liberdade." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+E chegando a alguma, que com menos aperto faça
+sua relação, me não pareceu engeitar a que Marcello
+escreveu ao senado romano, dando-lhe novas da rota
+de Fulvio, que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de marcello ao senado</div>
+<br />
+<br />
+"Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento.
+Fulvio Proconsul com treze mil homens foi
+<span class="pagenum">[47]</span>
+desbaratado e ferido. Porém não vos cause temor este
+successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha
+de Canas, mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor
+d'ella: contra elle caminho brevemente com o meu exercito
+para lhe fazer mais breve a alegria d'este triumpho;
+e em vós desejo muito o mesmo animo que levo." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+&mdash;Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias
+atraz um amigo, de novas de Lisboa, que certo, pela
+brevidade, me pareceu digna d'esta lembrança, e dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta moderna</div>
+<br />
+<br />
+"Esta cidade está abastada, mas descontente: o mar
+cheio de corsarios: os portos de receios: o paço de requerentes;
+e elles de queixumes: para os validos tudo
+é pouco: aos desamparados não cabe nada: do remedio
+de tantos males não ha boas novas; e as minhas
+são que entre todos elles me falta a vossa companhia." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+&mdash;Essa (disse Leonardo) se póde ajuntar por exemplo
+ás antigas que relatei: e por não me empregar em outras,
+que seria demasiado trabalho a todos ouvil-as, e
+a mim recital-as, peço-as de recommendação de alguma
+pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar
+a disposição e offerecimento dos rhetoricos, encarecendo
+os merecimentos da pessoa ou a importancia
+da causa que encommendaes, facilitando-a na condição
+e vontade a quem a pedia; concluindo com a petição e
+offerecimento de vossa parte: e todas estas, e ainda
+um exordio de sentença, que hei por escusado, se vêem
+em uma carta que ha pouco que li, que um rei de Portugal
+antigo, escreveu ao de França, encommendando-lhe
+um fidalgo que ia estudar a Pariz; e dizia tirada
+de latim, em que estava em um livro extrangeiro: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de el-rei de portugal ao de frança</div>
+<br />
+<br />
+"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me
+pareceu muito digna de louvor a de terem particular
+cuidado e lembrança dos vassallos benemeritos em seu
+serviço, para com favores e mercês os ajudarem: e por
+esta razão me pareceu que devia encommendar a vossa
+magestade D. Pedro de Almeida, que por occasião de
+<span class="pagenum">[48]</span>
+seus estudos vae a essa côrte de Paris, posto que claramente
+conheço que, sem recommendação minha, vae
+assás encommendado pela liberalidade e brandura com
+que vossa magestade honra e recebe os homens tão
+illustres como elle é. Além do que, tem elle tantas
+partes e entendimento, que não achará melhor terceiro,
+que a si mesmo. Deixo seu pae D. João de Almeida
+conde de Abrantes, que com suas singulares virtudes
+e claros feitos, adquiriu e conservou até á morte muito
+estreita privança e amizade com meus antecessores e
+commigo; de sorte que ponho em duvida se importe
+mais a seu filho a minha carta, se a fama e lembrança
+de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a
+vossa magestade. E de minhas cousas não offereço de
+novo nada; pois pela irmandade de meus antepassados
+e minha, em toda a occasião deve vossa magestade
+usar d'ellas, como se foram communs a ambos." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel,
+mais breve que a passada, que era de seu antecessor,
+a qual elle escreveu ao mestre de Rhodes, encommendando-lhe
+um noviço portuguez, que ia servir a religião
+que será para exemplo das menos enfeitadas. O
+grão, mestre era o cardeal Pedro de Buzon, e dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de el-rei d. manuel ao grã mestre de rhodes</div>
+<br />
+<br />
+"Ayres Gonçalves, filho de Henrique de Figueiredo,
+vae a tomar o habito d'essa religião: não pareceu fóra
+de proposito nem de humanidade, encommendal-o a
+V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha
+casa, como pelos serviços e merecimentos de seus passados
+com os reis meus antecessores; e finalmente por
+seu bom esforço e virtude. Rogo a V. P. que com sua
+costumada brandura o favoreça de sorte que n'elle se
+accrescente o valor e a devoção que leva: e não porei
+esta obrigação no menor logar das muitas que tenho
+a V. P." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+As cartas de agradecimento tem o campo mais largo
+para n'ellas se espalhar a penna, e o entendimento;
+pois quem mais se obriga e encarece o que recebe,
+escreverá com melhor termo, não sahindo dos da carta
+missiva: e já os antigos não desconheciam esta galanteria;
+<span class="pagenum">[49]</span>
+pois Lybanio respondendo a Demetrio, que o
+obrigava a que lhe pedisse, escreveu assim: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de lybanio a demetrio</div>
+<br />
+<br />
+"Não daes logar a que eu vos peça, porque me mandaes
+tudo. Ainda bem as arvores não dão seu fructo,
+quando vossos creados m'o trazem: e do que até nos
+agros se sente a falta, eu a não tenho. Como me haverei
+n'isto? que o lavrador, quando o tempo lhe nega
+a agua, então a pede: porém, se chove, contenta-se
+de vêr que favoreceu o céo suas esperanças." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+O queixume por carta se deve fazer com toda a moderação
+que a urbanidade requere: e póde n'estas servir
+para exemplo e lembrança a que Olympias, mãe de
+Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle
+se assignava por filho de Jupiter, que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de olympias a alexandre</div>
+<br />
+<br />
+"Muito me alegro com a victoria que alcançastes da
+cidade de Tyro; e com todas vossas venturas e façanhas:
+porém tive por grande affronta minha vêr que
+vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta
+nova me escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que
+aquieteis n'isso o pensamento, e me não leveis a juizo
+ante a deusa Juno; que algum grande mal me ha de
+ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes
+manceba de seu marido." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+E se me não parecêra um pouco enfeitada uma carta
+que Angelo Policiano escreveu ao grande Lourenço de
+Medicis, a podéra pôr em exemplo da moderação de
+queixume, porque dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de angelo policiano ao duque de florença</div>
+<br />
+<br />
+"O poeta é semelhante ao cysne na brancura e suavidade,
+em ser affeiçoado a correntes de agua e amado
+de Apollo. Comtudo, dizem que o cysne não canta senão
+quando o vento zephiro respira. Não é logo muito
+<span class="pagenum">[50]</span>
+que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se
+vós, que sois meu zephiro, n'elles me faltaes." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo,
+e liberdade para se poderem usar n'ellas alguns termos
+fóra das limitações das nossas regras; porque assim
+em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos,
+ficam desobrigados das primeiras leis. que são <em>brevidade
+sem enfeite</em>: <em>clareza sem rodeios</em>:
+<em>propriedade sem metaphoras</em>;
+pois o termo da graça e galantaria, n'isso se
+differença do sizudo e pontual; não negando que ha
+algumas que não perdem a graça nem o sizo, como é
+uma que Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de lybanio a aristoneto</div>
+<br />
+<br />
+"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim;
+eu pelo contrario não perco occasião de dizer louvores
+vossos; porém quem a ambos nos conhecer, a nenhum
+de nós ha de dar credito." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+Das mais ha tantos e tão differentes exemplos, que
+seria aggravo a cada uma das outras trazer aqui algumas
+bem escriptas. Só direi que uma especie d'ellas
+é narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou
+das novas que dão; que não são por esse respeito pouco
+engraçadas. Ha outra das de disbarates, que, parecendo
+que se desviam nas palavras do proposito que tomam,
+dão a entender, como em enygma, o pensamento de
+quem as escreve; e são estas graciosas com subtileza.
+Outra ha das de murmuração em materias leves, como
+satyras menores: e umas e outras tem a galanteria no
+pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos
+graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas,
+phrase humilde, accommodada sempre ao sujeito. É
+certo que n'isto tiveram mão particular os portuguezes,
+que escreveram ao gracioso, que nem os italianos
+na phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco
+os egualaram. <br />
+<br />
+&mdash;Não vos houvera eu de consentir esse salto (disse
+Solino) deixando tantos exemplos em aberto, se não
+tivera pensamento de cobrar a demasia n'outra occasião;
+e assim por isso, como por ser já passada tanta
+<span class="pagenum">[51]</span>
+parte da noite, vos peço que façaes a vontade ao sr.
+D. Julio com essas cartas Reaes, de Estado e Governo,
+que as está desejando com a vida; pois a sua é nadar
+na altura de cousas semelhantes.&mdash;Eu vos mereço (respondeu
+o fidalgo) a boa opinião em que me tendes:
+porém egualmente me contentam todas as cousas em
+que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas
+me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso
+desejar esse terceiro genero de cartas; e se d'elle tornar
+ao primeiro, farão o mesmo effeito na minha satisfação.&mdash;Para
+responder a esse favor (tornou Leonardo)
+havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas
+que me ficam: e assim ou uma ou outra cousa me
+havei por perdoada. <br />
+<br />
+Não deixou o doutor ir os cumprimentos por deante,
+dizendo que eram em prejuizo de terceiro; e proseguindo
+Leonardo, disse: <br />
+<br />
+&mdash;As cartas do terceiro genero, que, pelas materias
+importantes, e differença das pessoas, são mais graves
+e humildes; posto que se incluem algumas d'ellas
+á oratoria, aproveitando-se da elegancia e razões para
+persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e
+posto que d'estas estão cheias as chronicas e annaes
+de todos os reinos, recitarei algumas que pareçam
+menos vulgares e mais breves para exemplo, como é
+uma que os consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram
+a el-rei Pyrrho sobre uma consideração em materia
+de Estado, que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de fabricio emilio a el-rei prrho</div>
+<br />
+<br />
+"Pelos aggravos que de vós temos recebido, o maior
+cuidado nosso é fazer-vos guerra com animo inimigo e
+braço esforçado: porém, para exemplo commum de
+fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque
+com a perda d'ella nos não faltasse um contrario valoroso
+a quem vencer. Nicias, vosso particular, veiu ter
+comnosco, pedindo-nos preço certo por vos dar morte
+occulta; em que nós não consentimos, fazendo-lhe perder
+a esperança de tirar fructo da sua maldade. Juntamente
+assentámos dar-vos este aviso; porque, se alguma
+cousa acontecer, se não presuma que sahiu do
+nosso conselho; e não sendo o intento d'elle pelejar
+<span class="pagenum">[52]</span>
+por preço, premio ou engano, vós, á falta de cautella,
+percaes a vida." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+Tambem me não parece indigna de lembrança uma,
+com que Rhodoge, mãe d'el-rei Dario, o reprehendia, e
+aconselhava na segunda expedição contra Alexandre;
+que foi a que se segue: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta de rhodoge para elrei dario, seu filho</div>
+<br />
+<br />
+"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos
+de todas vossas gentes e das alheias, para de novo
+offerecerdes batalha a Alexandre. Não sei a que effeito;
+pois o poder de toda a redondeza não basta para pelejar
+com os deuses immortaes que a elle o favorecem.
+Deixae esses pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria
+d'elles, concedendo á grandeza de Alexandre alguma
+cousa; que melhor é deixar o que não podeis
+ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo
+dominar tudo, ficar sem nada." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto
+extremo, que não deixaram que com ellas acabasse
+Leonardo sua obrigação; porque (disse D. Julio) já pelo
+voto de Solino, estas são as cartas, que entram na jurisdicção
+de minha curiosidade, não consinto que nos
+exemplos seja este genero mais limitado; mórmente
+que d'este se tira outra doutrina mais que a das cartas,
+que é a variedade das historias e occasiões d'ellas.&mdash;Eu
+(respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir
+adeante, se as horas tornaram atrás; mas partirei
+(como dizem) a contenda pelo meio, recitando uma
+carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos amazonios;
+e a valorosa resposta que elles lhe mandaram:
+e dizia a primeira: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta do turco aos amazonios</div>
+<br />
+<br />
+"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis
+guerra contra meu poder, não vos tivera tanto por
+inimigos, como por valorosos cidadãos, que pela patria,
+filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém
+com nenhuma razão me persuado que os que deixaram
+<span class="pagenum">[53]</span>
+tantos annos governar o reino a mulheres (como
+tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo de
+homens valorosos." <br />
+<br />
+<br />
+E a esta carta responderam elles outra, que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+resposta dos amazonios</div>
+<br />
+<br />
+"Este reino das amazonas, que, como por affronta
+nossa nomeaes, com o seu mesmo exemplo nos aconselha
+não obedecer a outrem: porque temos por infamia
+e torpeza que o exforço varonil seja vencido do
+espirito e braço feminino. Pelo que deveis julgar por
+invenciveis em armas, e dignos do governo e principado
+do mundo homens, entre os quaes até as mulheres
+apprenderam a reinar." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+E porque com exemplos gentilicos e barbaros não
+dê fim á conversação d'esta noite, direi por remate
+uma carta que o veneravel sacerdote Beda escreveu a
+Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados
+d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha,
+que dizia: <br />
+<br />
+<br />
+<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">
+carta do veneravel beda a carlos martelo<br />
+rei de frança</div>
+<br />
+<br />
+"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na
+christandade, se apparelha notavel ruina de toda a
+Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa e
+Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a
+terra de Hespanha, tirando a das Asturias e Cantabria.
+Africa, que o capitão Belizario cobrou aos romanos, e
+que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio,
+juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os
+mouros, fazendo-a obedecer a seus falsos ritos, com
+grande ignominia e affronta do nome christão. Que
+cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que
+contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram
+os suevos, os allemães e os mais varões do nome
+christão, que com tão grandes destruições tendes perseguidos?
+Perto estào, e sobre vossas cabeças os sarracenos,
+que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza
+<span class="pagenum">[54]</span>
+da terra. N'elles tendes formosissimos reinos,
+grossas cidades, ricos despojos; e vos esperam grandes
+triumphos da victoria: e principalmente incomparavel
+premio de gloria com Christo nosso Salvador, que
+para tão santa empreza com continuos brados vos está
+chamando." <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite
+pelo interesse de tão proveitosa doutrina; mas porque
+n'esta se não ha de dar fim ao nosso exercicio, fiquem
+algumas perguntas, que agora escuso, para outra occasião,
+pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem
+as de desafios.&mdash;As primeiras (replicou Leonardo) deixei
+por ser improprio da minha edade tratar d'ellas;
+as segundas, por me não embaraçar com o duello que
+está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos.
+Com isto se despediram dando-se boas noites:
+e o estudante foi encarecendo ao companheiro o muito
+que o espantára vêr tanta côrte em uma aldeia; que
+as cousas achadas onde não se esperam, são de maior
+admiração, e de mais estima. <br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<a name="c5" id="c5"></a><h2>DIALOGO IV</h2>
+<br />
+<h3>DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS</h3>
+<br />
+<br />
+Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns
+dos amigos por se lograrem d'elle com a occasião da
+caça se espalharam pelos montes; mas depois de
+horas de vespera visitou o estudante em companhia
+de Pindaro ao doutor Livio, com quem passaram a
+tarde n'um seu jardim em boa conversação, esperando
+a da noite, a que elles foram os primeiros que acudiram,
+e se acharam em casa de Leonardo; que
+commummente nos lettrados se accende melhor o desejo
+de saber, e não n'aquelles aos quaes lhes custou menos.
+Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos hospedes
+estava melhor ordenado; e depois de gastarem
+algumas palavras de cumprimento, chegaram D. Julio
+e Solino a quem todos fizeram muita festa; e, reprehendidos
+da pequena tardança, disse Solino:&mdash;Grande
+<span class="pagenum">[55]</span>
+espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me
+não detivera em esperar resposta de um recado, que
+mandei ao sr. D. Julio.&mdash;E eu (respondeu elle) se vos não
+encontrára, ainda não tinha entendido o vosso moço;
+porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer,
+que nem por discrição pude tirar o recado: nem
+vos desfaçaes d'elle para os que forem de importancia,
+que val a peso de ouro. <br />
+<br />
+A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:&mdash;O
+meu moço, sr. D. Julio, tem desculpa em ser
+nescio, porque é meu moço; que, se soubera mais,
+eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como
+vós, esses hão de ser discretos, pois são tão bons
+como eu: e comtudo eu vos sei dizer que ha aqui
+moço que no dar um recado o pudera fazer como ao
+que lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e
+já entermette de lêr carta mandadeira: mas nos recados
+ainda agora lê por nomes, e não acerta a nenhuma
+cousa.&mdash;Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um
+creado que esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes
+um recado concertado, discreto e cortezão: e o
+madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e desentôa
+com uma parvoice que vos desacredita, como com os
+meus me tem acontecido mil vezes.&mdash;Nos vossos não
+é muito (disse Solino) que daes os recados guarnecidos
+de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais
+perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino:
+mas os meus, que não passam de quatro palavras
+em linguagem corrente, e que assim os virem do
+carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça?
+Ora prometto que os de importancia eu mesmo os leve
+como aconteceu ao cortezão ausente, que levou elle
+proprio a carta a sua mulher: e os que houver de dar
+o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando
+o burel da sua natureza com o trabalho da minha
+disciplina. D'aqui por deante bôcca faz jogo: digo,
+que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha
+de chamar por auctor das suas impertinencias.&mdash;Certo
+(disse Leonardo) deixando de tratar dos meus, e vossos
+recados, que importam menos, e de outros em que
+vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração
+aos reis, principes, republicas, e aos grandes
+mandarem suas embaixadas, visitas e recados por homens
+<span class="pagenum">[56]</span>
+de auctoridade, discretos e bem disciplinados,
+em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes
+o bom successo do que pretendem. E assim os reis,
+principes e republicas nas materias de estado; as cidades
+e povos nas occasiões das côrtes; os senhores
+particulares nas visitas; devem sempre escolher homens,
+que no entendimento se avantajem dos outros,
+porque não sómente conseguem o fim da pretenção de
+quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes
+por respeitos, privança e valia se antepõem os menos
+sufficientes para estes cargos, se deitam a perder negocios
+de uma republica, em que consiste a quietação
+e honra d'ella.&mdash;Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o
+sr. Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra
+de seu logar, depois de o terem as cartas missivas; e
+bem se póde fazer a noite bem assombrada com tão
+bom sujeito.&mdash;Desculpado estou (respondeu elle) com o
+trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em
+fugir d'elle; mas não de approvar a vossa advertencia. <br />
+<br />
+A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem
+a materia de mais longe; e pediram ao doutor que, tomando-a
+á sua conta começasse.&mdash;Bem pudera usar (disse
+elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para
+minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer
+dos presentes mais sufficiencia para este encargo por
+lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou por obrigado.
+Digo que <em>recado</em> é nome que entre nós tem a
+etymologia.
+A significação é muito duvidosa, pelo modo em
+que usamos d'elle: porque, se houveramos de derivar
+este nome do verbo italiano <em>recare</em>, que é
+<em>trazer</em>; ou do
+verbo <em>recapacitare</em> que é
+<em>recapacitar</em> (d'onde elles chamam
+<em>recapacitar</em> ao <em>recado</em>) nunca
+disseramos d'elle tanto,
+como na nossa lingua portugueza significamos; mas
+se lhe buscarmos a origem do latim, virá mais ao nosso
+modo pela differença do messageiro ao que leva recado:
+que o primeiro <em>missa gerit</em>, faz as cousas que lhe
+mandam; e o segundo <em>recautus</em>, este é homem
+acautelado,
+que sabe o que ha de fazer no que está á sua
+conta; que assim convém mais com o nosso modo de
+falar, quando dizemos <em>homem de recado</em>, que quer
+dizer
+<em>de importancia, posto a bom recado, que é seguro</em>, e
+<em>com cautella:
+tardar e arrecadar</em>, que é levar ao fim o que começou:
+porém seja uma cousa ou outra, ou ambas, o principal
+<span class="pagenum">[57]</span>
+recado de todos é o do embaixador; e estes são
+de duas maneiras, ou o que o principe manda a outro
+por occasião successiva; ou o que de ordinario assiste
+em sua côrte, para conservação da benevolencia e amisade
+que entre elles ha: estes segundos tinham os romanos
+nas provincias junto á pessoa do consul, que as
+governava com titulo de legados, e com elles despachava
+os negocios de importancia. Mas aos primeiros
+chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes
+no officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em
+nossos tempos se aproveitaram muitos d'essa arte,
+sendo escolhidos para o cargo de embaixadores.&mdash;Eu
+(disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de
+falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a
+grandes principes, e não pouco doutas e elegantes,
+como foi uma que fez o bispo D. Garcia do Menezes ao
+papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei
+D. Affonso V, e por capitão de uma armada que
+elle mandava contra os turcos em favor da egreja no
+anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e outra,
+que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo
+com o arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar
+obediencia por el-rei D. Manuel no anno de mil e quinhentos
+e cinco: e outra, que fez o mesmo doutor ao
+papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a
+lhe dar obediencia com aquelle famoso ornamento, que
+ainda agora é dignamente celebrado na egreja romana
+assim pela grande devoção d'aquelle pio e catholico
+rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o
+papa respondeu em publico com uma doutissima oração
+de louvores do mesmo rei. E não é este costume
+só dos nossos embaixadores, mas de todos os extrangeiros,
+assim quando eram enviados a este reino, como
+a outros. Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco
+de França a el rei D. Manuel, que estava em Almeirim,
+no anno de mil e quinhentos e seis, Monsieur
+de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta
+oração em sua chegada: fóra outras muitas com que
+pudera allegar.&mdash;D'esses exemplos ha muitos (disse o
+doutor), e continuando com o que convém mais ao fim
+do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo
+de embaixador os homens das familias mais illustres
+do reino, dos illustres os mais discretos e cortezãos,
+<span class="pagenum">[58]</span>
+d'estes os mais animosos e liberaes, dos animosos os
+mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados;
+e são todas estas partes tão necessarias ao embaixador,
+que com a falta de qualquer d'ellas ou arriscará o
+credito do principe, que o manda, ou o negocio de que
+vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser
+illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e
+dos illustres d'elle, e por honra tambem do principe a
+que é mandado, pois ha de fazer as partes de um, e
+assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e nos
+vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores
+muito chegados em sangue ás casas dos reis que
+os enviaram, e sahirem outros da mesma qualidade;
+o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da
+Persia, Japão e outras remotas partes do oriente. Depois
+de illustre ha de ser discreto e cortezão, porque
+parece que mais que todas as outras partes, lhe está
+requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição
+e cortezia para tratar as cousas convenientes
+á sua embaixada, encobrindo, desculpando e persuadindo
+o que a seu rei convém; que esta é a differença
+do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o
+que lhe mandam que diga: o outro dispõe, ordena e
+conclue o que lhe encommendam que faça: um leva o
+recado na lingua, outro no peito, como disse um embaixador
+dos romanos aos carthaginezes na guerra de
+Sagunto, que levava a paz, e a guerra dentro no peito;
+e assim não vindo elles no que os romanos pediam, declarou
+a guerra. Além d'isto como o embaixador é um
+terceiro, e conciliador da amizade de dois principes,
+nenhuma cousa lhe é mais importante, que o entendimento,
+e tambem o ser cortezão lhe importa muito,
+pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á
+pessoa do principe, com communicação dos principaes
+senhores do reino; e ás vezes por esta parte sendo
+engraçado, e acceito áquelle a quem é mandado, acaba
+mais facilmente os negocios e pretenções de quem o
+manda. Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque
+nas materias que tocarem á guerra, tregua e liga,
+ou confederação com seu principe, se não mostre por
+sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue
+com seu exemplo a que o respeitem e temam; e
+tambem porque na occasião em que se offerecer ao
+<span class="pagenum">[59]</span>
+senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com
+as obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E
+o segundo, porque com a magnificencia se conquistam
+mais vontades e animos extrangeiros, que com qualquer
+outra valia, por grande que seja; e posto que
+esta parte a todas as pessoas illustres é necessaria, e
+em todos os cargos de guerra e officios da paz é tão
+estimada, no de embaixador é muito mais proveitosa
+para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella
+que convém ao de sua embaixada, e para mover os
+ministros e validos, em cuja mão ou conselho está seu
+negocio. Convém além d'isto que seja o embaixador
+homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e
+veneração; que em outro modo o corpo pequeno em
+pessoas de grande logar lhes tira muita parte do que
+se lhes deve. E um doutor nosso de muito grande nome,
+e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato
+seu uma lettra que dizia: <em>A presença diminue a
+fama</em>. <br />
+<br />
+E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo
+d'este reino com uma embaixada a um rei assás poderoso,
+vendo-o elle tão pequeno, lhe perguntou motejando
+d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino
+outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante
+cargo?" Ao que elle respondeu valendo-se do
+entendimento, e animo que tinha: "Que na corte d'el-rei
+seu senhor havia muitos homens do grande pessoa,
+e partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que
+para sua magestade lhe pareceu que elle bastava, e
+por isso o mandára." Finalmente é de muita importancia
+ser bem acostumado, para com sua temperança,
+continencia, e bom termo conservar, e acreditar o bom
+nome, e fama de seu rei, a honra de sua patria, e da
+propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus
+costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito,
+liberdades, e exempções que tem os embaixadores,
+como aconteceu aos da Persia, que vieram a el-rei
+Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça
+de Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo
+soffrer sua estranha dissolução, mandou alguns
+moços de bellissima figura, que em habito de damas
+os servissem á meza, levando escondidos punhaes com
+que se vingassem de qualquer deshonesto acometimento
+<span class="pagenum">[60]</span>
+dos embaixadores; que usando de sua demasiada
+luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da Persia
+offendido de se não guardarem com os seus as leis dos
+embaixadores, mandou um poderoso exercito contra
+el-rei Amyntas; porém o general d'elle sabendo como
+o caso passára, se retirou sem querer dar batalha aos
+Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores
+sejam escolhidos de sujeito acommodado aos negocios,
+de que hão de tratar; que tal occasião se offerece,
+em que convém serem humildes; e outra, em que
+é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam
+de ser animosos, e arriscados; e outras brandos, e dissimulados.
+Francisco Dandalo, embaixador dos Venezianos
+ao Papa Clemente V para levantar o interdicto
+ao Senado, contra quem estava iroso por razão das
+coisas de Ferrara, esteve lançado de bruços grande espaço
+á meza do Summo Pontifice, com uma cadeia de
+ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o
+obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua
+grande humildade foi chamado <em>cão</em>, e por seu valor
+succedeu
+no Ducado de Veneza. Pelo contrario Orfato Justiniano,
+homem de letras, e animo generoso, embaixador
+do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles,
+que pelo mau animo, que contra os Venezianos tinha,
+não fazia d'elle a conta, e estima que seu valor merecia.
+Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação, e humildade,
+que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta,
+por onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse
+dobrar o pescoço: porém elle entendendo a tenção de
+Fernando, entrou com as costas para diante, e voltando-se
+direito na casa fez a mesma cortezia, que costumava.
+Outro dia achando-se em um banquete, que o
+rei mandou fazer, dando-lhe de proposito os convidados
+tão estreito lugar que achava sua auctoridade,
+deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga,
+que trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar
+como os outros assentos.&mdash;A mim me parece (disse
+Leonardo) que os attributos mais importantes ao embaixador,
+e que sempre n'elle devem andar annexos, são
+esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em
+que se revolve o maior peso, e substancia, das coisas
+do Estado; o que se colhe dos exemplos que dissestes,
+e de outros muitos; porque o esforçado e entendido
+<span class="pagenum">[61]</span>
+em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda,
+nem ao que a si mesmo deve, nem á occasião de que
+se póde aproveitar, como aconteceu a Pompilio, embaixador
+a el-rei Seleuco, sobre conservar amisade com os
+Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo
+o Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava
+melhor; e entendendo o Romano que aquella dilação
+se fundava em fraqueza, e cautela, com o bordão
+que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou
+mettido, dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse
+se havia de determinar na resposta de sua embaixada;
+e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz que lhe requeria.
+E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador
+aos Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre
+as roupas muitas immundicias com grande rizada, e
+escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente: Vingai-vos
+agora do riso á vontade, porque tendes muito
+que chorar quando com vosso sangue se lavarem as
+nodoas d'este meu vestido.&mdash;Esses casos (accudiu D. Julio)
+são da mera jurisdicção do esforço, e cavallaria;
+ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque
+o valor do animo a tudo acode, e em nada perde
+ponto. E se não, vede a estimação que fizeram os reis
+catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo Fernandes
+de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o
+prior sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou
+a combater valorosamente tirando com muitos louvores
+d'aquella batalha feridas; e querendo-o el-rei desviar
+antes, porque não convinha ao cargo que trazia,
+lhe respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue,
+e o animo o obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe
+I a Frederico Badoaro, que os Venezianos lhe mandaram
+por embaixador a Genova, sendo elle principe
+de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos
+no segundo logar, succedeu chamar o principe a
+si ao duque de Saboia; e acenando ao veneziano que
+lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe
+com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes
+tirar; mas respondeu que antes havia de deixar a
+vida, que aquelle lugar, porque com a morte de um
+particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se
+lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era
+devido, a pessoa inferior em merecimentos. E quanto
+<span class="pagenum">[62]</span>
+á dissimulação, e soffrimento só nos esforços costuma
+a achar confiança para metterem em cortezania o que
+puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a
+Giuberto Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa
+Nicolau III, que já mais foi ouvido, nem pôde alcançar
+entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha
+contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até
+que, vendo elle o pouco que importavam suas muitas
+diligencias, fingio um dia, sahindo com alegre semblante,
+haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a
+que vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para
+Veneza; onde perguntando-lhe o Senado o que passara,
+respondeu: "Não achei o Papa em Roma, nem quem
+me soubesse dizer onde o acharia." <br />
+<br />
+&mdash;Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço,
+e entendimento no embaixador; porém tem igual
+necessidade de todas as outras para representar com
+a nobreza a pessoa do seu rei: para com a magnificencia
+adquirir as vontades dos ministros, e criados: para
+com a gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado:
+para com o conhecimento das coisas do Estado, e
+experiencia d'ellas acertar nas que se lhe offerecessem:
+e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar
+uma approvação na vista, de tudo o que se conhecer
+de suas obras. Mas porque não pareça que vou fora do
+em que comecei: A que os embaixadores não levam
+recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior
+confiança) que levam por escripto muito do que hão
+de dizer, e do que hão de pedir, ou conceder; porém a
+eleição do tempo, occasiões, e palavras fica subordinada
+ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus
+conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e
+ordens de como se hão de haver nas coisas os embaixadores;
+que são mais largas, quanto são mais remotas
+as provincias, a que são enviados.&mdash;O officio (disse
+Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro
+demanda maior cabedal de partes da natureza, e das
+adquiridas por experiencia: e sei-vos eu dizer que
+houve n'este reino famosos homens d'esta profissão,
+e taes, que, querendo nomear alguns, faria manifesto
+aggravo a outros muitos. Mas se o gran-duque de Florença,
+vencido da eloquencia, e partes de Hermolau
+Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos
+<span class="pagenum">[63]</span>
+Venezianos) com tantas mercês, e favores o persuadia
+a que ficasse em seu serviço; não faltaram outros, que
+sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram maior
+inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum
+teve lugar nos tribunaes supremos da corte de
+Hespanha, que para negocios particulares de um principe
+d'este reino foi mandado a ella, que pela grande
+satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido
+para os de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de
+espantar que de um embaixador e messageiro particular
+se fizesse um conselheiro de estado, sendo criado
+da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro
+cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões
+insignes em todas as profissões: d'onde sahiram vice-reis,
+e capitães maiores para o Oriente, e soldados para
+capitães, e mestres de campo, que defenderam, e
+honraram o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram
+Malta; fronteiros valorosos, que se assignalaram
+em Africa, todos criados da mesma casa, onde se
+acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem
+a Marte, e engrandeçam a Minerva, fazendo inveja
+aos mais avantajados nos exercitos, e presidios
+hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e academias
+mais nomeadas da Europa. <br />
+<br />
+&mdash;Tendes levantado este discurso de maneira (disse
+Solino) e está a materia d'elle tão altiva, que me parece
+que eu e Pindaro ficamos esta noite camarço, sem
+nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo
+me fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis
+a coisas tão differentes: folgara de saber se haveis
+de ficar n'esse tom, porque vos deixarei em termo
+com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar
+minha vida.&mdash;Ainda não tendes razão de vos queixar
+(respondeu elle) que antes por me chegar pouco, e
+pouco aos criados, deixei muito dos embaixadores,
+após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores,
+que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes,
+e outras vezes a visitas, e occasiões dos principes,
+que não menos devem ser escolhidos para estes cargos,
+buscando n'elles as partes mais necessarias que
+são discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam
+concorrer todas as mais; porque a cidade, ou villa,
+que manda ao principe seu procurador, ou agente,
+<span class="pagenum">[64]</span>
+n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.&mdash;De
+um cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado
+por procurador a cortes, lhe esqueceu no caminho
+o que a cidade lhe encommendára, e tornou a dormir
+a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que
+ía: e fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois
+lhe não esqueceu.&mdash;De outro ouvi eu (respondeu Solino)
+que jurou por vida da sua a el-rei Filippe I que se havia
+de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome
+de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias
+que na pratica disse, mais dignas de riso, que de credito.
+E um conheci eu, a que cahiram as luvas, e o
+chapéo da mão, começando a dar o recado de uma cidade
+a um principe; e levantando-as, perdeu o que
+queria dizer, de maneira que nunca atinou palavra.&mdash;Estes
+maus successos (proseguiu o doutor) testemunham
+o muito cuidado, com que se hão de eleger os
+homens para taes cargos; o que não importa menos
+aos titulares e fidalgos, que mandam vizitar a outros
+em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas, que
+saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso
+requer, para credito, e boa opinão de quem os
+manda.&mdash;Certo (accudiu Leonardo) que não julgará bem
+quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de
+ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um
+fidalgo que eu tratei particularmente, ao qual, estando
+enojado por morte de um seu filho, visitou da parte
+de um personagem um capellão bem apessoado, e disse
+que o senhor N. estimára muito aquella occasião
+para mandar visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço.
+A este conto fizeram todos muita festa. E Solino,
+que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não sei se virá
+muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a
+minha historia, em rasão da advertencia, e cuidado
+que deve ter quem visita em nome alheio; pois se vê
+que mais desattentos, que ignorancias, os erros d'estas
+materias. Uma senhora enojada por a morte de um
+seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como
+as mais costumam. A esta mandou visitar outra parenta
+sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando
+na primeira casa achou tão escura que, pegando-se
+ás paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço
+de cego; a qual o levou por a mão até uma porta
+<span class="pagenum">[65]</span>
+estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou
+para passar deante; a qual não alcançou tão bem o
+degrau, que não désse primeiro com as queixadas na
+humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a
+guiar a dona da mesma maneira até junto da camilha,
+onde o tornou a soltar: esta pessoa, cuidando que tinha
+alli outra porta, por não errar o degrau por baixo,
+levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada,
+que dando um grande grito a fez cahir de focinhos.
+Muitos, que estavam na casa, e tinham furtada
+a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram tão
+grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo
+o sentimento do nojo, e cahia cada um para sua
+parte sem se poder valer." Como Solino tinha graça natural
+no que dizia, deu muita a este conto, que foi celebrado
+com riso de todos.&mdash;Se assim é (disse Solino)
+que nesses ha tantos desatinos, e inadvertencias, não
+ha que espantar de criados menores, que uns são por
+natureza tão rusticos, que em nada acertam; outros
+por malicia tão depravados, que não querem saber senão
+o que é em favor de sua maldade.&mdash;Uma questão
+se offerecia agora (acudiu Pindaro) que, ainda que rasteira,
+é em materia proveitosa. Convem a saber se é
+melhor servir-se um homem de um moço simples, e
+nescio; ou de um malicioso ainda que seja esperto.&mdash;Eu
+estou melhor (tornou D. Julio) com o que me engana,
+que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer
+do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho
+para me poder enganar em pouco: e do nescio
+nem posso confiar em um recado as minhas razões,
+nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora
+o que ha de dizer, menos sabe o que lhe convém
+calar: além de que é grande desgosto andar um homem
+de continuo ensinando um rustico, sem proveito,
+que não tomará em sua vida tinta de discrição, por
+mais que o cozam n'ella.&mdash;A mim me parece outra coisa
+(disse Solino) em razão d'aquelle proverbio: <em>Antes asno
+que me leve, que cavallo que me derrube</em>.&mdash;Pelo rifão
+(respondeu
+Leonardo) entendo que quereis defender o vosso
+moço.&mdash;Se o não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou
+elle). Porém o moço nescio não pode desacreditar
+com sua parvoice o entendimento de seu amo, que não
+está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso,
+<span class="pagenum">[66]</span>
+e esperto, nem por o ser deixa de errar peior
+que os outros; porque não aprende o que convém a seu
+amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás vezes
+por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam;
+e quando não, troca as palavras ou o sentido
+d'ellas; muda o tempo, e a acezão do recado; vai quando
+quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o
+credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque
+dizem que <em>qual o amo tal o moço</em>; mais vos
+desacredita
+com a murmuração, do que vos acredita com o recado;
+e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O simples,
+se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se
+com o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o
+que pretendeis; e muitas vezes seus erros cahem em
+graça como as subtilezas dos outros em damno.&mdash;Boas
+são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa
+que pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois
+é regra de direito que <em>faz por si o que manda fazer por
+outrem</em>: e se a victoria dos soldados se attribue ao capitão,
+os ensinos, e palavras dos moços porque se não
+hão de julgar por de quem os governa, e manda? e
+menor damno é qualquer dos outros, que o de um homem
+parecer nescio á conta do seu moço. E sobre tudo
+não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que
+faça mal, diga mal, e presuma mal, e seja intelligente;
+que os mais d'elles cantam de quem roubam; que d'esse
+outro modo não é pintar criado, mas inimigo.&mdash;E não sabeis
+vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a
+maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim
+diz a sentença de Euripides, que não ha maior,
+nem peior inimigo que o criado: e Democrito diz que
+o criado é coisa tão necessaria, como amargosa: Luciano
+diz que os criados sempre tem malicia, e traições
+armadas contra seus amos.&mdash;A muitos tenho eu
+por inimigos (disse Feliciano) porém peior o será o nescio,
+que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo
+em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo,
+não ha maior servidão que mandar a um nescio.&mdash;Eu
+tenho procuração em causa propria (disse Solino)
+para acudir pelos criados, como testemunha de muitos
+fieis, e verdadeiros a seus senhores: e Euripides,
+e os mais devem de entender, o que disseram, dos escravos,
+que, como lhe temos tomada a coisa mais principal,
+<span class="pagenum"><a name="p67" id="p67">[67]</a></span>
+e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem
+odio, e nos desejam, e procuram mal; porque a vilesa
+do seu animo não soffre mostrarem valor na sujeição.&mdash;Não
+me parece a mim essa boa razão (accudiu o doutor)
+porque por dito de Seneca <em>nenhum escravo ha mais vil,
+que o livre, que serve por sua vontade</em>. (Não entendo n'este
+conto os nobres, e honrados, que servem aos grandes
+por respeitos razoaveis). E dos escravos, a que fez
+taes ou a ventura de guerra, ou outra desgraça, temos
+os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em
+que deixaram muito atraz <a href="#e1">os proprios filhos</a>. E se não,
+vêde se fez algum o que o escravo de Publio Catieno.
+que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de
+seus bens, pela fidelidade com que o servira; elle, por
+se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira
+em que queimavam o corpo de seu senhor,
+e morreu com elle, mostrando que estimava mais tal
+servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava.
+Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de
+ver a seu senhor vencido de Augusto. Euporo, escravo
+de Lucio Graco, que se matou sobre o seu corpo. E um
+escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam
+uma quinta, em que o senhor estava, para o
+matarem, trocou com elle o vestido, e metteu no dedo
+um seu annel de preço: e deitando-o fóra por uma porta,
+sahiu pela outra a receber a morte, que haviam
+de dar a seu senhor. E Frederico de Eveshim, escravo
+de Conrado Imperador, que, sabendo que vinham
+para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na
+sua cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado,
+o mataram: o outros muitos escravos sem nome,
+que mereciam que o seu ficasse eterno por memoria
+de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande
+animo de Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano,
+que vendo seu senhor cativo de turcos, e depois morto,
+desejando vingar-lhe a morte por preço de sua vida,
+fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no
+campo Turquesco, e dizendo que queria fallar a Amurates,
+primeiro imperador d'aquelle imperio, o matou
+a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a
+vida valorosamente.&mdash;D'esses escravos (replicou Solino)
+não trato eu, que mereciam ser senhores de seus senhores;
+como tambem houve criados que mereciam ser
+<span class="pagenum">[68]</span>
+servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes
+foi escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava,
+em que sabia servir, respondeu: que <em>em mandar
+homens livres</em>; por o que Xeniades o libertou dizendo:
+<em>aqui te entrego meus filhos para que os mandes</em>. E
+Epicteto,
+que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo
+de Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro
+da immortalidade. Porém a nós não nos cahiram
+em sorte estes escravos, senão a gente mais barbara
+do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria
+da Asia, que é da gente mais vil das provincias
+d'ella; que uns, e outros tratam os portuguezes
+com rigoroso cativeiro n'aquellas partes, vendendo-os
+para serviço das minas das Indias de Hespanha como
+condemnados á morte: e assim se podem estes chamar
+com razão inimigos mortaes de seus senhores.&mdash;Tambem
+(disse o doutor) houve já n'este reino escravos
+illustres de muito valor, entendimento, e sangue,
+conhecidos por taes, e tratados como se estiveram em
+liberdade, que cativaram nas nossas fronteiras de Africa,
+em cujas historias me eu não quero deter por me
+não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas,
+que uns e outros representam a pessoa de
+quem os manda, no que toca ao recado que dão: o que
+a mim me parece que está bem provado com o costume,
+que os antigos tinham em mandar os seus, que
+não fallavam por terceira pessoa, como é o nosso uso,
+que dizemos <em>diz fuão que vos beija as mãos</em>;
+<em>que vos pede
+isto</em>; <em>vos encommenda este outro</em>;
+<em>vos lembra tal coisa</em>: antes
+costumavam: <em>N. vos diz</em>, <em>beijo-vos as
+mãos</em>, <em>rogo-vos isto</em>,
+<em>encommendo-vos este outro</em>, <em>lembro-vos tal
+coisa</em>, representando
+nas palavras a mesma pessoa que as mandava
+dizer; e d'esta maneira ficava arriscado nosso amigo
+Solino, representando pelo seu moço: pelo que a mim
+me parece que o melhor do recado é ser tão breve,
+que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro,
+que o entenda sem trabalho a quem se manda. E com
+isto, e com vossa licença me hei por desobrigado do
+que n'esta materia podia dizer.&mdash;Não pela minha parte
+(disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de
+mais habilidade que todos os de que falastes, em cuja
+profissão entra a de embaixador, agente, procurador e
+recadista; e ainda outros muitos, que é o do terceiro,
+<span class="pagenum">[69]</span>
+ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse
+Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais
+vil, e reprovado, que os de mais, e se empregar em materia
+tão odiosa á Republica: porém sem entrar no fundo
+d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da superficie.&mdash;Bem
+sei (respondeu o doutor) que para me metter
+em desconfiança levantais essa lebre; e não vos
+enganeis, que tanto se deve tratar de officios viciosos
+para fugirem d'elles, como dos de virtude para os seguirem,
+e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os
+romanos deram leis á sua profissão, segundo escreve
+Pedro Crinito; as quaes estavam escriptas no templo
+de Venus; e Licurgo, aquelle grande legislador dos Lacedemonios,
+tambem lhes deu regras, e liberdades, posto
+que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos
+os agasalham; mas se ha officio de muito cabedal,
+e pouca honra, é o do alcoviteiro, porque ha alguns
+que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular,
+Sallustio no persuadir, Terencio no representar,
+Ovidio no fingir, Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar,
+Ulysses no tecer, Momo no desdenhar; e todas
+as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em
+afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para
+lhe assignarmos as partes necessarias, fôra acertado
+pintar o avesso do embaixador, com que só convém
+em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser
+baixo, vil, desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso,
+ingrato e soffredor de todos os escarneos e zombarias,
+porque não só é de sua profissão enganar, mas
+tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que
+seu exercicio merece.&mdash;Muito cruel estais contra elles
+(tornou D. Julio) e não tendes razão; quando vitupereis
+o seu officio, não vos esqueçais da grandeza das
+partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e
+encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha,
+e convence como um rhetorico: finge, disfarça, e
+representa com figuras, espantos, meneios, e hypocrisias
+nos gestos, e palavras como um commediante:
+pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia
+toucados, e vestidos, e trata os rostos, e feições
+melhor que um pintor; sabe mais da natureza
+das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o
+falso por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades,
+<span class="pagenum">[70]</span>
+e achaques dos que lisongeia, como medico;
+obriga, e engana no interesse, como legista; adivinha
+os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo.
+Não ha finalmente arte liberal, nem mecanica,
+de que se não valha, e em que não vença a seus professores.&mdash;Ainda
+me parece (disse Solino) que haveis de
+chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero
+commum de dois, accommoda-se melhor ao feminino.
+E pois de embaixadores descemos a criados, não é
+de espantar que tropecemos em tão ruim gente.&mdash;Parece-me
+(disse o doutor) que de aposta quereis profanar
+a minha auctoridade; não vos quero dar esse gosto á
+minha custa: e não passemos d'aqui n'esta materia:
+e tambem porque é mais tarde do que parece, demos
+lugar a que o senhor Leonardo se recolha. <br />
+<br />
+Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando
+e agradecendo cada um ao outro o que dissera;
+que tanto se contenta o discreto da boa razão
+alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<a name="c6" id="c6"></a><h2>DIALOGO V</h2>
+<br />
+<h3>DOS ENCARECIMENTOS</h3>
+<br />
+<br />
+Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem
+aos interesses d'ella: e era em todos tão egual
+o desejo, que nem a occupação de cada um os desencontrava;
+porque o gosto, em que se enleva o entendimento,
+faz menores todos os respeitos ordinarios da
+fazenda, e familia. Entraram á noite juntos em casa
+do hospede com grande alvoroço, dando cada um no
+caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam
+de gastar aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem
+ainda no que seria, disse D. Julio: Por certo,
+senhores, que estou tão enleado com uma coisa que
+vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar
+ao decoro que convém ao sujeito d'ellas; porque
+nos mancebos as palavras de mero louvor de uma mulher,
+ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e
+mais facil é de presumir um engano de affeição nos
+meus olhos, que de persuadir um espanto a entendimentos
+<span class="pagenum">[71]</span>
+tão levantados como os vossos. Porém seja o
+que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes;
+que com todos, os que houver, me aventuro.&mdash;Que novidade
+é esta, senhor D. Julio (disse Solino), que sermão
+quereis fazer, que tomaes a graça, e nos tendes pendurados
+a todos no desejo de vos ouvir?&mdash;Esta manhã,
+(proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar
+n'ella o dia, com menos cuidado do desejo da noite,
+me fui pôr detraz da nossa serra alongando-me para a
+parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando
+sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de
+penedos, coberta da sombra de uns altos hervados, e
+atoeiras, cheios de verde rama como no melhor tempo
+da primavera, embaraçados com umas vides silvestres
+que os atavam, e que ainda de todo não estavam despidas
+de sua folha, vi junto a ella, e coberto com elles
+o mais formoso rosto, que eu imagino que pode haver
+no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era
+de uma mulher em habito de peregrina, que fiada na
+solidão d'aquelle deserto, e por gosar dos raios do sol,
+que n'aquelle logar se espalhavam, com os toucados
+lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava
+os cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam
+perder ao sol a formosura, mas cobrindo outro mais
+formoso, que era o seu rosto, contentavam de maneira
+o desejo, que não fazia muito por passar d'elles adiante.
+Eu sem atinar no silencio, com que era razão que
+me escondesse por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido,
+que, afrouxando as redeas ao cavallo, o deixei
+tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa
+peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia
+os cabellos se apartaram, qual sôa ferir o relampago
+d'entre as nuvens, me saltearam a vista com uma luz
+estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de
+ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos
+eram duas estrellas de diamantes, em cujo fundo um
+verde escuro de esmeraldas apparecia, que communicando
+áquella formosa côr a claridade dos raios, que
+despediam, roubariam as almas de quem os olhasse;
+e descendo d'elles abaixo, era tudo tão cheio de perfeições,
+que o menor logar, em que se empregava a
+vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca
+<span class="pagenum">[72]</span>
+era um laço de todos os pensamentos amorosos; e
+nunca vi coisa tão pequena, em que coubessem tantas
+grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio, que
+com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam
+como por vidraça as perolas, que até então me
+não descobrira o pejo, com que ficou de haver visto.
+A columna, que sustentava este edificio, era um pescoço
+de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues
+muito delgadas, que me representaram n'aquella hora
+a côr do céo sereno, que pela rotura de duas nuvens
+brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o
+circulo da sombra, com que se engastava no aspero
+burel da esclavina que a romeira vestia: apeei-me eu;
+e n'este mesmo tempo lançou ella o toucado sobre os
+cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho;
+mas como as suas madeixas eram mais compridas,
+que a toalha branca, com que as quiz encobrir, se mexericavam
+pelos extremos das pontas, que vinham a
+guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe
+com a cortezia, a que a modestia, e gravidade do
+seu rosto me obrigava; e ella sem mostrar outro alvoroço
+de minha presença mais, que vestir de escarlata
+a branca neve de que parecia formado, me respondeu,
+perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle
+o caminho. Eu, que não perdia com os olhos um só
+movimento dos que os seus faziam, me pareceu tudo
+o que tinha visto, sombra da graça e brandura com
+que falou com uma voz tão fina, que penetrava o interior
+do coração, e tão suave, que o desfazia, e com
+uma modestia tão grave, que não dava logar a se pôrem
+n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito
+armado de receios. Perguntei-lhe d'onde era, para
+onde ía, encarecendo-lhe o perigo em que punha sua
+belleza de ser offendida, fiando-a de desvios tão solitarios.
+Mas ella despresando todos os temores, e fazendo
+mais difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe
+pendia, que pelos trances que á sua conta se me representavam,
+deu a entender muitas cousas, com que
+eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras,
+e lhe offerecer algumas das que costumam haver mistér
+os que fóra da sua patria vem experimentar os
+males das alheias. E além de eu estar atalhado com
+<span class="pagenum">[73]</span>
+sua vista, o estava ella tanto com minha presença,
+que perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não
+molestar: despedi-me magoado: estou arrependido; e
+cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que não aparto
+o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram.
+E porque ainda me parece que deve ser mais estranho
+o successo, que a traz n'aquelles vestidos, que
+a novidade de sua gentileza, a que se deve todo o cortezão
+tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor
+Leonardo que por a melhor via, que lhe parecer,
+saiba d'esta estrangeira, que por esta noite deve de
+estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia, e
+eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.&mdash;Bem
+andastes, senhor D. Julio (disse o doutor)
+em tomar primeiro carta de seguro para o que havieis
+de dizer; porque os encarecimentos d'essa peregrina
+são mais pinturas vossas, que gentilesas suas;
+porque não ha mulher nas obras da natureza tão perfeita
+cá na terra como a soube fingir o vosso entendimento,
+ou affeição: e á conta d'ella me parecia bem
+que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural,
+que em materias de amor tudo o que reluz é ouro,
+e tudo o que assombra é sol; e só com esta desculpa
+salvareis louvores tão desacostumados.&mdash;A affeição do
+que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da
+peregrina dizei o que quizerdes contra minhas razões,
+que nas suas partes hei de achar armas com que defenda
+o que disse. Leonardo se offereceu então a mandar
+fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando
+para Solino, que tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós,
+callaes, quereis allegar serviços ao senhor D. Julio,
+porque a vossa natureza não é deixar passar esta mercadoria
+sem registo.&mdash;Estava agora (respondeu elle)
+cuidando nos livros de cavallarias, que ha poucas noites
+que defendi; e desejava dar um cavalleiro andante
+áquella peregrina; que se uma cousa d'estas apparecêra
+a meu amigo Pindaro, que encantamentos não
+rompera, e que poesias, e obras heroicas appareceram
+de novo no mundo, que alabastros, marfins, marmores,
+crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por
+esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este
+encontro mais elegante do que se esperava; Pindaro,
+com sua licença, tem n'esta materia mais direito adquirido;
+<span class="pagenum">[74]</span>
+e não se houvera de contentar de descer do
+céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas
+os archanjos, cherubins, dominações e potestades haviam
+de ter logar n'elles. <br />
+<br />
+&mdash;Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos
+agora com esta materia em desconto, e recompensa
+das passadas; e gastar esta noite em saber a
+causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é
+pensamento que já me desvelou em outra edade.&mdash;Obrigo-me
+eu (disse Leonardo) que a nenhum dos presentes
+descontente a vossa escolha; e eu particularmente
+estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do Licenciado,
+que por hospede, estudioso e cortezão se lhe
+deve o logar.&mdash;O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca
+importancia, e o logar devido a outrem; mas com toda
+a humildade acceitarei o que me derem: e se com a minha
+razão ficar corrido, barato é o saber que se compra
+com primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos
+nascidos de amor não devem parecer estranhos
+(por deseguaes que sejam) a nenhum juizo affeiçoado;
+porque o amante para pintar a formosura de uma dama,
+que satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente
+achará nas cousas creadas a que a compare,
+que lhe fique parecendo que a encarece; porque, ainda
+que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto
+como os seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra
+menos com a claridade de sua luz, que com vêr o rosto
+de quem ama; e são de menos valia para seu gosto e
+desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras,
+que o riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e
+de não imaginar na terra um amante cousa que se
+eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario de
+a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento,
+subindo com elle pelas gerarchias mais levantadas:
+a causa é, porque o amor faz as cousas tão formosas
+a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza
+que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que
+engrandeceu a muitas d'ellas: que até do gosto, como
+diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor é saboroso;
+nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave:
+que não sómente com seus poderes dá perfeição ás
+cousas, mas tambem as converte em outra substancia.&mdash;Não
+estou contra a vossa razão (acudiu Leonardo) mas
+<span class="pagenum">[75]</span>
+parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes,
+que todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos
+limites; porque, em descendo da pedraria, os que são
+menos lapidarios empeçam em coral, marfim, porfido,
+alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto,
+a paixão de amor não havia de guardar regra certa nas
+palavras, e louvores, antes encarecer sua dama com as
+cousas que a seu gosto e opinião sejam mais formosas;
+e como as affeições são tão differentes, assim o seriam
+os gabos, e encarecimentos.&mdash;Para louvar (replicou
+Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter
+affeição; porque logo daes com uma estrada Coimbrã,
+que é <em>tão bella como o Sol</em>, <em>tão clara como
+a Lua</em>, <em>tão alva
+como a neve</em>, <em>tão loura como o ouro</em>; e
+d'aqui adeante.&mdash;A
+mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado,
+que o doutor tinha geito de metter os louvores
+de uma dama em exemplos caseiros, chamando-lhe
+fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim,
+clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e
+como os amantes para encarecer se não contentam com
+pouco, todos chegam ao que pode ser: todo o branco é
+crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde
+esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos;
+e até as mães dos meninos, a que naturalmente
+tem excessivo amor, não lhes sabem chamar pouco:
+quando os tomam nos braços, logo os intitulam de <em>meu
+duque</em>, <em>meu marquez</em>, <em>meu
+conde</em>; nas pedras <em>meu diamante</em>,
+e nas flôres <em>meu cravo</em>, e <em>minha
+rosa</em>: quanto mais louvando
+mulheres, a quem todo o encarecimento fica
+curto, e envergonhado pela fôrça, com que tem captivos
+os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas.
+E para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente
+n'este particular.&mdash;Os encarecimentos, de que usam
+os amantes (disse Pindaro) menos são seus, que adquiridos
+dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os
+escriptos em suas obras: porque, como retratadores
+das obras excellentes da natureza, buscaram tão
+altivos materiaes para darem vivas côres á formosura.
+E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra,
+lhe accommodassem côres, e attributos celestes, quando
+para pintarem cousas do mesmo céo usam tantas
+vezes de semelhanças, e encarecimentos da riqueza da
+terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos
+<span class="pagenum">[76]</span>
+de lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de
+topazios, jacintos, e esmeraldas; e o mesmo fez pintando
+os pavões, que no céo levavam o carro da Deusa
+Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano
+Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente,
+e levantada, e por tal escolhida das Sibyllas, e
+Oraculos para usarem d'ella, tambem fizeram os amantes
+a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda
+consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e
+settas de Cupido, com todas as mais allegorias, e transformações
+que os poetas usaram.&mdash;A verdade é (disse o
+doutor) que a perfeição da formosura animada se não
+pode devidamente encarecer com alguma semelhança,
+que o não seja, porque todas lhe ficam muito inferiores:
+o que declarou bem uma dama Florentina, que
+perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de
+mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor
+d'aquelle tempo; ella, sem responder com palavras, fez
+que uma creada sua formosa e bem proporcionada, despisse
+em si as partes, que a figura mostrava núas; e
+logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama,
+e valor que d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico
+da formosura, que declara engenhosamente este
+pensamento: a figura do qual era uma mulher com a
+cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas
+rodeado de um resplendor, que o não deixava vêr distinctamente;
+na mão direita um lirio, e na outra um
+compasso; significando com a cabeça mettida no céo,
+e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia
+encarecer, fazendo impedimento á vista humana como
+raios derivados da belleza Divina; o lirio denotando a
+graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza
+foi sempre symbolo da formosura; o compasso a medida,
+proporção, e correspondencia dos membros, em
+que consiste toda a perfeição d'ella. Mas Pindaro tudo
+quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem
+pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem
+entrar os desvarios dos namorados, por serem
+muito eguaes o furor poetico, e o amoroso. Porém, já
+que os encarecimentos estão approvados com tão boas
+razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que
+vivem, morrem, e ressuscitam a cada passo, e que andam
+sem almas como cantaros, e sem coração como
+<span class="pagenum">[77]</span>
+furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de
+amor vive exceptuada das leis da natureza.&mdash;A razão
+(respondeu Feliciano) é a mesma; porque quem encarece
+a causa egualmente exagera os effeitos: a pena
+de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança
+é o maior tormento da morte ao que ama; e um
+favor e brandura, que recebe em sua affeição, é na sua
+estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de viver
+sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente
+um poeta moderno, dizendo em um soneto á sua
+dama, da qual estava ausente, que uma parte da alma,
+com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava,
+entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra
+cousa os desvarios, e desattentos dos que amam,
+senão viver em certo modo fora de si, como pareceu a
+Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde
+o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da
+cousa amada ficam com elle.&mdash;Tambem S. Jeronymo (accrescentou
+o doutor) escreve que o amor da formosura
+é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas
+ao amor, inimigo d'ella. E que maior exemplo se
+pode imaginar d'esta verdade e mudança dos que
+amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de
+Lidia acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe
+os anneis dos dedos, ella com a corôa real
+na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu
+d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o
+de Dionisio Syracuzano, que por mão, e parecer de
+Mirta sua amiga despachava os negocios importantes
+do seu reino? que mais extranho, que o de Themistocles
+Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado
+de uma dama, que captivou na guerra de Epyro,
+usava em uma doença, que sua amada teve, dos mesmos
+remedios que lhe a ella faziam, tomando as purgas,
+e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto
+por regalo, e gentileza com o seu sangue d'ella? que
+menos crivel, que o de Lucio Vitelio Imperador, que
+namorado de uma filha de um escravo seu, a quem libertara,
+de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma
+esquinencia, não usava outro remedio mais que um
+unguento que fazia de mel com o cuspo de sua dama,
+imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar
+saúde untando com elle a garganta?&mdash;De maneira (disse
+<span class="pagenum">[78]</span>
+Leonardo) que amor tira os sentidos, e o juizo a quem
+se emprega todo em seus cuidados: e eu tinha para
+mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser
+bom namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa
+opinião, pois os que amam não tem entendimento.&mdash;Só
+o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser amante, e por
+isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal
+poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais
+ao ponto da vossa duvida, o amante pelo ser não fica
+nescio, mas parece-o em muitas acções dos sentidos,
+e entendimento; porque, transportado na imaginação
+do que ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.&mdash;Extranhamente
+(accudiu Solino) me contenta ouvir
+esta razão para desculpar commigo os maus successos
+de namorados, a que não sabia tão boa desculpa;
+que assás grande é para esquecer cousas menores
+quem está fora de si: porque, deixados esses exemplos
+de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e mais
+notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram
+o entendimento; de outros de menos estofa, e
+mais modernos sei eu descuidos, que podiam entrar em
+historia n'esta occasião, e por me aproveitar d'ella: Eu
+conheci um cortezão mui empenhado em finezas de
+amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama
+em um quartão, que já aturava aquelle fadario todos
+os dias como em atafona; acertou n'aquelle a ser mais
+favorecido da senhora, que de quando em quando lhe
+apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado
+mancebo, que por seguir a caça se esqueceu do
+tempo, e das horas de comer, mettendo-se pelo certão
+da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não
+devia de estar tão affeiçoado a aquella estancia como
+á sua costumada, estancava muitas vezes do passeio,
+sem haver accordo nem espora que o despertasse; até
+que uma vez, estando o amante parado com o ponto
+no alvo da janella, acertou a passar um macho que levava
+uma rede de palha, a que o rocim se arremessou
+com tanta furia, que, prendendo os copos da brida nos
+laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao
+quartão enamorado por todo o terreiro, onde se resentio
+do rapto, sem se poder valer contra os couces do
+macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito padecer
+d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia
+<span class="pagenum">[79]</span>
+sua liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor
+não era armado cavalleiro, passeava a pé á vista de
+seu cuidado, ora com os olhos na janella, ora com o
+tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a dama,
+que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas,
+porque não notassem os que passavam os
+meneios, e esgares que o mancebo fazia, acenando-lhe
+se tirou do posto passando-se a uma janella mais pequena
+que cahia sobre uma esquina das mesmas casas:
+o galante mais com o tento na mudança, que no caminho,
+com os olhos no alto, deu com a testa um grande
+encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em
+um monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado
+á parede, ficando até os sendaes mais caiado,
+que cantareira d'Alfama.&mdash;A todos pareceram os contos
+de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre
+sahe o amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho
+por grande desar todo o que succede á sua conta, que
+por isso o pintam cego, e são conhecidos por taes os
+que o servem: porém a mim me parecia que quando o
+amante perde o tento, e o sentido de tudo o mais, devia
+ficar só discreto, e avisado para sua dama, que é o
+objecto em que todo se emprega; que para lhe falar lhe
+sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos
+de subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia
+acho o contrario, que dos noivos, e dos amantes se contam
+as primeiras parvoices.&mdash;Não sei (disse Solino) se
+dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados
+dos poetas, como os encarecimentos.&mdash;Os poetas (respondeu
+elle) não são havidos por parvos; e quem lhes
+quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que poderia
+ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os
+amantes com affeição, como os poetas com o furor divino
+que os excita, aprenderiam d'elles. Pelo que o
+vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses
+primeiros erros são de outra geração; e nenhum
+parentesco tem com a parvoice. Antes é um modo de
+se atalhar, e suspender um homem o seu entendimento
+com muita razão; porque não pode dizer cousa, que
+pareça bem aos outros a primeira vez que fala com
+aquella a quem ama; que é passo, onde os mais discretos
+o perdem.&mdash;Parece-me que está no certo meu companheiro
+(disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre
+<span class="pagenum">[80]</span>
+os outros podiam falar sem medo, terem-no muito
+grande a estes primeiros encontros; que certo me parece
+mais respeito que se deve á formosura, que falta
+que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o
+verdadeiro é que amor o apura, e engrandece; e por
+este respeito os Athenienses lhe levantaram uma estatua
+na Academia de Palas como a sabio, e lhe dedicaram
+uma escola os Samios, significando que só na de
+amor se alcança com perfeição tudo, o que pelas do
+mundo variamente se aprende, e com muito discurso
+de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição no
+escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir,
+a graça no parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade
+no dispender, o esforço no pelejar, a largueza no
+jogar, a humildade no servir, e a pontualidade no merecer.
+Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao
+mundo as emprezas discretas; as chimeras escuras, as
+idéas levantadas, os motes avizados, os versos excellentes,
+os enredos subtis, as cartas galantes, as fabulas
+bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas
+tudo é doutrina tirada das escolas de amor. E pois
+n'ellas se alcança tudo, não é muito que se ache tambem
+um termo de falar encarecido, e levantado sobre
+todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o
+juizo d'este acerto se não deve fazer por homens livres
+d'esta paixão amorosa, se pode haver algum, a quem
+não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem outros
+exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em
+todas as partes de côrte e gentileza pode servir de espelho
+aos mais apurados.&mdash;Vós me obrigaes por tantas
+vias (respondeu o fidalgo) que fico desconfiado de poder
+pagar nem com encarecimento do que mereceis,
+nem com a restituição dos louvores injustos que me
+daes, que só são devidos ao vosso entendimento. E
+pois a victoria d'esta batalha ficou por elle em meu favor,
+quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me
+deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido
+o repouso da noite.&mdash;Essa resolução (disse Leonardo)
+é em damno de todos: e muito mais de sentir,
+porque á força nos obrigaes a que consintamos
+n'elle: mas como em logar de preza trouxestes da
+caça empreza tão difficultosa, poupaes horas para
+cuidar n'ella á nossa custa.&mdash;Antes (respondeu elle)
+<span class="pagenum">[81]</span>
+para reformar no somno as que me desvelei na madrugada. <br />
+<br />
+A isto se levantou; e os mais dando boas noites o
+iam seguindo, e disse para todos Solino: O senhor D.
+Julio vae a sonhar com aquelle thesouro encantado que
+lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer
+companhia; que se a communicação dos bens de amor
+faz muito maior a gloria d'elles nos contentes; aos
+que só o estão de seu pensamento nenhuma cousa é
+mais agradavel, que saudosa lembrança.
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<a name="c7" id="c7"></a><h2>DIALOGO VI</h2>
+<br />
+<h3>DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA</h3>
+<br />
+<br />
+Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia
+por saber algumas novas da peregrina, que D.
+Julio tanto encarecera a noite passada; e não achando
+d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento.
+Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de
+Leonardo, a tempo que tambem o fidalgo apparecia, e
+que o velho os vinha a esperar ao peitoril da escada
+com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de
+edade, pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi
+logo conhecido por ser prior de uma egreja que perto
+d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o entre si com
+a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de
+sua saude; como estavam com o desejo de tirarem a
+terreiro a D. Julio, fizeram signal a Solino que começasse;
+porém Leonardo não deu logar á boa vontade
+que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.&mdash;Bem
+cuidava eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella
+formosa peregrina era encantada, e que foi traça do
+vosso entendimento fazer a todos cavalleiros d'essa
+aventura; porém a mim só a encommendastes; que
+pela edade pudéra já estar aposentado para tal empreza;
+eu a tomei por vos obedecer, e andei bem cuidadoso
+no seguimento d'ella, sem até agora atinar no
+caminho, em que vos perdestes.&mdash;Minha foi só a desgraça
+(respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os
+mais o credito do que disse, e para meu desejo a glo ria
+<span class="pagenum">[82]</span>
+do que pudéra tornar a vêr em sua formosura.&mdash;Essa
+levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino)
+que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar
+a pouzada d'esta aldeia.&mdash;Parece-me (accudiu o prior)
+segundo o que vos ouço, que nós podiamos mostrar o
+jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar,
+e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem
+appareceu na nossa aldeia, de cujos successos, e formosura
+se podiam contar grandes extremos; que já
+pode ser que seja a de que falaes. <br />
+<br />
+Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados,
+e D. Julio contente; e Leonardo respondeu
+ao prior:&mdash;Não imaginei que tinha tanto bem junto
+com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella
+não fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada,
+que com tão boas novas: pelo que vos peço que
+as não dilateis, contando-nos mui particularmente
+d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos
+que aqui estamos, como agora pendurados os olhos,
+e ouvidos do que nos haveis de dizer.&mdash;Hontem á
+tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o sol se ía
+encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando
+com a obrigação da reza à vista da egreja;
+veiu fazer oração á porta d'ella, e d'alli ter commigo
+uma mulher em habito de romeira; que se a
+minha vida merecera a Deus que mandasse a algum
+anjo falar comigo, podera imaginar que ella o seria;
+porque a sua belleza passava os limites do encarecimento
+humano, e com uma voz, que respondia bem á
+honestidade do seu rosto, e á humildade do seu trajo,
+me falou (posto que em lingua estrangeira) de modo
+que se deixava entender mui sem trabalho: perguntou-me
+se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa
+de caridade d'aquella terra, em que passasse a noite,
+e pela manhã guia de confiança para ir ter á cidade,
+offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a encaminhasse.
+Eu, que no merecimento de sua vista achei
+que era pouco tudo o que lhe podia offerecer, fiquei
+enleado; porém lhe disse: Senhora, esta terra é muito
+pequena; e para o que vós representaes, outra maior
+me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta
+edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas,
+que vos saberão servir melhor que as naturaes
+<span class="pagenum">[83]</span>
+da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a pousada,
+qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis,
+supprirá a vontade que é muito grande. Ella me
+deu as graças do offerecimento com poucas palavras,
+mostrando que o acceitava: vim com ella a minha casa,
+onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo
+que as moças tinham de se estarem revendo nas graças
+da sua belleza. Depois da cêa, em que a peregrina
+fez pouco damno, lhe pedimos nos contasse a causa
+de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter
+ao nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro,
+entre algumas lagrimas, e com tão discretas razões,
+que as não saberei eu agora referir com a perfeição
+propria (posto que algumas palavras eram de linguagem
+alheia) contou o seguinte: <br />
+<br />
+Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal
+de seus estados, no maior enleio, e dissensão dos principes
+d'ella, que com a differença, e variedade das erradas
+seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham
+em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci
+de generosos paes, tão mimosa dos afagos, e enganos
+da fortuna em meu principio, quanto depois a senti
+esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não tiveram
+meus progenitores outro fructo, em que empregassem
+o amor paternal, (que faziam notavel excesso
+á qualidade de seu sangue) mais que a mim, que com
+esta boa sorte era invejada de todas as de minha edade,
+e pertendida dos mais illustres mancebos de toda
+Irlanda. No melhor de meus tenros annos, que a estes
+costuma morder sempre por varios modos a inveja venenosa
+da dura parca, de uma arrebatada enfermidade
+perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha
+não provara outros males, senti este primeiro com
+grande pena: mas como a sorte m'o ordenara para ensaio
+de novas desgraças, depois de me ter encetado o
+soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae,
+e senhor, a quem muito amava, e fiquei mettida entre
+parentes cubiçosos de minha herança, e amantes fingidos,
+que obrigados das riquezas d'ella me procuravam
+por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam,
+pouca vontade; e grande obrigação de tomar estado
+conveniente aos respeitos de minha nobreza. E
+como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser
+<span class="pagenum">[84]</span>
+altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a
+prosperidade) puz o pensamento em quem com despreso,
+e ingratidão castigou minha arrogancia: havia
+n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por
+descendencia ao sangue real de Bretanha, cheio de
+muitas graças da natureza; que, ainda que me era
+muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens
+da fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o
+pretender. Alcançou elle d'isto alguns signaes, que teve
+em pouco; não advertindo que a vontade de uma dama
+sempre põe em divida a um espirito generoso, que
+conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu
+já de minha pretenção poucas esperanças, o elegeram
+os da ilha de Lister, Ragrim, e das mais da parte oriental
+de Irlanda, por capitão de uma armada de corsarios,
+afim de fazerem uma preza muito importante no
+mar Oceano: e como ás vezes o castigo dos maus intentos
+é a mesma fortuna, (posto que outras como cega
+os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta,
+na qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou
+do miseravel naufragio se salvou em uma enseada,
+onde foi captiva de um turco corsario, que a levou a
+Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou o seu
+general conhecido por quem era; e como o sangue,
+d'onde descendia, junto ao cargo que levava, o faziam
+de mór preço para os que o captivaram, ficou impossibilitado
+o seu resgate, e elle sem remedio n'aquella prisão
+alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella
+me aconselharam que de novo emprehendesse o de que
+com seus despresos desconfiara, mandando-lhe offerecer
+liberalmente meu dote para resgate de sua liberdade.
+E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta lembrança,
+tendo por menores grilhões os que de novo lhe
+punha, que os que elle trazia, aceitou a offerta, e me
+mandou em satisfação um escripto, em que me jurava
+por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em execução
+o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas,
+que tinha, pela honra e contentamento, que
+d'aquelles desposorios esperava. Tornou livre á sua
+patria, e mudou de improviso a tenção que fingira para
+alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe
+o mundo esta crueldade: e os meus vendo-me sem
+dote, e sem marido, e, o que o havia de ser, tão ingrato,
+<span class="pagenum">[85]</span>
+e na opinião de todos tão culpado, me levaram a o
+demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde,
+depois de convencido, me foi julgado por devedor, e
+por esposo. Mas como a minha vontade não era que
+elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais conveniente
+para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e,
+depois d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes
+que o tratavam; o dia, em que se havia de desposar
+comigo, cumprindo por sentença a palavra que
+me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua
+um papel em logar da minha, que era quitação plenaria
+de tudo o que por elle déra, e juntamente do que
+elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo para
+castigo de minha altiveza a humildade da religião mais
+apertada. Fez isto em toda a ilha grande espanto; e
+eu com o resto, que do meu dote ficára, aborrecendo a
+patria como a madrasta, determinei logo buscar em
+reino alheio segura morada. E porque a fama da religião
+portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde
+muitas religiosas do illustre sangue de Bretanha vivem
+santamente em clausura, me trazia mais affeiçoado o
+desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o
+maior cabedal do que possuia a quem até á minha chegada
+o detivesse; e eu como tive a certeza de este dote
+mais necessario estar seguro, fugindo ás affrontas, e
+odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que
+me ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza,
+e visitei a casa, e sepultura do glorioso apostolo Santiago;
+d'onde caminhando por terra, livre já dos enredos de minha
+ventura, não pude escapar á cobiça dos criados que
+me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam,
+e pouco affeiçoados da catholica que professava
+á sua vista com tanta firmeza, me roubaram as joias,
+o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios
+desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça,
+por ser a que me tomou com a paciencia quasi rendida
+aos trabalhos da viagem, que venceram o descostume
+e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só
+na confusão d'estes caminhos: porém se pelos que parecem
+tão errados me quer Deus guiar ao mais seguro,
+eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle,
+senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis,
+que, ainda que vos dê cuidado, me mandeis
+<span class="pagenum">[86]</span>
+d'aqui em companhia de confiança, até onde d'aquellas
+bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á
+sua vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós
+pagará o céo este trabalho, e a estas senhoras o amor
+com que favorecem o meu desamparo; que a maior
+consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é
+saber que a todo o tempo, que se acolherem a Deus,
+acham n'elle brandura; e que tem á sua conta pagar
+largamente as boas obras, que no decurso de seus trabalhos
+receberam. <br />
+<br />
+Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios
+de agua, com que orvalhava de quando em quando as
+rosas do seu rosto; e a nenhum dos que alli estavam
+faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado
+que buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o
+que vos roubou a ventura, muito era para sentir a que
+vos offende. Porém como o caminho dos que Deus escolhe
+é tão differente do que seguem aquelles que lhe
+vão fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que
+saber que vos acompanha nos trabalhos presentes, e
+vos ha de dar o galardão e premio de todos: e para
+que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me
+offereço ao remedio dos que ficam até tomardes logar
+n'essa clausura. Lisboa é terra grande; e a muita confusão
+da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e vós
+é razão que com a decencia e commodidade, que vossa
+pessoa e qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo
+que, se quizerdes descançar com estas minhas parentas,
+e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á cidade,
+e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me
+agradeceu a estrangeira com muito boas palavras,
+mostrando tambem nas côres do rosto signaes de obrigação.
+E hoje, antes da minha partida, me fez uma
+lembrança do que por sua parte havia de perguntar.
+No caminho me atalhou a jornada uma occasião forçosa,
+que me fez passar a noite tão perto de casa como
+vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar:
+pois, além das mercês do senhor Leonardo, goso a
+conversação de tantos amigos e senhores, que é fim, a
+que se podiam dirigir outras jornadas maiores.&mdash;Já
+agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus extremos;
+pois nos que disse o senhor prior da peregrina
+ficam acreditados; e passam as suas obras tanto
+<span class="pagenum">[87]</span>
+adiante das minhas palavras, que deixa a sua egreja
+e familia para por a servir no que eu nem ainda me
+soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara,
+andando á caça, a mesma estrangeira, e o que n'aquella
+conversação tinha passado sobre os louvores, com
+que elle quizera pintar sua formosura.&mdash;Nenhuns lhe
+podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores
+encarecimentos devendo muito á verdade: e o maior
+espanto, que eu achei nos de sua gentileza, foi que,
+sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que
+sobre obrigações tão forçosas a despresasse.&mdash;Isso (tornou
+D. Julio) não tenho eu por espanto; que d'esse
+modo se costuma vingar a sorte da naturesa, quando
+na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais
+se me representa a mim que seria o homem nobre, e
+sem entendimento, como ha muitos, pois fugiu de tantos
+e tão poderosos attributos, como eram formosura,
+riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos
+empregados em seu favor.&mdash;E a mim (acodiu Solino) me
+pareceu ingrato, mas discreto, fugindo o jugo de uma
+mulher que lhe ficava sendo duas vezes senhora, uma
+pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a
+divida, e preço de seu resgate.&mdash;O meu voto é (disse Pindaro)
+mui differente; antes julgo que o que o homem
+aceitou por necessitado, veiu a enjeitar por cubiçoso,
+vendo que se dispendera com sua liberdade o dote que
+dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara
+de o ser, se fôra tão rica como no principio, em
+que o libertou; porque a cobiça e o amor são grandes
+competidores.&mdash;Não me descontentam as opiniões (disse
+Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois
+inimigos do socego humano, seja a questão e a materia
+da conversação da noite á conta d'elles. E perguntou
+ao doutor, qual dos dois é mais poderoso, e obriga os
+homens a maiores extremos? <br />
+<br />
+&mdash;Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor)
+á experiencia, e tomar os successos do mundo por argumento,
+com poucas porfias se manifestará a verdade
+da vossa pergunta: mas tratando primeiro das razões,
+vejamos em que se parecem, e os poderes em
+que os antigos igualaram o amor, e a cubiça; que de
+ambos deixaram jeroglificos, e figuras. Pintaram pois
+ao amor menino, formoso, com os olhos tapados, despido,
+<span class="pagenum">[88]</span>
+com azas nos hombros, e armado de arco e settas:
+menino, por facil e fagueiro; formoso, porque a belleza
+é o objecto dos amantes; despido, porque se não
+póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a
+razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel;
+armado, por forte, poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a
+mulher, despida, com os olhos tapados, e azas
+nos hombros. Despida, pela facilidade com que por
+seus effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum
+respeito humano em rasão do que deseja: com azas
+pela velocidade com que segue aquelle objecto, que
+debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim
+que só nas armas, e no sexo feminino achamos na
+pintura differença: porém se considerarmos os effeitos
+da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as quizeram
+cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas
+armas; porque se amor é forte e poderoso, e vence a
+tudo, como disse o poeta; o mesmo confessa que a todos
+os extremos fórça, e obriga a sede do ouro aos humanos;
+se a amor como a poderoso o fingiram Deus
+cruel, como diz o poeta Seneca; não só a cubiça é Deus
+do avarento e cubiçoso, mas o mesmo ouro que deseja,
+como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam
+cruel pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes,
+mais reinos assolados, cidades destruidas, e damnos
+immortaes se fizeram no mundo por cubiça, que
+por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que
+se póde provar esta verdade, vejamos em seu nascimento
+que coisa seja amor humano; e o que é cubiça.
+A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio
+maravilhosamente um doutor grego, que disse que
+amor era um desejo irracional, que facilmente se emprega,
+e com grande difficuldade se perde. E da cubiça
+escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra
+da medida certa, que ensina a razão; que não tem modo,
+nem fim. É certo que cada um d'elles podia trocar
+com o outro esta definição, sem ficar enganado; porque
+o mesmo é excesso de um desejo irracional, que
+appetite fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve
+em se empregar, e deixar-se com difficuldade, que
+não ter modo, nem fim. Mas posto que na pintura, e
+nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça
+são com mais força, e vehemencia, que os do amor;
+<span class="pagenum">[89]</span>
+porque, se faz cego o amante para perder o lume da
+razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece: e o
+cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para
+se abaixar a todas as infamias, a que se sujeita o
+interesse: se o pintam despido para se não poder encobrir,
+com mais vergonhosas mostras se pinta a cubiça:
+o que na mesma pintura de mulher está declarado.
+Se é ligeiro o amor para se empregar, com tudo
+busca sempre a formosura como objecto seu, e obra a
+que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega
+nas mais humildes e indignas coisas da terra, como
+d'ellas possa tirar fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava
+bem o dinheiro que cobrava das immundicias de
+Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito
+atraz ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as
+entranhas da terra, e chegar á vista do inferno por tirar
+ouro: descer ao fundo do mar por buscar perolas,
+descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e
+barbaras gentes para adquirir commercios, obras foram
+de cubiça, e não de amor, como tambem o foi a
+navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro começou:
+e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras
+que a cubiça, pois elle ao amante offende com suavidade
+amorosa, e aos estranhos com animo compassivo
+tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça,
+que mata no mundo mais homens em um só dia, que
+o amor em muitos annos. Assim que a meu ver em
+competencia, ella tem mais poderes, e na semelhança
+se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas
+com tal differença, que elle ama a formosura humana,
+e a cubiça a riqueza. <br />
+<br />
+&mdash;Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento
+faça tão grande aggravo ao amor, como é igualar
+com elle a cubiça: porque quando em poderes tenham
+grande semelhança, na nobresa e nascimento
+tem muito maior desegualdade; que posto que o amor
+considerado como appetite carnal seja excesso de um
+desejo fóra da razão; significado como affeição humana,
+é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas
+em uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor
+tão natural a todos, que é defeito e torpeza não saber
+amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo contrario Aristoteles
+chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O
+<span class="pagenum">[90]</span>
+amor nasce tão nobremente, que tem por objecto a
+belleza humana, e os dotes naturaes mais excellentes
+como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e assim
+diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com
+amor mal intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento,
+e appetite preternatural, sempre é mal
+nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim que sejam
+os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes;
+são as naturezas de ambos mui differentes.&mdash;Parece-me,
+senhor doutor (disse Feliciano) que aquella razão ha
+de achar muitos votos contra o vosso, porém eu por
+me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle,
+nem hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado
+da doutrina de ambos accrescentarei o meu pouco,
+mettendo-me entre tão boas partes pela de amor; e
+digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes
+no poder, no que é amar são em tudo deseguaes, porque
+não se ama a coisa que pelo que é, e por amor de si
+propria se não ama; e menos se póde amar a que se
+não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do
+cubiçoso, que se emprega em coisas que por si não
+merecem amor, e em outras, de que não tem nenhum
+conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita
+a nossa vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e
+por essa a desejamos unir comnosco, por natural appetite:
+mas empregar a affeição no dinheiro, e no ouro,
+que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle
+se alcança, não póde ser amor. E menos o será amar
+o que ainda não conhecemos, como faz o cubiçoso a
+muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas
+espera. E não tratando ainda de que o amor não se
+considera só no que ama, senão tambem na coisa amada;
+e que falta correspondencia, sendo essa insensivel:
+o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e
+este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua
+temerosa côr o cativara, nem d'essa o deixa usar o
+seu cativeiro. D'onde veio dizer o poeta Horacio que o
+ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram
+segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe
+podem chamar desenterrado: nem com a voz deleita
+os ouvidos, nem com a suavidade do cheiro recrea,
+nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz.
+Diga-o Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como
+<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span>
+lhe ficou por mantimento, perecia na abundancia
+do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a el-rei
+Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que
+achou na ceia que sua mulher lhe ordenára: o qual
+com sua demasiada cubiça não dava lugar aos seus cidadãos
+de se empregarem em outro trabalho mais,
+que em beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina
+muitos d'elles miseravelmente pereciam: pelo que,
+vendo as matronas da cidade tanto damno, foram juntas
+pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de
+tão grande mal, rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe
+que désse aos seus melhor tratamento: e ella,
+a quem não faltava entendimento, nem piedade, conhecendo
+que era vão vencer com rogos a sua cobiça,
+ordenou a Pithio uma ceia esplendida em um dia de
+festa; na qual todas as eguarias, que lhe deu, eram
+formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira
+vista, e com a magnificencia do apparato, com
+que lhas apresentavam: porém quando pelo discurso do
+banquete não viu nenhuma de que podesse comer, perguntou
+pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas
+que eram fingidas. Como (respondeu então a
+sabia matrona) queres que te apresente outra comida,
+se só no cuidado da que tens deante occupas a <a href="#e2">todos</a>
+teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem
+se cultivam as arvores, nem se pescam os rios, nem
+se caçam as aves, nem se criam os animaes, pelo exercicio
+continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com
+o fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou
+em alguma parte sua demasia. <br />
+<br />
+Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador
+da Tartaria, que vencendo, em Baldaco, o Califa
+mestre da seita Mahometica, que era o mais poderoso
+rico, que então havia no mundo, vendo que, por
+se não ajudar de suas riquezas, e as não despender
+em soldo, não tivera resistencia contra o exercito dos
+Tartaros; depois de captivo o mandou metter em uma
+camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha,
+sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo
+que d'aquelle comesse á sua vontade: e assim entre a
+grande abundancia de suas riquezas o miseravel Califa
+morreu de fome. <br />
+<br />
+Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto,
+<span class="pagenum">[92]</span>
+nem deleitar sentido senão com o engano do que com
+elle alcança, como póde ser capaz de amor? <br />
+<br />
+&mdash;Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não
+o seguistes: e eu ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade,
+me hei de valer da primeira opinião que propoz,
+e é que o amante e o cubiçoso não differem mais
+no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo
+em uma opinião moderna, que tem por si muitas auctoridades
+antigas; e é que nenhuma pessoa ama mais a
+outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se
+primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce
+o desejar e amar as coisas a que se affeiçoa, e inclina
+mais a sua natureza: amo isto, porque me parece bem,
+e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo tudo
+o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por
+isso chamaram ao amigo uma alma em dois corpos,
+e, como diz o proverbio, <em>o amigo é outro eu</em>;
+quero-lhe
+tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha
+alma unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo
+se hade egualar no amor com o que cada um tem a si:
+logo tanto quer e deseja o amante o objecto da belleza,
+em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que
+quer para si. E quanto á objecção de que o ouro senão
+ama pelo que é, senão pelo que vale, e por o que
+com elle se compra e alcança, os vossos mesmos exemplos
+dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro
+antes perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a
+que quer mais que a ella; e antes perece á fome, que
+satisfazel-a com dispender o que tem em mais estima
+que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que
+todos os outros; como Lucilo conta de um avarento
+chamado Hermones, que, sonhando uma noite que gastara
+certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua paixão
+e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou.
+E assim diz S. Jeronymo que tanta necessidade tem o
+cubiçoso do que possue, como do que lhe falta, pois lhe
+falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar que
+só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás
+o é mais, que todos, o que tudo deseja; e possuindo
+mendiga, e padece como se lhe faltára. Logo certo
+é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle
+se compra; pois o não quer para comprar, senão para
+o possuir. E respondendo á deleitação dos sentidos,
+<span class="pagenum">[93]</span>
+que o amor humano offerece, e na cubiça falta, ousarei
+a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor
+ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece;
+e que é mais suave a seus ouvidos o rumor, e tinido
+do dinheiro, que a brandura de todos os requebros,
+e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para
+elle é egual com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se
+entre o mesmo dinheiro: o que se póde ver com
+grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o Imperador
+Caligula, que, depois que a muitos obrigou que
+o instituissem por herdeiro, aos quaes, depois de testarem,
+fez matar com peçonha (rindo-se de haver homem
+que quizesse viver mais depois de haver testado)
+atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos
+os vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava
+despido entre o dinheiro, que d'estas infames
+obras procedia; e, dando sobre elle mil voltas, tinha
+em menos conta todas as outras delicias, que os homens
+a preço do dinheiro procuravam. Certo é logo
+que o ouro ama, e a elle quer, e com elle se deleita o
+avaro e cubiçoso; que, se o desejára para o empregar
+em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome,
+e podera merecer o de rico, prudente, e liberal:
+porque o ouro, e as riquezas, como diz S. Leão Papa,
+não são boas de si, nem más; mas o bom ou mau uso
+d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue:
+e assim não é rico o que muito tem, senão o que com
+o que tem se contenta: e não ha maior pobreza, que,
+por empregar o desejo em um baixo metal, que sem
+bom uso não presta, deixarem os homens o muito que
+com sua valia poderam adquirir. <br />
+<br />
+&mdash;Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre;
+Leonardo, que a levantou, deixou-se ficar no covil; e
+eu fiquei atrás dos galgos sem dar um brado; farei
+muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos.
+Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito
+na grandeza e poderes da cubiça é errado, e que se
+haviam de attribuir ao ouro, e não a ella. E tratando
+da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar
+com o amor, tenho por mui errada a declaração
+d'ella: e posto que seja contradizer a tão grandes
+entendimentos, a hei de explicar ao meu modo, que
+me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua
+<span class="pagenum">[94]</span>
+fraqueza; pois é tal, que se rende a qualquer pequeno,
+e vil interesse; despida como desavergonhada, por
+quão sem respeito, nem moderação se atreve a commetter
+qualquer infamia; com azas por a ligeireza,
+com que se arremessa a qualquer preza como ave de
+rapina; cega por pedinte, mendiga, e importuna: e se
+isto não é, venho a presumir que a fingiram com o rosto
+de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na
+etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e
+condição do cubiçoso: e assim como a harpia damna,
+e descompõe todos os manjares a que chega, assim
+a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo
+que me parece que nenhum parentesco tem com amor,
+que na nobreza é tão desegual, e pelos louvores de sua
+excellencia tão conhecido. O a que se podera voltar a
+nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a
+tratar dos poderes do ouro, e da valia do interesse,
+que já nos tempos antigos, e no prezente de agora póde
+tanto, que obrigou a dizer a um auctor que esta é
+a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia
+os animos dos homens. E viera isto mais ao proposito
+da vossa peregrina, que com elle e sua formosura não
+pôde vencer a um coração ingrato.&mdash;A mim me parece
+(respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão
+se a não guardareis para tão tarde: porém em a noite
+d'amanhã se lhe fará justiça; que n'esta é rasão que
+se dê ao hospede lugar conveniente para o repouso,
+pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.&mdash;Por não
+mandar em casa alheia (disse o prior) não defendo a
+minha parte; mas prometto, se voltar a horas que
+possa passar a noite tão bem como esta, de a não perder. <br />
+<br />
+Então se levantaram os mais e se despediram; e o
+prior gastou muitas palavras em manifestar a Leonardo
+a inveja que tivera d'aquella companhia: ao que
+elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da
+peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a
+boa conversação é manjar da alma, a vista de uma
+estranha formosura, que rouba as de todos, tem muito
+maior poder sobre o desejo.
+<br />
+<br />
+<br />
+<br /><span class="pagenum">[95]</span>
+<a name="c8" id="c8"></a><h2>DIALOGO VII</h2>
+<br />
+<h3>DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE</h3>
+<br />
+<br />
+No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram
+para o seu costumado exercicio, se apeava o prior no
+pateo de Leonardo; que o desejo que lhe causara a
+noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade.
+Foi recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do
+bom successo de sua jornada, lhe disse Solino:&mdash;Agora
+vejo que roubou a ventura a empreza d'aquella peregrina
+ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr
+por nos ouvir.&mdash;Antes vereis (respondeu o prior) quão
+poderoso é o ouro, que até para ouvir falar n'elle deixo
+a propria casa, e n'ella a vista de tão extremada formosura.&mdash;Não
+sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro
+que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião
+como avarento, pois que vindes com esse titulo de cobiça
+enriquecer a todos, e a esta casa.&mdash;Vós (respondeu
+elle) me individaes para me empobrecer com a mercê
+e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o
+meu erro é dourado para contentar os cobiçosos, quando
+pareça a Solino culpa deixar a vista da minha hospeda
+pelo interesse da vossa conversação.&mdash;Não é só
+elle o que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós
+deixardes me queixo, ainda que de a acompanhardes
+tinha ciumes.&mdash;Só esses faltavam (tornou Solino) para
+a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este
+se batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre,
+porque a dos comprimentos é a mais corrente de
+todas. Porque o maior mal que o avaro faz ao ouro, é
+impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra,
+podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas,
+que para isso imagino que se inventaram as
+cadeias e grilhões de ouro, que d'elle servem para ornato,
+e dos outros metaes para castigo.&mdash;Não me descontenta
+essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro
+quando sahe da mina, antes de o pôrem em seus quilates,
+chamam os artifices <em>ouro bruto</em>, quanto com mais
+razão merece este nome o que o avarento tem escondido
+e fechado? E a este proposito me cabe contar
+<span class="pagenum">[96]</span>
+uma historia que li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo
+que callei a noite passada, se póde descontar o que
+agora disser. <br />
+<br />
+Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares
+d'ella, um honrado pae de familia, nobilissimo por
+geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza
+antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes,
+e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que
+mais parecia dispenseiro das riquezas, que carcereiro
+d'ellas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso
+e experto nos negocios de mercancia, que
+ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o
+qual elle guardava com tão solicito cuidado, como costumam
+os que com cobiça e trabalhos o adquiriram: e
+era notavel espanto aos naturaes verem em um velho
+a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a
+avareza e tenacidade de velho. O pae, que o via responder
+tão mal a suas inclinações, e que já com a edade
+e continuação de gastar largo, estava menos rico, muitas
+vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que
+conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de
+seus passados; e não degenerasse d'elles, por seguir a
+villeza do interesse: que usasse das riquezas como nobre,
+e favorecesse a velhice de quem o creára, e honrasse
+aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso
+aos amigos e parentes; benigno aos pobres e
+se não captivasse ao trabalho de enthesourar riquezas
+sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar
+a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam
+os paternos rogos em sua má natureza. Succedeu que
+o senado d'aquella republica por a nobreza, e pessoa
+do mancebo, e pela industria e sagacidade que mostrava,
+o elegeram em companhia de outros para ir com
+uma embaixada a Roma ao Summo Pontifice. Depois
+de sua partida, vendo o pae occasião ao que havia
+muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves
+falsas, com que entrou na camara do filho; e abriu
+os cofres em que aquelle inutil thesouro estava depositado;
+e com a brevidade que o desejo lhe pedia, vestiu
+a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré
+a seus creados; comprou ricas armações e baixellas;
+encheu a estrebaria de cavallos formosos; fez esmolas
+a muitos pobres; acudiu em occasiões a parentes e
+<span class="pagenum">[97]</span>
+amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata
+e ouro que o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira
+em que elle, quando florescia em riquezas usava
+d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos em que
+antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo
+na mesma ordem em que o filho o deixára, tornou a
+fechar os cofres e as casas como d'antes. Tornou depois
+o filho da sua embaixada: e os pequenos irmãos
+o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente,
+e com o magnifico apparato de que então usavam.
+Vendo-se o irmão rodeado d'elles ficou confuso;
+e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão
+ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles
+com uma simplicidade innocente responderam que seu
+pae e senhor vivia com differente largueza da que d'antes
+tinha; e que outros trajos e cavallos de maior preço
+lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae,
+nem a ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado
+em que a deixára: e como n'esta mudança se lhe não
+aquietava o coração, foi-se com muita pressa aonde o
+tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e
+vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que
+elle os deixára, se aquietou, porque não dava logar a
+mais vagarosa experiencia a pressa com que os companheiros
+o chamavam, e o senado o esperava. Depois
+que deu fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu
+que fosse tão custosa) fechando-se devagar no seu
+aposento, abriu as arcas e os saccos, em que lhe parecia
+que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano
+da areia e seixos que dentro tinham, começou a
+gritar com grandes lamentações e brados. A que primeiro,
+que todos, acudiu o generoso velho, perguntando-lhe
+que tinha? de que se queixava? e quem o offendera?
+Ai de mim (disse elle) que me roubaram as riquezas,
+que com tantos trabalhos, e em tão largo discurso
+de annos tinha grangeadas. Como é possivel que
+te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres
+e saccos cheios, que parece que não podiam tirar nada
+d'elles, nem elles levarem mais? Ai triste de mim (tornou
+o filho) que o de que elles estão cheios, não é do
+ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora
+mais que pedras e areia sem proveito. A isto respondeu
+o generoso pae, sem no rosto fazer mudança: Ah!
+<span class="pagenum">[98]</span>
+enganado filho! que importava para ti que estes saccos
+estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa,
+se a tua avareza te não deixava fazer nas obras differença
+d'ella? Cessaram os brados, mas não já o sentimento
+do filho com esta resposta; que a mim me pareceu
+digna de ser contada entre as mais celebres do
+mundo. <br />
+<br />
+&mdash;Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por
+maravilhosa para o nosso intento; e andou muito bem
+o pae de cumprir em vida o testamento do filho; porque,
+como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro
+faz boa, senão quando morre, porque deixa o que tem a
+quem possa usar d'elle.&mdash;E o mesmo (disse Feliciano)
+escreveu que para ninguem o avarento é bom: e para
+si peior que para todos; pois nem dispende, nem se
+aproveita: e n'este sentido me parece maravilhosa a
+allegoria d'aquella engenhosa fabula de Midas, que,
+pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que tocasse
+se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na
+grande abundancia do que pedira. E quando a necessidade
+o fez mudar a petição forçado do mal, que como
+bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao
+rio Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer
+estanque, pondo em suas douradas areias, para communicar
+a todos, o que Midas só para si queria ter usurpado.&mdash;Bem
+se representou em Midas (accrescentou
+Pindaro) um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar:
+que por isso disse Seneca que mais facilmente se atreveria
+a alcançar da fortuna que désse, que de um cobiçoso
+que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com
+seu engano, e falemos nos poderes do ouro, que é o
+para que Solino nos convidou a noite passada.&mdash;Como
+é certo (disse elle) que para o ouro todos se convidam
+de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal,
+parece que estivestes de ponto sobre a materia.&mdash;Não
+a apontei (respondeu Pindaro) por esse respeito, mas
+por me contentar da que escolhestes; e é desgraça
+minha que para os outros levantaes d'ouros, e para
+mim de espadas.&mdash;Eu me quero metter entre ellas (acudiu
+D. Julio) e se assim parecer aos mais, diga Solino
+todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer
+mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos
+disserem ficará logar aos mais de darem suas razões.&mdash;Errastes,
+<span class="pagenum">[99]</span>
+sr. D. Julio (disse o doutor), que para Solino
+dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do
+ouro, e Pindaro os males.&mdash;Dou-me por vencido, respondeu
+elle:&mdash;E eu por obrigado (disse Pindaro) a obedecer.
+Todos festejaram a eleição; e ordenando que
+fosse o primeiro, começou d'esta maneira! <br />
+<br />
+Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles
+testemunham a excellencia ou maldade d'ellas, qual o
+foi de maiores males e damnos na redondeza, e metteu
+aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro,
+a quem com muita razão podiam todos chamar <em>peste
+do mundo</em>? E posto que os notaveis exemplos das destruições
+e ruinas que n'elle fez, podiam tomar mais
+tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero
+começar primeiro de seu nascimento, para que mostrem
+os seus arriscados principios os desastrados successos
+para que a malicia humana o descobriu. E
+não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que
+não contentes os homens com o que a superficie da
+terra produzia para sua recreação e mantimento, a
+formosura das arvores, a diversidade dos fructos, a
+belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte
+das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram
+desentranhar do centro d'ella os segredos que a
+benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas entranhas
+dos montes, e nas arterias occultas dos penedos;
+e subindo como arvore da profunda raiz, d'onde
+começa, vae espalhando os ramos em desegual medida,
+convertendo o sol com seus poderes aquella materia
+disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se
+demonstra por duvidosos signaes na face da terra;
+que logo d'aquella emprenhidão se mostra triste,
+dando por indicios da riqueza que encerra, herva descórada,
+delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve,
+secco e sem proveito; e até as aguas, que por entre as
+veias descem, sahem cruas e com sabor pesado. Espreitando
+estes signaes a industria humana, entra fazendo
+guerra ao profundo, caminhando por debaixo
+dos montes sustentados em columnas da mesma terra,
+deixando a vista do sol e das estrellas, pondo as vidas
+ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes o opprimem,
+que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra,
+que parece menor temeridade tirar do fundo do mar
+<span class="pagenum">[100]</span>
+perolas e aljofar, que do seu seio o inimigo ouro, que
+ainda então o não é mais que nas esperanças. Depois
+de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como
+parto de venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas,
+com o fogo se aparta, apura o aperfeiçoa.
+ficando menos apto para o serviço dos homens, na cultivação
+dos campos e arvoredos, e mais apparelhado
+para sua destruição e ruina: porque ou se lavra para
+ostentações e demasias da vaidade, ou se bate e cunha
+em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e graças
+da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez
+em si estanque de todos os commercios do mundo, no
+qual, antes que elle apparecesse, se trocavam as cousas
+umas por outras, com uma composição e trato
+mais conforme e obrigado á necessidade e commodos
+da vida que aos roubos da cobiça, maldades da avareza
+e sobejidões da vaidade; e apoderou-se tanto de
+tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até da
+liberdade dos homens contra o direito natural, em que
+viviam. Foram crescendo seus atrevimentos: e se antes
+de sahir do centro da terra começou a matar homens,
+sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo
+guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo
+a vara das mãos á justiça: e deitado em sua balança
+perverteu o fiel de sua egualdade. Diga-o Commodo
+imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos
+deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por
+elle publicamente não só a pena dos delictos, mas os
+proprios logares dos julgadores. Cerrou os olhos á misericordia,
+para não se compadecer dos affligidos: como
+se viu no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada
+Jerusalem, os moradores, que opprimidos da fome
+se sahiam da cidade com licença sua, enguliam primeiro
+uma pequena moeda de ouro, para que na passagem
+o pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo
+esta astucia, a dois mil, que em dois dias sahiram
+da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem
+do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo
+commum da natureza d'ahi a pouco espaço a lançassem
+fóra: assim que aquella pequena quantidade de
+ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida.
+Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza,
+atados com as prisões de seu interesse: diga-o Ulysses
+<span class="pagenum">[101]</span>
+que por elle vendeu a Priamo o corpo de Heitor
+Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou
+a empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella.
+Desterrou do mundo a fidelidade; pois por elle vendia
+Nicias aos romanos a vida de el-rei Pyrrho seu senhor:
+Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão
+francez, que de industria a afogou com peso de ouro:
+Tarpeia Romana, a entrada do Capitolio aos Sabinos,
+que do mesmo modo com o peso de ouro e dos escudos
+a acabaram. Depravou a piedade, e veneração
+que os antigos tinham aos mortos, não perdoando a
+suas sepulturas, como el-rei Dario, enganado com o
+letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei
+seu successor se visse em necessidade, abrisse aquella
+sepultura, e acharia um thesouro: elle confiado creu
+o letreiro, revolveu a pedra; e achou outro que dizia:
+<em>Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os
+mortos.</em>
+Os romanos desenterraram os mortos de Corintho
+para lhes tirarem a moeda que tinham por costume
+metter comsigo na sepultura; para o que é mais notavel
+aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono,
+de Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae
+se mandára enterrar com as insignias reaes de ouro,
+abriu uma noite secretamente a sepultura, e, depois
+de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe appareceu
+S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava
+enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe
+mandou em castigo do atrevimento que commettera,
+que mais não entrasse n'aquella sua egreja: e assim
+querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi
+pelo mesmo santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece
+a todos os peccados capitaes, a soberba com
+suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas de
+Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio,
+o theatro de Nero, as casas de Clodio, e todos os mais
+excessos da vangloria d'elle nasceram. A avareza n'elle
+como em materia propria se conserva e accrescenta;
+por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir
+de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres
+que o sahiam a receber como era costume d'aquelle
+reino, como conta Plutarcho. Nero despojava por
+este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos
+mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que
+<span class="pagenum">[102]</span>
+era tão avaro, que se levantava de noite a furtar a ração
+a seus proprios cavallos; e sendo achado pelo estribeiro
+ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era
+dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro
+se cria, pois a força d'elle corrompe a pudicicia, como
+os antigos engenhosamente significáram na fabula de
+Danae, a quem Jupiter enganou convertido em chuva
+de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os
+incestos de Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os
+adulterios de Julio Cesar; pois só a perola com que
+conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou seiscentos
+sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis
+estragos e homicidos no mundo. Pygmalion matou
+a seu cunhado Sichueu por lhe roubar o thesouro
+que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de
+quem era tutor, por lhe roubar a herança das riquezas
+que esperava. As demazias e sordidezas da gula,
+a delicia e sobejidão dos manjares com elle se compram.&mdash;Das
+mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes
+de Lucúlo, dos manjares e convites de Heliogábalo
+elle tem a culpa. A venenosa inveja n'elle, como em
+seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa
+das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte
+Amfiarau seu marido; e Julio Cesar invejoso das riquezas
+da Luzitania, se fez salteador das cidades d'ella.
+A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se
+aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes
+com o preço que lhe deram por não orar:
+e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o kagado, por
+o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais
+difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a
+diligencia cahiu em sorte á pobreza, pois a necessidade
+foi inventora das artes e subtilezas; o peso do ouro
+entorpece os sentidos empregados todos n'aquella materia:
+e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o
+afogou no mar para apprender a philosophia. Pitaco e
+Anacarso não acceitaram a Cresso o que lhes mandava:
+Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o que
+lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso
+d'elle que lhe traziam. <br />
+<br />
+Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que
+mereciam este nome; e um veneno mortifero para a
+vida humana: e se muitos a perderam indo em seus
+<span class="pagenum">[103]</span>
+alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas,
+em que elle se cria, por remotos climas entre
+irracionaes Ethiopes feneceram; não estão seguros do
+mesmo damno os que dentro em suas casas, e fechado
+em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus
+males (que para os contar todos fôra infinito) só um
+bem tem o ouro, que eu não quero deixar á conta dos
+louvores de Solino, que é o que os Gregos declararam
+n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: <em>O de que
+serve ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem</em>; pois
+no toque d'elle, como em um espelho de desenganos,
+é conhecido: e se elle d'esta minha invectiva se houver
+por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura
+até ao que de seus males me fica por dizer. <br />
+<br />
+Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a
+pratica de Pindaro; e o prior a gabou de bem ordenada,
+e elegante; e gastaram n'isto algumas razões, tendo
+os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas
+mostras os obrigou a silencio, e disse: <br />
+<br />
+&mdash;Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa
+de Ezopo das uvas, a que nào chegava; nem quero tomar
+tão humilde vingança de quem me foge, nem (como
+alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo:
+a empreza é facil, e só no muito, que ha para dizer
+d'ella, difficultosa: porém se a copia aos discretos empobrece,
+(como um d'elles disse) nào pode ser que a do
+ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste
+toda a riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e
+desejar ao menos uma bôcca de ouro, de que sahiram
+dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo do
+que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles.
+E começando do nascimento d'este desejado metal,
+que quanto mais queremos culpar engrandecemos:
+Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos montes,
+porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer
+d'elle thesouro, pondo tantos muros da terra, para o
+defender, para que tambem a difficuldade e rareza lhe
+dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se cria, e
+provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia
+com sua formosa côr ás mais bellas obras da
+natureza. O mais nobre dos planetas, que é o sol, dourado
+nos apparece, e o seu luzente carro com raios de
+ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso
+<span class="pagenum">[104]</span>
+dos elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que
+nas tempestades da terra nos assegura, perfilado de
+ouro se descobre; as nuvens ao pôr do sol, da sua côr
+guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas,
+os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os
+bem-me-queres, e as boninas com uma roza dourada
+no meio se guarnecem, e enfeitam para os olhos dos
+homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua
+desejada perfeição, e as searas na fertilidade de suas
+espigas se tornam de ouro: e as mais formosas creaturas
+humanas, com as cabeças douradas, mostram
+sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e
+monarchas do mundo o ouro sobre a cabeça; os reis e
+imperadores nas corôas, os papas nas thiaras, os bispos
+nas mitras, e as matronas illustres nos toucados,
+ao pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas,
+nos dedos, e nos braços, fazendo voluntarias prisões de
+sua formosura. No culto divino elle orna e aformosea
+os templos sagrados, as cruzes, imagens, retabulos, calices,
+patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam
+os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os
+ornamentos, e vestiduras da egreja. Batido em moeda
+é preço, e resgate das cousas de maior valia, sem que
+n'elle se começasse o trato, e commercio do dinheiro:
+pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata,
+cobre, e latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores
+o mal que usam d'elle os avarentos, lhe podiamos
+com razão chamar formosura do mundo; ornato,
+e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada
+de ouro se inclina mais, e é mais formosa, como
+foi a de Primislau primeiro rei de Bohemia; que no
+maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer
+ante si as alparcas de pastor com que se creara,
+mandando que andassem em morgado a seus descendentes
+para antidoto contra a soberba da dignidade
+real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha
+Santa Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante
+D. Sancha, D. Branca, e D. Joanna, e o condestavel
+D. Nuno Alvares Pereira, bem douraram com sua
+grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro
+se exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem
+elle parecera virtude sem mãos; que mal as tivera Marco
+Antonio triumviro para aquelle excesso de magnificencia,
+<span class="pagenum">[105]</span>
+que usou com um amigo, se o não tivera: porque,
+mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco
+mil escudos, parecendo ao avarento creado que aquella
+largueza nascia da ignorancia de seu senhor, lhe mostrou
+aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza,
+dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o
+romano por desmentir a malicia do thesoureiro (que
+entendeu logo) lhe disse: Fizeste bem de me avisar;
+que não cuidei que dava tão pouco: pelo que sobre estes
+accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta.
+O mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que
+acontecera a um principe de Hespanha com seu pae,
+mandando dar a uma moça humilde trinta mil cruzados.
+E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu
+a liberalidade com seus poderes o nosso primeiro
+rei D. Affonso Henriques, que nas terras, que
+conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços
+Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus
+descendentes em differente modo. D. Pedro o justiçoso
+com os pobres, que até a manga do braço direito mandava
+fazer mais larga, e comprida, para alcançar a todos
+no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho
+el-rei D. João o I, foi tão liberal com os vassallos
+que o serviram, que deixara sem patrimonio a corôa,
+se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei mental,
+com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os
+poderes de sua riqueza, e a magnificencia de sua condição
+assombrou as nações extranhas, e ao nome portuguez
+fez mais honrado. A castidade mais excellente,
+e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes
+trajos da pobreza; e por isso foi tão louvada em
+Scipião, que poderoso, rico, e vencedor, quando entrando
+Carthago lhe offereceram captiva uma formosa
+dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou
+honradamente acompanhada a seu marido com o
+resgate, que por sua liberdade lhe offereciam. Não faltou
+esta excellencia em muitas donzellas do sangue
+real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da
+ventura, offereceram a Deus este da natureza. E se é
+celebrado el-rei D. Affonso o Casto em Hespanha, não
+desmerecia este nome o rei portuguez, que persuadido
+de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida
+nos campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel
+<span class="pagenum">[106]</span>
+e excedente no poderoso rico, que no miseravel,
+em quem não tem execução a ira, nem a vingança.
+Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia,
+que perguntando aos embaixadores athenienses o
+que lhe queriam, respondeu com inconsideravel liberdade
+um d'elles, que <em>vêl-o sem vida</em>; e elle voltando aos
+outros com muita brandura disse: <em>Dizei aos Athenienses
+que mais modesto é quem soffre essas palavras, que os
+sabios de Athenas, de quem elles se prezam</em>. E se contam
+d'el-rei D. Affonso I, rei de Napoles, que, sabendo que
+um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas mercês,
+com que elle obrigado disse depois de suas obras mil
+louvores; e o rei avisado d'isto disse: <em>Folgo que esteja
+em minha mão dizerem bem de mim</em>: tambem houve rei em
+Portugal que em muitas occasiões usou o mesmo termo,
+como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de
+muitas memorias do III, não esquecendo a paciencia
+d'el-rei D. Diniz com seu filho, e a d'el-rei D. Pedro,
+sendo principe, com seu pae. A temperança medida
+por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada:
+como a de Curio, que com o ouro dos Samnitas
+deante não deixou a panella de couves, e nabos que
+cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que
+não era necessario a quem com tão humildes viandas
+se sustentava. A sobriedade, e temperança nos nossos
+reis naturaes é tão louvada, que de mui poucos sabemos
+que bebessem vinho, e de nenhum que comesse
+demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras,
+que a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte
+de Portugal, e mulher de Frederico III, Imperador
+de Allemanha, não tendo geração, e averiguando os
+medicos que por a frialdade d'aquella provincia não
+concebia, porém que, se bebesse vinho, teriam filhos;
+ella não consentio no remedio: e Frederico disse que
+antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada.
+A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta
+sobre as estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a
+conheceram, com o poder do ouro a sustentaram: como
+Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava abrir
+as portas aos jardins e pomares, que tinha para que
+entrassem livremente os necessitados a colher seus
+fructos: mandava aos seus que, achando algum velho
+mal vestido trocassem com elle os seus para o melhorarem;
+<span class="pagenum">[107]</span>
+dava todos os dias banquete publico aos que
+mendigavam pela cidade: e aos pobres de qualidade
+sustentava com esmolas secretas. Não fôram n'isto os
+nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o
+testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de
+caridade, e santos costumes, que deixaram n'este reino,
+para agasalhar peregrinos, sustentar, e vestir pobres,
+e curar enfermos e feridos: no que fôram, entre os outros,
+insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e o
+insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia
+com muita razão lhe calçáram os antigos esporas douradas,
+pois o duro estorvo da pobreza, como pintou Alciato,
+impede as azas e limita os passos á diligencia.
+Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre,
+e Cesar em mui limitados annos a redondeza:
+o nosso rei D. Diniz com os poderes d'elle accrescentou
+em seu reino quarenta e quatro villas com castellos,
+e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal;
+e instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos
+de Coimbra. E os reis D. João, e D. Manuel descobriram,
+e ganharam para a Fe as terras do Oriente
+com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras.
+De maneira que, se os avarentos, que usam mal
+do ouro e das riquezas, guerream com elle contra as
+virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como elle as
+engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista
+perdem tantas vidas, muitas mais se compram,
+e resgatam a preço d'elle. E deixando o balsamo de
+ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel, tão celebrado
+dos distilladores nas enfermidades; qual risco
+da vida, qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão
+ou captiveiro não remio o ouro? Elle faz a formosura
+das cidades, a belleza dos edificios, a fortaleza
+dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das
+côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades,
+titulos, e privanças, e até os louvores e as mesmas
+graças da natureza: todos o buscam, o desejam,
+e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem
+converter n'elle por meio de alquime; os animaes se
+rendem á sua formosura; pois não ha caça mais certa
+que a que se toca com laço de ouro, nem melhor pescaria
+que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão
+grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer
+<span class="pagenum">[108]</span>
+um auctor, que na maior furia de um leão, de um tigre,
+e de outra qualquer féra, se lhe lançarem moedas
+de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E
+passando por todas as cousas da terra sua valia, podem
+os ricos subir ao céo por escadas de ouro, e dar-lhe com
+elle assalto e bataria, pondo as balas e settas d'este
+metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em tanta
+altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser
+digno de seus louvores meu humilde talento, que, se
+fôra de tão illustre metal, tudo alcançara. <br />
+<br />
+A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto
+que alguns a esperavam menos grave, e mais engraçada:
+e assim lhe disse Leonardo:&mdash;Parecestes-me esta
+noite mais orador insigne, que murmurador galante.
+Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem
+os louvores.&mdash;Não vos agradeço (respondeu elle) os
+que me daes; por quanto d'antemão vos vingastes d'elles.
+Porém se quereis vêr em outrem com gravidade o
+que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois
+os bens e males do ouro estão encetados; diga o senhor
+prior agora os poderes do interesse, que no successo
+da sua peregrina achará largo campo para esta materia.&mdash;Essa
+é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas
+horas da noite; e eu me não escusara com ellas, se
+não imaginara que todas as verdades, que cahem sobre
+este sujeito, hão de parecer murmuração. Porque
+dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é
+sentença antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar
+os modos e termos, com que batalha, será
+ir com os dedos aos olhos de muitos. Se disser que o
+interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá
+d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas
+da justiça, quantas se virarão para castigar-me? Se
+ousar a dizer que profana as leis, e offende a immunidade
+das egrejas, temo que até na minha me neguem
+a entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores,
+couto de homicidas, torre do facinorosos, e merecimento
+de descuidados, quantos se levantarão contra
+minha verdade? Só direi em um conto breve o que
+de sua valia se pode presumir na necessidade; e será
+julgar pelas unhas o leão, e pela pisada de Hercules a
+medida de sua grandeza. <br />
+<br />
+Um homem curioso, bem intencionado, e não mal
+<span class="pagenum">[109]</span>
+entendido, andou alguns annos na milicia do Oriente:
+e vindo d'elle a este reino para se despachar, trouxe
+entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade,
+umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente
+obrados. E depois de entrar em seu requerimento,
+deu conta a um amigo, pratico nas cousas da
+côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle
+como convinha e buscando entre o movel, que trouxera,
+peça que podesse offerecer a um ministro, com
+quem tinha intelligencia, lhe inculcava aquelles santos
+de marfim, que o tinham muito affeiçoado.&mdash;Como
+(disse elle) não trouxestes da India algum pagode, ou
+idolo de ouro d'esses gentios?&mdash;Para que? lhe perguntou
+o pouco esperto requerente.&mdash;Ah, respondeu
+o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma,
+<em>Mais podem diabos de ouro, que anjos de marfim</em>. E
+assim não me parece que está mal o dito vulgar do
+povo, <em>que o interesse é diabo</em>. E pois o tempo é tão
+curto,
+seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus poderes;
+que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade
+de falar, contra o desejo que tenho de vos obedecer.
+E sendo elles taes, e o ouro o principal interesse
+de todos, mui bem lhe cabem com os males, que Pindaro
+d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou
+fazendo a differença sómente no uso d'elle. Que se Santo
+Agostinho lhe chamou enfermidade da soberba, fraqueza
+das virtudes, materia de trabalhos, perigo do
+possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado;
+Santo Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola
+dos vicios, e doença da alma; e se d'elle nasceu a
+Cresso a soberba, a Heliogábalo e Sardanápalo a luxuria,
+a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula:
+se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira,
+Crasso degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros
+ricos tiveram fins semelhantes; não teve a culpa o
+ouro, senão a má avareza de quem o possuia, ou a cubiçosa
+sede do que o desejava; pois elle nos animos livres
+não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças,
+lustre e grandeza: como em um Constantino Magno, que
+enriqueceu a egreja Romana; um Carlos IV, que comprou
+com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o nome
+Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um
+Lourenço de Medicis, que honrou Florença: um Leonardo
+<span class="pagenum">[110]</span>
+Lauredano, que libertou Veneza; um Carlos Brugi,
+que soccorreu a esterilidade de Flandres; e outros muitos,
+que o souberam dispender valorosamente. De maneira
+que n'elle está a condemnação ou justificação, a
+morte ou a vida de quem o possue ou deseja. Para o
+que eu acho extremada aquella historia, que toca Auzonio
+poeta em um seu epigramma. E é que um homem
+desesperado com uma paixão, que teve, se hia enforcar
+em um logar secreto, levando comsigo o baraço, em
+que havia de deixar a vida. Succedeu que com a força
+que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se
+lhe descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o
+pensamento: e, levando o que achara, deixou em seu
+logar o baraço que trazia. Vindo depois o que alli o
+escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação
+de sua desventura, fez, porque perdera um thesouro,
+o que o outro deixou de fazer porque o achara:
+de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou a
+avareza d'elle.&mdash;Com tão boa historia (accudiu D. Julio
+levantando-se) é razão que vamos satisfeitos, e deixemos
+ao senhor prior bem agazalhado, posto que pelo
+interesse de sua conversação deixara eu muitos dos
+que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos
+deu preço ao ouro e pedraria, á conversação dos
+sabios o não pode tirar a mesma ventura.
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<a name="c9" id="c9"></a><h2>DIALOGO VIII</h2>
+<br />
+<h3>DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR</h3>
+<br />
+<br />
+Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo
+o dia: e n'ella em vindo a noite se ajuntaram os amigos,
+sentindo grandemente a falta d'aquelle que os deixara.
+Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e
+entre outras disse Feliciano:&mdash;Por todas as razões se
+devia desejar a conversação de tão discreto, e douto
+cortezão, como é o prior, em todo o tempo, mas n'este
+das noites do inverno muito mais: e n'ellas encherá
+elle muito bem o seu logar; porque, além de saber e
+auctorisar o que diz com o fundamento das lettras e
+curiosidade que tem, é muito composto e engraçado no
+que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo
+<span class="pagenum">[111]</span>
+de encarecer negando na materia do interesse, e o descrever
+com brevidade nas historias.&mdash;Quanto mais ouvirdes
+d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos parecerá
+melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos
+parecia muito bem nos de côrte; e que debaixo dos
+compridos pode ainda dar lições d'ella a muitos de capa
+e espada.&mdash;Parte é o falar bem (accudiu D. Julio) que
+leva tudo após si: e não consiste este bem só nas razões
+discretas e palavras escolhidas, senão no bom
+modo e graça de as dizer: o que eu comparo a uma
+cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa aformosea,
+e dá ser, côr, e graça ao que lêdes; e a ruim
+desconcerta, empeça, e afeia as razões, sendo todas
+umas: e não faltarão mui perto exemplos d'esta verdade.&mdash;Fujamos
+das comparações para a doutrina (disse
+Pindaro) e melhor fôra ser essa a materia, em que se
+gastára este serão.&mdash;Ainda vos ficaram sobejos do passado
+(tornou Solino) pois vos adeantaes da companhia:
+porém eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de ir aos
+mais.&mdash;Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se
+o doutor nos abrir o caminho.&mdash;Sempre (respondeu elle)
+me mandaes deante como os frades menores nas procissões;
+quero-os tambem imitar na obediencia: porém
+lembro-vos que são duas materias as que tocou o sr.
+D. Julio, convém a saber, a graça, e composição do
+rosto e corpo no falar, e o concerto das palavras, e discrição
+das razões.&mdash;Essa divisão parece escusada (disse
+Leonardo) porque a graça não se aprende, nem se pode
+alcançar por arte, pois é mero dom da natureza&mdash;Todas
+as cousas d'ella (tornou o doutor) se aperfeiçoam e melhoram
+com a arte: e, para saberdes logo esta verdade,
+tomarei á minha conta o em que vos parece que ha
+menos que dizer; e fique á vossa a demazia. <br />
+<br />
+Primeiramente no movimento, e graça do falar, chamou
+Marco Tullio <em>eloquencia do corpo</em>: e Quintiliano
+disse que com todas as partes d'elle se ha de ajudar a pratica.
+E posto que esta doutrina parece que convinha
+então aos oradores, como agora aos prégadores, uns
+e outros praticam, e em todo o tempo é necessaria: e
+assim pintaram alguns o jeroglifico da rhetorica com
+uma mão aberta, outra cerrada.&mdash;Muito contraria me
+parece essa lição (disse D. Julio) á policia da côrte,
+onde é regra que o homem ha de falar com a lingua,
+<span class="pagenum">[112]</span>
+e ter quieto o corpo e as mãos.&mdash;Eu concertarei essa
+regra com as minhas (replicou o doutor), que o homem
+no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e
+logo vereis que o que quero dizer é o mesmo, em que
+vos quereis anticipar. O primeiro instrumento da pratica
+é a voz: e, para essa ser engraçada no falar, ha de
+ter estas propriedades, <em>Ser clara, branda, cheia, e
+compassada</em>:
+porque a voz escura confunde as palavras, a aspera
+e secca tira-lhes a suavidade; a muito delgada e
+feminina faz impropria a acção do que fala; a muito
+apressada empeça e revolve as razões, que por si podem
+ser muito boas: não trato das que a natureza inhabilitou
+para esta perfeição, como é a voz do gago,
+do cicioso, e do rustico grosseiro: mas na do cortezão
+tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam
+com a voz tão mettida por dentro, que deixam as
+palavras para si, e os ouvintes ás escuras, que lhes é
+necessario estar espreitando o que lhes querem dizer:
+e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham
+as orelhas dos que escutam; e outros, que falam
+tão apressadamente, que parece que levam esporas
+na lingua.&mdash;Entre vozes (disse Solino) tambem eu
+hei de soltar a minha: e no que é a voz cheia, que dizeis,
+quizera saber a differença; porque eu tenho que
+ainda é peor a muito grossa que a feminina: porque
+ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo,
+que espirito de voz. E egualmente aborrece vêr um homem
+com um rosto como uma peneira, muito versudo
+da barba e sobrancelhas, sahir com voz de frauta muito
+exprimida.&mdash;O meio (respondeu o doutor) em todas as
+cousas é a perfeição d'ellas: e se estaes bem lembrado,
+tambem deixei de fora a voz grosseira, como a quem
+a natureza privou da graça no falar. Depois da voz, os
+olhos dão muito espirito ás razões: porque, como elles
+são as janellas d'alma, por elles se communica vida ás
+palavras: e assim hão de ser claros, alegres e moviveis:
+porque os muito intensos, e extendidos entristecem;
+os muito apertados e franzidos movem a desprezo; os
+muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem
+temor; e posto que os olhos, por risonhos, nunca perdem
+a graça, parece que nas praticas graves, e de importancia,
+não hão de ser muito chocalheiros.&mdash;N'isso
+tendes vós muita razão (disse D. Julio) que ha homens.
+<span class="pagenum">[113]</span>
+que dão olhado ao que falam: porém não vos esqueçaes
+das sobrancelhas.&mdash;Tambem a acção do falar toma
+muito d'ellas (tornou o doutor) porque franzidas fazem
+carranca, e mostram que fala um homem com melancholia;
+baixas representam tristeza, ou vergonha;
+muito arqueadas significam espanto; e levantadas alegria.
+E não menos convém a composição da barba, que
+fincada nos peitos mostra desconfiança ou porfia; e
+posta no ar vangloria: e o pescoço, que nem se ha de
+ter tão levantado que faça soberba nas palavras, nem
+tão baixo, que pareça que não pode com a cabeça; a
+qual não ha de estar tão firme, que pareça que a espetaram
+n'elle; nem se hade quebrar para todas as
+partes como grimpa. Da mesma maneira a bôcca ha
+de ser quieta quando fala, sem estar mordendo beiços,
+nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem
+com o riso se ha do mostrar tão descuidada, que as
+entorne pelos cantos; nem tão apertada, que offenda
+a boa pronunciação e graça d'ellas; no que vae mais
+á lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos
+que todas as nações orientaes naturalmente opprimem
+a voz na garganta quando falam, como os Indianos,
+Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os Mediterraneos
+referem as palavras aos padares da lingua,
+como fazem os Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os
+occidentaes, como os Francezes, Italianos, e Hespanhoes,
+mastigam as palavras entre os dentes, e as pronunciam
+na ponta da lingua: posto que em alguns logares,
+conquistados outro tempo dos Africanos, ficaram
+usos e palavras, que ainda obrigam a sua pronunciação;
+mas os que estão mais izentos d'ella são os Portuguezes,
+como aqui na primeira noite da nossa conversação
+se tocou. Além d'estas partes do rosto tem o
+movimento do corpo o seu logar: que pode parecer
+airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que
+fala nos contos, historias, graças ou galanterias, não
+representando o que diz com meneios de comediante,
+nem com modestia e compostura sobeja, mas com uma
+boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no
+relatar mais ligeiro, no arguir esperto, no desculpar
+ou defender-se mui brando; nem fazer badallos dos pés
+quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar com
+os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais
+<span class="pagenum">[114]</span>
+gestos ou acções, que tenho tocado, se ajuda a pratica
+do movimento das mãos, que ha de ser com um leve
+ar e compostura, com que o discreto favorece as palavras
+que diz, não falando com ambas ellas, nem chegando
+com alguma perto da vista dos ouvintes; e guardando
+estas e outras advertencias semelhantes, pode
+fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar,
+emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo
+com o cuidado as graças, que ella lhe dotou: não tratando
+dos incuraveis, a que já não possam valer estes
+remedios; mas dos que á falta d'elles, e com o largo
+discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.&mdash;Parece
+que daes a entender, senhor doutor, (disse
+Pindaro) que ha mais algumas advertencias, que podem
+ser de importancia n'esta materia: e, para a tratar
+de fundamento, não é razão que fiquem de fora.&mdash;Para
+essas e para o mais, que tenho dito (respondeu
+elle), nomearei alguns vicios, que são contra o bom
+termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditarão
+as minhas opiniões, a que eu não posso nem quero dar
+nome de preceitos, posto que são fundadas em os melhores
+dos que d'esta materia escreveram. <br />
+<br />
+<br /><br />
+O primeiro é <em>escutar-se um homem a si proprio quando
+fala, por se contentar do que diz</em>. <br />
+<br />
+O segundo <em>repetir outra vez o que tem dito, com os olhos
+nos ouvintes, para que lh'o gabem</em>. <br />
+<br />
+O terceiro <em>deter-se tanto nas palavras como que as vae
+pezando,
+e compondo para as dizer</em>. <br />
+<br />
+O quarto <em>ir-se arrimando a bordões para que lhe accudam
+em tanto as palavras</em>. <br />
+<br />
+O quinto <em>ir á mão ao que quer responder, por querer falar
+tudo</em>. <br />
+<br />
+O sexto <em>bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios
+ditos</em>. <br />
+<br />
+O setimo <em>borrifar as palavras com o humidade da bôcca,
+por falar com vehemencia</em>. <br />
+<br />
+<br /><br />
+&mdash;Vós (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados
+mortaes contra a discrição, e cortezania, que não
+merecerá n'ella ter graça quem n'elles estiver culpado.
+Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque
+receio que falaes de proposito contra alguem.&mdash;É
+<span class="pagenum">[115]</span>
+tão má a vossa natureza (lhe tornou o doutor) que
+quer perverter a minha boa tenção, e d'estes peccados
+contra a policia tirar outros que offendam a amisade:
+vale-me porém ser a vossa conhecida. E proseguindo
+a materia dos vicios, os tres primeiros nascem do amor
+proprio que cada um tem a suas cousas, a que os gregos
+chamaram <em>Filaucia</em>: os quatro seguintes, ou da ignorancia,
+ou do descostume e falta de doutrina cortezã.
+Escutar-se um homem, quando fala, é de quem bem
+lhe parece o que diz: e posto que o vicio é natural,
+tem ruim patria; que o homem, que se escuta, é lisongeiro
+de si mesmo, e elle se paga por si de suas palavras,
+vendo-se e enfeitando-se n'ellas como em espelho,
+conforme os proverbios antigos, que <em>a cada um parece
+o seu formoso</em>; e outro, que <em>não ha melhor musico que
+cada um a si mesmo</em>; e que <em>a cada um contenta o seu rosto, a
+sua arte, e cheira bem o seu suor</em>.&mdash;Outro (disse Solino) me
+parece a mim melhor que todos esses, porque os declara;
+e é que <em>quem se contenta a si contenta a um grande
+nescio</em>;
+que não pode deixar de o ser o que do seu engano
+se satisfaz. E não achareis discreto d'esse feitio, que
+não caia nos tres primeiros laços: porque são encadeados
+uns com outros: e em se escutando um homem
+a si, o vereìs ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas,
+enchendo com ellas a bôcca, e pronunciando-as
+com muito cuidado.&mdash;D'esses disse Horacio (accudiu
+Pindaro) que <em>falavam empolas</em>; é está muito bem o
+nome á inchação das suas palavras. Mas o segundo vicio,
+que é da repetição, parece menor erro; porque o
+que é bem dito se pode repetir, conforme ao que disse
+o poeta; e só será a culpa quando o dito não fôr acertado.&mdash;Essa
+estimação não ha de ser feita por seu
+dono (respondeu Solino), nem elle pode pôr o preço a
+suas palavras, cuidando que fala ouro; em obras alheias,
+referidas por outrem, tem logar essa desculpa; e não
+se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a
+repetição do que disseram, estão puxando por vós a
+que lh'as gabeis, e vos contenteis á força da sua razão;
+e mettem de quando em quando um <em>entendeis-me? estaes
+commigo? digo bem? que vos parece? não sei se me declaro</em>.
+De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem
+dos outros nescios. E com este cahem logo no terceiro,
+que é deter-se muito em cada palavra, soltando-as por
+<span class="pagenum">[116]</span>
+compasso, dilatando uma da outra, porque se não peguem:
+e é vicio, que fará ser aborrecivel a todo o mundo
+a quem o tem; e até á mesma discrição fará importuna
+este mau uso d'ella. E mais é mui certo andar
+annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle;
+que tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria,
+que não ha quem o leve. O quarto não entendo bem,
+porque não sei ao que chama <em>bordão</em> o doutor.&mdash;Sabei
+(disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o
+que fala, quando as palavras lhe cançam, se chamam
+<em>bordões</em>, e são de duas maneiras: uns que pertencem,
+ou
+para melhor dizer, que são impertinencias nas acções
+do falar; e outros nas palavras: os primeiros são mais
+culpaveis que os segundos, porque ha um que não sabe
+praticar comvosco sem vos estar desabotoando, ou
+alimpando o cotão, e arrancando a frisa do vestido:
+outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou travando-vos
+do braço vos molesta: e ainda ha alguns tão
+desatinados, que vos dão com a mão nos peitos a cada
+cousa que dizem: e outros que, se deixam de entender
+com quem praticam, o hão comsigo, não estando quietos
+com as mãos; esgravatando os dentes, ou bolindo
+nos narizes e falando, tirando cabellos da barba, e
+mordendo as unhas; e outros vicios semelhantes, que
+servem como uns espaços e reclamos, a que lhe acodem
+as palavras. Os segundos são mettidos na mesma pratica
+com alguns, que em cada palavra d'ella mettem
+um <em>diz</em>, <em>assim que digo</em>,
+<em>tal e qual</em>, <em>sim senhor</em>, <em>vae vem</em>,
+<em>então</em>, <em>senão quando</em>,
+<em>espere vossa mercê</em>, <em>assim que senhor</em>,
+<em>estaes commigo</em>; e outros muitos, fora os que vós
+apontastes
+no vicio da repetição, que são bordões da primeira
+classe.&mdash;Certo (disse Feliciano) que tem muita razão
+o doutor em dizer que este vicio e os dois, que se
+seguem, nascem do descostume, e falta da doutrina
+cortezã: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um
+estudante, que na opinião dos mais não era tido por o
+que falava peior, que, por o grande odio, que tinha aos
+bordões, inventou um modo excellente para os desterrar
+da conversação dos amigos, com que tratava de
+ordinario; e foi um jogo de não menor engenho, que
+utilidade; e pelo exercicio d'elle se perdeu até a semente
+dos bordões entre aquelles amigos.&mdash;Não vos esqueçam
+(disse Leonardo) os termos de tão bom jogo,
+<span class="pagenum">[117]</span>
+que já pode ser que occupemos com elle uma noite,
+mais bem empregada, do que o remedio será necessario
+para os presentes, porque não são dos homens limitados,
+que se apegam a estes encostos: e se quereis
+conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-hão
+n'ella mais bordões, do que tem de palavras.&mdash;O
+quinto vicio (proseguiu o doutor) é incomportavel; porque
+ha homens tão sôfregos de falarem tudo; que atalham
+as palavras ao que lhes começa a responder, querendo
+anticipar com o seu entendimento a tenção alheia.&mdash;Esses
+taes (disse Solino) falam a duas mãos, porque
+querem que vá tudo por elles. E como me acho entre
+esses, por não pedir por mercê que me ouçam uma palavra,
+deixo o feito sem parte; e como ficam falando á
+reveria, desfaço as suas sentenças com uma bochecha de
+agua.&mdash;Esses faladores são como cigarras, que atrôam,
+e não deleitam (disse D. Julio) e é sentença mui approvada
+entre cortezãos que tres cousas não ha de haver
+entre elles demasiadas, <em>sobeja parola, comprida porfia,
+e grande rizada</em>; porque <em>quem muito fala d'elle damna</em>
+(como diz o rifão) <em>e com quem aporfia não disputes; e onde
+ha muito riso ha pouco siso</em>; que todos estes pertencem á
+conversação.&mdash;Essa terceira parte (proseguiu o doutor)
+é do sexto vicio, que é bracejar quando fala, e festejar
+com risadas seus proprios ditos o que se quer vender
+por discreto. E assim vereis alguns, que falam ás pancadas;
+e se acharem um pulpito deante, o farão em
+pedaços, como se a policia podéra soffrer o desassocego
+e inquietação da sua esgrima. As risadas, além de arguirem
+falta de entendimento, são mais impertinentes
+quando um homem festeja seus proprios ditos; que,
+para terem galanteria, elle, que os diz, ha de ficar sisudo;
+e os que o ouvem, risonhos. E assim os engraçados
+de nossos tempos que conhecemos, e outros, que
+deixaram esse nome, sabiam festejar moderadamente
+as graças alheias, e dissimular o riso nas suas, fazendo
+menos caso d'ellas.&mdash;Duas cousas (disse D. Julio) se me
+offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a
+primeira, que moderação se ha de usar no riso, com
+que um homem festeja o conto ou graça do que falla
+deante d'elle?&mdash;Os homens (respondeu o doutor) não hão
+de ser tão sevéros que nunca riam como Catão Censorino,
+Anaxagoras, e Sócrates: nem como Marco Crasso,
+<span class="pagenum"><a name="p118" id="p118">[118]</a></span>
+que rio uma só vez na vida; pois é definição e differença
+do homem <em>ser animal racional</em>, e a sua propria
+paixão é <em>ser rizivel</em>: porém não menos se ha de
+guardar
+de ser desentoado nas risadas; que, para n'isto haver
+uma moderação politica, lhe buscaram os antigos muitas
+differenças: e deixando o riso Jonio, Megarico, Sardonio,
+e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores
+gregos, e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, não
+ha de rir o homem com a bôcca aberta que dá grande
+tom ao riso, nem com os beiços apertados, como costumam
+os que tem cieiro n'elles; nem sómente mostrando
+os dentes, que a estes chamaram os latinos
+<em>riso de cavalgaduras</em>; nem com um riso molle e
+affeminado,
+como era o Jonio; mas com uma boa sombra e
+graça na bôcca e no ar do rosto, com que se mostre,
+agradecido do que escuta. E se esta resposta vos satisfaz,
+bem podeis continuar com a segunda pergunta.&mdash;Ainda
+que as minhas (tornou elle) não fôssem muito
+a proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam
+desculpadas, como será esta: Se na graça, que outrem
+conta, em que eu a não acho, sou obrigado em primor
+cortezão a me mostrar risonho? Obrigado é o cortezão
+(respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com
+quem se pratica: e não o poderia ser quando seccasse
+o riso na occasião, em que outrem mette cabedal para
+o provocar a elle; que seria mettel-o em desconfiança.&mdash;Eu
+me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e já agora
+podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que
+discorrer segundo me parece; que nao é mais que um
+<a href="#e3">descuido</a> e desattento dos que, mostrando o fervor do
+animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem,
+e ás vezes a quem os escuta.&mdash;Não cuido eu (disse
+Feliciano) que são esses os de que trata o proverbio, que
+<em>falam fontes de prata</em>.&mdash;Antes (tornou Solino) lhes
+chamara
+eu <em>homens que falam frescos</em> que nem uma manhã
+de abril deixa tao orvalhado um campo do boninas,
+como elles a roda dos que os estão ouvindo; e para estas
+immundicias houvera de ter a discrição um Almotacé
+da limpeza.&mdash;Desterrados pois (continuou o doutor)
+da conversação estes sete inimigos d'ella, parecerá um
+homem cortezão aos que o escutarem, falando agradavelmente
+nas palavras as leis que agora lhe der o senhor
+Leonardo: que posto que a verdadeira discrição
+<span class="pagenum">[119]</span>
+seja natural, nenhum dos dons da natureza deixa
+de receber beneficio da arte, da continuação e dos costumes.&mdash;Muito
+depressa vos quereis desobrigar (respondeu
+Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha
+porta, dando algum toque na murmuração, como
+déstes no riso: que tambem estes preceitos são fóra das
+palavras.&mdash;O riso sim (lhe tornou elle), mas não o murmurar;
+que é culpa que não se attribue á pratica, posto
+que alguns digam que sem esse sal a mais discreta é
+pouco saborosa: e é porque ha muitas cousas, que não
+queremos dizer, e folgamos em extremo de as ouvir.
+Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos
+alheios de gente ociosa, com risco proprio. Porém,
+por fazer as pazes comvosco, entrarei em contendas, de
+que estou desobrigado, tocando na murmuração engraçada;
+e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma
+sentença excellente, que diz que <em>dos animaes bravos a
+peior mordedura é a do praguento</em>; e <em>dos mansos a do lisongeiro</em>.
+O praguejar é maldade, o lisongear traição, o motejar
+levemente galantaria: o discreto nem ha de morder,
+nem lamber; porém picar levemente, e com arte,
+é graça da conversação. Para o que, deixando auctoridades,
+exemplos, preceitos, e cousas infinitas, que poderão
+levar grande tempo: o cortezão, quando arguir
+para graça, ha de considerar tres cousas: o que fala,
+com quem, e deante de quem. O primeiro por fugir de
+materia em que o presente desconfie: o segundo por
+não motejar com quem não saiba pesar e conhecer as
+galantarias: o terceiro por não falar graças, de que,
+algum dos ouvintes se envergonhe: porque de outro
+modo, sendo a graça pesada, perderia o nome. Não falo
+do murmurar de ausentes, que em todo o modo me parece
+culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias
+as vossas, que a todos agradam, e que, se aos
+ouvintes não fazem fastio, tão pouco aos offendidos
+causam queixume.&mdash;Lembra-me (disse Pindaro) que no
+quinto vicio condemnastes o querer um homem falar
+tudo: e não déstes regra aos que falam pouco.&mdash;Seria
+(respondeu o doutor) por me conformar com uma sentença,
+que diz: <em>Aos que pouco falam, poucas leis lhes
+bastam</em>.
+Além d'isto até agora não tratei dos louvores do
+silencio, nem da verdade d'aquelle dito: <em>Assás sabe o
+que não sabe; se calar sabe</em>. E o outro, que: <em>O
+nescio calando,</em>
+<span class="pagenum">[120]</span>
+<em>parece-se com o discreto</em>. Falo sómente da
+maneira de
+praticar entre os amigos, onde as palavras não tem
+mais que estas duas medidas, que são <em>falar a tempo</em>,
+e
+<em>a proposito</em>: a tempo, porque nem em todos se pode
+dizer
+tudo o que é bem dito. <br />
+<br />
+Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o
+estomago, e offendam ao gôsto, ainda que em
+outros logares podem dar muito. Entre enojados não
+dizer graças, ou contos, que desautorisem a tristeza, e
+provoquem a riso. Entre enfermos não contar historias,
+que causem temor ou desconfiança em seus males.
+Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas que saibam
+a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha
+muitos, que se desviam do principio da pratica, de maneira
+que do primeiro salto vão parar a Flandres; outros,
+que em tudo querem metter uma historia que
+sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que
+ouviram, um sonho que sonharam; e pela deleitação,
+que tomam de contar coisas proprias, perdem o decóro,
+com que hão de escutar as alheias, e o tento do que
+elles mesmos respondem: e tambem me a mim parece
+que me vou mettendo nas que não são minhas; que
+me fizeram passar os termos de maneira, que nem a
+meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda
+parte d'este discurso.&mdash;Vós dizeis tudo tão bem (tornou
+Leonardo) que se perde pouco no que eu havia de accrescentar,
+quanto mais, que o que se dilata não se
+tira; e já ámanhã terei cuidado, ou espaço de cuidar
+no que hei de dizer, por não cahir no terceiro peccado
+de ir compondo as palavras com o vagar que enfastia.&mdash;Em
+casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a cêa; e
+em entendimento tão rico, como o vosso, nem de cousas,
+nem de palavras pode haver pobreza: guarde-vos
+Deus de uns meus senhores, que as pedem fiadas aos
+livros de cavallarias, com suas sentenças de cabo de
+capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um
+dos ouvintes, varreu-lhes toda a prégação da memoria,
+e vão com a pratica em muletas até tomarem assento
+com muito trabalho seu, e de quem os escuta.&mdash;Hora,
+não o dêmos tão grande ao senhor Leonardo
+(disse D. Julio) que hoje o não deixemos dormir, pois
+ámanhã o havemos de despertar; que as duas noites
+passadas foram de hospede, e a conversação dos que
+<span class="pagenum">[121]</span>
+são de mais gôsto, roubam melhor o tempo; e comtudo.
+a parte que se tira ao repouso, sempre faz falta, <br />
+<br />
+Começaram-se os outros a levantar, e o velho ainda
+os deteve em pé dizendo:&mdash;O senhor D. Julio em tudo
+tem tenção de me fazer mercês; porém esta não é das
+em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar
+o tempo do somno para viver, que o da vida para
+dormir. E se é verdade que na conversação de tão bons
+amigos só se vive, qual posso eu ter melhor, que, fazendo
+estas noites mais compridas, alargar a minha
+edade? que sentença é antiga, que <em>o tempo, em que dormimos,
+perdemos da vida</em>: pelo que chamaram ao somno
+<em>imagem da morte</em>.
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+<a name="c10" id="c10"></a><h2>DIALOGO IX</h2>
+<br />
+<h3>DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS</h3>
+<br />
+<br />
+Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio
+de tão proveitosa conversação, de tal maneira,
+que nenhum perdia o sentido das materias, que ficavam
+tocadas, para se armarem de razões, contos, e
+exemplos, com que cada um mostrasse aos outros sua
+sufficiencia. N'aquella porém da pratica vulgar ficou
+Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que
+tudo pende de opiniões incertas; como porque o doutor
+lhe cortara a urdidura, com que havia de ir tecendo
+o seu discurso, desejava mudar o proposito a outra
+cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era
+o de todos, não via caminho de o desviar. Veiu pois a
+noite do outro dia, e com ella os companheiros mui alvoroçados;
+aos quaes elle festejou com a mesma alegria;
+e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se
+hei de falar verdade, eu estou tão carregado com o officio
+que de novo me déstes, que me não atrevo a dar
+boa conta d'elle; porque todas as que fiz para me dispôr
+a isso, me sahiram erradas: e me parece tão difficultoso
+falar de cuidado, e ordenadamente na materia
+em que se ha de praticar na lingua portugueza, que
+me hei de chamar ao engano, e o maior de todos foi
+darem-me espaço para temer, quando eu cuidei que o
+<span class="pagenum">[122]</span>
+tomava para me prevenir.&mdash;Em vós (disse D. Julio) é
+gentileza esse receio; e ainda que fôsse fingido, eu o
+tenho por a primeira regra de falar bem, pois ensinaes
+aos discretos a não falarem com sobeja confiança; e
+pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa
+achara difficuldade, que é pôrdes em regras, e preceitos,
+o que tendes por natural, e por costume; que servieis
+mais para exemplo de quem vos ouve, que para
+mestre dos que não podem comprehender a vossa doutrina.&mdash;Se
+com titulo de me fazerdes mercê (respondeu
+elle) quereis que desconfie, mais facil vos será isso, que
+a mim o acertar: mas, para que não erre no principal,
+digo que não posso fazer escola de falar bem, mormente
+entre cortezãos tão discretos, que cada um me poderá
+dar preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas
+a minha opinião, faço-o para com as razões dos que
+a contradisserem aprender a acertar.&mdash;Parece-me (disse
+Solino) que as melhores duas lições para os discretos
+são essas primeiras, <em>receio</em>, e
+<em>humildade</em>. E passando
+adiante, começae já a descobrir essa rhetorica, nova á
+lingua portugueza.&mdash;Por escusar (tornou elle) uma muito comprida;
+e dilatada em preceitos, e limites, que á
+força se hão-de misturar com os da latina; e por evitar
+a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes
+para outras noites, accudirei brevemente a alguns
+vicios da lingua portugueza, não fugindo dos termos
+da latina, nem levando-os a elles por fundamento,
+mas fazendo-o n'estas cinco advertencias: <br />
+<br /><div class="quote1">
+<em>Falar vulgarmente, com propriedade.</em> <br />
+<em>Fugir da prolixidade.</em> <br />
+<em>Não confundir as razões com a brevidade.</em> <br />
+<em>Não enfeitar com curiosidade as palavras.</em> <br />
+<em>Não descuidar com a confiança.</em>
+</div>
+<br />
+&mdash;Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica
+abreviada, que podia servir a todas as linguas:
+porque a confusão dos muitos preceitos e figuras, que
+lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem comprehender
+debaixo d'esses cinco muito bem achados. E
+pois Solino chamou aos meus vicios sete peccados contra
+a discrição, podia chamar a estes preceitos os cinco
+sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como entendeis
+<span class="pagenum">[123]</span>
+<em>falar vulgarmente com propriedade</em>, que em
+parte me
+parece que o vulgar não guarda muitas vezes o respeito
+ao proprio? &mdash;Falar vulgarmente (respondeu Leonardo
+é qual os melhores falem, e todos entendam
+sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados,
+nem antigos, e desusados: senão communs, e
+correntes, sem respeitar origens, derivações, nem etymologias;
+que a linguagem mais pende do uso, que da
+razão: e por isso se chama lingua materna, porque nas
+mulheres, que menos sahem da patria, se corrompe
+menos o uso do falar commum, posto que ellas saibam
+pouco da razão de seus principios. E d'isto, e do falar
+com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos
+sobre as cartas missivas; o que não será necessario
+repetir agora de novo, mas sómente dar mostra de
+que estes dois termos se não encontram: que se o falar
+proprio, é com palavras naturaes, e menos figuras da
+rhetorica, para ornamento d'ellas; e não usar dos tropos
+de allegorias, metaforas, translações, antonomazias,
+antifrazes, ironias, enigmas, e outras muitas; isso
+se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente
+as palavras proprias, pois sómente algumas translações,
+antonomazias, e ironias se acham n'ella; e mui
+raramente outras figuras: e posto que n'isto me detenha
+mais do que determinava, me hei de embaraçar
+com estas três figuras. <em>Translação</em> é figura quando
+passamos
+as palavras de uma cousa a outra, porém com
+uma semelhança conveniente, como quando dizemos
+<em>uma fonte de sabedoria</em>, <em>um pôço de
+lettras</em>, <em>um rio de ouro</em>,
+<em>um thesouro de partes</em>, ou <em>de
+graças</em>. Esta figura se costuma
+usar para um de quatro effeitos, ou para evitar
+palavras deshonestas, ou para abreviar razões compridas,
+ou por accudir á pobresa da linguagem, ou por
+aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz
+officio mui necessario, que é dar a entender, por palavras
+alheias, cousas que sôam mal por o seu nome proprio,
+como dizer: <em>uma mulher que usa mal de sua formosura</em>;
+<em>que se vende a preço</em>; <em>que se entrega a
+Venus</em>; <em>que
+serve o seu gôsto</em>. <em>Um homem affeiçoado a
+ramos</em>; <em>perdido
+por Bacco</em>; <em>esquecido de si</em>. Tambem, para
+abreviar razões,
+é de muita utilidade na pratica, como quando dizemos,
+<em>ficou em secco</em>, <em>deitou azar</em>,
+<em>torceu a orelha</em>, <em>deu cinco</em>.
+Os outros dois modos me parecem na pratica sobejos,
+<span class="pagenum">[124]</span>
+e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de
+fugir n'ella o enfeite, e ornamento das palavras: e o
+outro, porque não faltam na lingua portugueza as necessarias
+para cada um declarar o que lhe convém dizer.
+A figura da <em>Antonomazia</em> se usa algumas vezes na
+conversação: posto que só nas pessoas, ou partes do
+mesmo reino será mais aceite. Entre nós, quando nomeamos
+<em>o Poeta</em>, se entenderá Luiz de Camões, <em>o
+Historiador</em>,
+João de Barros: <em>o Duque</em>, o de Bragança: <em>o
+Marquez</em>, o de Villa Real: <em>a Cidade</em>, a de
+Lisboa: <em>a Coutada</em>,
+a de Almeirim; e outras semelhantes cousas, ás
+quaes a grandeza deu superioridade das outras do mesmo
+nome. A <em>Ironia</em>, mais que todas, é propria na
+conversação,
+pois consiste mais na graça, riso, ou dissimulação
+do que fala, que nas palavras: esta se considera
+em duas maneiras, a primeira tirando a propriedade
+ás cousas; a segunda, furtando o sentido ás razões;
+uma é mero escarneo; a outra dissimulada subtileza.
+A primeira, quando do fraco dizemos que é um
+Hercules: do louco, que é um Catão: do miseravel, que
+é um Alexandre: e da mulher pouco casta, que é uma
+Helena. A segunda, como se disseramos: <em>Nunca lhe cahiu
+a lança da mão</em> ao que a não tomou n'ella: <em>não lhe
+chegou ninguem com a espada</em>, falando do que fugiu:
+<em>nunca
+pediu nada</em>, falando do que furta: <em>paga mais do que
+deve</em>, entendendo o que paga por justiça. No que pertence
+ás figuras me parece que basta esta lembrança.
+E as palavras, que se devem escusar para falar vulgarmente,
+não hão de ser estrangeiras, nem esquisitas,
+nem innovadas, nem tão antigas, que se perdesse
+já o uso d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes,
+e lettrados, que introduziram as latinas na
+conversação, fazendo a linguagem de misturas.&mdash;Essa
+culpa (respondeu o doutor) é dos mancebos que como no
+praticar não teem a madureza, que só costuma a ensinar
+a experiencia, cuidam que se melhoram em falar
+escuro, e elegante, fazendo na prosa accentos de musica,
+ou medidas de poesia.&mdash;Muitos lettrados sei eu (disse
+Solino) que não são moços, e n'isso o querem parecer,
+que falam uma linguagem como sereia, mulher até aos
+peitos, e ametade peixe; e são homens, a que não escapa
+por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a nossa
+lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga,
+<span class="pagenum">[125]</span>
+que perde muito de seus quilates.&mdash;Não tenho por grande
+erro (acudiu Pindaro) quando a conversação é entre
+doutos, usar de algumas palavras tiradas do latim,
+quando forem melhores que as com que nos podiamos
+declarar em portuguez: antes creio que, se isto se fôra
+introduzindo, viera a nossa lingua pouco a pouco a se
+apparentar com ella, e ficar tão polida, e apurada como
+a toscana.&mdash;E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou
+do parentesco, se não foi chamarem-lhe alguns auctores
+<em>bôrra da lingua latina</em>?&mdash;O caso é (disse Solino) que
+vós devieis ser affeiçoado á phrase de um cirurgião de
+Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez famoso,
+que disse á moça de um ferido, a quem curava: <em>Traga-me
+um panno corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice.</em>
+E a um rustico, que vinha esmechado, respondeu
+que não tinha mais lesa que a superficie da fronte; e
+tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria,
+se dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade.
+E certo que tenho raiva, sabendo que a lingua
+portugueza não é manca, nem aleijada, vêr que a façam
+andar em muletas latinas os que a haviam de tratar
+melhor.&mdash;Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem
+com isso se contentam; e andam buscando palavras
+muito esquisitas, que por termos mui escuros significam
+o que querem dizer. Como um que se queixava de sua
+dama, que de ciosa andava inquirindo os escrutinios
+do seu pensamento. E outro a um barbeiro disse, que
+lhe rubricára a parede com a sangria.&mdash;Alguns (disse o
+doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente
+de falar, que por taes eram reprovados: porém o uso
+das palavras innovadas não achei ainda entre os portuguezes,
+como os hespanhoes e italianos. Nem tenho
+por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito
+bem usadas em outro tempo, e desterradas, sem razão,
+na nossa edade.&mdash;Não faltam (respondeu Leonardo) curiosos,
+que por acharem pobre a lingua, ou por elles
+o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo:
+como um lettrado, que querendo auctorisar umas
+casas para certa occasião, disso: <em>É necessario que as paredes
+d'este domicilio sejam alreadas, e que o fato uzivel fique
+retendo nas ultimas d'elle</em>. E outro disse de um navegante,
+<em>que fôra felice, se não fortuneara tanto no exito da
+viagem</em>.
+E ao que dizeis das palavras antigas, posto que
+<span class="pagenum">[126]</span>
+em algum tempo fôssem boas, não o ficam sendo na
+parte em que se perdeu o uso d'ellas; pois, como já
+disse, esse só é o fundamento e razão das palavras: e
+assim, não diremos <em>leixou</em>,
+<em>trouve</em>, <em>dixe</em>,
+<em>ca</em>, <em>sicais</em>,
+<em>acram</em>, <em>leidisse</em>,
+e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos
+de cujos escriptos podemos aprender a perfeição
+da lingua portugueza. E bastou o contrario uso
+para n'esta parte poderem seguir os que agora escrevem,
+e falam bem.&mdash;Com uma só razão (accudiu Solino)
+condemnára eu a toda essa turba dos que no falar querem
+parecer singulares, e é que não falam para que
+os entendam melhor, senão para que pasmem d'aquella
+sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber
+que é lanço muito certo, que os que se contentáram
+com saber pouco do latim, falam mais alatinado,
+para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim
+como virdes cirurgião, ou boticario, que acabou a grammatica
+na quinta classe, ponde-lhe abrolho, que o não
+tirareis com vinte galgos á estrada do falar commum
+e se me esperardes estudante de philosophia em grade
+de freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que
+vos não entendereis com o sentido d'ella. E dos que falam
+pela tempera velha, eu o não consentira, senão em
+homens de barba larga, penteada sobre os peitos, com
+carapuça redonda, e pelote de abas pregadas, que vos
+conte historias d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em
+Almeirim, e de quando D. Rodrigo de Almeida tomou
+por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe
+nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos
+justos de agora, e barbinhas turquescas tiradas
+pela fieira, e tintas sobre branco, palavras d'aquelle
+tempo parecem remendo de outra côr. <br />
+<br />
+<br />
+<h4>FIM DO 1.º VOLUME</h4>
+<br />
+<br />
+<br />
+<br />
+
+<h2>INDICE</h2>
+<br />
+<br />
+<br />
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td style="width: 80%;">Advertencia</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c1">5</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo I</span>&mdash;Argumento de toda a obra</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c2">7</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo II</span>&mdash;Da policia e estylo das cartas missivas</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c3">22</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo III</span>&mdash;Da maneira de escrever, e da differença das cartas missivas</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c4">35</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo IV</span>&mdash;Dos recados, embaixadas e visitas</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c5">54</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo V</span>&mdash;Dos encarecimentos</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c6">70</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo VI</span>&mdash;Da differença do amor e da cobiça</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c7">81</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo VII</span>&mdash;Dos poderes do ouro e do interesse</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c8">95</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo VIII</span>&mdash;Dos movimentos e decoro no praticar</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c9">110</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><span class="smallcaps">Dialogo IX</span>&mdash;Da pratica e disposição das palavras</td>
+ <td style="text-align: right"><a href="#c10">121</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<br /><br /><br />
+<br />
+<br />
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+<br />
+<br />
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+ <tbody>
+ <tr align="right">
+ <td style="width: 61px;"></td>
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"> </td>
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1" href="#p67">#pág. 67</a></td>
+ <td style="text-align: center;">os proprio filhos</td>
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+ <td style="text-align: center;">os proprios filhos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2" href="#p91">#pág. 91</a></td>
+ <td style="text-align: center;">totos</td>
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+ <td style="text-align: center;">todos</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3" href="#p118">#pág. 118</a></td>
+ <td style="text-align: center;">descuido)</td>
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+ <td style="text-align: center;">descuido</td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+<br />
+<br />
+<br />
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Côrte na aldeia e noites de inverno
+(Volume I), by Francisco Rodrigues Lobo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE ***
+
+***** This file should be named 37757-h.htm or 37757-h.zip *****
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+ http://www.gutenberg.org/3/7/7/5/37757/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
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+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
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+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+1.F.
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
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index 0000000..877d38b
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+++ b/README.md
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #37757 (https://www.gutenberg.org/ebooks/37757)