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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) + +Author: Francisco Rodrigues Lobo + +Release Date: October 14, 2011 [EBook #37757] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso + de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final + deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Outubro 2011) + + + + +BIBLIOTHECA UNIVERSAL + +ANTIGA E MODERNA + + + +CORTE NA ALDEIA + +E + +NOITES DE INVERNO + +POR + +FRANCISCO RODRIGUES LOBO + +VOLUME I + +16.^a SERIE--NUMERO 62 + +[Illustration] + +LISBOA +COMPANHIA NACIONAL EDITORA + +Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES +40--Rua da Atalaya--52 + +FILIAES: Praça de D. Pedro, 127, 1.^o andar, PORTO +38, rua da Quitanda. Rio de Janeiro + +1890 + + + + +LISBOA + +TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA + +309, Rua da Rosa, 309 + +1890 + + + + + Em quanto está o avaro em seu thesouro + Cevando os olhos, dando ao pensamento + Materia a vã cobiça de mais ouro. + + _Primavera_, Floresta, 5. + + + + +ADVERTENCIA + + +A _Noticia biographica_ de Francisco Rodrigues Lobo encontram-a os +leitores á frente do volume 23.^o da _Bibliotheca Universal Antiga e +Moderna_. + + + + +CÔRTE NA ALDEIA + +E + +NOITES DE INVERNO + + +DIALOGO I + +ARGUMENTO DE TODA A OBRA + + +Perto da cidade principal da Luzitania está uma graciosa aldeia, que com +egual distancia fica situada á vista do mar oceano, fresca no verão, com +muitos favores da natureza, e rica no estio e inverno com os fructos e +commodidades, que ajudam a passar a vida saborosamente; porque com a +vizinhança dos portos do mar por uma parte, e da outra com a +communicação de uma ribeira, que enche os seus valles e outeiros de +arvoredos e verdura, tem em todos os tempos do anno o que em differentes +logares costuma buscar a necessidade dos homens: e por este respeito foi +sempre o sitio escolhido para desvio da côrte, e voluntario desterro do +trafego d'ella: dos cortezãos, que alli tinham quintas, amigos ou +heranças, que costumam ser valhacouto dos excessivos gastos da cidade. + +Um inverno em que a aldeia estava feita côrte com homens de tanto preço, +que a podiam fazer em qualquer parte, se juntava a maior d'elles em casa +d'um antigo morador d'aquelle logar, que tambem o fôra em outra edade da +casa dos reis, d'onde com a mudança e experiencia dos annos, fez eleição +dos montes para passar n'elles os que lhe ficavam da vida, grande acerto +de quem colhe este fructo maduro entre desenganos. Alli ora em +conversação aprazivel, ora em moderado e quieto jogo se passava o tempo, +se gosavam as noites, se sentiam menos as importunas chuvas e ventos de +novembro, e se amparavam contra os frios rigorosos de janeiro. + +Entre outros homens, que n'aquella companhia se achavam, eram n'ella +mais costumados, em anoitecendo, um letrado que alli tinha um casal, e +que já tivera honrados cargos do governo da justiça na cidade, homem +prudente, concertado na vida, douto na sua profissão, e lido nas +historias da humanidade: um fidalgo mancebo, inclinado ao exercicio da +caça, e muito affeiçoado ás cousas da patria, em cujas historias estava +bem visto: um estudante de bom engenho, que entre os seus estudos se +empregava algumas vezes nos da poesia: um velho não muito rico, que +tinha servido a um dos grandes da côrte, com cujo galardão se reparara +n'aquelle logar, homem de boa creação, e, além de bem entendido, +notavelmente engraçado no que dizia, e muito natural de uma murmuração +que ficasse entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante. Ao +senhor da casa chamavam Leonardo, e ao doutor Livio, ao fidalgo D. +Julio, ao estudante Pindaro, ao velho Solino. Fóra estes havia outros de +quem em seus logares se fará menção, que assim como os mais, não eram +para engeitar em uma conversação de poucas porfias. + +Uma noite do novembro, em a qual já o frio não dava logar a que a +frescura do tempo convidasse ao sereno, estando ainda Leonardo á mesa, +porém no fim das iguarias, bateram á porta Pindaro e Solino, aos quaes o +velho mandou abrir com grande alvoroço e festa; porque a de o buscarem +era a que mais estimava por sua. Subiram, agasalhou-os com contentamento +e cortezia. Sentaram-se perto da mesa, e disse o senhor da +casa:--Peza-me que não viesseis mais cedo, que me poderieis acompanhar +n'este trabalho tão necessario da velhice. Mas se ainda virdes na mesa +alguma cousa de vosso gosto, lançae mão d'ella, que de mistura achareis +a minha boa vontade.--Eu sei (disse Pindaro) a que tendes de me fazer +mercê; mas venho ceiado e tambem Solino, a quem tive por hospede, e já a +conversação me dobrou o gosto das iguarias.--Eram ellas tão boas +(respondeu Solino) que a mim me davam graça. Porém o serdes vós tào +miudo nas cortezias, me deu muita pena: e já que sois tão discreto, e +tanto meu amigo, d'aqui adeante emendae-vos nas ceremonias da mesa; e +adverti ao vosso moço que não acompanhe com os olhos os bôccados dos +hospedes, até o estomago: porque apostarei que me contou todos os da +ceia, e anda tão destro no apartar das brigas, que ainda bem não desvio +um prato do outro, quando me dá xaque em ambos, e me deixa em casa +branca. E não vos pareça que é isto dizer que venho faminto; que, se +assim fôra, póde ser que o cumprimento do sr. Leonardo não ficára solto +e livre; antes é fazer-vos lembrança que, pois daes tambem de comer, não +tenhaes um moço Harpya, que descomponha o sabor dos manjares.--Bem sei +(respondeu Pindaro) que ainda farto não haveis de deixar de roer. O meu +moço é de uma d'estas aldeias vizinhas, ha pouco que me serve; por isso, +e por ser creado de estudante, lhe devieis perdoar o erro, e a mim o +remoque; porém a vossa condição não se sujeita a respeito nem a +desculpas.--É tão saborosa a murmuração de Solino (disse Leonardo) que +tambem na mesa se póde estimar como boa iguaria: e se a eu tivera muitas +vezes, déra vida ao appetite que para as outras me falta.--Se o ella +fôra (tornou Solino) em mais occasiões me valêra das em que a vós podeis +desejar. Mas, não tratando de vol-a offerecer, nem de a desculpar com +meu amigo; como ceiastes hoje tão tarde, e não vieram mais cedo o doutor +e D. Julio?--Antes (disse o velho) me mandaram já recado, e não devem +tardar. Eu o fiz com a ceia, porque os homens de serviço me não deram +logar senão a esta hora: mas ouço que batem á porta e devem ser elles. + +A este tempo mandou juntamente alçar a mesa, e levar a luz á escada. +Subiram o doutor e D. Julio; saudaram-se com muita alegria; e sentados +perto do fogo, disse o velho: Muito deveis ambos a Solino; porque vindo +a esta casa com Pindaro, de quem foi convidado na ceia, e tendo a minha +em estado de que se podia aproveitar de alguma cousa d'ella, vos achou +menos, e perguntou a causa da tardança; signal é este de amor e da pouca +razão com que o temos por desobrigado de toda a affeição dos +amigos.--Não é Solino tão descuidado do que lhe eu mereço (tornou D. +Julio) que se esqueça de mim, e de quanto sentirei perder horas suas: e +pelo interesse das da conversação do doutor o tivera em menos conta se +as não desejára: e além d'isto posso affirmar que está pago da lembrança +que teve, com a diligencia que fizemos pol-o trazer comnosco, que +voltamos pela sua porta, e eu tirei uma pedra á janella, d'onde me +disseram que ceiava com Pindaro; e cada um dos dois me fez inveja.--Ah! +sr. D. Julio (respondeu elle) tão grande trovoada de cumprimentos seccos +não podia deixar de lançar pedra. Eu tenho feita a conta, e sei que não +posso pagar o que vos devo além d'essa honra e mercê, senão com a +humildade com que a todas reconheço por vossas. Dae-vos por satisfeito +de meus desejos, e de pôr aqui ponto nos cumprimentos; porque não tenho +polvora mais que para a primeira salva.--Já eu me quizera metter em meio +(disse o doutor) porque se vós a terdes em cortezias, não haverá quem as +pague, se não fôr Pindaro, que tem uma corrente tão arrebatada, que não +dá vau a nenhuma rethorica do mundo.--Agora (arguiu Leonardo) levastes +tres de um tiro; não me dou por seguro n'este logar, inda que é de minha +casa: porém não tendes razão contra Pindaro, que, cada vez que o ouço, +me parece um livro de cavallarias. Se elle tivera encantamentos escuros, +castellos roqueiros, cavalleiros namoradores, gigantes suberbos, +escudeiros discretos, e donzellas vagabundas, como tem palavras sonoras, +razões concertadas, trocados galantes, e periodos que levam todo o +fôlego, pudéra pôr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo, e ainda o +mais pintado de todos os que n'esta materia escrevêram: e já estive em o +persuadir que se mettesse em uma empreza semelhante: porém receio que se +me ensoberbeça com a altiveza de seu estylo, e despreze aos amigos.--Não +merecia eu, sr. Leonardo, a vós, nem ao doutor (disse Pindaro) que +tomasseis meus defeitos por materia de vossa galantaria: falo como sei, +e cada um se extende conforme a roupa com que se cobre. Não sou tão +philosopho como o doutor, tão cortezão como vós, nem tão engraçado como +Solino, nem tenho maiores penas que a gaiola; porém se abrisse as azas +para compôr livros, não houveram de ser de patranhas. Por isso fiae mais +de meus pensamentos.--Nunca o tive de vos offender (respondeu o velho) +nem me parece com razão a vossa desconfiança; nem podeis fazer tão pouca +conta dos livros de cavallarias, e dos famosos auctores que os +escreveram, e que mostraram n'elles a sua boa linguagem com toda a +perfeição: a graça de tecer e historiar as aventuras, o decoro de tratar +as pessoas, a agudeza, a galantaria das tenções, o pintar as armas, o +betar as côres, o encaminhar e desencontrar os successos, o encarecer a +pureza de uns amores, a pena de uns ciumes, a firmeza em uma ausencia, e +outras muitas cousas que recreiam o animo, affeiçoam e apuram o +entendimento. Se vós tendes por despreso compôr livros de cavallarias, +eu vos desengano que pertencem mais cousas ao bom auctor d'elles, que a +um dos lettrados philosophos ou juristas, com que desejaes do vos +parecer; porque lhe importa saber a geographia dos reinos e provincias +do mundo, para encaminhar por ellas a sua historia; ter noticia dos +nomes e cousas que usam n'aquellas partes, d'onde faz naturaes os +cavalleiros, saber estylo de côrte para as mesuras, gasalhados e +cortezias, conforme as pessoas introduzidas, conhecer da justiça, do +torneio e do sarau. a ordem, as leis e as gentilezas, entender da +bastarda e da gineta, o que convém para pintar o encontro, a quéda, o +acerto, o dezar, o brio ou descuido de um cavalleiro, debuxar o cavallo +nas côres, concertal-o nas redeas, no pizar, no arremesso, na furia, na +destreza, nas carreiras, chaças e rodeios, e sobre o conhecimento de +todas as sciencias e disciplinas, tambem ha de ter alguma noticia dos +nigromantes antigos para os encantamentos que servem de bordão e +valhacouto aos historiadores.--Tenho por mal empregado (disse então o +doutor) tanto cabedal em cousa de tão pouco interesse, e não sou de voto +qee o auctor, que tiver as partes que vós dizeis que são necessarias +para essa composição se occupe n'ella. De que servem livros de +cavallarias fingidas? E se ha ociosos que os leiam, porque ha de haver +algum que os escreva? Ou que espere algum fructo de trabalho tão +vão?--Mas que certeza tão grande (tornou Leonardo) que cada um approva o +que segue, sendo assim que ninguem se contenta do que tem. Desejaveis +agora que todos os livros, e todos os homens tratassem sómente da vossa +profissão e fossem juristas e philosophos. Pois ainda que eu sou +bacharel em linguagem, me atrevo a contradizer essa opinião adquirida em +latim: porque para recreação, politica e bom estylo se não deve menor +logar a estes, que aos vossos de trapaças e opiniões, e outros a que +chamaes conselhos, que o dão ás vezes bem ruim a quem se fia de sua +leitura. + +--Eu era de parecer (disse D. Julio) que poupassemos esta materia para +gastar a noite, pondo-a em maneira de disputa. E se a todos parece +assim, cada um diga sua opinião nos livros que mais lhe contentam, e das +razões que tem para os approvar; e d'este modo, ou affeiçoados, ou +convencidos, saberemos os que são de maior gosto, e utilidade.--A isto +(respondeu Solino) até agora estive calado contra minha natureza; porque +me houve por incapaz de fazer terço ao doutor e Leonardo: mas pois o +voto é que se jogue com toda a baralha, digo que é esta a melhor materia +que se podia escolher para passar o tempo. E já pode ser que algum dos +que aqui estão, que deseja deixar no mundo memoria de seu engenho, saiba +n'esta occasião o em que o pode empregar melhor.--Pelo que a mim toca +(disse o doutor) comecemos logo; e a vós, sr. D. Julio, é bem que demos +a mão a troco do alvitre: e não tratando dos livros divinos, nem dos +necessarios, dos de recreação nos podeis dizer quaes, e por que razões +vos contentam.--A minha inclinação em materia de livros (disse elle), de +todos os que estão presentes é bem conhecida: sómente poderei dar agora +de novo a razão d'ella. Sou particularmente affeiçoado a livros de +historia verdadeira, e mais, que ás outras, ás do Reino em que vivo, e +da terra onde nasci: dos reis, e principes que teve, das mudanças que +n'elle fez o tempo e a fortuna, das guerras, batalhas, e occasiões, que +n'elle houve, dos homens insignes, que pelo discurso dos annos +florecerão: das nobrezas e brazões que por armas, lettras, ou privança +se adquiriram. O que me inclinou á escolha d'esta lição, foi que tive +alguma de um homem muito douto, em o que o deve desejar de ser, e +parecer o que é bem nascido; ao qual elle dizia, que o que mais convinha +que soubesse era, o appellido, que tinha, d'onde lhe veio; quem fôram +seus passados, que armas lhe deixaram, a significação, e fundamento da +figura d'ellas, como se adquiriram, ou accrescentaram. Logo os reis que +reinaram na sua patria, as chronicas d'elles, os principios, as +conquistas, as emprezas, e o esforço de seus naturaes; porque falando +d'elles nas terras extranhas, ou na sua com extrangeiros, saiba dar +verdadeira informação de suas cousas. E alcançadas estas, lhe estará bem +tudo o que mais puder saber das alheias. E na verdade, nenhuma lição +pode haver que mais recreie, e aproveite, que a que sei que é +verdadeira, e por natural ao desejo dos homens deleitosa.--Não é essa a +minha opinião (disse Solino) porque contra o gosto me assombram muito +cousas passadas, e andar abrindo sepulturas de gente morta. E no que +toca á verdade, certo que á conta dos enterrados se escrevem algumas +vezes tão grandes mentiras, que lhes não levam vantagem os fingimentos +de historias imaginadas. E havendo um homem de ler o que não é, ou o que +sabe, é tão caldeado, e tão batido da forja dos auctores, que mudado +traz o metal, a côr, e a natureza: estou melhor com os livros de +cavallarias, e historias fingidas, que, se não são verdadeiros, não os +vendem por esses: e são tão bem inventados, que levam após si os olhos, +e os desejos dos que os lêem. E não estima um auctor matar mais dois mil +homens com a penna, para fazer valente o seu cavalleiro, com a espada, +sem estar receando os ditos das testemunhas que ficaram da batalha; que +por eguaes respeitos pende cada uma para seu cabo. Pois se é caso, em +que um historiador queira passar adeante como Ariosto, não matou mais +gente a peste grande em Lisboa, que Rodamonte nos muros de Paris.--Essa +é uma das razões, porque eu os reprovo (tornou o doutor) porque a fabula +é uma cousa falsa, que podia comtudo ser verdadeira, e acontecer assim +como se fingio. Porém a isto não dão logar os livros de cavallarias, com +esses excessos, e outros encantamentos, fazendo casas, e torres de +crystal, edificios, lagos, e columnas impossiveis, pyramides de +alabastro, e casas de pedraria, cuja riqueza podia empobrecer a fortuna. +E em nossos tempos, na India Oriental, sabemos que o rei Mogor andou +muitos annos fabricando uma casa de esmeraldas, por cujo respeito se +passavam d'este Reino á nossa India as da Occidental. E emfim morreu sem +a acabar; e não ha livro de cavallarias em que qualquer cavalleiro de um +castello não acabe cousas maiores. E deixando isto, é graça, e +galantaria, comparar historias verdadeiras com patranhas +desproporcionadas, que gastam o tempo mal a quem n'ellas se occupa, +quando as outras servem de exemplo para imitar, de lembrança para +engrandecer, e de recreação para divertir. A quem não anima ler as +historias de seus passados? A quem não move o desejo de egualar a fama +que lê de suas obras? O governo da paz? A ordem da guerra? O trato dos +homens? O commercio das provincias? D'onde se conserva, alcança, e sabe +senão pelas historias verdadeiras? Porque n'ellas sabe cada um +felizmente pelos successos alheios o que deve seguir. D'onde Marco +Tullio chamou á historia mestra da vida.--Vós, sr. doutor (disse Solino) +achareis isso nos vossos cartapacios: mas eu ainda estou contumaz. +Primeiramente, nas historias, a que chamam verdadeiras, cada um mente +segundo lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu para mentir; +porque se não fôrem estas tintas, é tudo tão misturado, que não ha panno +sem nodoa, nem légua sem máu caminho. No livro fingido contam-se as +cousas como era bem que fôssem, e não como succederam, e assim são mais +aperfeiçoadas. Descreve o cavalleiro como era bem que os houvesse, as +damas quão castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros, os +extremos quão grandes, as leis, as cortezias, o trato tão conforme com a +razão. E assim não lereis livro, em o qual se não destruam soberbos, +favoreçam humildes, amparem fracos, sirvam donzellas, se cumpram +palavras, guardem juramentos, e satisfaçam boas obras. Vereis que as +damas andam pelas estradas, sem haver quem as offenda, seguras na sua +virtude propria, e há cortezia dos cavalleiros andantes. E quanto ao +retrato e exemplo da vida, melhor se colhe no que um bom entendimento +traçou, e seguiu com muito tempo de estudo, que no successo, que ás +vezes se alcançou por mão da ventura, sem a diligencia e engenho +metterem nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham excessos +desatinados, que não sejam semelhantes á verdade, nem os encantamentos +tão escuros e desconformes, que não tenham alguma maneira de enganar o +juizo; porém os livros bem fingidos, como verdadeiros obrigam. Um +curioso em Italia (segundo um auctor de credito conta) estando com sua +mulher ao fogo lendo o Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto +sentimento, que lhe accudiu a visinhança a saber o que era. E no que +toca ao exemplo; um capitão valoroso houve em Portugal, que o não teve +melhor o Imperio Romano, que com a imitação do um cavalleiro fingido, +foi o maior de seus tempos, imitando as virtudes que d'elle se +escreveram. Muitas donzellas guardaram extremos de firmeza, e +fidelidade, costumadas a lêr outros semelhantes nos livros de +cavallarias. Na malicia da India tendo um capitão nosso cercado uma +cidade de inimigos, certos soldados camaradas, que albergavam juntos, +traziam entre as armas um livro de cavallarias, com que passavam o +tempo. Um d'elles, que sabia menos que os mais d'aquella leitura, tinha +tudo o que ouvia lêr por verdadeiro (e assim ha alguns innocentes, que +cuidam que se não pode mentir em lettra redonda) os outros ajudando a +sua simpleza lhe diziam que assim era. Veio occasião de um assalto, em +que o bom soldado invejoso, e animado do que ouvia lêr, lhe pareceu +ensaio de mostrar seu valor, e fazer uma cavallaria, de que ficasse +memoria; e assim se metteu entre os contrarios com tanta furia, e os +começou a ferir tão rijamente com a espada, que em pouco espaço se +empenhou de sorte, que com muito trabalho, e perigo dos companheiros, e +de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida recolhendo-o com muita +honra, e não poucas feridas. E reprehendendo-o os amigos d'aquella +temeridade, respondeu: Ah! deixae-me, que não fiz a metade do que cada +noite lêdes de qualquer cavalleiro do nosso livro. E elle d'alli adeante +o foi muito valoroso.--Muito festejaram todos o conto, e logo proseguiu +o doutor: Tão bem fingidas podem ser as historias, que mereçam mais +louvor, que as verdadeiras; mas ha poucas que o sejam; que a fabula bem +escripta (como diz Santo Ambrozio) ainda que não tenha força de verdade, +tem uma ordem de razão, em que se podem manifestar as cousas +verdadeiras. Xenofonte querendo pintar uma republica perfeita, e +regimento politico, por modo de historia, fingiu o governo de Cyro, rei +dos Persas. D. Antonio de Guevara, em nome de um imperador romano +escreveu o que elle queria dizer em Hespanha; e outros que ainda em modo +mais extranho ensinaram aos homens, como Esopo nas suas fabulas, e Lucio +Apuleio no seu Asno d'ouro; e todos os livros que em seu genero são +bons, se podem chamar perfeitos. Resta agora que o que escreve historia +seja verdadeiro; e não terá Solino de que o reprehender n'ella. O que +compõe fabulas seja verosimil, e não terei eu razão de o reprovar. O que +trata de sciencia, alegue razões. O que fala de artes, experiencia. E o +que quer ensinar principios, mostre auctoridade. E posto que eu tenha +muitas que allegar em favor da vossa opinião, sr. D. Julio, vós estaes +no caso, e todos os mais, que a historia verdadeira apascenta os doutos, +adelgaça os grosseiros, encaminha os moços, ensina os mancebos, recreia +os velhos, anima aos baixos, sustenta aos bons, castiga aos maus, +resuscita aos mortos, e a todos dá fructo a sua lição. E porque esta não +seja mais comprida, diga Pindaro agora a sua opinião. + +--Apostarei eu (disse Solino) que, se a Pindaro lhe armarem com poesia +levantada sobre os bons conceitos, e versos, que com serem amorosos, +sejam arrogantes, que o tomaram como passaro em visco.--Para isso (disse +o doutor) arredar-lhe as occasiões, e vá com declaração, que não +tratamos de poesia.--Essa condição (accudiu Pindaro) logo ao principio +ficou declarada; que como exceptuastes livros divinos, n'esse numero +devem estar os dos poetas, que mereceram este nome; e o que elles +antigamente tiveram, e ainda agora lhe dão os Latinos, assim o deixa +entender. E Platão quando d'elles escreve, lhes chama divinos +interpretes dos deuzes, possuidos de espiritos celestes: d'onde Marco +Tullio tirou os louvores, com que os trata. Origenes affirma que a +poesia é uma virtude espiritual, que inspira em os poetas, e lhes enche +o animo e o entendimento de uma divina força. Santo Agostinho lhes chama +theologos para cantarem os louvores divinos. Diziam os philosophos +antigos que, se os deuses falassem, seria em verso: trazendo exemplo do +oraculo de Apollo, e das Sibyllas. Cassiodoro diz que a poesia tomou +principio da divina escriptura. De maneira que por auctoridade de tão +grandes varões, nunca os livros de poesia podem vir em competencia com +os de que até agora tratastes; que d'outro modo já estivera concluida a +differença.--O que eu vejo (tornou D. Julio) que, ainda que o doutor vos +cerrara a porta, que mettido de ilharga dissestes tudo o que cumpria a +vosso intento por junto, o quanto para mim estaes declarado; o com o +desejo de ouvir a opinião do doutor, não digo o mais que me, +parece.--Ora (respondeu elle) não quero que a essa conta fique o meu +voto ás escuras; e digo, não falando em poesia, que não escolho lição de +historiadores verdadeiros, nem tenho por melhor a dos fingidos; porque +uns servem de conservar a memoria, os outros de enganar o entendimento: +e serão melhores os livros que deleitem a memoria, e a vontade, e +apurem, e levantem o entendimento, como os de recreação, que com alguma +enganosa novidade tratam de materias politicas, e engraçadas: de côrte, +de aldeia, e de qualquer sujeito aprazivel: e ha d'estes muito bem +recebidos, approvados, e proveitosos na republica, cuja variedade, e +doutrina é para mim lição muito saborosa.--Não estou mal com essa +opinião (disse o doutor) o quasi que vós, e eu estamos em um mesmo +pensamento; senão que deixastes de declarar o que agora me fica para +dizer; porque até aqui falámos do modo de compor, e escrever livros; e +não das materias, que escriptas serão agradaveis. E deixando em duvida o +vosso parecer para se conferir com a tenção; o meu é, que o melhor modo +de escrever são os dialogos escriptos em prosa, com figuras +introduzidas, que disputem, e tratem materias proveitosas, politicas, +engraçadas, e cheias de galanteria: sendo a primeira figura da obra o +autor d'ella; e isso que vá guiando, e introduzindo as mais, que sejam +apropriadas áquellas materias, de que hão de tratar entre si. E além de +ser este estilo mais claro, mais vulgar, mais excellente, inclue em si a +lição de todos os outros modos de escrever, como o são os da historia +verdadeira, e fingida, das artes liberaes, e mecanicas; das sciencias, e +disciplinas necessarias; das profissões particulares; da razão do +governo; da vida politica ou privada. E quando este modo de escrever não +tivera por si mais que a auctoridade dos que n'elle escreveram, como foi +Platão, Xenofonte, Tullio, e outros infinitos: essa bastara para +acreditar os dialogos. Além d'isto, eu tenho para mim que aquella é +melhor escriptura, que com mais perfeição, e viveza imita a pratica, e +conversação dos homens; porque assim como a melhor pintura é a que mais +se parece com a obra da natureza, a que quer contrafazer; assim a melhor +escriptura é a que retrata com mais semelhança o falar, e conversação +d'entre os amigos. Nos poemas tinham os poetas antigos que o mais +levantado era a tragedia pela imitação natural da pratica, com +introducção de figuras, junto com a gravidade, peso, e tristeza dos +successos tragicos. E porque tambem a variedade é a que mais costuma +enterter, e deleitar o animo dos homens, e esta é mais certa, e mais +propria nos dialogos, me parece que no gosto d'elles serão melhor +recebidos. + +--Pois assim é (disse D. Julio) que a principal razão porque approvaes +os dialogos, é porque mais familiarmente se parecem com a pratica. +Desejo saber qual é mais nobre cousa, se a pratica, se a escriptura: +porque a mim me parece que á escriptura se deve o melhor logar, e que +antes merecia a pratica por se parecer com ella; o que agora encontra a +vossa opinião.--Nenhuma duvida ha (respondeu o doutor) que a pratica +seja mais nobre, mais antiga o mais excellente; porque, além de o falar +ser operação natural dos homens, e acto em que elles fazem vantagem, e +differença a todos os animaes, a escriptura não é mais que uma escrava e +servente das palavras, e o escrever não é outra cousa mais que supprir +com um instrumento por meio da arte, e das mãos o que com a voz se não +póde exprimir e alcançar com os ouvidos, ou por distancia de logar, como +quem escreve aos ausentes, ou por discurso de tempo, como quem escreve +para os vindouros. E porque nunca a escrava é tão nobre como a senhora a +quem serve, em quanto escrava, nem o que substitue em logar d'outrem se +lhe póde preferir no mesmo logar; assim nunca a escriptura póde egualar +a nobreza e perfeição da pratica.--O contrario me parece a mim (replicou +o fidalgo) porque nem por a pratica ser mais antiga, e primeira que a +escriptura é mais perfeita; antes ella foi a perfeição da pratica: e +posto que seja própria operação do homem o falar, não é n'elle menos +nobre accidente o de escrever; antes me parece mais digno o que elle +alcançou por arte, que o que adquiriu por uso: e quasi que ousaria a +dizer que é operação sua o falar, dada a respeito de haver de escrever, +pois esse é o meio de se perpetuar, sustentando no entendimento dos +presentes, e na lembrança dos futuros a memoria das cousas passadas. +Assim que nem por a primeira razão merece a pratica melhor logar, nem a +escriptura, por servente e ministra sua, é menos nobre. Porque o sol +serve de mostrar as cousas creadas, que lhe são muito inferiores, e de +dar luz e nutrimento a outras de menor qualidade, e nem por isso ellas +se lhe podem antepôr. E quanto a substituir a escriptura em logar da +voz, ella o faz por tão excellente maneira, que lhe tem muita vantagem; +pois o que a voz não póde exprimir juntamente em differentes logares, e +a diversas pessoas em um mesmo tempo, o faz a escriptura com grande +perfeição, podendo muitas pessoas, em differentes logares, lêr em um +mesmo tempo a propria cousa: pelo que me parece que, ainda que a vossa +escolha fosse boa, não fundastes bem a razão d'ella.--Certo (disse +Leonardo) que de ambas as partes déstes tão boas razões, que fica +duvidosa a melhoria. Porém concedendo á pratica a excellencia, a acção, +o modo e a graça de falar, que é uma viveza a que se não eguala outra +nenhuma lembrança; a escriptura tem tantas grandezas que parece +egualmente necessaria para a vida, pois ficava o mundo ás escuras sem a +luz da dilação escripta; e só na tradicção dos homens se salvaria a +memoria das cousas; e nas principaes dominaria a ignorancia com mero +imperio. Porém, deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria e +agudeza está tocado o que baste, quero que passemos adeante, e, por me +fazerdes mercê, que me ensineis se na pratica, em voz, e na escriptura +considerada tem bom logar a nossa lingua portugueza; porque ouço de má +vontade a alguns naturaes que tratam mal d'ella e a condemnam por +grosseira e limitada. + +--Uma cousa vos confessarei eu, sr. Leonardo (disse a isto D. Julio) que +os portuguezes são homens de ruim lingua, e que tambem o mostram em +dizerem mal da sua, que assim na suavidade da pronunciação, como na +gravidade e composição das palavras é lingua excellente. Mas ha alguns +nescios, que não basta que a falem mal, senão que se querem mostrar +discretos, dizendo mal d'ella: e o que me vinga de sua ignorancia, é que +elles acreditam a sua opinião; e os que falam bem desacreditam a ella e +elles.--Bravamente é apaixonado o sr. D. Julio (acudiu o doutor) pelas +cousas da nossa patria: e tem razão, que é divida que os nobres devem +pagar com maior pontualidade á terra que os creou. E verdadeiramente que +não tenho a nossa lingua por grosseira, nem por bons os argumentos com +que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave +para engrandecer, efficaz para mover, dôce para pronunciar, breve para +resolver, e accommodada ás materias mais importantes da pratica e +escriptura. Para falar é engraçada com um modo senhoril: para cantar é +suave com um certo sentimento que favorece a musica: para prégar é +substanciosa, com uma gravidade que auctorisa as razões, e as sentenças: +para escrever cartas nem tem infinita copia que damne, nem brevidade +esteril que a limite: para historias nem é tão florida que se derrame, +nem tão secca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga +a ferir o céo da bôcca com aspereza, nem arrancar as palavras com +vehemencia do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. +Tem de todas as linguas o melhor: a pronunciação da latina; a origem da +grega; a familiaridade da castelhana; a brandura da franceza; a +elegancia da italiana. Tem mais adagios e sentenças que todas as +vulgares, em fé de sua antiguidade. E se á lingua hebrea pela +honestidade das palavras chamaram santa, certo que não sei eu outra que +tanto fuja de palavras claras em materia descomposta quanto a nossa. E +para que diga tudo, só um mal tem, e é que pelo pouco que lhe querem +seus naturaes, a trazem mais remendada, que capa de pedinte.--Folguei +extranhamente de vos ouvir (disse Solino) por não ficar tão covarde, +como até agora estava, em ouvindo murmurar da lingua portugueza; e não +ousava, ou não sabia dizer a minha opinião, a qual cuidava que me nascia +do amor que lhe tenho, e que cada um tem ás suas cousas como o corvo aos +filhos, e Pindaro ás suas trovas. Porém quando um homem tão bem fundado +na razão como o doutor, e tão auctorisado em seu parecer sustenta esta +parte, nenhuma haverá já tão rija, que me tire o atrevimento.--Nem a +lingua (disse Pindaro) pois não ha amizade que vos faça perder o +costume.--Perdoae-me (tornou elle) que vos feri por não perder o golpe. +E tornando ao que aqui se tratou para recordar o que começamos, +averiguou o doutor que a melhor maneira de escrever eram os dialogos +(ficando meu direito reservado nos livros de cavallarias), tocaram-se +louvores da pratica e escriptura com muito engenho; declarou-se como a +lingua portugueza não desmerece logar entre as melhores, para n'ella se +escreverem materias levantadas, apraziveis, proveitosas e necessarias. +Que falta entre vós para que d'estas noites bem gastadas, d'estas +duvidas bem movidas, e d'estas razões melhor praticadas se faça um ou +muitos dialogos, que sem vergonha do mundo possam apparecer nas praças +d'elle á vista dos curiosos, e ainda dos murmuradores?--Tem Solino muita +razão (disse D. Julio) e se assim forem os dialogos como se podem formar +com a pratica de alguns que estão presentes, bem se auctorisará a +opinião do doutor, posto que a minha fique de vencida com a vantagem que +aqui tem a pratica das escripturas alheias. E pois se aproveitam tão bem +as noites n'este logar, razão é que por meio d'elles se communiquem a +quem se aproveite da doutrina e interesse d'ellas.--Se eu não dormira +tão poucas horas da passada (disse o doutor) ainda houvera de proseguir +adeante e responder a isso; mas com vossa licença me vou recolher e +amanhã accudirei mais cedo.--Acompanhemos o doutor (disse o fidalgo), e +levantando-se elle, se despediram todos com muita cortezia, deixando ao +senhor da casa magoado de se acabar tão depressa a conversação; que quem +sabe estimar a que é tão boa, tem sentimento das horas que d'ella perde. + + + + +DIALOGO II + +DA POLICIA E ESTYLO DAS CARTAS MISSIVAS + + +Ficaram os amigos tão affeiçoados á conversação d'aquella noite, que, +por fazerem a do outro dia mais comprida, acudiram a ajuntar-se logo +depois de se pôr o sol; porém cada um com pejo de ser o primeiro, +passeavam em dois postos, o doutor com D. Julio, e Pindaro com Solino á +vista da casa de Leonardo, até que elle chegou á janella; e mostrando o +mesmo desejo que os quatro traziam, facilitou o receio e approvou as +horas. Subiram todos, e disse o doutor:--Pareceu-me este dia tão +comprido, na esperança da noite, como aos trabalhadores que devem o +jornal.--E a mim (tornou Leonardo) a noite, depois que me deixastes, tão +importuna como quem espera a manhã para cousa de seu gosto: e assim não +é muito que vós viesseis tão cedo, e que a mim me pareça que já era +tarde.--Todas as cousas que se desejam muito (tornou D. Julio) por pouco +que se dilatem, tardam mais.--E as que se temem (proseguiu Solino) por +muito que tardem, parece que se anticipam. D'onde um disse +maravilhosamente que o que queria que a quaresma lhe parecesse breve, +devesse pagamentos para a Paschoa. Emfim chegou mais cedo este prazo que +todos desejamos: e se o senhor da casa dormiu pouco, eu apostarei que ha +algum na companhia que se desvelou mais.--Não era occasião para +descuidos, (disse o doutor) e nos mancebos era demasiada desconfiança +entrar n'esta batalha desapercebidos.--Os apercebimentos (tornou o +fidalgo) podem fundir muito pouco: porque como até agora é incerta a +materia de que se deve tratar, serão sem fructo as diligencias.--É +engano (replicou Solino) que nunca falta uma carta em que prender; como +um homem tem as suas apuradas e ha cousas que se levam a rasto como +corpo morto, e quando sejam bem cuidadas, nunca são mal ouvidas. E se +não, digam-n'a as olheiras com que esta manhã vi a meu amigo +Pindaro.--Já sei (disse Pindaro) que vêdes mal: mas contra mim ainda é +peior a vossa tenção que a vista; não me pagaes bem o que vos mereço, +mas é na moeda que tendes.--E na que corre (tornou elle) que o rifão de +agora diz que fazer e dizer mal, nunca se perde. Não vos escandaliseis; +que tudo ha nos homens e nas cartas. Essa (disse então D. Julio) hei eu +de partir: porque desejava muito alçar por ellas; e pois o doutor falou +hontem em cartas missivas, e approvou para ellas a lingua portugueza, +nos ha de declarar o que ha de ter uma carta para ser cortezã e bem +escripta.--Esse cargo (tornou o doutor) convem mais ao senhor da casa: +porque ainda que a carta consta de lettras, não é profissão de lettrado +fazel-as cortezãs: e quem sabe tanto do estylo da côrte como Leonardo, +póde dar lei para ellas.--Vós (respondeu elle) sois doutor em tudo, e +meu superior em todas as materias, e como tal me podeis dar o grau de +cortezão. Eu o quizera parecer na confiança, e em obedecer ao gosto +d'estes amigos. Mas para eu proseguir com auctoridade é bem que vós +comeceis a principiar a materia: dizendo, que nome é _carta_, e o seu +principio, pois me daes o cargo antes de estar apercebido para +elle.--Bem sei (lhe respondeu o doutor) que por me honrardes a mim +tomaes tudo á vossa conta; folgarei de a dar boa do que me encommendaes. + +Este nome _carta_ é generico, e teve origem de uma cidade do mesmo nome, +d'onde foi natural a rainha Dido, que, por o amor que tinha á sua +patria, pôz á que edificou por nome _Cartago_. E porque em carta se +inventou primeiramente a maneira em que se escrevia (ou fosse papel, ou +outra cousa semelhante a elle) tomou d'ella o nome como de _Pergamo_ o +_pergaminho_. É para saber que nos primeiros tempos, quando se +inventaram as lettras, escreviam os homens nas folhas das arvores: como +ainda hoje nas da palmeira escrevem os gentios de algumas partes do +oriente: as Sybillas n'ellas escreveram suas prophecias; e assim se +chamaram a seus escriptos _folhas sybillinas_; e ainda na linguagem +portugueza se conserva alguma cousa d'esta antiguidade, pois dizemos +_folhas de papel_ sem o papel ter folhas, mas é em lembrança das +primeiras que se usaram na escriptura. Depois se escreveu em uma casca +tenra de arvores, que é o entreforro da cortiça. E porque a esta +chamavam _livro_, conservam ainda agora elles o nome, e a divisão que +agora fazem os escriptores de _livro primeiro_, _segundo_, e d'ahi +adeante é o numero, porque então deviam contar aquellas cascas. Tambem +se escreveu em o miolo de uma maneira de juncos, a que chamaram +_papiros_: d'onde aos latinos ficou o nome para o papel. Depois se +escreveu em taboas nas quaes sobre cêra, com um instrumento de ferro ou +de latão, a que chamavam _estylo_, se assignavam as lettras; e do ferro +com que se escreveram, se veiu a derivar o que agora dizemos _bom_ ou +_máu_, _humilde_ ou _altivo estylo_ de escrever, passando-se por +translação a perfeição do instrumento ao concerto e policia das +palavras. D'este proprio modo se usa no nome de carta, que alcança em +genero a todo genero de papel escripto e ainda pintado. Os portuguezes +fazemos este nome particular tomando _carta missiva_ por a principal de +todas; e assim basta dizermos _carta_, sem mais declaração, para se +entender que é esta; porém nas especiaes d'ellas usam o nome com seus +attributos. E nos instrumentos judiciaes, que testemunham antiguidade, +se diz _carta precatoria, dimissoria, citatoria, de liberdade e de +venda_, e outras muitas: e ainda as de jogar, sem terem lettras, se +chamam commummente cartas. E a gente aldeã, conservando alguma cousa da +antiguidade, a qualquer estampa ou pintura em papel chamam _carta_. Os +latinos puzeram nome ás cartas missivas _Epistola_, do verbo grego, que +quer dizer _mandar_: e _letras_, porque a carta consta d'ellas. Os +italianos deram singular e plural a este nome segundo. E na nossa lingua +a que chamam limitada, não faltou nenhuma d'estas differenças, antes +houve maior perfeição: porque a umas chamaram _cartas mandadeiras_; ás +que tinham menos de papel, _escriptos_; e ás cartas de Italia _lettras_, +que são as de Roma, e as de cambio; porque deviam ter o mesmo principio; +porque logo nos de Portugal mandavam os reis d'elle por lettras copiosas +doações á sé apostolica, do que conquistavam. De maneira que o nome de +carta, quanto á sua origem, é geral e commum; e entre nós particular das +cartas missivas; e pois lhe descobri o nome, é necessario, sr. Leonardo, +que lhe deis agora o ser. + +--Parece-me (respondeu elle) que estou já no meio da minha obrigação +(conforme ao dito do poeta) que quem começou, tambem tem feita a maior +parte. E passando do nome da carta aos exteriores d'ella, digo que ha de +ter: Cortezia commum, regras direitas, lettras juntas, razões apartadas, +papel limpo, dobras eguaes, chancella sutil, e sêllo claro; e com estas +condições será carta de homem da côrte. E falando da cortezia (disse +Solino) que entendeis n'ella?--A cortezia (lhe respondeu elle) não +falando na leitura da carta, é o sobrescripto, o apartado da cruz, até á +primeira regra; e do principio do papel até o começo de todas: e o +final, o nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E porque n'isto +ha differentes costumes, e erros, me parece bem fazer de tudo +lembrança.--Nos sobrescriptos temos pouco que tratar (tornou Solino) que +depois que com a pragmatica os cercearam, não ha já _prezados_, +_magnificos_, _honrados_, e _illustrissimos_, nem os _senhores_. Ainda +(tornou Solino) ficaram alguns de rodeio que são muito para vêr, e assim +o dizem elles: a cujo proposito vos hei de contar uma historia. Eu (como +todos sabeis) vejo com oculos, e (conforme a opinião de alguns) com +elles muito menos. Os dias atraz, sendo eu ainda innocente d'este +costume, me deram uma carta de um amigo, que dizia: _Para vêr o senhor +Solino_: aberta ella, a lettra tal, tão miuda, e embaraçada, que +desmentia o sobrescripto, e por nenhuma via pude vêr o que dizia. Mas +respondi n'outra lettra muito peior, e puz no sobrescripto: _Para cegar +o senhor Fuão_; ao que elle depois me respondeu, que estava pelo costume +dos presentes.--Nem todos se hão de seguir (disse o doutor) que, como +escreve o philosopho Favorino, cada um deve usar de palavras presentes, +e costumes antigos; e mais quando é uso é abuzão, que no primeiro, por +ser tal, offenderam as leis; e no segundo o reprehendem os mesmos que o +usam. Comtudo Leonardo dirá o que lhe parece.--A mim respondeu elle que +a lei é boa, e a cautella escusada. Porém o sobrescripto tem mais partes +de cortezia, que essa que dissestes, ainda que á primeira vista pareça +cousa tão limitada. E para que comecemos em ordem; _sobrescripto é_ uma +noticia vulgar da pessoa a quem se escreve, e do logar aonde lhe mandam +a carta, exprimindo-se n'elle o nome, e a dignidade, por onde é mais +conhecida, e o do logar onde n'aquelle tempo assiste. N'esta regra geral +ha uma limitação, e é: Que ás pessoas do grande titulo, e cargo se pode +calar, ou usar de outro modo differente esta segunda noticia; porque, +além dos cargos declararem muitas vezes a assistencia das pessoas, +parece cortezia que as que são mui conhecidas por seu titulo, e +dignidade, basta essa, e o nome para serem buscadas. O primeiro modo é, +como se escrevessemos a N. Vice-Rei da India, A. N. General de Portugal. +O segundo como a N. Embaixador d'el-rei de Hespanha em a Côrte de Roma. +E posto que estes assistam a tal tempo em villas, ou cidades +particulares, não é necessaria outra leitura no sobrescripto. Não trato +aqui das cartas enviadas aos reis, de seus vassalos, porque não entram +n'esta regra as que vem dirigidas a seus conselhos particulares.--Bem +podereis (disse o doutor) metter n'esse logar a historia de um letrado +da minha profissão, que mandando uma informação á Meza do Paço, poz no +sobrescripto: _A El-Rei nosso Senhor nos seus Paços da Ribeira, junto de +Luiz Cesar_.--D'outro soldado ouvi eu contar (disse Solino) que escreveu +á India: _A. N. Vice-Rei da India, nos Paços de Goa, defronte de um +Lanceiro torto_.--Para gente tão nescia (disse Leonardo) não servem +preceitos: mas em outra vejo muitas vezes sobrescriptos tão miudos, e +sobejos, que pessoas muito particulares se podiam dar por afrontadas +d'elles, como é: A fuão, em tal terra, em tal rua, detraz de tal parte, +defronte de tal casa, e junto a N. E ás vezes é a pessoa tal, que deve +ser mais conhecida por si, que pelas confrontações.--Dos sobejos +(atalhou Solino) não posso eu calar um, que vi ha poucos dias, de um +frade que escreveu ao seu provincial, que tinha cinco padres nossos, +como conta benta, e dizia: _Ao muito Reverendo Padre nosso, o nosso +Padre N. nosso Padre Provincial, no Convento de nosso Padre S. N. Padre +nosso_.--Por isso digo (proseguiu Leonardo) que a noticia deve ser +vulgar que nem afronte, nem lisongeie, nem sobeje, nem falte.--Mais +provavel é (disse D. Julio) que se peque nos sobrescriptos por demazia, +que por falta; porque todos dizem o nome da pessoa, e a terra para que +escrevem.--Não já um (respondeu Pindaro) que escreveu: _A meu filho o +Licenciado em Salamanca, que Deus guarde_, parecendo-lhe que bastava o +grau em logar do nome. Mas que logar dareis vós aos titulos dos +sobrescriptos? Que ha alguns mais compridos que as cartas que resam o +nome, o titulo, o senhorio, o cargo, a commenda, e ainda as pretenções +da pessoa a quem se escreve.--A mim me parece (tornou Leonardo) que os +titulos é cousa conveniente, e necessaria; usados porém com moderação +conforme ao que tenho dito: que noticia vulgar é ser um homem conhecido +por o senhorio, e cargo que tem; e assim se ha de escrever de cada um o +cargo que tem. e por onde é mais conhecido. Do senhorio como: _A. N. +senhor de tal Villa_. E estando em ella: _A. N. na sua Villa N_. O que +tambem se usa nos logares, e quintas, em que cada um assiste. Do cargo: +_A fuão, do Conselho d'el-Rei, e seu Presidente da Fazenda, da +Consciencia_, etc. _A fuão Desembargador d'el-Rei nosso senhor, e seu +Ouvidor dos Aggravos_, etc. Tudo isto com a brevidade necessaria: por +que o sobrescripto, como disse, serve de noticia, e não já de adulação. +E na carta, não se permitte no sobrescripto o que se não consente no +interior; como se algum escrevesse a este Fidalgo, e lhe quizesse pôr os +títulos, que elle merece, no sobrescripto; convém a saber: _A D. Julio, +Columna da nobreza de seus passados, e gloria das esperanças de sua +patria_. Ou: _Ao Doutor Livio, honra e luz do Direito Civil, exemplo da +philosophia, e thesouro da humildade_: cousas eram estas, que d'elles se +podiam dizer: porém não são no logar do sobrescripto. E passando d'elles +adeante. + +A segunda cortezia é no papel, da cruz até á primeira regra; que ha +alguns, que lhe põem os olhos muito junto com as sobrancelhas: outros, +que lhe deixam pelo meio uma estrada de coches; e pela desconformidade, +que ha entre uns, e outros, veio a ser a regra entre os eguaes, que +fique em branco a quarta parte do papel, que vem a ser no alto a +primeira dobra; e na ilharga um espaço razoado, que dá logar á mão para +ter a carta sem cobrir as lettras, e para se cortar, ou passar chancella +sem as offender.--E de que nasce (perguntou Pindaro) que muitos deixam +mais de meio papel em branco da ilharga, e vão a cerzir a lettra com a +cortadura da tesoura?--Esse erro, e outros muitos (respondeu elle) +nascem de mudarem alguns os serviços ás cousas: porque a invenção não +estava mal no seu logar, se a não fizeram servir nos alheios. Em cartas +de negocio, feitas a pessoas occupadas, que se fazem por capitulos, e +apartadas, ou perguntas sobre materias dos mesmos negocios, se deixa +egual parte do papel para responder á margem em ordem a cada uma das +cousas; e assim fica servindo para duas, uma mesma carta; mas estas não +guardam a regra, nem a cortezia das missivas. O mesmo erro ha no que +Solino primeiro apontou dos sobrescriptos: _Para vêr o senhor Fuão_, que +nasceu de alguns papeis emmaçados, que se passavam de ministro a +ministro com sómente aquelle sobrescripto sem outra carta, e sem terem +mais de carta, que o irem cerrados, e sellados, deram occasião aos que +usam o mesmo termo nos sobrescriptos d'ellas. + +--Muitos erros ha (disse D. Julio), nascidos da mesma occasião. E posto +que seja sahir um pouco fora do proposito, é tão grande bugia da virtude +e da honra a vaidade, que, sómente por a seguir em as apparencias, +tropeça a cada passo em desatinos. Este escreveu, _Para vêr_; porque N. +Ministro, ou privado escreveu assim; e veste de tal panno, porque N. de +maior qualidade o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar o seu +frio) faz outro á imitação, e se abraza de quentura. A Hespanha se +passou o uso de vestir dos soldados de Flandres, por bizarria; e razão +tinham de imitar em outras cousas aos praticos que militam em uma praça +tão ennobrecida das nações da Europa; mas o que elles faziam obrigados +do clima, e o sitio da terra, usavam os cortezãos por gala, levados do +engano da verdade, os chapéos de aba grande contra a neve, os +ferragoulos abotoados, e com descanços para o frio, as meias de +escarlata debaixo de botas altas contra a humidade, as solas levantadas +por detraz, para não resvalarem nos caramelos, as roupetas abertas sobre +as armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas pela +necessidade, se passaram á galanteria. Deixo as côres de Rei, e da +Infante, e a historia do Mercador com el-rei D. João o III, que lhe +pediu que se quizesse vestir de um panno que tinha muito rico, o qual +lhe daria de graça; que com este ardil, em el-rei o vestindo, vendeu +elle a mór valia uma quantidade de peças d'aquella côr que lhe haviam +entrado n'uma partida.--Não é isso sómente nas cartas, e nos arrojos, +disse o doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a côrte do +imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe mandaram os medicos +comer borragens, por ser herva medicinal para a sua enfermidade; e +porque os fidalgos e titulares a viam de ordinario na meza imperial sem +advertirem a occasião porque se fazia, veio a valer entre elles muito, e +a fazerem mil iguarias d'aquella herva, de sorte que se semeavam tantas +nas terras onde a côrte assistia, que não havia agros d'outro fructo. +Vão-se emfim as cousas mal, e ás vezes são nascidas de bom +costume.--Assim é (disse Solino) que até oculos, que se inventaram para +remediar defeitos da natureza, vi eu já trazer a alguns por +galantaria.--D'essa maneira seguiu D. Julio se devia mudar para as +cartas o estillo dos papeis, que o não estão por imitarem aos validos. E +tornando á cortezia, que cousas tem mais de que tratar? + +--A terceira, tornou elle, é o nome, e signal do que escreveu a carta, +que nem ha de estar tão junto das lettras, que pareça soffrego d'ellas, +nem no meio do papel como quem escolheu melhor logar, nem tão apertado, +que fique ausente das regras, nem tanto na ponta do fim, que pareça que +se amuou áquelle canto; mas com um meio ordinario, como é assignar-se um +pouco abaixo das regras, mais inclinado á parte direita que á esquerda, +que é uma certa modestia, e humildade de quem escreve.--E que dizeis, +(perguntou o doutor) do acompanhamento do signal? Porque ha uns que se +nomeiam _servidor de vossa mercê_ N., outros _vassallo_; outros +_captivo_, outros _seu_ N. e ha n'isto muita variedade, e +ignorancia.--Primeiramente (continuou Leonardo) _servidor_ já se passou +das cartas para os retretes: _servo_ para os matos, e _captivo_ para os +comprimentos refinados em a pratica; _creado_, era termo bem creado, e +_seu_ é descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos, o mais +seguro é escrever cada um o seu nome sem mais leitura.--Não sejaes tão +estreito nas licenças(disse Solino) que deitaes a perder cartas que só +pelos comprimentos do signal merecem fama. Um homem escrevendo a sua +propria mulher, se assignou _vosso servo N._, e ella o fazia tal na +mesma ausencia. O outro, de que contam vulgarmente, porque corria nos +signaes o _menor creado de vossa mercê N._, escrevendo a sua mulher se +assignou _o menor marido vosso N._, e a senhora devia de ter mais varões +que a Samaritana. De uma gentil dama sei eu (disse Pindaro) que +escrevendo a um seu galante se assignou _sua N._, e elle lendo a carta, +voltou para um amigo com que estava, e disse _sempre temi esta nova_; e +perguntando-lhe o outro que era? Respondeu _sua N., e é principio de +verão_: Outro em Coimbra, querendo-se humilhar muito aos pés de um +amigo, a que escrevia, se assignou _Antipoda de vossa mercê N._--Quanto +mais galantes são essas historias (tornou Leonardo) tanto mais de +estimar é a moderação, e bom termo de não se sahir d'aquelle limite da +cortezia commum; e passando d'ella ha de ter a carta regras direitas, +que ha alguns que escrevem em escadas como figuras de solfa: lettras +juntas, e razões apartadas, com a distincção dos pontos, virgulas, e +accentos necessarios, para fazerem perfeito sentido das razões; porque +ha cortezãos, que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor os +rasgos da penna, vão encadeando as lettras pelas cabeças, como sardinhas +de Galliza; e de maneira confundem a escriptura, que não ha tirar d'ella +o sentido verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas, que por mal +escriptas perdem reputação; o papel seja limpo para n'elle empregar sem +fastio a vista o que ha de lêr, e porque pareçam melhor as lettras bem +ordenadas; a chancella sutil, porque ao abrir da carta a não offenda, +que alguns a fazem parecer carta rota antes de lida: dobras eguaes, +porque o concerto auctorisa as cousas, e as faz parecer melhor: o sêllo +claro, assim para lustro da carta, como para guarda d'ella, pois é o +cadeado que a defende dos curiosos de saber segredos alheios.--Não +corrais com tanta pressa (disse D. Julio) por essas particularidades, e +miudezas, que em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas +contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo sobre a materia +das armas, e tenções com que se costumam sellar as cartas; e assim +estimarei que nos digaes d'isto alguma cousa. + +--As armas (respondeu elle) é a insignia que cada um tem de sua nobreza, +conforme ao appellido com que se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as +cartas de importancia, ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do +escudo, ou com elle em tarja, como tenção; que estas como são +pensamento, e desenho particular, se abrem ás vezes em redondo, ovado, +ou quadrangulo, e outras figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal +é cousa muito antiga aos principes trazerem tenções, e emprezas com +lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas Reaes, que posto que +n'aquelle tempo não estavam tão apuradas como agora, nem eram sujeitas á +arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, não lhes faltava +entendimento, e galanteria. El-rei D. João o I trazia na orla das Armas +uma lettra, que dizia: _Por bem_. E a rainha D. Filippa de Alancastre +sua mulher, outra que respondia a esta em Inglez que dizia: _Me +contenta_. O infante D. Fernando seu filho, o Santo, trazia uma capella +de hera com seus cachinhos, e no meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja +cavallaria era Mestre. O infante D. Pedro uma capella do carvalho com +suas bolotas, e no meio umas balanças, e nas Armas Reaes, no banco de +pinchar, em cada pé d'alto abaixo mãos, e por cima umas lettras +escriptas muitas vezes, que diziam: _Dizer_, e entre cada palavra +d'estas um ramo de carvalho com bolotas. O infante D. João, que foi +mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel D. Nuno Alvares +Pereira, trazia uma capella de ramos de silva com cachos de amoras, com +as bolsas de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma com uma +lettra em Inglez, que dizia: _Com muita razão_. O infante D. Henrique, +Mestre na Ordem de Christo, trazia as armas do Mestrado, e de antigas de +Portugal, e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava no cabo de +baixo, e uma fivella que fazia volta com a correia, e em Inglez a lettra +dos cavalleiros de Garrotea, que elle tambem era, e dizia: _Contra si +faz quem mal cuida_. E uma capella de carrasco, e no banco de pinchar +tres flôres de lirio em cada pé. El-rei D. Affonso o V trazia pintado um +mundo com esta lettra: _Conheço que não te conheci_. El-rei D. João II +seu filho, trazia um rodizio, com esta lettra: _Setere_: e na outra +trazia um Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra: _Pela lei e pela +grei_. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede de pescar, a que +chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma esphera com uma Cruz. A excellente +senhora, uns alforges, e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella +com esta lettra: _Memoria de mi derecho_. O marquez de Valença, neto do +conde D. Nuno Alvares, trazia dois guindastes, que levantavam um titulo +de pedra, com quatro lettras, cada uma por parte. E além d'estas ha +memoria d'outras muitas, que dão testemunho do uso que d'ellas havia +n'este reino.--Por certo, disse D. Julio, que estou assás contente do +fructo que colhi da minha pergunta, por saber curiosidade tão notavel +dos nossos principes antigos, que para a minha natural inclinação é a +cousa de maior gosto, e interesse: e não fôra menor; pois falamos de +Armas, e Tenções, e vós sois visto n'ella fazer que saibamos mais alguma +cousa atraz d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve +principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenções. + +--Quanto á minha opinião (respondeu Leonardo) é que armas, e emprezas, +ou tenções não tiveram no seu principio a differença, que agora lhes +assignam os que d'ellas escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com +limitações, e regras mui apertadas. Antes me parece, que as armas eram +as insignias que os reis, e imperadores davam aos seus para ser +conhecida sua nobreza, conformando-se na figura d'ellas com a qualidade +dos successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade do sangue +d'onde descendiam a quem as davam, e as que os mesmos reis tomavam para +si em memoria de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores. +Emprezas, ou tenções são as que os mesmos reis, principes, ou +particulares tomam, conformando as figuras, e lettras com o desenho, e +pensamento que cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui +adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram; que, por ser um +discurso mui comprido, não tem logar em noite tão breve. Além d'estas +ha, outras armas dos reinos, provincias, republicas, e cidades, que se +devem chamar _diviza_, que tiveram principio ou das cousas de que são +mais abundantes, ou da maneira em que fôram povoadas, ou adquiridas. E +no que toca ao principio das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe +por armas a pelle do leão que matou na relva Nemea, depois da victoria +que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia a mesma ínsignia do +porco de Erimanto, que matou em Arcadia. Jazon trouxe por armas o +Velocino de ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o +Paladion, e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra de Troia: +estas eram verdadeiras armas, em memoria de valorosos feitos. E quanto +ao principio das emprezas, escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no +escudo a cabeça de um leão de ouro, com uma lettra que dizia: _Este é +terror dos homens, e o que o traz é Agamemnon_. Antioco trazia por armas +outro leão. Heitor, dois leões de ouro em campo vermelho. Seleuco um +touro. Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo azul. Alcibiades +um Cupido. Lucio Papirio o Pégazo. Cezar uma aguia preta. Pompeio um +leão com uma espada empunhada. Judas Macabeu um dragão vermelho em campo +de prata. Attila um açor coroado. E cada um d'estes, posto que poderam +tomar a figura das armas em significação de feitos celebrados, e +victorias adquiridas, só quizeram dar-lhe as figuras conforme ao seu +pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve. E descendo ás armas +particulares dos reis, que sabemos: As do imperador é uma aguia preta de +duas cabeças em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar, e da união +do Imperio Oriental, e Occidental. Armas d'el-rei de França são tres +flôres de lirio de ouro em campo azul, que fôram milagrosamente dadas a +el-rei Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos de azul em +cruz, em signal do vencimento que o primeiro rei D. Affonso teve dos +cinco reis mouros no campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta +dinheiros de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em memoria da sua +Paixão, e do apparecimento que o mesmo rei vio antes da batalha: por +orla das armas sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre, +um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra, tres Leopardos de ouro +em campo vermelho: posto que d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres +corôas de ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os castellos, +e leões, tão conhecidos no mundo. Armas d'el-rei de Frizia, um escudo de +prata, riscado de linhas vermelhas, e atravessado com uma banda azul. +Armas d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos, com cruzetas +do mesmo metal, e outras pelos vãos dos angulos. Armas d'el-rei de +Polonia, duas aguias de prata e um homem em cima de um cavallo, do mesmo +metal. Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mão que a está +tocando. Armas do Preste João da India, um crucifixo negro, com dois +azorragues, em campo de ouro. Deixo outros muitos, como os bastões de +Aragão, as cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de ouro, e +vermelho de Malhorca, e outras que querer contar fôra infinito. Tem do +mesmo modo as provincias suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em +que o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um elephante: +Europa, um cavallo: A America, um crocodilo: Italia tinha por armas +antigamente o cavallo: Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um +raio: Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma cabeça +armada: Albania, um cágado: Frizia, uma porca: Hespanha, um castello: +Luzitania, uma cidade. As Republicas tem tambem suas armas particulares: +A de Veneza, um leão com um livro nas unhas: A de Sena, uma loba: A de +Genova, um S. Jorge: A de Florença, um leão com um livro de ouro. As +Cidades, da mesma maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa, uma +nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso Martyr S. Vicente, +seu padroeiro: Coimbra, o drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeças +das vigias: O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas torres: +Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles dois corvos. E assim +todas as outras. Porém isto é já muito tarde, e gastámos n'esta materia +mais tempo do que convinha á das cartas, em que começamos; e porque nas +armas, e tenções nos não fique por saber algumas significações, e +figuras de armas dos particulares senhores, e fidalgos de Portugal, que +todas fôram merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando os +animaes, significadores de fôrça, braveza, e velocidade: e os planetas +de poder, antiguidade, e clareza, e outras figuras semelhantes: Banda +significa postura de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu +alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco da vida: faxa, +ou barra, representa victoria da batalha singular de cavalleiro a +cavalleiro, e quantas fôrem, tantos diremos que são os vencimentos com +que se ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello, significa +ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforço, e perigo da vida. +Escadas, asteas, ou pedaços de lanças, denotam subida trabalhosa, ou +defensão arriscada na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos, ou +forma que vêdes nas armas, todas nasceram de illustres façanhas, e +valorosos feitos. E todas as das empresas, e tenções, dão signal claro +do animo, e pensamento de seus donos: e com umas, e outras se devem +sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras, e lettras +d'ellas, como tenho dito.--Vejo (disse Solino) que temos a carta +cerrada, sellada, e com sobrescripto, sem ainda sabermos nada do +principal d'ella. Não vos enfadeis (respondeu elle) que na noite de +ámanhã a abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores, se não +ficarem de agora cansados do sobrescripto.--Antes (disseram elles) que +só o dia seguinte lhes parecia comprido, e vagaroso. E dando fim á +conversação d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso, que +com a moderada recreação de horas bem gastadas é mais aprazivel. + + + + +DIALOGO III + +DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENÇA DAS CARTAS MISSIVAS + + +Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo aquella noite na +materia das armas; e quasi a escolhera antes, que a das cartas. Por +alguns particulares, que desejava saber, quiz com mão alheia, por não +parecer importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que achou junto á +sua porta; e depois de o saudar, lhe disse: Como estaes depois da noite +de hontem.?--Como o dado (respondeu elle) que está de qualquer +ilharga.--Deveis de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes tão +poucos pontos, que faltaes aos da cortezia:--Fiquei (tornou elle) tão +cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei aborrecimento, e nem +estou para vos servir, nem para o dizer, e perdoae-me.--Logo (disse o +fidalgo) não quereis continuar na conversação d'esta noite.--Se a carta +(lhe tornou Solino) ha de ser tão comprida como o sobrescripto, assim o +imagino.--Pois a minha tenção (proseguiu elle) era pedir-vos que na +materia das armas, que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas á +minha conta sobre alguns particulares das familias d'este reino.--Vós +deveis buscar armas para me matar (disse Solino) porque das de hontem +sahi eu tão escalavrado, que determinava fugir d'ella; e sei que tem +Leonardo tantos livros de armas, e gerações, que, se o tirar a terreiro, +havemos mister todo o inverno para o ouvir.--Eu me contento (respondeu +D. Julio) com saber que elle tem os livros, e assim o escuso do +trabalho: + + + + + + + + + +porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes +merecedores dos brazões que seus successores possuem.--Bom seria (disse +Solino) acabar as cartas antes de entrar por esses feitos, e para isso +vos irei acompanhando até a casa de Leonardo, posto que tinha outra +determinação.--Porque vós não falteis (respondeu D. Julio) quero ir mais +cedo. E com esta pratica, e outras que occorriam, foram passeando, e +entertendo o que ficava do dia, até que a sombra da noite, e uma chuva +miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde os amigos esperavam já +que elles chegassem; e com Pindaro outro estudante seu companheiro, por +nome Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasião em sua +companhia. Festejaram todos a Solino; e elle vendo o hospede, de novo se +lhe inclinou com mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja +á dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta, que cerrámos sem +elle, e com não pequeno trabalho.--Não tivera eu por tal (respondeu o +estudante) antes por grande ventura, se do passado me coubera alguma +parte; e esta, que alcanço agora com o consentimento d'estes senhores +por meio de meu companheiro, tenho por muito grande favor, e mercê de +todos.--Essa humildade (disse Solino) está acreditando mil esperanças de +vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro sabe fazer esta +eleição dos amigos tambem, como em tudo o mais é discreto, e acertado: e +para que entendaes o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais +certo creado que elle tem entre os senhores presentes. + +A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com as suas, até que o +doutor os despartiu, e disse a Leonardo:--Bem gastado era o tempo em +comprimentos tão cortezãos, e tão devidos, se o desejo, que temos de +continuar a materia da noite passada, o não quizera poupar todo para +ella: e assim vos peço que me façaes mercê, e a todos, de ir por +deante.--Tendes razão (tornou elle) de me aliviardes mais depressa do +cuidado, em que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar dos +vossos principios, dissestes que cousa era carta na origem do seu nome, +os primeiros modos de escrever, e o como entre nós se conservou; tratei +do sobrescripto, da cortezia, das lettras, do signal, das dobras, e +sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais enfadados, que +saudosos. + +Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos que cousa é +carta missiva, ou mandadeira, e o para que foi inventada; que pela +definição de Marco Tullio, a quem todos seguem, é uma messageira fiel, +que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que lhes manifesta o que +queremos que elles saibam de nossas cousas, ou das que a elles lhes +relevam. Tres generos de _cartas missivas_ assigna o mesmo Tullio, aos +quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas. O primeiro é das +_cartas de negocio e de cousas que tocam á vida, fazenda e estado de +cada um_, que é o para que as cartas primeiro foram inventadas; que, por +tratarem de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, de cartas +d'entre amigos uns aos outros, de novas e comprimentos de galantarias, +que servem de recreação para o entendimento, e de allivio e consolação +para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de peso, como são de +governo da republica e de matérias divinas, de advertencias a principes +e senhores e outras semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas +domesticas, civis e mercantís. O segundo em cartas de novas, de +recommendação, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graça. O +terceiro, que é mais grave e levantado, contém cartas reaes em materias +de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias, laudativas, +persuasorias e outras, que se pagam a cada uma das que nomeei em todos +os tres generos.--E onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias ou +namoradas? que se na vossa edade não teem logar, parece que o mereciam +n'este díscurso.--Bem sei eu (tornou Solino) quem as tomára no primeiro; +mas o sr. Leonardo já não joga com essas cartas.--Não me esquecia de +todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para que no fim das mais sejam +melhor recebidas, e para proseguir a materia quem agora as puder apurar. + +--As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem cartas muito seccas, +que é materia esteril para que empregueis n'ella sem fructo o vosso +entendimento.--Antes (disse Leonardo) como essas foram as primeiras, e +d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, será razão que debaixo +d'este genero tratemos das mais, repartindo o pouco que eu soube dizer, +por os logares de cada um. E assim me parece, que como a carta que +escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre as cousas da +casa; e o mercador ao outro sobre seus tratos e mercancia; um aviso e +uma relação que lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por meio de +uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica costumamos que é +brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, e propriedade sem +metaphoras, nem translações.--E quando (disse o doutor) faremos breves +em uma carta?--Quando (respondeu elle de tal maneira, e com tal +artificio a escrevermos, que se entendam d'ella mais cousas do que tem +de palavras.--E como póde ser? (tornou elle).--Por meio dos relativos e +subsequentes (disse Leonardo) que, sem nomear as palavras, as repetem; e +por ordem das sentenças e adagios que sem entender as cousas as +declaram; e n'isto se adeantam muito as cartas da pratica familiar, que, +se escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem palavras para se +subentenderem razões.--E que cousa é enfeite ou affectação? (perguntou +Solino).--É, disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com +elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de logar para as +syllabas fazerem melhor som aos ouvidos. E em favor d'esta opinião, +dizia um homem insigne d'este reino, e que teve n'elle os melhores +logares da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a mulher +muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas: e eu antes seguira este +voto, que o de alguns rhetoricos, que deram á carta missiva cinco partes +de oração, convém a saber: _saudação, exordio, narração, petição e +conclusão_: e se houvessemos de seguir o seu estylo, mudariamos de todo +o das cartas.--Nunca rhetoricos (disse o estudante) souberam escrever +cartas, se as sugeitaram ás leis da oração. Mas parece que o sr. +Leonardo dá a entender que na carta se não devem usar epithetos ou +adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja elegancia d'ella: e eu tenho +que sem elles se não póde escrever. + +--Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para discripção e +declaração das cousas ou para propriedade, ou para ornamento e enfeite +d'ellas. Os primeiros são necessarios nas cartas como em tudo; os +segundos menos, os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, _um +homem douto_, _uma mulher formosa_, _um cavallo ligeiro_, _uma arvore +alta_, _um caminho comprido_, _um peito forte_, sào attributos +necessarios para declarar o que queremos dizer; porque ha homem que não +é douto, mulher que é feia, e os mais. Os de propriedade como _ferro +frio_, _relva verde_, _sol claro_, _calma ardente_, _areia sêcca_, +_pedra dura_, estes são pouco necessarios nas cartas: e sómente por +comparação ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo, _é duro +como pedra_, ou _é dar em pedra dura_, ou _é malhar em ferro frio_. Os +de elegancia e ornamento, tenho eu que se hão de degradar das cartas +missivas para fóra do termo d'ellas, como agora _firme soffrimento_, +_incansavel diligencia_, _solicito desejo_, _cuidadoso receio_, +_importuna lembrança_, _desusada brandura_, e outros que tem juiz de seu +fôro. Assim que não digo que faltem nas cartas epithetos necessarios, +mas que se escusem os sobejos; nem se andem grangeando as palavras para +fazerem assento em o cabo da sentença, que será ir contra a brevidade +sem enfeite ou affectação. + +--Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve seria a de menos +regras; e que não estava a cousa nos epithetos serem proprios ou +necessarios. Uma carta (proseguiu elle) póde ser breve, e levar +escriptas muitas + +paginas de papel; porque póde tratar de tantos negocios ou cousas que as +occupem, mas estarão relatadas de modo que seja a leitura comprida, e a +carta breve. + +--O segundo ponto (perguntou Pindaro) que é clareza sem rodeio, me +parece a mim que fica declarado n'essa primeira parte; pois sendo breve +a carta, e não tendo enfeite nas palavras, será clara e sem +rodeios.--Não estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza é +parte da brevidade, a clareza é das razões, e a brevidade das palavras: +e assim póde a carta ser breve, mas confusa; e clara sendo comprida: que +muitos para dizerem cousas querem estrada coimbrã, e caminho direito; +buscam rodeios e atalhos em que se perdem, confundindo o que querem +dizer. Em uma minha doença escreveu um amigo, e dizia: _Disseram-me que +a saude de vossa mercê corria perigo na inconveniencia de medicos +discrepantes no remedio dos males d'essa doença_. E fez estas trocas +onde podia dizer: _Soube que os medicos não se conformavam na cura dos +vossos males, que na duvida d'elles corria risco a vossa saude_. Outro +me escreveu ha muitos dias: _Se vossa mercê não está ausente das +lembranças que suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas +d'este seu captivo_. Havendo de dizer: _Se vos não esquece que me +promettestes de ter lembranças de mim_. E porque ainda temos logar de +tornar aos particulares das disposições das razões: + +Passando ao terceiro ponto, que é _propriedade sem metaforas_, ou +_translações_.--A propriedade (disse o doutor) era materia da noite +passada, quando falastes das letras e razões em seu logar, sem barbaria, +nem impropriedade no escrever: e como isto é parte do exterior da carta, +já hoje não tem dia.--A propriedade que vós dizeis (accudio Leonardo) é +exterior, mas muito differente a de que eu trato, e não pouco importante +ao falar, e escrever, que é a propriedade das palavras na sua propria +significação, sem serem emprestadas por via de translações para outros +logares, que é termo que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais +declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando propriamente dos +nomes: _Bando de aves_, _cardume de peixes_, _rebanho de ovelhas_, _fato +de cabras_, _vara de porcos_, _alcatéa de lobos_, _tropel de cavallos_, +_cafila de camellos_, _récua de cavalgaduras_, _manga de arcabuzeiros_, +_mó_, ou _roda de homens_; e se, trocando isto, disséramos: _Um cardume +de aves_, ou _uma alcatéa de ovelhas_, ou _um fato de porcos_, seria +impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem nos verbos: _Chiar_ de +aves, _balar_ de gado, _grunhir_ de porcos, _ladrar_ de cães, _rinchar_ +de cavallos, _bramir_ de leões, _empolar_ de mares, _encapelar_ de +ondas, _assoprar_ de ventos, etc. E se dissessemos _chiar_ de porcos, +_rinchar_ de leões, e _grunhir_ de cavallos, seria o mesmo erro. E +porque ha metaforas e translações tão uzadas e proprias, que parecem +nascidas com a mesma lingua, que como adagios andam pegadas a ella, se +devem trazer (quando forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que +na pratica se costumam. Dizemos dos nomes: _folha de espada_, _lume de +espelho_, _veia de agua_, _braços de mar_, _lingua de fogo_, _lanço de +muro_, _faxa de ferro_, e outras semelhantes: e nos verbos: _lançar o +cavallo_, _fazer á capa_, _quebrar a palavra_, _cuspir o pelouro_, +_arripiar a carreira_, e outras muitas: e além d'estas tão usadas, e +naturaes, que servem de propriedade á lingua portugueza, ha outras +nascidas de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e +antiguidade, como são _furtar o corpo_, _ir vento em pôpa_, _nadar +contra a agua_, _ficar em secco_, _repicar em salvo_, _tirar barro á +parede_, _etc_. E quanto a carta tiver mais d'estas, será mais breve, e +cortezã; pois, como primeiro disse, por este modo se entendem da carta +mais coisas, do que tem escripto de palavras. + +Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes, populares, ou +innovadas, será vicio na propriedade da carta; como se nos nomes +dissessemos: _um feixe de cuidados_, _um mar de encommendas_, _um moio +de queixumes_, _um golpe de razões_; e nos verbos, como: _enfeitar o +desejo_, _tropeçar em cuidados_, _navegar em desconfiança_, e outras +muitas. Esta é a propriedade, de que trato, e a que me parece que se +deve usar no escrever das cartas missivas; porque não soffre o estilo +d'ellas o que em a pratica, ou em outro genero de escriptura não sómente +se permitte, mas muitas vezes se deseja. + +--Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitação, ou declareis a +linguagem, que se deve usar n'este estilo das cartas; porque encontro +muitas muito mal escriptas, cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se +cançarem muito em quererem parecer singulares.--Posto que isso pertence +primeiro ao fallar, que ao escrever (respondeu Leonardo) pois, como já +disse, devemos escrever como praticamos; as palavras da carta hão de ser +vulgares, e não já populares, nem exquisitas: vulgares de modo que todos +as entendam; e ao menos, que a quem se escrevem, não sejam peregrinas: e +não já populares, que sejam termos humildes, palavras baixas, que a +cortezia não recebe: e que tão pouco, em logar dos adagios, e sentenças, +tenham anexins. Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras +alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas, que sempre tem o +sabor da sua origem.--Assim na linguagem, como em tudo (accudio +Feliciano) ficavamos satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o +senhor Leonardo dividio as cartas, déra alguns exemplos que nos +allumiaram; porque nem as regras sem elles ensinam de todo, nem se póde +perder a lição de tão bom estilo. O que eu não pedira, se foram dos +vinte generos de cartas, em que um rhetorico as dividio; que, por querer +dar leis, e partes a cada uma, as confundio todas.--Em tudo (tornou +elle) vos quizera satisfazer: porém cartas mais se hão de escrever em +occasião, do que trazerem-se por exemplo; que é o porque eu lhe nào déra +regra certa, nem das muitas, que ha bem escritas, se póde tirar; que +esse auctor, que vós dizeis que lhe assignou vinte generos, achará fóra +d'elles infinitas cartas, bem melhor escriptas, que as com que os elle +quer auctorisar. Porém, com o presupposto de não dar preceitos: + +As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas, civis, e +mercantis, respeitam tanto a brevidade, que não podem os rhetoricos +dividil-as em partes, se não forem nas da oração; e bastava para exemplo +aquella de Cicero a Cornelio, que dizia sómente: + + +CARTA DE CICERO A CORNELIO + +"Alegrai-vos de eu não estar mal; pois terei o mesmo contentamento de +saber que estais bem." + + +E muito é mais para notar uma carta de Octavio Imperador para Caio Druzo +seu sobrinho, que contém bem mais coisas, e avizos que palavras, e +dizia: + + +CARTA DE OCTAVIO A DRUZO + +"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares; que vos +mandou o Senado; que sois moço; meu sobrinho; e cidadão Romano." + + +E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem deixam de ser cartas. +Mas porque não só nos ajudemos das antigas, mas tambem com as nossas +façamos pestoleta; esta é breve, e domestica, que um cortezão escreveu a +seu amigo, a quem em uma ausencia deixára sua casa; e dizia: + + +CARTA MODERNA A UM AMIGO + +"Estou tão confiado no que vos mereço, e tão seguro no que de vosso +animo tenho conhecido, que me não dá cuidado a familia que deixei á +vossa conta; senào o trabalho, que vos dará o sustentalla: não procuro +saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em quanto a tiverdes, +estará sem sobresalto a minha vida." + + +Á qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia d'esta maneira: + + +RESPOSTA + +"N'esta casa só vós fazeis falta; mas como sois o tudo d'ella, ainda que +sobeja a minha diligencia, lhe falta tudo. No que é servir-vos, a todos +satisfaço, senão o meu desejo, que é igual ás obrigações que vos tenho. +Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver, porei por vossas +coisas a vida." + + +--Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e para me assegurar +se a vossa memoria é archivo d'ellas, ou se as ides fingindo de repente +(ainda que isto é + +menos curiosidade, que tenção) hei de pedir por parte d'estes senhores +que de alguma nos deis semelhantes exemplos.--Não quero (disse elle) que +acrediteis tanto o meu entendimento com mostrardes desconfiança da +memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer nas que me lembrarem: +e proseguindo nas da segunda especie d'este genero, me parece carta +civil, e breve esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua casa +para a terra, onde elle vivia; e dizia: + + +CARTA DE UM AMIGO + +"Espero com grande alvoroço que venhais para esta cidade, para que com +vossa companhia viva n'ella contente, e vós desenganado de quam pouco em +si tem que me possa alegrar, senão depois que vos possuir." + + +A quem o amigo brevemente respondeu em outra que dizia: + + +RESPOSTA + +"Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso, nenhum pode haver tão +esteril, que, tendo a tal amigo, não seja desejado. Vós sois a quem +busco, é força que me contente a parte onde vos achar; que as pedras não +fazem a cidade, senão os homens: nem as commodidades da vida a +sustentam, senão os amigos." + + +As mercantis posto que são segundo os tratos, e negocios, e acodem mais +a elles, que ao bom termo dos comprimentos; não deixa de haver muitas +tão bem escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e ainda que +não é d'ellas uma, que eu vi há poucos dias, a darei por ser tão breve, +e era esta: + + +CARTA MERCANTIL + +"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito grande risco nas +fazendas d'essa terra: porém a valia d'ellas será muito avantajada, se +chegarem a este porto a salvamento; se a cubiça do interesse vence o +perigo das encommendas, ponde-as em ventura; que eu a terei para mim por +muito boa o vosso bom successo." + + +E assim não me desagradou outra, que dizia d'esta maneira: + + +CARTA MERCANTIL + +"Com os tempos contrarios á navegação foram as occasiões ao nosso trato: +que, como as mercadorias não foram requestadas de extrangeiros, estão ao +presente abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando, mais as +procurem os mercadores da terra; e n'essa vos não descuideis de fazer +emprego, mandando-me o de muito boas novas vossas." + + +--Não me pareceu (disse o doutor) que tirasseis tão boa doutrina de +materia tão limitada; porque esse primeiro genero de cartas tinha eu que +não sahia de uns termos e principios, que andam escriptos no panno da +serpe, como são: _Á feitura d'esta_. _Esta não é para mais_. _Uma de v. +m. me deram_. _Pela de v. m. de tantos do passado_: _Depois de me +encommendar em v. m._ E d'aqui correndo por seus capitulos _de quanto a +isto_, e _quanto a est'outro_ até topar no _a quem Deus guarde_.--Esses +principios (disse Solino) estão já muito bolorentos; mas ainda para +cartas de mais ponto tenho outros grangeados de algumas secretarias +velhas, como impressão de Torres, de que me valho nas pressas de uma boa +nota, que não são tão corriqueiros.--Não me atreverei eu sem esses +(disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por notificado.--Pois +assim é (disse Solino) quero obedecer, ainda que perco grande valhacouto +em os descobrir; porque sabei que é comer feito para os ronceiros d'esta +mecanica; e o mór trabalho d'ella é desencalhar a penna com a primeira +palavra: e são quatro: _Como quer que_, _Tanto que_, _Depois que_, e +_Antes que_. E sabei que não ha proposito, que saia das unhas d'estes +bilhafres; e nos capitulos de _quanto isto_ etc., se mette em logar do +_quanto_, _no que toca a tal_, e _no que toca a qual_; que, a meu vêr, +era melhor o _item_, que tinhamos tomado aos latinos. Mas os notadores +de espada solta esgrimem já agora sem estes bordões +maravilhosamente.--Bons estão os principios (disse D. Julio) porém +haveis de metter a lettra em todos elles, para que nos não passem por +alto.--Antes por muito rasteiros (respondeu elle) vos ficarão entre os +pés. Porém tende tento, e vereis que são principios de parafuso e que se +encaixam, e viram para todas as partes como grimpa. + + +"Como quer que os meus serviços montem ante vós tão pouco, e a vontade +por minha seja de menos preço, etc. + +"Como quer que o animo, com que sou vosso, me não deixa perder +occasiões, em que vos sirva, etc. + +"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar esta empreza, etc. + +"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças, lancei mão do meu +atrevimento, etc. + +"Depois que me apartei de vós, não soube mais de mim, que para sentir +saudades vossas, etc. + +"Depois que meus males me deram logar para tomar esta penna na mão, a +empreguei em procurar novas vossas, etc. + +"Antes que me desculpe de meus descuídos, etc. + +"Antes que vos dê larga conta dos meus successos, etc." + + +De modo, que são como materia prima, em que moldareis tudo o que +quizerdes: porém não quero ir adeante, e tomar o tempo ao sr. Leonardo; +que o vejo entrar já por outras cartas missivas.--Antes (lhe disse elle) +tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas. E tratando das do +segundo genero, que são cartas de novas, a que chamam narrativas de +cumprimentos, que se dividem em cartas de agradecimento, recommendação, +desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria ou jocosas, +como chamam os latinos: Para as narrativas nos podia servir de exemplo +aquella em que o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu +irmão Germanico, que dizia: + + +CARTA DE TIBERIO CEZAR A GERMANICO + +"Os templos se guardam; os deuses se servem; o senado está pacifico: a +republica prospera; Roma sã; a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que +ha aqui em Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia." + + +Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de Persia, que continha só +tres palavras: _Cheguei: vi: venci._ E a de Gneu Sylvio, escrevendo as +novas da Farsalia, que dizia: + + +CARTA DE GNEU SYLVIO + +"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Catão se matou: acabou a +dictadura; e perdeu-se a liberdade." + + +E chegando a alguma, que com menos aperto faça sua relação, me não +pareceu engeitar a que Marcello escreveu ao senado romano, dando-lhe +novas da rota de Fulvio, que dizia: + + +CARTA DE MARCELLO AO SENADO + +"Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento. Fulvio Proconsul +com treze mil homens foi desbaratado e ferido. Porém não vos cause temor +este successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha de Canas, +mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor d'ella: contra elle caminho +brevemente com o meu exercito para lhe fazer mais breve a alegria d'este +triumpho; e em vós desejo muito o mesmo animo que levo." + + +--Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias atraz um amigo, de +novas de Lisboa, que certo, pela brevidade, me pareceu digna d'esta +lembrança, e dizia: + + +CARTA MODERNA + +"Esta cidade está abastada, mas descontente: o mar cheio de corsarios: +os portos de receios: o paço de requerentes; e elles de queixumes: para +os validos tudo é pouco: aos desamparados não cabe nada: do remedio de +tantos males não ha boas novas; e as minhas são que entre todos elles me +falta a vossa companhia." + + +--Essa (disse Leonardo) se póde ajuntar por exemplo ás antigas que +relatei: e por não me empregar em outras, que seria demasiado trabalho a +todos ouvil-as, e a mim recital-as, peço-as de recommendação de alguma +pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar a disposição e +offerecimento dos rhetoricos, encarecendo os merecimentos da pessoa ou a +importancia da causa que encommendaes, facilitando-a na condição e +vontade a quem a pedia; concluindo com a petição e offerecimento de +vossa parte: e todas estas, e ainda um exordio de sentença, que hei por +escusado, se vêem em uma carta que ha pouco que li, que um rei de +Portugal antigo, escreveu ao de França, encommendando-lhe um fidalgo que +ia estudar a Pariz; e dizia tirada de latim, em que estava em um livro +extrangeiro: + + +CARTA DE EL-REI DE PORTUGAL AO DE FRANÇA + +"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me pareceu muito digna +de louvor a de terem particular cuidado e lembrança dos vassallos +benemeritos em seu serviço, para com favores e mercês os ajudarem: e por +esta razão me pareceu que devia encommendar a vossa magestade D. Pedro +de Almeida, que por occasião de seus estudos vae a essa côrte de Paris, +posto que claramente conheço que, sem recommendação minha, vae assás +encommendado pela liberalidade e brandura com que vossa magestade honra +e recebe os homens tão illustres como elle é. Além do que, tem elle +tantas partes e entendimento, que não achará melhor terceiro, que a si +mesmo. Deixo seu pae D. João de Almeida conde de Abrantes, que com suas +singulares virtudes e claros feitos, adquiriu e conservou até á morte +muito estreita privança e amizade com meus antecessores e commigo; de +sorte que ponho em duvida se importe mais a seu filho a minha carta, se +a fama e lembrança de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a +vossa magestade. E de minhas cousas não offereço de novo nada; pois pela +irmandade de meus antepassados e minha, em toda a occasião deve vossa +magestade usar d'ellas, como se foram communs a ambos." + + +Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel, mais breve que a +passada, que era de seu antecessor, a qual elle escreveu ao mestre de +Rhodes, encommendando-lhe um noviço portuguez, que ia servir a religião +que será para exemplo das menos enfeitadas. O grão, mestre era o cardeal +Pedro de Buzon, e dizia: + + +CARTA DE EL-REI D. MANUEL AO GRÃ MESTRE DE RHODES + +"Ayres Gonçalves, filho de Henrique de Figueiredo, vae a tomar o habito +d'essa religião: não pareceu fóra de proposito nem de humanidade, +encommendal-o a V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha casa, +como pelos serviços e merecimentos de seus passados com os reis meus +antecessores; e finalmente por seu bom esforço e virtude. Rogo a V. P. +que com sua costumada brandura o favoreça de sorte que n'elle se +accrescente o valor e a devoção que leva: e não porei esta obrigação no +menor logar das muitas que tenho a V. P." + + +As cartas de agradecimento tem o campo mais largo para n'ellas se +espalhar a penna, e o entendimento; pois quem mais se obriga e encarece +o que recebe, escreverá com melhor termo, não sahindo dos da carta +missiva: e já os antigos não desconheciam esta galanteria; pois Lybanio +respondendo a Demetrio, que o obrigava a que lhe pedisse, escreveu +assim: + + +CARTA DE LYBANIO A DEMETRIO + +"Não daes logar a que eu vos peça, porque me mandaes tudo. Ainda bem as +arvores não dão seu fructo, quando vossos creados m'o trazem: e do que +até nos agros se sente a falta, eu a não tenho. Como me haverei n'isto? +que o lavrador, quando o tempo lhe nega a agua, então a pede: porém, se +chove, contenta-se de vêr que favoreceu o céo suas esperanças." + + +O queixume por carta se deve fazer com toda a moderação que a urbanidade +requere: e póde n'estas servir para exemplo e lembrança a que Olympias, +mãe de Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle se assignava +por filho de Jupiter, que dizia: + + +CARTA DE OLYMPIAS A ALEXANDRE + +"Muito me alegro com a victoria que alcançastes da cidade de Tyro; e com +todas vossas venturas e façanhas: porém tive por grande affronta minha +vêr que vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta nova me +escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que aquieteis n'isso o +pensamento, e me não leveis a juizo ante a deusa Juno; que algum grande +mal me ha de ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes manceba de +seu marido." + + +E se me não parecêra um pouco enfeitada uma carta que Angelo Policiano +escreveu ao grande Lourenço de Medicis, a podéra pôr em exemplo da +moderação de queixume, porque dizia: + + +CARTA DE ANGELO POLICIANO AO DUQUE DE FLORENÇA + +"O poeta é semelhante ao cysne na brancura e suavidade, em ser +affeiçoado a correntes de agua e amado de Apollo. Comtudo, dizem que o +cysne não canta senão quando o vento zephiro respira. Não é logo muito +que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se vós, que sois meu +zephiro, n'elles me faltaes." + + +As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo, e liberdade para se +poderem usar n'ellas alguns termos fóra das limitações das nossas +regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos, +ficam desobrigados das primeiras leis. que são _brevidade sem enfeite_: +_clareza sem rodeios_: _propriedade sem metaphoras_; pois o termo da +graça e galantaria, n'isso se differença do sizudo e pontual; não +negando que ha algumas que não perdem a graça nem o sizo, como é uma que +Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia: + + +CARTA DE LYBANIO A ARISTONETO + +"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrario +não perco occasião de dizer louvores vossos; porém quem a ambos nos +conhecer, a nenhum de nós ha de dar credito." + + +Das mais ha tantos e tão differentes exemplos, que seria aggravo a cada +uma das outras trazer aqui algumas bem escriptas. Só direi que uma +especie d'ellas é narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou das +novas que dão; que não são por esse respeito pouco engraçadas. Ha outra +das de disbarates, que, parecendo que se desviam nas palavras do +proposito que tomam, dão a entender, como em enygma, o pensamento de +quem as escreve; e são estas graciosas com subtileza. Outra ha das de +murmuração em materias leves, como satyras menores: e umas e outras tem +a galanteria no pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos +graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas, phrase humilde, +accommodada sempre ao sujeito. É certo que n'isto tiveram mão particular +os portuguezes, que escreveram ao gracioso, que nem os italianos na +phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco os egualaram. + +--Não vos houvera eu de consentir esse salto (disse Solino) deixando +tantos exemplos em aberto, se não tivera pensamento de cobrar a demasia +n'outra occasião; e assim por isso, como por ser já passada tanta parte +da noite, vos peço que façaes a vontade ao sr. D. Julio com essas cartas +Reaes, de Estado e Governo, que as está desejando com a vida; pois a sua +é nadar na altura de cousas semelhantes.--Eu vos mereço (respondeu o +fidalgo) a boa opinião em que me tendes: porém egualmente me contentam +todas as cousas em que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas +me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso desejar esse terceiro +genero de cartas; e se d'elle tornar ao primeiro, farão o mesmo effeito +na minha satisfação.--Para responder a esse favor (tornou Leonardo) +havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas que me ficam: e assim +ou uma ou outra cousa me havei por perdoada. + +Não deixou o doutor ir os cumprimentos por deante, dizendo que eram em +prejuizo de terceiro; e proseguindo Leonardo, disse: + +--As cartas do terceiro genero, que, pelas materias importantes, e +differença das pessoas, são mais graves e humildes; posto que se incluem +algumas d'ellas á oratoria, aproveitando-se da elegancia e razões para +persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e posto que d'estas +estão cheias as chronicas e annaes de todos os reinos, recitarei algumas +que pareçam menos vulgares e mais breves para exemplo, como é uma que os +consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram a el-rei Pyrrho sobre uma +consideração em materia de Estado, que dizia: + + +CARTA DE FABRICIO EMILIO A EL-REI PYRRHO + +"Pelos aggravos que de vós temos recebido, o maior cuidado nosso é +fazer-vos guerra com animo inimigo e braço esforçado: porém, para +exemplo commum de fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque +com a perda d'ella nos não faltasse um contrario valoroso a quem vencer. +Nicias, vosso particular, veiu ter comnosco, pedindo-nos preço certo por +vos dar morte occulta; em que nós não consentimos, fazendo-lhe perder a +esperança de tirar fructo da sua maldade. Juntamente assentámos dar-vos +este aviso; porque, se alguma cousa acontecer, se não presuma que sahiu +do nosso conselho; e não sendo o intento d'elle pelejar por preço, +premio ou engano, vós, á falta de cautella, percaes a vida." + + +Tambem me não parece indigna de lembrança uma, + +com que Rhodoge, mãe d'el-rei Dario, o reprehendia, e aconselhava na +segunda expedição contra Alexandre; que foi a que se segue: + + +CARTA DE RHODOGE PARA ELREI DARIO, SEU FILHO + +"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos de todas vossas +gentes e das alheias, para de novo offerecerdes batalha a Alexandre. Não +sei a que effeito; pois o poder de toda a redondeza não basta para +pelejar com os deuses immortaes que a elle o favorecem. Deixae esses +pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria d'elles, concedendo á +grandeza de Alexandre alguma cousa; que melhor é deixar o que não podeis +ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo dominar tudo, +ficar sem nada." + + +Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto extremo, que não +deixaram que com ellas acabasse Leonardo sua obrigação; porque (disse D. +Julio) já pelo voto de Solino, estas são as cartas, que entram na +jurisdicção de minha curiosidade, não consinto que nos exemplos seja +este genero mais limitado; mórmente que d'este se tira outra doutrina +mais que a das cartas, que é a variedade das historias e occasiões +d'ellas.--Eu (respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir adeante, +se as horas tornaram atrás; mas partirei (como dizem) a contenda pelo +meio, recitando uma carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos +amazonios; e a valorosa resposta que elles lhe mandaram: e dizia a +primeira: + + +CARTA DO TURCO AOS AMAZONIOS + +"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis guerra contra meu +poder, não vos tivera tanto por inimigos, como por valorosos cidadãos, +que pela patria, filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém com +nenhuma razão me persuado que os que deixaram tantos annos governar o +reino a mulheres (como tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo +de homens valorosos." + + +E a esta carta responderam elles outra, que dizia: + + +RESPOSTA DOS AMAZONIOS + +"Este reino das amazonas, que, como por affronta nossa nomeaes, com o +seu mesmo exemplo nos aconselha não obedecer a outrem: porque temos por +infamia e torpeza que o exforço varonil seja vencido do espirito e braço +feminino. Pelo que deveis julgar por invenciveis em armas, e dignos do +governo e principado do mundo homens, entre os quaes até as mulheres +apprenderam a reinar." + + +E porque com exemplos gentilicos e barbaros não dê fim á conversação +d'esta noite, direi por remate uma carta que o veneravel sacerdote Beda +escreveu a Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados +d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha, que dizia: + + +CARTA DO VENERAVEL BEDA A CARLOS MARTELO REI DE FRANÇA + +"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na christandade, se apparelha +notavel ruina de toda a Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa +e Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a terra de Hespanha, +tirando a das Asturias e Cantabria. Africa, que o capitão Belizario +cobrou aos romanos, e que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio, +juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os mouros, fazendo-a +obedecer a seus falsos ritos, com grande ignominia e affronta do nome +christão. Que cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que +contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram os suevos, os +allemães e os mais varões do nome christão, que com tão grandes +destruições tendes perseguidos? Perto estào, e sobre vossas cabeças os +sarracenos, que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza da terra. +N'elles tendes formosissimos reinos, grossas cidades, ricos despojos; e +vos esperam grandes triumphos da victoria: e principalmente incomparavel +premio de gloria com Christo nosso Salvador, que para tão santa empreza +com continuos brados vos está chamando." + + +Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite pelo interesse de +tão proveitosa doutrina; mas porque n'esta se não ha de dar fim ao nosso +exercicio, fiquem algumas perguntas, que agora escuso, para outra +occasião, pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem as de +desafios.--As primeiras (replicou Leonardo) deixei por ser improprio da +minha edade tratar d'ellas; as segundas, por me não embaraçar com o +duello que está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos. +Com isto se despediram dando-se boas noites: e o estudante foi +encarecendo ao companheiro o muito que o espantára vêr tanta côrte em +uma aldeia; que as cousas achadas onde não se esperam, são de maior +admiração, e de mais estima. + + + + +DIALOGO IV + +DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS + + +Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns dos amigos por se +lograrem d'elle com a occasião da caça se espalharam pelos montes; mas +depois de horas de vespera visitou o estudante em companhia de Pindaro +ao doutor Livio, com quem passaram a tarde n'um seu jardim em boa +conversação, esperando a da noite, a que elles foram os primeiros que +acudiram, e se acharam em casa de Leonardo; que commummente nos +lettrados se accende melhor o desejo de saber, e não n'aquelles aos +quaes lhes custou menos. Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos +hospedes estava melhor ordenado; e depois de gastarem algumas palavras +de cumprimento, chegaram D. Julio e Solino a quem todos fizeram muita +festa; e, reprehendidos da pequena tardança, disse Solino:--Grande +espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me não detivera em +esperar resposta de um recado, que mandei ao sr. D. Julio.--E eu +(respondeu elle) se vos não encontrára, ainda não tinha entendido o +vosso moço; porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer, que +nem por discrição pude tirar o recado: nem vos desfaçaes d'elle para os +que forem de importancia, que val a peso de ouro. + +A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:--O meu moço, sr. D. +Julio, tem desculpa em ser nescio, porque é meu moço; que, se soubera +mais, eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como vós, esses +hão de ser discretos, pois são tão bons como eu: e comtudo eu vos sei +dizer que ha aqui moço que no dar um recado o pudera fazer como ao que +lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e já entermette de lêr +carta mandadeira: mas nos recados ainda agora lê por nomes, e não acerta +a nenhuma cousa.--Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um creado que +esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes um recado concertado, +discreto e cortezão: e o madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e +desentôa com uma parvoice que vos desacredita, como com os meus me tem +acontecido mil vezes.--Nos vossos não é muito (disse Solino) que daes os +recados guarnecidos de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais +perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino: mas os meus, que +não passam de quatro palavras em linguagem corrente, e que assim os +virem do carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça? Ora prometto +que os de importancia eu mesmo os leve como aconteceu ao cortezão +ausente, que levou elle proprio a carta a sua mulher: e os que houver de +dar o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando o burel da sua +natureza com o trabalho da minha disciplina. D'aqui por deante bôcca faz +jogo: digo, que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha de +chamar por auctor das suas impertinencias.--Certo (disse Leonardo) +deixando de tratar dos meus, e vossos recados, que importam menos, e de +outros em que vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração +aos reis, principes, republicas, e aos grandes mandarem suas embaixadas, +visitas e recados por homens de auctoridade, discretos e bem +disciplinados, em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes o +bom successo do que pretendem. E assim os reis, principes e republicas +nas materias de estado; as cidades e povos nas occasiões das côrtes; os +senhores particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, que no +entendimento se avantajem dos outros, porque não sómente conseguem o fim +da pretenção de quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes por +respeitos, privança e valia se antepõem os menos sufficientes para estes +cargos, se deitam a perder negocios de uma republica, em que consiste a +quietação e honra d'ella.--Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o sr. +Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra de seu logar, depois +de o terem as cartas missivas; e bem se póde fazer a noite bem +assombrada com tão bom sujeito.--Desculpado estou (respondeu elle) com o +trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em fugir d'elle; mas não +de approvar a vossa advertencia. + +A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem a materia de mais +longe; e pediram ao doutor que, tomando-a á sua conta começasse.--Bem +pudera usar (disse elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para +minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer dos presentes mais +sufficiencia para este encargo por lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou +por obrigado. Digo que _recado_ é nome que entre nós tem a etymologia. A +significação é muito duvidosa, pelo modo em que usamos d'elle: porque, +se houveramos de derivar este nome do verbo italiano _recare_, que é +_trazer_; ou do verbo _recapacitare_ que é _recapacitar_ (d'onde elles +chamam _recapacitar_ ao _recado_) nunca disseramos d'elle tanto, como na +nossa lingua portugueza significamos; mas se lhe buscarmos a origem do +latim, virá mais ao nosso modo pela differença do messageiro ao que leva +recado: que o primeiro _missa gerit_, faz as cousas que lhe mandam; e o +segundo _recautus_, este é homem acautelado, que sabe o que ha de fazer +no que está á sua conta; que assim convém mais com o nosso modo de +falar, quando dizemos _homem de recado_, que quer dizer _de importancia, +posto a bom recado, que é seguro_, e _com cautella: tardar e arrecadar_, +que é levar ao fim o que começou: porém seja uma cousa ou outra, ou +ambas, o principal recado de todos é o do embaixador; e estes são de +duas maneiras, ou o que o principe manda a outro por occasião +successiva; ou o que de ordinario assiste em sua côrte, para conservação +da benevolencia e amisade que entre elles ha: estes segundos tinham os +romanos nas provincias junto á pessoa do consul, que as governava com +titulo de legados, e com elles despachava os negocios de importancia. +Mas aos primeiros chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes no +officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em nossos tempos se +aproveitaram muitos d'essa arte, sendo escolhidos para o cargo de +embaixadores.--Eu (disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de +falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a grandes principes, +e não pouco doutas e elegantes, como foi uma que fez o bispo D. Garcia +do Menezes ao papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei D. +Affonso V, e por capitão de uma armada que elle mandava contra os turcos +em favor da egreja no anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e +outra, que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo com o +arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar obediencia por el-rei D. +Manuel no anno de mil e quinhentos e cinco: e outra, que fez o mesmo +doutor ao papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a lhe dar +obediencia com aquelle famoso ornamento, que ainda agora é dignamente +celebrado na egreja romana assim pela grande devoção d'aquelle pio e +catholico rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o papa +respondeu em publico com uma doutissima oração de louvores do mesmo rei. +E não é este costume só dos nossos embaixadores, mas de todos os +extrangeiros, assim quando eram enviados a este reino, como a outros. +Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco de França a el rei D. +Manuel, que estava em Almeirim, no anno de mil e quinhentos e seis, +Monsieur de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta oração em +sua chegada: fóra outras muitas com que pudera allegar.--D'esses +exemplos ha muitos (disse o doutor), e continuando com o que convém mais +ao fim do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo de +embaixador os homens das familias mais illustres do reino, dos illustres +os mais discretos e cortezãos, d'estes os mais animosos e liberaes, dos +animosos os mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; e são +todas estas partes tão necessarias ao embaixador, que com a falta de +qualquer d'ellas ou arriscará o credito do principe, que o manda, ou o +negocio de que vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser +illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e dos illustres +d'elle, e por honra tambem do principe a que é mandado, pois ha de fazer +as partes de um, e assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e +nos vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores muito chegados +em sangue ás casas dos reis que os enviaram, e sahirem outros da mesma +qualidade; o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da Persia, +Japão e outras remotas partes do oriente. Depois de illustre ha de ser +discreto e cortezão, porque parece que mais que todas as outras partes, +lhe está requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição e +cortezia para tratar as cousas convenientes á sua embaixada, encobrindo, +desculpando e persuadindo o que a seu rei convém; que esta é a +differença do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o que lhe +mandam que diga: o outro dispõe, ordena e conclue o que lhe encommendam +que faça: um leva o recado na lingua, outro no peito, como disse um +embaixador dos romanos aos carthaginezes na guerra de Sagunto, que +levava a paz, e a guerra dentro no peito; e assim não vindo elles no que +os romanos pediam, declarou a guerra. Além d'isto como o embaixador é um +terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, nenhuma cousa lhe +é mais importante, que o entendimento, e tambem o ser cortezão lhe +importa muito, pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á +pessoa do principe, com communicação dos principaes senhores do reino; e +ás vezes por esta parte sendo engraçado, e acceito áquelle a quem é +mandado, acaba mais facilmente os negocios e pretenções de quem o manda. +Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque nas materias que tocarem +á guerra, tregua e liga, ou confederação com seu principe, se não mostre +por sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue com seu +exemplo a que o respeitem e temam; e tambem porque na occasião em que se +offerecer ao senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com as +obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E o segundo, porque com a +magnificencia se conquistam mais vontades e animos extrangeiros, que com +qualquer outra valia, por grande que seja; e posto que esta parte a +todas as pessoas illustres é necessaria, e em todos os cargos de guerra +e officios da paz é tão estimada, no de embaixador é muito mais +proveitosa para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella que +convém ao de sua embaixada, e para mover os ministros e validos, em cuja +mão ou conselho está seu negocio. Convém além d'isto que seja o +embaixador homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e +veneração; que em outro modo o corpo pequeno em pessoas de grande logar +lhes tira muita parte do que se lhes deve. E um doutor nosso de muito +grande nome, e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato seu uma +lettra que dizia: _A presença diminue a fama_. + +E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo d'este reino com uma +embaixada a um rei assás poderoso, vendo-o elle tão pequeno, lhe +perguntou motejando d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino +outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante cargo?" Ao que +elle respondeu valendo-se do entendimento, e animo que tinha: "Que na +corte d'el-rei seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, e +partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que para sua magestade lhe +pareceu que elle bastava, e por isso o mandára." Finalmente é de muita +importancia ser bem acostumado, para com sua temperança, continencia, e +bom termo conservar, e acreditar o bom nome, e fama de seu rei, a honra +de sua patria, e da propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus +costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito, liberdades, e +exempções que tem os embaixadores, como aconteceu aos da Persia, que +vieram a el-rei Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça de +Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo soffrer sua estranha +dissolução, mandou alguns moços de bellissima figura, que em habito de +damas os servissem á meza, levando escondidos punhaes com que se +vingassem de qualquer deshonesto acometimento dos embaixadores; que +usando de sua demasiada luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da +Persia offendido de se não guardarem com os seus as leis dos +embaixadores, mandou um poderoso exercito contra el-rei Amyntas; porém o +general d'elle sabendo como o caso passára, se retirou sem querer dar +batalha aos Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores sejam +escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, de que hão de tratar; que +tal occasião se offerece, em que convém serem humildes; e outra, em que +é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam de ser animosos, e +arriscados; e outras brandos, e dissimulados. Francisco Dandalo, +embaixador dos Venezianos ao Papa Clemente V para levantar o interdicto +ao Senado, contra quem estava iroso por razão das coisas de Ferrara, +esteve lançado de bruços grande espaço á meza do Summo Pontifice, com +uma cadeia de ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o +obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua grande humildade +foi chamado _cão_, e por seu valor succedeu no Ducado de Veneza. Pelo +contrario Orfato Justiniano, homem de letras, e animo generoso, +embaixador do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, que pelo mau +animo, que contra os Venezianos tinha, não fazia d'elle a conta, e +estima que seu valor merecia. Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação, +e humildade, que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta, por +onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse dobrar o pescoço: +porém elle entendendo a tenção de Fernando, entrou com as costas para +diante, e voltando-se direito na casa fez a mesma cortezia, que +costumava. Outro dia achando-se em um banquete, que o rei mandou fazer, +dando-lhe de proposito os convidados tão estreito lugar que achava sua +auctoridade, deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, que +trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar como os outros +assentos.--A mim me parece (disse Leonardo) que os attributos mais +importantes ao embaixador, e que sempre n'elle devem andar annexos, são +esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em que se revolve o +maior peso, e substancia, das coisas do Estado; o que se colhe dos +exemplos que dissestes, e de outros muitos; porque o esforçado e +entendido em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda, nem ao que +a si mesmo deve, nem á occasião de que se póde aproveitar, como +aconteceu a Pompilio, embaixador a el-rei Seleuco, sobre conservar +amisade com os Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo o +Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava melhor; e entendendo o +Romano que aquella dilação se fundava em fraqueza, e cautela, com o +bordão que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou mettido, +dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse se havia de determinar na +resposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz +que lhe requeria. E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador aos +Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre as roupas muitas immundicias +com grande rizada, e escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente: +Vingai-vos agora do riso á vontade, porque tendes muito que chorar +quando com vosso sangue se lavarem as nodoas d'este meu vestido.--Esses +casos (accudiu D. Julio) são da mera jurisdicção do esforço, e +cavallaria; ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque o valor +do animo a tudo acode, e em nada perde ponto. E se não, vede a estimação +que fizeram os reis catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo +Fernandes de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o prior +sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou a combater valorosamente +tirando com muitos louvores d'aquella batalha feridas; e querendo-o +el-rei desviar antes, porque não convinha ao cargo que trazia, lhe +respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, e o animo o +obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe I a Frederico Badoaro, que +os Venezianos lhe mandaram por embaixador a Genova, sendo elle principe +de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos no segundo +logar, succedeu chamar o principe a si ao duque de Saboia; e acenando ao +veneziano que lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe +com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes tirar; mas +respondeu que antes havia de deixar a vida, que aquelle lugar, porque +com a morte de um particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se +lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era devido, a pessoa +inferior em merecimentos. E quanto á dissimulação, e soffrimento só nos +esforços costuma a achar confiança para metterem em cortezania o que +puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a Giuberto Dandalo, +embaixador dos Venezianos ao Papa Nicolau III, que já mais foi ouvido, +nem pôde alcançar entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha +contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até que, vendo elle o +pouco que importavam suas muitas diligencias, fingio um dia, sahindo com +alegre semblante, haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a que +vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para Veneza; onde +perguntando-lhe o Senado o que passara, respondeu: "Não achei o Papa em +Roma, nem quem me soubesse dizer onde o acharia." + +--Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço, e +entendimento no embaixador; porém tem igual necessidade de todas as +outras para representar com a nobreza a pessoa do seu rei: para com a +magnificencia adquirir as vontades dos ministros, e criados: para com a +gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: para com o conhecimento +das coisas do Estado, e experiencia d'ellas acertar nas que se lhe +offerecessem: e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar uma +approvação na vista, de tudo o que se conhecer de suas obras. Mas porque +não pareça que vou fora do em que comecei: A que os embaixadores não +levam recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior confiança) +que levam por escripto muito do que hão de dizer, e do que hão de pedir, +ou conceder; porém a eleição do tempo, occasiões, e palavras fica +subordinada ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus +conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e ordens de como se +hão de haver nas coisas os embaixadores; que são mais largas, quanto são +mais remotas as provincias, a que são enviados.--O officio (disse +Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro demanda maior cabedal +de partes da natureza, e das adquiridas por experiencia: e sei-vos eu +dizer que houve n'este reino famosos homens d'esta profissão, e taes, +que, querendo nomear alguns, faria manifesto aggravo a outros muitos. +Mas se o gran-duque de Florença, vencido da eloquencia, e partes de +Hermolau Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos Venezianos) +com tantas mercês, e favores o persuadia a que ficasse em seu serviço; +não faltaram outros, que sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram +maior inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum teve lugar +nos tribunaes supremos da corte de Hespanha, que para negocios +particulares de um principe d'este reino foi mandado a ella, que pela +grande satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido para os +de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de espantar que de um +embaixador e messageiro particular se fizesse um conselheiro de estado, +sendo criado da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro +cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões insignes em todas as +profissões: d'onde sahiram vice-reis, e capitães maiores para o Oriente, +e soldados para capitães, e mestres de campo, que defenderam, e honraram +o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram Malta; fronteiros +valorosos, que se assignalaram em Africa, todos criados da mesma casa, +onde se acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem a Marte, e +engrandeçam a Minerva, fazendo inveja aos mais avantajados nos +exercitos, e presidios hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e +academias mais nomeadas da Europa. + +--Tendes levantado este discurso de maneira (disse Solino) e está a +materia d'elle tão altiva, que me parece que eu e Pindaro ficamos esta +noite camarço, sem nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo me +fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis a coisas tão +differentes: folgara de saber se haveis de ficar n'esse tom, porque vos +deixarei em termo com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar +minha vida.--Ainda não tendes razão de vos queixar (respondeu elle) que +antes por me chegar pouco, e pouco aos criados, deixei muito dos +embaixadores, após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores, +que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, e outras vezes a +visitas, e occasiões dos principes, que não menos devem ser escolhidos +para estes cargos, buscando n'elles as partes mais necessarias que são +discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam concorrer todas as +mais; porque a cidade, ou villa, que manda ao principe seu procurador, +ou agente, n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.--De um +cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado por procurador a +cortes, lhe esqueceu no caminho o que a cidade lhe encommendára, e +tornou a dormir a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que ía: e +fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois lhe não esqueceu.--De +outro ouvi eu (respondeu Solino) que jurou por vida da sua a el-rei +Filippe I que se havia de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome +de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias que na pratica +disse, mais dignas de riso, que de credito. E um conheci eu, a que +cahiram as luvas, e o chapéo da mão, começando a dar o recado de uma +cidade a um principe; e levantando-as, perdeu o que queria dizer, de +maneira que nunca atinou palavra.--Estes maus successos (proseguiu o +doutor) testemunham o muito cuidado, com que se hão de eleger os homens +para taes cargos; o que não importa menos aos titulares e fidalgos, que +mandam vizitar a outros em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas, +que saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso requer, para +credito, e boa opinão de quem os manda.--Certo (accudiu Leonardo) que +não julgará bem quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de +ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um fidalgo que eu +tratei particularmente, ao qual, estando enojado por morte de um seu +filho, visitou da parte de um personagem um capellão bem apessoado, e +disse que o senhor N. estimára muito aquella occasião para mandar +visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço. A este conto fizeram +todos muita festa. E Solino, que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não +sei se virá muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a minha +historia, em rasão da advertencia, e cuidado que deve ter quem visita em +nome alheio; pois se vê que mais desattentos, que ignorancias, os erros +d'estas materias. Uma senhora enojada por a morte de um seu irmão tomava +as visitas em uma camilha, como as mais costumam. A esta mandou visitar +outra parenta sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando na +primeira casa achou tão escura que, pegando-se ás paredes, esperou uma +dona que lhe servisse de moço de cego; a qual o levou por a mão até uma +porta estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou para passar +deante; a qual não alcançou tão bem o degrau, que não désse primeiro com +as queixadas na humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a guiar +a dona da mesma maneira até junto da camilha, onde o tornou a soltar: +esta pessoa, cuidando que tinha alli outra porta, por não errar o degrau +por baixo, levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada, que +dando um grande grito a fez cahir de focinhos. Muitos, que estavam na +casa, e tinham furtada a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram +tão grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo o sentimento +do nojo, e cahia cada um para sua parte sem se poder valer." Como Solino +tinha graça natural no que dizia, deu muita a este conto, que foi +celebrado com riso de todos.--Se assim é (disse Solino) que nesses ha +tantos desatinos, e inadvertencias, não ha que espantar de criados +menores, que uns são por natureza tão rusticos, que em nada acertam; +outros por malicia tão depravados, que não querem saber senão o que é em +favor de sua maldade.--Uma questão se offerecia agora (acudiu Pindaro) +que, ainda que rasteira, é em materia proveitosa. Convem a saber se é +melhor servir-se um homem de um moço simples, e nescio; ou de um +malicioso ainda que seja esperto.--Eu estou melhor (tornou D. Julio) com +o que me engana, que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer +do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho para me poder +enganar em pouco: e do nescio nem posso confiar em um recado as minhas +razões, nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora o que ha de +dizer, menos sabe o que lhe convém calar: além de que é grande desgosto +andar um homem de continuo ensinando um rustico, sem proveito, que não +tomará em sua vida tinta de discrição, por mais que o cozam n'ella.--A +mim me parece outra coisa (disse Solino) em razão d'aquelle proverbio: +_Antes asno que me leve, que cavallo que me derrube_.--Pelo rifão +(respondeu Leonardo) entendo que quereis defender o vosso moço.--Se o +não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou elle). Porém o moço nescio +não pode desacreditar com sua parvoice o entendimento de seu amo, que +não está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, e +esperto, nem por o ser deixa de errar peior que os outros; porque não +aprende o que convém a seu amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás +vezes por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; e quando +não, troca as palavras ou o sentido d'ellas; muda o tempo, e a acezão do +recado; vai quando quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o +credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque dizem que _qual o +amo tal o moço_; mais vos desacredita com a murmuração, do que vos +acredita com o recado; e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O +simples, se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se com +o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o que pretendeis; e muitas +vezes seus erros cahem em graça como as subtilezas dos outros em +damno.--Boas são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa que +pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois é regra de direito que +_faz por si o que manda fazer por outrem_: e se a victoria dos soldados +se attribue ao capitão, os ensinos, e palavras dos moços porque se não +hão de julgar por de quem os governa, e manda? e menor damno é qualquer +dos outros, que o de um homem parecer nescio á conta do seu moço. E +sobre tudo não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que faça mal, +diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; que os mais d'elles cantam +de quem roubam; que d'esse outro modo não é pintar criado, mas +inimigo.--E não sabeis vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a +maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim diz a sentença +de Euripides, que não ha maior, nem peior inimigo que o criado: e +Democrito diz que o criado é coisa tão necessaria, como amargosa: +Luciano diz que os criados sempre tem malicia, e traições armadas contra +seus amos.--A muitos tenho eu por inimigos (disse Feliciano) porém peior +o será o nescio, que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo +em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, não ha maior servidão +que mandar a um nescio.--Eu tenho procuração em causa propria (disse +Solino) para acudir pelos criados, como testemunha de muitos fieis, e +verdadeiros a seus senhores: e Euripides, e os mais devem de entender, o +que disseram, dos escravos, que, como lhe temos tomada a coisa mais +principal, e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem odio, e nos +desejam, e procuram mal; porque a vilesa do seu animo não soffre +mostrarem valor na sujeição.--Não me parece a mim essa boa razão +(accudiu o doutor) porque por dito de Seneca _nenhum escravo ha mais +vil, que o livre, que serve por sua vontade_. (Não entendo n'este conto +os nobres, e honrados, que servem aos grandes por respeitos razoaveis). +E dos escravos, a que fez taes ou a ventura de guerra, ou outra +desgraça, temos os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em +que deixaram muito atraz os proprios filhos. E se não, vêde se fez algum +o que o escravo de Publio Catieno. que, deixando-o o senhor por +universal herdeiro de seus bens, pela fidelidade com que o servira; +elle, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em +que queimavam o corpo de seu senhor, e morreu com elle, mostrando que +estimava mais tal servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava. +Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de ver a seu senhor +vencido de Augusto. Euporo, escravo de Lucio Graco, que se matou sobre o +seu corpo. E um escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam +uma quinta, em que o senhor estava, para o matarem, trocou com elle o +vestido, e metteu no dedo um seu annel de preço: e deitando-o fóra por +uma porta, sahiu pela outra a receber a morte, que haviam de dar a seu +senhor. E Frederico de Eveshim, escravo de Conrado Imperador, que, +sabendo que vinham para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na sua +cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, o mataram: o outros +muitos escravos sem nome, que mereciam que o seu ficasse eterno por +memoria de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande animo de +Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano, que vendo seu senhor cativo +de turcos, e depois morto, desejando vingar-lhe a morte por preço de sua +vida, fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no campo Turquesco, +e dizendo que queria fallar a Amurates, primeiro imperador d'aquelle +imperio, o matou a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a vida +valorosamente.--D'esses escravos (replicou Solino) não trato eu, que +mereciam ser senhores de seus senhores; como tambem houve criados que +mereciam ser servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes foi +escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, em que sabia +servir, respondeu: que _em mandar homens livres_; por o que Xeniades o +libertou dizendo: _aqui te entrego meus filhos para que os mandes_. E +Epicteto, que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo de +Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro da immortalidade. Porém +a nós não nos cahiram em sorte estes escravos, senão a gente mais +barbara do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria da +Asia, que é da gente mais vil das provincias d'ella; que uns, e outros +tratam os portuguezes com rigoroso cativeiro n'aquellas partes, +vendendo-os para serviço das minas das Indias de Hespanha como +condemnados á morte: e assim se podem estes chamar com razão inimigos +mortaes de seus senhores.--Tambem (disse o doutor) houve já n'este reino +escravos illustres de muito valor, entendimento, e sangue, conhecidos +por taes, e tratados como se estiveram em liberdade, que cativaram nas +nossas fronteiras de Africa, em cujas historias me eu não quero deter +por me não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, que +uns e outros representam a pessoa de quem os manda, no que toca ao +recado que dão: o que a mim me parece que está bem provado com o +costume, que os antigos tinham em mandar os seus, que não fallavam por +terceira pessoa, como é o nosso uso, que dizemos _diz fuão que vos beija +as mãos_; _que vos pede isto_; _vos encommenda este outro_; _vos lembra +tal coisa_: antes costumavam: _N. vos diz_, _beijo-vos as mãos_, +_rogo-vos isto_, _encommendo-vos este outro_, _lembro-vos tal coisa_, +representando nas palavras a mesma pessoa que as mandava dizer; e d'esta +maneira ficava arriscado nosso amigo Solino, representando pelo seu +moço: pelo que a mim me parece que o melhor do recado é ser tão breve, +que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro, que o entenda sem +trabalho a quem se manda. E com isto, e com vossa licença me hei por +desobrigado do que n'esta materia podia dizer.--Não pela minha parte +(disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de mais habilidade +que todos os de que falastes, em cuja profissão entra a de embaixador, +agente, procurador e recadista; e ainda outros muitos, que é o do +terceiro, ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse +Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais vil, e reprovado, +que os de mais, e se empregar em materia tão odiosa á Republica: porém +sem entrar no fundo d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da +superficie.--Bem sei (respondeu o doutor) que para me metter em +desconfiança levantais essa lebre; e não vos enganeis, que tanto se deve +tratar de officios viciosos para fugirem d'elles, como dos de virtude +para os seguirem, e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os romanos +deram leis á sua profissão, segundo escreve Pedro Crinito; as quaes +estavam escriptas no templo de Venus; e Licurgo, aquelle grande +legislador dos Lacedemonios, tambem lhes deu regras, e liberdades, posto +que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos os agasalham; +mas se ha officio de muito cabedal, e pouca honra, é o do alcoviteiro, +porque ha alguns que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular, +Sallustio no persuadir, Terencio no representar, Ovidio no fingir, +Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, Ulysses no tecer, Momo no +desdenhar; e todas as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em +afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para lhe assignarmos as +partes necessarias, fôra acertado pintar o avesso do embaixador, com que +só convém em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser baixo, vil, +desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, ingrato e soffredor de +todos os escarneos e zombarias, porque não só é de sua profissão +enganar, mas tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que seu +exercicio merece.--Muito cruel estais contra elles (tornou D. Julio) e +não tendes razão; quando vitupereis o seu officio, não vos esqueçais da +grandeza das partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e +encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, e convence como +um rhetorico: finge, disfarça, e representa com figuras, espantos, +meneios, e hypocrisias nos gestos, e palavras como um commediante: +pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia toucados, e +vestidos, e trata os rostos, e feições melhor que um pintor; sabe mais +da natureza das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o falso +por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, e achaques dos que +lisongeia, como medico; obriga, e engana no interesse, como legista; +adivinha os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo. Não +ha finalmente arte liberal, nem mecanica, de que se não valha, e em que +não vença a seus professores.--Ainda me parece (disse Solino) que haveis +de chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero commum de +dois, accommoda-se melhor ao feminino. E pois de embaixadores descemos a +criados, não é de espantar que tropecemos em tão ruim gente.--Parece-me +(disse o doutor) que de aposta quereis profanar a minha auctoridade; não +vos quero dar esse gosto á minha custa: e não passemos d'aqui n'esta +materia: e tambem porque é mais tarde do que parece, demos lugar a que o +senhor Leonardo se recolha. + +Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando e agradecendo +cada um ao outro o que dissera; que tanto se contenta o discreto da boa +razão alheia, como o nescio da sua ignorancia propria. + + + + +DIALOGO V + +DOS ENCARECIMENTOS + + +Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem aos interesses +d'ella: e era em todos tão egual o desejo, que nem a occupação de cada +um os desencontrava; porque o gosto, em que se enleva o entendimento, +faz menores todos os respeitos ordinarios da fazenda, e familia. +Entraram á noite juntos em casa do hospede com grande alvoroço, dando +cada um no caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam de gastar +aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem ainda no que seria, +disse D. Julio: Por certo, senhores, que estou tão enleado com uma coisa +que vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar ao decoro que +convém ao sujeito d'ellas; porque nos mancebos as palavras de mero +louvor de uma mulher, ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e +mais facil é de presumir um engano de affeição nos meus olhos, que de +persuadir um espanto a entendimentos tão levantados como os vossos. +Porém seja o que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; que +com todos, os que houver, me aventuro.--Que novidade é esta, senhor D. +Julio (disse Solino), que sermão quereis fazer, que tomaes a graça, e +nos tendes pendurados a todos no desejo de vos ouvir?--Esta manhã, +(proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar n'ella o dia, +com menos cuidado do desejo da noite, me fui pôr detraz da nossa serra +alongando-me para a parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando +sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de penedos, coberta da +sombra de uns altos hervados, e atoeiras, cheios de verde rama como no +melhor tempo da primavera, embaraçados com umas vides silvestres que os +atavam, e que ainda de todo não estavam despidas de sua folha, vi junto +a ella, e coberto com elles o mais formoso rosto, que eu imagino que +pode haver no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era de uma +mulher em habito de peregrina, que fiada na solidão d'aquelle deserto, e +por gosar dos raios do sol, que n'aquelle logar se espalhavam, com os +toucados lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava os +cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam perder ao sol a +formosura, mas cobrindo outro mais formoso, que era o seu rosto, +contentavam de maneira o desejo, que não fazia muito por passar d'elles +adiante. Eu sem atinar no silencio, com que era razão que me escondesse +por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido, que, afrouxando as redeas +ao cavallo, o deixei tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa +peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia os cabellos se +apartaram, qual sôa ferir o relampago d'entre as nuvens, me saltearam a +vista com uma luz estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de +ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos eram duas +estrellas de diamantes, em cujo fundo um verde escuro de esmeraldas +apparecia, que communicando áquella formosa côr a claridade dos raios, +que despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; e descendo d'elles +abaixo, era tudo tão cheio de perfeições, que o menor logar, em que se +empregava a vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca era um +laço de todos os pensamentos amorosos; e nunca vi coisa tão pequena, em +que coubessem tantas grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio, +que com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam como por +vidraça as perolas, que até então me não descobrira o pejo, com que +ficou de haver visto. A columna, que sustentava este edificio, era um +pescoço de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues muito delgadas, +que me representaram n'aquella hora a côr do céo sereno, que pela rotura +de duas nuvens brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o +circulo da sombra, com que se engastava no aspero burel da esclavina que +a romeira vestia: apeei-me eu; e n'este mesmo tempo lançou ella o +toucado sobre os cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; mas +como as suas madeixas eram mais compridas, que a toalha branca, com que +as quiz encobrir, se mexericavam pelos extremos das pontas, que vinham a +guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe com a +cortezia, a que a modestia, e gravidade do seu rosto me obrigava; e ella +sem mostrar outro alvoroço de minha presença mais, que vestir de +escarlata a branca neve de que parecia formado, me respondeu, +perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle o caminho. Eu, que +não perdia com os olhos um só movimento dos que os seus faziam, me +pareceu tudo o que tinha visto, sombra da graça e brandura com que falou +com uma voz tão fina, que penetrava o interior do coração, e tão suave, +que o desfazia, e com uma modestia tão grave, que não dava logar a se +pôrem n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito armado de +receios. Perguntei-lhe d'onde era, para onde ía, encarecendo-lhe o +perigo em que punha sua belleza de ser offendida, fiando-a de desvios +tão solitarios. Mas ella despresando todos os temores, e fazendo mais +difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe pendia, que pelos trances +que á sua conta se me representavam, deu a entender muitas cousas, com +que eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, e lhe +offerecer algumas das que costumam haver mistér os que fóra da sua +patria vem experimentar os males das alheias. E além de eu estar +atalhado com sua vista, o estava ella tanto com minha presença, que +perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não molestar: despedi-me +magoado: estou arrependido; e cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que +não aparto o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. E porque +ainda me parece que deve ser mais estranho o successo, que a traz +n'aquelles vestidos, que a novidade de sua gentileza, a que se deve todo +o cortezão tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor Leonardo que +por a melhor via, que lhe parecer, saiba d'esta estrangeira, que por +esta noite deve de estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia, +e eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.--Bem +andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) em tomar primeiro carta de +seguro para o que havieis de dizer; porque os encarecimentos d'essa +peregrina são mais pinturas vossas, que gentilesas suas; porque não ha +mulher nas obras da natureza tão perfeita cá na terra como a soube +fingir o vosso entendimento, ou affeição: e á conta d'ella me parecia +bem que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural, que em +materias de amor tudo o que reluz é ouro, e tudo o que assombra é sol; e +só com esta desculpa salvareis louvores tão desacostumados.--A affeição +do que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da peregrina +dizei o que quizerdes contra minhas razões, que nas suas partes hei de +achar armas com que defenda o que disse. Leonardo se offereceu então a +mandar fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando para Solino, que +tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós, callaes, quereis allegar +serviços ao senhor D. Julio, porque a vossa natureza não é deixar passar +esta mercadoria sem registo.--Estava agora (respondeu elle) cuidando nos +livros de cavallarias, que ha poucas noites que defendi; e desejava dar +um cavalleiro andante áquella peregrina; que se uma cousa d'estas +apparecêra a meu amigo Pindaro, que encantamentos não rompera, e que +poesias, e obras heroicas appareceram de novo no mundo, que alabastros, +marfins, marmores, crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por +esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este encontro mais +elegante do que se esperava; Pindaro, com sua licença, tem n'esta +materia mais direito adquirido; e não se houvera de contentar de descer +do céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas os archanjos, +cherubins, dominações e potestades haviam de ter logar n'elles. + +--Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos agora com +esta materia em desconto, e recompensa das passadas; e gastar esta noite +em saber a causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é +pensamento que já me desvelou em outra edade.--Obrigo-me eu (disse +Leonardo) que a nenhum dos presentes descontente a vossa escolha; e eu +particularmente estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do +Licenciado, que por hospede, estudioso e cortezão se lhe deve o +logar.--O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca importancia, e o logar +devido a outrem; mas com toda a humildade acceitarei o que me derem: e +se com a minha razão ficar corrido, barato é o saber que se compra com +primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos nascidos de amor não +devem parecer estranhos (por deseguaes que sejam) a nenhum juizo +affeiçoado; porque o amante para pintar a formosura de uma dama, que +satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente achará nas cousas +creadas a que a compare, que lhe fique parecendo que a encarece; porque, +ainda que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto como os +seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra menos com a claridade de +sua luz, que com vêr o rosto de quem ama; e são de menos valia para seu +gosto e desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, que o +riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e de não imaginar na terra um +amante cousa que se eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario +de a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento, subindo +com elle pelas gerarchias mais levantadas: a causa é, porque o amor faz +as cousas tão formosas a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza +que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que engrandeceu a muitas +d'ellas: que até do gosto, como diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor +é saboroso; nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave: que +não sómente com seus poderes dá perfeição ás cousas, mas tambem as +converte em outra substancia.--Não estou contra a vossa razão (acudiu +Leonardo) mas parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, que +todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos limites; porque, em +descendo da pedraria, os que são menos lapidarios empeçam em coral, +marfim, porfido, alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, a +paixão de amor não havia de guardar regra certa nas palavras, e +louvores, antes encarecer sua dama com as cousas que a seu gosto e +opinião sejam mais formosas; e como as affeições são tão differentes, +assim o seriam os gabos, e encarecimentos.--Para louvar (replicou +Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter affeição; porque logo +daes com uma estrada Coimbrã, que é _tão bella como o Sol_, _tão clara +como a Lua_, _tão alva como a neve_, _tão loura como o ouro_; e d'aqui +adeante.--A mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado, que o +doutor tinha geito de metter os louvores de uma dama em exemplos +caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim, +clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e como os amantes +para encarecer se não contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser: +todo o branco é crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde +esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; e até as mães +dos meninos, a que naturalmente tem excessivo amor, não lhes sabem +chamar pouco: quando os tomam nos braços, logo os intitulam de _meu +duque_, _meu marquez_, _meu conde_; nas pedras _meu diamante_, e nas +flôres _meu cravo_, e _minha rosa_: quanto mais louvando mulheres, a +quem todo o encarecimento fica curto, e envergonhado pela fôrça, com que +tem captivos os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas. E +para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente n'este particular.--Os +encarecimentos, de que usam os amantes (disse Pindaro) menos são seus, +que adquiridos dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os +escriptos em suas obras: porque, como retratadores das obras excellentes +da natureza, buscaram tão altivos materiaes para darem vivas côres á +formosura. E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra, lhe +accommodassem côres, e attributos celestes, quando para pintarem cousas +do mesmo céo usam tantas vezes de semelhanças, e encarecimentos da +riqueza da terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos de +lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de topazios, jacintos, +e esmeraldas; e o mesmo fez pintando os pavões, que no céo levavam o +carro da Deusa Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano +Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente, e levantada, e por +tal escolhida das Sibyllas, e Oraculos para usarem d'ella, tambem +fizeram os amantes a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda +consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e settas de Cupido, +com todas as mais allegorias, e transformações que os poetas usaram.--A +verdade é (disse o doutor) que a perfeição da formosura animada se não +pode devidamente encarecer com alguma semelhança, que o não seja, porque +todas lhe ficam muito inferiores: o que declarou bem uma dama +Florentina, que perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de +mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor d'aquelle tempo; +ella, sem responder com palavras, fez que uma creada sua formosa e bem +proporcionada, despisse em si as partes, que a figura mostrava núas; e +logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, e valor que +d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico da formosura, que declara +engenhosamente este pensamento: a figura do qual era uma mulher com a +cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas rodeado de um +resplendor, que o não deixava vêr distinctamente; na mão direita um +lirio, e na outra um compasso; significando com a cabeça mettida no céo, +e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia encarecer, fazendo +impedimento á vista humana como raios derivados da belleza Divina; o +lirio denotando a graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza foi +sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, proporção, e +correspondencia dos membros, em que consiste toda a perfeição d'ella. +Mas Pindaro tudo quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem +pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem entrar os +desvarios dos namorados, por serem muito eguaes o furor poetico, e o +amoroso. Porém, já que os encarecimentos estão approvados com tão boas +razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que vivem, morrem, e +ressuscitam a cada passo, e que andam sem almas como cantaros, e sem +coração como furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de amor +vive exceptuada das leis da natureza.--A razão (respondeu Feliciano) é a +mesma; porque quem encarece a causa egualmente exagera os effeitos: a +pena de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança é o maior +tormento da morte ao que ama; e um favor e brandura, que recebe em sua +affeição, é na sua estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de +viver sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente um poeta +moderno, dizendo em um soneto á sua dama, da qual estava ausente, que +uma parte da alma, com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava, +entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra cousa os +desvarios, e desattentos dos que amam, senão viver em certo modo fora de +si, como pareceu a Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde +o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da cousa amada ficam com +elle.--Tambem S. Jeronymo (accrescentou o doutor) escreve que o amor da +formosura é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas ao amor, +inimigo d'ella. E que maior exemplo se pode imaginar d'esta verdade e +mudança dos que amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de Lidia +acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe os anneis dos dedos, +ella com a corôa real na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu +d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o de Dionisio +Syracuzano, que por mão, e parecer de Mirta sua amiga despachava os +negocios importantes do seu reino? que mais extranho, que o de +Themistocles Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado de uma +dama, que captivou na guerra de Epyro, usava em uma doença, que sua +amada teve, dos mesmos remedios que lhe a ella faziam, tomando as +purgas, e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto por regalo, e +gentileza com o seu sangue d'ella? que menos crivel, que o de Lucio +Vitelio Imperador, que namorado de uma filha de um escravo seu, a quem +libertara, de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma esquinencia, +não usava outro remedio mais que um unguento que fazia de mel com o +cuspo de sua dama, imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar +saúde untando com elle a garganta?--De maneira (disse Leonardo) que amor +tira os sentidos, e o juizo a quem se emprega todo em seus cuidados: e +eu tinha para mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser bom +namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa opinião, pois os que +amam não tem entendimento.--Só o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser +amante, e por isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal +poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais ao ponto da vossa +duvida, o amante pelo ser não fica nescio, mas parece-o em muitas acções +dos sentidos, e entendimento; porque, transportado na imaginação do que +ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.--Extranhamente (accudiu +Solino) me contenta ouvir esta razão para desculpar commigo os maus +successos de namorados, a que não sabia tão boa desculpa; que assás +grande é para esquecer cousas menores quem está fora de si: porque, +deixados esses exemplos de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e +mais notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram o +entendimento; de outros de menos estofa, e mais modernos sei eu +descuidos, que podiam entrar em historia n'esta occasião, e por me +aproveitar d'ella: Eu conheci um cortezão mui empenhado em finezas de +amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama em um quartão, que +já aturava aquelle fadario todos os dias como em atafona; acertou +n'aquelle a ser mais favorecido da senhora, que de quando em quando lhe +apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado mancebo, que por +seguir a caça se esqueceu do tempo, e das horas de comer, mettendo-se +pelo certão da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não devia +de estar tão affeiçoado a aquella estancia como á sua costumada, +estancava muitas vezes do passeio, sem haver accordo nem espora que o +despertasse; até que uma vez, estando o amante parado com o ponto no +alvo da janella, acertou a passar um macho que levava uma rede de palha, +a que o rocim se arremessou com tanta furia, que, prendendo os copos da +brida nos laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao quartão +enamorado por todo o terreiro, onde se resentio do rapto, sem se poder +valer contra os couces do macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito +padecer d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia sua +liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor não era armado +cavalleiro, passeava a pé á vista de seu cuidado, ora com os olhos na +janella, ora com o tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a +dama, que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas, +porque não notassem os que passavam os meneios, e esgares que o mancebo +fazia, acenando-lhe se tirou do posto passando-se a uma janella mais +pequena que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: o galante mais com +o tento na mudança, que no caminho, com os olhos no alto, deu com a +testa um grande encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em um +monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado á parede, ficando +até os sendaes mais caiado, que cantareira d'Alfama.--A todos pareceram +os contos de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre sahe o +amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho por grande desar todo o que +succede á sua conta, que por isso o pintam cego, e são conhecidos por +taes os que o servem: porém a mim me parecia que quando o amante perde o +tento, e o sentido de tudo o mais, devia ficar só discreto, e avisado +para sua dama, que é o objecto em que todo se emprega; que para lhe +falar lhe sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos de +subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia acho o contrario, que dos +noivos, e dos amantes se contam as primeiras parvoices.--Não sei (disse +Solino) se dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados dos poetas, +como os encarecimentos.--Os poetas (respondeu elle) não são havidos por +parvos; e quem lhes quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que +poderia ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os amantes com +affeição, como os poetas com o furor divino que os excita, aprenderiam +d'elles. Pelo que o vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses +primeiros erros são de outra geração; e nenhum parentesco tem com a +parvoice. Antes é um modo de se atalhar, e suspender um homem o seu +entendimento com muita razão; porque não pode dizer cousa, que pareça +bem aos outros a primeira vez que fala com aquella a quem ama; que é +passo, onde os mais discretos o perdem.--Parece-me que está no certo meu +companheiro (disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre os outros +podiam falar sem medo, terem-no muito grande a estes primeiros +encontros; que certo me parece mais respeito que se deve á formosura, +que falta que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o verdadeiro é +que amor o apura, e engrandece; e por este respeito os Athenienses lhe +levantaram uma estatua na Academia de Palas como a sabio, e lhe +dedicaram uma escola os Samios, significando que só na de amor se +alcança com perfeição tudo, o que pelas do mundo variamente se aprende, +e com muito discurso de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição +no escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, a graça no +parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade no dispender, o esforço +no pelejar, a largueza no jogar, a humildade no servir, e a pontualidade +no merecer. Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao mundo as +emprezas discretas; as chimeras escuras, as idéas levantadas, os motes +avizados, os versos excellentes, os enredos subtis, as cartas galantes, +as fabulas bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas tudo é +doutrina tirada das escolas de amor. E pois n'ellas se alcança tudo, não +é muito que se ache tambem um termo de falar encarecido, e levantado +sobre todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o juizo d'este +acerto se não deve fazer por homens livres d'esta paixão amorosa, se +pode haver algum, a quem não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem +outros exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em todas as +partes de côrte e gentileza pode servir de espelho aos mais +apurados.--Vós me obrigaes por tantas vias (respondeu o fidalgo) que +fico desconfiado de poder pagar nem com encarecimento do que mereceis, +nem com a restituição dos louvores injustos que me daes, que só são +devidos ao vosso entendimento. E pois a victoria d'esta batalha ficou +por elle em meu favor, quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me +deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido o repouso da +noite.--Essa resolução (disse Leonardo) é em damno de todos: e muito +mais de sentir, porque á força nos obrigaes a que consintamos n'elle: +mas como em logar de preza trouxestes da caça empreza tão difficultosa, +poupaes horas para cuidar n'ella á nossa custa.--Antes (respondeu elle) +para reformar no somno as que me desvelei na madrugada. + +A isto se levantou; e os mais dando boas noites o iam seguindo, e disse +para todos Solino: O senhor D. Julio vae a sonhar com aquelle thesouro +encantado que lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer +companhia; que se a communicação dos bens de amor faz muito maior a +gloria d'elles nos contentes; aos que só o estão de seu pensamento +nenhuma cousa é mais agradavel, que saudosa lembrança. + + + + +DIALOGO VI + +DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA + + +Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia por saber algumas +novas da peregrina, que D. Julio tanto encarecera a noite passada; e não +achando d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento. +Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de Leonardo, a tempo que tambem +o fidalgo apparecia, e que o velho os vinha a esperar ao peitoril da +escada com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de edade, +pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi logo conhecido por ser +prior de uma egreja que perto d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o +entre si com a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de sua +saude; como estavam com o desejo de tirarem a terreiro a D. Julio, +fizeram signal a Solino que começasse; porém Leonardo não deu logar á +boa vontade que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.--Bem cuidava +eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella formosa peregrina era +encantada, e que foi traça do vosso entendimento fazer a todos +cavalleiros d'essa aventura; porém a mim só a encommendastes; que pela +edade pudéra já estar aposentado para tal empreza; eu a tomei por vos +obedecer, e andei bem cuidadoso no seguimento d'ella, sem até agora +atinar no caminho, em que vos perdestes.--Minha foi só a desgraça +(respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os mais o credito do que +disse, e para meu desejo a gloria do que pudéra tornar a vêr em sua +formosura.--Essa levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino) +que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar a pouzada d'esta +aldeia.--Parece-me (accudiu o prior) segundo o que vos ouço, que nós +podiamos mostrar o jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar, +e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem appareceu na nossa +aldeia, de cujos successos, e formosura se podiam contar grandes +extremos; que já pode ser que seja a de que falaes. + +Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados, e D. Julio +contente; e Leonardo respondeu ao prior:--Não imaginei que tinha tanto +bem junto com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella não +fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada, que com tão boas +novas: pelo que vos peço que as não dilateis, contando-nos mui +particularmente d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos +que aqui estamos, como agora pendurados os olhos, e ouvidos do que nos +haveis de dizer.--Hontem á tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o +sol se ía encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando com a +obrigação da reza à vista da egreja; veiu fazer oração á porta d'ella, e +d'alli ter commigo uma mulher em habito de romeira; que se a minha vida +merecera a Deus que mandasse a algum anjo falar comigo, podera imaginar +que ella o seria; porque a sua belleza passava os limites do +encarecimento humano, e com uma voz, que respondia bem á honestidade do +seu rosto, e á humildade do seu trajo, me falou (posto que em lingua +estrangeira) de modo que se deixava entender mui sem trabalho: +perguntou-me se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa de caridade +d'aquella terra, em que passasse a noite, e pela manhã guia de confiança +para ir ter á cidade, offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a +encaminhasse. Eu, que no merecimento de sua vista achei que era pouco +tudo o que lhe podia offerecer, fiquei enleado; porém lhe disse: +Senhora, esta terra é muito pequena; e para o que vós representaes, +outra maior me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta +edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas, que vos saberão +servir melhor que as naturaes da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a +pousada, qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis, +supprirá a vontade que é muito grande. Ella me deu as graças do +offerecimento com poucas palavras, mostrando que o acceitava: vim com +ella a minha casa, onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo +que as moças tinham de se estarem revendo nas graças da sua belleza. +Depois da cêa, em que a peregrina fez pouco damno, lhe pedimos nos +contasse a causa de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter ao +nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro, entre algumas lagrimas, +e com tão discretas razões, que as não saberei eu agora referir com a +perfeição propria (posto que algumas palavras eram de linguagem alheia) +contou o seguinte: + +Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal de seus estados, no +maior enleio, e dissensão dos principes d'ella, que com a differença, e +variedade das erradas seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham +em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci de generosos +paes, tão mimosa dos afagos, e enganos da fortuna em meu principio, +quanto depois a senti esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não +tiveram meus progenitores outro fructo, em que empregassem o amor +paternal, (que faziam notavel excesso á qualidade de seu sangue) mais +que a mim, que com esta boa sorte era invejada de todas as de minha +edade, e pertendida dos mais illustres mancebos de toda Irlanda. No +melhor de meus tenros annos, que a estes costuma morder sempre por +varios modos a inveja venenosa da dura parca, de uma arrebatada +enfermidade perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha não +provara outros males, senti este primeiro com grande pena: mas como a +sorte m'o ordenara para ensaio de novas desgraças, depois de me ter +encetado o soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae, e senhor, +a quem muito amava, e fiquei mettida entre parentes cubiçosos de minha +herança, e amantes fingidos, que obrigados das riquezas d'ella me +procuravam por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam, pouca +vontade; e grande obrigação de tomar estado conveniente aos respeitos de +minha nobreza. E como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser +altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a prosperidade) puz o +pensamento em quem com despreso, e ingratidão castigou minha arrogancia: +havia n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por descendencia +ao sangue real de Bretanha, cheio de muitas graças da natureza; que, +ainda que me era muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens da +fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o pretender. Alcançou +elle d'isto alguns signaes, que teve em pouco; não advertindo que a +vontade de uma dama sempre põe em divida a um espirito generoso, que +conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu já de minha +pretenção poucas esperanças, o elegeram os da ilha de Lister, Ragrim, e +das mais da parte oriental de Irlanda, por capitão de uma armada de +corsarios, afim de fazerem uma preza muito importante no mar Oceano: e +como ás vezes o castigo dos maus intentos é a mesma fortuna, (posto que +outras como cega os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta, na +qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou do miseravel +naufragio se salvou em uma enseada, onde foi captiva de um turco +corsario, que a levou a Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou +o seu general conhecido por quem era; e como o sangue, d'onde descendia, +junto ao cargo que levava, o faziam de mór preço para os que o +captivaram, ficou impossibilitado o seu resgate, e elle sem remedio +n'aquella prisão alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella me +aconselharam que de novo emprehendesse o de que com seus despresos +desconfiara, mandando-lhe offerecer liberalmente meu dote para resgate +de sua liberdade. E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta +lembrança, tendo por menores grilhões os que de novo lhe punha, que os +que elle trazia, aceitou a offerta, e me mandou em satisfação um +escripto, em que me jurava por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em +execução o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas, que +tinha, pela honra e contentamento, que d'aquelles desposorios esperava. +Tornou livre á sua patria, e mudou de improviso a tenção que fingira +para alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe o mundo +esta crueldade: e os meus vendo-me sem dote, e sem marido, e, o que o +havia de ser, tão ingrato, e na opinião de todos tão culpado, me levaram +a o demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde, depois de +convencido, me foi julgado por devedor, e por esposo. Mas como a minha +vontade não era que elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais +conveniente para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e, depois +d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes que o tratavam; o +dia, em que se havia de desposar comigo, cumprindo por sentença a +palavra que me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua um papel +em logar da minha, que era quitação plenaria de tudo o que por elle +déra, e juntamente do que elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo +para castigo de minha altiveza a humildade da religião mais apertada. +Fez isto em toda a ilha grande espanto; e eu com o resto, que do meu +dote ficára, aborrecendo a patria como a madrasta, determinei logo +buscar em reino alheio segura morada. E porque a fama da religião +portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde muitas religiosas do +illustre sangue de Bretanha vivem santamente em clausura, me trazia mais +affeiçoado o desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o maior +cabedal do que possuia a quem até á minha chegada o detivesse; e eu como +tive a certeza de este dote mais necessario estar seguro, fugindo ás +affrontas, e odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que me +ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza, e visitei a casa, e +sepultura do glorioso apostolo Santiago; d'onde caminhando por terra, +livre já dos enredos de minha ventura, não pude escapar á cobiça dos +criados que me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam, e pouco +affeiçoados da catholica que professava á sua vista com tanta firmeza, +me roubaram as joias, o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios +desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça, por ser a que me tomou +com a paciencia quasi rendida aos trabalhos da viagem, que venceram o +descostume e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só na confusão +d'estes caminhos: porém se pelos que parecem tão errados me quer Deus +guiar ao mais seguro, eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle, +senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis, que, ainda +que vos dê cuidado, me mandeis d'aqui em companhia de confiança, até +onde d'aquellas bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á sua +vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós pagará o céo este +trabalho, e a estas senhoras o amor com que favorecem o meu desamparo; +que a maior consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é saber +que a todo o tempo, que se acolherem a Deus, acham n'elle brandura; e +que tem á sua conta pagar largamente as boas obras, que no decurso de +seus trabalhos receberam. + +Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios de agua, com que +orvalhava de quando em quando as rosas do seu rosto; e a nenhum dos que +alli estavam faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado que +buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o que vos roubou a +ventura, muito era para sentir a que vos offende. Porém como o caminho +dos que Deus escolhe é tão differente do que seguem aquelles que lhe vão +fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que saber que vos acompanha +nos trabalhos presentes, e vos ha de dar o galardão e premio de todos: e +para que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me offereço ao +remedio dos que ficam até tomardes logar n'essa clausura. Lisboa é terra +grande; e a muita confusão da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e +vós é razão que com a decencia e commodidade, que vossa pessoa e +qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo que, se quizerdes descançar +com estas minhas parentas, e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á +cidade, e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me agradeceu a +estrangeira com muito boas palavras, mostrando tambem nas côres do rosto +signaes de obrigação. E hoje, antes da minha partida, me fez uma +lembrança do que por sua parte havia de perguntar. No caminho me atalhou +a jornada uma occasião forçosa, que me fez passar a noite tão perto de +casa como vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar: pois, além +das mercês do senhor Leonardo, goso a conversação de tantos amigos e +senhores, que é fim, a que se podiam dirigir outras jornadas +maiores.--Já agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus +extremos; pois nos que disse o senhor prior da peregrina ficam +acreditados; e passam as suas obras tanto adiante das minhas palavras, +que deixa a sua egreja e familia para por a servir no que eu nem ainda +me soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara, andando á caça, +a mesma estrangeira, e o que n'aquella conversação tinha passado sobre +os louvores, com que elle quizera pintar sua formosura.--Nenhuns lhe +podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores encarecimentos +devendo muito á verdade: e o maior espanto, que eu achei nos de sua +gentileza, foi que, sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que +sobre obrigações tão forçosas a despresasse.--Isso (tornou D. Julio) não +tenho eu por espanto; que d'esse modo se costuma vingar a sorte da +naturesa, quando na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais se +me representa a mim que seria o homem nobre, e sem entendimento, como ha +muitos, pois fugiu de tantos e tão poderosos attributos, como eram +formosura, riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos +empregados em seu favor.--E a mim (acodiu Solino) me pareceu ingrato, +mas discreto, fugindo o jugo de uma mulher que lhe ficava sendo duas +vezes senhora, uma pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a +divida, e preço de seu resgate.--O meu voto é (disse Pindaro) mui +differente; antes julgo que o que o homem aceitou por necessitado, veiu +a enjeitar por cubiçoso, vendo que se dispendera com sua liberdade o +dote que dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara de o +ser, se fôra tão rica como no principio, em que o libertou; porque a +cobiça e o amor são grandes competidores.--Não me descontentam as +opiniões (disse Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois +inimigos do socego humano, seja a questão e a materia da conversação da +noite á conta d'elles. E perguntou ao doutor, qual dos dois é mais +poderoso, e obriga os homens a maiores extremos? + +--Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor) á experiencia, e +tomar os successos do mundo por argumento, com poucas porfias se +manifestará a verdade da vossa pergunta: mas tratando primeiro das +razões, vejamos em que se parecem, e os poderes em que os antigos +igualaram o amor, e a cubiça; que de ambos deixaram jeroglificos, e +figuras. Pintaram pois ao amor menino, formoso, com os olhos tapados, +despido, com azas nos hombros, e armado de arco e settas: menino, por +facil e fagueiro; formoso, porque a belleza é o objecto dos amantes; +despido, porque se não póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a +razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel; armado, por forte, +poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a mulher, despida, com os olhos +tapados, e azas nos hombros. Despida, pela facilidade com que por seus +effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum respeito humano em +rasão do que deseja: com azas pela velocidade com que segue aquelle +objecto, que debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim que +só nas armas, e no sexo feminino achamos na pintura differença: porém se +considerarmos os effeitos da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as +quizeram cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas armas; +porque se amor é forte e poderoso, e vence a tudo, como disse o poeta; o +mesmo confessa que a todos os extremos fórça, e obriga a sede do ouro +aos humanos; se a amor como a poderoso o fingiram Deus cruel, como diz o +poeta Seneca; não só a cubiça é Deus do avarento e cubiçoso, mas o mesmo +ouro que deseja, como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam cruel +pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes, mais reinos assolados, +cidades destruidas, e damnos immortaes se fizeram no mundo por cubiça, +que por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que se póde provar +esta verdade, vejamos em seu nascimento que coisa seja amor humano; e o +que é cubiça. A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio +maravilhosamente um doutor grego, que disse que amor era um desejo +irracional, que facilmente se emprega, e com grande difficuldade se +perde. E da cubiça escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra da +medida certa, que ensina a razão; que não tem modo, nem fim. É certo que +cada um d'elles podia trocar com o outro esta definição, sem ficar +enganado; porque o mesmo é excesso de um desejo irracional, que appetite +fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve em se empregar, e +deixar-se com difficuldade, que não ter modo, nem fim. Mas posto que na +pintura, e nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça são com +mais força, e vehemencia, que os do amor; porque, se faz cego o amante +para perder o lume da razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece: +e o cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para se abaixar a +todas as infamias, a que se sujeita o interesse: se o pintam despido +para se não poder encobrir, com mais vergonhosas mostras se pinta a +cubiça: o que na mesma pintura de mulher está declarado. Se é ligeiro o +amor para se empregar, com tudo busca sempre a formosura como objecto +seu, e obra a que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega nas +mais humildes e indignas coisas da terra, como d'ellas possa tirar +fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava bem o dinheiro que cobrava das +immundicias de Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito atraz +ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as entranhas da terra, e chegar +á vista do inferno por tirar ouro: descer ao fundo do mar por buscar +perolas, descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e barbaras +gentes para adquirir commercios, obras foram de cubiça, e não de amor, +como tambem o foi a navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro +começou: e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras que a cubiça, +pois elle ao amante offende com suavidade amorosa, e aos estranhos com +animo compassivo tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça, +que mata no mundo mais homens em um só dia, que o amor em muitos annos. +Assim que a meu ver em competencia, ella tem mais poderes, e na +semelhança se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas com tal +differença, que elle ama a formosura humana, e a cubiça a riqueza. + +--Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento faça tão grande +aggravo ao amor, como é igualar com elle a cubiça: porque quando em +poderes tenham grande semelhança, na nobresa e nascimento tem muito +maior desegualdade; que posto que o amor considerado como appetite +carnal seja excesso de um desejo fóra da razão; significado como +affeição humana, é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas em +uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor tão natural a todos, +que é defeito e torpeza não saber amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo +contrario Aristoteles chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O amor +nasce tão nobremente, que tem por objecto a belleza humana, e os dotes +naturaes mais excellentes como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e +assim diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com amor mal +intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento, e appetite +preternatural, sempre é mal nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim +que sejam os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes; são as +naturezas de ambos mui differentes.--Parece-me, senhor doutor (disse +Feliciano) que aquella razão ha de achar muitos votos contra o vosso, +porém eu por me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle, nem +hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado da doutrina de ambos +accrescentarei o meu pouco, mettendo-me entre tão boas partes pela de +amor; e digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes no poder, +no que é amar são em tudo deseguaes, porque não se ama a coisa que pelo +que é, e por amor de si propria se não ama; e menos se póde amar a que +se não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do cubiçoso, que se +emprega em coisas que por si não merecem amor, e em outras, de que não +tem nenhum conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita a nossa +vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e por essa a desejamos unir +comnosco, por natural appetite: mas empregar a affeição no dinheiro, e +no ouro, que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle se alcança, +não póde ser amor. E menos o será amar o que ainda não conhecemos, como +faz o cubiçoso a muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas +espera. E não tratando ainda de que o amor não se considera só no que +ama, senão tambem na coisa amada; e que falta correspondencia, sendo +essa insensivel: o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e +este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua temerosa côr o +cativara, nem d'essa o deixa usar o seu cativeiro. D'onde veio dizer o +poeta Horacio que o ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram +segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe podem chamar +desenterrado: nem com a voz deleita os ouvidos, nem com a suavidade do +cheiro recrea, nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz. Diga-o +Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como lhe ficou por mantimento, +perecia na abundancia do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a +el-rei Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que achou na ceia que +sua mulher lhe ordenára: o qual com sua demasiada cubiça não dava lugar +aos seus cidadãos de se empregarem em outro trabalho mais, que em +beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina muitos d'elles miseravelmente +pereciam: pelo que, vendo as matronas da cidade tanto damno, foram +juntas pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de tão grande mal, +rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe que désse aos seus melhor +tratamento: e ella, a quem não faltava entendimento, nem piedade, +conhecendo que era vão vencer com rogos a sua cobiça, ordenou a Pithio +uma ceia esplendida em um dia de festa; na qual todas as eguarias, que +lhe deu, eram formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira +vista, e com a magnificencia do apparato, com que lhas apresentavam: +porém quando pelo discurso do banquete não viu nenhuma de que podesse +comer, perguntou pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas que +eram fingidas. Como (respondeu então a sabia matrona) queres que te +apresente outra comida, se só no cuidado da que tens deante occupas a +todos teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem se cultivam as +arvores, nem se pescam os rios, nem se caçam as aves, nem se criam os +animaes, pelo exercicio continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com o +fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou em alguma parte +sua demasia. + +Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador da Tartaria, que +vencendo, em Baldaco, o Califa mestre da seita Mahometica, que era o +mais poderoso rico, que então havia no mundo, vendo que, por se não +ajudar de suas riquezas, e as não despender em soldo, não tivera +resistencia contra o exercito dos Tartaros; depois de captivo o mandou +metter em uma camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha, +sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo que d'aquelle comesse á sua +vontade: e assim entre a grande abundancia de suas riquezas o miseravel +Califa morreu de fome. + +Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto, nem deleitar sentido +senão com o engano do que com elle alcança, como póde ser capaz de amor? + +--Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não o seguistes: e eu +ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade, me hei de valer da +primeira opinião que propoz, e é que o amante e o cubiçoso não differem +mais no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo em uma opinião +moderna, que tem por si muitas auctoridades antigas; e é que nenhuma +pessoa ama mais a outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se +primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce o desejar e amar +as coisas a que se affeiçoa, e inclina mais a sua natureza: amo isto, +porque me parece bem, e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo +tudo o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por isso chamaram ao +amigo uma alma em dois corpos, e, como diz o proverbio, _o amigo é outro +eu_; quero-lhe tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha alma +unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo se hade egualar no amor +com o que cada um tem a si: logo tanto quer e deseja o amante o objecto +da belleza, em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que quer para si. +E quanto á objecção de que o ouro senão ama pelo que é, senão pelo que +vale, e por o que com elle se compra e alcança, os vossos mesmos +exemplos dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro antes +perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a que quer mais que a ella; e +antes perece á fome, que satisfazel-a com dispender o que tem em mais +estima que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que todos os +outros; como Lucilo conta de um avarento chamado Hermones, que, sonhando +uma noite que gastara certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua +paixão e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou. E assim diz S. +Jeronymo que tanta necessidade tem o cubiçoso do que possue, como do que +lhe falta, pois lhe falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar +que só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás o é mais, +que todos, o que tudo deseja; e possuindo mendiga, e padece como se lhe +faltára. Logo certo é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle +se compra; pois o não quer para comprar, senão para o possuir. E +respondendo á deleitação dos sentidos, que o amor humano offerece, e na +cubiça falta, ousarei a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor +ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece; e que é mais suave +a seus ouvidos o rumor, e tinido do dinheiro, que a brandura de todos os +requebros, e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para elle é egual +com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se entre o mesmo dinheiro: o +que se póde ver com grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o +Imperador Caligula, que, depois que a muitos obrigou que o instituissem +por herdeiro, aos quaes, depois de testarem, fez matar com peçonha +(rindo-se de haver homem que quizesse viver mais depois de haver +testado) atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos os +vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava despido entre o +dinheiro, que d'estas infames obras procedia; e, dando sobre elle mil +voltas, tinha em menos conta todas as outras delicias, que os homens a +preço do dinheiro procuravam. Certo é logo que o ouro ama, e a elle +quer, e com elle se deleita o avaro e cubiçoso; que, se o desejára para +o empregar em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome, e +podera merecer o de rico, prudente, e liberal: porque o ouro, e as +riquezas, como diz S. Leão Papa, não são boas de si, nem más; mas o bom +ou mau uso d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue: e assim +não é rico o que muito tem, senão o que com o que tem se contenta: e não +ha maior pobreza, que, por empregar o desejo em um baixo metal, que sem +bom uso não presta, deixarem os homens o muito que com sua valia poderam +adquirir. + +--Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre; Leonardo, que a +levantou, deixou-se ficar no covil; e eu fiquei atrás dos galgos sem dar +um brado; farei muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos. +Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito na grandeza e poderes +da cubiça é errado, e que se haviam de attribuir ao ouro, e não a ella. +E tratando da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar com +o amor, tenho por mui errada a declaração d'ella: e posto que seja +contradizer a tão grandes entendimentos, a hei de explicar ao meu modo, +que me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua fraqueza; pois é +tal, que se rende a qualquer pequeno, e vil interesse; despida como +desavergonhada, por quão sem respeito, nem moderação se atreve a +commetter qualquer infamia; com azas por a ligeireza, com que se +arremessa a qualquer preza como ave de rapina; cega por pedinte, +mendiga, e importuna: e se isto não é, venho a presumir que a fingiram +com o rosto de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na +etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e condição do cubiçoso: +e assim como a harpia damna, e descompõe todos os manjares a que chega, +assim a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo que me parece +que nenhum parentesco tem com amor, que na nobreza é tão desegual, e +pelos louvores de sua excellencia tão conhecido. O a que se podera +voltar a nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a tratar dos +poderes do ouro, e da valia do interesse, que já nos tempos antigos, e +no prezente de agora póde tanto, que obrigou a dizer a um auctor que +esta é a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia os animos +dos homens. E viera isto mais ao proposito da vossa peregrina, que com +elle e sua formosura não pôde vencer a um coração ingrato.--A mim me +parece (respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão se a não +guardareis para tão tarde: porém em a noite d'amanhã se lhe fará +justiça; que n'esta é rasão que se dê ao hospede lugar conveniente para +o repouso, pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.--Por não mandar +em casa alheia (disse o prior) não defendo a minha parte; mas prometto, +se voltar a horas que possa passar a noite tão bem como esta, de a não +perder. + +Então se levantaram os mais e se despediram; e o prior gastou muitas +palavras em manifestar a Leonardo a inveja que tivera d'aquella +companhia: ao que elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da +peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a boa conversação é +manjar da alma, a vista de uma estranha formosura, que rouba as de +todos, tem muito maior poder sobre o desejo. + + + + +DIALOGO VII + +DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE + + +No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram para o seu costumado +exercicio, se apeava o prior no pateo de Leonardo; que o desejo que lhe +causara a noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade. Foi +recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do bom successo de sua +jornada, lhe disse Solino:--Agora vejo que roubou a ventura a empreza +d'aquella peregrina ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr +por nos ouvir.--Antes vereis (respondeu o prior) quão poderoso é o ouro, +que até para ouvir falar n'elle deixo a propria casa, e n'ella a vista +de tão extremada formosura.--Não sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro +que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião como avarento, pois +que vindes com esse titulo de cobiça enriquecer a todos, e a esta +casa.--Vós (respondeu elle) me individaes para me empobrecer com a mercê +e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o meu erro é dourado +para contentar os cobiçosos, quando pareça a Solino culpa deixar a vista +da minha hospeda pelo interesse da vossa conversação.--Não é só elle o +que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós deixardes me queixo, +ainda que de a acompanhardes tinha ciumes.--Só esses faltavam (tornou +Solino) para a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este se +batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre, porque a dos +comprimentos é a mais corrente de todas. Porque o maior mal que o avaro +faz ao ouro, é impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra, +podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas, que para +isso imagino que se inventaram as cadeias e grilhões de ouro, que d'elle +servem para ornato, e dos outros metaes para castigo.--Não me +descontenta essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro quando sahe +da mina, antes de o pôrem em seus quilates, chamam os artifices _ouro +bruto_, quanto com mais razão merece este nome o que o avarento tem +escondido e fechado? E a este proposito me cabe contar uma historia que +li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo que callei a noite passada, se póde +descontar o que agora disser. + +Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares d'ella, um honrado +pae de familia, nobilissimo por geração, rico de bens procedidos da +herança e nobreza antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes, +e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que mais parecia +dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua +mocidade um filho tão industrioso e experto nos negocios de mercancia, +que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle +guardava com tão solicito cuidado, como costumam os que com cobiça e +trabalhos o adquiriram: e era notavel espanto aos naturaes verem em um +velho a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a avareza e +tenacidade de velho. O pae, que o via responder tão mal a suas +inclinações, e que já com a edade e continuação de gastar largo, estava +menos rico, muitas vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que +conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados; e +não degenerasse d'elles, por seguir a villeza do interesse: que usasse +das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o creára, e +honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos +e parentes; benigno aos pobres e se não captivasse ao trabalho de +enthesourar riquezas sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar +a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam os paternos rogos em +sua má natureza. Succedeu que o senado d'aquella republica por a +nobreza, e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que +mostrava, o elegeram em companhia de outros para ir com uma embaixada a +Roma ao Summo Pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasião ao +que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas, +com que entrou na camara do filho; e abriu os cofres em que aquelle +inutil thesouro estava depositado; e com a brevidade que o desejo lhe +pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré a seus +creados; comprou ricas armações e baixellas; encheu a estrebaria de +cavallos formosos; fez esmolas a muitos pobres; acudiu em occasiões a +parentes e amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata e ouro que +o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira em que elle, quando +florescia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos +em que antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo na mesma +ordem em que o filho o deixára, tornou a fechar os cofres e as casas +como d'antes. Tornou depois o filho da sua embaixada: e os pequenos +irmãos o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, e com +o magnifico apparato de que então usavam. Vendo-se o irmão rodeado +d'elles ficou confuso; e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão +ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles com uma +simplicidade innocente responderam que seu pae e senhor vivia com +differente largueza da que d'antes tinha; e que outros trajos e cavallos +de maior preço lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a +ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixára: e +como n'esta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita +pressa aonde o tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e +vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que elle os deixára, se +aquietou, porque não dava logar a mais vagarosa experiencia a pressa com +que os companheiros o chamavam, e o senado o esperava. Depois que deu +fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu que fosse tão custosa) +fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os saccos, em que +lhe parecia que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano da areia e +seixos que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e +brados. A que primeiro, que todos, acudiu o generoso velho, +perguntando-lhe que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? Ai de +mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, que com tantos trabalhos, +e em tão largo discurso de annos tinha grangeadas. Como é possivel que +te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres e saccos cheios, +que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? Ai +triste de mim (tornou o filho) que o de que elles estão cheios, não é do +ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora mais que pedras e +areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer +mudança: Ah! enganado filho! que importava para ti que estes saccos +estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te +não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas +não já o sentimento do filho com esta resposta; que a mim me pareceu +digna de ser contada entre as mais celebres do mundo. + +--Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por maravilhosa para +o nosso intento; e andou muito bem o pae de cumprir em vida o testamento +do filho; porque, como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro faz boa, +senão quando morre, porque deixa o que tem a quem possa usar d'elle.--E +o mesmo (disse Feliciano) escreveu que para ninguem o avarento é bom: e +para si peior que para todos; pois nem dispende, nem se aproveita: e +n'este sentido me parece maravilhosa a allegoria d'aquella engenhosa +fabula de Midas, que, pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que +tocasse se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na grande abundancia +do que pedira. E quando a necessidade o fez mudar a petição forçado do +mal, que como bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao rio +Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer estanque, pondo em +suas douradas areias, para communicar a todos, o que Midas só para si +queria ter usurpado.--Bem se representou em Midas (accrescentou Pindaro) +um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar: que por isso disse Seneca +que mais facilmente se atreveria a alcançar da fortuna que désse, que de +um cobiçoso que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com seu engano, e +falemos nos poderes do ouro, que é o para que Solino nos convidou a +noite passada.--Como é certo (disse elle) que para o ouro todos se +convidam de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal, parece que +estivestes de ponto sobre a materia.--Não a apontei (respondeu Pindaro) +por esse respeito, mas por me contentar da que escolhestes; e é desgraça +minha que para os outros levantaes d'ouros, e para mim de espadas.--Eu +me quero metter entre ellas (acudiu D. Julio) e se assim parecer aos +mais, diga Solino todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer +mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos disserem ficará logar +aos mais de darem suas razões.--Errastes, sr. D. Julio (disse o doutor), +que para Solino dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do +ouro, e Pindaro os males.--Dou-me por vencido, respondeu elle:--E eu por +obrigado (disse Pindaro) a obedecer. Todos festejaram a eleição; e +ordenando que fosse o primeiro, começou d'esta maneira! + +Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles testemunham a +excellencia ou maldade d'ellas, qual o foi de maiores males e damnos na +redondeza, e metteu aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, a +quem com muita razão podiam todos chamar _peste do mundo_? E posto que +os notaveis exemplos das destruições e ruinas que n'elle fez, podiam +tomar mais tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero começar +primeiro de seu nascimento, para que mostrem os seus arriscados +principios os desastrados successos para que a malicia humana o +descobriu. E não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que não +contentes os homens com o que a superficie da terra produzia para sua +recreação e mantimento, a formosura das arvores, a diversidade dos +fructos, a belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte +das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram desentranhar do centro +d'ella os segredos que a benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas +entranhas dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; e subindo +como arvore da profunda raiz, d'onde começa, vae espalhando os ramos em +desegual medida, convertendo o sol com seus poderes aquella materia +disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se demonstra por +duvidosos signaes na face da terra; que logo d'aquella emprenhidão se +mostra triste, dando por indicios da riqueza que encerra, herva +descórada, delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, secco e sem +proveito; e até as aguas, que por entre as veias descem, sahem cruas e +com sabor pesado. Espreitando estes signaes a industria humana, entra +fazendo guerra ao profundo, caminhando por debaixo dos montes +sustentados em columnas da mesma terra, deixando a vista do sol e das +estrellas, pondo as vidas ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes +o opprimem, que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra, que parece +menor temeridade tirar do fundo do mar perolas e aljofar, que do seu +seio o inimigo ouro, que ainda então o não é mais que nas esperanças. +Depois de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como parto de +venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, com o fogo se aparta, +apura o aperfeiçoa. ficando menos apto para o serviço dos homens, na +cultivação dos campos e arvoredos, e mais apparelhado para sua +destruição e ruina: porque ou se lavra para ostentações e demasias da +vaidade, ou se bate e cunha em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e +graças da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez em si +estanque de todos os commercios do mundo, no qual, antes que elle +apparecesse, se trocavam as cousas umas por outras, com uma composição e +trato mais conforme e obrigado á necessidade e commodos da vida que aos +roubos da cobiça, maldades da avareza e sobejidões da vaidade; e +apoderou-se tanto de tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até +da liberdade dos homens contra o direito natural, em que viviam. Foram +crescendo seus atrevimentos: e se antes de sahir do centro da terra +começou a matar homens, sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo +guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo a vara das mãos +á justiça: e deitado em sua balança perverteu o fiel de sua egualdade. +Diga-o Commodo imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos +deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por elle publicamente não só +a pena dos delictos, mas os proprios logares dos julgadores. Cerrou os +olhos á misericordia, para não se compadecer dos affligidos: como se viu +no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada Jerusalem, os +moradores, que opprimidos da fome se sahiam da cidade com licença sua, +enguliam primeiro uma pequena moeda de ouro, para que na passagem o +pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo esta astucia, a dois mil, +que em dois dias sahiram da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem +do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo commum da natureza +d'ahi a pouco espaço a lançassem fóra: assim que aquella pequena +quantidade de ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida. +Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza, atados com as +prisões de seu interesse: diga-o Ulysses que por elle vendeu a Priamo o +corpo de Heitor Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou a +empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. Desterrou do mundo a +fidelidade; pois por elle vendia Nicias aos romanos a vida de el-rei +Pyrrho seu senhor: Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão francez, +que de industria a afogou com peso de ouro: Tarpeia Romana, a entrada do +Capitolio aos Sabinos, que do mesmo modo com o peso de ouro e dos +escudos a acabaram. Depravou a piedade, e veneração que os antigos +tinham aos mortos, não perdoando a suas sepulturas, como el-rei Dario, +enganado com o letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei seu +successor se visse em necessidade, abrisse aquella sepultura, e acharia +um thesouro: elle confiado creu o letreiro, revolveu a pedra; e achou +outro que dizia: _Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os +mortos._ Os romanos desenterraram os mortos de Corintho para lhes +tirarem a moeda que tinham por costume metter comsigo na sepultura; para +o que é mais notavel aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, de +Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae se mandára enterrar +com as insignias reaes de ouro, abriu uma noite secretamente a +sepultura, e, depois de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe +appareceu S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava +enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe mandou em castigo do +atrevimento que commettera, que mais não entrasse n'aquella sua egreja: +e assim querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi pelo mesmo +santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece a todos os peccados +capitaes, a soberba com suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas +de Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, o theatro de +Nero, as casas de Clodio, e todos os mais excessos da vangloria d'elle +nasceram. A avareza n'elle como em materia propria se conserva e +accrescenta; por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir +de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres que o sahiam a +receber como era costume d'aquelle reino, como conta Plutarcho. Nero +despojava por este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos +mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que era tão avaro, que +se levantava de noite a furtar a ração a seus proprios cavallos; e sendo +achado pelo estribeiro ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era +dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro se cria, pois a +força d'elle corrompe a pudicicia, como os antigos engenhosamente +significáram na fabula de Danae, a quem Jupiter enganou convertido em +chuva de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os incestos de +Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os adulterios de Julio Cesar; pois +só a perola com que conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou +seiscentos sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis estragos e +homicidos no mundo. Pygmalion matou a seu cunhado Sichueu por lhe roubar +o thesouro que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de quem era +tutor, por lhe roubar a herança das riquezas que esperava. As demazias e +sordidezas da gula, a delicia e sobejidão dos manjares com elle se +compram.--Das mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes de Lucúlo, dos +manjares e convites de Heliogábalo elle tem a culpa. A venenosa inveja +n'elle, como em seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa +das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte Amfiarau seu marido; e +Julio Cesar invejoso das riquezas da Luzitania, se fez salteador das +cidades d'ella. A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se +aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes com o preço +que lhe deram por não orar: e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o +kagado, por o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais +difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a diligencia cahiu +em sorte á pobreza, pois a necessidade foi inventora das artes e +subtilezas; o peso do ouro entorpece os sentidos empregados todos +n'aquella materia: e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o afogou +no mar para apprender a philosophia. Pitaco e Anacarso não acceitaram a +Cresso o que lhes mandava: Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o +que lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso d'elle que lhe +traziam. + +Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que mereciam este nome; +e um veneno mortifero para a vida humana: e se muitos a perderam indo em +seus alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, em +que elle se cria, por remotos climas entre irracionaes Ethiopes +feneceram; não estão seguros do mesmo damno os que dentro em suas casas, +e fechado em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus males (que +para os contar todos fôra infinito) só um bem tem o ouro, que eu não +quero deixar á conta dos louvores de Solino, que é o que os Gregos +declararam n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: _O de que serve +ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem_; pois no toque d'elle, +como em um espelho de desenganos, é conhecido: e se elle d'esta minha +invectiva se houver por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura até +ao que de seus males me fica por dizer. + +Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a pratica de Pindaro; e o +prior a gabou de bem ordenada, e elegante; e gastaram n'isto algumas +razões, tendo os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas +mostras os obrigou a silencio, e disse: + +--Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa de Ezopo das uvas, a +que nào chegava; nem quero tomar tão humilde vingança de quem me foge, +nem (como alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo: a empreza é +facil, e só no muito, que ha para dizer d'ella, difficultosa: porém se a +copia aos discretos empobrece, (como um d'elles disse) nào pode ser que +a do ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste toda a +riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e desejar ao menos uma bôcca +de ouro, de que sahiram dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo +do que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles. E +começando do nascimento d'este desejado metal, que quanto mais queremos +culpar engrandecemos: Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos +montes, porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer d'elle thesouro, +pondo tantos muros da terra, para o defender, para que tambem a +difficuldade e rareza lhe dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se +cria, e provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia com +sua formosa côr ás mais bellas obras da natureza. O mais nobre dos +planetas, que é o sol, dourado nos apparece, e o seu luzente carro com +raios de ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso dos +elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que nas tempestades da +terra nos assegura, perfilado de ouro se descobre; as nuvens ao pôr do +sol, da sua côr guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas, +os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os bem-me-queres, e as +boninas com uma roza dourada no meio se guarnecem, e enfeitam para os +olhos dos homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua desejada +perfeição, e as searas na fertilidade de suas espigas se tornam de ouro: +e as mais formosas creaturas humanas, com as cabeças douradas, mostram +sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e monarchas do mundo +o ouro sobre a cabeça; os reis e imperadores nas corôas, os papas nas +thiaras, os bispos nas mitras, e as matronas illustres nos toucados, ao +pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas, nos dedos, e nos +braços, fazendo voluntarias prisões de sua formosura. No culto divino +elle orna e aformosea os templos sagrados, as cruzes, imagens, +retabulos, calices, patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam +os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os ornamentos, e +vestiduras da egreja. Batido em moeda é preço, e resgate das cousas de +maior valia, sem que n'elle se começasse o trato, e commercio do +dinheiro: pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata, cobre, e +latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores o mal que usam d'elle +os avarentos, lhe podiamos com razão chamar formosura do mundo; ornato, +e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada de ouro se +inclina mais, e é mais formosa, como foi a de Primislau primeiro rei de +Bohemia; que no maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer +ante si as alparcas de pastor com que se creara, mandando que andassem +em morgado a seus descendentes para antidoto contra a soberba da +dignidade real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha Santa +Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante D. Sancha, D. +Branca, e D. Joanna, e o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, bem +douraram com sua grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro se +exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem elle parecera virtude +sem mãos; que mal as tivera Marco Antonio triumviro para aquelle excesso +de magnificencia, que usou com um amigo, se o não tivera: porque, +mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco mil escudos, parecendo +ao avarento creado que aquella largueza nascia da ignorancia de seu +senhor, lhe mostrou aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza, +dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o romano por +desmentir a malicia do thesoureiro (que entendeu logo) lhe disse: +Fizeste bem de me avisar; que não cuidei que dava tão pouco: pelo que +sobre estes accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta. O +mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que acontecera a um principe de +Hespanha com seu pae, mandando dar a uma moça humilde trinta mil +cruzados. E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu a +liberalidade com seus poderes o nosso primeiro rei D. Affonso Henriques, +que nas terras, que conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços +Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus descendentes em +differente modo. D. Pedro o justiçoso com os pobres, que até a manga do +braço direito mandava fazer mais larga, e comprida, para alcançar a +todos no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho el-rei D. João +o I, foi tão liberal com os vassallos que o serviram, que deixara sem +patrimonio a corôa, se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei +mental, com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os poderes de +sua riqueza, e a magnificencia de sua condição assombrou as nações +extranhas, e ao nome portuguez fez mais honrado. A castidade mais +excellente, e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes trajos +da pobreza; e por isso foi tão louvada em Scipião, que poderoso, rico, e +vencedor, quando entrando Carthago lhe offereceram captiva uma formosa +dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou honradamente +acompanhada a seu marido com o resgate, que por sua liberdade lhe +offereciam. Não faltou esta excellencia em muitas donzellas do sangue +real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da ventura, +offereceram a Deus este da natureza. E se é celebrado el-rei D. Affonso +o Casto em Hespanha, não desmerecia este nome o rei portuguez, que +persuadido de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida nos +campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel e excedente no +poderoso rico, que no miseravel, em quem não tem execução a ira, nem a +vingança. Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia, que +perguntando aos embaixadores athenienses o que lhe queriam, respondeu +com inconsideravel liberdade um d'elles, que _vêl-o sem vida_; e elle +voltando aos outros com muita brandura disse: _Dizei aos Athenienses que +mais modesto é quem soffre essas palavras, que os sabios de Athenas, de +quem elles se prezam_. E se contam d'el-rei D. Affonso I, rei de +Napoles, que, sabendo que um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas +mercês, com que elle obrigado disse depois de suas obras mil louvores; e +o rei avisado d'isto disse: _Folgo que esteja em minha mão dizerem bem +de mim_: tambem houve rei em Portugal que em muitas occasiões usou o +mesmo termo, como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de muitas +memorias do III, não esquecendo a paciencia d'el-rei D. Diniz com seu +filho, e a d'el-rei D. Pedro, sendo principe, com seu pae. A temperança +medida por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada: como +a de Curio, que com o ouro dos Samnitas deante não deixou a panella de +couves, e nabos que cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que +não era necessario a quem com tão humildes viandas se sustentava. A +sobriedade, e temperança nos nossos reis naturaes é tão louvada, que de +mui poucos sabemos que bebessem vinho, e de nenhum que comesse +demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras, que a +imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte de Portugal, e mulher de +Frederico III, Imperador de Allemanha, não tendo geração, e averiguando +os medicos que por a frialdade d'aquella provincia não concebia, porém +que, se bebesse vinho, teriam filhos; ella não consentio no remedio: e +Frederico disse que antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada. +A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta sobre as +estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a conheceram, com o poder do +ouro a sustentaram: como Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava +abrir as portas aos jardins e pomares, que tinha para que entrassem +livremente os necessitados a colher seus fructos: mandava aos seus que, +achando algum velho mal vestido trocassem com elle os seus para o +melhorarem; dava todos os dias banquete publico aos que mendigavam pela +cidade: e aos pobres de qualidade sustentava com esmolas secretas. Não +fôram n'isto os nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o +testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de caridade, e santos +costumes, que deixaram n'este reino, para agasalhar peregrinos, +sustentar, e vestir pobres, e curar enfermos e feridos: no que fôram, +entre os outros, insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e +o insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia com muita razão +lhe calçáram os antigos esporas douradas, pois o duro estorvo da +pobreza, como pintou Alciato, impede as azas e limita os passos á +diligencia. Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre, e +Cesar em mui limitados annos a redondeza: o nosso rei D. Diniz com os +poderes d'elle accrescentou em seu reino quarenta e quatro villas com +castellos, e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal; e +instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos de Coimbra. E os reis +D. João, e D. Manuel descobriram, e ganharam para a Fe as terras do +Oriente com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras. De +maneira que, se os avarentos, que usam mal do ouro e das riquezas, +guerream com elle contra as virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como +elle as engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista perdem +tantas vidas, muitas mais se compram, e resgatam a preço d'elle. E +deixando o balsamo de ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel, +tão celebrado dos distilladores nas enfermidades; qual risco da vida, +qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão ou captiveiro não +remio o ouro? Elle faz a formosura das cidades, a belleza dos edificios, +a fortaleza dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das +côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades, titulos, e +privanças, e até os louvores e as mesmas graças da natureza: todos o +buscam, o desejam, e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem +converter n'elle por meio de alquime; os animaes se rendem á sua +formosura; pois não ha caça mais certa que a que se toca com laço de +ouro, nem melhor pescaria que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão +grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer um auctor, que na +maior furia de um leão, de um tigre, e de outra qualquer féra, se lhe +lançarem moedas de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E +passando por todas as cousas da terra sua valia, podem os ricos subir ao +céo por escadas de ouro, e dar-lhe com elle assalto e bataria, pondo as +balas e settas d'este metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em +tanta altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser digno de +seus louvores meu humilde talento, que, se fôra de tão illustre metal, +tudo alcançara. + +A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto que alguns a +esperavam menos grave, e mais engraçada: e assim lhe disse +Leonardo:--Parecestes-me esta noite mais orador insigne, que murmurador +galante. Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem os +louvores.--Não vos agradeço (respondeu elle) os que me daes; por quanto +d'antemão vos vingastes d'elles. Porém se quereis vêr em outrem com +gravidade o que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois os bens e +males do ouro estão encetados; diga o senhor prior agora os poderes do +interesse, que no successo da sua peregrina achará largo campo para esta +materia.--Essa é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas horas +da noite; e eu me não escusara com ellas, se não imaginara que todas as +verdades, que cahem sobre este sujeito, hão de parecer murmuração. +Porque dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é sentença +antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar os modos e +termos, com que batalha, será ir com os dedos aos olhos de muitos. Se +disser que o interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá +d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas da justiça, quantas se +virarão para castigar-me? Se ousar a dizer que profana as leis, e +offende a immunidade das egrejas, temo que até na minha me neguem a +entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores, couto de +homicidas, torre do facinorosos, e merecimento de descuidados, quantos +se levantarão contra minha verdade? Só direi em um conto breve o que de +sua valia se pode presumir na necessidade; e será julgar pelas unhas o +leão, e pela pisada de Hercules a medida de sua grandeza. + +Um homem curioso, bem intencionado, e não mal entendido, andou alguns +annos na milicia do Oriente: e vindo d'elle a este reino para se +despachar, trouxe entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade, +umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente obrados. E +depois de entrar em seu requerimento, deu conta a um amigo, pratico nas +cousas da côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle como +convinha e buscando entre o movel, que trouxera, peça que podesse +offerecer a um ministro, com quem tinha intelligencia, lhe inculcava +aquelles santos de marfim, que o tinham muito affeiçoado.--Como (disse +elle) não trouxestes da India algum pagode, ou idolo de ouro d'esses +gentios?--Para que? lhe perguntou o pouco esperto requerente.--Ah, +respondeu o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma, _Mais +podem diabos de ouro, que anjos de marfim_. E assim não me parece que +está mal o dito vulgar do povo, _que o interesse é diabo_. E pois o +tempo é tão curto, seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus +poderes; que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade de falar, +contra o desejo que tenho de vos obedecer. E sendo elles taes, e o ouro +o principal interesse de todos, mui bem lhe cabem com os males, que +Pindaro d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou fazendo a +differença sómente no uso d'elle. Que se Santo Agostinho lhe chamou +enfermidade da soberba, fraqueza das virtudes, materia de trabalhos, +perigo do possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado; Santo +Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola dos vicios, e doença +da alma; e se d'elle nasceu a Cresso a soberba, a Heliogábalo e +Sardanápalo a luxuria, a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula: +se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira, Crasso +degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros ricos tiveram fins +semelhantes; não teve a culpa o ouro, senão a má avareza de quem o +possuia, ou a cubiçosa sede do que o desejava; pois elle nos animos +livres não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças, lustre e +grandeza: como em um Constantino Magno, que enriqueceu a egreja Romana; +um Carlos IV, que comprou com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o +nome Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um Lourenço de +Medicis, que honrou Florença: um Leonardo Lauredano, que libertou +Veneza; um Carlos Brugi, que soccorreu a esterilidade de Flandres; e +outros muitos, que o souberam dispender valorosamente. De maneira que +n'elle está a condemnação ou justificação, a morte ou a vida de quem o +possue ou deseja. Para o que eu acho extremada aquella historia, que +toca Auzonio poeta em um seu epigramma. E é que um homem desesperado com +uma paixão, que teve, se hia enforcar em um logar secreto, levando +comsigo o baraço, em que havia de deixar a vida. Succedeu que com a +força que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se lhe +descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o pensamento: e, levando +o que achara, deixou em seu logar o baraço que trazia. Vindo depois o +que alli o escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação de +sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, o que o outro deixou de +fazer porque o achara: de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou +a avareza d'elle.--Com tão boa historia (accudiu D. Julio levantando-se) +é razão que vamos satisfeitos, e deixemos ao senhor prior bem +agazalhado, posto que pelo interesse de sua conversação deixara eu +muitos dos que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos deu +preço ao ouro e pedraria, á conversação dos sabios o não pode tirar a +mesma ventura. + + + + +DIALOGO VIII + +DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR + + +Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo o dia: e n'ella em +vindo a noite se ajuntaram os amigos, sentindo grandemente a falta +d'aquelle que os deixara. Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e +entre outras disse Feliciano:--Por todas as razões se devia desejar a +conversação de tão discreto, e douto cortezão, como é o prior, em todo o +tempo, mas n'este das noites do inverno muito mais: e n'ellas encherá +elle muito bem o seu logar; porque, além de saber e auctorisar o que diz +com o fundamento das lettras e curiosidade que tem, é muito composto e +engraçado no que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo de +encarecer negando na materia do interesse, e o descrever com brevidade +nas historias.--Quanto mais ouvirdes d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos +parecerá melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos parecia +muito bem nos de côrte; e que debaixo dos compridos pode ainda dar +lições d'ella a muitos de capa e espada.--Parte é o falar bem (accudiu +D. Julio) que leva tudo após si: e não consiste este bem só nas razões +discretas e palavras escolhidas, senão no bom modo e graça de as dizer: +o que eu comparo a uma cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa +aformosea, e dá ser, côr, e graça ao que lêdes; e a ruim desconcerta, +empeça, e afeia as razões, sendo todas umas: e não faltarão mui perto +exemplos d'esta verdade.--Fujamos das comparações para a doutrina (disse +Pindaro) e melhor fôra ser essa a materia, em que se gastára este +serão.--Ainda vos ficaram sobejos do passado (tornou Solino) pois vos +adeantaes da companhia: porém eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de +ir aos mais.--Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se o doutor nos +abrir o caminho.--Sempre (respondeu elle) me mandaes deante como os +frades menores nas procissões; quero-os tambem imitar na obediencia: +porém lembro-vos que são duas materias as que tocou o sr. D. Julio, +convém a saber, a graça, e composição do rosto e corpo no falar, e o +concerto das palavras, e discrição das razões.--Essa divisão parece +escusada (disse Leonardo) porque a graça não se aprende, nem se pode +alcançar por arte, pois é mero dom da natureza--Todas as cousas d'ella +(tornou o doutor) se aperfeiçoam e melhoram com a arte: e, para saberdes +logo esta verdade, tomarei á minha conta o em que vos parece que ha +menos que dizer; e fique á vossa a demazia. + +Primeiramente no movimento, e graça do falar, chamou Marco Tullio +_eloquencia do corpo_: e Quintiliano disse que com todas as partes +d'elle se ha de ajudar a pratica. E posto que esta doutrina parece que +convinha então aos oradores, como agora aos prégadores, uns e outros +praticam, e em todo o tempo é necessaria: e assim pintaram alguns o +jeroglifico da rhetorica com uma mão aberta, outra cerrada.--Muito +contraria me parece essa lição (disse D. Julio) á policia da côrte, onde +é regra que o homem ha de falar com a lingua, e ter quieto o corpo e as +mãos.--Eu concertarei essa regra com as minhas (replicou o doutor), que +o homem no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e logo vereis +que o que quero dizer é o mesmo, em que vos quereis anticipar. O +primeiro instrumento da pratica é a voz: e, para essa ser engraçada no +falar, ha de ter estas propriedades, _Ser clara, branda, cheia, e +compassada_: porque a voz escura confunde as palavras, a aspera e secca +tira-lhes a suavidade; a muito delgada e feminina faz impropria a acção +do que fala; a muito apressada empeça e revolve as razões, que por si +podem ser muito boas: não trato das que a natureza inhabilitou para esta +perfeição, como é a voz do gago, do cicioso, e do rustico grosseiro: mas +na do cortezão tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam +com a voz tão mettida por dentro, que deixam as palavras para si, e os +ouvintes ás escuras, que lhes é necessario estar espreitando o que lhes +querem dizer: e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham +as orelhas dos que escutam; e outros, que falam tão apressadamente, que +parece que levam esporas na lingua.--Entre vozes (disse Solino) tambem +eu hei de soltar a minha: e no que é a voz cheia, que dizeis, quizera +saber a differença; porque eu tenho que ainda é peor a muito grossa que +a feminina: porque ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo, +que espirito de voz. E egualmente aborrece vêr um homem com um rosto +como uma peneira, muito versudo da barba e sobrancelhas, sahir com voz +de frauta muito exprimida.--O meio (respondeu o doutor) em todas as +cousas é a perfeição d'ellas: e se estaes bem lembrado, tambem deixei de +fora a voz grosseira, como a quem a natureza privou da graça no falar. +Depois da voz, os olhos dão muito espirito ás razões: porque, como elles +são as janellas d'alma, por elles se communica vida ás palavras: e assim +hão de ser claros, alegres e moviveis: porque os muito intensos, e +extendidos entristecem; os muito apertados e franzidos movem a desprezo; +os muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem temor; e posto +que os olhos, por risonhos, nunca perdem a graça, parece que nas +praticas graves, e de importancia, não hão de ser muito +chocalheiros.--N'isso tendes vós muita razão (disse D. Julio) que ha +homens. que dão olhado ao que falam: porém não vos esqueçaes das +sobrancelhas.--Tambem a acção do falar toma muito d'ellas (tornou o +doutor) porque franzidas fazem carranca, e mostram que fala um homem com +melancholia; baixas representam tristeza, ou vergonha; muito arqueadas +significam espanto; e levantadas alegria. E não menos convém a +composição da barba, que fincada nos peitos mostra desconfiança ou +porfia; e posta no ar vangloria: e o pescoço, que nem se ha de ter tão +levantado que faça soberba nas palavras, nem tão baixo, que pareça que +não pode com a cabeça; a qual não ha de estar tão firme, que pareça que +a espetaram n'elle; nem se hade quebrar para todas as partes como +grimpa. Da mesma maneira a bôcca ha de ser quieta quando fala, sem estar +mordendo beiços, nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem com +o riso se ha do mostrar tão descuidada, que as entorne pelos cantos; nem +tão apertada, que offenda a boa pronunciação e graça d'ellas; no que vae +mais á lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos que todas +as nações orientaes naturalmente opprimem a voz na garganta quando +falam, como os Indianos, Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os +Mediterraneos referem as palavras aos padares da lingua, como fazem os +Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os occidentaes, como os Francezes, +Italianos, e Hespanhoes, mastigam as palavras entre os dentes, e as +pronunciam na ponta da lingua: posto que em alguns logares, conquistados +outro tempo dos Africanos, ficaram usos e palavras, que ainda obrigam a +sua pronunciação; mas os que estão mais izentos d'ella são os +Portuguezes, como aqui na primeira noite da nossa conversação se tocou. +Além d'estas partes do rosto tem o movimento do corpo o seu logar: que +pode parecer airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que fala +nos contos, historias, graças ou galanterias, não representando o que +diz com meneios de comediante, nem com modestia e compostura sobeja, mas +com uma boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no relatar mais +ligeiro, no arguir esperto, no desculpar ou defender-se mui brando; nem +fazer badallos dos pés quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar +com os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais gestos ou +acções, que tenho tocado, se ajuda a pratica do movimento das mãos, que +ha de ser com um leve ar e compostura, com que o discreto favorece as +palavras que diz, não falando com ambas ellas, nem chegando com alguma +perto da vista dos ouvintes; e guardando estas e outras advertencias +semelhantes, pode fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar, +emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo com o cuidado as +graças, que ella lhe dotou: não tratando dos incuraveis, a que já não +possam valer estes remedios; mas dos que á falta d'elles, e com o largo +discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.--Parece que daes +a entender, senhor doutor, (disse Pindaro) que ha mais algumas +advertencias, que podem ser de importancia n'esta materia: e, para a +tratar de fundamento, não é razão que fiquem de fora.--Para essas e para +o mais, que tenho dito (respondeu elle), nomearei alguns vicios, que são +contra o bom termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditarão as +minhas opiniões, a que eu não posso nem quero dar nome de preceitos, +posto que são fundadas em os melhores dos que d'esta materia escreveram. + + +O primeiro é _escutar-se um homem a si proprio quando fala, por se +contentar do que diz_. + +O segundo _repetir outra vez o que tem dito, com os olhos nos ouvintes, +para que lh'o gabem_. + +O terceiro _deter-se tanto nas palavras como que as vae pezando, e +compondo para as dizer_. + +O quarto _ir-se arrimando a bordões para que lhe accudam em tanto as +palavras_. + +O quinto _ir á mão ao que quer responder, por querer falar tudo_. + +O sexto _bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios ditos_. + +O setimo _borrifar as palavras com o humidade da bôcca, por falar com +vehemencia_. + + +--Vós (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados mortaes contra a +discrição, e cortezania, que não merecerá n'ella ter graça quem n'elles +estiver culpado. Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque +receio que falaes de proposito contra alguem.--É tão má a vossa natureza +(lhe tornou o doutor) que quer perverter a minha boa tenção, e d'estes +peccados contra a policia tirar outros que offendam a amisade: vale-me +porém ser a vossa conhecida. E proseguindo a materia dos vicios, os tres +primeiros nascem do amor proprio que cada um tem a suas cousas, a que os +gregos chamaram _Filaucia_: os quatro seguintes, ou da ignorancia, ou do +descostume e falta de doutrina cortezã. Escutar-se um homem, quando +fala, é de quem bem lhe parece o que diz: e posto que o vicio é natural, +tem ruim patria; que o homem, que se escuta, é lisongeiro de si mesmo, e +elle se paga por si de suas palavras, vendo-se e enfeitando-se n'ellas +como em espelho, conforme os proverbios antigos, que _a cada um parece o +seu formoso_; e outro, que _não ha melhor musico que cada um a si +mesmo_; e que _a cada um contenta o seu rosto, a sua arte, e cheira bem +o seu suor_.--Outro (disse Solino) me parece a mim melhor que todos +esses, porque os declara; e é que _quem se contenta a si contenta a um +grande nescio_; que não pode deixar de o ser o que do seu engano se +satisfaz. E não achareis discreto d'esse feitio, que não caia nos tres +primeiros laços: porque são encadeados uns com outros: e em se escutando +um homem a si, o vereìs ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas, +enchendo com ellas a bôcca, e pronunciando-as com muito +cuidado.--D'esses disse Horacio (accudiu Pindaro) que _falavam empolas_; +é está muito bem o nome á inchação das suas palavras. Mas o segundo +vicio, que é da repetição, parece menor erro; porque o que é bem dito se +pode repetir, conforme ao que disse o poeta; e só será a culpa quando o +dito não fôr acertado.--Essa estimação não ha de ser feita por seu dono +(respondeu Solino), nem elle pode pôr o preço a suas palavras, cuidando +que fala ouro; em obras alheias, referidas por outrem, tem logar essa +desculpa; e não se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a +repetição do que disseram, estão puxando por vós a que lh'as gabeis, e +vos contenteis á força da sua razão; e mettem de quando em quando um +_entendeis-me? estaes commigo? digo bem? que vos parece? não sei se me +declaro_. De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem dos outros +nescios. E com este cahem logo no terceiro, que é deter-se muito em cada +palavra, soltando-as por compasso, dilatando uma da outra, porque se não +peguem: e é vicio, que fará ser aborrecivel a todo o mundo a quem o tem; +e até á mesma discrição fará importuna este mau uso d'ella. E mais é mui +certo andar annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle; que +tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria, que não ha quem o leve. O +quarto não entendo bem, porque não sei ao que chama _bordão_ o +doutor.--Sabei (disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o +que fala, quando as palavras lhe cançam, se chamam _bordões_, e são de +duas maneiras: uns que pertencem, ou para melhor dizer, que são +impertinencias nas acções do falar; e outros nas palavras: os primeiros +são mais culpaveis que os segundos, porque ha um que não sabe praticar +comvosco sem vos estar desabotoando, ou alimpando o cotão, e arrancando +a frisa do vestido: outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou +travando-vos do braço vos molesta: e ainda ha alguns tão desatinados, +que vos dão com a mão nos peitos a cada cousa que dizem: e outros que, +se deixam de entender com quem praticam, o hão comsigo, não estando +quietos com as mãos; esgravatando os dentes, ou bolindo nos narizes e +falando, tirando cabellos da barba, e mordendo as unhas; e outros vicios +semelhantes, que servem como uns espaços e reclamos, a que lhe acodem as +palavras. Os segundos são mettidos na mesma pratica com alguns, que em +cada palavra d'ella mettem um _diz_, _assim que digo_, _tal e qual_, +_sim senhor_, _vae vem_, _então_, _senão quando_, _espere vossa mercê_, +_assim que senhor_, _estaes commigo_; e outros muitos, fora os que vós +apontastes no vicio da repetição, que são bordões da primeira +classe.--Certo (disse Feliciano) que tem muita razão o doutor em dizer +que este vicio e os dois, que se seguem, nascem do descostume, e falta +da doutrina cortezã: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um +estudante, que na opinião dos mais não era tido por o que falava peior, +que, por o grande odio, que tinha aos bordões, inventou um modo +excellente para os desterrar da conversação dos amigos, com que tratava +de ordinario; e foi um jogo de não menor engenho, que utilidade; e pelo +exercicio d'elle se perdeu até a semente dos bordões entre aquelles +amigos.--Não vos esqueçam (disse Leonardo) os termos de tão bom jogo, +que já pode ser que occupemos com elle uma noite, mais bem empregada, do +que o remedio será necessario para os presentes, porque não são dos +homens limitados, que se apegam a estes encostos: e se quereis +conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-hão n'ella mais +bordões, do que tem de palavras.--O quinto vicio (proseguiu o doutor) é +incomportavel; porque ha homens tão sôfregos de falarem tudo; que +atalham as palavras ao que lhes começa a responder, querendo anticipar +com o seu entendimento a tenção alheia.--Esses taes (disse Solino) falam +a duas mãos, porque querem que vá tudo por elles. E como me acho entre +esses, por não pedir por mercê que me ouçam uma palavra, deixo o feito +sem parte; e como ficam falando á reveria, desfaço as suas sentenças com +uma bochecha de agua.--Esses faladores são como cigarras, que atrôam, e +não deleitam (disse D. Julio) e é sentença mui approvada entre cortezãos +que tres cousas não ha de haver entre elles demasiadas, _sobeja parola, +comprida porfia, e grande rizada_; porque _quem muito fala d'elle damna_ +(como diz o rifão) _e com quem aporfia não disputes; e onde ha muito +riso ha pouco siso_; que todos estes pertencem á conversação.--Essa +terceira parte (proseguiu o doutor) é do sexto vicio, que é bracejar +quando fala, e festejar com risadas seus proprios ditos o que se quer +vender por discreto. E assim vereis alguns, que falam ás pancadas; e se +acharem um pulpito deante, o farão em pedaços, como se a policia podéra +soffrer o desassocego e inquietação da sua esgrima. As risadas, além de +arguirem falta de entendimento, são mais impertinentes quando um homem +festeja seus proprios ditos; que, para terem galanteria, elle, que os +diz, ha de ficar sisudo; e os que o ouvem, risonhos. E assim os +engraçados de nossos tempos que conhecemos, e outros, que deixaram esse +nome, sabiam festejar moderadamente as graças alheias, e dissimular o +riso nas suas, fazendo menos caso d'ellas.--Duas cousas (disse D. Julio) +se me offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a primeira, +que moderação se ha de usar no riso, com que um homem festeja o conto ou +graça do que falla deante d'elle?--Os homens (respondeu o doutor) não +hão de ser tão sevéros que nunca riam como Catão Censorino, Anaxagoras, +e Sócrates: nem como Marco Crasso, que rio uma só vez na vida; pois é +definição e differença do homem _ser animal racional_, e a sua propria +paixão é _ser rizivel_: porém não menos se ha de guardar de ser +desentoado nas risadas; que, para n'isto haver uma moderação politica, +lhe buscaram os antigos muitas differenças: e deixando o riso Jonio, +Megarico, Sardonio, e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores gregos, +e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, não ha de rir o homem com +a bôcca aberta que dá grande tom ao riso, nem com os beiços apertados, +como costumam os que tem cieiro n'elles; nem sómente mostrando os +dentes, que a estes chamaram os latinos _riso de cavalgaduras_; nem com +um riso molle e affeminado, como era o Jonio; mas com uma boa sombra e +graça na bôcca e no ar do rosto, com que se mostre, agradecido do que +escuta. E se esta resposta vos satisfaz, bem podeis continuar com a +segunda pergunta.--Ainda que as minhas (tornou elle) não fôssem muito a +proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam desculpadas, como +será esta: Se na graça, que outrem conta, em que eu a não acho, sou +obrigado em primor cortezão a me mostrar risonho? Obrigado é o cortezão +(respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com quem se pratica: e +não o poderia ser quando seccasse o riso na occasião, em que outrem +mette cabedal para o provocar a elle; que seria mettel-o em +desconfiança.--Eu me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e já agora +podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que discorrer segundo me +parece; que nao é mais que um descuido e desattento dos que, mostrando o +fervor do animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem, e ás +vezes a quem os escuta.--Não cuido eu (disse Feliciano) que são esses os +de que trata o proverbio, que _falam fontes de prata_.--Antes (tornou +Solino) lhes chamara eu _homens que falam frescos_ que nem uma manhã de +abril deixa tao orvalhado um campo do boninas, como elles a roda dos que +os estão ouvindo; e para estas immundicias houvera de ter a discrição um +Almotacé da limpeza.--Desterrados pois (continuou o doutor) da +conversação estes sete inimigos d'ella, parecerá um homem cortezão aos +que o escutarem, falando agradavelmente nas palavras as leis que agora +lhe der o senhor Leonardo: que posto que a verdadeira discrição seja +natural, nenhum dos dons da natureza deixa de receber beneficio da arte, +da continuação e dos costumes.--Muito depressa vos quereis desobrigar +(respondeu Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha porta, +dando algum toque na murmuração, como déstes no riso: que tambem estes +preceitos são fóra das palavras.--O riso sim (lhe tornou elle), mas não +o murmurar; que é culpa que não se attribue á pratica, posto que alguns +digam que sem esse sal a mais discreta é pouco saborosa: e é porque ha +muitas cousas, que não queremos dizer, e folgamos em extremo de as +ouvir. Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos alheios de +gente ociosa, com risco proprio. Porém, por fazer as pazes comvosco, +entrarei em contendas, de que estou desobrigado, tocando na murmuração +engraçada; e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma sentença +excellente, que diz que _dos animaes bravos a peior mordedura é a do +praguento_; e _dos mansos a do lisongeiro_. O praguejar é maldade, o +lisongear traição, o motejar levemente galantaria: o discreto nem ha de +morder, nem lamber; porém picar levemente, e com arte, é graça da +conversação. Para o que, deixando auctoridades, exemplos, preceitos, e +cousas infinitas, que poderão levar grande tempo: o cortezão, quando +arguir para graça, ha de considerar tres cousas: o que fala, com quem, e +deante de quem. O primeiro por fugir de materia em que o presente +desconfie: o segundo por não motejar com quem não saiba pesar e conhecer +as galantarias: o terceiro por não falar graças, de que, algum dos +ouvintes se envergonhe: porque de outro modo, sendo a graça pesada, +perderia o nome. Não falo do murmurar de ausentes, que em todo o modo me +parece culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias as +vossas, que a todos agradam, e que, se aos ouvintes não fazem fastio, +tão pouco aos offendidos causam queixume.--Lembra-me (disse Pindaro) que +no quinto vicio condemnastes o querer um homem falar tudo: e não déstes +regra aos que falam pouco.--Seria (respondeu o doutor) por me conformar +com uma sentença, que diz: _Aos que pouco falam, poucas leis lhes +bastam_. Além d'isto até agora não tratei dos louvores do silencio, nem +da verdade d'aquelle dito: _Assás sabe o que não sabe; se calar sabe_. E +o outro, que: _O nescio calando, parece-se com o discreto_. Falo sómente +da maneira de praticar entre os amigos, onde as palavras não tem mais +que estas duas medidas, que são _falar a tempo_, e _a proposito_: a +tempo, porque nem em todos se pode dizer tudo o que é bem dito. + +Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o estomago, e +offendam ao gôsto, ainda que em outros logares podem dar muito. Entre +enojados não dizer graças, ou contos, que desautorisem a tristeza, e +provoquem a riso. Entre enfermos não contar historias, que causem temor +ou desconfiança em seus males. Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas +que saibam a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha muitos, que +se desviam do principio da pratica, de maneira que do primeiro salto vão +parar a Flandres; outros, que em tudo querem metter uma historia que +sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que ouviram, um sonho que +sonharam; e pela deleitação, que tomam de contar coisas proprias, perdem +o decóro, com que hão de escutar as alheias, e o tento do que elles +mesmos respondem: e tambem me a mim parece que me vou mettendo nas que +não são minhas; que me fizeram passar os termos de maneira, que nem a +meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda parte d'este +discurso.--Vós dizeis tudo tão bem (tornou Leonardo) que se perde pouco +no que eu havia de accrescentar, quanto mais, que o que se dilata não se +tira; e já ámanhã terei cuidado, ou espaço de cuidar no que hei de +dizer, por não cahir no terceiro peccado de ir compondo as palavras com +o vagar que enfastia.--Em casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a +cêa; e em entendimento tão rico, como o vosso, nem de cousas, nem de +palavras pode haver pobreza: guarde-vos Deus de uns meus senhores, que +as pedem fiadas aos livros de cavallarias, com suas sentenças de cabo de +capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um dos ouvintes, +varreu-lhes toda a prégação da memoria, e vão com a pratica em muletas +até tomarem assento com muito trabalho seu, e de quem os escuta.--Hora, +não o dêmos tão grande ao senhor Leonardo (disse D. Julio) que hoje o +não deixemos dormir, pois ámanhã o havemos de despertar; que as duas +noites passadas foram de hospede, e a conversação dos que são de mais +gôsto, roubam melhor o tempo; e comtudo. a parte que se tira ao repouso, +sempre faz falta, + +Começaram-se os outros a levantar, e o velho ainda os deteve em pé +dizendo:--O senhor D. Julio em tudo tem tenção de me fazer mercês; porém +esta não é das em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar o +tempo do somno para viver, que o da vida para dormir. E se é verdade que +na conversação de tão bons amigos só se vive, qual posso eu ter melhor, +que, fazendo estas noites mais compridas, alargar a minha edade? que +sentença é antiga, que _o tempo, em que dormimos, perdemos da vida_: +pelo que chamaram ao somno _imagem da morte_. + + + + +DIALOGO IX + +DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS + + +Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio de tão proveitosa +conversação, de tal maneira, que nenhum perdia o sentido das materias, +que ficavam tocadas, para se armarem de razões, contos, e exemplos, com +que cada um mostrasse aos outros sua sufficiencia. N'aquella porém da +pratica vulgar ficou Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que +tudo pende de opiniões incertas; como porque o doutor lhe cortara a +urdidura, com que havia de ir tecendo o seu discurso, desejava mudar o +proposito a outra cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era o +de todos, não via caminho de o desviar. Veiu pois a noite do outro dia, +e com ella os companheiros mui alvoroçados; aos quaes elle festejou com +a mesma alegria; e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se hei de +falar verdade, eu estou tão carregado com o officio que de novo me +déstes, que me não atrevo a dar boa conta d'elle; porque todas as que +fiz para me dispôr a isso, me sahiram erradas: e me parece tão +difficultoso falar de cuidado, e ordenadamente na materia em que se ha +de praticar na lingua portugueza, que me hei de chamar ao engano, e o +maior de todos foi darem-me espaço para temer, quando eu cuidei que o +tomava para me prevenir.--Em vós (disse D. Julio) é gentileza esse +receio; e ainda que fôsse fingido, eu o tenho por a primeira regra de +falar bem, pois ensinaes aos discretos a não falarem com sobeja +confiança; e pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa +achara difficuldade, que é pôrdes em regras, e preceitos, o que tendes +por natural, e por costume; que servieis mais para exemplo de quem vos +ouve, que para mestre dos que não podem comprehender a vossa +doutrina.--Se com titulo de me fazerdes mercê (respondeu elle) quereis +que desconfie, mais facil vos será isso, que a mim o acertar: mas, para +que não erre no principal, digo que não posso fazer escola de falar bem, +mormente entre cortezãos tão discretos, que cada um me poderá dar +preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas a minha opinião, +faço-o para com as razões dos que a contradisserem aprender a +acertar.--Parece-me (disse Solino) que as melhores duas lições para os +discretos são essas primeiras, _receio_, e _humildade_. E passando +adiante, começae já a descobrir essa rhetorica, nova á lingua +portugueza.--Por escusar (tornou elle) uma muito comprida; e dilatada em +preceitos, e limites, que á força se hão-de misturar com os da latina; e +por evitar a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes para +outras noites, accudirei brevemente a alguns vicios da lingua +portugueza, não fugindo dos termos da latina, nem levando-os a elles por +fundamento, mas fazendo-o n'estas cinco advertencias: + + +_Falar vulgarmente, com propriedade._ +_Fugir da prolixidade._ +_Não confundir as razões com a brevidade._ +_Não enfeitar com curiosidade as palavras._ +_Não descuidar com a confiança._ + + +--Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica abreviada, que +podia servir a todas as linguas: porque a confusão dos muitos preceitos +e figuras, que lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem +comprehender debaixo d'esses cinco muito bem achados. E pois Solino +chamou aos meus vicios sete peccados contra a discrição, podia chamar a +estes preceitos os cinco sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como +entendeis _falar vulgarmente com propriedade_, que em parte me parece +que o vulgar não guarda muitas vezes o respeito ao proprio? --Falar +vulgarmente (respondeu Leonardo é qual os melhores falem, e todos +entendam sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados, nem +antigos, e desusados: senão communs, e correntes, sem respeitar origens, +derivações, nem etymologias; que a linguagem mais pende do uso, que da +razão: e por isso se chama lingua materna, porque nas mulheres, que +menos sahem da patria, se corrompe menos o uso do falar commum, posto +que ellas saibam pouco da razão de seus principios. E d'isto, e do falar +com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos sobre as cartas +missivas; o que não será necessario repetir agora de novo, mas sómente +dar mostra de que estes dois termos se não encontram: que se o falar +proprio, é com palavras naturaes, e menos figuras da rhetorica, para +ornamento d'ellas; e não usar dos tropos de allegorias, metaforas, +translações, antonomazias, antifrazes, ironias, enigmas, e outras +muitas; isso se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente as +palavras proprias, pois sómente algumas translações, antonomazias, e +ironias se acham n'ella; e mui raramente outras figuras: e posto que +n'isto me detenha mais do que determinava, me hei de embaraçar com estas +três figuras. _Translação_ é figura quando passamos as palavras de uma +cousa a outra, porém com uma semelhança conveniente, como quando dizemos +_uma fonte de sabedoria_, _um pôço de lettras_, _um rio de ouro_, _um +thesouro de partes_, ou _de graças_. Esta figura se costuma usar para um +de quatro effeitos, ou para evitar palavras deshonestas, ou para +abreviar razões compridas, ou por accudir á pobresa da linguagem, ou por +aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz officio mui +necessario, que é dar a entender, por palavras alheias, cousas que sôam +mal por o seu nome proprio, como dizer: _uma mulher que usa mal de sua +formosura_; _que se vende a preço_; _que se entrega a Venus_; _que serve +o seu gôsto_. _Um homem affeiçoado a ramos_; _perdido por Bacco_; +_esquecido de si_. Tambem, para abreviar razões, é de muita utilidade na +pratica, como quando dizemos, _ficou em secco_, _deitou azar_, _torceu a +orelha_, _deu cinco_. Os outros dois modos me parecem na pratica +sobejos, e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de fugir n'ella o +enfeite, e ornamento das palavras: e o outro, porque não faltam na +lingua portugueza as necessarias para cada um declarar o que lhe convém +dizer. A figura da _Antonomazia_ se usa algumas vezes na conversação: +posto que só nas pessoas, ou partes do mesmo reino será mais aceite. +Entre nós, quando nomeamos _o Poeta_, se entenderá Luiz de Camões, _o +Historiador_, João de Barros: _o Duque_, o de Bragança: _o Marquez_, o +de Villa Real: _a Cidade_, a de Lisboa: _a Coutada_, a de Almeirim; e +outras semelhantes cousas, ás quaes a grandeza deu superioridade das +outras do mesmo nome. A _Ironia_, mais que todas, é propria na +conversação, pois consiste mais na graça, riso, ou dissimulação do que +fala, que nas palavras: esta se considera em duas maneiras, a primeira +tirando a propriedade ás cousas; a segunda, furtando o sentido ás +razões; uma é mero escarneo; a outra dissimulada subtileza. A primeira, +quando do fraco dizemos que é um Hercules: do louco, que é um Catão: do +miseravel, que é um Alexandre: e da mulher pouco casta, que é uma +Helena. A segunda, como se disseramos: _Nunca lhe cahiu a lança da mão_ +ao que a não tomou n'ella: _não lhe chegou ninguem com a espada_, +falando do que fugiu: _nunca pediu nada_, falando do que furta: _paga +mais do que deve_, entendendo o que paga por justiça. No que pertence ás +figuras me parece que basta esta lembrança. E as palavras, que se devem +escusar para falar vulgarmente, não hão de ser estrangeiras, nem +esquisitas, nem innovadas, nem tão antigas, que se perdesse já o uso +d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes, e lettrados, que +introduziram as latinas na conversação, fazendo a linguagem de +misturas.--Essa culpa (respondeu o doutor) é dos mancebos que como no +praticar não teem a madureza, que só costuma a ensinar a experiencia, +cuidam que se melhoram em falar escuro, e elegante, fazendo na prosa +accentos de musica, ou medidas de poesia.--Muitos lettrados sei eu +(disse Solino) que não são moços, e n'isso o querem parecer, que falam +uma linguagem como sereia, mulher até aos peitos, e ametade peixe; e são +homens, a que não escapa por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a +nossa lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga, que perde +muito de seus quilates.--Não tenho por grande erro (acudiu Pindaro) +quando a conversação é entre doutos, usar de algumas palavras tiradas do +latim, quando forem melhores que as com que nos podiamos declarar em +portuguez: antes creio que, se isto se fôra introduzindo, viera a nossa +lingua pouco a pouco a se apparentar com ella, e ficar tão polida, e +apurada como a toscana.--E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou do +parentesco, se não foi chamarem-lhe alguns auctores _bôrra da lingua +latina_?--O caso é (disse Solino) que vós devieis ser affeiçoado á +phrase de um cirurgião de Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez +famoso, que disse á moça de um ferido, a quem curava: _Traga-me um panno +corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice._ E a um rustico, que +vinha esmechado, respondeu que não tinha mais lesa que a superficie da +fronte; e tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria, se +dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade. E certo que tenho +raiva, sabendo que a lingua portugueza não é manca, nem aleijada, vêr +que a façam andar em muletas latinas os que a haviam de tratar +melhor.--Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem com isso se contentam; e +andam buscando palavras muito esquisitas, que por termos mui escuros +significam o que querem dizer. Como um que se queixava de sua dama, que +de ciosa andava inquirindo os escrutinios do seu pensamento. E outro a +um barbeiro disse, que lhe rubricára a parede com a sangria.--Alguns +(disse o doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente de falar, +que por taes eram reprovados: porém o uso das palavras innovadas não +achei ainda entre os portuguezes, como os hespanhoes e italianos. Nem +tenho por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito bem usadas +em outro tempo, e desterradas, sem razão, na nossa edade.--Não faltam +(respondeu Leonardo) curiosos, que por acharem pobre a lingua, ou por +elles o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo: como um +lettrado, que querendo auctorisar umas casas para certa occasião, disso: +_É necessario que as paredes d'este domicilio sejam alreadas, e que o +fato uzivel fique retendo nas ultimas d'elle_. E outro disse de um +navegante, _que fôra felice, se não fortuneara tanto no exito da +viagem_. E ao que dizeis das palavras antigas, posto que em algum tempo +fôssem boas, não o ficam sendo na parte em que se perdeu o uso d'ellas; +pois, como já disse, esse só é o fundamento e razão das palavras: e +assim, não diremos _leixou_, _trouve_, _dixe_, _ca_, _sicais_, _acram_, +_leidisse_, e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos de +cujos escriptos podemos aprender a perfeição da lingua portugueza. E +bastou o contrario uso para n'esta parte poderem seguir os que agora +escrevem, e falam bem.--Com uma só razão (accudiu Solino) condemnára eu +a toda essa turba dos que no falar querem parecer singulares, e é que +não falam para que os entendam melhor, senão para que pasmem d'aquella +sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber que é lanço +muito certo, que os que se contentáram com saber pouco do latim, falam +mais alatinado, para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim como +virdes cirurgião, ou boticario, que acabou a grammatica na quinta +classe, ponde-lhe abrolho, que o não tirareis com vinte galgos á estrada +do falar commum e se me esperardes estudante de philosophia em grade de +freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que vos não entendereis +com o sentido d'ella. E dos que falam pela tempera velha, eu o não +consentira, senão em homens de barba larga, penteada sobre os peitos, +com carapuça redonda, e pelote de abas pregadas, que vos conte historias +d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em Almeirim, e de quando D. Rodrigo +de Almeida tomou por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe +nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos justos de agora, +e barbinhas turquescas tiradas pela fieira, e tintas sobre branco, +palavras d'aquelle tempo parecem remendo de outra côr. + + +FIM DO 1.^o VOLUME + + + + +INDICE + + +Advertencia 5 + +Dialogo I--Argumento de toda a obra 7 + +Dialogo II--Da policia e estylo das cartas missivas 22 + +Dialogo III--Da maneira de escrever, e da differença +das cartas missivas 35 + +Dialogo IV--Dos recados, embaixadas e visitas 54 + +Dialogo V--Dos encarecimentos 70 + +Dialogo VI--Da differença do amor e da cobiça 81 + +Dialogo VII--Dos poderes do ouro e do interesse 95 + +Dialogo VIII--Dos movimentos e decoro no praticar 110 + +Dialogo IX--Da pratica e disposição das palavras 121 + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+-----------------------+---------------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+-----------------------+---------------------------+ + |#pág. 67 | os proprio filhos | os proprios filhos | + |#pág. 91 | totos | todos | + |#pág. 118 | descuido) | descuido | + +----------+-----------------------+---------------------------+ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Côrte na aldeia e noites de inverno +(Volume I), by Francisco Rodrigues Lobo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE *** + +***** This file should be named 37757-8.txt or 37757-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/7/7/5/37757/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/37757-8.zip b/37757-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b530812 --- /dev/null +++ b/37757-8.zip diff --git a/37757-h.zip b/37757-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ec7f60d --- /dev/null +++ b/37757-h.zip diff --git a/37757-h/37757-h.htm b/37757-h/37757-h.htm new file mode 100644 index 0000000..75af209 --- /dev/null +++ b/37757-h/37757-h.htm @@ -0,0 +1,6226 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Côrte na aldeia e noites de inverno (Vol. I)</title> + <meta content="Francisco Rodrigues Lobo" name="AUTHOR" /> + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + <style type="text/css"> +body {max-width: 80%; margin-left:10%; margin-right:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 15%; margin-right: 15%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.breaks { +width: 10%; +margin-left:45%;} +.quote {margin-left: 55%; +margin-right: 10%; +font-size: 95%;} +.quote1 {margin-left: 30%;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.signature {margin-right: 10%; +text-align: right;} +.pagenum { position: absolute; right: 5%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> + +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume +I), by Francisco Rodrigues Lobo + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I) + +Author: Francisco Rodrigues Lobo + +Release Date: October 14, 2011 [EBook #37757] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> +<br /> +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Outubro 2011) +</div> +</div> +<br /> +<br /> +<div class="bbox"><br /> +<h3>BIBLIOTHECA UNIVERSAL</h3> +<h4>ANTIGA E MODERNA</h4> +<br /><div class="sbreak"><hr /></div> +<h2>CORTE NA ALDEIA <br /> +<br /> +E <br /> +<br /> +NOITES DE INVERNO </h2> + +<h4>POR <br /> +<br /> +FRANCISCO RODRIGUES LOBO </h4> +<br /><div class="sbreak"><hr /></div> +<h4>VOLUME I</h4> +<div class="sbreak"><hr /></div><br /> + +<h4>16.ª SERIE—NUMERO 62</h4><br /> + +<div style="text-align: center"> +<img src="images/fig01.png" width="150" height="156" alt="" /></div> +<br /> +<h4>LISBOA <br /> +COMPANHIA NACIONAL EDITORA <br /> +<br /> +Successora de DAVID CORAZZI e JUSTINO GUEDES <br /> +40—Rua da Atalaya—52 <br /> +<br /> +FILIAES: Praça de D. Pedro, 127, 1.º andar, PORTO <br /> +38, rua da Quitanda. Rio de Janeiro <br /> +<br /> +1890</h4> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /><div style="text-align: center"><img src="images/fig02.png" width="100" height="53" alt="" /> +<br /> +LISBOA <br /> +<br /> +<span class="smallcaps">typographia da companhia nacional editora</span><br /> +<img src="images/fig03.png" width="380" height="56" alt="" /> +<br /> +<b><em>309, Rua da Rosa, 309</em></b><br /> +<br /> +1890<br /> +<img src="images/fig04.png" width="120" height="77" alt="" /> +</div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<div class="quote"> +Em quanto está o avaro em seu thesouro<br /> +Cevando os olhos, dando ao pensamento<br /> +Materia a vã cobiça de mais ouro. +<br /> +<br /> +<div class="signature"><em>Primavera</em>, <span class="smallcaps">Floresta</span>, 5.</div></div> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<a name="c1" id="c1"></a><h2>ADVERTENCIA</h2> +<br /> +<div class="breaks"><hr /></div> +<br /> +<br /> +A <em>Noticia biographica</em> de Francisco Rodrigues +Lobo encontram-a os leitores á frente +do volume 23.º da <em>Bibliotheca Universal Antiga +e Moderna</em>. +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<h2>CÔRTE NA ALDEIA <br /> +<br /> +E <br /> +<br /> +NOITES DE INVERNO</h2> +<br /> +<br /> +<div class="breaks"><hr /></div> +<br /> +<br /> +<a name="c2" id="c2"></a><h2>DIALOGO I</h2> +<br /> +<h3>ARGUMENTO DE TODA A OBRA</h3> +<br /> +<br /> +Perto da cidade principal da Luzitania está uma graciosa +aldeia, que com egual distancia fica situada á +vista do mar oceano, fresca no verão, com muitos favores +da natureza, e rica no estio e inverno com os +fructos e commodidades, que ajudam a passar a vida +saborosamente; porque com a vizinhança dos portos +do mar por uma parte, e da outra com a communicação +de uma ribeira, que enche os seus valles e outeiros +de arvoredos e verdura, tem em todos os tempos +do anno o que em differentes logares costuma buscar +a necessidade dos homens: e por este respeito foi sempre +o sitio escolhido para desvio da côrte, e voluntario +desterro do trafego d'ella: dos cortezãos, que alli tinham +quintas, amigos ou heranças, que costumam ser +valhacouto dos excessivos gastos da cidade. <br /> +<br /> +Um inverno em que a aldeia estava feita côrte com +homens de tanto preço, que a podiam fazer em qualquer +parte, se juntava a maior d'elles em casa d'um antigo +morador d'aquelle logar, que tambem o fôra em outra +edade da casa dos reis, d'onde com a mudança e experiencia +dos annos, fez eleição dos montes para passar +<span class="pagenum">[8]</span> +n'elles os que lhe ficavam da vida, grande acerto de +quem colhe este fructo maduro entre desenganos. Alli +ora em conversação aprazivel, ora em moderado e quieto +jogo se passava o tempo, se gosavam as noites, se +sentiam menos as importunas chuvas e ventos de novembro, +e se amparavam contra os frios rigorosos de +janeiro. <br /> +<br /> +Entre outros homens, que n'aquella companhia se +achavam, eram n'ella mais costumados, em anoitecendo, +um letrado que alli tinha um casal, e que já +tivera honrados cargos do governo da justiça na cidade, +homem prudente, concertado na vida, douto na sua +profissão, e lido nas historias da humanidade: um fidalgo +mancebo, inclinado ao exercicio da caça, e muito +affeiçoado ás cousas da patria, em cujas historias estava +bem visto: um estudante de bom engenho, que +entre os seus estudos se empregava algumas vezes nos +da poesia: um velho não muito rico, que tinha servido +a um dos grandes da côrte, com cujo galardão se reparara +n'aquelle logar, homem de boa creação, e, além +de bem entendido, notavelmente engraçado no que dizia, +e muito natural de uma murmuração que ficasse +entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante. Ao +senhor da casa chamavam Leonardo, e ao doutor Livio, +ao fidalgo D. Julio, ao estudante Pindaro, ao velho +Solino. Fóra estes havia outros de quem em seus logares +se fará menção, que assim como os mais, não eram +para engeitar em uma conversação de poucas porfias. <br /> +<br /> +Uma noite do novembro, em a qual já o frio não dava +logar a que a frescura do tempo convidasse ao sereno, +estando ainda Leonardo á mesa, porém no fim das +iguarias, bateram á porta Pindaro e Solino, aos quaes +o velho mandou abrir com grande alvoroço e festa; +porque a de o buscarem era a que mais estimava por +sua. Subiram, agasalhou-os com contentamento e cortezia. +Sentaram-se perto da mesa, e disse o senhor da +casa:—Peza-me que não viesseis mais cedo, que me poderieis +acompanhar n'este trabalho tão necessario da +velhice. Mas se ainda virdes na mesa alguma cousa de +vosso gosto, lançae mão d'ella, que de mistura achareis +a minha boa vontade.—Eu sei (disse Pindaro) a +que tendes de me fazer mercê; mas venho ceiado e tambem +Solino, a quem tive por hospede, e já a conversação +<span class="pagenum">[9]</span> +me dobrou o gosto das iguarias.—Eram ellas tão +boas (respondeu Solino) que a mim me davam graça. +Porém o serdes vós tào miudo nas cortezias, me deu +muita pena: e já que sois tão discreto, e tanto meu +amigo, d'aqui adeante emendae-vos nas ceremonias da +mesa; e adverti ao vosso moço que não acompanhe +com os olhos os bôccados dos hospedes, até o estomago: +porque apostarei que me contou todos os da ceia, +e anda tão destro no apartar das brigas, que ainda +bem não desvio um prato do outro, quando me dá xaque +em ambos, e me deixa em casa branca. E não vos +pareça que é isto dizer que venho faminto; que, se assim +fôra, póde ser que o cumprimento do sr. Leonardo +não ficára solto e livre; antes é fazer-vos lembrança +que, pois daes tambem de comer, não tenhaes um moço +Harpya, que descomponha o sabor dos manjares.—Bem +sei (respondeu Pindaro) que ainda farto não haveis +de deixar de roer. O meu moço é de uma d'estas aldeias +vizinhas, ha pouco que me serve; por isso, e por ser +creado de estudante, lhe devieis perdoar o erro, e a +mim o remoque; porém a vossa condição não se sujeita +a respeito nem a desculpas.—É tão saborosa a murmuração +de Solino (disse Leonardo) que tambem na mesa +se póde estimar como boa iguaria: e se a eu tivera +muitas vezes, déra vida ao appetite que para as outras +me falta.—Se o ella fôra (tornou Solino) em mais +occasiões me valêra das em que a vós podeis desejar. +Mas, não tratando de vol-a offerecer, nem de a desculpar +com meu amigo; como ceiastes hoje tão tarde, e não +vieram mais cedo o doutor e D. Julio?—Antes (disse o +velho) me mandaram já recado, e não devem tardar. +Eu o fiz com a ceia, porque os homens de serviço me +não deram logar senão a esta hora: mas ouço que batem +á porta e devem ser elles. <br /> +<br /> +A este tempo mandou juntamente alçar a mesa, e +levar a luz á escada. Subiram o doutor e D. Julio; +saudaram-se com muita alegria; e sentados perto do +fogo, disse o velho: Muito deveis ambos a Solino; +porque vindo a esta casa com Pindaro, de quem foi +convidado na ceia, e tendo a minha em estado de que +se podia aproveitar de alguma cousa d'ella, vos +achou menos, e perguntou a causa da tardança; signal +é este de amor e da pouca razão com que o temos +<span class="pagenum">[10]</span> +por desobrigado de toda a affeição dos amigos.—Não +é Solino tão descuidado do que lhe eu mereço +(tornou D. Julio) que se esqueça de mim, e de +quanto sentirei perder horas suas: e pelo interesse +das da conversação do doutor o tivera em menos conta +se as não desejára: e além d'isto posso affirmar que +está pago da lembrança que teve, com a diligencia que +fizemos pol-o trazer comnosco, que voltamos pela sua +porta, e eu tirei uma pedra á janella, d'onde me disseram +que ceiava com Pindaro; e cada um dos dois me +fez inveja.—Ah! sr. D. Julio (respondeu elle) tão grande +trovoada de cumprimentos seccos não podia deixar de +lançar pedra. Eu tenho feita a conta, e sei que não +posso pagar o que vos devo além d'essa honra e mercê, +senão com a humildade com que a todas reconheço +por vossas. Dae-vos por satisfeito de meus desejos, e +de pôr aqui ponto nos cumprimentos; porque não tenho +polvora mais que para a primeira salva.—Já eu me +quizera metter em meio (disse o doutor) porque se vós +a terdes em cortezias, não haverá quem as pague, se +não fôr Pindaro, que tem uma corrente tão arrebatada, +que não dá vau a nenhuma rethorica do mundo.—Agora +(arguiu Leonardo) levastes tres de um tiro; não +me dou por seguro n'este logar, inda que é de minha +casa: porém não tendes razão contra Pindaro, que, +cada vez que o ouço, me parece um livro de cavallarias. +Se elle tivera encantamentos escuros, castellos +roqueiros, cavalleiros namoradores, gigantes suberbos, +escudeiros discretos, e donzellas vagabundas, como +tem palavras sonoras, razões concertadas, trocados +galantes, e periodos que levam todo o fôlego, pudéra +pôr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo, e +ainda o mais pintado de todos os que n'esta materia +escrevêram: e já estive em o persuadir que se mettesse +em uma empreza semelhante: porém receio que se me +ensoberbeça com a altiveza de seu estylo, e despreze +aos amigos.—Não merecia eu, sr. Leonardo, a vós, nem +ao doutor (disse Pindaro) que tomasseis meus defeitos +por materia de vossa galantaria: falo como sei, e cada +um se extende conforme a roupa com que se cobre. +Não sou tão philosopho como o doutor, tão cortezão +como vós, nem tão engraçado como Solino, nem tenho +maiores penas que a gaiola; porém se abrisse as azas +<span class="pagenum">[11]</span> +para compôr livros, não houveram de ser de patranhas. +Por isso fiae mais de meus pensamentos.—Nunca o +tive de vos offender (respondeu o velho) nem me parece +com razão a vossa desconfiança; nem podeis fazer +tão pouca conta dos livros de cavallarias, e dos +famosos auctores que os escreveram, e que mostraram +n'elles a sua boa linguagem com toda a perfeição: a +graça de tecer e historiar as aventuras, o decoro de +tratar as pessoas, a agudeza, a galantaria das tenções, +o pintar as armas, o betar as côres, o encaminhar e +desencontrar os successos, o encarecer a pureza de +uns amores, a pena de uns ciumes, a firmeza em uma +ausencia, e outras muitas cousas que recreiam o animo, +affeiçoam e apuram o entendimento. Se vós tendes +por despreso compôr livros de cavallarias, eu vos desengano +que pertencem mais cousas ao bom auctor +d'elles, que a um dos lettrados philosophos ou juristas, +com que desejaes do vos parecer; porque lhe importa +saber a geographia dos reinos e provincias do mundo, +para encaminhar por ellas a sua historia; ter noticia +dos nomes e cousas que usam n'aquellas partes, d'onde +faz naturaes os cavalleiros, saber estylo de côrte para as +mesuras, gasalhados e cortezias, conforme as pessoas +introduzidas, conhecer da justiça, do torneio e do sarau. +a ordem, as leis e as gentilezas, entender da bastarda e +da gineta, o que convém para pintar o encontro, a quéda, +o acerto, o dezar, o brio ou descuido de um cavalleiro, +debuxar o cavallo nas côres, concertal-o nas redeas, +no pizar, no arremesso, na furia, na destreza, +nas carreiras, chaças e rodeios, e sobre o conhecimento +de todas as sciencias e disciplinas, tambem ha de ter +alguma noticia dos nigromantes antigos para os encantamentos +que servem de bordão e valhacouto aos historiadores.—Tenho +por mal empregado (disse então o +doutor) tanto cabedal em cousa de tão pouco interesse, +e não sou de voto qee o auctor, que tiver +as partes +que vós dizeis que são necessarias para essa composição +se occupe n'ella. De que servem livros de cavallarias +fingidas? E se ha ociosos que os leiam, porque +ha de haver algum que os escreva? Ou que espere algum +fructo de trabalho tão vão?—Mas que certeza tão +grande (tornou Leonardo) que cada um approva o que +segue, sendo assim que ninguem se contenta do que +<span class="pagenum">[12]</span> +tem. Desejaveis agora que todos os livros, e todos os +homens tratassem sómente da vossa profissão e fossem +juristas e philosophos. Pois ainda que eu sou bacharel +em linguagem, me atrevo a contradizer essa +opinião adquirida em latim: porque para recreação, +politica e bom estylo se não deve menor logar a estes, +que aos vossos de trapaças e opiniões, e outros a que +chamaes conselhos, que o dão ás vezes bem ruim a quem +se fia de sua leitura. <br /> +<br /> +—Eu era de parecer (disse D. Julio) que poupassemos +esta materia para gastar a noite, pondo-a em maneira +de disputa. E se a todos parece assim, cada um diga +sua opinião nos livros que mais lhe contentam, e das +razões que tem para os approvar; e d'este modo, ou +affeiçoados, ou convencidos, saberemos os que são de +maior gosto, e utilidade.—A isto (respondeu Solino) até +agora estive calado contra minha natureza; porque +me houve por incapaz de fazer terço ao doutor e Leonardo: +mas pois o voto é que se jogue com toda a baralha, +digo que é esta a melhor materia que se podia +escolher para passar o tempo. E já pode ser que algum +dos que aqui estão, que deseja deixar no mundo +memoria de seu engenho, saiba n'esta occasião o em +que o pode empregar melhor.—Pelo que a mim toca +(disse o doutor) comecemos logo; e a vós, sr. D. Julio, +é bem que demos a mão a troco do alvitre: e não tratando +dos livros divinos, nem dos necessarios, dos de +recreação nos podeis dizer quaes, e por que razões vos +contentam.—A minha inclinação em materia de livros +(disse elle), de todos os que estão presentes é bem conhecida: +sómente poderei dar agora de novo a razão +d'ella. Sou particularmente affeiçoado a livros de historia +verdadeira, e mais, que ás outras, ás do Reino +em que vivo, e da terra onde nasci: dos reis, e principes +que teve, das mudanças que n'elle fez o tempo e +a fortuna, das guerras, batalhas, e occasiões, que n'elle +houve, dos homens insignes, que pelo discurso dos annos +florecerão: das nobrezas e brazões que por armas, +lettras, ou privança se adquiriram. O que me inclinou +á escolha d'esta lição, foi que tive alguma de um homem +muito douto, em o que o deve desejar de ser, e +parecer o que é bem nascido; ao qual elle dizia, que o +que mais convinha que soubesse era, o appellido, que +<span class="pagenum">[13]</span> +tinha, d'onde lhe veio; quem fôram seus passados, que +armas lhe deixaram, a significação, e fundamento da +figura d'ellas, como se adquiriram, ou accrescentaram. +Logo os reis que reinaram na sua patria, as chronicas +d'elles, os principios, as conquistas, as emprezas, e o +esforço de seus naturaes; porque falando d'elles nas +terras extranhas, ou na sua com extrangeiros, saiba +dar verdadeira informação de suas cousas. E alcançadas +estas, lhe estará bem tudo o que mais puder saber +das alheias. E na verdade, nenhuma lição pode haver +que mais recreie, e aproveite, que a que sei que é verdadeira, +e por natural ao desejo dos homens deleitosa.—Não +é essa a minha opinião (disse Solino) porque contra +o gosto me assombram muito cousas passadas, e +andar abrindo sepulturas de gente morta. E no que +toca á verdade, certo que á conta dos enterrados se +escrevem algumas vezes tão grandes mentiras, que lhes +não levam vantagem os fingimentos de historias imaginadas. +E havendo um homem de ler o que não é, ou +o que sabe, é tão caldeado, e tão batido da forja dos +auctores, que mudado traz o metal, a côr, e a natureza: +estou melhor com os livros de cavallarias, e historias +fingidas, que, se não são verdadeiros, não os +vendem por esses: e são tão bem inventados, que levam +após si os olhos, e os desejos dos que os lêem. E +não estima um auctor matar mais dois mil homens +com a penna, para fazer valente o seu cavalleiro, com +a espada, sem estar receando os ditos das testemunhas +que ficaram da batalha; que por eguaes respeitos pende +cada uma para seu cabo. Pois se é caso, em que um +historiador queira passar adeante como Ariosto, não +matou mais gente a peste grande em Lisboa, que Rodamonte +nos muros de Paris.—Essa é uma das razões, +porque eu os reprovo (tornou o doutor) porque a fabula +é uma cousa falsa, que podia comtudo ser verdadeira, +e acontecer assim como se fingio. Porém a isto +não dão logar os livros de cavallarias, com esses excessos, +e outros encantamentos, fazendo casas, e torres +de crystal, edificios, lagos, e columnas impossiveis, +pyramides de alabastro, e casas de pedraria, cuja riqueza +podia empobrecer a fortuna. E em nossos tempos, +na India Oriental, sabemos que o rei Mogor andou +muitos annos fabricando uma casa de esmeraldas, por +<span class="pagenum">[14]</span> +cujo respeito se passavam d'este Reino á nossa India +as da Occidental. E emfim morreu sem a acabar; e não +ha livro de cavallarias em que qualquer cavalleiro de +um castello não acabe cousas maiores. E deixando isto, +é graça, e galantaria, comparar historias verdadeiras +com patranhas desproporcionadas, que gastam o tempo +mal a quem n'ellas se occupa, quando as outras servem +de exemplo para imitar, de lembrança para engrandecer, +e de recreação para divertir. A quem não anima +ler as historias de seus passados? A quem não move +o desejo de egualar a fama que lê de suas obras? O governo +da paz? A ordem da guerra? O trato dos homens? +O commercio das provincias? D'onde se conserva, +alcança, e sabe senão pelas historias verdadeiras? +Porque n'ellas sabe cada um felizmente pelos +successos alheios o que deve seguir. D'onde Marco Tullio +chamou á historia mestra da vida.—Vós, sr. doutor +(disse Solino) achareis isso nos vossos cartapacios: +mas eu ainda estou contumaz. Primeiramente, nas historias, +a que chamam verdadeiras, cada um mente segundo +lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu +para mentir; porque se não fôrem estas tintas, é +tudo tão misturado, que não ha panno sem nodoa, nem +légua sem máu caminho. No livro fingido contam-se as +cousas como era bem que fôssem, e não como succederam, +e assim são mais aperfeiçoadas. Descreve o cavalleiro +como era bem que os houvesse, as damas quão +castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros, +os extremos quão grandes, as leis, as cortezias, o +trato tão conforme com a razão. E assim não lereis livro, +em o qual se não destruam soberbos, favoreçam +humildes, amparem fracos, sirvam donzellas, se cumpram +palavras, guardem juramentos, e satisfaçam boas +obras. Vereis que as damas andam pelas estradas, sem +haver quem as offenda, seguras na sua virtude propria, +e há cortezia dos cavalleiros andantes. E quanto ao retrato +e exemplo da vida, melhor se colhe no que um +bom entendimento traçou, e seguiu com muito tempo +de estudo, que no successo, que ás vezes se alcançou +por mão da ventura, sem a diligencia e engenho metterem +nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham +excessos desatinados, que não sejam semelhantes á +verdade, nem os encantamentos tão escuros e desconformes, +<span class="pagenum">[15]</span> +que não tenham alguma maneira de enganar o +juizo; porém os livros bem fingidos, como verdadeiros +obrigam. Um curioso em Italia (segundo um auctor de +credito conta) estando com sua mulher ao fogo lendo +o Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto +sentimento, que lhe accudiu a visinhança a saber o +que era. E no que toca ao exemplo; um capitão valoroso +houve em Portugal, que o não teve melhor o Imperio +Romano, que com a imitação do um cavalleiro +fingido, foi o maior de seus tempos, imitando as virtudes +que d'elle se escreveram. Muitas donzellas guardaram +extremos de firmeza, e fidelidade, costumadas +a lêr outros semelhantes nos livros de cavallarias. Na +malicia da India tendo um capitão nosso cercado uma +cidade de inimigos, certos soldados camaradas, que +albergavam juntos, traziam entre as armas um livro +de cavallarias, com que passavam o tempo. Um d'elles, +que sabia menos que os mais d'aquella leitura, tinha +tudo o que ouvia lêr por verdadeiro (e assim ha alguns +innocentes, que cuidam que se não pode mentir em +lettra redonda) os outros ajudando a sua simpleza lhe +diziam que assim era. Veio occasião de um assalto, em +que o bom soldado invejoso, e animado do que ouvia +lêr, lhe pareceu ensaio de mostrar seu valor, e fazer +uma cavallaria, de que ficasse memoria; e assim se +metteu entre os contrarios com tanta furia, e os começou +a ferir tão rijamente com a espada, que em +pouco espaço se empenhou de sorte, que com muito +trabalho, e perigo dos companheiros, e de outros muitos +soldados, lhe ampararam a vida recolhendo-o com +muita honra, e não poucas feridas. E reprehendendo-o +os amigos d'aquella temeridade, respondeu: Ah! deixae-me, +que não fiz a metade do que cada noite lêdes +de qualquer cavalleiro do nosso livro. E elle d'alli +adeante o foi muito valoroso.—Muito festejaram todos +o conto, e logo proseguiu o doutor: Tão bem fingidas +podem ser as historias, que mereçam mais louvor, que +as verdadeiras; mas ha poucas que o sejam; que a fabula +bem escripta (como diz Santo Ambrozio) ainda +que não tenha força de verdade, tem uma ordem de +razão, em que se podem manifestar as cousas verdadeiras. +Xenofonte querendo pintar uma republica perfeita, +e regimento politico, por modo de historia, fingiu +<span class="pagenum">[16]</span> +o governo de Cyro, rei dos Persas. D. Antonio de +Guevara, em nome de um imperador romano escreveu +o que elle queria dizer em Hespanha; e outros que +ainda em modo mais extranho ensinaram aos homens, +como Esopo nas suas fabulas, e Lucio Apuleio no seu +Asno d'ouro; e todos os livros que em seu genero são +bons, se podem chamar perfeitos. Resta agora que +o que escreve historia seja verdadeiro; e não terá +Solino de que o reprehender n'ella. O que compõe +fabulas seja verosimil, e não terei eu razão de o reprovar. +O que trata de sciencia, alegue razões. O que fala +de artes, experiencia. E o que quer ensinar principios, +mostre auctoridade. E posto que eu tenha muitas que +allegar em favor da vossa opinião, sr. D. Julio, vós estaes +no caso, e todos os mais, que a historia verdadeira +apascenta os doutos, adelgaça os grosseiros, encaminha +os moços, ensina os mancebos, recreia os velhos, +anima aos baixos, sustenta aos bons, castiga aos maus, +resuscita aos mortos, e a todos dá fructo a sua lição. +E porque esta não seja mais comprida, diga Pindaro +agora a sua opinião. <br /> +<br /> +—Apostarei eu (disse Solino) que, se a Pindaro lhe armarem +com poesia levantada sobre os bons conceitos, +e versos, que com serem amorosos, sejam arrogantes, +que o tomaram como passaro em visco.—Para isso (disse +o doutor) arredar-lhe as occasiões, e vá com declaração, +que não tratamos de poesia.—Essa condição (accudiu +Pindaro) logo ao principio ficou declarada; que como +exceptuastes livros divinos, n'esse numero devem estar +os dos poetas, que mereceram este nome; e o que +elles antigamente tiveram, e ainda agora lhe dão os +Latinos, assim o deixa entender. E Platão quando d'elles +escreve, lhes chama divinos interpretes dos deuzes, +possuidos de espiritos celestes: d'onde Marco Tullio +tirou os louvores, com que os trata. Origenes affirma +que a poesia é uma virtude espiritual, que inspira +em os poetas, e lhes enche o animo e o entendimento +de uma divina força. Santo Agostinho lhes chama theologos +para cantarem os louvores divinos. Diziam os +philosophos antigos que, se os deuses falassem, seria +em verso: trazendo exemplo do oraculo de Apollo, e +das Sibyllas. Cassiodoro diz que a poesia tomou principio +da divina escriptura. De maneira que por auctoridade +<span class="pagenum">[17]</span> +de tão grandes varões, nunca os livros de poesia +podem vir em competencia com os de que até agora +tratastes; que d'outro modo já estivera concluida a differença.—O +que eu vejo (tornou D. Julio) que, ainda que +o doutor vos cerrara a porta, que mettido de ilharga +dissestes tudo o que cumpria a vosso intento por junto, +o quanto para mim estaes declarado; o com o desejo +de ouvir a opinião do doutor, não digo o mais que me, +parece.—Ora (respondeu elle) não quero que a essa conta +fique o meu voto ás escuras; e digo, não falando em +poesia, que não escolho lição de historiadores verdadeiros, +nem tenho por melhor a dos fingidos; porque +uns servem de conservar a memoria, os outros de enganar +o entendimento: e serão melhores os livros que +deleitem a memoria, e a vontade, e apurem, e levantem +o entendimento, como os de recreação, que com +alguma enganosa novidade tratam de materias politicas, +e engraçadas: de côrte, de aldeia, e de qualquer +sujeito aprazivel: e ha d'estes muito bem recebidos, +approvados, e proveitosos na republica, cuja variedade, +e doutrina é para mim lição muito saborosa.—Não estou +mal com essa opinião (disse o doutor) o quasi que vós, +e eu estamos em um mesmo pensamento; senão que +deixastes de declarar o que agora me fica para dizer; +porque até aqui falámos do modo de compor, e escrever +livros; e não das materias, que escriptas serão +agradaveis. E deixando em duvida o vosso parecer para +se conferir com a tenção; o meu é, que o melhor modo +de escrever são os dialogos escriptos em prosa, com +figuras introduzidas, que disputem, e tratem materias +proveitosas, politicas, engraçadas, e cheias de galanteria: +sendo a primeira figura da obra o autor d'ella; e +isso que vá guiando, e introduzindo as mais, que sejam +apropriadas áquellas materias, de que hão de tratar +entre si. E além de ser este estilo mais claro, mais +vulgar, mais excellente, inclue em si a lição de todos +os outros modos de escrever, como o são os da historia +verdadeira, e fingida, das artes liberaes, e mecanicas; +das sciencias, e disciplinas necessarias; das profissões +particulares; da razão do governo; da vida politica +ou privada. E quando este modo de escrever não +tivera por si mais que a auctoridade dos que n'elle escreveram, +como foi Platão, Xenofonte, Tullio, e outros +<span class="pagenum">[18]</span> +infinitos: essa bastara para acreditar os dialogos. Além +d'isto, eu tenho para mim que aquella é melhor escriptura, +que com mais perfeição, e viveza imita a pratica, +e conversação dos homens; porque assim como a +melhor pintura é a que mais se parece com a obra da +natureza, a que quer contrafazer; assim a melhor escriptura +é a que retrata com mais semelhança o falar, +e conversação d'entre os amigos. Nos poemas tinham +os poetas antigos que o mais levantado era a tragedia +pela imitação natural da pratica, com introducção de +figuras, junto com a gravidade, peso, e tristeza dos +successos tragicos. E porque tambem a variedade é a +que mais costuma enterter, e deleitar o animo dos homens, +e esta é mais certa, e mais propria nos dialogos, +me parece que no gosto d'elles serão melhor recebidos. <br /> +<br /> +—Pois assim é (disse D. Julio) que a principal razão +porque approvaes os dialogos, é porque mais familiarmente +se parecem com a pratica. Desejo saber qual é +mais nobre cousa, se a pratica, se a escriptura: porque +a mim me parece que á escriptura se deve o melhor +logar, e que antes merecia a pratica por se parecer +com ella; o que agora encontra a vossa opinião.—Nenhuma +duvida ha (respondeu o doutor) que a pratica +seja mais nobre, mais antiga o mais excellente; porque, +além de o falar ser operação natural dos homens, +e acto em que elles fazem vantagem, e differença a todos +os animaes, a escriptura não é mais que uma escrava +e servente das palavras, e o escrever não é outra +cousa mais que supprir com um instrumento por meio +da arte, e das mãos o que com a voz se não póde exprimir +e alcançar com os ouvidos, ou por distancia de logar, +como quem escreve aos ausentes, ou por discurso +de tempo, como quem escreve para os vindouros. E +porque nunca a escrava é tão nobre como a senhora +a quem serve, em quanto escrava, nem o que substitue +em logar d'outrem se lhe póde preferir no mesmo +logar; assim nunca a escriptura póde egualar a nobreza +e perfeição da pratica.—O contrario me parece a +mim (replicou o fidalgo) porque nem por a pratica ser +mais antiga, e primeira que a escriptura é mais perfeita; +antes ella foi a perfeição da pratica: e posto que +seja própria operação do homem o falar, não é n'elle +menos nobre accidente o de escrever; antes me parece +<span class="pagenum">[19]</span> +mais digno o que elle alcançou por arte, que o que adquiriu +por uso: e quasi que ousaria a dizer que é operação +sua o falar, dada a respeito de haver de escrever, +pois esse é o meio de se perpetuar, sustentando +no entendimento dos presentes, e na lembrança dos +futuros a memoria das cousas passadas. Assim que nem +por a primeira razão merece a pratica melhor logar, +nem a escriptura, por servente e ministra sua, é menos +nobre. Porque o sol serve de mostrar as cousas creadas, +que lhe são muito inferiores, e de dar luz e nutrimento +a outras de menor qualidade, e nem por isso +ellas se lhe podem antepôr. E quanto a substituir a +escriptura em logar da voz, ella o faz por tão excellente +maneira, que lhe tem muita vantagem; pois o +que a voz não póde exprimir juntamente em differentes +logares, e a diversas pessoas em um mesmo tempo, +o faz a escriptura com grande perfeição, podendo muitas +pessoas, em differentes logares, lêr em um mesmo +tempo a propria cousa: pelo que me parece que, ainda +que a vossa escolha fosse boa, não fundastes bem a +razão d'ella.—Certo (disse Leonardo) que de ambas as +partes déstes tão boas razões, que fica duvidosa a melhoria. +Porém concedendo á pratica a excellencia, a +acção, o modo e a graça de falar, que é uma viveza a +que se não eguala outra nenhuma lembrança; a escriptura +tem tantas grandezas que parece egualmente necessaria +para a vida, pois ficava o mundo ás escuras +sem a luz da dilação escripta; e só na tradicção dos +homens se salvaria a memoria das cousas; e nas principaes +dominaria a ignorancia com mero imperio. Porém, +deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria +e agudeza está tocado o que baste, quero que +passemos adeante, e, por me fazerdes mercê, que me +ensineis se na pratica, em voz, e na escriptura considerada +tem bom logar a nossa lingua portugueza; porque +ouço de má vontade a alguns naturaes que tratam +mal d'ella e a condemnam por grosseira e limitada. <br /> +<br /> +—Uma cousa vos confessarei eu, sr. Leonardo (disse a +isto D. Julio) que os portuguezes são homens de ruim +lingua, e que tambem o mostram em dizerem mal da +sua, que assim na suavidade da pronunciação, como +na gravidade e composição das palavras é lingua excellente. +Mas ha alguns nescios, que não basta que a +<span class="pagenum">[20]</span> +falem mal, senão que se querem mostrar discretos, dizendo +mal d'ella: e o que me vinga de sua ignorancia, +é que elles acreditam a sua opinião; e os que falam +bem desacreditam a ella e elles.—Bravamente é apaixonado +o sr. D. Julio (acudiu o doutor) pelas cousas da +nossa patria: e tem razão, que é divida que os nobres +devem pagar com maior pontualidade á terra que os +creou. E verdadeiramente que não tenho a nossa lingua +por grosseira, nem por bons os argumentos com +que alguns querem provar que é essa; antes é branda +para deleitar, grave para engrandecer, efficaz para mover, +dôce para pronunciar, breve para resolver, e accommodada +ás materias mais importantes da pratica +e escriptura. Para falar é engraçada com um modo senhoril: +para cantar é suave com um certo sentimento +que favorece a musica: para prégar é substanciosa, +com uma gravidade que auctorisa as razões, e as sentenças: +para escrever cartas nem tem infinita copia +que damne, nem brevidade esteril que a limite: para +historias nem é tão florida que se derrame, nem tão +secca que busque o favor das alheias. A pronunciação +não obriga a ferir o céo da bôcca com aspereza, nem +arrancar as palavras com vehemencia do gargalo. Escreve-se +da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de +todas as linguas o melhor: a pronunciação da latina; +a origem da grega; a familiaridade da castelhana; a +brandura da franceza; a elegancia da italiana. Tem +mais adagios e sentenças que todas as vulgares, em fé +de sua antiguidade. E se á lingua hebrea pela honestidade +das palavras chamaram santa, certo que não +sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em materia +descomposta quanto a nossa. E para que diga +tudo, só um mal tem, e é que pelo pouco que lhe querem +seus naturaes, a trazem mais remendada, que capa +de pedinte.—Folguei extranhamente de vos ouvir +(disse Solino) por não ficar tão covarde, como até agora +estava, em ouvindo murmurar da lingua portugueza; +e não ousava, ou não sabia dizer a minha opinião, a +qual cuidava que me nascia do amor que lhe tenho, e +que cada um tem ás suas cousas como o corvo aos filhos, +e Pindaro ás suas trovas. Porém quando um +homem tão bem fundado na razão como o doutor, e tão +auctorisado em seu parecer sustenta esta parte, nenhuma +<span class="pagenum">[21]</span> +haverá já tão rija, que me tire o atrevimento.—Nem +a lingua (disse Pindaro) pois não ha amizade que vos +faça perder o costume.—Perdoae-me (tornou elle) que +vos feri por não perder o golpe. E tornando ao que aqui +se tratou para recordar o que começamos, averiguou +o doutor que a melhor maneira de escrever eram os +dialogos (ficando meu direito reservado nos livros de +cavallarias), tocaram-se louvores da pratica e escriptura +com muito engenho; declarou-se como a lingua +portugueza não desmerece logar entre as melhores, +para n'ella se escreverem materias levantadas, apraziveis, +proveitosas e necessarias. Que falta entre vós +para que d'estas noites bem gastadas, d'estas duvidas +bem movidas, e d'estas razões melhor praticadas se +faça um ou muitos dialogos, que sem vergonha do mundo +possam apparecer nas praças d'elle á vista dos curiosos, +e ainda dos murmuradores?—Tem Solino muita +razão (disse D. Julio) e se assim forem os dialogos como +se podem formar com a pratica de alguns que estão +presentes, bem se auctorisará a opinião do doutor, +posto que a minha fique de vencida com a vantagem +que aqui tem a pratica das escripturas alheias. E pois +se aproveitam tão bem as noites n'este logar, razão é +que por meio d'elles se communiquem a quem se aproveite +da doutrina e interesse d'ellas.—Se eu não dormira +tão poucas horas da passada (disse o doutor) +ainda houvera de proseguir adeante e responder a +isso; mas com vossa licença me vou recolher e amanhã +accudirei mais cedo.—Acompanhemos o doutor +(disse o fidalgo), e levantando-se elle, se despediram +todos com muita cortezia, deixando ao senhor da casa +magoado de se acabar tão depressa a conversação; +que quem sabe estimar a que é tão boa, tem sentimento +das horas que d'ella perde. +<br /> +<br /> +<br /><span class="pagenum">[22]</span> +<a name="c3" id="c3"></a><h2>DIALOGO II</h2> +<br /> +<h3>DA POLICIA E ESTYLO DAS CARTAS MISSIVAS</h3> +<br /> +<br /> +Ficaram os amigos tão affeiçoados á conversação +d'aquella noite, que, por fazerem a do outro dia mais +comprida, acudiram a ajuntar-se logo depois de se pôr +o sol; porém cada um com pejo de ser o primeiro, passeavam +em dois postos, o doutor com D. Julio, e Pindaro +com Solino á vista da casa de Leonardo, até que +elle chegou á janella; e mostrando o mesmo desejo que +os quatro traziam, facilitou o receio e approvou as horas. +Subiram todos, e disse o doutor:—Pareceu-me este +dia tão comprido, na esperança da noite, como aos trabalhadores +que devem o jornal.—E a mim (tornou Leonardo) +a noite, depois que me deixastes, tão importuna +como quem espera a manhã para cousa de seu gosto: +e assim não é muito que vós viesseis tão cedo, e que +a mim me pareça que já era tarde.—Todas as cousas +que se desejam muito (tornou D. Julio) por pouco que +se dilatem, tardam mais.—E as que se temem (proseguiu +Solino) por muito que tardem, parece que se anticipam. +D'onde um disse maravilhosamente que o que +queria que a quaresma lhe parecesse breve, devesse +pagamentos para a Paschoa. Emfim chegou mais cedo +este prazo que todos desejamos: e se o senhor da casa +dormiu pouco, eu apostarei que ha algum na companhia +que se desvelou mais.—Não era occasião para descuidos, +(disse o doutor) e nos mancebos era demasiada +desconfiança entrar n'esta batalha desapercebidos.—Os +apercebimentos (tornou o fidalgo) podem fundir muito +pouco: porque como até agora é incerta a materia de +que se deve tratar, serão sem fructo as diligencias.—É +engano (replicou Solino) que nunca falta uma carta em +que prender; como um homem tem as suas apuradas +e ha cousas que se levam a rasto como corpo morto, e +quando sejam bem cuidadas, nunca são mal ouvidas. E +se não, digam-n'a as olheiras com que esta manhã vi a +meu amigo Pindaro.—Já sei (disse Pindaro) que vêdes +mal: mas contra mim ainda é peior a vossa tenção que +a vista; não me pagaes bem o que vos mereço, mas é +<span class="pagenum">[23]</span> +na moeda que tendes.—E na que corre (tornou elle) que +o rifão de agora diz que fazer e dizer mal, nunca se +perde. Não vos escandaliseis; que tudo ha nos homens +e nas cartas. Essa (disse então D. Julio) hei eu de partir: +porque desejava muito alçar por ellas; e pois o +doutor falou hontem em cartas missivas, e approvou +para ellas a lingua portugueza, nos ha de declarar o +que ha de ter uma carta para ser cortezã e bem escripta.—Esse +cargo (tornou o doutor) convem mais ao +senhor da casa: porque ainda que a carta consta de +lettras, não é profissão de lettrado fazel-as cortezãs: +e quem sabe tanto do estylo da côrte como Leonardo, +póde dar lei para ellas.—Vós (respondeu elle) sois doutor +em tudo, e meu superior em todas as materias, e +como tal me podeis dar o grau de cortezão. Eu o quizera +parecer na confiança, e em obedecer ao gosto d'estes +amigos. Mas para eu proseguir com auctoridade é +bem que vós comeceis a principiar a materia: dizendo, +que nome é <em>carta</em>, e o seu principio, pois me daes +o cargo antes de estar apercebido para elle.—Bem sei +(lhe respondeu o doutor) que por me honrardes a mim +tomaes tudo á vossa conta; folgarei de a dar boa do +que me encommendaes. <br /> +<br /> +Este nome <em>carta</em> é generico, e teve origem de uma +cidade +do mesmo nome, d'onde foi natural a rainha Dido, +que, por o amor que tinha á sua patria, pôz á que edificou +por nome <em>Cartago</em>. E porque em carta se inventou +primeiramente a maneira em que se escrevia (ou +fosse papel, ou outra cousa semelhante a elle) tomou +d'ella o nome como de <em>Pergamo</em> o +<em>pergaminho</em>. É para saber +que nos primeiros tempos, quando se inventaram +as lettras, escreviam os homens nas folhas das arvores: +como ainda hoje nas da palmeira escrevem os gentios +de algumas partes do oriente: as Sybillas n'ellas +escreveram suas prophecias; e assim se chamaram a +seus escriptos <em>folhas sybillinas</em>; e ainda na +linguagem +portugueza se conserva alguma cousa d'esta antiguidade, +pois dizemos <em>folhas de papel</em> sem o papel ter folhas, +mas é em lembrança das primeiras que se usaram +na escriptura. Depois se escreveu em uma casca +tenra de arvores, que é o entreforro da cortiça. E porque +a esta chamavam <em>livro</em>, conservam ainda agora elles +o nome, e a divisão que agora fazem os escriptores +<span class="pagenum">[24]</span> +de <em>livro primeiro</em>, <em>segundo</em>, e +d'ahi adeante é o numero, +porque então deviam contar aquellas cascas. Tambem +se escreveu em o miolo de uma maneira de juncos, a +que chamaram <em>papiros</em>: d'onde aos latinos ficou o +nome +para o papel. Depois se escreveu em taboas nas quaes +sobre cêra, com um instrumento de ferro ou de latão, +a que chamavam <em>estylo</em>, se assignavam as lettras; e +do +ferro com que se escreveram, se veiu a derivar o que +agora dizemos <em>bom</em> ou <em>máu</em>, +<em>humilde</em> ou <em>altivo estylo</em> de +escrever, passando-se por translação a perfeição do +instrumento ao concerto e policia das palavras. D'este +proprio modo se usa no nome de carta, que alcança +em genero a todo genero de papel escripto e ainda +pintado. Os portuguezes fazemos este nome particular +tomando <em>carta missiva</em> por a principal de todas; e +assim +basta dizermos <em>carta</em>, sem mais declaração, para +se entender que é esta; porém nas especiaes d'ellas usam +o nome com seus attributos. E nos instrumentos +judiciaes, que testemunham antiguidade, se diz <em>carta +precatoria, dimissoria, citatoria, de liberdade e de venda</em>, e +outras muitas: e ainda as de jogar, sem terem lettras, +se chamam commummente cartas. E a gente aldeã, +conservando alguma cousa da antiguidade, a qualquer +estampa ou pintura em papel chamam <em>carta</em>. Os latinos +puzeram nome ás cartas missivas <em>Epistola</em>, do +verbo grego, que quer dizer <em>mandar</em>: e +<em>letras</em>, porque a +carta consta d'ellas. Os italianos deram singular e +plural a este nome segundo. E na nossa lingua a que +chamam limitada, não faltou nenhuma d'estas differenças, +antes houve maior perfeição: porque a umas +chamaram <em>cartas mandadeiras</em>; ás que tinham menos +de papel, <em>escriptos</em>; e ás cartas de Italia +<em>lettras</em>, que +são as de Roma, e as de cambio; porque deviam ter +o mesmo principio; porque logo nos de Portugal mandavam +os reis d'elle por lettras copiosas doações á +sé apostolica, do que conquistavam. De maneira que +o nome de carta, quanto á sua origem, é geral e commum; +e entre nós particular das cartas missivas; e +pois lhe descobri o nome, é necessario, sr. Leonardo, +que lhe deis agora o ser. <br /> +<br /> +—Parece-me (respondeu elle) que estou já no meio da +minha obrigação (conforme ao dito do poeta) que quem +começou, tambem tem feita a maior parte. E passando +<span class="pagenum">[25]</span> +do nome da carta aos exteriores d'ella, digo que ha de +ter: Cortezia commum, regras direitas, lettras juntas, +razões apartadas, papel limpo, dobras eguaes, chancella +sutil, e sêllo claro; e com estas condições será +carta de homem da côrte. E falando da cortezia (disse +Solino) que entendeis n'ella?—A cortezia (lhe respondeu +elle) não falando na leitura da carta, é o sobrescripto, +o apartado da cruz, até á primeira regra; e do +principio do papel até o começo de todas: e o final, o +nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E +porque n'isto ha differentes costumes, e erros, me parece +bem fazer de tudo lembrança.—Nos sobrescriptos +temos pouco que tratar (tornou Solino) que depois que +com a pragmatica os cercearam, não ha já <em>prezados</em>, +<em>magnificos</em>, +<em>honrados</em>, e <em>illustrissimos</em>, nem +os <em>senhores</em>. Ainda +(tornou Solino) ficaram alguns de rodeio que são muito +para vêr, e assim o dizem elles: a cujo proposito vos +hei de contar uma historia. Eu (como todos sabeis) vejo +com oculos, e (conforme a opinião de alguns) com elles +muito menos. Os dias atraz, sendo eu ainda innocente +d'este costume, me deram uma carta de um amigo, +que dizia: <em>Para vêr o senhor Solino</em>: aberta ella, a +lettra tal, tão miuda, e embaraçada, que desmentia o +sobrescripto, e por nenhuma via pude vêr o que dizia. +Mas respondi n'outra lettra muito peior, e puz no sobrescripto: +<em>Para cegar o senhor Fuão</em>; ao que elle depois +me respondeu, que estava pelo costume dos presentes.—Nem +todos se hão de seguir (disse o doutor) que, como +escreve o philosopho Favorino, cada um deve usar de +palavras presentes, e costumes antigos; e mais quando +é uso é abuzão, que no primeiro, por ser tal, offenderam +as leis; e no segundo o reprehendem os mesmos +que o usam. Comtudo Leonardo dirá o que lhe parece.—A +mim respondeu elle que a lei é boa, e a cautella +escusada. Porém o sobrescripto tem mais partes de +cortezia, que essa que dissestes, ainda que á primeira +vista pareça cousa tão limitada. E para que comecemos +em ordem; <em>sobrescripto é</em> uma noticia vulgar da +pessoa a quem se escreve, e do logar aonde lhe mandam +a carta, exprimindo-se n'elle o nome, e a dignidade, +por onde é mais conhecida, e o do logar onde +n'aquelle tempo assiste. N'esta regra geral ha uma limitação, +e é: Que ás pessoas do grande titulo, e cargo +<span class="pagenum">[26]</span> +se pode calar, ou usar de outro modo differente esta +segunda noticia; porque, além dos cargos declararem +muitas vezes a assistencia das pessoas, parece cortezia +que as que são mui conhecidas por seu titulo, e dignidade, +basta essa, e o nome para serem buscadas. O +primeiro modo é, como se escrevessemos a N. Vice-Rei +da India, A. N. General de Portugal. O segundo como +a N. Embaixador d'el-rei de Hespanha em a Côrte de +Roma. E posto que estes assistam a tal tempo em villas, +ou cidades particulares, não é necessaria outra +leitura no sobrescripto. Não trato aqui das cartas enviadas +aos reis, de seus vassalos, porque não entram +n'esta regra as que vem dirigidas a seus conselhos +particulares.—Bem podereis (disse o doutor) metter +n'esse logar a historia de um letrado da minha profissão, +que mandando uma informação á Meza do Paço, +poz no sobrescripto: <em>A El-Rei nosso Senhor nos seus Paços da +Ribeira, junto de Luiz Cesar</em>.—D'outro soldado ouvi +eu contar (disse Solino) que escreveu á India: <em>A. N. +Vice-Rei da India, nos Paços de Goa, defronte de um Lanceiro +torto</em>.—Para gente tão nescia (disse Leonardo) não +servem preceitos: mas em outra vejo muitas vezes sobrescriptos +tão miudos, e sobejos, que pessoas muito +particulares se podiam dar por afrontadas d'elles, como +é: A fuão, em tal terra, em tal rua, detraz de tal parte, +defronte de tal casa, e junto a N. E ás vezes é a pessoa +tal, que deve ser mais conhecida por si, que pelas +confrontações.—Dos sobejos (atalhou Solino) não posso +eu calar um, que vi ha poucos dias, de um frade que +escreveu ao seu provincial, que tinha cinco padres +nossos, como conta benta, e dizia: <em>Ao muito Reverendo +Padre nosso, o nosso Padre N. nosso Padre Provincial, no +Convento de nosso Padre S. N. Padre nosso</em>.—Por isso digo +(proseguiu Leonardo) que a noticia deve ser vulgar +que nem afronte, nem lisongeie, nem sobeje, nem falte.—Mais +provavel é (disse D. Julio) que se peque nos sobrescriptos +por demazia, que por falta; porque todos +dizem o nome da pessoa, e a terra para que escrevem.—Não +já um (respondeu Pindaro) que escreveu: <em>A meu +filho o Licenciado em Salamanca, que Deus guarde</em>, +parecendo-lhe +que bastava o grau em logar do nome. Mas que +logar dareis vós aos titulos dos sobrescriptos? Que ha +alguns mais compridos que as cartas que resam o nome, +<span class="pagenum">[27]</span> +o titulo, o senhorio, o cargo, a commenda, e ainda as +pretenções da pessoa a quem se escreve.—A mim me +parece (tornou Leonardo) que os titulos é cousa conveniente, +e necessaria; usados porém com moderação +conforme ao que tenho dito: que noticia vulgar é ser +um homem conhecido por o senhorio, e cargo que tem; +e assim se ha de escrever de cada um o cargo que tem. +e por onde é mais conhecido. Do senhorio como: <em>A. N. +senhor de tal Villa</em>. E estando em ella: <em>A. N. na sua +Villa N</em>. O que tambem se usa nos logares, e quintas, em +que cada um assiste. Do cargo: <em>A fuão, do Conselho d'el-Rei, +e seu Presidente da Fazenda, da Consciencia</em>, etc. <em>A +fuão Desembargador d'el-Rei nosso senhor, e seu Ouvidor dos Aggravos</em>, +etc. Tudo isto com a brevidade necessaria: por +que o sobrescripto, como disse, serve de noticia, e não +já de adulação. E na carta, não se permitte no sobrescripto +o que se não consente no interior; como se algum +escrevesse a este Fidalgo, e lhe quizesse pôr os +títulos, que elle merece, no sobrescripto; convém a saber: +<em>A D. Julio, Columna da nobreza de seus passados, e gloria +das esperanças de sua patria</em>. Ou: <em>Ao Doutor Livio, +honra e luz do Direito Civil, exemplo da philosophia, e thesouro +da humildade</em>: cousas eram estas, que d'elles se podiam +dizer: porém não são no logar do sobrescripto. E passando +d'elles adeante. <br /> +<br /> +A segunda cortezia é no papel, da cruz até á primeira +regra; que ha alguns, que lhe põem os olhos +muito junto com as sobrancelhas: outros, que lhe deixam +pelo meio uma estrada de coches; e pela desconformidade, +que ha entre uns, e outros, veio a ser a regra +entre os eguaes, que fique em branco a quarta +parte do papel, que vem a ser no alto a primeira dobra; +e na ilharga um espaço razoado, que dá logar á +mão para ter a carta sem cobrir as lettras, e para se +cortar, ou passar chancella sem as offender.—E de que +nasce (perguntou Pindaro) que muitos deixam mais +de meio papel em branco da ilharga, e vão a cerzir a +lettra com a cortadura da tesoura?—Esse erro, e outros +muitos (respondeu elle) nascem de mudarem alguns +os serviços ás cousas: porque a invenção não estava +mal no seu logar, se a não fizeram servir nos +alheios. Em cartas de negocio, feitas a pessoas occupadas, +que se fazem por capitulos, e apartadas, ou perguntas +<span class="pagenum">[28]</span> +sobre materias dos mesmos negocios, se deixa +egual parte do papel para responder á margem em ordem +a cada uma das cousas; e assim fica servindo para +duas, uma mesma carta; mas estas não guardam a regra, +nem a cortezia das missivas. O mesmo erro ha no +que Solino primeiro apontou dos sobrescriptos: <em>Para +vêr o senhor Fuão</em>, que nasceu de alguns papeis emmaçados, +que se passavam de ministro a ministro com +sómente aquelle sobrescripto sem outra carta, e sem +terem mais de carta, que o irem cerrados, e sellados, +deram occasião aos que usam o mesmo termo nos sobrescriptos +d'ellas. <br /> +<br /> +—Muitos erros ha (disse D. Julio), nascidos da mesma +occasião. E posto que seja sahir um pouco fora do proposito, +é tão grande bugia da virtude e da honra a vaidade, +que, sómente por a seguir em as apparencias, +tropeça a cada passo em desatinos. Este escreveu, +<em>Para vêr</em>; porque N. Ministro, ou privado escreveu +assim; e veste de tal panno, porque N. de maior qualidade +o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar +o seu frio) faz outro á imitação, e se abraza de quentura. +A Hespanha se passou o uso de vestir dos soldados +de Flandres, por bizarria; e razão tinham de imitar +em outras cousas aos praticos que militam em uma +praça tão ennobrecida das nações da Europa; mas o +que elles faziam obrigados do clima, e o sitio da terra, +usavam os cortezãos por gala, levados do engano da +verdade, os chapéos de aba grande contra a neve, os +ferragoulos abotoados, e com descanços para o frio, as +meias de escarlata debaixo de botas altas contra a humidade, +as solas levantadas por detraz, para não resvalarem +nos caramelos, as roupetas abertas sobre as +armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas +pela necessidade, se passaram á galanteria. Deixo +as côres de Rei, e da Infante, e a historia do Mercador +com el-rei D. João o III, que lhe pediu que se quizesse +vestir de um panno que tinha muito rico, o qual lhe +daria de graça; que com este ardil, em el-rei o vestindo, +vendeu elle a mór valia uma quantidade de peças +d'aquella côr que lhe haviam entrado n'uma partida.—Não +é isso sómente nas cartas, e nos arrojos, disse o +doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a côrte +do imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe +<span class="pagenum">[29]</span> +mandaram os medicos comer borragens, por ser herva +medicinal para a sua enfermidade; e porque os fidalgos +e titulares a viam de ordinario na meza imperial +sem advertirem a occasião porque se fazia, veio a valer +entre elles muito, e a fazerem mil iguarias d'aquella +herva, de sorte que se semeavam tantas nas terras +onde a côrte assistia, que não havia agros d'outro fructo. +Vão-se emfim as cousas mal, e ás vezes são nascidas +de bom costume.—Assim é (disse Solino) que até oculos, +que se inventaram para remediar defeitos da natureza, +vi eu já trazer a alguns por galantaria.—D'essa maneira +seguiu D. Julio se devia mudar para as cartas o estillo +dos papeis, que o não estão por imitarem aos validos. +E tornando á cortezia, que cousas tem mais de +que tratar? <br /> +<br /> +—A terceira, tornou elle, é o nome, e signal do que escreveu +a carta, que nem ha de estar tão junto das lettras, +que pareça soffrego d'ellas, nem no meio do papel +como quem escolheu melhor logar, nem tão apertado, +que fique ausente das regras, nem tanto na ponta +do fim, que pareça que se amuou áquelle canto; mas +com um meio ordinario, como é assignar-se um pouco +abaixo das regras, mais inclinado á parte direita que +á esquerda, que é uma certa modestia, e humildade de +quem escreve.—E que dizeis, (perguntou o doutor) do +acompanhamento do signal? Porque ha uns que se nomeiam +<em>servidor de vossa mercê</em> N., outros +<em>vassallo</em>; outros +<em>captivo</em>, outros <em>seu</em> N. e ha +n'isto muita variedade, e +ignorancia.—Primeiramente (continuou Leonardo) +<em>servidor</em> +já se passou das cartas para os retretes: <em>servo</em> +para os matos, e <em>captivo</em> para os comprimentos +refinados +em a pratica; <em>creado</em>, era termo bem creado, e +<em>seu</em> +é descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos, +o mais seguro é escrever cada um o seu nome sem +mais leitura.—Não sejaes tão estreito nas licenças(disse +Solino) que deitaes a perder cartas que só pelos comprimentos +do signal merecem fama. Um homem escrevendo +a sua propria mulher, se assignou <em>vosso servo N.</em>, +e ella o fazia tal na mesma ausencia. O outro, de que +contam vulgarmente, porque corria nos signaes o <em>menor +creado de vossa mercê N.</em>, escrevendo a sua mulher se +assignou <em>o menor marido vosso N.</em>, e a senhora devia +de +ter mais varões que a Samaritana. De uma gentil dama +<span class="pagenum">[30]</span> +sei eu (disse Pindaro) que escrevendo a um seu galante +se assignou <em>sua N.</em>, e elle lendo a carta, voltou +para um amigo com que estava, e disse <em>sempre temi esta +nova</em>; e perguntando-lhe o outro que era? Respondeu +<em>sua N., e é principio de verão</em>: Outro em Coimbra, +querendo-se +humilhar muito aos pés de um amigo, a que +escrevia, se assignou <em>Antipoda de vossa mercê +N.</em>—Quanto +mais galantes são essas historias (tornou Leonardo) +tanto mais de estimar é a moderação, e bom termo de +não se sahir d'aquelle limite da cortezia commum; e +passando d'ella ha de ter a carta regras direitas, que +ha alguns que escrevem em escadas como figuras de +solfa: lettras juntas, e razões apartadas, com a distincção +dos pontos, virgulas, e accentos necessarios, para +fazerem perfeito sentido das razões; porque ha cortezãos, +que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor +os rasgos da penna, vão encadeando as lettras +pelas cabeças, como sardinhas de Galliza; e de maneira +confundem a escriptura, que não ha tirar d'ella o sentido +verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas, +que por mal escriptas perdem reputação; o papel seja +limpo para n'elle empregar sem fastio a vista o que +ha de lêr, e porque pareçam melhor as lettras bem ordenadas; +a chancella sutil, porque ao abrir da carta a +não offenda, que alguns a fazem parecer carta rota +antes de lida: dobras eguaes, porque o concerto auctorisa +as cousas, e as faz parecer melhor: o sêllo claro, +assim para lustro da carta, como para guarda d'ella, +pois é o cadeado que a defende dos curiosos de saber +segredos alheios.—Não corrais com tanta pressa (disse +D. Julio) por essas particularidades, e miudezas, que +em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas +contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo +sobre a materia das armas, e tenções com que se costumam +sellar as cartas; e assim estimarei que nos digaes +d'isto alguma cousa. <br /> +<br /> +—As armas (respondeu elle) é a insignia que cada um +tem de sua nobreza, conforme ao appellido com que +se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as cartas de importancia, +ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do +escudo, ou com elle em tarja, como tenção; que estas +como são pensamento, e desenho particular, se abrem +ás vezes em redondo, ovado, ou quadrangulo, e outras +<span class="pagenum">[31]</span> +figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal é cousa +muito antiga aos principes trazerem tenções, e emprezas +com lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas +Reaes, que posto que n'aquelle tempo não estavam +tão apuradas como agora, nem eram sujeitas á +arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, não +lhes faltava entendimento, e galanteria. El-rei D. João +o I trazia na orla das Armas uma lettra, que dizia: +<em>Por bem</em>. E a rainha D. Filippa de Alancastre sua +mulher, +outra que respondia a esta em Inglez que dizia: +<em>Me contenta</em>. O infante D. Fernando seu filho, o +Santo, +trazia uma capella de hera com seus cachinhos, e no +meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja cavallaria era Mestre. +O infante D. Pedro uma capella do carvalho com +suas bolotas, e no meio umas balanças, e nas Armas +Reaes, no banco de pinchar, em cada pé d'alto abaixo +mãos, e por cima umas lettras escriptas muitas vezes, +que diziam: <em>Dizer</em>, e entre cada palavra d'estas um +ramo de carvalho com bolotas. O infante D. João, que +foi mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel +D. Nuno Alvares Pereira, trazia uma capella de +ramos de silva com cachos de amoras, com as bolsas +de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma +com uma lettra em Inglez, que dizia: <em>Com muita +razão</em>. +O infante D. Henrique, Mestre na Ordem de Christo, +trazia as armas do Mestrado, e de antigas de Portugal, +e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava +no cabo de baixo, e uma fivella que fazia volta com a +correia, e em Inglez a lettra dos cavalleiros de Garrotea, +que elle tambem era, e dizia: <em>Contra si faz quem +mal cuida</em>. E uma capella de carrasco, e no banco de +pinchar tres flôres de lirio em cada pé. El-rei D. Affonso +o V trazia pintado um mundo com esta lettra: <em>Conheço +que não te conheci</em>. El-rei D. João II seu filho, trazia um +rodizio, com esta lettra: <em>Setere</em>: e na outra trazia +um +Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra: <em>Pela lei e pela +grei</em>. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede +de pescar, a que chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma +esphera com uma Cruz. A excellente senhora, uns alforges, +e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella +com esta lettra: <em>Memoria de mi derecho</em>. O marquez de +Valença, neto do conde D. Nuno Alvares, trazia dois +guindastes, que levantavam um titulo de pedra, com +<span class="pagenum">[32]</span> +quatro lettras, cada uma por parte. E além d'estas ha +memoria d'outras muitas, que dão testemunho do uso +que d'ellas havia n'este reino.—Por certo, disse D. Julio, +que estou assás contente do fructo que colhi da minha +pergunta, por saber curiosidade tão notavel dos nossos +principes antigos, que para a minha natural inclinação +é a cousa de maior gosto, e interesse: e não fôra menor; +pois falamos de Armas, e Tenções, e vós sois visto +n'ella fazer que saibamos mais alguma cousa atraz +d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve +principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenções. <br /> +<br /> +—Quanto á minha opinião (respondeu Leonardo) é que +armas, e emprezas, ou tenções não tiveram no seu principio +a differença, que agora lhes assignam os que d'ellas +escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com limitações, +e regras mui apertadas. Antes me parece, +que as armas eram as insignias que os reis, e imperadores +davam aos seus para ser conhecida sua nobreza, +conformando-se na figura d'ellas com a qualidade dos +successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade +do sangue d'onde descendiam a quem as davam, +e as que os mesmos reis tomavam para si em memoria +de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores. +Emprezas, ou tenções são as que os mesmos +reis, principes, ou particulares tomam, conformando +as figuras, e lettras com o desenho, e pensamento que +cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui +adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram; +que, por ser um discurso mui comprido, não tem logar +em noite tão breve. Além d'estas ha, outras armas dos +reinos, provincias, republicas, e cidades, que se devem +chamar <em>diviza</em>, que tiveram principio ou das cousas +de que são mais abundantes, ou da maneira em que fôram +povoadas, ou adquiridas. E no que toca ao principio +das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe por armas +a pelle do leão que matou na relva Nemea, depois +da victoria que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia +a mesma ínsignia do porco de Erimanto, que matou +em Arcadia. Jazon trouxe por armas o Velocino de +ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o Paladion, +e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra +de Troia: estas eram verdadeiras armas, em memoria +de valorosos feitos. E quanto ao principio das emprezas, +<span class="pagenum">[33]</span> +escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no escudo +a cabeça de um leão de ouro, com uma lettra que +dizia: <em>Este é terror dos homens, e o que o traz é +Agamemnon</em>. +Antioco trazia por armas outro leão. Heitor, dois +leões de ouro em campo vermelho. Seleuco um touro. +Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo +azul. Alcibiades um Cupido. Lucio Papirio o Pégazo. +Cezar uma aguia preta. Pompeio um leão com uma espada +empunhada. Judas Macabeu um dragão vermelho +em campo de prata. Attila um açor coroado. E cada +um d'estes, posto que poderam tomar a figura das armas +em significação de feitos celebrados, e victorias +adquiridas, só quizeram dar-lhe as figuras conforme ao +seu pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve. +E descendo ás armas particulares dos reis, que sabemos: +As do imperador é uma aguia preta de duas cabeças +em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar, +e da união do Imperio Oriental, e Occidental. Armas +d'el-rei de França são tres flôres de lirio de ouro +em campo azul, que fôram milagrosamente dadas a el-rei +Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos +de azul em cruz, em signal do vencimento que o +primeiro rei D. Affonso teve dos cinco reis mouros no +campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta dinheiros +de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em +memoria da sua Paixão, e do apparecimento que o +mesmo rei vio antes da batalha: por orla das armas +sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre, +um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra, +tres Leopardos de ouro em campo vermelho: posto que +d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres corôas de +ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os +castellos, e leões, tão conhecidos no mundo. Armas d'el-rei +de Frizia, um escudo de prata, riscado de linhas +vermelhas, e atravessado com uma banda azul. Armas +d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos, +com cruzetas do mesmo metal, e outras pelos vãos dos +angulos. Armas d'el-rei de Polonia, duas aguias de prata +e um homem em cima de um cavallo, do mesmo metal. +Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mão +que a está tocando. Armas do Preste João da India, um +crucifixo negro, com dois azorragues, em campo de ouro. +Deixo outros muitos, como os bastões de Aragão, as +<span class="pagenum">[34]</span> +cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de +ouro, e vermelho de Malhorca, e outras que querer contar +fôra infinito. Tem do mesmo modo as provincias +suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em que +o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um +elephante: Europa, um cavallo: A America, um crocodilo: +Italia tinha por armas antigamente o cavallo: +Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um raio: +Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma +cabeça armada: Albania, um cágado: Frizia, uma porca: +Hespanha, um castello: Luzitania, uma cidade. As Republicas +tem tambem suas armas particulares: A de +Veneza, um leão com um livro nas unhas: A de Sena, +uma loba: A de Genova, um S. Jorge: A de Florença, +um leão com um livro de ouro. As Cidades, da mesma +maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa, +uma nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso +Martyr S. Vicente, seu padroeiro: Coimbra, o +drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeças das vigias: +O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas +torres: Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles +dois corvos. E assim todas as outras. Porém isto é já +muito tarde, e gastámos n'esta materia mais tempo do +que convinha á das cartas, em que começamos; e porque +nas armas, e tenções nos não fique por saber algumas +significações, e figuras de armas dos particulares +senhores, e fidalgos de Portugal, que todas fôram +merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando +os animaes, significadores de fôrça, braveza, e velocidade: +e os planetas de poder, antiguidade, e clareza, +e outras figuras semelhantes: Banda significa postura +de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu +alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco +da vida: faxa, ou barra, representa victoria da batalha +singular de cavalleiro a cavalleiro, e quantas fôrem, +tantos diremos que são os vencimentos com que se +ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello, +significa ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforço, +e perigo da vida. Escadas, asteas, ou pedaços de +lanças, denotam subida trabalhosa, ou defensão arriscada +na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos, +ou forma que vêdes nas armas, todas nasceram de +illustres façanhas, e valorosos feitos. E todas as das +<span class="pagenum">[35]</span> +empresas, e tenções, dão signal claro do animo, e pensamento +de seus donos: e com umas, e outras se devem +sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras, +e lettras d'ellas, como tenho dito.—Vejo (disse Solino) +que temos a carta cerrada, sellada, e com sobrescripto, +sem ainda sabermos nada do principal d'ella. Não vos +enfadeis (respondeu elle) que na noite de ámanhã a +abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores, +se não ficarem de agora cansados do sobrescripto.—Antes +(disseram elles) que só o dia seguinte lhes parecia +comprido, e vagaroso. E dando fim á conversação +d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso, +que com a moderada recreação de horas bem gastadas +é mais aprazivel. +<br /> +<br /> +<br /> +<a name="c4" id="c4"></a><h2>DIALOGO III</h2> +<br /> +<h3>DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENÇA<br /> +DAS CARTAS MISSIVAS</h3> +<br /> +<br /> +Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo +aquella noite na materia das armas; e quasi a escolhera +antes, que a das cartas. Por alguns particulares, +que desejava saber, quiz com mão alheia, por não parecer +importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que +achou junto á sua porta; e depois de o saudar, lhe disse: +Como estaes depois da noite de hontem.?—Como o dado +(respondeu elle) que está de qualquer ilharga.—Deveis +de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes tão poucos +pontos, que faltaes aos da cortezia:—Fiquei (tornou +elle) tão cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei +aborrecimento, e nem estou para vos servir, nem +para o dizer, e perdoae-me.—Logo (disse o fidalgo) não +quereis continuar na conversação d'esta noite.—Se a +carta (lhe tornou Solino) ha de ser tão comprida como +o sobrescripto, assim o imagino.—Pois a minha tenção +(proseguiu elle) era pedir-vos que na materia das armas, +que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas +á minha conta sobre alguns particulares das familias +d'este reino.—Vós deveis buscar armas para me matar +(disse Solino) porque das de hontem sahi eu tão escalavrado, +que determinava fugir d'ella; e sei que tem +<span class="pagenum">[36]</span> +Leonardo tantos livros de armas, e gerações, que, se o +tirar a terreiro, havemos mister todo o inverno para o +ouvir.—Eu me contento (respondeu D. Julio) com saber +que elle tem os livros, e assim o escuso do trabalho: +porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes +merecedores dos brazões que seus successores +possuem.—Bom seria (disse Solino) acabar as cartas +antes de entrar por esses feitos, e para isso vos irei +acompanhando até a casa de Leonardo, posto que tinha +outra determinação.—Porque vós não falteis (respondeu +D. Julio) quero ir mais cedo. E com esta pratica, e +outras que occorriam, foram passeando, e entertendo o +que ficava do dia, até que a sombra da noite, e uma +chuva miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde +os amigos esperavam já que elles chegassem; e com +Pindaro outro estudante seu companheiro, por nome +Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasião +em sua companhia. Festejaram todos a Solino; +e elle vendo o hospede, de novo se lhe inclinou com +mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja +á dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta, +que cerrámos sem elle, e com não pequeno trabalho.—Não +tivera eu por tal (respondeu o estudante) antes +por grande ventura, se do passado me coubera alguma +parte; e esta, que alcanço agora com o consentimento +d'estes senhores por meio de meu companheiro, tenho +por muito grande favor, e mercê de todos.—Essa humildade +(disse Solino) está acreditando mil esperanças de +vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro +sabe fazer esta eleição dos amigos tambem, como em +tudo o mais é discreto, e acertado: e para que entendaes +o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais +certo creado que elle tem entre os senhores presentes. <br /> +<br /> +A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com +as suas, até que o doutor os despartiu, e disse a Leonardo:—Bem +gastado era o tempo em comprimentos +tão cortezãos, e tão devidos, se o desejo, que temos de +continuar a materia da noite passada, o não quizera +poupar todo para ella: e assim vos peço que me façaes +mercê, e a todos, de ir por deante.—Tendes razão (tornou +elle) de me aliviardes mais depressa do cuidado, em +que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar +dos vossos principios, dissestes que cousa era carta +<span class="pagenum">[37]</span> +na origem do seu nome, os primeiros modos de escrever, +e o como entre nós se conservou; tratei do sobrescripto, +da cortezia, das lettras, do signal, das dobras, +e sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais +enfadados, que saudosos. <br /> +<br /> +Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos +que cousa é carta missiva, ou mandadeira, e o +para que foi inventada; que pela definição de Marco +Tullio, a quem todos seguem, é uma messageira fiel, +que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que +lhes manifesta o que queremos que elles saibam de +nossas cousas, ou das que a elles lhes relevam. Tres +generos de <em>cartas missivas</em> assigna o mesmo Tullio, +aos +quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas. +O primeiro é das <em>cartas de negocio e de cousas que tocam +á vida, fazenda e estado de cada um</em>, que é o para que +as cartas primeiro foram inventadas; que, por tratarem +de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, +de cartas d'entre amigos uns aos outros, de novas +e comprimentos de galantarias, que servem de recreação +para o entendimento, e de allivio e consolação +para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de +peso, como são de governo da republica e de matérias +divinas, de advertencias a principes e senhores e outras +semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas +domesticas, civis e mercantís. O segundo em cartas +de novas, de recommendação, de agradecimento, +de queixumes, de desculpa e de graça. O terceiro, que é +mais grave e levantado, contém cartas reaes em materias +de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias, +laudativas, persuasorias e outras, que se pagam +a cada uma das que nomeei em todos os tres generos.—E +onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias +ou namoradas? que se na vossa edade não teem logar, +parece que o mereciam n'este díscurso.—Bem sei eu +(tornou Solino) quem as tomára no primeiro; mas o +sr. Leonardo já não joga com essas cartas.—Não me +esquecia de todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para +que no fim das mais sejam melhor recebidas, e para +proseguir a materia quem agora as puder apurar. <br /> +<br /> +—As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem +cartas muito seccas, que é materia esteril para que +empregueis n'ella sem fructo o vosso entendimento.—Antes +<span class="pagenum">[38]</span> +(disse Leonardo) como essas foram as primeiras, +e d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, será +razão que debaixo d'este genero tratemos das mais, +repartindo o pouco que eu soube dizer, por os logares +de cada um. E assim me parece, que como a carta que +escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre +as cousas da casa; e o mercador ao outro sobre +seus tratos e mercancia; um aviso e uma relação que +lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por +meio de uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica +costumamos que é brevidade sem enfeite, clareza +sem rodeios, e propriedade sem metaphoras, nem translações.—E +quando (disse o doutor) faremos breves em +uma carta?—Quando (respondeu elle de tal maneira, e +com tal artificio a escrevermos, que se entendam +d'ella mais cousas do que tem de palavras.—E como +póde ser? (tornou elle).—Por meio dos relativos e subsequentes +(disse Leonardo) que, sem nomear as palavras, +as repetem; e por ordem das sentenças e adagios +que sem entender as cousas as declaram; e n'isto se +adeantam muito as cartas da pratica familiar, que, se +escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem +palavras para se subentenderem razões.—E que +cousa é enfeite ou affectação? (perguntou Solino).—É, +disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com +elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de +logar para as syllabas fazerem melhor som aos ouvidos. +E em favor d'esta opinião, dizia um homem insigne +d'este reino, e que teve n'elle os melhores logares +da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a +mulher muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas: +e eu antes seguira este voto, que o de alguns +rhetoricos, que deram á carta missiva cinco partes de +oração, convém a saber: <em>saudação, exordio, narração, petição +e conclusão</em>: e se houvessemos de seguir o seu estylo, +mudariamos de todo o das cartas.—Nunca rhetoricos +(disse o estudante) souberam escrever cartas, se +as sugeitaram ás leis da oração. Mas parece que o sr. +Leonardo dá a entender que na carta se não devem usar +epithetos ou adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja +elegancia d'ella: e eu tenho que sem elles se não póde +escrever. <br /> +<br /> +—Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para +<span class="pagenum">[39]</span> +discripção e declaração das cousas ou para propriedade, +ou para ornamento e enfeite d'ellas. Os primeiros são +necessarios nas cartas como em tudo; os segundos menos, +os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, <em>um +homem douto</em>, <em>uma mulher formosa</em>, +<em>um cavallo ligeiro</em>, <em>uma arvore +alta</em>, <em>um caminho comprido</em>, <em>um +peito forte</em>, sào attributos +necessarios para declarar o que queremos dizer; +porque ha homem que não é douto, mulher que é feia, e +os mais. Os de propriedade como <em>ferro frio</em>, +<em>relva verde</em>, +<em>sol claro</em>, <em>calma ardente</em>, +<em>areia sêcca</em>, <em>pedra dura</em>, estes são +pouco necessarios nas cartas: e sómente por comparação +ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo, +<em>é duro como pedra</em>, ou <em>é dar em pedra dura</em>, ou <em>é +malhar em ferro frio</em>. Os de elegancia e ornamento, tenho +eu que se hão de degradar das cartas missivas +para fóra do termo d'ellas, como agora <em>firme soffrimento</em>, +<em>incansavel diligencia</em>, <em>solicito desejo</em>, +<em>cuidadoso receio</em>, <em>importuna lembrança</em>, +<em>desusada brandura</em>, e outros que tem juiz +de seu fôro. Assim que não digo que faltem nas cartas +epithetos necessarios, mas que se escusem os sobejos; +nem se andem grangeando as palavras para fazerem +assento em o cabo da sentença, que será ir contra a +brevidade sem enfeite ou affectação. <br /> +<br /> +—Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve +seria a de menos regras; e que não estava a cousa nos +epithetos serem proprios ou necessarios. Uma carta +(proseguiu elle) póde ser breve, e levar escriptas muitas +paginas de papel; porque póde tratar de tantos +negocios ou cousas que as occupem, mas estarão relatadas +de modo que seja a leitura comprida, e a carta +breve. <br /> +<br /> +—O segundo ponto (perguntou Pindaro) que é clareza +sem rodeio, me parece a mim que fica declarado n'essa +primeira parte; pois sendo breve a carta, e não tendo +enfeite nas palavras, será clara e sem rodeios.—Não +estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza é +parte da brevidade, a clareza é das razões, e a brevidade +das palavras: e assim póde a carta ser breve, mas +confusa; e clara sendo comprida: que muitos para dizerem +cousas querem estrada coimbrã, e caminho direito; +buscam rodeios e atalhos em que se perdem, +confundindo o que querem dizer. Em uma minha doença +escreveu um amigo, e dizia: <em>Disseram-me que a saude</em> +<span class="pagenum">[40]</span> +<em>de vossa mercê corria perigo na inconveniencia de medicos +discrepantes no remedio dos males d'essa doença</em>. E fez estas +trocas onde podia dizer: <em>Soube que os medicos não se +conformavam na cura dos vossos males, que na duvida d'elles +corria risco a vossa saude</em>. Outro me escreveu ha muitos +dias: <em>Se vossa mercê não está ausente das lembranças que +suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas d'este +seu captivo</em>. Havendo de dizer: <em>Se vos não esquece que me +promettestes de ter lembranças de mim</em>. E porque ainda temos +logar de tornar aos particulares das disposições +das razões: <br /> +<br /> +Passando ao terceiro ponto, que é <em>propriedade sem metaforas</em>, +ou <em>translações</em>.—A propriedade (disse o doutor) +era materia da noite passada, quando falastes das letras +e razões em seu logar, sem barbaria, nem impropriedade +no escrever: e como isto é parte do exterior +da carta, já hoje não tem dia.—A propriedade que vós +dizeis (accudio Leonardo) é exterior, mas muito differente +a de que eu trato, e não pouco importante ao +falar, e escrever, que é a propriedade das palavras na +sua propria significação, sem serem emprestadas por +via de translações para outros logares, que é termo +que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais +declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando +propriamente dos nomes: <em>Bando de aves</em>, +<em>cardume de peixes</em>, +<em>rebanho de ovelhas</em>, <em>fato de +cabras</em>, <em>vara de porcos</em>, <em>alcatéa +de lobos</em>, <em>tropel de cavallos</em>, +<em>cafila de camellos</em>, <em>récua de +cavalgaduras</em>, <em>manga de arcabuzeiros</em>, +<em>mó</em>, ou <em>roda de homens</em>; +e se, trocando isto, disséramos: <em>Um cardume de +aves</em>, ou <em>uma alcatéa de ovelhas</em>, ou +<em>um fato de porcos</em>, seria +impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem +nos verbos: <em>Chiar</em> de aves, <em>balar</em> +de gado, <em>grunhir</em> de porcos, +<em>ladrar</em> de cães, <em>rinchar</em> de +cavallos, <em>bramir</em> de leões, +<em>empolar</em> de mares, <em>encapelar</em> de +ondas, <em>assoprar</em> de ventos, +etc. E se dissessemos <em>chiar</em> de porcos, +<em>rinchar</em> de leões, +e <em>grunhir</em> de cavallos, seria o mesmo erro. E porque +ha metaforas e translações tão uzadas e proprias, que +parecem nascidas com a mesma lingua, que como adagios +andam pegadas a ella, se devem trazer (quando +forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que na +pratica se costumam. Dizemos dos nomes: <em>folha de espada</em>, +<em>lume de espelho</em>, <em>veia de agua</em>, +<em>braços de mar</em>, <em>lingua de fogo</em>, +<em>lanço de muro</em>, <em>faxa de ferro</em>, e +outras semelhantes: e +<span class="pagenum">[41]</span> +nos verbos: <em>lançar o cavallo</em>, <em>fazer á +capa</em>, <em>quebrar a palavra</em>, +<em>cuspir o pelouro</em>, <em>arripiar a +carreira</em>, e outras muitas: +e além d'estas tão usadas, e naturaes, que servem de +propriedade á lingua portugueza, ha outras nascidas +de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e +antiguidade, como são <em>furtar o corpo</em>, <em>ir +vento em pôpa</em>, +<em>nadar contra a agua</em>, <em>ficar em +secco</em>, <em>repicar em salvo</em>, <em>tirar +barro á parede</em>, <em>etc</em>. E quanto a carta +tiver mais d'estas, +será mais breve, e cortezã; pois, como primeiro disse, +por este modo se entendem da carta mais coisas, do +que tem escripto de palavras. <br /> +<br /> +Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes, +populares, ou innovadas, será vicio na propriedade +da carta; como se nos nomes dissessemos: <em>um +feixe de cuidados</em>, <em>um mar de encommendas</em>, +<em>um moio de +queixumes</em>, <em>um golpe de razões</em>; e nos +verbos, como: <em>enfeitar +o desejo</em>, <em>tropeçar em cuidados</em>, +<em>navegar em desconfiança</em>, +e outras muitas. Esta é a propriedade, de que trato, e +a que me parece que se deve usar no escrever das cartas +missivas; porque não soffre o estilo d'ellas o que +em a pratica, ou em outro genero de escriptura não +sómente se permitte, mas muitas vezes se deseja. <br /> +<br /> +—Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitação, +ou declareis a linguagem, que se deve usar n'este estilo +das cartas; porque encontro muitas muito mal escriptas, +cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se +cançarem muito em quererem parecer singulares.—Posto +que isso pertence primeiro ao fallar, que ao escrever +(respondeu Leonardo) pois, como já disse, devemos +escrever como praticamos; as palavras da carta hão +de ser vulgares, e não já populares, nem exquisitas: +vulgares de modo que todos as entendam; e ao menos, +que a quem se escrevem, não sejam peregrinas: e +não já populares, que sejam termos humildes, palavras +baixas, que a cortezia não recebe: e que tão pouco, +em logar dos adagios, e sentenças, tenham anexins. +Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras +alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas, +que sempre tem o sabor da sua origem.—Assim na linguagem, +como em tudo (accudio Feliciano) ficavamos +satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o senhor +Leonardo dividio as cartas, déra alguns exemplos +que nos allumiaram; porque nem as regras sem elles +<span class="pagenum">[42]</span> +ensinam de todo, nem se póde perder a lição de tão +bom estilo. O que eu não pedira, se foram dos vinte generos +de cartas, em que um rhetorico as dividio; que, +por querer dar leis, e partes a cada uma, as confundio +todas.—Em tudo (tornou elle) vos quizera satisfazer: +porém cartas mais se hão de escrever em occasião, do +que trazerem-se por exemplo; que é o porque eu +lhe nào déra regra certa, nem das muitas, que ha bem +escritas, se póde tirar; que esse auctor, que vós dizeis +que lhe assignou vinte generos, achará fóra d'elles infinitas +cartas, bem melhor escriptas, que as com que +os elle quer auctorisar. Porém, com o presupposto de +não dar preceitos: <br /> +<br /> +As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas, +civis, e mercantis, respeitam tanto a brevidade, +que não podem os rhetoricos dividil-as em partes, se +não forem nas da oração; e bastava para exemplo +aquella de Cicero a Cornelio, que dizia sómente: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps">carta de cicero a cornelio</div> +<br /> +<br /> +"Alegrai-vos de eu não estar mal; pois terei o mesmo +contentamento de saber que estais bem." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +E muito é mais para notar uma carta de Octavio +Imperador para Caio Druzo seu sobrinho, que contém +bem mais coisas, e avizos que palavras, e dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de octavio a druzo</div> +<br /> +<br /> +"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares; +que vos mandou o Senado; que sois moço; meu +sobrinho; e cidadão Romano." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem +deixam de ser cartas. Mas porque não só nos ajudemos +das antigas, mas tambem com as nossas façamos pestoleta; +esta é breve, e domestica, que um cortezão escreveu +a seu amigo, a quem em uma ausencia deixára +sua casa; e dizia: +<br /> +<br /><span class="pagenum">[43]</span> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta moderna a um amigo</div> +<br /> +<br /> +"Estou tão confiado no que vos mereço, e tão seguro +no que de vosso animo tenho conhecido, que me não +dá cuidado a familia que deixei á vossa conta; senào +o trabalho, que vos dará o sustentalla: não procuro +saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em +quanto a tiverdes, estará sem sobresalto a minha +vida." +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +Á qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia +d'esta maneira: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +resposta</div> +<br /> +<br /> +"N'esta casa só vós fazeis falta; mas como sois o tudo +d'ella, ainda que sobeja a minha diligencia, lhe falta +tudo. No que é servir-vos, a todos satisfaço, senão +o meu desejo, que é igual ás obrigações que vos tenho. +Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver, +porei por vossas coisas a vida." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +—Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e +para me assegurar se a vossa memoria é archivo d'ellas, +ou se as ides fingindo de repente (ainda que isto é +menos curiosidade, que tenção) hei de pedir por parte +d'estes senhores que de alguma nos deis semelhantes +exemplos.—Não quero (disse elle) que acrediteis tanto +o meu entendimento com mostrardes desconfiança da +memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer +nas que me lembrarem: e proseguindo nas da segunda +especie d'este genero, me parece carta civil, e breve +esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua +casa para a terra, onde elle vivia; e dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de um amigo</div> +<br /> +<br /> +"Espero com grande alvoroço que venhais para esta +cidade, para que com vossa companhia viva n'ella contente, +e vós desenganado de quam pouco em si tem +que me possa alegrar, senão depois que vos possuir." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +A quem o amigo brevemente respondeu em outra +que dizia: <br /> +<br /> +<br /><span class="pagenum">[44]</span> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +resposta</div> +<br /> +<br /> +"Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso, +nenhum pode haver tão esteril, que, tendo a tal amigo, +não seja desejado. Vós sois a quem busco, é força que +me contente a parte onde vos achar; que as pedras +não fazem a cidade, senão os homens: nem as commodidades +da vida a sustentam, senão os amigos." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +As mercantis posto que são segundo os tratos, e negocios, +e acodem mais a elles, que ao bom termo dos +comprimentos; não deixa de haver muitas tão bem +escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e +ainda que não é d'ellas uma, que eu vi há poucos dias, +a darei por ser tão breve, e era esta: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta mercantil</div> +<br /> +<br /> +"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito +grande risco nas fazendas d'essa terra: porém a valia +d'ellas será muito avantajada, se chegarem a este porto +a salvamento; se a cubiça do interesse vence o perigo +das encommendas, ponde-as em ventura; que eu +a terei para mim por muito boa o vosso bom successo." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +E assim não me desagradou outra, que dizia d'esta +maneira: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta mercantil</div> +<br /> +<br /> +"Com os tempos contrarios á navegação foram as +occasiões ao nosso trato: que, como as mercadorias +não foram requestadas de extrangeiros, estão ao presente +abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando, +mais as procurem os mercadores da terra; e +n'essa vos não descuideis de fazer emprego, mandando-me +o de muito boas novas vossas." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +—Não me pareceu (disse o doutor) que tirasseis tão +boa doutrina de materia tão limitada; porque esse primeiro +genero de cartas tinha eu que não sahia de uns +termos e principios, que andam escriptos no panno da +serpe, como são: <em>Á feitura d'esta</em>. <em>Esta não +é para mais</em>. +<span class="pagenum">[45]</span> +<em>Uma de v. m. me deram</em>. <em>Pela de v. m. de +tantos do passado</em>: +<em>Depois de me encommendar em v. m.</em> E d'aqui correndo +por +seus capitulos <em>de quanto a isto</em>, e <em>quanto a +est'outro</em> até +topar no <em>a quem Deus guarde</em>.—Esses principios +(disse +Solino) estão já muito bolorentos; mas ainda para cartas +de mais ponto tenho outros grangeados de algumas +secretarias velhas, como impressão de Torres, de +que me valho nas pressas de uma boa nota, que não +são tão corriqueiros.—Não me atreverei eu sem esses +(disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por +notificado.—Pois assim é (disse Solino) quero obedecer, +ainda que perco grande valhacouto em os descobrir; +porque sabei que é comer feito para os ronceiros d'esta +mecanica; e o mór trabalho d'ella é desencalhar a penna +com a primeira palavra: e são quatro: <em>Como quer +que</em>, <em>Tanto que</em>, +<em>Depois que</em>, e <em>Antes que</em>. E sabei +que não +ha proposito, que saia das unhas d'estes bilhafres; e +nos capitulos de <em>quanto isto</em> etc., se mette em logar +do +<em>quanto</em>, <em>no que toca a tal</em>, e +<em>no que toca a qual</em>; que, a meu +vêr, era melhor o <em>item</em>, que tinhamos tomado aos +latinos. +Mas os notadores de espada solta esgrimem já +agora sem estes bordões maravilhosamente.—Bons estão +os principios (disse D. Julio) porém haveis de metter +a lettra em todos elles, para que nos não passem +por alto.—Antes por muito rasteiros (respondeu elle) +vos ficarão entre os pés. Porém tende tento, e vereis +que são principios de parafuso e que se encaixam, e +viram para todas as partes como grimpa. <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +"Como quer que os meus serviços montem ante vós +tão pouco, e a vontade por minha seja de menos preço, +etc. <br /> +<br /> +"Como quer que o animo, com que sou vosso, me não +deixa perder occasiões, em que vos sirva, etc. <br /> +<br /> +"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar +esta empreza, etc. <br /> +<br /> +"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças, +lancei mão do meu atrevimento, etc. <br /> +<br /> +"Depois que me apartei de vós, não soube mais de +mim, que para sentir saudades vossas, etc. <br /> +<br /> +"Depois que meus males me deram logar para tomar +esta penna na mão, a empreguei em procurar novas +vossas, etc. +<br /> +<br /><span class="pagenum">[46]</span> +"Antes que me desculpe de meus descuídos, etc. <br /> +<br /> +"Antes que vos dê larga conta dos meus successos, +etc." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +De modo, que são como materia prima, em que moldareis +tudo o que quizerdes: porém não quero ir adeante, +e tomar o tempo ao sr. Leonardo; que o vejo entrar +já por outras cartas missivas.—Antes (lhe disse +elle) tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas. +E tratando das do segundo genero, que são cartas de +novas, a que chamam narrativas de cumprimentos, que +se dividem em cartas de agradecimento, recommendação, +desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria +ou jocosas, como chamam os latinos: Para as +narrativas nos podia servir de exemplo aquella em que +o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu +irmão Germanico, que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de tiberio cezar a germanico</div> +<br /> +<br /> +"Os templos se guardam; os deuses se servem; o +senado está pacifico: a republica prospera; Roma sã; +a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que ha aqui em +Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de +Persia, que continha só tres palavras: <em>Cheguei: vi: +venci.</em> +E a de Gneu Sylvio, escrevendo as novas da Farsalia, +que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de gneu sylvio</div> +<br /> +<br /> +"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Catão +se matou: acabou a dictadura; e perdeu-se a liberdade." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +E chegando a alguma, que com menos aperto faça +sua relação, me não pareceu engeitar a que Marcello +escreveu ao senado romano, dando-lhe novas da rota +de Fulvio, que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de marcello ao senado</div> +<br /> +<br /> +"Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento. +Fulvio Proconsul com treze mil homens foi +<span class="pagenum">[47]</span> +desbaratado e ferido. Porém não vos cause temor este +successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha +de Canas, mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor +d'ella: contra elle caminho brevemente com o meu exercito +para lhe fazer mais breve a alegria d'este triumpho; +e em vós desejo muito o mesmo animo que levo." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +—Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias +atraz um amigo, de novas de Lisboa, que certo, pela +brevidade, me pareceu digna d'esta lembrança, e dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta moderna</div> +<br /> +<br /> +"Esta cidade está abastada, mas descontente: o mar +cheio de corsarios: os portos de receios: o paço de requerentes; +e elles de queixumes: para os validos tudo +é pouco: aos desamparados não cabe nada: do remedio +de tantos males não ha boas novas; e as minhas +são que entre todos elles me falta a vossa companhia." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +—Essa (disse Leonardo) se póde ajuntar por exemplo +ás antigas que relatei: e por não me empregar em outras, +que seria demasiado trabalho a todos ouvil-as, e +a mim recital-as, peço-as de recommendação de alguma +pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar +a disposição e offerecimento dos rhetoricos, encarecendo +os merecimentos da pessoa ou a importancia +da causa que encommendaes, facilitando-a na condição +e vontade a quem a pedia; concluindo com a petição e +offerecimento de vossa parte: e todas estas, e ainda +um exordio de sentença, que hei por escusado, se vêem +em uma carta que ha pouco que li, que um rei de Portugal +antigo, escreveu ao de França, encommendando-lhe +um fidalgo que ia estudar a Pariz; e dizia tirada +de latim, em que estava em um livro extrangeiro: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de el-rei de portugal ao de frança</div> +<br /> +<br /> +"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me +pareceu muito digna de louvor a de terem particular +cuidado e lembrança dos vassallos benemeritos em seu +serviço, para com favores e mercês os ajudarem: e por +esta razão me pareceu que devia encommendar a vossa +magestade D. Pedro de Almeida, que por occasião de +<span class="pagenum">[48]</span> +seus estudos vae a essa côrte de Paris, posto que claramente +conheço que, sem recommendação minha, vae +assás encommendado pela liberalidade e brandura com +que vossa magestade honra e recebe os homens tão +illustres como elle é. Além do que, tem elle tantas +partes e entendimento, que não achará melhor terceiro, +que a si mesmo. Deixo seu pae D. João de Almeida +conde de Abrantes, que com suas singulares virtudes +e claros feitos, adquiriu e conservou até á morte muito +estreita privança e amizade com meus antecessores e +commigo; de sorte que ponho em duvida se importe +mais a seu filho a minha carta, se a fama e lembrança +de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a +vossa magestade. E de minhas cousas não offereço de +novo nada; pois pela irmandade de meus antepassados +e minha, em toda a occasião deve vossa magestade +usar d'ellas, como se foram communs a ambos." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel, +mais breve que a passada, que era de seu antecessor, +a qual elle escreveu ao mestre de Rhodes, encommendando-lhe +um noviço portuguez, que ia servir a religião +que será para exemplo das menos enfeitadas. O +grão, mestre era o cardeal Pedro de Buzon, e dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de el-rei d. manuel ao grã mestre de rhodes</div> +<br /> +<br /> +"Ayres Gonçalves, filho de Henrique de Figueiredo, +vae a tomar o habito d'essa religião: não pareceu fóra +de proposito nem de humanidade, encommendal-o a +V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha +casa, como pelos serviços e merecimentos de seus passados +com os reis meus antecessores; e finalmente por +seu bom esforço e virtude. Rogo a V. P. que com sua +costumada brandura o favoreça de sorte que n'elle se +accrescente o valor e a devoção que leva: e não porei +esta obrigação no menor logar das muitas que tenho +a V. P." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +As cartas de agradecimento tem o campo mais largo +para n'ellas se espalhar a penna, e o entendimento; +pois quem mais se obriga e encarece o que recebe, +escreverá com melhor termo, não sahindo dos da carta +missiva: e já os antigos não desconheciam esta galanteria; +<span class="pagenum">[49]</span> +pois Lybanio respondendo a Demetrio, que o +obrigava a que lhe pedisse, escreveu assim: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de lybanio a demetrio</div> +<br /> +<br /> +"Não daes logar a que eu vos peça, porque me mandaes +tudo. Ainda bem as arvores não dão seu fructo, +quando vossos creados m'o trazem: e do que até nos +agros se sente a falta, eu a não tenho. Como me haverei +n'isto? que o lavrador, quando o tempo lhe nega +a agua, então a pede: porém, se chove, contenta-se +de vêr que favoreceu o céo suas esperanças." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +O queixume por carta se deve fazer com toda a moderação +que a urbanidade requere: e póde n'estas servir +para exemplo e lembrança a que Olympias, mãe de +Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle +se assignava por filho de Jupiter, que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de olympias a alexandre</div> +<br /> +<br /> +"Muito me alegro com a victoria que alcançastes da +cidade de Tyro; e com todas vossas venturas e façanhas: +porém tive por grande affronta minha vêr que +vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta +nova me escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que +aquieteis n'isso o pensamento, e me não leveis a juizo +ante a deusa Juno; que algum grande mal me ha de +ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes +manceba de seu marido." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +E se me não parecêra um pouco enfeitada uma carta +que Angelo Policiano escreveu ao grande Lourenço de +Medicis, a podéra pôr em exemplo da moderação de +queixume, porque dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de angelo policiano ao duque de florença</div> +<br /> +<br /> +"O poeta é semelhante ao cysne na brancura e suavidade, +em ser affeiçoado a correntes de agua e amado +de Apollo. Comtudo, dizem que o cysne não canta senão +quando o vento zephiro respira. Não é logo muito +<span class="pagenum">[50]</span> +que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se +vós, que sois meu zephiro, n'elles me faltaes." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo, +e liberdade para se poderem usar n'ellas alguns termos +fóra das limitações das nossas regras; porque assim +em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos, +ficam desobrigados das primeiras leis. que são <em>brevidade +sem enfeite</em>: <em>clareza sem rodeios</em>: +<em>propriedade sem metaphoras</em>; +pois o termo da graça e galantaria, n'isso se +differença do sizudo e pontual; não negando que ha +algumas que não perdem a graça nem o sizo, como é +uma que Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de lybanio a aristoneto</div> +<br /> +<br /> +"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim; +eu pelo contrario não perco occasião de dizer louvores +vossos; porém quem a ambos nos conhecer, a nenhum +de nós ha de dar credito." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +Das mais ha tantos e tão differentes exemplos, que +seria aggravo a cada uma das outras trazer aqui algumas +bem escriptas. Só direi que uma especie d'ellas +é narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou +das novas que dão; que não são por esse respeito pouco +engraçadas. Ha outra das de disbarates, que, parecendo +que se desviam nas palavras do proposito que tomam, +dão a entender, como em enygma, o pensamento de +quem as escreve; e são estas graciosas com subtileza. +Outra ha das de murmuração em materias leves, como +satyras menores: e umas e outras tem a galanteria no +pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos +graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas, +phrase humilde, accommodada sempre ao sujeito. É +certo que n'isto tiveram mão particular os portuguezes, +que escreveram ao gracioso, que nem os italianos +na phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco +os egualaram. <br /> +<br /> +—Não vos houvera eu de consentir esse salto (disse +Solino) deixando tantos exemplos em aberto, se não +tivera pensamento de cobrar a demasia n'outra occasião; +e assim por isso, como por ser já passada tanta +<span class="pagenum">[51]</span> +parte da noite, vos peço que façaes a vontade ao sr. +D. Julio com essas cartas Reaes, de Estado e Governo, +que as está desejando com a vida; pois a sua é nadar +na altura de cousas semelhantes.—Eu vos mereço (respondeu +o fidalgo) a boa opinião em que me tendes: +porém egualmente me contentam todas as cousas em +que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas +me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso +desejar esse terceiro genero de cartas; e se d'elle tornar +ao primeiro, farão o mesmo effeito na minha satisfação.—Para +responder a esse favor (tornou Leonardo) +havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas +que me ficam: e assim ou uma ou outra cousa me +havei por perdoada. <br /> +<br /> +Não deixou o doutor ir os cumprimentos por deante, +dizendo que eram em prejuizo de terceiro; e proseguindo +Leonardo, disse: <br /> +<br /> +—As cartas do terceiro genero, que, pelas materias +importantes, e differença das pessoas, são mais graves +e humildes; posto que se incluem algumas d'ellas +á oratoria, aproveitando-se da elegancia e razões para +persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e +posto que d'estas estão cheias as chronicas e annaes +de todos os reinos, recitarei algumas que pareçam +menos vulgares e mais breves para exemplo, como é +uma que os consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram +a el-rei Pyrrho sobre uma consideração em materia +de Estado, que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de fabricio emilio a el-rei prrho</div> +<br /> +<br /> +"Pelos aggravos que de vós temos recebido, o maior +cuidado nosso é fazer-vos guerra com animo inimigo e +braço esforçado: porém, para exemplo commum de +fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque +com a perda d'ella nos não faltasse um contrario valoroso +a quem vencer. Nicias, vosso particular, veiu ter +comnosco, pedindo-nos preço certo por vos dar morte +occulta; em que nós não consentimos, fazendo-lhe perder +a esperança de tirar fructo da sua maldade. Juntamente +assentámos dar-vos este aviso; porque, se alguma +cousa acontecer, se não presuma que sahiu do +nosso conselho; e não sendo o intento d'elle pelejar +<span class="pagenum">[52]</span> +por preço, premio ou engano, vós, á falta de cautella, +percaes a vida." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +Tambem me não parece indigna de lembrança uma, +com que Rhodoge, mãe d'el-rei Dario, o reprehendia, e +aconselhava na segunda expedição contra Alexandre; +que foi a que se segue: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta de rhodoge para elrei dario, seu filho</div> +<br /> +<br /> +"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos +de todas vossas gentes e das alheias, para de novo +offerecerdes batalha a Alexandre. Não sei a que effeito; +pois o poder de toda a redondeza não basta para pelejar +com os deuses immortaes que a elle o favorecem. +Deixae esses pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria +d'elles, concedendo á grandeza de Alexandre alguma +cousa; que melhor é deixar o que não podeis +ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo +dominar tudo, ficar sem nada." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto +extremo, que não deixaram que com ellas acabasse +Leonardo sua obrigação; porque (disse D. Julio) já pelo +voto de Solino, estas são as cartas, que entram na jurisdicção +de minha curiosidade, não consinto que nos +exemplos seja este genero mais limitado; mórmente +que d'este se tira outra doutrina mais que a das cartas, +que é a variedade das historias e occasiões d'ellas.—Eu +(respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir +adeante, se as horas tornaram atrás; mas partirei +(como dizem) a contenda pelo meio, recitando uma +carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos amazonios; +e a valorosa resposta que elles lhe mandaram: +e dizia a primeira: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta do turco aos amazonios</div> +<br /> +<br /> +"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis +guerra contra meu poder, não vos tivera tanto por +inimigos, como por valorosos cidadãos, que pela patria, +filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém +com nenhuma razão me persuado que os que deixaram +<span class="pagenum">[53]</span> +tantos annos governar o reino a mulheres (como +tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo de +homens valorosos." <br /> +<br /> +<br /> +E a esta carta responderam elles outra, que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +resposta dos amazonios</div> +<br /> +<br /> +"Este reino das amazonas, que, como por affronta +nossa nomeaes, com o seu mesmo exemplo nos aconselha +não obedecer a outrem: porque temos por infamia +e torpeza que o exforço varonil seja vencido do +espirito e braço feminino. Pelo que deveis julgar por +invenciveis em armas, e dignos do governo e principado +do mundo homens, entre os quaes até as mulheres +apprenderam a reinar." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +E porque com exemplos gentilicos e barbaros não +dê fim á conversação d'esta noite, direi por remate +uma carta que o veneravel sacerdote Beda escreveu a +Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados +d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha, +que dizia: <br /> +<br /> +<br /> +<div style="text-align: center; font-weight: bold;" class="smallcaps"> +carta do veneravel beda a carlos martelo<br /> +rei de frança</div> +<br /> +<br /> +"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na +christandade, se apparelha notavel ruina de toda a +Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa e +Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a +terra de Hespanha, tirando a das Asturias e Cantabria. +Africa, que o capitão Belizario cobrou aos romanos, e +que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio, +juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os +mouros, fazendo-a obedecer a seus falsos ritos, com +grande ignominia e affronta do nome christão. Que +cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que +contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram +os suevos, os allemães e os mais varões do nome +christão, que com tão grandes destruições tendes perseguidos? +Perto estào, e sobre vossas cabeças os sarracenos, +que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza +<span class="pagenum">[54]</span> +da terra. N'elles tendes formosissimos reinos, +grossas cidades, ricos despojos; e vos esperam grandes +triumphos da victoria: e principalmente incomparavel +premio de gloria com Christo nosso Salvador, que +para tão santa empreza com continuos brados vos está +chamando." <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite +pelo interesse de tão proveitosa doutrina; mas porque +n'esta se não ha de dar fim ao nosso exercicio, fiquem +algumas perguntas, que agora escuso, para outra occasião, +pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem +as de desafios.—As primeiras (replicou Leonardo) deixei +por ser improprio da minha edade tratar d'ellas; +as segundas, por me não embaraçar com o duello que +está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos. +Com isto se despediram dando-se boas noites: +e o estudante foi encarecendo ao companheiro o muito +que o espantára vêr tanta côrte em uma aldeia; que +as cousas achadas onde não se esperam, são de maior +admiração, e de mais estima. <br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<a name="c5" id="c5"></a><h2>DIALOGO IV</h2> +<br /> +<h3>DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS</h3> +<br /> +<br /> +Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns +dos amigos por se lograrem d'elle com a occasião da +caça se espalharam pelos montes; mas depois de +horas de vespera visitou o estudante em companhia +de Pindaro ao doutor Livio, com quem passaram a +tarde n'um seu jardim em boa conversação, esperando +a da noite, a que elles foram os primeiros que acudiram, +e se acharam em casa de Leonardo; que +commummente nos lettrados se accende melhor o desejo +de saber, e não n'aquelles aos quaes lhes custou menos. +Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos hospedes +estava melhor ordenado; e depois de gastarem +algumas palavras de cumprimento, chegaram D. Julio +e Solino a quem todos fizeram muita festa; e, reprehendidos +da pequena tardança, disse Solino:—Grande +<span class="pagenum">[55]</span> +espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me +não detivera em esperar resposta de um recado, que +mandei ao sr. D. Julio.—E eu (respondeu elle) se vos não +encontrára, ainda não tinha entendido o vosso moço; +porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer, +que nem por discrição pude tirar o recado: nem +vos desfaçaes d'elle para os que forem de importancia, +que val a peso de ouro. <br /> +<br /> +A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:—O +meu moço, sr. D. Julio, tem desculpa em ser +nescio, porque é meu moço; que, se soubera mais, +eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como +vós, esses hão de ser discretos, pois são tão bons +como eu: e comtudo eu vos sei dizer que ha aqui +moço que no dar um recado o pudera fazer como ao +que lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e +já entermette de lêr carta mandadeira: mas nos recados +ainda agora lê por nomes, e não acerta a nenhuma +cousa.—Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um +creado que esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes +um recado concertado, discreto e cortezão: e o +madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e desentôa +com uma parvoice que vos desacredita, como com os +meus me tem acontecido mil vezes.—Nos vossos não +é muito (disse Solino) que daes os recados guarnecidos +de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais +perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino: +mas os meus, que não passam de quatro palavras +em linguagem corrente, e que assim os virem do +carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça? +Ora prometto que os de importancia eu mesmo os leve +como aconteceu ao cortezão ausente, que levou elle +proprio a carta a sua mulher: e os que houver de dar +o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando +o burel da sua natureza com o trabalho da minha +disciplina. D'aqui por deante bôcca faz jogo: digo, +que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha +de chamar por auctor das suas impertinencias.—Certo +(disse Leonardo) deixando de tratar dos meus, e vossos +recados, que importam menos, e de outros em que +vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração +aos reis, principes, republicas, e aos grandes +mandarem suas embaixadas, visitas e recados por homens +<span class="pagenum">[56]</span> +de auctoridade, discretos e bem disciplinados, +em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes +o bom successo do que pretendem. E assim os reis, +principes e republicas nas materias de estado; as cidades +e povos nas occasiões das côrtes; os senhores +particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, +que no entendimento se avantajem dos outros, +porque não sómente conseguem o fim da pretenção de +quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes +por respeitos, privança e valia se antepõem os menos +sufficientes para estes cargos, se deitam a perder negocios +de uma republica, em que consiste a quietação +e honra d'ella.—Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o +sr. Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra +de seu logar, depois de o terem as cartas missivas; e +bem se póde fazer a noite bem assombrada com tão +bom sujeito.—Desculpado estou (respondeu elle) com o +trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em +fugir d'elle; mas não de approvar a vossa advertencia. <br /> +<br /> +A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem +a materia de mais longe; e pediram ao doutor que, tomando-a +á sua conta começasse.—Bem pudera usar (disse +elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para +minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer +dos presentes mais sufficiencia para este encargo por +lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou por obrigado. +Digo que <em>recado</em> é nome que entre nós tem a +etymologia. +A significação é muito duvidosa, pelo modo em +que usamos d'elle: porque, se houveramos de derivar +este nome do verbo italiano <em>recare</em>, que é +<em>trazer</em>; ou do +verbo <em>recapacitare</em> que é +<em>recapacitar</em> (d'onde elles chamam +<em>recapacitar</em> ao <em>recado</em>) nunca +disseramos d'elle tanto, +como na nossa lingua portugueza significamos; mas +se lhe buscarmos a origem do latim, virá mais ao nosso +modo pela differença do messageiro ao que leva recado: +que o primeiro <em>missa gerit</em>, faz as cousas que lhe +mandam; e o segundo <em>recautus</em>, este é homem +acautelado, +que sabe o que ha de fazer no que está á sua +conta; que assim convém mais com o nosso modo de +falar, quando dizemos <em>homem de recado</em>, que quer +dizer +<em>de importancia, posto a bom recado, que é seguro</em>, e +<em>com cautella: +tardar e arrecadar</em>, que é levar ao fim o que começou: +porém seja uma cousa ou outra, ou ambas, o principal +<span class="pagenum">[57]</span> +recado de todos é o do embaixador; e estes são +de duas maneiras, ou o que o principe manda a outro +por occasião successiva; ou o que de ordinario assiste +em sua côrte, para conservação da benevolencia e amisade +que entre elles ha: estes segundos tinham os romanos +nas provincias junto á pessoa do consul, que as +governava com titulo de legados, e com elles despachava +os negocios de importancia. Mas aos primeiros +chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes +no officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em +nossos tempos se aproveitaram muitos d'essa arte, +sendo escolhidos para o cargo de embaixadores.—Eu +(disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de +falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a +grandes principes, e não pouco doutas e elegantes, +como foi uma que fez o bispo D. Garcia do Menezes ao +papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei +D. Affonso V, e por capitão de uma armada que +elle mandava contra os turcos em favor da egreja no +anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e outra, +que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo +com o arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar +obediencia por el-rei D. Manuel no anno de mil e quinhentos +e cinco: e outra, que fez o mesmo doutor ao +papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a +lhe dar obediencia com aquelle famoso ornamento, que +ainda agora é dignamente celebrado na egreja romana +assim pela grande devoção d'aquelle pio e catholico +rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o +papa respondeu em publico com uma doutissima oração +de louvores do mesmo rei. E não é este costume +só dos nossos embaixadores, mas de todos os extrangeiros, +assim quando eram enviados a este reino, como +a outros. Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco +de França a el rei D. Manuel, que estava em Almeirim, +no anno de mil e quinhentos e seis, Monsieur +de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta +oração em sua chegada: fóra outras muitas com que +pudera allegar.—D'esses exemplos ha muitos (disse o +doutor), e continuando com o que convém mais ao fim +do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo +de embaixador os homens das familias mais illustres +do reino, dos illustres os mais discretos e cortezãos, +<span class="pagenum">[58]</span> +d'estes os mais animosos e liberaes, dos animosos os +mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; +e são todas estas partes tão necessarias ao embaixador, +que com a falta de qualquer d'ellas ou arriscará o +credito do principe, que o manda, ou o negocio de que +vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser +illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e +dos illustres d'elle, e por honra tambem do principe a +que é mandado, pois ha de fazer as partes de um, e +assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e nos +vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores +muito chegados em sangue ás casas dos reis que +os enviaram, e sahirem outros da mesma qualidade; +o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da +Persia, Japão e outras remotas partes do oriente. Depois +de illustre ha de ser discreto e cortezão, porque +parece que mais que todas as outras partes, lhe está +requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição +e cortezia para tratar as cousas convenientes +á sua embaixada, encobrindo, desculpando e persuadindo +o que a seu rei convém; que esta é a differença +do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o +que lhe mandam que diga: o outro dispõe, ordena e +conclue o que lhe encommendam que faça: um leva o +recado na lingua, outro no peito, como disse um embaixador +dos romanos aos carthaginezes na guerra de +Sagunto, que levava a paz, e a guerra dentro no peito; +e assim não vindo elles no que os romanos pediam, declarou +a guerra. Além d'isto como o embaixador é um +terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, +nenhuma cousa lhe é mais importante, que o entendimento, +e tambem o ser cortezão lhe importa muito, +pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á +pessoa do principe, com communicação dos principaes +senhores do reino; e ás vezes por esta parte sendo +engraçado, e acceito áquelle a quem é mandado, acaba +mais facilmente os negocios e pretenções de quem o +manda. Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque +nas materias que tocarem á guerra, tregua e liga, +ou confederação com seu principe, se não mostre por +sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue +com seu exemplo a que o respeitem e temam; e +tambem porque na occasião em que se offerecer ao +<span class="pagenum">[59]</span> +senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com +as obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E +o segundo, porque com a magnificencia se conquistam +mais vontades e animos extrangeiros, que com qualquer +outra valia, por grande que seja; e posto que +esta parte a todas as pessoas illustres é necessaria, e +em todos os cargos de guerra e officios da paz é tão +estimada, no de embaixador é muito mais proveitosa +para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella +que convém ao de sua embaixada, e para mover os +ministros e validos, em cuja mão ou conselho está seu +negocio. Convém além d'isto que seja o embaixador +homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e +veneração; que em outro modo o corpo pequeno em +pessoas de grande logar lhes tira muita parte do que +se lhes deve. E um doutor nosso de muito grande nome, +e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato +seu uma lettra que dizia: <em>A presença diminue a +fama</em>. <br /> +<br /> +E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo +d'este reino com uma embaixada a um rei assás poderoso, +vendo-o elle tão pequeno, lhe perguntou motejando +d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino +outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante +cargo?" Ao que elle respondeu valendo-se do +entendimento, e animo que tinha: "Que na corte d'el-rei +seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, +e partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que +para sua magestade lhe pareceu que elle bastava, e +por isso o mandára." Finalmente é de muita importancia +ser bem acostumado, para com sua temperança, +continencia, e bom termo conservar, e acreditar o bom +nome, e fama de seu rei, a honra de sua patria, e da +propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus +costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito, +liberdades, e exempções que tem os embaixadores, +como aconteceu aos da Persia, que vieram a el-rei +Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça +de Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo +soffrer sua estranha dissolução, mandou alguns +moços de bellissima figura, que em habito de damas +os servissem á meza, levando escondidos punhaes com +que se vingassem de qualquer deshonesto acometimento +<span class="pagenum">[60]</span> +dos embaixadores; que usando de sua demasiada +luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da Persia +offendido de se não guardarem com os seus as leis dos +embaixadores, mandou um poderoso exercito contra +el-rei Amyntas; porém o general d'elle sabendo como +o caso passára, se retirou sem querer dar batalha aos +Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores +sejam escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, +de que hão de tratar; que tal occasião se offerece, +em que convém serem humildes; e outra, em que +é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam +de ser animosos, e arriscados; e outras brandos, e dissimulados. +Francisco Dandalo, embaixador dos Venezianos +ao Papa Clemente V para levantar o interdicto +ao Senado, contra quem estava iroso por razão das +coisas de Ferrara, esteve lançado de bruços grande espaço +á meza do Summo Pontifice, com uma cadeia de +ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o +obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua +grande humildade foi chamado <em>cão</em>, e por seu valor +succedeu +no Ducado de Veneza. Pelo contrario Orfato Justiniano, +homem de letras, e animo generoso, embaixador +do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, +que pelo mau animo, que contra os Venezianos tinha, +não fazia d'elle a conta, e estima que seu valor merecia. +Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação, e humildade, +que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta, +por onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse +dobrar o pescoço: porém elle entendendo a tenção de +Fernando, entrou com as costas para diante, e voltando-se +direito na casa fez a mesma cortezia, que costumava. +Outro dia achando-se em um banquete, que o +rei mandou fazer, dando-lhe de proposito os convidados +tão estreito lugar que achava sua auctoridade, +deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, +que trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar +como os outros assentos.—A mim me parece (disse +Leonardo) que os attributos mais importantes ao embaixador, +e que sempre n'elle devem andar annexos, são +esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em +que se revolve o maior peso, e substancia, das coisas +do Estado; o que se colhe dos exemplos que dissestes, +e de outros muitos; porque o esforçado e entendido +<span class="pagenum">[61]</span> +em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda, +nem ao que a si mesmo deve, nem á occasião de que +se póde aproveitar, como aconteceu a Pompilio, embaixador +a el-rei Seleuco, sobre conservar amisade com os +Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo +o Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava +melhor; e entendendo o Romano que aquella dilação +se fundava em fraqueza, e cautela, com o bordão +que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou +mettido, dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse +se havia de determinar na resposta de sua embaixada; +e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz que lhe requeria. +E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador +aos Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre +as roupas muitas immundicias com grande rizada, e +escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente: Vingai-vos +agora do riso á vontade, porque tendes muito +que chorar quando com vosso sangue se lavarem as +nodoas d'este meu vestido.—Esses casos (accudiu D. Julio) +são da mera jurisdicção do esforço, e cavallaria; +ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque +o valor do animo a tudo acode, e em nada perde +ponto. E se não, vede a estimação que fizeram os reis +catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo Fernandes +de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o +prior sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou +a combater valorosamente tirando com muitos louvores +d'aquella batalha feridas; e querendo-o el-rei desviar +antes, porque não convinha ao cargo que trazia, +lhe respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, +e o animo o obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe +I a Frederico Badoaro, que os Venezianos lhe mandaram +por embaixador a Genova, sendo elle principe +de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos +no segundo logar, succedeu chamar o principe a +si ao duque de Saboia; e acenando ao veneziano que +lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe +com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes +tirar; mas respondeu que antes havia de deixar a +vida, que aquelle lugar, porque com a morte de um +particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se +lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era +devido, a pessoa inferior em merecimentos. E quanto +<span class="pagenum">[62]</span> +á dissimulação, e soffrimento só nos esforços costuma +a achar confiança para metterem em cortezania o que +puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a +Giuberto Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa +Nicolau III, que já mais foi ouvido, nem pôde alcançar +entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha +contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até +que, vendo elle o pouco que importavam suas muitas +diligencias, fingio um dia, sahindo com alegre semblante, +haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a +que vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para +Veneza; onde perguntando-lhe o Senado o que passara, +respondeu: "Não achei o Papa em Roma, nem quem +me soubesse dizer onde o acharia." <br /> +<br /> +—Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço, +e entendimento no embaixador; porém tem igual +necessidade de todas as outras para representar com +a nobreza a pessoa do seu rei: para com a magnificencia +adquirir as vontades dos ministros, e criados: para +com a gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: +para com o conhecimento das coisas do Estado, e +experiencia d'ellas acertar nas que se lhe offerecessem: +e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar +uma approvação na vista, de tudo o que se conhecer +de suas obras. Mas porque não pareça que vou fora do +em que comecei: A que os embaixadores não levam +recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior +confiança) que levam por escripto muito do que hão +de dizer, e do que hão de pedir, ou conceder; porém a +eleição do tempo, occasiões, e palavras fica subordinada +ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus +conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e +ordens de como se hão de haver nas coisas os embaixadores; +que são mais largas, quanto são mais remotas +as provincias, a que são enviados.—O officio (disse +Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro +demanda maior cabedal de partes da natureza, e das +adquiridas por experiencia: e sei-vos eu dizer que +houve n'este reino famosos homens d'esta profissão, +e taes, que, querendo nomear alguns, faria manifesto +aggravo a outros muitos. Mas se o gran-duque de Florença, +vencido da eloquencia, e partes de Hermolau +Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos +<span class="pagenum">[63]</span> +Venezianos) com tantas mercês, e favores o persuadia +a que ficasse em seu serviço; não faltaram outros, que +sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram maior +inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum +teve lugar nos tribunaes supremos da corte de +Hespanha, que para negocios particulares de um principe +d'este reino foi mandado a ella, que pela grande +satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido +para os de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de +espantar que de um embaixador e messageiro particular +se fizesse um conselheiro de estado, sendo criado +da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro +cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões +insignes em todas as profissões: d'onde sahiram vice-reis, +e capitães maiores para o Oriente, e soldados para +capitães, e mestres de campo, que defenderam, e +honraram o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram +Malta; fronteiros valorosos, que se assignalaram +em Africa, todos criados da mesma casa, onde se +acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem +a Marte, e engrandeçam a Minerva, fazendo inveja +aos mais avantajados nos exercitos, e presidios +hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e academias +mais nomeadas da Europa. <br /> +<br /> +—Tendes levantado este discurso de maneira (disse +Solino) e está a materia d'elle tão altiva, que me parece +que eu e Pindaro ficamos esta noite camarço, sem +nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo +me fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis +a coisas tão differentes: folgara de saber se haveis +de ficar n'esse tom, porque vos deixarei em termo +com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar +minha vida.—Ainda não tendes razão de vos queixar +(respondeu elle) que antes por me chegar pouco, e +pouco aos criados, deixei muito dos embaixadores, +após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores, +que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, +e outras vezes a visitas, e occasiões dos principes, +que não menos devem ser escolhidos para estes cargos, +buscando n'elles as partes mais necessarias que +são discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam +concorrer todas as mais; porque a cidade, ou villa, +que manda ao principe seu procurador, ou agente, +<span class="pagenum">[64]</span> +n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.—De +um cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado +por procurador a cortes, lhe esqueceu no caminho +o que a cidade lhe encommendára, e tornou a dormir +a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que +ía: e fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois +lhe não esqueceu.—De outro ouvi eu (respondeu Solino) +que jurou por vida da sua a el-rei Filippe I que se havia +de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome +de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias +que na pratica disse, mais dignas de riso, que de credito. +E um conheci eu, a que cahiram as luvas, e o +chapéo da mão, começando a dar o recado de uma cidade +a um principe; e levantando-as, perdeu o que +queria dizer, de maneira que nunca atinou palavra.—Estes +maus successos (proseguiu o doutor) testemunham +o muito cuidado, com que se hão de eleger os +homens para taes cargos; o que não importa menos +aos titulares e fidalgos, que mandam vizitar a outros +em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas, que +saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso +requer, para credito, e boa opinão de quem os +manda.—Certo (accudiu Leonardo) que não julgará bem +quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de +ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um +fidalgo que eu tratei particularmente, ao qual, estando +enojado por morte de um seu filho, visitou da parte +de um personagem um capellão bem apessoado, e disse +que o senhor N. estimára muito aquella occasião +para mandar visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço. +A este conto fizeram todos muita festa. E Solino, +que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não sei se virá +muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a +minha historia, em rasão da advertencia, e cuidado +que deve ter quem visita em nome alheio; pois se vê +que mais desattentos, que ignorancias, os erros d'estas +materias. Uma senhora enojada por a morte de um +seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como +as mais costumam. A esta mandou visitar outra parenta +sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando +na primeira casa achou tão escura que, pegando-se +ás paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço +de cego; a qual o levou por a mão até uma porta +<span class="pagenum">[65]</span> +estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou +para passar deante; a qual não alcançou tão bem o +degrau, que não désse primeiro com as queixadas na +humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a +guiar a dona da mesma maneira até junto da camilha, +onde o tornou a soltar: esta pessoa, cuidando que tinha +alli outra porta, por não errar o degrau por baixo, +levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada, +que dando um grande grito a fez cahir de focinhos. +Muitos, que estavam na casa, e tinham furtada +a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram tão +grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo +o sentimento do nojo, e cahia cada um para sua +parte sem se poder valer." Como Solino tinha graça natural +no que dizia, deu muita a este conto, que foi celebrado +com riso de todos.—Se assim é (disse Solino) +que nesses ha tantos desatinos, e inadvertencias, não +ha que espantar de criados menores, que uns são por +natureza tão rusticos, que em nada acertam; outros +por malicia tão depravados, que não querem saber senão +o que é em favor de sua maldade.—Uma questão +se offerecia agora (acudiu Pindaro) que, ainda que rasteira, +é em materia proveitosa. Convem a saber se é +melhor servir-se um homem de um moço simples, e +nescio; ou de um malicioso ainda que seja esperto.—Eu +estou melhor (tornou D. Julio) com o que me engana, +que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer +do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho +para me poder enganar em pouco: e do nescio +nem posso confiar em um recado as minhas razões, +nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora +o que ha de dizer, menos sabe o que lhe convém +calar: além de que é grande desgosto andar um homem +de continuo ensinando um rustico, sem proveito, +que não tomará em sua vida tinta de discrição, por +mais que o cozam n'ella.—A mim me parece outra coisa +(disse Solino) em razão d'aquelle proverbio: <em>Antes asno +que me leve, que cavallo que me derrube</em>.—Pelo rifão +(respondeu +Leonardo) entendo que quereis defender o vosso +moço.—Se o não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou +elle). Porém o moço nescio não pode desacreditar +com sua parvoice o entendimento de seu amo, que não +está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, +<span class="pagenum">[66]</span> +e esperto, nem por o ser deixa de errar peior +que os outros; porque não aprende o que convém a seu +amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás vezes +por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; +e quando não, troca as palavras ou o sentido +d'ellas; muda o tempo, e a acezão do recado; vai quando +quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o +credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque +dizem que <em>qual o amo tal o moço</em>; mais vos +desacredita +com a murmuração, do que vos acredita com o recado; +e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O simples, +se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se +com o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o +que pretendeis; e muitas vezes seus erros cahem em +graça como as subtilezas dos outros em damno.—Boas +são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa +que pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois +é regra de direito que <em>faz por si o que manda fazer por +outrem</em>: e se a victoria dos soldados se attribue ao capitão, +os ensinos, e palavras dos moços porque se não +hão de julgar por de quem os governa, e manda? e +menor damno é qualquer dos outros, que o de um homem +parecer nescio á conta do seu moço. E sobre tudo +não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que +faça mal, diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; +que os mais d'elles cantam de quem roubam; que d'esse +outro modo não é pintar criado, mas inimigo.—E não sabeis +vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a +maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim +diz a sentença de Euripides, que não ha maior, +nem peior inimigo que o criado: e Democrito diz que +o criado é coisa tão necessaria, como amargosa: Luciano +diz que os criados sempre tem malicia, e traições +armadas contra seus amos.—A muitos tenho eu +por inimigos (disse Feliciano) porém peior o será o nescio, +que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo +em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, +não ha maior servidão que mandar a um nescio.—Eu +tenho procuração em causa propria (disse Solino) +para acudir pelos criados, como testemunha de muitos +fieis, e verdadeiros a seus senhores: e Euripides, +e os mais devem de entender, o que disseram, dos escravos, +que, como lhe temos tomada a coisa mais principal, +<span class="pagenum"><a name="p67" id="p67">[67]</a></span> +e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem +odio, e nos desejam, e procuram mal; porque a vilesa +do seu animo não soffre mostrarem valor na sujeição.—Não +me parece a mim essa boa razão (accudiu o doutor) +porque por dito de Seneca <em>nenhum escravo ha mais vil, +que o livre, que serve por sua vontade</em>. (Não entendo n'este +conto os nobres, e honrados, que servem aos grandes +por respeitos razoaveis). E dos escravos, a que fez +taes ou a ventura de guerra, ou outra desgraça, temos +os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em +que deixaram muito atraz <a href="#e1">os proprios filhos</a>. E se não, +vêde se fez algum o que o escravo de Publio Catieno. +que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de +seus bens, pela fidelidade com que o servira; elle, por +se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira +em que queimavam o corpo de seu senhor, +e morreu com elle, mostrando que estimava mais tal +servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava. +Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de +ver a seu senhor vencido de Augusto. Euporo, escravo +de Lucio Graco, que se matou sobre o seu corpo. E um +escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam +uma quinta, em que o senhor estava, para o +matarem, trocou com elle o vestido, e metteu no dedo +um seu annel de preço: e deitando-o fóra por uma porta, +sahiu pela outra a receber a morte, que haviam +de dar a seu senhor. E Frederico de Eveshim, escravo +de Conrado Imperador, que, sabendo que vinham +para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na +sua cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, +o mataram: o outros muitos escravos sem nome, +que mereciam que o seu ficasse eterno por memoria +de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande +animo de Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano, +que vendo seu senhor cativo de turcos, e depois morto, +desejando vingar-lhe a morte por preço de sua vida, +fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no +campo Turquesco, e dizendo que queria fallar a Amurates, +primeiro imperador d'aquelle imperio, o matou +a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a +vida valorosamente.—D'esses escravos (replicou Solino) +não trato eu, que mereciam ser senhores de seus senhores; +como tambem houve criados que mereciam ser +<span class="pagenum">[68]</span> +servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes +foi escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, +em que sabia servir, respondeu: que <em>em mandar +homens livres</em>; por o que Xeniades o libertou dizendo: +<em>aqui te entrego meus filhos para que os mandes</em>. E +Epicteto, +que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo +de Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro +da immortalidade. Porém a nós não nos cahiram +em sorte estes escravos, senão a gente mais barbara +do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria +da Asia, que é da gente mais vil das provincias +d'ella; que uns, e outros tratam os portuguezes +com rigoroso cativeiro n'aquellas partes, vendendo-os +para serviço das minas das Indias de Hespanha como +condemnados á morte: e assim se podem estes chamar +com razão inimigos mortaes de seus senhores.—Tambem +(disse o doutor) houve já n'este reino escravos +illustres de muito valor, entendimento, e sangue, +conhecidos por taes, e tratados como se estiveram em +liberdade, que cativaram nas nossas fronteiras de Africa, +em cujas historias me eu não quero deter por me +não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, +que uns e outros representam a pessoa de +quem os manda, no que toca ao recado que dão: o que +a mim me parece que está bem provado com o costume, +que os antigos tinham em mandar os seus, que +não fallavam por terceira pessoa, como é o nosso uso, +que dizemos <em>diz fuão que vos beija as mãos</em>; +<em>que vos pede +isto</em>; <em>vos encommenda este outro</em>; +<em>vos lembra tal coisa</em>: antes +costumavam: <em>N. vos diz</em>, <em>beijo-vos as +mãos</em>, <em>rogo-vos isto</em>, +<em>encommendo-vos este outro</em>, <em>lembro-vos tal +coisa</em>, representando +nas palavras a mesma pessoa que as mandava +dizer; e d'esta maneira ficava arriscado nosso amigo +Solino, representando pelo seu moço: pelo que a mim +me parece que o melhor do recado é ser tão breve, +que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro, +que o entenda sem trabalho a quem se manda. E com +isto, e com vossa licença me hei por desobrigado do +que n'esta materia podia dizer.—Não pela minha parte +(disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de +mais habilidade que todos os de que falastes, em cuja +profissão entra a de embaixador, agente, procurador e +recadista; e ainda outros muitos, que é o do terceiro, +<span class="pagenum">[69]</span> +ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse +Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais +vil, e reprovado, que os de mais, e se empregar em materia +tão odiosa á Republica: porém sem entrar no fundo +d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da superficie.—Bem +sei (respondeu o doutor) que para me metter +em desconfiança levantais essa lebre; e não vos +enganeis, que tanto se deve tratar de officios viciosos +para fugirem d'elles, como dos de virtude para os seguirem, +e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os +romanos deram leis á sua profissão, segundo escreve +Pedro Crinito; as quaes estavam escriptas no templo +de Venus; e Licurgo, aquelle grande legislador dos Lacedemonios, +tambem lhes deu regras, e liberdades, posto +que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos +os agasalham; mas se ha officio de muito cabedal, +e pouca honra, é o do alcoviteiro, porque ha alguns +que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular, +Sallustio no persuadir, Terencio no representar, +Ovidio no fingir, Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, +Ulysses no tecer, Momo no desdenhar; e todas +as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em +afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para +lhe assignarmos as partes necessarias, fôra acertado +pintar o avesso do embaixador, com que só convém +em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser +baixo, vil, desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, +ingrato e soffredor de todos os escarneos e zombarias, +porque não só é de sua profissão enganar, mas +tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que +seu exercicio merece.—Muito cruel estais contra elles +(tornou D. Julio) e não tendes razão; quando vitupereis +o seu officio, não vos esqueçais da grandeza das +partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e +encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, +e convence como um rhetorico: finge, disfarça, e +representa com figuras, espantos, meneios, e hypocrisias +nos gestos, e palavras como um commediante: +pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia +toucados, e vestidos, e trata os rostos, e feições +melhor que um pintor; sabe mais da natureza +das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o +falso por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, +<span class="pagenum">[70]</span> +e achaques dos que lisongeia, como medico; +obriga, e engana no interesse, como legista; adivinha +os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo. +Não ha finalmente arte liberal, nem mecanica, +de que se não valha, e em que não vença a seus professores.—Ainda +me parece (disse Solino) que haveis de +chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero +commum de dois, accommoda-se melhor ao feminino. +E pois de embaixadores descemos a criados, não é +de espantar que tropecemos em tão ruim gente.—Parece-me +(disse o doutor) que de aposta quereis profanar +a minha auctoridade; não vos quero dar esse gosto á +minha custa: e não passemos d'aqui n'esta materia: +e tambem porque é mais tarde do que parece, demos +lugar a que o senhor Leonardo se recolha. <br /> +<br /> +Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando +e agradecendo cada um ao outro o que dissera; +que tanto se contenta o discreto da boa razão +alheia, como o nescio da sua ignorancia propria. +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<a name="c6" id="c6"></a><h2>DIALOGO V</h2> +<br /> +<h3>DOS ENCARECIMENTOS</h3> +<br /> +<br /> +Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem +aos interesses d'ella: e era em todos tão egual +o desejo, que nem a occupação de cada um os desencontrava; +porque o gosto, em que se enleva o entendimento, +faz menores todos os respeitos ordinarios da +fazenda, e familia. Entraram á noite juntos em casa +do hospede com grande alvoroço, dando cada um no +caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam +de gastar aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem +ainda no que seria, disse D. Julio: Por certo, +senhores, que estou tão enleado com uma coisa que +vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar +ao decoro que convém ao sujeito d'ellas; porque +nos mancebos as palavras de mero louvor de uma mulher, +ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e +mais facil é de presumir um engano de affeição nos +meus olhos, que de persuadir um espanto a entendimentos +<span class="pagenum">[71]</span> +tão levantados como os vossos. Porém seja o +que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; +que com todos, os que houver, me aventuro.—Que novidade +é esta, senhor D. Julio (disse Solino), que sermão +quereis fazer, que tomaes a graça, e nos tendes pendurados +a todos no desejo de vos ouvir?—Esta manhã, +(proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar +n'ella o dia, com menos cuidado do desejo da noite, +me fui pôr detraz da nossa serra alongando-me para a +parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando +sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de +penedos, coberta da sombra de uns altos hervados, e +atoeiras, cheios de verde rama como no melhor tempo +da primavera, embaraçados com umas vides silvestres +que os atavam, e que ainda de todo não estavam despidas +de sua folha, vi junto a ella, e coberto com elles +o mais formoso rosto, que eu imagino que pode haver +no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era +de uma mulher em habito de peregrina, que fiada na +solidão d'aquelle deserto, e por gosar dos raios do sol, +que n'aquelle logar se espalhavam, com os toucados +lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava +os cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam +perder ao sol a formosura, mas cobrindo outro mais +formoso, que era o seu rosto, contentavam de maneira +o desejo, que não fazia muito por passar d'elles adiante. +Eu sem atinar no silencio, com que era razão que +me escondesse por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido, +que, afrouxando as redeas ao cavallo, o deixei +tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa +peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia +os cabellos se apartaram, qual sôa ferir o relampago +d'entre as nuvens, me saltearam a vista com uma luz +estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de +ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos +eram duas estrellas de diamantes, em cujo fundo um +verde escuro de esmeraldas apparecia, que communicando +áquella formosa côr a claridade dos raios, que +despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; +e descendo d'elles abaixo, era tudo tão cheio de perfeições, +que o menor logar, em que se empregava a +vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca +<span class="pagenum">[72]</span> +era um laço de todos os pensamentos amorosos; e +nunca vi coisa tão pequena, em que coubessem tantas +grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio, que +com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam +como por vidraça as perolas, que até então me +não descobrira o pejo, com que ficou de haver visto. +A columna, que sustentava este edificio, era um pescoço +de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues +muito delgadas, que me representaram n'aquella hora +a côr do céo sereno, que pela rotura de duas nuvens +brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o +circulo da sombra, com que se engastava no aspero +burel da esclavina que a romeira vestia: apeei-me eu; +e n'este mesmo tempo lançou ella o toucado sobre os +cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; +mas como as suas madeixas eram mais compridas, +que a toalha branca, com que as quiz encobrir, se mexericavam +pelos extremos das pontas, que vinham a +guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe +com a cortezia, a que a modestia, e gravidade do +seu rosto me obrigava; e ella sem mostrar outro alvoroço +de minha presença mais, que vestir de escarlata +a branca neve de que parecia formado, me respondeu, +perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle +o caminho. Eu, que não perdia com os olhos um só +movimento dos que os seus faziam, me pareceu tudo +o que tinha visto, sombra da graça e brandura com +que falou com uma voz tão fina, que penetrava o interior +do coração, e tão suave, que o desfazia, e com +uma modestia tão grave, que não dava logar a se pôrem +n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito +armado de receios. Perguntei-lhe d'onde era, para +onde ía, encarecendo-lhe o perigo em que punha sua +belleza de ser offendida, fiando-a de desvios tão solitarios. +Mas ella despresando todos os temores, e fazendo +mais difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe +pendia, que pelos trances que á sua conta se me representavam, +deu a entender muitas cousas, com que +eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, +e lhe offerecer algumas das que costumam haver mistér +os que fóra da sua patria vem experimentar os +males das alheias. E além de eu estar atalhado com +<span class="pagenum">[73]</span> +sua vista, o estava ella tanto com minha presença, +que perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não +molestar: despedi-me magoado: estou arrependido; e +cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que não aparto +o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. +E porque ainda me parece que deve ser mais estranho +o successo, que a traz n'aquelles vestidos, que +a novidade de sua gentileza, a que se deve todo o cortezão +tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor +Leonardo que por a melhor via, que lhe parecer, +saiba d'esta estrangeira, que por esta noite deve de +estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia, e +eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.—Bem +andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) +em tomar primeiro carta de seguro para o que havieis +de dizer; porque os encarecimentos d'essa peregrina +são mais pinturas vossas, que gentilesas suas; +porque não ha mulher nas obras da natureza tão perfeita +cá na terra como a soube fingir o vosso entendimento, +ou affeição: e á conta d'ella me parecia bem +que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural, +que em materias de amor tudo o que reluz é ouro, +e tudo o que assombra é sol; e só com esta desculpa +salvareis louvores tão desacostumados.—A affeição do +que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da +peregrina dizei o que quizerdes contra minhas razões, +que nas suas partes hei de achar armas com que defenda +o que disse. Leonardo se offereceu então a mandar +fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando +para Solino, que tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós, +callaes, quereis allegar serviços ao senhor D. Julio, +porque a vossa natureza não é deixar passar esta mercadoria +sem registo.—Estava agora (respondeu elle) +cuidando nos livros de cavallarias, que ha poucas noites +que defendi; e desejava dar um cavalleiro andante +áquella peregrina; que se uma cousa d'estas apparecêra +a meu amigo Pindaro, que encantamentos não +rompera, e que poesias, e obras heroicas appareceram +de novo no mundo, que alabastros, marfins, marmores, +crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por +esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este +encontro mais elegante do que se esperava; Pindaro, +com sua licença, tem n'esta materia mais direito adquirido; +<span class="pagenum">[74]</span> +e não se houvera de contentar de descer do +céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas +os archanjos, cherubins, dominações e potestades haviam +de ter logar n'elles. <br /> +<br /> +—Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos +agora com esta materia em desconto, e recompensa +das passadas; e gastar esta noite em saber a +causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é +pensamento que já me desvelou em outra edade.—Obrigo-me +eu (disse Leonardo) que a nenhum dos presentes +descontente a vossa escolha; e eu particularmente +estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do Licenciado, +que por hospede, estudioso e cortezão se lhe +deve o logar.—O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca +importancia, e o logar devido a outrem; mas com toda +a humildade acceitarei o que me derem: e se com a minha +razão ficar corrido, barato é o saber que se compra +com primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos +nascidos de amor não devem parecer estranhos +(por deseguaes que sejam) a nenhum juizo affeiçoado; +porque o amante para pintar a formosura de uma dama, +que satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente +achará nas cousas creadas a que a compare, +que lhe fique parecendo que a encarece; porque, ainda +que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto +como os seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra +menos com a claridade de sua luz, que com vêr o rosto +de quem ama; e são de menos valia para seu gosto e +desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, +que o riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e +de não imaginar na terra um amante cousa que se +eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario de +a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento, +subindo com elle pelas gerarchias mais levantadas: +a causa é, porque o amor faz as cousas tão formosas +a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza +que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que +engrandeceu a muitas d'ellas: que até do gosto, como +diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor é saboroso; +nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave: +que não sómente com seus poderes dá perfeição ás +cousas, mas tambem as converte em outra substancia.—Não +estou contra a vossa razão (acudiu Leonardo) mas +<span class="pagenum">[75]</span> +parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, +que todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos +limites; porque, em descendo da pedraria, os que são +menos lapidarios empeçam em coral, marfim, porfido, +alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, +a paixão de amor não havia de guardar regra certa nas +palavras, e louvores, antes encarecer sua dama com as +cousas que a seu gosto e opinião sejam mais formosas; +e como as affeições são tão differentes, assim o seriam +os gabos, e encarecimentos.—Para louvar (replicou +Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter +affeição; porque logo daes com uma estrada Coimbrã, +que é <em>tão bella como o Sol</em>, <em>tão clara como +a Lua</em>, <em>tão alva +como a neve</em>, <em>tão loura como o ouro</em>; e +d'aqui adeante.—A +mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado, +que o doutor tinha geito de metter os louvores +de uma dama em exemplos caseiros, chamando-lhe +fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim, +clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e +como os amantes para encarecer se não contentam com +pouco, todos chegam ao que pode ser: todo o branco é +crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde +esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; +e até as mães dos meninos, a que naturalmente +tem excessivo amor, não lhes sabem chamar pouco: +quando os tomam nos braços, logo os intitulam de <em>meu +duque</em>, <em>meu marquez</em>, <em>meu +conde</em>; nas pedras <em>meu diamante</em>, +e nas flôres <em>meu cravo</em>, e <em>minha +rosa</em>: quanto mais louvando +mulheres, a quem todo o encarecimento fica +curto, e envergonhado pela fôrça, com que tem captivos +os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas. +E para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente +n'este particular.—Os encarecimentos, de que usam +os amantes (disse Pindaro) menos são seus, que adquiridos +dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os +escriptos em suas obras: porque, como retratadores +das obras excellentes da natureza, buscaram tão +altivos materiaes para darem vivas côres á formosura. +E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra, +lhe accommodassem côres, e attributos celestes, quando +para pintarem cousas do mesmo céo usam tantas +vezes de semelhanças, e encarecimentos da riqueza da +terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos +<span class="pagenum">[76]</span> +de lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de +topazios, jacintos, e esmeraldas; e o mesmo fez pintando +os pavões, que no céo levavam o carro da Deusa +Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano +Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente, +e levantada, e por tal escolhida das Sibyllas, e +Oraculos para usarem d'ella, tambem fizeram os amantes +a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda +consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e +settas de Cupido, com todas as mais allegorias, e transformações +que os poetas usaram.—A verdade é (disse o +doutor) que a perfeição da formosura animada se não +pode devidamente encarecer com alguma semelhança, +que o não seja, porque todas lhe ficam muito inferiores: +o que declarou bem uma dama Florentina, que +perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de +mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor +d'aquelle tempo; ella, sem responder com palavras, fez +que uma creada sua formosa e bem proporcionada, despisse +em si as partes, que a figura mostrava núas; e +logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, +e valor que d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico +da formosura, que declara engenhosamente este +pensamento: a figura do qual era uma mulher com a +cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas +rodeado de um resplendor, que o não deixava vêr distinctamente; +na mão direita um lirio, e na outra um +compasso; significando com a cabeça mettida no céo, +e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia +encarecer, fazendo impedimento á vista humana como +raios derivados da belleza Divina; o lirio denotando a +graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza +foi sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, +proporção, e correspondencia dos membros, em +que consiste toda a perfeição d'ella. Mas Pindaro tudo +quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem +pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem +entrar os desvarios dos namorados, por serem +muito eguaes o furor poetico, e o amoroso. Porém, já +que os encarecimentos estão approvados com tão boas +razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que +vivem, morrem, e ressuscitam a cada passo, e que andam +sem almas como cantaros, e sem coração como +<span class="pagenum">[77]</span> +furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de +amor vive exceptuada das leis da natureza.—A razão +(respondeu Feliciano) é a mesma; porque quem encarece +a causa egualmente exagera os effeitos: a pena +de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança +é o maior tormento da morte ao que ama; e um +favor e brandura, que recebe em sua affeição, é na sua +estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de viver +sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente +um poeta moderno, dizendo em um soneto á sua +dama, da qual estava ausente, que uma parte da alma, +com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava, +entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra +cousa os desvarios, e desattentos dos que amam, +senão viver em certo modo fora de si, como pareceu a +Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde +o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da +cousa amada ficam com elle.—Tambem S. Jeronymo (accrescentou +o doutor) escreve que o amor da formosura +é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas +ao amor, inimigo d'ella. E que maior exemplo se +pode imaginar d'esta verdade e mudança dos que +amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de +Lidia acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe +os anneis dos dedos, ella com a corôa real +na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu +d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o +de Dionisio Syracuzano, que por mão, e parecer de +Mirta sua amiga despachava os negocios importantes +do seu reino? que mais extranho, que o de Themistocles +Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado +de uma dama, que captivou na guerra de Epyro, +usava em uma doença, que sua amada teve, dos mesmos +remedios que lhe a ella faziam, tomando as purgas, +e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto +por regalo, e gentileza com o seu sangue d'ella? que +menos crivel, que o de Lucio Vitelio Imperador, que +namorado de uma filha de um escravo seu, a quem libertara, +de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma +esquinencia, não usava outro remedio mais que um +unguento que fazia de mel com o cuspo de sua dama, +imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar +saúde untando com elle a garganta?—De maneira (disse +<span class="pagenum">[78]</span> +Leonardo) que amor tira os sentidos, e o juizo a quem +se emprega todo em seus cuidados: e eu tinha para +mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser +bom namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa +opinião, pois os que amam não tem entendimento.—Só +o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser amante, e por +isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal +poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais +ao ponto da vossa duvida, o amante pelo ser não fica +nescio, mas parece-o em muitas acções dos sentidos, +e entendimento; porque, transportado na imaginação +do que ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.—Extranhamente +(accudiu Solino) me contenta ouvir +esta razão para desculpar commigo os maus successos +de namorados, a que não sabia tão boa desculpa; +que assás grande é para esquecer cousas menores +quem está fora de si: porque, deixados esses exemplos +de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e mais +notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram +o entendimento; de outros de menos estofa, e +mais modernos sei eu descuidos, que podiam entrar em +historia n'esta occasião, e por me aproveitar d'ella: Eu +conheci um cortezão mui empenhado em finezas de +amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama +em um quartão, que já aturava aquelle fadario todos +os dias como em atafona; acertou n'aquelle a ser mais +favorecido da senhora, que de quando em quando lhe +apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado +mancebo, que por seguir a caça se esqueceu do +tempo, e das horas de comer, mettendo-se pelo certão +da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não +devia de estar tão affeiçoado a aquella estancia como +á sua costumada, estancava muitas vezes do passeio, +sem haver accordo nem espora que o despertasse; até +que uma vez, estando o amante parado com o ponto +no alvo da janella, acertou a passar um macho que levava +uma rede de palha, a que o rocim se arremessou +com tanta furia, que, prendendo os copos da brida nos +laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao +quartão enamorado por todo o terreiro, onde se resentio +do rapto, sem se poder valer contra os couces do +macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito padecer +d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia +<span class="pagenum">[79]</span> +sua liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor +não era armado cavalleiro, passeava a pé á vista de +seu cuidado, ora com os olhos na janella, ora com o +tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a dama, +que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas, +porque não notassem os que passavam os +meneios, e esgares que o mancebo fazia, acenando-lhe +se tirou do posto passando-se a uma janella mais pequena +que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: +o galante mais com o tento na mudança, que no caminho, +com os olhos no alto, deu com a testa um grande +encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em +um monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado +á parede, ficando até os sendaes mais caiado, +que cantareira d'Alfama.—A todos pareceram os contos +de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre +sahe o amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho +por grande desar todo o que succede á sua conta, que +por isso o pintam cego, e são conhecidos por taes os +que o servem: porém a mim me parecia que quando o +amante perde o tento, e o sentido de tudo o mais, devia +ficar só discreto, e avisado para sua dama, que é o +objecto em que todo se emprega; que para lhe falar lhe +sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos +de subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia +acho o contrario, que dos noivos, e dos amantes se contam +as primeiras parvoices.—Não sei (disse Solino) se +dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados +dos poetas, como os encarecimentos.—Os poetas (respondeu +elle) não são havidos por parvos; e quem lhes +quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que poderia +ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os +amantes com affeição, como os poetas com o furor divino +que os excita, aprenderiam d'elles. Pelo que o +vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses +primeiros erros são de outra geração; e nenhum +parentesco tem com a parvoice. Antes é um modo de +se atalhar, e suspender um homem o seu entendimento +com muita razão; porque não pode dizer cousa, que +pareça bem aos outros a primeira vez que fala com +aquella a quem ama; que é passo, onde os mais discretos +o perdem.—Parece-me que está no certo meu companheiro +(disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre +<span class="pagenum">[80]</span> +os outros podiam falar sem medo, terem-no muito +grande a estes primeiros encontros; que certo me parece +mais respeito que se deve á formosura, que falta +que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o +verdadeiro é que amor o apura, e engrandece; e por +este respeito os Athenienses lhe levantaram uma estatua +na Academia de Palas como a sabio, e lhe dedicaram +uma escola os Samios, significando que só na de +amor se alcança com perfeição tudo, o que pelas do +mundo variamente se aprende, e com muito discurso +de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição no +escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, +a graça no parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade +no dispender, o esforço no pelejar, a largueza no +jogar, a humildade no servir, e a pontualidade no merecer. +Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao +mundo as emprezas discretas; as chimeras escuras, as +idéas levantadas, os motes avizados, os versos excellentes, +os enredos subtis, as cartas galantes, as fabulas +bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas +tudo é doutrina tirada das escolas de amor. E pois +n'ellas se alcança tudo, não é muito que se ache tambem +um termo de falar encarecido, e levantado sobre +todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o +juizo d'este acerto se não deve fazer por homens livres +d'esta paixão amorosa, se pode haver algum, a quem +não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem outros +exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em +todas as partes de côrte e gentileza pode servir de espelho +aos mais apurados.—Vós me obrigaes por tantas +vias (respondeu o fidalgo) que fico desconfiado de poder +pagar nem com encarecimento do que mereceis, +nem com a restituição dos louvores injustos que me +daes, que só são devidos ao vosso entendimento. E +pois a victoria d'esta batalha ficou por elle em meu favor, +quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me +deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido +o repouso da noite.—Essa resolução (disse Leonardo) +é em damno de todos: e muito mais de sentir, +porque á força nos obrigaes a que consintamos +n'elle: mas como em logar de preza trouxestes da +caça empreza tão difficultosa, poupaes horas para +cuidar n'ella á nossa custa.—Antes (respondeu elle) +<span class="pagenum">[81]</span> +para reformar no somno as que me desvelei na madrugada. <br /> +<br /> +A isto se levantou; e os mais dando boas noites o +iam seguindo, e disse para todos Solino: O senhor D. +Julio vae a sonhar com aquelle thesouro encantado que +lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer +companhia; que se a communicação dos bens de amor +faz muito maior a gloria d'elles nos contentes; aos +que só o estão de seu pensamento nenhuma cousa é +mais agradavel, que saudosa lembrança. +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<a name="c7" id="c7"></a><h2>DIALOGO VI</h2> +<br /> +<h3>DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA</h3> +<br /> +<br /> +Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia +por saber algumas novas da peregrina, que D. +Julio tanto encarecera a noite passada; e não achando +d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento. +Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de +Leonardo, a tempo que tambem o fidalgo apparecia, e +que o velho os vinha a esperar ao peitoril da escada +com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de +edade, pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi +logo conhecido por ser prior de uma egreja que perto +d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o entre si com +a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de +sua saude; como estavam com o desejo de tirarem a +terreiro a D. Julio, fizeram signal a Solino que começasse; +porém Leonardo não deu logar á boa vontade +que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.—Bem +cuidava eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella +formosa peregrina era encantada, e que foi traça do +vosso entendimento fazer a todos cavalleiros d'essa +aventura; porém a mim só a encommendastes; que +pela edade pudéra já estar aposentado para tal empreza; +eu a tomei por vos obedecer, e andei bem cuidadoso +no seguimento d'ella, sem até agora atinar no +caminho, em que vos perdestes.—Minha foi só a desgraça +(respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os +mais o credito do que disse, e para meu desejo a glo ria +<span class="pagenum">[82]</span> +do que pudéra tornar a vêr em sua formosura.—Essa +levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino) +que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar +a pouzada d'esta aldeia.—Parece-me (accudiu o prior) +segundo o que vos ouço, que nós podiamos mostrar o +jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar, +e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem +appareceu na nossa aldeia, de cujos successos, e formosura +se podiam contar grandes extremos; que já +pode ser que seja a de que falaes. <br /> +<br /> +Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados, +e D. Julio contente; e Leonardo respondeu +ao prior:—Não imaginei que tinha tanto bem junto +com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella +não fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada, +que com tão boas novas: pelo que vos peço que +as não dilateis, contando-nos mui particularmente +d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos +que aqui estamos, como agora pendurados os olhos, +e ouvidos do que nos haveis de dizer.—Hontem á +tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o sol se ía +encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando +com a obrigação da reza à vista da egreja; +veiu fazer oração á porta d'ella, e d'alli ter commigo +uma mulher em habito de romeira; que se a +minha vida merecera a Deus que mandasse a algum +anjo falar comigo, podera imaginar que ella o seria; +porque a sua belleza passava os limites do encarecimento +humano, e com uma voz, que respondia bem á +honestidade do seu rosto, e á humildade do seu trajo, +me falou (posto que em lingua estrangeira) de modo +que se deixava entender mui sem trabalho: perguntou-me +se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa +de caridade d'aquella terra, em que passasse a noite, +e pela manhã guia de confiança para ir ter á cidade, +offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a encaminhasse. +Eu, que no merecimento de sua vista achei +que era pouco tudo o que lhe podia offerecer, fiquei +enleado; porém lhe disse: Senhora, esta terra é muito +pequena; e para o que vós representaes, outra maior +me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta +edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas, +que vos saberão servir melhor que as naturaes +<span class="pagenum">[83]</span> +da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a pousada, +qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis, +supprirá a vontade que é muito grande. Ella me +deu as graças do offerecimento com poucas palavras, +mostrando que o acceitava: vim com ella a minha casa, +onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo +que as moças tinham de se estarem revendo nas graças +da sua belleza. Depois da cêa, em que a peregrina +fez pouco damno, lhe pedimos nos contasse a causa +de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter +ao nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro, +entre algumas lagrimas, e com tão discretas razões, +que as não saberei eu agora referir com a perfeição +propria (posto que algumas palavras eram de linguagem +alheia) contou o seguinte: <br /> +<br /> +Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal +de seus estados, no maior enleio, e dissensão dos principes +d'ella, que com a differença, e variedade das erradas +seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham +em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci +de generosos paes, tão mimosa dos afagos, e enganos +da fortuna em meu principio, quanto depois a senti +esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não tiveram +meus progenitores outro fructo, em que empregassem +o amor paternal, (que faziam notavel excesso +á qualidade de seu sangue) mais que a mim, que com +esta boa sorte era invejada de todas as de minha edade, +e pertendida dos mais illustres mancebos de toda +Irlanda. No melhor de meus tenros annos, que a estes +costuma morder sempre por varios modos a inveja venenosa +da dura parca, de uma arrebatada enfermidade +perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha +não provara outros males, senti este primeiro com +grande pena: mas como a sorte m'o ordenara para ensaio +de novas desgraças, depois de me ter encetado o +soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae, +e senhor, a quem muito amava, e fiquei mettida entre +parentes cubiçosos de minha herança, e amantes fingidos, +que obrigados das riquezas d'ella me procuravam +por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam, +pouca vontade; e grande obrigação de tomar estado +conveniente aos respeitos de minha nobreza. E +como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser +<span class="pagenum">[84]</span> +altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a +prosperidade) puz o pensamento em quem com despreso, +e ingratidão castigou minha arrogancia: havia +n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por +descendencia ao sangue real de Bretanha, cheio de +muitas graças da natureza; que, ainda que me era +muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens +da fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o +pretender. Alcançou elle d'isto alguns signaes, que teve +em pouco; não advertindo que a vontade de uma dama +sempre põe em divida a um espirito generoso, que +conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu +já de minha pretenção poucas esperanças, o elegeram +os da ilha de Lister, Ragrim, e das mais da parte oriental +de Irlanda, por capitão de uma armada de corsarios, +afim de fazerem uma preza muito importante no +mar Oceano: e como ás vezes o castigo dos maus intentos +é a mesma fortuna, (posto que outras como cega +os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta, +na qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou +do miseravel naufragio se salvou em uma enseada, +onde foi captiva de um turco corsario, que a levou a +Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou o seu +general conhecido por quem era; e como o sangue, +d'onde descendia, junto ao cargo que levava, o faziam +de mór preço para os que o captivaram, ficou impossibilitado +o seu resgate, e elle sem remedio n'aquella prisão +alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella +me aconselharam que de novo emprehendesse o de que +com seus despresos desconfiara, mandando-lhe offerecer +liberalmente meu dote para resgate de sua liberdade. +E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta lembrança, +tendo por menores grilhões os que de novo lhe +punha, que os que elle trazia, aceitou a offerta, e me +mandou em satisfação um escripto, em que me jurava +por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em execução +o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas, +que tinha, pela honra e contentamento, que +d'aquelles desposorios esperava. Tornou livre á sua +patria, e mudou de improviso a tenção que fingira para +alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe +o mundo esta crueldade: e os meus vendo-me sem +dote, e sem marido, e, o que o havia de ser, tão ingrato, +<span class="pagenum">[85]</span> +e na opinião de todos tão culpado, me levaram a o +demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde, +depois de convencido, me foi julgado por devedor, e +por esposo. Mas como a minha vontade não era que +elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais conveniente +para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e, +depois d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes +que o tratavam; o dia, em que se havia de desposar +comigo, cumprindo por sentença a palavra que +me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua +um papel em logar da minha, que era quitação plenaria +de tudo o que por elle déra, e juntamente do que +elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo para +castigo de minha altiveza a humildade da religião mais +apertada. Fez isto em toda a ilha grande espanto; e +eu com o resto, que do meu dote ficára, aborrecendo a +patria como a madrasta, determinei logo buscar em +reino alheio segura morada. E porque a fama da religião +portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde +muitas religiosas do illustre sangue de Bretanha vivem +santamente em clausura, me trazia mais affeiçoado o +desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o +maior cabedal do que possuia a quem até á minha chegada +o detivesse; e eu como tive a certeza de este dote +mais necessario estar seguro, fugindo ás affrontas, e +odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que +me ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza, +e visitei a casa, e sepultura do glorioso apostolo Santiago; +d'onde caminhando por terra, livre já dos enredos de minha +ventura, não pude escapar á cobiça dos criados que +me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam, +e pouco affeiçoados da catholica que professava +á sua vista com tanta firmeza, me roubaram as joias, +o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios +desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça, +por ser a que me tomou com a paciencia quasi rendida +aos trabalhos da viagem, que venceram o descostume +e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só +na confusão d'estes caminhos: porém se pelos que parecem +tão errados me quer Deus guiar ao mais seguro, +eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle, +senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis, +que, ainda que vos dê cuidado, me mandeis +<span class="pagenum">[86]</span> +d'aqui em companhia de confiança, até onde d'aquellas +bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á +sua vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós +pagará o céo este trabalho, e a estas senhoras o amor +com que favorecem o meu desamparo; que a maior +consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é +saber que a todo o tempo, que se acolherem a Deus, +acham n'elle brandura; e que tem á sua conta pagar +largamente as boas obras, que no decurso de seus trabalhos +receberam. <br /> +<br /> +Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios +de agua, com que orvalhava de quando em quando as +rosas do seu rosto; e a nenhum dos que alli estavam +faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado +que buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o +que vos roubou a ventura, muito era para sentir a que +vos offende. Porém como o caminho dos que Deus escolhe +é tão differente do que seguem aquelles que lhe +vão fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que +saber que vos acompanha nos trabalhos presentes, e +vos ha de dar o galardão e premio de todos: e para +que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me +offereço ao remedio dos que ficam até tomardes logar +n'essa clausura. Lisboa é terra grande; e a muita confusão +da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e vós +é razão que com a decencia e commodidade, que vossa +pessoa e qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo +que, se quizerdes descançar com estas minhas parentas, +e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á cidade, +e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me +agradeceu a estrangeira com muito boas palavras, +mostrando tambem nas côres do rosto signaes de obrigação. +E hoje, antes da minha partida, me fez uma +lembrança do que por sua parte havia de perguntar. +No caminho me atalhou a jornada uma occasião forçosa, +que me fez passar a noite tão perto de casa como +vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar: +pois, além das mercês do senhor Leonardo, goso a +conversação de tantos amigos e senhores, que é fim, a +que se podiam dirigir outras jornadas maiores.—Já +agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus extremos; +pois nos que disse o senhor prior da peregrina +ficam acreditados; e passam as suas obras tanto +<span class="pagenum">[87]</span> +adiante das minhas palavras, que deixa a sua egreja +e familia para por a servir no que eu nem ainda me +soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara, +andando á caça, a mesma estrangeira, e o que n'aquella +conversação tinha passado sobre os louvores, com +que elle quizera pintar sua formosura.—Nenhuns lhe +podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores +encarecimentos devendo muito á verdade: e o maior +espanto, que eu achei nos de sua gentileza, foi que, +sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que +sobre obrigações tão forçosas a despresasse.—Isso (tornou +D. Julio) não tenho eu por espanto; que d'esse +modo se costuma vingar a sorte da naturesa, quando +na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais +se me representa a mim que seria o homem nobre, e +sem entendimento, como ha muitos, pois fugiu de tantos +e tão poderosos attributos, como eram formosura, +riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos +empregados em seu favor.—E a mim (acodiu Solino) me +pareceu ingrato, mas discreto, fugindo o jugo de uma +mulher que lhe ficava sendo duas vezes senhora, uma +pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a +divida, e preço de seu resgate.—O meu voto é (disse Pindaro) +mui differente; antes julgo que o que o homem +aceitou por necessitado, veiu a enjeitar por cubiçoso, +vendo que se dispendera com sua liberdade o dote que +dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara +de o ser, se fôra tão rica como no principio, em +que o libertou; porque a cobiça e o amor são grandes +competidores.—Não me descontentam as opiniões (disse +Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois +inimigos do socego humano, seja a questão e a materia +da conversação da noite á conta d'elles. E perguntou +ao doutor, qual dos dois é mais poderoso, e obriga os +homens a maiores extremos? <br /> +<br /> +—Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor) +á experiencia, e tomar os successos do mundo por argumento, +com poucas porfias se manifestará a verdade +da vossa pergunta: mas tratando primeiro das razões, +vejamos em que se parecem, e os poderes em +que os antigos igualaram o amor, e a cubiça; que de +ambos deixaram jeroglificos, e figuras. Pintaram pois +ao amor menino, formoso, com os olhos tapados, despido, +<span class="pagenum">[88]</span> +com azas nos hombros, e armado de arco e settas: +menino, por facil e fagueiro; formoso, porque a belleza +é o objecto dos amantes; despido, porque se não +póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a +razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel; +armado, por forte, poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a +mulher, despida, com os olhos tapados, e azas +nos hombros. Despida, pela facilidade com que por +seus effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum +respeito humano em rasão do que deseja: com azas +pela velocidade com que segue aquelle objecto, que +debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim +que só nas armas, e no sexo feminino achamos na +pintura differença: porém se considerarmos os effeitos +da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as quizeram +cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas +armas; porque se amor é forte e poderoso, e vence a +tudo, como disse o poeta; o mesmo confessa que a todos +os extremos fórça, e obriga a sede do ouro aos humanos; +se a amor como a poderoso o fingiram Deus +cruel, como diz o poeta Seneca; não só a cubiça é Deus +do avarento e cubiçoso, mas o mesmo ouro que deseja, +como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam +cruel pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes, +mais reinos assolados, cidades destruidas, e damnos +immortaes se fizeram no mundo por cubiça, que +por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que +se póde provar esta verdade, vejamos em seu nascimento +que coisa seja amor humano; e o que é cubiça. +A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio +maravilhosamente um doutor grego, que disse que +amor era um desejo irracional, que facilmente se emprega, +e com grande difficuldade se perde. E da cubiça +escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra +da medida certa, que ensina a razão; que não tem modo, +nem fim. É certo que cada um d'elles podia trocar +com o outro esta definição, sem ficar enganado; porque +o mesmo é excesso de um desejo irracional, que +appetite fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve +em se empregar, e deixar-se com difficuldade, que +não ter modo, nem fim. Mas posto que na pintura, e +nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça +são com mais força, e vehemencia, que os do amor; +<span class="pagenum">[89]</span> +porque, se faz cego o amante para perder o lume da +razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece: e o +cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para +se abaixar a todas as infamias, a que se sujeita o +interesse: se o pintam despido para se não poder encobrir, +com mais vergonhosas mostras se pinta a cubiça: +o que na mesma pintura de mulher está declarado. +Se é ligeiro o amor para se empregar, com tudo +busca sempre a formosura como objecto seu, e obra a +que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega +nas mais humildes e indignas coisas da terra, como +d'ellas possa tirar fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava +bem o dinheiro que cobrava das immundicias de +Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito +atraz ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as +entranhas da terra, e chegar á vista do inferno por tirar +ouro: descer ao fundo do mar por buscar perolas, +descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e +barbaras gentes para adquirir commercios, obras foram +de cubiça, e não de amor, como tambem o foi a +navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro começou: +e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras +que a cubiça, pois elle ao amante offende com suavidade +amorosa, e aos estranhos com animo compassivo +tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça, +que mata no mundo mais homens em um só dia, que +o amor em muitos annos. Assim que a meu ver em +competencia, ella tem mais poderes, e na semelhança +se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas +com tal differença, que elle ama a formosura humana, +e a cubiça a riqueza. <br /> +<br /> +—Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento +faça tão grande aggravo ao amor, como é igualar +com elle a cubiça: porque quando em poderes tenham +grande semelhança, na nobresa e nascimento +tem muito maior desegualdade; que posto que o amor +considerado como appetite carnal seja excesso de um +desejo fóra da razão; significado como affeição humana, +é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas +em uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor +tão natural a todos, que é defeito e torpeza não saber +amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo contrario Aristoteles +chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O +<span class="pagenum">[90]</span> +amor nasce tão nobremente, que tem por objecto a +belleza humana, e os dotes naturaes mais excellentes +como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e assim +diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com +amor mal intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento, +e appetite preternatural, sempre é mal +nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim que sejam +os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes; +são as naturezas de ambos mui differentes.—Parece-me, +senhor doutor (disse Feliciano) que aquella razão ha +de achar muitos votos contra o vosso, porém eu por +me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle, +nem hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado +da doutrina de ambos accrescentarei o meu pouco, +mettendo-me entre tão boas partes pela de amor; e +digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes +no poder, no que é amar são em tudo deseguaes, porque +não se ama a coisa que pelo que é, e por amor de si +propria se não ama; e menos se póde amar a que se +não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do +cubiçoso, que se emprega em coisas que por si não +merecem amor, e em outras, de que não tem nenhum +conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita +a nossa vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e +por essa a desejamos unir comnosco, por natural appetite: +mas empregar a affeição no dinheiro, e no ouro, +que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle +se alcança, não póde ser amor. E menos o será amar +o que ainda não conhecemos, como faz o cubiçoso a +muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas +espera. E não tratando ainda de que o amor não se +considera só no que ama, senão tambem na coisa amada; +e que falta correspondencia, sendo essa insensivel: +o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e +este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua +temerosa côr o cativara, nem d'essa o deixa usar o +seu cativeiro. D'onde veio dizer o poeta Horacio que o +ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram +segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe +podem chamar desenterrado: nem com a voz deleita +os ouvidos, nem com a suavidade do cheiro recrea, +nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz. +Diga-o Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como +<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span> +lhe ficou por mantimento, perecia na abundancia +do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a el-rei +Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que +achou na ceia que sua mulher lhe ordenára: o qual +com sua demasiada cubiça não dava lugar aos seus cidadãos +de se empregarem em outro trabalho mais, +que em beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina +muitos d'elles miseravelmente pereciam: pelo que, +vendo as matronas da cidade tanto damno, foram juntas +pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de +tão grande mal, rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe +que désse aos seus melhor tratamento: e ella, +a quem não faltava entendimento, nem piedade, conhecendo +que era vão vencer com rogos a sua cobiça, +ordenou a Pithio uma ceia esplendida em um dia de +festa; na qual todas as eguarias, que lhe deu, eram +formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira +vista, e com a magnificencia do apparato, com +que lhas apresentavam: porém quando pelo discurso do +banquete não viu nenhuma de que podesse comer, perguntou +pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas +que eram fingidas. Como (respondeu então a +sabia matrona) queres que te apresente outra comida, +se só no cuidado da que tens deante occupas a <a href="#e2">todos</a> +teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem +se cultivam as arvores, nem se pescam os rios, nem +se caçam as aves, nem se criam os animaes, pelo exercicio +continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com +o fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou +em alguma parte sua demasia. <br /> +<br /> +Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador +da Tartaria, que vencendo, em Baldaco, o Califa +mestre da seita Mahometica, que era o mais poderoso +rico, que então havia no mundo, vendo que, por +se não ajudar de suas riquezas, e as não despender +em soldo, não tivera resistencia contra o exercito dos +Tartaros; depois de captivo o mandou metter em uma +camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha, +sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo +que d'aquelle comesse á sua vontade: e assim entre a +grande abundancia de suas riquezas o miseravel Califa +morreu de fome. <br /> +<br /> +Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto, +<span class="pagenum">[92]</span> +nem deleitar sentido senão com o engano do que com +elle alcança, como póde ser capaz de amor? <br /> +<br /> +—Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não +o seguistes: e eu ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade, +me hei de valer da primeira opinião que propoz, +e é que o amante e o cubiçoso não differem mais +no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo +em uma opinião moderna, que tem por si muitas auctoridades +antigas; e é que nenhuma pessoa ama mais a +outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se +primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce +o desejar e amar as coisas a que se affeiçoa, e inclina +mais a sua natureza: amo isto, porque me parece bem, +e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo tudo +o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por +isso chamaram ao amigo uma alma em dois corpos, +e, como diz o proverbio, <em>o amigo é outro eu</em>; +quero-lhe +tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha +alma unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo +se hade egualar no amor com o que cada um tem a si: +logo tanto quer e deseja o amante o objecto da belleza, +em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que +quer para si. E quanto á objecção de que o ouro senão +ama pelo que é, senão pelo que vale, e por o que +com elle se compra e alcança, os vossos mesmos exemplos +dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro +antes perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a +que quer mais que a ella; e antes perece á fome, que +satisfazel-a com dispender o que tem em mais estima +que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que +todos os outros; como Lucilo conta de um avarento +chamado Hermones, que, sonhando uma noite que gastara +certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua paixão +e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou. +E assim diz S. Jeronymo que tanta necessidade tem o +cubiçoso do que possue, como do que lhe falta, pois lhe +falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar que +só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás +o é mais, que todos, o que tudo deseja; e possuindo +mendiga, e padece como se lhe faltára. Logo certo +é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle +se compra; pois o não quer para comprar, senão para +o possuir. E respondendo á deleitação dos sentidos, +<span class="pagenum">[93]</span> +que o amor humano offerece, e na cubiça falta, ousarei +a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor +ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece; +e que é mais suave a seus ouvidos o rumor, e tinido +do dinheiro, que a brandura de todos os requebros, +e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para +elle é egual com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se +entre o mesmo dinheiro: o que se póde ver com +grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o Imperador +Caligula, que, depois que a muitos obrigou que +o instituissem por herdeiro, aos quaes, depois de testarem, +fez matar com peçonha (rindo-se de haver homem +que quizesse viver mais depois de haver testado) +atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos +os vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava +despido entre o dinheiro, que d'estas infames +obras procedia; e, dando sobre elle mil voltas, tinha +em menos conta todas as outras delicias, que os homens +a preço do dinheiro procuravam. Certo é logo +que o ouro ama, e a elle quer, e com elle se deleita o +avaro e cubiçoso; que, se o desejára para o empregar +em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome, +e podera merecer o de rico, prudente, e liberal: +porque o ouro, e as riquezas, como diz S. Leão Papa, +não são boas de si, nem más; mas o bom ou mau uso +d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue: +e assim não é rico o que muito tem, senão o que com +o que tem se contenta: e não ha maior pobreza, que, +por empregar o desejo em um baixo metal, que sem +bom uso não presta, deixarem os homens o muito que +com sua valia poderam adquirir. <br /> +<br /> +—Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre; +Leonardo, que a levantou, deixou-se ficar no covil; e +eu fiquei atrás dos galgos sem dar um brado; farei +muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos. +Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito +na grandeza e poderes da cubiça é errado, e que se +haviam de attribuir ao ouro, e não a ella. E tratando +da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar +com o amor, tenho por mui errada a declaração +d'ella: e posto que seja contradizer a tão grandes +entendimentos, a hei de explicar ao meu modo, que +me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua +<span class="pagenum">[94]</span> +fraqueza; pois é tal, que se rende a qualquer pequeno, +e vil interesse; despida como desavergonhada, por +quão sem respeito, nem moderação se atreve a commetter +qualquer infamia; com azas por a ligeireza, +com que se arremessa a qualquer preza como ave de +rapina; cega por pedinte, mendiga, e importuna: e se +isto não é, venho a presumir que a fingiram com o rosto +de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na +etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e +condição do cubiçoso: e assim como a harpia damna, +e descompõe todos os manjares a que chega, assim +a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo +que me parece que nenhum parentesco tem com amor, +que na nobreza é tão desegual, e pelos louvores de sua +excellencia tão conhecido. O a que se podera voltar a +nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a +tratar dos poderes do ouro, e da valia do interesse, +que já nos tempos antigos, e no prezente de agora póde +tanto, que obrigou a dizer a um auctor que esta é +a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia +os animos dos homens. E viera isto mais ao proposito +da vossa peregrina, que com elle e sua formosura não +pôde vencer a um coração ingrato.—A mim me parece +(respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão +se a não guardareis para tão tarde: porém em a noite +d'amanhã se lhe fará justiça; que n'esta é rasão que +se dê ao hospede lugar conveniente para o repouso, +pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.—Por não +mandar em casa alheia (disse o prior) não defendo a +minha parte; mas prometto, se voltar a horas que +possa passar a noite tão bem como esta, de a não perder. <br /> +<br /> +Então se levantaram os mais e se despediram; e o +prior gastou muitas palavras em manifestar a Leonardo +a inveja que tivera d'aquella companhia: ao que +elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da +peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a +boa conversação é manjar da alma, a vista de uma +estranha formosura, que rouba as de todos, tem muito +maior poder sobre o desejo. +<br /> +<br /> +<br /> +<br /><span class="pagenum">[95]</span> +<a name="c8" id="c8"></a><h2>DIALOGO VII</h2> +<br /> +<h3>DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE</h3> +<br /> +<br /> +No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram +para o seu costumado exercicio, se apeava o prior no +pateo de Leonardo; que o desejo que lhe causara a +noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade. +Foi recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do +bom successo de sua jornada, lhe disse Solino:—Agora +vejo que roubou a ventura a empreza d'aquella peregrina +ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr +por nos ouvir.—Antes vereis (respondeu o prior) quão +poderoso é o ouro, que até para ouvir falar n'elle deixo +a propria casa, e n'ella a vista de tão extremada formosura.—Não +sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro +que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião +como avarento, pois que vindes com esse titulo de cobiça +enriquecer a todos, e a esta casa.—Vós (respondeu +elle) me individaes para me empobrecer com a mercê +e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o +meu erro é dourado para contentar os cobiçosos, quando +pareça a Solino culpa deixar a vista da minha hospeda +pelo interesse da vossa conversação.—Não é só +elle o que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós +deixardes me queixo, ainda que de a acompanhardes +tinha ciumes.—Só esses faltavam (tornou Solino) para +a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este +se batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre, +porque a dos comprimentos é a mais corrente de +todas. Porque o maior mal que o avaro faz ao ouro, é +impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra, +podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas, +que para isso imagino que se inventaram as +cadeias e grilhões de ouro, que d'elle servem para ornato, +e dos outros metaes para castigo.—Não me descontenta +essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro +quando sahe da mina, antes de o pôrem em seus quilates, +chamam os artifices <em>ouro bruto</em>, quanto com mais +razão merece este nome o que o avarento tem escondido +e fechado? E a este proposito me cabe contar +<span class="pagenum">[96]</span> +uma historia que li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo +que callei a noite passada, se póde descontar o que +agora disser. <br /> +<br /> +Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares +d'ella, um honrado pae de familia, nobilissimo por +geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza +antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes, +e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que +mais parecia dispenseiro das riquezas, que carcereiro +d'ellas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso +e experto nos negocios de mercancia, que +ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o +qual elle guardava com tão solicito cuidado, como costumam +os que com cobiça e trabalhos o adquiriram: e +era notavel espanto aos naturaes verem em um velho +a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a +avareza e tenacidade de velho. O pae, que o via responder +tão mal a suas inclinações, e que já com a edade +e continuação de gastar largo, estava menos rico, muitas +vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que +conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de +seus passados; e não degenerasse d'elles, por seguir a +villeza do interesse: que usasse das riquezas como nobre, +e favorecesse a velhice de quem o creára, e honrasse +aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso +aos amigos e parentes; benigno aos pobres e +se não captivasse ao trabalho de enthesourar riquezas +sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar +a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam +os paternos rogos em sua má natureza. Succedeu que +o senado d'aquella republica por a nobreza, e pessoa +do mancebo, e pela industria e sagacidade que mostrava, +o elegeram em companhia de outros para ir com +uma embaixada a Roma ao Summo Pontifice. Depois +de sua partida, vendo o pae occasião ao que havia +muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves +falsas, com que entrou na camara do filho; e abriu +os cofres em que aquelle inutil thesouro estava depositado; +e com a brevidade que o desejo lhe pedia, vestiu +a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré +a seus creados; comprou ricas armações e baixellas; +encheu a estrebaria de cavallos formosos; fez esmolas +a muitos pobres; acudiu em occasiões a parentes e +<span class="pagenum">[97]</span> +amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata +e ouro que o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira +em que elle, quando florescia em riquezas usava +d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos em que +antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo +na mesma ordem em que o filho o deixára, tornou a +fechar os cofres e as casas como d'antes. Tornou depois +o filho da sua embaixada: e os pequenos irmãos +o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, +e com o magnifico apparato de que então usavam. +Vendo-se o irmão rodeado d'elles ficou confuso; +e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão +ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles +com uma simplicidade innocente responderam que seu +pae e senhor vivia com differente largueza da que d'antes +tinha; e que outros trajos e cavallos de maior preço +lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, +nem a ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado +em que a deixára: e como n'esta mudança se lhe não +aquietava o coração, foi-se com muita pressa aonde o +tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e +vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que +elle os deixára, se aquietou, porque não dava logar a +mais vagarosa experiencia a pressa com que os companheiros +o chamavam, e o senado o esperava. Depois +que deu fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu +que fosse tão custosa) fechando-se devagar no seu +aposento, abriu as arcas e os saccos, em que lhe parecia +que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano +da areia e seixos que dentro tinham, começou a +gritar com grandes lamentações e brados. A que primeiro, +que todos, acudiu o generoso velho, perguntando-lhe +que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? +Ai de mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, +que com tantos trabalhos, e em tão largo discurso +de annos tinha grangeadas. Como é possivel que +te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres +e saccos cheios, que parece que não podiam tirar nada +d'elles, nem elles levarem mais? Ai triste de mim (tornou +o filho) que o de que elles estão cheios, não é do +ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora +mais que pedras e areia sem proveito. A isto respondeu +o generoso pae, sem no rosto fazer mudança: Ah! +<span class="pagenum">[98]</span> +enganado filho! que importava para ti que estes saccos +estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, +se a tua avareza te não deixava fazer nas obras differença +d'ella? Cessaram os brados, mas não já o sentimento +do filho com esta resposta; que a mim me pareceu +digna de ser contada entre as mais celebres do +mundo. <br /> +<br /> +—Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por +maravilhosa para o nosso intento; e andou muito bem +o pae de cumprir em vida o testamento do filho; porque, +como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro +faz boa, senão quando morre, porque deixa o que tem a +quem possa usar d'elle.—E o mesmo (disse Feliciano) +escreveu que para ninguem o avarento é bom: e para +si peior que para todos; pois nem dispende, nem se +aproveita: e n'este sentido me parece maravilhosa a +allegoria d'aquella engenhosa fabula de Midas, que, +pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que tocasse +se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na +grande abundancia do que pedira. E quando a necessidade +o fez mudar a petição forçado do mal, que como +bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao +rio Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer +estanque, pondo em suas douradas areias, para communicar +a todos, o que Midas só para si queria ter usurpado.—Bem +se representou em Midas (accrescentou +Pindaro) um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar: +que por isso disse Seneca que mais facilmente se atreveria +a alcançar da fortuna que désse, que de um cobiçoso +que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com +seu engano, e falemos nos poderes do ouro, que é o +para que Solino nos convidou a noite passada.—Como +é certo (disse elle) que para o ouro todos se convidam +de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal, +parece que estivestes de ponto sobre a materia.—Não +a apontei (respondeu Pindaro) por esse respeito, mas +por me contentar da que escolhestes; e é desgraça +minha que para os outros levantaes d'ouros, e para +mim de espadas.—Eu me quero metter entre ellas (acudiu +D. Julio) e se assim parecer aos mais, diga Solino +todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer +mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos +disserem ficará logar aos mais de darem suas razões.—Errastes, +<span class="pagenum">[99]</span> +sr. D. Julio (disse o doutor), que para Solino +dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do +ouro, e Pindaro os males.—Dou-me por vencido, respondeu +elle:—E eu por obrigado (disse Pindaro) a obedecer. +Todos festejaram a eleição; e ordenando que +fosse o primeiro, começou d'esta maneira! <br /> +<br /> +Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles +testemunham a excellencia ou maldade d'ellas, qual o +foi de maiores males e damnos na redondeza, e metteu +aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, +a quem com muita razão podiam todos chamar <em>peste +do mundo</em>? E posto que os notaveis exemplos das destruições +e ruinas que n'elle fez, podiam tomar mais +tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero +começar primeiro de seu nascimento, para que mostrem +os seus arriscados principios os desastrados successos +para que a malicia humana o descobriu. E +não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que +não contentes os homens com o que a superficie da +terra produzia para sua recreação e mantimento, a +formosura das arvores, a diversidade dos fructos, a +belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte +das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram +desentranhar do centro d'ella os segredos que a +benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas entranhas +dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; +e subindo como arvore da profunda raiz, d'onde +começa, vae espalhando os ramos em desegual medida, +convertendo o sol com seus poderes aquella materia +disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se +demonstra por duvidosos signaes na face da terra; +que logo d'aquella emprenhidão se mostra triste, +dando por indicios da riqueza que encerra, herva descórada, +delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, +secco e sem proveito; e até as aguas, que por entre as +veias descem, sahem cruas e com sabor pesado. Espreitando +estes signaes a industria humana, entra fazendo +guerra ao profundo, caminhando por debaixo +dos montes sustentados em columnas da mesma terra, +deixando a vista do sol e das estrellas, pondo as vidas +ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes o opprimem, +que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra, +que parece menor temeridade tirar do fundo do mar +<span class="pagenum">[100]</span> +perolas e aljofar, que do seu seio o inimigo ouro, que +ainda então o não é mais que nas esperanças. Depois +de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como +parto de venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, +com o fogo se aparta, apura o aperfeiçoa. +ficando menos apto para o serviço dos homens, na cultivação +dos campos e arvoredos, e mais apparelhado +para sua destruição e ruina: porque ou se lavra para +ostentações e demasias da vaidade, ou se bate e cunha +em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e graças +da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez +em si estanque de todos os commercios do mundo, no +qual, antes que elle apparecesse, se trocavam as cousas +umas por outras, com uma composição e trato +mais conforme e obrigado á necessidade e commodos +da vida que aos roubos da cobiça, maldades da avareza +e sobejidões da vaidade; e apoderou-se tanto de +tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até da +liberdade dos homens contra o direito natural, em que +viviam. Foram crescendo seus atrevimentos: e se antes +de sahir do centro da terra começou a matar homens, +sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo +guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo +a vara das mãos á justiça: e deitado em sua balança +perverteu o fiel de sua egualdade. Diga-o Commodo +imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos +deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por +elle publicamente não só a pena dos delictos, mas os +proprios logares dos julgadores. Cerrou os olhos á misericordia, +para não se compadecer dos affligidos: como +se viu no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada +Jerusalem, os moradores, que opprimidos da fome +se sahiam da cidade com licença sua, enguliam primeiro +uma pequena moeda de ouro, para que na passagem +o pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo +esta astucia, a dois mil, que em dois dias sahiram +da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem +do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo +commum da natureza d'ahi a pouco espaço a lançassem +fóra: assim que aquella pequena quantidade de +ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida. +Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza, +atados com as prisões de seu interesse: diga-o Ulysses +<span class="pagenum">[101]</span> +que por elle vendeu a Priamo o corpo de Heitor +Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou +a empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. +Desterrou do mundo a fidelidade; pois por elle vendia +Nicias aos romanos a vida de el-rei Pyrrho seu senhor: +Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão +francez, que de industria a afogou com peso de ouro: +Tarpeia Romana, a entrada do Capitolio aos Sabinos, +que do mesmo modo com o peso de ouro e dos escudos +a acabaram. Depravou a piedade, e veneração +que os antigos tinham aos mortos, não perdoando a +suas sepulturas, como el-rei Dario, enganado com o +letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei +seu successor se visse em necessidade, abrisse aquella +sepultura, e acharia um thesouro: elle confiado creu +o letreiro, revolveu a pedra; e achou outro que dizia: +<em>Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os +mortos.</em> +Os romanos desenterraram os mortos de Corintho +para lhes tirarem a moeda que tinham por costume +metter comsigo na sepultura; para o que é mais notavel +aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, +de Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae +se mandára enterrar com as insignias reaes de ouro, +abriu uma noite secretamente a sepultura, e, depois +de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe appareceu +S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava +enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe +mandou em castigo do atrevimento que commettera, +que mais não entrasse n'aquella sua egreja: e assim +querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi +pelo mesmo santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece +a todos os peccados capitaes, a soberba com +suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas de +Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, +o theatro de Nero, as casas de Clodio, e todos os mais +excessos da vangloria d'elle nasceram. A avareza n'elle +como em materia propria se conserva e accrescenta; +por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir +de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres +que o sahiam a receber como era costume d'aquelle +reino, como conta Plutarcho. Nero despojava por +este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos +mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que +<span class="pagenum">[102]</span> +era tão avaro, que se levantava de noite a furtar a ração +a seus proprios cavallos; e sendo achado pelo estribeiro +ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era +dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro +se cria, pois a força d'elle corrompe a pudicicia, como +os antigos engenhosamente significáram na fabula de +Danae, a quem Jupiter enganou convertido em chuva +de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os +incestos de Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os +adulterios de Julio Cesar; pois só a perola com que +conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou seiscentos +sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis +estragos e homicidos no mundo. Pygmalion matou +a seu cunhado Sichueu por lhe roubar o thesouro +que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de +quem era tutor, por lhe roubar a herança das riquezas +que esperava. As demazias e sordidezas da gula, +a delicia e sobejidão dos manjares com elle se compram.—Das +mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes +de Lucúlo, dos manjares e convites de Heliogábalo +elle tem a culpa. A venenosa inveja n'elle, como em +seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa +das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte +Amfiarau seu marido; e Julio Cesar invejoso das riquezas +da Luzitania, se fez salteador das cidades d'ella. +A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se +aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes +com o preço que lhe deram por não orar: +e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o kagado, por +o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais +difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a +diligencia cahiu em sorte á pobreza, pois a necessidade +foi inventora das artes e subtilezas; o peso do ouro +entorpece os sentidos empregados todos n'aquella materia: +e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o +afogou no mar para apprender a philosophia. Pitaco e +Anacarso não acceitaram a Cresso o que lhes mandava: +Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o que +lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso +d'elle que lhe traziam. <br /> +<br /> +Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que +mereciam este nome; e um veneno mortifero para a +vida humana: e se muitos a perderam indo em seus +<span class="pagenum">[103]</span> +alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, +em que elle se cria, por remotos climas entre +irracionaes Ethiopes feneceram; não estão seguros do +mesmo damno os que dentro em suas casas, e fechado +em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus +males (que para os contar todos fôra infinito) só um +bem tem o ouro, que eu não quero deixar á conta dos +louvores de Solino, que é o que os Gregos declararam +n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: <em>O de que +serve ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem</em>; pois +no toque d'elle, como em um espelho de desenganos, +é conhecido: e se elle d'esta minha invectiva se houver +por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura +até ao que de seus males me fica por dizer. <br /> +<br /> +Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a +pratica de Pindaro; e o prior a gabou de bem ordenada, +e elegante; e gastaram n'isto algumas razões, tendo +os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas +mostras os obrigou a silencio, e disse: <br /> +<br /> +—Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa +de Ezopo das uvas, a que nào chegava; nem quero tomar +tão humilde vingança de quem me foge, nem (como +alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo: +a empreza é facil, e só no muito, que ha para dizer +d'ella, difficultosa: porém se a copia aos discretos empobrece, +(como um d'elles disse) nào pode ser que a do +ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste +toda a riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e +desejar ao menos uma bôcca de ouro, de que sahiram +dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo do +que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles. +E começando do nascimento d'este desejado metal, +que quanto mais queremos culpar engrandecemos: +Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos montes, +porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer +d'elle thesouro, pondo tantos muros da terra, para o +defender, para que tambem a difficuldade e rareza lhe +dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se cria, e +provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia +com sua formosa côr ás mais bellas obras da +natureza. O mais nobre dos planetas, que é o sol, dourado +nos apparece, e o seu luzente carro com raios de +ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso +<span class="pagenum">[104]</span> +dos elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que +nas tempestades da terra nos assegura, perfilado de +ouro se descobre; as nuvens ao pôr do sol, da sua côr +guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas, +os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os +bem-me-queres, e as boninas com uma roza dourada +no meio se guarnecem, e enfeitam para os olhos dos +homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua +desejada perfeição, e as searas na fertilidade de suas +espigas se tornam de ouro: e as mais formosas creaturas +humanas, com as cabeças douradas, mostram +sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e +monarchas do mundo o ouro sobre a cabeça; os reis e +imperadores nas corôas, os papas nas thiaras, os bispos +nas mitras, e as matronas illustres nos toucados, +ao pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas, +nos dedos, e nos braços, fazendo voluntarias prisões de +sua formosura. No culto divino elle orna e aformosea +os templos sagrados, as cruzes, imagens, retabulos, calices, +patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam +os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os +ornamentos, e vestiduras da egreja. Batido em moeda +é preço, e resgate das cousas de maior valia, sem que +n'elle se começasse o trato, e commercio do dinheiro: +pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata, +cobre, e latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores +o mal que usam d'elle os avarentos, lhe podiamos +com razão chamar formosura do mundo; ornato, +e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada +de ouro se inclina mais, e é mais formosa, como +foi a de Primislau primeiro rei de Bohemia; que no +maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer +ante si as alparcas de pastor com que se creara, +mandando que andassem em morgado a seus descendentes +para antidoto contra a soberba da dignidade +real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha +Santa Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante +D. Sancha, D. Branca, e D. Joanna, e o condestavel +D. Nuno Alvares Pereira, bem douraram com sua +grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro +se exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem +elle parecera virtude sem mãos; que mal as tivera Marco +Antonio triumviro para aquelle excesso de magnificencia, +<span class="pagenum">[105]</span> +que usou com um amigo, se o não tivera: porque, +mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco +mil escudos, parecendo ao avarento creado que aquella +largueza nascia da ignorancia de seu senhor, lhe mostrou +aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza, +dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o +romano por desmentir a malicia do thesoureiro (que +entendeu logo) lhe disse: Fizeste bem de me avisar; +que não cuidei que dava tão pouco: pelo que sobre estes +accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta. +O mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que +acontecera a um principe de Hespanha com seu pae, +mandando dar a uma moça humilde trinta mil cruzados. +E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu +a liberalidade com seus poderes o nosso primeiro +rei D. Affonso Henriques, que nas terras, que +conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços +Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus +descendentes em differente modo. D. Pedro o justiçoso +com os pobres, que até a manga do braço direito mandava +fazer mais larga, e comprida, para alcançar a todos +no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho +el-rei D. João o I, foi tão liberal com os vassallos +que o serviram, que deixara sem patrimonio a corôa, +se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei mental, +com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os +poderes de sua riqueza, e a magnificencia de sua condição +assombrou as nações extranhas, e ao nome portuguez +fez mais honrado. A castidade mais excellente, +e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes +trajos da pobreza; e por isso foi tão louvada em +Scipião, que poderoso, rico, e vencedor, quando entrando +Carthago lhe offereceram captiva uma formosa +dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou +honradamente acompanhada a seu marido com o +resgate, que por sua liberdade lhe offereciam. Não faltou +esta excellencia em muitas donzellas do sangue +real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da +ventura, offereceram a Deus este da natureza. E se é +celebrado el-rei D. Affonso o Casto em Hespanha, não +desmerecia este nome o rei portuguez, que persuadido +de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida +nos campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel +<span class="pagenum">[106]</span> +e excedente no poderoso rico, que no miseravel, +em quem não tem execução a ira, nem a vingança. +Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia, +que perguntando aos embaixadores athenienses o +que lhe queriam, respondeu com inconsideravel liberdade +um d'elles, que <em>vêl-o sem vida</em>; e elle voltando aos +outros com muita brandura disse: <em>Dizei aos Athenienses +que mais modesto é quem soffre essas palavras, que os +sabios de Athenas, de quem elles se prezam</em>. E se contam +d'el-rei D. Affonso I, rei de Napoles, que, sabendo que +um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas mercês, +com que elle obrigado disse depois de suas obras mil +louvores; e o rei avisado d'isto disse: <em>Folgo que esteja +em minha mão dizerem bem de mim</em>: tambem houve rei em +Portugal que em muitas occasiões usou o mesmo termo, +como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de +muitas memorias do III, não esquecendo a paciencia +d'el-rei D. Diniz com seu filho, e a d'el-rei D. Pedro, +sendo principe, com seu pae. A temperança medida +por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada: +como a de Curio, que com o ouro dos Samnitas +deante não deixou a panella de couves, e nabos que +cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que +não era necessario a quem com tão humildes viandas +se sustentava. A sobriedade, e temperança nos nossos +reis naturaes é tão louvada, que de mui poucos sabemos +que bebessem vinho, e de nenhum que comesse +demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras, +que a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte +de Portugal, e mulher de Frederico III, Imperador +de Allemanha, não tendo geração, e averiguando os +medicos que por a frialdade d'aquella provincia não +concebia, porém que, se bebesse vinho, teriam filhos; +ella não consentio no remedio: e Frederico disse que +antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada. +A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta +sobre as estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a +conheceram, com o poder do ouro a sustentaram: como +Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava abrir +as portas aos jardins e pomares, que tinha para que +entrassem livremente os necessitados a colher seus +fructos: mandava aos seus que, achando algum velho +mal vestido trocassem com elle os seus para o melhorarem; +<span class="pagenum">[107]</span> +dava todos os dias banquete publico aos que +mendigavam pela cidade: e aos pobres de qualidade +sustentava com esmolas secretas. Não fôram n'isto os +nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o +testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de +caridade, e santos costumes, que deixaram n'este reino, +para agasalhar peregrinos, sustentar, e vestir pobres, +e curar enfermos e feridos: no que fôram, entre os outros, +insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e o +insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia +com muita razão lhe calçáram os antigos esporas douradas, +pois o duro estorvo da pobreza, como pintou Alciato, +impede as azas e limita os passos á diligencia. +Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre, +e Cesar em mui limitados annos a redondeza: +o nosso rei D. Diniz com os poderes d'elle accrescentou +em seu reino quarenta e quatro villas com castellos, +e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal; +e instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos +de Coimbra. E os reis D. João, e D. Manuel descobriram, +e ganharam para a Fe as terras do Oriente +com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras. +De maneira que, se os avarentos, que usam mal +do ouro e das riquezas, guerream com elle contra as +virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como elle as +engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista +perdem tantas vidas, muitas mais se compram, +e resgatam a preço d'elle. E deixando o balsamo de +ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel, tão celebrado +dos distilladores nas enfermidades; qual risco +da vida, qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão +ou captiveiro não remio o ouro? Elle faz a formosura +das cidades, a belleza dos edificios, a fortaleza +dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das +côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades, +titulos, e privanças, e até os louvores e as mesmas +graças da natureza: todos o buscam, o desejam, +e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem +converter n'elle por meio de alquime; os animaes se +rendem á sua formosura; pois não ha caça mais certa +que a que se toca com laço de ouro, nem melhor pescaria +que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão +grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer +<span class="pagenum">[108]</span> +um auctor, que na maior furia de um leão, de um tigre, +e de outra qualquer féra, se lhe lançarem moedas +de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E +passando por todas as cousas da terra sua valia, podem +os ricos subir ao céo por escadas de ouro, e dar-lhe com +elle assalto e bataria, pondo as balas e settas d'este +metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em tanta +altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser +digno de seus louvores meu humilde talento, que, se +fôra de tão illustre metal, tudo alcançara. <br /> +<br /> +A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto +que alguns a esperavam menos grave, e mais engraçada: +e assim lhe disse Leonardo:—Parecestes-me esta +noite mais orador insigne, que murmurador galante. +Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem +os louvores.—Não vos agradeço (respondeu elle) os +que me daes; por quanto d'antemão vos vingastes d'elles. +Porém se quereis vêr em outrem com gravidade o +que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois +os bens e males do ouro estão encetados; diga o senhor +prior agora os poderes do interesse, que no successo +da sua peregrina achará largo campo para esta materia.—Essa +é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas +horas da noite; e eu me não escusara com ellas, se +não imaginara que todas as verdades, que cahem sobre +este sujeito, hão de parecer murmuração. Porque +dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é +sentença antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar +os modos e termos, com que batalha, será +ir com os dedos aos olhos de muitos. Se disser que o +interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá +d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas +da justiça, quantas se virarão para castigar-me? Se +ousar a dizer que profana as leis, e offende a immunidade +das egrejas, temo que até na minha me neguem +a entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores, +couto de homicidas, torre do facinorosos, e merecimento +de descuidados, quantos se levantarão contra +minha verdade? Só direi em um conto breve o que +de sua valia se pode presumir na necessidade; e será +julgar pelas unhas o leão, e pela pisada de Hercules a +medida de sua grandeza. <br /> +<br /> +Um homem curioso, bem intencionado, e não mal +<span class="pagenum">[109]</span> +entendido, andou alguns annos na milicia do Oriente: +e vindo d'elle a este reino para se despachar, trouxe +entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade, +umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente +obrados. E depois de entrar em seu requerimento, +deu conta a um amigo, pratico nas cousas da +côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle +como convinha e buscando entre o movel, que trouxera, +peça que podesse offerecer a um ministro, com +quem tinha intelligencia, lhe inculcava aquelles santos +de marfim, que o tinham muito affeiçoado.—Como +(disse elle) não trouxestes da India algum pagode, ou +idolo de ouro d'esses gentios?—Para que? lhe perguntou +o pouco esperto requerente.—Ah, respondeu +o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma, +<em>Mais podem diabos de ouro, que anjos de marfim</em>. E +assim não me parece que está mal o dito vulgar do +povo, <em>que o interesse é diabo</em>. E pois o tempo é tão +curto, +seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus poderes; +que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade +de falar, contra o desejo que tenho de vos obedecer. +E sendo elles taes, e o ouro o principal interesse +de todos, mui bem lhe cabem com os males, que Pindaro +d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou +fazendo a differença sómente no uso d'elle. Que se Santo +Agostinho lhe chamou enfermidade da soberba, fraqueza +das virtudes, materia de trabalhos, perigo do +possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado; +Santo Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola +dos vicios, e doença da alma; e se d'elle nasceu a +Cresso a soberba, a Heliogábalo e Sardanápalo a luxuria, +a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula: +se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira, +Crasso degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros +ricos tiveram fins semelhantes; não teve a culpa o +ouro, senão a má avareza de quem o possuia, ou a cubiçosa +sede do que o desejava; pois elle nos animos livres +não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças, +lustre e grandeza: como em um Constantino Magno, que +enriqueceu a egreja Romana; um Carlos IV, que comprou +com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o nome +Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um +Lourenço de Medicis, que honrou Florença: um Leonardo +<span class="pagenum">[110]</span> +Lauredano, que libertou Veneza; um Carlos Brugi, +que soccorreu a esterilidade de Flandres; e outros muitos, +que o souberam dispender valorosamente. De maneira +que n'elle está a condemnação ou justificação, a +morte ou a vida de quem o possue ou deseja. Para o +que eu acho extremada aquella historia, que toca Auzonio +poeta em um seu epigramma. E é que um homem +desesperado com uma paixão, que teve, se hia enforcar +em um logar secreto, levando comsigo o baraço, em +que havia de deixar a vida. Succedeu que com a força +que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se +lhe descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o +pensamento: e, levando o que achara, deixou em seu +logar o baraço que trazia. Vindo depois o que alli o +escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação +de sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, +o que o outro deixou de fazer porque o achara: +de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou a +avareza d'elle.—Com tão boa historia (accudiu D. Julio +levantando-se) é razão que vamos satisfeitos, e deixemos +ao senhor prior bem agazalhado, posto que pelo +interesse de sua conversação deixara eu muitos dos +que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos +deu preço ao ouro e pedraria, á conversação dos +sabios o não pode tirar a mesma ventura. +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<a name="c9" id="c9"></a><h2>DIALOGO VIII</h2> +<br /> +<h3>DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR</h3> +<br /> +<br /> +Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo +o dia: e n'ella em vindo a noite se ajuntaram os amigos, +sentindo grandemente a falta d'aquelle que os deixara. +Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e +entre outras disse Feliciano:—Por todas as razões se +devia desejar a conversação de tão discreto, e douto +cortezão, como é o prior, em todo o tempo, mas n'este +das noites do inverno muito mais: e n'ellas encherá +elle muito bem o seu logar; porque, além de saber e +auctorisar o que diz com o fundamento das lettras e +curiosidade que tem, é muito composto e engraçado no +que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo +<span class="pagenum">[111]</span> +de encarecer negando na materia do interesse, e o descrever +com brevidade nas historias.—Quanto mais ouvirdes +d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos parecerá +melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos +parecia muito bem nos de côrte; e que debaixo dos +compridos pode ainda dar lições d'ella a muitos de capa +e espada.—Parte é o falar bem (accudiu D. Julio) que +leva tudo após si: e não consiste este bem só nas razões +discretas e palavras escolhidas, senão no bom +modo e graça de as dizer: o que eu comparo a uma +cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa aformosea, +e dá ser, côr, e graça ao que lêdes; e a ruim +desconcerta, empeça, e afeia as razões, sendo todas +umas: e não faltarão mui perto exemplos d'esta verdade.—Fujamos +das comparações para a doutrina (disse +Pindaro) e melhor fôra ser essa a materia, em que se +gastára este serão.—Ainda vos ficaram sobejos do passado +(tornou Solino) pois vos adeantaes da companhia: +porém eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de ir aos +mais.—Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se +o doutor nos abrir o caminho.—Sempre (respondeu elle) +me mandaes deante como os frades menores nas procissões; +quero-os tambem imitar na obediencia: porém +lembro-vos que são duas materias as que tocou o sr. +D. Julio, convém a saber, a graça, e composição do +rosto e corpo no falar, e o concerto das palavras, e discrição +das razões.—Essa divisão parece escusada (disse +Leonardo) porque a graça não se aprende, nem se pode +alcançar por arte, pois é mero dom da natureza—Todas +as cousas d'ella (tornou o doutor) se aperfeiçoam e melhoram +com a arte: e, para saberdes logo esta verdade, +tomarei á minha conta o em que vos parece que ha +menos que dizer; e fique á vossa a demazia. <br /> +<br /> +Primeiramente no movimento, e graça do falar, chamou +Marco Tullio <em>eloquencia do corpo</em>: e Quintiliano +disse que com todas as partes d'elle se ha de ajudar a pratica. +E posto que esta doutrina parece que convinha +então aos oradores, como agora aos prégadores, uns +e outros praticam, e em todo o tempo é necessaria: e +assim pintaram alguns o jeroglifico da rhetorica com +uma mão aberta, outra cerrada.—Muito contraria me +parece essa lição (disse D. Julio) á policia da côrte, +onde é regra que o homem ha de falar com a lingua, +<span class="pagenum">[112]</span> +e ter quieto o corpo e as mãos.—Eu concertarei essa +regra com as minhas (replicou o doutor), que o homem +no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e +logo vereis que o que quero dizer é o mesmo, em que +vos quereis anticipar. O primeiro instrumento da pratica +é a voz: e, para essa ser engraçada no falar, ha de +ter estas propriedades, <em>Ser clara, branda, cheia, e +compassada</em>: +porque a voz escura confunde as palavras, a aspera +e secca tira-lhes a suavidade; a muito delgada e +feminina faz impropria a acção do que fala; a muito +apressada empeça e revolve as razões, que por si podem +ser muito boas: não trato das que a natureza inhabilitou +para esta perfeição, como é a voz do gago, +do cicioso, e do rustico grosseiro: mas na do cortezão +tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam +com a voz tão mettida por dentro, que deixam as +palavras para si, e os ouvintes ás escuras, que lhes é +necessario estar espreitando o que lhes querem dizer: +e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham +as orelhas dos que escutam; e outros, que falam +tão apressadamente, que parece que levam esporas +na lingua.—Entre vozes (disse Solino) tambem eu +hei de soltar a minha: e no que é a voz cheia, que dizeis, +quizera saber a differença; porque eu tenho que +ainda é peor a muito grossa que a feminina: porque +ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo, +que espirito de voz. E egualmente aborrece vêr um homem +com um rosto como uma peneira, muito versudo +da barba e sobrancelhas, sahir com voz de frauta muito +exprimida.—O meio (respondeu o doutor) em todas as +cousas é a perfeição d'ellas: e se estaes bem lembrado, +tambem deixei de fora a voz grosseira, como a quem +a natureza privou da graça no falar. Depois da voz, os +olhos dão muito espirito ás razões: porque, como elles +são as janellas d'alma, por elles se communica vida ás +palavras: e assim hão de ser claros, alegres e moviveis: +porque os muito intensos, e extendidos entristecem; +os muito apertados e franzidos movem a desprezo; os +muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem +temor; e posto que os olhos, por risonhos, nunca perdem +a graça, parece que nas praticas graves, e de importancia, +não hão de ser muito chocalheiros.—N'isso +tendes vós muita razão (disse D. Julio) que ha homens. +<span class="pagenum">[113]</span> +que dão olhado ao que falam: porém não vos esqueçaes +das sobrancelhas.—Tambem a acção do falar toma +muito d'ellas (tornou o doutor) porque franzidas fazem +carranca, e mostram que fala um homem com melancholia; +baixas representam tristeza, ou vergonha; +muito arqueadas significam espanto; e levantadas alegria. +E não menos convém a composição da barba, que +fincada nos peitos mostra desconfiança ou porfia; e +posta no ar vangloria: e o pescoço, que nem se ha de +ter tão levantado que faça soberba nas palavras, nem +tão baixo, que pareça que não pode com a cabeça; a +qual não ha de estar tão firme, que pareça que a espetaram +n'elle; nem se hade quebrar para todas as +partes como grimpa. Da mesma maneira a bôcca ha +de ser quieta quando fala, sem estar mordendo beiços, +nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem +com o riso se ha do mostrar tão descuidada, que as +entorne pelos cantos; nem tão apertada, que offenda +a boa pronunciação e graça d'ellas; no que vae mais +á lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos +que todas as nações orientaes naturalmente opprimem +a voz na garganta quando falam, como os Indianos, +Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os Mediterraneos +referem as palavras aos padares da lingua, +como fazem os Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os +occidentaes, como os Francezes, Italianos, e Hespanhoes, +mastigam as palavras entre os dentes, e as pronunciam +na ponta da lingua: posto que em alguns logares, +conquistados outro tempo dos Africanos, ficaram +usos e palavras, que ainda obrigam a sua pronunciação; +mas os que estão mais izentos d'ella são os Portuguezes, +como aqui na primeira noite da nossa conversação +se tocou. Além d'estas partes do rosto tem o +movimento do corpo o seu logar: que pode parecer +airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que +fala nos contos, historias, graças ou galanterias, não +representando o que diz com meneios de comediante, +nem com modestia e compostura sobeja, mas com uma +boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no +relatar mais ligeiro, no arguir esperto, no desculpar +ou defender-se mui brando; nem fazer badallos dos pés +quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar com +os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais +<span class="pagenum">[114]</span> +gestos ou acções, que tenho tocado, se ajuda a pratica +do movimento das mãos, que ha de ser com um leve +ar e compostura, com que o discreto favorece as palavras +que diz, não falando com ambas ellas, nem chegando +com alguma perto da vista dos ouvintes; e guardando +estas e outras advertencias semelhantes, pode +fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar, +emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo +com o cuidado as graças, que ella lhe dotou: não tratando +dos incuraveis, a que já não possam valer estes +remedios; mas dos que á falta d'elles, e com o largo +discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.—Parece +que daes a entender, senhor doutor, (disse +Pindaro) que ha mais algumas advertencias, que podem +ser de importancia n'esta materia: e, para a tratar +de fundamento, não é razão que fiquem de fora.—Para +essas e para o mais, que tenho dito (respondeu +elle), nomearei alguns vicios, que são contra o bom +termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditarão +as minhas opiniões, a que eu não posso nem quero dar +nome de preceitos, posto que são fundadas em os melhores +dos que d'esta materia escreveram. <br /> +<br /> +<br /><br /> +O primeiro é <em>escutar-se um homem a si proprio quando +fala, por se contentar do que diz</em>. <br /> +<br /> +O segundo <em>repetir outra vez o que tem dito, com os olhos +nos ouvintes, para que lh'o gabem</em>. <br /> +<br /> +O terceiro <em>deter-se tanto nas palavras como que as vae +pezando, +e compondo para as dizer</em>. <br /> +<br /> +O quarto <em>ir-se arrimando a bordões para que lhe accudam +em tanto as palavras</em>. <br /> +<br /> +O quinto <em>ir á mão ao que quer responder, por querer falar +tudo</em>. <br /> +<br /> +O sexto <em>bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios +ditos</em>. <br /> +<br /> +O setimo <em>borrifar as palavras com o humidade da bôcca, +por falar com vehemencia</em>. <br /> +<br /> +<br /><br /> +—Vós (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados +mortaes contra a discrição, e cortezania, que não +merecerá n'ella ter graça quem n'elles estiver culpado. +Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque +receio que falaes de proposito contra alguem.—É +<span class="pagenum">[115]</span> +tão má a vossa natureza (lhe tornou o doutor) que +quer perverter a minha boa tenção, e d'estes peccados +contra a policia tirar outros que offendam a amisade: +vale-me porém ser a vossa conhecida. E proseguindo +a materia dos vicios, os tres primeiros nascem do amor +proprio que cada um tem a suas cousas, a que os gregos +chamaram <em>Filaucia</em>: os quatro seguintes, ou da ignorancia, +ou do descostume e falta de doutrina cortezã. +Escutar-se um homem, quando fala, é de quem bem +lhe parece o que diz: e posto que o vicio é natural, +tem ruim patria; que o homem, que se escuta, é lisongeiro +de si mesmo, e elle se paga por si de suas palavras, +vendo-se e enfeitando-se n'ellas como em espelho, +conforme os proverbios antigos, que <em>a cada um parece +o seu formoso</em>; e outro, que <em>não ha melhor musico que +cada um a si mesmo</em>; e que <em>a cada um contenta o seu rosto, a +sua arte, e cheira bem o seu suor</em>.—Outro (disse Solino) me +parece a mim melhor que todos esses, porque os declara; +e é que <em>quem se contenta a si contenta a um grande +nescio</em>; +que não pode deixar de o ser o que do seu engano +se satisfaz. E não achareis discreto d'esse feitio, que +não caia nos tres primeiros laços: porque são encadeados +uns com outros: e em se escutando um homem +a si, o vereìs ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas, +enchendo com ellas a bôcca, e pronunciando-as +com muito cuidado.—D'esses disse Horacio (accudiu +Pindaro) que <em>falavam empolas</em>; é está muito bem o +nome á inchação das suas palavras. Mas o segundo vicio, +que é da repetição, parece menor erro; porque o +que é bem dito se pode repetir, conforme ao que disse +o poeta; e só será a culpa quando o dito não fôr acertado.—Essa +estimação não ha de ser feita por seu +dono (respondeu Solino), nem elle pode pôr o preço a +suas palavras, cuidando que fala ouro; em obras alheias, +referidas por outrem, tem logar essa desculpa; e não +se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a +repetição do que disseram, estão puxando por vós a +que lh'as gabeis, e vos contenteis á força da sua razão; +e mettem de quando em quando um <em>entendeis-me? estaes +commigo? digo bem? que vos parece? não sei se me declaro</em>. +De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem +dos outros nescios. E com este cahem logo no terceiro, +que é deter-se muito em cada palavra, soltando-as por +<span class="pagenum">[116]</span> +compasso, dilatando uma da outra, porque se não peguem: +e é vicio, que fará ser aborrecivel a todo o mundo +a quem o tem; e até á mesma discrição fará importuna +este mau uso d'ella. E mais é mui certo andar +annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle; +que tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria, +que não ha quem o leve. O quarto não entendo bem, +porque não sei ao que chama <em>bordão</em> o doutor.—Sabei +(disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o +que fala, quando as palavras lhe cançam, se chamam +<em>bordões</em>, e são de duas maneiras: uns que pertencem, +ou +para melhor dizer, que são impertinencias nas acções +do falar; e outros nas palavras: os primeiros são mais +culpaveis que os segundos, porque ha um que não sabe +praticar comvosco sem vos estar desabotoando, ou +alimpando o cotão, e arrancando a frisa do vestido: +outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou travando-vos +do braço vos molesta: e ainda ha alguns tão +desatinados, que vos dão com a mão nos peitos a cada +cousa que dizem: e outros que, se deixam de entender +com quem praticam, o hão comsigo, não estando quietos +com as mãos; esgravatando os dentes, ou bolindo +nos narizes e falando, tirando cabellos da barba, e +mordendo as unhas; e outros vicios semelhantes, que +servem como uns espaços e reclamos, a que lhe acodem +as palavras. Os segundos são mettidos na mesma pratica +com alguns, que em cada palavra d'ella mettem +um <em>diz</em>, <em>assim que digo</em>, +<em>tal e qual</em>, <em>sim senhor</em>, <em>vae vem</em>, +<em>então</em>, <em>senão quando</em>, +<em>espere vossa mercê</em>, <em>assim que senhor</em>, +<em>estaes commigo</em>; e outros muitos, fora os que vós +apontastes +no vicio da repetição, que são bordões da primeira +classe.—Certo (disse Feliciano) que tem muita razão +o doutor em dizer que este vicio e os dois, que se +seguem, nascem do descostume, e falta da doutrina +cortezã: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um +estudante, que na opinião dos mais não era tido por o +que falava peior, que, por o grande odio, que tinha aos +bordões, inventou um modo excellente para os desterrar +da conversação dos amigos, com que tratava de +ordinario; e foi um jogo de não menor engenho, que +utilidade; e pelo exercicio d'elle se perdeu até a semente +dos bordões entre aquelles amigos.—Não vos esqueçam +(disse Leonardo) os termos de tão bom jogo, +<span class="pagenum">[117]</span> +que já pode ser que occupemos com elle uma noite, +mais bem empregada, do que o remedio será necessario +para os presentes, porque não são dos homens limitados, +que se apegam a estes encostos: e se quereis +conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-hão +n'ella mais bordões, do que tem de palavras.—O +quinto vicio (proseguiu o doutor) é incomportavel; porque +ha homens tão sôfregos de falarem tudo; que atalham +as palavras ao que lhes começa a responder, querendo +anticipar com o seu entendimento a tenção alheia.—Esses +taes (disse Solino) falam a duas mãos, porque +querem que vá tudo por elles. E como me acho entre +esses, por não pedir por mercê que me ouçam uma palavra, +deixo o feito sem parte; e como ficam falando á +reveria, desfaço as suas sentenças com uma bochecha de +agua.—Esses faladores são como cigarras, que atrôam, +e não deleitam (disse D. Julio) e é sentença mui approvada +entre cortezãos que tres cousas não ha de haver +entre elles demasiadas, <em>sobeja parola, comprida porfia, +e grande rizada</em>; porque <em>quem muito fala d'elle damna</em> +(como diz o rifão) <em>e com quem aporfia não disputes; e onde +ha muito riso ha pouco siso</em>; que todos estes pertencem á +conversação.—Essa terceira parte (proseguiu o doutor) +é do sexto vicio, que é bracejar quando fala, e festejar +com risadas seus proprios ditos o que se quer vender +por discreto. E assim vereis alguns, que falam ás pancadas; +e se acharem um pulpito deante, o farão em +pedaços, como se a policia podéra soffrer o desassocego +e inquietação da sua esgrima. As risadas, além de arguirem +falta de entendimento, são mais impertinentes +quando um homem festeja seus proprios ditos; que, +para terem galanteria, elle, que os diz, ha de ficar sisudo; +e os que o ouvem, risonhos. E assim os engraçados +de nossos tempos que conhecemos, e outros, que +deixaram esse nome, sabiam festejar moderadamente +as graças alheias, e dissimular o riso nas suas, fazendo +menos caso d'ellas.—Duas cousas (disse D. Julio) se me +offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a +primeira, que moderação se ha de usar no riso, com +que um homem festeja o conto ou graça do que falla +deante d'elle?—Os homens (respondeu o doutor) não hão +de ser tão sevéros que nunca riam como Catão Censorino, +Anaxagoras, e Sócrates: nem como Marco Crasso, +<span class="pagenum"><a name="p118" id="p118">[118]</a></span> +que rio uma só vez na vida; pois é definição e differença +do homem <em>ser animal racional</em>, e a sua propria +paixão é <em>ser rizivel</em>: porém não menos se ha de +guardar +de ser desentoado nas risadas; que, para n'isto haver +uma moderação politica, lhe buscaram os antigos muitas +differenças: e deixando o riso Jonio, Megarico, Sardonio, +e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores +gregos, e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, não +ha de rir o homem com a bôcca aberta que dá grande +tom ao riso, nem com os beiços apertados, como costumam +os que tem cieiro n'elles; nem sómente mostrando +os dentes, que a estes chamaram os latinos +<em>riso de cavalgaduras</em>; nem com um riso molle e +affeminado, +como era o Jonio; mas com uma boa sombra e +graça na bôcca e no ar do rosto, com que se mostre, +agradecido do que escuta. E se esta resposta vos satisfaz, +bem podeis continuar com a segunda pergunta.—Ainda +que as minhas (tornou elle) não fôssem muito +a proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam +desculpadas, como será esta: Se na graça, que outrem +conta, em que eu a não acho, sou obrigado em primor +cortezão a me mostrar risonho? Obrigado é o cortezão +(respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com +quem se pratica: e não o poderia ser quando seccasse +o riso na occasião, em que outrem mette cabedal para +o provocar a elle; que seria mettel-o em desconfiança.—Eu +me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e já agora +podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que +discorrer segundo me parece; que nao é mais que um +<a href="#e3">descuido</a> e desattento dos que, mostrando o fervor do +animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem, +e ás vezes a quem os escuta.—Não cuido eu (disse +Feliciano) que são esses os de que trata o proverbio, que +<em>falam fontes de prata</em>.—Antes (tornou Solino) lhes +chamara +eu <em>homens que falam frescos</em> que nem uma manhã +de abril deixa tao orvalhado um campo do boninas, +como elles a roda dos que os estão ouvindo; e para estas +immundicias houvera de ter a discrição um Almotacé +da limpeza.—Desterrados pois (continuou o doutor) +da conversação estes sete inimigos d'ella, parecerá um +homem cortezão aos que o escutarem, falando agradavelmente +nas palavras as leis que agora lhe der o senhor +Leonardo: que posto que a verdadeira discrição +<span class="pagenum">[119]</span> +seja natural, nenhum dos dons da natureza deixa +de receber beneficio da arte, da continuação e dos costumes.—Muito +depressa vos quereis desobrigar (respondeu +Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha +porta, dando algum toque na murmuração, como +déstes no riso: que tambem estes preceitos são fóra das +palavras.—O riso sim (lhe tornou elle), mas não o murmurar; +que é culpa que não se attribue á pratica, posto +que alguns digam que sem esse sal a mais discreta é +pouco saborosa: e é porque ha muitas cousas, que não +queremos dizer, e folgamos em extremo de as ouvir. +Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos +alheios de gente ociosa, com risco proprio. Porém, +por fazer as pazes comvosco, entrarei em contendas, de +que estou desobrigado, tocando na murmuração engraçada; +e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma +sentença excellente, que diz que <em>dos animaes bravos a +peior mordedura é a do praguento</em>; e <em>dos mansos a do lisongeiro</em>. +O praguejar é maldade, o lisongear traição, o motejar +levemente galantaria: o discreto nem ha de morder, +nem lamber; porém picar levemente, e com arte, +é graça da conversação. Para o que, deixando auctoridades, +exemplos, preceitos, e cousas infinitas, que poderão +levar grande tempo: o cortezão, quando arguir +para graça, ha de considerar tres cousas: o que fala, +com quem, e deante de quem. O primeiro por fugir de +materia em que o presente desconfie: o segundo por +não motejar com quem não saiba pesar e conhecer as +galantarias: o terceiro por não falar graças, de que, +algum dos ouvintes se envergonhe: porque de outro +modo, sendo a graça pesada, perderia o nome. Não falo +do murmurar de ausentes, que em todo o modo me parece +culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias +as vossas, que a todos agradam, e que, se aos +ouvintes não fazem fastio, tão pouco aos offendidos +causam queixume.—Lembra-me (disse Pindaro) que no +quinto vicio condemnastes o querer um homem falar +tudo: e não déstes regra aos que falam pouco.—Seria +(respondeu o doutor) por me conformar com uma sentença, +que diz: <em>Aos que pouco falam, poucas leis lhes +bastam</em>. +Além d'isto até agora não tratei dos louvores do +silencio, nem da verdade d'aquelle dito: <em>Assás sabe o +que não sabe; se calar sabe</em>. E o outro, que: <em>O +nescio calando,</em> +<span class="pagenum">[120]</span> +<em>parece-se com o discreto</em>. Falo sómente da +maneira de +praticar entre os amigos, onde as palavras não tem +mais que estas duas medidas, que são <em>falar a tempo</em>, +e +<em>a proposito</em>: a tempo, porque nem em todos se pode +dizer +tudo o que é bem dito. <br /> +<br /> +Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o +estomago, e offendam ao gôsto, ainda que em +outros logares podem dar muito. Entre enojados não +dizer graças, ou contos, que desautorisem a tristeza, e +provoquem a riso. Entre enfermos não contar historias, +que causem temor ou desconfiança em seus males. +Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas que saibam +a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha +muitos, que se desviam do principio da pratica, de maneira +que do primeiro salto vão parar a Flandres; outros, +que em tudo querem metter uma historia que +sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que +ouviram, um sonho que sonharam; e pela deleitação, +que tomam de contar coisas proprias, perdem o decóro, +com que hão de escutar as alheias, e o tento do que +elles mesmos respondem: e tambem me a mim parece +que me vou mettendo nas que não são minhas; que +me fizeram passar os termos de maneira, que nem a +meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda +parte d'este discurso.—Vós dizeis tudo tão bem (tornou +Leonardo) que se perde pouco no que eu havia de accrescentar, +quanto mais, que o que se dilata não se +tira; e já ámanhã terei cuidado, ou espaço de cuidar +no que hei de dizer, por não cahir no terceiro peccado +de ir compondo as palavras com o vagar que enfastia.—Em +casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a cêa; e +em entendimento tão rico, como o vosso, nem de cousas, +nem de palavras pode haver pobreza: guarde-vos +Deus de uns meus senhores, que as pedem fiadas aos +livros de cavallarias, com suas sentenças de cabo de +capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um +dos ouvintes, varreu-lhes toda a prégação da memoria, +e vão com a pratica em muletas até tomarem assento +com muito trabalho seu, e de quem os escuta.—Hora, +não o dêmos tão grande ao senhor Leonardo +(disse D. Julio) que hoje o não deixemos dormir, pois +ámanhã o havemos de despertar; que as duas noites +passadas foram de hospede, e a conversação dos que +<span class="pagenum">[121]</span> +são de mais gôsto, roubam melhor o tempo; e comtudo. +a parte que se tira ao repouso, sempre faz falta, <br /> +<br /> +Começaram-se os outros a levantar, e o velho ainda +os deteve em pé dizendo:—O senhor D. Julio em tudo +tem tenção de me fazer mercês; porém esta não é das +em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar +o tempo do somno para viver, que o da vida para +dormir. E se é verdade que na conversação de tão bons +amigos só se vive, qual posso eu ter melhor, que, fazendo +estas noites mais compridas, alargar a minha +edade? que sentença é antiga, que <em>o tempo, em que dormimos, +perdemos da vida</em>: pelo que chamaram ao somno +<em>imagem da morte</em>. +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> +<a name="c10" id="c10"></a><h2>DIALOGO IX</h2> +<br /> +<h3>DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS</h3> +<br /> +<br /> +Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio +de tão proveitosa conversação, de tal maneira, +que nenhum perdia o sentido das materias, que ficavam +tocadas, para se armarem de razões, contos, e +exemplos, com que cada um mostrasse aos outros sua +sufficiencia. N'aquella porém da pratica vulgar ficou +Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que +tudo pende de opiniões incertas; como porque o doutor +lhe cortara a urdidura, com que havia de ir tecendo +o seu discurso, desejava mudar o proposito a outra +cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era +o de todos, não via caminho de o desviar. Veiu pois a +noite do outro dia, e com ella os companheiros mui alvoroçados; +aos quaes elle festejou com a mesma alegria; +e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se +hei de falar verdade, eu estou tão carregado com o officio +que de novo me déstes, que me não atrevo a dar +boa conta d'elle; porque todas as que fiz para me dispôr +a isso, me sahiram erradas: e me parece tão difficultoso +falar de cuidado, e ordenadamente na materia +em que se ha de praticar na lingua portugueza, que +me hei de chamar ao engano, e o maior de todos foi +darem-me espaço para temer, quando eu cuidei que o +<span class="pagenum">[122]</span> +tomava para me prevenir.—Em vós (disse D. Julio) é +gentileza esse receio; e ainda que fôsse fingido, eu o +tenho por a primeira regra de falar bem, pois ensinaes +aos discretos a não falarem com sobeja confiança; e +pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa +achara difficuldade, que é pôrdes em regras, e preceitos, +o que tendes por natural, e por costume; que servieis +mais para exemplo de quem vos ouve, que para +mestre dos que não podem comprehender a vossa doutrina.—Se +com titulo de me fazerdes mercê (respondeu +elle) quereis que desconfie, mais facil vos será isso, que +a mim o acertar: mas, para que não erre no principal, +digo que não posso fazer escola de falar bem, mormente +entre cortezãos tão discretos, que cada um me poderá +dar preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas +a minha opinião, faço-o para com as razões dos que +a contradisserem aprender a acertar.—Parece-me (disse +Solino) que as melhores duas lições para os discretos +são essas primeiras, <em>receio</em>, e +<em>humildade</em>. E passando +adiante, começae já a descobrir essa rhetorica, nova á +lingua portugueza.—Por escusar (tornou elle) uma muito comprida; +e dilatada em preceitos, e limites, que á +força se hão-de misturar com os da latina; e por evitar +a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes +para outras noites, accudirei brevemente a alguns +vicios da lingua portugueza, não fugindo dos termos +da latina, nem levando-os a elles por fundamento, +mas fazendo-o n'estas cinco advertencias: <br /> +<br /><div class="quote1"> +<em>Falar vulgarmente, com propriedade.</em> <br /> +<em>Fugir da prolixidade.</em> <br /> +<em>Não confundir as razões com a brevidade.</em> <br /> +<em>Não enfeitar com curiosidade as palavras.</em> <br /> +<em>Não descuidar com a confiança.</em> +</div> +<br /> +—Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica +abreviada, que podia servir a todas as linguas: +porque a confusão dos muitos preceitos e figuras, que +lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem comprehender +debaixo d'esses cinco muito bem achados. E +pois Solino chamou aos meus vicios sete peccados contra +a discrição, podia chamar a estes preceitos os cinco +sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como entendeis +<span class="pagenum">[123]</span> +<em>falar vulgarmente com propriedade</em>, que em +parte me +parece que o vulgar não guarda muitas vezes o respeito +ao proprio? —Falar vulgarmente (respondeu Leonardo +é qual os melhores falem, e todos entendam +sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados, +nem antigos, e desusados: senão communs, e +correntes, sem respeitar origens, derivações, nem etymologias; +que a linguagem mais pende do uso, que da +razão: e por isso se chama lingua materna, porque nas +mulheres, que menos sahem da patria, se corrompe +menos o uso do falar commum, posto que ellas saibam +pouco da razão de seus principios. E d'isto, e do falar +com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos +sobre as cartas missivas; o que não será necessario +repetir agora de novo, mas sómente dar mostra de +que estes dois termos se não encontram: que se o falar +proprio, é com palavras naturaes, e menos figuras da +rhetorica, para ornamento d'ellas; e não usar dos tropos +de allegorias, metaforas, translações, antonomazias, +antifrazes, ironias, enigmas, e outras muitas; isso +se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente +as palavras proprias, pois sómente algumas translações, +antonomazias, e ironias se acham n'ella; e mui +raramente outras figuras: e posto que n'isto me detenha +mais do que determinava, me hei de embaraçar +com estas três figuras. <em>Translação</em> é figura quando +passamos +as palavras de uma cousa a outra, porém com +uma semelhança conveniente, como quando dizemos +<em>uma fonte de sabedoria</em>, <em>um pôço de +lettras</em>, <em>um rio de ouro</em>, +<em>um thesouro de partes</em>, ou <em>de +graças</em>. Esta figura se costuma +usar para um de quatro effeitos, ou para evitar +palavras deshonestas, ou para abreviar razões compridas, +ou por accudir á pobresa da linguagem, ou por +aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz +officio mui necessario, que é dar a entender, por palavras +alheias, cousas que sôam mal por o seu nome proprio, +como dizer: <em>uma mulher que usa mal de sua formosura</em>; +<em>que se vende a preço</em>; <em>que se entrega a +Venus</em>; <em>que +serve o seu gôsto</em>. <em>Um homem affeiçoado a +ramos</em>; <em>perdido +por Bacco</em>; <em>esquecido de si</em>. Tambem, para +abreviar razões, +é de muita utilidade na pratica, como quando dizemos, +<em>ficou em secco</em>, <em>deitou azar</em>, +<em>torceu a orelha</em>, <em>deu cinco</em>. +Os outros dois modos me parecem na pratica sobejos, +<span class="pagenum">[124]</span> +e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de +fugir n'ella o enfeite, e ornamento das palavras: e o +outro, porque não faltam na lingua portugueza as necessarias +para cada um declarar o que lhe convém dizer. +A figura da <em>Antonomazia</em> se usa algumas vezes na +conversação: posto que só nas pessoas, ou partes do +mesmo reino será mais aceite. Entre nós, quando nomeamos +<em>o Poeta</em>, se entenderá Luiz de Camões, <em>o +Historiador</em>, +João de Barros: <em>o Duque</em>, o de Bragança: <em>o +Marquez</em>, o de Villa Real: <em>a Cidade</em>, a de +Lisboa: <em>a Coutada</em>, +a de Almeirim; e outras semelhantes cousas, ás +quaes a grandeza deu superioridade das outras do mesmo +nome. A <em>Ironia</em>, mais que todas, é propria na +conversação, +pois consiste mais na graça, riso, ou dissimulação +do que fala, que nas palavras: esta se considera +em duas maneiras, a primeira tirando a propriedade +ás cousas; a segunda, furtando o sentido ás razões; +uma é mero escarneo; a outra dissimulada subtileza. +A primeira, quando do fraco dizemos que é um +Hercules: do louco, que é um Catão: do miseravel, que +é um Alexandre: e da mulher pouco casta, que é uma +Helena. A segunda, como se disseramos: <em>Nunca lhe cahiu +a lança da mão</em> ao que a não tomou n'ella: <em>não lhe +chegou ninguem com a espada</em>, falando do que fugiu: +<em>nunca +pediu nada</em>, falando do que furta: <em>paga mais do que +deve</em>, entendendo o que paga por justiça. No que pertence +ás figuras me parece que basta esta lembrança. +E as palavras, que se devem escusar para falar vulgarmente, +não hão de ser estrangeiras, nem esquisitas, +nem innovadas, nem tão antigas, que se perdesse +já o uso d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes, +e lettrados, que introduziram as latinas na +conversação, fazendo a linguagem de misturas.—Essa +culpa (respondeu o doutor) é dos mancebos que como no +praticar não teem a madureza, que só costuma a ensinar +a experiencia, cuidam que se melhoram em falar +escuro, e elegante, fazendo na prosa accentos de musica, +ou medidas de poesia.—Muitos lettrados sei eu (disse +Solino) que não são moços, e n'isso o querem parecer, +que falam uma linguagem como sereia, mulher até aos +peitos, e ametade peixe; e são homens, a que não escapa +por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a nossa +lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga, +<span class="pagenum">[125]</span> +que perde muito de seus quilates.—Não tenho por grande +erro (acudiu Pindaro) quando a conversação é entre +doutos, usar de algumas palavras tiradas do latim, +quando forem melhores que as com que nos podiamos +declarar em portuguez: antes creio que, se isto se fôra +introduzindo, viera a nossa lingua pouco a pouco a se +apparentar com ella, e ficar tão polida, e apurada como +a toscana.—E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou +do parentesco, se não foi chamarem-lhe alguns auctores +<em>bôrra da lingua latina</em>?—O caso é (disse Solino) que +vós devieis ser affeiçoado á phrase de um cirurgião de +Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez famoso, +que disse á moça de um ferido, a quem curava: <em>Traga-me +um panno corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice.</em> +E a um rustico, que vinha esmechado, respondeu +que não tinha mais lesa que a superficie da fronte; e +tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria, +se dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade. +E certo que tenho raiva, sabendo que a lingua +portugueza não é manca, nem aleijada, vêr que a façam +andar em muletas latinas os que a haviam de tratar +melhor.—Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem +com isso se contentam; e andam buscando palavras +muito esquisitas, que por termos mui escuros significam +o que querem dizer. Como um que se queixava de sua +dama, que de ciosa andava inquirindo os escrutinios +do seu pensamento. E outro a um barbeiro disse, que +lhe rubricára a parede com a sangria.—Alguns (disse o +doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente +de falar, que por taes eram reprovados: porém o uso +das palavras innovadas não achei ainda entre os portuguezes, +como os hespanhoes e italianos. Nem tenho +por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito +bem usadas em outro tempo, e desterradas, sem razão, +na nossa edade.—Não faltam (respondeu Leonardo) curiosos, +que por acharem pobre a lingua, ou por elles +o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo: +como um lettrado, que querendo auctorisar umas +casas para certa occasião, disso: <em>É necessario que as paredes +d'este domicilio sejam alreadas, e que o fato uzivel fique +retendo nas ultimas d'elle</em>. E outro disse de um navegante, +<em>que fôra felice, se não fortuneara tanto no exito da +viagem</em>. +E ao que dizeis das palavras antigas, posto que +<span class="pagenum">[126]</span> +em algum tempo fôssem boas, não o ficam sendo na +parte em que se perdeu o uso d'ellas; pois, como já +disse, esse só é o fundamento e razão das palavras: e +assim, não diremos <em>leixou</em>, +<em>trouve</em>, <em>dixe</em>, +<em>ca</em>, <em>sicais</em>, +<em>acram</em>, <em>leidisse</em>, +e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos +de cujos escriptos podemos aprender a perfeição +da lingua portugueza. E bastou o contrario uso +para n'esta parte poderem seguir os que agora escrevem, +e falam bem.—Com uma só razão (accudiu Solino) +condemnára eu a toda essa turba dos que no falar querem +parecer singulares, e é que não falam para que +os entendam melhor, senão para que pasmem d'aquella +sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber +que é lanço muito certo, que os que se contentáram +com saber pouco do latim, falam mais alatinado, +para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim +como virdes cirurgião, ou boticario, que acabou a grammatica +na quinta classe, ponde-lhe abrolho, que o não +tirareis com vinte galgos á estrada do falar commum +e se me esperardes estudante de philosophia em grade +de freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que +vos não entendereis com o sentido d'ella. E dos que falam +pela tempera velha, eu o não consentira, senão em +homens de barba larga, penteada sobre os peitos, com +carapuça redonda, e pelote de abas pregadas, que vos +conte historias d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em +Almeirim, e de quando D. Rodrigo de Almeida tomou +por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe +nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos +justos de agora, e barbinhas turquescas tiradas +pela fieira, e tintas sobre branco, palavras d'aquelle +tempo parecem remendo de outra côr. <br /> +<br /> +<br /> +<h4>FIM DO 1.º VOLUME</h4> +<br /> +<br /> +<br /> +<br /> + +<h2>INDICE</h2> +<br /> +<br /> +<br /> +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + <tbody> + <tr> + <td style="width: 80%;">Advertencia</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c1">5</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo I</span>—Argumento de toda a obra</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c2">7</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo II</span>—Da policia e estylo das cartas missivas</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c3">22</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo III</span>—Da maneira de escrever, e da differença das cartas missivas</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c4">35</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo IV</span>—Dos recados, embaixadas e visitas</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c5">54</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo V</span>—Dos encarecimentos</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c6">70</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo VI</span>—Da differença do amor e da cobiça</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c7">81</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo VII</span>—Dos poderes do ouro e do interesse</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c8">95</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo VIII</span>—Dos movimentos e decoro no praticar</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c9">110</a></td> + </tr> + <tr> + <td><span class="smallcaps">Dialogo IX</span>—Da pratica e disposição das palavras</td> + <td style="text-align: right"><a href="#c10">121</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> +<br /><br /><br /> +<br /> +<br /> +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> +<br /> +<br /> +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + <tbody> + <tr align="right"> + <td style="width: 61px;"></td> + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + <td style="text-align: center; width: 5px;"> </td> + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1" href="#p67">#pág. 67</a></td> + <td style="text-align: center;">os proprio filhos</td> + <td style="text-align: center;">...</td> + <td style="text-align: center;">os proprios filhos</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2" href="#p91">#pág. 91</a></td> + <td style="text-align: center;">totos</td> + <td style="text-align: center;">...</td> + <td style="text-align: center;">todos</td> + </tr> + <tr> + <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3" href="#p118">#pág. 118</a></td> + <td style="text-align: center;">descuido)</td> + <td style="text-align: center;">...</td> + <td style="text-align: center;">descuido</td> + </tr> + </tbody> +</table> +<br /> +<br /> +<br /> +</div> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Côrte na aldeia e noites de inverno +(Volume I), by Francisco Rodrigues Lobo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CÔRTE NA ALDEIA E NOITES DE *** + +***** This file should be named 37757-h.htm or 37757-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/7/7/5/37757/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/37757-h/images/fig01.png b/37757-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..adf7487 --- /dev/null +++ b/37757-h/images/fig01.png diff --git a/37757-h/images/fig02.png b/37757-h/images/fig02.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d610f86 --- /dev/null +++ b/37757-h/images/fig02.png diff --git a/37757-h/images/fig03.png b/37757-h/images/fig03.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..46a60c5 --- /dev/null +++ b/37757-h/images/fig03.png diff --git a/37757-h/images/fig04.png b/37757-h/images/fig04.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..f4acc6b --- /dev/null +++ b/37757-h/images/fig04.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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