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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:05:14 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China + e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo + +Author: José Ignacio de Andrade + +Release Date: May 17, 2011 [EBook #36163] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES *** + + + + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + + + + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso + de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final + deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Maio 2011) + + + + + MEMORIA + DOS + FEITOS MACAENSES + CONTRA OS PIRATAS DA CHINA: + E DA + ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES + NA CIDADE DE MACÁO: + + AUCTOR + + _JOSÉ IGNACIO ANDRADE_. + + + SEGUNDA EDIÇÃO. + + + [Figura] + + + LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835. + Largo de S. Roque N. 12 + _A C. Dias_. + + + + + _Rien ne peut arretêr dans leurs projets nouveaux + Ces Portugais ardens qui volent sur les eaux, + O' com bien de héros guiderent leur audace! + Que de faits immortels ont signalé leur trace!_ + + + Esmenarde, C. V. pg. 26. + + + + + + PROEMIO. + + +Quanto é arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que ainda vivem! +Não só os seus inimigos, mas tambem os feridos do orgulho, ou da inveja, +saírão a vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais +prudente calar as grandes acções dos heroes em sua vida. Mas porque se +ha de recusar este premio ás pessoas, que o ganharam a risco da vida e +fazenda?[1] Por se temer a mordacidade dos _zoilos_? Eis a fraqueza, que +não tenho. Transmittindo a verdade aos vindouros, e dizendo o que +fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se fôr censurado por alguns, +louvarão outros o meu zelo. + + + + + INTRODUCÇÃO. + + +De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo +nenhum mais admiravel do que a navegação. Entes fracos e mortaes filhos +da terra ousaram transportar-se sobre elemento inestavel e perigoso, +levantar edificios em cima das aguas, dominar os ventos, e voar ás +extremidades do mundo por baixo de Ceos desconhecidos. + +Mas qual é a sorte do homem? Dotado de coração tão perverso, quanto o +espirito é grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De todas as +invenções sublimes tem os homens abusado. Dos vegetaes extraíram +venenos: do ouro a moeda que tudo corrompe. As artes serviram-lhe para +multiplicarem os meios de se destruirem. A navegação é, sobre tudo, +origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas +foram ensanguentadas pela guerra. + +As duas partes do globo oriente, e occidente, terra e mar, são +igualmente o theatro das desgraças e crimes do homem: com a differença, +que dilatando as vistas e passos ao longo do continente, descobrimos +ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e ermos incultos; porém o mar +sendo tumulo de grande parte da humanidade, nenhum vestigio offerece de +tantos estragos. Todos os dias passa o navegador com despejo por cima +das ondas, que tem engolido milhares de homens. + +Quem não desejará voltar aos tempos felizes de ignorancia e parcimonia, +em que nossos avós menos grandes, porém menos criminosos, sem industria, +mas sem remorsos, viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os +tinham visto nascer.[2] + +Á custa das vidas portuguezas formaram os nossos antepassados um +estabelecimento na China: os nossos contemporaneos foram de novo +obrigados a ensanguentar as ondas para submetter Cam-pau-sai ás leis do +imperio; e a usar prudencia consummada além do valor, a fim de livrar +Macáo da invasão britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para +adquirir prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella +para despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da +republica, nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo +os homens foram sempre, não crêm nunca feitos, quem sahêm álém do seu +engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de +trivial esforço, e usada industria.==Todavia os feitos exarados nesta +memoria jámais serão desmentidos; e podem despertar virtudes. + +A China por nós ha muito tempo ignorada, depois inteiramente +desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da +Europa, é o imperio mais antigo, extenso, e florecente do globo. Pelo +ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os seus +habitantes em duzentos milhões de almas. O rendimento annual sobe a +quinhentos milhões de cruzados. Sustenta oitocentos mil soldados, e +trezentos mil cavallos, que emprega nas armas, e correios publicos. + +Ha tempo immemoriavel são os imperadores tambem pontifices do imperio; +para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem em conflicto. +Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um campo lavrado, +todos os annos em dia solemne, por suas proprias mãos. Alento exemplar á +agricultura, primeira base da independencia e prosperidade nacional. + +Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os +bonzos de todas as religiões, e deixam-os espalhar os seus desvarios: +mas se chegam a amutinar o povo, são logo enforcados. Assim os toleram e +os reprimem. O imperador Cham-hi mandou gravar no frontispicio da sua +capella:==O Chang-ti não tem principio nem fim: creou e governa tudo: é +summamente bom e justo.== + +Os Chinezes em geral são polidos e virtuosos. O Imperador tem uma só +mulher legitima, mas póde segundo as leis do Imperio ter grande numero +de amasias. A sorte destas é triste, por viverem encerradas. Pagam com a +privação em que vivem da sociedade, a honra de satisfazer ao imperante, +a qual devem á formosura, e não ao nascimento, que os Chinezes +desapreciam, quando não é accompanhado da virtude. + +Os Coláos e mandarins letrados são mais estimados no imperio do que os +militares. Entre o grande numero dos primeiros ha seis que acompanham a +côrte. O coláo mais antigo e de maior merito nomeia os mandarins para +todos os empregos superiores, e os manda punir se não cumprem com o seu +dever; o segundo cuida nos cultos, e dispõe as ceremonias da côrte; o +terceiro é o Ministro da Justiça; o quarto administra a fazenda; o +quinto preside no ministerio da guerra, e determina tudo, quando é +preciso sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas. + +Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado. +Além disso tem censores publicos de officio. Em cada uma provincia ha um +Suntó (delegado imperial) com tres mandarins letrados debaixo das suas +ordens. O primeiro conhece das causas civis e criminaes; o segundo +recebe os tributos; o terceiro mantém a segurança publica. Para chegar a +ser mandarim é preciso passar por tres gráos, como os nossos de +Bacharel, Licenciado, e Doutor: destes são tirados os coláos. + +O governo não é despotico como se pensa. Os mandarins oppõem-se aos seus +decretos, quando são contrarios ás leis do Estado. Querendo certo +Imperador abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo +seguinte:--Senhor sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio, +mas devo preferir a morte á perda da honra: não posso deixar de vos +advertir, que o máo exemplo dado por vós ao Imperio nos lança a todos no +abysmo.--O Imperador foi generoso para não se agravar, mas não o foi +para mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasião para lhe +mostrar serem dos sentimentos do primeiro. + +Não tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do Estado devem ser +chamados á successão do Imperio os bastardos, preferindo sempre o +primogenito. O Imperador tinha grande affeição a um dos outros: +pretendeu que o reconhecessem, com perjuizo do mais velho. Os mandarins +representaram ao Imperador a injustiça que pretendia fazer: este por +isso privou alguns dos empregos. Aquelles publicaram um aviso dirigido a +todos os mandarins anexos á côrte para se acharem um dia aprazado no +logar ordinario. Ahi decidiram em junta que visto o Imperador desprezar +as leis do Estado, deviam elles desistir dos seus empregos e ir para +suas casas viver como particulares: assim o executaram. + +O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem +aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim obedeceram +todos á lei. Os mandarins ganharam nesta occasião honra por sua firmeza, +e o Imperador por sua prudencia. + +O tribunal da historia, para tudo ser conforme, é surdo ás supplicas, ou +ameaços dos imperantes. Na sala do tribunal ha um cofre, onde cada +historiador lança suas memorias sem as communicar a pessoa alguma. No +fim de cada reinado abre-se o deposito, e dos escriptos alli achados +formam os annaes do Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal +basta o caso seguinte: + +Tai-te-song, Imperador da dynastia de Tang, rogou ao presidente do +tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do +seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e +das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se +consentissimos no que exigis--O Imperador tornou:--Pois vós que me sois +tão obrigado, pretendeis levar á posteridade os meus defeitos?--Com +summa dôr os escreverei, mas é tal o dever do meu emprego, que me obriga +a levar á posteridade a pretenção, que hoje tivestes de mim.-- + +Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais premeiam +a virtude. A noticia de uma acção generosa, de uma virtude extremada, +assim que se divulga em qualquer provincia, é obrigado o mandarim de +policia a participala ao Imperador: este manda logo áquelle subdito um +signal, que o distingue no caminho da virtude. + +O certo é, que os vicios e as virtudes dos povos nascem da sua +legislação: esse conhecimento deu talvez motivo a esta boa lei dos +Chinezes.--Para fecundar o germen da virtude, os mandarins participam da +gloria, ou da vergonha das acções virtuosas ou injustas commettidas em +seu governo. + +A moral, a obediencia ás leis, e o culto ao ente supremo, formam a +religião do Estado. O Imperador não é só pontifice, mas tambem o +primeiro orador do Imperio. Seus decretos são quasi sempre lições de +moral. Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de +governo, as mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das +letras. + +Com tudo o povo é idolatra; os letrados deistas, sem acreditarem em +revelação alguma, nem na vida eterna. Dados ao estudo das leis, +desprezam por ellas os dogmas e ritos de seus bonzos. Em verdade estes +são ignorantes, supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A +maior parte dos Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio. + +Lembra-te que és homem, a tua natureza é fraca, podes succumbir. Afasta +de ti os obstaculos que te embaracem o caminho da virtude. + +O homem bom occupa-se de suas virtudes: o máo de suas riquezas. Aquelle +trata do interesse da patria: este só no seu cuida. + +Faze aos outros o que desejas te façam: eis a unica lei que te é +precisa. + +O silencio é indispensavel ao sabio; este despreza sempre os rasgos da +eloquencia por inuteis; explica-se por suas acções. O ceo falla, mas por +que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as cousas? O seu +movimento é a sua linguagem: creou e deu impulso á natureza, e esta como +filha sua obedece-lhe e produz. + +Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida. + +O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica. + +Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita idéa da moral Chineza. + +Por morte de Afonso de Albuquerque, em 1515, succedeu-lhe no governo da +India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou +este uma esquadra de nove embarcações commandadas por Fernão Peres de +Andrade, levar ao Imperador dos Chinezes o Embaixador Thomé Pires, como +El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado. + +Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só pôde sair +daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em +Junho do mesmo anno. Já os nossos sabiam, pela amisade contrahida em +Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Cantão: foram ás ilhas +visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á côrte. + +Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a +combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Fernão Peres +de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual +iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as +cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade. + + + _Do meu arco possante + Hoje o famoso Andrade + Alvo será: seu nome triunfante + No porto surgirá da Eternidade._[3] + + +Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de Andrade, com outros: +procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Fernão Peres +tinha adquirido. Usaram tão grandes violencias, que os Chinezes +resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram +os portuguezes por todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio +caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros. + +Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso +Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os +mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de +Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes só lhe +respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos +succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos, +cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo, +deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os +portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a +memoria do immoral Simão, para serem outra vez recebidos em seus portos. + +Recuperada a boa fé entre as duas nações obtiveram os portuguezes, em +recompensa de serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de +Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas condições; mas fizeram +delle uma cidade a que deram o nome da ilha. + +Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes +aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do +pirata Chang-Silau. + +Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a +bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo. + +Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e +todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos +foros se confirmaram em 1709. + +Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado +por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os +restantes fugiram largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens. + +Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos +na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de +todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a +ambição dos inglezes. + +De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos capitães de navios do Estado, +que todos os annos iam de viagem ao Japão, e faziam escala naquella +cidade. Com esses governadores teve prosperidade. + +Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para Governador +com o titulo de Capitão Geral. Começou no seu governo a desintelligencia +com o Senado, e a dissolução praticada pelos Governadores. Este foi +grande assassino, grande roubador e forçador cruel das mulheres e filhas +dos cidadãos. Levou os macaenses a tal desesperação, que o mataram, a +fim de se verem livres de tão horrendo monstro. + +Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação do Senhor D. João IV: +os macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, e mandaram grande +donativo á capital do Rei legitimo. + +Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a +mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não consentir em +suas prepotencias. + +Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes, +mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador da China. Os moradores +daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional +naquella embaixada. + +Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: espantou os algozes do +Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto +de perder-se. + +Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de +nossas victorias, é situada na latitude de 22-1/4 gráos ao Nórte do +Equador, e 122.° ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos +nossos periecios; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse: +que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde não alcançou a penna de +Santo Agostinho. Tem de extensão a cidade pouco mais de uma legua. Do +lado do Norte é defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do +Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia +Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende +a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S. +Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Além destas +fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.^a da Guia, fora dos muros da +cidade. As casas são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto é +bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas. +Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A povoação é de 20 mil +individuos, a maior parte Chinezes. O Governo é o Senado composto de +dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivão. O +Governador militar ou Capitão Geral, e o Ouvidor, são chamados ao +Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside +no Senado o Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que é +relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez. + +Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, que até na meza das +sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no +extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma +tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para +entrar e sair. + +Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica +encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da +Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a +fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores +mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para +segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar +tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava +segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo:--Tributamos tão +grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu +costume; e presamos tanto a V. S.^a, que para não o ferir a vara da +Justiça mandamo-la segurar. + +Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados por Officiaes +macaenses; guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus +rendimentos são os direitos da Alfandega. + +As minhas viagens á China deram-me occasião para conhecer os +descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro +debaixo do pezado grilhão dos Filippes tiverão a constancia e valor de +conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que +logravam a amizade dos Chinezes, só tinham seus braços para se +defenderem das nações da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz +pouco ácerca dos grandes feitos macaenses daquella época.[4] Apenas +dessas grandes acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na Sé e +Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido com os heróes, que tão +dignos eram de memoria eterna. + +Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não terem +herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam[Nota 1^a]. Fui +testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezes nesta época +mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com +que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que +se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em +sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. +Deixarei tão nobres acções no esquecimento á maneira de nossos maiores? +Não: farei diligencia para as transmittir á posteridade. Se não forem +uteis aos presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não ha cousa +mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avós. +Julgo de obrigação referilas a nossos nétos. + +Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. Fernão Peres de +Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do +mundo. Ver-se-ha firmado pela mão dos Chinezes, que ainda temos grande +consideração naquelle imperio. + +Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito +lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do +outro. Pegaram os macaenses ás mãos com os piratas em 1805: A esquadra +ingleza aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de +Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense, +para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23 +de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em Abril de +1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes difficuldades, que em Macáo +se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na +primeira da extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem +praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo +só o esforço de almas valorosas que mandaram seus braços com a penna e +espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes +em Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do +final resultado. + +Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de +Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu não tenho +os mesmos talentos, e tenho juizes não menos temiveis. Mas em objecto +desta natureza a eloquencia consiste em ser sincero. + + + + + PRIMEIRA PARTE. + + +Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos +piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra +dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos +contemporaneos, a tempo que seus irmãos na Patria anniquilavam as aguias +do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI os piratas foram +destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram +seu numero e força de modo, que em 1805 estavam senhores de grande +esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil +homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua +mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio +da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio, +dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do +marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A +primeira e mais possante coube ao celebre _Apócha_, que depois se chamou +_Cam-pau-sai_, e onde sempre residio a viuva. _Apau-tai_ foi commandar a +segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta. + +Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter +ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer +empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto tão elevado, que +bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pertendeu +tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo, +fazendo-o desaguar no mar roxo para anniquilar desse modo os Turcos no +Egypto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chinezes, e lançar a +dynastia Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China. +Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o commercio +maritimo nas costas meredionaes do Imperio, mas tambem fazia +desembarques no continente, e arrasava todos os logares por onde +passava. Sendo a Cidade de Cantão a mais rica e a mais commerciante, +quiz embaraçar alli o negocio com os europeos. Para esse fim veio postar +suas forças na emboccadura do rio Tygre, e em todos os canaes que formam +as ilhas visinhas de Macáo. Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das +ilhas da China com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos +Chinezes, tambem se atreveu a insultar os navios da Europa. + +Vendo o Governo de Macáo o risco em que ficava, rodeado de immensa força +inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes; +mandou a Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto +estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios +dentro do porto, que os fossem acommetter, chegavam quasi ao alcance da +artilheria das nossas fortalesas, para embaraçarem os mantimentos, que +todos os dias entram na Cidade. + +Deu-se tanta pressa á factura do brigue, que do momento em que se lançou +a quilha no Estaleiro, até sair da barra fóra, só mediaram vinte e oito +dias! Quando chegou a Macáo estavam os piratas tam destemidos, que o +Governo julgou ser insufficiente tão pequena força, para os afastar da +Cidade. Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e +mandou-o armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta. + +Assim que estas duas embarcações começaram a bater os piratas, estes não +ousavam aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio; +porque os nossos vasos não podiam entrar nos pequenos canaes, onde elles +o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial fazer-lhe algum ataque; +mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a lembrança de o +acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte de 1807, sem que os piratas +arriscassem entrar em combate com os nossos. Esperavam achalos +separados, e em parte onde não se podessem soccorrer; no entanto iam +devastando a provincia de Cantão. + +Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa posição para atacalo. +Mandou uma divisão commandada por um de seus Capitães mais +experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o +valente e destemido _Pereira Barreto_. Já nesse tempo havia adquirido +tam grande credito entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do +mar.[5] O impavido _Barreto_ tinha valor para investir com toda a +esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de suas divisões. Assim que +a julgou ao alcance da artilheria, virou sobre ella fez-lhe fogo tão +vivo, e estrago tão grande, que todos fugiram deixando a Capitanía ás +mãos com o brigue. Vendo o forte _Barreto_, que a artilheria inimiga éra +de maior calibre, resolveu abordar o Taó[6]. Deve imaginar-se uma grande +lancha dando abordagem a uma Náo. Assim parecia o brigue junto ao Taó, e +apenas tinha um quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte +_Barreto_ dirige a sua embarcação á pôpa do Taó. Quando se lhe botavam +os arpéos lançaram os piratas uma balça de fogo dentro da prôa do +brigue, que decerto o abrazaria, se o previdente _Barreto_ não corresse +a lançala ao mar. A este tempo unem se as embarcações; _Barreto_ é o +primeiro que trépa pelo Taó acima, e tão depressa pôde firmar os pés +sobre a tolda inimiga, cantou victoria: + + + _Saltando a fará só com lança e espada + De quatro centos mouros despejada_[7] + + +_Barreto_ usava de espada colubrina, e manejava de sorte que dos setenta +homens, equipagem do brigue, os que poderam subir disseram, que chegando +acima, viram a tolda coberta de mutilados! Achou o nosso heroe tão +porfiada resistencia, que todos foram mortos porém nenhum vencido, ou +aprisionado. Os que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado, +lançaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu á camara, pegou +em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a cabeça com o alfange, e +sepultou-se no mar com ella.[8] + +Este combate foi dado perto de Macáo; _Barreto_ conduzio immediatamente +a preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o +parabem a tão valente Capitão, e ver o navio inimigo. Ficaram +horrorisados da carnagem, porque os piratas só se rendiam com a morte. +Haviam seculos, que já se não faziam d'estas proezas; e até nos parecia +impossivel, que no tempo de Camões, D. Lourenço de Almeida fosse +bastante para debellar em uma Náo da Méca quatro centos mouros. Mas +ainda em nossos dias mostra o entendimento supremo, que um portuguez só +com seu braço é sufficiente para destruir em um Taó mais de 300 +Chinezes. + +Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para +obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas é qualificada pelos +habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias nações. Já o +nosso Diniz cantou as victorias de outro Barreto; justo é que tão divino +estro sirva para immortalisar os dois. + + + _Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoria + Com argivo buril padrão sagrado: + Morda-se o tempo irado, + Que ella eterna fará a clara historia + Alma que atraz da fama immenso espaço + Corre, veja em meus hymnos + Que em vão não sua bellicoso braço._[9] + + +Por feito tão assombroso ficou Macáo em socego. Os piratas retiraram-se +para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo que podiam vencer. A +esquadra imperial com a noticia d'esta victoria animou-se a sair de +Cantão e aproximar-se de Macáo, cruzeiro que ella já não ousava fazer +com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto _Barreto_ fez +desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por +consequencia o Governo de Macáo mandou recolher as suas embarcações. + +Sabendo-se na China, que o Sr. D. João VI tinha deixado Portugal para +reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar cumprimentar o Rei +dos Lusos nas suas possessões do polo antarctico. Apromptaram o navio +Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, pelo Senado, ao honrado cidadão +Antonio Joaquim de Oliveira Matos; e deram o commando da embarcação ao +denodado _Barreto_. Destinando-se aquella enviatura a obsequiar o Chefe +dos Lusos, pensaram não ser pequeno mimo fazer-lhe conhecer quem tanto +honrava o nome portuguez. Foi o nosso heroe recebido no Brazil, quasi da +mesma sorte que os Dias, e os Gamas, recolhendo-se de suas trabalhosas +viagens, eram recebidos pelos antigos reis portuguezes. O Sr. D. João VI +o elevou de primeiro Tenente a Capitão de Fragata: Premiou os macaenses: +deu-lhes distinctivos, que foram assaz estimados, talvez por se +esquecerem das altas virtudes de seus maiores, que os despresavam por +bons costumes. + +Affastado Cam-Pau-Sai de Macáo por temer os portuguezes, não esfriou em +sua empreza. Começou então a proclamar a todos os do seu partido a +tyrannica oppressão, que sofria o imperio, por consentirem no thorono a +intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe quão facil éra depôr aquella, +restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio. +Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuasão, que já os seus não +duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a dignidade da Patria. + +Andavam assim de animo affeito á guerra, quando tiveram a feliz noticia, +de já não existir em Macáo o _tygre do mar_. Voaram como bando de Açores +famintos a devorar tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de +Macáo. Não esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro, +cruzava afoito na bocca do Tyre. Assim que foi descoberto por +Cam-pau-sai, carregou sobre elle. Uma divisão imperial de 28 navios de +15 a 20 peças cada um, que não fugio para fazer-lhe frente, ficou +prisioneira. Soberbo com essa victoria, começou de novo a investir as +embarcações da Europa, e as macaenses. Nesta epoca alguns navios +Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas fortalezas. + +Recolhendo-se de Goa o brigue do _Botelho_, Capitão Manoel José Vianna, +foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam tão grande +resistencia naquelle esforçado Capitão, que restando apenas seis homens +da sua equipagem, com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o +fogo abrandou, pelo cansaço; mas vendo Apautai, que não arreavam +bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de +torres ambulantes e coberto de lanças, longe de esmorecer, tomou em sua +alma o espirito de Duarte Pacheco; e á imitação dos nossos _Barretos_, +quantos inimigos lhe saltavam na sua embarcação, tantos a sua espada +lançava no abysmo. Os Chinezes espantados já não o julgavam homem, mas +sim algum ente superior á especie humana. Parecia invulneravel! Com tudo +morreu no combate. Mas como? Cançado de matar piratas. + + + _Cem paráos torreados, + Donde por boccas mil brota Mavorte; + Entre horrorosos brados_ + + _Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte + Zarguchos, flexas, que em chuveiro voam._[10] + + +Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte +ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o +navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, á vista de Macáo. A +sensação que fez esse triste espectaculo nos moradores daquella cidade é +inexplicavel. Juraram não só retomar a sua embarcação, mas tambem dar +aos piratas o castigo merecido. Os navios que então se achavam no porto +capazes de tal empreza, eram o brigue do _Senado_, e o navio Belisario. +O brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario. + +Seriam nove horas da manhã, quando se avistou o navio apresado; e antes +de anoitecer já os nossos iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi +possivel obrar tanto em tão pouco tempo? Tudo se deveu á generosidade +dos macaenses, e ao estimulo dado pelo incançavel Arriaga. Este digno +Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, não se +limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com meios para o +desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, e o perigo em +que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar todas as forças +sem perdoar as despezas, diligencias ou perigos. Foi com seus braços dar +exemplo aos macaenses mais distinctos, que todos trabalharam na +promptificação dos navios. + +Era este varão entre os macaenses bem similhante á alma dos estoicos, +espalhada pelo universo. Estava em toda a parte. Seria preciso +eloquencia extremada e presencear todos os seus illustres feitos, para +elogiar as altas qualidades deste preclaro varão: sem isso não é +possivel apparecerem tão brilhantes como foram praticados. + +Por não haver então em Macáo Official de mar, que se julgasse dextro na +politica, ainda que todos sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em +chefe ao Capitão de artilheria José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa. +Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra os piratas, a +dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o primeiro Capitão +Lusitano, que aportou naquelle imperio.[Nota 2^a] Theotonio da Silva +Braga, commandava o navio Belisario. Caío tão grande tufão na noite +seguinte ao dia em que saíram os navios, que se julgava telos +submergido. + +Ao amanhecer subirão os montes, sobranceiros á cidade, anciosos por ver +seus campeões; avistaram o brigue do _Botelho_, que tendo surgido em +Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do +combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortaram as amarras e +vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este successo, e +muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela grande +pericia de seus officiaes tinha escapado á furia do tufão. + +Havia tambem uma lorcha armada em guerra[11] commandada por Antonio José +Gonçalves Caroxa: mancebo activo e destemido. Era commando de difficil +desempenho; por ser a embarcação conductora dos viveres para os nossos, +levados por entre os inimigos em frequentes combates. A força da lorcha +constava de quatro pedreiros, um obuz de doze, e trinta homens de +tripulação. Algumas vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios, +quando batiam os piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas +occasiões fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas. + +Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde não podessem defendelo os nossos, +para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu odio. Teve +quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por logar, onde +Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia aprasado, e o +novo _Aquilles Lusitano_ chegou ao passo, que bem pode nomear-se +Cabalão[12]. Achou-o coberto de inimigos: mas julgando urgente o +desempenho da sua commissão, tentou abrir caminho. Ainda que a sua +tripolação era toda de Chinezes, tinha a sua disciplina: julgou que isso +bastava. + +Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lançou mãos ao +obuz, e como o reparo era de pião, jogava para todos os lados. Aos que +se lhe aproximavam cortava-os com metralha; e aos que estavam mais longe +passava-os com balas. Mas os navios inimigos eram tantos, que mal podia +desbaratar a todos os que lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver +a maior parte da tripolação morta, não esfriava no empenho de vencer. +Não usava render-se, nem fugir; cada vez mais afouto pertendia +desembaraçar o passo. Mas os restantes da tripolação vendo passar-lhe as +ballas pelo vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus +companheiros; por que não lhes succedesse o mesmo, ousaram lançar-se a +elle, e amarralo de pés e mãos. Segurando assim o homem, que lhes +parecia invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregáram cheios de +espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito que +apreciavam a existencia do seu commandante. + +Os macaenses receberam o destemido Caroxa com estimação digna dos +importantes serviços, que lhes fazia, e do valor com que se +immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaía a todos. Tinha +maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que destinava a +emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava pela morte de um +marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se distinguia, dava a +todos cobiça de se verem acatados e elogiados por elle. Nesta occasião +um abraço dado no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste +Lusitano de modo, que só elle em sua lorcha, com outra equipagem, se +julgava sufficiente para arrostar com todos os piratas. + +Em verdade, onde as leis são respeitadas, a sociedade é livre: e os +homens serão livres em toda a parte, que houver governo justo como era +então o de Macáo. Longe de envejar a seus concidadãos as vantagens, +grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em augmenta-las. +Não só deixava de opprimilos; mas assegurava a sua liberdade; bem +precioso ao homem, e necessario á sua ventura; tão distante da licença +perigosa, como da humiliação servil. O governo providente apenas liga as +mãos aos homens para não se offenderem; mas deixa-os trabalhar sem +obstaculo para a sua felicidade; sabe que a ignorancia não só deslumbra +os homens mas tambem os faz pusillanimes e desgraçados: a razão e a +liberdade melhoram o coração e os faz virtuosos e resolutos. + +Arriaga sabia que a justa destribuição dos premios e das penas é a +melhor acção do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas +do coração humano, para animar a virtude e o merito; e obrigar o +interesse particular a promover o interesse publico. O certo é que a +virtude desapparece, quando o vicio é honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu +que os favores dados á incapacidade, são roubos feitos ao merecimento; e +as recompensas dadas a quem bem serve a patria são dividas, que o +governo paga por ella. Fui testimunha das bençãos, que lhe lançavam os +macaenses pelo muito que se occupava da sua ventura.--Fazia do +merecimento dos homens estimação tão justa, que nem á conveniencia, nem +ao estado ficava devedor: virtude nos principes difficultosa, e nos +ministros rara[13]. + +Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do +serviço portuguez. Tomou nova tripolação e continuou a destruir os +piratas. Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias +fez para o tomar. + +Logo que amainou o tufão, partiram os nossos em procura do inimigo. +Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos canaes de +Wam-poo, em 15 de Septembro de 1809. Assim que avistaram os navios +Macaenses, suspenderam, mas os nossos carregaram sobre elles. +Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez entrar nelle os seus melhores +navios: mas o fogo violento das nossas embarcações fazia-lhe tal +estrago, que saindo elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam +em estado de entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e +avidos de gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem +uns não se tinham retirado, já outros tomavam o logar vago. Não sendo o +Belisario construido para guerra tão violenta, abrio com o impulso da +artilheria; tornou-se incapaz de combater: retirou-se. O invito +Alcoforado não podendo vencer força tão superior tambem se retirou, mas +deixou em cinzas muitas embarcações inimigas. + +É sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e ruinas para +os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para estrago de +seus moradores, e vexação dos macaenses. É evidente, que o conquistador, +não é só inimigo dos povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello +do genero humano. Sim a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e +raras vezes o tumulto dos combates deixa ouvir as supplicas da +justiça.[14] + +Os macaenses tiveram nesta occasião motivo para julgar quão forte éra o +inimigo: e Cam-pau-sai a ufania de fazer retirar dois navios +portuguezes. + +Apezar da perda que sofreu, ficou mais altivo, e mais assolador. Exaltou +o espirito dos Chinezes de modo, que se levantaram em Cantão partidos de +descontentes. O Suntó prevendo a ruina, que ameaçava o Imperio, tratou +com o Governo de Macáo para reforçar a esquadra portugueza, e junta com +a Chineza cruzar nos mares daquellas ilhas, afim de livrar o commercio +das duas cidades, e portos contiguos. O Governo macaense testimunha do +vexame em que se achavam os moradores da cidade, e dos gastos que tinham +feito em guerra tão dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes, +por ser a empreza mui dispendiosa. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem +nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de +Cantão, e fez-se a convenção seguinte:[15] + +O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, +igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos +piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas +cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações +commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois +governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os +mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza +branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, +José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente +communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e +ajustaram os artigos seguintes: + +1.^o Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com +uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á +cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos +canaes, que até agora tem infestado. + +2.^o O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para +ajudar o armamento dos navios portuguezes. + +3.^o O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem +armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes. + +4.^o Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do +cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados. + +5.^o As presas seram repartidas entre os dois Governos. + +6.^o Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os +seus antigos privilegios. + +7.^o As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se +estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a +consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. Macáo +23 de Novembro de 1809. + + + Shou-Key-chi.--Arriaga. + + Pom.--Chu--Barros. + + +O governo de Macáo observou logo o 3.^o artigo. Arriaga entrou a +promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não +podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos +grandes sommas sobre o seu credito: então era valor de sobejo para os +negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam[16]. + +Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se não suprissem os +prodigios obrados pela gente portugueza. + + + _.....Tornando frio + De espanto o ardor immenso do oriente, + Que verá tanto obrar tão pouca gente._ + + +Mojatecão, observando e experimentando o valor dos portuguezes em Diu, +exclamou:--São dignos de que os sirvam as outras gentes. A fortuna do +mundo está em serem poucos.--Em verdade com cem portuguezes, e sete +centos manillas e cambojas, se fez á véla a esquadra (seis dias depois +da convenção) levando por chefe o destemido Alcoforado, na galera +inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava a Pala, Anacleto José +da Silva o Indiano, Antonio José Gonçalves Caroxa, o brigue do Senado, +José Felis dos Remedios o navio S. Miguel, José Alves o Belisario. Nesse +mesmo dia attacáram e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais +longe de Macáo. + +O governo de Cantão, não foi activo como o dos macaenses; além disso a +esquadra chineza nem uma só vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo +tinham de Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam +acommettelo. O governo de Macáo vendo assombrada toda a provincia de +Cantão, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu despresar os +soccorros da esquadra imperial, e anniquilar só o grande poder de +Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado intimar-lhe, que se entregasse +á obediencia do imperador, promettendo-lhe perdão, e gráo superior na +classe mandarina. + +Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos piratas, que +viesse a Macáo para tractarem de convenção amigavel: declarando-lhe, que +se não conviesse com elle, poria em acção todos os recursos da guerra, e +não descançaria sem exterminalo. + +Campau-sai, respondeu:--Tenho presente a vossa carta: não me assusta. +Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que não entendam +comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, jámais o farei, ainda que me +assegureis e digais o que quizerdes. Sô não terei duvida no que tenho +acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para Macáo, +e mandai-mo dizer para não entender com os vasos portuguezes. Esta +resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de Dezembro de 1809, foi +moderada em razão de ter sido atacado e batido pelos nossos em 11 do +mesmo mez. + +Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu o +imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. Apau-tai +receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. Concordou +com os principaes da sua divisão: rendeu-se com cento e trinta +embarcações bem equipadas de homens e de armas. + +Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por ver +a pouca perseverança dos homens, ainda mesmo os que tem as mais intimas +relações de interesse, parentesco e amisade; mas era tal o seu animo, +que nenhuma desgraça o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar +a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios. + +Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez retirar +Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como Apau-tai, o +havia abandonado, assim o fariam os outros seus companheiros; e +diminuidas assim as suas forças seria obrigado a entregar-se +prisioneiro: que era melhor capitular já, alcançando honra e interesse, +como lhe tinha promettido e affiançado. A esta segunda instancia +respondeu Cam-pau-sai pelo modo seguinte. + +Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheço o desejo que +tendes de me ver em Macáo: fico-vos agradecido por tão singular obsequio +e estimação. + +Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o +sceptro do poder, e governança para todos os que me obedecem, vivo muito +occupado. Não é simples negocio o governo de um reino: eis o motivo por +que não cumpro o vosso desejo. + +Agora todo o meu empenho é restaurar e possuir as terras deste orbe: +assim ficarão completos os meus desejos. Digo-vos ingenuamente este é o +fim a que me proponho. Tenho muitas embarcações, e mantimentos para +longo tempo: nada me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a +conhecer o meu projecto. + +Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me +aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas o +tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da minha +promessa. Se não podeis agora mandar-me os navios seja quando vos +convier. + +Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um +tartaro! São exortações baldadas. Possuindo esta esquadra com a divisa +da bandeira vermelha, farei com ella os maiores esforços para restaurar +o imperio. Já mandei apromptar a minha esquadra, para se dirigir á bocca +do rio tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a +communicar-vos, porém agora não o posso fazer. Basta o conteudo desta, +para viveres na intelligencia do meu firme proposito. Dezembro 26, de +1809. + +Desenganado Alcoforado de que não conseguia a entrega dos piratas sem +fusão de sangue, começou de novo a batelos. Os nossos estavam já tão +praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas apenas lhe +escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos não podiam entrar. +Cam-pau-sai usou entreter as embarcações portuguezas com alguns Taós, em +quanto a dextrava os seus no exercicio da artilharia, tomando por +mestres os americanos inglezes, que tinham aprisionado. + +Era tão sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com extranho +recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder vencer a +frota macaense. Pairava esta junto á ilha de Lantáo, quando entraram a +levantar do oriente os piratas alinhados em divisões. Nesta occasião +obrou o invicto Alcoforado tão grandes prodigios, que só poderam ser +cantados antes, pelo nosso Diniz. + + + _A fiel ave, que arma vigilante + O grão furor a Jove. + Quando sobre os mortaes os raios chove + A dextra coruscante, + Tão rapida ao rebanho temeroso + Não cala, a garra abrindo, das estrellas, + Como o varão famoso + Sobre as immensas velas + Cahe de grande ira armado + Treçando denodado + A féra espada, e torna em seu estrago + O azul oceano em roxo lago._[17] + + +Considere-se uma lagôa com seis leguas de diametro, semeada de ilhas e +syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das aguas. A esquadra +portugueza constando de seis navios, sendo o maior de quatro centas +tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos com 120 peças de +artilheria; e 700 homens. A esquadra inimiga, de 300 vasos, com mil e +quinhentas peças de artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos, +commandados por chefe valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso +Alcoforado, treçando denodado a féra espada mandou atacar. Foi sentelha +electrica lançada no coração dos seus companheiros. Dirigiram-se os +nossos á vanguarda das columnas inimigas despresando suas hostilidades +até chegar a tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de +metralha punha em fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos +arribavam para sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos; +manobra que estes concertavam para lançar-lhes a morte por todos os +lados. O fumo mal lhes dixava vêr as embarcações portuguezas, cercadas +pelas suas. O astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos +poderia destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de +seus companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua +pericia e desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no +centro de cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro +levavam á circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da +circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer +desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus +mesmos companheiros. Todos os Commandantes portuguezes adqueriram fama +neste dia; mas ha acasos em uma batalha, que fazem uns mais distinctos +do que outros. O navio commandado por _Luiz Carlos de Miranda_, na maior +força do combate, deu em escôlho: Cam-pau-sai, vendo aquelle navio +encalhado, considerou-o em desordem; mandou carregar sobre elle, a ver +se podia principiar o seu triunfo por destruilo. Mas o denodado Miranda, +vendo perigos por todos os lados, resolveu debellar o inimigo, ou não +saír com vida do conflicto. Entre o valor e a desesperação (ultimo +sentimento das almas grandes), disse a seus companheiros:--Creio não +haver entre nós quem regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe +destina: assim faça cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da +mareação nas baterias, e diffundindo o seu valor em toda a equipagem, +fez tão grande estrago no inimigo, que já este não tinha animo para +acommettelo. Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o +navio do escôlho. + +O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o Taó do +pagode.[Nota 3^a] Logo que assomou o deposito do erro, virou sobre elle; +e emquanto não o lançou no abismo, não descançou. O templo, os bonzos, +os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza do atrevido Caroxa +lançou o espanto e o horror no espirito de todos os piratas. A vista dos +seus deuses espedaçados, e levados, á discrição das aguas, tirou-lhes de +todo o animo: apenas ousaram largar as velas todas, e por entre syrtes +foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os nossos +vazos não podiam entrar. + +Não ha cores assás vivas para demonstrar a sua confusão na fugida. +Cam-pau-sai medío então as forças macaenses ainda mais pelo valor, do +que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas incançaveis +na destruição do inimigo, não deixaram de perseguilo até á bocca do rio. +Alli formou o previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. Só +o deixou saír para entregar-se. + +Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes condições éra +de ser Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de +capitulação; e que só trataria com os imperiaes, estando elle presente. +Logo que o Governo de Macáo recebeu esta participação do chefe +Alcoforado, remetteo-a ao Suntó, e este dirigio-a ao Imperador. + +Succedeu nesta occasião um facto, que muita honra faz á memoria do +generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega dos piratas, chegou a +Macáo, um novo _Ouvidor_, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do +logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o +Governo de Macáo, não poderem entrar naquella negociação com o Ouvidor +novo, mas sim com o antigo; já por saber este melhor daquelle negocio, +já porque só com elle Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os +macaenses desejavam o mesmo; pois éra publica a grande reputação, que +Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e é só em +táes occasiões, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor Peixoto +começou no exercicio das suas funções: mas o famoso Arriaga continuou a +tractar deste importante negocio. + +Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a +capitulação com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a +memoria do invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza saío de +Macáo, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em Macáo, e tractar +alli da sua capitulação: mas Cam-pau-sai confiado em suas forças +respondeu pela negativa como fica dito. Agora vendo-se obrigado a fazer +o que então recusou, pedio ao nosso Alcoforado a mercê de honralo com +uma visita para ter o gosto de o conhecer pessoalmente. + +Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas +os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata. +Esta lembrança foi acompanhada da responsabilidade, e isso obrigou +Alcoforado a chamar os commandantes das mais embarcações, +communicou-lhes o convite de Cam-pau-sai, e a deliberação, que havia +tomado. Todos acordaram com os Officiaes do seu navio, menos elle, que +fallou da maneira seguinte.--Grande é meu contentamento por ver o +empenho, que fazeis para não me arriscar nesta visita; seja por +estimardes a minha existencia, ou por julgardes em mim algum prestimo. +Confesso-vos, que tão grande é o vosso empenho, quanto mais firme se +torna a minha resolução: já porque recusando este convite ficará mui +cerceada a nossa reputação já porque seria o primeiro signal de fraqueza +da esquadra Macaense: se for traída a minha boa fé, tereis novo +incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que +vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de coração socegado e alma firme, +tremerá de vós--Todos o escutavam com attenção: e ás ultimas palavras +cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela +honra da Patria, e pela humanidade, só a ella pertencia, naquella +occasião. Despedio-se e partio para a esquadra inimiga. Assim que passou +a primeira embarcação da vanguada[Nota 4^a]: + + + _Sonorosas trombetas incitavam + Os animos alegres resonando: + Dos_ Chinas _os bateis o mar coalhavam, + Os toldos pelas aguas arrojando. + As bombardas horrisonas bramavam + Com as nuves de fumo o sol toldando._[18] + + +Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao +portaló, e o conduzio pela mão á camara. Alli trocáram as mais apuradas +civilidades. Cam-pau-sai, estudando o modo de obsequiar o nosso heroe, +não achou outro mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe +pela honra, que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros +europeos, que tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com +demonstrações proprias de captivar o offerente pelas cadêas da amizade. +Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser então o seu maior empenho não o ter por +inimigo; pois havia experimentado o valor dos portuguezes. + +Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de saír +do bloqueio com as embarcações mais veleiras, para onde não podessemos +incommodalo; porém que a honra daquella visita o tinha penhorado de +modo, que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a +promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto +conceito, e a quem de boa vontade se rendia. + +Alcoforado afiançou a promessa do ministro, mostrando-se pesaroso em não +depender só delle a capitulação para em tudo a fazer a contento de +Cam-pau-sai. Disse mais:--como chefe da esquadra macaense, tenho ordem +para destruir a vossa, se tentardes saír daqui: e serei obrigado a +fazelo por ser usança portugueza romper as linhas da amizade, quando +assim o urgem as precisões do estado. Espero de vós não ter occasião +para rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado, +levantou-se: + +Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso +V;[19] ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da +separação destes guerreiros; não querendo ceder um ao outro a primasia +em affectos delicados. Com tudo não pôde Alcoforado impedir a +Cam-pau-sai, de acompanhalo até ao escaler em que partio para a sua +frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os marinheiros +subiram ás vergas para todos a um tempo lhe darem os emboras. + +Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se em Macáo; no ponto, onde se +faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de +Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas José de Alvarenga, +governador militar daquella cidade, obstou a que os macaences tivessem +mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que estremecia só de ouvir fallar +das façanhas portuguezas[20]. Assim foi Arriaga obrigado a concluir este +importante negocio fóra de Macáo. + +Avisou os mondarins, _Chu_, e _Pom_, que viessem ao pagode[21]: +ajustaram alli, que o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e +fizeram aviso aos delegados do imperador para se acharem alli em dia +aprazado. Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da côrte, +e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular distincção. + +Já o congresso deliberava sobre a capitulação, quando chegou de Macáo a +relação do que se tinha passado entre os chefes das esquadras. A ousadia +do atrevido Alcoforado não só penhorou Cam-pau-sai, mas tambem os +mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando o +gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas vontades. + +Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com +mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de +accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que +viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem +reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As +ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a José Pinto +Alcoforado, pelo governador de Macáo: homem pouco experiente dos +costumes chinezes, e cobarde, por isso demorou a ordem do congresso. No +dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a que lhe fora dirigida, levantou +ancora e principiou a velejar para fora. Alcoforado, ignorando as ordens +do congresso, e vendo a esquadra inimiga em movimento, mandou suspender +a sua, e manobrar de modo hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver +desintelligencia: ordenou á sua frota, que amainasse e surgisse. +Sabendo-se no congresso da imprudencia do timido Alvarenga, dirigio-se +Arriaga a Macáo para animalo, e os delegados do imperador tomaram a +resolução de ir á esquadra portugueza certificar ao chefe o que se tinha +tractado com o ministro. + +Assim que o nosso Alcaforado vio em sua embarcação dois chinezes de +cabaias amarellas, conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser côr +privativa da familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida á +civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, não compromettesse a +palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos piratas, a quem +tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a elle Alcaforado, +que o deixasse saír; que a inexperiencia do governador, não devia +embaraçar a execução dos poderes dados pelo Senado ao ministro Arriaga. + +Alcoforado respondeu:--aprecío muito a honra, que me fazeis--e desejo, +ainda mais, ser-vos util: porém as leis militares entre nós executam-se +sem discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga, +se tentar saír, em quanto não houver outra em contrario, não posso +deixar de fazelo. + +Os mandarins tornaram-lhe:--Homem recto e valoroso, conhecemos os +serviços que tens feito ao imperio, e á tua nação: não offusques essa +gloria deixando outra vez as costas da China cobertas de piratas. +Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: não o irrites. Grande parte da +provincia de Chin-cheu segue o seu partido: sabes que é povoada de +homens marcantes, robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas é +audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparão outra esquadra para +obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do +esforço macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo que mais +estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai não +desconfiar da nossa palavra.--Nesta occasião chegou a ordem de Macáo, +por diligencia de Arriaga, para Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir +Cam-pau-sai para Chumpin. Mui contentes ficaram os mandarins: partiram +satisfeitos para o logar do congresso, onde já acharam o nosso Arriaga. +Mandou-se nova ordem a Cam-pau-sai; no dia immediato surgio no logar +aprazado. + +Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a +entrar no congresso, onde devia firmar a sua capitulação. Promptamente +chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e +gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira. + +Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha capitulação, +para entrar na classe dos Coláos, como mo promettestes pelo imperador. +Mas confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca +destruidora do meu poder. Já vos vi: estou satisfeito. Devo muito á +natureza, e á minha assidua applicação; mas em tudo me acho vencido por +vós.--E virando-se para os mandarins:--Tendes por experiencia de 14 +annos, quão poderoso e vigilante foi o meu sceptro: sabei agora da minha +bocca, que o valor portuguez foi quem o destruira. Aqui me tendes em +vossa presença: espero que me trateis como a homem livre, e destemido--E +tomou assento. + +Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar alguns dos seus, que +fossem mais criminosos.--Para satisfazer a esse requisito, darei os +nomes de 14 faccinorosos, que existem na esquadra. Paguem com suas +cabeças as atrocidades que fizeram, e eu desaprovei.--Sendo este o unico +embaraço que havia, concluio-se o negocio. + +Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divisão de 80 embarcações, que antes +de vir attacar a esquadra macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber +os tributos do anno passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se. + +Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se devia +repartir a preza; visto são ser o artigo 1.^o da convenção preenchido +pelo Governo Chinez; e ter só a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a +capitular. + +Já o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, quão valoroso e +sensivel éra o seu coração; mas então quiz mostrar-lhe quanto éra +liberal. De tudo quanto existia na esquadra de Cam-pau-sai, exigio a +melhor parte das bombardas: tudo o mais deixou á disposição do +Imperador. Os companheiros de Cam-pau-sai ficaram cidadãos chinezes; +elle Coláo do Imperio; e as cabeças dos 14 criminosos, para exemplo dos +malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da +ilha de Macáo, onde ficaram até serem consumidas pelo tempo. + +Concluida a capitulação, disse Cam-pau-sai, ao Conselheiro +Arriaga:--Ainda tenho um favor a pedir-vos. Pertendo ir a Macáo, se me +concederes licença, para ter o gosto de ver todos os meus vencedores--O +Ministro agradeceu: e dissolveu-se o congresso, saindo todos os seus +membros cheios de alegria e admiração: Arriaga, da inexplicavel +civilidade e sciencia dos mandarins da côrte, ou coláos! Cam-pau-sai, da +pessoa, e do espirito de Arriaga! Os coláos! de Cam-pau-sai, e de +Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam capacitar-se de ver +livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em 14 annos continuos. + +Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes +macaenses, que éra ao mesmo tempo o seu. A caza deste illustre varão +tinha para elles a mesma consideração, que o Capitolio para os romanos. +Não foi este triumfo tão aparatoso no exterior como os de Cesar, ou o de +D. João de Castro em Goa. Mas os corações de todos os habitantes de +Macáo exultavam de prazer até alli nunco visto nem sentido.[Nota 5^a] + +Em Maio chegou a Cantão a noticia de não querer entregar-se a divisão +rebelde, despresando a ordem do seu antigo chefe. Avisou-se a +Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e Pedio-se-lhe o desempenho da +palavra dada no acto da capitulação. Respondeu:--Rebellada a divisão a +primeira vez contra a minha ordem não devo mandar-lhe outra. Tenho +recurso mais prompto. Dai-me sessenta embarcações das que foram minhas, +deixai-mas tripolar com os que já me obedeceram; e se não trouxer os +rebeldes dou a minha cabeça. Lembro-me que podeis desconfiar da minha +palavra: deixarei em refens o que possuo de mais apreciavel; dois filhos +que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis a qualidade do penhor. + +O Suntó: apezar das demonstrações de firmesa e honrada conducta de +Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a esquadra que elle pedia. Mandou +apromptar uma frota imperial de perto de duzentas embarcações, e bem +equipadas com parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de +Cam-pau-sai. Saío esta de Cantão e foi encontrar o inimigo. Em pouco +tempo veio entrar em Macáo fugida, e derrotada pela divisão rebelde. +Chegando esta noticia a Cantão, o Suntó mandou perguntar ao Conselheiro +Arriaga, o que deveria fazer ácerca do offerecimento de +Cam-pau-sai.--Que se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha +aceitado os serviços de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe +tomar refens; pois esperava delle tudo quanto é proprio de honralo, e de +utilisar ao imperio.-- + +O Suntó com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai sessenta +embarcações, e tudo quanto pedio. Largou o novo Almirante de Cantão +deixando a todos em expectativa. Dirigio-se a Macáo, onde estava tudo +prompto para recebelo. Em dia assignalado foram os commandantes da nossa +esquadra[Nota 6^a] com os bons moradores da cidade a caza do Ministro +Arriaga. Ainda bem o não tinham cumprimentado, annunciou-se a entrada de +Cam-pau-sai. Foi conduzido á Sala. Acabadas as civilidades requintadas, +segundo o costume Chinez disse:--Deus immortal, estão completos os meus +ultimos desejos, vendo e abraçando heroes tão sublimados--Brilhava o +jubilo no rosto de todos vendo Marte humilhado em sua presença.--Acha-se +neste circulo o valoroso commandante da Lorcha Leão? Desejo +conhecelo--Aqui me tendes respondeu o _Caroxa_. Cam-pau-sai caminhou +para elle, abraçou-o: e virando-se para o Ministro disse:--Este homem +fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui +vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por vós, +ficará victorioso. Cedo vos mostrarei como venço a outra gente. + +--Tenho conhecido em vossas acções, disse Arriaga, que sois varão +assignalado. Agradeço-vos por todos o alto conceito, que de nós fazeis: +affirmo-vos ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado á +ordem dos Coláos, onde fareis a ventura da vossa patria, e as delicias +do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre a dar a vida +pela restauração da gloria nacional, pelos seus direitos, e pelos do seu +Monarca legitimo. Lembrai-vos de todas as acções que lhes vistes +praticar:[Nota 7^a] + + + _E julgareis qual é mais excellente, + Se ser do mundo rei, se de tal gente._[22] + + +Se a liberdade, a propriedade, e a segurança são as unicas linhas, que +prendem os homens á terra onde habitam, e ao rei; senão ha amor de +patria, onde não existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos +Portuguezes ao rei e á patria, das qualidades do Senhor D. João VI. Paga +o amor que lhe temos usando do seu poder, para oppôr barreiras fortes, e +dar remedio ás paixões dos subditos, sem que possamos conhecer as suas +proprias paixões.[23] + + + + _Do vosso nome um grão Rei + Neste reino Lusitano + Se poz esta mesma lei: + Que diz o seu Pelicano + Pela lei, e pela grei_[24] + + +Em todo o tempo, que esteve em Macáo o celebre Cam-pau-sai, foi +surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o ministro +Arriaga: mas foi obrigado a saír de Macáo para em breve desempenhar a +sua commissão. Em poucos dias encontrou a divisão rebelde, a quem fez +saber que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte: + + + _Procclamão_. + +Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem. +Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela +força a escrevela. Não: assignei-a por minha vontade. Se ainda o +duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei tambem os motivos, +que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos a seguir, o do bem, +ou o do mal. Todos desejamos seguir o do bem, mas somos muitas vezes +lançados pelo erro em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a +seguirdes o meu partido; mas então ainda eu não havia encetado o caminho +do bem. Hoje conheço que marchava pela estrada do erro, afastado da +vontade do maior numero. O imperio tem povoação summamente grande; e o +nosso partido a seu respeito é summamente pequeno. Não podeis negar-me, +que é preciso haver desmedida ambição nos poucos, que pertendem +apossar-se do que é de muitos. Não é conforme ás leis do imperio, nem ás +do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos +outros homens; e no caminho em que andavamos deivairados, faziamos a sua +desgraça[25]. Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero não +duvideis abraçala; e quando useis tenacidade, em vosso erro, +experimentareis pela primeira vez o meu rigor. + +Os rebeldes não attenderam ás rasões de Cam-pau-sai: julgando-se +superiores em força, cresceu, a sua audacia; responderam com despreso. +Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, em +poucas horas os que não se afundaram, ficaram prisioneiros. Navegou com +elles para Macáo; a fim de mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os +macaenses, a verdade do que lhe havia dito. + +Entrou alli a divisão rebelde em estado tão deploravel pelo estrago +soffrido no combate, que levou muitos dias a concertar para ir a Cantão. +Cam-pau-sai largando o nosso porto, dirigio-se á _bocca do tygre_. Alli +encontrou o mar cheio de embarcações, que tinham vindo para o levar em +triumfo ao Suntó. É inexplicavel o contentamento, que o povo d'aquella +cidade teve nessa occasião. O Suntó obsequiou Cam-pau-sai de modo, que +se o imperador viesse a Cantão, não haveria mais nada a fazer-lhe para +honra-lo. Dirigio á côrte tão grandes recommendações ácerca do novo +Almirante, que o imperador mandou, que fosse a Pekim, para ter o gosto +de velo. + +Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as +villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o chefe dos +piratas (que tanto havia assustado o throno e o imperio) tornado uma das +pessoas mais interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital +foi apresentado ao imperador: teve com elle larga conversação: depois +houve conselho de estado, em que foi Cam-pau-sai um dos seus membros. +Emprego superior aos ministros de Estado. + +Pode-se julgar por este facto, qual é a politica do Governo Chinez. Já +não tinha que temer no mar; com tudo premiou Cam-pau-sai, não só para +cumprir o que havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus +conhecimentos e qualidades relevantes.[26] É provavel, que em quanto +elle for Conselheiro de Estado, não hajam piratas nos mares da China. +Tem adquerido tão grande reputação na côrte, que não só os particulares +mas tambem o Imperador o tracta com singular distincção. + +Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende: +ainda custando só a vida de um homem, assim mesmo é funesta. A estatua +do vencedor é sempre banhada de lagrimas pelos vencidos. Todavia esta +guerra foi differente. Obrigados os macaenses por _Ladrões_ a defenderem +as vidas e a fazenda, mediram as forças mais pelo valor, do que pelo +numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, lançaram todos os mais +ao seio da patria, nos braços de seus irmãos. Em logar de pranto de +vencidos, derramaram lagrimas de prazer trocando trabalhos e miserias +por vida socegada. Nesta guerra sempre os nossos attenderam mais á +humanidade, do que á vingança: fóra do conflicto das batalhas, não +houveram crueldades. + +Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da capitulação, a melhor parte +das bombardas de Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao +Senhor D. João VI. Recolhendo-se a Macáo, declarou o seu projecto no +Senado que de boa vontade assentio. + +Já em 1642 o senado de Macáo mandára a El-Rei D. João IV, as bombardas +tomadas aos hollandezes, para com ellas romper de todo o jugo dos +Filippes. O mesmo senado em 1811 mandou ao Senhor D. João VI, a +artilheria tomada aos piratas da China, não só para mostrar-lhe a grande +força do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges +de Bonaparte. + +A cidade de Macáo tinha perdido muitos dos seus privilegios. Os +chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em +beneficio de seus maiores, já começavam a ver os portuguezes com a mesma +indifferença, com que olhavam para os outros europeos. Mas a serie de +factos brilhantes, paraticados no espaço de cinco annos, fizeram reviver +a nossa antiga reputação naquelle imperio. + + + [Figura] + + + + + _Nota_ (1.^a) + +Lendo a pagina 253 da relação abbreviada da viagem de La-Perouse, as +falsidades alli escriptas em desabono dos Macaenses, não posso deixar de +as repelir. Começa dizendo não ter espressões para louvar o Governador +de Macáo. A paginas 255 rompe:--De grande importancia seria Macáo a uma +nação justa, e que tivesse firmesa e dignidade, contra o Governo Chinez, +injusto, oppressor e cobarde! Alli diz que o Governador de Macáo éra +optimo, aqui o Governo Portuguez não é digno, nem justo; e o Governo +Chinez, é reputado por elle o peior do mundo! + +Se La Perou-se pertendeu fallar do Governo Portuguez em relação a Macáo, +tambem não foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus +delegados, do que nomear, para governar Macáo, um homem, que segundo o +juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se pela honra da +nação? La Perouse, queria achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos +os europeos liberdade para irem á China quebrar as leis do Imperio como +elle mesmo fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer +que o Governo Chinez é injusto, oppressor e cobarde! Como se poderão +avaliar os costumes e o caracter das nações pelo juizo de taes +escriptores? A Nação Chineza é independente; não quer ter communicação +com os Europeos; renuncía a ganancia do commercio exterior pelo socego +do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar em +Macáo homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo Imperador! Vesse +nesta memoria pelos judiciosos discursos dos Mandarins, quão falsas e +injustas são as invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses. + + + _Nota_ (2.^a) + +Quando louvo Fernão Peres de Andrade e outros navegadores e guerreiros, +tomo por base a justiça e as suas virtudes. Jámais escreveria este +opusculo, se a guerra feita aos piratas não tivesse por fundamento a +defesa natural, e o bem estar dos povos constituidos em sociedade. + +Desta guerra resultou grande beneficio á humanidade. Eu louvo só os +Portuguezes que em épocas mais felizes, para nós, se conduziram com +valor e dignidade; e os que em nossos dias os imitam. Afonso de +Albuquerque foi respeitado ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e +pela justiça, que praticava, do que pelo extremado valor. + + + _Nota_ (3.^a) + +Era Cam-pau-sai tão extremoso em ardiz, que não lhe escapou de enredar +os seus no fanatismo para mais devotamente chegar aos fins dos seus +designios. Logo que os interesseiros bonzos lhe afiançaram o bom +resultado da empreza, lançou mão desses instrumentos do erro, que +degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o carro dos +conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe um pagode +na maior embarcação, e deu o commando della ao Capitão mais +experimentado para defender de todo o risco o templo dos idolos. + +Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos +bonzos, e reputado seu chefe. + +Deram passos tão agigantados na estrada da superstituição, que já não +faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saíam todos os +commandantes de seus Taós para irem áquelle onde se achava o pagode +incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que deviam fazer; isto é o que +o chefe dos piratas havia concertado com o principal dos bonzos. + +Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis aos +nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense +anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos. + + + _Nota_ (4.^a) + +Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de +eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo +de Mr. Arago, dá bem a conhecer o caracter do nosso heroe.[27] Eis como +elle o pinta. + +--Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.[28] Dir-te-hei o modo porque +fomos hospedados. Ás protestações de amisade cheias de franqueza, a +maneiras honestas e frequente agrado, é difficil ajuntar mais polidez, +nem mais desvelo para obsequiar-nos. Desde o primeiro dia a generosidade +do Governador, mandou á nossa meza, com profusão, os manjares mais +delicados. Queria mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os +patricios dos maiores sabios do mundo. + +Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do paiz, +cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a galantaria, mais +franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, que voam nas azas do +prazer. + +O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua +generosa affeição: fez acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não +lhes dar valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto +Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de +conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para Timor, pelo que +nos deu a entender, procedeu de causas politicas.[29] Ocupou-se com +desvelo em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua administração é +doce. Os Rajaz não são aviltados pelo despotismo como succede em +Coupang. Pelo contratrio são tratados com amor.-- + +Já, em outras éras, menores virtudes de outro Souza foram assim +cantadas. + + + _Le généreux Souza, qui sut domter l'amour + Dans ces climats ardens oú son feu nous dévore, + Et q'aprés Scipion la vertu nomme encore._ + + + + _Nota_ (5.^a) + +No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito cidadão José +Baptista de Miranda e Lima as virtudes do nosso Arriaga pelo modo +seguinte: + + + Á sombra de frondifera oliveira, + Por ti, ha tanto tempo, desejada, + (Graças ao creador Omnipotente.) + Te vejo, cara patria[N1] reclinada. + No pelago espaçoso, que te cerca, + Ja não vês tremular hostis pendões[N2]. + Não ouves rebombar os horisontes[N3] + Com horrorosos tiros de canhões[N4]. + De salitroso pó[N5] que antes servia + Para ao longe mandar lethaes pelouros + Se ferreos tubos hoje tu carregas[N6], + É só por festejar c'os seus estouros. + Centenares de Taós[N7] prenhes de tygres, + Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[N8] + Meninas e donzelas delicadas + A teu Pai sujeitou[N9] o Eterno Ente. + Teu benefico Pai, o Arriaga[N10] + Estes tygres de Hyrcania domou + E a frondente oliveira, que te cobre, + Cortando mil obstaculos, plantou. + Jámais pois riscarão da fantasia[N11] + O nome deste Heroe da lusa gente: + E agora, que celebras seu triumfo, + De verde palma vai cingir-lhe a frente. + Da victoria este emblema para ornares, + Lindas flores procura designantes + D'aquelles predicados appreciaveis, + Neste filho de Lisia mui brilhantes. + O louro girasol, que sempre segue + O planeta, que os outros illumina[N12] + Designa a bem notoria lealdade + Do nosso Heroe á prole Bragantina. + Os rubros amaranthos, que resistem + Ao vento, á calma, ao gelo, symbolisam + A intrepida constancia nas empresas[N13], + Que o nome de Arriaga immortalizam. + A candida açucena, que dispende + Liberalmente o corceo, de que gosa + É symbolo do seu singello peito[N14], + Emblema da sua alma generosa. + O Lirio, que nascendo d'alta vara, + Sendo rei da florida monarquia + Para baixo a sublime frente inclina, + Sua clemencia designa, e cortezia[N15]. + Das mais virtudes symbolos procura + N'outros lindos matizes dos jardins; + Não te esqueças das rosas rubicundas, + Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins. + De ti receba agora esta corôa + Bem que inferior ao seu merecimento; + Em quanto outra melhor se lhe prepara + No reino superior ao firmamento. + + +_Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo._ + +[N1] 1.^a A patria é a cidade de Macáo. + +[N2] 2.^a As bandeiras vermelhas e pretas das duas columnas inimigas. + +[N3] ? + +[N4] 4.^a Mil e oitocentas bombardas de diversos calibres entregou +Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas. + +[N5] 5.^a Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em Macáo +em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos. + +[N6] 6.^a Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se +celebrava o triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus +contornos, a melhor parte do povo da cidade. + +[N7] 7.^a Embarcações de guerra. Cam-pau-sai entregou 3800 homens, +Apautai 2000. + +[N8] 8.^a Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 pessoas. + +[N9] 9.^a Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel de Arriaga, +seu medianeiro para com o imperador da China. + +[N10] 10.^a Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macáo. + +[N11] 11.^a O nome de Miguel de Arriaga será lembrado não só na ilha de +Macáo mas tambem no imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em +seus annaes para haver delle eterna memoria. + +[N12] 12.^a Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para +dirigir o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes não +arrebatarem esta cidade á nação portugueza. + +[N13] 13.^a Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns que mofaram da +empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a victoria. + +[N14] 14.^a A candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao +Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar amizade entre aquelles +desavindos. + +[N15] 15.^a Despresando difficuldades tratou sempre em Macáo os máos, +com a mesma clemencia que usava para com os bons, e tudo isso nascia da +sua nobreza de coração e das altas e perfeitas virtudes que possuia. + +Em recompensa de tão relevantes serviços o conservou El-Rei D. João VI, +na ouvidoria de Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi nasceram seus +imfortunios, e sua morte prematura. + + + _Nota_ (6.^a) + +Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais subida era a +do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa: Capitão de +artilheria. Em verdade para obrar grandes cousas não são precisos gráos +elevados. No tempo dos Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram +prodigios custosos de crer, por extraordinarios, tambem foram praticados +por homens, que sabiam honrar-se com o gráo do seu nome! + +Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que fizeram acções +extremadas. Se mencionasse todos os que nos cinco annos da guerra contra +os piratas, obraram cousas uteis, faria mui grosso o volume; porque +muitos foram elles, e todos merecem elogio. + + + _Nota_ (7.^a) + +Quando os governos não excitam os homens á gloria, os concidadãos tem em +pouco a estimação publica. A maior parte dos homens são como o +negociante avaro: se armam não é com esperança de immortalisar seu nome. +Unicamente sensiveis ao ganho temem, que o navio se afaste do caminho já +sulcado; por este sabem elles não haverem novas terras para descobrir. +Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal for levado a +ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a explore nem reconheça os +habitantes: tome agoa e largue as velas ao seu destino sem lhe importar +descobertas[30]. Já não ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo, +unicamente invejosos de honras, empregos, e riquezas poucos homens +embarcam a fim de explorar a naturesa[31]. Todavia o governo de Macáo +provou o muito que tinha excitado os seus concidadãos á gloria. Estes +para merecela, não receberam pensões, arriscaram a vida e prestaram a +fazenda. Graças aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo +desinteresse que mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques. + + + + + SEGUNDA PARTE. + + + INVASÃO DAS TROPAS INGLEZAS + EM MACÁO + E SUA RETIRADA. + + + + + PROLOGO DA SEGUNDA PARTE. + + +A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos de fazer +mal; não privar pessoa alguma das vantagens que desfructa; dar a cada um +o que é devido; e promover a felicidade dos outros em geral. O homem só +merece o nome de virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da +sociedade. + +A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode considerar-se +o centro comum de todas as outras. Ella dá aos entes da especie humana +direitos sobre o nosso coração. Sim ella tem por base a sensibilidade, e +esse sentimento dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as +nossas faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor, a beneficencia, +a liberalidade, a indulgencia, e a piedade. + +Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o amor +da patria; isto é, produz a necessaria affeição nacional. + +A força deve só respeitar-se como virtude; quando defende a sociedade em +que vivemos, quando se acha acompanhada de grandeza d'alma, valor, e +moderação. A actividade tambem deve entrar na ordem das virtudes +sociaes; as quaes tem por objecto o bem da sociedade devem ser efficazes +e não inertes como outras quimericas e falsas, introduzidas pela +impostura, ou fanatismo. A sociedade só agradece acções proveitosas: só +essas merecem a sua estimação e reconhecimento. + +A justiça é o vinculo da união social; sustenta a balança em equilibrio +entre os membros da sociedade; remedeia os males que resultam da +differença que a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma +desigualdade ao bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e sábia +distribuição do premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e +chama á ordem os que são tentados a obrar contra os entes da sua +especie. + +Taes são as disposições que a sociedade deve exigir dos seus membros; +tudo nos mostra a sua utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem +por fundamento a natureza e as precisões constantes da especie humana. +Faltando a justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o estado social +torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem. É melhor viver só +do que rodeado de homens injustos. + +A temprança é igualmente necessaria: a prudencia nasce da razão ou da +experiencia das cousas. A razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a +estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a razão compara +os objectos, e despoja-os de apparencias falsas; e aproveita-se do +preterito, e do futuro para não saír da meta conveniente na occasião +opportuna. + +Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da +sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os cidadãos, em paz e +socego, o fructo dos seus trabalhos; conservalos exemptos dos vicios +internos, e das invasões externas. O Senado de Macáo firme nestes +principios, e sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam +aquelle nosso estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam +esbulha-lo da sua pósse, ou perturbar o socego publico. + +Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador de +Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda que elles +diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o Senado +desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta. + +Assim firme em sua resolução, sustentou entre os Chinezes e os +britanicos a seguinte correspondencia. + + + + + SEGUNDA PARTE + + +Assim que o Almirante Drury aportou em Macáo, remeteu uma intimação de +Lord Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Macáo)[32] e mandou Robert, +(primeiro sobrecarga da companhia) em deputação ao Governador. Robert +fallou neste espirito.[33] + +--Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu intento é +empregar as forças do seu commando na defeza de Macáo, contra os +francezes! A explicação desta medida feita a V. Exc. por Lord Minto +dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico assim +procede. + +O Almirante está disposto a conferir com vosco antes do desembarque das +tropas: com tudo é preciso que o Senado esteja tambem disposto a +cooperar com os inglezes para a segurança desta cidade e do commercio; +se o plano proposto não tiver effeito por motivo do Senado, o Almirante, +a seu pesar; terá conducta opposta. + +[Nota: Setembro 11] + +É para notar o ameaço que faz o sobre carga na primeira entre vista! + +É grato ao meu coração, tornou Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais +em defender as possessões lusitanas: com tudo pela intima alliança dos +nossos monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. João VI, e pelos +tratados feitos com os Chinezes, não devo consentir no desembarque das +vossas tropas, sem ordem superior. + +[Nota: Septembro 12.] + +Não posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da convicção +em que estais da intimidade dos nossos monarcas: sou sensivel á situação +em que vos achaes: comtudo previno-vos, que pela grande distancia do +logar donde podeis receber ordem superior, não a tereis tão cêdo, como é +de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord Minto. Para a +conclusão deste negocio desejo ter uma conferencia com vosco. + +[Nota: Septembro 13.] + +Não só na primeira participação, mas tambem na primeira replica teve o +Senado motivo bastante para desconfiar das intenções britannicas; por +tanto officiou ao Almirante pelo modo seguinte:[34] + +Suppondo-vos certo da razão que me assiste para não alterar as ordens +que tenho; devo lisongiarme da vossa persuasão tanto da lealdade no +desempenho dos meus deveres, como da certeza em que estou da intima +alliança dos nossos monarcas: assim espero que modifiqueis as instruções +de Lord Minto, em quanto não chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu +tambem demorarei a participação das vossas intenções ao Governo Chinez: +intenções de dificil compreensão a povos altivos e desconfiados. + +Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos +consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a satisfação de +aprender com vosco o modo de tirar a estes povos o receio, que lhe ficou +em 1802, e agora renovado pela vossa pretenção.[35] O Imperio da China é +o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais é preciso para sua +defeza. Sendo a coacção origem de disturbios e conhecendo vós a nossa +razão, espero que se houver máo resultado na vossa empreza, não o +imputareis ao governo de Macáo. + +[Nota: Setembro 14] + +Não havendo resposta do Almirante até o dia 16 o Senado intimou um +protesto aos sobrecargas, e disse mais: Será infalivel a complicação dos +negocios britanicos, se o vosso Almirante tentar contra os ajustes +feitos em 1802 pelo Senado com o Governo Chinez, para não admittir +auxilio extrangeiro. + +Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte nesta +empreza, é do meu dever segnificar-vos, que no caso não esperado, de +continuarem as mesmas instancias para a admissão das vossas tropas nesta +cidade, farei pôr em execução o que no protesto junto declaro. É +repugnante o vosso procedimento contra povos fieis e amigos da Caza de +Bragança desde a sua restauração. Exijo que o protesto junto com a copia +desta carta seja remettido ao Almirante. + +Não produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado enviou a +participação seguinte ao mandarim de Hiang-san. A dez de Setembro +surgiram em frente desta cidade, uma náo, uma fragata, e um brigue da +nação ingleza, sendo chefe desta força o Almirante Drury. Trouxe uma +carta de Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado +do nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma invasão +franceza. O Almirante assegura não exceder os limites de defesa; porém +como o seu desembarque nesta cidade, quebra os tractados deste governo +com a celestial dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim +de o levares ao Suntó, em virtude dos mesmos tractados. + +O Governo de Macáo, animado do ardente desejo de manter as relações +politicas e commerciaes, que tem ligado esta cidade com os Chinezes, e +varias nações da Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer +na opinião das nações, propria e extrangeiras, a consideração de leal e +honrado, titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer +ao publico a succinta e franca exposição dos factos acontecidos desde a +chegada do Almirante Drury a este porto até hoje, no protesto seguinte. + +A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota +commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto, +onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso +Rei, de George IV, para conservar as possessões da India e China; e que +sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia ser guarnecida +com as suas tropas. Para esse fim mandava um destacamento a esta cidade, +e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a sua admissão e necessario +arranjo. + +No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida não deviam +obrar de modo, que destruissem a independencia, que deviam querer +segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que não devo. + +Esperava desta resposta alguma moderação, e mais por saberem, que os +chinezes não admittem novidades com que possam julgar menos segura a sua +independencia. Com tudo reagiram, mandando intimar pelo chefe da +companhia, que se não fossem admittidas as tropas, seria differente o +seu procedimento. + +Firme nos meus principios, e na minha primeira resolução, assegurei-lhe +a immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que +jámais deram motivo para serem invadidos e atropellados por uma nação, +que se dizia alliada: porém que a ter logar aquella intimação +ameaçadora, eu me defenderia conforme o direito natural, e os limites +desta praça, que sempre fora respeitada por todas as nações costumadas a +descançar á sombra da bandeira portugueza. + +Vendo que os inglezes não socegavam, e que eram baldados os esforços da +mais estudada prudencia; querendo salvar a honra, e a paz constrangida +pelo nosso mais antigo alliado; não devo demorar por mais tempo a +necessaria participação ao governo chinez. Este como protector da cidade +fundada por sua concessão em seus dominios, da qual recebe foro a seu +contento; prestará com brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a +participar-lhe todas as circunstancias, não obstante saber quão tristes +se tornarão as suas providencias, se o almirante não cessar da sua +contumacia. + +O senado tomará como hostil o procedimento que tiver por fim desembarcar +tropas inglezas nesta cidade; declara que se defenderá até o ultimo +extremo. Protesta contra taes procedimentos: a responsabilidade recaírá +sobre os aggressores. A razão anima os habitantes desta cidade, que +tanta honra e gloria tem dado á nação portugueza em sua não interrompida +posse. + +[Nota: Setembro 16] + +Quem não esperaria moderação nos britannicos, pela leitura daquelle +protesto? Retorquiram!--Sendo os offerecimentos liberaes de Lord Minto +rejeitados pela desleal conducta do governo macaense[36], e os esforços +da nossa parte a fim de livrar esta cidade da invasão franceza, e +querendo nós conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a +nação britannica: somos arrastados pela inexperada conducta dos +macaenses a tomar medidas, que podem offender os chinezes; mas o senado +responderá por tudo. + +Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve os +soldados inglezes occuparão Maçáo. A nossa tenção, quando chegar esse +momento, é desembarcar tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade á +ponta de bayoneta. Consideraremos qualquer opposição como rebelião +directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos, +deve o Senado admittir já as tropas britannicas. + +[Nota: Setembro 19] + +Foi recebida esta intimação, quando chegava outra dos mandarins do +destricto, para não deixar o Senado, desembarcar as tropas inglezas. O +governador remetteu-a por copia ao almirante, com a seguinte carta. + +Agora me foi presente a vossa intimação! Com pesar vejo nella, tratada +de infiel a conducta do governo desta cidade por não admittir, contra o +seu dever, guarnição ingleza! E que tomareis como acto hostil qualquer +resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a tantos males, +introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as rasões que vos +expuz; extranho caracterisares este governo de mal intencionado no +cumprimento dos seus deveres. Confesso que da minha parte os tenho +modificado, julgando continuar assim a distincta amizade dos respectivos +monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa intimação: sendo bem +examinada a ultima parte em que dizeis cesserá o vosso rigor, +admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis isso sem +nos dar motivo para desconfiar das intenções britannicas; e sem que os +chinezes se offendam de tão escandaloso procedimento. Posso +assegurar-vos, que elle não só ha de ser prejudicial a Macáo: a +companhia ingleza soffrerá tambem os seus effeitos. + +No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e +Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.--O protesto de Vossa +Excellencia, será apresentado ao almirante, assim como a intimação dos +mandarins. Nós sabemos o que elles são: o almirante não fará caso +delles. Sendo preciso concluirá este negocio com o Suntó. + +É memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de 1808. +Achavam-se ás mãos com os piratas da China, e ameaçados, pelo almirante +inglez, de serem atacados á bayoneta. Mas quanto maiores eram as +adversidades, mais se engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se +publicou no Senado a injusta, cruel, e atroz intimação da força ingleza, +gritaram todos:--Só depois de morrermos na defesa destes muros +levantados por nossos maiores, poderão entrar esses barbaros, que não +podendo tomar nossas casas pela hypocrisia, tentam fazelo com ameaços. O +capitão mór José Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas de amor +patriotico, disse para o governador;--Irei para o logar mais arriscado, +lá darei a vida na defesa do meu posto--Bernardo Aleixo, consummado em +prudencia, não soffreu ser vencido em valor. Dirigio-se ao Ministro +Arriaga, dizendo:--Honrado collega, com taes companheiros não serão +arrebatados os lares macaenses. Devemos acabar de ter contemplação com +homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha +residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do monte, +confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico; e +fiquem todos na intelligencia, que ella não se renderá em quanto eu +existir. + +Quem poderá escrever os dons naturaes e do estudo, desenvolvidos pelo +magnanimo Arriaga neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que +tinha accendido nos peitos macaenses, e persuadilos, que não se offendia +em cousa alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com +permissão do Senado; e talvez isso desse novo realce á gloria dos +portuguezes; afiançou não ser longa a demora dos inglezes em Macáo. +Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto estava ao seu alcance +para livrar a cidade da invasão ingleza; mas que em todo esse andamento +haviam chegado os negocios a tal extremo, que a julgava necessaria para +ensinar os britanicos, pela experiencia, que os macaenses não toleram +invasores. + +Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o +desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de +confiança. O Governador foi para a do monte: e o Capitão mór para a de +S. Francisco. Commandava então a guarnição da praça, o Senhor José +Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu elogios do Governo +por saber conciliar as qualidades militares com as virtudes civicas. + +No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capitães Robertson, e +Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o Governo de Macáo, +ácerca do desembarque da tropa; e levaram a Bernardo Aleixo a carta +seguinte. + +Tive a honra de receber a vossa participação, diz o Almirante, em que me +informais da sabia e leal determinação do Senado, em adimittir um +destacamento inglez na defesa desta cidade. É grande o meu prazer entrar +em Macáo como sincero amigo, e sem quebrar-se a antiga amizade dos +nossos monarcas. Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas, +obediencia e respeito. + +Quão differente linguagem da que empregou no dia 17! Em quanto os +macaenses não cederam á tenacidade britanica, éram infieis; agora que +pareciam afrouxar na defesa dos seus direitos, são leaes e sabios! +Ver-se-ha mudarem de linguagem em pouco tempo. + +No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo Aleixo, +e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes. + +1.^o As leis do paiz regerão com toda a sua plenitude. + +2.^o Os crimes contra os Chinezes, seguirão o julgado estabelecido. + +3.^o O destacamento inglez será subordinado ao governo desta cidade, +combinando com o Capitão Robertson, em casos extraordinarios. + +4.^o Nenhuma outra bandeira será arvorada em Macáo, além da portugueza. + +5.^o As munições do destacamento entrarão nos armazens publicos, ás +ordens do governo desta cidade. Os inglezes terão permissão para +beneficialas. + +6.^o Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste porto não +serão interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios +inglezes ficarão no mesmo estado em que se achavam antes desta +convenção. + +Depois de assignada, o Senado fará diligencia para evitar complicação +com o governo chinez. O governo de S. M. Britanica fica responsavel ao +Sr. D. João VI, pelas consequencias deste tractado. + +Desembarcaram as tropas sem tumulto; aquartelaram-se na feitoria de +Bernardo Gomes de Lemos, e nas fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O +Almirante requereu estes dois ultimos quarteis, para não haverem +disturbios. + +Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e +respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de lingoagem: +temeu logo que os britanicos insultassem os Chinezes. A intenção dos +sobrecargas e do Almirante, éra de ir pouco a pouco, escondidos na capa +da amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que +o Governo de Macáo avisasse ao de Cantão, que tudo aquillo procedia da +intima alliança entre as duas Côroas de Portugal, e Gran-Bertanha. + +No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licença para enviar +ao Suntó o tractado feito com o Senado, antes de entrarem as tropas +inglezas em Macáo. Já a esse tempo o Suntó estava sciente de tudo quanto +se tinha feito em Macáo. + +No dia 8, começou o almirante, com os seus, a dirigir queixas ao +governador, pelos insultos, que faziam os chinezes aos britannicos; e +dirigiram-lhe a participação seguinte.--Somos obrigados, com pezar +nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso destacamento +na fortaleza de monte, a fim de evitar a communicação com os chinezes; +por quanto já espancaram alguns officiaes, e esta manhãa insultaram +outros de modo, que se não estivessem dentro dos limites do quartel, +haveria grande desordem. Se o destacamento se estabelecer na fortaleza +do monte, acabar-se-ha a idéa de perigo. Asseguramos-vos a repugnancia +com que fazemos esta applicação, mas somos a isso obrigados para evitar +males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes, de quem +temos ouvido dizer está fazendo grandes preparativos de guerra. Seria +bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para receber o nosso +destacamento, fizesseis o mesmo á proclamação do vice-rei de Goa. + +Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que +os havia descripto o capitão Laperouse: e que Bernardo Aleixo não +possuia o talento e virtudes exaradas por aquelle celebre navegador nas +paginas da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illusão em +que estavam. + +Não tenho duvida em passar o vosso destacamento para a fortalesa do +monte: sendo necessaria para defeza contra os francezes, está nos termos +da ordem que recebi de Goa[37]: porém sendo o motivo dessa exigencia +evitar a communicação e disputa com os chinezes, estou certo de que na +feitoria, onde se acha aquartelada, observada a disciplina que hade usar +na fortaleza, conseguirá o mesmo fim sem dar logar a ciumes da parte dos +chinezes; causa sem duvida de males maiores do que pretendeis evitar: e +de mais, isso não é conforme com o tractado, que fizemos. + +--A desconfiança do governo chinez tem augmentado pela occupação das +fortalezas da Guia, e Bom-parto com tropas britanicas. Assim acrescerá +mais em prejuizo do commercio das duas nações, que na união, com os +chinezes tem igual parte nesta cidade. A nação britanica não consentirá +em plano algum, que destrua esta união: e a mim não é permittido +admittir defeza opposta á lealdade, que este governo tem á constituição +do imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama +parte do mesmo imperio. + +Ainda que é forte a razão que me assiste, maior será o meu pesar, quando +pareça falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer +os serviços de S. Magestade Britanica, ao S. D. João VI. Elles exigem, +que espereis a resposta do governo chinez, aos artigos da nossa +convenção, que não pode alterar-se para não sermos obrigados a fazer +outra participação. Sería agora passo arriscado, pelo escrupulo dos +Chinezes ácerca das intenções britanicas. O Senado já mais deixará de +cooperar no que for util á nação britanica. Agora mesmo acaba de pedir +aos mandarins do districto, providencias para evitar, que os chinezes +insultem os vossos officiaes. + +Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de Goa. Tambem +fiz publicar a proclamação segundo o costume deste governo. Vivei na +intelligencia, que não esconderei o que vos possa interessar, não +offendendo o decóro desta cidade. + +De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de +Hiang-san, aos quaes o procurador, José Joaquim de Barros, respondeu +neste espirito.--Eu o procurador da Cidade de Macáo, mandarim de +Hao-king, remetto-vos toda a nossa correspondencia com os inglezes, a +fim de conheceres a verdade. O Senado remetteu ao Almirante todas as +vossas chapas, (avisos) nestas circunstancias é o que podemos fazer.-- + +O mandarim respondeu:--Pelo que respeita ás cartas do Almirante, ainda +que as tenho feito interpretar, não posso entender o seu verdadeiro +sentido: espero que o declarareis ao portador desta para minha +intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Gôa não prevalece contra os +tractados existentes do Governo celestial com o vosso Rei. Em quanto ao +desasocego dos moradores chinezes em Macáo, depende de vós: fazei com +que os inglezes tornem para os seus navios, todos ficarão em perfeita +quietação.-- + +[Nota: Outubro.] + +No dia 16 remetteu outro aviso. + +--Sei que fôra apresentada a minha carta aos inglezes para saírem de +Macáo, e que responderam terem vindo para defenderem Macáo dos +francezes, visto não o poder agora fazer o vosso Rei; e que para saírem +precisam que venham soldados portuguezes! + +É inegavel ser Macáo territorio da China, assim como ter-vo-lo concedido +a celestial dynastia, attendendo a virdes de tão longe, e quererdes +repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos, não só vos tracta sem +differença de seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de +beneficios.[38] Os francezes não costumam insultar as terras deste +imperio: quando usassem agora commetter essa injustiça, os inglezes +deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso +exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao +Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que embarquem +o seu destacamento sem demora.-- + +No dia 17 sabendo o mesmo mandarim, que os Chinezes emigravam de Macáo +assustados pelo ameaço da guerra, mandou outra chapa ao procurador, +offerecendo-lhe tropas para auxiliar os portuguezes, e animar os +Chinezes a fazerem o trato do costume, para não soffrerem os habitantes +da cidade por falta de alimentos. + +(18 de Outubro.)--Mostrei a vossa chapa de hontem ao Almirante (tornou o +procurador ao mandarim) assegurou-me ir a Cantão ultimar este negocio +com o Suntó. Desejo que vos empenheis no bom tractamento para com elle, +visto ir encarregado de negocio tão importante. + +No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos +sobrecargas).--Capacitesse V. Exc.^a da grande importancia, que é para +as duas nações Portugueza e ingleza, accommodar em breve a +desintelligencia, que reina entre nós e os Chinezes. A viagem do +Almirante a Cantão, dirige-se a esse fim; mas é preciso que os seus +intentos sejam sincenramente narrados ao Suntó. Só o padre Rodrigo o +pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc. faculdade para elle +acompanhar o Almirante. O Governador concedeu a licença pedida. + +Quando em Macáo se esperava que fossem diminuidas as calamidades, +augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta seguinte: basta +meditala com reflexão para se conhecerem as intenções britanicas. + +--Soubemos esta manhãa--ter chegado de Bombaim outro destacamento. O +Almirante ordena que desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que +mande fazer os arranjos necessarios para esse fim. Alcançaremos grandes +vantagens se persuadires os chinezes, que são tropas mandadas pelo vosso +Rei; e que desembarcadas estas embarcarão as que se acham em terra. Para +dar mais força a esta lembrança pode V. Exc. mandar entrar os navios com +bandeira portugueza. As objecções dos chinezes são de pouca entidade. +Para este segundo desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos +licença para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns +macaenses infieis ao Senhor D. João VI; pois enviam aos mandarins +representações desfavoraveis aos britanicos. Da sua má conducta nascem +os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. não dá remedio a tam +grande mal, o Almirante enviará para o Brazil as pessoas suspeitas.[39] +Esta carta demonstra bem a protecção levada pelos inglezes a Macáo. 1.^o +soberba, 2.^o falsidades, 3.^o arrogancia fraudulenta, 4^o calumnias, +5.^o despotismo horrivel. Bernardo Aleixo usando da sua consumada +prudencia, respondeu nestes termos. + +(Outubro 21.)--Dizeis ter ordem do Almirante para desambarcar tropas +novamente chegadas! E desejais, que eu dê a entender aos chinezes, virem +da parte do Sr. D. João VI! Nenhuma duvida teria no seu desembarque, se +as circunstancias decorridas depois que desembarcaram as primeiras não +tivessem de dia em dia complicado mais este negocio com os mandarins. +Effeituando-se este segundo desembarque antes de conferir o Almirante +com o Suntó, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao commercio, já +suspenso em Cantão. Accresce ter eu agora recebido, ácerca dessa tropa, +protesto, que devo tomar em muita consideração. Esta cidade tem soffrido +muito com a vossa expedição; e a meu cargo está vigiar por seus +interesses. Não me consta haver aqui morador algum infiel á Caza de +Bragança, apesar de ser dever meu cuidar nessa indagação. + +(Outubro 21.)--No mesmo dia, escreveu o mandarin de Hiang-san, ao +procurador de Macáo, neste espirito.--Consta-me chegarem ahi mais tropas +inglezas; jámais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito dos +seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Suntó, de que faltais ao +vosso dever. + +(Outubro.)--De 21 a 28 houveram disturbios entre os inglezes e os +chinezes. O procurador representou aos mandarins, que não tinha leis por +onde castigasse os chinezes em casos taes; e que para isso exigia +providencias.--Aquelles tornaram. Não são precisas leis para castigar +crimes, que jámais devem existir neste imperio. Embarquem os inglezes, +tudo fica remediado.--Não davam resposta, á exigencia de providencias. + +(Outubro.)--Em 29 escreveram os sobrecargas ao Governador:--Sabemos com +certeza não serem as partecipações de V. Exc. (ácerca do auxilio +britanico) expostas ao Suntó como deviam; antes sim pelo contrario. +Rogamos a V. Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico, +e que esta declaração seja remettida ao Almirante para elle mesmo a +entregar ao Suntó. Extranhamos a repugnancia de V. Exc. em seguir o +exemplo do Vice-Rei de Goa, isto é, animar os portuguezes contra os +nossos inimigos. Se os moradores desta cidade fossem assim admoestados, +desejariam o nosso auxilio em logar de o aborrecer.-- + +(Outubro 30.)--Entre as difficuldades, que vos apresentei, tornou +Bernardo Aleixo, foi uma a complicação com os chinezes. Tenho +conhecimento do systema do seu governo por longa experiencia adquirida +na pratica; sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ +o máo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui +considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado +desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao exercicio do meu emprego) +ser qual quer opposição do governo chinez, desembaraçada pelo Almirante +com o Suntó; agora vejo depender deste governo a ultimação do negocio. + +O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os fins da +vossa expedição: se tem havido desconfiança nos mandarins, não é +motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua +correspondencia entre vós e os chinezes. + +Já vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um só deixa de +respeitar a caza de Bragança, costumada a encher esta cidade de +beneficios em honra do seu governo, e gloria de seus moradores. Porém +como não lhe seja vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, não +deve extranhar-se a cada um chorar a sua desgraça: sem blasfemar da +causa, aborrece os effeitos. + +Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das +amas chinezas--que se retiram. Os infelizes que tem na labutação diaria +o seu recurso, lastimam-se pela escacez e carestia dos generos +alimentares. Os mais abastados lastimam-se por ver chegar o tempo de +fazerem suas negociações, e terem ainda as mercadorias empatadas por +falta de gyro, ha cincoenta dias. Até os navios estão ainda por fabricar +á mingua de artifices, que tambem fugiram. Os empregados publicos vendo +parar o commercio, lastimam-se por saberem, que delle tira o estado +rendimento para pagar-lhes. Os mesmos habitantes chinezes, dados ao +commercio, tem emigrado e levado até o mais inferior dos seus trastes. +Isto era de esperar de homens pacificos ao verem apparatos de guerra. +Além disso ameaçados pelos mandarins, que julgam a constituição do +imperio atacada pela vossa imprudencia. + +Á vista do exposto não admira haverem descontentes, que deplorem a sua +desgraça, e aspirem ao socego deste fiel estabelecimento, que ha 252 +annos tem sempre respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este +quadro se um tal povo necessita de proclamações para ser fiel ao Rei a +quem adora? + +Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que +exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o +que fez pelo modo seguinte.--O chefe da companhia ingleza accusa-vos de +não teres enviado as minhas chapas ao Suntó, ou que mandando-as lhes +viciastes o texto. Não posso crer teres procedimento alheio do vosso +emprego e caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes +ao Suntó: eu envio as copias ao almirante para as conferir com elle, e +ficar desse modo illesa a vossa reputação. + +Os sobrecargas responderam á carta de trinta pelo modo seguinte:--A +vossa carta encheu de magoa os nossos corações pelas circunstancias em +que se acham os habitantes de Macáo; tudo nasceu da conducta do Senado: +se adoptasse o nosso systema, não teria agora de vêr essas lastimas. Os +macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa expedição; e +fizeram repetidas instancias ao governo chinez, pedindo soccorro contra +os hostis procedimentos britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o +manejo do Senado motivaram todos os males.--Em verdade dissemos, que o +almirante removeria todos os obstaculos em Cantão; assim aconteceria se +o governo de Macáo se unisse cordialmente com o almirante. + +Os esforços que V. Ex.^a promette fazer em suas applicações ao governo +chinez, são para nós de grande importancia. Sabemos que hão-de produzir +bom affeito. Estamos persuadidos, que só o governo de Macáo pode remover +as presentes difficuldades e miserias. + +Grande documento é este para augmentar, se é possivel, a honra dos +macaenses, pelo valimento que tem com os chinezes. No principio da +carta, invectivam os sobrecargas aos macaenses; no fim pedem-lhe +misericordia! Era tal a ambição, ou a impudencia daquelles bretões, que +diziam em face ao governo de Macáo serem motivadas as calamidades +daquella cidade pela ignorancia dos chinezes, e manejo do Senado! Quem +não vê provir tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se +daquelle nosso estabelecimento? Quem poderá capacitar-se de ser aquelle +empenho unicamente sustentado para guardar Macáo aos portuguezes? Em +pouco sairá o almirante da illusão em que o tinham os sobrecargas. + +O ultimo paragrafo desta carta merece particular attenção: O governador +despresou as argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.--Vejo a +necessidade que tendes de novo recurso deste governo ao de Cantão: O +Senado já enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos +remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a +vosso respeito. Faço isto para ver se acabam as vossas desconfianças. + +Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que até agora equivoco) +farei novas representações ao governo chinez sempre que me indiqueis a +forma de applacar a tormenta, que vos ameaça, pela desconfiança dos +mandarins superiores. + +Á vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem não esperaria +moderação nos sobrecargas? A carta seguinte mostra o contrario! + +[Nota: (Novembro 3.)] + +--Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e +descarregando navios britannicos em Macáo.--Em virtude de ordens do +almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.^a que mande apromptar +armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas embarcações. +Esta medida nasce da oppoção que os chinezes fazem ao auxilio dado por +nós a esta cidade. Esperamos que V. Ex.^a não recuse os seus extremosos +esforços em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do governo de +Macáo são bagatela em comparação dos que temos soffrido pelo embargo do +commercio britannico (em Cantão) só por usarmos a generosidade de +querermos dar segurança a esta cidade: Assim esperamos a ordem para a +descarga, sem dilação. + +Não tenho duvida em prestar a minha condescendencia á vontade do +almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo sou forçado a dizer o que +sendo publico, admira ser por vós ignorado. As leis deste paiz só +admittem navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o +direito das gentes. Applica-se aos navios de entrada e saída de Cantão, +até poderem seguir o seu destino. Achando-se em iguaes circunstancias, +qualquer navio da companhia, não haverá duvida na sua admissão; porém se +a descarga, que se pertende fazer em Macáo provem da opposição dos +chinezes ao commercio britannico, tenho grande embaraço no cumprimento +do meu desejo. + +Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem só +carregações neste porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se +o commercio inglez está prohibido em Cantão, como o poderei admittir em +Macáo, sendo dominio chinez, sómente aforado aos portuguezes debaixo de +certas condições, que vós, dizendo auxiliar, pretendeis romper? + +Accresce não haver logar para tão grandes carregações: por falta de +gyro, acham-se todos os armazens cheios de generos vindos na monção +ultima. Dizeis que são grandes os vossos sacrificios, e os nossos +bagatela! Os sacrificios, neste sentido, não devem considerar-se pelo +valor das riquezas: por perderes muito não se segue, que não sejam +maiores os nossos sacrificios perdendo tudo. Lançais as culpas das +vossas perdas sobre nós, e que faremos a vosso respeito? O tempo fará +justiça ao nosso procedimento[40]. + +Agora (apezar de tudo) é tal o meu desvelo em vos servir, que se algum +navio se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga, terá os +soccorros necessarios como se pratica entre povos civilisados; sem +offensa dos laços domicilarios e privativos, sustentados pelo esforço e +gloria da Nação Portugueza. + +Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os +britannicos: aquelles não só maltractavam estes, encontrando-os nas +ruas, mas tambem lhe apedrejavam as janallas. Por mais que o procurador +do Senado exigisse providencias dos mandarins, a resposta éra sempre a +mesma.--Sáiam os britannicos da cidade, e tudo ficará em socego.--Quando +os inglezes estavam mais teimosos em descarregar os seus navios em +Macáo, baixou a seguinte admoestação do Suntó aos sobre-cargas. + +Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso +Imperador se manifesta como o céo, abrange tudo: considerando elle que +os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito tempo, obedientes e +politicos, concedeu aos europeos licença para negociar em Cantão; +reputando-vos como individuos da mesma familia. Vós o tendes +experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes na +China. Logo não devieis trazer navios cheios de soldados, nem +desembarcalos contra as leis do imperio. Macáo é cidade edificada em +terreno chinez: a dynastia passada concedeu aos portuguezes +estabelecerem-se alli; a presente, em virtude da sua antiga posse, +deixou-os ficar como d'antes; porém debaixo de certas condições. A +nenhuns outros europeos se concedeu privilegio semilhante! Como +pertendeis vós agora persistir em Macáo? Dizeis recear venham os +francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a pertubar as +terras deste imperio: e quando venham com muito socego os esperaremos; +vindo desfalecidos, e sendo poucos contra muitos, sem batalha ficarão +vencidos. Terão a sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser +amigos dos Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes! +Porque não obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou porque não +os esperais fora das ilhas da china para os baterdes quando cheguem? Não +é justo estares em Macáo quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo +a união mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo +perdeis o direito, que haveis á nossa benevolencia. Por ventura não +sabeis o que vos é interessante? Podereis existir sem commercio? Por +certo não: pois quanto mais depressa embarcardes os soldados, mais cedo +se vos abrirão as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, não tereis +communicação com a terra. Ponderai bem o que vos proponho, e não me +incommodeis com mais peditorios.-- + +Em quanto o governo de Macáo pedia aos mandarins do districto, que o +ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes, nas leis do +imperio, a fim de não se irritar contra elles o Suntó, chegou outra +chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan, em que dizia:-- + +Eu o Governador das duas provincias de Cantão e Kuansi, faço saber ao +mandarin de Hiang-san, que da entrada dos soldados inglezes em Macáo, +são culpados os seus moradores; pois deviam tela embaraçado. Mas +examinando o seu antigo, e moderno procedimento, achei serem sempre +gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo toléro o erro commettido. + +Ácerca dos navios inglezes, já consultei o Kuam-pu, a fim de lhes +permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que pertence aos soldados, +dei parte ao Imperador; eis a sua resposta:--Se os inglezes tiverem a +ousadia de presistirem em sua teima, lançaios fora com o nosso +exercito.--Em poucos dias elle marchará sobre Macáo: no entanto +recommendai aos portuguezes a segurança da fortaleza do monte. Adverti +ao Procurador, que não se fie desses inglezes. + +Como estes não fossem promptos na execução das ordens do Suntó, +augmentou-se a soberba e desconfiança chineza de modo, que julgaram +tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes. +Desembarcarem estes as tropas já não éra a maior offensa: o que mais +ferio o orgulho chinez, foi não obedecerem logo ao mando do Imperador. +Tomaram os mandarins calor tão ardente, que não deixavam passar um dia +sem repetirem intimações para que os inglezes saíssem de Macáo: eis o +seu espirito. + +Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Macáo apossaram-se das +igrejas e das fortalezas! Em pouco tomarão vossas cazas possuidas ha +seculos; depois tirar-vos-hão mulheres e filhos: não podemos soffrer tam +grande offensa. Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Móa. +(proximos á cidade de Macáo) afim de os anniquilar. Despresaram a graça +feita pelo Suntó; soffrerão o peso da força, que marcha contra elles. +Esses inglezes sendo homens não tem coração humano; conhecem os males +que tem feito, e não se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e +somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um só inglez +escape á morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e perguntai-lhe se +ainda querem teimar contra a justiça, que os ameaça.--O procurador +respondeu:-- + +--Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos sobrecargas +inglezes; não despresam as graças do Suntó; acham-se promptos para +retirar-se; mas não o podem fazer de repente. Os inglezes vieram com +designio de nos auxiliar assim julgo ser mal fundada a vossa +desconfiança. Não precisamos do vosso exercito; viria fazer maior damno +á cidade. Sabeis quaes são as leis que regem este nosso estabelecimento: +não deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se ás muralhas desta cidade +tropa chineza, sem que a pessa, e é cousa, que ainda me não veio á +lembrança. Não é justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos +auxiliar; trouxeram-nos incommodos e perdas.-- + +É notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense para com os +inglezes, quando estes só lhe dirigiam offensas! Ao mesmo tempo enviaram +os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta seguinte. + +--A situação em que nos achamos é triste: temos recommendação do +Almirante para evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa +reconciliar-nos com os chinezes. Se esta recommendação for confirmada +aos manderins, por V. Exc. por certo diminuirá o seu rigor para com os +inglezes. + +Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava +socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os mandarins, sobre a +retirada da espedição britanica sem efusão de sangue, donde resultou o +tratado seguinte. + +Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e +o commandante das forças britanicas com os sobrecargas da selecta +companhia, desejando retirar o destacamento inglez, decorosamente, +ajustaram: + +1.^o O Ministro Arriaga tractará com os mandarins ácerca da retirada das +forças britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se +achava, antes da sua entrada nesta cidade. + +2.^o Exigindo este negocio a cooperação do Almirante, Miguel de Arriaga +irá a Wampo-o, para se concluir alli do modo mais vantajoso ao vinculo +das tres nações. + +3.^o Concluido este negocio cessará a prohibição de mantimentos para +sustento dos inglezes. + +4.^o Os mandarins farão suspender immediatamente a marcha das tropas +chinezas dirigidas a esta cidade. + +[Nota: (Dezembro 11.)] + +A presente convenção mostra a confiança, que o Ministro Arriaga tinha em +domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel, que só a +politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de um homem pudesse +conter a justiça chineza, sustentada por 80 mil homens! A carta seguinte +dirigida a Bernardo Aleixo, dá bem a conhecer o dominio que Arriaga +tinha na vontade dos mandarins. + +(Dezembro 11)--Depois que assignámos a convenção esta manhã, fui ao +pagode, onde me esperavam os mandarins: tive larga discussão com elles a +fim de soltar difficuldades proprias a uma nação escrupulosa e +desconfiada; todavia consentiram em tudo o que lhes propuz. Além disso +capaciteios das boas intenções britannicas (apezar de terem sido más +para nós); naquella intelligencia asseguraram-me ficar o commercio +inglez no mesmo pé e systema antigo--Despedidos os mandarins; tornou +Arriaga á cidade contente por ter concluido negocio tão espinhoso por +meios tão honrosos para a nação portugueza, como lisongeiros para o +negociador. + +Sabendo o mandarin de Hiang-san, que o novo governador Lucas José de +Alvarenga, instava pela posse do seu emprego, remetteu ao procurador a +chapa seguinte. + +--Da entrada dos inglezes até hoje, tem o antigo governador dirigido bem +este negocio; agora constame, que o successor insta para tomar posse e +que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende fazer: não é +conveniente: os inglezes entraram no tempo do seu governo, nelle devem +saír. Sabemos que o novo governador veio em navio inglez; quem nos +assegura não ter elle correspondencia com esses homens? Não é justo nem +conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos extraordinarios +nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando os inglezes saírem +de Macáo e ficarem todos em socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os +costumes. + +[Nota: (Dezembro 11 de 1808.)] + +No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para +Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da náo se +avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue. Em 14 de Dezembro, +já de volta fez Arriaga, a participação seguinte a Bernardo +Aleixo.--Assim que cheguei á falla da náo, fiz saber ao almirante, qual +era a minha commissão: respondeu ter já ordenado o embarque das tropas, +e que desejava ser grato ás officiosas declarações anteriormente feitas +pelo governo de Macáo; pois eram veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a +civilidade propria de sua pessoa: disse que esperava do governo de Mocáo +o bom serviço de remover qualquer difficuldade, que de novo apparecesse. +Despedi-mo-nos com as mesmas ceremonias da entrada, e não querendo elle +ceder veio acompanhar-me ao portaló. + +Logo que o ministro Arriaga concluio a sua negociação com o almirante, +dirigio-lhe o governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta +seguinte. + +(Dezembro de 1808.)--Os officios de V. S., de 11 e 14, manifestam o +grande trabalho, que teve na conferencia com os mandarins: Pelo contexto +dos mesmos se conhece a excessiva applicação e desvelo com que V. S., +além dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com heroico +patriotismo, a cruel revolução que ameaçava esta cidade. + +Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais importante +serviço á patria. Á força de tão efficazes e singulares deligencias +_devem os inglezes_ fazer a sua retirada sem effusão de sangue, e os +macaenses o socego da cidade. + +(Dezembro de 1808.)--No dia 16 começou a retirar-se o destacamento +britannico; depois de se effeituar o embarque de tudo quanto lhe +pertencia, cuidaram logo os sobrecargas em obter licença para +desembarcar as suas mercadorias em Cantão. No 1.^o de Janeiro expedio o +Suntó a chapa seguinte. + +--Qu-Hiung-Kuang, Suntó (vice-rei) de Cantão, faz saber a todos os +europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em Macáo jámais se +lhes devia permittir commerciar neste imperio. Com tudo lembrando-nos +que o seu rei offerecera tributo ao nosso imperador, relevamos a +offensa, que nos fizeram pela sua entrada em Macáo. Agora depois de +enviarem os soldados ás suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos, +perdão com muita humildade, a fim de se lhes permittir commerciar neste +imperio. Conhecendo a misericordía do nosso imperador, cedi ás suas +repetidas supplicas, deixando que desembarquem as mercadorias, e possam +vendelas nesta cidade. Devem receber esta graça como um beneficio +extraordinario. Assim mostramos, que as leis chinezas tem enfraquecido +com o tempo: no futuro haverão medidas mais rigorosas. Daqui em diante +se algum europeo se atrever a quebrar as leis do imperio será lançado +fora para sempre. + +Assim ficáram os inglezes no mesmo estado em que se achavam antes de +tentarem invadir Macáo; perdendo a companhia enormes sommas dispendidas +naquella empreza. + +Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram della, farei ver agora o +motivo porque atentaram. + +A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D. João +VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez julgar aos bretões, +que Bonaparte se apossaria de Portugal, assim como o tinha feito da +maior parte da Europa. + +Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe, seu inimigo, seu +inimigo, como havia sido o antigo, praticaram a lição tomada dos +hollandezes; isto é pretenderam apossar-se do que ainda tinhamos no +Oriente. + +Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes, +não lhes convém possuilos outra nação, que não seja a portugueza, já +pela sua antiga alliança, já por não a temerem. Avisaram os agentes da +companhia, para guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte +do mundo, a fim de não serem tomadas pelos francezes; na esperança de +que voltando Portugal á sua independencia, tudo ficaria como dantes; e +se não podesse livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos +ainda no Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e +Macáo, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez. + +Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os +sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam +desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os +britannicos não podiam alcançar. Sendo ricos espalharam dinheiro na +feira de Cantão, esperando que havendo alguma desintelligencia entre os +portuguezes e os chinezes, estes os preferissem. + +Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas +em seculos tenebrosos; com tudo são menos culpados do que os inglezes; +por quanto estes não são menos violentos em seculo mais illustrado. +Veja-se no quadro seguinte a differença de ambição e despotismo das duas +nações. + +--Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100 milhões de homens +de castas, côres, e raças differentes: é a India ingleza. A Soberania +não pertence á nação; exemplo unico na historia do mundo; é propriedade +de uma companhia de negociantes! Viram-se os cartiginezes enriquecidos +pelo commercio, conquistaram a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o +corpo inteiro da nação, foi quem adquerio pelas armas importantes +possessões. Em tempos modernos, a companhia hollandeza adquirio grande +esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da Asia, eram +armações fortificadas, e não colonias. + +A companhia ingleza sem perder o commercio dos portos de mar, estendeu o +seu dominio a mais de trezentas leguas pelo interior das terras. As +regiões mais ferteis e mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de +fazenda amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados, ostentam luxo +asiatico, e reinam com orgulho. + +Especulações mercantis elevaram este thesouro de nova especie, que +subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria dos Principes, +respeito dos povos, ou pelo tempo que toléra e consagra nefandas +usurpações. + +As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que são +vendidas em leilão, o mais vil inglez, em tendo algumas livras e +comprando acções da companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem +fortalezas, náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode vir e +dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do Grão-Mogol, +o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas vezes o Sofi da Persia e Grande +Lama[41]! + +Os portuguezes combateram na India os sectarios de Mafoma livrando desse +modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes +servem-se dos braços sarracenos para agrilhoar os mal fadados bramas. + +Assim vê-se que se nessa época tenebrosa os lusitanos obraram prodigios +na India, vingando sobre os turcos os males que lhe haviam soffrido em +nossa terra, hoje não desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por +quanto o Suntó disse:--Nenhuns outros europeos alcançarão (por merito) +os privilegios concedidos aos portuguezes.--Os sobrecargas confessaram, +que só o Governo de Macáo podia remover as difficuldades e miserias (que +elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem disse:--Estou muito +obrigado ao governo de Macáo pelas suas declarações anteriores; por +quanto eram veridicas e justas.--Taes declarações confirmam a dignidade +do caracter Luzitano, em todos os tempos e logares. + +Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros +nomeados: chegando a Macáo esconderam o que se havia passado alli em +1808, e fallaram do que viram praticar em 1809, pelo modo seguinte.--As +patrioticas applicações e desvelos dos macaenses, adquiriram a esta +cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas as +nações commerciantes a liberdade dos mares da China[42]. Os povos +chinezes congratulam-se com a extincção do inimigo que por mais de 20 +annos os havia opprimido, por serem as forças maritimas do imperio +insufficientes para destruilo.-- + +Accrescentarei o que os sobrecargas não poderam escrever: não foi menor +a vantagem de Macáo e a gloria da nação portugueza, lançar fora daquella +cidade as tropas inglezas, que della se pertendiam apossar. + +Vendo uma memoria do Sr. Lucas José de Alvarenga, Governador que fôra de +Macáo, sou obrigado a contestala para desagravar os macaenses das +offensas que alli lhes derige aquella triste e miseravel jactancioso. + +Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera +motivo a isso outra impressa em Lisboa em 1824; por se achar nella o seu +nome inglorio. Sendo eu quem a escreveu, devo mostrar a razão de não +fallar em louvor do Sr. Lucas. + +Saí de Macáo para Lisboa em janeiro de 1808, e o Sr. Lucas entrou +naquella cidade em Setembro do mesmo anno. Tornei a Macáo em Novembro de +1810, já elle tinha saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher +factos sobre a extincção dos piratas, a fim de completar o meu opusculo, +tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas daquella cidade. +Haviam em tão pouca conta este cavalheiro, que não se atreveram a +confiar-lhe o governo das armas senão depois de fazerem retirar as +tropas inglezas, como fica demonstrado, no officio do mandarim de +Hiang-san. + +O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos +lançados na que se imprimira em Lisboa; isto é, 1.^o O zelo e a +actividade do Ministro Arriaga; 2.^o o valor das pessoas empregadas na +esquadra; 3.^o a existencia dos tractados; 4.^o a entrega dos piratas +5.^o a invasão e a retirada das tropas inglezas; mas offende-se do +silencio guardado a seu respeito; e julga haver nesse procedimento algum +misterio. + +Assim julga o Sr. Lucas não haver exactidão nesta memoria por não fallar +na sua entrada em Macáo, no dia da sua saída, e talvez naquelle em que +fôra encontrado na Sé vestido com trajos de mulher. Confesso não ter +fallado do Sr. Lucas para não ennodoar um escripto consagrado ás +virtudes Luso-Macaenses, com a irregular conducta de tal governador. + +Como fallaria em louvor de um individuo desprezado não só pela sua +conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr. Lucas por fraco obstou ao +mais glorioso triunfo que podiamos obter em recompensa de tantas e tão +longas fadigas: obstou que o chefe dos piratas se entregasse com toda a +sua esquadra no porto de Macáo. Destas e outras acções do Sr. Lucas +devia eu fallar, se escrevesse a historia de Macáo, mas eu apenas me +encarreguei de levar á posteridade dois factos dessa historia, a +destruição dos piratas, e o desembarque e retirada das tropas +britanicas. Não fazendo o Sr. Lucas cousa boa digna de notar-se, julguei +fazer mercê ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em que alli se lançou. + +Sendo este opusculo destinado a louvar as acções dos Luso-Macaenses, não +devia apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario +do que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um +governador, cuja administração foi tempo de martyrio para os macaenses, +não só pela falta de caracter do Sr. Lucas, mas tambem pela grande +rapina do ouvidor Peixoto? + +É verdade innegavel ser tudo quanto alli se praticou de maravilhoso, +devido ao genio extenso e luminoso de Miguel de Arriaga. Assim o provam +as actas do Senado, as cartas de Cam-pau-sai, as de Bernardo Aleixo, e o +hymno cantado na presença dos bons Macaenses, pelo benemerito cidadão +José Baptista de Lima, no dia em que estes celebraram o triumfo de +Miguel de Arriaga pela extincção dos piratas. + +Quando fallei, em 1824, na 1.^a parte desta memoria, ácerca do bom +governo Macaense referime á sua fórma e aos annos em que influio nelle +Miguel de Arriaga, e Bernardo Aleixo. Agora vejo, com admiração, o Sr. +Lucas arrogar a sí os louvores de outros, quando elle ainda nem ao menos +tinha visto Macáo! + +O Sr. Lucas diz, a paginas 23 de sua memoria:--Sei em ultima analyse que +não sei nada, e não sou nada--e a paginas 7 diz:--Tendo eu sido autor de +todos os negocios publicos e mui particularmente este, sería bastante +para dar idéa do objecto contestado, e da falta de exactidão da memoria +impressa em 1824, do espirito, conhecimentos, e fins com que foi +escripta.-- + +O homem que não é nada, e não quer nada pretende roubar a gloria dos que +foram alguma cousa; contestar com falsidades, documentos legaes e +autenticos. Confessa a veracidade dos factos impressos nesta memoria, e +censura o seu autor por não lhe dar a elle o que pertencia a outros! Eis +a falta de exactidão encontrada pelo Sr. Lucas: dahi nasce a sua +desconfiança ácerca do espirito, conhecimentos e fins com que ella fôra +escripta. + +Póde viver certo de que o espirito foi patriotico; os conhecimentos +extraídos, parte das actas do Senado, parte adquerida na presença dos +factos; e os fins limitaram-se no gosto de levar á posteridade os factos +macaenses. + +Arriaga, Bernardo Aleixo, Pereira Barreto, Alcoforado, e outros muitos +empregados naquella empreza, já o mundo os havia perdido quando tive a +honra de publicar pela imprensa as suas virtudes e proezas; o Sr. Lucas +não sendo nada e não querendo nada, esperou que elles morressem para +denegrir não só as proezas, mas tambem as virtudes daquelles varões +illustres! + +--Não posso deixar passar semelhante expressão, diz o Sr. Lucas a pag. +11, por conter noções erroneas e falsas em perjuizo da honra e da gloria +que me provem do resultado de todos os brilhantes feitos na época +sómente do meu governo, e cujo brilhantismo principiou com a minha +chegada e acabou com a minha retirada!-- + +Ainda senão vio maior jactancia. O Sr. Lucas chega aponto de alterar a +fórma do governo só a fim de roubar a gloria que não lhe pertence. + +É elle mesmo quem confessa, apesar do roubo que pretende fazer, a +paginas 42 da sua memoria, não ter influencia no governo.--O Senado, diz +elle, projectou mandar a galera Ulises ao Rio de Janeiro, afim de +cumprimentar El-Rei; oppuz-me; com tudo a galera proseguio--Assim +destroe o mesmo Sr. Lucas as suas argucias. + +Em quasi todas as paginas da sua memoria lançou argumentos +contra-producentes.--Chegaram os piratas pela sua quantidade e força, +diz elle a paginas 43, a dominar os canaes de Wampo-o; então por +circunstancias, apesar das ordens superiores que me embaraçavam a +fazelo, expedi ordens em Setembro de 1809 para serem batidos. O Sr. +Lucas, em seus improvisos desacredita os mesmos a quem pretende elogiar. +As ordens superiores referem-se ao Vice-Rei de Goa: porque motivo daria +este ordem para não se atacar os piratas? Estaria comprado por elles? +Que mais é preciso para saber-se que o Sr. Lucas não cooperara cousa +alguma para a destruição dos piratas, elle mesmo confessa que fôra +obrigado a mandar ordens para serem batidos os piratas? + +Em verdade o Senado, de quem Arriaga éra a alma, foi quem o obrigou a +mandar aquella ordem; logo fica demonstrado pelo mesmo Sr. Lucas, que o +brilhantismo daquella época não lhe pertence, pois até para expedir a +ordem para serem batidos os piratas foi obrigado pelo Senado. + +É certo, diz elle a pag. 46, que um dia depois que recebi parte do +commandante da esquadra, em que dava por verificada a entrega de +Cam-pau-sai, partio Arriaga para a bocca do rio Tygre, dizendo ír a +negocio particular, e é certo que indo, esteve com o cabeça dos piratas; +e é certo tambem que este logo se retirou com toda a sua esquadra; e que +a entrega se não fez, quando a parte do commandante (Alcoforado) a dava +por verificada!-- + +Que mais se poderia dizer em desabono do Sr. Lucas, do que elle mesmo +escreveo? Pois quem diz fizera tudo, não sabendo nada! Quem diz que o +brilhantismo de Macáo principiara com a sua chegada alli, e acabara com +a sua retirada, confessa que tendo uma esquadra vencedora debaixo das +suas ordens, deixara fugir o inimigo depois de se ter já entregado? +Então a quem comprou Arriaga na sua viagem á bocca do rio Tigre, ao +Chefe da esquadra portugueza, ou ao chefe dos piratas? Compraria ambos? +Tudo aquillo é falso; mas quando fosse verdadeiro, provaria que éra +Miguel de Arriaga quem predominava em Macáo. + +Os documentos improvisados pelo Sr. Lucas; e o Officio dirigido ao +Vice-rei, são partos do seu estro, quando se achava dominado pelo furor +de elogiar-se. O enviado inglez, no Rio de Janeiro, servio-se delles +para desacreditar Arriaga, e Bernardo Aleixo na opinião de El-Rei; mas +este desmascarou a intriga, premiou os macaenses, e castigou o Vice-rei, +por ter mandado a Macáo o Sr. Lucas, que desde então já mais obteve +emprego algum. + +Este cavalheiro além de pretender a gloria alheia, deixa ver na sua +memoria o azedume com que a escrevêra! Tentou deprimir os macaenses, e +denegrio a sua estirpe. Um brasileiro jámais deve fallar em desabono +ácerca de colonias povoadas por degradados; por quanto assim que Pedro +Alves Cabral descobrio -----File: 0166.png---\\\\\\-----o Brazil +despejaram-se as masmorras de Portugal. Quando nossos maiores chegaram a +edificar uma cidade no imperio chinez, os criminozos de todo o reino +eram diminutos para domar a sanha dos butecudos e tupinambas nos sertões +do Brazil. + +Timor é o unico presidio que temos além da Taprobana. Só Camões, pelo +respeito devido ao genio, obteve ficar em Macáo servindo o emprego de +Juiz dos orfãos naquella cidade, rica pela salubridade do clima, pelos +alimentos, pela forma do seu governo, e pelas virtudes de seus +moradores. + +O Sr. Lucas não escreveu para fornecer á historia cousas proprias a +fazer os homens melhores; pertendeu injuriar os macaenses com despreso +da razão e da justiça. As providencias que ele diz foram a Macáo em +1783, são impoliticas e desconcertadas: que outra cousa se poderia +esperar de dois theologos no governo de um reino? (Martinho de Mello, e +um frade) visões, argucias, e fogueiras. + +Fallava Martinho de Mello, naquella época, dos incontestaveis direitos +que tem a corôa de Portugal sobre Macáo! Que dirá o imperador da China, +a quem pagamos fóro? Mas quando assim fosse, quem sustentou ha perto de +300 annos esses direitos? Degradados? Por certo não. Martinho de Mello +era tão hospede na historia daquelle paiz, que ignorava haver um decreto +feito em 31 de Agosto de 1629, que prohibe a qualquer degredado, que +alli se refugie, servir os encargos da cidade, e mesmo de eleger para +elles. + +--O Senado de Macáo, composto de degradados que para alli se refugiam, +diz Martinho de Mello, ou de outros similhantes, ignorantissimos em +materia de governo, não lhe importa cousa alguma que diga respeito a o +decoro nacional, nem ao incontestavel direito da soberania, que Portugal +tem áquelle importante dominio!-- + +Fallar assim a povos residentes na China, não é só grande impolitica mas +tambem supina ignorancia das materias de governo. Graças aos generozos +macaenses, que despresando as invectivas dos sejanos, tem sempre +concorrido para tudo quanto é decoroso e interessante a Portugal. O +procedimento daquelle ministro deixa ver que elle tinha mais carencia de +luzes e de virtudes, do que os homens a quem offendeu. + +Nem Martinho de Mello, nem o Sr. Lucas (da viola) jámais poderiam fazer +as proezas que em todos os tempos obraram os illustres macaenses. Thomaz +Vieira, natural de Macáo, sendo governador daquella cidade em 1627, +vendo-a sitiada pelos hollandezes, armou seis pequenas embarcações e foi +accommettelos. Abordou uma grande náo, que tomou, fazendo horrivel +mortandade no inimigo; os restantes fugiram deixando triumfante o +denodado Vieira. + +Os macaenses sempre honraram e prestaram a Portugal, já fazendo despezas +avultadas com os nossos embaixadores ao imperador da China, já mandando +generosos presentes á capital do reino luso, já derramando o proprio +sangue a fim de limpar as costas da China de piratas, já na defeza dos +muros levantados por seus maiores. + +Os governadores exigentes das providencias, que alli mandou Martinho de +Mello, eram similhantes aos que desolaram Macáo em 1626, 1709, 1747, e +mesmo ao Sr. Lucas seu elogiador aprol da tyrannia. Para se avaliar dos +homens que pedem taes providencias, bastará ler a carta seguinte do +Conde de S. Vicente. Tem por objecto responder a El-Rei D. Afonso V, +sobre o oitavo que mandava receber, de todos os rendimentos +particulares; tributo imposto em 1666 pelo vice-rei Antonio de Mello e +Castro. + +--Sr.: a India ve-se de muito longe, e ouve-se mui tarde: assim não me +espanto da fórma com que muitas ordens se expedem, nem do mal com que +outros se guardam[43]. Já um grande ministro disse:--A jurisdicção dos +Reis de Portugal apenas chega a Santarem; dahi para cima tudo é dos +corregedores--Na India a dos vice-reis não chega a tanto; o mais é dos +capitães das fortalezas! Os gentios não tem fazendas, os canarins apenas +cultivam para comer; assim não ha de quem se receba esse oitavo. Das +pedras não se tira mel. Vossa Magestade deve mandar á India quem lhe +faça desses impossiveis, que eu não sei mais do que chorar as miserias, +que vejo. Se isto vai de mim, venha outro; se nasce dos povos, tenha +Vossa Magestade delles piedade. Goa 26 de Janeiro de 1668. + +Se todos os vice-reis fallassem deste modo aos imperantes, não íriam a +Macáo aquellas offenças em logar de providencias; os povos seriam +felizes, os portuguezes respeitados, e os Alvarengas mais commedidos. + +Julgo ter dito quanto basta para fazer arrepender o Sr. Lucas de querer +arrogar asi a honra, que não lhe pertence, e de ser ingrato aos +macaenses que tanto lhe soffreram. Para o Sr. Lucas avaliar, com mais +conhecimento de causa, o espirito e fins com que fora escripta esta +memoria, ahi lhe remetto a copia fiel de uma carta que dirigi ao Senado +de Macáo em 1826, assim como a sua resposta. + + + _Carta dirigida ao Senado de Macáo._ + +Senhores, ainda que separado de vós ha doze annos pela distancia immensa +da Europa á China, o meu espirito esteve sempre comvosco. Havendo no +coração o germen de todas as virtudes, e recebido da natureza alma docil +ás suas impressões, jámais poderia esquecer-me das sublimes qualidades +que possuis. Deviam ser escriptas por outro Andrade como Jacinto Freire, +mas tivesteis a desventura de viverdes em seculo diminuto em escriptores +capazes de dar vida ás proezas dos heroes. + +--Grandes e magnificos foram sem duvida os feitos dos athenienses; mas +quanto a mim, diz Salustio, menores do que a fama. Havendo alli muitos e +grandes escriptores, as proezas dos athenienses foram celebradas no +mundo pelas maiores. Assim o valor dos que as fizeram passa por tal, +qual nos seus exagerados escriptos o figuraram esses preclaros +engenhos[44]--Em nosso tempo não acontece o mesmo; para o mundo saber +das vossas proesas na carreira da gloria servio-se da minha tosca penna. + +O livro que vos offereço é pequeno em volume, porém grande em seu +objecto: basta conter os grandes feitos que praticasteis na extincção +dos piratas. Na segunda parte que ficou a imprimir-se em Lisboa ainda +alcançasteis mais gloria. Na primeira realçam os vencedores de +Cam-pau-sai, na segunda brilha o Senado com a expulsão dos inglezes. +Porém não é elle a mesma cousa, o Leal Senado de Macáo, e os cidadãos +macaenses? Nesse tempo luctuoso viviam todos animados do mesmo espirito; +a todos se ouvia a mesma voz:--Morrer, dizeis, ou mostrar que +descendemos dos Castros e dos Almeidas.-- + +Desculpai, Srs., se desafio a vossa mágoa recordando-vos os illustres +collegas, que por longa serie de annos regeram com vosco esta cidade. +Julgo-os com direito á minha lembrança e aos vossos elogios. Porque +motivo usarão os oradores celebrar só os poderosos? Por que não louvam +elles as pessoas abalisadas em merito e virtudes? Se é preciso celebrar +sempre os grandes, porque não se lembram tambem dos homens que foram +uteis? Não será digno de louvor o magistrado que usando da espada de +Astrêa, por muitos annos, o fez com tanta prudencia, que não ferio +cidadão algum? Magistrado que havia coração tão sensivel e humano, que +não se limitando em fazer a paz e a ventura de uma cidade, pretendia +abranger com esses dons á maior parte do mundo? Que abrazado no sancto +amor da patria, empenhava quanto possuia para engrandecela e +glorificala? Em fim o varão forte que assaltado por intrigas e calumnias +de ingratos, capazes de enfraquecer o espirito de Zeno, as supportava de +animo tranquillo? Vós sabeis que Miguel de Arriaga possuio estas +sublimes qualidades. + +Quem, Senhores, deixará de louvar o illustre José Joaquim de Barros, +quando nesse mesmo recinto, agitando-se a questão se deviam, ou não ter, +accesso os inglezes, exclamou.--Voto que não se deixem entrar; desse-me +o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa, +gostoso darei a vida em honra da Patria[45]. + +Qual de vós, macaenses, nessa crise perigosa houve differentes +sentimentos? Todos repulsasteis o inimigo por modo singular e +extraordinario. + +Do monumento consagrado á vossa memoria, offereci um exemplar ao Sr. D. +João VI; dizendo-lhe que certo de em parte alguma depositar melhor as +proezas macaenses do que em suas reaes mãos, alli lhe entregava feitos +praticados em dias, bem similhantes aos do feliz tempo em que os +lusitanos pelo caminho da virtude subiram ao templo da immortalidade. +Fiquei satisfeito por saber depois, que El-Rei apreciára o livro, onde +se acham exaradas as proezas macaenses; porém será completo o meu gosto +se as julgardes levadas á posteridade por maneira digna de vós. + +Em verdade, Senhores, é preciso ser estupido para não admirar o vosso +animo, e barbaro para com o vosso exemplo não sentir o estimulo da +virtude. Coimbra, Mattos, Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas: +serviram por mais de trinta annos os encargos desta cidade por modo, que +nem Focio, ou Aristides o fez melhor em Athenas[46]. + +Macaenses, se os louvores provém de interesse, devem despresar-se; se a +lisonja tenta enganar os poderosos, deve temer-se; porém quando a +admiração tributa homenagem á virtude deve estimar-se. + +Assevero-vos que nesse opusculo liguei sempre a minha alma ás vossas +acções; se lhes faltam pensamentos animados, por mingua de genio, tem o +grito da verdade, unico preciso para immortalisar-vos. + + + _Resposta._ + +O Senado recebeo com satisfação a vossa memoria, por ver nella +immortalisados os feitos macaenses, na estincção dos piratas, que +infestavam o nosso arquipelago. Em verdade vós ornasteis o vosso e o +nosso quadro com as flores e bellesas de Camões e dos Andrades. O Senado +não perderá occasião, em que vos possa ser util em reconhecimento de tão +precioso presente. + +_Cartorio do Senado, 16 de Novembro de 1826_ + + + FIM. + + + +Notas: + +[1] Sacrifico a minha vida e fortuna á vossa (dizia Cicero ao povo +Romano); só exijo em recompensa conserveis a memoria dos meus serviços + + _Catilinaria IV._ + +[2] M. Thomas. + +[3] Diniz Ode XV. + +[4] O reprehensivel descuido dos nossos auctores agora o pagamos por +castigo, ignorando os nossos proprios successos; e sujeitando-nos a +crêr, e a estimar delles sómente aquella pequena parte, que nos quizeram +contar os inimigos, mais obrigados da dôr, que da verdade. + + _D. F. M. C. 26._ + +[5] Era este Illustre Varão de mediana altura, reforçado, largo de +ombros, mui cabelludo e tinha olhos amarellos. + +[6] Navio de 20 bombardas com 300 homens. + +[7] _Camões, C. X. Est 82_ + +[8] Por estas acções heroicas, ainda que barbaras, pode julgar-se o +valor dos inimigos que tinhamos a vencer. + +[9] Ode XI. Epodo 4 + +[10] Ode XV. Dinis. + +[11] Embarcação de 20 tonelladas. + +[12] Camões, C. X. Est. 12 e 13. + +[13] Jacintho F. de Andrade. + +[14] Cam-pau-sai flagelou as provincias meridionaes do Imperio com +repetidos tributos; e saques aos remissos. + +[15] Foi mui reprehensivel o modo porque obrigaram Arriaga a dacontas do +dinheiro, que seus inimigos divulgavam ter elle levado dos cofres +publicos, em sua administração; sabendo-se em Macáo, os sacreficios que +elle tinha feito em honra da Nação e a bem daquella cidade. Graças +eternas sejam dadas á sua memoria. Além de não dever nada aos cofres +publicos, (como mostrou a Commissão nomeada para lhe tomar contas) ficou +sendo credor de 11 contos de réis; o que foi publico nas gazetas de +Macáo. + +[16] Com especialidade F. A. P. Thovar e Felis José Coimbra. + +[17] Diuiz Ode 34 + +[18] Camões, Canto 2, Est. 100. + +[19] Duarte Nunes de Leão, C. dos reis de Portugal. + +[20] L. J. de Alvarenga, queixa-se do mysterioso silencio guardado a seu +respeito nesta memoria. No fim della direi qual foi o mysterio. + +[21] No suburbio da cidade. + +[22] Camões, Canto 1. Est X. + +[23] Este paragrafo foi composto no dia 9 de Maio de 1824; dia em que o +Senhor D. J. VI proclamou aos portuguezes de bordo da Nao Windsor +Castle; tomou aquelle asilo para escapar aos malevolos que o tinham +cercado desde o dia 30 de Abril. + +[24] Sá de Miranda. + +[25] Allud e a uma maxima de confucio. + +[26] O Imperador observou a seguinte maxima de Confucio.--Respeitos que +te levam vantagem por natureza. + +[27] Promenade autour du monde, em 1817, 1818, 1819, 1820, Carta 68. + +[28] Cidade portugueza na ilha de Timor. Procedia este contentamento por +terem saído de Coupang, cidade hollandeza na parte occidental da mesma +ilha aonde Arago e seus companheiros foram mal recebidos. + +[29] Duarte Pacheco, depois de fazer prodigios na Asia, a inveja, a +calumnia e a intriga trouxeram-o da Africa a Lisboa em ferros. +Albuquerque, de-pois de immortalisar a nação a que pertencia, foi +victima das mesmas furias. Não admira ter Alcoforado em premio de seus +ma-Portantes serviços o governo da pestilente ilha de Timor, onde morreu +na flor da idade. + +[30] Como estariam hoje os brazileiros se Pedro Alves Cabral levasse +taes ordens. + +[31] Vede se esses homens que prestaram serviços, para terem patria, +recusaram as enormes pensões com que pertendem inchar! + +[32] No protesto de Bernardo Aleixo se verá o espirito da intimação. + +[33] Esta correspondencia foi extrahida, por integra, do Senado, mas é +dada aqui em espirito. + +[34] O Governador éra o orgão do Senado. + +[35] Já em 1802 quizeram os Inglezes abusar dos nossos tractados com o +governo Chinez. + +[36] É notavel o modo civíl e urbano do governo de Macáo, e as maneiras +asperas de Roberts, etc. companhia. + +[37] Tinha chegado na antevespora ordem de Goa para entrarem os inglezes +em Macáo! + +[38] Note-se como fallam os mandarins a nosso respeito. Eis o que +prometti na introducção da primeira parte. + +[39] Admira não dizer que os mandaria para Botany-bay. + +[40] Bernardo Aleixo apelou para o tempo: esse inflexivel juiz dos +homens e das cousas já castigou os seus detractores. + +[41] M. de Levis. + +[42] Juizo dos sobrecargas, mandado a Londres. + +[43] É boa resposta ás providencias de Martinho de Mello. + +[44] Versão do Sr. J. V. B. Feio. + +[45] Varão septuagenario. + +[46] Catão o censor, não possuio tão grande somma de virtudes perfeitas, +como havia o benemerito cidadão Felis José Coimbra. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+----------------------+---------------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+----------------------+---------------------------+ + |#pág. 8| Chang-ti | Cham-hi(*) | + |#pág. 12| Tai-te-sang | Tai-te song(*) | + |#pág. 12| qualqner | qualquer | + |#pág. 13| natueza | natureza | + |#pág. 14| Abuquerque | Albuquerque | + |#pág. 17| fizerão della | fizerão delle(*) | + |#pág. 18| cidadadãos | cidadãos | + |#pág. 19| periecios | periecos | + |#pág. 25| 1585 | 1805(*) | + |#pág. 26| Ciadde | Cidade | + |#pág. 29| bribue | brigue(*) | + |#pág. 29| Bareto | Barreto | + |#pág. 31| argino | argivo(*) | + |#pág. 35| Com paráos | Cem paráos(*) | + |#pág. 36| illultres | illustres | + |#pág. 37| aubiram | subirão(*) | + |#pág. 37| tinha | tinhão(*) | + |#pág. 42| Wam-pao | Wam-poo(*) | + |#pág. 44| para ser | por ser(*) | + |#pág. 44| mais | mui(*) | + |#pág. 45| formaram | formarão(*) | + |#pág. 46| 8^o | 3^o(*) | + |#pág. 51| fusão | effusão(*) | + |#pág. 56| espedadaçados | espedaçados | + |#pág. 56| os velas | as velas | + |#pág. 58| Officiciaes | Officiaes | + |#pág. 64| a a honra | a honra | + |#pág. 65| mercantes | marcantes(*) | + |#pág. 65| a Chum-pin | para Chumpin(*) | + |#pág. 67| alguns do seus | alguns dos seus | + |#pág. 74| snummameute | summamente | + |#pág. 75| Cam-paui-sai | Cam-pau-sai | + |#pág. 79| pala honra | pela honra | + |#pág. 83| nommme | nomme | + |#pág. 87| Virtudes | virtudes que possuia(*) | + |#pág. 87| fazia | faria(*) | + |#pág. 88| habitautes | habitantes | + |#pág. 88| tome a agua | tome agoa(*) | + |#pág. 88| Gragas | Graças | + |#pág. 91| as quaes tem | as que tem(*) | + |#pág. 91| reconhcimento | reconhecimento | + |#pág. 96| pessoas | possesões(*) | + |#pág. 96| Septemero | Septembro | + |#pág. 98| vosas tropas | vossas tropas | + |#pág. 101| quã o | quão | + |#pág. 103| a tractada | tratada(*) | + |#pág. 105| presidente | Ministro(*) | + |#pág. 105| lares | os lares(*) | + |#pág. 106| nos macaenses | nos peitos macaenses(*) | + |#pág. 106| a persuadilos | e persuadilos(*) | + |#pág. 106| por missão | permissão(*) | + |#pág. 106| e afiançou | afiançou(*) | + |#pág. 106| Francico | Francisco | + |#pág. 107| quebar-se | quebrar-se(*) | + |#pág. 109| enentrarem | entrarem | + |#pág. 110| qnanto | quanto | + |#pág. 110| tortaleza | fortaleza | + |#pág. 112| amim | a mim | + |#pág. 112| A inda | Ainda | + |#pág. 114| respoderam | responderam | + |#pág. 114| cencedido | concedido | + |#pág. 114| virtudes | virdes(*) | + |#pág. 117| fraududulenta | fraudulenta | + |#pág. 117| horririvel | horrivel | + |#pág. 117| da consumada | da sua consumada(*) | + |#pág. 119| foi uma complicação | foi uma a complicação(*) | + |#pág. 122| çom elle | com elle | + |#pág. 123| o 1.º § acaba no ponto final(*) | + |#pág. 130| obedecer | obedecerem(*) | + |#pág. 133| Winistro | Ministro | + |#pág. 133| innlezes | inglezes | + |#pág. 143| miseraravel | miseravel | + |#pág. 143| em Lx.a impressa | impressa em Lisboa(*) | + |#pág. 144| o Prezidente | o Ministro(*) | + |#pág. 147| de que este espirito | de que o espirito(*) | + |#pág. 147| adquerida | adqueridos(*) | + |#pág. 148| fróma | fórma | + |#pág. 149| que elle | que o Sr. Lucas(*) | + |#pág. 149| cooperarem | cooperara(*) | + |#pág. 149| do que a sua mesma | elle mesmo | + | | confissão de que fôra| confessa que fôra(*) | + |#pág. 151| encontrado | entregado(*) | + |#pág. 151| o Chefe | ao Chefe(*) | + |#pág. 151| prova | provaria(*) | + |#pág. 152| butucudos Tupinambas | butecudos e tupinambas(*) | + |#pág. 152| e o Arcebispo | e um frade(*) | + |#pág. 153| e mesmo eleger | e mesmo de eleger(*) | + |#pág. 155| Afonso V. | Afonso VI. (*) | + |#pág. 155| que outros guardam | com que outros se | + | | | guardam(*) | + |#pág. 158| Julgo-vos | Julgo-os(*) | + |#pág. 161| neste apuzento | neste opusculo(*) | + | | | | + |#nota 15| oomo | como | + |#nota 17| 24 | 34(*) | + |#nota 36| civíi | civíl | + +----------+----------------------+---------------------------+ + + +(*) Correcções efectuadas com base na errada da obra original. + +Foram mantidas as variações das palavras "La Perouse", "Le Perou-se", +"La Perou-se"... + +Na página 85, não existe ponto 3º//nota 3. + +A pontuação foi corrigida de acordo. +Exemplo: colocação de pontos finais em vez de vírgulas no final de frases. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os +piratas da China, by José Ignacio de Andrade + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES *** + +***** This file should be named 36163-8.txt or 36163-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/6/1/6/36163/ + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/36163-8.zip b/36163-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b4c67ac --- /dev/null +++ b/36163-8.zip diff --git a/36163-h.zip b/36163-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..bb398a4 --- /dev/null +++ b/36163-h.zip diff --git a/36163-h/36163-h.htm b/36163-h/36163-h.htm new file mode 100644 index 0000000..e817306 --- /dev/null +++ b/36163-h/36163-h.htm @@ -0,0 +1,7377 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <title>Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China</title> + + + <meta content="José Ignacio de Andrade" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=ISO-8859-1" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {max-width: 80%; margin-left:10%; margin-right:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 15%; margin-right: 15%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.ast {text-align: center; +font-size: 150%; +font-weight: bold;} +.date {margin-right: 5%; +text-align: right; +font-variant: small-caps;} +.tinyl { font-size: 95%;} +.tiny { font-size: 90%;} +.breaks { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.poetry {margin-left:35%;} +.poetry1 {margin-left:45%;} +.poetry2 {margin-left:40%;} +.quote {margin-left:30%;} +.quote1 {margin-left:40%;} +.quote2 {margin-left:10%;} +.quote3 {margin-left:5%;} +.signature {margin-right: 5%; +text-align: right;} +.signature1 {margin-right: 13%; +text-align: right;} +.signature2 {margin-right: 10%; +text-align: right;} +.illustration {text-align: center; +font-size: 95%;} +.pagenum { position: absolute; right: 5%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} +.sidenote { position: absolute; left: 92%; +font-size: 75%; +text-align: left; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: black; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os +piratas da China, by José Ignacio de Andrade + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China + e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo + +Author: José Ignacio de Andrade + +Release Date: May 17, 2011 [EBook #36163] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES *** + + + + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Maio 2011) +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h1>MEMORIA</h1> + +<h2>DOS</h2> + +<h2>FEITOS MACAENSES</h2> + +<h3>CONTRA OS PIRATAS DA CHINA:</h3> + +<h3>E DA</h3> + +<h3>ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES</h3> + +<h3>NA CIDADE DE MACÁO: </h3> + +<br /> + +<h4> +AUCTOR<br /> + +<br /> + +<em>JOSÉ IGNACIO ANDRADE</em>.<br /> + +<br /> + +</h4> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<h4>SEGUNDA EDIÇÃO.<br /> + +<br /> + +</h4> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 111px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h4>LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835.<br /> + +Largo de S. Roque N. 12<span style="font-style: italic;"></span><em><br /> + +A C. Dias</em>.</h4> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Rien ne peut +arretêr dans leurs projets nouveaux<br /> + +Ces Portugais ardens +qui volent sur les eaux,<br /> + +O' com bien de héros guiderent leur +audace!<br /> + +Que de faits immortels ont signalé leur +trace!</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Esmenarde, C. V. pg. 26.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>PROEMIO. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Quanto é arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que +ainda vivem! Não só os seus inimigos, mas tambem +os feridos do orgulho, ou da inveja, saírão a +vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais prudente calar +as grandes acções +dos heroes em sua vida. Mas porque se ha de recusar +este premio ás pessoas, que o ganharam a risco da vida e +fazenda?<sup><a href="#n1">[1]</a></sup> +Por se temer a mordacidade dos <em>zoilos</em>? +Eis a fraqueza, que não tenho. Transmittindo a verdade aos +vindouros, e dizendo o que fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se +fôr censurado por alguns, louvarão outros o meu +zelo. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[5]</span> +<h3>INTRODUCÇÃO. </h3> + +<br /> + +<br /> + +De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo +nenhum mais admiravel do que a navegação. Entes +fracos e mortaes filhos da terra ousaram transportar-se sobre elemento +inestavel e perigoso, levantar edificios em cima das aguas, dominar os +ventos, e voar ás extremidades do mundo por baixo de Ceos +desconhecidos. <br /> + +<br /> + +Mas qual é a sorte do homem? Dotado de +coração tão perverso, quanto o +espirito é grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De +todas as +invenções sublimes tem os homens abusado. Dos +vegetaes extraíram venenos: do ouro a moeda que tudo +corrompe. As artes serviram-lhe para multiplicarem os meios de se +destruirem. A navegação é, sobre tudo, +origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas +foram ensanguentadas pela guerra. <br /> + +<br /> + +As duas partes do globo oriente, e occidente, +<span class="pagenum">[6]</span> +terra e mar, são igualmente +o theatro das desgraças e crimes do homem: com a +differença, que dilatando as vistas e passos ao longo do +continente, descobrimos ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e +ermos incultos; porém o mar sendo tumulo de grande parte da +humanidade, nenhum vestigio offerece de tantos estragos. Todos os dias +passa o navegador com despejo por cima das ondas, que tem engolido +milhares de homens. <br /> + +<br /> + +Quem não desejará voltar aos tempos felizes de +ignorancia e parcimonia, em que nossos avós menos grandes, +porém menos criminosos, sem industria, mas sem remorsos, +viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os tinham visto +nascer.<sup><a href="#n2">[2]</a></sup><br /> + +<br /> + +Á custa das vidas portuguezas formaram os nossos +antepassados um estabelecimento na China: os nossos contemporaneos +foram de novo obrigados a ensanguentar as ondas para submetter +Cam-pau-sai ás leis do imperio; e a usar prudencia +consummada além +<span class="pagenum">[7]</span> +do +valor, a fim de livrar Macáo da invasão +britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para adquirir +prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella para +despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da republica, +nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo os homens +foram sempre, não crêm nunca feitos, quem +sahêm álém do seu +engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de +trivial esforço, e usada industria.==Todavia os feitos +exarados nesta memoria jámais serão desmentidos; +e podem despertar virtudes. <br /> + +<br /> + +A China por nós ha muito tempo ignorada, depois inteiramente +desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da +Europa, é o imperio mais antigo, extenso, e florecente do +globo. Pelo ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os +seus habitantes em duzentos milhões de almas. O rendimento +annual sobe a quinhentos milhões de cruzados. Sustenta +oitocentos mil soldados, e trezentos mil cavallos, que emprega nas +armas, e correios publicos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p8" id="p8">[8]</a></span> +Ha tempo immemoriavel são os imperadores tambem pontifices +do imperio; para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem +em conflicto. Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um +campo lavrado, todos os annos em dia solemne, por suas proprias +mãos. Alento exemplar á agricultura, primeira +base da independencia e prosperidade nacional. <br /> + +<br /> + +Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os +bonzos de todas as religiões, e deixam-os espalhar os seus +desvarios: mas se chegam a amutinar o povo, são logo +enforcados. Assim os toleram e os reprimem. O imperador <a href="#eo1">Cham-hi</a> mandou +gravar no frontispicio da sua capella:==O Chang-ti +não tem +principio nem fim: creou e governa tudo: é summamente bom e +justo.== <br /> + +<br /> + +Os Chinezes em geral são polidos e virtuosos. O Imperador +tem uma só mulher legitima, mas póde segundo as +leis do Imperio ter grande numero de amasias. A sorte destas +é triste, por viverem encerradas. Pagam com a +privação em que vivem da +<span class="pagenum">[9]</span> +sociedade, a honra de satisfazer ao imperante, a +qual devem á formosura, e não ao nascimento, que +os Chinezes desapreciam, quando não é +accompanhado da virtude. <br /> + +<br /> + +Os Coláos e mandarins letrados são mais estimados +no imperio do que os militares. Entre o grande numero dos primeiros ha +seis que acompanham a côrte. O coláo mais antigo e +de maior merito nomeia os mandarins para todos os empregos superiores, +e os manda punir se não cumprem com o seu dever; o segundo +cuida nos cultos, e dispõe as ceremonias da côrte; +o terceiro é o Ministro da +Justiça; o quarto administra a fazenda; o quinto preside no +ministerio da guerra, e determina tudo, quando é preciso +sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas. <br /> + +<br /> + +Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado. +Além disso tem censores publicos de officio. Em cada uma +provincia ha um Suntó (delegado imperial) com tres mandarins +letrados debaixo das suas ordens. O primeiro conhece das causas civis e +criminaes; o segundo recebe +<span class="pagenum">[10]</span> +os +tributos; o terceiro mantém a segurança publica. +Para chegar a ser mandarim é preciso passar por tres +gráos, como os nossos de Bacharel, Licenciado, e Doutor: +destes são tirados os coláos. <br /> + +<br /> + +O governo não é despotico como se pensa. Os +mandarins oppõem-se aos seus decretos, quando são +contrarios ás leis do Estado. Querendo certo Imperador +abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo +seguinte:—Senhor +sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio, mas devo preferir +a morte á perda da honra: não posso deixar de vos +advertir, que o máo exemplo dado por vós ao +Imperio nos lança a todos no abysmo.—O Imperador +foi +generoso para não se agravar, mas não o foi para +mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasião +para lhe mostrar serem dos sentimentos do primeiro. <br /> + +<br /> + +Não tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do +Estado devem ser chamados á successão do Imperio +os bastardos, preferindo sempre o primogenito. O Imperador tinha grande +affeição a um dos outros: pretendeu +<span class="pagenum">[11]</span> +que o reconhecessem, com perjuizo do mais +velho. Os mandarins representaram ao Imperador a injustiça +que pretendia fazer: este por isso privou alguns dos empregos. Aquelles +publicaram um aviso dirigido a todos os mandarins anexos á +côrte para se acharem um dia aprazado no logar ordinario. Ahi +decidiram em junta que visto o Imperador desprezar as leis do Estado, +deviam elles desistir dos seus empregos e ir para suas casas viver como +particulares: assim o executaram. <br /> + +<br /> + +O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem +aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim +obedeceram todos á lei. Os mandarins ganharam nesta +occasião honra por sua firmeza, e o Imperador por sua +prudencia. <br /> + +<br /> + +O tribunal da historia, para tudo ser conforme, é surdo +ás supplicas, ou ameaços dos imperantes. Na sala +do tribunal ha um +cofre, onde cada historiador lança suas memorias sem as +communicar a pessoa alguma. No fim de cada reinado abre-se o deposito, +e dos escriptos alli achados formam os annaes +<span class="pagenum"><a name="p12" id="p12">[12]</a></span> +do Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal +basta o caso seguinte: <br /> + +<br /> + +<a href="#eo2">Tai-te-song</a>, Imperador da +dynastia de Tang, rogou ao presidente do +tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do +seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e +das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se +consentissimos no que exigis—O Imperador +tornou:—Pois vós +que me sois tão obrigado, pretendeis levar á +posteridade +os meus defeitos?—Com summa dôr os escreverei, mas +é tal o dever do meu emprego, que me obriga a levar +á posteridade a pretenção, que hoje +tivestes de mim.— <br /> + +<br /> + +Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais +premeiam a virtude. A noticia de uma acção +generosa, de uma virtude extremada, assim que se divulga em <a href="#e1">qualquer</a> +provincia, é obrigado o mandarim de policia a participala ao +Imperador: este manda logo áquelle subdito um signal, que o +distingue no caminho da virtude. <br /> + +<br /> + +O certo é, que os vicios e as virtudes dos povos nascem da +sua legislação: esse conhecimento +<span class="pagenum"><a name="p13" id="p13">[13]</a></span> +deu talvez motivo a esta boa lei dos +Chinezes.—Para fecundar o germen da virtude, os mandarins +participam +da gloria, ou da vergonha das acções virtuosas ou +injustas commettidas em seu governo. <br /> + +<br /> + +A moral, a obediencia ás leis, e o culto ao ente supremo, +formam a religião do Estado. O Imperador não +é só pontifice, mas +tambem o primeiro orador do Imperio. Seus decretos são quasi +sempre lições de moral. +Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de governo, as +mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das letras. <br /> + +<br /> + +Com tudo o povo é idolatra; os letrados deistas, sem +acreditarem em revelação alguma, nem na vida +eterna. Dados ao estudo das leis, desprezam por ellas os dogmas e ritos +de seus bonzos. Em verdade estes são ignorantes, +supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A maior parte dos +Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio. <br /> + +<br /> + +Lembra-te que és homem, a tua <a href="#e2">natureza</a> +é fraca, podes succumbir. Afasta de ti os obstaculos que te +embaracem o caminho da virtude. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p14" id="p14">[14]</a></span> +O homem bom occupa-se de suas virtudes: o máo de suas +riquezas. Aquelle trata do interesse da patria: este só no +seu cuida. <br /> + +<br /> + +Faze aos outros o que desejas te façam: eis a unica lei que +te é precisa. <br /> + +<br /> + +O silencio é indispensavel ao sabio; este despreza sempre os +rasgos da eloquencia por inuteis; explica-se por suas +acções. O ceo falla, +mas por que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as +cousas? O seu movimento é a sua linguagem: creou e deu +impulso á natureza, e esta como filha sua obedece-lhe e +produz. <br /> + +<br /> + +Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida. <br /> + +<br /> + +O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica. <br /> + +<br /> + +Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita idéa da +moral Chineza. <br /> + +<br /> + +Por morte de Afonso de <a href="#e3">Albuquerque</a>, +em 1515, +succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no +principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove +embarc, +em 1515, +succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no +principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove +embarcações commandadas por +Fernão Peres de Andrade, levar ao Imperador dos +<span class="pagenum">[15]</span> +Chinezes o Embaixador Thomé Pires, como +El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado. <br /> + +<br /> + +Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só +pôde sair daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas +no mar da China, em Junho do mesmo anno. Já os nossos +sabiam, pela amisade contrahida em Malaca, com os Chinezes, a que rumo +lhe demorava Cantão: foram ás ilhas visinhas +daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á +côrte. <br /> + +<br /> + +Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada +a combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo +Fernão Peres de Andrade benefico e destemido, anniquillava +preversos, e attrahia qual iman os discipulos de Confucio. Largou +aquelle Imperio deixando nelle as cem trombetas da fama apregoando sua +magnanimidade. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Do meu arco possante<br /> + +Hoje o famoso Andrade<br /> + +Alvo +será: seu nome triunfante<br /> + +No porto surgirá da +Eternidade.</em><sup><a href="#n3">[3]</a></sup></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[16]</span> +Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de +Andrade, com outros: procederam de forma, que perderam, em credito, +tudo quanto Fernão Peres tinha adquirido. Usaram +tão grandes violencias, que os Chinezes resolveram tratalos +como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram os portuguezes por +todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio +caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros. <br /> + +<br /> + +Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso +Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os +mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de +Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes +só lhe respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os +nossos succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os +recursos, cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar +largo, deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os +portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a +memoria do immoral Simão, para +<span class="pagenum"><a name="p17" id="p17">[17]</a></span> +serem outra vez recebidos em seus portos. <br /> + +<br /> + +Recuperada a boa fé entre as duas +nações obtiveram os portuguezes, em recompensa de +serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de +Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas +condições; mas <a href="#eo3">fizeram +delle</a> uma cidade a que +deram o nome da ilha. <br /> + +<br /> + +Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes +aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do +pirata Chang-Silau. <br /> + +<br /> + +Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, +porém a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas +de Macáo. <br /> + +<br /> + +Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na +China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de +Evora, cujos foros se confirmaram em 1709. <br /> + +<br /> + +Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, +foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 +prisioneiros; os restantes fugiram largando em +<span class="pagenum"><a name="p18" id="p18">[18]</a></span> +nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens. <br /> + +<br /> + +Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos +na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o +fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito +excessiva a ambição dos inglezes. <br /> + +<br /> + +De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos +capitães de navios do Estado, que todos os annos iam de +viagem ao Japão, e faziam escala naquella cidade. Com esses +governadores teve prosperidade. <br /> + +<br /> + +Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para +Governador com o titulo de Capitão Geral. Começou +no seu governo a desintelligencia com o Senado, e a +dissolução praticada pelos Governadores. Este foi +grande assassino, grande roubador e forçador cruel das +mulheres e filhas dos <a href="#e4">cidadãos</a>. +Levou os macaenses a tal +desesperação, que o mataram, a fim de se verem +livres de tão horrendo monstro. <br /> + +<br /> + +Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação +do Senhor D. João IV: os +macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, e +<span class="pagenum"><a name="p19" id="p19">[19]</a></span> +mandaram grande donativo á capital do Rei +legitimo. <br /> + +<br /> + +Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a +mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não +consentir em suas prepotencias. <br /> + +<br /> + +Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de +Sousa Menezes, mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador +da China. Os moradores daquella cidade cooperaram muito para +sustentar-se o decoro nacional naquella embaixada. <br /> + +<br /> + +Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: +espantou os algozes do Imperio Chinez por suas crueldades. Levou +aquelle estabelecimento aponto de perder-se. <br /> + +<br /> + +Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de +nossas victorias, é situada na latitude de 22 <sup>1</sup><big>⁄</big><sub>4</sub> +gráos ao Nórte do Equador, e 122.° ao +Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos nossos +<a href="#e5">periecos</a>; motivo talvez por que o +Padre Antonio +Vieira disse: que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde +não alcançou a penna de Santo Agostinho. Tem de +extensão a cidade pouco mais +<span class="pagenum">[20]</span> +de uma legua. Do lado do Norte é defendida por grossa +muralha guarnecida de fortins: e do Sul por tres fortalezas. A de S. +Francisco na parte oriental da Praia Grande; a do Bom porto na ponta +occidental e a de Sant-Iago que defende a entrada da barra: tem mais +entre as primeiras duas, o forte de S. Pedro. No centro a fortaleza do +monte domina toda a cidade. Além destas fortalezas tem outra +sobre o monte da Sr.<sup>a</sup> da Guia, fora dos muros da +cidade. As casas +são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto +é bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas +tonelladas. Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A +povoação é de 20 mil individuos, a +maior parte Chinezes. O Governo é o Senado composto de dois +Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um +Escrivão. O Governador militar ou Capitão Geral, +e o Ouvidor, são chamados ao Senado, quando ha negocios +politicos, ou de fazenda. Neste caso preside no Senado o +Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que +é relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez. <br /> + +<br /> + +Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, +<span class="pagenum">[21]</span> +que até na meza das +sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar +isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza +dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente +é livre para entrar e sair. <br /> + +<br /> + +Sobre a meza descança um extremo da vara da +Justiça, e o outro fica encostado na parede por cima da +cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira) +assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e +mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores +mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para +segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao +entrar tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao +ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do +embaraço dizendo:—Tributamos tão grande +respeito +a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu +costume; e presamos tanto a V. S.<sup>a</sup>, que para +não o ferir a +vara da Justiça mandamo-la segurar. <br /> + +<br /> + +Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados +por Officiaes macaenses; +<span class="pagenum">[22]</span> +guarnece as +fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus rendimentos são +os direitos da Alfandega. <br /> + +<br /> + +As minhas viagens á China deram-me occasião para +conhecer os descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do +nosso captiveiro debaixo do pezado grilhão dos Filippes +tiverão a constancia e valor de conservar illesos os foros +nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que logravam a amizade dos +Chinezes, só tinham seus braços para se +defenderem das nações da Europa, que alli foram +atacalos. A historia diz pouco ácerca dos grandes feitos +macaenses daquella época.<sup><a href="#n4">[4]</a></sup> +Apenas dessas grandes +acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na +Sé e Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido +com os heróes, que tão dignos eram de memoria +eterna. <br /> + +<br /> + +Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não +terem herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam<sup><a href="#nt1">[Nota 1ª]</a></sup>. +Fui testimunha de feitos mui gloriosos. Os +portuguezes +<span class="pagenum">[23]</span> +nesta época mostraram-se grandes +nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com que tomaram a grande +esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que se houveram com os +Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em sangue; +acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. Deixarei +tão nobres acções no esquecimento +á +maneira de nossos maiores? Não: farei diligencia para as +transmittir á posteridade. Se não forem uteis aos +presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não +ha cousa mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de +nossos avós. Julgo de obrigação +referilas a nossos +nétos. <br /> + +<br /> + +Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. +Fernão Peres de Andrade, foi quem primeiro immortalisou os +portuguezes naquella parte do mundo. Ver-se-ha firmado pela +mão dos Chinezes, que ainda temos grande +consideração naquelle imperio. <br /> + +<br /> + +Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito +lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba +depois do outro. Pegaram os macaenses ás mãos com +os piratas em 1805: A esquadra +<span class="pagenum">[24]</span> +ingleza +aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de +Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense, +para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23 +de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em +Abril de 1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes +difficuldades, que em Macáo se venceram, dividirei, esta +memoria em duas partes. Tractarei na primeira da +extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que +se fossem praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por +milagres, sendo só o esforço de almas valorosas +que mandaram seus braços com a penna e espada obrar taes +prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes em +Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica +Chineza, e do final resultado. <br /> + +<br /> + +Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de +Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu +não tenho os mesmos talentos, e tenho juizes não +menos temiveis. Mas em objecto desta natureza a eloquencia consiste em +ser sincero.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p25" id="p25">[25]</a></span> +<h3>PRIMEIRA PARTE. </h3> + +<br /> + +<br /> + +Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos +piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra +dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos +contemporaneos, a tempo que seus irmãos na Patria +anniquilavam as aguias do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI +os piratas foram destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a +pouco engrossaram seu numero e força de modo, que em <a href="#eo4">1805</a> +estavam senhores de grande esquadra, bem guarnecida de artilheria, e +com perto de quarenta mil homens de tripulação. +Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não +só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio +da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão +grande poderio, dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a +dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas +ordens. A primeira e mais possante coube ao +<span class="pagenum"><a name="p26" id="p26">[26]</a></span> +celebre <em>Apócha</em>, +que +depois se chamou <em>Cam-pau-sai</em>, e onde sempre +residio a viuva. +<em>Apau-tai</em> foi commandar a segunda, composta de 130 +embarcações, e com bandeira preta. <br /> + +<br /> + +Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter +ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer +empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto tão +elevado, que bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, +quando pertendeu tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a +direcção do rio Nilo, fazendo-o desaguar no mar +roxo para anniquilar desse modo os Turcos no Egypto! Cam-pau-sai tentou +coroar-se Imperador dos Chinezes, e lançar a dynastia +Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China. +Começou a fazer guerra tão atroz, que +não só paralisou o commercio maritimo nas costas +meredionaes do Imperio, mas tambem fazia desembarques no +continente, e arrasava todos os logares por onde passava. +Sendo a <a href="#e6">Cidade</a> de +Cantão a mais rica e a +mais commerciante, quiz embaraçar alli o negocio com os +europeos. Para esse fim veio postar +<span class="pagenum">[27]</span> +suas forças na emboccadura do rio Tygre, e em todos os +canaes que formam as ilhas visinhas de Macáo. Assombrando +assim Cam-pau-sai os mares das ilhas da China com seu poder, +não se limitou a perseguir seus irmãos Chinezes, +tambem se atreveu a insultar os navios da Europa. <br /> + +<br /> + +Vendo o Governo de Macáo o risco em que ficava, rodeado de +immensa força inimiga, na estação em +que todos os navios da praça se achavam ausentes; mandou a +Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto estes +não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, +não haverem navios dentro do porto, que os fossem +acommetter, chegavam quasi ao alcance da artilheria das nossas +fortalesas, para embaraçarem os mantimentos, que todos os +dias entram na Cidade. <br /> + +<br /> + +Deu-se tanta pressa á factura do brigue, que do momento em +que se lançou a quilha no Estaleiro, até sair da +barra fóra, +só mediaram vinte e oito dias! Quando chegou a +Macáo estavam os piratas tam destemidos, +que o Governo julgou ser insufficiente tão +<span class="pagenum">[28]</span> +pequena força, para os afastar da Cidade. +Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e mandou-o +armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta. <br /> + +<br /> + +Assim que estas duas embarcações +começaram a bater os piratas, estes não ousavam +aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio; porque +os nossos vasos não podiam entrar nos pequenos canaes, onde +elles o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial +fazer-lhe algum ataque; mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a +lembrança de o acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte +de 1807, sem que os piratas arriscassem entrar em combate com os +nossos. Esperavam achalos separados, e em parte onde não se +podessem soccorrer; no entanto iam devastando a provincia de +Cantão. <br /> + +<br /> + +Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa +posição para atacalo. Mandou uma +divisão commandada por um de seus Capitães mais +experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o +valente e destemido <em>Pereira Barreto</em>. +Já nesse tempo havia adquirido tam grande credito +<span class="pagenum"><a name="p29" id="p29">[29]</a></span> +entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do +mar.<sup><a href="#n5">[5]</a></sup> O +impavido <em>Barreto</em>tinha valor para +investir com toda a esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de +suas divisões. Assim que a julgou ao alcance da artilheria, +virou sobre ella fez-lhe fogo tão vivo, e estrago +tão grande, que todos fugiram deixando a +Capitanía ás mãos com o +<a href="#eo5">brigue</a>. Vendo o forte <a href="#e7"><em>Barreto</em></a>, que a +artilheria inimiga éra de maior +calibre, resolveu abordar o Taó<sup><a href="#n6">[6]</a></sup>. +Deve +imaginar-se uma grande lancha dando abordagem a uma Náo. +Assim parecia o brigue junto ao Taó, e apenas tinha um +quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte <em>Barreto</em>dirige +a sua +embarcação á pôpa do +Taó. Quando se lhe botavam os arpéos +lançaram os piratas uma +balça de fogo dentro da prôa do brigue, que +decerto o abrazaria, se o previdente <em>Barreto</em> +não corresse a lançala ao mar. A este tempo unem +se as embarcações; +<em>Barreto</em>é o primeiro que +trépa pelo Taó acima, e tão depressa +pôde firmar os pés sobre a tolda inimiga, cantou +victoria: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[30]</span> +<div class="poetry"><em>Saltando a fará +só com +lança e espada<br /> + +De quatro centos mouros despejada</em><sup><a href="#n7">[7]</a></sup></div> + +<br /> + +<br /> + +<em>Barreto</em>usava de espada colubrina, e +manejava de sorte que dos setenta homens, equipagem do brigue, os que +poderam subir disseram, que chegando acima, viram a tolda coberta de +mutilados! Achou o nosso heroe tão porfiada resistencia, que +todos foram mortos porém nenhum vencido, ou aprisionado. Os +que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado, +lançaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu +á camara, pegou em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a +cabeça com o alfange, e sepultou-se no mar com ella.<sup><a href="#n8">[8]</a></sup> <br /> + +<br /> + +Este combate foi dado perto de Macáo; <em>Barreto</em>conduzio +immediatamente a +preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o +parabem a tão valente Capitão, e ver o navio +inimigo. Ficaram horrorisados da carnagem, porque os piratas +só se rendiam com a morte. Haviam seculos, que já +se não faziam d'estas proezas; e +até +<span class="pagenum"><a name="p31" id="p31">[31]</a></span> +nos parecia impossivel, +que no tempo de Camões, D. Lourenço de Almeida +fosse bastante para debellar em uma Náo da Méca +quatro centos mouros. Mas ainda em nossos dias mostra o entendimento +supremo, que um portuguez só com seu braço +é sufficiente para destruir em um Taó mais de 300 +Chinezes. <br /> + +<br /> + +Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para +obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas é qualificada +pelos habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias +nações. Já o nosso Diniz cantou as +victorias de outro Barreto; justo é que tão +divino estro sirva para +immortalisar os dois.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Lavremos pois, oh! Musa, +á +gran memoria<br /> + +Com <a href="#eo6">argivo</a> buril +padrão sagrado:</em></div> + +<div class="poetry2"> +<em>Morda-se o tempo irado,</em></div> + +<div class="poetry"><em>Que ella eterna +fará a +clara +historia<br /> + +Alma que atraz da fama immenso espaço</em></div> + +<div class="poetry2"> +<em>Corre, veja em meus hymnos</em></div> + +<div class="poetry"><em>Que em vão +não +sua +bellicoso braço.</em><sup><a href="#n9">[9]</a></sup> +</div> + +<br /> + +<br /> + +Por feito tão assombroso ficou Macáo em socego. +Os piratas retiraram-se para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo +que podiam +<span class="pagenum">[32]</span> +vencer. A esquadra imperial com a noticia d'esta victoria +animou-se a sair de Cantão e aproximar-se de +Macáo, cruzeiro que ella já não ousava +fazer com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto +<em>Barreto</em> +fez desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por +consequencia o Governo de Macáo mandou recolher as suas +embarcações. <br /> + +<br /> + +Sabendo-se na China, que o Sr. D. João VI tinha deixado +Portugal para reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar +cumprimentar o Rei dos Lusos nas suas possessões do polo +antarctico. Apromptaram o navio Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, +pelo Senado, ao honrado cidadão Antonio Joaquim de Oliveira +Matos; e deram o commando da embarcação ao +denodado +<em>Barreto</em>. Destinando-se aquella enviatura a +obsequiar o Chefe dos Lusos, pensaram não ser pequeno mimo +fazer-lhe conhecer quem tanto honrava o nome portuguez. Foi o nosso +heroe recebido no Brazil, quasi da mesma sorte que os Dias, e os Gamas, +recolhendo-se de suas trabalhosas viagens, eram recebidos +pelos antigos +<span class="pagenum">[33]</span> +reis portuguezes. O Sr. +D. João VI o elevou de primeiro Tenente a Capitão +de Fragata: Premiou os macaenses: deu-lhes distinctivos, que foram +assaz estimados, talvez por se esquecerem das altas virtudes de seus +maiores, que os despresavam por bons costumes. <br /> + +<br /> + +Affastado Cam-Pau-Sai de Macáo por temer os portuguezes, +não esfriou em sua empreza. Começou +então a proclamar a todos os do seu partido a tyrannica +oppressão, que sofria o imperio, por consentirem no +thorono a intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe +quão facil éra depôr aquella, +restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio. +Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuasão, que +já os seus +não duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a +dignidade da Patria. <br /> + +<br /> + +Andavam assim de animo affeito á guerra, +quando tiveram a feliz noticia, de já não existir +em Macáo o <em>tygre do mar</em>. +Voaram como bando de Açores famintos a devorar +tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de Macáo. +Não esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro, +cruzava afoito na +<span class="pagenum">[34]</span> +bocca do +Tyre. Assim que foi descoberto por Cam-pau-sai, +carregou sobre elle. Uma divisão imperial de 28 navios de 15 +a 20 peças cada um, que não fugio para fazer-lhe +frente, ficou prisioneira. Soberbo com essa victoria, +começou de novo a investir as +embarcações da Europa, e as macaenses. Nesta +epoca alguns navios Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas +fortalezas. <br /> + +<br /> + +Recolhendo-se de Goa o brigue do +<em>Botelho</em>, Capitão Manoel José +Vianna, foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam +tão grande resistencia naquelle esforçado +Capitão, que restando apenas seis homens da sua equipagem, +com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o fogo abrandou, +pelo cansaço; mas vendo Apautai, que não arreavam +bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de +torres ambulantes e coberto de lanças, longe de esmorecer, +tomou em sua alma o espirito de Duarte Pacheco; e á +imitação dos +nossos <em>Barretos</em>, quantos inimigos lhe saltavam na +sua embarcação, tantos a sua espada +lançava no abysmo. Os Chinezes espantados já +não o julgavam +<span class="pagenum"><a name="p35" id="p35">[35]</a></span> +homem, mas +sim algum ente superior á especie humana. Parecia +invulneravel! Com tudo morreu no combate. Mas como? Cançado +de matar piratas. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2"><em><a href="#eo7">Cem +paráos</a> +torreados,</em></div> + +<div class="poetry"><em>Donde por boccas mil brota +Mavorte;</em></div> + +<div class="poetry2"><em>Entre horrorosos +brados</em></div> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Em fogo, em fumo, em sangue +envolta a morte<br /> + +Zarguchos, +flexas, que em chuveiro voam.</em><sup><a href="#n10">[10]</a></sup></div> + +<br /> + +<br /> + +Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte +ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o +navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, á vista de +Macáo. A +sensação que fez esse triste espectaculo nos +moradores daquella cidade é inexplicavel. Juraram +não só retomar a sua +embarcação, mas tambem dar aos piratas o castigo +merecido. Os navios que então se achavam no porto capazes de +tal empreza, eram o brigue do <em>Senado</em>, e o navio +Belisario. O +brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario. <br /> + +<br /> + +Seriam nove horas da manhã, quando +<span class="pagenum"><a name="p36" id="p36">[36]</a></span> +se +avistou o navio apresado; e antes de anoitecer já os nossos +iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi possivel obrar tanto em +tão pouco tempo? Tudo se deveu á generosidade dos +macaenses, e ao estimulo dado pelo incançavel Arriaga. Este +digno Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, +não se limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com +meios para o desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, +e o perigo em que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar +todas as forças sem perdoar as despezas, diligencias ou +perigos. Foi com seus braços dar exemplo aos macaenses mais +distinctos, que todos trabalharam na +promptificação dos navios.<br /> + +<br /> + +Era este varão entre os macaenses bem similhante +á alma dos estoicos, espalhada pelo universo. Estava em toda +a parte. Seria preciso eloquencia extremada e presencear todos os seus +<a href="#e8">illustres</a> feitos, para elogiar +as altas qualidades deste preclaro varão: sem isso +não é possivel apparecerem tão +brilhantes como foram praticados. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p37" id="p37">[37]</a></span> +Por não haver então em Macáo Official +de mar, que se julgasse dextro na politica, ainda que todos +sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em chefe ao +Capitão de artilheria José Pinto Alcoforado de +Azevedo e Sousa. Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra +os piratas, a dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o +primeiro Capitão Lusitano, que aportou naquelle imperio.<sup><a href="#nt2">[Nota 2ª]</a></sup> +Theotonio da Silva Braga, commandava o navio Belisario. Caío +tão grande tufão na noite seguinte ao dia em que +saíram os navios, que se julgava telos submergido. <br /> + +<br /> + +Ao amanhecer <a href="#eo8">subirão</a> +os montes, +sobranceiros á cidade, anciosos por ver seus +campeões; avistaram o brigue do +<em>Botelho</em>, que tendo surgido em Lantáo +prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate, +assim que o tufão soprou do Oriente, cortara, que tendo +surgido em Lantáo +prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate, +assim que o tufão soprou do Oriente, cortaram as amarras e +vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este +successo, e muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela +grande pericia de seus officiaes <a href="#eo9">tinhão</a> +escapado á furia do +tufão. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[38]</span> +Havia tambem uma lorcha armada em guerra<sup><a href="#n11">[11]</a></sup> +commandada por Antonio +José Gonçalves Caroxa: mancebo activo e +destemido. Era commando de difficil desempenho; por ser a +embarcação conductora dos viveres para os nossos, +levados por entre os inimigos em frequentes combates. A +força da lorcha constava de quatro pedreiros, um obuz de +doze, e trinta homens de tripulação. Algumas +vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios, quando batiam os +piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas +occasiões fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas. <br /> + +<br /> + +Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde não podessem defendelo +os nossos, para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu +odio. Teve quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por +logar, onde Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia +aprasado, e o novo <em>Aquilles Lusitano</em>chegou ao +passo, que bem pode nomear-se Cabalão<sup><a href="#n12">[12]</a></sup>. Achou-o coberto de +inimigos: mas julgando urgente o desempenho +<span class="pagenum">[39]</span> +da sua commissão, tentou abrir caminho. +Ainda que a sua tripolação era toda de Chinezes, +tinha a sua disciplina: julgou que isso bastava. <br /> + +<br /> + +Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lançou +mãos ao obuz, e como o reparo era de pião, jogava +para todos os lados. Aos que se lhe aproximavam cortava-os com +metralha; e aos que estavam mais longe passava-os com balas. Mas os +navios inimigos eram tantos, que mal podia desbaratar a todos os que +lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver a maior parte da +tripolação morta, não esfriava no +empenho de vencer. Não usava render-se, nem fugir; cada vez +mais afouto pertendia desembaraçar o passo. Mas os restantes +da tripolação vendo passar-lhe as ballas pelo +vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus companheiros; +por que não lhes succedesse o mesmo, ousaram +lançar-se a elle, e amarralo de pés e +mãos. Segurando assim o homem, que lhes parecia +invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregáram +cheios de espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito +que +<span class="pagenum">[40]</span> +apreciavam a existencia do seu +commandante. <br /> + +<br /> + +Os macaenses receberam o destemido Caroxa com +estimação digna dos importantes +serviços, que lhes fazia, e do valor com que se +immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaía a todos. +Tinha maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que +destinava a emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava +pela morte de um marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se +distinguia, dava a todos cobiça de se verem acatados e +elogiados por elle. Nesta occasião um abraço dado +no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste Lusitano de modo, +que só elle em sua lorcha, com outra equipagem, se julgava +sufficiente para arrostar com todos os piratas. <br /> + +<br /> + +Em verdade, onde as leis são respeitadas, a sociedade +é livre: e os homens serão livres em toda a +parte, que houver governo justo como era então o de +Macáo. Longe de envejar a seus concidadãos as +vantagens, grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em +augmenta-las. Não só deixava de opprimilos; mas +assegurava a sua liberdade; +<span class="pagenum">[41]</span> +bem precioso +ao homem, e necessario á sua ventura; tão +distante da licença perigosa, como da +humiliação servil. O governo providente apenas +liga as mãos aos homens para não se offenderem; +mas deixa-os trabalhar sem obstaculo para a sua felicidade; sabe que a +ignorancia não só deslumbra os homens mas tambem +os faz pusillanimes e desgraçados: a razão e a +liberdade melhoram o coração +e os faz virtuosos e resolutos. <br /> + +<br /> + +Arriaga sabia que a justa destribuição dos +premios e das penas é a melhor acção +do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas do +coração humano, para animar a virtude e o merito; +e obrigar o interesse particular a promover o interesse publico. O +certo é que a virtude desapparece, quando o vicio +é honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu que os favores dados +á incapacidade, são roubos feitos ao merecimento; +e as recompensas dadas a quem bem serve a patria são +dividas, que o governo paga por ella. Fui testimunha das +bençãos, que lhe +lançavam os macaenses pelo muito que se occupava da sua +ventura.—Fazia do merecimento dos homens +<span class="pagenum"><a name="p42" id="p42">[42]</a></span> +estimação tão justa, que nem +á conveniencia, nem ao estado ficava devedor: virtude nos +principes difficultosa, e nos ministros rara<sup><a href="#n13">[13]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do +serviço portuguez. Tomou nova +tripolação e continuou a destruir os piratas. +Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias fez para +o tomar. <br /> + +<br /> + +Logo que amainou o tufão, partiram os nossos em procura do +inimigo. Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos +canaes de <a href="#eo10">Wam-poo</a>, +em 15 de Septembro +de 1809. Assim que avistaram os navios Macaenses, suspenderam, mas os +nossos carregaram sobre elles. Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez +entrar nelle os seus melhores navios: mas o fogo violento das nossas +embarcações fazia-lhe tal estrago, que saindo +elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam em estado de +entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e avidos de +gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem uns +não se +<span class="pagenum">[43]</span> +tinham retirado, já outros tomavam o logar vago. +Não sendo o Belisario construido para guerra tão +violenta, abrio com o impulso da artilheria; tornou-se incapaz de +combater: retirou-se. O invito Alcoforado não podendo vencer +força tão superior tambem se retirou, mas deixou +em cinzas muitas embarcações inimigas. <br /> + +<br /> + +É sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e +ruinas para os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para +estrago de seus moradores, e vexação dos +macaenses. É evidente, que +o conquistador, não é só inimigo dos +povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello do genero humano. Sim +a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e raras vezes o tumulto dos +combates deixa ouvir as supplicas da justiça.<sup><a href="#n14">[14]</a></sup> <br /> + +<br /> + +Os macaenses tiveram nesta occasião motivo para julgar +quão forte éra o inimigo: e Cam-pau-sai a ufania +de fazer retirar dois navios portuguezes. <br /> + +<br /> + +Apezar da perda que sofreu, ficou mais +<span class="pagenum"><a name="p44" id="p44">[44]</a></span> +altivo, e +mais assolador. Exaltou o espirito dos Chinezes de modo, que se +levantaram em Cantão partidos de descontentes. O +Suntó prevendo a ruina, que ameaçava o Imperio, +tratou com o Governo de Macáo para reforçar a +esquadra portugueza, e junta com a Chineza cruzar nos mares daquellas +ilhas, afim de livrar o commercio das duas cidades, e portos contiguos. +O Governo macaense testimunha do vexame em que se achavam os moradores +da cidade, e dos gastos que tinham feito em guerra tão +dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes, <a href="#eo11">por +ser</a> a empreza +<a href="#eo12">mui</a> dispendiosa. Com tudo o +magnanimo Arriaga, a quem nada +parecia +impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de +Cantão, e fez-se a convenção +seguinte:<sup><a href="#n15">[15]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de +Macáo, igualmente convencidos da precisão, que +tem de pôr fim +<span class="pagenum"><a name="p45" id="p45">[45]</a></span> +ás invasões dos piratas (os +quaes sem temor infestam os mares, que +cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e +as relações commerciaes, <a href="#eo13">formarão</a> +uma guarda +costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim +nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de +Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: +Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, +José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem +respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a +materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes: <br /> + +<br /> + +1.º Haverá uma guarda costa, de seis navios +portuguezes, +conbinada com uma esquadra imperial; cruzará +seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de +Macáo, a fim de embaraçar que os piratas +não entrem nos canaes, que até agora tem +infestado. <br /> + +<br /> + +2.º O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil +taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes. <br /> + +<br /> + +3.º O Governo de Macáo fará logo cruzar +os dois +navios, que tem armados, e apromptará +<span class="pagenum"><a name="p46" id="p46">[46]</a></span> +com brevidade os quatro restantes. <br /> + +<br /> + +4.º Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem +do +cruzeiro, o qual não se estenderá além +dos pontos +determinados. <br /> + +<br /> + +5.º As presas seram repartidas entre os dois Governos. <br /> + +<br /> + +6.º Quando a expedição finalisar +serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios. +<br /> + +<br /> + +7.º As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto +se +estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a +consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. +Macáo 23 de Novembro de 1809. <br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Shou-Key-chi.—Arriaga. +<br /> + +<br /> + +Pom.—Chu—Barros.<br /> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +O governo de Macáo observou logo o <a href="#eo14">3º</a> +artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas +o thesouro do Senado não podia suprir a tão +grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o +seu credito: então e +artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas +o thesouro do Senado não podia suprir a tão +grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o +seu credito: então era valor +<span class="pagenum">[47]</span> +de sobejo para os negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam<sup><a href="#n16">[16]</a></sup>. <br /> + +<br /> + +Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se não +suprissem os prodigios obrados pela gente portugueza.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>.....Tornando frio<br /> + +De espanto o ardor immenso do oriente,<br /> + +Que verá tanto obrar tão pouca +gente.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +Mojatecão, observando e experimentando o valor dos +portuguezes em Diu, exclamou:—São dignos de que os +sirvam +as outras gentes. A fortuna do mundo está em serem +poucos.—Em verdade com cem portuguezes, e sete centos +manillas e +cambojas, se fez á véla a esquadra (seis dias +depois da convenção) levando por chefe o +destemido +Alcoforado, na galera inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava +a Pala, Anacleto José da Silva o Indiano, Antonio +José Gonçalves Caroxa, o brigue do Senado, +José Felis dos Remedios o navio S. Miguel, José +Alves o Belisario. Nesse mesmo dia attacáram +e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais longe de +Macáo.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[48]</span> +O governo de Cantão, não foi activo como o dos +macaenses; além disso a esquadra chineza nem uma +só vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo tinham de +Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam acommettelo. O +governo de Macáo vendo assombrada toda a provincia de +Cantão, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu +despresar os soccorros da esquadra imperial, e anniquilar só +o grande poder de Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado +intimar-lhe, que se entregasse á obediencia do imperador, +promettendo-lhe perdão, e gráo superior +na classe mandarina. <br /> + +<br /> + +Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos +piratas, que viesse a Macáo para tractarem de +convenção amigavel: declarando-lhe, que se +não conviesse com elle, poria em acção +todos os recursos da guerra, e não descançaria +sem exterminalo. <br /> + +<br /> + +Campau-sai, respondeu:—Tenho presente a vossa carta: +não me +assusta. Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que +não entendam comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, +jámais o farei, ainda +<span class="pagenum">[49]</span> +que +me assegureis e digais o que quizerdes. Sô +não terei duvida no que tenho +acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para +Macáo, e mandai-mo dizer para não entender com os +vasos portuguezes. Esta resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de +Dezembro de 1809, foi moderada em razão de ter sido atacado +e batido pelos nossos em 11 do mesmo mez. <br /> + +<br /> + +Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu +o imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. +Apau-tai receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. +Concordou com os principaes da sua divisão: rendeu-se com +cento e trinta embarcações bem equipadas de +homens e de armas. <br /> + +<br /> + +Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por +ver a pouca perseverança dos homens, ainda mesmo os que tem +as mais intimas relações de interesse, +parentesco e amisade; mas era tal o seu animo, que nenhuma +desgraça o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar +a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[50]</span> +Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez +retirar Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como +Apau-tai, o havia abandonado, assim o fariam os outros seus +companheiros; e diminuidas assim as suas forças seria +obrigado a entregar-se prisioneiro: que era melhor capitular +já, alcançando honra e interesse, como lhe tinha +promettido e affiançado. A esta segunda instancia respondeu +Cam-pau-sai pelo modo seguinte. <br /> + +<br /> + +Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheço o +desejo que tendes de me ver em Macáo: fico-vos agradecido +por tão singular obsequio e estimação. +<br /> + +<br /> + +Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o +sceptro do poder, e governança para todos os que me +obedecem, vivo muito occupado. Não é simples +negocio o governo de um reino: eis o motivo por que não +cumpro o vosso desejo. <br /> + +<br /> + +Agora todo o meu empenho é restaurar e possuir as terras +deste orbe: assim ficarão completos os meus desejos. +Digo-vos ingenuamente este é o fim a que me proponho. Tenho +<span class="pagenum"><a name="p51" id="p51">[51]</a></span> +muitas +embarcações, e mantimentos para longo tempo: nada +me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a conhecer o meu +projecto. <br /> + +<br /> + +Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me +aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas +o tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da +minha promessa. Se não podeis agora mandar-me os navios seja +quando vos convier. <br /> + +<br /> + +Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um +tartaro! São +exortações baldadas. Possuindo esta esquadra com +a divisa da bandeira vermelha, farei com ella os maiores +esforços para restaurar o imperio. Já mandei +apromptar a minha esquadra, para se dirigir á bocca do rio +tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a +communicar-vos, porém agora não o posso fazer. +Basta o conteudo desta, para viveres na intelligencia do meu firme +proposito. Dezembro 26, de 1809. <br /> + +<br /> + +Desenganado Alcoforado de que não conseguia a entrega dos +piratas sem <a href="#eo15">effusão</a> +de +<span class="pagenum">[52]</span> +sangue, +começou de novo a batelos. Os nossos estavam já +tão praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas +apenas lhe escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos +não podiam entrar. Cam-pau-sai usou entreter as +embarcações portuguezas com alguns +Taós, em quanto a dextrava os seus no +exercicio da artilharia, tomando por mestres os americanos inglezes, +que tinham aprisionado. <br /> + +<br /> + +Era tão sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com +extranho recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder +vencer a frota macaense. Pairava esta junto á ilha de +Lantáo, quando entraram a levantar do oriente os piratas +alinhados em divisões. Nesta occasião obrou o +invicto +Alcoforado tão grandes prodigios, que só poderam +ser cantados antes, pelo nosso Diniz.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[53]</span> +<div class="poetry"><em>A fiel ave, que arma +vigilante</em></div> + +<div class="poetry2"><em>O grão furor a +Jove.</em></div> + +<div class="poetry"><em>Quando +sobre os mortaes os raios chove</em></div> + +<div class="poetry2"><em>A dextra +coruscante,</em></div> + +<div class="poetry"> +<em>Tão rapida ao rebanho temeroso<br /> + +Não +cala, a garra abrindo, das estrellas,</em></div> + +<div class="poetry2"> +<em>Como o varão +famoso</em><br /> + +<em>Sobre as immensas velas<br /> + +Cahe de grande ira armado<br /> + +Treçando +denodado</em></div> + +<div class="poetry"> +<em>A féra espada, e torna em seu estrago<br /> + +O azul +oceano em roxo lago.</em><sup><a href="#n17">[17]</a></sup></div> + +<br /> + +<br /> + +Considere-se uma lagôa com seis leguas de diametro, semeada +de ilhas e syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das +aguas. A esquadra portugueza constando de seis navios, sendo o maior de +quatro centas tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos +com 120 peças de artilheria; e 700 homens. A esquadra +inimiga, de 300 vasos, com mil e quinhentas peças de +artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos, commandados por chefe +valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso Alcoforado, +treçando denodado a féra espada mandou atacar. +Foi sentelha +<span class="pagenum">[54]</span> +electrica +lançada no coração dos seus +companheiros. Dirigiram-se os nossos á vanguarda das +columnas inimigas despresando suas hostilidades até chegar a +tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de metralha punha em +fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos arribavam para +sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos; manobra que estes +concertavam para lançar-lhes a morte por todos os lados. O +fumo mal lhes dixava vêr as +embarcações portuguezas, cercadas pelas suas. O +astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos poderia +destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de seus +companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua pericia e +desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no centro de +cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro levavam +á circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da +circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer +desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus +mesmos companheiros. Todos +<span class="pagenum">[55]</span> +os +Commandantes portuguezes adqueriram fama neste dia; mas ha acasos em +uma batalha, que fazem uns mais distinctos do que outros. O navio +commandado por <em>Luiz Carlos de Miranda</em>, na maior +força do combate, deu em escôlho: Cam-pau-sai, +vendo aquelle navio encalhado, considerou-o em desordem; mandou +carregar sobre elle, a ver se podia principiar o seu triunfo por +destruilo. Mas o denodado Miranda, vendo perigos por todos os lados, +resolveu debellar o inimigo, ou não saír com vida +do conflicto. Entre o valor e a desesperação +(ultimo sentimento das almas grandes), disse a seus +companheiros:—Creio não haver entre nós +quem +regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe destina: assim +faça cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da +mareação nas baterias, e diffundindo o seu valor +em toda a equipagem, fez tão grande estrago no inimigo, que +já este não tinha animo para acommettelo. +Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o navio do +escôlho. <br /> + +<br /> + +O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o +Taó do pagode.<sup><a href="#nt3">[Nota +3ª]</a></sup> Logo +<span class="pagenum"><a name="p56" id="p56">[56]</a></span> +que assomou o +deposito do erro, virou sobre elle; e emquanto não o +lançou no abismo, não descançou. O +templo, os bonzos, os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza +do atrevido Caroxa lançou o espanto e o horror no espirito +de todos os piratas. A vista dos seus deuses +<a href="#e9">espedaçados</a>, e +levados, á discrição das aguas, +tirou-lhes de +todo o animo: apenas ousaram largar <a href="#e10">as +velas</a> todas, e por entre +syrtes foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os +nossos vazos não podiam entrar. <br /> + +<br /> + +Não ha cores assás vivas para demonstrar a sua +confusão na fugida. Cam-pau-sai medío +então as forças macaenses ainda mais pelo valor, +do que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas +incançaveis na destruição do inimigo, +não deixaram +de perseguilo até á bocca do rio. Alli formou o +previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. Só o +deixou saír para entregar-se. <br /> + +<br /> + +Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes +condições éra de ser +Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de +capitulação; e que só trataria +com os +<span class="pagenum">[57]</span> +imperiaes, estando elle presente. +Logo que o Governo de Macáo recebeu esta +participação do chefe Alcoforado, remetteo-a ao +Suntó, e este dirigio-a ao Imperador. <br /> + +<br /> + +Succedeu nesta occasião um facto, que muita honra faz +á memoria do generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega +dos piratas, chegou a Macáo, um novo +<em>Ouvidor</em>, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do +logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o +Governo de Macáo, não poderem entrar naquella +negociação +com o Ouvidor novo, mas sim com o antigo; já por saber este +melhor daquelle negocio, já porque só com elle +Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os macaenses desejavam o +mesmo; pois éra publica a grande +reputação, +que Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e +é só em táes +occasiões, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor +Peixoto começou no exercicio das suas +funções: mas o famoso Arriaga continuou a tractar +deste importante negocio. <br /> + +<br /> + +Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a +capitulação +<span class="pagenum"><a name="p58" id="p58">[58]</a></span> +com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a memoria do +invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza saío de +Macáo, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em +Macáo, e tractar alli da sua +capitulação: mas Cam-pau-sai confiado em suas +forças respondeu pela negativa como fica dito. Agora +vendo-se obrigado a fazer o que então recusou, pedio ao +nosso Alcoforado a mercê de honralo com uma visita para ter o +gosto de o conhecer pessoalmente. <br /> + +<br /> + +Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas +os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata. +Esta lembrança foi acompanhada da responsabilidade, e isso +obrigou Alcoforado a chamar os commandantes das mais +embarcações, communicou-lhes o convite de +Cam-pau-sai, e a deliberação, que havia tomado. +Todos acordaram com os <a href="#e11">Officiaes</a> +do seu navio, menos +elle, que fallou da maneira seguinte.—Grande é meu +contentamento por ver o empenho, que fazeis para não me +arriscar nesta visita; seja por estimardes a minha existencia, ou por +julgardes em mim +<span class="pagenum">[59]</span> +algum prestimo. +Confesso-vos, que tão grande é o vosso empenho, +quanto mais firme se torna a minha resolução: +já porque +recusando este convite ficará mui cerceada a nossa +reputação já porque seria o +primeiro signal de fraqueza da esquadra Macaense: se for +traída a minha boa fé, tereis novo +incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que +vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de coração +socegado e alma firme, tremerá de +vós—Todos o +escutavam com attenção: e ás ultimas +palavras +cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela +honra da Patria, e pela humanidade, só a ella +pertencia, naquella occasião. Despedio-se e partio para a +esquadra inimiga. Assim que passou a primeira +embarcação da vanguada<sup><a href="#nt4">[Nota +4ª]</a></sup>:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Sonorosas trombetas incitavam<br /> + +Os animos alegres +resonando:<br /> + +Dos</em> Chinas <em>os bateis o +mar +coalhavam,<br /> + +Os toldos pelas aguas arrojando.<br /> + +As bombardas horrisonas +bramavam<br /> + +Com as nuves de fumo o sol toldando.</em><sup><a href="#n18">[18]</a></sup></div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[60]</span> +Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao +portaló, e o conduzio pela mão á +camara. Alli +trocáram as mais apuradas civilidades. Cam-pau-sai, +estudando o modo de obsequiar o nosso heroe, não achou outro +mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe pela honra, +que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros europeos, que +tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com +demonstrações proprias de captivar o offerente +pelas cadêas da amizade. Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser +então o seu maior empenho não o ter por inimigo; +pois havia experimentado o valor dos portuguezes. <br /> + +<br /> + +Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de +saír do bloqueio com as embarcações +mais veleiras, para onde não podessemos incommodalo; +porém que a honra daquella visita o tinha penhorado de modo, +que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a +promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto +conceito, e a quem de boa vontade se rendia. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[61]</span> +Alcoforado afiançou a promessa do ministro, mostrando-se +pesaroso em não depender só delle a +capitulação para em tudo a +fazer a contento de Cam-pau-sai. Disse mais:—como chefe da +esquadra +macaense, tenho ordem para destruir a vossa, se tentardes +saír daqui: e serei obrigado a fazelo por ser +usança portugueza romper as linhas da amizade, quando assim +o urgem as precisões do estado. Espero de vós +não ter occasião para +rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado, +levantou-se: <br /> + +<br /> + +Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso +V;<sup><a href="#n19">[19]</a></sup> +ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da +separação destes guerreiros; +não querendo ceder um ao outro a primasia em affectos +delicados. Com tudo não pôde Alcoforado impedir a +Cam-pau-sai, de acompanhalo até ao escaler em que partio +para a sua frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os +marinheiros subiram ás vergas para todos a um tempo lhe +darem os emboras. <br /> + +<br /> + +Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se +<span class="pagenum">[62]</span> +em Macáo; no +ponto, +onde se faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de +Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas José de +Alvarenga, governador militar daquella cidade, obstou a que os +macaences tivessem mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que +estremecia só de ouvir fallar das façanhas +portuguezas<sup><a href="#n20">[20]</a></sup>. +Assim foi Arriaga obrigado a concluir este importante +negocio fóra de Macáo. <br /> + +<br /> + +Avisou os mondarins, +<em>Chu</em>, e +<em>Pom</em>, que viessem ao pagode<sup><a href="#n21">[21]</a></sup>: ajustaram alli, que +o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e fizeram aviso aos +delegados do imperador para se acharem alli em dia aprazado. +Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da côrte, +e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular +distincção. +<br /> + +<br /> + +Já o congresso deliberava sobre a +capitulação, quando chegou de Macáo a +relação do que se tinha passado entre os chefes +das esquadras. A ousadia do atrevido Alcoforado não +só penhorou Cam-pau-sai, mas tambem +<span class="pagenum">[63]</span> +os +mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando +o gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas +vontades. <br /> + +<br /> + +Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com +mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de +accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que +viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem +reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As +ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a +José Pinto Alcoforado, pelo governador de Macáo: +homem pouco experiente dos costumes chinezes, e cobarde, por isso +demorou a ordem do congresso. No dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a +que lhe fora dirigida, levantou ancora e principiou a velejar para +fora. Alcoforado, ignorando as ordens do congresso, e vendo a esquadra +inimiga em movimento, mandou suspender a sua, e manobrar de modo +hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver desintelligencia: ordenou +á sua frota, que amainasse e surgisse. +<span class="pagenum"><a name="p64" id="p64">[64]</a></span> +Sabendo-se no congresso da imprudencia do +timido Alvarenga, dirigio-se Arriaga a Macáo para animalo, e +os delegados do imperador tomaram a resolução de +ir á esquadra +portugueza certificar ao chefe o que se tinha tractado com o ministro. <br /> + +<br /> + +Assim que o nosso Alcaforado vio +em sua +embarcação dois chinezes de cabaias amarellas, +conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser côr privativa da +familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida á +civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, não +compromettesse a palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos +piratas, a quem tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a +elle Alcaforado, que o deixasse +saír; +que a inexperiencia do governador, não devia +embaraçar a execução dos poderes dados +pelo Senado ao ministro Arriaga. <br /> + +<br /> + +Alcoforado respondeu:—aprecío muito <a href="#e12">a honra</a>, +que me fazeis—e desejo, ainda mais, ser-vos util: +porém as leis militares entre nós executam-se sem +discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga, se +tentar saír, em quanto não houver +<span class="pagenum"><a name="p65" id="p65">[65]</a></span> +outra em contrario, não posso deixar de +fazelo. <br /> + +<br /> + +Os mandarins tornaram-lhe:—Homem recto e valoroso, conhecemos +os +serviços que tens feito ao imperio, e á tua +nação: +não offusques essa gloria deixando outra vez as costas da +China cobertas de piratas. Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: +não o irrites. Grande parte da provincia de Chin-cheu segue +o seu partido: sabes que é povoada de homens <a href="#eo16">marcantes</a>, +robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas é +audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparão outra esquadra +para obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do +esforço macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo +que mais estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai +não desconfiar da nossa palavra.—Nesta +occasião +chegou a ordem de Macáo, por diligencia de Arriaga, para +Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir Cam-pau-sai <a href="#eo17">para +Chumpin</a>. Mui +contentes ficaram os mandarins: partiram satisfeitos para o logar do +congresso, onde já acharam o nosso Arriaga. Mandou-se nova +ordem a +<span class="pagenum">[66]</span> +Cam-pau-sai; +no dia immediato surgio no logar aprazado. <br /> + +<br /> + +Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a +entrar no congresso, onde devia firmar a sua +capitulação. Promptamente +chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e +gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira. <br /> + +<br /> + +Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha +capitulação, para entrar na classe dos +Coláos, como mo promettestes pelo imperador. Mas +confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca +destruidora do meu poder. Já vos vi: +estou satisfeito. Devo muito á natureza, e á +minha assidua applicação; mas em tudo me acho +vencido por vós.—E virando-se para os +mandarins:—Tendes +por experiencia de 14 annos, quão poderoso e vigilante foi o +meu sceptro: sabei agora da minha bocca, que o valor portuguez foi quem +o destruira. Aqui me tendes em vossa presença: espero que me +trateis como a homem livre, e destemido—E tomou assento. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p67" id="p67">[67]</a></span> +Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar <a href="#e13">alguns +dos seus</a>, que fossem mais criminosos.—Para +satisfazer a +esse requisito, darei os nomes de 14 faccinorosos, que existem na +esquadra. Paguem com suas cabeças as atrocidades que +fizeram, e eu desaprovei.—Sendo este o unico +embaraço que +havia, concluio-se o negocio. <br /> + +<br /> + +Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divisão de 80 +embarcações, que antes de vir attacar a esquadra +macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber os tributos do anno +passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se. <br /> + +<br /> + +Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se +devia repartir a preza; visto são ser o artigo 1.º +da +convenção preenchido pelo Governo Chinez; e ter +só a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a capitular. <br /> + +<br /> + +Já o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, +quão valoroso e sensivel éra o seu +coração; mas então quiz mostrar-lhe +quanto éra liberal. De tudo quanto existia na esquadra de +Cam-pau-sai, exigio a melhor parte +<span class="pagenum">[68]</span> +das bombardas: tudo o mais deixou á +disposição do Imperador. Os companheiros de +Cam-pau-sai ficaram cidadãos chinezes; elle Coláo +do Imperio; e as cabeças dos 14 criminosos, para exemplo dos +malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da +ilha de Macáo, onde ficaram até serem consumidas +pelo tempo. <br /> + +<br /> + +Concluida a capitulação, disse Cam-pau-sai, ao +Conselheiro Arriaga:—Ainda tenho um favor a pedir-vos. +Pertendo ir a +Macáo, se me concederes licença, para ter o gosto +de ver todos os meus vencedores—O Ministro agradeceu: e +dissolveu-se o +congresso, saindo todos os seus membros cheios de alegria e +admiração: Arriaga, da inexplicavel civilidade e +sciencia dos mandarins da côrte, ou coláos! +Cam-pau-sai, da pessoa, e do espirito de Arriaga! Os coláos! +de Cam-pau-sai, e de Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam +capacitar-se de ver livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em +14 annos continuos. <br /> + +<br /> + +Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes +macaenses, que +<span class="pagenum">[69]</span> +éra ao mesmo +tempo o seu. A caza deste illustre varão tinha para elles a +mesma +consideração, que o Capitolio para os romanos. +Não foi este triumfo tão aparatoso no exterior +como os de Cesar, ou o de D. João de Castro em Goa. Mas os +corações de todos os habitantes de +Macáo exultavam de prazer até alli nunco visto +nem sentido.<sup><a href="#nt5">[Nota 5ª]</a></sup><br /> + +<br /> + +Em Maio chegou a Cantão a noticia de não querer +entregar-se a divisão rebelde, despresando a ordem do seu +antigo chefe. Avisou-se a Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e +Pedio-se-lhe o desempenho da palavra dada no acto da +capitulação. Respondeu:—Rebellada a +divisão a primeira vez contra a minha ordem não +devo mandar-lhe outra. Tenho recurso mais prompto. Dai-me sessenta +embarcações das que foram minhas, deixai-mas +tripolar com os que já me obedeceram; e se não +trouxer os rebeldes dou a minha cabeça. Lembro-me que podeis +desconfiar da minha palavra: deixarei em refens o que possuo de mais +apreciavel; dois filhos que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis +a qualidade do penhor. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[70]</span> +O Suntó: apezar das demonstrações de +firmesa e honrada conducta de Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a +esquadra que elle pedia. Mandou apromptar uma frota imperial de perto +de duzentas embarcações, e bem equipadas com +parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de Cam-pau-sai. +Saío esta de Cantão e foi encontrar o inimigo. Em +pouco tempo veio entrar em Macáo fugida, e derrotada pela +divisão rebelde. Chegando esta noticia a Cantão, +o Suntó mandou perguntar ao Conselheiro Arriaga, o que +deveria fazer ácerca do offerecimento de +Cam-pau-sai.—Que +se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha aceitado os +serviços de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe +tomar refens; pois esperava delle tudo quanto é proprio de +honralo, e de utilisar ao imperio.— <br /> + +<br /> + +O Suntó com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai +sessenta embarcações, e tudo quanto pedio. Largou +o novo Almirante de Cantão deixando a todos em expectativa. +Dirigio-se a Macáo, onde estava tudo prompto para recebelo. +Em dia assignalado foram os +<span class="pagenum">[71]</span> +commandantes +da nossa esquadra<sup><a href="#nt6">[Nota +6ª]</a></sup> com os bons moradores da +cidade a caza do Ministro Arriaga. Ainda bem o não tinham +cumprimentado, annunciou-se a entrada de Cam-pau-sai. Foi conduzido +á Sala. Acabadas as civilidades requintadas, segundo o +costume Chinez disse:—Deus immortal, estão +completos os +meus ultimos desejos, vendo e abraçando heroes +tão sublimados—Brilhava o jubilo no rosto de todos +vendo Marte humilhado em sua presença.—Acha-se +neste +circulo o valoroso commandante da Lorcha Leão? Desejo +conhecelo—Aqui me tendes respondeu o <em>Caroxa</em>. +Cam-pau-sai caminhou para +elle, abraçou-o: e virando-se para o Ministro +disse:—Este +homem fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui +vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por +vós, ficará victorioso. Cedo vos mostrarei como +venço a outra gente. <br /> + +<br /> + +—Tenho conhecido em vossas acções, +disse +Arriaga, que sois varão assignalado. Agradeço-vos +por todos o alto conceito, que de nós fazeis: affirmo-vos +ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado á +ordem dos Coláos, +<span class="pagenum">[72]</span> +onde fareis a ventura da vossa patria, +e as delicias do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre +a dar a vida pela restauração da gloria nacional, +pelos seus direitos, e pelos do seu Monarca legitimo. Lembrai-vos de +todas as acções que lhes vistes +praticar:<sup><a href="#nt7">[Nota +7ª]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>E julgareis qual +é mais excellente,<br /> + +Se ser do +mundo rei, se de tal gente.</em><sup><a href="#n22">[22]</a></sup></div> + +<br /> + +<br /> + +Se a liberdade, a propriedade, e a segurança são +as unicas linhas, que prendem os homens á terra onde +habitam, e ao rei; senão ha amor de patria, onde +não existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos +Portuguezes ao rei e á patria, das qualidades do Senhor D. +João VI. Paga o amor que lhe temos usando do seu poder, para +oppôr barreiras fortes, e dar remedio ás +paixões dos subditos, sem que possamos conhecer as suas +proprias paixões.<sup><a href="#n23">[23]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[73]</span> +<div class="poetry"><em>Do vosso nome um +grão Rei</em></div> + +<div class="poetry2"><em>Neste +reino Lusitano<br /> + +Se poz esta mesma lei:<br /> + +Que diz o +seu Pelicano<br /> + +Pela lei, e pela grei</em><sup><a href="#n24">[24]</a></sup></div> + +<br /> + +<br /> + +Em todo o tempo, que esteve em Macáo o celebre Cam-pau-sai, +foi surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o +ministro Arriaga: mas foi obrigado a saír de +Macáo para em breve desempenhar a sua commissão. +Em poucos dias encontrou a divisão rebelde, a quem fez saber +que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Procclamão</em>. +<br /> + +</div> + +<br /> + +Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem. +Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela +força a escrevela. Não: assignei-a por minha +vontade. Se ainda o duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei +tambem os motivos, que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos +a seguir, o do bem, ou o do mal. Todos desejamos seguir +<span class="pagenum"><a name="p74" id="p74">[74]</a></span> +o do bem, mas somos muitas vezes lançados pelo erro +em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a seguirdes o meu +partido; mas então ainda eu não havia encetado o +caminho do bem. Hoje conheço que marchava pela estrada do +erro, afastado da vontade do maior numero. O imperio tem +povoação summamente grande; e o nosso partido a +seu respeito é <a href="#e14">summamente</a> +pequeno. Não podeis negar-me, que é +preciso haver desmedida ambição nos poucos, que +pertendem apossar-se do que é de muitos. Não +é conforme ás leis do imperio, nem ás +do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos +outros homens; e no caminho em que andavamos +deivairados, faziamos a sua desgraça<sup><a href="#n25">[25]</a></sup>. +Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero não duvideis +abraçala; e quando useis tenacidade, em vosso erro, +experimentareis pela primeira vez o meu rigor. <br /> + +<br /> + +Os rebeldes não attenderam ás rasões +de Cam-pau-sai: julgando-se superiores em força, cresceu, a +sua audacia; responderam com +<span class="pagenum"><a name="p75" id="p75">[75]</a></span> +despreso. +Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, +em poucas horas os que não se afundaram, +ficaram prisioneiros. Navegou com elles para Macáo; a fim de +mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os macaenses, a verdade do que +lhe havia dito. <br /> + +<br /> + +Entrou alli a divisão rebelde em estado tão +deploravel pelo estrago soffrido no combate, que levou muitos dias a +concertar para ir a Cantão. Cam-pau-sai largando o nosso +porto, dirigio-se á <em>bocca do +tygre</em>. Alli encontrou o mar cheio de +embarcações, que tinham vindo para o levar em +triumfo ao Suntó. É inexplicavel o contentamento, +que o povo d'aquella cidade teve nessa occasião. O +Suntó obsequiou <a href="#e15">Cam-pau-sai</a> +de +modo, que se o imperador viesse a Cantão, não +haveria mais nada a fazer-lhe para honra-lo. Dirigio á +côrte tão grandes +recommendações +ácerca do novo Almirante, que o imperador mandou, que fosse +a Pekim, para ter o gosto de velo. <br /> + +<br /> + +Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as +villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o +<span class="pagenum">[76]</span> +chefe dos piratas (que tanto havia +assustado o throno e o imperio) tornado uma das pessoas mais +interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital foi +apresentado ao imperador: teve com elle larga +conversação: depois houve conselho de estado, em +que foi Cam-pau-sai um dos seus membros. Emprego superior aos ministros +de Estado. <br /> + +<br /> + +Pode-se julgar por este facto, qual é a politica do Governo +Chinez. Já não tinha que temer no mar; com tudo +premiou Cam-pau-sai, não só para cumprir o que +havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus conhecimentos +e qualidades relevantes.<sup><a href="#n26">[26]</a></sup> +É provavel, que em quanto +elle for Conselheiro de Estado, não hajam piratas nos mares +da China. Tem adquerido tão grande +reputação na côrte, que não +só os particulares mas tambem o Imperador o tracta com +singular distincção. <br /> + +<br /> + +Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende: +ainda custando só a vida de um homem, assim mesmo +é funesta. +<span class="pagenum">[77]</span> +A +estatua do vencedor é sempre banhada de lagrimas pelos +vencidos. Todavia esta guerra foi differente. Obrigados os macaenses +por <em>Ladrões</em>a defenderem +as vidas e a fazenda, mediram as forças mais pelo valor, do +que pelo numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, +lançaram todos os mais ao seio da patria, nos +braços de seus +irmãos. Em logar de pranto de vencidos, derramaram lagrimas +de prazer trocando trabalhos e miserias por vida socegada. Nesta guerra +sempre os nossos attenderam mais á humanidade, do que +á vingança: fóra do conflicto +das batalhas, não houveram crueldades. <br /> + +<br /> + +Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da +capitulação, a melhor parte das bombardas de +Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao Senhor D. +João VI. Recolhendo-se a Macáo, declarou o seu +projecto no Senado que de boa vontade assentio. <br /> + +<br /> + +Já em 1642 o senado de Macáo mandára a +El-Rei D. João IV, as bombardas tomadas aos hollandezes, +para com ellas romper de todo o jugo dos Filippes. O mesmo senado em +1811 mandou ao Senhor D. João VI, a artilheria +<span class="pagenum">[78]</span> +tomada aos piratas da China, +não só para mostrar-lhe a grande força +do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges de +Bonaparte. <br /> + +<br /> + +A cidade de Macáo tinha perdido muitos dos seus privilegios. +Os chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em +beneficio de seus maiores, já começavam a ver os +portuguezes com a mesma indifferença, com que olhavam para +os outros europeos. Mas a serie de factos brilhantes, +paraticados no espaço de cinco annos, fizeram +reviver a nossa antiga reputação naquelle +imperio.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 150px; height: 123px;" alt="" src="images/fig02.png" /><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p79" id="p79">[79]</a></span> +<div style="text-align: center;"><em><a name="nt1"></a>Nota +</em>(1.ª)<br /> + +</div> + +<br /> + +Lendo a pagina 253 da relação abbreviada da +viagem de La-Perouse, as +falsidades alli escriptas em desabono dos +Macaenses, não posso deixar de as repelir. Começa +dizendo não ter +espressões para louvar o Governador de Macáo. A +paginas 255 rompe:—De grande importancia seria +Macáo a uma +nação justa, e que tivesse firmesa e +dignidade, contra o Governo Chinez, injusto, oppressor e cobarde! Alli +diz que o Governador de Macáo éra optimo, aqui o +Governo Portuguez não +é digno, nem justo; e o Governo Chinez, é +reputado por elle o peior do mundo! <br /> + +<br /> + +Se La Perou-se +pertendeu fallar do Governo Portuguez em relação +a Macáo, tambem +não foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus +delegados, do que nomear, para governar Macáo, um homem, que +segundo o juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se <a href="#e16">pela honra</a> da +nação? La Perouse, queria +achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos os europeos liberdade +para irem á China quebrar as leis do Imperio como elle mesmo +fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer que o +Governo Chinez é injusto, oppressor e cobarde! Como se +poderão avaliar os costumes e o caracter das +nações pelo juizo de taes escriptores? A +Nação Chineza +é independente; não quer ter +communicação com +<span class="pagenum">[80]</span> +os Europeos; renuncía a ganancia do commercio exterior pelo +socego do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar +em +Macáo homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo +Imperador! Vesse nesta memoria pelos judiciosos discursos dos +Mandarins, quão falsas e injustas são as +invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="nt2" id="nt2"></a><em>Nota</em> (2.ª) <br /> + +</div> + +<br /> + +Quando louvo Fernão Peres de Andrade e outros navegadores e +guerreiros, tomo por base a justiça e as suas virtudes. +Jámais escreveria este opusculo, se a guerra feita aos +piratas não tivesse por fundamento a defesa natural, e o bem +estar dos povos constituidos em sociedade. <br /> + +<br /> + +Desta guerra resultou grande beneficio á humanidade. Eu +louvo só os Portuguezes que em épocas mais +felizes, para nós, se conduziram com valor e dignidade; e os +que em nossos dias os imitam. Afonso de Albuquerque foi respeitado +ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e pela justiça, que +praticava, do que pelo extremado valor. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="nt3" id="nt3"></a><em>Nota </em>(3.ª) +<br /> + +</div> + +<br /> + +Era Cam-pau-sai tão extremoso em ardiz, que não +lhe escapou de enredar os seus no fanatismo para mais devotamente +chegar aos fins dos seus designios. Logo que os interesseiros bonzos +lhe afiançaram o bom resultado da empreza, lançou +<span class="pagenum">[81]</span> +mão desses instrumentos do +erro, que degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o +carro dos conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe +um pagode na maior embarcação, e deu o commando +della ao +Capitão mais experimentado para defender de todo o risco o +templo dos idolos. <br /> + +<br /> + +Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos +bonzos, e reputado seu chefe. <br /> + +<br /> + +Deram passos tão agigantados na estrada da +superstituição, que já não +faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saíam todos +os commandantes de seus Taós para irem áquelle +onde se achava o pagode incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que +deviam fazer; isto é o que o chefe dos piratas havia +concertado com o principal dos bonzos. <br /> + +<br /> + +Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis +aos nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense +anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="nt4" id="nt4"></a> +<em>Nota</em> +(4.ª) <br /> + +</div> + +<br /> + +Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de +eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo +de +<span class="pagenum">[82]</span> +Mr. Arago, dá bem a +conhecer o caracter do nosso heroe.<sup><a href="#n27">[27]</a></sup> +Eis como elle o pinta. <br /> + +<br /> + +—Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.<sup><a href="#n28">[28]</a></sup> +Dir-te-hei o modo porque +fomos hospedados. Ás +protestações de amisade cheias de +franqueza, a maneiras honestas e frequente agrado, é +difficil ajuntar mais polidez, nem mais desvelo para obsequiar-nos. +Desde o primeiro dia a generosidade do Governador, mandou á +nossa meza, com profusão, os manjares mais delicados. Queria +mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os patricios dos +maiores sabios do mundo. <br /> + +<br /> + +Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do +paiz, cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a +galantaria, mais franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, +que voam nas azas do prazer. <br /> + +<br /> + +O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua +generosa affeição: fez +acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não lhes dar +valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto +Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de +conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para +<span class="pagenum"><a name="p83" id="p83">[83]</a></span> +Timor, pelo que nos +deu a entender, procedeu de causas politicas.<sup><a href="#n29">[29]</a></sup> Ocupou-se com desvelo +em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua +administração é doce. Os Rajaz +não são aviltados +pelo despotismo como succede em Coupang. Pelo +contratrio são tratados com amor.— <br /> + +<br /> + +Já, em outras éras, menores virtudes de outro +Souza foram assim cantadas.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry"><em>Le +généreux Souza, qui sut +domter l'amour<br /> + +Dans ces climats ardens oú son feu nous +dévore,<br /> + +Et q'aprés Scipion la vertu +<a href="#e17">nomme</a> encore.</em> +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="nt5" id="nt5"></a> +<em>Nota</em> +(5.ª) <br /> + +</div> + +<br /> + +No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito +cidadão José Baptista de Miranda e Lima as +virtudes do nosso Arriaga pelo modo seguinte: <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="poetry2">Á sombra de frondifera +oliveira,</div> + +<div class="poetry">Por ti, ha +tanto tempo, desejada,<br /> + +(Graças ao creador Omnipotente.)<br /> + +Te +vejo, cara patria<sup><a href="#np1">[1]</a></sup> +reclinada. </div> + +<div class="poetry2">No pelago espaçoso, que te +cerca,</div> + +<div class="poetry">Ja +não vês tremular hostis pendões<sup><a href="#np2">[2]</a></sup>.<br /> + +Não ouves rebombar os horisontes<sup><a href="#np3">[3]</a></sup><br /> + +Com horrorosos tiros de +canhões<sup><a href="#np4">[4]</a></sup>.</div> + +<span class="pagenum">[84]</span> +<div class="poetry2">De salitroso +pó<sup><a href="#np5">[5]</a></sup> +que antes servia</div> + +<div class="poetry">Para ao longe mandar lethaes pelouros<br /> + +Se ferreos tubos hoje tu carregas<sup><a href="#np6">[6]</a></sup>,<br /> + +É só por +festejar c'os seus estouros.</div> + +<div class="poetry2">Centenares de +Taós<sup><a href="#np7">[7]</a></sup> +prenhes de tygres,</div> + +<div class="poetry">Que ao pé de ti +rasgavam cruelmente<sup><a href="#np8">[8]</a></sup><br /> + +Meninas e donzelas delicadas<br /> + +A teu Pai +sujeitou<sup><a href="#np9">[9]</a></sup> +o Eterno Ente.</div> + +<div class="poetry2">Teu benefico Pai, o Arriaga<sup><a href="#np10">[10]</a></sup></div> + +<div class="poetry">Estes tygres de Hyrcania domou<br /> + +E a frondente oliveira, que te cobre,<br /> + +Cortando mil obstaculos, plantou.</div> + +<div class="poetry2">Jámais pois +riscarão da fantasia<sup><a href="#np11">[11]</a></sup></div> + +<div class="poetry">O nome deste Heroe da lusa gente:<br /> + +E +agora, que celebras seu triumfo,<br /> + +De verde palma vai cingir-lhe a +frente.</div> + +<div class="poetry2">Da victoria este emblema para ornares,</div> + +<div class="poetry">Lindas flores +procura designantes<br /> + +D'aquelles predicados appreciaveis,<br /> + +Neste filho de +Lisia mui brilhantes.</div> + +<div class="poetry2">O louro girasol, que sempre segue</div> + +<div class="poetry">O +planeta, que os outros illumina<sup><a href="#np12">[12]</a></sup><br /> + +Designa a bem notoria lealdade<br /> + +Do +nosso Heroe á prole Bragantina.</div> + +<div class="poetry2">Os rubros +amaranthos, que resistem</div> + +<div class="poetry">Ao vento, á calma, ao gelo, +symbolisam<br /> + +A intrepida constancia nas empresas<sup><a href="#np13">[13]</a></sup>,<br /> + +Que o nome de +Arriaga immortalizam.</div> + +<span class="pagenum"><a name="p85" id="p85">[85]</a></span> +<div class="poetry2">A candida açucena, que +dispende</div> + +<div class="poetry">Liberalmente o corceo, de +que gosa<br /> + +É symbolo do seu singello peito<sup><a href="#np14">[14]</a></sup>,<br /> + +Emblema da sua +alma generosa.</div> + +<div class="poetry2">O Lirio, que nascendo d'alta vara,</div> + +<div class="poetry">Sendo rei +da florida monarquia<br /> + +Para baixo a sublime frente inclina,<br /> + +Sua clemencia +designa, e cortezia<sup><a href="#np15">[15]</a></sup>.</div> + +<div class="poetry2">Das mais virtudes symbolos procura</div> + +<div class="poetry">N'outros lindos matizes dos jardins;<br /> + +Não te +esqueças das rosas rubicundas,<br /> + +Dos junquilhos, dos cravos, +dos Jasmins.</div> + +<div class="poetry2">De ti receba agora esta +corôa</div> + +<div class="poetry">Bem que inferior ao seu merecimento;<br /> + +Em quanto outra +melhor se lhe prepara<br /> + +No reino superior ao firmamento.</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Notas de +Antonio Francisco de Miranda e Sousa, +Deão da Sé de Macáo.</em> +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<a name="np1" id="np1"></a>1.ª A +patria é +a cidade de Macáo. <br /> + +<br /> + +<a name="np2" id="np2"></a>2.ª As +bandeiras +vermelhas e pretas das duas columnas +inimigas. <br /> + +<br /> + +<a name="np3" id="np3"></a><a href="#n47">3.ª +?</a><br /> + +<br /> + +<a name="np4" id="np4"></a>4.ª Mil e +oitocentas bombardas de diversos calibres entregou +Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas. <br /> + +<br /> + +<a name="np5" id="np5"></a>5.ª +Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em +Macáo em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[86]</span> +<a name="np6" id="np6"></a>6.ª +Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se +celebrava o +triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus +contornos, a melhor parte do povo da cidade. <br /> + +<br /> + +<a name="np7" id="np7"></a>7.ª +Embarcações de guerra. Cam-pau-sai +entregou +3800 homens, Apautai 2000. <br /> + +<br /> + +<a name="np8" id="np8"></a>8.ª +Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 +pessoas. <br /> + +<br /> + +<a name="np9" id="np9"></a>9.ª +Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel +de +Arriaga, seu medianeiro para com o imperador da China. <br /> + +<br /> + +<a name="np10" id="np10"></a>10.ª +Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de +Macáo. <br /> + +<br /> + +<a name="np11" id="np11"></a>11.ª O +nome de Miguel de Arriaga será lembrado +não só na ilha de Macáo mas tambem no +imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em seus +annaes para haver delle eterna memoria. <br /> + +<br /> + +<a name="np12" id="np12"></a>12.ª +Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para +dirigir +o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes +não arrebatarem esta cidade á +nação portugueza. <br /> + +<br /> + +<a name="np13" id="np13"></a>13.ª +Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns +que +mofaram da empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a +victoria. <br /> + +<br /> + +<a name="np14" id="np14"></a>14.ª A +candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao +Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar +amizade entre aquelles desavindos. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p87" id="p87">[87]</a></span> +<a name="np15" id="np15"></a>15.ª +Despresando difficuldades tratou sempre em +Macáo os +máos, com a mesma clemencia que usava para com os bons, e +tudo isso nascia da sua nobreza de coração e das +altas e perfeitas <a href="#eo18">virtudes que +possuia</a>. <br /> + +<br /> + +Em recompensa de tão relevantes serviços o +conservou El-Rei D. João VI, na ouvidoria de +Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi +nasceram seus imfortunios, e sua morte prematura. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="nt6" id="nt6"></a> +<em>Nota</em> +(6.ª) <br /> + +</div> + +<br /> + +Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais +subida era a do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e +Sousa: Capitão de artilheria. Em verdade para obrar grandes +cousas não são precisos gráos +elevados. No tempo dos +Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram prodigios custosos de +crer, por extraordinarios, tambem foram praticados por homens, que +sabiam honrar-se com o gráo do seu nome! <br /> + +<br /> + +Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que +fizeram acções extremadas. Se mencionasse +todos os que nos cinco annos da guerra contra os piratas, obraram +cousas uteis, <a href="#eo19">faria</a> mui grosso +o volume; porque muitos foram elles, e +todos merecem elogio. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><a name="nt7" id="nt7"></a> +<em>Nota</em> +(7.ª) <br /> + +</div> + +<br /> + +Quando os governos não excitam os homens á +gloria, os concidadãos tem em pouco a +estimação +<span class="pagenum"><a name="p88" id="p88">[88]</a></span> +publica. A maior parte dos homens são como o negociante +avaro: se armam não é com +esperança de immortalisar seu nome. Unicamente sensiveis ao +ganho temem, que o navio se afaste do caminho já sulcado; +por este sabem elles não haverem novas terras para +descobrir. Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal +for levado a ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a +explore nem reconheça os <a href="#e18">habitantes</a>: +<a href="#eo20">tome agoa</a> e largue as +velas ao seu +destino sem lhe importar descobertas<sup><a href="#n30">[30]</a></sup> +. Já não +ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo, unicamente invejosos +de honras, empregos, e riquezas poucos homens embarcam a fim de +explorar a naturesa<sup><a href="#n31">[31]</a></sup> +. Todavia o governo de Macáo provou o +muito que tinha excitado os seus concidadãos á +gloria. +Estes para merecela, não receberam pensões, +arriscaram a vida e prestaram a fazenda. <a href="#e19">Graças</a> +aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo desinteresse que +mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques. +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[89]</span> +<h2>SEGUNDA PARTE. </h2> + +<br /> + +<h3>INVASÃO DAS TROPAS INGLEZAS</h3> + +<h3>EM MACÁO</h3> + +<h3>E SUA +RETIRADA.</h3> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[90]</span> +<h3>PROLOGO DA SEGUNDA PARTE. </h3> + +<br /> + +<br /> + +A Virtude é o nexo da sociedade: e consiste em nos abstermos +de fazer mal; não privar pessoa alguma das vantagens que +desfructa; dar a cada um o que é devido; e promover a +felicidade dos outros em geral. O homem só merece o nome de +virtuoso se contribue para a utilidade e segurança da +sociedade. <br /> + +<br /> + +A primeira das virtudes sociaes é a humanidade; esta pode +considerar-se o centro comum de todas as outras. Ella dá aos +entes da especie humana direitos sobre o nosso +coração. +Sim ella tem por base a sensibilidade, e esse sentimento +dispõe-nos a fazer aos outros todo o bem de que as nossas +faculdades são capazes. Seus effeitos são o amor, +a +beneficencia, a liberalidade, a indulgencia, e a piedade. <br /> + +<br /> + +Quando a humanidade reside na sociedade em que vivemos, constitue o +amor da patria; isto é, produz a necessaria +affeição +nacional. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p91" id="p91">[91]</a></span> +A força deve só respeitar-se como virtude; quando +defende a sociedade em que vivemos, quando se acha acompanhada de +grandeza d'alma, valor, e moderação. A actividade +tambem deve entrar na ordem das virtudes sociaes; <a href="#eo21">as +que tem</a> por +objecto o bem da sociedade devem ser efficazes e não inertes +como outras quimericas e falsas, introduzidas pela impostura, ou +fanatismo. A sociedade só agradece +acções proveitosas: só essas +merecem a sua estimação e <a href="#e20">reconhecimento</a>. +<br /> + +<br /> + +A justiça é o vinculo da união social; +sustenta a balança em equilibrio entre os membros da +sociedade; remedeia os males que resultam da differença que +a natureza poz entre os homens; e faz servir essa mesma desigualdade ao +bem geral. A justiça pelas leis da equiedade e +sábia distribuição do +premio e do castigo excita a virtude, reprime o vicio, e chama +á ordem os que são tentados a obrar contra os +entes da sua especie. <br /> + +<br /> + +Taes são as disposições que a +sociedade deve exigir dos seus membros; tudo nos mostra a sua +utilidade; são necessarias e invariaveis; pois tem por +fundamento a natureza +<span class="pagenum">[92]</span> +e as +precisões constantes da especie humana. Faltando a +justiça não ha ventura na sociedade; sem ella o +estado social torna-se mais desagradavel do que o estado selvagem. +É melhor viver só do que rodeado de homens +injustos. <br /> + +<br /> + +A temprança é igualmente necessaria: a prudencia +nasce da razão ou da experiencia das cousas. A +razão eleva o homem ás causas, ensina-lhe a +estudar a sua influencia, e a prevêr os effeitos. Sim, a +razão compara os objectos, e despoja-os de apparencias +falsas; e aproveita-se do preterito, e do futuro para não +saír da meta conveniente na +occasião opportuna. <br /> + +<br /> + +Do governo humano, activo, justo e prudente, resulta o bem estar da +sociedade; o seu maior cuidado é fazer gosar os +cidadãos, em paz e socego, o fructo dos seus trabalhos; +conservalos exemptos dos vicios internos, e das invasões +externas. O Senado de Macáo firme nestes principios, e +sabendo quanto os sobrecargas inglezes ambicionavam aquelle nosso +estabelecimento, poz-se em guarda contra os que pertendiam esbulha-lo +da +<span class="pagenum">[93]</span> +sua pósse, ou perturbar +o socego publico. <br /> + +<br /> + +Aportando alli o Almirante Drury, com ordem de Lord Minto (Governador +de Bengalla) para introduzir tropas inglezas em Macáo, ainda +que elles diziam ser aquelle procedimento a nosso favor; com tudo o +Senado desconfiou do empenho com que pertendiam verificar a offerta. <br /> + +<br /> + +Assim firme em sua resolução, sustentou entre os +Chinezes e os britanicos a seguinte correspondencia.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[95]</span> +<h3>SEGUNDA PARTE </h3> + +<br /> + +<br /> + +Assim que o Almirante Drury aportou em Macáo, remeteu uma +intimação de Lord +Minto, a Bernardo Aleixo (Governador de Macáo)<sup><a href="#n32">[32]</a></sup> e mandou +Robert, (primeiro sobrecarga da companhia) em +deputação ao +Governador. Robert fallou neste espirito.<sup><a href="#n33">[33]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +—Sou mandado pelo Almirante Drury participar-vos, que o seu +intento +é empregar as forças do seu commando na defeza de +Macáo, contra os francezes! A +explicação desta medida feita a V. Exc. por Lord +Minto dispensa-me de repetir os motivos porque o Governo Britanico +assim procede. <br /> + +<br /> + +O Almirante está disposto a conferir com vosco antes do +desembarque das tropas: com tudo é preciso que o Senado +esteja tambem disposto a cooperar com os inglezes para a +segurança desta cidade e do commercio; se o +<span class="pagenum"><a name="p96" id="p96">[96]</a></span> +plano proposto não tiver effeito por motivo do Senado, o +Almirante, a seu pesar; terá conducta opposta. <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote">Setembro 11</span> +É para notar o ameaço que faz o sobre carga na +primeira entre vista! <br /> + +<br /> + +É grato ao meu coração, tornou +Bernardo Aleixo, ver o empenho que tomais em defender as <a href="#eo22">possessões</a> +lusitanas: com tudo pela intima alliança dos nossos +monarcas, pelas ordens que tenho do Sr. D. João VI, e pelos +tratados feitos com os Chinezes, não devo consentir no +desembarque das vossas tropas, sem ordem superior. <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote"><a href="#e21">Septembro</a> +12</span> +Não posso duvidar, replicou Drury, da vossa franquesa nem da +convicção em que estais da intimidade dos nossos +monarcas: sou sensivel á situação em +que vos achaes: +comtudo previno-vos, que pela grande distancia do logar donde podeis +receber ordem superior, não a tereis tão +cêdo, como +é de meu dever cumprir o que me foi determinado por Lord +Minto. Para a conclusão deste negocio desejo ter uma +conferencia com vosco. <br /> + +<span class="sidenote">Septembro 13</span><br /> + +Não só na primeira +participação, mas tambem na primeira replica teve +o Senado +<span class="pagenum">[97]</span> +motivo bastante para +desconfiar das intenções britannicas; por tanto +officiou ao Almirante pelo modo seguinte:<sup><a href="#n34">[34]</a></sup> +<br /> + +<br /> + +Suppondo-vos certo da razão que me assiste para +não alterar as ordens que tenho; devo lisongiarme da vossa +persuasão tanto da lealdade no desempenho dos meus deveres, +como da certeza em que estou da intima alliança dos nossos +monarcas: assim espero que modifiqueis as +instruções de Lord Minto, em quanto +não chegam ordens do Brazil, ou de Goa. Eu tambem demorarei +a participação das vossas +intenções ao Governo Chinez: +intenções de dificil compreensão a +povos altivos e desconfiados. <br /> + +<br /> + +Estimarei a vossa visita, farei tudo para satisfazer-vos, menos +consentir no desembarque das vossas tropas. Terei a +satisfação de aprender com vosco o modo de tirar +a estes povos o receio, que lhe ficou em 1802, e agora renovado pela +vossa pretenção.<sup><a href="#n35">[35]</a></sup> +O Imperio da China +é o protector desta cidade ha 270 annos; nada mais +é preciso para sua +<span class="pagenum"><a name="p98" id="p98">[98]</a></span> +defeza. Sendo a coacção origem de disturbios e +conhecendo vós a nossa razão, espero que se +houver máo resultado na vossa empreza, não o +imputareis ao governo de Macáo. <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote">Setembro 14</span> +Não havendo resposta do Almirante até o dia 16 o +Senado intimou um protesto aos sobrecargas, e disse mais: +Será infalivel a +complicação dos negocios britanicos, se o vosso +Almirante tentar contra os ajustes feitos em 1802 pelo Senado com o +Governo Chinez, para não admittir auxilio extrangeiro. <br /> + +<br /> + +Sabendo agora pelo Governador de Bengalla, que tendes grande parte +nesta empreza, é do meu dever segnificar-vos, que no caso +não esperado, de continuarem as mesmas instancias para a +admissão das <a href="#e22">vossas tropas</a> +nesta cidade, farei +pôr em execução o que no protesto junto +declaro. É repugnante o vosso procedimento contra povos +fieis e amigos da Caza de Bragança desde a sua +restauração. Exijo que o protesto junto com a +copia desta carta seja remettido ao Almirante. <br /> + +<br /> + +Não produzindo estes escriptos o effeito desejado, o Senado +enviou a participação seguinte +ao mandarim de Hiang-san. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[99]</span> +A dez de Setembro surgiram em frente desta cidade, uma náo, +uma fragata, e um brigue da nação ingleza, sendo +chefe desta força o Almirante Drury. Trouxe uma carta de +Lord Minto, que diz mandar, da parte do seu rei, antigo alliado do +nosso, soldados para defenderem esta cidade de alguma +invasão franceza. O Almirante assegura não +exceder os limites de defesa; porém como o seu desembarque +nesta cidade, quebra os tractados deste governo com a celestial +dynastia, somos obrigados a fazer-vos este aviso a fim de o levares ao +Suntó, em virtude dos mesmos tractados. <br /> + +<br /> + +O Governo de Macáo, animado do ardente desejo de manter as +relações politicas e commerciaes, que tem ligado +esta cidade com os Chinezes, e varias nações da +Europa; e tendo o mesmo empenho em continuar a merecer na +opinião das nações, propria e +extrangeiras, a consideração de leal e honrado, +titulo nunca recusado a este Senado: julgou preciso offerecer ao +publico a succinta e franca exposição dos factos +acontecidos desde a chegada do Almirante Drury a este porto +até hoje, no protesto seguinte. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[100]</span> +A dez de Setembro de 1808, chegou ao porto desta cidade a frota +commandada pelo almirante Drury. A 11 recebi uma carta de Lord Minto, +onde refere os desastres de Portugal; e o favor recebido, pelo nosso +Rei, de George IV, para conservar as possessões da India e +China; e que sendo esta de muita importancia para os inglezes, devia +ser guarnecida com as suas tropas. Para esse fim mandava um +destacamento a esta cidade, e pedia pelo vinculo de antiga amizade, a +sua admissão e necessario arranjo. <br /> + +<br /> + +No mesmo acto disse, que pelos motivos da amizade expendida +não deviam obrar de modo, que destruissem a independencia, +que deviam querer segurar; nem admittia ser eu violentado a fazer o que +não devo. <br /> + +<br /> + +Esperava desta resposta alguma moderação, e mais +por saberem, que os chinezes não admittem novidades com que +possam julgar menos segura a sua independencia. Com tudo reagiram, +mandando intimar pelo chefe da companhia, que se não fossem +admittidas as tropas, seria differente o seu procedimento. <br /> + +<br /> + +Firme nos meus principios, e na minha +<span class="pagenum"><a name="p101" id="p101">[101]</a></span> +primeira resolução, assegurei-lhe a +immutabilidade do meu pensar, e dos habitantes desta cidade, que +jámais deram motivo para serem invadidos e atropellados por +uma nação, que se dizia alliada: porém +que a ter logar aquella intimação +ameaçadora, eu me defenderia +conforme o direito natural, e os limites desta praça, que +sempre fora respeitada por todas as nações +costumadas a +descançar á sombra da bandeira portugueza. <br /> + +<br /> + +Vendo que os inglezes não socegavam, e que eram baldados os +esforços da mais estudada prudencia; querendo salvar a +honra, e a paz constrangida pelo nosso mais antigo alliado; +não devo demorar por mais tempo a necessaria +participação ao governo chinez. Este como +protector da cidade fundada por sua concessão em seus +dominios, da qual recebe foro a seu contento; prestará com +brevidade os socorros precizos. Sou obrigado a participar-lhe todas as +circunstancias, não obstante saber <a href="#e23">quão</a> +tristes se tornarão as suas +providencias, se o almirante não cessar da sua contumacia. <br /> + +<br /> + +O senado tomará como hostil o procedimento que tiver por fim +desembarcar tropas<span class="pagenum">[102]</span> +inglezas nesta cidade; declara que se defenderá +até o ultimo extremo. Protesta contra taes procedimentos: a +responsabilidade recaírá sobre os aggressores. A +razão anima os habitantes desta cidade, que tanta honra e +gloria tem dado á nação portugueza em +sua não interrompida posse. <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote">Setembro +16 +</span>Quem não esperaria +moderação nos +britannicos, pela leitura daquelle protesto? +Retorquiram!—Sendo os +offerecimentos liberaes de Lord Minto rejeitados pela desleal conducta +do governo macaense<sup><a href="#n36">[36]</a></sup>, +e os esforços da nossa parte a fim +de livrar esta cidade da invasão franceza, e querendo +nós conservar boa intelligencia entre o governo chinez e a +nação britannica: somos arrastados pela +inexperada conducta dos macaenses a tomar medidas, que +podem offender os chinezes; mas o senado responderá por +tudo. <br /> + +<br /> + +Achamos-nos levados ao penoso extremo de vos participar, que em breve +os soldados inglezes occuparão Maçáo. +A nossa tenção, +quando chegar esse momento, é desembarcar +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p103" id="p103">[103]</a></span> +tambem os marinheiros, e tomar posse da cidade á ponta de +bayoneta. Consideraremos qualquer opposição como +rebelião +directa. Para evitar o conflicto de soldados e marinheiros raivosos, +deve o Senado admittir já as tropas britannicas. <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote">Setembro 19</span> +Foi recebida esta intimação, quando chegava outra +dos mandarins do destricto, para não deixar o Senado, +desembarcar as tropas inglezas. O governador remetteu-a por copia ao +almirante, com a seguinte carta. <br /> + +<br /> + +Agora me foi presente a vossa intimação! Com +pesar vejo nella, <a href="#eo23">tratada</a> de +infiel a conducta do governo desta +cidade por não admittir, contra o seu dever, +guarnição ingleza! E que tomareis como acto +hostil qualquer resistencia da nossa parte, dando para unico remedio a +tantos males, introduzir aqui tropas britannicas! Tenho presente as +rasões que vos expuz; extranho caracterisares este governo +de mal intencionado no cumprimento dos seus deveres. Confesso que da +minha parte os tenho modificado, julgando continuar assim a distincta +amizade dos respectivos monarcas. Ponderei em pleno conselho a vossa +<span class="pagenum">[104]</span> +intimação: sendo +bem examinada a ultima parte em que dizeis cesserá o vosso +rigor, admittindo-se um destacamento inglez, desejo saber como fareis +isso sem nos dar motivo para desconfiar das +intenções britannicas; e sem que os chinezes se +offendam de tão escandaloso procedimento. Posso +assegurar-vos, que elle não só ha de ser +prejudicial a +Macáo: a companhia ingleza soffrerá tambem os +seus effeitos. <br /> + +<br /> + +No dia 20 os sobrecargas Roberts, Patlle, Brameston, Helphinstone, e +Baring dirigiram ao governador a carta seguinte.—O protesto +de Vossa +Excellencia, será apresentado ao almirante, assim como a +intimação dos mandarins. Nós sabemos o +que elles são: o almirante não fará +caso delles. Sendo preciso concluirá este negocio com o +Suntó. <br /> + +<br /> + +É memoravel nos annaes macaenses, o dia 20 de Setembro de +1808. Achavam-se ás mãos com os piratas da China, +e ameaçados, pelo almirante inglez, de serem atacados +á bayoneta. Mas quanto maiores eram as adversidades, mais se +engrandecia o animo dos macaenses... Assim que se publicou no Senado +<span class="pagenum"><a name="p105" id="p105">[105]</a></span> +a injusta, cruel, e atroz +intimação da força ingleza, gritaram +todos:—Só depois de morrermos na defesa destes +muros +levantados por nossos maiores, poderão entrar esses +barbaros, que não podendo tomar nossas casas pela +hypocrisia, tentam fazelo com ameaços. O capitão +mór José Joaquim de Barros, ardendo em lavaredas +de amor patriotico, disse para o governador;—Irei para o +logar mais +arriscado, lá darei a vida na defesa do meu +posto—Bernardo +Aleixo, consummado em prudencia, não soffreu ser vencido em +valor. Dirigio-se ao <a href="#eo24">Ministro</a> +Arriaga, dizendo:—Honrado collega, com +taes companheiros não serão arrebatados <a href="#eo25">os lares</a> +macaenses. Devemos acabar de ter contemplação com +homens, que mais parecem inimigos do que alliados. Deixo a minha +residencia da praia grande; vou tomar o meu logar na fortaleza do +monte, confiado em que ordenareis tudo para conservar o socego publico; +e fiquem todos na intelligencia, que ella não se +renderá em quanto eu existir. <br /> + +<br /> + +Quem poderá escrever os dons naturaes e do estudo, +desenvolvidos pelo magnanimo +<span class="pagenum"><a name="p106" id="p106">[106]</a></span> +Arriaga +neste conflicto? Soube moderar o valor exaltado que tinha accendido <a href="#eo26">nos +peitos macaenses</a>, <a href="#eo27">e persuadilos</a>, +que não se +offendia em cousa +alguma a honra nacional, desembarcando a tropa ingleza, com <a href="#eo28">permissão</a> do Senado; e +talvez isso +desse novo realce á gloria dos portuguezes; <a href="#eo29">afiançou</a> não +ser longa a demora dos inglezes em +Macáo. Disse que todos sabiam ter o governo feito, quanto +estava ao seu alcance para livrar a cidade da invasão +ingleza; mas que em todo esse andamento haviam chegado os negocios a +tal extremo, que a julgava necessaria para ensinar os britanicos, pela +experiencia, que os macaenses não toleram invasores. <br /> + +<br /> + +Socegaram os animos; deram-se todas as providencias para se effectuar o +desembarque sem disturbios. Entregaram-se as fortalezas a pessoas de +confiança. O Governador foi para a do monte: e o +Capitão mór para a de S. <a href="#e24">Francisco</a>. +Commandava então a +guarnição da praça, o Senhor +José Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque; sempre mereceu +elogios do Governo por saber conciliar as qualidades militares com as +virtudes civicas. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p107" id="p107">[107]</a></span> +No dia 21 ao romper da alva desembarcaram os Capitães +Robertson, e Claulfield, com plenos poderes para tractarem com o +Governo de Macáo, ácerca do desembarque da tropa; +e levaram a Bernardo Aleixo a carta seguinte. <br /> + +<br /> + +Tive a honra de receber a vossa participação, diz +o Almirante, em que me informais da sabia e leal +determinação do Senado, em adimittir um +destacamento inglez na defesa desta cidade. É +grande o meu prazer entrar em Macáo como sincero amigo, e +sem <a href="#eo30">quebrar-se</a> a antiga +amizade dos nossos monarcas. +Affirmo-vos que haveis achar nas tropas britanicas, obediencia e +respeito. <br /> + +<br /> + +Quão differente linguagem da que empregou no dia 17! Em +quanto os macaenses não cederam á tenacidade +britanica, éram infieis; agora que pareciam afrouxar na +defesa dos seus direitos, são leaes e sabios! Ver-se-ha +mudarem de linguagem em pouco tempo. <br /> + +<br /> + +No mesmo dia os delegados do Almirante, e os do Senado (Bernardo +Aleixo, e Miguel de Arriaga) convencionaram nos artigos seguintes. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[108]</span> +1.º As leis do paiz regerão com toda a sua +plenitude. <br /> + +<br /> + +2.º Os crimes contra os Chinezes, seguirão o +julgado +estabelecido. <br /> + +<br /> + +3.º O destacamento inglez será subordinado ao +governo desta +cidade, combinando com o Capitão Robertson, em casos +extraordinarios. <br /> + +<br /> + +4.º Nenhuma outra bandeira será arvorada em +Macáo, além da portugueza. <br /> + +<br /> + +5.º As munições do destacamento +entrarão nos armazens publicos, ás ordens do +governo desta cidade. Os inglezes terão permissão +para beneficialas. <br /> + +<br /> + +6.º Os navios que pelas leis do paiz tem livre entrada neste +porto +não serão +interrompidos, nem registados pelos britanicos: e os navios inglezes +ficarão no mesmo estado em que se achavam antes desta +convenção. <br /> + +<br /> + +Depois de assignada, o Senado fará diligencia para evitar +complicação com o governo chinez. O governo de S. +M. Britanica fica responsavel ao Sr. D. João VI, pelas +consequencias deste tractado. <br /> + +<br /> + +Desembarcaram as tropas sem tumulto; +<span class="pagenum"><a name="p109" id="p109">[109]</a></span> +aquartelaram-se na feitoria de Bernardo Gomes de Lemos, e nas +fortalezas da Guia, e do Bom-parto. O Almirante requereu estes dois +ultimos quarteis, para não haverem disturbios. <br /> + +<br /> + +Antes de desembarcar as tropas dizia, que ellas guardariam obediencia e +respeito, assim que entrou com ellas na cidade, mudou de +lingoagem: temeu logo que os britanicos insultassem os +Chinezes. A intenção dos sobrecargas e do +Almirante, éra de ir pouco a pouco, escondidos na capa da +amizade, appossando-se de todas as fortalezas: e exigindo sempre, que o +Governo de Macáo avisasse ao de Cantão, que tudo +aquillo procedia da intima alliança entre as duas +Côroas de Portugal, e Gran-Bertanha. <br /> + +<br /> + +No primeiro de Outubro, pedio o Almirante ao Senado, licença +para enviar ao Suntó o tractado feito com o Senado, antes de +<a href="#e25">entrarem</a> as tropas inglezas em +Macáo. +Já a esse tempo o Suntó estava sciente de tudo +quanto se tinha feito em Macáo. <br /> + +<br /> + +No dia 8, começou o almirante, com os seus, a dirigir +queixas ao governador, pelos +<span class="pagenum"><a name="p110" id="p110">[110]</a></span> +insultos, +que faziam os chinezes aos britannicos; e dirigiram-lhe a +participação seguinte.—Somos obrigados, +com +pezar nosso, a representar-vos a necessidade de mettermos o nosso +destacamento na fortaleza de monte, a fim de evitar a +communicação com os chinezes; por <a href="#e26">quanto</a> já espancaram alguns +officiaes, e esta manhãa insultaram +outros de modo, que se não estivessem dentro dos limites do +quartel, haveria grande desordem. Se o destacamento se +estabelecer na <a href="#e27">fortaleza</a> do +monte, acabar-se-ha a idéa de +perigo. Asseguramos-vos a repugnancia com que fazemos esta +applicação, mas somos a isso obrigados para +evitar males, que podem envolver os nossos governos com o dos chinezes, +de quem temos ouvido dizer está fazendo grandes preparativos +de guerra. Seria bom, que assim como publicastes a ordem de Goa para +receber o nosso destacamento, fizesseis o mesmo á +proclamação do vice-rei de Goa. <br /> + +<br /> + +Os inglezes esperavam, sem duvida, achar os macaenses no estado em que +os havia descripto o capitão Laperouse: e que Bernardo +Aleixo não possuia o talento e virtudes exaradas +<span class="pagenum">[111]</span> +por aquelle celebre navegador nas paginas +da sua viagem. A carta seguinte tirou os inglezes da illusão +em que estavam. <br /> + +<br /> + +Não tenho duvida em passar o vosso destacamento para a +fortalesa do monte: sendo necessaria para defeza contra os +francezes, está nos termos da ordem que recebi de Goa<sup><a href="#n37">[37]</a></sup>: +porém sendo o motivo dessa exigencia evitar a +communicação e disputa com os chinezes, estou +certo de que na feitoria, onde se acha aquartelada, observada a +disciplina que hade usar na fortaleza, conseguirá o mesmo +fim sem dar logar a ciumes da parte dos chinezes; causa sem duvida de +males maiores do que pretendeis evitar: e de mais, isso não +é conforme com o tractado, que fizemos. <br /> + +<br /> + +—A desconfiança do governo chinez tem augmentado +pela +occupação das fortalezas da Guia, e Bom-parto com +tropas britanicas. Assim acrescerá mais em prejuizo do +commercio das duas nações, que na +união, com os chinezes tem igual parte nesta cidade. A +nação britanica não +consentirá em plano algum, +<span class="pagenum"><a name="p112" id="p112">[112]</a></span> +que destrua esta união: e +<a href="#e28">a mim</a> +não é permittido admittir defeza opposta +á lealdade, que este governo tem á +constituição do +imperio, seu protector; e com direito sobre o territorio a que chama +parte do mesmo imperio. <br /> + +<br /> + +<a href="#e29">Ainda</a> que é forte a +razão que me +assiste, maior será o meu pesar, quando pareça +falta de condescendencia da minha vontade prompta em reconhecer os +serviços de S. Magestade Britanica, ao S. D. João +VI. Elles exigem, que espereis a resposta do governo chinez, aos +artigos da nossa convenção, que não +pode alterar-se para não sermos obrigados a fazer outra +participação. Sería +agora passo arriscado, pelo escrupulo dos Chinezes ácerca +das intenções britanicas. O +Senado já mais deixará de cooperar no que for +util á nação britanica. Agora mesmo +acaba de pedir aos mandarins do districto, providencias para evitar, +que os chinezes insultem os vossos officiaes. <br /> + +<br /> + +Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de +Goa. Tambem fiz publica +Lisongeio-me constar-vos a publicidade que dei á ordem de +Goa. Tambem fiz publicar a proclamação segundo o +costume deste governo. Vivei na intelligencia, que não +esconderei +<span class="pagenum">[113]</span> +o que vos possa +interessar, não offendendo o decóro desta cidade. +<br /> + +<br /> + +De 3 a 14 de Outubro recebeu o Senado varios avisos do Mandarin de +Hiang-san, aos quaes o procurador, José Joaquim de Barros, +respondeu neste espirito.—Eu o procurador da Cidade de +Macáo, mandarim de Hao-king, remetto-vos toda a nossa +correspondencia com os inglezes, a fim de conheceres a verdade. O +Senado remetteu ao Almirante todas as vossas chapas, (avisos) nestas +circunstancias é o que podemos fazer.— <br /> + +<br /> + +O mandarim respondeu:—Pelo que respeita ás cartas +do +Almirante, ainda que as tenho feito interpretar, não posso +entender o seu verdadeiro sentido: espero que o declarareis ao portador +desta para minha intelligencia. A ordem do Vice-Rei de Gôa +não prevalece contra os tractados existentes do Governo +celestial com o vosso Rei. Em quanto ao desasocego dos moradores +chinezes em Macáo, depende de vós: fazei com que +os inglezes tornem para os seus navios, todos ficarão em +perfeita quietação.— <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote">Outubro.</span> +No dia 16 remetteu outro aviso. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a name="p114" id="p114">[114]</a></span> +—Sei que fôra apresentada a minha carta aos +inglezes para +saírem de Macáo, e que <a href="#e30">responderam</a> +terem vindo para defenderem Macáo dos francezes, visto +não o poder agora fazer o vosso Rei; e que para +saírem precisam que venham soldados portuguezes! <br /> + +<br /> + +É inegavel ser Macáo territorio da China, assim +como ter-vo-lo <a href="#e31">concedido</a> a +celestial dynastia, attendendo a <a href="#eo31">virdes</a> +de tão longe, e +quererdes repousar neste Imperio. Ha perto de tres seculos, +não só vos tracta sem differença de +seus povos, mas tambem como filhos enchendo-vos de beneficios.<sup><a href="#n38">[38]</a></sup> Os +francezes não costumam insultar as terras deste imperio: +quando usassem agora commetter essa injustiça, os inglezes +deviam lembrar-se, que temos mandarins de letras e de armas e poderoso +exercito para defender-vos, sendo preciso. Exponde estas verdades ao +Almirante, e aos sobrecargas, e intimai-lhe de minha parte que +embarquem o seu destacamento sem demora.— <br /> + +<br /> + +No dia 17 sabendo o mesmo mandarim, +<span class="pagenum">[115]</span> +que os Chinezes emigravam de +Macáo assustados pelo ameaço da guerra, mandou +outra chapa ao procurador, offerecendo-lhe tropas para auxiliar os +portuguezes, e animar os Chinezes a fazerem o trato do costume, para +não soffrerem os habitantes da cidade por falta de +alimentos. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(18 de +Outubro.)</span>—Mostrei a vossa chapa de hontem ao +Almirante +(tornou o +procurador +ao mandarim) assegurou-me ir a Cantão ultimar este negocio +com o Suntó. Desejo que vos empenheis no bom tractamento +para com elle, visto ir encarregado de negocio tão +importante. <br /> + +<br /> + +No mesmo dia 17, recebeu o Governador a carta seguinte (dos +sobrecargas).—Capacitesse V. Exc.<sup>a</sup> da +grande +importancia, que +é para as duas nações Portugueza e +ingleza, accommodar em breve a desintelligencia, que reina entre +nós e os Chinezes. A viagem do Almirante a +Cantão, dirige-se a esse fim; mas é preciso que +os seus intentos sejam sincenramente narrados ao Suntó. +Só +o padre Rodrigo o pode fazer como desejamos; assim rogamos a V. Exc. +faculdade para elle acompanhar +<span class="pagenum">[116]</span> +o +Almirante. O Governador concedeu a licença pedida. <br /> + +<br /> + +Quando em Macáo se esperava que fossem diminuidas as +calamidades, augmentaram. Assim o demonstram os sobrecargas na carta +seguinte: basta meditala com reflexão para se conhecerem as +intenções britanicas. <br /> + +<br /> + +—Soubemos esta manhãa—ter +chegado de Bombaim outro destacamento. O Almirante ordena que +desembarque immediatamente. Rogamos a V. Exc., que mande fazer os +arranjos necessarios para esse fim. Alcançaremos grandes +vantagens se persuadires os chinezes, que são tropas +mandadas pelo vosso Rei; e que desembarcadas estas +embarcarão as que se acham em terra. Para dar mais +força a esta lembrança pode V. Exc. mandar entrar +os navios com bandeira portugueza. As objecções +dos chinezes são de pouca entidade. Para este segundo +desembarque, escusa V. Exc. pedir-lhe venia. Pedimos licença +para manifestar a V. Exc. o escandaloso procedimento de alguns +macaenses infieis ao Senhor D. João VI; pois enviam aos +mandarins representações desfavoraveis +<span class="pagenum"><a name="p117" id="p117">[117]</a></span> +aos britanicos. Da sua má conducta +nascem os inconvenientes, que temos soffrido. Se V. Exc. não +dá remedio a tam grande mal, o Almirante enviará +para o Brazil as pessoas suspeitas.<sup><a href="#n39">[39]</a></sup> +Esta carta demonstra bem a +protecção levada pelos inglezes a +Macáo. 1.º soberba, 2.º falsidades, +3.º arrogancia +<a href="#e32">fraudulenta</a>, 4º +calumnias, 5.º +despotismo da +sua consumada</a> prudencia, +respondeu nestes termos. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Outubro 21.)</span>—Dizeis +ter +ordem do +Almirante para desambarcar +tropas novamente chegadas! E desejais, que eu dê a entender +aos chinezes, virem da parte do Sr. D. João VI! Nenhuma +duvida teria no seu desembarque, se as circunstancias decorridas depois +que desembarcaram as primeiras não tivessem de dia em dia +complicado mais este negocio com os mandarins. Effeituando-se este +segundo desembarque antes de conferir o Almirante com o +Suntó, pode transtornar o negocio, e ser funesto ao +commercio, já suspenso em Cantão. Accresce ter eu +agora recebido, ácerca dessa tropa, protesto, que devo tomar +em +<span class="pagenum">[118]</span> +muita +consideração. Esta cidade tem soffrido muito com +a vossa expedição; e a meu cargo está +vigiar por seus interesses. Não me consta haver aqui morador +algum infiel á Caza de Bragança, apesar de ser +dever +meu cuidar nessa indagação. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Outubro 21.)</span>—No +mesmo +dia, +escreveu o mandarin de Hiang-san, ao procurador de Macáo, +neste espirito.—Consta-me chegarem ahi mais tropas inglezas; +jámais deveis permittir o seu desembarque. Duvidamos muito +dos seus intentos. Se o consentirdes darei parte ao Suntó, +de que faltais ao vosso dever. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Outubro.)</span>—De 21 +a 28 +houveram +disturbios entre os inglezes e os chinezes. O procurador representou +aos mandarins, que não tinha leis por onde castigasse os +chinezes em casos taes; e que para isso exigia +providencias.—Aquelles +tornaram. Não são precisas leis para castigar +crimes, que jámais devem existir neste imperio. Embarquem os +inglezes, tudo fica remediado.—Não davam resposta, +á exigencia de providencias. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Outubro.)</span>—Em 29 +escreveram os +sobrecargas ao Governador:—Sabemos com certeza +<span class="pagenum"><a name="p119" id="p119">[119]</a></span> +não serem as +partecipações de V. +Exc. (ácerca do auxilio britanico) expostas ao +Suntó como deviam; antes sim pelo contrario. Rogamos a V. +Exc. lhe declare o justo procedimento do governo britanico, e que esta +declaração seja remettida ao Almirante para elle +mesmo a entregar ao Suntó. Extranhamos a repugnancia de V. +Exc. em seguir o exemplo do Vice-Rei de Goa, isto é, animar +os portuguezes contra os nossos inimigos. Se os moradores desta cidade +fossem assim admoestados, desejariam o nosso auxilio em logar de o +aborrecer.— <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Outubro 30.)</span>—Entre +as +difficuldades, que vos apresentei, tornou Bernardo Aleixo, <a href="#eo33">foi uma +a complicação</a> com os chinezes. Tenho +conhecimento +do systema do seu governo por longa experiencia adquirida na pratica; +sei os vinculos que os unem a esta cidade; e por isso previ o +máo resultado da vossa empreza. Falleivos com franqueza, fui +considerado como desaffecto aos vossos projectos. Em 20 do mez passado +desclarasteis (ainda que pouco favoravel ao +exercicio do meu emprego) ser qual quer opposição +do +<span class="pagenum">[120]</span> +governo chinez, +desembaraçada pelo Almirante com o Suntó; agora +vejo depender deste governo a ultimação do +negocio. <br /> + +<br /> + +O Senado trabalha para que não sejam reputados sinistros os +fins da vossa expedição: se tem havido +desconfiança nos mandarins, não é +motivada por este governo; pois tem patenteado com franqueza a sua +correspondencia entre vós e os chinezes. <br /> + +<br /> + +Já vos disse, e agora o repito: dos macaenses, nem um +só deixa de respeitar a caza de Bragança, +costumada a encher esta cidade de beneficios em honra do seu governo, e +gloria de seus moradores. Porém como não lhe seja +vedado amar a tranquillidade publica do seu paiz, não deve +extranhar-se a cada um chorar a sua desgraça: sem blasfemar +da causa, aborrece os effeitos. <br /> + +<br /> + +Os pais de familias lastimam a morte de seus filhos, pelo abandono das +amas chinezas—que se retiram. Os infelizes que tem na +labutação diaria o seu recurso, lastimam-se pela +escacez e carestia dos generos alimentares. Os mais abastados +lastimam-se por ver chegar o tempo de fazerem suas +negociações, e terem +<span class="pagenum">[121]</span> +ainda as mercadorias empatadas por falta de +gyro, ha cincoenta dias. Até os navios estão +ainda por fabricar á mingua de artifices, que tambem +fugiram. Os empregados publicos vendo parar o commercio, lastimam-se +por saberem, que delle tira o estado rendimento para pagar-lhes. Os +mesmos habitantes chinezes, dados ao commercio, tem emigrado e levado +até o mais inferior dos seus trastes. Isto era de esperar de +homens pacificos ao verem apparatos de guerra. Além disso +ameaçados pelos mandarins, que julgam a +constituição do imperio atacada pela vossa +imprudencia. <br /> + +<br /> + +Á vista do exposto não admira haverem +descontentes, que deplorem a sua desgraça, e aspirem ao +socego deste fiel estabelecimento, que ha 252 annos tem sempre +respeitado as ordens do seu monarcha. Julgai por este quadro se um tal +povo necessita de proclamações para ser fiel ao +Rei a quem adora? <br /> + +<br /> + +Assim que esta carta foi remetida, mandou o Senado ao procurador, que +exigisse do mandarim de Hiang-san, o motivo da queixa dos Inglezes; o +que fez pelo modo seguinte.—O +<span class="pagenum"><a name="p122" id="p122">[122]</a></span> +chefe da companhia +ingleza accusa-vos de não teres enviado as minhas chapas ao +Suntó, ou que mandando-as lhes viciastes o texto. +Não posso crer teres procedimento alheio do vosso emprego e +caracter. Espero que immediatamente apresenteis os originaes ao +Suntó: eu envio as copias ao almirante para as conferir +<a href="#e34">com elle</a>, e ficar desse +modo illesa a vossa reputação. <br /> + +<br /> + +Os sobrecargas responderam á carta de trinta pelo modo +seguinte:—A vossa carta encheu de magoa os nossos +corações pelas +circunstancias em que se acham os habitantes de Macáo; tudo +nasceu da conducta do Senado: se adoptasse o nosso systema, +não teria agora de vêr essas lastimas. Os +macaenses julgaram a proposito tomar medidas contra a nossa +expedição; e fizeram repetidas instancias ao +governo chinez, pedindo soccorro contra os hostis procedimentos +britannicos: o excessivo ciume dos chinezes, e o manejo do Senado +motivaram todos os males.—Em verdade dissemos, que o +almirante +removeria todos os obstaculos em Cantão; assim aconteceria +se o governo de Macáo se unisse cordialmente +<span class="pagenum"><a name="p123" id="p123">[123]</a></span> +com o almirante<a href="#eo34">.</a><br /> + +<br /> + +Os esforços +que V. Ex.<sup>a</sup> promette fazer em suas +applicações +ao governo chinez, são para nós de grande +importancia. Sabemos que hão-de produzir bom affeito. +Estamos persuadidos, que só o governo de Macáo +pode remover as presentes difficuldades e miserias. <br /> + +<br /> + +Grande documento é este para augmentar, se é +possivel, a honra dos macaenses, pelo valimento que tem com os +chinezes. No principio da carta, invectivam os sobrecargas aos +macaenses; no fim pedem-lhe misericordia! Era tal a +ambição, ou a impudencia daquelles +bretões, que diziam em face ao governo de Macáo +serem motivadas as calamidades daquella cidade pela ignorancia dos +chinezes, e manejo do Senado! Quem não vê provir +tudo da tenacidade dos sobrecargas em quererem apossar-se daquelle +nosso estabelecimento? Quem poderá capacitar-se de ser +aquelle empenho unicamente sustentado para guardar Macáo aos +portuguezes? Em pouco sairá o almirante da +illusão em que o tinham os sobrecargas. <br /> + +<br /> + +O ultimo paragrafo desta carta merece +<span class="pagenum">[124]</span> +particular attenção: O governador despresou as +argucias do primeiro, e respondeu ao segundo.—Vejo a +necessidade que +tendes de novo recurso deste governo ao de Cantão: O Senado +já enviou uma chapa ao mandarim do destricto, da qual se vos +remette copia, e de toda a nossa correspondencia com os chinezes, a +vosso respeito. Faço isto para ver se acabam as vossas +desconfianças. <br /> + +<br /> + +Nesta intelligencia e com o mesmo desvelo (posto que até +agora equivoco) farei novas representações ao +governo chinez sempre que me indiqueis a forma de applacar a +tormenta, que vos ameaça, pela desconfiança dos +mandarins superiores. <br /> + +<br /> + +Á vista do corpo disforme, que tomou este negocio, quem +não esperaria +moderação nos sobrecargas? A carta seguinte +mostra o contrario! <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote">(Novembro 3.)</span> +—Pertendem ainda quebrar as leis do imperio, introduzindo e +descarregando navios britannicos em Macáo.—Em +virtude de +ordens do almirante, dizem elles, participamos a V. Ex.<sup>a</sup> +que mande +apromptar armazens para depositar nelles os generos vindos em nossas +<span class="pagenum">[125]</span> +embarcações. +Esta medida nasce da +oppoção +que os chinezes fazem ao auxilio dado por nós a esta cidade. +Esperamos que V. Ex.<sup>a</sup> não recuse os +seus extremosos +esforços em nosso beneficio, vendo que os sacrificios do +governo de Macáo são bagatela em +comparação dos que temos soffrido pelo embargo do +commercio britannico (em Cantão) só por usarmos a +generosidade de querermos dar segurança a esta cidade: Assim +esperamos a ordem para a descarga, sem dilação. <br /> + +<br /> + +Não tenho duvida em prestar a minha condescendencia +á vontade do almirante, respondeu Bernardo Aleixo, com tudo +sou forçado a dizer o que sendo publico, admira ser por +vós ignorado. As leis deste paiz só admittem +navios estrangeiros no caso de mera hospitalidade, segundo o direito +das gentes. Applica-se aos navios de entrada e saída de +Cantão, até poderem seguir o seu destino. +Achando-se em iguaes circunstancias, qualquer navio da companhia, +não haverá duvida na sua admissão; +porém se a descarga, que se pertende fazer em +Macáo provem da opposição dos chinezes +ao commercio britannico, tenho +<span class="pagenum">[126]</span> +grande +embaraço no cumprimento do meu desejo. <br /> + +<br /> + +Os tractados desta cidade, com o governo chinez, permittem +só carregações neste +porto vindas em navios portuguezes, ou hespanhoes; se o commercio +inglez está prohibido em Cantão, como o poderei +admittir em Macáo, sendo dominio chinez, sómente +aforado aos portuguezes debaixo de certas +condições, que vós, dizendo auxiliar, +pretendeis romper? <br /> + +<br /> + +Accresce não haver logar para tão grandes +carregações: por falta de gyro, acham-se todos os +armazens cheios de generos vindos na monção +ultima. Dizeis que são +grandes os vossos sacrificios, e os nossos bagatela! Os sacrificios, +neste sentido, não devem considerar-se pelo valor das +riquezas: por perderes muito não se segue, que +não sejam maiores os nossos sacrificios perdendo tudo. +Lançais as culpas das vossas perdas sobre nós, e +que faremos a vosso respeito? O tempo fará +justiça ao nosso procedimento<sup><a href="#n40">[40]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +Agora (apezar de tudo) é tal o meu desvelo +<span class="pagenum">[127]</span> +em vos servir, que se +algum navio +se acha em estado de tornar indispensavel a sua descarga, +terá os soccorros necessarios como se pratica entre povos +civilisados; sem offensa dos laços domicilarios e +privativos, sustentados pelo esforço e gloria da +Nação +Portugueza. <br /> + +<br /> + +Em todo o mez de Novembro houveram disturbios entre os chinezes e os +britannicos: aquelles não só maltractavam estes, +encontrando-os nas ruas, mas tambem lhe apedrejavam as +janallas. Por mais que o procurador do Senado exigisse +providencias dos mandarins, a resposta éra sempre a +mesma.—Sáiam os britannicos da cidade, e tudo +ficará em socego.—Quando os inglezes estavam mais +teimosos +em descarregar os seus navios em Macáo, baixou a seguinte +admoestação do Suntó aos sobre-cargas. +<br /> + +<br /> + +Sobre-cargas da companhia ingleza, sabei que a virtude do nosso +Imperador se manifesta como o céo, abrange tudo: +considerando elle que os reinos da Europa se tem mostrado, ha muito +tempo, obedientes e politicos, concedeu aos europeos licença +para negociar +<span class="pagenum">[128]</span> +em Cantão; +reputando-vos como individuos da mesma familia. Vós o tendes +experimentado, e sabeis, que nunca foi concedido ficardes permanentes +na China. Logo não devieis trazer navios cheios de soldados, +nem desembarcalos contra as leis do imperio. Macáo +é cidade edificada em terreno chinez: a dynastia passada +concedeu aos portuguezes estabelecerem-se alli; a presente, em virtude +da sua antiga posse, deixou-os ficar como d'antes; porém +debaixo de certas condições. A nenhuns outros +europeos se concedeu privilegio semilhante! Como pertendeis +vós agora persistir em Macáo? Dizeis recear +venham os francezes insultar os macaenses! Nunca se attreveram a +pertubar as terras deste imperio: e quando venham com +muito socego os esperaremos; vindo desfalecidos, e sendo poucos contra +muitos, sem batalha ficarão vencidos. Terão a +sorte da carne na banca do cosinheiro. Dizeis ser amigos dos +Portuguezes e que viesteis ajudalos contra os francezes! Porque +não obrasteis este excesso de amizade la na Europa, ou +porque não os esperais fora das ilhas da china para +os baterdes quando cheguem? +<span class="pagenum">[129]</span> +Não é justo estares em Macáo +quebrantando as leis do imperio, e dissolvendo a união +mutua, que deve existir em todos os seus dominios: desse modo perdeis o +direito, que haveis á nossa benevolencia. Por ventura +não sabeis o que vos é interessante? Podereis +existir sem commercio? Por certo não: pois quanto mais +depressa embarcardes os soldados, mais cedo se vos abrirão +as Alfandegas. Se retardares o seu embarque, não tereis +communicação com a terra. Ponderai bem o que vos +proponho, e não me incommodeis com mais +peditorios.— <br /> + +<br /> + +Em quanto o governo de Macáo pedia aos mandarins do +districto, que o ajudassem a sanear as feridas abertas pelos inglezes, +nas leis do imperio, a fim de não se irritar contra elles o +Suntó, chegou outra chapa deste, pelo mandarim de Hiangsan, +em que dizia:— <br /> + +<br /> + +Eu o Governador das duas provincias de Cantão e Kuansi, +faço saber ao mandarin de Hiang-san, que da entrada dos +soldados inglezes em Macáo, são culpados os seus +moradores; pois deviam tela embaraçado. Mas examinando o seu +antigo, e moderno +<span class="pagenum"><a name="p130" id="p130">[130]</a></span> +procedimento, achei +serem sempre gratos aos nossos Imperadores; por esse motivo +toléro o erro commettido. <br /> + +<br /> + +Ácerca dos navios inglezes, já consultei o +Kuam-pu, a fim de lhes permittir descarga, e poderem negociar. Pelo que +pertence aos soldados, dei parte ao Imperador; eis a sua +resposta:—Se +os inglezes tiverem a ousadia de presistirem em sua +teima, lançaios fora com o nosso exercito.—Em +poucos dias +elle marchará sobre Macáo: no entanto recommendai +aos portuguezes a segurança da fortaleza do monte. Adverti +ao Procurador, que não se fie desses inglezes.<br /> + +<br /> + +Como estes não fossem promptos na +execução das ordens do Suntó, +augmentou-se a soberba e desconfiança chineza de modo, que +julgaram tambem sermos culpados no insulto commettido pelos inglezes. +Desembarcarem estes as tropas já não +éra a maior +offensa: o que mais ferio o orgulho chinez, foi não <a href="#eo35">obedecerem</a> +logo ao mando do Imperador. Tomaram os mandarins calor tão +ardente, que não deixavam passar um dia sem repetirem +intimações para que os inglezes +saíssem de Macáo: eis o seu +espirito. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[131]</span> +Senhor Procurador, esses inglezes entrando em Macáo +apossaram-se das igrejas e das fortalezas! Em pouco tomarão +vossas cazas possuidas ha seculos; depois tirar-vos-hão +mulheres e filhos: não podemos soffrer tam grande offensa. +Marcham oitenta mil homens sobre os campos de Móa. (proximos +á cidade de Macáo) afim de os anniquilar. +Despresaram a graça feita pelo Suntó; +soffrerão o peso da força, que marcha contra +elles. Esses inglezes sendo homens não tem +coração humano; conhecem os males que tem feito, +e não se arrependem! Desejamos que todos vivam em paz, e +somos obrigados a mandar um exercito receando, que nem um só +inglez escape á morte! Fazei-lhe conhecer estas verdades, e +perguntai-lhe se ainda querem teimar contra a justiça, que +os ameaça.—O +procurador respondeu:— <br /> + +<br /> + +—Tenho apresentado as mais essenciaes das vossas chapas aos +sobrecargas inglezes; não despresam as graças do +Suntó; +acham-se promptos para retirar-se; mas não o podem fazer de +repente. Os inglezes vieram com designio de nos auxiliar assim julgo +ser mal +<span class="pagenum">[132]</span> +fundada a vossa +desconfiança. Não precisamos do vosso exercito; +viria fazer maior damno á cidade. Sabeis quaes +são as leis que regem este nosso estabelecimento: +não deve entrar nelle, nem mesmo aproximar-se ás +muralhas desta cidade tropa chineza, sem que a pessa, e é +cousa, que ainda me não veio á +lembrança. Não é +justo imitares aos inglezes: estes diziam vir-nos auxiliar; +trouxeram-nos incommodos e perdas.— <br /> + +<br /> + +É notavel a prudencia e a generosidade do Senado macaense +para com os inglezes, quando estes só lhe dirigiam offensas! +Ao mesmo tempo enviaram os sobrecargas a Bernardo Aleixo a carta +seguinte, <br /> + +<br /> + +—A situação em que nos achamos +é +triste: temos recommendação do Almirante para +evitar hostilidades e fazer tudo quanto possa reconciliar-nos com os +chinezes. Se esta +recommendação for confirmada aos manderins, por +V. Exc. por certo diminuirá o seu rigor para com os +inglezes. <br /> + +<br /> + +Nos maiores conflictos apparecia em publico o Magnanimo Arriaga e dava +socego a todos. Offereceu-se para convencionar com os +<span class="pagenum"><a name="p133" id="p133">[133]</a></span> +mandarins, sobre a retirada da +espedição britanica sem efusão de +sangue, donde resultou o tratado seguinte. <br /> + +<br /> + +Bernardo Aleixo de Lemos e Faria, Miguel de Arriaga Brun da Silveira, e +o commandante das forças britanicas com os sobrecargas da +selecta companhia, desejando retirar o destacamento inglez, +decorosamente, ajustaram: <br /> + +<br /> + +1.º O <a href="#e35">Ministro</a> Arriaga +tractará com +os mandarins ácerca da retirada das forças +britannicas, ficando o commercio inglez no mesmo estado em que se +achava, antes da sua entrada nesta cidade. <br /> + +<br /> + +2.º Exigindo este negocio a cooperação +do +Almirante, Miguel de Arriaga irá a Wampo-o, para se concluir +alli do modo mais vantajoso ao vinculo das tres +nações. <br /> + +<br /> + +3.º Concluido este negocio cessará a +prohibição de mantimentos para sustento dos +<a href="#e36">inglezes</a>. <br /> + +<br /> + +4.º Os mandarins farão suspender immediatamente a +marcha das tropas chinezas dirigidas a esta cidade.<br /> + +<span class="sidenote">(Dezembro 11.)</span> +<br /> + +A presente convenção mostra a +confiança, +<span class="pagenum">[134]</span> +que o Ministro Arriaga +tinha em domar o orgulho e o rigor dos mandarins. Parece impossivel, +que só a politica a firmesa de caracter, e a urbanidade de +um homem pudesse conter a justiça chineza, sustentada por 80 +mil homens! A carta seguinte dirigida a Bernardo Aleixo, dá +bem a conhecer o dominio que Arriaga tinha na vontade dos mandarins. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Dezembro 11)</span>—Depois +que +assignámos a convenção esta +manhã, fui ao pagode, +onde me esperavam os mandarins: tive larga discussão com +elles a fim de soltar difficuldades proprias a uma +nação escrupulosa e desconfiada; todavia +consentiram em tudo o que lhes propuz. Além disso +capaciteios das boas +intenções britannicas (apezar de terem sido +más para nós); naquella intelligencia +asseguraram-me ficar o commercio inglez no mesmo pé e +systema antigo—Despedidos os mandarins; tornou Arriaga +á +cidade contente por ter concluido negocio tão espinhoso por +meios tão honrosos para a nação +portugueza, como lisongeiros para o negociador. <br /> + +<br /> + +Sabendo o mandarin de Hiang-san, que +<span class="pagenum">[135]</span> +o +novo governador Lucas José de Alvarenga, instava pela posse +do seu emprego, remetteu ao procurador a chapa seguinte. <br /> + +<br /> + +—Da entrada dos inglezes até hoje, tem o antigo +governador +dirigido bem este negocio; agora constame, que o successor insta para +tomar posse e que o Sr. Bernardo Aleixo de Lemos e Faria o pretende +fazer: não é conveniente: os inglezes entraram no +tempo do seu governo, nelle devem saír. Sabemos que o novo +governador veio em navio inglez; quem nos assegura não ter +elle correspondencia com esses homens? Não é +justo nem conveniente tomar elle agora posse do governo. Em casos +extraordinarios nem sempre podem seguir-se as leis ordinarias: quando +os inglezes saírem de Macáo e ficarem todos em +socego, far-se-ha tudo segundo a lei e os costumes. <br /> + +<br /> + +<span class="sidenote">(Dezembro 11 de 1808.)</span> +No mesmo dia partio Miguel de Arriaga, no brigue do Senado, para +Wam-poo. Em 24 horas chegou a bocca do rio Tygre: logo que da +náo se avistou suspendeu esta e veio ao encontro do brigue. +Em 14 de Dezembro, já de volta fez Arriaga, a +participação seguinte +<span class="pagenum">[136]</span> +a Bernardo Aleixo.—Assim que cheguei +á falla da náo, fiz saber ao almirante, qual era +a minha commissão: respondeu ter já ordenado o +embarque das tropas, e que desejava ser grato ás officiosas +declarações +anteriormente feitas pelo governo de Macáo; pois eram +veridicas e rasoaveis. Recebeu-me com a civilidade propria de sua +pessoa: disse que esperava do governo de +Mocáo o bom serviço de remover +qualquer difficuldade, que de novo apparecesse. Despedi-mo-nos com as +mesmas ceremonias da entrada, e não querendo elle ceder veio +acompanhar-me ao portaló. <br /> + +<br /> + +Logo que o ministro Arriaga concluio a sua +negociação com o almirante, dirigio-lhe o +governador Bernardo Aleixo de Lemos e Faria a carta seguinte. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Dezembro de 1808.)</span>—Os +officios de +V. S., de 11 e 14, manifestam o grande trabalho, que teve na +conferencia com os mandarins: Pelo contexto dos mesmos se conhece a +excessiva applicação e desvelo com que V. S., +além dos limites ordinarios, se empenhou em acalmar, com +heroico patriotismo, a cruel revolução que +ameaçava esta cidade. +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[137]</span> +Com o seu grande zelo e reconhecido talento, fez V. S. o mais +importante serviço á patria. Á +força de tão efficazes e +singulares deligencias <em>devem os inglezes</em>fazer +a sua retirada sem effusão de sangue, e os macaenses o +socego da cidade. <br /> + +<br /> + +<span class="tiny">(Dezembro de 1808.)</span>—No +dia 16 +começou a retirar-se o destacamento britannico; depois de se +effeituar o embarque de tudo quanto lhe pertencia, cuidaram logo os +sobrecargas em obter licença para desembarcar as suas +mercadorias em Cantão. No 1.º de Janeiro expedio o +Suntó a chapa seguinte. <br /> + +<br /> + +—Qu-Hiung-Kuang, Suntó (vice-rei) de +Cantão, faz +saber a todos os europeos, que por desembarcarem soldados inglezes em +Macáo jámais se lhes devia permittir commerciar +neste imperio. Com tudo lembrando-nos que o seu rei offerecera tributo +ao nosso imperador, relevamos a offensa, que nos fizeram pela sua +entrada em Macáo. Agora depois de enviarem os soldados +ás suas terras, pedem os sobrecargas, arrependidos, +perdão com muita humildade, a fim de se lhes permittir +commerciar neste imperio. Conhecendo a misericordía +<span class="pagenum">[138]</span> +do nosso imperador, cedi +ás suas repetidas supplicas, deixando que desembarquem as +mercadorias, e possam vendelas nesta cidade. Devem receber esta +graça como um beneficio extraordinario. Assim mostramos, que +as leis chinezas tem enfraquecido com o tempo: no futuro +haverão medidas mais rigorosas. Daqui em diante se algum +europeo se atrever a quebrar as leis do imperio será +lançado fora para sempre. <br /> + +<br /> + +Assim ficáram os inglezes no mesmo estado em que se achavam +antes de tentarem invadir Macáo; perdendo a companhia +enormes sommas dispendidas naquella empreza. <br /> + +<br /> + +Tendo demonstrado com os sobrecargas desistiram +della, farei ver agora o motivo porque atentaram. <br /> + +<br /> + +A grande influencia de Bonaparte na peninsula, obrigou El-Rei D. +João VI, a fechar os portos aos inglezes: esta medida fez +julgar aos bretões, que Bonaparte se apossaria de Portugal, +assim como o tinha feito da maior parte da Europa. <br /> + +<br /> + +Considirando-nos debaixo do jugo do novo Filippe, +seu inimigo, seu inimigo, como +<span class="pagenum">[139]</span> +havia sido o antigo, praticaram a lição tomada +dos hollandezes; isto é pretenderam apossar-se do que ainda +tinhamos no Oriente. <br /> + +<br /> + +Sendo os nossos estabelecimentos da Asia, interessantes aos inglezes, +não lhes convém possuilos outra +nação, que não seja a portugueza, +já pela sua antiga alliança, já por +não a temerem. Avisaram os agentes da companhia, para +guardarem as terras, que nos pertenciam naquella parte do mundo, a fim +de não serem tomadas pelos francezes; na +esperança de que voltando Portugal á sua +independencia, tudo ficaria como dantes; e se não podesse +livrar-se do jugo francez, herdarem elles o que haviamos ainda no +Oriente. Eis o motivo porque os inglezes invadiram Goa, e +Macáo, cidades que immortalisaram sempre o nome portuguez. <br /> + +<br /> + +Accresce a estes successos da Europa, o desejo, que tinham os +sobrecargas inglezes de possuirem um estabelecimento na China; julgavam +desairoso ao seu poder, haverem os portuguezes na China o que os +britannicos não podiam alcançar. Sendo ricos +espalharam dinheiro na feira de Cantão, esperando que +<span class="pagenum">[140]</span> +havendo alguma desintelligencia entre +os portuguezes e os chinezes, estes os preferissem. <br /> + +<br /> + +Os lusos soffrem grande critica pelo que praticaram nas suas conquistas +em seculos tenebrosos; com tudo são menos culpados do que os +inglezes; por quanto estes não são menos +violentos em seculo mais illustrado. Veja-se no quadro seguinte a +differença de ambição e despotismo das +duas +nações. <br /> + +<br /> + +—Existe no Oriente imperio immenso, com mais de 100 +milhões +de homens de castas, côres, e raças differentes: +é a India +ingleza. A Soberania não pertence á +nação; exemplo unico na historia do mundo; +é propriedade de uma companhia de negociantes! Viram-se os +cartiginezes enriquecidos pelo commercio, conquistaram +a Sicilia e a Hespanha; mas a republica, o corpo inteiro da +nação, foi quem adquerio pelas armas importantes +possessões. Em tempos modernos, a companhia hollandeza +adquirio grande esplendor; mas os seus estabelecimentos nas costas da +Asia, eram armações fortificadas, e +não colonias. <br /> + +<br /> + +A companhia ingleza sem perder o commercio +<span class="pagenum">[141]</span> +dos portos de mar, estendeu o seu dominio a mais de trezentas +leguas pelo interior das terras. As regiões mais ferteis e +mais ricas do globo pertencem-lhe como fardos de fazenda +amantoados em seus armazens. O chefe, e delegados, +ostentam luxo asiatico, e reinam com orgulho. <br /> + +<br /> + +Especulações mercantis elevaram este thesouro de +nova especie, que subsiste sem ser mantido como os outros pela gloria +dos Principes, respeito dos povos, ou pelo tempo que toléra +e consagra nefandas +usurpações. <br /> + +<br /> + +As authoridades de tão grandes dominios, podem dizer-se, que +são vendidas em leilão, o mais vil inglez, em +tendo algumas livras e comprando acções da +companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas, +náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode +vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do +Grão-Mogol, o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas +vezes o Sofi da Persia e Grande As authoridades de tão +grandes dominios, podem dizer-se, que +são vendidas em leilão, o mais vil inglez, em +tendo algumas livras e comprando acções da +companhia pode ficar membro desta sociedade, que tem fortalezas, +náos, e mais de cem mil soldados; além disso pode +vir e dirigir este poder colossal, que tem destruido o imperio do +Grão-Mogol, o do Teppo-Sail, e ameaçado algumas +vezes o Sofi da Persia e Grande Lama<sup><a href="#n41">[41]</a></sup>! +<br /> + +<br /> + +Os portuguezes combateram na India os +<span class="pagenum">[142]</span> +sectarios de Mafoma livrando +desse modo a seus pacificos habitantes do captiveiro turco; os inglezes +servem-se dos braços sarracenos para agrilhoar os mal +fadados bramas. <br /> + +<br /> + +Assim vê-se que se nessa época tenebrosa os +lusitanos obraram prodigios na India, vingando sobre os turcos os males +que lhe haviam soffrido em nossa terra, hoje não +desmerecemos na ordem dos nossos maiores; por quanto o Suntó +disse:—Nenhuns outros europeos +alcançarão (por merito) os privilegios concedidos +aos portuguezes.—Os sobrecargas confessaram, que +só o +Governo de Macáo podia remover as difficuldades e miserias +(que elles tinham motivado): o Almirante Drury tambem +disse:—Estou +muito obrigado ao governo de Macáo pelas suas +declarações +anteriores; por quanto eram veridicas e justas.—Taes +declarações confirmam a dignidade do caracter +Luzitano, em todos os tempos e logares. <br /> + +<br /> + +Sabendo-se em Londres a conducta daquelles sobrecargas, foram outros +nomeados: chegando a Macáo esconderam o que se havia passado +alli em 1808, e fallaram do que viram +<span class="pagenum"><a name="p143" id="p143">[143]</a></span> +praticar em 1809, pelo modo seguinte.—As patrioticas +applicações e desvelos dos macaenses, adquiriram +a esta cidade muitas vantagens; ao governo portuguez gloria; e a todas +as nações commerciantes a liberdade dos mares da +China<sup><a href="#n42">[42]</a></sup>. +Os povos chinezes congratulam-se com a +extincção do inimigo que por mais de 20 annos os +havia opprimido, por serem as forças maritimas do imperio +insufficientes para destruilo.— <br /> + +<br /> + +Accrescentarei o que os sobrecargas não poderam escrever: +não foi menor a vantagem de Macáo e a gloria da +nação +portugueza, lançar fora daquella cidade as tropas inglezas, +que della se pertendiam apossar. <br /> + +<br /> + +Vendo uma memoria do Sr. Lucas José de Alvarenga, Governador +que fôra de Macáo, sou obrigado a contestala para +desagravar os macaenses das offensas que alli lhes derige aquella +triste e +<a href="#e37">miseravel</a> jactancioso. <br /> + +<br /> + +Imprimio a sua memoria no Rio de Janeiro em 1828, e diz que lhe dera +motivo a isso outra <a href="#eo36">impressa em Lisboa</a> +em 1824; por se +<span class="pagenum"><a name="p144" id="p144">[144]</a></span> +achar nella o seu nome inglorio. Sendo eu quem a +escreveu, devo mostrar a razão de não fallar em +louvor do Sr. Lucas. <br /> + +<br /> + +Saí de Macáo para Lisboa em janeiro de 1808, e +o Sr. Lucas entrou naquella cidade em Setembro do mesmo anno. +Tornei a Macáo em Novembro de 1810, já elle tinha +saido dalli em Abril desse anno. Querendo recolher factos sobre a +extincção dos piratas, a fim de completar o meu +opusculo, tomeios das actas do Senado, e das pessoas conspicuas +daquella cidade. Haviam em tão pouca conta este cavalheiro, +que não se atreveram a confiar-lhe o governo das armas +senão depois de fazerem retirar as tropas inglezas, como +fica demonstrado, no officio do mandarim de Hiang-san. <br /> + +<br /> + +O Sr. Lucas, a pag. 4 da sua memoria diz serem verdadeiros os factos +lançados na que se imprimira em Lisboa; isto é, +1.º O zelo e a actividade do <a href="#eo37">o +Ministro</a> +Arriaga; +2.º o valor das pessoas empregadas na esquadra; 3.º +a existencia dos +tractados; 4.º a entrega dos piratas 5.º a +invasão e a +retirada das tropas inglezas; mas offende-se do silencio guardado +<span class="pagenum">[145]</span> +a seu respeito; e julga +haver nesse procedimento algum misterio. <br /> + +<br /> + +Assim julga o Sr. Lucas não haver exactidão nesta +memoria por não fallar na sua entrada em Macáo, +no dia da sua saída, e talvez naquelle em que fôra +encontrado na Sé vestido com trajos de mulher. Confesso +não ter fallado do Sr. Lucas para não ennodoar um +escripto consagrado ás virtudes Luso-Macaenses, com a +irregular conducta de tal governador. <br /> + +<br /> + +Como fallaria em louvor de um individuo desprezado não +só pela sua conducta, mas tambem pela sua cobardia? O Sr. +Lucas por fraco obstou ao mais glorioso triunfo que podiamos obter em +recompensa de tantas e tão longas fadigas: obstou que o +chefe dos piratas se entregasse com toda a sua esquadra no porto de +Macáo. Destas e outras +acções do Sr. Lucas devia eu fallar, se +escrevesse a historia de Macáo, mas eu apenas me encarreguei +de levar á posteridade dois factos dessa historia, a +destruição dos piratas, e o desembarque e +retirada das tropas britanicas. Não fazendo o Sr. Lucas +cousa boa +digna de +<span class="pagenum">[146]</span> +notar-se, julguei fazer +mercê ao Sr. Lucas, deixando-o no escuro em +que alli se lançou. <br /> + +<br /> + +Sendo este opusculo destinado a louvar as acções +dos Luso-Macaenses, não devia +apparecer entre elles um brasileiro empenhado em fazer o contrario do +que os outros praticavam. Como se fallaria em louvor de um governador, +cuja administração foi tempo de martyrio para os +macaenses, não só pela falta de caracter do Sr. +Lucas, mas tambem pela grande rapina do ouvidor Peixoto? <br /> + +<br /> + +É verdade innegavel ser tudo quanto alli se praticou de +maravilhoso, devido ao genio extenso e luminoso de Miguel de Arriaga. +Assim o provam as actas do Senado, as cartas de Cam-pau-sai, as de +Bernardo Aleixo, e o hymno cantado na presença dos bons +Macaenses, pelo benemerito cidadão José Baptista +de Lima, no dia em que estes celebraram o triumfo de Miguel de Arriaga +pela extincção dos piratas. <br /> + +<br /> + +Quando fallei, em 1824, na 1.ª parte desta memoria, +ácerca +do bom governo Macaense referime á sua fórma e +aos annos em que influio nelle Miguel de Arriaga, e Bernardo +<span class="pagenum"><a name="p147" id="p147">[147]</a></span> +Aleixo. Agora vejo, com +admiração, o Sr. Lucas arrogar a sí os +louvores de outros, quando elle ainda nem ao menos tinha visto +Macáo! <br /> + +<br /> + +O Sr. Lucas diz, a paginas 23 de sua memoria:—Sei em ultima +analyse +que não sei nada, e não sou nada—e a +paginas 7 +diz:—Tendo eu sido autor de todos os negocios publicos e mui +particularmente este, sería bastante para dar +idéa do objecto contestado, e da falta de +exactidão da memoria impressa em 1824, do espirito, +conhecimentos, e fins com que foi escripta.—<br /> + +<br /> + +O homem que não é nada, e não quer +nada pretende roubar a gloria dos que foram alguma cousa; contestar com +falsidades, documentos legaes e autenticos. Confessa a veracidade dos +factos impressos nesta memoria, e censura o seu autor por +não lhe dar a elle o que pertencia a outros! Eis a falta de +exactidão encontrada pelo Sr. Lucas: dahi nasce a sua +desconfiança ácerca do espirito, +conhecimentos e fins com que ella fôra escripta. <br /> + +<br /> + +Póde viver certo <a href="#eo38">de que o +espirito</a> +foi patriotico; os conhecimentos extraídos, parte das actas +do Senado, parte <a href="#eo39">adqueridos</a> na +presença +<span class="pagenum"><a name="p148" id="p148">[148]</a></span> +dos factos; e os fins limitaram-se no gosto de levar +á posteridade os factos macaenses. <br /> + +<br /> + +Arriaga, Bernardo Aleixo, Pereira Barreto, Alcoforado, e outros muitos +empregados naquella empreza, já o mundo os havia perdido +quando tive a honra de publicar pela imprensa as suas virtudes e +proezas; o Sr. Lucas não sendo nada e não +querendo nada, esperou que elles morressem para denegrir não +só as proezas, mas tambem as virtudes daquelles +varões illustres! <br /> + +<br /> + +—Não posso deixar passar semelhante +expressão, +diz o Sr. Lucas a pag. 11, por conter noções +erroneas e falsas em perjuizo da honra e da gloria que me provem do +resultado de todos os brilhantes feitos na época +sómente do meu governo, e cujo brilhantismo principiou com a +minha chegada e acabou com a minha retirada!— <br /> + +<br /> + +Ainda senão vio maior +jactancia. O Sr. Lucas chega aponto de alterar a <a href="#e38">fórma</a> +do governo só a fim de roubar a gloria +que não lhe pertence. <br /> + +<br /> + +É elle mesmo quem confessa, apesar do +<span class="pagenum"><a name="p149" id="p149">[149]</a></span> +roubo que pretende fazer, a paginas +42 da sua memoria, não ter influencia no +governo.—O Senado, +diz elle, projectou mandar a galera Ulises ao Rio de +Janeiro, afim de cumprimentar El-Rei; oppuz-me; com tudo a galera +proseguio—Assim destroe o mesmo Sr. Lucas as suas argucias. <br /> + +<br /> + +Em quasi todas as paginas da sua memoria lançou argumentos +contra-producentes.—Chegaram os piratas pela sua quantidade e +força, diz elle a paginas 43, a dominar os canaes de +Wampo-o; então por circunstancias, apesar das ordens +superiores que me embaraçavam a fazelo, expedi ordens em +Setembro de 1809 para serem batidos. O Sr. Lucas, em seus improvisos +desacredita os mesmos a quem pretende elogiar. As ordens superiores +referem-se ao Vice-Rei de Goa: porque motivo daria este ordem para +não se atacar os piratas? Estaria comprado por elles? Que +mais é preciso para saber-se <a href="#eo40">que +o Sr. Lucas</a> não +<a href="#eo41">cooperara</a> +cousa alguma para a destruição dos piratas, <a href="#eo42">elle mesmo confessa que fôra</a> +obrigado a +mandar ordens para serem batidos os piratas? +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[150]</span> +Em verdade o Senado, de quem Arriaga éra a alma, foi quem o +obrigou a mandar aquella ordem; logo fica demonstrado pelo mesmo Sr. +Lucas, que o brilhantismo daquella época não lhe +pertence, pois até para expedir a ordem para serem batidos +os piratas foi obrigado pelo Senado. <br /> + +<br /> + +É certo, diz elle a pag. 46, que um dia depois que recebi +parte do commandante da esquadra, em que dava por verificada a entrega +de Cam-pau-sai, +partio Arriaga para a bocca do rio Tygre, dizendo ír a +negocio +particular, e é certo que indo, esteve com o +cabeça dos piratas; e é certo tambem que este +logo se retirou com toda a sua esquadra; e que a entrega se +não fez, quando a parte do commandante (Alcoforado) a dava +por verificada!— <br /> + +<br /> + +Que mais se poderia dizer em desabono do Sr. Lucas, do que elle mesmo +escreveo? Pois quem diz fizera tudo, não sabendo nada! Quem +diz que o brilhantismo de Macáo principiara com a sua +chegada alli, e acabara com a sua retirada, confessa que tendo uma +esquadra vencedora debaixo das suas ordens, +<span class="pagenum"><a name="p151" id="p151">[151]</a></span> +deixara fugir o inimigo depois de se ter +já <a href="#eo43">entregado</a>? +Então a quem comprou Arriaga na +sua viagem á bocca do rio Tigre, <a href="#eo44">ao +Chefe</a> da esquadra +portugueza, ou <a href="#eo44">ao chefe</a> dos +piratas? Compraria ambos? Tudo aquillo +é falso; mas quando fosse verdadeiro, <a href="#eo45">provaria</a> +que +éra Miguel de Arriaga quem predominava em Macáo. <br /> + +<br /> + +Os documentos improvisados pelo Sr. Lucas; e o Officio dirigido ao +Vice-rei, são partos do seu estro, quando se achava dominado +pelo furor de elogiar-se. O enviado inglez, no Rio de Janeiro, +servio-se delles para desacreditar Arriaga, e Bernardo Aleixo na +opinião de El-Rei; mas este desmascarou a intriga, premiou +os macaenses, e castigou o Vice-rei, por ter mandado a Macáo +o Sr. Lucas, que desde então já mais obteve +emprego algum. <br /> + +<br /> + +Este cavalheiro além de pretender a gloria alheia, deixa ver +na sua memoria o azedume com que a escrevêra! Tentou deprimir +os macaenses, e denegrio a sua estirpe. Um brasileiro jámais +deve fallar em desabono ácerca de colonias povoadas por +degradados; por quanto assim que Pedro Alves Cabral descobrio +<span class="pagenum"><a name="p152" id="p152">[152]</a></span> +o Brazil despejaram-se as masmorras de +Portugal. Quando nossos maiores chegaram a edificar uma cidade no +imperio chinez, os criminozos de todo o reino eram diminutos para domar +a sanha dos <a href="#eo46">butecudos e tupinambas</a> +nos sertões do Brazil. <br /> + +<br /> + +Timor é o unico presidio que temos além da +Taprobana. Só Camões, pelo respeito devido ao +genio, obteve ficar em Macáo servindo o emprego de Juiz dos +orfãos naquella cidade, rica pela salubridade do clima, +pelos alimentos, pela forma do seu governo, e pelas virtudes de seus +moradores.<br /> + +<br /> + +O Sr. Lucas não escreveu para fornecer +á historia cousas proprias a fazer os homens melhores; +pertendeu injuriar os macaenses com despreso da razão e da +justiça. As providencias que ele diz foram a +Macáo em 1783, são impoliticas e desconcertadas: +que outra cousa se poderia esperar de dois theologos no governo de um +reino? (Martinho de Mello, <a href="#eo47">e um frade</a>) +visões, argucias, +e fogueiras. <br /> + +<br /> + +Fallava Martinho de Mello, naquella época, dos +incontestaveis direitos que tem a corôa de Portugal sobre +Macáo! Que dirá o imperador +<span class="pagenum"><a name="p153" id="p153">[153]</a></span> +da China, a quem pagamos fóro? +Mas quando assim fosse, quem sustentou ha perto de 300 annos esses +direitos? Degradados? Por certo não. Martinho de Mello era +tão hospede na historia daquelle paiz, que ignorava haver um +decreto feito em 31 de Agosto de 1629, que prohibe a qualquer +degredado, que alli se refugie, servir os encargos da cidade, <a href="#eo48">e mesmo de eleger</a> +para elles. <br /> + +<br /> + +—O Senado de Macáo, composto de degradados que +para alli se +refugiam, diz Martinho de Mello, ou de outros similhantes, +ignorantissimos em materia de governo, não lhe importa cousa +alguma que diga respeito a o decoro nacional, nem ao +incontestavel direito da soberania, que Portugal tem áquelle +importante dominio!— <br /> + +<br /> + +Fallar assim a povos residentes na China, não é +só grande impolitica mas tambem supina ignorancia das +materias de governo. Graças aos generozos macaenses, que +despresando as invectivas dos sejanos, tem sempre concorrido para tudo +quanto é decoroso e interessante a Portugal. O procedimento +daquelle ministro deixa ver que elle tinha mais +<span class="pagenum">[154]</span> +carencia de luzes e de virtudes, do que os homens +a quem offendeu. <br /> + +<br /> + +Nem Martinho de Mello, nem o Sr. Lucas (da viola) jámais +poderiam fazer as proezas que em todos os tempos obraram os illustres +macaenses. Thomaz Vieira, natural de Macáo, sendo governador +daquella cidade em 1627, vendo-a sitiada pelos hollandezes, armou seis +pequenas embarcações e foi accommettelos. Abordou +uma grande náo, que tomou, fazendo horrivel mortandade no +inimigo; os restantes fugiram deixando triumfante o denodado Vieira. <br /> + +<br /> + +Os macaenses sempre honraram e prestaram a Portugal, já +fazendo despezas avultadas com os nossos embaixadores ao imperador da +China, já mandando generosos presentes á capital +do reino luso, já derramando o proprio sangue a fim de +limpar as costas da China de piratas, já na defeza dos muros +levantados por seus maiores. <br /> + +<br /> + +Os governadores exigentes das providencias, que alli mandou Martinho de +Mello, eram similhantes aos que desolaram Macáo em 1626, +1709, 1747, e mesmo ao Sr. Lucas +<span class="pagenum"><a name="p155" id="p155">[155]</a></span> +seu elogiador aprol da tyrannia. Para se avaliar dos homens que pedem +taes providencias, bastará ler a carta seguinte do Conde de +S. Vicente. Tem por objecto responder a El-Rei D. <a href="#eo49">Afonso +VI.</a> sobre o +oitavo que mandava receber, de todos os rendimentos particulares; +tributo imposto em 1666 pelo vice-rei Antonio de Mello e Castro. <br /> + +<br /> + +—Sr.: a India ve-se de muito longe, e ouve-se mui tarde: +assim +não me espanto da fórma com que muitas ordens se +expedem, nem do mal <a href="#eo50">com que outros se +guardam</a><sup><a href="#n43">[43]</a></sup>. +Já um grande +ministro disse:—A jurisdicção dos Reis +de +Portugal apenas chega a Santarem; dahi para cima tudo é dos +corregedores—Na India a dos vice-reis não chega a +tanto; o +mais é dos capitães das fortalezas! Os gentios +não tem fazendas, os canarins apenas cultivam para comer; +assim não ha de quem se receba esse oitavo. Das pedras +não se tira mel. Vossa Magestade deve mandar á +India quem lhe faça desses impossiveis, que eu +não sei mais do que chorar as miserias, que vejo. Se isto +vai de mim, venha outro; se +<span class="pagenum">[156]</span> +nasce dos povos, +tenha Vossa Magestade delles piedade. Goa 26 de Janeiro de 1668. <br /> + +<br /> + +Se todos os vice-reis fallassem deste modo aos imperantes, +não íriam a Macáo +aquellas offenças em logar de providencias; os povos seriam +felizes, os portuguezes respeitados, e os Alvarengas mais commedidos. <br /> + +<br /> + +Julgo ter dito quanto basta para fazer arrepender o Sr. Lucas de querer +arrogar asi a honra, que +não lhe pertence, e de ser ingrato aos macaenses que tanto +lhe soffreram. Para o Sr. Lucas avaliar, com mais conhecimento de +causa, o espirito e fins com que fora escripta esta memoria, ahi lhe +remetto a copia fiel de uma carta que dirigi ao Senado de +Macáo em 1826, assim como a sua resposta. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Carta dirigida +ao Senado de +Macáo.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Senhores, ainda que separado de vós ha doze annos pela +distancia immensa da Europa á China, o meu espirito esteve +sempre comvosco. Havendo no coração o germen de +<span class="pagenum">[157]</span> +todas as virtudes, e recebido da natureza +alma docil ás suas impressões, jámais +poderia esquecer-me das sublimes qualidades que possuis. Deviam ser +escriptas por outro Andrade como Jacinto Freire, mas tivesteis a +desventura de viverdes em seculo diminuto em escriptores capazes de dar +vida ás proezas dos heroes. <br /> + +<br /> + +—Grandes e magnificos foram sem duvida os feitos dos +athenienses; mas +quanto a mim, diz Salustio, menores do que a fama. Havendo alli muitos +e grandes escriptores, as proezas dos athenienses foram celebradas no +mundo pelas maiores. Assim o valor dos que as fizeram passa por tal, +qual nos seus exagerados escriptos o figuraram esses preclaros +engenhos<sup><a href="#n44">[44]</a></sup>—Em +nosso tempo não acontece o mesmo; para +o mundo saber das vossas proesas na carreira da gloria servio-se da +minha tosca penna. <br /> + +<br /> + +O livro que vos offereço é pequeno em volume, +porém grande em seu objecto: basta conter os grandes feitos +que praticasteis na +extincção dos piratas. Na segunda parte que ficou +<span class="pagenum"><a name="p158" id="p158">[158]</a></span> +a imprimir-se em Lisboa +ainda +alcançasteis mais gloria. Na primeira realçam os +vencedores de Cam-pau-sai, na segunda brilha o Senado com a +expulsão dos inglezes. Porém não +é elle a mesma cousa, o Leal Senado de Macáo, e +os cidadãos macaenses? Nesse tempo luctuoso viviam todos +animados do mesmo espirito; a todos se ouvia a mesma +voz:—Morrer, +dizeis, ou mostrar que descendemos dos Castros e dos +Almeidas.— <br /> + +<br /> + +Desculpai, Srs., se desafio a vossa mágoa recordando-vos os +illustres collegas, que por longa serie de annos regeram com vosco esta +cidade. <a href="#eo51">Julgo-os</a> com direito +á minha lembrança e +aos vossos elogios. Porque motivo usarão os oradores +celebrar só os poderosos? Por que não louvam +elles as pessoas abalisadas em merito e virtudes? Se é +preciso celebrar sempre os grandes, porque não se lembram +tambem dos homens que foram uteis? Não será digno +de louvor o magistrado que usando da espada de Astrêa, por +muitos annos, o fez com tanta prudencia, que não ferio +cidadão algum? Magistrado que havia +coração tão sensivel e humano, que +não se limitando +<span class="pagenum">[159]</span> +em fazer +a paz e a ventura de uma cidade, pretendia abranger com esses dons +á maior parte do mundo? Que abrazado no sancto amor da +patria, empenhava quanto possuia para engrandecela e glorificala? Em +fim o varão forte que assaltado por intrigas e calumnias de +ingratos, capazes de enfraquecer o espirito de Zeno, as supportava de +animo tranquillo? Vós sabeis que Miguel de Arriaga possuio +estas sublimes qualidades. <br /> + +<br /> + +Quem, Senhores, deixará de louvar o illustre José +Joaquim de Barros, quando nesse mesmo recinto, agitando-se a +questão se deviam, ou não ter, accesso os +inglezes, exclamou.—Voto que não se deixem entrar; +desse-me +o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa, +gostoso darei a vida em honra da Pa +Quem, Senhores, deixará de louvar o illustre José +Joaquim de Barros, quando nesse mesmo recinto, agitando-se a +questão se deviam, ou não ter, accesso os +inglezes, exclamou.—Voto que não se deixem entrar; +desse-me +o lugar mais arriscado para defendelo; se a fortuna me for adversa, +gostoso darei a vida em honra da Patria<sup><a href="#n45">[45]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +Qual de vós, macaenses, nessa crise perigosa houve +differentes sentimentos? Todos repulsasteis o inimigo por modo singular +e extraordinario. <br /> + +<br /> + +Do monumento consagrado á vossa memoria, offereci um +exemplar ao Sr. D. João +<span class="pagenum">[160]</span> +VI; dizendo-lhe que certo de em parte alguma +depositar melhor as proezas macaenses do que em suas reaes +mãos, alli lhe entregava feitos praticados em dias, bem +similhantes aos do feliz tempo em que os lusitanos pelo caminho da +virtude subiram ao templo da immortalidade. Fiquei satisfeito por saber +depois, que El-Rei apreciára o livro, onde se acham exaradas +as proezas macaenses; porém será completo o meu +gosto se as julgardes levadas á posteridade por maneira +digna de vós. <br /> + +<br /> + +Em verdade, Senhores, é preciso ser estupido para +não admirar o vosso animo, e barbaro para com o vosso +exemplo não sentir o estimulo da virtude. Coimbra, Mattos, +Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas: serviram por mais de +trinta annos os encargos desta cidade por modo, que nem Focio, ou +Aristides o fez melhor +Em verdade, Senhores, é preciso ser estupido para +não admirar o vosso animo, e barbaro para com o vosso +exemplo não sentir o estimulo da virtude. Coimbra, Mattos, +Limas, e outros, possuiram virtudes perfeitas: serviram por mais de +trinta annos os encargos desta cidade por modo, que nem Focio, ou +Aristides o fez melhor em Athenas<sup><a href="#n46">[46]</a></sup>. +<br /> + +<br /> + +Macaenses, se os louvores provém de interesse, devem +despresar-se; se a lisonja tenta +<span class="pagenum"><a name="p161" id="p161">[161]</a></span> +enganar os poderosos, +deve temer-se; porém quando a +admiração tributa homenagem á virtude +deve estimar-se. <br /> + +<br /> + +Assevero-vos que <a href="#eo52">nesse opusculo</a> +liguei sempre a minha alma +ás vossas acções; +se lhes faltam pensamentos animados, por mingua de genio, tem o grito +da verdade, unico preciso para immortalisar-vos. <br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><em>Resposta.</em><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +O Senado recebeo com satisfação a vossa memoria, +por ver nella immortalisados os feitos macaenses, na +estincção dos piratas, que infestavam o nosso +arquipelago. Em verdade vós ornasteis o vosso e o nosso +quadro com as flores e bellesas de Camões e dos Andrades. O +Senado não perderá +occasião, em que vos possa ser util em reconhecimento de +tão precioso presente. <br /> + +<br /> + +<em>Cartorio do Senado, 16 de Novembro de +1826</em><br /> + +<br /> + +<h4>FIM.</h4> + +<br /> + +<br /> + +<b>Notas:</b><br /> + +<br /> + +<a name="n1" id="n1"></a><sup>[1]</sup> +Sacrifico a minha vida e fortuna á vossa (dizia +Cicero ao povo Romano); só exijo em recompensa conserveis a +memoria dos +meus serviços <br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>Catilinaria IV.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<a name="n2" id="n2"></a><sup>[2]</sup> +M. Thomas.<br /> + +<br /> + +<a name="n3" id="n3"></a><sup>[3]</sup> +Diniz +Ode XV.<br /> + +<br /> + +<a name="n4" id="n4"></a><sup>[4]</sup> +O reprehensivel descuido dos nossos auctores agora o +pagamos por castigo, ignorando os nossos proprios successos; e +sujeitando-nos a +crêr, e a estimar delles sómente aquella pequena +parte, que nos quizeram contar os inimigos, mais obrigados da +dôr, que da verdade. <br /> + +<br /> + +<div class="signature"><em>D. F. M. C. 26.</em></div> + +<br /> + +<br /> + +<a name="n5" id="n5"></a><sup>[5]</sup> +Era este Illustre Varão de mediana altura, +reforçado, largo de ombros, mui cabelludo e tinha +olhos amarellos.<br /> + +<br /> + +<a name="n6" id="n6"></a><sup>[6]</sup> +Navio de 20 bombardas com 300 homens.<br /> + +<br /> + +<a name="n7" id="n7"></a><sup>[7]</sup> +<em>Camões, +C. X. Est +82<br /> + +<br /> + +</em><a name="n8" id="n8"></a><sup>[8]</sup> +Por +estas acções heroicas, ainda que +barbaras, pode julgar-se o valor dos inimigos que tinhamos a vencer.<br /> + +<br /> + +<a name="n9" id="n9"></a><sup>[9]</sup> +Ode +XI. Epodo 4<br /> + +<br /> + +<a name="n10" id="n10"></a><sup>[10]</sup> +Ode XV. Dinis.<br /> + +<br /> + +<a name="n11" id="n11"></a><sup>[11]</sup> +Embarcação de 20 tonelladas.<br /> + +<br /> + +<a name="n12" id="n12"></a><sup>[12]</sup> +Camões, C. X. Est. 12 e 13.<br /> + +<br /> + +<a name="n13" id="n13"></a><sup>[13]</sup> +Jacintho F. de Andrade.<br /> + +<br /> + +<a name="n14" id="n14"></a><sup>[14]</sup> +Cam-pau-sai flagelou as provincias meridionaes do Imperio +com repetidos tributos; e saques aos remissos.<br /> + +<br /> + +<a name="n15" id="n15"></a><sup>[15]</sup> +Foi mui reprehensivel o modo porque obrigaram Arriaga a +dacontas do dinheiro, que seus inimigos +divulgavam ter elle levado dos cofres publicos, em sua +administração; sabendo-se em +Macáo, os sacreficios que elle tinha feito em honra da +Nação e a bem +daquella cidade. Graças eternas sejam dadas á sua +memoria. +Além de não dever nada aos cofres publicos, (<a href="#en1">como</a> mostrou a +Commissão nomeada para lhe tomar contas) ficou sendo credor +de 11 contos de réis; o que foi +publico nas gazetas de Macáo.<br /> + +<br /> + +<a name="n16" id="n16"></a><sup>[16]</sup> +Com especialidade F. A. P. Thovar e Felis José +Coimbra.<br /> + +<br /> + +<a name="n17" id="n17"></a><sup>[17]</sup> +Diuiz Ode <a href="#en2">34</a><br /> + +<br /> + +<a name="n18" id="n18"></a><sup>[18]</sup> +Camões, Canto 2, Est. 100.<br /> + +<br /> + +<a name="n19" id="n19"></a><sup>[19]</sup> +Duarte Nunes de Leão, C. dos reis de Portugal.<br /> + +<br /> + +<a name="n20" id="n20"></a><sup>[20]</sup> +L. J. de Alvarenga, queixa-se do mysterioso silencio +guardado a seu respeito nesta memoria. No fim della direi qual foi o +mysterio.<br /> + +<br /> + +<a name="n21" id="n21"></a><sup>[21]</sup> +No suburbio da cidade.<br /> + +<br /> + +<a name="n22" id="n22"></a><sup>[22]</sup> +Camões, Canto 1. Est X.<br /> + +<br /> + +<a name="n23" id="n23"></a><sup>[23]</sup> +Este paragrafo foi composto no dia 9 de Maio de 1824; dia +em que o Senhor D. J. VI proclamou aos portuguezes de bordo da Nao +Windsor Castle; tomou aquelle asilo para escapar aos malevolos que o +tinham cercado desde o dia 30 de Abril.<br /> + +<br /> + +<a name="n24" id="n24"></a><sup>[24]</sup> +Sá +de Miranda.<br /> + +<br /> + +<a name="n25" id="n25"></a><sup>[25]</sup> +Allud e a uma maxima de +confucio.<br /> + +<br /> + +<a name="n26" id="n26"></a><sup>[26]</sup> +O Imperador observou a seguinte maxima de +Confucio.—Respeitos que te levam vantagem +por natureza.<br /> + +<br /> + +<a name="n27" id="n27"></a><sup>[27]</sup> +Promenade autour du monde, em 1817, 1818, 1819, 1820, +Carta 68.<br /> + +<br /> + +<a name="n28" id="n28"></a><sup>[28]</sup> +Cidade portugueza na ilha de Timor. Procedia este +contentamento por terem saído de Coupang, cidade hollandeza +na parte +occidental da mesma ilha aonde Arago e seus companheiros foram mal +recebidos.<br /> + +<br /> + +<a name="n29" id="n29"></a><sup>[29]</sup> +Duarte Pacheco, depois de fazer prodigios na Asia, a +inveja, a calumnia e a intriga trouxeram-o da Africa a Lisboa +em ferros. Albuquerque, de-pois de immortalisar a +nação a que pertencia, foi victima das +mesmas furias. Não admira ter Alcoforado em premio de seus +ma-Portantes serviços o governo da pestilente ilha de Timor, +onde morreu na flor da idade.<br /> + +<br /> + +<a name="n30" id="n30"></a><sup>[30]</sup> +Como estariam hoje os brazileiros se Pedro Alves Cabral levasse +taes ordens. <br /> + +<br /> + +<a name="n31" id="n31"></a><sup>[31]</sup> +Vede se esses homens que prestaram serviços, para terem +patria, recusaram as enormes pensões com que pertendem +inchar!<br /> + +<br /> + +<a name="n32" id="n32"></a><sup>[32]</sup> +No protesto de Bernardo Aleixo se verá o +espirito da intimação.<br /> + +<br /> + +<a name="n33" id="n33"></a><sup>[33]</sup> +Esta correspondencia foi extrahida, por integra, do +Senado, mas é dada aqui em espirito.<br /> + +<br /> + +<a name="n34" id="n34"></a><sup>[34]</sup> +O Governador éra o orgão do Senado.<br /> + +<br /> + +<a name="n35" id="n35"></a><sup>[35]</sup> +Já em 1802 quizeram os Inglezes abusar dos +nossos tractados com o governo Chinez.<br /> + +<br /> + +<a name="n36" id="n36"></a><sup>[36]</sup> +É notavel o modo <a href="#en3">civíl</a> +e urbano +do governo de Macáo, e as maneiras asperas de +Roberts, etc. companhia.<br /> + +<br /> + +<a name="n37" id="n37"></a><sup>[37]</sup> +Tinha chegado na antevespora ordem de Goa para entrarem os +inglezes em Macáo!<br /> + +<br /> + +<a name="n38" id="n38"></a><sup>[38]</sup> +Note-se como fallam os mandarins a nosso respeito. Eis o +que prometti na introducção da primeira +parte.<br /> + +<br /> + +<a name="n39" id="n39"></a><sup>[39]</sup> +Admira não dizer que os mandaria para +Botany-bay.<br /> + +<br /> + +<a name="n40" id="n40"></a><sup>[40]</sup> +Bernardo Aleixo apelou para o tempo: esse inflexivel juiz +dos homens e das cousas já castigou os seus detractores.<br /> + +<br /> + +<a name="n41" id="n41"></a><sup>[41]</sup> +M. de Levis.<br /> + +<br /> + +<a name="n42" id="n42"></a><sup>[42]</sup> +Juizo dos sobrecargas, mandado a Londres.<br /> + +<br /> + +<a name="n43" id="n43"></a><sup>[43]</sup> +É boa resposta ás providencias de +Martinho de Mello.<br /> + +<br /> + +<a name="n44" id="n44"></a><sup>[44]</sup> +Versão do Sr. J. V. B. Feio.<br /> + +<br /> + +<a name="n45" id="n45"></a><sup>[45]</sup> +Varão septuagenario.<br /> + +<br /> + +<a name="n46" id="n46"></a><sup>[46]</sup> +Catão o censor, não possuio +tão grande somma de virtudes perfeitas, como havia o +benemerito cidadão Felis José +Coimbra.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + +<br /> + +<br /> + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + <tbody> + + <tr align="right"> + + <td style="width: 61px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td> + + <td style="text-align: center; width: 5px;"></td> + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correcção</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo1" id="eo1"></a><a href="#p8">#pág. +8</a></td> + + <td style="text-align: center;">Chang-ti</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Cham-hi <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo2" id="eo2"></a><a href="#p12">#pág. +12</a></td> + + <td style="text-align: center;">Tai-te-sang</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Tai-te song <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e1" id="e1"></a><a href="#p12">#pág. +12</a><br /> + + </td> + + <td style="text-align: center;">qualqner</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">qualquer</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e2" id="e2"></a><a href="#p13">#pág. +13</a></td> + + <td style="text-align: center;">natueza</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">natureza</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e3" id="e3"></a><a href="#p14">#pág. +14</a></td> + + <td style="text-align: center;">Abuquerque</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Albuquerque</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo3" id="eo3"></a><a href="#p17">#pág. +17</a></td> + + <td style="text-align: center;">fizerão +della</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">fizerão +delle <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e4" id="e4"></a><a href="#p18">#pág. +18</a> </td> + + <td style="text-align: center;">cidadadãos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cidadãos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e5" id="e5"></a><a href="#p19">#pág. +19</a> </td> + + <td style="text-align: center;">periecios</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">periecos</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo4" id="eo4"></a><a href="#p25">#pág. +25</a></td> + + <td style="text-align: center;">1585</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">1805 <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e6" id="e6"></a><a href="#p26">#pág. +26</a> </td> + + <td style="text-align: center;">Ciadde</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Cidade</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo5" id="eo5"></a><a href="#p29">#pág. +29</a> </td> + + <td style="text-align: center;">bribue</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">brigue <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e7" id="e7"></a><a href="#p29">#pág. +29</a></td> + + <td style="text-align: center;"><em>Bareto</em></td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;"><em>Barreto</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo6" id="eo6"></a><a href="#p31">#pág. +31</a></td> + + <td style="text-align: center;">argino</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">argivo <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo7" id="eo7"></a><a href="#p35">#pág. +35</a> </td> + + <td style="text-align: center;">Com paráos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Cem +paráos <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e8" id="e8"></a><a href="#p36">#pág. +36</a> </td> + + <td style="text-align: center;">illultres</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">illustres</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo8" id="eo8"></a><a href="#p37">#pág. +37</a></td> + + <td style="text-align: center;">aubiram</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">subirão <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo9" id="eo9"></a><a href="#p37">#pág. +37</a></td> + + <td style="text-align: center;">tinha</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">tinhão <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo10" id="eo10"></a><a href="#p42">#pág. +42</a></td> + + <td style="text-align: center;">Wam-pao</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Wam-poo <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo11" id="eo11"></a><a href="#p44">#pág. +44</a></td> + + <td style="text-align: center;">para ser</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">por ser <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo12" id="eo12"></a><a href="#p44">#pág. +44</a></td> + + <td style="text-align: center;">mais</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">mui <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo13"></a><a href="#p45">#pág. 45</a></td> + + <td style="text-align: center;">formaram</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">formarão <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo14" id="eo14"></a><a href="#p46">#pág. +46</a></td> + + <td style="text-align: center;">8º</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">3º <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo15" id="eo15"></a><a href="#p51">#pág. +51</a></td> + + <td style="text-align: center;">fusão</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">effusão <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e9" id="e9"></a><a href="#p56">#pág. +56</a></td> + + <td style="text-align: center;">espedadaçados</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">espedaçados</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e10" id="e10"></a><a href="#p56">#pág. +56</a> </td> + + <td style="text-align: center;">os velas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">as velas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e11" id="e11"></a><a href="#p58">#pág. +58</a></td> + + <td style="text-align: center;">Officiciaes</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Officiaes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e12" id="e12"></a><a href="#p64">#pág. +64</a></td> + + <td style="text-align: center;">a a honra</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a honra</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo16" id="eo16"></a><a href="#p65">#pág. +65</a></td> + + <td style="text-align: center;">mercantes</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">marcantes <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo17" id="eo17"></a><a href="#p65">#pág. +65</a></td> + + <td style="text-align: center;">a Chum-pin</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">para Chumpin <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e13" id="e13"></a><a href="#p67">#pág. +67</a></td> + + <td style="text-align: center;">alguns do seus</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">alguns dos seus</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e14" id="e14"></a><a href="#p74">#pág. +74</a></td> + + <td style="text-align: center;">snummameute</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">summamente</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e15" id="e15"></a><a href="#p75">#pág. +75</a></td> + + <td style="text-align: center;">Cam-paui-sai</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Cam-pau-sai</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e16" id="e16"></a><a href="#p79">#pág. +79</a></td> + + <td style="text-align: center;">pala honra</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">pela honra</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e17" id="e17"></a><a href="#p83">#pág. +83</a></td> + + <td style="text-align: center;"><em>nommme</em></td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;"><em>nomme</em></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo18" id="eo18"></a><a href="#p87">#pág. +87</a> </td> + + <td style="text-align: center;">Virtudes </td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">virtudes que +possuia <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo19" id="eo19"></a><a href="#p87">#pág. +87</a> </td> + + <td style="text-align: center;">fazia</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">faria <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e18" id="e18"></a><a href="#p88">#pág. +88</a></td> + + <td style="text-align: center;">habitautes</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">habitantes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo20" id="eo20"></a><a href="#p88">#pág. +88</a></td> + + <td style="text-align: center;">tome a agua</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">tome agoa <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e19" id="e19"></a><a href="#p88">#pág. +88</a></td> + + <td style="text-align: center;">Gragas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Graças</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo21" id="eo21"></a><a href="#p91">#pág. +91</a></td> + + <td style="text-align: center;">as quaes tem</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">as que tem <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e20" id="e20"></a><a href="#p91">#pág. +91</a></td> + + <td style="text-align: center;">reconhcimento</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">reconhecimento</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo22" id="eo22"></a><a href="#p96">#pág. +96</a></td> + + <td style="text-align: center;">pessoas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">possesões + <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e21" id="e21"></a><a href="#p96">#pág. +96</a></td> + + <td style="text-align: center;">Septemero</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Septembro</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e22" id="e22"></a><a href="#p98">#pág. +98</a></td> + + <td style="text-align: center;">vosas tropas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">vossas tropas</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e23" id="e23"></a><a href="#p101">#pág. +101</a> </td> + + <td style="text-align: center;">quã o</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">quão</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo23" id="eo23"></a><a href="#p103">#pág. +103</a></td> + + <td style="text-align: center;">a tractada</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">tratada <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo24" id="eo24"></a><a href="#p105">#pág. +105</a></td> + + <td style="text-align: center;">presidente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Ministro <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo25" id="eo25"></a><a href="#p105">#pág. +105</a></td> + + <td style="text-align: center;">lares</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">os lares <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo26" id="eo26"></a><a href="#p106">#pág. +106</a></td> + + <td style="text-align: center;">nos macaenses</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">nos peitos macaenses + <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo27" id="eo27"></a><a href="#p106">#pág. +106</a></td> + + <td style="text-align: center;">a persuadilos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">e persuadilos <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo28" id="eo28"></a><a href="#p106">#pág. +106</a></td> + + <td style="text-align: center;">por missão</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">permissão + <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo29" id="eo29"></a><a href="#p106">#pág. +106</a></td> + + <td style="text-align: center;">e afiançou</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">afiançou <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e24" id="e24"></a><a href="#p106">#pág. +106</a></td> + + <td style="text-align: center;">Francico</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Francisco</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo30" id="eo30"></a><a href="#p107">#pág. +107</a></td> + + <td style="text-align: center;">quebar-se</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">quebrar-se <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e25" id="e25"></a><a href="#p109">#pág. +109</a></td> + + <td style="text-align: center;">enentrarem</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">entrarem</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e26" id="e26"></a><a href="#p110">#pág. +110</a></td> + + <td style="text-align: center;">qnanto</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">quanto</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e27" id="e27"></a><a href="#p110">#pág. +110</a></td> + + <td style="text-align: center;">tortaleza</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">fortaleza</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e28" id="e28"></a><a href="#p112">#pág. +112</a></td> + + <td style="text-align: center;">amim</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">a mim</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e29" id="e29"></a><a href="#p112">#pág. +112</a></td> + + <td style="text-align: center;">A inda</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Ainda</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e30" id="e30"></a><a href="#p114">#pág. +114</a></td> + + <td style="text-align: center;">respoderam</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">responderam</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e31" id="e31"></a><a href="#p114">#pág. +114</a></td> + + <td style="text-align: center;">cencedido</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">concedido</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo31" id="eo31"></a><a href="#p114">#pág. +114</a></td> + + <td style="text-align: center;">virtudes</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">virdes <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e32" id="e32"></a><a href="#p117">#pág. +117</a></td> + + <td style="text-align: center;">fraududulenta<br /> + + </td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">fraudulenta<br /> + + </td> + + </tr> + + <tr> + + + + <td style="text-align: center;">horririvel</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">horrivel</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: center;">da consumada</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">da sua consumada <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo33" id="eo33"></a><a href="#p119">#pág. +119</a></td> + + <td style="text-align: center;">foi uma +complicação</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">foi uma a +complicação <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e34" id="e34"></a><a href="#p122">#pág. +122</a></td> + + <td style="text-align: center;">çom elle</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">com elle</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo34" id="eo34"></a><a href="#p123">#pág. +123</a></td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">o 1.º +§ acaba no ponto final <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo35" id="eo35"></a><a href="#p130">#pág. +130</a> </td> + + <td style="text-align: center;">obedecer</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">obedecerem <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e35" id="e35"></a><a href="#p133">#pág. +133</a></td> + + <td style="text-align: center;">Winistro</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Ministro</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e36" id="e36"></a><a href="#p133">#pág. +133</a> </td> + + <td style="text-align: center;">innlezes</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">inglezes</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e37" id="e37"></a><a href="#p143">#pág. +143</a></td> + + <td style="text-align: center;">miseraravel</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">miseravel</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo36" id="eo36"></a><a href="#p143">#pág. +143</a></td> + + <td style="text-align: center;">em Lx.<sup>a</sup> +impressa</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">impressa em Lisboa <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo37" id="eo37"></a><a href="#p144">#pág. +144</a></td> + + <td style="text-align: center;">o Prezidente</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">o Ministro <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo38" id="eo38"></a><a href="#p147">#pág. +147</a></td> + + <td style="text-align: center;">de que este espirito</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">de que o espirito <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo39" id="eo39"></a><a href="#p147">#pág. +147</a> </td> + + <td style="text-align: center;">adquerida</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">adqueridos <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="e38" id="e38"></a><a href="#p148">#pág. +148</a></td> + + <td style="text-align: center;">fróma</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">fórma</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo40" id="eo40"></a><a href="#p149">#pág. +149</a> </td> + + <td style="text-align: center;">que elle</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">que o Sr. Lucas <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo41" id="eo41"></a><a href="#p149">#pág. +149</a></td> + + <td style="text-align: center;">cooperarem</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">cooperara <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="eo42" id="eo42"></a><a href="#p149">#pág. +149</a></td> + + <td style="text-align: center;">do +que a sua mesma confissão de que fôra</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">...</td> + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">elle +mesmo confessa +que fôra <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo43" id="eo43"></a><a href="#p151">#pág. +151</a> </td> + + <td style="text-align: center;">encontrado</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">entregado <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo44" id="eo44"></a><a href="#p151">#pág. +151</a> </td> + + <td style="text-align: center;">o Chefe</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">ao Chefe <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo45" id="eo45"></a><a href="#p151">#pág. +151</a></td> + + <td style="text-align: center;">prova</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">provaria <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo46" id="eo46"></a><a href="#p152">#pág. +152</a></td> + + <td style="text-align: center;">butucudos Tupinambas</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">butecudos e +tupinambas <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo47" id="eo47"></a><a href="#p152">#pág. +152</a></td> + + <td style="text-align: center;">e o Arcebispo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">e um frade <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo48" id="eo48"></a><a href="#p153">#pág. +153</a></td> + + <td style="text-align: center;">e mesmo +eleger</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">e mesmo de eleger <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo49" id="eo49"></a><a href="#p155">#pág. +155</a></td> + + <td style="text-align: center;">Afonso V.</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Afonso VI. <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo50" id="eo50"></a><a href="#p155">#pág. +155</a></td> + + <td style="text-align: center;">que outros guardam</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">com que outros se +guardam <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo51" id="eo51"></a><a href="#p158">#pág. +158</a></td> + + <td style="text-align: center;">Julgo-vos</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">Julgo-os <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="eo52" id="eo52"></a><a href="#p161">#pág. +161</a></td> + + <td style="text-align: center;">neste apuzento</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">neste opusculo <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"></td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + <td style="text-align: center;"></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="en1" id="en1"></a><a href="#n15">#nota 15</a></td> + + <td style="text-align: center;">oomo</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">como</td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="en2" id="en2"></a><a href="#n17">#nota 17</a> + </td> + + <td style="text-align: center;">24</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">34 <sup>(*)</sup></td> + + </tr> + + <tr> + + <td style="text-align: right;"><a name="en3" id="en3"></a><a href="#n36">#nota 36</a> + </td> + + <td style="text-align: center;">civíi</td> + + <td style="text-align: center;">...</td> + + <td style="text-align: center;">civíl</td> + + </tr> + + </tbody> +</table> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><sup>(*)</sup> +Correcções efectuadas com base na errada da obra +original. <br /> + +</div> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">Foram mantidas as +variações das palavras "La Perouse", "Le +Perou-se", "La Perou-se"...<br /> + +<br /> + +<a name="n47" id="n47"></a>Na <a href="#p85">página +85</a>, não existe ponto 3º//nota 3. <br /> + +<br /> + +A +pontuação foi corrigida de acordo.<br /> + +Exemplo: +colocação de pontos finais em vez de +vírgulas no final de frases.<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Memoria dos feitos macaenses contra os +piratas da China, by José Ignacio de Andrade + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MEMORIA DOS FEITOS MACAENSES *** + +***** This file should be named 36163-h.htm or 36163-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/6/1/6/36163/ + +Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões +and the Online Distributed Proofreading Team at +https://www.pgdp.net (This book was produced from scanned +images of public domain material from the Google Print +project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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