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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Isabel d'Aragão a Rainha Santa + Historia sucinta da sua vida, morte e excelsas virtudes + +Author: Anonymous + +Release Date: February 19, 2011 [EBook #35324] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ISABEL D'ARAGÃO A RAINHA SANTA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + ISABEL D'ARAGÃO + + A + + RAINHA SANTA + + HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES + + + DEDICADA AOS FIEIS + + + + COIMBRA + GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA + 1921 + + + + + + ISABEL D'ARAGÃO + + A + + RAINHA SANTA + + HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES + + + DEDICADA AOS FIEIS + + + + COIMBRA + GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA + 1921 + + + + +PRÓLOGO + + +Muito se tem escrito ácerca da vida da excelsa e virtuosissima D. Isabel +d'Aragão, Esposa d'el-rei D. Dinís; mas impunha-se ha muito a publicação +dum folheto, como este, que sendo conciso na sua descrição não deixasse +de relatar os factos que mais distinguiram Aquela que a cidade de +Coimbra escolheu para sua Augusta Padroeira e Protectora. + +O que o autor deste folheto teve em vista foi facultar aos fieis, com +grande economia de preço, um livrinho de leitura facil e corrente, ao +alcance de todos, onde a historia sagrada da Rainha Santa possa deixar +bem arreigada no espirito dos crentes a obra sublime, verdadeiramente +maravilhosa, que lhe concedeu logar na côrte celestial. + +As notas que colhemos foram, principalmente, extraídas do monumental +trabalho de investigação historica do Ex.^o Sr. Dr. Antonio Garcia +Ribeiro de Vasconcelos, na sua tão apreciada obra _D. Isabel d' Aragão_. + + * * * * * + +A fama de santidade da Rainha Santa Isabel estende-se por todo Portugal +e por muitas terras de Hespanha. Em Coimbra, porém, é tão grande que em +parte alguma do nosso país se realizam festas tão pomposas em honra dum +santo, como nesta cidade, onde concorrem para mais de 50:000 pessoas por +essa ocasião. + +É nos momentos de luta pela adversidade da vida que os conimbricenses, +principalmente, recorrem á protecção da Rainha Santa na sua fervorosa +suplica, e se nem sempre logram alcançar a satisfação das suas preces, é +já poderoso linitivo para a sua dôr a lembrança de que Ela nunca +desamparou os infelizes com a sua divina graça. + +Isabel d'Aragão tendo sido um grande exemplo de virtudes, deu tambem uma +prova bem frisante do seu amor a Coimbra, determinando em seu testamento +que o seu corpo sagrado repousasse no mosteiro de Santa Clara desta +cidade, onde Ela esteve clausurada e donde foi trasladado o seu corpo +para o novo mosteiro do mesmo nome. + +É, pois, pouco quanto façam os conimbricenses em honra da memoria +sagrada da Sua excelsa Padroeira. + + + + + +CAPITULO I + +Nascimento da Rainha Santa + + +Da côrte de Aragão ao Trono de Portugal + +A Rainha Santa Isabel, que Coimbra se ufana de ter como desvelada +Protectora e valiosa Padroeira, nasceu na cidade de Saragoça (Espanha), +no ano de 1271. + +Filha do Principe real D. Pedro de Aragão e de sua esposa D. Constança, +o seu nascimento foi desde logo iluminado pela graça divina, pois que +seu avô, El-rei D. Jaime, que até aí vivia em grande discordia com D. +Pedro de Aragão, imediatamente se congraçou com este, passando ambos a +viver na mais doce harmonia. + +Assim demonstrou Deus aos homens que esta menina estava reservada a ser +na terra a medianeira da paz, o Anjo predestinado a estabelecer a +harmonia e a concordia entre os desavindos, facto que mais tarde, quando +Rainha de Portugal, se verificou nas diversas desavenças entre seu +esposo El-rei D. Dinís e seu filho D. Afonso IV. + +A Rainha Santa Isabel foi, como já dissemos, aureolada desde o seu +nascimento pela graça do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se +revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a impôs á +consideração de todas as côrtes da Europa, facto que despertou em +bastantes principes o desejo de possuirem como esposa tão excelsa +senhora. + +Foi á côrte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser +a preferida entre todas as outras, merecendo El-rei D. Dinís a gloria de +ter como consorte um tesouro de tantas virtudes e de tão preciosos +encantos. + + * * * * * + +O casamento de D. Dinís com D. Isabel celebrou-se por procuração na +antiga cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de Fevereiro +de 1282 e contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade. +Êste auspicioso enlace constituiu um motivo de grande regosijo para +todos os portugueses, antevendo estes os enormes beneficios deste +casamento, o qual foi muito festejado e aclamado em todo o país com +demonstrações de grande alegria e verdadeira satisfação. + +A saída de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristesas, +custando-lhes imenso essa separação pelas profundas saudades que D. +Isabel deixava em todos os corações que muito a estremeciam. + +De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por +todo o povo que acorria á sua passagem, salientando-se mais essas +carinhosas manifestações na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de +Junho de 1282, no templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a +pompa as bençãos nupciais. + +Em Coimbra, onde a esse tempo residia a côrte juntamente com a principal +nobresa do reino, as manifestações de contentamento e alegria pela +chegada dos régios nubentes, atingiram o mais delirante entusiasmo, +conquistando logo a Rainha D. Isabel a simpatia e o amor dum povo que, +mais tarde, havia de herdar o seu mais precioso tesouro--o sagrado corpo +que todos hoje veneramos--e que esta cidade conserva com a mais +desvelada e respeitosa devoção. + +As manifestações de regosijo com que a cidade recebeu os régios +consortes foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as +suas melhores galas para bem lhes significar o contentamento de que se +achava possuida por motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se +evidenciaram na vida da nação portuguesa, e de que Coimbra comparticipou +em larga escala pelos benéficos actos de caridade que a Santa Rainha +espalhou por toda a parte. + +Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Aragão manifestou +mais claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou, +os socorros por ela prestados á indigencia, aos órfãos, ás viúvas e ás +donzelas abandonadas, foram os primeiros lavores que lhe teceram a sua +coroa de gloria; a fundação de asilos, de albergues e de hospitais, que +a sua magnificencia sustentou e onde se recolhia uma legião de +infelizes, originou, sem duvida, a fama de santidade que bem cedo a +distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de 1625, dia da Santíssima +Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no numero dos eleitos do Senhor. + + + + +CAPITULO II + +Actos de Caridade + + +Se durante a vida de El-rei D. Dinís a acção da Rainha Santa foi um +constante manancial de actos virtuosos, a partir do momento da sua +viuvês, a sua acção tornou-se verdadeiramente exemplar. + +O numero de factos que desde então assinalam tão gloriosa existencia na +terra, mais e mais fazem arreigar na alma do povo a convicção dos +designios de Deus por Ela tão santamente interpretados. + +Sem todavia esquecer os deveres de Rainha, que lhe absorviam uma grande +parte dos seus cuidados, e não poucas vezes foram motivo de profundos +desgostos, D. Isabel de Aragão cinge livremente o hábito de freira +Clarista e volvendo os olhos piedosos para um mais largo horisonte, +consagra-se completamente a obras de caridade, fundando e auxiliando +hospicios e asilos, nos quais se albergam, sob a sua protecção, muitas +infelizes que se regeneraram pelos seus conselhos e alcançaram na terra +a felicidade que só sabem gosar as almas puras e simples. + +Querendo encaminhar-se pela estrada luminosa que da terra se eleva até +Deus, um dos seus primeiros cuidados, ao ver-se cingida pela roupagem da +viuvês, foi trocar os faustos das glorias terrenas pela humildade da +clausura a que, como já dissemos, livremente se sujeitou. + + * * * * * + +Junto dos seus Paços riais corriam vagarosamente as obras para a +fundação do Convento de Santa Clara, obras que prometiam eternizar-se +por demandas entre os frades Cruzios e D. Maior Dias, fundadora daquele +convento, e que certamente ficariam incompletas se não fosse o auxilio e +protecção que a Rainha Santa dispensou para a sua rapida conclusão. + +Uma vez concluido, cuidou logo a Rainha Santa em fundar junto deste +convento um asilo para órfãos e para a pobresa envergonhada, chamando +para junto de si algumas amas de leite com o encargo de alimentarem +as crianças desvalidas! + +A maior parte do seu tempo tinha-o a Rainha Santa distribuido por forma +a satisfazer os seus deveres de Rainha e cristã; o restante empregava-o +no ministerio da caridade visitando os asilados, a quem não só consolava +com a sua palavra, mas muitas vezes servia de carinhosa enfermeira +curando as chagas que lhes corroiam o corpo. + +Nesta e em muitas outras obras de verdadeira abnegação dispendia a +Rainha Santa quasi toda a sua fortuna. Com o auxilio de Deus, a quem +firmemente procurava engrandecer com os merecimentos das suas preciosas +virtudes, nunca a Rainha Santa lutou com dificuldades para se +desempenhar da sua nobre missão. Os proventos de que dispunha parece que +tinham o condão de se multiplicar e, se algumas vezes houve em que o seu +socorro tinha de fazer face a maiores calamidades, então eram as Rosas +que, adquirindo a forma de oiro reluzente, premiavam os seus actos de +caridade e satisfaziam os encargos adquiridos para garantir o pão aos +famintos! + +Da sua vida, tão brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Ex.ª +o sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcelos, erudito professor da +Universidade de Coimbra[1], constam muitos e importantes +factos da vida gloriosa da Rainha Santa, traduzidos todos eles nos mais +altos beneficios em favor dos desprotegidos. + + + + +CAPITULO III + +Morte da Rainha Santa + + +Em Junho de 1336 teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D. +Afonso IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto +por motivo de graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre +aqueles dois poderosos monarcas. + +Quando a Rainha Santa soube de tal resolução imediatamente se resolveu a +partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava seu filho +acompanhado de toda a Côrte. + +Êste propósito foi prudentemente combatido pelos medicos da Rainha +Santa, os quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa +viagem do que a idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demovê-la +dessa resolução. Inuteis rogos e infrutiferas tentativas! A Rainha +Santa, despresando esses bons conselhos e animada sómente em +restabelecer a paz entre os reis desavindos--filho e neto--, parte +apressadamente de Coimbra, caminhando sob um sol abrasador, e chega +finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e fatigada, mas +cheia de animo para cumprir a sua carinhosa missão. + +Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de D. Afonso IV, +imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito +da Rainha Santa para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa +saude exigia. + +Baldados esforços porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma +pústula que rapidamente lhe apareceu num braço tornou mais +melindroso o seu estado e, no dia 4 de Julho, manhã cedo, a Rainha Santa +declarou que queria receber os ultimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo +dia as forças principiaram a faltar-lhe, a Rainha Santa vê que é chegada +a sua ultima hora, e erguendo o pensamento até ao Ceu, encarrega a Mãe +de Deus de lhe receber a alma, pronunciando com toda a suavidade estes +versos do hino eclesiastico: + + Mãe de graças e Misericordia + Maria piedosa e forte: + Livra a minha alma, recebe-a + Na hora da minha morte. + +A seguir recita com visivel comoção algumas orações; os olhos fecham-se +lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos +ante aquele quadro tão emocionante, compreendem que a alma pura da +Rainha Santa, solta do seu veneravel corpo, subia aos céus a receber o +premio das suas virtudes, descançando para sempre na paz do Senhor, onde +eternamente gosará a bemaventurança com que Deus premeia os seus eleitos. + + * * * * * + +É, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protectora está recebendo +o premio das suas boas acções e dos seus constantes trabalhos. Ali, no +seio de Deus, junto da Virgem Santissima, intercede pelo seu povo, por +aqueles que a ela recorrem com a alma angustiada pelas dôres humanas, e +que jamais esquecem o seu nome para lhe tributar as homenagens do seu +reconhecimento. Essas homenagens concretizam-se no culto fervoroso +de todos os portugueses pela Santa Rainha e, mui especialmente, do povo +de Coimbra que por Ela nutre o maior respeito e a mais significativa +devoção. + + + + +CAPITULO IV + +Trasladações + + +I + +Logo que a Rainha Santa entregou a sua alma a Deus, o primeiro cuidado +da côrte foi escolher local para depositar o corpo de tão excelsa +Senhora, opinando uns para que fôsse sepultado no Convento dos +Franciscanos, em Estremoz, e outros para que fôsse trasladado para a Sé +de Evora, a cidade mais proxima daquela terra. Por conselho de El-rei +procurou-se o testamento de D. Isabel e vendo-se por ele que a Rainha +Santa queria ser sepultada em Coimbra, na Igreja de Santa Clara, foi +respeitada esta vontade, dando-se logo ordens para se pôr em pratica o +desejo ali expresso. + +Apezar das opiniões em contrario, prevaleceram as determinações de El-rei. + +O prestito funebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em +marchas apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo +atravessado tão longo percurso debaixo dum sol abrazador. + +As inumeras pessoas que constituiam o prestito funebre foram tomadas de +verdadeiro espanto quando, ao 3.º dia de viagem, notaram que o ataúde +onde vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas, +escorrendo por entre elas um liquido que todos supozeram ser proveniente +da decomposição do cadaver. + +Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro +desagradavel, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal +aroma que aqueles que a principio se sentiam inquietos e desconfiados, +logo se aproximaram do ataúde, louvando o Senhor por esta manifestação +da sua omnipotencia. + +Quando o cortejo chegou a Coimbra deram-se então scenas comovedoras e +lancinantes entre a população citadina. Todos á porfia queriam beijar o +ataúde onde vinha a sua Protectora, a sua desvelada Bemfeitora, +ouvindo-se choros de verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa +Rainha, cujo passado tinha sido um manancial de graças e bondade! + +Quando o ataúde deu entrada na igreja de Santa Clara muita gente supôs +que o corpo da Rainha Santa seria exposto à veneração do publico. Tal se +não deu; no dia seguinte, 12 de Julho, é que se celebraram os oficios +divinos por alma de D. Isabel, sendo estes actos revestidos de toda a +solenidade e com a assistencia de alguns Prelados, Professores da +Universidade, Rei, Cabido e muitos religiosos das diversas ordens. + +Logo que eles terminaram, foi o ataúde transportado para uma capela que +a Rainha Santa havia mandado edificar ao fundo da Igreja e na qual estava +o tumulo de pedra que em sua vida também mandara construir _(fig. 1)_. + +Foi dentro dêste precioso moimento de pedra, ricamente cinzelado, que se +colocou o ataúde tal qual veiu de Estremoz, envolvido numa pele de boi e +com um pano de brocado repregado por cima. + +Sobre o ataúde colocaram o bordão de peregrina e uma bolsa que o +arcebispo de S. Tiago de Galiza ofereceu à Rainha Santa quando ela +visitou esta cidade, sendo em seguida fechado o tumulo com a pesada +pedra que ainda hoje o cobre e na qual vemos representada a figura da +Rainha Santa com habito de freira. + +Assim se conservou até ao dia 26 de Março de 1612, 276 anos depois da +sua morte, dia em que foi aberto por consentimento do Sumo Pontifice. + +[Figura 1: Túmulo de Pedra] + +Esta cerimonia, que se tornou necessaria para se proceder ao processo de +canonização de D. Isabel, foi presidida pelo Bispo de Coimbra D. Afonso +de Castelo Branco, e tendo como assistentes D. Martim Afonso, Bispo de +Leiria, Dr. Francisco Vaz Pinto, dois medicos, um cirurgião e algumas +testemunhas a quem foi confiado o encargo de examinarem os restos +mortais da Rainha Santa. + +Pedimos licença para trasladar para aqui o relato que sobre esta +cerimónia encontramos no autorizado livrinho--_Historia Popular da +Rainha Santa Isabel--Protectora de Coimbra_......... + +«Subindo à capela superior, onde estava o tumulo, e analisando-o com +todo o cuidado por fóra, acharam-no exactamente como havia ficado 276 +anos antes, quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido +o ataúde que encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fieis o havia +rodeado de demonstrações da fé e amor que os prendia Áquela cujos restos +ali estavam encerrados. + +«Ninguem sabia se o tumulo continha sómente os ossos da santa Esposa de +D. Dinís, se mais alguma cousa que ainda restasse do corpo e mortalhas; +por isso todos estavam anciosos por que o tumulo se abrisse. + +«Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordão de peregrina, que +foram pelo bispo-conde entregues à guarda das religiosas. + +«O ataúde ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela +vermelha que havia sido repregada por cima. + +«Com dificuldade se despregou a taboa superior do ataúde, cortaram-se à +tesoura os numerosos envoltorios em que a santa Rainha fora amortalhada +em Extremoz, antes de ser metida no caixão, os quais, se encontraram com +admiração de todos, em perfeito estado de conservação, como se ali +tivessem sido colocados pouco antes. + +«Por fim descobriu-se o rosto, peito e braço direito da nossa excelsa +Protectora. Todos cairam de joelhos, estupefactos pelo grande milagre +que viam! + +«O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a +cabeça coberta de louros cabelos, perfeitamente seguros na pele, a +boca e olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o +cunho da bondade e majestade que haviam sido apanagio da Rainha Santa. +Vestia o habito de estamenha das freiras de santa Clara, e um pano +branco de linho envolvia-lhe a cabeça. Do ataúde saia aroma suave. + +«Á vista de tal milagre as religiosas cantaram o hino do velho Simeão, +dizendo: _Agora, Senhor, já podeis deixar-nos morrer em paz, porque os +nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder_. + +«Feito pelos medicos e cirurgião o exame minucioso que se lhes pedia, +concertaram-se de novo as mortalhas, o tumulo fechou-se, e de tudo se +lavrou o auto competente». + + +II + +Com o decorrer do tempo e as sucessivas enchentes do rio Mondego muito +grave se tornou a vida monástica no convento fundado pela Rainha Santa. +Como as invernias ameaçassem sepultar nas areias daquele rio as paredes +do convento, as religiosas reciavam, e com razão, ficar sepultadas sob +os seus escombros, perdendo-se neles todas as preciosidades que +enriqueciam a Igreja e entre as quais devemos destacar o precioso corpo +da Rainha Santa. + +Em vista, pois, dos graves e constantes perigos a que estava sujeita a +comunidade do velho mosteiro, dignou-se El-rei D. João IV ouvir os rogos +das religiosas claristas e mandou erigir no monte da Senhora da +Esperança um novo convento para sua habitação. + +As obras deste grandioso edificio, que se prolongaram durante muito +tempo, foram iniciadas no dia 5 de julho de 1649 e só no dia 29 de +Outubro de 1677, 28 anos depois, êle estava apto a receber as +referidas religiosas. + +Por ordem do Principe regente D. Pedro, 2.º filho de D. João IV, +procedeu-se no dia 27 de Outubro daquele ano á abertura do túmulo da +Rainha Santa, assistindo a este acto alguns representantes da Côrte, 8 +Bispos. Professores da Universidade e muitos religiosos das diversas +ordens de Coimbra. Como se verificasse que o caixão que guardava o corpo +da Rainha Santa estava um tanto deteriorado, logo se procedeu á +construção dum outro que o substituisse e para o qual foi mudado o corpo +da veneranda Padroeira de Coimbra. Durante esta operação quiz o acaso +que se soltassem algumas pregas das roupagens que envolviam os despojos +de Santa Isabel, podendo assim todos os presentes ver a mão direita +desta virtuosa Rainha, alva como a neve, e em tão perfeito estado de +conservação que logo provocou o natural e piedoso desejo de ser +osculada, como o foi com efeito, por todos aqueles que tiveram a suprema +felicidade de ali estar reunidos. + +Duraram os preparativos da trasladação para o novo convento ainda 2 dias +e, em 29 de Outubro, foi a Rainha Santa para ali conduzida +procissionalmente, acompanhada de muitos milhares de pessoas, e tendo de +atravessar por entre duas alas compactas de povo que se estendiam até ao +novo convento. + +Como a essa data não estivesse ainda concluida a Igreja que hoje +admiramos, foi o corpo da Rainha Santa conduzido para uma pequena sala +existente ao fundo do côro, colocando-se então no precioso e riquíssimo +túmulo de prata _(fig. 2)_ que D. Afonso de Castelo Branco, um dos mais +notaveis Prelados desta diocese, mandara fabricar, e no qual ainda hoje +se guarda o precioso tesouro que Coimbra venera com o maior respeito +e o mais devotado amor! + + * * * * * + +Concluida que foi a Igreja de Santa Clara, procedeu-se no dia 3 de julho +de 1696 a nova trasladação da Rainha Santa para a tribuna da +Capela-mór, lugar em que esteve durante muitos anos e donde teve de +mudar-se por causa da invasão dos francêses. + +[Figura 2: Túmulo de Prata] + +No dia 1 de Outubro de 1810 tiveram as freiras conhecimento de que os +soldados de Massena, enfurecidos com a derrota que tiveram no Bussaco +dias antes, vinham a caminho de Coimbra. Sabedoras do pouco respeito que +aos soldados franceses mereciam as preciosidades do nosso país, +apressaram-se elas em esconder as melhores alfaias do Convento e, +apressadamente, retiraram tambem do seu lugar o tumulo da Rainha Santa, +o objecto da sua mais estremecida estima, indo ocultá-lo numa cela do +dormitorio, a última do lado esquerdo, onde dois pedreiros de absoluta +confiança o entaiparam sob um arco que engenhosamente foi disfarçado +com uma cortina de alvenaria. + +Aí se conservou o tumulo da Rainha Santa até ao ano de 1814, data em que +se estabeleceu a paz geral, sendo então novamente mudado para o seu +lugar com grande regosijo das freiras claristas e ainda mais do povo de +Coimbra que anciosamente desejava acercar-se do tumulo da sua desvelada +Protectora, da sua excelsa Padroeira. + + * * * * * + +Infelizmente não pararam aqui as mudanças a que esteve sujeito o túmulo +da Rainha Santa. + +Quando em 1852 D. Miguel visitou esta cidade, resolveram as freiras, +certamente no proposito de ver tambem a Rainha Santa, mudar o seu tumulo +para o côro superior da Igreja. Com efeito, no dia 21 de Outubro daquele +ano, foi D. Miguel a Santa Clara e aí, na presença das pessoas do seu +séquito, foi aberto o caixão onde está o corpo da excelsa Rainha, esposa +de D. Dinís. + +Para o mesmo efeito foi ainda o tumulo da Rainha Santa mudado no ano de +1852, por ocasião da visita de D. Maria II a Coimbra, e em 1860 quando +aqui esteve El-rei D. Pedro V. De então até 1912 conservou-se sempre o +tumulo da Rainha Santa no referido côro. + +Como a esta data o convento de Santa Clara não tivesse já quem +zelosamente pudesse cuidar do tumulo da Rainha Santa, e porque o local +onde êle estava não oferecia as necessarias condições de segurança, +podendo facilmente ser violado por aqueles que vieram estabelecer +residencia neste convento, praticando talvez um desacato que ferisse +profundamente as crenças dos devotos da Rainha Santa, conseguiu a Mesa +desta Confraria que o tumulo fôsse mudado para o lugar que lhe era +mais proprio, a tribuna da Capela-mór da Igreja, lugar onde agora se +conserva e, segundo cremos, se conservará definitivamente. Porque esta +mudança se deu em nossos dias, podemos aqui reproduzir com toda a +fidelidade a forma como ela decorreu, louvando nós o Senhor por nos dar +ocasião de presenciar tão emocionante como piedoso acto, cuja descrição +respigamos dum jornal desta terra[2]. + +«Do côro superior da Igreja de Santa Clara, foi no domingo trasladado +para a tribuna da Capela-mor da mesma Igreja, o riquíssimo túmulo de +prata e a respectiva urna que encerram o venerando corpo da Rainha Santa. + +«Esta trasladação, sem dúvida motivada pelos rumores que corriam nesta +cidade, rumores estes em que se salientavam até actos menos respeitosos, +fez-se com a possível reserva afim de evitar aglomerações nada +convenientes ao bom êxito da trasladação. + +«Ainda assim, o número de pessoas que se reuniu no templo de Santa +Clara, na ância de assistir a tão piedoso acto, foi elevado, vendo-se +ali representadas muitas das principais famílias de Coimbra. + +«Perto das 5 horas da tarde, quando estavam concluídos os preparativos +para a deslocação do túmulo, a entrada no côro foi rigorosamente +interceptada, ficando ali apenas, além do pessoal necessário para a +trasladação, os srs. Francisco José da Costa e Antonio Augusto Lourenço, +da Mesa da Rainha Santa; Francisco Nazaré, Joaquim Rasteiro Fontes, +Custódio José da Costa, Adriano Ferreira Rocha e João Ribeiro Arrobas, +os quais foram convidados a examinar as fitas lacradas que ligavam a +tampa do túmulo. + +«Verificada a sua inviolabilidade, foram quebradas as fitas e retirada +de dentro do túmulo a urna em que repousa Santa Isabel. Esta operação, é +bom frisá-la, foi feita com o maior respeito e o seu bom exito, deve-se, +sem duvida, aos srs. Antonio Augusto Gonçalves e Antonio Viana que, mui +sensatamente, dirigiram os trabalhos da trasladação. + +«No momento em que ia conduzir-se para a tribuna da Igreja o caixão em +que se encerra o corpo da Rainha Santa, uma comissão de senhoras obteve +do sr. Antonio Augusto Gonçalves permissão para conduzir a urna, sendo +pois esta transportada pelas seguintes: D. Maria do Carmo Joice Dinís, +D. Maria de Gusmão Galvão, D. Elvira Refoios de Matos, D. Maria José +Joice Dinís, D. Maria Amelia Carneiro de Sousa Pires, D. Isabel de Sousa +Coutinho (Linhares), D. Tafones Roxanes de Carvalho, D. Maria do Carmo +Forjaz, D. Maria do Ceu Pinto e D. Matilde de Matos Mancelos Aragão. + +«Logo que a urna deu entrada na Capela-mór, as inúmeras pessoas que ali +a aguardavam prostraram-se respeitosamente na mais viva e sincera +contemplação, vendo-se em muitos olhos o deslisar de lagrimas +constantes. É que dentro daquele ataúde está em repouso não só o corpo +duma Mulher nobre por excelência e virtuosa e santa pelos rasgos +generosos da sua candida alma, mas, o que é mais, por estar ali +concentrada a fé ardente e sincera de milhares de crentes que nos +transes dolorosos da sua atribulada existencia envolvem nas suas +fervorosas preces o nome da Rainha Santa como um balsamo consolador +para as suas misérias e para as suas desditas. + +«Por isso as pessoas que ali se reuniram para assistir à passagem da +Rainha Santa, viveram bem felizes aquele rapido momento da existencia. A +noite, porém, ia avançando e era forçoso pôr termo aos trabalhos da +trasladação, colocando-se no local designado o ataúde da Rainha Santa. + +«Feito este serviço o povo começou a retirar-se, louvando a nobre ideia +de trasladar para a Igreja a santa querida que passou a vida na senda do +bem, espalhando por toda a parte o perfume das suas rosas, que são +aquelas que lhe engrinaldam o nome querido e ainda hoje digno de todo o +respeito.» + + + + +CAPITULO V + +Aberturas do túmulo e caixão da Rainha Santa + + +Por ser muito curiosa, damos neste lugar a noticia das vezes que tem +sido aberto o túmulo e caixão da Rainha Santa. + +A notícia descritiva dêsses actos tão solenes, extraímo-la da notável +obra do Exmo. Sr. Dr. Antonio Ribeiro de Vasconcelos--_D. Isabel de +Aragão_--, primoroso trabalho que S. Ex.ª publicou em 1894, e que é bem +um autentico testemunho das suas altas qualidades de escritor erudito e +consciencioso. + +I.--Segunda feira, 26 de março de 1612. + +II.--Quarta feira, 27 de outubro de 1677. + +III.--Domingo, 11 de janeiro de 1695, na capela que provisoriamente +serviu de Igreja em o novo Mosteiro. + +IV.--Segunda-feira, 2 de julho de 1696, ás 8 horas-da manhã. + +V.--No mesmo dia, horas depois, nova abertura pelas freiras do convento, +por estas não terem assistido como desejavam à primeira cerimónia. + +VI.--No dia 4 do mesmo mês e ano foi novamente aberto o tumulo por se +desconfiar que as freiras, num excesso do seu amor para com a Rainha +Santa, se tivessem apropriado de algumas reliquias ou mesmo furtado o +seu corpo ocultando-o em sítio só por elas conhecido. + +VII.--Segunda feira, 9 de agosto, foi o tumulo aberto na presença de D. +Pedro II. + +VIII.--Domingo, 29 do mesmo mês e ano, na presença de D. Carlos, +Arquiduque da Austria. + +IX.--Domingo, 21 de outubro de 1832, na presença de D. Miguel e das +Infantas D. Isabel Maria e D. Maria de Assunção. + +X.--Domingo, 25 de abril de 1852, na presença de D. Maria II, de El-rei +D. Fernando seu esposo, do Principe real D. Pedro e do Infante D. Luís. + +XI.--Quinta feira, 17 de junho de 1852, para serem substituidas as +vestes que amortalhavam a Rainha Santa por outras oferecidas por D. +Maria II. + +XII.--Quinta feira, 29 de novembro de 1860, na presença de D. Pedro V e +de seus irmãos D. Luís e D. João. + +XIII.--Quarta feira, 22 de outubro de 1862, na presença do Principe +Humberto, depois Rei de Italia, que foi hospede da nossa Universidade. + +XIV.--Quarta feira, 9 de dezembro de 1863, na presença de El-rei D. Luís +e de sua esposa D. Maria Pia. + +XV.--Quarta feira, 21 de junho de 1865, na presença de D. Isabel +Cristina, Princesa Imperial do Brasil e de seu esposo o Conde de Eu. + +XVI.--Sabado, 4 de julho de 1868, na presença do Infante D. Augusto. + +XVII.--Segunda feira, 4 de março de 1872, na presença de D. Pedro II, +Imperador do Brasil. + +XVIII.--Quarta feira, 14 de maio de 1875, na presença de El-rei D. +Fernando, do Infante D. Augusto e da Condessa de Edla. + +XIX.--Terça feira, 24 de dezembro de 1889, na presença dos Imperadores +do Brasil. + +XX.--Sabado, 25 de julho de 1892, na presença de El-rei D. Carlos, D. +Amelia e do Principe D. Luís Filipe. + + * * * * * + +Finalmente, no dia 28 de março de 1912 procedeu-se a nova e ultima +abertura do ataude da Rainha Santa. + +Como decorreu este acto di-lo uma das testemunhas que a ele assistiram e +que fielmente fez reproduzir na _Gazeta de Coimbra_ de 30 de março de 1912. + +Como o número do jornal que publicou esta notícia foi rapidamente +esgotado, embora a tiragem fosse muito aumentada, entendemos por bem +reproduzir aqui o texto desse artigo: + +«Noticiámos ha dias a trasladação do túmulo com o corpo da Rainha Santa +Isabel, do côro de cima do extinto convento de Santa Clara, onde estava +indevidamente desde Novembro de 1860. Foi na quarta feira, 28 deste mês +e ano, que as freiras claristas, a pretexto de irem no dia seguinte o +rei D. Pedro V com seus irmãos D. Luís e D. João àquele mosteiro beijar +a mão da Santa Rainha, e mais comodamente o poderem fazer no côro do +convento de que na tribuna do altar-mór, trasladaram o caixão com o +corpo, e não mais o deixaram voltar para o seu sítio. + +«Entretanto é indiscutível que muito melhor se acha na bela tribuna, +revestida de talha dourada, prepositadameníe feita para êle sobre o +altar-mór, onde esteve exposto à veneração dos fieis durante 146 anos, +desde a tarde de 5 de Julho de 1696, em que foi para ali transportado em +soleníssima procissão pelos Bispos da Guarda, Lamego, Portalegre, Vizeu, +Leiria e Miranda, sob a presidencia do Bispo-conde D. Fr. Alvaro de S. +Boaventura, que oito dias antes, a 26 de Junho, havia sagrado a nova +Igreja de Santa Clara. + +«Hoje damos aos nossos prezados leitores uma outra noticia, ainda +respeitante ao mesmo assunto. + +«Espalhou-se, ha tempos em Coimbra, com bastante insistencia, o boato de +que o túmulo da Rainha Santa havia sido violado; e embora se +verificasse, quando ha dias se fez a trasladação, que os selos que o +fechavam permaneciam intactos, é certo que recrudesceu depois disto o +rumor de que o caixão transportado do côro para a Capela-mór se +encontrava vazio. Em face de tal boato, tornava-se necessária a +verificação, abrindo-se o túmulo com devidas formalidades, antes da +aposição de novos selos. + +«Foi êste acto que se realizou anteontem, quinta-feira, 28 do corrente, +pelas 9 horas da manhã. + +«Achavam-se presentes apenas os srs.: conego José Dias d'Andrade, +representando o sr. Bispo Conde; Antonio Augusto Gonçalves, presidente +da Camara Municipal e director do museu Machado de Castro; dr. Joaquim +Mendes dos Remedios, reitor da Universidade; dr. Antonio José Gonçalves +Guimarães, professor da faculdade de sciencias: dr. Antonio Garcia +Ribeiro de Vasconcelos, presidente da Confraria da Rainha Santa +Isabel; Francisco José da Costa, tesoureiro da mesma; Antonio Viana, +fiel do museu Machado de Castro. + +«Principiou por ser presente um envólucro, devidamente lacrado e selado, +no qual externamente se lia a declaração de que continha as chaves do +caixão da Rainha Santa, que ali foram encerradas e seladas a 23 de julho +de 1892, em seguida ao acto de ser fechado o tumulo, depois da visita +que a ele fizeram naquele dia o rei, rainha e principe. Verificado que +os sêlos estavam intactos, foi aberto o invólucro, e apareceram duas +chaves, uma de prata e outra de ferro, ligadas por uma cadeia de prata. + +«Depois abriu-se o túmulo de prata, e tirou-se dele o caixão de madeira, +forrado de rico brocado de seda e ouro, e com quatro belas fechaduras. +Todos verificaram cuidadosamente que não acusava sinal algum de +arrombamento; e em seguida, abertas as fechaduras e retirada a tampa, +apareceu uma ostentosa colcha de brocado, igual ao que veste por dentro +e por fora o caixão, sendo guarnecida de galão de ouro, e forrada de +seda carmezim. Levantada esta cobertura, apareceu outra perfeitamente +igual à primeira, e por baixo dela um veu transparente, através do qual +se via nitidamente a mão da Santa Padroeira, e o habito de seda cinzenta +que vestia o corpo. Cobrindo-lhe a cabeça havia um veu espesso de seda +branca, sobre outro de fino linho, que lhe desciam até ao peito. + +«Levantaram-se sucessivamente todos estes véus, e observou-se +minuciosamente a mão direita, o rosto e os dois pés, que estão descalsos +e em perfeito estado de conservação. Não se levou mais longe o exame, +por ser desnecessario. + +«A mão da santa e virtuosíssima Esposa de D. Dinís foi beijada com +piedoso fervor por aqueles dos presentes que tiveram essa devoção. + +«Terminado o acto de verificação foi fechado o caixão e encerrado no +tumulo de prata, com aposição de seis sêlos. Depois selaram-se novamente +as chaves, e lavrou-se o respectivo auto. + +«E assim ficou perfeitamente demonstrada a absoluta falsidade dos boatos +que correram, e a que muita gente parecia dar crédito.» + + + + +CAPITULO VI + +A Igreja de Santa Clara + + +Esta Igreja fica situada numa vistosa colina fronteira á cidade, estando +precedida dum espaçoso pátio quadrilongo, do qual se disfruta um dos +mais belos e ricos panoramas de Coimbra. Á entrada deste pátio +encontra-se ainda hoje uma forte corrente de ferro que servia para dar o +direito de defesa aos criminosos perseguidos. + +O templo, que é de magnifica construção e de uma só nave, é fabricado no +estilo romano; os retábulos dos seus altares são dignos de ser +admirados, revelando-se neles a perfeição e gosto artistico que presidiu +á sua execução. + +Ao fundo da Igreja, e aos lados da grade do côro, estão dois túmulos de +pedra artisticamente ornados, tendo nos tampos figuras de mulheres +jacentes. O do lado do Evangelho encerra os ossos da Infanta D. Isabel, +filha de D. Afonso IV, falecida com pouco mais de 2 anos e o do lado +da Epistola supõe-se conter os restos de D. Maria, filha de D. Pedro I e +de D. Constança. + +Estes dois túmulos vieram tambem do velho convento de Santa Clara logo +após a mudança da comunidade. + +Dentro do côro da Igreja, em lugar menos proprio por falta de luz, +conserva-se ainda hoje o tumulo de pedra onde primitivamente esteve +depositado o corpa da Rainha Santa, túmulo este que, segundo as melhores +opiniões, ela mandara fabricar em vida. As suas faces laterais são +guarnecidas de várias imagens e de onze estatuetas de freiras metidas em +nichos de gracioso desenho. + +Sobre este túmulo vê-se estendida a figura da Rainha Santa envolta no +hábito de freira clarista, sobraçando o bordão de peregrina, uma bolsa e +um livro de orações. + +A cabeça da imagem, primorosamente esculturada, repousa num largo +almofadão a coberto dum elegante baldaquino, sendo este ladeado por dois +anjos em atitude de turificarem a Rainha Santa. + +Tanto este côro como o que lhe fica superior, eram adornados com +riquíssimos altares de boa talha, muitos quadros de subido valor e +bastantes imagens por quem as religiosas nutriam a mais piedosa devoção. + +Muitos destes preciosos objectos estão depositados no Museu Machado +Castro, de Coimbra. + +Voltando á Igreja, onde se admira a preciosa estatua da Rainha Santa, +essa delicada jóia que Teixeira Lopes delineou em momentos de feliz +inspiração e perante a qual instintivamente se teem curvado tantos +milhares de pessoas de todas as classes sociais, chamamos a atenção do +leitor para os quadros que adornam a Capela-mór da Igreja, quasi todos +referentes à vida da Rainha Santa, e recomendamos-lhe especialmente a +sua visita ao Museu de alfaias religiosas que a Confraria instituiu +junto da Igreja e aonde se encontram algumas preciosidades de raro valor +artístico. Êsse museu, que fica situado ao lado direito da Capela-mór, é +precedido dum espaçoso corredor que serve de _Galeria_ dos Irmãos +Benemeritos. Ao fundo, noutra sala mais espaçosa, estão guardados os +objectos de maior valor pertencentes á Confraria, figurando entre êles +alguns que eram do uso da Rainha Santa. Neste precioso museu está +exposto um colar de pedras preciosas com que a Rainha Santa costumava +adornar as donzelas pobres no dia do seu casamento, guardando-se tambem +ali algumas peças do seu vestuario e a roupa com que foi amortalhada. +Todos estes objectos devem merecer uma particular atenção ao visitante +de Santa Clara. + +A respectiva Confraria é digna dos maiores louvores pela dedicação e +zelo que tem mostrado na conservação deste Museu, procurando +enriquecê-lo cada vez mais com a adquisição dos objectos que digam +respeito á Rainha Santa. Ultimamente foi ali exposto o _Breve Original_, +obtido por El-rei D. João III da Curia romana, e pelo qual é extensivo a +toda a nação o culto de Santa Isabel. Este documento, muito bem +conservado ainda, é digno de particular atenção pelo fino desenho dos +seus ornatos e caracteres. + +O claustro de Santa Clara, situado ao lado esquerdo da Igreja, é tambem +digno de ser visitado. As suas magestosas proporções, as arcadas, e as +graciosas varandas que o circundam, formam um conjunto agradavel ao +nosso sentimento, transportando-nos á vida dum mundo superior, em tudo +mais perfeito e harmonioso. + +O nosso espirito banha-se duma clarividente realidade que nos enebria, +que nos consola e seduz. Na paz daquelas arcadas contemplamos o +mundo despido de lutas inglorias, de ódios e malquerenças, e a nossa +imaginação, livre das contrariedades e dos sobresaltos fomentados pela +vida presente, embala-se no doce arroio das avesinhas que saltitam pelas +arvores floridas quasi obrigando os nossos labios a murmurar com elas: + + Bemdito seja o Senhor! + + * * * * * + +O vasto e grandioso edificio de Santa Clara, onde durante alguns séculos +se abrigaram muitas senhoras da mais pura linhagem e onde se praticaram +tantos actos de piedosa devoção, serve hoje de quartel ao regimento de +Infantaria 35. + +A parte que serviu para hospedaria do Mosteiro e que está situada do +lado Sul, é hoje ocupada por um grupo do regimento de Artilharia. + + * * * * * + +As festas com que Coimbra rende o seu culto á Rainha Santa são das mais +importantes e fervorosas que se realizam em Portugal. Nos anos em que +são levadas a efeito, a cidade veste-se das melhores galas para receber +a sua excelsa Padroeira e todos os conimbricenses, num amplexo de +verdadeiro regosijo e satisfação, cooperam no brilhantismo desses +festejos esforçando-se para lhe dar o maior luzimento possível. + +A grandiosa procissão em que é conduzida a Imagem da Rainha Santa, +compõe-se de inumeras confrarias e centenas de crianças vestidas de +anjo, fazendo o trajecto de Santa Clara para Santa Cruz por entre +milhares e milhares de pessoas que de todos os pontos do país vêem para +assistir a tão emocionante como grandioso espectaculo. As festas da +Rainha Santa, que se prolongam durante 5 dias, costumam atrair a Coimbra +perto de 60:000 pessoas, não se registando nunca qualquer desacato que +possa ofuscar o brilho e a imponencia dessas tão piedosas como +emocionantes manifestações. + +Com a procissão da Rainha Santa dá-se até um facto que nos apraz +registar: quando a preciosa Imagem de Santa Isabel dá entrada na cidade, +e ao ter de atravessar por entre a multidão que a aguarda desde a Ponte +até Santa Cruz, não ha joelho que deixe de se dobrar ante a magestade da +sua figura! Todo aquele mar humano, que se apinha em tão longo trajecto, +se curva respeitosamente perante a doce Imagem da Rainha Santa, vendo-se +muitos olhos marejados de lágrimas devido á comoção que todos experimentam. + +É que aquela Imagem é o refúgio de todos os crentes. Nela estão +concentradas as preces dos que sofrem, os rogos dos infelizes. E se o +povo português nutre por Ela a mais terna devoção, o povo de Coimbra, +que a elegeu sua medianeira junto de Deus, não esquece nunca a sua +benéfica acção em prol dos desprotegidos, tributando-lhe um amor +puríssimo e uma veneração a mais sublimada! Continue Ela a amercear-se +do seu povo junto de Deus e oxalá a sua poderosa influencia consiga +tornar felizes na terra aqueles que lhe solicitam a sua protecção no Ceu. + +FIM. + + + +Notas + + [1] _D. Isabel de Aragão_, Coimbra, 1894. + + [2] _Gazeta de Coimbra_, de 20 de março de 1912. + + + + + +End of Project Gutenberg's Isabel d'Aragão a Rainha Santa, by Anonymous + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ISABEL D'ARAGÃO A RAINHA SANTA *** + +***** This file should be named 35324-8.txt or 35324-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/5/3/2/35324/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Isabel d'Aragão a Rainha Santa + Historia sucinta da sua vida, morte e excelsas virtudes + +Author: Anonymous + +Release Date: February 19, 2011 [EBook #35324] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ISABEL D'ARAGÃO A RAINHA SANTA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;padding: 1em;border: solid 2px #000;"> +<p style="font-size: 1.8em;">ISABEL D'ARAGÃO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">A</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">RAINHA SANTA</p> + +<p>———</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES</p> + +<p>———</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">DEDICADA AOS FIEIS</p> + +<p> </p> + +<p><img src="images/logo.png" border="0" width="200" alt="Logotipo"></p> + +<p> </p> + +<p>COIMBRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA</p> + +<p>—</p> + +<p>1921</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.8em;">ISABEL D'ARAGÃO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">A</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">RAINHA SANTA</p> + +<p>———</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">HISTORIA SUCINTA DA SUA VIDA, MORTE E EXCELSAS VIRTUDES</p> + +<p>———</p> + +<p style="font-size: 1.3em;">DEDICADA AOS FIEIS</p> + +<p> </p> + +<p><img src="images/logo.png" border="0" width="200" alt="Logotipo"></p> + +<p> </p> + +<p>COIMBRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">GRAFICA CONIMBRICENSE, LIMITADA</p> + +<p>—</p> + +<p>1921</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> <span class="pn">{3}</span></p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>PRÓLOGO</h1> + +<p>Muito se tem escrito ácerca da vida da excelsa e virtuosissima D. Isabel +d'Aragão, Esposa d'el-rei D. Dinís; mas impunha-se ha muito a publicação dum +folheto, como este, que sendo conciso na sua descrição não deixasse de relatar +os factos que mais distinguiram Aquela que a cidade de Coimbra escolheu para +sua Augusta Padroeira e Protectora.</p> + +<p>O que o autor deste folheto teve em vista foi facultar aos fieis, com grande +economia de preço, um livrinho de leitura facil e corrente, ao alcance de +todos, onde a historia sagrada da Rainha Santa possa deixar bem arreigada no +espirito dos crentes a obra sublime, verdadeiramente maravilhosa, que lhe +concedeu logar na côrte celestial.</p> + +<p>As notas que colhemos foram, principalmente, extraídas do monumental +trabalho de investigação historica do Ex.<sup>o</sup> Sr. Dr. Antonio Garcia +Ribeiro de Vasconcelos, na sua tão apreciada obra <em>D. Isabel d' +Aragão</em>.<span class="pn">{4}</span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>A fama de santidade da Rainha Santa Isabel estende-se por todo Portugal e +por muitas terras de Hespanha. Em Coimbra, porém, é tão grande que em parte +alguma do nosso país se realizam festas tão pomposas em honra dum santo, como +nesta cidade, onde concorrem para mais de 50:000 pessoas por essa ocasião.</p> + +<p>É nos momentos de luta pela adversidade da vida que os conimbricenses, +principalmente, recorrem á protecção da Rainha Santa na sua fervorosa suplica, +e se nem sempre logram alcançar a satisfação das suas preces, é já poderoso +linitivo para a sua dôr a lembrança de que Ela nunca desamparou os infelizes +com a sua divina graça.</p> + +<p>Isabel d'Aragão tendo sido um grande exemplo de virtudes, deu tambem uma +prova bem frisante do seu amor a Coimbra, determinando em seu testamento que o +seu corpo sagrado repousasse no mosteiro de Santa Clara desta cidade, onde Ela +esteve clausurada e donde foi trasladado o seu corpo para o novo mosteiro do +mesmo nome.</p> + +<p>É, pois, pouco quanto façam os conimbricenses em honra da memoria sagrada da +Sua excelsa Padroeira.<span class="pn">{5}</span></p> + + + +<h1>CAPITULO I</h1> + + + +<h2>Nascimento da Rainha Santa</h2> + + + +<h3>Da côrte de Aragão ao Trono de Portugal</h3> + +<p>A Rainha Santa Isabel, que Coimbra se ufana de ter como desvelada Protectora +e valiosa Padroeira, nasceu na cidade de Saragoça (Espanha), no ano de 1271.</p> + +<p>Filha do Principe real D. Pedro de Aragão e de sua esposa D. Constança, o +seu nascimento foi desde logo iluminado pela graça divina, pois que seu avô, +El-rei D. Jaime, que até aí vivia em grande discordia com D. Pedro de Aragão, +imediatamente se congraçou com este, passando ambos a viver na mais doce +harmonia.</p> + +<p>Assim demonstrou Deus aos homens que esta menina estava reservada a ser na +terra a medianeira da paz, o Anjo predestinado a estabelecer a harmonia e a +concordia entre os desavindos, facto que mais tarde, quando Rainha de Portugal, +se verificou nas diversas desavenças entre seu esposo El-rei D. Dinís e seu +filho D. Afonso IV.</p> + +<p>A Rainha Santa Isabel foi, como já dissemos, aureolada desde o seu +nascimento pela graça do Senhor. As suas preciosas virtudes bem cedo se +revelaram, crescendo nela com a idade a fama que tanto a impôs á consideração +de todas as côrtes da Europa, facto que despertou em bastantes principes o +desejo de possuirem como esposa tão excelsa senhora.<span class="pn">{6}</span></p> + +<p>Foi á côrte de Portugal, felizmente, que coube a suprema ventura de ser a +preferida entre todas as outras, merecendo El-rei D. Dinís a gloria de ter como +consorte um tesouro de tantas virtudes e de tão preciosos encantos.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>O casamento de D. Dinís com D. Isabel celebrou-se por procuração na antiga +cidade de Barcelona, tendo lugar este acto no dia 11 de Fevereiro de 1282 e +contando a futura Rainha de Portugal apenas 11 anos de idade. Êste auspicioso +enlace constituiu um motivo de grande regosijo para todos os portugueses, +antevendo estes os enormes beneficios deste casamento, o qual foi muito +festejado e aclamado em todo o país com demonstrações de grande alegria e +verdadeira satisfação.</p> + +<p>A saída de D. Isabel para Portugal causou a seus pais grandes tristesas, +custando-lhes imenso essa separação pelas profundas saudades que D. Isabel +deixava em todos os corações que muito a estremeciam.</p> + +<p>De Espanha até Coimbra foi a excelsa Rainha delirantemente aclamada por todo +o povo que acorria á sua passagem, salientando-se mais essas carinhosas +manifestações na antiga vila de Trancoso, onde, no dia 24 de Junho de 1282, no +templo de S. Bartolomeu, se celebraram com toda a pompa as bençãos nupciais.</p> + +<p>Em Coimbra, onde a esse tempo residia a côrte juntamente com a principal +nobresa do reino, as manifestações de contentamento e alegria pela chegada dos +régios nubentes, atingiram o mais delirante entusiasmo, conquistando logo a +Rainha D. Isabel a simpatia e o amor dum povo que, mais tarde, havia de herdar +o seu mais precioso tesouro—o sagrado corpo que todos<span class="pn">{7}</span> hoje veneramos—e +que esta cidade conserva com a mais desvelada e respeitosa devoção.</p> + +<p>As manifestações de regosijo com que a cidade recebeu os régios consortes +foram, pois, verdadeiramente grandiosas, vestindo a cidade as suas melhores +galas para bem lhes significar o contentamento de que se achava possuida por +motivo daquele enlace, cujos efeitos tanto se evidenciaram na vida da nação +portuguesa, e de que Coimbra comparticipou em larga escala pelos benéficos +actos de caridade que a Santa Rainha espalhou por toda a parte.</p> + +<p>Foi nesta cidade, principalmente, que D. Isabel de Aragão manifestou mais +claramente a pureza da sua alma. Os actos de caridade que praticou, os socorros +por ela prestados á indigencia, aos órfãos, ás viúvas e ás donzelas +abandonadas, foram os primeiros lavores que lhe teceram a sua coroa de gloria; +a fundação de asilos, de albergues e de hospitais, que a sua magnificencia +sustentou e onde se recolhia uma legião de infelizes, originou, sem duvida, a +fama de santidade que bem cedo a distinguiu e que, mais tarde, a 25 de Maio de +1625, dia da Santíssima Trindade, a Igreja confirmou, englobando-a no numero +dos eleitos do Senhor.</p> + + + +<h1>CAPITULO II</h1> + + + +<h2>Actos de Caridade</h2> + +<p>Se durante a vida de El-rei D. Dinís a acção da Rainha Santa foi um +constante manancial de actos virtuosos, a partir do momento da sua viuvês, a +sua acção tornou-se verdadeiramente exemplar.<span class="pn">{8}</span></p> + +<p>O numero de factos que desde então assinalam tão gloriosa existencia na +terra, mais e mais fazem arreigar na alma do povo a convicção dos designios de +Deus por Ela tão santamente interpretados.</p> + +<p>Sem todavia esquecer os deveres de Rainha, que lhe absorviam uma grande +parte dos seus cuidados, e não poucas vezes foram motivo de profundos +desgostos, D. Isabel de Aragão cinge livremente o hábito de freira Clarista e +volvendo os olhos piedosos para um mais largo horisonte, consagra-se +completamente a obras de caridade, fundando e auxiliando hospicios e asilos, +nos quais se albergam, sob a sua protecção, muitas infelizes que se regeneraram +pelos seus conselhos e alcançaram na terra a felicidade que só sabem gosar as +almas puras e simples.</p> + +<p>Querendo encaminhar-se pela estrada luminosa que da terra se eleva até Deus, +um dos seus primeiros cuidados, ao ver-se cingida pela roupagem da viuvês, foi +trocar os faustos das glorias terrenas pela humildade da clausura a que, como +já dissemos, livremente se sujeitou.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Junto dos seus Paços riais corriam vagarosamente as obras para a fundação do +Convento de Santa Clara, obras que prometiam eternizar-se por demandas entre os +frades Cruzios e D. Maior Dias, fundadora daquele convento, e que certamente +ficariam incompletas se não fosse o auxilio e protecção que a Rainha Santa +dispensou para a sua rapida conclusão.</p> + +<p>Uma vez concluido, cuidou logo a Rainha Santa em fundar junto deste convento +um asilo para órfãos e para a pobresa envergonhada, chamando para junto de<span class="pn">{9}</span> +si algumas amas de leite com o encargo de alimentarem as crianças +desvalidas!</p> + +<p>A maior parte do seu tempo tinha-o a Rainha Santa distribuido por forma a +satisfazer os seus deveres de Rainha e cristã; o restante empregava-o no +ministerio da caridade visitando os asilados, a quem não só consolava com a sua +palavra, mas muitas vezes servia de carinhosa enfermeira curando as chagas que +lhes corroiam o corpo.</p> + +<p>Nesta e em muitas outras obras de verdadeira abnegação dispendia a Rainha +Santa quasi toda a sua fortuna. Com o auxilio de Deus, a quem firmemente +procurava engrandecer com os merecimentos das suas preciosas virtudes, nunca a +Rainha Santa lutou com dificuldades para se desempenhar da sua nobre missão. Os +proventos de que dispunha parece que tinham o condão de se multiplicar e, se +algumas vezes houve em que o seu socorro tinha de fazer face a maiores +calamidades, então eram as Rosas que, adquirindo a forma de oiro reluzente, +premiavam os seus actos de caridade e satisfaziam os encargos adquiridos para +garantir o pão aos famintos!</p> + +<p>Da sua vida, tão brilhantemente documentada na preciosa obra de S. Ex.ª o +sr. Dr. Antonio Garcia Ribeiro de Vasconcelos, erudito professor da +Universidade de Coimbra<a name="tex2html1" href="#foot143"><sup>[1]</sup></a>, +constam muitos e importantes factos da vida gloriosa da Rainha Santa, +traduzidos todos eles nos mais altos beneficios em favor dos +desprotegidos.<span class="pn">{10}</span></p> + + + +<h1>CAPITULO III</h1> + + + +<h2>Morte da Rainha Santa</h2> + +<p>Em Junho de 1336 teve a Rainha Santa conhecimento de que seu filho D. Afonso +IV e seu neto D. Afonso XI, rei de Castela, se haviam indisposto por motivo de +graves acontecimentos, tendo-se declarado a guerra entre aqueles dois poderosos +monarcas.</p> + +<p>Quando a Rainha Santa soube de tal resolução imediatamente se resolveu a +partir para Estremoz, lugar onde a esse tempo estava seu filho acompanhado de +toda a Côrte.</p> + +<p>Êste propósito foi prudentemente combatido pelos medicos da Rainha Santa, os +quais, temendo mais o excesso do calor e a fadiga dessa longa viagem do que a +idade da virtuosa Senhora, se apressaram a demovê-la dessa resolução. Inuteis +rogos e infrutiferas tentativas! A Rainha Santa, despresando esses bons +conselhos e animada sómente em restabelecer a paz entre os reis +desavindos—filho e neto—, parte apressadamente de Coimbra, caminhando sob um +sol abrasador, e chega finalmente junto das fortalezas de Estremoz, abatida e +fatigada, mas cheia de animo para cumprir a sua carinhosa missão.</p> + +<p>Logo que a sua chegada é conhecida no acampamento de D. Afonso IV, +imediatamente se suspendem as hostilidades e todos se abeiram do leito da +Rainha Santa para lhe prodigalizarem os cuidados que a sua melindrosa saude +exigia.</p> + +<p>Baldados esforços porque o mal agravava-se de momento para momento. Uma +pústula que rapidamente<span class="pn">{11}</span> lhe apareceu num braço tornou mais melindroso o +seu estado e, no dia 4 de Julho, manhã cedo, a Rainha Santa declarou que queria +receber os ultimos Sacramentos. Na tarde desse mesmo dia as forças principiaram +a faltar-lhe, a Rainha Santa vê que é chegada a sua ultima hora, e erguendo o +pensamento até ao Ceu, encarrega a Mãe de Deus de lhe receber a alma, +pronunciando com toda a suavidade estes versos do hino eclesiastico:</p> + +<blockquote> + Mãe de graças e Misericordia <br> + Maria piedosa e forte: <br> + Livra a minha alma, recebe-a <br> + Na hora da minha morte. </blockquote> + +<p>A seguir recita com visivel comoção algumas orações; os olhos fecham-se +lentamente, o peito deixa de arfar, e todos os presentes, estupefactos ante +aquele quadro tão emocionante, compreendem que a alma pura da Rainha Santa, +solta do seu veneravel corpo, subia aos céus a receber o premio das suas +virtudes, descançando para sempre na paz do Senhor, onde eternamente gosará a +bemaventurança com que Deus premeia os seus eleitos.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>É, pois, no reino celestial que a nossa Santa Protectora está recebendo o +premio das suas boas acções e dos seus constantes trabalhos. Ali, no seio de +Deus, junto da Virgem Santissima, intercede pelo seu povo, por aqueles que a +ela recorrem com a alma angustiada pelas dôres humanas, e que jamais esquecem o +seu nome para lhe tributar as homenagens do seu reconhecimento. Essas +homenagens concretizam-se no culto<span class="pn">{12}</span> fervoroso de todos os portugueses pela +Santa Rainha e, mui especialmente, do povo de Coimbra que por Ela nutre o maior +respeito e a mais significativa devoção.</p> + + + +<h1>CAPITULO IV</h1> + + + +<h2>Trasladações</h2> + + + +<h3>I</h3> + +<p>Logo que a Rainha Santa entregou a sua alma a Deus, o primeiro cuidado da +côrte foi escolher local para depositar o corpo de tão excelsa Senhora, +opinando uns para que fôsse sepultado no Convento dos Franciscanos, em +Estremoz, e outros para que fôsse trasladado para a Sé de Evora, a cidade mais +proxima daquela terra. Por conselho de El-rei procurou-se o testamento de D. +Isabel e vendo-se por ele que a Rainha Santa queria ser sepultada em Coimbra, +na Igreja de Santa Clara, foi respeitada esta vontade, dando-se logo ordens +para se pôr em pratica o desejo ali expresso.</p> + +<p>Apezar das opiniões em contrario, prevaleceram as determinações de +El-rei.</p> + +<p>O prestito funebre saiu de Estremoz na tarde do dia 5 de julho e, em marchas +apressadas, chegou a Coimbra no dia 11 do mesmo mês, tendo atravessado tão +longo percurso debaixo dum sol abrazador.</p> + +<p>As inumeras pessoas que constituiam o prestito funebre foram tomadas de +verdadeiro espanto quando, ao 3.º dia de viagem, notaram que o ataúde onde +vinha o corpo de Santa Isabel principiava de abrir algumas fendas, escorrendo +por entre elas um liquido que todos supozeram ser proveniente da decomposição +do cadaver.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>Mas, feliz engano! Esse liquido, longe de exalar qualquer cheiro +desagradavel, antes era ameno e consolador, espalhando no espaço um tal aroma +que aqueles que a principio se sentiam inquietos e desconfiados, logo se +aproximaram do ataúde, louvando o Senhor por esta manifestação da sua +omnipotencia.</p> + +<p>Quando o cortejo chegou a Coimbra deram-se então scenas comovedoras e +lancinantes entre a população citadina. Todos á porfia queriam beijar o ataúde +onde vinha a sua Protectora, a sua desvelada Bemfeitora, ouvindo-se choros de +verdadeiro compungimento pela morte da virtuosa Rainha, cujo passado tinha sido +um manancial de graças e bondade!</p> + +<p>Quando o ataúde deu entrada na igreja de Santa Clara muita gente supôs que o +corpo da Rainha Santa seria exposto à veneração do publico. Tal se não deu; no +dia seguinte, 12 de Julho, é que se celebraram os oficios divinos por alma de +D. Isabel, sendo estes actos revestidos de toda a solenidade e com a +assistencia de alguns Prelados, Professores da Universidade, Rei, Cabido e +muitos religiosos das diversas ordens.</p> + +<p>Logo que eles terminaram, foi o ataúde transportado para uma capela que a +Rainha Santa havia mandado edificar ao fundo da Igreja e na qual estava o +tumulo de pedra que em sua vida também mandara construir <em>(fig. 1)</em>.</p> + +<p>Foi dentro dêste precioso moimento de pedra, ricamente cinzelado, que se +colocou o ataúde tal qual veiu de Estremoz, envolvido numa pele de boi e com um +pano de brocado repregado por cima.</p> + +<p>Sobre o ataúde colocaram o bordão de peregrina e uma bolsa que o arcebispo +de S. Tiago de Galiza ofereceu à Rainha Santa quando ela visitou esta +cidade,<span class="pn">{14}</span> sendo em seguida fechado o tumulo com a pesada pedra que ainda +hoje o cobre e na qual vemos representada a figura da Rainha Santa com habito +de freira.</p> + +<p>Assim se conservou até ao dia 26 de Março de 1612, 276 anos depois da sua +morte, dia em que foi aberto por consentimento do Sumo Pontifice.</p> + +<div class="ilustracao"> + +<p class="centrado"> +<img src="images/fig1.png" border="0" width="100%" alt="Túmulo de Pedra"> +<br> +(Fig. 1)</p> +</div> + +<p>Esta cerimonia, que se tornou necessaria para se proceder ao processo de +canonização de D. Isabel, foi presidida pelo Bispo de Coimbra D. Afonso de +Castelo Branco, e tendo como assistentes D. Martim Afonso, Bispo de Leiria, Dr. +Francisco Vaz Pinto, dois medicos, um cirurgião e algumas testemunhas a quem +foi confiado o encargo de examinarem os restos mortais da Rainha Santa.</p> + +<p>Pedimos licença para trasladar para aqui o relato que sobre esta cerimónia +encontramos no autorizado<span class="pn">{15}</span> livrinho—<em>Historia Popular da Rainha Santa +Isabel—Protectora de Coimbra</em>.........</p> + +<p>«Subindo à capela superior, onde estava o tumulo, e analisando-o com todo o +cuidado por fóra, acharam-no exactamente como havia ficado 276 anos antes, +quando sobre ele se colocara a tampa, depois de introduzido o ataúde que +encerrava o corpo. Apenas a piedade dos fieis o havia rodeado de demonstrações +da fé e amor que os prendia Áquela cujos restos ali estavam encerrados.</p> + +<p>«Ninguem sabia se o tumulo continha sómente os ossos da santa Esposa de D. +Dinís, se mais alguma cousa que ainda restasse do corpo e mortalhas; por isso +todos estavam anciosos por que o tumulo se abrisse.</p> + +<p>«Retirada a pedra, encontrou-se a bolsa e o bordão de peregrina, que foram +pelo bispo-conde entregues à guarda das religiosas.</p> + +<p>«O ataúde ainda se achava envolvido em restos da pele de boi e da tela +vermelha que havia sido repregada por cima.</p> + +<p>«Com dificuldade se despregou a taboa superior do ataúde, cortaram-se à +tesoura os numerosos envoltorios em que a santa Rainha fora amortalhada em +Extremoz, antes de ser metida no caixão, os quais, se encontraram com admiração +de todos, em perfeito estado de conservação, como se ali tivessem sido +colocados pouco antes.</p> + +<p>«Por fim descobriu-se o rosto, peito e braço direito da nossa excelsa +Protectora. Todos cairam de joelhos, estupefactos pelo grande milagre que +viam!</p> + +<p>«O corpo achava-se inteiro e incorrupto, branco como se fosse de cera, a +cabeça coberta de louros cabelos,<span class="pn">{16}</span> perfeitamente seguros na pele, a boca e +olhos fechados e bem compostos, tendo impresso na fisionomia o cunho da bondade +e majestade que haviam sido apanagio da Rainha Santa. Vestia o habito de +estamenha das freiras de santa Clara, e um pano branco de linho envolvia-lhe a +cabeça. Do ataúde saia aroma suave.</p> + +<p>«Á vista de tal milagre as religiosas cantaram o hino do velho Simeão, +dizendo: <em>Agora, Senhor, já podeis deixar-nos morrer em paz, porque os +nossos olhos viram as grandes maravilhas do vosso poder</em>.</p> + +<p>«Feito pelos medicos e cirurgião o exame minucioso que se lhes pedia, +concertaram-se de novo as mortalhas, o tumulo fechou-se, e de tudo se lavrou o +auto competente».</p> + + + +<h3>II</h3> + +<p>Com o decorrer do tempo e as sucessivas enchentes do rio Mondego muito grave +se tornou a vida monástica no convento fundado pela Rainha Santa. Como as +invernias ameaçassem sepultar nas areias daquele rio as paredes do convento, as +religiosas reciavam, e com razão, ficar sepultadas sob os seus escombros, +perdendo-se neles todas as preciosidades que enriqueciam a Igreja e entre as +quais devemos destacar o precioso corpo da Rainha Santa.</p> + +<p>Em vista, pois, dos graves e constantes perigos a que estava sujeita a +comunidade do velho mosteiro, dignou-se El-rei D. João IV ouvir os rogos das +religiosas claristas e mandou erigir no monte da Senhora da Esperança um novo +convento para sua habitação.</p> + +<p>As obras deste grandioso edificio, que se prolongaram durante muito tempo, +foram iniciadas no dia 5 de julho de 1649 e só no dia 29 de Outubro de +1677,<span class="pn">{17}</span> 28 anos depois, êle estava apto a receber as referidas +religiosas.</p> + +<p>Por ordem do Principe regente D. Pedro, 2.º filho de D. João IV, procedeu-se +no dia 27 de Outubro daquele ano á abertura do túmulo da Rainha Santa, +assistindo a este acto alguns representantes da Côrte, 8 Bispos. Professores da +Universidade e muitos religiosos das diversas ordens de Coimbra. Como se +verificasse que o caixão que guardava o corpo da Rainha Santa estava um tanto +deteriorado, logo se procedeu á construção dum outro que o substituisse e para +o qual foi mudado o corpo da veneranda Padroeira de Coimbra. Durante esta +operação quiz o acaso que se soltassem algumas pregas das roupagens que +envolviam os despojos de Santa Isabel, podendo assim todos os presentes ver a +mão direita desta virtuosa Rainha, alva como a neve, e em tão perfeito estado +de conservação que logo provocou o natural e piedoso desejo de ser osculada, +como o foi com efeito, por todos aqueles que tiveram a suprema felicidade de +ali estar reunidos.</p> + +<p>Duraram os preparativos da trasladação para o novo convento ainda 2 dias e, +em 29 de Outubro, foi a Rainha Santa para ali conduzida procissionalmente, +acompanhada de muitos milhares de pessoas, e tendo de atravessar por entre duas +alas compactas de povo que se estendiam até ao novo convento.</p> + +<p>Como a essa data não estivesse ainda concluida a Igreja que hoje admiramos, +foi o corpo da Rainha Santa conduzido para uma pequena sala existente ao fundo +do côro, colocando-se então no precioso e riquíssimo túmulo de prata <em>(fig. +2)</em> que D. Afonso de Castelo Branco, um dos mais notaveis Prelados desta +diocese, mandara fabricar, e no qual ainda hoje se guarda o<span class="pn">{18}</span> precioso +tesouro que Coimbra venera com o maior respeito e o mais devotado amor!</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Concluida que foi a Igreja de Santa Clara, procedeu-se no dia 3 de julho de +1696 a nova trasladação da Rainha Santa para a tribuna da Capela-mór, lugar em +que esteve durante muitos anos e donde teve de mudar-se por causa da invasão +dos francêses.</p> + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"> +<img src="images/fig2.png" border="0" width="100%" alt="Túmulo de Prata"> +<br>(Fig. 2)</p> +</div> + + +<p>No dia 1 de Outubro de 1810 tiveram as freiras conhecimento de que os +soldados de Massena, enfurecidos com a derrota que tiveram no Bussaco dias +antes, vinham a caminho de Coimbra. Sabedoras do pouco respeito que aos +soldados franceses mereciam as preciosidades do nosso país, apressaram-se elas +em esconder as melhores alfaias do Convento e, apressadamente, retiraram tambem +do seu lugar o tumulo da Rainha Santa, o objecto da sua mais estremecida +estima, indo ocultá-lo numa cela do dormitorio, a última do lado esquerdo, onde +dois pedreiros de absoluta confiança o<span class="pn">{19}</span> entaiparam sob um arco que +engenhosamente foi disfarçado com uma cortina de alvenaria.</p> + +<p>Aí se conservou o tumulo da Rainha Santa até ao ano de 1814, data em que se +estabeleceu a paz geral, sendo então novamente mudado para o seu lugar com +grande regosijo das freiras claristas e ainda mais do povo de Coimbra que +anciosamente desejava acercar-se do tumulo da sua desvelada Protectora, da sua +excelsa Padroeira.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Infelizmente não pararam aqui as mudanças a que esteve sujeito o túmulo da +Rainha Santa.</p> + +<p>Quando em 1852 D. Miguel visitou esta cidade, resolveram as freiras, +certamente no proposito de ver tambem a Rainha Santa, mudar o seu tumulo para o +côro superior da Igreja. Com efeito, no dia 21 de Outubro daquele ano, foi D. +Miguel a Santa Clara e aí, na presença das pessoas do seu séquito, foi aberto o +caixão onde está o corpo da excelsa Rainha, esposa de D. Dinís.</p> + +<p>Para o mesmo efeito foi ainda o tumulo da Rainha Santa mudado no ano de +1852, por ocasião da visita de D. Maria II a Coimbra, e em 1860 quando aqui +esteve El-rei D. Pedro V. De então até 1912 conservou-se sempre o tumulo da +Rainha Santa no referido côro.</p> + +<p>Como a esta data o convento de Santa Clara não tivesse já quem zelosamente +pudesse cuidar do tumulo da Rainha Santa, e porque o local onde êle estava não +oferecia as necessarias condições de segurança, podendo facilmente ser violado +por aqueles que vieram estabelecer residencia neste convento, praticando talvez +um desacato que ferisse profundamente as crenças dos devotos da Rainha Santa, +conseguiu a Mesa desta Confraria que o<span class="pn">{20}</span> tumulo fôsse mudado para o lugar +que lhe era mais proprio, a tribuna da Capela-mór da Igreja, lugar onde agora +se conserva e, segundo cremos, se conservará definitivamente. Porque esta +mudança se deu em nossos dias, podemos aqui reproduzir com toda a fidelidade a +forma como ela decorreu, louvando nós o Senhor por nos dar ocasião de +presenciar tão emocionante como piedoso acto, cuja descrição respigamos dum +jornal desta terra<a name="tex2html2" href="#foot144"><sup>[2]</sup></a>.</p> + + + +<p>«Do côro superior da Igreja de Santa Clara, foi no domingo trasladado para a +tribuna da Capela-mor da mesma Igreja, o riquíssimo túmulo de prata e a +respectiva urna que encerram o venerando corpo da Rainha Santa.</p> + +<p>«Esta trasladação, sem dúvida motivada pelos rumores que corriam nesta +cidade, rumores estes em que se salientavam até actos menos respeitosos, fez-se +com a possível reserva afim de evitar aglomerações nada convenientes ao bom +êxito da trasladação.</p> + +<p>«Ainda assim, o número de pessoas que se reuniu no templo de Santa Clara, na +ância de assistir a tão piedoso acto, foi elevado, vendo-se ali representadas +muitas das principais famílias de Coimbra.</p> + +<p>«Perto das 5 horas da tarde, quando estavam concluídos os preparativos para +a deslocação do túmulo, a entrada no côro foi rigorosamente interceptada, +ficando ali apenas, além do pessoal necessário para a trasladação, os srs. +Francisco José da Costa e Antonio Augusto Lourenço, da Mesa da Rainha Santa; +Francisco Nazaré,<span class="pn">{21}</span> Joaquim Rasteiro Fontes, Custódio José da Costa, +Adriano Ferreira Rocha e João Ribeiro Arrobas, os quais foram convidados a +examinar as fitas lacradas que ligavam a tampa do túmulo.</p> + +<p>«Verificada a sua inviolabilidade, foram quebradas as fitas e retirada de +dentro do túmulo a urna em que repousa Santa Isabel. Esta operação, é bom +frisá-la, foi feita com o maior respeito e o seu bom exito, deve-se, sem +duvida, aos srs. Antonio Augusto Gonçalves e Antonio Viana que, mui +sensatamente, dirigiram os trabalhos da trasladação.</p> + +<p>«No momento em que ia conduzir-se para a tribuna da Igreja o caixão em que +se encerra o corpo da Rainha Santa, uma comissão de senhoras obteve do sr. +Antonio Augusto Gonçalves permissão para conduzir a urna, sendo pois esta +transportada pelas seguintes: D. Maria do Carmo Joice Dinís, D. Maria de Gusmão +Galvão, D. Elvira Refoios de Matos, D. Maria José Joice Dinís, D. Maria Amelia +Carneiro de Sousa Pires, D. Isabel de Sousa Coutinho (Linhares), D. Tafones +Roxanes de Carvalho, D. Maria do Carmo Forjaz, D. Maria do Ceu Pinto e D. +Matilde de Matos Mancelos Aragão.</p> + +<p>«Logo que a urna deu entrada na Capela-mór, as inúmeras pessoas que ali a +aguardavam prostraram-se respeitosamente na mais viva e sincera contemplação, +vendo-se em muitos olhos o deslisar de lagrimas constantes. É que dentro +daquele ataúde está em repouso não só o corpo duma Mulher nobre por excelência +e virtuosa e santa pelos rasgos generosos da sua candida alma, mas, o que é +mais, por estar ali concentrada a fé ardente e sincera de milhares de crentes +que nos transes dolorosos da sua atribulada existencia envolvem nas suas +fervorosas preces o nome da Rainha Santa<span class="pn">{22}</span> como um balsamo consolador para +as suas misérias e para as suas desditas.</p> + +<p>«Por isso as pessoas que ali se reuniram para assistir à passagem da Rainha +Santa, viveram bem felizes aquele rapido momento da existencia. A noite, porém, +ia avançando e era forçoso pôr termo aos trabalhos da trasladação, colocando-se +no local designado o ataúde da Rainha Santa.</p> + +<p>«Feito este serviço o povo começou a retirar-se, louvando a nobre ideia de +trasladar para a Igreja a santa querida que passou a vida na senda do bem, +espalhando por toda a parte o perfume das suas rosas, que são aquelas que lhe +engrinaldam o nome querido e ainda hoje digno de todo o respeito.»</p> + + + +<h1>CAPITULO V</h1> + + + +<h2>Aberturas do túmulo e caixão da Rainha Santa</h2> + +<p>Por ser muito curiosa, damos neste lugar a noticia das vezes que tem sido +aberto o túmulo e caixão da Rainha Santa.</p> + +<p>A notícia descritiva dêsses actos tão solenes, extraímo-la da notável obra +do Exmo. Sr. Dr. Antonio Ribeiro de Vasconcelos—<em>D. Isabel de +Aragão</em>—, primoroso trabalho que S. Ex.ª publicou em 1894, e que é bem um +autentico testemunho das suas altas qualidades de escritor erudito e +consciencioso.</p> + +<p>I.—Segunda feira, 26 de março de 1612.</p> + +<p>II.—Quarta feira, 27 de outubro de 1677.</p> + +<p>III.—Domingo, 11 de janeiro de 1695, na capela que provisoriamente serviu +de Igreja em o novo Mosteiro.<span class="pn">{23}</span></p> + +<p>IV.—Segunda-feira, 2 de julho de 1696, ás 8 horas-da manhã.</p> + +<p>V.—No mesmo dia, horas depois, nova abertura pelas freiras do convento, por +estas não terem assistido como desejavam à primeira cerimónia.</p> + +<p>VI.—No dia 4 do mesmo mês e ano foi novamente aberto o tumulo por se +desconfiar que as freiras, num excesso do seu amor para com a Rainha Santa, se +tivessem apropriado de algumas reliquias ou mesmo furtado o seu corpo +ocultando-o em sítio só por elas conhecido.</p> + +<p>VII.—Segunda feira, 9 de agosto, foi o tumulo aberto na presença de D. +Pedro II.</p> + +<p>VIII.—Domingo, 29 do mesmo mês e ano, na presença de D. Carlos, Arquiduque +da Austria.</p> + +<p>IX.—Domingo, 21 de outubro de 1832, na presença de D. Miguel e das Infantas +D. Isabel Maria e D. Maria de Assunção.</p> + +<p>X.—Domingo, 25 de abril de 1852, na presença de D. Maria II, de El-rei D. +Fernando seu esposo, do Principe real D. Pedro e do Infante D. Luís.</p> + +<p>XI.—Quinta feira, 17 de junho de 1852, para serem substituidas as vestes +que amortalhavam a Rainha Santa por outras oferecidas por D. Maria II.</p> + +<p>XII.—Quinta feira, 29 de novembro de 1860, na presença de D. Pedro V e de +seus irmãos D. Luís e D. João.</p> + +<p>XIII.—Quarta feira, 22 de outubro de 1862, na presença do Principe +Humberto, depois Rei de Italia, que foi hospede da nossa Universidade.</p> + +<p>XIV.—Quarta feira, 9 de dezembro de 1863, na presença de El-rei D. Luís e +de sua esposa D. Maria Pia.</p> + +<p>XV.—Quarta feira, 21 de junho de 1865, na presença de D. Isabel Cristina, +Princesa Imperial do Brasil e de seu esposo o Conde de Eu.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>XVI.—Sabado, 4 de julho de 1868, na presença do Infante D. Augusto.</p> + +<p>XVII.—Segunda feira, 4 de março de 1872, na presença de D. Pedro II, +Imperador do Brasil.</p> + +<p>XVIII.—Quarta feira, 14 de maio de 1875, na presença de El-rei D. Fernando, +do Infante D. Augusto e da Condessa de Edla.</p> + +<p>XIX.—Terça feira, 24 de dezembro de 1889, na presença dos Imperadores do +Brasil.</p> + +<p>XX.—Sabado, 25 de julho de 1892, na presença de El-rei D. Carlos, D. Amelia +e do Principe D. Luís Filipe.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Finalmente, no dia 28 de março de 1912 procedeu-se a nova e ultima abertura +do ataude da Rainha Santa.</p> + +<p>Como decorreu este acto di-lo uma das testemunhas que a ele assistiram e que +fielmente fez reproduzir na <em>Gazeta de Coimbra</em> de 30 de março de +1912.</p> + +<p>Como o número do jornal que publicou esta notícia foi rapidamente esgotado, +embora a tiragem fosse muito aumentada, entendemos por bem reproduzir aqui o +texto desse artigo:</p> + +<p>«Noticiámos ha dias a trasladação do túmulo com o corpo da Rainha Santa +Isabel, do côro de cima do extinto convento de Santa Clara, onde estava +indevidamente desde Novembro de 1860. Foi na quarta feira, 28 deste mês e ano, +que as freiras claristas, a pretexto de irem no dia seguinte o rei D. Pedro V +com seus irmãos D. Luís e D. João àquele mosteiro beijar a mão da Santa Rainha, +e mais comodamente o poderem fazer no côro do convento de que na tribuna do +altar-mór,<span class="pn">{25}</span> trasladaram o caixão com o corpo, e não mais o deixaram voltar +para o seu sítio.</p> + +<p>«Entretanto é indiscutível que muito melhor se acha na bela tribuna, +revestida de talha dourada, prepositadameníe feita para êle sobre o altar-mór, +onde esteve exposto à veneração dos fieis durante 146 anos, desde a tarde de 5 +de Julho de 1696, em que foi para ali transportado em soleníssima procissão +pelos Bispos da Guarda, Lamego, Portalegre, Vizeu, Leiria e Miranda, sob a +presidencia do Bispo-conde D. Fr. Alvaro de S. Boaventura, que oito dias antes, +a 26 de Junho, havia sagrado a nova Igreja de Santa Clara.</p> + +<p>«Hoje damos aos nossos prezados leitores uma outra noticia, ainda +respeitante ao mesmo assunto.</p> + +<p>«Espalhou-se, ha tempos em Coimbra, com bastante insistencia, o boato de que +o túmulo da Rainha Santa havia sido violado; e embora se verificasse, quando ha +dias se fez a trasladação, que os selos que o fechavam permaneciam intactos, é +certo que recrudesceu depois disto o rumor de que o caixão transportado do côro +para a Capela-mór se encontrava vazio. Em face de tal boato, tornava-se +necessária a verificação, abrindo-se o túmulo com devidas formalidades, antes +da aposição de novos selos.</p> + +<p>«Foi êste acto que se realizou anteontem, quinta-feira, 28 do corrente, +pelas 9 horas da manhã.</p> + +<p>«Achavam-se presentes apenas os srs.: conego José Dias d'Andrade, +representando o sr. Bispo Conde; Antonio Augusto Gonçalves, presidente da +Camara Municipal e director do museu Machado de Castro; dr. Joaquim Mendes dos +Remedios, reitor da Universidade; dr. Antonio José Gonçalves Guimarães, +professor da faculdade de sciencias: dr. Antonio Garcia Ribeiro de +Vasconcelos,<span class="pn">{26}</span> presidente da Confraria da Rainha Santa Isabel; Francisco +José da Costa, tesoureiro da mesma; Antonio Viana, fiel do museu Machado de +Castro.</p> + +<p>«Principiou por ser presente um envólucro, devidamente lacrado e selado, no +qual externamente se lia a declaração de que continha as chaves do caixão da +Rainha Santa, que ali foram encerradas e seladas a 23 de julho de 1892, em +seguida ao acto de ser fechado o tumulo, depois da visita que a ele fizeram +naquele dia o rei, rainha e principe. Verificado que os sêlos estavam intactos, +foi aberto o invólucro, e apareceram duas chaves, uma de prata e outra de +ferro, ligadas por uma cadeia de prata.</p> + +<p>«Depois abriu-se o túmulo de prata, e tirou-se dele o caixão de madeira, +forrado de rico brocado de seda e ouro, e com quatro belas fechaduras. Todos +verificaram cuidadosamente que não acusava sinal algum de arrombamento; e em +seguida, abertas as fechaduras e retirada a tampa, apareceu uma ostentosa +colcha de brocado, igual ao que veste por dentro e por fora o caixão, sendo +guarnecida de galão de ouro, e forrada de seda carmezim. Levantada esta +cobertura, apareceu outra perfeitamente igual à primeira, e por baixo dela um +veu transparente, através do qual se via nitidamente a mão da Santa Padroeira, +e o habito de seda cinzenta que vestia o corpo. Cobrindo-lhe a cabeça havia um +veu espesso de seda branca, sobre outro de fino linho, que lhe desciam até ao +peito.</p> + +<p>«Levantaram-se sucessivamente todos estes véus, e observou-se minuciosamente +a mão direita, o rosto e os dois pés, que estão descalsos e em perfeito estado +de conservação. Não se levou mais longe o exame, por ser +desnecessario.<span class="pn">{27}</span></p> + +<p>«A mão da santa e virtuosíssima Esposa de D. Dinís foi beijada com piedoso +fervor por aqueles dos presentes que tiveram essa devoção.</p> + +<p>«Terminado o acto de verificação foi fechado o caixão e encerrado no tumulo +de prata, com aposição de seis sêlos. Depois selaram-se novamente as chaves, e +lavrou-se o respectivo auto.</p> + +<p>«E assim ficou perfeitamente demonstrada a absoluta falsidade dos boatos que +correram, e a que muita gente parecia dar crédito.»</p> + + + +<h1>CAPITULO VI</h1> + +<h2>A Igreja de Santa Clara</h2> + +<p>Esta Igreja fica situada numa vistosa colina fronteira á cidade, estando +precedida dum espaçoso pátio quadrilongo, do qual se disfruta um dos mais belos +e ricos panoramas de Coimbra. Á entrada deste pátio encontra-se ainda hoje uma +forte corrente de ferro que servia para dar o direito de defesa aos criminosos +perseguidos.</p> + +<p>O templo, que é de magnifica construção e de uma só nave, é fabricado no +estilo romano; os retábulos dos seus altares são dignos de ser admirados, +revelando-se neles a perfeição e gosto artistico que presidiu á sua +execução.</p> + +<p>Ao fundo da Igreja, e aos lados da grade do côro, estão dois túmulos de +pedra artisticamente ornados, tendo nos tampos figuras de mulheres jacentes. O +do lado do Evangelho encerra os ossos da Infanta D. Isabel, filha de D. Afonso +IV, falecida com pouco mais de 2<span class="pn">{28}</span> anos e o do lado da Epistola supõe-se +conter os restos de D. Maria, filha de D. Pedro I e de D. Constança.</p> + +<p>Estes dois túmulos vieram tambem do velho convento de Santa Clara logo após +a mudança da comunidade.</p> + +<p>Dentro do côro da Igreja, em lugar menos proprio por falta de luz, +conserva-se ainda hoje o tumulo de pedra onde primitivamente esteve depositado +o corpa da Rainha Santa, túmulo este que, segundo as melhores opiniões, ela +mandara fabricar em vida. As suas faces laterais são guarnecidas de várias +imagens e de onze estatuetas de freiras metidas em nichos de gracioso +desenho.</p> + +<p>Sobre este túmulo vê-se estendida a figura da Rainha Santa envolta no hábito +de freira clarista, sobraçando o bordão de peregrina, uma bolsa e um livro de +orações.</p> + +<p>A cabeça da imagem, primorosamente esculturada, repousa num largo almofadão +a coberto dum elegante baldaquino, sendo este ladeado por dois anjos em atitude +de turificarem a Rainha Santa.</p> + +<p>Tanto este côro como o que lhe fica superior, eram adornados com riquíssimos +altares de boa talha, muitos quadros de subido valor e bastantes imagens por +quem as religiosas nutriam a mais piedosa devoção.</p> + +<p>Muitos destes preciosos objectos estão depositados no Museu Machado Castro, +de Coimbra.</p> + +<p>Voltando á Igreja, onde se admira a preciosa estatua da Rainha Santa, essa +delicada jóia que Teixeira Lopes delineou em momentos de feliz inspiração e +perante a qual instintivamente se teem curvado tantos milhares de pessoas de +todas as classes sociais, chamamos a atenção do leitor para os quadros que +adornam a Capela-mór da Igreja, quasi todos referentes à vida da Rainha Santa, +e recomendamos-lhe especialmente a sua<span class="pn">{29}</span> visita ao Museu de alfaias +religiosas que a Confraria instituiu junto da Igreja e aonde se encontram +algumas preciosidades de raro valor artístico. Êsse museu, que fica situado ao +lado direito da Capela-mór, é precedido dum espaçoso corredor que serve de +<em>Galeria</em> dos Irmãos Benemeritos. Ao fundo, noutra sala mais espaçosa, +estão guardados os objectos de maior valor pertencentes á Confraria, figurando +entre êles alguns que eram do uso da Rainha Santa. Neste precioso museu está +exposto um colar de pedras preciosas com que a Rainha Santa costumava adornar +as donzelas pobres no dia do seu casamento, guardando-se tambem ali algumas +peças do seu vestuario e a roupa com que foi amortalhada. Todos estes objectos +devem merecer uma particular atenção ao visitante de Santa Clara.</p> + +<p>A respectiva Confraria é digna dos maiores louvores pela dedicação e zelo +que tem mostrado na conservação deste Museu, procurando enriquecê-lo cada vez +mais com a adquisição dos objectos que digam respeito á Rainha Santa. +Ultimamente foi ali exposto o <em>Breve Original</em>, obtido por El-rei D. +João III da Curia romana, e pelo qual é extensivo a toda a nação o culto de +Santa Isabel. Este documento, muito bem conservado ainda, é digno de particular +atenção pelo fino desenho dos seus ornatos e caracteres.</p> + +<p>O claustro de Santa Clara, situado ao lado esquerdo da Igreja, é tambem +digno de ser visitado. As suas magestosas proporções, as arcadas, e as +graciosas varandas que o circundam, formam um conjunto agradavel ao nosso +sentimento, transportando-nos á vida dum mundo superior, em tudo mais perfeito +e harmonioso.</p> + +<p>O nosso espirito banha-se duma clarividente realidade que nos enebria, que +nos consola e seduz. Na paz<span class="pn">{30}</span> daquelas arcadas contemplamos o mundo despido +de lutas inglorias, de ódios e malquerenças, e a nossa imaginação, livre das +contrariedades e dos sobresaltos fomentados pela vida presente, embala-se no +doce arroio das avesinhas que saltitam pelas arvores floridas quasi obrigando +os nossos labios a murmurar com elas:</p> + +<blockquote> + Bemdito seja o Senhor! </blockquote> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>O vasto e grandioso edificio de Santa Clara, onde durante alguns séculos se +abrigaram muitas senhoras da mais pura linhagem e onde se praticaram tantos +actos de piedosa devoção, serve hoje de quartel ao regimento de Infantaria +35.</p> + +<p>A parte que serviu para hospedaria do Mosteiro e que está situada do lado +Sul, é hoje ocupada por um grupo do regimento de Artilharia.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>As festas com que Coimbra rende o seu culto á Rainha Santa são das mais +importantes e fervorosas que se realizam em Portugal. Nos anos em que são +levadas a efeito, a cidade veste-se das melhores galas para receber a sua +excelsa Padroeira e todos os conimbricenses, num amplexo de verdadeiro regosijo +e satisfação, cooperam no brilhantismo desses festejos esforçando-se para lhe +dar o maior luzimento possível.</p> + +<p>A grandiosa procissão em que é conduzida a Imagem da Rainha Santa, compõe-se +de inumeras confrarias e centenas de crianças vestidas de anjo, fazendo o +trajecto<span class="pn">{31}</span> de Santa Clara para Santa Cruz por entre milhares e milhares de +pessoas que de todos os pontos do país vêem para assistir a tão emocionante +como grandioso espectaculo. As festas da Rainha Santa, que se prolongam durante +5 dias, costumam atrair a Coimbra perto de 60:000 pessoas, não se registando +nunca qualquer desacato que possa ofuscar o brilho e a imponencia dessas tão +piedosas como emocionantes manifestações.</p> + +<p>Com a procissão da Rainha Santa dá-se até um facto que nos apraz registar: +quando a preciosa Imagem de Santa Isabel dá entrada na cidade, e ao ter de +atravessar por entre a multidão que a aguarda desde a Ponte até Santa Cruz, não +ha joelho que deixe de se dobrar ante a magestade da sua figura! Todo aquele +mar humano, que se apinha em tão longo trajecto, se curva respeitosamente +perante a doce Imagem da Rainha Santa, vendo-se muitos olhos marejados de +lágrimas devido á comoção que todos experimentam.</p> + +<p>É que aquela Imagem é o refúgio de todos os crentes. Nela estão concentradas +as preces dos que sofrem, os rogos dos infelizes. E se o povo português nutre +por Ela a mais terna devoção, o povo de Coimbra, que a elegeu sua medianeira +junto de Deus, não esquece nunca a sua benéfica acção em prol dos +desprotegidos, tributando-lhe um amor puríssimo e uma veneração a mais +sublimada! Continue Ela a amercear-se do seu povo junto de Deus e oxalá a sua +poderosa influencia consiga tornar felizes na terra aqueles que lhe solicitam a +sua protecção no Ceu.</p> + + + +<p class="centrado">FIM.</p> + +<h4>Notas</h4> + +<blockquote class="rodape"> + <p><a name="foot143" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> <em>D. Isabel de + Aragão</em>, Coimbra, 1894.</p> + + <p><a name="foot144" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> <em>Gazeta de + Coimbra</em>, de 20 de março de 1912.</p> +</blockquote> + + +<div class="ilustracao"> +<p class="centrado"> +<img src="images/fig3.png" border="0" width="100%" alt="Ilustração final"></p> +</div> + +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Isabel d'Aragão a Rainha Santa, by Anonymous + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ISABEL D'ARAGÃO A RAINHA SANTA *** + +***** This file should be named 35324-h.htm or 35324-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/5/3/2/35324/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/35324-h/images/fig1.png b/35324-h/images/fig1.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..7c05204 --- /dev/null +++ b/35324-h/images/fig1.png diff --git a/35324-h/images/fig2.png b/35324-h/images/fig2.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e62f046 --- /dev/null +++ b/35324-h/images/fig2.png diff --git a/35324-h/images/fig3.png b/35324-h/images/fig3.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4a9f371 --- /dev/null +++ b/35324-h/images/fig3.png diff --git a/35324-h/images/logo.png b/35324-h/images/logo.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e92c5ba --- /dev/null +++ b/35324-h/images/logo.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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