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+Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Poetas do Minho I - João Penha
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32387]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens
+de material em domínio público, disponibilizadas pelos
+Serviços de Documentação da Universidade do Minho)
+
+
+
+
+
+ ALBERTO PIMENTEL
+
+ Poetas do Minho
+
+ I
+
+ JOÃO PENHA
+
+ BRAGA
+
+
+ CRUZ & C.ª--EDITORES
+
+ MDCCCXCIV
+
+
+
+POETAS DO MINHO
+
+
+
+BRAGA
+
+TYP. «MINERVA COMMERCIAL»
+
+José Maria de Souza Cruz
+
+1893
+
+
+
+ALBERTO PIMENTEL
+
+Poetas do Minho
+
+I
+
+JOÃO PENHA
+
+BRAGA
+
+LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ & C.ª
+
+EDITORES
+
+
+
+
+ Aquelle meu espirito opulento,
+ Que vivia na luz dos sonhos bellos,
+ Jaz ha muito nas ruinas dos castellos,
+ Que no ar edifica o pensamento.
+
+ _João Penha._
+
+ «... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que
+ os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer,
+ effeito que, em todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o
+ opio, a belladona e o Codigo do Processo Civil.»
+
+ _João Penha._
+
+
+
+
+I
+
+Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do _americano_,
+vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de litteratura.
+Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo em
+que elle redigia a _Folha_ em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum
+insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na
+precipitação tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido
+pelas paragens do _tramway_, pela entrada e saida de passageiros, pela
+voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto calaico:
+
+--Bai cheio. Num ha logar.
+
+Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a
+constellação academica da _Folha_, para entrelembrar casos e anecdotas
+da bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente:
+
+--Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?
+
+--Não tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes.
+
+Tres volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenaculo
+numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e
+triumphos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia
+ainda hoje rememorada com prestigio na tradição academica. Elle,
+erguido no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia
+consagrado, via do alto, como um idolo, toda a nervosa multidão da
+academia, que o adorava, observava todas as evoluções caprichosas d'essa
+legião gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno
+d'elle, conhecia todos os segredos da biographia de uma geração, que ha
+de ficar eternamente lembrada. Tres volumes, pelo menos, e não seriam de
+mais.
+
+Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucção
+historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente
+o coração saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda
+essa altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua
+voz no phonographo litterario da _Folha_ e de uma boa dezena de poemas,
+eu que senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir ás
+tempestades explosivas da cratera, eu proprio experimento a vaga
+nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em Lisboa, na
+prosa da burocracia, do fôro, do professorado e do parlamento, os poetas
+que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por
+João Penha.
+
+E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem
+aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na
+apotheóse serena, sem invejas, mas tambem sem desillusões, d'aquelles
+que, como Gonçalves Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e
+passaram como um meteoro fugitivo.
+
+Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Camara dos Pares. O
+seu espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem
+constrangimento, que era como que o ultimo elo da sua tradição
+academica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente, sem
+tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira
+cã. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que
+surprehende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois
+braços de ferro n'um momento. Os outros que ficaram ainda, são como as
+arvores no outomno, que dia a dia vão sendo sacudidas e abaladas pela
+nortada agreste, que annuncia o inverno.
+
+É difficil adivinhar hoje na melancolica indiferença de Simões Dias, que
+passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano
+aborrecido, aquella brilhante alma meridional do poeta das
+_Peninsulares_, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do
+Mondego.
+
+Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse
+das mais vulcanicas, cançado de repartir os restos da sua mocidade entre
+a cáthedra de professor e a Secretaria da Justiça, correu ao encontro da
+velhice, denominou-se voluntariamente _Caturra_, atirou-se ás questões
+de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem
+_aereonauta_ com um e superfluo.
+
+Este correctissimo poeta da _Folha_ é hoje um suicidio ambulante.
+Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a não quer saber. Já um
+ministerio lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Villa Real.
+Candido de Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o
+cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar _Novas
+licções praticas da lingua portugueza_.
+
+Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por ahi,
+como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantisava
+na _Folha_ as lendas do alto Alemtejo, um que só doutorou em direito, e
+estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de
+Minerva na Universidade para os braços do senhor José Luciano no
+Parlamento.
+
+Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de fallar nos palratorios de
+Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguem treme de medo
+quando elle pede a palavra na camara.
+
+--E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o
+luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho.
+
+Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensões
+pathologicas, está «precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da
+vida».[1] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir
+esta apprehensão.
+
+Mas Guerra Junqueiro, meus senhores, era na Coimbra d'aquelle tempo, na
+_Folha_ principalmente, a promessa florescente de um lyrico primoroso,
+depois transviado, e a meu vêr atormentado, pela preoccupação constante
+de reformar a esthetica[2], a technica[3], o olympo dos romanticos[4], o
+paraizo dos catholicos[5], de fundar escola e de attingir a perfeição
+suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, são os
+_Simples_.
+
+E talvez não sejam.
+
+Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como todos os outros, um satellyte
+que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, antes
+adorado, do cenaculo, da bohemia, e da _Folha_.
+
+O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illusões d'esses rapazes
+que eram então a fina flôr da geração academica. D'elles, os que não
+estão ainda velhos por fóra, começam a descair na tristeza, não direi do
+occaso da vida, como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra
+Junqueiro, mas da experiencia dura do mundo.
+
+João Penha, o primaz da tribu, é advogado em Braga, trabalha
+honestamente para sustentar a sua familia. Está ao corrente de todas as
+novidades litterarias que a França inventa e exporta, porque as recebe
+directamente de Pariz em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu
+escriptorio, uma chusma de clientes, que ás vezes, o que o contraria
+muito, o assaltam em plena rua, já depois d'elle ter fechado o seu
+escriptorio ás duas horas da tarde, invariavelmente.
+
+Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em serviço--disse-me
+elle--ás sete horas da manhã. A seu lado, no _tramway_, um demandista
+estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado.
+
+--O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego. Porque,
+snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira d'ella. (Ella era a
+parte contraria, uma mulher).
+
+Questão d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho.
+
+João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente
+resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente
+das phrases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha
+era, n'aquella hora, sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do
+Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;--do Direito
+que elle podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na
+aula, com os sonetos publicados na _Folha_, com a bohemia alegre das
+_Camêllas_ e do _Homem do gaz_.
+
+Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia
+dó, fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante
+obsesso, a quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um
+epigramma vingador.
+
+Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta
+do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo _americano_, interpuz-me
+ao demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,--muralha da
+China Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do
+brácaro Chicaneau, que parecia recortado dos _Plaideurs_ de Racine.
+
+Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador
+e do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!
+
+Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+_Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes
+d'esse tempo, chorai por elle e.... por vós!
+
+Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado.
+Tem, como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao
+tribunal. Mas a sua competencia em questões do civel não soffre
+rivalidade. Escrevendo nos processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.
+
+Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os
+clientes voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.
+
+Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto,
+frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia
+leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos
+com o glorioso Sampaio da _Revolução_, de veneranda memoria. Vindo todos
+os annos á Povoa de Varzim, na epoca de banhos, é na confeitaria
+contigua ao _Café Chinez_ que elle apparece ás noites, sempre de luvas,
+correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.
+
+Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da
+sua banca de advogado!
+
+--Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do _americano_
+no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a
+avandone.
+
+E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:
+
+--Não se esqueça de lêr a _Nature_ de Hollinat. É soberba!
+
+Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+_Camêllas_, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes
+d'esse tempo, chorai por elle e... por vós!
+
+
+II
+
+Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da
+bohemia, e o poeta do amor.
+
+São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que
+frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e
+nos improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto de Lamego
+e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes e adora a Cabula; que vê
+formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que preside com o
+applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria
+e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal.
+
+Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje
+na tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo _sachet_ de vida
+antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos
+novos.
+
+A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.
+
+Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de
+monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de
+Apollo de Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de
+folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do
+alcool.
+
+ Oh vós, que do canto sois velhos freguezes,
+ Ouvi d'estas lyras o mélico emprego!
+ Nós somos as gêmas, os bifes inglezes,
+ Os paios das filhas do claro Mondego.
+
+ Sorri-nos a vida nos calices cheios.
+ Dos roixos falernos das parras da Beira;
+ Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;
+ Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.
+
+ Nos mostos papyros da sciencia moderna
+ A droga se encontra que ao somno convida;
+ Queimémol-os todos, que só na taberna
+ Os livros se encontram da sciencia da vida.
+
+ Ao vento os cabellos! por montes e valles
+ Corramos no passo das gregas choréas!
+ Bachantes das praças, vibrae os cymbales!
+ Abri-nos as portas, gentis Galathéas!
+
+A lenda das noites das Camêllas, personificada em João Penha, subsistiu
+como uma das seducções tradicionaes da vida academica.
+
+Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novissimos, o que
+tem mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma
+moderna, torturada pela nevrose, confessa a suggestão d'essa lenda
+bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos
+toneis impantes:
+
+ ......... A Tasca das Camêllas
+ Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas.
+
+Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte annos,
+espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camêllas a pessoa do
+doutor João Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e
+radiosa das noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas
+libações; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das
+lendas de antigos castellos abandonados por principes cujo destino é
+ainda um mysterio. E Antonio Nobre, relanceando os olhos tristes pela
+solidão tenebrosa, teve esta explosão de desespero truculento:
+
+ Tia Camêllas... só ficou a camellice.
+
+O que lembra uma situação analoga cantada por Delille nos _Jardins_:
+
+ ......... Telle jadis Carthage
+ Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.
+
+Dir-se-ia que tinham desapparecido com João Penha e com o seu tempo
+essas télas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camêllas;
+paineis pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia
+sorrir ainda, coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do _Vinho
+e fel_:
+
+ Dá-me esse onagro de vigor silvestre,
+ E os ôdres fundos, oh Sileno antigo:
+ Ensina-me na dor: só tu és mestre.
+
+Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum
+marmore de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braços de
+um Satyro inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado
+de evohés e de beijos, e de que só restava, inscripto no sôcco da
+esculptura mutilada, um sonetilho de João Penha:
+
+ Oh poetas d'agua fria!
+ Dizei-me: a vossa musa.
+ Será como a andalusa
+ Que as noites me abrevia?
+
+ Olhai-a: que poesia!
+ Na dórna da Arethusa
+ Lá enche agora a infusa
+ De classica ambrosia,
+
+ E aos labios de cereja
+ Eleva, airosa e rindo,
+ O copo de cerveja!
+
+ Oh quadro novo e lindo!
+ Musas, chorai de inveja,
+ Musas, descei do Pindo!
+
+Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anecdotas, os episodios das
+noites das Camêllas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição d'essa
+bohemia extincta, que sôa ao longe, e que exalta a imaginação dos
+rapazes. Para Antonio Nobre era um «sonho», que o attraiu a Coimbra,
+como a devoção de Meca attrae o arabe.
+
+Elle tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem
+perder a donairosa compostura de um _gentleman_, que jamais esquecia as
+luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma «taça», nome aristocratico
+com que nas Camêllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da
+Tia Maria, João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de
+mysterio, segredava:
+
+--Repita a dóse para um envergonhado, que está ali fóra...
+
+Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvasiava a segunda
+«taça», simulando passal-a á mão de um embuçado de melodrama.
+
+Antonio Nobre conhecia a tradição, a anecdota, o pittoresco da lenda,
+mas, quando chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia de João
+Penha, na Tasca das Camêllas e na Via Latina, a lembrança de que passára
+outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou.
+
+ Tia Camêllas... só ficou a camellice.
+
+A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João
+Penha bohemio.
+
+Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as
+satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das gerações.
+
+Todos elles sabem de cór o famoso caso do incendio, que João Penha
+noticiava para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade biblica,
+um castigo do ceu, que o deixára despojado de todos os seus escassos
+haveres de estudante:
+
+ Foi um incendio voraz!
+ Parecia a propria Gomorra!
+
+E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo
+repetir, na chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios
+castamente impollutos de uma bôca impeccavel, onde só os eufemismos
+floriam como lirios brancos.
+
+Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem
+advogado, e n'esse tempo deputado por Braga.
+
+Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão,
+costumava dizer d'elle:
+
+--O seu unico vicio sou eu.
+
+De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos
+de bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que
+irradiou até á raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda
+nacional.
+
+Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o _Zabumba_ e a _Gaita
+de folles_, que João Penha publicou na _Sebenta_, no quarto e quinto
+anno; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfusiava
+diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a tradição, que
+ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de
+Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos
+epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por
+exemplo, o do Pinto Lambaça!
+
+ Em pé, diante do Brito,
+ Dá lição Pinto Lambaça:
+ Parece a voz do Infinito
+ A sair d'uma cabaça!
+
+E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?
+
+ Tamagnini Encarnação
+ Tem na ponta do nariz
+ O colorido feliz
+ De uma rosa do Japão.
+
+E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do condiscipulo Ennes:
+
+ A lettra dos teus assumptos
+ Bem nos demonstra quem és:
+ Vale dois _nn_ bem juntos,
+ É lettra de quatro pés.
+
+Ha poucos dias, no _In illo tempore_ das _Novidades_, li o epigramma com
+que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama:
+
+ Dizem que o Sanches embirra
+ Que lhe vão pedir dispensa.
+ Forte asneira!
+ --Imagina que lhe pedem
+ A despensa
+ Onde tem a salgadeira...
+
+Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto _A um doutor
+Pedro_, que póde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na
+profundidade do conceito. Pelo que toca ao doutor, a tradição
+universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura;
+
+ E vimos uma forma horrenda e bruta
+ Surgir do lôdo vil com gesto iroso,
+ Como out'rora, no Cabo Tormentoso,
+ O velho Adamastor de barba hirsuta.
+
+ --«Quem és tu?» eu lhe disse.--«Bardo, escuta,
+ (Bramiu com voz ingente e desdenhoso)
+ Eu sou no espaço infindo e luminoso
+ O verbo ideial da estupidez corrupta.
+
+ «Na terra sou Penedo: e o mar violento,
+ O mar das sciencias vãs da humanidade,
+ Já quiz vencer-me, e foi baldado o intento!»
+
+ Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade
+ O cantico d'um tremulo jumento:
+ --Era o preito da terra á Immensidade.
+
+Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as
+gerações subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme.
+Antonio Nobre tambem molhou a sua sôpa no capêllo que encima o
+zingamôcho do cathedratico zangaralhão:
+
+ Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
+ Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
+ Mal diria eu em pequenito, quando a ama,
+ Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
+ Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
+ Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo
+ Imitava-te o andar, que não era bem de homem...
+ Eu tinha birras:--Ahi vem o lobishomem!
+ Dizia ella.--Bate á porta! Truz! truz! truz!
+ E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!
+
+Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de
+João Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, attraia
+todas as attenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela
+gentileza patricia do verbo flammejante, como no soneto _A uma rabequista_:
+
+ Eu dera um litro do meu sangue azul,
+ (Oh meus avôs, não fulmineis o hereje!)
+ Só por beijar-te, no chapim taful,
+ O pequenino pé, que orchestras rege![6]
+
+A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me
+ha pouco João Penha:
+
+--O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse
+intento... por ciumes.
+
+Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como João
+Penha foi, na phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo estudante de Coimbra.
+
+N'aquella quadra, como na organisação artistica de João Penha, incluindo
+a sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de _vieille roche_
+das lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro
+Saint Germain, elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da
+lingua, a lição classica dos mestres, a compostura aristocratica da
+phrase, que não chega a desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se
+na satyra. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pellica uma
+nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no collarinho a mancha
+roixa da bôrra. E se passa da tasca das Camêllas para o salão nobre da
+Poesia madrigalesca, substitue facilmente a batina rôta pela casaca
+broslada, é um cortezão de Luiz XIV quando empunha a taça, refulgente de
+aureas facetas, para brindar as damas delicadas:
+
+ D'este copo de vinho generoso
+ Dai-me que eu tire o alento que desejo,
+ Para que o novo canto, sonoroso,
+ Desfira na guitarra em doce arpejo;
+ E já que estou devéras amoroso,
+ Aproveito apressado um tal ensejo
+ Para erguer á leitora, que me escuta,
+ Um brinde que me deixe a taça enxuta.
+
+Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio,
+do poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do _Homem
+do gaz_, do _Varão do Luxemburgo_, do _Conselheiro Rodrigo_, e da _Tia
+Maria Camêlla_.
+
+Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em
+taberna, não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar.
+Era um artista de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de
+vista João Penha e a _Folha_ exerceram uma sensivel influencia. O soneto
+da escola italiana, tão abandonado como antiqualha árcade depois de
+Bocage, resurgiu no acuro parnasiano de João Penha. E todos os da
+_Folha_, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes
+artistas no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo,
+Junqueiro, Simões Dias, Candido de Figueiredo, etc.
+
+
+III
+
+Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma
+idealisação, uma phantasia de artista.
+
+Eu não encontrava, nos sonetos do _Vinho e Fel_, a abstracção absorvente
+de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa o
+coração, reduzindo-o a cinzas.
+
+A Ironia andava de braço dado com o Amor, no lyrismo de João Penha,
+mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do que como a crua
+expressão da Verdade.
+
+Não descobria atravez das _Rimas_ o typo constante, persistente, de uma
+mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis
+differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas.
+
+Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do _Vinho e Fel_, a
+impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a
+alma na voragem do scepticismo.
+
+Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação romantica, que se
+comprazia em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo,
+puramente ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento.
+
+É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas
+eu considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia:
+
+ Um rosto encantador, quasi moreno,
+ De uns grandes olhos verdes animado:
+ Negro o cabello, em tranças ennastrado;
+ Correcto o supercilio, iris sereno;
+
+ Vermelho o labio, sorridente e ameno;
+ Breve a cintura; o collo, assetinado;
+ Um donaire, das outras invejado;
+ Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:
+
+ Eis a dama por quem chorando anhélo!
+ Rival das graças do cinsel iónio,
+ Mas fria como a neve: o meu flagello!
+
+ Eis a minha Nathercia, o cruel demonio
+ Por quem vivo perdido, mas tão bello
+ Que nem lhe resistira Santo Antonio!
+
+Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção
+artistica de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a
+produzir effeitos pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da
+veia alegre do bohemio com a inspiração sentimental do lyrico.
+
+Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair
+sobre o retrato da primeira pagina o peso de um paio roliço de
+Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada:
+
+ Mal pode phantasiar-te a mente accêsa
+ Tão gentil como quando, venturoso,
+ Te vi a vez primeira, ébrio de goso,
+ Estatico de pasmo e de surpreza.
+
+ Que prodigio de esplendida bellesa!
+ Que labios, que sorrir, que olhar piedoso!
+ Que opulento cabello... um mar undoso
+ Onde escondêras a gentil nudeza!
+
+ Assentada n'um banco de verdura,
+ Junto á margem do múrmuro Mondêgo,
+ De um Corregio vencêras a pintura.
+
+ Ai! perdi, desde então, paz e socego:
+ Se estavas tão graciosa em tal postura,
+ E comias um paio de Lamego!
+
+E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada
+calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta,
+que não encontrava na realidade da vida a mulher ideial das suas
+noites de phantasia romantica.
+
+O paio parecia-me na obra de João Penha um symbolo de salutar desengano
+para os que criam na espiritualidade ethérea da mulher e que,
+regressando alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar
+rehabilitação salvadora na despensa, no _réstaurant_, e na cava.
+
+ És minha, és minha, oh venturoso fado!
+ Cedeste á chamma que em meu peito alento!
+ Chegou por fim o divinal momento,
+ O dia de meus sonhos anhelado!
+
+ O ceu, ha pouco tôrvo, eil-o azulado:
+ Sussurra esmorecido ao longe o vento;
+ Esplende o sol no ethereo firmamento;
+ Recende aromas o florente prado.
+
+ Quando ha pouco a teus pés (oh quadro lindo!)
+ Te disse o meu amor, em doce esmaio
+ Senti volupias de um prazer infindo.
+
+ Oh camênas agricolas, cantai-o!
+ Ella, a minha formosa, ella fugindo,
+ Deixou-me o coração, deixou-me o paio.
+
+Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refem da sua esperança
+perdida, das suas illusões derrotadas, o paio,--a porção mais subjectiva
+do _eu_ espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia,
+como o porco do rebanho de Epicuro, _Epicuri de grege porcus_.
+
+Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretação d'este symbolo
+culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecêl-a a
+clara exegése d'este soneto:
+
+ Aquella Rosa branca, a flor mais viva
+ Dos jardins olorosos de Granada,
+ Já não parece a flor enamorada,
+ Triste por viver só, viver captiva.
+
+ Outr'ora, em seu mirante, pensativa,
+ Muitas vezes a luz da madrugada
+ A via entre boninas, enlevada,
+ Nos sons d'uma guitarra fugitiva.
+
+ Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,
+ A Elleonora das canções do Tasso,
+ A Nathercia gentil do cantor luso,
+
+ Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,
+ A citharas prefere a roca e o fuso,
+ Aos meus cantos,--presuntos de Melgaço!
+
+Sente-se na symbolica de João Penha a alma alegre de uma geração que
+teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar.
+
+Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como
+na antiga cosinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de
+vasia, dá a impressão do apetite saluberrimo da ordem de Cistér.
+
+Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões
+bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos,
+regados por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras.
+
+Um braço invisivel parece encaminhar o nosso espirito á vasta mesa do
+refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de
+comesana macissa, que o apetite voraz ha de em breve vencer e
+desmoronar.
+
+Sóbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um
+prégador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem
+fé e sem uncção, da diabolica attracção dos sete peccados mortaes, que
+os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo
+evitar.
+
+E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria...
+
+Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para
+o fundo do prato com os seus botões:--Que mulher conheci eu por lá que
+valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça?
+
+Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:
+
+ Cantai-me a vida, e o sonho transitorio!
+ Cantai, emquanto á dor busco remedio
+ Nos vastos caldeirões do refeitorio.
+
+A raça, no breve lapso de vinte annos, hysterisou-se excessivamente
+em nervosismos e melancolias, que allucinam funebremente o cerebro dos
+poetas modernos.
+
+Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a
+Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no
+symbolismo tetrico da _Velha_ (a morte) e do _Hotel da Cova_ (a sepultura).
+
+E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a
+ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de
+pedra, sobre os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o
+mesmo cheiro a lente cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta
+rançosa falla ainda mais alto que toda a concepção do Direito moderno
+explanada pelo snr. M. Fratel, porque, n'essa Coimbra vetusta, ha só uma
+coisa que falla mais alto que a Universidade,--é a _Cabra_.
+
+Continuando o _meio_ a ser o mesmo, sendo mesmissima a atmosphera
+social onde a mocidade academica respira, é claro que a variedade das
+impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes, tanto
+psychicas como physicas, do individuo que as recebe.
+
+Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amarantho,
+rubro como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa
+languida que desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve.
+
+Depois de haver escripto a _Carta a Manoel_, Antonio Nobre, sedento de
+ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a
+Vida no Bairro Latino, e lá mesmo se encontra _só_ e desgraçado.
+
+João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funambulo,
+por sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taça repleta
+de phalerno.
+
+ Não ha dôr que resista a um vinho ardente,
+ Nem ao facil amor de uma hespanhola.
+
+Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppôr de
+longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de
+João Penha, a verdade é que elle amou, embora não andasse lutuosamente
+vestido de almáfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos
+melodramaticos, que aliás caricaturou.
+
+Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez
+de fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem
+que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a...
+
+No fundo da biographia de João Penha está effectivamente a memoria de um
+amor, que inspirou _O Vinho e Fel_ e _O Tancredo_, poema no genero do
+_Onofre_, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas
+em jornaes, não sahiu nas _Rimas_.
+
+--Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebiamos, não para apagar a sêde
+ou para afogar paixões,--mas para dar tom aos nervos e activar os
+movimentos do machinismo intellectual. Todavia não deve esquecer-se que
+o vinho é o grande consolador dos tristes: _date vinum moerentibus et
+lætobunt..._
+
+Esta phrase rasga o véo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na
+taça da bonomia.
+
+ Mas ri-se como quem chora,
+ O bardo das scenas varias,
+ Qual ri o mocho sombrio
+ Sobre as loisas funerarias.
+
+ A noite na adega esconsa,
+ D'uns candís á luz escassa,
+ Quantas vezes não procura
+ O esquecimento na taça!
+ .......................
+ Que já li sobre uma lage,
+ Occulta, n'umas cavernas,
+ Este sinistro epitaphio
+ Do phantasma das tabernas:
+
+ «Aqui jaz o bardo triste
+ Junto á bella Carolina:
+ Riu-se a bella do rapaz,
+ Riu-se o rapaz da menina.»
+
+Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adêga esconsa, á luz
+fumenta dos candis, emquanto a tia Camêlla despeja do pichel um gorgolão
+vermelho de phalerno:
+
+ Venho pedir-te o retrato
+ Que te dei por amisade:
+ Não quero servir de ornato
+ Nos alcouces da cidade.
+
+ Quero laval-o nas ondas,
+ Que gemem na praia agreste,
+ D'aquellas manchas hediondas
+ Dos beijos que tu lhe déste.
+
+ Quero arrancar-lhe a moldura,
+ O teu cabello, e trocal-o
+ Por uma trança mais pura
+ Das crinas do meu cavallo.
+
+Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão plena de
+romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no
+palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face
+de Margarida Gautier.
+
+_És da raça dos Borgias!_ vocifera o poeta, mas traça a capa de
+estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão
+
+ ... nos bôjos da amphora vetusta.
+
+Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o pé no
+estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle,
+deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á
+vida murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga.
+
+Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não
+conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava,
+prompta e cabal:
+
+ Mais frio que Blondin sobre o Niagára,
+ Julgas minh'alma em vis paixões accesa;
+ E comtudo nas ostras da bellesa
+ Eu só procuro o amor, perola rara.
+
+Mas, não encontrando a perola rara, tomava o partido de comer
+ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso tolerante de
+Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possivel.
+
+Convém notar que João Ponha deu o titulo de _Lyra de Pangloss_ a uma das
+subdivisões das suas _Rimas_.
+
+Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos
+desfeitos, das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O
+espirito,
+
+ Aquelle meu espirito opulento,
+ Que vivia na luz dos sonhos bellos,
+
+vira morrer os «ultimos anhelos», mas resistira, graças ao sabio
+formulario do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a
+florescer
+
+ ... em tão doce obesidade,
+ Que dentro em pouco me vereis no transe
+ De tomar ordens e fazer-me abbade.
+
+A gente sahe da leitura das _Rimas_ tão bem disposta como João Penha
+sahiu de Coimbra.
+
+Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no
+nosso espirito a impressão de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes
+e chorões, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e
+de cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore.
+
+Pelo contrario, as _Rimas_ de João Penha são como um pomar do Minho,
+uberrimo e cantante, onde a côr dos fructos se tinge de tonalidades
+sadias, onde o despenho da agua sobre a relva viçosa espuma em borbotões
+sonoros, e onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma
+bambochata feliz de collegiaes em liberdade.
+
+É com a impresão de ter visitado um d'estes pomares feracissimos e
+alegres que a gente fecha o volume das _Rimas_.
+
+
+IV
+
+Em litteratura, João Penha é hoje, como hontem, um conservador convicto,
+um idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de
+originalidade saudavel.
+
+As suas opiniões são conhecidas.[7]
+
+Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma unica e
+determinada philosophia, porque não ha relação proxima ou remota entre
+os seus trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos
+os golpes que lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, será eterna,
+porque eternamente o homem «perseguido pela realidade, se refugiará,
+pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das illusões.»
+
+Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si
+mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo
+seu talento de observação.
+
+João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista:
+n'aquella, é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não
+sejam communs»; n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são
+descriptas, não como o artista as possa vêr, mas como a multidão as vê.»
+
+Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais
+longe do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo
+e o realismo. O famoso auctor do _Roman expérimental_ adoptou como
+formula generica o naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e
+que define: «o regresso á natureza e ao homem, a observação directa, a
+anatomia exacta.»
+
+Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes
+ou vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em
+baixo.
+
+«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer
+du sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en
+haut, il m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime
+qu'on ne saurait se tromper.»
+
+Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos
+corpos e dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que os corpos
+girem no azul ou na terra.
+
+Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero
+synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja
+nos modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos
+modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.
+
+Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas obras do espirito
+humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover.
+
+A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientação da
+medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de
+sciencia, que pretende guiar o espirito na investigação da verdade.
+
+Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho; pelo contrario,
+prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu.
+
+Portanto está fóra da esphera da arte, que é fundamentalmente suggestiva
+e emotiva.
+
+Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores
+franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos
+copistas da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada.
+
+A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no prefacio da
+_Tristia_, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos
+_nephelibatas_.
+
+Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que
+defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias
+não ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha
+sobre a obra recente dos novissimos:
+
+--Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto poesia sem
+rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem
+medida, é prosa.
+
+E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com que Theophilo
+Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une
+folie moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art
+lui-même».
+
+Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da
+phrase de Junqueiro nos _Simples_: «A fórma poetica encaminha-se á
+solução final. Horisonte immenso.»
+
+Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai
+até onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os
+limites da metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há
+por onde variar, sem quebra da arte e do genio da lingua. Castilho
+introduziu na fórma poetica a novidade dos exdruxulos italianos, e
+combateu a peito descoberto pela nacionalisação dos alexandrinos
+francezes. Thomaz Ribeiro, no _D. Jayme_ e na _Delphina_, percorreu
+todos os metros admissiveis na versificação portugueza, empregando o
+de treze syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo
+organico da lingua portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu
+que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medição latina e
+resuscitar a toante castelhana,[8] Mas os poetas que vieram
+depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos
+elles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena
+experimentar a metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas
+(que a meu vêr não era menos monotona que o _refrain_ dos nephelibatas):
+nada d'isto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com
+quinze e mais syllabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento
+kilometrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que
+provinha da fusão de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o
+tripartido, privando-o da cadencia que deleitava o ouvido.
+
+Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do
+romantismo
+
+ Prosa e verso têm balizas,
+
+exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e logica: que os
+poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto á
+pureza da lingua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o
+anno passado lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido
+conselho de mestre Boileau:
+
+ Sans la langue... l'auteur le plus divin
+ Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.
+
+Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as innovações
+barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel
+valor, á parte os vicios de escola, como por exemplo o snr. Julio
+Brandão, quando diz:
+
+ E citharas balança um côro vago de _pucellas_.
+ Rostos morenos, _brunos_, pallidos, divinos.
+
+Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte revolucionaria dos
+modernos poetas portugueses. Ver-se-ha então que admiro a concepção
+genial de uns, e que faço justiça a todos.
+
+Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensavel
+da arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer--da arte. E estou
+em opposição a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima
+evolução poetica rasga horisontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista
+da fórma e da expressão.»[9]
+
+P. de Varzim--Novembro de 1893.
+
+
+FIM
+
+
+
+Preço 250 reis
+
+A collecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não
+obstante a apathia do mercado litterario, abrangerá, do modo mais
+completo possivel, a larga e gloriosa lista de _todos_ os poetas
+modernos do Minho.
+
+O auctor dedica os seus dois primeiros estudos a JOÃO PENHA e ALMEIDA
+BRAGA, que nasceram na capital da provincia, mas traçará, seguidamente,
+o perfil de outros poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Vianna do
+Castello, Barcellos, Ponte do Lima, etc.
+
+
+
+ [1] Palavras suas em annotação ao volume dos _Simples_.
+
+ [2] «D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em
+ mim novas emoções, e portanto _uma nova arte_. O poeta renasceu e
+ cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e não apenas uma
+ evoluçãosinha toda litteraria, meramente verbal e de superficie.»
+
+ [3] «Emquanto á technica do poema, muitissimo havia que dizer, se
+ esta nota não fosse escripta rapidamente, com o impressor á espera.»
+
+ --Notas aos Simples.
+
+ [4] _Morte de D. João._
+
+ [5] _A Velhice do Padre Eterno._
+
+ [6] A plastica d'esta quadra foi alterada na sua transplantação da
+ _Folha_ para as _Rimas_.
+
+ Déra um quartilho do meu sangue azul
+ (Oh meus avós, estremecei na campa!)
+ Por dar-te um beijo no chapim taful,
+ Que esconde um pé, de se gravar na estampa.
+
+ Tal era, na _Folha_, a primitiva feitura. A originalidade do
+ pensamento nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado.
+ Dizer-se que os bachareis em direito são os primeiros a desacatar a
+ lei!
+
+ [7] Expostas no prefacio á _Tristia_ de Anthero de Figueiredo.
+
+ [8] _Vesperas_; pag. 219.
+
+ [9] Prefacio ao _Livro de Aglaïs_.
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel
+
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
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+License as specified in paragraph 1.E.1.
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+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
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+ <title>Poetas do Minho I - João Penha, por Alberto Pimentel</title>
+ <meta name="Author" content="Alberto Pimentel">
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+<pre>
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+Project Gutenberg's Poetas do Minho I - João Penha, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Poetas do Minho I - João Penha
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32387]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produzido a partir de imagens
+de material em domínio público, disponibilizadas pelos
+Serviços de Documentação da Universidade do Minho)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+
+
+
+<div class="fbox">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>Nesta edição em HTML estão disponíveis duas versões do texto.</p>
+
+<p>A primeira contém o texto com a grafia de acordo com o <a href="#grafia_original">original</a> impresso em 1894. A segunda, contém uma variante com a grafia <a href="#grafia_moderna">actualizada</a> para português europeu.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="border: solid 5px #888; text-align: center; padding: 1em;">
+
+<p><big><big><a name="grafia_original">Ortografia original.</a></big></big></p>
+
+<p><small><small><a href="#grafia_moderna">(Ver Ortografia actualizada.)</a></small></small></p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 4px #000;">
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">I</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p>
+
+<p>CRUZ &amp; C.ª&mdash;EDITORES<br>
+<small>MDCCCXCIV</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">POETAS DO MINHO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; font-size: 0.8em;">
+<p>BRAGA<br>
+TYP. «MINERVA COMMERCIAL»<br>
+José Maria de Souza Cruz<br>
+<small>1893</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">I</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p>
+
+<p>LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ &amp; C.ª<br>
+EDITORES</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Aquelle meu espirito opulento,<br>
+ Que vivia na luz dos sonhos bellos,<br>
+ Jaz ha muito nas ruinas dos castellos,<br>
+ Que no ar edifica o pensamento.</p>
+
+ <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que os
+ outros o leiam. Quer, portanto, produzir um effeito qualquer, effeito que, em
+ todo o caso, não pode ser o do somno: para este ha o opio, a belladona e o
+ Codigo do Processo Civil.»</p>
+
+ <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="corpo">
+<h1><a name="SECTION00010000000000000000">I</a> </h1>
+
+<p>Ha quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do
+<i>americano</i>, vinhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversavamos de
+litteratura. Nomes de auctores, nomes de livros, recordações dispersas, do
+tempo em que elle redigia a <i>Folha</i> em Coimbra e eu lhe enviava do Porto
+algum insignificante auxilio de collaborador, passavam rapidamente na
+precipitação<span class="pn">{8}</span> tumultuante do dialogo, a cada momento
+interrompido pelas paragens do <i>tramway</i>, pela entrada e saida de
+passageiros, pela voz auctoritaria do conductor, que explicava em dialecto
+calaico:</p>
+
+<p>&mdash;Bai cheio. Num ha logar.</p>
+
+<p>Tendo João Penha alludido a mais de um dos poetas, que constituiram a
+constellação academica da <i>Folha</i>, para entrelembrar casos e anecdotas da
+bohemia coimbrã, disse-lhe eu de repente:</p>
+
+<p>&mdash;Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho tempo, respondeu elle. Encheriam tres volumes.</p>
+
+<p>Tres volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenaculo
+numeroso, que viveu na alegria e nas lettras, que teve aventuras e triumphos, e
+que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada
+com prestigio na tradição academica.<span class="pn">{9}</span> Elle, erguido
+no pedestal que o voto unanime dos seus contemporaneos lhe havia consagrado,
+via do alto, como um idolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava,
+observava todas as evoluções caprichosas d'essa legião gentilissima de rapazes
+talentosos, que se moviam em torno d'elle, conhecia todos os segredos da
+biographia de uma geração, que ha de ficar eternamente lembrada. Tres volumes,
+pelo menos, e não seriam de mais.</p>
+
+<p>Mas percebe-se que lhe custe metter hombros a um labor de reconstrucção
+historica em que a penna seria como um estilete a revolver dolorosamente o
+coração saudoso do escriptor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa
+altivola mocidade academica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no
+phonographo litterario da <i>Folha</i> e de uma boa dezena de poemas, eu que
+senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir<span
+class="pn">{10}</span> ás tempestades explosivas da cratera, eu proprio
+experimento a vaga nostalgia da Coimbra d'aquelle tempo vendo envelhecer em
+Lisboa, na prosa da burocracia, do fôro, do professorado e do parlamento, os
+poetas que ha vinte annos constituiam a ala victoriosa dos novos commandada por
+João Penha.</p>
+
+<p>E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem
+aggravos, nem compendios, dormem prematuramente o somno da morte na apotheóse
+serena, sem invejas, mas tambem sem desillusões, d'aquelles que, como Gonçalves
+Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro
+fugitivo.</p>
+
+<p>Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Camara dos Pares. O seu
+espirito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que
+era como que o ultimo elo da sua tradição academica. Tinha passado de Coimbra
+para Lisboa serenamente,<span class="pn">{11}</span> sem tempestades da vida,
+que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu
+lar, a morte foi como um salteador que surprehende um viajante a dormir na
+pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro n'um momento. Os outros que
+ficaram ainda, são como as arvores no outomno, que dia a dia vão sendo
+sacudidas e abaladas pela nortada agreste, que annuncia o inverno.</p>
+
+<p>É difficil adivinhar hoje na melancolica indiferença de Simões Dias, que
+passa atravez de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido,
+aquella brilhante alma meridional do poeta das <i>Peninsulares</i>, onde
+cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinoes do Mondego.</p>
+
+<p>Candido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse das
+mais vulcanicas, cançado de repartir os restos da sua mocidade entre a cáthedra
+de professor<span class="pn">{12}</span> e a Secretaria da Justiça, correu ao
+encontro da velhice, denominou-se voluntariamente <i>Caturra</i>, atirou-se ás
+questões de philologia, e conseguiu tornar-se rabujento contra os que escrevem
+<i>aereonauta</i> com um e superfluo.</p>
+
+<p>Este correctissimo poeta da <i>Folha</i> é hoje um suicidio ambulante.
+Mata-se a ensinar a lingua portugueza a quem a não quer saber. Já um ministerio
+lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Villa Real. Candido de
+Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu
+a Lisboa, deu-se pressa em publicar <i>Novas licções praticas da lingua
+portugueza</i>.</p>
+
+<p>Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por ahi, como
+todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantisava na
+<i>Folha</i> as lendas do alto Alemtejo, um que só doutorou em direito, e
+estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva
+na<span class="pn">{13}</span> Universidade para os braços do senhor José
+Luciano no Parlamento.</p>
+
+<p>Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de fallar nos palratorios de
+Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguem treme de medo quando elle
+pede a palavra na camara.</p>
+
+<p>&mdash;E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-ha o
+luciolante apostolado que o rodea na cervejaria do Camanho.</p>
+
+<p>Junqueiro, se houvessemos de dar credito a todas as suas apprehensões
+pathologicas, está «precocemente chegado, pelo soffrimento, ao occaso da
+vida».<a name="tex2html1" href="#foot281"><sup>[1]</sup></a> Sinceramente
+desejo que os factos venham desmentir esta apprehensão.</p>
+
+<p>Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,<span class="pn">{14}</span> era na
+Coimbra d'aquelle tempo, na <i>Folha</i> principalmente, a promessa florescente
+de um lyrico primoroso, depois transviado, e a meu vêr atormentado, pela
+preoccupação constante de reformar a esthetica<a name="tex2html2"
+href="#foot282"><sup>[2]</sup></a>, a technica<a name="tex2html3"
+href="#foot80"><sup>[3]</sup></a>, o olympo dos romanticos<a name="tex2html4"
+href="#foot283"><sup>[4]</sup></a>, o paraizo dos catholicos<a name="tex2html5"
+href="#foot284"><sup>[5]</sup></a>, de fundar escola e de attingir a perfeição
+suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu proprio conceito, são os
+<i>Simples</i>.</p>
+
+<p>E talvez não sejam.</p>
+
+<p>Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como<span class="pn">{15}</span> todos os
+outros, um satellyte que gravitava em torno de João Penha, o chefe
+incontestado, antes adorado, do cenaculo, da bohemia, e da <i>Folha</i>.</p>
+
+<p>O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as illusões d'esses rapazes que
+eram então a fina flôr da geração academica. D'elles, os que não estão ainda
+velhos por fóra, começam a descair na tristeza, não direi do occaso da vida,
+como apprehensivamente affirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da
+experiencia dura do mundo.</p>
+
+<p>João Penha, o primaz da tribu, é advogado em Braga, trabalha honestamente
+para sustentar a sua familia. Está ao corrente de todas as novidades
+litterarias que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de
+Pariz em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escriptorio, uma chusma
+de clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já
+depois<span class="pn">{16}</span> d'elle ter fechado o seu escriptorio ás duas
+horas da tarde, invariavelmente.</p>
+
+<p>Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em
+serviço&mdash;disse-me elle&mdash;ás sete horas da manhã. A seu lado, no
+<i>tramway</i>, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido
+do advogado.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego.
+Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira d'ella. (Ella era a
+parte contraria, uma mulher).</p>
+
+<p>Questão d'aguas: a mais generalisada especie de litigios no Minho.</p>
+
+<p>João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado
+e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das phrases
+equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, n'aquella hora,
+sob o céu azul, radioso de sol, uma victima do Direito, que legisla sobre regos
+e outras coisas mais;&mdash;do Direito que<span class="pn">{17}</span> elle
+podera amenisar em Coimbra com as satyras escriptas na aula, com os sonetos
+publicados na <i>Folha</i>, com a bohemia alegre das <i>Camêllas</i> e do
+<i>Homem do gaz</i>.</p>
+
+<p>Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hercules. Fazia dó,
+fazia pena vêr João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a
+quem elle não podia responder, com um repente de Bocage, n'um epigramma
+vingador.</p>
+
+<p>Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas á volta do
+Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo <i>americano</i>, interpuz-me ao
+demandista e a elle, e conversamos de varia litteratura,&mdash;muralha da China
+Contra a qual esbarraram, infructiferamente, duas investidas do brácaro
+Chicaneau, que parecia recortado dos <i>Plaideurs</i> de Racine.</p>
+
+<p>Aqui esta no que veio a dar aquelle bello espirito do maior improvisador e
+do maior bohemio da Coimbra de ha vinte annos!<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+<i>Camêllas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse
+tempo, chorai por elle e.... por vós!</p>
+
+<p>Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem,
+como advogado, uma grande clientella posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua
+competencia em questões do civel não soffre rivalidade. Escrevendo nos
+processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.</p>
+
+<p>Ás duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escriptorio. Os clientes
+voltarão, se quizerem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.</p>
+
+<p>Á noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monoculo posto,
+frequenta a confeitaria do Anacleto á rua de S. Marcos. Uma coincidencia
+leva-me a suspeitar que João Penha rivalisa na gulodice de bolos finos com o
+glorioso Sampaio da <i>Revolução</i>, de veneranda memoria. Vindo todos os
+annos á Povoa<span class="pn">{19}</span> de Varzim, na epoca de banhos, é na
+confeitaria contigua ao <i>Café Chinez</i> que elle apparece ás noites, sempre
+de luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.</p>
+
+<p>Que ao menos o saboroso bôlo de côco possa adoçar as horas amargas da sua
+banca de advogado!</p>
+
+<p>&mdash;Snr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeiamos do
+<i>americano</i> no Campo de Sant'Anna, olhe que a queston do rego tem furo.
+Num m'a avandone. </p>
+
+<p>E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:</p>
+
+<p>&mdash;Não se esqueça de lêr a <i>Nature</i> de Hollinat. É soberba!</p>
+
+<p>Ó salgueiraes do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+<i>Camêllas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flôr dos rapazes d'esse
+tempo, chorai por elle e... por vós!<span class="pn">{20}<br>{21}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00020000000000000000">II</a> </h1>
+
+<p>Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da
+bohemia, e o poeta do amor.</p>
+
+<p>São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que
+frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e nos
+improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto<span
+class="pn">{22}</span> de Lamego e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes
+e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que
+preside com o applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de
+alegria e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal.
+</p>
+
+<p>Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje na
+tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo <i>sachet</i> de vida
+antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.
+</p>
+
+<p>A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.</p>
+
+<p>Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de
+monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de Apollo de
+Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de folhas de parra
+verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do alcool.<span
+class="pn">{23}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Oh vós, que do canto sois velhos freguezes,<br>
+ Ouvi d'estas lyras o mélico emprego!<br>
+ Nós somos as gêmas, os bifes inglezes,<br>
+ Os paios das filhas do claro Mondego.</p>
+
+ <p>Sorri-nos a vida nos calices cheios.<br>
+ Dos roixos falernos das parras da Beira;<br>
+ Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;<br>
+ Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.</p>
+
+ <p>Nos mostos papyros da sciencia moderna<br>
+ A droga se encontra que ao somno convida;<br>
+ Queimémol-os todos, que só na taberna<br>
+ Os livros se encontram da sciencia da vida.</p>
+
+ <p>Ao vento os cabellos! por montes e valles<br>
+ Corramos no passo das gregas choréas!<br>
+ Bachantes das praças, vibrae os cymbales!<br>
+ Abri-nos as portas, gentis Galathéas!</p>
+</blockquote>
+
+<p>A lenda das noites das Camêllas, personificada em João Penha, subsistiu como
+uma das seducções tradicionaes da vida academica.</p>
+
+<p>Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novissimos, o que tem
+mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna,
+torturada pela nevrose,<span class="pn">{24}</span> confessa a suggestão d'essa
+lenda bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos
+toneis impantes:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>......... A Tasca das Camêllas<br>
+ Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte annos,
+espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camêllas a pessoa do doutor
+João Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e radiosa das
+noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas libações; partira-se, e
+partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castellos
+abandonados por principes cujo destino é ainda um mysterio. E Antonio Nobre,
+relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de
+desespero truculento:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Tia Camêllas... só ficou a camellice.<span class="pn">{25}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>O que lembra uma situação analoga cantada por Delille nos <i>Jardins</i>:
+</p>
+
+<blockquote>
+ <p>......... Telle jadis Carthage<br>
+ Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Dir-se-ia que tinham desapparecido com João Penha e com o seu tempo essas
+télas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camêllas; paineis
+pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia sorrir ainda,
+coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do <i>Vinho e fel</i>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Dá-me esse onagro de vigor silvestre,<br>
+ E os ôdres fundos, oh Sileno antigo:<br>
+ Ensina-me na dor: só tu és mestre.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum marmore
+de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braços de um Satyro
+inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado<span
+class="pn">{26}</span> de evohés e de beijos, e de que só restava, inscripto no
+sôcco da esculptura mutilada, um sonetilho de João Penha:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Oh poetas d'agua fria!<br>
+ Dizei-me: a vossa musa.<br>
+ Será como a andalusa<br>
+ Que as noites me abrevia?</p>
+
+ <p>Olhai-a: que poesia!<br>
+ Na dórna da Arethusa<br>
+ Lá enche agora a infusa<br>
+ De classica ambrosia,</p>
+
+ <p>E aos labios de cereja<br>
+ Eleva, airosa e rindo,<br>
+ O copo de cerveja!</p>
+
+ <p>Oh quadro novo e lindo!<br>
+ Musas, chorai de inveja,<br>
+ Musas, descei do Pindo!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anecdotas, os episodios das
+noites das Camêllas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição d'essa
+bohemia extincta, que<span class="pn">{27}</span> sôa ao longe, e que exalta a
+imaginação dos rapazes. Para Antonio Nobre era um «sonho», que o attraiu a
+Coimbra, como a devoção de Meca attrae o arabe.</p>
+
+<p>Elle tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem
+perder a donairosa compostura de um <i>gentleman</i>, que jamais esquecia as
+luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma «taça», nome aristocratico com
+que nas Camêllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria,
+João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mysterio,
+segredava:</p>
+
+<p>&mdash;Repita a dóse para um envergonhado, que está ali fóra...</p>
+
+<p>Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvasiava a segunda
+«taça», simulando passal-a á mão de um embuçado de melodrama.</p>
+
+<p>Antonio Nobre conhecia a tradição, a anecdota, o pittoresco da lenda, mas,
+quando<span class="pn">{28}</span> chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia
+de João Penha, na Tasca das Camêllas e na Via Latina, a lembrança de que
+passára outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Tia Camêllas... só ficou a camellice.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João Penha
+bohemio.</p>
+
+<p>Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as
+satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das gerações.</p>
+
+<p>Todos elles sabem de cór o famoso caso do incendio, que João Penha noticiava
+para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade biblica, um castigo do
+ceu, que o deixára despojado de todos os seus escassos haveres de estudante:
+</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Foi um incendio voraz!<br>
+ Parecia a propria Gomorra!<span class="pn">{29}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na
+chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios castamente impollutos de uma
+bôca impeccavel, onde só os eufemismos floriam como lirios brancos.</p>
+
+<p>Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem
+advogado, e n'esse tempo deputado por Braga.</p>
+
+<p>Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão,
+costumava dizer d'elle:</p>
+
+<p>&mdash;O seu unico vicio sou eu.</p>
+
+<p>De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos de
+bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que irradiou até á
+raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda nacional.</p>
+
+<p>Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o <i>Zabumba</i> e a
+<i>Gaita de folles</i>, que<span class="pn">{30}</span> João Penha publicou na
+<i>Sebenta</i>, no quarto e quinto anno; mas as quadras e sonetos, em que a
+alegria mordaz esfusiava diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a
+tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites
+de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos
+epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do
+Pinto Lambaça!</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Em pé, diante do Brito,<br>
+ Dá lição Pinto Lambaça:<br>
+ Parece a voz do Infinito<br>
+ A sair d'uma cabaça!</p>
+</blockquote>
+
+<p>E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Tamagnini Encarnação<br>
+ Tem na ponta do nariz<br>
+ O colorido feliz<br>
+ De uma rosa do Japão.<span class="pn">{31}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do condiscipulo Ennes:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A lettra dos teus assumptos<br>
+ Bem nos demonstra quem és:<br>
+ Vale dois <i>nn</i> bem juntos,<br>
+ É lettra de quatro pés.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ha poucos dias, no <i>In illo tempore</i> das <i>Novidades</i>, li o
+epigramma com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches
+da Gama:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Dizem que o Sanches embirra<br>
+ Que lhe vão pedir dispensa.<br>
+         Forte asneira!<br>
+ &mdash;Imagina que lhe pedem<br>
+         A despensa<br>
+ Onde tem a salgadeira...</p>
+</blockquote>
+
+<p>Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto <i>A um doutor
+Pedro</i>, que póde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na profundidade
+do conceito. Pelo que<span class="pn">{32}</span> toca ao doutor, a tradição
+universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E vimos uma forma horrenda e bruta<br>
+ Surgir do lôdo vil com gesto iroso,<br>
+ Como out'rora, no Cabo Tormentoso,<br>
+ O velho Adamastor de barba hirsuta.</p>
+
+ <p>&mdash;«Quem és tu?» eu lhe disse.&mdash;«Bardo, escuta,<br>
+ (Bramiu com voz ingente e desdenhoso)<br>
+ Eu sou no espaço infindo e luminoso<br>
+ O verbo ideial da estupidez corrupta.</p>
+
+ <p>«Na terra sou Penedo: e o mar violento,<br>
+ O mar das sciencias vãs da humanidade,<br>
+ Já quiz vencer-me, e foi baldado o intento!»</p>
+
+ <p>Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade<br>
+ O cantico d'um tremulo jumento:<br>
+ &mdash;Era o preito da terra á Immensidade.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as gerações
+subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme. Antonio Nobre
+tambem molhou a<span class="pn">{33}</span> sua sôpa no capêllo que encima o
+zingamôcho do cathedratico zangaralhão:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!<br>
+ Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!<br>
+ Mal diria eu em pequenito, quando a ama,<br>
+ Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama<br>
+ Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,<br>
+ Que eras tu o <i>Papão</i>! A ama, de olhos em fogo<br>
+ Imitava-te o andar, que não era bem de homem...<br>
+ Eu tinha birras:&mdash;Ahi vem o lobishomem!<br>
+ Dizia ella.&mdash;Bate á porta! Truz! truz! truz!<br>
+ E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de João
+Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, attraia todas as
+attenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patricia do
+verbo flammejante, como no soneto <i>A uma rabequista</i>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Eu dera um litro do meu sangue azul,<br>
+ (Oh meus avôs, não fulmineis o hereje!)<span class="pn">{34}</span><br>
+ Só por beijar-te, no chapim taful,<br>
+ O pequenino pé, que orchestras rege!<a name="tex2html6"
+ href="#foot285"><sup>[6]</sup></a></p>
+</blockquote>
+
+<p>A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima, dizia-me ha
+pouco João Penha:</p>
+
+<p>&mdash;O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu dissuadi-o d'esse
+intento... por ciumes.</p>
+
+<p>Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo, como João Penha
+foi, na<span class="pn">{35}</span> phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo
+estudante de Coimbra.</p>
+
+<p>N'aquella quadra, como na organisação artistica de João Penha, incluindo a
+sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de <i>vieille roche</i> das
+lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro Saint Germain,
+elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da lingua, a lição classica
+dos mestres, a compostura aristocratica da phrase, que não chega a
+desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se na satyra. Canta o Paio de luva
+branca, sem que fique na pellica uma nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem
+entornar no collarinho a mancha roixa da bôrra. E se passa da tasca das
+Camêllas para o salão nobre da Poesia madrigalesca, substitue facilmente a
+batina rôta pela casaca broslada, é um cortezão de Luiz <small>XIV</small>
+quando empunha a taça, refulgente de aureas facetas, para brindar as damas
+delicadas:<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>D'este copo de vinho generoso<br>
+ Dai-me que eu tire o alento que desejo,<br>
+ Para que o novo canto, sonoroso,<br>
+ Desfira na guitarra em doce arpejo;<br>
+ E já que estou devéras amoroso,<br>
+ Aproveito apressado um tal ensejo<br>
+ Para erguer á leitora, que me escuta,<br>
+ Um brinde que me deixe a taça enxuta.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio, do
+poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do <i>Homem do
+gaz</i>, do <i>Varão do Luxemburgo</i>, do <i>Conselheiro Rodrigo</i>, e da
+<i>Tia Maria Camêlla</i>.</p>
+
+<p>Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna,
+não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista
+de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de vista João Penha e a
+<i>Folha</i> exerceram uma sensivel influencia. O soneto da escola italiana,
+tão abandonado como antiqualha árcade depois de Bocage, resurgiu no acuro
+parnasiano<span class="pn">{37}</span> de João Penha. E todos os da
+<i>Folha</i>, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes artistas
+no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo, Junqueiro, Simões
+Dias, Candido de Figueiredo, etc.<span class="pn">{38}<br>{39}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00030000000000000000">III</a> </h1>
+
+<p>Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma
+idealisação, uma phantasia de artista.</p>
+
+<p>Eu não encontrava, nos sonetos do <i>Vinho e Fel</i>, a abstracção
+absorvente de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa
+o coração, reduzindo-o a cinzas.</p>
+
+<p>A Ironia andava de braço dado com o<span class="pn">{40}</span> Amor, no
+lyrismo de João Penha, mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do
+que como a crua expressão da Verdade.</p>
+
+<p>Não descobria atravez das <i>Rimas</i> o typo constante, persistente, de uma
+mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis
+differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas.</p>
+
+<p>Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do <i>Vinho e Fel</i>, a
+impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a alma
+na voragem do scepticismo.</p>
+
+<p>Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação romantica, que se comprazia
+em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo, puramente
+ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento.</p>
+
+<p>É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu
+considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia:<span
+class="pn">{41}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Um rosto encantador, quasi moreno,<br>
+ De uns grandes olhos verdes animado:<br>
+ Negro o cabello, em tranças ennastrado;<br>
+ Correcto o supercilio, iris sereno;</p>
+
+ <p>Vermelho o labio, sorridente e ameno;<br>
+ Breve a cintura; o collo, assetinado;<br>
+ Um donaire, das outras invejado;<br>
+ Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:</p>
+
+ <p>Eis a dama por quem chorando anhélo!<br>
+ Rival das graças do cinsel iónio,<br>
+ Mas fria como a neve: o meu flagello!</p>
+
+ <p>Eis a minha Nathercia, o cruel demonio<br>
+ Por quem vivo perdido, mas tão bello<br>
+ Que nem lhe resistira Santo Antonio!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção artistica
+de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a produzir effeitos
+pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do bohemio
+com a inspiração sentimental do lyrico.</p>
+
+<p>Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair sobre o
+retrato da<span class="pn">{42}</span> primeira pagina o peso de um paio roliço
+de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada:
+</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Mal pode phantasiar-te a mente accêsa<br>
+ Tão gentil como quando, venturoso,<br>
+ Te vi a vez primeira, ébrio de goso,<br>
+ Estatico de pasmo e de surpreza.</p>
+
+ <p>Que prodigio de esplendida bellesa!<br>
+ Que labios, que sorrir, que olhar piedoso!<br>
+ Que opulento cabello... um mar undoso<br>
+ Onde escondêras a gentil nudeza!</p>
+
+ <p>Assentada n'um banco de verdura,<br>
+ Junto á margem do múrmuro Mondêgo,<br>
+ De um Corregio vencêras a pintura.</p>
+
+ <p>Ai! perdi, desde então, paz e socego:<br>
+ Se estavas tão graciosa em tal postura,<br>
+ E comias um paio de Lamego!</p>
+</blockquote>
+
+<p>E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada
+calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta, que não
+encontrava na realidade<span class="pn">{43}</span> da vida a mulher ideial das
+suas noites de phantasia romantica.</p>
+
+<p>O paio parecia-me na obra de João Penha um symbolo de salutar desengano para
+os que criam na espiritualidade ethérea da mulher e que, regressando
+alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar rehabilitação salvadora na
+despensa, no <i>réstaurant</i>, e na cava.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>És minha, és minha, oh venturoso fado!<br>
+ Cedeste á chamma que em meu peito alento!<br>
+ Chegou por fim o divinal momento,<br>
+ O dia de meus sonhos anhelado!</p>
+
+ <p>O ceu, ha pouco tôrvo, eil-o azulado:<br>
+ Sussurra esmorecido ao longe o vento;<br>
+ Esplende o sol no ethereo firmamento;<br>
+ Recende aromas o florente prado.</p>
+
+ <p>Quando ha pouco a teus pés (oh quadro lindo!)<br>
+ Te disse o meu amor, em doce esmaio<br>
+ Senti volupias de um prazer infindo.</p>
+
+ <p>Oh camênas agricolas, cantai-o!<br>
+ Ella, a minha formosa, ella fugindo,<br>
+ Deixou-me o coração, deixou-me o paio.<span class="pn">{44}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refem da sua esperança
+perdida, das suas illusões derrotadas, o paio,&mdash;a porção mais subjectiva
+do <i>eu</i> espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia,
+como o porco do rebanho de Epicuro, <i>Epicuri de grege porcus</i>.</p>
+
+<p>Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretação d'este symbolo
+culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecêl-a a clara
+exegése d'este soneto:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Aquella Rosa branca, a flor mais viva<br>
+ Dos jardins olorosos de Granada,<br>
+ Já não parece a flor enamorada,<br>
+ Triste por viver só, viver captiva.</p>
+
+ <p>Outr'ora, em seu mirante, pensativa,<br>
+ Muitas vezes a luz da madrugada<br>
+ A via entre boninas, enlevada,<br>
+ Nos sons d'uma guitarra fugitiva.</p>
+
+ <p>Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,<br>
+ A Elleonora das canções do Tasso,<br>
+ A Nathercia gentil do cantor luso,<span class="pn">{45}</span></p>
+
+ <p>Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,<br>
+ A citharas prefere a roca e o fuso,<br>
+ Aos meus cantos,&mdash;presuntos de Melgaço!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Sente-se na symbolica de João Penha a alma alegre de uma geração que teve
+sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar.</p>
+
+<p>Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como na
+antiga cosinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vasia, dá a
+impressão do apetite saluberrimo da ordem de Cistér.</p>
+
+<p>Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões
+bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados
+por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras.</p>
+
+<p>Um braço invisivel parece encaminhar o nosso espirito á vasta mesa do
+refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de comesana
+macissa, que o apetite<span class="pn">{46}</span> voraz ha de em breve vencer
+e desmoronar.</p>
+
+<p>Sóbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um prégador
+aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem fé e sem uncção,
+da diabolica attracção dos sete peccados mortaes, que os setecentos filhos de
+S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.</p>
+
+<p>E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria...</p>
+
+<p>Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o
+fundo do prato com os seus botões:&mdash;Que mulher conheci eu por lá que
+valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça?</p>
+
+<p>Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Cantai-me a vida, e o sonho transitorio!<br>
+ Cantai, emquanto á dor busco remedio<br>
+ Nos vastos caldeirões do refeitorio.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A raça, no breve lapso de vinte annos,<span class="pn">{47}</span>
+hysterisou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que allucinam
+funebremente o cerebro dos poetas modernos.</p>
+
+<p>Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconisava a
+Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no
+symbolismo tetrico da <i>Velha</i> (a morte) e do <i>Hotel da Cova</i> (a
+sepultura).</p>
+
+<p>E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser
+talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre
+os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o mesmo cheiro a lente
+cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta rançosa falla ainda mais alto
+que toda a concepção do Direito moderno explanada pelo snr. M. Fratel, porque,
+n'essa Coimbra vetusta, ha só uma coisa que falla mais alto que a
+Universidade,&mdash;é a <i>Cabra</i>.</p>
+
+<p>Continuando o <i>meio</i> a ser o mesmo, sendo<span class="pn">{48}</span>
+mesmissima a atmosphera social onde a mocidade academica respira, é claro que a
+variedade das impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes,
+tanto psychicas como physicas, do individuo que as recebe.</p>
+
+<p>Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amarantho, rubro
+como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa languida que
+desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve.</p>
+
+<p>Depois de haver escripto a <i>Carta a Manoel</i>, Antonio Nobre, sedento de
+ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no
+Bairro Latino, e lá mesmo se encontra <i>só</i> e desgraçado.</p>
+
+<p>João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funambulo, por
+sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taça repleta de
+phalerno.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Não ha dôr que resista a um vinho ardente,<br>
+ Nem ao facil amor de uma hespanhola.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppôr de
+longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de João
+Penha, a verdade é que elle amou, embora não andasse lutuosamente vestido de
+almáfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos melodramaticos,
+que aliás caricaturou.</p>
+
+<p>Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de
+fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe
+sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a...</p>
+
+<p>No fundo da biographia de João Penha está effectivamente a memoria de um
+amor, que inspirou <i>O Vinho e Fel</i> e <i>O Tancredo</i>, poema no genero do
+<i>Onofre</i>, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas
+em jornaes, não sahiu nas <i>Rimas</i>.<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebiamos, não para apagar a sêde
+ou para afogar paixões,&mdash;mas para dar tom aos nervos e activar os
+movimentos do machinismo intellectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho
+é o grande consolador dos tristes: <i>date vinum moerentibus et
+lætobunt...</i></p>
+
+<p>Esta phrase rasga o véo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na
+taça da bonomia.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Mas ri-se como quem chora,<br>
+ O bardo das scenas varias,<br>
+ Qual ri o mocho sombrio<br>
+ Sobre as loisas funerarias.</p>
+
+ <p>A noite na adega esconsa,<br>
+ D'uns candís á luz escassa,<br>
+ Quantas vezes não procura<br>
+ O esquecimento na taça!<br>
+ .......................<br>
+ Que já li sobre uma lage,<br>
+ Occulta, n'umas cavernas,<br>
+ Este sinistro epitaphio<br>
+ Do phantasma das tabernas:</p>
+
+ <p>«Aqui jaz o bardo triste<br>
+ Junto á bella Carolina:<span class="pn">{51}</span><br>
+ Riu-se a bella do rapaz,<br>
+ Riu-se o rapaz da menina.»</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adêga esconsa, á luz fumenta
+dos candis, emquanto a tia Camêlla despeja do pichel um gorgolão vermelho de
+phalerno:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Venho pedir-te o retrato<br>
+ Que te dei por amisade:<br>
+ Não quero servir de ornato<br>
+ Nos alcouces da cidade.</p>
+
+ <p>Quero laval-o nas ondas,<br>
+ Que gemem na praia agreste,<br>
+ D'aquellas manchas hediondas<br>
+ Dos beijos que tu lhe déste.</p>
+
+ <p>Quero arrancar-lhe a moldura,<br>
+ O teu cabello, e trocal-o<br>
+ Por uma trança mais pura<br>
+ Das crinas do meu cavallo.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão plena de romantismo,
+em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no palco quando
+Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face de Margarida
+Gautier.<span class="pn">{52}</span></p>
+
+<p><i>És da raça dos Borgias!</i> vocifera o poeta, mas traça a capa de
+estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão</p>
+
+<blockquote>
+ <p>... nos bôjos da amphora vetusta.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz, um dia, o pé no
+estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle,
+deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á vida
+murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga.</p>
+
+<p>Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não
+conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava, prompta e
+cabal:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Mais frio que Blondin sobre o Niagára,<br>
+ Julgas minh'alma em vis paixões accesa;<br>
+ E comtudo nas ostras da bellesa<br>
+ Eu só procuro o amor, perola rara.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mas, não encontrando a perola rara, tomava<span class="pn">{53}</span> o
+partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso
+tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos
+possivel.</p>
+
+<p>Convém notar que João Ponha deu o titulo de <i>Lyra de Pangloss</i> a uma
+das subdivisões das suas <i>Rimas</i>.</p>
+
+<p>Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos desfeitos,
+das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espirito,</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Aquelle meu espirito opulento,<br>
+ Que vivia na luz dos sonhos bellos,</p>
+</blockquote>
+
+<p>vira morrer os «ultimos anhelos», mas resistira, graças ao sabio formulario
+do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer</p>
+
+<blockquote>
+ <p>... em tão doce obesidade,<br>
+ Que dentro em pouco me vereis no transe<br>
+ De tomar ordens e fazer-me abbade.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A gente sahe da leitura das <i>Rimas</i> tão bem<span class="pn">{54}</span>
+disposta como João Penha sahiu de Coimbra.</p>
+
+<p>Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no
+nosso espirito a impressão de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes e
+chorões, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e de
+cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore.</p>
+
+<p>Pelo contrario, as <i>Rimas</i> de João Penha são como um pomar do Minho,
+uberrimo e cantante, onde a côr dos fructos se tinge de tonalidades sadias,
+onde o despenho da agua sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e
+onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma bambochata feliz de
+collegiaes em liberdade.</p>
+
+<p>É com a impresão de ter visitado um d'estes pomares feracissimos e alegres
+que a gente fecha o volume das <i>Rimas</i>.<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00040000000000000000">IV</a> </h1>
+
+<p>Em litteratura, João Penha é hoje, como hontem, um conservador convicto, um
+idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de originalidade
+saudavel.</p>
+
+<p>As suas opiniões são conhecidas.<a name="tex2html7"
+href="#foot286"><sup>[7]</sup></a><span class="pn">{56}</span></p>
+
+<p>Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma unica e
+determinada philosophia, porque não ha relação proxima ou remota entre os seus
+trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que
+lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, será eterna, porque eternamente o
+homem «perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas
+horas do seu dia, no mundo das illusões.»</p>
+
+<p>Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si mesma,
+ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo seu talento
+de observação.</p>
+
+<p>João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: n'aquella,
+é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não sejam communs»;
+n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são descriptas, não como o artista
+as possa vêr, mas como a multidão as vê.»<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais longe
+do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo e o realismo.
+O famoso auctor do <i>Roman expérimental</i> adoptou como formula generica o
+naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso á
+natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»</p>
+
+<p>Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes ou
+vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em baixo.</p>
+
+<p>«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du
+sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il
+m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne
+saurait se tromper.»</p>
+
+<p>Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos
+e<span class="pn">{58}</span> dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que
+os corpos girem no azul ou na terra.</p>
+
+<p>Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero
+synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos
+modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos
+vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.</p>
+
+<p>Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas obras do espirito
+humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover.</p>
+
+<p>A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na orientação da
+medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de sciencia, que
+pretende guiar o espirito na investigação da verdade.</p>
+
+<p>Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho; pelo contrario,
+prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu.<span
+class="pn">{59}</span></p>
+
+<p>Portanto está fóra da esphera da arte, que é fundamentalmente suggestiva e
+emotiva.</p>
+
+<p>Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores
+franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas
+da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada.</p>
+
+<p>A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no prefacio da
+<i>Tristia</i>, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos
+<i>nephelibatas</i>.</p>
+
+<p>Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que
+defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias não
+ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra
+recente dos novissimos:</p>
+
+<p>&mdash;Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto poesia sem
+rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem medida,
+é prosa.<span class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com que Theophilo
+Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie
+moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même».
+</p>
+
+<p>Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da phrase de
+Junqueiro nos <i>Simples</i>: «A fórma poetica encaminha-se á solução final.
+Horisonte immenso.»</p>
+
+<p>Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai até
+onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os limites da
+metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem
+quebra da arte e do genio da lingua. Castilho introduziu na fórma poetica a
+novidade dos exdruxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela
+nacionalisação dos alexandrinos francezes. Thomaz Ribeiro, no <i>D. Jayme</i> e
+na <i>Delphina</i>, percorreu todos os metros admissiveis<span
+class="pn">{61}</span> na versificação portugueza, empregando o de treze
+syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo organico da lingua
+portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu que, por amor da variedade,
+se poderia tentar ainda a medição latina e resuscitar a toante castelhana,<a
+name="tex2html8" href="#foot287"><sup>[8]</sup></a> Mas os poetas que vieram
+depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos elles a
+respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a
+metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu vêr não era
+menos monotona que o <i>refrain</i> dos nephelibatas): nada d'isto fizeram,
+preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais syllabas,
+intercalaram rubricas em prosa no estiramento kilometrico do verso, e para que
+o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão<span
+class="pn">{62}</span> de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o tripartido,
+privando-o da cadencia que deleitava o ouvido.</p>
+
+<p>Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do
+romantismo</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Prosa e verso têm balizas,</p>
+</blockquote>
+
+<p>exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e logica: que os
+poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto á pureza da
+lingua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o anno passado
+lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre
+Boileau:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Sans la langue... l'auteur le plus divin<br>
+ Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as innovações
+barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel<span
+class="pn">{63}</span> valor, á parte os vicios de escola, como por exemplo o
+snr. Julio Brandão, quando diz:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E citharas balança um côro vago de <i>pucellas</i>.<br>
+ Rostos morenos, <i>brunos</i>, pallidos, divinos.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte revolucionaria dos
+modernos poetas portugueses. Ver-se-ha então que admiro a concepção genial de
+uns, e que faço justiça a todos.</p>
+
+<p>Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensavel da
+arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer&mdash;da arte. E estou em
+opposição a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima evolução poetica
+rasga horisontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista da fórma e da
+expressão.»<a name="tex2html9" href="#foot288"><sup>[9]</sup></a></p>
+
+<p>P. de Varzim&mdash;Novembro de 1893.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot281" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Palavras suas em
+annotação ao volume dos <i>Simples</i>.</p>
+
+<p><a name="foot282" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> «D'uma visão mais
+intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções, e portanto
+<i>uma nova arte</i>. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento
+psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda litteraria, meramente verbal e
+de superficie.»</p>
+
+<p><a name="foot80" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> «Emquanto á technica
+do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota não fosse escripta
+rapidamente, com o impressor á espera.»</p>
+
+<p>&mdash;Notas aos Simples.</p>
+
+<p><a name="foot283" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <i>Morte de D.
+João.</i></p>
+
+<p><a name="foot284" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <i>A Velhice do Padre
+Eterno.</i></p>
+
+<p><a name="foot285" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> A plastica d'esta
+quadra foi alterada na sua transplantação da <i>Folha</i> para as
+<i>Rimas</i>.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Déra um quartilho do meu sangue azul<br>
+ (Oh meus avós, estremecei na campa!)<br>
+ Por dar-te um beijo no chapim taful,<br>
+ Que esconde um pé, de se gravar na estampa.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Tal era, na <i>Folha</i>, a primitiva feitura. A originalidade do pensamento
+nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os
+bachareis em direito são os primeiros a desacatar a lei!</p>
+
+<p><a name="foot286" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Expostas no prefacio
+á <i>Tristia</i> de Anthero de Figueiredo.</p>
+
+<p><a name="foot287" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>Vesperas</i>; pag.
+219.</p>
+
+<p><a name="foot288" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Prefacio ao <i>Livro
+de Aglaïs</i>.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 4px #000; padding: 1em;">
+<h2>Preço 250 reis</h2>
+
+<p>A collecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não obstante
+a apathia do mercado litterario, abrangerá, do modo mais completo possivel, a
+larga e gloriosa lista de <i>todos</i> os poetas modernos do Minho.</p>
+
+<p>O auctor dedica os seus dois primeiros estudos a J<small>OÃO
+</small>P<small>ENHA</small> e A<small>LMEIDA </small>B<small>RAGA</small>, que
+nasceram na capital da provincia, mas traçará, seguidamente, o perfil de outros
+poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Vianna do Castello, Barcellos, Ponte
+do Lima, etc.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+</div>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="border: solid 5px #666; text-align: center; padding: 1em;">
+
+<p><big><big><a name="grafia_moderna">Ortografia actualizada.</a></big></big></p>
+
+<p><small><small><a href="#grafia_original">(Ver Ortografia original.)</a></small></small></p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 4px #000;">
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">I</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p>
+
+<p>CRUZ &amp; C.ª&mdash;EDITORES<br>
+<small>MDCCCXCIV</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">POETAS DO MINHO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; font-size: 0.8em;">
+<p>BRAGA<br>
+TIP. «MINERVA COMERCIAL»<br>
+José Maria de Sousa Cruz<br>
+<small>1893</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">Poetas do Minho</p>
+<hr style="width: 30%">
+
+<p style="font-size: 2em;">I</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">JOÃO PENHA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.1em;">BRAGA</p>
+
+<p>LIVRARIA ESCOLAR DE CRUZ &amp; C.ª<br>
+EDITORES</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Aquele meu espírito opulento,<br>
+ Que vivia na luz dos sonhos belos,<br>
+ Jaz há muito nas ruínas dos castelos,<br>
+ Que no ar edifica o pensamento.</p>
+
+ <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o para que os
+ outros o leiam. Quer, portanto, produzir um efeito qualquer, efeito que, em
+ todo o caso, não pode ser o do sono: para este há o opio, a Beladona e o
+ Código do Processo Civil.»</p>
+
+ <p style="text-align:right;"><i>João Penha.</i> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="corpo">
+<h1><a name="SECTION000100">I</a> </h1>
+
+<p>Há quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo banco do
+<i>americano</i>, vínhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversávamos de
+literatura. Nomes de autores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo
+em que ele redigia a <i>Folha</i> em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum
+insignificante auxilio de colaborador, passavam rapidamente na
+precipitação<span class="pn">{8}</span> tumultuante do dialogo, a cada momento
+interrompido pelas paragens do <i>tramway</i>, pela entrada e saída de
+passageiros, pela voz autoritária do condutor, que explicava em dialecto
+calaico:</p>
+
+<p>&mdash;Bai cheio. Num há lugar.</p>
+
+<p>Tendo João Penha aludido a mais de um dos poetas, que constituíram a
+constelação académica da <i>Folha</i>, para entrelembrar casos e anedotas da
+boémia coimbrã, disse-lhe eu de repente:</p>
+
+<p>&mdash;Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho tempo, respondeu ele. Encheriam três volumes.</p>
+
+<p>Três volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenáculo
+numeroso, que viveu na alegria e nas letras, que teve aventuras e triunfos, e
+que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada
+com prestigio na tradição académica.<span class="pn">{9}</span> Ele, erguido no
+pedestal que o voto unânime dos seus contemporâneos lhe havia consagrado, via
+do alto, como um ídolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava,
+observava todas as evoluções caprichosas dessa legião gentilissima de rapazes
+talentosos, que se moviam em torno dele, conhecia todos os segredos da
+biografia de uma geração, que há de ficar eternamente lembrada. Três volumes,
+pelo menos, e não seriam de mais.</p>
+
+<p>Mas percebe-se que lhe custe meter ombros a um labor de reconstrução
+histórica em que a pena seria como um estilete a revolver dolorosamente o
+coração saudoso do escritor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa
+altívola mocidade académica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no
+fonógrafo literário da <i>Folha</i> e de uma boa dezena de poemas, eu que senti
+rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir<span
+class="pn">{10}</span> ás tempestades explosivas da cratera, eu próprio
+experimento a vaga nostalgia da Coimbra daquele tempo vendo envelhecer em
+Lisboa, na prosa da burocracia, do foro, do professorado e do parlamento, os
+poetas que há vinte anos constituíam a ala vitoriosa dos novos comandada por
+João Penha.</p>
+
+<p>E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem
+agravos, nem compêndios, dormem prematuramente o somo da morte na apoteose
+serena, sem invejas, mas também sem desilusões, daqueles que, como Gonçalves
+Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro
+fugitivo.</p>
+
+<p>Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da Câmara dos Pares. O seu
+espírito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que
+era como que o último elo da sua tradição académica. Tinha passado de Coimbra
+para Lisboa serenamente,<span class="pn">{11}</span> sem tempestades da vida,
+que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu
+lar, a morte foi como um salteador que surpreende um viajante a dormir na
+pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro num momento. Os outros que
+ficaram ainda, são como as árvores no Outono, que dia a dia vão sendo sacudidas
+e abaladas pela nortada agreste, que anuncia o inverno.</p>
+
+<p>É difícil adivinhar hoje na melancólica indiferença de Simões Dias, que
+passa através de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido,
+aquela brilhante alma meridional do poeta das <i>Peninsulares</i>, onde
+cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinóis do Mondego.</p>
+
+<p>Cândido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes, embora não fosse das
+mais vulcânicas, cansado de repartir os restos da sua mocidade entre a cátedra
+de professor<span class="pn">{12}</span> e a Secretaria da Justiça, correu ao
+encontro da velhice, denominou-se voluntariamente <i>Caturra</i>, atirou-se ás
+questões de filologia, e conseguiu tornar-se rabugento contra os que escrevem
+<i>aereonauta</i> com um e supérfluo.</p>
+
+<p>Este correctíssimo poeta da <i>Folha</i> é hoje um suicídio ambulante.
+Mata-se a ensinar a língua portuguesa a quem a não quer saber. Já um ministério
+lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Vila Real. Cândido de
+Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu
+a Lisboa, deu-se pressa em publicar <i>Novas lições praticas da língua
+portuguesa</i>.</p>
+
+<p>Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por aí, como
+todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantizava na
+<i>Folha</i> as lendas do alto Alentejo, um que só doutorou em direito, e
+estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva
+na<span class="pn">{13}</span> Universidade para os braços do senhor José
+Luciano no Parlamento.</p>
+
+<p>Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de falar nos palratórios de
+Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguém treme de medo quando ele
+pede a palavra na câmara.</p>
+
+<p>&mdash;E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-há o
+luciolante apostolado que o rodeia na cervejaria do Camanho.</p>
+
+<p>Junqueiro, se houvéssemos de dar credito a todas as suas apreensões
+patológicas, está «precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida».<a
+name="u_tex2html1" href="#u_foot281"><sup>[1]</sup></a> Sinceramente desejo que
+os factos venham desmentir esta apreensão.</p>
+
+<p>Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,<span class="pn">{14}</span> era na
+Coimbra daquele tempo, na <i>Folha</i> principalmente, a promessa florescente
+de um lírico primoroso, depois transviado, e a meu ver atormentado, pela
+preocupação constante de reformar a estética<a name="u_tex2html2"
+href="#u_foot282"><sup>[2]</sup></a>, a técnica<a name="u_tex2html3"
+href="#u_foot80"><sup>[3]</sup></a>, o Olimpo dos românticos<a
+name="u_tex2html4" href="#u_foot283"><sup>[4]</sup></a>, o paraíso dos
+católicos<a name="u_tex2html5" href="#u_foot284"><sup>[5]</sup></a>, de fundar
+escola e de atingir a perfeição suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu
+próprio conceito, são os <i>Simples</i>.</p>
+
+<p>E talvez não sejam.</p>
+
+<p>Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como<span class="pn">{15}</span> todos os
+outros, um satélite que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado,
+antes adorado, do cenáculo, da boémia, e da <i>Folha</i>.</p>
+
+<p>O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as ilusões desses rapazes que eram
+então a fina flor da geração académica. Deles, os que não estão ainda velhos
+por fora, começam a descair na tristeza, não direi do ocaso da vida, como
+apreensivamente afirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da experiência dura
+do mundo.</p>
+
+<p>João Penha, o primaz da tribo, é advogado em Braga, trabalha honestamente
+para sustentar a sua família. Está ao corrente de todas as novidades literárias
+que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de Paris em
+primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escritório, uma chusma de
+clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já
+depois<span class="pn">{16}</span> dele ter fechado o seu escritório ás duas
+horas da tarde, invariavelmente.</p>
+
+<p>Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em
+serviço&mdash;disse-me ele&mdash;ás sete horas da manhã. A seu lado, no
+<i>tramway</i>, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido
+do advogado.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do rego.
+Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira dela. (Ela era a
+parte contraria, uma mulher).</p>
+
+<p>Questão de águas: a mais generalizada espécie de litígios no Minho.</p>
+
+<p>João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia imperturbavelmente resignado
+e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das frases
+equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, naquela hora, sob
+o céu azul, radioso de sol, uma vitima do Direito, que legisla sobre regos e
+outras coisas mais;&mdash;do Direito que<span class="pn">{17}</span> ele pudera
+amenizar em Coimbra com as sátiras escritas na aula, com os sonetos publicados
+na <i>Folha</i>, com a boémia alegre das <i>Camêlas</i> e do <i>Homem do
+gás</i>.</p>
+
+<p>Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hércules. Fazia dó,
+fazia pena ver João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a
+quem ele não podia responder, com um repente de Bocage, num epigrama vingador.
+</p>
+
+<p>Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas à volta do
+Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo <i>americano</i>, interpus-me ao
+demandista e a ele, e conversamos de varia literatura,&mdash;muralha da China
+Contra a qual esbarraram, infrutiferamente, duas investidas do brácaro
+Chicaneau, que parecia recortado dos <i>Plaideurs</i> de Racine.</p>
+
+<p>Aqui esta no que veio a dar aquele belo espírito do maior improvisador e do
+maior boémio da Coimbra de há vinte anos!<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>Ó salgueirais do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+<i>Camelas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flor dos rapazes desse
+tempo, chorai por ele e.... por vós!</p>
+
+<p>Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem,
+como advogado, uma grande clientela posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua
+competência em questões do cível não sofre rivalidade. Escrevendo nos
+processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.</p>
+
+<p>Às duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escritório. Os clientes
+voltarão, se quiserem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.</p>
+
+<p>À noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monóculo posto,
+frequenta a confeitaria do Anacleto à rua de S. Marcos. Uma coincidência
+leva-me a suspeitar que João Penha rivaliza na gulodice de bolos finos com o
+glorioso Sampaio da <i>Revolução</i>, de veneranda memória. Vindo todos os anos
+à Póvoa<span class="pn">{19}</span> de Varzim, na época de banhos, é na
+confeitaria contigua ao <i>Café Chinês</i> que ele aparece ás noites, sempre de
+luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.</p>
+
+<p>Que ao menos o saboroso bolo de coco possa adoçar as horas amargas da sua
+banca de advogado!</p>
+
+<p>&mdash;Sr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeámos do
+<i>americano</i> no Campo de Santana, olhe que a queston do rego tem furo. Num
+m'a avandone.</p>
+
+<p>E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:</p>
+
+<p>&mdash;Não se esqueça de ler a <i>Nature</i> de Holinat. É soberba!</p>
+
+<p>Ó salgueirais do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das
+<i>Camelas</i>, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flor dos rapazes desse
+tempo, chorai por ele e... por vós!<span class="pn">{20}<br>{21}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000200">II</a> </h1>
+
+<p>Na individualidade literária de João Penha há a distinguir o poeta da
+boémia, e o poeta do amor.</p>
+
+<p>São dois homens reunidos num único homem. O primeiro é o estudante que
+frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrizando-se nas libações e nos
+improvisos; que canta os paios do Alentejo, o presunto<span
+class="pn">{22}</span> de Lamego e os falernos da Beira; que satiriza os lentes
+e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenáculo a que
+preside com o aplauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de
+alegria e de mocidade, ele consubstancia numa saliente concretização
+pessoal.</p>
+
+<p>Os seus versos, as suas anedotas de boémio noctívago correm ainda hoje na
+tradição universitária, impregnados desse fugitivo <i>sachet</i> de vida
+antiga, que é a gloria melancólica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.</p>
+
+<p>A baiúca da Camela, sem ele, ficou solitária como um templo vazio.</p>
+
+<p>Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de
+monóculo no olho, capa traçada, numa atitude elegante e vigorosa de Apolo de
+Belvedére, cantando no templo, sob um imaginário baldaquino de folhas de parra
+verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do álcool.<span
+class="pn">{23}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Oh vós, que do canto sois velhos fregueses,<br>
+ Ouvi destas liras o mélico emprego!<br>
+ Nós somos as gemas, os bifes ingleses,<br>
+ Os paios das filhas do claro Mondego.</p>
+
+ <p>Sorri-nos a vida nos cálices cheios.<br>
+ Dos roxos falernos das parras da Beira;<br>
+ Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;<br>
+ Sorri-nos dos bosques a Vénus ligeira.</p>
+
+ <p>Nos mostos papiros da ciência moderna<br>
+ A droga se encontra que ao sono convida;<br>
+ Queimemo-los todos, que só na taberna<br>
+ Os livros se encontram da ciência da vida.</p>
+
+ <p>Ao vento os cabelos! por montes e vales<br>
+ Corramos no passo das gregas coreias!<br>
+ Bacantes das praças, vibrai os címbales!<br>
+ Abri-nos as portas, gentis Galateias!</p>
+</blockquote>
+
+<p>A lenda das noites das Camelas, personificada em João Penha, subsistiu como
+uma das seduções tradicionais da vida académica.</p>
+
+<p>António Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas novíssimos, o que tem
+mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna,
+torturada pela nevrose,<span class="pn">{24}</span> confessa a sugestão dessa
+lenda boémia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pira sobre o tampo dos
+toneis impantes:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>......... A Tasca das Camelas<br>
+ Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrelas.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mas quando António Nobre chegou a Coimbra, uma barreira de vinte anos,
+espessos como vinte séculos, separava da tasca das Camelas a pessoa do doutor
+João Penha, advogado nos auditórios de Braga. A alma espumante e radiosa das
+noites da boémia partira-se como a tapa das últimas libações; partira-se, e
+partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castelos
+abandonados por príncipes cujo destino é ainda um mistério. E António Nobre,
+relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de
+desespero truculento:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Tia Camelas... só ficou a camelice.<span class="pn">{25}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>O que lembra uma situação análoga cantada por Delile nos <i>Jardins</i>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>......... Tele jadis Carthage<br>
+ Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Dir-se-ia que tinham desaparecido com João Penha e com o seu tempo essas
+telas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camelas; painéis pagãos,
+dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fábula parecia sorrir ainda, coroada de
+pâmpanos, no verso báquico do autor do <i>Vinho e fel</i>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Dá-me esse onagro de vigor silvestre,<br>
+ E os odres fundos, oh Sileno antigo:<br>
+ Ensina-me na dor: só tu és mestre.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum mármore
+de Pradier em que uma Bacante andaluza, cingida nos braços de um Sátiro
+inspirado, parecia entoar um ditirambo amoroso, cortado<span
+class="pn">{26}</span> de evohés e de beijos, e de que só restava, inscrito no
+sóco da escultura mutilada, um sonetilho de João Penha:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Oh poetas d'água fria!<br>
+ Dizei-me: a vossa musa.<br>
+ Será como a andaluza<br>
+ Que as noites me abrevia?</p>
+
+ <p>Olhai-a: que poesia!<br>
+ Na dórna da Aretusa<br>
+ Lá enche agora a infusa<br>
+ De clássica ambrósia,</p>
+
+ <p>E aos lábios de cereja<br>
+ Eleva, airosa e rindo,<br>
+ O copo de cerveja!</p>
+
+ <p>Oh quadro novo e lindo!<br>
+ Musas, chorai de inveja,<br>
+ Musas, descei do Pindo!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anedotas, os episódios das
+noites das Camelas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição dessa boémia
+extinta, que<span class="pn">{27}</span> soa ao longe, e que exalta a
+imaginação dos rapazes. Para António Nobre era um «sonho», que o atraiu a
+Coimbra, como a devoção de Meca atrai o árabe.</p>
+
+<p>Ele tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem
+perder a donairosa compostura de um <i>gentleman</i>, que jamais esquecia as
+luvas e o charuto, se limitava a esvaziar uma «taça», nome aristocrático com
+que nas Camelas a boémia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, João
+Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mistério, segredava:</p>
+
+<p>&mdash;Repita a dose para um envergonhado, que está ali fora...</p>
+
+<p>Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha esvaziava a segunda
+«taça», simulando passá-la à mão de um embuçado de melodrama.</p>
+
+<p>António Nobre conhecia a tradição, a anedota, o pitoresco da lenda, mas,
+quando<span class="pn">{28}</span> chegou a Coimbra, apenas restava da boémia
+de João Penha, na Tasca das Camelas e na Via Latina, a lembrança de que passara
+outrora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo secou.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Tia Camelas... só ficou a camelice.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que resta de João Penha
+boémio.</p>
+
+<p>Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vêm contar as
+sátiras, os epigramas que ele deixou gravados na memória das gerações.</p>
+
+<p>Todos eles sabem de cor o famoso caso do incêndio, que João Penha noticiava
+para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade bíblica, um castigo do
+céu, que o deixara despojado de todos os seus escassos haveres de estudante:
+</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Foi um incêndio voraz!<br>
+ Parecia a própria Gomorra!<span class="pn">{29}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na
+chalaça de Coimbra, a frase atribuída aos lábios castamente impolutos de uma
+boca impecável, onde só os eufemismos floriam como lírios brancos.</p>
+
+<p>Conheci em Lisboa, de o ver no parlamento, o irmão de João Penha, também
+advogado, e nesse tempo deputado por Braga.</p>
+
+<p>Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão,
+costumava dizer dele:</p>
+
+<p>&mdash;O seu único vício sou eu.</p>
+
+<p>De improvisos feitos na aula, escritos sobre o joelho e transmitidos de
+bancada em bancada, ficou em Coimbra memória imperecível, que irradiou até à
+raia do Minho e até à raia do Algarve, como uma lenda nacional.</p>
+
+<p>Perderam-se para a bibliografia os dois jornais, o <i>Zabumba</i> e a
+<i>Gaita de foles</i>, que<span class="pn">{30}</span> João Penha publicou na
+<i>Sebenta</i>, no quarto e quinto ano; mas as quadras e sonetos, em que a
+alegria mordaz esfuziava diariamente nessas folhas avulsas, salvaram-se para a
+tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites
+de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos
+epigramas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do
+Pinto Lambaça!</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Em pé, diante do Brito,<br>
+ Dá lição Pinto Lambaça:<br>
+ Parece a voz do Infinito<br>
+ A sair duma cabaça!</p>
+</blockquote>
+
+<p>E aquele outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Tamagnini Encarnação<br>
+ Tem na ponta do nariz<br>
+ O colorido feliz<br>
+ De uma rosa do Japão.<span class="pn">{31}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>E ainda aquele que joga de vocábulo com o nome do condiscípulo Ennes:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A letra dos teus assuntos<br>
+ Bem nos demonstra quem és:<br>
+ Vale dois <i>nn</i> bem juntos,<br>
+ É letra de quatro pés.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Há poucos dias, no <i>In ilo tempore</i> das <i>Novidades</i>, li o epigrama
+com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama:
+</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Dizem que o Sanches embirra<br>
+ Que lhe vão pedir dispensa.<br>
+         Forte asneira!<br>
+ &mdash;Imagina que lhe pedem<br>
+         A despensa<br>
+ Onde tem a salgadeira...</p>
+</blockquote>
+
+<p>Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto <i>A um doutor
+Pedro</i>, que pode ser considerado, o soneto, como inexcedível na profundidade
+do conceito. Pelo que<span class="pn">{32}</span> toca ao doutor, a tradição
+universitária apenas o considera inexcedível no esguio da figura;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E vimos uma forma horrenda e bruta<br>
+ Surgir do lodo vil com gesto iroso,<br>
+ Como outrora, no Cabo Tormentoso,<br>
+ O velho Adamastor de barba hirsuta.</p>
+
+ <p>&mdash;«Quem és tu?» eu lhe disse.&mdash;«Bardo, escuta,<br>
+ (Bramiu com voz ingente e desdenhoso)<br>
+ Eu sou no espaço infindo e luminoso<br>
+ O verbo ideal da estupidez corrupta.</p>
+
+ <p>«Na terra sou Penedo: e o mar violento,<br>
+ O mar das ciências vãs da humanidade,<br>
+ Já quis vencer-me, e foi baldado o intento!»</p>
+
+ <p>Disse. E ouvimos naquela obscuridade<br>
+ O cântico dum trémulo jumento:<br>
+ &mdash;Era o preito da terra à Imensidade.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Sobre os inextinguíveis vestígios desta sátira têm caminhado as gerações
+subsequentes, cantando o doutor incomensuravelmente filiforme. António Nobre
+também molhou a<span class="pn">{33}</span> sua sopa no capelo que encima o
+zingamôcho do catedrático zangaralhão:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!<br>
+ Que feliz sou, bom velho, em estudar contigo!<br>
+ Mal diria eu em pequenito, quando a ama,<br>
+ Para eu me calar, vinha fazer-me susto à cama<br>
+ Por ti chamava: Pedro! e eu sossegava logo,<br>
+ Que eras tu o <i>Papão</i>! A ama, de olhos em fogo<br>
+ Imitava-te o andar, que não era bem de homem...<br>
+ Eu tinha birras:&mdash;Aí vem o lobisomem!<br>
+ Dizia ela.&mdash;Bate à porta! Truz! truz! truz!<br>
+ E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Nas mais alucinantes tempestades de entusiasmo académico a musa de João
+Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, atraía todas as
+atenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patrícia do
+verbo flamejante, como no soneto <i>A uma rabequista</i>:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Eu dera um litro do meu sangue azul,<br>
+ (Oh meus avós, não fulmineis o herege!)<span class="pn">{34}</span><br>
+ Só por beijar-te, no chapim taful,<br>
+ O pequenino pé, que orquestras rege!<a name="u_tex2html6"
+ href="#u_foot285"><sup>[6]</sup></a></p>
+</blockquote>
+
+<p>A respeito desta rabequista, que era uma italiana lindíssima, dizia-me há
+pouco João Penha:</p>
+
+<p>&mdash;O Manuel da Assumpção queria casar com ela e eu dissuadi-o desse
+intento... por ciúmes.</p>
+
+<p>Pobre Manuel! ele foi o primeiro romântico do seu tempo, como João Penha
+foi, na<span class="pn">{35}</span> frase de Gonçalves Crespo, o último
+estudante de Coimbra.</p>
+
+<p>Naquela quadra, como na organização artística de João Penha, incluindo a sua
+modalidade de boémio, há um cunho brasonado de <i>vieile roche</i> das letras.
+Conservador como a melhor nobreza parisiense do bairro Saint Germain, ele ama a
+tradição da Arte, os velhos pergaminhos da língua, a lição clássica dos
+mestres, a compostura aristocrática da frase, que não chega a desfraldar-se no
+epigrama, nem a esbagaxar-se na sátira. Canta o Paio de luva branca, sem que
+fique na pelica uma nódoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no colarinho
+a mancha roxa da borra. E se passa da tasca das Camelas para o salão nobre da
+Poesia madrigalesca, substitui facilmente a batina rota pela casaca broslada, é
+um cortesão de Luís <small>XIV</small> quando empunha a taça, refulgente de
+áureas facetas, para brindar as damas delicadas:<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Deste copo de vinho generoso<br>
+ Dai-me que eu tire o alento que desejo,<br>
+ Para que o novo canto, sonoroso,<br>
+ Desfira na guitarra em doce arpejo;<br>
+ E já que estou deveras amoroso,<br>
+ Aproveito apressado um tal ensejo<br>
+ Para erguer à leitora, que me escuta,<br>
+ Um brinde que me deixe a taça enxuta.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendário de João Penha boémio, do
+poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do <i>Homem do
+gás</i>, do <i>Varão do Luxemburgo</i>, do <i>Conselheiro Rodrigo</i>, e da
+<i>Tia Maria Camela</i>.</p>
+
+<p>Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna,
+não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista
+de raça, que adorava o primor da forma. Sob este ponto de vista João Penha e a
+<i>Folha</i> exerceram uma sensível influência. O soneto da escola italiana,
+tão abandonado como antiqualha árcade depois de Bocage, ressurgiu no acuro
+parnasiano<span class="pn">{37}</span> de João Penha. E todos os da
+<i>Folha</i>, que navegavam na esteira do mestre, saíram excelentes artistas no
+cinzelamento escultural da forma literária: Crespo, Junqueiro, Simões Dias,
+Cândido de Figueiredo, etc.<span class="pn">{38}<br>{39}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000300">III</a> </h1>
+
+<p>Para João Penha, como poeta lírico, o amor parecia não ser mais que uma
+idealização, uma fantasia de artista.</p>
+
+<p>Eu não encontrava, nos sonetos do <i>Vinho e Fel</i>, a abstracção
+absorvente de Petrarca, a paixão abrasadora como lava, o Vesúvio que vulcaniza
+o coração, reduzindo-o a cinzas.</p>
+
+<p>A Ironia andava de braço dado com o<span class="pn">{40}</span> Amor, no
+lirismo de João Penha, mais como um efeito pitoresco da Arte, supunha eu, do
+que como a crua expressão da Verdade.</p>
+
+<p>Não descobria através das <i>Rimas</i> o tipo constante, persistente, de uma
+mulher, embora se me afigurasse que de recordações avulsas e de perfis
+diferentes criara o poeta o elemento feminino dos seus poemas.</p>
+
+<p>Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do <i>Vinho e Fel</i>, a
+impressão de uma grande catástrofe psicológica, que lhe precipitasse a alma na
+voragem do cepticismo.</p>
+
+<p>Parecia-me que a sua musa obedeceu à orientação romântica, que se comprazia
+em polvilhar de gotas de fel, como um efeito decorativo, puramente ornamental,
+a corola das flores ideais do Sentimento.</p>
+
+<p>É verdade que no escrínio das Rimas havia a miniatura de uma mulher, mas eu
+considerava-a, se me permitem a expressão, um retrato de fantasia:<span
+class="pn">{41}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Um rosto encantador, quase moreno,<br>
+ De uns grandes olhos verdes animado:<br>
+ Negro o cabelo, em tranças enastrado;<br>
+ Correcto o supercílio, íris sereno;</p>
+
+ <p>Vermelho o lábio, sorridente e ameno;<br>
+ Breve a cintura; o colo, acetinado;<br>
+ Um donaire, das outras invejado;<br>
+ Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:</p>
+
+ <p>Eis a dama por quem chorando anelo!<br>
+ Rival das graças do cinzel iónio,<br>
+ Mas fria como a neve: o meu flagelo!</p>
+
+ <p>Eis a minha Natércia, o cruel demónio<br>
+ Por quem vivo perdido, mas tão belo<br>
+ Que nem lhe resistira Santo António!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Este soneto afigurava-se-me como o primeiro elo de uma concepção artística
+de poeta, de um plano literário preconcebido, que visava a produzir efeitos
+pela antítese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do boémio com
+a inspiração sentimental do lírico.</p>
+
+<p>Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigrama deixasse cair sobre o
+retrato da<span class="pn">{42}</span> primeira pagina o peso de um paio roliço
+de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura
+delicada:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Mal pode fantasiar-te a mente acesa<br>
+ Tão gentil como quando, venturoso,<br>
+ Te vi a vez primeira, ébrio de gozo,<br>
+ Estático de pasmo e de surpresa.</p>
+
+ <p>Que prodígio de esplêndida beleza!<br>
+ Que lábios, que sorrir, que olhar piedoso!<br>
+ Que opulento cabelo... um mar undoso<br>
+ Onde esconderas a gentil nudeza!</p>
+
+ <p>Assentada num banco de verdura,<br>
+ Junto à margem do múrmuro Mondego,<br>
+ De um Corregio venceras a pintura.</p>
+
+ <p>Ai! perdi, desde então, paz e sossego:<br>
+ Se estavas tão graciosa em tal postura,<br>
+ E comias um paio de Lamego!</p>
+</blockquote>
+
+<p>E logo, como na travação lógica de um poema, cuja traça foi gisada
+calculadamente, o paio continuava a materializar a desilusão do poeta, que não
+encontrava na realidade<span class="pn">{43}</span> da vida a mulher ideal das
+suas noites de fantasia romântica.</p>
+
+<p>O paio parecia-me na obra de João Penha um símbolo de salutar desengano para
+os que criam na espiritualidade etérea da mulher e que, regressando alquebrados
+do País do Sonho, ainda podem achar reabilitação salvadora na despensa, no
+<i>réstaurant</i>, e na cava.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>És minha, és minha, oh venturoso fado!<br>
+ Cedeste à chama que em meu peito alento!<br>
+ Chegou por fim o divinal momento,<br>
+ O dia de meus sonhos anelado!</p>
+
+ <p>O céu, há pouco torvo, hei-lo azulado:<br>
+ Sussurra esmorecido ao longe o vento;<br>
+ Esplende o sol no etéreo firmamento;<br>
+ Recende aromas o florente prado.</p>
+
+ <p>Quando há pouco a teus pés (oh quadro lindo!)<br>
+ Te disse o meu amor, em doce esmaio<br>
+ Senti volúpias de um prazer infindo.</p>
+
+ <p>Oh camênas agrícolas, cantai-o!<br>
+ Ela, a minha formosa, ela fugindo,<br>
+ Deixou-me o coração, deixou-me o paio.<span class="pn">{44}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refém da sua esperança
+perdida, das suas ilusões derrotadas, o paio,&mdash;a porção mais subjectiva do
+<i>eu</i> espiritual da dama, o paio, um símbolo, o paio, uma filosofia, como o
+porco do rebanho de Epicuro, <i>Epicuri de grege porcus</i>.</p>
+
+<p>Se alguma dúvida pudesse restar sobre a interpretação deste símbolo
+culinário, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecê-la a clara
+exegese deste soneto:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Aquela Rosa branca, a flor mais viva<br>
+ Dos jardins olorosos de Granada,<br>
+ Já não parece a flor enamorada,<br>
+ Triste por viver só, viver cativa.</p>
+
+ <p>Outrora, em seu mirante, pensativa,<br>
+ Muitas vezes a luz da madrugada<br>
+ A via entre boninas, enlevada,<br>
+ Nos sons duma guitarra fugitiva.</p>
+
+ <p>Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,<br>
+ A Eleonora das canções do Tasso,<br>
+ A Natércia gentil do cantor luso,<span class="pn">{45}</span></p>
+
+ <p>Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,<br>
+ A cítaras prefere a roca e o fuso,<br>
+ Aos meus cantos,&mdash;presuntos de Melgaço!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Sente-se na simbólica de João Penha a alma alegre de uma geração que teve
+sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gozar.</p>
+
+<p>Respira-se aí o aroma aperitivo de um suculento jantar fradesco, como na
+antiga cozinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vazia, dá a
+impressão do apetite salubérrimo da ordem de Cistér.</p>
+
+<p>Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões
+bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados
+por água diamantina, as frutas deliciosas e maduras.</p>
+
+<p>Um braço invisível parece encaminhar o nosso espírito à vasta mesa do
+refeitório cisterciense, onde a gula monástica levanta castelos de comezana
+maciça, que o apetite<span class="pn">{46}</span> voraz há de em breve vencer e
+desmoronar.</p>
+
+<p>Sobe ao púlpito, enquanto os outros devoram pingues vitualhas, um pregador
+aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, fala, sem fé e sem unção, da
+diabólica atracção dos sete pecados mortais, que os setecentos filhos de S.
+Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.</p>
+
+<p>E especifica: a soberba, a avareza, a luxúria...</p>
+
+<p>Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o
+fundo do prato com os seus botões:&mdash;Que mulher conheci eu por lá que
+valesse esta bela petisqueira de Alcobaça?</p>
+
+<p>Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Cantai-me a vida, e o sonho transitório!<br>
+ Cantai, enquanto à dor busco remédio<br>
+ Nos vastos caldeirões do refeitório.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A raça, no breve lapso de vinte anos,<span class="pn">{47}</span>
+histerizou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que alucinam
+funebremente o cérebro dos poetas modernos.</p>
+
+<p>Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o Presunto, preconizava a
+Vida, ao passo que António Nobre deixa entenebrecer o seu espírito no
+simbolismo tétrico da <i>Velha</i> (a morte) e do <i>Hotel da Cova</i> (a
+sepultura).</p>
+
+<p>E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu, continua a ser
+talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre
+os ombros do doutor Pedro a mesma Torre de ciência, há o mesmo cheiro a lente
+catedrático e a bolor autoritário, a Pandecta rançosa fala ainda mais alto que
+toda a concepção do Direito moderno explanada pelo sr. M. Fratel, porque, nessa
+Coimbra vetusta, há só uma coisa que fala mais alto que a Universidade,&mdash;é
+a <i>Cabra</i>.</p>
+
+<p>Continuando o <i>meio</i> a ser o mesmo, sendo<span class="pn">{48}</span>
+mesmíssima a atmosfera social onde a mocidade académica respira, é claro que a
+variedade das impressões recebidas se há de explicar pelas condições especiais,
+tanto psíquicas como físicas, do individuo que as recebe.</p>
+
+<p>Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce o amaranto, rubro
+como a púrpura e como... o paio: em António Nobre temos a musa lânguida que
+desabrocha a pálida cecém, perfumada, mas branca como a neve.</p>
+
+<p>Depois de haver escrito a <i>Carta a Manuel</i>, António Nobre, sedento de
+ideais consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no
+Bairro Latino, e lá mesmo se encontra <i>só</i> e desgraçado.</p>
+
+<p>João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como um funâmbulo, por
+sobre todos os desgostos do amor íntimo, sem entornar a taça repleta de
+falerno.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>Não há dor que resista a um vinho ardente,<br>
+ Nem ao fácil amor de uma espanhola.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Porque a verdade, ao contrário do que eu e outros poderíamos supor de longe,
+enganados pela aparência picarescamente irónica dos versos de João Penha, a
+verdade é que ele amou, embora não andasse lutuosamente vestido de almáfega,
+nem passeasse merencório e sinistro como os bardos melodramáticos, que aliás
+caricaturou.</p>
+
+<p>Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de
+fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe
+sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipá-la...</p>
+
+<p>No fundo da biografia de João Penha está efectivamente a memória de um amor,
+que inspirou <i>O Vinho e Fel</i> e <i>O Tancredo</i>, poema no género do
+<i>Onofre</i>, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas
+em jornais, não saiu nas <i>Rimas</i>.<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebíamos, não para apagar a sede
+ou para afogar paixões,&mdash;mas para dar tom aos nervos e activar os
+movimentos do maquinismo intelectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho
+é o grande consolador dos tristes: <i>date vinum moerentibus et
+lætobunt...</i></p>
+
+<p>Esta frase rasga o véu de um segredo, que o vinho letificante diluiu na taça
+da bonomia.</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Mas ri-se como quem chora,<br>
+ O bardo das cenas várias,<br>
+ Qual ri o mocho sombrio<br>
+ Sobre as loisas funerárias.</p>
+
+ <p>A noite na adega esconsa,<br>
+ D'uns candís à luz escassa,<br>
+ Quantas vezes não procura<br>
+ O esquecimento na taça!<br>
+ .......................<br>
+ Que já li sobre uma lage,<br>
+ Oculta, numas cavernas,<br>
+ Este sinistro epitáfio<br>
+ Do fantasma das tabernas:</p>
+
+ <p>«Aqui jaz o bardo triste<br>
+ Junto à bela Carolina:<span class="pn">{51}</span><br>
+ Riu-se a bela do rapaz,<br>
+ Riu-se o rapaz da menina.»</p>
+</blockquote>
+
+<p>Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adega esconsa, à luz fumenta
+dos candis, enquanto a tia Camela despeja do pichel um gorgolão vermelho de
+falerno:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Venho pedir-te o retrato<br>
+ Que te dei por amizade:<br>
+ Não quero servir de ornato<br>
+ Nos alcouces da cidade.</p>
+
+ <p>Quero lavá-lo nas ondas,<br>
+ Que gemem na praia agreste,<br>
+ Daquelas manchas hediondas<br>
+ Dos beijos que tu lhe deste.</p>
+
+ <p>Quero arrancar-lhe a moldura,<br>
+ O teu cabelo, e trocá-lo<br>
+ Por uma trança mais pura<br>
+ Das crinas do meu cavalo. </p>
+</blockquote>
+
+<p>Estes gritos de desespero fazem lembrar aquela sazão plena de romantismo, em
+que Dumas Filho obtinha um duplo triunfo no romance e no palco quando Armand
+Duval arremessava a bolsa recheada de oiro à face de Margarida Gautier.<span
+class="pn">{52}</span></p>
+
+<p><i>És da raça dos Borgias!</i> vocifera o poeta, mas traça a capa de
+estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão</p>
+
+<blockquote>
+ ... nos bojos da ânfora vetusta.</blockquote>
+
+<p>Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta pôs, um dia, o pé no
+estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi ele,
+deixando-a a ela, aos sinceirais do Mondego, ao País azul do sonho e à vida
+murciana de Coimbra. Nessa hora surgiu mais um advogado em Braga.</p>
+
+<p>Poderiam, erradamente, supô-lo volúvel, inconstante no amor os que não
+conheciam os segredos da sua biografia, que a resposta não tardava, pronta e
+cabal:</p>
+
+<blockquote>
+ Mais frio que Blondin sobre o Niagára,<br>
+ Julgas minh'alma em vis paixões acesa;<br>
+ E contudo nas ostras da beleza<br>
+ Eu só procuro o amor, pérola rara.</blockquote>
+
+<p>Mas, não encontrando a pérola rara, tomava<span class="pn">{53}</span> o
+partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso
+tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos
+possível.</p>
+
+<p>Convém notar que João Ponha deu o título de <i>Lira de Pangloss</i> a uma
+das subdivisões das suas <i>Rimas</i>.</p>
+
+<p>Saindo de Coimbra, não chorava sobre as ruínas dos seus sonhos desfeitos,
+das suas ilusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espírito,</p>
+
+<blockquote>
+ Aquele meu espírito opulento,<br>
+ Que vivia na luz dos sonhos belos,</blockquote>
+
+<p>vira morrer os «últimos anelos», mas resistira, graças ao sábio formulário
+do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer</p>
+
+<blockquote>
+ ... em tão doce obesidade,<br>
+ Que dentro em pouco me vereis no transe<br>
+ De tomar ordens e fazer-me abade.</blockquote>
+
+<p>A gente sai da leitura das <i>Rimas</i> tão bem<span class="pn">{54}</span>
+disposta como João Penha saiu de Coimbra.</p>
+
+<p>Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no
+nosso espírito a impressão de um cemitério sombrio, umbroso de ciprestes e
+chorões, dealbado de mausoléus luarentos, como diria um nefelibata, e de cruzes
+tiritantes de frio na gélida nudez do mármore.</p>
+
+<p>Pelo contrário, as <i>Rimas</i> de João Penha são como um pomar do Minho,
+ubérrimo e cantante, onde a cor dos frutos se tinge de tonalidades sadias, onde
+o despenho da água sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e onde os
+pássaros, nas latadas verdes, assobiam numa bambochata feliz de colegiais em
+liberdade.</p>
+
+<p>É com a impressão de ter visitado um destes pomares feracissimos e alegres
+que a gente fecha o volume das <i>Rimas</i>.<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION000400">IV</a> </h1>
+
+<p>Em literatura, João Penha é hoje, como ontem, um conservador convicto, um
+idealista, um romântico, intransigente, mas brilhante de originalidade
+saudável.</p>
+
+<p>As suas opiniões são conhecidas.<a name="u_tex2html7"
+href="#u_foot286"><sup>[7]</sup></a><span class="pn">{56}</span></p>
+
+<p>Para ele a escola romântica, sem estar subordinada a uma única e determinada
+filosofia, porque não há relação próxima ou remota entre os seus três grandes
+poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que lhe vibrem os
+revolucionários da literatura, será eterna, porque eternamente o homem
+«perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas horas do
+seu dia, no mundo das ilusões.»</p>
+
+<p>Na escola romântica, o que impressiona, o que comove, é a obra em si mesma,
+ao passo que na escola naturalista apenas se admira o autor pelo seu talento de
+observação.</p>
+
+<p>João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: naquela, é
+lícito admitir «personagens excepcionais, casos que não sejam comuns»; nesta,
+os modelos são vulgares, «as cousas são descritas, não como o artista as possa
+ver, mas como a multidão as vê.»<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>Notarei, de passagem, que nesta subdivisão, João Penha parece ir mais longe
+do que Emílio Zola, o qual envolve na mesma fórmula o naturalismo e o realismo.
+O famoso autor do <i>Roman expérimental</i> adoptou como fórmula genérica o
+naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso à
+natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»</p>
+
+<p>Mas, para Emílio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionais ou
+vulgares, que estejam no sete-estrelo ou no charco, no alto ou em baixo.</p>
+
+<p>«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du
+sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il
+m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne
+saurait se tromper.»</p>
+
+<p>Contanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos
+e<span class="pn">{58}</span> dos fenómenos, pouco parece importar a Zola que
+os corpos girem no azul ou na terra.</p>
+
+<p>Eu não estabeleço diferença entre naturalismo e realismo, que considero
+sinónimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos
+modelos excepcionais, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos
+vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.</p>
+
+<p>Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admite, nas obras do espírito
+humano, senão dois efeitos: o de instruir e o de comover.</p>
+
+<p>A fórmula de Zola, procedendo da análise, caminhando na orientação da
+medicina experimental de Cláudio Bernard, constitui uma obra de ciência, que
+pretende guiar o espírito na investigação da verdade.</p>
+
+<p>Não sensibiliza, não evola a alma até à região do sonho; pelo contrário,
+prende-a à terra, à realidade, como uma algema, um Prometeu.<span
+class="pn">{59}</span></p>
+
+<p>Portanto está fora da esfera da arte, que é fundamentalmente sugestiva e
+emotiva.</p>
+
+<p>Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores
+franceses se têm visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas da
+realidade por meio de uma tômbola, a franco a entrada.</p>
+
+<p>A profissão de fé literária de João Penha, exposta no prefácio da
+<i>Tristia</i>, não abrange a moderna escola poética, chamada, entre nós, dos
+<i>nefelibatas</i>.</p>
+
+<p>Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do ardor com que
+defende as tradições do idealismo romântico, se eu ainda há poucos dias não
+ouvisse, nítida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra
+recente dos novíssimos:</p>
+
+<p>&mdash;Não transijo com essa escola, disse-me ele. Não admito poesia sem
+ritmo, como não admito música sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, é
+prosa.<span class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>E dizia-mo com aquela ríspida firmeza de convicção com que Teófilo Gautier
+escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie moderne qui
+ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même».</p>
+
+<p>Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da frase de
+Junqueiro nos <i>Simples</i>: «A forma poética encaminha-se à solução final.
+Horizonte imenso.»</p>
+
+<p>Horizonte imenso, sim, porque já não há medida para o verso, que vai até
+onde quer ir. De outro modo não percebo a frase de Junqueiro. Os limites da
+metrificação portuguesa estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem
+quebra da arte e do génio da língua. Castilho introduziu na forma poética a
+novidade dos esdrúxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela
+nacionalização dos alexandrinos franceses. Tomás Ribeiro, no <i>D. Jaime</i> e
+na <i>Delfina</i>, percorreu todos os metros admissíveis<span
+class="pn">{61}</span> na versificação portuguesa, empregando o de treze
+sílabas, que já era demasiadamente violento para o ritmo orgânico da língua
+portuguesa. E, feito isto, ele próprio reconheceu que, por amor da variedade,
+se poderia tentar ainda a medição latina e ressuscitar a toante castelhana,<a
+name="u_tex2html8" href="#u_foot287"><sup>[8]</sup></a> Mas os poetas que
+vieram depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos
+eles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a
+métrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu ver não era
+menos monótona que o <i>refrain</i> dos nefelibatas): nada disto fizeram,
+preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais sílabas,
+intercalaram rubricas em prosa no estiramento quilométrico do verso, e para que
+o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão<span
+class="pn">{62}</span> de dois versos de seis sílabas, fizeram-no tripartido,
+privando-o da cadência que deleitava o ouvido.</p>
+
+<p>Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do
+romantismo</p>
+
+<blockquote>
+ Prosa e verso têm balizas,</blockquote>
+
+<p>exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e lógica: que os
+poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto à pureza da
+língua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o ano passado
+lembrava ele ao sr. Antero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre
+Boileau:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Sans la langue... l'auteur le plus divin<br>
+ Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as inovações
+bárbaras de quase todos os poetas modernos, alguns de incontestável<span
+class="pn">{63}</span> valor, à parte os vícios de escola, como por exemplo o
+sr. Júlio Brandão, quando diz:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E cítaras balança um coro vago de <i>pucelas</i>.<br>
+ Rostos morenos, <i>brunos</i>, pálidos, divinos.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Espero apreciar em breve, individualmente, a coorte revolucionária dos
+modernos poetas portugueses. Ver-se-há então que admiro a concepção genial de
+uns, e que faço justiça a todos.</p>
+
+<p>Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensável da
+arte e da língua, conquanto bastasse talvez dizer&mdash;da arte. E estou em
+oposição a Guerra Junqueiro quando afirma que a moderníssima evolução poética
+rasga horizontes inéditos, «sobretudo no ponto de vista da forma e da
+expressão.»<a name="u_tex2html9" href="#u_foot288"><sup>[9]</sup></a></p>
+
+<p>P. de Varzim&mdash;Novembro de 1893.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="u_foot281" href="#u_tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Palavras suas em
+anotação ao volume dos <i>Simples</i>.</p>
+
+<p><a name="u_foot282" href="#u_tex2html2"><sup>[2]</sup></a> «De uma visão
+mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas emoções, e portanto
+<i>uma nova arte</i>. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento
+psicológico, e não apenas uma evoluçãozinha toda literária, meramente verbal e
+de superfície.»</p>
+
+<p><a name="u_foot80" href="#u_tex2html3"><sup>[3]</sup></a> «Enquanto à
+técnica do poema, muitíssimo havia que dizer, se esta nota não fosse escrita
+rapidamente, com o impressor à espera.» </p>
+
+<p>&mdash;Notas aos Simples.</p>
+
+<p><a name="u_foot283" href="#u_tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <i>Morte de D.
+João.</i></p>
+
+<p><a name="u_foot284" href="#u_tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <i>A Velhice do
+Padre Eterno.</i></p>
+
+<p><a name="u_foot285" href="#u_tex2html6"><sup>[6]</sup></a> A plástica desta
+quadra foi alterada na sua transplantação da <i>Folha</i> para as <i>Rimas</i>.
+</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Dera um quartilho do meu sangue azul<br>
+ (Oh meus avós, estremecei na campa!)<br>
+ Por dar-te um beijo no chapim taful,<br>
+ Que esconde um pé, de se gravar na estampa. </p>
+</blockquote>
+
+<p>Tal era, na <i>Folha</i>, a primitiva feitura. A originalidade do pensamento
+nada perdeu, e o sistema métrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os
+bacharéis em direito são os primeiros a desacatar a lei! </p>
+
+<p><a name="u_foot286" href="#u_tex2html7"><sup>[7]</sup></a> Expostas no
+prefacio à <i>Tristia</i> de Antero de Figueiredo.</p>
+
+<p><a name="u_foot287" href="#u_tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <i>Vésperas</i>;
+pág. 219.</p>
+
+<p><a name="u_foot288" href="#u_tex2html9"><sup>[9]</sup></a> Prefacio ao
+<i>Livro de Aglaïs</i>.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: solid 4px #000; padding: 1em;">
+<h2>Preço 250 réis</h2>
+
+<p>A colecção de monografias que hoje encetamos patrioticamente, não obstante a
+apatia do mercado literário, abrangerá, do modo mais completo possível, a larga
+e gloriosa lista de <i>todos</i> os poetas modernos do Minho.</p>
+
+<p>O autor dedica os seus dois primeiros estudos a J<small>OÃO
+</small>P<small>ENHA</small> e A<small>LMEIDA </small>B<small>RAGA</small>, que
+nasceram na capital da província, mas traçará, seguidamente, o perfil de outros
+poetas brilhantes, nascidos em Guimarães, Viana do Castelo, Barcelos, Ponte do
+Lima, etc.<br>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
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+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK POETAS DO MINHO I - JOÃO PENHA ***
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
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+
+Procedures for determining public domain status are described in
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