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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Christo não volta + (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco) + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: May 15, 2010 [EBook #32381] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + CHRISTO NÃO VOLTA + + (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco) + + NARRATIVA + + POR + + ALBERTO PIMENTEL + + Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta + negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle + tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento + d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima + Providencia! Nada! Mas... voltareis, ó Christo? + + CAMILLO CASTELLO-BRANCO. + + LIVRARIA INTERNACIONAL + DE + ERNESTO CHARDRON + 96, Largo dos Clerigos, 98 + PORTO + + EUGENIO CHARDRON + 4, Largo de S. Francisco, 4-A + BRAGA + + 1873. + + PREÇO, 200 réis. + + + + +CHRISTO NÃO VOLTA + + + + +CHRISTO NÃO VOLTA + +(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco) + +NARRATIVA + +POR + +ALBERTO PIMENTEL + + Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta + negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle + tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento + d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima + Providencia! Nada! Mas... voltareis, ó Christo? + + CAMILLO CASTELLO-BRANCO. + +LIVRARIA INTERNACIONAL + +DE + +ERNESTO CHARDRON + +96, Largo dos Clerigos, 98 + +PORTO + +EUGENIO CHARDRON + +4, Largo de S. Francisco, 4-A + +BRAGA + +1873. + + + + + +PORTO: TYP. DE MANOEL JOSÉ PEREIRA + +Rua de Santa Thereza, n.º 4 a 6. + + + + +Cartas enviadas ao «Primeiro de Janeiro» + + +I + +Castello de Paiva, junho de 1873. + + MEU AMIGO. + +Como tem navegado Douro acima e conhece bem as planicies e montanhas que +a uma e outra margem se encontram, umas espraiando-se ao nivel da +corrente, outras erguendo-se ameaçadoras e aridas para o ceo, não me +dispenso de contar-lhe um caso triste e verdadeiro, porque o presenciei +eu, se bem que mal possa ser chronista, porque estou ainda na commoção +da surpreza. + +Encontrei-o no Porto, e disse-lhe que tinha de partir para Castello de +Paiva. Effectivamente parti no dia fixado. Não jornadeei por terra, o +que seria incomparavelmente mais rapido, porque me julguei obrigado, a +bem de meus proprios interesses, a acompanhar o barco carregado por +minha conta. Larguei do caes da Ribeira, cerca da meia noite, para +aproveitar a maré até Pé de Moira. Obedeço a um pedido não declarando o +dia. Cerca das onze horas da manhã estava em Pé de Moira, onde os +marinheiros e arraes almoçaram, comendo uns peixes fritos na barraca de +ramas de pinheiro, que o meu amigo conhece, e bebendo pela tradicional +bilha de barro vermelho. + +Ahi me prophetisou o arraes que o termo da viagem seria moroso, porque +não havia vento e o barco ia muito carregado. + +Resignei-me. + +Armou-se um tolde com a vela, accendi o meu cachimbo, bebi tambem, e +comecei a lêr os jornaes que trazia no bolso, disposto a viver sobre +agua o tempo que fosse preciso. + +Oh! enfadonha coisa este ante-diluviano processo de locomoção! Digo +ante-diluviano em rasão de Noé se ter salvo embarcado no dia da grande +submersão da terra. + +Li os jornaes de fio a pavio, como se diz não sei se em bom portuguez, +reli-os, decorei-os. Cheguei a devorar os annuncios com uma soffreguidão +de cannibal. Enguli e digiri todos os _barateiros_ e todos os +_precisa-se_. Comprehendi então o que ha de profundamente triste em +_precisar_; eu tambem precisava de chegar a casa o mais breve possivel e +todavia a terra firme estava para mim como a agua para Tantalo. Vi-a; e +tudo se ficava em vêl-a. + +Foi-me anoitecendo ainda a grande distancia de casa. Custou-me a +transigir com a necessidade de passar segunda noite no rio. Que me +importava a mim o luar, a ardentia das aguas, as vaporações embalsamadas +da natureza? Não sou poeta; já tive um pouco d'isso, é verdade, mas o +que mais ambiciono presentemente é dormir na minha cama, comer á minha +mesa, e calçar as minhas botas. + +Finalmente não havia remedio senão conformar-me ás circumstancias; o +homem nasceu para joguete; fui pois o que tem sido e ha de ser +perpetuamente o meu similhante. + +Cerrou-se-nos inteiramente a noite ao sopé das Victoreiras. O arraes deu +voz de lançar ferro; os marinheiros iam cansados de tirar o barco á +sirga e logo saltaram em terra para queimar sobre gravetos o seu +bacalhau. Puxei do meu taleigo e comi uma fatia de presunto de fiambre e +outra fatia de queijo. + +Depois que gregos e troyanos se banquetearam com o frugal repasto, +tractou-se de acamar e dormir. + +Os marinheiros acobertaram-se com as mantas e romperam, tarauteando +pelos narizes, em hymnos a Morpheu. Eu é que não nasci pagão; fui +remisso em render culto á tetrica divindade mythologica. Mexi-me, +remexi-me, rebuli-me e por mais d'uma vez accendi o meu rolinho de +viagem para dar batalha a pulgas, persevejos e demais bicharia, que +passava dos marinheiros para mim e de mim para os marinheiros. + +Cerca das onze horas da noite pareceu-me ouvir de repente o baque de um +corpo em terra, mas um segundo depois não pude duvidar ao ouvir um grito +surdo como o de quem cahia contra o solo. Chamei afflictivamente os +marinheiros, que despertaram roncando interrogações. + +--Que foi? Que é? perguntaram elles. + +--Ahi fóra cahiu gente! + +--Quem havia de cahir, senhor! + +--Ouvi distinctamente a queda, e um grito depois. + +--Um grito! + +--Posso affirmar; ouvi gritar com toda a certeza. + +Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Elles +accenderam o seu lampeãosinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas +fragas á procura d'agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir +alvarmente e a dizer que eu era dado a medo de bruxas. De repente +pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei silencio. Os marinheiros trocaram +entre si um olhar ironico, que para logo se volveu credulo, porque +distinctamente ouviram um gemido. + +--É alma perdida! disse um com voz tremula. + +--É naturalmente corpo perdido, objectei eu. Calem-se. Vamos a vêr se +nos orientamos. + +Apoz um longo intervallo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais +debilmente. Podemos orientar-nos. Eu marinhei á frente dos homens, +arrancando da mão d'um a lanterna. A pequena distancia pareceu-me vêr um +vulto estendido no chão. Baixei o lampeão e reconheci um corpo de +mulher. Os marinheiros estavam attonitos e como que receiosos +d'approximar-se. Fui eu quem, poisando o lampeão, levantou o corpo. +E--surpreza extraordinaria!--vi uma bonita mulher, se bem que +mortalmente pallida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado. +Estaria viva ou morta? Não sabiamos. A verdade é que estava fria como +cadaver. Os marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a +transportal-a ao barco. Deitamol-a, aspergimol-a, lavamos-lhe os +ferimentos e nem tempo tivemos--eu pelo menos--para pensar no +extraordinario do acontecimento. Hoje é que eu, ainda que mal, +reflexiono e me confirmo que não ha romance que seja absurdo. + + +II + +A formosa desconhecida continuava a estar immovel e fria, apesar dos +cuidados que lhe prodigalisamos e que, attentas as nossas +circumstancias, não podiam ser completos. + +Sabe que eu não sou piegas nem romantico,--o que significa o mesmo, +porque o romantecismo é a pieguice do espirito--mas confesso-lhe +francamente que me horrorisaram a solidão, a escuridade, a massa negra +das aguas e a massa negra das serras, o desamparo do homem entre a agua +que é fria e a rocha que é dura, entre ambas que são mudas e +surdas,--finalmente, o desagasalho, a impossibilidade de encontrar +soccorro! + +Como o Douro me pareceu differente d'aquelle extenso e caudaloso rio +nosso conhecido, meu e seu, quasi sempre placido, povoado de barcos, +animado de cantares, marginado de casinhas e campanarios que de longe a +longe se penduram das fragas, n'uma palavra, accidentado de tons +variados e por mais d'uma vez festivos! + +Ordinariamente, quando se viaja, tem-se saude. Vem a gente a lêr no +barco, a fumar, a conversar os marinheiros, a incital-os a que cantem ao +desafio, a comer a sua canja e a beber a sua pinga! + +Nada nos apavora então! Quando o barco passa por baixo das Victoreiras, +e se vê lá no alto, ameaçando eternamente despegar-se, aquella enorme +avalanche negra, informe, nem siquer lembra que os fraguedos, que se +encastellaram um dia, por uma evolução da natureza, podem rolar e +precipitar-se alguma hora, por outra evolução imprevista. Contenta-se a +gente com ouvir da bocca dos marinheiros uma tradição do sitio. + +--Alli, dizem elles, é que os homens trahidos trazem as mulheres a +despenhar-se. + +Elles não dizem isto por estas palavras, mas digo eu. E a gente +facilmente acredita que haja homens que se dêem ainda o incommodo de +jornadear por algumas horas para despenhar as mulheres adulteras, que já +estão despenhadas, e que haja mulheres, que depois de conhecerem o +vicio, tenham a virtude de se deixar morrer! + +A viagem pelo Douro, de dia, em boa disposição d'espirito e corpo, tem +alguma coisa de idyllio, d'Arcadia, de creendice, coisas impossiveis de +encontrar hoje em qualquer outra parte. É uma especie de Pantana, onde o +carneiro assado parece saltar-nos aos dentes, e a borracha trepar-nos +aos beiços, e onde a gente, olhando para as mãos, encontra cinco facas e +cinco garfos! Onde é hoje que se póde encontrar a realidade d'este ideal +de Pantana, a não ser n'uma viagem pelo Douro? Quem é hoje que come +com a mão, desde que o Monteverde publicou o _Manual encyclopedico_, +e nos exames do lyceu se ensina a dar ao queixo, quer dizer, a comer com +as mandibulas? + +Mas como o quadro muda de noite, santo Deus! quando terra, ceo e agua +são escuros, e está ao pé de nós um corpo frio, immovel, quando o nosso +espirito pergunta a si mesmo, para resolver um mysterio, se aquella +mulher, formosa e inanimada, gentil e desconhecida, será morta ou viva! + +E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber +o halito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espirito que +comprehenda a nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os +puros cadeirinhas do rio! Fazem tudo mechanicamente; teem força: puxam +por ella. Perdão, pelo que elles puxam é por nós, pelo barco, e por +elles mesmos. Podiam ter nascido bois, e nasceram homens. Tambem os +cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e nasceram gallegos. Que +a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana, comprehende-se, +porque tambem aquelle artista, que estava a fazer o demonio calcado pelo +archanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demonio, e +aproveitou a esculptura para fazer um santo deitado. + +O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de +riba-Doiro e os cidadãos de riba-Minho, é tão nobre, tão dedicada,--e +perdoe-se-me a vaidade de a estudar em mim mesmo--que logo me esqueci da +urgencia de abreviar a viagem, de descarregar em Castello de Paiva os +meus generos, e concentrei todas as minhas attenções n'aquella mulher +que não conhecia, que vagueava a deshoras por uma serra, com risco de +rolar ao Douro, sósinha com a sua ideia, que era provavelmente uma +grande dôr. + +Permitta-me--entre parenthesis--que chame á _dôr_ moral uma ideia e não +um sentimento. Isto é philosophia minha. Quando se acorda pela manhã, e +se _lembra_ a gente do soffrimento da vespera, é que continua a _sentir_ +o que na vespera sentiu. E que tal! approva? Eu quando fui d'uma vez ao +Porto, acompanhar o meu patricio Barros que ia fazer concurso para uma +cadeira de philosophia n'um lyceu do sul, e ouvi argumentar um tal +Albuquerque d'oculos verdes, adquiri a convicção de que tambem podia ser +philosopho, mais pelo que ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao +Barros. + +A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao +joelho. + +Pozessem no meu barco um farrabraz, um mata-mouros, um espadachim, ao pé +d'aquella mulher, e ainda que esse stentor não tivesse esposa, nem +filha, nem--ó prodigio!--tivesse mãe, elle sentiria o que eu senti, a +abnegação das situações anormaes, a ancia de valer a quem está carecido +de soccorro, a necessidade de saber se aquella mulher estava morta ou viva! + +Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as +minhas, a vêr se provocava a reacção; lembrei-me de que tinha aguardente +comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhal-a, ao +conchegar-lhe a roupa, senti que tinha no bolso papeis. + +Bem podia ser que alli estivesse a chave do enigma. + + +III + +Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda hontem lhe +tenha enviado a segunda carta sobre o extraordinario caso das +Victoreiras, não posso resistir á tentação de voltar hoje ao assumpto +para lhe communicar que por carta recebida agora do correio do Porto fui +ameaçado de não sei que medonhos perigos no caso de proseguir na +veridica historia da morta ou viva. + +Em nenhum acto da minha vida blasono de valente, mas tambem não é meu +costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em +proveito da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta, +é uma tremenda lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de +Castello de Paiva? Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região +ignorada? Eu não sei. O que posso affirmar é que a tenebrosa carta nem +me cheirou a certidão d'obito, nem estou em terra onde a supradita +carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, podesse converter-se em +realidade impunementemente. + +Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de +escandalos. Isto assim não póde ser,--que triumphe sempre o forte e +soffra sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escandalos e, +quando muito, publical-os desfigurados. Mas--erro imperdoavel!--o +escandalo é muitas vezes a lição e algumas vezes póde ser a cura. É +preciso que se espalhe, que se discuta, que se commente, com vagar, como +eu estou fazendo, para que a precipitação não cegue o entendimento. + +Este caso da morta ou viva tem surprehendido muita gente, mesmo em +Castello de Paiva. Era eu a unica pessoa que estava na confidencia +d'elle, porque fui a unica testimunha occular. A principio julguei dever +guardar segredo. Ao cabo, porém, de muitas noites de insomnia, resolvi +dar-lhe publicidade. Sabido apenas por mim, não aproveitaria a ninguem; +divulgado, algum proveito poderá levar á sociedade. + +Ha que tempos se anda ahi a fallar da emancipação da mulher! Mentira, +hypocrisia, infamia! + +A sociedade lança mão da these-emancipação para mais escravisar a +mulher, como os governos costumam exhibir o rotulo _melhoramentos +materiaes_ quando tentam vexar os povos com novos tributos. + +Querem estes philosophos de má morte emendar a natureza. A mulher não +nasceu para _senhora_ nem para _escrava_; a mulher é companheira. Como +esta palavra está a dizer, ella deve compartir comnosco alegrias e +dores, risos e lagrimas, flores e espinhos. Fallar-lhe em +emancipacão é suppor que havemos sido despotas ao ponto de lhe +roubarmos a liberdade relativa que lhe deviamos ter dado, e que lhe +queremos restituir; é proclamar a nossa propria vileza; é arrogar-nos +fatuamente a importancia de libertadores do genero humano. Escravisal-a +é aviltar nossos filhos até á condição de filhos d'escrava e +julgarmo-nos nós mesmos nas circumstancias de nossos filhos. + +Não ha emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é +sociedade conjugal. + +Portanto eu, philosopho montanhez, estarei sempre na brecha para atacar +qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são +viciosos, estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo. + +Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja +honra se quer subjeitar a um capricho, esquecendo-nos de que +deshonrando-a a ella nos deshonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher +a guitarra com que nos recreamos durante uma serenata e que ao romper do +dia, ebrios de mau vinho e mau prazer, atiramos pela janella fóra. Quem +a recolherá depois de a vêr no monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a +guitarra era mimosa, quando suspirava ao luar; tinha uma voz doce e +melodiosa que despertava vagos pensamentos na alma; podia ainda murmurar +cadencias se continuasse a ser dedilhada por mãos delicadas. Mas nós, +que a principio mal poisavamos os dedos nas cordas, que a julgavamos +intermedio entre a nossa alma e a natureza, porque era ella, a guitarra, +que estava fallando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por +ultimo cahir em cheio a mão sobre o fragil instrumento e fizemos estalar +uma corda, que precedeu o estalar de todas as outras. + +Pois a corda que estalou chamava-se--honra; depois d'ella estalaram +todas as outras, que se podem chamar--pundonor, brio, fé. A mulher, +quando chega a este destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não +se peja de haver cahido; não tem brio, porque não pensa em +rehabilitar-se; não tem fé, porque já não acredita na propria +rehabilitação nem na rehabilitação das outras. + +Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja +do adello. + +Ou morre ou se vende. + +Não, philosophos da philosophia de Mahomet, que sustentaes o _crê ou +morres_, não, em nome de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas +esposas, de nossas filhas, havemos, nós, os que temos dignidade e +coração, de quebrar aos vossos pés essas duas laminas d'aço cortante que +limitam o vosso perfido dilemma. E como o havemos de fazer? Desvendando +a mulher, avisando-a, apontando-lhe o exemplo. + +Meu amigo,--perdoe-me esta dissertação que era precisa, depois de lhe +haver annunciado a recepção d'uma carta ameaçadora, e previna os seus +leitores de que eu d'aqui em diante entrarei directamente no assumpto. + + +IV + +Quer que lhe explique o meu demorado silencio? + +Dias depois de publicada a terceira carta, recebo pelo correio outra de +letra desconhecida. + +Abro e leio: + +«Ill.mo snr: + +«Vejo que é um homem esforçado e brioso, para quem todas as ameaças são +nullas. Perdoe-me o havel-o comprehendido mal, tomando-o como +pusillanime. Lance tudo á conta do meu desespero de me vêr justamente +accusado em muitos relanços das suas cartas, e falsamente incriminado +n'outros. Foi uma infamia, que a sua magnanimidade perdoará, e que o meu +arrependimento redimirá. Peço-lhe porém--se alguma confiança lhe mereço +ainda depois de perdoado--que me ouça, antes de continuar as suas +cartas, para que, melhor informado, possa conhecer as particularidades +da veridica narrativa. Um inconveniente obsta porém á minha ida a +Castello de Paiva: é o ser uma terra muito pequena e açular eu a +curiosidade do publico ocioso com a minha presença ahi, depois da +publicação das suas cartas. + +«N'esta conjunctura não será grosseira impertinencia pedir-lhe um +sacrificio por amor da imparcialidade com que quer ser juiz na minha +causa? Pois bem, ao magistrado que me tem de julgar perante a opinião +publica, e que deve escutar com igual benevolencia reu e queixoso, +exoro, supplico vivamente que se digne marcar sitio onde me possa dar +audiencia para ouvir da minha justiça. + +«Não receie ciladas. Se não fosse realmente um homem corajoso, +lembrar-lhe-ia que prevenisse a authoridade da hora e local da entrevista.» + +Respondi immediatamente: + +«Ill.mo snr: + +«Tenho de ir a Penafiel depois d'amanhã. Portanto, se não quer ser +visto, espere-me ás onze horas da noite na capella de S. Roque. + +«Não receio ciladas. Deixemos a authoridade em paz.» + +Fui. + +Effectivamente pude orientar-me melhor nos episodios que precederam o +caso das Victoreiras, o que de nenhum modo quer dizer que eu modificasse +absolutamente o meu primeiro juizo. + +Ainda assim cumpre-me restabelecer a verdade dos factos. + +Da parte _d'elle_ não houve a minima culpa no incidente d'aquella noite. +Foi sim um grave erro da sua parte, o erro de ceder á loucura d'um +momento, que deu logar a esse acto de desespero da formosa desconhecida. + +Elle, porém, não estava avisado da fuga, como pude verificar pelo +confronto dos depoimentos d'ambos. + +O que é certo é que o vi chorar... + +Nunca o seu coração está tão endurecido que não tenha a sensibilidade +que refrigera com lagrimas as dôres intimas. + +Todavia aguardemos o desfecho dos acontecimentos, esperando, como o dr. +Pangloss, que tudo seja pelo melhor no melhor dos mundos. + +Isto até aqui, meu amigo, foi para si. + +D'aqui em diante vae proseguir a narrativa, reatando-se no ponto em que +ficara, como se não se houvera dado este episodio que acabo de referir, +e que todavia me permittirá ser mais explicito. + +Senti, disse eu na segunda carta, que a desconhecida tinha no bolso papeis. + +Só alli podia estar a chave do que para mim era enygma. + +Mas, ao mesmo passo, um escrupulosito: Ser-me-ia permitlido lêr essa +correspondencia? + +E logo a contrapôr-se ao escrupulosito uma reflexão: Não a traria ella +comsigo, prevendo que as suas debilitadas forças lhe faltariam no +caminho, para esclarecimento de quem quer que a encontrasse morta ou viva? + +Resolvi lêr os papeis. + +Eram um maço de cartas, atadas com torçal vermelho. + +Á primeira vista, fiquei perplexo. + +Reparando melhor, dei tino de haver entalado, entre o torçal e o rolo, +um bilhete. + +Esse devia ser o esclarecimento desejado. + +Era, em verdade. + +Dizia simplesmente isto: + +«Chamo-me F., da casa de... vou para..., fugida á justa punição de meu +pai e apenas confiada na protecção do pai de meu filho, que deve nascer +se a morte não surprehender a mãe n'esta ousada resolução. + +«Tu, que me lêres, perdoa-me. + +«Se és pai, põe todos os teus cuidados na guarda de tuas filhas: se és +mulher, e estás descida a iguaes abysmos, vê no espelho da minha +desgraça a profundeza do teu erro.» + +Tinha-se feito a luz. + +Aquella mulher era filha d'um homem respeitabilissimo que ha muitos +annos se soterrara n'umas serras do Douro depois de haver percorrido o +mundo, semeando dinheiro e anecdotas, batendo os melhores cavallos, +baloiçando-se nos melhores tilburys, jogando, bebendo, reptando, +apostando nas corridas, atirando aos pombos, pompeando nas aguas de Spa, +debruçando-se n'um camarote da Grande Opera, merecendo referencias a +Julio Janin, enchendo o mundo, o folhetim, o romance e até o theatro. + +Ha quem diga que o nosso conhecido _Antony_, transportado do lar +deshonrado para a scena igualmente deshonrada, fôra apenas uma copia +desenhada pelo _crayon_ ultra-romantico de Alexandre Dumas n'uma hora +mais ultra-romantica que o proprio _crayon_. + + +V + +Finalmente, ao recolher d'uma das viagens ao extrangeiro, casou com uma +senhora da primeira sociedade lisbonense. Quasi o surprehendeu o ser amado. + +Não conhecia o amor senão da capa dos livros e dos _vaudevilles_. O +casamento era para elle apenas uma comedia que vira em França e na qual +homem e mulher se davam excellencia e cumprimentavam ao jantar. Pensava +pouco mais ou menos em observar o regimen matrimonial da comedia, mas +completamente se enganou, porque, sentindo-se amado, começou de +encontrar no amor thesouros que lhe eram desconhecidos desde a mocidade. +Atravessara o mundo, sem atravessar a familia: não conhecia o amor, +porque só na familia o ha. A alegria das festas, fóra do lar, irradia +como a espuma do _champagne_ á luz de candelabros, mas entorna-se e +dissipa-se como ella. + +Suppunha elle haver-se apaixonado uma vez, aos vinte annos. A 2 de +abril de 1829, fazendo a primeira viagem a Pariz, ouvira cantar a +Malibran, que era então a rainha da opera, n'um concerto matutino dado +na rua Taitbout, em favor dos orphãos adoptados pela «Sociedade de moral +christã.» Ficara doido, embriagado, e logo obteve uma apresentação á +cantora, que o recebeu ao _dessert_. + +N'essa mesma noite cantava a Malibran o papel de Desdemona no theatro +dos Buffos. O theatro trasbordava de espectadores; a receita do +espectaculo subiu ao algarismo de 18,000 francos. + +Não obstante ser immensa a multidão, a cantora pareceu enxergal-o e +distinguil-o com um sorriso,--d'estes sorrisos que as mulheres de +theatro espalham como bilhetes de beneficio... + +Isto acabou de enlouquecel-o. Todo o theatro tinha visto: a Malibran +sorrira-lhe! + +N'esse mesmo anno foi a cantora a Londres. Acompanhou-a, seguindo por +toda a parte o rastro de gloria que ella abrira ao passar por entre a +admiração britannica. + +Em janeiro de 1830, estavam ambos em Pariz: ella e elle. + +Foi n'esse mez e anno que Pariz a ouviu cantar o segundo acto do +_Matrimonio segretto_, com as duas maiores notabilidades cantantes da +epocha,--a Sontag e a Damoreau-Cinti. + +A vida do nosso _touriste_ foi, durante o tempo que seguiu a Malibran, +uma serie de viagens,--as mesmas que ella fazia,--de ceias, de +_pic-nics_, de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os +falsos sorrisos desmascarar-se-iam á luz da manhã, e, digamol-o tambem, +foi um inferno de ciume. + +Elle tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ella um broche, como de +quem lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu +desarrasoado; mas diga-me se não tenho rasão, visto que vive em terra +onde ha theatros. + +Ora o nosso heroe, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se +perdidamente amado, e perdidamente namorado. + +Duplo erro! + +O que lhe sustentava essa rosada illusão eram as flores, as luzes, os +crystaes, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o publico, +as ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente seductora, apenas +architectada sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a _gloria_. + +Mas--desapontamento horrivel!--o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as +scintillações prismaticas, e o castello encantado desabou. + +Foi n'esse mesmo anno de 1830 que a Malibran atou com o celebre +violinista Beriot as intimas relações que os tornaram inseparaveis. + +Foi n'uma ceia que elle soube a fatal noticia por intencional chocarrice +de um conviva. + +Esteve para erguer-se e reptar Beriot, mas Beriot era um homem serio, e +não o havia offendido. + +Desistiu. + +Amuou, corou, empallideceu, começou a tornar-se ridiculo. + +Malibran, que fez reparo no despeito do seu admirador, levantou-se e +apresentou-lhe a Lablanche, que estava á mesa. + +Coruscou no cerebro de X a ideia da vingança. Começou a galantear a +Lablanche, a ponto de que em 1832 percorreram todos a Italia: Malibran, +Lablanche, Beriot e X. + +Já viu o meu amigo mais doida mocidade, mais desbaratada vida, e ao +mesmo passo tamanha nudez d'alma ainda mesmo na epocha em que o corpo se +involve na ampla capa de D. Juan? + +Um beneficio recebeu porém d'esse divagar pelos prazeres ruidosos. +Saturou-se do mundo. Felizmente, a sua vinda a Lisboa facilitou-lhe o +unico meio de conhecer a unica coisa que desconhecia,--a familia. Entrou +no lar pela porta do casamento quando pela janella sahia a extravagancia +ainda desgrenhada das ceias e de charuto na bocca. + +A proposito de charuto, meu amigo: de-me tempo de fumar um. + + +VI + +Continuemos a fallar do pai da nossa gentil desconhecida. + +Acabei o charuto: podemos conversar por um pouco. + +O amor completou a regeneração que a experiencia do mundo principiara. + +Casou. + +No coração da esposa encontrou thesouros de raras virtudes. +Alvoreceu-lhe em torno uma aurora de tão doce luz, que pela sua mesma +suavidade desbancava as scintillações crystallinas das ceias, e os +clarões que illuminavam em scena a figura da Malibran. + +Toda a gente o presumia ainda rico: a verdade era que a realidade não +correspondia á opinião publica. + +Havia gastado como um principe russo. A capa de D. Juan não tem bolso, +de modo que emquanto as mãos tangem o bandolim da aventura vai o +dinheiro cahindo no chão. + +Casado, encarou com mais gravidade no seu futuro, e achou que não podia +aguentar-se nas pompas de Lisboa. + +O casamento tem quasi sempre isso de bom: desperta a consciencia +adormecida pela crápula. + +Pediu informações aos feitores, e as informações confirmaram a suspeita. + +Chamou á puridade a esposa e disse-lhe: + +--Perdoa-me, anjo, se te vou magoar com a minha primeira confidencia, +mas devo-te a verdade toda. Eu não sou tão rico como geralmente se +suppõe. Gastei muito, quasi esbanjei na sociedade o patrimonio da +familia. Quero porém que tu vivas feliz, e para attingir a tua +felicidade apenas encontro abertos dois caminhos: ou o trabalho honesto +ou a tranquilla solidão. Se desejas viver no extrangeiro, poderei obter +uma embaixada; mas se preferes viver no meu e teu paiz, temos que +recolher-nos á provincia, e viver na doce tranquillidade que o mundo da +capital não conhece. Só te peço que sejas franca. Decide, e a tua +vontade será lei. + +A resposta foi esta: + +--Partiremos amanhã para o teu solar. A felicidade está onde a gente a +tem; tel-a-hemos lá. A vida no extrangeiro seria a prolongação da tua +mocidade; ora eu tenho direitos incontestaveis ao teu coração. Quero-o, +pois. E onde melhor o possuirei do que na solidão do lar, onde, fechada +a porta, seremos nós os unicos habitantes do nosso mundosinho de +felicidade? Vamos lá, meu amigo. Nem sabes como me sinto alegre! Quanto +mais te distanciares do passado, menos ciumes terei d'elle. Vamos lá. + +Foram. + +O solar, construcção coeva dos primeiros tempos da monarchia, era +mais acervo de ruinas que palacio de nobres. As pedras haviam-se +desconjunctado, e a hera marinhava pelas fendas até ensombrar as +janellas. Nos longos corredores havia a escuridão sinistra dos carceres. +As salas, denegridas pelo tempo, eram d'uma vastidão que punha medo. A +mobilia, tão deteriorada como o edificio, tinha o aspecto funebre de +phantasmas que á meia noite se fossem sentar encostados ás lousas do +cemiterio. Os grandes contadores de pau preto negrejavam a pequenos +intervallos como ossadas de gigantes carbonisadas em forja de cyclopes. +Por entre a escuridão e o silencio da casa algum pipillar d'andorinhas, +que penduraram o ninho entre as ruinas. Tambem ás vezes no cemiterio, no +meio da concava sombra dos chorões, assim chilriam uns passarinhos que +fogem quando presentem gente, porque estão habituados ao socego das campas. + +As sombras da casaria deserta apavoraram a noiva de X. Uma noite uma +coruja fôra piar a uma das janellas do solar. A pobre senhora estremeceu +e chorou. + +Acudiu o marido a abraçal-a meigamente. + +--Tinha sido melhor, disse elle, optarmos pelo estrangeiro. Isto aqui é +triste. Ainda se as andorinhas se não calassem de noite... + +--São os nossos unicos amigos, respondeu a dama. Se esta casa não é +completamente sepulcro, a ellas o devemos. Mas, meu amigo, as andorinhas +me bastam para conforto. Eu chorei porque estava triste; não foi que +tivesse medo. Não te inquietes... + +--Não, anjo, não. É preciso sahirmos d'aqui... + +--Para o extrangeiro não, não? + +--Socega, filha. Pois que estes montes te amedrontam menos que estas +paredes, e que te resignas ao sacrificio, ficaremos. Limitar-nos-hemos a +mudar de casa. Amanhã tractarei de ajustar a edificação d'um predio que +tenha em conchego o que aqui perdemos em vastidão. Bem vês que mais nos +aproximaremos ainda. Eu quero ouvir a tua voz a todo o instante. E +depois, como sabes, o berço das creanças costuma ser pequenino, e tu +vais ser mãe. A nossa nova casa será pois o berço de nosso filho. +Escolho o laranjal. O vento que passar agitando as folhas embalará o +berço... Queres? + +--Se quero! + + +VII + +Construida a casa ao centro do laranjal, entrava a felicidade pelas +janellas com os murmurios e os olôres de fóra. + +Ficara deserto o solar na eminencia em que assentava. Negrejava como o +cavername de navio naufragado sobre rochas. Eram as ruinas do passado, +os escombros do feudalismo que dormiam o seu somno de seculos; o +_cottage_ do laranjal era alegre como a liberdade estensiva a nobres e +plebeus:--aos nobres, porque já lhes não pesava a tarefa de mandar; aos +plebeus, porque já não eram servos de gleba. + +As corujas invadiram as ruinas em competencia com as trepadeiras que +bracejaram desaffogadamente, e as pavidas visões da esposa de X ficaram +lá sepultadas para nunca mais a perturbarem emquanto costurava o +enxovalsinho da creança que ia nascer. + +O fidalgo pasmava do poder regenerador da familia, que lhe tinha raspado +da alma a ultima lepra da extravagancia. Não via mais mundo do que +aquelle. Andava a toda a hora a olhar para o berço vasio, ancioso de vêr +sobre o travesseiro o relevo d'uma cabeça pequenina. Não faltava já o +lençol de rendas nem a coberta de damasco: o que faltava era a creança. +Pozessem alli dentro uma alma, e a felicidade ficaria completa. + +Chegou finalmente o dia de se realisar o venturoso sonho. Desdobrou-se a +cobertasinha adamascada, acamaram-se as rendas para não maguar o +corpinho delicado, e ali dormiu a creança o primeiro somno velada pelo +pai que nem ousava beijal-a para não a maguar. + +Aos cinco annos a creança tinha já um portesinho senhoril que era de +namorar os olhos. Muito redondo o vestidinho; os cabellos annelados e +auri-luzentes; o pequenino corpo escondido na fita que lhe servia de cinto. + +E chilreava, e esvoaçava, como se tivesse a casa por gaiola. + +Á medida que a pequerrucha ia crescendo, crescia com ella o amor +paternal. Sorriam de a vêr sorrir, e choravam de a vêr chorar. + +O grande receio era de que morresse. + +Esta é a loucura de todos os pais. + +Querem roubar á tyrannia da morte uma vida que lhes não pertence. +Esquecem-se de si mesmos para se absorverem n'uma existencia que não +lhes é essencial, mas complementar. + +Não a eduquem á revelia, deixando-a entregue aos instinctos bons e maus +que nascem com ella. Visto que o filho é o complemento dos pais, +completem-se pelo filho. Adaptem-n'o, quanto possivel, á sua maneira +de pensar e sentir; façam d'elle a coda da santa melodia chamada +familia. Não se riam de que a creança faça aquillo que elles nunca +fizeram. Não lhe applaudam o bater com o pésinho no chão, o desfolhar as +flores que lhe são defezas, o mexer nos objectos que devem respeitar. +Bater com o pé no chão é a principio um movimento mechanico, nervoso. +Com o decorrer do tempo corresponde ao movimento uma ideia má e um mau +sentimento. Então esse acto já não é mechanico simplesmente; é a +manifestação da raiva, do desespero, do odio. A esta perniciosa educação +é preferivel a morte. As plantas novas tomam o geito que lhes dão. +Deixem crescel-as sem enleial-as, que ellas assombrarão todo o pomar. + +Ora o amor é cego, e não vê nada para fóra de si. + +Foi isto o que aconteceu. + +A creança cresceu com a mulher. Os pais, para que outro amor lh'a não +roubassem, deram de mão a todas as visitas de gente moça. As unicas +relações que se conservaram foram as do voltarete: eram duas. O +capitão-mór tinha cincoenta e cinco annos; tinha além d'isto rheumatismo +e oculos azues. O outro parceiro era um morgado de quarenta annos, que +estivera em Pariz com o pai da menina e _servira de capa_ a varias +escaladas. Tinha casado e parecia um homem morto. O casamento tem tanto +de bom como de mau: é como os carceres. A uns presos aproveita a +reclusão; outros sahem da cadeia mais desmoralisados. + +Os primeiros estavam representados em X; os segundos no morgado. + +Bem casados e mal casados, diz o mundo. + +O amigo do fidalgo tinha _verve_ e bigode: duas tentações. + +Ainda sabia dar o laço da gravata: um mau symptoma. + +Fumava charuto: um perigo. + +Contava das suas viagens, dizia que tal cantora, que conhecera, tinha os +olhos bonitos e as unhas feias; que o nariz da Malibran não era tão +correcto como o pescoço: uma desgraça. + +N'uma palavra: era entendedor. + +A menina da casa, emquanto elles jogavam, estava por ali. + +E o peior que podia acontecer n'aquella casa era o entendedor estar lá. + +Por mais que elle quizesse dominar o seu temperamento, ser bom e digno, +leal e cavalheiro, o coração, que estava comprimido nas reixas +conjugaes, aproveitou a occasião e poz a cabeça fóra da grade a pedir +esmola d'amor. + +A inexperiente menina ouviu-o, sem saber o que fazia. + +Tinham-n'a ensinado a não fugir d'aquelles dois homens: não fugiu. + + +VIII + +Mau é brincar com fogo: o incendio irrompe. + +O amigo da casa começou a fazer reparo nas graças da menina, e achou que +tinha os dentes alvissimos, os olhos formosos, os cabellos soberbos. + +A menina, por sua parte, entrou de deixar-se influenciar agradavelmente +pela amena eloquencia do unico homem estranho que fallava n'aquella casa. + +Era elle o unico orador dos serões intimos; a unica voz que sobrepujava +o fremito das cartas na mesa do voltarete. + +Depois a menina lisongeava-se de que um homem, que tinha corrido o +mundo, e conhecido mulheres celebres por talento e formosura, a +conceituasse intelligente e gentil. + +Estava-se preparando n'aquelle seroar despreoccupado a ruina de Troya. + +O apartamento é um mau systema de educação. A borboleta, que não conhece +o perigo da chamma, arroja-se á luz. + +Era melhor tel-a avisado para que demorasse a morte quanto lhe fosse +possivel. + +Após as amabilidades vieram os galanteios, e após os galanteios as +confidencias. + +A menina ouviu e acreditou. + +Começou-se a dizer por fóra que a menina era amada pelo morgado. + +Só não o diziam, nem ouviam, os pais da menina e a esposa do morgado. + +Decorreu tempo, e a menina deixou de sahir a passeio; ao mesmo tempo o +morgado deixou de ser assiduo. + +A menina fez-se triste; o morgado andava preoccupado. + +Luctavam ambos com a resolução do mesmo problema: encobrir uma vergonha +commum. + +Foi n'essa epocha que o morgado teve de ir ao Porto por causa de pleitos +que se ventilavam nos tribunaes. + +Pediu-lhe a menina que a tirasse da casa paterna, antes que rebentasse o +escandalo. + +O morgado prometteu demorar-se apenas alguns dias no Porto, e voltar +depois de recolhidas grossas quantias, cujo embolço dependia da solução +do pleito, a seu vêr bem encaminhado, para se passarem ambos a Hespanha. + +Houve porém uma camponeza que os viu estarem-se despedindo em logar +afastado. Contou-o á noite á lareira. A revelação da camponesa +espalhou-se. Chegou aos solares, e aos ouvidos da desventurosa esposa do +morgado. + +Pensou a infeliz senhora que poderia ainda atalhar o incendio, e mandou +um portador com uma carta á mãe da menina. + +Faltaram-lhe as forças para ir pessoalmente. + +Chegava o mensageiro a tempo que a menina estava chorando á janella do +seu quarto. + +O coração, que é sempre feiticeiro, adivinhou. + +O mensageiro, que trazia recommendação, não fez caso. + +Sahiu-lhe a menina ao encontro. Pediu-lhe com lagrimas nos olhos e na +voz que lhe entregasse a carta e fosse dizer á morgada que a havia +depositado nas mãos de sua mãe. + +--Veja que me perde, podendo salvar-se com uma simples mentira! Se +tivesse uma filha, seria mais clemente. + +O mensageiro era pae: entregou-lhe a carta. + +A menina leu-a, e cuidou morrer d'afflicção e vergonha. + +Dizia a morgada que as senhoras da terra,--as quaes eram amantes de +varios morgados casados,--já não levantariam o olhar, se a encontrassem +nos caminhos, para a amante de seu marido. + +Era um modo de dizer que o escandalo tinha estrondeado, e que Jesus +Christo não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntarias +peccadoras se arreceiava de ser a primeira a apedrejar a peccadora incauta. + +De feito, Christo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda +os vendilhões da honra alheia entram ao templo da familia, e as mulheres +adulteras erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abysmo em +que ellas estão. + +A menina tratou de emmassar as cartas do morgado e de metter no seio o +bilhetinho que já tivemos occasião de lêr. + +Esperou que fosse noite, e metteu-se a caminho. + +Onde ia a pobresinha? + +Procurar o morgado ao Porto. + +Foi andando, andando, rasgando os pés nas burguas das serras, +rompendo a escuridão, arquejante, timida do menor ruido, resoluta da +coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze horas da noite, +cahiu extenuada ao sopé das Victoreiras. + +N'este lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais +que se passou. + +Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a +afllicção da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi. + +A gentil desconhecida, como a principio eu lhe chamava, tornou em si +depois de empregados muitos esforços para reanimal-a. Meu tio padre, +chamado por mim precipitadamente, encarregou-se do piedoso encargo de +recolher a menina em sua casa, e de negociar a sua entrada no convento +de *, onde se enclausurará depois que seja mãe. + +O morgado, lendo casualmente no Porto uma das minhas cartas, publicadas +no _Primeiro de Janeiro_, escreveu-me a impensada missiva e logo se deu +pressa em partir, e em me convidar á entrevista que acceitei. + +Tomará conta do filho, logo que nasça, e aproveitará decerto esta +tremenda lição. + +Ainda agora me não parece dislate repetir a pergunta: Morta ou viva? + +Viva para si mesma, e morta para o mundo. + +Que desgraça! + +Ah! Christo não voltará outra vez; a ter de voltar, já se haveria +amerciado de tantas miserias humanas! + + +FIM. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Christo não volta, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA *** + +***** This file should be named 32381-8.txt or 32381-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32381/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1873"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Christo não volta, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Christo não volta + (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco) + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: May 15, 2010 [EBook #32381] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: dotted 4px #444;"> +<p style="font-size: 2em;">CHRISTO NÃO VOLTA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">NARRATIVA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 40%; font-size: 0.8em;"> + <p style="text-align:justify;">Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso + divino Filho! Esta negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. + N'aquelle tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento + d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada! + Mas... voltareis, ó Christo?</p> + + <p style="text-align: right;">CAMILLO CASTELLO-BRANCO.</p> +</blockquote> + +<p>LIVRARIA INTERNACIONAL<br> + +<small>DE</small></p> + +<div style="width: 49%; float: left; vertical-align: top; font-size: small;"> +<p><b>ERNESTO CHARDRON</b><br> + +96, Largo dos Clerigos, 98<br> + +<b>PORTO</b></p> +</div> + +<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: small;"> +<p> <b>EUGENIO CHARDRON</b><br> + +4, Largo de S. Francisco, 4-<small>A</small><br> + +<b>BRAGA</b></p> +</div> + +<p>1873.</p> + +</div> + +<p style="text-align:center;"><b>PREÇO, 200 réis.</b></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">CHRISTO NÃO VOLTA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; "> +<p style="font-size: 2em;">CHRISTO NÃO VOLTA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">NARRATIVA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 40%; font-size: 0.8em;"> + <p style="text-align:justify;">Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso + divino Filho! Esta negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. + N'aquelle tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento + d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada! + Mas... voltareis, ó Christo?</p> + + <p style="text-align: right;">CAMILLO CASTELLO-BRANCO.</p> +</blockquote> + +<p>LIVRARIA INTERNACIONAL<br> + +<small>DE</small></p> + +<div style="width: 49%; float: left; vertical-align: top; font-size: small;"> +<p><b>ERNESTO CHARDRON</b><br> + +96, Largo dos Clerigos, 98<br> + +<b>PORTO</b></p> +</div> + +<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: small;"> +<p> <b>EUGENIO CHARDRON</b><br> + +4, Largo de S. Francisco, 4-<small>A</small><br> + +<b>BRAGA</b></p> +</div> + +<p>1873.</p> + +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: small;">PORTO: <small>TYP. DE MANOEL JOSÉ PEREIRA</small> +<br> +Rua de Santa Thereza, n.º 4 a 6.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> + +<h1>Cartas enviadas ao «Primeiro de Janeiro»</h1> + +<p> </p> + +<h2>I</h2> + +<p>Castello de Paiva, junho de 1873.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">M<small>EU </small>A<small>MIGO.</small></p> + +<p>Como tem navegado Douro acima e conhece bem as planicies e montanhas que a +uma e outra margem se encontram, umas espraiando-se ao nivel da corrente, +outras erguendo-se ameaçadoras e aridas para o ceo, não me dispenso de +contar-lhe um caso triste e verdadeiro, porque o presenciei eu, se bem que mal +possa ser chronista, porque estou ainda na commoção da surpreza.</p> + +<p>Encontrei-o no Porto, e disse-lhe que tinha de partir para Castello de +Paiva. Effectivamente parti no dia fixado. Não jornadeei por terra, o que seria +incomparavelmente mais rapido, porque me julguei obrigado, a bem de meus +proprios interesses, a acompanhar o barco carregado por minha conta. Larguei do +caes da Ribeira, cerca<span class="pn">{6}</span> da meia noite, para +aproveitar a maré até Pé de Moira. Obedeço a um pedido não declarando o dia. +Cerca das onze horas da manhã estava em Pé de Moira, onde os marinheiros e +arraes almoçaram, comendo uns peixes fritos na barraca de ramas de pinheiro, +que o meu amigo conhece, e bebendo pela tradicional bilha de barro vermelho.</p> + +<p>Ahi me prophetisou o arraes que o termo da viagem seria moroso, porque não +havia vento e o barco ia muito carregado.</p> + +<p>Resignei-me.</p> + +<p>Armou-se um tolde com a vela, accendi o meu cachimbo, bebi tambem, e comecei +a lêr os jornaes que trazia no bolso, disposto a viver sobre agua o tempo que +fosse preciso.</p> + +<p>Oh! enfadonha coisa este ante-diluviano processo de locomoção! Digo +ante-diluviano em rasão de Noé se ter salvo embarcado no dia da grande +submersão da terra.</p> + +<p>Li os jornaes de fio a pavio, como se diz não sei se em bom portuguez, +reli-os, decorei-os. Cheguei a devorar os annuncios com uma soffreguidão de +cannibal. Enguli e digiri todos os <i>barateiros</i> e todos os +<i>precisa-se</i>. Comprehendi então o que ha de profundamente triste em +<i>precisar</i>; eu tambem precisava de chegar a casa o mais breve possivel e +todavia a terra firme estava para mim como a agua para Tantalo. Vi-a; e tudo se +ficava em vêl-a.</p> + +<p>Foi-me anoitecendo ainda a grande distancia de casa. Custou-me a transigir +com a necessidade de passar segunda noite no rio. Que me importava a mim o +luar, a ardentia das aguas, as vaporações embalsamadas da natureza? Não sou +poeta; já tive um pouco d'isso, é verdade,<span class="pn">{7}</span> mas o que +mais ambiciono presentemente é dormir na minha cama, comer á minha mesa, e +calçar as minhas botas.</p> + +<p>Finalmente não havia remedio senão conformar-me ás circumstancias; o homem +nasceu para joguete; fui pois o que tem sido e ha de ser perpetuamente o meu +similhante.</p> + +<p>Cerrou-se-nos inteiramente a noite ao sopé das Victoreiras. O arraes deu voz +de lançar ferro; os marinheiros iam cansados de tirar o barco á sirga e logo +saltaram em terra para queimar sobre gravetos o seu bacalhau. Puxei do meu +taleigo e comi uma fatia de presunto de fiambre e outra fatia de queijo.</p> + +<p>Depois que gregos e troyanos se banquetearam com o frugal repasto, +tractou-se de acamar e dormir.</p> + +<p>Os marinheiros acobertaram-se com as mantas e romperam, tarauteando pelos +narizes, em hymnos a Morpheu. Eu é que não nasci pagão; fui remisso em render +culto á tetrica divindade mythologica. Mexi-me, remexi-me, rebuli-me e por mais +d'uma vez accendi o meu rolinho de viagem para dar batalha a pulgas, persevejos +e demais bicharia, que passava dos marinheiros para mim e de mim para os +marinheiros.</p> + +<p>Cerca das onze horas da noite pareceu-me ouvir de repente o baque de um +corpo em terra, mas um segundo depois não pude duvidar ao ouvir um grito surdo +como o de quem cahia contra o solo. Chamei afflictivamente os marinheiros, que +despertaram roncando interrogações.</p> + +<p>—Que foi? Que é? perguntaram elles.</p> + +<p>—Ahi fóra cahiu gente!</p> + +<p>—Quem havia de cahir, senhor!</p> + +<p>—Ouvi distinctamente a queda, e um grito depois.<span +class="pn">{8}</span></p> + +<p>—Um grito!</p> + +<p>—Posso affirmar; ouvi gritar com toda a certeza.</p> + + +<p>Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Elles accenderam +o seu lampeãosinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas fragas á procura +d'agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir alvarmente e a dizer que +eu era dado a medo de bruxas. De repente pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei +silencio. Os marinheiros trocaram entre si um olhar ironico, que para logo se +volveu credulo, porque distinctamente ouviram um gemido.</p> + +<p>—É alma perdida! disse um com voz tremula.</p> + +<p>—É naturalmente corpo perdido, objectei eu. Calem-se. Vamos a vêr se nos +orientamos.</p> + +<p>Apoz um longo intervallo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais debilmente. +Podemos orientar-nos. Eu marinhei á frente dos homens, arrancando da mão d'um a +lanterna. A pequena distancia pareceu-me vêr um vulto estendido no chão. Baixei +o lampeão e reconheci um corpo de mulher. Os marinheiros estavam attonitos e +como que receiosos d'approximar-se. Fui eu quem, poisando o lampeão, levantou o +corpo. E—surpreza extraordinaria!—vi uma bonita mulher, se bem que +mortalmente pallida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado. Estaria +viva ou morta? Não sabiamos. A verdade é que estava fria como cadaver. Os +marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a transportal-a ao +barco. Deitamol-a, aspergimol-a, lavamos-lhe os ferimentos e nem tempo +tivemos—eu pelo menos—para pensar no extraordinario do acontecimento. Hoje é +que eu, ainda que mal, reflexiono e me confirmo que não ha romance que seja +absurdo.<span class="pn">{9}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>II</h2> + +<p>A formosa desconhecida continuava a estar immovel e fria, apesar dos +cuidados que lhe prodigalisamos e que, attentas as nossas circumstancias, não +podiam ser completos.</p> + +<p>Sabe que eu não sou piegas nem romantico,—o que significa o mesmo, porque o +romantecismo é a pieguice do espirito—mas confesso-lhe francamente que me +horrorisaram a solidão, a escuridade, a massa negra das aguas e a massa negra +das serras, o desamparo do homem entre a agua que é fria e a rocha que é dura, +entre ambas que são mudas e surdas,—finalmente, o desagasalho, a +impossibilidade de encontrar soccorro!</p> + +<p>Como o Douro me pareceu differente d'aquelle extenso e caudaloso rio nosso +conhecido, meu e seu, quasi sempre placido, povoado de barcos, animado de +cantares, marginado de casinhas e campanarios que de longe a longe<span +class="pn">{10}</span> se penduram das fragas, n'uma palavra, accidentado de +tons variados e por mais d'uma vez festivos!</p> + +<p>Ordinariamente, quando se viaja, tem-se saude. Vem a gente a lêr no barco, a +fumar, a conversar os marinheiros, a incital-os a que cantem ao desafio, a +comer a sua canja e a beber a sua pinga!</p> + +<p>Nada nos apavora então! Quando o barco passa por baixo das Victoreiras, e se +vê lá no alto, ameaçando eternamente despegar-se, aquella enorme avalanche +negra, informe, nem siquer lembra que os fraguedos, que se encastellaram um +dia, por uma evolução da natureza, podem rolar e precipitar-se alguma hora, por +outra evolução imprevista. Contenta-se a gente com ouvir da bocca dos +marinheiros uma tradição do sitio.</p> + +<p>—Alli, dizem elles, é que os homens trahidos trazem as mulheres a +despenhar-se.</p> + +<p>Elles não dizem isto por estas palavras, mas digo eu. E a gente facilmente +acredita que haja homens que se dêem ainda o incommodo de jornadear por algumas +horas para despenhar as mulheres adulteras, que já estão despenhadas, e que +haja mulheres, que depois de conhecerem o vicio, tenham a virtude de se deixar +morrer!</p> + +<p>A viagem pelo Douro, de dia, em boa disposição d'espirito e corpo, tem +alguma coisa de idyllio, d'Arcadia, de creendice, coisas impossiveis de +encontrar hoje em qualquer outra parte. É uma especie de Pantana, onde o +carneiro assado parece saltar-nos aos dentes, e a borracha trepar-nos aos +beiços, e onde a gente, olhando para as mãos, encontra cinco facas e cinco +garfos! Onde é hoje que se póde encontrar a realidade d'este ideal de Pantana, +a não ser n'uma viagem pelo Douro? Quem é hoje que come com<span +class="pn">{11}</span> a mão, desde que o Monteverde publicou o <i>Manual +encyclopedico</i>, e nos exames do lyceu se ensina a dar ao queixo, quer dizer, +a comer com as mandibulas?</p> + +<p>Mas como o quadro muda de noite, santo Deus! quando terra, ceo e agua são +escuros, e está ao pé de nós um corpo frio, immovel, quando o nosso espirito +pergunta a si mesmo, para resolver um mysterio, se aquella mulher, formosa e +inanimada, gentil e desconhecida, será morta ou viva!</p> + +<p>E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber o +halito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espirito que comprehenda a +nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os puros cadeirinhas do +rio! Fazem tudo mechanicamente; teem força: puxam por ella. Perdão, pelo que +elles puxam é por nós, pelo barco, e por elles mesmos. Podiam ter nascido bois, +e nasceram homens. Tambem os cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e +nasceram gallegos. Que a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana, +comprehende-se, porque tambem aquelle artista, que estava a fazer o demonio +calcado pelo archanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demonio, e +aproveitou a esculptura para fazer um santo deitado.</p> + +<p>O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de riba-Doiro +e os cidadãos de riba-Minho, é tão nobre, tão dedicada,—e perdoe-se-me a +vaidade de a estudar em mim mesmo—que logo me esqueci da urgencia de abreviar +a viagem, de descarregar em Castello de Paiva os meus generos, e concentrei +todas as minhas attenções n'aquella mulher que não conhecia, que vagueava a +deshoras por uma serra, com risco de rolar ao Douro,<span +class="pn">{12}</span> sósinha com a sua ideia, que era provavelmente uma +grande dôr.</p> + +<p>Permitta-me—entre parenthesis—que chame á <i>dôr</i> moral uma ideia e não +um sentimento. Isto é philosophia minha. Quando se acorda pela manhã, e se +<i>lembra</i> a gente do soffrimento da vespera, é que continua a <i>sentir</i> +o que na vespera sentiu. E que tal! approva? Eu quando fui d'uma vez ao Porto, +acompanhar o meu patricio Barros que ia fazer concurso para uma cadeira de +philosophia n'um lyceu do sul, e ouvi argumentar um tal Albuquerque d'oculos +verdes, adquiri a convicção de que tambem podia ser philosopho, mais pelo que +ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao Barros.</p> + +<p>A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao +joelho.</p> + +<p>Pozessem no meu barco um farrabraz, um mata-mouros, um espadachim, ao pé +d'aquella mulher, e ainda que esse stentor não tivesse esposa, nem filha, +nem—ó prodigio!—tivesse mãe, elle sentiria o que eu senti, a abnegação das +situações anormaes, a ancia de valer a quem está carecido de soccorro, a +necessidade de saber se aquella mulher estava morta ou viva!</p> + +<p>Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as +minhas, a vêr se provocava a reacção; lembrei-me de que tinha aguardente +comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhal-a, ao conchegar-lhe +a roupa, senti que tinha no bolso papeis.</p> + +<p>Bem podia ser que alli estivesse a chave do enigma.<span +class="pn">{13}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>III</h2> + +<p>Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda hontem lhe tenha +enviado a segunda carta sobre o extraordinario caso das Victoreiras, não posso +resistir á tentação de voltar hoje ao assumpto para lhe communicar que por +carta recebida agora do correio do Porto fui ameaçado de não sei que medonhos +perigos no caso de proseguir na veridica historia da morta ou viva.</p> + +<p>Em nenhum acto da minha vida blasono de valente, mas tambem não é meu +costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em proveito +da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta, é uma tremenda +lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de Castello de Paiva? +Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região ignorada? Eu não sei. O +que posso affirmar é que a tenebrosa carta nem me cheirou a<span +class="pn">{14}</span> certidão d'obito, nem estou em terra onde a supradita +carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, podesse converter-se em +realidade impunementemente.</p> + +<p>Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de +escandalos. Isto assim não póde ser,—que triumphe sempre o forte e soffra +sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escandalos e, quando muito, +publical-os desfigurados. Mas—erro imperdoavel!—o escandalo é muitas vezes a +lição e algumas vezes póde ser a cura. É preciso que se espalhe, que se +discuta, que se commente, com vagar, como eu estou fazendo, para que a +precipitação não cegue o entendimento.</p> + +<p>Este caso da morta ou viva tem surprehendido muita gente, mesmo em Castello +de Paiva. Era eu a unica pessoa que estava na confidencia d'elle, porque fui a +unica testimunha occular. A principio julguei dever guardar segredo. Ao cabo, +porém, de muitas noites de insomnia, resolvi dar-lhe publicidade. Sabido apenas +por mim, não aproveitaria a ninguem; divulgado, algum proveito poderá levar á +sociedade.</p> + +<p>Ha que tempos se anda ahi a fallar da emancipação da mulher! Mentira, +hypocrisia, infamia!</p> + +<p>A sociedade lança mão da these-emancipação para mais escravisar a mulher, +como os governos costumam exhibir o rotulo <i>melhoramentos materiaes</i> +quando tentam vexar os povos com novos tributos.</p> + +<p>Querem estes philosophos de má morte emendar a natureza. A mulher não nasceu +para <i>senhora</i> nem para <i>escrava</i>; a mulher é companheira. Como esta +palavra está a dizer, ella deve compartir comnosco alegrias e dores, risos e +lagrimas, flores e espinhos. Fallar-lhe em emancipacão<span +class="pn">{15}</span> é suppor que havemos sido despotas ao ponto de lhe +roubarmos a liberdade relativa que lhe deviamos ter dado, e que lhe queremos +restituir; é proclamar a nossa propria vileza; é arrogar-nos fatuamente a +importancia de libertadores do genero humano. Escravisal-a é aviltar nossos +filhos até á condição de filhos d'escrava e julgarmo-nos nós mesmos nas +circumstancias de nossos filhos.</p> + +<p>Não ha emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é sociedade +conjugal.</p> + +<p>Portanto eu, philosopho montanhez, estarei sempre na brecha para atacar +qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são viciosos, +estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo.</p> + +<p>Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja honra +se quer subjeitar a um capricho, esquecendo-nos de que deshonrando-a a ella nos +deshonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher a guitarra com que nos +recreamos durante uma serenata e que ao romper do dia, ebrios de mau vinho e +mau prazer, atiramos pela janella fóra. Quem a recolherá depois de a vêr no +monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a guitarra era mimosa, quando suspirava +ao luar; tinha uma voz doce e melodiosa que despertava vagos pensamentos na +alma; podia ainda murmurar cadencias se continuasse a ser dedilhada por mãos +delicadas. Mas nós, que a principio mal poisavamos os dedos nas cordas, que a +julgavamos intermedio entre a nossa alma e a natureza, porque era ella, a +guitarra, que estava fallando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por +ultimo cahir em cheio a mão sobre o fragil instrumento e fizemos estalar uma +corda, que precedeu o estalar de todas as outras.<span +class="pn">{16}</span></p> + +<p>Pois a corda que estalou chamava-se—honra; depois d'ella estalaram todas as +outras, que se podem chamar—pundonor, brio, fé. A mulher, quando chega a este +destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não se peja de haver cahido; +não tem brio, porque não pensa em rehabilitar-se; não tem fé, porque já não +acredita na propria rehabilitação nem na rehabilitação das outras.</p> + +<p>Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja do +adello.</p> + +<p>Ou morre ou se vende.</p> + +<p>Não, philosophos da philosophia de Mahomet, que sustentaes o <i>crê ou +morres</i>, não, em nome de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas esposas, de +nossas filhas, havemos, nós, os que temos dignidade e coração, de quebrar aos +vossos pés essas duas laminas d'aço cortante que limitam o vosso perfido +dilemma. E como o havemos de fazer? Desvendando a mulher, avisando-a, +apontando-lhe o exemplo.</p> + +<p>Meu amigo,—perdoe-me esta dissertação que era precisa, depois de lhe haver +annunciado a recepção d'uma carta ameaçadora, e previna os seus leitores de que +eu d'aqui em diante entrarei directamente no assumpto.<span +class="pn">{17}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Quer que lhe explique o meu demorado silencio?</p> + +<p>Dias depois de publicada a terceira carta, recebo pelo correio outra de +letra desconhecida.</p> + +<p>Abro e leio:</p> + +<p>«Ill.<sup>mo</sup> snr:</p> + +<p>«Vejo que é um homem esforçado e brioso, para quem todas as ameaças são +nullas. Perdoe-me o havel-o comprehendido mal, tomando-o como pusillanime. +Lance tudo á conta do meu desespero de me vêr justamente accusado em muitos +relanços das suas cartas, e falsamente incriminado n'outros. Foi uma infamia, +que a sua magnanimidade perdoará, e que o meu arrependimento redimirá. Peço-lhe +porém—se alguma confiança lhe mereço ainda depois de perdoado—que me ouça, +antes de continuar as suas cartas, para que, melhor informado, possa conhecer +as particularidades da veridica narrativa. Um inconveniente obsta<span +class="pn">{18}</span> porém á minha ida a Castello de Paiva: é o ser uma terra +muito pequena e açular eu a curiosidade do publico ocioso com a minha presença +ahi, depois da publicação das suas cartas.</p> + +<p>«N'esta conjunctura não será grosseira impertinencia pedir-lhe um sacrificio +por amor da imparcialidade com que quer ser juiz na minha causa? Pois bem, ao +magistrado que me tem de julgar perante a opinião publica, e que deve escutar +com igual benevolencia reu e queixoso, exoro, supplico vivamente que se digne +marcar sitio onde me possa dar audiencia para ouvir da minha justiça.</p> + +<p>«Não receie ciladas. Se não fosse realmente um homem corajoso, +lembrar-lhe-ia que prevenisse a authoridade da hora e local da entrevista.»</p> + +<p>Respondi immediatamente:</p> + +<p>«Ill.<sup>mo</sup> snr:</p> + +<p>«Tenho de ir a Penafiel depois d'amanhã. Portanto, se não quer ser visto, +espere-me ás onze horas da noite na capella de S. Roque.</p> + +<p>«Não receio ciladas. Deixemos a authoridade em paz.»</p> + +<p>Fui.</p> + +<p>Effectivamente pude orientar-me melhor nos episodios que precederam o caso +das Victoreiras, o que de nenhum modo quer dizer que eu modificasse +absolutamente o meu primeiro juizo.</p> + +<p>Ainda assim cumpre-me restabelecer a verdade dos factos.</p> + +<p>Da parte <i>d'elle</i> não houve a minima culpa no incidente d'aquella +noite. Foi sim um grave erro da sua parte, o erro de ceder á loucura d'um +momento, que deu logar a esse acto de desespero da formosa desconhecida.<span +class="pn">{19}</span></p> + +<p>Elle, porém, não estava avisado da fuga, como pude verificar pelo confronto +dos depoimentos d'ambos.</p> + +<p>O que é certo é que o vi chorar...</p> + +<p>Nunca o seu coração está tão endurecido que não tenha a sensibilidade que +refrigera com lagrimas as dôres intimas.</p> + +<p>Todavia aguardemos o desfecho dos acontecimentos, esperando, como o dr. +Pangloss, que tudo seja pelo melhor no melhor dos mundos.</p> + +<p>Isto até aqui, meu amigo, foi para si.</p> + +<p>D'aqui em diante vae proseguir a narrativa, reatando-se no ponto em que +ficara, como se não se houvera dado este episodio que acabo de referir, e que +todavia me permittirá ser mais explicito.</p> + +<p>Senti, disse eu na segunda carta, que a desconhecida tinha no bolso +papeis.</p> + +<p>Só alli podia estar a chave do que para mim era enygma.</p> + +<p>Mas, ao mesmo passo, um escrupulosito: Ser-me-ia permitlido lêr essa +correspondencia?</p> + +<p>E logo a contrapôr-se ao escrupulosito uma reflexão: Não a traria ella +comsigo, prevendo que as suas debilitadas forças lhe faltariam no caminho, para +esclarecimento de quem quer que a encontrasse morta ou viva?</p> + +<p>Resolvi lêr os papeis.</p> + +<p>Eram um maço de cartas, atadas com torçal vermelho.</p> + +<p>Á primeira vista, fiquei perplexo.</p> + +<p>Reparando melhor, dei tino de haver entalado, entre o torçal e o rolo, um +bilhete.</p> + +<p>Esse devia ser o esclarecimento desejado.</p> + +<p>Era, em verdade.<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>Dizia simplesmente isto:</p> + +<p>«Chamo-me F., da casa de... vou para..., fugida á justa punição de meu pai e +apenas confiada na protecção do pai de meu filho, que deve nascer se a morte +não surprehender a mãe n'esta ousada resolução.</p> + +<p>«Tu, que me lêres, perdoa-me.</p> + +<p>«Se és pai, põe todos os teus cuidados na guarda de tuas filhas: se és +mulher, e estás descida a iguaes abysmos, vê no espelho da minha desgraça a +profundeza do teu erro.»</p> + +<p>Tinha-se feito a luz.</p> + +<p>Aquella mulher era filha d'um homem respeitabilissimo que ha muitos annos se +soterrara n'umas serras do Douro depois de haver percorrido o mundo, semeando +dinheiro e anecdotas, batendo os melhores cavallos, baloiçando-se nos melhores +tilburys, jogando, bebendo, reptando, apostando nas corridas, atirando aos +pombos, pompeando nas aguas de Spa, debruçando-se n'um camarote da Grande +Opera, merecendo referencias a Julio Janin, enchendo o mundo, o folhetim, o +romance e até o theatro.</p> + +<p>Ha quem diga que o nosso conhecido <i>Antony</i>, transportado do lar +deshonrado para a scena igualmente deshonrada, fôra apenas uma copia desenhada +pelo <i>crayon</i> ultra-romantico de Alexandre Dumas n'uma hora mais +ultra-romantica que o proprio <i>crayon</i>.<span class="pn">{21}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>V</h2> + +<p>Finalmente, ao recolher d'uma das viagens ao extrangeiro, casou com uma +senhora da primeira sociedade lisbonense. Quasi o surprehendeu o ser amado.</p> + +<p>Não conhecia o amor senão da capa dos livros e dos <i>vaudevilles</i>. O +casamento era para elle apenas uma comedia que vira em França e na qual homem e +mulher se davam excellencia e cumprimentavam ao jantar. Pensava pouco mais ou +menos em observar o regimen matrimonial da comedia, mas completamente se +enganou, porque, sentindo-se amado, começou de encontrar no amor thesouros que +lhe eram desconhecidos desde a mocidade. Atravessara o mundo, sem atravessar a +familia: não conhecia o amor, porque só na familia o ha. A alegria das festas, +fóra do lar, irradia como a espuma do <i>champagne</i> á luz de candelabros, +mas entorna-se e dissipa-se como ella.</p> + +<p>Suppunha elle haver-se apaixonado uma vez, aos vinte<span +class="pn">{22}</span> annos. A 2 de abril de 1829, fazendo a primeira viagem a +Pariz, ouvira cantar a Malibran, que era então a rainha da opera, n'um concerto +matutino dado na rua Taitbout, em favor dos orphãos adoptados pela «Sociedade +de moral christã.» Ficara doido, embriagado, e logo obteve uma apresentação á +cantora, que o recebeu ao <i>dessert</i>.</p> + +<p>N'essa mesma noite cantava a Malibran o papel de Desdemona no theatro dos +Buffos. O theatro trasbordava de espectadores; a receita do espectaculo subiu +ao algarismo de 18,000 francos.</p> + +<p>Não obstante ser immensa a multidão, a cantora pareceu enxergal-o e +distinguil-o com um sorriso,—d'estes sorrisos que as mulheres de theatro +espalham como bilhetes de beneficio...</p> + +<p>Isto acabou de enlouquecel-o. Todo o theatro tinha visto: a Malibran +sorrira-lhe!</p> + +<p>N'esse mesmo anno foi a cantora a Londres. Acompanhou-a, seguindo por toda a +parte o rastro de gloria que ella abrira ao passar por entre a admiração +britannica.</p> + +<p>Em janeiro de 1830, estavam ambos em Pariz: ella e elle.</p> + +<p>Foi n'esse mez e anno que Pariz a ouviu cantar o segundo acto do +<i>Matrimonio segretto</i>, com as duas maiores notabilidades cantantes da +epocha,—a Sontag e a Damoreau-Cinti.</p> + +<p>A vida do nosso <i>touriste</i> foi, durante o tempo que seguiu a Malibran, +uma serie de viagens,—as mesmas que ella fazia,—de ceias, de <i>pic-nics</i>, +de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os falsos sorrisos +desmascarar-se-iam á luz da manhã, e, digamol-o tambem, foi um inferno de +ciume.<span class="pn">{23}</span></p> + +<p>Elle tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ella um broche, como de quem +lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu desarrasoado; mas +diga-me se não tenho rasão, visto que vive em terra onde ha theatros.</p> + +<p>Ora o nosso heroe, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se +perdidamente amado, e perdidamente namorado.</p> + +<p>Duplo erro!</p> + +<p>O que lhe sustentava essa rosada illusão eram as flores, as luzes, os +crystaes, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o publico, as +ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente seductora, apenas architectada +sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a <i>gloria</i>.</p> + +<p>Mas—desapontamento horrivel!—o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as +scintillações prismaticas, e o castello encantado desabou.</p> + +<p>Foi n'esse mesmo anno de 1830 que a Malibran atou com o celebre violinista +Beriot as intimas relações que os tornaram inseparaveis.</p> + +<p>Foi n'uma ceia que elle soube a fatal noticia por intencional chocarrice de +um conviva.</p> + +<p>Esteve para erguer-se e reptar Beriot, mas Beriot era um homem serio, e não +o havia offendido.</p> + +<p>Desistiu.</p> + +<p>Amuou, corou, empallideceu, começou a tornar-se ridiculo.</p> + +<p>Malibran, que fez reparo no despeito do seu admirador, levantou-se e +apresentou-lhe a Lablanche, que estava á mesa.</p> + +<p>Coruscou no cerebro de X a ideia da vingança. Começou<span +class="pn">{24}</span> a galantear a Lablanche, a ponto de que em 1832 +percorreram todos a Italia: Malibran, Lablanche, Beriot e X.</p> + +<p>Já viu o meu amigo mais doida mocidade, mais desbaratada vida, e ao mesmo +passo tamanha nudez d'alma ainda mesmo na epocha em que o corpo se involve na +ampla capa de D. Juan?</p> + +<p>Um beneficio recebeu porém d'esse divagar pelos prazeres ruidosos. +Saturou-se do mundo. Felizmente, a sua vinda a Lisboa facilitou-lhe o unico +meio de conhecer a unica coisa que desconhecia,—a familia. Entrou no lar pela +porta do casamento quando pela janella sahia a extravagancia ainda desgrenhada +das ceias e de charuto na bocca.</p> + +<p>A proposito de charuto, meu amigo: de-me tempo de fumar um.<span +class="pn">{25}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>VI</h2> + +<p>Continuemos a fallar do pai da nossa gentil desconhecida.</p> + +<p>Acabei o charuto: podemos conversar por um pouco.</p> + +<p>O amor completou a regeneração que a experiencia do mundo principiara.</p> + +<p>Casou.</p> + +<p>No coração da esposa encontrou thesouros de raras virtudes. Alvoreceu-lhe em +torno uma aurora de tão doce luz, que pela sua mesma suavidade desbancava as +scintillações crystallinas das ceias, e os clarões que illuminavam em scena a +figura da Malibran.</p> + +<p>Toda a gente o presumia ainda rico: a verdade era que a realidade não +correspondia á opinião publica.</p> + +<p>Havia gastado como um principe russo. A capa de D. Juan não tem bolso, de +modo que emquanto as mãos tangem o bandolim da aventura vai o dinheiro cahindo +no chão.<span class="pn">{26}</span></p> + +<p>Casado, encarou com mais gravidade no seu futuro, e achou que não podia +aguentar-se nas pompas de Lisboa.</p> + +<p>O casamento tem quasi sempre isso de bom: desperta a consciencia adormecida +pela crápula.</p> + +<p>Pediu informações aos feitores, e as informações confirmaram a suspeita.</p> + +<p>Chamou á puridade a esposa e disse-lhe:</p> + +<p>—Perdoa-me, anjo, se te vou magoar com a minha primeira confidencia, mas +devo-te a verdade toda. Eu não sou tão rico como geralmente se suppõe. Gastei +muito, quasi esbanjei na sociedade o patrimonio da familia. Quero porém que tu +vivas feliz, e para attingir a tua felicidade apenas encontro abertos dois +caminhos: ou o trabalho honesto ou a tranquilla solidão. Se desejas viver no +extrangeiro, poderei obter uma embaixada; mas se preferes viver no meu e teu +paiz, temos que recolher-nos á provincia, e viver na doce tranquillidade que o +mundo da capital não conhece. Só te peço que sejas franca. Decide, e a tua +vontade será lei.</p> + +<p>A resposta foi esta:</p> + +<p>—Partiremos amanhã para o teu solar. A felicidade está onde a gente a tem; +tel-a-hemos lá. A vida no extrangeiro seria a prolongação da tua mocidade; ora +eu tenho direitos incontestaveis ao teu coração. Quero-o, pois. E onde melhor o +possuirei do que na solidão do lar, onde, fechada a porta, seremos nós os +unicos habitantes do nosso mundosinho de felicidade? Vamos lá, meu amigo. Nem +sabes como me sinto alegre! Quanto mais te distanciares do passado, menos +ciumes terei d'elle. Vamos lá.</p> + +<p>Foram.</p> + +<p>O solar, construcção coeva dos primeiros tempos da<span +class="pn">{27}</span> monarchia, era mais acervo de ruinas que palacio de +nobres. As pedras haviam-se desconjunctado, e a hera marinhava pelas fendas até +ensombrar as janellas. Nos longos corredores havia a escuridão sinistra dos +carceres. As salas, denegridas pelo tempo, eram d'uma vastidão que punha medo. +A mobilia, tão deteriorada como o edificio, tinha o aspecto funebre de +phantasmas que á meia noite se fossem sentar encostados ás lousas do cemiterio. +Os grandes contadores de pau preto negrejavam a pequenos intervallos como +ossadas de gigantes carbonisadas em forja de cyclopes. Por entre a escuridão e +o silencio da casa algum pipillar d'andorinhas, que penduraram o ninho entre as +ruinas. Tambem ás vezes no cemiterio, no meio da concava sombra dos chorões, +assim chilriam uns passarinhos que fogem quando presentem gente, porque estão +habituados ao socego das campas.</p> + +<p>As sombras da casaria deserta apavoraram a noiva de X. Uma noite uma coruja +fôra piar a uma das janellas do solar. A pobre senhora estremeceu e chorou.</p> + +<p>Acudiu o marido a abraçal-a meigamente.</p> + +<p>—Tinha sido melhor, disse elle, optarmos pelo estrangeiro. Isto aqui é +triste. Ainda se as andorinhas se não calassem de noite...</p> + +<p>—São os nossos unicos amigos, respondeu a dama. Se esta casa não é +completamente sepulcro, a ellas o devemos. Mas, meu amigo, as andorinhas me +bastam para conforto. Eu chorei porque estava triste; não foi que tivesse medo. +Não te inquietes...</p> + +<p>—Não, anjo, não. É preciso sahirmos d'aqui...</p> + +<p>—Para o extrangeiro não, não?</p> + +<p>—Socega, filha. Pois que estes montes te amedrontam<span +class="pn">{28}</span> menos que estas paredes, e que te resignas ao +sacrificio, ficaremos. Limitar-nos-hemos a mudar de casa. Amanhã tractarei de +ajustar a edificação d'um predio que tenha em conchego o que aqui perdemos em +vastidão. Bem vês que mais nos aproximaremos ainda. Eu quero ouvir a tua voz a +todo o instante. E depois, como sabes, o berço das creanças costuma ser +pequenino, e tu vais ser mãe. A nossa nova casa será pois o berço de nosso +filho. Escolho o laranjal. O vento que passar agitando as folhas embalará o +berço... Queres?</p> + +<p>—Se quero!<span class="pn">{29}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>VII</h2> + +<p>Construida a casa ao centro do laranjal, entrava a felicidade pelas janellas +com os murmurios e os olôres de fóra.</p> + +<p>Ficara deserto o solar na eminencia em que assentava. Negrejava como o +cavername de navio naufragado sobre rochas. Eram as ruinas do passado, os +escombros do feudalismo que dormiam o seu somno de seculos; o <i>cottage</i> do +laranjal era alegre como a liberdade estensiva a nobres e plebeus:—aos nobres, +porque já lhes não pesava a tarefa de mandar; aos plebeus, porque já não eram +servos de gleba.</p> + +<p>As corujas invadiram as ruinas em competencia com as trepadeiras que +bracejaram desaffogadamente, e as pavidas visões da esposa de X ficaram lá +sepultadas para nunca mais a perturbarem emquanto costurava o enxovalsinho da +creança que ia nascer.<span class="pn">{30}</span></p> + +<p>O fidalgo pasmava do poder regenerador da familia, que lhe tinha raspado da +alma a ultima lepra da extravagancia. Não via mais mundo do que aquelle. Andava +a toda a hora a olhar para o berço vasio, ancioso de vêr sobre o travesseiro o +relevo d'uma cabeça pequenina. Não faltava já o lençol de rendas nem a coberta +de damasco: o que faltava era a creança. Pozessem alli dentro uma alma, e a +felicidade ficaria completa.</p> + +<p>Chegou finalmente o dia de se realisar o venturoso sonho. Desdobrou-se a +cobertasinha adamascada, acamaram-se as rendas para não maguar o corpinho +delicado, e ali dormiu a creança o primeiro somno velada pelo pai que nem +ousava beijal-a para não a maguar.</p> + +<p>Aos cinco annos a creança tinha já um portesinho senhoril que era de namorar +os olhos. Muito redondo o vestidinho; os cabellos annelados e auri-luzentes; o +pequenino corpo escondido na fita que lhe servia de cinto.</p> + +<p>E chilreava, e esvoaçava, como se tivesse a casa por gaiola.</p> + +<p>Á medida que a pequerrucha ia crescendo, crescia com ella o amor paternal. +Sorriam de a vêr sorrir, e choravam de a vêr chorar.</p> + +<p>O grande receio era de que morresse.</p> + +<p>Esta é a loucura de todos os pais.</p> + +<p>Querem roubar á tyrannia da morte uma vida que lhes não pertence. +Esquecem-se de si mesmos para se absorverem n'uma existencia que não lhes é +essencial, mas complementar.</p> + +<p>Não a eduquem á revelia, deixando-a entregue aos instinctos bons e maus que +nascem com ella. Visto que o filho é o complemento dos pais, completem-se pelo +filho.<span class="pn">{31}</span> Adaptem-n'o, quanto possivel, á sua maneira +de pensar e sentir; façam d'elle a coda da santa melodia chamada familia. Não +se riam de que a creança faça aquillo que elles nunca fizeram. Não lhe +applaudam o bater com o pésinho no chão, o desfolhar as flores que lhe são +defezas, o mexer nos objectos que devem respeitar. Bater com o pé no chão é a +principio um movimento mechanico, nervoso. Com o decorrer do tempo corresponde +ao movimento uma ideia má e um mau sentimento. Então esse acto já não é +mechanico simplesmente; é a manifestação da raiva, do desespero, do odio. A +esta perniciosa educação é preferivel a morte. As plantas novas tomam o geito +que lhes dão. Deixem crescel-as sem enleial-as, que ellas assombrarão todo o +pomar.</p> + +<p>Ora o amor é cego, e não vê nada para fóra de si.</p> + +<p>Foi isto o que aconteceu.</p> + +<p>A creança cresceu com a mulher. Os pais, para que outro amor lh'a não +roubassem, deram de mão a todas as visitas de gente moça. As unicas relações +que se conservaram foram as do voltarete: eram duas. O capitão-mór tinha +cincoenta e cinco annos; tinha além d'isto rheumatismo e oculos azues. O outro +parceiro era um morgado de quarenta annos, que estivera em Pariz com o pai da +menina e <i>servira de capa</i> a varias escaladas. Tinha casado e parecia um +homem morto. O casamento tem tanto de bom como de mau: é como os carceres. A +uns presos aproveita a reclusão; outros sahem da cadeia mais desmoralisados.</p> + +<p>Os primeiros estavam representados em X; os segundos no morgado.</p> + +<p>Bem casados e mal casados, diz o mundo.<span class="pn">{32}</span></p> + +<p>O amigo do fidalgo tinha <i>verve</i> e bigode: duas tentações.</p> + +<p>Ainda sabia dar o laço da gravata: um mau symptoma.</p> + +<p>Fumava charuto: um perigo.</p> + +<p>Contava das suas viagens, dizia que tal cantora, que conhecera, tinha os +olhos bonitos e as unhas feias; que o nariz da Malibran não era tão correcto +como o pescoço: uma desgraça.</p> + +<p>N'uma palavra: era entendedor.</p> + +<p>A menina da casa, emquanto elles jogavam, estava por ali.</p> + +<p>E o peior que podia acontecer n'aquella casa era o entendedor estar lá.</p> + +<p>Por mais que elle quizesse dominar o seu temperamento, ser bom e digno, leal +e cavalheiro, o coração, que estava comprimido nas reixas conjugaes, aproveitou +a occasião e poz a cabeça fóra da grade a pedir esmola d'amor.</p> + +<p>A inexperiente menina ouviu-o, sem saber o que fazia.</p> + +<p>Tinham-n'a ensinado a não fugir d'aquelles dois homens: não fugiu.<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p> </p> + +<h2>VIII</h2> + +<p>Mau é brincar com fogo: o incendio irrompe.</p> + +<p>O amigo da casa começou a fazer reparo nas graças da menina, e achou que +tinha os dentes alvissimos, os olhos formosos, os cabellos soberbos.</p> + +<p>A menina, por sua parte, entrou de deixar-se influenciar agradavelmente pela +amena eloquencia do unico homem estranho que fallava n'aquella casa.</p> + +<p>Era elle o unico orador dos serões intimos; a unica voz que sobrepujava o +fremito das cartas na mesa do voltarete.</p> + +<p>Depois a menina lisongeava-se de que um homem, que tinha corrido o mundo, e +conhecido mulheres celebres por talento e formosura, a conceituasse +intelligente e gentil.</p> + +<p>Estava-se preparando n'aquelle seroar despreoccupado a ruina de Troya.</p> + +<p>O apartamento é um mau systema de educação. A borboleta, que não conhece o +perigo da chamma, arroja-se á luz.<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>Era melhor tel-a avisado para que demorasse a morte quanto lhe fosse +possivel.</p> + +<p>Após as amabilidades vieram os galanteios, e após os galanteios as +confidencias.</p> + +<p>A menina ouviu e acreditou.</p> + +<p>Começou-se a dizer por fóra que a menina era amada pelo morgado.</p> + +<p>Só não o diziam, nem ouviam, os pais da menina e a esposa do morgado.</p> + +<p>Decorreu tempo, e a menina deixou de sahir a passeio; ao mesmo tempo o +morgado deixou de ser assiduo.</p> + +<p>A menina fez-se triste; o morgado andava preoccupado.</p> + +<p>Luctavam ambos com a resolução do mesmo problema: encobrir uma vergonha +commum.</p> + +<p>Foi n'essa epocha que o morgado teve de ir ao Porto por causa de pleitos que +se ventilavam nos tribunaes.</p> + +<p>Pediu-lhe a menina que a tirasse da casa paterna, antes que rebentasse o +escandalo.</p> + +<p>O morgado prometteu demorar-se apenas alguns dias no Porto, e voltar depois +de recolhidas grossas quantias, cujo embolço dependia da solução do pleito, a +seu vêr bem encaminhado, para se passarem ambos a Hespanha.</p> + +<p>Houve porém uma camponeza que os viu estarem-se despedindo em logar +afastado. Contou-o á noite á lareira. A revelação da camponesa espalhou-se. +Chegou aos solares, e aos ouvidos da desventurosa esposa do morgado.</p> + +<p>Pensou a infeliz senhora que poderia ainda atalhar o incendio, e mandou um +portador com uma carta á mãe da menina.</p> + +<p>Faltaram-lhe as forças para ir pessoalmente.<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>Chegava o mensageiro a tempo que a menina estava chorando á janella do seu +quarto.</p> + +<p>O coração, que é sempre feiticeiro, adivinhou.</p> + +<p>O mensageiro, que trazia recommendação, não fez caso.</p> + +<p>Sahiu-lhe a menina ao encontro. Pediu-lhe com lagrimas nos olhos e na voz +que lhe entregasse a carta e fosse dizer á morgada que a havia depositado nas +mãos de sua mãe.</p> + +<p>—Veja que me perde, podendo salvar-se com uma simples mentira! Se tivesse +uma filha, seria mais clemente.</p> + +<p>O mensageiro era pae: entregou-lhe a carta.</p> + +<p>A menina leu-a, e cuidou morrer d'afflicção e vergonha.</p> + +<p>Dizia a morgada que as senhoras da terra,—as quaes eram amantes de varios +morgados casados,—já não levantariam o olhar, se a encontrassem nos caminhos, +para a amante de seu marido.</p> + +<p>Era um modo de dizer que o escandalo tinha estrondeado, e que Jesus Christo +não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntarias peccadoras se +arreceiava de ser a primeira a apedrejar a peccadora incauta.</p> + +<p>De feito, Christo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda os +vendilhões da honra alheia entram ao templo da familia, e as mulheres adulteras +erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abysmo em que ellas +estão.</p> + +<p>A menina tratou de emmassar as cartas do morgado e de metter no seio o +bilhetinho que já tivemos occasião de lêr.</p> + +<p>Esperou que fosse noite, e metteu-se a caminho.</p> + +<p>Onde ia a pobresinha?</p> + +<p>Procurar o morgado ao Porto.</p> + +<p>Foi andando, andando, rasgando os pés nas burguas<span +class="pn">{36}</span> das serras, rompendo a escuridão, arquejante, timida do +menor ruido, resoluta da coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze +horas da noite, cahiu extenuada ao sopé das Victoreiras.</p> + +<p>N'este lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais que +se passou.</p> + +<p>Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a +afllicção da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi.</p> + +<p>A gentil desconhecida, como a principio eu lhe chamava, tornou em si depois +de empregados muitos esforços para reanimal-a. Meu tio padre, chamado por mim +precipitadamente, encarregou-se do piedoso encargo de recolher a menina em sua +casa, e de negociar a sua entrada no convento de *, onde se enclausurará depois +que seja mãe.</p> + +<p>O morgado, lendo casualmente no Porto uma das minhas cartas, publicadas no +<i>Primeiro de Janeiro</i>, escreveu-me a impensada missiva e logo se deu +pressa em partir, e em me convidar á entrevista que acceitei.</p> + +<p>Tomará conta do filho, logo que nasça, e aproveitará decerto esta tremenda +lição.</p> + +<p>Ainda agora me não parece dislate repetir a pergunta: Morta ou viva?</p> + +<p>Viva para si mesma, e morta para o mundo.</p> + +<p>Que desgraça!</p> + +<p>Ah! Christo não voltará outra vez; a ter de voltar, já se haveria amerciado +de tantas miserias humanas!</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">FIM.</p> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Christo não volta, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA *** + +***** This file should be named 32381-h.htm or 32381-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32381/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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