summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:57:30 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:57:30 -0700
commitd5fad0da0e85107b49089d3debe57e72aca57875 (patch)
tree28f49ad1c96e80a4de1e94845a215f228060153a
initial commit of ebook 32381HEADmain
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--32381-8.txt1376
-rw-r--r--32381-8.zipbin0 -> 25411 bytes
-rw-r--r--32381-h.zipbin0 -> 26797 bytes
-rw-r--r--32381-h/32381-h.htm1486
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
7 files changed, 2878 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/32381-8.txt b/32381-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..cfe4542
--- /dev/null
+++ b/32381-8.txt
@@ -0,0 +1,1376 @@
+The Project Gutenberg EBook of Christo não volta, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Christo não volta
+ (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32381]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+ CHRISTO NÃO VOLTA
+
+ (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)
+
+ NARRATIVA
+
+ POR
+
+ ALBERTO PIMENTEL
+
+ Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta
+ negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle
+ tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento
+ d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima
+ Providencia! Nada! Mas... voltareis, ó Christo?
+
+ CAMILLO CASTELLO-BRANCO.
+
+ LIVRARIA INTERNACIONAL
+ DE
+ ERNESTO CHARDRON
+ 96, Largo dos Clerigos, 98
+ PORTO
+
+ EUGENIO CHARDRON
+ 4, Largo de S. Francisco, 4-A
+ BRAGA
+
+ 1873.
+
+ PREÇO, 200 réis.
+
+
+
+
+CHRISTO NÃO VOLTA
+
+
+
+
+CHRISTO NÃO VOLTA
+
+(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)
+
+NARRATIVA
+
+POR
+
+ALBERTO PIMENTEL
+
+ Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta
+ negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle
+ tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento
+ d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima
+ Providencia! Nada! Mas... voltareis, ó Christo?
+
+ CAMILLO CASTELLO-BRANCO.
+
+LIVRARIA INTERNACIONAL
+
+DE
+
+ERNESTO CHARDRON
+
+96, Largo dos Clerigos, 98
+
+PORTO
+
+EUGENIO CHARDRON
+
+4, Largo de S. Francisco, 4-A
+
+BRAGA
+
+1873.
+
+
+
+
+
+PORTO: TYP. DE MANOEL JOSÉ PEREIRA
+
+Rua de Santa Thereza, n.º 4 a 6.
+
+
+
+
+Cartas enviadas ao «Primeiro de Janeiro»
+
+
+I
+
+Castello de Paiva, junho de 1873.
+
+ MEU AMIGO.
+
+Como tem navegado Douro acima e conhece bem as planicies e montanhas que
+a uma e outra margem se encontram, umas espraiando-se ao nivel da
+corrente, outras erguendo-se ameaçadoras e aridas para o ceo, não me
+dispenso de contar-lhe um caso triste e verdadeiro, porque o presenciei
+eu, se bem que mal possa ser chronista, porque estou ainda na commoção
+da surpreza.
+
+Encontrei-o no Porto, e disse-lhe que tinha de partir para Castello de
+Paiva. Effectivamente parti no dia fixado. Não jornadeei por terra, o
+que seria incomparavelmente mais rapido, porque me julguei obrigado, a
+bem de meus proprios interesses, a acompanhar o barco carregado por
+minha conta. Larguei do caes da Ribeira, cerca da meia noite, para
+aproveitar a maré até Pé de Moira. Obedeço a um pedido não declarando o
+dia. Cerca das onze horas da manhã estava em Pé de Moira, onde os
+marinheiros e arraes almoçaram, comendo uns peixes fritos na barraca de
+ramas de pinheiro, que o meu amigo conhece, e bebendo pela tradicional
+bilha de barro vermelho.
+
+Ahi me prophetisou o arraes que o termo da viagem seria moroso, porque
+não havia vento e o barco ia muito carregado.
+
+Resignei-me.
+
+Armou-se um tolde com a vela, accendi o meu cachimbo, bebi tambem, e
+comecei a lêr os jornaes que trazia no bolso, disposto a viver sobre
+agua o tempo que fosse preciso.
+
+Oh! enfadonha coisa este ante-diluviano processo de locomoção! Digo
+ante-diluviano em rasão de Noé se ter salvo embarcado no dia da grande
+submersão da terra.
+
+Li os jornaes de fio a pavio, como se diz não sei se em bom portuguez,
+reli-os, decorei-os. Cheguei a devorar os annuncios com uma soffreguidão
+de cannibal. Enguli e digiri todos os _barateiros_ e todos os
+_precisa-se_. Comprehendi então o que ha de profundamente triste em
+_precisar_; eu tambem precisava de chegar a casa o mais breve possivel e
+todavia a terra firme estava para mim como a agua para Tantalo. Vi-a; e
+tudo se ficava em vêl-a.
+
+Foi-me anoitecendo ainda a grande distancia de casa. Custou-me a
+transigir com a necessidade de passar segunda noite no rio. Que me
+importava a mim o luar, a ardentia das aguas, as vaporações embalsamadas
+da natureza? Não sou poeta; já tive um pouco d'isso, é verdade, mas o
+que mais ambiciono presentemente é dormir na minha cama, comer á minha
+mesa, e calçar as minhas botas.
+
+Finalmente não havia remedio senão conformar-me ás circumstancias; o
+homem nasceu para joguete; fui pois o que tem sido e ha de ser
+perpetuamente o meu similhante.
+
+Cerrou-se-nos inteiramente a noite ao sopé das Victoreiras. O arraes deu
+voz de lançar ferro; os marinheiros iam cansados de tirar o barco á
+sirga e logo saltaram em terra para queimar sobre gravetos o seu
+bacalhau. Puxei do meu taleigo e comi uma fatia de presunto de fiambre e
+outra fatia de queijo.
+
+Depois que gregos e troyanos se banquetearam com o frugal repasto,
+tractou-se de acamar e dormir.
+
+Os marinheiros acobertaram-se com as mantas e romperam, tarauteando
+pelos narizes, em hymnos a Morpheu. Eu é que não nasci pagão; fui
+remisso em render culto á tetrica divindade mythologica. Mexi-me,
+remexi-me, rebuli-me e por mais d'uma vez accendi o meu rolinho de
+viagem para dar batalha a pulgas, persevejos e demais bicharia, que
+passava dos marinheiros para mim e de mim para os marinheiros.
+
+Cerca das onze horas da noite pareceu-me ouvir de repente o baque de um
+corpo em terra, mas um segundo depois não pude duvidar ao ouvir um grito
+surdo como o de quem cahia contra o solo. Chamei afflictivamente os
+marinheiros, que despertaram roncando interrogações.
+
+--Que foi? Que é? perguntaram elles.
+
+--Ahi fóra cahiu gente!
+
+--Quem havia de cahir, senhor!
+
+--Ouvi distinctamente a queda, e um grito depois.
+
+--Um grito!
+
+--Posso affirmar; ouvi gritar com toda a certeza.
+
+Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Elles
+accenderam o seu lampeãosinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas
+fragas á procura d'agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir
+alvarmente e a dizer que eu era dado a medo de bruxas. De repente
+pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei silencio. Os marinheiros trocaram
+entre si um olhar ironico, que para logo se volveu credulo, porque
+distinctamente ouviram um gemido.
+
+--É alma perdida! disse um com voz tremula.
+
+--É naturalmente corpo perdido, objectei eu. Calem-se. Vamos a vêr se
+nos orientamos.
+
+Apoz um longo intervallo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais
+debilmente. Podemos orientar-nos. Eu marinhei á frente dos homens,
+arrancando da mão d'um a lanterna. A pequena distancia pareceu-me vêr um
+vulto estendido no chão. Baixei o lampeão e reconheci um corpo de
+mulher. Os marinheiros estavam attonitos e como que receiosos
+d'approximar-se. Fui eu quem, poisando o lampeão, levantou o corpo.
+E--surpreza extraordinaria!--vi uma bonita mulher, se bem que
+mortalmente pallida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado.
+Estaria viva ou morta? Não sabiamos. A verdade é que estava fria como
+cadaver. Os marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a
+transportal-a ao barco. Deitamol-a, aspergimol-a, lavamos-lhe os
+ferimentos e nem tempo tivemos--eu pelo menos--para pensar no
+extraordinario do acontecimento. Hoje é que eu, ainda que mal,
+reflexiono e me confirmo que não ha romance que seja absurdo.
+
+
+II
+
+A formosa desconhecida continuava a estar immovel e fria, apesar dos
+cuidados que lhe prodigalisamos e que, attentas as nossas
+circumstancias, não podiam ser completos.
+
+Sabe que eu não sou piegas nem romantico,--o que significa o mesmo,
+porque o romantecismo é a pieguice do espirito--mas confesso-lhe
+francamente que me horrorisaram a solidão, a escuridade, a massa negra
+das aguas e a massa negra das serras, o desamparo do homem entre a agua
+que é fria e a rocha que é dura, entre ambas que são mudas e
+surdas,--finalmente, o desagasalho, a impossibilidade de encontrar
+soccorro!
+
+Como o Douro me pareceu differente d'aquelle extenso e caudaloso rio
+nosso conhecido, meu e seu, quasi sempre placido, povoado de barcos,
+animado de cantares, marginado de casinhas e campanarios que de longe a
+longe se penduram das fragas, n'uma palavra, accidentado de tons
+variados e por mais d'uma vez festivos!
+
+Ordinariamente, quando se viaja, tem-se saude. Vem a gente a lêr no
+barco, a fumar, a conversar os marinheiros, a incital-os a que cantem ao
+desafio, a comer a sua canja e a beber a sua pinga!
+
+Nada nos apavora então! Quando o barco passa por baixo das Victoreiras,
+e se vê lá no alto, ameaçando eternamente despegar-se, aquella enorme
+avalanche negra, informe, nem siquer lembra que os fraguedos, que se
+encastellaram um dia, por uma evolução da natureza, podem rolar e
+precipitar-se alguma hora, por outra evolução imprevista. Contenta-se a
+gente com ouvir da bocca dos marinheiros uma tradição do sitio.
+
+--Alli, dizem elles, é que os homens trahidos trazem as mulheres a
+despenhar-se.
+
+Elles não dizem isto por estas palavras, mas digo eu. E a gente
+facilmente acredita que haja homens que se dêem ainda o incommodo de
+jornadear por algumas horas para despenhar as mulheres adulteras, que já
+estão despenhadas, e que haja mulheres, que depois de conhecerem o
+vicio, tenham a virtude de se deixar morrer!
+
+A viagem pelo Douro, de dia, em boa disposição d'espirito e corpo, tem
+alguma coisa de idyllio, d'Arcadia, de creendice, coisas impossiveis de
+encontrar hoje em qualquer outra parte. É uma especie de Pantana, onde o
+carneiro assado parece saltar-nos aos dentes, e a borracha trepar-nos
+aos beiços, e onde a gente, olhando para as mãos, encontra cinco facas e
+cinco garfos! Onde é hoje que se póde encontrar a realidade d'este ideal
+de Pantana, a não ser n'uma viagem pelo Douro? Quem é hoje que come
+com a mão, desde que o Monteverde publicou o _Manual encyclopedico_,
+e nos exames do lyceu se ensina a dar ao queixo, quer dizer, a comer com
+as mandibulas?
+
+Mas como o quadro muda de noite, santo Deus! quando terra, ceo e agua
+são escuros, e está ao pé de nós um corpo frio, immovel, quando o nosso
+espirito pergunta a si mesmo, para resolver um mysterio, se aquella
+mulher, formosa e inanimada, gentil e desconhecida, será morta ou viva!
+
+E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber
+o halito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espirito que
+comprehenda a nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os
+puros cadeirinhas do rio! Fazem tudo mechanicamente; teem força: puxam
+por ella. Perdão, pelo que elles puxam é por nós, pelo barco, e por
+elles mesmos. Podiam ter nascido bois, e nasceram homens. Tambem os
+cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e nasceram gallegos. Que
+a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana, comprehende-se,
+porque tambem aquelle artista, que estava a fazer o demonio calcado pelo
+archanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demonio, e
+aproveitou a esculptura para fazer um santo deitado.
+
+O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de
+riba-Doiro e os cidadãos de riba-Minho, é tão nobre, tão dedicada,--e
+perdoe-se-me a vaidade de a estudar em mim mesmo--que logo me esqueci da
+urgencia de abreviar a viagem, de descarregar em Castello de Paiva os
+meus generos, e concentrei todas as minhas attenções n'aquella mulher
+que não conhecia, que vagueava a deshoras por uma serra, com risco de
+rolar ao Douro, sósinha com a sua ideia, que era provavelmente uma
+grande dôr.
+
+Permitta-me--entre parenthesis--que chame á _dôr_ moral uma ideia e não
+um sentimento. Isto é philosophia minha. Quando se acorda pela manhã, e
+se _lembra_ a gente do soffrimento da vespera, é que continua a _sentir_
+o que na vespera sentiu. E que tal! approva? Eu quando fui d'uma vez ao
+Porto, acompanhar o meu patricio Barros que ia fazer concurso para uma
+cadeira de philosophia n'um lyceu do sul, e ouvi argumentar um tal
+Albuquerque d'oculos verdes, adquiri a convicção de que tambem podia ser
+philosopho, mais pelo que ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao
+Barros.
+
+A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao
+joelho.
+
+Pozessem no meu barco um farrabraz, um mata-mouros, um espadachim, ao pé
+d'aquella mulher, e ainda que esse stentor não tivesse esposa, nem
+filha, nem--ó prodigio!--tivesse mãe, elle sentiria o que eu senti, a
+abnegação das situações anormaes, a ancia de valer a quem está carecido
+de soccorro, a necessidade de saber se aquella mulher estava morta ou viva!
+
+Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as
+minhas, a vêr se provocava a reacção; lembrei-me de que tinha aguardente
+comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhal-a, ao
+conchegar-lhe a roupa, senti que tinha no bolso papeis.
+
+Bem podia ser que alli estivesse a chave do enigma.
+
+
+III
+
+Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda hontem lhe
+tenha enviado a segunda carta sobre o extraordinario caso das
+Victoreiras, não posso resistir á tentação de voltar hoje ao assumpto
+para lhe communicar que por carta recebida agora do correio do Porto fui
+ameaçado de não sei que medonhos perigos no caso de proseguir na
+veridica historia da morta ou viva.
+
+Em nenhum acto da minha vida blasono de valente, mas tambem não é meu
+costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em
+proveito da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta,
+é uma tremenda lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de
+Castello de Paiva? Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região
+ignorada? Eu não sei. O que posso affirmar é que a tenebrosa carta nem
+me cheirou a certidão d'obito, nem estou em terra onde a supradita
+carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, podesse converter-se em
+realidade impunementemente.
+
+Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de
+escandalos. Isto assim não póde ser,--que triumphe sempre o forte e
+soffra sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escandalos e,
+quando muito, publical-os desfigurados. Mas--erro imperdoavel!--o
+escandalo é muitas vezes a lição e algumas vezes póde ser a cura. É
+preciso que se espalhe, que se discuta, que se commente, com vagar, como
+eu estou fazendo, para que a precipitação não cegue o entendimento.
+
+Este caso da morta ou viva tem surprehendido muita gente, mesmo em
+Castello de Paiva. Era eu a unica pessoa que estava na confidencia
+d'elle, porque fui a unica testimunha occular. A principio julguei dever
+guardar segredo. Ao cabo, porém, de muitas noites de insomnia, resolvi
+dar-lhe publicidade. Sabido apenas por mim, não aproveitaria a ninguem;
+divulgado, algum proveito poderá levar á sociedade.
+
+Ha que tempos se anda ahi a fallar da emancipação da mulher! Mentira,
+hypocrisia, infamia!
+
+A sociedade lança mão da these-emancipação para mais escravisar a
+mulher, como os governos costumam exhibir o rotulo _melhoramentos
+materiaes_ quando tentam vexar os povos com novos tributos.
+
+Querem estes philosophos de má morte emendar a natureza. A mulher não
+nasceu para _senhora_ nem para _escrava_; a mulher é companheira. Como
+esta palavra está a dizer, ella deve compartir comnosco alegrias e
+dores, risos e lagrimas, flores e espinhos. Fallar-lhe em
+emancipacão é suppor que havemos sido despotas ao ponto de lhe
+roubarmos a liberdade relativa que lhe deviamos ter dado, e que lhe
+queremos restituir; é proclamar a nossa propria vileza; é arrogar-nos
+fatuamente a importancia de libertadores do genero humano. Escravisal-a
+é aviltar nossos filhos até á condição de filhos d'escrava e
+julgarmo-nos nós mesmos nas circumstancias de nossos filhos.
+
+Não ha emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é
+sociedade conjugal.
+
+Portanto eu, philosopho montanhez, estarei sempre na brecha para atacar
+qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são
+viciosos, estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo.
+
+Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja
+honra se quer subjeitar a um capricho, esquecendo-nos de que
+deshonrando-a a ella nos deshonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher
+a guitarra com que nos recreamos durante uma serenata e que ao romper do
+dia, ebrios de mau vinho e mau prazer, atiramos pela janella fóra. Quem
+a recolherá depois de a vêr no monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a
+guitarra era mimosa, quando suspirava ao luar; tinha uma voz doce e
+melodiosa que despertava vagos pensamentos na alma; podia ainda murmurar
+cadencias se continuasse a ser dedilhada por mãos delicadas. Mas nós,
+que a principio mal poisavamos os dedos nas cordas, que a julgavamos
+intermedio entre a nossa alma e a natureza, porque era ella, a guitarra,
+que estava fallando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por
+ultimo cahir em cheio a mão sobre o fragil instrumento e fizemos estalar
+uma corda, que precedeu o estalar de todas as outras.
+
+Pois a corda que estalou chamava-se--honra; depois d'ella estalaram
+todas as outras, que se podem chamar--pundonor, brio, fé. A mulher,
+quando chega a este destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não
+se peja de haver cahido; não tem brio, porque não pensa em
+rehabilitar-se; não tem fé, porque já não acredita na propria
+rehabilitação nem na rehabilitação das outras.
+
+Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja
+do adello.
+
+Ou morre ou se vende.
+
+Não, philosophos da philosophia de Mahomet, que sustentaes o _crê ou
+morres_, não, em nome de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas
+esposas, de nossas filhas, havemos, nós, os que temos dignidade e
+coração, de quebrar aos vossos pés essas duas laminas d'aço cortante que
+limitam o vosso perfido dilemma. E como o havemos de fazer? Desvendando
+a mulher, avisando-a, apontando-lhe o exemplo.
+
+Meu amigo,--perdoe-me esta dissertação que era precisa, depois de lhe
+haver annunciado a recepção d'uma carta ameaçadora, e previna os seus
+leitores de que eu d'aqui em diante entrarei directamente no assumpto.
+
+
+IV
+
+Quer que lhe explique o meu demorado silencio?
+
+Dias depois de publicada a terceira carta, recebo pelo correio outra de
+letra desconhecida.
+
+Abro e leio:
+
+«Ill.mo snr:
+
+«Vejo que é um homem esforçado e brioso, para quem todas as ameaças são
+nullas. Perdoe-me o havel-o comprehendido mal, tomando-o como
+pusillanime. Lance tudo á conta do meu desespero de me vêr justamente
+accusado em muitos relanços das suas cartas, e falsamente incriminado
+n'outros. Foi uma infamia, que a sua magnanimidade perdoará, e que o meu
+arrependimento redimirá. Peço-lhe porém--se alguma confiança lhe mereço
+ainda depois de perdoado--que me ouça, antes de continuar as suas
+cartas, para que, melhor informado, possa conhecer as particularidades
+da veridica narrativa. Um inconveniente obsta porém á minha ida a
+Castello de Paiva: é o ser uma terra muito pequena e açular eu a
+curiosidade do publico ocioso com a minha presença ahi, depois da
+publicação das suas cartas.
+
+«N'esta conjunctura não será grosseira impertinencia pedir-lhe um
+sacrificio por amor da imparcialidade com que quer ser juiz na minha
+causa? Pois bem, ao magistrado que me tem de julgar perante a opinião
+publica, e que deve escutar com igual benevolencia reu e queixoso,
+exoro, supplico vivamente que se digne marcar sitio onde me possa dar
+audiencia para ouvir da minha justiça.
+
+«Não receie ciladas. Se não fosse realmente um homem corajoso,
+lembrar-lhe-ia que prevenisse a authoridade da hora e local da entrevista.»
+
+Respondi immediatamente:
+
+«Ill.mo snr:
+
+«Tenho de ir a Penafiel depois d'amanhã. Portanto, se não quer ser
+visto, espere-me ás onze horas da noite na capella de S. Roque.
+
+«Não receio ciladas. Deixemos a authoridade em paz.»
+
+Fui.
+
+Effectivamente pude orientar-me melhor nos episodios que precederam o
+caso das Victoreiras, o que de nenhum modo quer dizer que eu modificasse
+absolutamente o meu primeiro juizo.
+
+Ainda assim cumpre-me restabelecer a verdade dos factos.
+
+Da parte _d'elle_ não houve a minima culpa no incidente d'aquella noite.
+Foi sim um grave erro da sua parte, o erro de ceder á loucura d'um
+momento, que deu logar a esse acto de desespero da formosa desconhecida.
+
+Elle, porém, não estava avisado da fuga, como pude verificar pelo
+confronto dos depoimentos d'ambos.
+
+O que é certo é que o vi chorar...
+
+Nunca o seu coração está tão endurecido que não tenha a sensibilidade
+que refrigera com lagrimas as dôres intimas.
+
+Todavia aguardemos o desfecho dos acontecimentos, esperando, como o dr.
+Pangloss, que tudo seja pelo melhor no melhor dos mundos.
+
+Isto até aqui, meu amigo, foi para si.
+
+D'aqui em diante vae proseguir a narrativa, reatando-se no ponto em que
+ficara, como se não se houvera dado este episodio que acabo de referir,
+e que todavia me permittirá ser mais explicito.
+
+Senti, disse eu na segunda carta, que a desconhecida tinha no bolso papeis.
+
+Só alli podia estar a chave do que para mim era enygma.
+
+Mas, ao mesmo passo, um escrupulosito: Ser-me-ia permitlido lêr essa
+correspondencia?
+
+E logo a contrapôr-se ao escrupulosito uma reflexão: Não a traria ella
+comsigo, prevendo que as suas debilitadas forças lhe faltariam no
+caminho, para esclarecimento de quem quer que a encontrasse morta ou viva?
+
+Resolvi lêr os papeis.
+
+Eram um maço de cartas, atadas com torçal vermelho.
+
+Á primeira vista, fiquei perplexo.
+
+Reparando melhor, dei tino de haver entalado, entre o torçal e o rolo,
+um bilhete.
+
+Esse devia ser o esclarecimento desejado.
+
+Era, em verdade.
+
+Dizia simplesmente isto:
+
+«Chamo-me F., da casa de... vou para..., fugida á justa punição de meu
+pai e apenas confiada na protecção do pai de meu filho, que deve nascer
+se a morte não surprehender a mãe n'esta ousada resolução.
+
+«Tu, que me lêres, perdoa-me.
+
+«Se és pai, põe todos os teus cuidados na guarda de tuas filhas: se és
+mulher, e estás descida a iguaes abysmos, vê no espelho da minha
+desgraça a profundeza do teu erro.»
+
+Tinha-se feito a luz.
+
+Aquella mulher era filha d'um homem respeitabilissimo que ha muitos
+annos se soterrara n'umas serras do Douro depois de haver percorrido o
+mundo, semeando dinheiro e anecdotas, batendo os melhores cavallos,
+baloiçando-se nos melhores tilburys, jogando, bebendo, reptando,
+apostando nas corridas, atirando aos pombos, pompeando nas aguas de Spa,
+debruçando-se n'um camarote da Grande Opera, merecendo referencias a
+Julio Janin, enchendo o mundo, o folhetim, o romance e até o theatro.
+
+Ha quem diga que o nosso conhecido _Antony_, transportado do lar
+deshonrado para a scena igualmente deshonrada, fôra apenas uma copia
+desenhada pelo _crayon_ ultra-romantico de Alexandre Dumas n'uma hora
+mais ultra-romantica que o proprio _crayon_.
+
+
+V
+
+Finalmente, ao recolher d'uma das viagens ao extrangeiro, casou com uma
+senhora da primeira sociedade lisbonense. Quasi o surprehendeu o ser amado.
+
+Não conhecia o amor senão da capa dos livros e dos _vaudevilles_. O
+casamento era para elle apenas uma comedia que vira em França e na qual
+homem e mulher se davam excellencia e cumprimentavam ao jantar. Pensava
+pouco mais ou menos em observar o regimen matrimonial da comedia, mas
+completamente se enganou, porque, sentindo-se amado, começou de
+encontrar no amor thesouros que lhe eram desconhecidos desde a mocidade.
+Atravessara o mundo, sem atravessar a familia: não conhecia o amor,
+porque só na familia o ha. A alegria das festas, fóra do lar, irradia
+como a espuma do _champagne_ á luz de candelabros, mas entorna-se e
+dissipa-se como ella.
+
+Suppunha elle haver-se apaixonado uma vez, aos vinte annos. A 2 de
+abril de 1829, fazendo a primeira viagem a Pariz, ouvira cantar a
+Malibran, que era então a rainha da opera, n'um concerto matutino dado
+na rua Taitbout, em favor dos orphãos adoptados pela «Sociedade de moral
+christã.» Ficara doido, embriagado, e logo obteve uma apresentação á
+cantora, que o recebeu ao _dessert_.
+
+N'essa mesma noite cantava a Malibran o papel de Desdemona no theatro
+dos Buffos. O theatro trasbordava de espectadores; a receita do
+espectaculo subiu ao algarismo de 18,000 francos.
+
+Não obstante ser immensa a multidão, a cantora pareceu enxergal-o e
+distinguil-o com um sorriso,--d'estes sorrisos que as mulheres de
+theatro espalham como bilhetes de beneficio...
+
+Isto acabou de enlouquecel-o. Todo o theatro tinha visto: a Malibran
+sorrira-lhe!
+
+N'esse mesmo anno foi a cantora a Londres. Acompanhou-a, seguindo por
+toda a parte o rastro de gloria que ella abrira ao passar por entre a
+admiração britannica.
+
+Em janeiro de 1830, estavam ambos em Pariz: ella e elle.
+
+Foi n'esse mez e anno que Pariz a ouviu cantar o segundo acto do
+_Matrimonio segretto_, com as duas maiores notabilidades cantantes da
+epocha,--a Sontag e a Damoreau-Cinti.
+
+A vida do nosso _touriste_ foi, durante o tempo que seguiu a Malibran,
+uma serie de viagens,--as mesmas que ella fazia,--de ceias, de
+_pic-nics_, de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os
+falsos sorrisos desmascarar-se-iam á luz da manhã, e, digamol-o tambem,
+foi um inferno de ciume.
+
+Elle tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ella um broche, como de
+quem lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu
+desarrasoado; mas diga-me se não tenho rasão, visto que vive em terra
+onde ha theatros.
+
+Ora o nosso heroe, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se
+perdidamente amado, e perdidamente namorado.
+
+Duplo erro!
+
+O que lhe sustentava essa rosada illusão eram as flores, as luzes, os
+crystaes, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o publico,
+as ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente seductora, apenas
+architectada sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a _gloria_.
+
+Mas--desapontamento horrivel!--o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as
+scintillações prismaticas, e o castello encantado desabou.
+
+Foi n'esse mesmo anno de 1830 que a Malibran atou com o celebre
+violinista Beriot as intimas relações que os tornaram inseparaveis.
+
+Foi n'uma ceia que elle soube a fatal noticia por intencional chocarrice
+de um conviva.
+
+Esteve para erguer-se e reptar Beriot, mas Beriot era um homem serio, e
+não o havia offendido.
+
+Desistiu.
+
+Amuou, corou, empallideceu, começou a tornar-se ridiculo.
+
+Malibran, que fez reparo no despeito do seu admirador, levantou-se e
+apresentou-lhe a Lablanche, que estava á mesa.
+
+Coruscou no cerebro de X a ideia da vingança. Começou a galantear a
+Lablanche, a ponto de que em 1832 percorreram todos a Italia: Malibran,
+Lablanche, Beriot e X.
+
+Já viu o meu amigo mais doida mocidade, mais desbaratada vida, e ao
+mesmo passo tamanha nudez d'alma ainda mesmo na epocha em que o corpo se
+involve na ampla capa de D. Juan?
+
+Um beneficio recebeu porém d'esse divagar pelos prazeres ruidosos.
+Saturou-se do mundo. Felizmente, a sua vinda a Lisboa facilitou-lhe o
+unico meio de conhecer a unica coisa que desconhecia,--a familia. Entrou
+no lar pela porta do casamento quando pela janella sahia a extravagancia
+ainda desgrenhada das ceias e de charuto na bocca.
+
+A proposito de charuto, meu amigo: de-me tempo de fumar um.
+
+
+VI
+
+Continuemos a fallar do pai da nossa gentil desconhecida.
+
+Acabei o charuto: podemos conversar por um pouco.
+
+O amor completou a regeneração que a experiencia do mundo principiara.
+
+Casou.
+
+No coração da esposa encontrou thesouros de raras virtudes.
+Alvoreceu-lhe em torno uma aurora de tão doce luz, que pela sua mesma
+suavidade desbancava as scintillações crystallinas das ceias, e os
+clarões que illuminavam em scena a figura da Malibran.
+
+Toda a gente o presumia ainda rico: a verdade era que a realidade não
+correspondia á opinião publica.
+
+Havia gastado como um principe russo. A capa de D. Juan não tem bolso,
+de modo que emquanto as mãos tangem o bandolim da aventura vai o
+dinheiro cahindo no chão.
+
+Casado, encarou com mais gravidade no seu futuro, e achou que não podia
+aguentar-se nas pompas de Lisboa.
+
+O casamento tem quasi sempre isso de bom: desperta a consciencia
+adormecida pela crápula.
+
+Pediu informações aos feitores, e as informações confirmaram a suspeita.
+
+Chamou á puridade a esposa e disse-lhe:
+
+--Perdoa-me, anjo, se te vou magoar com a minha primeira confidencia,
+mas devo-te a verdade toda. Eu não sou tão rico como geralmente se
+suppõe. Gastei muito, quasi esbanjei na sociedade o patrimonio da
+familia. Quero porém que tu vivas feliz, e para attingir a tua
+felicidade apenas encontro abertos dois caminhos: ou o trabalho honesto
+ou a tranquilla solidão. Se desejas viver no extrangeiro, poderei obter
+uma embaixada; mas se preferes viver no meu e teu paiz, temos que
+recolher-nos á provincia, e viver na doce tranquillidade que o mundo da
+capital não conhece. Só te peço que sejas franca. Decide, e a tua
+vontade será lei.
+
+A resposta foi esta:
+
+--Partiremos amanhã para o teu solar. A felicidade está onde a gente a
+tem; tel-a-hemos lá. A vida no extrangeiro seria a prolongação da tua
+mocidade; ora eu tenho direitos incontestaveis ao teu coração. Quero-o,
+pois. E onde melhor o possuirei do que na solidão do lar, onde, fechada
+a porta, seremos nós os unicos habitantes do nosso mundosinho de
+felicidade? Vamos lá, meu amigo. Nem sabes como me sinto alegre! Quanto
+mais te distanciares do passado, menos ciumes terei d'elle. Vamos lá.
+
+Foram.
+
+O solar, construcção coeva dos primeiros tempos da monarchia, era
+mais acervo de ruinas que palacio de nobres. As pedras haviam-se
+desconjunctado, e a hera marinhava pelas fendas até ensombrar as
+janellas. Nos longos corredores havia a escuridão sinistra dos carceres.
+As salas, denegridas pelo tempo, eram d'uma vastidão que punha medo. A
+mobilia, tão deteriorada como o edificio, tinha o aspecto funebre de
+phantasmas que á meia noite se fossem sentar encostados ás lousas do
+cemiterio. Os grandes contadores de pau preto negrejavam a pequenos
+intervallos como ossadas de gigantes carbonisadas em forja de cyclopes.
+Por entre a escuridão e o silencio da casa algum pipillar d'andorinhas,
+que penduraram o ninho entre as ruinas. Tambem ás vezes no cemiterio, no
+meio da concava sombra dos chorões, assim chilriam uns passarinhos que
+fogem quando presentem gente, porque estão habituados ao socego das campas.
+
+As sombras da casaria deserta apavoraram a noiva de X. Uma noite uma
+coruja fôra piar a uma das janellas do solar. A pobre senhora estremeceu
+e chorou.
+
+Acudiu o marido a abraçal-a meigamente.
+
+--Tinha sido melhor, disse elle, optarmos pelo estrangeiro. Isto aqui é
+triste. Ainda se as andorinhas se não calassem de noite...
+
+--São os nossos unicos amigos, respondeu a dama. Se esta casa não é
+completamente sepulcro, a ellas o devemos. Mas, meu amigo, as andorinhas
+me bastam para conforto. Eu chorei porque estava triste; não foi que
+tivesse medo. Não te inquietes...
+
+--Não, anjo, não. É preciso sahirmos d'aqui...
+
+--Para o extrangeiro não, não?
+
+--Socega, filha. Pois que estes montes te amedrontam menos que estas
+paredes, e que te resignas ao sacrificio, ficaremos. Limitar-nos-hemos a
+mudar de casa. Amanhã tractarei de ajustar a edificação d'um predio que
+tenha em conchego o que aqui perdemos em vastidão. Bem vês que mais nos
+aproximaremos ainda. Eu quero ouvir a tua voz a todo o instante. E
+depois, como sabes, o berço das creanças costuma ser pequenino, e tu
+vais ser mãe. A nossa nova casa será pois o berço de nosso filho.
+Escolho o laranjal. O vento que passar agitando as folhas embalará o
+berço... Queres?
+
+--Se quero!
+
+
+VII
+
+Construida a casa ao centro do laranjal, entrava a felicidade pelas
+janellas com os murmurios e os olôres de fóra.
+
+Ficara deserto o solar na eminencia em que assentava. Negrejava como o
+cavername de navio naufragado sobre rochas. Eram as ruinas do passado,
+os escombros do feudalismo que dormiam o seu somno de seculos; o
+_cottage_ do laranjal era alegre como a liberdade estensiva a nobres e
+plebeus:--aos nobres, porque já lhes não pesava a tarefa de mandar; aos
+plebeus, porque já não eram servos de gleba.
+
+As corujas invadiram as ruinas em competencia com as trepadeiras que
+bracejaram desaffogadamente, e as pavidas visões da esposa de X ficaram
+lá sepultadas para nunca mais a perturbarem emquanto costurava o
+enxovalsinho da creança que ia nascer.
+
+O fidalgo pasmava do poder regenerador da familia, que lhe tinha raspado
+da alma a ultima lepra da extravagancia. Não via mais mundo do que
+aquelle. Andava a toda a hora a olhar para o berço vasio, ancioso de vêr
+sobre o travesseiro o relevo d'uma cabeça pequenina. Não faltava já o
+lençol de rendas nem a coberta de damasco: o que faltava era a creança.
+Pozessem alli dentro uma alma, e a felicidade ficaria completa.
+
+Chegou finalmente o dia de se realisar o venturoso sonho. Desdobrou-se a
+cobertasinha adamascada, acamaram-se as rendas para não maguar o
+corpinho delicado, e ali dormiu a creança o primeiro somno velada pelo
+pai que nem ousava beijal-a para não a maguar.
+
+Aos cinco annos a creança tinha já um portesinho senhoril que era de
+namorar os olhos. Muito redondo o vestidinho; os cabellos annelados e
+auri-luzentes; o pequenino corpo escondido na fita que lhe servia de cinto.
+
+E chilreava, e esvoaçava, como se tivesse a casa por gaiola.
+
+Á medida que a pequerrucha ia crescendo, crescia com ella o amor
+paternal. Sorriam de a vêr sorrir, e choravam de a vêr chorar.
+
+O grande receio era de que morresse.
+
+Esta é a loucura de todos os pais.
+
+Querem roubar á tyrannia da morte uma vida que lhes não pertence.
+Esquecem-se de si mesmos para se absorverem n'uma existencia que não
+lhes é essencial, mas complementar.
+
+Não a eduquem á revelia, deixando-a entregue aos instinctos bons e maus
+que nascem com ella. Visto que o filho é o complemento dos pais,
+completem-se pelo filho. Adaptem-n'o, quanto possivel, á sua maneira
+de pensar e sentir; façam d'elle a coda da santa melodia chamada
+familia. Não se riam de que a creança faça aquillo que elles nunca
+fizeram. Não lhe applaudam o bater com o pésinho no chão, o desfolhar as
+flores que lhe são defezas, o mexer nos objectos que devem respeitar.
+Bater com o pé no chão é a principio um movimento mechanico, nervoso.
+Com o decorrer do tempo corresponde ao movimento uma ideia má e um mau
+sentimento. Então esse acto já não é mechanico simplesmente; é a
+manifestação da raiva, do desespero, do odio. A esta perniciosa educação
+é preferivel a morte. As plantas novas tomam o geito que lhes dão.
+Deixem crescel-as sem enleial-as, que ellas assombrarão todo o pomar.
+
+Ora o amor é cego, e não vê nada para fóra de si.
+
+Foi isto o que aconteceu.
+
+A creança cresceu com a mulher. Os pais, para que outro amor lh'a não
+roubassem, deram de mão a todas as visitas de gente moça. As unicas
+relações que se conservaram foram as do voltarete: eram duas. O
+capitão-mór tinha cincoenta e cinco annos; tinha além d'isto rheumatismo
+e oculos azues. O outro parceiro era um morgado de quarenta annos, que
+estivera em Pariz com o pai da menina e _servira de capa_ a varias
+escaladas. Tinha casado e parecia um homem morto. O casamento tem tanto
+de bom como de mau: é como os carceres. A uns presos aproveita a
+reclusão; outros sahem da cadeia mais desmoralisados.
+
+Os primeiros estavam representados em X; os segundos no morgado.
+
+Bem casados e mal casados, diz o mundo.
+
+O amigo do fidalgo tinha _verve_ e bigode: duas tentações.
+
+Ainda sabia dar o laço da gravata: um mau symptoma.
+
+Fumava charuto: um perigo.
+
+Contava das suas viagens, dizia que tal cantora, que conhecera, tinha os
+olhos bonitos e as unhas feias; que o nariz da Malibran não era tão
+correcto como o pescoço: uma desgraça.
+
+N'uma palavra: era entendedor.
+
+A menina da casa, emquanto elles jogavam, estava por ali.
+
+E o peior que podia acontecer n'aquella casa era o entendedor estar lá.
+
+Por mais que elle quizesse dominar o seu temperamento, ser bom e digno,
+leal e cavalheiro, o coração, que estava comprimido nas reixas
+conjugaes, aproveitou a occasião e poz a cabeça fóra da grade a pedir
+esmola d'amor.
+
+A inexperiente menina ouviu-o, sem saber o que fazia.
+
+Tinham-n'a ensinado a não fugir d'aquelles dois homens: não fugiu.
+
+
+VIII
+
+Mau é brincar com fogo: o incendio irrompe.
+
+O amigo da casa começou a fazer reparo nas graças da menina, e achou que
+tinha os dentes alvissimos, os olhos formosos, os cabellos soberbos.
+
+A menina, por sua parte, entrou de deixar-se influenciar agradavelmente
+pela amena eloquencia do unico homem estranho que fallava n'aquella casa.
+
+Era elle o unico orador dos serões intimos; a unica voz que sobrepujava
+o fremito das cartas na mesa do voltarete.
+
+Depois a menina lisongeava-se de que um homem, que tinha corrido o
+mundo, e conhecido mulheres celebres por talento e formosura, a
+conceituasse intelligente e gentil.
+
+Estava-se preparando n'aquelle seroar despreoccupado a ruina de Troya.
+
+O apartamento é um mau systema de educação. A borboleta, que não conhece
+o perigo da chamma, arroja-se á luz.
+
+Era melhor tel-a avisado para que demorasse a morte quanto lhe fosse
+possivel.
+
+Após as amabilidades vieram os galanteios, e após os galanteios as
+confidencias.
+
+A menina ouviu e acreditou.
+
+Começou-se a dizer por fóra que a menina era amada pelo morgado.
+
+Só não o diziam, nem ouviam, os pais da menina e a esposa do morgado.
+
+Decorreu tempo, e a menina deixou de sahir a passeio; ao mesmo tempo o
+morgado deixou de ser assiduo.
+
+A menina fez-se triste; o morgado andava preoccupado.
+
+Luctavam ambos com a resolução do mesmo problema: encobrir uma vergonha
+commum.
+
+Foi n'essa epocha que o morgado teve de ir ao Porto por causa de pleitos
+que se ventilavam nos tribunaes.
+
+Pediu-lhe a menina que a tirasse da casa paterna, antes que rebentasse o
+escandalo.
+
+O morgado prometteu demorar-se apenas alguns dias no Porto, e voltar
+depois de recolhidas grossas quantias, cujo embolço dependia da solução
+do pleito, a seu vêr bem encaminhado, para se passarem ambos a Hespanha.
+
+Houve porém uma camponeza que os viu estarem-se despedindo em logar
+afastado. Contou-o á noite á lareira. A revelação da camponesa
+espalhou-se. Chegou aos solares, e aos ouvidos da desventurosa esposa do
+morgado.
+
+Pensou a infeliz senhora que poderia ainda atalhar o incendio, e mandou
+um portador com uma carta á mãe da menina.
+
+Faltaram-lhe as forças para ir pessoalmente.
+
+Chegava o mensageiro a tempo que a menina estava chorando á janella do
+seu quarto.
+
+O coração, que é sempre feiticeiro, adivinhou.
+
+O mensageiro, que trazia recommendação, não fez caso.
+
+Sahiu-lhe a menina ao encontro. Pediu-lhe com lagrimas nos olhos e na
+voz que lhe entregasse a carta e fosse dizer á morgada que a havia
+depositado nas mãos de sua mãe.
+
+--Veja que me perde, podendo salvar-se com uma simples mentira! Se
+tivesse uma filha, seria mais clemente.
+
+O mensageiro era pae: entregou-lhe a carta.
+
+A menina leu-a, e cuidou morrer d'afflicção e vergonha.
+
+Dizia a morgada que as senhoras da terra,--as quaes eram amantes de
+varios morgados casados,--já não levantariam o olhar, se a encontrassem
+nos caminhos, para a amante de seu marido.
+
+Era um modo de dizer que o escandalo tinha estrondeado, e que Jesus
+Christo não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntarias
+peccadoras se arreceiava de ser a primeira a apedrejar a peccadora incauta.
+
+De feito, Christo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda
+os vendilhões da honra alheia entram ao templo da familia, e as mulheres
+adulteras erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abysmo em
+que ellas estão.
+
+A menina tratou de emmassar as cartas do morgado e de metter no seio o
+bilhetinho que já tivemos occasião de lêr.
+
+Esperou que fosse noite, e metteu-se a caminho.
+
+Onde ia a pobresinha?
+
+Procurar o morgado ao Porto.
+
+Foi andando, andando, rasgando os pés nas burguas das serras,
+rompendo a escuridão, arquejante, timida do menor ruido, resoluta da
+coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze horas da noite,
+cahiu extenuada ao sopé das Victoreiras.
+
+N'este lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais
+que se passou.
+
+Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a
+afllicção da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi.
+
+A gentil desconhecida, como a principio eu lhe chamava, tornou em si
+depois de empregados muitos esforços para reanimal-a. Meu tio padre,
+chamado por mim precipitadamente, encarregou-se do piedoso encargo de
+recolher a menina em sua casa, e de negociar a sua entrada no convento
+de *, onde se enclausurará depois que seja mãe.
+
+O morgado, lendo casualmente no Porto uma das minhas cartas, publicadas
+no _Primeiro de Janeiro_, escreveu-me a impensada missiva e logo se deu
+pressa em partir, e em me convidar á entrevista que acceitei.
+
+Tomará conta do filho, logo que nasça, e aproveitará decerto esta
+tremenda lição.
+
+Ainda agora me não parece dislate repetir a pergunta: Morta ou viva?
+
+Viva para si mesma, e morta para o mundo.
+
+Que desgraça!
+
+Ah! Christo não voltará outra vez; a ter de voltar, já se haveria
+amerciado de tantas miserias humanas!
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Christo não volta, by Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA ***
+
+***** This file should be named 32381-8.txt or 32381-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32381/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/32381-8.zip b/32381-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..10fc56f
--- /dev/null
+++ b/32381-8.zip
Binary files differ
diff --git a/32381-h.zip b/32381-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..5a66e93
--- /dev/null
+++ b/32381-h.zip
Binary files differ
diff --git a/32381-h/32381-h.htm b/32381-h/32381-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..4a33474
--- /dev/null
+++ b/32381-h/32381-h.htm
@@ -0,0 +1,1486 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Christo não Volta, por Alberto Pimentel</title>
+ <meta name="Author" content="Alberto Pimentel">
+ <meta name="Edition" content="Porto. Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1873">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;}
+ #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;}
+ h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size:
+75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;}
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Christo não volta, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Christo não volta
+ (Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32381]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: dotted 4px #444;">
+<p style="font-size: 2em;">CHRISTO NÃO VOLTA</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">NARRATIVA</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 40%; font-size: 0.8em;">
+ <p style="text-align:justify;">Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso
+ divino Filho! Esta negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos.
+ N'aquelle tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento
+ d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada!
+ Mas... voltareis, ó Christo?</p>
+
+ <p style="text-align: right;">CAMILLO CASTELLO-BRANCO.</p>
+</blockquote>
+
+<p>LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+
+<small>DE</small></p>
+
+<div style="width: 49%; float: left; vertical-align: top; font-size: small;">
+<p><b>ERNESTO CHARDRON</b><br>
+
+96, Largo dos Clerigos, 98<br>
+
+<b>PORTO</b></p>
+</div>
+
+<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: small;">
+<p> <b>EUGENIO CHARDRON</b><br>
+
+4, Largo de S. Francisco, 4-<small>A</small><br>
+
+<b>BRAGA</b></p>
+</div>
+
+<p>1873.</p>
+
+</div>
+
+<p style="text-align:center;"><b>PREÇO, 200 réis.</b></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">CHRISTO NÃO VOLTA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; ">
+<p style="font-size: 2em;">CHRISTO NÃO VOLTA</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(Resposta ao «Voltareis, ó Christo?» de Camillo Castello-Branco)</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">NARRATIVA</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 40%; font-size: 0.8em;">
+ <p style="text-align:justify;">Meus Deus, enviae segunda vez á terra o vosso
+ divino Filho! Esta negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos.
+ N'aquelle tempo esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento
+ d'um regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada!
+ Mas... voltareis, ó Christo?</p>
+
+ <p style="text-align: right;">CAMILLO CASTELLO-BRANCO.</p>
+</blockquote>
+
+<p>LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+
+<small>DE</small></p>
+
+<div style="width: 49%; float: left; vertical-align: top; font-size: small;">
+<p><b>ERNESTO CHARDRON</b><br>
+
+96, Largo dos Clerigos, 98<br>
+
+<b>PORTO</b></p>
+</div>
+
+<div style="width: 49%; float: right; vertical-align: top; font-size: small;">
+<p> <b>EUGENIO CHARDRON</b><br>
+
+4, Largo de S. Francisco, 4-<small>A</small><br>
+
+<b>BRAGA</b></p>
+</div>
+
+<p>1873.</p>
+
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: small;">PORTO: <small>TYP. DE MANOEL JOSÉ PEREIRA</small>
+<br>
+Rua de Santa Thereza, n.º 4 a 6.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+
+<h1>Cartas enviadas ao «Primeiro de Janeiro»</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Castello de Paiva, junho de 1873.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;">M<small>EU </small>A<small>MIGO.</small></p>
+
+<p>Como tem navegado Douro acima e conhece bem as planicies e montanhas que a
+uma e outra margem se encontram, umas espraiando-se ao nivel da corrente,
+outras erguendo-se ameaçadoras e aridas para o ceo, não me dispenso de
+contar-lhe um caso triste e verdadeiro, porque o presenciei eu, se bem que mal
+possa ser chronista, porque estou ainda na commoção da surpreza.</p>
+
+<p>Encontrei-o no Porto, e disse-lhe que tinha de partir para Castello de
+Paiva. Effectivamente parti no dia fixado. Não jornadeei por terra, o que seria
+incomparavelmente mais rapido, porque me julguei obrigado, a bem de meus
+proprios interesses, a acompanhar o barco carregado por minha conta. Larguei do
+caes da Ribeira, cerca<span class="pn">{6}</span> da meia noite, para
+aproveitar a maré até Pé de Moira. Obedeço a um pedido não declarando o dia.
+Cerca das onze horas da manhã estava em Pé de Moira, onde os marinheiros e
+arraes almoçaram, comendo uns peixes fritos na barraca de ramas de pinheiro,
+que o meu amigo conhece, e bebendo pela tradicional bilha de barro vermelho.</p>
+
+<p>Ahi me prophetisou o arraes que o termo da viagem seria moroso, porque não
+havia vento e o barco ia muito carregado.</p>
+
+<p>Resignei-me.</p>
+
+<p>Armou-se um tolde com a vela, accendi o meu cachimbo, bebi tambem, e comecei
+a lêr os jornaes que trazia no bolso, disposto a viver sobre agua o tempo que
+fosse preciso.</p>
+
+<p>Oh! enfadonha coisa este ante-diluviano processo de locomoção! Digo
+ante-diluviano em rasão de Noé se ter salvo embarcado no dia da grande
+submersão da terra.</p>
+
+<p>Li os jornaes de fio a pavio, como se diz não sei se em bom portuguez,
+reli-os, decorei-os. Cheguei a devorar os annuncios com uma soffreguidão de
+cannibal. Enguli e digiri todos os <i>barateiros</i> e todos os
+<i>precisa-se</i>. Comprehendi então o que ha de profundamente triste em
+<i>precisar</i>; eu tambem precisava de chegar a casa o mais breve possivel e
+todavia a terra firme estava para mim como a agua para Tantalo. Vi-a; e tudo se
+ficava em vêl-a.</p>
+
+<p>Foi-me anoitecendo ainda a grande distancia de casa. Custou-me a transigir
+com a necessidade de passar segunda noite no rio. Que me importava a mim o
+luar, a ardentia das aguas, as vaporações embalsamadas da natureza? Não sou
+poeta; já tive um pouco d'isso, é verdade,<span class="pn">{7}</span> mas o que
+mais ambiciono presentemente é dormir na minha cama, comer á minha mesa, e
+calçar as minhas botas.</p>
+
+<p>Finalmente não havia remedio senão conformar-me ás circumstancias; o homem
+nasceu para joguete; fui pois o que tem sido e ha de ser perpetuamente o meu
+similhante.</p>
+
+<p>Cerrou-se-nos inteiramente a noite ao sopé das Victoreiras. O arraes deu voz
+de lançar ferro; os marinheiros iam cansados de tirar o barco á sirga e logo
+saltaram em terra para queimar sobre gravetos o seu bacalhau. Puxei do meu
+taleigo e comi uma fatia de presunto de fiambre e outra fatia de queijo.</p>
+
+<p>Depois que gregos e troyanos se banquetearam com o frugal repasto,
+tractou-se de acamar e dormir.</p>
+
+<p>Os marinheiros acobertaram-se com as mantas e romperam, tarauteando pelos
+narizes, em hymnos a Morpheu. Eu é que não nasci pagão; fui remisso em render
+culto á tetrica divindade mythologica. Mexi-me, remexi-me, rebuli-me e por mais
+d'uma vez accendi o meu rolinho de viagem para dar batalha a pulgas, persevejos
+e demais bicharia, que passava dos marinheiros para mim e de mim para os
+marinheiros.</p>
+
+<p>Cerca das onze horas da noite pareceu-me ouvir de repente o baque de um
+corpo em terra, mas um segundo depois não pude duvidar ao ouvir um grito surdo
+como o de quem cahia contra o solo. Chamei afflictivamente os marinheiros, que
+despertaram roncando interrogações.</p>
+
+<p>&mdash;Que foi? Que é? perguntaram elles.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi fóra cahiu gente!</p>
+
+<p>&mdash;Quem havia de cahir, senhor!</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi distinctamente a queda, e um grito depois.<span
+class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>&mdash;Um grito!</p>
+
+<p>&mdash;Posso affirmar; ouvi gritar com toda a certeza.</p>
+
+
+<p>Instiguei-os, pedi-lhes instantemente que me acompanhassem. Elles accenderam
+o seu lampeãosinho e seguiram-me. Fomos marinhando pelas fragas á procura
+d'agulha em palheiro. Os marinheiros começavam a rir alvarmente e a dizer que
+eu era dado a medo de bruxas. De repente pareceu-me porém ouvir gemer. Intimei
+silencio. Os marinheiros trocaram entre si um olhar ironico, que para logo se
+volveu credulo, porque distinctamente ouviram um gemido.</p>
+
+<p>&mdash;É alma perdida! disse um com voz tremula.</p>
+
+<p>&mdash;É naturalmente corpo perdido, objectei eu. Calem-se. Vamos a vêr se nos
+orientamos.</p>
+
+<p>Apoz um longo intervallo, ouvimos gemer do novo, se bem que mais debilmente.
+Podemos orientar-nos. Eu marinhei á frente dos homens, arrancando da mão d'um a
+lanterna. A pequena distancia pareceu-me vêr um vulto estendido no chão. Baixei
+o lampeão e reconheci um corpo de mulher. Os marinheiros estavam attonitos e
+como que receiosos d'approximar-se. Fui eu quem, poisando o lampeão, levantou o
+corpo. E&mdash;surpreza extraordinaria!&mdash;vi uma bonita mulher, se bem que
+mortalmente pallida, nova, franzina, com o rosto ferido, ensanguentado. Estaria
+viva ou morta? Não sabiamos. A verdade é que estava fria como cadaver. Os
+marinheiros, capacitados de que não era bruxa, ajudaram-me a transportal-a ao
+barco. Deitamol-a, aspergimol-a, lavamos-lhe os ferimentos e nem tempo
+tivemos&mdash;eu pelo menos&mdash;para pensar no extraordinario do acontecimento. Hoje é
+que eu, ainda que mal, reflexiono e me confirmo que não ha romance que seja
+absurdo.<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>A formosa desconhecida continuava a estar immovel e fria, apesar dos
+cuidados que lhe prodigalisamos e que, attentas as nossas circumstancias, não
+podiam ser completos.</p>
+
+<p>Sabe que eu não sou piegas nem romantico,&mdash;o que significa o mesmo, porque o
+romantecismo é a pieguice do espirito&mdash;mas confesso-lhe francamente que me
+horrorisaram a solidão, a escuridade, a massa negra das aguas e a massa negra
+das serras, o desamparo do homem entre a agua que é fria e a rocha que é dura,
+entre ambas que são mudas e surdas,&mdash;finalmente, o desagasalho, a
+impossibilidade de encontrar soccorro!</p>
+
+<p>Como o Douro me pareceu differente d'aquelle extenso e caudaloso rio nosso
+conhecido, meu e seu, quasi sempre placido, povoado de barcos, animado de
+cantares, marginado de casinhas e campanarios que de longe a longe<span
+class="pn">{10}</span> se penduram das fragas, n'uma palavra, accidentado de
+tons variados e por mais d'uma vez festivos!</p>
+
+<p>Ordinariamente, quando se viaja, tem-se saude. Vem a gente a lêr no barco, a
+fumar, a conversar os marinheiros, a incital-os a que cantem ao desafio, a
+comer a sua canja e a beber a sua pinga!</p>
+
+<p>Nada nos apavora então! Quando o barco passa por baixo das Victoreiras, e se
+vê lá no alto, ameaçando eternamente despegar-se, aquella enorme avalanche
+negra, informe, nem siquer lembra que os fraguedos, que se encastellaram um
+dia, por uma evolução da natureza, podem rolar e precipitar-se alguma hora, por
+outra evolução imprevista. Contenta-se a gente com ouvir da bocca dos
+marinheiros uma tradição do sitio.</p>
+
+<p>&mdash;Alli, dizem elles, é que os homens trahidos trazem as mulheres a
+despenhar-se.</p>
+
+<p>Elles não dizem isto por estas palavras, mas digo eu. E a gente facilmente
+acredita que haja homens que se dêem ainda o incommodo de jornadear por algumas
+horas para despenhar as mulheres adulteras, que já estão despenhadas, e que
+haja mulheres, que depois de conhecerem o vicio, tenham a virtude de se deixar
+morrer!</p>
+
+<p>A viagem pelo Douro, de dia, em boa disposição d'espirito e corpo, tem
+alguma coisa de idyllio, d'Arcadia, de creendice, coisas impossiveis de
+encontrar hoje em qualquer outra parte. É uma especie de Pantana, onde o
+carneiro assado parece saltar-nos aos dentes, e a borracha trepar-nos aos
+beiços, e onde a gente, olhando para as mãos, encontra cinco facas e cinco
+garfos! Onde é hoje que se póde encontrar a realidade d'este ideal de Pantana,
+a não ser n'uma viagem pelo Douro? Quem é hoje que come com<span
+class="pn">{11}</span> a mão, desde que o Monteverde publicou o <i>Manual
+encyclopedico</i>, e nos exames do lyceu se ensina a dar ao queixo, quer dizer,
+a comer com as mandibulas?</p>
+
+<p>Mas como o quadro muda de noite, santo Deus! quando terra, ceo e agua são
+escuros, e está ao pé de nós um corpo frio, immovel, quando o nosso espirito
+pergunta a si mesmo, para resolver um mysterio, se aquella mulher, formosa e
+inanimada, gentil e desconhecida, será morta ou viva!</p>
+
+<p>E não haver um sal que se lhe dê a respirar! um espelho para lhe receber o
+halito, se ainda o tem! uma voz que nos anime! um espirito que comprehenda a
+nossa tribulação! porque os marinheiros do Douro são os puros cadeirinhas do
+rio! Fazem tudo mechanicamente; teem força: puxam por ella. Perdão, pelo que
+elles puxam é por nós, pelo barco, e por elles mesmos. Podiam ter nascido bois,
+e nasceram homens. Tambem os cadeirinhas podiam ter nascido burros de carga e
+nasceram gallegos. Que a natureza emendasse a mão em qualquer feitura humana,
+comprehende-se, porque tambem aquelle artista, que estava a fazer o demonio
+calcado pelo archanjo, mudou de tenção, por quebrar os chifres ao demonio, e
+aproveitou a esculptura para fazer um santo deitado.</p>
+
+<p>O que é certo é que a natureza humana, tirante os marinheiros de riba-Doiro
+e os cidadãos de riba-Minho, é tão nobre, tão dedicada,&mdash;e perdoe-se-me a
+vaidade de a estudar em mim mesmo&mdash;que logo me esqueci da urgencia de abreviar
+a viagem, de descarregar em Castello de Paiva os meus generos, e concentrei
+todas as minhas attenções n'aquella mulher que não conhecia, que vagueava a
+deshoras por uma serra, com risco de rolar ao Douro,<span
+class="pn">{12}</span> sósinha com a sua ideia, que era provavelmente uma
+grande dôr.</p>
+
+<p>Permitta-me&mdash;entre parenthesis&mdash;que chame á <i>dôr</i> moral uma ideia e não
+um sentimento. Isto é philosophia minha. Quando se acorda pela manhã, e se
+<i>lembra</i> a gente do soffrimento da vespera, é que continua a <i>sentir</i>
+o que na vespera sentiu. E que tal! approva? Eu quando fui d'uma vez ao Porto,
+acompanhar o meu patricio Barros que ia fazer concurso para uma cadeira de
+philosophia n'um lyceu do sul, e ouvi argumentar um tal Albuquerque d'oculos
+verdes, adquiri a convicção de que tambem podia ser philosopho, mais pelo que
+ouvi ao Albuquerque do que pelo que ouvi ao Barros.</p>
+
+<p>A verdade é, meu amigo, que a nossa alma verga ao perigo como o aço ao
+joelho.</p>
+
+<p>Pozessem no meu barco um farrabraz, um mata-mouros, um espadachim, ao pé
+d'aquella mulher, e ainda que esse stentor não tivesse esposa, nem filha,
+nem&mdash;ó prodigio!&mdash;tivesse mãe, elle sentiria o que eu senti, a abnegação das
+situações anormaes, a ancia de valer a quem está carecido de soccorro, a
+necessidade de saber se aquella mulher estava morta ou viva!</p>
+
+<p>Cobri-a com todas as mantas que havia no barco, as dos marinheiros e as
+minhas, a vêr se provocava a reacção; lembrei-me de que tinha aguardente
+comigo, friccionei-lhe os braços e os pés, e, ao agasalhal-a, ao conchegar-lhe
+a roupa, senti que tinha no bolso papeis.</p>
+
+<p>Bem podia ser que alli estivesse a chave do enigma.<span
+class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Com quanto eu seja um pouco preguiçoso em escrever, e ainda hontem lhe tenha
+enviado a segunda carta sobre o extraordinario caso das Victoreiras, não posso
+resistir á tentação de voltar hoje ao assumpto para lhe communicar que por
+carta recebida agora do correio do Porto fui ameaçado de não sei que medonhos
+perigos no caso de proseguir na veridica historia da morta ou viva.</p>
+
+<p>Em nenhum acto da minha vida blasono de valente, mas tambem não é meu
+costume recuar por cobarde. Continuarei pois a narrativa encetada, em proveito
+da humanidade, porque, repetindo o que dizia na primeira carta, é uma tremenda
+lição. E depois que ideia se fará no Porto da policia de Castello de Paiva?
+Julgarão isto sertão de feras, serra deserta, região ignorada? Eu não sei. O
+que posso affirmar é que a tenebrosa carta nem me cheirou a<span
+class="pn">{14}</span> certidão d'obito, nem estou em terra onde a supradita
+carta, dado que eu fosse simplesmente poltrão, podesse converter-se em
+realidade impunementemente.</p>
+
+<p>Não, meu amigo, eu protesto contra todas as mordaças açaimadoras de
+escandalos. Isto assim não póde ser,&mdash;que triumphe sempre o forte e soffra
+sempre o fraco. Bem sei que é costume recatar os escandalos e, quando muito,
+publical-os desfigurados. Mas&mdash;erro imperdoavel!&mdash;o escandalo é muitas vezes a
+lição e algumas vezes póde ser a cura. É preciso que se espalhe, que se
+discuta, que se commente, com vagar, como eu estou fazendo, para que a
+precipitação não cegue o entendimento.</p>
+
+<p>Este caso da morta ou viva tem surprehendido muita gente, mesmo em Castello
+de Paiva. Era eu a unica pessoa que estava na confidencia d'elle, porque fui a
+unica testimunha occular. A principio julguei dever guardar segredo. Ao cabo,
+porém, de muitas noites de insomnia, resolvi dar-lhe publicidade. Sabido apenas
+por mim, não aproveitaria a ninguem; divulgado, algum proveito poderá levar á
+sociedade.</p>
+
+<p>Ha que tempos se anda ahi a fallar da emancipação da mulher! Mentira,
+hypocrisia, infamia!</p>
+
+<p>A sociedade lança mão da these-emancipação para mais escravisar a mulher,
+como os governos costumam exhibir o rotulo <i>melhoramentos materiaes</i>
+quando tentam vexar os povos com novos tributos.</p>
+
+<p>Querem estes philosophos de má morte emendar a natureza. A mulher não nasceu
+para <i>senhora</i> nem para <i>escrava</i>; a mulher é companheira. Como esta
+palavra está a dizer, ella deve compartir comnosco alegrias e dores, risos e
+lagrimas, flores e espinhos. Fallar-lhe em emancipacão<span
+class="pn">{15}</span> é suppor que havemos sido despotas ao ponto de lhe
+roubarmos a liberdade relativa que lhe deviamos ter dado, e que lhe queremos
+restituir; é proclamar a nossa propria vileza; é arrogar-nos fatuamente a
+importancia de libertadores do genero humano. Escravisal-a é aviltar nossos
+filhos até á condição de filhos d'escrava e julgarmo-nos nós mesmos nas
+circumstancias de nossos filhos.</p>
+
+<p>Não ha emancipação nem escravidão: o que deve haver simplesmente é sociedade
+conjugal.</p>
+
+<p>Portanto eu, philosopho montanhez, estarei sempre na brecha para atacar
+qualquer das duas falsidades, qualquer dos dois extremos, que são viciosos,
+estando pois a virtude mais uma vez no meio-termo.</p>
+
+<p>Estas cartas são um brado ardente contra o aviltamento da mulher, cuja honra
+se quer subjeitar a um capricho, esquecendo-nos de que deshonrando-a a ella nos
+deshonramos a nós mesmos. Não façamos da mulher a guitarra com que nos
+recreamos durante uma serenata e que ao romper do dia, ebrios de mau vinho e
+mau prazer, atiramos pela janella fóra. Quem a recolherá depois de a vêr no
+monturo? O trapeiro, apenas. E todavia a guitarra era mimosa, quando suspirava
+ao luar; tinha uma voz doce e melodiosa que despertava vagos pensamentos na
+alma; podia ainda murmurar cadencias se continuasse a ser dedilhada por mãos
+delicadas. Mas nós, que a principio mal poisavamos os dedos nas cordas, que a
+julgavamos intermedio entre a nossa alma e a natureza, porque era ella, a
+guitarra, que estava fallando por nós e respondendo pela natureza, deixamos por
+ultimo cahir em cheio a mão sobre o fragil instrumento e fizemos estalar uma
+corda, que precedeu o estalar de todas as outras.<span
+class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>Pois a corda que estalou chamava-se&mdash;honra; depois d'ella estalaram todas as
+outras, que se podem chamar&mdash;pundonor, brio, fé. A mulher, quando chega a este
+destino da guitarra, já não tem pundonor, porque não se peja de haver cahido;
+não tem brio, porque não pensa em rehabilitar-se; não tem fé, porque já não
+acredita na propria rehabilitação nem na rehabilitação das outras.</p>
+
+<p>Vai, como a guitarra partida, para o muladar do trapeiro ou para a loja do
+adello.</p>
+
+<p>Ou morre ou se vende.</p>
+
+<p>Não, philosophos da philosophia de Mahomet, que sustentaes o <i>crê ou
+morres</i>, não, em nome de nossas mães, de nossas irmãs, de nossas esposas, de
+nossas filhas, havemos, nós, os que temos dignidade e coração, de quebrar aos
+vossos pés essas duas laminas d'aço cortante que limitam o vosso perfido
+dilemma. E como o havemos de fazer? Desvendando a mulher, avisando-a,
+apontando-lhe o exemplo.</p>
+
+<p>Meu amigo,&mdash;perdoe-me esta dissertação que era precisa, depois de lhe haver
+annunciado a recepção d'uma carta ameaçadora, e previna os seus leitores de que
+eu d'aqui em diante entrarei directamente no assumpto.<span
+class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Quer que lhe explique o meu demorado silencio?</p>
+
+<p>Dias depois de publicada a terceira carta, recebo pelo correio outra de
+letra desconhecida.</p>
+
+<p>Abro e leio:</p>
+
+<p>«Ill.<sup>mo</sup> snr:</p>
+
+<p>«Vejo que é um homem esforçado e brioso, para quem todas as ameaças são
+nullas. Perdoe-me o havel-o comprehendido mal, tomando-o como pusillanime.
+Lance tudo á conta do meu desespero de me vêr justamente accusado em muitos
+relanços das suas cartas, e falsamente incriminado n'outros. Foi uma infamia,
+que a sua magnanimidade perdoará, e que o meu arrependimento redimirá. Peço-lhe
+porém&mdash;se alguma confiança lhe mereço ainda depois de perdoado&mdash;que me ouça,
+antes de continuar as suas cartas, para que, melhor informado, possa conhecer
+as particularidades da veridica narrativa. Um inconveniente obsta<span
+class="pn">{18}</span> porém á minha ida a Castello de Paiva: é o ser uma terra
+muito pequena e açular eu a curiosidade do publico ocioso com a minha presença
+ahi, depois da publicação das suas cartas.</p>
+
+<p>«N'esta conjunctura não será grosseira impertinencia pedir-lhe um sacrificio
+por amor da imparcialidade com que quer ser juiz na minha causa? Pois bem, ao
+magistrado que me tem de julgar perante a opinião publica, e que deve escutar
+com igual benevolencia reu e queixoso, exoro, supplico vivamente que se digne
+marcar sitio onde me possa dar audiencia para ouvir da minha justiça.</p>
+
+<p>«Não receie ciladas. Se não fosse realmente um homem corajoso,
+lembrar-lhe-ia que prevenisse a authoridade da hora e local da entrevista.»</p>
+
+<p>Respondi immediatamente:</p>
+
+<p>«Ill.<sup>mo</sup> snr:</p>
+
+<p>«Tenho de ir a Penafiel depois d'amanhã. Portanto, se não quer ser visto,
+espere-me ás onze horas da noite na capella de S. Roque.</p>
+
+<p>«Não receio ciladas. Deixemos a authoridade em paz.»</p>
+
+<p>Fui.</p>
+
+<p>Effectivamente pude orientar-me melhor nos episodios que precederam o caso
+das Victoreiras, o que de nenhum modo quer dizer que eu modificasse
+absolutamente o meu primeiro juizo.</p>
+
+<p>Ainda assim cumpre-me restabelecer a verdade dos factos.</p>
+
+<p>Da parte <i>d'elle</i> não houve a minima culpa no incidente d'aquella
+noite. Foi sim um grave erro da sua parte, o erro de ceder á loucura d'um
+momento, que deu logar a esse acto de desespero da formosa desconhecida.<span
+class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>Elle, porém, não estava avisado da fuga, como pude verificar pelo confronto
+dos depoimentos d'ambos.</p>
+
+<p>O que é certo é que o vi chorar...</p>
+
+<p>Nunca o seu coração está tão endurecido que não tenha a sensibilidade que
+refrigera com lagrimas as dôres intimas.</p>
+
+<p>Todavia aguardemos o desfecho dos acontecimentos, esperando, como o dr.
+Pangloss, que tudo seja pelo melhor no melhor dos mundos.</p>
+
+<p>Isto até aqui, meu amigo, foi para si.</p>
+
+<p>D'aqui em diante vae proseguir a narrativa, reatando-se no ponto em que
+ficara, como se não se houvera dado este episodio que acabo de referir, e que
+todavia me permittirá ser mais explicito.</p>
+
+<p>Senti, disse eu na segunda carta, que a desconhecida tinha no bolso
+papeis.</p>
+
+<p>Só alli podia estar a chave do que para mim era enygma.</p>
+
+<p>Mas, ao mesmo passo, um escrupulosito: Ser-me-ia permitlido lêr essa
+correspondencia?</p>
+
+<p>E logo a contrapôr-se ao escrupulosito uma reflexão: Não a traria ella
+comsigo, prevendo que as suas debilitadas forças lhe faltariam no caminho, para
+esclarecimento de quem quer que a encontrasse morta ou viva?</p>
+
+<p>Resolvi lêr os papeis.</p>
+
+<p>Eram um maço de cartas, atadas com torçal vermelho.</p>
+
+<p>Á primeira vista, fiquei perplexo.</p>
+
+<p>Reparando melhor, dei tino de haver entalado, entre o torçal e o rolo, um
+bilhete.</p>
+
+<p>Esse devia ser o esclarecimento desejado.</p>
+
+<p>Era, em verdade.<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>Dizia simplesmente isto:</p>
+
+<p>«Chamo-me F., da casa de... vou para..., fugida á justa punição de meu pai e
+apenas confiada na protecção do pai de meu filho, que deve nascer se a morte
+não surprehender a mãe n'esta ousada resolução.</p>
+
+<p>«Tu, que me lêres, perdoa-me.</p>
+
+<p>«Se és pai, põe todos os teus cuidados na guarda de tuas filhas: se és
+mulher, e estás descida a iguaes abysmos, vê no espelho da minha desgraça a
+profundeza do teu erro.»</p>
+
+<p>Tinha-se feito a luz.</p>
+
+<p>Aquella mulher era filha d'um homem respeitabilissimo que ha muitos annos se
+soterrara n'umas serras do Douro depois de haver percorrido o mundo, semeando
+dinheiro e anecdotas, batendo os melhores cavallos, baloiçando-se nos melhores
+tilburys, jogando, bebendo, reptando, apostando nas corridas, atirando aos
+pombos, pompeando nas aguas de Spa, debruçando-se n'um camarote da Grande
+Opera, merecendo referencias a Julio Janin, enchendo o mundo, o folhetim, o
+romance e até o theatro.</p>
+
+<p>Ha quem diga que o nosso conhecido <i>Antony</i>, transportado do lar
+deshonrado para a scena igualmente deshonrada, fôra apenas uma copia desenhada
+pelo <i>crayon</i> ultra-romantico de Alexandre Dumas n'uma hora mais
+ultra-romantica que o proprio <i>crayon</i>.<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>Finalmente, ao recolher d'uma das viagens ao extrangeiro, casou com uma
+senhora da primeira sociedade lisbonense. Quasi o surprehendeu o ser amado.</p>
+
+<p>Não conhecia o amor senão da capa dos livros e dos <i>vaudevilles</i>. O
+casamento era para elle apenas uma comedia que vira em França e na qual homem e
+mulher se davam excellencia e cumprimentavam ao jantar. Pensava pouco mais ou
+menos em observar o regimen matrimonial da comedia, mas completamente se
+enganou, porque, sentindo-se amado, começou de encontrar no amor thesouros que
+lhe eram desconhecidos desde a mocidade. Atravessara o mundo, sem atravessar a
+familia: não conhecia o amor, porque só na familia o ha. A alegria das festas,
+fóra do lar, irradia como a espuma do <i>champagne</i> á luz de candelabros,
+mas entorna-se e dissipa-se como ella.</p>
+
+<p>Suppunha elle haver-se apaixonado uma vez, aos vinte<span
+class="pn">{22}</span> annos. A 2 de abril de 1829, fazendo a primeira viagem a
+Pariz, ouvira cantar a Malibran, que era então a rainha da opera, n'um concerto
+matutino dado na rua Taitbout, em favor dos orphãos adoptados pela «Sociedade
+de moral christã.» Ficara doido, embriagado, e logo obteve uma apresentação á
+cantora, que o recebeu ao <i>dessert</i>.</p>
+
+<p>N'essa mesma noite cantava a Malibran o papel de Desdemona no theatro dos
+Buffos. O theatro trasbordava de espectadores; a receita do espectaculo subiu
+ao algarismo de 18,000 francos.</p>
+
+<p>Não obstante ser immensa a multidão, a cantora pareceu enxergal-o e
+distinguil-o com um sorriso,&mdash;d'estes sorrisos que as mulheres de theatro
+espalham como bilhetes de beneficio...</p>
+
+<p>Isto acabou de enlouquecel-o. Todo o theatro tinha visto: a Malibran
+sorrira-lhe!</p>
+
+<p>N'esse mesmo anno foi a cantora a Londres. Acompanhou-a, seguindo por toda a
+parte o rastro de gloria que ella abrira ao passar por entre a admiração
+britannica.</p>
+
+<p>Em janeiro de 1830, estavam ambos em Pariz: ella e elle.</p>
+
+<p>Foi n'esse mez e anno que Pariz a ouviu cantar o segundo acto do
+<i>Matrimonio segretto</i>, com as duas maiores notabilidades cantantes da
+epocha,&mdash;a Sontag e a Damoreau-Cinti.</p>
+
+<p>A vida do nosso <i>touriste</i> foi, durante o tempo que seguiu a Malibran,
+uma serie de viagens,&mdash;as mesmas que ella fazia,&mdash;de ceias, de <i>pic-nics</i>,
+de prazeres, que acabavam sempre ao amanhecer, porque os falsos sorrisos
+desmascarar-se-iam á luz da manhã, e, digamol-o tambem, foi um inferno de
+ciume.<span class="pn">{23}</span></p>
+
+<p>Elle tinha tamanha emulação de quem lhe dava a ella um broche, como de quem
+lhe dava simplesmente um bravo. Isto, meu amigo, acho eu desarrasoado; mas
+diga-me se não tenho rasão, visto que vive em terra onde ha theatros.</p>
+
+<p>Ora o nosso heroe, que, para maior facilidade, chamaremos X, julgava-se
+perdidamente amado, e perdidamente namorado.</p>
+
+<p>Duplo erro!</p>
+
+<p>O que lhe sustentava essa rosada illusão eram as flores, as luzes, os
+crystaes, as ovações, as perolas e os sorrisos da Malibran, o publico, as
+ceias, os bailes, toda essa vida exteriormente seductora, apenas architectada
+sobre este pedaço de vidro, que no mundo se chama a <i>gloria</i>.</p>
+
+<p>Mas&mdash;desapontamento horrivel!&mdash;o pedacinho de vidro quebrou, cessaram as
+scintillações prismaticas, e o castello encantado desabou.</p>
+
+<p>Foi n'esse mesmo anno de 1830 que a Malibran atou com o celebre violinista
+Beriot as intimas relações que os tornaram inseparaveis.</p>
+
+<p>Foi n'uma ceia que elle soube a fatal noticia por intencional chocarrice de
+um conviva.</p>
+
+<p>Esteve para erguer-se e reptar Beriot, mas Beriot era um homem serio, e não
+o havia offendido.</p>
+
+<p>Desistiu.</p>
+
+<p>Amuou, corou, empallideceu, começou a tornar-se ridiculo.</p>
+
+<p>Malibran, que fez reparo no despeito do seu admirador, levantou-se e
+apresentou-lhe a Lablanche, que estava á mesa.</p>
+
+<p>Coruscou no cerebro de X a ideia da vingança. Começou<span
+class="pn">{24}</span> a galantear a Lablanche, a ponto de que em 1832
+percorreram todos a Italia: Malibran, Lablanche, Beriot e X.</p>
+
+<p>Já viu o meu amigo mais doida mocidade, mais desbaratada vida, e ao mesmo
+passo tamanha nudez d'alma ainda mesmo na epocha em que o corpo se involve na
+ampla capa de D. Juan?</p>
+
+<p>Um beneficio recebeu porém d'esse divagar pelos prazeres ruidosos.
+Saturou-se do mundo. Felizmente, a sua vinda a Lisboa facilitou-lhe o unico
+meio de conhecer a unica coisa que desconhecia,&mdash;a familia. Entrou no lar pela
+porta do casamento quando pela janella sahia a extravagancia ainda desgrenhada
+das ceias e de charuto na bocca.</p>
+
+<p>A proposito de charuto, meu amigo: de-me tempo de fumar um.<span
+class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>Continuemos a fallar do pai da nossa gentil desconhecida.</p>
+
+<p>Acabei o charuto: podemos conversar por um pouco.</p>
+
+<p>O amor completou a regeneração que a experiencia do mundo principiara.</p>
+
+<p>Casou.</p>
+
+<p>No coração da esposa encontrou thesouros de raras virtudes. Alvoreceu-lhe em
+torno uma aurora de tão doce luz, que pela sua mesma suavidade desbancava as
+scintillações crystallinas das ceias, e os clarões que illuminavam em scena a
+figura da Malibran.</p>
+
+<p>Toda a gente o presumia ainda rico: a verdade era que a realidade não
+correspondia á opinião publica.</p>
+
+<p>Havia gastado como um principe russo. A capa de D. Juan não tem bolso, de
+modo que emquanto as mãos tangem o bandolim da aventura vai o dinheiro cahindo
+no chão.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p>Casado, encarou com mais gravidade no seu futuro, e achou que não podia
+aguentar-se nas pompas de Lisboa.</p>
+
+<p>O casamento tem quasi sempre isso de bom: desperta a consciencia adormecida
+pela crápula.</p>
+
+<p>Pediu informações aos feitores, e as informações confirmaram a suspeita.</p>
+
+<p>Chamou á puridade a esposa e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Perdoa-me, anjo, se te vou magoar com a minha primeira confidencia, mas
+devo-te a verdade toda. Eu não sou tão rico como geralmente se suppõe. Gastei
+muito, quasi esbanjei na sociedade o patrimonio da familia. Quero porém que tu
+vivas feliz, e para attingir a tua felicidade apenas encontro abertos dois
+caminhos: ou o trabalho honesto ou a tranquilla solidão. Se desejas viver no
+extrangeiro, poderei obter uma embaixada; mas se preferes viver no meu e teu
+paiz, temos que recolher-nos á provincia, e viver na doce tranquillidade que o
+mundo da capital não conhece. Só te peço que sejas franca. Decide, e a tua
+vontade será lei.</p>
+
+<p>A resposta foi esta:</p>
+
+<p>&mdash;Partiremos amanhã para o teu solar. A felicidade está onde a gente a tem;
+tel-a-hemos lá. A vida no extrangeiro seria a prolongação da tua mocidade; ora
+eu tenho direitos incontestaveis ao teu coração. Quero-o, pois. E onde melhor o
+possuirei do que na solidão do lar, onde, fechada a porta, seremos nós os
+unicos habitantes do nosso mundosinho de felicidade? Vamos lá, meu amigo. Nem
+sabes como me sinto alegre! Quanto mais te distanciares do passado, menos
+ciumes terei d'elle. Vamos lá.</p>
+
+<p>Foram.</p>
+
+<p>O solar, construcção coeva dos primeiros tempos da<span
+class="pn">{27}</span> monarchia, era mais acervo de ruinas que palacio de
+nobres. As pedras haviam-se desconjunctado, e a hera marinhava pelas fendas até
+ensombrar as janellas. Nos longos corredores havia a escuridão sinistra dos
+carceres. As salas, denegridas pelo tempo, eram d'uma vastidão que punha medo.
+A mobilia, tão deteriorada como o edificio, tinha o aspecto funebre de
+phantasmas que á meia noite se fossem sentar encostados ás lousas do cemiterio.
+Os grandes contadores de pau preto negrejavam a pequenos intervallos como
+ossadas de gigantes carbonisadas em forja de cyclopes. Por entre a escuridão e
+o silencio da casa algum pipillar d'andorinhas, que penduraram o ninho entre as
+ruinas. Tambem ás vezes no cemiterio, no meio da concava sombra dos chorões,
+assim chilriam uns passarinhos que fogem quando presentem gente, porque estão
+habituados ao socego das campas.</p>
+
+<p>As sombras da casaria deserta apavoraram a noiva de X. Uma noite uma coruja
+fôra piar a uma das janellas do solar. A pobre senhora estremeceu e chorou.</p>
+
+<p>Acudiu o marido a abraçal-a meigamente.</p>
+
+<p>&mdash;Tinha sido melhor, disse elle, optarmos pelo estrangeiro. Isto aqui é
+triste. Ainda se as andorinhas se não calassem de noite...</p>
+
+<p>&mdash;São os nossos unicos amigos, respondeu a dama. Se esta casa não é
+completamente sepulcro, a ellas o devemos. Mas, meu amigo, as andorinhas me
+bastam para conforto. Eu chorei porque estava triste; não foi que tivesse medo.
+Não te inquietes...</p>
+
+<p>&mdash;Não, anjo, não. É preciso sahirmos d'aqui...</p>
+
+<p>&mdash;Para o extrangeiro não, não?</p>
+
+<p>&mdash;Socega, filha. Pois que estes montes te amedrontam<span
+class="pn">{28}</span> menos que estas paredes, e que te resignas ao
+sacrificio, ficaremos. Limitar-nos-hemos a mudar de casa. Amanhã tractarei de
+ajustar a edificação d'um predio que tenha em conchego o que aqui perdemos em
+vastidão. Bem vês que mais nos aproximaremos ainda. Eu quero ouvir a tua voz a
+todo o instante. E depois, como sabes, o berço das creanças costuma ser
+pequenino, e tu vais ser mãe. A nossa nova casa será pois o berço de nosso
+filho. Escolho o laranjal. O vento que passar agitando as folhas embalará o
+berço... Queres?</p>
+
+<p>&mdash;Se quero!<span class="pn">{29}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>VII</h2>
+
+<p>Construida a casa ao centro do laranjal, entrava a felicidade pelas janellas
+com os murmurios e os olôres de fóra.</p>
+
+<p>Ficara deserto o solar na eminencia em que assentava. Negrejava como o
+cavername de navio naufragado sobre rochas. Eram as ruinas do passado, os
+escombros do feudalismo que dormiam o seu somno de seculos; o <i>cottage</i> do
+laranjal era alegre como a liberdade estensiva a nobres e plebeus:&mdash;aos nobres,
+porque já lhes não pesava a tarefa de mandar; aos plebeus, porque já não eram
+servos de gleba.</p>
+
+<p>As corujas invadiram as ruinas em competencia com as trepadeiras que
+bracejaram desaffogadamente, e as pavidas visões da esposa de X ficaram lá
+sepultadas para nunca mais a perturbarem emquanto costurava o enxovalsinho da
+creança que ia nascer.<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<p>O fidalgo pasmava do poder regenerador da familia, que lhe tinha raspado da
+alma a ultima lepra da extravagancia. Não via mais mundo do que aquelle. Andava
+a toda a hora a olhar para o berço vasio, ancioso de vêr sobre o travesseiro o
+relevo d'uma cabeça pequenina. Não faltava já o lençol de rendas nem a coberta
+de damasco: o que faltava era a creança. Pozessem alli dentro uma alma, e a
+felicidade ficaria completa.</p>
+
+<p>Chegou finalmente o dia de se realisar o venturoso sonho. Desdobrou-se a
+cobertasinha adamascada, acamaram-se as rendas para não maguar o corpinho
+delicado, e ali dormiu a creança o primeiro somno velada pelo pai que nem
+ousava beijal-a para não a maguar.</p>
+
+<p>Aos cinco annos a creança tinha já um portesinho senhoril que era de namorar
+os olhos. Muito redondo o vestidinho; os cabellos annelados e auri-luzentes; o
+pequenino corpo escondido na fita que lhe servia de cinto.</p>
+
+<p>E chilreava, e esvoaçava, como se tivesse a casa por gaiola.</p>
+
+<p>Á medida que a pequerrucha ia crescendo, crescia com ella o amor paternal.
+Sorriam de a vêr sorrir, e choravam de a vêr chorar.</p>
+
+<p>O grande receio era de que morresse.</p>
+
+<p>Esta é a loucura de todos os pais.</p>
+
+<p>Querem roubar á tyrannia da morte uma vida que lhes não pertence.
+Esquecem-se de si mesmos para se absorverem n'uma existencia que não lhes é
+essencial, mas complementar.</p>
+
+<p>Não a eduquem á revelia, deixando-a entregue aos instinctos bons e maus que
+nascem com ella. Visto que o filho é o complemento dos pais, completem-se pelo
+filho.<span class="pn">{31}</span> Adaptem-n'o, quanto possivel, á sua maneira
+de pensar e sentir; façam d'elle a coda da santa melodia chamada familia. Não
+se riam de que a creança faça aquillo que elles nunca fizeram. Não lhe
+applaudam o bater com o pésinho no chão, o desfolhar as flores que lhe são
+defezas, o mexer nos objectos que devem respeitar. Bater com o pé no chão é a
+principio um movimento mechanico, nervoso. Com o decorrer do tempo corresponde
+ao movimento uma ideia má e um mau sentimento. Então esse acto já não é
+mechanico simplesmente; é a manifestação da raiva, do desespero, do odio. A
+esta perniciosa educação é preferivel a morte. As plantas novas tomam o geito
+que lhes dão. Deixem crescel-as sem enleial-as, que ellas assombrarão todo o
+pomar.</p>
+
+<p>Ora o amor é cego, e não vê nada para fóra de si.</p>
+
+<p>Foi isto o que aconteceu.</p>
+
+<p>A creança cresceu com a mulher. Os pais, para que outro amor lh'a não
+roubassem, deram de mão a todas as visitas de gente moça. As unicas relações
+que se conservaram foram as do voltarete: eram duas. O capitão-mór tinha
+cincoenta e cinco annos; tinha além d'isto rheumatismo e oculos azues. O outro
+parceiro era um morgado de quarenta annos, que estivera em Pariz com o pai da
+menina e <i>servira de capa</i> a varias escaladas. Tinha casado e parecia um
+homem morto. O casamento tem tanto de bom como de mau: é como os carceres. A
+uns presos aproveita a reclusão; outros sahem da cadeia mais desmoralisados.</p>
+
+<p>Os primeiros estavam representados em X; os segundos no morgado.</p>
+
+<p>Bem casados e mal casados, diz o mundo.<span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>O amigo do fidalgo tinha <i>verve</i> e bigode: duas tentações.</p>
+
+<p>Ainda sabia dar o laço da gravata: um mau symptoma.</p>
+
+<p>Fumava charuto: um perigo.</p>
+
+<p>Contava das suas viagens, dizia que tal cantora, que conhecera, tinha os
+olhos bonitos e as unhas feias; que o nariz da Malibran não era tão correcto
+como o pescoço: uma desgraça.</p>
+
+<p>N'uma palavra: era entendedor.</p>
+
+<p>A menina da casa, emquanto elles jogavam, estava por ali.</p>
+
+<p>E o peior que podia acontecer n'aquella casa era o entendedor estar lá.</p>
+
+<p>Por mais que elle quizesse dominar o seu temperamento, ser bom e digno, leal
+e cavalheiro, o coração, que estava comprimido nas reixas conjugaes, aproveitou
+a occasião e poz a cabeça fóra da grade a pedir esmola d'amor.</p>
+
+<p>A inexperiente menina ouviu-o, sem saber o que fazia.</p>
+
+<p>Tinham-n'a ensinado a não fugir d'aquelles dois homens: não fugiu.<span
+class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<p>Mau é brincar com fogo: o incendio irrompe.</p>
+
+<p>O amigo da casa começou a fazer reparo nas graças da menina, e achou que
+tinha os dentes alvissimos, os olhos formosos, os cabellos soberbos.</p>
+
+<p>A menina, por sua parte, entrou de deixar-se influenciar agradavelmente pela
+amena eloquencia do unico homem estranho que fallava n'aquella casa.</p>
+
+<p>Era elle o unico orador dos serões intimos; a unica voz que sobrepujava o
+fremito das cartas na mesa do voltarete.</p>
+
+<p>Depois a menina lisongeava-se de que um homem, que tinha corrido o mundo, e
+conhecido mulheres celebres por talento e formosura, a conceituasse
+intelligente e gentil.</p>
+
+<p>Estava-se preparando n'aquelle seroar despreoccupado a ruina de Troya.</p>
+
+<p>O apartamento é um mau systema de educação. A borboleta, que não conhece o
+perigo da chamma, arroja-se á luz.<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>Era melhor tel-a avisado para que demorasse a morte quanto lhe fosse
+possivel.</p>
+
+<p>Após as amabilidades vieram os galanteios, e após os galanteios as
+confidencias.</p>
+
+<p>A menina ouviu e acreditou.</p>
+
+<p>Começou-se a dizer por fóra que a menina era amada pelo morgado.</p>
+
+<p>Só não o diziam, nem ouviam, os pais da menina e a esposa do morgado.</p>
+
+<p>Decorreu tempo, e a menina deixou de sahir a passeio; ao mesmo tempo o
+morgado deixou de ser assiduo.</p>
+
+<p>A menina fez-se triste; o morgado andava preoccupado.</p>
+
+<p>Luctavam ambos com a resolução do mesmo problema: encobrir uma vergonha
+commum.</p>
+
+<p>Foi n'essa epocha que o morgado teve de ir ao Porto por causa de pleitos que
+se ventilavam nos tribunaes.</p>
+
+<p>Pediu-lhe a menina que a tirasse da casa paterna, antes que rebentasse o
+escandalo.</p>
+
+<p>O morgado prometteu demorar-se apenas alguns dias no Porto, e voltar depois
+de recolhidas grossas quantias, cujo embolço dependia da solução do pleito, a
+seu vêr bem encaminhado, para se passarem ambos a Hespanha.</p>
+
+<p>Houve porém uma camponeza que os viu estarem-se despedindo em logar
+afastado. Contou-o á noite á lareira. A revelação da camponesa espalhou-se.
+Chegou aos solares, e aos ouvidos da desventurosa esposa do morgado.</p>
+
+<p>Pensou a infeliz senhora que poderia ainda atalhar o incendio, e mandou um
+portador com uma carta á mãe da menina.</p>
+
+<p>Faltaram-lhe as forças para ir pessoalmente.<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p>Chegava o mensageiro a tempo que a menina estava chorando á janella do seu
+quarto.</p>
+
+<p>O coração, que é sempre feiticeiro, adivinhou.</p>
+
+<p>O mensageiro, que trazia recommendação, não fez caso.</p>
+
+<p>Sahiu-lhe a menina ao encontro. Pediu-lhe com lagrimas nos olhos e na voz
+que lhe entregasse a carta e fosse dizer á morgada que a havia depositado nas
+mãos de sua mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Veja que me perde, podendo salvar-se com uma simples mentira! Se tivesse
+uma filha, seria mais clemente.</p>
+
+<p>O mensageiro era pae: entregou-lhe a carta.</p>
+
+<p>A menina leu-a, e cuidou morrer d'afflicção e vergonha.</p>
+
+<p>Dizia a morgada que as senhoras da terra,&mdash;as quaes eram amantes de varios
+morgados casados,&mdash;já não levantariam o olhar, se a encontrassem nos caminhos,
+para a amante de seu marido.</p>
+
+<p>Era um modo de dizer que o escandalo tinha estrondeado, e que Jesus Christo
+não voltaria mais ao mundo, porque nenhuma das voluntarias peccadoras se
+arreceiava de ser a primeira a apedrejar a peccadora incauta.</p>
+
+<p>De feito, Christo ainda não voltou, nem já agora voltará, porque ainda os
+vendilhões da honra alheia entram ao templo da familia, e as mulheres adulteras
+erguem vozes e pedras contra a que resvalou para o abysmo em que ellas
+estão.</p>
+
+<p>A menina tratou de emmassar as cartas do morgado e de metter no seio o
+bilhetinho que já tivemos occasião de lêr.</p>
+
+<p>Esperou que fosse noite, e metteu-se a caminho.</p>
+
+<p>Onde ia a pobresinha?</p>
+
+<p>Procurar o morgado ao Porto.</p>
+
+<p>Foi andando, andando, rasgando os pés nas burguas<span
+class="pn">{36}</span> das serras, rompendo a escuridão, arquejante, timida do
+menor ruido, resoluta da coragem que dá o desespero, até que, cerca das onze
+horas da noite, cahiu extenuada ao sopé das Victoreiras.</p>
+
+<p>N'este lance entronca a minha primeira carta bastante a explicar o mais que
+se passou.</p>
+
+<p>Como se vê, o morgado não estava prevenido da fuga da menina e sob a
+afllicção da surpresa escrevera as ameaças da primeira carta que recebi.</p>
+
+<p>A gentil desconhecida, como a principio eu lhe chamava, tornou em si depois
+de empregados muitos esforços para reanimal-a. Meu tio padre, chamado por mim
+precipitadamente, encarregou-se do piedoso encargo de recolher a menina em sua
+casa, e de negociar a sua entrada no convento de *, onde se enclausurará depois
+que seja mãe.</p>
+
+<p>O morgado, lendo casualmente no Porto uma das minhas cartas, publicadas no
+<i>Primeiro de Janeiro</i>, escreveu-me a impensada missiva e logo se deu
+pressa em partir, e em me convidar á entrevista que acceitei.</p>
+
+<p>Tomará conta do filho, logo que nasça, e aproveitará decerto esta tremenda
+lição.</p>
+
+<p>Ainda agora me não parece dislate repetir a pergunta: Morta ou viva?</p>
+
+<p>Viva para si mesma, e morta para o mundo.</p>
+
+<p>Que desgraça!</p>
+
+<p>Ah! Christo não voltará outra vez; a ter de voltar, já se haveria amerciado
+de tantas miserias humanas!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM.</p>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Christo não volta, by Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRISTO NÃO VOLTA ***
+
+***** This file should be named 32381-h.htm or 32381-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32381/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..80bea29
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #32381 (https://www.gutenberg.org/ebooks/32381)